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Debates

Claudia de Lima Costa
Universidade Federal de Santa Catarina

Feminismos descoloniais para
além do humano

Copyright  2014 by Revista Na introdução à última seção Debate da Revista
Estudos Feministas. Estudos Feministas,1 discorri brevemente sobre a interseção
1
Claudia de Lima COSTA, 2013.
entre estudos pós-coloniais e as teorias feministas, expondo
a polissemia do prefixo “pós” (em pós-colonial) e salientando
os debates na América Latina sobre o encontro entre estas
duas correntes teóricas. Concluí dizendo que seria necessário
dar continuidade à conversa ora iniciada explorando os
feminismos descoloniais, os quais estão surgindo em vários
lugares da América Latina, muitos deles situados nos
desencontros entre feminismos e pós-colonialismos. Seria
necessário, porém, diferenciar aqui os estudos pós-coloniais
do que é geralmente referido como “a opção descolonial.”
Como já sabemos, as questões que se referem à
colonização da Ásia e África pelas potências do Norte
europeu marcaram a genealogia dos estudos pós-coloniais.
2
Eduardo RESTREPO e Axel ROJAS, Assim sendo, para Restrepo e Rojas,2 os estudos pós-coloniais,
2010. por suas imbricações com o pós-marxismo, pós-estruturalismo
e pós-modernismo (sem os quais não seriam possíveis), são
vistos como distantes das preocupações da abordagem
3
Para uma excelente discussão descolonial.3 Apesar de algumas afinidades entre ambos, a
sobre os estudos pós-coloniais no opção descolonial se diferencia dos estudos pós-coloniais
contexto latino-americano, ver
Mabel MORAÑA, Enrique DUSSEL
por vários motivos: primeiro, a descolonialidade está ligada
e Carlos A. JÁUREGUI, 2008. à história das Américas desde os anos 1500 até o presente.
Retrepo e Rojas alegam que o lugar de enunciação da
inflexão descolonial é a diferença colonial, efeito da
colonização da América Latina e do Caribe pela Espanha e
Portugal entre os séculos XVI e XIX; segundo, a abordagem
descolonial enfatiza a continuidade das relações coloniais
de poder (colonialidade do poder) através das categorias
de gênero, raça e classe (como elaborarei a seguir); terceiro,
a descolonialidade busca em seu projeto um desligamento
das epistemologias eurocêntricas ao salientar a importância

Estudos Feministas, Florianópolis, 22(3): 320, setembro-dezembro/2014 929

2012a. lésbicas.7 Segundo Walter Mignolo. as economias emer- gentes. a modernidade é um discurso que suas reflexões acerca do que define a sua interioridade ao criar a diferença a ser colonialismo originaram nas marginalizada e eliminada. que “surge da exterioridade estruturada pela modernidade/ colonialidade quando esta última se constituiu como 5 Walter MIGNOLO. e os sujeitos que lá se situam possuem o direito geopolítico e corpo-político de enunciação espistêmica. para os/as que se A exterioridade é o lugar de residência daquela popu- identificam com o descolonial. por exemplo. p.6 tradução. Em outras palavras. minha tradução. amarelos. inferiorizam seres humanos (colonialidade do ser). etc.8 este projeto não para uma exposição bastante pode ser visto como um novo método para. 2010. gays. descolonizando-os. 37. Assim. Restrepo e Rojas9 nos oferecem a seguinte definição da inflexão/opção descolonial: É um conjunto de pensamentos críticos sobre o lado escuro da modernidadae. articulados pelos condena- dos da terra e que busca entender as condições de reprodução do eurocentrismo e da colonialidade do sistema-mundo. 2014. aquele América Latina. Florianópolis. mulheres. busca desaprender 7 Ver Luciana BALLESTRIN (2013) para reaprender. 29.CLAUDIA DE LIMA COSTA dos diferentes saberes (e paradigmas outros) sendo produzidos em diversos contextos geopolíticos. O não 930 Estudos Feministas. já e da democracia. setembro-dezembro/2014 . para criar exterioridade espacial e temporalmente: pagãos. Estes. a descolonização do conhecimento não será possível se seu ponto de partida for o 9 RESTREPO e ROJAS. lação mundial que não pertence à casa da civilização como pensadores descoloniais. terroristas. por sua vez. ou seja. 2012b. ver Francesca GARGALLO. Maria Lugones afirma que a hierarquia dicotômica entre o humano e o não humano é marca central da modernidade colonial.10 38. 26. mas sim para questionar a própria nial na América Latina. 22(3): 929-934.”5 minha tradução. em suma. comunistas. tem um vocabulário abundante para marcar a diferen- ça. existência do conceito de literatura e da formação literária. subdesenvolvidos. p. interioridade. índios. p. A retórica da modernidade experiências da ferida colonial. primitivos. clara e sucinta do giro de(s)colo- analisar um texto literário. Césaire e Fanon são vistos. Todos estes serão incorporados na modernidade ou deixado de 6 MIGNOLO. minha fora quando necessário. bárbaros. dominam o mundo natural (colonialidade da natureza). das categorias do saber ocidental. para a acumulação de capital. partindo produção de outros saberes das epistemologias geopolíticas e biográficas/corpo-políticas feministas (e indígenas) na (seus dois pilares) privilegia o saber fronteiriço. questionando assim câno- 4 Para uma abordagem sobre a nes e métodos autorizado.4 A opção descolonial. 8 MIGNOLO. constroem hierarquias de gênero (colonialidade do gênero) e hierarquizam seres e lugares a partir de uma matriz de poder global com o objetivo de melhor explorá-los 10 RESTREPO e ROJAS. A ferida colonial se coloca no centro da produção de conhecimento. Em seu artigo publicado nesta seção. 2012a. O projeto descolonial. negros. A missão civilizatória do cristianismo se concentrou na transformação do não humano colonizado em homem e mulher. 2010.

Uma conceitualização [. as colaboradoras da antologia Translo- calities/Translocalidades: Feminist Politics of Translation in the 14 Sonia E. mas apenas dizer que em outro artigo11 11 COSTA. 2010. teorias e textos feministas e sua recepção. como feministas das mais variadas correntes e localizações geopolíticas e corpo/polí- ticas poderiam forjar coalizações entre mundos e ontologias radicalmente diferentes sem reduzi-los a equivalências. apoiando-me. ofereci uma possível resolução ao impasse a partir da noção de equivocação (do perspectivismo ameríndio) e do conceito de tradução. proposto por Norma Klahn. 2014. 750. 2005. Gostaria de salientar. 22(3): 929-934. nos escritos de 12 Marisol DE LA CADENA. perscrutando em torno do tropo da tradução. 2009. Claudia de Latin/a Américas14 examinam de que forma nos feminismos Lima COSTA. p. Para Sonia E. anti- 132. Florianópolis.17 para melhor entender a “colonialidade do poder” deve-se começar pela compreensão das traduções e viagens desiguais das práticas. que saberes são sempre resultado de Estudos Feministas. incluindo a tradução performáti- ca. Como 17 KLAHN. de La Cadena12 e de Stengers13 sobre cosmopolítica. ALVAREZ. transculturação a partir de diversas translocalidades podem contribuir para a construção de “epistemologias 15 Agustín LÁO-MONTES. ontologias e saberes outros. As discussões sobre se o gênero é ou não categoria colonial proliferaram a partir da importante intervenção de Lugones. Por isso. 2014. Lugones vê o gênero como imposição da modernidade/ colonialidade. mas também reinventado pela missão civilizatória como mulher por meio dos códigos de gênero ocidentais. Como exemplo do acima dito. Quis argumentar que a tradução.. Verónica FELIU. setembro-dezembro/2014 931 . com várias autoras apresentando argumentos a fa- vor e contra a existência dessa categoria antes do colonialis- mo e da imposição do poder colonial. Adicionei 13 Isabelle STENGERS. p. das Américas Latin/as tanto tradução (e sua política) quanto Rebecca J. imperialistas e descoloniais. 2014. ou seja. Norma KLAHN..] da transculturação – que promove processos tanto intraculturais quanto transcul- turais de transformação multidirecional e processos de vários níveis de “desculturação” e re-fundação cultural – também objetiva interromper e re-engajar a teoriza- ção contemporânea sobre a colonialidade do poder e a interculturalidad ou interculturalidade.16 16 ALVAREZ. a esses conceitos a mediação da tradução cultural com o propósito de explorar como seria possível conectarmos par- cialmente com mundos pluriversais sem assumirmos uma co- mensurabilidade entre eles. 2007. respectivamente. Não pretendo aqui ex- plorar essa contenda. HESTER. conectantes”15 e forjar alianças políticas antirracistas. com as autoras da antologia acima referida. se torna um importante elemento mediador nesta tarefa e que urge ser incorporada aos debates sobre feminismos descoloniais e sobre mundos pluriversais com suas respectivas cosmologias. e Millie THAYER. FEMINISMOS DESCOLONIAIS PARA ALÉM DO HUMANO humano feminino colonizado não foi somente racializado. Alvarez.

2014.19 O que quero uma discussão instigante sobre as apontar com isso é a necessidade de refletirmos sobre os “raízes” africanas do pós- processos de tradução do conhecimento e de suas catego- estruturalismo. Por exemplo. dialogaram com de luta e participação social. Enfoca outras designações de subjetividades abjetas (tais como puta. provenientes de outras latitudes no Norte. traição diante da apropriação do texto traduzido como parte de um sofisticado aparato teórico proveniente do Norte. corre o risco de se tornar uma dupla traição: primeiro. 1992. explica que qualquer tradução. Bolívia.24 Conforme explica Prada. Mujeres 22 Mujeres Creando é um movi. já que saberes sempre surgem nesses espaços assimétricos de relações de poder e são apropriados. assim contestando as formas pelas quais o Sul é consumido e conformado pelo Norte – integrando a crítica em diálogos não apenas Norte- Sul. tradu- zidos. sim. demarcar”. Assim sendo. suas afinidades com os/as outros/as. possam dialogar com textos e práticas locais. p. Prada. sem uma adequada mediação. ressignificados e redistribuídos. contexto de política feminista além dos muros da academia (onde Anzaldúa havia sido inicialmente lida). O trabalho de mediação se faz necessário para que a tradução desses textos.CLAUDIA DE LIMA COSTA processos de transculturação. o que na política (como 932 Estudos Feministas. culturais características da zona de contato. Tem a ver também com a abertura de espaços de conversação e de novos horizontes para o diálogo. em La Paz. 20 Emily APTER. subvertendo qualquer 19 Ver Pal Ahluwalia (2005) para visão binária entre Ocidente e seus outros. 2006. extranjera) –. rias nas zonas de contato/zonas de tradução20 e a partir da ferida colonial. se torna algo muito mais complexo. setembro-dezembro/2014 . Traduzir. seus gostos. isto é. mas também Sul-Sul. mas também com disponibilizar um trabalho (com todas as consequências que isso implica. foi apropriada pelo Sul do Sul e “incorporada de fato a um feminismo transnacional sem fronteiras a não ser aquelas que o patriarcado. 1987. traição que qualquer tradução já necessariamente implica em relação ao dito original e. estabelecendo afinidades entre os dois projetos políticos. 2014. enunciada ao Sul do Norte. Prada analisa de forma instigante como o grupo de feministas anarquistas bolivianas. Anzaldúa ao transportar Borderlands/La Frontera23 para um 23 Gloria ANZALDÚA. desclasada. e for- mado por mulheres de diferentes indígenas imigrantes nas cidades) e que também adotam origens culturais e sociais. 73. Significa também abrir suas escolhas. segundo. Creando22 – que se autodescrevem como cholas. 21 Ana Rebeca PRADA. chotas e mento feminista autônomo criado birlochas (termos racistas usados em referência a mulheres em 1992.21 discorrendo sobre a circulação dos escritos de Anzaldúa no contexto plurinacional boliviano. de negociações inter- 18 Mary Louise PRATT. 22(3): 929-934. o racismo e a homofobia insistem em 24 PRADA. Tem a ver com tradução linguística. a criatividade como instrumento rechazada. a linguagem de Anzaldúa.18 É extremamen- te difícil apontar a origem de um saber e suas múltiplas hibridizações. então. Florianópolis. com todas as traições e apagamentos que possa incluir) para outros públicos e deixá-lo viajar.

Estudos Feministas. Durham: Duke University Press. SIERRA. Translocalities/Translocalidades: Feminist Politics of Translation in the Latin/a Américas. indígenas e feministas ocidentais situadas nas ciências (ditas) exatas. sob rasura. 11.. Gloria. BALLESTRIN. resistência linguística e. COSTA. HESTER. Revista Brasileira de Ciência Política.” Postcolonial Studies. minha rigorosamente seletiva e estratégica. ALVAREZ. 275-307. Sem abrir mão da categoria (sempre equívoca) do gênero. Concluo esta breve apresentação à seção Debate lembrando que. Rebecca. com ancoragem na lógica dicotômica. San Francisco: Spinsters/Aunt Lute Books. Sonia E. 89-117. 1999[1987]. Revista Estudos Feministas. KLAHN. Claudia de Lima. p. In: BIDASECA. convidando (ou sendo obrigadas a receber) outros entes além do humano para a interlocução. “Out of Africa: Post-Structuralism’s Colonial Roots. Sonia E. Veronica. Juan. Norma. n. p. OBARRIO. Legados. Luciana. APTER. p. a resistência à colonialida- de do gênero implica. Ao rompermos essas fronteiras. 2. COSTA. estaremos certamente iniciando uma nova fase descolonial (o feminismo antropoceno?). v. Claudia de Lima. 8. Buenos Aires: Ediciones Godot/Colección Crítica. 2006. para Lugones (e certamente para as femi- nistas latinas e latino-americanas que contribuíram para a Translocalities/Translocalidades). Karina. entre outras – para repensar as fronteiras coloniais entre humano e não humano. 17. OTO. Princeton: Princeton University Press. mas articulando-a de forma que desafie os binarismos perversos da moderni-dade/colonialidade. Marta (Comps. Significa colocar os paradigmas de representação eurocên- tricos. diria também. Referências AHLUWALIA. p. 3. A tradução nesses termos se faz 25 PRADA. n. FELIU. América Latina e o giro decolonial.25 tradução.). Emily. ALVAREZ. ANZALDÚA. 2014. 743- 753. p. The Translation Zone: A New Comparative Literature. 2009. 2005. 73-74. Pal. FEMINISMOS DESCOLONIAIS PARA ALÉM DO HUMANO com Mujeres Creando) pode comprometer (ou fortale- cer) seus princípios. 2014. mediação e resistência tradutória. v. tradução e interseccio- nalidade performativa: observações sobre ética e prática feministas descoloniais. THAYER. ge- nealogías y memorias poscoloniales en América Latina: Escrituras fronterizas desde el Sur. n.). “Constituindo uma política translocal da tradução”. 2014. entre outras coisas. Alejandro de. latinas. Borderlands/La Frontera: The New Mestiza. Florianópolis. setembro-dezembro/2014 933 . 137-154. talvez possamos nos juntar àquelas feministas – latino-americanas. 2013. Millie (Eds. Equivocação. 22(3): 929-934. matéria e discurso que estruturaram a coloni-alidade do gênero e a colonia- lidade do poder. negras.

Axel. In: LATOUR. Rebecca. 994-1004. 2010. Eduardo (Eds. “The Cosmopolitical Proposal”. PRADA. v. Colombia: Editorial Universidad del Cauca. 934 Estudos Feministas. 57-77.” Marxism and Reality. KLAHN.wordpress. New York: Routledge. HESTER. Imperial Eyes: Travel Writing and Transculturaltion. 2. 1992. “Is Anzaldúa Translatable in Bolivia?” In: ALVAREZ. Walter.). 2014. 2005. Agustín. n. 2010. “The Prospect of Harmony and the Decolonial View of the World. 655-658. New York: Lexington Books. Inflexión decolonial: Fuentes. p. ______ . Millie (Eds. DE LA CADENA. Eduardo. Nancy R. p. 110-120. Making Things Public: Atmospheres of Democracy. STENGERS. FELIU. Norma. 2. v. 2012b. Peter (Eds. Sonia E. Ada María.” In: MIRABAL. In: ISASI-DÍAZ. Cultural Anthropology.CLAUDIA DE LIMA COSTA COSTA. p. Durham: Duke University Press. setembro-dezembro/2014 . Bruno. ROJAS. New York: Fordham University Press. 2007. PRATT. 117-140. RESTREPO. Marisol. p. 2013. 25. p. MIGNOLO. Francesca. THAYER. LÁO-MONTES.. v.). LÁO-MONTES.. “Feminismos e pós-colonialismos. Technofuturos: Critical Interventions in Latino/a Studies. conceptos y cuestionamientos. “Afro-Latinidades: Bridging Blackness and Latinidad. 2014. Translocalities/Translocalidades: Feminist Politics of Translation in the Latin/a Américas. 4. Ciudad de México: Editorial Corte y Confección (1a Edición Digital: http://francescagargallo. 22(3): 929-934. Claudia de Lima. Popayán. Claudia de Lima. 19-43. “Indigenous Cosmopolitics in the Andes: Conceptual Reflections Beyond ‘Politics’”.” Revista Estudos Feministas. 2012a. MENDIETA. WEIBEL. Mary L. Feminismos desde Abya Yala: Ideas y proposiciones de las mujeres de 607 pueblos en nuestra América.). Florianópolis. com). Cambridge: MIT Press. Isabelle. p. 21. Veronica. 334-370. Decolonizing Western Epistemology/Building Decolonial Epistemologies.). Ana Rebeca. COSTA. Agustín (Eds. n. Decolonizing Epistemologies: Latina/o Theology and Philosophy. p. GARGALLO.