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Bem-aventurados os que choram

Mateus 5.1-4

Iniciamos uma série de estudos sobre as bem-aventuranças. Domingo


passado falamos sobre como são Bem-aventurados os humildes de espírito.
Bem-aventurados - são os felizes, abençoados. Não no sentido humano de
felicidade que, em geral, nos remete ao bem-estar. Você é feliz se adquirir
uma roupa nova, um carro novo, uma casa nova. Você é feliz com saúde
plena, família sem problemas. A poucos dias encerrou o período de
carnaval e quantas pessoas entendem que são felizes somente quando estão
vivendo sob uma máscara: quatro dias em que vale tudo e pode tudo.

Jesus olhou a multidão, na multidão encontram-se os que estão angustiados


pelo pecado e marcados pelo sofrimento. Na multidão estão os que andam
desgarrados e errantes, "como ovelhas que não tem pastor" (Mateus 9.36).
É neste contexto que Jesus ensina aos discípulos.

As bem-aventuranças expressam a amplitude do que é ser feliz e


abençoado, revelam as promessas feitas aos discípulos fiéis do reino. Nós
somos os discípulos de Cristo e como discípulos devemos aprender e
apegar-nos a ele, confiando em suas palavras.

As bem-aventuranças revelam quem são felizes aos olhos de Deus. A


verdadeira felicidade inclui aquele bem-estar associado à correta relação do
homem para com Deus (Champlin).

Felizes os que choram, pode nos parecer contraditório, mas fala de uma
atitude, um exercício espiritual, não significa uma expressão de sentimento
pessoal por perda. Que atitudes de choro nos tornam felizes?

1) A atitude de choro diante do pecado


Quem não experimentou aquele sentimento expresso pelo apóstolo Paulo:
"Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço.
Ora, se eu faço o que não quero, já não o faço eu, mas o pecado que habita
em mim" (Romanos 7.19-20). Este choro representa o estar profundamente
triste com nosso próprio pecado, por isso o lamentamos e sentimos a
necessidade de arrependimento.

Foi assim com a mulher pecadora que ungiu os pés de Jesus (Lucas 7.36-
50). Uma mulher de má reputação, uma prostituta. Sem ser convidada
entrou na casa do fariseu, levando um vaso de alabastro com ungüento, e
aos pés de Jesus, "chorando, regava-os com suas lágrimas e os enxugava
com os próprios cabelos; e beijava-lhe os pés e os ungia com o ungüento"
(v.38). O choro representa a contrição, arrependimento, fé e humildade,
ingredientes necessários para o abandono de uma vida de pecado. Como
prova ofereceu em ação de graças algo precioso: o ungüento e suas
lágrimas.

"Então, Pedro, saindo dali, chorou amargamente" (Lucas 22.62). Dessa


maneira encerra o relato de quando Pedro nega a Jesus, descrito nos quatro
evangelhos, nos dá indícios dos erros preliminares do apóstolo: começou
com o orgulho (v.33) e a incredulidade (v.34); desobediência em relação à
ordem de vigiar e orar (vv. 40-47); tentou lutar com as trevas com armas
carnais (v.50); seguia a Jesus de longe, esquecendo de suas palavras (v.54);
amaldiçoa a si mesmo (mentindo para si de si) e aos que o acusavam de
mentir (Marcos 14.71). O tropeço na vida cristã é conseqüência de erros
anteriores (Shedd). O choro é a resposta à lembrança trazida à memória,
assim que o galo cantou pela segunda vez. Mais do que o cantar do galo, o
olhar do Senhor, fez com que Pedro se lembrasse de suas palavras: "Hoje,
três vezes me negarás, antes de cantar o galo" (Lucas 22.61).

Os filhos de Israel perverteram seu caminho e se esqueceram do Senhor,


seu Deus. Foram exortados pelo profeta para voltar ao caminho do Senhor.
As condições de arrependimento sempre resultam na remoção de santuários
e no reconhecimento do direito exclusivo de Deus (Shedd). O
arrependimento foi expresso em atitudes: "nos lugares altos, se ouviu uma
voz, pranto e súplicas dos filhos de Israel" (Jeremias 3.21).

Aqueles que escondem, negam, encobrem ou defendem seus pecados, com


certeza estão indo por um caminho errado. Bem-aventurados os que
choram, porque eles serão consolados. Os que choram pelos seus pecados
serão consolados pelo Senhor. Foi assim com a mulher pecadora que ouviu
de Jesus: "perdoados lhes são os seus muitos pecados, porque ela muito
amou" (Lucas 7.47) - reconhecer o perdão produz o amor; Pedro ouviu de
Jesus: "Eu, porém, roguei por ti, para que tua fé não desfaleça" (Lucas
22.32) - a segurança do cristão é a intercessão de Cristo; do Senhor, seus
filhos ouvem: "Voltai, ó filhos rebeldes, eu curarei as vossas rebeliões"
(Jeremias 3.22) - o Senhor nos curou através do sacrifício de Jesus.

2) A atitude de choro diante do sofrimento


"Inclina, Senhor, os teus ouvidos, e ouve-me, porque estou necessitado e
aflito. Alegra a alma do teu servo" (Salmo 86.1,4a). Nesta oração Davi
implora o socorro de Deus diante de sua aflição. Loyola cita que: a segunda
bem-aventurança diz respeito aos que estão em aflição. São os que sofrem
os contragolpes de um mundo que está ainda sob a ação das forças do mal e
da morte.

Um homem geraseno, possesso de demônios, vai ao encontro de Jesus,


provavelmente para maltrata-lo (Lucas 8.26-34). Sua condição de
escravidão e sofrimento chegou a tal ponto, que não se vestia e habitava em
sepulcros. Diante de Jesus o reconhecimento do poder absoluto de Deus.
Uma pergunta nos interessa: "Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus
Altíssimo?" (v.28). Esta pergunta aponta para a separação total do reino de
Deus e do reino de diabo. Jesus ordenara ao espírito que saísse do homem
(v.29). Esta é a autoridade de Cristo que liberta, a qual nos foi outorgada.

Jesus ouve o pedido de um pai, Jairo. Ele um chefe da sinagoga, um


principal que vem a Jesus reconhecendo ser ele sua única esperança. O
pedido era para a cura de sua filha, de 12 anos, que estava à morte (Lucas
8.42). "Tendo chegado à casa. Todos choravam e pranteavam" (vv 51,52).
Imaginem o desespero deste pai, a pergunta poderia surgir: Se Jesus tivesse
vindo antes isso aconteceria? Todos sofriam a morte de uma criança. Jesus
conhecia este sentimento, chorou a morte de seu amigo Lázaro (João
11.35), no entanto sua orientação a Jairo foi: "não temas, crê somente"
(Lucas 8.50).

Herodes manda matar a todos os meninos de Belém e região, de 2 anos


abaixo, se cumpre o dito do profeta Jeremias: "ouviu-se um clamor em
Rama, pranto e grande lamento, era Raquel chorando por seus filhos e
inconsolável porque não mais existem" (Jeremias 31.15). Este é o choro
que expressa o sofrimento causado pela injustiça e perseguição, da mesma
maneira que tentaram contra a vida de cristo, o inferno tenta prevalecer
contra a vida e expansão da igreja, mas já é vencido.

"Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados". Os que


choram diante do sofrimento são consolados pelo Senhor, quem tem
domínio sobre os poderes, os mortos e os vivos e que nos afirma: "não
temas, eu sou o primeiro e o último; e aquele que vive; estive morto, mas
eis que estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte e
do inferno" (Apocalipse 1.17b,18).

3) A atitude de choro diante da missão


Jesus não chorou apenas na morte de Lázaro, em sua entrada triunfal em
Jerusalém chorou ao ver a cidade: "Quando ia chegando, vendo a cidade,
chorou (Lucas 19.41). O choro de Jesus exprime sua lamentação e
maldição por causa da incredulidade do povo, estavam cegos
espiritualmente. A condenação foi expressa, por Jesus, em seu sermão
profético: "Quando, porém, virdes Jerusalém sitiada de exércitos, sabei que
está próximo a sua devastação" (Mateus 21.20).

Diante da rebeldia do mundo contra Deus, vemos a atitude de choro pelos


perdidos. É o preço pago por tantos missionários e missões. É o preço que
devemos pagar como cristãos. Preço de uma obra a ser realizada, ainda não
concluída: "a seara, na verdade, é grande, mas os trabalhadores são poucos"
(Mateus 9.37). Jesus disse isso aos seus discípulos após ver e se
compadecer das multidões que estavam aflitas e exaustas.

Este é o exemplo do apóstolo Paulo no exercício de sua missão, ele chorava


enquanto trabalhava: "servindo ao Senhor com toda a humildade e com
muitas lágrimas e tentações que, pelas ciladas dos judeus me sobrevieram"
(Atos 20.19) - choro em diferentes lugares e circunstâncias; chorava
enquanto ensinava: "durante três anos, não cessei, noite e dia, de
admoestar, com lágrimas, a cada um" (Atos 20.31) - o choro pelo
discipulado pessoal; chorava enquanto escrevia: "Porque no meio de
muitos sofrimentos e angústias de coração, vos escrevi, com muitas
lágrimas, não para que ficásseis entristecidos, mas para que conhecêsseis o
amor que vos consagro em grande medida" (2 Coríntios 2.4) - o choro que
exprime o amor (agapê) transbordante; chorava enquanto líder: "Irmãos
sede imitadores meus...pois muitos andam entre nós, dos quais, repetidas
vezes, eu vos dizia e, agora, vos digo, até chorando, que são inimigos da
cruz de Cristo" (Filipenses 3.17a,18) - o choro pelos cristãos nominais.

"Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados". Os que


choram pela missão serão consolados pela salvação daqueles que crerem, e
será uma multidão de todas as nações, tribos, povos e línguas (Apocalipse
7.9) e pela promessa da nova Jerusalém, a cidade santa, onde a separação
em conseqüência do pecado estará superada. (Apocalipse 21.2-3)