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Ficha Técnica

Copyright © 2015 Paulo Marcelo Rezzutti


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Este livro foi revisado segundo o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

PREPARAÇÃO DE TEXTO
Hugo Langone

REVISÃO
Clarisse Cintra

PROJETO GRÁFICO DO CADERNO DE FOTOS E CAPA


Victor Burton

DIAGRAMAÇÃO
Filigrana

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
R22d
Rezzutti, Paulo, 1972D. Pedro : a história não contada / Paulo Rezzutti. 1. ed. São Paulo : LeYa, 2015.
Inclui bibliografia
ISBN 9788577345847
1. Pedro I, Imperador do Brasil, 1798-1834. 2. Brasil História I Reinado, 1822-1831. I. Título.
15-24992. CDD: 981.05
CDU: 94(81)'1548/1808'

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Para Neusa
O mundo inteiro é um palco, e todos os homens e mulheres, apenas atores.
Eles saem de cena e entram em cena, e cada homem a seu tempo representa
muitos papéis.
William Shakespeare, Como gostais.

A história não se compõe somente de fatos registrados e reconhecidos, mas


também de fatos prováveis, mas ignorados.
Paul Gaffarel, em História e verdade, de Adam Schaff.

Foi ele, de nós três, o único que amou.


Júlio Dantas, A ceia dos cardeais.
Um morto e quatro funerais

“O PEDRÃO é nosso!”, exclamou certo funcionário da cripta imperial,


localizada abaixo do Monumento à Independência, no bairro paulistano do
Ipiranga, ao ter certeza de que o sarcófago de granito verde que protegera
por anos não estava vazio. Havia realmente algo lá dentro, ao contrário da
descrença externada por um taxista que conduzira um fotógrafo até lá:
“Você vai fazer o que lá embaixo? Não tem nada lá, não!”
Não apenas o “Pedrão” estava lá, mas também os demais defuntos
imperiais: d. Leopoldina e d. Amélia.
Muito além de encontrar as medalhas de d. Pedro, o trabalho de
exumação, estudo e preservação dos restos mortais dos primeiros
imperadores do Brasil, capitaneado pela arqueóloga Valdirene do Carmo
Ambiel, ajudou a lembrar que os personagens de nossa história foram,
algum dia, de carne e osso. A identificação pelo funcionário da cripta
daquilo que ela efetivamente guardava deixou-o mais perto do que jamais
estivera do heroico personagem retratado no quadro Independência ou
morte, do pintor Pedro Américo.
O mito, o “herói” da Independência, transformou-se no “Pedrão”, um
homem cujos restos mortais, posteriormente exibidos nos jornais do Brasil e
do mundo, lembram-nos de que todos retornaremos ao pó.
São raros os biógrafos que podem se dar ao luxo de dizer que conheceram
pessoalmente seu biografado morto há mais de cem anos sem irem parar em
um hospício. Como membro da equipe de Valdirene Ambiel, tive a
oportunidade de ver d. Pedro em algumas ocasiões. Assim como na
exumação de d. Leopoldina, em fevereiro de 2012, também fui convidado
para estar presente na cripta imperial quando da abertura do sarcófago do
primeiro imperador, em 4 de abril de 2012 — três dias antes de se
completarem 181 anos de sua abdicação ao trono brasileiro.
Pela experiência obtida com a abertura da urna da imperatriz — com
padres, membros da família imperial, gente subindo e descendo de um
tablado periclitante para ver os restos mortais, preferi não sair na foto oficial
e ter um momento de maior intimidade com meu biografado. Afinal, para
mim ele já era o “Pedrão” muito antes de encontrá-lo face a face. Eu havia
trabalhado com as cartas inéditas enviadas por ele à sua amante, a marquesa
de Santos, por mim localizadas em um museu nova-iorquino no ano de
2010. Conheço sua letra e, baseado na história factual, sei quando mente ou
fala a verdade nas cartas. Até aprendi a distinguir, pela forma da escrita e
pela passionalidade, quando atingia algum pico abortado de epilepsia.
Aquele imperador de espada erguida, cortando os laços entre Brasil e
Portugal, já era para mim o “Demonão”,1 quase um membro falecido da
família, cujas histórias são tantas que é como se tivéssemos acabado de vê-
lo em carne e osso, dobrando a esquina.
Apesar dos diversos alertas de Valdirene ao telefone, informando que o
corpo estava todo revirado no caixão, nada havia me preparado para aquela
manhã. O ataúde fora retirado do sarcófago e colocado sobre o antigo altar
da capela. O fundo estava praticamente se desfazendo, o corpo encontrava-
se todo desconjuntado, o crânio olhava para dentro do caixão. Em meio a
uma massa de terra compacta,2 podíamos ver partes de ossos e medalhas.
Tinha-se a impressão de que, em alguma das exumações anteriores,
simplesmente haviam jogado de qualquer maneira o conteúdo de um caixão
ao outro, como se fosse entulho.
“Ele está todo sujo e quebrado”, pensei, “igual a quando estava vivo”.
D. Pedro sempre foi muito ativo, adorava se exercitar, nadava nu nas
praias de Botafogo e Flamengo sem se importar nem um pouco com a
opinião dos moradores locais. Diferentemente dos dias de hoje, os banhos
de mar eram em geral recomendados como terapia, mas d. Pedro praticava a
natação como exercício para o corpo. Pesquisas revelaram que sua altura
seria de 1,66 a 1,73 m,3 pouco maior que a média dos homens da época. Ele
tinha tórax e ombros largos, braços fortes e mãos grandes.
Sua paixão por velocidade levava-o a conduzir, ele próprio, os cavalos de
seu veículo, e a cavalgar a toda carga pelos arredores do Rio de Janeiro. Isso
causou diversos acidentes, como o de 1823 que o prendeu ao leito todo
quebrado e sujo, semelhante ao estado em que se mostrava a meus olhos
naquela manhã de abril.
Quanto a ser aventureiro, então, esse é um capítulo à parte. D. Pedro não
pensou duas vezes antes de se declarar brasileiro e lutar contra Portugal,
terra natal da qual era herdeiro, pela independência do Brasil. Também não
temeu largar tudo neste último país para reunir, após penhorar joias e
prataria, um exército que invadisse Portugal e destronasse o irmão em favor
da filha.
Se é na morte, como dizem, que encontramos a paz e o descanso que a
vida nos tirou, d. Pedro não teve essa sorte. Aquela era a quarta vez que o
tinham sepultado. A anterior havia ocorrido em meados de 1987, em virtude
das obras no monumento e de uma das inúmeras inundações ocorridas na
cripta. Os sarcófagos por pouco não acabaram submersos. Seus imperiais
ocupantes viram-se, como diversos outros brasileiros, com a casa inundada
e tiveram que se abrigar em um vizinho ou parente, no caso, o Museu
Paulista, mais conhecido como Museu do Ipiranga.
Os caixões de d. Pedro e de d. Leopoldina ficaram expostos ao grande
público no Salão Nobre do Museu, aos pés do quadro Independência ou
morte, de Pedro Américo; para arrepio de alguns professores que
conduziam excursões escolares e sussurros de rápidas “ave-marias” entre
funcionários. Voltaram à cripta no final dos anos 1980, em cima de um
veículo militar escoltado por oficiais de diversas armas, em mais uma
comemoração de 7 de setembro.
A cripta sob o monumento foi construída no início da década de 1950,
com as paredes revestidas em granito verde e o teto, não mais existente, em
mármore amarelo. O controverso Monumento à Independência, que fica
acima, apelidado de “bolo de noiva”, é de 1922. Inicialmente, a cripta seria
um cenotáfio, espécie de memorial fúnebre em homenagem a d. Pedro e d.
Leopoldina, representados pelos sarcófagos vazios. O corpo da imperatriz
permaneceu de 1826 a 1911 no Convento da Ajuda. Devido às obras de
remodelação da área central do Rio de Janeiro, o convento foi demolido e os
sarcófagos de membros da família imperial, transportados para o Convento
de Santo Antônio. D. Pedro esteve em Portugal desde o falecimento, em
setembro de 1834.
O cenário mudou em 1954, durante a preparação para os festejos do
quarto centenário da cidade de São Paulo. O instituto histórico local
resolveu coroar a festa levando o corpo de d. Leopoldina do Rio de Janeiro
para a capital paulista, a fim de depositá-lo na cripta. Uma longa queda de
braço4 entre a Ordem Franciscana, responsável pela guarda do corpo da
imperatriz, e a comissão dos festejos teve início, com o presidente Getúlio
Vargas e o ministro da Educação e Cultura de um lado, querendo fazer a
vontade dos paulistas, e os franciscanos, protegidos pelo arcebispo do Rio
de Janeiro, d. Jaime Câmara, do outro.
No final, São Paulo ganhou a disputa e ficou com o corpo da imperatriz.
Dessa forma, d. Leopoldina — que escrevera certa vez à irmã Maria Luísa:
“nesta corte é necessário um espírito de sacrifício, sob todos os pontos de
vista” — acabou indo parar em São Paulo, cidade em que nunca estivera em
vida, na famosa colina do “Grito”, 126 anos depois de morta.
A vinda do corpo de d. Leopoldina abria um precedente. A cripta passava
de cenotáfio a um local consagrado pela religião católica, condição imposta
pelos trinetos de d. Leopoldina, d. Pedro Henrique e d. Pedro Gastão, para
que concordassem com o traslado do corpo desde o convento, no Rio de
Janeiro, até a colina do Ipiranga. Era criada, assim, a oportunidade de
preencher o outro sarcófago vazio, dedicado a d. Pedro I.
A possibilidade de trazer o corpo do imperador surgiu 18 anos após a
chegada de d. Leopoldina à cripta. Em 1964, foi instaurado no Brasil, a
partir de um golpe, o regime militar. O nacionalismo, a exaltação dos
símbolos pátrios e das festas cívicas, nas quais se buscava um “simulacro de
partição política no Estado Nacional”, constituíram o cenário perfeito para a
apoteótica festa em homenagem aos 150 anos de independência, em 1972.5
Desse modo, um comitê foi instituído pelo presidente Médici visando à
preparação das festividades e às tratativas com outra ditadura — a
salazarista, de Portugal — para a vinda do corpo de d. Pedro para o Brasil.
Assim, nosso inquieto imperador atravessaria pela terceira vez o oceano
Atlântico, agora para protagonizar um espetáculo repleto de símbolos
históricos e religiosos. Transformado pela ditadura brasileira em uma
verdadeira relíquia sagrada, é de se considerar a opinião que d. Pedro,
paladino liberal e constitucional sem muita paciência para solenidades, teria
a respeito de ser usado por um sistema de governo contra o qual
provavelmente, se vivo, lutaria.
Opositores e defensores não faltavam à época no Brasil, inclusive entre
descendentes de pessoas ligadas intimamente à vida de d. Pedro, como José
Bonifácio de Andrada e Silva e o marquês de Barbacena. Dois frutos da
linhagem do Patriarca da Independência, o deputado federal Zezinho
Bonifácio e o general Antônio Carlos de Andrada Serpa, estavam ao lado do
regime militar — nada, aliás, muito diferente da índole do famoso
antepassado, reputado como homem autoritário. Por outro lado, Vinícius
Caldeira Brant, sociólogo e ex-presidente da União Nacional dos Estudantes
(UNE), bem como descendente do marquês de Barbacena, era torturado nos
porões da ditadura durante as festividades do Sesquicentenário da
Independência.
Portugal preparou-se para o traslado do ex-monarca. Localizaram o corpo
no Panteão dos Bragança, no mosteiro lisboeta de São Vicente de Fora, e
providenciaram três novos caixões para d. Pedro: um de madeira, estofado e
forrado internamente com tecido, onde o corpo foi acomodado, envolvido
por um de chumbo e outro de pau-santo ornado com símbolos portugueses e
brasileiros. O peso total era de 250 kg.
O cerimonial em Portugal teve início em 10 de abril de 1972, quando
houve uma cerimônia religiosa no Panteão dos Bragança. Posteriormente, o
esquife foi conduzido por soldados portugueses até o exterior do templo,
onde uma força do 5o Batalhão de Caçadores, do qual d. Pedro fora
comandante, prestou ao monarca as devidas honras militares. O caixão foi
colocado em um veículo do exército e transportado por Lisboa, sob escolta
de um esquadrão de cavalaria da Guarda Nacional Republicana, até o cais
de Santa Apolônia, onde veio a ser embarcado no navio Funchal por
fuzileiros navais de ambas as nacionalidades. Nesse momento, dois navios
de guerra, um brasileiro e um português, deram uma salva de 21 tiros.
O caixão ficou em uma câmara ardente no Funchal, e a esse navio
juntaram-se tanto os vasos de guerra brasileiros Pernambuco, Santa
Catarina e Paraná quanto os portugueses Gago Coutinho, Sacadura Cabral
e João Belo. A esquadra binacional foi saudada por aviões da Força Aérea
Brasileira tão logo entrou nas águas territoriais do país. Obedecendo ao
cerimonial, o Funchal aportou no Rio de Janeiro em 22 de abril, para que
coincidisse com a data em que Cabral chegou ao Brasil em 1500.
Esqueceram-se de que a mesma data também marcava o aniversário de 151
anos do decreto de d. João VI que estabelecera o filho como príncipe
regente. No monumento aos combatentes brasileiros mortos na Segunda
Guerra Mundial, o presidente português Américo Tomás entregou
oficialmente d. Pedro à pátria adotiva.
A propaganda política da ditadura já havia se utilizado de símbolos
populares, como alguns jogadores de futebol e a própria seleção brasileira,
beneficiando-se muito do prestígio obtido pelo suor e pela garra da equipe
que ganhara a Copa do Mundo de 1970. Dois anos depois, Médici colocaria
um morto e alguns vivos para correr o Brasil inteiro em favor de sua
imagem. No próprio dia 22 de abril, enquanto, sob o clamor de mais de
cinco mil pessoas, o corpo de d. Pedro seguia para seu antigo palácio, na
Quinta da Boa Vista, corredores partiam dos pontos extremos do território
brasileiro — do norte, do sul, do leste e do oeste, — portando uma tocha
representativa do fogo simbólico da pátria. Ambos, corredores e d. Pedro,
deveriam chegar sincronizados à colina do Ipiranga, no Monumento à
Independência, em 7 de setembro, exatos 150 anos depois do histórico dia.
D. Pedro recebeu um verdadeiro tratamento de santo. Seu corpo subiu e
desceu de inúmeros caminhões do Corpo de Bombeiros e de blindados
militares, passou por diversas capitais brasileiras, sendo seu caixão velado
em várias catedrais pelo país. Morto, viajou pelo Brasil mais do que quando
nele viveu.
Sacolejado por todo o Brasil, o ex-monarca ainda achou quem o
incomodasse. Dentro do caixão, aberto em 2012, havia diversos cartões de
visita. Alguns remontavam ao início do século XX; outros pertenciam a
embaixadores e militares que haviam participado das comemorações do
Sesquicentenário.
Naquele 7 de setembro de 1972, jatos sobrevoaram o monumento. Tiros
de canhões, e até sons de buzinas, ensurdeceram o ar. Era como se o Brasil
tivesse vencido mais uma partida de futebol.
Acontece, porém, que os portugueses não se haviam preocupado com o
tamanho interno do local onde o caixão seria depositado. Se a ex-miss
Brasil Marta Rocha perdera o concurso de Miss Universo de 1954 por conta
de duas polegadas a mais nos quadris, d. Pedro ficaria quatro anos do lado
de fora do sarcófago porque o caixão tinha oito centímetros a mais que o
espaço destinado a ele.
Esse espetáculo nacional patrocinado pela ditadura entrava em flagrante
contraste com a primeira cerimônia de sepultamento, que em 1834
pretensamente levara d. Pedro a seu descanso final no Panteão dos
Bragança, junto a seus ancestrais.
D. Pedro experimentou, nesse segundo funeral, tudo (e um pouco mais) o
que não quisera experimentar no primeiro. Em seu testamento, afinal, havia
esclarecido que queria ser inumado como simples general. Ao contrário do
ocorrido em 1972, em 1834 o seu corpo foi levado ao jazigo durante a noite,
o que parecia representar, à época, um processo de integração do morto a
seu novo mundo.6
O ex-imperador foi conduzido até a carruagem fúnebre por generais, que
o acompanharam até o jazigo final. A imperatriz d. Amélia, sua viúva, e a
rainha d. Maria II, sua filha, seguiram o protocolo da época e permaneceram
no palácio. Porém, o rei-soldado, que se pusera ao lado da filha para
combater o irmão d. Miguel, um absolutista convicto, não partiria sem
comoção popular. Por toda Lisboa, os comerciantes interromperam suas
transações e fecharam as lojas, espontaneamente. Na movimentada rua
Augusta, casas cobriram-se de luto. Longos pedaços de pano preto
esvoaçavam de janelas e sacadas até a rua. Uma multidão enlutada se reuniu
e enviou uma delegação à rainha, solicitando permissão para acompanhar o
féretro de d. Pedro. Assim, a população da cidade participou em massa do
cortejo fúnebre, muitos carregando tochas e velas acesas — nem tanto,
porém, para clarear o caminho, mas antes para iluminar a passagem da alma
do morto à vida eterna e lembrar a existência que ali se apagara.7
Além da população, seguiam os restos mortais do príncipe todos os
generais, oficiais superiores e demais militares que se achavam na capital
portuguesa. A guarnição de Lisboa formou alas para sua passagem e,
depois, fechou a retaguarda do cortejo. O cardeal-patriarca Patrício, à frente
do cabido da antiga Sé Patriarcal de Lisboa, fez as últimas orações quando o
corpo foi depositado no Panteão dos Bragança, e d. Pedro reuniu-se aos
ancestrais sob a eclosão de salvas das artilharias de terra e mar, que
avisavam a todos que a cerimônia terminara.
O sepultamento ocorreu em 27 de setembro de 1834, três dias depois do
último suspiro de d. Pedro, dado às duas horas da tarde no mesmo quarto do
Palácio de Queluz em que nascera 36 anos antes.
1 Demonão e Fogo-Foguinho eram formas como d. Pedro I assinava suas cartas à amante, a marquesa
de Santos.

2 Aparentemente, segundo deduções preliminares, a terra seria da região do Porto, cidade para a qual
legou o seu coração e onde sofreu longo e tormentoso cerco pelas tropas de seu irmão.

3 Para mais informações: AMBIEL, Valdirene do Carmo. Estudos de Arqueologia Forense aplicados
aos remanescentes humanos dos primeiros imperadores do Brasil depositados no monumento à
Independência [online]. São Paulo: Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de São Paulo,
2013. Dissertação de Mestrado em Arqueologia. Acesso em 4 jul. 2015. Disponível em:
<http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/71/71131/tde-27032013-173516/>.

4 Segundo documentação preservada no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e no Arquivo


Geral da Província Franciscana da Imaculada Conceição no Brasil.

5 CERRI, Luis Fernando. Usos públicos da história no Brasil contemporâneo: demandas sociais e
políticas de Estado. pp. 3-19.

6 REIS, João José. A morte é uma festa, p. 139.

7 Idem.
Parte I
Portugal – 1798-1808
Queluz

“LUZ? QUE luz? QUE LUZ?”, indagava aos berros um nobre ao guarda-
caça. Ambos haviam caçado coelhos o dia todo. A diversão fora tamanha
que acabaram não se dando conta do avançado da hora, e a noite
surpreendeu-os na mata fechada. Além do tempo, perderam também a
direção e vagaram a esmo por um bom período.
O guarda, em certo momento, começou a dizer que via uma luz e pôs-se a
caminhar em sua direção. Ao que parece, porém, somente ele a enxergava, o
que começou a exasperar o nobre. Por fim, ambos chegaram a uma ermida
iluminada, onde jejuava um velho frade. O ancião acolheu-os e indicou-lhes
o caminho para Lisboa: bastava seguir o rio Jamor que atingiriam o Tejo.
Diz a lenda que, ao chegar de volta são e salvo, o nobre decidira fazer de
Queluz seu retiro campestre.
Essa é uma das diversas histórias que cercam a origem do nome Queluz.
Segundo alguns pesquisadores, o nome poderia derivar das palavras árabes
“câ” (vale) e “Llûs” (amendoeira), ou seja, vale das amendoeiras ou da
amendoeira. Há ainda outras hipóteses, como a que ligaria a região à
adoração do sol pelos povos antigos.
A região, vizinha da capital portuguesa, sempre foi um local de grande
beleza e de clima ameno, o que contribuiu para que diversos nobres
instalassem ali, ao longo dos séculos, suas casas de campo, também
chamadas de quintas.
Uma dessas quintas, construída em meados do século XVII, pertencia aos
marqueses de Castelo Rodrigo. O título fora criado em 1600 por Filipe II,
rei da Espanha e de Portugal, e conferido a d. Cristóvão de Moura e sua
descendência durante a chamada União Ibérica.
Antes da união dos dois reinos sob a coroa espanhola, a dinastia dos Avis
governara Portugal por quase 200 anos, entre os séculos XIV e XVI.
Durante este reinado, os lusitanos singraram os mares e estabeleceram
domínios na América, na África e na Ásia. O epílogo da história dessa
família foi a grande aventura do rei d. Sebastião, a quem a cidade de São
Sebastião do Rio de Janeiro deve o nome. Aos 24 anos, em 1578, ele
liderou um exército formado por portugueses e mercenários para combater,
ao lado de Abu Abdallah Mohammed II Saadi, o emir do Marrocos. A
batalha, ocorrida próximo à cidade de Alcácer-Quibir, acabou recebendo
diversos nomes: em Portugal, foi batizada com o nome da cidade; na África,
ficou conhecida como a Batalha dos Três Reis, na qual os soberanos
envolvidos perderam a vida.
A morte de d. Sebastião teve diversas consequências, uma das quais o
nascimento do sebastianismo. Assim como os britânicos com Artur, o rei
que não morreu, mas foi embora, os portugueses envolveram seu rei,
desaparecido na batalha, em lendas, transformando-o em um mito. Afinal,
nunca viram o corpo dele.
Surgiu assim a narrativa do retorno do rei (apelidado de O Desejado), que
voltaria do mar quando seu povo e sua terra sofressem. O mito foi tão forte
que chegou às terras portuguesas do outro lado do Atlântico, influenciando,
no Brasil, diversos movimentos populares. Um dos últimos, o mais famoso,
foi o liderado pelo beato Antônio Conselheiro no povoado de Canudos, na
Bahia. Antônio pregava o retorno de d. Sebastião e, com ele, a volta da
monarquia brasileira no final do século XIX, mais de trezentos anos após o
desaparecimento do rei português.
Outra consequência da batalha na África foi o enfraquecimento do estado
português. O rei deixou o país quase sem dinheiro e exército. Junto com d.
Sebastião, grande parte do tesouro nacional perdeu-se ao ser usado nessa
aventura bélica desastrada. Não apenas o governo e as finanças, mas a
própria aristocracia portuguesa ficou abalada. A flor da nobreza lusitana foi
parcialmente ceifada em Alcácer-Quibir, enquanto os sobreviventes
acabaram resgatados às custas do empobrecimento de suas famílias e do já
combalido tesouro nacional.
Além do reino debilitado, a aventura de d. Sebastião pôs fim à presença
da dinastia dos Avis no trono português. Como o rei morrera sem deixar
herdeiro direto, o poder foi assumido por seu tio, o cardeal d. Henrique. Ele
era o quinto filho homem do rei d. Manuel I, avô de d. Sebastião, e o único
Avis, neto, filho e irmão de rei, apto a assumir o trono. Como nunca se
aventara a hipótese de que o futuro da dinastia e do trono fosse depositado
em si, d. Manuel destinara-o à vida religiosa. Na época, essa era também
uma forma de se fazer política, pois ter um filho “príncipe da Igreja” era útil
no tabuleiro político mundial. O reinado de d. Henrique foi triste e curto.
Faleceu em 1580, sem reconhecer a legitimidade de um sobrinho bastardo,
d. Antônio, o Prior do Crato, que poderia tê-lo sucedido como rei de
Portugal. Assim, o trono foi assumido pelo outro tio de d. Sebastião, o rei
Filipe II, da Espanha.
Durante sessenta anos, Portugal e suas colônias se uniriam à Espanha sob
um mesmo governo. Enquanto as riquezas coloniais portuguesas eram
sugadas pelas guerras em que a Espanha se envolvia, a fronteira do Brasil se
expandia. Uma vez que ambos os países estavam unidos pela mesma coroa,
não havia motivo para continuar seguindo o Tratado de Tordesilhas, que
definia o limite entre as possessões espanholas e portuguesas na América.
Assim, as “entradas” e as “bandeiras” ampliavam os territórios brasileiros.
O terceiro e último Filipe espanhol a governar Portugal tentou fazer do
país uma mera província de seu vasto império. Sobretaxou os comerciantes
lusitanos e preteriu a nobreza do país, passando quase todos os postos
governamentais às mãos dos espanhóis. Os nobres portugueses,
aproveitando-se de que uma parte das tropas espanholas estava na
Catalunha combatendo uma rebelião e outra, envolvida na Guerra dos
Trinta Anos, ergueram-se contra o domínio da Espanha. Em 1º de dezembro
de 1640, invadiram o palácio da praça do Comércio e jogaram pela janela o
secretário de Estado Miguel de Vasconcelos, prendendo a seguir a prima do
rei Filipe, a duquesa de Mântua, que atuava como vice-rainha. Quinze dias
depois, d. João IV, duque de Bragança, era aclamado rei de Portugal,
inaugurando uma nova dinastia.

A dinastia de Bragança
A Sereníssima Casa dos Duques de Bragança, uma das mais ricas de
Portugal, fora criada em 1401 para transformar em nobre d. Afonso, filho
bastardo do rei d. João I, primeiro da Casa de Avis a governar o reino.
Assim, a legitimidade de d. João IV como candidato ao trono contava com
esse ramo de bastardia que ligava a origem de sua família à antiga dinastia
extinta.
Um dos futuros descendentes de d. João IV, d. João VI, parece ter
herdado, assim como sua mãe, certa característica do antepassado: a
morosidade em tomar decisões. O primeiro Bragança no trono teria levado
cerca de três meses para concordar em participar da rebelião — ao contrário
da esposa, a duquesa Luísa, que o incitava: “Antes morrer reinando do que
acabar servindo.”
A separação não foi pacífica. Portugal e Espanha enfrentaram-se diversas
vezes nos campos de batalha até a consolidação da independência da coroa.
No processo, nobres lusitanos receberam recompensas como honrarias,
títulos e propriedades. Da mesma maneira, outros, por tomarem partido dos
castelhanos, foram punidos. Foi esse o caso dos marqueses de Castelo
Rodrigo, cuja propriedade de Queluz foi transferida à família Bragança.

O Palácio de Queluz
A propriedade de Queluz foi incorporada à Casa do Infantado, instituição
senhorial criada por d. João IV a fim de garantir dotação material e
patrimonial aos infantes — filhos e irmãos do rei que não herdavam o trono.
Foi assim que Queluz passou a pertencer a d. Pedro III, infante de Portugal,
tio e marido de d. Maria I, avós d. Pedro I do Brasil e IV de Portugal. D.
Pedro III construiria lá o Palácio Real de Queluz, onde nasceria, em 12 de
outubro de 1798, o primeiro imperador brasileiro.
Em 1747, o avô de d. Pedro contratou o arquiteto Mateus Vicente de
Oliveira para transformar o antigo pavilhão de caça dos marqueses de
Castelo Rodrigo em um palácio barroco. A construção e a decoração de
Queluz demoraram vários anos e passaram pela mão de diversos
profissionais, entre eles o francês Jean Baptiste Robillion, responsável pelo
pavilhão Robillion. O projeto de seus jardins formais, de sua estatuaria, de
suas balaustradas, de seus bosques de plantas cítricas, das cascatas e fontes
que jorravam ao redor do palácio remete ao estilo do Palácio de Versalhes.
Apesar da grandiosidade da escala, o edifício é de tal modo
compartimentado e espalhado que acaba por sugerir uma intimidade e uma
privacidade diferentes das encontradas no famoso palácio francês. Também
Queluz possui seu salão dos espelhos: são mais numerosos que os de
Versalhes, e mais delicados.
D. Pedro nasceu na chamada sala Dom Quixote. Inicialmente projetada
para ser uma sala de café, acabou convertida em aposento de dormir de d.
Pedro III e, depois, de d. Carlota Joaquina, d. João VI e d. Pedro IV. Apesar
de a planta do aposento ser quadrada, o desenho do teto e do parquê cria a
ilusão de um espaço circular. Os painéis com molduras em talha dourada,
responsáveis por decorar o espaço acima das portas e o vão entre a moldura
do teto e seu painel central, ilustram episódios da vida de d. Quixote. Quem
visita o Palácio Nacional de Queluz fica admirado diante desse quarto, mas
o que lá se vê hoje é, na realidade, uma recriação do original. Um imenso
incêndio destruiu o interior do palácio em 4 de outubro de 1934, dez dias
depois do centenário de morte de d. Pedro naquele local e às vésperas da
comemoração dos 24 anos da instalação do regime republicano português.
Palácio de Queluz.

Queluz recebeu, durante o reinado de d. Maria, diversas festas luxuosas,


muitas somente para os membros da família real e sua comitiva. Ficaram
famosas as de 24 e 29 de junho, datas dedicadas a São João e São Pedro,
Serviam-se, em tais ocasiões, ceias suntuosas nos jardins, que junto com a
fachada do palácio eram iluminados por milhares de velas. O ápice dos
festejos eram os fogos de artifício que coloriam a noite. Durante o dia, além
das cerimônias religiosas, havia corridas de cavalo e touradas.
Na distante colônia brasileira, essas festas, que se tornaram conhecidas
como juninas e comemoravam São João, Santo Antônio e São Pedro,
também eram celebradas. “Todo homem que tinha um Pedro ligado a seu
nome sentia-se na obrigação de acender uma imensa fogueira diante de sua
porta e soltar uma porção de foguetes, além de descarregar inúmeras
pistolas, mosquetes e morteiros.” O barulho e o brilho no céu eram
tamanhos que se poderia acreditar que se estava perto de “alguma cidade
sitiada, durante um violento bombardeio”.8
São Pedro, discípulo de Jesus, santo chaveiro e primeiro papa, aparece
nas histórias populares como personagem astuto, finório — uma espécie de
Pedro Malasartes mítico, figura tradicional dos contos populares da
Península Ibérica, mais digno, porém igualmente esperto. Simples, de boa-
fé e crédulo, como representado no Novo Testamento, o povo transformou-
o em um sujeito que consegue sair das situações difíceis com enorme
sangue-frio ou por meio de processos pouco ortodoxos, chegando até
mesmo a aparecer em contos populares da Andaluzia como uma versão do
simplório Sancho Pança. Nosso d. Pedro iria, em diversos momentos de sua
vida, encarnar ou ser identificado com algumas das características que o
povo acabou por dar ao santo. Também seria comparado a Pedro Malasartes
por José Bonifácio e, por que não?, ao próprio d. Quixote, uma vez que se
bateu pela causa da filha tendo menor número de seguidores do que o
grande exército de seu irmão.

Uma maldição
Tanto d. Pedro quanto o pai, d. João, assim como seus antecessores e
sucessores, deveriam ter assumido, não o trono português, mas as
propriedades e as riquezas da Casa do Infantado, entre elas o Palácio de
Queluz. No entanto, o mesmo ancestral que levara os Bragança ao poder se
tornaria responsável direto por uma maldição que viria a acometer seus
descendentes.
Antes de sua aclamação como rei de Portugal, quando era somente o
oitavo duque de Bragança, d. João IV teria se irritado com um irmão leigo
franciscano que fora lhe pedir esmolas. Sem paciência, mandou o religioso
retirar-se e aplicou-lhe um pontapé na canela, onde se criou um machucado
em forma de escama de peixe. Ressentido pela forma gratuita como fora
maltratado, o franciscano rogou-lhe a seguinte praga: “A sua descendência
nunca passará pelo primogênito, e os que lhe sucederem, Deus permita,
tenham o mesmo sinal na perna que o senhor me produziu.”
Ao subir ao trono, d. João IV, temendo a praga do religioso, criou a
tradição de apresentar os membros recém-nascidos da família de Bragança
aos altares da ordem mendicante de S. Francisco, bem como de sempre
assistir às festas do santo. D. João VI e d. Pedro I ainda acrescentariam uma
esmola de 600 réis para a comemoração, à qual assistiam antes de irem
jantar no refeitório comum dos frades da ordem, com a clássica colher de
pau comum a todos os comensais. Nada disso, porém, faria a maldição
lançada contra a família arrefecer: raros foram os primogênitos que subiram
ao trono e reinaram por tempo suficiente para deixar herdeiros.
8 KINDER, D.P. e FLETHCER, J.C. O Brasil e os brasileiros, vol. II, p. 107.
Filho e neto de reis

DIVERSOS DOCUMENTOS do Arquivo Nacional, localizado na Torre do


Tombo, em Lisboa, mostram alguns dos preparativos para o nascimento, em
1798, de um novo filho dos príncipes do Brasil, d. João e d. Carlota
Joaquina.
Datada de julho daquele ano, uma das notas9 faz menção à compra de
renda para guarnecer as toalhas para o batismo do futuro bebê e é bastante
curiosa:
Por vinte e duas varas e meia de renda fina para se guarnecerem quatro toalhas que hão de
servir no Baptismo da Pessoa Real que há de nascer, a preço de 3$550 a vara de que não passou
recibo a pessoa que a vendeu por ser contrabandista.10

O berço para a “pessoa real que há de nascer” foi confeccionado pelo


mestre marceneiro Antônio Silvério em madeira de mogno. Em agosto,
encomendavam-se as roupas de cama para as amas de leite do esperado
bebê; no mesmo mês, d. Carlota ordenou ao Patriarca de Lisboa que se
realizassem preces em todas as igrejas, do dia 21 de agosto até a data do
nascimento da criança.11
Em 16 de outubro de 1798, a Gazeta de Lisboa, na edição de terça-feira,
anunciava:
A Princesa N. S. tendo completado o termo da gravidação, deu felizmente à luz a 12 deste mês
pelas 6 horas e meia da manhã um formoso infante. Este grato sucesso se anunciou logo com
repiques de sinos de todas as Igrejas desta Capital, e salvas de artilharia das Fortalezas, e dos
Navios de S. M. surtos neste porto, que aparecerem logo todos empavesados.

Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel


Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e
Bourbon, d. Pedro IV, 28o rei de Portugal, 24º do Algarve, primeiro
imperador do Brasil, nasceu, como já mencionado, no Palácio de Queluz,
mais especificamente na sala Dom Quixote, a 12 de outubro de 1798, após
um trabalho de parto de quase quatro dias. O nome completo do príncipe,
como usual na família Bragança, consistia na união de nomes de pessoas da
família, do santo protetor, de arcanjos e anjos.
António Teles da Silva Caminha e Meneses, marquês de Resende,
lembraria, anos depois da ocasião:
Quando a princesa, depois rainha d. Carlota, acabava de dar à luz o seu segundo filho varão, o
som das salvas da chalupa inglesa Moreno que trouxera aqui a nova da chegada de Bonaparte
ao Egito, onde ele se ensaiava para as lutas que, à sombra da soberania do povo, havia de ter a
fim de realizar a tão sonhada monarquia universal regida pelo despotismo, confundia-se com o
zunido das girândolas que de um monte propínquo ao Tejo anunciavam o começo da vida de
um renovo Bragantino.12

Na tarde de 19 de outubro, na Capela do Real Palácio de Queluz, o cardeal-


patriarca de Lisboa batizou o recém-nascido d. Pedro. Foram padrinhos o
infante da Espanha, d. Antônio, representado por seu sobrinho, d. Pedro
Carlos, e a infanta Maria Ana, tia-avó do bebê, irmã da rainha d. Maria.

Nesse dia, o futuro marquês de Resende, próximo de completar oito anos


de idade, compareceu pela primeira vez a uma função pública na corte, o
batizado do príncipe a quem no futuro uniria a sua sorte, daria sua
fidelidade e defenderia até a morte.
Quando eu, já depois de anoitecer, saía do paço, fez-me o padre Theodoro de Almeida, meu
mestre [...] observar, entre outros belos e variados espetáculos astronômicos que o céu, semeado
de estrelas, naquela noite serena oferecia aos nossos olhos Mercúrio, Júpiter e Vênus, a que
Plínio, o Velho, chamou de grande astro, formando, como diz Homero, com os seus satélites
uma brilhante coroa.13

Essa teria sido a primeira de uma série de coroas que d. Pedro receberia, a
única a que não teria como renunciar.
Uma família peculiar
D. Pedro foi o segundo varão a nascer. Seu irmão, d. Antônio, então com
três anos, era o príncipe da Beira, herdeiro do trono. Os filhos de d. João
com d. Carlota só começaram a nascer após a morte por varíola do irmão
mais velho do príncipe, d. José, aos 27 anos, em 11 de setembro de 1788.
Não que a morte do irmão de d. João tenha mudado muito a linha de
sucessão. afinal, não se esperava mais que o príncipe tivesse filhos, pois sua
esposa e tia, d. Maria Benedita, era quinze anos mais velha. De qualquer
forma, fez-se pressão em cima de d. João e de d. Carlota, pois, à época da
morte do irmão, quando já contavam com três anos de casado, os dois ainda
não haviam tido sua noite de núpcias. Não se tratava de falta de vontade
dele, mas sim pela pouca idade dela.
Quando d. Carlota Joaquina chegou a Portugal em 1785, causou uma
péssima impressão, não apenas na corte, mas também entre a população
portuguesa. Houve um arranjo de núpcias duplo: enquanto a irmã de d. José
e d. João, d. Mariana, partia para a Espanha a fim de se casar com d. Gabriel
de Bourbon, filho do rei Carlos III, a neta deste, a infanta Carlota, filha do
futuro rei Carlos IV, chegava a Portugal para tomar por esposo d. João.
Não fora esse, a princípio, o arranjo esperado pela rainha de Portugal. D.
Maria, em carta a seu tio Carlos III, em 13 de outubro de 1783, imaginava
casar d. João ou com d. Maria Teresa, de 11 anos, princesa da Sicília e neta
do rei da Espanha, ou com a princesa Carolina Maria, de 13 anos, filha do
duque de Parma e sobrinha do monarca. Este, contudo, em carta de 2 de
novembro, expôs à sobrinha as desvantagens de ambos os casamentos e
propôs que d. João se casasse com d. Carlota, filha dos príncipes das
Astúrias, futuros reis espanhóis. A rainha d. Maria concordou com a
proposta do tio e afirmou que “seria muito útil se fizesse o casamento do
infante meu filho com a infanta Carlota, amada neta de V. M.”. Mais
adiante, afirmou: “porém o que impediu intentá-lo foram os poucos anos da
referida infanta.”14
A infanta portuguesa d. Mariana, única filha viva de d. Maria I, tinha 16
anos quando partiu; a infanta espanhola que chegava tinha 10, ou seja: na
época das tratativas do casamento, a futura noiva tinha 8. D. Carlota era
pequena para a idade, mesmo se considerarmos os padrões da época: era
desgraciosa, pouco atraente e de ar deselegante. Quando das comemorações
das bodas dos príncipes, em 8 de junho de 1785, o povo não se mostrou
muito alegre ao longo dos três dias de festas que marcaram a ocasião.
Comentavam que, na troca das princesas, Portugal fora lesado: enviaram à
Espanha um peixão e receberam em troca uma sardinha.
D. Carlota Joaquina.

A verdade é que os Bragança haviam sido ludibriados pelo próprio


embaixador português na corte dos Bourbon, que em 1783 oficiara a
respeito da infanta: “É magra, muito bem feita de corpo, todas as feições
são perfeitas, dentes muito brancos, e como não há muito tempo teve
bexigas, ainda não se desvaneceram de todo as covas delas; é branca,
corada, muito viva.”15
Quando d. Carlota chegou, viram que o embaixador errara em todos os
pontos, menos no que dizia respeito à sua vivacidade: no meio da cerimônia
de seu casamento na capela da Real Barraca,16 ela viraria o rosto e morderia
a orelha do noivo que estava ao seu lado.17
Com o tempo, d. Carlota revelou-se uma criança impossível, que só
respeitava duas pessoas: a sogra, d. Maria I, e, parcialmente, seu preceptor e
confessor, padre Filipe Scio de São Miguel. Segundo as cartas de d. Ana
Miquelina, aia espanhola que chegara com a princesa, à mãe da infanta,
Maria Luiza de Parma, Carlota tinha um péssimo gênio, era birrenta e sofria
do que Miquelina chamava de “comportamentos impertinentes”.
D. Maria, aos 51 anos, praticamente adotou a nora. Detestava dar sermões
à infanta e tinha grande dificuldade para manter a cara séria quando a
repreendia. Era doce com a menina e comportava-se como se fosse incapaz
de se aborrecer com ela. A rainha era a única que a fazia escutar as lições,
alegando que havia se esforçado para fazer todas as suas vontades e que a
jovem não fazia nada do que lhe pediam. Às vezes tinha que apelar para
ameaças, como a de proibir as diversões prediletas de d. Carlota: andar de
burro e conduzir uma carroça puxada por um pônei.
Foi d. Maria quem teria ensinado à nora, quando de seus passeios por
campos e mosteiros, expressões e palavras portuguesas. Ao menos quando a
menina conseguia acordar cedo: por vezes, ela não queria sair da cama;
quando saía, demorava muito para se aprontar, para a irritação da sogra, a
quem devia acompanhar todo dia na missa das dez horas da manhã. Em
dado momento, foi ordenado que d. Carlota estivesse desperta às nove para
honrar seus compromissos. Isso foi um tormento para as criadas, que eram
obrigadas a aguentar as birras, os xingamentos e as tentativas da menina de
morder as mãos que a buscavam vestir.
Quanto a seu preceptor, o padre Filipe, este se recusava a confessá-la
quando ela estava com seu gênio alterado, o que acabava por deixar a
menina preocupada de ficar sem absolvição. Logo a jovem prometia se
comportar, mas apenas para, algum tempo depois, ficar três horas sem falar
com o professor.
No entanto, por baixo do gênio difícil dessa irrequieta figura, escondia-se
uma jovem bastante inteligente. Carlota era a neta preferida do rei Carlos III
e conviveu intimamente, até os 10 anos, com o rei espanhol, responsável
por designar-lhe o padre Filipe Scio como tutor. Padre Filipe era um dos
grandes intelectuais de sua geração: foi o responsável por uma tradução
completa da Bíblia para o espanhol, falava grego, latim, hebraico, italiano e
francês. Quando, antes de partir para Portugal, d. Carlota teve que enfrentar
os exames públicos perante toda a corte espanhola, incluindo os
embaixadores estrangeiros, respondeu questões relativas a religião,
geografia, história, gramática, línguas portuguesa, francesa e espanhola.
Também demonstrou suas habilidades em dança, canto, etiqueta, equitação
e pintura. Foi elogiada por sua memória prodigiosa, por sua compreensão e
seu desembaraço, admirando a todos por ter acumulado tanto conhecimento
com tão pouca idade.
De todo modo, aquele pequeno gênio era uma criança arteira cujo
comportamento parecia piorar quando havia mais pessoas por perto. Certa
vez, durante uma visita do arcebispo, confessor da rainha, e de padre Filipe,
d. Carlota promoveu um espetáculo aos presentes, levantando a saia de sua
anã negra. O próprio marido, d. João, foi alvo de seus ataques e
brincadeiras. Noutra ocasião, durante uma refeição, pegou um bocado de
comida com as mãos e arremessou no rosto do esposo. Vendo que d. João
não achara graça nenhuma daquilo, pediu desculpas, dizendo que o acertou
sem querer e que, na verdade, visava um dos serviçais que estavam atrás
dele.
Nem sempre a relação do casal foi o pesadelo que se tornaria anos depois.
No mesmo ano em que se casaram, 1785, d. João escrevia à irmã que partira
para a Espanha a respeito da praga que acometera a pequena Carlota. A
menina encontrava-se infestada de piolhos; tão úmido estava seu couro
cabeludo em virtude do pus das feridas que resolveram raspar-lhe os
cabelos grossos e rebeldes. Como a esposa-menina tinha de permanecer em
seus aposentos até que sua cabeça ferida se curasse, d. João visitava-a duas
vezes por dia. Punha-se de quatro no chão, imitando um burro, e andava
assim pelo quarto, tendo d. Carlota às costas.
Em dezembro de 1786, d. João, ao saber que a irmã havia
“desabrochado”, ou seja, menstruado pela primeira vez, tornando-se apta a
consumar carnalmente seu casamento com o príncipe espanhol, escreveu a
ela lamentando: “Faltam muitos anos até que eu possa estar com ela [d.
Carlota], o que é uma tortura. Por enquanto, não podemos ter prazer, por ela
ser tão nova e o seu corpo tão pequeno, mas virá o tempo em que
brincaremos. Então serei feliz”.
Era a segunda vez, em menos de um ano, que ele se lamentava da vida
conjugal inexistente. Anteriormente, no segundo semestre de 1785, havia
escrito à irmã:
É bom o que dizes na tua carta acerca do teu marido, que ele gosta muito de ti, que tu sentes o
mesmo em relação a ele e que tens dormido pouco. Eu também gostaria de tomar posse da
minha mulher. Ela é muito pequena, mas chegará o dia em que lhe possa fazer o que teu marido
te faz a ti.18

Enquanto o príncipe aguardava o dia em que poderia consumar seu


casamento, a corte e os embaixadores estrangeiros não acreditavam muito
nessa união. O marquês de Bombelles, embaixador da França em Portugal
que não poupou apelidos a d. Carlota — “embrião”, “princesa enfezada” e
“pequeno macaco-aranha”, por exemplo —, achava que o crescimento
limitado da princesa (ela nunca passou de 1,47 m) devia-se às diversas
anormalidades encontradas em sua família e que a infanta não passava de
“mais sangue ruim lançado em veias estreitas”.19 O embaixador britânico,
Robert Walpole, sobrinho do primeiro-ministro de seu país, oficiava ao seu
governo a possibilidade de a princesa não vir a gerar herdeiros e a
especulação acerca de Portugal pedir a anulação do casamento e enviar a
menina de volta aos pais, na Espanha. Ambos os embaixadores eram
unânimes em afirmar que d. João não gostara nem um pouco da noiva.
Os dois enganaram-se em suas previsões. D. Carlota menstruou pela
primeira vez em 1790, às vésperas de completar 15 anos. D. Maria I queria
aguardar até 25 de abril, aniversário da infanta, para que o casamento fosse
finalmente consumado, mas d. João não aguentava mais a espera e tudo se
realizou em 5 de abril. A rainha escreveu à mãe da jovem para informar-lhe:
“A nossa querida Carlota atingiu o estado de mulher [...]. Mesmo antes
disto, tinha a intenção de os deixar estar juntos, mesmo que por muito
pouco tempo, já que ela estava muito bem informada sobre tudo e João
tinha tanto desejo de relações conjugais.”20
D. Carlota foi levada para a cama pela rainha e suas irmãs. Foi despida e
acomodada no leito nupcial, onde esperou pelo marido. Quando este
chegou, d. Maria, antes de deixar o quarto com seu séquito, ajoelhou-se
rogando a Deus pelo sucesso da união do jovem casal. Na manhã seguinte, a
monarca enviaria outra carta a d. Maria Luísa, comunicando que os dois
haviam finalmente se juntado e passado a noite juntos, mostrando-se muito
felizes.
D. Carlota honraria sua parte no casamento e daria regularmente filhos à
coroa portuguesa. Foram, no total, nove: d. Maria Teresa (1793-1874), d.
Francisco Antônio (1795-1801), d. Maria Isabel (1797-1818), d. Pedro de
Alcântara (1798-1834), d. Maria Francisca (1800-1834), d. Isabel Maria
(1801-1876), d. Miguel (1802-1866), d. Maria da Assunção (1805-1834) e
d. Ana de Jesus Maria (1806-1857).
Completamente oposto ao temperamento da esposa era o de d. João, um
sujeito bonachão que, assim como a esposa, não tinha um aspecto exterior
muito agradável. Era bastante encorpado, de estatura mediana, com o lábio
inferior grosso e caído.21 O embaixador britânico na corte, William
Beckford, notou-lhe o ar pasmado, que, segundo afirmava, seria próprio da
ociosidade em que vivia.
D. João, nascido a 13 de maio de 1767, era o quarto filho varão da união
entre a rainha Maria I de Portugal e d. Pedro III. D. Maria foi a primeira
mulher a governar o país, apesar da tentativa do primeiro-ministro de seu
pai, o marquês de Pombal, de evitar que ela subisse ao trono: em seu lugar
deveria governar o primeiro filho do casal, d. José. Uma trama palaciana
encabeçada pela mãe da jovem princesa, a rainha d. Mariana Vitória de
Bourbon, infanta espanhola, pôs fim aos planos do marquês.
Pombal fora o virtual ditador de Portugal no reinado de d. José I, pai de d.
Maria e avô do futuro d. João VI. D. José, segundo o embaixador britânico
na corte portuguesa, era indeciso, extremamente inseguro de si e ciente de
que sua educação fora bastante negligenciada. Tal insegurança seria herdada
por seu neto, d. João VI; a consciência da educação falha, pelo bisneto, d.
Pedro.
Enquanto Pombal governava Portugal, d. José, como rei absolutista que
era, gozava a vida ao lado de sua família nas várias propriedades da coroa.
O grande terremoto de Lisboa, ocorrido no dia de Todos os Santos, 1o de
novembro de 1755, em que milhares de pessoas morreram nos escombros,
nas igrejas lotadas durante as missas, nas ruas e em suas casas, causou
profunda impressão na jovem princesa d. Maria. Também lhe causou aflição
a perseguição de Pombal aos jesuítas e à alta nobreza. A perseguição
culminou tanto na expulsão da Companhia de Jesus de todos os recantos do
vasto império lusitano quanto no julgamento, e consequente execução, dos
Távora, num processo forjado que deveria servir de exemplo a outras
famílias poderosas.
Muitas das ações de Pombal visavam diminuir o poder e a influência dos
religiosos na administração do Estado português e na corte. Ao afastar os
religiosos da administração, inclusive das escolas, o marquês buscou levar
Portugal em direção ao Iluminismo e combater o fanatismo religioso. Em
seus 27 anos à frente dos negócios portugueses, Pombal transferiu a capital
do Brasil de Salvador para o Rio de Janeiro, ficando ela mais próxima das
regiões mineradoras e da fronteira sul da Colônia, onde constantemente
havia problemas com as colônias espanholas.
Com a morte de d. José I, em 1777, d. Maria I subiu ao trono junto com
seu marido e tio, que passou a ser conhecido como d. Pedro III.
Profundamente religiosa, logo afastou Pombal do poder. Com a
implementação do que seria conhecida como a política Viradeira, o clero e a
alta nobreza voltaram a exercer forte influência na vida da corte e na
administração pública. Enquanto isso, na Universidade de Coimbra, muitos
professores acabaram sendo expulsos acusados de heresia. Ou seja, as
ciências modernas, quando conflitantes com os ensinamentos da igreja,
perdiam.
Entretanto, não foram apenas retrocessos o que se viu no governo de d.
Maria. Nele foram fundadas diversas instituições, como a Academia Real de
Ciências de Lisboa e a Real Biblioteca Pública da Corte, esta última
munida, obviamente, apenas com os livros que passassem pela mesa
censória, isto é, que não constassem nas listas de títulos, assuntos e autores
proibidos pela coroa e pela igreja.

Uma rainha enlouquecida


Oito anos após subir ao trono, uma sucessão de mortes na família real
portuguesa começou a abalar a rainha. Primeiro faleceu seu marido, a 25 de
maio de 1785. D. Maria havia passado dias ao lado da cama dele e, quando
achou que havia melhorado, foi deitar-se no quarto ao lado. Quando, pela
manhã, foi acordada pelo filho, d. João, dando-lhe os pêsames, ficou
transtornada por não ter estado ao lado de d. Pedro nos seus últimos
instantes. Logo em seguida, começou a sentir os efeitos da menopausa,
sendo levada a tratar-se com banhos termais em Caldas da Rainha. Em
novembro de 1786, a filha, d. Mariana, anunciou da Espanha o nascimento
de seu segundo filho, uma menina, a quem deu o nome da mãe. Lisboa pôs-
se a comemorar a notícia, houve festa, missas e foguetório. Três dias depois,
uma nova carta chegou com a tarja de luto, anunciando a morte da menina.
Portugal comemorara o nascimento da infanta quando esta já estava no
caixão.
No entanto, o golpe mais doloroso à rainha foi a morte de seu
primogênito, o príncipe do Brasil, d. José, em setembro de 1788. Em 1783,
d. João havia sofrido um ataque moderado de varíola. Tendo sobrevivido,
estava imunizado. D. José, contudo, pegou a doença em 1788 e d. Maria
achou que, a exemplo do que acontecera ao filho mais novo, também o
herdeiro do trono se recuperaria logo, o que acabou não ocorrendo.
Desde 1720, já havia uma “vacina” para a doença: por meio de um corte
na pele do braço, inseria-se pequena quantidade de um líquido tirado de
pústulas da varíola. O paciente acabava contraindo uma forma menos
perigosa da doença e ficava imunizado a vida toda. Assim como Catarina, a
Grande, que pediu para ser vacinada com seu herdeiro, diversas casas reais
imunizaram seus príncipes. A rainha d. Maria foi aconselhada a fazer o
mesmo, mas recusou porque, segundo seus princípios religiosos, a
vacinação seria contrária aos desígnios de Deus.
Com a morte do filho pela doença, enlouquecida pela perda, passou a se
culpar por não tê-lo vacinado, considerando-se responsável pela tragédia.
Enquanto isso, o povo, à boca miúda — como aconteceria com d. João VI e
com d. Pedro —, procuraria culpados entre os médicos e os cortesãos e
desenvolveria tramas de envenenamento e até de descaso deliberado
visando à morte do doente.
D. Maria I.

Ao que tudo indicava, o príncipe daria prosseguimento aos planos de


Pombal assim que chegasse ao trono, no intuito de modernizar Portugal. D.
José teve como preceptor o frei Manuel do Cenáculo Vilas-Boas Anes de
Carvalho, que lhe transmitira os princípios iluministas tão caros ao marquês.
Por influência do religioso, o príncipe do Brasil seria favorável a leis mais
sóbrias e benéficas ao povo, contrariando a altamente dispendiosa, vã e
pomposa manutenção do patriarcado de Lisboa.
Segundo o embaixador britânico Robert Walpole:
Suspeita-se que sua Alteza Real foi tratado de forma inábil. A nobreza é cautelosa e prudente e,
em silêncio, lamenta o melancólico acontecimento, mas as imprudentes classes baixas não se
têm refreado de refletir sobre a ignorância e a inabilidade do médico principal. Tendo isto
chegado aos ouvidos de Sua Majestade, pode ter contribuído para a sua resolução de se retirar
para Queluz.

Em novembro, d. Mariana informava da Espanha ter tido mais um filho,


mas logo novas cartas cruzariam a fronteira e inaugurariam nova fonte de
dor na já abalada rainha. O bebê nascera com varíola, e logo mãe e filho
estavam mortos, seguidos pelo genro da rainha, esposo de d. Mariana e pai
do bebê. Assim, em menos de três meses, d. Maria perdia para a varíola dois
dos três filhos ainda vivos, um neto e um genro.
Com a morte de seu confessor, um novo lhe foi indicado: José Maria de
Melo, bispo do Algarve. O anterior apaziguava os temores da rainha,
dizendo-lhe que não se preocupasse com a participação do pai no esquema
que levara à execução de membros da alta nobreza lusitana e que ele
mesmo, o confessor, sofreria por ela. Por sua vez, José Maria não só lutava
pela reabilitação das famílias implicadas na tentativa de assassinato de d.
José I, ação que levou ao julgamento dos Távora, mas também afirmava que
tanto o pai de d. Maria quanto Pombal estariam ardendo no inferno. Aliás, o
tema “inferno”, do qual a rainha morria de medo, era o favorito das
preleções do bispo do Algarve, que a ameaçava dizendo que o local estava à
sua espera.
Cercada pela morte de todos os lados, consumida em culpa pelo
falecimento do príncipe herdeiro, no auge da menopausa e com um
confessor fazendo contagem regressiva para o encontro da rainha com o
capeta, não é de se estranhar que ela enlouquecesse aos 57 anos, levando o
inexpressivo e despreparado príncipe d. João a assumir a regência em nome
da mãe.
O príncipe regente
D. João, com a morte do irmão, passou a ser o novo príncipe do Brasil,
título dado ao herdeiro da coroa. Após quatro anos assim, ele tomou as
rédeas do poder a 10 de fevereiro de 1792. Oito dias antes, d. Maria I
enlouquecera definitivamente durante a execução de uma peça teatral no
palácio real de Salvaterra, puxando seus cabelos e roupas enquanto os
serviçais tentavam acalmá-la, sem, porém, tocarem em sua pessoa, a fim de
não cometerem afronta contra Sua Majestade.
Sete anos durou o ofício informal de d. João em cuidar dos negócios do
Estado português; depois de muito relutar, ele enfim aceitou o encargo, que
já lhe vinha sendo solicitado pelos principais ministros, de assumir como
príncipe regente em nome de sua mãe. D. Maria I foi declarada oficialmente
louca ao fim desse período, durante o qual passou por terríveis tratamentos
aplicados pelo dr. Francis Willis, médico do rei da Inglaterra, Jorge III.
Entre os procedimentos estavam: purgativos, vomitórios, o uso de camisas
de força, imersão em banhos congelantes e a aplicação, nas pernas, de
pomadas que provocaram úlceras. Por fim, e uma vez que a rainha não
queria mais alimentar-se, criaram um instrumento com o qual lhe enfiavam
a comida garganta abaixo.
Com a chegada oficial de d. João à regência, a relação entre ele e d.
Carlota Joaquina deteriorou-se. Ressentida por querer compartilhar o
governo com o marido e notar que isso não ocorreria nunca, aquela mulher
sem dotes femininos, baixa e, após uma queda de cavalo, também manca —
mas também extremamente inteligente e ávida pelo poder — acabou
desenvolvendo sua própria rede de informações e intrigas. O casamento,
com isso, foi desmoronando. Tudo convertia-se em motivo de desavença —
por exemplo, se d. João concordava com o casamento de uma dama de d.
Carlota com certo fidalgo do paço, esta se punha contra o arranjo e ao lado
da dama que desejava se casar por amor.
D. João, assim como a mãe d. Maria, era dado a crises de depressão,
deixava-se ficar cada vez mais em Mafra. Entre 1805 e meados de 1806,
teve diversos incômodos, tonturas e indisposições, isso tudo aliado à
melancolia. De Mafra, acabou partindo para Vila Viçosa, e os rumores de
que estava com os mesmos sintomas da primeira fase da doença mental que
atingira d. Maria começaram.
Em 1806, d. Carlota escreveria aos pais, os reis da Espanha, para relatar-
lhes que “o príncipe está com a cabeça quase totalmente perdida”.22 Ao pai,
foi mais longe e pediu que pressionasse d. João a fazê-la membro do
Conselho de Estado.
A princesa, em parceria tanto com os marqueses de Alorna e de Ponte
Lima quanto com os condes de Sarzedas e de Sabugal, procurou tomar a
regência. Vazada a conspiração, que ficaria conhecida como a “conspiração
dos fidalgos” ou “de Mafra”, o príncipe regente, em um raro assomo de
energia, retornou a Lisboa para dar fim à trama, desterrando diversos nobres
e demitindo servidores da corte.
D. João e d. Carlota passariam a viver em cortes separadas. Enquanto ela
passava a maior parte do tempo na sua Quinta do Ramalhão, ele ficava no
palácio-convento de Mafra, habitação rica e monumental construída por
seus antepassados com a fortuna proveniente das colônias; ali, gostava de
assistir às liturgias e acompanhar peças de música sacra. Quem mais se
prejudicou com a separação foi o pequeno príncipe da Beira, d. Pedro de
Alcântara, que acabou por morar no Palácio de Queluz em companhia da
avó louca.
D. João VI.

9 D. Pedro IV. Disponível em:


http://www.dpedroiv.parquesdesintra.pt/cronologia/1798/julho/d/preparativos-para-o-nascimento-de-d-
pedro/7#datas. Último acesso em: 24/10/2014.

10 Determinados tecidos eram legalmente proibidos de entrar em Portugal. É provável que a tal “renda
fina” tenha vindo de fora do país. Sobre o assunto: PEDREIRA, Jorge Miguel. Indústria e atraso
económico em Portugal (1800-1825): uma perspectiva estrutural. p. 563-596.
11 Gazeta de Lisboa no 39, 28/09/1798.

12 RESENDE, Marquês de. Elogio histórico do senhor rei D. Pedro IV. p. 5.

13 Op. cit., p. 6.

14 LACOMBE, Lourenço Luiz. João VI, p. 145.

15 Ofício do Marquês de Louriçal, apud BEIRÃO, Caetano Maria de Abreu. Dona Maria I, 1777-1792,
p. 321.

16 A Real Barraca era um palácio de madeira, um edifício comprido, térreo. O prédio foi construído em
1757, após o grande terremoto que destruiu grande parte da cidade de Lisboa. D. João V, depois do
terremoto, passou a temer construções de pedras.

17 ROBERTS, Jeniffer. D. Maria I, p. 62.

18 PEREIRA, Ângelo. D. João VI, Príncipe e Rei, vol. I, pp. 45-6.

19 BOMBELLES, Marc Marie. Marquis, Journal d’un Ambassadeur de France au Portugal, 1786-
1788, p. 313.

20 BEIRÃO, Caetano Maria de Abreu. Dona Maria I, 1777-1792, p. 447.

21 HISTÓRIA de el-rei D. João VI, p. 127.

22 NOGUEIRA, Francisca L. Carlota Joaquina, cartas inéditas, pp. 87-8.


Rumo à primeira
grande aventura

D. MARIA parecia enlouquecer junto com o mundo que conhecera até


então. Em 1789, teve início a Revolução Francesa, que destruiria todos os
resquícios do feudalismo francês e derrubaria os privilégios da aristocracia e
da igreja. A monarquia absolutista dos Bourbon, na França, cairia, e em
1793, para tentar sepultá-la completamente, foram julgados e decapitados
diante da sanguinária turba parisiense o rei Luís XVI e a rainha Maria
Antonieta. Esse período da Revolução ficou conhecido como Terror; nessa
fase, vários nobres, aristocratas e prelados franceses fugiram para salvar a
própria vida, sendo recebidos em diversas cortes, entre as quais a
portuguesa. Muitos seguiriam futuramente para o distante Brasil.
Com a quebra das estruturas do antigo regime e, consequentemente,
também das velhas alianças familiares, a Espanha e a França acabaram por
se alinhar diplomaticamente, em 1795, contra a Inglaterra. Isso deixou
Portugal em uma posição delicada, ainda mais porque enviara tropas para
ajudar os espanhóis e os britânicos contra a França revolucionária na
Campanha do Rossilhão, na região dos Pirineus. A Espanha, sem comunicar
a seus aliados, assinou o Tratado da Basileia e, juntando-se ao antigo
inimigo, pôs fim ao conflito. Portugal viu-se traído pelos espanhóis e
pressionado, por ambos os países, a se aliar a eles contra os ingleses. A
Inglaterra era seu principal parceiro econômico e, consequentemente,
também militar.
D. João tergiversou, tentando manter a neutralidade do frágil Portugal,
que por anos estivera sofrendo com o descaso de d. Maria e depois do
príncipe regente, incapazes de modernizar, treinar e melhor equipar seu
exército. Enquanto o príncipe tentava ganhar tempo em negociações que lhe
garantissem a paz, o impaciente e poderoso ministro espanhol Manuel de
Godoy, amante da rainha Maria Luísa, mãe de d. Carlota, pressionou a
França para uma ação conjunta contra o vizinho. Os portugueses podiam
não dispor de um exército significativo, mas tinham diplomatas e espiões
(se é que houvesse diferença entre ambos à época) nas principais cortes
europeias. Assim, foram descobertos os planos da Espanha. D. João
solicitou ajuda à Inglaterra, que desembarcou uma força expedicionária de
seis mil homens. Tal força seria desmobilizada futuramente, já que, além da
guerra diplomática, nenhuma invasão ocorreu.
Em meio a todas essas tensões, d. Carlota pegou a pena em 20 de julho de
1798 para pressionar o pai, o rei Carlos IV da Espanha:
Sendo assim, sinto vivamente as ameaças de V.M. contra seus próprios descendentes, e não
posso concordar com que não haja meios de compor tudo de maneira que o mundo não seja
testemunha de um proceder da parte de V.M. contrário à natureza. Ah, querido Papai, e que
glória dará a memória de V.M. ser um pai tão sanguinolento com a destruição da sua Casa, dos
bens e da vida de seus filhos? E isso para se queria? Para agradar a um governo coberto do
sangue da nossa família.23 [...] O governo francês, em seu plano de revolução universal, e já se
me afigura, juntamente com nossa destruição, a de V. M.,24 uma vez que consintas que entrem
armados em seus estados aqueles malditos instigadores e pregadores da rebelião.25

Com o golpe de 18 de Brumário, em 9 de novembro de 1799, e a ascensão


de Napoleão, uma política externa ainda mais agressiva surgiu por parte da
França. Em 29 de janeiro de 1801, ela e a Espanha assinaram um acordo
estipulando a invasão de Portugal caso este não concordasse em:
• Romper diplomaticamente com a Inglaterra e fechar os portos
portugueses aos navios britânicos, permitindo no lugar o comércio
com os espanhóis e os franceses.
• Ceder parte de seu território para compensar a perda, pela França e
Espanha, das ilhas de Minorca e Malta, tomadas pelos ingleses.
• Indenizar a Espanha e a França por prejuízos causados pela sua
posição favorável à Inglaterra.
• Rever todas as fronteiras.

Sem acordo, tanto o embaixador francês quanto o espanhol deixaram


Lisboa. Ignorando que o pai assinara a declaração de guerra a Portugal no
final de fevereiro, d. Carlota escreveu-lhe em 22 de março de 1801:
Senhor,

Papai do meu coração, da minha vida e da minha alma: como soube que o Príncipe26 escrevia a
V.M., quis aproveitar-me da ocasião para pôr-me aos pés de V.M. e assegurar-lhe quanto me
afligiu com essas dissenções que há entre estas duas Cortes, Deus queira apaziguá-las segundo
os desejos do príncipe, e meus; agora peço a V.M. que me dê sua benção, e aos pequenos, e
que, lembrando-se de que tem aqui esta filha, e cinco netos, às vésperas de seis, há de ajudar
para que nos [...] em sossego, como todos desejamos.27

Um mês após a carta da infanta, teve início o que ficou conhecido como a
“Guerra das Laranjas”, um confronto que durou menos de um mês e no qual
tanto a Espanha quanto Portugal ganharam e perderam. Enquanto a região
portuguesa de Olivença, na fronteira com a Espanha, foi tomada pelos
espanhóis, Portugal conquistou terras espanholas no Brasil. O Rio Grande
do Sul aumentou o seu território em um terço; no Mato Grosso do Sul, a
tomada e consequente destruição do forte São Jorge, à margem meridional
do rio Apa, permitiu que a fronteira brasileira se consolidasse
definitivamente ali. A mãe de d. Carlota, rainha Maria Luísa, teria recebido
de seu amante, o ministro Manuel Godoy, um ramo de laranjeira
supostamente colhido nos campos de Elvas, informando-lhe assim de que
tomara Olivença — daí o nome pelo qual a rápida guerra ficou conhecida.
Em 1801, além da perda de parte do território português, o suplemento da
Gazeta de Lisboa no 24, de 19 de julho, anunciava:
Havendo enfermado de bexigas a 30 de Maio o Sereníssimo Senhor D. António, Príncipe da
Beira, dentro de poucos dias ofereceu o mal sintomas terríveis. [...]. Como pois, apesar de todos
os socorros da Arte, se tornassem mais temerosos os sintomas, determinou logo o Príncipe
Regente N.S., por efeito da sua grande piedade religiosa, unida ao seu singular desvelo paternal,
que se implorasse o auxílio do Céu; e em consequência se fizeram Preces públicas em todas as
Igrejas desta Capital. Não foi porém do agrado da Providência ouvir estas rogativas, [...] passou
S. A. R. a melhor vida a 11 do corrente pelas 8 e meia da noite, em idade de 6 anos, 2 meses e
20 dias. Esta grande perda deixou a seus Augustos Pais penetrados da maior mágoa, não só pelo
carinho e ternura com que amavam o defunto Príncipe, senão também por conhecerem de mais
perto as raras qualidades que possuía em grão muito superior às peculiares de tais anos; porém
em meio de tão viva dor deram novas provas da sua constante piedade, sofrendo com uma
verdadeira resignação Cristã o expressado golpe, que igualmente afetou as demais Pessoas
Reais, e a toda a Corte.

Assim, com a perda do irmão mais velho por varíola, d. Pedro, então com
três anos incompletos, recebeu o título de príncipe da Beira, que era dado ao
filho mais velho do herdeiro da coroa. A este, era reservado o título de
príncipe do Brasil, tal como na Inglaterra o herdeiro tem o título de príncipe
de Gales.
Enquanto a sucessão ao trono português era remodelada pela morte de
mais um Bragança, a Europa tinha suas fronteiras redesenhadas por
Napoleão. A França crescia territorial e espiritualmente. Os ideais
propagados pela Revolução Francesa, o exército napoleônico e o gênio
militar do corso apavoravam as monarquias europeias ainda de pé. Portugal,
visando manter a neutralidade, pagava, e bastante caro, por isso. Em maio
de 1803, d. João concordou em fazer um acordo com a França em que lhe
daria um milhão de libras, dividido em prestações de 40 mil por mês. O
conselheiro Rodrigo de Sousa Coutinho protestou. Segundo ele, o dinheiro
seria mais bem empregado na defesa de Portugal do que em “sujeitar-se a
um sistema de escravidão perpétuo, e que constituirá V.A.R. a feudatário do
governo francês”.28

A educação do príncipe
Em 1804, d. João lançou seu olhar ao filho, que até então vinha sofrendo
com diversas doenças infantis, como sarampo e lombrigas. O principezinho
continuava morando com a avó louca em Queluz, cercado de amas de leite
que se revezavam em disponibilizar ao príncipe seis seios que o
sustentavam.29 Contava também o pequeno Pedro com uma aia, a marquesa
de São Miguel, d. Mariana Xavier Botelho, e um aio, d. Vasco Manuel de
Figueiredo da Câmara Cabral.
Estava na hora de começar a educar o príncipe da Beira. Um de seus
primeiros tutores foi o vice-reitor da Universidade de Coimbra, José
Monteiro da Rocha, matemático e astrônomo que se tornou conhecido como
o grande reformulador dos ensinos matemáticos da instituição. Ele partira
de Portugal para o Brasil ainda menino e foi criado por jesuítas em
Salvador, na Bahia. Após a expulsão dos religiosos por Pombal, Monteiro
da Rocha deixou a ordem e retornou à pátria aos 32 anos, no intuito de
concluir os estudos. Quando de sua nomeação como tutor do príncipe, em
23 de maio de 1804, contava com 68 anos. O jovem pupilo tinha cinco.
Monteiro da Rocha foi indicado ao cargo de tutor de d. Pedro por
Domingos Agostinho Vandelli. Médico e conselheiro do príncipe d. João, o
italiano Vandelli fazia parte da comissão científica europeia importada por
Pombal para reformar a educação portuguesa. Professor do Colégio dos
Nobres e da Universidade de Coimbra, ministrou aulas de química e de
história natural. Seu principal discípulo foi o brasileiro José Bonifácio de
Andrada e Silva, cuja filha, Carlota Emília, viria a se casar com o filho de
Vandelli, Alexandre Antônio, que, no Brasil, seria professor de botânica e
ciências naturais de d. Pedro II.
Vandelli, em carta ao príncipe regente, apresentou o seguinte parecer
quanto à escolha de um tutor para d. Pedro:
É tempo para nomear-se mestre para o Príncipe da Beira. A idade de S.A.R. é a mais própria
para um mestre para o ir educando, e dispondo-o a pouco e pouco a proporção dos anos, e do
temperamento a formar-se um grande virtuoso Príncipe. Por este emprego é necessária pessoa,
que além dos conhecimentos científicos, seja dotada de honra, prudência, desinteresse, religião
das histórias, e principalmente do conhecimento dos homens. Eu não conheço outro igual ao Dr.
Monteiro da Rocha, do mesmo parecer foi sempre o Príncipe.30

Quanto à idade avançada, não se tratava de empecilho. O italiano diz:


“Vivendo o mestre 12 ou 15 anos tem tempo suficiente para educar e
ensinar o discípulo, que chegando a governar não precisa mais que hábeis
ministros.”31 Ou seja, um professor já idoso morreria provavelmente antes
que seu aluno subisse ao trono, evitando se transformar em alguém influente
junto ao novo rei. José Monteiro, ao falecer em 1819, deixou toda a sua
biblioteca para d. Pedro.32 Além dele, também foi professor do príncipe o
frei Antônio de Nossa Senhora da Salete, que lhe dava aulas de latim e
literatura.
Das publicações pedagógicas então editadas em Portugal — como os
Apontamentos para a educação de um menino nobre (1734), escrito por
Martinho de Mendonça Pina e de Proença, e Breve desenho da educação de
um menino nobre (1781), de frei José Caetano Brandão, entre outros —
podemos inferir que à educação clássica de um nobre (ler, escrever,
aprender línguas etc.) era mesclada a educação moral e religiosa.
Uma curiosidade é que as atividades físicas que d. Pedro cultivaria (como
a natação, a escalada e os exercícios físicos em geral) e que, mais tarde,
tentaria impor aos filhos, principalmente à futura rainha de Portugal, d.
Maria II, podem ter resultado do método empregado pelo tutor. Martinho de
Mendonça, em sua obra Apontamentos, dividiu o método de ensino em três
tópicos, sendo o primeiro a educação física da criança, em que pregava:
[...] Ainda que o principal fim da boa educação deva ser adornar de virtudes a alma, também
deve atender a quanto pode adquirir para o corpo, disposição perfeita, robusta, e capaz, não só
do estudo, mas de todos os laboriosos exercícios da vida ativa, e militar, e não somente a saúde,
e vigor do corpo, é meio para os adiantamentos no estudo das ciências [...] e assim devem os
pais desde que nascem seus filhos aplicar todo o cuidado para lhe aumentem o vigor e conservar
a saúde.33

Por outro lado, Martinho de Mendonça acreditava que a instrução seria a


parte menos importante da educação. A formação de um moço nobre
deveria ter como fim viver prudente e virtuosamente, saber governar a casa
e a família, além de servir à pátria.34
Além do ensino clássico, seu primeiro preceptor poderia ter-lhe narrado
sua vida na distante colônia, imprimindo na alma do jovem aluno a sede de
aventuras que lhe marcaria a existência. O certo é que, diferentemente do
pai, d. Pedro I não acabou “embalsamado”, termo com que o diplomata
britânico Beckford ironicamente se referiria à vida dos príncipes
portugueses na corte antes do advento napoleônico:
A mais rigorosa etiqueta prende os infantes de Portugal dentro dos seus palácios, e por isso
poucas vezes consta que eles se confundam, ainda mesmo incógnitos, com a multidão; deste
modo os seus lisonjeiros sorrisos ou confidenciais bocejos não são prodigalizados ao vulgo dos
observadores.
Esta forma de embalsamar príncipes vivos não é, no fim de tudo, má política: conserva-os
sagrados, concentra-lhes a sua real essência, tão fácil de se evaporar pela exposição!35
A tempestade
Essa modorra da corte portuguesa, cuja vida tinha como ponto mais alto
assistir a fogos de artifícios, merendar em quintas vizinhas a Queluz e
seguir todas as procissões e missas possíveis, estava próxima de ser abalada.
Enquanto as nuvens no horizonte pareciam cada vez mais negras, a corte se
reuniu no Palácio de Queluz, em abril de 1805, para a entrega das
credenciais do novo embaixador francês em Portugal. Jean-Andoche Junot
também era conhecido como “Junot La Tempête”,36 dado o vigor de seu
temperamento, a obsessão pelos objetivos impostos e a ânsia de avançar
sempre. Conforme relatou o escritor português Raul Brandão: “Junot
apresenta-se em Queluz com o brilhante uniforme de coronel general dos
hussardos, branco e azul. Esbelto, louro, com cinco cicatrizes no rosto, uma
das quais ainda perfeitamente visível.”37
A esposa de Junot, Laura, deixou registrada em suas memórias a
impressão do marido ao se apresentar a d. João:
Junot se saiu bem em seu papel diplomático e foi recebido com especial distinção, inspirado,
creio eu, pelo medo que poderia causar um ministro de paz como Junot, que estava disposto
para dizer-lhes como Romain: eu carrego a paz ou a guerra nas dobras do meu casaco. [...]

Quanto à impressão causada nele pelo príncipe regente e os demais


membros da família real portuguesa, Junot teria confidenciado à esposa:
— Meu Deus, como ele é feio! — ele me disse —; meu Deus, como a princesa é feia; meu
Deus, todos eles são feios! Há apenas um rosto bonito lá: o do príncipe herdeiro, o Príncipe da
Beira, o Infante D. Pedro. Ele é encantador; parece uma pomba em meio a corujas. Mas eu não
posso adivinhar — acrescentou Junot — por que o príncipe do Brasil me olhava com tanta
atenção. Ele não tirou os olhos de mim um instante.
Logo soubemos o que tinha causado essa curiosidade singular. Dois dias depois da
apresentação, o primeiro criado de câmara do Príncipe Regente se apresentou e perguntou se o
Embaixador da França estava disposto a emprestar seu uniforme dos hussardos para o alfaiate
de Sua Alteza Real fazer um uniforme adulto e um outro infantil, para Dom Pedro.38

Junot não chegou a ver os príncipes vestidos com as réplicas dos uniformes
dos hussardos, mas a esposa, sim. Laura recordaria que, enquanto d. Pedro,
uma criança encantadora, ficara bem em seu pequeno uniforme, a imagem
de d. João era cômica: “É uma dessas lembranças que guardamos para
aqueles dias sombrios, quando é preciso sorrir da vida.”39
Após a derrota naval franco-espanhola para os ingleses em 1805, próximo
ao cabo Trafalgar, na costa da Espanha, Napoleão decidiu que, se era
impossível invadir a Inglaterra, ele a asfixiaria financeiramente. Ciente da
Revolução Industrial que os ingleses vivenciavam e sabendo que, sem
matéria-prima, eles não conseguiriam preservar a saúde econômica do
império, Napoleão acabou por instituir, em 1806, o Bloqueio Continental.
Nenhum produto da Inglaterra, nem mesmo seus cidadãos, poderiam entrar
nos territórios governados pela França. Posteriormente, o bloqueio passou
também a considerar “sem bandeira” qualquer navio estrangeiro
proveniente de porto inglês, que estaria então suscetível a ter sua carga
confiscada pela França.
Enquanto Portugal era ameaçado externamente, internamente d. João
lidava tanto com uma depressão profunda quanto com as tramas de d.
Carlota e diversos nobres, que, na tentativa de salvar a si próprios e a
Portugal, voltaram-se contra ele por intermédio da Espanha. Na tentativa de
impor sua presença no governo, d. Carlota pressionava o pai, o rei espanhol,
para apoiá-la. Em 13 de agosto de 1806, escreveu-lhe:
Vou aos pés de V.M. na maior consternação para dizer a V.M. que o Príncipe está cada dia pior
da cabeça, e que em consequência está tudo perdido, porque aquelas figuras estão cada dia mais
absolutas, e que é chegada a ocasião de V.M. acudir-me a mim, e a seus netos, como V.M. verá
pela carta anexa do Marquês de Ponte Lima, porque a pressa e o segredo não dão possibilidade
de mandar um papel assinado por toda ou quase toda a Corte, que eles me ofereceram, para que
o mandasse a V.M.; isto se remedia mandando V.M. uma intimação de que quer que eu entre no
despacho, e que não lhe aceita réplica, porque, se a der a resposta será com armas na mão, para
vingar as afrontas que F.M. sabe que ele me está continuamente fazendo, e para amparar a seus
netos, já que não têm um pai capaz de cuidar deles. V.M. perdoe a intimidade que me dou, mas
é este o modo de evitar que corra muito sangue neste reino, porque a Corte quer já sacar a
espada em meu favor, e também o povo, porque se vê por fatos imensos que está com a cabeça
perdida; assim, peço a V.M. faça o dito verdadeiro, há de fazê-lo logo, e eu farei então com que
ele mesmo emende muitas coisas, porque lhe meto medo ameaçando-o com o que hei de dizer a
V. M. para que me ajude, já que ele não me quer fazer o que é de razão, e bem do reino [...].40

A tentativa desesperada acabou se revelando infrutífera: sua família na


Espanha calou-se a respeito do assunto. Além disso, quando a trama foi
descoberta, a tensão em seu casamento tornou-se tamanha que Carlota só
voltaria a se encontrar com o príncipe em ocasiões formais na corte.
Em agosto de 1807, a pressão da França e da Espanha sobre Portugal se
intensificou. A França exigia que Portugal ingressasse no Bloqueio
Continental, abandonando por completo sua neutralidade e fechando seus
portos ao comércio com a Inglaterra. Além disso, exigia que fosse expulso o
embaixador da Inglaterra, declarada guerra aos ingleses, presos todos os
súditos britânicos em seu território e confiscadas as suas propriedades.
Como se tudo isso não bastasse, Portugal teria que entregar a frota de navios
à França e à Espanha, além de fornecer fundos a ambos os países em sua
guerra contra os ingleses. Não fossem obedecidas as exigências até 1o de
setembro, ambas as potências declarariam guerra ao país.
Desde 1801, d. João vinha buscando um meio-termo para Portugal no
intricado jogo político europeu. De um lado, caso o príncipe se aliasse aos
espanhóis e franceses, a poderosa armada inglesa que dominava o Atlântico
daria fim ao domínio português em sua rica colônia americana. Do outro, a
crescente pressão da Espanha e da França sobre o território português punha
em dúvida a continuidade de uma metrópole capaz de se refestelar na
bonança econômica e mercantil vinda, principalmente, do Brasil.

Brasil como sede do poder, uma ideia


antiga
Diversos outros soberanos, intelectuais e políticos já haviam pensado
seriamente em transferir o centro do poder de Portugal para o Brasil: em
1580, durante a luta para manter Portugal independente da Espanha, a ideia
foi cogitada; d. João IV, Pombal, o padre Vieira, entre outros, já haviam
considerado o mesmo. Em 1801, d. Pedro, marquês de Alorna, escreveu a d.
João, durante a Guerra das Laranjas:
V.A.R. tem um grande império no Brasil, e o mesmo inimigo que ataca agora com vantagem,
tal vantagem, talvez que trema, e mude de projeto, se V. A. R. o ameaçar de que dispõe a ir ser
imperador naquele vasto território adonde pode facilmente conquistar as colônias espanholas e
aterrar em pouco tempo as de todas as potências da Europa. Portanto é preciso que V. A. R.
mande armar com toda a pressa todos os seus navios de guerra, e todos os transportes que se
acharem na praça de Lisboa.41

Em 1803, d. Rodrigo de Souza Coutinho disse em carta ao príncipe


regente:
Portugal [...] não é mais essencial parte da monarquia; [...] ainda resta ao seu soberano, e aos
seus povos, o irem criar um poderoso império no Brasil, donde se volte a conquistar o que se
possa ter perdido na Europa [...] e donde se continua uma guerra eterna contra o fero inimigo,
que recusa reconhecer a neutralidade de uma potência, que mostra desejar conservá-la.
Quaisquer que sejam os perigos, que acompanham tão nobre, e resoluta determinação, os
mesmos são sempre muito inferiores aos que certamente hão de seguir-se da entrada dos
franceses nos portos do reino, e que ou hão de trazer a abdicação de V.A.R. à sua real coroa, a
abolição da monarquia, ou uma opressão fatal.42

Dessa vez, Portugal tomaria medidas mais efetivas do que a mera política
de procrastinação adotada, até ali, pelo governo de d. João. Em reunião do
Conselho de Estado em 19 de agosto de 1807, diante do ultimato da França
e da Espanha, ficou decidido que o país não aceitaria a reivindicação por
completo: fecharia os portos à Inglaterra, com prévia concordância dos
britânicos, mas não declararia guerra a eles, não expulsaria seu embaixador,
nem tomaria qualquer atitude contra os súditos ingleses. Outra medida
importante foi a solicitação do regresso, a Lisboa, da frota portuguesa que
patrulhava o Mediterrâneo em busca de piratas.
Enquanto o prazo do ultimato de Napoleão se esgotava e os embaixadores
francês e espanhol pressionavam o governo de Lisboa por uma resposta
imediata, o Conselho reuniu-se novamente em 26 de agosto para decidir que
o príncipe da Beira, d. Pedro de Alcântara, então com oito anos, seria
enviado ao Brasil em companhia da infanta d. Maria Benedita, viúva de d.
José, cunhada e tia do príncipe regente, bem como duas vezes tia (tia-avó e
de primeiro grau) do menino (o esquema de casamento de algumas casas
reais criavam anomalias assim). D. Pedro deveria embarcar no navio Afonso
de Albuquerque, que vinha sendo preparado para ele. O visconde de Anadia,
secretário de Estado para os Negócios da Marinha, ia diariamente à
embarcação para assegurar-se de que as ordens estavam sendo executadas, e
d. João chegou a fazer uma visita à nau para se certificar pessoalmente das
acomodações. Foram nomeados camareira-mor e aio principal do jovem d.
Pedro os condes de Belmonte, e o local onde o príncipe deveria se instalar
acabou por ser modificado: em vez da cidade de São Paulo, seguiria para o
Rio de Janeiro.43 D. João teria tentado, segundo diversos historiadores,
informar a rainha d. Maria da situação. De acordo com o cronista Melo
Morais, a monarca, num momento de lucidez, haveria respondido ao filho:
“E tuas tias, que ficam aqui fazendo? Ou vamos todos, ou não vá
ninguém.”44

“Vamos todos”
O suposto projeto de viagem serviu como pretexto para a preparação de
uma frota que deixaria Portugal em direção à América. Enquanto os
embaixadores franco-espanhóis continuavam pressionando, o governo de d.
João tergiversava, conseguindo uma dilatação do ultimato até outubro.
Em 30 de setembro, d. Carlota já sabia dos planos de ir para o Brasil.
Segundo ela, d. João manifestara o desejo de que três de seus filhos fossem
para a colônia, a fim de dar garantia aos ingleses. Também haveria dito que,
se preciso fosse, iriam todos,45 para terror da princesa, que solicitava
encarecidamente aos pais que obrigassem o príncipe a deixá-la ir com as
filhas e a sua corte para a Espanha. Em 9 de outubro, implorou novamente à
mãe:
As crianças vão para a América para satisfação dos ingleses; e o príncipe também mandou por
tudo pronto para si; mas às escondidas de mim, minha mãe. [...] Perdoe VV. MM. tanta
impertinência, porém a necessidade do pronto socorro de VV. MM. nesta ocasião, me faz ser
importuna, porém, VV. MM. são tão bons que há de se compadecerem de mim e de 4 netas, e
livrá-las das garras dos leões [...].46

Ordens foram expedidas ao Brasil para que se suspendesse a partida de


navios carregados para a Europa. Com a falta de uma posição clara por
parte de Portugal, os embaixadores franco-espanhóis acabaram por solicitar
seus passaportes e partiram para seus respectivos países. Ainda tentando
ganhar tempo, o governo português expulsou o embaixador britânico e
ofereceu prazo e transporte aos súditos ingleses para que abandonassem
Portugal. Desesperado, d. João ainda tentou negociar o casamento do
príncipe d. Pedro com uma sobrinha de Napoleão. Já era tarde, porém: as
medidas, além de não apaziguarem o imperador francês e os espanhóis,
deixaram os britânicos em alerta. Uma frota partiu da Inglaterra em direção
a Lisboa com instruções claras: caso Portugal caísse, os navios portugueses
no Tejo deveriam ser apreendidos ou destruídos para não serem tomados
pelos franceses. Além disso, ordens foram dadas (e posteriormente
revogadas) para que as possessões portuguesas na Ásia, como Goa e Macau,
fossem tomadas pelas forças inglesas na região.
Em meados de outubro, teve início a marcha do exército francês sob a
liderança de Junot, que atravessou a Espanha para chegar à fronteira
portuguesa. Nesse ínterim, a França e a Espanha assinaram, em 27 de
outubro, o Tratado de Fontainebleau, que dividia Portugal entre os dois
países. Além disso, ameaças constantes à família Bragança vinham de
Napoleão. Em 15 de outubro, este declarava: “Se Portugal não fizer o que
eu quero, a Casa de Bragança não reinará mais dentro de dois meses.”47 O
jornal francês Le Moniteur, de 11 de novembro, afirmou que a Inglaterra via
com indiferença o que se passava com os portugueses, insinuando que,
quando Portugal fosse tomado, os ingleses se apossariam do Brasil. E
continuou: “A queda da Casa de Bragança constituirá mais uma prova de
que é inevitável a derrota de todos quantos se unirem aos ingleses.”
Na noite de 24 de novembro, o príncipe regente convocou o último
Conselho de Estado. As tropas francesas já se encontravam em território
português, e o governo acabara de receber o ultimato de sir Sidney Smith,
comandante da frota inglesa que iniciara o bloqueio ao porto de Lisboa dois
dias antes. Sir Sidney alertou que, caso as disposições portuguesas não
fossem amigáveis, apertaria ainda mais o cerco, chegando ao ponto estendê-
lo a outros portos da nação, apreenderia os vasos de guerra de Portugal e
sequestraria os navios mercantes que partiam para o Brasil. Naquela noite,
decidiu-se pelo embarque de d. João VI e de toda a família para a colônia
americana e pela reabertura de todos os portos aos navios ingleses, tanto de
guerra quanto mercantes.
No dia 25, à meia-noite, o visconde do Rio Seco foi intimado a
comparecer perante o príncipe regente no Real Palácio da Ajuda, em
Lisboa. Lá, segundo relato do próprio, d. João deu-lhe ordens relativas aos
arranjos necessários para que toda a família real embarcasse para o Brasil
no dia 27. Dotado de uma urgência e um desembaraço raramente vistos até
então, o príncipe passou a emitir ordens a outros funcionários e secretários
de Estado, solicitando-lhes que não só seus bens fossem embarcados, como
também o tesouro e os pertences da Igreja Patriarcal de Lisboa. Ordenou-
lhes ainda que repartissem pelas embarcações ancoradas os membros da
corte que acompanhariam a família real ao Brasil.48
Rio Seco ainda foi testemunha, no dia 27, do mau humor do povo de
Lisboa, que assistia taciturno ao embarque da corte enquanto seu futuro
incerto. No entanto, também incerta era a travessia de uma corte para o
outro lado do oceano Atlântico, rumo a um país completamente diferente
daquele com que estavam acostumados, tanto no que diz respeito ao clima
quanto aos hábitos, costumes e educação. Ao contrário das colônias
espanholas na América, aquela para a qual rumavam não tinha nem sistema
de ensino, nem indústrias. Tratava-se de uma tela praticamente em branco,
onde um novo estado administrativo teria que ser implantado para governar
as demais colônias e estabelecer comércio com as nações, principalmente a
Inglaterra, uma vez que os portos brasileiros de então eram abertos
unicamente em direção à metrópole: Portugal.
Os primeiros membros da família real a chegarem ao porto foram D. João
e seu sobrinho, o infante espanhol d. Pedro Carlos, filho de sua falecida
irmã d. Mariana. Em vez de retornar à Espanha, d. Pedro Carlos optara por
acompanhar os Bragança rumo ao Brasil. O príncipe ia em uma carruagem
sem nenhuma pompa, tendo o cocheiro vestido com simplicidade, sem a
luxuosa libré da corte — afinal, a multidão já apedrejara alguns carros e
seus ocupantes em fuga; não convinha, portanto, grandes solenidades para a
ocasião. Posteriormente, d. Carlota chegou com os filhos d. Pedro e d.
Miguel, as cinco filhas mais velhas e a caçula, d. Ana de Jesus Maria, futura
marquesa de Loulé, então com onze meses. De Queluz vinha a rainha de 73
anos, d. Maria, que teria exclamado ao cocheiro que partia a toda brida para
logo chegar ao porto: “Não conduzam tão depressa! Vão julgar que estamos
a fugir.”49
Uma testemunha ocular, Euzébio Gomes, anotou em seu diário a respeito
da partida da corte para o Brasil:
Embarcou a família Real no cais de Belém [...] entre lágrimas e suspiros gerais. Que grande
confusão houve no cais de Belém!!!! Todos querendo embarcar, o cais amontoado de caixas,
caixotes, baús, malas e trinta mil coisas, que muitas ficaram no cais tendo seus donos
embarcado, outras foram para bordo e seus donos não puderam ir. Que desordem e confusão!50
D. Maria enfrentou, na ocasião, sua própria Guerra das Laranjas, ou melhor,
“do” Laranja: “A rainha sem querer embarcar por forma alguma, o príncipe
aflito por esse motivo!!! Foi o Laranja51 que fez com que a rainha
embarcasse.”
O capitão, segundo o relato de Euzébio Gomes, teria abandonado
completamente a etiqueta palaciana e retirado ele mesmo a rainha do
veículo, transportando-a como uma mercadoria qualquer até pô-la no barco.
Também embarcaram naquele dia as irmãs de d. Maria: d. Maria Benedita e
d. Mariana.
Na nau Príncipe real, foram embarcados, com mais de mil pessoas, d.
Maria, d. João, d. Pedro e d. Miguel; este último, segundo o próprio
príncipe regente teria afirmado, não seria seu filho. Em 1802, o London
Observer, assim como outros jornais ingleses, chegou a relatar que d. João
afirmara a vários membros do corpo diplomático que não se considerava pai
do então recém-nascido d. Miguel, porque havia dois anos não tinha
relações sexuais com d. Carlota.52 Legítimo ou não, caso acontecesse algo
com o navio, todos os herdeiros imediatos da casa de Bragança pereceriam.

Embarque da família real portuguesa nos cais de Belém.

Enquanto os membros da família real estavam razoavelmente albergados,


o mesmo não se podia dizer de uma série de membros da corte. Muitos
contavam apenas com a própria roupa do corpo e tiveram que disputar
espaço no tombadilho. Além disso, os mantimentos e a água para toda essa
gente eram escassos.
Foi esse o caos encontrado por Sir Sidney Smith, comandante da esquadra
que até então bloqueava Lisboa, ao subir a bordo do Príncipe real para
conversar com d. João e acertar a escolta que a Inglaterra oferecia ao
príncipe em sua viagem ao Brasil.
O que devia achar o pequeno príncipe da Beira, d. Pedro de Alcântara,
dessa aventura toda? Até então, ele vivera entre algumas propriedades da
família, visitando o pai em Mafra, às vezes a mãe na Quinta do Ramalhão,
indo para Caxias e Lisboa e morando basicamente em Queluz. Agora,
porém, atravessaria aquele grande oceano para chegar à América!
Eugène Garay de Monglave nos legou uma cena viva do menino a bordo
do navio. Durante a viagem, o príncipe não demonstrou nem medo, nem
qualquer tipo de preocupação. Passava os dias misturado aos oficiais e
guardas-marinhas, participando das manobras de bordo e dos cálculos de
longitude. Quando não estava imerso nas experiências náuticas, podia ser
encontrado sentado ao pé do mastro principal lendo a Eneida de Virgílio no
original latino, o que acabou por se transformar em uma paixão: não se
passava um dia sem que fosse visto com o livro em mãos.53
Podemos inferir que aquele volume não chegara ao acaso às mãos de d.
Pedro: tratava-se de leitura escolhida por algum de seus professores a bordo,
provavelmente pelo ex-bibliotecário real de Mafra, frei Antônio de
Arrábida, responsável por ministrar ao príncipe, durante a viagem, tanto sua
educação acadêmica quanto espiritual, uma vez que o dr. José Monteiro da
Rocha havia permanecido em Portugal. Aquele franciscano alto e esguio de
36 anos, que apreciava tanto a vida mundana quanto a intelectual, era
profundo estudioso de botânica e de teoria política. A convivência a bordo
entre o príncipe e o frei se consolidaria numa relação duradoura. Frei
Arrábida, além de confessor do príncipe real, seria também seu mentor
político.
Cercado pelo oceano e em meio a tempestades que acabaram por
distanciar os navios que seguiam para o Brasil, viveu d. Pedro a primeira
parte de uma grande aventura. Afinal, que outro rei europeu havia, até
então, posto os pés na América? Ele, o pai e a avó seriam os primeiros
príncipes de uma casa real governante a desembarcarem no Novo Mundo,
316 anos após o descobrimento! E, enquanto aguardava o contato com seu
domínio do outro lado do Atlântico, com os nativos, os animais e a floresta
virgem, d. Pedro mantinha-se entretido com a Eneida, sonhando com o
Cavalo de Troia e, principalmente, com o lendário herói Eneias.
Eneias era um troiano que fugira da derrocada de sua cidade, carregando
nas costas seu velho pai e, pelas mãos, seu jovem filho. Destinado a fundar
uma nova Troia, passou por diversas aventuras e vagou, errante, pelo mar
Mediterrâneo, após o que chegou à Itália para erguer os muros de Roma.
Assim como Eneias, que podia muito bem ser comparado a d. João, que
carregou tanto o passado quanto o futuro de Portugal ao abandonar Lisboa
antes de sua queda, d. Pedro participaria, no futuro, da fundação de uma
nova nação.
23 Carlota Joaquina faz menção aos Bourbon franceses, isto é, aos reis Luís XVI e Maria Antonieta.

24 Carlota aqui dá prova de sua inteligência e perspicácia, uma vez que prevê o que realmente
aconteceria: o aprisionamento do pai e do irmão e a instalação de um irmão de Napoleão no trono
espanhol.

25 NOGUEIRA, Francisca L. Carlota Joaquina, cartas inéditas, pp. 74-5.

26 Referência a d. João.

27 NOGUEIRA, Francisca L. Carlota Joaquina, cartas inéditas, p. 76.

28 LIGHT, Kenneth. A viagem marítima da família real, p. 23.

29 MACAULAY, Neill. D. Pedro I, p. 20.

30 PEREIRA, Ângelo. Os filhos Del-Rei D. João VI, p. 71.

31 Idem, p.72.

32 RESENDE, Marquês de. Elogio histórico, p. 5.

33 PROENÇA, Martinho de Mendonça de Pina e. Apontamentos para a educação de hum menino


nobre. Lisboa Occidental, p. 2.

34 VASCONCELOS, Maria Celi Chaves. Igreja e educação: a influência da catequese nos primórdios
da literatura pedagógica. In: Religião, violência e exclusão, p. 82.

35 PEREIRA, Ana Cristina; TRONI, Dana. A vida privada dos Bragança: de D. João IV a D. Manuel
II – O dia a dia na Corte, pp. 131-2.
36 “Junot, a Tempestade”.

37 BRANDÃO, Raul. El-Rei Junot, p. 105.

38 ABRANTES, Duquesa de. Memoires de la Duchesse d´Abrantés, p. 181.

39 Idem, p. 187.

40 NOGUEIRA, Francisca L. Carlota Joaquina, cartas inéditas, pp. 87-8.

41 LIMA, Manuel de Oliveira Lima. D. João VI no Brasil, vol. 1, p. 40.

42 LIMA, Manuel de Oliveira Lima. D. João VI no Brasil, vol. 1, p. 38.

43 PEREIRA, Ângelo. D. João VI, os filhos d´el rey, p. 107.

44 MORAIS, A.J. de Melo. História da trasladação da corte portuguesa para o Brasil, p. 53.

45 PEREIRA, Ângelo. D. João VI, os filhos d´el rey, p. 130.

46 Idem, p. 132.

47 MADELIN, Louis. Histoire du consulat et de l´Empire: l´affaire d´Espagne (1807-1809), p. 82.

48 SECO, Visconde do. Exposição analytica, e justificativa da conducta, e vida publica do visconde do
Rio Seco, pp. 2-3.

49 MONTEIRO, Tobias do Rego. Notas referentes à fuga da família real para o Brasil. [S.l.], [19__].
1 p. Orig. Ms. 63,04,005 no 144 Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.

50 BRANDÃO, Raul. El-rei Junot, p. 157.

51 Francisco Laranja, capitão de fragata e patrão-mor das galeotas reais.

52 BRANDÃO, Raul. El-rei Junot, p. 117.

53 MONGLAVE, Eugène de. Correspondance de Don Pèdre Premier..., p. 13.


Parte II
Brasil – 1808-1831
Carioca mais
que português

DE SEUS 36 anos de vida, d. Pedro passou 23 no Rio de Janeiro e 13 entre


Portugal, Açores e França. Seu primeiro contato com o Brasil se deu ainda
no mar. Em 17 de janeiro, quase dois meses após embarcarem em Lisboa, o
navio Príncipe real foi localizado pelo brigue Três corações, enviado pelo
governador de Pernambuco, Caetano Pinto de Miranda Montenegro. O
barco estava carregado de mantimentos frescos da nova terra: verduras,
legumes e frutas, como mangas, cajus e pitangas.
Em 22 de janeiro de 1808, após 54 dias ao mar, a parte da esquadra que
não se perdera durante as tempestades baixou âncoras em Salvador, na
Bahia. No dia seguinte, a recepção do povo baiano aos que desembarcavam
foi efusiva. D. Pedro pôs os pés no Brasil pela primeira vez por volta das
cinco horas da tarde do dia 23, quando, junto aos pais e irmãos, chegou ao
bairro da Ribeira, na cidade baixa. O povo os ovacionava à medida que
entravam nas carruagens e seguiam pela rua da Preguiça, de onde subiram a
ladeira da Gameleira até o largo do Teatro. Por entre alas compostas de
soldados engalanados, desceram então dos veículos e seguiram a pé até a
Sé. Os sinos de todas as igrejas repicavam, e na catedral cantou-se um
solene Te Deum em ação de graças pela feliz viagem.54
Salvador deve ter feito os portugueses recém-chegados se lembrarem da
Lisboa que haviam deixado para trás. A exemplo da capital portuguesa, a
antiga capital colonial do Brasil fora construída em diversos níveis e
mostrava-se repleta de ladeiras. Entretanto, a população não lembrava a de
Portugal. Segundo o conde da Ponte, em levantamento feito um ano antes,
Salvador possuía “25.502 pretos quando o número de brancos não excede a
14.260 e o de pardos a 11.350”.55
O viajante francês Ferdinand Denis deixou-nos um retrato vivo da
escravidão e da população baiana. Denis, que esteve em Salvador oito anos
depois da corte, observou que o negro ali era “mais livre e mais considerado
do que nas colônias francesas”, sendo “menos surrado do que na Martinica
e na Ilha de França”.56 A alimentação, contudo, seria de pior qualidade:
“Farinha de mandioca, carne seca, algumas bananas, algumas espigas de
milho, eis tudo quanto deve nutri-los.” E não só a comida era ruim aos olhos
do estrangeiro:
Nunca me habituarei a ver esses bandos de homens, chegados diariamente da costa da África,
esquálidos, abatidos, com um simples pano de algodão por vestimenta. Não raro os senhores os
forçam a cantar pela rua, enquanto seguem rumo do armazém, onde esteiras escangalhadas vão
dar descanso aos corpos fatigados pela viagem.57

Outro detalhe não passou despercebido ao olhar de Denis — e,


provavelmente, também não ao de d. Pedro e do restante da corte. A
respeito das mulheres, escreveu o francês: “Às negras e às mestiças, espanta
a mobilidade incrível do traseiro delas sempre em movimento. A facilidade
das crioulas de fazê-lo girar como uma bola pasma os europeus.”58
Ao impacto da cor do povo nas ruas, do contato mais íntimo com a
escravidão, das novas cores e odores e da natureza exuberante, seguiram-se
novas cerimônias, em diversos outros dias, para comemorar a chegada da
corte à Bahia. No dia 24, d. Maria desembarcou e juntou-se à família já
instalada no palácio do governo. D. Carlota Joaquina só pisaria
definitivamente em terra firme quatro dias depois. Ocuparia um aposento na
Casa da Relação, ligada por um passadiço ao palácio. Ali, dezoito anos
depois, se hospedaria também sua futura nora, a imperatriz d. Leopoldina.

Abertura dos portos


No dia 28, o príncipe assinou a Carta Régia, que abria os portos da antiga
colônia às nações amigas. A Carta pode ser considerada o marco inicial da
independência do Brasil. Apesar de esse ato ter sido acordado anteriormente
com a Inglaterra, que continuava precisando da riqueza natural do Brasil
para abastecer a Revolução Industrial, ele pode ter sido promulgado de
forma tão imediata devido à tensão criada pelas centenas de navios que
permaneciam parados nos portos brasileiros desde a ordem de outubro do
ano anterior.
Antes da Carta Régia, o Brasil não passava de uma propriedade privada
de Portugal, sendo vedada a entrada de qualquer estrangeiro e proibido o
livre comércio, conforme narra o comerciante britânico John Armitage:
Pela política de Portugal, uma das mais belas e férteis regiões do globo havia sido privada de
toda a comunicação e comércio com as outras nações da Europa, a ponto que a residência e
admissão dos estrangeiros eram ali vedadas. Os navios dos aliados da Metrópole conseguiam
ancorar nos seus portos, mas só era permitido aos passageiros e à gente das equipagens
desembarcar, vigiados por escoltas de soldados.59

Como exemplo do controle absoluto que Portugal buscava exercer sobre a


colônia, podemos citar o caso do livro Cultura e opulência do Brasil por
suas drogas e minas. Escrita por um religioso que morava na Bahia, a obra,
após obter todas as licenças necessárias da mesa censória, foi impressa em
Lisboa no ano de 1711. Ao saber de sua existência, o Conselho
Ultramarino, órgão administrativo que governava as possessões
portuguesas, mandou suspender a edição e confiscou os exemplares em que
conseguiu pôr as mãos. O Conselho não viu com bons olhos uma obra que
trazia informações sobre as minas de ouro e diamantes do Brasil, bem como
dados econômicos referentes às demais produções locais, como a
açucareira. O livro poderia provocar a cobiça das demais nações pela
colônia americana.
Se a abertura dos portos teve consequências diretas para o Brasil, foi
unicamente porque a sede do poder havia mudado e era necessário voltar a
organizar as finanças portuguesas. A Inglaterra foi quem mais se beneficiou
com essa abertura, pois usufruía de taxas especiais de importação e
exportação. Em Londres, os comerciantes, ao saberem da possibilidade de
tratarem livremente com a antiga colônia portuguesa, mas sem terem a
mínima ideia de como era o país, mandaram diversos carregamentos de
fogões para aquecer os brasileiros, bem como pesados tecidos de lã.60
Outra consequência direta para o Brasil estaria, como afirma Sérgio
Buarque de Holanda, no “novo descobrimento”.61 Com os portos abertos, os
viajantes estrangeiros enfim podiam desembarcar livremente por aqui, e
seus relatos seriam publicados no resto do mundo mostrando hábitos,
costumes, riquezas do país.
D. João foi-se deixando ficar em Salvador, cercado de homenagens e de
crescentes manifestações de amizade por parte dos baianos, que tentavam
seduzir o príncipe e a corte na esperança de restabelecerem novamente a
capital do Brasil em Salvador. Se d. João não lhes fez a vontade maior,
correspondia porém em régios agradecimentos. Em 5 de fevereiro,
promoveu a oficialidade baiana, aumentando os postos militares de todas as
armas e distribuindo diversas condecorações. D. João parecia gostar da
cidade; era comum vê-lo em carruagem aberta, circulando e conhecendo,
com d. Pedro, seus entornos. Geralmente, vinha acompanhado de uma
multidão, que o cercava com vivas entusiasmados e recebia, em troca,
patacas de prata. No dia 11, junto com o filho d. Pedro, foi visitar a ilha de
Itaparica, onde acabaram presos por conta do vento contrário e obrigados a
pernoitar na casa de um ilhéu.62
Os baianos tentaram de tudo para fazer d. João ficar. Os comerciantes
teriam chegado a prometer-lhe a construção, por eles mesmos custeada, de
um magnífico palácio, com todos os quartos e as riquezas dignos de um
rei.63 Entretanto, o futuro da corte seria mesmo o Rio de Janeiro. Apesar de
Salvador ser uma cidade grande e bem construída, dotada de diversos
templos e grandes edificações, e a capital brasileira estar cercada de
pântanos que dificultavam e encareciam a construção de novos prédios, a
cidade baiana era muito vulnerável. O forte que ali existia oferecia pouca
proteção, uma vez que seu poder de fogo não conseguia cobrir os dez
quilômetros de largura do canal da barra.
A esquadra levando a família real e a corte zarpou para o Rio de Janeiro
em 26 de fevereiro, deixando os baianos desconsolados. Antes da partida, d.
João e d. Pedro devem ter ouvido a população que cantava pelas ruas na
companhia de músicos:

Meu príncipe regente


Não saias daqui
Cá ficamos chorando
Por Deus e por ti.64

Em 7 de março, a esquadra chegaria ao seu destino final, encontrando a


outra parte dos navios perdidos na furiosa tempestade de 8 para 9 de
dezembro que dividiu a frota, e parte da família real, durante a travessia do
Atlântico Norte.

O Rio de Janeiro
Como ainda hoje ocorre a quem tem a oportunidade de visualizar a baía da
Guanabara do mar, não é difícil de imaginar como d. Pedro e os demais
viajantes devem ter se maravilhado com a paisagem. O morro do Pão de
Açúcar,65 com seus mais de 400 metros de altitude, marcava o lado
esquerdo da entrada da barra. A cidade, diferentemente de Salvador, era
construída quase inteiramente ao nível do mar. Acima da urbe destacava-se,
ao fundo, a luxuriante vegetação tropical; entre esta e as construções da
cidade, massas brancas refulgiam ao sol. Tratavam-se do mosteiro de São
Bento, do convento de São Francisco e dos fortes do Castelo e da
Conceição, fixados a cavaleiro sobre morros que disputavam o espaço da
cidade com os alagadiços.
Em 8 de março de 1808, às quatro horas da tarde, na tentativa de fugir do
escaldante sol do verão carioca, d. Pedro e toda a família real, com exceção
da avó, desembarcaram no seu destino. Um barco levou-os até o cais do
largo do Paço, atual praça XV. De lá, assim como em Salvador, seguiram
todos, sob um pálio de seda sustentado por membros da Câmara do Rio de
Janeiro, para a missa de Ação de Graças na igreja de Nossa Senhora do
Rosário e de São Benedito, que então funcionava como Sé. Passaram por
alas de soldados perfilados e bandas de música. O povo aplaudia o cortejo, e
do céu vinha o barulho dos fogos e das salvas de canhões. À saída da igreja,
d. João e d. Pedro seguiram juntos, na mesma carruagem, escoltados por
esquadrões de cavalaria, até o “palácio” que havia sido preparado para a
família real.
Pouco antes de a esquadra aportar na Bahia, a família real havia
encontrado um navio que vinha do Rio de Janeiro. D. João teria perguntado
ao capitão se já se sabia na cidade que a corte estava para chegar. O capitão
confirmou na hora: “Sim, sabem. Se prepara a cadeia para recebê-la!”66 A
resposta provavelmente espantou o príncipe. Como assim? Haviam passado
o diabo para fugir de Napoleão e, agora que chegavam ao Brasil, seriam
encarcerados?
Quem esclareceu a questão foi d. Fernando José de Portugal e Castro, ex-
vice-rei do Brasil. Ele explicou que provavelmente o conde dos Arcos, d.
Marco de Noronha e Brito, vice-rei atual, deveria ter mandado evacuar a
antiga cadeia, localizada ao lado do Palácio dos Vice-Reis, para receber o
príncipe e sua família. Ainda tentando acalmar os ânimos, d. Fernando
procurou assegurar a fidelidade dos brasileiros, garantindo que o príncipe
seria recebido com a mais viva simpatia.67
Essa história ilustra o quão improvisada foi a instalação da família real e
da corte no Rio de Janeiro. Até então isolada, carente de hotéis ou pensões
para viajantes, a cidade teve que se adequar como pôde. Para hospedar a
família real e seus criados, o antigo Palácio dos Vice-Reis foi unido por
passadiços, ao fundo, com o convento do Carmo, e, na lateral esquerda, de
quem vê o complexo com as costas voltadas para o mar, com a Casa de
Câmara e Cadeia. Desses edifícios, só restam hoje o antigo Palácio,
atualmente Centro Cultural Paço Imperial, e o edifício que abrigou o
convento do Carmo. A antiga Casa de Câmara e Cadeia chegou a contar, ao
longo de seus 280 anos de existência, com presos famosos, como o alferes
Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes; depois, virou a sede do
Parlamento do Império. Foi demolida em 1922 para a construção do Palácio
Tiradentes, sede do Congresso Nacional à época e, hoje, da Assembleia
Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.
O conde dos Arcos mostrou grande iniciativa em unir os prédios e
redecorá-los: caiou os edifícios e forrou-os internamente com sedas.
Entretanto, as antigas celas dos monges e as dos prisioneiros, além dos
escritórios e das salas de reunião do antigo palácio, não pareceram
convidativas à família real e seus criados, que chegavam a 300 pessoas.
Para o negociante inglês John Luccock, o local não passava de uma
residência miserável a que buscaram dignificar dando o nome de palácio.68
Além da família real, seus criados e funcionários, a corte que
desembarcou na cidade comportava cerca de 20 mil pessoas. A população
do Rio de Janeiro aumentou em um terço, de 60 mil para 90 mil.69 Apesar
dos ventos liberais que varriam a Europa graças à Revolução Francesa e à
propagação de suas ideias pelo exército napoleônico, junto com a corte
chegaram também ao Rio alguns costumes feudais inerentes ao Antigo
Regime. Os membros da nobreza e do funcionalismo estatal foram
beneficiados por um velho costume, chamado “aposentadoria ativa”. Isso
lhes garantia o direito de escolher a moradia que preferissem, inclusive as
ocupadas por seus legais proprietários, quando estivessem, em função do
Estado, longe de seu local de residência efetiva. Assim que um imóvel era
requerido, um juiz ordenava as devidas intimações e a morada escolhida
recebia, à tinta ou giz, as letras P. R. (Propriedade Real ou Príncipe Real),
que os jocosos cariocas logo traduziram por “ponha-se na rua”.70

Novos locais, novos hábitos


Depois de anos separados e de meses viajando em navios distintos, não
seria dessa vez que os Bragança ficariam muito tempo sob o mesmo teto. A
paisagem do Rio de Janeiro podia ser espetacular, mas o calor tropical e a
insalubridade da cidade, onde o esgoto escoava a céu aberto pelo meio da
rua, formando poças nauseantes, fizeram com que cada príncipe partisse
para uma região diferente dos subúrbios da cidade, cada qual carregando
consigo uma parte dos filhos. D. João, com d. Pedro, d. Miguel e o sobrinho
de 22 anos, d. Pedro Carlos, foi morar em uma propriedade rural, a Quinta
da Boa Vista, a seis quilômetros da cidade. A casa lhe fora cedida, em troca
de dinheiro, postos e condecorações, por Elias Antônio Lopes, nome
aportuguesado do comerciante sírio-libanês Elie Antun Lubbus, traficante
de escravos.
Esta casa era extraordinariamente grande para um particular solteiro, pequena para a residência
de um soberano. É de notar que em 1803, sendo perguntado este Elias por que razão edificava
uma casa tamanha, respondeu (talvez com base em certas profecias, que o povo supersticioso
cria deverem-se realizar por aquela época) que era para residência do príncipe regente de
Portugal, e com efeito em 1808 a ofereceu ao príncipe, que a aceitou.71

O nome do local, Quinta da Boa Vista, fazia jus ao cenário que se


descortinava ali. À frente da residência, era possível avistar o mar; em uma
de suas laterais, o morro do Corcovado e a floresta da Tijuca dominam a
paisagem até os dias de hoje.
A casa, que abrigaria os Bragança no Brasil por 81 anos, formava,
segundo o pintor Manuel de Araújo Porto-Alegre, um quadrilátero de 240
palmos de lado. D. João habitava o local durante o dia e retornava à cidade
para dormir, ao menos enquanto a rainha d. Maria I ainda vivia. Depois de
sua morte, passou a morar permanentemente na Quinta. O quarto de d. João,
ainda segundo Porto-Alegre, media “24 palmos quadrados e tinha por
adjacência um outro um pouco menor [...]. Tinha o rei um pequeno gabinete
de trabalho, uma sala para diplomatas e uma sala do trono”, onde recebia o
beija-mão.
Gravura representando as diversas fases construtivas do Palácio de São Cristóvão, na Quinta da Boa
Vista, desde o estabelecimento de d. João VI até o fim do Primeiro Reinado.
Também do agrado de d. João era passar os verões em locais ainda mais
distantes do Rio. A partir de 1809, ele começou a frequentar a fazenda de
Santa Cruz, propriedade de 23 mil hectares que pertencera primeiro aos
jesuítas e passara, desde a expulsão da ordem pelo marquês de Pombal, à
Coroa. A fazenda ficava 80 quilômetros a oeste da cidade do Rio de Janeiro,
no caminho para São Paulo. O príncipe regente e seus filhos também
usufruíam de um sítio chamado Frexeiras, na ilha do Governador, onde
viviam vários animais, incluindo um urso72 doado pelo czar da Rússia. D.
João também era recebido por temporadas em diversas propriedades nos
arredores da cidade, como na fazenda do padre Correa.73 D. Pedro daria
continuidade ao costume de se hospedar no local e futuramente compraria
uma fazenda próxima, a do Córrego Seco, que deu origem à cidade de
Petrópolis. D. Carlota, junto com as filhas, dividia seu tempo entre uma casa
na praia de Botafogo e chácaras no Andaraí e Mataporcos.
A rainha d. Maria I foi a única a permanecer no Paço da Cidade. Ela
habitava um quarto no andar superior do antigo convento do Carmo, mas
não ficava confinada. Passeava de carruagem todas as tardes e chegou a
passar algumas temporadas em uma casa no bairro das Laranjeiras, próximo
da bica que é até hoje conhecida como “da Rainha”. De seus constantes
passeios, em que era conduzida sem vontade própria pelas damas de
companhia — tudo regido pela etiqueta que fazia a corte funcionar sozinha
—, teria se originado a expressão “Maria vai com as outras”.74
D. Maria costumava acordar por volta das 8 da manhã, tomava o
“pequeno almoço” — nosso atual café da manhã — e punha-se em um
canapé. Ali aguardava as visitas da família. Enquanto d. João ajoelhava-se
para beijar-lhe a mão, d. Carlota beijava-a de pé e perguntava-lhe como
estava. A conversa da nora com a sogra não passava de 20 minutos, quando
a princesa então se retirava e deixava d. João a sós com a mãe. Depois
vinham as netas cumprimentar a avó, com as mais velhas conduzindo as
mais novas. D. Maria, ao ver as pequenas, dizia: “Que vem aqui fazer estes
cupidinhos?” Ou: “Para que trazem cá estas pequenas?”75 Quando d. Pedro
vinha beijar-lhe a mão, a avó coçava a cabeça do jovem e afagava-lhe os
cabelos, dizendo à criada, d. Joana Rita de Lacerda: “Para este há de ser a
minha coroa.”76
No entanto, nem sempre d. Maria estava bem para receber a família. Por
vezes, acometiam-na surtos em que ficava agressiva, xingava e esbofeteava
as criadas, que acabavam fugindo do serviço alegando doença. Não, porém,
d. Joana de Lacerda, a Joaninha, que, sempre fiel e paciente, recebeu de d.
João o título de baronesa e, depois, viscondessa do Real Agrado.

Retomando a educação do príncipe


Após a chegada ao Rio, e estando já todos instalados, as “férias escolares”
de d. Pedro passaram a ter os dias contados. Em 15 de outubro, três dias
após o aniversário do príncipe da Beira, o diplomata João Rademaker
enviava a d. Rodrigo de Sousa Coutinho, ministro dos Negócios
Estrangeiros e da Guerra, bem como virtual chefe do governo, uma carta em
que ponderava a proposta de ser o principal preceptor de d. Pedro.
Depois que tive ultimamente a honra de ver a V. Exa., tenho-me empregado muito seriamente
em ponderar a importante proposição que V. Exa. me fez; e julgar-me-ia feliz, além de quanto
posso explicar se eu pudesse desempenhar as obrigações de um lugar de que depende tanta
satisfação particular, e tanta felicidade pública: de onde deve resultar tanto prazer a S.A.R., o
príncipe regente, nosso senhor, como pai; e tantas vistas de vantagem futura a Nação. [...] se for
do agrado de S.A.R. [...] que eu me encarregue de uma educação tão importante, buscarei com
empenho dirigi-la do modo que seja mais capaz de formar o coração e o entendimento, e
constituir um caráter o mais chegado que for possível à perfeição ideal.77

O que o ministro que convidara Rademaker para o cargo não sabia era que o
antigo diplomata português trabalhava como agente secreto inglês a soldo
de lorde Stragford, o arrogante e prepotente ministro da Inglaterra junto à
corte portuguesa.78 João Rademaker, que abandonara seu posto diplomático
na Dinamarca e viera para o Brasil atrás do príncipe regente, fora
representante de Portugal em diversas cortes europeias e era considerado
poliglota e refinado.
Esforçando-se para manter a posição de que gozava na corte, Rademaker
procurou ser um excelente preceptor para o jovem d. Pedro, que não se
afastou completamente de frei Arrábida. Este continuava sendo seu
confessor e professor de religião. A educação formal do príncipe era
realizada, em teoria, todos os dias, durante duas horas. No entanto, se d.
Pedro achasse algo melhor para fazer ou se algo mais interessante lhe
despertasse a atenção, simplesmente dispensava o professor. O príncipe,
além de indisciplinado, estava cercado de cortesãos fiéis ao Antigo Regime,
num ambiente em que o direito divino ditava as regras. Por conseguinte,
acatavam-lhe as vontades sem discussão. A luta deve ter sido árdua, mas
existem indícios de que Rademaker conseguiu iniciar e aprofundar o
príncipe em matemática, lógica, história, geografia e economia política.79
Além do latim, que continuava a aprender, passou a ter aulas de francês e
inglês com o novo mestre.
Na tentativa de incutir alguma disciplina no príncipe, a quem d. João não
permitia que fosse disciplinado,80 a governanta d. Maria Genoveva do Rego
e Matos tentava encorajá-lo a estudar. Chamava-o de “meu menino” e
sempre o aconselhava com brandura. O que d. Maria Genoveva não
conseguia de d. Pedro, ninguém mais conseguiria. Ela foi efetivamente a
mãe que d. Pedro não encontrou em d. Carlota Joaquina. Em 1821, a
governanta recusou-se a partir com o restante da corte porque “seu menino”
não ia.81
D. Pedro, no final da infância e começo da adolescência, já demonstrava
pouca paciência para as cerimônias oficiais, mas, por respeito a d. João,
tentava suportá-las. Uma das que detestava particularmente era a do beija-
mão.
O beija-mão era uma tradição medieval que já havia caído em desuso na
Europa, mas persistira em Portugal e no Brasil. Nessa cerimônia, qualquer
pessoa poderia ir beijar a mão do monarca e aproveitar para lhe pedir algum
favor. Tratava-se do momento em que o trono e o povo tinham contato
direto, sem qualquer intermediador. Havia até um ritual específico.
Aguardava-se pacientemente na fila; quando chegava a ocasião,
aproximava-se do trono e dobrava-se os dois joelhos simultaneamente,
apoiando, porém, um só no chão. Então se beijava a mão do soberano, que
lhe era estendida. Em seguida, era possível pedir algo ao monarca, assim
como responder a alguma pergunta feita por ele. Finalizando o processo, a
pessoa erguia-se, fazia uma reverência, virava-se para o lado direito e se
retirava.
D. Pedro, sentado ao lado da poltrona que servia de trono ao pai, também
recebia os beijos dos que vinham cumprimentar a d. João. Aos mais velhos,
respeitava; já aos rapazes de sua idade, filhos dos cortesãos, mantinha o ar
altivo que lhe era natural e evitava rir, mas desferia-lhes com os dedos
piparotes no queixo.82
Além da educação formal, d. Pedro enveredou pelas artes manuais, como
a marcenaria e a escultura. Chegou a fazer um modelo de navio de guerra e
uma mesa de bilhar completa.83 Quando a fragata Príncipe Dom Pedro foi
lançada na Bahia, em 1811, a figura de proa, escultura em madeira
representando o príncipe, fora executada pelo próprio.84 Ele também se
dedicou à música, à poesia e ao desenho. O reverendo irlandês Robert
Walsh, capelão da embaixada britânica no Brasil de 1828 a 1829, declarou:
[A] atividade a que ele mais se devota é a música, pela qual ele desenvolveu, em uma idade
precoce, uma forte predileção, e mostrou um decidido talento. Ele não apenas aprendeu a tocar
uma variedade de instrumentos, mas compôs, eu fui informado, muitas das músicas para a
capela de seu pai; e a peça mais popular agora no Brasil, tanto as palavras quanto a música são
de sua composição, atestando seu talento.85

Marcos Portugal, compositor da corte, maestro real e compositor de óperas


e música sacra, passou a dar aulas a d. Pedro em 1811, quando chegou de
Portugal. Ele encorajou o príncipe a elaborar suas próprias composições. D.
Pedro dominava diversos instrumentos musicais, como o clarim, a flauta, o
violino, o fagote, o trombone e o cravo. Para as distrações adolescentes,
tocava guitarra clássica, o conhecido violão. Com esse instrumento,
acompanhava canções e danças populares em voga no Rio de Janeiro da
época, como o fado luso-cigano, a modinha luso-brasileira e o lundu
angolano. O lundu era dançado com movimentos considerados lascivos. A
sexualidade da dança, de acordo com o historiador Neil Macaulay, poderia
ter despertado os primeiros desejos carnais do jovem príncipe:
A iniciação sexual do príncipe, que, com menos de quatorze anos, declarava que já devia ser
visto como um homem, pode muito bem ter se seguido a algum baile clandestino num terreiro
entre as casas dos escravos, na Quinta da Boa Vista ou na fazenda de Santa Cruz.86

O professor espião
Em setembro de 1814, seis anos após assumir o posto de preceptor de d.
Pedro, Rademaker faleceu. Segundo versão difundida pelo reverendo
Walsh, teria sido envenenado por uma escrava que se relacionava com
alguém da vizinhança. Estando Rademaker para se mudar de casa, a escrava
ficaria longe do amante; portanto, teria decidido envenenar o vinho que seu
senhor tomaria no jantar.
Coincidência ou não, lorde Stragford, nessa época, estava para sair do
Brasil. Caíra por completo no desagrado do príncipe regente, que escrevera
diretamente para o rei da Inglaterra a fim de queixar-se da intromissão do
embaixador britânico nos negócios de Estado de Portugal.87 Rademaker
também não gozava mais das boas graças de d. João desde 1812, quando foi
indicado pelo próprio Stragford para negociar um acordo na fronteira
meridional do Brasil. Agindo de acordo com instruções secretas do
embaixador britânico,88 ele assinou uma trégua entre as forças portuguesas e
espanholas que ignorava completamente os interesses expansionistas de d.
João na região.
Depois da morte de Rademaker, frei Arrábida tornou-se mestre do
príncipe. Com o padre irlandês John Joyce, d. Pedro continuou a estudar
inglês; padre Boiret, emigrado francês, instruiu-o em seu idioma; seu
professor de desenho e pintura foi o pintor da corte Domingos Sequeira; e,
na arte de adestrar e da equitação, coube sua educação a João Damby e
Joaquim Carvalho Raposo.89 D. Pedro, então com dezesseis anos, parece ter
se afeiçoado bastante a Rademaker, e após a perda do mestre não
demonstrou desejo de nenhum plano fixo de educação.90

D. Pedro e d. Miguel
Tanto d. Pedro quanto d. Miguel, quatro anos mais novo que o irmão, eram
afeitos a exercícios físicos. O cônsul inglês no Rio de Janeiro, James
Henderson, relatou que, certa vez, após uma audiência com d. João, estava
deixando a Quinta da Boa Vista quando percebeu d. Miguel num campo
próximo. O príncipe, vestindo grandes botas de cano alto e um chapéu de
três pontas, manejava um arado guiado por seis novilhos, tendo uma vara
comprida nas mãos. O trabalho, segundo Henderson, era desastroso e
imperfeito. Enquanto isso, d. Pedro, usando desajeitadamente um grande
chicote que fazia estalar com um barulho maior do que necessário, buscava
amansar a quarta parelha de cavalos, pois vinha trabalhando com os animais
desde cedo. Continuando a descrição dos jovens príncipes, Henderson
comenta a falta de polidez dos rapazes:
Quando ele [d. Pedro] passou, ficamos parados e tiramos nossos chapéus, ao que ele apenas
retornou com um olhar displicente. Nós também encontramos o Príncipe Dom Miguel voltando
de sua diversão agrícola, acompanhado de seu feitor. Ele é uma pessoa franzina e de aparência
pálida, de aproximadamente dezesseis anos de idade. Passando próximo de seu ombro, nós
prestamos a ele a mais respeitosa reverência, mas ele não nos honrou nem mesmo com a menor
inclinação de sua cabeça.91

Tanto d. Pedro quanto d. Miguel mantinham-se em atividade constante:


cavaleiros intrépidos e ousados, gostavam do ar livre. Empreendiam
perseguições a cavalo pelas matas, em terrenos desconhecidos, que podiam
durar horas, sem respeitarem climas nem horários. A obsessão de d. Pedro
por velocidade e resistência levou-o a aventuras desastrosas. Ele próprio
afirmava que, quando jovem, havia caído do cavalo cerca de 36 vezes.92
Isso sem contar as ocasiões em que tombou, por imprudência, a carruagem
de quatro cavalos que gostava de conduzir violentamente pelas ruas e
arrabaldes do Rio de Janeiro. Por diversas vezes foi obrigado a ficar de
cama, com costelas quebradas e outras lesões. D. Pedro também era
afeiçoado à caça, paixão que compartilharia com a futura esposa, d.
Leopoldina.
Outra diversão conjunta de d. Pedro e d. Miguel era formar, bem longe
dos olhares de qualquer adulto, dois regimentos com os filhos dos escravos.
Os regimentos, capitaneados cada qual por um dos príncipes e armados com
paus e pedras, combatiam entre si. A surra acabava sobrando também para
os irmãos. Certa vez, d. Pedro, por vários dias incapacitado devido a uma
pancada que insistia ter recebido de uma queda de cavalo, despertou
suspeitas no médico do paço, que acreditava que o ferimento na realidade
fora provocado por um porrete.93 Ele também teria se atrevido a dar
combate, com seus subordinados, a um posto da guarda do palácio. O
príncipe e seu pequeno batalhão teriam destroçado os soldados de seu pai.
Pela ousadia, teve seu jovem regimento dissolvido, ganhando em troca a
regência de uma banda militar.94
Serviçais e cortesãos
Lidando diretamente, na fazenda de Santa Cruz e na Quinta da Boa Vista,
com cavalariços e criados de nível inferior, d. Pedro seria frequentemente
visto com eles pelas tavernas do Rio de Janeiro. À educação aprendida com
esses subalternos o príncipe deveu características que escandalizaram
diversos cronistas estrangeiros. Conta-nos o sociólogo Gilberto Freyre:
O erotismo grosso, plebeu, domina em Portugal todas as classes, considerando-se efeminado o
homem que não faça uso dos gestos e dos palavrões obscenos. A mesma coisa no Brasil, onde
esse erotismo lusitano só fez encontrar ambiente propício nas condições lúbricas de
colonização.95

A relação de d. Pedro com os cortesãos que gravitavam ao redor do pai não


era das melhores. A certo nobre que horrorizara-o com suas maneiras gentis
e aduladoras, ordenou que o tratasse como homem.
Um amigo para toda a vida, com educação superior à média dos
companheiros do príncipe, foi Francisco Gomes da Silva, apelidado de
Chalaça. Era oito anos mais velho que d. Pedro, bastante espirituoso e
brincalhão; assim como o amigo, gostava de tocar guitarra e dançar o lundu.
Chalaça era mulherengo e um grande amante de bebidas, no que se
diferenciava de d. Pedro, com quem podia contar quando abusava das
cachaças e dos vinhos, uma vez que o príncipe só bebia moderadamente.96
Francisco Gomes, que galgaria diversos cargos na corte e continuaria
servindo à casa de Bragança após a morte de d. Pedro, chegara com ela ao
Brasil. O pai, Antônio Gomes da Silva, era “mestre ourives da prata e
cravador de diamantes da coroa”. Foi na oficina do pai de Chalaça, no Rio
de Janeiro, que foram produzidos o cetro, a coroa e o espadim utilizados na
aclamação de d. João VI. As peças hoje se encontram no Palácio da Ajuda,
em Portugal. Francisco Gomes trabalhou como criado em uma das
residências reais entre 1810 e 1816, quando foi expulso por ter engravidado
uma governanta da fazenda de Santa Cruz. Depois, acabou virando
funcionário do Tesouro.
Outro grande amigo vitalício de d. Pedro foi Antônio Teles da Silva
Caminha de Meneses, marquês de Resende. A exemplo do Chalaça,
Resende permaneceria fiel ao príncipe tanto nos bons momentos quanto na
desgraça. Se estudarmos as cartas que d. Pedro trocou com ele, veremos que
pouco ou nada ficavam a dever as brincadeiras da época às de hoje,
sobretudo as de cunho sexual. Numa delas, por exemplo, d. Pedro brinca
com Resende ao sugerir que o amigo não gostava do sexo feminino:
[...] Se você fosse elegante, esbelto e amigo de moças, você teria pelas mulheres feito algum
arranjo [...] mas que há de ser? Se você assenta, que aquele pãozinho aberto é boca do inferno e
tem dentes. Desengana-se que provando há para ver, jamais fiará a sua coisa em unhas
desconhecidas. Queira-me bem, que não lhe custa nada. [...]97

Um império nos trópicos


Enquanto d. Pedro aproveitava indisciplinada e despreocupadamente a
juventude, d. João tentava criar um império nos trópicos. Para isso,
precisava tomar medidas para aparelhar a velha colônia. No Brasil, até a
chegada da corte não havia, por exemplo, um sistema próprio de educação
dotado de universidades — ao contrário das colônias espanholas na
América; tampouco existiam manufaturas e todo o aparato capaz de fazer
do Brasil a sede administrativa, política e cultural de um império. Diversas
ações do príncipe visavam mudar esse quadro. A Imprensa Régia foi criada
no Rio de Janeiro e, com isso, a produção de jornais e livros começou a ser
feita no Brasil. D. João fundou diversas instituições, como a Academia Real
de Belas Artes, o Jardim Botânico, o Banco do Brasil e a Escola de Cirurgia
da Bahia (quando lá chegou, em fevereiro de 1808). Também mandou vir da
Europa uma Missão Artística Francesa, com o objetivo de europeizar sua
capital tropical na América.
Além de todos esses melhoramentos, d. João também procurou retaliar a
invasão de Portugal pelas tropas francesas, aliadas aos espanhóis. Assim,
ordenou a tomada da Guiana Francesa e conquistou, ao sul, após longos
anos de batalhas, a Banda Oriental do Rio da Prata, que ficaria conhecida,
enquanto fez parte do Brasil, como Província Cisplatina, hoje Uruguai. Na
expedição militar enviada ao sul, estava o neto do marquês de Pombal, que
aos quinze anos já ocupava a patente de capitão do exército português e, aos
dezoito, juntou-se aos ingleses para combater as tropas francesas em
Portugal. Após a libertação de seu país, ele seguiu para o Brasil com suas
tropas e ajudou na tomada da Cisplatina, chegando a ser eleito para o
governo da província do Rio Grande. Seu nome era João Carlos de
Saldanha Oliveira e Daun, futuro duque de Saldanha.

De olho nos vizinhos


D. Carlota havia predito, em carta a seu pai,98 que a destruição de sua
família por Napoleão, na Espanha, seria questão de tempo caso ele deixasse
o exército francês cruzar sua fronteira e atacar Portugal. A princesa tivera
razão ao imaginar a voracidade do imperador da França. O pai de d. Carlota,
rei Carlos IV, abdicou à coroa em 19 de março de 1808, onze dias após a
família real desembarcar no Rio de Janeiro. D. Fernando VII, irmão da
princesa, assumiu o poder, mas ambos, pai e filho, foram feitos prisioneiros
por Bonaparte, que colocou seu próprio irmão no trono espanhol.
Os tumultos criados na Espanha por esse ato de Napoleão deram início a
uma crise político-administrativa nas colônias espanholas na América. Isso
animou a política imperialista portuguesa. A invasão das fronteiras coloniais
espanholas poderia ser interpretada como defesa dos domínios dos Bourbon,
uma vez que os principais representantes livres da família, d. Pedro Carlos e
d. Carlota Joaquina, estavam morando no Brasil.
Logo foi travada uma guerra dentro da corte do Rio de Janeiro, durante a
qual três partidos distintos foram criados.99 O almirante Sidney Smith, que
estava no Brasil, apoiou o desejo de d. Carlota Joaquina de se tornar regente
da América espanhola. D. Carlota chegou a encontrar apoiadores entre os
espanhóis e os refugiados de Buenos Aires no Rio de Janeiro; a eles, foi
dada a alcunha de “carlotistas”. Tais apoiadores a imaginavam
desembarcando, qual d. João no Brasil, no Vice-Reinado do Rio da Prata, a
fim de manter a colônia unida e coordenar, em segurança, a luta pela
libertação na Europa.100
O outro partido, liderado por d. Rodrigo de Souza Coutinho, conde de
Linhares e ministro dos Estrangeiros, via em d. Pedro Carlos, sobrinho do
rei d. Fernando e de d. João, o melhor dos dois mundos. Tendo sangue
Bourbon e Bragança nas veias, ele representava a esperança de unificar a
península Ibérica e a América Latina sob uma mesma coroa. O terceiro
partido, o de lorde Stragford, achava que quanto pior, melhor: se a América
espanhola se desintegrasse, tanto mais conveniente para os interesses
ingleses na região.
Visando maior aliança entre os Bourbon e os Bragança, e em apoio ao
plano do conde de Linhares, d. João consultou d. Maria I a respeito de um
possível casamento da princesa d. Maria Teresa, filha mais velha sua e de d.
Carlota, com o infante d. Pedro Carlos. D. Maria teria respondido que não
fazia mais política nem casamentos e mandou que Joaninha entregasse ao
filho sua caixa de joias, pois não precisava mais delas. Como presente de
casamento, d. João mandou que a filha escolhesse uma peça da avó. D.
Maria Teresa pegou um dos melhores adereços, com grandes rubis e
brilhantes; quando a Joaninha contou a d. Maria, esta lhe perguntou, num
sobressalto: “E o que darão à mulher de Pedro quando ele se casar?”101
Parecia que a avó louca era a única que não tinha ideias mirabolantes a
respeito de quem assumiria o trono. Em sua demência, estava distante do
quimérico sonho de um império gigantesco dos dois lados do Atlântico.
D. Pedro Carlos e d. Maria Teresa casaram-se no Rio de Janeiro em 13 de
maio de 1810, aniversário de d. João. Passaram então a morar com o
príncipe na Quinta da Boa Vista. Foi lá que, em novembro de 1811, nasceu
d. Sebastião, o filho do casal. Seu nome homenageava a cidade de São
Sebastião do Rio de Janeiro, que acolhera a família. O bebê real era o
primeiro Bragança nascido no Brasil. Em 9 de dezembro, o príncipe regente
conferiu ao primeiro neto o título de infante,102 e assim o recém-nascido
teve aberta a porta que levava à linha de sucessão portuguesa. Ele foi
batizado no Rio de Janeiro em 17 de dezembro, aniversário da bisavó, a
rainha; a cidade inteira engalanou-se para comemorar o evento.
Em março de 1812, o bibliotecário Luís Joaquim dos Santos Marrocos,
que viera com a corte para o Brasil, confidenciou em carta enviada ao pai:
“O senhor infante d. Pedro Carlos tem passado muito doente, creio que por
excesso do seu exercício conjugal, e por isso fizeram separar os cônjuges,
estando também a senhora d. Maria Teresa doente.”103 O infante faleceu no
dia 26 de maio do mesmo ano. Segundo Luiz Norton: “Matara-o aquela
fraqueza de peito que o trouxera sempre enfermiço e frouxo.”104 D. João,
inconsolável, encomendou que erigissem o túmulo mais imponente que o
Rio de Janeiro já vira para receber o corpo do sobrinho. Ainda hoje, a obra
de mármore de três metros de altura pode ser admirada na capela de Nossa
Senhora da Conceição, na Igreja de São Francisco da Penitência, no Largo
da Carioca.
D. Maria Teresa acabou por transformar-se na filha predileta de d. João.
Ao contrário de d. Pedro, o herdeiro presuntivo da coroa, ela tinha
permissão para acompanhar o pai tanto nas reuniões do conselho de estado
quanto nos passeios de carruagem que ele fazia ao redor de São Cristóvão.
Logo certa animosidade tomou conta dos irmãos. Enquanto isso, d. Miguel,
que diversas vezes apanhara — como predição do futuro — do exército de
d. Pedro em Santa Cruz e na Quinta da Boa Vista, tomava cada vez mais o
partido da mãe. Caso realmente assumisse a regência das províncias
espanholas, D. Carlota pretendia levá-lo consigo e as filhas para Buenos
Aires.105 O resultado de todos esses planos só serviu para separar ainda mais
a família. Em março de 1814, d. Fernando VII era recolocado no trono da
Espanha. Qualquer projeto de união entre a península Ibérica e as províncias
americanas foi então definitivamente arquivado por d. João — não,
entretanto, por d. Carlota, que ainda conseguiria casar mais duas filhas com
parentes espanhóis e fazer de uma delas a rainha da Espanha.

Um novo reino, um novo rei


A queda de Napoleão na Europa, além de restabelecer os Bourbon na
Espanha, levou à realização do Congresso de Viena em 1814, onde foi
discutida a reorganização das fronteiras e o futuro das casas reais
governantes que o francês destituíra. D. João, para fazer Portugal ter voz
diplomática ativa nesse encontro, elevou, em dezembro de 1815, o Brasil a
Reino Unido a Portugal e ao Algarve. Desse modo, os diplomatas europeus
não poderiam mais tratar Portugal com desdém, como uma corte distante e
exilada em uma colônia. Com a elevação do Brasil à condição de reino, d.
João reconhecia publicamente a quebra do pacto colonial, o que de fato
ocorrera sete anos antes, com o estabelecimento da sede do reino português
no país.
Em 20 de janeiro de 1816, d. Maria I, então com oitenta anos de idade,
adoeceu. D. João, sempre muito carinhoso, não saiu do Paço da Cidade
durante toda a doença da mãe, indo repetidas vezes visitá-la. Ela lhe dizia
que não desejava ver ninguém e que queriam matá-la, enquanto ele tentava
convencê-la de que, no fundo, queriam mesmo era curá-la. Dois meses
depois, em 20 de março, às onze horas da manhã, a rainha faleceu. D. João,
quando a viu sem vida, pôs-se a chorar desconsoladamente, abraçado a seu
corpo. Os soluços do príncipe comoveram a todos os presentes.106 Durante o
enterro, seu rosto permaneceu banhado em lágrimas.
O corpo da rainha foi vestido com uma túnica branca bordada de ouro e
um manto real de veludo carmesim, bordado da mesma maneira. Ficou
assim exposto à visitação por três dias, em uma sala mortuária no paço. Pela
meia-noite de 23 para 24 de março, um cortejo fúnebre, que d. João, d.
Pedro e d. Miguel seguiram com tochas nas mãos, depositou o cadáver da
rainha no convento de Nossa Senhora da Ajuda, junto ao de sua irmã, a
infanta d. Maria Ana, falecida três anos antes.
Nos anos seguintes, a corte se engalanaria diversas vezes. No entanto, em
lugar dos crepes negros em sinal de luto, os tecidos seriam coloridos.
Haveria danças, fogos de artifício e música, além de muitos te-déuns, para o
casamento do príncipe herdeiro e a aclamação de d. João como rei de
Portugal.
54 MORAIS, A.J. de Melo. História da trasladação da corte portuguesa para o Brasil, p. 67.

55 Correspondência do conde da Ponte ao visconde de Anadia, em 16 de julho de 1807. In:


CERQUEIRA E SILVA, Ignácio Accioli de. Memórias históricas e políticas da província da Bahia,
vol. III, p. 28.

56 Atual República de Maurício, no oceano Índico.

57 DORIA, Luiz Gastão d´Escragnolle. Um amigo do Brasil (Ferdinand Denis), pp. 225-226.

58 Idem, p. 226.

59 ARMITAGE, João. História do Brasil, p. 27.

60 GOMES, Laurentino. 1808..., p. 211.

61 HOLANDA, Sérgio Buarque de (org.). A herança colonial: sua desagregação. História Geral da
Civilização Brasileira, vol. I, tomo II, p. 13.

62 MORAIS, A.J. de Melo. História da trasladação da corte portuguesa para o Brasil, p. 74.

63 Idem, p. 68.
64 Idem, p. 69.

65 Seu nome se deve ao modo como o açúcar brasileiro era transportado para Portugal. Ele viajava nos
navios em fôrmas com o aspecto de cones invertidos, conhecidas como “pães de açúcar”. O produto
obtido pela moagem da cana-de-açúcar, a garapa, era nelas depositado depois de cozido. Por um furo
feito no ápice, o líquido escorria; no final do processo, restavam tão somente os cristais de açúcar.

66 COSTA, Sérgio Correa da. Every Inch a King, p. 16.

67 MORAIS, A.J. de Melo. Crônica geral do Brasil, vol. II, pp. 171-2.

68 LUCCOCK, John. Notas sobre o Rio de Janeiro, p. 96.

69 SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do imperador, p. 36.

70 BARDY, Claudio. O século XVIII, pp. 102-4.

71 Manuel de Araújo Porto Alegre, apud PRADO, J.F. Almeida. Tomas Ender, p. 100.

72 PRADO, J.F. de Almeida. Tomas Ender, p. 104.

73 LOUREIRO, João. Cartas de João Loureiro escriptas ..., p. 286.

74 CRULS, Gastão. O Rio de Janeiro no primeiro quartel do século XIX, p. 132.

75 MORAIS. A.J. de Melo. Crônica geral do Brasil, vol. 2, p. 160.

76 Idem.

77 PEREIRA, Ângelo. Os filhos del-rei, pp. 72-3.

78 MACAULAY, Neill. Dom Pedro I, p. 48.

79 Idem, p. 49.

80 Idem.

81 MORAIS. A.J. de Melo. Crônica geral do Brasil. vol. II, p. 212.

82 PIMENTEL, Alberto. A corte de D. Pedro IV, p. 13.

83 WALSH, Rev. R. Notices of Brazil in 1828 and 1829, vol. I, p. 183.

84 MACAULAY, Neill. Dom Pedro I, p. 53.

85 WALSH, Rev. R. Notices of Brazil in 1828 and 1829, vol. I, p. 183.

86 MACAULAY, Neill. Dom Pedro I, p. 54.


87 RANGEL, Alberto. Os dois ingleses Stragford e Stuart, p. 29.

88 MACAULAY, Neill. Dom Pedro I, p. 59.

89 PEREIRA, Ângelo. Os filhos de el-rey, p. 74.

90 WALSH, Rev. R. Notices of Brazil in 1828 and 1829, p. 182.

91 HENDERSON, James. A history of the Brazil, p. 63.

92 TAVARES, João Fernandes. Autos da autópsia do corpo de d. Pedro de Alcântara, duque de


Bragança, p. 1.

93 MACAULAY, Neill. Dom Pedro I, p. 50.

94 MONTEIRO, Tobias. Elaboração da Independência, vol. I, p. 148.

95 FREYRE, Gilberto. Casa grande e senzala, p. 438.

96 COSTA, Sérgio Correa. Every Inch a King, p. 30.

97 Arquivo Histórico do Museu Imperial, I-POB-27.01.1825-PI.B.c

98 Ver p. 46.

99 NOGUEIRA, Francisca L. Carlota Joaquina, cartas inéditas, p. 47.

100 Idem, p. 45.

101 MORAIS, A.J. de Melo. Crônica geral do Brasil, vol. II, p. 161.

102 SANTOS, Luís Gonçalves dos. Memórias para servir à história do Reino do Brasil, vol. I, p. 235.

103 MARROCOS, Luís Joaquim dos Santos. Correspondência de Luís Joaquim dos Santos Marrocos,
p. 70.

104 NORTON, Luiz. A corte portuguesa no Brasil, p. 69.

105 MACAULAY, Neill. D. Pedro I. p. 24.

106 MORAIS, A.J. de Melo. Crônica geral do Brasil, vol. II, p. 159.
Uma princesa
importada

A AMIZADE da Inglaterra com Portugal era tal que d. João VI sufocava.


As taxas alfandegárias exigidas pelos ingleses em troca da transferência e
proteção da corte e da família real chegaram a 15%, contra os 16% que os
produtos vindos de Portugal tinham que pagar para entrar no Brasil. A
justiça para os cidadãos britânicos, assim como já acontecia anteriormente
em Portugal, era resolvida pelos próprios ingleses, que tinham juízes
próprios.
A intromissão da Inglaterra, contrária ao imperialismo lusitano na
América espanhola, já irritara o príncipe a ponto de pedir a remoção do
plenipotenciário britânico no Brasil. Além disso, o governo inglês começou
a pressionar o governo de d. João para que se opusesse ao tráfico de
escravos e extinguisse esse tipo de mão de obra, da qual o Brasil dependia
inteiramente. Não que a Inglaterra estivesse totalmente envolta em
sentimentos humanitários — longe disso. Somente em 1834 a escravidão
seria abolida nas ilhas britânicas, e por essa época ainda era permitido o
tráfico de escravos irlandeses para as colônias. Segundo alguns
historiadores, os ingleses, para lucrarem ainda mais no Brasil, precisavam
ampliar o mercado consumidor do qual os escravos viviam à margem; em
1819, eles chegaram a representar um terço da população brasileira.107
Outro fator, muito mais relevante economicamente, era que o parlamento
britânico havia em 1807 promulgado um ato que abolia o comércio de
escravos no império. A supressão do tráfico encareceu o processo de
produção do açúcar inglês nas Antilhas, elevando o seu preço final no
mercado internacional, enquanto que o produzido no Brasil, com mão de
obra escrava, passou a ser mais atraente economicamente para a
exportação.
Após a derrota de Napoleão na Europa, a Inglaterra, que já garantira,
mediante um tratado diplomático de 1810, todas as regalias possíveis no
Brasil, não via por que d. João e a corte deveriam continuar na América, e
assim começou a pressionar pelo retorno dos portugueses à Europa.
Desde a expulsão das tropas francesas pelo exército inglês, em 1808, o
marechal britânico William Beresford transformara Portugal em um virtual
protetorado de sua nação. O país, abandonado pela corte, não passava agora
de uma terra arrasada pela guerra, pelos saques dos franceses — e até das
tropas inglesas — e pela carestia. Cerca de um sexto da população
desaparecera: os que não haviam morrido, tinham fugido do país.108 Não é
difícil imaginar o porquê de d. João não ter pressa alguma de retornar à
Europa.

Uma arquiduquesa austríaca


Diplomaticamente, era interessante que outra potência europeia da época se
vinculasse à casa de Bragança. Mesmo tendo recebido duas sondagens —
entre elas, a de um futuro rei das Duas Sicílias interessado em casar uma de
suas filhas com d. Pedro —, d. João mirava mais longe. Além da Inglaterra,
as demais potências europeias do período pós-napoleônico eram a Prússia, a
Rússia e a Áustria. Inicialmente, foi tentada a união do príncipe herdeiro
com uma das irmãs do czar Alexandre I da Rússia, mas as tratativas foram
encerradas devido a divergências religiosas e ao apoio da Rússia às
pretensões territoriais espanholas na América e na Europa. Os planos então
se voltaram para a Áustria.
Não seria a primeira vez que os Habsburgo dariam uma princesa aos
Bragança. Três austríacas já tinham sido rainhas consortes de reis
portugueses, sendo a última delas d. Maria Ana d’Áustria, casada com o rei
d. João V. A endogamia entre os Bragança e os Bourbon não provocava
apenas anomalias congênitas e psíquicas (bem como a prevalência da
epilepsia) na família real portuguesa, mas também acabou por criar uma
árvore genealógica sui generis. D. Maria Ana d’Áustria, por exemplo, era
mãe de d. José I e de d. Pedro III. D. José era pai de d. Maria I, que se casou
com o tio d. Pedro III; assim, ela e o pai tornaram-se cunhados. Por sua vez,
d. Maria Ana d’Áustria era avó e sogra de d. Maria I e avó e bisavó de d.
João VI, cujo avô, d. José I, era também seu tio, fazendo de sua mãe, d.
Maria I, sua prima.
Assim, no início de 1816, o encarregado dos negócios portugueses na
corte de Viena, Rodrigo Navarro de Andrade, começou as sondagens
diplomáticas relativas ao casamento de d. Pedro com uma das filhas do
imperador da Áustria, Francisco I. Os portugueses já esperavam ter
questionada a permanência da corte na América. Acaso a princesa teria que
partir da Europa e nunca mais retornar? A resposta que d. João mandou dar,
se essa pergunta fosse feita, era que:
[...] seu real intento é regressar à Europa, logo que haja conseguido preservar este Reino do
Brasil do contagioso espírito revolucionário que conflagra pelas Colônias Espanholas; e que,
outrossim, tenha inteiramente estabelecido e consolidado o novo sistema que tem começado a
por em prática, para o fim de estreitar os enlaces entre Portugal, o Brasil, e as demais
possessões da Coroa [...].109

A escolha da noiva recaiu sobre a arquiduquesa Leopoldina, o que deixou


desconfortável o chanceler de Francisco I, príncipe Metternich, que já
começara a entabular negociações para casá-la com um sobrinho do rei da
Saxônia. Em 24 de setembro de 1816, a arquiduquesa, em carta à irmã
Maria Luísa, relata a conversa que tivera com o pai imperador:
Para relatar o desenvolvimento de todo o caso, falou-me nele o querido papai no mesmo dia em
que se realizou o casamento de Maria. Deixou-me escolher entre aquilo de que escrevi uma vez
a você, há tempo, e o presente. Dentro de dois dias, porém, devia estar decidida. Dois anos
deveria esperar quanto ao primeiro e então ele iria escolher entre todas as princesas alemãs.
Além disso, sabia-se que eu não lhe tinha agradado. Em resumo, o querido papai falou duma
maneira que com um pouco de inteligência percebi que queria o último. [...] Pois, você sabe de
experiência própria que uma princesa nunca pode agir como quer.110
A educação de d. Leopoldina
Casar-se com uma Habsburgo era ter consigo a melhor mulher que um
governante poderia ter, e d. João sabia muito bem disso. A máxima
instituída pela imperatriz Maria Teresa da Áustria — os outros que façam
guerra, tu, Áustria feliz, casa-te — já indicava o meio pacífico pelo qual o
império dos Habsburgo garantia seu poder: a família criava as melhores
princesas da Europa.
O dia a dia dos príncipes e princesas era minuciosamente planejado e
incluía aulas, orações, visitas a membros da família e trabalhos no jardim.
Tanto na residência de verão de Laxenburg como em Schönbrunn havia
pequenos jardins onde as crianças da casa de Habsburgo podiam cultivar até
quatrocentos tipos de plantas. “A educação moral e religiosa, a disciplina e
a obediência vinham em primeiro lugar. Os filhos da casa imperial deviam
ser educados para serem instrumentos submissos e úteis da política de
Estado.”111 Disso deu boa mostra o casamento da arquiduquesa Maria Luísa
com Napoleão.
O programa de ensino dos jovens da casa de Habsburgo incluía matérias
como leitura, escrita, aritmética, alemão, francês, italiano, dança, desenho
ou pintura, história, geografia, música e cravo; em módulo mais avançado,
matemática (aritmética e geometria), literatura, física, latim, canto e
trabalhos manuais.112 Desde cedo, d. Leopoldina inclinou-se mais para as
disciplinas de ciências naturais, interessando-se principalmente por
mineralogia.113 Ao estar certo o casamento com o herdeiro do trono
português, a arquiduquesa passou a estudar com afinco tudo o que dizia
respeito ao Brasil e Portugal e a aprender a língua da nova pátria que a
aguardava.
A infância e a juventude de d. Leopoldina e sua família foram marcadas
pelas guerras napoleônicas. Ao contrário dos Bragança, os Habsburgo não
tinham para onde ir além das suas possessões dentro da Europa. A cada
guerra travada contra os franceses, seus domínios diminuíam mais. Em
1805, Viena caiu perante as forças de Napoleão, que se instalou na
residência imperial de Schönbrunn. D. Leopoldina, junto à mãe, teve de
fugir da capital. Para a imperatriz, Napoleão seria o anticristo. Com a queda
de Viena, chegara ao fim o Sacro Império Romano-Germânico. O pai de d.
Leopoldina, até então imperador Francisco II do Sacro Império, outorgou-se
o título de Francisco I, imperador da Áustria. Novamente, em 1809, o país
travou guerra contra Napoleão e perdeu. Metternich, nessa época, passou a
comandar as relações externas austríacas e tentou uma política de
conciliação com a França, selando a aliança entre os dois países com a
entrega da arquiduquesa Maria Luísa em casamento a Napoleão.

O Congresso de Viena e d.
Leopoldina
A corte de Viena que d. Leopoldina deixou para trás era uma das mais
fulgurantes da Europa. Após a queda de Napoleão, foi nessa cidade, sob o
comando do príncipe Metternich, que a maior parte das cabeças coroadas e
dos diplomatas europeus se reuniu para o Congresso de Viena. Na ocasião,
d. Leopoldina conheceu reis da Europa e seus políticos mais importantes;
participou também de várias festividades da corte, de jantares, passeios
cerimoniais e visitas de cortesia. Presenciou a madrasta, doente, descansar
grande parte do dia para à noite presidir as recepções sem passar a
impressão de fatigada ou abatida. Os exemplos e modelos a serem seguidos
vinham muito de perto. Logo cedo ela aprendeu a importância de
representar, da melhor maneira possível, o papel para o qual havia sido
destinada desde o berço.
D. Leopoldina deixou uma peça encantadora a respeito do dia a dia do
Congresso. Trata-se de uma espécie de diário114 em que podemos apreciar
seu humor e inteligência — por exemplo, nas observações dedicadas a
personagens como o rei de Württemberg:
Depois de jantar e como o rei de Württemberg sentou-se no sofá quase não coube a tia Beatriz e
quando ele se virou com o seu enorme ventre tirou fora da mão da tia Beatriz o leque. O
príncipe Antônio queria ser amável com o rei de Württemberg que, forcejando para se levantar,
tropeçou na cauda da tia e rolou no chão. Tivemos que tomar toda a nossa força de espírito para
não arrebentarmos numa terrível risada.

Uma das diversões do Congresso foi proporcionada pelo grande baile


realizado em 5 de outubro, sobre o qual a arquiduquesa comentou: “[...] Foi
muito animado; eu dancei seguramente 20 polonaises com quase todos os
príncipes. As duas polonaises alemãs dancei com o Kronprinz de
Württemberg e com o Príncipe Carlos da Baviera; ambos dançam bem.” No
dia 10, um novo baile “para 4 mil pessoas”: “Foi um bonito aspecto ver
todas as pessoas reunidas e bem vestidas.”
A última anotação do diário é de 14 de outubro de 1814. “Houve caça em
Luxemburgo e aproveitei a minha liberdade para dá-la de presente a minha
irmã Luísa. Entretive-me com ela conforme manda o coração.” A
arquiduquesa austríaca que tornara-se imperatriz dos franceses foi mantida
escondida, assim como o rei de Roma, filho dela com Napoleão, durante o
Congresso. D. Leopoldina, que nutria grande adoração por Maria Luísa, sua
irmã mais velha, preferia trocar a caça, que no Brasil seria uma de suas
grandes diversões ao lado do marido, pelo convívio familiar.

O casamento como negócio de


estado
O estado das finanças austríacas talvez tenha sido um dos motivos que
fizera o imperador Francisco I insinuar, a Leopoldina, que ela estaria
melhor casada com d. Pedro. Não foi apenas Portugal que ficou debilitado
após a era napoleônica. Todos os estados envolvidos na guerra continental
tinham se valido de empréstimos para manter seus exércitos em campo.
Com a Áustria, a situação era ainda pior: os empréstimos sucederam-se
durante os vinte anos de guerra entre os Habsburgo e a França
revolucionária. Francisco I já havia herdado um déficit crônico de seu pai,
José II; em 1811, não houve outra saída além de declarar a falência do
Estado e desvalorizar a moeda.115
Os austríacos comemoraram o casamento de sua arquiduquesa como uma
abertura da Áustria ao comércio com o Brasil. D. Leopoldina sabia muito
bem qual era seu papel nisso quando escreveu à irmã Maria Luísa, em
novembro de 1816: “Faço a vontade de meu amado pai e posso ao mesmo
tempo contribuir para o futuro de minha amada pátria, com as
oportunidades que surgirão de novos contratos comerciais.”116
A embaixada em Viena do marquês de Marialva, designado, por d. João,
embaixador extraordinário para o noivado e o casamento — e, segundo as
más línguas, o verdadeiro pai de d. Miguel —, ostentava uma grandiosidade
e um fausto que conseguiram criar, na imaginação dos austríacos, a ideia de
que o reino português era de uma riqueza sem fim. Marialva chegou
secretamente a Viena em novembro de 1816, quando se encontrou primeiro
com Metternich, depois com o imperador Francisco I e, no dia 16, com a
arquiduquesa Leopoldina. O contrato de casamento, até então confidencial,
foi assinado em 29 de novembro de 1816. A entrada oficial em Viena da
embaixada de Marialva ocorreu em 17 de fevereiro de 1817, por meio de
um cortejo de 41 carruagens puxadas por seis cavalos e servidas por
cocheiros vestidos de libré. Desses veículos, 24 foram construídos
especialmente para a ocasião.
O embaixador português presenteou grande parte do corpo diplomático e
da nobreza austríaca com medalhões finamente trabalhados e barras de
ouro. Mesmo os funcionários mais humildes receberam presentes
exuberantes, como brincos de diamantes, peças de ouro e caixas trabalhadas
com pedras preciosas.
No dia seguinte, 18 de fevereiro, em cerimônia realizada no palácio de
Hofburg, d. Leopoldina tornava-se oficialmente noiva de d. Pedro. Em abril,
recebeu de Marialva um retrato do príncipe em miniatura, cercado de
diamantes e preso a um colar também de diamantes. Em carta de 9 de abril
de 1817 à irmã Maria Luísa, ela comentou: “Acabo de receber o retrato do
meu mui amado dom Pedro, não é excepcionalmente bonito, mas tem olhos
maravilhosos e um belo nariz, mas seus lábios são ainda mais grossos do
que os meus.” Seis dias depois, o tema foi retomado: “O retrato do príncipe
está me deixando transtornada, é tão lindo como um Adônis [...] ele todo
atrai, tem expressão de ‘eu te amo e quero te ver feliz’ [...] já estou
completamente apaixonada, o que será de mim quando vir o príncipe todos
os dias?”
Apesar de Marialva pintar a família de Bragança com as melhores cores,
informando a respeito da educação e do caráter do príncipe e da família
amorosa à qual a arquiduquesa iria pertencer, a Áustria mantinha-se
informada por seus próprios meios e já se sabia o que esperava Leopoldina
na América. A própria princesa, em carta para a irmã, revelou a apreensão
em relação ao caráter da futura sogra. O príncipe Metternich, que mantinha
uma polícia secreta vasculhando as correspondências que entravam e saíam
do império austríaco, acabou se inteirando a respeito do ambiente para onde
d. Leopoldina se dirigia:
Por falar no príncipe herdeiro [...] posto que não seja destituído de inteligência natural, é falho
de educação formal. Foi criado entre cavalos, e a princesa cedo ou tarde perceberá que ele não é
capaz de coexistir em harmonia. Além disso, a corte no Rio é muito enfadonha e insignificante,
comparada com as cortes da Europa.117

A epilepsia de d. Pedro
Os austríacos sabiam até da epilepsia de que d. Pedro,118 seus pais e irmãos
sofriam — doença essa que os Bragança nunca tiveram qualquer intenção
de esconder, como fica claro tanto à luz da correspondência de Luís
Joaquim dos Santos Marrocos119 quanto, durante o Primeiro Reinado, das
notícias das crises do imperador no Diário Fluminense.
Em 13 de maio de 1816, no aniversário de d. João VI, tropas recém-
chegadas de Portugal para a tomada de Montevidéu foram por ele passadas
em revista, em uma de suas raras aparições a cavalo. Seus filhos d. Pedro e
d. Miguel o acompanharam, chamando a atenção pelo porte garboso com
que montavam e pelos trajes de oficiais que usavam. O evento realizou-se
na Vila Real da Praia Grande, atual cidade de Niterói. Terminada a revista,
houve o tradicional beija-mão, que se prolongou até as quatro da tarde,
quando foi interrompido pela queda abrupta do príncipe d. Pedro. Segundo
Alberto Rangel, o príncipe ficou com “a face imóvel; os olhos fixados;
desordenados os movimentos; suas palavras eram incoerentes e da boca lhe
escorria a espuma de um cão danado”.120 Levaram-no para uma casa
próxima, onde ele pôde descansar até recuperar os sentidos e aliviar a dor de
cabeça, quando foi então transportado para seus próprios aposentos.
Tratava-se do sexto ataque sofrido pelo príncipe de dezessete anos.
A doutora Marleide da Mota Gomes e o doutor Miguel Chalub, da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, diagnosticaram-no, após um estudo
de caso,121 como alguém acometido por uma “epilepsia familiar
possivelmente do grupo das epilepsias idiopáticas generalizadas com
fenótipos variados com crises predominantemente do tipo tônico-clônica
generalizado”.
A epilepsia poderia ter sido a responsável direta pela agitação que sempre
caracterizou d. Pedro, bem como por sua impulsividade e, até mesmo, sua
hipersexualidade. Também seria possível creditar à doença a “questionada
sanidade mental” do príncipe, que, como explicam os médicos, o conduziria
a “paixão, excesso, fantasia, sonho, e transgressões de um senhor às normas
estabelecidas”. Outros aspectos comportamentais de d. Pedro, como a
desatenção, a hiperatividade e a impulsividade, também seriam indício de
transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), presente em
até 23,5% dos casos de epiléticos.122

Embarque das tropas portuguesas rumo à campanha no sul do Brasil.

A noiva
Se, em Viena, Marialva exagerava a educação, a bondade e o gênio de d.
Pedro, o caminho contrário também foi percorrido. Nos relatórios que
enviava ao Rio de Janeiro, o marquês referia-se aos dotes intelectuais,
científicos e artísticos de d. Leopoldina, à sua presença régia, sua doçura e
sua bondade — nada, porém, quanto ao físico. A arquiduquesa, nascida em
22 de janeiro de 1797, era um ano e oito meses mais velha que d. Pedro.
Como ela própria afirmou em carta à irmã, tinha o lábio inferior grosso —
característica dos Habsburgo que seria herdada por seu filho, d. Pedro II —,
cabelos de um loiro pálido e olhos azul-escuros.123
D. Leopoldina possuía traços finos, uma pele clara e delicada, medindo
entre 1,55 m e 1,58 m.124 O biógrafo Carlos Oberacker é enfático: “Consta
[...] que Leopoldina não primava pela beleza, mas que era uma pessoa
simpática e de modo algum uma pessoa feia.”125

O casamento
Em 13 de maio de 1817, às sete horas da noite, d. Leopoldina casou-se com
d. Pedro na igreja de Santo Agostinho, em Viena, por procuração.
Representando o noivo estava o tio da noiva, o arquiduque Carlos. O
casamento foi comemorado na capital austríaca até o dia 1o de junho,
quando o marquês de Marialva recebeu 1.200 pessoas para um baile de gala,
para o qual foram criadas músicas exclusivas.126 Ao baile, seguiu-se uma
ceia às onze horas da noite, na qual os Habsburgo comeram em baixelas de
ouro e os demais convidados, em baixelas de prata. Uma hora depois, o
baile recomeçou, terminando apenas às quatro da manhã do dia seguinte.

Rumo ao Novo Mundo


D. Leopoldina encarava perfeitamente bem a aventura que era conhecer a
América. Além de sua personalidade romântica, fazia parte de seu caráter
de cientista olhar, ver e sentir tudo por conta própria. Sua jornada para o
porto da cidade de Livorno, na Itália, de onde embarcaria para o Brasil,
começou em 3 de junho,127 mas o embarque não seria tão imediato porque a
esquadra que deveria levá-la à América tardava. As desculpas para o fato
são as mais desencontradas:128 ora Lisboa teve que enviar as fragatas
destinadas a acompanhar o navio de d. Leopoldina para dar combate a
piratas, ora tiveram que seguir ao Brasil para bloquear Pernambuco, onde
estourara uma revolução.129
Durante a espera pelos navios portugueses, d. Leopoldina começou a
descontar sua ansiedade na comida e no todo-poderoso príncipe Metternich,
que fora encarregado de entregá-la, na Itália, à comitiva portuguesa. Para a
raiva do príncipe, a arquiduquesa demonstrou ali toda a sua determinação,
vivacidade e independência, chegando às raias da teimosia. Nervoso com o
comportamento da jovem, que andava ansiosa pela chegada dos navios,
Metternich escreveu à mulher: “A minha pequena arquiduquesa é uma
criança em que eu, se fosse o pai, bateria.” Como estivesse resoluta em
embarcar tão logo a frota de navios chegasse, sem esperar o vento propício,
o príncipe comentou que “os ventos seriam ainda mais teimosos do que
ela”.130

O primeiro caso
público de d. Pedro
Enquanto todo esse drama se passava na Europa, d. Pedro teria se envolvido
com uma jovem no Rio de Janeiro. A lembrança mais antiga desse
relacionamento vem do francês Eugène de Monglave, que em 1827
mencionava a paixão do príncipe no Brasil por uma francesa “jovem, bela,
sensível, tendo o grau supremo de todos os encantos que são prerrogativas
do belo sexo de nossa pátria”.131
A francesa seria uma dançarina chamada Noemi Thierry, e não só ela
como a irmã132 teriam sido alvo das atenções do impetuoso príncipe. Se
dermos crédito à viajante inglesa Maria Graham, o príncipe teria chegado a
se casar secretamente com a artista, que lhe deu um filho.133 D. João e d.
Carlota teriam se unido para retirar a amante da corte antes da chegada de d.
Leopoldina, dando-lhe um oficial português por marido, oferecendo-lhes
dinheiro e mandando-os para fora do Rio de Janeiro.
Melo Morais, por outro lado, narra duas versões para o mesmo episódio.
Numa delas, o caso entre d. Pedro e Noemi ocorreu já com a princesa no
Rio de Janeiro.134 D. Pedro levava a esposa para passear na casa de Pedro
José Caupers, para onde Noemi também ia; enquanto a família de Caupers
entretinha a princesa, o príncipe entretinha a amante. A gravidez de Noemi
teria feito d. João tomar as medidas a que Maria Graham se refere.
A outra versão135 diz que, ao desembarcar d. Leopoldina no Rio de
Janeiro, em 5 de novembro de 1817, a francesa, ainda na capital, estaria
grávida de seis meses de um filho de d. Pedro. D. João, sabendo do caso, a
teria obrigado a casar com um oficial português, enviando os dois a
Pernambuco. Em ambos os relatos, a criança — como que para dar mais
credibilidade à maldição que se abatia sobre os primogênitos dos Bragança
— morreu. Uma nota mórbida é acrescida em algumas descrições: o bebê
fora enviado embalsamado a d. Pedro, que o teria mantido em seu gabinete
até a partida para o exílio, em 1831.136
Ainda sobre o relacionamento, o refugiado político José Estevão
Grondona, exilado em Buenos Aires, publicaria, em 22 de maio de 1825,
um panfleto em que constava, dentre vários ataques a d. Pedro: “Que
pretendeis desse pai inumano, cruel e desnaturalizado, que consentiu a que
por convivência da velha corte se mandasse sufocar o terno fruto do amor
que tinha tido com uma infeliz francesa [?]”137

Os germânicos e o Brasil
O certo é que, em 14 de junho de 1817, enquanto se tentava ordenar a casa e
ajuizar o príncipe, chegava ao Rio de Janeiro o navio Imperador da Áustria,
que trazia tanto o barão Nevey Windschlag, encarregado dos negócios
austríacos no Brasil, quanto o barão Hugel, secretário da embaixada
austríaca. Além deles, outros germânicos começaram a chegar, entre eles o
conde Fleming, ministro plenipotenciário da Prússia.
O casamento de d. Leopoldina deu seus primeiros frutos com a abertura
das embaixadas alemãs no Brasil, do que não gostou nem um pouco, é
evidente, a Inglaterra. Os ingleses até tentaram convencer Metternich,
durante a espera dos navios portugueses na Europa, de que o melhor seria
enviar d. Leopoldina a Lisboa, forçando a família real a voltar a seu país. O
esperto diplomata austríaco, no entanto, respondeu que ela, após o
casamento, passara a ser princesa da casa de Bragança, devendo obediência
ao rei de Portugal; portanto, cumpriria a vontade de se juntar à família no
Brasil.

Uma austríaca nos trópicos


Finalmente, após muita espera, d. Leopoldina embarcou para o Brasil em 13
de agosto. No começo de setembro, passaria pela Ilha da Madeira, onde por
dois dias visitaria igrejas e quintas. Em 5 de novembro, o navio que a
transportava chegou à baia de Guanabara. Em meio às salvas de tiros de
canhão proporcionadas pelas fortalezas e navios da baía, os Bragança
chegaram, no início da noite, para dar as boas-vindas à princesa a bordo. O
rei apresentou a arquiduquesa ao filho, e d. Pedro teria entregue à esposa
uma caixa de ouro repleta de diamantes lapidados. Diante do espanto de d.
Leopoldina, d. João teria dito: “Vossa alteza vem para o país das pedras
preciosas.”138 Segundo o relato da condessa de Künburg, acompanhante da
arquiduquesa e testemunha ocular do primeiro encontro entre ela e o esposo,
“ele [d. Pedro] estava sentado em frente da nossa princesa, os olhos baixos,
levantando-os furtivamente sobre ela de tempo em tempo, e ela fazia o
mesmo”.139
Detalhe do desembarque de d. Leopoldina no Arsenal da Marinha, no Rio de Janeiro.

No dia seguinte, quando do desembarque, a nova princesa foi recebida em


apoteose pela corte e pela cidade do Rio de Janeiro. Haviam sido
construídos para a ocasião diversos monumentos, entre os quais o da rua
Direita, com frente para o Arsenal da Marinha. Tratava-se de uma espécie
de arco do triunfo grandioso, por onde o desembarque foi realizado. A obra,
encomendada pela câmara do comércio, foi construída pelo arquiteto
Grandjean de Montigny e decorado pelo pintor Debret, ambos da missão
artística francesa. Ali, podiam-se admirar estátuas que representavam o Rio
de Janeiro e o Danúbio. Os baixos-relevos no teto do arco traziam o Velho e
o Novo Mundo unidos pelo símbolo do comércio. Além das iniciais do
casal, lia-se: “À Feliz União o Comércio.”140
Outros arcos foram erguidos ao longo do percurso do cais até a Capela
Imperial. Em alguns deles, era possível ler, em medalhões, as virtudes
atribuídas à princesa: bondade, amabilidade, doçura, sensibilidade,
beneficência, constância, espírito, talento, ciência, encantos, graça e
modéstia. Diversas bandas tocavam pelo caminho do cortejo. De um dos
arcos, crianças pendentes jogavam flores naturais sobre o coche aberto em
que iam d. João e d. Carlota, de um lado, e d. Pedro e d. Leopoldina, do
outro. A princesa estava ricamente vestida de seda branca, com bordados de
prata e ouro, ostentando também algumas das joias de diamantes com que
fora presenteada. De sua cabeça pendia um fino véu de seda branca, que não
impedia de ver seu rosto.141
Ao chegarem à Capela Real, d. Pedro desceu primeiro do coche e
apressou-se em dar o braço a d. Leopoldina, ajudando-a a descer do veículo.
Ao entrarem na igreja, acompanhados da corte e de diversos bispos, a
música composta e regida pelo maestro Marcos Portugal irrompeu. Tendo a
família real ocupado seu lugar e terminada a música, d. Miguel pegou d.
Pedro pela mão; d. Carlota Joaquina fez o mesmo com d. Leopoldina. Em
seguida, conduziram o casal para diante do bispo, onde se ajoelhou e
recebeu as bênçãos nupciais. Após o ritual, foi entoado pelo coro um Te
Deum laudamus, ao fim do qual todas as fortalezas e navios da baía deram
salvas de canhões. A família real retirou-se então para o Paço da Cidade, em
frente à Capela, de onde apareceram no balcão para assistir a uma parada
militar e saudar a multidão que os ovacionava.
Às 11 horas da noite, d. Pedro e d. Leopoldina chegaram à Quinta da Boa
Vista com d. João e toda a família. O rei fez questão de levar a nora para ver
seu novo quarto, onde mandara colocar um retrato de seu pai, Francisco I;
em seguida, deu-lhe um livro por ele encomendado na Áustria e que
continha o retrato de toda a família que d. Leopoldina deixou para trás, o
que a levou às lágrimas.142 Para irritação da dama de companhia da jovem, e
para espanto da própria princesa, tanto ela quanto o marido, seguindo a
tradição da corte lusitana, foram despidos pelo rei, pela rainha e pelos
demais príncipes, que só saíram do quarto após o novo casal, envergonhado,
encontrar-se embaixo dos lençóis.143
Não sabemos o quão satisfatória foi, para d. Pedro, a primeira noite do
casal, mas temos conhecimento da reação de d. Leopoldina por intermédio
das cartas144 que enviou ao pai e à irmã Maria Luiza:
São Cristóvão, 8 de novembro de 1817

Querido papai!

[...] Todos são anjos de bondade, especialmente meu querido Pedro, que além de tudo é muito
culto. Embora esteja casada com ele há apenas dois dias, ele merece todo o meu respeito e
atenção, pois o seu comportamento, sob todos os aspectos, é admirável. [...] Além disso o meu
mui amado esposo não me deixa dormir, até que lhe disse sinceramente que estava abatida.

São Cristóvão, 8 de novembro de 1817

Amada Luísa!

[...] Faz dois dias que eu estou junto de meu esposo, que não é apenas lindo, mas também bom e
compreensivo [...].

São Cristóvão, 12 de novembro de 1817

Amado papai!

[...] Meu esposo me incumbe de lhe pedir que o faça comandante de um regimento hussardo;
esperando que o senhor não lhe negue tal pedido, cuja realização fá-lo-ia muito feliz, está lhe
enviando suas medidas. Beijo-lhe as mãos inúmeras vezes, pedindo perdão pela letra ruim, mas
meu infantil esposo está empurrando a minha mão [...].
É interessante a observação que d. Leopoldina tece ao pai, a respeito da
educação de d. Pedro, na carta de 15 de dezembro de 1817:
Não tenho palavras para descrever minha felicidade, pois meu esposo tem bom coração e
muitos talentos e boa vontade em se instruir, pois não é sua culpa se algumas pessoas acham
que deveria ser diferente; isso é porque não o conhecem bem, pois, quanto mais se conhece ele,
tanto mais parece melhor, por isso peço ao senhor que não acredite no que contam sobre ele,
mas apenas no que lhe escrevo.145

As cartas de d. Leopoldina, assim como as dos demais príncipes e


membros da corte, corriam o risco de ser interceptadas e lidas não só no
Brasil, mas também na Europa, e por isso a princesa só se abria
verdadeiramente quando confiava no mensageiro. De tal confiança gozou
sua velha babá Annony, que partiu para a Europa no início de 1818. Por
meio dela, e imaginando, erroneamente, que a carta nunca seria lida por
mais ninguém além de Maria Luísa, d. Leopoldina resolve abrir o coração à
irmã, contando tudo a respeito do marido, dos Bragança e da corte que a
cercava:
[...] Encontro em meu esposo um verdadeiro amigo e um ser nobre; em poucas palavras quero
descrevê-lo com toda a franqueza, convicta de que esta carta nunca cairá em outras mãos que
não as tuas [...]. Ele me diz tudo o que pensa com franqueza e mesmo com certa rudeza;
acostumado a que se lhe faça sempre sua vontade, tudo tem que se adaptar a ele, e até tenho que
aturar algumas grosserias, porém vê que me magoam e assim chora comigo; além disso, estou
convicta de que, com toda sua impetuosidade e maneira de pensar, me ama sinceramente,
embora seja (devido a muitas circunstâncias infelizes em sua família) muito reservado e
teimoso; conheço cada um de seus pensamentos; para mim, contudo, o que o torna querido e
digno de proteção é o fato de continuar sendo amigo de seus amigos, mesmo que caiam em
desgraça, e não poupar sacrifícios por eles, ao passo que é implacável com seus inimigos, além
disso, se comporta impecavelmente para com seus pais, o que é muito difícil naquela situação
infeliz em que um é contra o outro; honro e prezo muito meu sogro, uma vez que me demonstra
muita bondade e amizade; o que me custa mais é estar todos os dias com certas pessoas, que
seriam atuais no tempo de Henrique II, rei da França, o que é terrível; respeitarei minha sogra
sempre como mãe de meu esposo, mas seu comportamento é vergonhoso, e infelizmente se
veem as tristes consequências em seus filhos menores, que tem péssima educação e com dez
anos sabem tudo como gente casada. Minha cunhada Maria Teresa é uma verdadeira amiga e a
amo muito, porém, sabe Deus por que, meu esposo não me permite ter com ela.146

O Rio de Janeiro e os Bragança constituíam terreno espinhoso para d.


Leopoldina. O marido, nutrindo ciúmes e insegurança com relação à irmã
mais velha, Maria Teresa, que recebia mais atenção do pai do que ele,
impedia a esposa de ter uma amiga verdadeira na família e na corte.
Passadas a chegada, as bodas, as festas e as novidades, a ansiedade da
princesa converteu-se em frustração. A corte portuguesa no Brasil era um
ambiente ao qual ela não estava acostumada. Em abril de 1818, cinco meses
após desembarcar no país, começaram as queixas a Maria Luísa: “A terrível
falta de qualquer distração e sarau me deixa bastante melancólica”; “Crê-
me, nesta corte são inevitáveis os sacrifícios de toda sorte e o pobre coração
e a mentalidade alemã sofrem com muitas duras lutas”; “É mais fácil tirar
leite de pedra do que conseguir permissão de ir ao querido teatro”. Em
1821, novamente em carta a Maria Luísa, desabafou: “No Brasil nunca se
dança e meu esposo tem o encantador hábito de se divertir de todas as
maneiras, porém os outros nunca podem rir e têm que viver como ermitões
e sempre controlados pela política secreta”; “Eu gostaria sinceramente de
dançar uma valsa de vez em quando”. Ia longe o tempo em que dançava
vinte polonaises em uma só noite.
Se na Áustria d. Leopoldina tivera liberdade para sair, podendo ir,
contanto que acompanhada, até mesmo à rua, no Brasil as coisas eram
diferentes. Ao pai, em dezembro de 1817, escreveu: “Nada conheço da
cidade, porque meu esposo e o rei têm bons motivos para não querer que eu
vá lá.” Só lhe era permitido ir de carruagem à cidade para as festas
religiosas que lá ocorriam.
Ao chegar ao Brasil, como ela mesma demonstrou nas primeiras cartas à
família, d. Leopoldina foi muito bem recebida por d. Pedro, que de pronto
lhe mostrou seu melhor lado. A pior faceta foi se deixando entrever mais
lentamente. Aos poucos, a decepção romântica com o marido surgiu. Em
carta a Maria Luísa, ela desabafou, em 7 de abril de 1820: “[...] Se hoje
fosse livre, nunca mais casaria, pois [...] o santo matrimônio traz consigo
muitos desgostos e aborrecimentos e o sacrifício da própria individualidade
[...].”147
Um ano depois, em 24 de maio de 1821, novas queixas: “Começo a crer
que se é muito mais feliz quando solteiro, pois agora só tenho preocupações
e dissabores, que engulo em segredo, pois reclamar é ainda pior;
infelizmente vejo que não sou amada.”148
O confronto entre o Romantismo e a
realidade
Da Europa, d. Leopoldina também trouxe ao Brasil algo além da missão
artística e científica austro-alemã e da abertura do comércio entre os povos
germânicos e o Brasil. A arquiduquesa vivera a infância e parte da
juventude no ambiente em que nasceu o Romantismo, inaugurado
simbolicamente pela obra Os sofrimento do jovem Werther, do escritor
alemão Johann Wolfgang von Goethe. Essa escola viria a se contrapor ao
Racionalismo e ao Iluminismo, favorecendo os sentimentos humanos, a
emoção, o sentimentalismo, a supervalorização do amor, o nacionalismo, a
busca pelo exótico e pelo selvagem, entre outros pontos.
D. Leopoldina conheceu Goethe pessoalmente e esteve com ele duas
vezes na estação balneária de Karlsbad, em 1810 e 1812. Em ambas as
ocasiões, estava acompanhando sua madrasta, a imperatriz Maria Ludovica,
terceira esposa de Francisco I. Muito culta e inteligente, Maria exerceu
grande ascendência sobre a formação intelectual da arquiduquesa.149 A
imperatriz ficou amiga do grande escritor alemão e com ele chegou a
escrever e encenar, pessoalmente, uma peça teatral na estação de águas.
Logo que retornou a Viena, em 1810, procurou se inteirar mais a respeito da
produção literária de Goethe, apresentando-a a Leopoldina.
A melancolia, o amor, a paixão pelo príncipe do retrato e tantas outras
palavras e revelações encontradas em suas cartas demonstram que d.
Leopoldina estava imersa no ideal romântico. Esse ideal, ela quis transferir
para um casamento dinástico, no qual os interesses de dois países se uniam
simbolicamente por meio de um casal. Não se esperava que os esposos se
apaixonassem um pelo outro. Se isso acontecesse, seria um acréscimo: o
casamento dinástico era um negócio em que o papel da mulher consistia
tanto em gerar herdeiros quanto em cumprir funções sociais e, em alguns
casos, políticas. O amor romântico estava fora de questão, ali, tanto quanto
estivera na ocasião do casamento de d. João com d. Carlota. Dotados de
comportamentos diferentes, e após cumprirem seus deveres conjugais e
gerarem herdeiros para a coroa, estes dois acabaram por morar em casas
separadas, unindo-se apenas nas funções públicas. D. Leopoldina, no
entanto, havia se apaixonado pelo marido, que também se encantou com a
esposa, mas sua educação e as expectativas de ambos, porém, eram muito
diferentes.
No século XVII, madame D’Aulnoy escreveu sobre os jovens aristocratas
ibéricos e disse que, desde os doze ou catorze anos, eles já começavam a ter
amantes. Em vez de ficarem escondidas, essas mulheres eram ostentadas
diante da sociedade, gerando bastardos que se criavam na promiscuidade
junto com os filhos legítimos.150 D. Pedro reeditaria esse personagem nos
trópicos: enquanto d. Leopoldina sonhava com um casamento romântico,
ele, com a sexualidade aflorada, dormia com Ana Sofia, que segundo alguns
era enteada de Rochus Schüch, bibliotecário da princesa, e, segundo outros,
sua esposa.
107 CALÓGERAS, Pandiá. Formação histórica do Brasil, pp. 63-4.

108 MARTINS, Oliveira. História de Portugal, p. 527.

109 Ofício secreto do marquês de Aguiar para o marquês de Marialva, 15/3/1816, apud MONTEIRO,
Tobias. Elaboração da Independência, p. 157.

110 KANN, Bettina; LIMA, Patrícia Souza. Cartas de uma imperatriz, p. 247.

111 Idem, p. 66.

112 Idem, p. 65.

113 OBERACKER Jr., Carlos H. A imperatriz Leopoldina, p. 34.

114 Museu Imperial, Arquivo Histórico, I POB [c.1817] L. B. do 1-11.

115 KANN, Bettina; LIMA, Patrícia Souza. Cartas de uma imperatriz, p. 59.

116 Carta de d. Leopoldina para Maria Luisa, 26/11/1816, apud KANN, Bettina; LIMA, Patrícia Souza.
Cartas de uma imperatriz, p. 262.

117 Staatskanzlei. Brasil: Personalien, 10 de novembro de 1818. Extrato de carta escrita pelo barão de
Eschwege no Brasil para o amigo vienense Baumbach, apud RAMIREZ, Ezequiel Stanley. As relações
entre a Áustria e o Brasil, p. 11.

118 RANGEL, Alberto. Transanteontem, pp. 43-69.

119 MARROCOS, Luís Joaquim dos Santos. Correspondência de Luís Joaquim dos Santos Marrocos,
p. 58.
120 RANGEL, Alberto. Transanteontem, p. 56.

121 Dom Pedro de Bragança, Imperador do Brasil e Rei de Portugal, pessoa com epilepsia e
comportamento peculiar. Disponível em http://www.epilepsia.pt/Imgs/articles/article_84/artigo-d-
pedro-i-e-iv.pdf.

122 DURAN, Marcos Henrique Coelho. Comorbidade Epilepsia e TDAH: aspectos clínicos,
eletrencefalográficos, comportamentais e psicossociais. Tese de doutorado. Unicamp, 2011:
http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=000811680.

123 OBERACKER Jr., Carlos H. A imperatriz Leopoldina, p. 62.

124 Segundo medição dos restos mortais de d. Leopoldina executada, em maio de 2012, pela
arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel.

125 OBERACKER Jr., Carlos H. A imperatriz Leopoldina, p. 62.

126 Joseph Wilde teria composto, para a ocasião, as Danças para a festa do baile brasileiro.

127 Allgemeine Zeitung, 4 de junho de 1817 p. 4.

128 OBERACKER Jr., Carlos H. A Imperatriz Leopoldina, p.92

129 Um dos líderes desta revolução era Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva, irmão de
José Bonifácio. Seu objetivo, entre muitos outros, era declarar a república na província e raptar
Napoleão da ilha de Santa Helena, onde fora exilado, para o Brasil.

130 OBERACKER Jr., Carlos H. A imperatriz Leopoldina, p. 94.

131 MONGLAVE, Eugène de. Correspondance de don Pèdre Premier, p. 23.

132 RANGEL, Alberto. Dom Pedro I e a marquesa de Santos, p. 70.

133 GRAHAN, Maria. Escorço biográfico de d. Pedro I, pp. 61-2.

134 MORAIS, A.J. de Melo. Crônicas da história do Brasil, vol. II, p. 261.

135 Idem, p. 181.

136 Idem, p. 261.

137 Proclamação da Sentinela da Liberdade a Beira do Mar da Praia Grande, refugiada em Buenos
Aires aos habitantes livres do Brasil. Buenos Aires, 22/5/1825 – Arquivo Histórico do IHGB – DL
1377, pasta 18, docs. 10 a 16.

138 MORAIS, A.J. Melo. Crônica geral do Brasil, vol. 2, p. 180.

139 OBERACKER Jr., Carlos H. A imperatriz Leopoldina, p. 111.


140 SANTOS, Luís Gonçalves dos. Memórias para servir à história do Reino do Brasil, vol. II, p.
175.

141 Idem, p. 183

142 OBERACKER Jr., Carlos H. A imperatriz Leopoldina. p. 118.

143 Idem.

144 KANN, Bettina; LIMA, Patrícia Souza. Cartas de uma imperatriz, pp. 313-6.

145 Idem, p. 316.

146 Ibidem, pp. 332-3.

147 OBERACKER Jr., Carlos H. A imperatriz Leopoldina, p. 182.

148 KANN, Bettina; LIMA, Patrícia Souza. Cartas de uma imperatriz, p. 379.

149 OBERACKER Jr., Carlos H. A imperatriz Leopoldina, p. 22.

150 Apud FREYRE, Gilberto. Casa-grande e senzala, p. 441.


Tomando as
rédeas do destino

APÓS CASAR-SE com d. Leopoldina, d. Pedro passou a ter alguém com


quem efetivamente podia contar. Era ela não apenas companheira, esposa e
mãe de seus futuros filhos, mas também alguém que supria, de alguma
maneira, a educação que lhe faltara. Essa tarefa, d. Leopoldina tomou para
si com prazer, como demonstram as diversas cartas que enviou aos
familiares para relatar-lhes tanto seu esforço para ensiná-lo quanto a
evolução intelectual do marido. Infelizmente, d. Leopoldina não explicita
em quais áreas teria influído na cultura do príncipe. Mas é certo que não era
apenas ele quem aprendia: nos primeiros anos de casados, os dois se
dedicaram juntos ao estudo da música.
Quando chegou ao Brasil, em 1816, o ilustre Sigismund von Neukomm,
discípulo de Haydn, pianista e compositor, já passara por diversas cortes
europeias, como São Petersburgo, Viena e Paris. Neukomm foi o
responsável pela popularização, em terras brasileiras, das obras de seu
antigo mestre e de Mozart. Professor de música e de composição de d.
Pedro e d. Leopoldina, ele registrou em carta um comentário a respeito de
seu aluno principesco: “Eu tenho dois alunos (não conto com o Príncipe
Real, que se ocupa da música como um Príncipe).” Já d. Leopoldina parecia
não concordar com o músico. Em carta datada de 24 de janeiro de 1818, ela
escreveu ao pai:
O meu marido é compositor também, faz-vos presente de uma sinfonia e de um Te Deum
compostos por ele. Na verdade são um pouco teatrais, o que é culpa do seu professor, mas o que
vos posso assegurar é que ele próprio os compôs sem auxílio de ninguém.

O início do casamento de d. Pedro com d. Leopoldina foi calmo. Os dois


ocupavam uma ala do Palácio de São Cristóvão, a eles destinada por d.
João. Nesse período, d. Pedro, com ajuda da esposa e uns professores
esporádicos, continuava a ser educado “como um príncipe”. Além da
música, ocupou-se também da teoria política e do estado. Tornou-se leitor
das obras de Henri-Benjamin Constant de Rebecque, político e pensador
francês com quem veio a se corresponder; também estudou a fundo,
segundo Eugène de Monglave, as obras do jurista e filósofo italiano
Gaetano Filangieri. crítico daqueles velhos princípios feudais que ainda
existiam na Europa e contribuíam para o enriquecimento e o luxo
excessivos da nobreza e do clero, em flagrante contraste com a miséria da
população. O autor acreditava que uma revolução pacífica seria possível por
intermédio do governante, mediante reformas e melhorias que deviam partir
de cima para baixo e equilibrar as leis, a produção e a distribuição de renda.
Embora não tenha partido de d. João VI a iniciativa de educar o filho em
princípios políticos novos e modernos, necessários a um governante que
atuaria num mundo em mudança, a ânsia de d. Pedro por aprender —
mesmo que de forma caótica e sem muita estrutura — lhe garantiria algum
estofo no futuro. Inteligência para isso ele tinha; em carta ao irmão
Francisco, d. Leopoldina afirmou, em janeiro de 1818: “Talento igual para a
música e todos os estudos, como ele possui, ainda não tenho visto.”
Futuramente, nas cartas enviadas aos filhos, d. Pedro alegaria que na
verdade tivera sorte e que eles não podiam achar que o mesmo lhes
aconteceria, que eram necessários muito estudo e aplicação para ocupar um
trono e que bastavam ele e seu irmão Miguel como os últimos ignorantes da
família.

“Real, Real, Real”


Após a morte de d. Maria I, em março de 1816, acreditava-se que a corte
regressaria a Lisboa. Entretanto, d. João deixou-se ficar para realizar no
Brasil o casamento de d. Pedro. Quem apostava que depois disso a corte
finalmente partiria foi frustrado pela publicação, no início de 1818, de que
ocorreria na cidade do Rio de Janeiro a aclamação de d. João como rei do
Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve, d’Aquém e d’Além-Mar em
África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia,
Arábia, Pérsia e Índia.
Em 6 de fevereiro de 1818, de acordo com a tradição portuguesa, d. João
foi aclamado. Apesar de uma coroa, um cetro e demais aparatos simbólicos
fabricados no Rio de Janeiro para a ocasião, ninguém coroou o novo rei,
nem ele pôs a coroa na própria cabeça, como fizera Napoleão, anos antes.
Segundo a tradição portuguesa, não se coroavam mais os reis em Portugal
desde 1640, quando d. João IV dedicou a coroa a Nossa Senhora da
Conceição, padroeira do país.151 Mas isso não ofuscou o fausto da
comemoração. Uma grande construção avarandada foi erigida para que o
povo, da praça do Paço da Cidade,152 pudesse enxergar toda a realeza e
nobreza de Portugal. Uma verdadeira festa medieval foi preparada, com
direito a rei de armas, arautos, passavantes e os demais cargos criados no
auge do feudalismo, bem como heráldicas do Velho Mundo que entravam
em gritante contraste com o clima, a fauna e a flora do Novo Mundo.
Aclamação de d. João VI no Paço da Cidade, no Rio de Janeiro.

A cerimônia iniciou-se no Paço da Cidade com a chegada de d. João à


grande varanda central, que se destacava do conjunto pelo tamanho e pela
largura. O cortinado era adamascado. Diante de si, o rei tinha os dois filhos,
d. Pedro e d. Miguel. Este último, ocupando o posto de condestável do
reino, assistiu a toda a cerimônia com a espada desembainhada e sustentada
pelas mãos diante do rosto, como que para defender o rei e o reino a
qualquer momento. D. João vestia um chapéu escuro adornado com plumas
brancas e trajava roupa de gala, trazendo sobre os ombros um pesado manto
de veludo vermelho em que se viam, bordados a ouro, os brasões de
Portugal, Brasil e Algarve. Nas gravuras que sobreviveram, é possível ver o
povo na praça protegendo-se, com sombrinhas, do sol. É de se imaginar
como os europeus devem ter se sentido cobertos de mantos e veludos em
pleno verão carioca.
Após a aclamação da multidão, o rei se sentou e recebeu, com a mão
direita, o cetro de ouro. Seguiram-se então o juramento civil, feito ao
desembargador do paço, e o juramento religioso, feito ao bispo. Depois, o
rei voltou a sentar-se enquanto d. Pedro, com a mão sobre o Evangelho,
jurava fidelidade ao pai, sendo nisso seguido por d. Miguel. Ambos
beijaram a mão de d. João como símbolo de obediência e fidelidade. No
futuro, os dois seriam acusados de romper o compromisso; um deles
chegaria a ser acusado, pelo irmão, de parricídio.
Finalizada essa parte da cerimônia, a bandeira real foi desfraldada pelo
alferes-mor enquanto o rei de armas convidava a nobreza e os altos
funcionários do governo a jurarem fidelidade ao novo rei. Depois de aceitos
os juramentos, o alferes-mor bradou da sacada para a multidão: “Real, Real,
Real pelo Mui Alto e Mui Poderoso Senhor Rei d. João VI Nosso Senhor.”
Toda a assistência repetiu aos berros a frase, acima das notas ecoantes da
orquestra que tocava entre o rei e seu povo. A festa seguiria por três dias no
Rio de Janeiro, com direito a fogos de artifício em praças públicas;
celebrações populares; e ruas e casas inteiramente decoradas com lanternas,
que iluminavam toda a cidade à noite.
Por ocasião dos festejos, d. Pedro saudou o novo rei, seu pai, evocando a
Eneida de Virgílio, obra que viera lendo no navio que os trouxera a salvo
para o Brasil:
[...] A posteridade, essa posteridade incorruptível que não poupa nem os reis, notará em V.
Majestade um número infinito de pontos de contato morais e políticos com o herói da Eneida;
como Eneias, V. Majestade veio lançar, depois de uma longa navegação, os fundamentos de um
Estado que deve ser um dia o primeiro do mundo, como Eneias, V. Majestade será proclamando
o modelo dos filhos e dos reis.153

Um herdeiro inquieto
À parte as manifestações públicas, oficiais e protocolares da corte, a
participação do príncipe d. Pedro, com então 19 anos, era nula na política e
nos negócios de estado. Os cortesãos de seu pai, a quem detestava devido a
intrigas e fofocas, faziam de tudo para mantê-lo afastado do governo e do
próprio rei. Seu espírito vivo, sua audácia, sua vontade de agir entravam não
só em franco confronto com o modo contemporizador de d. João VI, mas
ameaçavam os que gozavam da confiança e da boa vontade do monarca.
Em 1817, por exemplo, no auge da Revolução Pernambucana, cujo
objetivo era transformar parte do Nordeste brasileiro em uma república, d.
João teria sido informado por seus íntimos de que o príncipe d. Pedro, dado
a ideias liberais, era simpático ao movimento. O jovem teria de pronto
organizado um batalhão de voluntários e se oferecido ao pai para, à frente
de seus homens, combater os rebeldes pernambucanos.154 Em outra ocasião,
d. Pedro teria amansado um cavalo para dar de presente a d. João, mas
novamente os cortesãos que cercavam o rei advertiram-no de que se trataria
de um truque, de que o cavalo era selvagem e o derrubaria. Revoltado com a
atitude de desconfiança na recusa do presente, d. Pedro tomou o cavalo e
saiu em desabalada carreira até dar cabo do animal, gritando que, se o pai
não o montasse, ninguém mais o faria.
Entretanto, apesar de seu gênio afoito, indomável, imprudente,
independente e aventureiro ter mais pontos de contato com a mãe, d.
Carlota, a esta o príncipe respeitava e temia, uma vez que, mesmo adulto,
recebia delas algumas bofetadas. Cartas guardadas no arquivo histórico do
Museu Imperial, em Petrópolis, revelam que ele se lembrava da mãe ao
retornar das caçadas na fazenda de Santa Cruz, enviando-lhe todas as presas
que abatera. Ainda assim, d. Pedro estava longe de ser o filho querido de d.
Carlota. Esse lugar era reservado a d. Miguel e às filhas mais novas, que ela
conseguiu casar com os parentes da família real espanhola. D. João, apesar
da maneira peculiar com que o demonstrava, parecia realmente apreciar d.
Pedro e d. Maria Teresa, filha mais velha que fizera questão de tirar do raio
de influência de d. Carlota. Carlota sempre veria o filho mais velho com
certa desconfiança, graças às posturas políticas que afrontavam por
completo as ideias absolutistas com as quais ela fora criada.
O pai o amava e se preocupava com ele, mas a seu modo, sem grandes
demonstrações de afeto. Além disso, em virtude das ideias do jovem,
mantinha-o afastado do governo. A mãe, por sua vez, não fazia grande
questão de sua presença. D. Pedro nascera em Portugal, mas fizera-se
homem no Brasil e aprendeu a amar a antiga colônia como se nela houvesse
nascido. Educado segundo os princípios absolutistas, ele cresceu vendo
Napoleão destroçar esses mesmos princípios e criar uma nova forma de
governo, espalhando os ideais da Revolução Francesa para além das
fronteiras da França. Isso influiu na mentalidade de jovens de toda uma
geração, como bem demonstra o clássico O vermelho e o negro, do escritor
francês Stendhal, em que o drama do personagem principal nasce de ele ter
de escolher, para a vida, opções que inexistiam antes da Revolução
Francesa e de Napoleão.
D. Pedro aparecerá, ao longo de sua trajetória, com um pé em cada lado
do oceano: é liberal, mas com laivos absolutistas; preocupava-se com a
esposa e os filhos, mas divertia-se à noite na casa de amantes esporádicas e
oficiais. Dividido ele também permanecerá na eternidade, que ainda se
mostrava distante quando, em meados de 1818, o rapaz de vinte anos
descobriu que seria pai. No final desse mesmo ano, uma desgraça se abateu
sobre a família. D. Maria Isabel de Bragança, irmã um ano mais velha que
d. Pedro, partira para a Espanha em 1816 com a irmã menor, d. Maria
Francisca. Ambas desposariam seus tios, irmãos de d. Carlota Joaquina. D.
Maria Isabel casou-se com o rei da Espanha, Fernando VII; d. Maria
Francisca, com o infante d. Carlos de Bourbon. Em dezembro de 1818,
durante um parto difícil e prolongado, Maria Isabel, já debilitada pelo
grande esforço, teve um ataque epilético e entrou em coma. Isso não foi
percebido pelos médicos, que, na ânsia de salvarem o bebê, retalharam seu
ventre numa cesariana desastrada. A rainha voltou à lucidez berrando de
dor, e tanto d. Maria Isabel quanto a criança morreram em poucas horas. Os
espanhóis, que devem a ela a criação do Museu do Prado, apelidaram-na de
“a rainha que morreu duas vezes”.

Uma nova herdeira


Ainda abalados com a morte da infanta, os Bragança se reuniram para o
parto do primeiro filho de d. Pedro com d. Leopoldina, nascido no Palácio
de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, às cinco da tarde de 4 de abril de
1819. A menina recebeu o nome de d. Maria da Glória Joana Carlota
Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Micaela Rafaela
Gonzaga. Nele constam, como de praxe, homenagens ao avô d. João
(Joana); à avó d. Carlota; à mãe; a São Francisco Xavier e de Paula; a Santo
Isidoro de Sevilha (Isidora), cuja data de morte é 4 de abril, dia do
nascimento da menina; aos arcanjos Miguel e Rafael (Micaela e Rafaela); e
a São Luiz Gonzaga. A criança recebeu o título de princesa da Beira,
herdeira do Reino Unido do Brasil, Portugal e Algarve, e subiria ao trono
português com o título de d. Maria II.
Batizada no Rio de Janeiro, ela foi consagrada pelo avô, d. João VI, a
Nossa Senhora da Glória do Outeiro, para cuja igreja levou a menina nos
braços, inaugurando uma tradição na família dos Bragança. D. Leopoldina e
d. Pedro iriam ao menos uma vez por semana assistir à missa naquele
templo, localizado em um outeiro aos pés do qual, naquela época, o mar
chegava.
Novamente, diversas festas e comemorações se seguiram não só no Rio,
como também em todo o mundo lusitano, que recebeu indultos, liberdades e
graças por ocasião do nascimento real.
Cortejo para o batizado da princesa d. Maria da Glória na Capela Real, no Rio de Janeiro.

Revolução do Porto
Enquanto isso, gestava-se na Espanha uma revolução contra o absolutismo
do rei d. Fernando VII. A revolta explodiria em janeiro de 1820. O exército
e o povo obrigaram o rei a restaurar a constituição de Cadiz — apelidada de
La Pepa — que as Cortes (parlamento) em 1812, quando o monarca estava
preso na França por Napoleão. A constituição fora revogada em 1814 com o
retorno do rei. Além da constituição, a revolta também obrigou d. Fernando
VII a instalar no poder um governo liberal.
Enquanto isso, do outro lado da fronteira espanhola, os portugueses
estavam sendo virtualmente governados pelo marechal britânico William
Carr Beresford, que assumira o comando do exército português. A tutela
inglesa a Portugal buscava evitar que a Espanha invadisse o reino lusitano
em retaliação à perda da Cisplatina, incorporada por d. João VI ao Brasil.
Entretanto, o marechal Beresford não podia impedir que os ideais liberais e
constitucionais chegassem à nação, com as finanças prejudicadas pela
quebra do monopólio comercial com o Brasil. Os portugueses empobrecidos
e o exército com soldos atrasados, ambos abandonados pelo rei e
desesperançados, passaram a ver na mudança de governo ou numa nova
união ibérica sob a coroa espanhola a saída para a situação em que a nação
se encontrava.
Beresford chegou a atravessar novamente o Atlântico e, em maio de 1820,
desembarcou no Rio de Janeiro para intimar d. João a voltar para Portugal.
Além de todos os problemas existentes no país, ele não podia mais
continuar no posto, pois fora nomeado governador de Jersey pela coroa
britânica. D. João não partilhava da mesma urgência que Beresford queria
dar aos negócios lusitanos. Ele chegou a convidar o militar para inspecionar
as fortificações brasileiras, mas voltou atrás depois que o ministro
plenipotenciário da Grã-Bretanha no Rio de Janeiro aconselhou que, se nem
o rei nem nenhum membro da família real fosse para Portugal, seria melhor
permitir que Beresford retornasse: caso eclodisse uma revolução no reino
europeu, o comandante do exército ao menos estaria lá. O marechal
embarcou de volta a Portugal em 13 de agosto, mas já era tarde: no dia 24,
uma revolução eclodiu na cidade do Porto e se espalhou por todo o país.
Logo uma junta governativa foi formada, sendo marcadas eleições para os
representantes das Cortes. O parlamento português, que não se reunia desde
1697, deveria assumir a função de assembleia constituinte e elaborar uma
carta para a nação. A junta, que passara a governar em nome do rei, também
exigia o retorno de d. João VI.
Em 17 de outubro, um navio português chegou ao Rio de Janeiro com a
notícia da revolução. O rei, então incrédulo, tinha que tomar uma decisão
sobre o assunto, mas resolveu, como era de seu feitio, pedir a opinião de
seus conselheiros e ministros. Dez dias depois, mandou divulgar uma carta
em que admoestava seus súditos pela ousadia do ato e afirmava que
decidiria quem da família partiria para Portugal e quem ficaria no Brasil.
Dessa forma, julgava possível manter a integridade do Reino Unido, que
Portugal estava disposto a contestar desde que começara a empobrecer e
que os papéis de colônia e metrópole haviam se invertido.

Vai o pai ou vai o filho?


A farsa de 1807 era reeditada treze anos depois. Quem iria e quem ficaria?
Novamente, d. Pedro era o favorito para ir, enquanto o rei permaneceria no
Brasil. Dois partidos logo se delinearam. Um deles era movido pelo recém-
chegado conde de Palmela, representante de Portugal no Congresso de
Viena. Para ele, a constituição era uma necessidade e d. Pedro deveria partir
para Portugal a fim de “presidir as Cortes e sancionar a Carta, cujas bases
seriam estabelecidas pelo trono”.155 O outro, bem representado pelo
advogado português Tomás Antônio, conselheiro de d. João, achava que
todos deveriam ficar no Brasil, protegendo-se da “loucura” que tomara
conta de Portugal; enquanto o povo português não se comportasse, dizia, o
rei não deveria ceder um milímetro sequer de seu poder — em resumo: nada
de voltar para lá e ratificar uma constituição. Desse modo, d. João
tergiversou, ganhando tempo mais uma vez, agora até o final de janeiro de
1821, quando finalmente resolveu enviar d. Pedro a Lisboa. O príncipe
havia sido mantido, como de praxe, fora da tomada de decisão. Mesmo com
a resolução tomada, d. João perguntava aos conselheiros como deveria
abordar o filho, o que falaria e o que argumentaria em caso de recusa.
A relação entre pai e filho era tortuosa. D. Pedro sabia de tudo o que
estava ocorrendo e desejava partir para Portugal, segundo carta enviada ao
amigo e conselheiro conde dos Arcos, ex-vice rei do Brasil e governador da
Bahia:
Meu conde e amigo. Dou-lhe parte, o Sarmento me disse que Tomás lhe dissera que eu não
havia de ir porque ele não queria e que meu pai também não queria, mas iria a mana (d. Maria
Teresa) com meu sobrinho e o mano (d. Miguel) debaixo do pretexto de tomarem conta das
suas casas, deste modo não vamos bem e é necessário que o conde veja se meu pai decide a meu
favor que é o que nós desejamos. Eu ontem disse à mana que sabia todas essas coisas porque
mo haviam dito na cidade, e eu tinha muito interesse nisto porque a meu pai interessava
igualmente ou se era possível ainda eu interessava mais, para ver se ela lhe vai contar, e se meu
pai lhe diga amanhã alguma coisa mais ainda que ela lhe não diga nada inste o conde oportum
et importum porque é de absoluta necessidade.156

Pai e filho viviam sob o mesmo teto e tinham que usar de subterfúgios,
informantes e armadilhas, como aquela que d. Pedro armou com a irmã para
ver se d. João mencionava algo a respeito da viagem. O respeito e o temor
paternal, no que toca à falta de comunicação, faziam as famílias da época se
assemelharem bastante das famílias disfuncionais atuais.
Nessa altura, não só o rei, mas também seus ministros e conselheiros,
estavam envolvidos na questão, que já havia caído em domínio público e
dividido o Brasil. Um folheto lançado no Rio de Janeiro pregava que
nenhum membro da família de Bragança deveria deixar o país. Se o rei, ou
qualquer outro, partisse para Portugal, alimentaria a revolução lá instalada.
Se permanecesse no Brasil, não lhe dariam importância. Além do mais, o
folheto afirmava que o monarca não precisava da antiga metrópole, ao passo
que Portugal não sobreviveria sem a ex-colônia. Em resposta à publicação,
foi impressa na Bahia uma peça que respondia a todas as questões
propostas. Esse novo folheto alegava que, sem os portugueses, o Brasil
estaria nas mãos dos estrangeiros, que exauririam todas as riquezas da nação
e transformariam os brasileiros em escravos. Tal impresso era totalmente
favorável à constituinte portuguesa, ao contrário do que fora publicado no
Rio de Janeiro que pedia tanto a continuação do regime absolutista quanto a
permanência da família real.
Além de todos os prós e contras expostos, a Revolução do Porto
promoveu, no Brasil, uma crise entre portugueses e brasileiros. Se os
portugueses na Europa já estavam fartos de serem governados pela ex-
colônia, esta, por sua vez, não tinha qualquer desejo de voltar novamente,
após 13 anos como sede da coroa, à sua antiga condição.
Assim como verificado entre os ministros, os conselheiros do rei e o povo
das duas nações, a divisão de pensamento também encontrava lugar dentro
da própria família real. D. Leopoldina, novamente grávida, assistia a tudo e
lançava à irmã seu veredito: “Meu esposo pensa segundo os novos
princípios e meu sogro segundo os bons e verdadeiros.”157 Os verdadeiros e
bons princípios a que se referia eram os do absolutismo, em que ela nascera
e fora criada.
Diante da indecisão de d. João, a Inglaterra e a Áustria começaram a
pressioná-lo. O ministro plenipotenciário da Áustria, Sturmer, era favorável
à ida de d. Pedro a Portugal e desconfiava, segundo despacho enviado a
Metternich, que d. João era “tão arguto quanto falso”. Tanto ele quanto o
ministro inglês, Thornton, conseguiram que d. João concordasse com a
partida, mas o monarca impôs, como condição, que apenas o filho partisse.
D. Leopoldina e a princesinha d. Maria da Glória ficariam no Brasil, junto
com o restante da família. Sturmer comunicou a Viena que desconfiava da
solução. O ministro austríaco achava que seu objetivo era a desistência do
príncipe de partir, no intuito de ter a seu lado a esposa e a filha, ou a
submissão total do rapaz ao pai, que teria como reféns a nora e os netos. Ao
diplomata, d. João chegou a questionar: “E se, quando o meu filho chegar a
Portugal, o aclamarem rei?”
Enquanto isso, a união de todas as províncias brasileiras sob o poder do
rei vacilava. Um levante em janeiro, no Pará, seguido de outro em fevereiro,
na Bahia, romperam a unidade governamental do Brasil. Ambas as
províncias aderiram ao novo governo instalado em Portugal e às Cortes de
Lisboa, tornando-se favoráveis à constituinte. As notícias das rebeliões só
chegaram ao Rio de Janeiro na segunda quinzena de fevereiro de 1821.
D. Pedro, apesar da ânsia em partir para Portugal, não deixaria a esposa.
Tentou ganhar tempo junto ao conde de Palmela, pedindo ao ministro dos
negócios estrangeiros e ao diplomata austríaco Sturmer que intercedessem
junto a d. João para que a partida fosse adiada até o nascimento do filho, a
fim de que ele e a esposa fossem juntos para Portugal. A ira de d.
Leopoldina caiu sobre ambos os ministros, que insistiram na partida
iminente de d. Pedro — tratava-se, afinal, de medida urgente, dado que até
as províncias brasileiras juntavam-se à causa de Portugal. Tanto Palmela
quanto Sturmer garantiram que fariam de tudo para que a esposa se juntasse
ao príncipe depois de ter o bebê. Palmela receava que d. João, com seu
hábito de tomar todas as suas decisões vagarosamente, desse para trás;
Sturmer, por sua vez, tentava evitar, sem permissão de d. Leopoldina, que,
se a coroa perdesse Portugal, ela fosse considerada culpada, uma vez que
não deixara o marido partir sozinho.
No entanto, as coisas seriam resolvidas entre o próprio casal, conforme
relata d. Leopoldina em carta ao capitão von Schaffer, a quem solicita
ajuda:
Debaixo do maior segredo, de modo que nem viva alma o possa sequer suspeitar, tenha o
senhor a bondade de fretar para mim uma embarcação que zarpe brevemente para Portugal,
visto que meu esposo deve seguir dentro de três dias e eu devo ficar aqui por tempo
indeterminado por motivos que não estou autorizada a divulgar, não mos permitem, sou
obrigada a procurar minha salvação na fuga legitimada pelo consentimento do meu esposo. [...]
Queira procurar-me uma boa ama de leite [...] para meu filhinho que nascerá no mar [...]. Tudo
isso debaixo do maior segredo, ninguém deve sequer suspeitar. [...]158

A fuga romântica da esposa fiel, porém, não se fez necessária. No fim, d.


Leopoldina venceu: segundo Sturmer, após jogar-se diante do sogro por três
vezes no mesmo dia, pedindo que não a separasse do marido.159 A
lembrança de sua irmã com o filho em Viena, separada do exilado Napoleão
Bonaparte, talvez a tenha levado a pensar que lhe aguardava destino
semelhante. Segundo outra versão, d. João mandou a filha Maria Teresa
procurar a nora a fim de apaziguá-la. Pediu que lhe informasse que, na
verdade, nunca tivera real intenção de mandar d. Pedro a Portugal e que
tudo não passaria de uma manobra para ganhar tempo.
D. Pedro mostrara certa dubiedade durante todo o processo de decisão
quanto à partida. Inicialmente entusiasmado, seu ímpeto, talvez pela
insistência do pai em que ele fosse sozinho e deixasse a mulher e os filhos
no Brasil, arrefeceu mesmo após a promessa de que só iria após o parto da
esposa e em sua companhia. Ao que parece, algo nesse ínterim pode ter
acontecido e feito o príncipe mudar de ideia, desejando permanecer no
Brasil. D. Pedro, em resposta a uma consulta de d. João, enviara-lhe um
documento em que se mostrava favorável à constituição. Esta, porém,
deveria ser conferida pela autoridade real, e não usurpada.

D. Pedro assume como personagem


principal
Ainda tentando estabelecer a ordem e ter algum controle sobre a situação no
Brasil, d. João mandou publicar, em 25 de fevereiro, um decreto em que
convocava a reunião das Cortes em terras brasileiras. As cidades, vilas e
ilhas portuguesas no Atlântico deveriam enviar seus representantes ao Rio
de Janeiro. Essa assembleia teria a função de examinar as propostas das
Cortes de Lisboa e adaptá-las à realidade do Brasil. Na tentativa de resolver
um problema, d. João criou outro. Seu decreto desafiava abertamente a
autoridade das Cortes portuguesas e, com a ideia de uma legislação
diferente para Brasil e Portugal, abria precedente para a separação política,
algo que as tropas lusitanas, o núcleo forte do movimento constitucionalista
português, não permitiriam.
O dia 26 de fevereiro mal começara quando os primeiros soldados do 3o
batalhão de caçadores chegaram à praça do Rocio, atual praça Tiradentes,
no centro do Rio de Janeiro. Por volta das três horas da manhã, formaram-se
diante do teatro, e logo foram seguidos por uma bateria de seis peças. Junto
aos soldados e oficiais, entre os quais havia um brigadeiro, estavam alguns
líderes políticos que reivindicariam, se necessário à força, que o rei jurasse a
constituição que ainda nem fora criada. Enquanto os batalhões saíam dos
quartéis, dois informantes, o padre Gois e um oficial graduado que não quis
participar da revolta, partiram para o Palácio de São Cristóvão, onde
avisaram d. Pedro e d. João VI sobre o que estava ocorrendo na cidade.
D. João, tão vagaroso em suas decisões, demonstrou uma rapidez que
quase ninguém seria capaz de reconhecer, mas que revela como, por trás de
seu modo de fazer as coisas, algum método existia. Ele ordenou que d.
Pedro partisse a cavalo até a residência do ministro Tomás Antônio, onde
havia um decreto que mandara preparar em caso de emergência. Nele, o rei
prometia aderir e adotar, para o reino do Brasil, a constituição que as Cortes
de Lisboa elaborassem, ressalvadas as mudanças que deveriam ser feitas.
D. Pedro, cavaleiro exímio, chegou a galope à praça do teatro real por
volta das cinco horas da manhã. Ao descer do cavalo, foi saudado pelos
soldados. Com ar confiante e marcial, dirigiu-se ao pórtico do teatro, em
cujo saguão reuniam-se os líderes do movimento. “Está tudo resolvido”,
teria dito, exibindo o decreto assinado pelo rei e datado do dia 24. “As
tropas podem recolher-se aos seus quartéis e os oficiais podem ir beijar a
mão de meu augusto pai.”160 O príncipe, no entanto, havia se enganado.
Durante a leitura, interrompeu-o um amigo, o padre e advogado português
Marcelino José Alves Macamboa, que dizia que o que eles queriam era a
constituição tal e qual feita em Portugal, isto é, uma constituição única para
as duas nações. O rei, além disso, deveria jurar em público que respeitaria a
constituição portuguesa sem qualquer reserva. Por fim, eles exigiram que
todo o ministério fosse demitido e que uma junta governamental, com treze
nomes indicados pelos revoltosos, fosse organizada.
Teatro na praça do Rocio, palco dos principais acontecimentos políticos no Rio de Janeiro.

O príncipe tentou contemporizar, dizendo que não existia uma


constituição portuguesa para ser jurada e que a do Brasil se faria da melhor
maneira possível, decidida por seus próprios representantes. Tudo, porém,
em vão. Sem escolha, d. Pedro retornou a São Cristóvão, onde reencontrou
o pai e lhe expôs o ocorrido. Às oito horas, o príncipe chegou novamente ao
pórtico do teatro. As nomeações exigidas tinham sido aceitas, cabendo ao
rei indicar o cargo ocupado por cada um dos elementos da junta
governamental. Com a mesma data retroativa, o novo decreto finalizava
com: “Hei por bem desde já aprovar a Constituição que ali se está fazendo e
recebê-la no meu reino do Brasil e nos mais domínios da minha coroa.”161
D. Pedro reuniu como pôde, no teatro, os membros do Senado da
Câmara,162 funcionários mais graduados e todos a quem caberia alto cargo
no governo; em seguida, fê-los jurar sobre o Evangelho a nova constituição
a ser feita. Depois, do alto da varanda do teatro, leu para o povo e a tropa o
decreto de d. João, fazendo por ele, na condição de procurador, o juramento
solene, para o qual lhe segurava o Evangelho o bispo capelão. No entanto,
aquele dia deveria mesmo pôr à prova os talentos de cavaleiro de d. Pedro.
Não bastava tê-lo como procurador do pai; os manifestantes queriam o rei
em pessoa no juramento solene. Assim, pela terceira vez o príncipe partiu
rumo a São Cristóvão. Entre idas e vindas, já se somavam trinta quilômetros
de cavalgada.
Se as novas ideias liberais davam mostra de sua força, a importância do
rei e da família real não fora descartada, apesar de eles serem forçados a
jurar uma constituição que não existia e que removeria parte de seu poder.
A autoridade régia nunca mais seria a mesma depois do dia em que d. João
se viu obrigado a obedecer à tropa e ao povo amotinados, mas ainda assim o
viam como um líder, mesmo que simbólico. Talvez esses pensamentos lhe
tenham surgido à cabeça enquanto ele se dirigia de carruagem à cidade, com
d. Pedro cavalgando ao lado.
A multidão que se encontrava na praça regozijou-se ao ver o monarca.
Ovacionando-o, chegaram a tirar os cavalos, e o próprio povo puxou a
carruagem de d. João. O rei, exasperado por aquela efusão popular, acabou
por ser ainda carregado até seus aposentos no Paço da Cidade, quando então
percebeu que sua bengala de cabo de ouro com diamantes incrustrados fora
roubada. No mesmo prédio em que ele fora aclamado rei, estava agora
jurando, com a maior estoicidade possível, uma constituição que lhe tirava o
absolutismo das mãos: ao menos conservaria o trono e a cabeça. Ao seu
lado estava toda a família real, inclusive d. Carlota, que parecia contente
com tudo o que estava ocorrendo. Absolutista convicta, ou ela demonstrava
ser uma excelente atriz, ou finalmente começava a entrever que seus dias de
exílio na América estavam contados.
Apesar de os ministros da Inglaterra e da Áustria oficiarem a seus países
que o príncipe d. Pedro tomara controle da situação na praça pois também
era um dos conspiradores, não existe qualquer prova concreta quanto a isso.
Ao contrário, diz Palmela em uma carta que, na tentativa da tropa
amotinada de aclamá-lo rei de Portugal ali mesmo, na praça do Rocio, ele
foi o primeiro a gritar: “Viva el-rei d. João VI.”
Desse dia em diante, d. João não teve mais como manter o príncipe
afastado dos assuntos de estado. Ao novo ministro do estrangeiro e da
guerra, Silvestre Pinheiro Ferreira, teria declarado que insistira em ter o
príncipe presente na reunião do conselho e com os ministros:
Como o príncipe toma parte nos negócios públicos, é de necessidade que a tome nas
deliberações do governo. Tempo há que eu tenho pensado em chamá-lo a elas; e se o não tenho
feito é porque se bem o seu voto não coarcte a minha soberana autoridade, não pode deixar de
prender mais ou menos, segundo o grau de empenho que ele mostrar, a liberdade de opinar dos
conselheiros. Mas esta, que foi razão até agora, cessa de o ser depois da época de 26 de
fevereiro; e portanto aprovo e folgo que ele seja presente, como me haveis proposto.163

A partir de 26 de fevereiro, os fatos começaram a se suceder mais


rapidamente. D. João concordou, durante uma reunião de ministros e
conselheiros, em voltar a Portugal com a família e deixar d. Pedro no Brasil
como príncipe regente.
Em 6 de março de 1821, em meio a tanta confusão, nascia mais um
membro da família Bragança. D. João Carlos veio ao mundo no Palácio de
São Cristóvão, às duas horas da tarde. D. Leopoldina sofreu para dar à luz
esse filho. A criança, muito grande e gorda, só saiu até a metade de dentro
da mãe sem ajuda. O braço direito do bebê estava na frente da cabeça, o que
dificultou o parto. Três dias depois, segundo carta à irmã Maria Luísa, a
princesa delirou a noite toda porque correra “risco de infecção abdominal,
pois durante o parto deixaram que me resfriasse; o parteiro, que é muito
habilidoso, ajudou rapidamente [...]. Agora estamos bem, eu e meu filho,
embora ele tenha tido convulsões”.164
A criança nascera, assim como o pai, com epilepsia. Em outro trecho da
carta, d. Leopoldina contou o novo drama vivido pelo casal:
Já deves ter ouvido de todos os acontecimentos constitucionais ocorridos nos estados
portugueses; podes bem imaginar que influência têm sobre o meu estado de espírito, embora
não pense contra eles, meu esposo jurou aqui a constituição, o rei vai para Portugal e levará
consigo meus dois filhos, o que me é extremamente penoso.

Esta seria a garantia de que d. Pedro juraria a constituição que chegasse ao


Brasil.
Na prática, com a revolta portuguesa no Rio de Janeiro, em fevereiro de
1821, o Brasil voltaria a receber ordens de Portugal. Não haveria uma
constituição para cada reino, mas ao mesmo tempo os deputados brasileiros
seriam convocados a Lisboa para tomar parte no processo constitucional.
Em 21 de abril, véspera da Páscoa, reuniu-se uma assembleia no Rio de
Janeiro, mais especificamente na praça do Comércio,165 espécie de Bolsa de
Valores da época, um moderno prédio projetado em estilo neoclássico pelo
arquiteto francês Grandjean de Montigny e inaugurado um ano antes, no dia
do aniversário do rei.
A Assembleia era composta de eleitores paroquiais. Estes deveriam
iniciar o processo de escolha daqueles eleitores da comarca que viriam a
tomar parte no processo de seleção dos deputados a que caberia representar
o Brasil junto às Cortes em Lisboa. O ministro Silvestre Pinheiro Ferreira
aproveitaria a Assembleia tanto para explicar como se daria a transição do
poder do rei para o príncipe regente quanto para pedir as opiniões e o
consentimento dos eleitores.
Diante da novidade de um governo representativo, também o povo lotou o
local. Os que não conseguiram entrar concentraram-se do lado de fora do
edifício. Embalados pela distribuição de vinho por parte dos comerciantes
portugueses, animavam-se cada vez mais com as notícias vindas de dentro
do prédio.
Por volta das quatro horas da tarde, quando o juiz da comarca que
presidiria a Assembleia estava prestes a apresentar os assuntos a serem
trabalhados, foi impedido de falar. O padre Macamboa, que não era eleitor,
apresentou-se junto com Luís Duprat na condição de defensor do povo,
incitando os eleitores e a população contra o governo e exigindo que se
adotasse naquele mesmo dia, como constituição, a espanhola La Pepa, até
que a constituinte a ser elaborada em Lisboa redigisse uma inteiramente
portuguesa.
Logo que soube do ocorrido no prédio da praça do Comércio, d. Pedro
convocou dois batalhões, um de artilharia e outro de infantaria, e
posicionou-os entre a cidade e São Cristóvão, visando proteger a residência
real. Em seguida, partiu para o palácio. Havia já chegado, em São
Cristóvão, uma delegação com a proposta da Assembleia, sendo aguardada
a aprovação do rei. Aos ministros e conselheiros de d. João, juntou-se d.
Pedro. Ante a insistência do ministro Silvestre em que o rei, completamente
apático, deveria aceitar a constituição, o príncipe prometeu jogá-lo pela
janela caso continuasse a insistir nesse absurdo. Apesar da argumentação do
príncipe contra o aceite de uma constituição estrangeira, somente ele e o
ministro da Marinha votaram contra.
Enquanto isso, na praça do Comércio, começou a correr o boato, devido à
demora no retorno da delegação que partira para São Cristóvão, de que o rei
não aceitaria a nova constituição. Para piorar, outro rumor dava conta de
que uma imensa quantidade de ouro estaria sendo embarcada nos navios
que levariam a corte de volta a Portugal. Tudo isso fez Duprat ordenar que
um velho oficial presente na Assembleia fosse aos fortes exigir que
disparassem contra qualquer nau que quisesse desejasse deixar o porto. No
entanto, embora tenha conseguido chegar a uma das fortalezas, o militar
acabou aprisionado no meio da baía por um barco com soldados
comandados por d. Pedro.
Por volta das dez horas da noite, lavrou-se em São Cristóvão um decreto
pelo qual d. João acatava o pedido da Assembleia e decretava que a
constituição espanhola deveria ser observada no Brasil. A multidão na praça
do Comércio, porém, em vez de se dispersar, como os ministros acharam
que ocorreria, tornou-se mais virulenta e prosseguiu em sessão, propondo ao
trono as exigências mais disparatadas e extremadas. Os radicais
pressionavam os eleitores, tomados de pavor, a concordarem com tudo o
que era exigido.
D. Pedro percebeu que as coisas estavam indo longe demais. Quem ditava
as regras e o que deveria ser feito, por exemplo, bem como aqueles que
deveriam ser os ministros que ajudariam o príncipe regente a governar o
Brasil, não eram pessoas eleitas, mas demagogos que haviam transformado
a Assembleia em um barril de pólvora prestes a estourar.
Passando por cima da autoridade do rei, que nada decidia, e ignorando
também os ministros e o governador de armas da capital, d. Pedro ordenou
ao general Jorge Avilez que os soldados avançassem para a praça do
Comércio e desfizessem aquela casa de loucos. De início, pensou-se que
apenas a presença do exército no local já faria a multidão se dispersar, mas
então um primeiro tiro foi dado, e um soldado acabou morto. O local foi
varrido a baionetas e coronhadas e esvaziado completamente. Houve mortes
e prisões, bem como gente que se atirou do edifício e tentou fugir a nado.
Às cinco horas da manhã da Páscoa, tudo havia terminado. No mesmo dia,
um novo decreto de d. João VI, escrito por d. Pedro, dava por cancelada a
adoção da constituição espanhola, alegando que ela fora imposta por
pessoas que não representavam verdadeiramente o povo. Também do dia 22
é o decreto, com data de 7 de abril, que comunica oficialmente a partida da
família real e a nomeação de d. Pedro como príncipe regente, cabendo a ele
“o governo geral e inteira administração de todo o reino do Brasil”.
Em menos de um mês, d. Pedro tinha mostrado ao que viera. Ele saiu das
cavalariças e tavernas para assumir um destacado lugar de mando, com
todos os defeitos, qualidades e grosserias que lhe eram imputados e por si
próprio reconhecidos. Sempre seria um príncipe constitucionalista, com
toda a problemática envolvida por quem foi educado para ser um
absolutista. Sentimentos e ideias se confrontariam a todo momento.
Personalista, dado a laivos voluntariosos que chegavam às raias do
egocentrismo, d. Pedro tentaria, da forma que lhe pareceria correta,
governar à luz das novas ideias liberais, mas mesmo isso foi feito a seu
jeito. Ele não teria paciência para demagogos e aventureiros políticos como
Duprat e o padre Macamboa, que quase fizeram estourar uma revolução.
No final das contas, d. João não levaria os netos para a Europa. Eles
continuariam no Brasil, junto com d. Pedro e d. Leopoldina. O rei — ou “rei
velho”, como anos depois viria a ser lembrado, com certo ar saudosista, por
alguns de seus antigos súditos brasileiros — embarcaria então para Portugal
após revolucionar o Brasil em 25 de abril, aniversário de d. Carlota. Assim
como ocorrera em Lisboa no ano de 1808, não houve grandes
demonstrações de despedida, e o embarque foi realizado de madrugada.
Junto com d. João, partiram mais de quatro mil pessoas, entre as quais
funcionários, criados, ministros, diplomatas e suas famílias.
Antes do embarque, no dia 24, pai e filho teriam travado a última
conversa privada de suas vidas. D. Pedro a rememoraria em carta a d. João
datada de 19 de junho de 1822:
Eu ainda me lembro e me lembrarei sempre do que Vossa Majestade me disse antes de partir
dois dias, no seu quarto: “Pedro, se o Brasil se separar, antes seja por ti, que me hás de respeitar
do que para algum desses aventureiros.”166

151 Outra versão para o fato, recolhida pelo pintor francês Debret, que esteve presente na cerimônia,
dizia que o rei de Portugal não era mais coroado desde que d. Sebastião desaparecera com a coroa na
batalha de Alcácer-Quibir. Isso, porém, não é correto, pois também d. Sebastião fora apenas aclamado.

152 Atual praça XV, no centro do Rio de Janeiro.

153 MONGLAVE, Eugène de. Correspondance de don Pèdre Premier, pp. 20-1.

154 Idem, p. 26.

155 PALMELA, Duque de. Despachos e correspondência..., tomo I, p. 142.

156 MARTINS, Francisco José da Rocha. O último vice-rei do Brasil, p. 110.

157 KANN, Bettina; LIMA, Patrícia Souza. Cartas de uma imperatriz, p. 372.

158 Idem, p. 378.


159 OBERACKER Jr., Carlos H. A imperatriz Leopoldina, p. 204.

160 FERREIRA, Silvestre Pinheiro. Memórias e cartas biográficas, p. 252.

161 Coleção das Leis do Brasil – 1821, parte II, p. 22.

162 Equivale atualmente à Câmara dos Vereadores.

163 FERREIRA, Silvestre Pinheiro. Memórias e cartas biográficas, p. 258.

164 KANN, Bettina; LIMA, Patrícia Souza. Cartas de uma imperatriz, p. 377.

165 Atual Casa França-Brasil, no centro do Rio de Janeiro.

166 Arquivo Histórico do Museu Imperial, I-POB-09.01.1822-PI.B.c 1-7


A independência
como negócio de família

OS PRIMEIROS dias do governo de d. Pedro como príncipe regente não


foram dos mais auspiciosos. A população do Rio de Janeiro ressabiou-se do
modo pelo qual a Assembleia fora dispersada. A praça do Comércio ficou
vazia e foi evitada pelos negociantes durante algum tempo. Periodicamente,
surgia uma placa no edifício em que se lia “Açougue dos Bragança” ou
“Açougue Real”, mas esta era rapidamente retirada pelas autoridades. Na
Bahia, quando se soube do ocorrido no Rio de Janeiro, a praça do Comércio
local foi decorada com crepes negros, em sinal de luto. As patrulhas na
capital foram dobradas e, em diversas praças e locais estratégicos, batalhões
do exército e peças de artilharia permaneciam em prontidão.
Entretanto, d. Pedro estava longe de ser tão cauteloso quanto o pai.
Sempre ativo, altivo e imprudente, ele fazia questão de sair às ruas e
vistoriar estabelecimentos públicos — enfim, ver e ser visto, sobretudo
trabalhando. Acreditava ser seu dever dar exemplo e se preocuparia, ao
longo de sua presença à frente dos negócios de Estado, com o micro e o
macro: nada lhe passava despercebido.
O decreto de nomeação de d. Pedro como príncipe regente do Reino do
Brasil definia tudo o que ele poderia fazer na administração dos negócios
estatais e, até mesmo, eclesiásticos. Entre as prerrogativas cedidas por d.
João, estava a de que o jovem príncipe poderia declarar guerra ofensiva ou
defensiva a qualquer inimigo que atacasse o reino. O decreto real também
assinalava que, em caso de impedimento, a regência seria assumida por d.
Leopoldina. Além disso, impunha quatro ministros de Estado ao governo do
príncipe. Para o cargo mais importante, o de Secretário de Estado dos
Negócios do Reino do Brasil e Negócios Estrangeiros, foi nomeado o conde
dos Arcos.
D. Marcos de Noronha e Brito, conde dos Arcos, era o vice-rei brasileiro
quando do estabelecimento da corte no país, em 1808. Fora transferido ao
Brasil em 1803, como governador do Pará. Com a chegada família real e a
subsequente extinção do posto de vice-rei, partiu para a Bahia na condição
de governador e retornou ao Rio de Janeiro, posteriormente, como ministro
da Marinha. Nunca perdeu contato com o jovem príncipe; costumava
enviar-lhe madeiras nobres e raras da Bahia, com as quais o rapaz praticava
marcenaria.167 Seria o primeiro dos muitos acusados de manipulá-lo. Os
embaixadores estrangeiros no Brasil, sobretudo o britânico Thornton,
referiam-se ao conde dos Arcos como “primeiro e praticamente único
ministro” de d. Pedro. Isso, porém, não era bem verdade. O príncipe
dificilmente se deixaria dirigir, ainda mais na posição que ocupava. À época
da revolta da praça do Rocio, em 26 de fevereiro de 1821, havia já escrito
ao conde para dizer que “não era homem que precisasse ser governado por
outro”. O problema acerca do nome do ministro, sobretudo entre os
militares pró-constitucionalistas, estava em que ele alegara doença na
ocasião, permanecendo em casa. Ele era um dos poucos nobres de alto
escalão que não comparecera ao Teatro Real para jurar fidelidade à
Constituição que viria de Portugal.

Um amigo de Napoleão como


conselheiro
D. Pedro nutria pelo amigo e ministro o mesmo apreço que, para horror de
d. Carlota Joaquina, demostrara para com o antigo general de Napoleão,
Dirk van Hogendorp. O conde de Hogendorp, militar e administrador
holandês, fora governador da parte oriental de Java, nas antigas Índias
Holandesas, atual Indonésia. Suas ideias liberais haviam-no levado à prisão,
em 1798, por defender o direito dos povos nativos das ilhas. Conheceu a
Índia e, após a tomada da Holanda pela França, serviu o exército francês.
Durante o império napoleônico, chegou a governar cidades importantes da
Alemanha; em Viena, onde conheceu d. Leopoldina, serviu como
embaixador de Luís Bonaparte, rei da Holanda e irmão de Napoleão.
Fiel a este, foi nomeado governador de Nantes quando, tendo fugido da
ilha de Elba, em 1815, o monarca retomou o trono. Após a queda definitiva
do imperador, viu-se obrigado a exilar-se em 1816. Hogendorp chegou ao
Brasil e adquiriu a fazenda Novo Sião, na Floresta da Tijuca, onde, segundo
a viajante inglesa Maria Graham, vivia em uma “agradável casa de campo
de aspecto simpático, no alto da encosta do Corcovado”. Apesar de
agradável, a casa era pequena, tendo apenas três cômodos e a varanda. O
quarto de dormir fora pintado de negro, com esqueletos em tamanho natural
pintados em poses alegres. Um dos quartos funcionava como depósito, no
qual eram estocados barris de vinho de laranja e garrafas de licor feito com
grumixama. Também segundo Graham, o licor era de ótima qualidade e
lembrava o de cereja. Além das bebidas que fabricava, a fazenda contava
com cerca de 20 a 30 mil pés de café.
Quem primeiro o visitou foi d. Leopoldina, que, ao caçar na mata insetos
para sua coleção, foi dar à porta do exilado. Logo, acompanhou-a o marido.
É de se imaginar a impressão que Hogendorp deve ter dado a d. Pedro.
Além de seu lado liberal e constitucionalista e de ter sido ex-aluno de Kant,
o holandês, segundo Maria Graham, era “uma ruína de um outrora belo
homem; mas não perdeu o ar marcial. É alto, mas não magro demais; os
olhos cinzentos brilham de inteligência e a linguagem pura e enérgica é
ainda transmitida em voz clara e bem timbrada, ainda que um pouco gasta
pela idade”.
A fidelidade do velho militar destacou-se de tal maneira que Napoleão se
lembraria dele em seu testamento, mas infelizmente o conde viria a falecer,
em outubro de 1822, sem saber da herança. Hogendorp foi acometido por
um mal súbito no meio da floresta. Alguns dias se passaram antes que seu
corpo, parcialmente devorado por animais, fosse localizado pelos escravos.
Quando o vestiram para o enterro, descobriram que seu corpo era tatuado
como o dos nativos indonésios. Em uma carta ao irmão, Hogendorp
afirmava que o príncipe o consultava “confidencialmente [...] para ouvir
meu conselho e minha opinião”.168 Desse maneira, d. Pedro criava o estofo
necessário para reinar dentro do liberalismo e cercado das mais diferentes
personalidades.

D. Pedro ensaia
seu lado liberal
Em 27 de abril, num de seus primeiros atos à frente do governo do Brasil, d.
Pedro fez uma proclamação aos súditos em que sua veia liberal se fazia
evidente. Ele reafirmou a intenção de zelar pela “felicidade do Brasil até
que de Portugal chegasse a Constituição” e de antecipar “todos os
benefícios da Constituição [...] conjugáveis com a obediência das leis”.
Assim, entre abril e maio, começaram a surgir decretos novos, nos quais o
governante tentava criar uma base melhor para a economia brasileira, além
de zelar pela propriedade privada — como no de 21 de maio, em que
delimitou as regras de desapropriação de bens particulares tendo o “sagrado
direito de propriedade” em vista.
Em 23 de maio, o príncipe emitiu um decreto que fundamentava as bases
da liberdade individual das “pessoas livres”. A partir de então, ninguém
poderia ser preso sem emissão de ordem escrita por um juiz ou magistrado,
a não ser em caso de flagrante delito. O decreto também especificava a
impossibilidade de prisões sem culpa formada e exigia que o processo fosse
resolvido em 48 horas, período em que réus e testemunhas seriam
confrontados e o acusado gozaria de amplos meios de defesa. A partir desse
ato, estava proibido prender em segredo e encarcerar os detentos em
“masmorras estreitas, escuras ou infectas”. Proibia-se, ainda, “o uso de
correntes, algemas, grilhões e outros ferros inventados para martirizar
homens ainda não julgados”.
Outra medida de d. Pedro que visava desonerar os comerciantes e
empreendedores, bem como incentivar a produção e o comércio de couros e
carne seca, foi acabar com o imposto sobre o sal. No intuito de incrementar
o comércio interno, ele eliminou ainda a taxa de 2% que então incidia sobre
a navegação de cabotagem.
Juramento às bases
constitucionais
No final de maio, haviam chegado de Portugal notícias referentes à adoção,
pelas Cortes Portuguesas, de uma série de “bases” que serviriam como norte
à elaboração da Constituição. Com as notícias vindas pelos jornais
portugueses, não chegou nenhum pedido do parlamento para que o Brasil
acatasse ou jurasse essas bases. Pelo contrário: era explícito no texto que
nenhuma disposição constitucional seria adotada antes de os deputados
brasileiros chegarem a Portugal e assumirem seus respectivos lugares na
Assembleia Constituinte, algo que ainda não ocorrera. Só assim eles teriam
oportunidade de debater tais disposições e votá-las.
Boa parte do governo brasileiro entendeu que nada deveria ser feito a
respeito daquelas bases, inclusive d. Pedro. Os militares, contudo, sobretudo
os constitucionalistas, passaram a divulgar que o conde dos Arcos, a julgar
pelas atitudes de fevereiro de 1821, estivera influenciando o príncipe
regente a não jurá-las. O fato é que a desconfiança nutrida por ambas as
partes alimentou uma grande desavença. Cartazes e proclamas militares
começaram a surgir pela cidade, acusando o governo de ser
anticonstitucionalista. Isso indispôs os militares portugueses com d. Pedro e
vice-versa.
Os militares queriam que o príncipe jurasse as bases da futura nova
Constituição, demitisse o conde dos Arcos e estabelecesse uma junta de
governo. Na madrugada de 5 de junho, voltando da Fazenda de Santa Cruz,
onde havia ido caçar, d. Pedro, farto de toda essa intriga, passou pelo
quartel do 3o Batalhão de Infantaria Ligeira e intimou o capitão. Acusando-
o de ser autor de proclamações subversivas que buscavam perturbar a paz,
ameaçou-o dizendo-lhe que tomasse cuidado.
O ato intempestivo, a bravata, teve efeito contrário ao que era esperado.
Quando chegou à Quinta, d. Pedro foi informado de que o 3º Batalhão
partira em marcha para o quartel do 11o. Convocando o ministro do
Exército, o regente exigiu que o tenente-general Jorge Avilez, comandante
da divisão, fosse demitido do cargo. Avilez ignorou o pedido e colocou-se à
frente das tropas. D. Pedro, então, foi mais uma vez enfrentar sozinho o
exército, os soldados e os oficiais na praça do Rocio, a exemplo do que
ocorrera em fevereiro. Em carta ao pai, ele descreveria a cena:
Fui ao Rocio, chegando vieram todos os oficiais com o general à testa e eu lhes perguntei: —
Que é que fala aqui? A isto ficaram um tanto sobressaltados e eu repeti: — Quem fala? Disse o
general: — Eu, pela tropa. — O que querem elas? Disse ele: Jurarmos as bases constitucionais
portuguesas. Respondi: — Não tenho dúvida, mas ó o que sinto é que hajam homens que
assentem que eu não tenho palavra tanto política quanto religiosa, tendo eu jurado in totum
tanto por ser minha vontade a constituição tal qual as cortes fizeram, mas a minha não fica mal,
mas sim a quem duvida da palavra de um príncipe comprometida por um juramento para mim
tão sagrado.169

Apesar de seu discurso, as tropas continuaram rebeladas: só aceitariam


voltar aos quarteis após terem seus pedidos atendidos. D. Pedro, por sua
vez, também afirmou que nada juraria sem conhecer a real vontade do povo
que governava, uma vez que o exército era somente parte da nação. Desse
modo, com a anuência das tropas, do general Avilez e dos demais oficiais,
foram convocados para o Teatro Real os vereadores da Câmara Municipal e
os eleitores da comarca do Rio de Janeiro. Enquanto todos se reuniam, d.
Pedro permaneceu à espera, no teatro, por um total de cinco horas. Ele
parecia um dos poucos, ali, a manter a compostura e o sangue-frio. Ao
velho conde Lousã, ministro de seu gabinete que em dado momento
começara a chorar, o príncipe precisou dar uma sacolejada, inquirindo se ele
havia perdido a cabeça.
Durante a reunião dos representantes do povo, chegou o pedido de
renúncia do conde dos Arcos, que de sua residência tentou arregimentar, em
vão, tropas brasileiras que marchassem contra os portugueses no Rocio.
Pretextando ter que acompanhar a filha a Portugal, ele informava ao
príncipe que deixaria o Brasil em 10 de junho.
As lembranças da carnificina do exército na praça do Comércio, em abril,
ainda estavam bem vivas na cabeça dos vereadores e eleitores, que
prontamente acataram tudo o que o exército pedia . D. Pedro seria obrigado
a jurar as bases, o conde dos Arcos deveria abandonar o governo
imediatamente e uma junta governamental, proposta pelo exército e eleita
ali mesmo, com nove membros, passaria a supervisionar o trabalho do
ministério e do príncipe regente.
Dando o melhor de si
D. Pedro perdia em todos os terrenos: além de ver dissolvida sua reputação
junto à tropa, ficava reduzido a mero fantoche do governo. Não gozava mais
de qualquer influência política, e para piorar tivera de partir não somente do
governo, mas também do Brasil, o seu principal aliado. Naquela mesma
noite, o príncipe retornou ao teatro, que, além de manifestações populares e
bernardas militares, continuava se prestando à função primordial de exibir
balés, óperas e outros tipos de divertimentos. Chegou ali por volta das oito
da noite com a esposa, d. Leopoldina. Os dois assistiram à ópera; em
seguida, foi declamado um poema em honra a d. João VI e apresentou-se,
como atração extra, o Hino à Constituição, com letra e poesia de d. Pedro. O
príncipe foi efusivamente saudado pela plateia; enquanto a cumprimentava,
jubiloso, jurava para si mesmo que, se obrigado a retornar à praça do Rocio
mais uma vez, partiria no dia seguinte do Brasil. Sua sede de poder era
menor que seu amor-próprio.
Apaziguadas as tropas, d. Pedro tratava dos assuntos mais urgentes, entre
eles a quase quebra do Banco do Brasil, praticamente insolvente devido à
descapitalização gerada pela partida da corte. Era necessário apertar o cinto,
e o próprio príncipe dava o exemplo.
Em carta ao pai datada de 17 de julho de 1821, ele informava:
[...] Sem embargo de tudo isto já exposto, comecei a fazer bastantes economias principiando por
mim: Mudei a minha casa para a Quinta de São Cristóvão a fim de irem para o Paço da Cidade
todos os Tribunais, secretarias, e tudo quanto estava em casa paga por conta do Estado. Todas
estas mudanças se fizeram quase de graça porque os escravos de Santa Cruz e desta quinta, que
tem os seus ofícios, são os trabalhadores. [...] Pela cavalariça não se gasta senão milho, porque
o capim é da Quinta: de 1.290 bestas fiquei só com 156; em uma palavra, a minha roupa, a da
mantearia e tesouro é lavada pelas escravas, e eu não faço de despesa quase nada em proporção
do que dantes era, mas se ainda puder economizar mais, o hei de fazer a bem da Nação.170

D. Pedro continuou a carta elencando minuciosamente as dívidas do estado,


como se para demonstrar que o caos financeiro que imperava no Brasil não
era culpa sua. Ele assumira a administração à beira da falência e agora dava
o melhor de si: “[...] Não há maior desgraça do que esta em que me vejo,
que é de desejar fazer o bem e arranjar tudo e não haver com quê.”171
Na mesma missiva, o príncipe se refere a uma rebelião ocorrida na cidade
paulista de Santos, em que soldados haviam se revoltado por conta do soldo
atrasado, ocasionando mortes e prisões. D. Pedro também revela que, em
São Paulo, fora eleita uma junta governamental de que José Bonifácio
ocupava o cargo de vice-presidente, devendo-se a ele o sossego em que se
encontrava tal província, “obedecendo-me menos no que toca a mandar
dinheiro”.

Um novo aliado
José Bonifácio e seus irmãos, Martim Francisco e Antônio Carlos, eram
naturais de Santos, no litoral sul de São Paulo, filhos do coronel Bonifácio
José Ribeiro de Andrada, proprietário do sítio Mongaguá, que deu origem à
cidade que leva esse nome.
Como era de praxe nas famílias de posse, José Bonifácio foi estudar em
Coimbra, a grande universidade lusitana. Aos 25 anos, em 1788, já se
formara em Direito e em Filosofia. Dando prosseguimento à carreira
acadêmica, especializou-se em matemática, mineralogia e história natural,
entre outros ramos. Viajou à pesquisa e estudo por toda a Europa Ocidental,
sob o patrocínio da coroa portuguesa. Estava em Paris quando a Revolução
Francesa estourou. Retornou a Coimbra e lá passou a dar aulas, ao mesmo
tempo que prestava serviços ao governo português, sobretudo em questões
referentes ao declínio da extração de ouro e pedras preciosas nas minas
brasileiras.
Bonifácio permaneceu em Portugal durante a invasão francesa e alistou-se
no Corpo de Voluntários Acadêmicos, no qual chegou ao posto de
comandante devido à sua capacidade de liderança. Já aposentado dos
trabalhos reais, conseguiu de d. João, então príncipe regente, a autorização
para retornar ao Brasil, onde chegou em 1819, com 51 anos. Junto do irmão,
Martim Francisco, realizou pesquisas mineralógicas por São Paulo; ali,
acabou organizando as eleições de 1821 e tomando parte no governo
paulista, como d. Pedro viria a informar em carta ao pai.
A viajante inglesa Maria Graham, que conheceu José Bonifácio na década
de 1820, descreveu-o como uma pessoa muito interessante, bastante polida,
de estatura baixa, rosto magro e pálido. Segundo ela, assemelhava-se a
alguém tomado por uma atividade febril que lhe consumia corpo e mente.
Graham também reparou que o velho sábio, além de conhecer diversos
ofícios, línguas e países, e além de tratar com nobres, reis e príncipes, era
um namorador e amante incorrigível. Apesar da idade, gostava de farrear
numa boa adega. Um particular interessante está no fato de que adorava
crianças e as tratava como iguais. Em um bilhete a d. Pedro, d. Leopoldina
descreve uma cena ocorrida na fazenda de Santa Cruz, onde José Bonifácio
balançou a cabeça da futura rainha de Portugal, d. Maria da Glória, e
afirmou: “Tem bastante juízo aí dentro.”
Sua paixão por crianças, em especial pelos filhos, teria levado José
Bonifácio a raptar a própria filha bastarda antes de sair da Europa e retornar
ao Brasil. Entregou a menina à esposa para que fosse educada e mais tarde
casou essa filha com o tio, Martim Francisco.
Uma particularidade dos três Andrada, José Bonifácio, Martim Francisco
e Antônio Carlos, era a união inquebrantável dos laços familiares e o ódio
figadal que os unia contra quem arrumasse briga com um deles.
Inicialmente, eles e d. Pedro se ligariam a uma causa comum.
Além das veias liberal e econômica, d. Pedro também tinha uma
dramática, como se verifica no auge da crise do Banco do Brasil. O “tísico
banco”, como a ele se referia, não teria mais dinheiro em quatro meses:
[...] Ele de todo já não tem nem ouro, nem prata e só sim algum cobre que se tem cunhado
depois de fundido e esse tirado de algumas embarcações [...]. Por consequência como não tem
crédito, nem com que o alcance, os seus bilhetes valem muito pouco ou quase nada. Assim
lembre-se V. M. deste infeliz que está pronto a sacrificar-se pela Pátria, como o tem mostrado, e
V. M. presenciado. Não pense V. M. que eu me quero subtrair ao serviço da Nação e de V. M.,
mas sim às tristes e lamentáveis cenas e circunstâncias em que me acho. Peço a V. M. por tudo
quanto há de mais sagrado, me queira dispensar deste emprego, que seguramente me matará
pelos contínuos e horrorosos painéis que tenho, uns já à vista, e outros muito piores para o
futuro, os quais eu tenho sempre diante dos olhos, e para isso ter o gosto de beijar a mão de V.
M. e de assistir ao pé de V. M. por todas as razões expendidas, e não expendidas. V. M.
perdoará o meu modo de escrever, mas é a verdade que o faz não sou eu, porém repare V. M.
que o meu fim tem sido sempre bom, que é alcançar para V. M. delícias, para a Nação
felicidade e glória, e para mim honra.172

Sem muitos aliados após a queda do conde dos Arcos, d. Pedro, juntamente
com d. Leopoldina, aproximou-se dos militares que o haviam obrigado a
jurar as bases da Constituição. Em comemoração à Revolução do Porto, os
oficiais deram um baile em que o casal real se fez presente, retirando-se
somente às seis horas da manhã do dia seguinte. D. Pedro, astuto,
aproximava-se de todos, inclusive — segundo os comentários — da esposa
do general Avilez. Talvez possamos depositar essa traição na cota de
vingança do príncipe; não por acaso, José Bonifácio se lembraria dele no
exílio como “Pedro Malasartes”.

José Bonifácio de Andrada e Silva.


A recolonização do Brasil
A aproximação de d. Pedro com os militares era estudada, assim como
provavelmente os desabafos desesperados ao pai. O príncipe já sabia das
condições em que a família real se encontrava ao chegar a Portugal. Com a
queda do absolutismo português após a Revolução do Porto, as Cortes
trataram de revelar seu poder. Quando o rei chegou a Portugal, teve o
desembarque adiado em um dia. D. João precisaria esperar para ser
saudado, a bordo, por uma delegação enviada pela Assembleia. Não seria
difícil intuir que as mensagens trocadas entre pai e filho passassem pela
leitura de outras pessoas, que não precisavam suspeitar dos acertos
existentes entre os dois antes da partida do rei do Brasil.
As Cortes portuguesas ficaram descontentes ao notar que d. Pedro, os
filhos e d. Leopoldina não haviam partido com o restante da família real.
Menos ainda alegrou-os o fato de d. João ter deixado o filho como príncipe
regente do Brasil, cujo governo eles esperavam caber apenas às juntas, em
comunicação direta com Lisboa. Em setembro de 1821, apenas 46 dos 82
deputados brasileiros haviam chegado às Cortes e tomado assento; desse
total, somente uma parte eram brasileiros natos.
Foi nessa época que as Cortes resolveram acabar com tudo o que d. João
construíra no Brasil de 1808 até então. Eles extinguiram a figura jurídica
internacional do Reino do Brasil e não recriaram o vice-reino: todas as
províncias brasileiras passavam a ser territórios ultramarinos portugueses;
além disso, como os governos da Bahia, Pernambuco e Maranhão já faziam,
os demais não deveriam reconhecer a autoridade de d. Pedro como príncipe
regente do Brasil. Todas as províncias deveriam se reportar diretamente ao
governo português na Europa. Foi decretado o fechamento de todos os
tribunais, agências e repartições públicas criados após 1807 no Brasil, o que
transformou os milhares de juízes, advogados, meirinhos e burocratas
automaticamente desempregados em patriotas brasileiros pró-
independência. Quanto ao príncipe d. Pedro, este deveria retornar à Europa
com a família e realizar uma viagem pelo velho continente a fim de
completar sua educação.
Os decretos das Cortes foram enviados ao Brasil em outubro, chegando às
terras brasileiras no dia 9 de dezembro. D. Pedro, aparentemente decidido a
cumpri-los, mandou que fossem publicados, ao lado de sua resolução de
partir, na Gazeta no dia 11.
Dois meses antes, o príncipe havia mencionado, em carta ao pai:
A independência tem se querido cobrir comigo, e com a tropa, com nenhum conseguiu, nem
conseguirá, porque a minha honra e a dela é maior que todo o Brasil; queriam-me, e dizem que
me querem, aclamar imperador; protesto a Vossa Majestade que nunca serei perjuro, que nunca
lhe serei falso e que eles farão essa loucura, mas será depois de um e todos os portugueses
estarem feitos em postas: é o que juro a Vossa Majestade, escrevendo nesta com o meu sangue
estas seguintes palavras: juro sempre ser fiel a Vossa Majestade, à Nação e à Constituição
Portuguesa.173

D. Pedro tentava sinalizar da melhor maneira possível que as coisas estavam


desandando no Brasil, mas os deputados constituintes portugueses não
tinham a real dimensão das questões brasileiras. Movidos pelo rancor de
terem perdido a capital para o Rio de Janeiro e instados pela burguesia de
Portugal, que empobrecera devido à quebra do monopólio e ao
enfraquecimento de outros direitos sobre os produtos brasileiros, os
deputados buscavam transformar o Brasil novamente em uma colônia.
Até então, todas as revoltas no Rio de Janeiro que haviam forçado
juramentos a uma constituição inexistente, à constituição espanhola e à base
de uma constituição que estaria por vir haviam sido orquestradas pelos
militares, comerciantes e caixeiros portugueses, ciosos de que não poderiam
perder seu poder sobre o Brasil. Tão logo os brasileiros ficaram cientes de
que a independência usufruída desde a chegada da corte em 1808 e,
sobretudo, desde a criação do Reino do Brasil em 1815 estava com seus dias
contados, eles passaram a marcar a própria presença com mais força e vigor,
inclusive nas forças armadas e na incipiente imprensa nacional.
A carta em que o príncipe informava a decisão de acatar o que fora
decidido pelas Cortes portuguesas caiu como uma bomba sobre o Rio de
Janeiro. Com a extinção do reino e o retorno à condição de mera colônia,
mais de oitocentas famílias perderiam sua renda devido à extinção dos
postos do governo e do judiciário, o que, por sua vez, afetaria igualmente os
comerciantes, que não teriam para quem vender suas mercadorias. Além
disso, ficava claro para os brasileiros natos no exército que somente
militares portugueses poderiam ocupar determinados postos, a serem
nomeados pelas Cortes.
D. Leopoldina,
a articuladora do Fico
D. Pedro continuaria no Brasil até a eleição e posse da nova junta que
governaria o Rio de Janeiro. Depois disso iria partir — estava resolvido...
não fosse por d. Leopoldina. Com sete meses de gravidez, à espera da
princesa Januária,174 que nasceria em 11 de março, d. Leopoldina recusou-se
a passar o final da gestação a bordo de um navio. Decidida, alternou entre
choro e ameaças de que não embarcaria para parte alguma antes do
nascimento da criança — até que d. Pedro concordou.
O que acontecera àquela jovem que, meses antes, também grávida,
mostrava-se disposta a atravessar o Atlântico a nado atrás do navio que
levaria o marido a Portugal? Se a d. Pedro, menos preparado do que a
esposa na arte de governar, d. João alertara que fizesse a separação antes
que outro a fizesse, teria o sogro conversado com a nora também antes de
partir, aconselhando-a? É bem provável (tanto quanto a máxima de que,
atrás de um grande homem, há sempre uma grande mulher).
D. Leopoldina tivera contato com os “Patriotas Brasileiros”, grupo
formado, entre outros, pelo frei franciscano Francisco de Santa Teresa de
Jesus Sampaio, em cuja cela, no convento de Santo Antônio, conspirava-se,
assim como nas lojas maçônicas, pela independência do país. Em carta de
outubro de 1821, a princesa abria-se com Maria Luísa:
[...] Infelizmente acabou-se a esperança de viajar rapidamente para a Europa, o que, sendo bem
honesta, é uma sorte, na situação crítica atual dos países europeus; o Brasil é, sob todos os
aspectos, um país tão maduro e importante, que é incondicionalmente necessário mantê-lo. O
Onipotente conduz tudo para o nosso bem e o bem comum vem antes do desejo individual, por
mais intenso que seja [...].175

Como solicitara o sogro antes de partir, era preciso manter o Brasil sob a
dinastia dos Bragança, unido debaixo de uma só coroa, e não despedaçado
em dezenas de repúblicas como nas províncias espanholas da América do
Sul. Essa era também a visão dos brasileiros (e até a dos portugueses natos
que se haviam estabelecido no Brasil, uma vez que iriam à ruína com os
decretos das cortes). Caso d. Pedro realmente deixasse o território
brasileiro, por mais quanto tempo o Brasil acataria as ordens vindas de
Portugal? D. João já não alertara o filho durante a partida, dizendo-lhe:
“Pedro, se o Brasil se separar, antes seja por ti, que me hás de respeitar do
que para algum desses aventureiros”? Sem dúvida, a educação da princesa,
sobretudo em termos políticos, dava-lhe a visão de conjunto que ao marido
faltava. Em maio de 1822, escrevendo ao marquês de Marialva, d.
Leopoldina reafirmava sua convicção:
Eis uma verdadeira sorte que tenha sido decidida a nossa permanência no Brasil, segundo
minha maneira de ver, e, pensando em política, esse é o único meio de evitar a queda total da
monarquia portuguesa [...]. O senhor pode estar certo de que nós, brasileiros, nunca seremos
capazes de sofrer as extravagâncias da Mãe-Pátria e que trilharemos sempre o caminho da honra
e da fidelidade.176

Guiado pela esposa, pelo conselho do pai, pelo caos em que, antevia-se, o
Brasil poderia cair após sua partida, ele garantiria ao menos um trono aos
filhos, haja vista que a situação em Portugal, além dos desmandos das
Cortes, era incerta. De Portugal, d. João VI alertaria o filho:
Sê hábil e prudente, pois aqui nas Cortes conspiram contra ti, querendo os reacionários que
abdiques em favor do teu mano Miguel. Tua mãe é pelo Miguel e eu, que te quero, nada posso
fazer contra os carbonários que não te querem.

O Fico
D. Pedro acabou concordando em adiar a partida, contanto que fosse essa a
vontade dos povos de Rio, São Paulo e Minas Gerais e que tais províncias
se comprometessem em assumir a responsabilidade de tal ato perante as
cortes. Sua firmeza aumentou após receber, em 1o de janeiro de 1822, uma
enérgica carta do governo paulista, redigida por José Bonifácio:
V.A. Real deve ficar no Brasil quaisquer que sejam os projetos das Cortes constituintes [...] Se
V. A. Real estiver, o que não é crível, pelo deslumbrado e indecoroso decreto de 29 de
setembro, além de perder para o mundo a dignidade de homem e de príncipe [...] terá também
que responder perante o céu do rio de sangue que decerto vai correr pelo Brasil com a sua
ausência […].
No dia seguinte, d. Pedro escreveria ao pai:
Ontem, pelas 8 horas da noite chegou de São Paulo [...] o ofício que ora remeto incluso para que
V. Majestade conheça e faça conhecer ao Soberano Congresso, quais são as firmes intenções
dos paulistas e por elas conhecer quais são as gerais do Brasil. Ouço dizer que as representações
desta Província são feitas no dia 9 do corrente: dizem mais, que São Paulo escreveu para Minas.
Daqui sei que há quem tem escrito para todas as províncias e dizem que tudo se há de fazer
debaixo de ordem. Farei todas as diligências por bem para haver sossego e para ver se posso
cumprir os decretos 124 e 125, (o que me parece impossível porque a opinião é toda contra por
toda a parte).177

À resolução paulista, juntaram-se os fluminenses, com uma representação


assinada por mais de oito mil pessoas desejosas da permanência do príncipe.
A elas, somou-se a dos mineiros: das cidades de Barbacena e Mariana,
chegaram novos pedidos pela permanência.
Quem não estava gostando muito de toda essa movimentação eram as
tropas portuguesas no Rio de Janeiro. O general Avilez notificou ao
príncipe o desejo do exército de encarcerar e enviar para Portugal aqueles
“perturbadores da ordem pública”. Em vão: a marcha dos acontecimentos
não podia mais ser impedida. O gabinete de d. Pedro pediu demissão,
restando ao príncipe receber sozinho os representantes do senado da Câmara
do Rio de Janeiro, em 9 de janeiro, no Paço da Cidade. Lá, José Clemente
Pereira proferiu um discurso, no qual colaborara frei Francisco de Sampaio.
Nele se lia: “Senhor. A saída de V.A. Real dos Estados do Brasil será o fatal
decreto que sancione a independência deste Reino.” O discurso afirmava,
em seguida, que o Brasil não podia retornar ao estado anterior de colônia e
revelava a vontade das demais províncias, como São Paulo e Minas Gerais.
Desse modo, d. Pedro capitulou e decidiu-se a ficar no Brasil.
Esse dia entraria para a história como o Dia do Fico, marcado pela célebre
frase que teria sido proferida pelo príncipe: “Como é para o bem de todos e
a felicidade geral da nação, estou pronto: diga ao povo que fico.” A história,
porém, não foi bem essa. A frase só surgiria no dia seguinte. A resposta real
dada por d. Pedro, e que consta no livro da vereança, foi:
Convencido de que a presença de minha pessoa no Brasil interessa ao bem de toda a nação
portuguesa, e conhecido que a vontade de algumas províncias assim o requer, demorarei a
minha saída até que as Cortes e meu Augusto Pai e Senhor deliberem a este respeito, com
perfeito conhecimento das circunstâncias que tem ocorrido.
A frase que entrou para a história seria mais forte e precisa do que o texto
original. Tratava-se de um verdadeiro toque de clarim aos patriotas
brasileiros e um sinal de alerta às tropas portuguesas que estavam dispostas
a acabar com aquilo.

D. Pedro jornalista
No início de fevereiro de 1822, d. Pedro, com o pseudônimo de “Sacristão
da Freguesia de S. João de Itaboray”, mandou publicar um panfleto no qual
narrava o ato do Fico e os acontecimentos subsequentes.
Nesse mesmo dia, depois de se retirar a Deputação, Sua Alteza Real mandou buscar o cavalo
(porque tinha ido de carrinho), em que foi para a chácara acompanhado de todos os oficiais-
militares do exército do Brasil. E, antes de partir, dizendo-lhe um que estava a seu lado:
— Será melhor que Vossa Alteza Real vá em seu carro. — Sua alteza real respondeu:
— Eu sei que me querem tirar os cavalos do carro, para o que já há diferentes pessoas
dispostas, e eu aflijo-me de ver os meus semelhantes dando, a um homem, tributos próprios à
Divindade. Eu sei que o meu sangue é da mesma cor que o dos negros.178

Essa seria uma das primeiras peças jornalísticas compostas pelo príncipe,
que usaria diversos pseudônimos ao publicar cartas-resposta e artigos em
jornais do Rio de Janeiro. Entre os pseudônimos que utilizou, constam:
Inimigo dos Marotos, Piolho Viajante, Duende, Repórter Eleitoral, O
Anglo-Maníaco, o Constitucional Puro, o Espreita, o Ultra-Brasileiro —
usado em defesas da independência brasileira —, o Filantropo — quando
defende a substituição do tráfico pela imigração europeia —, e o divertido
Derrete-Chumbo-a-Cacete — que utilizava para falar mal dos portugueses
no Brasil, pois estes tinham o apelido, entre outros, de “pés de chumbo”.
Aquela não seria nem a primeira, nem a única vez que d. Pedro diria em
público o que achava da escravidão no Brasil. Seria possível até imaginar
que se tratava de uma peça publicitária destinada a acalmar a população
escrava quanto às intenções do novo governante brasileiro, que se
encaminhava para o rompimento com Portugal. No entanto, uma tal
hipótese cai por terra quanto recordamos que, se era já alto o índice de
analfabetismo entre a população livre, era muito maior entre os escravos.
O levante da Divisão Auxiliadora
Portuguesa
No dia 11 de janeiro, o general Avilez, dizendo falsamente que fora
demitido, dirigiu-se aos quartéis dos batalhões 11 e 15 para se despedir.
Quando se retirou, foi saudado com vivas “ao general constitucional”.
Pouco depois, ambos os batalhões sublevaram-se e a revolta passou para os
batalhões de artilharia. As tropas portuguesas foram para as ruas, onde
destruíram vidraças e as iluminações festivas usadas na comemoração do
“Fico” do príncipe — tudo isso aos berros de “essa cabrada se leva a pau”,
como registrado por d. Pedro em carta a d. João.
O príncipe estava no teatro com d. Leopoldina quando foi informado do
que ocorria nas ruas. Ao ingressar na sala de espetáculos, notou a falta de
Avilez, que sempre se fizera presente, e tomou isso como um sinal. Nesse
ínterim, à porta do teatro, o coronel brasileiro José Joaquim de Lima e Silva
e o tenente-coronel português José Maria da Costa, comandante do 11o
Batalhão, desentendiam-se publicamente acerca dos acontecimentos do dia
9, e dessa discussão o militar português saiu ameaçando o brasileiro.
Segundo uma testemunha, José Maria afirmava que os brasileiros não
queriam a Constituição e que logo se veriam novamente reduzidos ao antigo
cativeiro. Disse, ainda, que o príncipe seria levado a Portugal pelas orelhas.
“Vocês foram nossos escravos, são e hão de continuar a ser e eu vou dar a
prova.” 179
Segundo Maria Graham, presente no teatro, os sons que passaram a vir do
camarote de d. Pedro após lhe ser informado o ocorrido começaram a abafar
a voz dos atores. A plateia, preocupada com o que poderia estar
acontecendo, começou a se levantar para sair, no que foi impedida pelo
príncipe, que num discurso improvisado explicou o que então ocorria e as
providências que já teria tomado. Afirmou, ainda, que o melhor para todos,
no momento, era permanecer no teatro e terminar de assistir ao espetáculo,
para que não prejudicassem o movimento das tropas nas ruas.
Após o fim da peça, d. Pedro foi escoltado até São Cristóvão por oficiais
brasileiros; em seguida, despachou os filhos e d. Leopoldina, grávida de oito
meses, para fora da cidade: às três horas da madrugada, partiram para a
fazenda de Santa Cruz. Enquanto isso, o príncipe tratou de arregimentar as
tropas favoráveis à sua decisão e seguiu para o Jardim Botânico, onde se
localizava a fábrica de pólvora. Queria assegurar-se de que ela estava
protegida e nas mãos dos brasileiros.
Desde a madrugada, uma companhia portuguesa ocupava o morro do
Castelo para proteger o Arsenal de Guerra. Diversas patrulhas também se
encontravam próximo ao largo do Moura, onde havia aproximadamente
dois mil portugueses em armas. No Campo de Santana, em que se
aquartelavam os batalhões brasileiros, juntaram-se a eles o povo do Rio de
Janeiro, incluindo freis e padres armados e oficiais portugueses que se
posicionaram contra Avilez e seus comandados. A pé e a cavalo, a massa da
tropa pró-Fico era composta de mais de dez mil pessoas. No entanto, apesar
de todo o ímpeto, a disciplina militar dos portugueses acabaria facilmente
com essa tropa mal organizada, na qual muitos estavam armados apenas
com o seu patriotismo. Além disso, a multidão encontrava-se disposta em
campo pouco propício para um enfrentamento.
No fim, não houve enfrentamento algum. Avilez pediu permissão para se
retirar a Niterói com suas tropas. Na batalha que não houve, só foi
registrada uma única baixa: a de uma criança.

D. João Carlos, o protomártir da


Independência do Brasil
Na noite de 3 de fevereiro, d. Pedro escreveu a José Bonifácio, a quem
fizera ministro (o primeiro brasileiro no posto), o seguinte bilhete:
José Bonifácio,

Chorando escrevo esta a dizer-lhe que venham amanhã aqui, no despacho, às horas do costume,
porque eu lá não posso ir, visto o meu querido filho [estar] exalando o último suspiro, e assim
não durará uma hora. Nunca tive, e Deus permita que não tenha outra, ocasião igual a esta como
foi o dar-lhe o último beijo e deitar-lhe a derradeira bênção paterna. Calcule, pelo amor que tem
à sua família e ao meu filho, qual será a dor que transpassa o coração.

Deste seu amo e amigo.


Pedro
São Cristóvão,

3 de fevereiro de 1822 às 8 e um quarto da noite.

Ao pai, no dia 4, enviaria a seguinte carta:


Meu pai e meu senhor. Tomo a pena para dar a Vossa Majestade a mais triste notícia do sucesso
que tem dilacerado o meu coração. O príncipe d. João Carlos, meu filho muito amado, já não
existe.
Uma violenta constipação cortou o fio de seus dias. Este infortúnio é o fruto da insubordinação
e dos crimes da divisão portuguesa. O príncipe já estava incomodado quando esta soldadesca
rebelde tomou as armas contra os cidadãos pacíficos desta cidade; a prudência exigiu que eu
fizesse partir imediatamente a princesa e as crianças para a fazenda de Santa Cruz, afim de as
por ao abrigo dos sucessos funestos de que esta capital podia vir a ser o teatro. Esta viagem
violenta, sem as comodidades necessárias, o tempo que era muito úmido, depois de grande calor
do dia, tudo enfim se reuniu para alterar a saúde do meu caro filho, e seguiu-se-lhe a morte.
A divisão auxiliadora, pois, foi a que assassinou o meu filho e neto de Vossa Majestade. Em
consequência, é contra ela que levanto minha voz. Ela é responsável na presença de Deus e ante
Vossa Majestade deste sucesso, que tanto me tem aflito, e que igualmente afligirá o coração de
Vossa Majestade.
D. Leopoldina e d. Pedro passaram a culpar as tropas portuguesas pelo estado de saúde do filho.
Em 22 de janeiro, aniversário da princesa, tanto ela quanto o marido recusaram-se a receber um
grupo de oficiais portugueses que vieram beijar-lhe a mão.

Após a morte do filho, farto de ver tantas vezes adiado o embarque das
tropas de Avilez para Portugal, d. Pedro embarcou na fragata União e, em 9
de fevereiro, intimou-as a iniciarem o embarque até o dia seguinte; caso
contrário, as declararia inimigas, tendo já passado ordens para que lhes
fizessem fogo. Em dois dias, os tropas enfim partiam de volta a Portugal.
Não só às tropas portuguesas, mas também às cortes, d. Pedro passaria a
atacar após a morte de d. João Carlos, de quem nunca se esqueceria.
Lembraria o filho ao expor, à época de sua abdicação, em 1831, os
sacrifícios que fizera pelo Brasil.
Qualquer resto de respeito que d. Pedro pudesse ter em relação às Cortes
portuguesas morreu junto com seu filho, a quem o frei franciscano Monte
Alverne se referiria futuramente como “protomártir da independência
brasileira”.180
Tentando se aproximar do “Mano
Miguel”
Em junho de 1822, escrevendo ao príncipe d. Miguel para tratar do
casamento do irmão com sua filha mais nova, d. Maria da Glória, d. Pedro
dizia:
Rio, 19 de junho de1822.

Meu mano.
Neste momento acabo de escrever a meu pai e lhe peço, em meu nome e do Brasil, que o deixe
vir para cá, porque é preciso para felicidade da nação toda e sua muito em particular. Não
faltará quem lhe diga que não largue a casa do infantado, mande-os beber da merda. Também
lhe hão de dizer que separando-se o Brasil, vem a ser rei de Portugal, torne-os a mandar. E
depois de dizerem tudo quanto têm a dizer-lhe esses inimigos que o cercam, dê-lhe com um
pau, venha para o pé de seu mano, que o estima, para entre os brasileiros que o veneram e para
se namorar de perto e casar a seu tempo com a minha filha. Fortuna que não deve desprezar, sob
pena de ser tolo ou estás traído e enganado pelos áulicos que o ordenam, e que cá morrem de
fome por serem marotos. Venha, venha e venha que o Brasil o receberá de braços abertos, e será
feliz. Tendo tudo muito seguro sem lhe custar nada e estar em perfeita segurança, o que lá lhe
não acontece porque está no perigo do Delfim de França e nosso pai, no de Luís XVI,
desgraçadamente, ao meu modo de ver. Resolva-se e venha juntar-se a este seu mano que lhe
deseja tantas venturas como para si.
Pedro.
P.S.

Nada é afetado, tudo é o que sinto.181

Foi esse o plano traçado pelo príncipe após saber, por d. João, que d.
Carlota Joaquina e deputados da corte queriam sua renúncia ao trono de
Portugal para substituí-lo por d. Miguel. Esta não seria sua primeira e nem a
última tentativa de tirar o irmão da influência de d. Carlota. Com ambos os
filhos no Brasil, o plano da rainha teria concretização impossível. D. Pedro
tentava d. Miguel mediante o casamento com a sobrinha — afinal, se queria
ser rei, que fosse como cônjuge da real herdeira. D. Miguel, porém,
aconselhado pela mãe, apesar das diversas tentativas de d. Pedro, nunca
voltaria a pôr os pés na ex-colônia.
O início da
independência real
Sem os militares portugueses à porta e aconselhado por ministros do calibre
de José Bonifácio, d. Pedro agora daria prosseguimento às reformas que
começara ao assumir o cargo de príncipe regente. Em 16 de fevereiro, ele
instituiu um colegiado de procuradores que deveria ter representantes de
todas as províncias brasileiras e se reuniria, no Rio de Janeiro, em 2 de
junho de 1822. Esse corpo seria consultivo — uma espécie de Conselho de
Estado, ao qual caberia auxiliar o príncipe à medida que este fosse
encaminhando o Brasil ao regime constitucional.
Na Bahia, em 17 de fevereiro, teve lugar uma revolta contra o governo e
as tropas portuguesas. Os patriotas — em maior número, mas sem disciplina
militar — perderam e tiveram que se retirar da cidade, dando início a uma
violenta guerra civil. Os patriotas baianos foram saudados por d. Pedro, que
prontamente decretou que as tropas portuguesas no Brasil deveriam se
submeter à sua autoridade ou deixar o país.
Apesar de algumas cidades de Minas Gerais terem se mostrado, como São
Paulo e o Rio de Janeiro, tanto fiéis à regência de d. Pedro quanto contrárias
às ordens das cortes, o mesmo não aconteceu com uma de suas principais
cidades: Ouro Preto. D. Pedro, percebendo a necessidade de integrar as três
províncias por completo à sua causa, partiu para Minas em 25 de março.
Com uma grande tropa para subjugar a cidade? Não: com quatro
companheiros de viagem e uma escolta formada por três soldados.
A chegada do príncipe às cidades que ficavam ao longo do caminho
causou o efeito que ele deveria ter imaginado: foi saudado
entusiasticamente. Afinal, fora as efígies em moedas e medalhas, somente o
povo da Bahia e do Rio de Janeiro havia visto e se aproximado de um
membro da família real. Lembremo-nos de que, muito além de uma
celebridade, condição de que gozaria nos dias de hoje, à época o príncipe
era o ungido, o destinado a ocupar um trono ancestral e herdar nações.
Ao chegar a Ouro Preto, d. Pedro lançou um proclama para que a cidade
se submetesse a ele, no que foi prontamente atendido. Pacificada Minas
Gerais, o príncipe instituiu eleições e retornou ao Rio de Janeiro, onde foi
recebido com júbilo pela população. Em 13 de maio, a maçonaria conferiria
a ele o título de “Defensor Perpétuo do Brasil”.
Uma semana depois, a Câmara do Rio de Janeiro solicitava dele a
convocação de uma Assembleia Constituinte. O príncipe submeteu o pedido
ao Conselho de Procuradores quando de sua reunião, em 2 de junho. Com o
pedido aprovado por maioria absoluta, d. Pedro lavrou o decreto de 3 de
junho que convocou a Assembleia, a se reunir no ano seguinte. Para a
Bahia, ainda tomada pela guerra entre portugueses e brasileiros, despachou
em julho um militar francês de nome Pierre Labatut, que vivenciara na
Europa diversas batalha. Labatut ficaria à frente de uma expedição de cerca
de trezentos soldados e oficiais cujo objetivo era prestar ajuda aos patriotas.
A marcha dos acontecimentos levou o príncipe, afoito por honras e
glórias, a encarnar por completo o espírito de independência dos brasileiros,
sobretudo após a morte de d. João Carlos. Em agosto, d. Pedro chamou de
volta os deputados brasileiros junto às Cortes em Lisboa e declarou guerra
às forças armadas portuguesas que ainda permaneciam no Brasil. Além
disso, lançou manifestos às nações amigas para que, daquele momento em
diante, tratassem diretamente com o governo local, e não mais com
Portugal.
O assunto foi notícia nos principais jornais da Europa. Em setembro,
fazendo uma análise dos últimos acontecimentos no Brasil, o jornal
londrino The Courier182 via assim a questão toda:
Há algumas semanas aludimos à possibilidade de que a conduta do Príncipe Real, opondo-se à
vontade das Cortes Soberanas e aos aparentes desejos de seu pai, resultaria de uma combinação
política entre eles, a fim de garantir o Império Brasileiro para a Casa de Bragança [...].

As considerações continuavam. A imprensa britânica revelou seu


conhecimento de uma carta íntima e particular trocada entre d. Pedro e d.
João VI em 19 de junho, na qual o príncipe lembrava ao pai as palavras
ditas antes de o rei partir do Rio de Janeiro: “Pedro, se o Brasil se separar,
antes seja por ti, que me hás de respeitar do que para algum desses
aventureiros.” O jornal acrescentou ainda: “Estamos curiosos para saber o
que as Cortes Soberanas dirão ao rei quando da revelação dos desígnios
secretos que animaram o príncipe.”
Após seu retorno a Portugal e a mudança do regime, o bonachão d. João,
tendo as Cortes governando em seu lugar, abria todos os dias os jornais de
Lisboa e dizia, segundo os cronistas da corte portuguesa: “Vamos ver o que
eu decidi ontem.” Com isso, fazia alusão às leis publicadas em seu nome e
sem o seu conhecimento. Seria importante revermos a imagem de rei
covarde e pusilânime, imaginando se, na realidade, não estaria ele por trás
da independência brasileira, assegurando ao filho e ao futuro neto, d. Pedro
II, a coroa do maior país da América do Sul.
De todo modo, não era apenas d. João quem jogava. Como ele mesmo
afirmou em carta ao filho, o rei era o único a favor de d. Pedro. D. Carlota e
os outros urdiam para que d. Miguel assumisse o trono. Talvez tenha partido
desses antagonistas a divulgação, na Europa, da carta de d. Pedro falando
que o pai o instruíra a separar o Brasil do império lusitano. A grave
revelação de que o rei de Portugal estava mancomunado com o príncipe
regente do Brasil poderia ser o suficiente, se bem conduzida a trama, para
afastar d. João do trono português.
Nem tudo no Brasil, porém, obedecia rigidamente um plano
preconcebido, e ainda havia muito trabalho a ser feito. Se alguns
portugueses, funcionários públicos, militares etc. haviam se alinhado às
ideias do príncipe, isso não ocorreu de maneira unânime. Tendo percebido o
rumo que o país seguia, o governador do Rio Grande, general Saldanha,
pediu demissão do posto e, buscando honrar seu juramento ao rei de
Portugal, quis retornar à Europa. No entanto, foi preso e levado ao Rio de
Janeiro, onde d. Pedro mandou soltá-lo. Tanto o príncipe quanto José
Bonifácio tentaram aliciá-lo à causa brasileira, mas foi em vão. No fim, d.
Pedro acabou por concordar com seu regresso a Lisboa, ao que se seguiria o
de diversos outros amigos e antigos colaboradores.
Enquanto isso, São Paulo, que sob a liderança de José Bonifácio havia se
alinhado ao príncipe, causava agora problemas. Parte do governo decidiu
voltar-se a Portugal e expulsar Martim Francisco da junta governativa de
São Paulo. O Andrada foi preso e enviado ao Rio de Janeiro. Ali chegando,
foi nomeado ministro do Tesouro pelo irmão, que então ocupava o cargo de
ministro de Estado dos Negócios do Reino do Brasil e Negócios
Estrangeiros. A indisposição entre os irmãos Andrada e o governo paulista
fez com que o presidente da junta de governo da província fosse demitido,
mas, como ele não partisse para o Rio como ordenado, d. Pedro resolveu
fazer o mesmo que fizera em Minas: ir apaziguar a capitania.
167 Ver p. 75.

168 OBERACKER Jr., Carlos H. A imperatriz Leopoldina, p. 195.

169 MONGLAVE, Eugène de. Correspondance de don Pèdre Premier, p. 4.

170 Idem, p. 6.

171 Idem, p. 7.

172 Idem, p. 12.

173 Idem, p. 13.

174 O nome da princesa Januária lhe foi dado pelos pais como homenagem ao Rio de Janeiro.

175 KANN, Bettina; LIMA, Patrícia Souza. Cartas de uma imperatriz, p. 383.

176 Idem, p. 399.

177 MONGLAVE, Eugène de. Correspondance de don Pèdre Premier, p. 21

178 Carta escripta pelo Sachristão da Freguesia de S. João de Itaboray ao Reverendo Vigário da mesma
Freguesia, narrando os acontecimentos dos dias de 9 e 12 de janeiro deste ano. Obras Raras, Biblioteca
Nacional, RJ.

179 MONTEIRO, Tobias. Elaboração da Independência, tomo 1, p. 416.

180 GALVÃO, Ramiz. O púlpito no Brasil, p. 136.

181 Arquivo Histórico do Museu Imperial, I-POB-14.03.1822-PI.B.c 1-2 (d2).

182 The Courier, 14 de setembro de 1822.


Sete de Setembro

D. PEDRO partiu do Rio de Janeiro para São Paulo em 14 de agosto. A


cidade voltava à sua vida após a mudança de planos de d. João VI em 1807,
que, em vez de mandar o filho para lá acompanhado de uma tia-avó,
decidira embarcar a família inteira para o Rio de Janeiro.
No dia 13, antes de deixar a capital, d. Pedro publicou um decreto
redigido por José Bonifácio, mediante o qual nomeava d. Leopoldina
regente em seu lugar, sendo-lhe autorizado despachar com os ministros, os
secretários e o Conselho de Estado enquanto o príncipe estivesse viajando.
D. Pedro vinha acompanhado de uma pequena escolta formada por um
secretário, dois criados, o jovem militar brasileiro Francisco de Castro
Canto e Melo e Francisco Gomes da Silva, o Chalaça. A exemplo do que
ocorrera em Minas, durante a viagem a comitiva engrossou, recebendo a
adesão de cidadãos notáveis da região do Vale do Paraíba. No dia 24, já no
subúrbio paulista, d. Pedro pernoitou na Penha, de onde despachou Chalaça
e Francisco de Castro, promovido por ele a alferes havia três dias, para
verificarem o “espírito” dos moradores da cidade. Segundo recordaria
Castro em 1864:
A 24, 10º dia da jornada, passou o príncipe na povoação da Penha. À
noite, por ordem do mesmo, eu e Francisco Gomes viemos à cidade, a fim
de observarmos o estado em que ela se achava, e podermos prestar exatas
informações a respeito; regressamos à meia-noite, dando notícias da
perfeita quietação em que a tínhamos encontrado.183
Dom Pedro e sua comitiva entraram em São Paulo logo pela manhã. Os
cavaleiros venceram a colina da Penha e avistaram, ao longe, uma outra
cercada de várzeas, local fácil de ser defendido pela posição geográfica. O
alto da colina ostentava as torres de oito igrejas, dois conventos e três
mosteiros. Comparada ao Rio de Janeiro, a cidade era diminuta. Passando
pela Várzea do Carmo,184 d. Pedro subiu a Ladeira do Carmo185 em direção
ao então núcleo urbano, que pouco lembrava a capital. As construções eram,
em sua maioria, feitas com pau a pique ou taipa de pilão, ambas usando o
barro como elemento principal. Eram raros os edifícios feitos de pedra ou
tijolo. As mulheres escondiam-se — viam, mas não eram vistas — por
detrás das treliças e muxarabiês das janelas, herança moura que já fora
banida do Rio por decreto de d. João VI. Ao contrário da antiga sede da
corte, São Paulo não possuía iluminação pública, o comércio era de gêneros
de primeira necessidade e havia poucos luxos e importados.
A escrava Lucrécia Cananeia Galvão, de nove anos, viu quando d. Pedro
ingressou em São Paulo. Cento e doze anos depois, em 23 de dezembro de
1934, ela recordava, ainda lúcida:
[...] Ele chegou a cavalo, acompanhado de muitos moços e trazia a sua roupa com um pouco de
barro da estrada. [...] [ele era] um moço bonito, de olhar alegre e de barbas “suíças”. Quando
apeou do cavalo, então, causava admiração. Alto, elegante e sem luxo.186

Outra testemunha da entrada de d. Pedro foi Francisco de Assis Vieira


Bueno, que tinha pouco mais de seis anos quando viu o príncipe adentrar a
cidade, na manhã de 25 de agosto.187 Ele se lembraria da chegada, dos
fogos, do canhoneio e da festa. Vira o futuro imperador atravessar a galope
a ponte do Carmo e parar no meio da ladeira, onde foi recepcionado pelo
bispo d. Mateus Pereira e por representantes políticos. Vieira Bueno
registrou um boato interessante em suas memórias: d. Pedro teria estado na
cidade na véspera, na calada da noite, incógnito, junto com “Chico” de
Castro. Teria ali conhecido a irmã divorciada do alferes, Domitila de Castro
do Canto e Melo?
A futura marquesa de Santos, Domitila de Castro, apelidada Titília,
poderia ser descrita como atraente para o modelo de beleza da época; era
também simpática, espirituosa e muito divertida. Sua pele clara e bem
cuidada deve ter chamado a atenção de d. Pedro, bem como seus olhos, de
um profundo tom de verde. O nariz, delicado, era levemente curvo; a boca,
bem feita, com dentes brancos. Por ser alta, seus quadris e seios avantajados
não pareciam desproporcionais e não apresentava músculos ou ossos
aparentes.
Nove meses mais velha que o príncipe e onze mais nova que d.
Leopoldina, aos 24 anos Domitila já era mãe de três filhos e estava separada
do marido, o alferes Felício Pinto Coelho de Mendonça. Felício era moço
fidalgo da Casa Real, filho do capitão-mor Felício Pinto Muniz Coelho da
Cunha, dono de lavras de ouro na fralda da serra de Cocais, onde a família
estabelecera um feudo que originaria a cidade de Barão de Cocais. Felício e
Domitila casaram-se em São Paulo no dia 13 de janeiro de 1813, partindo
em seguida para Minas. Ali se estabeleceram, ela com 15 anos recém-
completos e ele, 24. A união não foi das mais felizes porque Domitila,
diferentemente das outras mulheres de seu tempo, não aguentou calada os
maus-tratos do marido: pegou os filhos e retornou à casa paterna, no que foi
logo seguida por ele.
Os dois tentaram refazer o casamento, mas Felício acabou mergulhando
cada vez mais na bebida e em dívidas de jogo. Chegou ao ponto de falsificar
a assinatura da mulher para poder vender terras em Minas que pertenciam
ao casal. O fim do casamento se deu em 1819, quando Felício esfaqueou
Domitila em público. Ele foi preso e ela passou quase dois meses entre a
vida e a morte. Começava aí a briga entre as famílias de cada um pela
guarda das crianças — uma disputa que chegaria ao conhecimento de d.
João VI188 e que ainda não fora resolvida quando da chegada de d. Pedro a
São Paulo.
É fato que o jovem Francisco, além de guia da viagem, se tornou amigo
de d. Pedro durante a jornada. Fazia parte do gênio do príncipe distinguir as
pessoas que o serviam bem, sobretudo se tivessem problemas — e isso era o
que a família do alferes mais tinha. Nessa época, o pai de Francisco, o
militar João de Castro do Canto e Melo, apesar de ter solicitado sua
reforma189 no exército em abril de 1822 na patente de tenente-coronel,
estava, assim como a grande maioria dos militares portugueses no Brasil,
sem receber o soldo já havia meses. Enquanto isso, vivia do aluguel de
mulas para a descida e a subida de mercadorias pela serra do Mar, próximo
a um local denominado Moinhos.
A vinda de d. Pedro, em companhia do filho Francisco, representava uma
ótima oportunidade para resolver não só a questão de sua aposentadoria,
mas também duas outras. A pendência do divórcio de Domitila e a guarda
dos filhos tidos com Felício era uma; a outra era interceder pelo genro,
Antônio Bernardo Quartim, casado com a filha que João tivera fora do
casamento, Maria Eufrásia de Castro. Quartim, por ter participado da
revolta contra os Andrada, fora deportado para Jundiaí. A crônica familiar
dos Quartim de Moraes dá como certo que foi Domitila quem conseguiu do
príncipe a libertação do cunhado.
Antônio José de Oliveira,190 casado com uma prima de Domitila e
ajudante de ordens do imperador, deixou um relato curioso de um dos
primeiros encontros entre ela e o príncipe em São Paulo, antes de 7 de
setembro. D. Pedro, encantado em vê-la chegando numa cadeirinha
transportada por escravos, teria dispensado um carregador e assumido ele
próprio um dos varais, afirmando querer ver o peso da ocupante. Titília,
entre risos encabulados, admirava-se: “Como vossa alteza é forte! Como
vossa alteza é forte!”
Em meio a risadas e flertes, os escravos teriam sido enfim substituídos
por homens da guarda de honra, com d. Pedro brincando que jamais
Domitila teria negrinhos como aqueles.
Levando-se em conta o gênio indomável de d. Pedro I, que, às vésperas
da Independência, haveria de ser esbofeteado em Santos por uma bonita
escrava que beijara na rua, a história relatada bem poderia ser verdadeira.
Sabemos, pois d. Pedro deixou diversas vezes registrado em cartas para
Titília, que ele passou a ter amizade com ela em 29 de agosto de 1822. A
amizade a que o imperador se refere é bem menos inocente do que a palavra
nos leva a imaginar: os dois passaram a ser íntimos nessa data, e o primeiro
filho que teriam foi provavelmente concebido entre 29 de agosto e 14 de
setembro.
D. Pedro foi bem recebido em São Paulo. Logo se organizaram diversos
beija-mãos no Palácio do Governo, para onde acorreram não somente as
autoridades da cidade, mas também pessoas vindas de vilas e lugarejos
próximos. Foi esse o caso do idoso capitão-mor de Itu, Vicente da Costa
Taques Góes e Aranha. De idade bem avançada, o capitão percorrera 113
quilômetros a cavalo para ter a honra de beijar a mão do príncipe. Este teve
um ataque de riso ao ver o velho vassalo com um uniforme antiquado e uma
peruca branca e empoada, os quais deviam ter sido moda uns cinquenta
anos antes. Profundamente magoado e chocado com a atitude descortês de
d. Pedro, o capitão-mor declarou altivamente: “Saiba Vossa Alteza Real que
com esta farda, com que o sirvo já por muitos longos anos, servi aos
senhores reis seus augustos pais, avós e bisavós.”191 Em seguida, curvou-se
respeitosamente, retirando-se com tanta dignidade que fez o príncipe —
homem impulsivo, de riso fácil, de educação abrutalhada e sem refinamento
— cobrir-se de remorsos e ir se desculpar pela grosseria cometida. Ao longo
de sua vida, atos impensados de d. Pedro iriam fazê-lo se arrepender e se
desculpar muitas vezes; este é apenas um dos exemplos. Houve também
casos em Minas e no Rio de Janeiro, nos quais sua esposa, d. Leopoldina,
estava constantemente envolvida.
Tendo pacificado São Paulo, o príncipe ordenou que se realizassem novas
eleições para ocupar os cargos do governo deposto da capitania. Enquanto
isso, encarregou-se do governo local. Em 5 de setembro, desceu até a cidade
de Santos, no litoral, para inspecionar as defesas do porto e visitar a família
dos irmãos Andrada, naturais da cidade.
No dia 7, subiu de Santos a São Paulo pela estrada de ligação entre o
litoral e o planalto. A tela de Pedro Américo intitulada Independência ou
Morte, que hoje se encontra no salão nobre do Museu Paulista, não tem
nenhuma relação fidedigna com o que de fato se passou na ocasião: exceção
feita ao retrato de alguns envolvidos e a algo da topografia do local, o
restante foi completamente inventado pelo pintor. Não que ele fosse um
mentiroso contumaz — muito pelo contrário. Quando se solicitava o retrato
histórico de um evento, valia mais o modo de contar a história — que fosse
bonita e dignificasse os personagens envolvidos — do que a representação
fiel. Na época, a construção de uma identidade nacional raramente era feita
mostrando-se a realidade nua e crua dos eventos históricos.
Na verdade, d. Pedro não vestia uma farda de gala na ocasião, e sim uma
fardeta azul de polícia, sem luxo algum. Trajava calças da mesma cor, botas
grandes e envernizadas e um chapéu armado. Também levava sua espada. Ia
montado em uma “besta baia gateada” (ou uma “égua possante gateada”, ou
ainda uma “bela besta baia”).192 De acordo com as memórias deixadas pelo
primeiro comandante de sua guarda de honra, o coronel Antônio Leite
Pereira da Gama Lobo: “Já havíamos subido a serra, quando d. Pedro
queixou-se de ligeiras cólicas intestinais, precisando por isso apear-se para
empregar os meios naturais de aliviar os sofrimentos.” Ainda segundo
Gama Lobo, assim que chegaram ao planalto, sozinhos ele e d. Pedro, pois
o restante da comitiva ficara para trás, um correio vindo do Rio de Janeiro
alcançou o príncipe e entregou-lhe ofícios e cartas enviadas pela regência.
Ao lê-los, “disse-me que as Cortes queriam massacrar o Brasil”.
Assim que a guarda de honra os encontrou, d. Pedro, tendo que parar e
desmontar a todo momento por conta da disenteria, mandou que a comitiva
“passasse adiante e fosse seguindo”. Se o príncipe não os alcançasse antes,
deveriam esperá-lo na estrada de São Paulo, ainda segundo Gama Lobo:
Chegado ao [ribeirão do] Ipiranga, sem que ninguém aparecesse, fiz parar a guarda junto a uma
casinhola que ficava à beira da estrada, à margem daquele riacho. Para prevenir qualquer
surpresa, mandei o guarda Miguel de Godoy, que era um dos mais moços, colocar-se de
atalaia193 em lugar de onde pudesse descobrir a aproximação do príncipe para nos avisar com
tempo de nos pormos em forma e escolta-lo à entrada da cidade.

Enquanto aguardavam a chegada de d. Pedro e do restante da comitiva,


aproximaram-se da guarda de honra dois cavaleiros:
Vimos chegar dirigindo-se para o nosso lado dois viajantes que logo reconhecemos serem
pessoas de consideração. Eram Paulo Bregaro, oficial da Secretaria do Supremo Tribunal
Militar, e o major Antônio Ramos Cordeiro, que a mandado de José Bonifácio vinham do Rio
de Janeiro apressadamente, procurando d. Pedro.

Os correios traziam despachos do governo de Portugal e notícias das cortes,


além de cartas de José Bonifácio e de d. Leopoldina. Em 28 de agosto,
chegara ao Rio de Janeiro o navio Três Corações, que, tendo deixado
Portugal em 3 de julho, trazia informações a respeito do que se passava em
Lisboa. Soube-se — talvez por nota de deputados brasileiros no congresso,
extratos da ata ou algum resumo das decisões — das resoluções que seriam
adotadas em relação ao Brasil. Somente em 21 de setembro, pelo navio
Quatro de Abril, chegariam as cartas régias obrigando a que fossem
cumpridas.
As resoluções, debatidas nas Cortes em junho de 1822 e votadas em 1o de
julho, negavam a petição enviada do Brasil para que se repensasse a
fragmentação do reino em províncias ligadas diretamente a Portugal. Além
do mais, as Cortes consideravam violenta e injuriosa a linguagem usada
pelo governo provisório de São Paulo em carta a d. Pedro de dezembro de
1821, na qual pedia que não obedecesse às ordens de deixar o Brasil. Os
membros do governo, incluindo José Bonifácio, agora ministro, deveriam
ser presos, processados e julgados. Todas as decisões do príncipe ficavam
anuladas, inclusive a criação do Conselho de Procuradores. Para piorar, d.
Pedro e a família deveriam cumprir as ordens anteriores e retornar à Europa.
Além disso, vinham também informações, da princesa e de José Bonifácio,
do desembarque de tropas na Bahia e da chegada prevista de mais reforços
portugueses, que fariam do local uma ponta de lança para varrerem do
restante das províncias brasileiras quem se posicionasse com o príncipe pela
unidade do Brasil.
Os despachos vindos do Rio de Janeiro ainda davam conta de uma
reunião do Conselho de Estado, convocado e presidido por d. Leopoldina
em 2 de setembro, no palácio de São Cristóvão. Além dos ministros,
estavam também presentes os procuradores-gerais das províncias, entre eles
José Gonçalves Ledo e José Clemente Pereira. Segundo o cronista Melo
Morais, apoiado em informações que lhe passara o conselheiro Vasconcelos
de Drummond, presente a essa reunião:
[...] Ali se deliberou sem discussão, depois de José Bonifácio ter feito uma exposição verbal do
estado em que se achavam os negócios públicos, e de concluir, dizendo ter chegado a hora de
acabar com aquele estado de contemporizar com os seus inimigos, que o Brasil tinha feito tudo
quanto humanamente era possível fazer para conservar-se unido com dignidade a Portugal, mas
que Portugal em vez de acompanhar e agradecer a generosidade com que o Brasil o tratava,
insistia nos seus nefastos projetos de o tornar à miserável condição de colônia, sem nexo e nem
centro de governo, que portanto ficasse com ele a responsabilidade da separação. Propôs que se
escrevesse ao sr. D. Pedro para que Sua Alteza Real houvesse de proclamar a independência
sem perda de tempo. A princesa real, que se achava muito entusiasmada em favor da causa do
Brasil, sancionou com muito prazer a deliberação do Conselho!194

Segundo a historiadora Viviane Tessitore:195


Leopoldina não teria tomado uma atitude de tal dimensão sem uma margem mínima de
segurança de que d. Pedro ratificaria o seu ato. Poderia ser constrangedor e até arriscado. Mas o
apoio de José Bonifácio, que integrava o Conselho e de quem se tornou amiga, confidente e
admiradora, provavelmente contribuiu para encorajá-la.196

Ou seja, marido e mulher já haviam conversado seriamente a respeito de


tomarem a frente do movimento que separaria o Brasil de Portugal. D.
Pedro, portanto, daria o aval e ecoaria, de maneira impulsiva, a decisão do
Conselho de Estado naquela tarde.
Junto dos despachos, haveria também uma carta de José Bonifácio:
Senhor, as Cortes ordenaram a minha prisão por minha obediência à Vossa Alteza. E no seu
ódio imenso de perseguição atingiram também aquele que preza em o servir com lealdade e a
dedicação do mais fiel amigo e súdito. O momento não comporta mais delongas ou
condescendências. A revolução já está preparada para o dia de sua partida. Se parte, temos a
revolução no Brasil contra Portugal, e Portugal atualmente não tem recursos para subjugar um
levante que é preparado ocultamente para não dizer quase visivelmente. Se fica, tem Vossa
Alteza contra si o povo de Portugal, a vingança das Cortes, que direi?, até a deserdação, que
dizem já estar combinada. Ministro fiel, que arrisquei tudo por minha pátria e pelo meu
príncipe, servo obedientíssimo do senhor D. João VI, que as Cortes têm na sua detestável
coação, eu como ministro, aconselho a Vossa Alteza que fique e faça do Brasil um reino feliz,
separado de Portugal, que é hoje escravo das Cortes despóticas. Senhor, ninguém mais que sua
esposa deseja a sua felicidade, e ela lhe diz em carta que com esta será entregue que Vossa
Alteza deve ficar e fazer a felicidade do povo brasileiro, que o deseja como seu soberano, sem
ligações e obediências às despóticas Cortes portuguesas que querem a escravidão do Brasil e a
humilhação do seu adorado príncipe regente. Fique, é o que todos pedem ao magnânimo
príncipe que é Vossa Alteza, para o orgulho e felicidade do Brasil. E se não ficar, correrão rios
de sangue nesta grande e nobre terra, tão querida do seu real pai, que já não governa em
Portugal pela opressão das Cortes, nesta terra que tanto estima a Vossa Alteza e a quem tanto
Vossa Alteza estima. José Bonifácio.

D. Leopoldina dizia ao marido:


Pedro, o Brasil está como um vulcão. Até no paço há revolucionários. Até oficiais das tropas
são revolucionários. As Cortes Portuguesas ordenam vossa partida imediata, ameaçam-vos e
humilham-vos. O Conselho do Estado aconselhava-vos para ficar. Meu coração de mulher e de
esposa prevê desgraças, se partirmos agora para Lisboa. Sabemos bem o que tem sofrido nossos
pais. O rei e a rainha de Portugal não são mais reis, não governam mais, são governados pelo
despotismo das Cortes que perseguem e humilham os soberanos a quem devem respeito.
Chamberlain vos contará tudo o que sucede em Lisboa. O Brasil será em vossas mãos um
grande país. O Brasil vos quer para seu monarca. Com o vosso apoio ou sem o vosso apoio ele
fará a sua separação. O pomo está maduro, colhei-o já, senão apodrece. Ainda é tempo de
ouvirdes o conselho de um sábio que conheceu todas as cortes da Europa, que, além de vosso
ministro fiel, é o maior de vossos amigos. Ouvi o conselho do vosso ministro, se não quiserdes
ouvir o de vossa amiga. Pedro, o momento é o mais importante de vossa vida. Já dissestes aqui
o que ireis fazer em São Paulo. Fazei, pois. Tereis o apoio do Brasil inteiro e, contra a vontade
do povo brasileiro, os soldados portugueses que aqui estão nada podem fazer. Leopoldina.197

Ambos, tanto d. Leopoldina quanto José Bonifácio, apelaram para o orgulho


de d. Pedro e tocaram na questão de que tudo o que ele fizera e decretara no
Brasil seria desfeito pelas Cortes Portuguesas. Se acatasse as ordens das
Cortes, d. Pedro deixaria o Brasil como virtual prisioneiro delas.
Infelizmente, até hoje nenhuma das cartas, nem a de d. Leopoldina, nem a
de José Bonifácio, foram fisicamente localizadas. Sabe-se delas devido a
publicações realizadas a partir da década de 1920 em que aparecem citadas,
copiadas de um folheto raro de 1826, onde teriam sido publicadas
inicialmente.198 A se dar crédito a essas cartas, elas sim teriam o poder de
levar o príncipe a se revoltar e tomar uma atitude intempestiva diante de
todos, como fez, em vez de, por exemplo, lavrar um decreto e lê-lo no teatro
naquela noite.
São interessantes duas passagens da carta de d. Leopoldina. Com o vosso
apoio ou sem o vosso apoio ele fará a sua separação. O pomo está maduro,
colhei-o já, senão apodrece. Esse trecho é como um eco daquilo que d. João
teria aconselhado d. Pedro antes da partida em 1821: Pedro, se o Brasil se
separar, antes seja por ti, que me hás de respeitar do que para algum
desses aventureiros. D. Leopoldina e d. João provavelmente conversaram
sobre o futuro do Brasil antes da despedida. Em outro trecho, ela diz: Já
dissestes aqui o que ireis fazer em São Paulo. Fazei, pois. D. Pedro já teria
então decidido a separação do Brasil de Portugal — embora a
independência real se tenha dado quando do não cumprimento dos decretos
e ordens régios vindos da antiga metrópole —, e essa seria feita em São
Paulo? É o que a carta sugere.
Podem-se imaginar duas hipóteses para a questão. A primeira seria que,
sem a unidade das três principais províncias do Centro-sul (Rio de Janeiro,
São Paulo e Minas Gerais), a separação não daria certo por questões
econômicas e administrativas. Como São Paulo estava em disputa interna,
era necessário resolvê-la e juntá-lo ao grupo, o que d. Pedro fez ao dissolver
o governo e assumi-lo até a posse dos novos eleitos. Apaziguada São Paulo
e banidos para lugares distantes os que eram favoráveis às Cortes, estava
assegurada a participação paulista no ato, e assim não haveria mais motivos
para adiamento. Que tudo, então, fosse logo consumado.
A segunda hipótese é que, uma vez que o Fico fora realizado no Rio de
Janeiro, seria interessante que outro ato de impacto ocorresse em uma
província diferente. Assim, outros locais do Brasil receberiam destaque no
processo de independência, não sendo apenas a capital o palco de tudo.
Dessa forma, as demais províncias poderiam ter a sensação de estarem
realmente participando coletivamente do ato, e não apenas acatando ordens
vindas do Rio ou de Lisboa.
Segundo relato do padre Belchior, parente dos irmãos Andrada e
testemunha ocular dos acontecimentos de 7 de setembro, d. Pedro, além das
cartas de José Bonifácio e d. Leopoldina, bem como da decisão de
separação tomada pelo Conselho de Estado, recebera mensagens de
Chamberlain, diplomata inglês radicado no Rio de Janeiro. Padre Belchior
refere-se ao britânico como o “espião” de d. Pedro. Também haveria outra
carta junto às demais, escrita por d. João VI.
Assim como d. Leopoldina, que só se valia de pessoas confiáveis ao
enviar cartas a parentes — podendo, desse modo, desabafar sobre a vida no
Brasil, certa de que as missivas chegariam ao destinatário e não seriam
violadas —, não teriam d. João VI e d. Pedro estabelecido algum meio
seguro de comunicação, mediante o qual as cartas não eram vigiadas?
Poderiam ter contado com a velha Inglaterra para isso? É uma hipótese. Em
alguma dessas cartas, ele poderia ter tomado ciência não apenas das
decisões das Cortes, mas também de que estava sendo chamado de
rapazinho e de brasileiro por elas.
Após as cartas e os despachos terem sido entregues pelos correios a d.
Pedro, este, novamente acometido pelas cólicas, afastou-se do restante do
grupo na companhia do padre Belchior. Segundo o clérigo, d. Pedro pediu
que ele lesse em voz alta o conteúdo do material recebido. Somando-se, à
tensão causada pelas notícias, e levando-se em conta o mal-estar em que o
príncipe se encontrava, é de se imaginar o quão irritado ficou.
Ainda segundo o padre Belchior, d. Pedro, após se ajeitar, teria amassado
as cartas e as jogado ao chão, de onde foram recolhidas e guardadas pelo
religioso. O príncipe teria então procurado, em meio a seus próprios
pensamentos, ouvir o que o padre tinha a dizer a respeito.
Depois, abotoando-se e compondo a fardeta [...] virou-se para mim e disse:
— E agora, padre Belchior?!
E eu respondi prontamente:
— Se Vossa Alteza não se faz rei do Brasil será prisioneiro das Cortes e talvez deserdado por
elas. Não há outro caminho senão a independência e a separação.
Em seguida, os dois caminharam para junto da comitiva que os aguardava,
onde d. Pedro, de acordo com relatos de testemunhas e com as lembranças
legadas por seu futuro secretário, o Chalaça, teria se consultado ainda com
outros integrantes: “S.M. meditou nas circunstâncias em que ele e o Brasil
se achavam, e ouvindo os pareceres de muitas pessoas que escutara, sem
que nenhuma delas suspeitasse inda para que era consultada, decidiu-se
declarar de uma vez a independência do Brasil.”
Após ter com os companheiros, o príncipe encaminhou-se em silêncio
para os cavalos, seguido de perto pela comitiva. Então, exclamou:
— Padre Belchior, eles o querem, terão a sua conta. As Cortes me perseguem, chamam-me com
desprezo de rapazinho e de brasileiro. Pois verão agora quanto vale o rapazinho. De hoje em
diante estão quebradas as nossas relações; nada mais quero do governo português e proclamo o
Brasil para sempre separado de Portugal.

Em seguida, o príncipe teria se voltado para Francisco de Canto e Melo:


— Diga à guarda que eu acabo de fazer a independência completa do Brasil. Estamos separados
de Portugal. — O tenente Canto e Melo cavalgou em direção a uma venda onde se achavam
quase todos os dragões da guarda.

Gama Lobo relembra:


Poucos minutos poderiam ter-se passado depois da retirada dos referidos viajantes [refere-se aos
correios Bregaro e Cordeiro], e eis que percebemos que o guarda que estava de vigia vinha
apressadamente em nossa direção ao ponto em que nos achávamos; compreendi o que aquilo
queria dizer, e imediatamente mandei formar a guarda para receber d. Pedro [...]. Mas tão
apressado vinha o príncipe, que chegou antes que alguns soldados tivessem tido tempo de
alcançar as selas.

Ainda segundo Gama Lobo:


Havia de ser quatro horas da tarde, mais ou menos. Vinha o príncipe na frente. Vendo-o voltar-
se para o nosso lado, saímos ao seu encontro. Diante da Guarda que descreveu um semicírculo,
estacou o seu animal e de espada desembainhada bradou:

Eis o que escreve o padre Belchior:


— Amigos, as Cortes portuguesas querem escravizar-nos e perseguem-nos. De hoje em diante,
nossas relações estão quebradas. Nenhum laço nos une mais. — E arrancando [o príncipe] do
chapéu o laço azul e branco decretado pelas Cortes, como símbolo da nação portuguesa, atirou-
o ao chão dizendo:
— Laços fora, soldados! Vivam a independência, a liberdade e a separação do Brasil!
Respondemos com um viva ao Brasil independente e separado, e um viva a d. Pedro. O
príncipe desembainhou a espada, no que foi acompanhado pelos militares, os paisanos tiraram
os chapéus. E d. Pedro disse:
— Pelo meu sangue, pela minha honra, pelo meu Deus, juro fazer a liberdade do Brasil.
— Juramos — responderam todos.
D. Pedro embainhou a espada, no que foi imitado pela guarda, pôs-se à frente da comitiva e
voltou-se, ficando em pé nos estribos:
— Brasileiros, a nossa divisa de hoje em diante será Independência ou Morte!

Eram quatro e meia da tarde. Tomando as rédeas de sua besta, d. Pedro


esporeou-a e, seguido da guarda e da comitiva, partiu a galope para São
Paulo. Em meio ao turbilhão de pensamentos e emoções que o acometia,
surgiam os primeiros acordes do Hino da Independência, que ele
apresentaria naquela mesma noite.
Quando viajantes ilustres estavam para chegar, a municipalidade
plantava, no alto da torre da igreja da Boa Morte, próximo a uma das
entradas da cidade de São Paulo, vigias que ficavam a observar as estradas.
Naquele início de crepúsculo, d. Pedro e sua comitiva eram esperados. A
velocidade com que o príncipe vinha, deixando toda a comitiva e a guarda
para trás, espantou os vigias. Mal eles fizeram soar os sinos de alarme, as
outras igrejas e conventos replicaram os toques. D. Pedro levantava poeira
cidade adentro, rumando para o palácio do governo, no pátio do Colégio, de
onde vinha governando São Paulo desde que chegara. Logo atrás,
aproximava-se Francisco de Castro do Canto e Melo.
Um cavaleiro em desabalada carreira foi o que viram os transeuntes e o
povo que, ao som dos sinos, acorreu às janelas. Mesuras, cumprimentos e
perguntas ficaram no ar. Algo decerto havia ocorrido: boas ou más notícias?
Quem as deu foi Francisco de Castro, o segundo cavaleiro a chegar, logo
atrás do príncipe. Seu semblante radiante denunciava algo. Foi chamado
pelo capitão Antônio da Silva Prado, futuro barão de Iguape, que junto do
desembargador João de Medeiros Gomes, ouvidor de Itu, e do padre
Idelfonso Xavier199 acorreu a uma das janelas de seu solar, no centro, entre
a travessa de Santa Teresa e a rua do Carmo. Canto e Melo relatou o
ocorrido, ponto por ponto, e a notícia espalhou-se por toda São Paulo.
Então, a multidão começou a sair de suas casas para saudar o príncipe no
palácio do governo.
Enquanto isso, d. Pedro, homem perfeccionista e detalhista, esboçou em
um papel o molde de uma legenda em formato de “v” invertido. Em uma
das “pernas” aparecia a palavra “Independência” e, na outra, “ou Morte”.
Tão logo Canto e Melo chegou, d. Pedro mandou que procurasse algum
ourives para fundir a peça em ouro, a fim de que ambos a usassem no teatro
à noite.
O teatro de São Paulo era pequeno, baixo e estreito; tinha somente um
andar. Externamente, o edifico era pintado de vermelho e tinha três portas
negras. A plateia, com 350 lugares, era ocupada pelos homens. Os
camarotes eram 28; no de número onze, o do governador, esperava-se o
aparecimento do príncipe regente a qualquer momento. Tratava-se do único
camarote mobiliado. As famílias seguiam ao teatro acompanhadas de
escravos que levavam cadeiras de casa, além de cestas de comida com
frango assado, empanadas e cuscuz. O paulista, afinal, jantava cedo, e era
normal que sentisse fome nas apresentações.
Francisco de Castro, às nove e meia da noite, abriu as cortinas do
camarote em que acabava de chegar d. Pedro. Ali, o futuro imperador foi
aclamado pelo povo paulista como o “primeiro rei brasileiro”, brado puxado
na plateia pelo padre Ildeofonso Xavier, em conjunto com Antônio Leite
Pereira Lobo e João de Castro Canto e Melo, segundo recorda o coronel
Manuel Marcondes de Oliveira Melo, testemunha ocular. “Nessa noite
histórica, todos ouviriam no teatro, pela primeira vez, o Hino da
Independência. D. Pedro compusera-o no final da tarde e início daquela
noite.”
Francisco de Castro, em relato sobre o evento, contou: “Fez-se, afinal,
ouvir o hino, no qual tomaram parte o príncipe, d. Maria Alvim, d. Rita e
outras senhoras.”
No final do espetáculo, o príncipe poderia ter observado as cascas de
queijo, os ossos de galinha e os caroços de azeitona que seriam deixados no
chão, reminiscências das refeições que haviam matado a fome dos
paulistanos naquela noite. No entanto, sairia antes do término da peça O
convidado de pedra: as aventuras de d. Juan ele já conhecia; queria viver as
próprias.
Em 8 de setembro, d. Pedro lançou uma proclamação aos paulistas em
que anunciava relutantemente sua partida:
Coisa nenhuma me poderia ser mais sensível do que o golpe que minha alma sofre, separando-
me de meus amigos paulistanos a quem o Brasil e eu devemos os bens que gozamos e
esperamos gozar de uma Constituição liberal e judiciosa.

No dia seguinte, legando o governo paulista a um triunvirato formado pelo


bispo da cidade, d. Mateus, pelo ouvidor local e pelo comandante militar da
praça de Santos, d. Pedro partiu para o Rio de Janeiro. A pequena comitiva
que o acompanhou a São Paulo agora retornava engrossada por gente
paulista que se estabeleceria na corte junto ao governo, como João de
Castro do Canto e Melo e Boaventura Delfim Pereira, respectivamente pai e
cunhado de Domitila. Boaventura chegaria a tomar parte no cerimonial da
coroação de d. Pedro.
Em novembro, finalmente, o príncipe teria um tempo, no meio do
turbilhão político dos arranjos e acertos da Independência, para escrever à
amante paulista, que andara reclamando sua atenção por meio de duas
cartas:
Santa Cruz, 17 de novembro de 1822

Cara Titília

Foi inexplicável o prazer que tive com as suas duas cartas. Tive arte de fazer saber a seu pai que
estava pejada de mim (mas não lhe fale nisto) e assim persuadi-lo que a fosse buscar e a sua
família, que não há de cá morrer de fome, muito especialmente o meu amor, por que estou
pronto a fazer sacrifícios.
Aceite abraços e beijos e fo...
Deste seu amante que
suspira pela ver cá o quanto antes,

O Demonão200

Em maio de 1823, o pai de Domitila, já reformado no posto de tenente-


coronel do Estado Maior do Exército, passaria a receber sua aposentadoria
de 80 mil réis na intendência da corte, no Rio de Janeiro. Por volta dessa
época, deve ter ocorrido a mudança de sua família para a capital do império.
Conforme prometera por d. Pedro, eles de fato não passariam fome por lá.
183 A memória escrita por Francisco de Castro Canto e Melo foi publicada inicialmente na Revista
Comercial, de Santos, a 29 de dezembro de 1864; em seguida, figurou em diversas outras publicações,
entre as quais a Revista do IHGB, tomo 41, segunda parte (1878), e a História do Brasil Reino e do
Brasil Império, de Melo Morais.

184 Atual Parque D. Pedro II.

185 Atual av. Rangel Pestana.

186 Correio Paulistano, 23/12/1934. p. 2.

187 BUENO, Francisco de Assis Vieira Bueno. Recordações evocadas da memória.

188 Biblioteca Nacional, Fundo Coleção Documentos Biográficos. Localização: C-0458,038.

189 Aposentadoria.

190 RANGEL, Alberto. D. Pedro I e a marquesa de Santos, p. 98 et seq.

191 TAUNAY, Affonso de E. Depoimentos vários sobre a corte de D. Pedro I e sobre este monarcha.
In: ______. Do reino ao império. São Paulo: Diario Official, 1927. pp. 127-8.

192 OBERACKER Jr, Carlos H. O grito do Ipiranga.

193 Vigia.

194 MORAIS, A.J. de Melo. História do Brasil Reino e do Brasil Império, tomo I, p. 384.

195 Historiógrafa da Central de Documentação e Informação Científica (CEDIC), da PUC-SP.

196 Revista Galileu, ed. Globo, ano 8, no 86, setembro de 1998, p. 88.

197 OBERACKER Jr, Carlos H. O grito do Ipiranga, pp. 446-7.

198 Sobre essa questão, ver OBERACKER Jr, Carlos H. O grito do Ipiranga.

199 Carta do Barão de Iguape a Francisco de Castro do Canto e Melo. Arquivo Histórico, Museu
Imperial, Maço 135 doc. 6612.

200 RANGEL, Alberto. Cartas de d. Pedro I à marquesa de Santos, p. 53.


Consolidando
um império

D. PEDRO, apostando corrida com sua guarda e os demais acompanhantes,


partiu de São Paulo em 9 de setembro. Em geral, o correio a cavalo que
ligava as duas cidades levava oito dias para entregar as cartas de um local
ao outro; d. Pedro fez o mesmo percurso, enfrentando temporais e locais
inundados, em cinco. O Chalaça ficaria em segundo lugar, chegando
algumas horas após o príncipe ao Rio de Janeiro.
A cidade entrou em apoteose com a chegada de d. Pedro. No dia 15, ele
foi ovacionado nas ruas e no teatro, onde compareceu com d. Leopoldina;
no dia seguinte, em sua ida ao Paço da Cidade, ocorreu o mesmo. Sua
popularidade estava no auge. Em 22 de setembro, quando da chegada dos
avisos régios que oficializavam no Brasil as determinações das Cortes,
ordenando o retorno de d. Pedro a Portugal e anulando os decretos do
príncipe, o futuro imperador tomou da pena e escreveu a d. João:

[...] Embora se cometam todos atentados que em clubes carbonários forem forjados, a causa
santa não retrogradará e eu antes de morrer, direi aos meus caros brasileiros: vede o fim de
quem se expôs pela pátria e imitai-me.
Vossa Majestade manda-me, que digo, mandam as Cortes por Vossa Majestade que eu faça
executar e execute os seus decretos. Para eu os fazer executar, era necessário que eu e os
brasileiros obedecêssemos à facção; e para eu os executar era preciso que eu quisesse. E visto
isso respondo em duas palavras por mim e por todos eles: não queremos.
[...] Digo (tomando a Deus por testemunha e ao mundo inteiro) a toda essa cáfila sanguinária
que eu, como príncipe regente do Reino do Brasil e seu defensor perpétuo: hei por bem declarar
todos os decretos pretéritos dessas facciosas, horrorosas, maquiavélicas, desorganizadoras,
hediondas e pestíferas Cortes que ainda não mandei executar e todos os mais que fizerem para o
Brasil nulos, írritos e inexequíveis, e como tais com um veto absoluto que é sustentado pelos
brasileiros todos que dizem juntamente comigo: De Portugal nada, nada, não queremos nada. Se
esta declaração tão franca irritar mais os ânimos desses lusos-espanhóis, que mandem tropa
aguerrida, na guerra civil que nós lhes faremos ver até que ponto chega o valor dos brasileiros.
Se por acaso se atreverem a contrariar a nossa santa causa, em breve verão o mar coalhado de
corsários e a miséria, a fome e tudo quanto lhe pudermos dar em troco de tantos benefícios será
praticado, contra estes corifeus; mas quer quando os portugueses os conhecerem bem, eles lhes
darão o justo prêmio.
Jazemos por muito tempo nas trevas, hoje já vemos a luz. Se Vossa Majestade cá estivesse,
seria respeitado e amado e então veria que o povo brasileiro, sabendo prezar a sua liberdade e
independência, se empenha em respeitar a autoridade real, pois não é um bando de carbonários
e assassinos como os que têm a Vossa Majestade no mais ignominioso cativeiro.
Triunfa e triunfará a independência brasílica ou a morte nos há de custar.
O Brasil será escravizado, mas os brasileiros não, porque, enquanto houver sangue nas veias,
há de correr e primeiramente hão de conhecer melhor o rapazinho e até que ponto chega sua
capacidade.
Peço a Vossa Majestade a mande apresentar esta as Cortes para o terem mais com que se
divirtam e gastem ainda um par de moedas a esse estígio Tesouro. Deus guarde a preciosa vida
e saúde de Vossa Majestade como todos nós brasileiros desejamos.
Sou de Vossa Majestade.
Filho que muito o ama e súdito que muito o venera.
Pedro201

Aparentemente, nem d. Pedro, nem o pai queriam uma guerra, uma vez
que esta prejudicaria os negócios dos dois países. Quem melhor resumiu a
situação foi o jornal inglês The Courier, que em 2 de novembro de 1822
publicou:
O rei de Portugal expressou afinal inequivocamente a sua desaprovação, sincera ou fingida, da
conduta de seu filho. Através de um decreto de 9 de outubro, datado de Lisboa, ele proibiu o
habitual regozijo no aniversário do Príncipe Real, até que, pela obediência às leis e as suas (do
Rei) ordens, ele se tenha tornado digno de sua benevolência real e paternal. Este é apenas um
insignificante ato de ressentimento, se de fato algum ressentimento existe. Na situação em que
está, porém, o Rei não pode aprovar publicamente uma conduta que seria difícil de acreditar
que o tenha ofendido. [...] Ele deve estar intimamente satisfeito com um rumo de
acontecimentos que conserva em sua família uma esplêndida herança, que, em outras
condições, poderia ter sido perdida.202

Nesse período, duas proclamações pediam a aclamação do príncipe como


governante do Brasil, ambas nascidas na maçonaria após proposta feita, na
sessão de 14 de setembro, por Domingos Alves Branco Muniz Barreto.
Enquanto Gonçalves Ledo se movimentava pelos canais maçônicos,
pedindo ajuda dos irmãos para a decisão de se aclamar d. Pedro como
imperador constitucional do Brasil, Clemente Pereira, presidente da Câmara
Municipal do Rio de Janeiro, enviava a vilas e cidades do país, no dia 17,
um manifesto que as exortava a aprovarem resoluções solicitando que o
príncipe se tornasse seu governante. Um dos motivos para a escolha do
título de imperador, em detrimento do de rei, também vinha dos ideais
liberais da maçonaria: d. Pedro não subiria ao trono por direito divino, e sim
eleito pelos povos que governaria isto é, em virtude da soberania e
aclamação popular.203
Enquanto isso, os novos símbolos de poder foram refeitos. Em 18 de
setembro, d. Pedro e José Bonifácio assinaram e rubricaram diversos
decretos instituindo a nova bandeira e o novo brasão de armas, que levava
as cores verde, da casa de Bragança, e amarela, da casa dos Habsburgo. O
desmonte histórico praticado pelos republicanos recodificaria essas cores e
as transformaria no verde de nossas matas e no amarelo de nosso ouro,
nossa riqueza.
A aclamação de d. Pedro foi programada para 12 de outubro, data de seu
aniversário de 24 anos. Apesar da chuva que caía sobre os cariocas naquele
sábado, o povo foi em peso prestigiar seu novo governante no Campo de
Santana,204 que após a ocasião passou a ser chamado de Praça da
Aclamação (ao menos até 1889, quando do advento da República). Por
volta das nove horas da manhã, tropas selecionadas chegaram, formadas por
fluminenses e paulistas. Infantaria, cavalaria, artilharia, granadeiros,
caçadores e fuzileiros se alinharam na praça, à espera do futuro imperador.
Enquanto isso, toda em festa e decorada, ostentando arcos do triunfo e
coretos onde tocavam orquestras, a cidade ouvia as salvas dos fortes e dos
navios à entrada da baía de Guanabara.
Por volta das dez horas da manhã, uma guarda de honra formada por
oficiais fluminenses e paulistas e três moços de estribeira — um índio, um
mulato e outro negro — chegou ao local, indicando a aproximação de d.
Pedro. O imperador vinha acompanhado de d. Leopoldina e da filha, a
princesa d. Maria da Glória. Seu destino era o antigo palácio do conde dos
Arcos, defronte do Campo de Santana, onde se instalara, após a retirada de
d. Marcos de Noronha e Brito para Portugal, o Senado da Câmara
Municipal do Rio de Janeiro.205 Ali, d. Pedro e a família foram recebidos
pelos vereadores e por um discurso de Clemente Pereira, presidente do
Senado, em que se afirmava:
Quer o Brasil sustentar a sua integridade, e defender a sua Independência, e antes morrer, que
perdê-la; e também quer que a sua forma de governo seja a de um Império Constitucional,
Hereditário na Família Reinante de Vossa Majestade Imperial e seus augustos sucessores o
distinto título de Defensor Perpétuo do Brasil.

No final do discurso, invocando o “Santo Liberalismo, o doce amor da


verdadeira Glória e da Sólida Grandeza”, Clemente Pereira pedia que
mostrassem ao “nosso jovem Imperador em vivas cores a fealdade da
escravidão e a nobreza da Liberdade.”
D. Pedro assim respondeu:
Aceito o título de Imperador Constitucional, e Defensor Perpétuo do Brasil, porque tenho
ouvido a Meu Conselho de Estado, e Procuradores Gerais e examinado as representações das
Câmaras das diferentes províncias. Estou intimamente convencido que tal é a vontade geral de
todas as outras, que só por falta de tempo não tem ainda chegado.

A essa resposta, todos os que estavam no edifício e na praça soltaram, em


meio a abraços e congratulações, os mais calorosos vivas. A artilharia
salvou 101 vezes; a infantaria descarregou três vezes para o ar. Vivas ao
imperador, à imperatriz, à religião, à independência e à constituição foram
entoados em altos brados. Seguiram todos à Capela Real — rebatizada de
Capela Imperial — para uma bênção. A imperatriz e a princesa partiram de
carruagem, enquanto d. Pedro seguiu a pé pelas ruas, debaixo de um pálio
sustentado por procuradores de diferentes vilas e cidades. Lenços brancos
saudavam-nos pelas janelas. Todos pareciam participar da festa, que durou
seis dias.
Em 1o de dezembro, foi feita a cerimônia de sagração e coroação de d.
Pedro. José Bonifácio, o barão de Santo Amaro, frei Arrábida, o bispo
capelão-mor e o monsenhor Fidalgo elaboraram uma cerimônia que pouco
tinha a ver com a aclamação dos reis até então realizada em Portugal. Ela
uniu o cerimonial de coroação dos imperadores romanos-germânicos com
aquele de Napoleão e do rei da Hungria, em que se cortava o ar com a
espada.206

Aclamação de d. Pedro e d. Leopoldina como imperadores do Brasil no Campo de Santana, Rio de


Janeiro.

Um império dividido, uma


independência conquistada
Numa cerimônia que durou horas e em que até uma carruagem de Napoleão
esteve presente, a coroa de mais três quilos, o cetro e a espada de ouro
garantiam um imperador, mas não automaticamente um império. Nem todas
as cidades e vilas do Brasil haviam enviado suas aclamações a d. Pedro. A
independência interessava ao sudeste brasileiro: era vantajoso para as elites
de Minas, São Paulo e Rio de Janeiro ter uma sede de poder por perto, de
forma que legislações e benefícios fossem realizados e obtidos rapidamente.
O Brasil, no entanto, era imenso — e o sudeste, apenas uma parte sua.
Apesar de o marquês de Pombal ter proibido, no século XVIII, que o
Brasil tivesse uma língua própria, a verdade é que, em 1822, nem todos
falavam português na antiga colônia. A língua mais conhecida e utilizada no
norte e no sul do país era a língua geral, que só se extinguiria
completamente no final do século XIX. Dividia-se ela em dois ramos: a
língua geral setentrional, conhecida como língua geral do norte ou língua
geral amazônica, e a língua geral meridional, também chamada de língua
geral paulista, em que se misturavam idiomas indígenas locais. Além do
idioma, outra questão que dificultava a integração nacional era a geografia
brasileira. Para o Maranhão e o Pará, era mais rápido, por exemplo, navios
enviados de suas capitais chegarem a Lisboa do que ao Rio de Janeiro.
Na América, convencionou-se denominar “grito” qualquer proclamação
ou declaração pública que anunciasse o rompimento com o status quo e
oficializasse o movimento independentista. No México, existe o “Grito de
Dolores”; na República Dominicana, o “Grito de Capotillo”; na Colômbia, o
“Grito del 20 de Julio”; no Uruguai, o “Grito de Asencio”; e em Cuba, o
“Grito de Yara”. No Brasil, o ato de d. Pedro em São Paulo se tornaria
conhecido como o “Grito do Ipiranga”. Nem todos no Brasil, assim como na
Europa, acolheram pacificamente o brado sul-americano.
A independência integral do território brasileiro esteve longe de ser
harmônica. Aceitando o desafio proposto por d. Pedro na carta que enviara
ao pai em 22 de setembro, as Cortes mandaram tropas para tentar reverter a
desobediência do príncipe. O Brasil teve que se armar e contratar
mercenários estrangeiros desejosos de lucrar com uma boa luta. Combateu-
se no sertão e no mar, no norte, no nordeste e no sul.
Entre militares brasileiros e portugueses, foram milhares os mortos;
houve, ainda, baixas civis, como o caso da sóror Joana Angélica de Jesus,
antes mesmo do 7 de setembro: durante os distúrbios contra as tropas
portuguesas no começo de 1822, a abadessa do Convento da Lapa, em
Salvador, postou-se ante os soldados lusitanos que queriam invadir o
edifício. Dizendo que só passariam por cima de seu cadáver, buscava evitar
que estuprassem as internas sob sua proteção. Isso de fato ocorreu, sendo
ela morta a golpes de baioneta. Essa seria uma das primeiras vítimas da
independência. Somente em novembro de 1823, com a rendição da
guarnição de Montevidéu, autorizada a partir para a Europa, o Brasil se
veria livre de tropas portuguesas.

Lutas pelo poder na família Bragança


Enquanto isso, na Europa, as tropas da Santa Aliança invadiam a Espanha
para acabar com a Constituição e instalar novamente os Bourbon em um
trono absolutista. Como de costume, o que acontecia de um lado da
fronteira afetava o outro. Em Portugal, o conde Amarante levantou o norte à
causa absolutista. D. Miguel, assumindo postura política completamente
oposta à do irmão d. Pedro, tomou a frente da revolta, que ficou conhecida
com Vilafrancada. O que de fato queriam era a deposição de d. João, que,
relutante, continuou fiel à constituição que jurara. Vendo, porém, o
movimento popular anticonstitucional, acabou por se juntar à causa e
tornar-se, num só golpe, o líder do movimento. As Cortes foram
dispensadas; diversos políticos e ministros, presos e torturados. O
absolutismo parecia voltar a Portugal, mas com d. João nunca se tinha
absoluta certeza de nada. Em abril de 1824, d. Miguel, novamente à frente
de uma revolta — desta vez, daquela que passaria à história portuguesa
como Abrilada —, aprisionou seu pai no Paço da Bemposta por não ver os
propósitos da revolta anterior aplicados integralmente. Voltou também a
prender nobres e ministros, acusando-os de pertencerem à maçonaria e de
comungarem com seus ideais liberais.
Numa pronta resposta ao movimento, os diplomatas estrangeiros em
Lisboa, sob a direção do embaixador francês Hyde de Neuville, seguiram
para o Paço da Bemposta a fim de se colocarem ao lado de d. João. Quando
impedidos de ingressar pela guarda de d. Miguel, Neuville teria dito que
“Sua Alteza [d. Miguel] é um vassalo e nós não reconhecemos senão o rei e
lembre-se, que se perdoam aos filhos dos reis os seus desvarios, mas se
enforcam os seus cúmplices.”207
Sendo-lhes prontamente liberada a passagem, os estrangeiros viram o
estado de virtual prisioneiro em que se encontrava d. João, que não
conseguia governar de fato. Em 9 de maio, um plano foi colocado em
prática. A pretexto de ir para um passeio e jantar em Caxias, d. João saiu do
palácio com a filha, d. Isabel Maria, e outras infantas, refugiando-se em
seguida numa nau inglesa atracada no Tejo, a Windsor Castle. À entrada do
rei, o navio disparou uma salva e içou tanto o pavilhão real quanto a
bandeira portuguesa, transformando o local, fortemente guardado pela
marinha britânica, em um paço improvisado. D. João convocou d. Miguel,
que assumiu as consequências do golpe e aceitou o exílio. D. Carlota foi
confinada em Queluz, uma vez que, pretextando doença, conseguiu não ser
exilada — e olhem que d. João tentou: em carta ao cunhado, rei da Espanha,
ele narrou todos os conflitos com a esposa.
Desde o ano de 1806 tive provas convincentes dos projetos ambiciosos da rainha e dos indignos
meios que ela procurava para os promover, chegando ao ponto de querer que eu fosse declarado
inábil para continuar no governo. Não falarei nos múltiplos indícios de desafeição e de traição
que subsequentemente nela tenho reconhecido até estes últimos tempos, em que, seduzindo a
incauta mocidade de meu filho, o infante d. Miguel, o induziu, segundo todas as aparências, a
tentar os atos de rebelião que são bem notórios, e que à custa do maior sacrifício consegui
sufocar.

D. João terminava a carta sugerindo que o cunhado propusesse a d. Carlota


“a necessidade de ir viver retirada em alguma província” na Espanha, ou
ainda que partisse para a França ou Itália. Caso isso não acontecesse, d.
João teria que tomar “outra resolução severa [...] para poder restituir a
tranquilidade à minha Real Família e aos meus Estados”.208
Desse incidente todo ainda teria resultado uma gravidez inesperada da
infanta d. Isabel Maria, irmã de d. Pedro, que se tomara de amores por um
aristocrático oficial britânico a bordo.209
D. Pedro, ao ser informado de tudo o que ocorrera em Portugal, escreveu
ao pai:
Rio de Janeiro, 15 de julho de 1824.

Meu pai. O dever de filho e o amor que, como homem, consagro a Vossa Majestade me instam
a que, pondo de parte a coroa que sobre minha cabeça foi colocada pela generosa nação
brasileira, vá, por este modo, fazer constar a Vossa Majestade o desgosto que tive quando soube
dos desatinos do mano Miguel e o quanto lhe desaprovo seu proceder, e se é verdade, segundo
se diz, que ele fora traidor a Vossa Majestade, já, de hoje em diante, deixa de ser mais meu
irmão, pois um bom filho jamais pode amar traidores.210

Aproveitando a ocasião, d. Pedro tocou na questão do reconhecimento do


Brasil por Portugal:
Permita-me Vossa Majestade que eu, como filho, lhe dê (posto que não pedidos) meus
conselhos. Vossa Majestade, já, quanto antes, deve reconhecer a Independência do Brasil para
seu próprio interesse. Da estabilidade do Império, jamais se pode duvidar, ele vai andando
(apesar de alguns reveses que não enumero), sustentando-se e adquirindo cada vez mais força
física e moral, que nunca poderá ser domada pelo velho e encanecido Portugal que, quanto mais
quiser conquistar o Brasil, tanto mais se irá aniquilando, pois ele, sem o Brasil amigo, não tem
comércio e sem comércio é nada. Posso assim falar, pois, de Portugal, já disse a Vossa
Majestade que não queria nada.

D. Pedro lembrou que ele como imperador e d. João VI como rei estavam
em guerra, e por isso deviam sustentar os direitos das duas nações de que
eram chefes; como filho e pai, no entanto, tinham a obrigação de se amar.
Por acreditar nisso, teceu diversos conselhos a d. João, solicitando-lhe que
buscasse o reconhecimento do Brasil por parte de Portugal não somente
pelo bem do povo português, mas também em vista da permanência do rei
no trono.
A vida de Vossa Majestade está em muito perigo, pois, em os fidalgos se unindo (como
pretendem) ao descontente comércio, que se acha moribundo, ao desgraçado lavrador, que já
não tem com que mate a fome à sua miserável família e ao artista, que não trabalha por não
terem extração suas manufaturas, Vossa Majestade vai debaixo irremediavelmente e ninguém
lhe poderá, infelizmente, valer. Reconhecendo, Vossa Majestade, a independência, o comércio
toma alentos, o lavrador já tem dinheiro com que mate a fome à sua família, o artista já
trabalha, em uma palavra, já tudo fica contente.

Novamente, d. Pedro buscou uma oportunidade para se dizer fiel ao pai, a


quem recomendou
[...] reconhecer a independência do império brasílico em um filho tão seu amigo, em um filho
que se não fez imperador, pois foi o amor dos brasileiros em paga de serviços e as
circunstâncias, vistas de antemão por Vossa Majestade, que me fizeram.

Lembrou-lhe também que d. João, em carta de 31 de março de 1822, havia


lhe dito: “regularás a tua conduta conforme as circunstâncias em que te
achares, regulando tudo com toda a prudência e cautela”. Ainda demoraria
um pouco — e sairia caro — o reconhecimento, por Portugal, da perda
definitiva do Brasil.
Ledo × Andrada,
império × república
O imperador, na carta que enviara ao pai, aproveitara para lhe informar que
se tornara maçom. D. Pedro entrara para a nascente maçonaria brasileira no
início de agosto de 1822, a convite de Gonçalves Ledo e de Clemente
Pereira. O convite também acabou se estendendo a José Bonifácio. Alguns
dias depois, o príncipe seria eleito grão-mestre, só aceitando a nova posição
em 7 de outubro. Os maçons, para desconforto de d. Pedro e,
principalmente, de José Bonifácio, que tinha Ledo e Clemente Pereira como
republicanos, exigiam que o futuro imperador jurasse — mais uma vez! —
a constituição que não existia. Enquanto a maçonaria trabalhava em favor
da aclamação de d. Pedro, as coisas foram sendo levadas ao feitio de d. João
VI, ou seja, em banho-maria.
Calendário perpétuo com elementos maçônicos em homenagem a d. Pedro.
Com os resultados favoráveis chegando das vilas e cidades do Brasil,
Clemente e Ledo foram chamados por d. Pedro e José Bonifácio três dias
antes da aclamação. Foi-lhes proibido que qualquer menção sobre um
juramento prévio constasse da ata da Câmara do Rio e do discurso a ser
pronunciado no dia da aclamação. Assim foi feito. Porém, devido a um
editorial republicano que certo jornal carioca veiculara e que, segundo José
Bonifácio, tivera como articuladores tanto Clemente quanto Ledo, nenhum
dos dois estaria presente à coroação. O imperador, usando de seu posto de
grão-mestre, fechou a maçonaria e decretou a prisão de ambos no final de
outubro de 1822. Ledo conseguiu fugir para Buenos Aires, de onde passou a
combater o governo de d. Pedro. Clemente Pereira não teve a mesma sorte:
acabou sendo preso e exilado na França.
Tais ações, porém, não haviam sido motivadas apenas pela questão do
juramento prévio a uma constituição inexistente e pela ameaça de
republicanismo dentro da maçonaria; também o fizeram as renúncias de
José Bonifácio e de seu irmão, Martim Francisco, aos cargos de ministro,
uma vez que não haviam concordado com a decisão de anistiar os
envolvidos na bernarda de Francisco Inácio em São Paulo, responsável por
depor os Andrada e enviar Martim Francisco, preso, ao Rio de Janeiro, em
meados de 1822. Tanto Ledo como Clemente Pereira haviam solicitado
anistia aos envolvidos, o que piorara a animosidade que os Andrada lhes
destinavam.
D. Pedro preferiu antes fechar a maçonaria e sacrificar Ledo e Clemente
do que perder os dois Andrada, que retomaram seus postos em 30 de
outubro de 1822. Os dois eram, no momento, imprescindíveis: enquanto
José Bonifácio se convertia em seu principal ministro e em seu mais valioso
conselheiro, Martim Francisco conseguira recuperar parcialmente as
finanças nacionais. Apesar de o Banco do Brasil continuar combalido, com
o déficit do governo chegando a seis mil contos (uma fortuna para a época),
sua gestão regrada e o lançamento de bônus que ajudavam na guerra contra
Portugal, entre outras ações, impediram que o governo se tornasse
insolvente.
Certa história revela quão grande era a probidade de Martim Francisco.
Em determinada ocasião, seu irmão José Bonifácio, após receber o salário,
foi ao teatro e acabou por ser roubado. Ao saber do ocorrido, d. Pedro teria
mandado chamar Martim Francisco e pedido que pagasse novamente ao
conselheiro, ao que o ministro das Finanças teria retrucado: “Não,
majestade. O ano tem doze meses, e não treze para os protegidos.” Martim
Francisco resolveu o problema do irmão dividindo o próprio salário com
ele.
Valendo-se de seus postos no governo e da nova posição adquirida após
30 de outubro, os Andrada sentiram-se de tal maneira fortalecidos que
recrudesceram ataques, prisões, investigações e admoestações contra todos
os seus numerosos inimigos, quer no Rio, em São Paulo ou em outras
províncias.
A dupla, porém, logo viraria uma tríade, com a inclusão do irmão Antônio
Carlos, ex-deputado paulista nas Cortes de Lisboa que havia sido eleito para
a Assembleia Constituinte. Em 3 de maio de 1823, ela foi aberta por d.
Pedro no edifício da antiga Casa da Câmara e Cadeia. O imperador chegou
ao local tendo sua carruagem puxada por oito belas mulas; usava uma farda
verde e um manto ornado com plumas amarelas, em forma de poncho. A
coroa e o cetro, símbolos do poder do imperador, descansavam em uma
mesa próxima ao trono quando d. Pedro pronunciou seu discurso, no qual
inventariou as ações que o governo provisório praticara até então e
reafirmou o que jurara ao povo no dia de sua coroação, na praça do Paço da
Cidade:
Como Imperador Constitucional, e mui especialmente como Defensor Perpétuo deste Império,
disse ao povo no dia 1o de dezembro do ano próximo passado, em que fui coroado e sagrado,
que com a minha espada defenderia a Pátria, a Nação e a Constituição, se fosse digna do Brasil
e de mim. Ratifico hoje mui solenemente perante vós essa promessa, e espero que me ajudeis a
desempenhá-la, fazendo uma Constituição sábia, justa, adequada e executável, ditada pela
razão, e não pelo capricho, que tenha em vista somente a felicidade geral, que nunca será
grande sem que esta Constituição tenha bases sólidas, bases que a sabedoria dos séculos tenha
mostrado que são as verdadeiras para darem uma justa liberdade aos povos, e toda a força
necessária ao Poder Executivo.

Ele enfatizou repetidamente, ao longo do discurso, que desejava que os


deputados fizessem uma constituição que merecesse sua “real aceitação”.
Norteou ainda os trabalhos afirmando esperar que fosse criada uma divisão
de poderes, tal como pregavam Locke, Rousseau e Montesquieu:
Em que os três poderes sejam bem divididos de forma que não possam arrogar direitos que lhe
não compitam, mas que sejam de tal modo organizados e harmonizados, que se lhes torne
impossível, ainda pelo decurso de tempo, fazerem-se inimigos.

Apesar de certo esclarecimento e de suas noções de liberalismo, d. Pedro


traria sempre consigo um conflito íntimo: além de ser português e brasileiro,
era um liberal que gostava de mandar. Criado dentro do absolutismo, tinha
consciência de seus deveres, mas muito mais dos seus direitos. Ao aceitar e
lutar pela constituição, entendia que, ao ceder parte de suas prerrogativas,
de sua antiga herança absolutista, os deputados deveriam fazer com isso
algo de relevante — caso contrário, não concordaria com a Constituinte.
Isso causou ruído logo de início, com alguns deputados afirmando que a
constituição deveria ser digna do povo, e não do imperador.

Um imperador contra
a escravidão
Há um rascunho no Arquivo Histórico do Museu Imperial211 que demonstra
que d. Pedro se dedicou arduamente a um texto contrário à escravidão no
Brasil. É possível que essa tenha sido sua primeira ideia de discurso para a
abertura da Assembleia, pois faz referência aos constituintes. Ao contrário
da versão final, que acabou publicada, sob o pseudônimo O Filantropo, em
30 de maio no jornal O espelho, o rascunho não menciona o “senhor
redator”. Eis como o texto se inicia:
O amor que consagro à minha Pátria, os princípios de uma justa liberdade que tenho, e o quanto
me interesso pela prosperidade e grandeza deste Império, me instam a que faça patente ao
Público as minhas ideias acerca do comércio da escravatura, que, segundo penso, é uma das
causas do atrasamento em que, por ora, estamos. [...]
Poucas pessoas ignorarão que a escravatura é o cancro que rói o Brasil!; posto isto, é mister
extingui-la. [...] Ao primeiro golpe de vista, saltam aos olhos os imensos e incalculáveis males
que a escravatura nos traz consigo. Estes males são o justo prêmio de um direito por nós
arrogado, e não adquirido, porque me não consta que haja direito algum dos homens se
escravizarem uns aos outros. [...]
Deixamos de ser industriosos, não buscamos modo algum de ganhar a vida, nem trabalhando
em benefício particular, nem em público; não fazemos invenção alguma para vivermos, porque
quem tem um escravo, manda-o a ganho. Não lhe importa que ele roube, fira ou mate, contanto
que ele lhe traga o dinheiro que lhe estipulou por dia. Se o escravo assim o não faz — pancada
de criar bicho [...].

Ao longo do artigo, d. Pedro apresentou um arrazoado a respeito da


substituição dos escravos por mão de obra imigrante e descreveu o plano, a
ser futuramente implantado, de manter agentes na Europa para aliciar
famílias e empregá-las ao bem do estado, pagando assim os custos com
transporte para o Brasil. O plano levaria dois anos para ser posto em prática.
Ele transformaria a frota do comércio negreiro em navios imigratórios e
proibiria o tráfico, mas permitiria a manutenção dos escravos por seus
donos, sem que pudessem, contudo, comprar novos. Os negros que
nascessem pertenceriam ao senhor. Segundo o imperador, isso humanizaria
a relação entre o proprietário e a propriedade.
Por fim, d. Pedro invocava:
[...] Algum deputado da nossa Assembleia, daqueles que mais se interessam pela felicidade do
Brasil, faça alguma indicação a este respeito, e que, tomando-a ela em consideração, hajam de
acordar alguma medida ditada pela humanidade e justiça, a fim de nos fazer sair do letargo em
que há trezentos anos temos estado.

A pregação não caiu em solo fértil. Os deputados representavam os


interesses da elite, à qual pertenciam e pela qual eram eleitos; e ela era
majoritariamente formada por latifundiários detentores de dezenas de
milhares de escravos.
201 Arquivo Histórico do Museu Imperial, II-POB-22.09.1822-PI.B.c 1-2.

202 A imprensa estrangeira e a Independência do Brasil. Revista Em Cultura, p. 141.

203 RODRIGUES, José Honório. Independência, revolução e contra-revolução, vol. 1, p. 260.

204 Atual praça da República, na cidade do Rio de Janeiro.

205 Atualmente, com diversas reformas e modificações, é a sede da Faculdade de Direito da


Universidade Federal do Rio de Janeiro.

206 RODRIGUES, José Honório. Independência, revolução e contra-revolução, vol. 1, p. 269.

207 NOBRE, Eduardo. Paixões reais, p. 45.

208 COSTA, Sérgio Corrêa da. As quatro coroas de d. Pedro I, pp. 37-8.
209 NOBRES, Eduardo. Paixões reais, p. 47.

210 Arquivo Histórico do Museu Imperial, II-POB-15.07.1824-PI.B.c (d1).

211 Arquivo Histórico do Museu Imperial: I-POB-1823-PI.B.fa


A Constituinte e
a Constituição

SE REALMENTE havia algo com o qual tanto d. Pedro quanto os


deputados concordavam era a necessidade de pôr fim à perseguição dos
Andrada a seus inimigos. Um dos primeiros atos da Assembleia foi propor
anistia a todos os presos políticos, entre os quais aqueles envolvidos na
bernarda de Francisco Inácio. Entretanto, Antônio Carlos e seus partidários
conseguiram derrotar a proposta. O aviso, no entanto, já estava dado: nem
todos concordavam com o autoritarismo e o radicalismo dos irmãos. Em 6
de junho, ocorreu o atentado contra o jornalista Luís Augusto May, redator
do jornal A Malagueta. Em artigo publicado no dia anterior, May dirigira
ataques tanto ao ministério quanto ao imperador. Os irmãos Andrada, bem
como o próprio d. Pedro, foram logo colocados entre os suspeitos, o que
gerou uma onda de críticas dentro da Assembleia.
Em meados de junho, o deputado Muniz Tavares propôs uma lei radical,
segundo a qual os portugueses no Brasil deveriam ser declarados brasileiros
e conservar suas posses, contanto que houvessem dado provas de sua adesão
à causa da Independência e à pessoa do imperador. Em plenário, a proposta
foi sustentada por Antônio Carlos mediante um discurso que questionava a
natureza ambígua do próprio imperador:
[...] Até no ápice e sumidade da nação um ser, sim raro, e que despira todo o lusitanismo para
professar de coração o genuíno brasileirismo, mas que como homem não poderá nunca sufocar
de todos os gritos da sua origem.212

Ficava clara a afronta ao imperador e aos milhares de portugueses que se


dividiam entre a causa da independência e sua origem lusitana, incluindo
membros da elite, dos ministérios e da corte. A lei não foi aprovada, mas o
estrago já estava feito; a intriga contra os Andrada tornou-se palpável.
Em 30 de junho de 1823, d. Pedro sofreu um dos mais perigosos acidentes
de cavalo de sua vida. Segundo relatório enviado à Assembleia Constituinte
em 8 de julho, o dr. Domingos Ribeiro dos Guimarães Peixoto, cirurgião da
Imperial Câmara e assistente de Sua Majestade, o imperador, relatava que d.
Pedro, vindo da chácara do Macaco na segunda-feira, dia 30, por volta das
seis horas da noite,
[...] ao chegar à ladeira perto do paço de S. Cristóvão, como corresse o selim tanto para a
garupa do cavalo em que vinha, pela razão de estarem as silhas traseira mui largas, que estas
ficaram nas virilhas do animal, que se corcoveava e desabridamente corria, Sua Majestade
Imperial, receando resvalar juntamente com o selim e ser, em consequência, maltratado pelos
muitos e violentos coices, sobretudo faltando-lhe o apoio da crina por se ter esta arrebentado e à
qual lançara a mão, tomou a resolução de deitar-se abaixo, o que fez para o lado esquerdo.
Depois de uma queda tão considerada, batendo com as costas em cheio sobre barro duro, não
obstante levar de encontro o braço esquerdo, [...] soldados do telégrafo, que logo o acudiram e
seguraram até que chegou Sua Majestade, a Imperatriz, acompanhada de seu criado, que
ajudaram Sua Majestade Imperial a recolher-se ao paço [...] subiu a escada [...], seguro tão
somente a uma bengala, como observei, quando o vi [...].

Na queda, d. Pedro contundiu duas costelas, a clavícula esquerda e o


quadril, ficando preso ao leito em uma espécie de equipamento imobilizador
desenvolvido pelo médico. O relatório concluía dizendo que, passados nove
dias, o monarca estava recuperado. D. Leopoldina, em carta213 de 9 de julho
a seu pai, o imperador Francisco I da Áustria, fez eco ao doutor, informando
que o marido estava melhor.
Em 15 de julho, Plácido Antônio Pereira de Abreu, servidor do Paço
Imperial, recebeu uma carta e uma ameaça: sua vida correria perigo se não
entregasse aquela mensagem para o imperador. Desesperado, ele não só
cumpriu sua parte do combinado como, sem saber a quem comunicar,
mandou publicar no dia seguinte, no Diário do Rio de Janeiro, que fizera a
entrega a d. Pedro.
A mensagem, escrita em alemão, foi traduzida por d. Leopoldina.
Infelizmente, o conteúdo não é conhecido até hoje, mas a reação do
imperador, sim. Ele mandou chamar José Bonifácio e, enquanto este
conversava noutra sala com a imperatriz, saiu do palácio junto com
soldados armados. Em seguida, foi até a cidade, invadiu a sede do
Apostolado,214 encerrou a sessão que era ali realizada, apreendeu todos os
papéis e fechou definitivamente a sociedade. Voltando ao Palácio de São
Cristóvão, confrontou-se com José Bonifácio. No dia seguinte, José
Bonifácio, acompanhado de seu irmão Martim Francisco, se demitiu dos
cargos ocupados no ministério e na corte; sua irmã, por sua vez, deixou o
posto de dama da imperatriz.
Essa é uma das inúmeras versões que dizem respeito à saída dos Andrada
do ministério. Outras dão como certa a influência de Domitila de Castro,
amante paulista do imperador, que teria recebido dinheiro para advogar a
libertação dos prisioneiros políticos paulistas. Uma terceira diz,
simplesmente, que o monarca, preso ao leito e recebendo os deputados da
Assembleia Constituinte, ouviu o que tinham a dizer a respeito dos mandos
e arbitrariedades dos Andrada, resolvendo, assim, conceder anistia geral.
Por meio de seu ministro da Justiça, d. Pedro mandou que fossem
lavrados decretos que libertavam os prisioneiros políticos do Rio de Janeiro
e das demais províncias, finalizando a devassa de São Paulo contra os que
haviam participado da bernarda, anulando os decretos de deportação e
concedendo anistia a todos. Tratava-se de um ato executivo, cuja decisão
cabia a ele e ao ministro da Justiça; no entanto, por não terem sido
consultados, os Andrada receberam-no como uma afronta.
Datada de 15 de julho,215 a proclamação de d. Pedro é intitulada “Aos
habitantes do Brasil”. Nela, o imperador oficializava o fim das perseguições
políticas; afirmava que só recentemente tivera conhecimento dos atos
arbitrários e despóticos tomados contra seu povo; reafirmava os sagrados
direitos que determinara logo de sua ascensão ao governo, ainda como
príncipe regente: direito à segurança da pessoa, à propriedade e à
inviolabilidade do lar; ressaltava que tais direitos haviam sido atacados e
violados; e, por fim, revelava que raramente ouvia a verdade, mas a tinha
buscado e percebido o mal que andava se abatendo sobre seu povo.
Terminava assim a colaboração íntima entre os Andrada e o imperador. Os
irmãos se dedicariam a seus cargos eletivos na Assembleia e se ocupariam
diretamente do anteprojeto constitucional, o qual, embora ainda fixasse no
imperador a chefia do executivo, passava a proibir-lhe dissolver o
parlamento e imiscuir-se nos outros poderes.
Em 12 de agosto, os irmãos Andrada lançariam seu próprio jornal, O
Tamoio, que continuava pregando, agora abertamente, o antilusitanismo e o
pró-nativismo de seus ideais. Um dos primeiros números alertava para a
presença e influência maciça dos portugueses no nascente exército
brasileiro.
No início de setembro de 1822, estava pronto o anteprojeto da
Constituição. Dos 242 artigos, a maioria agradava a d. Pedro, que não se
deixava levar pelo rancor: ele não puniria a Constituinte por conta de seus
principais autores. Até mesmo José Bonifácio tentou, segundo o diplomata
austríaco barão de Mareschal, uma reaproximação com d. Pedro na ocasião.
O velho conselheiro propôs ao imperador que o ministro-chefe apoiasse
uma moção dos Andrada para que a Constituição fosse promulgada do
modo como estava, sem discussão dos artigos em plenários. O monarca não
aceitou a proposta, que classificou como antiparlamentar;216 antes, queria o
exame e o debate público de todos os 242 artigos.
Até o início de novembro, as discussões contra os portugueses na
imprensa e na sociedade caminharam junto com os debates dos artigos
constitucionais na Assembleia. No dia 5, dois oficiais portugueses
invadiram uma loja no largo da Carioca e atacaram a bengaladas um
boticário que julgavam, erroneamente, ter sido autor de um artigo contra os
lusitanos. Martim Francisco e Antônio Carlos, no dia 10, aproveitaram o
ocorrido para propor na Assembleia a aprovação de um decreto que
retirasse os direitos civis dos militares portugueses e os deportasse. A
Assembleia foi tomada por populares, que ouviam entusiasmados os
discursos dos Andrada. Aquela parecia uma reedição do que ocorrera anos
antes, na Praça do Comércio.
Enquanto isso, no exército, brasileiros natos formavam alas com os
portugueses e denunciavam a demagogia que corroía a Assembleia e
indignava os quartéis. D. Pedro teve que intervir e determinou, ao general
Curado, que trouxesse as tropas para São Cristóvão, retirando-as da cidade.
No dia 11, o imperador dissolveu o gabinete e nomeou o brasileiro
Francisco Vilela Barbosa ministro-chefe. Este logo se comunicou com a
Assembleia, explicando que as tropas estavam aquarteladas para que não
houvesse mais desentendimentos; culpou também os jornais e alguns
deputados pelo modo como as coisas estavam se desenrolando. Longe de se
chegar a uma resolução pacífica, os parlamentares se recusaram a decidir
acerca do caso, evitando tomar qualquer decisão contra os Andrada e os
jornais envolvidos: só fariam algo se as tropas fossem retiradas para mais de
quarenta quilômetros da cidade. Na ocasião, somente 24 dos 272 artigos da
constituição haviam ido a plenário, e a aprovação da Carta, marcada por
sentimentos antilusitanos, ameaçava estender-se por meses, talvez anos.

Uma Constituição outorgada


D. Pedro, notando que a Assembleia não estava disposta nem a tomar
qualquer atitude a respeito da xenofobia contra os portugueses, nem a
estabelecer punições à imprensa e aos deputados envolvidos, decidiu
dissolvê-la. No decreto, declarou que daria ao Brasil uma constituição duas
vezes mais liberal que aquela que estava sendo discutida. Tropas foram
enviadas para a frente da Assembleia em 12 de novembro. Não houve
resistência. Os Andrada e outros deputados foram presos e deportados para
a França, enquanto d. Pedro seguiu para a igreja de Nossa Senhora da
Glória do Outeiro a fim de agradecer o fato de tudo terminar sem
derramamento de sangue.
No dia seguinte, o imperador nomeou um Conselho de Estado que tinha
como principal objetivo elaborar um novo projeto constitucional. D. Pedro
trabalharia junto com o Chalaça, estudando as Constituições de Portugal de
1822, da Noruega e da França. Quando achava algo aplicável ao Brasil,
anotava, modificava o texto conforme o caso e o apresentava ao Conselho
de Estado. O anteprojeto foi enviado às câmaras das vilas e cidades
brasileiras, e mais da metade dos municípios retornou dando seu aval.
Em carta de fevereiro de 1824217 ao marquês de Resende, seu diplomata
na corte de Viena, d. Pedro assim refletia a respeito da importância de uma
constituição:
[...] Um imperante que não ama a liberdade do seu país, e que não dá aos povos aquela justa
liberdade, que lhes assegure suas propriedades e pessoas, e que antes trabalha com mil malhos
em fazer grilhões, não só para agrilhoar seus súditos, mas para, junto com outros imperantes,
agrilhoar o mundo inteiro, é indigno de ser imperante, deve pertencer à classe das feras, e não
dos homens, e ser proscrito da sociedade. [...] Amo a liberdade. E se me visse obrigado a
governar sem uma Constituição, imediatamente deixaria de ser imperador, porque quero
governar sobre coração com brio e honra, corações livres e não sobre corações lodosos, podres
e servis, como os daqueles povos onde ainda não há Constituição, e que ainda no século
presente aturam um jugo de ferro, que quando chegar a quebrar-se (como em breve acontecerá),
ai dos imperantes.

D. Pedro outorgou a primeira carta constitucional ao Brasil em 25 de março


de 1824, na Catedral da Sé do Rio de Janeiro. Houve missa pontifical, após
a qual todo o texto da Constituição foi lido e jurado solenemente tanto pelo
imperador quanto por d. Leopoldina e as demais autoridades. À noite, no
teatro, d. Pedro deu vivas à Constituição por cinco vezes, bem como à
perpétua independência. Logo após a função, um incêndio criminoso
destruiu o local.
Essa Constituição foi a que mais vigorou no país até hoje: de 1824 até
1889. Sua substituição só se deu devido à queda da monarquia. Ela continha
os mais modernos princípios básicos de direito público da época, assim
como um quarto poder: o Poder Moderador. D. Pedro não parecia achar que
o poder de nomear ministros, de fazer tratados internacionais sem passar
pela Assembleia, de dissolvê-la e convocar novas eleições bastasse para
manter a ordem constitucional de um Brasil dividido entre portugueses e
brasileiros. O Poder Moderador foi a fórmula jurídica encontrada para
regular, mediante o direito de vetar leis, os demais poderes. Assim, inseria-
se na Constituição mais avançada da época um elemento da monarquia
absolutista.
Se analisarmos as propostas da Constituinte de 1823 e a Constituição de
1824, uma coisa fica clara: a segunda era realmente mais liberal em
diversos pontos. Por exemplo: de acordo com ela, qualquer comunidade não
católica tinha direito de ter o próprio local de culto. Quanto aos direitos
invioláveis das pessoas e propriedades, a Constituição de 1824 listava 34
pontos, enquanto a anterior só mencionava seis.
Um ponto que ficou de fora e que se faz notar é a questão da escravidão
no Brasil, contra a qual d. Pedro já se pronunciara. Tendo nas mãos a
oportunidade de fazer algo, ele não apresentou nenhum artigo a respeito.
Segundo o historiador Neill Macaulay, d. Pedro teria sufocado seus fortes
sentimentos sobre o tema por acreditar que um assunto tão polêmico
dificultaria a rápida aceitação da Carta Constitucional pelas cidades e vilas
brasileiras. Futuramente, empregando o direito que a Constituição lhe
conferia a respeito dos tratados diplomáticos — contanto que não
envolvessem a união do Brasil com qualquer outro país —, ele tentaria se
voltar contra o tráfico.218
O fato de d. Pedro só ter designado brasileiros natos para o ministério e
para o Conselho de Estado não acalmou os ânimos de um país que se
dividia entre portugueses e brasileiros. A vila de Campo Maior, no Ceará,
não aceitou a Constituição, alegando que o imperador e sua família não
mais governavam o Brasil após o golpe contra a Assembleia, em 12 de
novembro. A pior reação, porém, veio de Pernambuco. As câmaras de
Recife e de Olinda recusaram-se a jurar a Constituição e reconhecer o novo
governador indicado por d. Pedro. Em 2 de julho de 1824, os políticos e
cidadãos da província, instigados pelo jornalista e frei carmelita Joaquim do
Amor Divino Caneca, proclamaram sua independência do Brasil,
conclamando outras províncias do Nordeste a segui-la na chamada
Confederação do Equador.
No uso dos poderes que a nova Constituição lhe dava, d. Pedro declarou
suspensas as liberdades civis tanto em Pernambuco quanto no Ceará, para
onde marcharam as tropas do brigadeiro Lima e Silva e a esquadra do
mercenário escocês lorde Cochrane, feito almirante brasileiro e marquês do
Maranhão. No final de outubro de 1824, a revolta fora abafada. Dezesseis
pessoas foram presas, entre elas frei Caneca e o padre Mororó. Por serem
considerados culpados de insurreição contra o governo, todos receberam
pena de morte, a maioria por enforcamento, com exceção dos dois
religiosos, que foram fuzilados. D. Pedro, tomando-os como exemplo,
recusou-se a comutar as penas.
Alegoria do juramento à Constituição brasileira. O mercenário alemão Schlichthorst alegou, em suas
memórias, que o rosto da índia seria cópia fiel daquele da marquesa de Santos.
Misturando o público
e o privado
Entre ir ao teatro e à igreja todas as semanas, abrir e fechar a Assembleia,
deportar os antigos aliados, dar uma constituição ao Brasil e acabar com
uma guerra civil, d. Pedro cultivava uma vida pessoal ativíssima. Em 17 de
fevereiro de 1823, nascia seu quarto filho, a princesa d. Paula Mariana,
nome dado em homenagem a São Paulo e Minas Gerais. No final de 1823,
d. Leopoldina estava grávida novamente, dando à luz a princesa d.
Francisca em agosto do ano seguinte.
Além dos filhos com a esposa, da guerra contra Portugal e da guerra civil
no Nordeste, d. Pedro também achava tempo para ter filhos com outras
mulheres.
Em novembro de 1823, nascia Rodrigo Delfim Pereira, oficialmente filho
da futura baronesa de Sorocaba, Maria Benedita de Castro do Canto e Melo,
com o marido, Boaventura Delfim Pereira. Além de Domitila, d. Pedro
também conquistara sua irmã, que, segundo o imperador, tivera um filho
com ele “por um motivo bem simples, [...] não era burra”.219 E não era
mesmo: antes da chegada de Domitila e do restante da família, que
desembarcaria em peso no Rio de Janeiro em meados de 1823, Maria
Benedita conseguiu, ao gerar um filho do imperador, que o marido, que já
possuía cargo na corte, passasse a ser administrador de todas as
propriedades da coroa.
Qual foi a reação de Domitila e do restante da família ao saberem do
ocorrido, não se sabe ao certo. Futuramente, a favorita de d. Pedro seria
acusada de tentar matar a irmã, mas tudo não passaria de uma armação
contra ela envolvendo Maria Benedita e o marido. Enquanto durou o
relacionamento entre d. Pedro e Titília, a rivalidade entre as duas pode ser
percebida nas cartas em que o imperador se defende dos ciúmes da amante,
como quando jura que não foi à casa nem “do grande nem do pequeno
Boaventura”.220
D. Pedro, tanto na imprensa quanto na vida particular, era bem criativo
em seus pseudônimos. Nas cartas que trocou com Titília seria, no começo
do relacionamento, o “Fogo-Foguinho”, “Demonão” e “Seu Filho”. Teria
saudades de ir “aos cofres” da amante e de “apalpá-la por dentro e por
fora”. Era o imperador sem folhas de parreira, totalmente desnudo, vivendo
uma intensa paixão carnal, pouco se importando com as marcas de
esfaqueamento nas coxas de sua amante paulista.
Do primeiro filho que Domitila pode ter tido dele, a história não guardou
rastro além da carta em que d. Pedro lhe contava ter falado sobre a gravidez
com o velho coronel João de Castro. A criança pode não ter nascido viva, a
mãe pode tê-lo abortado, ou ainda o filho pode ter morrido bebê.
Em setembro de 1823, Titília estava grávida novamente. Tecnicamente,
ela continuava casada com o alferes Felício, que também morava no Rio de
Janeiro à época. Apesar da separação física, a oficialização eclesiástica
ainda não fora solicitada. Oficialmente, ela ainda era esposa dele, que tinha
direitos sobre a criança esperada, o que devia preocupar o imperador. Com
o avanço da gravidez, d. Pedro resolveu intervir no processo de separação
de Domitila e Felício. À época, era a Igreja, e não o estado, quem definia a
constituição do casal e, consequentemente, da família; somente ela poderia
conceder a separação, observando, para tanto, as causas previstas, como
maus-tratos que pudessem levar à morte.
Com a pressão do imperador, a justificação preparatória, que geralmente
demorava semanas, foi realizada em quarenta e oito horas; em pouco mais
de dois meses, a sentença de divórcio foi lavrada.
Seis dias após o início do processo, em 10 de março de 1824, quinze antes
de d. Pedro promulgar a Constituição, Felício foi nomeado administrador da
Feitoria do Periperi, pertencente à fazenda de Santa Cruz. Domitila
conseguiu o divórcio e Felício, com um emprego novo, deixou o processo
correr à revelia. Ao ser informado, porém, do nascimento da menina Isabel
em 23 de maio, dois dias após a sentença, ele escreveu uma carta desaforada
ao ex-cunhado Boaventura, falando mal de Titília. D. Pedro, ao tomar
conhecimento do conteúdo da mensagem, assumiu para si a correção do
alferes. A todo galope, seguiu até a sede da feitoria, esbofeteou Felício e
prometeu surrá-lo caso não ficasse longe de Isabel e Domitila.
Isabel foi batizada em 31 de maio de 1824 na igreja de São Francisco
Xavier do Engenho Velho. Foi registrada filha de pais incógnitos e exposta
— ou seja, abandonada — na casa do coronel João de Castro. Seus avós
maternos serviram de padrinhos.
Nas cartas trocadas com Domitila, d. Pedro chamava a menina de “nossa
Belinha”, ou então apenas “Bela”. Ele cobria a criança de agrados:
mandava-lhe pão de ló, frutas e até o estranho “bolo de cutia”,221 de que
sabia que gostava; enviava também remédios e receitas quando adoecia.
Diariamente, perguntava sobre sua saúde. Pensava frequentemente em seu
futuro e, certa vez, garantiu a Domitila que Isabel seria “de mecê [...]
inseparável até ter idade de aprender”.222
O acerto de contas com Felício não seria nem a primeira, nem a última
vez que d. Pedro defenderia Domitila e tomaria como afronta pessoal os
seus problemas e humilhações. Em meados de setembro de 1824, Domitila
tentou assistir à função do Teatrinho Constitucional São Pedro, um teatro
particular onde só entravam associados e gente com convites especiais. Ela
não se encaixava em nenhuma das duas condições. Quando d. Pedro
chegou, soube que Titília fora barrada no saguão e colocada na rua como
uma qualquer; segundo alguns boatos, chegara a ser tratada como
prostituta.
Com os rompantes coléricos que lhe eram peculiares, o imperador saiu do
teatro sem quase pisar nele. No dia 22, o intendente-geral da Polícia dava
ordens para que o estabelecimento fosse fechado, indiciando os diretores
segundo a lei de 20 de novembro de 1823 que proibia sociedades secretas.
Como os estatutos não haviam sido submetidos à aprovação do governo,
eles incorriam nas penas previstas pela lei. No fim, o processo acabou
abandonado, mas não antes de os artistas serem despejados e terem seus
trajes e cenários na rua, alimentando uma grande fogueira. Ao ver as
chamas, um transeunte teria indagado:223 “[...] Qual foi a razão de se fechar
tão repentinamente o teatro?” “Ora” — replicou um dos diretores —, “por
nenhum motivo, que eu saiba, senão que recusamos admitir em nossa lista a
Nova Castro.” A resposta era irônica. A história do amor entre Inês de
Castro e d. Pedro I, o Cruel, oitavo rei de Portugal (1357-1367), que fizera
da amante morta rainha, rendera mais de uma peça. A mais recente, à época,
tinha o apelido de “Nova Castro”.
Dando satisfação à amante sobre o ocorrido no teatro, d. Pedro escreveu:
Meu bem,

Aí vai o remédio que chegou neste momento da cidade, não me esqueço de nada seu. Já se
mandou fechar o teatro, apreender papéis e proceder à devassa do que se sabe para meu
esclarecimento. [...] Hoje já não trabalha o teatro, e estão todos de boca aberta.
Seu amante, fiel e constante, O Demonão.224

A imperatriz do Brasil
Ao contrário de d. Pedro, d. Leopoldina, principal figura feminina da
Independência do Brasil, não foi coroada. À coroação do marido ela assistiu
ao lado da primogênita, d. Maria da Glória, permanecendo no alto da
tribuna de honra e diante do trono colocado próximo ao altar.
Reconhecimento da participação política de d. Leopoldina não faltou. A
prova disso veio, primeiro, da comissão de senhoras baianas que a visitou
em maio de 1822, logo após o Fico, para entregar-lhe a “Carta das Senhoras
Bahianas, felicitando-a pela parte por ela tomada nas patrióticas resoluções
de seu esposo”. Assinaram o ato 186 mulheres. Após a aclamação do
marido, d. Leopoldina recebeu outro documento, agora das senhoras
paulistas, que se puseram à disposição para salvar o trono do Brasil ao lado
da imperatriz, se preciso fosse.
A ajuda de d. Leopoldina no processo da Independência não se limitou
apenas a ficar do lado do marido. Como no caso do Conselho de Estado, por
ela presidido na ausência de d. Pedro, a imperatriz continuou auxiliando-o,
inclusive diplomaticamente. Ela entrou em contato com o pai para se
queixar da falta de cartas da família após a Independência e tentando
explicar-lhe o que acontecera no Brasil. Pondo-se novamente do lado de d.
Pedro, tratou de argumentar bem o que os levou a seguirem a linha da
separação de Portugal — afinal, a coroação do marido como imperador por
“aclamação dos povos” ia contra os ditames do Congresso de Viena. Ao
menos em teoria, Portugal poderia exigir que as monarquias absolutistas
signatárias do congresso iniciassem um esforço conjunto e invadissem o
Brasil, restituindo-o à coroa portuguesa.
D. Leopoldina, assim como o marido, era contrária à escravidão.
Auxiliando d. Pedro e o governo, ela trabalhou com o major von Schäffer,
agente de imigração brasileira na Europa, para trazer colonos e mercenários
estrangeiros ao Brasil. A imperatriz serviria até mesmo como intérprete
entre os soldados de língua alemã e d. Pedro, que tinha enorme orgulho de
seu batalhão de granadeiros germânicos.
Schäffer publicou na Europa um livreto a respeito do dia a dia da família
imperial brasileira. Ter uma imperatriz alemã podia ser um alento às
famílias que trocariam a Europa pelo novo mundo. Em certo aspecto, de
fato o foi, pois os europeus, sobretudo os mercenários, procuravam cair nas
boas graças de d. Leopoldina quando se viam sem recursos para retornar a
seus países de origem. Eles raramente saíam de mãos vazias de suas
entrevistas com a soberana, contribuindo assim para a calamitosa situação
financeira da imperatriz. No livreto, Schäffer comentava a facilidade que
era, em comparação aos dias atuais, chegar próximo aos governantes:
Todas as sextas-feiras, cedo às 9 horas, há audiência pública no palácio residencial. Os
audientes se reúnem na antessala sem distinção de posição e classe, mesmo sem roupa própria
de corte, de modo que até pobres e descalços podem comparecer às audiências, e permanecem
na ordem da entrada. O imperador fica sob um dossel diante de uma mesinha na sala de
audiência, para onde entram os solicitantes, em fila, por uma porta e apresentam ao imperador
seus pedidos escritos, ou o fazem oralmente, recebendo logo de costume resposta provisória.

Quanto a d. Leopoldina:
Às sextas-feiras, a imperatriz, consoante o costume católico, visita a igreja [...] de Nossa
Senhora da Glória, preferida por ela, e nela ouve missa. Fácil é o acesso até a imperatriz. A
gente, ou se faz anunciar por alguns dos seus criados, ou espera à entrada da quinta e lhe fala
quando ela entra ou sai.225

D. Pedro, ainda nos primeiros anos de reinado, seguiria uma rígida


programação diária, da qual às vezes participava d. Leopoldina.
O imperador era sempre o primeiro a se levantar, por volta das cinco
horas da manhã. Ao lado da mulher, visitava propriedades da Quinta da Boa
Vista, lavouras e colonos. Depois os dois caçavam juntos ou iam ao Jardim
Botânico averiguar, pessoalmente, o desenvolvimento da cultura de chá e de
fruta-pão. Às vezes, d. Leopoldina acompanhava o marido nas incertas
pelas repartições públicas e nas inspeções ao cais e ao arsenal. Na volta a
São Cristóvão, a imperatriz recolhia-se a seus aposentos, separados dos do
marido, enquanto o imperador recebia seus ministros. Ambos almoçavam
separados, mas à tarde, depois do descanso de d. Pedro, que odiava ter a
sesta interrompida, saíam de novo a passeio. Uma hora de repouso era o
suficiente para pô-lo de pé novamente. Em geral, quando havia função, iam
juntos ao teatro. D. Leopoldina, retornando ao paço, recolhia-se em sua ala
do palácio, que era então fechada e só reabria na manhã do dia seguinte.
Enquanto isso, d. Pedro continuava a noite em algum outro entretenimento.
Não raro, ia dormir depois da meia-noite.
212 Anais da Constituição, tomo II, p. 113.

213 KANN, Bettina; LIMA, Patrícia Souza. Cartas de uma imperatriz, p. 423.

214 Espécie de confraria paramaçônica criada pelos irmãos Andrada, na qual o imperador tinha o título
de arconte-rei e os artigos a serem propostos na Assembleia Constituinte eram previamente discutidos.

215 PROCLAMAÇÕES, cartas, artigos de imprensa, pp. 177-9.

216 MONTEIRO, Tobias. História do Império. Elaboração da independência, pp. 764-5.

217 Arquivo Histórico do Museu Imperial, II POB 00.02.1824 p PI.B.c 1-3.

218 MACAULAY, Neill. Dom Pedro I, p. 188.

219 REZZUTTI, Paulo. Titília e o Demonão, p. 158.

220 Idem, p. 313.

221 Idem, p. 138.

222 Idem, p. 105.

223 ARMITAGE, João. História do Brasil: desde o período da chegada da..., p. 242.

224 REZZUTTI, Paulo. Titília e o Demonão, p. 109.

225 A imperatriz Maria Leopoldina, p. 17ss.


Imperador do Brasil,
rei de Portugal

D. PEDRO era bastante pragmático e não agiria de outra forma ao lidar com
o reconhecimento da independência brasileira. Somente alguns países, como
os Estados Unidos e outros sem qualquer compromisso com Portugal,
reconheceram a autonomia do Brasil. O restante, apesar de manter
embaixadores estrangeiros no país, marcava diplomaticamente o passo
enquanto a questão não era resolvida entre os principais interessados. Tudo
isso, porém, não abalou d. Pedro, que em carta ao marquês de Resende
exporia sua opinião sobre o assunto:
Olhando eu o reconhecimento político como uma espécie de sanção dada por todas as nações à
Independência do Brasil, não o acho, contudo, essencial para gozarmos daquelas felicidades
resultantes a uma nação independente. [...] Apesar da falta do reconhecimento político, não
deixam de entrar diariamente neste porto navios de todas as nações, motivo por que o comércio
tem aumentado; a alfândega rende mensalmente duzentos e tantos contos e não rende mais (o
que em breve acontecerá) por haver poucos cômodos para despachar-se mais fazenda.226

Em suma: a diplomacia podia esperar, mas a entrada de dinheiro, não. Sem


ele não havia governabilidade, sendo impossível a manutenção do exército e
dos funcionários. Na mesma carta, d. Pedro referiu-se a uma conversa que
tivera com Chamberlain, diplomata britânico no Rio de Janeiro. Este o
informou de que tanto o gabinete inglês quanto o austríaco esperavam três
coisas de d. Pedro:
• Que os enviados de Portugal fossem bem tratados. Já veio tarde a súplica, e mais cedo, que
chegasse, nenhuma outra coisa faríamos, pois o que fizemos é conforme à dignidade nacional;
• Que somente os nossos navios de guerra tomassem os navios de guerra portugueses, e se
suspendessem as hostilidades contra o comércio, visto que Portugal não fazia a guerra, antes
queria a paz entre os dois hemisférios. A isto não assinto eu, porque esta intervenção, que
Portugal procurou, mostra que não tem forças para nos atacar, nem quem o ajude a vir
conquistar o Brasil, e como lhe falta a força física, quer ver se o governo do Brasil, com medo
da intercessão, (não lembrado, que tem no seu braço escrito — Independência ou Morte) cai na
esparrela de suspender as hostilidades e perde a força moral, donde se seguiria por
consequência necessária a dissolução do Império;
• Que para o futuro se tratasse da união das duas coroas brasileira e portuguesa.

Este último ponto era bastante delicado. D. Pedro, apesar do que


futuramente se diria, nunca deixou de ser o herdeiro oficial de d. João VI.
Entretanto, o imperador não via com bons olhos uma futura reunião de
Brasil e Portugal sob uma mesma coroa:
Nem eu, que sou brasileiro e amante da prosperidade do Brasil, poderia jamais consentir que ele
houvesse de se unir a Portugal, e portanto, enquanto eu vivo, contem, que nunca se fará tal
união e que deixarei em meu testamento que o Brasil, logo que veja um descendente meu
ratificar algum tratado de incorporação com Portugal, o amaldiçoe e expulse de seu seio, por
indigno de governar povos, amantes e zelosos de sua liberdade e inimigos do despotismo até
pintado.

Essa tentativa de união, por meio da missão diplomática do conde de Rio


Maior, enviada ao Brasil logo após a Vilafrancada, em 1823, mostrou-se
infrutífera. Ao longo de 1824, também se tentou discutir em Londres, sem
sucesso, o reconhecimento do Brasil por Portugal.
Ainda que d. Pedro não aceitasse uma união futura, d. João VI não
cogitou deserdar o filho mais velho. Disso dão testemunho as três cartas
régias portuguesas que o embaixador britânico sir Charles Stuart trouxe
consigo para o início da conferência do reconhecimento da independência
brasileira por Portugal, a ter lugar no Rio de Janeiro em julho de 1825. Em
uma das missivas — a primeira, assinada por d. João no dia do seu
aniversário, em 13 de maio de 1825 —, ele ordenava:
[...] E por a sucessão das duas Coroas Imperial e Real diretamente pertencer a meu sobre todos
muito amado e prezado Filho o Príncipe D. Pedro, nele, por este mesmo ato e carta patente,
cedo e transfiro já, de minha livre vontade, o pleno exercício da soberania do Império do Brasil
para o governar denominando-se Imperador do Brasil e Príncipe Real de Portugal e Algarve,
reservando para mim o título de Imperador do Brasil e o de Rei de Portugal e Algarve com a
plena soberania destes dois Reinos e seus domínios.

Ou seja, d. João reconhecia o antigo reino do Brasil como império e tomava,


para si e seus descendentes, o título de imperador do Brasil e Rei de
Portugal e Algarve, cedendo e transmitindo a d. Pedro, como seu sucessor
explícito, o exercício pleno do cargo imperial do Brasil.
Um diplomata inglês no Brasil
Mas por que a Inglaterra se envolvia tanto nos assuntos da independência
brasileira, a ponto de um britânico tomar parte nos negócios em nome do rei
de Portugal? Em 1825, caducavam aqueles tratados comerciais entre o
Brasil e a Inglaterra que haviam sido conseguidos por Stragford quando da
mudança da corte em 1808, e por meio dos quais os comerciantes ingleses
haviam obtido vantajosas taxas de impostos para negociar no país. Uma vez
que os tratados estavam para expirar, era necessário que a Inglaterra
procurasse mediar o conflito, podendo tratar diretamente com o Brasil
independente sem melindrar o antigo aliado, Portugal.
Stuart desembarcou no Rio de Janeiro em 18 de julho de 1825. Segundo o
diário do almirante inglês Graham Eden Hamond, ao irem à terra em
Botafogo e se encaminharem para a casa onde o embaixador ficaria
hospedado,
[...] percebi as nossas costas uma carruagem, vindo em nossa direção, com uma escolta de
guardas, o que revelou ser o Imperador do Brasil, dirigindo ele mesmo, um phaeton inglês
puxado por quatro cavalos.
Em consequência colocamo-nos em posição de sentido, tirando nossos chapéus no que ele
também retribuiu, sem parar a viatura. Não tinha ido mais de ¼ de milha quando o vimos voltar
e, ao aproximar-se de nós, puxou as rédeas e parou a carruagem.
Apeou-se, ainda segurando as rédeas na mão esquerda, e perguntou a Mr. Chamberlain se era
o embaixador. Ao lhe ser confirmado, um grande número de mesuras foi feito de ambos os
lados e iniciou-se uma conversação em português [...] que durou cinco minutos, após o que
subiu no seu phaeton e partiu. Tudo isso, não tenho dúvida, foi feito com o intuito de mostrar
grande civilidade, mas é certamente bastante incomum para um imperador, e mostrou que ele
não pode refrear sua curiosidade, pois não tenho dúvida de que estava passeando por ali
expressamente para encontrar Sir Charles.227

D. Pedro estava ansioso para resolver ele mesmo a situação, tanto que
assumiu imediatamente as negociações com Charles Stuart. Foram vários os
encontros, a maioria a portas fechadas; no entanto, a partir dos despachos do
embaixador à Inglaterra, conhecemos os temas tratados e as reações, muitas
vezes enérgicas, do imperador — até mesmo contra o pai. D. Pedro taxou de
absurda a ideia de d. João fazer-se “imperador do Brasil”, por exemplo.
Outro ponto controverso foi a questão da futura união das duas coroas em d.
Pedro, como herdeiro de Portugal. Segundo Stuart, o imperador teria
proposto ceder o trono português para uma das suas filhas, mas, uma vez
que o embaixador não tinha autorização portuguesa para negociar nesses
termos, nada ficou acordado sobre isso no tratado final de 29 de agosto. D.
Pedro acabou, no final das contas, por renunciar a uma participação direta
nas negociações e por nomear um conselho para tratar com o diplomata.
Stuart, em relatório ao ministro das relações exteriores da Inglaterra,
George Canning, deixou-nos um retrato vivo de quem era, naquela ocasião,
d. Pedro:
[...] Privado pela desconfiança do pai de qualquer educação, só a audácia de caráter, que possui
em alto grau, sem a crueldade do irmão,228 permitiu-lhe tirar partido de um conjunto de
circunstâncias para alcançar a posição atual e, decidido a conservar esta, aproveitar-se-á antes
dos acontecimentos do que seguirá qualquer sistema coerente de política. Como ninguém dentre
os que o cercam se atreve a contradizê-lo, as medidas menos prudentes adotadas pelo governo
são o resultado dos acessos de paixão que não domina, o que leva a lamentar mais do que todos,
uma vez passado o acesso, os incidentes. Sabendo que os ministros, seja por incapacidade ou
por sentimentos egoístas, não cuidam realmente do bem-estar do país, faz timbre em prescindir
de suas opiniões, salvo em apoio dos objetivos que visa, em caso de repercussão na opinião
pública. [...] Domina o seu gênio por completo, quando adequadamente rodeado, a prova está
nas relações pessoais com estrangeiros, dos quais ouve, como no meu caso, verdades que lhe
são em extremo desagradáveis, sem exceder-se em linguagem ou maneiras. No curso das
negociações, sua moderação aliada à pronta compreensão foi tão notável que não vacilo em
declarar que os assuntos tratados diretamente com ele se resolveram mais rápida e
satisfatoriamente do que com todos ou alguns de seus conselheiros oficiais.229

Além do título de d. João como “imperador do Brasil”, que de nada valia, e


de sua benevolência em “conceder” uma independência que havia sido
conquistada, Portugal recebia do Brasil uma grande indenização financeira.
O tratado foi publicado no Rio de Janeiro no dia 7 de setembro de 1825,
quando da comemoração do ato da independência realizado em São Paulo
três anos antes. Junto com o tratado, seguiu para Portugal uma carta de d.
Pedro ao pai, na qual dizia:
Vossa Majestade verá que fiz da minha parte tudo quanto podia e, por mim, no dito tratado, está
feita a paz. É impossível que Vossa Majestade, havendo alcançado suas reais pretensões, negue
ratificar um tratado que lhe felicita seus reinos, abrindo-lhe os portos ao comércio estagnado, e
que vai por em paz tanto a nação portuguesa, de que Vossa Majestade é tão digno rei, como a
brasileira, de que tenho a ventura de ser imperador.230

D. João respondeu ao filho:


[...] Na conformidade do que me pedes, ratifiquei o tratado, tu não desconheces quantos
sacrifícios por ti tenho feito, sê grato e trabalha também de tua parte para cimentar a recíproca
felicidade destes povos que a Divina Providência confiou ao meu cuidado, e nisto darás um
grande prazer a este pai que tanto te ama e a sua bênção te deita.231

Por uma questão semântica, d. Pedro havia discutido, e muito, a questão que
Stuart impunha a ele de evitar no tratado a informação de que era imperador
do Brasil “pela graça de Deus e pela livre aclamação dos povos”. Afinal, na
Carta Régia d. João alegava ter sido ele quem cedera ao filho esse título.
Melindres à parte, o embaixador britânico teve que contar com duas pessoas
da confiança de d. Pedro para que esse detalhe não acabasse com todo o
tratado. Uma delas, segundo o próprio Stuart em carta a Canning de 5 de
setembro, foi o futuro marquês de Barbacena, Felisberto Caldeira Brant. A
outra era a amante paulista do imperador: “Devemos às boas graças do
general Brant e à influência da senhora Domitila de Castro a remoção de um
obstáculo que teria feito malograr toda a negociação.”232

A amante política do imperador


O relacionamento de d. Pedro com Domitila já se tornara público em 1825.
Em carta ao amigo marquês de Resende, o imperador vangloriava-se:
“Tenho cá coisa boa que é genitivo de Castro, que é cunhada de quem vocês
sabe. Boa Ventura. Tenho eu!”233
A importância da amante oficial pode ser medida pelo fato de sir Charles
Stuart ter ido visitá-la antes de se avistar com a imperatriz do Brasil — fato
esse que indignou a viajante inglesa Maria Graham. Longe de tentar evitar
falatórios, o imperador não procurou mais mantê-la afastada de si após um
novo incidente que a envolvera na Semana Santa daquele mesmo ano.
Se por insistência da amante ou se por resolução própria, não se sabe, d.
Pedro ordenou a Joaquim Lobato, porteiro da Câmara Imperial, que levasse
Domitila para assistir à missa de Páscoa na tribuna das damas do paço, na
Capela Imperial. As tribunas de honra da igreja, localizadas acima do altar-
mor, eram frequentadas apenas pela família imperial e pessoas do séquito.
Domitila não tinha cargo nenhum no paço, muito menos um que lhe desse o
direito a estar na tribuna das damas da imperatriz.
A baronesa de São Salvador dos Campos dos Goytacazes, Ana Maciel da
Costa, primeira brasileira nata a receber um título de nobreza (em 1812),
ficou atônita ao ver entrar na tribuna uma mulher que já estava sendo
apontada como amante paulista do imperador. Rapidamente, ela se levantou
e abandonou o local, sendo nisso seguida pelas demais damas de companhia
de d. Leopoldina.
Novamente, assim como na ocasião do teatro, em que tivera a amante
barrada, a reação de d. Pedro foi imediata. Na segunda-feira, 4 de abril,
comemorava-se o aniversário da princesa d. Maria da Glória. Durante os
aniversários dos membros da família imperial, era costume que o imperador
e a imperatriz distribuíssem títulos, condecorações, mercês e perdões. Entre
os nomes a serem contemplados com benesses, aparecia o de Domitila,
designada dama camarista da imperatriz. Esse posto colocava-a acima de
todas as demais damas de companhia e lhe conferia tanto o direito de ter
acesso aos aposentos de d. Leopoldina quanto de acompanhá-la a todos os
lugares, sendo-lhe destinado um lugar de honra, logo após os imperadores,
em qualquer ocasião pública.
Com sua tentativa desastrada de vingar a honra de Domitila e dar uma
resposta à baronesa de Goytacazes e às demais damas que se lhe tinham
julgado superiores, d. Pedro acabou por atear fogo ao mundo diplomático da
corte, que veio abaixo. Os diplomatas estrangeiros sediados no Rio
correram cada qual para seus informantes e, logo depois, para a
escrivaninha mais próxima, no intuito de informar a seus respectivos países
quem era a amante oficial do imperador.
A amante, na época, se analisarmos muito friamente, era quase uma
necessidade social. Devemos nos lembrar de que, primeiro, não havia modo
de se prevenir de maneira segura a gravidez e, segundo, todo parto
representava risco de morte para a mãe e para a criança. Não havia anestesia
e, muito menos, um modo seguro de se realizar cesariana em caso de falta
de dilatação. O homem, depois de alguns anos de casado, manter relações
sexuais fora do casamento representava um alívio para grande parte das
esposas, que, normalmente, já vinha parindo anualmente desde os 14 ou 15
anos de idade.
Uma coisa, porém, era ter uma ou várias amantes; outra era conferir-lhes
o posto de favorita do imperador. D. Pedro, que não medira qualquer
consequência e reagira de maneira estouvada, acabou elevando a sua a um
dos cargos mais altos da corte, garantindo-lhe o direito de viver com os
soberanos e de trabalhar no palácio ao menos uma semana por mês. Isso deu
a Domitila um peso político enorme, enquanto d. Leopoldina teve que
suportar calada, dentro da própria casa, a presença da amante do marido.
A nomeação de Domitila foi claramente forçada por d. Pedro, que
explodira de raiva com a afronta sofrida pela amante. Ele chegou a urdir um
plano para humilhar ainda mais as damas do paço: mandou que fosse
instalada uma tranca na porta de acesso à tribuna da Capela Imperial e deu
ordens para que só fosse aberta quando a dama camarista chegasse. Com a
amante, combinou que ela só apareceria na igreja quando o ofício religioso
estivesse prestes a começar. Assim, todas ficaram em pé, sem assento, até
sua chegada.234
O assunto ainda rendeu um poema de d. Pedro a Domitila, na qual o
imperador louvava o ato da imperatriz de conceder, à paulista, a honra de
ser dama da corte:
Domitila, minha imperatriz do coração. Desde que pus meus olhos na tua
formosura, quis ser todo e sempre teu. Queres, divina augusta de meu
pensamento? É para ti estes versos, meu amor.
Pedro

Filha dos césares, imperatriz augusta,


tu abateste altiva soberbia
com que tuas damas de raça ímpia
abater queriam quem delas não se assusta.
Vedes, aristocratas cafres, quanto custa
apezinhar aquela cuja alegria
consiste em amar a Pedro e a Maria,
Titília bela, sua causa é justa
O mérito, a verdade em todos os países
aparecerão sempre em grande esplendor.
Sustem-nos o soberano, são suas raízes.

Conta com Pedro, pois ele é defensor


do pobre, do rico, do Brasil, dos infelizes,
ama a justiça, de seu amigo é vingador.235
D. Leopoldina já tivera contato informal com Domitila. Em carta à amante,
d. Pedro narrou o diálogo que travara com a esposa após o primeiro
encontro de ambas: “[...] Ela me disse que mecê lhe disse que tinha a
moléstia de Lázaro. [...] Eu respondi ‘ou tenha ou não, cá para mim não me
importa, porque não tenho tratos com ela’.”236
A tal “doença de Lázaro” é o que se conhece hoje como hanseníase ou,
mais popularmente, lepra. À época, sem tratamento, a doença era contagiosa
e causava mutilações. Quem teria uma leprosa como amante? Ao mesmo
tempo, que imperatriz teria uma leprosa como dama de companhia? A
tentativa que Domitila e d. Pedro empreenderam para disfarçar foi péssima,
e os dois provavelmente se esqueceram da mentira inicial. De todo modo,
numa corte hostil como aquela em que se encontrava, era necessário que d.
Leopoldina fingisse não ver nem escutar nada.
Em informe encaminhado a Viena em 15 de abril, o diplomata austríaco
no Rio de Janeiro, barão de Mareschal, comentou que d. Leopoldina
comportara-se da melhor maneira possível quando Domitila lhe fora beijar a
mão pela graça obtida. Segundo o diplomata, a imperatriz cedeu sabiamente
aos desejos do marido, sem hesitar nem censurá-lo. Na folha que cobre o
relatório, é possível ler uma anotação do imperador Francisco I: “Que
homem miserável é o meu genro.”
No aniversário de d. Pedro, em 12 de outubro de 1825, mais honrarias
verteram do trono para cobrir não só Domitila, mas também seus parentes.
Titília, além de dama da corte, foi feita viscondessa de Santos; seu irmão
Pedro tornou-se cavaleiro da Ordem de Cristo e moço da Imperial Câmara;
e o outro irmão, Francisco, recebeu a Ordem do Cruzeiro. D. Pedro tinha
nos parentes de Domitila uma segunda família. Nas cartas em que os
menciona à amante, refere-se aos pais dela como “meus velhos”; aos
irmãos, trata carinhosamente por “manos”.
O relacionamento entre d. Pedro e Domitila ocupava cada vez mais os
mexeriqueiros da corte. No entanto, a imperatriz continuava a demonstrar
um sangue-frio e uma compostura que a dignificavam aos olhos de todos. O
barão de Mareschal escreveu a Viena:
Parece-me impossível que a senhora arquiduquesa não veja o que se passa tão diretamente sob
os seus olhos; mas sua alteza real tem a alta prudência de jamais fazer menção disso para com
quem quer que seja e de simular que nada percebe. O senhor príncipe, em contrapartida, está
cheio de atenção e de respeito para com ela e, apesar da existência de uma amante favorita,
instante algum cessou de se mostrar bom marido e de aproveitar todas as ocasiões para fazer o
elogio das virtudes de sua esposa e de elogiar a felicidade que presidiu a união.237

A referência à cidade de Santos no título da amante tinha uma intenção


particular: fustigar os Andrada, naturais da cidade, em seu exílio na França.
A notícia da graça cruzou como uma flecha o oceano Atlântico e atingiu o
alvo com precisão. José Bonifácio, em carta ao conselheiro Drummond
urrou de ódio:

Quem sonharia que a michela238 Domitila seria viscondessa da Pátria dos Andradas? Que
insulto desmiolado! [...] Oh, meu bom Deus, por que me conservas a vida para ver o meu país
enxovalhado a tal ponto!239

A paz entre Portugal e o Brasil


Em novembro de 1825, foi publicada em Portugal a assinatura do tratado
com o Brasil. As intrigantes “manas da Espanha” — as irmãs de d. Pedro
Maria Teresa e Maria Francisca, que haviam se casado com tios espanhóis e
rezavam com a mãe, Carlota Joaquina, a cartilha do absolutismo — logo
escreveram ao pai.
Maria Francisca mandou a d. João em 25 de novembro, de Madri:
Vossa Majestade só fica imperador no nome. Certamente que o mano Pedro tem sido um filho
muito infiel a seu pai e que já não se podia esperar nada bom dele, porém nunca se podia
esperar que o seu alucinamento chegasse ao ponto de dizer: Anuo a que Sua Majestade
Fidelíssima tome para si o nome de imperador, pois estas não são palavras que se digam a um
pai e muito menos a um soberano e pai, e o que ele quer mostrar é que recebeu a coroa do povo
e não de Vossa Majestade. Muito sinto eu tudo isto e muito mais sinto que, no reinado de Vossa
Majestade, se perdessem aquelas ricas terras e que um filho imponha a lei a seu pai.240

Quatro dias depois, Maria Teresa também iria, de Madri, posicionar-se ao


lado do pai, em detrimento de d. Pedro:
Confesso a Vossa Majestade que me horrorizou ver em um artigo do tratado que o mano Pedro
diz que anua a que Vossa Majestade use do título de imperador. Que desgraça, meu senhor, ser
tratado deste modo por um filho! Parece que Deus destinou a Vossa Majestade para sofrer e
assim espero que lhe dará forças para resistir e triunfar, pois, como é sumamente justo, não
ajudará um filho rebelde.241

Apesar das críticas familiares, tem-se a impressão de que as datas que


acompanham o acordo constituem uma tentativa, por parte de d. João, de
prestar honras a d. Leopoldina. Em 22 de janeiro de 1825, aniversário da
nora, o rei decidiu pelo restabelecimento da paz entre as duas nações e
nomeou, para dar início às tratativas, um gabinete português favorável à
independência brasileira. Em 13 de maio, assinou a primeira das cartas
régias que orientariam o plenipotenciário britânico. Muito embora fosse
essa a data do aniversário de d. João, também era a do tratado de casamento
entre d. Pedro e d. Leopoldina. Quanto a 15 de novembro, dia em que o
monarca português quis divulgar que concordara com o tratado chegado do
Brasil meses antes, tratava-se do dia de São Leopoldo da Áustria, padroeiro
daquele país e dia do onomástico242 de d. Leopoldina.
Enquanto d. João, provavelmente já informado da amante paulista do
filho, cobria de deferências a nora, o apaixonadíssimo d. Pedro fazia o
caminho inverso, ligando as efemérides relativas ao Brasil a Domitila:

Meu amor
e meu tudo...

27 de dezembro de 1825

No dia em que fazia três anos243 que eu comecei a ter amizade com mecê assino o tratado do
nosso reconhecimento como Império por Portugal. Hoje, que mecê faz os seus 27,244 recebo a
agradável notícia que no Tejo tremulara em todas as embarcações nele surtas o pavilhão
imperial, efeito da ratificação do tratado por el-rei, meu augusto pai. Quando há para notar uma
tal combinação de acontecimentos políticos com os nosso domésticos e tão particulares?
Aqui há o que quer que seja de misterioso, que eu ainda por ora não diviso, mas que indica
que a providência vela sobre nós (e se não há pecado) até como aprova a nossa tão cordial
amizade com tão célebres combinações [...].245

Os dois herdeiros
Ainda em 1825, d. Pedro teve mais motivos para comemorar. Tendo gerado
somente filhas após a morte do príncipe d. João Carlos, d. Leopoldina enfim
deu à luz um menino a 2 de dezembro, que recebeu o nome de Pedro e
reinaria no Brasil com o título de d. Pedro II. Cinco dias depois, em outra
residência, mais um Pedro nascia, este filho do imperador com Domitila. D.
Pedro teria ficado tão empolgado com o nascimento dos dois meninos que
chegou a cogitar, para o filho bastardo, um batizado repleto de todas as
pompas na Capela Imperial. Porém mudou de ideia e o bebê foi batizado na
igreja de São Francisco Xavier, no Engenho Velho, como filhos de pais
incógnitos. O imperador planejou fazer da criança duque de São Paulo.

Guerra no Sul
No entanto, se tudo andava bem em alguns setores da vida particular do
imperador, com o Brasil as coisas eram diferentes. Além da dívida de dois
milhões de libras esterlinas a serem pagas a Portugal como indenização
decorrente da assinatura do tratado entre as duas nações, na fronteira
meridional do país havia conflitos.
Em abril de 1825, durante o processo de organização das Províncias
Unidas do Rio da Prata, que dariam origem à Argentina, alguns exilados
uruguaios vindos de Buenos Aires retornaram à Cisplatina, anexada por d.
João ao Brasil quando da mudança da corte para a América. Tendo eles
levantado a população espanhola contra o governo brasileiro, o general
Lecor conseguiu manter Montevidéu e outras cidades, mas o interior
permaneceu nas mãos dos portenhos. Após receber tropas do Rio Grande do
Sul, Lecor preparou uma ofensiva contra os rebeldes, mas a força
expedicionária acabou dizimada na batalha de Sarandi em 12 de outubro,
aniversário de d. Pedro.
Algumas semanas depois, devido ao sucesso dos uruguaios dissidentes, o
governo argentino decidiu aceitar oficialmente a petição para que a
Cisplatina fosse admitida à união. Buenos Aires e outras províncias
mandaram tropas para ajudar os uruguaios contra os brasileiros, o que levou
d. Pedro a declarar guerra contra a Argentina em 10 de dezembro de 1825.
O autocrata liberal
Apesar do exacerbado liberalismo que era cantado, em toda a Europa
liberal, como modelo a ser seguido, d. Pedro ainda se dividia entre ser um
“imperador constitucional” ou um autocrata. O espírito liberal que almejava
era sufocado por seu gênio dominador. Ao contrário de seu filho, o futuro d.
Pedro II, ele não seria contemporizador; antes, agiria sempre como o motor
que instigava tudo o que dizia respeito ao Brasil. Excessivamente
consciente de seus direitos, relutava em dividi-los com alguém ou alguma
instituição.
D. Pedro ainda não convocara o congresso, que só se reuniria novamente
em maio de 1826. Além disso, tinha suspendido os direitos dos povos nas
diversas províncias em que houvera sublevações contra ele, as quais
ameaçavam a unidade territorial brasileira. Aqueles que, como ele,
sonhavam com um país constitucional e um governo liberal em que o poder
seria dividido entre o soberano e o parlamento haviam sido presos,
executados ou deportados. Até mesmo os ministros que o cercavam
começaram a sentir desconforto em servi-lo, uma vez que não havia,
segundo o marquês de Barbacena, liberdade alguma para expor a mais leve
discordância contra a vontade do imperador: era impossível permanecer
num cargo “que de um lado tem a responsabilidade e de outro a
impossibilidade de fazer a menor reflexão”.246
Uma prova de que d. Pedro estava ciente de seu poder pode ser
encontrada na demissão do ministro João Severiano. Em carta a outro
ministro, o imperador explicava ter Severiano “invadido a minha imperial
autoridade pondo na lista dois homens com hábito de Cristo que eu não
havia despacho, e sendo os despachos de graças unicamente meus por a lei
assim entender”, mandou executar a demissão do ministro em outubro de
1824.

A viagem à Bahia
Com sublevações constantes no Norte e Nordeste brasileiros, seguidas por
um levante de escravos que mataria diversas pessoas na Bahia, d. Pedro
decidiu visitar a província no início de 1826, do mesmo modo como já
havia feito com São Paulo e Minas Gerais. No entanto, ao contrário das
duas viagens anteriores, com uma pequena comitiva e tendo o céu como
teto de noite, a projetada viagem para a Bahia seria um evento imperial: não
iria só d. Pedro, mas também seus principais ministros, militares, altos
cortesãos, a imperatriz d. Leopoldina, a princesa d. Maria da Glória e a
amante, Domitila. O embarque deu-se em 2 de fevereiro. O burburinho foi
grande. No dia 13, o barão de Mareschal despachava a Viena:
A viagem da corte à Bahia deu lugar a um grande escândalo. Ver o imperador fazer
acompanhar-se no mesmo navio pela imperatriz, sua filha mais velha e sua amante oficial
ofendeu necessariamente todo o mundo, mas o medo pessoal que a violência do caráter deste
príncipe inspira fechou a boca de todos. — A senhora arquiduquesa que, naturalmente, se devia
sentir a mais ferida, mostrou a este respeito a mais perfeita indiferença [...]: o único receio que
ela se dignou exprimir referiu-se ao mau exemplo que isso daria à jovem princesa, criança
precoce a quem nada escapa. Não sei se isto é sabedoria, filosofia prática ou despreocupação,
mas a gente não se poderia conduzir com mais tato do que a arquiduquesa [...] o imperador
recebeu cartas anônimas, onde o censuravam de levar a mulher só para servir de véu para a sua
amante. Ficou por causa disso muito irritado e apressou-se em levar as cartas à imperatriz: esta
recebeu tão estranha confidência com o seu costumado sangue-frio, dizendo-lhe que aquilo ou
era falso, ou verdadeiro, que no primeiro caso não valia a pena ocupar-se com isso e no segundo
seria preciso fingir que se despreza o boato para fazê-lo cair. O mais engraçado é que o sangue-
frio da imperatriz enraiveceu o imperador, e ele censurou-a por não se aborrecer com ele; pôde
observar-se em seguida que Sua Majestade aparecia constantemente em público com a senhora
arquiduquesa e que ele redobrou de atenção e consideração para com ela.

A atitude de d. Leopoldina era política. Se por um lado o casamento lhe


trazia certas obrigações, como aguentar calada as amantes do marido, por
outro ela tinha maior noção do que d. Pedro do seu dever como imperatriz,
estando pronta para aguentar as humilhações a fim de não desprestigiar a
coroa perante o povo. Não lhe restavam alternativas: um escândalo público
só agravaria a solidão que sentia naquela corte hostil. O imperador
interpretou a reação da mulher como qualquer homem interpretaria: ela não
se importava. D. Leopoldina, porém, se importava sim, mas só o
demonstrava a quem lhe devia respeito e submissão. Era este o caso de seus
funcionários germânicos, como se vislumbra numa carta ao seu secretário
informal, o negociante e hoteleiro suíço Flach. Reclamando da crônica falta
de dinheiro em que vivia, ela desabafou:
O meu esposo se interessa somente pela maldita bruxa e à outra247 pode acontecer o que
quiser.248

A Schäffer, responsável na Europa pela vinda dos imigrantes germânicos ao


Brasil, a imperatriz também foi franca:
Aqui, infelizmente, anda tudo transtornado, pois, sinceramente falando, mulheres infames como
se fossem Pompadour e Maintenon e ainda pior, visto que não têm educação alguma, [...]
governam tudo torpemente.249

Porém, se uma coisa era aguentar a amante do marido por perto em alguns
momentos, outra era conviver com ela num navio durante 24 dias, sendo por
isso humilhada publicamente.
Apesar da tentativa de amigos íntimos em aconselhar d. Pedro a não se
expor a escândalos, que o mundo tinha os olhos nele, que as pessoas do
navio estavam atentas aos seus passos e ele devia respeito à filha de sete
anos e à imperatriz, o imperador não lhes dava ouvidos: estava cego de
paixão. Sem compostura alguma, tratava a amante com intimidade na frente
de quem quer que fosse. Chamava-a publicamente de “minha Titília” e
“minha rica viscondessa”. D. Leopoldina, retirada à sua cabine, preferia
comer sozinha a ser obrigada a dividir a mesa com d. Pedro, Domitila e a
filha, que, acompanhando o pai na intimidade da favorita, passeava com
esta de braços dados pelo convés.
No dia 26, os imperadores desembarcaram em Salvador, com d. Pedro
fazendo questão absoluta de que “aquela dama”, Domitila, estivesse no
mesmo barco que os levaria à terra. Ficaram hospedados onde hoje se
localiza o Palácio Rio Branco, na praça Tomé de Souza, próximo ao
elevador Lacerda. No local, erguiam-se o Palácio do Governador e a Casa
de Relação,250 onde a corte recém-chegada de Portugal havia se instalado
em 1808. As duas construções eram unidas por um passadiço, onde foi
instalada a princesa d. Maria da Glória. O governo baiano destinou à
imperatriz os aposentos da Casa de Relação, onde d. Carlota fora instalada
anteriormente, enquanto d. Pedro e Domitila ficaram no Palácio do
Governador.
Domitila acompanhava os soberanos nos eventos, despachos e beija-mãos
em Salvador e região. Quando passeavam de carruagem, d. Pedro ia
guiando, tendo a imperatriz ao seu lado e d. Maria da Glória e Domitila
sentadas atrás. Mas não foi sempre que Titília estava disposta a acompanhá-
los. Teve dor de ouvido, e d. Pedro, em cartas à mãe da amante, d.
Escolástica, que ficara tomando conta dos filhos dos dois no Rio de Janeiro,
contava que “já pondo-lhe sinapismos, já deitando-lhe bichas, e com tão
feliz resultado que espero, porque já está muito mais aliviada, que amanhã
ou depois já sai comigo, a minha senhora e filha no carrinho”.
D. Pedro recebia da corte informes oficiais e particulares. Entre as
questões pessoais, os cortesãos do paço, como o camarista da semana,
informavam-lhe sobre a saúde dos filhos, fossem legítimos ou não. O
menino que Domitila teve no final de 1825 não seria encontrado vivo pelos
pais em seu regresso da Bahia. Essa seria a primeira das muitas perdas
significativas que d. Pedro experimentaria em 1826.
Na Bahia, o imperador fez o que sabia fazer de melhor: mostrar-se
ocupado com toda a esfera da administração pública. Ele visitou todas as
instalações civis e militares de Salvador e região; em seguida, emitiu as
ordens que considerava importantes para o local, abarcando desde as
melhorias necessárias até a parte organizacional, passando por
descomposturas em chefes e encarregados. O imperador proibiu que os
funcionários do governo mandassem seus escravos fazer os serviços pelos
quais os senhores recebiam; organizou a construção de um novo cais para o
desembarque comercial, evitando atulhar os produtos descarregados dos
navios diante do Arsenal da Marinha, que no momento da visita encontrava-
se obstruído por sacos de farinha; num único dia, chegou a receber mais de
seiscentas pessoas em audiência e a visitar as fortalezas. Além disso, não
cuidava somente dos negócios baianos: mandou construir orfanatos,
solicitou a melhoria da faculdade de medicina com materiais importados da
Inglaterra, deu esmolas, puniu e condecorou quem devia. Quando na Bahia,
ficou sabendo, pelo embaixador Charles Stuart, da intenção de Simão
Bolívar de despachar um exército de doze mil homens como socorro à
Argentina na luta contra o Brasil.
Em meados de março, d. Pedro e sua comitiva deixaram a Bahia,
desembarcando no Rio de Janeiro em 1o abril. O imperador passou
abruptamente pela multidão que, à sua passagem, se curvava na rua para
tentar beijar-lhe a mão e, fugindo do calor, entrou em seguida na Capela
Imperial, onde seria oficiado um Te Deum em ação de graças pela chegada
segura dos imperadores. Enquanto isso, d. Leopoldina percorria com
serenidade e postura o caminho que ligava o desembarque do navio à
capela, dando sua mão a ser beijada por quantos desejassem. Seu senso de
dever e de dignidade era maior que o do marido.

Rei de Portugal
Vinte e três dias depois do desembarque dos imperadores, a fragata
portuguesa Lealdade chegou ao Rio de Janeiro com uma notícia impactante.
D. João VI havia falecido em 10 de março, aos 59 anos. Além do problema
crônico que lhe acometia uma das pernas, não se sabia de nenhuma outra
doença do rei, que ainda imaginava reinar por muitos anos. No entanto, em
4 de março d. João caiu estranhamente doente. No dia 6, um Conselho de
Regência, presidido pela infanta d. Isabel Maria, foi criado por um decreto
seu. Quatro dias depois, morria. Notícias desencontradas logo começaram a
surgir. Segundo boatos, o rei teria sido envenenado por seu médico
brasileiro, o carioca Teodoro Ferreira de Aguiar, cirurgião-mor da real
câmara. Tais alegações levariam Aguiar ao suicídio em maio de 1827.
Segundo o arqueólogo português Fernando E. Rodrigues Ferreira, exames
realizados nas vísceras de d. João VI, descobertas em São Vicente de Fora
na década de 1990, mostram que o monarca de fato fora envenenado por
arsênico.251 De acordo com as pesquisas atuais, d. João teria começado a
passar mal em 4 de março, logo após comer pão e frango, beber água e
chupar algumas laranjas-baía. Ainda segundo o arqueólogo, a morte teria se
dado um dia e meio depois, ou ainda dois dias — no mais tardar, portanto, a
6 de março, data em que o rei supostamente assinara o decreto de nomeação
da regência. Pelo que diz a perícia grafotécnica, a assinatura no decreto não
seria de d. João VI.
É provável que, ao assassinato do rei, tenha se seguido um golpe
palaciano para impedir que os absolutistas tomassem o poder. O que
sabemos de concreto é que as facções liberais e absolutistas logo
começaram a se acusar mutuamente pela morte de d. João. Na chefia da
regência, a infanta d. Isabel Maria, de posição moderada, assegurou o trono
ao real herdeiro do seu pai, d. Pedro. Além da notícia oficial, a infanta
despachou ao Brasil o médico suspeito de envenenar d. João, Teodoro
Ferreira de Aguiar. O doutor fora instruído a contar de viva voz ao
imperador os últimos acontecimentos. Aguiar retornaria para Portugal como
membro da delegação diplomática brasileira em Lisboa e atuaria como
correio secreto e informal entre os dois irmãos, como demonstram as
diversas cartas entre d. Pedro e d. Isabel Maria, bem como entre o secretário
do imperador, Francisco Gomes, e o dr. Aguiar, guardadas no Arquivo
Histórico do Museu Imperial.
As “manas da Espanha”, d. Maria Francisca e d. Maria Teresa, logo
escreveriam ao irmão no Brasil para jurar fidelidade ao novo rei de
Portugal; nas cartas, tocariam também na questão da herança deixada por d.
João: pediam para não serem esquecidas na partilha, uma vez que tinham
filhos. Nenhuma das duas demonstrou qualquer indício de terem chamado
d. Pedro de filho ingrato meses antes.
D. Miguel, de seu exílio vienense, escreveu para d. Isabel Maria em 2 de
abril, afirmando que não tomava partido entre as facções políticas que se
acusavam mutuamente e desejavam o poder a qualquer custo. Declarou que,
se preciso fosse, a irmã estava autorizada a divulgar a carta que lhe enviava,
na qual tanto apoiava o decreto que d. João promulgara no dia 6 para
nomear a junta quanto jurava fidelidade a d. Pedro, a quem reconhecia
como legítimo herdeiro do trono português.252 Para d. Pedro, d. Miguel
escreveu em 6 de abril de Viena:
Mal preparado para resistir à tamanha dor, longe da pátria e de tudo quanto me poderia
ministrar alguma consolação, grande alívio experimento no meu pesar em dirigir-me hoje a
Vossa Majestade Imperial para lhe oferecer os protestos da minha mais rendida vassalagem,
reconhecendo em Vossa Majestade Imperial o meu legítimo soberano, como herdeiro e sucessor
da coroa de nossos gloriosos maiores.253

Enquanto não chegavam a Portugal notícias a respeito do que d. Pedro


pretendia fazer com o trono e a nação herdados, as especulações eram as
mais disparatadas, sobretudo da parte da rainha d. Carlota Joaquina, que, em
carta de outubro de 1826 à filha d. Maria Francisca, na Espanha, informava-
a: “Anteontem chegou um navio do Rio de Janeiro e corre a notícia que o
Pedro quer fazer deste reino colônia, mandando para aqui um vice-rei e que
manda uma deputação para vir buscar suas irmãs.”254
D. Isabel continuou mantendo como prisioneira, no Palácio de Queluz, a
sua mãe, que, embora se queixasse dos espiões que a rodeavam em sua casa
e dentro do próprio quarto, conseguia enviar cartas para as filhas na
Espanha, que por sua vez as encaminhavam a d. Miguel em Viena. D. Isabel
chegou a dobrar a guarda do Palácio, mandando mais um esquadrão de
cavalaria e um de infantaria, para vigiar melhor a mãe, apesar dos protestos
desta.255
Em 26 de abril, dois dias depois de tomar ciência da morte do pai, d.
Pedro enviou aos membros do seu Conselho de Estado, no Brasil, o seguinte
ofício:
Meu pai e senhor d. João VI morreu a 10 de março e, por decreto de 6 do referido mês,
organizou uma regência para governar o Reino até eu determinar o que me aprouvesse como
herdeiro daquele Reino [...]. É de absoluta necessidade assentarmos em primeiro lugar o que se
deve em relação às circunstâncias delicadas da opinião do Império, zeloso da sua indispensável
independência, e em segundo lugar o que se deve em relação a Portugal.
Quanto ao Império, perguntarei se se opõe a sua independência que o imperador seja rei de
Portugal, governando-o do Brasil, e ficando existindo como existem duas nações totalmente
independentes qual a brasileira e portuguesa? Se é oposto à Constituição? Agora, pelo lado da
utilidade para o Império, se é útil ou poderá vir a ser que do Brasil seja governada uma nação
europeia, sendo esta a portuguesa? No caso de convir, que se deve determinar a respeito do seu
governo? No caso de não convir, como deve ser feita a abdicação e em quem?256

Enquanto as respostas não chegavam, ele produziu, junto com o secretário


Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, uma constituição para Portugal,
outorgando-a no dia 29 como d. Pedro IV; na ocasião, também concedeu
anistia ampla e irrestrita aos portugueses e confirmou o Conselho da
Regência com a presidência de sua irmã, a infanta d. Isabel Maria. No dia
seguinte, marcou as eleições em Portugal. Em 2 de maio, após ler os
pareceres de seus conselheiros, emitiu a carta régia de sua abdicação
condicionante ao trono português em nome de sua filha, d. Maria da Glória.
Em um trecho do decreto, explicitava as condições da abdicação:
[...] Hei por bem, de Meu moto próprio, e livre vontade, Abdicar, e Ceder de todos os
indisputáveis, e inauferíveis Direitos, que Tenho à Coroa da Monarquia Portuguesa, e à
Soberania dos mesmos Reinos, na Pessoa da Minha sobre todas muito amada, prezada, e
querida Filha, a Princesa do Grão-Pará D. Maria da Gloria, para que Ella como Sua Rainha
Reinante, os Governe independentes deste Império, e pela Constituição, que Eu Houve por bem
Decretar, Dar, e Mandar jurar por Minha Carta de Lei de vinte e nove de Abril do corrente ano:
e outro sim Sou Servido Declarar, que a dita Minha Filha Rainha Reinante de Portugal, não
sairá do Império do Brasil, sem que Me Conste Oficialmente, que a Constituição foi jurada
conforme Eu Ordenei, e sem que os Esponsais do Casamento, que pretendo Fazer-lhe com o
Meu muito Amado, e Prezado Irmão, o Infante D. Miguel, estejam feitos, e o Casamento
concluído; e esta Minha Abdicação e Cessão não se verificará, se faltar qualquer destas
Condições.
Guardadas as devidas proporções, a constituição conferida por d. Pedro a
Portugal, chamada de Carta, era tão liberal quanto aquela dada ao Brasil.
Até então, no período que se seguiu à morte de d. João VI, Portugal havia
instalado um governo que jurara fidelidade a d. Pedro IV, que mandara
cunhar moedas com seu rosto, que governava em seu nome e que enviara ao
Brasil uma delegação oficial para prestar, em nome do povo e do governo,
respeito ao novo soberano português. A lua de mel durou apenas cinco
meses, mais precisamente até a constituição chegar. Antes disso, houvera
preferências acerca de quem deveria assumir o trono, mas não o
questionamento da legitimidade de d. Pedro como herdeiro. A questão só se
tornou controversa após a chegada da Carta Constitucional. Argumentos
segundo os quais d. Pedro não seria mais português e, portanto, não poderia
assumir como soberano do reino seriam usados pelos miguelistas a fim de
justificar a ilegalidade da Carta e do irmão no trono de Portugal.
Gravura representando a outorga da Constituição de Portugal por d. Pedro
e sua abdicação em nome da filha, d. Maria da Glória.

Com a nova Constituição, as famílias aristocráticas e a igreja perderiam


muitos dos benefícios que datavam já da época feudal. Praticamente todo o
clero português preferia um governo absolutista, em que o temor a Deus
poderia levar a um maior controle do povo e de suas ofertas à Igreja. Desde
o morticínio suscitado durante a Revolução Francesa, liberalismo,
democracia e constituição eram ideias de maçons, e não de católicos. A
pequena nobreza, vivendo no campo e exercendo poder senhorial sobre as
populações locais, sentiu-se ameaçada ao ser banida da Câmara dos Pares
pela nova constituição. O órgão passaria a ser formado apenas por duques,
condes e marqueses. Os magistrados também ficaram melindrados, pois
perderiam dinheiro e influência com a divisão de poderes instituída por
meio da Carta outorgada por d. Pedro.257
Para regozijo dos liberais, que já preparavam um levante na cidade do
Porto, e para irritação dos absolutistas, a Carta Constitucional foi jurada em
Portugal no dia 29 de julho de 1826. Não, porém, sem uma clara ameaça de
golpe por parte do general Saldanha, que declarou ao governo que, se este
não cumprisse os desígnios de d. Pedro IV e jurasse a Constituição
portuguesa, faria com que ela fosse jurada pelo exército, colocando assim o
governo na ilegalidade.
Logo em seguida, em 1o de agosto, a infanta d. Isabel Maria assumia, por
uma proclamação, a regência em nome do irmão e da sobrinha. Não fora
esse, contudo, o plano de d. Pedro: ele desejava que d. Miguel fosse ao Rio
de Janeiro casar-se com d. Maria da Glória e, depois, seguisse para Lisboa
já feito regente em nome dela e lugar-tenente do irmão até a maioridade da
menina. Isso causou estremecimento entre d. Pedro e a infanta d. Isabel
Maria, até que ela jogou no rosto do irmão a própria Carta Constitucional
que ele havia redigido:
1º porque o artigo 92 diz expressamente que durante a menoridade do rei (ou rainha), o Reino
será governado por uma regência, a qual pertencerá ao parente mais chegado do rei (ou rainha),
segundo a ordem da sucessão e que seja maior de vinte e cinco anos. Quem me podia, pois,
disputar a regência durante a menoridade de minha augusta sobrinha? Eu não tenho culpa de
nascer primeiro que o mano Miguel. 2o Porque se o mano Miguel, nem mesmo depois de
casado com minha querida sobrinha, pode governar o Reino, como o havia de governar durante
a sua menoridade? 3o Se o mano Miguel pelo artigo 100, segundo me parece, não pode ser
tutor; como há de ser regente? [...] O mano Miguel ainda não jurou a Constituição. Se a não
quer jurar, não pode ser considerado como português. Se a jura e está como deve estar, pelos
arranjos e determinações do meu querido mano e nosso legítimo rei, ele não pode ser regente
pelas razões que acima apontei, umas fundadas na Constituição e outras na política e pública
utilidade.258

Somente em 4 de outubro d. Miguel juraria a constituição portuguesa, em


uma cerimônia na corte vienense. No dia 29, ele assinava o contrato de
casamento com a sobrinha carioca. D. Pedro ainda tinha esperança de
conseguir levar o irmão ao Brasil (talvez para mantê-lo longe das intrigas),
chegando a envolver o sogro, o imperador da Áustria, como mediador da
questão.
No entanto, ter uma mãe como d. Carlota Joaquina e irmãs como as que
viviam na Espanha dispensava a d. Pedro a necessidade de mais inimigos.
De sua prisão domiciliar no Palácio de Queluz e por meio de agentes
secretos, d. Carlota tratava de envenenar a relação entre os irmãos e de
gestar uma guerra civil em Portugal, financiada pela herança que recebera
do pai, o falecido rei da Espanha. Em 26 de outubro, ela escreveu a d.
Miguel:
[...] Peço-te que ainda que te preguem e pintem com todas as boas cores que eles possam a tua
ida para o Rio de Janeiro que não vás, porque eu sei que é para te agarrarem lá, e dar cabo de ti;
nem metas o pé em nenhuma embarcação e muito menos na nau que vier do Rio de Janeiro
buscar-te, porque sei de certo que está a tramar armada para te sacrificar, pois os pedreiros259
[...] não querem que tu cá venhas nunca: entretanto a Nação toda, e a tropa, não querem para
seu rei senão a ti, e estão fazendo os maiores sacrifícios para o conseguir, como tu hás de saber
[...].260

Quanto às irmãs, mancomunadas com a mãe, teriam escrito para d. Miguel


algumas cartas que foram mostradas ao marquês de Resende por seu
portador, o barão de Vila Seca. Resende repassou a notícia e o conteúdo das
missivas em despacho ao ministro das relações exteriores do Brasil.261
Nelas, as infantas sugeriam a d. Miguel que fosse o quanto antes à Espanha
para, em seguida, à frente de um exército, partir para Portugal como rei,
considerando d. Pedro usurpador do trono.
O mais interessante de toda essa correspondência e trama está em que os
envolvidos realmente acreditavam que o sistema constitucional era algo que
o demônio inventara contra o absolutismo, no qual todos eles, pela graça de
Deus, ocupavam um lugar divinamente estabelecido, a fim de que
governassem seus povos de acordo com Sua vontade. No modo de pensar
de grande parte dos Bragança, constituição significava ateísmo e anarquia.
Enquanto isso, no Brasil, d. Pedro abriu os trabalhos da nova Assembleia
em maio de 1826, sem porém se dissociar dos problemas de Portugal. Tanto
não o fez que, em parte de sua “fala do trono”, isto é, do discurso que
inaugurava os trabalhos, ocupou-se da morte do pai e da questão
portuguesa, a qual, em breve, indisporia o imperador com seus súditos
brasileiros, que o acusariam de dar mais importância aos negócios de
Portugal que aos da ex-colônia.
226 Arquivo Histórico do Museu Imperial, II POB 00.02.1824 p PI.B.c 1-3.

227 HAMOND, Graham Eden. Os diários do Almirante..., pp. 7-8.

228 Referência a d. Miguel.

229 WEBSTER, Gran Bretaña y la independencia de la América Latina, 1812-1830. Tomo 1, p. 395,
apud SOUSA, Otavio Tarquínio de. A vida de D. Pedro I, tomo II, p. 641.

230 Arquivo Histórico do Museu Imperial, Maço LIII – doc. 2523.

231 Arquivo Histórico do Museu Imperial, Maço LIV – doc. 2994.

232 SOUSA, Otavio Tarquínio de. A vida de D. Pedro I, tomo II, p. 638.

233 Arquivo Histórico do Museu Imperial, I-POB-27.01.1825-PI.B.c.

234 REZZUTTI, Paulo. Titília e o Demonão, p. 133.

235 RANGEL, Alberto. Cartas de Pedro I à marquesa de Santos, p. 615.

236 Ibidem, p. 516.

237 Despacho de 24 de outubro de 1825, apud OBERACKER Jr., Carlos. A imperatriz Leopoldina, p.
379.

238 Meretriz, prostituta.

239 ANDRADA E SILVA, José Bonifácio de; ANDRADA, Antônio Carlos Ribeiro de; ANDRADA,
Martim Francisco Ribeiro de. Cartas andradinas, p. 14ss.

240 Arquivo Histórico do Museu Imperial, I-POB-25.11.1825-MF.E.c.

241 Arquivo Histórico do Museu Imperial, I-POB-29.11.1825-MT.c.

242 Dia do santo que tem o mesmo nome da pessoa.

243 29 de agosto de 1825.

244 Na realidade, Domitila, nascida em 27 de dezembro de 1797, fazia 28 anos.

245 Arquivo do Museu Histórico Nacional.

246 AGUIAR, Antônio Augusto de. Vida do marquês de Barbacena, p. 188.

247 Referência a si mesma.

248 OBERACKER Jr., Carlos H. Comentários às cartas da imperatriz Leopoldina a João Martinho
Flach. Revista do IHGSP, n 93, p. 199.
249 KANN, Bettina; LIMA, Patrícia Souza. Cartas de uma imperatriz, p. 450.

250 Palácio da Justiça.

251 Entrevista de 2007 à RTP, sob o título Câmara clara A morte de D. João VI. A autoria é de Inês
Fonseca Santos.

252 Arquivo Histórico do Museu Imperial, II-POB-06.04.1826-MI.P.c (a1).

253 Arquivo Histórico do Museu Imperial, II-POB-06.04.1826-MI.P.c (d1).

254 ANGELO, Pereira. Os filhos de el-rei D. João VI, p. 538.

255 Arquivo Histórico do Museu Imperial, II-POB-16.01.1827-IM.P.c 1-4.

256 Arquivo Histórico do Museu Imperial, II-POB-26.04.1826-PI.B.do (d1).

257 COSTA, Sergio Correa da. As quatro coroas de d. Pedro I, p. 204.

258 Arquivo Histórico do Museu Imperial, II-POB-14.10.1826-IM.P.c.

259 Maçons.

260 Arquivo Nacional, Torre do Tombo, PT/TT/CAM/M21/00024.

261 Arquivo Histórico do Museu Imperial, II-POB.30.10.1826-Men.o1-2.


A perda da fiel aliada

APÓS A morte de d. João, d. Pedro, agora chefe de família, deve ter


imaginado que tudo podia. Não se sabe se influenciado pela amante,
resolveu reconhecer a filha que lhe dera. A menina, Isabel, fora registrada
como ilegítima, e o bispo do Rio de Janeiro, d. José Caetano da Silva
Coutinho, não gostou nada da ideia de rasgar e refazer a página do livro de
assento da igreja de São Francisco Xavier do Engenho Velho.
Enfrentando a oposição do religioso, d. Pedro mandou publicar um
decreto ministerial em que declarava a paternidade, reconhecida pelos
ministros Lages, Inhambupe e José Feliciano Fernandes Pinheiro. Assim,
obrigava a reforma do livro de registro da sacristia. Na nova certidão,
constava apenas o nome do pai: quanto à mãe, dizia apenas que era “limpa
de sangue”, ou seja, não era judia. Oficialmente, d. Pedro deu ao velho
coronel João de Castro, avô da criança, a incumbência de criá-la,
permanecendo, desse modo, a filha junto da mãe.
Um dia após o aniversário de Isabel Maria, a Belinha, em 24 de maio, foi
realizada uma grande festa na casa da amante, que agora morava em um
palacete enorme e novo que d. Pedro mandara construir a menos de um
quilômetro da Quinta da Boa Vista. Lá foram comemorados o
reconhecimento e o título que a menina recebeu do pai: duquesa de Goiás.
O título colocava a menina acima de todos os demais membros da corte e da
nação brasileira. Isabel não se curvaria a ninguém além dos membros da
família do imperador. Até Domitila devia reverência à filha.
Os convidados começaram a chegar ao meio-dia. Os ministros que
assinaram o decreto estavam presentes, bem como o capitão da guarda do
imperador, o primeiro ajudante de campo, o secretário de gabinete, os
viscondes de Barbacena e Gericinó, entre outros. O luto em memória a d.
João VI fora abrandado para o evento. O imperador foi recebido à porta
pelo velho Castro, que carregava a neta nos braços. Terminada a leitura do
documento de reconhecimento e do título conferido, d. Pedro perguntava a
quem se aproximava dele: “Já foi beijar a mão de minha filha?” Ou então
insistia com a menina: “Duquesa, dá a mão a beijar ao sr. Fulano.”
No dia 28, Isabel, acompanhada pelo avô, foi apresentada oficialmente a
d. Leopoldina. Segundo o embaixador espanhol, a imperatriz, após manter o
sangue-frio perante a corte, encerrou-se em seus apartamentos privados,
onde passou o dia todo chorando. Com esse reconhecimento, a pequena
Isabel começou a frequentar o paço e brincar com seus meios-irmãos. Se d.
Leopoldina tinha paciência, o mesmo não se podia exigir dos filhos, ainda
mais devido à proteção e predileção que, segundo percebiam, d. Pedro
destinava à menina.262
Para explicar publicamente a decisão do imperador, seu secretário,
Francisco Gomes, fez uma relação histórica dos reis europeus, inclusive
portugueses, que haviam reconhecido filhos ilegítimos. Afinal, a própria
casa de Bragança não fora criada a partir de um bastardo da casa de Avis?263
De posse de tais informações, jornais como o Diário Fluminense de 10 de
junho e o Spectador Brasileiro do dia 14, nitidamente influenciados pelo
governo imperial, teceram louvores a d. Pedro por ter reconhecido a criança.
No entanto, nem todos aceitaram bem a notícia. Segundo o relatório do
cônsul francês Guinebaud, na Bahia:
O povo clama [...] contra a fraqueza e a vilania dos conselheiros do monarca, apologistas
públicos e, por escrito, de sua conduta em relação à jovem duquesa de Goiás, filha natural, fruto
de duplo adultério vivo, legitimada e reconhecida, a pretexto de que os reis franceses Henrique
IV e Luiz XIV tinham feito o mesmo. Entretanto, não obstante verificar a existência do grande
desprestígio do governo imperial, não diviso ainda sintoma algum de rebelião.

D. Leopoldina, porém, seguia com sua olímpica paciência, para descontrole


do diplomata austríaco no Rio de Janeiro, que no final de junho relatava a
Viena:
A 29 de junho festejou-se d. Pedro em casa do veador da Imperatriz [...]. D. Pedro, d.
Leopoldina, as jovens princesas, lá passaram o dia em companhia da viscondessa de Santos, da
Goiás, sua mãe, seu avô e todo o resto da família materna. A despeito dessa estranha mistura, o
dia passou tão alegre e tão tranquilamente como se a poligamia estivesse legalmente
estabelecida no país.

D. Pedro deixava-se ficar cada vez mais na casa da amante, onde mantinha
uma sala de despachos. Saía constantemente para passear com a filha e
Domitila em público. No início de agosto de 1826, partiu para a fazenda de
Santa Cruz levando a amante e a duquesinha. D. Leopoldina e os filhos
ficaram em São Cristóvão, e enquanto d. Pedro gozava de férias, o governo
ficou completamente parado.
Ninguém mais duvidava do que acontecia. D. Pedro parecia não fazer
mais questão alguma de esconder a relação. O povo começou a se
incomodar com a traição ostensiva, e os muros cariocas amanheciam com
caricaturas de d. Pedro, Domitila e d. Leopoldina. Numa delas, a imperatriz
esfaqueava a amante, enquanto d. Pedro implorava para que ela perdoasse
Titília. Em outra, ele era o cavalo que puxava a carruagem de Domitila, que
controlava as rédeas.
As inquietações das ruas finalmente chegaram ao palácio. Em 24 de
agosto, quando o futuro d. Pedro II seria reconhecido publicamente como
herdeiro do trono, o intendente da polícia recomendou que não se fizesse
uma apresentação de gala no teatro para comemorar a data. Dois dias
depois, uma delegação da Assembleia chegou ao palácio com o ato de
reconhecimento e foi apresentada ao bebê. Quem segurava o futuro
imperador nos braços era ninguém menos que o pai de Domitila, João de
Castro, agora no cargo de estribeiro-mor.
Como se algo houvesse de errado além do escândalo público, d. Pedro
deu ordens para que as tropas fossem aquarteladas, dobrando também as
patrulhas e as guardas. O imperador visitou pessoalmente, na calada da
noite, diversos quartéis. Deve ter sido informado de que um golpe contra
Domitila e sua família vinha sendo preparado. Nesse momento, ele parece
ter percebido o quão longe tinha ido e passou a dar mais atenção à esposa,
tanto em público quanto em particular; como resultado, d. Leopoldina
engravidou novamente. A reaproximação, contudo, foi efêmera. A 12 de
outubro de 1826, o imperador cobriu a amante e seus familiares de graças.
Domitila teve o título elevado e, de viscondessa, tornou-se marquesa de
Santos. A justificativa não se pautava mais pelos “bons serviços prestados à
imperatriz”, como se pode observar no texto do decreto:
[...] Faço saber aos que esta Minha carta virem que, querendo dar um público testemunho do
alto apreço em que tenho os serviços prestados pela Viscondessa de Santos, Dona Domitila de
Castro Canto e Melo [...] tratando da Minha Muito Amada e Querida Filha a Duquesa de Goiás,
desde que me dignei a entregar-lhe, e querendo fazer-lhe honra e mercê em atenção a tão
distintos serviços, que sobremaneira tem penhorado Meu Coração, Hei por bem acrescentá-la
em grandeza com o Título de Marquesa de Santos. [...]

O pai de Titília foi feito visconde de Castro, o cunhado Boaventura recebeu


o título de barão de Sorocaba, todos os irmãos foram feitos gentis-homens
do paço, um deles recebeu a patente de coronel e dois primos passaram ao
cargo de guarda-roupas do imperador.
No entanto, João de Castro não usufruiria por muito tempo do seu novo
título. Acamado desde meados de outubro, recebeu a extrema-unção no dia
18, por volta das dez da noite. O imperador demonstrou publicamente seus
sentimentos: acompanhado da imperatriz e de d. Maria da Glória, agora
rainha de Portugal, visitou o visconde de Castro e foi com a família rezar
pela melhora do militar. Além disso, teria passado quase uma semana à
cabeceira do doente, servindo quase como enfermeiro.
O visconde de Castro morreu aos 85 anos em 2 de novembro de 1826.
Seu faustoso funeral, com convites, velas, músicos, tochas e diversas
missas, foi pago pelo imperador, que não era conhecido por ser
financeiramente generoso com a família, quanto mais com amigos. D. Pedro
perdia o pai biológico no começo do ano e o pai afetivo, “seu velho” João
de Castro, no final. Em seus arroubos característicos, fez pelo “pai
brasileiro” o que não pôde pelo português.

A partida da aliada mais fiel


Até então, d. Leopoldina suportara calada tudo o que tinha vindo da parte
do marido, mas d. Pedro passara todos os limites ao abandonar a própria
casa por dias a fim de servir de enfermeiro à cabeceira do moribundo
visconde. A imperatriz enfim explodia.
Segundo o cozinheiro do palácio, cujo relato o barão de Mareschal
recolheu em um de seus informes a Viena, d. Leopoldina teria chegado a
dar ao marido um ultimato: deveria escolher entre ela e a amante. Caso a
escolhida fosse Domitila, que lhe fosse permitido retornar para junto de seu
pai na Áustria.264 No dia 22 de outubro, na ausência de qualquer resposta de
d. Pedro, d. Leopoldina foi procurar o diplomata austríaco e comunicou-lhe
suas aflições, sem contudo entrar em detalhes. No dia seguinte, carecendo
de quaisquer notícias do imperador, teria mandado que arrumassem as
roupas do marido e as levassem à casa da amante. Em vez de cumprir a
ordem, um criado foi avisar a d. Pedro, que voltou o mais rápido possível ao
Palácio de São Cristóvão, onde o casal teria discutido. O imperador, depois
de muito gritar e esbravejar, atirou-se aos pés da imperatriz e pediu-lhe
perdão.
Desde o início de novembro, d. Leopoldina não se encontrava bem de
saúde: acometiam-na fortes dores na perna, coxa e pé. Além da indisposição
física, havia também outra psíquica: por conta da relação aberta do marido
com a amante, a imperatriz entrou em depressão. Chorava muito e dizia ter
saudades de sua babá. Em 5 de novembro, deixou de comparecer à
inauguração oficial da Academia Imperial de Belas Artes porque estava,
segundo as memórias do visconde de São Leopoldo, “incomodada”. A
depressão, já observada em 1825 pela viajante inglesa Maria Graham,
piorou com a nova gravidez.
Não era apenas d. Leopoldina que não estava bem. A Guerra da
Cisplatina virou um sorvedouro de homens e dinheiro, ameaçando agora até
mesmo a existência das antigas fronteiras meridionais a oeste de
Livramento. A desorganização das tropas e da administração no sul do país
era tão grande que d. Pedro, levando reforços, resolveu partir pessoalmente
para a frente de batalha. Antes da partida, inicialmente prevista para 20 de
novembro, teria havido um beija-mão na corte em despedida ao imperador.
O que aconteceu nesse evento, por não haver relato de nenhuma testemunha
ocular, tem sido motivo de especulação até os dias de hoje.
Com base em informes diplomáticos e relatos colhidos por viajantes,
pode-se inferir que d. Pedro, na tentativa de apaziguar os ânimos, buscou
colocar d. Leopoldina e Domitila juntas, lado a lado, durante o beija-mão.
Assim, demostraria à corte que estava tudo em paz e que os acontecimentos
do final de outubro, com a ameaça da imperatriz de deixar o Brasil, haviam
sido apenas boatos. Ainda sem encontrar-se completamente restabelecida, d.
Leopoldina não quis comparecer ao evento, sobretudo ao lado da marquesa.
D. Pedro teria perdido a cabeça e, numa altercação com a imperatriz,
provocado nela hematomas que foram notados pelo embaixador francês, o
marquês de Gabriac.
Diz a lenda que, durante a discussão, d. Leopoldina teria caído por uma
escada interna utilizada para ligar a parte íntima aos salões oficiais.
Segundo boato que corre entre visitantes e funcionários do Museu Nacional,
localizado no antigo palácio de São Cristóvão, essa escadaria seria
amaldiçoada e faria vítimas graves até hoje. Se a queda da imperatriz
tivesse acontecido, muito provavelmente ela teria quebrado alguns ossos,
como aconteceu às demais vítimas dessa escada; isso, por sua vez, não teria
passado despercebido na corte. Na madrugada de 19 para 20 de março de
2012, durante os trabalhos da arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel, uma
tomografia computadorizada realizada nos restos mortais da imperatriz
constatou apenas que d. Leopoldina não tinha um dos dentes do siso.
Nenhum osso quebrado havia ali, nenhum trauma que pudesse ter causado
aborto ou óbito.
Apesar das comprovações científicas, os acontecimentos revelam que
algo de fato pode ter ocorrido em 20 de novembro de 1826. D. Pedro, afinal,
desistiu de embarcar naquela data, alegando como motivo o estado de saúde
da esposa. D. Leopoldina, entretanto, não melhorou, e d. Pedro embarcou da
mesma maneira três dias depois. Mareschal informou a Viena: “Tive a
honra de vê-la e fui testemunha da maneira com que o imperador, que
parecia fortemente comovido, lhe testemunhava seu pesar em abandoná-la
nesse estado.” A despedida entre marido e mulher foi eternizada pelo
médico e historiador Melo Morais:265
Na véspera da viagem do imperador para o Rio Grande do Sul ela [Leopoldina] lhe fez presente
de um anel com dois pequenos brilhantes, cujo anel abrindo-se tinha dois corações com o nome
de ambos: ela mostrando-lhe disse chorando: eu morro: você quando vier do Rio Grande já não
me há de achar. Aqueles que na vida foram desligados sejam unidos depois da morte. Ele a
abraçou, chorando ambos muito; e ela lhe disse: que tudo lhe perdoara, e nenhum rancor lhe
tinha.266

A primeira parada de d. Pedro na viagem ao sul foi em Santa Catarina,


aonde chegou cinco dias depois da partida e de onde escreveu, para a esposa
e a amante, cartas praticamente idênticas, nas quais descrevia as
particularidades da viagem. Na carta para Domitila, porém, havia um
estendido final apaixonado.267
Enquanto isso, na corte, a saúde da imperatriz declinava. O barão de
Mareschal insistiu em que os médicos publicassem boletins diários sobre a
evolução da paciente e mudou-se para o Palácio de São Cristóvão durante
sua enfermidade.
Em um dos informes que enviou ao governo austríaco, o diplomata
afirmou que Domitila dera provas de imprudência e tolices, sendo
aconselhada a fingir indisposição e não aparecer mais no paço enquanto a
imperatriz não melhorasse. O conselho, porém, não surtiu efeito, e em novo
relatório Mareschal afirmou:
Restringi-me estritamente a estar presente, nada aconselhei e nada exigi e observei com olho
frio os ares imperiosos da amante, que atravessou os apartamentos como se viesse para tomar
posse, e o tom arrogante e escandaloso com que se queixava de que a camareira-mor que,
segundo o costume, presidia à consulta dos médicos, não abandonava tudo para recebê-la.

Logo os cariocas ficaram sabendo da doença da imperatriz. O embaixador


da Prússia, Theremim, oficiava a Berlim:
O povo encontrava-se literalmente de joelhos implorando ao Todo-Poderoso pela conservação
da imperatriz. As igrejas nunca se esvaziaram, e nas capelas domésticas todo mundo ficava
prostrado de joelhos. Os homens formavam procissões, não das do tipo comum que
importunam, mas com verdadeira devoção, onde corriam muitas lágrimas.

Com a ausência de d. Pedro da corte e a doença de d. Leopoldina, Domitila


percebeu que cargo e título não compravam respeito. A camareira-mor,
marquesa de Aguiar, proibiu que qualquer pessoa entrasse nos aposentos da
imperatriz, a fim de evitar que a amante perturbasse a doente. Os ministros
chegaram a cogitar que a marquesa fosse enviada para fora do Rio de
Janeiro, mas não conseguiram aprovar a moção por unanimidade e
desistiram da ideia. Informada do fato pelo ministro da Justiça, Domitila
enfureceu-se. Segundo o negociante inglês John Armitage, ela teria tentado
forçar a passagem para entrar nos aposentos de d. Leopoldina, sendo porém
barrada pelo marquês de Paranaguá, que se postou diante da porta do quarto
e afrontou-a: “Tenha paciência, senhora marquesa, vossa excelência não
pode entrar.”
Presa à cama com dores, tosse, diarreia e febre durante catorze dias, d.
Leopoldina abortou um feto masculino em 2 de dezembro. Até os dias de
hoje, não obstante os exames no cadáver da imperatriz, existe quem acredite
na lenda de que o aborto e sua subsequente morte teriam sido causados por
um chute que d. Pedro lhe dera antes de partir para o sul, ou ainda que todo
o quadro clínico de d. Leopoldina estaria ligado ao fato de ter sido jogada
escada abaixo pelo marido.
Segundo os boletins médicos existentes, o feto abortado pela imperatriz
tinha entre dois meses e meio e três. Nesse período da gestação, o feto
dentro do útero está bem protegido pelo anel ósseo formado pela sínfise
púbica, pelo ilíaco e pelo sacro. Um simples pontapé, por mais forte que
fosse d. Pedro, não destruiria esses ossos e atingiria o útero. Além disso,
mesmo se fosse esse o caso, o óbito e a expulsão do feto ocorreriam em
questão de horas, e não dias. D. Pedro teria batido na esposa em 20 de
novembro; no dia 23, ele embarcou; o navio partiu no dia 24, e o aborto
ocorreu somente em 2 de dezembro.
Depois disso, d. Leopoldina entrou em delírio quase contínuo, no qual
maldizia Domitila e mandava afastar a duquesa de Goiás de seus filhos. No
dia 4, teve uma leve melhora, confessou-se e recebeu os sacramentos. Em
seguida, teria rogado para ver os criados e lhes pediu perdão por qualquer
ofensa que pudesse ter cometido. Pedia constantemente para ver os filhos,
que lhe eram levados. D. Maria da Glória, com sete anos, ficou bastante
impressionada com a agonia da mãe.
A virada do dia 10 para 11 de dezembro foi assim descrita por
Mareschal:
Sua Majestade continuava a estar num estado convulsivo, o desânimo aumentando a cada
momento e não lhe permitindo mais do que tons de fracos gemidos; a respiração extremamente
curta, o pulso muito fraco depois de 24 horas; enfim às 10 horas da manhã a morte terminou os
seus sofrimentos, sem esforço, sem estertor, suas feições de modo algum eram alteradas, e ela
parecia ter adormecido pacificamente e na posição mais natural.

Ainda em informe ao governo austríaco, o diplomata informou que d.


Leopoldina faleceu sem deixar disposições testamentárias, o que vai contra
uma suposta carta ditada pela imperatriz nos momentos finais de sua vida.
Essa missiva seria uma das “provas” das agressões sofridas pela monarca
antes da partida de d. Pedro.
Uma carta estranha A carta, endereçada à irmã Maria Luísa, ex-imperatriz
dos franceses, teria sido ditada por d. Leopoldina à marquesa de Aguiar em
8 de dezembro. Nela, a imperatriz relatava as agruras pelas quais vinha
passando: “Há quase quatro anos, minha adorada mana, como vos tenho
escrito, que por amor de um monstro sedutor me vejo reduzida ao estado da
maior escravidão e totalmente esquecida do meu adorado Pedro.”
Este trecho da carta faz eco aos comentários do povo de que d. Pedro a
teria maltratado: “[...] Maltratando-me na presença daquela mesma que é a
causa de todas as minhas desgraças. Muito e muito tinha a dizer-te, mas
faltam-me forças para me lembrar de tão horroroso atentado que será sem
dúvida a causa de minha morte.”
Faltavam-lhe forças para se lembrar do “horroroso atentado”, mas não
para continuar ditando mais da metade do total da carta, falando sobre
credores e as dívidas que estes haviam contraído para ajudá-la
financeiramente.
Em outra parte, d. Leopoldina descreve a pessoa a quem a carta está
sendo ditada: “A marquesa de Aguiar, de quem bem conheceis o zelo e o
amor verdadeiro que por mim tem, como repetidas vezes te escrevi, essa
minha única amiga que tenho, é quem lhe escreve em meu lugar.”
No fim, ela manda recomendações para que paguem tudo o que deve aos
credores, além de dispor que os filhos sejam educados pela marquesa de
Aguiar até que “o meu querido Pedro não disponha em contrário”.
Essa carta é aceita e defendida cegamente por grande parte dos
historiadores, sem questionamento algum — qual um dogma. Afinal,
compõe o tentador quadro da esposa mártir ao qual o mito de d. Leopoldina
se amalgamou e do qual grande parte dos estudiosos se servem. Todavia,
uma análise desapaixonada e fria levanta alguns questionamentos:
1) Em nenhuma outra carta conhecida d. Leopoldina trata a irmã por
“mana”. Sempre a chama de caríssima ou queridíssima Luísa,268
independentemente de a mensagem seguir por correio diplomático ou por
mensageiro particular de confiança. Se d. Leopoldina alguma vez escreveu
queixando-se de Domitila para a irmã, essas cartas foram destruídas por
Maria Luísa, pois nunca apareceram — ao contrário das missivas em que a
imperatriz faz menção à amante do marido e foram endereçadas aos
secretários Flach e Schäffer.
2) A marquesa de Aguiar não é mencionada em nenhuma outra das mais
de trezentas cartas conhecidas da imperatriz.
3) O tipo de tratamento dispensado à irmã na missiva não era o usual.
Para ilustrar melhor a questão, segue um poema escrito pelo poeta russo
Puchkin em 1828. Ele ilustra bem a questão da utilização dos pronomes
pessoais “tu” e “vós”:

Ela o vós neutro, sem querer,


Trocou no tu afetuoso; Fez-me de ventura nascer
Sonhos do espirito amoroso.
Demoro, pensativo, ali:
Não mais vê-la é-me impensável.
E digo: “Como sois amável!”
Mas penso: “Como quero a ti!”269

O poema mostra a diferença de intimidade no uso dos dois pronomes


pessoais. Em alguns países europeus — a Alemanha, por exemplo —, é até
hoje impensável chamar alguém com quem temos pouca familiaridade pelo
pronome “tu”, uma vez que é íntimo demais.
D. Leopoldina, em todas as demais cartas à irmã, trata-a com a
familiaridade que é própria aos parentes, usando “você” e “tu”. Na última
carta, porém, assume uma postura que denuncia falta de intimidade com a
interlocutora, e, até mesmo, grande respeito, ao se utilizar da segunda
pessoa do plural, o “vós”. Por que faria isso em sua carta de despedida?
Fantasiosa seria a hipótese de a marquesa de Aguiar substituir o “tu”
afetuoso pelo “vós” majestático na carta que a ama moribunda ditava à ex-
imperatriz dos franceses: “Não vos tornarei a ver! Não poderei outra vez
repetir que vos amava, que vos adorava!”
4) Em parte da missiva, há uma menção direta ao embaixador austríaco:
“Faltaria ao meu dever se além de ter declarado ao Mareschal e ao Cadolino
que tenho dívidas contratadas para sustentar os pobres [...].” O diplomata
austríaco, pela carta, teria sido informado por d. Leopoldina desses débitos e
tinha recomendação para pagá-los, o que contraria o relato de Mareschal,
que mencionou a Viena a falta de disposições da imperatriz.
Todos os que se ocuparam do estudo dessa carta serviram-se, até hoje, de
uma cópia que hoje está no Arquivo Histórico do Museu Imperial. A
original nunca foi encontrada nem no Brasil, nem no exterior. A cópia que
existe em Petrópolis está escrita em português, com uma única frase em
francês dizendo que a transcrição foi feita de acordo com um original
expedido em 12 de dezembro de 1826. Essa versão apareceu no Rio de
Janeiro em 5 de agosto de 1834 — quase oito anos após a morte da
imperatriz — para ser registrada com o tabelião Joaquim José de Castro.
Testemunharam: César Cadolino, J. M. Flach, J. Buvelot e Carlos
Heindricks. Desses, comprovadamente com dois, Cadolino e Flach, d.
Leopoldina contraíra grandes dívidas.
Sendo falsa, a carta poderia servir a dois propósitos: primeiro, confessaria
as dívidas da imperatriz; depois, acusaria d. Pedro de matar a esposa,
denunciando seus abusos. Essa não seria a única carta suspeita contra o
imperador a surgir no Brasil durante a década de 1830, como veremos
adiante.
Alegoria em que d. Leopoldina aparece no céu enquanto, na terra, choram por ela. Ao fundo, no
centro da gravura, pode ser vista a Quinta da Boa Vista.

O Brasil sem d. Leopoldina


Com a morte da imperatriz, o Rio de Janeiro caiu em pranto convulso. Os
sinos dobravam toque de finados e os canhões das fortalezas disparavam de
dez em dez minutos. Até o final da tarde, toda a população vestia luto. Não
havia casa em que ao menos um morador não tivesse ido mais de uma vez
aos portões do palácio, a fim de saber notícias da saúde da imperatriz. O
alemão Carl Seidler notou as faces mudas de dor e desespero de negros,
mulatos, portugueses, ingleses, italianos e alemães. Todos choravam a
morte de Leopoldina. Maria Graham anotou que “os pobres negros andaram
pelas ruas por muitos dias gritando: Quem tomará agora o partido dos
negros? Nossa mãe se foi!”.
O ódio e a frustração que a população sentia, obviamente, voltaram-se
contra a amante. O batalhão de mercenários alemães ameaçou rebelar-se. O
palacete de Domitila foi apedrejado, e seu cunhado Carlos Oliva, baleado.
Acusavam abertamente a marquesa de, em conluio com o barão de
Inhomirim, médico de d. Leopoldina, tê-la envenenado. O ministro da
Guerra e o intendente-geral da polícia movimentaram-se para proteger a
favorita do imperador em sua ausência.
O caos que imperou durante a doença e a morte de d. Leopoldina não
deixou de atingir o próprio ministério, que, por incompetência ou excesso
de pruridos diplomáticos, recusou a ajuda de navios britânicos e franceses.
Estes poderiam ter entregado rapidamente os despachos referentes à doença
e morte da imperatriz a d. Pedro. Porém, por não acharem “decoroso”, os
ministros não pediram ajuda ao embaixador britânico, que logo teria
deslocado um navio da frota do Atlântico e levado o imperador de volta ao
Rio, na esperança de que pudesse encontrar a esposa ainda com vida. Em
vez disso, os ofícios sobre a doença de d. Leopoldina chegaram junto com a
notícia de seu falecimento, levados por um navio norte-americano.
Ainda no sul, d. Pedro havia recebido informes desencontrados. Os
ministros contavam que a capital estava em polvorosa e insinuavam sobre
as causas morais que teriam levado d. Leopoldina a óbito. Enquanto isso, o
intendente-geral da polícia tranquilizava o imperador: corrigindo o relatório
dos ministros, dizia que o Rio de Janeiro estava em paz. Quem desempatou
foi Domitila, que escreveu a d. Pedro dizendo que a morte de d. Leopoldina
tinha servido de desculpa para ser insultada. Ela fora proibida de entrar no
paço e suspeitava de que os ministros tivessem instigado o povo contra ela.
O gabinete conspirava para criar uma regência para d. Pedro II e aprisionar
o imperador no sul. Domitila implorava pela volta do amante. O próprio
barão de Mareschal diria a d. Pedro, quando de seu desembarque, que se a
imperatriz houvesse falecido entre os dias 5 e 6, provavelmente teria
estourado uma revolução na capital.270
O imperador mostrou-se o mais cauteloso possível em seu retorno. Deu
ordens para que o pavilhão imperial não fosse hasteado no navio e tomou
providências para não demonstrar que estava chegando. Ao se avistarem
dois navios de guerra brasileiros entrando no porto, em meados de janeiro,
acharam que o imperador estivesse a bordo, mas d. Pedro fez os
comandantes se comunicarem com a terra e avisarem que ele havia ficado
no sul.
Ainda a bordo, d. Pedro escreveu a Domitila:
Bordo da nau Pedro Primeiro entrando no Rio de Janeiro a

15
18—27
1

Minha querida
filha do meu coração e minha amiga

Teu tio Manuel Alves, meu íntimo amigo e inseparável companheiro de dia e de noite, é
portador deste. Ele, minha filha, te contará os incômodos, sofrimentos, aflições, pesares e, mais
que tudo, o desgosto pela morte da minha adorada esposa. [...] Ele te contará do célebre sonho
que tive em 11 do mês passado, que desde então data a minha aflição e disposições para vir
unir-me contigo e junto de teu peito e sobre ele depositar minhas lágrimas. Eu tomo nojo por
oito dias é esta a única razão que faz com que eu não vá logo, como desejava, [...] e sim vá à
noite, como teu tio combinou contigo. Pedro Primeiro, que é teu verdadeiro amigo, saberá
vingar-te de todas as afrontas que te fizeram, ainda que sua vida lhe custe. [...]

D. Pedro confiou-lhe de viva voz o sonho que teve no dia da morte da


esposa. Infelizmente, só nos resta conjeturar que tenha tido uma premonição
de algo errado no Rio de Janeiro e temido pela vida da amante e dos filhos.
O imperador desembarcou no Rio de Janeiro em 15 de janeiro de 1827.
Ao chegar, praticamente escondido, dirigiu-se a São Cristóvão e tomou
diversas providências. Uma delas foi escrever ao visconde de São Leopoldo
ordenando que lavrasse os decretos de demissão dos ministros marqueses de
Paranaguá, Baependi, Caravelas e Inhambupe.271 Não somente o ministério
seria limpo dos conspiradores e dos que afrontaram a amante de d. Pedro.
Também seriam dispensados do paço o confessor e antigo professor, frei
Antônio de Arrábida, bem como a camareira-mor, a marquesa de Aguiar.
Durante o ofício fúnebre em memória da imperatriz, realizado na Capela
Imperial em 25 de janeiro, dia de São Paulo, d. Pedro pareceu bastante
comovido aos membros do corpo diplomático e à corte, ora amassando um
lenço contra os olhos inchados, ora concentrado em seu livro de orações. No
meio do ofício, foi feita uma pausa de uma hora para o almoço, no qual d.
Pedro foi servido em uma das tribunas junto da família de Domitila, que se
encontrava novamente grávida.
O orador, frei Francisco do Monte Alverne, recordou uma das principais
qualidades de d. Leopoldina — a virtude:
Para gloria da dinastia imperial, a primeira imperatriz do Brasil será a desesperação de todas as
que lhe sucederem. Para a glória da Religião, a virtude conduziu todos os seus passos; e quando
a verdade apagando as inscrições pomposas, que a lisonja consagra aos reis, vier julgar suas
ações, confessará que a imperatriz brasileira possuía um coração ainda maior que seus destinos,
cioso do esplendor de seu augusto esposo, indiferente ao brilho efêmero do século,
compadecido com os desgraçados; que ela foi religiosa sem fanatismo, grande sem altivez,
modesta sem afetação, mãe carinhosa, esposa terna, o amor, as delícias, o objeto constante da
saudade dos brasileiros.272

Parte dessa oração, proferida diante do imperador, de sua favorita e de toda


a corte, externava uma preocupação latente: quem ocuparia o espaço
deixado pela morte da imperatriz?
Acima, local de sepultamento de d. Leopoldina, no antigo Convento da Ajuda; abaixo, o carro
funerário que conduziu seus restos mortais ao local de repouso.

262 MORAIS, A.J. de Melo. Crônica geral do Brasil, tomo II, p. 254.

263 Arquivo Histórico do Museu Imperial, I-POB-1826-IM.do.

264 O embaixador sueco no Rio de Janeiro, em despacho diplomático, informou em 19 de agosto de


1826 que era voz corrente a partida de d. Leopoldina para a Áustria. Arquivo Histórico do Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro. Lata 326 D19_VI.

265 Parece haver um fundo de realidade na cena descrita por Melo Morais, uma vez que a tia de d.
Leopoldina, a rainha Maria Amélia, em carta para Maria Luísa datada de 7/3/1827, menciona que a
imperatriz brasileira teria dito ao imperador, durante a despedida: “Adeus para sempre, pois não o verei
mais [...].”Ver OBERACKER Jr., Carlos H. A imperatriz Leopoldina, p. 431.

266 MORAIS, A.J. de Melo. Crônica geral do Brasil, Tomo II, pp. 256-7.

267 RANGEL, Alberto. Textos e pretextos, p. 200.

268 KANN, Bettina; LIMA, Patrícia Souza. Cartas de uma imperatriz.

269 Púchkin, Alexandr. Poesias escolhidas. Trad. José Casado. p. 29.


270 Carta do barão de Mareschal ao príncipe de Metternich. Rio de Janeiro, 2/02/1827. Biblioteca
Nacional. Localização: 64,01,005 n.007.

271 PINHEIRO, José Feliciano Fernandes. Memórias do visconde de S. Leopoldo, p. 8.

272 RAMIZ, Galvão. O púlpito no Brasil, p. 135.


Dias turbulentos

NO INÍCIO de 1827, aos 28 anos, d. Pedro era imperador do Brasil, ex-rei


abdicante de Portugal — porém ainda cuidando dos negócios portugueses
em nome da filha —, pai de cinco filhos (fora os bastardos), jovem cheio de
responsabilidades e repleto de idiossincrasias. Ao mesmo tempo que
procurava acertar de primeira tudo o que começava, parecia não ter tempo
para esboços e arrependimentos — sobretudo arrependimentos. Ao menos
até se achar viúvo.
Na abertura da Assembleia, em maio de 1827, os deputados e ministros
viram um d. Pedro com que não estavam acostumados. O jovem imperante,
ao ler a parte de sua fala em que se referia ao falecimento de d. Leopoldina,
titubeou; sua voz enfraqueceu e as lágrimas correram pelo seu rosto.
O principal biógrafo de d. Leopoldina, Carlos Oberacker, tentou de todas
as maneiras, no seu livro a respeito da primeira imperatriz brasileira, provar
que ela não era feia. Esta era uma briga figadal que o autor tinha com
Alberto Rangel, primeiro biógrafo da marquesa de Santos. Rangel
acreditava que a falta de graça e de beleza de d. Leopoldina facilitara o
advento de Domitila na vida de d. Pedro. Não podemos medir as belezas do
passado senão pela estética da época. Além disso, se fosse para falarmos em
beleza versus amor, poderíamos citar um exemplo contemporâneo, também
da realeza: a princesa Diana, primeira esposa do príncipe Charles da
Inglaterra, era jovem e bonita, mas foi preterida em favor de uma antiga
amante casada, Camilla Parker-Bowles, mãe de família e catorze anos mais
velha que a rival.
D. Pedro realmente amava a esposa, do seu jeito peculiar, como
peculiares são todos os modos de se amar alguém. Ele escreveu um poema a
respeito da perda de d. Leopoldina, esculpiu uma coroa de madeira para
colocar sobre seu caixão, produziu uma placa para identificá-la. A falta da
imperatriz, mulher mais experiente e mais culta — o que talvez pudesse até
mesmo incomodar os brios de alguém tão poderoso como o imperador, a
quem faltavam a cultura e a substância que a esposa possuía —, logo se fez
notar.
A cena pública na abertura da Assembleia não seria a única. No dia do
aniversário da duquesa de Goiás, também em maio, foi realizada uma festa
em São Cristóvão na qual d. Pedro parecia ausente, distante. Em dado
momento, a marquesa de Santos teria dado pela falta do amante, e ao
procurá-lo pelos salões do palácio o teria encontrado abraçado a um retrato
de d. Leopoldina, chorando. A relação entre Domitila e d. Pedro, após a
morte da imperatriz, não terminou: continuaria por mais três anos.
Entretanto, não teria mais o fogo e a paixão de antes. Por essa época, ele já
assinava as cartas à marquesa usando a expressão “seu amo e senhor, o
Imperador”.
A morte de d. Leopoldina deixava um vácuo no poder que não se sabia se
e por quem seria preenchido. Alguns cortesãos mais afoitos tentavam provar
genealogicamente que Domitila descendia de Inês de Castro; tencionavam,
assim, achar um rastro da realeza lusitana na favorita, a fim de torná-la
candidata viável ao posto de imperatriz do Brasil.

Uma noiva para d. Pedro


Mas, apesar dos rumores (entre os quais aquele de que d. Pedro faria da
amante duquesa do Grão-Pará ou de Santa Cruz), o imperador tinha noção
que a principal figura depois dele no país havia já sido consagrada pelo
povo como “anjo tutelar do império brasileiro”, graças a seu envolvimento
no processo da independência e à bondade com que tratava os que lhe
pediam ajuda. Era necessário ocupar esse lugar com alguém que não fosse
publicamente reconhecido como algoz de d. Leopoldina, o que era o caso da
marquesa.
Passado o período inicial de luto, d. Pedro pediu conselhos ao ministro da
Áustria no Brasil, o barão de Mareschal, quanto a um novo casamento. O
diplomata preparou-lhe um dossiê em que expunha claramente os dois
maiores entraves para conseguir uma nova esposa: a amante e a filha
bastarda. D. Pedro afirmou que, quanto à duquesa de Goiás, não viveria sem
a filha. Quanto à marquesa de Santos, ela estava no sétimo mês de gestação
e não a mandaria embora da corte antes que tivesse a criança: não colocaria
a mãe e o bebê em risco por decisões precipitadas.
Pelo relatório que Mareschal enviou a Viena, sabe-se que d. Pedro disse
ter conversado com Domitila em 21 de junho, quando então pôs um fim no
relacionamento. O imperador teria acordado com a ex-amante que lhe daria
uma pensão e educaria tanto a duquesa de Goiás, como sempre quisera,
quanto a criança que nasceria em breve. A marquesa teria o direito de
escolher onde morar, mas o próprio d. Pedro a teria aconselhado a deixar a
corte.
Em julho, d. Pedro, como homem aparentemente reformado, confessava
em carta ao sogro que não fora um bom marido para d. Leopoldina, pedindo
perdão a Deus por isso:
[...] Toda a minha maldade acabou, que de hoje em diante não cairei nos erros em que até agora
tenho caído e dos quais todos me arrependo e tenho pedido a Deus perdão, prometendo nunca
mais os cometer, desejo casar-me para viver conforme a minha religião e edificando os meus
súditos, que têm precisão de bons exemplos dados por mim.

Toda a Europa comentava a respeito do adultério de d. Pedro, como


testemunha carta particular recebida por Albino José Barbosa de um ex-
colega da Universidade de Coimbra, Joaquim Francisco de Sá:
Lisboa, 14 de setembro de 1827,

[...] Há muito que não temos notícia do Brasil, desejo saber se está com efeito concluída a paz
entre Buenos Aires, o que muito desejo. Aqui se diz que S. M. desterrará a Marquesa de Santos,
por lhe constar que se falava mal dele por causa dela etc. e gabam muito essa ação. Outrossim,
dizem que ele mandará pedir a filha do Rei da Baviera. Valha a verdade. [...]

D. Pedro na realidade enganava o barão de Mareschal. Houve, sim, um


real distanciamento entre os amantes a partir de 27 de junho. Mas eles
continuavam se encontrando, principalmente à noite, na casa dela, depois
que todos já haviam se recolhido. Voltava-se ao ritmo inicial do
relacionamento — sem escândalos e sem alardes, com maior discrição,
como bem comprovam as cartas trocadas. Quando havia alguém por perto,
ele escrevia à marquesa como seu governante. Sozinho, a conversa era
outra: “Ainda agora te respondi como imperador, agora te escrevo como teu
filho, amigo e amante a mostrar-te que estou saudoso de ti.”273

A escravidão: d. Pedro
× Assembleia
Além dos negócios pessoais e os de Portugal, as preocupações de d. Pedro
aumentavam a cada dia. A Guerra da Cisplatina estava longe de terminar,
quanto mais com vitória favorável ao Brasil. O imperador tinha feito o que
fazia de melhor: fora até o local verificar tudo o que estava errado; saíra
emitindo decretos que demitiam funcionários corruptos e incompetentes,
que nomeavam administradores capazes e que ordenavam a melhoria de
instalações militares; e confraternizara pessoalmente com as tropas, o que
deu novo ânimo à guerra ao final de 1826, quando esteve no sul. Os
esforços de d. Pedro e do marquês de Barbacena, que assumiu as tropas,
ajudaram a elevar o moral; o número de deserções caiu e aumentou o de
voluntários. Entretanto, em fevereiro de 1827, o reestruturado exército do
sul caiu em uma emboscada preparada pelos uruguaios e argentinos, na qual
praticamente toda a cavalaria foi perdida, sendo obrigado a retirar-se para
Porto Alegre. Por outro lado, as perdas argentinas foram grandes também, o
que levou Barbacena a declarar que a Batalha de Ituzaingó fora, na
realidade, um empate.
A má vontade da maioria dos políticos da Assembleia para com a questão
do sul do Brasil vinha do fato de o solo da região não ser próprio para a
plantação de açúcar e café. Por conseguinte, os senhores escravocratas que
dominavam a Câmara dos Deputados não tinham por que perder tempo
defendendo um território que não lhes daria nenhum ganho importante. No
entanto, outra questão, pendente desde 1826, explodiu na Assembleia no
início da legislatura de 1827.
Das diversas cláusulas da convenção que d. Pedro havia acertado, em
novembro de 1826, com o embaixador Charles Stuart, uma em particular
acirrou os ânimos dos deputados: três anos após a assinatura, a Marinha
Britânica transformaria em alvo de captura qualquer navio que transportasse
escravos em direção ao Brasil.
Isso enfureceu a bancada escravocrata de Minas Gerais. O principal líder
mineiro, Bernardo Pereira de Vasconcelos, pregava, por exemplo, que
ninguém havia demonstrado cabalmente que a escravidão desmoralizava
uma nação. Segundo ele, uma comparação entre o Brasil e outra nação sem
escravos poderia provar seu ponto. Vasconcelos logo se tornaria o líder de
toda a bancada escravocrata e conservadora da câmara, que não era
pequena. O próprio jogo democrático ajudava a aumentar seu tamanho,
pois, sendo o voto livre em uma sociedade estritamente escravista, raras
seriam as vozes a favor da abolição — como as de d. Romualdo, Nabuco e
poucos outros — que se ouviriam na Assembleia durante o Primeiro
Reinado.
D. Pedro, que já dissera, à época do Fico, que seu sangue era igual ao dos
negros, acreditava que ninguém tinha o direito de possuir outro ser humano
como propriedade sua. Ele já havia libertado alguns escravos na fazenda de
Santa Cruz e dado-lhes terra e emprego no mesmo local. Além disso, não se
deixava transportar por escravos em liteiras ou cadeirinhas: sempre andava
a cavalo ou de carruagem, geralmente dirigindo ele mesmo o veículo. Na
viagem que fizera ao sul, conseguiu que dois escravos que o haviam
ajudado fossem libertados por seus proprietários. Entretanto, como homem
de contradições que era, também manteria negros e os venderia quando
partisse do Brasil.
Mediante o acordo com a Inglaterra no final de 1826, d. Pedro buscava
implementar de forma gradual a abolição no Brasil, usando para isso uma
das disposições da Constituição: seu direito de assinar tratados
internacionais sem que tivessem de passar por aprovação na Assembleia.
Ao mesmo tempo, era esse corpo legislativo que fazia as leis e controlava a
arrecadação tanto dos impostos quanto dos fundos governamentais. No fim,
o imperador poderia decretar e assinar o tratado que quisesse: sem o apoio
legislativo, nada seria posto em execução.
Em pouco tempo, a Assembleia, dominada por conservadores e
escravocratas e jogando conforme as regras constitucionais, transformou-se
em oposição ao imperador e seu ministério. Os deputados conseguiram
aprovar leis que lhes possibilitavam controlar o sistema judiciário das
províncias, e no final de 1827 o código penal proposto pela Assembleia
estipulava a pena de morte, em caso de rebelião, quase apenas aos escravos,
sendo virtualmente impossível, pela legislação, condenar homens livres por
crimes de motim ou traição. Isso deixaria os republicanos e separatistas
confortáveis com seus planos para o Brasil. Dominando a dotação do
exército — e podendo, assim, enfraquecê-lo —, a Assembleia tinha
condições de acabar com a unidade nacional caso minasse a autoridade de
d. Pedro, o que o vinha deixando exasperado.
Além disso, fazia parte do tratado de 1826 o reconhecimento dos termos
negociados com d. João quando da chegada da corte ao Brasil: os ingleses
continuariam tendo tribunais e justiça próprios dentro do território
brasileiro. O temor dos brasileiros estava em que, no caso de serem pegos
(ou seja, estavam já cogitando burlar a lei que proibia o tráfico de escravos),
seriam julgados por tribunais ingleses no próprio país, segundo a legislação
da Inglaterra e não do Brasil.
Não era apenas aos brasileiros que desagradava a extraterritorialidade
britânica no Brasil, mas também ao próprio d. Pedro. O imperador, no
entanto, precisava dos ingleses e não queria melindrá-los — o que, porém,
melindrava os brasileiros. Mais uma vez, uma força expedicionária britânica
se encontrava em Portugal, a pedido de d. Pedro, para garantir a paz entre
liberais e absolutistas. O imperador também precisava deles para conseguir
imigrantes irlandeses para o Brasil.
Devido às complicações pela forma pouco ortodoxa que o enviado
brasileiro, o dr. Flach, empregava para captar alemães para o Brasil, a
emigração dos germânicos ficou suspensa na Europa. Além da substituição
da mão de obra, d. Pedro queria imigrantes para o exército, sobretudo no
intuito de engrossar as tropas no sul contra a Argentina. Entretanto, a
imigração irlandesa tornou-se um problema no Rio de Janeiro, sendo uma
das causas da revolta dos mercenários ocorrida em 1828.

A questão portuguesa: a previsão da


infanta
Em 3 de julho de 1827, ao se aproximar o aniversário de 25 anos de d.
Miguel (idade que lhe permitiria, segundo a Constituição portuguesa,
assumir a regência), d. Pedro fez dele seu lugar-tenente e regente do reino
de Portugal. O imperador recusou-se a escutar a infanta d. Isabel Maria, por
quem talvez estivesse indisposto graças aos cortesãos portugueses que
desembarcavam no Rio de Janeiro aos borbotões. Havia quem imaginasse
que d. Isabel queria ser rainha, ou ao menos governar durante a menoridade
da sobrinha. Em carta de agosto de 1826, ela lançou um alerta, antevendo o
futuro com muito mais clareza do que d. Pedro:
[...] Eu devo falar claro ao meu querido mano e rei no momento em que o mano Miguel entrar
em Portugal. Portugal vai nadar em sangue e tudo está perdido. Ele não deve entrar em Portugal
sem que a nossa legítima rainha chegue a idade de reinar, marcada pela Constituição, pelo
menos sem que o sistema constitucional esteja arraigado e seguro entre nós; de outra sorte, eu
repito, tudo está perdido… Pelo amor de Deus, meu mano, não se iluda a este respeito.274

Um atentado na Glória
Enquanto tudo isso se desenrolava na Europa, em 13 de agosto de 1827
Domitila deu à luz mais uma filha de d. Pedro, que foi chamada de Maria
Isabel. O imperador a reconheceu275 e tinha planos de, no futuro, conferir-
lhe o título de duquesa do Ceará.276 Foram seus padrinhos o futuro d. Pedro
II e a duquesa de Goiás. Ao contrário das outras vezes, não ocorreu grande
alarido na corte, e o batizado realizou-se sem a presença do pai.
Dois dias depois do nascimento da menina, haveria a tradicional festa da
Irmandade da Glória, com um foguetório que atraía toda a nobreza e
aristocracia carioca, incluindo a família imperial, devota como era da santa
do outeiro. Naquele ano de 1827, porém, as pesadas chuvas impediram a
festa, que foi adiada para o dia 19.
No mesmo dia, partia o marquês de Barbacena para a Europa. Após o
fracasso de sua campanha no sul, Barbacena fora nomeado por d. Pedro
para tratar do reconhecimento, pela Inglaterra e França, de d. Maria da
Glória como rainha de Portugal; também caberia ao marquês avistar-se
pessoalmente com o infante d. Miguel, em nome do imperador.
À noite, d. Pedro foi ao outeiro da Glória com a filha d. Maria da Glória,
dedicada à santa, a fim de assistir à queima dos fogos de artifício na casa do
barão de Sorocaba e da irmã de Domitila, Maria Benedita. Era comum que
d. Pedro pernoitasse ali quando havia festas na comunidade. A propriedade
era tão grande quanto a frequência do visitante nela, e sua presença
constante fez com que Boaventura Delfim mandasse erguer outra
construção no terreno somente para uso do monarca. Desse modo, ele
poderia pousar na chácara dos barões de Sorocaba quando estivesse tarde
demais para voltar a São Cristóvão ou aos aposentos no Paço da Cidade.
Domitila era ciumenta, o que fica evidente nas cartas que d. Pedro lhe
enviava. A relação com a irmã Maria Benedita era repleta de brigas e
altercações por conta do antigo caso dela com o imperador. Domitila não
deve ter gostado de saber que o amante passara mais uma noite na casa dos
barões de Sorocaba. No dia seguinte, após o festejo, o monarca partiu com
Boaventura, seu administrador, para a fazenda de Santa Cruz.
Três dias depois, voltando de carruagem para a casa durante a noite,
Maria Benedita teve seu veículo alvejado a tiros. Ela não se feriu: teve
apenas um vidro do veículo estraçalhado. Pedindo a seus criados que nada
revelassem sobre aquilo, despachou um mensageiro a Santa Cruz para
informar ao marido sobre a tentativa de assassinato. Na carta, a baronesa
dizia que fora vítima de uma emboscada e que suspeitava que o tiro
houvesse partido de um oficial do regimento de São Paulo, íntimo da
marquesa. Declarou, ainda, que seu próprio irmão, José de Castro, estaria
junto do soldado.
Tomando ciência do ocorrido, o imperador imediatamente acreditou na
culpa da amante. Em mais um de seus rompantes, retornou à corte no dia 25
e recebeu o intendente-geral da polícia, Alberto Aragão, que leu para ele os
relatos dos últimos acontecimentos. Por não saber do atentado da Glória ou
não mencioná-lo, foi demitido durante a audiência. No dia seguinte, uma
torrente de ordens choveu contra o palacete da marquesa, atingindo diversos
alvos.
O imperador ordenou que Domitila e seus irmãos embarcassem
imediatamente para a Europa277 e retirou da marquesa a guarda de suas duas
filhas, a recém-nascida Maria Isabel e a duquesa de Goiás, que foram morar
com ele na Quinta da Boa Vista. Quem levou a ordem foi o bispo de São
Paulo, d. Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade, que se encontrava então
no Rio de Janeiro. Amigo dos Castro Canto e Melo desde a época em que
moravam em São Paulo, ele intercedeu junto ao imperador para que
Domitila aguardasse o término do resguardo de parturiente. Em outubro, a
marquesa prometia ir embora — não, porém, para a Europa, e sim para a
cidade de Santos.
D. Pedro concordou com o acordo e começou a punir o restante dos
envolvidos no caso. No começo de setembro, ordenou o embarque para o
Recife do 5o Batalhão de Caçadores de Linha, estacionado em São
Cristóvão. Também conhecido como Batalhão de São Paulo, era formado
por moços de famílias paulistas, que tinham na marquesa praticamente uma
madrinha. Ao comandante Carlos Maria Oliva, cunhado de Domitila, bem
como a Pedro e José, irmãos da amante, d. Pedro ordenou que partissem do
Rio de Janeiro e se juntassem às tropas na Cisplatina.
Segundo se especula, Domitila só tomaria ciência de que Rodrigo Delfim
Pereira era filho de d. Pedro com a irmã em junho de 1827, quando a
relação entre a marquesa e o imperador esfriara e ele começou a procurar
uma nova esposa. Isso a teria motivado a tentar o assassinato. Poderia
existir, também, ainda outra motivação para o crime. Alguns cortesãos,
cientes do desgaste para a imagem da monarquia que a relação do soberano
com a marquesa vinha causando não só no Brasil, mas também entre os
europeus, podem ter elaborado uma armadilha contra Domitila.
Seria difícil matá-la sem transformá-la em mártir e provocar uma caçada
aos assassinos. Por outro lado, envolvê-la em um incidente de ciúmes contra
a irmã seria tão escandaloso que o imperador teria de agir, como
efetivamente o fez. Um dos que mais lucrariam com isso seria o barão de
Mareschal e, por conseguinte, a Áustria, que, empenhada em ajudar d.
Pedro a conseguir nova esposa na Europa, ficaria mais aliviada ao assegurar
que Domitila não estava mais próxima do trono.
O próprio cunhado da marquesa poderia ter urdido o plano. A baronesa de
Sorocaba não chamou a polícia, mas mandou um correio para a fazenda de
Santa Cruz, onde estavam o marido e d. Pedro. O imperador, em carta a
Domitila enviada meses depois, chamaria Boaventura Delfim de “barão de
Soca-Rabo”,278 dizendo ter sido iludido por ele.
Até hoje não se tem qualquer indício do que efetivamente ocorreu e de
quem teria sido o real culpado pelo atentado. O que se sabe é que, em
determinado momento, d. Pedro teve certeza da inocência de Domitila, pois
não se falou mais em exílio. A prova disso vem da retomada da
correspondência entre os amantes em setembro. No dia 12 desse mês, a
marquesa, “adornada e bonita”, segundo o marquês de Gabriac, compareceu
à sessão de gala no teatro imperial.
Como o relacionamento entre os dois retornara em segredo, os cortesãos
não sabiam o que fazer, pois achavam que a amante do imperador havia
caído em desgraça. Cumprimentar a marquesa seria uma afronta a d. Pedro?
E se não a cumprimentassem, Domitila ficaria sentida? O monarca, ao
perceber o espetáculo paralelo que havia sido criado, acabou com o clima
ao acenar para ela de seu camarote. O barão de Mareschal, incomodado com
tal gesto, pressionou o governo austríaco para que arranjasse logo uma
noiva ao monarca, que começava a se queixar da falta de notícias de Viena.
As cartas trocadas entre os amantes comprovam que ambos voltaram a se
relacionar na primeira quinzena de setembro, mas de maneira discreta.
Arranjos para não aparecerem muito juntos no teatro também eram
necessários:
Como tu tens estado sem ires [...] ao Teatro, e tendo nós muito apetite de assistirmos à Comédia
Francesa, e podendo-o não ir eu hoje ao Teatro, e ir depois de amanhã parecer combinação entre
nós, [...] assentei de ir esta noite ao Teatro, um pouco para evitar todas as suspeitas e podermos
viver sossegados. Eu bem conheço que muitos escrúpulos são maus; mas, neste nosso caso, e
posição delicadíssima, convém muito uma perfeita fantasmagoria. Manda-me dizer o que te
parece, que é impossível que te não pareçam duas coisas: primeira, muito escrúpulo; segunda,
muito bom pensamento, para gozarmos um do outro sem que os outros se divirtam à nossa
custa.279

No entanto, essa “fantasmagoria” e discrição cairiam por terra no


aniversário de d. Pedro, em 12 de outubro, quando cobriria quase todos os
que estiveram direta e indiretamente implicados no caso da tentativa de
assassinato — parentes e amigos de Domitila — com títulos, cargos e
comendas. Aquela era sua forma de se desculpar por tê-los considerado
culpados pelo crime, segundo relatou em conversa com Mareschal em
dezembro. As nomeações, contudo, caíram como uma bomba sobre a
Europa e prejudicaram bastante seu projeto de se casar novamente.
A fama de d. Juan
O plano de deixar nas mãos da Áustria a seleção de uma noiva para o
imperador teve momentos tragicômicos. Segundo relatório de 13 de maio de
1828 ao marquês de Aracati, ministro do Exterior, o marquês de Barbacena
disse ter havido precipitação em ambas as cortes, mas que as faltas
ocorridas em Viena foram piores.
Ainda segundo ele, que estava na Europa em missão confiada por d.
Pedro, princípios básicos para nortear as conversações não foram
respeitados. Nenhum soberano deveria pedir a mão de uma noiva sem ter
certeza de que o pedido seria concedido; as consultas, portanto, deveriam
ser feitas de maneira indireta, a fim de salvaguardar a dignidade do
soberano em caso de negativa. Barbacena também achava que deveriam ser
empregados, na tarefa, súditos do soberano pretendente, e não outros de
quem não se podia exigir responsabilidade. Afinal, mesmo os estrangeiros
não fazendo exatamente o que lhes fora pedido, era preciso ainda agradecê-
los. Outro ponto era o segredo em que toda a negociação deveria ter
ocorrido desde o início. Isso evitaria a intriga das potências que poderiam se
sentir prejudicadas pela nova aliança matrimonial pretendida.
O marquês de Barbacena.

Se d. Pedro errou em dois pontos — tendo depositado o futuro do seu


casamento nas mãos de um estrangeiro e dado ampla divulgação à ida para
a Europa dos emissários que levavam os pedidos de casamento —, com
relação a Viena Barbacena apontava, além de todos os três pontos, a
precipitação e a falta de cuidado com que tudo fora feito, algo que não se
esperaria nunca do caráter sério e contido dos alemães.
Em meados de 1827, chegaram a Viena cartas de d. Pedro e do barão de
Mareschal. O imperador mostrava-se arrependido de seus pecados e dizia
ter mudado. Além disso, informava que mandaria d. Maria da Glória para
ser criada na corte do avô até ter idade para reinar, quando então se casaria
com o tio, d. Miguel, que seria o seu regente em Portugal. O diplomata
austríaco no Brasil garantia a mudança do comportamento de d. Pedro em
relação à amante.
Todas essas notícias foram bem recebidas na Áustria, onde comoveram
sobretudo a imperatriz Carolina, madrasta de d. Leopoldina e irmã de Luís
I, rei da Baviera. Esta passou a ver o imperador do Brasil como um
convertido, a quem o Espírito Santo havia tocado; daquele dia em diante, só
o chamaria de herói.
A imperatriz, que até então nunca havia deixado seu esposo, o imperador
da Áustria, sozinho, partiu diligentemente para a Baviera a fim de conseguir
uma das princesas, suas sobrinhas, para d. Pedro. Nesse ínterim, o restante
da Europa, informado pelas gazetas locais, só davam como certas algumas
poucas coisas com relação ao imperador do Brasil: que tinha uma brilhante
reputação como soberano e pai e que, na qualidade de marido, era suspeito
de muitas faltas. Assim que se soube na Europa de seu novo projeto de
casamento, as gazetas da Alemanha retomaram o assunto e disseram
verdadeiros horrores a respeito do tratamento que d. Pedro dera a d.
Leopoldina.
Obviamente, as princesas da Baviera, em meio a tantas informações
desencontradas e sabendo que, se aceitassem o pedido de casamento, teriam
que embarcar em dois meses para o Brasil, acabaram cada qual dando uma
desculpa e recusaram a proposta. Em seguida, o príncipe de Metternich
enviou uma representação a Turim. Embora o rei da Sardenha achasse a
proposta interessante, a rainha queria saber da dotação que a princesa
receberia se sobrevivesse ao marido. Foi consultado o embaixador do Brasil
em Viena, que explicou tudo e enviou uma cópia da Constituição brasileira
para o país. A rainha disse que precisava de tempo para considerar e que
também tinha que fazer certas novenas de sua devoção.
Enquanto a princesa e a rainha rezavam, chegavam à Europa as gazetas
do Rio de Janeiro de 12 de outubro de 1827, com a lista de nomeações feitas
no aniversário de d. Pedro. Os títulos e graças concedidos aos quatro irmãos
de Domitila e trinta e tantos parentes, bem como a Ordem do Cruzeiro
conferida a todos os oficiais do Batalhão de São Paulo que faziam a guarda
da favorita do imperador, foram o suficiente para que todos os jornais da
Europa noticiassem que d. Pedro havia tido uma recaída e se encontrava
novamente nos braços da amante. Além disso, espalhou-se que os bispos e
arcebispos do Brasil haviam, no dia de sua sagração, jantado com a
marquesa para agradar a d. Pedro.
Após todas essas notícias, a princesa da Sardenha, de joelhos e banhada
em lágrimas, pediu para o rei que a livrasse de ir para o Brasil. Depois de
mais essa negativa, Viena ainda tentou o Reino de Württemberg, mas a
resposta foi a mesma. A publicidade era tanta em relação as tratativas de
casamento por parte da Áustria que o ministro do Reino das Duas Sicílias
em Viena, em uma audiência a Metternich, ofereceu a filha do seu rei para
se casar com o imperador do Brasil. Metternich teria perguntado a ele se
havia anuência da corte napolitana, e o embaixador disse que realizaria as
consultas de praxe. Quando o diplomata oficiou a Nápoles a respeito do
assunto, o rei prontamente o desautorizou, afirmando que sua filha não
embarcaria para a América. D. Pedro teve negada, assim, uma princesa que
nem pedida fora!
Barbacena tentou diplomaticamente, em Viena, ter contato com pessoas
da confiança de Metternich: uma amiga e o secretário do príncipe. Por meio
deles, descobriu que havia aversão à possibilidade de d. Pedro gerar novos
herdeiros varões. Caso o imperador se casasse novamente e tivesse filhos, a
precedência das princesas, filhas de d. Leopoldina e netas do imperador
Francisco I, cairia — ou seja: se o herdeiro masculino do trono brasileiro, o
futuro d. Pedro II, morresse jovem, quem herdaria o trono seria um filho do
sexo masculino nascido do segundo casamento. Para piorar, caso algo
acontecesse com a jovem rainha de Portugal, d. Maria da Glória, um filho
homem desse segundo casamento poderia ser colocado no trono português,
jogando definitivamente para escanteio a futura regência do infante d.
Miguel.
Era esse o estado de coisas que Barbacena relatou a d. Pedro quando de
seu retorno ao Rio de Janeiro, em maio de 1828. No mesmo dia da
entrevista entre ambos, 13, o imperador escreveu para Domitila:
O marquês de Barbacena é chegado, e sua vinda é motivada pela necessidade de me expor de
viva voz os entraves que tem havido ao meu casamento em consequência de sua estada aqui na
Corte, de onde se torna indispensável sair por este mês até ao meado do futuro junho, o mais
tardar. [...] Conheço o amor que a marquesa consagra à pátria e à minha família. Mas fique certa
que esta é a minha derradeira resolução, bem como carta que lhe escrevo, a não me responder
com aquela obediência e respeito que lhe cumpre como minha súdita e principalmente minha
criada.

Domitila podia respeitá-lo como soberano, mas tratava d. Pedro como igual.
Apesar do floreado das palavras, muitas das quais mal escritas e em
péssimo português, sua resposta revelava uma mulher de gênio forte:
V. Majestade sabe mui bem que, se eu vou fazer este passeio, é só para lhe fazer a vontade. Não
que eu tais tenções tivera de sair daqui para parte alguma. Assim, senhor, não posso ir para o
mês que vem, sim nos princípios de julho. Não sou destas de saco às costas, já lhe faço esta
vontade, e assim peço-lhe não me mortifique mais.

D. Pedro não se fez de rogado e cobrou que a amante mantivesse a palavra


empenhada anteriormente. Era necessário que saísse antes da partida do
marquês de Barbacena, que levaria d. Maria da Glória para Viena:
Minha filha infalivelmente sai até dois do mês de julho, e por isso eu muito desejo que a
marquesa saia pelo menos seis dias antes, o que vem a ser 26 de junho, porque muito convém
que os que vão possam dizer “a marquesa já saiu”, e não “está para sair”. Todos acreditarão o
que aconteceu e não o que está para ser, que pode não ser, e o negócio é grave e mui grave. Na
sua primeira [carta] presta-se a tudo que eu lhe mandar, pede-me instruções, e agora que lhe
escrevo diz-me que não pode antes de princípios de julho [...]. Sustente sempre aquela palavra
que uma vez der e não faça rodeios, veja bem a quem a dá e qual é a magnitude do negócio que
é dependente do cumprimento de sua palavra.

Domitila continuou batendo de frente:


Perdoe-me que lhe diga isto: eu não preciso de conselhos, não sou como V. M., as minhas
respostas são todas nascidas do meu coração. [...] eu sempre disse que sairia no princípio de
julho [...]. Eu torno de novo a fazer esta vontade, sairei até o fim deste mês que vem e Deus
permita sejam todas as suas vontades feitas assim como eu as faço. Eu tive criação, sei
conservar a minha palavra [...]

A marquesa, porém, versada nas artes femininas, também sabia quando se


fazer de vítima: “[...] Eu ainda não tenho destino algum [...] rogava-lhe que
me mandasse dizer por quanto tempo quererá que eu esteja separada da
minha casa, ora nisto pode ter coração.”
No fim, Domitila deixou o Rio de Janeiro antes da partida do marquês de
Barbacena para a Europa levando d. Maria da Glória para o avô em Viena.
Desse modo, todos que estavam no navio poderiam jurar que d. Pedro havia
rompido definitivamente com a amante e que esta havia saído da corte.
273 RANGEL, Alberto. Cartas de Pedro I à marquesa de Santos, p. 285.

274 Arquivo Histórico do Museu Imperial, II-POB-14.10.1826-IM.P.c

275 Arquivo Histórico do Museu Imperial, I-POB-18.08.1827-Sil.a.


276 O título não foi dado oficialmente, mas até em São Paulo já se sabia que seria outorgado no futuro,
como demonstra uma carta de Antônio Mariano de Azevedo Marques ao seu irmão José Xavier, datada
do segundo semestre de 1828.

277 REZZUTTI, Paulo. Titília e o Demonão. p. 289.

278 Idem, p. 245.

279 Idem, p. 251.


Entre dois continentes

ENQUANTO TODO esse drama era vivido no Brasil, em Portugal


desenvolvia-se outro que viria a ter consequências na outra margem do
Atlântico. D. Miguel fez uma longa viagem pela Áustria, França e
Inglaterra, a qual incluiu uma estada na Stratfield Saye House, casa de
campo do duque de Wellington, que vencera Napoleão na Batalha de
Waterloo em 1815. Wellington, à época, era o conservador primeiro-
ministro da Inglaterra, que temia que os efeitos da Revolução Francesa
chegassem ao Império Britânico. Ao desembarcar em Portugal, d. Miguel
jurou, a 26 fevereiro de 1828, fidelidade à rainha d. Maria II, ao seu irmão,
o rei d. Pedro IV, e à Carta Constitucional perante as Câmaras Alta e Baixa
do Parlamento e diante dos representantes diplomáticos na corte. Seu
primeiro decreto estabeleceu que todos os atos da sua regência deveriam ser
expedidos em nome de d. Pedro IV de Portugal.
No mesmo período, grupos a soldo da rainha d. Carlota Joaquina, ainda
presa em Queluz, puseram-se no pátio do Palácio da Ajuda para insultar os
liberais e os constitucionalistas portugueses, chegando até a apedrejar
carruagens. Quando de sua chegada a Lisboa, em 22 de fevereiro, d. Miguel
havia ido a um Te Deum na Sé da cidade, onde foi ovacionado pela
população. Agentes de d. Carlota infiltrados na multidão davam vivas a “d.
Miguel I, nosso rei absoluto”, e gritavam “Morra d. Pedro e a Constituição”;
a única reação do príncipe foi sorrir.
No dia 1o de março, uma nova multidão acercou-se do paço para dar
vivas ao rei absoluto. Instigado pelo clero e pela nobreza, e demais
descontentes com a constituição outorgada por d. Pedro, d. Miguel
dissolveu o parlamento sem marcar nova eleição, como determinava a Carta
Constitucional. A sociedade continuou pressionando e atiçando o príncipe a
assumir a coroa para si. Uma deputação de lentes da Universidade de
Coimbra partiu para Lisboa a fim de convidar o infante a se fazer rei, e dois
dos professores foram assassinados por alunos liberais. D. Isabel Maria, que
se retirara para junto da irmã, d. Maria d’Assunção, estava correta nas
predições que fizera a d. Pedro. A chegada de d. Miguel afundaria Portugal
em sangue. No início de abril, o duque de Wellington mandou que a força
expedicionária britânica em Portugal retornasse.
Em 25 de abril, d. Miguel foi aclamado rei de Portugal pelo Senado de
Lisboa, mas recusou o título. Disse que somente o aceitaria se viesse dos
Três Estados (velha instituição do Antigo Regime formada por clero,
nobreza e burguesia) e convocou-os. Os diplomatas protestaram, e a
guarnição da cidade do Porto revoltou-se e marchou sobre Coimbra.
Os Estados Gerais reunidos propuseram que d. Miguel assumisse como
rei de Portugal, o que de fato ocorreu por aclamação em 7 de julho.
Rapidamente, de maneira brutal e sanguinária, os liberais e os
constitucionalistas foram perseguidos. Alguns fugiram de Portugal; os que
não tiveram a mesma sorte foram mortos pelos miguelistas. Os que haviam
conseguido escapar seguiram para a Inglaterra ou para a Ilha Terceira, nos
Açores, único ponto do reino que se manteve fiel ao constitucionalismo, a d.
Pedro e a d. Maria II.
D. Miguel I.

Novamente o casamento
Tudo isso, porém, só seria conhecido no Brasil meses depois. Em julho,
chegavam mais negativas de princesas europeias à proposta de casamento
com d. Pedro, que era tomado pela raiva e pelo desespero. Diversos
rascunhos escritos nos momentos de ira, e nunca despachados para a
Europa, davam por terminada qualquer tentativa de conseguir nova noiva.
Se ninguém o queria, também ele não queria mais ninguém. Quem narrou o
ocorrido foi seu fiel secretário, o Chalaça:
A tal cartinha do marquês de Resende, escrita em Londres a 18 de julho do corrente relativa ao
casamento deu-me o que fazer, pois que V. Ex. bem conhece o gênio do Nosso Amo, botou por
fora, falou, gritou, escreveu e eu tremendo deixei passar um dia, e escrevi tudo que me
mandou.280

No final, ainda segundo o Chalaça, d. Pedro, mais calmo, pensou melhor e


decidiu que Barbacena deveria continuar com a missão que lhe tinha sido
confiada antes de deixar o Brasil, independentemente de qualquer ajuda da
Áustria. As instruções281 de d. Pedro eram claras: o marquês deveria
conseguir uma princesa que, por seu nascimento, formosura, virtudes e
instrução, pudesse fazer a felicidade do monarca e do Brasil. Porém, se
houvesse dificuldades para “se reunir as quatro condições, podereis admitir
alguma diminuição na primeira e quarta, contanto que a segunda e a terceira
sejam constantes”.

A rainha de Portugal no exílio


Somente em setembro, ao chegar a Gibraltar, o marquês de Barbacena
soube que d. Miguel dera um golpe contra d. Pedro, d. Maria da Glória e a
Constituição, assumindo como rei absolutista português. Ao contrário dos
planos que lhe haviam sido confiados, Barbacena, que suspeitava das
intenções de Metternich e da Áustria, deixou a comitiva vienense esperando
pela menina em Gênova e partiu para a Inglaterra. Lá, o rei recebeu d.
Maria da Glória como rainha de Portugal, e ao redor da menina se instalou
um núcleo de portugueses fiéis a ela e à Constituição, entre os quais sua tia
Ana de Jesus Maria, então marquesa de Loulé, que tivera de partir às
pressas para o exílio com a chegada de d. Miguel ao poder.
Ana de Jesus, filha favorita de d. Carlota, havia caído de amores por certo
fidalgo, filho de um dos melhores amigos e confidentes do rei d. João VI, o
primeiro marquês de Loulé, morto em um estranho acidente no Paço de
Salvaterra dos Magos. O filho, d. Nuno José Severo de Mendonça Rolim de
Moura Barreto, herdeiro do título, era considerado o homem mais bonito da
Europa à época. Além de Ana de Jesus, outra irmã de d. Pedro apreciava o
belo jovem: a regente d. Isabel Maria. No entanto, foi Ana quem acabou por
tomá-lo como esposo, em cerimônia realizada a 5 de dezembro de 1827 na
capela do Palácio de Queluz. Tratou-se de um casamento repentino e sem
grandes pompas, sobretudo porque a infanta casava mal. Neta, filha e irmã
de reis, unira-se a um fidalgo abaixo de sua posição. Não obstante
conservasse todas as honras de alteza sereníssima, teve que renunciar
formalmente, em nome dos futuros filhos e de si mesma, a qualquer direito
à coroa portuguesa.
O marquês da Fronteira, junto com o corpo diplomático, foi dar os
cumprimentos ao jovem casal quando soube do casamento. Em relato,
afirmou que, ao chegarem à Quinta do Peres, onde o casal havia se
instalado, não puderam se avistar com d. Ana de Jesus: “Ficamos
maravilhados quando os criados nos disseram que tínhamos dois motivos
para dar parabéns pois que tinha nascido uma menina e se batizava naquele
momento.” Fazia sentido a pressa e o casamento desigual: d. Ana de Jesus
havia casado grávida de nove meses, obrigada por d. Carlota.
Com a aguardada ida de d. Miguel a Portugal, o casal ficaria em uma
péssima situação. Embora fosse ajudante de ordens do infante, o jovem
marquês de Loulé era um liberal fervoroso. A temeridade era dupla: ele
engravidara a irmã do futuro regente e assumia posição política oposta à
dele. A ferocidade das reações de d. Miguel era bem conhecida, inclusive
por d. Carlota, que, subornando um comerciante inglês, conseguiu
despachar o desafortunado casal para a Inglaterra. Lá, d. Ana de Jesus
entrou em contato com d. Pedro e contou-lhe o que havia acontecido
consigo. O irmão ficou mais chocado pela posição social do cunhado do que
por ser tio.
Minha mana. Franco como sempre fui, sou e serei, não posso em primeiro lugar de estranhar-
lhe seu procedimento como considerando a diferença que há entre as diversas hierarquias deste
mundo; mas vendo que a mana escreve e me diz que me dá parte do acontecido, e que nossa
mãe foi a causa: pondo de parte melindres e pontos de honra e olhando a questão e suas
circunstâncias como seu irmão filantropo e cristão, não posso deixar de me condoer muito da
má sorte, vindo que foi obrigada, por me ser fiel, a vender o que tinha para comer e, portanto,
conte já com oito contos de réis, que lhe serão dados por Rothschild, uma vez com uma mesada
de quatrocentos mil réis. Muito desejaria poder ser-lhe mais proveitoso, mas tenho filhos e a
mana não ignora qual é a minha dotação. Aceite os protestos de amizade (a qual de novo se faz
credora) [...].282

Rompimento de d. Pedro com d.


Miguel
Em agosto de 1828, d. Pedro soube da traição do irmão e da ida em
segurança da filha para a Inglaterra. Wellington, o primeiro-ministro
britânico, uniu-se a Metternich, e assim Áustria e Inglaterra tentariam fazer
com que a princesa d. Maria fosse enviada para Portugal, com o tio, ou para
Viena, com o avô. Seria então a rainha de Portugal, se casaria com d.
Miguel, conforme estabelecera d. Pedro anteriormente, e tudo ficaria
resolvido. E quanto à Constituição? Era melhor esquecê-la e deixar o
príncipe governar Portugal do seu jeito. Wellington enviou lorde Stragford
para que tentasse, junto do barão de Mareschal, chegar a um acordo com d.
Pedro. Porém, antes da chegada do britânico, d. Pedro já havia denunciado
internacionalmente o irmão como usurpador da coroa de d. Maria II.
No final de outubro de 1829, o imperador emitia o seguinte decreto:
Tendo eu, pelo meu real decreto de 3 de março de corrente ano, renunciado todo direito que
indisputavelmente tinha à coroa portuguesa, para que ficasse completa a minha abdicação feita
por carta régia de 2 de maio de 1826 na minha muito amada e querida filha d. Maria II, aquele
decreto foi fundado na expressa suposição de [...] sincera obediência de meu irmão o infante d.
Miguel às minhas reais ordens [...].
Os acontecimentos, que ao tempo daquele meu decreto de 3 de março do corrente ano se
passavam em Portugal e que seguidamente se foram desenvolvendo até se completar pelos
meios mais criminosos a escandalosa usurpação da coroa, mostravam não somente que era falsa
a generosa suposição em que se fundava aquele meu real decreto [...] mas também que meu
irmão o infante d. Miguel [...] havia feito caducar todas as condições da minha abdicação de 2
de maio de 1826, já desprezando e rejeitando o título por que governava em meu real nome, já
usurpando para si o título e a qualidade de monarca reinante, [...], já destruindo de fato a Carta
Constitucional da Monarquia e já finalmente tornando por todos estes atos inexequível o
decreto da minha completa abdicação [...].
1º Declaro irrita, nula e de nenhum efeito a abdicação condicional que fiz da coroa
portuguesa, [...]
2º [...] Hei por bem, de meu moto próprio e livre vontade, de novo abdicar e ceder os
indisputáveis e inauferíveis direitos que tenho à coroa portuguesa e à soberania dos reinos de
Portugal, Algarve e seus Domínios, na pessoa de minha muito amada e querida filha d. Maria
da Glória [...]. Sou, porém, servido declarar que esta minha cessão e abdicação não será
completa, senão quando a sobredita minha filha d. Maria II chegar à maioridade, [...]
3º Sou, outrossim, servido revogar, como pelo presente revogo, para que fique de nenhum
efeito, o meu real decreto de 3 de julho de 1827, pelo qual nomeei meu irmão o infante d.
Miguel regente e meu lugar-tenente nos reinos de Portugal, Algarve e seus Domínios [...].

No dia do aniversário de d. Maria da Glória, em 4 de abril de 1829, apesar


de ela estar na Inglaterra com o marquês de Barbacena e suas damas de
companhia, houve no Paço Imperial do Rio de Janeiro uma celebração em
que d. Pedro recebeu, dos diplomatas estrangeiros na corte, os votos em
nome da filha. Lorde Stragford e o barão de Mareschal haviam preparado
um discurso que enfatizava o fato de ela ser apenas a rainha de jure, isto é,
“pela lei”, “pelo direito”. O rei de fato era d. Miguel, que lá estava
governando como d. Miguel I, após ter tomado o poder. Stragford pediu que
o pai de d. Maria II fosse pudente e confiasse em seus aliados para fazê-la
rainha portuguesa de fato, junto com o esposo prometido.
D. Maria II, rainha de Portugal.

Segundo relato de Francisco Gomes, que estava presente à cerimônia, a


Barbacena:
Disse [Stragford] e ficou como quem esperava resposta, mas nosso amo olhou muito para ele,
deu uma risadinha amarela, daquelas do Senhor d. João VI, e fez-lhe uma cortesia; o homem
embaraçou e retirou-se. Seguiu-se o barão de Mareschal — tenho a honra de fazer meus
cumprimentos pelo aniversário da rainha [...] ia continuando, mas nosso amo atalhou dizendo
de jure, ele assarapatou-se e foi-se.283

D. Pedro, naquela altura de sua ira, não ouviria sermões de dois estrangeiros
que queriam que ele entregasse a filha ao irmão que o traíra e tomara para si
o trono português. Não havia etiqueta que salvasse as aparências. Tanto o
barão de Mareschal quanto Stragford saíram do paço sabendo muito bem
que haviam desagradado muitíssimo o monarca por lhe sugerirem o que
fazer quanto ao destino de d. Maria. Segundo o ofício do diplomata norte-
americano, o barão de Mareschal fez uma reverência e retirou-se do salão
sem terminar de pronunciar o discurso que d. Pedro interrompera. O
imperador, virando-se para o camarista que estava ao seu lado, teria dito:
“Estes dois filhos da puta pensavam pilhar-me, mas eu mandei-os
passear.”284

A Assembleia contra d. Pedro


Em 1829, os trabalhos na Assembleia começariam cedo. Houvera
convocação extraordinária para se resolver questões complicadas, como a
crise financeira e, consequentemente, o Banco do Brasil. Mais uma vez, em
seu discurso inaugural, d. Pedro solicitou uma legislação que promovesse e
fortalecesse a imigração estrangeira ao Brasil; mostrou também seu
descontentamento com o que lhe parecia ser um abuso da liberdade de
imprensa no império.
Apesar de não existir censura prévia à imprensa, esta não podia tocar em
alguns temas sem ferir a Constituição, como a religião católica e a figura do
imperador, que era inviolável e, portanto, não podia ser alvo direto de
críticas. Desse modo, sem poder culpar o monarca pelos problemas, os
jornais atacavam livremente os ministros e o secretário Francisco Gomes.
Usavam de subterfúgios para chegar a d. Pedro, referindo-se a ele, por
exemplo, como o “nosso caro Imperador”, mas tendo “caro”, no caso, o
sentido de dispendioso, e não de querido. Também um anagrama de Pedro,
“Poder”, era constantemente atacado na imprensa, sem que nada pudesse ser
feito. Em qualquer processo movido por abuso de liberdade de imprensa,
dava-se ganho de causa para os jornais, uma vez que o júri era composto de
seus pares.
A tentativa de revolta em Pernambuco, onde se tentara instalar uma
república em fevereiro de 1829, foi motivo de discussões acirradas na
Assembleia. Os deputados pediram explicações oficiais aos ministros da
Justiça e do Exército quanto às atitudes tomadas durante o levante, quando
prerrogativas e direitos constitucionais da população haviam sido
novamente suspensos. Dois decretos teriam sido lavrados — um pelo
ministro da Justiça e outro pelo do Exército — em favor da execução dos
culpados por tribunais militares, sem que o assunto tivesse passado, porém,
pelo Conselho de Estado.
A Assembleia criou uma Comissão Parlamentar de Inquérito, a primeira
das inúmeras CPIs que o Brasil viria a ter. Se os parlamentares declarassem
os ministros culpados, d. Pedro os demitiria. Entretanto, por uma pequena
margem, eles saíram livres das acusações. Segundo relatam, em suas
respectivas memórias, tanto o conselheiro Drummond quanto o bispo d.
Romualdo, d. Pedro empenhou-se pessoalmente junto a aliados para fazer a
defesa dos seus ministros na Assembleia. Ainda segundo Drummond, o
imperador teria chegado a pagar pelo voto de alguns dos deputados, em
prática que nada diferia da que viria a consagrar-se no presidencialismo.
D. Pedro irritava-se cada vez mais com a atitude do Legislativo, que em
vez de cumprir seu papel e legislar, queria afrontá-lo e questionar seus
ministros, por ele tidos quase como serviçais. Pela Constituição, cabia ao
imperador demitir e constituir os ministros e ministérios, a exemplo do que
ocorre no sistema presidencialista. O que a Assembleia estava fazendo ao
tentar se imiscuir em suas prerrogativas constitucionais?
A questão, porém, era muito mais profunda e se agravaria até
transformar-se em crise. Alguns deputados e segmentos da sociedade,
incluindo os jornais que se opunham aos ministérios de d. Pedro, como o
Aurora Fluminense, já falavam abertamente em ministros responsáveis —
ou seja: o gabinete ministerial deveria ser escolhido pelo imperador dentre
os deputados do partido majoritariamente eleito para o parlamento. Isso
contrariava a Constituição, que determinava caber ao imperador a livre
escolha de seus ministros. D. Pedro lutaria até o fim para manter essa
prerrogativa.
No início de 1829, o imperador pensou seriamente em dissolver o
parlamento. Em cartas enviadas a seus conselheiros privados, como o frei
Arrábida, o barão de Inhomirim e o marquês de Paranaguá, perguntou-lhes:
1) em que estado de fermentação revolucionária eles viam o Brasil; 2) que
remédios achavam convenientes; 3) se era oportuno emendar a
Constituição; 4) se era melhor verificar, depois de conciliar-se com os
vários soberanos que por ele nutriam aversão, se poderiam enviar uma força
para apoiá-lo, a fim de que viesse a elaborar uma Constituição nova e
verdadeiramente monárquica; e 5) em que época se deveria pôr em prática
tal plano. As cartas foram escritas em 17 de março, e a discussão perdurou
até maio.
A resposta do seu antigo professor e confessor, Arrábida, foi a mais
contundente. Ele previa que, se tropas estrangeiras desembarcassem no
Brasil para esse fim, a nação mergulharia em sangue. Quanto ao que d.
Pedro havia escrito, aconselhou-o: “Queime, senhor, queime o papel que
contiver esse quesito, que só pensando se julgaria crime quanto mais
sabido.”285
A proposta de d. Pedro claramente almejava um alinhamento diplomático
com as potências europeias que formavam a Santa Aliança. Foram esses
países e os seus exércitos que haviam invadido a Espanha, dissolvido o
parlamento e restituído o poder do rei anos antes. No entanto, o imperador
refletiu após ler as respostas dos conselheiros e abandonou qualquer projeto
de fechar novamente a Assembleia: ficaria apenas na vontade de dar ao
Brasil uma nova Constituição. Cada vez mais d. Pedro tomava ciência de
que aquela que elaborara era imperfeita, facilitando a manutenção dos
conservadores e escravocratas no poder e permitindo a destruição do
império por meio das revoltas.
Mesmo assim, d. Pedro morreria lutando pelo que acreditava, e em 1o de
outubro de 1829, buscando se antecipar ao 13 de março de 1830, quando,
pelo tratado de 1826 com os britânicos, o tráfico de escravos deveria ser
proibido, seu ministro da Marinha decretou que não seria mais permitido
que navios negreiros partissem para a África desde o Brasil. Essa proibição
foi letra morta, uma vez que a Assembleia, tomada por deputados
escravocratas, nada fez para implementar a medida.
O retorno da favorita
Se d. Pedro e o Legislativo novamente se digladiavam no Brasil, as coisas
na Europa não estavam melhores. As tentativas de Barbacena de conseguir
uma noiva para o imperador resultavam tão infrutíferas quanto as levadas a
cabo de boa ou má vontade por Metternich e Francisco I. Às negativas
anteriores, somavam-se agora as das princesas da Suécia e da Dinamarca.
As ordens de Barbacena eram arrumar o mais rápido possível uma noiva
para seu monarca e, assim que isso ocorresse, levá-la, junto com a filha que
estava na Inglaterra, para o Brasil. D. Pedro mandava que lhe trouxessem a
filha, não a rainha de Portugal. Era o pai quem falava, não o estadista.
Em 21 de abril de 1829, Francisco Gomes oficiava ao marquês de
Barbacena: “[...] O contratempo com a Dinamarca excitou novamente em
nosso Amo a Paixão (nunca sufocada) pela marquesa, e já a mandou
buscar.”286
Desde o final de 1828, Domitila já dera mostras de que não suportava
ficar em São Paulo longe das filhas e da casa. No segundo semestre daquele
ano, a última menina que tivera com d. Pedro, e que teria sido feita duquesa
do Ceará, morrera de meningite, longe da mãe. No final do ano, altiva,
afirmando que d. Pedro já devia ter se esquecido dela e que nada faria para
prejudicar os negócios do imperador, escreveu ao amante para dizer-lhe que
estava voltando ao Rio de Janeiro. D. Pedro, com todos os problemas que
enfrentava — as cortes europeias que pareciam zombar dele e humilhá-lo
quanto à questão do casamento; a filha de dez anos que penava as agruras
do exílio na Inglaterra; a traição do irmão; os obstáculos cada vez maiores
que o atrapalhavam no governo do Brasil —, não precisava incluir na lista o
retorno da marquesa à corte e o falatório que isso geraria na Europa.
O imperador respondeu Domitila de imediato e enviou também uma carta
à mãe dela. A d. Escolástica pedia, com bem poucos modos e educação, que
colocasse juízo na cabeça da filha, lembrando que a marquesa devia tudo o
que tinha a ele e, portanto, devia-lhe obediência. Teceu também ameaças
contra ela e a família:
Uma pessoa que saiu do nada por meu respeito devia, por um reconhecimento eterno, fazer o
que eu lhe tenho até pedido. [...] eu lhe declaro, mui expressamente, que, se a marquesa se
apresentar no Rio sem ordem minha, eu suspendo-lhe as mesadas, a ela e a toda aquela pessoa
de sua família que influi para este sucesso, bem como a demito de dama e privo de entrarem no
Paço seus parentes.

Aflita, dona Escolástica respondeu:


[...] Por mim está prevenida, muito de antemão, para não dar um só passo sem positiva
determinação de V.M.I. [...] Sinto meu senhor, e sinto n’Alma, que uma produção de meu
desgraçado ventre viesse ao mundo para dar motivos de inquietações a V. Majde.

Em São Paulo deixou-se Domitila ficar até que, já desencantado de


conseguir noiva na Europa, d. Pedro mandou chamá-la, em abril — não,
porém, sem antes despachar para a França madame Saisset e seu marido.
Clemence Saisset tornara-se amante de d. Pedro após a saída da marquesa
da corte. Assim que os primeiros sinais de gravidez surgiram, o imperador
mandou que o casal partisse para fora do Brasil, levando consigo uma gorda
compensação e a promessa de uma pensão.
Aos olhos de d. Pedro, o barão de Mareschal e a Áustria falharam em
cumprir suas promessas. Mareschal teve certeza de que caíra em desgraça
perante o monarca quando lhe apresentou o retrato de duas novas princesas.
D. Pedro desconversou e ainda escarneceu, dizendo que as pinturas
deveriam ser falsas e que, agora, se ocuparia apenas da sucessão portuguesa.
Mentia ao austríaco para que essa informação chegasse à Áustria.
Apesar das contínuas tentativas dos marqueses de Barbacena, Pedra
Branca e Rezende, bem como de outros diplomatas brasileiros na Europa, as
coisas pareciam fadadas ao fracasso. Segundo explicação do próprio
imperador ao barão de Mareschal, era muito humilhante arcar com as
recusas das princesas; o melhor seria fingir que nunca pensara em se casar
novamente. Ao chamar a marquesa de Santos para a corte, toda a Europa
teria certeza de que não partira de d. Pedro o projeto de um novo
casamento.
Em 8 de abril, d. Pedro escrevia para a mãe de Domitila, que ficara em
São Paulo:
Viscondessa. Agora acaba de chegar um soldado de São Paulo com nove dias, e diz que topara
o Lima em Mogi, que chegava a um deste mês. Portanto, não contemos ter o gosto de ver a
marquesa antes de sexta-feira santa ou sábado de Aleluia, que será uma Aleluia completa.
Passadas as festividades da Páscoa na corte, que naquele ano caíra em 19 de
abril, d. Pedro foi para a fazenda de Santa Cruz esperar Domitila.
Impaciente como de hábito, antecipou-se à chegada da marquesa, indo
aguardá-la duas léguas adiante, em Itaguaí. Ficaram hospedados em Santa
Cruz até quase o final do mês. No início de maio, Domitila voltava em
apogeu à corte, para desconsolo do barão de Mareschal, que observava a
cidade e os cortesãos indo em peso visitar a favorita, caindo assim em sua
graça e na do imperador. O diplomata francês Pontois foi quem melhor
resumiu a situação toda:
A marquesa de Santos realmente retornou, como anunciei [...]. Uma multidão de cortesãos
correu para sua casa, com uma mesquinharia e cinismo peculiar a este país, para receber de
volta aquela de quem eles tinham, não muito tempo antes, comemorado a desgraça com tanta
alegria, e que, desde então, sempre gostavam de insultar.287

O diplomata austríaco oficiava a Metternich que havia murmúrios a respeito


de um casamento entre d. Pedro e Domitila. Segundo ele, Felício, o marido
vivo da marquesa, não seria um problema difícil de resolver num país em
que a vida de uma pessoa sem relevância não era grande obstáculo,
sobretudo quando uma família grande e pouco recomendável pela sua
moralidade tinha interesses nisso. Mareschal pintava os Castro como um
misto de Bórgia e Corleone. Ao mesmo tempo, alimentava a certeza, em
Viena, de que d. Pedro não tinha mais interesse em se casar com uma
princesa de sangue nobre.
O auge de Domitila deu-se em 24 de maio, no aniversário da duquesa de
Goiás. Às três horas da tarde, a riquíssima carruagem da marquesa de
Santos, ornada com seu brasão e trazendo criados vestidos de libré, entrou
pelos portões da Quinta da Boa Vista. O imperador havia ordenado que o
porteiro de sua imperial câmara, João Valentim de Faria de Souza Lobato, o
mesmo que conduzira Domitila à tribuna das damas de honra na Semana
Santa de 1825, abrisse a porta da carruagem para que ela descesse. Nesse
momento, bandas marciais tocaram, os porta-bandeiras curvaram os
pendões imperiais em sua direção e a guarda prestou-lhe as devidas
continências, como se fosse ela a imperatriz do Brasil.
Belamente vestida, Domitila tinha o colo enfeitado por uma grossa cadeia
de ouro. Em cada anel, lia-se “Pedro I”. Pendente do colar, próximo aos
seios, trazia emoldurado em brilhantes o retrato do imperador. D. Pedro
esperava-a com sua farda de gala repleta de condecorações. A marquesa,
após uma mesura, beijou a mão do soberano e das princesas e deu um beijo
no rosto da filha. Em seguida, conversou um pouco com o imperador e
partiu para seu palacete, onde a esperava um banquete e um baile.
O imperador chegou à casa da marquesa às oito da noite, quando o
banquete para sessenta pessoas foi servido em rica baixela de prata,
presenteada por ele mesmo. Aquela foi uma das recepções mais brilhantes
do Primeiro Reinado. O baile que se seguiu foi aberto por d. Pedro e
Domitila. Só que nem tudo era festa: para lembrar o problema da sucessão
portuguesa, foi passada uma subscrição cujo objetivo era doar dinheiro aos
148 perseguidos políticos e refugiados portugueses que haviam chegado
duas semanas antes ao Rio de Janeiro, fugindo do absolutismo de d.
Miguel.

D. Amélia
Seis dias depois, na Cantuária, Barbacena e o representante da duquesa
Augusta de Leuchtenberg, Planat de La Faye, assinavam um tratado de
casamento. De um lado, Amélia de Leuchtenberg, princesa bávara, sobrinha
do rei da Baviera e neta da imperatriz Josefina, primeira esposa de
Napoleão; do outro, d. Pedro I.
Após a recusa de mais uma princesa, dessa vez uma de Baden, a mãe da
menina, que via com gosto o casamento da filha com d. Pedro (opinião
diferente da do marido), lembrou-se da irmã, a duquesa Augusta de
Leuchtenberg. A viúva do príncipe Eugênio de Beauharnais tinha uma filha
em idade para casar-se, e a grã-duquesa de Baden recomendou que
Barbacena procurasse a família na Baviera.
A princesa Amélia de Leuchtenberg reunia três das quatro qualidades
pedidas por d. Pedro: era bonita, virtuosa e culta. O nascimento, entretanto,
deixava a desejar. Os Leuchtenberg não eram benquistos pelo então rei da
Baviera, irmão de Augusta. Enquanto Napoleão esteve no auge, fora
interessante tecer aliança matrimonial entre o príncipe Eugênio, enteado de
Bonaparte, e uma princesa bávara; com a queda do imperador francês,
contudo, aquilo tornara-se um incômodo dentro da família real.

Marquês de Barbacena pedindo a mão de d. Amélia em casamento. Da esquerda para a direita: o


marquês, o príncipe Augusto, irmão de d. Amélia, a duquesa Augusta de Leuchtenberg e d. Amélia.

Quando Eugênio, devido à queda de Napoleão, perdeu o posto de vice-rei


da Itália, refugiou-se com a família na Baviera, onde comprou terras que lhe
davam direito a titulações na alta nobreza. Entretanto, com exceção da
duquesa Augusta, filha e irmã de rei, a família não gozava de uma posição
nobre vantajosa. Com a morte de Eugênio, Augusta seria responsável por
terminar de educar e casar a prole. Apesar da fama de d. Pedro na Europa,
para os Leuchtenberg ele era um ótimo partido. A duquesa não só casava
muito bem uma das filhas, mas também conseguia que d. Pedro concedesse
ao irmão mais velho da noiva o título de duque e o tratamento de Alteza
Imperial.
Em meados de junho, d. Pedro recebia as primeiras notícias referentes aos
arranjos de seu casamento. Sem que as coisas ainda estivessem certas,
porém, só começou a preparar Domitila para o fim do relacionamento no
início de julho. Nesse mês, recebeu uma miniatura com o retrato da linda
noiva de 17 anos, um ano mais velha que Francisca, a primeira filha da
marquesa. Durante o resto do ano, chegariam diversos informes sobre a
princesa Amélia, entre os quais do marquês de Resende, presente no
casamento por procuração realizado em Munique. Numa das cartas,
Resende praticamente pedia ao amo que se comportasse, usando de uma
familiaridade que lhe era permitida devido aos anos de convívio:
Senhor, eu não fui quem escolheu esta princesa, e por isso posso e devo ser acreditado. Ela é
bela e é esse o seu menor predicado. É a única de tantas princesas pedidas que teve ânimo para
desprezar intrigas para passar o oceano e para ir unir a sua a sorte de V.M.I. Mas tudo isto é
menos que o fundo de virtude, da boa educação, da bondade, da doçura, da dignidade, do juízo
e da instrução que a adornam [...]. Faça feliz a única princesa que o quis, e a que, pelo que vejo,
sinto e creio, pode e há de encher as medidas do seu coração.288

Em outra, mais relaxada, fez inconfidências referentes aos dotes da noiva:


[...] Direi que esta interessante formosura ajuntando [...] as qualidades que devem ornar uma
princesa, os dotes que enobrecem uma pessoa particular, chamando sobretudo minha atenção
[...], a saber: um ar de corpo como o que o pintor Corregio deu nos seus quadros à Rainha de
Sabá, e uma afabilidade que aí há de fazer derreter a todos, fez com que eu exclamasse na volta
para a casa: valham-me as cinco chagas de N.S. Jesus Cristo, já que pelos meus enormes
pecados não sou imperador do Brasil. Que fará o nosso amo, na primeira, na segunda e em mil e
uma noite? Que sofreguidão! Os dedos hão de parecer-lhe hóspedes... Basta, quando não onde
me levará a minha descrição?289

D. Pedro parou de frequentar a casa da amante e mudou-se para sua


propriedade de Botafogo, afastando-se o máximo possível da tentação. O
Chalaça, em carta a Barbacena, informou-lhe que o amo havia mudado
completamente: chegava cedo em casa e só saía acompanhado de um
ajudante de ordens.
Em 24 de julho, o capitão Paulo Barbosa chegou ao Rio de Janeiro com o
contrato expedido por Barbacena. O ministro Clemente Pereira foi enviado
para informar oficialmente a Domitila que o casamento do imperador fora
contratado e que ela deveria deixar o Brasil. D. Pedro compraria todas as
suas propriedades, inclusive as que lhe dera. Pagaria a fortuna de trezentos
contos de réis por tudo, dando-lhe a oportunidade de ficar com a mobília.
Porém, como diria Francisco Gomes a Barbacena: “A excelentíssima
arrumou os pés às paredes.” Dessa vez Domitila brigaria para não sair. D.
Pedro enviou, para que conversassem com ela, o tio da marquesa, Manuel
Alves, o cunhado Oliva, o irmão José de Castro, entre outros, mas nada a
demoveu. Titília não iria para fora do Brasil: negava-se a qualquer custo,
dizendo que não era escrava e que a Constituição protegia seu direito de ir e
vir. Que d. Pedro cassasse seus direitos!
Enquanto Domitila se entrincheirava em seu palacete, o Chalaça pedia ao
almirante inglês que atrasasse a partida da corveta que levaria o contrato
assinado de casamento de volta para a Europa, tentando assim ganhar tempo
para enviar a notícia da capitulação da ex-favorita. Mas isso não ocorreu. D.
Pedro deu a ela um ultimato: se até o dia 27 não enviasse uma resposta
definitiva, ele retiraria dela todos os benefícios que recebia das repartições
da Casa Imperial e lhe deixaria unicamente com a pensão mensal de um
conto de réis que tinha por decreto.
No meio da tempestade, Domitila, em lugar de dar uma resposta, mandou
um escravo perguntar sobre a saúde da duquesa de Goiás. D. Pedro mandou
responder que ela estava bem e assim ficaria sempre, não sendo mais
necessário pedir notícias. De volta para a marquesa ele enviou todos os
presentes que ela lhe mandara e deu ordens para que todas as repartições
não dessem mais coisa alguma a ela. Seus escravos e criados foram
retirados. Seus cavalos, tratados na estrebaria de São Cristóvão, foram
entregues, e o imperador ordenou que ela e a mãe devolvessem as
nomeações de damas do paço. Todos os criados do palácio receberam
ordens de não visitá-la. Se o fizessem, seriam demitidos.
Em 30 de julho, d. Pedro despachou para a Europa o contrato de
casamento assinado. Para a infelicidade de Barbacena, a notícia da saída da
marquesa da corte não seguiu junto. Caso contrário, poderia calar a
imprensa britânica, que noticiara, no começo do mês, o casamento do
imperador com Domitila.
De 8 a 11 de agosto, d. Pedro serviu-se do cunhado de Domitila, o coronel
Oliva, para negociar a partida da ex-amante. Um arranjo foi feito: em vez
do pagamento pelas propriedades, ela concordava em trocá-las por outras,
na região central da cidade. Achando que assim tudo estava arranjado, o
imperador só percebeu no dia 12 que, com isso, Domitila visava continuar
no Rio de Janeiro.
Enfurecido com a tentativa de ludibriá-lo, d. Pedro enviou no mesmo dia
seu ajudante de ordens, o marechal Moraes, ao palacete. Sua missão era
alertar a marquesa de que, se ela não saísse do Rio de Janeiro em uma
semana, o imperador prometia passar um decreto anulando a pensão de um
conto de réis que recebia e fazer o procurador da coroa tomar-lhe as
propriedades.
Domitila finalmente capitulava. Vendeu a d. Pedro, em escritura lavrada a
17 de agosto, seus terrenos, casas e chácaras, bem como o camarote no
teatro. Com toda a família, inclusive o cunhado Oliva e o irmão José de
Castro, partiu para São Paulo. A única que se salvou do expurgo dos Castro
Canto e Melo foi a baronesa de Sorocaba. Domitila embarcou em 27 de
agosto para Santos, a bordo do navio União Feliz, dois dias antes de
completar oito anos do início de seu relacionamento com d. Pedro.
Um de seus sobrinhos ficou no Rio por mais algum tempo, resolvendo o
envio da mobília e dos demais bens da família para São Paulo. Aquela que
chegara à capital escondida, com pouquíssima bagagem, agora era obrigada
a fretar uma escuna para transportar o equivalente a 60 bestas carregadas,
fora os 52 escravos.
Domitila também partia levando, no ventre, aquela que seria sua última
filha com d. Pedro: Maria Isabel, nascida em São Paulo no início de 1830.
Em uma carta autobiográfica, Maria Isabel deixou registrado que, segundo
se comentava na família, ao saber que a ex-amante estava grávida, d. Pedro
teria tentado esganá-la, alegando que o filho não era dele. Domitila foi salva
pelo irmão, José, que ofereceu a própria cabeça ao imperador caso o filho
fosse de outra pessoa. Maria Isabel seria criada pela mãe, enquanto Isabel
Maria, a duquesinha de Goiás, permaneceria com d. Pedro. Mãe e filha
nunca mais se veriam.

A nova imperatriz
Em 16 de outubro, fundeava na baía de Guanabara a fragata Imperatriz, que
trazia a bordo d. Amélia, futura imperatriz do Brasil. Junto vinham d. Maria
da Glória, o marquês de Barbacena e o irmão de d. Amélia, o príncipe
Augusto, futuro duque de Santa Cruz. Assim que d. Pedro soube da
chegada, foi de barco até o navio e correu para cumprimentar, antes de mais
nada, a filha, a pequena rainha portuguesa, que mesmo tão nova já passara
por tantos infortúnios; em seguida, dirigiu-se à jovem e bela noiva. No dia
seguinte, sob um céu tempestuoso, os viajantes desembarcaram no Arsenal
da Marinha e se encaminharam à Capela Imperial para uma bênção de
núpcias, ocasião em que foi apresentada uma missa composta por d. Pedro
para a ocasião.
Para comemorar o novo casamento, o imperador criou a Ordem da Rosa,
cujos dísticos — de um lado, “Pedro e Amélia”; do outro, “Amor e
Fidelidade” — sintetizavam a promessa do imperador de ser
exclusivamente devoto à esposa, demonstrando assim, a todo o mundo, que
era um novo homem. De fato, ele conseguiu ficar longe de escândalos,
apesar de a saúde e o tempo de vida que ainda lhe restavam serem fatores
que devemos levar em conta nessa equação de fidelidade.
O marquês de Barbacena também foi bastante comemorado. D. Pedro
nobilitou-o na recém-criada Ordem da Rosa e concedeu a seu filho mais
velho o título de visconde — tudo para mostrar que a dedicação e o trabalho
do nobre em proteger d. Maria da Glória e ter-lhe conseguido uma nova
esposa tinham sido bastante apreciados.
Seguiram-se festas, bailes e óperas como forma de dar as boas-vindas à
nova imperatriz brasileira. A rainha d. Maria II foi instalada no antigo
palacete da marquesa de Santos, em frente à Quinta da Boa Vista.
Provavelmente Portugal foi o primeiro país a ter sua sede de poder e corte
instaladas não apenas em território estrangeiro, mas também na antiga casa
da amante de um imperador.

O terror em Portugal
Enquanto um governo português no exílio era instalado — e os Açores,
junto com certas legações diplomáticas na Europa, como a dos Países
Baixos e a da França, mantiveram-se fieis a d. Pedro e d. Maria II —,
Portugal enfrentava a ira de d. Miguel e seus asseclas. Caçavam-se maçons
e liberais como cães.
As irmãs d. Isabel Maria, ex-regente, e d. Maria d’Assunção foram feitas
prisioneiras. Segundo relato de um oficial britânico,
a dissipação da corte de Dom Miguel fez a situação da Infanta Dona Isabel Maria e de sua real
irmã extremamente desagradável, na verdade, essas augustas pessoas eram completos
prisioneiros do estado, sob a vigilância dos espiões mais depravados e sem princípios, e as
senhoras de suas cortes eram frequentemente submetidas a todo tipo de grosseria e irritação.290
De Londres, o marquês de Palmela escrevia:
Chegou também o paquete de Lisboa com notícias de 27. Ainda não recebi as minhas cartas,
mas segundo ouço, continua e aumenta cada vez mais a opressão e o terror em Portugal, ao
ponto de se achar presa no Paço a infanta D. Isabel Maria e quatro bispos suspensos do
exercício de suas funções.291

Em uma carta secreta e inédita, escrita em novembro de 1829, a infanta d.


Isabel Maria, burlando a censura de d. Miguel, narrou a d. Pedro, com
desespero, não só sua situação como a de Portugal:
Mano, desejo que tenha passado bem de saúde. O mano há de perdoar todos os erros, pois julgo
que até já não sei pegar em uma pena para escrever duas palavras, pelos motivos que o mano
não ignora. Como o portador é seguro, por isso me atrevi a fazer-lhe esta carta expondo-lhe bem
o estado interno de tudo aqui. A miséria é extraordinária, os insultos da mesma maneira, as
prisões atulhadas de pessoas, as mais dignas e firmes ao seu juramento e leais ao mano, às
vistas deste chamado governo são grandes. O que lhe peço muito e muito é que veja como há de
acabar por uma vez com tudo isto e que não [ceda] na demanda, nem se quer cinco réis, pois
senão estamos perdidos. O mano tem coragem, faça um rasgo do seu valor de mim, não trato o
que tenho sofrido. Só eu sei não me tem metido onde queriam porque de todo não podem, pois
sabem decerto que então haveria uma revolução dos bons portugueses, pois todos sabem, graças
a Deus, que por coisa nenhuma me tem feito mudar de sentimentos nem [hão de] fazer, pois
prezo mais morrer de fome se necessário do que mudar de princípios, os quais são e [hão de], se
Deus quiser, firmes mais de que uma rocha. Até a morte com isto digo tudo. Adeus. Torno-lhe
que não se esqueça de nos mostrar quem é. Sua mana verdadeiramente sua amiga e fiel.
Isabel.292

D. Pedro realmente não cederia, mas, com a opinião pública acusando-o


cada vez mais de interessar-se antes pelos assuntos de Portugal do que pelos
do Brasil, no momento era impossível qualquer reação que não fosse por
meio da diplomacia.
O tempo das armas, contudo, não tardaria em chegar.
280 Arquivo Histórico do Museu Imperial, II-POB-1828-PI.B.do 1-259.

281 Arquivo Histórico do Museu Imperial, II-POB-20.06.1827-PI.B.c.

282 Arquivo Histórico do Museu Imperial, II POB 1828 PI.B.do 1-259(d1).

283 Arquivo Histórico do Museu Imperial, II-POB-1828-PI.B.do 1-259.

284 LIMA, Manuel de Oliveira. D. Miguel no trono, p. 97.


285 Arquivo Histórico do Museu Imperial, I-POB-17.03.1829-PI.B.c.

286 Arquivo Histórico do Museu Imperial, II-POB-1828-PI.B.do 1-259.

287 Ofício de 23 de maio de 1829, apud RANGEL, Alberto. D. Pedro I e a marquesa de Santos, p.
253.

288 Arquivo Histórico do Museu Imperial, II-POB-14.01.1829-Men.c 1-37.

289 CORRESPONDÊNCIA do marquês de Resende. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico


Brasileiro, ano 80, no 134, pp. 353-4.

290 HIPPSLEY, A.J. Reminiscences of the late War of Succession in Portugal, p. 55.

291 PIMENTEL, Alberto. A Corte de d. Pedro IV, p. 221.

292 Arquivo Histórico do Museu Imperial, I-POB-13.11.1829-IM.P.c


Renúncia

ENTRE O exílio da ex-favorita e a chegada de Barbacena com d. Maria II e


d. Amélia, outros personagens voltaram à cena no Rio de Janeiro. Os irmãos
Andrada deixaram o exílio. Primeiro retornaram ao Brasil Martim Francisco
e Antônio Carlos; em julho de 1829, chegou à cidade José Bonifácio, que se
apresentou a d. Pedro e à nova imperatriz após o término das festividades. O
imperador e o velho conselheiro retomaram a antiga amizade e esqueceram
as mágoas. D. Pedro estava apaixonado demais para guardar qualquer
rancor, e o velho Andrada, viúvo, parecia mais encarar o papel de
“advogado do diabo”, como informou o diplomata norte-americano Tudor a
seu país, do que ter qualquer intenção de voltar ao governo. O imperador
apresentou José Bonifácio para a jovem d. Amélia na condição de “melhor
amigo”.
Sem medo de ter que dizer o que precisava ser dito para — nas palavras
do próprio Andrada — o “bem do país, do trono e nosso”, ele falou, mesmo
com d. Pedro tentando interrompê-lo, tudo o que achava da situação
envolvendo o governo e o Legislativo; também insistiu para que o
imperador se reconciliasse com a opinião pública, pedindo, para isso, a
ajuda da jovem d. Amélia.
Juntos, José Bonifácio e a nova imperatriz, que passou a confiar no
marquês de Barbacena após a viagem que fizeram ao Brasil, apoiariam o
nome deste último para a chefia de um novo gabinete. O imperador tentaria
então algo novo: o marquês seria virtualmente um primeiro-ministro,
ficando responsável pelas escolhas dos ministros e suas pastas e reservando
para si próprio a das Finanças, dado que esperava tirar o Brasil da inflação
galopante em que se encontrava.

Um novo acidente
A nomeação foi feita em 4 de dezembro. Três dias depois, dirigindo uma de
suas carruagens em altíssima velocidade, d. Pedro capotou o veículo na rua
do Lavradio, localizada na região central da cidade do Rio de Janeiro. Ele,
que estava no banco do cocheiro, foi arremessado para a rua e caiu
inconsciente. O irmão de d. Amélia, príncipe Augusto, quebrou o antebraço
direito, ao passo que a rainha d. Maria II sofreu uma forte contusão na
cabeça. A imperatriz, por sua vez, nada sofreu além de algumas pequenas
escoriações.
Segundo consta no relatório de seu médico, o barão de Inhomirim, d.
Pedro,
[...] no ato da queda, que foi sobre o lado direito, perdeu os sentidos por espaço de cinco
minutos, voltou a si, e posto em repouso, reconheceu-se que tinha fraturado a sétima costela
verdadeira no seu terço posterior, e a sexta no seu terço anterior, uma ligeira contusão sobre a
fronte, e alguma distensão no quarto direito.293

D. Pedro teve de ser cuidado na casa do marquês de Cantagalo, que morava


na própria rua do Lavradio. Somente no início de 1830 o imperador estaria
bom o bastante para voltar à Quinta da Boa Vista, onde continuou sua
convalescença. Durante a grande queda anterior, em 1823, d. Pedro havia
destituído os Andrada; dessa vez, passaria os dias contabilizando, para seu
susto, o quanto lhe custara trazer uma nova imperatriz para o Brasil. Sempre
que precisava ficar de cama, o imperador acabava julgando mais
satisfatoriamente o que estava acontecendo ao seu redor, o que determinava
as atitudes que tomaria ao se recuperar.
A procura das princesas e o casamento com d. Amélia haviam lhe
causado um rombo no valor de mais de 180 contos de réis, uma fortuna para
a época. Num Brasil afundado na inflação, d. Pedro precisava dar o
exemplo: pagaria o débito que criara com o tesouro, de onde tinham partido
os recursos que financiaram Barbacena. Alegando que suas contas deveriam
ser o mais específicas e discriminadas possível, a fim de evitar problemas, o
imperador passou a atormentar o marquês com exigências que envolviam
não apenas gastos contabilizados e não realizados, mas também valores
superfaturados e sérias divergências quanto ao câmbio. A operação toda
levaria meses.

O Chalaça
Enquanto isso, em 20 de janeiro, d. Pedro, já um pouco recuperado do
acidente com a carruagem, compareceu com d. Amélia e d. Maria II a um
baile no prédio do Senado. A primeira dança foi realizada pela imperatriz e
seu galante irmão, uma vez que d. Pedro ainda não tinha condições físicas
para tal. Durante o baile ocorreu um incidente ocorreu envolvendo o
secretário de d. Pedro, Francisco Gomes da Silva. O Chalaça teria obrigado
a orquestra a tocar uma quadrilha que não constava no programa original,
ofendendo ainda, segundo o jornal Astrea, tanto os músicos quanto um
general brasileiro. Começava assim a orquestrada operação de Barbacena,
dos Andrada e do partido nativista, que desejavam se ver livres dos
portugueses que circulavam ao redor do imperador no chamado “o gabinete
secreto”.

Petrópolis
Enquanto o Chalaça se defendia ao máximo dos ataques desferidos contra
si, enviando artigos anônimos para os jornais a fim de discutir a xenofobia
dos nativistas contra os servidores nascidos em Portugal, d. Pedro e d.
Amélia subiam a serra em direção à fazenda do padre Corrêa. Ali o
imperador, dando continuidade ao costume de d. João, costumava veranear,
para desespero da irmã do falecido padre, que tinha de ceder a casa e sua
paz a ele, sua família e sua corte.
D. Amélia quis pôr um fim ao incômodo causado pela falta de tato do
marido e instou que d. Pedro comprasse uma das fazendas da região para ter
algo seu em que descansar. À venda, na época, encontrava-se a propriedade
chamada Córrego Seco. D. Pedro adquiriu a fazenda, para onde chegou a
encomendar um projeto que nunca seria construído: o Palácio da Concórdia.
Herdada por d. Pedro II, e com as dívidas sobre ela saldadas como presente
da Assembleia ao imperador, a fazenda tornou-se o núcleo inicial da atual
cidade de Petrópolis, na serra fluminense.

Morre d. Carlota
Na serra, d. Pedro recebeu de um correio uma carta do irmão, d. Miguel. O
que queria o usurpador?
Meu querido mano da minha maior estima,

Tendo da maior satisfação para mim as vezes que procuro saber da saúde do mano, e dos mais
queridos sobrinhos, a quem desejo mil venturas, assim como a mana sua digna esposa, esta se
torna bem sensível pela triste notícias que lhe dou do falecimento da nossa querida e extremosa
mãe que o ente supremo foi servido chamar à sua divina presença no dia 7 de janeiro do
corrente as 3 e 3/4 da tarde, sofrendo uma morte verdadeiramente cristã: ela se lembrou do
mano deixando-lhe a joia que lhe remeto; assim como também lhe remeto por esta ocasião a
parte que lhe coube por falecimento do nosso augusto pai, e a prenda que lhe deixou a tia
Princesa. Desejo que o mano goze a melhor saúde seguida de uma série de prosperidades que de
todo o coração lhe deseja este que sempre foi, e se preza ser, seu irmão muito amigo.

Queluz, 6 de fevereiro de 1830


Miguel.294

O “irmão muito amigo” escrevia para d. Pedro como se nada houvesse,


como se não tivesse feito as irmãs prisioneiras, prendido e matado
portugueses que se lhe opunham, dividido o reino entre absolutistas e
constitucionalistas e usurpado o trono da sobrinha. O imperador, que à
época já chamava publicamente o irmão de “assassino” do pai, era
comunicado por ele da morte da mãe. D. Carlota, segundo rumores, não
teria tido morte tão cristã assim. Abandonada até por d. Miguel, que não a
procurou mais depois de chegar a Portugal, teria se envenenado. Mas não
renegou o filho ingrato — pelo contrário: em seu testamento, legou o que
podia ao caçula.
D. Carlota Joaquina, em gravura de 1827.

D. Pedro é obrigado a se afastar dos


amigos
D. Pedro, ao tomar conhecimento da morte da mãe, voltou para o Rio de
Janeiro e vestiu luto por oito dias. De volta à cidade, soube que a
perseguição dos nativistas contra o Chalaça e contra João da Rocha Pinto
estava piorando de tal modo que o marquês de Barbacena, por “temer” pela
vida dos dois e querer o bem da monarquia brasileira, sugeriu ao imperador
que os enviasse para fora do Brasil. Desse modo, d. Pedro despachou seus
bons servidores, mas não sem antes cuidar pessoalmente da bagagem do
Chalaça, verificando até se tinha roupas quentes o suficiente para sobreviver
à Europa e se o estoque de bebidas a bordo do navio — logo ele, que não
bebia! — bastava para a travessia do Atlântico.
Em carta ao marquês de Resende, d. Pedro contava boa parte das agruras
que vivenciou naquele período. Chegou até mesmo a desabafar sobre a vida
sexual com a nova esposa:
Em casa por ora nada, mas o trabalho continua e em breve darei cópia de mim, e farei a
Imperatriz dar cópia de si, se ela me não emprenhar295 a mim, que é a única desgraça que me
falta a sofrer. [...] Agora já propósito firme de não... se não em casa, não só por motivos de
religião, mas até porque para o pôr assim [desenho de um pênis ereto] já não é pouco
dificultoso.

Já quando mantinha relações com a marquesa de Santos, d. Pedro, em carta


à favorita, informou-lhe a respeito de uma doença venérea que havia
adquirido e que passara para Domitila. Depois, o imperador sofreria com
cálculos renais e outros problemas urinários. Por fim, quando seu furor
erótico parecia arrefecer, acabou por conseguir uma esposa jovem, linda,
educada, submissa e atraente. Talvez José Bonifácio não estivesse tão
errado em chamar a mãe de Domitila de “bruxa”...
Na carta a Resende, ele continuou:
[...] Vamos vivendo mal e pobremente, para não dizer porcamente; mas Barbacena, que está ao
leme, e dirige tudo = abaixo de mim =, está esperançado de alcançar vitória = hagasse el
miracolo, hagalo el diabolo. Sto. Amaro296 lá vai tratar da questão portuguesa. Gomes e
Rocha passear, em suma ministerial e constitucionalmente postos fora ao que eu anuí por
interesse deles, e meus; não que eles estejam fora da minha graça, e a prova é que lhes dou
pensões. [...]

O Chalaça jamais cairia no desfavor de d. Pedro: serviria ao imperador até


sua morte e se tornaria, posteriormente, secretário de d. Amélia. Seguia
agora do Brasil para a Inglaterra, onde continuaria a trabalhar como
secretário do imperador, encarregado de seus negócios particulares na
Europa. Servir — e bem — aos Bragança parece ter sido seu único
propósito e dever, diferentemente daqueles que criavam intrigas ao seu
redor.

Um plano ambicioso em troca da


coroa portuguesa
Quanto ao marquês de Santo Amaro, d. Pedro enviou-o como embaixador
especial junto às cortes de Londres, Paris e Viena, em missão secreta.
Ordenou-lhe297 que negociasse, com as potências europeias, apoio na
questão da sucessão da coroa portuguesa. Em troca, ofereceria apoio
brasileiro à política da Santa Aliança referente ao antigo domínio espanhol
na América, dividido e subdividido em diversas repúblicas. As negociações
previam que d. Miguel continuaria no trono. D. Pedro se permitiria até
mesmo retomar as negociações do casamento entre o irmão e a filha, desde
que esta, quando completasse dezoito anos, não se opusesse. D. Miguel teria
que enviar ao Rio de Janeiro um encarregado capaz de tratar de tais
assuntos. O imperador também voltaria a considerar o envio de d. Maria II
ao avô em Viena, contanto que, entre as diversas questões elencadas nos
tópicos passíveis de discussão, d. Miguel decretasse anistia ampla e
irrestrita aos presos, degredados e emigrados políticos.
Em troca, d. Pedro declarava que, se fosse o caso, o Brasil ajudaria a
Europa a instituir nas repúblicas hispano-americanas monarquias
constitucionais, sobretudo se fossem entronizados príncipes da família dos
Bourbon. Também exigiu que os europeus concordassem com uma nova
anexação da Cisplatina ao Brasil ou, ainda, com a criação de um estado
fantoche do Brasil no local. Seu objetivo era ter um estado-tampão que
evitasse que Brasil e Argentina tivessem uma larga fronteira em comum e
que permitisse o acesso brasileiro ao rio da Prata. O interessante dos planos
diplomáticos estava em que, se d. Pedro concordava com monarquias
constitucionais na América, não tocava no assunto “constituição” ao falar
de Portugal. Pelo visto, estava mesmo disposto a fazer pacto com o próprio
diabo — no caso, com Metternich — para ver a filha no trono português.
Numa tentativa de se aliar ao rei da França, o despótico Carlos X, contra
d. Miguel, d. Pedro imaginou casar d. Maria II com um dos filhos do
monarca francês. A ideia, porém, assim como aquela de se unir à Santa
Aliança, também cairia por terra com a nova revolução que estourou na
França. Carlos X, demonstrando cada vez mais seu viés autoritário, tentara
modificar a constituição do país e acabar com a liberdade de imprensa. Foi
deposto e substituído, por ação do congresso, pelo príncipe Luís Filipe, que
passaria à história como o “rei cidadão”, modelo mais burguês e menos
imperial de governante. Para a presidência do seu Conselho de Estado, Luís
Filipe nomeou o ídolo intelectual de d. Pedro, o filósofo Benjamin Constant.
O imperador brasileiro, em carta a Rocha Pinto, deu vivas à revolução que
havia deposto o tirano, completando: “Faço bem em não deixar de ser
constitucional!” Sem dúvida, se tivesse implementado as ações que
concebera em 1829 — fechar o congresso e mudar a Carta —,
provavelmente teria tido o mesmo destino de Carlos X.
D. Pedro e Benjamin Constant continuavam a se corresponder. O francês
era um dos que, junto com a infanta d. Isabel Maria, achava que o
imperador do Brasil deveria se dirigir à Europa e, de lá, dar combate ao
irmão e entronizar a filha. Isso, segundo Constant, levaria à guerra do
constitucionalismo, vitorioso na América, contra a Europa absolutista.

D. Pedro × Barbacena
Apesar de José Bonifácio ter apoiado a indicação de Barbacena para o
ministério, em substituição ao impopular José Clemente Pereira, o velho
Andrada estranhou o fato de o marquês ter mantido ali Miguel Calmon.
Calmon fora ministro das Finanças na época em que Barbacena e a rainha d.
Maria II encontravam-se na Europa, sendo um dos responsáveis pela
calamitosa política de emissão de moedas sem lastro, pelo que foi
apelidado, à época, de o “maior falsário do Brasil”. Barbacena havia tomado
para si essa pasta, colocando Calmon no ministério do Exterior.
Em meio aos cálculos pelos quais verificava as contas de seu casamento
com d. Amélia, d. Pedro resolveu avançar mais e contabilizar também os
valores destinados à manutenção de d. Maria da Glória na Inglaterra.
Quando Miguel Calmon ainda era ministro da Fazenda, o imperador
ordenou que colocasse à disposição do marquês de Barbacena parte do
dinheiro que o Brasil devia a Portugal pelo tratado de reconhecimento de
1825. Esse dinheiro, enviado a Londres, foi transferido para Caldeira Brant
por meio da legação brasileira na Inglaterra. Agora, d. Pedro queria verificar
a documentação referente às transferências, convocando Calmon para
prestar contas desses documentos. O ministro tergiversou, desconversou e,
por fim, afirmou que explicaria tudo ao imperador de viva voz, sem porém
entregar-lhe nada por escrito. Irritado, d. Pedro o xingou e obrigou a se
demitir do governo, o que foi feito em 26 de setembro.
Se onde há fumaça há fogo, logo d. Pedro voltou-se para Barbacena e
pediu que entregasse a pasta das Finanças, pois conduziria uma auditoria
interna nas contas. Uma vez que a investigação também diria respeito a
Caldeira Brant, ele não poderia continuar com o ministério. D. Pedro pediu
que se tornasse responsável pelo ministério do Exterior, posto vago pela
recente renúncia de Miguel Calmon. A pasta das Finanças seria dirigida,
durante a auditoria, pelo fiel e responsável marquês de Paranaguá.
Ofendidíssimo, Barbacena recusou-se a ir para a outra pasta. Disse a d.
Pedro que havia assumido o ministério das Finanças com grande sacrifício
pessoal e que não queria ir para o do Exterior. Se d. Pedro não o quisesse
mais na pasta em que estava, trocaria o gabinete por sua plantação de cana
na Bahia. Num movimento mais do que suspeito, contudo, pediu que, se
precisasse realmente deixar o cargo, lhe desse mais oito dias nele. O
imperador, temendo que os livros do ministério fossem adulterados, demitiu
sumariamente Barbacena em 28 de setembro. O que se deu então foi
catastrófico para todos os lados. Irritado com sua demissão, registrada por d.
Pedro como se fora “a pedido”, ou seja, como se Barbacena a tivesse
solicitado, o ex-ministro reclamou dizendo que na verdade fora exonerado.
D. Pedro, sem se fazer de rogado, lavrou novo decreto em 30 de setembro
de 1830, no qual explicitou que os motivos da demissão, tornados públicos,
eram para “tomarem-se as contas da Caixa de Londres, examinando-se as
grandes despesas feitas pelo marquês de Barbacena, do Meu Conselho de
Estado, tanto com Sua Majestade Fidelíssima, Minha Augusta Filha, como
com os emigrados portugueses na Inglaterra, e especialmente com o Meu
Casamento”.
Essa ação de d. Pedro levou o marquês a expor publicamente não só os
gastos como todo o problemático processo pelo qual conseguira uma noiva
europeia para o imperador. O que antes só fora tema de conversas de
diplomatas e de sussurros pelos corredores do palácio e repartições passou a
ser de conhecimento geral. Barbacena soltava sua defesa impressa e
escancarava ao Brasil que nenhuma princesa com que d. Pedro tentara se
casar o quisera, só lhe sendo possível conseguir d. Amélia por se ter
flexibilizado a questão relativa ao seu nascimento, uma das quatro
exigências feitas pelo imperador. Desse modo, a imperatriz era mostrada ao
público como mercadoria de segunda linha, o que muito a deve ter
desgostado, pois via Barbacena até então como seu herói. D. Amélia tinha,
assim, uma de suas primeiras desilusões não só com o Brasil, mas também
com os brasileiros.

A libertinagem de imprensa
Evitando acusar o monarca, o que era crime segundo a Constituição, o
marquês afirmou que sua queda fora armada por conselheiros secretos que o
haviam envenenado junto ao imperador. Todos os ministros caídos, desde
os Andrada, sempre culparam alguém — nunca haviam feito nada de
errado. Antes existia a marquesa de Santos como bode expiatório; na falta
desta, eram agora os portugueses, sobretudo os que integrariam o tal
“gabinete secreto”. Apesar de Rocha e Chalaça já não estarem no Brasil
havia meses, a imprensa oposicionista e nativista pegou essa questão e fez
dela um verdadeiro cavalo de batalha, chegando a publicar diversas notícias
falsas acerca do retorno do Chalaça ao Brasil, país em que nunca pisaria
novamente.
Além da perseguição aos portugueses que comporiam o fantasioso
“gabinete secreto”, outra falácia se consolidou após a queda do governo de
Carlos X na França. No Brasil, os jornais passaram a advertir que, se o
“poder” derrubasse a Constituição, seu destino seria igual ao do rei francês.
Logo se cunhou um mote para descrever o sentimento que se espalhava pelo
Brasil: “Viva o imperador, enquanto constitucional.” Isso deveria deixar d.
Pedro irritadíssimo, questionando quanto tempo levaria para o povo e a
tropa fazerem-no jurar novamente a Constituição que ele mesmo concedera
ao país.
A onda xenófoba que assolava o Brasil tinha chegado a seu ápice: naquele
momento, qualquer português era suspeito de qualquer coisa. O Rio de
Janeiro, repleto de exilados portugueses que tinham procurado se salvar
junto de sua soberana, era justamente o local mais perigoso. Os jornais
culpavam-lhes por maquinarem contra o Brasil, alegando que apoiariam d.
Pedro numa pretensa suspensão da Constituição e numa suposta reunião do
país com Portugal. A histeria provocada por uma ameaça imaginária, criada
por uma imprensa oposicionista e descontrolada, teve lances literalmente
trágicos, como o assassinato em São Paulo do médico e jornalista italiano
conhecido como Líbero Badaró.
Badaró era editor do Observador Constitucional, em que ninguém do
governo era poupado, sobretudo d. Pedro I. Na época em que se soube da
queda de Carlos X, os estudantes da Academia de Direito em São Paulo
tomaram a frente das comemorações pela queda do tirano anticonstitucional
francês. Valendo-se de banda de música e tochas, eles cantaram e dançaram
madrugada adentro, celebrando a nova revolução vinda da França. Quem
não gostou muito disso foram as autoridades constituídas. O ouvidor da
comarca,298 Cândido Ladislau Japiaçu, processou alguns dos estudantes, que
foram defendidos por Badaró no jornal: o editor chamava o ouvidor de
Caligulazinho.
Líbero Badaró acabou sendo assassinado por conta de suas opiniões
políticas. Às dez horas da noite de 20 de novembro, foi alvejado próximo de
sua residência, na rua Nova de São José.299 Dias depois, falecia tendo nos
lábios a famosa frase: “Morre um liberal, mas não morre a liberdade.” Para
a história do Brasil, ele entrou como o patrono dos jornalistas. Antes de
morrer, no entanto, teria reconhecido que aqueles que o haviam cercado e
alvejado eram alemães, o que a opinião pública logo interpretou como
acusação aos “mercenários” em vias de serem expurgados do exército.
Contra eles também falavam agora os militares brasileiros, que achavam
injusto que seus colegas estrangeiros recebessem salários maiores.
Para completar a situação, o desembargador Japiaçu foi apontado como
mandante do crime. Enviado ao Rio de Janeiro para ser julgado, porém,
seus pares o inocentaram por falta de provas.
Antes do recesso da Assembleia, os deputados cobraram do governo
explicações acerca do que fora feito com a encomenda de armamento
aprovada pelo ex-ministro interino do Exército em fins de 1829. A suspeita
de que o governo planejava um golpe contra a Constituição e a Assembleia
era cada vez maior. Por outro lado, os deputados haviam assumido uma
nova palavra de ordem no segundo semestre de 1830: o federalismo.
Conferir maior poder regional às províncias era uma forma de escapar das
ordens diretas do governo central. Por outro lado, não só d. Pedro, mas
também diversos políticos e jornalistas achavam isso uma temeridade, um
passo rumo à desintegração nacional.

Viagem a Minas Gerais


No meio de tantos distúrbios e do mal-estar generalizado criado pela
política e pela imprensa ao redor de d. Pedro, o imperador decidiu
empreender, no final do ano, uma viagem de três meses para Minas Gerais,
província que concentrava o maior número de políticos favoráveis à
federalização do Brasil. Talvez recordando que sua presença em Minas e em
São Paulo, anos antes, fora suficiente para restaurar a ordem, achou que
agora conseguiria fazer o mesmo.
Uma voz, porém, teria surgido para alertá-lo do quanto o trono havia se
distanciado do povo — ao menos se tomarmos a carta em questão por
legítima. Sem um pingo de polidez ou diplomacia, o marquês de Barbacena,
ao tomar conhecimento do projeto de d. Pedro de deixar a capital e seguir
para Minas, lhe escreveu em 15 de dezembro:

Senhor. O momento de uma crise está mui próximo, e eu temo que V.M.I. iludido por uma
facção, como acaba de acontecer a Carlos X, não evite o abismo em que pode sepultar-se a si,
ao trono, e à família imperial. [...] Estamos nas vésperas dela [da revolução], mas V.M. ainda
pode sustar semelhante calamidade, suspendendo a sua viagem para Minas, e tomando desde já
nova atividade e outro norte; mude de sistema e identifique-se com os brasileiros; separe de
junto de sua pessoa, e de sua casa, essa quadrilha de portugueses, que o tornam inimigo da
nação; praticando isso com sinceridade e firmeza, V.M. suspenderá a resolução, e pouco a
pouco recuperará as afeições do povo [...]. Se, porém, V.M., prosseguindo na carreira que
atualmente trilha, hostil à nação, e instrumento cego de uma facção inimiga do Brasil, persistir,
todavia, em realizar a viagem a Minas, talvez nunca mais volte ao Rio de Janeiro, e é esse o
menor mal que prevejo. Um dos tios avós de V.M.I. acabou seus dias em uma prisão em Cintra.
V.M.I. poderá acabar os seus em alguma prisão de Minas a titulo de doido, e realmente só um
doido sacrifica os interesses de uma nação, da sua família, e da realeza em geral, aos caprichos
e seduções de criados caixeiros portugueses [...]. Ainda há tempo, senhor, de manter-se V.M.I.
no trono, como o deseja a maioria dos brasileiros, mas se V. M. indeciso, continuar com as
palavras de constituição e brasileirismo na boca, a ser português e absoluto de coração, neste
caso a sua desgraça será inevitável, e a catástrofe que praza a Deus não seja geral, aparecerá em
poucos meses; talvez não chegue a seis [...].300

Além do vaticínio sobre a tormenta que estava para se abater sobre o


imperador, Barbacena permanecia culpando o gabinete secreto, isto é, a
camarilha de cortesãos portugueses que aconselhavam d. Pedro. Continuava
jurando fidelidade ao imperador, mas disse que, por d. Pedro tê-lo impedido
de escrever em jornais, havia sido obrigado a lançar o panfleto em que se
defendeu das acusações. Do mesmo modo, afirmou que todas as suas contas
já haviam sido revisadas e aprovadas pelo imperador.
D. Pedro não se deixou influenciar por Barbacena, a quem havia
declarado inimigo, proibindo qualquer amigo ou criado seu de visitá-lo.
Assim, partiria para Minas com d. Amélia, que no futuro se lembraria com
desgosto da viagem. Apesar de ser bem recebido pelo governo, o povo não
lhe fez a festa que imaginara. Pelo contrário: após retirar-se o imperador, as
casas que o hospedaram foram apedrejadas, enquanto as pessoas que o
tinham cortejado eram apupadas nas ruas. Ao longo da viagem, várias das
cidades em que ele chegava celebravam as exéquias de Líbero Badaró, com
os sinos dobrando o toque de finados o dia inteiro.
Em Ouro Preto, d. Pedro discursou para a multidão diante do antigo
palácio dos governadores. A fala praticamente resumiu-se a uma
proclamação antifederalista, recebida com frieza pela população local. A
viagem estava sendo um fracasso. D. Pedro sentiu na pele o quanto ele e
seus súditos haviam se distanciado. Provavelmente lhe deve ter passado
pela cabeça como havia sido recebido, em 1822, tanto em Minas Gerais
quanto em São Paulo, bem como o modo como tudo aquilo havia ficado
para trás.
Em vez de retornar ao Rio de Janeiro no dia 17 de março, como previsto,
já no dia 11 chegou ele à Quinta da Boa Vista. O embaixador francês
noticiou a seu governo que, ao procurá-lo no palácio para lhe dar as boas-
vindas, notou na fisionomia do imperador a perturbação gerada pela
viagem, assim como o descontentamento e as preocupações. Em meio a
todo esse mal-estar, avistava-se novamente com sua irmã, a infanta d. Ana
de Jesus, agora marquesa de Loulé. No ano anterior, em outubro de 1830,
chegara-lhe uma carta dela para d. Pedro informando que estava grávida
novamente e que gostaria de que ele e a rainha de Portugal, d. Maria II,
como padrinhos da criança. De pronto, o irmão mandou chamá-la ao Brasil,
tirando-a do exílio em que se encontrava na França.
O jornal O Repúblico de 5 de março perguntou, com um misto de ironia e
insolência:
Que sereníssima senhora infanta foi uma que veio de Toulon, com 49 dias de viagem, da qual
nos dá notícia o Diário do Rio? É a pergunta que todos se fazem mutuamente, pois desejam
saber que personagem é essa, e a que família pertence, e também se possível fosse, onde está.
Mas, com essa sereníssima chegou também o senhor de Loulé com sua família. Ouvi que se
deram salvas à chegada do senhor marquês, porque é cunhado do Imperador: mas quem pagaria
a pólvora? O marquês seu cunhado ou a nação?

Garrafadas
Em 11 de março, membros da corte e da comunidade portuguesa do Rio de
Janeiro comemoraram a chegada de d. Pedro à cidade. Com foguetes,
bombas, fogueiras e girândolas, os portugueses passaram a provocar os
brasileiros, dando vivas ao imperador. A isso, se lhes respondiam os
nativistas: “Viva a Constituição!”, ou ainda “Viva d. Pedro II!”. Os donos
de imóveis que não ostentavam luzes festivas nas janelas eram intimados
por bandos de portugueses a aderirem à festa.
Duas facções, a dos nativistas e a dos portugueses, logo passaram a se
confrontar — inicialmente, com insultos, logo convertidos em ações físicas.
Os brasileiros foram expulsos da rua da Quitanda, no centro do Rio, debaixo
de garrafadas, atiradas pelos portugueses do alto de seus sobrados. Os
distúrbios duraram três dias, alimentados como foram pela imprensa e pelos
políticos. Somente no dia 15 a polícia entrou em ação. Entre os presos,
encontravam-se jovens oficiais brasileiros que tinham se envolvido em
brigas contra os portugueses, o que agravou ainda mais a situação.
No dia 17, d. Pedro e d. Amélia finalmente foram até a cidade: para um
Te Deum na Capela Imperial, em ação de graças pelo bom retorno da
viagem a Minas. A aparição do imperador encorajou ainda mais os
portugueses, que viam nele seu defensor. Os lusos se acercaram do casal,
que foi recebido por mais de cinquenta cavaleiros portugueses vestidos em
uniformes de gala e dando vivas. Os nativistas presentes, por outro lado,
gritavam em resposta: “Viva a federação!” Após a missa, houve beija-mão
no Paço da Cidade. Tanto na igreja quanto no palácio, poucos brasileiros
importantes apareceram, e a falta de membros do exército foi notável.

Ultimato
No dia seguinte, o padre Custódio Dias, deputado por Minas Gerais, foi à
Quinta da Boa Vista entregar ao imperador uma petição. Esta era
encabeçada pelo senador Vergueiro e assinada por 23 deputados e exigia a
punição dos estrangeiros que tinham perturbado a ordem pública nos dias
anteriores, atacando os brasileiros sob o pretexto de serem federalistas.
Segundo o barão Daiser, ministro austríaco que substituíra Mareschal na
corte do Rio de Janeiro, d. Pedro “teve tal impressão que se sentiu
indisposto”.
Na petição, os parlamentares não apenas exigiam que fosse feito algo a
respeito dos portugueses, mas ainda deixavam claro que, se o governo nada
fizesse, interpretariam tal atitude como claro sinal de que os brasileiros
deveriam vingar eles mesmos as afrontas e crimes cometidos. “A ordem
pública, o repouso do Estado, o trono mesmo, tudo está ameaçado se a
representação [...] não for atendida e os seus votos completamente
satisfeitos.”
Uma tentativa de reconciliação
Após a viagem a Minas e seu retorno a uma cidade dividida, d. Pedro havia
perdido a certeza de que sua presença ainda era capaz de magnetizar as
massas. Devido ao desgaste de sua imagem, ele não exercia mais o fascínio
dos anos anteriores. Havia também perdido completamente o senso de
governo. Era preciso ser um liberal de fato — não apenas no plano
filosófico, no plano das ideias. Porém, d. Pedro também era alguém que
detestava parecer fraco: como afirmou o historiador Otavio Tarquínio de
Souza, tratava-se de um homem presunçoso, obstinado e voluntarioso.
Tinha desprezo por ceder, transigir. Em vez de escolher um ministério de
reconciliação nacional, escolhendo ao menos algum nome dos que
encabeçavam a petição enviada no dia 18, d. Pedro, para não perder o
hábito, derrubou o gabinete e constituiu um novo. Dessa vez, todos os
ministros escolhidos eram brasileiros, mas nenhum daqueles que se
encontravam nos postos-chave inspirava confiança no povo, nos políticos e
na imprensa.
Aquela foi uma medida completamente inócua para a crise, mas outras
deram alguma sobrevida ao Primeiro Reinado: Francisco de Lima e Silva,
homem de confiança dos liberais e nativistas, foi recolocado no posto de
comandante das Armas da Corte; todos os oficiais brasileiros aprisionados
durante os distúrbios foram libertados; e, por ofício enviado ao conde de
Sabugal, chefe de governo de d. Maria II, mandou que o governo português
no exílio chamasse os súditos da rainha à ordem. Os portugueses retornaram
para seus navios e residências.
Enquanto jornais como o Diário Fluminense de 23 de março
conclamavam os brasileiros “dignos desse nome” a se unirem ao trono e ao
imperador, relembrando em vão tudo o que d. Pedro havia feito pelo Brasil,
outros como O Repúblico afirmavam que o monarca estava mais para Pedro
IV do que para Pedro I, convocando o povo a lutar contra os portugueses.

“Viva d. Pedro II!”


Nesse clima, chegou-se a 25 de março, dia em que d. Pedro havia outorgado
a constituição ao Brasil. Tratava-se de data festiva nas cidades brasileiras,
sobretudo na sede do poder, o Rio de Janeiro. Ali, haveria parada militar no
Campo de Santana, o que atraiu grande multidão como de costume.
Nenhum entusiasmo, porém, foi demonstrado com a chegada do imperador
ao local, exceção feita à manifestação de júbilo de uns tipos malvestidos,
um bando de vagabundos pagos para saudá-lo. O asco de d. Pedro ao ver a
cena foi tão forte que dispersou-os com o chicote estalando no ar. Outro
grupo, esse formado por cerca de quarenta jovens, postou-se próximo do
imperador durante a parada e deu constantes vivas à independência, ao
Brasil, à Constituição e, é claro, ao imperador “enquanto constitucional”.
Enquanto isso, o restante da multidão vaiava ou aclamava os diversos
batalhões que desfilavam de acordo com a tendência destes serem pró ou
contra o governo.
Ao chegar à tribuna do desfile, onde não encontrou mais nem o
imperador, nem parte da comitiva imperial, o barão Daiser foi conversar
com d. Amélia, que parecia aflita. Por ela, tomou conhecimento de que,
pouco antes do final da parada, o novo ministro do Exército, general
Morais, dissera ao soberano que estava indo ao Te Deum que haveria na
igreja de São Francisco de Paula. Os liberais tinham promovido a cerimônia
em comemoração à Constituição. D. Pedro afirmou que não iria pois não
fora convidado, mas o general aconselhou-o a ir.
A falta de convite não era um lapso, mas uma desfeita proposital:
buscavam humilhá-lo. O imperador, entretanto, talvez na tentativa de provar
que ainda era adepto do constitucionalismo e que desconhecia o significado
da palavra medo, resolveu impor sua presença. Pegou seu cavalo e dirigiu-
se à praça, onde hoje se ergue uma estátua em homenagem a José
Bonifácio, no centro do Rio. D. Pedro ainda era um belo homem e
conservava o porte marcial. Era alto para a média da época, forte; embora a
gordura já começasse a preencher seu rosto, pernas e quadril, continuava a
se impor por onde passava. No uniforme bem talhado e asseado, parecia
imponente ao desmontar do cavalo.
Não lhe faltou calma e sangue-frio ao entrar na igreja. Um cidadão tomou
sua mão para beijar e exclamou: “Viva o Imperador, enquanto for
constitucional!”, ao que d. Pedro respondeu: “Sempre fui e hei de dar
provas de o ser, e tanto que sem me convidarem para a função aqui
estou.”301 Cumprimentando as pessoas, abriu alas e foi logo atrás das folhas
verdes e amarelas que estavam sendo distribuídas, a fim de identificar os
nacionais. Ao se aproximar do altar-mor, dirigiu-se aos que haviam
idealizado a cerimônia e, como se desculpasse, afirmou ter ido sem ser
convidado. Argumentaram que só brasileiros haviam sido chamados, ao que
ele teria retrucado: “E eu também não sou brasileiro?”302 Todos se calaram.
O frei Francisco do Monte Alverne, membro de sociedades secretas e
liberal em altíssimo grau, fez o sermão, que teve ares de comício público.
Entre suas afirmações, estava a de que o povo não havia combatido pela
escolha de um senhor. Falou também que o Brasil e os brasileiros não mais
aceitariam “ministros ineptos ou tirânicos, que tornaram odiosa a autoridade
real”. No final, dirigindo-se a d. Pedro, exclamou: “Um anátema de
execração fulmine aqueles que, pregando a doutrina do absolutismo,
apagam os brasões de vossa glória.”
A saída de d. Pedro foi um pouco mais tumultuada do que a entrada.
Pessoas exclamavam à sua passagem: “Viva o Imperador enquanto
constitucional!”, ao que ele retrucava: “Fui, sou e sempre serei
constitucional.” Se, porém, diziam: “Viva d. Pedro II!”, respondia: “É ainda
criança!”
Os ministros da França e da Áustria relataram, em seus respectivos
despachos, que à saída da igreja d. Pedro foi detido pelo braço por um
homem que, após encarar o imperador, perguntou se ele agora estaria
disposto a governar conforme a Constituição. D. Pedro, aturdido e pasmo
diante da audácia do cidadão, respondeu sem titubear que nunca tivera outra
intenção. O homem soltou-o e disse que, “nesse caso, Senhor, podeis contar
com o nosso amor e fidelidade”. A multidão que assistiu à cena, extasiada
pela resposta do imperador, correu para lhe dar mais folhas verdes e
amarelas e para ajudá-lo a subir em seu cavalo. A ânsia por ajudar foi tanta
que d. Pedro quase se viu jogado do outro lado da sela.
Ao voltar ao Campo de Santana, e procurando esconder a profunda
impressão que toda a cena da igreja causara em seu íntimo, relatou a todos o
ocorrido. Apesar da voz firme e do modo como narrava a ocasião em que a
multidão quase o vitimara ao alçá-lo ao cavalo, seu rosto pálido, suas
feições desfeitas e o olhar de espanto traíram-no.
Razão × paixão
Ocorria uma verdadeira inversão de critérios. D. Pedro havia de fato
pensado em mudar a Constituição em 1829, mas fora dissuadido por seus
conselheiros. Naquele momento, quem queria mudar alguma coisa eram os
deputados, que desejavam acabar com a centralização do poder mediante a
federalização do Brasil, o que, no entender do imperador, ia contra a
Constituição que todos haviam jurado. No entanto, os políticos e jornalistas
colocavam-se como guardiões da legalidade e vendiam essa imagem à
população, ao mesmo tempo que pintavam d. Pedro como traidor. Se, em
1829, o imperador já concebera ter de depender de tropas estrangeiras para
derrubar a Constituição e criar outra, depois do que presenciara no Campo
de Santana, com os batalhões que estavam ao lado do povo sendo
ovacionados, não tinha qualquer ilusão de que poderia contar com o
exército para algo. Mesmo assim, achou que talvez pudesse fazer algo com
a chegada de um batalhão de tropas ligeiras que vinha de Santa Catarina,
não contaminado com os ares políticos do Rio.
Na Sexta-Feira Santa, em 1o de abril, d. Pedro e a corte assistiam à
procissão do Paço da Cidade enquanto, no quartel de artilharia próximo ao
local, o editor do jornal O Repúblico distribuía a nova edição do jornal aos
soldados, dizendo falsamente que mais brasileiros haviam sido mortos por
portugueses. Estando já o ar envenenado, a verdade e a mentira se resumiam
mais à paixão do que à razão. As informações, portanto, acabaram por
chegar ao povo nas ruas, que passou a murmurar contra o imperador. Ao
passarem diante do balcão onde estava d. Pedro, os homens não tiravam
mais os chapéus em sinal de respeito. As tropas falavam em pegar as armas
e depor o tirano ali mesmo. Francisco de Lima e Silva interveio, apaziguou
os oficiais e convenceu d. Pedro a retornar para a Quinta da Boa Vista.
No dia seguinte, lá estava O Repúblico novamente nas ruas, conclamando
o povo contra d. Pedro. No domingo, novas brigas entre os brasileiros, que
os provocaram, e os portugueses encheram o dia. Outras manifestações
contra o “tirano” tiveram lugar; casas residenciais e comerciais de
portugueses foram invadidas e depredadas, e qualquer um que parecesse ser
fiel a d. Pedro era agredido.
A última festa do Primeiro Reinado
O Brasil parece fadado a sofrer golpes de estado após festas grandiosas. Se
muito é lembrado o Baile da Ilha Fiscal, que marcou o final do Segundo
Reinado, pouco comentado é o último grande acontecimento social do
Primeiro: o aniversário da rainha d. Maria II.
O imperador, perdido ou imprudente, resolveu comemorá-lo em 4 de
abril, realizando um beija-mão à menina no seu palacete, antiga residência
da marquesa de Santos. Lá compareceram a corte portuguesa da rainha-
menina, os diplomatas estrangeiros e os demais súditos de Portugal. Com os
tumultos que estavam acontecendo entre os brasileiros e os portugueses,
uma comemoração puramente lusitana era um despropósito e só irritaria
ainda mais os nativistas.
Além da rainha, também estavam ali o príncipe d. Pedro, com 5 anos de
idade, e as demais princesas. Toda a corte, brasileira e portuguesa, enfim
reunia-se para saudar a rainha de Portugal na casa da ex-amante do
imperador do Brasil. Mais insólito que isso, só mesmo a falta de bom senso
de d. Pedro.
Após o concerto, foi servida uma ceia, quando então um ajudante de
ordens invadiu o palacete procurando pelo imperador. A cidade estava
novamente em revolta; novos assassinatos ocorriam. D. Pedro, que até então
estava animado, levantou-se sobressaltado e foi à caça dos ministros da
Justiça e da Guerra, a quem atacou duramente. Não haviam eles dito que
todas as providências tinham sido tomadas e que a cidade estava em ordem?
Como então estava ardendo? D. Pedro pegou ambos pelo braço e tentou
fazer com que tomassem alguma atitude, mas foi por eles informado de que
não havia mais o que ser feito.
Logo, um novo ajudante de ordens chegaria informando que a situação
piorara. Todos os diplomatas esperavam alguma atitude de d. Pedro, que,
porém, estava quieto e nada dizia. Foi nesse momento que o general conde
do Rio Pardo, ex-ministro do Exército, se aproximou e disse que estava ali
para derramar seu sangue pelo soberano, mas que as coisas não poderiam
continuar como estavam. Pediu então que d. Pedro tomasse alguma decisão,
ao que o imperador o autorizou a despachar patrulhas para os cruzamentos
dos caminhos que ligavam a cidade a São Cristóvão, a fim de que os
insurretos não os pegassem desprevenidos.
Os embaixadores foram unânimes em achar que d. Pedro havia perdido o
espírito. Ele não conseguiu tomar nenhuma decisão rápida que pudesse dar
segurança tanto a eles quanto à cidade. O embaixador austríaco,
aproximando-se da dama de companhia da imperatriz Amélia, a baronesa
Sturmfeder, tentou convencê-la a tentar algo junto aos soberanos, a fim de
que o imperador se resolvesse a alguma atitude: “Pelo amor de Deus, tome
o imperador alguma decisão firme; ele é ainda mais forte do que acredita.”
A baronesa, incrédula, respondeu: “Tendes certeza?”, ao que o diplomata
retrucou: “Não há tempo para perder e em caso algum as coisas podem
piorar com um ato de coragem.” Por fim, a cidade voltou a aquietar-se e
todos puderam retornar para suas respectivas casas.

O 7 de abril
No dia seguinte, d. Pedro demitiu novamente o ministério e convocou outro,
que ainda continuaria longe de lograr a reconciliação nacional esperada —
sobretudo por haver nele dois ministros nascidos em Portugal. No dia 6, os
líderes liberais e nativistas começaram a convocar o povo para as ruas, mas
o local de ajuntamento escolhido foi o Campo de Santana, uma vez que o
editor de O Repúblico e os mais radicais se haviam estabelecido próximo ao
Paço da Cidade.
Por volta da uma hora da tarde, já havia no local umas seiscentas pessoas;
às três horas, duas mil; e, às cinco, quatro mil. À medida que o dia findava,
a multidão ia crescendo. No início da noite, chegaram os militares do
quartel de artilharia próximo. Ciente do ajuntamento, d. Pedro enviou uma
proclamação a ser lida na praça: dizia ao povo que se acalmasse, que nunca
deixaria de ser constitucionalista e que continuaria mantendo a
Constituição. Também pedia que confiassem nele e em seu gabinete.
A proclamação foi feita em pedaços, enquanto a multidão exigia que d.
Pedro reintegrasse o antigo ministério. Uma delegação de juízes paroquiais
foi enviada à Quinta da Boa Vista com o intento de passar a mensagem do
povo ao imperador. Às sete da noite, d. Pedro recebeu-os e, polidamente,
explicou que estava dentro de seu direito constitucional demitir e nomear
ministros e que, se ele permitisse que o povo se imiscuísse em suas
escolhas, não estaria apenas indo contra a Constituição jurada, mas também
deixando de ser o representante dos interesses permanentes da nação e
tornando-se mero instrumento na mão da maioria. Foi então que pronunciou
a frase que é até hoje deturpada: “Tudo farei para o povo, mas nada pelo
povo.” Ao ser transmitida pelos juízes a fala do soberano, a multidão pediu,
aos gritos, “morte ao tirano”.
Às onze da noite, a maior parte das unidades do exército já estava com o
povo. Francisco de Lima e Silva enviou ao imperador seu ajudante de
ordens, a fim de dizer-lhe que não haveria mais como dispersar a multidão.
Aconselhou d. Pedro a não demorar muito para fazer o que o povo exigia,
pois o risco de os radicais guiarem a massa para derrubarem a monarquia
era grande. Para completar o quadro, o batalhão do imperador havia
desertado de São Cristóvão, bem como a artilharia a cavalo. O palácio
encontrava-se totalmente desprotegido.
D. Pedro, tentando uma última cartada, mandou um oficial procurar o
senador Vergueiro e levá-lo para São Cristóvão. Pretendia convidá-lo para
formar um novo governo. Enquanto isso, permaneceu em uma das salas do
palácio com d. Amélia, os ministros, membros do corpo diplomático
estrangeiro e o ajudante de ordens de Lima e Silva. Esperaria um tempo
razoável pela resposta do senador, se é que este se deixaria ser encontrado.
Estava disposto a abdicar. Para os embaixadores, argumentou que todos os
que haviam nascido no Brasil estavam no Campo de Santana, contra ele.
Não o queriam como governante porque era português e,
independentemente do que fizesse, sempre tentariam se livrar dele de
alguma maneira. D. Pedro acreditava, não sem razão, que o filho, o futuro d.
Pedro II, levava a vantagem sobre o pai por ter nascido no Brasil.
Eram quase três horas da madrugada do dia 7 quando o oficial retornou
dizendo que não havia conseguido encontrar o senador Vergueiro em canto
algum. D. Pedro retirou-se da sala para o escritório e retornou logo depois,
com um pedaço de papel em que se lia:
Usando do direito que a Constituição me concede, declaro que hei muito
voluntariamente abdicado na pessoa de meu muito amado e prezado filho,
o sr. d. Pedro de Alcântara. Boa Vista, sete de abril de mil oitocentos e
trinta e um, décimo da independência e do Império.
Pedro.303

Aclamação de d. Pedro II.

293 Diário do Rio de Janeiro, n. 8, 10/dez/1829, p. 29.

294 Arquivo Histórico do Museu Imperial, II-POB-06_02_1830-MI.P.c.

295 Engravidar.

296 José Egídio Álvares de Almeida, marquês de Santo Amaro.

297 DESPACHO 21 abr. 1830, AHI 316/01/12. Instruções de Miguel Calmon du Pin e Almeida..., apud
Cadernos do CHDD, ano VII, n. 12, pp. 120-6.

298 Corregedor.

299 Atual rua Líbero Badaró.

300 AGUIAR, Antônio Augusto de. Vida do marquês de Barbacena, pp. 803-10.

301 O repúblico, 30 de março de 1831.

302 MONTEIRO, Tobias. História do Império: o Primeiro Reinado, vol. 2, p. 198.

303 Arquivo Histórico do Museu Imperial, III-DMI-07.04.1831-PI.B.C.


Parte III
Europa – 1831-1834
França

AMPARADO PELOS embaixadores da França e da Inglaterra, d. Pedro


conseguiu asilo em navios estrangeiros ancorados na baía de Guanabara.
Pontois, diplomata francês que passara a madrugada toda em São Cristóvão
com o imperador, deixou-nos uma lembrança do que viu:
[...] Vimos simultaneamente o doloroso quadro do poder descaído, o nobre espetáculo da
resignação e da coragem na desgraça, pois o imperador [...] soube melhor abdicar do que reinar.
No decurso dessa noite inolvidável para quantos a testemunharam, o soberano se ergueu acima
de si próprio e mostrou constantemente uma presença de espírito, uma firmeza e uma dignidade
notáveis, provando o que esse desditoso príncipe teria podido ser com uma educação melhor e
com mais nobres exemplos sob as vistas.304

D. Pedro estava calmo — provavelmente, porque já havia acalentado a ideia


da abdicação em 1829: primeiro, quando imaginou que teria que arrumar
uma noiva na Europa por conta própria, sem a autorização da Assembleia;
depois, pouco antes do dia 7 de abril, durante uma discussão com o
Conselho de Estado. Segundo as memórias do visconde de São Leopoldo:
[...] Em sessão do conselho de Estado, correndo mais viva a discussão, e com o devido respeito
dando-se a entender que o próprio imperador havia dado causa aos males que se previam
iminentes, instou Sua Majestade para que se explicassem francamente; pelo que o marquês de
Caravelas, tomando a palavra, mostrou os ressentimentos que contra ele havia. Então o
imperador prorrompeu em uma exposição enérgica e tocante dos sacrifícios que fizera pelo
Brasil, recordando com emoção a morte de seu filho d. João Carlos e concluído, que estava
decidido a retirar-se, e fazia votos para que aqui fossem felizes e se regessem em paz.305

D. Pedro partiu logo pela manhã com d. Amélia, d. Maria II, sua irmã e o
genro, os recém-chegados marqueses de Loulé; acompanharam-no também
alguns cortesãos, poucos funcionários, uns soldados brasileiros ainda fiéis e
seu médico pessoal, João Fernandes Tavares. Quando saíra da Quinta da
Boa Vista em direção à praia de São Cristóvão, onde embarcariam, uma
grande comitiva de servidores e escravos seguiu as carruagens que
conduziam seus amos. A guarda da marinha inglesa por pouco não teve que
usar de força para impedir que uma multidão de negros invadisse o bote que
levava d. Pedro. Sem o imperador, as sucessivas regências nada fariam pelo
problema da escravidão no Brasil. No mesmo ano da abdicação, em
novembro, por pressão da Inglaterra, o governo brasileiro criou a lei Feijó,
que daria caça aos navios negreiros, conforme estipulado no tratado
assinado por d. Pedro em 1826. Essa, no entanto, seria uma lei para “inglês
ver”: somente na década de 1850, com a Lei Eusébio de Queiroz, o
problema do tráfico seria efetivamente atacado.

A preocupação com os filhos


Assim como seus escravos e serviçais, os filhos de d. Pedro ficariam no
Brasil, mas só saberiam da partida do pai e da madrasta quando
despertassem. D. Pedro não acordou as crianças para se despedir. De que
adiantaria o susto de acordar no meio da noite e saber que ficariam órfãos?
Ele passou pelos quartos das meninas e do garoto. Deve ter observado o
filho de cinco anos dormindo a sono solto, tranquilo, e pensado que era
melhor deixá-lo. Talvez se tratasse do último sono em paz daquele que fora
dormir criança e acordaria imperador.
As filhas, as princesas d. Paula Mariana, d. Francisca e d. Januária, seriam
deixadas como “time reserva”. Nas anotações feitas por d. Pedro ainda a
bordo do navio Warspite, ancorado na baía de Guanabara, percebe-se o
embate entre o pai e o estadista. Como pai, não queria ele ficar longe de
todos os filhos, que amava terna e carinhosamente; como chefe de sua
dinastia, contudo, sabia que tratava-se de medida necessária. Se o futuro d.
Pedro II falecesse, as irmãs, ao permanecerem no Brasil, continuariam
herdeiras do trono, garantindo, na falta do menino, a sucessão para os
Bragança. De todo modo, a luta do dinasta com o pai foi grande: sucessivos
são os rascunhos em que ele ora manda deixar uma filha e trazer as outras
ao navio, a fim de partir com elas para a Europa, ora ordena que deixem
duas, para partir apenas com uma. Mesmo no dia 7, quando os
embaixadores estrangeiros foram à embarcação, d. Pedro solicitou que
tentassem, junto à Assembleia brasileira, que as filhas lhe fossem
devolvidas; acabou, porém, por deixar todos no Brasil.
Também no dia 7, mal chegado a bordo, pediu a José Bonifácio que
assumisse a tutoria das crianças. Assim que recebeu a nota em que o velho
Andrada agradecia a lembrança e confiança de d. Pedro, de quem aceitava o
encargo, o ex-imperador fez um decreto retroativo, fazendo constar que fora
emitido antes de sua renúncia — caso contrário, seria invalidado. A
Assembleia concordou com a nomeação do Andrada, o que deve ter dado
algum descanso a seu coração de pai.
Essas e outras passagens da tempestuosa saída de d. Pedro podem ser
analisadas em um livro de anotações escritas pelo ex-imperador e
organizadas sob o título de Miscelânea. O volume encontra-se, hoje, no
Arquivo do Museu Imperial, em Petrópolis. As anotações que ali figuram
foram todas feitas a bordo do navio. Nelas existem rascunhos de despachos
e decretos, cópias de cartas expedidas e recebidas, além de contabilidades e
desabafos, como a anotação que surge logo após a questão da tutoria de José
Bonifácio:
Este decreto não apareceu senão depois do ato da abdicação ao qual procedi pelas 3 ½ horas do
dia 7, porque naquela ocasião não havia remédio senão obedecer aos rogos da força armada, e
de uma populaça em anarquia, que queria o ministério que eu tinha demitido por incapaz, e por
desconfiar que fazia-se traidor, ou então abdicar para salvar a honra e não ferir a constituição
naquela parte em que me era concedido nomear e demitir livremente o ministério de Estado.
Tomei o expediente de abdicar e deste modo, pondo defronte todas as considerações, salvei a
minha honra, que prezo acima de tudo.

Preparando a partida
Entre os dias 6 e 7 de abril, em meio à abdicação e às inúmeras visitas e
decisões que teve que tomar a bordo do Warspite, d. Pedro não deve ter
dormido nada. Já estava há mais de vinte e quatro horas desperto, e outras
tantas teria ainda pela frente. Passados os primeiros instantes de emoção, a
razão e o raciocínio lógico passaram a nortear as ações do ex-imperador.
Do navio, começou a despachar para terra ordens de embarque, venda ou
doação de seus bens. Cobrava dívidas, vendia ações, ordenava o que deveria
ser embarcado, vendido, doado ou transferido aos filhos. Porque ia para o
exílio, precisava de dinheiro e contabilizava de carruagens aos mais ínfimos
centavos.
Seus recursos provinham da dotação do governo e das propriedades
produtivas que deixava, como a fazenda de Santa Cruz. Ao mesmo tempo,
não podia deixar os filhos desamparados. Meticuloso, trabalhou a bordo
para fechar as contas da Casa Imperial até o dia 27 de dezembro do ano
anterior, quando partira para Minas Gerais. Não era mesquinho, contudo:
perdoaria algumas dívidas e ainda doaria casas, sítios e propriedades para os
amigos e os servidores leais que permaneciam no Brasil. Também era
cobrado por dívidas que por ora não pagaria, embora as anotassem para
serem saldadas quando pudesse — alguns de seus credores só viram o
dinheiro após sua morte. Cobrou também o novo governo, chefiado por uma
regência trina provisória, por aquilo que ainda lhe deviam.

“Um bocadinho de cabelo”


No meio de todos esses cálculos, o ex-imperador recebeu cartas dos filhos
que haviam permanecido no palácio. De d. Pedro II recebeu duas, logo em 7
de abril — uma incompleta, com letra de criança, e outra com uma
caligrafia melhor e mais firme, que explicava a primeira:
Meu pai e meu senhor

Principiei a escrever a V.M.I. pela minha própria letra, mas não pude acabar, entrei a chorar a
tremer-me a mão pude, remeto para prova de minha verdade o princípio que tinha feito. Eu,
todos os dias rogarei ao céu pelo melhor dos pais que uma desgraça tão cedo me fez perder,
sempre serei obediente filho e seguirei os ditames de meu augusto pai. Beijo as mãos de V.M.I.
como obediente filho. Pedro P.S. Os meus criados beijam a mão de V.M.I. com o maior respeito
e saudades.

No outro bilhete, esse sim com a letra infantil de d. Pedro II, além de
marcado com borrões nas palavras “pai”, “saudades” e “Pedro”, provocados
pelas lágrimas da criança, está escrito: “Meu querido pai e meu senhor.
Tenho tantas saudades de V.M.I e tanta pena de não lhe beijar a mão. Com
obediente e respeitoso filho Pedro. Peço a V.M. um bocadinho de cabelo de
V.M.I.”
Já que não veria mais o pai, que ao menos este deixasse um chumaço de
seu cabelo para que o principezinho de cinco anos tivesse dele alguma
recordação.
Apesar da tutoria de José Bonifácio, diversos seriam os servidores que se
transformariam em espiões de d. Pedro I no paço, dando conta de como
estavam os filhos durante seu exílio na Europa.

De volta à Europa
Enquanto isso, a paciência dos ingleses — que viram sua nau capitânia no
Rio de Janeiro virar um escritório de negócios, com ações sendo vendidas
pelos agiotas e financistas que iam e viam para tratar de negócios com d.
Pedro — estava terminando. O mesmo acontecia com a paciência dos
nativistas no Rio de Janeiro. Boatos já se espalhavam de que tropas inglesas
e francesas se preparavam para desembarcar e reconduzir, junto com os
portugueses que haviam permanecido em terra, d. Pedro ao trono. Por conta
disso, a comunidade lusitana no Rio passou a ser ameaçada de extermínio.
O almirante britânico, no intuito de salvaguardar a colônia portuguesa no
Rio de Janeiro, passou d. Pedro e a comitiva para o navio Volage. O
Warspite ficaria para ajudar a garantir a ordem na capital do império
brasileiro.
D. Pedro partiu com d. Amélia e sua comitiva em 13 de abril. A filha, d.
Maria II, a irmã e o cunhado, os marqueses de Loulé, foram instalados no
navio francês La Seine, que ainda ficaria mais uma semana no Rio. O
comandante francês do navio que levaria a rainha portuguesa exilada, bem
como diversos de seus compatriotas lusitanos, recebera expressamente de d.
Pedro a ordem de não deixar que a filha desembarcasse em alguma das ilhas
portuguesas a caminho da Europa. D. Pedro já perdera alguns filhos para o
Brasil e faria questão de manter a única que levava consigo perto de si, não
permitindo que se transformasse em bandeira viva na mão dos descontentes
com o governo absolutista do “mano Miguel”.
Durante semanas, o navio que transportava d. Pedro pelo Atlântico
navegou por mar tranquilo. Na sexta semana, mais especificamente em 27
de maio, uma grande tempestade causou enorme mal-estar em d. Amélia e
alvoroçou o inquieto d. Pedro, que, em vez de tentar se proteger, fez questão
de desenhar a tormenta e o modo como ela se abatia contra o navio e o mar
revolto. Logo o desenho seria enviado ao filho d. Pedro II, junto com uma
carta explicando o ocorrido. O pequeno imperador do Brasil guardaria a
imagem ao lado da cama, imaginando as aventuras que o pai estaria
vivendo.
Durante a viagem, d. Pedro descobriu que d. Amélia estava grávida. O
bebê fora concebido quando o pai ainda usava a coroa brasileira, e portanto
aquela seria uma princesa brasileira como as que deixava para trás.
No final de maio, o ex-imperador aportou no Faial, onde se encontrou
com representantes do governo local e enviou comunicação à regência
constitucional portuguesa no exílio, que se havia estabelecido ali perto, na
ilha Terceira. Começaria então um novo desafio. Após tantos anos no
Brasil, d. Pedro voltava para a Europa a fim de ser o guardião e protetor dos
direitos da filha, d. Maria II, e de se bater pela causa constitucional
portuguesa.
O Volage aportou em 10 de junho de 1831 no porto de Cherbourg, na
Normandia, mesmo lugar em que, 113 anos depois, no dia 6 de junho de
1944, desembarcariam tropas vindas do outro lado do Canal da Mancha.
Numa das famosas fotos da operação que pôs fim ao regime nazista na
Europa, é possível ver soldados aliados combatendo na rue D. Pedro, que
existe até hoje em Cherbourg como uma homenagem ao ex-imperador que
por lá passara.
As principais autoridades da cidade subiram no navio às oito horas da
manhã, no intuito de cumprimentar d. Pedro. O desembarque ocorreu às três
e meia da tarde, com os marinheiros britânicos em trajes de gala bradando
nove vivas ao ex-imperador, em cuja homenagem a Volage e os canhões de
terra deram salvas de 21 tiros.
“Dom Pedrô” logo se tornou celebridade local, sendo saudado como
liberal e constitucional. Agora aburguesado, assemelhava-se ao rei-cidadão
Luís Filipe, que havia se declarado rei dos franceses e não da França. Desde
meados de 1500, aquela região marítima francesa já se entrosava com o
Brasil e seus nativos, os índios. Catarina Paraguaçu, a “princesa do Brasil”,
cruzara o Atlântico trezentos anos antes de d. Pedro. Foi batizada na França
e casou-se em St. Malo com o “Caramuru” Diogo Álvares Correa. Depois
de seu retorno à Bahia, passou a ser considerada a mãe da miscigenação
brasileira.
A relação dos franceses com o Brasil Colonial, devido ao tráfico do pau-
brasil, havia sido tão intensa que, em 1550, foram levados índios à França
para que representassem, na cidade de Rouen, os hábitos e costumes
nativos. À beira do rio foram criadas duas aldeias indígenas, uma dos
tupinambá e outras dos tabajara. Além dos tupinambá ali presentes,
engrossaram a representação, como figurantes fantasiados de índios
brasileiros, marinheiros e prostitutas seminus. Por conta do intenso
comércio entre a França e o Brasil, até hoje igrejas da Normandia e da
Bretanha guardam, em suas decorações, esculturas de índios, araras e
papagaios, bem como exemplares da flora brasileira.
Uma vez que o Brasil já estava no subconsciente do normando e do
bretão, receber d. Pedro foi uma ocasião especialíssima para a região, que
honrou o ex-imperador brasileiro como se no poder ainda estivesse. Fora as
salvas devidas a um chefe de estado, d. Pedro ainda passaria em revista
cinco mil homens da Guarda Nacional. Além disso, o governo da região
disporia ao príncipe decaído uma propriedade em que poderia habitar
enquanto estivesse por ali. Foi também saudado com diversos discursos,
todos dizendo, no fundo, a mesma coisa: os franceses reconheciam em d.
Pedro um governante liberal, um doador de constituições, um defensor dos
direitos individuais que preferiu renunciar a ferir a Constituição que
outorgara ao Brasil. Claro que houve aí uma jogada estratégica do ex-
monarca, que enviara, para ser publicado pelos jornais estrangeiros, um
artigo em que expunha sua versão do que ocorrera no Brasil.
Para Cherbourg, convergiram os amigos de d. Pedro na Europa. O
marquês de Rezende renunciou à embaixada brasileira em Paris a fim de
seguir o companheiro em suas aventuras pelo exílio. Francisco Gomes da
Silva e outros, avisados por ele do que acontecera no Rio, também tinham
ido se encontrar com o ex-imperador. Logo, por insistência do marquês de
Rezende, d. Pedro partiu para Londres. A situação era clara: França e
Inglaterra — esta última, sobretudo após a queda do gabinete conservador
— não viam com bons olhos o governo tirânico de d. Miguel, que só era
reconhecido pelos Estados Unidos, por Roma e pela Espanha.
Os cidadãos portugueses e estrangeiros que simpatizavam com o
liberalismo ou se opunham ao governo de d. Miguel — ou que ao menos
eram suspeitos disso — iam para o cárcere e tinham a sorte decidida em 24
horas, após as quais eram invariavelmente chicoteados ou mortos. Um
cidadão francês foi chicoteado, o que irritou Paris e levou o almirante
Roussin, em julho de 1831, a bloquear o Tejo. Roussin aprisionou oito
navios portugueses até que d. Miguel assinasse um tratado humilhante,
segundo o qual o governo português, além de dar garantia aos súditos
franceses, teria de arcar com pesadas indenizações pelos maus-tratos e
prisões arbitrárias cometidos contra eles. Apesar desse tipo de pressão,
porém, nem a Inglaterra nem a França iria às vias de fato. Fazer isso seria
atrair, contra aquelas nações liberais, os países da Santa Aliança, que
recentemente haviam invadido a Espanha e restaurado os direitos
absolutistas dos Bourbon. Seria melhor encarar a questão do trono
português como se não passasse de um grande imbróglio de família.

O “duque de Bragança”
na Inglaterra
D. Pedro, incentivado por Rezende, foi à Inglaterra buscar ajuda. Não sem
razão. O amigo do ex-imperador, afinal, achava que a velha aliada
portuguesa continuava vendo o pequeno estado da Península Ibérica como
sua zona de influência. Após três semanas em Cherbourg, d. Pedro
atravessou o canal até Londres. Apesar de também ser bem recebido —
afinal, os dois governos, o inglês e o francês, tinham nele um aliado natural
contra o absolutismo de d. Miguel —, nada de prático e concreto conseguiu.
Ele chegou a se avistar com o secretário de Estado para assuntos
estrangeiros, lorde Palmerston, com o primeiro-ministro, conde Grey, e com
o rei, Guilherme IV. Dos três, o mais favorável aos planos de d. Pedro fora
o secretário de estado: o rei lhe era indiferente e o primeiro-ministro não se
mostrara tão entusiasmado quanto o colega de gabinete.
No dia 29 de julho, o duque de Bragança — título que d. Pedro assumira
na viagem a Londres e pelo qual passaria a ser conhecido — foi recebido
em um jantar de gala oferecido pelo rei no palácio de Saint James. Além de
todos os ministros e de diversos políticos britânicos, o corpo diplomático
estrangeiro em Londres também se fez presente. Desse modo, d. Pedro teve
contato com o príncipe de Talleyrand, embaixador francês que o receberia
para um jantar na embaixada de seu país em 4 de julho.
Talleyrand, tomado por alguns como cínico, afirmava que servia à França
e não a regimes políticos. Esse pensamento o mantivera ligado ao poder do
Antigo Regime francês, da Revolução, de Napoleão, de Carlos X e, por fim,
de Luís Filipe. Na condição de um dos principais diplomatas da Europa
durante o Congresso de Viena de 1814, teria sido um dos responsáveis pelo
fato de o Brasil ter passado de Colônia a Reino Unido, ao menos segundo
alguns historiadores. Tal sugestão teria partido dele para que Portugal
deixasse de ser visto como estado de segunda ordem tutelado pela
Inglaterra. Dessa vez, o conselho que dava a d. Pedro seria de grande valia.
Deveria retornar para a França, mais especificamente a Paris, onde decerto
seria muito bem recebido — sobretudo se chegasse durante as
comemorações do primeiro aniversário da Revolução de Julho, que
derrubara Carlos X do trono no ano anterior.
A causa da rainha portuguesa tinha diversos apoiadores. Tratava-se de
gente que, a exemplo de Talleyrand, Palmertson e toda a comunidade
lusitana no exílio, via a questão com os melhores olhos. Porém, faltava
dinheiro. Em Londres, d. Pedro tentara levantar fundos com negociantes
portugueses, mas as quantias ofertadas haviam sido ínfimas. Era necessário
armar navios e contratar mercenários para invadir Portugal e estabelecer d.
Maria II no trono. Pelo que o duque via, porém, da Inglaterra e da França
não viriam senão simpatias. Seguindo o conselho de Talleyrand, ele partiu
novamente e foi a Paris na companhia do marquês de Resende.
Paris
Havia um motivo por que d. Pedro fora sozinho, sem a esposa: queria testar
o chão onde pisava. Apesar de ser muito bem visto como nobre liberal e
constitucional, sua esposa grávida, d. Amélia, era neta da ex-imperatriz
Josefina; e, uma vez que Napoleão adotara os filhos desta, era também neta
postiça do Corso. Uma lei de 1816 impedia que qualquer descendente de
Bonaparte viesse a se estabelecer na França.
Tão logo chegou à casa do marquês de Resende em Paris, no final da
tarde de 26 de julho, d. Pedro e seu amigo tomaram conhecimento de uma
mensagem enviada pelo rei Luís Filipe os convidando para jantar naquela
mesma noite. Estava tarde demais para responder, e d. Pedro resolveu fazer
isso arrumando-se e indo diretamente ao palácio. Os convivas já
reclamavam da fome e do atraso do rei e da rainha quando as portas dos
aposentos pessoais de suas majestades se abriram e Luís Filipe e a rainha
Maria Amélia, de braços dados com d. Pedro, entraram no salão.
A rainha Maria Amélia era tia da falecida d. Leopoldina, irmã de sua mãe.
Talvez por isso, ou talvez pela fama de libertino de que gozava na Europa,
d. Pedro tenha se comportado esplendidamente na ocasião, sendo notada sua
timidez para com as damas que lhe eram apresentadas. O ex-imperador foi
praticamente adotado como sobrinho pelos reis franceses. Curiosamente, a
linhagem de Luís Filipe e d. Pedro se cruzaria na primeira e segunda
geração de ambos. A filha de d. Pedro, d. Francisca, se tornaria princesa de
Joinville por seu casamento com um dos filhos de Luís Filipe, enquanto um
neto desse rei francês, Luís Filipe Maria Fernando Gastão de Orléans, o
conde d’Eu, se casaria com uma das netas do duque, a futura herdeira do
trono brasileiro, princesa Isabel. Quanto à lei de banimento, Luís Filipe
assegurou que ela não se aplicaria à esposa de d. Pedro, que poderia seguir
com ele para Paris.
A timidez de d. Pedro só terminou quando este foi apresentado pela
rainha Maria Amélia ao general marquês de La Fayette. O velho político
liberal francês, apelidado de “herói dos dois mundos”, uma vez que havia se
batido pela causa da Revolução Americana e Francesa, era um dos homens
vivos que o ex-imperador admirava — Benjamin Constant havia falecido no
final de 1830. Assim, ao lado do velho político — responsável pela escolha
de Luís Filipe para rei da França —, d. Pedro expandiu-se. Cobriu-o de
cumprimentos, demonstrou-se maravilhado e adotou logo postura de
intimidade, o que seduziu o marquês e acabou por transformá-lo em um dos
principais aliados franceses à causa da rainha de Portugal. Seu neto se
juntaria ao duque de Bragança na causa constitucional portuguesa, lutando
ao seu lado.
Por insistência do rei, d. Pedro deixou-se ficar mais alguns dias em Paris,
sendo convidado para os eventos que celebrariam a Revolução de Julho e
para os demais convescotes sociais. No dia seguinte, 27, em que se
comemorava a queda do rei Carlos X, d. Pedro, a cavalo e escoltado por um
regimento de cavalaria, juntou-se ao rei Luís Filipe e a seus dois filhos.
Cavalgaram juntos em direção à praça da Bastilha, onde aguardava-os o
primeiro evento: a colocação da pedra fundamental da Coluna de Julho,
ainda hoje existente. O rei francês colocou a pedra, enquanto d. Pedro
martelou-a para que assentasse.
Quem imaginaria que d. Pedro, tratado pela imprensa brasileira como um
déspota — como o ex-rei francês Carlos X —, acusado de planejar acabar
com a Constituição que outorgara ao Brasil, estaria, meses depois de sua
renúncia, sendo ovacionado pelo povo francês e ajudando a erguer o
monumento em lembrança ao movimento que sepultara de vez o
absolutismo na França em 1830? Naquele mesmo dia, ele iria ao Panteão,
no Quartier Latin, a fim de inaugurar, junto com Luís Filipe, uma placa em
memória dos mortos da revolução do ano anterior. Lá, assistiu um coro
entoar o Hino aos mortos de julho. A letra era de um jovem literato: Victor
Hugo.
Por diversas vezes, a curiosidade dos franceses com relação a d. Pedro foi
tão grande que ele teve que ser resgatado da multidão por ajudantes de
ordens de Luís Filipe. A todo momento, era ovacionado com “Vivas ao
imperador constitucional!”. Que diferença do “enquanto constitucional”
gritado há menos de um ano pelos brasileiros! Tal como fizera com a
inglesa Maria Graham tempos atrás, ele saiu cumprimentando o povo,
dando-lhe a mão não para que a beijasse, mas para um forte aperto. Naquela
altura, d. Pedro já havia apeado do cavalo e caminhava junto do povo, que o
crivava de perguntas — queriam saber desde a idade da filha rainha até a
veracidade da informação de que trouxera consigo, do Brasil, um enorme
tesouro. D. Pedro cruzou os portões do Palácio Real conduzindo seu cavalo
pelas rédeas. Tinha certeza de que caíra nas graças dos parisienses, que o
tinham apelidado, por conta do penacho em seu chapéu militar, de don
Perdreau (d. Perdiz).306 Naquela mesma tarde, ele receberia, das mãos do
rei, a Grã-Cruz da Legião de Honra.
Nos demais dias, novas comemorações ocorreram, em que d. Pedro,
sempre presente ao lado do rei, era ovacionado pela multidão. No entanto, a
imprensa francesa pouco diferia da brasileira, e logo a exposição a que d.
Pedro se deixava levar faria dele um dos assuntos mais comentados. No
caso do atraso para o jantar, disseram que o imperador havia chegado ao
palácio com um pires na mão, sem ter sido convidado. Logo a imprensa
parisiense se dividiria entre os defensores e opositores do duque de
Bragança.

A causa portuguesa
A causa de sua filha era o que efetivamente o movia. D. Pedro aproveitava
todas as ocasiões propícias para aparecer diante do público e conquistá-lo,
em uma estratégia que atualmente seria reconhecida como jogada de
marketing. Porém, quando longe da multidão, procurava usar o prestígio
conquistado a fim de angariar fundos para a expedição contra d. Miguel,
bem como no intuito de pressionar o governo francês a entregar-lhe os
navios portugueses que o almirante Roussin continuava a reter como
garantia de que o tratado de 14 de julho com d. Miguel seria cumprido e as
indenizações, pagas. A França, no entanto, alegando neutralidade, só
cederia os navios se a guarnição optasse pela causa da rainha. D. Pedro
decidiu que era hora de retornar a Londres para tentar conseguir algo mais
tangível. Dessa vez, partia com d. Amélia e d. Maria II, apesar das diversas
tentativas de Luís Filipe de retê-lo na França.
Em Londres, d. Pedro se hospedaria mais uma vez no hotel Claridge e
seria bem recebido pelo rei Guilherme IV, chegando a passar dois dias no
castelo de Windsor com d. Amélia e a filha. Em Londres d. Amélia reviu a
tia Hortênsia de Beauharnais, ex-rainha da Holanda.
Em conferência com lorde Palmertson e com o primeiro-ministro Grey,
discutiu-se tanto a melhor maneira de fazer valer a carta constitucional que
d. Pedro dera a Portugal quanto o modo de recuperar o trono para a filha. O
impasse, contudo, continuava. Se por um lado a Inglaterra apoiava a causa,
não ajudaria nem com dinheiro, nem com homens. Os exilados portugueses
e d. Pedro que tentassem, com os financistas de Londres, levantar dinheiro a
juros para a causa da rainha. D. Maria II foi ovacionada diversas vezes pela
colônia portuguesa exilada na capital inglesa, e em 14 de agosto mais de
quatrocentos portugueses desfilaram perante a rainha-menina.
Em carta de 9 de agosto a um amigo no Rio de Janeiro, d. Pedro revelava
de Londres que não era apenas a causa da rainha que encontrava problemas
financeiros, mas também seu futuro:
[...] Por estes 7 dias parto para França, pois Londres é mui caro, e eu não posso com a despesa
apesar de andar com um prumo na mão: veremos se em França será melhor. Vou vender a
minha prata e as joias para fazer um fundo, para poder viver, e andar de camisa branca e
engomada sem dever a ninguém coisa alguma [...].307

Para quem quisesse ouvir, ele dizia que não roubara como fizera Barbacena,
e por isso só contava com o dinheiro de suas propriedades e daquilo que
conseguira levantar antes de partir do Brasil. Os sacos cheios de ouro e
diamantes que a imprensa europeia pintava nas arcas e baús vindos com o
ex-imperador só existiam na imaginação dos jornalistas. D. Pedro possuía
um montante que lhe bastava para não passar necessidade, mas temia
colocá-lo inteiramente à causa da filha. Se porventura tudo aquilo
malograsse, como ficariam a ex-imperatriz grávida e d. Maria?
Primeiro na França e depois em Londres, cada vez mais os portugueses no
exílio, assim como os liberais espanhóis exilados por conta do absolutismo
em sua pátria, aproximavam-se de d. Pedro, vendo nele seu herói liberal.
Havia grupos espanhóis que acalentavam mais uma vez a ideia da união
ibérica, recorrente há quase trezentos anos. Dessa vez, achavam que d.
Pedro conseguiria derrubar não apenas o governo português, mas também o
espanhol, governando toda a península de maneira liberal. A megalomania
de d. Pedro, porém, não chegaria a tanto. Ele já havia abdicado de duas
coroas. Outras duas lhe seriam ainda ofertadas — a da Espanha e a da
Grécia —, mas também essas recusaria.
Depois de uma frustrada tentativa de levantar doze mil libras, junto à casa
bancária Rothschild, para o governo português exilado nos Açores, d. Pedro
assinou em 14 de agosto um contrato com financistas liderados pelo exilado
espanhol Juan Alvarez y Mendizábal, banqueiro judeu. Mendizábal
imaginava, não sem razão, que, se o absolutismo fosse derrubado em
Portugal, a Espanha seria a próxima, o que lhe possibilitaria voltar para
casa. Além disso, devemos também ter em mente que a Carta
Constitucional portuguesa outorgada por d. Pedro previa a liberdade de
culto, o que era ótimo para judeus e protestantes. Já d. Miguel veria com
bons olhos a expulsão dos judeus de Portugal, sem perceber que isso
acarretaria a fuga de capital português para outros países mais tolerantes,
como a Inglaterra e a França.
Ao menos na Inglaterra, d. Pedro conseguiu o aval de Palmerston para
arregimentar, ali, navios e soldados para o exército que deveria libertar
Portugal. O duque de Bragança convocou o marquês de Palmela, presidente
da regência portuguesa instituído por ele nos Açores, para que fosse a
Londres cuidar dos detalhes da expedição a ser realizada contra d. Miguel.
Partindo novamente para Paris, d. Pedro aceitou a oferta do rei Luís Filipe
e se instalou no Castelo de Meudon. A suntuosa residência, localizada na Île
de France entre Paris e Versalhes, era provavelmente a casa mais suntuosa
que d. Pedro habitara até então. Se comparada à Quinta da Boa Vista, é
provável que apenas o sistema sanitário, que funcionava à base de penicos,
fosse equiparável. A propriedade, que possuía um belo jardim projetado por
Le Nôtre, fora redecorada com cristais, pratarias e tapeçarias do acervo da
coroa em honra a d. Pedro e sua família. A última vez em que a propriedade
havia sido restaurada fora a pedido Napoleão, que a desejava como
residência do seu filho, rei de Roma e sobrinho de d. Pedro e d. Leopoldina.
Hoje, somente parte do antigo esplendor pode ser vislumbrado, uma vez que
o local foi destruído em 1870 durante a Guerra Franco-Prussiana.
Mas, apesar do luxo e da exuberância cultural que Paris lhe propiciava, d.
Pedro ainda pensava no Brasil e nos brasileiros. Em carta escrita às vésperas
de 7 de setembro de 1831, disse ele a um amigo no Rio de Janeiro:
Muito estimo que os negócios públicos vão bem, eu tomo pelo Brasil aquele mesmo vivo
interesse que sempre tomei, e mui principalmente no dia de amanhã, em que faz anos que eu, e
eu só declarei no alto da Piranga a Independência do mesmo Brasil.308

Inquieto, d. Pedro sonhava com o Brasil e os filhos que lá deixara enquanto


combinava, com os portugueses, sua próxima aventura. Ele não ficaria no
castelo de Meudon mais que dois meses. Em 12 de outubro, comemoraria
seu aniversário em outro endereço: rua des Courcelles, 10, no centro de
Paris. Como um ímã, ele não atraía apenas os emigrados liberais
portugueses e espanhóis, mas também os ultraliberais parisienses,
monitorados com suspeita pelo governo local. Ao ser questionado por
ministros franceses a respeito de algumas dessas visitas, d. Pedro,
mandando tudo pelos ares, decidiu que deveria ter sua própria casa, a fim de
receber quem bem entendesse. Isso, no entanto, não foi capaz de estremecer
sua relação com o rei, que no dia de seu aniversário o foi cumprimentar,
acompanhado da rainha, na nova casa burguesa.

Um pouco de diversão
Vivendo agora próximo dos entretenimentos que Paris oferecia, como
teatros, óperas e balés, d. Pedro era encontrado com facilidade nos
principais espetáculos, saraus e bailes oferecidos na capital. Comparecia
regularmente ao Teatro Nacional da Ópera Cômica, onde o camarote real
lhe era franqueado. Foi assim, de tanto assistir a eventos no local, que
conheceu o compositor do Barbeiro de Sevilha e de tantas outras óperas e
peças musicais, Gioachino Rossini. O maestro presenteou d. Pedro com
partituras autografadas, enquanto d. Pedro lhe enviou suas composições
musicais. Rossini, fosse por educação, interesse ou vontade de lisonjear d.
Pedro, solicitou sua permissão para apresentar uma abertura musical de
autoria sua.
O The Harmonicon, de Londres, disse a respeito do espetáculo de 29 de
outubro:
No sábado foi apresentada uma Grande Abertura composta por d. Pedro. O ex-imperador não
esteve apenas presente como dirigiu em pessoa a execução dessa peça, tomando especial
cuidado em marcar as passagens importantes, em ter os fortes e pianos adequadamente
observados e o andamento estritamente observado. Essa obra foi muito aplaudida.309
Gravura de d. Pedro realizada quando de sua estada em Paris.

Logo após uma segunda apresentação da peça, agora conduzida pelo


próprio Rossini perante o rei e a rainha da França, a Revue Musicale
noticiou: “Essa abertura [...] é de uma feitura correta e mostra que seu autor
tem um amplo conhecimento dos recursos da orquestra. Foi muito
aplaudida.”310
Trinta anos depois, em carta ao imperador do Brasil, d. Pedro II, Rossini
recordaria assim a peça regida e seu autor:
[...] Fiz executar no Teatro Italiano uma Abertura de sua composição que era adorável. Ela teve
grande sucesso, e como, por discrição, eu não nomeei o autor, os cumprimentos foram dados a
mim, erro que não desagradará seu augusto filho, que poderia bem se lembrar de me enviar um
pouco do café tão célebre de vosso país.311

Apesar da tentativa de conseguir um cafezinho de graça, Rossini parece


não ter mentido nem tentado fazer lisonja, pois pediu e obteve, de d. Pedro,
licença para apresentar outra peça musical do ex-imperador.
No entanto, a imprensa que tanto atormentara d. Pedro no Rio de Janeiro
fazia o mesmo agora em Paris. Os jornais que se opunham ao governo de
Luís Filipe logo atacaram seu protegido, apelidado por eles de Don Perdu
(D. Perdido). Enquanto uns alegavam que a música do ex-imperador fora
um dos principais motivos de o povo brasileiro exigir sua abdicação, outro
jornal noticiava que, para d. Pedro conquistar Portugal, bastava tocar sua
música, que faria os soldados do irmão saírem correndo. O articulista
Ludwig Boerne, misto de crítico cultural e político, desancou d. Pedro e sua
música ao chamá-la “detestável”. Afirmou ainda que melhor faria o ex-
imperador em tirar o irmão do trono do que o público do teatro. Entretanto,
não é possível confiar na imparcialidade de alguém que começa sua crítica
com: “Houve [...] um concerto ao qual eu não compareci [...].” O articulista
mesmo afirmou que boa parte de seu comentário se baseava no depoimento
de “alguém” que dissera não gostar da música, tendo por isso deixado a
sala.
Além dos teatros e demais divertimentos mundanos, d. Pedro, como
pequeno burguês que era, ia também às compras, até mesmo sozinho.
Aproveitava, assim, para comprar brinquedos para os filhos que estavam no
Brasil. Andava lutando pelo direito de uma das filhas, mas não se esquecia
dos demais: enviava “bonitos”, como chamava os brinquedos, para d. Pedro,
d. Francisca, d. Paula Mariana e d. Januária.
A duquesa de Goiás, afastada da Quinta da Boa Vista em 1829, antes da
chegada de d. Amélia, fora estudar em Paris naquele mesmo ano. Agora,
passava os finais de semana longe do internato, na companhia do pai, de d.
Amélia, d. Maria II e de Augusta, duquesa de Leuchtenberg e sogra de d.
Pedro, que fora a Paris para auxiliar a filha nos momentos finais da
gravidez.
A última filha de d. Pedro com a marquesa, nascida em São Paulo em
1830, também preocupava o ex-imperador. Em julho, no meio das
negociações em Londres, o marquês de Resende escreveu a Domitila:
[...] Fique, pela presente, na inteligência [em que por ventura nunca deixara de estar] de que
S.M.I decidido [como sempre esteve] a felicitar a senhora dona Maria Isabel e não descuidará
de chamá-la, a fim de mandá-la educar com aquele cuidado e decência, que exija a sua
categoria, bem como, há pouco, acabou de fazer com a sua irmã, a sra. Duquesa de Goiás
[...].312

Domitila, contudo, que já havia perdido uma filha para d. Pedro, não
desejava perder outra: a menina permaneceria consigo e seria educada no
Brasil.
D. Pedro, além de escrever longas cartas aos filhos, nas quais falava de
saudade e da distância, bem como de seu amor por eles e pelo Brasil,
também costumava admoestar José Bonifácio, o tutor das crianças, homem
moroso na hora de detalhar a vida dos pequenos príncipes ao pai.

Fim da festa
Os divertimentos e a vida burguesa de d. Pedro na capital da França, onde
cuidava da família e de seus negócios, andava incomodando tanto o
marquês de Palmela quanto os demais exilados, entre eles o general
Saldanha. Estes reclamavam de certa apatia por parte do duque e acusavam-
no de se divertir em vez de partir com a expedição contra Portugal. É bem
verdade: ele inegavelmente se divertia em Paris, e os jornais assim o
mostravam. No entanto, estava longe de ser indiferente à sua antiga pátria.
D. Pedro e a família vestiram luto após um malsucedido levante liberal
ocorrido em Portugal no dia 10 de setembro. Os revoltosos foram
massacrados pelas tropas de d. Miguel, com 44 pessoas sendo presas e
enforcadas.
Praticamente forçado pelos portugueses no exílio, d. Pedro concordou em
dispor de 25 mil libras suas pela causa da filha. Desse modo, conseguiram
uma fragata e uma corveta, respectivamente rebatizadas de Amélia e
Terceira. A elas se juntaram dois navios mercantes decrépitos, adquiridos
como refugo da Companhia das Índias Ocidentais: passaram a chamar-se
Rainha de Portugal e D. Maria II. Ambos foram armados na Inglaterra e
logo afastados de lá, a fim de que o governo inglês não fosse acusado de ser
conivente com os planos de d. Pedro. Os navios seguiram para Belle-Île-en-
Mer, no litoral da Bretanha, enquanto a França fingia que nada via.
D. Pedro ainda se demoraria em Paris, e Palmela, em carta enviada ao
príncipe, adivinhava o porquê. Como pai — “e pai extremoso”, nas palavras
com que a si próprio se referia —, d. Pedro não partiria com a expedição
enquanto d. Amélia não desse à luz o bebê que esperava. A criança, mais
uma menina, nasceu em 1o de dezembro de 1831. A princesa recém-
chegada recebeu o nome de Maria Amélia em homenagem à rainha da
França, sua madrinha. Mesmo após o nascimento da menina, d. Pedro
continuaria em Paris até o final de janeiro.

Gravura da princesa d. Maria Amélia, filha de d. Pedro com d. Amélia.

A pesquisadora Cláudia Witte, biógrafa de d. Amélia, levanta uma


hipótese interessante: d. Pedro pode ter ficado um pouco mais em casa a fim
de esperar o fim das seis semanas de resguardo da esposa. Assim, teria o
duque a esperança de engravidar novamente d. Amélia. Quem sabe dessa
vez viria um filho varão? Essa é uma possibilidade real, uma vez que mais
nada o prendia a Paris. Uma frota naval bastante remendada, incapaz de
meter muito medo, já estava às suas ordens desde 8 de janeiro, bem como
mais de sete mil homens, entre exilados portugueses e mercenários.
No dia seguinte ao nascimento de d. Maria Amélia, em 2 de dezembro de
1831, d. Pedro teria mais motivos para comemorar: além da nova criança,
havia também o aniversário de d. Pedro II. No meio de tanta euforia, seria
acometido por uma crise epilética que o deixou de cama no dia seguinte.
Em 10 de janeiro, o ex-imperador escreveu para a aia dos filhos no Brasil,
Mariana Carlota de Verna Magalhães Coutinho, futura condessa de
Belmonte.313 Na carta, informava que ficara contente em saber que os filhos
haviam oferecido um chá em comemoração ao aniversário do pai. E
arrematou: “Vejo que ao menos meus inocentes filhos podem mostrar
claramente que são bons filhos, sem que esta prova seja considerada um
crime.”
Em seguida, narrou a festa que dera em comemoração ao aniversário de d.
Pedro II:
No dia dos anos do imperador meu filho eu também cá fiz o que o meu amor me pediu, e o que
minhas circunstâncias, bastante apertadas me permitiram; dei um jantar ao qual foram
convidados o ministro do Brasil e toda legação, e bastantes brasileiros distintos, e os
embaixadores da família. [...]

No dia antecedente do aniversário da minha coroação, a sra. Duquesa de


Bragança, minha amada esposa, deu felizmente à luz uma linda menina [...].
Já saberá pelas folhas públicas que o ministro do Brasil serviu de
testemunha porque esta minha filha, posto que nascida na França, é
brasileira porque foi concebida antes da minha abdicação [...].
D. Pedro não descuidava de nenhum detalhe. A presença do embaixador
brasileiro na França era necessária quando do parto para que atestasse ter
visto a criança ligada pelo cordão umbilical à mãe, sendo portanto
verdadeira filha de d. Pedro e de d. Amélia. Isso a colocava como princesa
brasileira, uma vez que fora, como o ex-imperador fazia questão de
informar, “concebida antes da minha abdicação”.
Saudoso dos filhos e do Brasil, d. Pedro comentou a respeito na carta:
Muito prazer me tem causado os pequenos desenhos do menino e menina, posto que eu esteja
quase certo que Simplício teve neles grande parte, contudo um só risco que cada um tenha feito,
por meus filhos, é mui bastante para que eu os estime como se todos fossem feitos por eles.
Veja se alguns outros que fizeram para me mandar poderá vir entre eles algum d’après-nature
de alguma vista que eu conheça pois meu prazer deste modo será dobrado, repetidas vezes
desenrolo o panorama de São Cristóvão e passo bastante tempo a vê-lo, e a verter lágrimas
nascidas de um coração todo brasileiro.

Ele podia estar se divertindo na França; podia, do mesmo modo, estar


ocupado com aquilo que dizia respeito à expedição contra d. Miguel. No
entanto, o Brasil e os filhos que lá deixara faziam-no ir às lágrimas.
Quanto à saúde, as pedras nos rins que o atormentavam desde o Rio de
Janeiro, a travessia do Atlântico e o início da residência em Paris não o
preocupavam mais; d. Pedro alegava que o frio lhe fizera bem. A vida
familiar, como aqui descreve, era das mais agradáveis possíveis:
[...] a pequena duquesa de Goiás está linda e adiantadíssima, toca mui bem piano [...], minha
esposa estima-a como a sua filhinha, em suma, d. Mariana, pelo que toca ao doméstico tudo vai
bem; assim a política me deixasse gozar este belo país; mas os negócios de Portugal em que
está comprometida a minha honra, glória e futuro de minha filha, a rainha, me impedem o gozo,
como já disse, das delícias deste belo país.
No dia 20 e mais até o fim deste mês, me embarco para as ilhas na esquadra que a força de
fadigas pude arranjar a fim de partir das ilhas em frente da expedição contra o usurpador do
trono de minha filha e assassino de meu pai e da carta constitucional.

De fato, ele partiria antes do fim de janeiro. No dia 25, d. Pedro despediu-
se da família: de d. Amélia, da rainha d. Maria II, com doze anos, da
duquesa de Goiás, então com quase sete, e da pequena Maria Amélia. Uma
filha de cada amor. O ex-imperador deixava sua casa, sua família e seus
amigos brasileiros, portugueses e franceses para dar combate ao irmão, a
quem passara a acusar de ter assassinado d. João VI.

O Quixote
D. Pedro abdicara em abril de 1831. Partindo do Brasil, chegou a
Cherbourg, na França, em junho, seguindo logo depois para Londres. Dali,
encaminhou-se para Paris, onde desembarcou no final de julho. De Paris, foi
mais uma vez a Londres, de onde retornou à França em agosto. Em janeiro
de 1832, partiu em definitivo para os Açores. Em sete meses, esteve em
dezenas de cidades, três países e duas das mais importantes capitais da
Europa. Negociara apoio à causa da rainha com homens de armas, políticos
de diversas nacionalidades e financistas. Armara uma expedição contra o
irmão, fizera centenas de amigos na Inglaterra e na França, regera uma
orquestra e tornara-se celebridade entre os parisienses. Esse poderia muito
bem ser o resumo de uma vida inteira, mas, para alguém como d. Pedro,
tratava-se de apenas dez meses de aventuras e correrias.
Da Bretanha, ele zarparia com seus navios remendados para o arquipélago
dos Açores, aonde ancoraria no dia 10 de fevereiro. A última ilha ainda
absolutista fora tomada em agosto do ano anterior, estando agora sob
controle do governo português liberal no exílio.
Quase sem dinheiro, dotado de poucos navios dignos desse nome, d.
Pedro iria com menos de oito mil homens dar combate ao irmão, que tinha à
sua disposição cerca de 80 mil soldados. D. Pedro era figura realmente
quixotesca, digna do quarto em que, no palácio de Queluz, havia nascido.
304 DORIA, Luiz Gastão d´Escragnolle. Uma testemunha diplomática do Sete de Abril, p. 188.

305 PINHEIRO, José Feliciano Fernandes. Memórias do visconde de S. Leopoldo, p. 24.

306 ASSUPÇÃO, Maurício Torres. A história do Brasil nas ruas de Paris, p. 41.

307 PASCUAL, A.D. de. Rasgos memoráveis do senhor dom Pedro I, p. 128

308 Idem, p. 129.

309 Apud ASSUMPÇÃO, Maurício Torres. A história do Brasil nas ruas de Paris, p. 55.

310 Idem.

311 Idem, p. 57.

312 Arquivo do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, lata 175, doc. 50.

313 Biblioteca Nacional, Manuscritos, 64,02,002 no 021.


O rei soldado

D. PEDRO partia junto do cunhado, o marquês de Loulé, e do neto do


general La Fayette, cujo avô, junto com mais de duzentas pessoas, viera se
despedir do duque de Bragança e desejar-lhe sucesso na empreitada. Os
marquês de Resende e o Chalaça, amigos sempre fiéis, permaneceriam em
Paris para cuidar dos negócios do ex-imperador e de sua família.
Em 2 de fevereiro, d. Pedro chegou de Nantes a Belle-Île-en-Mer, onde
foi novamente festejado com um baile e um desfile da guarda nacional.
Logo que desembarcou na ilha francesa na qual a frota e seu exército o
esperavam, passou ambos em revista e presidiu pessoalmente o juramento
feito pelos marinheiros e soldados.
Além das centenas de estrangeiros contratados, o exército era engrossado
por uma grande quantidade de exilados portugueses. Alguns já tinham feito
parte de algumas expedições lançadas infrutiferamente contra d. Miguel
desde 1828; a maioria estava à beira da miséria, vivendo da caridade da
própria colônia e do governo no exílio. Entre os diversos portugueses na
Belle-Île que se bateriam ao lado de d. Pedro pela causa constitucional e
liberal, estavam os escritores portugueses Alexandre Herculano e Almeida
Garrett.
Parte da esquadra, comandada pelo almirante Sartorius, zarpou em 10 de
fevereiro para os Açores. Devido ao mau tempo, não seguiram para Angra,
na Ilha Terceira, a capital do arquipélago; foram, antes, para São Miguel,
onde aportaram no dia 22. Entre bailes, jantares, manobras militares,
treinamentos e inspeções, d. Pedro se deixou ficar ali até 2 de março,
chegando à Ilha Terceira no dia seguinte.
Tão logo desembarcou na capital, assumiu definitivamente a regência em
nome da filha, d. Maria II, nomeando em seguida um conselho de ministros.
Enquanto as tropas chegavam a fim de serem rigidamente treinadas para a
invasão do continente, d. Pedro governava. Aproveitando que não tinha um
Legislativo que tolhesse suas iniciativas, transformou o estado português,
por meio de decretos e leis, em um dos mais modernos da Europa. Em 19 de
maio, a escravidão foi por ele abolida em Portugal, embora ainda permitisse
o sistema nas províncias e estados ultramarinos que compunham o antigo
reino. Outras leis foram elaboradas no intuito de assegurar as propriedades e
direitos individuais, a exemplo daquelas que havia dado ao Brasil quando de
sua atuação como príncipe regente. Junto com o ministro da Fazenda e da
Justiça, José Xavier Mouzinho da Silveira, ele desenhou um Estado novo,
banindo resquícios feudais como os impostos para a manutenção da Igreja e
os antigos tribunais e privilégios a que tinham direito os nobres, os
militares, o clero e os membros de corporações.
Crendo-se ainda capaz de controlar profundamente todas as instâncias do
governo, além de leis d. Pedro fez também inspeções surpresa em
departamentos governamentais. À alfândega, cujo expediente deveria
começar às oito horas da manhã, d. Pedro chegou às nove. Como não
encontrasse ninguém, trancou a porta e levou a chave consigo. Na mesma
tarde, lavrou um decreto que exonerava todos os funcionários e nomeava
outros.
Os três meses que a força expedicionária passou na Ilha Terceira foram de
intensas manobras e exercícios militares. No entanto, havia também certa
folga para que gozassem dos prazeres da vida. Longe da esposa d. Amélia,
d. Pedro voltava a procurar mulheres fora de casa. Nos Açores, encontrou
então uma moça que, até hoje, a lenda local pinta com as melhores cores. D.
Pedro teria tido um filho bastardo com a irmã Ana Augusta, do Convento da
Esperança. Sim, isso mesmo: uma freira. Estranho? A julgar pela narrativa
do major Charles Shaw, mercenário escocês e subcomandante do batalhão
britânico, nem tanto. Este afirmava que ele e seus homens haviam se
divertido muito com as religiosas, que eram “bastante corretas durante o
dia”, mas mantinham a casa aberta ao escurecer. Shaw só reclama de que
eram feias, sujas e descuidadas, além de cuspirem constantemente no chão.
Eram mulheres, porém.
Além da obrigação e do prazer, a lembrança dos filhos era uma constante
na vida de d. Pedro. Em março, recém-chegado na Ilha Terceira, escreveu
para d. Pedro II:
Angra, 11 de março de 1832

Meu querido filho do meu coração. De Paris, sempre que tive ocasião, te escrevi. Hoje, que
daqui a tenho por um navio que parte diretamente para o Rio, não a quero perder para te dar
notícias minhas e pedir as tuas. Eu estou bom de saúde, porém muito ocupado com a grande e
muito gloriosa empresa de fazer uma expedição, à testa da qual marcharei, a fim de derribar a
tirania, restabelecer o império da lei, o paládio da liberdade, a Carta Constitucional que, quando
rei de Portugal, dei espontaneamente a, hoje muito desgraçada, nação portuguesa.
Eu não podia, de modo algum, tendo abdicado em ti a coroa do Brasil para não fazer verter
sangue de meus concidadãos, deixar de colocar-me à frente da causa portuguesa, visto ser a
causa da humanidade, da liberdade e de tua irmã, além de que, pela Carta Constitucional, eu sou
chamado a tomar a Regência [...]. Tenho até aqui cumprido com os deveres de pai para com a
minha filha, e de homem livre para com a humanidade e a liberdade.

[...]

Espero que tu leias com atenção esta carta. Nela verás o interesse que tomo por ti como teu
pai e teu amigo, e pelo Brasil, que desejo ver bem governado, como brasileiro que sou e muito
amigo da minha pátria adotiva, a qual pertence meu coração.

Adeus, meu amado filho. Recebe a bênção que te deita,

Teu saudoso pai e teu amigo,


D. Pedro, duque de Bragança

P.S. Muitos recados a todos que se lembrarem de mim

D. Pedro escrevia para três receptores diferentes: o filho de seis anos, que
entenderia aquilo que dizia respeito à saudade, ao amor e ao estudo; a esse
mesmo filho, mas mais velho, que entenderia no futuro as questões políticas
a que d. Pedro fazia menção; e à regência brasileira, de quem desconfiava,
não sem razão, que passaria os olhos em suas cartas antes de as entregarem
às crianças.
A fama de d. Pedro na Europa e o efusivo modo como fora recebido ali
haviam suscitado no Brasil, entre os políticos, o temor de que o ex-
imperador voltasse com um exército para retomar o trono, fazendo-se
regente em nome do filho até que este atingisse a maioridade. Alguns
políticos brasileiros simpatizavam com essa ideia; era este o caso dos
irmãos Andrada e de seu partido caramuru, como veremos adiante.
Enquanto os políticos no Brasil cogitavam proibir que o antigo imperador
pisasse novamente na nação que ajudara a libertar, d. Pedro tentava, a
distância e no meio de uma guerra civil, cobrar de seus filhos o estudo. Para
d. Maria II, escreveu:
São Miguel, 10 de junho de 1832

Minha querida Maria. Recebi a tua cartinha de 10 de maio escrita um pouco mal para a tua
idade e adiantamento. Parece-me que tu não tens cuidado muito de estudares, e enquanto
Mamam não me mandar dizer que tu te aplicas como no meu tempo eu não deixarei de te
mostrar sempre que tenha ocasião o meu desprazer: quando tu, minha filha, chegares a uma
idade mais avançada, tu não deixarás de conhecer que eu tinha razão de te desejar ver instruída,
o efeito de não ter recebido uma educação conveniente eu tenho sentido, tudo que tenho feito
tem sido porque Deus me tem favorecido, eu não quero que tu me julgues para o futuro um pai
descuidado de tua educação, antes quero que me tenhas por severo.
O amor que te tenho, minha querida filha, é que faz falar-te tão claro, eu espero que tu
estudes d’ora em diante como convém a quem tem que reger uma Nação que precisa de bons
exemplos e de uma rainha assaz instruída [...].

Além do estudo, d. Pedro também exigia da menina que não comesse tanto
e controlasse sua alimentação, pois estava ficando acima do peso. Também
lhe recomendaria cuidado com o corpo: era preciso que fizesse exercícios e
saísse mais ao ar livre.314
Enquanto isso, as tropas estacionadas nos Açores começavam o
embarque. A expedição partiu em 27 de junho. A frota agora contava com
mais de cinquenta embarcações. Tanto as tropas quanto os navios haviam
sido engrossados pelo que havia já nos Açores e o que chegara ao longo dos
meses. Todavia, não representavam ainda algo de muito poderoso: já havia
quem apelidasse a frota de “calhambeque”.

Porto
O ponto de escolha para o desembarque em Portugal foi a região da cidade
do Porto, uma das mais liberais da nação. Fora a que mais havia sofrido ao
se levantar contra d. Miguel. Segundo o historiador Neill Macaulay, uma
tática colocou medo na guarnição da região, formada por cerca de treze mil
soldados: os navios de d. Pedro apareceram “fantasiados” no horizonte. De
realmente grande, havia menos de meia dúzia de embarcações; o restante
era formada de pequenos navios, que foram cobertos com grandes estruturas
a fim de enganar quem os visse de longe. Funcionou: a guarnição achou que
se tratava de grandes navios de guerra e de transporte de tropas.

Vista da praia de Armosa de Pampelido.

Corria o rumor de que d. Pedro estava chegando com mais de trinta mil
soldados, quando o número total não chegava a oito mil. A maior parte das
tropas miguelistas estava concentrada ao redor de Lisboa. Esperava-se que
d. Pedro atacasse diretamente a capital. Quando os absolutistas viram os
navios no horizonte em formação de batalha, decidiram recuar, achando que
se tratava de uma enorme força de invasão comandada pelo duque de
Bragança.
Na tarde de 8 de julho, d. Pedro, liderando o desembarque, teria
proclamado a seus homens:
Soldados! Aquelas praias são as do malfadado Portugal: ali, vossos pais, mães, filhos, esposas,
parentes e amigos suspiram pela vossa vinda, e confiam nos vossos sentimentos, valor e
generosidade. Vós vindes trazer a paz a uma nação inteira, e a guerra somente a um governo
hipócrita, despótico e usurpador [...].

Levando-se em consideração que mais de 80% do exército libertador era


formado por mercenários estrangeiros, aquela era, na realidade, uma peça
de marketing. Uma vez que o discurso seria publicado e distribuído, o
intuito de d. Pedro era fazer com que a população local o identificasse antes
como libertador do que invasor.
No dia 9, montando um simples animal de carga, devido à dificuldade de
desembarcar os cavalos por conta do mar violento, d. Pedro entrou na
cidade do Porto. Adiante, seguiam soldados do exército liberal com
hortênsias de cores branca e azul na boca de suas armas. O azul e o branco
eram as cores da causa constitucional.
Além do problema com o desembarque dos animais, havia o fato de os
camponeses da região terem fugido com os seus. A esperança de que as
tropas miguelistas e a população portuguesa vissem a força expedicionária
como salvadora e se juntassem à causa liberal caiu por terra. Essa utopia
fora realmente alimentada por diversos ministros, como Mouzinho da
Silveira e o próprio d. Pedro.
O clero, que havia cerrado fileira ao lado de d. Miguel, dominava o corpo,
a alma e a mente dos camponeses. Enquanto o usurpador era adorado por
ser próximo da população, gostar de corridas de cavalos e touradas, d. Pedro
não passava do homem que havia tomado para si a colônia mais rica de
Portugal, causando grande miséria à população.
Parte da multidão no Porto, entusiasmada pela chegada das tropas
liberais, seria a mesma que aplaudiria qualquer outro vencedor. Havia, é
bem verdade, os que realmente se uniriam a d. Pedro contra d. Miguel —
sobretudo os prisioneiros do Estado, que arrombariam a cadeia tão logo
soubessem da chegada do regente. Muitos foram os homens que passaram a
deixar, como d. Pedro e seu exército, a barba crescer. Tratava-se de uma
promessa que cumpririam enquanto Lisboa não fosse libertada.
Mas os constitucionalistas não contavam com a simpatia dos populares
(influenciados como eram pelo clero), nem dos nobres, dos militares e dos
funcionários públicos — enfim, de quem mais temia a perda de seus
privilégios. Os que se alinharam a d. Pedro foram os maçons, os judeus —
em grande parte, financistas receosos da volta de uma inquisição religiosa
na Península Ibérica — e os intelectuais, entre os quais incluíam-se
diplomatas, generais, políticos e outras pessoas de inteligência que faltavam
ao grupo dos absolutistas. Desabafando com d. Pedro II, o ex-imperador
escrevia em 12 de agosto de 1832: “Este povo está fanatizado pelos padres,
e não tem, até agora, dado provas de amor à liberdade. Parece impossível
que isto aconteça no meio da Europa civilizada, e no século 19!”
Apesar de dominada a cidade do Porto e diversos outros pontos
estratégicos da região, d. Pedro e sua tropa haviam caído em uma
armadilha. Após algumas batalhas contra os absolutistas na região — as
quais d. Pedro acompanhou com a ajuda de uma luneta desde o ponto mais
alto do terreno, indiferente aos tiros de canhão e mosquetes que
reverberavam à sua volta —, foi necessário se concentrar dentro da cidade.
Seria o famoso Cerco do Porto, que durou de julho de 1832 até agosto de
1833.
Em meio aos preparativos para a defesa da cidade, d. Pedro não esquecia
os filhos. Vendo que a carta anterior, em que dera bronca em d. Maria II,
surtira efeito, ele responderia à rainha:
Porto, 18 de julho de 1832

[...] Eu estou contentíssimo contigo, agora por ver, e saber, que tu sentiste que eu estivesse
desgostoso em consequência de te mostrares um pouco preguiçosa: agora porém que tu,
segundo me dizes, e eu creio, tratas de estudar como convém e me dás provas disto, eu me
glorio de ter uma filha tão obediente e minha amiga, como tu és. [...]

A educação vinha sempre em primeiro lugar — sempre. Para todos os


filhos, fossem legítimos ou bastardos, o conselho seria o mesmo: estude
para conseguir seu lugar no mundo. Em vez de se fiarem no nascimento,
eles deveriam fazer por merecer.
D. Pedro tentou retirar suas tropas e reorganizá-las, e para isso pediu
ajuda, por meio de Palmela, ao lorde Palmerston. O secretário do Exterior
disse que poderia enviar a marinha britânica para evacuar d. Pedro e as
tropas até os Açores, mas, uma vez concluída a operação, a Inglaterra daria
por encerrada a questão portuguesa e reconheceria d. Miguel. O que
ocorreria em seguida era fácil de imaginar: todas as demais nações
seguiriam a política inglesa, deixando arruinados aqueles que tinham
apoiado financeiramente a causa. Os liberais, quando muito, poderiam se
contentar em em fundar um novo país nos Açores ou em negociar sua
rendição desde lá. D. Pedro, ao saber da resposta de lorde Palmerston, pediu
que Palmela esquecesse que a consulta fora feita e começou a preparar a
cidade para o cerco.
O ex-imperador participava de tudo. Acordava cedo e era visto pelos
soldados com a pá na mão, cavando trincheiras; onde quer que estivesse,
fazia ali uma refeição para não perder tempo. Com a aproximação das
tropas miguelistas, o bombardeio à cidade teve início em 25 de agosto —
inicialmente, de maneira esporádica, enquanto acertavam as miras; dois dias
depois, de maneira sistemática.
Em meio à chuva de balas, d. Pedro escreveu a d. Pedro II em 28 de
setembro, a fim de agradecer-lhe a carta que lhe tinha enviado. Saudoso do
Brasil, desabafou também com o filho:
[...] Eu faço ardentes votos aos céus, para que a minha adotiva pátria seja feliz, e tu com ela.
Não permitirá Deus que nos vejamos ainda um dia, nesse abençoado país, quando tu imperares,
em pessoa, e que não possam haver suspeitas de que eu desejo, o que nunca desejei? Ah! Que
meus olhos se me enchem de lágrimas, quando penso que um dia ainda poderei ver-te, e morrer
naquele país, em que tu imperas; em que estão minhas filhas; naquele país, ao qual jamais meu
coração deixou de pertencer, apesar de tanto que sofri pelo amar, como se fosse nele nascido!

Entre setembro e outubro, os miguelistas fizeram dois grandes ataques para


tomar a cidade. O primeiro, em 29 de setembro, dia de São Miguel, foi
inspirado pelos padres, que diziam que o arcanjo Miguel em pessoa os
conduziria à vitória. Fanatismo religioso à parte, quem ganhou o dia foram
os liberais: seu exército era mais bem treinado, e a batalha, que durou quase
o dia todo e chegou até as ruas da cidade, deixou um rastro de quatro mil
baixas miguelistas, entre feridos, mortos e aprisionados. Do lado
constitucional, foram cem os mortos e trezentos os feridos. Naquele
conflito, d. Pedro destacou-se, sendo visto em todo canto sob o pesado
tiroteio. Demonstrando coragem e sangue-frio, ele inspirou seus homens,
que lhe creditaram essa primeira vitória. A outra batalha se desdobrou às
vésperas do aniversário do ex-imperador, no dia 11 de outubro, quando o
bombardeio tornou-se constante mais uma vez. As tropas miguelistas
atacaram uma fortificação liberal próxima ao Porto e foram escorraçadas
com vultosas perdas.

D. Pedro, duque de Bragança.

Com a renúncia do conde de Vila Flor, d. Pedro assumiu a posição de


comandante em chefe do exército e convocou ao Porto todos os portugueses
emigrados para se juntar à causa. Isso incluía o general Saldanha, que havia
permanecido em Paris. D. Pedro conseguiu no exílio juntar as forças
necessárias para o empreendimento a que se prestara levar adiante.
Tais forças, no entanto, não eram lá muito unidas. Um exemplo era a
inimizade entre Saldanha e Palmela, que, após chegar ao Porto e tomar parte
na batalha de São Miguel, renunciou à chancelaria e retornou para Londres
como embaixador de d. Pedro, pois não ficaria na mesma cidade que seu
inimigo. Essas uniões costuradas por d. Pedro em prol de um objetivo
comum se desmanchariam tão logo a causa contra d. Miguel estivesse
ganha. Da Inglaterra, Palmela, trabalhando freneticamente com Mendizábal,
conseguiria cavalos e equipamentos para o Porto, além de novos homens.
Foi no Porto que d. Pedro recebeu, com bastante atraso, carta de uma de
suas filhas no Brasil, a princesinha d. Paula Mariana. Por ser ela uma
criança enferma, sempre foi grande a preocupação que inspirou no pai.
Muitas das viagens que fizera — e até mesmo a mudança temporária de São
Cristóvão para a casa que pertencera a d. Carlota Joaquina em Botafogo,
assim como a subida para temporadas na serra — haviam sido motivadas
pela busca de melhores ares para a menina.
Meu adorado pai e meu senhor,

Todas as vezes que se me franqueia os meios de escrever a V.M.I. é dia de alegria, e muito mais
quando eu tenho de felicitar a V.M.I. pelo dia 12 do corrente, para mim dia querido, e que será
sempre respeitado até meus últimos alentos; pois que meu amor filial assim o exige, e eu,
senhor, mais que todos obrigada a V.M.I. nunca me pudera esquecer os desvelos comigo
pranteados na minha longa doença, que só o amor de um pai como V.M.I. não esmoreceu em
tão teimoso mal; graças a Providência, agora vou continuando a passar bem peço a V.M.I. deite
a sua benção a quem submissamente beija a mão de V.M.I. como filha obediente e amiga
verdadeira. Paula 12/10/1832.315

Essa é provavelmente a última carta da filha ao pai. D. Paula Mariana


faleceu no Rio de Janeiro em 16 de janeiro de 1833. D. Pedro foi avisado de
que ela não estava bem e tratou logo de escrever a José Bonifácio, tutor das
crianças.
Porto, 14/03/1833

[...] Eu sou pai, e pai extremoso e o meu amigo não se pode me não digas de que eu lastimo o
não me achar aí por todos os motivos e mui principalmente porque me passado que meus
esforços nascidos do mais puro amor é que a influência que como pai poderia exercer para lhe
fazer tomar os remédios obteria um muito maior resultado sobre a desgraçada enferma; que
pode ser que a esta hora, em que escrevo, já não exista.

No meio da guerra, de um cerco miserável que ceifava diariamente a vida


da tropa e da população, d. Pedro culpava-se por não estar perto da filha no
Rio de Janeiro, a fim de monitorar os remédios que a jovem deveria tomar.
Já antevendo o pior, implorou para José Bonifácio:
Se desgraçadamente ela tiver morrido eu julgo impossível que o meu amigo se nisso tenha se
lembrado de duas coisas para minha mais me fazer conhecer a sua amizade: a primeira é de ter
guardado para mim um bocado do seu lindo cabelo, a segundo é de ter feito depositar no
Convento de Nossa Senhora da Ajuda e no mesmo lugar que se acha depositada sua boa mãe, a
minha Leopoldina, pela qual ainda hoje derramo lágrimas de saudade, posto que tenha a fortuna
de ter encontrado uma tão amável e tão virtuosa esposa como a imperatriz Amélia que tanto me
ama e a meus filhos e que de mim é tão correspondida e esta segunda não leve lugar eu lhe
peço, como pai, e como pai desolado, se peça que me faça o favor de ir em pessoa depositar aos
pés do corpo de sua mãe este pedaço de seu ventre e de nessa mesma ocasião rezar por uma e
por outra.316

Enquanto d. Pedro chorava por d. Leopoldina e pela filha que intuía ter
morrido, o Porto fazia o mesmo por seus mortos. Com o aperto do cerco, a
fome, o tifo e a cólera começaram a dizimar a cidade, fazendo com que
cerca de quatro mil pessoas morressem em seis meses. Enquanto os
soldados comiam os cavalos mortos, o povo devorava cachorros, gatos,
mulas e ratos. D. Miguel agora supervisionava o cerco em pessoa.
Confirmada a morte de d. Paula Mariana, d. Pedro escreveu aos filhos no
Brasil, em abril de 1833:
[...] Ah meu caro filho e adoradas filhas, quão desgraçado é vosso pai por ser separado de vós,
há mais de dois anos, e por último perder vossa irmã!! Ainda era preciso este golpe profundo
para mais lhe dilacerar o coração!! Resta-me, ao menos, no meio de tudo isto. o prazer de saber,
com certeza, que gozais de saúde e que desejais notícias minhas para vossa consolação [...].
Gozo de boa saúde, apesar [...] de todas as privações e incômodos que se experimentam nesta
heroica cidade sitiada, há mais de seis meses, rigorosamente, e vivendo debaixo de uma
abóbada de balas de artilharia e de bombas, que chovem de toda a parte, como não é fácil se
fazer uma ideia exata sem se ver: contudo, nem eu nem os meus companheiros de armas
perdemos as esperanças de podermos em breve, por um golpe atrevido, fazer decidir a questão
[...]

Além de escrever aos filhos e amigos no Brasil, a d. Amélia e às filhas em


Paris, d. Pedro trabalhava feericamente na cidade sitiada. O dia a dia do ex-
imperador foi descrito do seguinte modo:
Por seu gênio laborioso, pouco tempo tomava de repouso; recolhia-se à sua câmara pela meia-
noite, e às quatro horas da manhã já estava pronto esperando por seus ajudantes de ordens, em
companhia dos quais saía a visitar toda a linha de defesa, a dar as necessárias providências;
recolhia-se ao paço pelas dez horas a tomar algum alimento, e ficava trabalhando com seus
ministros no despacho e dando audiência até as duas horas da tarde, quando então, outra vez,
saía, dirigindo-se uns dias por todas as oficinas de obras militares, vendo, examinando e
acelerando os trabalhos das mesmas; outros dias destinava-se aos diferentes hospitais a visitar
os feridos; aquela carinhosa visita era igualmente feita ao hospital dos prisioneiros feridos a
quem dirigia expressões de humanidade [...]. Concluída a visita recolhia-se ao paço pelas seis
horas, tomava assento na sua mesa a jantar com todos os oficiais do dia, findo o qual, entrava
em Conselho de Estado sobre os diversos assuntos do governo; e concluído, lá ia aparecer no
teatro para satisfazer à multidão de espectadores, que ansiosos, ali o desejavam ver.317

A tática repetitiva dos absolutistas, que consistia em primeiro intensificar o


bombardeio sobre a cidade e depois mandar as tropas avançarem para o
local bombardeado, estabeleceria uma nova rotina para d. Pedro no Porto.
Ao começarem a cair as primeiras bombas, ele dirigia-se à igreja, rezava e
comungava. Depois, seguia para a trincheira mais próxima do local
bombardeado a fim de surpreender as tropas inimigas, que logo avançariam
para aquele ponto. Partia brincando a respeito do perigo de vida a que
estava se expondo, para desespero de seus generais e admiração de seus
comandados, tanto portugueses quanto estrangeiros.
Para alguém sempre ativo, ficar preso sob fogo cerrado em uma cidade
sitiada não era a melhor das experiências para alguém com o gênio de d.
Pedro. Ao filho no Brasil confidenciava em maio de 1833:
[...] Por hora não há nada de novo por cá que mereça ser relatado: continuarão as bombas e as
balas que chegam a todos os lugares desta cidade; mas em breve espero tomar a ofensiva e ou
vencer salvando estes descaçados povos, ou acabar de espada na mão como convém à minha
honra [...]

À época, o irrequieto d. Pedro foi descrito, por um oficial inglês que o


visitara, como alguém de “estatura mediana, ereto e ativo: seu aspecto não é
bom e não dá a impressão de saúde: a grande fadiga que ele tem suportado e
a vida sem conforto que tem levado não conduzem com a sua boa
aparência”. É provável que d. Pedro, quando do inverno europeu, já tivesse
adquirido tuberculose. O tenente-coronel Lovell Badcock descreve-o ainda
como homem de boas maneiras e espírito conciliatório; era, além disso, um
radical abstêmio, preferindo sempre água. Durante os brindes, só tomava
um cálice de vinho.
Da França, por intermédio de d. Amélia e seus partidários, chegou ao
Porto o marechal Solignac, a quem logo d. Pedro passou o comando do
exército. No entanto, para somar-se às privações por que ali passavam,
agora a marinha constitucional conduzida por Sartorius ameaçava rebelar-se
por falta de pagamento. Ela deixou de cumprir ordens, e, assim, uma
tentativa de desbaratar as forças de d. Miguel unindo as forças liberais de
terra e mar perdeu-se em 24 de janeiro.
No dia 28, o general Saldanha chegou ao Porto, onde recebeu o comando
de três divisões. Outras divisões seriam comandadas pelo conde de Vila
Flor, agora duque da Terceira, e por sir Thomas Stubbs. Numa tentativa de
liberar uma via de comunicação terrestre para a chegada de mantimentos à
cidade, Saldanha e seus homens puseram-se a trabalhar ferozmente na
construção de fortificações entre o Porto e a cidade de Foz, onde em 4 de
março foram atacados pelos absolutistas, que perderam a batalha e sofreram
grandes perdas. O Porto, entretanto, mal teve tempo de comemorar, já que,
alegando mau tempo, os navios de Sartorius partiram para águas
espanholas. Sabe-se, hoje, que a tempestade pouco teve a ver com a retirada
da frota: na realidade, Sartorius estava tentando vender os navios!
Mendizábal veio novamente ao socorro de d. Pedro e dos liberais. Ele não
só conseguiu dinheiro para pagar Sartorius e seus marinheiros, mas ainda
obteve um novo almirante, Charles Napier, que partia para Portugal com
seis meses de salários adiantados no bolso. Já em janeiro, d. Pedro havia
solicitado um novo almirante aos seus homens em Londres e na França.
Estava até mesmo disposto a aceitar lorde Cochrane, o excêntrico escocês
que fora contratado durante a guerra de independência do Brasil. O novo
almirante rendeu Sartorius em 2 de junho, partindo em seguida para ser
recebido por d. Pedro.
O ex-imperador deve ter achado que Mendizábal, Palmela e todos os
outros que chegavam com Napier haviam enlouquecido. Apresentaram-lhe
um homem atarracado, com uma roupa imunda e um pano amarrando a
cabeça pelo queixo, devido a uma nevralgia. Disseram que aquele era o
novo almirante da esquadra liberal. Napier fazia questão de explicar a d.
Pedro o plano que havia preparado, mas o duque de Bragança recusou-se a
ouvir, mandando-o conversar com Solignac.
Napier achava, não sem razão, que boa parte do exército de d. Miguel
estava tão concentrado no cerco do Porto que Lisboa poderia ser alvo mais
fácil do que se imaginava. O plano era arriscado: além de retirar seis mil
homens do Porto, seria utilizada toda a frota na operação.
Após um conselho de guerra, Solignac afirmou que tudo aquilo era um
absurdo. D. Pedro declarou que se conformaria com o que o conselho
decidisse, pois, como viria a afirmar em carta para um amigo, “[...] sendo
esse negócio essencialmente português, era por tão dignos patriotas que ele
devia ser decidido e que minha vontade em negócio de tão alta monta devia
ser subordinada a decisão da maioria [...]”.318
D. Pedro lutava como pai, pelo direito da filha ao trono. Era seu regente e
tutor natural, mas parecia se considerar menos português e patriota do que
os militares ali presentes. Por conseguinte, viria deles a resolução final
sobre o assunto.

Lisboa
O conselho decidiu pela investida contra Lisboa, mas com menos homens
do que Napier queria. Mesmo assim, um indignado Solignac deixou o
cargo, obrigando d. Pedro a assumir novamente como comandante geral,
agora colocando, acertadamente, o general Saldanha como chefe do estado-
maior. O comando da força expedicionária foi dado a Vila Flor, ao passo
que o duque de Palmela seria o lugar-tenente de d. Pedro, responsável pelo
governo das regiões que as tropas conseguissem libertar. No lugar de seis
mil homens, partiriam apenas 2.600; o restante guarneceria o Porto.
Em vez de se dirigir diretamente a Lisboa, decidiu-se que a expedição iria
mais adiante, na tentativa de tomar a província do Algarve, no extremo sul
de Portugal. De lá, avançariam até a capital. Na noite de 24 de junho, o
duque da Terceira, Vila Flor, desembarcou com seus homens a quarenta
quilômetros da cidade de Faro, capital do Algarve, tomando-a no dia 27
após encontrar pouca resistência. O duque de Palmela estabeleceu um
governo provisório na região, enquanto Napier retornava com seus navios
para dar combate aos vasos de guerra que haviam partido de Lisboa em seu
encalço.
Napier contava com 176 canhões; a armada absolutista, com 372. Mesmo
assim, a Batalha do Cabo de São Vicente, ocorrida em 5 de julho, pendeu
para o lado dos liberais: Napier tomou dois navios de guerra miguelistas,
bem como duas fragatas e uma corveta. No mesmo dia, no Porto, os
absolutistas, notando que a guarnição fora diminuída, tentaram novamente
tomar a cidade, mas não conseguiram e sofreram pesadas baixas.
Tendo sido notificado a respeito da batalha naval, na qual perdera a
supremacia marítima, e da invasão do Algarve, d. Miguel decidiu-se por
mais uma investida contra o Porto, ocorrida em 25 de julho. Dessa vez, a
batalha levaria mais de nove horas. Parte da defesa da cidade cedeu e tropas
miguelistas chegaram a invadi-la, mas foram corajosamente enfrentadas
pelo general Saldanha. Este liderou um contra-ataque com dezoito oficiais
de cavalaria e vinte lanceiros, fazendo as tropas inimigas recuarem. As
baixas de d. Miguel totalizaram mais de seis mil soldados.
O irmão mais novo de d. Pedro, porém, não perderia apenas essa batalha:
de sua posse sairia também a capital. No dia 24, Lisboa foi ocupada pelos
constitucionais. Uma revolta liberal estourou na cidade ante a aproximação,
pelo Tejo, das tropas do duque da Terceira e dos navios de Napier. Nas duas
cidades mais importantes de Portugal, tremulavam as cores azul e branca da
causa constitucional, da rainha-menina carioca, filha de d. Pedro e d.
Leopoldina. Em 28 de julho, chegando em um barco a vapor, o ex-
imperador desembarcou na cidade que deixara 25 anos antes.
Após ter ido cumprimentar Napier na nau capitânia D. João VI, d. Pedro
desembarcou no cais do Arsenal da Marinha às três e meia da tarde, em
meio a esfuziantes vivas por parte da multidão que tinha ido recebê-lo. Em
seguida, montou em um cavalo e passou por várias ruas a fim de saudar a
população, atendendo a um pedido da Comissão Municipal. Logo depois,
assistiu a um Te Deum e a uma missa de ação de graças; então, recebeu, no
palácio da Ajuda, diversos perseguidos pelos miguelistas, que lhe foram
narrar as atrocidades pelas quais haviam passado por terem se mantido fiéis
à rainha.
No dia seguinte, às dez horas da manhã, foi com o camarista, o capelão e
o ajudante de campo ao Mosteiro de São Vicente de Fora. No jazigo dos
reis portugueses, o capelão celebrou uma missa pelo repouso de d. João VI
e de d. Carlota.
Segundo o jornal Chronica de Lisboa:319
Depois que sua Majestade Imperial, com os piedosos sentimentos de uma sólida religião teve
assistido ao Santo Sacrifício, veio junto do túmulo de seu augusto pai, e ajoelhando, em quanto
se rezavam as orações da igreja pelo repouso dos mortos, o amor filial se manifestava
derramando copiosas lágrimas sobre os reais despojos de um pai que findara seus amargurados
dias vítima da perseguição que sua majestade imperial hoje debelava. Acabadas as rezas, sua
majestade imperial escreveu num papel que pregou sobre o túmulo:
Um filho te assassinou;

Outro filho te vingará.

29 de julho de 1833 D. Pedro

Apesar das constantes afirmações, não existe prova concreta de que d.


Miguel tenha culpa pela morte do pai. D. Pedro, sempre como bom
articulador e — em termos atuais — marqueteiro, sabendo como ninguém
manipular a mídia e a massa, usaria o boato contra o irmão.
Em 3 de agosto, escrevendo de Lisboa, deu ele as boas novas aos filhos
no Brasil:
Meu querido filho e amadas filhas. Quis a Divina Providência coroar os meus esforços dando às
armas da rainha uma vitória no lado de além do Tejo no dia 24 do passado e uma outra muito
grande no Porto no dia 25 que me habilitou a partir no dia 27 para esta cidade aonde tenho sido
recebido o melhor que se pode imaginar. Não vos cansarei com os detalhes de tudo que se tem
passado e limitar-me-ei a dizer-vos que a nossa perda em Almada e no Porto não excedeu 300
homens e que a do inimigo passou de 6.000 sem exageração porque assim o confessam os
nossos inimigos. Muitos parabéns dou a Chiquinha pelo dia de ontem grandes saudades foram
as minhas. Ah meus amados filho e filhas quanto é triste para um pai que tanto ama seus filhos
como eu os amo ver-se separado deles! [...]

Apesar de Lisboa, do Porto e de parte do Algarve terem sido tomados, ainda


havia muito a ser feito. O marquês da Fronteira se lembraria, nas suas
memórias, dos primeiros dias de d. Pedro na capital portuguesa:
O imperador, com a atividade que o caracterizava, levava em Lisboa a vida que levara no Porto,
fazendo traçar a linha de defesa da capital [...], fazendo construir redutos e baterias que eram
ineditamente artilhadas, organizando batalhões nacionais e regimentos de todas as armas.320
A operosidade de d. Pedro seria notada também por Napier:
Era o homem mais ativo que tenho visto; levantava-se cedo, e para tudo olhava pessoalmente; e,
conhecendo o caráter demorado dos portugueses, tinha razão; se não fosse a sua atividade a
expedição jamais teria dado à vela das ilhas dos Açores. Era homem de valor, mas não de um
repente, de impulso, ou então não o teriam persuadido a permanecer no Porto, em lugar de
avançar no momento que desembarcou, ou a abandonar a intenção de embarcar na Esquadra
com cinco mil homens.321

Tendo perdido uma batalha para o duque da Terceira, d. Miguel e seu


exército levantaram o cerco do Porto e partiram para Coimbra. Lá,
juntaram-se a outras forças, como a do duque de Candaval, que vinha com
as tropas miguelistas que tinham abandonado Lisboa. Preparou-se, assim,
uma ação contra a capital. Inexplicavelmente, o exército demorou mais de
duas semanas para atravessar uma região que lhe continuava fiel. A
vagarosidade da tropa do irmão foi uma bênção para d. Pedro e os liberais,
que tiveram mais tempo para fortificar Lisboa e treinar novos milicianos.
No total, contavam ali com um exército de 38 mil homens.
Desse modo, chegou-se ao 5 de setembro, dia no qual as tropas de d.
Miguel partiram, bem cedo, à conquista da capital. Após um longo conflito,
em que por duas vezes os miguelistas se lançaram contra as fortificações
liberais, o líder absolutista retirou-se do campo de batalha derrotado,
voltando para a posição que ocupava anteriormente.
A luta fora encarniçada. O duque da Terceira teve o cavalo morto e saiu
ferido, e d. Pedro escapou por pouco: um tiro de canhão matou um soldado
ao seu lado. No dia 14, novamente, as tropas miguelistas tentaram avançar,
mas foram malsucedidas um vez mais.

Novamente em família
Logo após a libertação de Lisboa, d. Pedro enviara a Paris o marquês de
Loulé, seu cunhado, para trazer d. Maria II, d. Amélia e sua filhinha, a
princesa Maria Amélia, que não via havia quase dois anos.
Napier, testemunha ocular, conta o que viu no reencontro familiar,
ocorrido em 22 de setembro:
O Imperador tinha preparado um magnífico escaler de vinte e quatro remos, e quarenta e oito
homens, pintado de azul e branco, indo os homens vestidos das mesmas cores, onde embarcou
no Arsenal com dois Ajudantes de Campo, e eu, para ir receber a imperatriz, e a Rainha; e tão
impaciente estava ele, que partiu sem Corte nem Ministros. Eu nunca o vi tão alegre e satisfeito;
subiu para bordo pouco acima de Belém; foi recebido ao portaló pela Imperatriz que o abraçou
e beijou com o maior afeto: A Rainha estava muito comovida, e não pode conter as lágrimas. A
pequenina princesa Amélia, sua filha mais nova, ocupou muito a sua atenção: ela ficou algum
tanto assustada de lhe ver as barbas crescidas, e não correspondeu muito às suas carícias.322

O desembarque da rainha d. Maria II ocorreria no dia seguinte, quando,


acompanhada de d. Pedro, d. Amélia e os ministros e oficiais da corte,
deixaria o navio ao meio-dia. Assim que o barco que os transportavam
partiu em direção a cais, uma salva de 21 tiros foi dada. Diversas
embarcações a vela cobriam o Tejo. As janelas das casas estavam cheias de
curiosos, e a multidão tomava o cais. As cores da rainha, o branco e o azul,
eram vistas em bandeiras, roupas, vestidos, casacas.
A calma e a festa eram aparentes. Além dos batalhões que formavam alas
entre o Terreiro do Paço e a Sé, o exército nas cercanias permanecia em
armas para evitar atentados. Os oficiais tinham recebido ordens para não
saírem de seus postos em hipótese alguma.
O desembarque se deu ao meio-dia e meia, quando uma salva de 21 tiros,
dados pelos fortes e navios ancorados, encheu o ar em saudação a rainha. D.
Maria, ao receber o general Saldanha, fê-lo na mesma hora marechal. A
rainha tomou o braço esquerdo da imperatriz e o direito do pai, que lhe
sussurrou algo; de pronto, ela exclamou: “Viva a Carta Constitucional!”, ao
que a multidão lhe correspondeu, dando também vivas a D. Maria, a d.
Pedro e d. Amélia.
No dia 25, d. Maria II enfim sentou-se em seu trono. A imperatriz ficou à
sua esquerda e d. Pedro, no chão, abaixo do pódio onde o assento real se
encontrava. O ex-imperador devia sentir-se parcialmente realizado. Ainda
faltava dar cabo de d. Miguel e do exército absolutista, bem como
conquistar mais de três quartos de Portugal.
Com a tomada de Lisboa, a Inglaterra e a França enviaram representantes
diplomáticos creditados junto ao novo governo. Aquele era o
reconhecimento de que as coisas, ao menos diplomaticamente, caminhavam
bem.
Enquanto isso, do outro lado da fronteira espanhola estourava uma guerra
civil. Com a morte do cunhado e tio de d. Pedro, d. Fernando VII, em 29 de
setembro, a filha deste, d. Isabel II da Espanha, subiu ao trono. Até então
somente herdeiros do sexo masculino tinham direito a herdar a coroa,
entretanto, pouco antes de morrer, d. Fernando aboliu a lei sálica. Quem não
gostou disso foi o irmão do rei, d. Carlos, que era, até então, seu sucessor
natural.
D. Carlos era casado com d. Maria Francisca, irmã de d. Pedro, tão
contrária a este quanto a princesa d. Maria Teresa, que também continuava
morando na Espanha. Logo uma aliança se consolidou entre as infantas —
tão boas em conspirar quanto a falecida mãe, d. Carlota Joaquina —, d.
Miguel e d. Carlos. A mãe de d. Isabel II, a rainha d. Maria Cristina,
nomeada regente da filha, por sua vez, aliou-se aos elementos liberais
espanhóis e a d. Pedro, em Portugal. Logo, toda a Península Ibérica estava
em pé de guerra contra d. Carlos, as infantas portuguesas, suas cortes e
forças, fazendo de Portugal uma base para invadirem a Espanha. Uma
desculpa para que as forças da Santa Aliança interviessem na península era
tudo o que a Inglaterra e a França menos desejavam. A Inglaterra, que antes
da vitória de Napier praticamente abandonara d. Pedro e suas tropas à
própria sorte, agora lhe oferecia ajuda para resolver logo a guerra. As
tratativas culminariam numa quádrupla aliança entre Inglaterra, França,
Espanha e Portugal, que ditaria os futuros termos de rendição a d. Miguel.
Agora, d. Pedro relutaria em aceitar ajuda inglesa. Continuaria lutando
com os que haviam realmente se mostrado valorosos, amigos e fieis:
Saldanha, Terceira e Napier. Este último, carecendo de frota inimiga a
enfrentar, fora transformado em general e agora lutava em terra.
No início de outubro, Saldanha avançou contra as tropas de d. Miguel,
que se defenderam enquanto o grosso do exército miguelista recuava até
Santarém, onde mantiveram posição.

D. Pedro adoece
D. Pedro revezava-se entre Lisboa, onde presidia o gabinete de governo, e
Cartaxo, onde Saldanha montara acampamento, quando sua saúde começou
a declinar. Em novembro, ao passar pela cidade de Almada, o duque de
Bragança apanhou um resfriado que rapidamente evoluiu para uma forte
bronquite, seguida de febre e falta de ar. Nem bem havia se restabelecido,
partiu para junto de Saldanha em Cartaxo, onde teve uma recaída. A febre e
a falta de ar pioraram, e pela primeira vez foi notado sangue no seu
catarro.323
Em 2 de dezembro, dia do aniversário de d. Pedro II, ele escreveu ao filho
para lhe dar os parabéns:
Meu querido filho, parabéns. Este dia é para mim, e deve ser para todos os brasileiros dos
maiores: sim, meu amado filho, da tua existência estão pendentes os destinos da pátria, daquela
mesma pátria que tão ingrata foi para comigo, e que eu apesar de tudo, desejo ver prosperar.
[...]

Além dos negócios em Portugal, d. Pedro, como sempre dividido,


preocupava-se com o rumo que a política brasileira seguia:
Eu faço ardentes votos ao céu por ti, e pelo Brasil e tremo quando me lembro que o império está
tocando a meta da sua desmembração: decretadas sejam as alterações projetadas, a guerra civil
a mais horrorosa virá enlutar o horizonte brasileiro, ainda mais do que ele está. Muito folgarei
se a Assembleia Geral [...] cuidar de reunir todos os partidos com o único fim de salvar a nação
da anarquia firmando, como convém e ao mesmo tempo, o sistema monárquico constitucional.
Se isto assim acontecer, e eu puder ainda, em um desses dias, apertar-te em meus braços vendo
a minha adotiva pátria tão feliz como desejo, então eu me reputarei completamente venturoso
[...].

Nessa carta, d. Pedro referia-se às diversas rebeliões ocorridas no Brasil


durante o período regencial, as quais se estenderiam de 1831 até 1841 e
colocariam em risco a integração física do território nacional. Teria ele que
cruzar novamente o Atlântico para preservar o império do filho? Não
haveria nem tempo, nem saúde para tanto. Em dezembro, vendo-se
obrigado a retornar a Cartaxo, d. Pedro sofreu lá um “considerável ataque
de sufocação, simulando asthma [asma], e com grande cópia de salivação
sanguínea”.324 Uma junta médica, convocada pelo dr. Tavares, começou a
acompanhar de perto a saúde do duque de Bragança. Segundo o marquês de
Fronteira, a condição do ex-imperador inquietava os seus amigos e Portugal
inteiro, e os médicos divergiam a respeito do melhor tratamento. Uns
aconselhavam que d. Pedro fosse para as termas em Caldas da Rainha;
outros, que fosse respirar os ares de Cintra ou de Mafra; uns terceiros, que
se mudasse do Palácio das Necessidades para o da Ajuda, ou mesmo para
Queluz.325
D. Pedro, entretanto, não era o único doente da família. Do outro lado, d.
Miguel e uma das irmãs que ainda mantinha consigo, d. Maria d’Assunção,
contraíram cólera. D. Miguel recuperou-se, mas a irmã não, falecendo em 7
de janeiro. Assim como fizera quando da morte de d. Carlota Joaquina, o
rival tentou avisar d. Pedro, mas este recusou-se a abrir a carta que lhe fora
enviada, pedindo que a devolvessem ao destinatário.
Enquanto isso, a guerra civil continuava. Apesar de uma tentativa de
mediação feita pelos governos da Espanha e da Inglaterra, a luta entre d.
Miguel e d. Pedro prosseguiu. No início de janeiro, começou a operação dos
liberais que buscava conquistar o restante do território português.

Queda de José Bonifácio da tutoria


dos príncipes
Mais uma vez, em meio aos negócios portugueses, interpunham-se a d.
Pedro questões que envolviam o Brasil e os filhos que lá deixara. Em
dezembro de 1833, fora preso José Bonifácio. Só assim a Regência
brasileira conseguiu destituí-lo da tutoria dos jovens príncipes e substituí-lo
pelo marquês de Itanhaém. Em carta aos filhos de 7 de abril de 1834, d.
Pedro declarou:
Meu querido filho, e amadas filhas. Que dia de luto e de tristeza é este para mim. Foi neste
mesmo dia que vi obrigado a separar-me do Brasil e de vós! Salvei a minha honra; evitei a
guerra civil, é verdade, com isto me deveria eu, em parte, consolar, porém o amor que vos
consagro e ao Brasil não permite que minha dor seja diminuída: a minha saudade cada dia se
acha mais aumentada. [...]

Quanto à saúde, mentia: “A cautela que tenho tomado, e o assíduo


tratamento conseguiram triunfar da doença: acho-me atualmente no meu
antigo estado de forças e de vigor.”
Sempre preocupado com a criação dos filhos, mencionava na carta a
mudança da tutoria: “[...] Deus permita que as mudanças que houveram não
tenham influído na vossa educação e estudos. Eu espero que o marquês de
Itanhaém tenha o mesmo cuidado em vós que tinha o tutor que eu nomeei.”

Uma maldição
Um dos principais conspiradores pela saída de José Bonifácio da tutoria das
crianças foi a futura condessa de Belmonte, Mariana Carlota de Verna
Magalhães, que pediu exoneração de seu cargo de dama camarista devido
ao autoritarismo do tutor. Após a queda do velho Andrada, d. Mariana
voltou ao paço como camareira-mor. D. Pedro, que detestou o fato e a
postura dela, escreveu-lhe em seguida para rogar-lhe uma verdadeira praga.
[...] Vejo que está novamente no Paço e encarregada da educação moral do meu filho e filhas,
espero, e desejo, que seja igual, à que eu lhe dava, e que d. Mariana não ignora, não gostando eu
das mudanças que houve [...]. Peço-lhe [...] faça guardar o decoro devido a meus filhos e não
permita de maneira alguma que as pessoas desconhecidas, mal educadas, ou de conduta
esquivosa tenham trato ou conversação com eles; muito me tem afligido o que por aqui se diz
das companhias e reuniões, que aí se fazem no Paço, de pessoas que nem por nome conheço,
mas de quem não ouço falar bem, nem política nem moralmente; enfim eu confio que terá todo
o cuidado e que dirigirá meus filhos pelo caminho da virtude, com a lição, bons exemplos, e
lembre-se que se fizer comprovar o contrário, quando não seja castigada neste mundo,
infalivelmente o será no outro.326

D. Miguel parte para o exílio


Enquanto isso, em abril de 1834, o duque da Terceira, que havia tomado
Amarante, ameaçou Vila Real. Ali estavam agora reunidas as forças do
cunhado de d. Miguel e de d. Pedro, o infante da Espanha d. Carlos, que
lutava pelo trono da Espanha. Antes que o exército espanhol e o exército
liberal português se unissem, d. Carlos saiu da cidade e partiu para
Santarém, onde se juntou a d. Miguel. Em 22 de maio, d. Miguel e d.
Carlos, devido ao cerco que se formara em torno dessa cidade, a
abandonaram por Évora. No dia seguinte, após a decisão dos generais
miguelistas de pedirem a paz, foram enviados emissários para Saldanha e
Terceira. No dia 26, diante do primeiro secretário da legação britânica em
Lisboa, os absolutistas se renderam e aceitaram os termos impostos — entre
eles, a expulsão de d. Miguel e d. Carlos da Península Ibérica.
D. Miguel seguiria para Sines, de onde partiria, em um navio inglês, para
o exílio. Iria se instalar em Roma, onde se colocaria sob a proteção do papa
e, bem longe do irmão, declararia que fora coagido a assinar a Convenção
de Évora-Monte. Uma lei do mesmo ano baniria d. Miguel e toda a sua
descendência da linha de sucessão ao trono português.
Dias depois, em Elvas, a antiga regente de Portugal, infanta d. Isabel
Maria, era libertada pelas tropas constitucionais. Segundo o marquês de
Fronteira:
Soube, por nós da Convenção de Évora-Monte, [...], da desmoralização dos batalhões do
usurpador, e, finalmente, da queda do reinado de d. Miguel. Pareceu-me o mais satisfeita
possível, com as importantíssimas notícias de que éramos portadores.327

314 Torre do Tombo, cartório da extinta casa real, AHMF cx7321

315 Arquivo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, coleção Hélio Viana, DL 1376, pasta 5.

316 Idem, DL175-38

317 O cerco do Porto, p. 174-5.

318 PASCUAL, A.D. de. Rasgos memoráveis do senhor dom Pedro I, p. 159.

319 Chronica Constitucional de Lisboa, no 5, quarta-feira, 31.jul.1833, p. 16.

320 FRONTEIRA, Marquês da. Memórias, 5a série, vol. III, p. 16.

321 NAPIER, Carlos. Guerra de sucessão em Portugal. vol. II, p. 342.

322 NAPIER, Carlos. Guerra de sucessão em Portugal, vol. II, p. 334.

323 TAVARES, João Fernandes. Autos da autópsia do corpo de d. Pedro de Alcântara, p. 2.

324 Idem.

325 FRONTEIRA, Marquês da. Memórias, 5a série, vol. III, p. 140.

326 Biblioteca Nacional, Manuscritos, 64,02,002 no 021

327 FRONTEIRA, Marquês da. Memórias, 5a série, vol. III, p. 100.


O Brasil sem Pedro

LOGO APÓS a partida de d. Pedro do Rio de Janeiro, os jornais


oposicionistas passaram a falar claramente contra ele — atitude outrora
punível, tendo-se em vista a cláusula constitucional que considerava
inviolável a figura do imperador. Quanto aos ex-imperantes, porém, a
constitucional brasileira nada dizia.
Foi assim que, às vésperas do 7 de setembro de 1831, lançaram um livreto
intitulado Cartas dos dois amantes de S. Cristóvão, separados pela
revolução do dia 7 de abril.328 Trata-se de um romance epistolar. A história
desenvolve-se por meio da troca de correspondências entre uma criada do
Paço Imperial e um soldado. Ao longo da leitura, é possível perceber o
desespero da criada, que caíra no erro de seguir para o exílio com o ex-
imperador. Ela acreditara que d. Pedro havia renunciado para salvar a
Constituição e sua honra, ao contrário do soldado seu amante. No final, a
criada arrepende-se de sua decisão de partir do Brasil e abandonar seu
amado, sendo acometida pelo terror de ser usada sexualmente por seu
senhor. Embora não seja nomeado, o tal senhor evoca claramente a
lubricidade de d. Pedro, que após a renúncia passara a ser explorada cada
vez mais pela imprensa brasileira.
O que antes não se podia dizer com clareza passou a ser escancarado,
sobretudo pelo jornal Sete de Abril, cujo nome visava glorificar a revolução
brasileira que depusera o “tirano”. Em suas páginas, d. Pedro e a marquesa
de Santos seriam os alvos principais. Nem quando da morte da princesinha
d. Paula Mariana manteve-se o respeito — pelo contrário: o tema surgiu
como oportunidade para falar sobre o imperador e sua ex-amante, bem
como a respeito da morte de d. Leopoldina:
Relação de um moderado.

Abaixo o Ministério! Abaixo o Club da Floresta! Como é possível suportar por mais tempo um
Governo, que fez sair para a rua o enterro de S. A. I. a Senhora D. Paula, sem ter feito o
competente convite à Senhora Duquesa de Goiás, e à Senhora Marquesa de Santos? [...] Abaixo
o Club da Floresta, de onde partem essas desatenções, para com as pessoas mais atendíveis. [...]
Já esta falta de etiqueta na morte da Senhora D. Leopoldina, saudosa Mãe da Senhora D. Paula,
trouxe a queda do Ministério de então, tão depressa como o ex-Imperador chegou do Rio
Grande.329

O ataque moral contra d. Pedro continuaria, sempre alimentado pela


munição que ele mesmo proporcionara. Achando que tudo podia e não
entendendo, como d. Leopoldina entendera, que exemplos morais deveriam
emanar do trono, o ex-imperador e sua ex-amante eram motivo de
comentários nos mais diversos contextos. Por exemplo, neste ataque do Sete
de Abril a um discurso realizado na Assembleia em 1833, quando a figura
de d. Pedro foi enaltecida.
[...] Tecendo o panegírico de seu senhor d. Pedro, a pedido de certa gente caramuru, em cujo
bando muito se distingue [...], louvou-o até por coisas que ele nunca fez, como por exemplo, a
Universidade do Rio de Janeiro, e a abundância da água na Carioca [...]. Coitado do pobre
velho! falta-lhe a memória, e sobeja-lhe o furor de atacar os que nem são nem querem ser
servis!... Já que citou o Decreto para a tal Universidade, [...], por que não cita a portaria, ou o
que quer que seja, que fez Primeira Dama a Marquesa de Santos, em desfeita a tantas Senhoras
honradas, que se não queriam misturar com tal mulher? [...] os motivos desta promoção cobrem
de rubor as faces de quem os conhece [...]. O infame panegirista de d. Pedro não pode ignorar
isso, por que até se sabe, que ele dissera, à vista dos estonteamentos dos últimos dias desse
Príncipe, que depois da morte da virtuosa Imperatriz, todos os negócios de d. Pedro haviam
desandado, em castigo do que lhe fizera; e esta proposição é na verdade o mais picante
epigrama, ou pedrada nas janelas dessa célebre marquesa, de quem muitas coisa se disseram na
morte da Imperatriz, que pareceram confirmadas pelo Baronato de Inhomirim [...].330

Conspirações
Três meses após a abdic