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N a Companhia das Vozes demonstra que

uma boa parte de nós tem experiências

auditivas estranhas; que muitos de nós

não precisam de recorrer à Psiquiatria por isso; e que alguns de nós acabam por descobrir formas de lidar com essa experiência auditiva sem que ela inter fira com a sua vida social ou com as suas activi dades quotidianas. O núcleo essencial deste livro é constituído por I í depoimentos íntimos de pessoas que, ouvindo vozes, acabaram por estabelecer, de uma forma ou de outra, um modus vivendi com as suas próprias experiências, integrando-as nas suas vidas. Estes depoimentos encontram-se entremeados por uma vasta gama de formulações teóricas, algumas das quais abordam o fenómeno à margem do modelo medico, enquanto outras representam as linhas de referência que se podem encontrar no interior da própria Psiquiatria. Os organizadores deste livro estão duplamente de parabéns, não apenas por terem produzido um excelente exemplo de investigação original, para o qual contribuíram muitos ouvidores de vozes holan deses e britânicos, mas ainda pelos seus incansáveis esforços, por essa Europa fora, no sentido de ultra­ passar os tabus sociais que rodeiam o assunto.»

Lord Ennals (Presidente da Associação MINI))

0035161/

Lord Ennals (Presidente da Associação MINI)) 003516 1 / NAC0I1PANHIADASUOZES ISBN 972-33-1272-7 9 789723 312720

NAC0I1PANHIADASUOZES

ISBN 972-33-1272-7

MINI)) 003516 1 / NAC0I1PANHIADASUOZES ISBN 972-33-1272-7 9 789723 312720 Novos RumoS Marius Romme e Sandra

9 789723 312720

Novos RumoS

Marius Romme e Sandra Escher

organizadores

Zagalo-Cardoso e Cunha-Oliveira

coordenadores da edição portuguesa

NA COMPANHIA DAS VOZES

Para uma análise da experiência de ouvir vozes

da edição portuguesa NA COMPANHIA DAS VOZES Para uma análise da experiência de ouvir vozes editorial

editorial

E stam pa

munumo

®eiCI$doo

Marius Romme e Sandra Escher

organizadores

Zagalo-Cardoso e Cunha-Oliveira

coordenadores da edição portuguesa

NA COMPANHIA

DAS V02XS

Para uma análise da experiência de ouvir vozes

coordenadores da edição portuguesa NA COMPANHIA DAS V02XS Para uma análise da experiência de ouvir vozes

IC H A

F

T É C N IC A

 

rig in a l

O

h o lan d ês:

Stemmen Horen Accepteren

'•**

 

ijk s u n iv e rsite it

R

L im b u rg .

V a k g ro e p

S o c ia le

P s y c h ia fria -

S

iso

86

U D C

6 1 6 .8 9 -0 5 2

 

E

d ito re s:

Prol'.

D r.

M .A .J.

R o m m e ;

M w

A .D .M .A .C .

E sc h c r

C

ap a:

Jo sé

A n tu n e s

l

.a e d iç ã o :

M aio

d e

1997

 

F

o to c o m p o siç ã o :

B y b lo s -

F o to c o m p o siç ã o ,

L da.

Im p re ss ã o

e

A ca b a m e n to :

R o lo

&

F ilh o s - A r te s

G rá fic a s,

L da.

D e p ó sito

L eg al

n.°

1 11 3 8 5 /9 7

 

IS B N

9 7 2 -3 3 -1 2 7 2 -7

C o p y rig h t:

© P ro f.

©

p ara

D r.

M .A .J.

R o m m e ;

L d a.,

A .D .M .A .C .

1997

E d ito ria l a

E sta m p a ,

lín g u a

L isb o a ,

p o rtu g u e sa

E sc h c r

“A s ilusões e alucinações explicam-se, em grande parte, pela afectividade.”

P r o f e s s o r

D o u to r

H e r m é n io

C a r d o s o

( A u la s

T e ó r ic a s

d c

P s iq u ia tr ia :

Dementia Praecox,

1 9 4 4 )

Os organizadores

Marius ROMME

Professor Catedrático de Psiquiatria Social da Universidade de Limburgo (Maastricht, Holanda), desde 1974. Director do Centro de Saúde Mental Comu­ nitário de Maastricht. Foi discípulo do Professor Querido, psiquiatra e político holandês de origem judaico-portuguesa, que exerceu cargos de primeiro plano na Organização Mun­

dial de Saúde e se notabilizou por ter criado, no ano de 1934, em Amesterdão,

primeiro serviço comunitário de ajuda para prevenir a hospitalização de pacien­

o

tes psiquiátricos.

Professor Romme tem aliado a investigação científica à organização social

O

da ajuda. A sua área principal de investigação e de intervenção vem-se centrando nos cuidados comunitários de longo-prazo a pacientes psiquiátricos.

Tem já uma vasta obra escrita, nos campos da Psiquiatria Social,

Etnopsiquiatria, Reabilitação Psiquiátrica, Política de Saúde Mental e Ética.

É

colaborador assíduo de revistas internacionais da especialidade, nomeadamente

Schizophrenia Bulletin, British Journal o f Psychiatry, Mental Health and Society, The International Journal o f Social Psychiatry, e em fóruns internacionais de

debate da Questão Psiquiátrica.

É

autor de trabalhos originais importantes para a compreensão do fenómeno

de escuta de vozes e pioneiro de intervenções inovadoras para ajudar os ouvidores

lidar com as vozes - o que o tornou uma autoridade incontestada nesta área, na Europa c nos Estados Unidos.

Sandra ESCHER

Jornalista de ciência e investigadora do Departamento de Psiquiatria Social da Universidade de Limburgo (Maastricht, Holanda) e do Centro de Saúde Mental Comunitário de Maastricht.

a

Depois de se graduar em Enfermagem, estudou Jornalismo em Utreque. No Departamento de Psiquiatria Social da Universidade dc Limburgo, come­ çou por trabalhar no ensino da elaboração dc artigos científicos a jovens cien­ tistas. Participa, desde 1987, no Projecto “Ouvir Vozes”, onde: é auxiliar dos ouvidores dc vozes na elaboração dc “ego-documentos” e dc comunicações para congressos; é delegada para a comunicação social, na promoção da aceitação social da experiência de ouvir vozes; e é investigadora sénior do projecto sobre a escuta de vozes em crianças.

Os coordenadores da edição portuguesa

Foram co-autores, juntamente com os Professores F. A. Jcnncr e A. C. D. Monteiro, do livro “Esquizofrenia”: Uma Doença ou Alguns Modos de Se Ser

Humano?, que foi publicado no Brasil (Editora Científica Nacional), em Portugal (Editorial Caminho), no Reino Unido (Sheffield Academic Press) e na Itália (Edizione Trieste), pelo qual receberam do Governo português uma Menção

Honrosa do Prémio da Boa Esperança de Ciência e Tecnologia -

São membros fundadores da SIRIS - Associação de Solidariedade, Investi­ gação, Reabilitação e Intervenção Social, que, cm 1990, visou a articulação dc eforços entre profissionais e utentes de cuidados de Saúde Mental. Foram delegados portugueses ao Congress on Hearing Voices: Developing Partnership between Professionals and Users, realizado em Maastricht, Holanda, de 28 a 31 de Agosto de 1995.

1993.

J. A. CUNHA-OLIVEIRA

Médico. Mestre em Psiquiatria. Chefe de Serviço Hospitalar. Director de Serviço do Hospital Psiquiátrico do Lorvâo (Coimbra). Representante de Portugal, cm nome da SIRIS, no grupo dc organização da Rede Europeia de Utentes de Saúde Mental (Londres, 1990).

J. A. ZAGALO-CARDOSO

Médico. Mestre em Psiquiatria. Doutor cm Psicologia. Professor da Faculdade de Psicologia c dc Ciências da Educação da Univer­ sidade dc Coimbra. Coordenador Nacional do INFORUM - International Forum ofMentaI Health and Social Sciences. Desde 1988, mantém intercâmbio académico c científico regular tanto com o Professor Marins Rommc e sua equipa como com a Hearing Voices NetWork do Reino Unido.

ÍNDICE

A

P R E S E N

T A Ç Ã O

-

O U V IR

V O Z E S :

A P R E N D E R

E

E N S IN A R

 

A

L ID A R

C O M

A

E X P E R IÊ N C IA

 

In tr o d u ç ã o

D

A

ar

n trop o lo g ia

v o z

aos

Patsy

N

o tas

H age

e

sob re

o u v em

v o z e s

 

q u e e a

a ed içã o

H istó ria exp eriên cia

h o la n d e sa

p o rtu g u e sa

 

R Ó L O G O

P

D A

V E R S Ã O

I N G L E S A

1 .

I N T R O D U Ç Ã O

2.

A

N O V A

A B O R D A G E M

-

U M A

E X P E R IÊ N C IA

H O L A N D E S A

O s

p r im ó r d io s

 

A s

O Q u e stio n á rio

C om paração

entre

os

que

conseguiam

e os que

conseguiam

entender-se

com

as

v o z e s

O C o n g re sso

três

fa ses

da

ex p eriên cia

d e

F ase

A con tecim entos

de s u rp re sa

a n te rio re s

ou vir

v o z e s

não

17

17

21

25

30

35

37

39

45

45

47

47

52

52

53

55

 

O im pacto

das

v o z e s

esco brir persp ectiva s

D

teóricas

a lte rn a tiv a s

 

9 6

F ase d e organização:

entender-se

com

as

v o ze s

 

A

u m entar a

a c e ita ç ã o

 

98

F ase de

e sta b iliza ç ã o

econ hecer o sig nificado

R

das

v o z e s

98

A b ord agen s

p e sso a is

à c o m p r e e n s ã o

 

V

E

os

strutura r o

alorizar

aspectos

contacto

p o s itiv o s

com

as

v o z e s

9 9

P erspectivas p s ic o ló g ic a s

99

 

P erspectivas

não p sic o ló g ic a s

 

tilizar m ais

U

eficazm ente a

m e d ic a ç ã o

100

C o n seq u ên cia s

para

a p rofissã o

p siq u iá tr ic a

 

bter a

O

com preensão

dos fa m ilia r e s

100

3. A EXPERIÊNCIA BRITÂNICA

 

rescim ento p e s s o a l

C

101

 

D

esv a n ta g en s

da

d is c u s s ã o

103

 

E m

b u sca

d e

n o v a s

e x p lic a ç õ e s

C

o n c lu sã o

1 0 4

B rev e

história

d o

d e se n v o lv im e n to

da

red e

b r itâ n ic a

 
 

O

P rim eiro

C ongresso

B r itâ n ic o

6 .

O U V IR

V O Z E S :

A

D O S

Q U E

N U N C A

 

O

C ongresso de L ondres d e

1991

 

R E C O R R E R A M

À

E X P E R IÊ N C IA P S I Q U I A T R I A

 

1 0 5

O

Terceiro

C ongresso N a c io n a l

 

I n tr o d u ç ã o

106

O

C ongresso de M an chester sob re

E scuta

de

Vozes,

ontrib utos

C

p e s s o a is

107

1 9 9 2

 

P

rim eiro

Segundo

Terceiro

contributo p e s s o a l

 

107

D a

im portância

de

um a

diversida de

de

explicações

 

contributo p e s s o a l

H 2

-

O

C ongresso

de M a n chester sobre E scuta

 

contributo p e s s o a l

H 6

de

Vozes,

1993

Q

uarto

contributo p e s s o a l

121

A

criação

da R ede B ritânica

d e

O uvidores d e

V ozes

Q

uinto

contributo p e s s o a l

126

O

G rupo de A juda M útua

d e

M a n c h e s te r

 

Sexto

contributo p e s s o a l

132

D esenvolvim ento

da

R e d e

Sétim o

contributo p e s s o a l

138

4. PSI, PSICOLOGIA E PSIQUIATRIA

 

7.

O U V IR

V O Z E S :

P E R S P E C T IV A S

N Ã O

P S IQ U IÁ T R I C A S

141

A

s

v o z e s

d e

W a lte r

I n tr o d u ç ã o

141

A

s

antigas

c r e n ç a s

O hum anidades:

despertar

das

o

m a g n e tis m o

A ca m in h os

separação

d o s

( 1 8 3 0 - 1 9 0 0 )

 

E

x p eriên cias c a s o s

d e

v o z e s

Três reacções ao

Um

curriculum

interiores:

um

estu d o

d esp erta r e sp iritu a l

d e

trinta

143

149

R

ein o s

separad os

(1 9 0 0 - 1 9 5 0 )

in te r io r

150

A

integração:

o

d esa fio

a c tu a l

B

ases pa ra

um a fu tu ra

in vestig a çã o

 

151

 

V o z e s,

relig iã o

e

m is t ic is m o

152

5. DISCORRENDO SOBRE VOZES

 

U

m a

p ersp ectiva

m e ta fís ic a

157

A

d iscu ssã o

n e c e ssá r ia

A

escu ta

d e

v o z e s

e

a

p a r a p sic o lo g ia

166

Identificar pa d rõ es de

com portam ento

das

v o ze s

P

ercepção

extra -sen so ria l

T elepatia

e

 

166

E sba ter a

a n sie d a d e

c la r iv id ê n c ia

167

lassificação

C

da p ercep çã o

extra -sen so ria l

168

ondições fa v o r á v e is

C

171

A

escuta de vozes

e

O

C am inho

174

Um a perspectiva kárm ica

 

179

8. CRESCER À MARGEM DA PSIQUIATRIA

185

Introdução

185

Contributos p e sso a is

186

O

itavo

contributo p e s s o a l

Melhorar o controle

 

186

189

N

ono

contributo p e s s o a l

Melhorar o controle

190

193

D

écim o

contributo p e s s o a l

195

Ouvir v o z e s

196

A lucinações

197

Delírios e ideias paranóides

 

198

Fenómenos físicos

198

Medo e vulnerabilidade

200

Melhorar o controle

200

D

écim o p rim eiro

contributo p e s s o a l

203

A Psiquiatria

 

206

Melhorar o controle

208

D

écim o

segu nd o

contributo p e s s o a l

209

Quebrar o silêncio

211

Vozes: sobreviver e lidar com elas

212

Aqui vão as minhas vozes

e osseus desencadeantes

212

Treinar as vozes: pô-las em equilíbrio com a minha vida

213

D

écim o

terceiro

contributo p e s s o a l

215

9. OUVIR VOZES: A PERSPECTIVA DA PSIQUIATRIA E DA PSICOLOGIA

219

Introdução

220

A

Psiquiatria C lá ssic a

222

A nálise fu n cion al

227

14

A

p e r so n a lid a d e

d is s o c ia d a

 

241

T

rau m as:

 

u m

estu d o

sob re

ab u so

d e

crianças

e

a lu c in a ç õ e s

 

2 4 4

M o d e lo s

c o g n it iv o s

2 5 2

P

siq u iatria

S o c i a l

2 5 9

In

ra cçõ es

te

fa m ilia res

e

p s ic o s e

2 6 6

P s i c o s e

2 2 0

Cari

Ju n g

e

a

p e rcep çã o

e x tr a -se n so r ia l

2 7 9

J

ayn es

e

a

c o n s c iê n c ia

2 8 4

10. A S S U M I R

O

C O N T R O L E

D A

S I T U A Ç Ã O

291

I n tr o d u ç ã o

2 9 2

E

scr ev er

um

e

d iá r io

m ú t u a

2 9 4

Interajud a

aju d a

301

rg a n iza ç õ e s d e

O

u te n te s

 

301

A

F u n d a çã o

R esson ância

(W e e rk la n k )

3 0 2

G

ru p o s

d e

a ju d a

m ú tu a

3 0 4

C

o n cen tra r-se

n as

v o z e s

 

3 1 0

T

é c n ic a s

d e

co n tro le

da

a n sie d a d e

313

P

ro v o ca r

o

D iá lo g o

en tre

V o z e s

321

R

e a b ilita ç ã o

 

331

M

e d ic a ç ã o

e

esc u ta

d e

v o z e s

341

11. C O M P R E E N D E R

A S

V O Z E S

 

353

Para

q u e

é

p r e c isa

um a

lin g u a g e m ?

353

b je c tiv o s

O

e

estru tu ração da E n trev ista

355

E

n trev ista

e

r e s u lta d o s

3 5 7

A

p e r c e p ç ã o

 

3 5 7

V

o z e s

e

ou tras

p e rce p ç õ es

ex tr a -se n so r ia is

3 5 9

C

a ra cterística s

d as

v o z e s

 

3 5 9

O

r g a n iz a ç ã o

d a s

v o z e s

361

In

flu ê n c ia

d as

v o z e s

e

su as

c o n s e q u ê n c ia s

3 6 2

H

da

e s c u ta

d e

v o z e s

e

circu n stân cias

relacion ad as

istó ria c o m

o

seu

in íc io

 

3 6 4

lg u n s

A

e x e m p lo s

d e

a co n tecim en to s

tr a u m á tico s

365

15

O

qu e

in flu en cia

o

vir

a

ser-se

p a cien te

o u

n ã o

3 6 6

esen cad ea n tes

D

 

3 6 8

Iden tidade

das

im e d ia to s v o z e s

3 7 0

A

in ter p r eta ç ã o

 

371

idar

L

co m

as

v o z e s

 

3 7 2

C

o n c lu sã o

3 7 4

12.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

375

Partilha

d e

e x p e r iê n c ia s

3 7 6

O

p rob lem a

d e

lidar

co m

as

v o z e s

378

iversid ad e

D

d e

o r ig e n s

 

3 7 9

isp o n ib iliza r

D

a

in fo rm a çã o

 

387

C

o n c lu sã o

 

3 9 0

BIBLIOGRAFIA

391

APRESENTAÇÃO

OUVIR VOZES: APRENDER E ENSINAR A LIDAR COM A EXPERIÊNCIA

J . A .

C unh a-O liveira

e J . A .

Z ag alo-C ardoso

“Vocês sabem que as árvores falam? Sim, elas falam, elas falam umas com as outras. E também falarão convosco, se vos derdes ao trabalho de as escutar. O problema é que os Brancos nunca escutam.”

Introdução

(Búfalo, O Andarilho -

Chefe índio)

E ste livro, q u e agora apresentam os aos leitores d e lín gua portuguesa,

d e

d e

C entro d e

é

fruto

um a

E sco la

S o cia l

e

da

d e

U n iv ersid a d e

um a

Prática:

d e

D ep artam ento

do

Prática

M aastricht. E sco la e Prática

a E sco la

do

P siquiatria

L im b u rgo

e

a

S aú d e M en tal C om u n itário d e

q u e m ergu lh am

ju d eu

h olan d ês

as suas raízes no trabalho d o P rofessor A rie Q uerido,

q u e

d e

o rigem

p ortu gu esa,

rep resen tou

o

p on to

de

partida

da

in terven ção

p siq u iátrica

com u n itária.

N o m ea d o resp on sáv el p ela o rg an ização d os S e rv iço s C om un itários

19 31 , o P ro fessor Q uerido

d e S aú d e do M u n icíp io d e A m esterd ão em

nd ava, em

fu

19 34,

o

p rim eiro

S e rv iço

D o m iciliá r io ,

2 4 /2 4

horas, de

ajuda

(in terven ção

em

crise)

a p a cien tes

p siq u iátricos, co m

o

p rop ó­

sito

d e

prevenir

a

sua

h o sp ita liz a çã o

-

fa cto

q u e

o

n o tab ilizou

no

m u n d o

d e

sen v o lv er um a e sp e cia l a ctiv id a d e na área da P siquiatria S o cia l. A n tes

da

zaçã o

Q u erido

p rofessor

da

P siquiatria.

S o cia l

E m

1 9 5 2 ,

A .

Q uerido

era n om ea d o

M ed icin a

da U n iv ersid a d e

o

P ro fesso r

S aú d e,

na

área

da

d e A m esterd ã o,

to m a r-se-ia

S aú d e

p assand o

da

a d e­

sua ju b ila çã o ,

M undial

d e

perito

O rgan i­

C om unitária.

N o seu c o n h ecid o trabalho M últipla E quilibria (1958), p od e ler-se:

“Ao reunir os recursos individuais, o homem pode contra-actuar e modificar as forças do ambiente; as suas acções podem, então, tornar- s e infinitamente mais eficazes. A estabilidade do sistema pode ser am­ plamente conseguida se as forças individuais partilharem um objectivo comum. Quando os indivíduos conseguem congregar-se com vista a um objectivo comum, cria-se uma estrutura supra-individual, nomeadamente a sociedade.”

E ste é

o

fu n d am en to

área

da

S aú d e

d o s

m o v im en to s

e

d o

de em a n cip a çã o e

da

d e

ajuda

m útua

na

M en tal

d esen v o lv im en to

parceria.

S eria

p recisa m en te

c o m

o

P ro fesso r

A rie

Q u erido

que

M arius

R

o m m e

haveria

d e

fazer,

d e

1965

a

1967,

a

sua

form ação

pós-gra-

duada

em

P siquiatria

S o c ia l

e

a

resp ectiv a

tese

d e

dou toram ento.

A

P siq uiatria

S o cia l

é

o

ca m p o

p riv ilegia d o

d e

a p licação

do

m o ­

d e lo In v estig a ç ã o -A cçã o . E ste m o d e lo , criado por Kurt L ew in , carac-

d e se n v o lv im en to

igu ald ad e.

da

parceria,

isto

é ,

da

prática do

d iá lo g o

em

p é

de

D e acord o c o m

esta p ersp ectiva, um

sistem a m oderno d e cu id a d o s

d

e

saúd e

r o fissio n a is

p

n ão

d e

d ep en d e

saú d e,

m as

d o s

tam bém

aportes

das

c ie n tífic o s

e

té c n ic o s

d os

asp irações

e

d o

grau

d e

tisfação

sa

das

n e c e ssid a d e s

d o s

seu s

utentes.

 

E

ste

tip o

d e

id eia s

e

in iciativ a s,

qu e

realçam

o

in d iv íd u o ,

a

sua

b jectivid ad e

su

a ser

e

in tera c çõ es, perante

o

co m p reen d id o ,

a ceite

e

estereótip o

so cia l

em

d om in an te, so cie d a d e s

ten d em ,

ten d e

d e raiz id e o ló g ic a

p e lo

oriunda da R eform a p rotestan te, nas q u ais, ao contrário das an teriores,

o pap el do in d iv íd u o n o seu próprio d estin o e sa lv ação p rev a lece sob re

a

form as

da

in tersolid aried ad e a ctiva d os in d iv íd u o s, en qu an to qu e nas so cie d a d e s

e s ­ lh e

perar

d e

d e raiz id e o ló g ic a

p o u co

estim u lad o

ca tó lica , ortod oxa, islâ m ica e co m u n ista e

flo rescer em

so cied a d es

contrário, a m edrar e

d e

d o g m a s,

estrutura

nizada.

in stitu içõ es

e

aparente

partem

e

e

hierarquias

da

so c ie d a d e

p rop icia

da

v o n ta d e

ten d e

e

a

orga­

Por outro

lad o, e ste

da

ajuda

q u e

islâ m ica s

se m

o s

v o z

in d ivid u alism o

da

in iciativa,

o

organ ização

ca tó lica s,

qu e

-

o rto d o x a s,

q u em

lh e

q u e

e le ,

co m u n istas

a

in d ivíd u o

da

g ere

as form as de org an ização da ajuda (ou d e seg re­

d ogm as

activa,

eco n o m ia

sa lv a çã o

e

prop orcion e tam b ém

g a çã o )

crítica.

con su m irá

p a ssiv a m en te

sem

D e facto, a m aior parte das in iciativas e m ovim en to s d e u ten tes de

teriza -se

p ela prod ução

d e

c o n h ecim en to s

através

da

m o d ifica çã o

d e

S

aú d e

M ental e a m aioria d o s e sfo rço s qu e têm

sid o fe ito s para rever

um a dada realidade so cia l, co m

a particip ação activ a d os in teressad os.

rata-se d e um a

T

in v estig a ç ã o

om b ro

a om bro, d e

um a acção

e

R

reform ular as c o n c e p ç õ e s e

ev o lu çã o

as práticas p siqu iátricas su b sid iárias da

a

F ran cesa

têm

tid o

lugar

em

p a íses

co m o

a

H olan d a,

ceria,

d e

um

trabalho

feito

com

as p esso a s

e

não

sobre

as

d e par­ p esso a s.

B

é lg ic a

F lam en ga, a D in am arca, a E scó cia , a Inglaterra, a A lem a n h a

 

E

ste m o d elo

p erm ite o

a c e sso

d o s

utentes à d e fin içã o

e

o N o rd este d e Itália, para n ão falar d o s E stad os U n id os da A m érica.

tão im portantes co m o

a id en tific a ç ã o d os p rob lem as em

de m atérias p resença, das

 

q u estõ es a levantar e d os p r o c e sso s d e lh es dar resp osta e da interpre­

tação

m od ificar

e

a p licação

as

d os

resu ltad os

à

m ed id a

ob tid os.

d as

E ste

p roced im en to

d o s

utentes.

perm ite

práticas

n ecessid a d es

e

refén s d e um a prática q u e p rod u z “d o en tes cró n ico s” , isto é , q u e reduz

utente para as m argen s do

a

C o m p reen d e-se,

su b jectivid ad e

ao

a ssim ,

silê n c io

por

qu e

con tin u am os

n ós

in flu en cia d o s

e

qu e lan ça o

 

A

teoria v a i-se fa zen d o

a partir da prática. O

saber do p rofission al

sistem a ,

n ão

lh e

d an d o

e sp a ç o

próprio

d e

d ese n v o lv im en to

das

suas

ap

ren d e-se e a p erfeiço a-se tam b ém

P ro fissio n a is

e

u ten tes

c o m

b e n eficia m

o saber d os utentes e in teres­

do

d iá lo g o

m útuo

e

do

sad o s.

oten cia lid ad es. A

p

o m o

c

própria R eab ilitação P siq uiátrica é en ten d id a m ais

um a form a d e tom ar o “d oen te m en tal” m en os “d o en te” d o qu e

18

19

p ro cesso

in d ivíd u o para o

um

d e

tirar partido das p o ten cia lid ad es

e

d e v o lv e r ao c o n v ív io

em

do

so cia l p len o , liv re d e qualquer

in iciativ a s, de

da ex p eriên cia

estig m a ou q u a lifica tiv o degrad ante. S ã o co n h ecid a s as

resto

tárias p a ra

m u ito

m eritórias, q u e c o n sistem

D o entes M e n ta is

criar R esid ên cia s

C om u n i­

N a

ó p tica

S aú d e

da

lh es

P siq uiatria

S o c ia l,

a

im portância

d o s

utentes

P rofissio n a is

nos

e

cu id ad os q u e

utentes d everã o p o is participar na av alia çã o d o s S e r v iço s d e P siq u ia­

tria e

são p restad os d everá ser crescen te.

M en tal.

N o ca so co n creto da escu ta d e v o z e s, a P siq uiatria S o cia l con sid e-

ra-a um a ex p ressã o m etafórica das histórias e situ a çõ es b iográficas de

as

con texto

e ste

q u em

in teracções

so cia l

a

exp erim en ta.

d o

m ais

S egu n d o

n o

m o d elo ,

das

suas

as

v o z e s

reflectem

e

d o

in d iv íd u o

em

qu e

âm b ito

se

rela çõ es

a m p lo

en con tra

integrado.

A m aior parte d o trabalho d e se n v o lv id o n o ex trem o sul da H olanda,

na região

d e

L im b u rgo

e

na cid a d e

d e

M aastricht,

rela cion a -se,

pre­

cisam en te,

c o m

a

P siq uiatria

S o c ia l,

tal

c o m o

a

en ten d em ,

e

que

im p lica saúd e

o

estu d o

da

m en tal.

C o m o

vid a

d iz

q u otid ian a

das

M arius

R o m m e

p e sso a s

n este

c o m livro,

p rob lem as

de

“Para a Psiquiatria Social, os pensamentos, as emoções, as percep- ções e o comportamento dos indivíduos estão relacionados com as con­ dições em que as pessoas vivem e funcionam."

1987, a

trabalhar em

as

sion a is e n v o lv id o s, am p lian d o a co m p reen sã o das d iv ersa s id eias que

ex istem

a

a fin a lid ad e d e tom ar

E m

suas

M aastricht, as p e sso a s

parceria co m

ex p eriên cia s

m ais

sob re

a

escu ta

se

fic o u

a

q u e

o u v em

v o z e s

e stã o , d e sd e

próprias

e

uns

co m

aos

os

o s p ro fissio n a is, co m

co m p r een sív eis

d e

v o z e s

as

e

a

si

p rofis­

outros.

por 2

aprendendo

v o z e s

são

A ssim

saber qu e

exp erim en ta d a s

4% da p o p u la ção adulta e qu e n ão sã o, em

si m esm a s, sinal d e d oen ça.

D

o

ap reciável

n ú m ero

d e p e sso a s

qu e

o u v em

v o z e s

cerca

d e

um

terço

procura

ajuda

p rofissio n a l.

E

quando

o

fa z

é

por

cau sa

das

co n seq u ên cia s d e ssa ex p eriên cia e não d ev id o à ex p e riê n cia em

tratam entos

si. O s

n e­

m é d ic o s

habituais

n ão

parecem

co n stitu ir

a resp osta

20

cessá ria

para

q u e

as

p e sso a s

se

p o ssa m

en ten d er

co m

as

v o z e s

qu e

u v em .

o

 
 

A

in v estig a çã o

recen te

n esta

área v em

d em on stran d o

q u e

as

p e s­

so

as

q u e o u v em

v o z e s

p od em

ch egar a

um

m odus

vivendi co m

elas

e m e sm o a aceitá -las co m o parte integrante da sua própria id en tid ad e.
É

a

e ssa , p e lo m en o s, a o p in iã o d os o u vid ores d e v o z e s qu e aprenderam

aceitar N ã o

as

su as

v o z e s, deixar

a con trolá-la s

e

d e

referir

aqui

o

S o cia l

h o lan d esa

d os

xam ãs

e

so cie d a d e s

para

a en ten d er-se

gritante

c o m

o s

co m

ela s.

desta

ab ord agem

g ic o s

e

de

u tilid a d e

por b em acrescentar um a abordagem tradicional do prob lem a na S ecçã o

ach ám os

cu

p o d em o s

reco lh id o s

p a ralelism o

d ad os

da P siquiatria

e

do

estu d o

nas

an trop oló­

afin s,

p erson a g en s

são

so cia is

jas

ex p e riê n cia s,

na

p restíg io

tra d icio n a is,

con trolad as

nu m

razão,

pap el

integrad as

p erson alid ad e,

so cia l

reverterem ,

P or

d e p o is,

e ssa

in d esm en tív eis.

A ntropologia

e H istória

d esta

A p resen tação

à

ed iç ã o

p ortu gu esa.

Dar voz aos que ouvem vozes

O p rin cíp io fu nd am en tal d este livro é valid ar as exp eriên cia s e as

p e rcep çõ es

im p lem en tação d e estratégias d e interajuda. O

d as ex p eriê n cia s e das p ercep çõ es d os o u v id o res d e v o z e s resp eita não

ap en as às p e sso a s nesta situ ação m as tam b ém

fo rm a ção, cu riosid ad e ou

trar ex p lica çõ es e enquadram entos teóricos q u e n ão se lim item a reduzir

silê n c io

ex p erim en tam .

ao

a

im p lic á -lo s na co n c ep çã o e na

d os

ou v id o res

d e

v o z e s

e

prob lem a da v alid ação

a toda a g en te q u e, por

a ctivid ad e p ro fissio n a l, n e cessita d e en co n ­

a

escu ta

d e

v o z e s

e

as

p e sso a s

q u e

e

ao

iso la m en to

O s tem as e o b jectiv o s cen trais d este liv ro p od erão, en tão, ordenar-

-se

c o m o

segue:

- Falar da im portância histórica, cultural, an trop o ló g ica e so cia l da

escu ta

d e

v o zes;

- E x p or as m ú ltip las id eias e co n c e p ç õ e s acerca da escu ta d e v o zes;

-

L evar

própria

o s

ou v id o res

exp eriên cia;

d e

v o z e s

a falar e

a escrev er

acerca

da

sua

21

-

Saber se

e x istem

so lu ç õ e s

e

c o m o

p rop orcionar a ajuda d e

que

os

ou v id o res

d e

v o z e s

n ecessita m ;

 

-

D ebater

a

ajuda

m útua

e

as

form as

d e

a

con segu ir;

 

-O r g a n iz a r

e

pôr

em

fu n cio n a m en to

grupos

de

ouvid ores

de

-

-

-

v ozes;

O

e

D em onstrar q u e tanto

ter origem

p a cien tes.

D iscu tir

se p o d e

qu e

esperar da parceria entre

va lid a d e

do

utentes

e

profission ais;

psiquiátrico;

a

u tilid ad e

em

a

as “n e u ro ses” c o m o

d ia g n ó stico

as “p sic o se s” p od em

traum as, nas

in teracçõ es e na história d e v id a d os

D ar

estran ho

v o z e s tem

v o z

à q u eles

cam p o

qu e

o u v em

v o zes:

um

p rop ósito

q u e

o

aparentem ente

se ou vir

num

co m o

a P siq u iatria, em

tem

tid o , um

fa cto

d e

h ab itu alm en te, ou

sig n ifica d o

m órbid o, p ejo­

rativo,

sin ó n im o

d e

an om alia

o u

p rod u ção

espú ria,

sin tom a

d e

um a

d

o en ça

que

é

n ecessá rio

in v estig ar e

tratar. É ,

no

en tanto,

um

sig n i­

fica d o

an óm alo

con ta o h o m em -su jeito e o h o m em -so cia l, isto

cuidar d e saber do seu m u n d o interior, da sua história, das suas

fruto

d e

um

co n te x to

anóm alo:

observar

o

h om em -

b jecto sem

-o

é , sem

cren ça s,

tom ar em

su as

das

N a verd ad e, o s

rela çõ es

e

in ter-rela çõ es

e

sa ú d e, em

das

suas

n ecessid ad es. cu id ad os p si­

cu id ad os d e

particular o s

q u iátricos,

q u ais a escu ta d e v o z e s é co n c eb id a e teorizada, g en ericam en te, co m o

um a

tiva

apesar

as

adoptam

d e

h ab itu alm en te

m en tal.

tipo

c o n c e p ç õ e s

D e ste

m o d o , -

c iê n c ia

redutoras,

seg u n d o

categoria

d o en ça por e sse

do

a ex p eriên cia

teorias

se

sub jec- tom am ,

é

co n fisca d a

d isso ,

d e

cu jas

a b ase

tratam ento.

Para dar um ex em p lo , essa s teorias p reco n iza m q u e n ão se fa le das

m ais

v o z e s

nem

do

seu

sig n ifica d o

p orq ue

isso

iria

con fu n d ir

ainda

o

p acien te

c o m

“alu cin a çõ es

a u d itiv a s”.

M as

a

m aioria

das

p esso a s

qu

e

o u v em

v o z e s

n ão

p en sa

d e ssa

m aneira.

 

A liá s, (Jenner

co m o

et al.,

n ós

1992),

próprios

tiv em o s

o c a siã o

d e

d izer

anteriorm ente

‘alucinações auditivas’ não pode ser utilizado para desig­

nar todos os modos de encarar este fenóm eno, nem salienta suficiente­

mente a sua natureza complexa pensamento do paciente”.

“O termo

e as íntimas relações que tem

com o

22

E

ainda:

“Convirá lembrar que estamos completamente dependentes das nar­ rações dos pacientes, sempre que procuramos saber se estão ou não a ter ‘alucinações’. Em consequência da natureza totalmente subjectiva destas experiências, estamos desprovidos de qualquer critério objectivo que confirme ou refute as afirmações do paciente; temos de aceitar as suas palavras e tentar compreender o seu significado ‘real’ com a ajuda dos elementos clínicos e biográficos de que dispomos a respeito deles.’’

E ste

ld ad es

livro

e

as

v em

tom ar a c e ssív e l

so c ia is

cu

in teracções

ao

leitor a su b jectivid ad e,

d aq u eles

q u e

o u v em

v o z e s

as d ifi­

e

v e m

perm itir qu e o operador d e S aú d e M en tal e o p rofission al d e P siq u ia ­

tria p o ssa m

dar

m ais

sen tid o

con trário,

às

d este

suas

livro

p od em

é

in terven ções.

ex p lica r

U m

m érito

ou ,

su p lem en tar

p e lo

as

con d u zir a p esso a à co n d içã o

sua

transform ação

d e

q u e

form a

da

ex p eriên cia s d e escu ta d e v o z e s

d e

p a cien te

proporcionar

a

erson alid ad e

p

a um

n ív el

su p erior d e

integração

 

se

traduz nu m a

m

ud ança

p o sitiva

radical

d o

sig n ifica d o

e

e stilo

q u e de

vid a

da

p esso a .

A ssim ,

recorrer aos cu id ad os p ro fissio n a is d e P siq uiatria e d e S aú d e M en tal,

d efin e

co m o

p a cien te

o

ou vid or

d e

v o z e s

qu e

n e cessita

de

ão

n

porque

seja

n ecessaria m en te

portador

d e

um a

d o en ça

m ais

ou

en os

m

e sp e c ífic a

qu e

é

n e cessá r io

tratar e

debelar,

m as

por n ão

ser

a ex p eriên cia d e ou vir v o z e s e su as

d e

vu ln erab ilid ad e ao stress, q u e, m ais d o qu e m eros factores d e n atu reza

ca p a z d e lidar ad eq u ad am en te co m

N a

co

n seq u ê n cia s.

g é n e se

d esta

d ificu ld ad e

ap on tam -se

factores

b io ló g ic a , há b oas

razões

para adm itir qu e

se

trate sobretudo

d e fa c ­

tores

d e natureza p sic o sso c ia l, o n d e pon tuam

sen tim en to s

d e in se g u ­

rança

e

perturbações

d o

d e se n v o lv im e n to

da

iden tidade

durante

o

p eríod o

d e

crescen ça.

E sta form u lação p od e, a liá s, ajudar a A n trop o lo g ia a com p reen d er

e

a “loucura” xam ân ica e afin s, por um lad o, e a cham ada “esq u izo fren ia ”

por

d e sm istificar

outro.

o s

p a ra lelism o s

P iers

q u e

se

v ê

forçad a

a esta b elecer entre

S egu n d o

V iteb sk y

(1 9 9 5 ),

“o paralelism o

mais gritante

com

a

‘loucura’ xam ânica

encontra-se,

talvez, na esquizofrenia. A crise esquizofrénica é susceptível de m ergu­ lhar o indivíduo em terrores e pânicos comparáveis às visões iniciáticas

do xam ã siberiano. O que não impede que a diferença seja grande, tanto

23

no plano social como no plano psicológico. Onde a concentração mental

do xam ã está aumentada, dispersa-se a do esquizofrénico; o xamã man­ tém um poderoso controle do seu espírito, enquanto que a esquizofrenia ocasiona a perda desse controle; e enquanto que a experiência do xamã regressa à sociedade, onde reverte e é partilhada para o bem de todos,

o esquizofrénico fica aprisionado numa experiência privada, próxima do

autism o”.

N ã o estará aqui, an tes, um a e x c e le n te d e sc riç ã o

da d iferen ça atrás

esta b elec id a xam ã)?

entre