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Editor Robson Achiamé Fernandes

Gerente Comercial Jaques Jonis Netto

George de Cerqueira Leite Zarur

OS PESCADORES DO GOLFO

Antropologia Econômica de uma Comunidade Norte-Americana

achiamé

Rio de Janeiro

OS PESCADORES DO GOLFO

Copyright © 1984 by George de Cerqueira Leite Zarur

Direitos reservados desta edição a Edições Achiamé Ltda

É vedada a reprodução total ou parcial desta obra sem prévia autorização da editora

Composição

Linotipia Cordeiro

À memória de JORGE ZARUR, meu pai, um dos fundadores da moderna Ciência da Geografia no Brasil

SUMÁRIO

Prefácio - Charles Wagley 11 CAPÍTULO I - DESCOLONIZANDOA ANTROPOLOGIA 15

Antropologia e Poder 15 Relações de Poder e Metodologia Antropológica 18 Invertendo uma Lógica de Dependência 22 Representatividade e Hipóteses 30 CAPÍTULO II - O CONDADO E A VILA 37 Um Condado Norte-Americano 37

A Vila 40

Capítulo III - História 47 Uma Vila do Sul dos Estados Unidos 47 História da Indústria Pesqueira 52

CAPÍTULO IV - A DISTRIBUIÇÃO NA ECONOMIA E AS RELAÇÕES BÁSICAS DE UM SISTEMA DE CLASSES SOCIAIS 57 O Mercado de Produtos do Mar 57 O Sistema de Fishhouse e as Relações Essenciais de um Sistema de Classes 61 CAPÍTULO V - ECONOMIA: PRODUÇÃO 65 Tecnologia e Equipamento 65

A Captura de Peixes 67

A Captura de Caranguejos 69

A Coleta de Ostras 71

CAPÍTULO VI - VALORES E PROBLEMAS DE ORGANIZAÇÃO 73 "Smart" e "Proud" 73 Associações Voluntárias 78 Sindicatos e Cooperativas 85

CAPÍTULO VII - PARENTESCO 89

A Família Nuclear 89

Grupos Maiores de Parentesco 93

CAPÍTULO VIII - NATIVOS E "OUTSIDERS" 101

O Grupo dos Nativos 101

Nativos e. "Outsiders" 104

CAPÍTULO IX - CLASSES SOCIAIS E RENDA 113

A "Classe Alta" 113

Pescadores e Empregados 116 As Visões do Sistema de Classes 118 Classe, Parentesco e Estilo de Vida 122 CAPITULO X - CONCLUSÕES 125 Racionalidade, Irracionalidade, Ideologia e Realidade 125 Uma Perspectiva Comparativa: Racionalidade e o Quadro para Mudança Sócio-Econômica 128 Bibliografia 135

NOTA INTRODUTÓRIA

Este é um livro de Antropologia escrito para um público maior do que o dos especialistas no campo. Já foi uma tese, no passado, mas espero que com

o sacrifício no que foi possível, do jargão antropológico e de longas tabelas, tenha se transformado em uma leitura mais amena.

Este é um trabalho escrito em 1974, na sua forma original de tese. Não está porém fora dos tempos de hoje. A realidade que ele retrata continua presente na cidadezinha de MuIlet Springs, conforme pude perceber em uma visita realizada anos depois (1979), e de informações que recebo pelo correio, de amigos que lá vivem. Mais do que nunca atuais, são as razões que me levaram a escrever este livro, conforme o leitor poderá perceber na sua introdução: O estudo da sociedade politicamente dominante inverte a lógica cortente da Antropologia. Resta prestar um esclarecimento aos meus colegas antropólogos, pois este livro também é para eles. Procurei fazer uma boa etnografia, partindo portanto do quadro teórico mais adequado à realidade com que trabalhei. Este

é um estudo de Antropologia Econômica, em primeiro lugar. O problema central

é o da relação entre produtividade na organização da produção (racionalidade

ao nível individual) e acesso a mercados externos. Esta relação no entanto, ocorre e é explicada por um meio sócio-cultural abrangente. Estivesse eu trabalhando com o Brasil, enfatizaria como instrumento, para alcançar a realidade, o conceito de campesinato, como aliás já o fiz em outras ocasiões. No caso da realidade norte-americana, não há nada com ela tão coerente como o conceito de "comunidade", para se apreender o caso de grupos humanos corporativos, especialmente delimitados, e com um grande grau de autonomia relativa. O conceito permite, dado o holismo nele implícito, uma comparação com

outras populações que por ele têm sido estudadas, como aquelas retratadas em clássicas monografias sobre populações tribais da África, Ásia e Américas. Não há porque não se entender norte-americanos através dos conceitos usados para aquelas populações, e, através do método monográfico, que explica e descreve, da tecnologia às "relações sociais", aos "valores" e à "religião". Espero que fique claro, a partir dessas reflexões, que não houve, neste trabalho, uma preocupação maior com modismos, mas tão somente a escolha da teoria mais adequada à realidade estudada. e à própria intenção com que foi ele escrito.

Brasília, 03 de agosto de 1983.

George de Cerqueira Leite Zarur

PREFACIO

Há muitos anos atrás, Clyde Kluckholn, um antropólogo dotado de enorme capacidade de percepção, infundiu um pensamento desagradável na minha mente, uma idéia que me tem preocupado até os dias de hoje. Numa longa noite de conversa, Kluckholn formulou a retórica pergunta: "Será que a Antropologia Social nada mais é do que a visão ocidental das culturas não- ocidentais e assim chamadas primitivas"? Neste tempo (por volta de 1940) era verdade que a Antropologia Sócio-cultural florescia predominantemente na Inglaterra, na França e nos Estados Unidos. Grandes antropólogos sócio- culturais viveram e trabalharam em outros países, mas quase sem exceção, seu treinamento ou estímulo provinha de fontes norte-americanas, inglesas ou francesas (a antropologia alemã já tinha então sido distorcida pelos nazistas). Além disto, os antropólogos estavam ainda essencialmente envolvidos com culturas de tribos primitivas na África, Oceania, Américas do Norte e do Sul e Ásia. Estudos de sociedades camponesas e de comunidades componentes de sociedades complexas contemporâneas apenas tinham se iniciado. Pode-se imaginar como faz George Zarur neste livro, como nossa cultura e sociedade apareceria para um "índio antropólogo" que decidisse estudá-Ia. Porém, para que fosse antropólogo, um índio xinguano teria que ser treinado em antropologia, que é parte ,da tradição ocidental, envolvendo teorias e métodos dessa origem. Estaria a sua visão contaminada pelo treino e teoria provenientes da tradição intelectual do ocidente? Após a 2ª Guerra Mundial, os antropólogos voltaram-se para estudos de pequenas comunidades participantes de sociedades nacionais e também a se interessar por cidades (como os estudos de Lloyd Warner e associados em Yankee City, partes de cidades como as favelas

do Rio de Janeiro ou os bairros de Lima, instituições como hospitais, associações como uma escola de samba do Rio de Janeiro (conforme, Maria Julia Goldwasser - O Palácio do Samba, Rio de Janeiro, 1975) e outros aspectos de sociedades complexas. Mas exceto pelos antropólogos ingleses e norte-americanos, que viajaram pela América Latina, África e Ásia, tais estudos foram realizados dentro dos confins da sociedade e cultura dos pesquisadores. Assim, Robert Lynn e Helen Lynd estudaram Yankee City e James West (Carl Withers) estudou Plainville, USA. Nasce uma nova pergunta. Estariam estes estudos da própria cultura do antropólogo, distorcidos pelas dificuldades de se observar e interpretar o que parece sertão comum e natural como o ar que se respira? Seria capaz um antropólogo de outra origem de ver uma comunidade norte-americana de um ponto de vista diferente? Observadores de fora têm freqüentemente trazido novas visões e compreensões de sociedades que não

a deles. Alexís de Tocqueville em seu livro Democracia na América, publicado

pela primeira vez em 1835 ainda é uma das fontes mais citadas para o sistema social norte-americano; e em 1940 quando a Carnegie Corporation decidiu

deslanchar uma pesquisa gigante sobre relações raciais nos Estados Unidos, procurou Gunnar MyrdaI, um sueco, para dirigir o estudo. Assim outsiders

sensíveis, pessoas de uma outra cultura, parecem capazes de levantar idéias novas e distintas quando estudam uma cultura diversa da sua. É compreensível, por estas razões, que historiadores brasileiros tenham tão freqüentemente citado viajantes e residentes estrangeiros do século XIX, como Daniel P. Kidden, lohn Luccock, John Mawe, Thomas Ewbank, Henry Bates, Maria Graham e outros. Os Estados Unidos têm tido sua porção de visitantes estrangeiros como a senhora Fannie Trollope e o grande Charles Dickens e nem todos nos acharam simpáticos. Mas poucos antropólogos sociais treinados nos acharam merecedores de um estudo. Talvez porque já tenham passado mais de 200 anos desde que os Estados Unidos deixaram de ser uma dependência colonial exótica. Como coloca George Zarur, na primeira página deste livro, "a Antropologia implica normalmente uma relação colonial entre sociedade da

qual o antropólogo é membro e a sociedade

" . É possível que isto

seja historicamente verdadeiro. Talvez os antropólogos norte-americanos tenham sido motivados a estudar a América Latina devido a relações similares

às coloniais entre os Estados Unidos e os países ao nosso Sul. Mas se este é

o caso, parece ser apenas um

lado do problema, pois seria de igualou mais importância que uma sociedade dependente entendesse a sociedade dominante. Sempre me pareceu estranho que nos Estados Unidos mantenhamos institutos e centros de estudos latino- americanos enquanto não há institutos ou centros similares de estudos norte- americanos na América Latina. Se nós temos nossos brazilianistas treinados para analisar e interpretar a sociedade brasileira, por que o Brasil não tem os seus (norte) americanistas para fazerem o mesmo nos Estados Unidos? Seria de grande importância para o Brasil compreender o outro colosso mais ao norte. Para repetir um bem conhecido ditado mexicano: "Quando os Estados Unidos espirram, a América - Latina fica gripada". Assim por muitos anos e várias razões eu esperei que meus colegas brasileiros em antropologia social voltassem seu interesse para o estudo das sociedades e cultura norte-americanas. Hoje a antropologia brasileira é uma disciplina séria e bem desenvolvida, com a necessidade de seguir uma orientação de pesquisa comparativa. Tais estudos dos Estados Unidos, por brasileiros podem fazer importantes contribuições substantivas à disciplina da antropologia social. Suas observações podem ajudar a nós, norte-americanos, a nos compreender de uma perspectiva comparativa. Eles' podem funcionar para um entendimento mútuo, melhor que as traduções portuguesas de fontes norte-americanas, na medida em que explicam os Estados Unidos aos brasileiros, como eles são segundo as "lentes" brasileiras. A antropologia tem neste particular uma contribuição muito importante. Como explica George Zarur, os antrópologos sociais não se limitam a áridas estatísticas, visitas casuais a New York ou San Francisco, ou entrevistas com algumas poucas figuras poderosas, mas, pelo contrário, tentam penetrar na densidade dos problemas humanos, aspirações, comportamento e ideologia de um segmento limitado da sociedade. Exatamente como fez George Zarur na cidadezinha que ele chama de Mullet Springs, o antropólogo vive, torna-se um membro e participa da vida da pequena comunidade que ele estuda. Neste livro George Zarur faz uma importante contribuição ao entendimento das sociedade e cultura norte-americanas tanto para o público brasileiro como para o norte-americano. Ele freqüentemente descobre atitudes explícitas e normas de comportamento dos quais nós (norte-americanos) temos apenas uma vaga consciência. Os conceitos ideológicos que ele expressa pelas palavras smart e proud seriam provavelmente não captados pelo observador local. E sua

interpretação do papel da esposa em Mullet Springs como menos conservadora e em "contato com a corrente principal de valores da sociedade americana" é um outro exemplo de observações valiosas encontradas nesta obra.

O Dr. Zarur está preocupado com a racionalidade ou irracionalidade do comportamento econômico. Seus amigos pescadores de MuIlet Springs não são nem mais nem menos racionais que as pessoas de outras cidadezinhas do Brasil, México ou qualquer lugar do mundo. Afinal MuIlet Springs é um pedacinho de uma nação (os Estados Unidos) que gasta milhões de dólares todo ano para subvencionar plantações de fumo e gasta milhões de dólares no mesmo ano, em campanhas para ensinar seu povo sobre os perigos do cigarro. Racionalidade está ao que parece na mente das pessoas; o que parece irracional para o antropólogo ou o economista pode ser racional no pensamento do povo de uma dada cultura e sociedade. Finalmente, George Zarur descreve neste livro um segmento da sociedade americana pouco discutido, a gente das pequenas cidades e vilas. Não são eles as pessoas sofisticadas das metrópoles ou os membros da enorme classe média da sociedade de consumo. Há centenas de milhares de MuIlet Springs nos Estados Unidos da América e cada qual tem suas peculiaridade e diferenças. De baixo da crosta de uma cultura de massa homogeneizada que é mostrada na televisão, no cinema e nos jornais e revistas de grande circulação, diferenças locais e regionais da herança cultural norte-americana são preservadas. E de uma MulIet Springs de certa forma mais rica, a menos de 300 quilômetros ao norte no Estado da Georgia, que o presidente Jimmy Carter vem. Mas nem MuIlet Springs ou Plains (Georgia), onde o presidente Carter nasceu são como as muitas vilas da Nova Inglaterra, ou como as cidadezinhas das grandes planícies do meio oeste, ou ainda como os povoados típicos da Califórnia. Há muitas Américas nestas vilas e distritos rurais, da mesma maneira como há muitos Brasis nas pequenas cidades que se espalham do Rio Grande do Sul ao Amazonas. Nestas duas nações gigantes do Novo Mundo, Brasil e Estados Unidos da América, o regionalismo ainda é um fator importante que deve ser considerado e compreendido. Seja bem vindo o leitor a este estudo humano e penetrante da vida em uma pequena cidade no assim chamado novo Sul dos Estados Unidos.

Charles Wagley

Capítulo I

DESCOLONIZANDO A ANTROPOLOGIA

Antropologia e Poder

Quando fui para a Universidade da Flórida em setembro de 1972, meu objetivo era não apenas o meu doutoramento, mas também dar início a um projeto novo nas Ciências Sociais Brasileiras: o de estudar algum aspecto da sociedade e cultura norte-americanas. A Antropologia implica normalmente uma relação colonial entre a sociedade da qual o antropólogo é membro e a sociedade estudada; ou pode, também, implicar uma relação de poder, entre o segmento de sociedade ao qual o antropólogo pertence e o segmento de sociedade estudado; ou seja, o antropólogo geralmente vem da sociedade colonizadora ou da classe alta. Essas relações estão profundamente enraizadas na História da Antropologia. A imagem do antropólogo inglês usando um chapéu "colonial" e seguido por um safari de nativos de pele escura, carregando sua bagagem, não é uma criação de diretores de filmes de aventura. Nada mais significativo do que as idéias de Malinowski sobre o International African Institute (1929:23):

"O Instituto busca, primeiro, a aplicação do conhecimento científico. Pode, de um lado, atuar em prol de diversos interesses coloniais em suas atividades práticas, enquanto do outro tem à sua disposição o conhecimento de especialistas treinados em teoria".

Sem dúvida o uso de especialistas "treinados em teoria", isto é, antropólogos, foi um instrumento de importância na manutenção do

império colonial inglês. A utilização do sistema de regra indireta ("indirect rule"), pelo qual o sistema político e jurídico nativo é mantido até certo ponto, é uma destas contribuições da Antropologia, que fizeram os ingleses conhecidos pelo seu "jeito" no trato dos povos coloniais. Com a destruição dos sistemas coloniais europeus e o surgimento de novas formas de dependência, o conhecimento de outros povos continuou a funcionar nos países desenvolvidos, trazendo inputs para decisões de políticos, diplomatas, homens de negócio ou quaisquer pessoas com algum interesse profissional nesses povos. A Antropologia alargou seu interesse, e atualmente não são muitos os jovens antropólogos em todo mundo que ainda se interessam por estudar os chamados "povos primitivos". O estudo da sociedade primitiva tende, cada vez mais, a ser campo de um número pequeno de especialistas interessados em problemas teóricos. Naturalmente, o crescente interesse por sociedades complexas está relacionado com sua relevância prática. Isto se expressa no cotidiano da vida acadêmica dos países desenvolvidos, por uma distribuição de verbas para pesquisa em áreas prioritárias, nas quais as sociedades complexas tendem a estar incluídas. A Antropologia não é porém, definitivamente, conservadora. O antropólogo, pelos métodos de trabalho que usa, tende a ficar ética e humanamente envolvido com as populações que estuda. Tal envolvimento em geral se reflete no que ele escreve e sugere. A Antropologia enfatiza contatos face a face, entre antropólogos e nativos em longos períodos de residência no campo. Neste período os antropólogos são transformados no que se tem chamado de "nativos marginais". A participação, mesmo periférica, do antropólogo na sociedade nativa que o acolheu pode fazer, então, do pesquisador envolvido em uma situação colonial, uma contradição viva com a antropologia que ele faz. A informação produzida pelo antropólogo possui muitas vezes, por esta razão, uma carga de simpatia pelas populações estudadas. Além disso, de certa forma ela ajuda essas populações: o simples explicar de um comportamento estranho de participantes de outras culturas, "humaniza" esse comportamento. Cada cultura tem sua própria definição de humanidade e, naturalmente, o máximo de humanidade para ela são os seus próprios padrões. E tais padrões situam as diversas regras de comportamento em um continuum que as aproxima, com maior ou menor razão, do comportamento genuinamente humano - que cada cultura imagina ser

o seu. Explicados tais comportamentos diversos, eles se tornam uma resposta inteligente a situações diferentes. O antropólogo transforma, portanto, membros de outras culturas em "seres humanos" aos olhos dos membros de sua própria cultura. O nativo deixa de ser um objeto de condenação moral e seu comportamento converte-se em respostas específicas às condições históricas, sociais e naturais. Desta forma, quando usada como input para decisões, a Antropologia tende a substituir o conflito pelo compromisso, o preconceito pela tolerância. É claro que daí podem advir vantagens muito reais para os nativos, principalmente quando são eles membros de sociedades tribais, em geral política, econômica e militarmente mais fracos. Embora o antropólogo controle a informação que produz, não domina, porém, a maneira pela qual ela será usada. E a Antropologia, apesar destas atenuantes, não deixa de ser uma peça dos termos de poder entre diferentes nações, grupos étnicos e classes sociais. Tenho portanto motivos razoáveis para estudar a sociedade americana. Nós, latino-americanos, somos "nativos" típicos, objetos históricos de colonização e de estudo. A análise de um grupo da sociedade americana por um antropólogo latino-americano é uma inversão lógica das relações de dependência, é fazer do sujeito objeto e do objeto sujeito. Retrata, portanto, os anseios de igualdade dos chamados "povos do terceiro mundo". Para mim, como brasileiro, o estudo dos Estados Unidos foi uma oportunidade de exprimir esses anseios. Dentro da Antropologia essa inversão pode ter muita importância, na medida em que outros antropólogos, brasileiros ou de outros países do terceiro mundo, procurem estudar as sociedades desenvolvidas. Além disto, a Antropologia tem um papel conhecido e importante na formação da identidade dos diversos grupos humanos (cf. Roberto Cardoso de Oliveira, 1960). O estudo do Brasil por estrangeiros nos torna vistos através de seus olhos. O estudo da sociedade e cultura dominantes contrabalança esta

relação. Para a Antropologia brasileira o estudo de um outro país vem a ser, sem dúvida, um enorme alargamento de perspectivas. Já possuímos um pequeno, porém, excelente, grupo de antropólogos, cuja preocupação tem sido, no entanto, o estudo de populações indígenas brasileiras, de populações camponesas ou urbanas dentro do território nacional. Temos evidentemente muitos problemas a resolver dentro do Brasil e a Antropologia poderá dar uma grande contribuição

neste sentido. É, porém, uma ciência comparativa por definição, e desta perspectiva transcultural parte toda sua eficiência explanatória. É então essencial que haja uma diversificação nos tipos de sociedades estudadas, para que a Antropologia brasileira atinja sua maturidade. O estudo das sociedades desenvolvidas não nos afastará, porém, dos problemas internos que o Brasil apresenta e que aí estão para serem solucionados. O estudo da sociedade, e cultura norte-americanas apresenta uma importância enorme para a compreensão dos problemas internos do Brasil. Basta para isso que o leitor considere o peso político, econômico e cultural dos Estados Unidos sobre o Brasil.

Um exemplo bem concreto desta relevância prática está no estudo de mercado para produtos do mar, que faço neste trabalho. O estudo de outras sociedades em geral traria conhecimentos de uma significação óbvia para "o político, o diplomata e o homem de negócios brasileiros".

Relações de Poder e Metodologia Antropológica

Não somente é a Antropologia um elemento de relações de poder, como tais relações condicionam toda a sua metodologia. Não, há Ciência Social que dê tamanha importância ao trabalho de campo. Pelo método que se convencionou chamar de "observação participante." o antropólogo vive o mais que pode as situações engendradas pela cultura nativa. Precisa, portanto, participar da intimidade de pelo menos algumas pessoas do grupo que estuda, a fim de obter informações relevantes. Para a Antropologia as técnicas impessoais de pesquisas com uso de questionários e com rápidos contatos com grande número de informantes são apenas complementares. O trabalho de campo é para o antropólogo uma experiência extremamente pessoal, envolvendo contato direto, intimo e prolongado com um número relativamente pequeno de pessoas. O antropólogo porém, é um estranho e, como tal, perigoso. Na maioria das situações de campo é ele apenas tolerado por um certo período e, depois de aceito, vive uma perpétua ambigüidade - ele jamais é inteiramente aceito. O antropólogo no campo é pelo menos um aborrecimento para os nativos que estuda. Ele desconhece as mais elementares regras de etiqueta, higiene e moral, definidas em cada cultura. Está sempre

fazendo perguntas óbvias, que no início divertem os seus informantes, mas que pouco tempo depois se tornam extremamente irritantes. A situação poderia ser melhor entendida se um antropólogo viesse trabalhar conosco e passasse o dia inteiro inquirindo: "Por que usam vocês telhas de barro?" ou "Por que as cadeiras da sala de jantar estão colocadas desta forma e não de outra?" E compreensível que tais interrogações, repetidas diariamente dezenas de vezes, não constituam diversão agradável para os nativos. Pior porém é que a simples indagação do antropólogo em certas áreas

da estrutura social nativa representa uma ameaça à sua sociedade. De fato,

investigações nunca antes realizadas podem ameaçar seriamente o equilíbrio tradicional das pequenas comunidades que o antropólogo normalmente estuda, transformando o sagrado em profano e o que transcende o interesse humano em mero tema de reflexão. Por fim, para atingir um certo grau de eficiência explanatória, o antropólogo precisa participar da intimidade das pessoas e conviver com elas, por mais desagradável que às mesmas seja essa aproximação. Tais fatos tornam o trabalho de campo uma experiência que pode vir a ser bastante traumática para o antropólogo e nativos. Em diversas sociedades

primitivas, os antropólogos têm sido suspeitos de feitiçaria, correndo assim risco de morrer. Ser feiticeiro nessas sociedades pode equivaler a ser diferente.

E não resta dúvida de que o estranho com costumes diversos, corre,

igualmente, risco de ser executado em nossa sociedade. Basta para tal

imaginar um índio antropólogo estudando nossa sociedade, andando nu pelas ruas, pensando que a propriedade de seus amigos nativos é sua também; que

as namoradas de seus amigos são igualmente suas. Um indivíduo que, para

sobreviver no meio social em que está, precisa do apoio de outras pessoas nas

tarefas mais elementares. A interferência do antropólogo na sociedade que estuda não se limita

às suas perguntas e à sua diferente maneira de ser. Muitas vezes ele interfere

concreta e diretamente na vida dos nativos. Eu mesmo fiz isso em meio a um delírio de malária e tentando salvar a vida de uma criança. Passei quatro meses no Parque Indígena do Xingu, em final de 1971 e início de 1972. Minha

esposa, como estudante de Antropologia, foi ao campo como assistente. Em nossa primeira semana uma mulher da aldeia morreu de parto. Quando as pajés chegaram à conclusão de que nada poderiam fazer,

eu e minha esposa fomos chamados, como último recurso. Encontramos a mulher deitada em um lago de sangue, sendo "cutucada" com varas de bambu pelas "comadres" locais que tentavam tirar a placenta. A criança já nascera e chorava perto do fogo. Fizemos o que foi possível com um manual de primeiros socorros e toalhas molhadas. Percebi, contudo, que não havia mais esperança. A mulher não me tinha parecido ainda morta quando um pajé a considerou como tal. Um ritual de morte no Xingu, naquele sol e naquela febre, foi o

acontecimento mais dramático por mim visto: o desespero e o choro ritualizado dos parentes, que durou três dias, da manhã ao pôr-do-sol; o fogo ateado na casa, e a destruição do seus objetos. No momento da morte interroguei um índio:

- . E a criança? Quem a vai adotar?

- Ninguém. Vai morrer.

- Como?

- Enterrada com a mãe.

- Viva?

.- É. Agarrei a criança e corri para minha rede. Passei dois dias montando guarda enquanto esperava uma canoa para me levar ao Posto Indígena. O pai dera colares e outros bens valiosos a alguns índios para que enterrassem a criança. Quando me afastava por um momento, voltava para encontrar alguém rondando minha rede. Uma vez fui buscar a criança do lado de fora da casa, e tirá-Ia dos braços de um homem. Afinal, partimos para o Posto em uma viagem de canoa, de doze horas, procurando proteger a criança da chuva, do sol, e dos ramos da beira dos canais, que unem a aldeia Aweti ao Posto Leonardo Villas-Boas. Marina Villas-Boas conseguiu salvar a criança que lhe entregamos, desidratada e castigada por chuva e sol. Naturalmente tornei-me suspeito de feitiçaria. No Xingu não se acredita em morte natural; morrer é sempre conseqüência da ação de um feiticeiro. Ora, o feiticeiro é sempre o estranho, e a mulher morrera logo após minha chegada. Mais tarde, uma das facções da aldeia transferiu a acusação para outro estranho - um índio Kamaiurá já acusado de outras mortes por feitiçaria. De fato, acusar um caraíba (termo pelo qual os xinguanos tratam os "civilizados") iria contra toda a estrutura de poder manifesta nas relações índio- branco.

Mais tarde, já quando escrevia meu trabalho sobre os Aweti, ao interpretar meus dados de campo, entendi o comportamento dos índios. É tudo extremamente racional, embora sob uma forma de racionalidade diversa da nossa.

Em primeiro lugar, há no fato um aspecto quase "humanista", em certo sentido. Os órfãos quando muito pequenos requerem enormes cuidados maternos, que outras mulheres multas vezes não podem dar. Seu leite é considerado um "bem limitado", que as mães ciosamente guardam para seus filhos. Evidentemente não há na aldeia outro leite. A morte com a mãe, substituindo a morte paulatina por inanição e falta de cuidados, seria uma forma de eutanásia. Além disto, um órfão que acaso sobreviva será sempre diferente, devido à sua própria experiência de vida, tão diversa da geral. Será sempre um candidato a feiticeiro. O sacrifício da criança com sua mãe morta, expressa e é um símbolo das idéias que os xinguanos têm da relação mãe- filho, considerados sempre uma unidade. Os índios preferem uma criança morta com sua mãe, do que viva sem ela. Minha ação porém ocorreu em uma área da vida social onde não poderia haver compromisso de valores. Ela só foi possível devido ao poder do meu status de branco. Para que o antropólogo seja tolerado nos seus primeiros estágios de campo, e afinal aceito, cumpre que as populações estudadas tenham boas razões para tal. Essas razões surgem do poder da sociedade ou da classe social do antropólogo. Em primeiro lugar, em uma sociedade com classes sociais marcadas e explícitas como o Brasil, é um dado que as classes "baixas" trabalham para as classes mais "altas". O antropólogo, devido à sua educação formal, é normalmente classificado como alto na hierarquia de classes. Representa, por conseguinte, um contato interessante, um "padrinho" potencial, um protetor, que algum dia poderá ajudar seus informantes, ou parentes de seus informantes, a conseguir, por exemplo, um emprego, ou uma vaga em um hospital. Algumas vezes esses contatos podem influenciar o bem- estar físico de comunidades inteiras. Isto ocorre especialmente com os índios, para quem o convívio com antropólogos tem sido da maior importância na defesa de suas terras contra fazendeiros, ou mesmo em sua defesa contra ameaças de violência física. Por fim, em algumas regiões da África ou do Nordeste brasileiro um camponês pode ganhar cerca de 30 dólares por mês. Em tais circunstâncias o antropólogo pode tornar-se

uma fonte de renda para algumas pessoas dessas comunidades, remunerando os serviços a ele prestados.

Invertendo uma Lógica de Dependência

A inversão de uma lógica de dependência não é a inversão de uma relação concreta de poder. O meu estudo de uma comunidade norte-americana apresentou características e dificuldades especiais, pois o nativo estava se tornando antropólogo. O estudo só foi possível graças ao apoio de meu professor orientador, Charles Wagley, a quem pertence a idéia de se ter um antropólogo brasileiro estudando os Estados Unidos. Outros professores e colegas meus da Universidade da Flórida se entusiasmaram com o projeto e me deram toda ajuda, sem a qual o presente trabalho seria provavelmente impossível. Evidentemente um projeto que procure começar a dar a uma relação assimétrica o cunho de uma relação balanceada pode ser do interesse de ambas as sociedades envolvidas. Além disto, uma hipótese básica justificando minha pesquisa é a de que eu seria capaz, devido ao meu background cultural diferente, de ver uma realidade diversa da dos americanos fazendo pesquisa em seu próprio país. Elementos para mim relevantes, para eles seriam "dados". Uma perspectiva diferente poderia trazer certos elementos significativos na compreensão de sua realidade. Meu trabalho nos Estados Unidos foi porém extremamente difícil e requereu muita persistência. Minha experiência de pesquisa em sociedade americana começou no verão de 1973, quando participei, com os professores Charles Wagley e Solon T. Kimball, do projeto de pesquisa "Escola e Comunidade". A razão de ser do projeto era o problema do busing, isto é, da designação forçada da escola pública na qual as crianças deveriam estudar. O busing (o nome vem de bus, ônibus) foi uma medida tomada pela Suprema Corte dos Estados Unidos para forçar a integração racial nas escolas. Uma das primeiras medidas, após ser promulgada a legislação dos direitos civis na década de 60, foi proibir a segregação racial em qualquer prédio. Na prática, porém, as escolas continuaram segregadas. Como os estudantes pretos viviam em seus bairros e os estudantes brancos, em outros, cada qual ia à escola de seu próprio bairro. O busing busca um equilíbrio racial e estudantes são transferidos de um extremo a outro da cidade. O objetivo do projeto era obter uma

informação geral sobre relações raciais em University City, na Flórida, partindo das relações entre as escolas e as comunidades pretas e brancas, respectivamente. Fui designado para trabalhar entre os negros. Como estrangeiro eu seria melhor aceito, era a idéia geral. Trabalhei durante três meses entrevistando pais irritados com o busing, e procurando colher uma idéia geral da cultura negra. A situação racial nos Estados Unidos, como é notório, é muito tensa. O Norte da Flórida, onde vivi, se identifica inteiramente com o Sul dos Estados Unidos, e isso imprime características particulares ao sistema de relações raciais. A Ku Klux Klan está ativa na região, e quase mensalmente há nos jornais locais, um protesto da NAACP (National Association for the Advancement of Colored People - "Associação Nacional Para o Avanço da Gente de Cor") contra a morte de negros em estradas, sem testemunhas, em circunstâncias muito suspeitas. Normalmente quem mata é a polícia,conhecida por ser um centro de rednecks, caipiras muito apegados aos valores raciais tradicionais dos Estados Unidos. Até cerca de dez anos atrás, antes da legislação dos direitos civis, um negro que, por exemplo, fizesse alguma proposta "indecorosa" a uma mulher -branca seria sem dúvida morto. Atualmente a situação dos pretos é ainda de muita pobreza, comparada à dos brancos; mas a segurança jurídica é, sem dúvida, maior. Um negro, pelo menos quando há testemunhas, não precisa recear ser morto por esporte

Com o Black power e a reação negra, é hoje muito difícil um contato mais próximo entre pessoas de raça diferente. Isto é ainda mais verdadeiro a propósito de antropólogos brancos fazendo pesquisa entre negros, pois, como já vimos, o trabalho de campo em Antropologia requer condições muito especiais. Por isso meus três meses de pesquisa de campo foram realizados na companhia de um pesquisador negro. Trabalhamos intensivamente com uma família, e já estávamos começando a espalhar nossos contatos e ficar conhecidos na vizinhança. Então a participação de meu colega foi considerada desnecessária. Pareceu que já me podia considerar suficientemente seguro. Tinha ainda grande dificuldades em compreender o dialeto negro. A segregação levou os negros norte-americanos a apresentarem certas características próprias, uma das quais é o dialeto. Diferentemente do que ocorre no Brasil, onde tradições culturais negras são seguidas também por brancos, nos Estados Unidos essas tradições

oriundas da escravidão e da segregação (poucas vindas da África, como entre nós), são apenas dos negros. Uma delas é o dialeto. Muitas vezes fui informado por brancos de que o dialeto negro, quando falado rapidamente, era ininteligível para eles. No primeiro dia em que fui sozinho para a casa daquela família minha conhecida, havia um indivíduo estranho sentado na sala. Seu nome era Frank,

Então meus amigos negros me informaram de que deveria abandonar a pesquisa. Eu estava procurando trabalhar sem nenhuma forma institucional de proteção contra brancos ou contra negros, que me classificavam como branco. Um americano branco, porém, não teria conseguido sequer iniciar um trabalho entre negros. Fui aceito três meses por ser um branco estrangeiro, e, portanto, sem responsabilidade direta na opressão histórica praticada contra

e

estava tomando vinho com o velho Chatman, dono da casa. O vinho acabou

negros norte-americanos

e

Chatman pediu que eu fosse com Frank comprar mais. No mercado um

Não desisti, porém, de estudar a sociedade norte-americana. Era uma

redneck empurrou Frank e disse, get out of my way boy ("Saia do meu caminho, moleque"). Frank reagiu batendo no homem. Em breve o mercado estava dividido com pretos de um lado, brancos do outro e um antropólogo brasileiro no meio, sem saber muito bem como agir. Felizmente a briga foi separada por pretos e brancos antes de se agravar. Ao ir-se embora, contudo,

oportunidade que tinha não apenas de fazer antropologia, como principalmente, de fazer algo novo e relevante. Procurei então o outro lado da moeda étnica, os rednecks, também chamados de crackers, a população tradicional da Flórida. A sugestão de trabalhar na pequena vila do Golfo do México, à qual dei o nome fictício de Mullet Springs, veio de um amigo

o

branco iniciador da briga, disse a Frank que o mataria. Levei-o de volta para

americano, David Fleischer, que ensina atualmente na Universidade de

o

bairro dos negros e ao retomar, minha esposa me mostrou todo o perigo da

Brasília. Fleischer havia morado por algum tempo em Mullet Springs, e sabia

situação. Um antropólogo no campo, fica freqüentemente fascinado por seu próprio trabalho. A sensação assemelha-se muito à do desportista que esquece o perigo para conseguir um resultado. Cair na realidade da situação racial americana e no que isso envolvia em termos de perigo foi tarefa de minha esposa e também de meu professor orientador. Após aquele episódio achou que me cumpria suspender o trabalho no bairro negro e concentrar meus esforços em uma Igreja de negros um pouco distante da cidade. Lá tive oportunidade de ouvir spirituals cantados por negras velhas e gordas, e às vezes discussões estranhas. O tema dos muçulmanos pretos (Black muslims) de, que o homem branco é um diabo, estava sendo discutido na Igreja Batista, com referência a mim, evidentemente. A teologia cristã com o seu sentido de universalidade venceu, no entanto, e fui aceito na Congregação. Alguns dias após haver limitado meu trabalho exclusivamente à Igreja, mesmo a ele tive de renunciar. Fui informado de que o amigo de Mr. Chatman, Frank, havia morrido. A convicção dos pretos era de que ele havia sido morto. Pude então (como eles) lembrar-me e muito bem, da ameaça do redneck no supermercado. Senti toda a ambigüidade de minha situação. Para os pretos eu não passava de um branco e isso era o mais importante.

ser a cidade um objeto ideal de estudo para um antropólogo. Minha experiência na comunidade negra de University City proporcionou-me a possibilidade de um trabalho bem sucedido em Mullet Springs. Aprendi, na prática, o que é fazer trabalho de campo em uma sociedade fortemente cortada por linhas étnicas e de localidade. Pude compreender quanto é forte a categoria "raça" nos Estados Unidos, principalmente no Sul; e dentro dela a categoria "comunidade", de pessoas de mesma "raça", formando, freqüentemente, um grupo de vizinhança, um bairro ou uma pequena cidade. Minha situação como brasileiro era ambígua. Enquanto os negros me consideravam como "branco", os brancos me consideravam um "latino- americano" ou simplesmente "latino". Nos Estados Unidos, esta não é apenas uma categoria que denota uma área geográfica ou uma herança cultural específica. Para o povo americano, e principalmente nas áreas rurais do Sul, ser "latino" significa estar situado em um tipo especial de "raça" branca, ou em uma categoria intermediária entre brancos e pretos. O sentimento de que cada "raça" deve viver sua própria vida e formar suas próprias comunidades é muito forte. A maior evidência disto é a proibição de casamentos entre pretos e brancos, em diversos Estados do Sul. Embora seja o português a minha língua nativa, embora estivesse interessado em conhecer alguma coisa da cultura norte-americana, e

não uma subcuItura latino-americana dentro dos Estados Unidos, todos sugeriam que eu deveria estudar os cubanos em Miami ou os católicos em University City. Este era o meu lugar "natural". O país ao qual pertenço, o Brasil, sabemos não possuir um grande poder no campo internacional, muito menos sobre os Estados Unidos. A condição normalmente encontrada na pesquisa antropológica - a dominância da sociedade ou segmento de sociedade do antropólogo sobre a sociedade nativa - não existia. Para agravar a situação eu pertencia a uma categoria étnica de baixo status, uma minoria. Pude superar esses dilemas por conhecer os canais de comunicação corretos entre a comunidade e o mundo exterior e desempenhar os papéis adequados a cada situação. Bater em uma porta e tentar estabelecer um contato com os moradores não era, por exemplo, uma tática bem sucedida. Lá inexiste a universalidade que o sistema de classes dá ao Brasil, onde todo mundo sabe, pelo “jeito” do indivíduo, se ele pode ou não ser amigo do dono da casa. Além disto, receber um estranho em casa não é um comportamento comum nos Estados Unidos. Em português, a sala principal da casa é a "sala de visitas", enquanto em inglês é o living room, a sala de viver da família. Minha experiência entre os pretos ensinou-me também que os primeiros contatos com estranhos são realizados nas Igrejas. Ao invés de me convidarem para suas casas, as pessoas que eu conhecia me convidavam a visitar sua Igreja - portal da comunidade, o lugar onde a ambigüidade é controlada. E o estranho é, naturalmente, ambíguo. Por ela os estranhos devem passar, antes que para si tenham definido uma personalidade social. Penetrei na comunidade pela Primeira Igreja Batista da cidade. Para introduzir-me em uma comunidade fechada planejei tudo muito cuidadosamente. Comecei a "preparar o terreno" em dezembro de 1973, quando conheci quatro estudantes de Geografia, não latinos, que tinham tentado realizar um projeto de pesquisa em Mullet Springs. A informação que deles recebi não era muito encorajadora. O Mayor (o "prefeito") da cidade comunicou-lhes que não queria ninguém se metendo na vida local. Um dos estudantes mais tarde se envolveu em um conflito de bar, o que teria tornado ainda mais indesejável a presença de quaisquer pesquisadores. Na entrevista com os quatro estudantes ouvi, pela primeira vez, a palavra clannish, designando a cidade. Clannish vem de "clan", que na linguagem comum, não-antropológica, designa um

grupo muito fechado de pessoas que se casam entre si e se abstêm de muita comunicação com os de fora. Pus-me então, a indagar na Universidade da Flórida se alguém conhecia algum elemento relacionado com Mullet Springs. Em janeiro de 1974, procurei 12 pessoas indicadas. Quatro tiveram tempo ou interesse em ajudar. A partir delas, fui seguindo redes de relações sociais. Gente que conhecia gente com amigos em Mullet Springs. Uma carta de apresentação de meu orientador também muito me ajudou, dando um cunho oficial a meu trabalho, com o apoio da Universidade. Com ela conheci o delegado do xerife de Mullet Springs, a enfermeira do condado e outras autoridades. Do começo de março até o final de agosto morei em Mullet Springs. Mas de janeiro a março ia quase diariamente à vila. O primeiro mês de permanência na cidade foram usados em períodos de trabalho concentrado com alguns poucos informantes, principalmente da Igreja Batista. Durante 10 dias passei todo o tempo disponível seguindo a rotina de uma das fishhouse da cidade, (fishhouse é o entreposto para comercialização do pescado). Neste período a população pôde conhecer-me. O povo de Mullet Springs revelou muita curiosidade a meu respeito. E muita desconfiança inicial. Surgiram diversas hipóteses para explicar minha chegada à cidade e o objetivo do meu trabalho. Uma foi a de que eu estava tão interessado em pesca por desejar transformar-me em pescador. Outra era a de que eu de alguma forma estava sendo treinado pelo Peace Corps a fim de voltar a meu país e transmitir aos pescadores brasileiros os métodos de pesca. Mullet Springs servira, no passado, de campo de treinamento para Voluntários da Paz destinados a vir ao Brasil. A terceira hipótese era a de que estava, de alguma forma, ligado a interesses cubanos na Flórida. , A Flórida tem cerca de 600.000 cubanos concentrados principalmente nas cidades de Miami e Tampa. Pertenciam em sua maioria às classes média e alta de seu país; instalaram-se na Flórida por não aceitarem as novas condições vigentes em Cuba, após a tomada do poder por Fidel Castro. Atualmente, é uma das minorias economicamente mais bem sucedidas nos Estados Unidos, em período relativamente muito curto, devido à sua situação de classe. Existia entre eles um grande número de especialistas com curso superior, e um número ainda maior de pessoas com experiência empresarial.

Isso lhes deu condições razoáveis de adaptação ao meio americano e de competição no comércio e nas profissões liberais. Tal sucesso causou muito ressentimento na população do Norte da Flórida, que inclui a de Mullet Springs, atrasada e conservadora sob o ponto de vista econômico. Poucos quilômetros ao Sul de Mullet Springs grupos financeiros cubanos que, segundo se divulgou, haviam sido apoiados pelo ex-ditador Fulgêncio Batista, compraram um belíssimo pedaço da costa do Golfo do México. Planejava-se lá uma cidade de veraneio, e o povo de Mullet Springs estava seriamente preocupado com a invasão de sua terra. Para eles South America é uma unidade geográfica e política como é North America. E South America inclui também a América Central. Não há, portanto, para o americano em geral, muita diferença entre um cubano e um brasileiro. Somos todos "latinos" e a nós está, é claro, associada a idéia de "Máfia", uma vez que no Sul, onde os italianos não fazem um grupo étnico social, todos os latinos levam

o estigma de "mafiosos". A crença geral era de que eu seria um agente de

investimentos cubanos pensando em investir na área. A última hipótese da qual tive conhecimento, foi a de que eu seria um mexicano, um chicano, dos muitos que entram ilegalmente pela fronteira do Texas e saem vendendo trabalho barato por fazendas de todo o Sul dos Estados Unidos (migrant farm workers, conforme são chamados pelos antropólogos lá nascidos). Após cerca de dois meses de residência na cidade, ficou claro para

quase todos os habitantes que eu era o que declarara: um antropólogo, um estrangeiro tentando conhecer a vida de uma cidadezinha dos Estados Unidos.

O fato de eu e minha família falarmos português e não espanhol ajudou a fazer

a diferença. O fato de também estar deixando Mullet Springs em fim de agosto

de 1974 e os Estados Unidos em fevereiro de 1975, deu-me um novo status. Os Estados Unidos como um todo, são um país de competidores. Compete-se por tudo e por nada. Como em breve o deixaria, escapei da categoria de "competidor potencial" e passei à de "visitante". Esta era uma situação privilegiada. Não havia mais para eles a necessidade de me segregar ou de usar a arma do preconceito étnico. Eu não oferecia perigo. Minha família e eu começamos a receber convites para jantares. As crianças da cidade começaram a vir brincar com milha filha. Começaram a me telefonar ou a bater em minha casa, espontaneamente,

para dar informações que julgavam do meu interesse. Daí por diante, estabelecemos uma relação amigável com quase todos, na cidade.

Um problema sério que tive de enfrentar foi a reação dos pescadores

Qualquer coisa capaz de dar a impressão de

alguém supor-se "melhor do que os outros", encontrara uma forte reação da gente da cidade. E a educação formal é, sem dúvida, um dos mais importantes critérios de status em Mullet Springs. Para resolver este problema, desempenhei o papel de humildade tradicional do antropólogo no campo: eu estava aprendendo com o povo da cidade. E como estava, realmente, aprendendo, o papel não foi, afinal, apenas representado. Nunca fui ao Crab Trap Bar aos sábados à noite, quando freqüentemente ocorriam brigas entre membros do grupo jovem da vila. Os outsiders (pessoas de fora que vão lá sozinhas) normalmente se envolvem em complicações. Além da óbvia e não muito atraente possibilidade de ser surrado ou esfaqueado, entrar em uma briga poderia tornar impossível minha permanência na cidade. A companhia de minha família tornou muito mais fácil a minha aceitação pela cidade. Minha esposa fez amizades entre as senhoras das igrejas, participou do Women's Club, e conseguiu muitas das informações aqui incluídas. Minha filha, então com dois anos, foi um excelente meio de contato, pois o povo de Mullet Springs adora crianças. Muitas vezes, quando caminhávamos pelas ruas, as pessoas paravam para brincar com ela e conversar conosco. Isto representava sempre a possibilidade de novos contatos para o pai-antropólogo. Trabalhar em Mullet Springs foi um privilégio. Foi deveras agradável viver na cidade muito bonita, e conhecer a sua gente, capaz de ser muito amável; mas o processo global de aprender a trabalhar com a sociedade norte- americana foi difícil. Minha motivação para realizar este estudo foi estar convencido de ser necessário iniciar-se uma tradição de antropólogos do terceiro mundo em pesquisa nos países desenvolvidos, principalmente nos Estados Unidos. Se tal tradição for inviável, espero que meu trabalho revele, pelo menos, alguns dos limites e possibilidades que antropólogos de países do terceiro mundo enfrentam ao estudar uma sociedade que não a sua própria.

por estar eu tirando um Ph. D

Representatividade e Hipóteses

Não estou apresentando uma análise sobre os Estados Unidos, mas sobre aspectos da economia, da cultura e da sociedade norte-americanas.

O estudo, por antropólogos, de sociedades complexas, aponta

problemas especiais provenientes do próprio método da ciência do homem. Conforme vimos, Antropologia se faz no campo. E o trabalho de campo, exigindo o envolvimento pessoal do pesquisador com seus nativos, é a razão de ser e a base de toda a ciência antropológica. A ênfase no trabalho de campo confere a ela condições únicas de profundidade para o conhecimento de sistemas sociais específicos; mas o que o antropólogo ganha em penetração na comunidade local perde em amplitude. Evidentemente o conhecimento das condições que circundam a comunidade local, da "sociedade envolvente", é necessário para compreendê-

Ia. Muitas vezes, no entanto, as diversas comunidades locais apresentam formas específicas de articulação com a sociedade mais ampla que a cerca. O antropólogo tem que ser, então, altamente seletivo no estudo da sociedade mais ampla que envolve a comunidade que estuda. Tem de usar apenas aqueles elementos da sociedade circundante relevantes para compreensão da comunidade menor, principal objeto de seu estudo. Este raciocínio é também válido para qualquer estudo de sociedade camponesa, pois mesmo aí o antropólogo terá que trabalhar com um pequeno grupo.

O problema que logicamente se coloca em seguida é o da

representatividade da comunidade estudada. Toda pequena comunidade do mundo é única e universal, ao mesmo tempo. Redfield (1960) mostrou os aspectos gerais da pequena comunidade e centenas de estudos têm revelado os aspectos únicos de comunidades particulares. Seria necessário, portanto, que o antropólogo delimitasse uma cultura nacional ou uma subcultura regional da qual a pequena comunidade escolhida fosse representativa em certos níveis. Isto é, que a pequena comunidade funcionasse como uma amostra (ver por exemplo Arensberg e Kimball, 1965). Isto porém não é possível, se for obedecido um requisito mínimo de precisão. Para que o antropólogo saiba em que medida e em que grau uma comunidade é representativa de uma sociedade nacional ou

de uma subcultura, é necessário que conheça antes a comunidade local. Para conhecê-Ia é necessário que a estude. Cai-se, assim, em um círculo vicioso. O antropólogo precisa escolher uma comunidade representativa para saber do alcance e da relevância do estudo pretendido, mas, para se inteirar de que é representativa, tem que estudá-Ia antes. Tal problema reflete entre outros, por sinal, certas questões semânticas contidas no conceito de amostra. Não se pode pretender que uma comunidade seja uma amostra estatística. Tal amostra é elaborada pelo pesquisador. Seus parâmetros são por ele definidos, enquanto que uma pequena comunidade é uma amostra dada por uma realidade histórica e social. É claro que um survey preliminar pode auxiliar o pesquisador a avaliar a representatividade de uma comunidade em certos níveis. Mas um survey trará apenas elementos muito rudimentares para conhecer o quanto uma comunidade é representativa. O antropólogo só o saberá, realmente, após concluir o seu trabalho.

O problema de se escolher uma comunidade representativa seria,

portanto, sem solução se todas as comunidades humanas não fossem representativas de alguma coisa, e se todas as comunidades locais, parte de sociedades mais amplas, não fossem representativas de algo dessas sociedades. A questão metodológica que surge não é, assim, a da escolha prévia de uma comunidade representativa, porém a de saber, através do trabalho de campo e de um trabalho comparativo posterior, dos níveis de

representatividade da comunidade estudada. É claro que indícios trazidos por um survey anterior à pesquisa podem ajudar um pouco, mas os indícios de representatividade que desta forma surgem são extremamente superficiais. E não fornecem qualquer medida objetiva. Assim é que, por nosso trabalho já estar concluído, podemos indicar até que ponto Mullet Springs é representativa e em que níveis essa representatividade opera. Podemos adiantar que no nível da ideologia, dos valores, a população de Mullet Springs é altamente representativa no contexto norte-americano. A realidade concreta em que vivem é, no entanto, até certo ponto, representativa das partes mais isoladas do Sul dos Estados Unidos.'

O Norte da Flórida e a região dos Apalaches são muito similares sob

certos pontos de vista e aqui surgiria a representatividade neste nível. Por fim a

vida dos pescadores de Mullet Springs

representa uma adaptação a um meio-ambiente marítimo, e sua especialização econômica lhes dá uma representatividade muito grande quando nosso universo se reduz às populações costeiras do Golfo do México. Espero que tais níveis e limites de representatividade apontados no estudo de Mullet Springs surjam de maneira mais ou menos natural e explícita ao longo deste trabalho. Enquanto a representatividade da comunidade estudada aparece após

a pesquisa, as hipóteses em Antropologia normalmente aparecem durante a pesquisa. O antropólogo pode definir um problema geral no qual esteja interessado, e ter mais ou menos definida a abordagem teórica que pretende usar, mas as hipóteses são elaboradas durante o trabalho de campo. Meu estudo de Mullet Springs parte de um problema teórico bastante geral: a relação entre ideologia e realidade, principalmente a relação entre ideologia e realidade econômica. Entendemos por "ideologia" os valores culturais e as idéias que o povo de Mullet Springs tem sobre o mundo e sobre si mesmo. A realidade que mais enfatizamos é a do sistema econômico de Mullet Springs. Vejo "relações sociais" como um aspecto intermediário entre ideologia e o sistema econômico.

A minha abordagem não é, portanto, original, mas simplesmente "holismo"

antropológico tradicional, ou seja, uma perspectiva descritiva globalizante. Desde Manilowski tem sido este o ponto de vista mais comum em Antropologia. As relações entre "ideologia" e "realidade" já foram objeto de uma série de sistemas conceituais em Antropologia e Sociologia. Especificamente em

Antropologia, Linton desenvolveu as noções de padrão "real" e padrão "ideal".

A cultura ideal estabeleceria o nível que determina como as pessoas devem

agir, e o padrão real determina o nível em que as pessoas realmente agem. Vários autores subseqüentemente elaboraram dicotomias similares, com diferentes ênfases, de acordo com suas perspectivas teóricas próprias. Merton (1951:21-82), um sociólogo, trabalhando porém com um funcionalismo bastante antropológico, adiciona o envolvimento do observador no processo de conhecimento pela identificação da "função latente" com os processos materiais reais, não percebidos pelas pessoas que os vivem. Somente o cientista com uma visão diferente poderia apreender a realidade. Lévi-Strauss

(1953:526-527), por outro lado, relativiza o alcance do processo de

conhecimento,

definindo o "modelo do antropólogo" como uma transformação do "modelo nativo", de maneira que este faça sentido para a nossa própria cultura. O que estou chamando de "realidade" não é apenas comportamento no sentido de interação entre indivíduos de diferentes categorias, definidas pela cultura local. Embora este também pretenda ser um dos principais interesses de meu estudo, um aspecto da maior importância a ser considerado

é o das relações entre pessoas de categorias não reconhecidas localmente.

Este é especificamente o caso de classes sociais, que vejo como o foco do processo explanatório utilizado neste estudo. Também tem sido este um ponto de vista comum para o estudo de camponeses e de outras "sociedades

tradicionais" ao redor do mundo, quando classes sociais são relacionadas com

o acesso econômico e político à sociedade mais ampla; e quando uma

compreensão do processo de articulação da comunidade com o meio social envolvente é essencial para se explicar a comunidade. Os pescadores de Mullet Springs não são "camponeses", como os "camponeses" tem sido definidos em Antropologia (ver por exemplo, Foster, 1967:2-14) mas representam uma "sociedade intermediária" como a definiu Casagrande (1959:2) e, portanto, partilham certas características comuns com "camponeses". Entre elas está o papel similar do acesso econômico e político à sociedade envolvente, como uma variável básica. Embora dentro desta preocupação geral, o presente estudo é basicamente um trabalho de Antropologia Econômica. Procurarei estudar o comportamento de indivíduos de diferentes classes sociais, usando como instrumento a noção de racionalidade econômica". Um agente econômico

"racional" é a base e toda teoria econômica. Schneider (1974:35) mostra quem

é o homem econômico, bem como a sua importância para a análise econômica:

"A análise formal em Economia utiliza vários postulados muito debatidos, dos quais o mais importante é o de que os atores fazem decisões buscando maximizar sua utilidade ou satisfação. O famoso e muito maldito homem econômico é um sujeito ganancioso, procurando sempre melhorar sua posição no referente a valor, tomado em algum sentido geral (utilidade)."

Esta noção tem sido, é claro, desafiada desde os inícios da Antropologia Econômica. Mais ainda: seu questionamento marca mesmo o início da Antropologia Econômica com o estudo de Malinowsky

sobre o Kula (1922). Mais tarde, esta noção tornou-se o centro da polêmica entre substantivistas e formalistas em Antropologia Econômica. Enquanto os segundos acreditam que a Ciência Econômica pode ter seus conceitos operacionalizados e é, portanto, aplicável a todas as economias humanas, os substantivistas creem que é necessária a compreensão das economias não modernas por conceitos específicos. A ciência econômica convencional não seria, portanto, aplicada a todas as economias humanas, mas teria seu poder explanatório limitado às economias de mercado. A escassês, a oferta e a procura e com elas o "homem econômico", não explicariam as economias primitivas. Esta é a posição da maioria dos pesquisadores que trabalham em sociedades diferentes da nossa. O "econômico" nestas sociedades estaria muito mais envolvido no "social": o costume e a tradição substituiriam decisões "racionais" em sociedades primitivas. Embora da oposição entre economias "primitivas" e "modernas" se possa partir para uma generalização do tipo acima, há toda uma gama de economias que não são nem "primitivas", nem "modernas". Este seria o caso da maior parte da população do mundo, os chamados "camponeses", e também de outras "sociedades intermediárias", inclusive as pertencentes ao mais moderno complexo econômico mundial, os Estados Unidos. O envolvimento social da Economia é portanto tão verdadeiro nas economias modernas, como nas primitivas. Nas primeiras é necessário que os níveis deste envolvimento sejam identificados. No estudo de pequenos grupos, tais como uma comunidade local, semelhante à de Mullet Springs, este envolvimento surge de maneira clara. Estudos recentes sobre mudança social e econômica, como os de Sheppard Forman (1970) e de Johnson (1971), no Nordeste Brasileiro, ou o de Comitas (1962), na Jamaica, não omitiram nem o papel de classes sociais, nem fatores naturais e sociais no processo econômico. Estes autores enfatizam porém o papel da escolha "racional" individual, tanto no aceitar inovações tecnológicas, como no escolher atividades econômicas alternativas pelos agentes econômicos. Estes estudos trouxeram uma contribuição importante à Antropologia, uma vez que exploraram uma área até então negligenciada, aquela em que a escolha individual é relevante. Eles ignoram, no entanto, o papel de valores culturais influenciando ou mesmo substituindo decisões. Os seres humanos que eles estudam são

clássicos, "homens econômicos", sempre buscando maximizar seus ganhos, e tomando as decisões mais adequadas para estes fins. Forman (1970: 134), por exemplo, é muito explícito:

"É o empresário querendo explorar um mercado alargado que introduz novas técnicas, e estas são racionalmente aceitas ou rejeitadas por pessoas com liberdade de escolha".

Este ponto de vista foge ao que sempre foi uma idéia básica em Antropologia, a de que o considerado "racional" toma formas diferentes, e de que a cultura de cada sociedade faz uma forma específica de racionalidade. Deve ficar claro que o "comportamento racional" para o antropólogo freqüentemente não se conforma com a definição de "homem racional" na teoria econômica. Por fim, em todas as sociedades, inclusive na nossa, há diferentes níveis de comportamento; um de comportamento prescrito e outro de "livre escolha". Firth (1964: 12), por exemplo, reconhece esta dicotomia entre "estrutura social" e "organização social". Enquanto "estrutura social" governa o comportamento prescrito, "organização social" seria o nível no qual as decisões e o comportamento individuais entrariam em operação. Este estudo dos pescadores em Mullet Springs terá como principal objetivo o seu comportamento econômico, a ideologia relacionada com esse comportamento, bem como as conexões entre ideologia e sistema social. As nossas hipóteses mais importantes são as seguintes:

1º - o acesso aos mercados externos é um critério para distinção entre classes sociais; 2º - a sobrevivência da estrutura social - e nela da estrutura de classes - depende da falta de solidariedade entre os pescadores de classe baixa; 3º - esta falta de solidariedade é expressa e reforçada por um conjunto de valores culturais que afirmam padrões de individualismo e de participação, em determinados grupos; 4º - esses valores produzem entre pescadores de classe "baixa" um comportamento econômico que pode ser considerado "irracional", de um ponto de vista econômico.

Capítulo II

O CONDADO E A VILA

Um Condado Norte-Americano

O condado ao qual demos o nome fictício de Cohen é localizado na costa Oeste da Flórida, ao Norte da cidade de Tampa e ao Sul da cidade de Apalachicola. Noventa quilômetros a Leste está University City, um importante centro regional. A maior parte da área do condado é constituída de pântanos e florestas. O condado é cruzado por uma das principais estradas de turismo da Flórida. Tem além disto um excelente sistema interno de rodovias pavimentadas, que praticamente elimina o uso de estradas de terra, a não ser para caçadores ou pessoas que por alguma razão desejem penetrar no pântano. Um condado como o de Cohen é a unidade administrativa americana correspondente ao nosso município. Fica entre o estado e a . cidade, mas não é exatamente nem um município nem um distrito.O Condado de Cohen tem oito "cidades incorporadas", isto é, cidades com o seu próprio governo. Não há porém uma clara divisão de funções governamentais entre o condado e as cidades. Diferindo da relação existente entre nossos municípios e as cidades brasileiras, não há uma hierarquização marcada de funções, sendo a cidade muito mais autônoma. Os 14.000 habitantes do Condado de Cohen em 1975 (Thompson, 1973:25) estavam distribuídos em três categorias: na primeira

os habitantes das cidades, na segunda, os habitantes das fazendas e finalmente, uma parte da população não vivendo em cidades ou fazendas, mas em uma forma de aglomeração que chamo de "vizinhanças não-estruturadas". A maior cidade do Condado de Cohen é Cohenville, com uma população que em 1970 era de 1965 pessoas (U. S. Census of Population,

1970). Cohenville é uma cidade típica do Norte da Flórida, bem como de uma ampla região dos Estados Unidos. Seu padrão urbanístico é o resultado do cruzamento de duas artérias principais que, como em quase toda cidade americana, têm os nomes de Main Street (rua principal) e First Avenue (primeira avenida). Ao longo destas duas artérias estão concentradas as principais instituições comerciais, financeiras e do governo. A área de comércio abrangida por Cohenville atende cerca de 50.000 pessoas. As outras ruas de Cohenville correm paralelas à Main Street e à First Avenue. A despeito deste padrão urbanístico à maneira de tabuleiro de xadrez, Cohenville, como outras cidades do condado, não tem uma área urbana claramente delimitada como a que encontramos em nossas cidades brasileiras. Na pequena cidade americana entra-se gradualmente no ambiente urbano. As casas, ao contrário das nossas, tradicionalmente coladas umas às outras, são separadas, escondidas entre árvores e muitas vezes difíceis de se ver. Também em contraste com a nossa cidade brasileira tradicional é muito difícil encontrar pessoas andando pelas ruas. Todas as outras cidades do interior do condado seguem mais ou menos este mesmo padrão. São também o resultado do cruzamento de duas vias principais, repetindo-se o sistema de tabuleiro de xadrez. Assim, essas cidades resultam do crescimento do que Arensberg e Kimball (1965: 108) chamaram de crossroads hamlets ("povoados de encruzilhadas de estradas"). As cidades à beira-mar tentam seguir o mesmo padrão, mas a geometria é comprometida em um dos casos pelas curvas de um rio e em outros pelas baías e recortes do Golfo do México. O padrão urbanístico dessas cidades é ainda influenciado pelo fato de que o acesso à água é preferencialmente feito através dos quintais das casas. Tais cidades parecem organizadas de forma a que o maior número de residências tenha acesso ao rio ou ao mar.

Além das "cidades incorporadas" (townships no Norte dos Estados Unidos), o Condado de Cohen tem duas "vizinhanças estruturadas", que são simplesmente uma concentração de casas ao longo de uma estrada com um pequeno armazém. Embora sem organização política e comunitária, uma das vizinhanças não-estruturadas é maior do que a menor "cidade incorporada" do condado. Não há quase pretos nas vilas à beira-mar ou à margem dos rios, mas cada uma das vilas do interior do condado tem uma concentração de negros nos arredores, habitando em pequenas favelas. A população preta caiu, de

1960 para 1970, de 1/3 para cerca de 1/4, embora tenha ocorrido na mesma

década um pequeno aumento, em termos absolutos. Este aumento só foi possível devido à taxa muito elevada de natalidade nesse grupo, pois o número

de pessoas de cor que deixa o condado em busca de cidades do Norte do país, como Washington, Chicago e Nova York, é também elevado. Essa emigração, principalmente para o Norte, reflete uma tendência iniciada no começo do presente século, de saírem os negros das áreas rurais do Sul em busca de melhores oportunidades econômicas e de maior segurança pessoal. O Condado de Cohen, todavia, tem perdido, igualmente, jovens de todas as raças. Como acontece em outras áreas rurais, há uma falta generalizada de oportunidades econômicas, que expulsa os jovens da área. Apesar disso a população do Condado de Cohen cresceu 12,5%, de 1960 a

1970 (Thompson, 1973:47). Este aumento é explicado pela vinda de pessoas

de fora, principalmente aposentadas, o que faz com que a população local se concentre nas faixas de idade mais alta. Esta tendência se acentuou nos últimos anos. A maioria dos aposentados vem para o Condado de Cohen em busca do clima quente da Flórida e procura naturalmente estabelecer-se nas cidades à beira da água. Encontram no Condado de Cohen a calma da vida de cidade pequena e imóveis ainda relativamente baratos. Ao contrário dos aposentados que vão para os grandes centros turísticos do Sul da Flórida, estes não são ricos; ganham, contudo, o suficiente de sua aposentadoria para levar uma vida simples, mas confortável. Cerca de 18% da população do condado vivem em fazendas e o restante nos centros descritos acima. A principal atividade econômica é a produção de madeira. As grandes empresas sediadas ao Norte do País possuem aproximadamente 2/3 das florestas. A criação de gado segue a produção de madeira como segunda atividade

em importância. Milho e amendoim são os produtos agrícolas mais importantes. O setor industrial é relativamente pequeno, estando a maioria das grandes indústrias relacionada com o aproveitamento da madeira. O turismo não é tão importante como no Sul da Flórida, embora haja para ele algumas atrações, principalmente em Mullet Springs. A grande maioria dos milhões de turistas que invadem a Flórida durante o inverno apenas atravessa o condado em busca das praias do Sul do Estado. A distinção que Wagley (1952:147) faz entre a classe "alta local" e a classe "alta regional" em estudos de sociedade brasileira pode ser aplicada a esta área do Sul dos Estados Unidos. Pesosoas que poderiam ser consideradas da classe "alta" do condado tendem a ter laços políticos e econômicos com pessoas da mesma classe na região e no Estado. O contraste, porém, não é tão marcante como no Brasil, pois a classe "alta regional” não está concentrada em algum importante centro urbano regional, ou em alguma capital. O eficiente sistema de comunicações do condado e da Flórida, em geral, dispersa todos os níveis da classe "alta" em diferentes lugares, confundindo especialmente a classe "alta regional'" com a classe "alta local". Além disto, não há diferenças marcadas de estilos de vida entre as diversas classes sociais. A difusão das classes "altas" pelo condado, sua pequena população e a ausência de diferenças essenciais entre os estilos de vida das diferentes classes, criam uma situação onde o condado pode ser compreendido como uma "comunidade", na maneira definida por Arensberg e Kimball (1965: 15). Há uma rede de relações Sociais e de parentesco abrangendo o condado inteiro e integrando pessoas de todas as classes e lugares em uma só comunidade.

A Vila

Pertencendo, embora, à comunidade do condado, Mullet Springs é muito mais fechada que as demais vilas. Há muitos fatores contribuindo para esta característica. O primeiro é a distância de Mullet Springs das outras "cidades incorporadas" e dos principais centros da região. A localidade mais próxima é o povoado de Coon Creek, a 33km de distância. Outra razão é o passado peculiar da cidade. Conforme veremos no capítulo seguinte, a história de Mullet Springs bastaria para conferir-lhe uma forte identidade

local, dificilmente encontrada em outras vilas da Flórida. A terceira razão e sua especialidade econômica. A maioria da sua população está empregada na indústria pesqueira. A pesca requer conhecimentos e habilidades inerentes à tradição local, e a sub-cultura específica da vila é uma adaptação ao meio- ambiente marítimo. A última razão é que a população tradicional da vila forma um grupo relativamente fechado. Mullet Springs é porém, politicamente, uma parte do condado. A gente da vila a vê como uma unidade do Condado de Cohen, do Estado da Flórida e do Sul dos Estados Unidos. Compete com as outras vilas do condado de diversas formas, e o povo dessas outras vilas gosta de ridicularizá-Ia. Seus habitantes são mais pobres que os dos outros centros, tendem a ter um menor grau de educação formal e são fisicamente e socialmente mais isolados da "grande tradição", presente nas cidades maiores da área. Se de um lado o povo da vila se situa em oposição ao dos demais centros do condado, por outro separa o Estado da Flórida do restante dos Estados Unidos. Sua concepção de "Flórida" é limitada à Flórida do Norte e Central, região que se situa culturalmente ao Sul dos Estados Unidos. O Sul da Flórida é considerado Yankee country terra de yankees, nome dado aos habitantes do Norte dos Estados Unidos. Como sulistas que o são, os habitantes tradicionais de Mullet Springs consideram o Sul dos Estados Unidos dominado e explorado pelo Norte mais industrializado. Um exemplo de forte dominação nortista sempre citado é a questão racial, principalmente a integração forçada das escolas, realizada à força no Sul e não realizada, ou pelo menos não muito levada a sério, no Norte. Muitos dos residentes de Mullets Springs falam da guerra civil americana do século passado como se houvesse ocorrido há apenas alguns anos atrás. O incêndio da cidade de Atlanta, capital do estado sulista de Georgia, um dos episódios mais dramáticos da guerra, é algumas vezes relatado com tal emoção que, se ignorássemos esse episódio da história americana, poderíamos pensar que quem conta a história o presenciou. Se de um lado o povo de Mullet Springs se ressente dos nortistas, de outro se considera muito mais americano do que aqueles. Uma razão citada pela gente local é que "para cada herói nortista há 20 heróis sulistas", nas guerras em que os Estados Unidos tem-se envolvido. Tal afirmativa não deixa de ser viável, uma vez

que há, ao que parece, grande quantidade de sulistas nas forças armadas americanas, devido à pobreza da área. Mullet Springs consiste em um grupo de ilhas ligadas por pontes à península da Flórida. Como outras cidades à beira-mar, segue o padrão urbanístico de "tabuleiro de xadrez" somente no Iimite do possível. A grande maioria das casas é de madeira, como no restante do condado. Embora dêem a impressão errônea de serem construções frágeis, muitas estão de pé por mais de 100 anos, além de terem enfrentado furacões. A cidade de Mullet Springs tem vizinhanças bem definidas. Na sua entrada, em uma ilha, há lugares com os nomes pitorescos de Kiss me quick ("Beije-me depressa"), Hug me tight ("Abrace-me apertado") e Serena Park. Cada uma dessas localidades compreende um grupo de vizinhança. Ao longo da Main Street ("rua principal") estão alguns dos hotéis de turismo, o Bar Porthole ("Buraco do porto") e o City Hall, prédio da administração da cidade, com uma garagem lateral para o carro do corpo de bombeiros e outro destinado à estação de correios. Em outra ilha estão as casas distribuídas na vizinhança, conhecidas como "Ponta do Pelicano" e "Estrada do Cemitério". Não há nome porém para o local onde a maior parte das casas estão concentradas, área que chamarei de "cerne". O velho grupo de casas dos negros aí fica, e seu conjunto é conhecido como the bottom, "o fundo", "o lado de baixo", o que sem dúvida reflete sua posição de local mais baixo da ilha, e ao mesmo tempo, simbolicamente, a posição de seus antigos habitantes na estrutura social local. Alguns dos casebres abandonados pelos negros foram comprados pelo setor de habitação do condado, que em seu lugar construiu casas de alvenaria para pessoas brancas de renda baixa. Como em outras cidades do condado, é difícil encontrar-se alguém nas ruas durante a semana. Só no começo da tarde é que se vêem pessoas sentadas nos alpendres. Em geral permanecem em casa, trabalhando em seus barcos, ou em alguns dos pontos de reunião da cidade, quase sempre a portas fechadas. Os principais centros de reunião da cidade para "bate-papos", ou para atividades consideradas mais sérias, são: a loja de ferragens, que pertencia ao prefeito, os quatro bares, as igrejas e as fishhouses (entrepostos de estocagem e comercialização dos produtos do mar). No fim de semana a situação muda, pois a vila é velha e pitoresca e vem gente das principais cidades no Norte da Flórida

para pescar, comer nos restaurantes especializados em frutos do mar ou apenas para apreciar o cenário. A população da cidade aumentou durante o inverno, enchendo os quartos dos hotéis ou estacionamento seus trailer no trailer park. A população permanente de Mullet Springs é dividida nas categorias de natives ("nativos") e outsiders ("os de fora"). Os "nativos" formam o grupo tradicional da cidade, na qual seus membros foram criados em sua maioria. Muitos dos outsiders são pessoas idosas aposentadas, que lá foram residir. Sua população em 1970 era 714 pessoas, de acordo com o censo. Para 1975 minha contagem alcançou o número de 750, devido à chegada de novos outsiders, que constituem, por sinal, cerca de 1/4 da população em apreço. Como o restante do condado, Mullet Springs tem perdido sua jovem e o crescimento de 1960 para cá se deve à chegada de velhos outsiders. A concentração de população nas classes de idade idosa é ainda mais acentuada que no restante do condado. O perfil demográfico da cidade apresenta ainda um desequilíbrio entre os sexos, sendo maior a quantidade de mulheres. As razões são a maior taxa de emigração entre jovens do sexo masculino e a maior taxa de mortalidade masculina, principalmente nas faixas etárias mais velhas. Em 1970 havia 186 homens e 206 mulheres adultas entre 19 e 64 anos, isto é, na faixa considerada capaz de trabalhar. A população economicamente ativa da cidade seria então de 54,9%. Além disto, ainda em 1970, 118 pessoas acima de 65 anos foram consideradas aposentadas. Muitas destas porém continuam a trabalhar, seja por que a pensão de aposentadoria pague muito pouco seja para possuírem uma ocupação. A economia da vila é baseada na indústria pesqueira e no turismo. Na tabela I está representada a distribuição da população ativa da cidade em 1975. A tabela II mostra a distribuição da população da cidade por setores. Há um grande número de pessoas da vila trabalhando em hotéis e restaurantes, podendo dar uma impressão falsa de predominância desta atividade. De fato, cerca de 50% dos empregados em turismo são mulheres trabalhando em tempo parcial. Embora seja o turismo hoje em dia a atividade mais rendosa para a cidade, a indústria pesqueira ocupa a maior parcela do trabalho em tempo integral. Há mudanças de um setor para outro; pescador pode se tornar faxineiro de hotel, ou a esposa de um aposentado arranjar um emprego em restaurante. A maioria das pessoas alistadas como trabalhando no setor de construção civil estava empregada pela firma encarregada de construir uma nova ponte de acesso à cidade, substituindo a antiga, de madeira. Normalmente os donos dos diversos negócios dirigem pessoalmente o trabalhado.

Tabela I

Departamento de Florestas do Estado

01

Ocupações em Mullet Springs – 1974

Avon Lady – venda de cosméticos

01

Ocupação

Amway Lady – venda de cosméticos

01

Número

Pescadores (peixe)

28

Pescadores de caranguejos

30

Diretor de Escola

01

Pescadores de ostras

14

Professores de Escola Elementar

08

Pessoal da fishhouse (comercialização de produtos do mar)

08

Professores de segundo ciclo

06

Pescadores de camarão (o camarão servirá de isca)

02

Pessoal de manutenção da escola

03

Construtores de barcos

02

Secretária da Escola

01

Construtor de armadilhas para caranguejo

01

Pessoal de lojas de presentes

07

Artesão especializado em iscas artificiais

01

Pessoal de lojas de ferragens

02

Jardineiros

02

Pessoal de motéis e cabanas para aluguel

.22

Pessoal de Banco

05

Donos de restaurantes

04

Operadores de postos de gasolina

03

Empregados de restaurantes

62

Cabeleireiras

02

Dono e operador de loja de peças de automóveis

01

Pessoal de mercadinhos

.10

Dono e operador de mercado de objetos usados

01

Mecânico

01

Vigia de laboratório de biologia marinha da Universidade da Flórida01

Motorista de táxi

.01

Artista

07

Investidores em imóveis para revenda (developers)

02

Empreiteiros em construção civil

01

Aposentados

111

Prefeito (mayor)

01

TOTAL

385

Secretário administrativo da cidade (city clerk)

01

Empregados na limpeza e manutenção da cidade

02

Tabela II

Policial

01

Chefe do corpo de bombeiros

01

Distribuição da População Empregada de Muller Springs por Setores

Pregadores (pastores)

04

Empregados do distrito especial de abastecimento de água (go-

Setor

Quantidade

Percentagem

Empregado do serviço de correios

.01

Médico

01

Governo

35

9.0

Patrulha marítima (governo estadual)

02

Hotel e Cabanas

22

5.7

verno estadul)

03

Restaurantes

66

17.1

Bombeiro-encanador

01

Indústria Pesqueira

87

22.5

Pedreiros

04

Construção Civil

14

3.6

Trabalhadores na ponte

02

Aposentados

111

28.8

Pintor de parede

01

Outros

50

12.9

Carpinteiros

02

TOTAL

385

100.0

Operadores de equipamento pesado em construção

02

Capítulo III

HISTÓRIA

Uma Vila do Sul dos Estados Unidos

Mullet Springs e áreas adjacentes eram habitadas por índios antes da chegada dos europeus. Um grande número de pontas de flechas e outros instrumentos são encontrados no condado. Shell mounds, restos de conchas de ostras consumidas pelos índios, podem ser achados ao longo da costa. Hoje em dia a coleta de material arqueológico é um passatempo local muito

popular. As primeiras referências que se tem da localidade de Mullet Springs vem do seu uso pelo exército americano, como arsenal e prisão, durante as guerras contra os índios Semínoles. Em pouco tempo a área foi abandonada devido a um furacão que destruiu todas as instalações militares. Mais ou menos coincidente com a presença militar nas ilhas foi a sua descoberta, pelos grandes fazendeiros, senhores de escravos do Norte da Flórida, como estância turística. Nos fins da década de 1850 a área foi inteiramente comprada pela Companhia de Estrada de Ferro da Flórida (Varney, 1953: 142-145 e Burtchaell, 1948: 10-13). Era objetivo da empresa fazer a estrada de ferro atravessar a Flórida desde Mullet Springs a Fernandina, na costa Leste da Península. Tal empreendimento foi realizado com grande atraso tendo em vista vários fatores, tais como a insistência do Governador do, Estado em ter a estrada de ferro passando pela sua fazenda, ou

como a competição com a cidade de Tampa, que também lutou para ter o terminal da ferrovia, no Golfo. O principal atraso na construção da estrada de ferro deveu-se porém à guerra civil americana, que durou cinco anos, de 1860

a 1865. A Flórida, um Estado sulista, teve seus navios em Mullet Springs

bombardeados pelos da União. Apesar disto, a cidade tornou-se um importante centro de produção de sal e outros produtos para as tropas confederadas.

Depois do fim da guerra iniciou-se um período de acentuado desenvolvimento local. A ferrovia entrou em operação e as extensas florestas de pinho e cedro da área começaram a ser exploradas. Em 1855 Eberhard Faber adquiriu uma grande floresta de cedro, no condado, para a manufatura de lápis. De 1869 até 1890 a população da cidade aumentou em mais de 10 vezes. Burtchaell (1948: 77) calcula que em 1890 cerca de 5.000 pessoas viviam em Mullet Springs. Durante todo este período a terra continuou a ser propriedade da Companhia da Estrada de Ferro. Sua política, de não a vender, mas sim alugá-

Ia por um contrato a longo prazo, é às vezes citada como um dos fatores que

produziu o declínio da vila, pois levou à "falta de estímulo" para investimentos pesados. Mesmo assim, nesta etapa de 30 anos Mullet Springs tornou-se um importante centro industrial, baseado na exploração e manufatura da madeira. Havia 13 grandes serrarias na cidade e três fábricas de lápis (algumas familiares a nós brasileiros, como as Companhias Faber e Eagle). De 1870 a 1895, 28 navios foram construídos no estaleiro local. Neste mesmo período a cidade tornou-se um importante centro de distribuição dos produtos industrializados que vinham de Nova Orleans para a América Central, e de frutas e outros produtos tropicais trazidos da América Central para os estados do centro dos Estados Unidos. Em cerca de 1890 surgiram os primeiros sinais de que o surto econômico da madeira estava acabando, e a população começou a decrescer.

A maior razão foi a rarefação das florestas de pinho e cedro na região corno

um todo, e principalmente junto às principais artérias de comunicação, ou seja,

ao longo das centenas de canais e riachos do pântano ao redor de Mullet Springs, pelos quais a madeira era transportada. O golpe de misericórdia nas pretensões da cidade foi dado por um furacão e pelo incêndio que se seguiu. Centenas de pessoas morreram nessa ocasião.

Por volta de 1900, a população local havia caído para 739 (Burtchaell, 1948: 77). Desde então, exceto por algumas aventuras de pequena duração, a

coleta de produtos do mar tornou-se a atividade econômica mais importante em Mullet Springs. Uma dessas aventuras foi o contrabando de armas durante

a guerra hispano-americana. Outra foi a fabricação de whisky clandestino de

milho, durante os tempos da chamada "lei seca", quando era proibido o consumo de bebidas alcoólicas. A área ao redor de Mullet Springs é quase toda formada de pântanos. Muita gente da cidade conhecia locais no pântano onde destilarias clandestinas podiam ser escondidas. Ainda hoje a produção de whisky clandestino, sem o pagamento de taxas ao governo, é uma indústria de importância para a vida de pequenas comunidades dos estados sulistas atravessados pela cadeia de montanhas dos Apalaches. Este whisky tem o

curioso nome de moonshine whisky, "whisky do luar", e o ato de fabricar o referido líquido recebe o nome de moonshining. Tais referências noturnas tem,

é claro, a ver com a clandestinidade da operação. Depois do surto de desenvolvimento da indústria madereira, a única atividade econômica de importância, além da pesca, foi a produção de fibra para escovas que eram fabricadas no próprio local. Embora não fosse orientada para a exploração marítima, a empresa seguiu o padrão extrativista encontrado na região. Em 1923 foi construída uma estrada de rodagem unindo Mullet Springs

a Coon Creek, e em 1932 a ferrovia foi desmantelada. Com o desenvolvimento

do turismo na Flórida esta atividade tem tido uma importância cada vez maior na vila, que em 1974 tinha 13 estabelecimentos hoteleiros, incluindo hotéis, motéis, cabanas, quatro lojas de presentes, dois parques para estacionamento de trailers e cinco lojas de presentes. O perfil cultural da população, ao Norte da Flórida, é basicamente o mesmo da que povoou os estados das montanhas dos Apalaches. No velho Sul dos Estados Unidos, os brancos pobres ficaram com o que a grande propriedade escravocrata algodoeira não ocupou: a terra montanhosa dos Apalaches e a terra arenosa, pantanosa e coberta de malária da Flórida. Houve algumas grandes fazendas, principalmente nas áreas próximas à Alabama e Georgia, estados com os quais a Flórida faz fronteira. Entretanto o Flórida Cracker, nome pelo qual os habitantes do norte do estado se autodenominam,

é o branco pobre típico do Sul. Parece que a maior

parte dos ancestrais da atual população de Mullet Springs tem estas origens, embora tenha a 'cidade sido por algum tempo o principal porto do Estado na costa do Golfo do México, e ocorrido o surto da indústria madereira exatamente durante o período da grande migração européia para as Américas. Por essas razões os ancestrais da atual população possuíam diferentes origens e nacionalidades. Encontrei, por exemplo, casos de pessoas cujos ancestrais vieram da Jamaica. Há também descendentes de italianos, espanhóis, franceses, poloneses e russos. Além de sua população branca, Mullet Springs recebeu um bom número de negros que vieram, principalmente, para trabalhar na indústria madereira. É significativo que uma das máquinas utilizadas no processamento da madeira se chamasse Steamnigger, "negro a vapor", sendo nigger uma corruptela de negro, usada no Sul com um sentido que traz a marcada tradição escravocrata. Atualmente é considerado um termo ofensivo, pela população

negra. Mullet Springs apresentava o que se tem chamado de sistema de "castas", característico do, Sul dos Estados Unidos, de forma bem desenvolvida. Até o mar era dividido por uma linha imaginária, sendo que de um lado pescavam os brancos, e do outro pescavam os negros. Assim também era, e é, atualmente, o cemitério, dividido por uma linha não tão imaginária. Os negros tinham que morar no Bottom ("o lado de baixo") e era-lhes proibido viver em outro lugar. Os negros podiam pescar apenas para sua subsistência enquanto os brancos podiam vender o que pescavam. Os negros eram forçados a manter uma atitude subserviente para com os brancos, e, ainda hoje, os 12 negros remanescentes em Mullet Springs abrem as portas com deferência para os brancos e cedem seus lugares em filas ou assentos. É importante salientar aqui que as pessoas consideradas "negros", para os americanos, são diferentes das que nós chamamos de negros. Tal diferença, reconhecida inicialmente por Pierson (1942), Wagley e colaboradores (1952) e outros, vem dos diversos critérios utilizados por americanos e brasileiros para se saber o que é um "negro". Para nós entra aparência, mas também educação, riqueza, etc. Não há uma oposição absoluta entre as categorias "branco" e "negro", mas toda uma gradação que passa por uma série de categorias intermediárias, como o "mulato" e o "moreno". Nos Estados Unidos o critério para separar o branco do negro é puramente genealógico e encontra um respaldo legal em todos os Estados do Sul. Em geral, negro é quem

tem até 1/8 de sangue negro. Em Mississipi esta relação vai a 1/16. Observados estes critérios, a enorme maioria da população brasileira, com a exceção de algumas regiões do nosso Sul, é composta de negros. Este critério faz então com que encontremos nos Estados Unidos "negros" de cabelos lisos, louros e de olhos azuis. A Guerra de Secessão, do Sul contra o Norte, terminou com a vitória do último e com a abolição da escravatura. Seguiu-se a ela um curto período de ocupação do Sul por tropas nortistas e de tentativa de imposição de um padrão igualitário entre as raças. Neste período, que recebeu o nome de "reconstrução", os negros de Mullet Springs chegaram a ter um lugar no Conselho da Vila. É neste período que surge o KuKluxKlan, até hoje em operação no Norte da Flórida e em outros Estados sulistas. Os times de futebol da maioria das escolas se chamam The rebels ("os rebeldes"), em homenagem aos rebeldes confederados, e o hino dos estados confederados Dixie, é cantado nas escolas e conhecido por todos. Bandeiras confederadas são quase tão comuns quanto a bandeira americana, decorando casas ou placas de Como no restante do Sul até há algum tempo, homens brancos podiam ter relações sexuais com mulheres negras desde que não houvesse casamento. Hoje em dia este padrão está sendo progressivamente eliminado.

O contrário, contacto sexual entre mulher branca e homem negro, era em geral

punido com a morte do homem. Em 1923, a mera suspeita de uma relação

deste tipo levou ao massacre de quase todos os habitantes do povoado negro de Flowerwood,. situado a 16km de Mullet Springs. A responsabilidade pelo massacre pertence em parte ao povo de Mullet Springs, mas também, ao establishment branco do sul. Embora muitos dos residentes de Mullet Springs tenham participado da operação, muitos se recusaram a dela participar. Contou-me um informante que lhe pediram a cartucheira emprestada, mas que

a recusou, pois "não queria ter suas mãos molhadas de sangue". Alguns dos

atacantes vieram de University City e de Jacksonville, a mais importante cidade

do Norte da Flórida. A casta branca do Norte da Flórida tinha decidido "dar uma lição" nos negros, devido a um suposto caso de violação sexual de uma mulher branca por um homem de cor. Não apenas mataram o suposto violador, como ainda atacaram Flowerwood de madrugada e mataram todos que encontraram no povoado, incluindo mulheres e crianças. Estimativas do número de pessoas

mortas vão de 30 a 60. Os sobreviventes escaparam para o pântano, onde alguns se esconderam por cerca de três dias. Outros o atravessaram até Coon Creek, o centro mais próximo, onde encontraram abrigo e proteção nas casas dos negros desta cidade. Contam que um dos homens brancos que participou do massacre, cortou os dedos de suas vítimas e exibiu-os no bar da cidade, dependurados no cinto, como troféus. Tal episódio foi uma repetição, com características próprias, de centenas de acontecimentos que ocorreram por todo o Sul dos Estados Unidos, até a década de 1930. Quando uma mulher branca acusava um homem negro de rape ("violação"), os homens brancos se reuniam e queimavam o suposto violador em praça pública. Se o caso era investigado, na maioria das vezes ficava demonstrado que a mulher tinha "chamado" o homem, ou que o violador era um branco. No caso de Mullet Springs toda evidência indica que o estuprador foi o próprio pai da moça. Não é surpresa, portanto, que os negros tenham abandonado o Sul rural em busca de melhores oportunidades econômicas e maior segurança física. O episódio de Flowerwood acentuou a tendência já presente em Mullet Springs de migrar para o Norte ou para os grandes centros urbanos do Sul. Hoje em dia a maior concentração de negros nos Estados Unidos é nas cidades do Norte, ao contrário do que acontecia até as primeiras décadas deste século, quando ainda estavam nas fazendas do sul. Em 1975 existiam apenas 12 negros morando em Mullet Springs, todos de idade muito avançada.

História da Indústria Pesqueira

A coleta de produtos do mar começou em Mullet Springs com os seus primeiros colonizadores. Os produtos do mar eram consumidos localmente e enviados para os mercados, terra adentro, através dos rios. Mais tarde a ferrovia serviu para abastecer de peixe a grande propriedade escravocrata; o peixe mullet, que dá o nome à cidade (uma espécie de tainha), a mais abundante espécie encontrada nas águas do Golfo, constituía parte da dieta dos escravos e dos brancos pobres. Antes da introdução do gelo, o peixe era defumado para conservação. Ainda hoje, nos mercados de peixe de

University City, há uma média de três clientes negros para cada branco, comprando peixe ou outros frutos do mar. O papel do peixe no abastecimento da grande propriedade escravocrata é muito similar ao desempenhado no sistema do Nordeste brasileiro, onde a carne do sertão e o peixe do litoral eram produzidos por homens livres pobres, para alimentar os escravos (Furtado, 1975 e Forman, 1970: 19). Este paralelo é mais uma indicação da similaridade cultural trazida pelo sistema de grande propriedade escravocrata nas Américas (Wagley, 1957:

7-9). Durante o surto de desenvolvimento da indústria madereira, a própria população da vila constituía um mercado razoável para produtos do mar. Durante este período a indústria pesqueira gozou de relativa autonomia em relação aos mercados do interior do Estado, mas posteriormente esses mercados tornaram-se essenciais para a sobrevivência econômica da vila. Em 1889, duas grandes indústrias de ostras enlatadas começaram a operar na localidade. Estas indústrias, que pertenciam a capitalistas do Norte do país, fecharam após 10 anos de operação, devido à virtual extinção dos grandes leitos de ostras nas águas do Golfo, vizinhas de Mullet Springs. Alguns autores levantaram a possibilidade de que a extinção das reservas de ostras, assim como das florestas, deveu-se à falta de espírito conservacionista dos moradores da vila. Ao que me parece, a razão essencial, alheia à vontade da população local que não tinha poder para interferir no processo, deve-se ao fato de que as empresas capitalistas que exploravam tanto a madeira com as reservas de ostras não eram comprometidas com interesses locais ou regionais. As serrarias. ou empresas de distribuição de produtos do mar, tinham no começo do século, centenas de locais alternativos para explorar madeira, ostras ou qualquer outro recurso natural. A conservação não era uma necessidade de seu ponto de vista. A quantidade de peixe produzida pela vila varia muito de ano para ano, de acordo com diversos fatores. Em épocas muito ventosas ou chuvosas a produção de peixe cai, enquanto em outras os grandes cardumes simplesmente não aparecem. Há também fatores econômicos e sociais extremamente importantes na determinação da quantidade produzida. O primeiro deles é a relação entre os preços da carne e do peixe, sendo carne e peixe bens alternativos para o consumidor norte-americano (ver o próximo capítulo). Por diversas razões tem havido uma tendência recente para a substituição do

peixe pela carne e o resultado é que o preço daquele tem caído em termos relativos. Uma dessas razões é o enorme aumento de renda dos residentes da Flórida nos últimos 35 anos. De 1940 até 1950, o crescimento da renda pessoal per capita foi de 216%; de 1950 a 1960 foi de 61,7% e de 1960 a 1968 foi de 79,8%. Uma conseqüência é que se tem comido mais carne e menos peixe mullet. Mullet, quando congelado, tem um sabor desagradável, e além disto é um alimento de "baixo status", estigmatizado. Contribuindo para o baixo incremento do consumo de mullet, há ainda um outro fator, ou seja, a transformação do sistema de "castas" nos Estados Unidos. Todos os movimentos negros por direitos civis e por iguais oportunidades econômicas têm chegado a alguns resultados. Um informante que antes de se aposentar havia sido comerciante de carne e peixe na região, disse-me um tanto coloridamente que "o preço de mullet não é bom, pois até 10 anos atrás os negros neste país eram tratados como cães. Agora, com a melhoria de sua situação, estão comendo menos do peixe mullet e mais carne". Não sei se a situação dos negros no Norte da Flórida melhorou o suficiente para substituir o peixe por carne, mas não há dúvida de que ela melhorou até certo ponto e uma inovação tem afetado o inteiro processo:

coupons de comida do Governo. Hoje em dia só morre de fome nos Estados Unidos quem não está informado a respeito dos coupons de comida, ou tenha que vendê-Ios (clandestinamente), por qualquer razão. Estes coupons são distribuídos pelo Governo Federal a todos que comprovam não terem o suficiente para manter sua família. Com eles podem ser adquiridos gêneros alimentícios na grande maioria dos supermercados. Com os coupons de comida, os negros (entre outros) tem maior poder de compra, substituindo assim o peixe pela carne. Esta é uma reclamação dos comerciantes de pescado de Mullet Springs, coincidente com as idéias de alguns economistas que acreditam dever-se a presente inflação dos preços agrícolas nos Estados Unidos ao fato de que os negros estão comendo melhor graças aos food stamps. Tais decréscimos na quantidade produzida relacionam-se a incremento muito pequenos de preço de pescado nos últimos anos. Esses incrementos nominais exprimem porém um decréscimo real, na medida em que for considerada a taxa de inflação da economia norte-americana. Correlacionada com os problemas de mercado acima expostos, e com os pequenos incrementos no preço de peixe, apareceu

uma nova atividade: a produção de dois tipos de caranguejos, o blue crab ("caranguejo azul") e o stone crab ("caranguejo de pedra"). A produção de caranguejos começou como uma conseqüência da percepção das possibilidades oferecidas pelo aumento do turismo no Estado da Flórida. Os inovadores que trouxeram a pesca de caranguejo para a vila eram principalmente jovens que retomaram após a 2º Guerra Mundial. O povo de

Mullet Springs, conforme veremos adiante, vive em uma sociedade relativamente isolada. Aqueles homens tiveram, entretanto, experiências que os levaram a perceber e explorar as possibilidades trazidas pelo desenvolvimento do turismo no estado. Mais tarde o mercado para caranguejo foi estendido até a Cidade de New York. Durante a década de 1950 foram organizadas empresas para o processamento de caranguejo blue crab, com capital da região. Em 1955 uma crab factory ("fábrica de caranguejos"), conforme tais empresas são pitorescamente chamadas, começou a operar em Mullet Springs. Em 1972 a "fábrica de caranguejos" empregava 45 pessoas, mas em 1974, durante o meu trabalho de campo, como outros negócios que foram tentados na cidade, fora fechada por ser anti-econômica. Enquanto as indústrias de madeira e de ostras em larga escala desapareceram devido a razões que escapavam ao sistema local, a "fábrica de caranguejos", bem como

a fábrica de escovas e alguns dos restaurantes desapareceram, em parte, por

razões culturais. Alguns dos restaurantes fecharam devido principalmente à

"má gerência", vale dizer, devido a problemas relacionados com o tratamento dispensado aos empregados, enquanto a fábrica de escovas fechou mais em razão da falta de trabalhadores negros que migraram, fugindo de Mullet Springs pelas duas raõzes combinadas. Descrevendo brevemente o que aconteceu, a "fábrica de caranguejos" é uma empresa que usa intensivamente

o fator trabalho. Como resultado de algumas orientações de comportamento

que serão discutidas em outros capítulos, as mulheres brancas que trabalhavam na indústria abandonaram seus empregos. O gerente tentou trazer de outras cidades do condado, pagando seu transporte para Mullet Springs, mulheres negras que, ao encontrarem uma reação muito hostil por parte da população local, e levando em consideração incidentes anteriormente ocorridos na cidade, desistiram de seus empregos. A "fábrica" mudou-se então para Coon Creek, onde pôde combinar a produção de Mullet Springs com o trabalho negro local e de outras comunidades vizinhas.

As atitudes raciais fornecem um exemplo de como a ideologia afeta o sistema econômico. Elas não são isoladas, mas sim parte de um amplo sistema ideológico. De fato os valores raciais estão correlacionados, em MulIet Springs, com os mesmos padrões ideais responsáveis por uma forma de comportamento que afetou as relações trabalho-gerência, no caso da "fábrica de caranguejos" e no de alguns restaurantes que fecharam. Estes padrões constituem um elemento funcional básico no sistema sócio-econômico como um todo, isto é, um sistema de mercados limitados e de classes sócio- econômicas distintas. Estes temas serão discutidos nos próximos capítulos, dando ênfase especial à indústria pesqueira.

Capítulo IV

A DISTRIBUIÇÃO NA ECONOMIA E AS RELAÇÕES BÁSICAS DE UM SISTEMA DE CLASSES SOCIAIS

O Mercado de Produtos do Mar

Conforme demonstrado no último capítulo, a indústria pesqueira de Mullet Springs é altamente dependente de suas relações com os mercados externos. Uma das principais determinantes do sistema econômico da indústria pesqueira e do tipo de vida dos pescadores é a preferência dos consumidores nos principais mercados. Traçando o que em Economia se chama de uma curva de indiferença compreendendo peixe e carne, o primeiro é um bem substituto e, como tal, tem a demanda e os preços mais elásticos que o da carne. Um aumento no preço da carne significará um aumento ainda maior no preço de alguns produtos do mar, especialmente no do peixe e do blue crab ("caranguejo azul"). Quando o preço da carne cai, há um dec1ínio ainda maior no preço do peixe. A razão é simples: com o aumento do preço da carne, os consumidores em University City, por exemplo, vão substituir, até certo ponto, carne por peixe. Como o tamanho do mercado original para peixe era menor do que o tamanho original do mercado para carne, variações na demanda de carne significarão sempre uma variação percentualmente maior na demanda de peixe. Stone crahs ("caranguejos de pedra") e ostras, por serem espécies de um valor muito alto, têm um mercado muito pequeno e não são alternativas para carne.

A relação entre preços de carne e peixe pode ser demonstrada por uma revisão dos respectivos preços em um determinado período. Para os anos 1970, 1971 e 1972, por exemplo, o índice de preço do consumidor para carne foram respectivamente de 117,6, 116,7 e 129,2 (Labor Monthly Review, todos os números de 1971 e 1973). Em agosto de 1973 o índice atingiu o pico de 180,0 (U.S. Bureau of Labor Statistics, Labor Monthly Review, outubro, 1974). Neste período, o preço de peixe mullet subiu para uma média de 12 centavos por libra, um aumento de quase 50%. Este último preço é no entanto pago ao pescador, tendo o preço de venda ao consumidor sofrido um aumento muito maior. Embora a relação entre preços de produtos do mar e da carne seja evidente no caso estudado, e provavelmente no de todo o Norte da Flórida, ela não é tão direta para os Estados Unidos como um todo. Um número muito maior de variáveis está envolvido neste último caso. Paralelamente a um aumento no preço de mercado externo, ocorre um aumento no preço pago ao pescador. Infelizmente porém, devido ao pequeno aumento da demanda e dos preços observados a longo termo, a tendência tem sido para que os lucros da fishhouse (empresa de comercialização do pescado) venham principalmente da diferença entre o preço de revenda e o preço pago ao pescador. Caso houvesse um aumento no preço de peixe para o consumidor,o dono da fishhouse tenderia a ganhar mais na quantidade revendida, que no preço pago ao pescador. A tabela III revela os preços pagos aos pescadores e os de revenda dos produtos coletados no mar de Mullet Springs, durante o mês de abril de 1974, os quais representam o preço mais alto já obtido pelos pescadores até aquela data.

Tabela III Preços de Produtos do Mar de Mullet Springs Abril 1974 Tipo e Preço pago ao pescador Preço de Revenda diretamente ao Consumidor na Fishhouse

Mullet

13 cents/libra

35 cents/ libra

Truta

14 cents/libra

45 cents/libra

Blue crab

13 cents/libra

1 dollar, 75 cents por dúzia

Garras de

1 dollar, 25 cents por libra

1 dollar, 75 cents, a dúzia

stone crab

Os preços do peixe e do caranguejo azul não são determinados apenas pela relação com os preços da carne, embora seja este um fator fundamental. A competição com pescado de outras partes dos Estados Unidos ou com o do estrangeiro, bem assim entre o peixe fresco de Mullet Springs e o peixe mais fácil de se preparar, enlatado ou congelado, são outros aspectos a serem considerados. O preço de peixe em MuIlet Springs, ademais, depende das variações sazonais e aleatórias da oferta. Aqui poderiam ser incluídos fatores como o encontro de inesperados cardumes de peixe ou de leitos de ostras, e as variações anuais de vento e chuva. O verão e o outono são os períodos em que a produção atinge seu máximo. Tendo em vista que os revendedores locais (donos de fishhouse) têm um mercado limitado, este é um período de baixos incentivos e preços para os pescadores que trabalham com peixe e caranguejo. Nessas estações, vi o mullet usado como isca ou simplesmente ser deixado estragar-se. No início da primavera, por outro lado, não há produção suficiente para atender à demanda. O início da primavera é muito ventoso na área de MuIlet Springs. Em todo o mês de março de 1974, por exemplo, tivemos apenas 5 dias em que foi possível sair com os barcos. No inverno além da chuva grossa existe a neblina. Controles legais também constituem fator de limitação para a oferta. Ostras e caranguejos stolle crabs são considerados espécies em perigo de desaparecer, sendo portanto proibido colhê-Ias durante o verão. Muitos especialistas em caranguejos e ostras mudam para outras atividades durante este período. No verão de 1974 tive a chance de observar um grande declínio no preço de produtos do mar, que ilustra a instabilidade da indústria pesqueira. A situação foi complicada por uma simultânea queda no preço da carne. O preço do mullet caiu para 12 cents por libra, mas o "mullet pequeno", de menos de 1 libra, que constitui a maior parte do peixe obtido no mar ao redor, caiu para 7,5 cents por libra. Antes os revendedores estavam pagando ao pescador o mesmo preço de 13 cents por libra do peixe mullet, grande ou pequeno. Os problemas com a coleta de caranguejos eram ainda mais sérios. No verão, com a estação fechada para a coleta de caranguejos do tipo stone crab, os pescadores buscam apenas o blue crab. A empresa de embalagem de carne de caranguejo na cidadezinha próxima de Coon Creek, que compra quase todo o blue crab de MulIet Springs, sobrevive graças ao baixo custo do trabalho no condado,

principalmente do trabalho negro. As mulheres negras "catavam" o caranguejo para colocá-Ia nas embalagens de plástico, percebendo em média, 7 dólares por oito horas de trabalho diário. Eram pagas pelo peso de caranguejo catado. Este salário é evidentemente baixíssimo, uma vez que, em 1974, o salário mínimo nos Estados Unidos era de 2 dólares por hora. Atualmente é de cerca de U$ 4,00 por hora. Pelos nossos padrões brasileiros o salário pago pela empresa para embalar caranguejos seria bastante bom, para mão-de-obra não qualificada. A sociedade americana, porém, é evidentemente muito mais rica e a riqueza é distribuída de forma diversa da nossa. As mulheres negras trabalham apenas 3 dias por semana, para não perderem os coupons de comida fornecidos pelo Governo, pois caso contrário excederiam a renda máxima para a qualificação para os coupons. Todos os empresários do Condado reclamam contra a assistência social do Governo, seja pelos coupons em apreço, seja por outras formas, e comparam a situação atual com

o passado, quando as mulheres negras tinham de trabalhar seis dias por

semana para poderem alimentar a si e a suas famílias. Estas mulheres têm em

sua maior parte responsabilidade na criação dos filhos e estou certo de que, se não fosse pela assistência do Governo, a taxa de emigração negra seria muito maior. Em outras palavras, a assistência social contestada está ajudando a manter as pessoas do campo nas áreas rurais e, em última análise, constituindo fator positivo para os próprios empresários. Durante o verão de 1973 foi possível a empresa de carne de caranguejo pagar mais aos negros do que as fazendas da área. Já no verão de 1974, o preço da carne e dos produtos do mar caiu, enquanto- subiu o de frutas e vegetais. Os fazendeiros começaram a pagar preços mais altos aos trabalhadores e a "fábrica de caranguejos" começou a perder empregados. Esta situação foi agravada pelo próprio ciclo de vida dos caranguejos. No verão

é mais difícil capturar caranguejos machos do que fêmeas, pois os primeiros

tendem a ficar mais nos riachos e no pântano, enquanto as fêmeas ficam em mar aberto. Nesta estação, os caranguejos machos têm mais carne do que as fêmeas. Uma quantidade maior de machos, dos quais a carne é mais facilmente retirada, tende portanto a aumentar a produção e o salário de cada

trabalhador na empresa. No verão, porém, devido à predominância das fêmeas, é menor o lucro dos trabalhadores, pois catam menos carne de caranguejo.

Devido à falta de mão-de-obra, a empresa tentou aumentar sua produção per capita, comprando apenas jimmy crabs ("caranguejos machos") das fishhouses. A combinação de uma baixa demanda por peixe com uma baixa demanda por caranguejos levou a uma situação na qual uma das fishhouses despediu 12 pescadores e a outra começou a operar apenas duas vezes por semana.

A situação de mercado das principais espécies capturadas em Mullet

Springs depende, em grande parte, dos contactos estabelecidos pelos comerciantes locais com restaurantes, mercados, etc. A maior parte do peixe produzido localmente fica na Flórida, mas uma porção vai para os Estados da Georgia e da Carolina do Sul. As ostras vão para os grandes centros urbanos do Norte da Flórida. Os caranguejos azuis vão para a empresa de embalagem de caranguejos de Coon Creek e os stone crabs ("caranguejos de pedra"), vão para os grandes restaurantes de turistas do Sul do Estado. Uma boa parte da produção é vendida localmente, em restaurantes para turistas, ou para alimentar a população da vila.

O Sistema de Fishhouse e as Relações Essenciais de um Sistema de Classes

A maior parte do pescado de Mullet Springs é comercializado através

de uma instituição chamada fishhouse. Há cerca de 50 anos atrás havia 13 fishhouses na vila. Desde então a comercialização do pescado foi-se concentrando em um número cada vez menor de mãos, até que restam atualmente duas fishhouses: A principal razão para isto parece ser o tamanho decrescente do mercado durante este período. O termo fishhouse aplica-se, inicialmente, ao prédio no qual os pescadores vendem sua produção e compram gelo e isca. As fishhouses são construídas sobre pilares que avançam sobre as águas calmas de uma enseada, onde os barcos dos pescadores permanecem guardados, protegidos das tempestades.

A fishhouse não apenas compra e vende comida do mar como também

é uma unidade de processamento e armazenamento. Os stone crabs devem ser cozidos antes de enviados para os mercados externos. Os turistas preferem comprar as ostras sem as conchas e o peixe limpo, e a fishhouse faz este trabalho. A maior parte dos transportes do produto para os centros consumidores se faz pelos

caminhões da fishhouse. O peixe que ficou tempo demais no refrigerador e as espécies consideradas inadequadas para o consumo humano são vendidas como isca ao pescador de caranguejos.

A fishhouse não é apenas um prédio onde a produção de pescado é

processada e vendida. É também o nome para um conjunto institucionalizado de relações que são explícitas no lugar físico fishhouse. É lá que os

pescadores se encontram de manhã para trocar informações sobre o tempo, marés, o preço do pescado, sobre os outros pescadores e sobre o povo de

Mullet Springs. Por esta razão quase apresenta o perfil de uma associação exclusivamente masculina como a encontrada em outras sociedades humanas. Eu mesmo, em pesquisa de campo anterior realizada no Parque do Xingu, encontrei uma dessas associações (Zarur, 1975).

A fishhouse não estabelece apenas relações igualitárias. Nos fins de

semana os turistas a visitam não somente para comprar pescado, mas também para observar os "pescadores", como se fossem uma forma diversa de vida humana. A transformação destes em atração turística é simbólica das relações

existentes entre MuIlet Springs e o resto do mundo. Ademais, é na fishhouse e através dela que se realiza uma relação concreta de dependência entre os pescadores e os donos da fishhouse. Dentre os 72 pescadores de MuIlet Springs, em 1974, 51 estavam permanentemente ligados a uma ou outra das duas fishhouses da vila. É lá que obtêm crédito para comprar redes e armadilhas, ou simplesmente para pagar a conta do armazém, sendo que muitos vivem constantemente em débito com o dono da fishhouse. Hoje em dia

a fishhouse nem financia nem possui os barcos usados pelos pescadores, mas

há informações de que em outras áreas do Norte da Flórida esta prática é utilizada, (Murphree, nd; 2). A fishhouse também fornece aos pescadores os

principais insumos, como isca e gelo. Estas características conferem às relações estabelecidas na fishhouse

a marca da relação patrão-cliente, que era comum no velho Sul dos Estados Unidos. O sistema é bastante similar ao descrito para seringueiros e comerciantes da Amazônia, por exemplo (cf. Wagley, 1968: 90-99).

A dependência dos pescadores frente à fishhouse é reforçada pelo fato

de que há atualmente apenas duas fishhouses em operação, em Mullet Springs. Muitas foram destruídas por furacões ou 'convertidas para outros usos. Uma ficou funcionando até há poucos anos atrás, mas fui informado de que, quando seu dono morreu,

os dois donos das fishhouses restantes passaram a alugá-Ia com o propósito de mantê-Ia fechada. Esta situação que os economistas chamam de "oligopsônica" (poucos compradores e muitos vendedores) oferece aos pescadores um conjunto muito limitado de alternativas. Tal condição é claramente ilustrada pelo caso do pescador que, quando questionado porque não observava seu peixe sendo pesado na fishhouse, disse-me que trabalhava para a outra fishhouse da cidade, mas que tinha tido, lá, um "problema". Agora que possuía apenas uma saída para a sua produção, não queria criar novos "problemas" . A situação do oligopsônio na indústria pesqueira afeta o preço pago aos pescadores. Os donos de fishhouses têm muita liberdade para variar os preços de acordo com a necessidade de estimularem o pescador nos períodos de maior demanda, e de manterem um teto, quando os preços aumentam. Todos os residentes de Mullet Springs acreditam que os donos das duas fishhouses locais fixam os preços do pescado por comum acordo, de forma que o preço é sempre inferior ao de uma situação mais próxima ao de um ideal de mercado. Mullet Springs também tem alguns pescadores de ostras e de caranguejos que não dependem da fishhouse. Este grupo, que chamarei de produtores independentes, comercializa sua própria produção. De vez em quando compra a produção de outros para revender, mas sua atividade principal é capturar, processar e revender sua produção de ostras e caranguejos. Enquanto as fishhouses recebem todos os tipos de produtos, os "produtores independentes" só trabalham com ostras e stone crabs ("caranguejo de pedra"). Possuem seus próprios contactos fora de Mullet Springs. Entre estes "produtores independentes" incluem-se dois homens que capturam camarão para ser usado como isca pelos pescadores desportistas de fim de semana. Todos estes produtos (ostras, stone crabs e camarão) têm um elevado valor, e quantidades relativamente pequenas são suficientes para sustentar um negócio independente.

Capítulo V

ECONOMIA: PRODUÇÃO

Definimos três classes de agentes econômicos de acordo com o acesso a mercados externos. A primeira consiste de produtores de caranguejos e de peixes que vendem a sua produção para a fishhouse, os "produtores individuais". A segunda categoria compreende os donos de fishhouses. Na terceira estão os produtores independentes, que vendem a sua própria produção e geralmente não compram de outros. Estas categorias correspondem a especializações na pesca. Enquanto os produtores individuais se especializam principalmente na captura de caranguejos dos dois tipos (blue crab e stone crab), os produtores independentes se especializam em stone crabs e ostras. Um dos donos da fishhouse captura peixes, quando a sua oferta também está baixa. As razões para estas especializações são várias, como demanda de mercado, dificuldades (o trabalho com peixes de escama requer mais habilidade do que com crustáceos), nível de força física, usada em cada atividade, .correlacionada com a saúde e idade do pescador. Há muitas mudanças e os pescadores trocam de uma atividade para outra; há variações sazonais e também mudanças, devido às tendências do mercado.

Tecnologia e Equipamento

Assim vê Murphree (sd: 4) a tecnologia usada pelos pescadores da costa do Golfo da Flórida:

"De fato, os índios pré-colombianos não estavam provavelmente muito atrás dos pescadores da costa do Golfo, na coleta de ostras e na captura de várias espécies de peixes de escama que habitam as águas rasas do mar". Para um antropólogo que trabalha com uma variação maior do comportamento humano, a tecnologia dos índios pré-colombianos ou a dos pescadores da costa do Golfo não é assim tão simples. A comparação revela, no entanto, a simplicidade da tecnologia empregada na área, relativamente à tecnologia encontrada em outras regiões da Flórida, ou dos Estados Unidos. Os barcos, na cidade de Mullet Springs, pertencem em geral aos pescadores que os usam. No passado pertenciam às fishhouse, motivo por que os pescadores tinham que partilhar a sua produção com os donos das mesmas. O sistema em questão ainda é encontrado em outras vilas da costa do Golfo do México, na Flórida (Murphree, nd: 4). Hoje em dia os pescadores têm os seus próprios barcos, graças a um programa federal, chamado farm credit system, que, embora destinado a agricultores, foi estendido aos pescadores, em 1971. Estes, ao que parece, adquiriram um grande número de barcos valendo-se desta fonte de financiamento. Os barcos são financiados em um prazo muito longo, permitindo à maioria dos pescadores o pagamento da prestação. Existem porém pescadores que não lograram saldar inteiramente a dívida contraída com tal aquisição, e utilizam barcos de algum parente próximo. Há, atualmente, três tipos de barcos em Mullet Springs. O primeiro é grande, de cerca de 7 metros de comprimento, com cabine e motor de centro. A maioria dos barcos deste tipo custava cerca de U$ 1.500,00 na época da pesquisa. Possuem, via de regra, um velho motor de caminhão adaptado às necessidades marítimas, consumindo em média entre 12 e 15 litros de gasolina por hora. Estes barcos maiores são usados para a captura de caranguejos ou de peixes, e sua construção é principalmente local. Constitui parte do equipamento de todos esses barcos maiores um rádio de ondas curtas, transmissor e receptor, provavelmente comprado após um golpe de sorte na

pesca. O segundo tipo de barco é uma inovação recente na costa do Golfo. Chama-se birddog (literalmente "pássaro cachorro"), tem cerca de 4 metros, é sem cabine. A maioria dos birddogs também é feita localmente, com o preço na época da pesquisa variando entre U$400 e U$700,00. A originalidade do birddog é um motor

de popa fora da popa, em uma abertura no centro do casco. Esta vem a ser uma solução para o problema das águas rasas, evitando-se que, com a inclinação do barco com o motor de popa, a hélice alcance o fundo. Outra vantagem do birddog é economia de gasolina, mas o barco não se pode distanciar muito da praia, devido ao seu tamanho. O terceiro tipo de barco é o pequeno esquife, com cerca de três metros, usado pelos produtores de peixes de escama, que têm dois deles puxados pelos grandes barcos com cabines. Além dos barcos, as redes são parte do equipamento dos que capturam peixe de escamas. Um pescador médio tem duas ou mais redes de nylon. O preço de uma rede era de cerca de U$500,00 e sua duração aproximadamente de nove anos, com muitos reparos, é claro. Os produtores individuais de caranguejos usam armadilhas de arame para capturar indiscriminadamente caranguejos dos tipos stone e blue crab. O preço de cada armadilha era de cerca de US 5,00 e sua duração média de nove meses. Cada produtor individual de caranguejos tem entre 150 e 200 armadilhas. Os produtores independentes de caranguejos (aqueles que comercializam sua própria produção) usam armadilhas de madeira, com as quais são obtidos apenas caranguejos do tipo stone crab. São mais pesadas que as de arame e devem ser lançadas mais longe da costa. Os princípios de funcionamento são porém os mesmos, nos dois tipos de armadilhas. Colhem-se as ostras com um instrumento chamado tong. uma espécie de enorme tesoura com cerca de três metros de comprimento e com garras nas pontas, entre as quais ficam presas.

O Captura de Peixes

As variações de marés afetam a maioria das atividades pesqueiras de Mullet Springs. Em período de maré muito baixa, os pescadores não podem sair das baías com os seus barcos. O tempo de duração, entre as marés alta e baixa é de cerca de 6 horas. Os pescadores normalmente escolhem, para sair, o período intermediário entre o preamar e o baixa-mar, ou vice-versa. A espécie de peixe de escama mais abundante em Mullet Springs é, conforme vimos, mullet, um tipo de tainha encontrada principalmente em águas rasas. As outras espécies são capturadas como um substituto, quando o mullet não aparece.

Antes de partir, o pescador deve suprir com gelo, comprado na fishhouse, seu barco. Orienta-se pela costa, uma vez que a pesca do mullet é realizada perto da linha de arrebentação. Cada pescador tem muitos lugares onde só ele pode pescar. O mar é, portanto, dividido entre os pescadores e pescar em território de outro dá origem a conflitos. A situação relembra a descrita por Forman (1970:71), mas em Coqueiral (a comunidade por ele estudada no Nordeste brasileiro) o território marítimo é mantido em segredo, ninguém conta para o outro onde está o peixe. Em Mullet Springs todos sabem quem "possui" uma área piscosa e onde ela está. A "propriedade" de locais piscosos é, portanto, parte das regras do jogo, na vila. Ela responde em primeiro lugar à necessidade de se limitar o número de pescadores, pois, conforme vimos, há um sério problema de mercado para peixes. Responde ainda às necessidades da estrutura social local: as pessoas que pertencem às famílias tradicionais têm o direito à "propriedade" dos espaços mais piscosos. Estes são ocupados por herança, às vezes, ou simplesmente quando o "dono" anterior os abandonou. Como no caso descrito por Forman (1970: 72), deve haver também uma referência ecológica. Os pescadores de MuIlet Springs têm denunciado uma diminuição na quantidade de peixe da região. Manter limitado o número de pescadores é uma fórmula para se evitar um excesso de captura. Chegando ao seu pesqueiro, o pescador ancora o barco maior e escolhe um dos esquifes, onde a rede já está convenientemente dobrada. O movimento do esquife para o lançamento da rede é realizado com varejões, para não assustar o peixe com o barulho do motor. O pescador afasta-se do local onde a rede foi lançada e tange o peixe para a direção da rede: liga um pequeno motor (3 hp) e fica batendo com o varejão na água, para assustar o peixe e fazê-Io se deslocar para a rede. Esta técnica de "tocar" o peixe é sem dúvida a mesma utilizada pelos índios do Brasil quando, batendo na água, assustam-no na direção do timbó. Enquanto puxa a rede, o pescador vai separando as espécies comercializáveis daquelas classificadas como trashfish ("peixe-lixo", literalmente). Algumas espécies, embora comestíveis, não são compradas pela fishhouse, pois requerem muito trabalho no processamento. Salienta-se que a pesca seria uma atividade muito mais produtiva se realizada em grupo. Há um excesso de recursos de capital não utilizado na pescaria. Um barco dos grandes, com cabine é

usado por apenas um pescador, e em condições normais sempre há um esquife e uma rede que não são utilizados. Por esta razão, com a quantidade de equipamento normalmente utilizada por um homem, dois homens poderiam facilmente trabalhar. Bastaria colocar em uso o esquife e a rede que ficam ociosos, e que são utilizados principalmente como reserva. A vantagem do trabalho em grupo, aumentando a produtividade, é ilustrada pelo caso do dono de uma das fishhouses, que também pesca. Na primavera de 1974, com o auxílio de um empregado, conseguiu trazer entre 150 e 200 libras de peixe, enquanto os pescadores individuais, em igual período, obtiveram apenas 60 libras. É verdade que o barco do dono da fishhouse é mais rápido, permitindo que chegue mais depressa aos pesqueiros. Esta diferença provavelmente explica por que sua produção era mais de duas vezes superior às dos pescadores trabalhando sozinhos. Além de requerer um menor investimento em redes e esquifes, a pesca em grupo seria uma forma de se economizar gasolina. O tempo aproximado para se chegar aos pesqueiros é de cerca de uma hora, a uma velocidade de nove milhas por hora (cerca de 15 km). Os pescadores gastam então entre 21 e 27 litros de gasolina cada, e, durante as estações desfavoráveis, muitas vezes não conseguem nem o suficiente para pagar o combustível. Melhor ainda do que o aumento da força de trabalho, mantendo-se fixo

o capital atual, seria uma variação ainda maior dessa força, com mais esquifes

e redes puxados por um dos barcos maiores. A forma ideal de se combinar os fatores seria uma distribuição dos esquifes em uma área dada por um barco maior, trabalhando em conjunto mais de dois pescadores (um para cada esquife).

A Captura de Caranguejos

A pesca de caranguejos realizada pelos pescadores individuais implica

o uso de armadilhas de metal que colhem indiscriminadamente os dois tipos de

caranguejos existentes na área, o blue crab e o stone crab. A programação de

tempo usada pelos pescadores de caranguejos é mais ou menos a mesma que

a usada pelos produtores de peixe de escama. O pescador de caranguejos,

porém, fica no mar um tempo mais regular, já que sua jornada de trabalho é dada por um certo número de armadilhas que deve verificar diariamente.

Esta é a razão pela qual se supõe que os pescadores de caranguejos têm maior lucro do que os que trabalham com peixes de escama: "As armadilhas trabalham o tempo todo, enquanto as redes trabalham apenas quando os pescadores estão no mar". No verão, a maioria dos pescadores de caranguejos coloca suas armadilhas perto da linha da rebentação, na esperança de conseguir maior quantidade de jimmy crabs (caranguejos macho). Nas outras estações as armadilhas são colocadas entre 15 e 20 quilômetros da praia. Antes da saída, a maioria dos produtores de caranguejo se abastece de isca, na fishhouse. A viagem até as armadilhas, das quais cada pescador individual de caranguejos tem entre 150 a 200, dura cerca de uma hora. Em cada jornada de trabalho metade delas é verificada. Tal verificação e esvaziamento da armadilha são atividades lentas e mecânicas. A armadilha tem que ser fisgada, o barco tem que ser parado; a armadilha é em seguida puxada e sacudida, as espécies não comerciáveis separadas, e os caranguejos dos dois tipos (blue crabs e stone crabs) colocados em caixas diferentes. A armadilha é novamente iscada e o processo recomeça na armadilha seguinte. Após examinar as armadilhas em sua jornada diária, o pescador quebra uma das garras de cada um dos caranguejos * tipo stone crabs e os devolve ao mar. Como esta é uma espécie ameaçada de extinção, o pescador só pode ficar, por lei, com uma das garras, pois acredita- se que o caranguejo poderá então se alimentar e subsistir com a garra restante. Mais do que a produção de peixes, a de caranguejos é irracional do ponto de vista econômico de maximização de produção e de minimização dos custos. O problema não mais se restringe à adição de novas unidades de trabalho. Os produtores individuais de caranguejos trabalham sozinhos, em circunstâncias normais, mas, se trabalhassem em grupo, uma nova forma de divisão do trabalho teria que ser estabelecida. O produtor individual de caranguejos gasta entre duas e duas horas e meia, com o barco parado, nos trabalhos descritos acima. Todas as atividades de separação de espécies, quebra de garras, esvaziamento de armadilhas, etc., poderiam ser realizadas muito mais rapidamente com duas ou três pessoas em cada barco, utilizando-se

* As garras dos caranguejos se reconstituem naturalmente.

uma forma muito simples de divisão de trabalho. Isto é exatamente o que fazem o dono da fishhouse e os produtores independentes de

caranguejos, que sempre trabalham com suas famílias ou com empregados.

É verdade que os produtores independentes de caranguejos se

especializam apenas em stone crabs, utilizando armadilhas de madeira que ainda são colocadas mais longe da costa. Eles exercem, porém, as mesmas tarefas consumidoras de tempo que os demais pescadores, Com o auxílio de alguém, um produtor independente é capaz de explorar cerca de 600 armadilhas, enquanto os produtores individuais exploram cerca de 200.

A Coleta de Ostras

A captura de peixes, caranguejos ou ostras pode-se situar ao longo de um continuum de uso de energia física. Puxar a pesada armadilha de caranguejos requer mais esforço do que puxar vagarosamente uma rede de pesca, mas a atividade que requer maior esforço físico é a coleta da ,ostra, embora se trate da mais singela, pois o único conhecimento requerido é o da localização dos leitos de ostras.

O instrumento mais importante para a coleta destas é o que os

pescadores chamam de tongs, já descrito anteriormente. À medida que elas se fecham, suas conchas são agarradas pelos ganchos que fazem parte do instrumento. Se o pescador de ostras estiver acompanhado de outra pessoa, esta quebrará e separará as conchas vazias. No caso da coleta de ostras parece haver uma distinção menos clara entre os métodos produtivos dos produtores individuais e dos produtores independentes. Os pescadores individuais de ostras trabalham, em geral, sozinhos. Os produtores independentes de ostras às vezes trabalham com auxílio e às vezes sozinhos. O trabalho com ajuda é mais racional do ponto de vista econômico individual. Para cada hora de trabalho de dragar ostras, o pescador deve gastar aproximadamente o mesmo tempo nelas trabalhando dentro do barco. Dois homens iriam portanto dobrar a produção utilizando apenas um barco e metade das despesas de combustível. A ambiguidade do caso das ostras é porém mais aparente que real. A cooperação entre pessoas ligadas geralmente por laços de parentesco é mais importante em terra firme do que nos barcos. As

atividades, em terra firme, dos produtores de ostras: o descascar e o enlatar das mesmas, com um equipamento muito simples. Os produtores individuais de ostras normalmente vendem sua produção sem este processamento em terra firme. Nos três casos da indústria pesqueira de Mullet Springs, caranguejos, peixes e ostras, há um uso desnecessário de unidades extra de capital da parte dos produtores individuais, contrastando com uma relação mais próxima do ideal por parte dos produtores independentes e dos donos de fishhouse. Poder-se-ia supor que estas unidades ociosas de capital devem-se às facilidades do sistema de crédito (farm credit system). Este não é o caso, no entanto; pois antes da extensão do farm credit system aos pescadores, em 1971, o padrão já era seguido. Ademais, os produtores independentes e donos de fishhouse tendem a organizar a produção de forma distinta da usada pelos produtores individuais. Tudo isto leva-nos à conclusão de que, ao nível dos arranjos produtivos, o acesso a mercados externos tende a estar correlacionado com graus de racionalidade econômica, se esta for entendida com uma redução individual de custos. A relativa irracionalidade dos produtores individuais, nos casos aqui descritos, bem assim a tecnologia relativamente simples empregada por todos os pescadores de Mullet Springs, é muito racional para o sistema econômico como um todo. De fato, a baixa produtividade da maioria dos pescadores, devido à sua tecnologia simples e à produção mal organizada, é extremamente racional para um sistema de pequenos mercados. De outro lado, a racionalidade global do tipo de pesca empregada em Mullet Springs também aparece quando são consideradas variáveis ecológicas: uma produtividade baixa é uma defesa contra a pesca em excesso. Mas a relação entre o sistema econômico e o comportamento individual não é direta. Conforme veremos nos capítulos seguintes, envolve valores e formas de organização social.

Capítulo VI

VALORES E PHOBLEMAS DE ORGANIZAÇÃO

"Smart" e "Proud"

A falta de cooperação entre a maioria dos pescadores de Mullet Springs está correlacionada com suas tradições culturais. Há duas categorias lingüísticas que são centrais para o comportamento do povo da vila. A primeira é a categoria smart, que pode ser traduzida por "vivo", "esperto" e, em alguns casos, "malandro". * Ser smart significa conseguir enganar a todos e não ser enganado por ninguém. Smartness neste sentido é a própria essência do individualismo. Uma pessoa smart não confia em ninguém, e ser smart significa ser um bom homem de negócios, não importando o tipo de negócio realizado. É aconselhável portanto, ficar na defensiva contra estranhos, uma vez que podem ser demasiadamente smart. Depois de se conhecer uma pessoa e se saber que ela não é suficiente smart (smart enough), então uma relação de negócios pode ser estabelecida. O individualismo da gente de Mullet é muito forte e se expressa de formas diversas. O roubo de caranguejos das armadilhas foi me definido como um hobby local. Existe mesmo uma expressão referente ao roubo de caranguejos das armadilhas: beatting so and so's crab traps (literalmente, "batendo nas armadilhas de fulano").

*Sugiro ao leitor. para uma comparação, com o caso brasileiro, a leitura do excelente texto de Roberto da Mata, Pedro Malasartes e os Paradoxos da Malandragem, in Carnavais. Malandros e Heróis (1979).

Os pescadores de caranguejos são os únicos que não acham muita graça neste aspecto da vida de Mullet Springs, embora também roubem as armadilhas uns dos outros. Afinal de contas as suas são roubadas por todos das demais categorias de pessoas da cidade. O assalto às armadilhas é tão comum que, quando um pescador é forçado a ir para o mar durante o mau tempo, em geral em períodos de produção baixa, explica antes cuidadosamente o que vai fazer: "minha isca está estragando" ou “eu não tenho dinheiro" e assim por diante, para que não suspeitem de suas intenções. Outro meio de expressão da smartness do povo de Mullet Springs é a espionagem econômica. Tal hábito pode trazer informações defensivas, por exemplo, como quando um pescador usa binóculos para vigiar suas armadilhas. Freqüentes desvios das rotas são feitos para que um pescador veja o que o outro está fazendo. Há mesmo casos em que a espionagem deste tipo pode levar a casos judiciais. Um exemplo foi o do pescador que encontrou parte do equipamento de esgotos da cidade boiando, após uma tempestade. Como há uma recompensa para o encontro desses objetos, trouxe-a para a praia e nela amarrou uma etiqueta com o seu nome. Outro homem encontrou a peça e substituiu a etiqueta por uma com o seu nome. O verdadeiro descobridor da peça estava, no entanto. espiando a cena com o seu binóculo, e levou o caso à Justiça, que decidiu a seu favor. É provável que a inovação tecnológica esteja relacionada com esses padrões, e o caso da pesca de camarões é ilustrativo. O vigia do laboratório de biologia marítima da Universidade da Flórida foi visitar o irmão de sua mulher no Texas, onde aprendeu como pescar camarão com um equipamento simples. Voltando para Mullet Springs, pediu a um estudante pós-graduado de biologia marinha que o ensinasse sobre os hábitos do camarão, para que pudesse encontrá-Io. Fui informado de que em poucas semanas conseguiu "milhares de dólares" com tal pesca. Seu barco foi seguidamente inspecionado, à noite, pois queriam descobrir o segredo do equipamento. Todos os seus movimentos, durante a pesca do camarão, passaram a ser observados por barcos e binóculos. Mais tarde muita gente passou a pescar também, mas, infelizmente, os cardumes de camarão abandonaram a área de Mullet Springs, sendo a sua pesca hoje em dia feita apenas em pequena escala, para o fornecimento de isca para os pescadores esportistas. A violência é uma parte integral do processo competitivo em Mullet Springs e constitui uma forma de smartness. Correm, além

de outras, histórias sobre supostas vítimas de assassinato, jogadas dos barcos. Isto é perfeitamente possível, uma vez que ser smart implica não aceitar nenhuma regra. Há um homem morando na cidade que se diz ser bombardeador profissional de barcos, recebendo uma quantidade não especificada de dinheiro por barco destruído. Sei com certeza de pelo menos um barco bombardeado em 1972, apenas dois anos antes da minha chegada à cidade. Não tenho certeza, porém, das razões do ato. Os amigos do autor do atentado contam que o barco foi bombardeado porque o seu dono já tinha um emprego público e continuava competindo com os pescadores, ganhando muito dinheiro. Os amigos do dono do barco dizem que o autor do atentado havia possuído o barco anteriormente, mas, como não o tinha pago, viu-o vendido em leilão. O primeiro dono então adotou a teoria de que "se não for meu, não será de ninguém". De qualquer forma, ocorreu tal bombardeio, como evento de uma relação competitiva. Há casos de incêndios provocados em empresas comerciais, atos de vandalismo e ameaças de violência física. Parece que estes recursos são usados mais para assustar os competidores. Incêndios e bombas são as táticas preferidas pelo povo de Mullet Springs. Tais hábitos aparecem, por sinal, em obras clássicas sobre o Sul dos Estados Unidos, como, por exemplo, nos livros de Eugene O'Neil. A violência é usada em Mullet Springs não apenas como um aspecto da competição econômica, mas também em outros tipos de incidentes, tais como: um homem de fora casou-se com uma mulher da vila e depois se divorciou. Ela voltou a morar em Mullet Springs, com seus pais. Mais tarde o ex-marido veio passar um mês com ela "para se divertir", mas a casa em que se achava hospedado pegou fogo e ele fugiu da vila. A maior regra do jogo social é a derrota do oponente. Um bom exemplo foi o do lixeiro da vila, acusado, em uma reunião, de não estar trabalhando direito. Todos os outros empregados do Governo local ali se encontraram e começaram a atacar, em bloco, o lixeiro, que não se encontrava presente. Casos como este poderiam ser repetidos ad infinitum. O individualismo dos sulistas dos Estados Unidos é um fato bem conhecido e discutido na literatura sobre a área. Cash (1941: 226) refere-se en passant à palavra smart como uma expressão do individualismo local. Donald (1970: 296-307) relaciona a derrota dos confederados na guerra civil norte- americana com o individuaismo

dos soldados sulistas e a conseqüente falta de disciplina e organização entre as tropas. O individualismo do povo de Mullet Springs é amplamente compreendido pela categoria smart Há porém uma outra categoria linguística

que a ela se superpõe em seu alcance semântico. Esta é a categoria proud ("orgulhoso"). Juntamente com smart, proud parece descrever os ideais de vida de uma grande parte da população do lugar.

O primeiro significado de proud é independência, especialmente em

um sentido econômico. Um homem proud procura nunca dever dinheiro, ou qualquer outra coisa. Pode usar roupas remendadas, mas elas devem ser as suas próprias. Uma conotação relacionada vem das implicações que a palavra proud traz para hierarquias de status. Uma pessoa proud jamais aceita a existência de alguém acima de sua posição em qualquer hierarquia social. As pessoas não gostam de receber instruções ou sugestões que possam ser interpretadas como ordens. Um comentário típico a respeito do fracasso da indústria de caranguejos, é, por exemplo, o de que ela teve que se mudar da cidade, pois o "gerente ficava dizendo às pessoas o que fazer". Esta foi uma das razões, dentre outras, que levou as mulheres da vila a abandonarem seus empregos na indústria. A mesma razão é provavelmente aplicável a alguns dos restaurantes que fecharam. O caso da indústria do processamento de caranguejos exemplifica também como os dois conceitos de smart e proud operam em conjunto: uma outra razão citada para o fracasso da indústria de caranguejos foi haver constantes brigas entre as mulheres, que

freqüentemente roubavam, entre si mesmas, a carne de caranguejo, tentando ser smart, umas às custas das outras. Condição para uma pessoa ser proud é ser também smart. Sem uma renda mínima, sempre considerada uma conseqüência da "esperteza" (smartness), poder-se-á dever dinheiro à fishhouse ou depender da assistência social do Governo. Mesmo nestas situações, há, porém, uma fórmula para se alcançar o nível de proud: não revelar sua própria situação a pessoa alguma e tentar ocultá-Ia o melhor possível. Aqueles que dependem de coupons de comida, nunca os trocam por gêneros, nas mercearias locais. Preferem viajar para supermercados em cidades maiores, onde ninguém os conhece.

O conceito de pride tem porém um significado à parte do nível

individual. Pride é a palavra de código para descrever lealdade a

um grupo. Uma pessoa é proud de ser um homem (mulheres são menos proud), de ser um nativo de Mullet Springs, de ser um sulista, de ser um americano e de ser branco. Uma das conotações semânticas da palavra é construir hierarquia onde a pessoa que fala esteja sempre colocada em uma posição superior. Os homens são considerados mais "orgulhosos" (proud), que as mulheres. A freqüência mínima de homens às igrejas, quando comparada com a de mulheres, foi-me justificada como causada pelo "orgulho da vida" (pride of life). Porque os homens são muito proud, como me informou o pastor de uma das igrejas de Mullet Springs, "não aceitam ninguém acima de si, nem mesmo Deus". Tenho a impressão de que não aceitam o mínimo de organização e hierarquia necessárias à existência de uma Igreja. A noção de pride ajuda a estabelecer os níveis de divisão do trabalho, em Mullet Springs. Há algumas ocupações que são preferencialmente para mulheres. Qualquer tipo de trabalho repetitivo, organizado, cooperativo e em terra firme é de mulher, de acordo com os padrões ideais da subcuItura local. O dos restaurantes, na antiga fábrica de escovas e na "fábrica de caranguejos", é basicamente considerado para mulheres. Hoje em dia alguns homens trabalham descascando ostras, bem como em outras atividades no processamento de produtos do mar, o que é considerado trabalho de mulher. As mulheres brancas, se por um lado são menos proud do que os homens brancos, o são mais do que os pretos. Os mesmos princípios de auto- avaliação, que se relacionam com a divisão do trabalho entre homens e mulheres, também dividem o trabalho entre pretos e brancos, traçando as linhas do chamado "sistemas de castas" dos Estados Unidos. Os homens de Mullet Springs costumam em geral se orgulhar de suas habilidades manuais, como as de carpinteiro, pedreiro, etc., mas limpar peixe ou catar carne de caranguejo são considerados trabalhos sujos, os quais mesmo mulheres brancas não aceitam de bom grado. O emprego de mulheres negras, na "fábrica de caranguejos" de Coon Creek, está não apenas relacionado com os baixos salários, como também com o fato de que os negros são considerados racialmente mais aptos a este tipo de atividade: A maioria dos que catam carne de caranguejo adquire uma alergia que é localmente chamada de "doença de caranguejo". A "doença de caranguejo" é caracterizada pelo aparecimento de manchas brancas nos braços. Ela, na verdade, não escolhe a raça

da pessoa, como pode ser facilmente constatado por uma visita à fábrica de Coon Creek. É consenso geral em Mullet Springs, entretanto, que a “doença de caranguejo" ataca apenas mulheres brancas, permanecendo intocadas as pretas.

Estes princípios ideológicos orientam o comportamento do povo de Mullet Springs em todas as áreas da existência diária. Eles estão porém em contradição com várias realidades da vida diária, como a dependência frente à fishhouse e a assistência social do Governo. Estes princípios, conceitualizados pelas categorias smart e proud. são por outro lado articulados a vários costumes locais, tais como o pagamento pelo peso de pescado, sem obrigações rígidas de horário ou supervisão. A principal razão pela qual a maioria dos pescadores não trabalha em grupo pode ser encontrada nestes vaIores e no sistema social a eles relacionado. Trabalhar em grupo não seria smart. implicaria a possibilidade de conflitos advindos de tentativas de um dos parceiros ter uma parte maior da produção e deixar a maior parte do trabalho para outro. Além disto, o trabalho em grupo traria a necessidade de alguma forma de divisão do trabalho e hierarquia de funções. Os pescadores de todas as categorias tendem a seguir estes valores. Porque então alguns, os produtores independentes e os donos de fishhouse, trabalham efetivamente em grupo? Uma das respostas é a estrutura de parentesco, a única forma efetiva de organização encontrada em Mullet Springs (ver o próximo capítulo). A outra, é que os padrões ideais de uma subcultura nem sempre são seguidos: trabalhar como empregado em atividades produtivas está no mesmo caso de depender da assistência social do Governo, ou de empréstimos da fishhouse.

Associações Voluntárias

Os valores acima discutidos afetam as formas de organização encontradas na vila. O estudo das associações voluntárias de Mullet Springs ajudará a demonstrar como esses valores são verdadeiros princípios, afetando o sistema social, e como a falta de organização dos pescadores em atividades produtivas é parte de um padrão mais amplo. Latino-americano que sou, fui imediatamente classificado como católico e envolvido em debates teológicos com pessoas que tentavam

me converter. Fui também alvo de referências diretas ou indiretas dos pastores, nos púlpitos. Um dos principais argumentos utilizados na tentativa de minha conversão era o fato de que "católicos têm um ditador, enquanto ninguém nos dá ordens". Da mesma forma níveis de organização e hierarquia das igrejas são usados em disputas entre membros das diferentes seitas protestantes. Metodistas, batistas e membros da Igreja de Cristo atacavam os episcopais, por serem um "ramo da Igreja Católica", e ainda por terem gente que manda diretamente neles, "os bispos e a rainha da Inglaterra". Os episcopais defendem a sua Igreja dizendo que a lealdade à rainha ocorre apenas na Inglaterra, e que os episcopais norte-americanos não devem obediência a ela ou ao súdito seu, o primaz da Igreja Episcopal do mundo, o Arcebispo de Canterbury. Os episcopais de Mullet Springs (com exceção do padre) acreditam que o ponto mais alto da hierarquia da Igreja Episcopal são os bispos. Sem dúvida alguma a similitude da Igreja Episcopal com a Católica, no ritual e na doutrina, é uma face política exposta em uma áreageográfica em que o protestantismo vive ainda de sua herança histórica de independência e nacionalismo. Por seu lado, os batistas atacam os metodistas por terem uma hierarquia mais estruturada que a sua: "Nós, batistas, somos muito independentes e ninguém nos dá ordens". Eles se contentam com uma "convenção", na verdade uma frouxa aliança de igrejas e pastores. Ainda mais extremada que a Batista é a Igreja de Cristo. Cada Igreja de Cristo é considerada inteiramente independente, uma da outra. Os membros nunca se reúnem com os de outros lugares da mesma denominação. A organização interna da igreja é mínima. O pregador (não "pastor", pois este supõe-se que tenha alguma forma de educação formal para o cargo que ocupa) é meramente um leigo que decidiu virar pregador, pois recebeu "o chamado" (the call). O chamado de Deus normalmente ocorre após várias vicissitudes na vida da pessoa, após a qual ela se transforma, abandona seus maus hábitos, e se coloca em uma situação especial de relação com Cristo, que passa, então, mesmo a conversar com o pregador, em alguns casos. Na Igreja de 'Cristo, à semelhança da Igreja Batista, o pregador não passa por seminários, mas, de forma diversa da Igreja Batista, não passa por severa investigação de sua vida anterior. Registre-se por fim a existência da "Igreja da Palavra Nova", na verdade um movimento messiânico que reúne os participantes em suas próprias casas. A "Igreja da Palavra Nova", por ser muito pouco estruturada,

dificilmente pode ser considerada uma associação formal, como as demais. ' Esta falta de hierarquia repete-se no reino político. Alexis De

ser mantida na vila, correspondendo à visão que o povo local tem de si mesmo e do mundo.

a

Tocqueville, o grande estudioso do sistema político norte-americano no século passado, no seu livro A Democracia na América, publicado pela primeira vez em 1835, refere-se a uma township (mais ou menos a incorporated city

Em algumas funções, a até alguns anos atrás, chegava-se mesmo a exagerar alguns dos princípios de independência de vilas e cidades, na forma descrita por De Tocqueville para o século passado. Nos anos 50, por exemplo,

descrita anteriormente) da seguinte maneira: "pode ser quase dito que cada

o

"juiz da cidade" (não o juiz do Condado) condenava pessoas a "trabalhos

uma delas inicialmente formava uma nação independente". (De Tocqueville, 1945: 82). É verdade que De Tocqueville referia-se principalmente à cidadezinha da Nova Inglaterra, no Norte dos Estados Unidos, e afirmava que quanto mais longe se vai para o Sul, menos ativos se tornam os negócios da township ou da parish - "paróquia" (De Tocqueville, 1945: 82). No entanto, demonstra que a "gradação de poderes caracteriza as townships do Maine à Flórida". (De Tocqueville, 1945: 85). A despeito da bem conhecida, óbvia e muito discutida transferência de poder da localidade para os Governos estaduais e federal, nos Estados Unidos, desde o tempo de Tocqueville, o povo de Mullet Springs continua a sentir sua estrutura política como não hierárquica. A cidade não é vista, à

pesados". MuIlet Springs é muito pobre em associações voluntárias, e sob este ponto de vista o povo da cidade se desvia da tendência geral do americano, para pertencer a clubes e associações voluntárias em geral. Os Lynd, no seu estudo de Middletown, encontraram 458 associações voluntárias para uma população total de 38.000 pessoas (Lynd, 1956: 527), enquanto em MulIet Springs havia sete associações para uma população estimada de 750 habitantes, em 1974. Isto significa 83 pessoas para cada associação em Middletown, contra 107 pessoas para cada associação em Mullet Springs. A diferença se torna mais acentuada se for levado em conta que a maioria dos membros de associações voluntárias da vila se compõe de outsiders; que

maneira brasileira, como parte de uma estrutura política que a tem na base o município e o país no topo. Alguns de meus informantes afirmaram que "cada Estado da União corresponde a um País independente do resto do mundo"; há

algumas das associações estão morrendo e que os dados dos Lynd são 50 anos anteriores aos meus, de Mullet Springs; que em toda parte o crescimento de organizações voluntárias parece estar relacionado com migrações recentes

a

tendência de se considerar Mullet Springs, com menos de 800 pessoas,

e

com a dissolução de grupos baseados em família e parentesco. Desde 1924,

como uma vila confederada como milhares de outras vilas, Condados

um dos primeiros deveres do governo local é proteger a "soberania" de Mullet

o

ano do estudo dos Lynd, os Estados Unidos acentuaram esta tendência de

(counties) e Estados, formando a entidade política Estados Unidos da América. Esta ficção política é expressa na Carta da Cidade, por um absurdo jurídico:

Springs, apesar de na mesma carta estar escrito que a lei federal ou estadual referente às vilas, cidades e municipalidades "fica declarada como aplicada à cidade". A "soberania" porém fica resguardada, pois se observa que as leis federais e municipais se aplicam a Mullet Springs já que os cidadãos da vila assim desejam. A lógica disto é que, se Mullet Springs desejar separar-se dos

substituição de grupos de parentesco por associações voluntárias, tendo em vista a enorme taxa de mobilidade vertical e horizontal existente no país. Em Mullet Springs a grande maioria de outsiders, nas associações voluntárias, evidencia este fato (ver a tabela da próxima página). Através de tais associações, os outsiders, que não pertencem às famílias locais, preenchem suas necessidades de interação e participação em grupos, estabelecendo laços de amizade e cooperação com outras pessoas. Uma análise da tabela revelará outras características das associações

Estados Unidos, tem esse direito. A realidade no entanto é ser isto impossível -

voluntárias da cidade. Todas elas, com a exceção do Lions Club, têm a maioria

e

já o fora, no século passado, para as massas de milhões de pessoas que

de membros do sexo feminino. As Igrejas que colocam a maior ênfase na

formavam o Sul dos Estados Unidos durante o tempo da Guerra de Secessão.

independência, frente a hierarquias externas, são as que têm maior

Tal realidade não afeta a ficção jurídica, a qual continua

percentagem de nativos de Mullet Springs. A Igreja de Cristo, a menos estruturada das Igrejas, tem uma grande maioria de nativos. Outra característica é a grande diferença entre o número de pessoas registradas em cada associação voluntária e o número de pessoas que realmente participa, regularmente, das reuniões e atividades da associação.

Ê interessante' que os nativos que participam regularmente de reuniões e outras atividades de associações voluntárias tendem a ser indivíduos de alguma proeminência, como os produtores independentes e os funcionários públicos, enquanto a maioria dos produtores individuais não participa de nenhum associação. O caso mais evidente é o do Lions Club, que tem uma maioria de natives. Produtores independentes e o sheriff deputy são os nativos que comparecem regularmente às reuniões.

Tabela IV *

que comparecem regularmente às reuniões. Tabela IV * * Números aproximados durante o meu período de

* Números aproximados durante o meu período de campo. Há uma flutuação no número de pessoas.

As associações voluntárias de MulIet Springs aparecem e desaparecem. Tive a oportunidade de observar o desaparecimento de uma delas, o corpo de bombeiros voluntários. Em quase todas as cidadezinhas norte-americanas, o corpo de bombeiros é formado de voluntários que, além da atividade de combate ao fogo, constituem um clube masculino. Sua sede. é normalmente usada para os rapazes jogarem, conversarem e de vez em quando oferecerem um baile. Em 1972, quando foi mais uma vez reorganizado, o corpo de bombeiros voluntários de Mullet Springs atraiu muita gente. Tornou- se até financeiramente lucrativo dele participar: não havia a necessidade de contribuições pecuniárias, e, pelo Natal, os bombeiros recebiam um presente em dinheiro, das Companhias de Seguros. Além disto, a sala do corpo de bombeiros passou a ser usada, pelos membros, para festas e encontros. Os jovens de MulIet Springs reclamam seguidamente que "não têm nada para fazer na cidade", e o corpo de bombeiros tornou-se uma alternativa. A administração da vila comprou um novo caminhão de bombeiros, com dinheiro federal, capaz de acender a imaginação de muita gente. Quando cheguei ao campo, em 1974, o corpo de bombeiros estava em plena atividade. O chefe anterior tinha deixado a cidade e o governo local contratou um bombeiro profissional aposentado, da cidade nortista de Buffalo, Estado de Nova York, para organizar e dirigir a entidade. Em abril entrei para a associação, e pude observar que o número de pessoas que participavam de cada um dos treinos semanais estava decrescendo. No começo havia uma média de nove bombeiros. Destes, sete eram nativos do lugar, seis jovens com cerca de 18 ou 19 anos, e o polícia da cidade. O chefe do corpo de bombeiros, Mister Elger, tentava de todas as formas possíveis manter vivo o interesse dos homens, deixando-os dirigir o caminhão e usar o chapéu amarelo de bombeiro. A cada novo treino, porém, um menor número de bombeiros se apresentava, e ao fim de minha permanência na cidade, apenas quatro pessoas estavam participando dos mesmos: o chefe dos bombeiros, o polícia

(que tinha a obrigação de ir), um outsider e um antropólogo. Mais tarde os treinos pararam. A maior razão para o fracasso do corpo de bombeiros era a suposta relação hierárquica entre o chefe e os bombeiros. O chefe agia mais ou menos

como um "sargento" e a velha e familiar reclamação era a de que "ele fica nos dizendo como fazer as coisas". Na verdade, o chefe estava desempenhando um papel que seria considerado normal em outros lugares. Como bombeiro profissional aposentado, sabia mais da luta contra o fogo que qualquer um de nós e tentava apenas ensinar com o seu jeito meio autoritário, é verdade, como, por exemplo, segurar uma mangueira de incêndio ou usar um tanque de emergência de oxigênio. O fim do corpo de bombeiros não significa o fim da luta contra o fogo na vila, com suas casas de madeira. Quando há. um alarme de incêndio, todos os bombeiros correm para o caminhão e são ajudados no seu trabalho por todo

o povo da cidade que não pertence à associação. Os alarmes de incêndio são

dados por uma sirene, na garagem do caminhão, que está conspicuamente situada no centro da cidade, em downtown. Qualquer pessoa que perceba um incêndio simplesmente vai lá e aperta o botão da sirene. Minutos mais tarde os carros dos voluntários começam a chegar. Em uma noite chuvosa, por exemplo, um bêbado forasteiro que não sabia mais como voltar para casa apertou o botão para pedir socorro. Minutos mais tarde estávamos todos subindo no caminhão. O mesmo ocorreu uma tarde, quando um menino apertou o alarme para "ver o que iria acontecer". Os dois pequenos incêndios a que assisti, quando morava na cidade, tiveram a efetiva e solidária participação da parte dos bombeiros voluntários para apagá-los. lncidentalmente o mesmo ocorreu em relação às pessoas não membros do corpo de bombeiros. Estes incêndios não controlados e não provocados por ninguém, são, é claro, uma ameaça coletiva, e como tal enfrentada por todos. Similarmente ao que ocorre nas igrejas e na política, o caso do corpo de bombeiros demonstra que qualquer forma de liderança institucionalizada é

sujeita a sérias ressalvas, pela população tradicional de Mullet Springs. O ideal

é o líder que surge espontaneamente na luta contra o fogo, ou o pregador sem nenhum preparo em Seminário, que recebe o call e faz o povo chorar com os seus sermões.

Sindicatos e Cooperativas

Se o povo de MulIet Springs tem uma tendência a não se agrupar ao longo de linhas voluntárias, o mesmo é verdadeiro para o caso dos sindicatos e cooperativas. Houve várias tentativas de organização de sindicatos e cooperativas, na vila, mas todas fracassaram. Depois da Segunda Guerra Mundial tentou-se estabelecer na cidade um ramo da Associação Internacional de Marinheiros, entidade filiada à AFL (American Federation of Labour, uma das duas grandes organizações trabalhistas norte-americanas). Neste período alguns pescadores fundaram uma cooperativa. Uma das razões apontadas para o fracasso das duas iniciativas foi a de que "os jovens estavam voltando da guerra, cansados de pessoas dizendo-lhes o que fazer". Outra razão foram as brigas entre os seus membros. Um pescador disse-me que o problema é que todos queriam ser smart: ninguém aparecia nas reuniões ou pagava a contribuição.Por que pagar a contribuição ou trabalhar para a cooperativa se outros o farão? De outro lado, atitudes permanentes de dúvida, da parte dos pescadores, aceleraram o fim das organizações. "Quais são as verdadeiras intenções do organizador?" é a pergunta que todos fazem quando se pretende iniciar uma associação. Para piorar a situação parece que, em pelo menos um dos casos, as suspeitas dos pescadores foram confirmadas, quando um membro de um grande sindicato nacional americano fugiu com o dinheiro da organização. Ao mesmo tempo em que esses sindicatos eram organizados, tentaram-se criar cooperativas. Sobreviveu dois anos a que mais durou. Durante este período, o atual dono de uma das fishhouses era o seu diretor. Diz-se que a cooperativa sossobrou após uma briga entre este e outros líderes. A disputa envolveu não apenas problemas relacionados à organização como também a problemas pessoais e de família. Além destes aspectos comuns a todas as associações voluntárias da vila, as possibilidades de sindicalização ou organização em cooperativas são ainda menores do que a de formação de outras associações. Corre em MulIet Springs que os donos de fishhouse, pela manipulação que podem fazer do sistema de crédito, são capazes de impedir que os pescadores se organizem ao longo de linhas de classe.

Isto é perfeitamente possível, uma vez que esses donos só têm a perder, com

a operação efetiva de sindicatos e cooperativas. Foi possivelmente reconhecendo os problemas de organização de pescadores, que os líderes sindicais da Flórida decidiram tentar uma organização "que não é contra os negociantes (businessmen). Trata-se dos "Pescadores Organizados da Flórida" (Organized Fishermen of Flórida, OFF). É principal fim da OFF fazer pressão, em Talahassee, a capital do Estado,

contra leis prejudiciais aos pescadores comerciais. Os inimigos, no caso, são os pescadores desportistas, que estão sempre lutando por medidas de restrição à pesca comercial. Como grupo de pressão para a proteção dos pescadores comerciais, a OFF protege ao mesmo tempo os interesses da fishhouse e dos pescadores individuais. A OFF oferece também uma forma de seguro muito barata, fornecida simultaneamente com o ingresso na organização. A única forma pela qual a OFF interfere nas relações trabalho- gerência é informando os pescadores do preço pago pelo pescado em outras cidades e vilas marítimas da Flórida.

A história da OFF não difere muito da relativa a outras organizações

similares, em MulIet Springs. O ramo da OFF da vila foi fundado pela iniciativa de um "cabeça" (headman) que mora no interior do Condado. Ele pediu a um pescador para organizar localmente a OFF. O pescador saiu então, de acordo com o seu próprio testemunho, "de casa em casa, implorando aos outros que se filiassem à organização". Da primeira reunião participaram 28 pessoas. Em cada reunião subseqüente, o número foi caindo, e hoje não há mais reuniões, pois apenas três pescadores são membros da OFF.

O baixo nível de organização dos pescadores ao longo de linhas de

classe tem, como uma de suas conseqüências, a conservação do sistema local de classes sociais, tal como opera atualmente. A incapacidade geral dos nativos de se organizarem em quaisquer tipo de associações voluntárias os exclui da análise da situação social da cidade. Na reunião da associação dos

"amigos da biblioteca", por exemplo, com a presença de um só nativo (que não

é pescador), os membros ajudaram a organizar um programa de leitura para as

férias de verão das crianças. Os participantes debateram as modalidades de vida das famílias em Mullet Springs e as razões pelas quais as crianças não lêem. Cada um deles, neste instante, se transformou em um sociólogo amador. Esta simples discussão de problemas e a responsabilidade social relacionada, que emerge da

discussão, podem ser um aspecto muito importante, explicando o dinamismo encontrado em outras comunidades norte-americanas. A maioria dos que participam das associações voluntárias de Mullet Springs é porém de outsiders, marginais da comunidade formada pelos nativos, uma comunidade com suas fronteiras e organização interna determinadas pelo sistema de parentesco. Os nativos, e entre eles os pescadores, tendem portanto a não se organizar ao longo de linhas voluntárias, e possuem, ao invés, o sistema de parentesco que vale como um quadro de referência para a organização.

Capítulo VII

PARENTESCO

Se o povo de Mullet Springs tende a não se agrupar ao longo de organizações voluntárias, possui uma forma de organização altamente eficiente: um sistema de parentesco operativo que de algumas formas preenche as mesmas funções que as associações voluntárias. A presença de uma maioria de outsiders nas associações voluntárias de Mullet Springs demonstra que a participação nestas associações é correlacionada com migração recente. De fato, os outsiders encontram nas mesmas um local para interação social, para fazer amigos e participar de eventos sociais - as igrejas locais, por exemplo, promovem sempre jantares e atividades similares. A população tradicional de Mullet Springs não necessita de uma igreja ou de um clube de mulheres para estabelecer contatos e fazer amizades. Tem todo o dominante sistema de parentesco determinando sua vida social. Portanto, a presença de tal sistema de parentesco operativo está relacionada com os valores estudados no último capítulo, que inibem o crescimento na participação das associações voluntárias da vida.

A Família Nuclear

A primeira e mais evidente forma de grupamentos de parentesco em Mullet Springs é a família nuclear, composta de marido, esposa e filhos. A família nuclear é definida pela coabitação do casal e dos filhos. Conforme veremos neste capítulo, no entanto, as

funções de socialização da família nuclear são muito limitadas em Mullet Springs. Ao que parece, suas principais funções são econômicas, implicando que o pai (e às vezes também a mãe) forneça casa, comida e roupa para as crianças. De acordo com o censo norte-americano de 1970, havia em Mullet Springs as seguintes estatísticas para arranjos domésticos:

Tabela V

seguintes estatísticas para arranjos domésticos: Tabela V Fonte: U. S. Census of Population, 1970, Census Access

Fonte: U. S. Census of Population, 1970, Census Access Program, University of Florida.

Os dados estão de alguma forma obscurecidos pelo fato de que as pessoas tendem a se casar entre as idades de 18 e 22 anos em Mullet Springs, enquanto a tabela inclui dados de 14 anos para cima. Se considerarmos que a população das classes de 14 a 17 totaliza 53 pessoas, estas contarão uma boa parte daquelas alistadas como "nunca casadas". De fato, o casamento é um valor muito forte em Mullet Springs, embora exista grande número deles não realizado na Igreja. Havia, de acordo com a mesma fonte, um total de 182 famílias brancas, com o casal completo, e três famílias pretas na mesma situação. Oitenta e cinco das famílias com o casal completo, de ambas as raças, têm criança morando na mesma casa. Existem quatro famílias, todas brancas, lideradas por mulheres e com crianças. O número relativamente baixo de famílias com crianças deve-se à concentração da população nas classes mais idosas, descrita no capítulo II

deste livro. Cerca de 46% das díades marido-esposa têm filhos. Trata-se principalmente de nativos, cujo chefe é um pescador. As relações dentro da família nuclear são caracterizadas por um nível relativamente baixo de solidariedade entre marido e esposa. Isto é em parte consequência da maior importância de outras formas de grupamentos de parentesco em Mullet Springs. O alto nível de conflito dentro da família nuclear é também conseqüência dos papéis tradicionais, prescritos para homens e mulheres, contrastados com os papéis sexuais, encontrados na classe média urbana dos Estados Unidos. Do ponto de vista da classe média urbana, os homens de Mullet Springs são "irresponsáveis" de várias formas, incluindo suas funções como providers, isto é; como produtores de dinheiro para o bem- estar da família. Além disto, são mais conservadores do que as mulheres e tentam enfatizar os papéis tradicionais de independência. As mulheres estão mais em contacto com a corrente principal de valores da sociedade americana; muitas delas gastam entre três e quatro horas por dia olhando televisão e outras revelam interesse por livros (e revistas, populares), o que certamente leva a uma proximidade maior à cultura americana dominante. Os homens permanecem mais isolados desses interesses nacionais, trabalhando horas no mar. A maioria deles usa seu tempo de lazer, durante os dias de semana, nos bares locais, bebendo, conversando e jogando sinuca. A bebida e a busca de aventuras sexuais são as principais fontes imediatas de conflito dentro da família nuclear. Foi estimado pelo policial local que cerca de 1/3 da população de Mullet Springs é composta de "alcoólatras". Muitos pescadores bebem durante a semana inteira, trabalhando apenas o suficiente para fornecer o mínimo indispensável à alimentação da família e para beber seu vinho tinto, outros bebem em prolongados fins de semana, que se iniciam na sexta-feira e terminam na segunda. Para alguns, a bebida no fim de semana está associada a excursões sexuais extra-conjugais que são freqüentemente conduzidas em bares e cabarés de localidades vizinhas. Não é incomum que esposas saiam perseguindo seus maridos em um outro carro, facilmente os localizando em um dos poucos cabarés dessas cidades. Uma mulher me explicou sua reação nesses instantes, típica também de outras esposas de Mullet Springs, que é pensar: "Você (o marido) não é suficientemente forte para sair daqui, mas eu vou tirá-Io". Ela então puxa o homem para fora do cabaré. Sem dúvida toda a herança

puritana entende o álcool como grave pecado, provavelmente piorando objetivamente o alcoolismo na região. Outra característica do comportamento masculino é brigar. Esta é uma atividade mais para solteiros, embora alguns homens casados participem da mesma eventualmente. Quase todo sábado à noite há brigas, no Crab Trap bar. Há até alguns anos atrás, brigas de faca eram normais. O procedimento era segurar a faca pela lâmina deixando apenas a ponta descoberta. Um dos participantes, recebendo um corte, descobria a lâmina um pouco mais. Hoje em dia é mais comum a luta de socos. Tendo em vista a sua maior exposição aos valores dominantes da sociedade americana, através de meios de comunicação de massa e participação em Igrejas, as mulheres não aceitam estes papéis para os maridos, preferindo, ao invés, a figura do marido trabalhador, que consegue um bom padrão de vida para sua família. A vida da maioria das famílias nucleares da vila tende a ser uma sucessão de conflitos nunca acabados através dos anos. Estes levam, ocasionalmente, à quebra da estrutura familiar. Em 1972 ocorreram 81 divórcios para 159 casamentos, no Condado. Esta relação de um para dois está próxima da média nacional norte-americana. Em Mullet Springs a incidência de divórcios é provavelmente maior, pois a vila é considerada pelo povo do Condado, e pelo seu próprio, como um lugar de alto grau de "liberdade sexual". De seu ponto de vista, isto implica uma iniciação sexual aos doze anos de idade, em média (o que ocorre no Condado inteiro), bem como uma vida sexual ativa durante a velhice. Implica também a instabilidade da família nuclear. Os nativos de Mullet Springs responsabilizam a sua dieta, baseada em frutos do mar, pelo que consideram um impulso sexual mais forte do que o comum.

A oposição sexual delimita grupos sexuais quase corporativos. Uma pessoa me disse que a grande característica de Mullet Springs é a "guerra entre os sexos". Especialmente a oposição é expressa pela dicotomia entre as Igrejas e os bares. Não são muitas as mulheres "nativas" que participam regularmente de Igrejas, porém, mais do que os homens, costumam ouvir os sermões. Mesmo aquelas que não vão à Igreja são muito mais próximas de valores religiosos do que os seus maridos. Entre as mais velhas, a participação em igrejas ou a crença em valores religiosos é mais acentuada. Desta perspectiva, os bares são vistos com ódio e horror, e os mulheres referem-se aos mesmos como lugares perigosos, que devem ser evitados.

Um exemplo da ação coletiva das mulheres ocorreu quando um homem estava tendo um caso com uma lady friend, na dança de sábado à

noite, do Springs Hotel. Sua esposa queria ir lá tirá-Io, mas estava com medo

de entrar "naquele lugar". As outras mulheres da Igreja decidiram ir com ela,

em solidariedade. A despeito da enfática diferença de papéis sexuais e do fato de que os homens são mais proud do que as mulheres, e ainda a despeito do

”machismo" dos homens de MuIlet Springs, expresso através de bebida, brigas

e de espingardas exibidas nas caminhonetes, as mulheres claramente

dominam o ambiente da família. O trabalho em restaurantes, e em épocas passadas, na indústria de escovas e na de caranguejos, deu-Ihes uma renda mais regular do que a dos homens. Além disto, o maior contato que possuem

com a corrente principal da cultura americana, através dos meios de comunicação de massa, torna-as mais aptas para manipular certos problemas.

É mais fácil para as mulheres, por exemplo, conversar com estranhos,

enquanto existem homens que ficam “envergonhados", não conversando ou

olhando para estranhos, a menos que estejam bêbados.

As mulheres são, por estas razões, dominantes, ao nível do grupo doméstico, o que faz a família nuclear de Mullet Springs inserir-se na categoria

de "família matrifocal". De forma diversa da família negra nos Estados Unidos e

das compreendidas nas Américas em geral, o pai-marido não está ausente. A família de Mullet Springs enquadra-se porém, no conceito, pois matrifocalidade tem sido definida em termos de graus (Gonzalez, 1970:234).

Grupos Maiores de Parentesco

A instabilidade da família nuclear em Mullet Springs está provavelmente correlacionada com o fato de ser um grupo despido de maior importância, na estrutura social da cidade. A primeira forma de grupo de parentesco extenso encontra-se na categoria kindred, que tem sido caracterizada em Antropologia como um grupo proximamente relacionado a ego através das duas linhas, materna e paterna. Seu "fato estrutural mais característico" é o de que "ele não pode nunca ser o mesmo para quaisquer dois indivíduos, com a exceção de irmãos" (Murdock, 1949: 60). Sendo um grupo ego-centrado, o kindred se exprime por diferentes conjuntos de relações concretas, de acordo com diferenças circunstanciais. Freqüentemente

ocorre que adultos, aparentados de forma próxima por sangue ou casamento, emprestem barcos e equipamentos uns aos outros. Alimentar um velho pai ou hospedar um parente durante um período de crise econômica pode ser outra das expressões do kindred. Tomar conta dos netos é uma ocupação bastante comum para as avós de Mullet Springs. Os kindreds de Mullet Springs ainda se exprimem através de reuniões cíclicas, na casa de um de seus membros. Há porém uma situação em que o kindred se torna de fato um grupo concreto. Os produtores independentes de Mullet Springs, se possuem um grupo de parentes morando na vila, suficientemente grande para ser considerado um kindred, trabalharão com os mesmos. Se o número de parentes não for suficiente, os produtores independentes trabalharão ao menos com os membros de sua família nuclear. Quando o número de parentes residentes na cidade for suficientemente amplo, o produtor independente construirá ao seu redor algo semelhante ao que Freeman (1961:200-202) chamou de kindred-based group. De forma diversa do grupo descrito por Freeman, os "kindreds concretos" de Mullet Springs, organizados em função da pequena empresa, tendem a possuir permanência no tempo. Os kindred-based groups de Freeman aparecem e desaparecem, no tempo, com eventos tais como uma caçada coletiva. O kindred-based group permanente de Mullet Springs não cabe, por outro lado, em qualquer das categorias antropológicas de "família extensa", pois sua estrutura fundamenta-se na rede de relações bilaterais do dono da empresa e na disponibilidade de parentes na cidade. A escolha de quem vai participar depende de chance e tal participação é variável. Há uma tendência para que os parentes próximos dos produtores independentes estejam entre aqueles que menos emigram. Se os produtores independentes não possuem parentes próximos morando na cidade, procurarão empregar os membros de sua família imediata. Normalmente as esposas de produtores independentes, principalmente de pescadores de ostras, trabalham junto com os seus filhos e filhas adultos, e com afins. A cooperação entre parentes próximos é a única forma de cooperação possível dentro dos ideais da subcultura da cidade. Exatamente devido ao pequeno número de pessoas em geral necessário a uma empresa independente de ostras ou caranguejos, variando de 3 a 6, os kindred-based groups de Mullet Springs não são muito extensos. De outro lado, a análise daqueles que participam de reuniões,

bem assim, dos padrões de residência, levam-nos à conclusão de que o grupo principia a desaparecer ao nível de primos primeiros. Daí por diante, a participação em outro grupo mais amplo, semelhante sob diversos aspectos a linhagens patrilineares, como têm sido estas tradicionalmente descritas em Antropologia, torna-se evidente. Uma linhagem tem sido descrita como um grupo composto por pessoas que se podem relacionar através de séries de laços genealógicos traçados por uma das linhas de descendência. Murdock (1949-46) observa que em nossa própria sociedade grupos de parentesco identificados por sobrenomes constituem uma espécie de linhagem. Em Mullet Springs tais grupos exercem funções, no entanto, que não são comumente encontradas na sociedade complexa moderna e especialmente em outros setores da sociedade norte-americana. O povo de Mullet Springs acredita que a descendência biológica é bilateral. Mas neste particular há uma "patri-ênfase", e os grupos sociais patrilinearmente organizados são fundamentais na estrutura social local. Os sobrenomes são muito importantes, em Mullet Springs, pois definem um grupo de indivíduos patrilinearmente relacionados, considerados similares sob vários aspectos: relacionamento entre nomes e comportamento esperado levam a uma situação onde, por exemplo, se pode ouvir dizer que "os Joneses são muito trabalhadores", os Williamses são considerados "burros", os Wallaces "gente em que não se pode confiar" e, os MacGregors, "criadores de confusão". Impressiona a uniformidade da categorização. Todos, com a natural exceção dos membros das linhagens consideradas como "criadoras de confusão", por exemplo, aceitam estes estereótipos. Enquanto a comunidade em seu todo considera semelhantes os membros de cada patrilinhagem, eles próprios se atribuem tais semelhanças. As patrilinhagens se baseiam no sobrenome de seus membros, marcando a ascendência comum. Os membros de patrilinhagem com idade suficiente para ouvir e contar histórias, costumam saber quem fundou sua linhagem, e, em vários casos, contam lendas a respeito do fundador. Tais lendas começam às vezes pela maneira como o fundador chegou aos Estados Unidos, mas o fundador é geralmente considerado o primeiro ancestral do sexo masculino que veio para a área de Mullet Springs ou para o Noroeste da Flórida. Se o sobrenome está presente nos Estados Unidos por um longo período,

a estória pode situar-se no período da Revolução da Independência americana. Diz-se que o fundador de uma das linhagens de Mullet Springs, um soldado inglês, caminhou do Canadá à Flórida, pois "não queria lutar contra os americanos". Conta-se que o fundador de outra linhagem muito antiga era membro da tripulação de um navio pirata francês, que visitou a área de Mullet Springs. As histórias sobre linhagens mais recentes são mais plausíveis e concretas. O bisavô de um informante de 84 anos de idade veio da Virgínia para perto de University City, a fim de trabalhar como feitor de escravos de uma fazenda. O fundador de outra veio de Alabama durante a guerra civil. Normalmente há um lapso de tempo obscuro, entre a época em que viveu o fundador e a da pessoa falecida mais velha de que qualquer um se possa lembrar, especialmente no caso de linhagens antigas, porém desprovidas de genealogias escritas. As patrilinhagens da cidade são hierarquicamente ordenadas pelo tempo de sua presença em Mullet Springs. Quanto mais antiga na vila, mais status possuem. Esta hierarquia de prestígio está também associada com padrões de participação em Igrejas. As patrilinhagens mais antigas, quase todas com nomes ingleses, tendem a estar ligadas à Igreja Episcopal. Há porém duas dessas patrilinhagens, muito antigas e da Igreja Episcopal, cujos fundadores vieram respectivamente da França e da Itália. As duas linhagens mais ricas estão associadas à Igreja Metodista, e as mais recentes tendem a pertencer à Igreja de Cristo. A maioria daqueles cujos nomes são de origem escocesa e irlandesa - os "O's" e os "Mac's" - pertence a linhagens de baixo status, e muitos de seus membros não pertencem a qualquer igreja, embora digam a estranhos que são membros da Igreja Episcopal. É claro que há muita variação: indivíduos podem participar de uma igreja que não seja de sua linhagem. As associações entre igreja e linhagem são mais ideológicas que qualquer outra coisa. A maioria das pessoas vai às igrejas para jantares ou outras festividades, ou simplesmente não vai. Cada uma das 14 patrilinhagens de MuIlet Springs tende a estar localizada em determinada vizinhança. Uma das razões pode ser a herança de propriedade, mas, na maioria das vezes, a razão principal parece ser a regra de que parentes morem próximos uns dos outros. Pode este padrão estar associado com fatores como defesa contra violência e ajuda mútua em pequenos favores diários.

As linhagens de status mais baixo tendem a" morar nas vizinhanças de Kiss me quick, Hug me tight e Serena Park. Outra forma pela qual as linhagens se expressam é através de reuniões cíc1icas,nas casas dos membros. Em geral vêm parentes também de

cidades vizinhas para estas reuniões. É uma ocasião para se comer peixe frito (mullet, é claro), bolinhos (hushpuppies) e rever os parentes. Os encontros são em geral realizados ao ar livre, no quintal das casas. Mullet Springs, com as suas reuniões de linhagem, apresenta uma situação similar à descrita por Neville (1971: 71) sobre os presbiterianos do Sul dos Estados Unidos. As linhagens de Mullet Springs possuem porém ênfase patrilinear mais forte e clara e existência concreta e permanente na cidade. Como no caso descrito por Neville (1971 : 104), é de se ressaltar a importância das mulheres, relacionando linhagens e constituindo elementos essenciais na formação de novas patrilinhagens. Patrilinhagens, por exemplo, que têm a mesma mulher ancestral como esposa dos respectivos fundadores, seja por morte de um deles ou por outra razão, são consideradas relacionadas. Da mesma forma, quando uma mulher se casa com um outsider, este será "adotado" pela família de orientação de sua esposa. Se o outsider tem a base econômica para ser um produtor independente, bem como filhos a quem dar emprego na vila, e a quem transmitirá seu sobrenome poder-se-á tornar, no futuro, o fundador de uma nova linhagem. Em outras palavras, o kindred, com

a sua estrutura de descendência bilateral combinando-se com a linhagem, traz

a forma de se ramificarem estas últimas para a formação de novas linhagens e estabelecimento de laços entre as mesmas. *

*O problema do princípio de relações entre linhagens é dos mais complexos, em Antropologia. Na realidade é o centro do debate envolvendo os conceitos de descendência, filiação e afinidade. Fortes (]953 :30-33) abre a polêmica com a distinção entre filiação e afinidade; filiação seria sempre bilateral e compreenderia apenas a primeira geração ascendente. Fortes (1953:33) introduz a noção de "filiação complementar". Leach (1961) ataca a noção A polêmica continua de formas diversas (exemplo: Fortes, 1959) até que finalmente Dumont (J961:25) e Schneider (1969:50) tentaram encontrar uma solução. Ambos os autores (Dumont e Schneider) correladonam as respectivas visões de Fortes e Leach com diferentes tipos de sociedade. O conceito de filiação complementar é relacionado com necessidade da corporatividade das linhagens e com o conceito de "grupo corporativo" em geral. Meu propósito não é entrar no debate conceitual, que me desviaria dos objetivos deste livro, dentre outras razões porque estou provavelmente analisando um terceiro tipo de sociedade. Princípios de bilateralidade são porém importantes em nosso caso,

Existem mecanismos para dividir e relacionar linhagens através de laços de afinidade e casos de manipulação genealógica por pessoa do mesmo sobrenome, principalmente primos em segundo grau, que por alguma razão desejam abandonar sua linhagem. Há um homem que nega qualquer relação com a linhagem dos "criadores de confusão" e vive no extremo oposto dos demais membros da linhagem, na cidade. Estão abandonando o "Mac" de seu sobrenome escocês, mas ele faz questão de mantê-lo. Há dois irmãos que negam qualquer relação com uma linhagem de baixo status, enquanto são de fato primos em segundo grau dos indivíduos que formam o cerne dessa linhagem. Exemplo ilustrativo é o caso de um homem primo em segundo grau de outro que é membro importante da linhagem mais rica e considerada na cidade. Esse homem não é reconhecido como membro da linhagem, sendo chamado pelo sobrenome de sua mãe ou por Enquanto grupos concretos, baseados em uma estrutura de kindred, podem ser ligados às pequenas indústrias dos produtores independentes, a linhagem pode ser associada com a fishhouse. Um dos donos de fishhouse de Mullet Springs é o único membro de sua linhagem morando na cidade. A outra fishhouse é uma empresa de linhagem. Todos os membros das linhagens moram na área de downtown. Três entre quatro primos, filhos dos dois tios do dono da fishhouse, trabalham como empregados na mesma. O quarto, um produtor individual, vende peixe para a fishhouse, de forma privilegiada porém seu pescado, pesado por seus primos ou irmão, rende sempre mais do que o dos outros pescadores. Assim os parentes do dono da fishhouse têm um emprego estável, limpando peixe, pesando os produtos

estabelecendo relações entre linhagens. O conceito de "linhagem" tem sido associado ao entendimento de populações tribais, especialmente africanas, tendo em vista estudos pelos quais tal conceito foi elaborado e reelaborado. Por outro lado, a associação do conceito com o clássico trabalho de Evans Pritchard sobre os Nuer (1940) faz-se de forma imediata nas mentes dos que possuem formação antropológica. A aplicação do conceito a uma comunidade norte-americana poderá chocar alguns colegas antropólogos, mas tal choque vai apenas refletir toda a tradição colonial da Antropologia, da qual este trabalho é uma crítica. Não vejo porque, dada uma realidade semelhante, apliquemos conceitos diferentes a norte-americanos e africanos.

do mar ou dirigindo os caminhões da empresa. O filho do dono da fishhouse também trabalha nela e um tio do dono, o único membro vivo da geração mais antiga, sendo muito velho para trabalhar, permanece a maior parte de seu tempo na fishhouse, olhando e conversando. Com este arranjo, o dono da fishhouse tem a proteção física de seus parentes, e estes, por outro lado, possuem empregos estáveis. É verdade que destripar peixes não é considerado um trabalho digno, mas os parentes do dono da fishhouse dizem que fazem este trabalho para ajudá-Io. Não é fácil relacionar as linhagens de Mullet Springs com uma determinada tradição européia, como o faz Neville. Mullet Springs compõe-se de pessoas de diversas origens étnicas. Há ênfase, ao que parece, no background anglo-saxão e no Scotch-Irish (povo originário da Irlanda que marcou fortemente a história norte-americana), devido ao grande número de ancestrais destas origens, bem como à simples razão de que sobrenomes e costumes de origem italiana ou espanhola tendem a ser esquecidos. Tal esquecimento exprime o que se tem chamado processo de "americanização", até hoje em curso, mas que constituiu forte preocupação do Governo norte-americano durante as grandes migrações européias do século passado e início deste século. Tal preocupação resultou num esquema de assimilação rápida e maciça dos imigrantes na cultura norte-americana, montado nas escolas e no espírito do povo. Uma herança deste processo em Mullet Springs se reconhece em mudanças parciais ou totais de nomes: La Estrada passa a ser, p. e., Lestrade e no cemitério se encontra uma tumba com o nome inglês Masters gravado, embora fosse espanhol o homem ali sepultado. Somente descobri que o tataravô de uma informante era italiano quando o seu marido, ao discutir com a mesma, agredindo-a, disse ter ela um tataravô italiano. A conversa na qual a situação apareceu referia-se à "tendência dos povos mediterrâneos a casarem com pretos", o que para os habitantes de Mullet Springs é uma característica muito negativa. Apesar desta visão do processo de americanização não auxiliar no estabelecimento de correlações históricas de longo curso entre o sistema de patrilinhagens e uma tradição específica, ajuda a mostrar

os sentimentos étnicos do povo local. Uma das funções dos princípios genealógicos implícitos na organização de linhagens é associar seus membros com o que se considera na vila uma herança étnica superior, algumas vezes às custas de considerável manipulação genealógica. Embora seja esta uma das funções das patrilinhagens, talvez a mais importante seja dar a seus membros acesso ao grupo maior de parentesco da cidade, formado por todas as patrilinhagens conhecidas. Este grupo é chamado, pelo povo de Mullet Springs, de natives.

Capítulo VIII

NATIVOS E "OUTSIDERS"

O Grupo dos Nativos

O grupo de parentesco mais importante de Mullet Springs é conceptualizado pela palavra native, usada localmente. Com referência a categorias, os "nativos" são opostos aos outsiders ("os de fora"), ou yankees. Para que seja considerado um "nativo", uma pessoa deve preencher duas condições: A primeira é pertencer a uma das linhagens da vila. Vale dizer, possuir um sobrenome associado com o lugar, situação similar à descrita por Matthews (1965: 13), sobre os habitantes das montanhas do Tenessee, onde os sobrenomes possibilitam o acesso ao grupo mais amplo. Associações entre nomes e lugares parecem ser um fenômeno antigo na Flórida, como pode ser facilmente observado em um mapa do Noroeste do Estado. Os nomes dos riachos, morros ou vilas são, em geral. o de moradores locais, passados ou presentes. Quando indaguei sobre os origens das patrilinhagens, fui informado de que provinham da Flórida, de lugares com o nome da linhagem. Obtive diversas respostas assim: Os Joneses? "você conhece o morro dos Jones (Jones Hill) perto de Melhorne?" Ou "os Robertsons vieram da Ilha dos Robertsons, na embocadura de tal e tal rio". Até 15 anos atrás era difícil para um outsider encontrar casa para morar, em Mullet Springs, pois eram reservadas para parentes que se haviam casado recentemente, ou para os que retornavam, por alguma razão, para morar na vila.

A segunda condição é que a pessoa deva ser nascida e criada em Mullet Springs. Liga-se o fato à expectativa de que o indivíduo seja leal ao grupo dos nativos em qualquer circunstância, e de que deva agir conforme os padrões "nativos". A pessoa deve, portanto, seguir os valores tradicionais do Sul dos Estados Unidos, bem como o estilo de vida da vila. O estilo de vida dos "nativos" compõe-se de um sistema com diversas características, variando, desde a aparência externa das casas, em geral mal pintadas e rústicas, à aceitação dos valores de smartness e pride: da refeição de peixe mullet e grits (uma espécie de mingau de milho), aos hábitos de beber e brigar. Outros traços culturais "nativos" são mascar tabaco, pelos homens, rapé, por algumas mulheres, e cobrir os túmulos, no cemitério, com conchas de ostras. Este último é encontrado apenas entre os "nativos" mais pobres. Havia em 1974 cerca de 400 pessoas classificadas como "nativas", em Mullet Springs, por preencherem tais condições, e de 100 a 150 que se encontravam nos limites de tal grupo. Os últimos constituiam-se principalmente de outsiders que se tinham casado com nativos. Sua adaptação ao modo de vida local lhes trouxe pelo menos uma aceitação parcial, pelos "nativos". Muitos dos outsiders se tornaram pescadores, mas em geral não participavam da rede de intrigas da vila, especialmente quando seu objeto era um “nativo”. No passado, o grupo dos "nativos" tendia a ser endógamo. O casamento de primos era a regra, para a maioria dos casamentos no local. Até cerca de 50 anos havia uma tendência clara para o casamento de primos em primeiro grau. Posteriormente, em consequência da chegada de uma nova ideologia, na cidade, de que a união entre tais primos seria incestuosa, surgiu, ao que parece, uma tendência ao casamento com mulheres matrilateralmente relacionadas, como forma de ocultar esse tipo de casamento, já que as mesmas não conservavam seus nomes de solteiras. Até cerca de 20 anos atrás ocorriam casamentos entre primos em Mullet Springs, mas já naquela época, e muito mais hoje em dia, a regra é a exogamia e qualquer forma de relação "de sangue" é razão para não se casar. Muitos primos casados antes que a prática fosse inteiramente abandonada recusaram-se a ter filhos, temendo "degenerações". O modelo de um grupo fechado de parentes, cujos membros constituem uma "família" diferente do resto do mundo, continua no entanto

presente. O povo de Mullet Springs define este modelo de grupo fechado através da palavra clannish - relativo a "clan". No momento, o papel da endogamia, estendendo laços laterais dentro do grupo dos "nativos", foi até certo ponto substituido pela elevada taxa de divórcio, de segundos e terceiros casamentos e de relações sexuais pré- maritais. O resultado é que uma boa parte da população tem irmãos adotivos, meio-irmãos e pai ou mãe adotivos. A rede de relações de parentesco, por esta razão, continua a ser muito extensa. Em sua maior parte, a interação dos indivíduos "nativos" ocorre dentro de seu grupo. É também o grupo dos "nativos", mais do que a própria família nuclear, que está encarregado da socialização das crianças. Crianças nativas brincam principalmente entre si e parece que a iniciação sexual ocorre entre membros do grupo. É ao nível do grupo dos "nativos" que se deve explicar as relações entre sexos e categorias de idade. Há uma oposição sexual fortemente marcada, conforme já vimos. Dentro de um modelo endogâmico, porém, as mulheres são partilhadas por todos homens da vila (dentro do modelo, bem entendido). Este princípio se exprime, na prática, pela alta taxa de divórcio e "liberdade sexual". As relações entre gerações caracterizam-se pela extrema separação entre crianças e adultos. Aquelas são ensinadas a serem altamente respeitosas em relação a estes, sempre os chamando por termos tais como Sir e Ma'am (abreviatura folclórica de madame). A criança nunca chama o nome de um adulto sem antes usar a palavra Mister. É interessante que normalmente os sobrenomes não sejam usados, mas, ao invés, expressões como Mr. Paul, Mr. John, Mrs. Sandra, etc. Quando adultas, abandonam o uso de tais termos respeitosos em relação à geração ascendente. Há mesmo diversos casos em que filhos adultos tratam os pais pelo primeiro nome, sem nenhum título. Parece portanto que o sistema generacional, tal como ocorre em Mullet Springs, baseia-se em duas gerações. Obviamente mais gerações biológicas são reconhecidas como existentes, porém apenas duas são socialmente significantes e operam no sistema social local. A divisão do grupo em duas gerações deveria implicar a presença de ritos de passagem, marcando a transformação de crianças em adultos. A formatura na escola secundária parece preencher essas funções, até certo ponto, pois é reconhecida por vários

nativos como sendo o mais importante acontecimento de suas vidas. Outro ritual de igual importância é o casamento. A despeito do princípio lineal criado pelas patrilinhagens, a ênfase é em relações laterais. A grande maioria das linhagens tem, conforme

observamos, um vazio genealógico entre o fundador e o último ancestral lembrado. Há uma estratificação em termos de duração da linhagem, no local,

e assim por diante, mas a ênfase é em extensões laterais dos laços de

parentesco. O grupo dos "nativos" é de descendência bilateral, inobstante o status de membro ser fornecido pela herança patrilineal de nomes. O fato de que a endogamia era praticada há até alguns anos atrás, torna a escolha de uma ou outra linha de descendência irrelevante. Outros aspectos estruturais que contribuem para a irrelevância da escolha são as possibilidades de criação de novas linhagens através do casamento, a incorporação de outsiders afins, do sexo masculino, na patrilinhagem de sua esposa, e a crença na herança biológica bilateral. Mais do que um grupo de parentesco, o grupo dos "nativos" é a comunidade, em Mullet Springs, com o seu próprio estilo de vida, dois sexos e três gerações (Arensberg e Kimball, 1965: 16). A interação de intensidade mais forte ocorre principalmente dentro dos limites do grupo.

Nativos e "Outsiders"

Os membros do grupo dos "nativos" acreditam ter o direito ao uso

preferencial dos recursos econômicos da área. Expressões desta crença são

os fatos de guardarem para si os melhores locais de pesca, e a preferência dos

donos de fishhouse pela compra da produção dos mesmos. Na dispensa de pescadores que ocorreu em uma das fishhouse, a maioria dos pescadores de caranguejo afetados pela medida foi de outsiders. Estes direitos são garantidos pela forte solidariedade dos nativos frente

a qualquer ameaça de fora Este foi o caso, por exemplo, de um homem que

tentou entrar em competição econômica com os nativos. Não apenas a fishhouse que estava iniciando, como sua própria casa foram queimadas. O xerife encontrou, junto à casa incendiada, pegadas de uma pessoa sem o dedo polegar do pé, e o único homem de Mullet Springs nestas condições foi levado para a

sede do Condado. Muitos dos mais proeminentes cidadãos de Mullet Springs foram até lá testemunhar que o indivíduo em causa era bom cidadão e que jamais faria uma coisa dessas, embora todos, na cidade, soubessem que se tratava de tipo compreendido na linhagem "criadora de confusão" e que ele, bem como seus parentes, eram muito violentos. Deste ponto de vista, a solidariedade do grupo dos nativos é muito similar à encontrada em outras pequenas comunidades, pelo mundo afora. A similaridade com a omerta italiana é, por exemplo, ilustrativa. (cf. Hobsbawn, 1963: 32). O poder na cidade deve permanecer em mãos "nativas" assim como, preferencialmente, os empregos públicos. A aplicação das leis vai até o ponto de não ferir os costumes locais ou o que é considerado "interesses nativos". O membro do Conselho que administra a cidade deve ser "nativo" ou muito identificado com seus interesses. Durante meu período de residência na vila, tive a oportunidade de observar a eleição para o Conselho da cidade, da qual participou um outsider, em circunstâncias pouco comuns. Dick Geiger chegou da Pennsylvania (Estado do Norte) em um trailer, em 1969. Em 1974 registrava sua candidatura no Conselho da cidade, minutos antes de se encerrar o prazo de registro. Não havia outro candidato, de forma que estava eleito a priori. A resposta dos nativos foi lançar um candidato write in, isto é, não registrado, cujo nome escreviam no papel. Há até alguns anos atrás, no Flórida, esta era uma medida legal. A nova candidatura surgiu do medo de que Geiger tentasse forçar a execução de dispositivos da legislação municipal contra barulho, durante a noite, pois morava entre dois bares do centro da cidade e não gostava das brigas e das bebedeiras. > Além disto, gostava de dizer aos outros "como fazer as coisas". A plataforma política do candidato "nativo" era "Derrotem Geiger" e "Abaixo os Yankees". Foi fragorosamente derrotado pelo candidato "nativo", a despeito da frenética campanha de outros outsiders em seu favor. Como foram levantadas dúvidas sobre a legalidade da eleição, o Conselho da cidade decidiu que haveria uma segunda votação. Todo o processo eleitoral estava porém errado sob o ponto de vista jurídico, pois de acordo com os novos Estatutos da Flórida os candidatos não registrados não podem concorrer. A vila estava ameaçada de ter que enfrentar um caso nos tribunais, certamente perdido, que iria custar cerca de US$5. 000,00 do "dinheiro dos contribuintes", uma categoria de dinheiro sagrada, nos Estados Unidos. Essa perda foi também utilizada pelos políticos "nativos" visando

a que Geiger renunciasse. Apesar de tudo foi realizada a segunda eleição, e no

dia havia muitos nativos circulando de forma ostensiva, na calçada, diante do prédio da administração local. Algumas das senhoras de Mullet Springs me confessaram que o "Senhor respondeu às minhas preces", pois não houve violência. Para alívio dessas senhoras e surpresa geral, Geiger venceu a segunda eleição. A transferência do cargo foi também pacífica, com uma enorme maioria de eufóricos outsiders assistindo, mas Paul, o polícia, não vestia as "roupas de trabalho" que normalmente usa quando participa das reuniões do Conselho (camiseta e calça). Exibia, ao invés, uniforme completo com os símbolos de autoridade, inclusive o mais efetivo: um revólver Magnum 44, dependurado no cinto. A eleição de Geiger foi um acontecimento fora do comum. Sua vitória no segundo escrutínio só foi possível graças à mobilização de todas as pessoas de Mullet Springs que se consideram "responsáveis", inclusive "nativos". Receiando a violência e preocupados com o dinheiro que a cidade gastaria com advogado, muitos votaram no outsider, dando-lhe a vitória. De fato, quando Geiger tomou posse, o candidato "nativo" deu-lhe congratulações

e informou "que como era a vontade do povo", ele aceitava o resultado. Ou

seja se Geiger não tivesse vencido o segundo escrutínio, os "nativos" não teriam aceito o resultado, o que poderia implicar o uso da violência. As associações voluntárias de Mullet Springs, que de qualquer forma têm uma maioria de outsiders, atuaram em conjunto para lhe dar a vitória, mas esta pareceu ser, essencialmente, uma ação conjunta das mulheres, que são, por sinal, as pessoas mais "responsáveis" da vila e não queriam de forma alguma ver seus maridos, irmãos e filhos envolvidos em confusão. Os direitos que os "nativos" acreditam possuir concretizam-se em Mullet Springs, conferindo-Ihes uma superioridade, na competição, aos níveis econômico e político. Os nativos acreditam também serem moralmente superiores. Tal atitude é possível, em grande parte, devido à segregação que impõem aos outsiders. "Nós não falamos com estes yankees", é uma afirmação comumente encontrada na vila. Quando um casal de outsiders aposentados chega, em geral em um trailer, pode viver anos no "Parque dos Trailers", esperando por uma casa vaga para alugar ou morar. Durante este período não serão aceitos por ninguém, na vila. Os únicos contactos que terão serão através das Igrejas locais. Quando finalmente encontram uma casa, tentam estabelecer relações amigáveis com os vizinhos nativos.

Por meses ou anos o tema das conversas será o tempo, consistindo na troca de expressões tais como: "Está um belo dia", ou "Está quente hoje". Aliás, conversar sobre o tempo parece ser nos Estados Unidos inteiro uma espécie de foco cultural. Todos conversam sobre o tempo mesmo com estranhos, sendo esta uma forma de se iniciar um primeiro contacto. Tal costume se revela nas transmissões de rádio e televisão do país, que o utilizam com tal forma e freqüência que, do nosso ponto de vista brasileiro, poderiam ser consideradas obsessivas. De qualquer forma, o tempo é uma das poucas variáveis "neutras", em um ambiente social extremamente competitivo. Finalmente, após talvez anos na mesma casa, os outsiders conseguirão estabelecer uma relação próxima com seus vizinhos, mas nunca muito íntima. O outsider tenderá sempre a ser outsider. Sua segregação leva a que o grupo dos "nativos" se integre num sistema fechado de comunicação, sistema de coleta e processamento de informações sobre oportunidades econômicas, no Condado ou na região, sobre a pesca ou a propriedade vendida ou comprada, que são, na medida do possível, mantidas dentro do grupo. Falar mal de outsiders é uma fórmula para manter o grupo proud, definindo-o como uma entidade moral superior. Informações sobre casos envolvendo "nativos" e outsiders se processam de forma que o “nativo” sempre tenha razão. Um menino pequeno, outsider, estava envolvido, com outros mais crescidos, "nativos", em uma situação considerada negativa, por todos os adultos da cidade. A mãe do menino decidiu dirigir-se aos pais dos meninos "nativos", mas lhe foi recomendado enfaticamente, por uma senhora outsider que mora em Mullet Springs por mais de 30 anos, que não fizesse tal coisa. O problema poderia, se tomada tal medida, tornar-se pior para o menino outsider. A evidência, de um ponto de vista imparcial, é de que os meninos "nativos" eram responsáveis pela situação, não apenas em razão da idade como porque já haviam estado envolvidos em outras semelhantes, no passado. A informação que recebi dos nativos colocava toda a responsabilidade do caso nos ombros do menino pequeno, que se tornou ainda mais isolado, socialmente. O resultado líquido da relação "nativos"-outsiders é de que os últimos tendem a ficar em permanente estado de medo, e são em geral muito cuidadosos no que dizem e fazem. É difícil para eles, conforme já vimos, entrar em competição econômica e política com

os "nativos". Por estas razões uma outsider muito lúcida disse-me que os "nativos" formam uma espécie de "aristocracia" local. O outsider é também chamado de yankee, termo usado para designar os indivíduos nascidos no Norte do País, e possuindo até hoje, no Sul, um sentido carregado de conotações negativas. Em Mullet Springs e, ao que parece, em outras áreas do Norte da Flórida, o termo yankee adquiriu porém outra conotação, já que é utilizado depreciativamente para designar o estranho, em geral. Em MulIet Springs a oposição "nativos"-oulsiders ou yankees, tem uma forte conotação rural-urbana. Embora a maioria dos outsiders (cerca de 70%) venha de Estados sulistas, todos os não "nativos" são a priori considerados yankees, mesmo que procedam de University City ou de Atlanta, capital do Estado sulista vizinho, da Geórgia. Apesar de suas origens sulistas, a maioria destes outsiders não são country people, o que poderia ser traduzido por "roceiros". Não apreciam a country music, correspondente à nossa música caipira, falam um dialeto diferente, e se alimentam mais de sanduiches e batatas, ao envés de peixe acompanhado do tradicional mingáu

de milho do Sul (grits). Na maioria, os outsiders provêm da classe trabalhadora urbana, e são como tal considerados yankees. Alguns outsiders roceiros, podem ser classificados como "simpáticos" (friendly) e deixam de ser considerados yankees, ao menos pelos "nativos" que os conhecem. Um informante "nativo" tem um amigo originário do Estado nortista de New York e não o considera yankee: ''Yankees, George, estão principalmente na Pennsylvania e não em New York". Incidentalmente, esta informação foi prestada durante a campanha de Geiger para o Conselho da cidade, e Geiger

é da Pennsylvania. O conflito entre um modelo urbano e o de uma pequena

vila rural reflete-se claramente na política. Os outsiders querem uma cidade limpa e um sistema impessoal de aplicação da lei. Insistem em pressionar a cidade para a obtenção de medidas tais como a remoção dos carros estragados que ficam eternamente estacionados nas ruas. Em um caso

particular, o dono de um desses carros era um membro do Conselho da cidade

e sua reação foi significativa: "É minha propriedade e faço o que quero com ela. Vocês, yankees desgraçados (damn yankees), são a causa de todos os problemas da vila. Tudo o que vocês querem é nos mudar". A utilização depreciativa do termo yankee tem sem dúvida suas origens nos tempos da Guerra Civil, quando os habitantes do Norte devastaram o Sul e libertaram os pretos da escravidão. Os "nativos"

emprestam a esta palavra um significado pleno de ódio e ressentimento, em Mullet Springs. Muitos dentre eles só aprenderam que as palavras damn ("desgraçado") e yankees eram separadas, depois que cresceram. Yankees são, acima de tudo, covardes. A coragem pessoal é um aspecto básico definindo o papel masculino, em Mullet Springs, e yankees não a possuem. Uma anedota que circulava entre os "nativos" diz respeito a um nigger (corruptela de "negro" usada com um sentido depreciativo, no discurso normal dos sulistas) da África que, educado por missionário, "fugiu de volta para o mato". O missionário o encontrou com quatro brancos que ele temperava para cozinhar: um inglês, um holandês, um yankee e um sulista. Para salvar aquelas vidas, o missionário decidiu comprá-Ias. O nigger cobrou U$ 2,00 pela vida do holandês, U$ 1,50, pela do inglês, U$ 4,00 pela do yankee e 25 cents pelo sulista. O missionário perguntou porque era o sulista tão barato e obteve a seguinte resposta: "Você já tentou alguma vez carnear estes filhos da puta?" Além de covardes, os yankees são considerados gente muito engraçada. Entre outros atributos comenta-se que comem coon oysters ("ostras de lontra"), ostras expostas ao sol durante a maré baixa, não comestíveis por seres humanos normais. Os nativos de Mullet Springs receiam que, se os yankees tomarem o controle da vila, não haja mais bebedeira a altas horas da noite ou no domingo, pois em várias comunidades a tendência puritana se impõe e é proibido por lei beber álcool aos domingos. Receiam também que os adolescentes locais dirigindo em alta velocidade sejam presos, ou que o mesmo aconteça com adultos dirigindo bêbados. Os jovens de fora da cidade, principalmente os de cabelo comprido, se encontrados dirigindo alcoolizados, vão para a cadeia. O polícia local é um perfeito diplomata: "se a pessoa mora além da sede do Condado e está dirigindo alcoolizada, levo-a para do Crab Trap Bar, e durante as noites de sábado fica do lado de sede do Condado, levo-a para casa". Ele não interfere nas brigas do Crab Trap Bar, e durante as noites de sábado fica do lado de fora, na rua, observando tudo o que acontece. Se a briga se desloca para a rua, leva os participantes de volta, ao recinto do bar, e, se alguém se machuca, carrega-o para o hospital de University City. Se por qualquer razão o policial tentar impor a lei estadual, do Condado ou da cidade, em incidente onde um nativo estiver envolvido, poderá perder seu emprego. Isto ocorreu várias vezes no passado, e encontrar um policial permanente tornou-se um sério problema

para o Conselho da vila. Um bom exemplo temos na chamada "lei dos cachorros". A cidade tinha e ainda tem excesso de cães e gatos. Algumas vezes pode ser perigoso bater em portas de Mullet Springs, especialmente para antropólogos que estão sempre batendo em portas estranhas. Por volta de 1970 houve muitas reclamações sobre cães, ao Conselho da cidade, e decidiu-se fazer um referendum sobre a necessidade de mantê-Ios presos. A maioria da população votou em favor da prisão dos cachorros e o policial da cidade (que também recebe o nome pomposo de City Marshall, "marechal da cidade" recebeu uma nova missão. Além de suas atividades normais de policial e trabalhador, tornou-se o coletor de cachorros vadios. Logo após o referendum encontramos a seguinte informação, nas atas do Conselho:

"Ameaças violentas foram feitas por Lee Smith contra o chefe de polícia Lewis e qualquer pessoa que incomode seus cães de alguma forma". Este policial, como outros antes, teve que deixar seu emprego. Ao sair, informou ao Conselho "que não sabia lidar com gente de cidadezinhas". Finalmente, o Conselho empregou o presente policial, um "nativo" que sabe como o sistema funciona em Mullet Springs. O conflito entre o modelo dos "nativos" de comunidade rural e o urbano, dos outsiders, é também ilustrado por uma das primeiras moções de Geiger, o conselheiro outsider. O cemitério de Mullet Springs é mantido pela vila - as famílias não são responsáveis pela conservação dos túmulos, o que é considerado espantoso, nos Estados Unidos. Geiger se opôs a este entendimento tradicional e sugeriu que as famílias dos mortos pagassem pela conservação dos túmulos. A moção foi rejeitada por todos os outros conselheiros, pois Geiger simplesmente não compreendia que a vila é uma "grande família", conforme me disse um "nativo". A posição política, econômica e moral mais vantajosa dos "nativos" ocorre, hoje em dia, em Mullet Springs, às custas dos outsiders. Os mesmos princípios ideológicos que no passado criaram o sistema de "castas", determinam hoje em dia as relações entre as duas categorias. Embora os outsiders tenham em geral uma renda maior do que a dos "nativos", estão em desvantagem sob diversas formas, no contexto local. A superioridade dos "nativos" é um aspecto do conceito de proud que, como no caso das relações raciais, explícitas no sistema de casta, implicam em se ter alguém abaixo, no modelo que possuem do mundo. Pride ("orgulho"), neste sentido,

existe às custas de alguém, e "este é um lugar orgulhoso", dizem os "nativos" de Mullet Springs. Ao mesmo tempo em que o conceito de proud é relacionado com a posição em que os "nativos" se colocam no mapeamento ideológico que fazem do mundo. relaciona-se também com a falta de participação de "nativos" em associações voluntárias. Se as associações voluntárias podem funcionar como mecanismos muito importantes de mudança social, especialmente cooperativas e sindicatos, o parentesco, tal como aparece em Mullet Springs, tende a ser conservador. A única meta do grupo de "nativos" é manter Mullet Springs para os seus membros. O parentesco estabelece os únicos canais de cooperação entre os membros do grupo dos "nativos". O cooperação em atividades econômicas ocorre aos níveis do kindred-based groups e das patrilinhagens. A solidariedade contra outsiders aparece ao nível dos grupos de nativos. Como me disse um pescador: "Estamos sempre brigando entre nós, mas todos nos unimos contra os outsiders". O que meu informante não percebeu é que as brigas internas dos nativos e a coesão contra os outsiders são elementos relacionados, ambos contribuindo para a necessidade de conservação do sistema de classes sociais.

Capítulo IX

CLASSES SOCIAIS E RENDA

Embora todos os pescadores nativos de Mullet Springs tendam ao mesmo estilo básico de vida, tornou-se óbvio, pela descrição das relações estabelecidas na fishhouse, que há uma acentuada diferenciação econômica. Esta diferenciação surge de relações econômicas concretas estabelecidas nessas empresas. Os produtores individuais formam uma categoria de pessoas unidas por uma situação comum, o mesmo acontecendo, de outro lado, com os donos de fishhouse. As relações estabelecidas na fishhouse caberiam em definições clássicas de classe social. Sem dúvida o conceito de classes sociais deve implicar em uma abordagem globalizante, na qual a idéia de totalidade esteja presente, mas nada impede que um antropólogo trabalhando com um pequeno grupo humano, como fazem em geral antropólogos, procure os reflexos e expressões de um sistema de classes mais amplo ao nível local. Nesta reflexão, uma primeira tentativa de operacionalização do conceito, para a Antropologia, seria a distinção que Wagley (1952: 147) realiza entre as classes altas nacional, regional e local.

A "Classe Alta"

Os donos de fishhouse, de um lado, possuem acesso a mercados externos e; de outro, compram diretamente o trabalho de seus empregados na fishhouse e, indiretamente, o trabalho dos pescadores, consubstanciado e transformado em produtos do mar. Além disto,

reproduzem e acumulam capital. O sistema de classes sociais em Mullet Springs é na verdade mais complicado, pois a população da vila não é composta exclusivamente de pescadores e donos de fishhouse e a economia local compreende outros setores, além da indústria pesqueira. Há um grupo onde se incluem incorporadores imobiliários, donos de propriedade imobiliária para aluguel, donos de retaurantes e o banqueiro, os quais estão em situação de classe similar. Esta classe possui uma rede de relações sociais que transcende a comunidade local. De forma diversa da descrita por Wagley para o Brasil (1952: 147), as classes altas nacional, regional e local não são, em primeiro lugar, tão claramente definidas, pois classe tende a ser uma realidade não reconhecida nos Estados Unidos (por exemplo, West, 1966: 115). Em segundo lugar, devido ao excelente sistema de comunicações, a classe alta regional é muito mais dispersa através de uma área, ao invés de se concentrar maciçamente em alguma capital ou importante centro urbano regional. A "classe alta" local de Mullet Springs pode-se dividir em dois grupos a que chamaremos de "classe alta tradicional" e "nova classe alta". Ambos são muito influentes no sistema político local e competem entre si. Há relações entre classes de Mullet Springs e o sistema de parentesco. Duas patrilinhagens na vida constituem o cerne da "classe alta tradicional". Uma delas, os Byrds, têm tido destaque no Norte da Flórida por mais de 100 anos (ver MacKay, 1954). Acredita-se na vila que a linhagem descende de grandes fazendeiros proprietários de escravos; membros da aristocracia tradicional do Sul dos Estados Unidos, sobre a qual certamente o leitor brasileiro já está informado através de estórias e filmes. Possivelmente, esta ascendência aristocrática é verdadeira, pois as famílias proeminentes do Sul, pelos idos de 1860, constituiam parte da aristocracia. A velha casa no centro da vila é chamada por alguns de "a velha mansão de Byrds". Muitos dos membros da linhagem foram prefeitos (mayors) ou participaram, como deputados e senadores, na política estadual. Os Byrds se relacionam com os outros nativos através de parentesco, porém mais freqüentemente e há mais tempo que os "nativos" médios têm-se casado com outsiders. Possuem uma série de investimentos em outros locais da Flórida, mas em Mullet Springs sua riqueza consiste principalmente em casas para aluguel. São donos de toda uma vizinhança onde alugam essas casas para nativos e outsiders, indiscriminadamente.

A segunda linhagem da "classe alta tradicional" envolve-se muito

menos em política. Hoje em dia seus membros conservam o monopólio da distribuição de combustível na vila, com três postos de gasolina, além de possuirem uma “marina" e terrenos. Estão, em muito menor escala do que os Byrds, envolvidos com o mundo exterior, interagem mais com os "nativos", com os quais têm-se casado mais do que os Byrds. Um produtor individual me informou de que, quando menino, "podia brincar com os Byrds, mas não entrar em sua casa pela porta da frente". A "classe alta tradicional" compreende ainda remanescentes de velhas linhagens que praticamente desapareceram da vila. Seus representantes agem conjuntamente com os membros das outras linhagens da "classe alta

tradicional", para manter poder e privilégios na vila. Desde a Segunda Guerra Mundial, com a aparição da "nova classe alta", os dois grupos vêm competindo.

A "nova classe alta" é uma combinação de indivíduos que fizeram

fortuna de maneiras diversas, após a Segunda Guerra Mundial. Especulação com terras e oportunidades surgidas de desapropriação e venda, pelo Governo, de propriedades de pessoas que não pagavam impostos (tax sales), transformou pescadores em agentes imobiliários. Um bom exemplo é o da Ponta do Pelicano, hoje em dia um grupo de vizinhança, de propriedade de dois homens. Durante os anos 50 os negócios de restaurantes cresceram em Mullet Springs, possibilitando que alguns donos de restaurantes comprassem terra e começassem a fazar loteamentos e construções para revenda.

Provavelmente o fator mais importante para a formação da "nova classe alta" foi a chegada da família MacDallen a Mullet Springs. Os MacDallen eram banqueiros em Kentucky, e venderam sua propriedade naquele Estado para comprar o Banco Comercial da vila. Os novos banqueiros começaram a apoiar sistematicamente com crédito as iniciativas surgidas da "nova classe alta". O irmão do banqueiro de Mullet Springs é hoje em dia o dono de um importante Banco de uma cidade de 15.000 habitantes do Sul da Flórida. A família possui também interesses em um dos maiores Bancos do Estado, situado na importante cidade de Orlando. O pai do atual banqueiro mora na cidade do México, onde é, ao que parece, dono de outro Banco.

O Banco Comercial de Mullet Springs é um dos menores do Estado;

tinha, em 1974, 400 contas e U$ 1.700.000,00 em depósitos.

Sua principal função é provavelmente a de elo em uma cadeia de Bancos que circulam cheques entre si. A circulação de cheques entre, Bancos vem a ser, em qualquer lugar, a principal função dessas instituições, motivo por que o banqueiro de Mullet Springs já recebeu várias ofertas para vender o seu a redes bancárias maiores, mas tem resistido. Os donos de restaurantes, de fishhouse, de móteis e produtores independentes, não podem ser esquecidos como componentes desta classe. Todos possuem contactos econômicos externos e adquirem o trabalho de outros.

Pescadores e Empregados

Mais de 50% da população ativa adulta de Mullet Springs poderia situar-se nesta categoria. Aqui estariam os produtores individuais, bem como os empregados de restaurantes e móteis, e todos aqueles que vendem seu trabalho direta ou indiretamente. Em sua maioria, as pessoas que trabalham em restaurantes são mulheres, esposas de pescadores. A grande maioria das famílias com crianças está aí incluída. Segundo cálculos realizados pela Universidade de Rhode Island (URI Marine Advisory Service, 1972a e 1972b) sobre os custos e retornos de um barco de multet e de um barco de caranguejos, em Mullet Springs, conferem lucro anual, para o primeiro, de U$ 2.000,00 e, para o segundo, de U$ 4.000,00. Em 1974, durante minha residência em Mullet Springs, a situação não era muito diferente. Esta renda líquida é extremamente baixa para os padrões norte-americanos, se considerarmos que em 1974 o salário mínimo era de U$ 2,00 por hora. Hoje é de cerca de U$ 4,00. Isto significa que uma pessoa trabalhando 8 horas por dia, 5 dias por semana em um emprego estável, receberia U$ 320,00 por mês. Na época atual, cerca de U$ 700,00 por mês. Sem dúvida alguma, pelos padrões brasileiros esta é uma renda que situaria o indivíduo em uma posição média, em nossa escala de distribuição da renda. Os conceitos de "pobreza" a "afluência" variam, porém, de país para país, e uma pessoa que recebe dois ou quatro mil dólares por ano (de Cr- 24.000,00 a Cr$ 48.000,00) é considerada muito pobre nos Estados Unidos. Tal situação é espelho bastante fiel da profunda assimetria na distribuição da renda, no Brasil, que ainda mais se

acentua se considerarmos que, de alguns anos para cá, o custo de vida em nosso país tem-se elevado bem mais que o custo de vida dos Estados Unidos.É extremamente interessante por outro lado que, embora com rendimentos tão baixos pelos padrões norte-americanos, mais da metade dos pescadores não aceite auxílio de assistência social do Governo. Muitos aposentados são marginais, de certa forma, em relação ao sistema de classes local, pois não trabalham. Alguns deles tiveram no entanto que começar a trabalhar, pois a pensão que recebiam de sua aposentadoria era demasiadamente baixa (cerca de U$ 70,00 por mês). Entre estes encontram-se principalmente viúvas e produtores individuais. Em 1974 havia 219 pessoas recebendo pensões, inclusive 46 crianças. Considerando o baixo valor dessas pensões de aposentadoria, 29 indivíduos em 1974 recebiam complemento de pensão através de um programa do Governo Federal Norte- Americano, o Social Security Income (Renda da Segurança Social). Quase todos os seus beneficiários em Mullet Springs recebiam o auxílio máximo de U$ 140,00. A assistência social do Governo é, portanto, muito importante na vila. Além do programa assim descrito, de complementação de pensões de aposentadoria, há um do Governo Estadual chamado "Ajuda para famílias com crianças dependentes", que beneficia a 4 crianças e seis adultos da comunidade, perfazendo uma média, em 1974, de U$ 111,00 por mês. Até o Condado tem um escritório de assistência social, que administrou os fundos federais com os quais foram construídas as 17 casas vendidas, ou melhor, quase doadas, devido ao seu preço, a 30 pessoas de baixa renda. O escritório de assistência social do Condado paga ainda, ocasionalmente, os custos de um funeral ou de uma ambulância. A mais importante forma de assistência social nos Estados Unidos e em Mullet Springs são os "coupons de comida" (food stamps), a que já nos referimos e cujas finalidades esclarecemos. Em 1974 havia em Cohen Country um total de 523 famílias recebendo food stamps, perfazendo um total de 1669 indivíduos, dos quais 921 eram pretos e 738 eram brancos. Portanto 30,7% da população preta do Condado e 6,7% da população branca recebiam este benefício. Em Mullet Springs, no mesmo período, cerca de 100 pessoas recebiam food stamps ou 13,3% do total da população; 11,3% dos brancos da cidade recebiam o benefício, ou seja, quase o dobro do percentual para os brancos do Condado como um todo. A percentagem

seria bem maior se os pescadores não considerassem, dentro do princípio de proud, tão humilhante depender de outros ou do Governo. O sistema de assistência social nos Estados Unidos, como um todo, e também nesta pequena vila do Golfo do México, creio que ficou evidente ser um mecanismo básico de controle social, mantendo as parcelas da população mais carentes acima do nível de subsistência, e, pelo menos, com a posse de alguns dos objetos que marcam a maciça classe média norte-americana.

As Visões do Sistema de Classes

Apesar da obviedade do sistema de classes de Mullet Springs, tal como emerge das relações estabelecidas na fishhouse, o povo da vila tem idéias muito diferentes sobre o assunto.É claro que o próprio conteúdo semântico da palavra "classe" varia quando é consultado o povo local. A resposta de muitos informantes lembrava a que West (1966: 115) encontrou em Plainville: "Este é um lugar onde todos são iguais. Você não encontrará classes aqui". Outros informantes porém reconheceram a existência de diferenciações sociais de vários tipos, mas os critérios de "classe" diferiam. Todas as conotações negativas e emocionais presentes na semântica do conceito não são usadas pela maioria da população local para identificar diferenciações econômicas, mas principalmente para o que Weber (1953: 64) chamou de "distribuição da honra social", algo aproximado aos seus "grupos de status" (1953: 68). Não há consenso quanto às diferenciações de "classes" e cada grupo ou indivíduo. escolhe o critério de diferenciações que o coloca em situação de "classe alta". O homem de Mullet Springs é proud e desta forma não pode reconhecer a existência de hierarquias em que figure em uma classe baixa. Mais do que os de nível de renda inferior, os indivíduos de renda elevada, quando indagados sobre diferenças de classe, vêm com a muito americana resposta de que "aqui não há classes ou diferenças". Alguns deles, no entanto, definem "classe" como baseada em riqueza e em coisas que o dinheiro pode comprar; em um padrão de consumo, enfim, implicando em fatores como um novo carro todo ano, uma boa casa, uma viagem à Europa e uma educação universitária para os filhos, o que é muito caro nos Estados Unidos.

Pode significar também ir ao bar do Springs Hotel, mas nunca ao Crab Trap Bar. Um indivíduo definiu estas características com uma forma de "sofisticação". Em alguns poucos casos isto significa a não realização de determinados trabalhos, como no caso da senhora (ironicamente classificada pelos nortistas como uma "lady do Sul"), que se recusa a carregar o lixo para a frente de sua casa. Os habitantes de Mullet Springs com algum nível de educação formal superior ao da escola secundária afirmam que "educação" é um critério de diferenciação de "classes". Este ponto de vista é também partilhado por muitos que apenas possuem um diploma de escola secundária, mas que, apesar disto, se consideram educados porque seguem regras de etiqueta que marcam as "pessoas educadas", como também por gostarem de ler livros e revistas informativas. Muitos pescadores, e principalmente suas esposas, consideram a "educação" como um critério básico, nesta hierarquia de status. A maioria dos pescadores reconhece a "moral" como o critério mais importante. Há um duplo padrão de "moral em MulIet Springs, um para homens e outro para mulheres. Para homens ser "classe baixa" significa "ser capaz de trabalhar mas depender dê Welfare (assistência social)". Para mulheres significa ser uma "vagabunda". Os homens "capazes de trabalhar, mas que vivem de Welfare" e as mulheres consideradas "vagabundas" são normalmente evasivos, quando indagados sobre diferenças sociais. Isto nos leva a concluir que aparentemente concordam com estes últimos critérios. Do que foi exposto acima pode-se concluir que há uma relação entre classes sociais, de um ponto de vista objetivo, e "classes", no sentido em que o povo de Mullet Springs usa o termo. Cada classe, ou segmento de classe, tende a enfatizar um critério de diferenciação de "classe" que vai situar o grupo em uma posição elevada, na hierarquia de prestígio. Assim, estes diferentes critérios podem ser considerados como expressões de ideologias de classe (ver, por exemplo, Mannhein, 1940 e Stavenhagen, 1969). Os mesmos valores que influenciam outras áreas da organização social local, influenciam esta particularmente. O conceito de pride requer que os informantes se situem alto, mesmo quando haja uma hierarquia concreta em que estejam abaixo. Desta forma a mãe do banqueiro e o próprio banqueiro foram classificados como "classe baixa", pois não falam um "bom inglês". A exceção da "gente do Welfare e das "vagabundas" reflete uma condição de baixíssima auto-estima reforçada

por uma quase obsessiva reação da comunidade. Conforme se diz em Mullet Springs: "welfare (assistência social) está quebrando o orgulho (pride) do povo".

A reação contra o welfare surge de modos diversos, e é uma das maiores preocupações da população local. Uma forma pela qual se expressa é pelo exagero do número de pessoas que dependem de assistência social do Governo. Informações dadas em boa fé, por professoras, situavam em 60% a percentagem da população que se beneficiava com o welfare, e o número de crianças na escola, nesta situação, foi estimado pela mesma fonte em 85%. Descobri mais tarde, através dos escritórios do Governo que administram a assistência social, que 13,3 % dos moradores dependiam de food stamps. É uma taxa alta, mas não tanto quanto pelas estimativas que me foram dadas. Minha esposa soube de um caso envolvendo uma mulher com quatro crianças, divorciada e sem receber pensão do marido, que se mudara para University City onde trabalhava como garçonete. Retornando uma vez a Mullet Springs para uma visita, um amigo sugeriu que se candidatasse à assistência social do Governo. Seu filho de nove anos, presente, reagiu da seguinte forma: "Nós não somos gente de welfare (Welfare people). Se necessário vou trabalhar, mas nós não vamos nos candidatar a welfare". E alguns dias mais tarde começou a trabalhar, entregando jornais. O número de pessoas que utilizavam o welfare é alto para o Condado como um todo, conforme já foi visto, mas, dada a pobreza geral da vila (pelos padrões americanos de pobreza, naturalmente), o número de beneficiários da assistência social do Governo deveria ser pelo menos o dobro. A reação da comunidade e a auto-estima correspondente em perigo, são as principais razões imediatas para que a percentagem dos mesmos não aumente. Há mesmo uma senhora que não possui qualquer renda, mas que prefere viver dos restos de comida e roupas velhas de seus parentes do que se candidatar à assistência social do Governo. Quem depende de assistência social poderá sempre usar o conceito de pride de forma defensiva, conforme já foi esclarecido. Muitos não compram com food stamps nas mercearias locais. Tentam esconder seu "status" de clientes da assistência do Governo o mais que podem, da comunidade local, e principalmente dos outsiders. Esta aplicação defensiva do conceito apareceu diversas vezes durante meu trabalho de campo, principalmente através de informações que sabia serem intencionalmente incorretas. Por exemplo,

quando entrevistei um dos moradores de uma casa construída pelo Governo, para os pobres, fui convidado a ir pescar com ele, mas fui antes cuidadosamente advertido: "Não sou um pescador. Estou aposentado e agora moro nesta ilha. É claro que pesco apenas por esporte". Mais tarde soube que este homem tinha sido pescador durante toda sua vida. Quando eu estava indo diariamente a uma das fishhouses, onde trabalhei destripando peixe e colhendo dados, em meu primeiro dia perguntei a um homem se trabalhava lá. Respondeu: "Não senhor, sou apenas um amigo de Paul Williams (o dono da fishhouse). Sou aposentado e nada tenho para fazer. Venho aqui para ajudá-Io e conversar com os amigos". Alguns dias mais tarde já tinha certeza de que se tratava de um dos empregados da fishhouse. Exageros dos ganhos dos pescadores são muito comuns: "Ê uma vida muito boa. No verão posso conseguir até 1000 libras de mullet por dia, que vendo por 15 cents a libra". O pescador porém não me disse que trouxe 1000 libras de peixe (cerca de 450 kg) um único dia em muitos anos de trabalho, e que, mesmo aí, o preço era de 14 cents e não de 15, além do que havia sido este um dos maiores preços já pagos pelo mullet, na vila. Os pescadores, é claro, sabem que são pobres e que sua pobreza se deve a relações estabelecidas na fishhouse. É porém uma regra social que isto não se deve reconhecer, embora em alguns casos certas pessoas quebrem a regra. Estes indivíduos não têm, em geral, qualquer laço de parentesco mais direto com os donos da fishhouse e provavelmente possuem um grupo grande de parentes mais chegados, para apoiá-los. Quando as duas únicas fishhouses de Mullet Springs começaram, então, a pagar os mesmos preços, com as mesmas variações diárias, o povo smart da vila começou a observar os dois donos de fishhouse. Logo se percebeu que ambos estavam se comunicando freqüentemente por telefone. Ouvindo as conversas, os pescadores descobriram que estavam trabalhando juntos para manter o preço do peixe a um nível sempre baixo. Um pescador resolveu por esta razão agredir o dono de uma das fishhouses. Por meses todo o povo local ficou apartando a briga entre os dois homens. Outro incidente a que tive a oportunidade de assistir pessoalmente ocorreu quando o preço de produtos do mar caiu, durante o verão de 1974. Dois pescadores descarregaram pesados insultos em cima de um dono de fishhouse, e mais tarde um deles tentou bater no seu filho.

As únicas pessoas que reconhecem abertamente sua dependência frente às fishhouses são os quatro seguidores do movimento messiânico de Sam Sanders, que compõe a "Igreja da Palavra Nova". A teologia da "Igreja da Palavra Nova" é baseada quase que exclusivamente no Velho Testamento e

como o próprio Sanders, que se considera uma espécie de partícula divina na terra, me disse, "Deus falou para os pescadores, fazendeiros e para os pobres do mundo. O Velho Testamento tem a ver com gente preocupada com o que comer cada dia e com a maneira de criar seus filhos, como nós, os pobres, o fazemos. Esta é a razão pela qual adotamos o Velho Testamento". O movimento propõe porém soluções puramente místicas, tal como fazem outros movimentos messiânicos em outras partes do mundo (por exemplo, ver Hobsbawn, 1963), compreendendo mecanismos tais como profecias, curas milagrosas e "falar em línguas". Este último traço implica que os seguidores entrem em espécie de transe, rolem no chão e falem uma língua inteiramente incompreensível, mas, ao que se supõe, tenha um significado.

O não reconhecimento de um sistema de classes sociais marcadas é

um dos aspectos que leva à perpetuação da estrutura social local, que tem sua base no próprio sistema de classes sociais.

Classe, Parentesco e Estilo de Vida

Classe e parentesco estão correlacionados, pois certas linhagens pertencem maciçamente à classe "alta", enquanto, outras, à "baixa". As linhagens classe "alta" são aquelas que classificamos como incluidas na "classe alta tradicional". Em outras situações, as linhas de classe cortam linhagens e mesmo famílias. A mobilidade vertical, após a Segunda Grande Guerra, foi em parte responsável por esta situação, sendo exemplo mais evidente o dono de fishhouse que emprega membros de sua linhagem. A mobilidade é um mecanismo de lubrificação do sistema de classes: um dono de fishhouse compra o peixe que um primo pescou, outro alugará a casa de propriedade de um parente. As pessoas ficarão agradecidas a parentes por terem um mercado garantido para sua produção, uma casa para alugar, ou

pelo crédito fácil para obter algum dinheiro, que em geral não será devolvido.

O prestígio de linhagem, conforme já vimos, não deve ser confundido

com diferenciação de classe, pois algumas das linhagens,

como os Byrds, por exemplo, possuem prestígio e riqueza, mas não tanto quanto algumas das linhagens mais antigas da cidade, e que estão em posição inferior, no sistema de classes. Não há diferenças essenciais de estilo de vida entre os indivíduos de várias classes. A diferença básica e real, neste particular, é entre "nativos" e outsiders. "Nativos", não importa de que classe, têm os mesmos princípios de sexo e geração organizando suas vidas. A mobilidade social pressupõe uma sucessão de re-arranjos de relações sociais e algumas no próprio estilo de vida. Esta diversificação não é porém suficientemente profunda para que se possa considerar básica. O re-arranjo de relações devido à mobilidade de classes pode-se entender através dos padrões de participação em Igrejas. Os nativos classe "alta" tendem a participar mais em Igrejas do que os demais, como em todas as associações voluntárias, em geral. Quando porém uma pessoa começa a ascender no sistema, há uma tendência a mudar de Igreja. O caso é bem ilustrado pela Igreja de Cristo. O primeiro pregador era o irmão do atual banqueiro, e a sua família continua a participar da Igreja. A participação na Igreja confere acesso ao banqueiro e talvez por esta razão, muitos prolutores independentes e um dos donos de fishhouse passaram para a Igreja de Cristo. Houve porém outra razão para o abandono da Igreja anterior por estes indivíduos, além do crédito bancário: a pressão dos parentes para a obtenção de empréstimos. Aqueles que devido à sua situação de classe possuem mais dinheiro, são pressionados a emprestar mais e, estando na mesma Igreja, os parentes terão mais um canal de pressão. Parte da diferença no estilo de vida entre classes é também devida a contatos com o "mundo exterior" - a classe "alta" tende a seguir o padrão de moradia similar aos dos residentes em grandes centros urbanos e a considerar mais importante uma educação universitária para os filhos. Mas talvez a mais importante diferença, que por sinal reflete o padrão de maior número de contactos externos, vem a ser a maior participação dos "nativos" classe "alta" em associações voluntárias. Estão, portanto, em muito maior contacto com os outsiders residentes na vila e, para eles, a oposição "nativos" - outsiders não é tão importante como para os demais. É entre estes últimos que as mais fortes atitudes de desprezo e ódio contra outsiders podem ser encontradas.

Enquanto a indústria pesqueira está inteiramente em mãos de "nativos", há uma invasão de outsiders em outros setores. Duas das quatro lojas de presentes estão em mãos de outsiders e o mesmo ocorre com seis dos sete hotéis e motéis. Estes empreendimentos, no entanto, não usam muito do fator trabalho, reduzindo sua importância em termos de relações de classe. Ainda dois dos três restaurantes, durante o meu trabalho de campo, estavam em mãos de outsiders, mas, mesmo aí, o trabalho em restaurantes é principalmente de mulheres e em tempo parcial, o que faz da indústria pesqueira a mais importante de todas, em termos de emprego de mão-de-obra. Soube que um dos restaurantes atualmente fechado, na vila, será em breve reaberto por um "nativo". Todos estes fatos nos levam à conclusão de que o sistema local de classes sociais, em MulIet Springs, é mais do que tudo um conjunto de relações entre "nativos". Classes, portanto, estão vinculadas ao sistema de parentesco e mais especificamente ao grupo dos "nativos", sendo, o parentesco, dominante também do ponto de vista do povo local. A solidariedade entre os "nativos" atenua a oposição entre classes, atribuindo todos os problemas da vida aos outsiders. Mas a oposição contra os outsiders não afeta os modelos de competição e o valor de smartness orientando a competição entre "nativos".

Capítulo X

CONCLUSOES

Racionalidade, Irracionalidade, Ideologia e Realidade

Neste estudo procurei estabelecer uma série de relações envolvendo

diferentes níveis do universo sócio-cultural de Mullet Springs, quais sejam, o sistema econômico, classes sociais, valores, associações voluntárias e parentesco. As relações essenciais estão representadas na Figura 1. Primeiramente há a relação entre o sistema de mercado e o de classes sociais.

O sistema de mercado traça uma linha separando as duas categorias de

pessoas empregadas na indústria pesqueira: aqueles que têm e aqueles que não têm acesso a mercados externos. Visto de uma perspectiva mais generalizante, o sistema de classes inclui indivíduos que, possuindo embora outras formas de contacto com o mundo exterior, têm uma situação similar à

dos donos de fishhouse e produtores independentes, no mercado de trabalho e

de

bens. Embora surja de relações econômicas concretas estabelecidas através

do

acesso a mercados externos e dos arranjos institucionais da fishhouse, o

sistema de classes sociais existe e persiste, no tempo, devido a urna complexa combinação de outros fatores. Todos estes convergem para dois elementos fundamentais: solidariedade da classe "alta" e pouca solidariedade da classe

"baixa".

da

cooperação na produção pesqueira, maior participação em associações

A

solidariedade

maior

da

classe

"alta"

é

expressa

através

voluntárias e maiores contactos com outsiders da mesma classe. O reduzido grau de solidariedade da classe "baixa" é expresso com a pouca freqüência com que estas características aparecem. O maior grau de solidariedade da classe "alta" é relacionado ao pequeno tamanho da classe, bem como à necessidade de comunicação para negócios e crédito. Então, na classe "alta", valores de oposição contra

outsiders estão presentes, mas de uma forma atenuada. Deste ponto de vista,

a realidade da classe "alta" é consideravelmente afastada dos padrões da

cultura ideal local. Isto é claramente expresso pela maior percentagem de "nativos" classe "alta" em associações voluntárias de Mullet Springs e o correlacionado maior grau de envolvimento com outsiders. Embora haja uma série de relações assimétricas estabelecidas dentro da própria classe "alta", como, por exemplo, as existentes entre o banqueiro e alguns produtores independentes, parece existir uma ênfase em relações horizontais simétricas, entre os membros desta classe. Outro nível de solidariedade diverso do encontrado nas relações internas das classes é o possibilitado pelo uso dos canais de cooperação presentes no sistema social "nativo". Estes canais encontram-se potencialmente presentes para os membros de qualquer patrilinhagem, ou

kindred. É verdade que se trata de canais de cooperação também presentes entre "nativos" de classe "baixa", em circunstâncias como arranjos residenciais, empréstimos de barcos e equipamento, e proteção contra violência. Mas os "nativos" de classe "alta" detêm a base econômica para transformar kindreds e patrilinhagens em unidades produtivas concretas da indústria pesqueira. Trabalhar junto com parentes é positivamente sancionado pela subcultura local, como o é também uma posição de empregador, que situa alto, a pessoa, em uma hierarquia. Ideologia e realidade tendem portanto a estar próximos, sob este ponto de vista particular. O comportamento econômico "racional" dos nativos classe "alta" está diretamente relacionado com o seu elevado grau de solidariedade, no quadro de referência do sistema social local. O mesmo valor de pride que estabelece padrões de participação em grupos, e oferece aos pescadores o acesso a um sistema de parentesco, onde

a cooperação é possível, está, conforme já vimos, presente em todas as

classes sociais, mas, para a maioria dos nativos classe "baixa", os kindreds e as patrilinhagens são até certo ponto categorias não marcadas para fins produtivos. A exceção é daqueles empregados por parentes. Dizem estar "ajudando" um parente,

mas o tipo de "orgulho defensivo" que usam não é o mesmo de que se vale o dono da empresa. Enquanto o parente empregado usa pride para esconder sua situação de inferioridade em uma hierarquia concreta, digamos que o dono da fishhouse experimenta o valor na prática, pois está de fato em uma situação superior. Os grupos concretos baseados no kindred (kindred based groups) oferecem aos "nativos" a interação social necessária e suficiente para preencher as necessidades humanas de amizade e solidariedade. Dentre outras razões, esta leva os pescadores a não sentirem a motivação para se juntar às associações voluntárias da vila. Isto resulta em um nível muito baixo de participação em associações voluntárias, que poderiam ser inovadoras ou ameaçar o sistema de classes sociais. Esse baixo nível de participação em associações voluntárias corresponde diretamente aos princípios organizacionais contidos nas categorias linguísticas smart e proud, e implica menor quantidade de contactos com outsiders, bem como em menor nível de reflexão sobre o sistema social no qual vivem. De fato, a não participação de nativos classe "baixa" em associações voluntárias está associada com uma espécie de "cegueira cultural", frente ao sistema de classes sociais. Este último aspecto exprime o não reconhecimento de hierarquias, mesmo que existam concretamente. A participação em linhagens leva acesso ao grupo dos "nativos", o que é, conforme já vimos, relacionado à fraqueza das associações voluntárias e também ao não reconhecimento do sistema de classes. Os ideais dos "nativos" contribuem ainda para a falta de solidariedade da classe "baixa", desviando a oposição entre classes, quando consideram os outsiders responsáveis por diversos problemas. Interagindo menos com outsiders, os "nativos" estão mais próximos aos valores presentes na subcuItura local. Na maioria das situações, porém, trabalhando para outros ou dependendo de assistência social do Governo, seu comportamento concreto se distancia da ideologia local. Por todo o exposto pode-se considerar a hipótese apresentada no início deste trabalho, como provisionalmente testada. Por cooperarem, os "nativos" classe "alta" são "racionais economicamente". O sistema como um todo é também extremamente racional, incluindo mesmo, nesta racionalidade global, os distanciamentos entre ideologia e realidade. A racionalidade da classe "alta" em atividades

produtivas se identifica com a racionalidade do próprio sistema. A irracionalidade da classe "baixa" é, por outro lado, um aspecto da racionalidade global do sistema.

Uma Perspectiva Comparativa: Racionalidade e o Quadro para Mudança Sócio-Econômica

Na busca de uma perspectiva comparativa parece-me natural voltar à minha herança cultural. Muitos estudos, no campesinato latino-americano, têm analisado problemas relacionados com o comportamento "racional" e com mudança socio-econômica. Alguns destes estudos podem ser comparados com a minha pesquisa de Mullet Springs. O objetivo da comparação vem a ser o encontro de alguns aportes relativos à noção de racionalidade econômica, emergentes da diferença entre os dois contextos socio-culturais, camponês e não-camponês, latino-americano e norte-americano. Escolhi três estudos de comunidades latino-americanas para a comparação. O primeiro, de Shepard Forman, (1970) que analisa os jangadeiros da vila de Coqueiral, em Alagoas. O povo de Coqueiral parece ser extremamente "racional", pois não aceita a inovação tecnológica por ser inviável, dada a generalizada falta de capital e crédito. Os pescadores locais também podem ser considerados "racionais", devido ao reconhecimento de relações do poder emergentes do sistema de classes. Existe até, segundo Forman (1970: 43), uma "cooperativa" patrocinada pelo Governo, que chega a usar a coerção para que dela os pescadores participem. Estes não têm alternativa e aceitam as únicas possibilidades que lhe oferecem uma viabilidade de sobrevivência. Aceitando a realidade são portanto "racionais", de um ponto de vista do comportamento individual. Uma segunda comunidade na comparação é a estudada por AlIen Johnson (1971), os parceiros (meeiros) da Fazenda Boa Ventura, no Estado do Ceará. Similarmente a Forman, Johnson considera os parceiros como homens "racionais". Eles hesitam em aceitar a inovação tecnológica quando esta implica um risco que ameaçaria seu meio de vida básico, pois um insucesso poderia implicar mesmo em morte pela fome (Johnson, 113:13). A classe "alta" local é representada pelo "patrão", que é dono da terra e

a controla, e limita o potencial que possuem os lavradores parceiros para a aceitação de inovação tecnológica. O terceiro caso é o de Tzintzuntzan, uma aldeia camponesa de mestiços e índios situada em Michoacan, no México Central, estudada durante muitos anos por George Foster (1967). De seus estudos de Tzintzuntzan, Foster produziu importantes teorias sobre o conservadorismo camponês, incluindo seu conceito de "imagem do bem limitado". Ao contrário de Forman e Johnson, Foster não utiliza em sua explicação elementos como classe, poder e "racionalidade", considerada ao nível individual para explicar o conservadorismo camponês, mas sim um princípio cognitivo geral. A visão do mundo dos camponeses articulada com a sua organização social explicaria sua aparente "inércia". De acordo com Foster, tudo no mundo camponês é visto como limitado: dinheiro, terra, possessões materiais, prestígio e talvez mesmo sexo (Foster, 1967b: 300-302). Tal visão do mundo traria um sistema em que a acumulação é desestimulada e senão impossível, uma vez que seria realizada às custas de Enquanto Forman e Johnson descrevem uma relação entre poder, classe e "racionalidade" individual, Foster estabelece uma relação entre um princípio ideológico, a "imagem do bem limitado" e uma forma de racionalidade que transcende o nível do indivíduo. Podemos então estabelecer duas relações explicando a pouca receptividade à mudança, por parte dos camponeses: uma primeira (Forman e Johnson) entre racionalidade econômica e individual e falta de poder, e uma segunda, (Foster) entre ideologia e "racionalidade social". Trabalhos como os de Forman e Johnson são essencialmente uma crítica ao estudo mais antigo de Foster. Nestas críticas sobre o conservadorismo camponês há diversos aspectos que me parecem bastante relevantes. Entre estes merece destaque especial a necessidade de inclusão do sistema de classes sociais na análise (Forman, 1970: 137). Penso porém que essas críticas envolvem muitos problemas. Assim é a singela afirmação de que os camponeses são "racionais", de um ponto de vista do comportamento econômico individual. Isto é esquecer "ideologia" e especificamente "ideologia" como um fenômeno articulado a relações da classe. Ademais, tanto os críticos (Forman e Johnson, no caso) como o criticado, Foster, generalizam, a partir de comunidades específicas em meios sócio-culturais particulares, para tipos de sociedades que variam amplamente

pelo mundo. É perfeitamente possível que a "imagem do bem limitado" configure-se como uma base explanatória eficiente para Tzintzuntzan e que a

falta de capital e de poder impeçam a inovação tecnológica em Coqueiral, mas

o que tem acontecido é que conceitos como "racionalidade", "imagem do bem

limitado" e mesmo "campesinato" têm sido reificados como elementos quase únicos na explicação do comportamento econômico. Há diversas considerações derivadas desses estudos que parecem estratégicas, na presente discussão. A primeira é que os pescadores de Mullet Springs, que dificilmente poderiam ser considerados camponeses, participam de uma visão do mundo que George Foster caracteriza como sendo a base da ideologia camponesa. A despeito do estereótipo que norte-americanos

parecem ter de que bens sociais e materiais são ilimitados e disponíveis para todos, os pescadores de Mullet Springs sabem que há uma quantidade limitada de ostras, peixes e caranguejos em sua região e que devem competir por ela.

O mesmo conceito de "bem limitado" poderia ser estendido a seus sentimentos

contra os outsiders, com os quais competem, de certa forma, por bens e prestígio. A segunda consideração refere-se à inovação tecnológica. Algumas inovações podem eventualmente vir a ser uma ameaça ou um reforço para a

estrutura social que tem sua base no sistema de classes. Em alguns casos, como no descrito por Henry Dobyns, Paul Doughty e Harold Laswell (1971: 59),

a violência pode ser usada para se evitar inovações. Eu outros casos, a

inovação tecnológica pode ser de alguma forma neutra, sob este ponto de vista. Possivelmente por tal razão, a inovação tecnológica cai em uma área de "livre escolha" na maioria dos casos aqui considerados, inclusive no de meu estudo de Mullet Springs. A descrição da introdução da pesca de camarões, no Capítulo V, é uma evidência desta forma de inovação. A principal diferença entre as comunidades camponesas latino- americanas acima referidas e a dos pescadores de Mullet Springs é de que os primeiros vivem em um sistema social caracterizado pelo que vou chamar do tipo explícito da síndrome classe-comunidade, devido à marcada separação entre classes sociais, na América Latina. As classes "altas" são, na maior parte, quase comunidades autônomas, com suas próprias subculturas e maior freqüência da interação social de seus membros, ocorrendo dentro dos limites de classes. É importante que se note que quando falo em comunidade,

não estou pensando em um lugar físico, mas aceitando o conceito de Arensberg e Kimball (1965), e suas implicações: um grupo composto de dois sexos e três gerações, unidade mínima transmissora de cultura e de herança genética, que é o foco da interação mais intensa para seus membros. A correlação entre classes e um sistema social fechado até certo ponto, define o que estou chamando de tipo explícito de síndrome classe-comunidade. As variações deste tipo seriam: Primeiro, uma situação onde a classe "baixa" forme um grupo também fechado e relativamente homogêneo, como no caso descrito por Forman. Em Coqueiral o que se poderia considerar como representantes da classe "alta" não moram na aldeia. Kottak descreve uma vila de uma só classe (1966), trazendo um caso ainda mais distintivo: na vila de Arembepe, o povo está a par da existência de um sistema de classes que certamente é uma determinante na maneira de viver local, mas que não se representa por indivíduos em interação constante. A segunda variação ocorre quando uma comunidade contém ambas as classes, sendo porém a classe "baixa" um grupo essencialmente amorfo. Uma das ênfases nesta variação vem a ser em relações assimétricas inter-classe. Os membros da classe "baixa" vêm a ser de alguma forma participantes marginais na comunidade formada pela classe "alta". Esta comunidade é a descrita por Johnson (1971: 123) e está presente na maioria das formas de comunidades estudadas no Brasil (como por exemplo, no caso de Minas Velhas descrito por Marvin Harris, 1971: 102). A classe "alta" de Minas Velhas interagia e casava com representantes da classe "alta regional", enquanto os laços da classe “baixa” eram muito pouco extensivos. Wagley (1971: 134) estabelece a distinção entre os dois arranjos: "Nas zonas rurais do Brasil não há nada comparável em coesão às comunidades coorporativas, proprietárias da terra, índias e mestiças dos Andes, da Guatemala e do México". De outro lado, o sistema de classes em MulIet Springs não é tão aparente. Não há distinções essenciais em estilos de vida entre os representantes das diferentes classes. Tais diferenças, no comportamento do povo de MulIet Springs, não são uma função da participação em diferentes subculturas, como no caso latino-americano. Ao contrário, representam diversos graus de proximidade aos mesmos ideais. Diferenças culturais, e com, elas linhas, de comunidade, não são traçadas separando indivíduos de diferentes classes, mas entre pessoas de origens distintas, "nativos" e outsiders. Esta relação

pode ser chamada de um tipo implícito de síndrome classe-comunidade. É pelas relações entre comunidades e sistema de classes sociais que se pode começar a estabelecer alguns níveis em que o comportamento é "racional" ou "irracional". Para fazê-Io é necessário se saber qual a consciência que os indivíduos têm do sistema em que vivem. Um tipo explícito da síndrome classe-comunidade torna um sistema de classes auto-evidente, implicando em métodos mais diretos de controle social. Quando a síndrome toma uma forma implícita, as relações de classe deixam de ser evidentes, a mobilidade vertical tende a crescer, mas o preço pago é o não reconhecimento do sistema. Podemos então inferir, por exemplo, que os jangadeiros descritos por Forman, seriam "racionais" de um ponto de vista econômico. Eles não mudam, pois devido a um cálculo de risco sabem não ser isto possível. Já os pescadores de Mullet Springs têm a liberdade de mudar, mas não o fazem. Sua "racionalidade" deve ser compreendida ao nível do sistema como um todo. Esta compreensão pode nos levar a refletir sobre problemas que têm sido centrais, para uma perspectiva antropológica, cf. Bibliografia sobre "racionalidade" do comportamento humano. Desde Maine (1964: 225), sociedades tribais têm sido caracterizadas por status, formas de comportamento prescrito, enquanto sociedades não-tribais têm sido caracterizadas por "contratos" ou associações voluntárias. Johnson e Bond (1974:56) demonstram como os antropólogos têm usado estas abordagens - descrevendo sociedades tribais, a ênfase tem sido em estudos de parentesco com uma perspectiva baseada na norma como explicação. Descrevendo sociedades camponesas, a ênfase tem sido no padrão de comportamento emergente dos membros individuais da comunidade". Johnson e Bond (1974:66) mostram que as relações de "amizade" ("livre escolha") e o "parentesco" ("comportamento prescrito") estão presentes nos dois sistemas sociais que estudaram, uma comunidade tribal africana e uma comunidade camponesa brasileira. Embora demonstrando a relevância das duas formas de comportamento no estudo desses tipos de sociedade, eles essencialmente aceitam a dicotomia entre uma sociedade tribal baseada na norma e no parentesco, e a perspectiva individualista dos camponeses (1974: 66) . Se porém incluirmos um terceiro tipo de sociedade na comparação, nem camponesa, nem tribal como Mullet Springs, pode ser sugerido que não há uma maior diferença entre sociedades tribais e

complexas, em termos do estabelecimento de áreas de "livre escolha" e "comportamento prescrito". A diferença seria entre alguns tipos de sociedades complexas e alguns tipos de sociedades tribais. O contraste entre os tipos de sociedades complexas seria dependente dos arranjos sócio-culturais particulares encontrados em cada tipo de sociedade. Uma implicação teorética deste raciocínio é que, no estudo das sociedades complexas, o problema não é substituir uma abordagem baseada na norma por uma no comportamento "racional". Noções como a "imagem do bem limitado", "competição", "poder", "comportamento racional" e outras, podem ser encontradas em todas as sociedades humanas e em cada um de nós, como indivíduos. O importante é procurar o peso explanatório relativo de cada um destes conceitos em contextos sócio-culturais específicos.

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Este livro foi impresso nas oficinas gráficas da Editora Vozes Ltda., Rua Frei Luis, 100 - Petrópolis, RJ,com filmes e papel fornecidos pelo editor.

1971

- lntroduction to Brazil. New York. Columbia University Press.

O Autor que dá ao relato de sua tarefa um despretensioso caráter didático e - também político - dessacraliza o trabalho do pesquisador social pela escrita mesma de seu discurso. E pelo desnundamento da "história da pesquisa" que expõe, com franqueza e pessoalidade, as vicissitudes da mesma (e de seu realizador). Assume, assim, o trabalho um tom ensaístico que atrai a leitura e que, por vezes, impede maior extensão de tratamento e rigor conceitual na definição de algumas categorias. A acessibilidade do leitor não- especializado ao texto está assegurada pelo que vem de ser dito e pelo cuidado na exposição etnográfica e pela despretensão que caracteriza o trabalho. Despretensão que, creio, deve ser, hoje, vista como extremamente positiva como contraponto à ininteligível algaravia de tantas de nossas teses e monografias, cheias de pompa, circunstância e sensaboria.

Luiz Felipe Baeta Neves

O livro Os Pescadores do Golfo tem rara qualidade política: é uma análise feita por um antropólogo brasileiro de uma comunidade norte- americana. O que, simplesmente, inverte as práticas tradicionais da Antropologia: esta, em sua história, registra uma soma do poder do saber ao poder político que se exprime por uma quase absoluta regra: os antropólogos dos países 'centrais' (do Norte) estudam objetos dos países 'periféricos' (do Sul). Esta inversão - a que o Autor chamou de "inversão lógica" - permite um instigante exercício de "duplicação do descentramento", em que o antropólogo "neutralizará" sua (brasileira) sociedade e verá como ela" reaparece", no país centro do poder do seu saber antropológico, pelo viés/espelho distorcido de uma simples comunidade de pesca do Sul (aqui, dos Estados Unidos

Luiz Felipe Baeta Neves