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Universidade Sul de Santa Catarina

Conjuntos e
Elementos da
Análise Real

UnisulVirtual
Palhoça, 2016
Créditos

Universidade do Sul de Santa Catarina – Unisul


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Diva Marília Flemming
Christian Wagner

Conjuntos e
Elementos da
Análise Real

Livro didático

Designer instrucional
Rafael da Cunha Lara

UnisulVirtual
Palhoça, 2016
Copyright © Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida por
UnisulVirtual 2016 qualquer meio sem a prévia autorização desta instituição.

Livro Digital

Professora conteudista
Diva Marília Flemming
Christian Wagner

Designer instrucional
Rafael da Cunha Lara

Projeto gráfico e capa


Equipe UnisulVirtual

Diagramador(a)
Caroline Casassola

Revisor
Contextuar

ISBN
978-85-7817-823-9

E-ISBN
978-85-7817-824-6

515
F62 Flemming, Diva Marília
Conjuntos e elementos da análise real : livro didático /Diva Marília
Flemming,Christian Wagner ; design instrucional Rafael da Cunha Lara. –
Palhoça : UnisulVirtual, 2015.
113 p. : il. ; 28 cm.

Inclui bibliografia.
ISBN 978-85-7817-823-9
E-ISBN 978-85-7817-824-6

1. Matemática. 2. Análise matemática. 3. Funções de variáveis reais. I.


Wagner, Christian. II.Lara, Rafael da Cunha. III. Título.

Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Universitária da Unisul


Sumário

Introdução  | 7

Capítulo 1
Números reais | 9

Capítulo 2
Topologia da reta e funções contínuas | 53

Capítulo 3
Derivadas | 89

Considerações finais | 109

Referências | 111

Sobre os Professores Conteudistas  | 113


Introdução

Prezados estudantes

A Matemática tem a sua beleza sob diferentes aspectos. Por um lado, é considerada
como uma ferramenta para a resolução de problemas, para a modelagem matemática
e também para o exercício da cidadania. Mas há um segundo olhar – a matemática
pura. O que é a matemática pura? O termo “pura” pode ter interpretações diferentes,
pois a pureza é algo que nos lembra “leveza”, “simplicidade”, “que não contém
mistura”. Para os amantes da matemática, é possível seguir com essas ideias
adiante, mas para os que “odeiam” a matemática a expressão parece errada.

Se resgatarmos a história da matemática, fica mais fácil compreender a terminologia.


Há um grande número de relatos históricos envolvendo os números que mostram a
matemática fazendo parte da vida, sem preocupações imediatas com as aplicações.
Por exemplo, os Pitagóricos discutiam de forma mística os números. O exame
dos números e suas propriedades foram de interesse na Grécia Antiga e muitos
ridicularizavam as aplicações da matemática. Dessa forma, a matemática foi
construída: uns envolvidos com a sua pureza e outros com a sua aplicabilidade.

Entretanto, hoje temos a certeza de que há uma relação maravilhosa entre a


matemática pura e a matemática aplicada. Sem a matemática pura, muitos
problemas reais não poderiam ser modelados ou analisados.

Não há como contestar que os números controlam e definem a economia do


nosso planeta e, como tal, muitos são os impactos na sociedade.

Vamos, no decorrer da Unidade de Aprendizagem (UA) da qual esse livro faz


parte, conviver um pouco com a matemática pura e constatar que é a partir
dela que podemos compreender um grande número de conceitos e objetos
matemáticos das aplicações.

A Análise Matemática é um ramo da Matemática Pura e se ramifica de acordo com


os avanços numéricos ou dimensionais. Temos: análise real, análise complexa;
análise funcional; equações diferenciais; teoria da medida e análise numérica. Em
todos esses ramos é possível discutir as funções no conjunto dos reais ou dos
complexos, envolvendo espaços de uma ou mais variáveis ou espaços vetoriais.
Conjuntos, limites, derivadas, sequências etc. são estudados sob diferentes olhares.
Nesta nossa UA, vamos iniciar um mergulho intelectual e vamos nos dedicar
apenas aos aspectos iniciais da Análise Real que tradicionalmente discute as
funções de uma variável real, com variáveis no conjunto dos reais.

É importante lembrar que este texto não esgotará os conteúdos envolvidos


no seu estudo; outras leituras serão indicadas. Esperamos que todos fiquem
motivados com o roteiro de estudos proposto, nas suas diferentes rotas, sendo
que uma delas é a compreensão do presente texto.

Bons estudos e muitas leituras!

Profª. Diva Marília Flemming e Prof. Christian Wagner


Capítulo 1

Números reais

Habilidades No decorrer deste capítulo, o estudante


desenvolverá habilidades para utilizar um
tratamento formal dos conceitos matemáticos e
a compreensão da construção axiomática dos
números reais, aplicando as propriedades do corpo
dos reais em demonstrações simples envolvendo
de forma mais específicas os números irracionais.
Além dessas habilidades, outras serão construídas
para a identificação do conceito da cardinalidade e
enumerabilidade dos conjuntos finitos e infinitos.

Seções de estudo Seção 1:  Conjuntos numéricos

Seção 2:  Corpo dos números reais

Seção 3:  Corpos ordenados completos

9
Capítulo 1

Seção 1
Conjuntos numéricos
No decorrer desta seção, você já terá contato com demonstrações e provas.
Na história da matemática, é possível verificar que alguns matemáticos usaram
vários anos da sua vida tentando fazer uma demonstração. Rooney (2012)
salienta que o matemático Jakob Bernoulli levou 20 anos para provar que ao jogar
uma moeda um grande número de vezes daria o resultado de aproximadamente
50% de possibilidades de virar cara e 50% de virar coroa.

Conforme as características de alguns povos, é possível identificar preferências


entre a matemática aplicada e a matemática mais pura, que envolve provas e
demonstrações. Por exemplo, os egípcios e babilônios trabalharam muito na
resolução de situações-problema, ao passo que os gregos preferiram demonstrar
teoremas e enunciar axiomas que podiam ser considerados universalizados.

Quando você tem dúvidas no decorrer do seu estudo, você fica desanimado?

Se a sua resposta é sim, no decorrer desta nossa Unidade de Aprendizagem,


lembre-se de que a dúvida nos encaminha para as certezas. Temos
o exemplo de muitos matemáticos que fizeram novas descobertas e
demonstrações a partir de dúvidas sobre crenças existentes por longos anos.

Atualmente, temos um rigor matemático para seguir. Esse rigor está alicerçado na
junção da matemática com a lógica. A lógica fornece notações sistemáticas para
organizar uma prova ou demonstração. Hoje, além da lógica, temos ainda a Teoria
dos Conjuntos que se tornou um meio útil para demonstrar teoremas matemáticos.

Dessa forma, nossos primeiros passos estarão alicerçados nos conceitos e


propriedades dos conjuntos numéricos.

Vamos discutir aqui uma característica muito importante dos conjuntos numéricos
infinitos relativa à possibilidade de haver equivalência entre um conjunto e o seu
subconjunto próprio. Por exemplo, a relação estabelece uma correspondência
entre o conjunto dos números reais e o conjunto dos números pares.

Vamos discutir as ideias iniciais de Cantor (1845 – 1918) relativas à equivalência


de dois conjuntos, sua cardinalidade e a sua enumerabilidade.

Vamos concluir que o conjunto dos números reais, que será o nosso universo
de estudos, é um conjunto não enumerável, mas o conjunto dos números
racionais é enumerável.

10
Conjuntos e elementos da análise real

1.1 Analisando os conjuntos numéricos


Para facilitar a compreensão, vamos inicialmente estabelecer as notações que
vamos utilizar para os conjuntos numéricos no decorrer desse nosso texto:
Conjunto dos Números Naturais (N); Conjunto dos Números Inteiros (Z); Conjunto
dos Números Racionais (Q); Conjunto dos Números Irracionais ( ); e Conjunto
dos Números Reais (R). Acompanhe.

Conjunto dos Números Naturais:

Observe que usamos a enumeração de seus elementos e o zero não está incluído.
Normalmente, nos cursos de Cálculo Diferencial e Integral, usamos a inclusão do
zero no conjunto dos números naturais. Essa terminologia “natural” denota muito
bem que N é o conjunto cujos elementos são os que usamos em nosso dia a
dia para a contagem, desde quando damos os nossos primeiros passos quando
criança. Mas a famosa pergunta sempre surge:

O zero é um número natural?

Não está errado colocar o zero no conjunto dos números naturais, pois é apenas
uma convenção, muito interessante, quando estamos no contexto da álgebra e
do cálculo. Mas lembre-se de que neste texto a nossa convenção é não incluir
o zero e, na sequência, você terá a oportunidade de observar como isso vai ser
conveniente nos estudos da análise.

Conjunto dos Números Inteiros:

O conjunto dos inteiros está apresentado também pela enumeração de seus


elementos e podemos observar que estamos diante de números inteiros positivos,
negativos e o zero.

Conjunto dos Números Racionais:

Observe que enunciamos o conjunto dos números racionais por sua propriedade
de formação, ou seja, como um conjunto de frações geradas por números
inteiros com a condição de que o denominador não pode ser igual a zero (não
existe divisão por zero). Lembre-se de que os números racionais podem ter
representações decimais, tanto na forma finita como na forma periódica.

11
Capítulo 1

Conjunto dos Números Irracionais

Vamos representar os números irracionais como um conjunto complementar


dos racionais em relação ao conjunto universo dos reais. Assim, vamos usar a
simbologia . Neste conjunto, vamos ter os números decimais que não são
finitos nem periódicos. Em geral, o primeiro exemplo é o número Pi, representado
por ; e na sequência vem o número neperiano, discutidos no contexto do
estudo dos logaritmos. Entretanto, é possível criar algumas regras para escrever
outros números irracionais. Por exemplo:

0,20200200020000200000...

3,414411444111444411114444411111...

Veja que os três pontos podem ser perfeitamente preenchidos a partir da regra de
formação que foi estabelecida para cada um dos exemplos dados.

Temos também as raízes de números negativos de índice par, lembrando que o


primeiro a ser descoberto foi a raiz quadrada de dois, .

Há muitas lendas sobre a existência dos números irracionais que teve a sua
existência negada pelos Pitagóricos. Rooney (2012, p. 60) afirma que “Pitágoras
não sabia que seu banimento de números irracionais causaria problemas”. De
fato, o valor da hipotenusa de um triângulo retângulo com os outros dois lados
iguais a 1 unidade de medida é igual a unidades de medidas (aplicar o
Teorema de Pitágoras). “Pitágoras não era capaz de provar pela lógica que os
números irracionais não existem, mas quando Hipaso de Metaponto (nascido em
c.500 a.C.) demonstrou que a raiz quadrada de 2 é irracional e argumentou sobre
sua existência, diz a lenda que Pitágoras o afogou”.

Conjunto dos Números Reais:

De forma bem simplista, neste momento vamos considerar que o conjunto dos
números reais é formado por todos os números racionais e irracionais.

Nosso estudo na análise real tem como ponto de partida o conjunto


dos números naturais e terá sempre como objetivo final o conjunto dos
números reais.

12
Conjuntos e elementos da análise real

1.1.1 Características e propriedades dos números naturais

Podemos revisar as características ou propriedades dos números naturais por


meio de duas diferentes linguagens: uma linguagem mais coloquial e outra
linguagem mais formal.

Considerando-se que neste texto vamos dar início à linguagem mais formal da
matemática, começaremos usando as duas linguagens e você deverá ambientar-
se com a leitura, reflexão, análise e compreensão das linguagens mais formais de
análise matemática.

P1: Existe uma função injetiva , sendo que é a imagem de cada


número natural , denominada de sucessor de n.
Em linguagem menos formal, temos que “P1: Todo número natural tem um
sucessor, que ainda é um número natural. Ainda podemos dizer que números
diferentes têm sucessores diferentes”.

P2: Existe um único número natural tal que para todo .


( ).
Em linguagem menos formal, temos que “P2: Existe um único número natural 1
que não é sucessor de nenhum outro”.

P3: Se um conjunto é tal que e (isto é, ),


então .
Em linguagem menos formal, temos que “P3: Se um conjunto de números
naturais contém o número 1 e contém também o sucessor de cada um dos seus
elementos, então esse conjunto contém todos os números naturais”.

As propriedades P1, P2 e P3 são denominadas de Axiomas de Peano. O


axioma P3 é conhecido como o Princípio da Indução.

A propriedade P3, ou o Princípio da Indução, é usado para um método de


demonstração de teoremas no contexto dos números naturais. De forma geral,
o Método de Indução ou também denominado de Método de Recorrência
funciona com o seguinte raciocínio: Se uma propriedade P é válida para o número
1 e se supondo que P é válida para o número n, resulta que P é válida também
para seu sucessor s(n), então P é válida para todos os números naturais.

13
Capítulo 1

1.1.2 Operações no conjunto dos números naturais

Temos duas operações fundamentais:


Adição – que associa a cada par de números naturais a sua soma ( ).
Vale ainda as seguintes igualdades:

⎷⎷ ou “O sucessor de m é m+1”;

⎷⎷ ou .

Temos as seguintes propriedades da adição, sendo que :

⎷⎷ Associativa: ;
⎷⎷ Distributiva: ;
⎷⎷ Comutativa: ;
⎷⎷ Lei do corte:

Multiplicação – que associa a cada par de números naturais o seu produto


ou . Vale ainda as seguintes igualdades:
⎷⎷ ;
⎷⎷ .

Temos as seguintes propriedades da multiplicação, sendo que :


⎷⎷ Associativa: ;
⎷⎷ Comutativa: ;
⎷⎷ Lei do corte: .

1.1.3 Princípio da boa ordenação


Naturalmente, sabemos que os números naturais podem ser ordenados e é
bastante simples discutir a relação de ordem no conjunto dos naturais.

Como vamos escrever formalmente a ideia de que um número natural m é


menor do que um número natural n?

14
Conjuntos e elementos da análise real

Dizemos que m é menor do que n e escrevemos quando existe um tal


que .

É interessante lembrar que quando usamos a notação “menor ou igual”,


estamos entendendo que vale “menor” ou vale “igual”. Por exemplo, são
proposições verdadeiras: e , pois na primeira vale a desigualdade e
na segunda vale a igualdade.

O princípio da boa ordenação é uma propriedade da relação de ordem . Veja:

Princípio da boa ordenação: Todo subconjunto não vazio possui um


menor elemento, isto é, um elemento tal que para todo .

1.1.4 Fazendo pequenas demonstrações

Exemplo 1: Demonstrar o princípio da boa ordenação.

O princípio da boa ordenação:

Todo subconjunto não vazio possui um menor elemento,


isto é, um elemento tal que para todo

O que foi enunciado no destaque anterior é um teorema que pode ser enunciado como:

“Todo subconjunto não vazio possui um elemento mínimo”.


(LIMA, 1976, p. 31).

Para fazer a demonstração, vamos denotar por o conjunto de


números naturais menores que n.

Se , então 1 será o menor elemento de A e, então, o teorema já estará


demonstrado.

Se , então vamos considerar o conjunto X dos números naturais n tais que


.

Como , vemos que .

Por outro lado, como por hipótese A não é vazio, concluímos que .

Assim, a conclusão da Propriedade P3 não é válida.

Assim, deve existir tal que . Então, , mas


, portanto, é o menor elemento do conjunto A.

15
Capítulo 1

Exemplo 2: Usando indução provar que a soma dos n primeiros números naturais
é igual a .

Estamos querendo provar que ou usando a representação

de somatório temos .

Usando a indução temos:


Para n=1

Supondo a validade para n temos:

, vamos provar para n+1: .

Aplicando propriedades de somatório temos:

O que mostra o enunciado dado.

1.2 Conjuntos finitos

Vamos considerar o conjunto:

A ideia intuitiva que temos de um conjunto finito é de que podemos contar seus
elementos. Isso é o mesmo que colocar seus elementos em correspondência um
a um com os elementos de , para algum n.

Definição 1.1: Um conjunto X é dito finito se é vazio ou se, para algum n, existe
uma bijeção

16
Conjuntos e elementos da análise real

Podemos interpretar essa bijeção com o ato da contagem, veja:

Então, o conjunto X tem n elementos, ou seja, .

Definição 1.2: Quando o conjunto X tem n elementos, dizemos que a


cardinalidade de X é igual a n. A bijeção também é chamada de
contagem dos elementos de X e o número n chama-se número de elementos, ou
também número cardinal do conjunto X.

Exemplos

(1) Seja . Qual a cardinalidade de X?

Temos que os elementos de X são as soluções da equação ou seja,


ou . Assim, temos que X pode ser

igual a 2 ou -4/5. Logo e a sua cardinalidade é 2, pois temos dois

elementos. A bijeção pode ser escrita como:

(2) Estabelecer a cardinalidade do conjunto .

Temos que os elementos de A estão no intervalo de números reais estabelecidos


por .

17
Capítulo 1

Vamos resolver a inequação para estabelecer o intervalo de números reais que


vamos analisar. Temos:
Os valores de x devem satisfazer as expressões:

e , ou ainda,

e . Portanto, o intervalo de números reais é dado por

ou ainda .

Como os números do conjunto A são números inteiros no intervalo ,

temos que , ou seja, temos que a cardinalidade de A é igual a três,


pois o conjunto A tem três elementos.

A bijeção pode ser escrita como:

(3) tem cardinalidade igual a 4.

De fato esse conjunto é formado por . Portanto temos a bijeção

Seguem teoremas que podem auxiliar em demonstrações.

Teorema 1.1: Se A é um subconjunto próprio de , não pode existir uma bijeção


.

Esse é um teorema simples e a partir dele podemos enunciar vários corolários. Veja:

Corolário 1: Se e são bijeções então .

18
Conjuntos e elementos da análise real

Corolário 2: Seja X um conjunto finito. Uma aplicação é injetiva se, e


somente se, é sobrejetiva.

Corolário 3: Não existe bijeção entre um conjunto finito e uma parte própria.

Teorema 1.2: Todo subconjunto de um conjunto finito é finito.

Podemos também enunciar três corolários desse teorema.

Corolário 1: Dada , se Y é finito e f é injetiva então X é finito.

Corolário 2: Dada , se X é finito e f é sobrejetiva então Y é finito.

Corolário 3: Um subconjunto é finito se, e somente se, é limitado.

1.3 Conjuntos infinitos

Se X não for finito, dizemos que X é infinito. Formalmente podemos dizer que X
é infinito quando não é vazio e, além disso, seja qual for , não existe uma
bijeção

Exemplos:
1. Conjunto dos números reais.
2. Conjunto das parábolas que passam pelo ponto (0,0).
3. Conjunto dos números pares.

1.4 Conjuntos enumeráveis

Nesta seção vamos apresentar a definição de conjuntos enumeráveis, exemplos e


proposições.

1.4.1 Definição de enumerabilidade

Definição 1.3: Um conjunto infinito X é dito enumerável quando é finito ou


quando existe uma bijeção

19
Capítulo 1

Observe que se escrevermos:

Vamos obter .

1.4.2 Exemplos

(1) O conjunto I dos números inteiros positivos ímpares é enumerável.

Para mostrar essa afirmação, vamos escrever a bijeção:

Podemos mostrar sob outra representação, veja:

Também podemos visualizar na seguinte representação:

Subconjuntos infinitos de conjuntos enumeráveis são enumeráveis.

(2) Verificar se o conjunto dos números inteiros é enumerável.

Vamos resgatar a ideia intuitiva. Podemos dispor todos os números inteiros na


forma de uma lista, como segue:

0, 1, -1, 2, -2, 3, -3, 4, -4, 5, -5,... .

20
Conjuntos e elementos da análise real

Qualquer número inteiro, positivo ou negativo, será alcançado se avançarmos o


suficiente nessa lista.

O conjunto dos números inteiros Z é enumerável.

O conjunto dos números racionais é enumerável?

O conjunto dos racionais é enumerável e para mostrar vamos analisar algumas


proposições. Lembre-se de que no decorrer de todo o nosso estudo vamos sempre
usar teoremas, corolários e proposições para fazer diversas demonstrações.

1.4.3 Proposições

Proposição 1.1: Se é injetiva e Y é enumerável, então, X é finito ou


enumerável.

Prova: Como Y é enumerável, existe uma bijeção .

Consideremos a função composta , que pode ser visualizada na


Figura 1.1.

Figura 1.1 – Representação da função composta h

Como f e g são injetivas, o mesmo ocorre com h. Portanto,

é uma bijeção.

Como , ele é finito ou enumerável. Logo, X é finito ou enumerável.

Todo subconjunto de um conjunto enumerável é enumerável.

Proposição 1.2: Seja X enumerável. Se é sobrejetiva, então, Y é finito


ou enumerável.

21
Capítulo 1

Prova: Para cada podemos escolher um , com , tal que


. Assim, tem-se a definição de uma aplicação

Segue que g é injetiva.

Aplicando a Proposição 1.1, temos que Y é enumerável.

Proposição 1.3: O produto cartesiano é enumerável.

Prova: Definimos a aplicação

Temos que f é injetiva, pois .

Relembrando o Teorema da Álgebra, que afirma que todo número natural se


decompõe de maneira única como produto de fatores primos, e usando a
Proposição 1.1, podemos afirmar que é enumerável.

Proposição 1.4: Se X e Y são enumeráveis, então, é enumerável.

Prova: Como X e Y são enumeráveis, existem e bijeções.

Definimos:

Então h é injetiva. Como é enumerável, pela Proposição 1.1, temos que


é enumerável.

Como vamos provar que o conjunto Q dos números racionais é enumerável?

Para provar que o conjunto dos números racionais é enumerável, vamos


considerar que Z* seja o conjunto dos números inteiros não nulos, isto é,
. Então, Z* é enumerável. Pela Proposição 1.4, é enumerável.

22
Conjuntos e elementos da análise real

Definimos a aplicação:

Temos que f é sobrejetiva, pela própria definição de Q.

Como é enumerável, pela proposição 1.2, concluímos que Q é enumerável.

Já que Q é enumerável, como podemos listar os números racionais?

Inicialmente vamos considerar os racionais positivos, .

Na Figura 1.2, temos uma representação que permite visualizar a listagem, basta
acompanhar as setas.

Figura 1.2 – Listagem dos números racionais positivos

Observe a forma como a Figura 1.2 foi construída. Agrupamos os elementos cuja
soma do numerador com o denominador é a mesma, eliminando os elementos
repetidos (números circulados). Isso resultará na lista

, que contém todos os racionais positivos.

23
Capítulo 1

Proposição 1.5: Sejam conjuntos enumeráveis. A união


é enumerável.

Prova: Como é enumerável, podemos considerar os elementos de como


termos de uma sucessão:

Formamos uma organização matricial. Veja:

Essa formação matricial contém todos os elementos de X. Se realizamos a leitura


em diagonal, os elementos podem ser dispostos em sucessão:

Observe que o produto cartesiano finito de conjuntos enumeráveis é


enumerável. Portanto, não é válido para produtos infinitos.

1.5 Conjuntos não enumeráveis

Na seção anterior, mostramos que o conjunto dos números racionais é


enumerável. Cabe agora discutir quais conjuntos infinitos não são enumeráveis.

Em 1874, Cantor surpreendeu os matemáticos de sua época com uma descoberta


muito importante. Ele mostrou que o conjunto dos números reais tem cardinalidade
diferente da cardinalidade do conjunto dos números naturais. Em outras palavras,
significa dizer que o conjunto dos números reais é não enumerável.

Como vamos provar que o conjunto dos números reais é não enumerável?

24
Conjuntos e elementos da análise real

Proposição 1.6: O conjunto dos números reais é não enumerável.

Prova: Vamos mostrar que o conjunto dos números reais entre 0 e 1 é não enumerável.

Para isso, usaremos a representação decimal infinita, que é única para todo
número real.

Por exemplo:

0,397=0,396999...

0,5=0,4999...

Vamos supor que é possível estabelecer uma correspondência biunívoca dos


números reais do intervalo (0, 1) com os números naturais.

Podemos, então, escrever esses números em sucessão, , da


seguinte forma:

onde são algarismos de 0 a 9.

Vamos, agora, estabelecer uma contradição. Vamos fazer isso usando o “processo
diagonal de Cantor”. Construímos um número diferente de todos os listados.

Veja como isso é possível de se fazer!

Vamos trocar os algarismos da diagonal. Assim, esse novo número será diferente
de , na primeira casa decimal, diferente de na segunda casa decimal,
diferente de na terceira casa decimal e assim sucessivamente.

Dessa forma, chegamos a um absurdo, pois encontramos um número que não


está na lista.

Concluímos, então, que o conjunto dos números reais entre 0 e 1 é não enumerável.

25
Capítulo 1

1.6 Atividades de autoavaliação


1. Seja uma bijeção. Mostre que um desses conjuntos é finito se, e
somente se, o outro também for finito.

2. Defina , com e . Prove que f é


uma bijeção.

3. Verificar a enumerabilidade dos seguintes conjuntos:

(a)   
(b)   
(c)   
(d)   

4. Usando a definição de enumerabilidade, prove que são enumeráveis:

(a)    P= Conjunto dos inteiros pares


(b)    I= Conjunto dos inteiros negativos ímpares
(c)    Qp= Conjunto dos racionais com denominador p

5. Sejam X finito e Y enumerável, responda às questões apresentadas justificando


a respostas formalmente:

(a)    Existe uma função injetiva ?


(b)    Existe uma função sobrejetiva ?

6. Seja S o conjunto das circunferências de raio 1 e de centro (p, q), onde p e q


são números inteiros positivos, S é enumerável? Justifique.

7. Mostre que a união de 2 conjuntos disjuntos enumeráveis é enumerável.

8. Mostre que o conjunto de todas as sucessões cujos termos são os algarismos


0 e 1 é não enumerável.

26
Conjuntos e elementos da análise real

Seção 2
Conjunto dos Números Reais

Ao analisar os movimentos na História da Matemática, é possível perceber os


conflitos e as situações que podem justificar a qualificação da matemática como
“difícil e complicada”. Entretanto, é também possível constatar a dependência do
homem para cada nova descoberta da matemática.

No contexto da construção dos números, têm-se muitas páginas para analisar.


Mas neste texto, cabem algumas considerações sobre o conjunto dos números
reais no contexto da fundamentação da Análise Matemática.

Roque (2012, p. 461) afirma que:

Em meados do século XIX, diversos problemas matemáticos


conduziam a um questionamento sobre o que é um número real
e sobre como os racionais e irracionais se distribuem na reta. O
estudo da convergência de séries e o uso dos limites motivaram
a análise dos números para os quais as séries convergem: esses
números se distribuem na reta; como uma sequência de números
tende para números de outro tipo; que números podem ser
encontrados no meio do caminho etc.

Posteriormente, Cantor, em seus estudos com a convergência de séries, observou


que havia uma distribuição diferente dos números reais ao longo de uma reta, pois
observou distribuições mais específicas, ou seja, surgia a necessidade de estudar
os números reais de uma forma mais meticulosa e detalhada.

Dedekind também já vinha refletindo sobre essa situação quando estudava as


relações de ordem no conjunto dos números racionais. Ao comparar os racionais
com pontos da reta, observou que existem mais pontos na reta do que os pontos
que representam os números racionais. Observem que Dedekind estava diante da
visão de que os números irracionais também estão sobre a reta real.

Corte de Dedekind, ou, simplesmente, corte, é todo par (E, D) de conjuntos


não vazios de números racionais, cuja união seja Q, e tais que todo
elemento de E seja menor que todo elemento de D. (ÁVILA, 2006, p. 58).

Podemos fazer uma visualização da definição do Corte de Dedekind, destacada,


considerando que E é uma semirreta para o infinito negativo e D é uma semirreta
para o infinito positivo.

27
Capítulo 1

2.1 Corpos ordenados

Vamos iniciar introduzindo a definição de corpo, que é muito discutida nos


cursos de Álgebra.

2.1.1 Definição e exemplo de corpo

Definição 1.4: Um corpo é um conjunto K, munido de duas operações,


chamadas adição e multiplicação que satisfazem as condições:

Adição:
1. Propriedade Associativa: Para quaisquer ,
.
2. Propriedade Comutativa: Para quaisquer , .
3. Elemento Neutro: tal que .
4. Simétrico: Para qualquer , tal que .

Multiplicação:
1. Propriedade Associativa: Para quaisquer ,
.
2. Propriedade Comutativa: Para quaisquer , .
3. Elemento Neutro: , tal que .
4. Inverso Multiplicativo: Para qualquer , , tal
que .

Propriedade Distributiva (relaciona as duas operações): Para quaisquer


, .

Das propriedades listadas, as proposições a seguir podem ser mostradas usando


as propriedades:
•• (propriedades 2 e 3 da adição);
•• (propriedades 2 e 4 da adição);
•• (propriedades 2 e 3 da multiplicação);
•• (propriedades 2 e 4 da multiplicação);
•• (propriedade distributiva com a
propriedade 2 da multiplicação).

28
Conjuntos e elementos da análise real

Qual o conjunto numérico que satisfaz as propriedades de um corpo?

Já na formação básica, todos discutem o conjunto dos números racionais, Q,


munido com as operações:

Adição:

Multiplicação:

que constitui um corpo.

Existem outros conjuntos numéricos que satisfazem os axiomas


(propriedades) de corpo?

Você tem trabalhado com o conjunto dos naturais e dos inteiros, que não
apresentam uma estrutura de corpo. Nos naturais, não temos a existência do
elemento neutro da adição, do simétrico e do inverso multiplicativo. Já nos
inteiros não temos a existência do inverso multiplicativo.

Para a Análise Matemática, o conjunto dos números reais é o exemplo mais


importante de um corpo. Vamos explorar, então, outras propriedades de um corpo.

2.1.2 Propriedades e características de um corpo

Proposição 1.7 (Lei do Corte): Num corpo K, temos: Se e , então,

Prova: Como , tal que . Multiplicando ambos os membros


por , temos: .

Usando a propriedade 1 da multiplicação, vem: .

Pela propriedade 4 da multiplicação, segue que: .

Finalmente, pela propriedade 3 da multiplicação, concluímos que .

Vamos, agora, definir uma relação de ordem num corpo K. Temos a seguinte definição:

Definição 1.5: Dizemos que K é um corpo ordenado se existe um subconjunto


, chamado de conjunto dos elementos positivos de K, tal que:

29
Capítulo 1

(a) .
(b) Dado qualquer , exatamente uma das 3 condições seguintes
ocorre: ou , ou , ou .

Denotamos por –P o conjunto .

-P é chamado de conjunto dos elementos negativos de K.

Temos , sendo esta união disjunta.

Relação de Ordem: Num corpo ordenado K, temos:

. Lê-se: x é menor que y .

Observe bem a leitura dos símbolos :

⎷⎷ (x é menor que y);


⎷⎷ (x é maior que y);
⎷⎷ (x é menor ou igual a y);
⎷⎷ (x é maior ou igual a y).

Propriedades da relação de ordem:


1. Transitiva: ;
2. Tricotomia: para quaisquer x e y, temos exatamente uma das três
alternativas: ou , ou , ou ;
3. Monotocidade da adição: ;

4. Monotocidade da multiplicação: .

Você está conhecendo as propriedades de um corpo ordenado. Q é um corpo


ordenado e, como já mencionamos, o conjunto dos números reais R constitui
um corpo ordenado. Observe as propriedades da relação de ordem e perceba o
quanto elas são importantes na resolução de inequações que temos que resolver
em diferentes momentos do estudo e da aplicação da matemática.

30
Conjuntos e elementos da análise real

2.1.3 Definição de valor absoluto

Definição 1.6: Seja K um corpo ordenado e . O módulo, ou valor absoluto,


de x é definido por:

O módulo de x também pode ser definido por uma das seguintes expressões:
⎷⎷ ;
⎷⎷

Exemplos:

(1) , pois doze é maior que zero e , pois menos doze é


menor que zero.

(2) O módulo de 12 pode ser escrito como . Observe que a


notação significa que estamos considerando o maior valor entre dois valores dados.

(3) ou .

É importante você já se familiarizar com as inequações a seguir envolvendo


módulo, pois inequações desse tipo são importantes no estudo da análise e na
matemática de um modo geral.

Exemplo: Determinar os valores de x tais que .

Temos:

Podemos representar graficamente (Ver Figura 1.3):

31
Capítulo 1

Figura 1.3 – Representação gráfica da desigualdade

A solução é constituída pelos elementos x pertencentes a um intervalo aberto de


centro em a e raio .

Também podemos dizer que a solução é constituída pelos elementos x tais que
a distância de x até a é menor que . Neste caso, estamos interpretando
como a distância de x até a.

Propriedades: Seja K um corpo ordenado e . Então:


⎷⎷ (Desigualdade triangular);
⎷⎷ ;
⎷⎷ ;
⎷⎷ .

Prova:

(1) Prova da desigualdade triangular:

Temos as seguintes desigualdades:

Adicionando as desigualdades, vem:

Portanto,

(2) Provar que .

Temos |xy|2 = (xy)2 = x2 . y2 .

Portanto, .

32
Conjuntos e elementos da análise real

(3) Provar que .

A primeira desigualdade dessa propriedade é trivial, pois .

Vejamos, então, a segunda desigualdade:

Pela desigualdade triangular, temos que:


⎷⎷
⎷⎷ .

Trabalhando com essas inequações, obtemos:

Multiplicando a segunda inequação por -1, vem:

Portanto,

e, assim, .

Exemplo: Resolver a inequação .

Usando a monotocidade da adição temos:

ou .

Aplicando a monotocidade de multiplicação. Fazendo a multiplicação da última


relação por temos:

ou seja .

Logo, a solução é o intervalo aberto .

33
Capítulo 1

2.2 Supremo e ínfimo

Antes de formalizar as definições de supremo e ínfimo, vamos estabelecer outras


definições que são importantes para a compreensão desses dois importantes
conceitos no corpo dos números reais.

Apesar de ser uma notação já usada no decorrer de seu estudo, vamos


inicialmente reforçar os conceitos de intervalos no conjunto dos reais R, ou de
forma mais genérica, intervalos em um corpo ordenado K.

Dados , K um corpo ordenado, vamos usar as seguintes notações para


os intervalos infinitos e limitados:
⎷⎷ Intervalo fechado: ;
⎷⎷ Intervalo aberto: ;
⎷⎷ Intervalo aberto à esquerda e fechado à direita: ;
⎷⎷ Intervalo aberto à direita e fechado à esquerda: .

Podemos ainda ter os intervalos infinitos e ilimitados:


⎷⎷ Semirreta esquerda fechada de origem b: ;
⎷⎷ Semirreta esquerda aberta de origem b: .
⎷⎷ Semirreta direita fechada de origem a: ;
⎷⎷ Semirreta direita aberta de origem a: ;
⎷⎷ Intervalo total (pode ser considerado como aberto ou fechado):
.

Ao consideramos um intervalo de extremos a e b, estamos sempre


supondo que . Entretanto, podemos destacar aqui uma exceção, pois
podemos nos confrontar com o intervalo fechado que é um conjunto
unitário chamado de intervalo degenerado.

Lembre-se sempre de que todo intervalo não degenerado é um conjunto infinito.

Vamos agora discutir novos conceitos.

34
Conjuntos e elementos da análise real

2.2.1 Cota superior e cota inferior

Definição 1.7: Seja K um corpo ordenado e .

Dizemos que X é limitado superiormente se tal que para todo .


Nesse caso, e b é chamado uma cota superior de X.

Dizemos que X é limitado inferiormente se tal que para todo .


Nesse caso, e a é chamado uma cota inferior de X.

Se X é limitado superior e inferiormente, dizemos que X é limitado.

Diante da definição de um conjunto limitado, podemos escrever que:

X é limitado existem tais que .

Exemplos:

(1) Seja Q o corpo dos racionais, dado os conjuntos X, podemos verificar quais
são limitados inferiormente e/ou superiormente em Q e identificar quais conjuntos
são limitados em Q.
(a) ;

(b) ;

(c) ;

(d) X um conjunto finito qualquer.

Solução:
(a) .

Temos que 1 é uma cota inferior de X. Logo, X é limitado inferiormente. Temos,


também, que 7 é uma cota superior de X. Logo X é limitado superiormente.
Concluímos, assim, que X é um conjunto limitado.

35
Capítulo 1

(b) .

Podemos escrever: .

Temos que . Logo, X é um conjunto limitado (0 é uma cota

inferior e 1 é uma cota superior).

(c) .

Temos,

Podemos ver que -3 é uma cota superior de X. Portanto, X é limitado superiormente.

O conjunto X não tem cota inferior. Ele não é limitado inferiormente. Concluímos
que o conjunto X não é limitado.

(d) X um conjunto finito qualquer.

Podemos escrever: , onde os elementos de X encontram-se


listados em ordem crescente.

Temos, então, que é uma cota inferior de X e é uma cota superior de X.


Logo, X é limitado.

(2) O conjunto dos números naturais é limitado?

O conjunto dos números naturais é considerado naturalmente contido em todo


corpo ordenado K.

No corpo dos números racionais Q, N não é um conjunto limitado. Veja que:


⎷⎷ N é limitado inferiormente, pois ;
⎷⎷ N não é limitado superiormente, veja que podemos considerar que:
dado qualquer temos que e, além disso, .

36
Conjuntos e elementos da análise real

Observe que os resultados acima não permitem generalizar esse resultado para
todos os corpos, pois há um exemplo em que N é limitado. Trata-se de um caso
de maior complexidade, mas que pode ser analisado em Lima (1976, p. 59). N é
limitado no corpo das funções racionais com uma específica ordem estabelecida.

Temos a seguinte proposição.

Proposição 1.8: Seja K um corpo ordenado. São equivalentes:


(a) O conjunto dos números naturais não é limitado superiormente.
(b) Dados tal que .
(c) Dado qualquer tal que .

Prova:
(a) b) Sejam . Como não é limitado superiormente,
tal que . Pela monotocidade da multiplicação, segue
que .
(b) Vamos tomar e . Temos que tal que .
Logo, .

(c) a) Seja . Então . Por c) tal que .

Logo, e, dessa forma, nenhum elemento do corpo K é cota


superior de .

Sempre que estamos trabalhando com cotas superiores e inferiores de


um conjunto, é interessante ter em mente a visualização geométrica,
principalmente quando estamos no contexto do corpo dos reais.

2.2.2 Definição de supremo

Definição 1.8: Seja K um corpo ordenado e seja um conjunto limitado


superiormente. Um elemento é dito supremo de X, se valem:
(a) Para qualquer , tem-se ;
(b) Se e , então, .

Em outras palavras, podemos dizer que o supremo de X é a menor das cotas


superiores de X.

Denotamos: .

37
Capítulo 1

Podemos considerar o supremo com uma visualização geométrica, basta considerar


qualquer número positivo muito pequeno e então reescrever as condições como:

Geometricamente podemos visualizar esta caracterização do supremo, como


mostra a Figura 1.4.

Figura 1.4 – Representação geométrica de supremo

Em linguagem coloquial, as condições (a) e (b) são dadas por:


(a) b é cota superior de X;
(b) Qualquer número menor que b não é cota superior de X.

Exemplos:

(1) Dado o conjunto podemos afirmar que o supremo de A é 8, ou


seja . De fato 8 é cota superior e qualquer outro elemento de A não é
cota superior.

(2) Dado os seguintes intervalos do corpo de números reais: ; e ,


podemos dizer que o valor cinco é cota superior dos intervalos dados e qualquer
número menor que cinco não é cota superior.

2.2.3 Definição

Definição 1.9: Seja K um corpo ordenado, e um conjunto limitado


inferiormente, um elemento é dito ínfimo de Y, se:
(a) Para qualquer , tem-se ;
(b) Se e , então, .

Dessa forma, o ínfimo de Y é a maior das cotas inferiores de Y.

Denotamos:

38
Conjuntos e elementos da análise real

Também podemos escrever:

A visualização geométrica está na Figura 1.5.

Figura 1.5 – Visualização geométrica do ínfimo de um conjunto.

Exemplos:

(1) Dado o conjunto , podemos afirmar que o ínfimo de A é 2, ou seja


. De fato 2 é cota inferior e qualquer outro elemento de A não é cota inferior.

(2) Dado os seguintes intervalos do corpo de números reais: ; e


podemos dizer que o valor dois é cota inferior dos intervalos dados e qualquer
número maior que dois não é cota inferior.

2.2.4 Exemplos e considerações sobre supremo e ínfimo

Seguem algumas considerações para serem visualizadas nos exemplos:


(a) o supremo e o ínfimo de X são elementos do corpo K que podem
ou não pertencer a X;
(b) sempre que um conjunto X tem elemento máximo, esse elemento é
o supremo. De forma análoga, sempre que X tem elemento mínimo,
esse elemento é o ínfimo.

Exemplos:

(1) Seja Q o corpo ordenado dos números racionais.

Seja . Temos:

e .

Nesse exemplo, o supremo coincide com o valor máximo e o ínfimo coincide com
o valor mínimo.

39
Capítulo 1

(2) Seja

Facilmente podemos visualizar que .

Para visualizar o ínfimo, podemos conjecturar o valor zero, já que os elementos


do conjunto mostram uma tendência para o zero. Entretanto, é preciso validar
essa observação com as condições da definição do ínfimo. Temos:

(a) (0 é cota inferior de X);

(b) tal que (Proposição 1.8, item (c)).

Logo, 0 é a maior das cotas inferiores, isto é, .

Observe que neste caso o ínfimo não pertence ao conjunto X.

(3) Seja .

Podemos escrever, .

Temos que e .

(4) Seja .

Temos que e .

(5) Seja .

Temos que e .

(6) Seja .

Temos que . Como X não é limitado superiormente, X não possui supremo.

40
Conjuntos e elementos da análise real

2.3 Atividades de autoavaliação

1. Seja K um corpo ordenado, prove que vale a lei do corte para a adição, isto é,
.

2. Sejam K um corpo ordenado e tais que , mostre que

3. Sejam K um corpo ordenado e , prove que e .

4. Num corpo ordenado K, prove que .

5. Sejam K um corpo ordenado e tais que , prove que .

6. Por que um corpo deve conter pelo menos dois elementos?

7. Prove que num corpo ordenado K, se e , então, .

8. Dado o conjunto , desenvolva os seguintes itens:

(a)    dê exemplos de 3 cotas superiores e 3 cotas inferiores de X, se existirem;

(b)    determine, se existirem, o supremo e o ínfimo de X.

9. Repita o exercício 8 para os conjuntos:

(a)    ;

(b)    ;

(c)    .

41
Capítulo 1

10. Determine o supremo e o ínfimo dos conjuntos dados no corpo dos reais.

42
Conjuntos e elementos da análise real

Seção 3
Corpos ordenados completos

Nesta seção, vamos discutir um conceito que envolve certa complexidade,


historicamente justificável. Estamos nos referindo a uma insuficiência grave do
corpo dos números racionais Q, estabelecida no contexto da análise matemática.

Podemos ficar diante de conjuntos limitados de números racionais que não


possuem supremo em Q. Por exemplo, o conjunto
não possui supremo. De forma similar, podemos ficar diante de conjuntos limitados
de números racionais que não possuem ínfimo em Q. Por exemplo, o conjunto
não tem ínfimo em Q.

Essa situação pode estar relacionada à existência dos números irracionais.

3.1 Números irracionais

Nesta subseção, vamos discutir a existência dos números irracionais no contexto


da insuficiência do corpo dos racionais.

3.1.1 Proposições

Proposição 1.9: Não existe um número racional p tal que .

Prova: Suponhamos que existe tal que . Então, podemos escrever


sendo que os inteiros m e n não são ambos pares (se forem, podemos

simplificar, até deixarem de ser).

Temos, ou

ou, ainda, .

Concluímos que é par e, consequentemente, m é par. Podemos escrever,


então, , onde r é um inteiro.

Elevando ao quadrado, temos,

ou , já que .

43
Capítulo 1

Simplificando, vem , de onde concluímos que é par e,


consequentemente, n é par.

Chegamos, dessa forma, a uma contradição, pois m e n não são ambos pares.

Proposição 1.10: Sejam

Não existe em Q e não existe em Q.

Prova: Vamos fazer esta demonstração em quatro etapas.

Etapa 1: O conjunto X não possui elemento máximo.

Seja x um elemento qualquer de X, vamos mostrar que existe em X outro

elemento maior que x. Consideremos o número racional: .

Como e . Portanto, e, dessa forma, .

Tomamos um número tal que e . A existência desse número


racional r é garantida pela Proposição 1.8.

Provemos que .

Temos, . Além disso, temos:

(a) ;

(b) .

Usando (a) e (b), vem:

Portanto, e, dessa forma, .

Concluímos que X não possui elemento máximo.

44
Conjuntos e elementos da análise real

Etapa 2: O conjunto Y não possui elemento mínimo.

Seja , vamos mostrar que existe em Y outro elemento menor que y.

Consideremos o número racional .

Como , e . Portanto, e e, assim, .

Tomamos um número tal que .

Temos que ou .

Usando esse resultado, vem:

Logo, .

Para concluirmos que , falta verificarmos, ainda, se

Como , temos que .

Como , segue que e, portanto, .

Concluímos que e, dessa forma, Y não possui elemento mínimo.

Etapa 3: Se e , então, .

Sejam e . Temos,

Portanto, ou . Como e , segue que .

Etapa 4:

Vamos usar os resultados obtidos nas três etapas anteriores.

Suponhamos que existe em Q. Então:

45
Capítulo 1

(a) ;
(b) b não satisfaz . De fato, como X não tem elemento máximo
(provamos na etapa 1), ;
(c) b não satisfaz .

Supondo que , temos, então, que . Usando a Etapa 2, segue que


tal que (Y não tem elemento mínimo).

Utilizando o resultado obtido na Etapa 3, concluímos que .

Portanto, b não é a menor cota superior de X, ou seja, b não é o supremo de X, o


que é uma contradição.

Usando os itens “b” e “c” temos que: se existir , então .

Pela Proposição 1.9, sabemos que não existe tal que .

Logo, não existe em Q.

Comprovamos, assim, que existem conjuntos de números racionais que não


possuem supremo em Q. Existem lacunas em Q.

3.1.2 Definição de corpo ordenado completo

Definição 1.10: Um corpo ordenado K chama-se completo quanto todo


subconjunto não vazio, limitado superiormente, , possui supremo em K.

Se um corpo K é completo, então, todo subconjunto limitado inferiormente


possui ínfimo.

Exemplos:

(1) O corpo dos números racionais Q é um corpo ordenado que não é completo.

(2) O corpo dos números reais é completo.

3.1.3 O corpo ordenado completo dos números reais

Axioma: Existe um corpo ordenado completo que contém Q e preenche as


lacunas encontradas em Q. Tal corpo é chamado o corpo dos números reais R .

46
Conjuntos e elementos da análise real

Existe em R um número p tal que . Este número é representado


por e é um número irracional.

O conjunto dos números irracionais é definido como o complementar de Q em R,


e é denotado por .

Já discutimos na Seção 1 que Q é um conjunto enumerável e que R é não


enumerável. Como a união de dois conjuntos enumeráveis é um conjunto
enumerável, concluímos que é não enumerável.

Além disso, intuitivamente podemos dizer que os números irracionais estão


espalhados por toda a parte de R.

Segue uma importante definição.

Definição 1.11: Seja . Dizemos que X é denso em R, se qualquer intervalo


aberto contém algum ponto de X.

Simbolicamente, podemos escrever:

X é denso em R .

Exemplos:

(1) Todo conjunto finito não é denso em R.

(2) O conjunto dos inteiros não é denso em R.

De fato, intervalos como etc. não contém elementos de .

(3) Seja o conjunto dos inteiros, o complementar de é denso em R.

De fato, cada intervalo é um conjunto infinito que contém apenas um


número finito de elementos em . Existem, assim, elementos do complementar
de em

O conjunto dos racionais é denso?

A ideia intuitiva é que eles estão espalhados por toda a parte de R.

Seguem proposições para ampliar o olhar no presente contexto, ou seja, são


proposições que afirmam que o conjuntos dos racionais e o conjunto dos
irracionais são densos.

47
Capítulo 1

Proposição 1.11: Q é denso em R.

Prova: Sejam . Então, . Pela proposição 1.8, , tal

que .

Os números de forma são racionais e decompõe a reta real em

intervalos de comprimento . Como , um dos números .

É interessante visualizar geometricamente na Figura 1.6.

Figura 1.6 – Visualização geométrica dos racionais na reta real

Proposição 1.12: é denso em R.

Prova: Sejam, . Então, .

Pela Proposição 1.8, existe tal que ou .

Decompomos a reta real em intervalos através dos números . Esses

números são irracionais e o comprimento de cada intervalo é . Logo, algum

dos números .

Vimos, assim, que existem muitos números irracionais e que eles estão
espalhados por toda a parte de R.

Entre os números irracionais mais conhecidos estão e o número neperiano .

Diante de proposições é possível responder algumas questões interessantes.

48
Conjuntos e elementos da análise real

Como listar 10 números irracionais que são maiores que 500?

Se x é um número racional e y um número irracional, então o produto de x por


y é irracional.

Assim, podemos listar facilmente os 10 números pedidos. Por exemplo,


poderíamos tomar: .

3.1.4 Princípio dos Intervalos Encaixados

Proposição 1.13: Seja uma sequência decrescente de

intervalos fechados e limitados, . Então, , isto é, existe pelo


menos um número real x tal que .

Mais precisamente, temos:

, onde

Exemplo: Verifique o princípio dos intervalos encaixados para a família de intervalos

Temos,

Os intervalos da família dada são fechados e limitados e satisfazem:

Logo, todas as hipóteses da Proposição 1.13 são verificadas.

Além disso, temos que e .

49
Capítulo 1

Logo, e, assim, .

Finalmente, é interessante constatar que

Portanto, .

Lembre-se de que é um intervalo fechado degenerado.

3.2 Atividades de autoavaliação


1. Dê 2 exemplos de conjuntos de números racionais que:

(a)    Não possuem supremo em Q.


(b)    Não possuem ínfimo em Q.
(c)    Não possuem ínfimo nem supremo em Q.

2. Identifique se são verdadeiras ou falsas as afirmações que seguem, justificando


as suas respostas.

a)  ( )  Se X é um conjunto finito, o ínfimo de X e o supremo de X pertencem a X.


b)  ( )  Se um conjunto X tem supremo, então, ele admite infinitas cotas superiores.
c)  ( )  O ínfimo de um conjunto limitado de números irracionais é um irracional.
d)  ( )  Qualquer subconjunto ilimitado de números racionais é denso em R.

50
Conjuntos e elementos da análise real

3. Em R, dê um exemplo de um conjunto de números racionais que tem supremo


irracional e de um conjunto de números irracionais que tem supremo racional.

4. Mostre que no princípio dos intervalos encaixados não podemos retirar as hipóteses:

(a)    os intervalos são limitados;


(b)    os intervalos são fechados.

51
Capítulo 2

Topologia da reta e funções


contínuas

Habilidades No decorrer deste capítulo, o estudante desenvolverá


habilidades para compreender e conhecer os conceitos
e propriedades de conjuntos fechados e abertos;
diferenciar os conceitos de ponto interior, ponto
aderente e ponto de acumulação de um conjunto e
discutir a caracterização de conjuntos compactos
e analisar o Teorema de Bolzano-Weierstrass.
Finalmente, o estudante deverá reconhecer as
propriedades de compacidade e conexidade bem
como suas invariâncias por continuidade.

Seções de estudo Seção 1:  Conjuntos abertos e fechados

Seção 2:  Pontos de acumulação e Teorema de


Bolzano-Weierstrass

Seção 3:  Conjuntos compactos

Seção 4:  Funções contínuas

53
Capítulo 2

Seção 1
Conjuntos abertos e fechados

Os conceitos desta Seção são essenciais para discutir a topologia da reta.


Lembre-se de que em nosso texto a letra R é usada para representar o conjunto
dos números reais.

O que a topologia estuda?

A topologia na reta é a parte da análise real que se preocupa com o estudo


de alguns subconjuntos dos números reais, chamados abertos. Este estudo é
fundamental para que possamos compreender em sua plenitude os conceitos de
funções contínuas, conjuntos fechados, conjuntos compactos, entre outros.

É importante destacar o que Cantor e Hilbert afirmaram sobre o estudo de conjuntos.

Por ‘conjunto’ entendemos a entidade M formada quando colocamos


certos objetos, definidos e distintos m, da nossa intuição ou pensamento.
Estes objetos são chamados os ‘elementos de M’. (CANTOR apud
HAINER; WANNER, 1995, p. 278).
Ninguém nos expulsará do paraíso que Cantor criou para nós (MATH apud
HAINER; WANNER, 1995, p. 278).

Vamos introduzir o conceito de conjunto aberto. Este conceito é de fundamental


importância, pois tudo que veremos nesta seção será baseado nele.

1.1 Definição e exemplos de conjuntos abertos

Segue a definição e exemplos dos conjuntos abertos.

1.1.1 Definição de conjuntos abertos

Definição: Seja A um subconjunto de números reais. A é dito aberto se para


todo , tal que .

Vejamos a seguir alguns exemplos.

54
Conjuntos e elementos da análise real

1.1.2 Exemplos

(1) O intervalo aberto é aberto.

De fato, qualquer x do intervalo , sempre se consegue um , de modo que

. Só para exemplificar, tome, por exemplo, , então se

tomarmos , temos que . Você pode fazer

isto com qualquer elemento do intervalo; para cada um destes elementos você vai

encontrar um de modo que .

(2) O intervalo aberto é aberto.

Procede-se da mesma maneira, ou seja, sempre é possível conseguir um ,


de modo que .

(3) A união dos intervalos é aberta.

Como temos a junção de dois intervalos abertos, procede-se como no Exemplo


(1). Note que para todo x do intervalo , sempre se consegue um , de
modo que . Do mesmo modo, todo x do intervalo ,
sempre se consegue um , de modo que . Então, para
todo , existe , de modo que .

Mais adiante, tem-se um resultado que generaliza a união de abertos.

(4) O conjunto dos números reais e o conjunto vazio são abertos.

Esses conjuntos são abertos por definição.

(5) O conjunto não é aberto.

De fato, basta notar que se tomarmos e , então teremos o

intervalo .

55
Capítulo 2

Dada uma família qualquer de abertos em R, quais operações entre os


elementos desta família resultam em subconjuntos abertos de R?

1.1.3 Proposições e Teoremas

Para analisar a questão destacada, seguem proposições e um teorema que


não será demonstrado no presente texto, mas sua demonstração poderá ser
encontrada em livros de análise real.

Proposição 2.1:

a) Sejam conjuntos abertos em R . Então, é aberto.

b) Seja uma família de abertos em R . Então, é aberto.

Prova:

a) Seja . Então, e .

Como e são abertos, existem e tais que e


.

Seja , como mostra a visualização da Figura 2.1.

Então, e, consequentemente, é aberto.

Figura 2.1 – Visualização auxiliar para a prova do item (a)

b) Seja . Então, tal que e como é aberto, tal que

Segue que é aberto.

56
Conjuntos e elementos da análise real

Ao analisar e refletir sobre a Proposição 2.1, podemos observar as seguintes


conclusões que podem auxiliar em outras deduções:

(1) Você pode notar que a prova do item (a) da Proposição 2.1 pode ser feita
para qualquer número FINITO de conjuntos abertos. Logo, concluímos
que a intersecção finita de abertos é aberta.

(2) Note que não é aberto. Logo, a interseção qualquer de

abertos pode não ser aberta.

A interseção finita de abertos é aberta e a união qualquer de abertos é aberta.

A discussão dos conjuntos abertos ainda continua, pois há muita complexidade


envolvida. Temos o seguinte teorema, cuja demonstração será omitida por exigir
alguns tópicos não contemplados neste texto – entretanto, vamos aplicá-lo em
diferentes momentos e o seu enunciado é bastante acessível na compreensão
diante das proposições dadas.

Teorema 2.1: Todo aberto de R se escreve como uma união disjunta, enumerável
de intervalos abertos.

1.2 Vizinhanças e ponto interior de um conjunto

Vamos discutir as definições de vizinhança de um conjunto e pontos interiores


que envolvem o conceito de intervalos abertos. Lembre-se de que um intervalo de
números reais também pode ser denotado como um subconjunto dos números reais.

1.2.1 Definição de vizinhança

Definição 1.2: Seja . Uma vizinhança de x é um subconjunto de R que


contém um intervalo aberto de centro em x.

Simbolicamente, escrevemos:

V é vizinhança de tal que .

Observe os seguintes exemplos:

57
Capítulo 2

Exemplos:

(1) O conjunto é vizinhança do ponto 0.

(2) O intervalo também é vizinhança de zero, pois .

1.2.2 Definição de ponto interior

Definição: Seja A um subconjunto de números reais e , dizemos que x é um


ponto interior de A se existe uma vizinhança de x contida em A.

O conjunto de todos os pontos interiores de A é chamado o interior de A e


denotado por .

Exemplos:

Observe os exemplos que seguem e fique bem atento com as notações matemáticas.

(1) .

(2) .

Note que 0 não é um ponto interior de [0, 2], pois dada uma vizinhança V de 0
por menor que seja o , o intervalo obviamente não está
contido em [0,2], pois possui elementos negativos. Analogamente, temos que 2
não é ponto interior de [0, 2].

(3) .

O interior dos racionais é vazio, pois se tomarmos um e , dada uma


vizinhança V de x, o intervalo não está contido em Q, pois
qualquer intervalo centrado em x contido em V sempre contém um irracional, pois
os irracionais são densos em R.

(4)

Procede-se de modo análogo ao exercício anterior.

Diante das definições dadas, uma consideração pode ser destacada, ou seja,
uma nova caracterização pode ser dada para os conjuntos abertos.

Podemos caracterizar os conjuntos abertos como sendo aqueles que


coincidem com o seu interior.

58
Conjuntos e elementos da análise real

Podemos considerar a proposição.

Proposição 2.2: é aberto se, e somente se, .

Prova:

Observe que estamos diante de uma proposição que envolve o operador lógico
“se e somente se”, que pode ser denotado pela seta dupla ( ). Ao fazer uma
demonstração, vamos fazer em duas partes, ou seja, “a ida e a volta”

Supor que A é aberto. Então, tal que


é vizinhança de x em .

Supor . Seja . Como , existe tal que


A é aberto.

1.3 Definição e exemplos de conjuntos fechados

Segue a definição e exemplos de conjuntos fechados.

1.3.1 Definição

Um conjunto é dito fechado se o seu complementar é aberto.

Exemplos:

(1) O conjunto é fechado.

De fato, seu complementar é que é aberto.

(2) O conjunto dos reais e o conjunto vazio são fechados.

O complementar de é o conjunto vazio, denotado por , e por definição o


conjunto vazio é aberto, logo é fechado.

Do mesmo modo, o complementar do conjunto vazio é o conjunto dos reais R,


que é aberto por definição, logo é fechado.

Note que o conjunto dos números reais, denotado por R, e o conjunto


vazio, denotado por são abertos e fechados ao mesmo tempo.

59
Capítulo 2

(3) O intervalo é fechado.

De fato, o complementar é dado por , ou seja, estamos


diante da união de dois abertos, que é um conjunto aberto, concluindo então que
é um conjunto fechado.

(4) O conjunto unitário , é um conjunto fechado.

De fato, o complementar deste conjunto é a união que é um


conjunto aberto, sendo assim é um conjunto fechado

E o conjunto dos números racionais Q. Será aberto? Será fechado?

Vejamos a seguinte reflexão e análise.

Q não é aberto, pois, por exemplo, se tomarmos o ponto 0 (zero), todo intervalo
aberto que contém o ponto 0 contém também números irracionais (isto pelo
fato que os irracionais estão espalhados nos reais, denso em R ) e, portanto,
um intervalo que contém um número irracional, não está contido em Q,
contradizendo a definição de conjunto aberto.

Se Q não é aberto, podemos afirmar que Q é fechado?

Este é um erro muito comum, pensar que pelo fato de um conjunto não ser aberto
ele seja necessariamente fechado. Isso até é verdade para alguns conjuntos, mas
não é uma propriedade geral.

A resposta para a interrogação dada é: não!

Se Q é fechado, então seu complementar é aberto, mas observe que é


o conjunto dos números irracionais. Por um raciocínio análogo ao dos exemplos
apresentados, tome, por exemplo, e veremos que para todo , o intervalo
é , pois sempre temos um número racional no intervalo (isto
pelo fato de Q ser denso em R), logo não é aberto, portanto Q não é fechado.

Um subconjunto próprio de números reais, R, pode ser aberto, fechado ou


nem aberto nem fechado.

60
Conjuntos e elementos da análise real

1.3.2 Exemplos

Identifique se os conjuntos abaixo são abertos, fechados, abertos e fechados


simultaneamente ou nem abertos nem fechados.

(1) Conjunto dos números reais.

Como já provado anteriormente, este conjunto é aberto e fechado simultaneamente.

(2) Conjunto vazio.

Temos como já demonstrado que é aberto e fechado simultaneamente.

(3) .

O complementar deste conjunto é dado por que é a


união de três conjuntos abertos que é aberto. Logo é fechado.

(4) .

O conjunto é aberto, podemos mostrar de duas maneiras:

1º Método: De fato, se , então tal que . Seja

. Então .

2º Método: Note que

E o intervalo é aberto, como mostrado anteriormente.

(5) .

Intervalo aberto, pois para todo , tal que .

(6)

é um conjunto aberto, logo é fechado.

61
Capítulo 2

7)

Note que este conjunto é formado por pontos isolados e todos são menores que
1. A não é aberto, pois, por exemplo, para qualquer o intervalo

não está contido em A e . Só para exemplificar, tome , então

, fácil notar, pois este intervalo tem valores maiores que 1.

A não é fechado, pois e todo intervalo a forma contém o ponto 0 e


contém, também, pontos de A.

Logo, similarmente ao que acontece para os racionais, não é aberto.

Portanto o conjunto não é aberto e nem fechado.

1.3.3 Proposições

Veremos agora alguns resultados sobre conjuntos fechados de forma similar ao


que foi discutido com os conjuntos abertos.

Proposição 2.3:

(a) Sejam fechados, então, é fechado.

(b) Seja uma família de conjuntos fechados de , então, é fechado.

Prova:

(a) Sejam e os complementares de e , respectivamente. Note que como


e são fechados, e são abertos.

Agora, que é aberto e, portanto, é fechado.

(b) Basta notar que e usar a proposição 2.1.

Reflita sobre a afirmação que segue:


A reunião qualquer de fechados não precisa ser fechada.

62
Conjuntos e elementos da análise real

Veja o exemplo que ajuda na reflexão sobre a reunião de fechados.

Exemplo: Seja . Note que A não é fechado, pois seu complementar

não é aberto (não é possível encontrar uma vizinhança de 0 contida em ). Porém,


podemos escrever A como a união infinita de conjuntos unitários:

, sendo cada conjunto unitário fechado.

A união finita de fechados é fechada e a intersecção qualquer de


fechados é fechada.

Conforme você viu neste exemplo anterior, nem sempre é fácil identificar os
conjuntos fechados de R. Precisamos, portanto, de outras caracterizações dos
conjuntos fechados. Para isto, precisamos definir pontos de aderência.

1.4 Pontos de aderência e fecho de um conjunto

Para definir um ponto de aderência, necessitamos do conceito de convergência


de sequência infinita.

1.4.1 Ponto de aderência

Um ponto a é aderente ao conjunto ou ponto de aderência de X, quando a


é o limite de uma sequência de pontos , ou seja, se .

Seguem exemplos para consolidar a definição.

Exemplos:

(1) Dado qualquer conjunto , temos que todo ponto é ponto de


aderência de A, pois , onde . Em outras palavras,
basta trabalharmos com sequências constantes, ou seja, se , então,
.

(2) Seja . Então, 0 é aderente a A, pois e .

63
Capítulo 2

1.4.2 Fecho de A

O fecho de A, denotado por , é o conjunto de todos os pontos aderentes de A.

É claro que , pois todo elemento de um conjunto A é ponto aderente de A e,


portanto, pertence ao fecho.

Podemos agora caracterizar os conjuntos fechados como os conjuntos que são


iguais ao seu fecho. Dessa forma, é muito importante sabermos encontrar os
pontos de aderência de um conjunto. Para isso, temos a seguinte proposição.

Proposição 2.4: Um ponto a é aderente ao conjunto X se, e somente se, toda


vizinhança de a contém algum ponto do conjunto X.

Prova:

) Suponha que a é aderente a X. Então, , com .

Dada uma vizinhança V de a, como , existe tal que


e, portanto, .

) Para cada , considere a vizinhança de a dada por .

Por hipótese, cada contém pontos de X, isto é, .

Logo, podemos escolher um elemento de .

Mas, e, portanto, a é aderente a X.

Segue da Proposição 2.4 que: existe vizinhança V de X tal que .

1.4.3 Exemplos

(1) Qual o fecho do intervalo semiaberto ?

Todo elemento do intervalo já é um ponto aderente. Agora note também que 0 é


um ponto aderente, já que toda vizinhança de 0 contém pelo menos um ponto do
intervalo . De fato, basta tomar um intervalo centrado em 0 desta vizinhança,
ou seja, para todo , e este intervalo é formado de
valores positivos e, portanto, maiores que zero; logo, tem sempre um ponto
pertencente a . Sendo assim, o fecho é dado por .

64
Conjuntos e elementos da análise real

(2) De forma análoga, temos os fechos dos intervalos abaixo:

(3) Qual o fecho do conjunto . Este conjunto é fechado?

Primeiramente, vamos listar alguns elementos deste conjunto:

Cada um dos elementos é um ponto aderente, pois qualquer vizinhança de um


desses pontos contém pelo menos um elemento de A (este elemento inclusive,

pode ser ele próprio). Por exemplo, é uma vizinhança de e que

contém um único ponto de A que é o próprio .

Agora note, também, que 0 é um ponto aderente desse conjunto, pois para toda
vizinhança do tipo de zero, sempre existe um tal que .

Por exemplo, se basta tomar e, portanto, e . Assim,

não importa o tão pequeno que seja este (épsilon), sempre conseguiremos um
elemento da vizinhança de zero que pertencerá a A. Logo,

Como , então o conjunto não é fechado.

65
Capítulo 2

(4) O fecho de qualquer conjunto unitário é ele próprio. Por exemplo,


.

De fato, para um elemento pertencer ao fecho de X, qualquer vizinhança


deste ponto, tem que possuir pontos do conjunto X. Como X tem somente um
elemento, no caso o número 2, então qualquer vizinhança de 2, contém o próprio
2 como elemento de X, logo .

Você consegue descobrir alguma relação entre o conjunto e o seu fecho


nos exemplos mencionados?

Proposição 2.5: é fechado se, e somente se, .

Prova:

Suponhamos que F é fechado, ou seja, que é aberto.

Queremos mostrar que (já temos que sempre).

Seja a um ponto aderente de F, então, toda vizinhança de a contém pontos de


F. Logo, uma vez que este é aberto (se a pertencesse a , existiria uma
vizinhança V de a tal que , o que é uma contradição).

Suponha que e que (ou seja, ). Pela nota seguinte à


Proposição 2.4, temos que existe vizinhança V de a tal que . Assim,
e, portanto, é aberto.

1.5 Atividades de autoavaliação


1. Decida se os conjuntos abaixo são abertos, fechados, abertos e fechados ou
nem abertos e nem fechados.

(a) (b)

(c) (d)

(e) (f)

(g) (h)

66
Conjuntos e elementos da análise real

2. Decida se os conjuntos abaixo são abertos, fechados, ambos ou nem abertos


e nem fechados.

(a) (b)
R

(c) (d)

(e)

3. Encontre o interior dos conjuntos dados

(a) R (b)

(c) (d)

(e)

4. Encontre o fecho dos conjuntos abaixo.

(a) R (b)

(c) (d)

(e)

67
Capítulo 2

Seção 2
Pontos de acumulação e Teorema de
Bolzano–Weirstrass

Nesta seção vamos discutir pontos de acumulação e o Teorema de Bolzano–Weirstrass.

2.1 Pontos de acumulação

No Exemplo (3) de 1.4.3, da seção anterior, notamos que o conjunto

não é fechado, pois e isto segue diretamente da Proposição 2.5.

Analise o fecho do conjunto A. O que podemos dizer sobre os seus pontos?

Como , fica claro que é formado por todos os pontos de A acrescido


de um ponto especial, no caso, o zero. Observe que zero é “especial”, pois infinitos
pontos do conjunto A se “acumulam” perto do 0. Mais precisamente, dizemos que
existe uma sequência, não constante, de pontos do conjunto A que converge para
0 e 0 é um ponto de acumulação de A. Isso motiva a seguinte definição.

Definição 2.1: Um ponto é um ponto de acumulação de se existe uma


sequência de pontos de que converge para b. O conjunto de todos os
pontos de acumulação do conjunto A é denotado por A’.

Exemplos:

(1) . Então, .

De fato, se listarmos os elementos deste conjunto, , notamos

claramente que os pontos estão se acumulando próximo de zero, logo .

Ou, também poderíamos dizer que a sequência com é tal que

quanto .

68
Conjuntos e elementos da análise real

(2) Se A é um conjunto finito, então, .

Isso também é verdade, pois, por definição, em A deve existir uma sequência
infinita de termos, mas como o conjunto é finito, não temos como construir tal
sequência, logo

(3) .

É vazio, pois os números inteiros não se acumulam próximo de nenhum ponto,


basta tomar a sequência e nota-se que esta sequência tende ao infinito.

Lembre que caracterizamos os pontos de aderência de um conjunto A em


termos de suas vizinhanças. Temos uma caracterização semelhante para
os pontos de acumulação.

Proposição 2.6: Dado e , temos que se, e somente se, toda


vizinhança aberta de b contém ao menos um ponto de diferente de b.

Prova:

A prova é análoga à prova da Proposição 2.4, da seção anterior.

Geometricamente (ver Figura 2.2), temos que:

para todo , existe .

Isto é, para b ser um ponto de acumulação do conjunto A, para todo , se


pode centrar um intervalo em b, de modo que intervalo , sempre vai
conter um ponto do conjunto A que seja diferente do próprio b.

Figura 2.2 – Visualização de ponto de acumulação

Causa bastante confusão a diferença entre ponto de acumulação e ponto


de aderência de um conjunto. Em ambos devemos tomar uma vizinhança
do ponto b estudado, mas para ser ponto de acumulação a vizinhança
deve conter um ponto do conjunto que seja diferente do próprio b; já para
ser aderente, o ponto pertencente ao conjunto pode ser o próprio b.

69
Capítulo 2

Vejamos um exemplo para entender essa diferença:

Exemplo: Determine os pontos de aderência e os pontos de acumulação do

conjunto .

Já vimos no Exemplo (3) de 1.4.3 que os pontos de aderência deste conjunto são
o próprio A unido com o ponto zero, ou seja,

Agora, para cada ponto desse conjunto, sempre é possível construir uma
vizinhança de modo que o único elemento dessa vizinhança seja o próprio ponto,
o que contradiz a definição de ponto de acumulação, por exemplo, se ,o

conjunto é uma vizinhança de 1, pois , mas essa vizinhança

não possui nenhum elemento do conjunto A, que não seja o próprio 1, logo

não é um ponto de acumulação. Do mesmo modo que , o conjunto

é uma vizinhança de que não contém nenhum elemento do

conjunto A que não seja o próprio , logo não é um ponto de acumulação

de A. De maneira geral, para todo , sempre é possível encontrar um

, de modo que, seja uma vizinhança de que não

contém nenhum outro ponto do conjunto A que não seja o próprio . Sendo

assim, o único ponto de acumulação do conjunto A é o ponto , pois para

toda vizinhança de zero, sempre temos uma infinidade de elementos do tipo


pertencente a esta vizinhança. Sendo assim

Da Proposição 2.6, segue prontamente que se, e somente se, todo


intervalo aberto de centro b contém uma infinidade de pontos de A.

Agora que conhecemos bem os pontos de acumulação de um conjunto,


podemos formalizar a caracterização de fecho de um conjunto envolvendo
pontos de acumulação.

Temos a seguinte proposição:

Proposição 2.7: Seja . Então, , isto é, o fecho de A é a união dos


pontos de A com os pontos de acumulação de A.

70
Conjuntos e elementos da análise real

Prova:

Vamos provar que .


Seja .
Se ,então, .
Se , como , toda vizinhança V de b intercepta A em um ponto diferente
de b. Logo, .
A outra inclusão segue prontamente.

Exemplos: Determine os pontos de acumulação dos conjuntos abaixo:

(1) (conjunto dos números racionais).

Primeiramente se nota que todo racional é um ponto de acumulação, já que


qualquer vizinhança de um racional contém sempre outro racional. Agora
analisemos os irracionais I. Do mesmo modo, se , temos que toda
vizinhança de um irracional contém sempre um racional, logo .

(2)

Toda vizinhança de um ponto x de A contém um ponto de A que não seja o próprio


x. Além disso, a e b também são pontos de acumulação, pois toda vizinhança de a

e b sempre conterá pelo menos um ponto do intervalo. Com efeito,

são vizinhanças de a para todo que contém sempre um elemento do intervalo.

Do mesmo modo, faz-se o mesmo para b. Logo .

O próximo teorema, denominado Teorema de Bolzano–Weierstrass, é muito


importante na análise, pois nos dá uma maneira de encontrar conjuntos de
números reais que possuam pelo menos um ponto de acumulação.

2.2 Teorema de Bolzano–Weierstrass

Teorema 2.2: Todo conjunto infinito e limitado de números reais possui pelo
menos um ponto de acumulação.

Prova:

Seja um subconjunto infinito e limitado.

71
Capítulo 2

Como X é infinito, X contém um conjunto enumerável, digamos, ,


onde .

Como X é limitado, a sequência formada pelos elementos de X é limitada e,


portanto, pela versão do Teorema de Bolzano–Weierstrass para sequências, existe
uma subsequência convergente, digamos, para o ponto a .

Se para algum k, descartamos este termo e passamos para a subsequência


resultante. Esta operação claramente não muda o limite desta subsequência e,
portanto, a é ponto de acumulação de X.

2.3 Pontos isolados

Vamos analisar a definição e exemplos de pontos isolados.

2.3.1 Definição

Seja . O ponto é dito um ponto isolado de A se a não é ponto de


acumulação de A.

Equivalentemente, a é um ponto isolado de A se, e somente se, existe uma


vizinhança V de a tal que , ou seja, para a ser um ponto isolado
a intersecção do conjunto A com a vizinhança V de a, deve ser um conjunto
unitário, formado pelo próprio ponto a.

2.3.2 Exemplos

(1) Considere o conjunto . Todo ponto de A é um ponto isolado.

Por exemplo, para , podemos tomar . Na Figura 2.3, observe

que .

Figura 2.3 – Visualização de ponto isolado

72
Conjuntos e elementos da análise real

(2) .

Os pontos do conjunto são, todos, pontos isolados de A. 0 (zero) é o

único ponto de acumulação de A.

(3) (Conjunto dos números naturais).

Todo ponto de A é ponto isolado, pois para todo , .

(4) Seja .

Nenhum ponto de A é isolado. Todos os pontos de A são pontos de acumulação.

2.4 Atividades de autoavaliação


1. Determine o conjunto dos pontos de acumulação dos conjuntos dados abaixo.

(a) (b)

(c) (d)

(e)

2. Decida se os conjuntos abaixo possuem pontos de acumulação.

(a)

(b) onde e para

(c)

3. Encontre os pontos isolados dos conjuntos abaixo.

(a) (b)

(c) (d)

73
Capítulo 2

Seção 3
Conjuntos compactos

O matemático Frechet já observou em 1928 que os conjuntos compactos estão


entre os conjuntos mais importantes da Matemática.

De maneira coloquial, podemos dizer que conjuntos compactos são conjuntos


que tentam se comportar como conjuntos finitos (por exemplo, você já viu no
curso de Cálculo que toda função contínua em um intervalo fechado atinge o
seu máximo e seu mínimo). E intervalo fechado é um conjunto compacto como
se verá a seguir.

Nesta seção, caracterizar-se-á os subconjuntos compactos de R como os


subconjuntos fechados e limitados.

3.1 Cobertura de um conjunto

Vamos analisar definições e exemplos relacionados com a cobertura de um conjunto.

3.1.1 Definição de cobertura

Seja . Dizemos que uma família de conjuntos é uma


cobertura de X se . Se cada é aberto, dizemos que C é uma
cobertura aberta de X.

Uma subcobertura de C é uma subfamília onde e .

O exemplo a seguir deve tornar a definição de cobertura mais clara.

3.1.2 Exemplo

Sejam . Observe a Figura 2.4.

Figura 2.4 – Exemplo de cobertura

74
Conjuntos e elementos da análise real

Note que:

é uma cobertura aberta de X.

é uma subcobertura aberta de X.

é uma subcobertura aberta de X.

não é subcobertura de X.

3.1.3 Definição de conjunto compacto

Quando , dizemos que K é compacto se toda cobertura aberta de K


contém uma subcobertura finita.

3.1.4 Exemplos

Seguem exemplos relacionados com conjuntos compactos.

(1) O conjunto finito é um conjunto compacto.

De fato, pois se é uma cobertura aberta de K, então, para


algum , para algum para algum . Logo,
é uma subcobertura aberta de K.

(2) Qualquer conjunto finito é compacto.

A demonstração foi feita no exemplo anterior.

(3) é um conjunto compacto?

Note que X é infinito e todos os seus pontos são pontos isolados, ver exemplo (1)
de 2.3.2. Logo, se existe uma vizinhança de x tal que . Cada
contém um intervalo aberto de centro x e tal que .

A família é uma cobertura aberta de X, pois e como temos

uma união infinita de intervalos, não é possível construir uma subcobertura finita
desta cobertura (ver Figura 2.5). Portanto, X não é compacto.

75
Capítulo 2

Figura 2.5 – Visualização gráfica do Exemplo (3)

(4) e são compactos?

Não, a demonstração é análoga ao do item anterior, visto que os dois conjuntos


são formados por uma infinidade de pontos isolados.

(5) R não é compacto.

De fato, considere a cobertura .

Note que

Essa união foi formada substituindo-se em


já que . Agora, note que não é possível definir uma subcobertura FINITA de
. Logo R não é compacto.

Você deve estar notando que não é muito fácil decidir quando um conjunto
é compacto ou não, usando o conceito de coberturas. Para isto, veremos
duas caracterizações de conjuntos compactos bem mais simples.

3.2 Proposições e Teoremas

Proposição 2.8: Seja . Então, K é compacto se, e somente se, toda sequência
em K possuir uma subsequência convergente (que converge para um ponto de K).

Prova: Omitiremos a prova desta proposição por estar aquém do que propõe este curso.

Exemplo: é ou não é compacto?

não é compacto, pois a sequência é , onde converge para


1. Logo, todas as suas subsequências convergem para 1, mas 1 não pertence a X.

76
Conjuntos e elementos da análise real

Como provar que o intervalo fechado é compacto?

Teorema 2.3: é compacto se, e somente se, é fechado e limitado.

Prova:

Suponha que K é compacto.

Então, pela Proposição 2.8, toda sequência em K possui uma subsequência


convergente (em K).

Mas isso implica que K é limitado, pois, senão, , tal que


e a sequência não possui subsequência limitada, logo, não possui
subsequência convergente, o que contradiz a afirmação do parágrafo anterior.

Ainda, K é fechado, pois, senão, tal que , e isto implica


que todas as subsequências de convergem para a, que não pertence a K;
uma contradição. Logo, K é fechado.

Suponha que K é fechado e limitado.

Seja uma sequência em K.

Como K é limitado, é limitada. Pelo Teorema de Bolzano–Weierstrass existe


uma subsequência convergente, cujo limite é um ponto de K (pois K é fechado).
Segue, então, que K é compacto pela Proposição 2.8.

Quando se estuda cálculo e caracteriza-se o conceito de máximos e


mínimos, tem-se o seguinte resultado: toda função contínua em um
intervalo fechado e limitado (um compacto) atinge seu máximo e o seu
mínimo. Pode-se dizer que a proposição abaixo está no coração da prova
deste importante teorema do cálculo.

Proposição 2.9: Se é compacto, então, (a é o ínfimo de K) e


(b é o supremo de K), pertencem a K.

Prova:

Primeiro, note que e são números reais, pois K é compacto,


logo limitado.

77
Capítulo 2

Como , sabemos que existe uma sequência em K tal que , ou


seja, a é um ponto de acumulação de K. Logo, a pertence ao fecho de K, já que
o fecho é a união de K com seus pontos de acumulação, e como K é fechado
(Teorema 2.3), segue que .

Analogamente, segue que .

Desse modo, a proposição acima nos diz que se é compacto, então, K


possui um elemento máximo e um elemento mínimo.

Na próxima seção, que trata de funções contínuas, será provado um resultado


muito importante visto em cálculo, de que toda função contínua definida em um
intervalo fechado assume um máximo e um mínimo.

3.3 Atividades de Autoavaliação


1. Desenvolva os seguintes itens:

(a) dê um exemplo de um conjunto fechado, mas não compacto;

(b) dê um exemplo de um conjunto limitado, mas não compacto.

2. Quais dos conjuntos abaixo são compactos? Justifique.

(a)

(b)

(c)

(d)

3. Desenvolva os seguintes itens

(a) Seja e . C é uma cobertura aberta


de S ?

(b) Seja . Para todo , defina para um


fixo. é cobertura aberta de S ? São necessários todos os
conjuntos para cobrir S ?

78
Conjuntos e elementos da análise real

4. Desenvolva os seguintes itens:

(a) Encontre uma família de conjuntos fechados tais que


e .

(b) Mostre que se é uma família de compactos tais que


, então, .

5. Seja . , é dito um ponto de fronteira de A se todo aberto que contém


b, tem intersecção não vazia com o conjunto A e intersecção não vazia com o
conjunto complementar . O conjunto de todos os pontos de fronteira de A é
chamado a fronteira de A e denotado por .

Por exemplo, se .

Ache a fronteira dos conjuntos abaixo.

(a) (b) R

(c) (d)

(e)

6. Seja , desenvolva os seguintes itens:

(a) mostre que ;

(b) mostre que um conjunto fechado contém todos os seus pontos de fronteira;

(c) mostre que um conjunto aberto não contém nenhum dos seus pontos
de fronteira.

79
Capítulo 2

Seção 4
Funções contínuas

Quando estudamos cálculo, dizemos que uma função é contínua em a, se


.

Ou seja, requerem-se três condições para que a continuidade de f em a aconteça:

1. está definida, ou seja, a está no domínio de f.

2. existe.

3.

Em termos de limite, dizemos que f é contínua em a, se tende a quando


x tende a a. Em outras palavras, a função contínua tem a propriedade de que uma
pequena mudança em x produz somente uma pequena variação em , isto
quer dizer que se pode manter a alteração em tão pequena quanto se deseja,
desde que se mantenha a variação em x suficientemente pequena. Digamos que
estas definições acima que usamos em cálculo são bem informais, mas a análise
usa um conceito mais formal que veremos nesta seção.

4.1 Definição, exemplos e propriedades

4.1.1 Definição de função contínua

Uma função , definida no conjunto , é contínua no ponto


quando, para todo , existe um tal que e implica que
.

Podemos pensar nesta definição em termos de símbolos para termos uma


definição mais compacta. Lembre-se de que a simbologia é algo importante para
quem estuda matemática.

Como perceber que uma função é descontínua em um ponto ?

Dizemos então que uma função é descontínua se satisfazer a seguinte propriedade:


existe um , tal que para todo pode-se achar um x específico de A que
denotamos por , de modo que então .

80
Conjuntos e elementos da análise real

4.1.2 Definição

Dizemos que é uma função contínua quando f é contínua em todos os


pontos .

4.1.3 Exemplos

(1) Prove que a função é contínua no ponto .

De fato, dado , devemos encontrar um , tal que , de modo que


. Vamos estimar esta última desigualdade:

Agora para que a desigualdade se mantenha, veja que devemos


tomar então . Assim, temos:

Sendo assim, dado , existe um , tal que e que implica em


.

Note que não importa o quão pequeno seja este épsilon, sempre conseguimos
um delta, que é a metade de épsilon, de modo que a desigualdade
sempre se mantém, ou seja, conseguimos sempre o mais próximo que
queiramos de , desde que x esteja suficientemente próximo de 2.

(2) Mostre que a função é contínua no ponto .

Dado , devemos encontrar um , tal que , de modo que


. Vamos estimar esta última desigualdade:

Temos por definição que devemos ter , devemos então estimar


e para isso vamos supor que , podemos fazer isto à vontade,
visto que delta deve ser um número maior que zero, e como ele deve ser muito
pequeno, podemos supor que ele seja menor que 1.

Sendo assim, temos:

e então , podemos trabalhar um pouco mais com a


última desigualdade:

81
Capítulo 2

Portanto,

Logo,

Assim, basta escolher e, então, temos que se , então

4.1.4 Propriedades

Podemos tratar a definição de continuidade em um ponto , em termos de


pontos de acumulação e limite:

Se , isto é, se e é um ponto de acumulação de A, então


é contínua no ponto a, se e somente se , que é exatamente a
definição que usamos em cálculo. Isso difere um pouco do caso de um limite, pois
quando calculamos um limite, o ponto a não necessariamente precisa pertencer ao
conjunto A, já em continuidade exige-se que , e pode-se substituir , pois
neste caso a condição , ou seja, a desigualdade é
sempre satisfeita. Desse modo, para calcularmos uma descontinuidade no ponto
de vista do cálculo, basta calcular o limite e substituir x por a literalmente.

No Exemplo (1) de 4.1.3, provamos que a função é contínua em


, usando épsilons e deltas. Podemos perceber isso também usando o
conceito de limite, ou seja,

Teorema 2.4: Uma função é contínua em um ponto a se, e somente se,


toda sequência de pontos com se tenha .

Você pode encontrar a demonstração desse teorema em Lima (1993, p. 63).

82
Conjuntos e elementos da análise real

Teorema 2.5: Se são contínuas em , então:

(a) é contínua em a;

(b) é contínua em a;

(c) é contínua em a, desde que .

Prova:
(a) Como por hipótese f é contínua em a, então para todo , existe um ,
tal que e implica que .

Do mesmo modo como g é contínua em a, então para todo , existe um


, tal que e implica que .

Assim, para todo , tome , tal que o que implica em:

Assim, para todo , existe um , tal que implica em


, ou seja, é contínua em a.

Perceba que a escolha de usar na demonstração anterior foi apenas para

deixar a demonstração mais “elegante” para que na estimativa da desigualdade


tenhamos no final apenas épsilon. Se não tivermos usado ,
no final da estimativa teríamos , o que não estaria errado já que

Podemos também provar usando o teorema 2.4. De fato, como f e g são contínuas
em a, pelo teorema 2.4 as sequências e convergem para e ,
sendo assim temos:

Isto é, é contínua em a.

A prova de (b) e (c) pode ser feito de maneira análoga, usando as propriedades de
limite de um produto e limite de um quociente respectivamente.

Teorema 2.6: Sejam contínua no ponto , contínua no


ponto e , de modo que a composta está bem
definida. Então, é contínua no ponto a.

83
Capítulo 2

Prova: Queremos mostrar que , isto é,


dado , existe um , tal que sempre que .

Por hipótese, g é contínua em b, então dado , existe um , tal que


sempre que .

Por sua vez, a continuidade de f no ponto a nos diz que existe um tal que
implica que .

Portanto, assim dado , existe um , tal que implica em


. Dessa forma, provamos que é contínua no
ponto a.

Por exemplo, sabemos pelos exemplos (1) e (2) da subseção 4.1.3 que e
são contínuas em . Então, segundo os teoremas 2.5 e 2.6, as funções:

••

••

••

••

São contínuas em .

4.2 Funções contínuas em domínios compactos

Nesta seção, estudar-se-á um teorema muito importante, que é o teorema do


valor intermediário. Ele nos diz que se uma função é definida em um intervalo
fechado , então para um número L entre e , sempre existe um x
em de modo que . Em outras palavras, este teorema nos garante
que sempre conseguimos traçar o gráfico de uma contínua sem tirar o lápis do
papel, isto é, não há interrupções no gráfico. Outro teorema que será provado
aqui já foi comentado na seção anterior, de que toda função contínua definida
em um intervalo fechado, contém um máximo e um mínimo. Para a prova desses
teoremas, necessitamos de um resultado preliminar.

Proposição 2.10: Se f é uma função contínua em um domínio compacto A, então


é um conjunto compacto.

84
Conjuntos e elementos da análise real

Prova: Vamos utilizar a Proposição 2.8. Para isto, devemos provar que toda
sequência em possui uma subsequência convergindo para um ponto de
. Seja, então, uma sequência em A, como este conjunto é compacto por
hipótese, então pela Proposição 2.8, existe uma subsequência que converge
para algum ponto . Cada em é uma imagem de algum em A, como
f é contínua, então, pelo Teorema 2.4 temos , ou seja,
conseguimos uma subsequência de convergindo para um ponto de .
Desse modo, pela Proposição 2.8, é compacto.

Seja , será que toda função definida em um subconjunto de R


assume um valor máximo e mínimo?

A resposta é não. Veremos que o conjunto deve ser de um tipo específico.


Vejamos os exemplos abaixo:

Seja e de modo que . Temos que ,


para todo , existem com e isto significa que
não conseguimos encontrar nenhum , de modo que seja o maior ou o
menor valor.

Outro exemplo bem simples é a função tal que que possui um


menor valor em , já que para todo , mas não possui
um maior valor, pois para todo , sempre encontramos um , de modo
que e, portanto, , ou seja, sempre temos um valor maior. O
mesmo acontece para .

A reposta para garantirmos a existência de um valor máximo e mínimo é que a função


seja definida em um conjunto compacto. Vejamos alguns resultados já provados:
•• A Proposição 2.9 nos diz que se é compacto, então, A possui
um elemento máximo e um elemento mínimo.
•• A Proposição 2.10 desta seção mostra que imagem de compactos
por funções contínuas é compacto.

Sendo assim, temos o seguinte Teorema:

4.2.1 Teorema de Weirstrass

Seja contínua, se A é compacto, então, f atinge seu máximo e mínimo em A.

85
Capítulo 2

Prova:

Como A é compacto e f é contínua, é compacto pelo teorema 2.4 desta


seção. Pela proposição 2.9, possui elemento máximo e mínimo, isto é,
existem e em A tal que .

Uma função f definida em um domínio A pode atingir um máximo e um mínimo,


sem que A seja um compacto. Basta tomar a função , com
que não é compacto, pois é aberto, de modo que

que é compacto e +1 é o máximo de f e -1 é o mínimo de f.

O próximo teorema nos diz que se uma função é definida em um intervalo


fechado , então, para um número L entre e sempre existe um x
em de modo que . Mas isso é uma propriedade válida apenas se
a função for contínua. A demonstração do teorema abaixo não é tão intuitiva
como os teoremas e proposições provados até aqui. Neste caso, vamos fazer a
construção de um conjunto específico que ajudará na demonstração.

4.2.2 Teorema do Valor Intermediário

Seja contínua, se , então existe um tal que .

Prova: Considere o seguinte conjunto:

com

Ou seja, constrói-se um conjunto formado por pontos no intervalo de modo


que para cada t pertencente ao subintervalo tenhamos sempre .

Por hipótese, f é contínua em a, então existe um , tal que e


, ou seja, sempre conseguimos um com a propriedade acima
mencionada, assim se garante que o conjunto X não é vazio e como é limitado
superiormente (por b, por exemplo), possui um supremo que vamos denotar
por c. Usaremos o princípio da contradição. Devemos provar que e
para isto vamos supor o contrário, ou seja, que . Se realmente isto for
verdade, existe um tal que (vizinhança de c) de modo que
, ou seja, conseguimos um número maior que o supremo, satisfazendo
a condição de ser menor que L (veja o conjunto X), o que é um absurdo. De
mesmo modo, prova-se que também é u absurdo, logo que é o
que queríamos demonstrar.

86
Conjuntos e elementos da análise real

4.3 Atividades de autoavaliação


1. Usando a definição de continuidade, resolva os itens abaixo:

(a) Seja dada por . Dado , determine tal


que , sempre que .

(b) Faça o mesmo para .

(c) Idem para .

(d) Prove que a função é contínua em .

(e) Prove que a função é contínua em todo .

2. Se são contínuas em , mostre que:

(a) é contínua em a;

(b) é contínua em a, desde que .

3. Seja a função , tal que , usando argumentos matemáticos,

verifique se a função atinge um máximo. E mínimo? Por qual motivo não


podemos garantir a existência de um máximo e mínimo?

4. Sabemos que a função definida por não assume nem


máximo e nem mínimo em R. Por que a mesma função definida apenas
em assume máximo e mínimo? E se for definida em , o que podemos
dizer? Use argumentos matemáticos da análise.

5. Seja uma função contínua tal que e . Nestas


condições, mostre que existe pelo menos um ponto de modo que
. (Sugestão: defina a função tal que , e calcule
e e use o teorema do valor intermediário).

87
Capítulo 2

6. Uma função é dita uniformemente contínua em um conjunto A,


quando para todo existe um , tal que com e implica
que . Com base nessa definição, prove que a função
é uniformemente contínua. Você deve usar a definição acima para encontrar
um e estimar . Use argumentos parecidos com a ideia de
continuidade vistos no início desta seção.

7. Seja o polinômio , usando o teorema do valor


intermediário, prove que este polinômio tem 4 raízes. (Sugestão: estime o valor de
em 5 valores distintos de maneira que haja mudança de sinal alternadamente).

88
Capítulo 3

Derivadas

Habilidades No decorrer deste capítulo, o estudante desenvolverá


habilidades para utilizar um tratamento formal aos
conceitos introduzidos no Cálculo Diferencial e
Integral relativos às derivadas e seus teoremas. Os
teoremas serão analisados utilizandose o formalismo
adequado ao Cálculo Diferencial e Integral, em
especial destaca-se o Teorema do Valor Intermediário
e o Teorema da Função Inversa.

Seções de estudo Seção 1:  A noção de derivada e as regras


operacionais

Seção 2:  Teorema sobre Derivadas

89
Capítulo 3

Seção 1
A noção de derivada e as regras operacionais

A noção de derivada já foi analisada no decorrer do Cálculo Diferencial e Integral,


no momento do estudo da unidade de aprendizagem que envolveu as derivadas
de funções de uma ou mais variáveis. Por meio de interpretação geométrica, o
conceito da derivada foi apresentado inicialmente para calcular a inclinação
de uma curva em um determinado ponto. Posteriormente, a derivada também
foi analisada de forma mais prática como uma taxa de variação. Vamos agora
estudar a derivada no contexto da análise e verificar que é uma noção muito
importante na matemática e nas suas aplicações.

1.1 Definição de derivada

Definição 3.1: Se e (a é ponto de acumulação), a derivada da


função f no ponto a é o limite:

Se o limite existir, dizemos que a função é derivável no ponto a. Se a derivada


existe em todos os pontos , dizemos que a função
é derivável no conjunto A e obtemos assim uma nova função ,
chamada de derivada de f.

1.1.1 Exemplos

(1) A derivada da função constante é igual a zero.

De fato, seja tal que , então:

(2) Seja , tal que , então para todo temos que .

De fato,

90
Conjuntos e elementos da análise real

(3) Seja , tal que com n um número inteiro positivo, então


.

Aplicando a definição temos:

Observe que no desenvolvimento anterior foi necessário desenvolver


o termo usando o Binômio de Newton, lembrando que os
coeficientes na expansão por Binômio de Newton são dados por
combinações. Temos: .

1.1.2 Derivadas laterais

Podemos definir as derivadas laterais que serão denotadas por e .

Quando , isto é, quando a é um ponto de acumulação à direita de A, e a


ele pertence, podemos definir a derivada à direita da função f no ponto a, como
sendo o limite (se existir):

Quando , isto é quando a é um ponto de acumulação à esquerda de A,


e a ele pertence, podemos definir a derivada à esquerda da função f no ponto
a, como sendo o limite (se existir):

Podemos ter a situação em que o ponto é ponto de acumulação à direita e


à esquerda. Um exemplo clássico é o caso em que a é ponto interior de A. Nesse
caso, a derivada da função no ponto a existe se e somente se as derivadas
laterais existem e são iguais.

91
Capítulo 3

1.2 Continuidade e derivada

Qual a relação da derivada de uma função f em um ponto a com a


continuidade de f neste mesmo ponto a? Existe alguma relação?

Para responder a essas perguntas, necessitamos de um teorema.

Teorema 3.1: Seja , f é derivável no ponto , se e somente se


existe um , com , então , onde
e, portanto .

Antes de seguirmos para a demonstração, vamos analisar com mais atenção a


expressão .

Podemos reescrever de outra maneira: .

Dividindo tudo por h, temos:

Se fizermos o limite com h tendendo a zero e assumindo que , temos

então exatamente a definição de derivada conhecida no início da seção, com


. Assim, tende a ser um resto na divisão de por h.

Demonstração:

Estamos diante de um teorema com a condição “se e somente se”, portanto,


temos que analisar a condição necessária e a condição suficiente.

Condição necessária: Suponha então que existe e reescreva


da seguinte maneira, lembrando que :

Dividindo tudo por h temos:

Logo,

92
Conjuntos e elementos da análise real

Condição suficiente: agora suponha que com

Então,

(já tínhamos comentado isto logo após o enunciado do

teorema).

Portanto, , ou seja, existe


e é igual a c.

Este teorema nos dá informações para relacionarmos a continuidade com a derivada.

Teorema 3.2: Se uma função é derivável em todos os seus pontos, então é


contínua nesses pontos.

Demonstração: Suponha que f seja derivável no ponto a, então pelo teorema


anterior, temos que .

Ou ainda

Como , fazendo h tendendo a zero na expressão anterior, temos:

Ou seja,

, isto é, f é contínua em a.

A recíproca do Teorema 3.2 não é verdadeira, ou seja, se f é contínua e


um ponto a não significa que ela seja derivável nesse ponto, basta tomar a
função que é contínua em zero, mas não é derivável em zero.

Calcular derivadas usando a definição pode ser algo um tanto trabalhoso


em algumas situações, como, por exemplo, calcular a derivada da função
. Podemos calcular sem problemas usando a definição, mas se

tivermos em mãos uma regra específica, fica muito mais simples e fácil.

93
Capítulo 3

Entretanto, lembre-se de que no contexto da Análise Matemática, a proposta é


formalizar regras, proposições e teoremas que no Cálculo Diferencial e Integral
são aplicados.

1.3 A regras da soma, produto e quociente

A seguir, vamos formalizar algumas regras de derivação usadas no Cálculo Diferencial.

1.3.1 Regra da soma algébrica

Teorema 3.3: Sejam deriváveis em um ponto . Então, a


função é derivável no ponto a e .

Demonstração: Como f e g são deriváveis em , temos que:

e .

Vamos mostrar que vale ou fazendo

vem .

Aplicando a definição da derivada em no ponto a, vem:

O que mostra o teorema para o caso da soma. Para mostrar que vale para a
diferença, basta considerar a soma algébrica:

Dessa forma, vale a regra de que a derivada de uma soma (ou diferença) de duas
funções é a soma (ou diferença) de suas derivadas, se estas derivadas existem.

94
Conjuntos e elementos da análise real

1.3.2 Regra do produto

Teorema 3.4: Sejam deriváveis em um ponto , então a


função, é derivável no ponto a com .

Demonstração:
Como f e g são deriváveis em , temos, então, que:

e .

Logo,

Somando-se e subtraindo-se o termo no numerador, ficamos com:

O que demonstra a regra do produto.

1.3.3 Regra do quociente

Teorema 3.5: Sejam deriváveis em um ponto . Então a


funções (com é derivável no ponto a, com

95
Capítulo 3

Demonstração:

Como f e g são deriváveis em , temos então que:

e .

Logo,

Somando e subtraindo do numerador o termo , obtemos:

O que mostra a regra do quociente.

96
Conjuntos e elementos da análise real

1.3.4 Exemplos

(1) Calcule as derivadas das funções abaixo observando a aplicabilidade das


regras de derivação.

(a)

Utilizando a regra 1.3.1 temos:

(b)

Utilizando a regra 1.3.2, temos:

(c)

Utilizando a regra (1.3.3), temos:

1.4 A Regra da Cadeia

A Regra da Cadeia é útil para calcular a derivada de funções compostas. Veja a


formalização dos teoremas.

Teorema 3.6: Sejam , e e com


e . Se f é derivável no ponto a e g é derivável no ponto b, então
é derivável no ponto a e .

Demonstração:

Temos que se este limite existir.

Fazendo , podemos notar que se então

97
Capítulo 3

Reescrevendo , temos: ou ainda


, já que por hipótese . Então:

Multiplicando e dividindo tudo por k, temos:

1.4.1 Exemplos:

(1) Calcule a derivada de .

Fazendo e , temos então que


.

Assim, e , logo:

(2) Calcule a derivada de .

Fazendo e , temos que a função pode ser


escrita como uma composta, ou seja,

Derivando as funções f e g e aplicando a regra da cadeia, obtemos:

e , e portanto:

98
Conjuntos e elementos da análise real

1.4.2 Derivada da função potência com expoente racional

Vamos agora discutir um pouco a derivada da função potência com expoente


racional. Lembramos que no item (3) do exemplo 1.1.1, mostramos que para
, tal que com n um número inteiro positivo, então .

Agora, vamos mostrar que é possível generalizar essa regra para n um número racional.

Teorema 3.7: Se é uma função potência , com r um número


racional, então .

Para que essa fórmula determine , r deve ser um número tal que esteja
definida num intervalo aberto contendo zero.

Demonstração:
Temos diversas análises para fazer, considerando-se detalhes de demonstração.

(1) Caso .

No caso em que , a função indica a função constante 1 e portanto a


derivada é zero. O gráfico da função constante 1 é uma reta paralela ao eixo dos
x e, portanto, tem coeficiente angular igual a zero.

(2) Caso .

Neste caso, a função se transforma na função identidade, ou seja,


, portanto, a sua derivada fica igual a 1. Graficamente, o gráfico da
função identidade forma um ângulo de 45 graus com o eixo dos x, e seu
coeficiente angular é igual a 1.

(3) Caso .

Vamos considerar inicialmente a situação válida para situações em que e


e q inteiro positivo.

Assim, a função pode ser escrita como . Usando a definição de derivada


vem:

99
Capítulo 3

Para calcularmos este limite, vamos racionalizar o numerador com


o artifício de cálculo que envolve a expressão encontrada usando a
definição de Binômio de Newton.
, neste caso
válida, pois q é inteiro positivo.

Se consideramos que:
•• ;
••

a fração do limite de definição da derivada pode ser racionalizada. Veja:

Usando a relação destacada, encontrada a partir do binômio de Newton, vem:

Dessa forma, podemos calcular o limite da definição da derivada:

100
Conjuntos e elementos da análise real

Portanto, temos a derivada dada como ou de forma equivalente para

o r considerado, , o que demonstra essa etapa do caso 3 do teorema.

Para generalizar o valor do r, ou seja, para , com p um inteiro, qualquer não-

nulo e q um inteiro qualquer positivo, assim sendo r um número racional não nulo,

vamos usar a Regra da Cadeia na função . Ou seja,

Observe que o valor pertence ao domínio da função potência, se


e somente se r for um valor positivo, pois quando r é um valor negativo
ou nulo, não é definida, daí o fato da condição dada ao enunciar o
Teorema 3.7: “Para que esta fórmula determine r deve ser um número
tal que esteja definida num intervalo aberto contendo zero”.

1.5 Atividades de autoavaliação


1. Calcule usando a definição de derivada, as derivadas das funções abaixo:

101
Capítulo 3

2. Seja a função com e mostre que a função não

é derivável em . (Sugestão: Use a definição de derivada para a função, e


chegue um limite que não existe).

3. Mostre que a função com e é derivável em


e que .

4. Seja derivável tal que para quaisquer . Prove que


existe tal que para qualquer que seja . (Sugestão: derive a
igualdade e depois faça ).

5. Se e considerando que é k vezes derivável,


mostre que existe tal que . (Sugestão: Derive a igualdade
k vezes e depois faça ).

6. Seja derivável e considere as funções e definidas


por e . Usando a regra da cadeia, calcule e .

102
Conjuntos e elementos da análise real

Seção 2
Teorema sobre derivadas

No estudo de derivadas, temos vários teoremas importantes. Um deles é o


teorema da Derivada da Função Inversa, onde dado f, podemos determinar a
derivada da inversa de f, sem a necessidade de termos a inversa explicitamente.
Outros teoremas como o Teorema de Rolle e o Teorema do Valor Médio nos
apresentam alguns resultados que nos dão informações sobre as funções e que
se relacionam com o conceito de máximo e mínimo em intervalo fechado.

2.1 Teorema da Derivada da Função Inversa

Teorema 3.8: Seja uma bijeção com inversa , se f é


derivável no ponto e g é contínua no ponto , então g é derivável
no ponto b se e somente se . Em caso afirmativo, tem-se .

Demonstração: Seja , ou seja, e então como por


hipótese f possui inversa, então . Do mesmo modo como
teremos . Da primeira igualdade segue que se então .
Portanto temos:

2.1.1 Exemplos

(1) Seja , determine a derivada da função inversa.

Pelo teorema anterior temos que .

Como e então .

103
Capítulo 3

Fazendo diretamente, temos que a inversa de é dada por


e .

(2) Seja definida por , então f é derivável em

(-1, 1) e .

De fato, sabemos que com . Aqui foi


aplicado o conceito de função inversa. Temos que e é diferente de zero

para qualquer e, então, pelo Teorema 3.8, temos que:

Mas para todo , temos usado a identidade trigonométrica

que . Substituindo na equação anterior obtermos:

. Como , segue então que

para todo , como queríamos demonstrar.

(3) A função não possui derivada inversa no ponto .

De fato, pois , e neste, portanto, , o que contradiz a hipótese


do Teorema 3.8.

(4) Seja , calcule a derivada da sua inversa.

A inversa de f é dada por . Temos também que eé

maior que zero para todo . Então:

. Mudando a notação, temos que .

104
Conjuntos e elementos da análise real

Note que não podemos aplicar o Teorema 3.8 no ponto , pois neste caso
temos também que e .

2.2 Teorema do Valor Médio

Antes de enunciarmos o Teorema o Valor Médio, vamos enunciar outro teorema cujo
resultado é importante inclusive para demonstrar o próprio teorema do valor médio.

2.2.1 Teorema de Rolle

Teorema 3.9: Seja contínua, com . Se f é derivável em


então existe tal que .

Demonstração: Se , então , portanto


qualquer número entre a e b pode ser tomado como sendo c e portanto .
Consideramos então , para algum , como por hipótese f é contínua
em então pelo teorema de Weirstrass f atinge o seu máximo e mínimo em .
Então se f assumir valores maiores que , ela assumirá o seu máximo em um ponto
c do intervalo e, portanto, como é máximo, segue que . Do mesmo
modo seria se f tomasse valores menores do que .

2.2.2 Teorema do Valor Médio

Teorema 3.10: Seja contínua, se f derivável em , então existe

um ponto , tal que .

Este teorema nos garante que dados os pontos e do


gráfico de a inclinação da reta que une estes dois pontos será
igual à inclinação da reta tangente à curva para algum ponto .

Demonstração: A equação da reta tangente aos pontos e é


dada por:

105
Capítulo 3

Chamemos esta função de e, portanto, a função que gera a reta é dada por:

Consideramos a função auxiliar que é a função que determina


a distância vertical do ponto do gráfico de f ao ponto correspondente da
reta Assim temos:

Agora,

Ou seja, .

Então, pelo Teorema de Rolle, existe um tal que .

Agora, e então e como

, segue que .

2.3 Atividades de autoavaliação


1. Seja a bijeção definida por . Determine a derivada
da função inversa, utilizando o teorema 3.8. Esta função inversa é derivável para
todos os pontos do domínio?

2. Seja definida por , então f é derivável em

e .

106
Conjuntos e elementos da análise real

3. A função é tal que , por que ela não verifica o Teorema


de Rolle?

4. Seja f uma função contínua em um intervalo e derivável em um intervalo


, mostre, usando o teorema do valor médio, que se para todo
, então f é crescente em . (Sugestão: Considere dois números
em de modo que , aplique o Teorema do Valor médio e chegue ao fato
que .

5. Seja , mostre que f satisfaz as condições do Teorema de


Rolle no intervalo . Em seguida encontre os valores de , de modo
que

6. Mostre usando o teorema do valor médio que .


(Sugestão: Defina ).

107
Considerações finais

Ao término deste texto, você deve ter desenvolvido diferentes habilidades que em
conjunto formalizam a construção de competências para a sua formação profissional.

Considerando-se que o objetivo da presente obra é apresentar um conjunto de


conteúdos da Unidade de Aprendizagem “Conjuntos e Elementos da Análise
Real”, é importante lembrar que a conclusão dos seus estudos, assim como a
formação das suas competências e habilidades previstas nesta etapa do seu
curso, não está vinculada somente a este objeto de estudo. Outros conteúdos
foram citados no seu roteiro de estudos e apresentados sob forma de outros
documentos digitais ou multimidiáticos.

Além disso, é importante que apesar de nosso estudo focar temas já discutidos
em alguns momentos do Cálculo Diferencial e Integral, estamos agora construindo
habilidades diferentes além das já adquiridas nos cálculos das derivadas e integrais.

Você deve concluir seus estudos no contexto do presente documento com a


certeza de que a Análise Matemática precisa ser estudada com o formalismo
matemático que justifica e demonstra os avanços da matemática. Usamos a
palavra “formalismo”, quando na maioria dos livros usa-se “rigor”. Isso se deve
em função do olhar didático que foi colocado neste texto que como já colocamos
é uma parte de um conjunto de outros conteúdos.

Lembre-se de Cauchy quando pensar ou analisar o rigor da matemática, pois é


devido a ele a grande lição que não podemos esquecer ao término do estudo de
um texto de Análise Matemática. Estamos nos referindo ao cuidado de expressar,
sempre que possível, o domínio de validade de uma definição ou de um teorema.

Finalizamos o presente documento deixando para você as palavras de Roque


(2012), quando afirma que os matemáticos tinham três pensamentos em mente,
relativos aos conceitos, teoremas e definições. Veja que, ao dar um conceito, é
preciso definir explicitamente em termos de outros conceitos já conhecidos. Os
teoremas devem ser provados e cada etapa de uma prova deve ser justificada
por resultados já validados. As definições e teoremas ao serem estruturados e
demonstrados formam a base das teorias matemática que são aplicáveis em
diferentes áreas do conhecimento.

Seja bem-vindo ao ingresso ao mundo do formalismo matemático!

109
Referências

ÁVILA, Geraldo. Análise Matemática para Licenciatura. 3. ed. São Paulo:


Edgar Blücher, 2006.

HAIRER, Ernest; WANNER, Gerhard. Analysis by History. New York: Springer, 1995.

LIMA, Elon Lages. Curso de Análise. v. 1. Rio de Janeiro: IMPA, 1976.

LIMA, Elon Lages. Análise real: Funções de uma variável. v. 1. Rio de Janeiro: IMPA, 2006.

ROONEY, Anne. A história da matemática. São Paulo: M. Books, 2012.

ROQUE, Tatiana. História da matemática: uma visão crítica, desfazendo mitos


e lendas. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.

111
112
Sobre os Professores Conteudistas

Diva Marília Flemming é doutora em Engenharia de Produção pela


Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). É mestre em Matemática
Aplicada e graduada em Matemática, ambos pela UFSC. Iniciou sua atuação
profissional como docente de escolas públicas da educação básica. Já atuou
no ensino de disciplinas em curso de administração na Universidade para o
Desenvolvimento do Estado de Santa Catarina (UDESC), como professora
convidada. Aposentada como professora pela UFSC, atualmente é professora e
pesquisadora na Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL). No contexto
do ensino de Matemática, tem desenvolvido suas atividades na Unisul com
alunos dos cursos de Engenharia e de Matemática. É autora de livros de Cálculo
Diferencial e Integral, adotados em vários estados do Brasil. Coordena o Grupo
de Pesquisa em Matemática e Educação Matemática, atuando nas linhas de
pesquisa do grupo. Dedica-se à Educação Matemática com ênfase nos recursos
tecnológicos e mais recentemente na modelagem matemática. Sua atual paixão
profissional está nos desafios da educação a distância, realizando atualmente
pesquisas com recursos educacionais abertos. Coordena na UnisulVirtual o Curso
de Matemática. É autora de vários livros didáticos para a educação a distância, os
quais são utilizados na UnisulVirtual e em outras instituições de ensino superior.

Christian Wagner é bacharel em Matemática e Computação Científica pela


Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em 1998. Mestre em Física-
Matemática pela mesma instituição, em 2001. Professor substituto na UFSC
no período de 2001 a 2003. Professor horista na Universidade do Sul de Santa
Catarina (UNISUL), com início em 2001. Teve participações no VII e VIII seminários
de iniciação científica, realizados na UFSC, na área de equações diferenciais, com
apresentação e publicação em anais. Coautor do livro didático de Noções de
Álgebra Linear, bem como de Geometria I e II utilizado no curso de Licenciatura
em Matemática a distância da UNISUL. Lecionou no curso de pós-graduação em
Educação Matemática na UNISUL e atualmente é professor de diversas unidades
de aprendizagem na área de cálculo e geometria analítica nos cursos presenciais
de Engenharia Civil e Elétrica e também de unidades de aprendizagem a distância
no curso de licenciatura e bacharelado em matemática. Também atua no Núcleo
de Estudos em Educação Matemática (NEEM), especificamente nas atividades de
ensino e extensão voltadas para as dificuldades de aprendizagem da matemática.

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