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Revista de Administração Municipal - MUNICÍPIOS - IBAM A CIDADE

Revista de Administração Municipal - MUNICÍPIOS - IBAM

A cidade, os
comportamentos
e as leis
Carlos Nelson Ferreira dos Santos (1943-1989)
Arquiteto e Urbanista pela Universidade do Brasil
Chefe do Centro de Pesquisas Urbanas (CPU)–IBAM entre 1975 e 1988

Publicado originalmente na Revista de Administração Municipal n.º 186,


janeiro e março de 1988.

Há um conto de Allan Poe de morbidez nessa história. O cas- mesmo tempo e não sabia como...”
que gosto muito. Chama-se A Morte telo tem uma porção de relógios Comecei de propósito pela te-
Rubra. Uns aristocratas no Renas- que vão marcando os minutos mática do isolamento urbano dos
cimento sabem que a área em que fatais antes da meia-noite, até ricos porque acho que a questão
estão vivendo será assolada por uma que, na sala mais monumental, habitacional nas metrópoles brasi-
peste e decidem se juntar em um pa- o maior de todos soa, e entra leiras, tão diferenciada... é sempre
lácio e se trancar lá dentro. Passam a triunfalmente um personagem a mesma. Levamos até à exacerba-
festejar, com muita comida e bebida, que arrasa todos os outros. ção na década passada um modelo
enquanto a Morte Rubra campeia lá Ganha o prêmio, não sei se de de urbanismo, nos meus termos,
fora. Esperam voltar depois de sua luxo ou de originalidade, mas, de forte conteúdo emblemático
passagem. de qualquer jeito, é coroado por ter e metafórico. Durante quase um
Acontece que, com o tempo, se vestido de Morte Rubra. século, forçamos as tendências
a situação foi ficando chata. Pedem, então, que o mascarado a uma segregação espacial que, a
Depois de todas as bebedeiras, tire a fantasia para que todos saibam par de ser uma das expressões da
comenzanias e adultérios possí- quem é. E ele diz: “Que fantasia? sociedade, lhe dissesse exatamente
veis, eles têm de inventar algu- Eu sou a morte rubra”. Ao que os o que desejava ouvir. Em outros
mas novidades para se distrair. outros, apavorados, respondem: termos, pelo que acabo de dizer,
Alguém tem a ideia de fazer um “Mas, estava tudo trancado... Como não eximo ninguém de culpa. Não
baile à fantasia. Quando chegas- você conseguiu entrar aqui?” E a estou atirando pedras no poder
se meia-noite, a melhor fantasia Morte Rubra: “A minha dificuldade autoritário que nos comandou e
ganharia um prêmio. Trata-se de era maior do que a de vocês, pois coisas assim...
Allan Poe, entra um bocado de recebi ordens para pegar todos ao Farejo que, há cem anos, se

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constrói uma evolução da socie- filhos estavam tendo a cabeça fei- do “país descoberto” que recebeu
dade urbana brasileira em direção ta. Sofriam lavagem cerebral e se todas as suas leis prontas, inclusive
a determinado modelo desejável, convertiam. as que são a base das regulamen-
da mesma forma que se amarra a Ficaram nervosos... Foi bom, tações urbanas. A lei de verdade,
cenoura na frente do burro para porque a Prefeitura da Cidade do porém, deve ser a formalização
fazê-lo andar. Desde os planos Rio de Janeiro lavou as mãos. Ali de comportamentos. Primeiro,
de Pereira Passos para o Rio de dentro, quem regia eram os morado- o consenso e o comportamento;
Janeiro e os de Aarão Reis para res. Nenhuma lei impedia que o Rev. em seguida, a lei, que é como uma
Belo Horizonte, as tendências Moon comprasse, a título particular, eternalização ritual. Nosso País se
são claras e emblemáticas. O País uma casa. O que se passou depois habituou com leis não oriundas do
quer se rever, de repente, como a era problema de quem quis se isolar. comportamento ou do consenso da
nova sociedade. Não é mais o penúl- Pois é... a Morte Rubra entrou. população. E, por falar em desen-
timo da América Latina a libertar os Fico pensando que “outros tipos de volvimento urbano, o que pode ser
escravos e a se proclamar República. peste” estão entrando nos condomí- consenso e comportamento em 100
Renega um passado de muito peso, nios exclusivos e rios de conjuntos anos de frenesi? Explico melhor: o
muito conservador, em favor de habitacionais para pobres, seus único acerto possível parece ser o
um futuro que almeja que chegue opostos simétricos no espaço e na próprio frenesi da urbanização feita
rápido. Precisa se orgulhar com hierarquia social, mas seus iguais “na marra”.
a história que ainda não fez, mas quanto à proposição. Guetos iguais. Estou lidando com a noção de
que fará. Futuro que tem a ver com O que está acontecendo nas diversidades dentro de uma hege-
progresso e industrialização, et pour cidades brasileiras agora? A bus- monia. Que a moldura hegemô-
cause, com processo de urbanização. ca da resposta, que afinal atende nica seja clara, nem discuto. Seria
A sociedade parece se embeber por às cinco questões que me foram ofender a inteligência de vocês,
inteiro da ideia. Enlouquece, apesar dirigidas, é intrigante. Pela pri- ensinar-lhes o padre-nosso. O que
de se desdobrar em múltiplos níveis meira vez, está sendo gerado o me preocupa, porém, não é de que
e desejar diferentes coisas. Todos, cidadão como produto histórico. se constitui a moldura, mas quais
porém, estão dispostos a se atirar, a No momento, o óvulo começa foram as pinceladas desse quadro
chegar na frente para comer a sucu- a ser fecundado. Gorará? Vai e como foi pintado de fato. Quero
lenta maçã urbana e vão aceitando, crescer? Sairá direito ou faltará saber se já podemos nos distanciar
em definitivo, qualquer maneira de algum pedaço? Não sei, mas o que para ver se é paisagem, interior ou
virarem seus donos. aconteceu no ano passado no Bra- retrato.
Não farei um retrospecto da sil foi um autêntico movimento De repente, diante de uma pro-
recente história urbana brasileira. urbano. O maior dos movimentos posta hegemônica de urbanização
Todos conhecem o assunto tão urbanos que já tivemos. Feito que visava chegar inevitavelmente
bem como eu. No final dos anos por quem? Por que camadas? aonde estamos chegando, houve
70, chegamos a uma perfeição de Classes médias, sem dúvida. To- milhões de propostas caudatárias
Morte Rubra. Outro dia saiu em um dos nós estávamos lá. Camadas se encaixando. Todas elas, no fun-
jornal do Rio algo que me fez muito populares? Quais? Um milhão de do, muito vorazes. Sem nenhum
satisfeito (a glória do pesquisador pessoas em uma praça ou em uma pieguismo, os pobres vêm para
é descobrir uma prática simétrica avenida no Rio ou em São Paulo as cidades com a mesma fome da
às suas idealizações...). Em um dos é realmente muita gente ou ainda classe média e dos “novos man-
conjuntos mais caros e exclusivos não é nada? Que peso isso teve dões” que são os velhos de sempre.
em Jacarepaguá, onde os milionários nas mudanças políticas e que grau Todos perceberam que a cidade era
se trancam bem para que “a peste de consciência especificamente o emblema e, ao mesmo tempo, o
fique do lado de fora”, ocorreu urbana havia naqueles aglome- que representava: o momento his-
um escândalo. Uma das quotas do rados de gente? No Rio, aliás, a tórico. Como fazer, em cima disso,
condomínio foi comprada por um última eleição para governador emergir “leis”?
dos senhores da seita do Reveren- pode ser passada pelo mesmo Gosto do esforço louvável
do Moon. De repente, para grande crivo, pela mesma peneira. do pessoal do CNDU no fim
desassossego dos moradores, seus Eis o dilema brasileiro. Trata-se do governo passado. Remaram

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contra a maré. Com toda minha Paulo, convidado pela USP. Um com menos de mil moradores desde
irreverência, tiro o chapéu para antropólogo chamado Michel De já previstas para quando tiverem 10
estes homens sérios. Porém, Certeau, que tem toda uma teoria mil ou 50 mil? Zoneamentos, leis
com toda a tranquilidade, des- muito interessante sobre o jogo e a complicadas ou pessoas que cada
confio que fizeram algo inútil. cidade como um jogo. Fiz um plano vez manipulem melhor o beabá do
No começo do ano, surgiu um então, em que metade é dedicada a seu espaço? Este sim, dominado e
trabalho do tipo dos que me angus- explicar o que é um jogo de cartas conjugado segundo as complexi-
tiam, encostando-me na parede em e como se deve jogá-lo: os números dades crescentes. Proponho que o
definitivo na minha vocação real de e as figuras, os quatro naipes sim- assunto seja ensinado às crianças
desenhador da forma, de proposi- bolizadores de classes sociais. No na escola. Assim como podem
tor de uma morfológica. Afinal, sou baralho, as bases são limitadas, os aprender as quatro operações da
um arquiteto. Tratava-se de propor padrões fechados. No entanto, com aritmética, poderão familiarizar-se
seis novas cidades em Roraima, a o mesmo baralho, pode-se ir desde com o jogo de sua cidade. Sugiro
última fronteira. Cidades com 600 bridge a “burro em pé”. Qualquer que se discuta profundamente com
habitantes na sede; em todas, a forma de jogo de baralho sempre as bases populares para acabar com
expectativa familiar a 100 anos de excita o ser humano há milhares de essa história de leis incompreensí-
Brasil. “Agora são 600”! Dizem os anos, desde que o Tarô místico foi veis e inatingíveis.
próprios moradores. “Porém, daqui inventado na China. Esse assunto é democrático por
a 10 anos serão 10 mil, 20 mil... E Cada jogo de cartas tem sua excelência. O conhecimento da ci-
daqui a 20 anos”? regra, sua estrutura. Não estamos dade se confunde com suas regras
É bom abrir os olhos para ver mais falando de padrão. Mesmo de formação e desenvolvimento
e afinar os ouvidos para escutar. assim, imaginar que conhecer as que têm obrigatoriamente de ser
O que pensam essas pessoas do cartas e as regras é saber jogar é a muito simples. Só assim poderão
desenvolvimento urbano? Estão ilusão de todo garoto de 11 anos todos jogar. Além disso, as normas
todas com umas bocas vorazes quando começa a se interessar por precisam conter mecanismos para
deste tamanho... As terras das “buraco” e leva surras uma atrás sua autodestruição, isto é, revisões
novas cidades em Roraima são da outra até aprender. Quando se automáticas. É como se a assembleia
públicas. Vai abaixo um dos aprende, descobre-se que o impor- dos jogadores experientes pudesse
grandes mitos jurídicos no País. tante é atuar pelo negativo, não pelo recriar as formas de se organizar ao
Nos lugares onde só há 600 habi- positivo. Intuir o que os outros têm descobrir que as coisas não correm
tantes, já existe a profunda e aguda na mão, o que descartam, o que fica bem. Deve ter sido assim, aliás, que
escassez de terras. Em cidades com sobrando e, mais que tudo, entender os elaboradíssimos jogos de cartas
10 mil lotes, nenhum mais está a hora certa de fazer o que o Prof. que conhecemos hoje foram aper-
disponível. O nó político é intrin- De Certeau chamava donner un coup. feiçoados através da história.
cadíssimo. Como é que, com determinada Agora, passo a responder a cada
Para o urbanista, o desafio é as- “mão”, se sabe o momento de bai- uma das perguntas propostas para
sustador. A solidão diante da pran- xar as cartas? Parece até que estou discussão:
cheta é muito grande. Você pensa falando de política..., o que seria o
em todas as mentiras que sempre caminho certo para tratar de polis De que modo o Poder
lhe causaram angústia... Pensa nos que, salvo erro, é cidade. Público pode interferir no
equívocos da profissão, que continu- Para usar a analogia, basta trocar processo de valorização imo-
am os mesmos... A Nova República lote por carta, quarteirão por sequ- biliária?
segue chamando os de sempre para ência, naipe por tipo de uso do solo,
subir as rampas e para desenhar as conjugação de ruas e quarteirões Exatamente por meio de um es-
porcarias que desenham há cinquen- por estrutura. Em seguida, explique- forço de reconhecimento que precisa
ta anos. Então lhe dão um encargo. se às pessoas que, se souberem o começar já. A população brasileira,
Que fazer? que é básico para jogar na cidade, querendo ou não, canalizou, nos
Depois de pensar muito, lembrei irão se representar e levar adiante últimos cem anos, enorme energia
das teorias de alguém que tive o atividades, no começo bisonhas. social no ato de se urbanizar. Os
privilégio de conhecer aqui em São Mas, o que se pode querer? Cidades americanos já vinham dizendo isto

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há muito tempo, e nosso complexo


de colonizados nos impedia de ouvi-
los. Tal gasto de energia não é mais
tão necessário, e a força social está
aí, à espera de novos campos para
ser aplicada.
Estou bem de acordo com
Ernesto Bobbio quando diz que
há dois tipos de conhecimento: o
da sapiência e o da experiência.
Então, que o povo entre com ex-
periência do sofrimento da urba-
nização, que temos pouquíssima,
e nós entremos com o saber. Por
enquanto, nenhum dos lados co-
nhece bem o que o outro domina.
À medida que se cruze a vivência
dos pobres com os jogos mentais
que fomos educados para manejar
(previsões, inferências, ilações),
haverá uma potenciação. Se os re-
sultados forem bem difundidos e as
regras do jogo ficarem definidas, os
processos de valorização imobiliária
correntes estarão sendo postos em
cheque, justo na arena onde isso
deve ocorrer: é uma questão polí-
tica; uma luta política. Se aí existe
algo a ser resolvido, terá de ser en-
frentado por uma prática política,
sem mágicas. Luta longa, que exigirá segregação mesmo, mais Morte Em lugar de zonas, proporia um
muita maturidade. O melhor a dizer Rubra... procedimento mais de acordo com
é que a prática política, antes de mais Sempre que se fala em zonea- nossa realidade sócio-histórico-cul-
nada, é uma prática. mento, há uma certa ambiguidade: tural: o reconhecimento das tendên-
nunca se sabe se a base é a densida- cias à centralização que levam, em
Uma legislação de zonea- de ou a funcionalidade. No caso, a linha reta, a ideia de abairramento.
mento adequado seria capaz ambiguidade é mau caratismo pro- Certos estudos, como o que fizemos
de minimizar a tendência à fissional. O zoneamento a partir de sobre o Catumbi no Rio, no livro
expulsão dos mais carentes densidades, ainda posso entender e Quando a Rua Vira Casa, mostra-se
para locais cada vez mais aceitar. O pôr funções, vamos ter a como é importante, no quotidiano
distantes? coragem de dizer que é burrice, que urbano, a noção de abairramento, de
é um ato de autoritarismo insupor- centro do bairro mantendo relações
Não. Ilusão de urbanista! Vamos tável e que não dá certo. Tirando, é de interdependência com o espaço
parar com isso, parar com bobagem! claro, alguns casos muito especiais. que domina.
Nossas cidades já foram zoneadas Mas se são casos tão especiais, a pró- As cidades não se compõem de
e rezoneadas ad nauseam. A zona pria comunidade deveria reclamar e manchas de cor como as represen-
é uma “zona”. Para que continuar exigir, como quando houver extre- tamos nos mapas. Costumamos
perdendo tempo com princípios ma poluição ou perigo ambiental. nos iludir pensando que, quando
que não deram certo nem nas suas Isso não deveria ficar por conta da cobrimos um papel de verdes,
origens? Geraram o quê? Só mais lei ou de especialistas. amarelos e cor-de-rosa, estamos

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criando mesmo o que representam mais complexas. Asseguro, inclusive, tivas para uma apreciação
esses matizes. Vejo muito mais os que já existem. Estou cansado de vê- do referido anteprojeto pelo
sítios urbanos como gradientes. las em loteamentos e favelas. Congresso Nacional?
Nos núcleos e nos miolos, a cor é Deveremos trabalhar para que
forte. À medida que se sai do centro se criem as verdadeiras pressões Quando foi lançado esse ante-
para as beiradas, o pigmento vai fi- nas bases até que certos compor- projeto, um dos órgãos que mais
cando fraco até encontrar um novo tamentos mais universais e trans- se mexeram no Rio foi a OAB.
pigmento fraco que vai ficar forte bordantes virem leis de domínio Convidaram-me para os debates
adiante. A identificação de centros de todos. É tempo de começar a lá. Na ocasião, os advogados fica-
é bastante simples: são os lugares rejeitar a autocomplacência. Dizer vam discutindo se a lei era lei, se
centrais que todos veem como sen- NÃO à boa-vontade, ao “esclare- era direito fazê-la assim, se era ou
do assim mesmo. Pensem bem se as cimento” e à inutilidade do que se não programática... Ouvi aquilo
representações gerais das cidades, fez, e tenho medo que se continue tudo e disse mais ou menos o
não as nossas, não são essas. fazendo em Brasília. que repetirei aqui: a Lei me parecia
Nunca falei mal da Lei de De- nascida artificialmente de um con-
Qual o alcance e os limites senvolvimento Urbano. Acho que senso político esclarecido e não de
técnico-institucionais dos como reforço mais alto é útil e ne- uma ação gradual que partisse do
instrumentos preconizados cessária. Sozinha lá em cima, porém, muito simples e quotidiano e fosse
pelo anteprojeto de lei de não serve para nada. sacramentando cada vez mais com-
desenvolvimento urbano portamentos “ritualizados”.
elaborado pelo CNDU no sen- Quais os obstáculos en- Finalmente, perguntei se havia
tido de minimizar os efeitos contrados para a aprovação alguma ideia a respeito do que os
perversos da apropriação do anteprojeto da Lei de partidos políticos diziam em seus
desigual do solo urbano entre Desenvolvimento Urbano programas sobre desenvolvimento
as classes sociais? formulado pelo CNDU? urbano. Estávamos em tempo de
eleições para o Governo Estadual.
A única resposta possível é a A ausência absoluta de lobbies po- Citei os cinco partidos concorrentes,
tentativa de elaboração de com- pulares. Nem lobbies municipalistas um a um, e indaguei como reagiam
portamentos de domínios do existem em torno dessa lei. O único à proposta. Todos me olharam com
espaço muito simples, a partir que se apresentou até agora foi o da caras de bobo. Nunca ouviram falar
das bases. Isso já existe, aliás. CBIC, contundente e violentíssimo. nisso. Eram perguntas ingênuas: O
Vocês já entraram em uma fa- Reconheço o direito de os em- que pensava Miro Teixeira da nova
vela e pensaram que aquilo tudo presários fazerem seu lobby e ex- lei? o que palpitava o PT? Recebe-
foi produzido por um consenso pressarem com clareza suas ideias ram alguma orientação de Lula? O
infernal? Não houve ninguém e desejos. Repudiarei até a morte, Brizola se preocupava com o direito
dando regras. Os princípios fun- no entanto, a prerrogativa de serem de preempção?
damentais da nossa cultura, que interlocutores exclusivos do Poder Os partidos políticos, de fato,
vêm desde antes dos gregos, estão Público. Se representam a força não tinham qualquer posição, pelo
lá. Olhe que há favelas no Rio econômica, teremos de organizar a menos no Rio. Para nós, entretan-
com cerca de 100 anos. pressão política simétrica e apostar to, o assunto parecia fundamental.
Li, outro dia, que, em Çatal Iu- que ela é que tem de ganhar. Caso É o caso de duvidar: É mesmo
ruk, não havia ruas. É estranho para contrário, acreditaremos em um fundamental? Para quem? Nós, os
nós... que só podemos conceber mundo fechado, cristalizado para especialistas, temos certeza de que
cidade a partir de rua e casa. Todas sempre. O poder econômico é for- aí está uma necessidade popular
as favelas repetem este modelo. São tíssimo e, em seus próprios termos, premente? E se o povo não quiser
comportamentos consensuais. É insuperável. se mobilizar e achar que há outras
preciso pegá-los, já que estão na ca- demandas prioritárias, o que iremos
beça de todos os brasileiros, e ir, aos Em que medida a atual fazer?
poucos, praticando desagregações correlação de forças políti- Devolvo as cinco perguntas
e evoluções até chegar a situações cas propicia condições efe- originais com essas.

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