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Capítulo 4

Campos escalares e vetoriais

Existem várias situações em que uma variável depende de várias outras. Por exemplo,
a área de um retângulo depende do comprimento e da altura deste. O volume de um
cone circular reto depende do raio do círculo da base e da altura do cone. A pressão
de um gás ideal depende do volume, da massa gasosa em moles e da temperatura. A
média aritmética de n números depende destes n números. Estes são alguns exemplos de
funções que dependem de várias variáveis e cujo valor é um número real. Estas funções
são denominadas campos escalares.

Definição 4.1 Um campo escalar é uma função cujo domínio é um subconjunto do Rn ,


n > 1 e cujo contradomínio é R, isto é, f : D ⊂ Rn → R, tal que a cada n − upla de D,
f associa um único número real.

Exemplo 4.2 Dada f (x, y, z) = ln (1 + x + y − z) , o seu domínio é o conjunto D =


{(x, y, z) ∈ R3 ; x + y − z + 1 > 0} e a sua imagem é R.

p
Exemplo 4.3 Dada a função f (x, y) = 4 − x2 − y 2 , o seu domínio é o conjunto D =
{(x, y) ∈ R2 ; x2 + y 2 ≤ 4} = B 2 ((0, 0)) e a sua imagem é [0, +∞).

Nota 4.4 Observe que se f é um campo escalar cujo domínio é um subconjunto de R2 ,


então seu gráfico é um subconjunto do R3 . Para campos escalares cujo domínio é um sub-
conjunto do Rn com n > 2, não é mais possível fazer a representação gráfica, pois seu
gráfico é um subconjunto do Rn+1 . Sendo assim para a função do primeiro exemplo não
podemos esboçar seu gráfico, pois seria um subconjunto do R4 . No entanto o gráfico do
segundo exemplo é o seguinte subconjunto do R3 :

25
26 CAPÍTULO 4. CAMPOS ESCALARES E VETORIAIS

2.0
1.9
1.8

-1.0 z 1.7
-1.0
1.6
-0.5 1.5 -0.5
0.0 0.0

y 0.5 0.5 x
1.0 1.0

Nota 4.5 Existem ainda funções que dependem de várias variáveis e cujo valor é ainda
um vetor. Por exemplo, a força gravitacional que atua em cada ponto do universo, depende
da posição do ponto e o seu valor é um vetor. O vetor velocidade de cada ponto no
escoamento de um fluido, depende da posição do ponto e do tempo. Estas funções são
denominadas campos vetoriais.
Definição 4.6 Um campo vetorial é uma função cujo domínio é um subconjunto do Rn ,
n > 1 e cujo contradomínio é Rm , com m > 1, isto é, f : D ⊂ Rn → Rm , tal que a cada
n − upla de D, f associa um único vetor do Rm . Assim, f (x) = (f1 (x), . . . , fm (x)) , onde
x = (x1 , . . . , xn ) ∈ D e fi : D ⊂ Rn → R são campos escalares, i = 1, . . . , m.
Nota 4.7 Da definição acima observa-se que um campo vetorial é uma função cujas
coordenadas são campos escalares.
µ ¶
1√
Exemplo 4.8 Dada f (x, y) = y, 0 seu domínio é D = {(x, y) ∈ R2 ; y ≥ 0} e sua
5
imagem é [0, +∞) × {0}, ou seja o semi-eixo real positivo.
µ ¶
1 2
Exemplo 4.9 Dada f (x, y, z) = arcsen , cosh xz , seu domínio é D = {(x, y, z) ∈
xy
R3 ; |xy| ≥ 1} e sua imagem é ((−π/2, 0) ∪ (0, π/2)) × [1, +∞).
Nosso objetivo em MAT-22 é o estudo do Cálculo para campos escalares e vetoriais.
No entanto assim como as funções vetoriais são uma extensão muito simples de funções
reais de variável real, no estudo do Cálculo diferencial e integral, os campos vetoriais
também são um extensão muito simples dos campos escalares. Portanto enfocaremos
especialmente os campos escalares e daremos sempre que possível a extensão para campos
vetoriais.
4.1. LIMITE DE CAMPOS ESCALARES E VETORIAIS 27

4.1 Limite de campos escalares e vetoriais


O conceito de limte para campos escalares e vetoriais é análogo ao conceito de limite de
funções reais de variável real, que é o conceito fundamental do Cálculo.

Definição 4.10 Seja f : D ⊂ Rn → R, a ∈ D0 e l ∈ R. Dizemos que lim f (x) = l se e só


x→a
se ∀ε > 0, ∃δ > 0 tal que ∀x ∈ D com 0 < kx − ak < δ tem-se que |f (x) − l| < ε.

Nota 4.11 Observe que quando queremos estudar limite de uma função num ponto, es-
tamos interessados no comportamento da função numa vizinhança do ponto, mas não in-
teressa o comportamento da função neste ponto. Por isso o ponto não precisa estar nem
no domínio da função, mas é necessário que seja um ponto de acumulação do domínio da
função. Observe também que a definição não nos dá uma maneira de calcular o limite,
mas apenas de testar se um determinado número é o limite da função naquele ponto.

Exemplo 4.12 Mostremos que 3x − 2y = −1. De fato, ∀ε > 0, tomemos δ =


lim
(x,y)→(1,2)
q
ε
> 0, assim, ∀ (x, y) ∈ R tal que 0 < k(x, y) − (1, 2)k = (x − 1)2 + (y − 2)2 < δ
2
5
tem-se que |3x − 2y + 1| = |3 (x − 1) − 2 (y − 2)| ≤ 3 |x − 1| + 2 |y − 2| < 5δ = ε, o que
implica que lim 3x − 2y = −1.
(x,y)→(1,2)

Exemplo 4.13 Provemos, por definição, que


8
lim = −8 .
(x,y)→(2,0) x + y − 3

Resolução. Devemos provar que


¯ ¯
¯ 8 ¯
¯
∀ε > 0, ∃ δ > 0 : k(x, y) − (2, 0)k < δ ⇒ ¯ + 8¯¯ < ε. (4.1)
x+y−3
Temos ¯ ¯
¯ 8 ¯ |8 + 8 (x + y − 3)| 8 |x − 2| + 8 |y|
¯ ¯ ≤ (4.2)
¯ x + y − 3 + 8¯ = |x + y − 3| |x + y − 3|
,
como
k(x, y) − (2, 0)k < δ ⇒ |x − 2| < δ e |y| < δ , (4.3)
segue de (4.1) que ¯ ¯
¯ 8 ¯ 16 δ
¯ ¯
¯ x + y − 3 + 8¯ ≤ |x + y − 3| . (4.4)

Assim, devemos agora encontrar C > 0 tal que

|x + y − 3| > C.

De (4.3) temos
−2δ − 1 < x + y − 3 < 2δ − 1 .
28 CAPÍTULO 4. CAMPOS ESCALARES E VETORIAIS

1 1
Logo se considerarmos 0 < δ < temos que −δ > − , o que implica que
4 4
3 1
− <x+y−3<− ,
2 2
ou seja
1
|x + y − 3| = − (x + y − 3) > ,
2
usando isto em (4.4) segue ¯ ¯
¯ 8 ¯
¯ + 8¯ < 32δ.
¯x + y − 3 ¯
Consideramos então ½ ¾
ε 1
δ = min , ,
32 4
e voltando a (4.4) obtemos (4.1). ¤

Proposição 4.14 Seja f : D ⊂ Rn → R, a ∈ D0 . Se existe lim f (x) então este é único.


x→a

Prova. Suponhamos que existam l1 e l2 ∈ R tais que lim f (x) = l1 e lim f (x) = l2 .
x→a x→a
Então dado ε > 0, existem δ1 , δ 2 > 0 tais que ∀x ∈ D com 0 < kx − ak < δ 1 tem-
ε ε
se que |f (x) − l1 | < e ∀x ∈ D com 0 < kx − ak < δ2 tem-se que |f (x) − l2 | < .
2 2
Assim, tomando δ = min{δ 1 , δ2 } > 0 segue que ∀x ∈ D com 0 < kx − ak < δ tem-se
ε ε
que |f (x) − l1 | < e |f (x) − l2 | < . Portanto tomando x ∈ D com 0 < kx − ak < δ,
2 2
obtemos que |l1 − l2 | ≤ |f (x) − l1 | + |f (x) − l2 | < ε, ∀ε > 0 ⇒ l1 = l2 . ¤

Como conseqüência imediata da proposição acima temos o seguinte resultado:

Corolário 4.15 Seja f : D ⊂ Rn → R, a ∈ D0 . Considere S1 , S2 ⊂ D tais que a ∈ S10 ∩S20 .


Se lim f (x) 6= lim f (x) então @lim f (x).
x→a x→a x→a
x∈S1 x∈S2

xy
Exemplo 4.16 Não existe lim pois se tomarmos Sm = {(x, y) ∈ R2 \{(0, 0)}; y =
(x,y)→(0.0) x2+y 2

0 mx2 m
mx}, temos que (0, 0) ∈ Sm e lim f (x, y) = lim 2 2
= e portanto
(x,y)→(0,0) x→0 (1 + m ) x 1 + m2
(x,y)∈Sm
lim f (x, y) 6= lim f (x, y), se m 6= k.
(x,y)→(0,0) (x,y)→(0,0)
(x,y)∈Sm (x,y)∈Sk

Ou seja o limite acima não existe pois depende da inclinação da reta que passa pela
origem. Vejamos mais um exemplo.
4.1. LIMITE DE CAMPOS ESCALARES E VETORIAIS 29

xy 2 m2 x3
Exemplo 4.17 Considere f (x, y) = . Vemos que lim f (x, y) = lim =
x2 + y 4 (x,y)→(0,0) x→0 (1 + m4 x2 ) x2
(x,y)∈Sm
2
0, onde Sm = {(x, y) ∈ R \{(0, 0)}; y = mx}. Podemos ser tentados a achar que o limite
existe e vale 0, no entanto se tomarmos S = {(x, y) ∈ R2 \{(0, 0)}; x = y 2 }, vemos que
0 y4 1
(0, 0) ∈ S e lim f (x, y) = lim 4 = 6= 0 = lim f (x, y) ⇒ @ lim f (x, y).
(x,y)→(0,0) y→0 2y 2 (x,y)→(0,0) (x,y)→(0,0)
(x,y)∈S (x,y)∈Sm
Vejamos o gráfico de f :

0.4 -2
-2
0.2 -1
-1 0.0
z
-0.20 0
1
y-0.4
1 x
2
2

1
Exemplo 4.18 Considere f (x, y) = sen 2 . Para mostrar que tal limite não existe,
x +Ãy 2 !
µ ¶
1 1
considere S1 = { √ , 0 ; n ∈ N} e S2 = { p , 0 ; n ∈ N}. Na realidade
nπ (π/2) + 2nπ
S1 e S2 são duas seqüências distintas em R2 e como ambas convergem para (0.0) , segue
1 1
que (0, 0) ∈ S10 ∩ S20 . Como, f ( √ , 0) = 0, ∀n ∈ N e f ( p , 0) = 1, ∀n ∈ N,
nπ (π/2) + 2nπ
temos que lim f (x) 6= lim f (x) portanto @ lim f (x, y). Vejamos o gráfico de
(x,y)→(00) (x,y)→(0,0) (x,y)→(0,0)
(x,y)∈S1 (x,y)∈S2
f numa vizinhança de (0, 0) .
30 CAPÍTULO 4. CAMPOS ESCALARES E VETORIAIS

1.0 -1.0

0.5 -0.5
3
2 z1 0.0
0 0.0
-0.5 -1
-2
x-1.00.5 y -3

1.0

Nota 4.19 Observe então que só podemos utilizar curvas ou seqüências para provar que
um limite não existe. No entanto temos o seguinte resultado que deixamos a cargo do
aluno.
k
Proposição 4.20 Sejam f : D ⊂ Rn → R, a ∈ D0 , Si ⊂ D, 1 ≤ i ≤ k tais que a ∈ ∩ Si0
i=1
k
e ∪ Si = D. Se lim f (x) = l, 1 ≤ i ≤ k então lim f (x) = l.
i=1 x→a x→a
x∈Si

Nota 4.21 Na realidade a proposição acima garante a existência de limite, se pudermos


dividir o domínio da função num número finito de conjuntos tais que o limite ao longo
de cada subconjunto existe e é igual. O resultado não é mais válida se o número de
conjuntos for infinito, como pudemos ver em exemplo anterior, onde o limite existe e é
igual ao longo de qualquer reta passando pela origem, no entanto é diferente ao longo da
parábola passando pela origem. Observe que o R2 pode ser visto como união de todas as
retas passando pela origem, mas esta união é infinita e por isso a proposição acima não
pode ser aplicada.
½
1 − x2 − y 2 ; k(x, y)k < 1
Exemplo 4.22 Seja f (x, y) = . É claro que os pontos
0; k(x, y)k > 1
(x0 , y0 ) ∈ R2 tais que k(x0 , y0 )k = 1 são pontos de acumulação do domínio Df de
f. Ainda Df = S1 ∪ S2 , onde S1 = {(x, y) ∈ R2 ; k(x, y)k < 1} e S2 = {(x, y) ∈
R2 ; k(x, y)k > 1}, com (x0 , y0 ) ∈ S10 ∩ S20 . Assim, como lim f (x, y) = 1 − x20 − y02 = 0
(x,y)→(x0 ,y0 )
(x,y)∈S1
e lim f (x, y) = 0, segue da proposição anterior que lim f (x, y) = 0.
(x,y)→(x0 ,y0 ) (x,y)→(x0 ,y0 )
(x,y)∈S2

Como a definição de limite não nos permite calcular o limite, mas apenas testar se
um determinado número é ou não limite de uma função num determinado ponto de
4.1. LIMITE DE CAMPOS ESCALARES E VETORIAIS 31

acumulação, daremos a seguir alguns resultados que nos permitirão determinar limtes mais
complicados, a partir de limites mais simples, que podem ser demonstrados por definição.
Mas antes de demonstrarmos as propriedades de operações com limite, apresentaremos
algumas propriedades necessárias para as demontrações das operações com limites.

Proposição 4.23 Sejam f : D ⊂ Rn → R, a ∈ D0 e l ∈ R. Se lim f (x) = l então


x→a
∃r, K > 0 tais que |f (x)| ≤ K, ∀x ∈ D ∩ Br (a) .

Prova. Da definição de limite, segue que considerando ε = 1 > 0, existe δ > 0


tal que ∀x ∈ D ∩ (Bδ (a) \{a}) tem-se que |f (x) − l| < 1 ⇒ |f (x)| < 1 + |l| , ∀x ∈
D ∩ (Bδ (a) \{a}) . Assim, se a ∈ / D segue que |f (x)| < 1 + |l| , ∀x ∈ D ∩ Bδ (a) e a
proposição fica provada neste caso, com r = δ e K = 1 + |l| . Caso a ∈ D então tomamos
K = max{1 + |l| , |f (a)|} e portanto tem-se que |f (x)| ≤ K, ∀x ∈ D ∩ Bδ (a) . Portanto a
proposição está provada. ¤

Proposição 4.24 Sejam f : D ⊂ Rn → R, a ∈ D0 e l ∈ R, l 6= 0 tais que lim f (x) = l


x→a
então:
a) Existe r > 0 tal que f (x)l > 0, ∀x ∈ D ∩ (Br (a) \{a}) .
b) Existem r, M > 0 tais que |f (x)| > M, ∀x ∈ D ∩ (Br (a) \{a}) .

Nota 4.25 O ítem (a) da proposição acima é conhecido como teorema da conservação
de sinal, pois ele afirma que a função numa vizinhança furada do ponto a tem o mesmo
sinal que o seu limite neste ponto. As demonstrações dos dois ítens são análogas as que
foram feitas em MAT-12 e por isso serão deixadas a cargo do aluno, como exercício.

Proposição 4.26 Sejam f, g : D ⊂ Rn → R, a ∈ D0 , l1 , l2 ∈ R tais que lim f (x) = l1 e


x→a
lim g(x) = l2 . Então:
x→a
a) lim (f (x) ± g(x)) = l1 ± l2 .
x→a
b)lim (fg) (x) = l1 l2 .
x→a
f (x) l1
c) lim = , se l2 6= 0.
x→a g(x) l2
d) lim |f (x)| = |l| .
x→a

Prova. Os ítens (a) e (d) são facilmente demonstrados. Provaremos então as ítens
(b) e (c).
(b) Como lim f (x) = l1 segue da proposição anterior que existem r, K > 0 tais que
x→a
|f (x)| ≤ K, ∀x ∈ D ∩ Br (a) . Ainda da definição de limite, segue que ∀ε > 0, existem
ε
δ 1 , δ 2 > 0 tais que ∀x ∈ D com 0 < kx − ak < δ 1 tem-se que |f (x) − l1 | < e
|K| + |l2 |
ε
∀x ∈ D com 0 < kx − ak < δ 2 tem-se que |g(x) − l2 | < . Portanto, tomando δ =
|K| + |l2 |
min{δ 1 , δ 2 , r} > 0 tem-se que ∀x ∈ D com 0 < kx − ak < δ, obtemos |f (x)g(x) − l1 l2 | ≤
32 CAPÍTULO 4. CAMPOS ESCALARES E VETORIAIS

|f (x)| |g(x) − l2 | + |l2 | |f (x) − l1 | ≤ K |g(x) − l2 | + |l2 | |f (x) − l1 | < ε. O que demonstra a
proposição.
(c) Como lim g(x) = l2 6= 0, segue da proposição anterior que existem r, M > 0 tais que
x→a
|g(x)| > M, ∀x ∈ D ∩ Br (a) . Ainda das definições de limites segue que ∀ε > 0, existem
M |l2 | ε
δ 1 , δ 2 > 0 tais que ∀x ∈ D com 0 < kx − ak < δ 1 tem-se que |f (x) − l1 | < e
|l1 | + |l2 |
M |l2 | ε
∀x ∈ D com 0 < kx − ak < δ 2 tem-se que |g(x) − l2 | < . Portanto, tomando
|l1 | + |l2 | ¯ ¯
¯ f (x) l1 ¯
δ = min{δ 1 , δ 2 , r} > 0 tem-se que ∀x ∈ D com 0 < kx − ak < δ, obtemos ¯¯ − ¯¯ =
¯ ¯ g(x) l2
¯ f (x)l2 − g(x)l1 ¯ |l2 | |f (x) − l1 | + |l1 | |g(x) − l2 |
¯ ¯≤ < ε, o que demonstra a proposição. ¤
¯ g(x)l2 ¯ M |l2 |

Exemplo 4.27 É fácil provar por definição que lim ax = ax0 e lim by = by0
(x,y)→(x0 ,y0 ) (x,y)→(x0 ,y0 )
∀a, b ∈ R (Mostre!). Assim, lim ax2 + by 2 = ax20 + by02 , utilizando as propriedades
(x,y)→(x0 ,y0 )
(a) e (b).

x3 − y 2 + z 4 −1
Exemplo 4.28 lim 2
= , pois das propriedades (a) e (b) temos
(x,y,z)→(1,2,−1) x + 3y − z 4
que lim x3 − y 2 + z 4 = −2 e lim x2 + 3y − z = 8 6= 0, portanto de (c)
(x,y,z)→(1,2,−1) (x,y,z)→(1,2,−1)
segue o resultado.

Proposição 4.29 Sejam f, g : D ⊂ Rn → R, a ∈ D0 . Se lim f (x) = 0 e existem r > 0 e


x→a
M > 0 tais que |g(x)| ≤ M, ∀x ∈ D ∩ Br (a) então lim f (x)g(x) = 0.
x→a

Prova. Como lim f (x) = 0 então dado ε > 0, existe δ > 0 tal que ∀x ∈ D com
x→a
ε
0 < kx − ak < δ tem-se que |f (x)| < . Logo, tomando δ 1 = min{δ, r} > 0, temos que
M
∀x ∈ D com 0 < kx − ak < δ 1 ⇒ |f (x)g(x)| < ε ⇒ lim f (x)g(x) = 0. ¤
x→a

Nota 4.30 Observe que o resultado acima é diferente da propriedade de produto de lim-
ites, pois a função que é por hipótese limitada poderá não ter limite no ponto em questão.

(x + 1)2
Exemplo 4.31 O lim q = 0, pois lim (x + 1) =
(x,y,z)→(−1,1,2) (x,y,z)→(−1,1,2)
(x + 1)2 + (y − 1)2 + (z − 2)2
¯ ¯
¯ ¯
¯ (x + 1) ¯ |(x + 1)|
¯
0 e ¯q ¯= q ≤ 1, ∀ (x, y, z) ∈
¯
¯ (x + 1)2 + (y − 1)2 + (z − 2)2 ¯ 2 2
(x + 1) + (y − 1) + (z − 2) 2

2
R tal que (x, y, z) 6= (−1, 1, 2) .
4.1. LIMITE DE CAMPOS ESCALARES E VETORIAIS 33

Observe que o exemplo acima é um exemplo típico onde não se pode aplicar a pro-
(x + 1)
priedade de produto de limites, pois a função q é limitada
2 2 2
(x + 1) + (y − 1) + (z − 2)
em todo o seu domínio, mas não admite limite no ponto (−1, 1, 2) . (Verifique!).
Existem dois resultados importantes, que são os teorema da função composta, que nos
permite utilizar importantes resultados de MAT-12, tais como l’Hôpital. Vejamos.

Teorema 4.32 (Teorema da Composta I) Sejam f : D ⊂ Rn → R, g : I ⊂ R → R,


a ∈ D0 , b ∈ I 0 , l ∈ R tais que f (D) ⊂ I, lim f (x) = b, limg(t) = l e existe r > 0 tal que
x→a t→b
f (x) 6= b, ∀x ∈ [Br (a) \{a}] ∩ D. Então lim (g ◦ f ) (x) = l.
x→a

Prova. Como limg(t) = l, segue que ∀ε > 0, ∃δ > 0 tal que ∀t ∈ I com 0 < |t − b| < δ
t→b
tem-se que |g(t) − l| < ε. Ainda como lim f (x) = b, então tomando δ > 0 encontrado
x→a
acima, existe δ 1 > 0 tal que ∀x ∈ D com 0 < kx − ak < δ 1 tem-se que |f (x) − b| < δ.
Portanto, tomando δ 2 = min{δ 1 , r} > 0 , ∀x ∈ D com 0 < kx − ak < δ 2 obtém-se que
0 < |f (x) − b| < δ ⇒ |g(f (x)) − l| < ε ⇒ lim (g ◦ f ) (x) = l. ¤
x→a

Teorema 4.33 (Teorema da Composta II) Sejam f : D ⊂ Rn → R, g : I ⊂ R → R,


a ∈ D0 , b ∈ I tais que f (D) ⊂ I, lim f (x) = b, e g é contínua em b. Então lim (g ◦ f ) (x) =
³ ´ x→a x→a
g(b) = g lim f (x) .
x→a

A demonstração é análoga a anterior, na realidade mais simples e por isso será deixada
como exercício. Observe que a continuidade de g no limite de f elimina a condição de
f (x) ter que ser diferente de seu limite pelo menos numa vizinhança furade de a. Vejamos
com dois exemplos a necessidade destas condições.
2
Exemplo 4.34  Seja f : R → R , definida por f (x, y) = (x − 1) y e g : R → R, definida
 t ln t; t > 0
por g(t) = t; t < 0 . Assim, temos que lim f (x, y) = 0 e limg(t) = 0 6=
 (x,y)→(1,1) t→0
−2; t = 0
g(0) = −2. No entanto ∀r > 0, os pontos (1, y) tais que 0 < |y − 1| < r são tais que
(1, y) ∈ Br (1, 1) e f (1, y) = 0, logo esta função não satisfaz a última condição exigida
pelo teoremaI e nem a condição de continuidade da g, condição do teorema II. Portanto
não podemos aplicar nenhum dos teoremas da composta. Vejamos então o que acontece
com a composta. Consideremos g ◦ f : R2 → R, que é definida por (g ◦ f ) (x, y) =

 (x − 1) y ln (x − 1) y; (x − 1) y > 0
(x − 1) y; (x − 1) y < 0 . Assim, tomando S1 = {(x, y) ∈ R2 ; y = 1} e

−2; (x − 1) y = 0
2
S2 = {(x, y) ∈ R ; x = 1}, tem-se que lim (g ◦ f ) (x, y) = 0 e lim (g ◦ f ) (x, y) =
(x,y)→(1,1) (x,y)→(1,1)
(x,y)∈S1 (x,y)∈S2
34 CAPÍTULO 4. CAMPOS ESCALARES E VETORIAIS

−2, o que implica que o limite da composta não existe, mesmo existindo cada um dos
limites da f e da g. Isto acontece porque a função f não satisfaz a condição de ser
diferente de seu limite em alguma vizinhança furada de (1, 1) e nem g é contínua em
0 = lim f (x, y) = 0.
(x,y)→(1,1)

2
Exemplo 4.35 Seja f : R → R , definida por f (x, y) = 0 e g : R → R, definida por
 t ln t; t > 0
g(t) = t; t < 0 . É claro que lim f (x, y) = 0 e limg(t) = 0, mas f (x, y) =
 (x,y)→(1,1) t→0
−2; t = 0
0 = lim f (x, y), ∀ (x, y) ∈ R2 e g não é contíunua em t0 = 0. Ou seja as condições de
(x,y)→(1,1)
nenhum dos dois teorema da composta estão satisfeitas. Portanto para sabermos se g ◦ f
admite ou não limite no ponto (1, 1) , devemos trabalhar com a própria função composta
ou seja g ◦ f : R2 → R, é definida por (g ◦ f ) (x, y) = −2, e assim lim (g ◦ f ) (x, y) =
(x,y)→(1,1)
−2 6= 0 = limg(t) = 0.
t→0

O que observamos é que mesmo que os limite de f e g existam se não houver a hipótese
de continuidade de g ou a hipótese de f ser diferente de seu limite numa vizinhança furada
do ponto, a composta poderá não ter limite ou se tiver, o limite poderá ser diferente do
limite de g. Vejamos a seguir como podemos aplicar o resultado.
£ ¤
sen (x − 1)2 + (y − 1)2 £ 2 2¤
Exemplo 4.36 O lim = 1, pois lim (x − 1) + (y − 1) =
(x,y)→(1,1) (x − 1)2 + (y − 1)2 (x,y)→(1,1)
sen t £ ¤
0, lim = 1 e (x − 1)2 + (y − 1)2 6= 0, ∀ (x, y) ∈ R2 , (x, y) 6= (1, 1) , assim estamos
t→0 t
nas condições do teorema I e podemos concluir o resultado.
2
Exemplo 4.37 O lim (cos (xyz))1/(xy) = e−2 . Antes, observe que o domínio
(x,y,z)→(1,0,2)
1/(xy)2
de f (x, y, z) = (cos (xyz)) é D = {(x, y, z) ∈ R3 ; xy 6= 0}. Assim, temos que
lim xyz = 0,e a função cosseno é contínua em 0 e portanto, lim cos (xyz) =
(x,y,z)→(1,0,2) (x,y,z)→(1,0,2)
1
ln t
1. Ainda lim (t)1/(t−1) = lim e t − 1 = e. Assim, podemos escrever a função dada
t→1 t→1
2
z (cos (xyz) − 1)
2 ln[(cos(xyz))1/(cos(xyz)−1) ]
2
como (cos (xyz)) 1/(xy)
=e (xyz) . Como, ∀ (x, y, z) ∈ D,
1
com 0 < k(x, y, z) − (1, 0, 2)k < tem-se que cos (xyz) 6= 1 e portanto do teorema
4
I segue que lim (cos (xyz))1/(cos(xyz)−1) = e . Como ln é contínua em e, tem-
(x,y,z)→(1,0,2)
h i cos t − 1 1
1/(cos(xyz)−1)
se que lim ln (cos (xyz)) = ln e = 1. Ainda lim 2
= − ,
(x,y,z)→(1,0,2) t→0 t 2
1
lim xyz = 0 e ∀ (x, y, z) ∈ D com 0 < k(x, y, z) − (1, 0, 2)k < tem-se que
(x,y,z)→(1,0,2) 4
4.1. LIMITE DE CAMPOS ESCALARES E VETORIAIS 35

z 2 (cos (xyz) − 1)
xyz 6= 0. Logo, lim = −2. Portanto
(x,y,z)→(1,0,2) (xyz)2
z 2 (cos (xyz) − 1) h 1/(cos(xyz)−1)
i
lim ln (cos (xyz)) = −2
(x,y,z)→(1,0,2) (xyz)2
e finalmente como a função exponencial é contínua em −2, segue do teorema II, o resultado
afirmado.
Antes de entrarmos em limite de campos vetoriais vejamos a definição de limite infinito
para campos escalares. Observe que quando dizemos que o limite de um campo escalar
num ponto é infinito, não significa que este limite existe, pois infinito não é número real.
É apenas uma maneira de dizer que o limite não existe pois a função cresce ou decresce
indefinidamente, à medida que se aproxima do ponto. Vejamos.
Definição 4.38 Sejam f : D ⊂ Rn → R, a ∈ D0 . Então:
a) Dizemos que lim f (x) = +∞ se e só se ∀M > 0 existe δ > 0 tal que ∀x ∈ D com
x→a
0 < kx − ak < δ tem-se que f (x) > M.
b) Dizemos que lim f (x) = −∞ se e só se ∀N < 0 existe δ > 0 tal que ∀x ∈ D com
x→a
0 < kx − ak < δ tem-se que f (x) < N.
1 1
Exemplo 4.39 É claro que lim = +∞ pois ∀M > 0 basta tomar δ = >0e
x→a kx − ak M
1 1
assim, ∀x ∈ Rn com 0 < kx − ak < δ tem-se que f (x) = > = M.
kx − ak δ

Exemplo 4.40 É claro que lim ln (kx − ak) = −∞, pois ∀N < 0 basta tomar δ = eN > 0
x→a
e assim, ∀x ∈ Rn com 0 < kx − ak < δ tem-se que ln (kx − ak) < ln δ = N.
Na realidade não se pode falar em operações com limites infinitos, pois tal limite não
existe e é apenas uma maneira de se mostrar o comportamento da função próximo de
um determinado ponto. No entanto temos alguns resultados que permitem manipular
com somas, produtos e quocientes de funções que divegem para ∞. Mas estes resultados
estarão na lista de exercícios e suas demonstrações serão deixadas a cargo do aluno.
Para terminarmos a parte de limite daremos a seguir a definição de limite de campo
vetorial e o resultado principal que nos diz que determinar o limite de um campo vetorial se
reduz a determinar o limite de cada uma de suas componentes, que são campos escalares.
Definição 4.41 Sejam f : S ⊂ Rn → Rm e a ∈ S 0 . Dizemos que b ∈ Rm é o limite de
f no ponto a quando:
∀ε > 0, ∃ δ > 0 : ∀x ∈ S, 0 < kx − ak < δ ⇒ kf (x) − bk < ε.
Nestas condições usamos a notação
lim f (x) = b.
x→a
36 CAPÍTULO 4. CAMPOS ESCALARES E VETORIAIS

Nota 4.42 Da definição seguem as seguintes observações:

1. lim f (x) = b ⇔ lim kf (x) − bk = 0.


x→a kx−ak→0

2. lim f (x) = b ⇔ lim kf (a + h) − bk = 0.


x→a khk→0

Observe que a definição é sempre a mesma, já que uma função tem limite L quando x
tende a a, se podemos tornar f (x) tão próximo de L quanto se queira, desde que x esteja
suficientemente próximo de a. O que muda na realidade é a função distância, que como
estamos em Rn e Rm o módulo agora se transforma na norma.
Vejamos então o resultado fundamental que nos permitirá utilizar os resultados de
campos escalares para campos vetoriais.

Proposição 4.43 Sejam f : D ⊂ Rn → Rm , f (x) = (f1 (x), . . . , fm (x)) , onde fi : D ⊂


Rn → R, a ∈ D0 e L = (L1 , . . . , Lm ) ∈ Rm . Então
lim f (x) = L ⇔ lim fi (x) = Li , i = 1, . . . , m.
x→a x→a

Prova. (⇒) Como lim f (x) = L então ∀ε > 0, ∃δ > 0 tal que ∀x ∈ D com 0 <
x→a
kx − ak < δ tem-se que kf (x) − Lk < ε. Mas como |fi − Li | ≤ kf (x) − Lk , i = 1, . . . , m
então |fi − Li | < ε, ∀x ∈ D com 0 < kx − ak < δ ⇒ lim fi (x) = Li , i = 1, . . . , m.
x→a
(⇐) Como lim fi (x) = Li , i = 1, . . . , m segue que para cada i = 1, . . . , m, ∀ε > 0,
x→a
ε
∃δ i > 0 tal que ∀x ∈ D com 0 < kx − ak < δ i tem-se que |fi (x) − Li | < √ . Assim,
m
tomando δ = min{δ i , 1 ≤ i ≤ m} > 0 segue que ∀x ∈ D comr 0 < kx − ak < δ tem-se
rm
ε P ε2
que |fi (x) − Li | < √ ⇒ kf (x) − Lk = (fi (x) − Li )2 < m = ε, ∀x ∈ D com
m i=1 m
0 < kx − ak < δ ⇒ lim f (x) = L. ¤
x→a

Nota 4.44 Observe que o resultado acima é equivalente à definição e portanto pode ser
usado como tal, ou seja, para determinar o limite de um campo vetorial, basta determinar
o limite de cada uma de suas coordenadas, que são campos escalares. Portanto podemos
nos valer de todos os resultados já apresentados.

Exemplo 4.45 Considere f : D ⊂ R2 → R3 definida por


µ ¶
ln (1 + x2 + y 2 ) 1 arctg xy
f (x, y) = , y sen , ,
x2 + y 2 xy 2xy
µ ¶
1
onde D = {(x, y) ∈ R2 ; xy 6= 0}. Assim, lim f (x, y) = 1, 0, , pois
(x,y)→(0,0) 2
ln (1 + x2 + y 2 )
lim = 1,
(x,y)→(0,0) x2 + y 2
4.1. LIMITE DE CAMPOS ESCALARES E VETORIAIS 37

ln (1 + t) 1
já que lim (x2 + y 2 ) = 0, (x2 + y 2 ) 6= 0, ∀ (x, y) ∈ D e lim = lim = 1,
(x,y)→(0,0) t→0 t t→0 1 + t
por l’Hôpital. Assim, utilizando o teorema da composta I, segue o resultado. Ainda
1
lim y sen = 0,
(x,y)→(0,0) xy
1
pois sen é limitada e lim y = 0. Finalmente
xy (x,y)→(0,0)

arctg xy 1
lim = ,
(x,y)→(0,0) 2xy 2
arctg t 1 1
pois lim xy = 0, xy 6= 0, ∀ (x, y) ∈ D e lim = lim 2
= , por l’Hôpital
(x,y)→(0,0) t→0 2t t→0 2 (1 + t ) 2
e portanto utilizando o teorema da Composta I, segue o resultado. Assim, como obtive-
mos o limite de cada coordenada, segue que o limite da função vetorial é o vetor cujas
coordenadas são os limites encontrados.

As operações de limites de campos vetoriais podem ser demonstradas utilizando as


operações de limites com campos escalares e por isso serão deixadas como exercícios.

Proposição 4.46 Sejam f, g : D ⊂ Rn → Rm e h : D ⊂ Rn → R, a ∈ D0 , L1 , L2 ∈ Rm e


l ∈ R tais que lim f (x) = L1 , lim g(x) = L2 e lim h(x) = l. Então:
x→a x→a x→a
a) lim (f ± g) (x) = L1 ± L2 .
x→a
b) lim (hf ) (x) = lL1 .
x→a
c) lim (f × g) (x) = L1 × L2 .
x→a
d) lim hf (x), g(x)i = hL1 , L2 i .
x→a
f (x) L1
e) lim = , se l 6= 0.
x→a h(x) l