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1.

DIMENSÕES

O comprimento pode ser expresso de maneira dimensional por 𝐿; A área e o


volume podem ser expressas como 𝐿2 e 𝐿3 , o tempo como 𝑡. Consequentemente,
velocidade a aceleração podem ser expressas por 𝐿/𝑡 e 𝐿/𝑡².

Outra dimensão fundamental é a massa, simbolizada por 𝑀. Um exemplo de


aplicação é a densidade, expressão por 𝑀/𝐿³. A força pode ser expressa pelo produto da
massa pela aceleração, ou seja 𝑀𝐿/𝑡².

Em resumo, pode-se expressar as variáveis da transferência de momento em


termos dimensionais de 𝑀, 𝐿, 𝑡.

Variável Símbolo Dimensão


Massa 𝑀 𝑀
Comprimento 𝐿 𝐿
Tempo 𝑡 𝑡
Velocidade 𝑣 𝐿/𝑡
Aceleração gravitacional 𝑔 𝐿/𝑡²
Força 𝐹 𝑀𝐿/𝑡²
Pressão 𝑃 𝑀/𝐿𝑡²
Densidade 𝜌 𝑀/𝐿³
Viscosidade 𝜇 𝑀/𝐿𝑡
Tensão superficial 𝜎 𝑀/𝑡²
Velocidade do som 𝑐 𝐿/𝑡

2. ANÁLISE DIMENSIONAL

2.1. Similaridade

Em um campo de escoamento geral a similaridade completa entre um modelo e


um protótipo é atingida apenas quando há similaridade geométrica cinemática e
dinâmica.

Iremos utilizar a letra grega Pi (∏) para indicar um parâmetro adimensional. Em


um problema de análise dimensional geral existe um ∏ que chamamos de ∏ dependente,
dando a ele a notação ∏1 . O parâmetro ∏1 , em geral, é uma função de vários outros ∏′s,
os quais chamamos de independentes. Ou seja, a relação funcional entre os ∏′s é:

∏1 = 𝑓(∏2 , ∏3 , … , ∏𝑛 )

Para garantir similaridade completa, o modelo e o protótipo devem ser


geometricamente semelhantes e todos os grupos ∏ independentes devem coincidir no
modelo e no protótipo. Como consequência:

Se ∏2,𝑚 = ∏2,𝑝 ; ∏3,𝑚 = ∏3,𝑝 ....

Então ∏1,𝑚 = ∏1,𝑝

Ou seja, nessas condições o ∏1 (número adimensional ou grupo adimensional


dependente) do modelo certamente também é igual ao do protótipo.

Exemplo – Similaridade entre automóveis modelo e protótipo

Sabendo que o arrasto aerodinâmico em um automóvel, quando o escoamento é


incompressível, envolvem apenas dois grupos adimensionais tidos por:

∏1 = 𝑓(∏2 )

𝐹𝐷 𝜌𝑣𝐿
∏1 = ; ∏2 =
𝜌𝑣 2 𝐿2 𝜇

Onde 𝐹𝐷 é a magnitude do arrasto aerodinâmico do automóvel que tem unidade


de força (M.L/t²),

Temos o seguinte problema:

O arrasto aerodinâmico de um novo automóvel pode ser previsto a uma velocidade


de 50,0 mi/h em ar com temperatura de 25ºC. Os engenheiros criaram um modelo em
escala 1:5 do automóvel para testá-lo em um túnel de vento. A temperatura do ar no túnel
é de apenas 5ºC. Determine a velocidade com a qual os engenheiros devem executar o
túnel de vento para atingir a similaridade entre o modelo e o protótipo.

Como o grupo adimensional 2 (Reynolds) deve ser igual no modelo e no protótipo,


temos:

𝜌𝑎𝑟,5º𝐶 𝑣𝑚 𝐿𝑚 𝜌𝑎𝑟,25º𝐶 𝑣𝑝 𝐿𝑝
=
𝜇𝑎𝑟,5º𝐶 𝜇𝑎𝑟,25º𝐶
𝐿𝑝 𝜌𝑎𝑟,25º𝐶 𝜇𝑎𝑟,5º𝐶
𝑣𝑚 = 𝑣𝑝 ( ) ( )( )
𝐿𝑚 𝜌𝑎𝑟,5º𝐶 𝜇𝑎𝑟,25º𝐶

5 1,184 1,754
𝑣𝑚 = 50 ( ) ( )( ) = 221,27 𝑚𝑖/ℎ
1 1,269 1,849

Considerando que está condição foi aplicada ao modelo e a força de arrasto média
calculada foi de 21,2 lbf. Calcule a força de arrasto sobre o protótipo.

Como garantimos que existe similaridade, já que o grupo adimensional 2 é similar,


temos então uma similaridade entre os grupos adimensionais dependentes:

𝐹𝐷,𝑝 𝐹𝐷,𝑚
2 =
𝜌𝑎𝑟,25º𝐶 𝑣𝑝 2 𝐿𝑝 𝜌𝑎𝑟,5º𝐶 𝑣𝑚 2 𝐿𝑚 2

𝜌𝑎𝑟,25º𝐶 𝑣𝑝 2 𝐿𝑝 2
𝐹𝐷,𝑝 = 𝐹𝐷,𝑚 ( )( ) ( )
𝜌𝑎𝑟,5º𝐶 𝑣𝑚 𝐿𝑚

1,184 50 2 5 2
𝐹𝐷,𝑝 = 21,2 ( )( ) ( ) = 25,25 𝑙𝑏𝑓
1,269 221,27 1

2.1 Método das variáveis repetidas e o teorema Pi de Buckinghan

No exemplo anterior partimos de grupos adimensionais já conhecidos. Entretanto,


muitas vezes é necessário gerar os parâmetros adimensionais que caracterizam o
processo.

Entre vários métodos disponíveis está o método do Pi de Buckinghan. Este método


permite correlacionar variáveis individuais em grupos adimensionais de número menor
do que as variáveis originais.

Deve ser observado que a analise dimensional não pode predizer quais variáveis
são importantes em dada situação nem traz informações acerca do mecanismo de
transferência física envolvidos no processo.

Se a equação que descreve determinado processo é conhecida o número de


variáveis adimensionais pode ser automaticamente determinada e o significado físico
delas pode ser obtido.
De outra forma, caso nenhuma equação for dada, um método de terminação como
o Pi de Buckinghan deve ser utilizado, entretanto não é obtido significado físico dos
parâmetros.

Em resumo, podemos dividir o método em 6 passos:

1. Listagem dos parâmetros dos problemas, incluindo variáveis dimensionais,


não dimensionais e constantes dimensionais. Deve-se observar se só uma
variável é dependente.
2. Listagem das dimensões primárias de cada um dos parâmetros
3. Tome arbitrariamente (ou de maneira consciente) a redução j no número de
dimensões primárias e calcule k, que é o número esperado de grupos
adimensionais. (k = n – j)
4. Escolha j parâmetros repetidos (aqueles que tem potencial de aparecer em cada
grupo adimensional).
 Os parâmetros repetidos devem abarcar, em conjunto, todas as
dimensões primárias dos parâmetros do problema.
 O conjunto dos parâmetros repetidos também não pode, por si
mesmo, ser um grupo adimensional.
 Nunca se deve escolher parâmetros repetidos que já são
adimensionais.
 Nunca se deve escolher parâmetros repetidos com as mesmas
dimensões.
 Sempre que possível, deve-se escolher constantes dimensionais
ao invés de variáveis dimensionais.
 Deve-se optar pela escolha de parâmetros comuns ao problema,
por isso deve-se utilizar a experiência.
 Deve-se priorizar parâmetros simples.

5. Construa os grupos adimensionais com os parâmetros restantes, tendo por base


os parâmetros repetidos.
6. Verificação e constatação do caráter adimensional dos grupos.
Exemplo – Atrito em um tubo

Considere o escoamento de um fluído incompressível de densidade 𝜌 e


viscosidade 𝜇 através de uma seção longa e horizontal de um tubo redondo de diâmetro
𝐷 (não há influência da gravidade). A fluido escoa a uma velocidade média 𝑉, que
permanece constante ao longo do tubo. Para um tubo longo o escoamento torna-se
totalmente desenvolvido, ou seja, o perfil de velocidade permanece constante ao longo
do tubo. Devido às forças de atrito entre o fluido e a parede do tubo, existe uma tensão de
cisalhamento 𝜏𝑤 na parede interna do tubo. A tensão de cisalhamento também é constante
na região totalmente desenvolvida. Assumimos uma certa rugosidade 𝜀 constante.
Desenvolva uma relação adimensional entra a tensão de cisalhamento 𝜏𝑤 e os outros
parâmetros do problema.

Etapa 1: Com base nos dados da questão, temos que:

𝜏𝑤 = 𝑓(𝜌, 𝜇, 𝜀, 𝑉, 𝐷)

Ou seja, temos 𝑛 = 6 parâmetros, contanto com o dependente (tensão de


cisalhamento)

Etapa 2: Listagem das dimensões dos parâmetros.

Observando que a tensão de cisalhamento tem unidade de força sobre área (igual
a pressão, temos que:

𝜏𝑤 (kg/m.s²) 𝜌 𝜇 (kg/m.s) 𝜀 (m) 𝑉 (m/s) D (m)


𝑀1 𝐿−1 𝑡 −2 𝑀1 𝐿−3 𝑀1 𝐿−1 𝑡 −1 𝐿1 𝐿1 𝑡 −1 𝐿1

Etapa 3: Temos 3 dimensões primárias (M, L e t). Logo, como primeira opção,
tomaremos 𝑗 = 3. Assim o número de grupos adimensionais será:

𝑘 =𝑛−𝑗 =6−3=3

Etapa 4: Escolha dos parâmetros repetidos

Por observação, e experiência, podemos escolher:

𝜌; 𝑉; D
É possível observar que os parâmetros abarcam todas as dimensões primárias do
problema e não formam um grupo adimensional. Além disso, esses parâmetros são
comuns e menos complexos que a viscosidade e rugosidade.

Etapa 5: Através dos parâmetros restantes:

 Primeiro grupo adimensional


O primeiro grupo adimensional é o parâmetro dependente, ou seja, a
tensão de cisalhamento

∏1 = 𝜏𝑤 (𝜌𝑎1 𝑉𝑏1 D𝑐1 )

Dentro dos parênteses, tem-se que:

𝑀𝑎1 𝐿−3𝑎1 𝐿𝑏1 𝑡 −𝑏1 𝐿𝑐1

Igualando ao inverso da dimensão da viscosidade, para tornar o parâmetro


adimensional.

𝑀𝑎1 𝐿−3𝑎1 +𝑏1 +𝑐1 𝑡 −𝑏1 ≡ 𝑀−1 𝐿1 𝑡 2

Logo:

𝑎1 = −1
𝑏1 = −2
Assim:
−3𝑎1 + 𝑏1 + 𝑐1 = 1
𝑐1 = 1 + 3𝑎2 − 𝑏1 = 1 − 3 + 2 = 0
Logo:
𝜏𝑤
∏1 =
𝜌𝑉 2
Um parâmetro adimensional semelhante a este é o fato de atrito de Darcy:
8𝜏𝑤
∏1,𝑚𝑜𝑑𝑖𝑓𝑖𝑐𝑎𝑑𝑜 = = fator de atrito de Darcy = 𝑓
𝜌𝑉 2

 Segundo grupo adimensional

∏2 = 𝜇(𝜌𝑎2 𝑉𝑏2 D𝑐2 )

𝑀𝑎2 𝐿−3𝑎2 +𝑏2 +𝑐2 𝑡 −𝑏2 ≡ 𝑀−1 𝐿1 𝑡1


Logo:

𝑎2 = −1

𝑏2 = −1

−3𝑎2 + 𝑏2 + 𝑐2 = 1

Assim:

𝑐2 = −1

Então:

𝜇
∏2 = = Reynolds = Re
𝜌𝐷𝑉

 Terceiro grupo adimensional

∏3 = 𝜀(𝜌𝑎3 𝑉𝑏3 D𝑐3 )

Assim:

𝑀𝑎3 𝐿−3𝑎3 +𝑏3+𝑐3 𝑡 −𝑏3 ≡ 𝐿−1

Logo:

𝑎3 = 0

𝑏3 = 0

𝑐3 = −1

Então:

𝜀
∏3 = = rugosidade adimensional
𝐷

Assim, concluímos que

𝜀
𝑓 = f (𝑅𝑒, )
𝐷
Assim, para obtermos similaridade, Reynolds e a rugosidade adimensional devem
coincidir. Isso consequentemente levará a um mesmo fator de atrito de Darcy. Pela
experiência, sabe-se que a rugosidade adimensional não é muito importante para
escoamentos laminares o que mostra que a análise dimensional não tem poder de mostrar
quais os parâmetros mais importantes.

3. NÚMEROS DIMENSIONAIS

Número Equação Relação de Significado


Reynolds (Re) 𝜌𝑣0 𝐿 Força inercial
𝜇 Força viscosa
Froude (Fr) 𝑣0 2 Força inercial
𝑔𝐿 Força gravitacional
Weber (We) 𝜌𝑣0 2 𝐿 Força inercial
𝜎𝑠 Força de tensão superficial
Euler (Eu) ∆𝑃 Força de pressão
𝜌𝑣0 2 Força inercial
Cavitação (Ca) 𝑃 − 𝑃𝑣 Pressão − Pressão de vapor
𝜌𝑣0 2 Pressão inercial
Mach (Ma) 𝑣0 Velocidade do escoamento
𝑐 Velocidade do som
Richardson (Ri) 𝐷5 𝑔∆𝜌 Força de flutuação
𝜌𝑉̇ 2 Força inercial

Observações:
Número de Weber
O valor desse grupo adimensional indica a presença e a frequência das ondas
capilares na superfície de um fluido.

Número de Mach
O valor desse grupo adimensional indica se o escoamento se processa a
velocidades tão elevadas que os efeitos da compressibilidade do fluido devem ser
levados em conta
Número de Cavitação
Esse número é usado na análise da probabilidade de ocorrência de cavitação em
uma determinada situação. Quanto menor o número de cavitação, maior essa
probabilidade.

3.1. Navier-Stokes
Alguns desses números podem ser observados na adimensionalização da equação
de Navier Stokes

Restringindo a análise à fluidos de densidade constante, temos que a equação de


Navier-Stokes é definida na forma:
𝐷𝐯
𝜌 = 𝜌𝑔 − ∇𝑃 + 𝜇∇2 𝐯
𝐷𝑡
Ou:
𝐷𝐯 1 𝜇
= 𝑔 − ∇𝑃 + ∇2 𝐯
𝐷𝑡 𝜌 𝜌
Que expandido resulta em:
𝜕𝑣 1 𝜇
( + 𝑣. ∇𝐯) = 𝑔 − ∇𝑃 + ∇2 𝐯
𝜕𝑡 𝜌 𝜌
Definindo as variáveis adimensionais:
𝑣 𝑥
𝑣∗ = ; 𝑣 = 𝑣 ∗ 𝑣0 𝑥∗ = ; 𝑥 = 𝑥 ∗𝐷
𝑣0 𝐷
𝑃 − 𝑃0 𝑦
𝑃∗ = 2
; 𝑃 = 𝑃0 + 𝑃 ∗ 𝜌𝑣0 2 𝑦∗ = ; 𝑦 = 𝑦 ∗𝐷
𝜌𝑣0 𝐷
𝑣0 𝐷 𝑧
𝑡∗ = 𝑡 ; 𝑡 = 𝑡∗ 𝑧∗ = ; 𝑧 = 𝑧 ∗𝐷
𝐷 𝑣0 𝐷

Temos também que:


1 ∗
∇= ∇
𝐷
1
∇2 = ∇∗ 2
𝐷
Então
𝑣0 2 𝜕𝑣 ∗ 𝜌𝑣0 2 ∗ 𝜇𝑣0 ∗2 ∗
( ∗ + 𝑣 ∗ . ∇𝐯 ∗ ) = 𝑔 − ∇𝑃 + ∇ 𝐯
𝐷 𝜕𝑡 𝜌𝐷 𝜌𝐷2
Por fim:
𝐷𝐯 ∗ 𝑔𝐷 𝜇

= 2 − ∇𝑃∗ + ∇∗2 𝐯 ∗
𝐷𝑡 𝑣0 𝜌𝑣0 𝐷

Em termo dos números adimensionais:

𝐷𝐯 ∗ 1 ∗
1 ∗2 ∗
= − ∇𝑃 + ∇ 𝐯
𝐷𝑡 ∗ Fr Re