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Produção de Álcool na Fazenda

e

em Sistema Cooperativo

Juarez de Souza e Silva

Professor Titular do Departamento de Engenharia Agrícola Universidade Federal de Viçosa Viçosa - MG

Produção de Álcool na Fazenda

e

em Sistema Cooperativo

Viçosa – Minas Gerais

2007

Ficha catalográfica preparada pela Seção de Catalogação e Classificação da Biblioteca Central da UFV

P964

2007

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo / Juarez de Sousa e Silva, editor. – Viçosa, MG, 2007.

vi, 168p. : il. (algumas col.) ; 22cm.

Inclui apêndice.

Referências bibliográficas: p. 151-152.

1. Álcool como combustível - Indústria. 2. Cooperati- vas agrícolas. I. Silva, Juarez de Sousa.

CDD 22.ed. 662.6692

PREFÁCIO

Com a produção crescente de automóveis do tipo Total Flex e com o preço do petróleo em alta, o consumo do álcool combustível e a necessidade de reduzir as emissões de gases oriundos da queima de derivados do petróleo, estão apontando para uma mesma direção. Seguindo este padrão crescente, o Brasil pode facilmente abastecer, com exportações, parte da demanda internacional por “combustíveis limpos”.

Apesar de possuir a tecnologia para produção de álcool em grandes destilarias, pouco se sabe sobre produção de álcool em se tratando de fazendas ou de pequenos empreendimentos e, devido ao tamanho de nossas propriedades agrícolas, os agricultores brasileiros têm capacidade para produzir combustível em quantidade suficiente para suprir a demanda da propriedade e da família e até mesmo vender o excesso produzido para um sistema cooperativo, sem provocar danos ao meio ambiente, como acontece atualmente com a grande produção de álcool.

Além do álcool para movimentar motores, a produção de álcool torna possível outras operações, como iluminação e como insumo para a agroindústria cooperativa ou familiar, com conseqüente aumento e distribuição de renda.

Este manual tem por objetivos mostrar possibilidades, fornecer subsídios e alternativas para a adoção da produção de álcool combustível ou álcool industrial, tanto para a produção individual como em sistema de comercialização cooperativo, a fim de atender comunidades distantes dos grandes centros produtores ou regiões onde a mecanização intensa não seja viável.

Será mostrado que a pequena produção pode ser utilizada para atender tanto às necessidades da fazenda como para a geração de renda por meio da comercialização em grupo (cooperativa), onde será instalada uma unidade central de retificação dentro dos padrões exigidos pelas leis brasileiras.

Se contar com a participação do produtor tradicional de cachaça, a produção de combustível a partir dos resíduos da cachaça contribuirá, significativamente, para a redução de perdas e para a melhoria da qualidade da bebida.

Além de modelos de pré-destilares e de colunas de retificação para atender à pequena produção individual, será disponibilizado um programa desenvolvido para simular o processo de destilação, que determina: (1) o total de álcool evaporado durante o processo; (2) a concentração do álcool produzido; (3) a taxa de fluxo líquida no compartimento do evaporador; (4) a variação de concentração de álcool dentro do evaporador; e (5) a taxa de transferência de calor no evaporador. Similarmente, uma planilha para avaliação de despesas e receitas e fluxo de caixa será disponibilizada, para facilitar a tomada de decisão na adoção do projeto.

Depois de cuidadoso estudo dos Capítulos VI e VII, o leitor terá condições de construir os próprios pré-destiladores e colunas para produção de álcool na fazenda

Juarez de Sousa e Silva

AGRADECIMENTO

Ao SEBRAE (Nacional e de Minas Gerais), à FPEMIG e ao CENTEV-UFV, pelo apoio.

Aos senhores Antônio Pedro Machado (Inhame), Carlos Alberto Pinto (Pintinho) e Geraldo Lopes de Carvalho Filho (Geraldinho), cujas colaborações foram imprescindíveis para a realização do presente trabalho. Especialmente, agradeçemos ao pesquisador Edney Alves Magalhães pelas sugestões finais.

DEDICATÓRIA

É impossível participar de um programa de “incentivo” ao desenvolvimento da família rural criando atividade que produz, por hectare, rendimento anual inferior a um salário mínimo brasileiro. Portanto, dedico este trabalho a todos aqueles que estão realmente interessados em colaborar com o desenvolvimento do agricultura familiar, especialmente ao Dr. Marcello Guimarães Mello, ex-diretor do Departamento Nacional de Combustíveis (1992/93) e idealizador do Programa Álcool em Pequenas Propriedades (Pronal).

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO GERAL

CAPÍTULO I

13

Noções sobre Fermentação e Produção de Álcool

na Fazenda

17

Generalidades

17

Álcool a partir do caldo fermentado

28

Álcool a partir de pré-destilados

35

Rendimento em álcool

37

Processo de destilação

39

CAPÍTULO II

Produção Integrada de Álcool Combustível em Sistema Cooperativo 49

Introdução

49

Considerações gerais

52

CAPÍTULO III Planejamento e Viabilidade Econômica de uma Microdestilaria

63

Generalidades

63

Planejamento de uma md para 200.000 l anuais

65

CAPÍTULO IV Avaliação de um Evaporador para Destilação Contínua

75

Definição da área de estudo

75

Sistema de aquecimento evaporativo

76

Construção da fornalha

77

Isolamento térmico da campânula

79

Matéria-prima para os testes

80

Execução dos testes

85

Resultados

87

CAPÍTULO V Análise Física do Evaporador Contínuo e Programa para Dimensionamento

99

Generalidades

99

Desenvolvimento do programa

101

Resultados

119

Conclusões

125

CAPÍTULO VI Construção do Pré-Destilador Modelo UFV

127

CAPÍTULO VII Microdestilador com Dupla Coluna para Aproveitamento de Resíduos da Cachaça

141

REFERÊNCIAS

151

APÊNDICE A Programa Computacional

153

APÊNDICE B Propriedades Físicas da Mistura Etanol-água

166

INTRODUÇÃO GERAL

1. Necessidade do combustível

Desde a primeira crise do petróleo, na década de 1970, a utilização de energia renovável tem sido pesquisada e incentivada. Nesse contexto, foi lançado no Brasil o Pró-Álcool (Programa Nacional do Álcool), que visou à inclusão do álcool carburante na matriz energética nacional. As metas de então foram a produção de cerca de 11 bilhões de

litros anuais. Essa produção foi utilizada, principalmente, para substituir

a gasolina em veículos automotores (álcool hidratado) e para adição à gasolina como antidetonante (álcool anidro).

Na década de 1980, a produção de automóveis a álcool chegou

a mais de 90% do total de veículos pequenos fabricados no Brasil. Em

razão de problemas políticos, o programa foi praticamente desativado e

o número de veículos fabricados que ainda utilizam apenas o álcool

carburante ficou abaixo de 5% até 2004. Mesmo assim, o Brasil tem sido apontado como o país que implementou o maior programa de uso de fontes renováveis de energia, graças ao Pró-Álcool. Vale lembrar que a produção de álcool é usada para ser adicionada na gasolina e que os derivados da cana-de-açúcar representavam, em 2003, mais de 10% do uso de energia primária no Brasil.

Mais recentemente, as pessoas têm sido despertadas para questões não somente energéticas, mas também ambientais. Prova disso foram as notáveis reuniões da liderança mundial, que, na RIO–92, em Kioto no ano de 2002, em Joanesburgo e na RIO+10, declararam a

14

Introdução geral

importância de diminuir os níveis de gases indutores de efeito estufa; mais recentemente, em março de 2007, a comunidade européia adotou medidas para reduzir as emissões de gases em até 20%. Simultaneamente, Brasil e Estados Unidos assinaram acordo para o setor de biocombustíveis.

Nesse contexto, a revitalização do programa nacional do álcool contribuirá, certamente, para a redução desses gases, em razão do seqüestro de carbono pelas grandes plantações de cana-de-açúcar e soja para sustentar os programas de produção de álcool e biodiesel, respectivamente.

É notório o aumento do mercado do álcool no cenário mundial, principalmente nos Estados Unidos, e diversos outros países têm a intenção de adicionar percentuais crescentes de álcool à gasolina com a finalidade de diminuir a poluição em suas cidades. Além disso, a adoção da tecnologia do Pró-Álcool permite levar a horizontes mais otimistas quanto à possível revitalização do uso do álcool de forma mais agressiva na matriz energética nacional. Nesse particular, o desenvolvimento, pela indústria automobilística brasileira, do veículo com motor híbrido – que pode usar com eficiência diferentes misturas de álcool e gasolina – permitirá aperfeiçoar o benefício que o combustível alternativo pode levar ao meio ambiente.

Além da possibilidade e necessidade de muitos setores produtivos produzirem energia própria para redução de custos, uma política de flexibilização ou quebra do monopólio de distribuição do álcool pela estatal Petrobrás está sendo vista como o fator que influenciará positivamente o uso do álcool carburante, energético e industrial. Essa flexibilização permitirá que o álcool não seja, necessariamente, levado às distribuidoras de derivados de petróleo para ser distribuído, mas que ocorra a distribuição, entre outras formas, diretamente aos postos de combustíveis das redes credenciadas. Esse sistema reduziria grandemente os custos de transporte do álcool, o qual é, invariavelmente, feito por veículos que utilizam o óleo diesel.

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

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2. Processos de separação

Como será visto mais adiante, a destilação é um processo usado para separar os componentes de uma solução líquida e depende da distribuição destes entre as fases de vapor e líquida. A fase de vapor é criada da fase líquida, pela sua vaporização no ponto de ebulição. O requerimento básico para separação dos componentes é de que a composição do vapor seja diferente da composição do líquido com o qual ele se encontra em equilíbrio no ponto de ebulição do líquido.

Vaporização e condensação são os dois processos de mudança de fase que podem ocorrer em uma interface sólido-líquido e sólido-vapor, respectivamente. Nesses casos, os efeitos do calor latente, associados à mudança de fase, são significativos. Segundo Incropera e Witt (1992), a ebulição e a condensação envolvem movimento de fluido e, por isso, são classificadas como espécies de modos convectivos de transferência de calor. Devido à mudança de fase, é possível a transferência de calor do fluido, ou para o fluido, sem alteração da sua temperatura.

Na ebulição e na condensação, é possível conseguir taxas elevadas de transferência de calor com pequenas diferenças de temperatura. Como em uma convecção simples, de acordo com Pitts e Sissom (1977), um coeficiente de transferência de calor h é usado para relacionar o fluxo de calor e a diferença de temperatura entre a superfície aquecedora (Ts) e o líquido saturado (Tsat). Entretanto, os processos de mudança de fase envolvem variações de densidade, viscosidade, calor específico e condutividade térmica do fluido. O calor latente é liberado no caso da condensação e absorvido na vaporização.

As determinações dos coeficientes de transferência de calor na ebulição e na condensação são bem mais complicadas do que para processos convectivos com uma única fase. Assim, a maioria dos cálculos envolvendo a ebulição e a condensação é realizada por meio de correlações empíricas.

Uma aproximação simplificada para determinação da transferência de calor em escoamento com ebulição é feita pela adição

16

Introdução geral

dos efeitos (a) convectivo (convecção natural ou forçada sem o efeito

de ebulição,

q
q

A

conv

) e (b) de ebulição (

q
q

A

ebu

).

Quando um fluido se encontra em um recipiente cuja face inferior

é aquecida, para taxas pequenas de adição de calor, vapor se formará na superfície livre. À medida que o fluxo de calor aumenta, bolhas se formam na região de aquecimento e se movimentam para cima no fluido.

A formação de bolhas, com a agitação provocada, é denominada de

ebulição.

Se o recipiente se encontra sobre uma superfície que é mantida a uma temperatura acima da temperatura de saturação do líquido, a

ebulição pode ocorrer e o fluxo de calor dependerá da diferença entre

as temperaturas da superfície e a temperatura de saturação (HOLMAN,

1976).

De acordo com o exposto, o primeiro capítulo deste manual será dedicado a oferecer noções básicas sobre fermentação e produção de álcool em pequena escala. No Capítulo II são apresentadas idéias e a importância da produção integrada de álcool combustível em sistema

cooperativo. No terceiro capítulo o leitor obterá noções do planejamento

e o estudo da viabilidade econômica de uma micro destilaria.

No Capitulo IV são mostrados os detalhes e o comportamento de um evaporador para produção contínua de álcool em pequena escala e, no Capítulo V, é feita uma analise física com o intuito de gerar um programa computacional para simulação do referido evaporador, trabalhando sob diferentes condições. Já nos Capítulos VI e VII, depois de cuidadoso estudo, o leitor terá condições de construir os próprios pré-destiladores e colunas para produção de álcool na fazenda.

CAPÍTULO I

Noções Sobre Fermentação e Produção de Álcool na Fazenda

Juarez de Sousa e Silva Julio César de Jesus Sandra Maria Couto

Generalidades

O álcool de cana, se considerado como uma alternativa para a

geração de empregos em um país com excesso de mão-de-obra pode, ainda, gerar ganhos com a redução na importação de combustíveis fósseis

e rendimento com a possibilidade de exportação do álcool excedente.

Deve-se, também, salientar o aspecto ambiental, já que o álcool gera

menor quantidade de resíduos tóxicos e contribui para uma menor

emissão de gases causadores do efeito estufa. Como o material gerado (CO2) é seqüestrado pela fotossíntese quando do crescimento ou da formação do novo canavial, o Brasil poderá, ainda, ser beneficiado com

a comercialização dos créditos de carbono.

No que se refere ao uso do álcool combustível, este pode ser utilizado em motores de ciclo Otto ou Diesel. Nos motores de ciclo Otto, o álcool pode ser utilizado por meio da mistura de álcool anidro com gasolina ou puro, na forma de álcool hidratado. Em motores diesel, ele pode ser utilizado de quatro formas: mistura de álcool com emulsificantes; mistura de álcool com óleo diesel; em motor com duplo

18

Capítulo 1

sistema de injeção, um para o álcool e outro para o óleo diesel; na instalação de sistema de carburação para misturar o álcool ao ar aspirado pelo motor.

O álcool, apesar da possibilidade de ser obtido por síntese química, é mais econômico produzi-lo, devido às condições de terra e clima do Brasil, a partir da fermentação, em que açúcares de diferentes matérias- primas são desdobrados em álcool e dióxido de carbono, por ação dos chamados fermentos alcoólicos ou leveduras. Na produção por fermentação, o álcool é obtido por destilação em alambiques simples ou, industrialmente, em colunas especiais e de forma contínua.

Se o teor de álcool, após a operação de destilação, for de 80 % ou mais, o líquido é chamado de álcool hidratado e se for apenas ao redor de 50 % o líquido é denominado aguardente, que é, em geral, utilizado como bebida.

Processo de fermentação

Fermentação alcoólica é a transformação de açúcares em álcool etílico (etanol) e gás carbônico (CO 2 ) pela ação de um determinado grupo de organismos unicelulares denominados leveduras. Os mais importantes e usados na produção do etanol são os do gênero Saccharomyces. Esses organismos são desenvolvidos para propiciar fermentação uniforme, rápida e com alto rendimento em etanol.

As leveduras devem ser tolerantes a grandes variações de temperatura, a níveis de acidez (pH) e a altas concentrações alcoólicas. Elas podem crescer na presença ou na ausência de oxigênio e, em um ciclo normal de fermentação, usam o oxigênio do início do processo até que ele seja todo consumido. Somente durante o período anaeróbio é que as leveduras produzem o etanol.

Apesar de as leveduras resistirem a um ambiente anaeróbio, elas são essencialmente aeróbias. Por essa razão, na preparação do “pé de cuba” ou “pé de fermentação”, deve-se fornecer oxigênio ao mosto para que ocorra um crescimento intenso da população de organismos.

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

19

No caso da fermentação propriamente dita, deve-se evitar a oxigenação para se obter o máximo em álcool e o mínimo em crescimento celular.

A falta do controle de temperatura, que é um fator importante na

conversão de açúcar em etanol, causa reações indesejáveis e altera o rendimento e a qualidade do produto final (aguardente ou álcool combustível).

A fermentação inicia-se logo após a adição do fermento ao caldo.

Todavia, existem três fases da fermentação depois da adição do fermento:

na fase inicial os organismos vão se adaptando ao novo ambiente e começam a crescer; nesta fase, o mosto, mesmo sem ter sido oxigenado, contém, ainda, uma determinada quantidade de oxigênio para facilitar

o início do desenvolvimento das leveduras. O aumento de temperatura

nesta fase é insignificante e não se nota formação de bolhas, que caracterizam o desprendimento de gás carbônico na produção do etanol.

Após 30 minutos, as leveduras começam a se reproduzir rapidamente e o número de organismos aumenta exponencialmente. Dióxido de carbono (CO 2 ) é liberado em grandes quantidades, com

borbulhamento intenso. Com o prosseguimento da fermentação, o fermento tende a se aglomerar (floculação). Essa fase é conhecida como

“ fermentação principal” ou “tumultuosa”. É nessa fase que se detecta um aroma agradável e característico. Também, a temperatura e o teor alcoólico amentam, com correspondente redução no teor de açúcar do mosto.

A última fase é a estacionária; o alimento começa a ficar escasso

e a taxa de crescimento das leveduras é reduzida. A produção de gás

carbônico diminui e o fermento precipita.

As três fases da fermentação alcoólica, em condições normais, têm duração máxima de 36 horas. É durante a fermentação tumultuosa, em que ocorre um grande desprendimento de CO 2 , principalmente, que se torna necessário o controle da temperatura por meio da refrigeração interna ou externa das dornas (CLEMENTE 1995). Além da necessidade de se preparar adequadamente o caldo, o sucesso do processo de fermentação só será alcançado quando mantido o controle adequado da higiene, da temperatura e das instalações que compõem a destilaria.

20

Capítulo 1

Biomassa para produção de álcool

Por meio da fermentação, o etanol pode ser produzido com quatro tipos básicos de matéria-prima:

Matéria-prima açucarada – produto no qual o carboidrato está presente na forma simples. Dentre as matérias-primas que contêm as substâncias diretamente fermentáveis estão a cana-de-açúcar, a beterraba açucareira, frutas, mel, etc. A cana-de-açúcar é uma das matérias-primas açucaradas que apresentam maior viabilidade econômica. Como o processo é de simples conversão de energia, ela é considerada uma matéria-prima ideal para a produção de álcool combustível em nosso país. Além do álcool, produz biomassa para a destilação e resíduos para fertilizante.

Matérias-primas amiláceas – entre os materiais que contêm carboidratos mais complexos, como o amido, que podem ser transformados por hidrólise com ácido ou por ação de enzimas em moléculas simples com seis ou doze carbonos, estão o milho, o sorgo, as batatas e a mandioca. Tais produtos, muito ricos em amido e amplamente difundidos no Brasil, podem, depois da cana-de-açúcar, ser considerados os mais viáveis economicamente para a produção de álcool combustível.

Matérias-primas celulósicas: as matérias celulósicas de maior importância na produção de álcool são os resíduos agrícolas e a madeira. Entretanto, a produção de álcool por meio da celulose é mais complexa quando comparada com o processo de matérias-primas açucaradas e ou ricas em amido. Em grandes unidades produtoras de álcool, deve-se avaliar, economicamente, a utilização do bagaço da cana para álcool ou para geração de eletricidade.

Matérias-primas fermentadas: são constituídas por matérias

já fermentadas (vinho e cerveja) e destiladas (aguardentes). Nesse caso,

o álcool já se encontra presente e a sua separação é feita por destilação simples. A não ser o álcool residual da produção de aguardente de qualidade, as matérias-primas não constituem uma fonte normal de produção econômica de álcool, sendo utilizadas apenas em alguns casos,

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

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como, por exemplo, quando grandes volumes de bebidas se tornam impróprias para o consumo humano.

Para uma matéria-prima ser considerada economicamente viável, deve-se levar em conta os seguintes requisitos: teor do elemento fermentável, custo de produção, custo de transformação, disponibilidade e custo do transporte.

Embora o álcool possa ser obtido a partir de diferentes fontes alternativas, como mencionadas anteriormente, a cana-de-açúcar, pela maneira como é cultivada, é a matéria-prima mais importante e mais aconselhada para a produção de álcool no Brasil.

Quando o produtor de aguardente tem a intenção de manter a qualidade de seu produto, ele deveria, obrigatoriamente, tratar a fermentação de forma correta. Como dito anteriormente, a fermentação deveria ser processada de tal forma que, pela ação de leveduras, transformasse todo açúcar em etanol e gás carbônico.

Caso o produtor queira produzir aguardente, álcool combustível ou pré-destilado para retificação posterior, usando um mesmo material fermentado, ele deverá manter, além de um controle rigoroso no processo, um fermento artesanal com o desenvolvimento de microrganismos específicos. Evitando a contaminação do mosto fermentado ou vinho com microrganismos inadequados, a qualidade da aguardente será mantida. Por outro lado, não se deve esperar um alto rendimento em álcool.

Um processo prático para a produção de etanol seria armazenar os resíduos (cabeça e cauda) da fabricação de aguardente de qualidade para que sejam destilados para a produção exclusiva de combustível, cujo vinho deverá ser produzido a partir de um fermento industrial de qualidade.

Por questões de conveniência, um pequeno produtor deveria optar pela produção de álcool combustível com o mesmo tipo de vinho utilizado para a produção de aguardente, pois, mesmo que isto acarrete menor rendimento na produção de álcool, o padrão de qualidade da aguardente para o mercado consumidor será mantido, sem mudanças no seu processo produtivo.

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Capítulo 1

O químico francês Louis Pasteur comprovou que a fermentação é provocada pelo processo vital de microrganismos. Para suas condições de trabalho, o químico obteve, a partir de 100g de glicose, 48,5g ou 61ml de etanol a 15°C. Comparativamente com os resultados atuais, obtidos com tecnologia avançada em laboratório, os de Pasteur foram excelentes. Convém ressaltar que, mesmo com os grandes avanços tecnológicos, o rendimento obtido por Louis Pasteur é usado na avaliação da eficiência da fermentação, sendo conhecido como Rendimento de Pasteur.

Outro método usado para o cálculo da eficiência do processo de fermentação, de forma criteriosa, é relacionar o teor alcoólico real da destilação com o valor teórico da equação de Gay Lussac, equação (1.1). Na equação clássica de Gay Lussac, os açúcares são fermentados para a formação do álcool e liberação de gás carbônico. A diferença entre os dois métodos se deve às perdas no processo produtivo, tendo como causa principal o consumo de açúcar por microrganismos indesejáveis ao processo de fermentação e evaporação (LIMA, 2002).

Os rendimentos acima são impossíveis de se conseguir na prática, pois o processo de fermentação é muito complexo para ser descrito por uma reação química de biodegradação como a de Gay Lussac. O rendimento que se pode esperar, na prática, vai depender, dentre outros fatores, do tipo da destilaria, do tipo de levedura e, principalmente, do gerenciamento empregado (será detalhado mais adiante).

C 6 H 12 O 6 2 C 2 H 5 OH + 2CO 2 + Calor (1.1)

2 O 6 2 C 2 H 5 OH + 2CO 2 + Calor (1.1) Glucose

Glucose

etanol

Gás carbônico

Fermentação do caldo açucarado

As dornas de fermentação ou reservatórios onde se processa a fermentação devem ser construídas em aço carbono ou aço inoxidável (preferencialmente), possuir fundo cônico, serpentina para controle de temperatura do vinho, possuir agitadores e serem instaladas em bases suspensas. As dornas principais devem ser dispostas uma ao lado da

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

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outra na sala de fermentação (Figura 1.1), mantendo-se um espaçamento entre elas para facilitar a movimentação livre de uma pessoa.

elas para facilitar a movimentação livre de uma pessoa. Figura 1.1 - Sala de fermentação com

Figura 1.1 - Sala de fermentação com várias dornas com fundo cônico em aço inoxidável.

A sala de fermentação deve ser arejada e de fácil acesso para facilitar a lavagem e a higienização total da sala. Chaves (2002) indica alguns cuidados na construção da sala de fermentação, tendo em vista a necessidade de limpeza e da estabilidade de temperatura (Figura 1.2).

Antes de iniciar o processo de fermentação os seguintes cuidados devem ser tomados:

Escolher cana madura e de boa qualidade e sem palha;

Manter boa higiene das moendas;

Moer a cana no máximo 48 horas depois do corte (melhor seria moer no mesmo dia da colheita);

Coar com peneira fina para separação do bagacilho;

Fazer uma cuidadosa decantação para separação de materiais pesados existentes no caldo;

24

Capítulo 1

Caso o processo seja executado unicamente para a produção de álcool, fazer a esterilização do caldo por meio de aquecimento e resfriamento;

Caldo com teor de açúcar acima de 16 Brix está sujeito a fermentação com atraso ou incompleta. Ao atingir 16 % de álcool no vinho, as atividades das leveduras são paralisadas e, caldo muito abaixo de 16 Brix apresenta baixo rendimento em álcool, o que implica em aumento dos custos da destilação;

Quando o teor de açúcar estiver acima de 16 Brix, deve-se fazer uma diluição para esse valor, conforme equação (1.2), mantendo a temperatura do caldo na faixa de 25 a 30 o C. Normalmente, o teor de açúcar de um caldo de cana madura e de boa qualidade é de 22 Brix.

Para evitar contaminação, fazer a diluição com água potável de boa qualidade; e

Fazer a correção da acidez para pH entre 4,5 e 5 (um bom fermento desenvolve melhor nessa faixa). As seguintes correções devem ser realizadas: (a) para pH abaixo de 4, deve- se adicionar ao mosto um produto alcalino como o bicarbonato de sódio ou hidróxido de sódio, essa correção diminui a produção de ácidos superiores; e (b) caso o pH esteja acima de 5, faz-se a adição de ácido cítrico comercial ou, de uma forma mais artesanal, usar o caldo de limão, que reduzirá a produção de ácido acético e de furfural.

Volume Total = Volume do Caldo x Brix do Caldo

(1.2)

Brix Desejado

Exemplo: pretende-se reduzir, de 21 para 16, o teor de açúcar de 1.000L de caldo de cana. Quantos litros de água serão necessários?

(21 – 16)

Vol. de água = 1.000 x ;

16

Vol. de água = 312, 5L.

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

25

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo 25 Figura 1.2 - Resfriamento de dorna

Figura 1.2 - Resfriamento de dorna com água fria.

Assim, o volume total será de, aproximadamente, 1.312L (caldo mais água).

O rendimento, em caldo, que se espera de uma cana de qualidade

e utilizando moendas de média capacidade é de aproximadamente 600L

por tonelada. Com fermentação e destilação normal, pode-se obter, em média, 65L de álcool 92%.

Seguindo todas as etapas mencionadas, tem-se o produto, classicamente, denominado de mosto, que é a solução considerada ideal para o início do processo de fermentação. O controle adequado desse

processo resultará no êxito do processo de destilação, no qual é recuperado

o álcool formado durante a fermentação do mosto (LIMA, 1999).

Temperatura

Durante a fermentação, o metabolismo das leveduras libera 11,7kcal por quilo de substrato consumido (LIMA 2002). A temperatura

26

Capítulo 1

é um fator importante, pois influencia o processo de transformação,

podendo, dependendo do seu valor, causar a morte das leveduras. Há divergências entre autores no que diz respeito ao valor ótimo da temperatura a ser usada no processo de fermentação. O conhecimento desta grandeza é de suma importância, pois irá definir, dentro de margens ideais, uma maior produção de álcool.

Nutrientes

O caldo de cana, que é pobre em proteínas e sais minerais, necessita de adição complementar de nutrientes para que a fermentação ocorra satisfatoriamente. Essa adição deve ser realizada em proporções

específicas para cada processo. Segundo Chaves (2002), a suplementação

é feita com o fubá de milho integral (5,0kg), farelo de arroz (1,0kg) e

farelo de soja (2,0kg) para cada mil litros de mosto. A adição excessiva desses nutrientes aumenta a produção de produtos secundários,

influenciando o rendimento do fermento.

Composição do vinho

Após a fermentação, o mosto fermentado recebe a denominação de vinho e apresenta constituições variáveis, envolvendo substâncias gasosas, sólidas e líquidas. As primeiras são representadas, principalmente, pelo dióxido de carbono dissolvido em pequena proporção no vinho. As sólidas se fazem presentes pelas células de leveduras, bactérias, sais minerais, açúcares não-fermentados e impurezas não-filtradas depois da moagem que ficam em suspensão no vinho. A água e o etanol são as substâncias líquidas mais importantes presentes nos vinhos. Produtos secundários como aldeído acético, ácido succínico, ácido acético, ácido lático, ácido burítico, ésteres, álcoois superiores e, às vezes, o furfural, estão presentes. A água e o etanol, nos vinhos comuns, são encontrados em percentagens que variam, respectivamente, de 88-93 % a 7-12 % (BORZANI, 1988).

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

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O vinho, quando a leitura do Brix for aproximadamente zero, deve

ser destilado imediatamente, independentemente da sua finalidade, para evitar que o álcool se transforme em vinagre e provoque variações na qualidade do produto final (CHAVES, 2002).

Processo da fermentação alcoólica

A variação dos processos fermentativos, na prática, só pode ser

estimada com segurança por tentativas. A partir de resultados obtidos em escala de laboratório, procura-se determinar as condições de trabalho favoráveis em fermentadores de maior capacidade. Conhecendo esses resultados, dimensiona-se valores semelhantes para tanques de maior capacidade, estabelecendo as melhores condições de operação (BORZANI, 1988).

A fermentação na indústria de álcool pode ser conduzida por processos, tais como:

Processo de fermentos individuais: nesse caso, a quantidade de fermento necessária para cada dorna é produzida e eliminada ao término da fermentação do mosto. Esse processo só é usado quando as características do mosto não permitem o reaproveitamento do fermento. Evidentemente, em tal processo, há um gasto adicional de açúcar para a produção do fermento.

Processo de cortes: consiste em iniciar a fermentação com fermento em uma dorna a que, posteriormente, em plena atividade, terá

o seu conteúdo dividido para ceder metade à outra dorna. Posteriormente,

a dorna da qual se retirou metade do volume é completada com o mosto

corrigido; deixa-se fermentar até o final e depois o vinho é destilado. A outra dorna, que recebeu a metade do volume do mosto da dorna anterior,

é realimentada também com o mosto corrigido. Na prática, adota-se

como ponto de corte o momento em que o Brix do mosto em fermentação cair para cerca da metade do Brix de alimentação. A proporção do corte deve ser efetuada de tal maneira a evitar a excessiva passagem de fermento de uma dorna para a outra, diminuindo assim a quantidade de leveduras com aumentando o tempo de fermentação.

28

Capítulo 1

Processo de decantação: é um processo intermitente de fermentação no qual se faz a recuperação de grande parte do fermento utilizado através da decantação, sendo esse fermento remanescente utilizado como pé-de-cuba para a fermentação subseqüente. É um processo muito empregado em destilarias de aguardente e que está sendo usado novamente nas destilarias de álcool para produção em pequena escala, como nas micro destilarias (HORII, 1980).

Processo Melle-Boinot: Este processo foi idealizado com base no fato de que, uma vez atingida certa concentração, a levedura não se multiplica, cessando as funções reprodutivas e iniciando as funções fermentativas. Assim, neste processo, separam-se a partir do vinho, por meio de centrífugas especiais, em duas fases: leite de levedura, mais densa e rica em células de levedura e outra, mais fluida que é enviada para a destilação (HORII, 1980).

Processo de fermentação contínua: nesse processo, o mosto entra continuamente na dorna de fermentação e, ao mesmo tempo, o vinho também sai continuamente com todos os açúcares transformados em etanol.

Em qualquer desses processos, a alimentação do mosto nas dornas deve ser feita cuidadosamente para evitar concentrações excessivas de açúcares e sais. Esses componentes podem causar inibição das enzimas fermentativas das leveduras.

O enchimento de uma dorna, independentemente do seu volume,

deve ser realizado em algumas horas e, durante este tempo, deve-se controlar a vazão de alimentação segundo o ritmo de consumo de açúcares.

O aumento do tempo de fermentação significa necessidade de

maior volume nas dornas e, conseqüentemente, maior mão-de-obra, menor produtividade, maior gasto de água, equipamentos, além de maior risco de infecção, qualquer que seja o processo (HORII, 1980).

Álcool a partir do caldo fermentado

Como dito anteriormente, o primeiro passo consiste em determinar o ponto ideal para a colheita da cana, o que deverá ser feito, percorrendo

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

29

o canavial e colhendo algumas canas aleatoriamente. Nesse momento, é muito importante ficar atento para fazer uma boa amostragem, ou seja, que as canas colhidas sejam bem representativas do talhão de canavial que será colhido.

Depois de colhidas, as canas deverão ser moídas, e o caldo utilizado na determinação do teor de açúcar. Isso é feito colocando o caldo em uma proveta e mergulhando o brixímetro, cuidadosamente, no caldo para que ele flutue e indique o teor de açúcar (Figuras 1.3 e 1.4) lido diretamente na haste do brixímetro.

1.3 e 1.4) lido diretamente na haste do brixímetro. Figura 1.3- Vista geral de um brixímetro

Figura 1.3- Vista geral de um brixímetro comum.

Figura 1.3- Vista geral de um brixímetro comum. Figura 1.4- Medição do teor de açúcar inicial

Figura 1.4- Medição do teor de açúcar inicial (20 Brix).

Outro cuidado que se deve ter, antes de determinar o teor de açúcar, refere-se à retirada de bagacilhos e pedaços de folhas que, eventualmente, possam ser encontrado flutuando no caldo. Se o teor de açúcar for

30

Capítulo 1

superior a 20º Brix, o canavial já poderá ser colhido. Antes, porém, é preciso preparar o pé-de-cuba que poderá ser feito por um dos três processos descritos a seguir:

a) “Pé-de-cuba” com fermento prensado

O procedimento a seguir refere-se ao preparo de 30L de pé-de- cuba, que é uma quantidade suficiente para iniciar a fermentação em três dornas de 260L cada.

Colher e moer, no mesmo dia, uma quantidade de cana suficiente para obter um pouco mais de 30L de caldo. Lembre- se que o teor de açúcar da cana deverá ser, preferencialmente, superior a 20º Brix;

Ferver um pouco mais de 5L desse caldo;

Corrigir o Brix do caldo fervido para 12 a 14 Brix. A correção do teor de açúcar do caldo deverá ser feita, adicionando-se água de boa qualidade, cuja quantidade deverá ser calculada pela fórmula anteriormente apresentada.

(20 – 14) Vol. de água = 5 x ––––––––––– Vol. de água = 2,15L.

14

Mesmo calculando a quantidade de água a ser acrescentada ao caldo, antes de colocar todo o volume calculado deverá ser usado o brixímetro para conferir o teor de açúcar;

Adicionar ao caldo fervido 100g de fermento prensado (fermento de padaria). A adição do fermento só deverá ser feita quando a temperatura do caldo fervido baixar para, aproximadamente, 32ºC;

Esperar tempo suficiente para que o Brix caia para 2 a 3;

Adicionar 25L de caldo com teor de açúcar corrigido para 12 a 14 Brix;

Acrescentar 30g de sulfato de amônia, 15g de superfosfato de cálcio e 30g de farelo de arroz;

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

31

Como no quinto passo, esperar tempo suficiente para que o teor de açúcar do caldo caia para 2 a 3 Brix;

Adicionar 120L de caldo, com teor de açúcar corrigido para 12

a 14º Brix, juntamente com 120g de sulfato de amônia; 60g de superfosfato de cálcio e 60g de farelo de arroz;

Esperar o teor de açúcar cair para 2 a 3º Brix e tem-se o “pé- de-cuba” preparado. Em geral, o tempo necessário para preparar

o pé-de-cuba varia de 3 a 5 dias.

b) Pé-de-cuba selvagem

Esse método consiste em utilizar leveduras naturalmente existentes na natureza para obter o pé-de-cuba. Ele pode ser preparado de diversas maneiras, alterando-se as quantidades dos ingredientes utilizados.

Colocar em um saco de aniagem 2 a 3kg de farelo de arroz; 2 a 3kg de fubá de milho; 0,5kg de bolacha e caldo de limão ou laranja azeda, em quantidade suficiente para formar uma pasta.

Deixar o material em repouso por até 24h ou até que surjam rachaduras na superfície da pasta;

Adicionar caldo de cana diluído em água de boa qualidade, na proporção de 1:1, até que a pasta fique submersa;

Cobrir com um pano e deixar em repouso por mais 24 h;

Ao observar efervescência ou formação de borbulhas, adicionar uma quantidade maior de caldo de cana diluído em água, na proporção de 1:1 (2 a 5 vezes);

Deixar o material novamente em repouso e fazer nova adição de caldo diluído, nas mesmas proporções;

Esta operação deverá ser repetida até que o volume do “pé-de- cuba” preparado seja equivalente a 0,2 do volume de mosto a ser fermentado na dorna principal.

32

Capítulo 1

Esse método pode apresentar dois inconvenientes: um deles é a maior possibilidade de contaminações do “pé-de-cuba”, ou seja, presença de outros microrganismos, além das leveduras, que poderão retardar o processo de fermentação. O outro inconveniente é a necessidade de mão- de-obra e mais tempo para o preparo.

c) “Pé-de-cuba” com levedura selecionada

O método consiste em preparar um meio de inoculação com cultura pura de leveduras, devidamente selecionadas em laboratório. Em seguida, a multiplicação da cultura de leveduras deverá ser sucessiva, em caldos de cana com teores sucessivos de açúcar. Prepara-se o material segundo os passos seguintes:

Inicialmente, deve-se inocular uma porção da cultura em 100mL de caldo diluído, com teor de açúcar igual a 5 Brix, enriquecido e esterilizado;

Após o crescimento, acrescentar 400mL de caldo com 7 Brix, preparado como no 1 o passo, continuando o procedimento até atingir o volume suficiente ou 10% do volume total.

Após o preparo do “pé-de-cuba”, será preciso preparar o mosto, que é a mistura do “pé-de-cuba” com o caldo de cana, com 16 Brix. Os 30L de “pé-de-cuba” obtidos com fermento prensado, por exemplo, são suficientes para preparar 160L de mosto. Para isso, basta adicionar ao “pé-de-cuba” 130L de caldo com teor de açúcar corrigido para 16 Brix. Feito isso, basta esperar o teor de açúcar da mistura cair para 2 a 3 Brix, para que o mosto possa ser utilizado na inicialização da fermentação nas dornas. Isso poderá ser feito de duas maneiras: corte de dornas ou dorna únicas.

O corte de dornas é feito da seguinte maneira:

1. Distribuem-se os 160 L de mosto nas dornas 1 e 2 (80 L em cada dorna);

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

33

2. Preencher essas dornas com caldo diluído para 16º Brix, até completar o volume das dornas (260 L), tomando-se cuidado para o teor de açúcar final não superar 7º Brix (metade de 16 menos 1).Observação: 260 L é o volume útil de cada dorna que corresponde a 80% do volume total, que é de 325 L. Isso deve ser feito para evitar transbordamento de espuma durante a fermentação como é visto na Figura 1.2;

3. Transferir metade do material da dorna 2 para a dorna 3;

4. Completar o volume dessas dornas para 260 L, com caldo a 16º Brix;

5. Esperar até o teor de açúcar da dorna 1 cair a zero (transformação total do açúcar em álcool), quando o seu conteúdo será levado para destilar;

6. Lavar a dorna 1 e transferir para a mesma metade do conteúdo da dorna 3;

7. Preencher essas dornas com caldo, com 16º Brix;

8. Esperar o teor de açúcar da dorna 2 cair para zero e levar seu conteúdo para destilar;

9. Lavar a dorna 2, para receber metade do conteúdo da dorna

1;

10. Completar o volume dessas dornas, utilizando-se mosto com 16 Brix;

11. Esperar o teor de açúcar da dorna 3 cair para zero, quando o material será encaminhado para a destilação.

Em resumo, o processo de corte das dornas é feito da seguinte maneira (Figura1.5):

a) Quando parte do material da dorna 2 é transferido para

a dorna 3, destila-se o conteúdo da dorna 1;

b) Quando parte do material da dorna 3 é transferido para

a dorna 1, destila-se o conteúdo da dorna 2; e

34

Capítulo 1

c) Quando parte do material da dorna 1 é transferido para a dorna 2, destila-se o conteúdo da dorna 3.

para a dorna 2, destila-se o conteúdo da dorna 3. Figura 1.5 - Fermentação pelo processo

Figura 1.5 - Fermentação pelo processo de corte das dornas.

O processo de dorna única, para ser utilizado na fermentação, deverá ser conduzido da seguinte maneira:

Colocam-se os 160 litros de mosto na dorna;

Em seguida, completa-se o volume da dorna com caldo diluído para 16 Brix;

Espera-se que o teor de açúcar cai para zero;

Quando isso acontecer, aguardar 20 minutos e retirar 90% do volume da dorna;

Aos 10% restantes, deve-se adicionar água, cujo volume deverá corresponder a 5% do volume da dorna (a dorna ficará com 15% do volume ocupado após adição da água);

Nessas condições, aguardar uns 15 minutos e retirar a parte liquida. O material que restar no fundo da dorna será o novo “pé-de-cuba”.

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

35

Independentemente do processo a ser utilizado para a fermentação, o vinho deverá ser transferido o mais rápido possível para a destilação, para a separação do álcool.

Álcool a partir de pré-destilados

A produção de cachaça artesanal, de qualidade, é muito parecida com a produção de álcool, feita a partir da fermentação do caldo, uma vez que as etapas se repetem. Neste caso, é preciso fazer: o preparo do “pé- de-cuba”, a moagem da cana, a decantação e a diluição do caldo, a fermentação; e a destilação. Porém, a destilação da cachaça é feita em alambiques tradicionais (Figura 1.6). Já o álcool, é destilado em equipamentos especiais denominados coluna de retificação (Figura 1.7).

especiais denominados coluna de retificação (Figura 1.7). Figura 1.6 - Alambiques utilizados na fabricação artesanal

Figura 1.6 - Alambiques utilizados na fabricação artesanal de cachaça de qualidade.

36

Capítulo 1

36 Capítulo 1 Figura 1.7 - Vista geral de uma coluna de refluxo para produção de

Figura 1.7 - Vista geral de uma coluna de refluxo para produção de álcool em pequena escala.

Entretanto, a produção de cachaça de qualidade resulta na obtenção de subprodutos com teor alcoólico considerável e que não são devidamente aproveitados. Estamos falando dos pré-destilados, constituídos pela cabeça e pela cauda da destilação. A cabeça se refere ao início da destilação que possui elevado teor alcoólico, geralmente superior a 50 G.L. Além disso, essa fração da destilação possui também outros componentes como aldeídos, ésteres e álcoois superiores que não devem fazer parte da cachaça de qualidade. E, de forma semelhante, a fração final possui, entre outros elementos, o óleo fúsel que é o principal causador de ressaca.

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

37

Assim sendo, na produção de uma boa cachaça, o processo consiste em eliminar a cabeçada e a cauda, que consiste em eliminar entre 10 a 15% no início e 10% no final da destilação. Assim, em cada alambicada são desconsiderados, aproximadamente, 20% de pré-destilado rico em álcool.

Ao invés de ser considerado como resíduo perdido, a cabeça e a cauda deverão ser levados para uma coluna de retificação para serem transformados em álcool combustível. Também, o produtor de aguardente, em períodos de ociosidade na fabricação, pode produzir uma espécie de pré-destilado, sem a necessidade de separar a cabeça e a cauda e destinar o produto para fabricação de álcool. Ou, ainda, um produtor de aguardente pode produzir um pré-destilado e enviar esse material para ser transformado em álcool em uma pequena central de retificação.

Rendimento em álocol

Uma questão importante que deve ser abordada é o rendimento, em álcool, possível de ser obtido em uma pequena unidade de destilação. Pode-se considerar que, para produzir álcool a partir da fermentação do caldo, serão necessários, em média, 100L de mosto para produzir, pelo menos, 10L de álcool combustível. Como de uma tonelada de cana consegue-se extrair, com o uso de pequenos engenhos, 600L de caldo, concluí-se que uma tonelada de cana possibilita a obtenção de 60L de álcool. Se for considerado que um hectare de cana bem conduzido forneça, em média, 100ton, chega-se à conclusão que, de um hectare de cana pode- se obter, pelo menos, 6.000L de álcool (veja, mais adiante, planejamento de uma micro-destilaria). Essa quantidade de álcool é suficiente para abastecer um veículo popular para rodar 60.000km por ano.

Caso a produção de álcool seja feita a partir de pré-destilados da cachaça, podemos considerar que a quantidade de caldo obtida de uma tonelada de cana, ou seja, 600L, serão suficientes para produzir em torno de 11L de álcool. Portanto, de um hectare que produza, em média, 100 t de cana, pode-se produzir 1.100L de álcool e mais 11.400L de cachaça de qualidade.

38

Capítulo 1

Um tipo de unidade de destilação que será apresentada, mais adiante, pode, dependendo do gerenciamento, produzir entre 40 a 50L de álcool por hora, quando a matéria-prima utilizada for um pré-destilado. E, para utilizar vinho ou mosto fermentado, o seu rendimento médio será de, aproximadamente, 25L por hora. Sendo assim, durante 10 horas de operação diária, conseguiremos produzir entre 300 a 500L de álcool combustível, a partir de pré-destilados ou 250L deste combustível, a partir de mosto fermentado. Caso o produtor opte por produzir o álcool a partir do mosto fermentado, é sugerido que faça um investimento extra para construir um pré- destilador (Figura 1.8) e que será, também, detalhado mais adiante.

(Figura 1.8) e que será, também, detalhado mais adiante. Figura 1.8 - Vista geral de um

Figura 1.8 - Vista geral de um pré-destilador modelo UFV.

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

39

Se considerarmos que a safra é de 200 dias de operação com unidade de destilação, conseguiremos produzir, com uma unidade com essas características, 60.000L de álcool, a partir de pré- destilados. Ou, ainda, 30.000L, se for utilizado o mosto fermentado como matéria-prima.

Processo de destilação

A finalidade da destilação é a separação dos elementos de uma

solução que apresentam temperaturas de ebulição diferentes. Puros, o álcool etílico apresenta uma temperatura de ebulição de 78,15 ºC e a água, nas mesmas condições, de 100 ºC (Figura 1.9). O aquecimento de uma solução água-álcool, até uma temperatura adequada, proporcionará a mudança de estado do álcool de líquido para vapor e, posteriormente, para o estado líquido, após submeter o vapor ao resfriamento (condensação). Neste processo busca-se a recuperação de álcool dentro dos padrões de qualidade estabelecidos, em níveis compatíveis com os equipamentos e atendendo às metas de produção. Para uma operação eficiente dos equipamentos, devem-se controlar as temperaturas nas diversas fases do processo, bem como as vazões de alimentação da água de refrigeração e dos trocadores de calor.

O processo de destilação sucessiva proporciona um álcool etílico

mais concentrado. A separação das substâncias de uma só vez é impossível, pois a temperatura de ebulição de uma solução álcool-água varia conforme o percentual de cada componente da mistura (CLEMENTE, 1995).

40 Capítulo 1 100 96 92 Composição do vapor Composição 88 do líquido 84 80
40
Capítulo 1
100
96
92
Composição
do vapor
Composição
88
do líquido
84
80
Azeotropo
76
0
24,5
47,4
85,6
100
95,6
Percentagem volumar (líquido)
78,2 C
Temperatura ºC

Figura 1.9 - Composição do vapor e do líquido do sistema água-álcool, a 760 mmHg, em função da temperatura.

Destilação descontínua

Na destilação descontínua ou intermitente, faz-se uma carga no aparelho; destila-se o álcool por aquecimento, separando-se os vapores por condensação e refrigeração; descarrega-se o resíduo ou vinhaça; faz-se nova carga e assim por diante (Figura 1.10). Esse tipo de destilação é realizado em alambiques simples, de um só corpo, ou em aparelhos de dois a três corpos, nos quais se consegue recuperar

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

41

calor pela condensação dos vapores destilados, por meio de resfriamento com o líquido que será destilado em uma próxima carga.

Quando se executa uma destilação descontínua, realiza-se uma destilação simples, vaporizando primeiro as substâncias mais voláteis do que a água e o álcool. O primeiro destilado é uma mistura de água, álcool, bases voláteis, aldeídos e ácidos e chama-se, na prática, de destilado de cabeça. Depois de sua separação, os vapores do vinho são mais ricos em etanol, com menor quantidade de impurezas voláteis, sendo denominado destilado de coração. No final do processo, são retirados do vinho vapores ricos em água e óleo fúsel (LIMA, 1999).

final do processo, são retirados do vinho vapores ricos em água e óleo fúsel (LIMA, 1999).

a) álcool de baixo grau

42

Capítulo 1

42 Capítulo 1 b) álcool de alto grau Figura 1.10 - Esquema básico de destilações descontínuas.

b) álcool de alto grau

Figura 1.10 - Esquema básico de destilações descontínuas.

Destilação contínua

A destilação contínua é realizada em colunas de destilação, fazendo- se a alimentação contínua do aparelho com vinho e retirando continuamente a vinhaça ou vinhoto na base e o destilado (álcool) no topo da coluna de destilação. A separação dos componentes secundários, com exceção do etanol, é feita pelo topo da coluna e pela lateral do equipamento, segundo a natureza das impurezas.

As colunas de destilação (Figura 1.11) constituem-se de gomos cilíndricos superpostos, contendo seções transversais às quais se dá o nome de bandejas ou pratos. Os gomos e as bandejas, superpostos,

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

43

formam uma série de aparelhos de destilação simples, um destilando os seus vapores no outro, através de calotas ou placas perfuradas, e recebendo líquido residual do gomo imediatamente superior através de tubos denominados sifões (Figura 1.12).

através de tubos denominados sifões (Figura 1.12). Figura 1.11 - Coluna de destilação composta de

Figura 1.11 - Coluna de destilação composta de borbulhadores e seus componentes básicos.

O aquecimento das colunas é feito na base por meio de vapor de água, por injeção, por serpentina ou por trocadores de calor, segundo a riqueza do líquido no interior ou a natureza da operação. O aquecimento das bandejas é proporcionado pelo calor dos vapores ascendentes na coluna. Os vapores emitidos por uma solução etanol-água são mais ricos

44

Capítulo 1

em etanol do que a solução geradora. Esses vapores, condensando-se no prato imediatamente superior, enriquecem o líquido aí existente e aquecem- no até a ebulição, gerando vapores mais ricos, e assim por diante. A temperatura na coluna decresce da base para o topo, ao mesmo tempo em que o teor alcoólico aumenta.

o topo, ao mesmo tempo em que o teor alcoólico aumenta. Figura 1.12 - Esquema básico

Figura 1.12 - Esquema básico de uma coluna de destilação por bandejas em série.

Os vapores que saem na parte superior da coluna fluem para o condensador, onde passam para a fase líquida. Desse líquido, retorna- se uma parte de cabeça da coluna e envia-se por tubulação o restante a um refrigerador, e daí para fora do circuito. A retro gradação, ou refluxo auxilia a manutenção de vapores ricos na cabeça da coluna.

Em uma coluna de destilação, a graduação alcoólica varia em função do número de pratos superpostos. Um número maior de pratos eleva mais a graduação alcoólica dos vapores.

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

45

Destilação industrial

Para obtenção de etanol industrial com concentração acima de 96% de álcool em volume, isento de impurezas, fraciona-se o destilado em álcool de primeira e álcool de segunda, separando-se os álcoois superiores como subproduto e os outros componentes secundários (aldeídos, bases voláteis, ésteres e ácidos).

No ramo industrial, o álcool pode ser aplicado em várias situações, como na indústria farmacêutica, na indústria de perfumes e cosméticos, para fins de corantes, na fabricação de vernizes e lacas, no preparo de materiais explosivos, na fabricação de matérias plásticas, entre outros (RASOVSKY, 1973).

A purificação do etanol, denominada retificação, industrialmente

é processada de forma contínua por destilações sucessivas em várias

colunas, denominadas colunas depuradoras, destiladoras, retificadoras

e de repasse final (Figura 1.13).

Na primeira destilação, o substrato fermentado é aquecido em uma coluna com um número de bandejas suficiente para produzir, no topo, mistura de vapores de baixo ponto de ebulição, que é eliminada após a condensação e o resfriamento.

Na segunda destilação, esgota-se o substrato retirando-se o etanol na extremidade superior da coluna, sob a forma de um destilado, com uma concentração próxima de 50 % de álcool em volume. Na base da coluna escoa-se o substrato isento de álcool.

Na terceira coluna concentra-se o álcool e separam-se os álcoois superiores, de ponto de ebulição mais elevado que o etanol, na base da coluna. No topo, obtém-se uma mistura de vapores de ponto de ebulição menor, ao mesmo tempo em que se retira o etanol de alta concentração. Envia-se este à quarta coluna, onde se separam mais impurezas, de ponto de ebulição inferior ao do etanol.

Ao final dessas destilações, obtém-se uma mistura binária de etanol e água que, no máximo, pode conter 95,6 % de etanol em volume (SHREVE, 1980).

46

Capítulo 1

46 Capítulo 1 Figura 1.13 - Fluxograma da destilação industrial. Resíduos provenientes da destilação Os resíduos

Figura 1.13 - Fluxograma da destilação industrial.

Resíduos provenientes da destilação

Os resíduos provenientes da destilação de álcool são os bagaços e as vinhaças. A vinhaça, ou vinhoto é o principal resíduo proveniente da fabricação do álcool nas destilarias. Sua produção expandiu-se de forma acelerada com o Programa Nacional do Álcool causando, ao longo dos anos, impactos ambientais por possuir uma elevada demanda bioquímica de oxigênio (DBO), unidade que caracteriza a vinhaça como poluente.

A fim de amenizar o impacto ambiental, vem sendo aplicada a fertirrigação, que consiste na adição de águas residuais, não-poluidoras, à vinhaça e na aplicação da mistura aos sulcos da lavoura. A aplicação da vinhaça como fertilizante de solos tem como benefício a elevação do pH e o aumento de resíduo rico em matéria orgânica, apresentando também elementos como cálcio, potássio, nitrogênio, fósforo, magnésio, enxofre e outros elementos em menor escala.

De acordo com Stupiello (1978), além da disponibilidade dos nutrientes citados, a vinhaça aumenta o poder de retenção de água no solo, assim como a população de microrganismos. Mesmo apresentando grandes vantagens como fertilizante, a aplicação da vinhaça deve ser feita sob orientação para evitar efeitos prejudiciais ao solo e a qualidade do produto final.

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

47

O bagaço é um resíduo fibroso resultante da moagem da cana para a extração do caldo. Segundo Anciães et. al.(1981), dependendo do engenho o bagaço apresenta entre 40 e 50 % de umidade, com massa de 250 a 350 kg por tonelada de cana. Além de possuir várias aplicações, como na fabricação de papel e papelão, alimentação animal e adubação orgânica, este resíduo é empregado principalmente como combustível na geração de energia térmica e na co-geração de energia elétrica em grandes usinas.

Como dito no início do manual, um dos objetivos desse trabalho seria o de analisar um sistema de aquecimento evaporativo com a finalidade de fornecer vapores hidroalcoólicos, em regime contínuo e que pudesse ser usado com diferentes tipos de colunas e de modo a atender a demanda por álcool hidratado nas atividades da fazenda ou para a produção de pré-destilado para a produção de álcool combustível em sistema cooperativo ou integrado que será descrito no próximo capítulo.

CAPÍTULO II

Produção Integrada de Álcool Combustível em Sistema Cooperativo

Introdução

Juarez de Sousa e Silva Roberta Martins Nogueira

Em 1975, o governo brasileiro estabeleceu o PRÓ-ALCOOL, um programa bem sucedido que levou o Brasil a se tornar um líder mundial na produção de etanol para substituição de parte da gasolina consumida em veículos de pequeno porte, isso tornou o etanol um combustível reconhecido mundialmente, por seus benefícios ambientais no sentido de minimizar mudanças no clima da Terra. Devido à instabilidade no fornecimento e ao alto preço do petróleo, ficou economicamente viável produzir o etanol, e o Brasil aprendeu, de modo firme, as lições de como produzi-lo, competitivamente, em qualquer situação com o petróleo acima de US$50.00 por barril. Como o petróleo alcançou preço muito acima desse valor, o etanol produzido em outros países e por outros tipos de matéria-prima - como o milho no EUA - também ficou muito competitivo com a gasolina.

Como não há probabilidade de que seja reduzido o preço do petróleo num futuro previsível, o etanol como combustível para transporte parece,

50

Capítulo II

agora, ser o principal combustível limpo; é esperado que o mercado continue se expandindo por mais alguns anos, até atingir a área máxima para sua produção sem alterar a área necessária ao cultivo dos alimentos básicos e demais produtos para fins industriais.

No Brasil, o etanol é produzido, tradicionalmente, por grandes usinas, com metade sendo produzida por menos de 10 grupos

empresariais. Hoje, as grandes usinas têm três mercados principais para

o produto: etanol para os mercados domésticos, fortes e crescentes, a

fim de atender às altas demandadas dos carros bicombustíveis; álcool anidro (antidetonante), para o crescente mercado de exportação; com o

forte mercado de açúcar a preços altos, o produtor de etanol pode mudar

o padrão de produção para açúcar ou álcool, dependendo da oportunidade de mercado. Dessa forma, os grandes produtores podem, para desencorajar o consumo interno, aumentar o preço do etanol de modo a permitir que usem grande parte da produção para o premiado mercado de exportação de açúcar ou álcool.

Com a exceção dos consumidores do Estado de São Paulo, que pagam um preço justo, os consumidores brasileiros são obrigados, em razão dos impostos exagerados, das grandes distâncias entre a região produtora e o consumidor final, a usar gasolina ou modificar o sistema para queimar gás natural para abastecer seus veículos. Com essas dificuldades, abrem-se oportunidades para incorporar os pequenos e os médios produtores rurais, em sistemas cooperativos, nesse mercado, permitindo-lhes produzir etanol de baixo grau (acima de 80%) em Microdestilaria (MD), associada a uma central retificadora para atender comunidades regionais e deixar que as grandes usinas atendam os grandes consumidores internos e os mercados de exportação.

MDs de etanol com capacidade para 500 a 5000 L por dia são técnica e economicamente viáveis para a economia local quando integrados a outras atividades da fazenda. Microdestilarias para instalação em fazendas são de tecnologia bastante conhecida e em uso

há vários séculos. Recentemente, técnicos da Universidade Federal de Viçosa (UFV) desenvolveram um equipamento de pré-destilação simples

e que têm melhorado uma versão de uma MD para trabalhar de forma

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

51

contínua, que pode combinar duas possibilidades: uma na fazenda, onde

é conduzida a fase de pré-destilação, produzindo álcool de baixo grau

(acima de 80%); a outra fase (purificação e homogeneização do álcool combustível) seria executada em uma central (colunas especiais) de

propriedade da cooperativa, que teria, também, a função de comercializar

a produção total, segundo as normas vigentes no Brasil.

O sistema cooperativo evitará o transporte da cana-de-açúcar integral, de baixo valor agregado, das fazendas para as grandes usinas, permitindo que os pequenos produtores transportem somente o álcool de baixo grau (80% ou mais), de alto valor agregado, para a planta central da cooperativa (Figura 2.1).

agregado, para a planta central da cooperativa (Figura 2.1). Figura 2.1 - Esquema básico do funcionamento

Figura 2.1 - Esquema básico do funcionamento da produção de álcool em sistema cooperativo.

52

Capítulo II

Os equipamentos para a fase de produção na fazenda são simples, de fácil manejo e fabricados em função da produção possível de cada cooperado e, facilmente, montados em poucos dias após a decisão de adquirir o sistema.

Tendo em vista o exposto, o objetivo deste capítulo é o de demonstrar a viabilidade técnica e econômica de um sistema cooperativo para a integração de MDs para produção de álcool em fazendas. Além da comercialização oficial do álcool produzido, a central cooperativa teria também a função de prover a frota de veículos e máquinas dos cooperados com combustível e como fonte de calor (fogões domésticos ou aquecedores de água), desinfetante e outros usos agroindustriais.

Considerações Gerais

Em particular, várias unidades para produção de etanol, em pequena escala, integradas a uma cooperativa de comercialização, estão sendo idealizadas, de maneira que os produtores rurais, em qualquer município ou microrregião, usariam, em uma primeira fase, os resíduos da produção de aguardente (cabeça e cauda) e o tempo disponível de seus equipamentos para produção de uma solução alcoólica com graduação acima de 80%, que seria transportada para a CENTRAL, onde o produto seria submetido à retificação complementar e transformado em álcool hidratado ou álcool combustível 92%, a fim de suprir, a preços compatíveis, a frota de instituições públicas regionais (prefeituras, policiamento, hospitais, etc.) e também a demanda dos associados. O excesso seria comercializado com os distribuidores oficiais, até que um número expressivo de cooperados se integrasse ao sistema, para uma produção em grande escala.

Com o sistema de comercialização atual, fica difícil para o pequeno produtor de cachaça participar do seletivo mercado de aguardente especial para exportação, que, além do pequeno potencial para expansão, tem dificuldades de atender às exigências de processos e qualidades especiais do produto. Contudo, com a retomada da produção de carros movidos a álcool ou do tipo Flexfuel, os pequenos e médios

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

53

produtores teriam uma fonte adicional de renda se eles se associassem a uma cooperativa comercial para produzir e comercializar, oficialmente,

o biocombustível.

Um aspecto interessante do plano para auto-suficiência regional

é criar um programa que permita que os produtores de aguardente, não

associados, possam vender para a cooperativa (planta central), além do etanol de baixo grau, produzido durante a ociosidade na produção de cachaça, o subproduto, cabeça e cauda obtidas durante a preparação de aguardente de qualidade.

Com o intuito de avaliar a probabilidade de sucesso e identificar as dificuldades potenciais do projeto cooperativo, será analisada, a partir desse ponto, a viabilidade com base em três pontos: energia, massa e análises econômicas.

Para análise de viabilidade, a produção de um litro de álcool combustível foi desmembrada em cinco estágios:

Produção e colheita da cana-de-açucar,

Extração do caldo,

Fermentação,

Pré-destilação pelo produtor rural,

Destilação e retificação na cooperativa e

Comercialização do álcool.

a) Produção e colheita da cana

As operações de plantio e colheita podem ser feitas manual ou mecanicamente. No entanto, o tipo de topografia ou tipo de trabalho realizado em pequenas e médias propriedades agrícolas obriga que o sistema de trabalho seja feito, na sua maior parte, manualmente. Em grandes plantações de cana, é necessário, nas colheitas manuais, que as folhas sejam queimadas para permitir acesso fácil aos colmos ricos em açúcar.

54

Capítulo II

No caso das cooperativas (pequenas e médias fazendas), a intensidade de tal trabalho não requer que a lavoura seja queimada. Aqui, parte do colmo e as folhas serão usadas como fonte de alimentação animal, mostrando (Figura 2.2) vantagens adicionais do projeto, ou seja, a produção de carne e de leite e, em conseqüência, de outros produtos alimentícios.

e, em conseqüência, de outros produtos alimentícios. Figura 2.2 - Utilização do bagaço como parte do

Figura 2.2 - Utilização do bagaço como parte do volumoso, para piso de confinamento e para produção de composto orgânico.

b) Extração do caldo da cana

Para obtenção de alto rendimento e evitar deterioração, o caldo da cana deve ser extraído, preferencialmente, dentro de um período de 24 horas depois da colheita. A extração pode ser realizada por dois processos:

Quebrando e esmagando - a estrutura dura da cana é quebrada durante o primeiro passo com o uso de quebradores, facas ou desfibradores. A seguir, a cana quebrada ou triturada deve passar entre uma série de moendas, para extração do caldo. Porém, apesar da baixa eficiência, na produção em pequena escala só é usado um engenho simples para extração do caldo (Figura 2.3). O açúcar que permanece retido no bagaço que sai do engenho facilita o seu uso como alimento para o gado e o bagaço pode, ainda, ser usado com fonte de calor na destilação, como piso de confinamento (Figura 2.2) e devolvido ao solo como matéria orgânica, depois de convenientemente decomposto juntamente com os dejetos dos bovinos.

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

55

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo 55 Figura 2.3 - Vista geral de

Figura 2.3 - Vista geral de um pequeno engenho para extração de caldo com um terno de moendas.

c) Fermentação

O processo de fermentação é iniciado pelo ajustamento da concentração de açúcar do caldo para o valor de 16 o Brix (teor de açúcar), ideal para fermentação eficiente. Depois do ajuste da concentração, o caldo será misturado com o pé de cuba que contem leveduras especiais, que converte o açúcar em gás carbônico e álcool (veja fermentação alcoólica). Ao término do processo de fermentação, o produto é um vinho com aproximadamente 12% de álcool, que deverá ser destilado imediatamente.

d) Pré-destilação pelo produtor rural

Como visto no Capítulo I, uma coluna de destilação simples é composta por uma série de bandejas sobrepostas (Figura 1.12) ou por um tubo em aço inoxidável recheado com material inerte, como bolinhas de gude ou similar (Figura 1.10). Na coluna, o líquido subirá continuamente em seu interior, até entrar no topo em forma de vapor (mais rico em álcool). Tanto a coluna de bandeja como a coluna com

56

Capítulo II

recheio devem ser ligadas ao condensador, onde o vapor de álcool é liquefeito. Por causa da baixa temperatura na parte inferior da coluna de recheio (abaixo de 80 o C), a água condensará e o álcool continuará subindo. O processo continua até o topo da coluna, onde a solução atinge a percentagem mais alta. A percentagem final em etanol dependerá do equipamento, do número de colunas ou do tempo de residência que a solução passa na coluna. Em um sistema simples, a concentração é normalmente superior a 70% com o aparelho pré-destilador (Figura 2.4) ou acima de 92% em um sistema mais sofisticado ou com várias colunas em série (Figura 2.5).

sofisticado ou com várias colunas em série (Figura 2.5). Figura 2.4 - Vista geral de um

Figura 2.4 - Vista geral de um pré-destilador modelo UFV.

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

57

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo 57 Figura 2.5 - Vista geral de

Figura 2.5 - Vista geral de um destilador contínuo para fazenda 50L por hora.

e) Destilação e retificação na cooperativa (Planta Central)

Na Central, além de laboratórios apropriados, sistemas de armazenagem e transporte para a matéria-prima e para o produto final, serão usados controles e um método de destilação mais sofisticado que os utilizados pelos produtores e com uma capacidade de retificação superior ao total produzido pelos cooperados. A função da destilaria central é, além de aumentar o teor alcoólico do pré-destilado, homogeneizar toda a produção, de acordo com o padrão exigido pela comercialização oficial brasileira. Este passo final é executado na Planta

58

Capítulo II

Central porque requer equipamento mais preciso e controle mais sofisticado.

f) Comercialização do álcool

Uma vez produzido, o etanol pode ser comercializado para uso em processos agroindustriais, laboratório específico, limpeza e desinfecção, fonte de calor, abastecer a frota da cooperativa e cooperados e, se possível, fornecer combustível para a frota da administração municipal e de outras instituições públicas, a preços competitivos.

Devido ao fato de o mercado da cachaça ser muito competitivo, a sua comercialização deve ser baseada em um produto de alta qualidade; além disso, pelo fato de não possuírem condições, tempo ou desejo de produzir cachaça de alta qualidade e de alto valor agregado, a maioria dos produtores, de forma clandestina, só produz para o consumo local e mercado negro, para consumo da propriedade ou para um mercado pouco exigente em qualidade e higiene.

Para iniciar um programa de produção de álcool na fazenda, não é difícil encontrar número suficiente de produtores para produzir o álcool de baixo grau em qualquer município brasileiro. Hoje, a média dos municípios brasileiros consome menos de 5.000 litros de etanol por dia. É importante observar, entretanto, que em torno de 75% dos carros, modelos 2007, vendidos e em uso no Brasil usam tecnologia Flexfuel (gasolina ou etanol). Assim, além da grande necessidade de álcool para atender à demanda exterior, as novas aquisições de veículos por brasileiros serão, provavelmente, com motores Flex, aumentando ainda mais a demanda por etanol. Também, com o etanol produzido na fazenda por um preço abaixo de R$1,00, o uso de álcool como fonte de calor será bastante competitivo e o consumo de GLP ou de lenha, para queima em fogões será reduzido.

Embora seja possível a qualquer município brasileiro produzir cana-de-açúcar e aumentar a eficiência do projeto, a meta global é formar uma sociedade que permita que produtores que não desejam produzir o pré-destilado possam participar do projeto com a produção de melado

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

59

ou rapadura, o que permitirá a produção de álcool durante o ano inteiro. Assim, existem dois cenários para formar a cooperativa:

1. Compra de cachaça de baixa qualidade: ao fabricar cachaça,

a prática comum é descartar a cabeça e a cauda (primeiros e

últimos destilados, ou seja, 10 a 15% da destilação inicial e 10 a 15% de destilação final devido a suas impurezas e gosto desagradável). A mistura da cabeça e da cauda constitui-se em uma solução de, aproximadamente, 35% em álcool, que estaria pronto para uma nova destilação e ser enviado para a Central cooperativa. A cooperativa compraria o que seria desperdiçado na produção de cachaça, fazendo com que o produtor obtenha rendimento extra com o subproduto da destilaria de cachaça.

2. Incorporação de produtores de álcool de baixo grau, melado e rapadura: muitos produtores usam a cana-de-açúcar para alimentar o rebanho leiteiro ou em confinamento e tem grande potencial para produzir caldo fermentado ou melado, que podem ser processados em parceria com o vizinho, produtor de cachaça. Também, a cooperativa poderia fornecer ao pequeno pecuarista moendas, tachas para melado ou sistema de destilação, com financiamento compatível, de modo a possibilitar-lhe produzir álcool de baixo grau para a Planta Central.

Dependendo do equipamento utilizado, da produtividade do canavial e da tecnologia de produção, o balanço de energia para produção de etanol é positivo. Em média, cada hectare pode produzir 100 toneladas de cana-de-açúcar, que pode produzir, pelo menos, 6.000 L de etanol. As contribuições para o sistema podem ser divididas em:

Contribuições do produtor: energia para plantar, colher,

transportar, funcionar o engenho, para aplicação de fertilizante

e herbicida, para produzir cana-semente e funcionamento da

infra-estrutura. Há pouca energia externa gasta até esse ponto, pois o bagaço, resíduo da extração do caldo, pode, devidamente

60

Capítulo II

administrado, contribuir com a maior parte da energia utilizada no processo de produção do álcool.

Contribuições da Cooperativa: energia requerida para fornecer vapor para operação da Planta Central e que será fornecida por lenha de eucalipto.

Uma das metas a serem alcançadas pela cooperativa é a auto- suficiência de energia para os cooperados e abastecer a frota de veículos regionais e outros usos como aquecimento doméstico e agroindustrial. No Brasil, um município médio consome menos 5.000 L de álcool por dia. Como dito anteriormente, a maioria dos carros vendidos é do tipo Flex, portanto, num futuro próximo haverá grande número de carros movidos inteiramente a álcool ou qualquer mistura de álcool e gasolina. Assim, o projeto pode ser redimensionado e tem potencial para maior impacto produtivo. É esperado que, qualquer instituição pública regional, como hospitais, corpo de bombeiros, policiamento etc., pode abastecer seus veículos com etanol, como sendo um cooperado especial.

A fim de determinar a viabilidade desta meta, o sistema foi

avaliado em três condições:

Balanço de energia – relação entre a energia do combustível fóssil utilizada para produzir um litro de etanol e a quantidade de energia produzida por cada litro de etanol.

Análise de demanda para calcular o uso da terra.

Análise econômica – relação entre o custo de comprar um litro

de álcool ao preço de bomba e o custo de produzir um litro de

etanol, segundo o projeto.

A análise econômica demonstra que, além do ambiente, as partes, produtores e sociedade, serão beneficiados, com a renda e redução do preço ao consumidor. Como o custo de produção é de, aproximadamente, R$0,65 por litro, a cooperativa poderá vender o álcool a R$0,80 por litro; que dará um lucro de R$0,15 por litro.

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

61

Levando em conta que a Planta Central produzirá 1.000.000L por ano, a venda total seria de, aproximadamente, R$800.000,00 por município médio brasileiro.

Para análise de massa, e levando em conta que a produtividade média é de aproximadamente 100 t/ha, foram calculados os litros de etanol por tonelada de cana, como sendo 70 L (produtividade

conservadora). A área total necessária para produzir apenas 1.000.000

L de álcool por ano será de, aproximadamente, 150 ha por município ou

cinco bilhões de litros por ano para o Brasil inteiro.

Devido ao fato de não ter sido analisada a produção de alimentos (carne e leite), as economias serão um pouco diferentes. No caso de a produção de álcool somente não ser atrativa financeiramente, o investimento na produção de álcool e alimento deve ajudar na tomada de decisão. Além de produzir o seu próprio combustível, há outros benefícios para os produtores associados a uma cooperativa, como:

melhor uso da terra se comparado ao processo atual, por grandes usinas,

e uma produção diversificada (álcool, carne, leite e grãos) com geração de empregos.

g) Produção de cana

A cana é um dos principais produtos agrícolas brasileiros e uma

das principais fontes de exportação de produtos primários. Minas Gerais

é um dos Estados com maior produção de cana, juntamente com São

Paulo e dois outros Estados do Nordeste. Em Minas e São Paulo, as épocas de plantio e colheita diferem da produção do Nordeste. Os plantios em Minas e São Paulo vão de outubro a março, e a colheita, de maio a outubro. A produção média da região é de aproximadamente 90 t/ha e, em condições de irrigação, pode chegar a 170 t/ha.

Geralmente, em regiões montanhosas a irrigação não é utilizada e

a produção fica limitada; devido ao fato de a mecanização ser difícil, o

plantio e a colheita são, em grande parte, feitos manualmente, sobretudo em pequenas propriedades produtoras de aguardente.

62

Capítulo II

Em grandes plantios, pertencentes às grandes usinas, o canavial é geralmente queimado para facilitar a colheita manual, gerando problemas de saúde para os operários. Em razão dos grandes problemas ambientais, o governo estabeleceu lei no sentido de banir, definitivamente, a prática de queima dos canaviais brasileiros. Entretanto, nas grandes plantações, onde a mecanização não é economicamente inviável, a queima será permitida até que processos econômicos sejam desenvolvidos.

CAPÍTULO III

Planejamento e Viabilidade Econômica de uma Microdestilaria

Juarez de Sousa e Silva Lester Carvalho Mendes Roberta Martins Nogueira

Generalidades

O etanol obtido a partir da fermentação do caldo de cana tem,

para produção em pequena escala, balanço de energia positivo, ou seja, próximo a seis quilos de etanol por quilo de combustível fóssil.

A cana-de-açúcar é considerada um dos mais eficientes produtores

de biomassa convertível em álcool. Acima de um determinado nível, à medida que o tamanho da usina aumenta, a eficiência na conversão cresce. Contudo, o transporte da cana a longas distâncias aumenta significativamente, o uso de energia, podendo reduzir a eficiência das grandes usinas. Na destilação em fazendas, o agricultor, usando parte das folhas e das pontas de canas na alimentação do rebanho de corte ou de leite, aumentará o balanço de energia. Outro ponto importante da destilação na fazenda é a utilização dos dejetos dos animais e do vinhoto como fertilizantes para solo e alimentação de bovinos.

O bagaço produzido nas grandes usinas, além de servir com fonte de calor, é também usado para co-geração de energia elétrica; em uma microdestilaria, o bagaço será usado, também, como alimentação animal, piso de confinamento e para melhorar a estrutura do solo. De modo similar, o processo de destilação em pequena escala mostra outra

64

Capítulo III

importante vantagem, que é a queima mínima da biomassa, beneficiando substancialmente o processo e melhorando o seqüestro de carbono, ou seja, além de as folhas não serem queimadas, apenas um terço do bagaço é utilizado no processo de destilação.

Com a adoção do processo de produção do álcool em sistema integrado, a paisagem rural não será a de uma monocultura, como vem acontecendo com a produção indiscriminada de cana nas melhores terras agricultáveis do Brasil. Para produção integrada será adotado um processo produtivo organizado, com grande variedade de produtos destinados à alimentação da população e percentagem da terra para o plantio da cana que não afete as condições básicas para a sustentabilidade de uma agricultura social, política e ecologicamente correta. Para produzir álcool combustível de acordo com o projeto aqui proposto, ou seja, cinco mil litros por dia, por unidade produtiva e durante 200 dias por ano, serão necessários não mais que sete pequenos produtores, produzindo 1.000 L de álcool a 80% por dia.

Como dito no capítulo anterior, aumentando-se o tamanho da destilaria, o custo da produção do álcool será menor. Isso se deve à economia de escala e à maior eficiência na extração e fermentação (uso de moendas mais potentes e leveduras mais puras e produtivas). Entretanto, produzindo o álcool em ciclo fechado (aproveitando e aplicando todos os subprodutos na manutenção da unidade produtiva), como a produção de cachaça, pré-destilado e, ainda, com a criação de gado, o custo de produção em pequena escala pode ser minimizado devido à diversificação da pequena agricultura, que exigirá menos insumos externos. Em adição, o produtor agrícola passará a ter diferentes fontes de rendimentos, ficando menos dependente dos rendimentos de produto único (por exemplo, aluguel de suas terras para grandes usineiros).

No sistema de produção em pequena escala, integrada a uma cooperativa, a quantidade de emprego gerado será maior devido à menor mecanização e automação, quando comparado com as grandes usinas. Na produção integrada, desde o plantio até o processamento final, todas as operações serão executadas manualmente, inclusive o aproveitamento das folhas e de parte dos colmos na alimentação animal. Também, a

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

65

qualidade do emprego será melhor, pelo fato de a mão-de-obra ser utilizada para diferentes tarefas em vez de trabalhos repetitivos, como a colheita da cana.

Na produção em sistema cooperativo, o trabalhador rural terá emprego durante todo o ano e não necessita migrar anualmente, longe da família, para executar colheita em ambiente inadequado, em condições de vida inapropriadas. Estima-se que, em pequenas propriedades, para cada 1.000 L de álcool produzido, serão gerados entre 10 a 15 postos de trabalhos diretos. Com a produção de pré-destilado ou álcool de baixo grau (80 o GL ou mais) em pequena escala, a renda do produtor será aumentada e a renda total do processo dividida por maior número de participantes, em vez de ser concentrada entre uns poucos grandes produtores ou apenas parcialmente distribuída para alguns produtores, que simplesmente alugam as sua terras.

Planejamento de Uma MD para 200.000 L Anuais

Nesse ponto, solicitamos ao leitor levar em conta que os valores aqui apresentados são aproximações e podem variar de acordo a variedade da cana-de-açúcar a ser utilizada no projeto e, também, segundo as características do clima, do solo e da tecnologia adotada.

Planejamento do canavial

a) Meta: Produzir 200.000L de ácool (80 o GL) durante uma safra com período de colheita de 200 dias.

b) Capacidade de produção diária: 200.000 L ÷ 200 dias = 1.000 L de álcool por dia.

c) Necessidade de cana por safra: Considerando que uma tonelada de cana produz cerca de 70 L de álcool (dependendo do conhecimento,

66

Capítulo III

do manejo, da variedade e dos processos de extração e fermentação uttilizados), tem-se:

1 t de cana – 70 L de álcool 80 o GL

Cana necessária (x) - 200.000 L de álcool

x = 200.000÷70 =2.857 t cana/ano

ou

2.857 toneladas de cana ÷ 200 dias = 15,0 t/dia.

d) Área total em produção: Para esta estimativa será admitido um rendimento médio (para seis cortes) de 110 ton/ha (Tabela 3.1), com produtividades para o primeiro, segundo, terceiro, quarto, quinto e sexto cortes de 140, 130, 120, 100, 90 e 80 toneladas de colmos por hectare, respectivamente. Assim, considerando 110 toneladas por ano como a média esperada, tem-se:

1 ha – 110 t

Área necessária (x) - 2.857ton

X= 2.857÷110 = 26 hectares.

Considerando 20%, como um fator de segurança suficiente, deve- se assegurar um plantio de, aproximadamente, 32 ha, segundo o cronograma apresentado na Tabela 3.1.

X = 32ha de canavial

e) Considerações sobre o cronograma de implantação

O plantio deve ser iniciado (ano 0) com a utilização de 18 ha para atingir a quantidade de cana necessária para produzir 200.000 L de alcool por ano, ou seja, deverão ser processadas 2.520 toneladas de cana, com base em 140 toneladas por hectare (produtividade, com tecnologia, para o primeiro corte).

Opcionalmente, pode-se iniciar o projeto com a instalação de um viveiro de dois hectares. Hoje, desconsiderando o transporte, uma tonelada de variedades melhoradas está cotada

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

67

em R$100,00. Se for feito o plantio de 2,0 ha como viveiro, pode-se obter material para implantação de 20 a 30 ha, com economia em mudas, transporte e redução de problemas com fornecimento.

Nos anos subseqüentes, até o ano sete, devem-se acrescentar novos hectares de cana, conforme apresentado na Tabela 3.1. Com o decorrer do projeto obtêm-se os números reais de produção, e ajustes poderão ser realizados nas áreas de plantio.

A partir do sexto corte e com base no cronograma, começa-se a fazer as renovações ou replantio de um novo canavial.

Pode ocorrer que, dependento do solo, clima e tratos culturais adequados, no sexto corte a produção de cana seja, ainda, economicamente viável. Assim, não será necessária a renovação parcial do canavial.

Tabela 3.1 - Cronograma, aproximado, para implantação do canavial

Etapas

Produção Ano

 

t/ha

 

012

3456

7

Plantio (ha)

18

1

1

1

1

1

13

1

1 colheita

140

18

2

1

1

1

1

14

2 colheita

130

18

2

1

1

1

1

3 colheita

120

18

4

1

1

1

4 colheita

100

18

5

1

1

5 colheita

90

18

7

1

6 colheita

80

18

1

t /ano

2.520

2.620

2.560

2.550

2.510

2.560

2.480

t (semente)

270

15

15

15

15

15

195

15

68

Capítulo III

f) Custo de implantação com produção esperada

Na Tabela 3.2 é apresentado um exemplo da composição dos custos para execução do cronograma mostrado na Tabela 3.1, bem como os componentes mínimos necessários para produção do álcool na fazenda. Novamente, é necessário lembrar que muito se pode construir na fazenda. Nela, o proprietário pode mudar o nível tecnológico e a forma de aquisição dos equipamentos para reduzir, consideravelmente, o valor total do investimento.

g) Receita com produção de cana

Com base no cronograma da Tabela 3.1, no ano 1 (segundo ano) começa-se a obter receita, ou seja, já se pode colher a cana (2.520 t) para produção do álcool de baixo grau (80 o GL). Com melhor controle do processo e usando o mesmo equipamento, o produtor pode produzir álcool 90 a 92 o GL para as operações da fazenda e para abastecer os veículos da família.

O

preço da tonelada foi estimado considerando-se que uma

tonelada de cana produz 80 L de álcool 80 o GL que será entregue

central cooperativa por R$0.68 o litro, ou seja, a tonelada de cana passaria a ter maior valor agregado (80 x R$0,68) ou R$54,40 a tonelada.

à

A

receita bruta total foi obtida multiplicando-se a quantidade

de pré-destilado produzida pelo volume anual (Tabela 3.3).

h) Avaliação econômica

Na Tabela 3.4 encontra-se o fluxo de caixa do projeto com base no orçamento (saídas) e nas receitas (entradas).

Na Tabela 3.5 encontram-se os índices de avaliação econômica em relação ao fluxo de caixa.Para a produção somente de cana

o fluxo de caixa e os índices de avaliação encontram-se nas Tabelas 3.6, 3.7, 3.8 e 3.9.

10.000,00

10.000,00

1.000,00

9.311,64

100,00

140,00

160,00

100,00

200,00

500,00

500,00

Valor

40,00

20,00

Tabela 3.2.- Composição de custos, até o ano 4, para produzir álcool, de baixo grau (80%), na fazenda

Quant.

9.350,64 7.163

500

500

50

25

25

4

2

2

2

2

8

1

8.800,00

8.800,00

100,00

200,00

100,00

140,00

160,00

440,00

440,00

880,00

Valor

20,00

40,00

Quant.

7.193

440

440

44

22

22

4

2

2

2

2

8

1

8.400,00

8.400,00

9.558,43

100,00

140,00

200,00

160,00

100,00

420,00

840,00

420,00

Valor

40,00

20,00

Quant.

Ano 4

7.353

420

420

42

21

21

4

2

2

2

2

8

1

7.600,00

7.600,00

9.212,11

100,00

100,00

200,00

140,00

160,00

760,00

380,00

380,00

Ano 3

Valor

20,00

40,00

Ano 2

Quat.

7.086

380

380

19

19

38

4

2

2

2

2

8

1

27.000,00

1.800,00

2.880,00

2.520,00

7.200,00

3.600,00

7.200,00

1.800,00

8.727,26

360,00

720,00

360,00

360,00

720,00

Ano 1

Valor

Quant.

Ano 0

6.713

144

360

360

270

36

36

36

36

36

72

18

18

18

100,00

Preço

50,00

50,00

20,00

20,00

20,00

20,00

20,00

20,00

70,00

50,00

20,00

20,00

1,30

H/M

H/M

H/M

H/M

D/H

D/H

D/H

D/H

D/H

D/H

D/H

Ud

kg

t

t

OPERAÇÕES/INSUMOS Calagem Aração do terreno Gradagem Sulcagem Dist. adubo e calcário Dist.colmos, corte e recob. Aplicação de herbicida Aplicação de formicida Adubação de cobertura Corte da cana Transporte da cana Aquisição de mudas Calcário Uréia

SAÍDAS

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

69

66.944,71

8.000,00

2.500,00

8.100,00

7.200,00

4.043,07

3750,00

500,00

180,00

600,00

1.000

4.058,10 6.738

400

12

27

25

25

25

25

63.527,14

8.000,00

8.100,00

7.200,00

2.200,00

3300,00

600,00

158,40

440,00

1.000

6.764

400

22

22

22

22

12

27

62.667,91

8.000,00

2.100,00

7.200,00

8.100,00

4.148,28

3150,00

600,00

151,20

420,00

1.000

6.914

400

12

27

21

21

21

21

59.856,89

2.850,00

8.000,00

8.100,00

1.900,00

7.200,00

3.997,98

600,00

136,80

380,00

1.000

6.663

400

19

19

19

12

19

27

168.324,42

10.800,00

15.000,00

75.889,60

15.000,00

20.000,00

92.434,82

7.200,00

3.000,00

3.787,56

2.700,00

8.000,00

8.100,00

1.800,00

7.200,00

129,60

360,00

18.000

6.313

400

18

18

12

27

18

18

4

3

1

1

1

20.000,00

15.000,00

15.000,00

1.000,00

1.800,00

150,00

100,00

600,00

300,00

20,00

20,00

7,20

0,60

0,60

R$/ha

R$/ha

D/H

Mês

ud

ud

ud

ud

ud

kg

kg

kg

L

4) OUTROS Galpão Moenda mecânica Conjunto de destilação Tanques de fermentação Mão-de-obra pro-álcool M.O. Administrativa Contabilidade/Escritório Energia Tanques p/ armazenamento

Tabela 3.2 - Cont.

TOTAL SAÍDAS (R$)

Superfosfato simples Cloreto de potássio Herbicida Formicida Aluguel da terra

SUBTOTAL2

SUBTOTAL1

70

Capítulo III

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

71

Tabela 3.3 - Receita equivalente da cana com a produção do pré-destilado

Receitas

Un

Quant.

Preço

Total

Anos

 

_

0 t

 
 

_

1 t

201.600

0,68

137.088

2 t

209.600

0,68

142.528

3 t

204.800

0,68

139.264

4 t

204000

0,68

138.720

5 t

200.800

0,68

136.544

6 t

204.800

0,68

139.264

7 t

198.400

0,68

134.912

Tabela 3.4 - Fluxo de caixa para produção de álcool 80 o GL

Ano

Entradas

Saídas

Fluxo

Fluxo

Fluxo

F. acum.

 

descontado

acumulado

descon.

0

168.324

-168.324

-168.324

-168.324

-168.324

1

137.088

59.857

77.231

67.157

-91.093

-101.167

2

142.528

63.068

79.460

60.083

-11.633

-41.084

3

139.264

63.527

75.737

49.798

64.104

8.715

4

138.720

66.945

71.775

41.038

135.879

49.752

5

136.544

69.072

67.472

33.545

203.351

83.298

6

139.264

83.353

55.911

24.172

259.261

107.469

7

134.912

59.261

75.651

28.440

334.912

135.909

Soma

968.320

633.408

334.912

135.909

726.456

74.568

Tabela 3.5 - Valor presente liquido (VPL), taxa interna de retorno (TIR), tempo de retorno do capital (TCR) e renda líquida total (RLT)

VPL(15%)

135.909

TIR

40%

TRC

3 anos

RLT

74.568

10.000,00

10.000,00

51.064,71

VALOR

9.311,64

4.043,07

8.100,00

2.500,00

3.750,00

1000,00

160,00

600,00

200,00

100,00

100,00

140,00

500,00

500,00

40,00

20,00

Quant.

1.000

6.738

7.163

500

500

50

27

25

25

25

25

4

2

2

2

2

8

1

Tabela 3.6 - Composição de custos, até o ano 4, para produzir apenas a cana para ser vendida

47.728,74

VALOR

9.350,64

4.058,10

8.800,00

8.800,00

8.100,00

2.200,00

3.300,00

600,00

200,00

880,00

160,00

440,00

100,00

140,00

100,00

440,00

40,00

20,00

Quant.

6.764

7.193

1000

440

440

44

22

27

22

22

22

4

2

2

2

2

8

1

46.896,71

VALOR

8.400,00

8.100,00

8.400,00

4.148,28

2.100,00

3.150,00

9.558,43

200,00

840,00

420,00

140,00

100,00

100,00

600,00

160,00

420,00

40,00

20,00

Quant.

Ano 4

6.914

7.353

1000

420

420

42

27

21

21

21

21

4

2

2

2

2

8

1

44.140,09

VALOR

8.100,00

7.600,00

7.600,00

3.997,98

1.900,00

2.850,00

9.212,11

200,00

760,00

380,00

100,00

140,00

100,00

160,00

600,00

380,00

Ano 3

40,00

20,00

Quant.

Ano 2

1.000

7.086

6.663

380

380

19

27

38

19

19

19

4

2

2

2

2

8

1

10.800,00

27.000,00

92.434,82

92.434,82

3.600,00

3.787,56

VALOR

8.100,00

2.520,00

1.800,00

1.800,00

7.200,00

2.880,00

7.200,00

8.727,26

1.800,00

2.700,00

720,00

720,00

360,00

360,00

360,00

Ano 1

Quant.

18.000

Ano 0

6.313

6.713

144

270

360

360

36

36

72

27

36

36

36

18

18

18

18

18

PREÇO

300,00

100,00

100,00

150,00

20,00

20,00

20,00

50,00

20,00

20,00

20,00

20,00

70,00

50,00

50,00

20,00

0,60

1,30

0,60

H/M

H/M

H/M

H/M

D/H

D/H

D/H

D/H

D/H

D/H

D/H

UD

kg

kg

kg

kg

L

t

t

Calagem Aração do terreno Gradagem Sulcagem Dist. adubo e calcário Dist.colmos, corte e recob. Aplicação de herbicida Aplicação de formicida Adubação de cobertura Corte da cana Transporte da cana Aquisição de mudas Calcário Uréia Superfosfato simples Cloreto de potássio Herbicida Formicida Aluguel da terra

TOTAL SAÍDAS (R$)

SUBTOTAL1

Saídas

72

Capítulo III

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

73

Continuação Tabela 3.6

Ano 5

Ano 6

Ano 7

Quant.

Valor

Quant.

Valor

Quant.

Valor

1

20,00

13

260,00

1

20,00

4

200,00

52

2.600,00

4

200,00

2

100,00

26

1.300,00

2

100,00

2

100,00

26

1.300,00

2

100,00

2

40,00

26

520,00

2

40,00

8

160,00

104

2.080,00

8

160,00

54

1.080,00

48

960,00

38

760,00

27

540,00

24

480,00

19

380,00

27

540,00

24

480,00

19

380,00

540

10.800,00

480

9.600,00

380

7.600,00

540

10.800,00

480

9.600,00

380

7.600,00

2

140,00

26

1820,00

2

140

7.065

9.184,98

7.832

10.181,81

6767

8.796,53

1.000

600,00

13.000

7.800,00

1000

600,00

6.638

3.982,95

7.365

4.418,82

6363

3.817,62

27

4.050,00

24

3.600,00

19

2.850,00

27

2.700,00

24

2.400,00

19

1.900,00

27

8.100,00

27

8.100,00

27

8.100,00

53.137,93

67.500,63

43.544,15

Tabela 3.7 - Receita equivalente com a produção da cana (R$)

Receitas

Un.

Quant.

Preço

Total

Anos

0 t

 

1 t

2.500

35,00

87.500,00

2 t

2.500

35,00

87.500,00

3 t

2.500

35,00

87.500,00

4 t

2.500

35,00

87.500,00

5 t

2.500

35,00

87.500,00

6 t

2.500

35,00

87.500,00

7 t

2.500

35,00

87.500,00

74

Capítulo III

Tabela 3.7 - Fluxo de caixa para a produção da cana

Anos

Entradas

Saídas

Fluxo

Fluxo

Fluxo

F. acum.

 

descontado

acumulado

desc.

0

92.435

-92.435

-92.435

-92.435

-92.435

1

87.500

44.140

43.360

37.704

-49.075

-54.731

2

87.500

46.897

40.603

30.702

-8.472

-24.029

3

87.500

47.729

39.771

26.150

31.300

2.122

4

87.500

51.065

36.435

20.832

67.735

22.954

5

87.500

53.138

34.362

17.084

102.097

40.038

6

87.500

67.501

19.999

8.646

122.096

48.684

7

87.500

43.544

43.956

16.525

166.052

65.209

Soma

612.500

446.448

166.052

65.209

339.299

7.811

Tabela 3.8. - Valor presente líquido (VPL), taxa interna de retorno (TIR), tempo de retorno do capital (TCR) e renda líquida total (RLT)

VPL (15%)

65.209

TIR

38%

TRC

3 anos

RLT

7.811

CAPÍTULO IV

Avaliação de um Evaporador para Destilação Contínua

Júlio César de Jesus

Sandra Maria Couto

Juarez de Sousa e Silva

O objetivo deste capítulo é de avaliar um sistema de aquecimento evaporativo com a finalidade de fornecer vapores hidroalcoólicos, em regime contínuo e que pudesse ser usado com diferentes tipos de colunas e de modo a atender à demanda por álcool hidratado nas atividades da fazenda ou para produção de pré-destilado para a produção de álcool combustível em sistema cooperativo ou integrado e que será descrito a seguir.

Definição da Área de Estudo

Com o objetivo de possibilitar a avaliação de um sistema de aquecimento evaporativo para produção de álcool, utilizou-se um evaporador de fluxo contínuo, idealizado pelo prof. Juarez e instalado na área de Energia e de Pré-Processamento de Produtos Agrícolas, do Departamento de Engenharia Agrícola da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Foram investigados os efeitos das variáveis: teor alcoólico do vinho, vazão, temperatura e massa específica na produção de álcool combustível em coluna de refluxo do tipo recheio (JESUS, 2004).

76

Capítulo 1V

O desempenho do equipamento desenvolvido para produção de

álcool combustível foi comparado ao de um sistema intermitente (batelada). Foi adotado como base para o desenvolvimento do experimento o trabalho realizado por Silva (1992), que utilizou o sistema de batelada.

Caso o leitor não tenha interesse imediato em entender o comportamento operacional e teórico do sistema, é recomendado que passe diretamente para o Capítulo VI.

Sistema de Aquecimento Evaporativo

O sistema evaporativo, estudado, é composto de um evaporador

horizontal (Figura 4.1a), e de uma campânula (Figura 4.1b). Como no experimento, o sistema deve ser construído, preferencialmente, em aço inoxidável polido e possuir, no mínimo, 14 divisões iguais do tipo gincanas. Nas extremidades do evaporador devem ser acopladas as tomadas de entrada do vinho ou do pré-destilado e a saída da vinhaça ou água fraca. O evaporador completo é mostrado na Figura 4.1b. Mais detalhes sobre o sistema será apresentado mais adiante.

detalhes sobre o sistema será apresentado mais adiante. Figura 4.1 - (a) Entrada e saída do

Figura 4.1 - (a) Entrada e saída do evaporador; (b) o evaporador completo.

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

77

No evaporador, a mistura vai sendo aquecida gradualmente à medida que percorre os labirintos do evaporador até entrar em regime de ebulição, gerando produção de vapores mais ricos em álcool. O início da evaporação turbulenta se dá, aproximadamente, no final da primeira terça parte do evaporador.

Para facilitar o direcionamento dos vapores para o interior da coluna, foi adotada uma coifa ou campânula, construída em aço inox e perfeitamente ajustada sobre a bandeja evaporadora, fixada por parafusos e junta de vedação. Os vapores que condensam dentro da coluna retornam para o início do evaporador por meio de um funil adaptado na base superior da coifa (Figura 4.2). Esses condensados, ricos em álcool, são misturados com o vinho para serem aquecidos e evaporados novamente, gerando maior concentração alcoólica.

novamente, gerando maior concentração alcoólica. Figura 4.2 - Detalhe do funil no interior da campânula.

Figura 4.2 - Detalhe do funil no interior da campânula.

Construção da Fornalha

Devido à impossibilidade de trabalhar com a queima de bagaço de cana, nas condições do trabalho, foi construída uma fornalha para queima de lenha, para suporte e aquecimento direto do sistema, permitindo melhor aproveitamento da energia térmica liberada da combustão na parte inferior do evaporador.

78

Capítulo 1V

As paredes laterais da fornalha foram construídas com tijolos maciços e revestidas internamente com tijolos refratários. A fornalha possui o fundo inclinado, para facilitar a ligação com a chaminé. Foi também utilizada uma grelha de ferro fundido, a fim de manter o combustível suspenso durante o processo de combustão e permitir a circulação do ar comburente por sua estrutura (Figuras 4.3, 4.4 e 4.5).

do ar comburente por sua estrutura (Figuras 4.3, 4.4 e 4.5). Figura 4.3 - Detalhes de

Figura 4.3 - Detalhes de construção (tijolos maciços, fundo inclinado e posicionamento da grelha).

maciços, fundo inclinado e posicionamento da grelha). Figura 4.4 - (a) Tiragem natural; (b) detalhes do

Figura 4.4 - (a) Tiragem natural; (b) detalhes do cinzeiro.

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

79

O compartimento do cinzeiro (Figura 4.4), localizado abaixo da grelha, é destinado ao recebimento das cinzas provenientes da combustão e ao fornecimento de parte do ar primário. A chaminé, responsável pela tiragem natural dos gases resultantes da combustão, deve ser construída na parte posterior ou na extremidade oposta à porta de alimentação da fornalha (Figura 4.4a).

oposta à porta de alimentação da fornalha (Figura 4.4a). Figura 4.5 - Revestimento de tijolos refratários

Figura 4.5 - Revestimento de tijolos refratários (a) e detalhes da entrada da chaminé (b).

Isolamento Térmico da Campânula

Para diminuir a intensa troca de calor com o ambiente e o efeito da dilatação, a campânula do evaporador foi revestida com lã de vidro e protegida com tijolos maciços. Na Figura 4.6 (a) podem ser vistos os detalhes do isolamento térmico da campânula e o visor em vidro térmico. Na Figura 4.6(b) é mostrada a vista frontal, com detalhe do início do revestimento (lã de vidro e tijolos comuns).

80

Capítulo 1V

80 Capítulo 1V Figura 4.6 - Detalhes da lã de vidro (a); Revestimento com tijolos (b).

Figura 4.6 - Detalhes da lã de vidro (a); Revestimento com tijolos (b).

Matéria-Prima para os Testes

Para avaliação do evaporador contínuo, acoplado a uma coluna de refluxo, foram usados os seguintes materiais: pré-destilados (soluções hidroalcoólicas) e cachaça. Na preparação das soluções hidroalcoólicas foram utilizadas quantidades definidas de álcool combustível (92 o GL) e de água, para simularem diferentes tipos de pré-destilados e mesmo a destilação do vinho.

Foram realizados testes com o evaporador do tipo panela (batelada), para comparação com o sistema de evaporação contínua. Os testes usados na avaliação do novo sistema estão apresentados na Tabela 4.1.

As soluções com 15 e 50% de álcool foram usadas para simular, respectivamente, o vinho (mosto fermentado) e os pré-destilados (para produção de álcool em sistema cooperativo).

Nos testes (1), as concentrações alcoólicas de 33, 50, 39 e 15 o GL foram utilizadas para analisar o comportamento do destilador, fato que ocorreria em condições reais no processo de destilação. Com os dados experimentais de vazão do álcool na saída em função da concentração de entrada, foi ajustada uma expressão para possibilitar o estudo do destilador de acordo com essas variáveis.

Produção de álcool na fazenda e em sistema cooperativo

81

Tabela 4.1 - Testes experimentais realizados com o evaporador horizontal e com o do tipo panela

Testes

Evaporador

Concentração o GL

Vazão L/h

1a