Você está na página 1de 41

f :1

I
I
':

Rll�T4�
teltA iótfiOS
:
tlt;P.tA
OS vo.
Maria do Pilar de Araújo Vieira
190
Maria do Rosário da .Cunha Peixoto
Evoluçlo humana .
Celso Piedemonte de L ima
�-19�
J:Ci,,..; Yara Maria Aun
Neologismo -
!

�9
· Crla9lo laxlcal
Ieda Maria Alves

Khoury
-192 Amazânla
Bertha K. Becker
.193
1_ fntroduçto ao maneirismo
e à prosa barroca
( Segismundo Spina e Morris
W. Croll

,':194 As duas Argentinas


Professoras da Pontiffcia Universidade
Emanuel Soares da Veiga
Garcia
Católica de São Paulo
-196 O Perfodo Ragenclal
Arnaldo Fazoli Filho
�,96 A Antiguidade Tardia
Waldir Freitas Oliveira
197 Planejamento famlllar
Gilda-de Castro Rodrigues
-.198 lntroduçllo à terapia familiar
Magdalena Ramos
199 Linguagem a sexo
Malcolm Coulthard

APESQU,ISA
'200 ·Aristocratas versus
burguesas? -
A Revoluçilo Francesa
T. C. W. Blanning
�01 O Tratado de Veraalhes
Ruth Henig
202 Jung

EMHISTORIA
Gustavo Barcellos
-203 A geografia Ungfllatlca no
Brasil
Silvia FigL•eiredo Brandilo
204 A Ravoluçllo
Norte-Americana
,·..
M. J. Heale
206 As origens da Ravoklçlo

CEUD I•
{BIBLIOTECA-
Rusae
Alan Wood
206 Coeallo e coerllncle textuais
Leonor Lopes Fávero
207 Como analisar narrativas
Cêndida Vilares Gancho
· 208 lnconfldlncla Mineira
Cêndida Vilares Gancho
Vera Vi!hena 3.' edição
209 O sistema colonial
Y ·: José Roberto Amaral Lapa

m
�10
1--
A unlflcaçllo de ltêlls
John Gooch
'211 A posae da tarra
EDITORA AFILIADA

,:
Cândida Vilares Ganc
· t ho
.Helena Queiroz F. Lope
s
; :'- __ Vera Vi!hena
·

��:,,!l�N
-: );·_
:\
�J�o1
Direção
Benjamin Abdala Junior
Samira Youssef Campedelli '
Preparação de texto
i',
lvany Picasse Batista
Coordenação gráfica
René E. Ardanuy
Coordenação de composição
(Produção/Paginação em video)

-1�
Neide Hiromi Toyota
Hiton do C. Neves S. Filho
Capa
Ary Normanha

9 . ""'<;;c·....
di_ , ., , ='AI4t9RiQ I I QqmjgpqjQ!illl
-
"(J)] .
lwlll . ···········:···· .o.o ... :J..
VG . ..:;:J·'rj··
,b,··3··········· .
......•.•_..........

- ... · ·----------- -----

. . . ,�·
·
..

' e.x , s . . ·.: ::.:. .. . .:


'"FC.l'"fj;'f• �� %. 8 �
.. .

.
D . os ... OÍ:> 'i � ...
.8.,\J.;i,_o.. \'1h" "'!-:���....
.
. •. . ....

L í :

Dow;üq �---------···----- . .. :�:--�������-


P-':� ' ==�:r
.. . ______________

.8.\;i:.Jõ . Cõ({...
. )

Impressão
Gráfica Palas Athena
.
!n_ .l__�
.. l: _
?�_""V:>/.>0 •. .,
!'"j-·;)_c
� \i ·
/:t""" ·cEÚD/·s-EB-B ""3N 85 08 é.
.

03254 4

["r�: �·!-i .11 .�.11!. ��11111 1


......
Nada do que jamais aconteceu pode ser dado
por perdido para a História. Certamente, só à hu­

lií'. t.·
1995

;:�:: -.------- -. 1
manidade redimida cabe o passado em sua ple­
. ..."' ....s dir ei t9�_ reservados pela
.

';:-:�-: , ;: �. · .
-- ; ... �
nitude. Isso quer dizer: só a humanidade redi·
:
.

l!%'.::r;. . , Editora Atica S.A. mida pode citar cada um dos momentos do seu

,'""'
!í{J· '.':<. Rua Barão de lguape, 110- CEP 01507
Jel.: PABX (011) 27l!-932.2- Fax:
-900
passado. Cada um dos momentos torna-se uma
citação na ordem· do dia - dia que é, justamen·
(0111 277-4146 te, o do juizo final.
Caixa Postal 8656- End. Teleg
ráfico "Bomlivro"

l�LiQçr.�� EU�
Walter BenJamin
São Paulo ISP)

c
Sumário
1. Introdução 7

2. O documento - atos e testemunhos


da história 12
Objetividade: o documento escrito fala por si mesmo _ 13
Amplia-se a noção de documento 14
O método como garantia de objetividade: documento
como ilustração 15
A técnica em destaque 16
Documento como expressão da experiência humana_ 17
História social e cotidiano 18
Linguagens e história 19
Linguagens: desafio para o historiador? 2.1
Dimensão própria de cada linguagem 22
O importante é ousar: a bagagem do historiador e o
diálogo com as evidências 25
Estar atento à narração 27
A preservação dos registros da experiência humana: um
trabalho a ser feito 28

3. Os passos da pesquisa 29
Escolha e definição do tema - quem escolhe quem? _ 30
Investigação como resposta a inquietações
acadêmicas 31
Investigação como resposta a questões colocadas
pela própria experiência 33
Delimitação progressiva do tema 34
Redefinição do tema 36
Problematização - muitas histórias · 37
Problematizar incorporando a experiência ___ 38
A formulação da hipótese precedendo o trabalho
empírico _
39
,.",•"\I�'
-�--:. .l �� )i
_ .
. - -·· . · "

; t,_ t l;.._. \9 _ _ - t
::.
.. --�

\ f)\ D \_� ,.,.


'��

"'·«4-�.__...-.J�_........_ .J;iiil!
·

.�.......--�......-..-
--
História como campo de possibilidades ___ 43

1
Diálogo entre teoria e evidências: a história como
construção 44
Seleção das evidências da experiência 45
Importância das fontes na problematização __ 46
"Produto final" - uma produção sempre em
. andamento 50 Introdução
Teoria e prática: mútua determinação 52
Um entendimento e uso da técnica 53

4: A orientação - diferentes experiências


caminhando juntas 65
Professor e aluno: termos de um binômio 65
Pesquisa histórica: determinar o indeterminado __ 67

5. Conclusão 71 ... os valores tanto quanto as necessidades ma­


teriais serão sempre um terreno da contradição,
6. Vocabulário crítico 74 de luta entre valores e visões-de-vida alternativos
Thompson
7. Bibliografia comentada 78
... uma das primeiras coisas a compreender é
que o poder não está localizado e que nada mu­
dará na sociedade se os mecanismos de poder
que funcionam fora, abaixo, ao lado dos apare­
lhos de Estado, a um nfvel muito mais elemen­
tar, quotidiano, não forem modificados
Foucault

Os homens vivem sua experiência integralmente como


idéias, necessidades, aspirações, emoções, sentimentos, ra­
zão, desejos, como sujeitos sociais que improvisam, forjam
saídas, resistindo, se submetendo, vivendo enfim, numa re­
lação contraditória, o que nos faz considerar essa experiên­
cia como experiência de luta e de luta política. Nesse sentido
-11 a luta de classe é, ao mesmo tempo e na mesma medida, luta
de interesses e de valores. Cúltura passa a ser apreendida co­
mo todo um modo de vida e todo um modo de luta, não po­
dendo ser pensada como reflexo ou eco de uma base material.
9
8

ultrapassam uma suposta racionalidade que muitas vezes o


Pensando a história como essa experiência vivida inte ­

I
investigador atribui ao processo histórico. O pesquisador,
gral e socialmente, o conceito de política se amplia sendo de­ pensando assim a história, se depara com o desconhecido e
. finido como todo um espaço da luta. Nesse sentido o campo o inesperado; por isso o instrumental yom.que vai trabalhar
da política ultrapassa o âmbito estritamente institucional, os ajuda-o muito mais a perguntar do que a responder. Quere­
limites da presença e da ação do Estado, para se colocar na mos assim dizer que o processo de investigação não cabe em
multiplicidade de formas de poder contidas nas estratégias esquemas prévios, e as categorias que servem de apoio ao tra­
de controle e de subordinação no social. balho serão construídas no caminho da investigação.
A organização do controle social e das alternativas que Priorizar categorias fixas, abstratas, instituídas, pura­
a ele se opõem não se estabelece de um momento para outro, mente analíticas, em detrimento do processo real significa per­
mas se constitui em projetos historicamente vivenciados em der de vista os processos constitutivos desse real.
experimentações que têm a ver com a correlação de forças Todo conceito é histórico, constituído, em determina­
de cada situação, e significa sempre uma imposição de von­ do momento do processo histórico, por homens reais, con­
tades sobre projetos alternativos pois, ainda que perdedores, cretos, com interesses, valores também reais, concretos.
exprimem vontades, visões e perspectivas do real. Em suma, não adianta discutir a pertinência ou não, as
Se a dominação permeia o conjunto da vida social, a re­ propriedades, á natureza dessas categorias, mas restabelecer
sistência está aí igualmente presente, não apenas de forma o sentido histórico de processos reais. Dessa forma não dá
organizada, mas também sob formas "surdas", "implícitas". mais para falar em "condições objetivas" como condições
Daí a importância que adquire a maneira como a população externas, independentes da vontade humana, significando aí
organiza seu divertimento, suas festividades, suas formas de forças que não se podem controlar ou delas escapar. Isso con­
representar a luta do cotidiano, que certamente se articulam duziria a um conceito de objetividade abstrata e daria mar­
com formas literárias, com a música, a poesia, as práticas gem para uma visão mecanicista de história.
religiosas etc. O poder e a dominação não se localizam ape­ Essa forma abstrata de pensar as "condições objetivas"
nas no aparelho de Estado ou no nível do econômico, mas implica pensar o real como sendo constituído por níveis, ou
existe todo um processo de disciplinarização necessária da po­ elementos isolados: uma base, uma infra-estrutura determi­
pulação, que permeia toda a atividade social, desde o traba­ nante e uma superestrutura determinada por esta, níveis, re­
lho, escola, família, até as formas aparentemente mais ingê­ giões da prática social. Nessa linha de raciocínio a palavra
nuas de lazer. determinante indicaria a existência de leis externas ao homem,
Ao pensar história e cultura dessa forma, não dá para independentes de sua vontade e que portanto não podem ser
incorporar os chamados "novos·objetos" da pesquisa histó­ ,.. controladas, alteradas, inventadas. Nesse caso interessaria ao
rica de uma forma antiga; isto implica redefinir todo o siste­ pesquisador conhecer bem essas leis no sentido de explicar
ma de conceitos com que nós profissionais de história vimos a realidade.
trabalhando. Se, em contrapartida, pensarmos que os homens modi­
A complexidade do real abre para o pesquisador um ficam o processo social e são por ele modificados, não fala­
campo muito vasto de possibilidades de investigação. Isso por­ remos em leis determinantes, mas em pressões exercidas pe-
que entendemos que os papéis sociais são improvisados e
10
11

los próprios homens; pressões determinantes, isto é, locali­


zem parte o pesquisador e sua experiência social, em vez de
zadas, determinadas e não determinantes.
determiná-lo em classificações e compartimentos fragmentados.
Nessa perspectiva "condições objetivas" são entendidas
Assim como outros historiadores que trabalham dessa for­
como resultado da ação humana no mundo material. Isso
ma, Maria Odila Dias, ao estudar "os papéis históricos de mu­
conduz a operar com uma noção de objetividade histórica
lheres das classes oprimidas, livres, escravas ou forras, no pro­
pensada como as condições particulares específicas em que
cesso de urbanização incipiente da cidade de São Paulo entre
os homens empreendem sua atividade sob qualquer configu­
fins do século XVIII e as vésperas da abolição", busca recu­
ração: politica, literária, social, cultural, econômica, religiosa.
perar "as mediações sociais continuamente improvisadas no
O que propomos não é um estudo paralelo do social, processo global de tensões e conflitos que compõem a organi­
do cultural, do econômico, do político, mas sim um estudo zação das relações de produção, o sistema de dominação e de
que leve em conta todas essas aparentes dimensões, sem qual­ estruturação do poder". 3 Ao fazer isso liberta a história de
quer compartimentação ou subordinação. Neste sentido, in­ muitos preconceitos e conduz à percepção de processos histó­
teressam ao investigador as lutas reais; não só aquelas que ricos diferentes, simultâneos. Mostra a coexistência de tem­
·se expressam sob formas organizadas como também as "for­ pos históricos diferenciados e, desse modo, quebra a noção
mas surdas" de resistência, estratégias ocultas de subordina­ de linearidade, progresso e evolução; portanto rompe com a
ção e controle; com isso incorpora grandes áreas da resistên­ lógica do capital, presente em muitos trabalhos de investiga­
cia humana essenciais para a compreensão do social. ção social. Traz para a cena histórica agentes sociais antes re­
Criar novos conceitos, tipo sobre determinação, media­ legados e valoriza-lhes o saber e a experiência de vida, respon­
ção, mas conservando a separação original entre infra e su­ dendo a demandas de conhecimento feitas por movimentos so­
perestrutura equivaleria àquilo que Thompson ironicamente ciais de mulheres, de trabalhadores, de pobres e outros.
se refere como "coser conceitos novos num pano velho''· 1 ou, Essas noções de totalidade, de cultura, nos levam a si­
segundo Williams, estabelecer relações isoladas entre ordens tuar a história como um campo de possibilidades. Imagina­
separadas 2• mos que a história é a experiência humana e que esta expe­
Reordenar todo o conjunto de conceitos implica uma no­ riência, por ser contraditória, não tem um sentido único, ho­
ção de totalidade em que prevaleça o movimento contraditó­ mogêneo, linear, nem um único significado. Dessa forma, fa­
rio se fazendo, desfazendo, refazendo. Recuperar a totalida­ zer história como conhecimento e como vivência é recuperar
de é fazer com que o objeto apareça no emaranhado de suas a ação dos diferentes grupos que nela atuam, procurando en­
mediações e contradições; é recuperar como este objeto foi tender por que o processo tomou um dado rumo e não ou­
constituído, tentando reconstituir sua razão de ser ou apare­ tro; significa resgatar as injunções que permitiram a concre­
cer a nós segundo seu movimento de constituição, do qual fa- tização de uma possibilidade e não de' outras.
Ao se pensar o processo com essa preocupação aban­
1 THOMPSON, Edward P. Miséria da teoria. Rio de Janeiro, Zahar, 1981. dona-se a idéia de sua direção única e inevitável.
p. 185.
2 WJLLIAMS, Raymond. Marxismo e literatura, p. 102. V. Bibliografia co·
mentada. 3DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Quotidiano e poder em S. Paulo no sé­
culo XIX, p. 7. V. Bibliografia comentada.
'

2
[ ·
··" · '.''
·
tígios e registros que aparecem também sob as mais variadas
13

l
· formas como escritos, objetos, palavras, música, literatura,
pintura, arquitetura, fotografia.
Muitas formas de registro da atividade humana foram, du­
rante muito tempo, desprezadas devido'a uma postura que não
O documento - atos tinha como significativas para a história aquelas manifestações.
O termo registro se refere a uma variedade muito gran­
·e testemunhos da história de de manifestações do ser humano que evidencia a amplia­
ção do foco de atenção do historiador interessado em recu­
perar a trajetória dos homens vivendo as várias dimensões
do social.
Entretanto nem sempre foi assim.

A história humana não se desenrola apenas nos Objetividade: o documento escrito fala
campos de batalha e nos gabinetes presiden­ por si mesmo
ciais. Ela se desenrola também nos quintais en­
tre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios,
nas casas de jOgos, nos prostrbulos, nos colé­ Quando a história recebeu o estatuto de ciência, o que se
gios, nas usinas, nos nB.moros de esquinas. deu com a escola positivista em fins do século XIX, o registro
Disso eu quis fazer a minha poesia. Dessa maté­ privilegiado pelo historiador era o documento escrito, sobretu­
ria humilde e humilhada, dessa vida obscura e in·
do o oficial. Esse documento assumia o peso de prova históri­
juStiçada, po'rque o canto não pode ser Urria trai·
ção à vida, e só é justo cantar s� o nosso Canto ca e a objetividade era garantida pela fidelidade ao mesmo.
arrasta as pessoas e as coisas que não têm voz. Essa forma de encarar o registro e de designá-lo pelo no­
Ferreira Gullar me de documento tem uma história.
A valorização do documento como garantia da objeti­
Não só ao poeta, mas também a historiadores incumbe vidade, tão presente entre os positivistas, exclui a noção de
recuperar lágrimas e risos, desilusões e esperanças,.fracassos intencionalidade contida na ação estudada e na ação do his­
e vitórias, fruto de como os sujeitos viveram e pensaram sua toriador e foi sendo construída historicamente.
própria existência, forjando saídas na sobrevivência, gozan­ A palavra documento com o sentido de prova jurídica,
:(
do as alegrias da solidariedade ou sucumbindo ao peso de for­ que conserva até hoje, já era usada pelos romanos, tendo si­
ças adversas. do retomada na Europa Ocidental no século XVII.
Essa experiê!J.cia se manisfesta sob as mais variadas for­ Os positivistas, ao se apropriarem da palavra, conservam­
mas, como valores, como imagens, como sentimentos, co­ lhe o sentido de prova, não mais jurídica, mas científica.
mo arte, como crença, como trabalho, como tradição. Essas O próprio fato de atribuir a palavra documento aos tes­
màrufestaçõestornam-se objeto do historiador através• de ves- temunhos históricos denota uma concepção de história que
•-' '

\ ',.. ' ' ----�_.,

L,..--cr-:=' ,
- -·�-- ,-.-:-· �
15
14

partir das ações dos homens. Daí o conhecimento histórico


confunde o real com o documento e o transforma em conheci­ '
l' se produzir "com tudo o que, pertencendo ao homem, de­
mento histórico. Apreender o real seria conhecer os fatos rele­

I
vantes que se impõem por si mesmos ao conhecimento do his­ pende do homem, serve o homem, exprime o homem, de­
toriador. Em decorrência, só consideravam relevantes para a monstra a presença, a atividade, os gostos e as maneiras de
ser do homem''. 4
história aquilo que estava documentado e daí a importância dos
· Nesse caso, ao documento escrito incorporam-se outros
fatos da política institucional: atos do governo, atuação de gran­
des personalídades, questões de política internacional etc. de natureza diversa, tais como objetos, signos, paisagens etc.
A única habilidade do historiador consistiria em tirar dos A relação do historiador com o documento também se mo­
documentos tudo o que eles continham e em não lhes acres­ difica. O documento já não fala por si mesmo mas necessita
centar nada do que eles não continham. O melhor historia­ de perguntas adequadas. A intencionalidade já passa a ser
dor seria aquele capaz de manter-se o mais próximo possível ,, alvo de preocupação por parte do historiador, num duplo sen­
dos textos, despojando-se de "idéias preconceituosas". Em tido: a intenção do agente histórico presente no documento
resumo o documento falaria por si só. e a intenção do pesquisador ao se acercar desse documento.
Como decorrência desse modo de pensar a história e o Dessa maneira, a partir de interesses precisos no presen­
documento surgiu a preocupação de verificar a autenticida­ te, o historiador escolhe os materiais (documentos) com os
de ou não dos documentos. quais irá trabalhar e formula as perguntas que lhe parecem
Nessa linha de raciocínio, outros tipos de registro, tais pertinentes. Nessa prática, progressivamente, o ponto de par­
como cerâmicas, moedas, fragmentos de tecidos, utensílios, tida da investigação passa do documento para o problema.
armas, instrumentos musicais, detritos humanos, paisagem,
só eram valorizados para se fazer uma história setorizada,
como história da arte, do vestuário, dos costumes, da músi­ O método como garantia de objetividade:
ca etc., ou na impossibilidade dé se trabalhar.com documen­ documento como ilustração
tos escritos oficiais. Neste caso a história somava aos seus
estudos os estudos realizados paralelamente, pelas chamadas Tanto os ''Annales'' como outras tendências, por valo­
ciências auxiliares da história, tais como arqueologia, paleo­ rizarem a história como ciência, acabaram desenvolvendo,
grafia, numismática etc., o que pressupunha um significati­ ainda que diferentemente, formas de abordagem do conhe­
vo grau de erudição por parte do historiador. cimento histórico excessivamente apoiadas em esquemas ex­
Essa postura positivista teve e tem vários críticos, alguns plicativos. Algumas correntes marxistas, por exemplo, ao ge­
contemporâneos, outros não. neralizarem para qualquer tempo e lugar as análises de Marx
sobre conjunturas determinadas, acabam fossilizando suas
palavras. Em decorrência disso a idéia de necessidade histó­
Amplia-se a noção de documento rica inscrita nos fatos aparece como elemento-chave no es-

A "Escola dos Annales", por exemplo, ampliou a no­


4 Cf. FEBVRE, Lucien. Vers une autre histoire. In: -.
ção de documento a partir de uma outra concepção de histó­ Combats pour /'his­
toire. Paris, Librairie Armand Colin, 1965. p. 428.
ria. Para esses historiadores o acontecer histórico se faz a .

181 !:\t����!:G A-GE UD �-


16 17

quema explicativo. Dentro desse esquema, a própria ação dos conceituar a violência, vai colocar em pé de igualdade a vio­
sujeitos históricos (classes) aparece em plano secundário em lência do grevista com a da repressão, quando, na realidade,
relação às determinações estruturais que são os elementos con­ o critério deveria ser o da legitimidade da violência, segundo
dicionantes dessa ação. Essas determinações estruturais são diferentes posições na experiência social. A partir daí torna­
identificadas como a organização da produção entendida se­ se possível perceber que cada uma dessas violências tem uma
paradamente de outras manifestações (idéias, emoções, va­ natureza diferente. Ou por outra, se ô critério é jurídico, to­
lores, sentimentos etc.) tidas como decorrentes dessa. da quebra da ordem é ilegal; nesse caso a violência da polícia
Associada a essa perspectiva, a objetividade do conhe­ é legítima, porque mantém a ordem e até perde sua caracte­
cimento histórico é garantida pelo método. Nesse caso a in­ rística de violência e a violência que quebra essa ordem, co­
tencionalidade do pesquisador entra na definição do tema, mo saques, invasões de terras etc., é ilegítima. Se o critério
na seleção dos documentos, mas principalmente na escolha é de considerar a violência toda vez que se prive alguém do
do método, responsável pela cientificidade do seu trabalho. seu papel de sujeito, toda forma de dominação passa a ser
}'or outro lado, a intencionalidade dos sujeitos históricos fi­
·ca relegada a segundo plano e nesse caso o documento é usa­
·I· violência, desde o machismo, o autoritarismo familiar, até
a violência legal, inclusive a da polícia. Vista por esse prisma
do como ilustração da vontade e competência do pesquisador. I
I· a ambigüidade conceitual da questão da violência desapare­
ce e nem comporta quantificação.

A técnica em destaque
Documento como expressão da
Um procedimento comum entre os historiadores, sobre­ experiência humana
tudo a partir da década de 60, coloca na técnica o critério
de objetividade da construção histórica. Muitas vezes pen­ Nas últimas décadas, se tenta pensar a história ainda que
sando a história como progresso e o progresso em relação di­ com muitas dessas referências mas fora de esquemas e orto­
reta com o avanço tecnológico, desenvolver qualquer tipo de doxias, e se adota uma concepção de história que leva em con­
ciência, inclusive a história, é criar e incorporar técnicas que ta toda a experiência humana a que não é alheio o historia-
garantam um bom trabalho de interpretação. Daí decorre o
·

dor em seu trabalho.


largo emprego da informática, levando às últimas conseqüên­ Pensar a história como toda experiência humana enten­
cias a utilização de dados por sua natureza quantificáveis. dida sempre como experiência de classe que é de luta, e valo­
Assim a própria problematização do objeto é feita a partir rizar a natureza política dessa luta, significa considerar então
desse envolvimento com a técnica. que a história real é construída por homens reais, vivendo re­
Por exagerar o valor dos dados quantificáveis tais co­ lações de dominação e subordinação em todas as dimensões
rito estatísticas, censos, salários etc., em detrimellto de
ou­ do social, daí resultando processos de dominação e resistência.
tros, chega-se às vezes ao exagero de utilizá-los como
con­
I A partir daí, pensar a produção do conhecimento histó­
tendo a explicação do objeto, não se levando em conta
as am:
li rico não como aquele que tem implicações apenas com o
bigüidades e dificuldades conceituais dos dados Se,
. numa saber erudito, com a escolha de um método, com o desen­
$ituação de greve, o pesquisador tiver um
único critério para volvimento de técnicas, mas como aquele que é capaz de
18
19

apreender e incorporar essa experiência vivida, � fazer retor­


Thompson, ao tratar da formação da classe trabalha­
nar homens e mulheres não como sujeitos passivos e indivi­
dora na Inglaterra, nos adverte que, em algumas das causas
dualizados, mas como pessoas que vivem situações e relações
perdidas da gente da Revolução Industrial, podemos discer­
sociais determinadas, com necessidades e.interesses e com an­
nir a percepção de males sociais que ainda temos de curar. 7
tagonismos.
Pensar a história dessa forma faz com que os historia­
Traduzem essa experiência na sua consciência como cul­ dores se voltem também para o estudo do cotidiano e incor­
tura- valores, tradições, idéias, instituições, arte, religião etc. 5 porem novas linguagens ao campo de seus interesses.
O estudo do cotidiano tem sido tão ou mais elucidativo
rlas relações sociais de um sistema do que a análise dos gran­
História social e cotidiano des projetos econõmicos, políticos e sociais propostos para
uma nação, um movimento, uma classe etc. "Incorporar à
Ao historiador cabe dar, ao objeto eleito p'ara estudo, história tensões sociais de cada dia implica a reconstrução da
uma explicação global dos fatos humanos, acima de qualquer organização de sobrevivência de grupos marginalizados do
compartimentação, centrando o eixo dessa explicação nos me­ poder, às vezes, do próprio processo produtivo." 8
canismos que asseguram a exploraÇão e a dominação de uns
homens sobre os outros, e que se traduzem ríâs relações eco­
nômicas, políticas, sociais; culturais, nas tradições, nos sis­ Linguagens e história
temas de valores, nas idéias e formas institucionais.
O que se propõe, conforme nos 'lembra Déa Fenelon, No intuito de dar conta de tudo isso, o historiador se
não é um estudo paralelo do social, do culturaf, do econômi­ vê na contingência de diversificar a gama de materiais utili­
co, do político, mas sim um estudo que leve em conra todas zados na investigação, incorporando novas linguagens: lite­
essas dimensões, sem compartimentação nem subordinação ratura, relatos, cinema, teatro, música, pintura, fotos etc.
ao econômico. É desse modo que entendemos história social. A proposta de a história se ocupar de diferentes língua­
Neste sentido, interessam ao investigador as lutas reais; não gens se explica e se justifica pela idéia de que as relações 'de
só aquelas que se expressam sob formas organizadas (sindi­ dominação e subordinação estão presentes em todas as di­
catos, partidos, associações várias) como também as "for­ mensões do social. Linguagem aqui é entendida como forma
mas surdas'' de resistência, estratégias ocultas de subordina­ de luta e forma de dominação apresentando situações-limite,
ção e controle. Isto significa incorporar grandes áreas da ex­ momentos de tensão e fortes possibilidades críticas.
periência humana sem as quais a compreensão do social se Esse redimensionamento coloca problemas teóricos que
torna precária. ''Interessa recuperar caminhadas, programaS são estar repensando a própria relação da história com essas
fracassados, derrotas e utopias, pois nada nos garante que linguagens. Isto implica também estar buscando procedimen-
o que ganhou foi sempre melhor." 6
6 F'ENELON, Déa. Trabalho, cultura, história social. Revista Projeto Hisló·

5 Cf. THOMPSON, E. P. La jormación de la elase obrera. Barcelona, Laia


ria, p. 27 a 37, especialmente p. 27 a 29. V. Bibliografia comentada.
7 Cf. THOMPSON, E. P. Op. cit., prefácio.
Ed., 1977. Prefácio.
8 Cf. DIAS, M. Odila L. S. Op. cit., p. 8.
20 21

tos que dêem conta dessa relação, desenvolvendo práticas es­ É um objeto privilegiado para alcançar mudanças não ape­
pecíficas. Por exemplo, procedimentos de análise de discur­ nas registradas pela literatura, mas, principalmente, mudan­
so literário, de imagens, sons, procedimentos para recolhi­ ças que se transformaram em literatura pois, mais do que dar
mento de depoimentos etc. um testemunho, ela revelará momentos de tensão. 10 Ela po­
Nesta linha de raciocínio uma questão que se coloca pa­ de expressar possíveis não realizados. Oferece uma avaliação
ra o historiador é observar quem produz uma dada lingua­ do real na medida em que tem uma visão problemática da
gem, para quem produz, como a produz e quem a domina. realidade. Nessa avaliação acaba selecionando a existência de
Tudo isso coloca a questão da luta pelo direito à expressão elementos que obstaculizam a realização das propostas e ele­
e da luta dos dominados pelo direito de se apresentar na ce­ mentos que ajudam.
na histórica como sujeitos. Daí decorre para o historiador Da mesma forma, a música, a pintura, a charge, a TV,
a necessidade de não ver a linguagem como neutra ou "des­ a foto, o cinema estão carregados de propostas, questiona­
politizada", mas pensada "dependendo de um mercado, ga­ mentos, tensões, acomodações; os agentes, através das lin­
rantindo certas modalidades de relações sociais e colaboran­ guagens que lhe são próprias, criticam, endossam, propõem,
do na constituição de certa memória". 9 enfim se rebelam ou se submetem.
Pensar separadamente história/linguagem levaria a si­
tuar separadamente história, linguagem, ideologia, poder, tra­
balho etc. Linguagens: desafio para o historiador?
Ao trabalhar com outras linguagens, é preciso colocá­
las como elementos constitutivos da realidade social. O fato de querer trazer para o trabalho do historiador
A identidade social não é anterior às linguagens pois es­ toda a diversidade de manifestações das relações humanas traz
tas são partes constitutivas daquela. Isto porque, não ape­ duas ordens de dificuldades:
nas expressam e espelham o social, mas a identidade social A primeira delas é a própria tradição historiográfica que
é construída também pelas linguagens. dificulta a incorporação dessas outras linguagens ao trabalho
Nesse sentido, quando o historiador incorpora a litera­ do historiador, como expressão de relações sociais. É uma ques­
tura, por exemplo, como- material, ele não vai fazer uma re­ tão conceitual, na medida em que passa por abrir mão de no­
flexão sobre o autor e sua obra e sua posterior inserção no ções já cristalizadas na historiografia, do privilégio do que é
ambiente social e histórico, como em geral nas histórias da verbal e escrito, por exemplo a separação entre infra-estrutura
literatura. É porque se pensa a obra literária como parte in­ e superestrutura; separação entre classe e consciência de classe;
tegrante do social que não se pode encará-la como reflexo dominação como algo circunscrito ao aparelho de Estado, ou
da vida do autor. E o autor e sua obra inseridos num contex­ emanando desse Estado e não perpassando o todo social. Trata­
to construído a priori. se de pensar numa nova relação entre o particular e o todo.
A literatura, dessa forma, expressa relações sociais pro­ Outra está em o historiador sentir-se despreparado para
postas e, ao mesmo tempo, modela formas de agir e pensar. lidar com elas. O despreparo é o próprio desconhecirnen-

9 Cf. SILVA, Marcos A. O trabalho da linguagem. Revista Brasileira de His­ 1° Cf. SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão. São Paulo, Brasiliense,
tória, p. 45 a 61, especialmente p. 51. V. Bibliografia comentada. 1984. Introdução.
't :

,(C">-•

23
;:;
5.:
_�,.
;·,, Como observa Maria Stella Bresciani, ao trabalhar a ci­
to do objeto, enquanto caminho a ser percorrido, e não a falta
dade na literatura inglesa e francesa do século XIX, os auto­
de conhecimento de técnicas universais capazes de dar conta
res vão usar metáforas da natureza, na medida em que o ur,
da dimensão própria de cada linguagem, enquanto elementos
e conceitÓs abstratos. Não dá para separar a produção de uma <i bano não tinha condições de oferecer as imagens para pen­
sar e representar a si próprio. Exemplos: "ondas de passan­
l lDgÚagem das condições históricas em que foi produzida. Nes­
tes", "mar tumultuoso de cabeças" êtc.
se sentido; o pesquisador, em vez de estar preocupado em ado­ '!
' No caso das imagens, na fotografia, no filme documen­
tàr esta ou aquela técuica "própria" para desvendar esta ou . ;�.
tário por exemplo, o pesquisador tende a identificar esses re­
aquela linguagem, deve e8tar criando procedimentos que dêem .f
, gistros com o real, não os pensando como construção.
conta de desvendar o lugar social onde foi produzida, procu­ I•
� A imagem por si não recupera a realidade. O que ela
rando responder à questão por que as coisas estão representa­
das de uma determinada maneira, antes de se preocupar em
� faz é trazer para sua mente associações de imagens. Em rea­
lidade o enquadramento da foto e do filme corresponde ao
responder o que está representado.
recorte oferecido pelo documento. Daí ser importante anali­
Dentro dessa perspectiva cai por terra o argumento de que
� sar, examinar os planos das fotos (ou dos filmes) e entender
o pesquisador, para dar conta de recuperar um objeto de estu­ ;'.\
'· o porquê de um tal enquadramento e não outro. Da mesma
do que se expressa através da linguagem literária por exemplo, ��
forma, ter em mente que há sempre um campo conceitual me­
deva dominar conhecimentos de lingüística, semiótica. Não resta
dúvida de que tais conhecimentos podem auxiliar na pesquisa, i: diando a relação espectador-fotógrafo, por exemplo.
O pesquisador em seu trabalho, portanto, deverá se preo­
mas se o historiador não extrapolar esse campo de reflexão, pro­
cupar em alcançar o fotografado e o fotógrafo através da foto.
!;
êur,ando desvendar de que se fala, como se fala, de onde se fa­
Por exemplo, um pesquisador, estudando o carnaval
la etc., e para isso estar criando procedimentos capazes de dar
;_; através de fotos, só conseguiu identificar algumas bastante
conta dessa realidade, estar fazendo relações, a investigação será
antigas como fotos carnavalescas a partir das legendas dos
superficial ou inadequada.
jornais e revistas que as publicaram. Isto porque essas fotos
>' não continham nenhum dos elementos que coincidissem com
as representações que o pesquisador faz do carnaval (confe­
Dimensão própria de cada linguagem
te, serpentina, fantasia, máscara). Com isso queremos dizer
É preciso não perder a dimensão própria de cada lin­ da importância do campo conceitual comum aos agentes so­
guagem. No caso específico da literatura, é preciso estar aten­ ciais, entendidos enquanto pesquisador, carnavalescos e fo­
to às metáforas, imagens etc., pois os recursos da linguagem tógrafo, para a compreensão do objeto.
O pesquisador tem que estar atento ao modo como a lin­
são recursos históricos.
Esses recursos se formulam dentro de um campo con­ guagem foi produzida tentando responder por que as coisas es­
ceitual que não é apenas filosófico, mas que é também histó­ tão representadas de uma determinada maneira, antes de se per­
rico; ou seja, está sendo forjado continuamente: são doutri­ guntar o que está representado. Isto porque a eficácia de um
nas, conceitos que se elaboram pela experiência de viver de filme não está propriamente nas informações que passa, mas
cada época e de seus grupos sociais. principalmente nas operações efetuadas por sua linguagem.

:it''
24
25

O filme documentário Os chapeleiros, de Adrian Coa­


de reproduzir
per, feito na fábrica de chapéus Cury, é talvez um dos princi­ sar a idéia de que a vidraria é moderna, capaz
s, porque pos­
pais filmes dessa natureza que, ao mostrar o processo de pro­ grandes chapas de vidro perfeitamente plana
come ça mostrando
dução, se preocupa não em dar uma idéia do grau de tecnolo­ sui tecnologia avançada. Para fazer isso
vidro incan desce nte ao
gia empregada, mas em mostrar a dominação a que o homem a produção artesanal de bichinhos. O
do, e com o auxíli o
está sujeito no processo produtivo, na forma de produção ca­ sair do forno é, ao mesmo tempo, sopra
pitalista. É a máquina dominando o homem: determinando
que se ressal ta,
de uma pinça moldado por um operário. o
a de produzir e
o ritmo, as condições de salubridade etc. ao mostrar essa cena, é o primitivo da form
está no objeto
Focalizando as várias fases da produção, o homem, e não o lírico da coisa produzida. No fundo, o foco
ncias às con­
a máquina, aparece como elemento central. Mostra em deta­ e na forma de produzi-lo. Não aparecem referê
, ao esforço
lhe os movimentos que o trabalhador é obrigado a fazer para dições de trabalho junto ao calor de um forno
bridade do traba­
dar a primeira forma a um pedaço de feltro que será um cha­ humano de assoprar o vidro, nem à insalu
péu. O operário pega o feltro à sua direita, coloca-o sobre uma lho, com as doenças a que estão sujeitos.
plano cu­
espécie de cone, abaixa uma tampa quente sobre esse cone, Em seqüência focaliza-se a produção do vidro
ente sofist icadas.
abre-o e transfere para a esquerda o feltro já enformado, Es­ ja precisão só é possível com máquinas altam
centr al, tor­
sa cena foi filmada primeiramente em close para dar em deta­ Nesse caso a máquina aparece como figura
mercadorias.
lhe a seqüência dos movimentos e depois a objetiva se afasta nando possível a produção de determinadas
ituin­
focalizando a cena a distância numa tomada longa que chega A idéia que passa é da máquina auxiliando e subst
realiz e não
ar
a cansar o espectador. O cineasta transmite ao espectador a do o homem naquelas tarefas que não consegue
focalizado apare­
monotonia dos gestos do trabalhador. Todos esses movimen­ como elemento de dominação. O operário
ce limpo, protegido por uniforme adequ
ado, acessório da má­
tos feitos segundo o ritmo da máquina: os braços mexendo,
a cabeça indo da direita para o centro, para a esquerda e no­ quina e beneficiário dela.
contrast�n­
vamente para a direita, para recomeçar tudo. Usando desse As cenas iniciais da produção de bichinhos
tem a fun­
artifício o cineasta consegue não só demonstrar o cansaço do do com a sofisticada produção de chapas de vidro
tecno logia. A idéia de que o progr esso e o
trabalhador ao executar aquela tarefa, mas também os mús­ ção de exaltar a
e à tecnologia
culos que são solicitados a um esforço maior. bem-estar da cidade estão ligados à indústria
toma da da Aven ida Pauli sta em que
Outros artifícios usados foram o som direto, reprodu­ é mostrada com uma
tescos, com muito vidro , numa arqui­
zindo o barulho do interior da fábrica; a iluminação de mo­ aparecem prédios gigan
do a não disfarçar a pouca luminosidade ambiental; toma­ tetura de vanguarda.
das de cena e montagem que reproduzem o contraste da fi­
sionomia descansada do operário no início da jornada e sua
aparência desfeita e cansada ao final do dia.
O importante é ousar: a bagagem do
·Um exemplo de filme que mostra o lado do capital é o
historiador e o diálogo com as evidências
documentário sobre a vidraria Santa Marina, recentemente
Trabalhar com um conjunto tão diversificado de regis­
exibido nos cinemas de São Paulo. Nesse filme se quer pas-
tros, sendo um campo ainda pouco explorado, tem levado

';i
r
27
26

portanto, formas diferentes de intervir no real, deverá se pro­


o historiador a abrir a própria
trilha. Isto exige, além da ou­ por a recuperar as várias propostas em jogo e as razões da
sadia, de um certo espíri
to de pioneirismo e de uma disposi­ vitória de uma delas sobre as outras, o que significa trazer
ção de "quebrar a cara",
uma reavaliação da prática da in- à tona também as causas perdidas. Para nós isto é recuperar
terdisciplinaridade. . a relação, o movimento, a contradição.
Esta não é pensada agora
em termos de utilização, pelo
historiador, dos conhecimentos
, conceitos e técnicas elabora­
�os por outras disciplinas, mas significa a construção do ob­ Estar atento à narração
Jeto �elo historiador a partir
da problematização e de seus. c�,
nhecimentos e das possíveis contribui es de outras disciph as,
çõ ­ A trama da luta de classes envolve não apenas prátic
nas. O diálogo estabelecido pelo .historiador com as evidên­ cer social
atitudes, como também a memorização do aconte
cias é mediàdo pelas reflexões do historiador que se utiliza tam­ do
que também faz parte do exercício do poder. Faz parte
bém de reflexões feitas por outras disciplinas. É desse diálogo deci­
exercício do poder ocultar a diferença, a contradição,
que surgem os conceitos que 0 historiador vai elaborar. do e,
dindo o que deve ser lembrado, como deve ser lembra
Entendendo que o historiador é capaz de pensar a teo­
em contrapartida, o que deve ser esquecido.
ria, de elaborar conceitos na explicação histórica, e que os
Dependendo da força que um agente social teve no pas­
registros participam (de) e contêm essa explicaçáo, torna-se vez
sado, sua fala será capaz ou não de ser perpetuada. Uma
impossível aceitar conceitos abstratos, acabados, elaborados o domin ante, sua fala se per­
que até agora tem preval ecido
fora desse diálogo entre pesquisador e registros.
petua com muito maior facilidade.
Dependendo de com o 0 historiador se coloca frente aos
Basta lembrar o fascínio que os dominantes exercem so­
debates de sua época, dentro e fora da academia, de como s,
bre os dominados através de seu cotidiano: roupas, veículo
vê a sociedade e de como intervém nela, resultará não ape­ compo rtamen to se impon ­
jóias, moradias, textos, regras de
nas a análise que fará do passado como t;�mbém o interesse Basta lembra r també m o papel que
do como ideal de vida.
por certos assuntos nesse pas
sado. museus exercem na difusão desses valores pelo tipo de acer­
Resultará igualmente 0 privilégio de certas evidências,
vos que habitualmente preservam.
(registros) em detrimento de outras, assim como o modo de ­
Os agentes sociais, ao viverem sua experiência, pensam
tratá-las. estabe lecem relaçõ es etc. Essa expe­
na de diferentes formas,
O historiador, quando está trabalhando determinado ob­ ica
riência tem uma configuração própria que não se modif
jeto, o que está trazendo à tona, conscientemente ou não, é ador.
diante da experiência present e do pesquis
a própria luta de classes do momento que está tratando e do
O pesquisador, preocupado em recuperar a experiência
seu próprio momento. Se faz isso inadvertidamente, sem pen­ ciam.
desses agentes, vai procurar os vestígios que a eviden
sar na complexidade da própria produção do conhecimento, letas e imperf eitas, têm de­
Essas evidências, sempre incomp
pode estar sendo um veículo de perpetuação da dominação isador deverá levar em
terminadas propriedades que o pesqu
de classe. Entretanto, se realizar seu trabalho pensando a his­ adas à exper iência ana­
conta, fazendo-lhes perguntas adequ
tória como um campo de possibilidades, em que os diferen­
lisada e à experiência do analista.
jr:B:':I'::'
B":"'L , _ __ _ ___E_LJ_O 1
tes sujeitos sociais têm diferentes formas de pensar o real e,
..:- OTECA
-:
C '
r
28
!

Quando se parte, por exemplo, da categoria classe so­

3
cial, deve-se fazê-lo como expectativa, como uma maneira
de encantinhar a investigação. O que se deve ter como pres­
suposto é que a classe vive uma relação antagônica que se
expressa em situações de exploração e de dominação em to­
das as dimensões do social. A explicação de como isso se rea­ Os passos da pesquisa
liza só poderá surgir do diálogo entre o pesquisador que pensa
a classe de uma dada forma e as evidências da classe em es­
tudo. Nesse sentido é importante recuperar como essa classe
pensou a si própria e o seu momento, como a contradição
foi vivida.
No diálogo, os resultados obtidos pelo pesquisador
levam-no a fazer novas perguntas e/ou buscar novas evidên­
cias. Ou seja, a problematização do objeto se configura no
transcorrer da pesquisa. Articular o passado historicamente não signifi­
ca conhecê-lo, "tal como ele propriamente foi".
Significa apoderar-se de uma lembrança tal qual
ela cintilou no Instante de um perigo. (...) O pe.
A preservação dos registros da experiência rigo ameaça, tanto o conteúdo dado da tradição
·
humana: um trabalho a ser feito
·
como aqueles que a recebem. Para ambos é um
só e mesmo perigo: deixar-se transformar em
instrumento da classe dominante. (...) Ora, do­
Porque para o historiador vem se colocando o recurso minantes do momento são os herdeiro� de to­
a novas linguagens e, portanto, a novas formas de registro, dos aqueles que uma vez venceram.
Walter Benjamin
também se coloca a questão de como preservá-los, indexá­
los, referenciá-los, divulgá-los para aumentar o intercâmbio,
para democratização desses mesmos registros, muitos deles A história deve ser pensada no duplo sentido do termo:
tendo permanecido inatingíveis por muito tempo. como experiência humana e como sua própria narração, in­
Esta é uma questão que vem preocupando parte dos his­ terpretação e projeção.
toriadores, sobretudo aqueles que vêm realizando pesquisas Essa experiência humana não se modifica enquanto pas­
ou desempenhando funções junto a arquivos, museus, cen­ sado. O que se modifica é a investigação sobre ela, de acordo
tros de documentação e aqueles que vêm procurando maio­ com as problemáticas que o investigador se coloca no presen­
res recursos para o trabalho de magistério em história. te, que envolvem sua própria experiência de vida e as concep­
É importante também lembrar que os registros da expe­ ções das quais parte. Essa subjetividade está presente no traba­
riência humana não estão só nesses arquivos, museus e cen­ lho do historiador, independentemente de ele se dar conta ou
tros mas estão por toda parte, ao alcance de todos. não, influindo na compreensão dos nexos e das relações sociais
imbricadas nas formas de expressão da atividade humana.
30

Isto nos leva a refletir sobre a natureza comprometida


do historiador e da história por ele produzida, seja com .o
seu tempo, seja com uma ótica de classe.
I lo social, a construção do objeto, dependendo da postura
31

teórica do pesquisador e de sua vivência, se realizará por ca­


minhos diferentes, conduzindo a resultados também dife­
Ao mesmo tempo em que a postura e a experiência de rentes.
vida do pesquisador vão estar presentes no seu trabalho, en­ A nossa experiência em sala de aula tem demonstrado
quanto sujeito do conhecimento, esta mesma bagagem é his­ que a postura teórica do aluno, a maneira como se percebe
tórica tornando-o um objeto, isto é, o historiador é também
e se insere no social, se expressa não só no modo de traba­
fruto do seu tempo. lhar o tema mas também no fato de dirigir seu interesse de
Com isso tudo estamos querendo dizer que o conheci­ pesquisa para este ou aquele tema.
mento histórico é historicamente produzido. Desse modo, ao iniciar a pesquisa, as expectativas dos
Enquanto o historiador realiza sua pesquisa e constrói seu alunos ora se orientam prioritariamente no sentido de dar res­
objeto de estudo, os passos de seu trabalho não são separa­ postas a inquietações geradas no próprio curso, ora priorita­
dos uns dos outros nem se encadeiam numa ordem sucessiva. riamente no sentido de responder a questões colocadas pela
Pelo contrário, o encaminhamento da reflexão a partir da po­ sua própria experiência de vida.
sição teórica do pesquisador de sua localização na prática so­
cial, de suas expectativas e do diálogo que faz com as fontes, Investigação como resposta a
é um movimento único, em que o avanço em algumas partes inquietações acadêmicas
auxilia em melhores definições em outras, e vice-versa.
As divisões que apresentamos aqui são apenas no senti­ No primeiro caso preocupam-se em preencher lacunas,
do de assinalar alguns pontos que visamos enfatizar desse mo­ espaços, procurando ampliar a discussão em torno de pon­
vimento único. tos que o curso não abordou.
Dentro dessa perspectiva é que muitos alunos buscam
trabalhar temas mais ligados a aspectos culturais. Por exem­
Escolha e definição do tema plo, quando se propõem a pesquisar sobre a "Semana de Arte
quem escolhe quem? Moderna" muitas vezes o que estão buscando é o entendi­
mento de uma outra dimensão da história ampliando o estu­
Nunca é demais repetir que a definição e o tratamento do para um outro nível que não o econômico, mas visto co­
do objeto de estudo têm muito a ver com a postura de histó­ mo decorrência dele. Os modernistas vistos como formula­
ria do pesquisador. Definir o tema é pensar o objeto e não dores ao nível da cultura, das transformações que estariam
apenas escolher o assunto. Nesse sentido a definição não é um
ocorrendo ao nível do econômico como a industrialização,
ato só inicial: ela se articula com a problematização, forman­ apareceriam como portadores de uma ideologia nacionalista
do com esta momentos e expressão de um único movimento.
e modernizante.
Qualquer que seja o ponto de partida: uma referência Na maioria das vezes partem de uma visão de história
bibliográfica, uma reflexão metodológica, um contato com que identifica a produção do conhecimento com um real que
.fontes, uma experiência de vida, ou um debate colocado pe- lhe é externo, não a percebendo como construção. Nesse
32 33

caso, o que buscam é uma maior quantidade de dados que De Decca, pensando a Revolução de 1930 como expres­
completem um conhecimento histórico "objetivo", "verda­ são de um projeto vencedor e a história como campo de pos­
deiro", que já estaria à disposição. sibilidades, se propõe a desvendar o processo de constitui­
Esses pesquisadores são levados, comumente, a definir ção do tema revolução e do marco 1930 pela recuperação das
seu objeto de estudo a partir de marcos e temas cristalizados propostas em jogo naquele momento: Nesse caso, o marco
pela memória, quer esta apareça como historiografia erudita e o tema aparecem como construção e como representação
ou como tradição num sentido geral. da fala do poder e não como elementos referenciais para a
Nessa perspectiva, não questionando a razão nem o pro­ construção do objeto.
cesso de constituição desses marcos e temas, contribui para Ainda no primeiro caso, outros se interessam por apro­
perpetuar as relações de poder que estão na base daqueles te­ fundar debates e questões suscitadas pelo curso, considera­
mas e daqueles marcos. das importantes para responder a inquietações que lhe são
Tais temas já trazem consigo uma relação de poder, uma colocadas hoje pelo social. Nesse caso, o que direciona seu
carga de significados, que lhe foram atribuídos pelos atores trabalho é uma problemática e não o preenchimento de lacu­
no exercício de sua prática política. Trazem também um aval nas. Um exemplo disso: o curso, ao tratar da abolição, sus­
da própria historiografia que a endossa. Dessa forma tais te­ citou em al_guns alunos o interesse em perceber o tratamento
mas são suportes de práticas concretas, com interesses con­ dado à questão racial por diferentes agentes sociais. Embora
cretos, detectáveis, mas que aparecem sob a chancela da ob­ a investigação tenha se situado no início do século, o que es­
jetividade, que escamoteia o lugar de onde a historiografia fala. tava colocado para eles não era o conhecimento abstrato de
Nesse caso, o pesquisador deveria desvendar as próprias um tema do passado mas o como essa questão se apresentou
e como se apresenta hoje na sociedade em que vivem.
condições de produção daquele tema enquanto discurso de po­
der, as condições históricas de produção do discurso acadê­
Investigação como resposta a questões
mico e as condições históricas de seu próprio discurso. Essa
colocadas pela própria experiência
tarefa deve ser assumida pela aprendizagem escolar da história.
Um exemplo disso é a produção historiográfica em tor­
No segundo caso, quando priorizam responder a questões
no da "Revolução de 1930", conforme nos mostra Edgar de
colocadas pela própria experiência, demonstram interesse em
Decca. 11 Apontando para aqueles que pretenderam realizar
dar respostas a questões levantadas em sua atividade profissio­
um estudo crítico a respeito ''desse evento'', faz notar que não
nal, militância política ou problemas colocados pelo cotidiano.
conseguem mover-se fora do campo construído pelo poder;
A cada ano, um número maior de alunos se interessa pelas ques­
não questionam 1930 como marco divisor, nem o tema revo­ tões do ensino, por movimentos sociais, pelos setores margina­
lução. Não percebem que esse marco foi construído pelo pró­ lizados da população - negro, mulher, menor etc.
prio poder com o objetivo de dizer como o processo deveria Cabe notar que muitos pesquisadores, embora motiva­
ser lido, silenciando todas as outras propostas. dos a trabalhar temas considerados relevantes e até mesmo
de interesse imediato para a sociedade, correm o risco de dar
11 DECCA, Edgar de. 1930, o silêncio dos vencidos. São Paulo, Brasiliense, um tratamento muito ascético a esse tema, esvaziando-o de
19&1. seu conteúdo social e político.
r-
34 35

Isto acontece quando a problematização é feita a partir cia tem mostrado que esta delimitação tem se dado de for­
da bibliografia e da reflexão teórica, excluindo ou minimizan­ mas diferentes e por motivos diferentes.
do as fontes enquanto registros dos atores em questão. Ocorre Um exemplo disso pode ser evidenciado numa pesquisa
também porque esse procedimento traz implícita a valorização - realizada por aluno de graduação na disciplina Pesquisa
da teoria capaz de. conduzir ao conhecimento e capaz de ga­ Histórica, em 1 984, na PUC-SP - que se propunha buscar
rantir o padrão científico, a objetividade. Nesse caso a histo­ elementos que possibilitassem o posterior entendimento dó
riografia é vista como o próprio real, ou expressão do real. projeto nacional-populista e sua falência em 1964, através do
Suponhamos que um pesquisador esteja interessado em estudo do Segundo Reinado até a Proclamação da Repúbli­
estudar a questão da terra no Brasil a partir da década de ca. Pela formulação da proposta fica evidenciado que a na­
60, por considerá-la uma questão atual, uma problemática tureza do processo em estudo já estava definida e rotulada
retirada do social, da experiência e que se coloca para a so­ como nacional-populista. O pesquisador já partia do deter­
ciedade. Se problematizada apenas a partir da bibliografia minado em vez de uma indagação; já tinha, dessa forma, o
e da reflexão teórica perde sua força de ação e questionamen­ ponto de partida e o de chegada da pesquisa. Por isso, para
to, pois os vários sujeitos do passado envolvidos naquela ques­ entender 1964, sentiu a necessidade de buscar a origem desse
tão não são ouvidos ou levados em conta, uma vez que os nacional-populismo (numa visão linear da história). Ao buscá­
saberes produzidos no próprio embate são ignorados. A pro­ la estava procurando os elementos constitutivos desse fenô­
blemática deve surgir de uma relação íntima entre o sujeito meno e, de certa forma, as razões de sua falência.
que pesquisa e o objeto pesquisado e, através dele, com os A periodização também já estava estabelecida; a falên­
sujeitos sociais que experimentaram a questão da terra, seja, cia situada em 64, o tempo obscuro (a origem) que o pesqui­
por exemplo, pela reivindicação da reforma agrária, Ol! por sador procurava compreender localizado entre o Segundo Rei­
sua recusa. Nesse caso, os diferentes registros - legislação, nado e a Proclamação da República. Nesse caso o tempo de
escrituras, cordel - deixados pelos agentes sociais - pro­
vigência do projeto nacional-populista estava mais ou menos
prietários, posseiros, movimentos organizados etc. - parti­
ciparão da formulação da problemática. É preciso pensar es­
circunscrito entre a Proclamação da República e 1 964 (pro­
vavelmente a partir de 1 930). O referencial para a escolha do
ses registros não como o real, mas como parte do real, pro­
tema, a problematização e a periodização, estava na biblio­
duzidos segundo determinados interesses e valores. Por aí o
pesquisador estará tentando perceber qual a problemática que grafia sobre populismo.
estava em jogo, não impondo uma problematização a partir A amplitude do tema não vinha também de uma possí­
de critérios externos, percebendo a intersecção de vários tem­ vel complexidade do mesmo, mas exclusivamente da postura
pos simultâneos na construção desse objeto ao qual estão li­ teórica do pesquisador. Por entender "a história em linha de
gados tanto os sujeitos do presente - inclusive o pesquisa­ evolução e movimento em que se encadeiam origem-matu­
dor - quanto os do passado. ração-superação", o pesquisador ordenou os fatos segundo
um princípio de causação linear. (Ordenação de fatos seleti­
Delimitação progressiva do tema
va, numa linha de sucessão. Tudo o mais que não cabe nessa
linha é desprezado.)
Alguns temas propostos, inicialmente de forma muito A explicação era dada ao nível da teoria. Propunha-se
ampla, vão sendo progressivamente delimitados. A experiên- a explicar o tema a partir de uma relação determinável entre
r'' "
;
36 37

o sistema capitalista e o regime político. Esta relação existi­ nhecimento da existência de uma Confederação Sindicalista
ria, cabendo ao pesquisador desvendá-la. Cooperativista Brasileira, sem registros na historiografia. A
O fato de problematizar, a partir da historiografia, já indicação apontava para o fato de que essa Confederação teria
reflete uma posição teórica que não questiona o modo de se franqueado ao PC a página do jornal O Paiz. Buscando o
constituir pela memória e pela historiografia do populismo material do· partido nessa página operária, percebeu que a
como elemento definidor e explicativo desse momento. maior riqueza dela não estava nos artigos do PC, mas nos
O pesquisador, inicialmente, por considerar a proposta editoriais da Confederação, porque veiculavam uma proposta
utópica pela amplitude e não pela posição metodológica, re­ de conciliação entre capital e trabalho, que apontava clara­
solveu concentrar a pesquisa no discurso parlamentar do Im­ mente para um projeto de reorganização social em bases cor­
pério, buscando a formação do Partido Republicano. Ao en­ porativas. A partir dessa constatação o pesquisador fez al­
contrar dentro do Partido Conservador uma cisão, conside­ gumas indagações iniciais: por que o silêncio da historiogra­
rou que esta fosse um possível indício do que vinha buscan­ fia a respeito de uma proposta desse tipo, na medida em que
do - a gênese do discurso e da ideologia republicanos. ela só registrava propostas corporativistas vindas de intelec­
Ao realizar a pesquisa empírica e a discussão metodoló­ tuais ligados à classe dominante? Que estran�a aproximação
gica, que o colocava em contato com autores cuja postura seria essa entre o PC e uma Confederação conservadora e um
teórica questionava os pressupostos dos quais partira, redi­ jornal também conservador? A partir daí houve uma redefi­
mensionou seu objeto de trabalho, tendo percebido a com­ nição do tema que, conseqüentemente, acompanhava uma re­
plexidade do social e a dificuldade de explicá-lo pela causa­ definição da problemática, uma vez que o pesquisador leva­
ção linear, única. Percebeu melhor a complexidade do social ra em conta os registros dos atores sociais na prática sindical
e a dificuldade de traçar uma linha reta entre aquela cisão no período que, por alguma razão, caiu no esquecimento.
e a formação do Partido Republicano, porque a formação Essa mudança de tema e reorientação de problemática
desse partido atenderia a fatores muito mais amplos e múlti­ auxiliavam inclusive um melhor entendimento da prática do
plos e a cisão poderia até ser secundária. PC que, na pesquisa, passava para um segundo plano. Essa
mudança exemplifica bem que escolher e definir o tema se
Redefinição do tema relacionam profundamente com sua problematização.

Outras experiências mostram como o caminho da pes­


quisa conduz a uma redefinição do tema, no sentido mesmo Problematizac;:ão - muitas histórias
da sua alteração.
Um exemplo disso é a pesquisa realizada pela professo­ Pensar a história como experiência humana - que é de
ra M. do Rosário da Cunha Peixoto, cujo objetivo era recu­ classe e de luta, portanto vivida a partir de necessidades, in­
perar os primeiros anos do Partido Comunista. Na busca de teresses e com antagonismos - é situá-la como um campo
registros que permitissem discutir a orientação sindical do par­ de possibilidades em que várias propostas estão em jogo.
tido nesse momento, a partir de referências de um dos mili­ Pensar a produção do conhecimento histórico como
tantes da época, Astrojildo Pereira, o pesquisador tomou co- aquele que é capaz de apreender essa experiência viv_i!_a por

CEUo \
-� "· I "' ' \
íL.1 !.J b ., .
,,
-
.
--:. '- �. A
---------� · ........
•·"
---
.
_ -

---···--
rr·
'

38 39

sujeitos ativos que problematizaram sua própria existência Esses agentes viveram-no de uma dada forma e estabe�
implica elaborar procedimentos que permitam recupe­ } leceram relações de uma dada natureza, com determinadas
ranssa problematização colocada pelos agentes do passado, 1f propriedades, que o pesquisador não pode ignorar. Pelo con­

I
a partir das questões que o presente coloca ao pesquisador. trário, essas propriedades e o modo como o urbano e o con­
Nisto consiste a problematização. I ceito de urbanização se constituíram dão substância às cate­
Se o pesquisador tem como objetivo recuperar a proble­ gorias utilizadas pelo pesquisador.
mática vivida pelos agentes em estudo, necessita acompanhar Esse percurso fica bastante evidenciado até pelo título
o processo de constituições dos atores sobre sua experiência. do trabalho final - "Decifra-me ou devoro-te - o urbano
A problematização é contínua, acompanhando o traba­ na literatura modernista". O decifra-me ou devoro-te pode
lho todo: é o movimento constante que vai do empírico à teo­ ter no mínimo dois significados. Para os modernistas signi­
ria e vice-versa, demandando a elaboração ou reelaboração fica a cidade se colocando como um problema a ser equacio­
de noções, conceitos, categorias de análise, porque tais ele­ nado. Em se tratando de um momento de expansão urbana,
mentos, por mais abstratos que sejam, surgem de engajamen­ a cidade se modifica rapidamente, trazendo transformações
tos empíricos e do diálogo com as evidências. nos comportamentos, hábitos de vida, modos de pensar, mu­
danças nas concepções estéticas, gerando no homem da épo­
Problematizar incorporando a experiência ca uma certa perplexidade e daí o enigma, Para as pesquisa­
doras significa a necessidade de decifrar a relação entre
No diálogo, os dados obtidos pelo pesquisador levam­ urbano-literatura modernista-história.
no a reelaborar os conceitos, as noções, as categorias de .Esse procedimento busca uma interação entre o sujeito
análise. que pesquisa e o objeto pesquisado; entre teoria e prática;
Numa pesquisa também realizada por alunas de Pesquisa entre o pensar e o agir.
Histórica, em 1985, que se propunha recuperar o urbano em
São Paulo pela literatura dos modernistas, ao pensar esse ur­ A formulação da hipótese precedendo
bano, as pesquisadoras estavam inicialmente projetando pa­ o trabalho empírico
ra o passado um conceito de urbano contemporâneo a elas, já
muito cristalizado, envolvendo uma relação direta entre ur­ Mas nem todos pensam assim.
bano e expansão industrial. No transcorrer da pesquisa, no Quando se propõem a investigar um objeto, algumas pes­
diálogo com as fontes, se deram conta que essa forma de con­ soas sentem a necessidade de alguns pontos de apoio que in­
figurar o urbano não correspondia às representações que os diquem, com uma certa margem de segurança, os caminhos
modernistas faziam do fenômeno� Nesse caso, partindo de a seguir. Isso ocorre devido a uma herança cientificista que
algo determinado, buscavam na literatura a ilustração daquilo pénsa o método como o elemento fundamental para garantir
que já estava dado. O próprio contato com a literatura leva­ a objetividade do trabalho do historiador. Essa herança ad­
ria à percepção de que a constituição do urbano era um pro­ vém de toda uma discussão sobre ciência que, em fins do sé­
blema a ser recuperado a partir das representações dos agen­ culo XIX e seu desenvolvimento no XX, influiu na constru­
tes qUe o viveràm . ção de uma noção de método em história. E o método então

I
41
40

seria visto como "caminho a ser percorrido, demarcado, pertencer a algum sistema científico". Não existe a preocu­
do começo ao fim, por fases ou etapas. E, como a pesqui­ pação com uma problematização contínua.
sa tem por objetivo um problema a ser resolvido, o método Ciro F. Cardoso, por exemplo, parafraseando Marc
serve de guia para o estudo sistemático do enunciado, com­ Bloch, considera que "as fontes só falam utilmente se sou­
preensão e busca de solução do referido problema (... ); não bermos fazer-lhes as perguntas adequadas". Mas "tais per­
é outra coisa do que a elaboração, consciente e organiza­ guntas" - diz ele - "não decorrem das próprias fontes, não
nascem delas, e sim da cultura histórica do pesquisador, da
da, dos diversos procedimentos que nos orientam para reali­
sua base teórica, de mil conhecimentos externos àquele do­
zar o ato reflexivo, isto é, a operação discursiva de nossa
cumento com que estiver trabalhando no momento". 13
mente". 12
Concordamos que as fontes precisam de perguntas ade­
Essa forma de pensar pesquisa científica está muito pre­
quadas; só que essa adequação resulta da mútua determi­
sente no trabalho dos historiadores. Muitos deles, ao desen­
nação do sujeito e do objeto, ou seja, a fonte participa das
volverem uma pesquisa ou discorrerem sobre métodos em his­
perguntas que o pesquisador lhe faz.
tória, seguem e/ou recomendam como primeiro passo a lei­
Esta diferença fica patente quando Ciro F. Cardoso ex­
tura da bibliografia, buscando identificar as lacunas no co­
pressa o que para ele é história: "A história é, para nós, uma
nhecimento do objeto, os pontos de fragilidade desse conhe­
ciência em construção. Num certo sentido, isto é verdadeiro
cimento; o segundo passo seria tomar conhecimento de to­ para qualquer ciência: vimos que os cientistas já não buscam
das as posturas teóricas no sentido de escolher ou formular verdades absolutas e eternas. No caso da história, porém,
uma. Dados esses dois passos surgiria o terceiro que é a for­
f: além deste sentido geral, queremos dizer com 'ciência em
� mulação de hipóteses sobre o objeto em questão. Só então
é que o pesquisador iria coletar as fontes, para comprovar
construção' que a conquista do seu método científico ainda
não é completa, que os historiadores ainda estão descobrin­
ou não as hipóteses previamente formuladas. do os meios de análise adequados ao seu objeto". 1 4
Esta forma de conceber a pesquisa histórica supõe uma Quando diz que as verdades não são absolutas e eter­
submissão do pesquisador, tanto aos procedimentos do mé­ nas, o sentido é de que o conhecimento é cumulativo por­
todo como aos recursos da técnica, pois a ênfase recai nos que, na medida em que se aperfeiçoa o modo de conhecer
procedimentos do pesquisador em detrimento de sua relação a realidade, de apreensão do objeto, mais elementos dessa
com o objeto. Nesse caso, a formulação de hipóteses como realidade poderão ser trazidos à tona.
uma das etapas previstas pelo método, ganha relevo podendo Dentro dessa postura, a historiografia representaria es­
até se transformar em lei "se confirmada empiricamente e se se acúmulo de conhecimento que está sendo buscado. Daí a
necessidade de se fazer uma análise exaustiva da historiogra­
12 fia, antes de abordar o objeto. Por este prisma a obra histo-
Cf. Rums, Franz Victor. Introdução ao projeto da pesquisa científica.
Petrópolis, Vozes, 1978. Afirmações desse gênero são encontradas em uma
série de livros sobre ·pesquisa científica cuja preocupação é dar subsídios para
história. São Paulo, Brasiliense,
a investigação em todas as áreas do conhecimento: CERVO, A. L. & BER­ 13 CARDOSO, Ciro F. Uma introdução à
VIAN, P. A. Metodologia científico. São Paulo, McGraw-HiJI, 1974; CAs­ 1981. p. 47.
TRo, C. M. A prática da pesquisa. São Paulo, McGraw-Hill, 1978. 14 Idem, ibidem, p. 43.
42 43

riográfica é vista como o retrato do passado possível até seja, a formulação de hipóteses sucessivas, envolvendo teo­
aquele momento. O que se vai tentar perceber é se foi mais ria e foute.
ou menos fiel, daí a necessidade que tem o historiador de Problematizar nesse caso é dar voz aos sujeitos históri­
conhecê-la bem, para perceber as lacunas, os pontos que cos. Nesse procedimento o pesquisador interroga os agentes
ainda não foram bem trabalhados ou com os quais não sociais a partir de suas preocupações e de sua postura e se
concorda. deixa interrogar por esses agentes. A partir desse diálogo o
Nesta postura valoriza-se a teoria e técnicas como meios pesquisador vai formular ou reformular seus próprios con­
seguros (científicos) de abordar esse passado; por isso o ceitos, verificar que outros agentes deve abordar e, conseqüen­
pesquisador vai precisar dos conceitos, das categorias de temente, que registros buscar. Por isso não é possível com­
análise. partimentar o processo de investigação em fases estanques.
Na medida em que se acha que o procedimento do his­
toriador é que garante a objetividade, a 'teoria, ferramenta
História como campo de possibilidades
por excelência de que o historiador lançará mão para recu­
perar seu objeto, ganha um enorme relevo. Daí a preocupa­
Em contraposição à idéia de necessidade histórica, com
ção em elaborar conceitos e categorias precisos.
a qual esses historiadores trabalham, vemos a história como
Para os historiadores que trabalham dessa maneira, ana­
um campo de possibilidades no qual os sujeitos são atuantes
lisada a historiografia e feita a opção teórico-metodológica,
e portadores de projetos diferenciados.
passa-se à elaboração de hipóteses.
Nesse caso, desvendar as injunções de uma problemáti­
Formulada a partir da bibliografia e do arcabouço teó­
ca vencida no passado, mas ainda presente hoje, é chamar
rico, a hipótese teria como fim orientar o pesquisador na bus­
a si a possibilidade de intervir no presente e no futuro. Isto
ca e descoberta dos fatos e relações que existem entre eles.
"envolve a preocupação com a tarefa crítica de desenvolver
Assim o trabalho com as fontes aparece como uma atividade
um conhecimento histórico que se saiba prática política e en­
à parte, apenas ilustrativo de um conhecimento elaborado fo­
ra delas. Isso explica o fato de Ciro F. Cardoso afirmar que frente a necessidade de desmontar os discursos que o consti­
tuem como lugar da erudição neutra (...)". 15
as perguntas formuladas às fontes o são a partir da ' 'cultura
histórica do pesquisador, da sua base teórica, de mil conhe­ O que se busca no passado é algo que pode até ter-se
cimentos externos àquele documento com que estiver traba­ perdido nesse passado, mas que se coloca no presente como
lhando. no momento" . questão não resolvida.
Nessa postura os sujeitos sociais que estão por trás Vendo a história como um campo de possibilidades,
dos registros não têm muito a dizer; essa função cabe mais visualizam-se, em cada momento, diferentes propostas em
ao pesquisador através de seus "mil conhecimentos exter­ jogo e se uma delas venceu,. venceu não porque tinha de
nos". vencer, mas por uma série de injunções que é preciso des­
.Se a fonte participa das perguntas que o pesquisador lhe vendar .
faz, cai por terra a preocupação com a formulação de hipó­
teses fechadas prevalecendo a idéia de problematização, ou 15 Cf. SILVA, M. A. Op. cit., p. 52.
42 43

riográfica é vista como o retrato do passado possível até seja, a formulação de hipóteses sucessivas, envolvendo teo­
aquele momento. O que se vai tentar perceber é se foi mais ria e fonte.
ou menos fiel, daí a necessidade que tem o historiador de Problematizar nesse caso é dar voz aos sujeitos históri­
conhecê-la bem, para perceber as lacunas, os pontos que cos. Nesse procedimento o pesquisador interroga os agentes
ainda não foram bem trabalhados ou com os quais não sociais a partir de suas preocupações e de sua postura e se
concorda. deixa interrogar por esses agentes. A partir desse diálogo o
Nesta postura valoriza-se a teoria e técnicas como meios pesquisador vai formular ou reformular seus próprios con­
seguros (científicos) de abordar esse passado; por isso o ceitos, verificar que outros agentes deve abordar e, conseqüen­
pesquisador vai precisar dos conceitos, das categorias de temente, que registros buscar. Por isso não é possível com­
análise.
partimentar o processo de investigação em fases estanques .
Na medida em que se acha que o procedimento do his­
toriador é que garante a objetividade, a ·teoria, ferramenta
História como campo de possibilidades
por excelência de que o historiador lançará mão para recu­
perar seu objeto, ganha um enorme relevo. Daí a preocupa­
Em contraposição à idéia de necessidade histórica, com
ção em elaborar conceitos e categorias precisos.
a qual esses historiadores trabalham, vemos a história como
Para os historiadores que trabalham dessa maneira, ana­
um campo de possibilidades no qual os sujeitos são atuantes
lisada a historiografia e feita a opção teórico-metodológica,
e portadores de projetos diferenciados.
passa-se à elaboração de hipóteses.
Nesse caso, desvendar as injunções de uma problemáti­
Formulada a partir da bibliografia e do arcabouço teó­
ca vencida no passado, mas ainda presente hoje, é chamar
rico, a hipótese teria como fim orientar o pesquisador na bus­
a si a possibilidade de intervir no presente e no futuro. Isto
,,,
ca e descoberta dos fatos e relações que existem entre eles.
"envolve a preocupação com a tarefa crítica de desenvolver
Assim o trabalho com as fontes aparece como uma atividade
à parte, apenas ilustrativo de um conhecimento elaborado fo­ um conhecimento histórico que se saiba prática política e en­
ra delas. Isso explica o fato de Ciro F. Cardoso afirmar que frente a necessidade de desmontar os discursos que o consti­
as perguntas formuladas às fontes o são a partir da "cultura tuem como lugar da erudição neutra (. . . )". 15
histórica do pesquisador, da sua base teórica, de mil conhe­ O que se busca no passado é algo que pode até ter-se
cimentos externos àquele documento com que estiver traba­ perdido nesse passado, mas que se coloca no presente como
lhando no momento". questão não resolvida.
Nessa postura os sujeitos sociais que estão por trás Vendo a história como um campo de possibilidades,
dos registros não têm muito a dizer; essa função cabe mais visualizam-se, em cada momento, diferentes propostas em
ao pesquisador através de seus "mil conhecimentos exter­ jogo e se uma delas venceu, · venceu não porque tinha de
nos". vencer, mas por uma série de injunções que é preciso des­
Se a fonte participa das perguntas que o pesquisador lhe vendar.
faz, cai por terra a preocupação com a formulação de hipó­
teses fechadas prevalecendo a idéia de problematização, ou 15 Cf. SILVA, M. A. Op. cit., p. 52.
44 45

Diálogo entre teoria e evidências: Seleção das evidências da experiência


a história como construção
O interesse do pesquisador por certos assuntos e o mo­
Quando falamos que a história-conhecimento é constru­ do de abordá-los dependerá de sua visão da sociedade e de
ção queremos dizer que é uma representação do real e, como sua proposta de intervenção nela. A partir de suas preocupa­
tal, parte do real e não o real em si mesmo. Nessa busca de ções no presente escolherá os registros e os tratará de uma
compreensão do real, tanto está presente a reflexão do pes­ dada forma.
quisador quanto o próprio objeto. Se propomos que a problematização do objeto deva ser
O historiador que busca compreender e recuperar o mo­ feita no processo da pesquisa, a partir do diálogo com as fon­
vimento, a contradição, e que entende que esta compreensão tes, são os agentes sociais em questão que vão determinar os
é dada pela mútua determinação do sujeito que investiga e tipos de registros a serem utilizados. Por agentes sociais en­
do<:>bjeto investigado, só pode entender por método o diálo­ tendemos aqui não apenas aqueles em estudo como o pró­
go entre teoria e evidências. Isto implica que os procedimen­ prio pesquisador. Nesse trabalho o pesquisador, se colocado
tos não sejam definidos a priori, ou externamente, mas sim como ser político, procurando saídas para o presente e para
no decorrer da pesquisa, fruto do próprio diálogo. o futuro, se posicionará continuamente, fazendo opções e for­
Entendendo que o historiador é capaz de pensar a teo­ jando o próprio caminho. Na abordagem que faz do passa­
ria, de elaborar conceitos na explicação histórica e que as evi­ do se acerca de outros pesquisadores, através da bibliogra­
dências participam (de) e contêm essa explicação, torna-se im­ fia, discutindo procedimentos.
possível aceitar conceitos abstratos, acabados, elaborados fo­
Maria Odila L. S. Dias, interessada em desvendar rela­
ra desse diálogo.
ções de dominação difusas no social, estuda o cotidiano de
Numa postura diferente desta, na medida em que se acha
mulheres pobres em São Paulo no século XIX. 16 Essas mu­
que o procedimento do historiador é que garante a objetivi­
lheres, na luta pela sobrevivência, enfrentavam as questões
dade, há uma excessiva preocupação com a técnica. Esta passa
do seu cotidiano através da linguagem oral e de comporta­
a ser vista como tendo um sentido em si mesma. O como­
mento não convencional em brigas de rua, conchavos etc.
fazer ganha uma autonomia muito grande, ficando separa­
A falta de registros dificultou a abordagem dessas mu­
do dos outros procedimentos.
lheres na medida em que não conseguiram perpetuar a pró­
Vem a preocupação com modelos de fichas, com nor­
pria fala e ninguém se interessou em registrar sua existência.
mas universais para análise de registros, sobretudo de docu­
Quando, por exemplo, cronistas e viajantes o fizeram, foram
mentos, numa herança positivista. Subjacente a esta prática
movidos pela perplexidade ante comportamentos tão anticon­
está uma idéia de neutralidade da técnica, sem que se perce­
vencionais. Essas mulheres foram alvo de registros indiretos,
ba que o desenvolvimento de uma determinada técnica está
cuja preocupação era ora de controle social, ora de punição
ligado a uma determinada concepção de história e de pesquisa
No fundo, quando se pretende apelar para técnicas uni ou repressão, quando quebravam as normas estabelecidas.
versais, se está generalizando uma determinada forma de per .
16
sar a história. DIAS, M. Odila L. S. Op. cit.
46 47

Frente a essas contingências, M . Odila Dias recuperou a sil", 17 levantando as condições de vida e de trabalho da classe
trajetória dessas mulheres através de uma gama variada operária, partia do pressuposto de que o trabalhador não era
de registros tais como Maços de População, Ofícios Diver­ apenas um fator de produção, mas também um agente so­
sos da Capital, Autos-Crimes da Capital, Crimes da Sé, Que­ cial. Embora pensando assim, ao levantar os dados separa­
relas, Escravos, Processos de Divórcio, Devassas e Visitas ram condições de vida e condições de trabalho. Dessa sepa­
Pastorais, Atas da Câmara Municipal, Documentos Inte­ ração resultou o arrolamento de dados "sem lugar" na pes­
ressantes para a História e Costumes de S. Paulo, Inventá­ quisa, classificados como "cotidiano operário".
rios e Testamentos, Coleção Cronológica de Leis Extrava­ Repensando o objeto de estudo em função das evidên­
gantes etc. cias trazidas à luz pelos dados empíricos e de uma proposta
A falta de fontes sobre essas mulheres e a forma co­ metodológica, qual seja de que as relações sociais de produ­
mo foram registradas já é indicativo para o pesquisador da ção não são apenas relações econômicas, mas sociais, políti­
problemática vivida por elas. Isso exige uma leitura nas cas, culturais etc., os pesquisadores concluíram que haviam
entrelinhas que ultrapasse a intencionalidade imediata do re­ separado aquilo que nunca estivera separado. Em outras pa­
lavras, pensar o trabalhador como agente social e não apenas
gistro. Trata-se de estar pensando não só o que está sendo
como força de trabalho, remete à "complexidade do todo so­
representado, mas por que está sendo representado daquela
cial e às lutas que nele se verificam, imprimindo-lhes a dinâ­
forma.
mica,. Dessa forma, a dominação do elemento operário não
No caso de M . Odila Dias, isso só foi possível na medi­
ocorre "apenas dentro da fábrica mas também fora dela"; é
da em que rompeu com uma série de ortodoxias. Ainda que
dada na "sociedade como um todo e não apenas neste ou na­
utilizando registros dos mais tradicionais no campo de tra­
quele lugar' ' . A partir daí o que estava separado passou a fa­
balho do historiador, não faz uma leitura economicista, pensa -
zer sentido conjuntamente, inclusive aqueles dados referentes
a dominação permeando o todo social, estuda atividades im­ ao "cotidiano operário".
provisadas e não institucionalizadas. No segundo caso, o mesmo grupo buscando a relação Es­
tado/classes sociais através da legislação, vista como instru­
Importância das fontes na problematização mento da intervenção governamental entendida no processo
de Juta de classes, num primeiro momento valorizou dados re­
Nesse sentido não dá para fazer a seleção de fontes ferentes à política financeira, impostos, taxas, política fiscal,
depois da problematização, como geralmente recomendam relação empresa/Estado etc.
os manuais. O pesquisador, no encaminhamento da pesqui­
·
sa, se depara com registros que funcionam como elemen­ 17 Projeto desenvolvido no Departamento de História do Instituto de Filoso­
to perturbador, ou porque não consegue explicá-los, ou por­ fia, Letras e Ciências Humanas da Unicamp, sob a coordenação geral de Déa
que questionam linhas importantes de sua reflexão. No pri­ Ribeiro Fenelon, com a participação de: Antonio Paulo Rezende, Coraly G.
Caetano, Heloísa F. Cruz, João B. Mazziero, José Flávio Oliveira, Kazumi
meiro caso, por exemplo, o grupo que desenvolveu o pro­ Munakata, M. Alice Ribeiro, M . Antonieta Antonacci, M. Auxiliadora G.
jeto "Fontes para o Estudo da Industrialização no Bra- de Decca, M. Clementina P. Cunha. Veja Revista Brasileira de História, 2
(3), mar. 1982.
49
48

Um exemplo disso pode ser encontrado em Boris Faus­


Entretanto, ao coletar dados simultaneamente à reflexão
to, em seu trabalho sobre a Revolução de 30, 20 quando con­
teórica, houve necessidade de repensar a problemática do exer­
sidera "como um dado assente na análise sociológica" que nos
cício e natureza do poder, diante das evidências sugeridas pe­
países subdesenvolvidos a burguesia industrial (nacional) é in­
lo material empírico. No caso da legislação sobre a imigra­
capaz de formular um projeto de desenvolvimento na medida
ção, foi possível detectar uma atuação não apenas para os as­ em que não consegue ir além da defesa de seus interesses par­
pectos diretamente ligados ao capital, mas para a racionaliza­ ticulares. Opera com um conceito abstrato de classe, empres­
ção e organização da mão-de-obra. Outro dado perturbador tado da sociologia e construído fora da pesquisa, sem nenhu­
foi a presença de uma legislação social não aceita pela bur­ ma referência à situação concreta, particular, vivida pela bur­
guesia industrial. 18 Tudo isso levou-os a colocar o Estado co­ guesia industrial. Condicionado por um posicionamento teó­
mo expressão de uma correlação de forças sociais, e não co­ rico rígido, recorre a dados estatísticos relativos a concentra­
mo comitê da burguesia, ou como entidade autônoma, acima ção de capital, a índice de automação, a número de operários
das classes. por fábrica que demonstrem o caráter secundário da indús­
O fato de o pesquisador privilegiar um determinado as­ tria brasileira em relação à agricultura cafeeira e ao desenvol­
pecto de um objeto de estudo não significa fragmentá-lo, mas vimento industrial de outros países. A partir daí conclui pela
entendê-lo globalmente. fraqueza congênita da burguesia industrial brasileira.
Maria Odila L. S. Dias, 19 ao estudar as mulheres da Sé Edgar de Decca, 21 indagando sobre o projeto político
em fins do século XVIII, não se preocupa em fazer estudos da mesma burguesia .e preocupado em recuperar uma deter­
paralelos da legislação fiscal, da polícia, dos maridos ausen­ minada conjuntura, a partir de uma problemática da época,
tes, mas recupera a problemática dessas mulheres na sua rela­ dá voz aos diferentes agentes sociais, para em seguida estabe­
lecer os possíveis então colocados e perceber as injunções que
ção com esses aspectos e outros mais. Maços de população,
fizeram com que uma das propostas tenha sido vencedora e
processos-crimes, atas da Câmara Municipal, testamentos, in­
não outras. Recorre aos registros do Ciesp, da Associação Co­
ventários etc. são utilizados na medida em que esclarecem so­
mercial e outras falas que dêem conta da prática dessa bur­
bre as condições de vida e de trabalho dessas mulheres, o tipo
guesia e conclui que ela teve um projeto político.
de dominação que sofrem, a resistência que conseguem opor
A subjetividade do pesquisador está presente na seleção
etc. Em suma, não desvincula o trabalho das mulheres da Sé dos dados mas essa escolha não é arbitrária; ela resulta da re­
dos encaminhamentos da própria sociedade paulista na época lação entre a postura teórica do pesquisador e o objeto pes­
estudada. quisado. Boris Fausto e Decca, partindo de pressupostos di­
Numa outra postura que faz uso de modelos explicativos ferentes, recorrem a registros diferentes ao se defrontarem com
na construção histórica, a problematização se dá principalmen­ a questão da burguesia industrial ter um projeto político ou


te a partir da teoria e as evidências passam a ter uma função não na Primeira República.
meramente ilustrativa.
FAUSTO, Boris. Revolução de 1930: história e historiografia. 2. ed. São Pau·
lo, Brasiliense, 1972. p. 47.
18 Ibidem, p. 83 a 90.
2 1 DECCA, E. de. Op, cit.
19 DIAS, M. Odila L. S. Op. cit.
50 51

"Produto final" - uma produção Nessa perspectiva trabalhos herméticos só fazem senti­
sempre em andamento do numa percepção de conhecimento excludente, que separa
o conhecimento da experiência social.
O trabalho final do historiador também deve aparecer Num determinado procedimento de pesquisa, que am­
como um momento da reflexão e não como um produto aca­ plia o campo da investigação, incorporando as emoções, os
bado; deve reconstituir o próprio percurso da investigação. valores, a experiência, que se expressam por diferentes lin­
Ao apresentar o caminho percorrido, trazendo à luz as guagens, é natural que a forma do produto final também se
evidências, o porquê de sua escolha, como foram tratadas, modifique. A escrita, vista por muitos como a expressão mais
o pesquisador está trazendo, ao mesmo tempo, o lugar de on­ natural e espontânea da comunicação humana, tem sido a
de fala e as implicações metodológicas de seus procedimen­ linguagem por excelência do historiador.
tos. Nesse caso apresenta um conhecimento sobre o objeto Na medida em que o historiador percebe que pode fa­
e não o conhecimento. zer um trabalho usando a música, o desenho, a literatura,
A tradicional maneira de apresentar o trabalho dividi­ a foto, como fonte e como objeto, deve perceber também que
do em três partes fundamentais - o arcabouço teórico, o con­ pode fazer uso dessas linguagens enquanto formas de comu­
texto histórico e o tema propriamente dito - fica descarta­ nicação do seu próprio trabalho, pois uma linguagem não
da porque supõe pensar a teoria como uma instrumentação consegue expressar integralmente a outra. Por exemplo, uma
metodológica e técnica que funcione como receita para de­ linguagem escrita não tem condições de dar conta de toda uma
senvolver a pesquisa e "desenterrar" os dados; porque su­ carga de significados presente numa entonação de voz, nu­
põe a necessidade de construir um contexto histórico para tor­ ma expressão facial, num jogo de luz e sombras.
nar inteligível o tema da pesquisa. O trabalho final de uma pesquisa realizada por alunos
Em que pese o fato da maioria dos historiadores que tra­ da graduação em 1985, sobre o festival da música popular
balham dessa forma declararem na introdução de seus tra­ brasileira de 1967, da rádio e televisão Record, foi apresen­
balhos que esta separação é apenas didática, na realidade ela tado sob a forma de um programa de rádio. Esta escolha se
expressa uma forma compartimentada de pensar e construir deu em parte devido às condições dos próprios pesquisado­
o objeto e que não poderia deixar de se expressar na apre­ res que exerciam atividades ligadas ao rádio e em parte devi­
sentação final do trabalho. do ao próprio objeto. Em se tratando de um festival de mú­
Numa proposta de incorporar o social ao trabalho do sica, apresentar o trabalho sob forma de programa de rádio
historiador e entendendo que esse processo de incorporação permitiu acompanhar melhor o caminho da reflexão feito com
é uma via de mão dupla, ou seja, tem um retorno para o so­ a música e não apenas com a letra. Por outro lado, como
cial, o produto final desse trabalho deve se apresentar sob a música é uma linguagem que envolve a audição, um pro­
forma pulsante, viva, acessível a um público não especia­ duto final que use esse mesmo recurso tem muito maiores pos­
lizado. sibilidades de ser alcançado e de ser compreendido, além de
O trabalho do historiador expressa uma reflexão sobre se tornar bem mais agradável de acompanhar.
diferentes práticas sociais em tempos diferenciados e, ao mes­ O historiador, ao apresentar seu trabalho sob essas for­
mo tempo, sobre a prática acadêmica. mas, está trazendo para o debate as próprias formas, que-

jO S \1 \ /-- --�=��----

���_:__r: c;--=-c-�:-riõl
..
52 53

brando o fetichismo em torno do texto escrito, seja como fon­ estará na ' 'boa escolha da teoria'', no ' 'rigor científico''. Aca­
te ou como produto final. Pensar nessas linguagens como ob­ ba por considerar as evidências como simples ilustração de
jeto é refletir sobre as implicações de sua contribuição e de um conhecimento produzido fora da investigação.
seus usos. No fundo, o que ocorre nesse caso é uma cisão entre teo­
Qualquer que seja a escolha do historiador por uma de­ ria e prática.
terminada linguagem, ela deve ser pensada e apresentada não Nessa postura, é a técnica que vai fazer a mediação en­
como o real, mas como uma representação do real. tre a teoria e as evidências.
A prática do historiador está muito impregnada do dis­
curso da universalidade da técnica, o que o faz se preocupar
Teoria e prática: mútua determinação com modelos de fichas, por exemplo, sem perceber que esses
modelos, apesar de terem uma pretensão universalizante, não
O saber histórico se repõe como teoria e, como tal, no­ vão dar conta de recuperar a complexidade do social.
vamente será questionado pelas evidências. Se nenhuma técnica é neutra porque está ligada a uma
Todo esse modo de pensar o real histórico e o conheci­ determinada concepção de história e de pesquisa o historia­
mento histórico recusa a noção de objetividade universal. A dor ao abordar um objeto precisa criar técnicas adequadas
objetividade está em recuperar o movimento, a contradição aos seus pressupostos.
do acontecer histórico , entendido como processo vivido por
homens reais numa relação de dominação e subordinação em Um entendimento e uso da técnica
todas as dimensões do social. O critério de objetividade do
Há alguns anos atrás, desenvolvemos com alunos de gra­
pesquisador, nesse caso, está no diálogo, na medida em que
duação na disciplina Pesquisa Histórica, na PUC-SP, um tra­
consegue que ambas as partes (teoria e evidências) se deter­
balho - Imprensa e sociedade 22 que visava investigar o
-
minem mutuamente. Essa objetividade, entretanto, é relati­
papel jogado pelos jornais O Correio Paulistano e O Com­
va, porque se o pesquisador tenta alcançar os sujeitos sociais
bate no encaminhamento do processo sucessório de 1930, par­
pelo respeito às propriedades das evidências, por outro lado,
tindo de algumas premissas:
só consegue se acercar dessas evidências a partir de uma pos­
- pensar as diferentes linguagens, inclusive a jornalística co­
tura dada, por exemplo, questões teóricas, dimensões insti­
mo forjadas no acontecer social, visto como experiência
tucionais do trabalho, posições políticas do pesquisador etc.,
de classe;
que é o lugar de onde fala.
- pensar essa imprensa como portadora de um projeto es­
Todo critério de objetividade se reporta a esse lugar de on­
pecífico, apresentado como universal;
de o pesquisador fala. Se, na relação teoria-evidências, enfati­ - subjacente a isto considerar o pensar e o representar co­
za o segundo termo, cai no empirismo, que identifica o real mo momentos da práxis tanto quanto a ação. Em decor-
com o documento, numa postura positivista ou neopositivista.
Nesse caso o critério de objetividade é o próprio documento.
22 VIEIRA, M. do Pilar; PEIXOTO, M. do Rosário; KULCSAR, Rosa; KHOURY,
Se enfatiza a teoria, operando com conceitos e catego­ Yara. Imprensa e sociedade; Relatório final de pesquisa para o Conselho
rias abstratos, preestabelecidos, a garantia da objetividade de Ensino e Pesquisa. PUC-SP, 1984. Mimeografado.
54
55

rência disso não se aceita a colocação de idéias fora do


lugar, nem o descompasso entre infra-estrutura e super­
Título do Artigo, Jornal, Data, Página
estrutura; não se considera ideologia como inversão do real
nem se trabalha com oposições do tipo "senso comum­
consciência filosófica", "ideologia-ciência", "mentira­
verdade" .
Porque os jornais definem papéis sociais, entendemos
que o destinatário está presente o tempo todo, ora fornecen­
do os parâmetros do discurso através da idealização que o
emissor faz dele, ora como tipo padrão de leitor que o emis­
sor quer formar.
A partir desses pressupostos tentamos perceber a repre­ As divisões correspondem aos três níveis do discurso:
sentação do real que faziam e, em conseqüência, os projetos - o diagnóstico: a representação que o jornal faz do real;
que estavam em jogo. Nesse caso não buscávamos estabele­ - o projeto de sociedade que o jornal tenta generalizar;
cer o estatuto de verdade desses discursos. Buscávamos des­ - caminhos que apresenta para alcançá-lo.
vendar o lugar social de onde cada jornal falava. Isto impli­ Para demonstrar nosso raciocínio, oferecemos algumas
cou desmontar esses discursos para perceber que projetos es­ fichas elaboradas no decorrer do trabalho Imprensa e socie­
tavam sendo generalizados. Com esse objetivo elaboramos dade e os artigos do Correio Paulistano que lhes serviram de
um modelo de ficha. base. Como nosso objetivo é discutir procedimentos, selecio­
Numa primeira análise desses jornais percebemos que namos e reduzimos artigos originariamente trabalhados na
íntegra. Nesse caso não apresentamos toda a análise e as con­
.., '

seu discurso comportava três níveis: a representação do real


(diagnóstico da situação), o projeto social que queria cons­ clusões a que chegamos, mas apenas fragmentos. Em outras
truir e os caminhos para se chegar lá. palavras, nenhuma dessas fichas aqui apresentadas está sen­
Nesse caso, os pressupostos colocados como elementos do analisada exaustivamente, pois apresentam uma riqueza que
de apoio iniciais para a elaboração de fichas de desmonta­ no momento não é nossa intenção recuperar. Além disso só
gem de discurso j á são resultado de um trabalho anterior de a análise e a reflexão do conjunto das fichas é que dá a di­
diálogo da teoria com as evidências. Assim, a montagem da mensão da complexidade do discurso do jornal e do trabalho
ficha não precedeu a pesquisa. que envolve sua desmontagem.
Embora toda técnica tenha um pressuposto, este pres­ Analisando os artigos, percebemos que a concepção ideal
suposto sozinho não dá conta de criar uma técnica, pois esta de sociedade desses jornais foi construída a partir de concei­
tem por finalidade recuperar a lógica própria do processo em tos genéricos, supostamente aceitos pelo interlocutor, visan­
estudo; isto é, apreender a propriedade das evidências, que do obter o seu apoio. Muito embora genéricos, esses con­
ceitos já deixavam transparecer, por exemplo, como o jor­
é a problemática vivenciada pelos agentes.
nal definia os papéis sociais, como estabelecia as relações de
As fichas foram montadas com base nessa reflexão.
poder.
57
56

A opinião nacional, "através de fatos impressionantes, já se


O diagnóstico da sociedade fundava-se principalmente nu­ manifesta em admirável convergência de aspirações e senti·
ma crítica ao opositor. Por não poder dizer as coisas até o dos pela chapa de Júlio Prestes/Vital Soares" (... )
fim, ele não aprofundava a discussão da proposta do adver­ "A organização do Partido Republicano que tanto tem feito pela
implantação e conservação do regime, saúda os representan­
sário, pois equivaleria a discutir a própria proposta.
tes dos municípios e também a toda a população que vem per­
Os caminhos para se atingir a concepção ideal de socie­ cebendo como o Partido tem o compromisso altamente cívico
dade ofereceram-nos os "contornos" dos conceitos e portanto com todos os brasileiros".
os limites das propostas.
É importante assinalar que cada conceito e tema elencado Nota'se que o diagnóstico é uma exaltação do que existe:
foram elaborados pelos próprios agentes envolvidos no processo
- o prestígio da ordem e da lei que permanecem intatos;
histórico, sem que lhes atribuíssemos categorias ou temas for­
- a existência de uma opinião nacional que apóia a chapa
mulados por nós e alheios ao debate que então se travava.
Júlio Prestes/Vital Soares;
Nesse trabalho, fomos percebendo que havia palavras que
- a existência do Partido Republicano que tanto tem feito
tinham um papel importante no processo de ocultação do es­
pecífico, funcionando como uma espécie de artifício ou arti­ pela implantação e manutenção do regime, que tem um
manha que favoreciam a generalização do projeto, as quais compromisso altamente cívico com todos os brasileiros
convencionamos chamar "palavras-chaves". Nessa tarefa de (que é percebido pela população).
generalizar o projeto e de ocultar o interesse específico, o jor­ As palavras-chaves "opinião nacional" têm a função de
nal usa igualmente de associação e/ou oposição de idéias. criar a idéia de que é possível existir uma opinião nacional,
No desmontar o discurso vão aparecendo outros sujeitos que engloba todo mundo, e ao mesmo tempo de estabelecer
com quem o jornal se relaciona de alguma forma (alianças, um clima de euforia, dando a impressão de que o jogo elei­
conflitos etc.). Nesse trabalho cabe ao pesquisador ter o cons­ toral já está decidido. Frente à existência de uma opinião na­
tante empenho em ir determinando o que está indeterminado cional a divergência vai aparecer como anomalia.
no sentido de recuperar ao máximo sujeitos e propostas. As­ A proposta é de:
sim, vai procurando determinar quem fala, como fala, para - realização integral de nossos maravilhosos destinos;
quem fala (destinatário) direta ou indiretamente, de quem fala - o regime republicano - garantia de democracia;
(direta ou indiretamente) e por quem fala. Este por quem fa­ - o prestígio da ordem e da lei.
la, de um modo geral, é o termo que está sendo ocultado no Essa democracia e esse regime republicano têm um li­
discurso: são os sujeitos específicos, portadores de um pro­ mite que é dado pelo caminho que é a manutenção do que
jeto que está se tentando generalizar e, por esse motivo, não já existe:
podem aparecer como tal. - manutenção do regime republicano instaurado em !889;
Correio Paulistano - SP - 2� semestre - 1!J/setembro/1929
- manutenção do Partido Republicano que tanto tem feito
- "Nas fontes da democracia", p. 3. pela implantação, organização e conservação do regime
Após afirmar que o regime republicano Instaurado em 15 de republicano, garantia da democracia, e que tem um com­
novembro de 1889 é garantia de democracia, continua: "O pres· promisso altamente cívico com a população.
tfglo da ordem e da lei permanecem intactos" (. )
..
58
59

-� � :?ii !:!õ � -� lã �
.S :E .2 o Nesse caso a palavra manutenção é uma palavra-chave
& : * g �� ��
_._
2


� '2
o

� porque para o pesquisador dá o limite da democracia e do

­
o "ã. fii- g. 'O
:!::: .2' o � 1l o ;;; regime republicano, mas para o leitor ela tem a função de
� � � g 2 :!!
� -� õ o <P fT õ
"5 Qj
·-
o
<11

e
�E�
o � 'O • E " .
·-

o • •
" .
convencê-lo de que aqueles conceitos genéricos de democra­
��
<u


� 8 ��
t -� .!: <11 o §� 1:!
§- � .!!!o
'É l:! 8l o •
.2 � g. W � o -; cia e regime republicano (que o jornal supõe aceitos por ele)
� � • •
* Q)
v;- � ll) �
l/) <11 a. ..;, � -o

Q w 'O

<11 § 11 o u ]? �
-o• -•• gg u
.g I :l r 111
E o
"'
se expressam no que já existe, o que torna desejável a manu­
� � � � 3 �<1) �� -� .g � � l g
·a o:g cv
-� �:::

;;;
(I)


• o o
"

� j ���
tenção do Partido Republicano.
��
-� § § -� �x J:!ã .,
���� � -g l:! "iii :õ No caso do Correio Paulistano, que é um jornal da si­
�w d!S. �
lU
� � 8 � f � _ê <u : e o -= g :a ::S
• - .
__

-�

-;::: � ....o ndf � �Q) "O


.'l 5.
n:l
c. Q) 9 �
"' '<U u .g e � 2! ii '; � • o �o �• tuação e quer manter o status quo, os três níveis se asseme­
ii E 8 8 :5 �� 'g-
ê O C" �
... "' ;J

·a <1:1 o o a.
"e
� � "E
Q) :I :J ::1

� I I I
g .z t, � E E 'tl:J
� .
o
jg
E o
C!
. �.
E � 11 o� .
� .- 'C
lham e se repetem.
� -
Correio Paulistano - SP - 13/março/1929 - "Editorial", p. 3.
-o

As referências lisonjeiras que as mais Ilustres personalidades

-.. ��,
T
e os mais prestigiosos orgãos de Imprensa do estrangeiro têm
feito ao Brasil não só constituem uma demonstração exube·
o
� a:
• -� •• rante da solidez do nosso crédito, como documentam a ino·
li. � Eeo o

E cuidada absoluta de qualquer campanha cujo fim seja unica­
�-
..
.• •
a: •
" mente prejudicar-nos. Num pafs novo e que conta com as pos­
I sibilidades maiores, como o Brasil, o derrotismo não floresce
c: <l> cO O O o� w
.! ....
aJ ;:;
<ll
a. e .. e<h a.
Ô impunemente. Ao contrário disso, ele tem o seu castigo ime­

"D .<:
� i� 2 g � � � � e ��� diato na nenhuma importância que, tanto aqui como lá fora,
·g :s � E . '; E�
O � o g�
o � E � g; 2 ·g se dá às suas desarticuladas intrigas. Apesar destas, o Brasil


� á o \ij o � o 0 8 � continua a caminhar, sereno, para a realização integral de seus
E �� � � � C õ. "J. -o á � e .!:! ,g

RI
a ffi ]S e
"5 à <1>
i :g !!! .� -� .g ,g � 2! � g
:; c. og -a; \ij g .g QI :g 0 -:5
maravilhosos destinos. Nunca estivemos em situação tão boa
quanto a que presentemente desfrutamos, com o nosso câm­
"O á � -8 á � � C. O> ;> C. 'O � <I) Q.
.21 � :!:; .- N
bio estabilizado, os nossos principais produtos vendidos a justo
I preço e o nosso crédito externo em condições que só nos po­
õ
� .:g � � � 8 <1) � ·é
o. � g � ê "& E
dem desvanecer, enchendo-nos de orgulho. Tanto Isso é ver­
� !5 �
* -é � é 6
� E�
___

.8 � g dade que o desânimo já se apodera dos derrotistas, cujas in­

§, � E 2 � : � � � � 5� g 1â
= � á á .S e i � � !!! "' e O. o g� vestidas se reduzem hoje a perffdias mais tolas do que as pe­

§! � � -�8 <��Q) oo:: =� a:� --Ê � � .E


.g tas do barão de Manchhausen. Registremo-lo.
� oQ> -g �
6> -a; 2 <ll -c
<I)
tr
§ � ::fã �cu -g. � :e � -õ (/)
E E

., à: <�� - e �
<i; gJ -; � "@ i; J! .g � � § ,g -& 8 -g g
� t:. Para se atingir a "realização integral de seus (do Brasil)
o o E

a. � o .: 2 -ª' .g o
:::J -- .!::1
'ti
O O§ 'C<D -.;j� a>E -8 =0 o..0 ]! 'C
o � g- t: .:: maravilhosos destinos" o CP propõe:
� c � "C E o �
C. WE .2! �
l: "ii) a. � O

� �
=> � �0 .Q � ·<:;� .., .2! oco � • • �
.u a>o C
- estabilização do câmbio;
&} õ 'C c� a>,; c & .g

oco .uE ..C


Q)


<��

<1> ... � o o- .2 lil' 2 -g => .v lil'


� <G> � lll c C: .... u E ,n - .!:: <�� o<r.� - venda de nossos principais produtos;
z �
Cl -�
Q) g g .g c t -5 �.u 2 � � 2 � .g :ê
:g "E g à.
E "" ní � �
.u .v t: ·::� a. ·::� t: a> g_ "" "tJ g 2 - crédito externo.

I <e l l l
>

I
"
� �-8 � .-g ·g. -� 8 � � 5- 8 t1l ü t11 ] g � <C Ê .2 O uso do adjetivo principais tem um caráter seletivo
O O <C I
"
(trata-se de produtos específicos e não de qualquer um) e ao

�. --= .. : r; I: ú'(l,
60
61

mesmo tempo valorativo (trata-se de um produto importante


para o país e portanto para nós). � ·(;; .0 *- 2 ê �E�
..J 0 (5 - 41 (/)
é � :i;�
� 8. * a.
w e o -� o
t�
q. �
g.2 B �
ãi g 'õ $
<il <fi �
�i

O uso do adjetivo nossos generaliza esses produtos para
todos os brasileiros, ocultando o grupo específico a quem in­ &_§ � _;
g
�l;--� �§ ! � g ��
.ffi= II:� � E $ � !� g_ m � o- � S: -� � S: �
�� ��� �
teressa a venda desses principaís produtos. Nesse caso apare­
� �e �
w Qi o
�""9o o
� $ o C =! � � g (l) e E w 4> E :::- J:: 41 01�
c- a. � ro.w o�-5
· 0"
� � ro w ro
t:: ·;;::4> 41 �.D E -
�� � 41 ;;:
111

4> o m vi - w a 4! ãi -� c mocO" � b 41�


cem os sujeitos por quem fala. O conjunto das fichas dos ar­ 2 � 'ê "É o m e'§ -<U ffi o ::g :g_ o-o � g a. � � -o o ro üí � � E
Qo -;;jo o., :g_ -
e � � -� � i\ 11 "0�3 ;;; � ?: :ll � õ� :18 $ � :5 � o o- g
4> � ro � > k � c -o - -o -o o
tigos do CP nos permitiram determinar o que o jornal se es­ E � w -o J::
"t:: ., m ro "E 4> E o c :U(I) O O "' a - o-� :g_ :g a..!:! o � ., ., ro �
forçava por manter indeterminado, trazendo à luz os cafei­ � .g f o _ _ _ _ Ol> ãl-(;; "" &_ o-o-:.t:,g 0 � uw � 41 -o � u "" _s -� � "<il o-
111 o ou E "" "' E .. .... -c 'õ z �u o- > c o - � o n:� (ij = c t; i; -·
� ';ô� � � � � :Jl g g � i- � � 3 � �J��� �;�� � .2_ª E �
-+

C. § ]! .g :S{� 2 w g_g__,_��� : E : � �:�


• •1•
cultores e outros setores dominantes como o grupo a quem _ . -
interessava essa proposta. � @ � E e .�;g � -�� E
"i!! o � ãi !:: -ãi & c m 41 8 4> "' c <�:� - uo :Jl ., E E� � <"Il �-õ �<1i ·õ -g E .,
�-õ <ii :; o � � i: ... g.so .!!!:õ o-� <"ll > � u g .,
* �ª 2 2 2 2
No diagnóstico, ao se referir à campanha contra o Brasil :g:= iõ uu.S a.
para "nos prejudicar", estão identificados os dois termos: NÓS
o 81 1 1 1
�����:g�N
<C <C
E ���� E��:��� g-��ê
<C O o a: �
� o�
= BRASIL = o jornal CP; os leitores; todos os brasileiros,
excetuando os derrotistas e mentirosos. Ao excluir do rótulo � ,g
g>::::
Nós e Brasil os derrotistas e mentirosos, está criando um
� E .s2 õ
an­ � c�
tagonismo de idéias entre povo brasileiro e oposição. Ao se •

l
o-

referir à oposição com os termos ''mentiras'', ''derrotismo'', �m �.,u� ::;o


«1 <11 - <11

"perfídias mais tolas", ele a está desqualificando sem discutir � "" E


<( � 2 2
sua proposta e portanto a divergência não aparece como tal.

.g"-�
A influência que o jornal exerce sobre o leitor ultrapassa m * E 8.:5.:-- $ o
- �­
� lji 8. wo -�
de muito o objeto específico que está tratando. No caso em .!!! ro
.,
:;:: O B
EQl :., ��
o0 > � a. o �
'" ' ' '
2 � � �-; �e §� �< �

� !!! � � i
g �� . g �
E a
<li

questão, mais do que angariar votos para a eleição, os jornaís � ::J .


4> e .
� $-�
.s ;;;
wê i:

estavam entitindo conceitos através dos quais tentavam forjar E


o u a. o
um tipo deterntinado de leitor. Exemplo disso está na ficha M
8 :s_g;.!!! g
E c <"ll ii -e � �
� .o �
o-�-º -
g 6-2�
w -o <C a �
" .
n? 3. � � -8-s o !:.. �
"
Correio Paulistano - SP - 27/março/1929 - "Editorial", p . 4.
·c
2 d! 41 0 E E <ii c .n m cb ;, .!. --'- cb ..... o Ul c <I) �
� ê:±
-g qi-���- g � }ij E �-� g
m o .�cMO Ec�
Ê� ��4i"E -ê &�2 � ��
'õ 41 ., c � a. � ro B

O Editorial após mencionar estatfsticas do Estado de São Paulo

��'gãO QI � �.C�
� :2 6--� g ,g ou
diz:
I "' 41 c <n e>.!!! c o � E 41 w·- <'l l<"ll �
Diante de tais números espantosos, os remanescentes da de­ 1l E1l ::--o � E g- a_ w à_o m :g <�� � :g � �u :Z "" o
O -o
Cu
c ·-
� o - o 3o m m ., e>e � o 0 � ., �li "' "" <"ll
m J::

g.� E41 ii; g; � §


E��u g � 5 -E>� "' o � 2
sordem costumam dizer que tudo quanto São Paulo possui é
� ::1 � � 3 �
<11 <11 0

c &g �w § o -gS � � §ro :g


c GI w B ::!!:
m

devido "exclusivamente" ao gênio empreendedor da sua po­


pulação. Mas não se lembram de que São Pauto não seria is­ § ::: g � -�-5_g
� � �m � g. � � � � � &�� � .rJ � � : :ê
w <"ll u
o :g g
.f�2 ê
E .!!! w
�E�
-<Um �c �., :w � - i'l;<"ll :O0 o0l> ",g 0>c � oE g<Il�
so, nem sequer sombra disso, se tivesse triunfado a desordem, I � jl i �� ��i�� : e:��8 cO i ro� ::J c w u �oco
o .� -:- o o E
><

de que eles são os remanescentes. Nem a iniciativa particu­ < 6 �


E "' e o "' ro g c :s g!
= ou �
., o E
��
<ll Q .D
���g_
� � .o w �� o g m o u o w .,
lar poderia manifestar-se; porque as atividades úteis e gene­ ro � - w u � � E ro E � "" � w a..El "" � �
:!:l � . � ::m .,
g

, :li .s � ::� ª � ,2!:Q o O B :1� ê c.§ª�'õ "' 5l w u � .-....

I�
rosas só se exercem sem restrições num ambiente onde to­
N 0 � w c m � 0 � 0 E <"Il GI Gi ro - � � o w .2
.o a.oe 0 -g �
ou ê
w't::§��
dos sintam que há um governo capaz de assegurar-se as con­ �:g:§.� �<'-";;; g � � � � � � &e ::�TI � -g �
N

0 �

z ·- � � � � ��� glji
O,

dições de tranqüilidade e de prosperidade dentro das quais o � � 0:: o� B{l E�·� .s � � u ;:e "iii e.E-gJ6 g� � O
(l) o <ll =-- o-1- nl a.�O .... �;�� W w c _. <( c; Cl a. c 0">0 ro E
esforço individual se possa recompensar a si mesmo. X o
_

o o I I I I I

62
63

O CP ao afirmar, ''diante de tais números espantosos' ' ,


5 � ;f: :6 ;5 Oposição de idéias til

� !:;f
E ·"'- <iJ 6
��! .: i! l ; :
que o que São Paulo possui não é devido exclusivljmente ao

!!! ..�:'���Q.a;:'l'> S"nl -. �-.8 ....o5


Cii "'<D ü gênio empreendedor de sua população, e que os remanescen­
:;::! -<U <1> 0 <1> [: ..!.. -.:i"
'1'1:1
o g o- :, ia
:e10
111 o N 0 u III O o E � .

g- � 2 g
1:: 3 :g_ = !! -; o 0 :s! o m.o � � e tes da desordem não se lembram de que São Paulo não seria
c- c g'l E 11;1 o 8 u .o '<ll ::l � aJ � .8 (3 m
·m n
� � � a. ;,� � sequer a sombra disso se a desordem tivesse triunfado, além
� �
g e õ g "'.. .e. e � o 2 c; ;g

'- � E<D &"' c� O� & .!!! Q) m


8 � � � g � -;
·-� .2 ;,; g: ü� � :§>< a>E -� Eo a-
-� -c
.§ -� .g �tôi-C'� � g � � � gÊ de querer desqualificar imediatamente a oposição, está con­
� � �� '.g 1:
<D -E;
·-
tribuindo para criar uma noção de que o progresso é bom,
� Q.
'!!! Q) � Q) "'C L· QIE � -= N ãí >< � O" Q II <II u � Q) O � m O
V> _
o
:I

:g 01 m 111 01 jg .!!! a; "' o ::J ô;


a. ·- "' � e � � % i5. tT ".i:: .2 S desejável, mas que só é conseguido se houver ordem .
� g ;;; � § .& � g: .u g a: -2 � �
i; � gj� � � 6 5- {: � 8- E O
{g ·� � � lij c- g o t lll_ � 't � E
.g 11 5- �� � � {: � 8 � 'ã; &{l 8 Outra idéia que tenta forjar é a inquestionabilidade e
� :g_ : � 8 � 8 � -� g ll> :!2 11
.

f! '§ e ·:;::� .E a. cr al (,), :!2 g'l � 0>


� "E E � .!!1 -ê "% � � � -�- : � 5- g
,

u. � � .<! l:l .:. :J m <11 "8 t? "a' � lli m


neutralidade do dado quando transformado em número.
]f � .g � 1 1 � e � :6 � � � 8 s-� g g: � g �� õ tl! 3 � O processo de análise dos discursos particulares permitiu­
o "'{ c.. E '<( o o
nos perceber os agentes, suas propostas e o papel que desem­
:� penharam no embate das forças em conflito .
. "
� -"
� Contudo não é só isso; o confronto dos discursos levou­
� �
�"
.2 nos a delinear melhor o perfil de cada agente e a relação en­
• •
l E.
� -�
• • tre eles. O confronto supõe um diálogo do pesquisador com



"E e •
• m

o�
os discursos e ao mesmo tempo estabelece um diálogo entre
:!E "õ
os agentes. Permite verificar a quem as propostas vão bene­
� 5 <i> m ficiar e seus limites concretos; daí tornar-se possível dimen­
& g- � :Q
�ee .!: sionar o que está em jogo.
� <I) - Q. 11;1 ....
' "" lll <ll <ll 'C RI

� &$ <U 1h�


� a> � "O o3 As palavras-chaves, associações e/ou oposições de idéias,
� e 3 �:M' {l -8 ��
embora apareçam em cada uma das três primeiras colunas
das fichas (diagnóstico, caminhos, propostas), se sistemati­
� -8 � s� 5O :2
o .= -� .... : -=�
f

zadas numa quarta coluna, que convencionamos chamar des­
_c.


;;; tinatário!observações, podem facilitar o trabalho do pesqui­
�fri'& o 2l � :6 � E -� o � Q) ..i! "' m
O
��� �
� .S o � ,g g: E § ê <U n g -o :g -8 �
;ij
ô
sador. Nessa coluna também procuramos discriminar os su­
'õ � E _g -�
�c ·ê
� � ..9: � •111 -5 .=_ g"Ê! E
� g.-E g- � : g <:'- o � � � � IV � jeitos sociais referidos direta ou indiretamente, procurando
re & !/) "ã: e o Ql <G g! �
� .!!! g 'E o <�� a. 'E .::: .g � .g responder as questões para quem fala, de quem fala, por
g � � � g :Jl ��;� 5 -ê g_ 1? � � � � � 1?
� �"' á
M � B
.g -; ·� : .g � m * ; .. m � � � 6 :2 ·;; quem fala.
� ..!!! Q.- Cl 0 "E ·!: f:?"
I !/)
o <��
<"11 ;:, .2 "0
"O cr � ....
11;1 1: (':""0
"O c_ <QI QI <�� ;:, e <�� E a. <V <�� o No diálogo entre teoria e evidências as perguntas ora apa­
"ti rn (':" * ._ <11 0 * (l) g. g. � -� E "O 'ü;
<V W ;:, e ":>
� .g
o -�
- � :1
o x w a. !/) QI
E � � 'Õe -u� 1?m �K: �o-õ�
e .!!! c: i!:l ; a: "E � o �
g.
� o recem explicitamente formuladas - tipo: Quais são os prin­
� 15 ! C Ql �
"à 1: ·::J E * � 'E 'O "e <G u, <��
E� � g q; ��;�
o .... g,: g ::-! cipais produtos a que se refere o CP? A quem interessa esses
:ii <�� * C. :ii e 'õ .::! "O g i; . 111
� § ·� � � � � ; � � ·� � � ,g_§ � 6 � �
M p;_ :!: c
z .e � � principais produtos? A quem se dirige direta ou indiretamente

"
"
� � I � p�qu �� t�� �IHHI o jornal? Que tipo de conceito quer formar no leitor? -, ora
aparecem de forma implícita, ou seja, embutidas no próprio
64

procedimento do pesquisador. O fato de dividir as fichas da

4
forma referida já supõe determinadas perguntas que têm na
sua base um dado pressuposto.
Nunca é demais repetir que a técnica surgiu no bojo do
trabalho, como resultado de uma reflexão que tinha como
referente o material empírico. Ela surge de uma problemati­
zação e, ao mesmo tempo, dá elementos para encaminhá-Ia
A orientação -
dentro daquela idéia de que a problematização é contínua no
processo da pesquisa.
diferentes experiências
caminhando juntas

A docência envolve uma proposta pedagógica e um mo­


do de conceber a produção do conhecimento histórico inti­
mamente ligados. A relação professor-aluno expressa sem­
pre uma concepção de história mesmo quando professores
e alunos não se dão conta disso.
Situamos a produção do conhecimento histórico como
, .,.1 histórico, isto é, produzido a partir de um lugar social, não
podendo, portanto, ser universalizado.
Embora o passado enquanto tal não se modifique, a
construção do conhecimento se modifica de acordo com o
modo pelo qual o historiador se vê no presente, pensa o so­
cial e se insere nele, enquanto sujeito social e enquanto pes­
quisador.

Professor e aluno: termos de um binômio

O conhecimento. histórico é sempre uma construção do


real e não o real.
Daí deriva a proposta de estar pensando o ensino e a pes­
quisa globalmente. Situar globalmente não é colocar o pro-

"
66
67

fessor como realizando a soma das duas atividades - ensino


Essa idéia tem por base a separação entre o sujeito (os pro­
e pesquisa - mas pensar o ensino como pesquisa. Nesse ca­
cedimentos téoricos e técnicos) e o objeto. Essa separação se
so, professor e aluno juntos estariam realizando uma refle­ dá durante todo o processo da pesquisa, desde a definição do
xão e produzindo saber como sujeitos no duplo sentido: su­ objeto, passando pela problematização e pela apresentação do
jeito social e sujeito do conhecimento. resultado. Dentro dessa visão o objeto não participa da pró­
Isto joga por terra a divisão rígida de papéis em que o pria explicação; os agentes históricos não têm voz, o pesquisa­
professor despejaria seu saber em cima do aluno, não res­ dor fala por eles a partir da teoria (conceitos bem elaborados,
tando para este senão aprender. Tal atitude legitimaria o dis­ definidos).
· ·'····
curso competente "no qual os interlocutores já foram pre­ O resuitado construído ganha autonomia em relação aos
viamente reconhecidos como tendo o direito de falar e de ou­ procedimentos que o geraram. Se os procedimentos são autô­
vir, no qual os lugares e as circunstâncias já foram predeter­ nomos ao longo da pesquisa, o conhecimento produzido tam­
bém será autônomo. Isto implica segmentação entre passado,
'minados para que seja permitido falar e ouvir e, enfim, no
presente e futuro. Esse conteúdo não aparecerá em hora ne­
qual o conteúdo e a forma já foram autorizados segundo os
nhuma como produzido a partir de pressupostos particulares.
cânones da esfera de sua própria competência". 23
Na hora que esse conhecimento ganha autonomia "vira" o real,
Recusar esse tipo de relação entre professor e aluno é e o especialista é aquele que "conhece bem tal período", "co­
entender o professor não apenas como aquele que deve ter nhece bem tal assunto" . . .
um conhecimento especializado de uma determinada área e Tal orientador, especialista em,determinado assunto ou de­
que deve dominar procedimentos teóricos e técnicos univer­ terminada área, ensinará procedimentos teóricos e técnicos se­
salizantes, mas principalmente como orientador. Isto porque guros, "científicos", visualizados do começo ao fim.
""'
li esses procedimentos teóricos e técnicos, mesmo quando se O orientador, não se colocando como portador de conhe­
apresentam como universais, foram construídos a partir de cimento especializado e de procedimentos teóricos e técnicos uni­
um modo específico e particular de pensar e viver. Esta pre­ versais que devam ser ensinados, se dispõe a oferecer à refle­
tensão generalizante escamoteia o lugar onde foram produ­ xão sua própria experiência e a de outros pesquisadores, não
zidos tais procedimentos, recriando o mito da neutralidade enquanto normas mas enquanto caminhos percorridos a partir
e da objetividade. Ao se apresentarem como universais, es­ de interesses e pressupostos definidos.
ses procedimentos tendem a ser excludentes, criando no pes­ Orientador e orientando, na reflexão conjunta, incor­
quisador uma posição sectária, pois tende a rejeitar tudo aqui­ poram criticamente na construção do objeto essas diferentes
lo que escapá à sua construção teórica (modelo explicativo). experiências e inclusive a dos agentes históricos passados.
Essa forma de pensar é reforçada pela questão da es­
pecialização. O especialista é aquele que detém a soma de co­
nhecimento produzido sobre o objeto. Pesquisa histórica: determinar
o indeterminado

23 Cf. CHAUf, Marilena, Cultura e democracia: o discurso competente e ou·


Quando o historiador pensa que o acontecer histórico
trasjalas. São Paulo, Moderna, 1980, p. 7.
é construído por sujeitos históricos em luta, e que seu objeto

t2�:�:-��. L C /.t G E tJ O i
68
69

está em movimento e que este movimento é contraditório, para o futuro e, ao mesmo tempo, está se colocando como
recusa a idéia de que o acontecer histórico obedece a uma sujeito de conhecimento. Nisso dialoga com os sujeitos pas­
lógica rígida. Nesse caso procura uma outra lógica que dê con­ sados (anarquistas) e outros envolvidos na questão.
ta do movimento, da contradição - é o que Thompson cha­ Nessa abordagem que faz do passado se acerca de ou­
ma de "lógica histórica". 24 tros pesquisadores através da bibliografia e do orientador,
Dentro dessa lógica os procedimentos (conceitos, cate­ não para buscar o conhecimento sobre os anarquistas ou re­
gorias, técnicas) não são visíveis passo a passo. Serão forja­ ceitas de como estudá-los, mas para discutir procedimentos
dos no diálogo entre o pesquisador e os "registros" e for­ e fazer as próprias opções, isto é, forjar seus próprios ca­
mulados explicitamente. minhos.
A recuperação que faz do passado não tem condições
A pesquisa está ao alcance de qualquer pessoa que se
de ser totalmente objetiva porque a subjetividade do pesqui­
disponha a recuperar no passado o processo de constituição
sador está presente. Nesse sentido, o conhecimento do pas­
do espaço de tensões e conflitos que é o presente e no qual
sado é uma representação mas não arbitrária, porque cons­
busca se situar.
truída a partir de evidências. A compreensão desse passado
Nessa tarefa se coloca como sujeito ativo, que terá que pode questionar, modificar a compreensão do presente, que,
se posicionar continuamente fazendo opções, escolhendo e por sua vez, pode também modificar a compreensão do
forjando caminhos no diálogo permanente como os sujeitos passado.
históricos envolvidos no seu objeto de estudo, com outros Enfatizamos que é de fundamental importância que se­

I
pesquisadores (bibliografia) e com o próprio orientador. Por jam esclarecidos os lugares de onde cada um fala, pensando
exemplo, um pesquisador, para quem a questão da autono­ o saber já construído não como o real ou como o retrato fiel
do passado, mas como um conhecimento construído a partir
.J mia da· classe trabalhadora se coloca hoje, busca no passado
de pressupostos e de interesses, procurando desvendar as ra­
o modo como essa autonomia era pensada e vivida, os tipos
de organização, as teorizações que apareceram nessa prática zões de ser e aparecer do objeto.
e as injunções que a tornaram uma proposta vencida. Nesse Nessa tenda de trabalho, aluno e professor dedicam-se
sentido, estudar uma prática onde essa autonomia estava pre­ à construção de um saber. Como diz Chauí "O saber é o tra­
balho para elevar à dimensão do conceito uma situação do não­
sente se torna importante e é nessa perspectiva, por exem­
saber, isto é, a experiência imediata cuja obscuridade pede o
plo, que o estudo do anarquismo pode ganhar significado
trabalho de clarificação. A obscuridade de uma experiência
muito grande. Por outro lado, não interessa reviver o anar­
nada mais é senão seu caráter necessariamente indeterminado
quismo tal qual era no momento, mas sim o modo como en­
e o saber nada mais é senão o trabalho para determinar essa
caminhou a questão da autonomia da classe trabalhadora. indeterminação (. . . ) só há saber quando a reflexão aceita o
Ao incorporar essa experiência e pensá-la hoje (passado, pre­ risco da indeterminação que a faz nascer, quando aceita o ris­
sente e futuro se confundem na síntese histórica), o pesqui­ co de não contar com garantias prévias e exteriores à própria
sador está se colocando como ser político procurando saídas experiência e à própria reflexão que trabalha" . 25

24 THOMPSON, E. P. Miséria da teoria, cit. 25 CHAUf, M. Op. cit., p. 4-5.


70

Esse trabalho de pesquisa histórica tem que ser sempre

5
encarado como produção de saber e nunca como exercício
ou treinamento.
O exercício ou treinamento supõe a idéia de que � pro­
dução historiográfica, teórica, assume a forma de conheci­
mento acabado, isto é, de idéias instituídas.
O conhecimento entendido como uma verdade alcança­ Conclusão
da dispensa a questão o que fazer e o que pensar porque se
constrói a partir de normas prévias e exteriores ao objeto do
conhecimento. Nessa concepção ele se apresenta como uni­
versal e cumulativo.

Quando eu descobri todas as respostas da vi­


da, mudaram-se as perguntas.

i
Sócrates

r
'

Com este trabalho tivemos a intenção de contribuir pa­


ra o debate sobre o ofício do historiador, não oferecendo so­
J lução ou receitas, mas apenas falando da nossa reflexão no
momento presente, por entendermos a história como um per­
manente fazer-se e a investigação histórica como uma busca
aberta a múltiplas possibilidades.
Isto passa por abrir mão de pensar a história como ten­
do um sentido preestabelecido. Passa também por abrir mão
da teoria como pronta e acabada, o que não significa dimi­
nuir sua importância; apenas não esvaziá-la da sua historici­
dade tornando-a uma entidade abstrata, atemporal, aplicá­
vel a diferentes conjunturas, separada dos sujeitos que a pro­
duziram e das circunstâncias em que foi produzida. Passa pela
reflexão sobre o compromisso do historiador com o "aqui"
e o "agora", mesmo quando o seu objeto de investigação está
distante no tempo. Passa igualmente pela reflexão sobre a
necessidade do diálogo com outros sujeitos sociais que, no

-. i --�--- _p'
72 73

seu viver, produzem outras interpretações, o que evidencia Por tudo isso vemos nosso trabalho como construção;
o caráter incompleto do conhecimento histórico. Passa ain­ tem a ver com o presente, não é definitivo e tem profundo
da pela reflexão sobre diferentes temporalidades históricas envolvimento com múltiplos saberes produzidos na experiên­
como "fazeres em aberto". Isso implica não aceitar "o si­ cia cotidiana, tanto na academia quanto em outras dimensões
lêncio sobre o emissor do discurso historiográfico, como se da prática social.
esse discurso fosse pura emanação do objeto (os documen­ Ao fim dessa conversa está muito presente para nós o sig­
tos, o saber acumulado na área) e aquele emissor não pas­ nificado político do trabalho historiográfico, da nossa expe­
sasse de um parteiro dessa emanação" . 26 riência profissional, assim como dessa reflexão.
•• Abrir mão da teoria e das certezas como algo dado e pré­
vio, que norteia e dá substância ao trabalho de investigação,
significa um desafio, um estímulo e configura-se como uma
tarefa árdua ainda que prazeirosa. Desafia e estimula por­
que, à medida que abre mão de critérios seguros, o historia­
dor, tendo que forjar sua própria trilha, elaborando seus ins­
trumentos de trabalho, aparece como agente da historicida­

i .l
de que também se interpreta. Nesse caminho rearticula suas
relações com a teoria; ele a pensa e a constrói no interior da
investigação.
Se para alguns isto pode ser angustiante e temerário, por
destruir certezas, por retirar pontos de apoio ou referências,
para outros representa uma conquista, por liberá-los para der­
rubar fronteiras penetrando em campos considerados intran­
sitáveis pelo historiador.
Iniciativas dessa natureza, não tão recentes, no campo
da história vêm sugerindo aos profissionais da área que pres­
tem atenção ao processo de conhecimento mais do que ao
produto.
É uma tarefa árdua porque nela o historiador se vê na
contingência de enfrentar a cumplicidade entre o conhecimen­
to histórico e a memória dos dominantes presente nas temá­
ticas, nos currículos, na argumentação científica, inclusive no

26 Cf. SILVA,
discurso da objetividade.

M. A. O puro objeto e a vontade de impotência, 1987. Mimeo­


grafado.
75

Procuram, em seus trabalhos, enfocar as estruturas sociais

6
vendo seu funcionamento e evolução. Aceitam uma histó­
ria total que aborde os grupos humanos sob todos os seus
aspectos e para isso ampliam a noção de documento. Para
Febvre, a história se faz ' 'com tudo o que, pertencendo ao
Vocabulário crítico homem, depende do homem, serve o homem, exprime o
homem ( ... )" . Além disso consideram que a história deve
estar aberta às outras áreas de conhecimento humano; pa­
·""'' ra tanto, defendem a interdisciplinaridade.
i
il
Evidência: ver documento.

i
História social: de acordo com a concepção das autoras, é a
que se ocupa da explicação global dos fatos humanos aci­
ma de qualquer compartimentação; não é um estudo para­
lelo do social, do cultural, do econômico, do político, mas
Por acreditar que as palavras e os conceitos adquirem sim um estudo que leve em conta todas essas dimensões.
significados diferenciados de acordo com as concepções da­ Centra o eixo dessa explicação nos mecanismos que asse­
i
queles que os emitem, procuramos discutir, no decorrer do

Ji
guram a dominação e exploração de uns homens sobre os
texto, o caráter histórico da produção do conhecimento. As­ outros e que se traduzem nas relações econômicas, políti­
sim, as questões polêmicas receberam, no próprio texto, um cas, sociais, culturais, nas tradições, nos sistemas de valo­
tratamento de modo a deixar claro o lugar social de onde fa­ res, nas idéias e formas institucionais etc.
lamos e a possibilidade de outras leituras das mesmas ques­
Historiografia: é a produção do conhecimento histórico. Pa­
tões. Entretanto, buscando corresponder às características da
ra alguns essa produção, por ser científica, acaba por se
coleção "Princípios", apresentamos algumas informações.
identificar com o próprio acontecer histórico; outros pen­
Documento: para muitas tendências é a expressão de toda a sam essa produção como construção, ou seja, uma repre­
manifestação humana, como por exemplo objetos, paisa­ sentação do real feita pelo historiador a partir da sua in­
gens, signos etc., além dos documentos escritos. Para ou­ serção no social (concepções, experiências, valores etc.) ar­
tros, como o positivismo por exemplo, são somente docu­ ticulada à leitura dos registros.
mentos escritos. Ver positivismo. Marxismo: nome genérico dado ao sistema de pensamento
Escola dos "Annales": também conhecida como escola fran­ elaborado pelo filósofo alemão Karl Marx (1818-1883). Pa­
cesa, é constituída por um grupo de historiadores france­ ra ele e seu mais conhecido colaborador - Engels (1820
ses ligados à revista Annales d'Histoire Économique et Sa­ -1 895) -, a história é um processo dinâmico, dialético,
cia/e, fundada em 1 929. Seus iniciadores - professores no qual cada realidade social traz dentro de si o princípio
universitários - foram Marc Bloch e Lucien Febvre. Ainda de sua própria contradição. No processo histórico, essas $

que não tenha unidade teórica, abrigando várias tendên­ contradições são geradas pela luta entre as diferentes clas­
·
"
"
'

cias, este grupo representou uma oposição ao positivismo. ses sociais. Esses autores vão exercer uma influência de- "

.
,

��ciõ® \

, ,., ,
----�--
..
�=

f\Bl t\t ,
.. . , . , , . .- �

. .
..
.. . ' .

-- �·__:_----�---....�.,.,_ ,�-:.:::::�:=-���-- . . - -----·�


77
76

: em pri­
cisiva nas formas posteriores de se escrever história. Sua vistas julgavam que estas consistiam em duas coisas
do lugar , esta­
obra é muito complexa, o que levou seus seguidores a vá­ meiro lugar, determinar os fatos; em segun
s imedi atam ente
rias leituras. O historiador marxista inglês E . P . Thomp­ belecer as leis. Os fatos eram determinado
estab elecid as atra­
son distingue quatro formas de conceber o marxismo: I �) pela percepção sensorial. As leis eram
, por indu­
a mais "ortodoxa" que concebe o marxismo como um "cor­ vés da generalização feita a partir destes fatos
espéc ie de histo­
po auto-suficiente de doutrina, completo, internamente con­ ção. Sob esta influência, surgiu uma nova
as condições
sistente e plenamente realizado num conjunto de textos es­ riografia, cujos historiadores, buscando criar
para a história,
critos". Isto supõe um conjunto de escritos aprovados e uma que lhes possibilitassem determinar as leis
que pudes­
autoridade central que os aprove; 2�) esta forma é mais fle­ lançaram-se no afã de recolher todos os fatos
verac idade de tais
....,, xível e se apresenta somente como método; em geral ela de­ sem. Preocupados com a autenticidade e
I o oficia l, con­
fatos dão grande ênfase ao documento escrit
' I
riva para uma colocação muito vaga ou,�gradualmente, as­
sume a forma mais ortodoxa ao obrigar a definir sobre os siderado como prova histórica.
textos de Marx o que seja fundamental; 3 �) há também a Registro: ver documento.
corrente que aceita o marxismo como um legado que pode
se combinar com outros legados: tal colocação pode levar
a um ecletismo sem sentido; 4�) face a essas concepções
Thompson propõe um marxismo como "tradição" no sen­
tido que essa palavra assume nos estudos literários. Escla­

j
rece que prefere tradição a escola porque "me é mais fácil
pensar em uma pluralidade de vozes em conflito que, ape­
sar disso, argumentam dentro de uma tradição comum, do
que imaginar esta pluralidade dentro de uma escola".
Memória: individual é um "conjunto de funções psíquicas, gra­
ças às quais o homem pode atualizar impressões ou infor­
mações passadas, que ele representa como passadas" .(. . . )
"Memória coletiva (. . .) é um instrumento e um objetivo
de poder. São as sociedades cuja memória social é sobretu­
do oral ou que estão em vias de constituir uma memória
coletiva escrita que melhor permitem compreender esta lu­
ta pela dominação da recordação e da tradição, esta mani­
festação da memória." (J. Le Goff, p. 46.)
Positivismo: conjunto de doutrinas caracterizado sobretudo
pelo impulso que deu ao desenvolvimento de uma orienta­
ção cientificista ao pensamento filosófico. Seu maior ex­
poente foi o francês Auguste Comte (1798-1857). Devido
à concepção que tinham de ciências da natureza, os positi-
79

7
Estuda a improvisação de papéis por mulheres oprimidas
no processo de urbanização da cidade de São Paulo du­
rante o século XIX. Traz para a cena histórica agentes so­
ciais antes relegados, valorizando-lhes o saber e a expe­

Bibliografia comentada riência de vida.


FENELON, Déa Ribeiro. Fontes para o estudo da industriali­
zação no Brasil: 1889-1945. Revista Brasileira de Histó­
ria, São Paulo, 2 (3), mar. 1982.
--�
Texto que reflete sobre o desenvolvimento de um projeto
' I

," II
de pesquisa recuperando o diálogo estabelecido entre pes­
quisadores e objeto investigado em três linhas de pesquisa

I proposta.
___ . Trabalho, cultura e história social. Revista Projeto
ARIÉs, Phelippe. História social da criança e da faml1ia. Rio História, São Paulo, EDUC, (4), jun. 1984.
de Janeiro, Ed. Guanabara, 1986. Aborda a complexidade do social, apontando para a ne­
cessidade de se superar os limites e divisões compartimen­
i
Estuda a organização familiar na Europa (França sobre­
tudo) nos séculos XVI ao XVIII. Recupera o papel da tadoras das diferentes formas de conhecer a realidade.

J
criança na família e na sociedade e o valor que lhe é atri­ LE GoFF, Jacques, org. Memória e história. Enciclopédia Ei­
buído, utilizando como principais fontes a pintura e a li­ naudi. Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1979.
teratura. v. I .
CuNHA, Maria Clementina Pereira. O espelho do mundo: Ju­ Trata de temas candentes para a discussão em torno da
query a história de um asilo. Rio de Janeiro, Paz e Terra,
memória, do documento, da relação passado-presente, en­
1986. tre outros.
Trabalhando a instituição do Juquery desde sua fundação MACHADO, Arlindo. 1lusãó especular. São Paulo, Brasilien­
até os anos 1 930, a autora estuda o saber psiquiátrico, ar­ se, 1984. (Co!. Primeiros Vôos.)
ticulado a um conjunto de saberes e práticas, engendrado Obra que propõe resgatar o verdadeiro papel da fotogra­
pela e para a ordem burguesa que se instituía. Mostra a fia, definindo, analisando, valorizando a especificidade de
medicina e a psiquiatria corroborando os teóricos do to­ sua linguagem. Considera a fotografia - como qualquer
talitarismo, numa ação disciplinadora da sociedade, so­ sistema simbólico construído para representar o mundo -
bretudo no que diz respeito à sua articulação com a pro­ como ideológica, porque longe de constituir uma entida­
blemática urbana. de autônoma, transparente, é determinada, em última ins­
tância, pelas contradições da vida social.
DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Quotidiano e poder em S.
SILvA, Marcos A. O trabalho da linguagem. Revista Brasi­
Paulo no século XIX. São Paulo, Brasiliense, 1984.
leira de História, (11), set. 1985.
, '' I
.... � � -

"'=-- c- - - --·- --- - -- ----------�--.


--