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Profissão docente e interdisciplinaridade: Um ensaio em construção

Carla Fernanda Matté Marengo 1


Ensaio realizado para a disciplina: Seminário Interdisciplinar em Ciências
Humanas I
Docentes: Thiago Ingrassia Pereira e Cássio Cunha Soares 2

Introdução

Neste ensaio abordaremos a relação intrínseca que há, ou que, deveria haver,
entre educação, profissão docente e interdisciplinaridade. Na docência, como em vários
processos vivenciados em sociedade, é necessário o trabalho interdisciplinar. E, isto se
evidencia no cotidiano, na multiplicidade e especificidade que há em cada ser, em cada
situação.
A interdisciplinaridade é muito importante para a pesquisa, para o pesquisador.
Para compreendermos isso, alguns conceitos se fazem necessários. Assim como para
Leis (2005, p. 3) “A interdisciplinaridade pode ser entendida como uma condição
fundamental do ensino e da pesquisa [...]” e também o fato de estar em processo
contínuo “[...] entender o fenômeno muito mais como uma prática em andamento [...]”.

A pesquisa

O ensinar está vinculado com a interdisciplinaridade, pois aprendemos em


diversas esferas e em diferentes tempos. Precisamos fazer reflexões e agir conforme as
especificidades do pensar e agir diversificado, pois somos formados de muitos
ensinamentos que influem em nossas práticas em sociedade. Nas Ciências Humanas a
interdisciplinaridade não é algo pronto, constituído, mas algo a ser construído, no
cotidiano, nas ações do profissional docente.
Pombo (2006, p. 208) explicita isso quando fala “[...] ciência é esse tipo de
conhecimento que se caracteriza por estar em crescimento permanente”. E, prossegue
essas afirmações em: “[...] este olhar sociológico sobre o crescimento da ciência permite

1
Mestranda em Mestrado Interdisciplinar em Ciências Humanas (PPGICH) UFFS campus Erechim.
2
Professores Adjuntos do Mestrado Interdisciplinar em Ciências humanas (PPGICH) UFFS campus
Erechim.
explicar de um modo diferente o mecanismo de subdivisão infinita dos campos de
investigação. (p. 210)”.
E objetivamente procura-se investigar como se deu a construção da profissão
docente no final do século IXX e início do século XX nos 32 municípios da Associação
dos Municípios do Alto Uruguai (AMAU). Nesses espaços e nesses tempos o que
ocorreu na profissão docente? Como era o ensino? Os professores tinham formação para
ensinar? Como eram as relações estabelecidas entre docentes e comunidade? Estas e
outras questões que perpassarão a investigação auxiliarão no decorrer da pesquisa e
dissertação trazendo elementos fundamentais para discorrer sobre o assunto em questão.
É importante ressaltar que o ensino precisa ser interdisciplinar, pois vivemos
interdisciplinarmente, não há fios que ligam ou desligam por uma vontade ou outra de
alguém. Tudo funciona intrinsecamente no espaço temporal em nossa sociedade, com
elementos que se interligam e conectam ações e reflexões.
Por este motivo Dilthey (2010) nos remete ao hipotético, ou seja, nada está
pronto, sempre em construção e por isso, interdisciplinar. No pensamento de Dilthey é
através do abstrato e suas ações que se iniciam os trabalhos interdisciplinares. Nestes
termos, há uma decomposição, uma desconstrução, que se perpetua através dos
ensinamentos e dos tempos. O que vivenciamos nos dá o início, o que pode ser
construído à partir disso.
O que queremos enquanto educadores, qual nossa formação e o que iremos
construir cognitivamente em prol da educação? Desconstruindo o que está naturalizado,
inserindo conceitos que não limitem a capacidade cognitiva e compreendendo as
especificidades e diversidades de nossa sociedade. Para isso precisamos pesquisar e
aprofundar o que foi vivenciado historicamente, fazendo reflexões e relações de como
era e como é o ensino e os sujeitos envolvidos nestes contextos.
E isto abrange as diferentes linguagens que vão se estabelecendo. Para Patto
(2007) um mundo complexo torna impossível dar conta de seus problemas com uma
única linguagem, já que há uma diversidade delas. E, assim, precisamos estar em
contínuo processo, inovando, ampliando saberes.
Esta pesquisa tem a pretensão de fazer um estudo abordando a
interdisciplinaridade na educação, de forma a analisar diversos fatores que convergem
para o tema como a historicidade e elementos culturais e sociais de um determinado
tempo e espaço, citando aqui, especificamente o final do século IXX e início do século
XX. Neste viés a abordagem à educação, como era o ensino, como os professores
pensavam suas ações, como era a didática temporal (entre outras coisas) nos farão
refletir e repensar nossas práticas e compreender, pelo menos em parte ou senão no
todo, como aconteciam as práticas em educação, através de documentos históricos,
entrevistas, imagens que retrataram essa época.
Precisamos historicamente e socialmente compor a profissão docente, o ser
professor. Por isso, quem eram essas pessoas que foram pioneiras na região? Como era
a formação e como ensinavam seus alunos? E a pergunta que norteou, que motivou a
pesquisa: Como se deu a construção da profissão docente no final do século IXX e
início do século XX?
Para resolver esse e outros questionamentos que perpassam o ser professor, e a
profissão docente, utilizamos de uma abordagem qualitativa, analisando documentos
históricos e imagens que abordam o cenário docente nesta faixa temporal (final do
século IXX e início do século XX). A educação, como era vista, como era considerada e
quem eram os sujeitos atuantes/passivos das relações intrínsecas do ensinar e do
aprender, nos remete aos tempos passados, ao limiar de uma pedagogia, ou melhor, de
uma educação que era privilégio de classes sociais mais abastadas, economicamente ou
como símbolo de status na sociedade. Para repensar, desconstruir, precisamos pesquisar,
estudar, rever alguns conceitos e concepções. E, para isso, imagens e documentos, além
de pesquisadores e estudiosoa da formação docente, que retratavam a educação na
modernidade ou, até mesmo, efeitos dessa modernidade, nos darão subsídios para
significar e resignificar conceitos (pré) estabelecidos ou não, educação e sujeitos
inseridos em um contexto próximo (Associação dos Municípios do alto Uruguai -
AMAU) e historicamente à nível de Brasil para contextualizar e tecer pensamentos e
ações que dizem respeito ao ser professor e suas especificidades.
A qualidade formativa e o conhecimento teórico e prático são essenciais na
educação, e para desenvolver esse papel adequadamente é o professor o responsável
pelo referencial teórico, social e histórico na contribuição educacional, por meio de
linguagens diversificadas. Para tanto, faz-se imprescindível o conhecimento adequado
frente às especificidades e realidade em que seu aluno se insere. E, neste sentido
buscamos compreender a formação que este profissional (professor) possuía no final do
século IXX e início do século XX para atender a demanda educacional daquele dado
momento.
A formação de professores deve estar atrelada aos ensinamentos que estes
receberam ao longo de sua vida e, também aos saberes que buscaram devido aos
questionamentos suscitados em suas práticas, em suas vivências. Por isso, como eram
essas práticas, esses ensinamentos na modernidade, neste recorte histórico.
Considerando e partindo do fato de haver (ou não) formação para professores, e,
se esta foi adequada/satisfatória nos moldes de uma sociedade contemporânea, sentimos
a necessidade de investigar como era ser professor naquele momento histórico e social.
Para isso utilizamos de pesquisa documental e fotos históricas, procurando obter
arquivos que remetessem aos professores e sua formação na modernidade. A princípio
procuramos obter fontes bibliográficas e pesquisar autores que falem do assunto
formação de professores de alguma forma, definindo ao longo da pesquisa quais
abordagens se fazem mais adequadas e perceptíveis aos olhos da sociedade e, também
as impressões do ser professor. E a pergunta norteadora que nos movimentou,
desacomodando ideias (pré-concebidas) é: Como se deu a construção da profissão
docente no final do século IXX e início do século XX?
A pesquisa estará estruturada, a princípio, em quatro partes. A primeira seção
corresponde à história, fatos históricos sobre educação à nível nacional. Na segunda
seção, a abordagem centra-se nos professores, suas histórias, suas vivências. Na terceira
seção a importância da formação para professores e como ela acontecia. E ao finalizar
fazendo uma análise de como se deu essa formação e quem eram esses sujeitos na
região da Associação do Municípios do Alto Uruguai (AMAU).
No decorrer da pesquisa serão conceituadas e explicitadas questões
metodológicas e referenciais teóricos, assim como, os pesquisadores que abordaram o
tema suscitando problematizações acerca da formação docente e seus sujeitos. Assim
como a abordagem histórica e social que envolve esse contexto, num dado
espaço/tempo no qual esses professores se encontram.
Para alguns autores a formação está vinculada ao ser professor e, esta deve estar
em contínuo processo, (re)pensado, problematizando, debatendo conceitos e saberes. A
educação precisa estar se (re)construindo, se (re)modelando, instigando sempre a nos
movimentar, a nos sentir inquietos perante à naturalização, a normatização. Precisamos
estarmos disponíveis para conhecer e desmitificar saberes no campo educacional.
Tardif (2000) salienta que a profissionalização precisa ser continuamente
pensada, problematizada, visto que sua desvalorização remete à educação como ofício, e
não como profissão nos diversos aspectos histórico-sociais ao longo do tempo/espaço
em que estamos inseridos.
Conforme Romanowski (2007), a principal preocupação com a formação dos
professores são os primeiros anos da docência. Eles constituem um “choque da
realidade” porque o professor aprende intensamente por ensaio e erro a tarefa de
ensinar. Salienta que os programas de formação permitem o conhecimento sobre a
escola e o sistema educativo, favorecendo uma ação crítica e consciente por parte dos
docentes. Os professores que participam da formação evidenciam os problemas da
prática educativa como motivação dos discentes, disciplina, metodologia de ensino,
sistema de avaliação, planejamento, relacionamento e o ambiente de trabalho em geral.
A autora destaca a importância de um professor mais experiente para ajudar o professor
nos primeiros anos de docência a encontrar meios para atuar em sala de aula. Em
pesquisa recente, a autora comenta que Souza constatou que os docentes em início de
carreira têm mais preocupação em dominar conteúdos, as metodologias, o controle do
tempo da aula, a disciplina dos alunos e sua promoção. Os que são mais experientes
cxpreocupam-se com a aprendizagem e dificuldades dos alunos.

Zitkoski e Morigi (2011) enfatizam que educar não deve ser transferência de
conteúdo, mas uma conscientização e participação. Salientam que para Paulo Freire, a
educação deve buscar superar a alienação, opressão e desumanização, e, ainda, o
educador(a) deve ser o testemunho da sua proposta educativa. Ele afirma que o papel do
professor progressista é o de dar testemunho a seus alunos, demonstrar competência,
amor, clareza política, coerência no que diz e faz e ter a capacidade de conviver com os
diferentes.

Assim também corroboramos com os autores buscando a formação dos sujeitos,


(re)pensando, (re)construindo saberes e interagindo um com os outros. Nesse sentido,
buscaremos avançar na pesquisa coletando dados que exemplifiquem e também, que nos
deem subsídios para alavancar o processo de escrita e reflexão do trabalho.

Conclusões

Este ensaio nos fez refletir sobre nossa trajetória acadêmica através de estudos
sobre formação docente, o “ser” professor, a trajetória desses sujeitos, o que aconteceu e
o que os moveu e direcionou para o âmbito educacional. Ainda em fase inicial, com
muitas dúvidas e questionamentos que, no andamento da pesquisa se farão
indispensáveis para a obtenção de resultados relevantes no trabalho realizado.
A trajetória dos professores, o momento histórico e cultural vivenciado nos
remete à nossa própria formação enquanto sujeitos que ensinam e que aprendem. Os
espaços, que iremos investigar, seriam somente no âmbito escolar? Reflexões e
questionamentos que estarão presentes no decorrer do trabalho e que nos impulsionarão
sempre em frente.
Para Freire (2011) ensinar os conteúdos vai além do contexto escolar, é preciso
ver e ouvir os sujeitos através de suas vivências compartilhadas e socializadas entre
professores e alunos para que assim possamos problematizar e refletir sobre as práticas,
e, se estas realmente alcançam a subjetividade no processo de ensino e aprendizagem,
mostrando assim que o sujeito não é apenas um mero reprodutor do saber do professor,
mas que em sua autonomia é capaz de abstrair os conceitos refletidos na prática social.
Na pesquisa buscamos, refletimos e estudamos mas não há como esgotar o tema,
e, nem é este nosso propósito. E, por isto a importância da interdisciplinaridade na
educação, pois aprendemos de diversas formas e em diferentes contextos, considerando
especificidades e concepções que vem inseridas em cada sujeito. Nesse sentido, muitas
questões ficarão em aberto para serem aprofundadas, buscando delinear elementos que
definam e a abordagem e problemática do tema pesquisado.
REFERÊNCIAS

DILTHEY, Wilhelm. Introdução as ciências humanas – tentativa de uma


fundamentação para o estudo da sociedade e da história. Trad. de Marco Antônio
Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. ISBN 978-85-218-0470-3.

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LEIS, Héctor Ricardo. Sobre o conceito de interdisciplinaridade. Cadernos de


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THIESEN, Juares da Silva. A interdisciplinaridade como um movimento articulador no


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