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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO PARANÁ

ESCOLA DE DIREITO

CURSO DE DIREITO

ALESSANDRO FIGUEIRA GONÇALVES

O DIREITO À CRECHE E SEUS REFLEXOS NO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA

SÃO JOSÉ DOS PINHAIS

2015

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ALESSANDRO FIGUEIRA GONÇALVES

O DIREITO À CRECHE E SEUS REFLEXOS NO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Direito.

Orientador: Prof. Marcos Luize Gadotti de Oliveira

São José dos Pinhais

2015

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ALESSANDRO FIGUEIRA GONÇALVES

O DIREITO À CRECHE E SEUS REFLEXOS NO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de graduação em Direito da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Direito.

COMISSÃO EXAMINADORA

Professor (a)

Escola de Direito – PUC/PR

Professor (a)

Escola de Direito – PUC/PR

Professor (a)

Escola de Direito – PUC/PR

Nota:

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Dedico este singelo trabalho acadêmico a quem sabe valorizar a Educação, desde o tempo de creche até o ensino superior, e também valorizar o Direito, como cidadão, estudante e profissional; áreas fundamentais para o desenvolvimento humano e a defesa da dignidade de toda pessoa.

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AGRADECIMENTOS

Sem Deus, nada é possível. É a Ele, primeiramente, a quem agradeço pela vida e pelas oportunidades.

Em seguida, agradeço aos meus pais e aos demais familiares e amigos, especialmente aos meus avós Edu Ribeiro Figueira e Maria Fressato Figueira.

Para que eu chegasse até aqui, agradeço a todos os educadores e educadoras, desde a educação infantil.

Enfim, com alegria, permitindo com que eu abordasse juridicamente o direito à educação, agradeço a todos os professores e a todas as professoras da Escola de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, do Campus São José dos Pinhais e também do Campus Curitiba.

Muito obrigado!

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“É essencial que uma escola acredite naquilo que a ciência não ousa duvidar: a educação infantil é crucial na formação da pessoa e em seu nome é imprescindível que ensine a compartilhar e fazer amigos, a descobrir que a verdadeira ciência ensina verdades, que quem não lê jamais escreve e que a liberdade e a individualidade constituem essências do crescer. ”

Celso Antunes (2004, p. 53)

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RESUMO

O presente trabalho aborda o direito à creche no ordenamento jurídico brasileiro e seus reflexos sociais, especialmente para a família, a sociedade e o Estado. Registra que o direito à educação é um dos direitos humanos contemplados em tratados internacionais, assim como um direito fundamental e social inscrito na Constituição da República Federativa do Brasil. Com esse panorama, adentra-se na legislação que garante o direito à creche, além de se observar dispositivos constitucionais acerca desse direito. Assim, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, o Estatuto da Criança e do Adolescente e o Plano Nacional da Educação Nacional são normas jurídicas que perfazem o direito supracitado. Depois desse delineamento, faz-se singela abordagem de instituições encarregadas de promover e defender esse direito no Brasil. Os conselhos dos Direitos da criança e do adolescente, o Conselho Tutelar, o Ministério Público e o Poder Judiciário despontam como protagonistas, sem prejuízo de se entender que há outras instituições que também atuam nessa área. Por fim, com o objetivo de enfatizar a importância desse direito, registra-se os reflexos sociais do desrespeito ou da negligência com que crianças são tratadas. Assim, as duas problemáticas centrais do trabalho monográfico são enfrentadas: 1) delinear o direito à creche no ordenamento jurídico e 2) apontar as consequências que a falta de creche pode acarretar.

Palavras-chave: educação, direitos humanos, direito fundamental, direito social, creche, ordenamento jurídico brasileiro.

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ABSTRACT

This paper discusses the right to day care in the Brazilian legal system and its social

consequences, especially for the family, society and the state. Notes that the right to education

is a human rights enshrined in international treaties, as well as a fundamental and social rights

enshrined in the Constitution of the Federative Republic of Brazil. With this panorama, is

entered on legislation that guarantees the right to day care, and observe constitutional provisions

on this right. Thus, the Law of Guide lines and Bases of National Education, the Statute of

Children and Adolescents and the National Education Plan are legal provisions that make up

the aforementioned law. After this design, it is simple approach of institutions responsible for

promoting and defending this right in Brazil. Child Rights councils and adolescents, the

Guardian Council, the prosecution and the judiciary appear as protagonists, without prejudice

to understand that there are other institutions that also operate in the area. Finally, in order to

emphasize the importance of this right, registers to the social consequences of disrespect or

neglect that children are treated. Thus, the two central issues of the monograph are addressed:

1) outline the right to day care in the legal system and 2) to point out the consequences that the

lack of day care can entail.

Key words: education, human rights, fundamental rights, social rights, child care, the Brazilian legal system.

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO

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2 EDUCAÇÃO – DIREITO HUMANO FUNDAMENTAL

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2.1 Direitos humanos

11

2.2 Tratados internacionais

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2.3 Constituição Federal de 1988

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DIREITO À CRECHE

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3.1 Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional

21

3.2 Estatuto da Criança e do Adolescente

23

3.3 Plano Nacional de Educação

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4 DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA PELA EDUCAÇÃO

26

5 PROMOÇÃO E DEFESA DO DIREITO À CRECHE

31

5.1 Conselhos dos Direitos da Criança e do Adolescente

31

5.2 Conselho Tutelar

31

5.3 Ministério Público

33

5.4 Poder Judiciário

34

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REFLEXOS SOCIAIS

36

6.1 Família

36

6.2 Sociedade

39

6.3 Estado

40

7 CONSIDERAÇÕES FINAIS

42

8 REFERÊNCIAS

44

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1 INTRODUÇÃO

O presente trabalho acadêmico, monograficamente, aborda o direito à creche no Brasil e seus reflexos sociais.

Para tanto, em primeiro lugar busca fixar o entendimento de que a educação é um direito humano fundamental e coletivo, fazendo voo panorâmico sobre alguns tratados internacionais que versam sobre direitos humanos e, especialmente, sobre disposições da Constituição da República de 1988 a respeito do tema.

Em seguida, como reflexos das normas internacionais e constitucionais, debruça-se sobre a lei que estabelece diretrizes para a educação nacional, a lei que dispõe sobre proteção e direitos de crianças e adolescentes e a lei que institui o plano nacional de educação nacional, respectivamente a Lei 9.394/96, a Lei 8.069/90 e a Lei 13.005/14, agora para se fixar o entendimento de que a educação infantil em creche é reafirmada como direito da criança e dever estatal.

Antes de se fazer considerações sobre os reflexos sociais do direito à creche, faz-se breves apontamentos sobre o papel de algumas instituições para a promoção e defesa do direito à creche, sobretudo o Conselho dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes, o Conselho Tutelar e o Ministério Público, passando-se pelo papel do Poder Judiciário em fixar teses, limites e horizontes nesse campo.

Enfim, os reflexos sociais são abordados na perspectiva da família e da sociedade, assim como do próprio Estado, haja vista que decorrem consequências no presente e no futuro, positivas ou negativas, o respeito ou o desrespeito ao direito fundamental à educação infantil em creche.

Assim, considerando a limitação do trabalho acadêmico em sede de graduação, de forma interdisciplinar entre ramos do Direito, especialmente Direito Internacional, Direito Constitucional, Direito Administrativo, Direito Civil e Direito Coletivo, além da Sociologia, contribui-se para o entendimento da questão relevante para o fortalecimento da cidadania e da democracia, bem como da efetivação de direitos fundamentais no Brasil e, quiçá, no mundo.

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2 EDUCAÇÃO – DIREITO HUMANO FUNDAMENTAL

2.1 Direitos humanos

A educação é um direito humano fundamental, o qual se encontra positivado em tratados internacionais que versam sobre direitos humanos, assim como na Constituição da República Federativa do Brasil.

Retrospectivamente, o rol de direitos humanos fundamentais ou direitos fundamentais da pessoa humana, em contraposição à pessoa jurídica, restringiu-se de início ao direito à liberdade, à propriedade e à segurança.

Tais direitos foram reivindicados por filósofos iluministas, entre os quais John Locke, Emmanuel Kant e Jean Jacques Rousseau, para os quais o Estado devia abster-se de intervir, a menos que fosse para garantir sua fruição ante qualquer conduta particular que ameaçasse-os de lesão ou os lesionasse efetivamente.

Márcia Aparecida Batista Ferreira, em artigo “Programa bolsa sócio-educativa de Juiz de Fora: resgate da cidadania? ” (In SARMENTO, 2010, p. 104), enaltece o papel desses pensadores:

A Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão teve suas origens nesse período da Revolução Francesa. As ideias referentes a tal período podem ser buscadas nos pensamentos de filósofos da época: John Locke Thomas Hobbes e Jean Jacques Rousseau.

Concebidos entre os séculos XVIII e XIX, atendia aos interesses da burguesia, que ascendia como classe social na Inglaterra, França e demais nações europeias, perfazendo pontos centrais do liberalismo filosófico, econômico e político da época.

Sinteticamente, Manoel Gonçalves Ferreira Filho (2009, p. 6) menciona as “gerações” de direitos fundamentais:

Na verdade, o que apareceu no final do século XVII não constitui senão a primeira geração dos direitos fundamentais: as liberdades públicas. A segunda virá logo após a primeira Guerra Mundial, com o fito de complementá-la: são os direitos sociais. A terceira, ainda não plenamente reconhecida, é a dos direitos de solidariedade.

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Ao obter a hegemonia, a burguesia subjugou tanto a nobreza quanto a aristocracia e teve êxito em erigir constituições que positivassem seus valores e aqueles direitos, sendo exemplo marcante a Constituição Americana de 1776 e a Constituição Francesa de 1789, as quais deram impulso a mudanças do ordenamento jurídico em diversas nações, sobretudo da Europa.

Entretanto, conquanto o Estado Liberal garantisse grande crescimento econômico e progresso científico, o capitalismo e a Revolução Industrial aceleraram a migração do campo para as cidades, trouxeram problemas na infraestrutura urbana, então incipiente, e conflitos decorrentes da exploração da mão-de-obra assalariada, das condições de pobreza e miséria em que estavam sujeitos muitos migrantes e do desemprego num tempo em que não havia atendimento previdenciário e de assistência social por parte dos Estados.

Nesse contexto social, surgiram os primeiros sindicatos de trabalhadores e movimentos sociais contrários ao liberalismo, filiados a correntes filosóficas cristãs, anarquistas e socialistas, que exigiam direitos e justiça social.

Assim, na transição do século XIX para o XX, apesar do alvoroço científico e cultural experimentado no período, a burguesia viu-se diante da necessidade de ceder a exigências daqueles movimentos, sob pena de inviabilizar negócios e o status quo auferido dos lucros obtidos com a descarada, desumana e brutal exploração e opressão de trabalhadores assalariados.

Quando, em 1917, na grande Rússia, há uma revolução socialista de proporção jamais imaginada, para a qual aderiram nações do Leste Europeu, formando a República Socialista Soviética, a Europa continental estremeceu, já que movimentos sociais socialistas e anarquistas formavam os sindicatos de trabalhadores e podiam desencadear revoluções populares.

Segundo Alexandre de Moraes (2007, p. 11), “o início do século XX trouxe diplomas constitucionais fortemente marcados pelas preocupações sociais”, mencionando a Constituição Mexicana de 1917, a Constituição Soviética de 1918 e a Constituição de Weimar de 1919.

Emerge, então, pouco a pouco o Estado Social ou de Bem-Estar Social, tanto na Europa quanto na América.

Na Europa, a Constituição de Weimar de 1919, logo após a Primeira Guerra Mundial, dispôs de direitos de igualdade ou de fraternidade, positivando direitos econômicos, culturais e políticos que assegurariam às massas de trabalhadores bens fundamentais para sua existência, bem como participação da vida política com mudanças nas regras da democracia burguesa.

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Outro marco jurídico nesse sentido foi a Constituição Mexicana, que também ampliou a perspectiva da população em ver atendida necessidades vitais e alcançar patamar mínimo de dignidade.

Nesse sentido, afirmaram Dimitri Dimoulis e Leonardo Martins (2014, p. 20) que em 1917 a Constituição Mexicana garantiu “longa lista de direitos sociais”, pouco se diferenciando do rol constante na Constituição Brasileira de 1988, além de também mencionarem que, em 1918, a “Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e Explorado”, forjada na Revolução Russa, marcou “importante etapa na história dos direitos fundamentais”.

Nos Estados Unidos, somente com a crise econômica advinda da quebra da Bolsa de Valores em 1929 é que o Estado passa a prestar assistência e previdência de forma incisiva a massas de trabalhadores desempregados e empreendedores falidos ou à beira da falência.

Assim, na dialética e dinâmica social, em razão dos conflitos entre classe burguesa capitalista e classe trabalhadora assalariada, quando os direitos humanos fundamentais não podiam mais ficar restritos à liberdade, propriedade e segurança, nem a suposta fraternidade defendida durante a Revolução Francesa, trabalhadores passam a contar com o direito à saúde, à educação, à assistência social, à previdência e à participação política, além de direitos trabalhistas que colocassem limites às pretensões de exploração e opressão do empresariado de então.

Conquanto tenha havido paulatino incremento de tais direitos de igualdade ou fraternidade nas constituições de alguns Estados, em decorrência do consenso da fundamentabilidade deles para a coexistência, a paz e a justiça social logo após a Segunda Guerra Mundial, para evitar revoluções socialistas ou comunistas, como houve na Rússia e outros países do Leste Europeu, assim como da pressão dos países que os adotaram frente àqueles que resistiam a mudanças internas, com a formação da Organização das Nações Unidas(ONU) em 1945, tratados internacionais versando sobre direitos humanos foram aprovados e ganharam à adesão de cada vez mais nações.

2.2 Tratados internacionais

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Em primeiro lugar, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada em 10 de dezembro de 1948 pela Assembleia Geral da ONU, estabelece direitos humanos fundamentais para garantir a dignidade da pessoa humana, enaltecendo no prólogo o papel da educação:

A presente Declaração Universal dos Direitos Humanos como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações, com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em mente esta Declaração, se esforcem, através do ensino e da educação, em promover o respeito a esses direitos e liberdades e, pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional, em assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universais e efetivos, tanto entre os povos dos próprios Estados-Membros quanto entre os povos dos territórios sob a sua jurisdição. (grifo nosso)

No artigo XXVI da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a educação, sob o termo “instrução”, é alçada, ao lado de outros direitos, como direito humano fundamental, nestes termos:

1. Toda pessoa tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A instrução técnica- profissional será acessível a todos, bem como a instrução superior, está baseada no mérito.

2. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do

fortalecimento e do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A instrução

promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.

3. Os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus

filhos.

Outro tratado internacional que aborda o direito humano fundamental à educação, mas de especial significado para o continente americano, é a Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem, aprovada em abril de 1948.

Esse tratado dispõe no artigo XII sobre educação, enaltecendo a instrução inicial, que:

Toda pessoa tem direito à educação, que deve inspirar-se nos princípios de liberdade, moralidade e solidariedade humana.

Tem, outrossim, direito a que, por meio dessa educação, lhe seja proporcionado o preparo para subsistir de uma maneira digna, para melhorar o seu nível de vida e para poder ser útil à sociedade.

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O direito à educação compreende o de igualdade de oportunidade em todos os casos, de acordo com os dons naturais, os méritos e o desejo de aproveitar os recursos que possam proporcionar a coletividade e o Estado.

Toda pessoa tem o direito de que lhe seja ministrada gratuitamente, pelo menos, a instrução primária.

Como se observa, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, além de exaltar o papel da educação para a promoção do respeito aos direitos e liberdades fundamentais da pessoa humana, a fim de garantir sua dignidade, eleva a educação como direito de toda pessoa, fixando objetivos para a instrução em vista de uma comunidade internacional compreensiva, tolerante e amistosa.

O Protocolo Adicional à Convenção Americana sobre Direitos Humanos em matéria de direitos econômicos, sociais e culturais, também chamado Protocolo de San Salvador (LEGISLAÇÃO DE DIREITO INTERNACIONAL, Saraiva, p. 436), adotado pela Organização dos Estados Americanos (OEA) em 1988, aprovado pelo Brasil em 1995 e depois promulgado em 1999, no artigo 13, dispõe sobre o direito humano fundamental à educação:

Direito à educação

1. Toda pessoa tem direito à educação.

O Protocolo de San Salvador, no artigo 16 (LEGISLAÇÃO DE DIREITO INTERNACIONAL, Saraiva, p. 436), trata do direito da criança, entre os quais o “direito à educação gratuita e obrigatória, pelo menos no nível básico, e a continuar sua formação em níveis mais elevados do sistema educacional”.

De igual modo, enaltecendo esse direito fundamental, a Convenção sobre os Direitos da Criança, adotada em 1989 pela ONU, aprovada e ratificada pelo Brasil em 1990, nos artigos 18, 28 e 29, impõe-se aos pais ou aos representantes legais a responsabilidade pela educação da criança, a assistência que aqueles devem receber do Estado no mister de educar, o atendimento em creche de crianças cujos pais trabalhem e o papel da educação no desenvolvimento infantil.

O artigo 18 assim dispõe, entre outras coisas, que:

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1. Os Estados-partes envidarão os maiores esforços para assegurar o reconhecimento do princípio

de que ambos os pais têm responsabilidades comuns na educação e desenvolvimento da criança. Os pais e, quando for o caso, os representantes legais têm a responsabilidade primordial pela educação e pelo desenvolvimento da criança. Os interesses superiores da criança constituirão sua preocupação básica.

O artigo 28 assim dispõe sobre os deveres dos Estados-partes, entre os quais, que:

1. Os Estados-partes reconhecem o direito da criança à educação e, a fim de que ela possa exercer

progressivamente e em igualdade de condições esse direito, deverão especialmente:

a)

tornar o ensino primário obrigatório e disponível gratuitamente a todos;

2.

Os Estados-partes adotarão todas as medidas necessárias para assegurar que a disciplina escolar

seja ministrada de maneira compatível com a dignidade humana da criança e em conformidade

com a presente Convenção.

Por fim, o artigo 29 da Convenção sobre os Direitos da Criança, estabelece diretrizes para a educação infantil, entre as quais, que:

1. Os Estados-partes reconhecem que a educação da criança deverá estar orientada no sentido de:

a) desenvolver a personalidade, as aptidões e a capacidade mental e física da criança e todo o seu

potencial;

b) imbuir na criança o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais, bem como aos

princípios consagrados na Carta das Nações Unidas;

c) imbuir na criança o respeito aos seus pais, à sua própria identidade cultural, ao seu idioma e

seus valores, aos valores nacionais do país em que reside, aos do eventual país de origem e aos das civilizações diferentes da sua;

d) preparar a criança para assumir uma vida responsável em uma sociedade livre, com espírito de

compreensão, paz, tolerância, igualdade de sexos e amizade entre todos os povos, grupos étnicos, nacionais e religiosos e pessoas de origem indígena;

e) imbuir na criança o respeito ao meio ambiente.

Observa-se, assim, que a educação se encontra entre os direitos humanos positivados em tratados internacionais, sendo direito de toda pessoa humana, bem como da criança, normas do Direito Internacional que enaltecem o papel da educação para a promoção da dignidade da

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pessoa humana, da cidadania e da tolerância, da paz e da convivência harmoniosa entre diferentes povos, civilizações e grupos raciais, étnicos e religiosos.

Ademais, para enfatizar a vigência dos tratados internacionais que versam sobre direitos humanos no ordenamento jurídico brasileiro, basta examinar a Constituição da República, que no inciso II do artigo 4º elenca como princípio nas suas relações internacionais a “prevalência dos direitos humanos” e no § 3º do artigo 5º que os elevam a força vinculante equivalente às emendas constitucionais quando aprovados em dois turnos por três quintos dos membros de cada casa do Congresso Nacional, além do próprio fundamento do Estado Democrático de Direito na dignidade da pessoa humana, consoante o disposto no inciso III do artigo 1º, tudo a evidenciar a importância desses documentos jurídicos adotados pela ONU e pela OEA.

2.3 Constituição Federal de 1988

É no capítulo II da Constituição da República Federativa do Brasil, que trata dos direitos sociais, em que há a previsão do direito à educação como um bem da vida da coletividade:

Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.

Em seguida, no artigo 7º, inciso XXV, ao discorrer sobre direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, determina a “assistência gratuita aos filhos e dependentes desde o nascimento até 5 (cinco) anos de idade em creches e pré-escolas”, sendo menção importante da educação infantil enquanto direito fundamental.

Assim, a Constituição da República põe em evidência a educação no conjunto de direitos humanos fundamentais, colocando-a no rol dos direitos sociais.

A respeito dos direitos sociais, Manoel Gonçalves Ferreira Filho (2009, p. 50) assevera:

O sujeito passivo desses direitos é o Estado. É este posto como o responsável pelo atendimento aos direitos sociais.

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Na Constituição brasileira de 1988 isso é cristalino. O texto afirma “dever do Estado” propiciar a proteção à saúde (art. 196), à educação (art. 205), à cultura (art. 215), ao lazer, pelo desporto (art. 217), pelo turismo (art. 180) etc.

Entretanto, a Carta Magna aborda o direito à educação em outros títulos, dispondo sobre

a competência administrativa e legislativa, como também sobre sua estrutura e financiamento,

especialmente no capítulo III do título VIII, ao tratar da “ordem social”, no qual dispõe sobre

educação na seção I, cultura na II e desporto na III.

O inciso V do artigo 23 estabelece ser competência administrativa comum da União,

dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios “proporcionar os meios de acesso à cultura,

à educação e à ciência”, porém o inciso VI do artigo 30 determina que compete aos Municípios

“manter, com a cooperação técnica e financeira da União e do Estado, programas de educação

infantil e ensino fundamental”, atuação prioritária deste ente federativo, conforme preconiza o

§ 2º do artigo 211.

Em relação à competência legislativa, ela é concorrente da União, dos Estados e do Distrito Federal, conforme dispõe o inciso IX do artigo 24, cabendo à União estabelecer normas gerais (§ 1º) e suplementar aos Estados e ao Distrito Federal (§ 2º).

214.

A

Constituição da República aborda a educação, com exclusividade, do artigo 205 ao

O

artigo 205 reforça a fundamentabilidade do direito social à educação, como também

o papel do estado e da sociedade e sua finalidade:

A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.

O artigo 206 da Constituição da República estabelece os princípios que devem orientar

o ensino, consubstanciando na igualdade de acesso e permanência na escola, liberdade, pluralismo didático, gratuidade do ensino público, valorização dos profissionais da educação, gestão democrática do ensino público, qualidade e piso salarial nacional para profissionais que

atuam na escola pública.

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O artigo 207 dispõe sobre a universidade, garantindo sua autonomia didático-científica,

administrativa e de gestão financeira e patrimonial, assim como “o princípio de

indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão”.

O artigo 208 contempla o dever do Estado em prestar serviço educacional em creche e

pré-escola:

O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de:

IV – educação infantil, em creches e pré-escola, às crianças até 5 (cinco) anos de idade;

Importante observar, no artigo 208, para o tema deste trabalho, que a partir dos 4 anos de idade a educação é obrigatória e gratuita (inciso I), que é dever do Estado garantir a educação infantil em creches e pré-escolas (inciso IV), que o educando deve ser atendido com programas suplementares e, ainda, que é direito público subjetivo o acesso ao ensino obrigatório (§ 1º).

O artigo 209 estabelece que à iniciativa privada é livre o ensino, desde que haja

observância das normas gerais da educação nacional e também autorização do Poder Público, assim como avaliação da qualidade.

O artigo 210 determina a fixação de conteúdos mínimos para o ensino fundamental, o

ensino religioso facultativo e a língua portuguesa como idioma oficial, excetuando apenas para as comunidades indígenas, que podem utilizar também “línguas maternas e processos próprios

de aprendizagem”.

O artigo 211 dispõe sobre a colaboração entre os entes federativos para a promoção da

educação em seus sistemas de ensino, em que cabe à União “garantir equalização de oportunidades educacionais e padrão mínimo de qualidade do ensino mediante assistência técnica e financeira”, como função redistributiva e supletiva. Além disso, também dispõe que os Municípios devem atuar com prioridade no ensino fundamental e na educação infantil e os Estados e o Distrito Federal no fundamental e médio, o objetivo de se assegurar a universalização do ensino obrigatório e ainda a prioridade do ensino regular na educação básica pública.

Os artigos 212 e 213 tratam do financiamento da educação pública, determinando que a

União deve aplicar no mínimo 18% e os Estados, o Distrito Federal e os Municípios 25% “da receita resultante de impostos, compreendida a proveniente de transferências, na manutenção e

desenvolvimento do ensino”. Entretanto, como o objetivo é “prioridade ao atendimento das necessidades do ensino obrigatório”, programas suplementares de alimentação e assistência à

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saúde devem ser “financiados com recursos provenientes de contribuições sociais e outros recursos orçamentários”. Também é prevista contribuição social denominada “salário- educação”, ainda sem lei que dê efetividade. Além disso, no artigo 213, há a autorização de que esses recursos públicos sejam destinados também a escolas comunitárias, filantrópicas ou confessionais, assim como de que sejam destinados a bolsas de estudo para o ensino fundamental e médio “quando houver falta de vagas e cursos regulares da rede pública”, ficando o Poder Público com o encargo de investir na expansão da rede na localidade deficiente.

Por fim, o artigo 214 da Constituição da República prevê a criação de lei que estabeleça plano nacional da educação, para duração decenal, “com o objetivo de articular o sistema nacional de educação em regime de colaboração e definir diretrizes, objetivos, metas e estratégias”.

Não obstante as disposições dos artigos 205 a 214 acima enumerados em capítulo que aborda exclusivamente o direito à educação com os contornos explicitados, o artigo 227 determina que a família, a sociedade e o Estado devem “assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, ” o direito à educação, entre outros direitos fundamentais.

Observa-se, portanto, que a Constituição da República, além de alçar a educação a direito coletivo e humano fundamental, traça competências administrativas e legislativas, deveres dos entes estatais para atuação prioritária e colaboração, além dos deveres dos pais ou responsáveis e da própria sociedade, e do tratamento especial que deve ser conferido aos direitos fundamentais das pessoas em desenvolvimento, a saber, a criança, o adolescente e o jovem, entre os quais o direito à educação, de modo que se pode verificar sintonia da Carta Magna com tratados internacionais que versam sobre direitos humanos, assim como as obrigações que sujeitam a todos e aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, cada qual em sua esfera própria de atuação estatal, para efetivar tal direito, inclusive na educação infantil em creche (art. 208, IV).

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3 DIREITO À CRECHE

A criança, enquanto ser humano em desenvolvimento e sujeito de direito, tem especial

proteção em tratados internacionais que versam sobre direitos humanos e na Constituição da República, assim como em leis infraconstitucionais.

No plano infraconstitucional, tanto a Lei 9.394/96, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, quanto a Lei 8.038/90, o Estatuto da Criança e do Adolescente, e a Lei 13.005/14, o Plano Nacional de Educação – preveem também princípios e regras que reafirmam o direito da criança à educação.

3.1 LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9.394/96)

A LDB – Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional estrutura a educação escolar

nacional em educação básica e educação superior, estando aquela dividia em três níveis, a saber, educação infantil, ensino fundamental e ensino médio, conforme preconiza o artigo 21:

Art. 21. A educação escolar compõe-se de:

I – educação básica, formada pela educação infantil, ensino fundamental e ensino médio;

II – educação superior.

Eis as finalidades da educação básica:

Art. 22. A educação básica tem por finalidades desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores.

Celso Antunes (2004, p. 13), em razão disso, afirma que “no Brasil, o atendimento de crianças de zero a seis anos em creches e pré-escola constitui direito assegurado pela Constituição Federal de 1988, consolidado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) ”.

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Estando a educação infantil como primeira etapa da educação básica, a LDB define sua finalidade:

Art. 29. A educação infantil, primeira etapa da educação básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança de até 5 (cinco) anos, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade.

Em seguida, a LDB – Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional fixa, no artigo 31, com a redação dada pela Lei 12.796/13, a creche para atendimento de crianças até 3 anos de idade, a avaliação mediante registro do desenvolvimento, a carga horária mínima anual de 800 horas, o atendimento mínimo de 4 horas em tempo parcial e de 7 integral e a expedição de documentação que ateste “os processos de desenvolvimento e aprendizagem da criança”.

No entanto, embora o inciso II do artigo 4º da LDB – Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional reproduza o dispositivo constitucional do inciso IV do artigo 208, estabelecendo o dever do Estado em garantir a educação infantil em creche, o oferecimento de creche não constitui “educação básica obrigatória” na forma dos artigos 5º e 6º, já que os pais ou responsáveis não têm a obrigação de matricular crianças até 3 anos de idade, mas somente a partir dos 4 anos.

A LDB – Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional, entre os deveres dos Municípios, dispõe sobre o direito à creche:

Art. 11. Os Municípios incumbir-se-ão de:

V – Oferecer a educação infantil em creches e pré-escolas e, com prioridade, o ensino fundamental, permitida a atuação em outros níveis de ensino somente quando estiverem atendidas plenamente as necessidades de sua área de competência e com recursos acima dos percentuais mínimos vinculados pela Constituição Federal à manutenção e desenvolvimento do ensino.

Sintetizando os principais eixos das diretrizes gerais do Ministério da Educação e Cultura (MEC) para a educação infantil, pontua Celso Antunes (2004, p. 13-115), que é a primeira etapa da educação básica, não constituindo obrigatoriedade para pais, mas para o Estado; há divisão por faixa etária a clientela da creche e pré-escola; visa “proporcionar condições adequadas de desenvolvimento físico, emocional, cognitivo e social da criança”; as ações educativas “devem ser complementadas pelas de saúde e assistência”; o currículo deve

23

considerar “desenvolvimento da criança, à diversidade social e cultural das populações infantis e os conhecimentos que se pretendam universalizar”; os profissionais da educação infantil devem ter formação em nível médio ou superior; e que “as crianças com necessidades especiais devem, sempre que possível ser atendidas na rede regular”.

Ademais, a LDB – Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional reproduz disposições constitucionais acerca dos princípios e fins da educação nacional, sua organização e seu financiamento, assim como sobre outras modalidades de ensino e profissionais da educação.

3.2 ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90)

O ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente assegura direitos fundamentais a crianças e adolescentes:

Art. 3º. A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade.

Esses direitos, entre os quais o direito à educação, conforme prevê o artigo 4º, deve ter

a

efetivação assegurada com absoluta prioridade pela família, pela comunidade, pela sociedade

e

pelo poder público, sendo que essa prioridade compreende:

a) primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias;

b) precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública;

c) preferência na formulação e na execução das políticas sociais públicas;

d) destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a proteção à infância

e à juventude.

No título II do ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente, que trata dos “direitos fundamentais”, o capítulo IV cuida do “direito à educação, à cultura, ao esporte e ao lazer”, do artigo 53 ao 59.

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O artigo 53 prevê o direito à educação da criança e do adolescente, “visando o pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho”, assegurando acesso igualitário em escola pública e gratuita perto da sua casa, permanência na escola, direito de receber respeito pelos educadores, direito de contestar critérios avaliativos, direito de organização e participação em entidade estudantil e direito dos pais ou responsáveis tanto no conhecimento do processo pedagógico quanto na participação das propostas educacionais.

Reforçando o artigo 208 da Constituição da República, dispõe o ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente:

Art. 54. É dever do Estado assegurar à criança e ao adolescente:

IV – atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a 6 (seis) anos de idade;

A fim de fazer respeitar e efetivar direitos, o artigo 201, inciso VIII, estabelece a competência do Ministério Público para promover “medidas judiciais e extrajudiciais cabíveis”, além da atribuição do Conselho Tutelar, prevista no artigo 136, incisos III, a, e IX, em requisitar serviços públicos em educação e de assessoria ao Poder Executivo na elaboração de proposta orçamentária, sem contar ainda que o artigo 88, inciso II, prevê a criação de conselho municipais, estaduais e nacional dos direitos da criança e do adolescente com o propósito de garantir direitos da criança e do adolescente em políticas públicas.

Para resguardar e dar proteção jurídica ao direito à educação, assim dispõe ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente:

Art. 208. Regem-se pelas disposições desta Lei as ações de responsabilidade por ofensa aos direitos assegurados à criança e ao adolescente, referentes ao não oferecimento ou oferta irregular:

III – de atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a 6 (seis) anos de idade;

Observa-se, assim, que tanto a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) quanto o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) preveem o direito à educação e a educação infantil em creche, em sintonia com tratados internacionais e especialmente com a Constituição da República.

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3.3 PNE – PLANO NACIONAL DE EDUCAÇÃO

A Lei 13.005/14, cumprindo o disposto no artigo 214 da Constituição da República, estabelece o Plano Nacional de Educação (PNE), que vige por 10 anos, a contar da sua publicação em 25 de junho de 2014, ou seja, até 2024.

No inciso II do artigo 2º, é diretriz do PNE a “universalização do atendimento escolar”, enquanto o artigo 3º estabelece que “as metas previstas no Anexo desta Lei serão cumpridas no prazo de vigência deste PNE, desde que não haja prazo inferior definido para metas e estratégias específicas”.

Observa-se, portanto, que o Plano Nacional de Educação estabeleceu meta de universalizar a educação infantil, tanto em creche quanto em pré-escola, com diversas estratégias, servindo de orientação do poder público e de ponto de partida para cobrança de políticas públicas que deem efetividade ao direito das crianças pela sociedade.

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4 DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA PELA EDUCAÇÃO

Tanto a Constituição Federal (CF) quanto o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) quanto outros diplomas legais, como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e os tratados internacionais que versam sobre direitos humanos, evidenciam que a educação visa o desenvolvimento pleno de toda pessoa, especialmente da criança, de modo que se deduz que, havendo violação do direito fundamental à educação, priva-se a pessoa de se desenvolver adequadamente e de se inserir com potencialidades e êxito na comunidade, na sociedade e no próprio mundo como cidadã no plano político e trabalhadora ou empreendedora no plano econômico.

Nesse sentido, dispõe o artigo 205 da Carta Magna:

A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. (grifo nosso)

O ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente, por sua vez, no caput do artigo 53 assim estatui, reproduzindo o texto constitucional de certa forma: “A criança e o adolescente têm direito à educação, visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho”.

O artigo 3º do ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente frisa a importância do desenvolvimento, indicando o sentido:

A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e dignidade. (grifo nosso)

Necessário apontar que também o artigo 15 do ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente frisa a importância do processo de desenvolvimento da criança e do adolescente:

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A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas

em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos

na Constituição e nas leis. (grifo nosso)

De modo semelhante à Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente, a Lei 9.394/96, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), dispõe no artigo 2°:

A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de

solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. (grifo nosso)

Ao dispor sobre a educação básica no artigo 22, a LDB reproduz a finalidade estatuída no artigo 2º referente ao desenvolvimento e à cidadania, acrescentando apenas que deve “fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores”.

Entretanto, tal como faz o ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente em parte, no artigo 3º supramencionado, a LDB, tratando da educação infantil no artigo 29, enfatiza os aspectos do desenvolvimento destinado às crianças em creche e pré-escola:

A educação infantil, primeira etapa da educação básica, tem como finalidade o desenvolvimento

integral da criança de até 5 (cinco) anos, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social,

complementando a ação da família e da comunidade. (grifo nosso)

Se no Direito brasileiro, como se observou, há a evidência de que a educação, especialmente a educação infantil, visa o desenvolvimento da pessoa humana, no Direito Internacional Público não é diferente.

Na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, no item 2 do artigo XXVI, constata-se que “a instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana”.

Embora a Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem de 1948 não se refira expressamente ao termo “desenvolvimento” no artigo XII, o diploma internacional determina que ao ser humano, por meio da educação, “seja proporcionado o preparo para subsistir de uma maneira digna, para melhorar o seu nível de vida e para poder ser útil à sociedade”.

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No Protocolo de San Salvador de 1988, ou Protocolo Adicional à Convenção Americana sobre Direitos Humanos (LEGISLAÇÃO DE DIREITO INTERNACIONAL, Saraiva, p. 436), tal como na Declaração Universal dos Direitos Humanos, no artigo 13, item 2, estabelece que “Os Estados-Partes neste Protocolo convêm em que a educação deverá orientar-se para o pleno desenvolvimento da personalidade humana”.

A Convenção sobre os Direitos da Criança de 1989, além de colocar os pais como os

responsáveis primordiais pela educação e desenvolvimento de suas crianças no artigo 18, no artigo 29 determina que os Estados-partes devem orientar a educação no sentido de “desenvolver a personalidade, as aptidões e a capacidade mental e física da criança e todo o seu

potencial”, entre outras determinações.

Sem dúvida, portanto, que a educação tem por finalidade o desenvolvimento da pessoa humana, sobretudo da criança, conforme se observa em diversos diplomas jurídicos tanto nacionais quanto alienígenas.

A fim de ilustrar que a literatura educacional tem conceito de educação visando o

desenvolvimento humano tal como apresentado pela legislação colhida, Paulo Nathanael Pereira de Souza (2011, p. 81-82) assim a concebe:

Educar continua sendo hoje, como foi sempre, um processo de humanização das pessoas. Isto é, fazê-las ascender da condição de completo desvalimento com que chegam ao mundo ao nascer até atingir o desenvolvimento máximo de suas potencialidades pessoais geneticamente transmitidas e culturalmente ativadas. Na raiz da educabilidade pulsam as ideias de crescimento, desenvolvimento, melhoria constante e progressividade qualificada. Tanto a família, que transmite (ou deveria transmitir) à criança as primeiras noções de vida e comportamento, como a escola, que familiariza metodicamente os jovens com o patrimônio cultural da humanidade coloca-os (ou deferia fazê-lo) em contento com os vetores do futuro e os prepara para o exercício consciente da liberdade, desenvolvem os papéis educativos, que lhes são próprios, nas sucessivas fases de aprendizagem do educando. Tudo na educação visa ao amadurecimento do ser humano, ao fortalecimento de sua capacidade de tomar decisões, à livre escolha, depois de formados de suas participações religiosas, políticas e filosóficas, bem como à sua instrumentação para ser útil a si e à sociedade.

Entretanto, no caso do Brasil, até os anos 70, as creches, mais do que atender ao desenvolvimento pleno da criança, buscavam suprir carências nutricionais e culturais desse sujeito de direito.

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Nesse sentido, esclarece Isabel de Oliveira e Silva ao abordar com maestria sobre a educação infantil com o texto “A criança pequena e seus direitos: a construção de referências no campo da educação” (COELHO, 2009, p. 78):

Tanto a pré-escola quanto a creche entram no cenário educacional nos anos de 1970 vinculadas à noção de necessidade. Toda a noção de compensação de carências materiais e culturais mediante a intervenção pública estava baseada na ideia de insuficiência das condições materiais e simbólicas de determinados grupos sociais em prover as necessidades materiais e as condições culturais que assegurassem a inserção satisfatória da criança no universo institucional, mais especificamente a escola de ensino fundamental.

Não obstante tenha sido esse o viés da década de 70, Paulo Nathanael Pereira de Souza (2011, p. 86-87), depois de citar obra sua dessa época em que aborda a carência nutritiva e cultural da criança e a repercussão disso para o desenvolvimento posterior dela, além da carência afetiva, enfatiza essa mesma tese nos dias de hoje:

Escolas infantis e boa nutrição passam a ser um excelente remédio para os principais problemas que afetam, desde há muito, o rendimento escolar das crianças brasileiras. Como afirmamos certa vez no Conselho Federal de Educação: cada centavo que se gaste com a pré-escola vai representar muitos reais de economia para os graus de ensino que vierem depois.

As duas outras carências, igualmente graves, e que poderiam ser minimizadas se a pré- escolaridade se universalizasse no Brasil são: a afetiva e a cultural.

Esse autor (2011, p. 92) depois conclui de acordo com sua visão:

Como se vê, a oferta dessa fase preliminar de escolaridade para criança de 0 a 6 anos de idade, não só tornaria os alunos do ensino elementar mais ajustados a seus intentos de educar-se, como também eliminaria, em grande parte, os graves problemas da evasão e da reprovação, as quais aumentam a injustiça social no País e encarecem demasiadamente os custos da educação nacional.

De fato, foi assim a política da educação infantil brasileira, ainda persistente, como discorrem Romilda Teodora Ens, Elizabeth Dantas de Amorim Favoreto e Sirley Terezinha Filipak no texto “O caminhar da formação docente para a educação na infância no Brasil: o que dizem as políticas? ” (2013, p. 86-87):

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Durante as décadas de 1970 e 1980, o objetivo principal da expansão da pré-escola na rede pública centrava-se na exigência internacional da implantação de uma educação compensatória, visando à redução das taxas de mortalidade infantil, aumento do número de crianças matriculadas nas séries iniciais do 1º grau e diminuição da taxa de fracasso escolar nesses anos.

Esse modelo educativo procurava apenas compensar carências e defasagens socioculturais, sem atentar para um caráter realmente educativo e adequado à faixa etária de 0 a 6 anos e para a implementação de uma política de qualidade voltada à formação do profissional para a pré-escola.

As autoras (ENS, 2013, p. 96-97) em seguida concluem que, após a LDB, em decorrência de “influências globais”, a formulação de políticas para a educação infantil teve

salientado “a qualidade de atendimento no processo de universalização (

para atenuar os desequilíbrios sociais e problemas educacionais futuros das crianças em

contextos de vulnerabilidade social”.

como estratégia

)

Observa-se, portanto, que o desenvolvimento da criança é a finalidade da educação infantil, porém, no Brasil, ainda persiste a ideia de compensar carências nutricionais, culturais e até afetivas, haja vista as desigualdades sociais existentes no Brasil.

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5 PROMOÇÃO E DEFESA DO DIREITO À CRECHE

Na promoção e defesa do direito à creche, entre outros direitos de crianças e adolescentes, há órgãos e instituições fundamentais, razão pela qual, sem qualquer pretensão de aprofundar sobre o papel e o trabalho realizado pelas entidades públicas, faz-se menção ao Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente, ao Conselho Tutelar, ao Ministério Público e ao Poder Judiciário nessa área, sobretudo em vista do direito à educação infantil em creche.

5.1 CONSELHO DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE

Com previsão no artigo 88 do Estatuto da Criança e do Adolescente, os conselhos dos direitos da criança e do adolescente são órgãos que auxiliam o Poder Executivo na promoção daquilo que a Constituição da República, as leis e os tratados internacionais vigentes no Brasil estabelecem, tendo composição paritária com membros do poder público e da sociedade civil organizada, a fim de propor políticas públicas que assegurem a efetividade dos direitos.

Sem exagero, tais conselhos reforçam a participação democrática da sociedade na elaboração das políticas públicas do Estado.

Os membros dos conselhos dos direitos da criança e do adolescente, uma vez escolhidos para representar interesses e promovê-los, inclusive atuado na elaboração de propostas orçamentárias, ações e programas visando a educação, a saúde e outros direitos, prestam trabalho de “interesse público relevante”, conforme dicção do artigo 89 do ECA.

Com a participação popular nos conselhos, por certo a promoção dos direitos da criança, especialmente na educação infantil em creche, ganha reforço junto a órgãos do poder público municipal, haja vista a atribuição do Conselho Tutelar e a competência do Ministério Público também para esse fim.

32

O Estatuto da Criança e do Adolescente assim dispõe sobre o objetivo primordial do Conselho Tutelar:

Art. 131. O Conselho Tutelar é órgão permanente e autônomo, não jurisdicional, encarregado pela sociedade de zelar pelo cumprimento dos direitos da criança e do adolescente, definidos nesta Lei.

Sendo órgão que deve estar presente em todos os Municípios e no Distrito Federal, de acordo com o artigo 136 do ECA, constituem atribuições do Conselho Tutelar:

III – promover a execução de suas decisões, podendo para tanto:

a) requisitar serviços públicos nas áreas de saúde, educação, serviço social, previdência, trabalho

e segurança;

IX – assessorar o Poder Executivo local na elaboração da proposta orçamentária para planos e

programas de atendimento dos direitos da criança e do adolescente;

Ressaltando dados dos conselhos tutelares e o trabalho realizada por essa instituição, importante o registro feito por Gizele de Souza, em artigo “A educação da infância em debate” (In VASQUES, 2009, p. 193), a mostrar a gravidade da violação do direito à creche:

Como fica evidente pelos dados apresentados, a violação ao Direito à Educação, Cultura Esporte

e Lazer foi a mais frequentemente anotada por conselheiros tutelares (6.590 casos) em 2006. A

ausência ou impedimento de acesso à creche ou à pré-escola corresponde à metade do total de tais violações. Ou seja, a falta de vagas na Educação Infantil corresponde à violação de direito mais frequente no trabalho de atendimento direto à população, realizado pelos conselhos tutelares.

A análise dos resultados relativos ao agente violador reforça que o problema consiste na escassez

de vagas, pois o poder público é apontado como responsável pela violação na maioria absoluta

dos casos. Os dados lançados pelos conselheiros tutelares, que derivam de seus atendimentos à população, podem ser tomados como indicadores da fragilidade na prática cotidiana da efetivação dos dispositivos constitucionais que asseguram o direito de toda criança”.

Observa-se que o Conselho Tutelar, na defesa dos direitos da criança e do adolescente, pode requisitar serviços públicos em educação e deve assessorar o poder público municipal em planos e programas a serem definidos em leis orçamentárias, o que lhe confere importante e fundamental participação na educação infantil em creche.

33

5.3 MINISTÉRIO PÚBLICO

A Constituição da República assim dispõe sobre o papel do Ministério Público:

Art. 127. O Ministério Público é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis.

Ao lhe dar o dever de defender interesses sociais e individuais indisponíveis, a educação, enquanto direito coletivo (artigo 6º da Constituição da República), e os direitos da criança recebem da instituição Ministério Público proteção, cabendo a seus membros a adoção de medidas de defesa necessárias sempre que houver ameaça ou violação desses interesses pelo poder público ou pela sociedade.

Nesse sentido, o artigo 129 da Constituição da República, nos incisos II e III, estabelece que lhe cabe zelar pelo respeito aos direitos assegurados na Carta Magna e promover ação civil pública para a proteção de direitos coletivos.

Como se observa pela atuação do Ministério Público do Estado do Paraná, que buscou o respeito ao direito à creche pelo município de Curitiba com ação civil pública, conforme divulgado na reportagem “Justiça determina criação de 2 mil novas vagas de creche em Curitiba”, produzida pelo Bonde, a instituição tem papel importante nesta questão.

Em razão disso, o Estatuto da Criança e do Adolescente, no artigo 201, determina as competências do Ministério Público, entre as quais:

VIII – zelar pelo efetivo respeito aos direitos e garantias legais assegurados às crianças e adolescentes, promovendo as medidas judiciais e extrajudiciais cabíveis;

§ 5º Para o exercício da atribuição de que trata o inciso VIII deste artigo, poderá o representante do Ministério Público:

c) efetuar recomendações visando à melhoria dos serviços públicos e de relevância pública afetos à criança e ao adolescente, fixando prazo razoável para sua perfeita adequação.

34

Ademais, os artigos 202 e 204 do ECA estabelecem que o Ministério Público, se não atuar como parte, obrigatoriamente deve atuar “na defesa dos direitos e interesses de que cuida esta Lei”, e que “a falta de intervenção do Ministério Público acarreta a nulidade do feito”.

Portanto, na promoção e defesa do direito à educação infantil em creche, o Ministério Público é instituição com dever constitucional e legal de zelar por esse direito humano e coletivo fundamental.

5.4 PODER JUDICIÁRIO

A promoção e defesa do direito à educação infantil em creche é feita mediante demandas propostas no Poder Judiciário por particulares ou por representantes do Ministério Público na maioria dos casos, para forçar que o Poder Executivo Municipal cumpra seu dever constitucional e legal.

Para tanto, conforme preceitua o artigo 148 do Estatuto da Criança e do Adolescente, a Justiça da Infância e Juventude é competente para:

IV – conhecer de ações civis fundadas em interesses individuais, difusos ou coletivos afetos à criança e ao adolescente, observado o disposto no art. 209;

Entretanto, por conta de polêmica e dissenso sobre a intervenção do Poder Judiciário em políticas públicas, à vista da separação dos poderes, da discricionariedade administrativa e da “reserva do possível” por conta dos orçamentos e recursos públicos limitados, a efetividade do direito fundamental à educação, entre outros direitos coletivos, ainda encontra resistência de juízes contra a “judicialização da política”, embora haja decisões favoráveis a crianças, forçando atuação prestacional positiva de Municípios negligentes.

Nesse sentido, Gilmar Ferreira Mendes (2011, p. 668-669), depois de registrar que há vertente ou corrente favorável à atuação judicial em direitos sociais, conclui que “juízos de ponderações são inevitáveis” na efetivação frente a princípios e diretrizes políticas.

Com a incumbência de dizer o direito, posto que o artigo 5º da Constituição da República, no inciso XXXIV, a, assegura a todos o direito de petição “em defesa de direitos”

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e, no inciso XXXV, que “a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito”, considerando ainda que a educação infantil, entre outros direitos, estão previstos na Carta Magna, assim como o dever estatal em lhes garantir, entretanto há membros do Poder Judiciário que, provocados pelo Ministério Público ou particulares, estão assegurando a efetividade dos direitos humanos e coletivos fundamentais a despeito dos argumentos contrários.

De qualquer modo, o papel do Poder Judiciário é relevante para a promoção e defesa desse direito e da criança, a qual, por sinal, deve receber prioridade absoluta e proteção integral, à vista do que dispõem tratados internacionais que versam sobre direitos humanos, a Constituição da República e o Estatuto da Criança e do Adolescente.

36

6 REFLEXOS SOCIAIS

A falta de creche ou a negligência com que crianças são tratadas têm consequências graves para a família, a sociedade e o Estado.

Juridicamente, o direito à educação infantil em creche está estabelecido tanto na Constituição Federal quanto em leis.

Expressando consternamento e crítica à realidade social, Celso Antunes (2004, p. 13), assim se expressa:

Pelo menos do ponto de vista legal, a educação e os cuidados com a criança até os seis anos de idade são tratados como assuntos de maior importância pelos organismos internacionais, organizações da sociedade civil e pelo governo federal. (grifo nosso)

Nesse sentido, faz-se abordagem sobre reflexos sociais da ausência da creche ou do desrespeito a esse direito fundamental das crianças.

6.1 FAMÍLIA

Reflexos para a criança

As crianças que deixam de receber a educação infantil apropriada para seu desenvolvimento, ficam aos cuidados de parentes, vizinhos ou irmãos, às vezes em condições precárias e riscos diversos.

Sem atividades educativas e a interação com outras crianças, elas são submetidas a encarceramento em berços ou espaços inapropriados para que cresçam saudáveis, rodeadas no máximo por brinquedos para entretenimento.

o

desenvolvimento da fala e gestos com significados acabam retardados, assim como o

desenvolvimento motor.

O

diálogo

e

a

comunicação

com

pessoas

são

prejudicados,

de

modo

que

37

Celso Antunes (2004, p. 129), nesse sentido, alerta pais:

Tenha sempre em mente que a segurança da criança é essencial, mas essencial também é haver espaços com terra, com carpetes, com brinquedos, com aparelhos sonoros que podem ser tocados

e que ampliam as oportunidades de enriquecimento cerebral. Lembrem-se de que, um pouco mais

tarde seu filho ou sua filha se expressará por linguagens diferentes – sonoras, corporais, pictóricas

e outras – e nesses ambientes é essencial que existam meios para exercitá-las.

Além disso, aos cuidados de irmãos adolescentes ou até crianças, correm riscos de acidentes com brinquedos e alimentos, quedas, afogamentos e queimaduras, sem contar eventuais agressões verbais ou até físicas, riscos que também podem passar quando aos cuidados de adultos negligentes ou despreparados para o zelo devido.

Entretanto, se estivessem aos cuidados de profissionais da educação infantil capacitados, o desenvolvimento intelectual e físico seria promovido, os riscos minimizados ao máximo e a interação com crianças e outras pessoas favoreceria o aprendizado de linguagens (verbal e gestual, por exemplo), como acima alertado.

Nesse sentido, a ênfase deve ser na criança e no direito da criança (ULBRA, 2008, p.

43):

Quem convive com uma criança pequena percebe nela a vontade de aprender, sua intensa curiosidade, sua necessidade de ser querida e, portanto, aceita. Não podemos, como educadores, esquecer que a educação infantil é um direito de todas as crianças brasileiras e que seus educadores têm o dever de oportunizar a elas novos conhecimentos.

Assim, sem dúvida alguma, há reflexos sociais negativos para as crianças que deixam de ter seu direito à educação infantil em creche, já que nem sempre elas têm cuidados necessários e fundamentais para seu desenvolvimento, inclusive até de mães e pais, quando estes precisam ficar com os filhos.

Reflexos para a mulher

38

No seio familiar, quem mais sofre é a mulher, principalmente a própria mãe, mas também filhas e avós, entre outras mulheres, já que há tradição em se delegar os cuidados dos filhos a elas, enquanto os pais teriam o dever de prover o lar, apesar das mudanças culturais e sociais ocorridas com o ingresso da mulher no mercado de trabalho.

Segundo reportagem da Band News FM Curitiba, “Creches de Curitiba não conseguem atender a toda a demanda”, uma mãe está há oito meses sem trabalhar por não ter com quem deixar a filha, falta de vagas em creches que “obriga muitos pais a se desdobrarem para cuidar dos filhos”.

Em reportagem produzida pelo G1 PR em 2011, “Déficit de vagas nas creches de Curitiba é de 63%, diz MP”, há o retrato da situação familiar pela falta de creche:

A busca por uma vaga dura um ano e meio para Rochaelma Gadelha de Quadros, de 34 anos. “Eu já perdi três empregos, porque não tenho com quem deixar meu filho”, contou Rochaelma.

Ela está desempregada e mora com o marido, que trabalha como cozinheiro em uma churrascaria da capital, e os dois filhos, um de três e outro de nove anos.

Rochaelma mora no Bairro Alto e se inscreveu em duas creches da região que são as mais próximas da casa dela, mas também entrou em contato com outras por telefone. A resposta, segundo ela, é sempre a mesma “não tem vaga”. A direção das creches alega, acrescentou Rochaelma, que como o filho dela tem três anos é mais difícil conseguir vaga.

“Eu não posso pagar. Ganhar um salário mínimo e pagar creche não dá”, afirmou Rochaelma que destacou que este problema não é só dela. “É meu e de muitas mães”.

Essas mulheres, sobrecarregadas com despesas familiares, tendo às vezes de buscar recursos para garantir a subsistência familiar em trabalhos diversos, ainda têm, por conta de uma tradição que permanece ainda no século XXI, o dever de cuidar da limpeza e organização do lar, das roupas e dos alimentos, além dos cuidados com os filhos.

Isso provoca estresse, desgaste psíquico e emocional, e também provoca patologias físicas, de modo a comprometer a relação delas com os filhos, o marido e outras pessoas.

Contudo, havendo a diminuição dessa sobrecarga de responsabilidade, desproporcional na relação de gênero, com a permanência dos filhos em creches, por exemplo, elas deixam de sofrer injustiças em razão de tradições que a debilitam há muito tempo.

39

As creches representam um porto seguro para as mulheres que ainda são submetidas a trabalho dentro e fora de casa, aliviando o peso dos seus ombros e permitindo que tenham qualidade de vida.

e

desproporcionais, certamente também sentirão efeitos positivos na relação com suas

companheiras ou com parentes, como mães e sogras.

Por

outro

lado,

os

homens

que

tiverem

mulheres

sem

sobrecargas

injustas

Ademais, mães, pais e familiares que cuidam mal de crianças, por negligência ou despreparo, podem sofrer consequências graves com a (de) formação de filhos com os maus cuidados e com a ação estatal pelo Conselho Tutelar, Ministério Público e Poder Judiciário.

Conclui-se, portanto, que os reflexos da ausência de creches para a família, em sentido ampliado, é por demais comprometedor para o bem-estar tanto das mulheres quanto de outros membros, enquanto a existência de educação infantil contribui para que haja uma família mais saudável.

6.2 SOCIEDADE

A sociedade brasileira arca com consequências nefastas para seu desenvolvimento ao desconsiderar a educação infantil em creche como direito prioritário de suas crianças.

Ligia Maria Motta Leão de Aquino, em artigo “Desafios para a efetivação do direito à educação para a pequena infância” (In VASQUES, 2009, p. 157), alerta para o tratamento “excepcional”:

Fica evidente que maiores esforços devem ser feitos no que se refere à oferta de creche (0 a 3 anos), para aproximá-la das metas definidas [no Plano Nacional de Educação], para que de fato a educação para crianças de até três anos seja incorporada como política pública de educação, deixando de oferecê-la como um serviço excepcional que em geral é destinado a crianças pobres e em situação de risco. A concepção de creche como “mal necessário”, isto é, apenas para filhos de mães pobres e trabalhadoras, tem impedido o crescimento da oferta e a democratização da educação para as crianças pequenas, como se verifica no número de estabelecimentos de educação infantil, em sua distribuição entre creche e pré-escola.

40

Embora seja papel da sociedade efetivar esse direito, Maria Carmen Silveira Barbosa, em artigo “Mapeando alguns desafios para as políticas públicas de educação infantil no Brasil” (In VASQUES, 2009, p. 178), lembra do dever estatal:

É evidente que a sociedade civil pode trabalhar com crianças em espaços educacionais se estiver dentro das normas adequadas, porém é importante lembrar que a Educação Infantil é um dever do Estado. As instituições devem ser financiadas pelo Estado. Na Europa, a luta é para que 90% das vagas sejam públicas.

No contexto de uma sociedade capitalista e globalizada, bem como tecnológica, José Carlos Libâneo (2003, p. 53-54) leciona:

Pensar o papel da escola nos dias atuais implica, portanto, levar em conta questões sumamente relevantes. A primeira e, talvez, a mais importante é que as transformações mencionadas representam uma reavaliação que o sistema capitalista faz de seus objetivos. O capitalismo, para manter sua hegemonia, reorganiza suas formas de produção e de consumo e elimina fronteiras comerciais para integrar mundialmente a economia. Trata-se, portanto, de mudanças com o objetivo de fortalecê-lo, o que significa fortalecer as nações ricas e submeter os países mais pobres à dependência, como consumidores. Essas alterações nos rumos do capitalismo dão-se, no entanto, no momento em que o cenário mundial em todos os aspectos, é bastante diversificado. A onda da globalização ou mundialização e da revolução tecnológica encontra os países (centrais e periféricos, desenvolvidos e subdesenvolvidos) em diferentes realidades e desafios, entre os quais o de implementar políticas econômicas e sociais que atendam aos interesses hegemônicos, industriais e comerciais de conglomerados financeiros e de países ou regiões ricas, tais como Estados Unidos, Japão e União Europeia.

Sem dúvida, a educação, a começar pela educação infantil, mostra-se fundamental para a sociedade brasileira, motivo pelo qual deve tratar como prioridade, em vista do cenário mundial e da qualidade de vida do seu povo.

6.3 ESTADO

O Estado brasileiro, com o dever constitucional de propiciar a educação (art. 208), ao deixar de cumpri-lo, viola direito humano fundamental e coletivo e acarreta para si consequências negativas, como prejuízo aos cofres públicos.

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Em outra reportagem do ano de 2011, mencionando os dados do Ministério Público, “Déficit de vagas nas creches de Curitiba é de 63%, diz MP”, produzida pelo G1 PR, o Estado

é cobrado pela instituição encarregada de defender a sociedade:

Os municípios têm até 2016 para oferecer as vagas necessárias. O Ministério Público, por meio das Promotorias de Justiça de Proteção à Educação, vai cobrar das prefeituras a elaboração de plano para que a quantidade de vagas na rede municipal aumente e se torne suficiente para atender a demanda. A ideia é garantir o direito constitucional de que todas as crianças com mais de quatro anos frequentem escolas.

Em reportagem do jornal Gazeta do Povo, “Mães acusam prefeituras de maquiar falta de vagas em creches municipais”, refere-se ao déficit da educação infantil e às “dificuldades” do Estado para construir creches:

A falta de vagas públicas na educação infantil é generalizada no país. Dados de 2012 coletados pelo MP-PR mostram que, naquele ano, esse déficit no Paraná era de 72% para até 3 anos e 30% para crianças com idades entre 4 e 5 anos. Para aumentar a oferta, a União prometeu investir R$ 7,6 bilhões na construção de 6 mil unidades até este ano. Até semana passada, porém, só 25% dos 8.801 projetos aprovados haviam sido concluídos. Outros 20% estão em obras. Segundo especialistas do setor, os municípios têm dificuldades para conseguir terrenos e os prefeitos relutam em assumir os custos de manutenção dessas novas unidades devido a restrições orçamentárias.

Para enfrentar o problema na educação infantil, o Ministério da Educação e Cultura prevê investimentos em Curitiba, conforme divulgado na reportagem “MEC promete 14 novas creches para Curitiba”, produzida pela ONG Todos pela Educação, afirmando que “Ministério liberará R$ 14,3 milhões para as obras, que devem ser concluídas até 2016”, já que “déficit de vagas na Educação Infantil beira 10 mil”.

O Estado, enfim, composto dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, ao desatender

o direito à educação infantil em creche, descumprindo a Constituição Federal e leis, vê-se diante de consequências para si próprio, já que o Judiciário, provocado geralmente pelo Ministério Público, obriga o Executivo a atender às crianças, conforme normas aprovadas pelo Legislativo.

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7 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A educação infantil em creche é um direito humano fundamental de toda criança, previsto em tratados internacionais, na Constituição da República, no Estatuto da Criança do Adolescente, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e no Plano Nacional de Educação.

Sendo dever do Município garantir esse direito a criança até 3 anos de idade, por não constituir educação básica obrigatória, como o ensino fundamental, ainda há pouca oferta na rede pública, razão pela qual o Plano Nacional de Educação prevê, como meta e estratégias, universalizar esse direito.

Sendo objetivo primordial da educação o desenvolvimento pleno de toda pessoa, muito mais da criança, muito embora no Brasil ainda persista a política educacional compensatória de carências nutricionais, culturais e afetivas em decorrência das desigualdades sociais.

O Conselho de Direitos da Criança e do Adolescente, o Conselho Tutelar, o Ministério Público e o Poder Judiciário, na promoção e defesa desse direito, têm papel primordial, para que haja a efetividade do direito, sob pena de a norma jurídica ser “letra morta”, em detrimento do desenvolvimento da criança.

No entanto, quando não há devida promoção e defesa, os reflexos sociais são negativos para a própria criança, que fica em risco e tem comprometido seu desenvolvimento, para a família, especialmente às mulheres, e também para a sociedade e o Estado.

Em relação ao Estado, observa-se papel fundamental do Ministério Público em defesa

da educação infantil em creche ao fazer valer o que o Poder Legislativo determina ao Executivo,

provocando, via ação civil pública, o pronunciamento do Judiciário, que tem atendido anseios

da sociedade, como em Curitiba.

Não obstante esse papel, o cumprimento do que determina a Constituição da República

e as leis deveria ser espontâneo pelos agentes políticos à frente dos municípios, entes federativos com a competência administrativa nessa área.

Assim, é possível verificar que há, no ordenamento jurídico brasileiro, em consonância com tratados internacionais que versam sobre direitos humanos, normas que garantem o direito à educação infantil em creche e órgãos e instituições públicas para cobrar de Municípios a

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garantia do direito, sob pena de efeitos nefastos, como consequências do desatendimento a tal direito humano, fundamental e social.

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45

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VASQUES, Carla K. (org.). Educação e infância: múltiplos olhares, outras leituras. Ijuí: Ed.

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ANEXO

PLANO NACIONAL DE EDUCAÇÃO (PNE) – LEI 13.005/2014

Meta 1: universalizar, até 2016, a educação infantil na pré-escola para as crianças de 4 (quatro) a 5 (cinco) anos de idade e ampliar a oferta de educação infantil em creches de forma a atender, no mínimo, 50% (cinquenta por cento) das crianças de até 3 (três) anos até o final da vigência deste PNE.

Estratégias:

1.1) definir, em regime de colaboração entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, metas de expansão das respectivas redes públicas de educação infantil segundo padrão nacional de qualidade, considerando as peculiaridades locais;

1.2) garantir que, ao final da vigência deste PNE, seja inferior a 10% (dez por cento) a diferença entre as taxas de frequência à educação infantil das crianças de até 3 (três) anos oriundas do quinto de renda familiar per capita mais elevado e as do quinto de renda familiar per capita mais baixo;

1.3) realizar, periodicamente, em regime de colaboração, levantamento da demanda por creche para a população de até 3 (três) anos, como forma de planejar a oferta e verificar o atendimento da demanda manifesta;

1.4) estabelecer, no primeiro ano de vigência do PNE, normas, procedimentos e prazos para definição de mecanismos de consulta pública da demanda das famílias por creches;

1.5) manter e ampliar, em regime de colaboração e respeitadas as normas de acessibilidade, programa nacional de construção e reestruturação de escolas, bem como de aquisição de equipamentos, visando à expansão e à melhoria da rede física de escolas públicas de educação infantil;

1.6) implantar, até o segundo ano de vigência deste PNE, avaliação da educação infantil, a ser realizada a cada 2 (dois) anos, com base em parâmetros nacionais de qualidade, a fim de aferir a infraestrutura física, o quadro de pessoal, as condições de gestão, os recursos pedagógicos, a situação de acessibilidade, entre outros indicadores relevantes;

1.7) articular a oferta de matrículas gratuitas em creches certificadas como entidades beneficentes de assistência social na área de educação com a expansão da oferta na rede escolar pública;

1.8) promover a formação inicial e continuada dos (as) profissionais da educação infantil, garantindo, progressivamente, o atendimento por profissionais com formação superior;

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1.9) estimular a articulação entre pós-graduação, núcleos de pesquisa e cursos de formação para profissionais da educação, de modo a garantir a elaboração de currículos e propostas pedagógicas que incorporem os avanços de pesquisas ligadas ao processo de ensino-aprendizagem e às teorias educacionais no atendimento da população de 0 (zero) a 5 (cinco) anos;

1.10) fomentar o atendimento das populações do campo e das comunidades indígenas e quilombolas na educação infantil nas respectivas comunidades, por meio do redimensionamento da distribuição territorial da oferta, limitando a nucleação de escolas e o deslocamento de crianças, de forma a atender às especificidades dessas comunidades, garantido consulta prévia e informada;

1.11) priorizar o acesso à educação infantil e fomentar a oferta do atendimento educacional especializado complementar e suplementar aos (às) alunos (as) com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, assegurando a educação bilíngue para crianças surdas e a transversalidade da educação especial nessa etapa da educação básica;

1.12) implementar, em caráter complementar, programas de orientação e apoio às famílias, por meio da articulação das áreas de educação, saúde e assistência social, com foco no desenvolvimento integral das crianças de até 3 (três) anos de idade;

1.13) preservar as especificidades da educação infantil na organização das redes escolares, garantindo o atendimento da criança de 0 (zero) a 5 (cinco) anos em estabelecimentos que atendam a parâmetros nacionais de qualidade, e a articulação com a etapa escolar seguinte, visando ao ingresso do (a) aluno (a) de 6 (seis) anos de idade no ensino fundamental;

1.14) fortalecer o acompanhamento e o monitoramento do acesso e da permanência das crianças na educação infantil, em especial dos beneficiários de programas de transferência de renda, em colaboração com as famílias e com os órgãos públicos de assistência social, saúde e proteção à infância;

1.15) promover a busca ativa de crianças em idade correspondente à educação infantil, em parceria com órgãos públicos de assistência social, saúde e proteção à infância, preservando o direito de opção da família em relação às crianças de até 3 (três) anos;

1.16) o Distrito Federal e os Municípios, com a colaboração da União e dos Estados, realizarão e publicarão, a cada ano, levantamento da demanda manifesta por educação infantil em creches e pré- escolas, como forma de planejar e verificar o atendimento;

1.17) estimular o acesso à educação infantil em tempo integral, para todas as crianças de 0 (zero) a 5 (cinco) anos, conforme estabelecido nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil.