Você está na página 1de 150

Ficha Técnica

Título original: The M adness of Queen M aria


Título: D. M aria I - A vida notável de uma rainha louca
Autor: Jenifer Roberts
Tradução: Edgar Rocha
Revisão: José Eduardo Didier
Capa: M aria M anuel Lacerda/Oficina do Livro, Lda.
ISBN: 9789724621241
CASA DAS LETRAS
uma marca da Oficina do Livro – Sociedade Editorial, Lda.
uma empresa do grupo LeYa
Rua Cidade de Córdova, n.º 2
2610-038 Alfragide – Portugal
Tel. (+351) 21 427 22 00
Fax. (+351) 21 427 22 01
© Jenifer Roberts, 2009
Todos os direitos reservados de acordo com a legislação em vigor
E-mail: info@casadasletras.leya.com
www.casadasletras.leya.com
www.leya.pt

Esta edição segue a grafia do novo acordo ortográfico


Para Paul
INTRODUÇÃO
D. Maria I é indiscutivelmente merecedora de estima e de respeito, embora
não tenha os atributos que façam dela uma grande rainha. Ninguém poderia
ser mais amável, mais caridosa ou mais sensível, embora estas qualidades
sejam diminuídas por uma excessiva devoção religiosa.
Duque de Châtelet, 1777

D. Maria I de Portugal tem sido tratada de forma pouco amável pela historiografia.
Enquanto alguns autores a colocam de parte, como se fosse apenas uma louca
religiosa, outros relegam os seus anos no trono para uma breve nota de rodapé,
encafuada entre os períodos mais dramáticos do governo de marquês de Pombal e da
Guerra Peninsular. Contudo, ela merece bem mais, não apenas por ter sido uma
mulher bondosa, cujo principal infortúnio foi herdar a coroa, mas também pelo facto
de a sua história ser um paradigma da principal disputa do século XVIII entre a Igreja
e o Estado, entre as velhas superstições e a época da razão.
A rainha encarnava fielmente as contradições desse tempo, pois apesar dos seus
fortes instintos na direção de uma religião tradicional, soube compreender, pelo
menos em alguns aspetos, o Iluminismo, tendo mesmo adotado uma abordagem
humanitária dos assuntos de Estado. Mulher frágil e delicada, adaptou-se mal à
monarquia e a intensa luta pelo poder entre a Igreja e o Estado ajudou a destrui-la.
Embora se tenha esforçado por governar bem o país, com os conselhos dos seus
ministros, D. Maria tinha pouco interesse pela política. Foi também por isso que não
escrevi uma história política, concentrando-me mais nas complexidades da sua vida
privada, assim como nos principais acontecimentos e nas personalidades desse
período.
A principal fonte utilizada nesta obra foi a correspondência dos embaixadores
britânicos em Lisboa, particularmente Robert Walpole (sobrinho de Sir Robert
Walpole, o primeiro-ministro de Inglaterra), o qual escreveu cartas muito
elucidativas e divertidas. Apreciei a sua companhia enquanto trabalhava com os
documentos do Estado e do Foreign Office nos Arquivos Nacionais e senti a sua falta
quando foi para casa de licença. Outra fértil fonte foi o diário do marquês de
Bombelles, embaixador francês em Portugal durante os anos 1786-1788, que era
deliciosamente indiscreto nas páginas do seu diário privado.
No verão de 1788, D. Maria passou três dias na Real Fábrica de Vidros da
Marinha Grande, da qual era proprietário o inglês William Stephens. Algumas
semanas mais tarde, a irmã dele, Philadelphia, escreveu uma carta, só recentemente
descoberta, descrevendo este acontecimento único na história real. O seu
correspondente era Thomas Cogan, um primo de Londres, que guardou a carta junto
dos seus papéis particulares. Quando morreu, em 1792, os seus bens passaram para o
filho, Thomas White Cogan, antigo reitor de East Dean, no Sussex, falecido em 1856.
Mais de um século depois, os documentos foram oferecidos ao West Sussex Record
Office como parte «dos restos de documentos do advogado do Sr. W. P. Cogan»,
tendo sido descobertos numa casa em Chichester no início da década de 1960.
Enquanto a carta de Philadelphia permanecia intacta e desconhecida nos arquivos, eu
escrevia um livro sobre William Stephens e a riqueza que este acumulou na Marinha
Grande (Glass: The Strange History of the Lyne Stephens Fortune), pelo que
aproveito para citar as memórias do Dr. William Withering, quando visitou a fábrica
em 1793:

«O Sr. Stephens teve a honra de receber a rainha e a família real de Portugal durante três dias, em 1788. Os
acompanhantes de Sua Majestade, juntamente com o vasto fluxo de pessoas dos campos em redor, formavam
uma assembleia de vários milhares. Foram empregados trinta e dois cozinheiros e proporcionados estábulos
para oitocentos e cinquenta e três cavalos e mulas. Para crédito da honestidade e da sobriedade dos
portugueses, só se perderam duas colheres de prata de entre as sessenta dúzias que foram usadas e, embora
fosse colocado vinho nos aposentos usados pelos criados, nem um único homem foi visto bêbado1.»

Afora uma breve menção à «visita da rainha» no livro de contabilidade na Marinha


Grande, esta foi a única referência que pude encontrar acerca de uma ocasião que
parecia tão excecional. O Dr. Withering – que era membro da Lunar Society of
Birmingham – tinha a reputação de ser um homem cuidadoso, diligente e ninguém o
podia acusar de ser exagerado, porém duvidei da sua prodigiosa memória nesta
ocasião.
A família Stephens era proveniente de Devon e da Cornualha, logo não terá sido a
geografia a conduzir-me ao West Sussex Record Office. Contudo, depois da
publicação de Glass, o curador juntou mais alguns manuscritos ao sítio da internet
Access to Archives (um projeto que reúne os catálogos de arquivos de todo o Reino
Unido). Um dia, ao digitar, por acaso, «Marinha Grande» no sítio da internet,
encontrei a seguinte referência: «Relato por Philadelphia Stephens de uma visita da
Rainha e da Família Real de Portugal à Marinha Grande, 25 de julho de 1788».
Se Glass foi inspirado pela minha admiração por William Stephens, a presente
obra deve mais à sua irmã, cujo relato da visita real proporciona uma viagem
intimista ao mundo da monarquia absoluta – um instantâneo da vida da corte na velha
Europa, apenas um ano antes da Revolução Francesa ter começado a mudar a face do
continente. Este estudo oferece ainda ao leitor um retrato simpático de D. Maria, nas
suas últimas semanas de felicidade, pouco antes das tragédias que provocaram a sua
insanidade e o infeliz epíteto de «Maria, a Louca».

Nomes e títulos
Foi mantida a ortografia portuguesa para os membros da família Bragança, assim
como para os reis espanhóis.
Uma das principais figuras deste período é Sebastião José de Carvalho e Melo,
conhecido historicamente como marquês de Pombal, e que usou o nome Carvalho até
ter recebido o título de conde de Oeiras, em 1759. Dez anos mais tarde, tornou-se no
primeiro marquês de Pombal. Com algumas exceções, no início da história, o nome
Pombal foi sempre usado. O mesmo se aplica ao primeiro-ministro de D. Maria, o
visconde de Ponte de Lima (cujo título anterior era visconde de Vila Nova de
Cerveira).
Refira-se que era hábito algumas famílias nobres terem dois títulos ao mesmo
tempo, como por exemplo: durante a vida do terceiro marquês de Távora, o seu filho
mais velho usou o título de quarto marquês de Távora, pelo que eram conhecidos,
respetivamente, como «o marquês velho» e «o marquês novo». As suas mulheres
também eram denominadas «a marquesa velha» e «a marquesa nova».
Era ainda prática comum, um homem juntar o nome de solteira das respetivas mães
ao apelido paternal, ligando os dois com um «e» (Carvalho e Melo, Seabra e Silva,
Melo e Castro). Estes homens eram normalmente chamados pelo primeiro desses
nomes (Carvalho, Seabra, Melo).

Moeda e taxas de câmbio


A unidade básica da moeda portuguesa era o real, uma unidade de valor
insignificante. Um milhar de réis (plural de real) correspondia a mil-réis. O cruzado
valia 400 réis, o moidore dez vezes esta quantia: 4000 réis ou 4 mil-réis.
Durante o período narrado, a libra inglesa valia apenas três mil-réis e meio. Os
valores variáveis da libra esterlina não são um indicador de confiança e referência
para os valores atuais da moeda portuguesa, mas, para se ter uma ideia de escala, £1
em 1750 valeria atualmente £160. Esta cifra declinou para £131 em 1770, para £108
em 1790 e para £66 em 1807.

Apêndices
O relato de Philadelphia Stephens sobre a visita real à Marinha Grande é transcrito
como primeiro apêndice.
Os membros da família real usavam frequentemente o mesmo nome (João, José,
Mariana). Para fácil referência, incluiu-se nos apêndices uma lista das principais
figuras deste relato.
Citações
Para reduzir o número de referências no texto, as citações dos embaixadores
britânicos e dos cônsules não são referenciadas individualmente. As respetivas cartas
podem ser encontradas, por ordem cronológica, nos Arquivos Nacionais em Kew,
série SP 89 para os anos até 1780, inclusive; e série FO 63 a partir dessa data.

Agradecimentos
Gostaria de agradecer ao Sr. José Pedro Barosa, que despertou o meu interesse pela
Marinha Grande e me ajudou com as referências mais arcaicas do relato da visita de
D. Maria à fábrica de vidro. Estou também grata a Luís de Abreu e Sousa, pela
análise do livro de contabilidade na Marinha Grande; a Christine Robinson, pelas
traduções de cartas e documentos; e a W. Stephen Gilbert, Hilary Green e Peter e
Yvonne Taylor, pela leitura do manuscrito e pelas inúmeras sugestões úteis.
A autorização para reproduzir material original foi concedida pelo West Sussex
Record Office, e gostaria também de agradecer à Oxford University Press por
autorizar o uso de 43 palavras de Journals of a Residence in Portugal 1800-1801
and a Visit to France 1838, de Robert Southey (editado por Adolfo Cabral,
Clarendon Press, 1960).
Como sempre, estou profundamente grata ao meu marido pela sua paciência ao
longo dos anos, pela companhia e ajuda na maior parte das minhas viagens, e pela sua
tolerância enquanto eu trabalhava longas horas no manuscrito. Devo-lhe muito mais
do que estas palavras podem exprimir.
1 Withering, I, 314-315
Na verdade, a história mais não é do que um
quadro de crimes e de infortúnios.

Voltaire
L’Ingénu, 1767
PRÓLOGO
3 de fevereiro de 1792

Quando naquela manhã de inverno de 1792 o céu se iluminou, a tensão no palácio


real de Salvaterra era tremenda. Ninguém tinha dormido nessa noite. As brasas ainda
estavam quentes, os candeeiros faziam sombras nas paredes e um grupo de médicos
falava em voz baixa com um agitado jovem de vinte e quatro anos. D. João de
Bragança, príncipe herdeiro de Portugal, sentia-se totalmente inútil. Era já um jovem
indeciso nos seus melhores dias, mas, neste momento, não tinha qualquer ideia do que
havia de fazer numa situação assaz singular.
Na véspera, a rainha em exercício – sua mãe – tinha ensandecido durante a
representação de uma peça no teatro do palácio. Guinchara e uivara durante toda a
noite, andando em passadas largas, enquanto puxava os cabelos e os vestidos,
gritando de medo e aflição. Os seus criados rodeavam-na. Tentavam acalmá-la o
melhor que sabiam. Estavam porém aterrorizados com a mera hipótese de tocar na
rainha e ofender o protocolo real.
A manhã despontava enevoada e cinzenta. Tinha chovido durante vários dias e a
humidade entranhara-se nos quartos do palácio. Os criados, atarefados nos
apartamentos, empacotavam os vestidos reais, preparando-se para levar a rainha para
o seu palácio, em Lisboa. No rio, o Bergantim Real fora limpo e polido, com o
dragão dourado da proa a brilhar através da chuva miudinha dessa manhã. Os lacaios
tinham preparado a cabina dourada com tapetes e almofadas de veludo encarnado e
oitenta remadores apresentavam-se vestidos de libré vermelha e amarela. Uma
refeição ligeira – uma merenda – foi preparada nas cozinhas e levada para bordo,
com travessas de comida requintadamente preparadas, bem como garrafões de água
mineral, vinho e limonada.
D. Maria só foi trazida do palácio quando tudo ficou pronto, sendo logo ladeada
pelas suas duas irmãs, que a seguravam pelos braços, e seguida pelo seu filho com
uma expressão de desespero no rosto. Debaixo de um pálio erguido sobre a sua
cabeça, para a proteger da chuva, foi conduzida para a margem do rio e sentada nas
almofadas de veludo da cabina. Os barqueiros mergulharam os remos na água e o
bergantim moveu-se lentamente ao longo do rio Tejo.
A viagem até Lisboa levou várias horas. Quando o Bergantim Real chegou à
cidade, a grande praça, junto ao rio, estava cheia de populares que tinham ouvido
rumores sobre a «indisposição» da rainha e procuravam ver a sua soberana. Assim
que o bergantim atracou, foram levantados quarenta remos na vertical, e a mulher
enlouquecida levada para um coche e transportada através da praça para o Senado da
Câmara. Algum tempo depois, a sua face pálida apareceu numa janela que dava para
a praça, sendo recebida com vivas da multidão que ali a esperava.
Na noite seguinte, a gravidade do seu estado foi finalmente anunciada à nação. Os
sinos tocaram, imagens sagradas foram trazidas para os seus apartamentos,
procissões religiosas atravessaram as ruas. Preces «pela preciosa saúde de Sua
Majestade» foram entoadas noite e dia em todas as igrejas e conventos da cidade.
Mas, como a própria rainha dissera um dia, nem médicos nem padres podiam inverter
os decretos do destino.
PARTE I

Princesa Herdeira
1

Infância Real
Quem não viu Lisboa, não viu coisa boa.
Antigo provérbio português

Cinquenta e sete anos antes, essa mesma praça junto ao rio – o Terreiro do Paço –
fora palco de uma imensa alegria. Era também uma tarde húmida de inverno. As
borrascas subiam o Tejo e a chuva enchera poças na praça e no cais de mármore
junto às águas. A oeste, localizava-se o palácio da família de Bragança, majestoso e
soberbo. Os quartos e os corredores estavam iluminados por candelabros e velas de
sebo, enquanto os criados transportavam apressadamente recipientes com água quente
e roupa de cama lavada. Uma princesa de dezasseis anos dava à luz a sua primeira
criança.
Às seis horas da tarde, quando fez força e gritou pela última vez, nasceu uma
rapariga que, depois de crescer, se tornaria no primeiro monarca feminino da história
portuguesa. De acordo com os costumes, o bebé assomou do corpo da mãe à vista de
uma pequena multidão de padres, cortesãos, ministros, médicos e criados. A recém-
nascida foi recolhida nos braços da sua avó, levada para uma sala adjacente e
apresentada ao avô, o rei D. João V, e ao pai, o príncipe herdeiro D. José, os quais
se ajoelharam para agradecer a Deus o bem sucedido parto.
Assim que a notícia foi anunciada, logo se juntou uma grande multidão no Terreiro
do Paço. O ar reverberava com os aplausos, com o dobrar dos sinos e com os tiros
de canhão. Os coches dos diplomatas estrangeiros depressa chegaram ao palácio.
«Fui imediatamente à corte», escreveu o embaixador britânico para Londres nessa
mesma noite, «porque me disseram que assim era hábito e tive audiências com a
família real para os felicitar. Recomendo que a carta de felicitações do rei não tarde
e que seja enviada no próximo barco, pois esta corte é muito sensível a tais
pormenores».
As celebrações prolongaram-se durante mais três dias, com os foguetes no ar, os
sinos a tocar e as velas nas janelas, que o povo de Lisboa acendia ao escurecer,
iluminando a cidade durante a noite. O Te Deum foi cantado nas igrejas e, a 9 de
janeiro de 1735, a criança foi levada à capela real e batizada – «com grande pompa e
cerimónia» – com o nome de Maria Francisca Isabel Josefa Antónia Gertrudes Rita
Joana de Bragança.

Maria nasceu na cidade mais rica e opulenta da Europa, uma Lisboa enriquecida
pelas minas de ouro e de diamantes do Brasil. Frotas carregadas de pedras e metais
preciosos chegavam do Rio de Janeiro, todos os anos – uma riqueza que foi usada
pelo seu avô para engrandecer a Igreja portuguesa de modo a esta poder rivalizar
com o Vaticano em pompa e esplendor.
Em teoria, D. João V era um monarca com poderes absolutos. Na prática, era
apenas um escravo dos sacerdotes. A Igreja era a instituição mais poderosa do país,
beneficiando de tal maneira da indulgência do rei, que não se sabia onde a autoridade
eclesiástica terminava e a autoridade do monarca começava. A Companhia de Jesus
tinha indiscutível poder e influência, controlando todo o sistema de ensino,
confessando toda a família real e tendo construído, sempre em nome da defesa da fé
católica, uma considerável teia de poderes por todo o reino.
O arcebispo de Lisboa, conhecido como patriarca, tinha sido elevado à dignidade
de pontífice. Usava vestes similares às do Papa e era auxiliado por um Sacro Colégio
de vinte e quatro prelados que envergavam trajes escarlates. «Não há no mundo
nenhum eclesiástico», escreveu Joseph Baretti, amigo do Dr. Johnson, «que seja
rodeado de tanta pompa como este Patriarca»2.
O rei construía conventos e igrejas, cobria-os com mármores raros e enchia-os de
tesouros: altares de ouro e prata cravejados de pedras preciosas, quadros e
esculturas de Itália, bibliotecas com milhares de livros. «A sua alegria eram as
procissões religiosas», escreveu Voltaire. «Quando se apegava à construção,
edificava mosteiros; quando queria uma amante, escolhia uma freira»3. O convento
predileto de D. João era o de Odivelas, onde tinha um apartamento forrado de tapetes
e espelhos. Dois dos seus muitos filhos bastardos foram ali concebidos.
Entretanto, a sua esposa, a rainha D. Maria Ana de Áustria, deu-lhe seis filhos
legítimos, três dos quais sobreviveram até à idade adulta: Bárbara, José e Pedro.
Numa invulgar dupla cerimónia, na fronteira com Espanha, em 1729, Bárbara casou-
se com Fernando de Bourbon, príncipe herdeiro de Espanha, e o príncipe herdeiro de
Portugal, D. José, casou-se com a irmã de Fernando, Mariana Vitória, de apenas dez
anos. Foi um dos mais brilhantes momentos da história portuguesa. «Toda a gente
sabe», escreveu o embaixador britânico trinta anos depois, «que o custo imenso da
roupa e do equipamento para o duplo casamento celebrado na fronteira com Espanha
deprimiu as famílias nobres durante largos anos, não tendo algumas ainda recuperado
dessa ferida.»
Mariana Vitória atingiu a puberdade em 1732. D. José juntou-se-lhe na cama de
casal e rapidamente a corte ficou ansiosamente à espera de notícias. A sucessão dos
Bragança dependia da fertilidade de Mariana e houve grande júbilo quando – ao fim
de dois anos – foi anunciada a gravidez da princesa. Maria nasceu a 17 de dezembro
de 1734 e, durante os doze anos seguintes, o casal real ainda deu à luz outras três
filhas: Mariana, Doroteia e Benedita.
As quatro irmãs cresceram juntas na corte e passavam bastante tempo em Lisboa. A
fachada sul do palácio dava para um porto sempre cheio de barcos, com quase cinco
quilómetros de largura, enquanto a oriente ficava o Terreiro do Paço, que era o ponto
de encontro da cidade, pois nesta praça decorriam várias cerimónias religiosas e
touradas aos domingos à tarde.
Procissões de penitentes encapuzados juntavam-se neste local durante a Semana
Santa, «descalços, com correntes compridas e pesadas presas aos tornozelos, as
quais faziam um ruído sinistro». Eles transportavam pedras ou cruzes às costas e
chicoteavam-se a si próprios «com tanta força que as suas costas estavam vermelhas
e inchadas devido à violência repetida das chicotadas»4. Duas vezes por ano, em
autos de fé presenciados «com muita diligência» pelo avô de D. Maria e membros da
corte, a praça enchia-se de archotes e de piras flamejantes, enquanto as vítimas da
Santa Inquisição eram garroteadas e queimadas sob as janelas do palácio.
Imagens religiosas, tanto as mais violentas como as mais harmoniosas, povoaram a
infância da princesa D. Maria. Passava longas horas nas suas devoções, encantada
com o ritual, enlevada de prazer enquanto os músicos reais tocavam e cantavam em
igrejas ricamente ornamentadas. Assistia às missas matinais, às preces do fim da
tarde na capela do palácio e ainda havia um dia dedicado a um santo ou uma festa
religiosa pelo menos uma vez por semana. Maria sentava-se ao lado da mãe na igreja
e, em todos os serviços religiosos, Mariana Vitória beijava as páginas do seu livro
de orações, «sendo seu hábito beijar os nomes de Deus, de Nossa Senhora e de todos
os santos e anjos em todos os livros que abrisse»5.
Também no campo, onde D. João tinha vários palácios com parques de caça que
permitiam que a sua família se entretivesse com os apaixonantes desportos
sanguinários, assistiam a festividades religiosas. O imenso palácio de Mafra, que
tanto tinha apartamentos reais como alojava várias centenas de frades franciscanos,
foi mandado construir por D. João para cumprir o voto feito na noite do seu
casamento de construir um convento dedicado a S. Francisco se a sua mulher lhe
desse filhos. O palácio em Belém acolhia uma escola de equitação para treinar os
cavalos reais, e foi aí que D. Maria aprendeu a cavalgar. O castelo dos mouros, em
Sintra, proporcionava um refúgio próximo no calor do verão e as tapadas de caça em
Salvaterra de Magos e Vila Viçosa garantiam excelentes condições para a prática
desse desporto.
Quando a família viajava de um palácio para o outro, a sua mobília e recheio de
casa seguiam com ela: camas, mesas e cadeiras, tapeçarias e carpetes, espelhos,
serviços de mesa, pratas e vidros. «A corte não podia dar um passo sem levar
consigo a mobília», escreveu um francês que viveu em Lisboa, «porque a família não
tem nada em mais do que um lugar ao mesmo tempo e não pode mudar de morada sem
a levar sempre consigo, até mesmo as suas camas e a roupa de cama»6.
«Um número prodigioso de veículos, uma misturada de carruagens novas e velhas»,
era requisitado para cada viagem, assim como cavalos e mulas para as diferentes
etapas. E quando chegavam ao destino, os criados tinham de trabalhar com grande
rapidez para preparar o alojamento: camas e móveis montados, tapeçaria pendurada e
outros tapetes estendidos no chão. Os cozinheiros suavam na cozinha para preparar a
primeira refeição, enquanto os criados desempacotavam o guarda-roupa real. Nos
estábulos, os cavalos e os arreios eram preparados e polidos porque a família iria
levantar-se cedo, na manhã seguinte, ansiosa que estava por montar a cavalo e caçar.

A princesa D. Maria tinha apenas sete anos de idade quando o seu avô sofreu uma
trombose que lhe paralisou o lado esquerdo do corpo. Foram feitas preces nas igrejas
e conventos, os assuntos de Estado foram esquecidos e «procissões religiosas
encheram as ruas noite e dia a partir do instante em que adoeceu». Os médicos
aconselharam-no a ir a banhos nas Caldas da Rainha, na esperança de que a imersão
em águas quentes e sulfurosas o ajudassem a restaurar a saúde. Foi uma viagem de
dez horas até à cidade termal, tendo a família partido a 9 de julho de 1742, de barco
pelo rio Tejo acima até Vila Nova da Rainha, onde carruagens esperavam para os
levarem por terra até às Caldas.
Regressaram a Lisboa a 17 de agosto. Seis semanas mais tarde, o rei sofreu novo
ataque, «um espasmo que o privou dos sentidos durante meia hora». Foram
canceladas todas as aparições públicas, à exceção de um auto de fé, a 4 de novembro,
que durou catorze horas e «foi uma fonte de fadiga para muitas pessoas com mais
saúde que foram obrigadas a assistir». D. João sofreu uma terceira trombose a 12 de
novembro e nunca mais deixou de manifestar «tremuras violentas», que se repetiam
quase todas as semanas e se prolongavam, às vezes, por dias inteiros.
Isto pôs fim às visitas regulares aos palácios na província, apesar de os médicos
ainda acreditarem nos efeitos benéficos das termas e de a sua família o ter
acompanhado às Caldas treze vezes em oito anos. De cada vez que faziam a viagem,
o mobiliário real e os adereços viajavam com eles e sempre que o rei se sentia mal
no caminho a comitiva inteira tinha de voltar para trás e regressar a Lisboa.
A rainha tornou-se regente sempre que D. João estava demasiadamente doente para
se reunir com os seus ministros, mas, na maioria das vezes, o soberano reservava os
assuntos de Estado para si próprio. As queixas acerca da inexperiência de D. Maria
Ana avolumavam-se, mas D. José, o príncipe herdeiro, recusava um papel mais ativo,
o que deixava a nobreza descontente. «Sua Majestade está tão doente», escreveu o
cônsul britânico, «que, no melhor dos casos, dormita, sendo muito impertinente, não
despachando nada, e, contudo, querendo que tudo passe pelas suas mãos»7.
Enquanto a sua saúde se deteriorava, D. João passava os dias a assistir a
cerimónias religiosas na igreja patriarcal. A perna e o braço já paralisados
começaram a «inchar consideravelmente», ao mesmo tempo que o monarca sofria de
frequentes «ataques de delírio». Em setembro de 1749, o rei fez a sua última viagem
às Caldas. Quando regressou a Lisboa a 6 de outubro, estava, segundo o embaixador
britânico, «numa melancolia mais profunda do que de outras vezes, porque tinha
alimentado a ideia de que morreria antes de ter os sessenta anos completos, já que
nenhum príncipe da Casa de Bragança tinha atingido tal idade».
Apesar dos seus presságios, D. João sobreviveu ao seu sexagésimo aniversário, a
22 de outubro. Quando o calor do verão de 1750 chegou, ele permanecia deitado,
inchado com o edema, mal se podendo mexer. O quarto estava cheio de padres e
frades que recitavam orações e seguravam imagens sagradas, entre eles um jesuíta –
Gabriel Malagrida –, um homem tratado com reverência pelo casal real, que
acreditava que ele fosse um santo ou profeta.
D. João V morreu a 31 de julho, «ao fim de uma longa enfermidade, acompanhada
de sintomas vários e extraordinários». Os médicos fizeram uma autópsia onde, como
explicou o embaixador britânico, «foi encontrada uma grande quantidade de água na
cabeça e no peito, que se supõe ter sido provocada pelos médicos com grandes
sangrias e outras evacuações».
O corpo foi levado para a igreja de S. Vicente de Fora para ser sepultado no
mausoléu real. Os dois filhos do monarca, D. José e D. Pedro, acompanharam o
caixão até às portas do palácio, mas não seguiram no cortejo. De acordo com
costumes antigos, todos os membros da família ficavam confinados aos seus
apartamentos durante os oito dias seguintes à morte, sem verem ninguém a não ser os
seus próprios criados.
Apesar de o rei ter permanecido tanto tempo em agonia, não se tinham feito
quaisquer planos para a transferência de poder, pelo que a corte «ficou desorientada»
aquando da sua morte. D. José, o novo monarca, estava tão desesperado que, por
engano, duplicou a duração do luto da corte – ordenando que durasse dois anos em
vez de um –, e ficou horrorizado quando soube que a sua mãe planeava retirar-se para
um convento. Implorou-lhe até ela ter concordado em permanecer no palácio para o
aconselhar sobre questões governamentais, a mais importante da qual seria a
nomeação dos seus ministros.
2 Baretti, I, 107

3 Maxwell,17

4 Whitefield, 12-14
5 Baretti, I, 110

6 Carrère, 75-77

7 Parker (cônsul britânico no Porto), 25 de abril de 1744 (SP 89/43)


2

Princesa do Brasil
O novo rei é indeciso, extremamente inseguro de si próprio e tem
consciência de que a sua educação foi bastante negligenciada.
Abraham Castres, 3 de julho de 1751

O pai de D. Maria contava trinta e seis anos quando ascendeu ao trono. Diziam-no
«de boa estatura, mas inclinado para a corpulência, de traços regulares, com olhar
impaciente e vivo, e com o hábito de manter a boca algo aberta»8. Quanto à mãe, D.
Mariana Vitória, era «uma pessoa muito agradável», com «olhos escuros, perspicazes
e penetrantes»9. O embaixador britânico achava-a «expedita e afável» nas audiências
oficiais, respondendo alegremente aos cumprimentos e tendo longas conversas com
ele. Inteligente e espirituosa, queixava-se frequentemente do marasmo e da monotonia
da corte portuguesa.
D. José foi formalmente entronizado num dia quente e soalheiro do mês de
setembro, com a mulher a seu lado. A cerimónia foi uma aclamação e não uma
coroação, pois este ritual fora abandonado no século XVI, após D. Sebastião ter
perdido a vida – e o diadema – num campo de batalha em Marrocos, mas, ainda
assim, era uma cerimónia esplendorosa. Tinha sido montado um pavilhão no Terreiro
do Paço e, na tarde de 7 de setembro, a praça era um tumulto de pessoas e o porto
estava cheio de barcos. Assim que D. José fez o juramento, a multidão gritou «Viva o
Rei», soaram trompetas, repicaram os sinos e a artilharia disparou uma salva de vinte
e um tiros.
D. Maria estava sentada numa das alas do pavilhão, com a sua avó e as suas irmãs.
Ao longo dos anos, os seus pais tinham tido quatro filhas, e sofrido quatro abortos
espontâneos, mas não tinha havido nenhuma gravidez desde 1746, e os médicos já
não tinham muitas esperanças. A princesa tinha quinze anos e, enquanto observava os
seus pais no centro do palco, estava ciente do seu futuro papel. Portugal não tinha
nenhuma lei sálica que excluísse as mulheres da sucessão, pelo que a menos que a sua
mãe desse à luz um rapaz – o que parecia improvável –, herdaria a coroa e tornar-se-
ia na primeira mulher a governar o país.
Tendo crescido numa corte descrita como «muito enfadonha e cheia de cerimónias»
– até o embaixador britânico se referia ao «tédio excessivo» do protocolo real –,
Maria estava familiarizada com as muitas formalidades da vida no palácio. Agora,
como herdeira do trono, teria de desempenhar um papel ainda mais importante. A sua
primeira audiência oficial como princesa herdeira, com o título hereditário de
princesa do Brasil, teve lugar a 10 de agosto. Tratava-se de um beija-mão, um
intrincado procedimento de vénias e de genuflexões, em que os membros da corte
beijavam as mãos esticadas da realeza. Assistiu a mais cerimónias durante as
semanas seguintes e, no início de outubro, foi com a família para o palácio-convento
de Mafra.
D. José, perturbado pelas suas novas responsabilidades, sentiu necessidade de ar
fresco e de exercício, tendo viajado para Mafra, «em parte para participar nas festas
de S. Francisco, mas também por causa da caça ao veado e ao javali no parque real
nas proximidades».

***

Tanto o novo rei como a rainha eram amantes da caça e, em breve, a família começou
a passar mais tempo no campo. No início de janeiro, as barcaças reais levavam-nos
rio acima até Salvaterra de Magos, onde caçavam durante várias semanas e «levavam
uma vida muito jovial». Na primavera, faziam a viagem de três dias até Vila Viçosa,
perto da fronteira com Espanha. Os meses de verão eram passados em Belém, onde
praticavam o tiro e a falcoaria, e em excursões a Mafra para mais caçadas.
D. Mariana Vitória era uma excelente amazona, com a cara tisnada pelo sol, devido
às longas horas passadas a cavalo. Montava como um homem, com uma perna de
cada lado da sela, usando calções de couro pretos cobertos por uma saia velha, e era
perita em tiro. Houve acidentes de tempos a tempos – dedos partidos, um ombro
deslocado ou a ocasião em que o tiro falhou uma perdiz e roçou a fonte do seu marido
–, mas nada desviava o casal real do seu desporto favorito. Em Salvaterra, «quase
nunca passavam um dia sem estar a cavalo durante cinco, seis e muitas vezes oito ou
dez horas, especialmente em dias dedicados ao javali, que ocorriam com bastante
frequência».
A outra paixão de D. José era a música, nomeadamente a ópera italiana, pois
tocava violino «com um conhecimento considerável» e tinha planos para transformar
a sua ópera na «mais proeminente da Europa». O palácio real em Lisboa possuía o
seu próprio magnífico teatro, «construído com imensa despesa, o melhor da sua
dimensão na Europa, o palco ultrapassando tudo o que se tinha visto no género»10, e o
rei deu ordens para que se construísse um grande teatro de ópera na cidade e outro
perto dos terrenos de caça de Salvaterra.
Os cantores e músicos reais acompanhavam o monarca nas suas viagens aos
palácios no campo e havia espetáculos várias vezes por semana. Todos os papéis
femininos eram cantados por castrati, porque D. José – como o seu pai – era um
libertino e D. Mariana Vitória era «excessivamente ciumenta». A rainha não se
limitou a banir todas as mulheres da ópera real, também proibiu as suas criadas de
aparecerem na presença do rei e diz-se que escolheu as mulheres mais velhas e mais
feias da corte para servirem como suas damas de honor.
Apesar dos seus esforços, D. José tinha várias amantes, incluindo a marquesa nova
de Távora. Durante a representação de uma ópera na corte, em junho de 1755, um
visitante reparou que «a marquesa nova de Távora estava de muito boas relações com
o rei; não fizeram outra coisa senão olharem um para o outro tanto quanto se
atreveram na presença da rainha»11. Alguns meses mais tarde, uma história
inconveniente corria por Lisboa. D. Mariana Vitória – assim versava a intriga –
estava de pé numa varanda em Belém a observar D. José a montar a cavalo, em
baixo, na praça. Quando um dos cortesãos da rainha elogiou a forma graciosa como o
rei montava, a rainha virou-se para o marquês velho de Távora que estava, de pé, a
seu lado e disse: «É verdade que o rei monta bem a cavalo, mas tem de admitir que
monta melhor quando está com a sua nora»12.

Em setembro de 1752, D. José assinalou o segundo aniversário da sua aclamação


com uma série de touradas e de óperas em Lisboa, incluindo exibições de um famoso
castrato italiano. «A corte», escreveu o embaixador britânico, «está totalmente
ocupada com touradas, concertos e óperas, quase todos os dias da semana».
Três meses mais tarde, D. Maria atingiu o seu décimo oitavo aniversário, uma
ocasião celebrada com um beija-mão no palácio. A princesa, que se tinha tornado
alta, magra, com traços bem definidos e um sorriso caloroso, aceitou os
cumprimentos dos embaixadores estrangeiros e membros da corte com uma elegância
graciosa. Apesar de ter uma educação limitada – instruída por padres jesuítas, sem
ênfase nos assuntos de Estado – era uma mulher feita. Falava e lia francês, a língua
diplomática das cortes da Europa, sabia latim e estudava religião e teologia.
Aprendeu a desenhar e a pintar com os melhores artistas do país, estudou canto com
David Perez, o mestre de música italiano, e tanto ela como as irmãs sabiam «tocar
bem vários instrumentos».
Amável e afetiva, tímida e envergonhada, D. Maria sofria de acessos de melancolia
e de alguma agitação nervosa. Tinha herdado a religiosidade do seu avô e, sendo
profundamente servil para com a Igreja, pensou diversas vezes entrar para um
convento para se tornar freira e passar os seus dias em oração. Com uma
simplicidade infantil, o seu quarto estava «cheio de livros de devoção e de imagens
de santas de todos os tamanhos e feitios»13.
A fé de D. Maria foi reforçada no verão de 1753, quando esteve às portas da morte
com uma «febre inflamatória violenta». A princesa ficou doente a 29 de junho durante
uma ópera no palácio e, à medida que a febre aumentava, os médicos iam-na
sangrando. Finalmente, tendo sido sangrada seis vezes, «achou-se que estava em tal
perigo iminente que o núncio apostólico foi mandado vir a toda a pressa para lhe dar
a extrema-unção». Em simultâneo, a rainha ordenou que trouxessem uma imagem de
madeira de Jesus que estava no convento da Graça.
Essa imagem, que se acreditava ter poderes miraculosos, era conhecida como
Senhor dos Passos. Mostrava Jesus, em vestes purpúreas e com coroa de espinhos, a
transportar uma cruz enorme aos ombros, «curvado pelo peso até o seu corpo estar
quase dobrado em dois»14. A estátua foi transportada para o palácio «com grande
pompa» e colocada no quarto de D. Maria. A princesa, que tinha estado deitada «num
estado deplorável» durante mais de vinte e quatro horas, sentiu, na manhã seguinte,
«alguns dos piores sintomas começarem a desaparecer».
A 8 de julho – «perante a alegria universal» – D. Maria estava «consideravelmente
melhor». O embaixador britânico atribuiu a sua recuperação a um médico alemão
que, «descobrindo a natureza da enfermidade, propôs remédios próprios para as
febres malignas e salvou a vida da amável princesa». Porém, a princesa D. Maria
nunca duvidou que tivesse sido o Senhor dos Passos a salvar-lhe a vida.
A imagem foi levada de volta ao convento «com a maior pompa e solenidade» e,
no final do mês, a família já se tinha mudado para o seu palácio em Belém. Enquanto
D. Maria procurava recuperar as forças, durante as quentes semanas de verão, um dos
ministros de seu pai ganhava poder.

Sebastião José de Carvalho e Melo – o futuro marquês de Pombal – era um homem


imponente, de 1,80 metros de altura, com uma cara comprida e traços elegantes.
Nascido em 1699, numa família da baixa nobreza, pouco tinha feito na vida até ser
nomeado, aos quarenta anos, embaixador de Portugal em Londres. Quatro anos mais
tarde, foi mandado como enviado especial à corte de Viena, uma posição que
manteve até ao seu regresso a Lisboa, em 1749.
O embaixador britânico referia-se ao temperamento «difícil e chicaneiro» de
Carvalho e Melo, mas o casamento com uma aristocrata austríaca fê-lo cair nos
favores da mãe de D. José, também ela natural da Áustria. D. João V nunca tinha
confiado em Carvalho e Melo – chamando-lhe «um homem com um coração peludo»
–, mas a sua viúva tinha muito influência sobre o filho e foi ela quem aconselhou D.
José a nomeá-lo ministro dos Negócios Estrangeiros, o mais baixo dos três lugares de
ministro.
O novo rei era, como o embaixador referiu, «indeciso, extremamente inseguro de si
próprio e com a consciência de que a sua educação fora bastante negligenciada». Mal
preparado para o poder, D. José seguiu os conselhos de sua mãe sobre a nomeação
dos seus ministros, mas mostrou sempre pouco interesse pelo governo, preferindo
passar o seu tempo na ópera ou na caça. Em outubro de 1750, o embaixador observou
que, embora os ministros se encontrassem com D. José todos os dias, «tinham pouca
influência nele, o que deu origem a muitos pasquins, alguns bastantes insolentes,
vários dos quais apareceram no quarto de cama do rei e outros pregados nos portões
do palácio».
D. José era também irritável e fácil de levar, traços que Carvalho e Melo – um
administrador muito inteligente e capaz – rapidamente começou a explorar. «O
ministro é infatigável, ativo e expedito», escreveu o encarregado de negócios francês,
no outono de 1750. «Tendo conquistado a confiança do rei em todos os assuntos de
política, ninguém lhe leva a melhor»15. Seis meses mais tarde, o embaixador britânico
escreveu que Carvalho e Melo estava «a ganhar terreno nas boas graças do rei» e, até
ao verão de 1751, ocorreu uma mudança subtil no equilíbrio do poder. Como
escreveu o embaixador em julho:

«Sua Majestade mostrou no início do seu reinado mais suspeição do que confiança nos seus ministros no
despacho dos assuntos de Estado, mas, como os ministros, particularmente o Senhor Carvalho, encontraram
formas de se creditarem perante ele, os assuntos têm sido tratados com rapidez pouco comum, com o rei a
mostrar uma notável docilidade e paciência para despachar o que lhe era colocado, em muito maior grau do que
seria de esperar de um príncipe tão pouco habituado aos negócios do reino.»

O equilíbrio de poder continuou a alterar-se. «Como o ministro tem o seu pé no


estribo», escreveu o embaixador, em junho de 1753, «as coisas mudaram muito
favoravelmente para o seu lado». Em fevereiro de 1754, «a rainha-mãe tinha perdido
a sua influência sobre o filho e arrependia-se muito de lhe ter indicado o Senhor
Carvalho».

A mãe de D. José não viveu o suficiente para se lamentar durante muito mais tempo.
Tendo setenta anos, a sua saúde deteriorava-se, pelo que pediu ao jesuíta Gabriel
Malagrida para a preparar para a morte. Quando o seu estado piorou, em julho, o
embaixador britânico descreveu os seus sintomas num despacho para Londres. A
primeira queixa, escreveu ele, «era uma supressão da urina que, tendo durado dois
dias, acabou por ser removida por remédios apropriados. Receia-se que a verdadeira
enfermidade seja uma hidropisia no peito». A 12 de agosto, «várias manchas lívidas
apareceram nas suas pernas» e o médico alemão avisou D. José que sua mãe
mostrava «sinais de mortificação interna».
D. Maria Ana morreu dois dias mais tarde, «tendo mantido todos os sentidos até ao
último momento». O seu corpo foi enterrado num convento de freiras alemãs, que ela
tinha fundado na cidade, e o coração foi enviado para a sua família original, na
Áustria, «onde todos os que a conhecem sabem que ele sempre esteve». D. José fez
luto pela perda de sua mãe, como tinha feito após a morte de seu pai, levando a
família para o campo para passar o tempo a caçar. O embaixador comentou alguns
meses mais tarde que «o rei e a corte não têm estado na cidade nos últimos tempos».
No mês de setembro seguinte, a frota anual do tesouro chegava a Lisboa: vinte e
seis naus do Rio de Janeiro, carregadas de ouro e de diamantes; um barco de Macau
transportando «vinte milhões de cruzados de ouro em pó, em barras e em moedas»;
dezanove barcos da Baía com um tesouro que valia dois milhões de cruzados; e três
barcos de Goa, num dos quais regressava a Lisboa o marquês velho de Távora,
depois de ter sido vice-rei da Índia. A nomeação havia sido feita por D. João V e o
marquês tinha viajado para Goa, em fevereiro de 1750, levando a sua mulher, o filho
mais velho, e deixando a sua nora em Lisboa para despertar a atenção de D. José. O
príncipe herdeiro até fora ao cais para se despedir deles.
8 Wraxall, I, 11

9 Ibid., I, 34

10 Hervey, Journal, 125-126, 179

11 Ibid., 179

12 Cormatin, I, 122-123

13 Beckford, Journal, 262

14 Whitefield, 5

15 Cheke, Dictator of Portugal, 50


3

Terramoto
Num quarto de hora, esta grande cidade ficou em ruínas.
Edward Hay, 15 de novembro de 1755

A 20 de outubro de 1755, o embaixador britânico enviou um despacho para o


secretário de Estado em Londres. «Não acontece nada por aqui», escreveu ele, «que
mereça a atenção de Sua Majestade».
Doze dias mais tarde, a manhã de 1 de novembro estava anormalmente quente, com
o sol a brilhar num céu sem nuvens. O povo estava nas igrejas a celebrar a missa do
Dia de Todos os Santos quando, às nove e meia, se ouviu um ruído semelhante ao das
rodas da pesada carruagem do rei a chocalhar nas ruas. A terra estremeceu e, em
seguida, foi sacudida num movimento vertical que fazia lembrar uma carroça a ser
violentamente conduzida sobre um empedrado grosseiro. O capitão de um barco que
estava no porto viu os edifícios de Lisboa a balançarem para a frente e para trás,
como milho ao vento, antes de começarem a cair, levantando vastas nuvens de pó.
«Num quarto de hora», escreveu o cônsul britânico, «esta grande cidade ficou em
ruínas».
Quando o pó começou a assentar, viram-se magotes de pessoas a cambalear entre
pilhas de pedras despedaçadas:

«Velhos, novos, homens e mulheres, procurando os seus pais, filhos, parentes e amigos, muitos doentes, muitos
estropiados pela queda de casas, alguns mortos e a maior parte seminus, nunca se vira nada tão triste… frades
e padres dando a absolvição, confessando e rezando com todos; os coches e as liteiras, os cavalos e as mulas,
enterrados no chão; pessoas sob as ruínas pedindo ajuda e ninguém conseguindo chegar junto a elas; velhos,
quase incapazes de andar, sem sapatos ou meias.»16

Os sobreviventes abriram caminho entre as ruínas, dirigindo-se para a margem do


rio, onde estariam a salvo dos prédios que desabavam. Mas, pouco tempo depois, as
águas do Tejo recuaram, seguindo-se a visão de uma onda gigante a dirigir-se para a
cidade. «Ao virar os meus olhos para o rio», escreveu um mercador inglês:

«Apercebi-me de as águas estarem a crescer de uma maneira nada usual. Num instante, apareceu uma
enorme quantidade de água, levantando-se como uma montanha. Veio a espumar, a rugir, e dirigiu-se para a
margem com uma impetuosidade tal que, embora todos tivessem corrido para salvar a vida, muitos foram
levados pela água.»17

Três maremotos subiram Tejo acima nessa manhã. Barcos foram arrancados às suas
âncoras e esmagaram-se uns contra os outros, enquanto as águas inundavam as zonas
baixas da cidade. Os maremotos destruíram edifícios junto às margens do rio,
levaram o cais do Terreiro do Paço, forrado a mármore, e destruíram tudo no seu
caminho.
As réplicas continuaram a fazer-se sentir durante toda a manhã e, no início da tarde,
a maior parte da cidade estava em chamas. A queda de cortinas e de madeiras sobre
as velas acesas para o Dia de Todos os Santos em todas as igrejas e capelas conduziu
ao desencadeamento de numerosos incêndios, os quais em breve se juntariam numa
vasta conflagração. As pessoas fugiram para os subúrbios, andando sobre ruínas, por
um caminho pejado de mortos e moribundos:

«Em alguns locais havia coches, com os seus donos, cavalos e condutores quase feitos em pedaços. Aqui havia
mães com crianças nos braços, ali havia senhoras ricamente vestidas. Padres, frades, cavalheiros, mecânicos,
alguns com as costas ou as pernas partidas, outros com grandes pedras assentes no peito. Alguns estavam
quase enterrados no lixo, pedindo socorro em vão, sendo deixados a morrer com o resto das pessoas.»18

Quando a noite chegou, os espaços abertos em torno de Belém estavam cheios de


gente confusa e assustada. À medida que escurecia, «toda a cidade aparecia num
incêndio tão brilhante… que as pessoas fixavam os olhos nas chamas e ficavam a
olhar com um pesar silencioso, interrompido apenas pelos gritos de mulheres e
crianças sempre que a terra recomeçava a tremer, o que acabou por acontecer com
tanta frequência nessa noite que os tremores não paravam nem por um quarto de
hora»19.

A família real, no seu palácio em Belém, ainda nem estava vestida para o dia quando
a terra começou a estremecer. D. José saltou por uma janela do rés do chão quando
sentiu o primeiro abanão, seguido pela mulher e pelas filhas uns minutos mais tarde,
ainda em roupas de dormir e embrulhadas em lençóis.
Durante as horas que se seguiram, os criados ergueram incessantemente tendas para
a instalação da corte, enquanto D. Maria olhava para leste, ao longo do Tejo, para a
nuvem de pó que estava suspensa sobre as ruínas de Lisboa. Observou as águas a
subirem e a recuarem, enquanto as ondas gigantes se elevavam no rio e, quando veio
a escuridão da noite, viu os fogos na cidade a iluminarem o céu. Nessa noite, a
princesa ficou na tenda montada nos jardins do palácio. Sentiu a terra a continuar a
tremer, ouviu os gritos dos refugiados em Belém. Era difícil dormir durante as longas
horas de escuridão, mas «o muito desejado dia apareceu finalmente e o sol levantou-
se com grande esplendor sobre a cidade desolada de manhã»20.
Era um novo dia brilhante e soalheiro. Os incêndios continuavam a arder.
Alimentados por um vento de nordeste, arderam durante mais cinco dias e levou
algum tempo até que o povo de Lisboa pudesse regressar à cidade e andar com
dificuldade sobre as ruínas. «Não é possível exprimir em língua humana», escreveu o
capitão de um navio que se aventurou a ir a terra:

«Que horrível foi entrar na cidade depois do fogo ter sido extinto. Olhando para cima, ficava-se espantado de
terror ao ver pirâmides de fachadas arruinadas, umas inclinadas para um lado, outras para o outro. Depois,
ficava-se espantado de terror ao olhar para os corpos mortos, seis ou sete num monte, esmagados até à morte,
meio enterrados meio queimados, e não se encontrava senão pessoas lamentando os seus infortúnios, torcendo
as mãos e gritando misericórdia, é o fim do mundo.»21

D. José ficou esmagado pela catástrofe. Quando Carvalho, cuja casa no Bairro Alto
ficara intacta, chegou a Belém algumas horas depois do terramoto, foi encontrar o rei
rodeado de padres num estado de total desorientação.
«O que é que se faz?», perguntou-lhe D. José.
«Enterrar os mortos», respondeu Carvalho, «e cuidar dos vivos».
Recebendo plenos poderes para restaurar a ordem, o futuro marquês de Pombal
viveu no seu coche durante oito dias. Escreveu mais de duzentas proclamações,
encorajou as pessoas a procurarem sobreviventes entre os escombros e a
proporcionarem alimentação e abrigo aos que haviam perdido as casas. Durante um
período de vinte e quatro horas, não ingeriu senão um prato de sopa trazido pela sua
mulher, que se tinha posto ao caminho, entre as ruínas, até ao seu coche.
Os cadáveres foram recolhidos para batelões, rebocados para o mar e deitados
pela borda fora. Foram enforcados saqueadores e os seus corpos ficaram expostos
para dissuadir outros. Navios que chegassem com carregamentos de peixe, milho e
carne eram obrigados a vender a sua carga; enquanto os barcos que partiam eram
revistados à procura de tesouros roubados. Abriram-se caminhos entre as ruínas,
foram requisitados armazéns e organizaram-se centros de alimentação. Erigiram-se
abrigos nos espaços abertos, foram cavadas latrinas e estabeleceram-se hospitais
temporários para os feridos e os indigentes.
Entretanto, a família real foi instalada tão confortavelmente quanto possível nas
tendas de Belém, embora se tenha levado vários dias a organizar o mobiliário, os
adereços, as suas roupas e os artigos de toucador. A 5 de novembro, quando o
embaixador britânico foi apresentar condolências, D. José recebeu-o «com mais
serenidade do que eu esperava, enquanto a rainha e as princesas mandaram dizer que,
estando nas tendas e não estando vestidas para a ocasião, gostariam que as isentasse
de aceitar os meus cumprimentos pessoalmente».
D. Maria apareceu novamente em público a 16 de novembro, quando ela e a família
participaram descalços numa «procissão solene de penitência» dirigida pelo
patriarca, nos subúrbios ocidentais da cidade. Réplicas continuavam a abanar a terra,
por vezes com violência, e o seu vigésimo primeiro aniversário, a 17 de dezembro,
passou largamente desapercebido. Cinco dias mais tarde, a princesa assistiu a uma
audiência oficial na que era conhecida como «tenda real», quando o seu pai
agradeceu ao embaixador britânico a resposta rápida ao desastre por parte do seu
governo.
Tinham sido enviados de Inglaterra barcos carregados com moedas de ouro,
alimentos, sapatos, roupa, picaretas, pás, pés de cabra, e os agradecimentos de D.
José foram expressos na sua habitual linguagem efusiva. Numa carta escrita para
Londres, a 24 de dezembro, o embaixador registava que o rei e a rainha tinham falado
com «uma mistura de complacência e ternura, tanto no aspeto como no tom de voz, e
mostraram claramente a emoção que ia nos seus corações».
Dezenas de milhares de pessoas tinham morrido, esmagadas pela queda de pedras e
fachadas, afogadas pelos maremotos, queimadas pelas chamas. O palácio no Terreiro
do Paço estava em ruínas, assim como o novo teatro de ópera de D. José, a igreja
patriarcal, os conventos, as igrejas e capelas, e vários milhares de lojas e de casas.
D. Maria e as suas irmãs prepararam gazes e ligaduras para os feridos, enquanto os
criados remexiam os escombros do palácio. No início de janeiro, já tinham
encontrado a maior parte dos diamantes reais, assim como vinte e duas toneladas de
prata, e D. Maria ficou deliciada por saber que o Senhor dos Passos tinha sido salvo
intacto das ruínas do convento da Graça.
Belém, a cinco quilómetros da área de maior devastação, tinha sofrido poucos
estragos. O palácio era estruturalmente sólido, mas D. José insistiu que a família
ficasse nas tendas enquanto um novo palácio, feito em madeira, era construído na
colina da Ajuda, ali próximo. «Os terrores do terramoto ficaram tão gravados na sua
mente», explicou um visitante a Lisboa, «que o rei preferia residir em edifícios de
madeira ou em tendas, por muito pobres e incómodos que fossem, a ter de se
defrontar com os perigos ligados a um edifício em pedra»22.
As tendas reais eram frias durante os meses de inverno e a chuva entrava pelas
costuras. Os criados fizeram o seu melhor para proporcionar calor e luxo a D. Maria,
trazendo a coleção de «bonecas santas» do palácio, enchendo a tenda com tapetes e
tapeçaria, mantendo as braseiras acesas e empilhando cobertas na cama, mas a
princesa não estava habituada a tais desconfortos. Perturbada por tantas pessoas
terem morrido enquanto celebravam a missa do Dia de Todos os Santos, foi
confortada pelo seu confessor jesuíta, que lhe assegurou que o desastre fora o castigo
de Deus pelos seus pecados.
Entretanto, nos espaços abertos em torno de Belém, milhares de pessoas sem casa
viviam em abrigos provisórios de madeira e tela. Os negócios estavam paralisados,
havia pouca comida e, como consequência da destruição de tantas igrejas, os padres
ouviam as confissões e dirigiam os serviços religiosos ao ar livre.

Em janeiro de 1757, a família real deixou Belém pela primeira vez desde o
terramoto, encetando a viagem de cinquenta quilómetros rio acima até Salvaterra de
Magos. Quando a barcaça real passou em frente à cidade, D. Maria olhou para as
igrejas e conventos em ruínas, os escombros do palácio real, o lixo acumulado no
Terreiro do Paço. «Não se vê nada», escreveu Joseph Baretti, que tinha chegado num
barco proveniente de Falmouth, «a não ser grandes montes de lixo, de onde aparecem
os desgraçados restos de paredes destruídas ou de pilares quebrados»23.
A família gostou de caçar em Salvaterra e só regressou a Belém em março. Quatro
meses mais tarde, o novo palácio de madeira estava pronto para ser ocupado. Era a
Barraca Real, um edifício comprido, de um só andar, descrito por um observador
maledicente como «uma estrutura muito mesquinha, sem qualquer tipo de
magnificência»24. Ao mesmo tempo que D. Maria se estabelecia na sua nova casa, um
inglês – William Stephens – abria uma fábrica de cal no subúrbio de Alcântara, a
quilómetro e meio de Belém pela estrada de Lisboa.
Destinados a fornecer argamassa para a reconstrução da cidade, os seus fornos de
cal foram construídos segundo um desenho moderno, industrial, como jamais fora
visto em Portugal. Das janelas do palácio, D. Maria observava o fumo a sair pelas
chaminés e, quando passava em frente aos portões da fábrica, via, por vezes,
Stephens de pé, no pátio, a olhar para o coche real que passava.
16 Thomas Jacomb, 1 de novembro de 1755 (Macaulay, They Went to Portugal, 273-274)

17 An account by an eye-witness, 11

18 Ibid., 16

19 Ibid., 18

20 Gentleman’s Magazine, 1756, 67--68

21 Ibid., 1755, 561

22 Wraxall, I, 17

23 Baretti, I 96-97

24 Cormatin, I, 118
4

A Ascensão de Pombal
O ministro tem toda a gestão dos assuntos deste reino.
Tem mão pesada e faz com que todas as classes de pessoas o temam.
Edward Hay, 1 de março de 1766

O facto de a casa de Pombal não ter sido destruída pelo terramoto era – na opinião de
D. José – um sinal de orientação divina, prova de que o ministro tinha sido enviado
por Deus para o ajudar nesta hora de necessidade. A sua influência sobre o rei
aumentou muito com esse acaso, assim como a sua eficiente gestão do desastre, que
fez com que, em maio de 1756, fosse nomeado primeiro secretário de Estado, com a
pasta dos assuntos internos. Como foi expresso pelo cônsul britânico, «o Senhor
Carvalho é agora o ator principal e é, com efeito, primeiro-ministro, porque nada se
faz sem ele».
Pombal encarava o terramoto como um acontecimento natural, mas os seus planos
para restaurar a ordem eram travados pelo clero, que insistia em que o desastre era
um castigo de Deus. Nas proximidades do primeiro aniversário, o jesuíta Gabriel
Malagrida publicou um panfleto em que atacava as políticas de Pombal e em alusão a
uma retaliação divina:

«Aprende, oh Lisboa, que o destruidor das nossas casas, palácios, igrejas e conventos, a razão para a morte de
tantas pessoas e as chamas que devoraram tantas quantidades de tesouros, são os vossos próprios pecados
abomináveis. É escandaloso fingir que o terramoto foi apenas um acontecimento natural porque, se fosse
verdade, não haveria necessidade de arrependimento e de tentar evitar a fúria de Deus. É necessário dedicar
toda a nossa força ao arrependimento. Deus observa-nos, com o chicote na mão.»25

Pombal, que tanto tinha trabalhado para restaurar a ordem na cidade, ficou furioso.
Acusou os jesuítas de usarem o desastre para «assustar mentes fracas e
supersticiosas». Persuadiu o núncio apostólico a mandar Malagrida para Setúbal,
cinquenta quilómetros a sul de Lisboa, e rascunhou um decreto denunciando o
panfleto como «fanático, malicioso e herético». Entretanto, vários jesuítas tinham
começado a conspirar contra o marquês, com as suas intrigas a serem difundidas na
corte, onde os nobres também ferviam em ressentimentos por terem perdido a maior
parte do seu poder e da sua influência junto do rei.
Carvalho e Melo mostrou a sua força pela primeira vez, no verão de 1756, ao
arquitetar a desgraça de D. Diogo de Mendonça, um dos seus colegas secretários de
Estado. Mendonça, que tinha ciúmes de Pombal, fora tão indiscreto que o criticara em
jantares e já se falava em conspiração. A 31 de agosto, foi banido de Lisboa, tendo
tido apenas três horas para deixar a cidade. Passados poucos meses, soube-se que
tinha sido preso e deportado para Angola. E, como tantos outros que foram exilados
para aquela colónia africana, morreu por lá, devido aos efeitos do clima extremo, às
doenças e má alimentação.
Mendonça não esteve sozinho na sua ruína. Tendo-se convencido de que os jesuítas
estavam envolvidos na conspiração, Pombal persuadiu D. José a afastar da Barraca
Real todos os confessores da Companhia de Jesus. Mandados regressar aos
conventos da sua ordem, deixaram o palácio a 19 de setembro. D. Maria perdeu
assim o seu confessor, Timóteo de Oliveira, um homem que muito respeitava. Em
junho de 1758, a Companhia de Jesus foi banida de todos os negócios, proibida de
pregar e ouvir confissões. Pombal justificou estas medidas com uma suposta
conspiração dos jesuítas contra o governo da América do Sul, mas, como observou o
embaixador britânico, «a ordem dos jesuítas é muito poderosa neste país e a sua
desgraça é, ainda mais, extraordinária».
D. José foi cúmplice destas ações contra os jesuítas ao assinar os decretos que
Pombal lhe punha à frente. O embaixador francês registou que o rei mostrava sinais
de alguma tensão nervosa no verão de 1758, talvez apreensivo e pensando que o seu
ministro estaria a ir longe demais. Parecia, escreveu o embaixador, «fraco e ansioso,
como se previsse alguma grande calamidade»26.

A 31 de agosto, chegou uma carta de Madrid informando D. José da morte da sua


irmã Bárbara, mulher de Fernando VI de Espanha. De acordo com os costumes,
ordenou à família que se fechasse nos apartamentos durante oito dias e impôs um luto
na corte de seis meses. «Infelizmente», escreveu o embaixador britânico a 13 de
setembro, «a execução desta ordem foi interrompida pela indisposição de Sua
Majestade, porque é hábito desta corte pôr gala quando qualquer membro da família
real é sangrado».
Soube-se que o rei teria caído na Barraca Real, na noite de 3 de setembro, e ferira
o braço e, uma vez que fora aconselhado a «não tratar de nenhum assunto durante
algum tempo», a sua mulher foi regente durante a sua indisposição.
D. José que devia estar confinado aos seus aposentos na noite de 3 de setembro,
fazendo luto pela sua irmã, aproveitou para sair às escondidas do palácio e visitar a
sua amante, a marquesa nova de Távora. Era uma noite escura – a segunda após a lua
nova – e, na viagem de regresso, pouco antes da meia-noite, quando a sua liteira
passava por um caminho estreito, apareceram três cavaleiros mascarados que
abriram fogo. O primeiro tiro falhou, o segundo e o terceiro foram-se cravar na parte
de trás da liteira. D. José não ficou seriamente maltratado – o tiro feriu-o
ligeiramente no ombro e no braço – e, quando os cavaleiros fugiram na escuridão,
pediu aos seus criados para o levarem diretamente a casa do cirurgião real na rua da
Junqueira.
O rei regressou a Belém, depois de receber tratamento, e mandou um mensageiro
chamar o marquês ao palácio. Na manhã seguinte, a conselho de Pombal, foi
anunciada a história da queda. No entanto, espalharam-se rumores pela cidade e, a 13
de setembro, o embaixador britânico explicava que a tentativa de assassinato tinha
«alarmado grandemente a corte, onde era abafada, mas fala-se nela no estrangeiro
mais pública do que prudentemente sobre o estado em que estaria esta infeliz nação
se o rei tivesse caído».
Enquanto D. Maria ficava horrorizada com a realidade, Pombal viu nela uma
oportunidade única. A sua ambição era aumentar a prosperidade comercial do país e,
como afirmou ao embaixador, «emancipar a nação da sujeição à Sé de Roma e
erradicar velhos preconceitos das mentes das pessoas supersticiosas». Mas também
havia um lado despótico no seu caráter, sendo capaz de abrigar rancores antigos. Na
sua juventude, pedira em casamento uma filha da família Távora e os Távoras, não
gostando do seu passado provinciano, tê-lo-ão corrido de sua casa. Também o duque
de Aveiro se tinha tornado um inimigo. Sendo o nobre mais importante de Portugal,
nunca escondera que não gostava de Pombal e foi ele quem encabeçou a oposição ao
modo indolente como D. José governava o seu país – e a Pombal como primeiro-
ministro do rei.
Nos três meses seguintes, Pombal utilizou espiões para reunir «provas» contra os
aristocratas e os seus confessores jesuítas até prender os suspeitos a 13 de dezembro.
Neles incluíam-se o duque de Aveiro e toda a família Távora: o marquês velho e a
sua mulher, a marquesa velha; os seus quatro irmãos; os seus dois filhos, o mais
velho dos quais – o marquês novo – era o marido da amante de D. José; e os seus
dois genros, conde de Atouguia e marquês de Alorna. Foram também presos treze
padres jesuítas, incluindo Gabriel Malagrida, que tinha sido guia espiritual da
marquesa velha, e Timóteo de Oliveira, confessor de D. Maria até ao seu recente
afastamento.
Pombal convenceu ainda D. José a permitir o uso da tortura, presidindo aos
procedimentos enquanto cinquenta prisioneiros eram interrogados na roda.
Torturaram-se criados para extrair informação sobre os seus empregadores, e foram
torturados nobres para traírem os seus amigos. Os julgamentos começaram a 9 de
janeiro e os vereditos – conhecidos de antemão – foram anunciados três dias mais
tarde. Os acusados foram dados como culpados de traição e dez deles foram
executados no dia seguinte em Belém.
Seis dos condenados eram aristocratas e D. Maria conhecia-os bem. Diz-se que
terá implorado misericórdia a seu pai quando as sentenças foram anunciadas, mas D.
José não se emocionou com as suas lágrimas. Durante toda a noite, os carpinteiros
trabalharam no cadafalso, colocando seis rodas na plataforma, uma para cada um dos
nobres. Deitada na sua cama, na Barraca Real, D. Maria ouviu os sons distantes
enquanto serravam e pregavam durante a noite.
Caía uma chuva miudinha nessa manhã, quando, um a um, os condenados chegaram
ao local de execução. A marquesa velha em primeiro lugar. Foi decapitada. Depois
vieram os seus dois filhos e um dos genros, o conde de Atouguia. Cada um foi atado a
uma roda, o peito, as pernas e os braços foram partidos com martelos antes de um
garrote lhes pôr termo à vida. Os seus cadáveres estavam ainda em exposição na roda
quando o duque de Aveiro e o marquês velho subiram ao cadafalso para sofrerem o
mesmo tratamento. Finalmente, foi queimado vivo o último dos «assassinos» e
deitado fogo à plataforma, reduzindo a cinzas os corpos dos executados.
No dia seguinte, D. Maria assistiu a uma audiência oficial na Barraca Real para
receber cumprimentos por seu pai ter escapado à morte e, a 15 de janeiro,
acompanhou a família à igreja da Nossa Senhora do Livramento, em Alcântara, onde
foi cantado um Te Deum para celebrar a execução dos inimigos do rei. Foi a primeira
vez que D. José apareceu em público desde a tentativa de assassinato e acenou o seu
lenço no ar com ambas as mãos, uma depois da outra, para mostrar à multidão que
não tinha ficado com ferimentos duradouros.
Nos três dias seguintes, o rei e a sua família assistiram às Festas do Desagravo em
Santa Engrácia e, a 19 de janeiro, deixaram Belém para passarem seis semanas em
Salvaterra. Dois anos antes, quando a barcaça real a remos subira o Tejo, D. Maria
tinha visto as ruínas de Lisboa espalhadas ao longo do destruído cais; agora parecia
que tinha começado um reino de terror. «Não há a mais pequena demonstração de
insatisfação», explicou o embaixador britânico, «mas há muitos murmúrios e
lamentos contidos em relação às medidas de um certo grande ministro».
Como símbolo final da desgraça das famílias Távora e Aveiro, as suas casas foram
demolidas e os respetivos terrenos foram salgados para que nada mais ali crescesse.
Tendo intimidado a aristocracia, Pombal continuou a sua campanha contra os
jesuítas, que, em julho, foram «privados das suas escolas e colégios». Algumas
semanas mais tarde, no primeiro aniversário de ter escapado aos pistoleiros, D. José
assinou um decreto expulsando os jesuítas de Portugal e das suas colónias. As
palavras do diploma, sem dúvida redigido por Pombal, referiam-se-lhes como
«rebeldes notórios, traidores, inimigos e agressores contra a pessoa do rei, contra a
paz pública deste reino e contra o bem comum dos seus súbditos». Como tal, foram
«banidos, proscritos e exterminados para sempre para fora do reino de Portugal e dos
seus domínios».
Nove anos antes, quando D. José subira ao trono, o país era governado pelo
monarca, pela Igreja e pela aristocracia. Agora, a nobreza e a Igreja tinham sido
arrasadas e Pombal era – na prática – ditador do país. As masmorras enchiam-se de
pessoas suspeitas de intrigas, eram homens e mulheres feitos prisioneiros sem
julgamento. Ninguém se atrevia a discutir política ou a criticar as ações de Pombal,
sendo ilegal falar da conspiração dos Távoras. «Tantas pessoas têm sido lançadas
para a prisão por causa disso», escreveu um visitante de Lisboa, «que as pobres
almas se assustam à menção de alguns nomes»27.
25 Citado em Kendrick, 137-138

26 Cheke, Dictator of Portugal, 110

27 Baretti, I 180
5

Um Casamento Tranquilo
Há quanto tempo e quão ardentemente a nobreza, todo o povo deste
reino, suspiravam por este evento.
Lorde Kinnoull, 7 de junho de 1760

D. Maria celebrou o seu vigésimo quinto aniversário com um beija-mão na Ajuda,


consciente de que o seu pai tinha abdicado das suas responsabilidades para com o
país. D. José participava em poucas reuniões de Estado, raramente concedia
audiências aos ministros estrangeiros e, colocando toda a autoridade nas mãos de
Pombal, limitava-se a assinar os documentos que lhe colocavam à frente,
frequentemente às primeiras horas da manhã, depois de ter passado os dias a cavalo e
as noites na ópera.
Escritores dessa época aludiam à melancólica expressão de D. Maria e era
publicamente sabido que a sua mente estava «profundamente impressionada com a
trágica morte do duque de Aveiro e dos seus associados, cujo destino ela lamentava
como não merecido e injusto»28. A princesa detestava o marquês de Pombal por
causa da sua perseguição à Igreja, assim como pela sua tirania. Tentou acreditar que
D. José se tinha comportado honestamente, mas os seus instintos diziam-lhe que o
ministro – e, por arrastamento, também o seu pai – tinha propositadamente perseguido
os representantes de Deus na terra.
Vinte e cinco anos era uma idade tardia para o casamento de uma princesa. A mãe
de D. Maria tinha-se casado com dez anos e sua tia Bárbara com dezassete, mas
também era a primeira vez que uma mulher era herdeira do trono de Portugal.
Conforme explicou o embaixador britânico, «a sucessão é um ponto muito delicado e
igualmente difícil e importante». Nos termos das chamadas Leis de Lamego, do
século XII, D. Maria estava proibida de casar com um príncipe estrangeiro:

«Se o rei não tiver descendente masculino e tiver uma filha, ela será rainha depois da morte do rei, desde que
se case com um nobre português. Será sempre observada a lei segundo a qual a filha mais velha do rei não
pode ter outro marido que não seja um lorde português para que os príncipes estrangeiros não se tornem
monarcas do reino. Se a filha do rei casar com um príncipe ou um nobre estrangeiro, ela não será reconhecida
como rainha.»29
Apesar destas leis, ocorreram várias tentativas de arranjar um casamento com um
príncipe estrangeiro, incluindo o duque de Cumberland, terceiro filho de Jorge II de
Inglaterra, e um dos tios espanhóis de D. Maria. Não deram em nada, o mesmo
acontecendo a uma atração entre D. Maria e D. João de Bragança, primo direito do
seu pai. As regras acerca do casamento de uma princesa herdeira nunca tinham sido
testadas e receava-se que, se D. Maria se casasse com um aristocrata português, a
sucessão fosse disputada pelos membros masculinos da família Bragança.
O avô tinha proposto uma solução logo em 1749, sugerindo que a princesa casasse
com o seu tio Pedro, o irmão mais novo de seu pai, mas D. Mariana Vitória opôs-se
veementemente à ideia. Suspeitava-se que D. Pedro «tinha grande influência sobre o
seu irmão» e, receando que tivesse ambição de poder, ela conseguiria que D. José
adotasse o seu ponto de vista. Ao mesmo tempo, os inimigos de D. Pedro espalharam
rumores de que ele era impotente, que sofria de «um defeito natural que não permite
que se torne marido da princesa do Brasil e que o obrigará, com toda a
probabilidade, a entrar para um convento».
Pombal também encarava D. Pedro com suspeita, tendo numa ocasião persuadido
D. José a bani-lo para a sua casa de campo em Queluz, alguns quilómetros a oeste de
Lisboa, com o pretexto de que estaria a planear um golpe contra ele, mas D. Maria
demoveu seu pai. Era verdade que D. Pedro não gostava de Pombal, mas também era
inofensivo e cedo perdeu a sua ambição de jovem. Os rumores de que era impotente
desapareceram, as pessoas continuaram a falar em casamento, que em 1754 era
«impacientemente esperado por pessoas de todas as classes» e, na primavera de
1760, D. José e a sua mulher tinham mudado de ideias.
D. Pedro tinha mais dezoito anos do que D. Maria, e era um homem simples, sem
interesse pelos assuntos do Estado e, tal como a sua sobrinha, profundamente devoto,
«estando constantemente ocupado em preces e procissões»30. Estava a reconstruir a
sua casa em Queluz, a qual seria em breve convertida numa miniatura de Versalhes,
um palácio rococó rodeado de jardins formais, laranjais, cascatas de água e fontes.
Queluz tinha divertimentos luxuosos durante os meses de verão, como festas
privadas circunscritas aos membros da família real e seus cavalheiros e damas de
honor. As festas de 24 e 29 de junho, os dias dedicados a S. João e a S. Pedro, eram
particularmente elaborados, com corridas de cavalos, touradas, banquetes e
concertos na sala de música onde cantavam a rainha e as suas filhas. Quando
escurecia, os jardins eram iluminados por milhares de velas, iluminações móveis
passavam em frente à fachada do palácio e fogo de artifício rebentava no céu.

Na manhã de 6 de junho de 1760, o embaixador britânico esteve na Barraca Real


para uma audiência em honra do aniversário do rei:
«Que calhou num dia tão extraordinário, quando a corte estava tão agradavelmente surpreendida com uma
declaração bem-vinda das intenções de Sua Majestade, que um casamento fosse celebrado nessa noite entre o
seu irmão, o infante D. Pedro, e a sua filha, a princesa do Brasil. Não preciso de mencionar que a nobreza e
todo o povo deste reino suspiraram por este acontecimento durante muito tempo e com muito ardor ou que a
quase inesperada ocorrência foi recebida com grande e universal alegria.»

Foi um casamento tranquilo para os padrões reais, celebrado em privado na capela


da Barraca Real. Cinco anos depois das perdas provocadas pelo terramoto, o pai de
D. Maria garantia que «a nobreza não é obrigada a mais despesas». O rei tinha
consciência do custo do seu próprio casamento, em 1729, e agora, «através da
atenção paternal de Sua Majestade, as coisas foram geridas de forma a não haver
despesa adicional em guarda-roupa».
Assim que a cerimónia teve lugar, foi ordenada a celebração de três dias de júbilo
público. Tocaram os sinos, dispararam os canhões e as pessoas acenderam velas nas
janelas. Nessa noite, de acordo com um ritual antigo, a mãe e as irmãs de D. Maria
prepararam-na para a cama matrimonial. Despiram-na, perfumaram-lhe o corpo,
deitaram-na entre os delicados lençóis de linho e esperaram até D. Pedro entrar,
subir para a cama e deitar-se a seu lado.
D. Maria deliciou-se com o casamento. Gostava do corpo quente do marido e, na
noite do casamento, seguindo o exemplo do seu avô, prometeu construir uma igreja e
um convento dedicados ao Coração de Jesus – de que ela era «especialmente devota»
– se tivesse a graça de ter um filho. Os membros da corte comentaram o seu radiante
sorriso, mas Pombal iria em breve lançar a sua sombra sobre as primeiras semanas
de felicidade conjugal.
Primeiro, o déspota expulsou do país o núncio apostólico, ele que tinha estado
desde há algum tempo a tentar cortar relações com o Vaticano, acusando o núncio de
«se intrometer no governo de Sua Majestade e fomentar uma sedição perigosa entre
os súbditos do rei», tinha agora uma desculpa. O núncio não tinha iluminado o seu
edifício para celebrar o casamento e o marquês de Pombal decidiu entender isso
como um insulto à família real. A 14 de junho, nas palavras do próprio núncio:

«Foi-me trazida uma ordem para abandonar Lisboa em uma hora, mas os cinquenta soldados que trouxeram a
ordem não me deram sequer um minuto. O seu comandante levou-me à pressa para um barco sem me dar
tempo para fechar a minha escrivaninha, atravessado o Tejo transportou-me até ao rio Caia em quatro dias. Na
estrada, não tive cama e quase nada para comer, e tudo isto sem saber porquê.»31

«Este passo», escreveu o embaixador britânico, «deixou espantados muitos que nunca
pensaram em ver uma tal medida tomada em Portugal».
Seis dias depois da partida do núncio, Pombal prendeu dois membros seniores da
aristocracia, o conde de S. Lourenço e o visconde de Vila Nova de Cerveira, ambos
acusados de intrigarem com o núncio, embora o seu verdadeiro crime fosse o de
serem demasiadamente livres nas suas conversas. Vila Nova tinha sido embaixador
em Madrid durante sete anos e era, segundo o embaixador, «um homem de notável
experiência, honra e integridade». São Lourenço era um amigo de D. Pedro e era
conhecido por ser uma pessoa de espírito. Quando se disse que a casa de Pombal
tinha sido salva do terramoto pela Divina Providência, ele assinalou que Deus
também tinha preservado a rua Suja – a rua dos bordéis –, uma piada que o ministro
não apreciou.
Finalmente, a 21 de julho, Pombal desterrou dois dos tios de D. Maria, filhos
bastardos de D. João V, banindo-os para um convento nas colinas do Buçaco. D. José
tinha elevado os seus meio-irmãos à posição de príncipes de sangue real, mas
Pombal acusava-os agora de se corresponderem com o núncio e de estarem
«profundamente comprometidos em todas as suas intrigas». Dizia-se que um dos
príncipes, esperançado em casar com D. Maria e desapontado com o casamento dela
com D. Pedro, se tinha conluiado com o núncio e os jesuítas. Uma explicação mais
provável encontra-se na história de uma discussão entre Pombal e os príncipes que
acabou com um deles a puxar a cabeleira do ministro e a «bater-lhe com ela na
cara»32.

As festas de D. Pedro tornaram-se ainda mais grandiosas depois do seu casamento e,


a 29 de junho – como uma honra especial – o embaixador britânico foi conduzido
através dos jardins de Queluz para apreciar as festividades do dia de S. Pedro. Pôde
assim assistir a uma tourada e a um concerto pelos músicos reais, apreciar um
banquete numa tenda e fazer parte da audiência quando D. Mariana Vitória e as suas
filhas cantaram. O embaixador anotou cuidadosamente as suas impressões:

«A rainha, que é uma amante superior de música, canta com aquele conhecimento perfeito que esconde todos
os defeitos da voz e sempre proporciona prazer. As princesas, ensinadas por David Perez, o melhor mestre da
Europa, demonstram sempre um excelente gosto. A segunda, Mariana, pode ser equiparada às melhores
cantoras, tanto na voz como na execução, e a mais jovem, Benedita, cuja pessoa é extremamente bonita e
agradável, canta encantadoramente.»

«Todo o entretenimento», concluiu ele, «era o mais principesco e magnificente que


eu alguma vez vi e a serenidade da noite fez justiça ao esplendor da ocasião».
Todos os domingos de verão, da parte da tarde, o rei e a família assistiam a
touradas na arena de madeira do Campo Pequeno. Joseph Baretti fazia parte da
audiência, a 31 de agosto, e viu-os sentarem-se no camarote real. D. José, escreveu
ele, «estava vestido de azul com alguns diamantes»; D. Mariana Vitória e as suas
filhas estavam «cheias de joias».
No final da tarde, quando o oitavo touro estava a ser arrastado para fora da arena,
um grupo de carteiristas saltou as barreiras gritando: «Terramoto! Terramoto!»,
gritos esses que aterraram os espectadores. D. Maria e as suas irmãs «levantaram as
mãos, os leques e as vozes, como eu podia ver pela maneira como abriam as suas
bocas», enquanto os espectadores «saltaram precipitadamente para a arena,
guinchando e correndo como loucos». Os ladrões fizeram um bom negócio nessa
tarde, «muitos homens perderam os seus lenços e muitas mulheres os seus chapéus, já
para não falar de espadas, relógios, colares e brincos»33.
Três dias mais tarde, no segundo aniversário da tentativa de assassinato, Baretti
assistiu a uma cerimónia em Belém. Tinha sido construído um pavilhão no exato
lugar, o interior «coberto de sarja vermelha com franjas de fio prateado», o altar no
centro «gloriosamente adornado» com castiçais de ouro e prata. E, durante uma
cerimónia luxuosa orquestrada por Pombal, D. José colocou a primeira pedra duma
igreja memorial destinada a comemorar a sua fuga dos atiradores.
Primeiro chegou o marquês de Pombal com a sua escolta de quarenta homens a
cavalo, que seguiam o seu coche com as espadas desembainhadas. Depois, veio o
patriarca numa caravana de quarenta coches, seguido pela família real em carruagens
puxadas por seis cavalos malhados. «As princesas vinham magnificamente vestidas»,
escreveu Baretti, «com saias de armação ampla e com as cabeças, os peitos, os
braços, as cinturas e os pés brilhando com joias. Elas pareciam tão vivas, saltando
do coche com tanta desenvoltura».
Era um dia quente e as janelas do pavilhão estavam totalmente abertas, dando a
Baretti uma visão clara do que se passava. Quando D. Maria e as suas irmãs se
ajoelharam para rezar, a sua mãe começou um furioso ataque de beijos nas páginas do
seu livro de orações, «mais de quarenta em poucos minutos». Foi cantado o Te Deum
– «com muito ruído de música» – e depois D. José, D. Pedro e o marquês deixaram
os seus assentos. Desceram para um buraco no chão onde «pás de prata, martelos de
prata e outras ferramentas de pedreiro tinham sido colocadas juntamente com pedras,
tijolos e argamassa».
D. José colocou algumas moedas de ouro e de prata no fundo do buraco. Tapou-as
com uma pedra e os três homens «agarraram nas suas pás e puseram-se a cobrir a
pedra com tijolos e argamassa, batendo nos tijolos com os martelos tal como fora
indicado pelo arquiteto. Algumas mulheres que estavam a olhar através das janelas
riram sem moderação dos pedreiros, porque eles eram algo desastrados no seu novo
ofício, e isto destruiu um pouco a gravidade dos espectadores».
Perante o riso contido da multidão, D. José, D. Pedro e Pombal deixaram o buraco
e regressaram aos seus assentos. O patriarca celebrou missa e os músicos reais
«tocaram e cantaram gloriosamente»34.
28 Wraxall, I, 35

29 Leis de Lamego (citado em Cormatin, II, 215-216)

30 Cormatin, I, 126

31 Baretti, I, 256

32 Cormatin, I, 132

33 Baretti, I, 87, 92-93

34 Ibid., I, 106, 109-111


6

Felicidade Nupcial
D. Maria era exemplar em todas as obrigações e deveres da vida
privada…
um modelo de felicidade nupcial.
Sir William Wraxall, 1772

A seguir ao casamento, D. Maria e D. Pedro apareciam lado a lado em audiências


oficiais, mas não participavam em assuntos de Estado. Confinavam-se à religião e à
vida familiar, enquanto Pombal continuava a sua vendetta contra a Igreja e ignorava o
facto de o país estar envolvido na Guerra dos Sete Anos e D. José ter sido atacado
uma segunda vez no parque de caça de Vila Viçosa.
D. Maria concebeu oito filhos em quinze anos. Dois resultaram em abortos
espontâneos, três morreram na infância e três sobreviveram até à idade adulta. O seu
primeiro filho nasceu na Barraca Real pouco antes da meia-noite de 20 de agosto de
1761, num quarto cheio de padres, secretários de Estado, cortesãos e criados. Era o
filho pelo qual ela tinha rezado; chamou-lhe José, como o pai, e a cidade celebrou-o
com repiques de sinos, tiros de canhão e iluminações.
O príncipe foi batizado na capela do palácio, sete dias mais tarde, mas D. Maria
não reapareceu em público até 24 de setembro, quando assistiu a uma corrida de
touros em honra do seu filho recém-nascido. A sua felicidade nesta ocasião foi
ensombrada por ter sabido que Gabriel Malagrida, o padre que os seus avós tinham
venerado como santo e profeta, tinha sido enforcado e queimado na pira quatro dias
antes na principal praça de Lisboa.
Malagrida era o jesuíta mais conhecido de Portugal, razão suficiente para que
Pombal o odiasse; o seu panfleto acerca do terramoto tinha apenas aumentado o
desejo de vingança do ministro. Velho e cansado, e quase certamente enlouquecido,
Malagrida tinha estiolado em prisões durante mais de dois anos até que Pombal
descobriu uma forma de se ver livre dele. Entregou-o à Inquisição e cuidou ele
próprio da acusação: heresia, blasfémia, falsas profecias e por «ter feito mau uso da
Palavra de Deus».
O auto de fé na noite de 20 de setembro contou com o pai de D. Maria, o seu
marido e toda a corte na assistência. Milhares de pessoas juntaram-se na praça e,
enquanto observavam o garrote a apertar a garganta do velho padre, enquanto viam a
lenha em chamas, recrutadores deslocavam-se entre a multidão para apanharem
jovens para servir no exército. A guerra na Europa ameaçava tornar-se num conflito
alargado. A neutralidade portuguesa estava em perigo – uma aliança entre a França e
a Espanha tinha aberto a porta à invasão – e as defesas do país estavam num estado
lastimável, «totalmente negligenciadas, afundadas no mais deplorável estado».
Em março de 1762, os governos francês e espanhol «exigiram saber» se Portugal
estaria disposto a renunciar à aliança com Inglaterra e fechar os seus portos aos
barcos britânicos. No início de maio, depois de D. José ter recusado estes pedidos,
forças franco-espanholas atravessaram a fronteira a norte. Pombal invocou a velha
aliança e a Grã-Bretanha enviou oito mil soldados para Lisboa. Chegaram em junho
e, antes de marcharem para o norte para defrontarem o inimigo, os oficiais foram
convidados para os festejos de Queluz. Foram conduzidos através dos jardins, como
tinha acontecido com o embaixador britânico dois anos antes e, depois de assistirem
a uma tourada e de terem comido «uma ceia elegante», os oficiais foram levados à
sala de música para ouvirem cantar a rainha e as princesas.
Algumas pequenas batalhas tiveram lugar durante os meses seguintes, mas a guerra
na Europa estava a chegar ao fim. O exército invasor retirou-se em outubro e poucas
semanas depois foi declarado o cessar-fogo. Finalmente, Pombal podia virar-se para
um projeto que lhe era muito querido, a reconstrução de Lisboa.
Poucas semanas após o terramoto, tinha discutido pela primeira vez as bases para
uma cidade moderna se elevar das ruínas, uma metrópole de ruas largas, construída
em quadrícula com passeios para peões e um bom sistema de esgotos. Para permitir
que o trabalho fosse realizado rapidamente e sem grandes custos, a conceção dos
prédios era simples, um estilo de edifícios de fachada lisa com varandas de ferro
forjado, um estilo que ficou conhecido como pombalino. Este trabalho deveria ter
começado em 1757, mas, sobretudo, devido às preparações para a guerra, o seu
plano foi adiado por sete anos, enquanto a cidade continuava soterrada pelos
escombros.
A reconstrução começou durante o comprido e quente verão de 1764. Os pedreiros
iniciaram o trabalho na parte baixa, junto ao Terreiro do Paço, mas a reconstrução do
palácio real não era uma das prioridades de Pombal. Em vez disso, foi renomeada
praça do Comércio e delimitada por edifícios comerciais e militares.

***

Entretanto, D. Maria sofria um aborto espontâneo do seu segundo filho, em outubro de


1762, decorria o sexto mês de gravidez. Em setembro do ano seguinte, deu à luz um
rapaz, que, no entanto, só sobreviveu três semanas, «uma perda que ela aguentou com
surpreendente força moral e resignação». Teve um filho saudável, o príncipe João,
em maio de 1767, e foi mãe, outra vez, dez meses mais tarde.
A sua quinta gravidez estava quase no fim quando, a 8 de dezembro de 1768,
assistia a uma representação do Tartufo de Molière, num teatro de Lisboa. A peça
era sobre hipocrisia religiosa. Tartufo, o arqui-hipócrita, exibia uma falsa piedade
para captar as boas graças de um burguês rico e, depois, roubava-lhe o dinheiro e a
mulher. O papel principal era representado com vestes de jesuíta. A audiência não
teve dificuldade em reconhecer o subtexto da produção e três pessoas «foram presas
por exprimirem os seus sentimentos com demasiada liberdade sobre o assunto da
nova peça».
No dia seguinte, Pombal ordenou a prisão de um dos clérigos favoritos de D.
Maria. O idoso bispo de Coimbra, Miguel da Anunciação, pertencia à família Távora
e era descrito pelo embaixador britânico como «rabugento, teimoso, irritadiço». O
seu crime consistiu em escrever uma carta pastoral condenando vários livros que
tinham sido especificamente sancionados pela Real Mesa Censória, um corpo secular
criado por Pombal para retirar à Inquisição as questões da censura. O prelado foi
condenado à morte por traição – «por uma longa lista de projetos destinados a
contrariar e a subverter o governo de Sua Majestade» –, mas, tendo em vista a sua
idade, foi-lhe poupada a execução. Em vez disso, foi trazido para Lisboa sob guarda
militar e feito prisioneiro num forte situado na foz do rio Tejo.
Seis dias depois da prisão do bispo, D. Maria deu à luz o seu quarto filho, uma
rapariga chamada Mariana. A 23 de dezembro, cópias da carta ofensiva – a qual,
segundo Pombal tinha sido «quase certamente ditada por Roma» – foram queimadas
pelo carrasco por serem «falsas, sediciosas e traidoras», e o marquês disse ao
embaixador britânico que tinha recebido plena autoridade «para tomar todas as
medidas necessárias para silenciar as maquinações de eclesiásticos turbulentos».
«Quão formidável é uma fação eclesiástica em qualquer país», avançava o
embaixador num despacho para Londres. «A constância dos favores do rei e o vigor
com que o ministro pratica todas as suas medidas talvez lhe permitam dominar a
hidra eclesiástica, mas novas cabeças surgirão na mesma proporção em que outras
são cortadas.»

D. José pode ter autorizado Pombal a perseguir o clero, mas a sua consciência estava
profundamente abalada pela rutura com o Vaticano. Quando celebrou o seu
quinquagésimo quinto aniversário, em junho de 1769, o rei sabia que seu pai tinha
sofrido uma trombose quase fatal, mais novo, com cinquenta e dois anos. O marquês
de Pombal restabeleceu as relações com Roma, para que o rei não morresse sem
absolvição papal. O corte tinha durado dez anos, o tempo suficiente para ser atenuado
o domínio da Igreja sobre os assuntos nacionais. Tinha sido criado um Estado
secular, a Igreja estava sob o controlo do governo e os poderes da Inquisição eram
reduzidos. Como observou o embaixador britânico, «embora ele se tenha resolvido a
readmitir o leão, tinha agora as garras cortadas e os dentes extraídos.»
Um novo núncio apostólico foi nomeado em agosto e, a 16 de setembro, D. José
agradeceu ao seu ministro dando-lhe o título pelo qual ele é conhecido na história:
marquês de Pombal. Cinco semanas mais tarde, a família real deixou Lisboa para
uma estadia prolongada em Vila Viçosa. Foram caçar todos os dias e, na manhã de 3
de dezembro, o rei partiu para a caçada à frente dos seus ajudantes, até que ao passar
por um portão de entrada num parque de caça fechado um «homem alto e forte vestido
de camponês» o atacou com uma vara de madeira, «um pau comprido com uma ponta
maior e mais pesada do que a outra ponta que formava a pega».
O homem, um arrieiro chamado João de Sousa, deu três golpes no rei: o primeiro
acertou-lhe no ombro, o segundo feriu-lhe a mão e o terceiro acertou no cavalo atrás
da sela. Os ajudantes do rei galoparam para o salvar, mas Sousa combateu com muito
vigor e conseguiu ferir dois deles antes de ser dominado. D. José, que só sofreu
ferimentos ligeiros na mão e no ombro, continuou a caçada, enquanto Sousa era
levado para as masmorras.
Nessa tarde, foi grande a agitação no palácio, com D. Mariana Vitória encolerizada
por ter estado perto de perder o seu marido e D. Maria aterrada pela perspetiva de
herdar o trono tão subitamente, posição para a qual estava penosamente mal
preparada. Foi enviada uma mensagem urgente para Pombal, em Lisboa, o qual
enviou dois magistrados para interrogar o prisioneiro.
Sousa sentia-se prejudicado pelo rei. As suas mulas tinham sido requisitadas para a
viagem da corte para Vila Viçosa e uma delas foi de tal forma brutalizada que morreu
no caminho. Tinha pedido uma indemnização a D. José, mas o seu pedido foi
ignorado. Sentia-se maltratado, estava zangado e, dizia-se, «parcialmente
enlouquecido». Todavia, Pombal preferiu responsabilizar a Sociedade de Jesus. O
ataque, afirmou, fora uma conspiração jesuíta, uma missão suicida; o arrieiro tinha
lutado tão valentemente com os seus captores porque esperava morrer às suas mãos.
Sousa, disse ele ao embaixador britânico, não estava «nem enlouquecido nem
bêbado, mas era o mais insolente dos homens vivos e estava calmo como os fanáticos
costumam estar».
Enquanto o prisioneiro era levado acorrentado para Lisboa, e torturado na presença
de Pombal e de dois juízes, D. José deixou de assistir a reuniões de Estado. Um
destacamento de cavalaria acompanhava-o nas expedições de caça e os soldados
escoltavam-no sempre que deixava o palácio. «Ele não se afasta dois passos do seu
coche sem ser através de filas de guardas», escreveu o embaixador a 13 de janeiro,
«e quando aos sábados vai ouvir a missa num convento de Lisboa, os guardas
escoltam-no até ao altar-mor». Durante vários meses, o rei esteve ausente de todas as
audiências públicas e, quando reapareceu, sentava-se num trono particularmente alto
atrás de uma balaustrada.
D. José tinha plena consciência da sua própria falta de educação e, sem dúvida
encorajado por Pombal, dava ordens para que o seu neto mais velho recebesse uma
educação mais apropriada. Alguns meses antes, Pombal tinha nomeado Manuel do
Cenáculo Vilas Boas, um dos seus conselheiros mais inteligentes, como confessor do
príncipe. Agora, Cenáculo, nomeado bispo de Beja, tornava-se também precetor.
Garantia assim que o rapaz aprenderia geografia, geometria e direito, oferecendo-lhe
livros para ler – incluindo obras de Erasmo e de Racine – e incutindo uma
abordagem mais secular aos assuntos do Estado.

***

O novo núncio apostólico chegou a Lisboa a 28 de maio de 1770, sendo recebido


com entusiasmo pelo povo da cidade, que se ajoelhou, aos milhares, nas margens do
rio enquanto os barcos a remos o faziam atravessar o rio até à praça do Comércio. O
Te Deum foi cantado na capela real e, a 4 de julho, D. Maria conversou com ele
quando foi à Ajuda para a sua primeira audiência oficial.
A 17 de dezembro, o núncio ofereceu um banquete para celebrar o trigésimo sexto
aniversário de D. Maria. Era um gesto diplomático de importante significado por o
núncio anterior não ter celebrado o casamento da princesa dez anos antes. Devia ter
sido uma ocasião feliz para D. Maria, pela combinação da sua fé religiosa com o
regresso de um núncio apostólico e a sua feliz vida conjugal. Em vez disso, foi
afetada pela ansiedade, por a sua irmã Doroteia estar a morrer na Barraca Real.
A saúde mental de Doroteia tinha-se deteriorado desde os tempos em que cantara
tão docemente nos concertos de Queluz. Estava doente há mais de sete anos, com o
seu estado a ser descrito como «histeria, acompanhada por uma quase total falta de
apetite que a reduziu a um estado de extrema fraqueza». Os médicos receitavam
sangrias constantes, o que a enfraquecia ainda mais, até à sua morte a 14 de janeiro
de 1771. Tinha trinta e um anos de idade.
Mais uma vez, e de acordo com a tradição, a família confinou-se ao palácio durante
oito dias, findos os quais foram todos para Salvaterra. Doroteia não saía da Barraca
Real há alguns anos, pelo que a sua morte não impediu a caçada. D. Maria caçou
veados e javalis e, pouco tempo após o seu regresso à Ajuda em abril, deu à luz o seu
sexto filho. No verão, apreciou os divertimentos em Queluz e, a 22 de setembro, teve
um aborto espontâneo.

***
Pombal estava agora no apogeu do seu poder. «A idade», escreveu um inglês que o
conheceu nessa altura, «não parecia ter diminuído o vigor, a frescura ou a atividade
das suas faculdades. Fisicamente, era muito alto e magro; a sua cara era comprida,
pálida, magra e cheia de inteligência».
Embora tivesse tolerado o regresso do núncio, Pombal continuou a sua batalha com
a Igreja. Tinha expulso os jesuítas do país e das suas colónias, mas continuava
obcecado por eles, atribuindo todos os acontecimentos que o aborreciam a uma
conspiração jesuíta. A França e a Espanha tinham seguido o seu exemplo e tinham
expulsado a ordem dos seus territórios e os três países estavam agora a trabalhar
através dos canais diplomáticos para persuadir o Papa a tomar medidas mais
drásticas contra a Companhia de Jesus.
Ao mesmo tempo, o marquês reformava o sistema de ensino que tinha sido dirigido
pelos jesuítas, até à sua expulsão. Fundou um Colégio dos Nobres com um currículo
esclarecido (línguas estrangeiras, matemática e ciências); abriu uma escola comercial
para ensinar contabilidade e comércio; e, em 1772, reformou a Universidade de
Coimbra. Estabeleceu faculdades de matemática e de ciências, introduziu a física
newtoniana e ordenou a construção de laboratórios, de um museu de história natural e
de um observatório. Atualizou a faculdade de medicina, permitindo a dissecação de
cadáveres, a qual tinha sido anteriormente proibida por razões religiosas, assim
como o estudo da higiene, «porque é mais fácil conservar a saúde do que recuperá-la
depois de ter sido perdida»35.
Pombal fomentou pessoalmente estas reformas, em setembro de 1772, a única vez
durante os seus anos como ministro em que viajou independentemente da corte. Fez a
viagem para Coimbra com um estatuto quase real, regressando no final de outubro
para continuar as suas tramas contra os jesuítas. E, dez meses mais tarde, concretizou
a sua grande ambição, recebendo notícias de Roma que lhe deram «a maior das
satisfações». O Papa tinha sucumbido à pressão; tinha abolido a Companhia de Jesus.
A bula papal foi assinada a 21 de julho de 1773 e, de acordo com Robert Walpole,
o novo embaixador britânico, Pombal ficou «altamente grato por este último passo
para a extinção de um corpo que contestava há tantos anos, especialmente porque lhe
seria permitido o mérito de ter sido o primeiro no seu país que se aventurara a atacar
abertamente a sociedade». Para celebrar este acontecimento, o Te Deum foi cantado
nas igrejas e as iluminações e entretenimentos – que Pombal tinha ordenado e que
ninguém se atreveu a desobedecer – duraram três dias.
35 Maxwell, 102
7

A Sucessão
O rei está muito indisposto.
Robert Walpole, 8 de agosto de 1774

Em janeiro do ano seguinte, Salvaterra e Lisboa foram palco de um inesperado volte-


face. Tudo começou com a chegada da família real ao pavilhão de caça, quando numa
conversa privada com um dos secretários de Estado, a mãe de D. Maria foi
informada de que haveria planos para alterar a linha de sucessão.
Pombal tinha consciência de que os seus esforços para criar um Estado secular
seriam destruídos se D. Maria ascendesse ao trono. O seu filho, príncipe D. José
tinha sido educado pelo Cenáculo Vilas Boas durante quase quatro anos. Era um
aluno estudioso que absorvia as opiniões liberais do seu professor e a intenção de
Pombal era ultrapassar o direito de D. Maria ao trono e nomear o seu filho mais
velho como herdeiro, na prática, introduzindo uma lei sálica. Ele tinha trabalhado
neste seu plano em grande segredo e apenas três pessoas tinham dele conhecimento:
Pombal, o rei e um outro secretário de Estado, José de Seabra e Silva.
José de Seabra, «um homem talentoso, muito aplicado e com extensos
conhecimentos» tinha caído nas boas graças de Pombal, em 1767, quando editou um
livro de propaganda antijesuíta, uma obra na qual todos os males da história recente
de Portugal eram firmemente atribuídos à Companhia de Jesus. Quatro anos mais
tarde, foi nomeado secretário de Estado e, em pouco tempo, tornou-se no substituto
não oficial do marquês. Homem de confiança de Pombal, era ponto assente que, na
altura adequada, ele assumiria o papel de primeiro-ministro. Porém, Seabra tinha
boas relações com D. Mariana Vitória – e com D. Maria e D. Pedro – e não gostava
do plano para modificar a sucessão.
Pombal já não ia com D. José para os seus palácios no campo há vários anos,
preferindo ficar em Lisboa a tratar dos assuntos do governo. Outros ministros
seguiam a corte e, no início de 1774, Seabra acompanhou a família real a Salvaterra,
aproveitando a ausência de Pombal para falar a sós com a rainha.
D. Mariana Vitória era uma mulher espirituosa e capaz, «com uma boa capacidade
de compreensão e uma mente civilizada»36. Ela nunca tentou ganhar poder ou
conseguir influência política, mas desconfiava de Pombal e esta sua intriga era
demasiado importante e plausível para ser ignorada. Contou à filha a conspiração e
D. Maria, que estava grávida de quatro meses do seu sétimo filho, resolveu defender-
se, sendo uma das poucas vezes que teve a coragem de o fazer.
Relembrando a altura em que quase morrera de febre e o Senhor dos Passos fora
levado para o seu quarto, e convencida de que a estátua lhe salvara a vida, viu aí
sinais de que Deus tinha preservado a sua vida para que herdasse o trono e
restabelecesse o poder da Igreja, sobretudo, por estar consciente da educação liberal
do seu filho e recear que – se subisse ao trono em vez dela – apoiasse as políticas
seculares de Pombal.
Decidiu, então, falar com seu pai. Confiante que estava a comportar-se no interesse
da Divina Providência, pediu-lhe para reconsiderar e falando com «energia e
convicção pouco usuais», disse-lhe que se recusaria a assinar qualquer papel e a
renunciar ao seu direito, dado por Deus, ao trono37. D. José consolou-a e, agora que o
segredo tinha sido descoberto, percebeu que a vida no palácio se tornaria impossível
se permitisse que Pombal avançasse com o plano.
A 15 de janeiro, quando regressou a Lisboa para assistir à Festas do Desagravo de
Santa Engrácia, D. José informou Pombal de que havia um traidor ao seu serviço.
Embora não tenha dito o nome do homem nem a natureza da traição, a mudança de
opinião acerca da sucessão fez Pombal perceber que só poderia ter sido Seabra.
Como foi expresso por Walpole, «o marquês de Pombal espera muito daqueles que
favoreceu e é implacável quando as suas opiniões sofrem oposição». Escreveu um
decreto a afastar Seabra das suas funções, exilando-o para as terras de seu pai, na
província, e dando-lhe vinte e quatro horas para deixar a cidade. O rei assinou o
decreto a 16 de janeiro e, quando Seabra chegou a Belém vindo de Salvaterra,
recebeu ordens para ir imediatamente a casa de Pombal.
Seabra deixou Lisboa na manhã seguinte. Em abril, foi preso e mantido num forte
perto do Porto. «O destino do pobre senhor», escreveu Walpole, «piora de dia para
dia». Em outubro, foi embarcado para o Rio de Janeiro, onde foi mantido prisioneiro
numa ilha antes de ser colocado noutro barco para Angola. Chegou a Luanda, em
março de 1775, e foi aprisionado no forte de Pedras Negras, «onde teria morrido
vítima do clima se uma velha mulher negra não tivesse tomado conta dele»38.

***

Este episódio dramático teve repercussões significativas na família real e em José de


Seabra. É fácil de imaginar o choque de D. Mariana Vitória e de sua filha quando foi
conhecido o destino de Seabra, ministro que tinha sido um seu favorito. São também
fáceis de conceber as discussões familiares que se seguiram. Poucos dias depois, D.
Mariana Vitória ficou doente, supostamente com reumatismo, permanecendo
«indisposta» durante vários meses. Simultaneamente, D. José deixou de caçar – na
realidade, não fazia já qualquer exercício. O rei era «um homem gordo e volumoso»
e, quatro semanas depois de D. Maria dar à luz uma filha, Clementina, a 9 de junho, o
monarca teve a sua primeira trombose, sofrendo de «tonturas na cabeça» e de
fraqueza num dos lados do corpo. Como Walpole explicou:

«A alteração no seu estado de saúde pode ter sido provocado por uma rápida transição de uma vida ativa para
uma mais sedentária a que Sua Majestade se tem dado desde o começo da doença da rainha em Salvaterra.
Antes disso, costumava andar a caçar seis a oito horas todos os dias, em qualquer condição climatérica e em
todas as estações, a meio do dia mesmo no tempo mais quente do ano.
O rei tem uma compleição sanguínea e tem sido muito descuidado quanto ao que come às refeições, as quais
têm sido em geral do tipo mais saboroso e menos saudável. Tem já há vários anos as pernas inchadas, sinais
certos de um mau hábito do corpo. Estas circunstâncias, adicionadas ao facto de Sua Majestade ter chegado a
uma idade que tem sido fatal para a sua família, tornam o seu atual estado de saúde mais crítico.»

D. José nunca recuperou a sua vivacidade. Era «sangrado frequentemente» e foi


aconselhado a ir a banhos em Alcaçarias, perto de Lisboa, mas permaneceu «num
estado deprimido e muito indisposto». O rei recusava-se a fazer exercício e rebentou-
lhe uma ferida numa das suas pernas. Também D. Mariana Vitória continuava fraca.
Para desgosto de D. Maria, os seus pais tinham perdido o interesse pela vida. Não
foram para o campo como de costume em novembro, embora, contra o conselho dos
médicos, tenham viajado para Salvaterra em janeiro, onde D. José sofreu vários
ataques durante os meses seguintes.
Regressaram à Ajuda a 8 de maio. Quatro semanas mais tarde, no sexagésimo
primeiro aniversário de D. José, foi inaugurada na praça do Comércio uma estátua de
bronze do rei. Erigida no centro da grande praça junto ao rio, apresentava D. José a
cavalo, usando uma couraça no peito e um capacete com penas, o seu equídeo pisava
cobras, o pedestal era decorado com figuras alegóricas e um baixo-relevo do
marquês de Pombal. Feita com trinta toneladas de bronze, a estátua era «maior do que
qualquer trabalho moderno daquele tipo».
A praça do Comércio era a peça central da reconstrução da cidade preconizada por
Pombal, apesar de um dos lados ter ficado inacabado. A 6 de junho de 1775, a praça
foi varrida e coberta de areia, e os prédios encheram-se de membros da corte,
secretários de Estado, representantes estrangeiros, magistrados e dignitários da
cidade. Às três horas da tarde, depois de a família real se ter sentado debaixo de um
baldaquino, Pombal avançou para retirar à estátua a cobertura de seda carmesim. Foi
uma cerimónia de grande pompa, mas D. José estava já bastante cansado da viagem
de regresso de Salvaterra. As tromboses tinham-no deixado meio paralisado; e não
conseguia «resistir à fadiga e ao calor do sol como dantes». Não mostrou sinais de
prazer quando a estátua foi inaugurada.
Alguns dias mais tarde, Pombal apresentou a D. José um relatório sobre os seus
sucessos como primeiro-ministro do país. Era uma obra-prima de autoelogio:

«Os observadores estrangeiros não deixam de reparar nos muitos milhões que, em poucos anos, foram gastos
em edifícios públicos e privados depois do terramoto. Presenciaram uma praça magnífica, ultrapassando todas
as outras na Europa em tamanho e beleza. Viram uma estátua equestre cara e única erigida nessa praça…
Observaram as ruas atravancadas pela multitude de coches sumptuosos. Todos os estrangeiros que
descobriram uma tal reunião de riquezas não podiam senão convencer-se de que a capital e o reino estavam
num estado da mais alta prosperidade e opulência.»39

Os médicos aconselhavam D. José a tomar banhos no Estoril, vinte quilómetros a


oeste de Lisboa e Pombal oferecia a utilização da sua mansão em Oeiras, a meio
caminho entre Lisboa e o Estoril. A família real fez a viagem a 3 de julho e ficou em
Oeiras durante cerca de três meses. A casa era grandiosa e confortável, rodeada por
extensos terrenos com citrinos e vinha, cascatas e um lago onde D. Maria
experimentou pescar.
D. José beneficiou das águas do Estoril, embora continuasse a sofrer de «fraquezas
dos membros e má disposição». A perna voltou a incomodá-lo no início de setembro
e confinou-se ao seu quarto de dormir, «muito deprimido». No dia 20, Walpole
relatou que «a doença na perna do rei é de natureza grave. Ele tem muitas dores,
aliviadas por uma pequena operação. Não se pode mover sem ajuda e continua muito
deprimido».
A família regressou à Barraca Real no início de outubro, uns dias antes de uma
execução pública brutal. Pouco antes da inauguração da estátua, foi encontrada uma
bomba artesanal na casa de João Batista Pele, um italiano que vivia em Lisboa,
juntamente com um detonador de quinze horas e dois modelos em cera da chave da
casa dos coches de Pombal. Partiu-se do pressuposto de que o italiano planeava
colocar a bomba debaixo do assento do coche de Pombal na noite anterior à
cerimónia. Julgado por alta traição, a sua morte a 11 de outubro foi cruel – mesmo
pelos padrões da Inquisição. Após ter sido torturado na roda, as suas mãos foram
cortadas e o seu abdómen foi aberto e esvaziado. Finalmente, foi desmembrado
enquanto ainda estava vivo e puxado por quatro cavalos em sentidos contrários.
Na manhã seguinte à horrível execução, a família real assistiu a um Te Deum para
celebrar Pombal ter escapado da morte e D. José começou a sentir-se melhor.
Ordenou que representassem uma ópera na Barraca Real e foi à caça, «com algum
sucesso». Em janeiro de 1776, a família mudou-se para Salvaterra, onde a perna de
D. José piorou outra vez e, assim, permaneceu na cama durante várias semanas.
Regressaram à Ajuda no final de maio e, quando Clementina, a filha de dois anos de
D. Maria, morreu a 27 de junho, o rei ordenou que não houvesse «luto na corte por
uma princesa de tão tenra idade».
Em finais de julho, D. José estava de regresso à cama com várias feridas na perna e
uma febre intermitente. Em outubro, foi a banhos em Alcaçarias, imerso em água
durante várias horas por dia. A 2 de novembro, «achando que não estava em
condições», permaneceu no palácio. A sua mulher foi «sangrada por precaução».
Quatro dias mais tarde, o rei teve outra trombose, ainda mais devastadora, que
afetou toda a parte esquerda do seu corpo. Perdeu a fala. Tentava falar, mas só saíam
sons desarticulados. Pombal ia ao palácio todos os dias, e o seu corpo alto e esguio
dobrava-se junto à cama do paciente, mas as filas de cortesãos fechavam-se em torno
do rei quando ele deixava o quarto, e os diplomatas estrangeiros escreviam já para os
seus países que estava iminente uma mudança na política.
A 22 de novembro, depois de «copiosas sangrias», D. José pediu para receber os
últimos sacramentos. E, enquanto se liam preces nas igrejas, começou a ter receio
pelo futuro da sua alma imortal. A 29 do mesmo mês, proibiu o marquês de Pombal
de entrar no seu quarto e nomeou a sua «muito amada e estimada mulher» como
regente.
Sebastião José de Carvalho e Melo contava setenta e oito anos, andava um pouco
curvado, mas a sua grande altura era ainda impressionante e a idade não tinha
prejudicado o seu vigor e poder intelectual. Alguns meses antes, o embaixador
francês tinha escrito que o ministro estava «bem de corpo e mente, pensando-se
imortal, falando de vastos projetos que nem os seus filhos podiam ter esperança de
ver realizados»40. Mas, na realidade, ele era odiado pelo povo, desde o humilde
cidadão a membros da família real; e agora, até o rei se voltara contra ele.

Enquanto a sua mãe tomava conta dos assuntos do Estado, D. Maria preparava-se
para assumir o poder absoluto. Até esse momento, não tinha controlo sobre a sua vida
e não tinha influência sobre como passava os seus dias. Em breve iria ter controlo
total, não só sobre a sua vida, mas sobre a vida de todos os seus súbditos. Era uma
grande responsabilidade para uma mulher com a sua educação e o seu temperamento.
Tinha quarenta e três anos e a carga era mais difícil de suportar porque estava quase
a dar à luz o seu sexto e último filho.
O bebé nasceu prematuramente a 22 de dezembro. Foi um nascimento difícil e,
durante vários dias, D. Maria esteve «muito indisposta». Foi declarada fora de
perigo, no final do ano, mas a sua filha recém-nascida era demasiadamente fraca para
conseguir sobreviver. O bebé morreu a 14 de janeiro, enquanto a saúde de D. José
continuava a deteriorar-se e Walpole, escrevendo discretamente sobre as areias
movediças do poder, «não negligenciava a observação dos movimentos das diversas
pessoas na corte».
A 23 de janeiro, Pombal exerceu a sua autoridade pela última vez. Tinha ocorrido
alguma agitação na aldeia piscatória da Trafaria, na margem sul do rio e alguns dos
aldeões tinham batido num oficial. Com a desculpa de a aldeia ser um refúgio de
desertores e vadios, Pombal enviou a polícia com ordens para a incendiar. Nessa
noite, o clarão das casas a arder manchou o céu, com as chamas visíveis da Barraca
Real, onde a família de D. José se tinha reunido em torno da sua cama.
O rei foi então «retirado da cama durante uns dias, mas as feridas na sua perna
começaram a espalhar-se e, como antes acontecera com o seu pai, ficou inchado com
os edemas. Padres e frades reuniram-se no seu quarto e, durante os últimos dias da
sua vida, tomou apenas duas decisões. A primeira, escrita num papel que deu à
mulher a 20 de fevereiro, expressava o seu «grande desejo» de que o seu neto,
príncipe José, casasse sem demoras com a sua filha mais nova Benedita.
Segundo Walpole, este casamento entre tia e sobrinho «tinha sido decidido há
muito tempo e não havia dúvidas de que Pombal o conhecia». A dispensa papal tinha
já sido obtida em outubro de 1775, quando a família real estava na casa de Pombal,
em Oeiras, mas a cerimónia fora adiada, em parte porque o noivo ainda não tinha
atingido a puberdade e por o rei ter algumas esperanças de melhoras. D. José queria
que o casamento fosse um acontecimento de Estado e nele pudesse desempenhar o seu
papel, com a devida pompa e esplendor. Agora, no fim da sua vida, decidiu avançar
com um casamento que ele acreditava que podia garantir a sucessão da dinastia de
Bragança.
A cerimónia teve lugar na capela do palácio na tarde de 21 de fevereiro. Só a
família mais próxima esteve presente e, assim que acabou, dirigiram-se para o quarto
de D. José, ajoelharam-se para lhe beijar a mão «e retiraram-se muito afetados». O
recém-casado príncipe tinha quinze anos e o seu corpo ainda estava a mudar de rapaz
para homem; a sua noiva tinha trinta, de corpo feito e volumosa. Havia pouca atração
sexual entre eles, mas, nessa noite, de acordo com a tradição, D. Maria ajudou a
despir a irmã e a prepará-la para a cama de casamento.
A segunda decisão de D. José foi comunicada a D. Maria numa carta pessoal.
Começava com as habituais banalidades de que ela devia governar bem o país, tomar
conta da mãe e das irmãs, pagar as dívidas dele e ser simpática para com os
servidores. Finalmente, nas últimas palavras de um homem moribundo, pedia-lhe
para «remir o castigo legal dos criminosos que ela julgar merecedores de perdão.
Quanto aos crimes e ofensas que eles tenham cometido contra a minha pessoa ou
contra o Estado, eu já os perdoei a todos, que Deus me possa perdoar os meus
pecados».
D. Maria e sua mãe não perderam tempo. A 23 de fevereiro, revogaram as prisões
que mais as tinham perturbado. O bispo de Coimbra foi solto da sua masmorra perto
de Lisboa e foi recebido nessa mesma tarde na Barraca Real; os tios de D. Maria
caídos em desgraça, filhos bastardos de D. João V, foram autorizados a regressar à
cidade, «sendo-lhes restaurados os privilégios de que antes gozavam»; e foi enviada
uma carta para Angola a chamar José de Seabra.
D. José morreu pouco depois da meia-noite de 24 de fevereiro, «acabando a sua
vida com tanta serenidade que foi necessária a utilização de um espelho para
determinar a sua morte com certeza». D. Maria que se tinha retirado do quarto do seu
pai para descansar, quando soube da notícia, «preparou-se para receber os ministros
do Estado e admitiu-os à sua presença para lhe beijarem a mão como soberana».
No dia seguinte, o marquês de Pombal regressou ao palácio e foi recebido com as
palavras, «Sua Excelência não tem mais nada a fazer aqui». Banido dos círculos
reais, regressou a casa e escondeu-se atrás de janelas fechadas, enquanto o povo de
Lisboa saía à rua para comemorar. D. Maria ascendeu ao trono numa onda de
entusiasmo público. Sendo o primeiro monarca feminino da história de Portugal, a
sua ascensão foi vista como uma dádiva de Deus. A tirania tinha caído. O domínio do
marquês de Pombal estava acabado.
36 Cormatin, I, 120

37 Beirão, 74-75

38 Beckford, Journal, 43

39 Cheke, Dictator of Portugal, 238

40 Ibid., 221
PARTE II

Poder Absoluto
8

Mudança de Regime
…Uma alvorada de raios brilhantes Tinha ousadamente prometido o
dia de regresso.
Sob os sorrisos de uma rainha benigna Vangloria-se a abertura de um
reino sereno Cheio de augúrios…
William Julius Mickle, 1779

Tal como era hábito, D. Maria e a sua família confinaram-se ao palácio durante oito
dias. A 26 de fevereiro, «com a pompa e cerimónia usuais», o corpo do rei foi
levado para a igreja de S. Vicente de Fora. Na manhã seguinte, D. Maria deu ordens
para que as prisões fossem abertas e mais de oitocentas pessoas, entre aristocratas,
padres, magistrados, homens, mulheres e crianças, foram libertados das masmorras.
Saíram pálidos e emagrecidos, com a roupa em farrapos, com os olhos cerrados pela
luz. Foi, escreveu o embaixador austríaco, «uma imagem da ressurreição dos
mortos».
Entre eles, contavam-se quarenta e cinco jesuítas, incluindo Timóteo de Oliveira,
«o antigo confessor de Sua Majestade, de quem ela sempre sentiu muita falta». Cinco
aristocratas, o marquês de Alorna, o conde de S. Lourenço e os três irmãos do
marquês velho de Távora, recusaram a liberdade até que a sua inocência fosse
provada por um tribunal, pelo que D. Maria concordou com um exílio temporário a
cem quilómetros da corte.
O problema mais inadiável era o da situação de Pombal. O marquês tinha escrito
um pedido de demissão, «devido à sua elevada idade», a sua mãe, a 5 de fevereiro,
carta que D. Mariana Vitória ignorou. Escreveu novamente a 1 de março, mas desta
vez a D. Maria, pedindo-lhe licença para se retirar para os seus domínios na
província. A rainha pediu conselho à mãe. «Suponho que deve ser demitido», ter-lhe-
á dito, «porque toda a gente acha isso».
D. Mariana Vitória sabia que Pombal tinha uma personalidade poderosa; ele
poderia mesmo convencer D. Maria que mais ninguém seria capaz de governar o
país, que devia pelo menos passar o poder a uma nova administração. «Nesse caso»,
disse à filha, «evita vê-lo uma vez que seja sobre assuntos de Estado»41.
Assim, D. Maria aceitou o seu pedido de demissão e, a 4 de março, assinou um
decreto permitindo-lhe que se retirasse para uma cidade perto da sua terra de
nascimento e ordenando que aí se mantivesse. O decreto foi levado a casa do
marquês e lido em voz alta às duas horas dessa mesma tarde, altura em que, segundo
Walpole – o ministro «perdeu toda a sua força moral». Foi imediatamente para a sua
casa em Oeiras e, nessa noite, o povo de Lisboa queimou a sua efígie e marchou a
cantar pelas ruas.
Ainda nesse dia, D. Maria iniciou a nomeação do novo governo. «O clero parecia
ter grandes expectativas de regressar ao poder no novo reinado», escreveu Walpole a
26 de fevereiro, «e a nobreza diz para si mesma que vai ser restaurada a sua anterior
importância». Todos tinham expectativas relativamente a D. Maria e deve ter sido
difícil para uma mulher com tão poucos conhecimentos sobre assuntos públicos
escolher homens para governar o país.
Era importante ter alguma continuidade nos assuntos do Estado, por isso, a
conselho de sua mãe, nomeou dois ministros que tinham servido Pombal: Aires de Sá
e Melo, como secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, e Martinho de Melo e
Castro, como ministro da Marinha e das Colónias. Dez dias mais tarde, designou
mais dois secretários: o marquês de Angeja como primeiro-ministro e administrador
do Tesouro, e o visconde de Ponte de Lima, como secretário de Estado dos Assuntos
Internos. Ambos eram novos no governo e tinham bastantes razões para não gostarem
do anterior regime. O irmão do marquês de Angeja, o conde de S. Lourenço, e o pai
do visconde de Ponte de Lima, o visconde de Vila Nova de Cerveira, tinham sido
presos por Pombal. Este último tinha mesmo morrido na prisão.
Entretanto, Pombal e a mulher tinham deixado Oeiras, a 7 de março, encaminhando-
se para norte, para o seu lugar de exílio. Andaram devagar. As estradas estavam
feitas num lamaçal pelas chuvas de inverno e, para evitar aldeões zangados, fizeram
vários desvios que prolongaram a viagem. Pombal estava deprimido demais para sair
do coche, pelo que, por vezes, para aligeirar a carga das mulas, a sua mulher foi
forçada a ir a pé. O grupo lá foi andando, manobrando o coche por estradas ruins. À
noite, continuavam o caminho à luz de archotes.
Chegaram ao seu destino a 15 de março. Pombal era proprietário de grandes
terrenos na zona, mas tinha descuidado a manutenção da sua casa na cidade, por isso,
a única acomodação disponível era uma casa pequena de um só andar na praça do
mercado. As paredes estavam húmidas devido à chuva e havia poucas mobílias, mas
eles ajeitaram-se ali o melhor que podiam e desempacotaram as poucas posses que
tinham conseguido levar com eles.

***
Tinham sido – para falar com certa moderação – uns meses difíceis para a rainha.
Ainda mal tinha tomado contacto com as suas novas responsabilidades quando
contraiu sarampo, de toda a sua família só o marido e o seu segundo filho escaparam
à infeção. Os sintomas de D. Maria começaram a 23 de março e só a 27 de abril é
que a rainha pôde reunir com os ministros. Foi acordado que a sua aclamação teria
lugar a 13 de maio, na praça do Comércio. Ao abrigo das Leis de Lamego, foi
reiterado que D. Pedro teria o estatuto de rei consorte e o título de D. Pedro III, mas
estaria sempre subordinado à rainha, sua mulher. Andaria do seu lado esquerdo,
assinaria por baixo da assinatura dela e não teria direito à coroa. No duplo retrato
pintado por esta altura, D. Maria é mostrada com a mão na coroa; enquanto a de D.
Pedro paira por cima.
A manhã de 13 de março levantou-se brilhante e soalheira. Tinha sido erigido um
pavilhão na praça do Comércio com uma galeria de vinte e oito arcos suportados por
colunas de mármore. Decorados com emblemas militares e figuras alegóricas,
estavam « magnificamente guarnecidos com tapetes e damascos e adornados com
franjas e laços de ouro». Tinha-se juntado uma multidão durante a noite, cantando e
dançando até de manhã, deixando a praça repleta de gente e o rio cheio de barcos
carregados de espectadores. As pessoas amontoavam-se em cada varanda e telhado,
e umas quantas almas corajosas estavam mesmo penduradas, a uma altura perigosa,
na estátua equestre de D. José no centro da praça.
A família real chegou da parte da tarde e, às quatro horas, a procissão formou-se e
começou a encaminhar-se para a galeria. Primeiro, vinham os arautos e os cavaleiros,
seguidos pelos aristocratas, a instituição religiosa e os secretários de Estado. Depois,
vinham os dois filhos de D. Maria, o príncipe herdeiro D. José – agora conhecido
como príncipe do Brasil –, e o príncipe D. João, seguido por D. Pedro e o seu
séquito. O consorte de D. Maria levava um casaco de listas coloridas e vestes
adornadas com diamantes, um chapéu adornado com penas brancas por cima de uma
cabeleira comprida, e transportava uma espada de ouro maciço.
Finalmente, surgiu D. Maria, logo seguida pelas suas damas de honor. A rainha
levava um vestido de tafetá, cosido com filamento prateado e coberto de diamantes,
trazia ainda um corpete encrostado de pedras preciosas, dispostas num arranjo floral.
A cauda do seu vestido era feita de tecido de ouro e carregava o manto do Estado, um
casaco carmesim bordado com fio de ouro e de prata.
Os músicos reais tocavam enquanto a procissão entrava na galeria e a família se
sentava debaixo de um baldaquino de seda. Depois de lidas diversas proclamações,
D. Maria ajoelhou-se numa almofada carmesim e, numa voz calma, prometeu
governar bem o país, administrar a justiça, proteger os costumes, privilégios e
liberdades do seu povo. O marido e filhos prestaram-lhe homenagem, os seus
cortesãos juraram fidelidade e o porta-bandeira real aclamou-a rainha. Soaram
trombetas e cornetas, a multidão gritou «Viva a Rainha», enquanto os sinos
repicavam, os canhões disparavam uma saudação e se lançavam foguetes para o céu.
Era uma imensa cacofonia de som; aparentemente, nunca um monarca tinha sido
aclamado com tanto entusiasmo.
D. Maria manteve um ar solene durante os procedimentos; de acordo com um
espectador, ela tinha um ar «dolorosamente afetado e parecia não partilhar a alegria
geral»42. Cansada dos acontecimentos dos últimos meses, ainda fraca do sarampo, a
monarca tinha sido avisada de uma conspiração para incitar a população a pedir a
cabeça de Pombal. Os soldados cercavam a área, tropas a cavalo estavam prontas a
avançar ao primeiro sinal de perturbação e a rainha enervava-se com os gritos
ocasionais de «Morte a Pombal» que saíam da multidão que enchia a praça.
Assim que a cerimónia acabou, e quando saía da galeria com o cetro na mão, a
multidão quebrou finalmente as barreiras. As pessoas ajoelharam-se em frente à
rainha, beijando a bainha do seu vestido. Havia tanta gente ao seu redor que foi
impedida de alcançar o coche que a deveria levar para a Barraca Real. Sensibilizada
por esta demonstração de afeto, disse aos guardas para não intervirem. D. Maria I
ficou ali durante vários minutos, rodeada pelos seus súbditos, «comovida quase até
às lágrimas»43.

Quatro dias mais tarde, D. Maria certificou a inocência dos cinco nobres que se
tinham recusado a aceitar a liberdade. A 22 de maio, Dia do Corpo de Deus, estava
sentada num pavilhão ricamente decorado perto da Sé a observar o marido e os filhos
em procissão pela cidade. A 6 de junho, tomou parte numa nova festividade que ela
tinha dedicado ao Coração de Jesus. No dia seguinte, seguiu para Queluz.
O palácio estava desocupado desde a primeira trombose de seu pai em julho de
1774. Agora, três anos mais tarde, os criados abriram as portas e as janelas, o
mobiliário e os adereços foram trazidos da Barraca Real, e a família saiu de Lisboa
num comboio de coches e carroças. Era o verão mais quente em quase trinta anos e
D. Maria refugiou-se nos jardins formais, à sombra das árvores importadas do Norte
da Europa e refrescando-se nas fontes e água corrente. A rainha ficou quatro meses
em Queluz, apreciando excursões pelo campo e passando algum tempo no castelo dos
mouros de Sintra.
A única contrariedade neste verão idílico foi a saúde do seu marido. Na manhã de
16 de agosto, D. Pedro sofreu uma pequena trombose, «ficando doente durante uma
missa com tonturas na cabeça e perdendo a fala durante algum tempo». Continuou mal
durante algumas semanas, tendo recuperado no final de setembro, depois de «várias
sangrias e outros remédios». A família regressou à Ajuda a 11 de outubro e, dez dias
mais tarde, partiu numa viagem de três dias para o palácio de Vila Viçosa.
Um dos assuntos de Estado mais urgentes quando D. José morreu era a situação na
América do Sul, visto Portugal e Espanha estarem envolvidos em disputas territoriais
há vários anos. Pombal tinha seguido uma linha particularmente dura sobre o assunto
e, em julho de 1776, receava-se que a disputa entre os dois países se agravasse. D.
Maria ficou horrorizada com a perspetiva, todavia, quando anunciou que preferia
abdicar do trono do que ir para a guerra, a sua mãe aconselhou-a a falar com mais
cautela. Como foi expresso por Robert Walpole, «a rainha-mãe, que tem um espírito
mais forte do que a rainha atual, não é menos solícita em secundar as ideias pacíficas
da sua filha, mas diz que isto deve ser feito com decoro em relação à coroa de
Portugal».
Foi D. Mariana Vitória quem deu os primeiros passos, trocando cartas de paz com
o seu irmão, Carlos III de Espanha. As negociações formais começaram em maio de
1777 e, a 21 de junho, Walpole reportava uma «suspensão das hostilidades» nas
colónias da América do Sul. Em agosto, D. Mariana Vitória e o seu irmão estavam «a
escrever um ao outro todas as quinzenas» e, em outubro, os dois países assinavam um
tratado «estabelecendo os limites do território da América do Sul». Era o fim das
constantes escaramuças territoriais e a base de um segundo tratado – «de amizade e
proteção» – que foi assinado seis meses mais tarde.
D. Mariana Vitória tomou em mãos muitas destas negociações e rapidamente se
acordou numa visita ao seu irmão, em Espanha. A família acompanhou-a até à
fronteira, partindo de Lisboa em direção a Vila Viçosa, a 21 de outubro. Sete dias
mais tarde, D. Maria acompanhou a mãe ao rio Caia, que marcava fronteira entre as
cidades de Elvas e Badajoz, e aí se despediram «com muita ternura de ambos os
lados».
Durante os quatro meses seguintes, D. Mariana Vitória continuou a negociação do
segundo tratado, o qual acabou por ser assinado em março de 1778. Fê-lo em boa
hora, pois a Guerra da Independência, entre a Grã-Bretanha e as suas colónias
americanas rapidamente se tornou num conflito mais amplo. A França entrou na
guerra no início de 1778, e a Espanha seguiu-a um ano mais tarde, por isso o tratado
com Espanha permitiu à rainha D. Maria, apesar da aliança anglo-portuguesa e da
pressão inglesa para honrar as suas obrigações, manter uma política da «mais estrita
neutralidade».
D. Mariana Vitória ficou na corte espanhola durante mais um ano e, para reforçar
os laços entre os dois reinos, discutiu o casamento de dois dos filhos de D. Maria
com membros da família do seu irmão. Em junho de 1778, foi novamente «atacada de
reumatismo» tendo ficado confinada à cama durante várias semanas no palácio de
Aranjuez. Em julho, esteve a banhos durante dezoito dias e, em meados de agosto,
estava suficientemente bem para ser «levada pelos jardins numa liteira de três
rodas»44.
Em novembro, ao regressar a Portugal, teve de imediato a visita de D. Maria e D.
Pedro. Quando o seu coche desceu o vale de Badajoz, grupos de pessoas juntaram-se
nas estradas, de cada lado da fronteira, para ver o encontro real nas margens do rio
Caia. No dia seguinte, estava marcada uma caçada em Vila Viçosa. D. Mariana
Vitória sofria agora de doença cardíaca e de artrite; já não podia andar a cavalo, mas
nada a podia impedir de participar. Seguindo a caçada numa liteira, matou três
veados e treze gamos.
A família deixou Vila Viçosa a 10 de dezembro, chegando a Lisboa três dias mais
tarde. A 17 do mesmo mês, D. Maria celebrou o seu quadragésimo quarto aniversário
com um beija-mão na Ajuda, seguido pela estreia de uma ópera, composta pelo seu
professor de música, David Perez, no novo teatro em Queluz.
41 Cormatin, I, 145, nota de rodapé

42 Ibid., I, 29-30

43 Ibid., I 32

44 Frederick Robinson, Thomas Robinson, julho-agosto 1778 (BA, L30-/15/54, L30/17/2)


9

A Sombra de Pombal
O marquês de Pombal é um criminoso merecedor de castigo exemplar.
D. Maria I, 16 de agosto de 1781

Enquanto a sua mãe negociava tratados com Espanha e estabelecia as bases de dois
casamentos dinásticos, D. Maria iniciou a restauração do poder da Igreja. Despediu o
Cenáculo Vilas Boas, o precetor liberal do seu filho, e escreveu uma carta pública a
Miguel da Anunciação, reinstalando-o como bispo de Coimbra e referindo-se «à
grande confiança e estima que tenho por si». Apesar de não ter poder suficiente para
ressuscitar a Companhia de Jesus, fez o melhor que pôde para corrigir e compensar a
perseguição de Pombal a esta ordem religiosa, dando pensões a jesuítas libertados,
enviando dinheiro ao Papa para cobrir os custos da manutenção de padres no exílio e
restaurando os nomes dos santos jesuítas no calendário das festas religiosas.
Tendo restabelecido a jurisdição da corte do núncio apostólico, admoestou os
membros do clero que tinham abraçado a ideias mais liberais de Pombal. Premiou
pessoas de outras confissões que se convertessem ao catolicismo e foi madrinha nos
seus batismos. Cumpriu o voto, feito na noite do seu casamento, de construir uma
igreja e um convento dedicados ao Coração de Jesus se fosse abençoada com o
nascimento de um filho. Escolheu um local na Estrela, um subúrbio a ocidente de
Lisboa, e nomeou um arquiteto para desenhar um imenso edifício nos estilos barroco
tardio e neoclássico.
Entretanto, os seus ministros tinham herdado uma situação caótica. Os papéis de
Estado do reinado anterior estavam armazenados na maior desordem na casa de
Lisboa de Pombal, pelo que foram nomeados dois oficiais para organizar um sistema
de fichas de catalogação. O Tesouro estava de tal forma esgotado que Angeja teve de
fomentar uma campanha de poupança. Ao mesmo tempo, suspendeu os trabalhos de
reconstrução da cidade, cortou despesas da ópera real, reorganizou o sistema dos
criados do palácio e reduziu o número de cavalos e mulas dos estábulos reais.
Previsivelmente, estas medidas produziriam poupanças significativas, mas as
contribuições de D. Maria à Igreja eram tão grandes que pouca diferença fizeram nos
fundos do tesouro.
Em todos estes assuntos, era D. Maria quem tomava as decisões, os secretários de
Estado apenas se limitavam a aconselhá-la. Os seus ministros eram homens diligentes
e pios, contudo só dois deles tinham alguma experiência em assuntos mundanos.
Estavam restringidos pela formalidade da corte, incapazes de fazerem juízos em
nome da rainha. «Sua Majestade está acima da lei», explicou Ponte de Lima a Robert
Walpole, «nenhum ministro lhe pode travar a mão ou circunscrever a sua
autoridade».
Era uma posição insustentável para alguém com uma tão limitada educação e
experiência, ainda mais para uma mulher que tantas vezes ansiara pela vida de uma
freira de clausura. «Ela é verdadeiramente merecedora de estima e de respeito»,
escreveu um visitante, no verão de 1777, «mas não tem as qualidades que fazem uma
grande rainha. Ninguém pode ser mais amável, mais caridoso ou mais sensível, mas
estas boas qualidades são contrariadas por uma devoção religiosa excessiva e mal
avaliada»45.
Walpole exprimiu isso de forma ainda mais sucinta. «A rainha é tímida», escreveu
ele, «facilmente influenciada pelo clero e de uma ilimitada obediência à Sé de Roma
e à jurisdição do clero e às suas pretensões mais vastas». O seu marido não a ajudava
em assuntos de Estado. Segundo Walpole, D. Pedro tinha «uma compreensão
confinada. Ouve três ou quatro missas de manhã, no maior êxtase, e assiste às preces
do fim da tarde com a mesma devoção. Fala muito em preceitos de bondade e de
justiça, mas, como não tem conhecimentos sobre a humanidade ou sobre negócios, é
facilmente conduzido pelos que estão mais próximo de si, especialmente se
pertencerem à Igreja».
D. Maria fez o possível por estar à altura das ocasiões. Levou a sério o seu
Conselho de Estado e procurou perceber os assuntos do governo e discuti-los com os
seus ministros. Confiava nos conselhos de sua mãe em assuntos políticos, mas
também se virava para Inácio de São Caetano, um homem jovial, de nascimento
humilde, que tinha sido seu confessor durante vinte anos e que não hesitava em se
envolver em questões de Estado.
Ao mesmo tempo, usou «todos os meios para anunciar um reinado de clemência».
Atribuía pensões e nomeava para a corte homens libertados da prisão ou que
regressavam do exílio. Restaurou a liberdade de imprensa que tinha sido abolida por
Pombal. Inaugurou uma Real Academia das Ciências e encorajou expedições para
registar a flora e a fauna das colónias. E, lembrando-se da brutalidade das execuções
dos Távoras e de Pele, anunciou que não recorreria à pena de morte, «nem para os
maiores criminosos».

***

D. Maria tinha exilado o marquês de Pombal para uma pequena cidade, a cento e
vinte quilómetros ao norte de Lisboa, porém, os membros da nobreza –
particularmente os que tinham definhado em masmorras – pediam um castigo mais
forte; alguns chegavam a pedir a sua execução. D. Maria percebia a fúria e revolta,
mas Pombal fora o ministro favorito e de grande confiança de D. José e ela honrava a
memória do seu pai.
No início de 1779, um recém-regressado do exílio pediu uma indemnização a
Pombal, acusando-o «de ter abusado de um poder despótico para se elevar ao topo
das honras e das riquezas, à custa da liberdade de muitas pessoas inocentes»46. O
marquês reagiu com grande convicção, escrevendo uma defesa convincente das suas
ações. Foi o rei, escreveu ele, quem assinou todos os decretos contra os nobres e os
jesuítas. Pombal, seu criado leal, tinha sido apenas um instrumento passivo ao
serviço do seu senhor.
Quando D. Maria ouviu a defesa de Pombal, pediu uma cópia e ficou
profundamente perturbada por descobrir que o seu pai era publicamente tornado
responsável por tal tirania. Discutiu o assunto com a mãe e, a 3 de setembro, declarou
que a defesa era caluniosa e um insulto à memória de seu pai. Além disso, cedeu aos
pedidos dos seus cortesãos, ordenando um processo oficial com acusações de abuso
de poder, corrupção e fraude.
Deslocaram-se dois juízes até casa de Pombal, onde estabeleceram uma sala de
tribunal temporária. Os interrogatórios começaram a 11 de outubro e duraram mais de
três meses. As energias de Pombal estavam a abandoná-lo. Por vezes, desmaiava,
outras era levado para a sala do tribunal numa maca, ou estava demasiadamente
doente para poder ser interrogado. Mesmo assim, durante o julgamento, continuou a
manter a posição de que todos os feitos cruéis, os atos de terror, tinham sido
instigados por D. José, o qual tinha assinado todos os papéis relevantes.
Em janeiro de 1780, os juízes viajaram até Salvaterra para relatar a D. Maria o que
tinham encontrado. Não tinham recolhido nada de muito significativo e o seu relatório
não tinha bases para castigo maior. Pombal tinha agora oitenta anos e a sua saúde
abandonava-o. Esperando que o assunto fosse em breve retirado das suas mãos, D.
Maria enviou um médico para relatar o seu estado. Os sofrimentos físicos do velho
homem podiam ter sido agudos, mas o seu cérebro continuava tão lúcido como
sempre. A 7 de março, para consternação de D. Maria, o médico reportou que
Pombal retinha «a vivacidade de espírito, a lucidez e a firmeza de intelecto e a
memória fresca e exata de um homem com menos de trinta anos»47.
Dois meses mais tarde, o marquês de Alorna, genro do marquês velho de Távora,
pediu a revogação dos veredictos de janeiro de 1759. Ele e os Távoras sobreviventes
tinham sido declarados inocentes em maio de 1777, pois o duque de Aveiro retratara-
se da sua confissão, a qual tinha sido obtida na roda, antes da execução, além de
outras irregularidades aquando do julgamento.
D. Maria acreditava na inocência dos Távoras, mas tinha consciência de que um
perdão póstumo afetaria a honra de seu pai. Foi necessária muita coragem para
assinar um decreto que declarava os veredictos «nulos e injustos» e nomear um
tribunal de magistrados para rever as provas. A ordem judicial teve a data de 9 de
outubro de 1780 e, assim que assinou o seu nome, atirou a caneta para o chão e teve
um ataque de histeria. Gritando que estava danada, condenada ao inferno para toda a
eternidade, teve de ser levantada da cadeira e levada para o quarto.
Este foi o primeiro grande colapso nervoso de D. Maria, uma torrente de emoções
paradoxais exacerbadas pela fraca saúde do seu marido e de sua mãe. D. Pedro tinha
sofrido nova trombose, em julho de 1779, quando ficou doente durante uma
representação no teatro de Queluz. Uma das suas pernas ficou afetada e viu-se
incapaz de falar. Alguns dias mais tarde, depois de «frequentes sangrias e outros
tratamentos, a sua fala e a sua boca recuperaram um pouco, mas a sua perna continuou
paralisada».
Os médicos recomendaram-lhe que tomasse banhos em Alcaçarias, mas D. Pedro
«não os tomou com vários argumentos, sendo muito avesso a eles, e a distância até
Queluz era demasiado grande para praticar o remédio com segurança». Foi então
decidido converter a Casa do Senado, na praça do Comércio, em apartamentos reais.
Os pedreiros trabalharam «dia e noite de forma expedita» para prepararem o edifício
e a família mudou-se para a sua nova residência no final de agosto.
Entretanto, D. Mariana Vitória sofria da sua velha doença, «muito afetada por
reumatismo», assim como de dores no peito. Em setembro de 1780, deslocou-se às
Caldas para tomar as águas medicinais e, no final do ano, foi «atacada por uma
violenta opressão no peito que lhe causou o maior alarme». Recebeu a extrema-unção
do núncio apostólico e morreu na Barraca Real a 15 de janeiro de 1781. Conforme D.
Maria escreveu a seu tio em Espanha, foi «um golpe muito doloroso porque era uma
companhia preciosa de todas as maneiras»48.
D. Maria tinha dependido do seu apoio em todos os assuntos de governo, mas, a 23
de maio, quando o tribunal de magistrados relatou o que averiguara, a rainha teve de
lidar com a situação sozinha. Num longo relatório que deplorava o uso de tortura e
desacreditava algumas das provas, o tribunal confirmou a inocência da família dos
Távoras, mantendo, contudo, o veredicto relativo ao duque de Aveiro. Embora
estabelecendo a culpa de Pombal, era um relatório devastador para D. Maria, a qual
o entendeu como um vexame para seu pai, que tinha assinado as condenações à morte.
Três semanas mais tarde, o convento da Estrela estava pronto para ser ocupado. D.
Maria mostrou interesse pessoal nas cerimónias de abertura e, a 16 de junho – «com
a maior pompa» –, a abadessa e dezasseis freiras chegaram ao convento num
comboio de coches reais. Foi celebrada missa na presença da família real e da corte,
finda a qual as freiras tomaram a sua primeira refeição no refeitório, preparada que
foi nas cozinhas do palácio e servida – para espanto das freiras – pela própria rainha.
Devia ter sido um dos momentos mais felizes na vida de D. Maria, uma ocasião que
combinava o seu estatuto como rainha com as suas inclinações para a vida de
convento e o seu amor pelo Coração de Jesus, porém o problema de Pombal pesava
na sua mente. O seu confessor tinha tomado o papel de sua mãe como conselheiro e
confidente e, por recomendação dele, a rainha tomou finalmente uma decisão. O
decreto, datado de 16 de agosto, era notavelmente caridoso:

«O marquês de Pombal é um criminoso merecedor de castigo exemplar, mas, tendo em vista a sua avançada
idade e as suas pesadas enfermidades, e consultando a minha clemência em vez da minha justiça… perdoo
todos os castigos corporais e ordeno-lhe que se ausente do tribunal para uma distância de pelo menos vinte
léguas, uma vez que a minha intenção é apenas a de perdoar o castigo pessoal que a justiça e as leis
requerem.»49

Esta pena satisfazia, de certa forma, as exigências dos seus cortesãos, embora o
decreto pouca diferença fizesse a Pombal, cujo lugar de exílio estava a vinte e oito
léguas do tribunal e cuja constituição de ferro estava finalmente a esboroar-se. A sua
pele estava ulcerada, tinha septicemia e sofria de febre e de disenteria. Os médicos
receitaram-lhe leite de burra e caldo de víboras, as pessoas da terra levavam-lhe à
porta cobras em cestas, e davam-lhe quinino.
A rainha D. Maria permitiu que os dois filhos do marquês mantivessem as suas
honrarias e posições e, quando a saúde de Pombal se deteriorou, aceitou que
abandonassem a corte. «Sejam bons filhos», disse-lhes, e «vão tomar conta do vosso
pai».
45 Cormatin, I, 124-125

46 Beirão, 175

47 Ibid., 184

48 D. Maria I para Carlos III, 16 de janeiro de 1781 (Beirão, 428-429)

49 Citado em Smith, II, 352-353


10

O Duplo Casamento
De Espanha nem bom vento nem bom casamento.
Provérbio português

Pombal morreu a 8 de maio de 1782, levantando a sombra que tinha escurecido a


vida de D. Maria durante mais de um quarto de século. Os quatro anos seguintes
foram os mais descontraídos e felizes do seu reinado, embora a vida na corte
continuasse a ser demasiadamente formal. Nada tinha mudado desde os dias do seu
avô, D. João V, que era muito rígido com o protocolo. À exceção do confessor de D.
Maria, ninguém era autorizado a sentar-se na sua presença. Todos os demais tinham
de estar de pé ou ajoelhar-se – até mesmo os secretários de Estado que tratavam com
a rainha dos assuntos do governo.
Esta regra tinha sido um problema para Pombal, que sofria de varizes e de úlceras
nas pernas. No início de 1768, o governo ficou paralisado quando o primeiro-
ministro sofreu uma entorse no tornozelo. Continuou a trabalhar e a viajar no seu
coche, mas a lesão levou tempo a sarar e viu-se impedido de se encontrar com D.
José durante três meses, «por não ser capaz de ficar de pé e de se ajoelhar, o que a
etiqueta desta corte exige».
De tempos a tempos, os cortesãos de D. Maria retiravam-se da sua presença para
se deitarem no chão das antecâmaras. Quando se estava a conversar ou a jogar às
cartas, permitia-se que os cavalheiros se prostrassem sobre um só joelho; as senhoras
eram, por vezes, autorizadas a sentarem-se de pernas cruzadas no chão. O cortesão
favorito de D. Maria, o marquês de Marialva, admitiu a William Beckford, um inglês
rico que se tinha tornado seu amigo, que estar com a família real era uma servidão
entediante e cansativa. William foi menos cerimonioso, chamando-lhe «um estado de
pura escravatura».
Beckford chegou a Portugal depois de um caso homossexual com um jovem
aristocrata ter resultado em ostracismo social no seu país de origem. Foi também
evitado pela comunidade inglesa em Lisboa. Robert Walpole recusou-se a apresentá-
lo à corte, pelo que o protocolo o impedia de prestar homenagem à rainha. Numa
tarde de verão, quando a família real chegou à casa do marquês de Marialva para
uma festa, Beckford escondeu-se atrás de uma janela para ver D. Maria e D. Benedita
sentarem-se para tomar chá. «O visconde de Ponte de Lima ajoelhou-se junto das
personagens reais com uma devoção abjeta», escreveu no seu diário nessa noite, «e
quando o gentil-homem serviu o chá à rainha e à princesa, prostrou-se sobre ambos
os joelhos para o apresentar».
Entretanto, os dois filhos de D. Maria «andavam por ali com as mãos nos bolsos,
as bocas num bocejo perpétuo, os olhos passando de objeto em objeto fitando o
vazio. Poucos príncipes são mais dignos de compaixão do que estes, condenados por
uma etiqueta ridícula a uma rigorosa reclusão, nunca sendo autorizados a misturarem-
se com a multidão»50.

Em dezembro de 1782, o príncipe D. João, agora com quinze anos, caiu doente com
varíola. Começou a sentir-se mal no dia 26, quando a corte fazia planos para a
viagem para Salvaterra, queixando-se de dores de cabeça e nas costas. A febre
instalou-se e apareceram-lhe manchas vermelhas na pele. As manchas passaram a
borbulhas e, depois, a bolhas contendo um líquido amarelo claro.
A varíola era uma doença comum. A taxa de mortalidade era de cerca de um em
cinco e as vítimas que sobreviviam a um ataque ficavam frequentemente com
cicatrizes para toda a vida. Um surto suave ou benigno envolvia apenas algumas
bolhas; ao invés, quando as bolhas se espalhavam por todo o corpo, era conhecido
como um ataque confluente sendo muitas vezes fatal.
Inicialmente, os médicos recearam o pior, porque as bolhas do príncipe «pareciam
ser do tipo confluente». No entanto, em meados de janeiro, tinham mudado de
opinião. O ataque era benigno, garantiam, e por isso D. Maria pôde partir para
Salvaterra no dia 18, deixando o filho a convalescer na Barraca Real. «O meu filho
pregou-me um susto porque as suas bolhas eram muitas», escreveu a um primo em
Espanha, «mas já saiu da cama e tudo o que tem a fazer agora é convalescer»51. D.
Maria gostou das caçadas em Salvaterra e, quando o príncipe chegou a 15 de
fevereiro, ficou deliciada por o encontrar «totalmente recuperado e sem grande
mudança de aparência»52.
Por esta altura, D. Pedro sofria de uma úlcera numa das pernas. Isso impedia-o de
andar a cavalo e continuou a incomodá-lo depois do seu regresso à Ajuda. Como
escreveu D. Maria, a 6 de abril, «o padecimento, embora não cause alarme,
mortifica-o tanto que não podemos apreciar o bom tempo»53. A úlcera já estava
melhor em julho, quando se mudaram para Queluz, e apesar de ainda ter «os restos de
uma ferida», D. Pedro estava suficientemente recuperado para acompanhar a sua
família em excursões pelo campo.
A 10 de agosto, fizeram uma saída fora do habitual, uma visita à mansão de Oeiras,
que era agora propriedade do filho mais velho de Pombal. De acordo com D. Pedro,
a viagem serviu para inspecionar os jardins e as cascatas, mas D. Maria também fez a
visita como uma cortesia para com a família de Pombal. Chegando a meio da tarde,
foram levados a ver o jardim, passear pelas áleas de laranjeiras e limoeiros, visitar
as quedas de água e pararam no lago onde – mais uma vez – D. Maria experimentou
pescar. Ao fim da tarde, foi servida uma merenda na casa e quando a família subiu
para as liteiras para fazer a viagem de regresso, duas velas foram colocadas em cada
janela para iluminar a escuridão.
Alguns dias mais tarde, mudaram-se para o palácio-convento de Mafra onde, a 2 de
setembro, D. Pedro sofreu a sua terceira trombose. «Quando passeava ao ar livre»,
escreveu o cônsul britânico, substituindo Walpole, que estava em Inglaterra de
licença, «foi surpreendido por uma aflitiva paralisia na boca, da qual recuperou
suficientemente para continuar o exercício, mas, três dias mais tarde, voltou-lhe uma
velha infeção numa das pernas».
A úlcera manteve-o na cama durante os dez dias seguintes, por isso, a família adiou
o regresso a Queluz até ao final do mês. Em outubro, fez várias aparições públicas,
«contudo, relatórios de dentro do palácio não são uniformemente favoráveis». D.
Pedro tinha sessenta e seis anos, sendo mais velho que o seu pai ou o seu irmão
quando morreram pelo mesmo motivo. As tromboses deviam ter sido tomadas como
um aviso, mas, a 24 de novembro, D. Maria sentiu-se capaz de escrever que a saúde
do seu marido estava «absolutamente melhor»54.

***

D. Pedro esteve bem durante o inverno e a primavera seguintes e, a 13 de maio de


1784, celebrou-se grandiosamente o décimo sétimo aniversário do príncipe D. João.
Uns dias mais tarde, a família saiu para ir ver a festa anual de Nossa Senhora do
Cabo. Subiram para um barco em Belém e foram à vela ao longo da costa até à
península de Setúbal, onde tendas de campanha tinham sido erguidas para lhes servir
de acomodação. Durante três dias, assistiram a touradas, a exibições de equitação e a
procissões; à noite, havia concertos e fogo de artifício.
Seria a última vez que os três filhos de D. Maria celebrariam uma festa primaveril
juntos. As negociações de casamento com Espanha tinham sido finalizadas alguns
meses antes. A filha de D. Maria, Mariana, fora prometida a Gabriel de Bourbon,
quarto filho e favorito de Carlos III; o seu segundo filho, o infante D. João, fora
prometido a Carlota Joaquina, de oito anos de idade, neta do primogénito de Carlos
III. Os preparativos das cerimónias realizaram-se nos dez meses seguintes e, à
medida que a data das núpcias se aproximava, correios especiais viajavam entre as
duas cortes com ajustamentos e detalhes de última hora.
Era tradição em casamentos reais que o embaixador do país do noivo fizesse um
pedido formal da noiva. Os embaixadores espanhol e português deviam concretizar
os seus pedidos em Lisboa e Madrid, a 27 de março de 1785, com os casamentos a
serem celebrados por procuração no dia seguinte, contudo, o príncipe D. João
adoeceu com sarampo uns dias antes do pedido da sua irmã, por isso os
procedimentos em Lisboa foram adiados.
A 2 de abril, chegaram notícias do casamento por procuração de D. João e D.
Carlota, em Espanha, o qual teve lugar de acordo com o planeado, novidades essas
que foram celebradas com um Te Deum na capela real. D. João sentia-se melhor e o
pedido da sua irmã teve lugar na tarde de 11 de abril. O embaixador espanhol foi até
à praça do Comércio numa procissão de setenta e cinco coches, acompanhado por
mais de cem homens a cavalo. Foi recebido por D. Maria e D. Pedro na Casa do
Senado e, em nome de Gabriel de Bourbon, fez o pedido formal de casamento à
princesa.
O matrimónio por procuração teve lugar na tarde seguinte, e uma cerimónia de
casamento foi «conduzida com toda a pompa e magnificência devidas» na capela da
Barraca Real. D. Maria levou a filha ao altar, enquanto D. Pedro fez o papel de
Gabriel e, quando as formalidades terminaram, o embaixador foi ao apartamento de
D. Mariana oferecer-lhe um retrato do marido. Era a primeira vez que a princesa via
a face do seu futuro marido.
Nessa noite, houve fogo de artifício e concertos e toda a cidade de Lisboa estava
de gala. Walpole ficou espantado com o custo de tudo aquilo:

«Quando considero a grande quantidade de roupas e laços e tudo o que pertence ao toucador, da melhor e
maior magnificência, assim como vários coches novos, e também os presentes que devem ser na mesma
proporção e num número tão grande como os que são dados pelo rei de Espanha, sinto-me perdido no excesso
de despesa que acompanha estes casamentos. Sua Majestade tinha já dado ao embaixador espanhol um seu
retrato muito ricamente adornado de diamantes, de um valor muito para além do que é usual num presente a um
embaixador.»

Era indiscutivelmente um cenário diferente daquele do casamento de D. Maria,


vinte e cinco anos antes, quando o seu pai garantiu que a nobreza não teria de fazer
despesa, nem sequer para um conjunto de roupas.

A família foi para Vila Viçosa a 22 de abril, atravessando o Tejo em barcaças reais
e, depois, viajando por terra em «cinco coches de quatro rodas acompanhada por um
comboio numeroso e esplêndido de cortesãos». A primeira noite da viagem foi
passada em Vendas Novas, no palácio construído por D. João V para receber a corte
quando esta foi até à fronteira em 1729, e a segunda noite no palácio do bispo em
Évora.
A princesa espanhola deixou Aranjuez a 27 de abril, chegando a Badajoz a 7 de
maio. Na manhã seguinte, o seu cortejo desceu o vale, atravessou o rio Caia e
continuou até Vila Viçosa. Quando o seu coche chegou ao pátio do palácio, os
canhões do castelo e os regimentos alinhados em parada saudaram-na com vinte e um
tiros. O príncipe D. João ajudou-a a descer do coche; D. José e D. Benedita deram-
lhe as boas-vindas a Portugal.
D. Maria e D. Pedro estavam à espera no interior do palácio e, quando D. Carlota
entrou, ficaram surpreendidos e perturbados com o que viram. D. Carlota não era
apenas uma criança, era extremamente pequena e de aparência pouco atrativa, com
cabelo encaracolado e um ar deselegante. Nessa noite, D. Maria escreveu uma carta
ao seu tio em Madrid, informando-o «da chegada da nossa amada Carlota, que é tão
bonita e viva e crescida para a idade»55.
O séquito de D. Carlota iria ficar quatro dias em Vila Viçosa, e depois
acompanharia a filha de dezasseis anos de D. Maria na travessia da fronteira em
Badajoz, e na viagem até Aranjuez para se encontrar com o marido. Entretanto, a
corte estava de gala porque a nobreza portuguesa e espanhola envolvia-se pela
primeira vez em cinquenta e seis anos. D. Maria e a família, que normalmente
comiam sozinhos nos seus apartamentos separados, jantaram juntos e em público ao
som de trombetas e tambores. Durante as noites, os músicos reais tocavam, as irmãs
de D. Maria cantavam árias e o fogo de artifício explodia no céu.
D. Maria assistiu a estas celebrações com o coração pesado. Estava a perder a sua
única filha e como era pouco provável que se voltassem a encontrar, despediram-se
em privado durante a noite de 11 de maio. Na manhã seguinte, sozinha no seu quarto,
D. Maria escutou a salva de vinte e um tiros de canhão e ouviu o coche de D.
Mariana a afastar-se na praça do palácio. Conhecia a estrada que o coche iria tomar.
Oito anos antes, tinha acompanhado a mãe a Elvas e ao rio Caia, mas agora seria
demasiadamente perturbante refazer a viagem com a filha e ter de lhe dar o último
beijo em público.
Algumas horas mais tarde, enquanto a família montava os seus cavalos, D. João
estava tão triste como a sua mãe e galopar atrás de veados, no parque de caça, não os
fez esquecer as suas perdas. «Logo que chegámos à primeira mata», escreveu nessa
noite à sua irmã, «houve uma grande tempestade que coroou este dia triste e amargo,
um dia em que não passei um único momento sem lágrimas nos meus olhos»56.
Mariana chegou a Aranjuez a 23 de maio. Na manhã seguinte, escreveu uma carta a
sua mãe, descrevendo o seu marido e dando detalhes sobre a primeira noite juntos. D.
Maria mostrou-a a D. João e este respondeu-lhe:

«É bom o que dizes na tua carta acerca do teu marido, que ele gosta muito de ti, que tu sentes o mesmo em
relação a ele e que tens dormido pouco. Eu também gostaria de tomar posse da minha mulher. Ela é muito
pequena, mas chegará o dia em que lhe possa fazer o que o teu marido te faz a ti.»57
50 Beckford, Journal, 232-233

51 D. Maria I para Maria Josefa de Bourbon, 20 de janeiro de 1783 (Beirão, 439)

52 Ibid., 16 de fevereiro de 1783

53 Ibid., 6 de abril de 1783 (Beirão, 440)

54 Ibid., 24 de abril de 1783 (Beirão, 442)

55 D. Maria I para Carlos III, 8 de maio de 1785 (Beirão, 436)

56 D. João para D. Mariana, 30 de maio de 1785 (Pereira, I, 45)

57 Ibid., 30 de maio de 1785, (Pereira, I, 45-46)


11

Perda
Sinto muito a falta dele e perdi um companheiro tão bom.
D. Maria I, 6 de junho de 1786

A família real regressou a Lisboa a 8 de junho. Na tarde seguinte, D. João e D.


Carlota casaram-se presencialmente na capela da Barraca Real. Durante a cerimónia
– um mau agouro sobre coisas que iriam acontecer –, a noiva virou a cara e mordeu o
marido na orelha.
Já não se acreditava que D. José e D. Benedita, agora com trinta e sete anos,
viessem a ter filhos, logo, o casamento do segundo filho de D. Maria ganhava a maior
importância para a dinastia de Bragança. A cerimónia foi seguida pelas usuais
celebrações de três dias, durante as quais a realeza assistiu a fogo de artifício na
praça do Comércio, contudo, o povo de Lisboa não se mostrou alegre com a ocasião.
Não gostaram de D. Carlota e comentava-se que, na troca de princesas, tinham dado
um peixe graúdo em troca de uma sardinha.
Também D. João se sentia infeliz, com sentimentos paradoxais acerca da sua noiva-
criança e destroçado pela perda da sua irmã, de quem fora inseparável durante a
infância. Escrevia à sua irmã todas as semanas, cartas essas que descreviam o seu
pesar pela sua ausência. «Sinto tanto a tua falta», escreveu a 17 de junho, depois de a
família se ter mudado para Queluz. «Choro de cada vez que passo à porta do teu
quarto porque me lembro das nossas grandes conversas.»
D. Mariana respondia-lhe todas as semanas, porém uma carta que chegou no final
de junho causou especial preocupação. A sua filha tinha-se casado a 23 de maio e, tal
como aprendera em Vila Viçosa, o matrimónio consumara-se sem dificuldade. Mas o
choque da viagem, o facto de se encontrar sozinha numa corte estrangeira e a relação
sexual com um homem, que ainda lhe era estranho, tinham afetado o corpo de D.
Mariana, o qual respondeu à tensão com uma perda de sangue quase contínua.
«Gostaria de saber quando ficares grávida», escreveu D. João de forma algo oblíqua,
«porque hoje ouvi a minha mãe dizer entre dentes que estavas outra vez com aquela
coisa – bem, sabes o que eu quero dizer»58.
Entretanto, D. Carlota mostra ser vivaz, enérgica e mal comportada. Recusava
levantar-se de manhã; recusava vestir-se, queixando-se dos espartilhos e dos sapatos
desconfortáveis; comia com as mãos e atirava comida ao seu marido; ficava muda
durante as lições. D. João tentou desempenhar o papel de irmão mais velho; a
princípio, chegou mesmo a impressionar-se. «Ela é muito esperta e tem muito bom
senso para alguém ainda tão nova», escreveu ele à sua irmã, mas depois acrescentou
que a sua noiva era «muito desinibida, sem vergonha alguma»59.
D. Maria assumiu o papel de mãe, tornando-se na única pessoa capaz de controlar a
irrequieta criança. Foi ela quem disciplinou D. Carlota, ameaçando retirar-lhe as
suas atividades prediletas, como andar de burro ou conduzir uma carroça puxada por
um pónei, pelos campos de Queluz. Ensinou expressões e vocabulário português à
criança, enquanto passeavam e visitavam conventos juntas, mas isso era trabalho duro
para D. Maria, e em breve a tensão causou-lhe um ataque de conjuntivite.
Os seus olhos ainda estavam vermelhos e irritados, em meados de novembro,
quando uma carta com uma boa nova chegou vinda de Espanha: o corpo de D.
Mariana tinha crescido durante o verão; estava à espera de uma criança. Enquanto D.
Maria ficou deliciada pela notícia, D. João ficou perturbado. Com dezanove anos,
demasiado tímido para procurar um escape noutro sítio, ele ansiava pôr as mãos na
sua pequena mulher. «Faltam muitos anos até que eu possa estar com ela, o que é uma
tortura», desabafou com a sua irmã. «Por enquanto não podemos ter prazer por ela ser
tão nova e o seu corpo tão pequeno, mas virá o tempo em que brincaremos. Então,
serei feliz!»60

O outono de 1785 trouxe consigo um surto de varíola em Belém. Como o príncipe D.


José não mostrou quaisquer sinais da doença, D. Maria atrasou o regresso à Barraca
Real até «o contágio ter diminuído», o que aconteceu no início de dezembro. Três
meses mais tarde, D. Carlota sofreu uma infestação de piolhos. «Não podes acreditar
na quantidade de piolhos que ela tinha», disse D. João à sua irmã, «são como uma
praga». Como o couro cabeludo de D. Carlota estava húmido do pus das feridas,
raparam-lhe o cabelo grosso e rebelde, deixando apenas uma madeixa sobre a testa
para adornar a parte da frente de um gorro. Confinada aos seus apartamentos até as
feridas cicatrizarem, era visitada duas vezes por dia por D. João, o qual, «fazia de
burro para divertimento dela», andando pelo quarto sobre as mãos e os joelhos
enquanto a sua mulher-criança montava às suas costas61.
O cabelo de D. Carlota tinha crescido sob a forma de um halo castanho e
encaracolado quando a família fez planos de ir para as Caldas da Rainha, no início
de maio. Mas a viagem foi adiada porque D. Pedro não se sentia bem. Durante os oito
dias seguintes, sofreu «repetidos ataques de paralisia até ter sido atacado no sábado à
noite, dia 20, por uma apoplexia e, a partir dessa altura, ficou numa situação para lá
de qualquer esperança de recuperação e sem sintomas de vida, a não ser o movimento
dos pulmões e do pulso, até que, na quinta-feira de manhã, Sua Majestade faleceu».
D. Pedro morreu de manhã cedo a 25 de maio. Mais tarde, nesse dia, D. Maria
emitiu uma declaração. De acordo com a tradição, «e para mostrar o seu desgosto»,
ela confinar-se-ia à Barraca Real durante oito dias, posto o que a corte faria um ano
de luto, «seis meses de luto pesado e seis meses de luto ligeiro». Na noite de 27 de
maio, beijou a mão do seu marido pela última vez, quando o caixão deixou o palácio
a caminho da igreja de S. Vicente de Fora.
Atendendo ao seu avançado estado de gravidez, D. Mariana não foi informada da
doença do seu pai, nem da sua morte senão várias semanas depois de ter dado à luz.
«Sinto muito o golpe cruel que estás prestes a receber», escreveu D. João à sua irmã
a 28 de julho, antes de lhe fazer uma descrição detalhada dos acontecimentos
recentes. De início, D. Pedro tinha sentido um «grande aperto na voz». Os médicos
aplicaram-lhe sanguessugas e D. Maria sugeriu que ficasse na cama durante a receção
pelo aniversário de D. João, a 13 de maio – «o que era muito difícil para ele, sabes
como era o seu temperamento». No dia seguinte, D. Pedro insistiu em sair do palácio:

«Andava muito devagar e, quando regressou, levou vinte e cinco minutos a chegar ao seu quarto. Sentou-se na
sua cadeira e olhou-nos aturdido, não falando a menos que falássemos com ele. A minha mãe perguntou-lhe se
te queria escrever. Disse “sim” e, contudo, só escreveu disparates, pelo que ficámos muito consternados.
Depois urinou na cadeira. Já nem se conseguia levantar.»

D. Pedro foi posto na cama. Na manhã seguinte, tentou levantar-se:

«As suas pernas eram inúteis, o que nos assustou bastante. Depois, foi para a sua cadeira e elevou-se com a
força dos seus braços. Aturdido, olhava para nós e só dizia “sim” ou “não”. À tarde, foi purgado. Resultou bem,
mas, depois do último movimento, encontrámo-lo ainda mais fraco, pelo que foi deitado novamente na cama.»

Na manhã do dia 16, os médicos aplicaram-lhe unguentos, os padres deram-lhe a


extrema-unção, «que ele recebeu como pôde», e D. Maria ordenou que trouxessem
imagens sagradas para o palácio. Quatro dias mais tarde, D. Pedro «começou a suar
e, rapidamente, ficou encharcado», posto o que lhe aplicaram novos unguentos, desta
vez na fronte. Os padres ungiram-no e deram-lhe a absolvição «e gradualmente
deixou de tomar qualquer outra coisa para além de pequenos goles de leite materno».
A 24 de maio, D. João foi ver o pai pouco antes da meia-noite:

«Parecia estar no mesmo estado das noites anteriores. Nem parecia estar a morrer. Tinha cor e as veias da
cara estavam congestionadas. Então, deu o sinal da meia-noite e, passado um quarto de hora, começou a
agonizar até às duas e meia da manhã, quando faleceu.»

D. Maria não estava no quarto nessa altura. D. Pedro tinha permanecido no mesmo
estado durante quatro dias e ela não tinha ideia nenhuma de que ele iria morrer tão
subitamente. Tinha-se retirado para a cama num quarto adjacente e dormiu
profundamente durante toda a noite. D. João esperou que ela acordasse de manhã.
«Fomos dar-lhe as condolências», disse ele à irmã, «e ela ficou muito agitada com a
notícia»62.
Durante os dias em que ficou confinada ao palácio, D. Maria proibiu todas as
festas públicas e ordenou que os cortesãos passassem a maior parte do tempo em
missas de requiem para rezarem pela sua alma. A 3 de junho – data da primeira saída
desde a morte de D. Pedro – fez-se conduzir até ao convento da Estrela. Era uma
visitante regular desde que as freiras aí tinham fixado residência e forjara uma
amizade com a abadessa, uma mulher da qual ficou crescentemente dependente para
orientação espiritual.
A rainha começou a apoiar-se mais fortemente no seu confessor, Inácio de São
Caetano, a quem tinha sido dado o título de arcebispo de Tessalónica e que, o único
entre os súbditos da rainha, tinha o privilégio de se poder sentar na sua presença.
Homem grande de face avermelhada que ingeria refeições enormes, ele era, segundo
Robert Walpole, uma pessoa «de bom entendimento comum e, sem grandes
conhecimentos para além da sua profissão, mas com uma grande influência sobre Sua
Majestade em assuntos de consciência».
São Caetano estava sempre a sorrir. «Nunca vi uma pessoa mais robusta», escreveu
William Beckford. «Ele parece untar-se com um qualquer óleo de alegria, para se rir
e engordar»63. Quando D. Maria confessou que a cumplicidade de seu pai nos atos de
terror de Pombal pesava fortemente na sua consciência, São Caetano tranquilizou-a.
«Não torture a sua alma», disse, «que eu tomarei isso para mim».

A 21 de junho, uma carta com remetente de Aranjuez noticiava o nascimento do


primeiro neto de D. Maria, um rapaz chamado Pedro Carlos. D. Maria estava feliz
pela sua filha, mas mesmo assim não se animou, pois estava com cinquenta e um anos,
tinha perdido o marido e sofria de afrontamentos e de alterações de humor próprios
da menopausa. A conselho dos médicos, começou a ir a banhos em Alcaçarias.
Os banhos pareciam acalmá-la, por isso, no início do outono, mudou-se para as
Caldas da Rainha onde as águas termais quentes eram tidas como especialmente
benéficas. Não havia palácio na cidade – o seu avô só visitou as Caldas quando a sua
saúde se começou a deteriorar; os seus pais estavam mais interessados em caçar do
que em ir a banhos – por isso, a casa do provedor, o homem mais importante da
cidade, foi preparada para o seu alojamento. Não era de todo um palácio; quando o
embaixador francês esteve ali no ano seguinte, ficou chocado pela pobreza do
alojamento. A casa era uma « bicoque», escreveu ele no seu diário, «um casebre de
modo algum adequado para a dignidade do trono de Portugal»64.
A 9 de setembro, D. Maria chegou às Caldas para passar uns dias «na grande e
elegante banheira» que eram as águas termais, do centro da cidade. Cinco semanas
mais tarde, chegava um inglês a casa do provedor para apresentar uma petição. Era
William Stephens, que tinha construído o forno de cal perto da Barraca Real. Treze
anos depois, D. José mandara-o reconstruir a moribunda Real Fábrica de Vidros na
Marinha Grande, uma vila perto do pinhal real, que o inglês depressa transformou
num empreendimento industrial próspero. Stephens tinha estado na corte algumas
vezes desde que D. Maria era rainha e agora deslocara-se às Caldas com uma petição
sobre as suas isenções fiscais.
O empresário inglês tinha conseguido grandes feitos na Marinha Grande, e
contavam-se histórias na corte não apenas do volume e qualidade do seu vidro, mas
também da prosperidade que tinha garantido à vila. Os seus trabalhadores eram
sóbrios e laboriosos, as suas quintas tinham uma produtividade superior ao normal e
as pessoas da região eram mais saudáveis e estavam mais bem alimentadas do que
em outras partes do país. Stephens empregou professores de música e de dança e
tinha construído um teatro onde os seus trabalhadores representavam peças, muitas
delas de dramaturgos estrangeiros. Uma produção recente de Olímpia de Voltaire
fora dirigida pelo dramaturgo Nicolau Luís da Silva, o qual – segundo a corte foi
informada – estava espantado pela alta qualidade das representações.
D. Maria tinha aprendido a respeitar a figura de William Stephens. Este sobressaía
entre padres e cortesãos, discreto no vestir, contido no comportamento e com um
sereno carisma que a rainha achava tranquilizante. Admirava os seus feitos e gostava
das suas aparições na corte. A Marinha Grande ficava a cinquenta quilómetros a
norte das Caldas, mas apenas a vinte e cinco quilómetros do convento de Alcobaça,
onde a monarca mantinha apartamentos e, apesar de ainda estar de luto pesado pelo
seu marido, a sua curiosidade pela fábrica de vidro que operava sob patrocínio real
era grande.
A 12 de outubro, quando assinou um documento a aprovar a petição de Stephens,
disse-lhe que iria visitar a sua fábrica cinco dias depois. Apressou-se a regressar a
casa na Marinha Grande e, ao meio-dia do dia 17, os coches reais chegavam à
fábrica de vidro. D. Maria foi a primeira a descer, seguida pelas irmãs, pelos seus
dois filhos e pela pequena Carlota que correu para fora do coche, com a sua curta
madeixa escondida por baixo de um gorro. Foram servidos refrescos – limonada, chá
e café gelados, vinho e licores –, e depois o grupo real deu uma volta pela fábrica,
que fora reconstruída por Stephens no elegante estilo neoclássico.
Os cozinheiros das Caldas tinham preparado uma merenda, a qual foi servida no
primeiro andar da mansão de Stephens, e depois da refeição, quando os coches se
preparavam para partir, D. Maria disse a Stephens que gostaria de voltar no ano
seguinte – porque, de acordo com a Gazeta de Lisboa, a visita «deu toda a satisfação
a Sua Majestade»65.
A 31 de outubro, alguns dias depois do regresso de D. Maria à Ajuda, um novo
embaixador francês – o marquês de Bombelles – foi à Barraca Real para ter a sua
primeira audiência com a rainha. Este mantinha um diário privado e, durante os
meses seguintes, registou as melhorias no humor de D. Maria. Em novembro, levantou
a proibição de festas públicas. Em dezembro, entabulou animadas conversas com os
seus cortesãos. «A pouco e pouco», escreveu, «a rainha está a emergir da tristeza
profunda em que a morte do marido a mergulhara». No final do ano, já ensinava
frases portuguesas a Bombelles66.
58 Ibid., 17 de junho de 1785 (Pereira, I, 50-55)

59 Wilcken, 52

60 D. João para D. Mariana, 4, 19 de dezembro de 1786 (Pereira, I, 48)

61 Ibid., 14, 24, 28 de março de 1786 (Pereira, I, 48)

62 Ibid., 28 de julho 1786 (Pereira, I, 19-21)

63 Beckford, Italy, with Sketches of Spain and Portugal, II, 73

64 Bombelles, 185

65 Gazeta de Lisboa, n.º 43, 24 de outubro de 1786

66 Bombelles, 55-71
12

Crise no Gabinete
A rainha está cansada das intrigas da corte e farta da sua existência.
William Beckford, 22 de outubro de 1787

Apesar da melhoria do seu humor durante o inverno, D. Maria ainda se encontrava


deprimida quando a corte regressou às Caldas, em maio de 1787. Apesar de ter
ficado na cidade durante sete semanas, mergulhando nas quentes águas termais, não
fez uma segunda visita à Marinha Grande porque vários assuntos pesavam na sua
cabeça. Estava preocupada com a filha, em Espanha, aborrecida com a atitude do seu
filho mais velho para com a Igreja e enervada pela necessidade de reorganizar o seu
gabinete.
D. Mariana tinha herdado a reserva e timidez de sua mãe. Sentia-se só na corte
espanhola e faltava-lhe a companhia da sua própria família. Em junho, Robert
Walpole especulou sobre a nomeação de um novo embaixador em Madrid. «Seria
agradável para a infanta, casada com D. Gabriel», escreveu, «ter ali um embaixador
português para estar frequentemente na sua companhia e assim aliviar o embaraço a
que a sua natureza tímida e taciturna a expunha com frequência».
O príncipe D. José também tinha «uma personalidade reservada». Com vinte e sete
anos de idade, faltava-lhe graça, encanto e estava frustrado por ter tão pouco com que
ocupar o seu tempo. Teria gostado de ter sucedido ao seu avô, como Pombal tinha
desejado, e a sua abordagem secular aos assuntos governamentais era encorajada por
alguns dos seus cortesãos que sugeriam que a sua mãe poderia abdicar e espalhavam
rumores sobre o desejo da rainha em entrar para um convento.
Entretanto, os homens do gabinete de D. Maria estavam a ficar doentes. O seu
secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, Aires de Sá, tinha morrido em maio
de 1786, reduzindo o número de ministros a três, dois dos quais tinham mais de
setenta anos e uma saúde fraca. O marquês de Angeja, primeiro-ministro, estava meio
retirado, enquanto Martinho de Melo, o ministro da Marinha e das Colónias, estava
«sujeito a frequentes e violentos ataques de doença, o que tinha graves consequências
dada a sua idade avançada». Depois da morte de Sá, Melo tinha acumulado os
Negócios Estrangeiros com a sua própria pasta e estava agora a tratar «de uma
multiplicidade de assuntos, o que é demais para ele». O terceiro ministro de D.
Maria, o visconde de Ponte de Lima, secretário de Estado dos Assuntos Internos,
tinha sessenta anos. Era um homem profundamente religioso, faltava-lhe experiência
em assuntos governamentais e além disso estava doente de tempos a tempos,
«afligido por uma febre na cabeça».
Estes assuntos ecoavam na mente de D. Maria quando esta voltou a Lisboa, a 26 de
junho, viajando por estrada até Vila Nova da Rainha e, a partir daí, de barco até à
capital. A sua barcaça real, construída em 1785 para celebrar o duplo casamento, era
uma embarcação comprida, magnífica que permitia à rainha reclinar-se na cabine
dourada, «ventilada por brisas refrescantes». Tinha recentemente abolido um imposto
sobre a venda de bacalhau e, quando a sua barcaça se aproximou de Lisboa ao final
da tarde, o povo de Lisboa deu-lhe umas enérgicas boas-vindas.
Centenas de barcos «transformados em caramanchões de flores e de grinaldas»
tinham navegado rio acima para ir ao seu encontro, alguns com músicos a bordo para
tocarem serenatas a D. Maria na última parte da viagem. A praça do Comércio estava
cheia de pessoas que queriam aplaudir a rainha. Um coche esperava-a junto ao cais,
mas D. Maria, «tocada com esta demonstração de afeto», decidiu atravessar a praça a
pé, até à Casa do Senado, «entre uma multidão exaltante até ao mais alto grau de
grato entusiasmo». «Estes genuínos regozijos», escreveu William Beckford, «veem-
se raramente em Portugal e Sua Majestade emocionou-se, quase até às lágrimas»67.
Animada com esta receção, D. Maria procurou uma solução para a crise do
gabinete. O seu filho mais velho precisava de emprego e de um papel mais sério nos
assuntos do Estado. O seu confessor aconselhava-a em assuntos de governo há vários
anos; a sua compreensão da política era limitada, mas tinha bom senso. Por isso, a 21
de agosto, dia de aniversário do príncipe, D. Maria nomeou D. José e Inácio de São
Caetano para o seu Conselho de Estado.
A inclusão do seu filho foi acolhida com satisfação, «devia ter sido feito há alguns
anos», mas a elevação de São Caetano suscitou menos entusiasmo. Ponte de Lima
apresentou a sua demissão, que D. Maria se recusou a aceitar, e Melo disse a Robert
Walpole:

«A rainha confiou nesta pessoa para assuntos muito para além da sua esfera de educação e inteligência. Ele
não tem más intenções, mas é tão extraordinariamente ignorante que, quando não compreende algum assunto
que está para além da sua capacidade, se torna um objeto de consciência para a rainha não o adotar e, claro,
surgem muitos obstáculos no caminho a impedirem ou retardarem questões de consequência e importância.»

D. Maria ficou perturbada pela reação dos seus ministros, sobretudo por estarem a
tratar o seu confessor com alguma falta de respeito. A rainha retirou-se para o
palácio de Sintra no outono e, em meados de outubro, teve uma conversa franca com
o marquês de Marialva. No entanto, este foi suficientemente indiscreto para dizer a
William Beckford: «Ele disse-me no maior segredo», escreveu Beckford no seu
diário, «que a rainha pensa em retirar-se do governo, que está cansada das intrigas da
corte e farta da sua existência»68.
No final do mês, D. Maria regressou à Barraca Real onde, a 8 de novembro,
chegou uma carta de Madrid. D. Mariana tinha dado à luz o seu segundo filho, uma
rapariga chamada Maria. Dispararam-se canhões, repicaram os sinos e, como
agradecimento por um parto com êxito, a rainha ordenou que se cantasse o Te Deum
nas igrejas. Nessa noite, enquanto a escuridão caía, Beckford pôs-se a caminho para
ver as iluminações nas ruas. Observou os foguetes na praça do Comércio, que se
erguiam a uma «vasta altura», rebentando em «inumeráveis estrelas azuis» e
regressou a sua casa, encontrando os quartos «cheios do espesso vapor dos archotes
de cera» que os seus criados tinham «acendido por lealdade»69.
Três dias depois, chegou uma segunda carta de Madrid, desta vez com uma tarja
negra. O bebé de D. Mariana tinha morrido a 7 de novembro. As celebrações em
Lisboa tinham ocorrido com a criança já no caixão.

***

A 25 de novembro, D. Maria assistiu a uma representação no teatro do Salitre em


Lisboa. Beckford estava na audiência, com uma boa vista sobre o camarote real. «O
teatro estava anormalmente cheio», escreveu, «porque Sua Majestade também
assistia, com a pequena infanta D. Carlota, sempre traquina e irrequieta. O príncipe
do Brasil e o seu irmão, D. João, não abriram a boca durante a representação, exceto
para bocejar. A rainha falou muito com Marialva. As suas maneiras eram
anormalmente graciosas e dignas»70.
Seis semanas mais tarde, a família viajou para Salvaterra. Caçar todos os dias
melhorou o estado de espírito de D. Maria e a rainha sentia-se melhor quando
regressaram à Ajuda, no início de março. Alguns dias depois, o marquês de Angeja
morreu, reduzindo o número dos seus secretários de Estado a dois. Era vital que
nomeasse novos ministros, mas, com a sua habitual indecisão, limitou-se a pedir a
Ponte de Lima para assumir as funções de Angeja numa base provisória. E, durante os
nove meses seguintes, ele e o idoso Martinho de Melo trataram sozinhos de todas as
questões do Estado.
No início de abril, chegou um correio de Espanha com a notícia de que a filha de
D. Maria tinha concebido pela terceira vez. A 25 do mesmo mês, houve um beija-mão
para celebrar o décimo terceiro aniversário de D. Carlota. Estiveram presentes os
diplomatas estrangeiros, todos tentando pensar num cumprimento adequado, todos
mentindo descaradamente ao darem os parabéns à pequena princesa pelo muito que
tinha crescido. «Tão grande lisonja», escreveu o marquês de Bombelles, «era
embaraçosa de sustentar»71.
Duas semanas mais tarde, D. Maria regressou à casa do provedor nas Caldas.
Estava razoavelmente animada e, quando William Stephens chegou para uma
audiência, disse-lhe que estava pronta a fazer outra visita à Marinha Grande. Tinha
curiosidade pelo seu teatro e pela orquestra que ele tinha criado com os seus
trabalhadores; mais do que isso, estava ansiosa por ver os trabalhadores
representarem. Iria, disse-lhe, para uma curta estadia de três dias.
D. Maria era um soberano absolutista, governando por direito divino, contudo,
propunha-se ficar num complexo industrial, passar a noite em casa de um inglês, um
homem que não só era de baixa linhagem – filho ilegítimo de uma criada –, como era
protestante, um herético aos olhos dos portugueses.
67 Beckford, Journal, 104

68 Ibid., 242

69 Ibid., 263-264

70 Ibid., 278

71 Bombelles, 134
13

Hospitalidade Inglesa
Sua Majestade gostou tanto da sua estadia que lamentou partir e
ficaria por mais tempo se não fosse a necessidade inadiável de
regressar a Lisboa.
Philadelphia Stephens, 25 de julho de 1788

Os coches reais chegaram aos portões da fábrica a 30 de junho de 1788. Eram quatro
horas da tarde e a população – «uma assembleia de muitos milhares» – tinha descido
à vila para testemunhar a ocasião, «uma vasta multidão de toda a região em redor que
a curiosidade tinha juntado para ver a sua soberana».
Os vidreiros – quase duzentos homens – foram colocados em parada, em frente à
fábrica, «com os cabelos arranjados e empoados, as camisas lavadas e passadas a
ferro, as mangas atadas ao meio com fitas vermelhas, calças negras e meias brancas
lavadas, o que, no seu conjunto, lhes dava uma aparência uniforme muito boa».
Quando os coches passaram os portões, os homens gritaram em uníssono: «Viva a
Rainha! Viva toda a família real!»72
William Stephens e a sua irmã Philadelphia esperavam à porta da casa, a qual
ficava num dos lados do pátio da fábrica. Com eles estava o confessor de D. Maria,
Inácio de São Caetano, e o secretário de Estado dos Assuntos Internos, visconde de
Ponte de Lima. D. Maria foi a primeira pessoa a descer do coche e Philadelphia
«teve a honra de beijar a mão de Sua Majestade e receber um sorriso gracioso em
troca». Achou a rainha «muito melhor do que quando ali estivera no ano de 1786,
estando agora mais forte, com melhor cor e uma expressão mais alegre».
A cerimónia de cumprimentos foi repetida com cada um dos membros da família
real. O príncipe D. José era um jovem alto, com uma face pálida e um aspeto vulgar.
A sua mulher, D. Benedita, era «pouco alta, muito inclinada para a gordura, com uma
cara bonita, olhos escuros e eloquentes»73. D. Mariana, irmã da rainha, era «mais
baixa e mais gorda» do que D. Maria, «de aspeto agradável, com uma pele rosada e
uma expressão mais animada». O príncipe D. João tinha os dentes inferiores mais
saídos do que os superiores e tinha o hábito de manter a boca «algo aberta», como o
seu avô costumava fazer. D. Carlota era «viva e traquinas», quase não tinha crescido
desde a visita de 1786, «nem o seu aspeto indicava que viesse a crescer muito mais.
Já vi crianças maiores com nove anos de idade, do que ela com catorze».
São Caetano apresentou as damas de honor a Philadelphia, «recomendando-as ao
seu particular cuidado», e de seguida os visitantes reais entraram na casa. D. Maria
inspecionou os quartos do primeiro andar – agora transformados em apartamento real
– antes de subir ao segundo andar «para ver o alojamento do seu séquito feminino,
relativamente ao qual expressou grande satisfação». Depois disso, «exprimiu o
desejo de ver a fábrica».
O pátio da fábrica estava cheio quando Stephens e Philadelphia conduziram a
família real para perto dos fornos. Um pavilhão, coberto de repes verde e de tafetá
carmesim, tinha sido construído no edifício maior e aí ficou D. Maria durante meia
hora, observando os mestres vidreiros com as varas de soprar e os assistentes e
aprendizes ocupados em torno deles com tenazes, tesouras e pinças. Estava quente,
assim perto do forno, e D. Benedita, «com receio de estar perto do calor tão pouco
tempo depois de acabar os banhos nas Caldas», chamou Philadelphia e «pediu que eu
lhe mostrasse o andar de cima com o armazém de empacotamento… onde se divertiu
a admirar a vista e a falar comigo num registo familiar muito agradável».
Depois de «satisfazer a curiosidade de ver as pessoas a trabalhar, e de as aplaudir
muito», D. Maria seguiu a sua irmã para o andar de cima, «onde examinou tudo com
muita atenção». Na sala onde o vidro era cortado e gravado, «elas sentaram-se
durante algum tempo a admirar o trabalho e a rainha e a princesa fizeram várias
perguntas acerca dos nossos artesãos». Finalmente, «depois de terem visto tudo o que
pertencia à fábrica, foram para o jardim, onde tinham sido colocadas cadeiras em
diferentes locais para descansarem».

Stephens gastara muito dinheiro em mobiliário, decorações e provisões para dar as


boas-vindas aos ilustres convidados. Tinha adquirido «algumas centenas» de camas
em Leiria, «uma vez que era impossível reunir um número tão grande naquele local».
Comprara cinquenta jardas de veludo, uma centena de repes verde e vermelho para as
mesas de jantar e quatro penachos de penas para decorar a cadeira da rainha.
Tinha construído uma tenda no jardim, pedido emprestadas casas da vila para
receber os membros da corte, proporcionado estábulos para quase mil cavalos e
mulas e limpo um pátio coberto para os criados, condutores de coches e soldados da
guarda. Tudo provido de «cozinhas e salas de jantar de acordo com os seus vários
graus, um abastecimento abundante do melhor bife, arroz e pão que se podia arranjar
no país e tanto vinho de Aljubarrota quanto decidissem beber». E, segundo
Philadelphia, «ninguém ficou bêbado nem aconteceu a mínima perturbação durante
todo o tempo que eles estiveram aqui».
Alguns dias antes da visita, o diretor da casa real tinha chegado à Marinha Grande
com «cinco camas para a família real e cortinas para os quartos principais».
Penduraram cortinados de damasco vermelho sobre portas e janelas, e Philadelphia
observou com interesse os criados a prepararem as camas. D. José e D. Benedita
partilhavam uma cama «muito grande e elegante» feita de ferro forjado. D. João e D.
Carlota, que ainda dormiam em quartos separados, tinham camas mais pequenas
feitas de pau-brasil, e a de D. Carlota era coberta de lençóis «extremamente bonitos»
que trouxera consigo de Espanha. Philadelphia descreveu a cama de D. Maria com
algum detalhe:

«A cabeceira e os pés da cama eram feitos de ferro forjado, as tábuas pintadas de branco com uma cobertura
carmesim e damasco. O primeiro colchão era de um pano de linho muito bom, que tinha sido trazido vazio e
enchido com palha de centeio. Sobre este havia outros dois colchões de linho irlandês de grande qualidade,
cheios de lã. Eram cobertos com um lençol de pano de linho que era puxado com toda a força por quatro
homens e entalado por baixo do colchão de palha.
Duas almofadas achatadas eram depois colocadas uma sobre a outra, cheias de lã e forradas da mesma
maneira que os colchões. As fronhas eram lisas, mas de linho melhor que o dos lençóis. O lençol de cima feito
de bom linho irlandês era então colocado com uma coberta de damasco. Por cima disto, em vez de um
cobertor, estava uma coberta branca delimitada por uma fita. Havia ainda outra coberta de damasco carmesim
que também era muito bem entalada debaixo do colchão de palha, com um folho que ia do colchão de cima até
ao chão, com o conjunto delimitado por renda. A grande almofada era então colocada na cama, com as
extremidades atadas por grandes nós da melhor fita inglesa.»

Na manhã da visita, o cozinheiro principal de D. Maria e «vinte e três cozinheiros


assistentes» chegaram das Caldas e puseram-se a trabalhar na cozinha. Stephens tinha
comprado grandes quantidades de provisões. Os livros de contabilidade da Marinha
Grande mostram compras de bois gordos e vitelos e quatrocentos galões – mil e
oitocentos litros – de vinho:

«Havia abastecimentos de tudo, para que, quando chegassem, os cozinheiros não tivessem senão que começar
o seu trabalho. Não precisámos de nada da casa de Sua Majestade, à exceção dos cortinados para as portas e
os grandes cobres para a cozinha. Serviço de chá, damascos, pratos, de tudo isto tínhamos o suficiente para o
serviço das várias mesas. Tendo tido alguma razão para esperar esta visita no ano passado, arranjámos um
grande fornecimento de facas, garfos e colheres de prata provenientes de Inglaterra, da melhor qualidade e da
moda mais recente, sendo tudo cuidadosamente preservado para a próxima ocasião, que será provavelmente no
próximo ano porque a família real pensa em ir a Coimbra.»

Stephens tinha preparado divertimentos no teatro para as duas noites da visita da


rainha. Os seus trabalhadores estavam bem ensaiados, a sua orquestra tinha-se
preparado toda a tarde e o cenário e o guarda-roupa tinham sido feitos de novo.
D. Maria gostou do teatro. «Os portugueses têm tantos dramas na sua língua»,
escreveu o poeta escocês William Julius Mickle. «Tragédia, comédia, farsa,
pantomina e pastoral misturam-se em cada peça que eu vi, e um tipo de sátira que
causa o riso, nem sempre muito delicada, é o tempero de que eu gosto»74. As
produções em Lisboa podiam ser escabrosas e os atores sugestivos nos seus
movimentos, pelo que D. Maria tinha proibido as mulheres de aparecerem em palco.
De início, isto teve o efeito de fechar os teatros, mas estes reabriram pouco depois,
com homens e rapazes a desempenharem os papéis femininos.
Depois de a família ter tomado chá em casa, passearam pelo pátio em direção ao
teatro, onde «a galeria estava elegantemente preparada para os receber, coberta de
damasco carmesim, a parte da frente ornamentada com cortinas caídas em grinaldas e
as armações cobertas de veludo carmesim com franjas douradas». Quando entraram
na galeria, a orquestra da fábrica – quatro violinos, duas trompas e dois violoncelos
– começou a tocar a abertura.
A representação dessa noite, «por particular desejo de Sua Majestade», era a peça
predileta de D. Maria, a tragédia Sésostris. Passada no Egito antigo, esta peça em
três atos era frequentemente representada em Lisboa. William Beckford tinha visto
uma representação no teatro do Salitre, em outubro de 1787, e não tinha ficado
impressionado:

«Um rapaz trôpego, vestido no traje negro da mágoa, guinchou e rugiu no papel de uma princesa viúva. Um
outro adolescente desajeitado cambaleou em sapatos de saltos altos representando Sua Majestade egípcia e
trauteou duas músicas com toda a nauseante doçura de um falsete aflautado.»75

Beckford pode não ter gostado da peça, mas a representação na Marinha Grande foi,
de acordo com Philadelphia, um grande sucesso. Tendo tido apenas duas semanas
para aprenderem as suas falas, «os nossos jovens representaram os seus papéis
extremamente bem». Houve danças e pantominas entre os atos, «enquanto a família
real era servida com gelados de vários tipos», e a noite acabou com uma farsa
representada sob «muitos aplausos».
Depois da cortina ter descido pela última vez nessa noite, Stephens e Philadelphia
escoltaram a família real através do pátio, o qual estava iluminado por duzentas velas
penduradas diagonalmente nas fachadas dos edifícios. A mesa de jantar real tinha
sido posta no primeiro andar da casa de Stephens; estava coberta por uma toalha de
seda cor-de-rosa e decorada com «um ornamento de vidro muito elegante feito aqui e
representando um templo». O desenho do ornamento foi fornecido pelo pasteleiro do
marquês de Marialva, que também tinha fornecido os gelados e os sorvetes, «dos
quais havia uma grande variedade e eram muito bons».
Exceto em ocasiões raras, tais como o duplo casamento em Vila Viçosa, a família
real nunca jantava em público, «era costume cearem e jantarem cada um no seu
apartamento». Por isso, Philadelphia, de pé junto à porta, observou um protocolo que
poucas pessoas tiveram oportunidade de testemunhar. D. Maria e as suas irmãs
sentavam-se de um dos lados da mesa, os seus filhos do outro lado, e «pareciam
muito felizes na companhia uns dos outros».
Cada membro da família era servido separadamente pelo seu camarista e pelos
seus reposteiros:

«Quando a rainha entra na sala de jantar, ela é presenteada pelo seu camarista ajoelhado com água e uma
toalha para lavar as mãos, e depois de isto estar feito ela senta-se e o camarista fica de pé atrás da sua
cadeira. A mesma cerimónia é observada com o resto da família real. Depois, o camarista trincha a comida que
eles escolherem comer e, quando é preciso alguma coisa dos aparadores, os reposteiros levam-na ao camarista
que a põe em cima da mesa.
Quando é pedido água ou vinho, o reposteiro tira a rolha e leva a garrafa e um copo numa salva ao
camarista, o qual, ajoelhado, verte o líquido e o apresenta à rainha, pondo-se na mesma atitude para receber o
copo quando ela acabou de beber. Quando o jantar acaba, eles lavam novamente as mãos e retiram-se para
beberem café.»

Até o fornecimento de água tinha o seu cerimonial próprio:

«A água é toda trazida em garrafões de Lisboa. Um dos reposteiros mais não tinha de fazer para além de
guardar a chave dos armários da água e assegurar-se de que havia sempre uma garrafa de água no aparador e
na mesa de cada apartamento. A garrafa de Sua Majestade era distinta por ter uma fita branca atada em torno
do gargalo.»

Depois da refeição, «um bonito fogo de artifício foi lançado, que os distraiu durante
cerca de um quarto de hora». Em seguida, os membros da família retiraram-se para
os seus quartos e «um silêncio total continuou toda a noite».

O primeiro a levantar-se no dia seguinte foi o príncipe D. João, tendo saído da cama
às quatro horas para visitar propriedades em Monte Real. Quando regressou quatro
horas mais tarde:

«A rainha, tal como a família real, estava levantada e vestida. Tomaram o pequeno-almoço nos seus vários
apartamentos, composto por chá e tosta inglesa, e depois foi instalado o altar de viagem no quarto de vestir da
rainha e foi celebrada missa por um dos seus capelães. Estando isto feito, divertiram-se a passear pela casa e a
conversar de forma muito afável com qualquer pessoa com quem se cruzassem.»

Na anterior visita à Marinha Grande, as mulheres da realeza estavam vestidas de


negro, ainda de luto por D. Pedro. Agora, usavam «vestidos de seda de andar a
cavalo, todos os dias um diferente», com «cintas de veludo em volta da cintura,
fechadas à frente com dois grandes medalhões ornamentados com aço». E D. Maria
tinha «um chapeuzinho fora de moda, com a aba virada para cima que levava na mão
ou debaixo do braço e só punha na cabeça quando andava a cavalo».
O almoço foi servido na casa à uma da tarde. Mais uma vez, Philadelphia observou
os procedimentos a partir da ombreira da porta e, depois da refeição, D. Maria disse-
lhe que «tinha comido muito bem e que estava tudo extraordinariamente bom». À
tarde, a família fez uma excursão à cidade de Leiria, visitando a sé catedral, o
palácio do bispo e um convento de freiras dominicanas. Regressaram à Marinha
Grande a tempo de tomarem chá e usufruírem de outra noite no teatro. Uma comédia,
«uma peça para rir, representada com muito humor», e uma farsa foram representadas
nessa noite, com mais danças e pantominas. E, de acordo com Philadelphia:

«Os atores receberam aplauso geral, não apenas da família real, mas de toda a audiência, a qual achava
impossível que um local de província tivesse produzido tão bons atores. A surpresa deles aumentou muito
quando souberam que a maior parte deles nunca tinha estado a mais de duas ou três léguas da sua paróquia e
que todos trabalhavam na fábrica. Eles representavam apenas para seu divertimento, o que é muito diferente
dos teatros públicos onde os atores não têm outro emprego para além de estudarem as suas falas.»

Na segunda manhã, a família real levantou-se cedo. Enquanto se vestiam, tomavam o


pequeno-almoço e se celebrava missa, foram trazidos cavalos e mulas dos estábulos,
os coches entraram ruidosamente no pátio da fábrica e os criados apressaram-se a
tratar dos detalhes da partida. D. José e D. Benedita foram os primeiros a partir,
seguidos uma hora mais tarde por D. Maria e o resto da família, os quais iam fazer
um desvio pela vila piscatória da Nazaré. «Quando a rainha deixou o seu
apartamento», escreveu Philadelphia, «beijei-lhe a mão e ela agradeceu-me a
distração que lhe tínhamos proporcionado, com uma expressão que indicava que
estava agradada com tudo o que tinha visto.»
D. Maria tinha realmente gostado de estar na Marinha Grande. Stephens e a sua
irmã tinham-lhe proporcionado uma estadia de prazeres simples, com tempo para
descontrair num ambiente agradável, longe das tensões do governo. «Sua Majestade
gostou tanto da sua situação», explicou Philadelphia, «que lamentou partir e ficaria
por mais tempo se não fosse a necessidade inevitável de regressar a Lisboa. Já
tinham sido passadas as ordens para a mudança dos animais na estrada e para tudo
estar pronto para a receção na praça do Comércio e era agora demasiadamente tarde
para retroceder.»
Quando os coches reais passaram pelos portões da fábrica, quando os membros da
corte se dispersaram para o regresso às Caldas, Stephens felicitou-se pelo sucesso da
ocasião. «Tratei deste caso com grande brilho», disse a um visitante britânico. «Foi
uma honra que eles nunca deram a nenhum dos seus súbditos, por isso não tinha
qualquer precedente para me orientar. Não pedi nada do palácio a não ser os
cozinheiros e os instrumentos de cozinha.»76
Philadelphia partilhou este orgulho. «O meu irmão atingiu aquilo de que mais
ninguém no reino se pode orgulhar», escreveu ela ao seu primo em Londres:

«A honra de receber a família real e toda a corte durante dois dias e de ter dado satisfação universal a todos,
da rainha aos moços de cozinha e aos rapazes dos estábulos. A primeira vez que Sua Majestade veio aqui não
foi tão surpreendente, porque a curiosidade de ver a fábrica de vidro era supostamente o motivo, mas que ela
tenha vindo uma segunda vez e tenha dormido duas noites na casa de uma pessoa privada, um inglês e
protestante, é uma coisa que nunca entrou na ideia dos portugueses e que atingiu todas as pessoas com
estupefação.»

72 Philadelphia Stephens, 25 de julho de 1788 (WSRO, Add. MS 8123)

73 Wraxall, I, 37-38

74 Mickle, 15 de agosto de 1780 (NLS, 15934-36)

75 Beckford, Journal, 222

76 Southey, 19-20. Reimpresso com autorização da Oxford University Press


PARTE III

Uma Mente Frágil


14

Uma Série de Tragédias


Sua Majestade apresenta expressões de aflição muito fortes no seu
semblante.
Robert Walpole, 27 de setembro de 1788

Foi um grupo reduzido o que se dirigiu para a vila piscatória da Nazaré, passando
entre as sombras do pinhal. D. Maria parou para rezar na Nossa Senhora da Nazaré,
uma capela construída para comemorar um dia de nevoeiro, no século XII, em que um
homem foi salvo de cavalgar por uma escarpa fora pela aparição miraculosa da
Virgem. Foi servida uma merenda na vila e a família foi até ao mar para observar
grupos de bois a puxar barcos pela praia acima e mulheres a pôr o peixe a secar.
O príncipe D. José não acompanhou a mãe neste desvio; em vez disso, foi com D.
Benedita diretamente para as Caldas, «receando parar na Nazaré por causa da varíola
que ali havia, porque não havia a certeza se o príncipe tinha apanhado a doença ou
não»77. O príncipe D. João, que sofrera um ataque moderado em 1783, estava
imunizado contra a varíola, mas o seu irmão mais velho não tinha mostrado quaisquer
sinais da doença.
A inoculação foi descoberta na década de 1720, e várias casas reais usavam-na
para proteger os seus filhos. O procedimento envolvia a inserção de uma pequena
quantidade de líquido da varíola na pele do braço. Isto resultava numa forma menos
perigosa da doença e proporcionava imunidade para toda a vida, porém havia
igualmente riscos porque a taxa de mortalidade era de cerca de um em duzentos, o
príncipe Octavius, décimo terceiro filho de Jorge III de Inglaterra, morreu assim em
1783. D. Maria que tinha sido aconselhada a inocular os seus filhos, recusou-o, em
parte devido aos riscos envolvidos, mas também devido aos seus princípios
religiosos. Dizia que o procedimento era contrário à vontade de Deus.
A 1 de setembro, oito semanas depois de regressar a Lisboa, D. José começou a
sentir-se mal. Queixava-se de dores na cabeça e nas costas. A sua temperatura
começou a subir e apareceram manchas vermelhas na pele. Inicialmente, os médicos
estavam otimistas. «Todas as circunstâncias são favoráveis», escreveu Robert
Walpole a 6 de setembro. «Diz-se que tem uma considerável quantidade de varíola,
mas do bom tipo». D. Maria confiava no diagnóstico e, partindo do princípio de que
D. José recuperaria tão depressa como D. João em 1783, continuava a sair a cavalo
todas as tardes.
A 8 de setembro, os médicos mudaram de ideias. As bolhas da varíola tinham-se
juntado e tornado confluentes. Em breve, o nariz, a boca e a garganta de D. José
ficaram afetados. A sua respiração era difícil e salivava constantemente. Nos três
dias seguintes, D. Maria ficou no palácio, a falar com os médicos, a rezar com o seu
confessor. O estado do seu filho tornou-se crítico nas primeiras horas de 11 de
setembro. Os últimos sacramentos foram-lhe ministrados ao romper da manhã, tendo
morrido doze horas mais tarde.
D. Maria lembrou-se do conselho para inocular os seus filhos. Enlouquecida pela
dor, censurou-se pela sua morte, enquanto a sua irmã Benedita se retirava para a
cama «muito indisposta por esta perda irreparável». Enquanto a realeza se confinava
na Barraca Real, os sinos de Lisboa repicaram dia e noite e o ar reverberava com as
descargas da artilharia. A 14 de setembro, o corpo foi levado para S. Vicente de Fora
para o funeral de Estado. Dia 20, quando a família emergiu dos oito dias de reclusão,
os diplomatas estrangeiros apresentaram as suas condolências. «Sua Majestade
ostenta expressões muito fortes de aflição no seu semblante», escreveu Robert
Walpole, «julgo que mais do que em qualquer ocasião anterior». No dia seguinte, a
rainha refugiu-se em Queluz.

A morte de D. José tinha diversas consequências. A primeira era a sua viúva, D.


Benedita, perder a possibilidade de se tornar rainha consorte e agora ter de dar
precedência a uma pequena criança de apenas treze anos. A primeira vez que a
família visitou a capela, depois da morte de D. José, «aconteceu uma cena
angustiante, uma resposta acompanhada de lágrimas e expressões de dor», quando D.
Carlota insistiu que a sua cunhada devia manter a sua precedência. D. Maria sofreu
por D. Benedita, mas não podia deixar de impor as regras da etiqueta. Alguns dias
mais tarde, quando estabeleceu uma pensão de 100 000 cruzados por ano para a sua
irmã viúva, estava «tão afetada que mal pôde prosseguir com a aflitiva cerimónia».
Um segundo problema era o rumor de que D. José teria sido deixado morrer por um
establishment preocupado com as suas ideias liberais. O Cenáculo Vilas Boas,
durante o tempo que fora precetor do príncipe, tinha inculcado no seu pupilo posições
iluministas. Ensinou-lhe leis e história política e era sabido que D. José era favorável
a «regulamentos públicos mais sóbrios e benéficos» em vez do – nas palavras de
Walpole – « establishment pomposo, vão e caro da igreja patriarcal». Conforme foi
expresso pelo embaixador:

«Suspeita-se que sua Alteza Real foi tratado de forma inábil. A nobreza é cautelosa e prudente e, em silêncio,
lamenta o melancólico acontecimento, mas as imprudentes classes baixas não se têm refreado de refletir sobre
a ignorância e a inabilidade do médico principal. Tendo isto chegado aos ouvidos de Sua Majestade, pode ter
contribuído para a sua resolução de se retirar para Queluz.»

Uma terceira preocupação era o futuro da monarquia. O casamento de D. José não


tinha gerado descendência; o matrimónio de D. João ainda estava por consumar e
havia apreensão acerca da potencial fertilidade de D. Carlota. O marquês de
Bombelles, que, nas páginas privadas do seu diário, chamava «embrião» a Carlota,
escreveu que o limitado crescimento da infanta era uma anormalidade numa família já
defeituosa, «mais sangue ruim lançado em veias estreitas»78.
O caso era mais grave do que a simples questão dos filhos, porque Bombelles
também observou que D. João estava zangado, «aborrecido por se ter resignado a
casar com esta princesa enfezada, com esta pequena macaco-aranha»79. Walpole
tentou exprimir o mesmo mais delicadamente:

«Evito incomodá-lo com as especulações privadas de alguns, ou a maior liberdade de linguagem de outros, em
relação ao que pode ser – ou que deve ser – uma contemplação acerca do futuro destino da infanta espanhola,
D. Carlota, como um assunto de natureza demasiado delicada até mesmo para o amigo mais sincero da
prosperidade deste país.»

Não só se referia à «grande improbabilidade» de D. Carlota ter filhos, como também


mencionava a «aversão que o príncipe, seu marido, teria em relação a ela». Portugal
podia pedir uma anulação, escreveu Walpole, para D. Carlota poder ser enviada de
volta para Espanha.
Havia um precedente. Em 1722, a mãe de D. Maria tinha sido prometida em
casamento a Luís XV de França com a idade de três anos. D. Mariana Vitória foi
viver na corte francesa, onde permaneceu até 1725, altura em que se achou
conveniente que Luís, com a idade de quinze anos e com fraca saúde, tivesse um
herdeiro o mais cedo possível. D. Mariana Vitória foi devolvida a Madrid. A
consequência foi uma zanga política entre os dois países e Walpole receava que um
pedido para devolver D. Carlota pudesse ter o mesmo resultado, um rompimento com
Espanha que para D. Maria seria doloroso. Tinha sido ela a nutrir boas relações com
o seu tio Carlos III, ela a preparar os detalhes do casamento. Os seus ministros
podem ter discutido o assunto entre si, mas é pouco provável que tenham tido a
coragem de o levarem à sua atenção.

D. Maria permaneceu em reclusão, em Queluz, durante quase três meses. A 4 de


novembro, animou-se com a chegada de correio de Madrid, trazendo a notícia de que
a sua filha tinha dado à luz um segundo filho a 31 de outubro. Porém, as boas notícias
não duraram muito, pois D. Mariana estava com febre no momento do parto e as
familiares manchas vermelhas não tardaram em aparecer na sua pele. Nos dois dias
seguintes, enquanto as manchas se transformavam em borbulhas e as borbulhas em
bolhas, mensageiros especiais deixavam Madrid com as últimas notícias. Finalmente,
a 6 de novembro, D. Maria recebeu outra carta de seu tio. «Aquilo que tanto receava
aconteceu», escreveu, «a perda da nossa Mariana. Magoa-me estar a enviar-te esta
terrível notícia»80.
Esta segunda tragédia provocou em D. Maria, segundo Walpole, «um considerável
grau de aflição», desgosto esse que se aprofundou quatro dias mais tarde, quando
chegou uma outra carta do seu tio de Espanha:

«Nunca na minha vida me senti tão triste. Anteontem, os médicos encontraram varíola no nosso recém-nascido
neto, uma doença que trouxe do útero da sua infeliz mãe. Parece que a varíola é benigna, mas só Deus sabe se
uma criança tão pequena irá superar esta terrível doença.»81

A criança morreu nessa mesma noite. Dezassete dias mais tarde, seu pai, D. Gabriel,
morreu da mesma doença.
D. Maria recebeu a notícia da morte de D. Gabriel a 27 de novembro. No dia
seguinte, Inácio de São Caetano – o confessor, em quem a rainha depositava toda a
sua confiança – sofreu uma trombose violenta no palácio de Queluz. Tinha setenta
anos e, já moribundo, pediu o perdão de D. Maria «para qualquer mal que lhe tenha
causado, para o descrédito que lhe possa ter trazido»82.
No intervalo de sete semanas, a rainha tinha perdido dois dos seus três filhos
sobreviventes, bem como o seu principal pilar de força e apoio. São Caetano era o
único dos seus conselheiros que tinha capacidade para acalmar a sua mente
perturbada. Como escreveu Walpole, a sua morte foi «uma grave perda para a rainha,
pois tinha sido uma pessoa da sua confiança durante um considerável número de anos
e tinha-lhe guiado a consciência desde a sua ascensão ao trono». D. Maria seria,
continuou, «dirigida na escolha de um novo confessor» pela abadessa do convento da
Estrela, «a qual, por muitos anos, tinha tido uma parte considerável da confiança de
Sua Majestade».

Carlos III estava já velho e cansado quando informou D. Maria que o seu genro tinha
morrido. «Gabriel morreu», escreveu o rei. «Segui-lo-ei dentro de pouco tempo.»83
Uma constipação transformou-se em febre e D. Carlos morreu a 14 de dezembro, a
sexta morte em três meses.
Dois dias mais tarde, D. Maria reuniu forças para nomear dois secretários de
Estado adicionais. Era uma medida urgente desde a morte do marquês de Angeja, em
março, que tinha deixado o gabinete entregue a dois ministros, Martinho de Melo e
Ponte de Lima, ambos «sobrecarregados de trabalho». Agora, entrava sangue novo no
gabinete. Luís Pinto de Sousa Coutinho, que tinha sido recentemente embaixador
português em Londres, foi nomeado secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros,
e José de Seabra e Silva, o ministro exilado por Pombal, recebeu os Assuntos
Internos, deixando Ponte de Lima com o Tesouro e com o papel de ser o primeiro-
ministro de D. Maria.
O atraso nestas nomeações era, em parte, devido à indecisão de D. Maria, mas
também resultado de um desacordo entre São Caetano e o príncipe D. José. O
primeiro tinha feito pressão para a inclusão de Seabra, mas D. José mantinha um
rancor contra ele – «o príncipe não está favoravelmente disposto em relação a este
senhor» –, e, sem dúvida, encontrava-se ressentido pela sua intervenção, em 1774,
que lhe custara o trono. Agora, com D. José e São Caetano nos seus túmulos, a
abadessa da Estrela tinha tomado o assunto entre mãos. Como Walpole explicou:

«A súbita resolução em favor destes dois senhores foi uma derrota completa da nobreza, a qual tinha planeado
para si própria os diferentes departamentos do governo. Diz-se que a medida foi um pedido do falecido
confessor que foi cumprido através da abadessa.»

A reorganização foi recebida com consternação no gabinete. Martinho de Melo reagiu


à inclusão de Seabra «de uma maneira muito pouco contida, indicando que não
cooperaria com esse senhor; tendo também declinado estar presente quando o Senhor
Seabra tomasse lugar no conselho». Como resultado, D. Maria decidiu «que cada
secretário de Estado tivesse o seu dia separado para ir a despacho, o que impedia
qualquer altercação na sua presença». Como escreve Walpole, Melo continuou
queixoso. «Ainda está muito insatisfeito», «e alega a idade e o estado de saúde do
inimigo como motivos para desejar que Sua Majestade dispense os seus serviços».
77 Philadelphia Stephens, 25 de julho de 1788 (WSRO, Add. MS 8123)

78 Bombelles, 134

79 Ibid., 313

80 Carlos III para D. Maria I, 2 de novembro de 1788 (Beirão, 366)

81 Ibid., 6 de novembro de 1788 (Beirão, 366-367)

82 Beirão 104

83 Pereira, I, 47
15

À Beira do Abismo
Sua Majestade não crê que esteja inteiramente bem.
Queixa-se de dores no estômago e de falta de sono.
Robert Walpole, 12 de novembro de 1791

A 17 de dezembro de 1788, D. Maria convocou uma audiência oficial na Barraca


Real para celebrar o seu quinquagésimo quarto aniversário. Durante a reunião,
discutiu com Robert Walpole os novos secretários de Estado, particularmente Luís
Pinto, o qual tinha impressionado o governo britânico durante os seus anos em
Londres. Abordaram também a saúde mental de Jorge III, que estava a sofrer o seu
primeiro ataque de demência, um sintoma de porfíria que os médicos tomaram
erradamente por loucura. A doença tinha aparecido pela primeira vez em novembro,
estando o rei ao cuidado de Francis Willis, um médico que se especializara no
tratamento da demência. Durante a conversa com Walpole, D. Maria «expressou
preocupação com Sua Majestade e enviou desejos sinceros de um restabelecimento
rápido».
A conversa foi pungente, pois a própria D. Maria estava perto da insanidade. O seu
avô, Filipe V de Espanha, e o tio, Fernando VI, sofreram de doenças mentais tendo
ambos perdido totalmente a razão no final das suas vidas. Há muitos paralelos entre
estes sintomas e o estado de D. Maria que começou a deteriorar-se por essa altura.
Filipe acreditava que o fogo o estava a consumir por dentro, o que seria o castigo
divino pelos seus pecados mortais. Os seus estados de espírito variavam entre a
letargia extrema e explosões de frenesim violento. Era capaz de gritar e gemer
durante horas de seguida, cantava alto e mordia-se a si próprio. Recusava que lhe
rapassem a barba, cortassem o cabelo ou as unhas dos pés. Achava que não podia
andar porque os seus pés eram de tamanhos diferentes.
Fernando herdou a doença do pai. Vivia atormentado com a eventualidade da morte
súbita, convencido de que o seu corpo estaria a ser destruído por dentro e que
morreria se se deitasse. Recusava-se a ser lavado, barbeado ou vestido. Recusava
comida, tomando apenas refrescos líquidos. Batia com a cabeça contra a parede e
atacava os criados. Na fase maníaca, era capaz de passar dez ou mais dias sem
dormir. Noutras alturas, entrava em fase de apatia, ficando completamente inerte.
Esta era a doença que esperava D. Maria. As tragédias recentes eram demasiado
fortes para a sua mente frágil, e a recomendação do sobrinho da abadessa, José Maria
de Melo, bispo do Algarve, com trinta anos, para seu novo confessor não foi
inocente, já que este era a pior escolha possível, especialmente depois de Inácio de
São Caetano ter mantido D. Maria razoavelmente bem.
Nomeado para o posto a 5 de dezembro, o bispo foi descrito por Walpole como
«muito devoto e retirado do mundo», e como um homem de aparência jovem «com
cabeça pequena, lustrosa e de rapaz de escola, cujo semblante pálido era obscurecido
por um enorme par de óculos verdes». Beckford referia-se também a «uma expressão
que não partilhava nada com o caráter mais decente, suave ou apostólico»84. De
família nobre, o bispo exerceu pressão para que D. Maria reabilitasse as famílias
implicadas na conspiração dos Távoras. Simultaneamente, gostava de pregar acerca
dos terrores do inferno, o que não dava nenhum conforto à rainha e aumentava o seu
medo do inferno que, segundo o conselheiro, estaria à sua espera.
Durante mais de trinta anos, D. Maria martirizou-se com a cumplicidade do seu pai
na perseguição de tantos dos seus súbditos. Agora, traumatizada pela dor, estava
convencida de que a alma do seu pai sofreria danação eterna. Sabendo que não havia
nada que pudesse fazer para reparar o mal, acreditava que também ela seria danada e
consumida para sempre pelas chamas do inferno.
O estado mental de D. Maria piorava a cada dia, mas a rainha manteve-se ligada à
realidade durante a maior parte dos três anos seguintes, apesar das ansiedades e
pânicos noturnos. Sentia-se por vezes «indisposta», incapaz de se reunir com os seus
secretários de Estado, mas conseguiu fazer face a muitas das suas aparições públicas.
Em janeiro de 1789, deixou Lisboa em direção a Salvaterra, onde passou várias
semanas no parque de caça. Em abril, «testemunhou a sua alegria» pela recuperação
de Jorge III e assistiu a um Te Deum num convento de freiras inglesas. Em junho,
assistiu a manobras do exército perto de Queluz, sem, contudo, fazer a planeada
viagem a Coimbra. Nunca mais voltou à Marinha Grande, onde os talheres de prata
de Stephens permaneciam nas caixas.
No início de julho, o eclodir da Revolução Francesa deu origem – conforme
Walpole referiu – a «muita discussão na corte». Algumas semanas mais tarde, o
príncipe D. João ficou febril e com «um considerável inchaço das glândulas
parótidas». Não passava de um ataque de papeira, mas não deixou de causar
«bastante mal-estar, principalmente por causa da preocupante situação desta família
real». O futuro da monarquia dos Bragança estava assim em risco, não apenas devido
à doença de D. João, mas também pela fertilidade questionável de D. Carlota. Por
isso, os ministros de D. Maria fizeram um plano para trazer o seu único neto, Pedro
Carlos, para Lisboa. «Parece não haver alternativa para a segurança e tranquilidade
deste país», disse Luís Pinto a Walpole, «do que trazer o príncipe de volta para
Portugal».
Primeiro filho de D. Gabriel e de D. Mariana, D. Pedro Carlos era um Bourbon,
mas, se a lei fundamental contra os príncipes estrangeiros fosse repelida e o rapaz
fosse educado na corte portuguesa, o povo poderia – se D. João e D. Carlota não
tivessem filhos – aceitá-lo como soberano. O novo rei de Espanha, Carlos IV,
concordou. O rapaz, agora com três anos de idade, partiria para a fronteira em
outubro, com o extenso nome de Pedro Carlos de Bourbon e Bragança.
No final de agosto, D. João sentia-se melhor e D. Maria mandou que se fizessem
celebrações para marcar a sua recuperação. Uns dias mais tarde, a rainha mudou-se
para Queluz. Estava perturbada pelos acontecimentos em França, os quais eram
relatados detalhadamente pela Gazeta de Lisboa. Com medo que o povo também se
insurgisse em Portugal, proibiu o editor de publicar quaisquer novos boletins de
Paris, «o que suscitou algumas observações judiciosas por parte de pessoas das
classes baixas daqui».
Em outubro, o neto de D. Maria chegou a Portugal, sendo recebido na fronteira pelo
marquês de Marialva, que o acompanhou a Lisboa. Na primeira vez em que a criança
apareceu em público, D. Maria ordenou a todos os membros da corte que lhe
beijassem a mão em sinal de submissão. «Pode não ser impróprio observar»,
comentou Walpole, «que esta intimação não foi recebida pacificamente». Um
cortesão evitou a questão levantando a criança nos seus braços e dando-lhe um beijo
na face em vez de lhe beijar a mão.
Entretanto, a igreja da Estrela tinha sido finalmente acabada. Construída em
calcário branco, com o interior orlado por padrões geométricos de mármore de
diferentes cores, foi feita com enorme despesa, estimada por Walpole em «não muito
menos do que um milhão de libras esterlinas». A 15 novembro de 1789, a igreja foi
inaugurada «com grande solenidade», na presença da família real e da corte. Foi uma
ocasião dolorosa para D. Maria, que tinha encomendado a igreja em agradecimento
pelo nascimento do príncipe D. José. Agora, tanto o seu marido como o seu filho
jaziam em mausoléus em S. Vicente de Fora.

Quatro meses mais tarde, D. Carlota teve a sua primeira menstruação, uma perda de
sangue que gerou muita alegria. «É um assunto de muita alegria e satisfação para esta
corte», escreveu Walpole a 24 de março de 1790, «que o estado de nubilidade da
infanta D. Carlota já não esteja em dúvida. Foi por isso decidido que irá coabitar
com o príncipe do Brasil por volta de dia 25 do próximo mês, o dia do seu
aniversário». Contudo, D. João não quis esperar mais, e D. Maria adiantou a data,
como escreveu à mãe de D. Carlota, a rainha Maria Luísa de Espanha:
«A nossa querida Carlota atingiu o estado de mulher sem o menor problema. Mesmo antes disto, tinha a
intenção de os deixar estar juntos, mesmo que por muito pouco tempo, já que ela estava tão bem informada
sobre tudo e João tinha tanto desejo de relações conjugais. Agora, já não há dúvidas, acontecerá na Páscoa e
eu estou muito feliz.»85

Na noite de 5 de abril, D. Maria despiu D. Carlota e colocou-a na cama de


casamento. Esperou até que João chegasse, rezou pelo sucesso da união e, depois,
deixou o quarto. Era a ocasião por que D. João ansiava há quase cinco anos, apesar
do desagrado mútuo que se desenvolveu entre ambos, mas, mesmo assim, queria
«brincar com» a sua jovem mulher. Na manhã seguinte, D. Maria escreveu outra carta
a D. Maria Luísa: «A nossa querida Carlota juntou-se ontem ao seu marido. Passaram
a noite juntos e estão muito felizes»86.
«O rei e a rainha de Espanha», escreveu Walpole três semanas mais tarde,
«ficaram extremamente agradados com a consumação do casamento, pela qual aquela
corte tinha mostrado uma impaciência quase indecente».

Entretanto, os acontecimentos em França continuavam a pesar na mente de D. Maria,


pelo que pediu a Luís Pinto para conseguir que fossem enviados despachos
confidenciais a partir de Paris. E, à medida que as notícias pioravam, cada relato de
violência da população, cada exemplo de desrespeito pela família real francesa,
enchia a rainha de pavor. Em março de 1790 – numa inversão da sua política anterior
– concordou com a execução pública de três homens condenados por «roubos e
assassínios». Multidões «desacostumadas de cenas deste tipo nos últimos anos»
encheram a principal praça de Lisboa para assistirem ao evento. Foi uma cena
horrível e, como foi expresso por um espectador inglês, «muitos acabaram por se
arrepender da sua curiosidade»87.
Em maio, organizaram-se manobras militares, perto da Ajuda, e a família real
«divertiu-se a passar revista à infantaria». Em outubro, D. Maria estava «indisposta»
e adiou o seu regresso de Queluz a Lisboa. Dois meses depois, reduziu o número de
audiências oficiais. Além disso, assinou um decreto que levantava a marca de infâmia
que pendia sobre o filho do duque de Aveiro, confinado à penúria por causa da
desgraça em que caíra a sua família, situação que desencadeou um outro ataque de
histeria. Em janeiro de 1791, subiu o rio até Salvaterra e Walpole garantiu ao
governo britânico que a monarca estava «de perfeita saúde».
Seis meses mais tarde, chegaram notícias a Queluz de que Luís XVI e a sua família
tinham sido capturados enquanto tentavam fugir do país e estavam agora prisioneiros
nas Tulherias. D. Maria estava horrorizada, «consideravelmente afetada», e ordenou
que fossem enviados dois milhões de cruzados das reservas do Estado «para o
serviço da causa do rei francês».
Em agosto, passou duas semanas em Mafra, onde colocou a primeira pedra de um
novo convento para frades franciscanos. Enquanto isso, e apesar de dezoito meses de
partilha da cama com o príncipe D. João, D. Carlota ainda não tinha engravidado e,
por isso, a pedra foi inscrita com uma dedicatória a Santo António: «com esperança
na continuação da progenitura da família real».
A 28 de setembro, D. Maria assistiu ao lançamento de uma fragata. Alguns dias
depois, «começou a mergulhar numa grande melancolia, com angústias noturnas, sono
interrompido e um abatimento do espírito»88. No início de novembro, quando
regressou à Barraca Real, não compareceu em audiências oficiais. No final desse
mês, com magistral subestimação, Walpole relatou que «Sua Majestade pensa que
talvez não esteja inteiramente bem. Queixa-se de dores no estômago e insónias».
84 Beckford, Italy, with Sketches of Spain and Portugal, II, 101

85 D. Maria I para a rainha Maria Luísa, 23 de março de 1790 (Beirão 447)

86 Ibid., 6 de abril de 1790 (Beirão, 447)

87 Murphy, 156

88 Pinto, 4 de fevereiro de 1792 (Beirão, 411-412)


16

Um Inferno Privado
Sua Majestade estava firmemente persuadida de que estaria no
inferno, afiançando que um médico competente podia por vezes curar
a loucura, mas jamais poderia inverter os decretos do destino.
Atribuído ao Dr. Francis Willis, c. 1792

Durante todo o mês de dezembro, D. Maria esteve «com o espírito muito em baixo» e
os médicos foram chamados para «consultas sobre as causas do mal-estar e das suas
apreensões». A 4 de janeiro, foi «sangrada», um procedimento que a rainha achava
aflitivo. «Era muito adversa a isso», escreveu Walpole, «e não admitia que isso a
aliviasse minimamente». D. João fez planos para a levar para Salvaterra, de modo a
separá-la da abadessa da Estrela, a quem fazia visitas «frequentes e longas», mas de
onde regressava profundamente triste, sofrendo de «reflexões melancólicas, de mal
estar na cabeça e com a mente muito afligida».
As chuvas de inverno tinham chegado com violência, e a partida para Salvaterra foi
consecutivamente adiada, antes de a família ter finalmente embarcado a 14 de
janeiro. Duas semanas mais tarde, Walpole relatou que «a saúde da rainha não
melhorara com a sua ida para Salvaterra onde as chuvas constantes desde a sua
chegada, eram pouco saudáveis e até inconvenientes».
D. Maria estava agora muito aflita. O seu confessor, o bispo do Algarve,
continuava a pressioná-la para que reabilitasse as famílias implicadas na conspiração
dos Távoras e tinha preparado um documento para a rainha assinar aquando da sua
chegada a Salvaterra. «Tal facto deixou uma marca profunda no seu espírito»,
explicou Walpole. «A rainha ficou tão indisposta com o seu confessor, que acabou
por adoecer e, como consequência disso, foi sangrada.»
Esta memória da cumplicidade do seu pai com o reinado do terror de Pombal era
demasiadamente forte para a frágil mente de D. Maria. Para horror da família,
começou a «vociferar e a enfurecer-se», com «momentos de lucidez e de discurso
coerente» apenas ocasionais. Os médicos foram chamados de Lisboa e, no final de
janeiro, foi decidido que «Sua Majestade devia regressar a Lisboa para ir a banhos
em Alcaçarias». Na tarde de 2 de fevereiro, D. Maria estava suficientemente calma
para assistir a uma ópera no teatro, todavia, sucumbiu completamente durante a
representação, tendo tido um ataque bem mais forte do que os anteriores. Levantada
em peso, foi transportada para o seu quarto, onde gritou e gemeu durante toda a noite.
Cedo, na manhã seguinte, foi levada para a barcaça real. Durante as horas
seguintes, o ritmo dos remos, o rangido das madeiras, o som da chuva a cair na água,
tudo ajudou a acalmá-la. D. Maria estava num «estado tranquilo» quando a barcaça
chegou à praça do Comércio, onde a transferiram para um coche para que fizesse a
curta viagem através da praça até à Casa do Senado. Pouco depois, «apareceu numa
janela do palácio sobre a praça onde um considerável número de pessoas a
esperava».
Desde outubro que os médicos afirmavam que D. Maria não tinha nenhuma
«desordem grave ou alarmante», mas, na tarde do dia 4 de fevereiro, «o governo não
podia esconder por muito mais tempo o real estado de saúde da rainha». Foram
cancelados todos os divertimentos públicos, entoadas preces nas igrejas e nos
conventos e imagens sagradas foram levadas em procissão até à Casa do Senado.
Luís Pinto, secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, escreveu ao embaixador
português em Londres:

«É com grande tristeza que o informo de que Sua Majestade está a sofrer de uma aflição melancólica que
degenerou em insanidade, até ao que se receia que seja o delírio total. Tendo em vista esta infeliz situação,
acredito que seria benéfico que o Dr. Willis, o médico principal que assistiu a Sua Majestade Britânica em
circunstâncias similares, viesse a esta corte logo que possível. Proporcionar-lhe-emos todo o dinheiro
necessário, sem limitações. Concordaremos com tudo o que proponha, se tiver de celebrar um contrato com
ele, e deixará a remuneração à discrição generosa desta corte.»

E continuou, dando os antecedentes da doença de D. Maria:

«A rainha teve sempre um temperamento melancólico e sujeito a aflições nervosas. A sua disposição é de
grande submissão e tem uma certa timidez, a sua imaginação é viva e os seus hábitos inclinam-se para a
espiritualidade. Desde há muitos anos que tem vindo a sofrer de dores de estômago e de espasmos no
abdómen, com tendência a piorarem devido à aversão que tem a remédios purgativos, especialmente clisteres
que nunca consentia.»89

Durante as semanas seguintes, o comportamento de D. Maria variou entre uma


extrema apatia – «parece por vezes estar morta e não consegue ser animada» –, e uma
excitação violenta – delírio quase constante». Foi, por isso, sangrada novamente a 11
de fevereiro. Levada para os banhos em Alcaçaria, resistiu violentamente quando foi
colocada na água, «com mais força do que se poderia naturalmente esperar».
Queixava-se de mal-estar na cabeça, dores no estômago e «um impedimento na
garganta que a impedia de engolir». Recusava-se a comer à hora das refeições –
«embora, no decurso do dia, comesse sub-repticiamente o que estivesse colocado em
diferentes partes do quarto». Rejeitava medicamentação e, por isso, não obstante os
seus protestos, os médicos forçavam-na e administravam-lhe clisteres. Expulsou os
músicos reais que tocavam «numa sala separada do quarto dela por uma fina
divisória», alegando que era «impróprio haver música enquanto eram realizadas
preces e procissões para a recuperação da sua saúde». Permanecia acordada durante
a noite, gritando de medo e de aflição.
A religião – e o medo do inferno – causavam-lhe as maiores angústias. Por vezes
mais calma, com «intervalos de reminiscências e de conversa razoável», ficava
agitada quando era levada à capela ou via uma procissão religiosa através das
janelas do palácio. Quando falava coerentemente, «voltava à primeira ideia que a
afligia, que estaria condenada, que não havia ajuda para a sua salvação»90.
A abadessa da Estrela escreveu ao Papa, pedindo autorização para deixar o
convento e ir visitar a rainha, uma proposta que o príncipe D. João teve o bom senso
de recusar. Ao mesmo tempo, os ministros de D. Maria pediam-lhe que tomasse conta
dos assuntos do Estado em nome da sua mãe. D. João recebera uma educação pouco
útil, e como era tímido e indeciso achava que era impossível conquistar aquilo a que
Walpole se referia como «o seu respeito e a condescendência para com a rainha». O
príncipe concordou com o pedido dos ministros a 10 de fevereiro, mas como não
queria tomar conta do governo não pôde ser despachado nenhum assunto de Estado
durante vários meses.

Entretanto, o embaixador em Londres negociava com o Dr. Francis Willis, em quem o


país inteiro depositava as suas esperanças. Willis dirigia um manicómio privado, em
Lincolnshire, e tinha sido chamado para tratar Jorge III, em dezembro de 1788, o que
fez aumentar a sua reputação, pois o rei recuperou o seu juízo alguns meses mais
tarde. Agora, era chamado a Lisboa com uma proposta de 20 000 libras para tratar a
rainha de Portugal.
Willis tinha uma certa visão psicológica, mas o tratamento dos doentes mentais era,
nesse tempo, agressivo, favorecendo o colete de forças, a coerção, queimaduras e
banhos de água. Sendo um homem que não duvidava de si próprio, insistia em ter um
completo domínio físico e mental sobre os seus pacientes. Chegou a Lisboa a 15 de
março e, rapidamente, se apercebeu do estado de D. Maria, uma forma rara e
particularmente grave da doença bipolar, que não era suscetível dos seus tratamentos
«científicos». A própria rainha tinha essa opinião, dizendo ao Dr. Willis que estava
no inferno e que «um médico competente poderia por vezes curar a loucura, mas
jamais poderia inverter os decretos do destino»91.
Por sugestão do médico, a família real mudou-se para Queluz. Era mais calmo no
campo e D. Maria poderia ser examinada sem estar sujeita ao escrutínio público.
Willis também tinha esperança de a afastar dos cortesãos e secretários de Estado –
sendo Marialva e Ponte de Lima dois dos piores molestadores –, que a encorajavam
a assistir à missa, a dizer preces e a cantar o Te Deum, formas de culto que só
serviam para a excitar. «É muito duvidoso que o doutor tenha êxito nesta parte das
suas recomendações», escreveu Walpole, «considerando a dificuldade em mudar os
costumes de etiqueta desta corte». O protocolo exigia que os cortesãos
cumprimentassem a rainha todos os dias, mas o príncipe D. João era demasiadamente
acanhado e imaturo para mandar que se fizesse outra coisa.
Um outro visitante regular era o confessor de D. Maria, o bispo do Algarve, que
estava, segundo Walpole, «muito desolado com o seu cargo». Quando o seu
comportamento em Salvaterra se tornou do conhecimento público, foi considerado
responsável pela «mente alienada» da rainha. Foi insultado nas ruas e tratado na
corte com «muito pouco respeito». O Dr. Willis negou-lhe acesso à rainha e, por
isso, vagueava nas antecâmaras, conversando com as damas de honor reais.
O estado de D. Maria continuou a deteriorar-se. Por vezes era violenta e
desesperada, e «regressou ao seu estado de desespero sobre o assunto da sua
salvação». Outras vezes, estava mais alegre, «de humor para cantar o que eu duvido
que seja um sintoma favorável». Entretanto, o Dr. Willis começou a usar os
tratamentos mais cruéis. Foi metida num colete de forças; recebeu uma aplicação de
pomada que lhe provocava bolhas nas pernas; foi imersa em banhos de água gelada,
um procedimento «que causava uma considerável resistência e era seguido por
acessos de febre e muita agitação». Para libertar o corpo de maus humores, davam-
lhe clisteres e obrigavam-na a vomitar e, como se recusava a comer, foi construído
um instrumento «para lhe enfiar a comida pela garganta abaixo».
O médico pode ter usado métodos brutais, mas compreendia – de uma forma que
mais nenhum membro da corte queria aceitar – que o estado da rainha era exacerbado
pelas imagens religiosas. Willis não conseguiu evitar «a azáfama e as preparações»
para a procissão do Corpo de Cristo, em Queluz e, por essa razão, tinha de evitar o
contacto da monarca com a fonte dos seus temores. A viagem pelo rio abaixo, a partir
de Salvaterra acalmou-a. Tinha também deixado, «depois de alguma oposição», que
D. João a levasse a velejar no rio e esteve «muito tranquila» a bordo do iate real. Por
isso, em meados de junho, Willis recomendou uma viagem por mar.
Esta proposta suscitou um mal-entendido. Enquanto a intenção do médico era
desviar D. Maria das inúmeras pessoas que a rodeavam, D. João partiu do princípio
que o governo e a corte inteira embarcariam com ela e, por isso, mandou preparar
vários barcos. Quando Willis clarificou que não era essa a intenção, foi pedida
opinião a ministros, nobres e padres. A maior parte levantou objeções, e «algumas
pessoas contribuíram para alarmar Sua Majestade sobre os perigos de ir para o mar,
despertando nela uma aversão e oposição que ela nunca tinha descoberto até muito
recentemente».
A 8 de julho, «as suas apreensões cresceram de tal modo que lhe surgiu uma febre
tão grave que a afligiu durante toda a noite». Na manhã seguinte, o plano foi
abandonado e o médico inglês demitiu-se, regressando a Inglaterra no final do mês.
Ainda antes de partir, fez a D. Maria algumas perguntas para a sondar:

«O Dr. Willis esforçou-se em conversas com a rainha por descobrir se a sua doença seria causada por motivos
políticos ou religiosos. Obteve a resposta de que era um assunto do maior segredo. Perguntou-lhe se lhe tinha
sido apresentado para assinar algum documento relacionado com os nobres de um período passado. D. Maria
respondeu-lhe pela negativa. Questionou-a, em seguida, por que razão tinha proibido o confessor de aparecer
na sua presença, só obtendo silêncio como resposta. Após ter refletido sobre esta conversa, a rainha pareceu
ter ficado pouco à vontade por ter ido demasiadamente longe e ter falado demais.»

D. Maria estava inquieta com a partida do médico, pois depois de ganhar a sua
confiança, estava «convencida de que iria ficar pior quando ele deixasse o país». O
que, de facto, aconteceu. A rainha tornou-se extremamente obstinada, «está mais
intratável e transforma em dificuldade qualquer ninharia». Em agosto, «perante o
desejo de ouvir missa a uma hora pouco usual, foi levada para a capela, mas
comportou-se de uma maneira muito extravagante e ficou desde então tão perturbada
que deixou constrangidos todos aqueles que tomavam conta dela». Em setembro,
numa altura em que D. Carlota «mostrava sintomas favoráveis de gravidez», D. Maria
«regredia para um estado de infantilidade».
D. João nomeou um novo médico, de Coimbra, um homem sem experiência em
doenças mentais, o que levou D. Maria a mergulhar ainda mais no seu mundo íntimo
de desespero. Em março do ano seguinte, quando foi transferida para a Barraca Real:

«Sua Majestade está num estado muito melancólico. A memória parece tê-la deixado e não tem senão uma
ideia confusa das pessoas e das coisas. Teve ultimamente uma desordem muito má num dos seus olhos que
ameaçou ser de natureza gangrenosa. Foi feita uma operação favorável à cura, mas talvez fatal para a vista.»

Os ministros perderam qualquer esperança de recuperação. Tentaram convencer D.


João a aceitar a regência, mas o príncipe estava demasiado assustado. Continuou a
tomar decisões em nome da mãe e só em julho de 1799, depois «da experiência de
sete anos de cuidados de assistência dos médicos mais instruídos sem qualquer
efeito» é que concordou finalmente com o título de regente.

O primeiro filho de D. Carlota nasceu em Queluz a 29 de abril de 1793, pondo fim à


especulação acerca do futuro da monarquia dos Bragança. D. João ordenou que se
fizessem as celebrações usuais em Lisboa – sinos, tiros de canhão e iluminações – e
planeou grandes festividades para Queluz. Houve touradas e torneios, exibição de
luzes móveis e um balão de ar iluminado que – libertado das amarras nos jardins –
subiu no céu escuro até desaparecer da vista.
No verão seguinte, Walpole escreveu que D. Maria ficou «no mesmo infeliz estado
mental, frequentemente rabugenta, predisposta à maior indiferença perante tudo, e
receando qualquer incitamento a um esforço». Inesperadamente, a sua irmã Mariana
começou a mostrar sinais dos mesmos sintomas – «afligida pela mesma doença
melancólica» –, a terceira das quatro filhas de D. José a ser vítima dessa
perturbadora herança. Só D. Benedita mantinha a sanidade.
A família passou o verão e o outono de 1794 em Queluz, regressando à Barraca
Real a 8 de novembro, quando um extenso comboio de carruagens e carroças trouxe a
mobília real para a Ajuda. Dois dias mais tarde, deflagrou um incêndio no quarto de
uma criada. Teve início às oito da noite e «as chamas espalharam-se tão rapidamente
que toda a família foi obrigada a fugir o mais rapidamente possível». D. Maria
permaneceu notoriamente calma quando foi levada «para um lugar seguro a pequena
distância». D. Benedita caminhou calmamente para uma casa próxima «pelo braço de
um dos ajudantes da cozinha». Só D. Mariana mostrou perturbação, tornando-se
«extremamente violenta num paroxismo crescente de doença», mordendo e
arranhando os homens que a levavam para um lugar seguro.
Às dez horas, «todo o edifício estava em chamas» e D. João e D. Carlota ficaram
nos jardins a ver as chamas a consumirem o edifício de madeira que tinha servido
como palácio real durante quase quarenta anos. «As joias», escreveu o cônsul
britânico, «como a maior parte da prata, os papéis e parte da biblioteca, alguma
roupa e uma parte muito pequena da mobília foram as únicas coisas que se
salvaram». Mais tarde, nessa mesma noite, as carroças reais voltaram para Queluz.
Os criados estavam ocupados em deixar a família tão confortável quanto possível,
mas, como as suas camas e móveis tinham sido devorados pelo fogo, «as personagens
reais sofreram consideráveis inconveniências».
Depois do fogo, D. João ordenou que um novo palácio fosse construído na Ajuda,
um edifício que levou várias décadas a acabar. Fixaram residência em Queluz, onde
William Beckford, na sua segunda visita a Portugal, recebeu uma descrição muito
visual do estado de D. Maria:

«O sofrimento da rainha é assustadoramente grave. Nesta mesma noite, o príncipe esteve ajoelhado no sofá
onde ela estava sentada durante duas horas, vendo a rainha atingir o apogeu de agonia mental, pois continuava
a gritar por perdão, imaginando que, no meio de uma chama que envolvia o quarto, via a imagem do seu pai,
uma massa calcinada de cinzas, de cor preta e horrível. Esta visão assombra-a noite e dia.»92

Na imaginação de D. Maria – que a rainha entendia ser verdade – o seu pai ardia no
inferno. E seria também esse o destino que esperava D. Maria. Até Beckford ouviu os
sons dos gritos. «Ai Jesus! Ai Jesus!» que ecoava nas salas douradas do palácio.
89 Ibid., 4 de fevereiro de 1792 (Beirão, 411-412)

90 Ibid., 22 de fevereiro de 1792 (Beirão, 416)

91 Winslow, II, 175

92 Beckford, Recollections, 219-220


17

A Tempestade em Formação
Não conduzam tão depressa! As pessoas vão julgar que estamos a
fugir.
D. Maria I, 27 de novembro de 1807

Em 1789 foi acabado um pavilhão em Queluz que tinha sido originalmente destinado
a receber os apartamentos de D. José e D. Benedita. Depois da perda da Barraca
Real, tornou-se o lugar de reclusão de D. Maria, que já não aparecia em público e
vivia em reclusão com os seus criados e ajudantes. Todos os dias, era levada para os
jardins para receber ar fresco e fazer exercício, e os viajantes entre Lisboa e Sintra –
os poucos que podiam ver os pátios do palácio a partir de uma colina próxima –
viam-na ali, com o seu cabelo branco comprido a cair solto sobre os ombros.
D. Carlota provou a sua fertilidade durante os onze anos seguintes, dando à luz
mais oito filhos – nem todos filhos do seu marido. Tornou-se uma mulher maliciosa e
vingativa que detestava o marido pela sua letargia e indecisão. D. João evitava a
companhia da mulher e, em 1806, já viviam separados, ele em Mafra, ela em Queluz
ou na sua casa de campo, em Sintra. Por esta altura, Portugal já estava em risco.
A Revolução Francesa, que tanto receio causara a D. Maria, levou ao desencadear
de uma guerra em 1792, três meses depois de D. João ter tomado a responsabilidade
dos assuntos do Estado. Seguindo o exemplo da mãe, declarou um estado da «mais
perfeita neutralidade», mas, depois de a Grã-Bretanha ter entrado na guerra em
fevereiro de 1793, concordou em prestar «ajuda mútua» durante as hostilidades. A
ajuda mais importante que Portugal poderia oferecer ao seu velho aliado era um porto
seguro, em Lisboa, pelo que o encerramento dos portos portugueses à navegação
britânica se tornou um objetivo basilar da estratégia militar francesa.
Se D. Maria pouco tinha feito para melhorar as defesas do país, D. João pouco fez
para preparar as hostilidades que se aproximavam. Tirando alguns navios de guerra
novos e umas manobras militares inúteis, não se preparou para a guerra e não fez
planos de contingência para a invasão. A sua falta de educação, inteligência limitada
e personalidade indecisa deixaram-no paralisado numa situação potencialmente
perigosa. «Ninguém duvida das boas qualidades naturais do príncipe do Brasil»,
escreveu um estrangeiro de visita a Portugal, «mas os seus talentos são questionáveis,
e receia-se que não escape à pressão dos padres, por quem a sua mãe é tão
influenciada. Não tem paixões ou interesses assinaláveis, exceto talvez a caça»93.
Em agosto de 1796, a Espanha entrou na guerra como aliada de França. Quatro
meses mais tarde, uma esquadra britânica chegou ao Tejo, sob o comando do
almirante Sir John Jervis, com ordens para fazer um relatório sobre as defesas navais
do país. Jervis não ficou impressionado. «O arsenal está desprovido», descreveu ao
almirantado, «devido à negligência do falecido ministro da Marinha, ao mau estado
das finanças e à inércia do governo, que exibe um cariz melancólico. Não se pode
confiar de maneira alguma na marinha portuguesa para a defesa da nação.» Não tinha
notícias melhores sobre o exército. «Duvido que possam trazer mais do que doze mil
homens para o terreno», escreveu, «e isto sem as necessárias provisões para abrir
uma campanha, nem hospitais nem pessoal hospitalar, equipagem de acampamento ou
roupa, exceto a que têm no corpo.»94
No início de 1801, o príncipe D. João recebeu um ultimato de França. Se quisesse
permanecer em paz, devia fechar os seus portos aos barcos britânicos, se não
cumprisse esta exigência, teria de fazer face a uma invasão. D. João recusou o
ultimato. Uma força franco-espanhola atravessou a fronteira em maio, e Portugal
capitulou duas semanas mais tarde. Era uma derrota vergonhosa, mas, quando
Inglaterra e França assinaram um armistício em outubro, parecia ter terminado a
guerra.
Lisboa alegrou-se demasiadamente cedo, pois a guerra recomeçou em 1803, e a
Espanha abriu hostilidades em 1805. O encerramento dos portos à navegação
britânica tinha renovada importância na estratégia militar francesa. Pressionado pela
Grã-Bretanha e por França em direções opostas, o fraco e assustado príncipe D. João
fez o seu melhor para agradar aos dois lados. Durante algum tempo, no início de
1806, adoeceu devido à tensão, sofrendo de ansiedade, desmaios e fraca memória.
Queixava-se de abismos que se abriam no chão, debaixo dos seus pés, e receou-se
que tivesse enlouquecido, um medo estimulado por D. Carlota, que conspirava para
ter a regência.
Em agosto de 1806, chegou a Lisboa uma outra esquadra comandada por Sir John
Jervis, agora Lord St. Vincent, desta vez com a missão de verificar se Portugal tinha
alguma intenção ou capacidade para se defender – e, caso não tivesse, de convencer a
família real a procurar abrigo seguro no Brasil. St. Vincent não poupou palavras. «O
exército está muito diminuído desde a última vez que estive em Portugal», escreveu.
«Treze mil homens de infantaria mal armados é o máximo com que se pode contar e a
cavalaria não tem descrição, com falta de cavalos e de homens.»95
D. João estava aterrado com a ideia de ir para o Brasil e deixar o único país que
tinha conhecido. «A relutância em relação ao exílio era geral e profunda», escreveu o
secretário da missão. «Os que estão à frente dos negócios mostraram-nos claramente
que nenhum resultado da invasão seria mais detestável do que a expulsão para o outro
lado do Atlântico, para aqueles cujas excursões tinham até então estado confinadas a
uma viagem entre a cidade e a residência de campo.»96
Foram grandes as festas no navio-almirante enquanto a esquadra esteve no Tejo.
«Estivemos em mascarada perpétua o tempo todo», escreveu St. Vincent, «não menos
do que mil portugueses a bordo todos os dias. Todos os ministros, internos e
estrangeiros, jantaram a bordo, com exceção do espanhol e do francês. Os principais
nobres também jantaram a bordo e tivemos danças bonitas, tendo o capitão Ricketts a
enorme capacidade de transformar um convés num salão de baile»97.

A esquadra deixou Lisboa em outubro, tendo concluído que Portugal não era capaz de
se defender a si próprio e que nenhuma força britânica de tamanho praticável podia
impedir uma invasão. Algumas semanas mais tarde, Napoleão emitiu o Decreto de
Berlim, que ordenava o encerramento dos portos da Europa continental aos barcos
britânicos. Tratava-se de um bloqueio efetivo à Grã-Bretanha e suas colónias, e D.
João ficou debaixo de uma pressão crescente para encerrar os seus portos. Ao mesmo
tempo, oficiais britânicos aconselhavam-no a procurar segurança no Brasil. D. João
sentiu-se puxado para vários lados. Para aplacar a França, fingia por vezes a intenção
de encerrar os portos; para apaziguar Inglaterra, indicava que talvez deixasse o país.
Em julho de 1807, novo ultimato. Portugal devia encerrar os seus portos aos barcos
britânicos ou fazer face a uma invasão. Ao mesmo tempo que D. João procurava
ganhar tempo, juntou-se uma força militar invasora em Bayonne. O embaixador
britânico fez o seu melhor para persuadir o príncipe a deixar o país, mas, como dizia
D. João, «todos os sentimentos de religião e de dever proíbem-me de abandonar o
meu povo até ao último momento»98.
A 1 de outubro, quando os embaixadores francês e espanhol deixaram o país, D.
João referiu-se às suas «bem fundadas esperanças de que a sua ausência será
temporária e que não se seguirá nenhum ato hostil». Só quando lhe mostraram uma
notícia de um jornal de Paris que afirmava que «a Casa de Bragança deixou de
reinar», é que se apercebeu de toda a gravidade da situação. Encerrou os seus portos
a 20 de outubro, mas era demasiadamente tarde. A força militar já tinha atravessado
Espanha, dois dias antes, com ordens para marchar sobre Lisboa e capturar a família
real.
A frota portuguesa estava ancorada no Tejo. A 17 de novembro, chegou uma
esquadra britânica para escoltar a família real até ao Brasil, mas D. João continuou à
espera, recusando-se a partir antes do derradeiro momento. A 22 de novembro,
chegavam notícias de que o exército invasor tinha entrado em Portugal, dois dias
mais tarde chegava a Abrantes, a menos de cem quilómetros da cidade. Só nesse
momento é que D. João tomou a dolorosa decisão. Era altura de partir.
Os dois dias seguintes foram de intensa atividade. A família real, a aristocracia, os
secretários de Estado, ministros e oficiais, as suas famílias, amigos e criados, todos
partiriam para o Brasil, deixando para trás um conselho de regentes nomeado pelo
príncipe D. João para governar o país durante a sua ausência. O recheio do palácio
de Queluz foi empacotado no meio de grande desordem. A mobília e as bagagens
acumularam-se à chuva, as carroças reais «andavam sem destino, abandonando o
protocolo que usualmente é seguido nestas ocasiões»99. Os ajudantes de D. Maria
esvaziaram o pavilhão. A sua mobília, as suas pinturas, os vestidos de seda preta do
seu guarda-roupa seguiram para o Brasil.
A família real embarcou na manhã de 27 de novembro. Tinha chovido durante
vários dias, encharcando as estradas e criando um mar de lama no Cais de Sodré, a
ocidente de Lisboa, onde uma multidão taciturna se juntara para ver o embarque. O
príncipe D. João foi o primeiro a chegar, acompanhado por D. Pedro Carlos, um
jovem já com vinte e um anos. Tinham viajado num coche velho sem sinal da realeza
e, quando D. João caminhou sobre as tábuas que tinham sido colocadas sobre a lama,
ouviu gritos provenientes da multidão: «Morte ao príncipe que nos abandona!»
Perturbado pela sua animosidade, assim como pela natureza discreta da sua partida,
foi visto a reter as lágrimas enquanto embarcava na galera que o iria levar ao navio-
almirante – o Príncipe Real.
D. Carlota chegou com os seus dois filhos, Pedro e Miguel, a sua filha mais nova,
de onze meses, e uma aia, seguida das suas cinco filhas mais velhas, com idades entre
os dois e os catorze anos. D. Maria veio de Queluz num coche fechado. «Não
conduzam tão depressa!», gritou ela, quando os cavalos galopavam em direção a
Lisboa, «as pessoas vão julgar que estamos a fugir»100. Quando o seu coche chegou
ao cais, teve um ataque de histeria e recusou-se a sair para a lama. «Não quero, não
quero», gritou, até que um oficial do barco a levantou em braços e a colocou na
galera.
O último coche trouxe as duas irmãs de D. Maria, D. Mariana e D. Benedita, e
depois de estarem em segurança a bordo, os criados trouxeram a bagagem. Mais de
setecentos veículos transportaram a bagagem de viagem e as arcas com tesouros para
a borda de água. A maior parte do conteúdo dos palácios reais estava a caminho do
Brasil: mobília, pinturas, ouro e prata, grandes quantidades de diamantes e de pedras
preciosas, o conteúdo de várias bibliotecas e todos os papéis do Estado.
Era grande a confusão no cais com membros da corte e do governo, juntamente com
muitos oficiais, padres e frades a chegarem em carroças, trazendo as peças de
mobiliário mais valiosas, assim como malas cheias dos seus pertences. Logo que se
soube que a família real ia partir para o Brasil, o povo de Lisboa juntou-se na
margem do rio, na esperança de encontrar um lugar nos quinze barcos de guerra e nos
trinta barcos mercantes que estavam ancorados no Tejo. «Milhares de homens,
mulheres e crianças estavam na praia», escreveu um oficial da marinha inglesa,
«esforçando-se por conseguir fugir»101.
Ao fim do dia, o embarque estava completo. Mais de dez mil pessoas estavam a
bordo da frota portuguesa, mas havia um vento forte de sudoeste que retinha os
barcos no porto. Estiveram ancorados todo o dia seguinte, enquanto a força de
invasão se aproximava hora a hora. D. João andava de um lado para o outro no
convés, com medo e frustração, até que, nas primeiras horas de 29 de novembro, o
vento rodou para nordeste.
Às sete horas dessa manhã, os barcos navegaram rio abaixo para se juntarem à
esquadra inglesa que esperava fora da barra. Quando o navio-almirante emergiu em
mar aberto, foi saudado por vinte e um tiros de canhão da frota inglesa, um barulho
aterrador para D. Maria, a qual se assustava com grandes barulhos, talvez por os
associar aos terrores do inferno. A salva de resposta disparada do Príncipe Real
ainda foi mais aterradora, porque reverberou através do casco.
Começaram a formar-se nuvens de tempestade durante a tarde. O vento virou para
oeste, o mar encapelou-se e, quando veio a noite, os ventos sopravam com rajadas de
temporal. Durante toda a noite, e durante a maior parte do dia seguinte, os barcos
bolinaram contra o vento, com as ondas a varrerem o convés.
Estavam mais de mil e quinhentas pessoas a bordo do Príncipe Real incluindo D.
Maria, o príncipe D. João e os seus dois filhos – com água e alimentação
insuficientes. Os passageiros reais iam relativamente confortáveis, em cabinas
individuais, mas a maior parte dos exilados tinha de dormir no convés, «sem cama
nem coberta, e as senhoras não tinham mais roupa do que a que traziam vestida»102.
93 Link, 240

94 Jervis, 28, 29 de dezembro de 1796 (Tucker, I, 278-280)

95 St. Vincent, 24 de agosto de 1806 (Tucker, II, 292-293)

96 Brougham, I, 335-336

97 St. Vincent, 10 de outubro de 1806 (Tucker, II, 302-303)

98 Strangford, 26 de setembro de 1807 (Macaulay, Dom Pedro, 12)

99 Wilcken, 22-23

100 Ibid., 25

101 O’Neill, 24

102 Ibid., 60-61


18

Exílio
A pessoa da rainha estava no Rio, mas a sua imaginação apresentava
cenas de Lisboa.
John Luccock, 1820

Os barcos ancoraram na baía de S. Salvador da Baía, várias centenas de quilómetros


a norte do seu destino, a 22 de janeiro. O príncipe D. João e a sua família
desembarcaram na manhã seguinte e encontraram as ruas cheias de multidões que lhes
desejavam as boas-vindas, mas que ficaram chocadas pelo estado esfarrapado dos
seus senhores reais. D. João levou a mãe e o filho mais velho para o palácio do
governador; o resto da família ficou a bordo durante cinco dias antes de fixarem
residência no tribunal de justiça.
A esquadra retomou o caminho a 26 de fevereiro, seguindo a linha de costa para sul
até ao Rio de Janeiro. Os barcos tinham sido aprovisionados em S. Salvador, o
tempo estava calmo, e este segundo trecho da viagem provou que o Dr. Willis tinha
razão acerca dos efeitos calmantes de uma viagem por mar. D. Maria ficou calma e
influenciável, mas os seus demónios regressaram à chegada ao Rio. O Príncipe Real
entrou no porto na tarde de 7 de março ao som de canhões a dispararem, «salvas de
artilharia que podiam ser ouvidas milhas em redor»103. D. Maria ouviu os sons
estrondosos na sua cabina e tremeu de medo.
Depois de o Príncipe Real ter ancorado, o vice-rei foi a bordo desejar as boas-
vindas à cidade ao príncipe D. João. Ele já sabia há algum tempo que a família real
poderia chegar para uma estadia longa. Trabalhadores tinham convertido a sua
residência no largo do Paço num palácio para a acomodação real, os monges de um
convento carmelita adjacente tinham sido mudados e o convento foi ligado ao palácio
por um caminho coberto. O agora chamado Paço Real foi limpo e pintado, os quartos
reais cobertos de seda. As igrejas foram limpas, as ruas varridas e foram feitas
preparações para as cerimónias de boas-vindas.
Nessa noite, D. João esteve no convés a observar as iluminações na cidade e o
fogo de artifício na baía que rebentava em direção ao céu. No dia seguinte,
desembarcou com a sua família, deixando D. Maria a bordo. Ao som de tiros de
canhão e de sinos de igreja a dobrar, um bergantim levou-os para o cais no largo do
Paço, onde foram cumprimentados pelo vice-rei e um grande número de padres e de
dignitários da cidade. Depois de se ajoelharem para rezar num altar temporário,
foram levados para o palácio e a sua chegada foi saudada por uma salva de vinte e
um tiros de canhão. Era o princípio de nove dias de celebração.

Foi planeado que D. Maria desembarcaria a 9 de março e foram feitos preparativos


para a receber com a mesma pompa e cerimónia que a sua família tinha recebido na
tarde anterior. O cais estava cheio de aristocratas e de padres, estando o exército e a
milícia alinhados em parada, e o príncipe D. João foi ao Príncipe Real para escoltar
a sua mãe até à sua nova residência. Mas D. Maria, agitada pelas salvas de artilharia,
teve um ataque violento quando viu o seu filho e por isso o desembarque foi adiado
para o dia seguinte, com o grupo de boas-vindas reunido uma vez mais no cais.
Às cinco horas da tarde, quando D. João ajudava uma figura trémula e vestida de
negro a entrar no bergantim, foram disparados canhões do forte e de todos os barcos
que estavam no porto. D. Maria foi vista a vacilar com medo e, quando os canhões
dispararam outra vez, na altura em que o bergantim chegou ao cais, ela gritou e cobriu
a cara com as mãos. Esta mulher de idade, demente e aterrada, foi cumprimentada
debaixo de um baldaquino de seda, metida numa liteira e levada em procissão através
da praça, «rodeada de vivas dos seus vassalos, de repiques de sinos de igreja e do
barulho cacofónico de fogo de artifício lançado para o ar».
Tinham-se reunido grandes multidões em frente ao palácio para desejar as boas-
vindas à sua soberana que gritaram vivas quando D. Maria foi retirada da liteira e
levada para dentro do palácio. Ela foi conduzida ao longo do caminho coberto para
quartos no primeiro andar do convento carmelita, seguida da família, das damas de
honor e dos criados, todos os quais fizeram fila para lhe beijar a mão. Nessa tarde,
D. João e a sua família apareceram às janelas do palácio perante a erupção de
barulho de uma parada militar realizada na praça:

«Houve uma saudação de vinte e um tiros da artilharia, seguidos por uma salva de tiros de mosquete de toda a
infantaria, com gritos e aplausos das tropas e da multidão. Isto foi seguido por uma segunda saudação de vinte
e um tiros, uma salva de tiros de mosquetes e mais gritos de viva. Veio então uma terceira saudação, com uma
terceira salva e os mesmos aplausos.»104

D. Maria agachou-se por detrás das janelas fechadas do seu quarto. «Façam parar
isso! Façam parar isso!», gritou ela, até que um dos seus ajudantes passou uma
mensagem ao príncipe D. João. Estavam planeadas nove salvas, nove saudações de
vinte e um tiros por debaixo das janelas de D. Maria, mas D. João parou a cerimónia
enquanto se carregavam as armas para a quarta salva, «a fim de não perturbar Sua
Majestade com tanto barulho contínuo».
O povo do Rio não podia ser silenciado tão facilmente. As celebrações na praça
continuaram durante os seis dias seguintes.

O novo Paço Real ficava no lado sul do largo do Paço, uma praça aberta para a baía.
O rés do chão foi convertido em salas da guarda e em escritórios, o primeiro andar
foi transformado em acomodações para os membros mais velhos da família e o sótão
foi modificado para quartos das crianças reais. Adjacente ao palácio, no lado
ocidental da praça, o edifício de dois andares do convento proporcionava a capela,
assim como acomodação para D. Maria e os seus ajudantes. Catorze membros da
família real, em conjunto com trezentos criados e ajudantes, estavam amontoados
nestes dois edifícios e numa estrutura de um só andar situada na parte norte da praça.
O Rio era uma cidade barulhenta e que cheirava mal. Os resíduos das casas
seguiam em canais abertos ao longo das ruas e acumulavam-se em poças de água
estagnada e não tardou muito tempo até D. João e D. Carlota terem encontrado
alojamento alternativo no campo. D. João e os seus filhos fixaram residência na Boa
Vista, uma propriedade situada numa colina arborizada cinco quilómetros a oeste da
cidade. D. Carlota e as suas filhas mudaram-se para uma casa de praia em Botafogo,
uma enseada calma no interior da baía.
As irmãs de D. Maria, D. Benedita e D. Mariana, partilharam a casa de Botafogo,
deixando a rainha sozinha com os seus ajudantes no largo do Paço. D. João ia visitar
a mãe várias vezes por semana, mas ela raramente falava enquanto ele se ajoelhava
em frente a ela e lhe beijava a mão. D. Carlota e as suas filhas também faziam visitas
de obrigação. D. Maria nunca se esqueceu da sua posição na vida («Sou sempre a
rainha de Portugal»), mas outras memórias só ocasionalmente apareciam. «Esta
criança usará a minha coroa», disse ela um dia enquanto afagava o cabelo de Pedro, o
seu neto mais velho. Depois voltou-se para Pedro Carlos, o seu neto nascido em
Espanha. «Pobre rapaz», disse ela. «Não tens mãe nem pai.»105
Dizia-se que D. Maria achava que estava em Lisboa. Se assim foi, ela ignorava os
seus sentidos. As suas janelas davam para o largo do Paço, uma praça cheia de gente
de diferentes cores. Mais além estava o mar, o porto cheio de barcos, a grande baía
ladeada de altas montanhas graníticas. A vegetação era tropical e o calor mais
intenso do que em Portugal. Também as estações eram diferentes. Ela estava
acostumada às chuvas de inverno em Portugal, mas a estação das chuvas no Rio, a
qual começava em setembro com trovoadas terríveis, não se parecia com nada que
ela tivesse conhecido antes. «Há trovões como eu nunca ouvi na minha vida»,
escreveu um cortesão, «e os relâmpagos passam constantemente pelas montanhas que
rodeiam a cidade»106.
Todos os dias em que estivesse bom tempo, D. Maria era levada a sair pelas ruas
do Rio ou para o campo em redor. Acompanhada por uma ajudante, ela viajava numa
«pequena liteira movida por duas mulas e conduzida por um criado numa libré velha
e descolorida, senão mesmo em farrapos». Uma guarda acompanhava-as, «dois
soldados à frente e doze atrás, um único trombeteiro e um soldado de infantaria»107.
Havia poucos cavalos e mulas no Rio, não havia estábulos ligados ao palácio, por
isso, a escolta de D. Maria tinha um aspeto de pobreza. A guarda preparava o
caminho para que a liteira percorresse as ruas e assegurava que a etiqueta real fosse
obedecida. As pessoas tinham de desmontar dos seus cavalos, sair das carruagens e
coches e ajoelharem-se com a cabeça inclinada quando a liteira real passava.
À medida que os dias davam lugar a semanas, as semanas a meses e os meses a
anos, D. Maria continuou a sofrer o seu inferno vivo. Umas vezes, estava num estado
de letargia e de torpor, impossível de ser despertada. Outras vezes, entrava em fúrias
violentas, com ataques de histeria que podiam durar vários dias e que mantinham os
seus ajudantes acordados durante várias noites de seguida. Os seus criados tinham
uma grande rotatividade, alguns dos quais imitavam os seus gritos de desespero – «o
diabo entrou em mim» – e muitos usaram o pretexto de estarem doentes para se
retirarem do seu serviço. Ela esbofeteava-os e esmurrava-os quando estava agitada,
atirava-lhes com pratos e gritava ofensas.
D. Carlota continuou a comportar-se mal, «exibindo muito orgulho e arrogância,
incapaz de perdoar o mínimo desrespeito» e D. Benedita entrou na velhice, tornando-
se «calma e tranquila»108. Os dois netos de D. Maria, Pedro e Miguel, cresceram e
tornaram-se jovens irrefletidos com pouca educação. D. Pedro gostava de se misturar
com más companhias; dava a volta às tabernas do Rio disfarçado e tornou-se famoso
pelos seus casos com mulheres. D. Miguel (o favorito da sua mãe) adotou as touradas
e a caça aos veados e conduzia o seu coche de seis cavalos a todo o galope pelas
ruas.
Todos os anos, a corte celebrava o aniversário de D. Maria de acordo com o
protocolo. Às onze horas da manhã, as tropas marchavam por baixo das suas janelas
com as habituais descargas de artilharia, três salvas dos canhões acompanhadas por
soldados a dispararem os seus mosquetes. E, enquanto D. Maria tremia atrás das
janelas fechadas do seu apartamento, o príncipe D. João fazia um beija-mão, em que
os diplomatas estrangeiros, os membros da corte e os dignitários da cidade o
cumprimentavam por a sua mãe ter feito mais um ano.
As salvas de artilharia não estavam confinadas aos dias de aniversário. Em maio
de 1810, o neto espanhol de D. Maria, D. Pedro Carlos, casou com a sua prima
Teresa (a filha mais velha de D. João), com festividades que duraram sete dias. Em
novembro do ano seguinte, houve igualmente celebrações ruidosas pelo nascimento
do seu filho Sebastião, o primeiro bisneto de D. Maria.
Também ocorreram mortes. O primeiro a morrer, apenas dois anos depois do
casamento, foi D. Pedro Carlos. Foram dadas várias razões para a sua morte, desde a
varíola, passando por «uma violenta febre nervosa», até – isto proveniente da
coscuvilhice palaciana – «atividade conjugal excessiva». No ano seguinte, foi a vez
da irmã de D. Maria, D. Mariana, que morreu em maio de 1813 e cujo corpo repousa
no convento de Nossa Senhora da Ajuda.
D. Maria era a seguinte na linha de idades. A sua saúde física robusta manteve-a
viva até à avançada idade de oitenta e um anos, altura em que já estava louca há
quase um quarto de século. A sua doença final foi dolorosa. Sofria de disenteria e
febre, de edemas nas mãos e nos pés e de perda de toda a sensibilidade nas pernas.
«Houve momentos de alívio», escreveu um oficial da corte, «mas, uma vez acabados,
os sintomas regressam mais fortes do que nunca»109. Os médicos tentaram aliviar o
seu sofrimento. Todos os dias, era levada numa cadeira de rodas a dar uma volta em
redor do palácio, sendo então uma figura anciã atacada por demónios internos, assim
como por dor física.
D. Maria I ficou confinada à cama durante os últimos dois meses da sua vida,
gritando que não queria ver ninguém, que queria que a deixassem só. Mas, de acordo
com o protocolo, uma rainha deve morrer rodeada de ajudantes, de damas de honor,
de médicos e de familiares, e D. João permaneceu escravo da etiqueta real. Todos os
dias, quando ele se ajoelhava junto da cama para lhe beijar a mão, ela gritava-lhe,
«Não quero ver ninguém! Quero morrer!»110
D. Maria recebeu a extrema-unção a 19 de março de 1816, numa quente tarde de
outono, quando as multidões se juntavam na praça para onde davam as suas janelas.
Cedo na manhã seguinte, D. João veio beijar-lhe a mão pela última vez. Ela morreu
algumas horas mais tarde e, logo que a notícia foi anunciada, os sinos começaram a
dobrar e salvas de vinte e um tiros foram disparadas a cada dez minutos até à meia-
noite. Por fim, D. Maria estava livre dos sons que a tinham aterrado durante tanto
tempo.
Os seus ajudantes vestiram-na com um vestido de noite preto, coberto por uma capa
de veludo vermelho. Estenderam um pano de damasco dourado sobre o corpo,
deixando o seu braço direito exposto. Estava um crucifixo pendurado na parede por
cima da cama e quatro candelabros de prata foram colocados em redor do corpo. No
dia seguinte, houve um beija-mão final quando a família de D. Maria, a nobreza, os
padres e os dignitários da cidade vieram beijar-lhe a mão direita, rezar pela sua alma
e salpicar o seu corpo com água benta.
O ritual durou o dia todo. Um grande número de pessoas fizeram fila à entrada do
quarto para prestarem a derradeira homenagem a uma rainha que a maior parte deles
tinha conhecido apenas como D. Maria, a Louca.
103 Santos, I, 218
104 Ibid., I, 218-220

105 Mello Moraes, II, 160

106 Wilcken, 92

107 Luccock, 96-97

108 Ibid., 95

109 Wilcken 166

110 Mello Moraes, II 157-158


19

Regresso a Portugal
É muito duro para nós – povo miúdo – que uma rainha não possa ser
enterrada sem distrair muitos dos seus súbditos.
Marianne Baillie, 8 de abril de 1822

Para honrar a modéstia de sua mãe, D. João deu ordens para que o seu corpo não
fosse embalsamado. Em vez disso, foi colocado num caixão coberto de lã de lama ou
alpaca. Este caixão foi inserido numa segunda urna feita de chumbo e, antes de se
selarem as tampas, os espaços nos dois caixões foram cheios com gomas aromáticas,
especiarias e ervas secas. A urna de chumbo foi depois colocada dentro de um
terceiro túmulo de madeira polida, com uma cruz de damasco dourado na tampa. Este
caixão exterior era fechado com duas fechaduras cujas chaves ficaram a cargo do
marquês de Angeja, neto do primeiro secretário de Estado de D. Maria.
Na tarde seguinte, o caixão foi transportado pelas escadas abaixo até à porta
principal do palácio, onde um coche real estava à espera. As ruas estavam ladeadas
por soldados e pejadas de pessoas que emudeciam quando o cortejo real passava por
perto. A chegada da rainha ao convento de Nossa Senhora da Ajuda foi saudada por
uma salva de vinte e um tiros, disparados pelos batalhões que estavam alinhados à
porta. Foi rezada uma missa de requiem na capela e quando esta finalizou, D. Maria
foi transportada para o mausoléu para ser enterrada ao lado do corpo da irmã.
D. João ficou confinado ao palácio durante as formalidades do funeral, que
duraram oito dias. A 28 de março, concedeu uma audiência oficial para marcar o seu
regresso à vida pública e, no dia seguinte, visitou o convento da Ajuda. A sua mãe
tinha estado doente desde 1792, mas ainda assim foi difícil deixá-la partir. Declarou
luto na corte durante um ano e os aniversários da sua morte – a semana, o mês, o ano
– foram marcados por cerimónias solenes. O povo do Rio esperava que a aclamação
do seu novo rei, D. João VI, tivesse lugar umas semanas mais tarde, todavia, o rei
adiou a cerimónia por quase dois anos, em parte por causa do casamento do seu filho
mais velho, em 1817, com uma princesa da Casa de Áustria, por causa de uma revolta
na província de Pernambuco, mas sobretudo porque estava preocupado com a alma e
salvação de sua mãe.
D. João tinha vivido mais de duas décadas com a crença de sua mãe, de que estaria
destinada ao fogo do inferno. Por isso, pediu aos padres confirmação de que sua mãe
tinha passado o purgatório, «mas sobre isto os sábios homens diferiam. Os padres da
capela real declararam que a rainha tinha entrado na bem-aventurança, enquanto os de
Nossa Senhora de Candelária mantinham a opinião de que ainda não estaria
purificada»111.

Do outro lado do Atlântico, a Guerra Peninsular tinha ceifado a vida a muitos


daqueles que o príncipe D. João tinha abandonado ao seu destino. Quando foi
declarada a paz, em 1814, partiu-se do princípio que o rei regressaria a casa para
fortalecer um país exausto e desorganizado por oito anos de guerra. Foi enviada uma
esquadra inglesa para escoltar a família real até Lisboa, mas, sentindo-se feliz no Rio
de Janeiro e tendo horror a outra viagem por mar, D. João decidiu ficar no Brasil.
Foi persuadido a regressar à Europa depois de uma revolução em Portugal ter
colocado no poder um governo constitucional, em novembro de 1820. O mundo que
D. Maria conhecera – de monarquia absoluta, de domínio do clero sobre os assuntos
do Estado e de protocolo da corte mais tradicional – tinha sido varrido pelas
convulsões da Revolução Francesa e das Guerras Napoleónicas. D. João tinha estado
isolado dos acontecimentos na Europa. Detestava a mera ideia de uma constituição,
mas, em fevereiro de 1821, quando rebentaram violentos tumultos no Rio, acabou por
concordar com o regresso a Portugal e aceitar a nova realidade política. Deixaria o
seu filho mais velho, D. Pedro, como regente no Brasil.
Antes do despontar da manhã de 25 de abril, a família real – D. João, a tia D.
Benedita, a sua mulher D. Carlota, o filho mais novo D. Miguel e quatro das suas
filhas, embarcaram no D. João VI, o novo navio-almirante da frota portuguesa. Os
corpos de D. Maria e da sua irmã, D. Mariana, viajaram com eles. Os caixões tinham
sido desenterrados e levados para bordo, sendo o caixão de D. Maria colocado
isoladamente numa cabina transformada em capela. Aí permaneceria durante as dez
semanas que durou a viagem de volta a casa no navio-almirante através do oceano.
Na manhã seguinte, treze barcos partiram para Lisboa. Quando chegaram ao Tejo, a
3 de julho, o porto estava cheio e as margens do rio pejadas de pessoas ansiosas por
reverem a família real, que tinha estado ausente durante quase catorze anos. Depois
de três invasões, um rasto de destruição e perda de vidas, o rei e a sua família
apareciam como relíquias duma outra época.
D. João estava no convés, levava um chapéu com penas, barriga acentuada e
enfatizada por um uniforme bordado a ouro e cheio de medalhas e insígnias. D.
Carlota, com bem menos do que um metro e meio de altura, foi vista em animada
conversa, com o seu filho mais novo, D. Miguel. D. Benedita usava um vestido preto
bordado com diamantes e parecia – nas palavras do embaixador francês – «um
retrato velho que saiu da moldura»112.
A família foi a terra no dia seguinte e D. João foi levado ao parlamento onde, «com
uma expressão selvagem e desconfiada» jurou cumprir a constituição. Tendo-se
detestado mutuamente durante décadas, ele e D. Carlota fixaram residências
separadas, D. João no convento da Bemposta, onde fez o seu melhor para agir de
forma justa com o novo regime, D. Carlota no palácio de Queluz, onde viveu com D.
Miguel, conspirando para a queda da constituição. Sendo uma absolutista convicta,
impôs ao seu filho a convicção profunda no direito divino dos reis.
Entretanto, D. João tinha decidido cortar com a tradição. D. Maria não se juntaria
ao marido, ao filho mais velho e aos três infantes no mausoléu real, em S. Vicente de
Fora. Em vez disso, seria sepultada na basílica da Estrela, a igreja que ela própria
tinha mandado construir em agradecimento pelo nascimento do príncipe D. José, o
templo que dedicara ao Coração de Jesus. Durante os nove meses seguintes, enquanto
o caixão de D. Maria era transportado de um convento para outro, foi construído um
túmulo de mármore preto e branco no transepto direito da basílica, perto do túmulo
de Inácio de São Caetano – o confessor que tomou a alma da rainha sobre si mesmo –
que estava do outro lado da nave, na sacristia.
D. Maria teve um funeral de Estado em março de 1822. As cerimónias,
acompanhadas por tiros de canhão e o contínuo dobrar dos sinos, duraram três dias e
três noites. «Os grandes canhões no mar e em terra e os sinos de cada campanário de
Lisboa», escreveu uma inglesa que não conseguiu dormir com o barulho, «dispararam
e dobraram sem interrupção. É muito duro para nós – povo miúdo – que uma rainha
não possa ser enterrada sem distrair muitos dos seus súbditos. Tenho a certeza que
muitas pessoas doentes foram apressadamente empurradas para fora deste mundo
unicamente pelo barulho»113.
Quando o caixão foi levado para a Estrela, a família real passou à entrada em
coches, seguida pela aristocracia a cavalo, usando casacos pretos e chapéus com
compridas flâmulas pretas. Depois, vinha o clero, uma longa procissão de bispos,
padres e frades, e o exército, regimento a regimento, com as suas bandas tocando a
marcha fúnebre. O marquês de Angeja entregou as chaves que tinha recebido no Rio e
que guardara em segurança durante mais de seis anos. As fechaduras da tumba
exterior foram abertas, o caixão de chumbo serrado até abrir e a tampa da urna de
dentro foi desaparafusada.
Duas das netas de D. Maria presidiram à cerimónia de vestir o cadáver com roupas
novas, uma obrigação que foi realizada pelas suas infelizes damas de honor. O corpo
não tinha sido embalsamado e, após ter passado cinco anos num clima tropical,
mesmo com as ervas e especiarias, o mau cheiro era insuportável. Uma das infantas
desmaiou duas vezes e recusou-se a regressar à cerimónia.
A rainha cadáver foi vestida de preto, com gorro, luvas, sapatos e meias. Ficou em
exposição na igreja durante dois dias, guardada por uma guarda de honra, para que os
nobres fossem prestar a sua última homenagem e beijar a mão com a luva nova. Diz-
se que o corpo permanecia intacto, com os membros ainda flexíveis, embora a cara
tivesse tomado uma tonalidade enegrecida.
Por cima do túmulo de D. Maria, encontrava-se uma placa com o seu retrato de
perfil, com um anjo a tocar numa trombeta de um dos lados e do outro um querubim
descontraído e alegre. D. João encomendara esta imagem, da rainha acompanhada por
anjos, talvez para garantir a si próprio que os medos da sua mãe eram infundados,
que tinha ganho o seu lugar no céu e que «entrara na bem-aventurança perfeita».
111 Luccock, 570

112 Wilcken, 246

113 Baillie, II, 76-77


EPÍLOGO

A morte de D. João VI, quatro anos mais tarde, leva ao fim da história de D. Maria.
Portugal encontrava-se perante uma grande agitação política, depois do regresso do
rei a Lisboa, com o seu filho mais novo, D. Miguel – encorajado por sua mãe –, a
combater na retaguarda contra a constituição. Ao contrário de seu pai, e dando
origem a rumores sobre a sua paternidade, D. Miguel era alto, magro e bem-parecido
e D. Carlota usava-o como figura de proa para os seus esquemas de retomar o poder
absoluto da monarquia.
D. João vivia receoso da violência preconizada por D. Miguel e foi perturbado, até
ao fim dos seus dias, pela sua maléfica e vingativa mulher. O filho mais velho, D.
Pedro, declarou-se imperador de um Brasil independente, em 1822, e, depois da
morte do rei, começou a disputa pelo controlo de Portugal entre os dois irmãos. D.
Pedro defendia a causa liberal e constitucional, enquanto D. Miguel partilhava os
princípios absolutistas de sua mãe.
A longa história que começou quando D. Maria deu as boas-vindas a uma
minúscula princesa, em Vila Viçosa, acabou numa guerra civil – a Guerra dos Dois
Irmãos –, em 1832, apenas dois anos depois de D. Carlota ter seguido o marido para
o túmulo.
APÊNDICES
Relato da visita real
à Marinha Grande
Philadelphia Stephens
Marinha Grande, 25 de julho de 1788

Na segunda feira, 30, às quatro horas da tarde, Sua Majestade e toda a Família Real
chegaram aqui acompanhadas pelas sua Donas, Açafatas, Confessores, Médico,
Secretário de Estado114, Camaristas, Guarda-roupas, Capelães, Cirurgiões,
Reposteiros, Moças da Prata, etc., e inúmeras outras pessoas pertencentes aos seus
séquitos. Os membros da Família Real foram direitos à igreja, onde passaram alguns
minutos em preces, posto o que entraram nos seus coches novamente e vieram até
nossa casa. A nossa Praça nesta ocasião teve uma aparição brilhante. De cada lado
da casa, os soldados pertencentes à Guarda estavam em formação e, no lado oposto,
em frente à porta da Fábrica, todos os artífices pertencentes à manufatura no seu fato
de trabalho, o qual não admite nem casaco nem colete, com os cabelos arranjados e
empoeirados, as camisas lavadas e passadas a ferro, as mangas atadas ao meio com
fitas vermelhas, calças negras e meias brancas lavadas, o que, no seu conjunto, lhes
dava uma aparência uniforme muito boa.
Quando os coches entraram no portão, a Família Real foi saudada com três Vivas
das pessoas da Fábrica e quando os respetivos membros saíram à porta de casa
foram recebidos pelo Arcebispo (o confessor da Rainha) 115, o meu irmão William, os
meus irmãos Lewis e Jedediah, o Visconde de Ponte de Lima 116 e Camaristas. Esta
sua humilde serva teve a honra de beijar a mão de Sua Majestade quando ela entrou e
recebeu um sorriso gracioso em troca. A mesma cerimónia foi repetida com a
Princesa117 e cada uma das Infantas118. À chegada das Donas e das Açafatas, o
Arcebispo apresentou-me a elas e recomendou-as à minha atenção particular.
Madame Arriaga é uma senhora muito esperta, agradável e de boas maneiras 119. Ela é
viúva e grande favorita da Rainha. Eu descrevo-a em particular supondo que já ouviu
muitas vezes o nome dela mencionado.
A Família Real foi imediatamente para o andar de cima e, depois de ver os seus
próprios apartamentos no primeiro andar, Sua Majestade foi ao andar do sótão para
ver o alojamento das suas ajudantes femininas, relativamente ao qual expressou
grande satisfação. Quando acabou de ver os apartamentos, exprimiu o desejo de ver a
Fábrica. Por isso, uma procissão constituída pela Família Real e os seus ajudantes
caminhou através da Praça de casa até à Fábrica por entre muita gente. Quando
entraram na Fábrica, foram novamente saudados pelos manufatureiros com «Viva a
Rainha, Viva toda a Família Real» repetido três vezes. Os membros da Família Real
sentaram-se num pavilhão preparado para a ocasião coberto de repes verde e de
tafetá carmesim, onde passaram cerca de meia hora a divertirem-se vendo as pessoas
a trabalhar. A Princesa, com receio de estar perto do calor tão pouco tempo depois
de acabar os banhos nas Caldas, imediatamente ao entrar na Fábrica chamou-me e
desejou que eu lhe mostrasse o caminho para o andar de cima até ao armazém de
empacotamento. Por isso, ordenei que lhe pusessem uma cadeira ao lado da janela,
onde se divertiu a admirar a vista e a falar comigo e com D. José Lobo, Camarista
dela, num estilo familiar muito agradável durante o tempo que a Rainha ficou em
baixo no pavilhão. Sua Majestade, depois de satisfazer a sua curiosidade de ver as
pessoas a trabalhar e de as aplaudir todas muito, veio para o andar de cima e
examinou tudo muito atentamente.
Depois de passarem algum tempo aqui, foram ver outros departamentos da Fábrica.
Na sala de cortar e pintar flores120, sentaram-se algum tempo a admirarem o trabalho,
e a Rainha e a Princesa fizeram várias perguntas acerca dos nossos artesãos, etc.
Depois de terem visto tudo o que pertencia à Fábrica, foram para o jardim, onde
tinham sido colocadas cadeiras em diferentes locais para descansarem. Aqui
divertiram-se até às Ave Marias, altura em que se retiraram para a casa e beberam
chá.
Logo que acabaram o chá, foram para o teatro, onde a galeria estava elegantemente
preparada para as receber, coberta de damasco carmesim, a parte da frente
ornamentada com cortinas caídas em grinaldas, com as armações cobertas de veludo
carmesim com franjas douradas. Ao lado direito da Galeria Real ficava uma galeria
lateral para o Arcebispo e, do lado oposto, do lado esquerdo, uma galeria similar
para as Donas e Açafatas, por trás da qual havia espaço suficiente para todo o resto
das ajudantes femininas verem a peça. A plateia estava destinada às pessoas
pertencentes ao séquito que não eram Camaristas ou criados imediatos, como também
para os senhores desta vizinhança e os Ministros da Cidade de Leiria. Também havia
um camarote privado por baixo da Galeria Real para as principais senhoras de Leiria
que estavam aqui para ver os entretenimentos.
Logo que Sua Majestade entrou na galeria, a orquestra, que consistia em quatro
violinos, duas trompas e dois violoncelos, começou a abertura, durante a qual a
Família Real admirou o desenho e a pintura da cortina. Ela representa uma senhora
sentada numa grande árvore com as Armas de Portugal ao seu lado e um jovem
vestido de jardineiro a esvaziar uma cornucópia no seu regaço com o emblema da
Abundância e da Indústria. A expulsão da Indolência é representada por um pedinte
que é um homem saudável, forte e com ar cordial coberto de farrapos, com os bolsos
cheios de pão e com um bastão na mão que serve de arma ofensiva ou defensiva
como melhor se adequar às suas intenções. Ele passa lançando um olhar de desprezo
à Indústria. A explicação na parte de baixo é composta pelas seguintes palavras:
«Lusitânia pelas Artes recebe da Indústria Abundância e desterra a Mendicidade».
Por cima da parte da frente do palco, duas figuras femininas representando a
Tragédia e a Comédia levantam nas mãos um placa com os seguintes dizeres, «Vinde
e descansai porque trabalhais», aludindo aos motivos pelos quais o teatro foi
construído.
Quando acabou a abertura, a cortina foi levantada e a tragédia de Sésostris
começou121. Esta peça deve-se ao particular desejo de Sua Majestade e eu tenho de
fazer justiça aos nossos jovens dizendo que, embora não tenham tido duas semanas
para a estudar, representaram os seus papéis extremamente bem. Entre os atos, houve
várias danças e pantominas durante as quais a Família Real foi servida com gelados
de vários tipos122 e outros refrescos. Depois da peça, a farsa Esganarello foi
representada com grande aplauso.
Assim que os divertimentos teatrais acabaram, a Família Real regressou à casa
onde encontraram jantar na mesa e a Praça iluminada com cerca de duas mil luzes,
dispostas em quadrícula, penduradas da seguinte maneira [diagrama], que cobriam
todas as paredes dos edifícios entre as janelas, com um obelisco no meio da Praça
coroado com uma esfera no topo. Dois carros triunfais com música foram puxados em
redor da Praça e tocaram sob as janelas durante o tempo do jantar e, logo que a
Família Real se levantou da mesa, foi lançado um bonito fogo de artifício que os
divertiu durante cerca de um quarto de hora, altura em que se retiraram todos para os
seus apartamentos e um silêncio total continuou toda a noite.
Os membros da Família Real jantaram todos juntos na nossa sala grande numa mesa
com vinte e dois palmos de comprimento e onze de largura. A Rainha sentou-se no
centro de um dos lados da mesa, com a Princesa à sua direita e a Infanta D. Carlota à
sua esquerda, a Infanta D. Mariana à esquerda de D. Carlota. No outro lado da mesa,
em frente à Princesa sentou-se o Príncipe123 com o seu irmão D. João à sua direita em
frente a D. Carlota. O seu costume em Lisboa e nas Caldas é jantar e cear cada um no
seu apartamento; em viagem, em geral eles comem juntos e, nesta ocasião, eles
pareciam muito felizes na companhia uns dos outros.
A mesa e os aparadores foram cobertos com um pano cor-de-rosa; no centro da
grande mesa estava um ornamento de vidro muito elegante feito aqui e representando
um templo. O desenho foi feito pelo copeiro do Marquês de Marialva, o qual teve a
direção de toda a doçaria com a assistência do Doceiro da Rainha o qual se ocupou
principalmente da gestão dos gelados, dos quais havia uma grande variedade e muito
bons. O costume é pôr tudo na mesa ao mesmo tempo, carne, fruta, doces, etc. Todos
os pratos da cozinha são servidos sob a direção do Cozinheiro Principal de Sua
Majestade, o qual tinha trinta e três cozinheiros para trabalhar para ele.
Quando a Família Real se levantou da mesa, as Donas e Açafatas e a sua humilde
serva sentaram-se. É costume em viagens os Camaristas e os nobres sentarem-se à
mesa depois da Família Real. É então chamada Mesa de Estado, mas, nesta ocasião,
foi julgado mais conveniente que as senhoras ficassem no andar de cima e a Mesa de
Estado para os Camaristas e o Secretário de Estado foi colocada na nossa sala de
jantar no rés do chão. Esta mesa era um pouco mais pequena do que a Mesa Real.
Tinha uma pirâmide de vidro no meio decorada com doces e a mesa estava coberta
por um pano azul. O Arcebispo tinha uma mesa separada no seu apartamento para si e
o companheiro Padre Rocha, Provincial da Ordem de S. Domingos124, como tinham
outros pertencentes a diferentes departamentos.
No extremo superior da nossa grande álea no jardim havia uma barraca de madeira,
com oitenta palmos de comprimento e trinta de largura, com tapeçaria pendurada e
coberta de pano de vela. Nesta sala, havia uma mesa contendo cerca de cinquenta ou
sessenta pessoas, onde o meu irmão recebia os Cavalheiros da Província, Ministros e
Câmara de Leiria e toda aquela companhia que não podia ser admitida nas outras
mesas.
Os membros da Família Real e as suas ajudantes femininas estavam todos alojados
na nossa casa a qual, nesta ocasião, foi chamada de Paço ou Palácio, o Arcebispo na
casa ao lado direito do portão e os Camaristas e Secretários de Estado, etc. na
melhor casa do lugar, onde camas muito excelentes foram feitas para eles. Os criados
de libré, os cocheiros e os soldados com as suas bestas estavam todos bem alojados
sob os telheiros de madeira, com cozinhas e salas de jantar de acordo com os seus
vários graus, um abastecimento abundante do melhor bife, arroz e pão que se podia
arranjar no país e tanto vinho de Aljubarrota quanto decidissem beber. Apesar disto,
para sua honra, não devo omitir de dizer que ninguém ficou bêbado nem aconteceu a
mais pequena perturbação durante todo o tempo em que eles estiveram aqui, e, como
uma notável prova da sua honestidade, posso assegurar que nesta e na ocasião
anterior de eles estarem aqui, nós não perdemos nada a não ser duas colheres de
sobremesa que eu suponho que se perderam ou que foram deitadas fora com o lixo da
cozinha, não sendo um objeto para ser roubado onde havia a oportunidade de roubar
coisas de muito maior valor.
Pode ter uma ideia mais ou menos do número de pessoas pertencentes à comitiva
do Sua Majestade quando lhe disser que nós tínhamos estábulos providos com palha
e cevada para seiscentas bestas excluindo as tropas. Para além das pessoas
pertencentes à Corte, havia a confluência de todo o lado em redor desta vizinhança os
quais a curiosidade tinha juntado para verem a sua Soberana, com a qual eles
pareciam muito agradados.
Na terça-feira de manhã, o Infante D. João levantou-se às quatro horas e levou
alguns ajudantes para ver as suas propriedades em Monte Real, o campo de Leiria e
os trabalhos na Foz da Vieira a duas léguas de distância 125. Ele examinou tudo muito
minuciosamente e regressou muito agradado com a sua excursão entre as oito e as
nove horas. Por esta altura, a Rainha e a Família Real estavam levantados e vestidos.
Tomaram o pequeno-almoço nos seus vários apartamentos composto por chá e tosta
inglesa, posto o que o seu altar de viagem foi instalado no quarto de vestir da rainha e
foi celebrada missa por um dos seus capelães. Estando isto feito, eles divertiram-se a
passear pela casa e a conversarem de forma muito afável com qualquer pessoa com
quem se cruzassem.
Entre a uma e as duas horas, o almoço foi servido da mesma maneira que o jantar
precedente. Durante o café, aprontaram-se os coches, altura em que foram dar um
passeio com alguns ajudantes para verem a famosa e antiga cidade de Leiria. Depois
de passarem por baixo de um Arco do Triunfo erigido pela Câmara à entrada da
cidade, foram direitos à Sé Catedral onde foram recebidos com as usuais cerimónias
pelo Bispo. Da primeira vez que iam a alguma igreja, era costume o Bispo ou o Padre
Principal pertencente à igreja receber a Rainha à porta. Desta maneira ela caminha
com a Família Real para o Altar-mor onde são colocadas almofadas de veludo para
se ajoelharem. Durante as suas preces privadas, é cantado um curto Te Deum,
acompanhado pela música que a igreja puder pagar. Isto acabado, retiram-se da
mesma maneira como entraram.
Depois de verem a catedral, foram no seu coche para o Palácio do Bispo, o qual é
muito espaçoso e bem mobilado. Está situado numa elevação e tem uma vista muito
bonita sobre a cidade. As ruínas de um velho castelo mouro, o rio e as terras
adjacentes, viram tudo com grande prazer e, depois de terem partilhado uma merenda
elegante, deixaram o palácio e foram para o Convento das freiras da ordem
dominicana. Depois de verem a igreja, entraram no Convento e examinaram todos os
cantos com satisfação. Deixaram as pobres freiras altamente impressionadas com
gratidão, não apenas pela honra da visita, mas também pela graciosa oferta de Sua
Majestade de vinte moidores que ela deixou para o seu sustento. Foi também
ordenado que dessem trinta moidores aos pobres da cidade. À porta do Convento,
entraram nos seus coches vastamente deliciados com a Cidade de Leiria, a qual, nesta
ocasião, fez uma grande figura, estando as casas todas pintadas de branco, as ruas
cobertas de areia e as janelas com cortinas penduradas da mesma maneira que em
dias de grande procissão. Por altura das Ave Marias, todos chegaram aqui outra vez
em segurança.
O Príncipe e o seu irmão deixaram Leiria algum tempo antes da Rainha. Fizeram
parte do caminho numa liteira, depois montaram os seus cavalos e foram ver a
Fábrica da Madeira e a Floresta126, que ficam perto da nossa casa, mas chegaram aqui
ao mesmo tempo que a Rainha. Depois de beberem chá, foram outra vez ao teatro
com as mesmas cerimónias que no dia precedente e viram a comédia Dom José de
Alvarado, Criado de Si Mesmo. É uma peça para rir e foi representada com muito
humor. No fim do segundo ato, foi tocado um solo de violoncelo por um jovem de
Leiria que está a estudar física em Coimbra, como um curioso. Ele toca muito bem e a
Família Real aplaudiu muito a sua interpretação. Entre os outros atos, houve várias
danças e pantominas, concluindo-se tudo com a farsa Letrado Avarento.
O teatro estava iluminado com cera e os vestidos em cada noite eram novos de
acordo com os papéis. Os atores cumpriram com honra e receberam aplauso
universal, não apenas da Família Real, mas de toda a audiência a qual achava
impossível que um rude local de província tivesse produzido tão bons atores. A
surpresa aumentou muito quando souberam que a maior parte nunca tinha estado a
mais de duas ou três léguas da sua paróquia e que todos trabalhavam na Fábrica. Eles
representavam apenas para seu divertimento, o que é muito diferente dos teatros
públicos onde os atores não têm outro emprego para além de estudarem as suas partes
e toda a sua subsistência depende da opinião favorável do público.
Tendo acabado os divertimentos do teatro, a Família Real regressou à casa, onde o
jantar, iluminações, carros triunfais e fogo de artifício concluíram as diversões da
mesma maneira que na noite precedente.
Na manhã seguinte, quarta-feira, 2, a Família Real levantou-se cedo, vestiu-se e
ouviu a Missa da mesma maneira que já foi mencionada, durante a qual tudo foi
aprontado para a sua partida entre as oito e as nove horas. O Príncipe e a Princesa127
entraram no seu coche e foram direitos para as Caldas, tendo receio de parar e
almoçar na Nazaré por causa da varíola que andava por ali, sendo duvidoso se o
Príncipe já tinha tido essa doença ou não. Ao despedir-me de Sua Alteza Real, eu
beijei a sua mão e agradeci-lhe a honra que nos tinha dado com esta visita e desejei-
lhe boa viagem. Em troca, ela deu-me um abraço, agradeceu-me pelos divertimentos
hospitaleiros que tinha recebido e desejou-me saúde e felicidade. O meu irmão
despediu-se do Príncipe da mesma maneira e foi com ele até à porta do coche.
Ao passarem pelo portão, foram outra vez saudados com três Vivas. Sua Majestade
e o resto da família Real ficaram durante uma hora depois do Príncipe e da Princesa
terem partido. Quando a Rainha deixou o seu apartamento, eu beijei-lhe a mão e ela
agradeceu-me pela distração que lhe tínhamos dado, uma expressão que indicava que
estava agradada com tudo o que tinha visto. Depois, despedi-me das Infantas D.
Mariana e D. Carlota. A primeira deu-me um abraço e repetiu os seus agradecimentos
da mesma maneira que a Rainha e a Princesa.
No fundo da escada, o Administrador da Fábrica, com dois Contabilistas e o
Pagador-Mor, foram apresentados e beijaram a mão de Sua Majestade, que os
recebeu muito graciosamente e aplaudiu muito a indústria das nossas pessoas, a boa
ordem e gestão da Fábrica e a harmonia que subsistia entre as pessoas que
pertenciam à Manufatura. Depois, eles fizeram a cerimónia com o Infante D. João e as
duas Infantas, que também os receberam muito graciosamente. No vestíbulo estavam
o Bispo de Leiria e os seus ajudantes assim como os Ministros e a Câmara de Leiria
que se despediram da mesma maneira.
O meu irmão acompanhou Sua Majestade à porta do coche onde ela repetiu outra
vez os seus agradecimentos pela sua hospitalidade e partiu entre aclamações de um
grande número de pessoas que permaneceram penetradas com amor e respeito pela
sua Soberana e toda a Família Real, pelo seu comportamento agradável e afável
durante a sua estadia neste lugar. Da nossa casa foram para a igreja. Após alguns
minutos de oração ali, foram até à fronteira da Floresta e, daí, para a Nazaré onde
prestaram as suas devoções habituais a Nossa Senhora128, almoçaram e foram à praia
ver as redes a serem puxadas com peixe, e daí foram para as Caldas onde dormiram
nessa noite e descansaram no dia seguinte, quinta-feira.
Na sexta-feira, 4, regressaram a Lisboa onde falaram com altos encómios do
entretenimento que receberam aqui. Em suma, o meu irmão atingiu aquilo de que mais
ninguém no reino se pode orgulhar que é a honra de receber a Família Real e toda a
corte durante dois dias e de ter dado satisfação universal a todos, da Rainha até aos
moços de cozinha e aos rapazes dos estábulos. A primeira vez que Sua Majestade
veio aqui não foi tão surpreendente, porque a curiosidade de ver a Fábrica de Vidro
era supostamente o motivo, mas que ela tenha vindo uma segunda vez e tenha dormido
duas noites na casa de uma pessoa privada, um inglês e protestante, é uma coisa que
nunca entrou na ideia dos portugueses e que atingiu todas as pessoas com
estupefação. Sua Majestade gostou tanto da sua situação que lamentou partir e ficaria
por mais tempo se não fosse a necessidade inevitável de regressar a Lisboa. Tinham
já sido passadas as ordens para a mudança dos animais na estrada e para tudo estar
pronto para a receção na Praça do Comércio129, e era agora demasiadamente tarde
para retroceder. Ela deixou cem moidores para serem distribuídos entre o povo da
Fábrica e vinte moidores para os pobres da paróquia.
Logo depois da partida de Sua Majestade, a nossa casa foi aberta para toda a gente
que a quisesse ver. Tínhamos uma grande companhia de Leiria e da vizinhança que
jantaram connosco na Mesa Real e, à noite, as mesmas iluminações foram repetidas.
A tragédia de Sésostris, com os mesmos vestidos novos, danças e pantominas como
na primeira noite, foi representada com aplauso universal perante uma audiência
numerosa, sendo dada entrada livre (como é nosso costume para com todas as
pessoas de todos os níveis e denominações). Depois da peça, a nossa companhia
jantou connosco na Mesa Real, bebeu à saúde de Sua Majestade e concluiu o nosso
festival de três dias com não pequena satisfação para nós próprios e para todos os
nossos vizinhos, sendo tudo isso uma visão que eles nunca tinham visto antes.
Alguns dias antes da chegada de Sua Majestade aqui, o Chefe da Casa Real veio
com o Armador que trouxe cinco camas para a Família Real e cortinas para as portas
e janelas dos quartos principais. Elas eram de damasco carmesim com renda dourada
e cortinado de veludo carmesim com franjas douradas. A cama do Príncipe e da
Princesa era muito grande e elegante. A cabeceira e os pés da cama eram feitos de
ferro forjado, as tábuas eram pintadas de branco com uma cobertura carmesim e um
damasco carmesim. A cabeceira estava coberta com damasco carmesim, por cima da
qual havia uma armação coberta com a mais bela musselina fina trabalhada com
pequenos pontos de prata, as bordas cortadas com rendas de um elegante louro
prateado em dobras muito espessas. O primeiro colchão era de pano de linho muito
bom, o qual eles trouxeram vazio e encheram aqui com palha de centeio. Sobre este
havia dois colchões de linho irlandês muito bom, cheios de lã. Estes eram cobertos
com um lençol de pano de linho muito bom que era puxado com toda a força por
quatro homens e entalado por baixo do colchão de palha. Depois, um lençol de linho
irlandês muito bom era entalado da mesma maneira. Duas almofadas achatadas eram
depois colocadas uma sobre a outra, cheias de lã e forradas da mesma maneira que os
colchões. As fronhas eram lisas, mas de linho melhor do que o dos lençóis. O lençol
de cima feito de bom linho irlandês era então colocado com uma coberta de damasco.
Por cima disto, em vez de um cobertor, estava uma coberta branca delimitada por
uma fita. Esta coberta era para ser tirada ou posta conforme agradasse. Por cima
disto, havia outra coberta de damasco carmesim que também era muito bem entalada
debaixo do colchão de palha, e o conjunto era coberto com a mesma musselina
elegante e com pontos de prata como a cabeceira, com um folho que ia do colchão de
cima até ao chão, com o conjunto delimitado por renda. A grande almofada era então
colocada na cama, com as extremidades atadas por grandes nós da melhor fita
inglesa. Uma coberta de tafetá carmesim era depois lançada sobre o conjunto para
manter o pó afastado.
A cama da Rainha era igual à da Princesa, mas mais pequena, e os colchões,
almofadas e lençóis eram os mesmos que já foram descritos. Em vez de uma coberta
de pano cor de laranja, o dela era branco, a cabeceira estava coberta de damasco
carmesim, sem qualquer outro ornamento para além de ser preso com renda de seda
da mesma cor.
As camas das Infantas D. Mariana e D. Carlota e do Infante D. João eram as três em
pau-brasil, com os colchões, almofadas e cobertas iguais às da Rainha, exceto a
Infanta D. Carlota, cuja cama era feita no estilo inglês. Os lençóis que ela trouxe de
Espanha eram notavelmente finos, mas lisos, a almofada era redonda com uma fronha
câmbrica delimitada em cada ponta por uma musselina florida muito fina. A colcha
era de cetim branco acolchoada à inglesa, sobre a qual se estendia uma coberta de
tafetá carmesim para evitar o pó.
A cama tinha suporte e rede para mosquitos. As camas da Rainha e da Princesa
tinham dosséis e cortinas que lhes pertenciam, mas Sua Majestade, lembrando-se
muito graciosamente de que os nossos quartos estavam elegantemente acabados com
estuque, os dosséis não podiam ser suspensos sem pôr ganchos no teto, por cuja razão
ela deu ordens positivas para que as camas fossem feitas sem cortinas porque ela não
consentiria de maneira nenhuma que a mais pequena coisa fosse feita para estragar a
casa que ela muitas vezes admirara pela sua limpeza. Ela aproveitou educadamente
todas as oportunidades para elogiar tudo. Depois do almoço, ela disse-me que tinha
comido muito bem, que tudo estava extremamente bom.
O Marquês de Pombal130 era a única pessoa que trazia a sua cama, com a exceção
dos cinco da Família Real. Tudo o resto foi proporcionado por nós, o que no seu
conjunto deu algumas centenas que nós obtivemos de Leiria e das suas vizinhanças,
sendo impossível obter um número tão grande neste lugar. Os criados de libré e os
soldados ficaram deliciados por descobrirem que tinham camas decentes para
dormir. Era um luxo de que desfrutavam pela primeira vez desde que tinham deixado
Lisboa a 3 de maio. Durante todo o tempo da sua estadia nas Caldas, tinham sido
obrigados a dormir em palha solta nos estábulos, no chão ou onde quer que
encontrassem um lugar para se deitarem, tal é a dureza que estas pobres pessoas
sofrem quando viajam com a Corte e é provavelmente a razão porque cometem
muitos ultrajes, mas eu devo repetir outra vez que o bom comportamento deles aqui
lhes dá direito a todas as indulgências.
A Família Real é servida à mesa pelos Camaristas e Reposteiros. Quando a Rainha
entra na sala de jantar, é presenteada pelo seu Camarista ajoelhado com água e uma
toalha para lavar as mãos e, depois de isto estar feito, senta-se e o Camarista fica de
pé atrás da sua cadeira. A mesma cerimónia é observada com o resto da Família
Real. Depois, o Camarista trincha a comida que eles escolherem comer e, quando é
preciso alguma coisa dos aparadores, os Reposteiros levam-na ao Camarista que a
põe em cima da mesa. Quando é pedido água ou vinho, o Reposteiro tira a rolha e
leva a garrafa e um copo numa salva ao Camarista, o qual, ajoelhado, verte o líquido
e o apresenta à Rainha, pondo-se na mesma atitude para receber o copo quando ela
acabou de beber.
Quando o jantar acaba, lavam novamente as mãos e retiram-se para beber café.
Eles são muito exigentes a respeito da água que bebem a qual é trazida de Lisboa em
garrafões, alguns do Chafariz da Praia131 e alguns da Ajuda. Um dos Reposteiros, que
era o Provedor das Águas, reparei que não tinha mais nada que fazer do que guardar a
chave dos armários de água e garantir que havia sempre uma garrafa cheia de água no
aparador e numa mesa em cada um dos apartamentos. A garrafa de Sua Majestade era
distinta por ter uma fita branca atada em torno do gargalo. O clarete era o vinho mais
usado e mesmo assim só numa quantidade muito pequena.
Quanto a Sua Majestade, achei-a muito melhorada no seu aspeto desde que aqui
estivera no ano de 1786, estando agora mais gorda, com melhor cor e com uma
expressão mais alegre. A Princesa é algo mais magra, mas mesmo assim mantém um
aspeto agradável. A Infanta D. Mariana é mais gorda e, embora não seja elegante, tem
algo de agradável e majestoso na sua aparência. A Infanta D. Carlota parece igual em
relação a quando esteve aqui na última vez, viva mas muito pequena, nem o seu
aspeto indica que ela venha a crescer muito mais. Já vi crianças tão grandes com
nove anos de idade; ela agora tem catorze.
A Rainha, a Princesa e as Infantas estavam vestidas de seda, e cada dia tinham um
vestido diferente. Sua Majestade usa o cabelo entrelaçado e levantado na parte da
frente terminando numa peruca lisa e apertada, na parte de trás terminando num saco
como o dos senhores. Ela usa um chapeuzinho fora de moda com a aba virada para
cima que leva na mão ou debaixo do braço. É raro pô-lo na cabeça a não ser quando
anda a cavalo. A Princesa tinha o cabelo frisado à frente e apanhado atrás. Ela usava
um chapéu grande à moda inglesa, em redor de cuja coroa havia uma fita com um nó
de um lado. As duas Infantas estavam quase ao mesmo estilo da Princesa. Todas
tinham cintos largos de veludo preto em torno da cintura, apertados à frente com dois
monstruosamente grandes medalhões de aço, que acredito que fossem ingleses.
As Donas e Açafatas não são autorizadas a usar vestidos de andar a cavalo ou
chapéus, mesmo que a viagem seja longa e o vento, o sol e a poeira sejam incómodos.
Elas são obrigadas a viajar em liteiras vestidas da mesma maneira que nós ingleses
fazemos nas noites de sexta-feira quando vamos para a Sala Comprida132. Ninguém é
autorizado a sentar-se na presença de qualquer membro da Família Real, exceto o
Arcebispo que é confessor da Rainha. Os Camaristas, quando estão cansados de estar
de pé, podem descansar prostrando-se sobre um só joelho enquanto conversam ou
jogam às cartas. As Donas e as Açafates têm por vezes autorização para se sentarem
no chão.
A despesa deste entretenimento foi de cerca de uma quinta parte do que é calculado
pelas pessoas em geral, apesar de o meu irmão ter amplamente recompensado os
Cozinheiros e os Copeiros pelo seu trabalho. Antes de chegarem, tudo estava pronto
para eles de tal forma que, quando chegaram, não tinham mais nada a fazer à exceção
de começarem o seu trabalho. Não pedimos nada da Casa de Sua Majestade a não ser
os damascos de pendurar nas portas e janelas e os grandes cobres de uso na cozinha.
Louça, Damasco, Mesa e Pratos, nós tínhamos o suficiente para o serviço das várias
mesas. Tendo tido alguma razão para esperar esta visita no ano passado, nós
arranjámos um grande abastecimento de facas, garfos e colheres de prata de
Inglaterra, da melhor qualidade e da moda mais nova, tudo isto sendo cuidadosamente
preservado para a próxima ocasião, que provavelmente será no próximo ano porque a
Família Real tem a ideia de ir a Coimbra.
Aconteceu uma pequena anedota que quase não vale a pena mencionar a não ser
como prova da resolução determinada de Sua Majestade de se agradar com tudo o
que ela encontrasse. A Rainha e a Princesa têm cada uma delas uma chaleira, uma
chávena e um pires particulares de que sempre fazem uso. A Princesa trouxe o
conjunto dela. A criada que empacotou as coisas perguntou à Rainha se devia
empacotar também o conjunto dela, ao que Sua Majestade disse «Não», porque sabia
muito bem que Stephens tinha proporcionado tudo o que era preciso e estava
determinada a só usar o que pertencesse a esta casa.
114 Visconde de Ponte de Lima.

115 Inácio de São Caetano, arcebispo de Tessalónica.

116 Secretário de Estado dos Assuntos Internos e primeiro-ministro em exercício.

117 D. Benedita, princesa do Brasil, irmã de D. Maria I e mulher do príncipe D. José.

118 D. Mariana (irmã de D. Maria I) e D. Carlota Joaquina (mulher do príncipe D. João).

119 Madame Arriaga era uma açafata sénior e a ajudante feminina favorita de D. Maria I.

120 A sala onde o vidro era cortado, gravado e pintado com flores.

121 Sésostris (1695) de Hilaire Bernard de Longepierre (traduzida para português em 1785).

122 Gelados e sorvetes.

123 D. José, príncipe do Brasil, filho mais velho de D. Maria I.

124 Padre Rocha, frade dominicano, confessor e companheiro de Inácio de São Caetano.

125 Foz da Vieira, foz do rio Liz, onde engenheiros estavam a remover areais que estreitavam o canal de entrada.

126 A serração de propriedade estatal e o pinhal real de Leiria.

127 D. José e D. Benedita, príncipe e princesa do Brasil.

128 Nossa Senhora da Nazaré, com a respetiva capela

129 Uma receção para dar as boas-vindas à Rainha quando o bergantim regressasse à cidade.

130 2.º marquês de Pombal, cavalheiro do quarto de dormir.

131 Uma das fontes altamente decoradas de Lisboa que abasteciam o povo de água.

132 Sala de baile das Salas de Reunião Britânicas, em Lisboa.


ELENCO

Família de Bragança

Bárbara (1711-1758)
Tia de D. Maria I.
Filha de D. João V, irmã mais velha de D. José I. Casada com Fernando de
Bourbon (mais tarde Fernando VI de Espanha) em 1729.

Benedita (1746-1829)
Irmã e nora de D. Maria I.
Quarta filha, e a mais nova, de D. José I. Casou com o sobrinho, príncipe herdeiro
D. José, em 1777 (tornando-se conhecida como princesa do Brasil). Morreu em
Queluz em 1829.

Carlota Joaquina (de Bourbon, 1775-1830)


Nora de D. Maria I.
Filha de Carlos IV de Espanha. Casou com o príncipe D. João em 1785. Tornou-se
rainha-consorte quando D. João herdou o trono em 1816. Morreu em Lisboa em
1830.

Doroteia (1739-1771)
Irmã de D. Maria I.
Terceira filha de D. José I. Morreu (solteira) em janeiro de 1771.
João V (1689-1750)
Avô de D. Maria I.
Casado (1708) com Maria Ana de Áustria, filha do imperador Leopoldo I. Depois
de uma grande trombose em 1742, sofreu de má saúde crónica durante o resto da
sua vida. Morreu em Lisboa em 1750.

João (mais tarde João VI, 1767-1826)


Segundo filho de D. Maria I.
Casou com uma princesa espanhola, D. Carlota Joaquina, em 1785. Tornou-se
príncipe herdeiro pela morte do seu irmão mais velho D. José em 1788. Começou a
assinar documentos em nome da sua mãe em 1792. Tornou-se príncipe regente em
1799. Herdou o trono em 1816.
João de Bragança (mais tarde duque de Lafões, 1719-1806)
Sobrinho de D. João V. Teve uma ligação com D. Maria antes do seu casamento
com D. Pedro.

José I (1714-1777)
Pai de D. Maria I.
Casou com Mariana Vitória de Bourbon (filha de Filipe V de Espanha) em 1729.
Herdou o trono em 1750. Morreu em Lisboa em fevereiro de 1777.

José (príncipe herdeiro, 1761-1788)


Filho mais velho de D. Maria I.
Primeiro filho de D. Maria I e de D. Pedro III. Casou com a tia, Benedita, em
fevereiro de 1777 e tornou-se príncipe herdeiro três dias depois. Morreu com
varíola em setembro de 1788.

Maria I (1734-1816)
Filha mais velha de D. José I e de D. Mariana Vitória de Bourbon.
Casou com o seu tio D. Pedro em 1760. Herdou o trono em fevereiro de 1777. Foi
declarada louca em 1792. Acompanhou a sua família até ao Brasil em 1807/8 e
morreu aí em 1816. O seu corpo foi trazido para Lisboa em 1821 e sepultado na
basílica da Estrela.

Maria Ana de Áustria (1683-1754)


Avó de D. Maria I.
Filha de Leopoldo I de Áustria. Casou com D. João V em 1708. Morreu em Lisboa
em agosto de 1754.

Mariana (1736-1813)
Irmã de D. Maria I.
Segunda filha de D. José I. Morreu (solteira) no Brasil em 1813.

Mariana Vitória (de Bourbon, 1718-1781)


Mãe de D. Maria I.
Filha de Filipe V de Espanha e da sua segunda mulher, Isabella Farnese. Casou
com D. José, príncipe herdeiro de Portugal, em 1729. Foi regente nos últimos três
meses do reinado de D. José I. Morreu em Lisboa em janeiro de 1781.

Mariana Vitória (1768-1788)


Filha de D. Maria I.
Casou com Gabriel de Bourbon (filho de Carlos III de Espanha) em 1785. Deu à
luz um filho (Pedro Carlos) em junho de 1786, uma filha em novembro de 1787 (a
qual viveu apenas três dias) e um filho em outubro de 1788. Morreu com varíola a
2 de novembro de 1788, seguida pelo marido e pelo filho mais novo.

Miguel (1802-1866)
Neto de D. Maria I.
Filho mais novo do príncipe D. João (D. João VI) e de D. Carlota Joaquina. Foi
instrumental no desencadear da guerra civil em 1832. Foi derrotado em 1834 e
exilado do país.

Pedro (Pedro III, 1717-1786)


Tio e marido de D. Maria I.
Filho mais novo de D. João V, irmão de D. José I. Casou com D. Maria em 1760.
Aclamado com ela em 1777, recebeu o título de D. Pedro III. Morreu de uma
trombose em maio de 1786.

Pedro (mais tarde Pedro IV, 1789-1834)


Neto de D. Maria I.
Filho mais velho do príncipe D. João (D. João VI) e de D. Carlota Joaquina. Casou
com Leopoldina de Áustria em 1817. Sucedeu a seu pai como D. Pedro IV em 1826.
Ganhou a guerra civil contra o seu irmão D. Miguel em maio de 1834. Morreu
quatro meses mais tarde em Queluz.

Pedro Carlos (de Bourbon e Bragança, 1786-1812)


Neto de D. Maria I.
Filho de Mariana Vitória e de Gabriel de Bourbon. Nasceu em Madrid, tendo os
seus pais morrido de varíola quando ele tinha dois anos. Trazido para Portugal em
1789. Casou com a sua prima Teresa, filha mais velha do príncipe D. João e de D.
Carlota Joaquina, em 1810. Morreu no Brasil.

Teresa (1793-1874)
Neta de D. Maria I.
Primeiro filho do príncipe D. João e de D. Carlota Joaquina. Casou com o primo,
D. Pedro Carlos, em 1810. Deu à luz um filho (Sebastião) em 1811. Enviuvou em
1812. Casou outra vez em 1838 com o tio, Carlos de Bourbon.

Família Bourbon
Carlota Joaquina (1775-1830)
Nora de D. Maria I.
Filha de Carlos IV. Casou com o príncipe D. João de Portugal em 1785. Tornou-se
rainha-consorte quando D. João herdou o trono em 1816. Morreu em Lisboa.

Carlos III (1716-1788)


Tio de D. Maria I.
Filho de Filipe V e da sua segunda mulher, Isabella Farnese. Sucedeu ao seu meio-
irmão, Fernando VI. Casou com Maria Amália da Saxónia.

Carlos IV (1748-1819)
Primo de D. Maria I.
Filho de Carlos III. Casado com Maria Luísa de Palma. Pai de D. Carlota
Joaquina (mulher do príncipe D. João de Portugal). Abdicou em 1808 e passou o
resto da vida no exílio.

Fernando VI (1713-1759)
Tio de D. Maria I.
Filho de Filipe V e da sua primeira mulher, Maria Luísa de Saboia. Casou com D.
Bárbara, filha de D. João V de Portugal, em 1729. O casamento não produziu
filhos e Fernando foi sucedido pelo seu meio-irmão, Carlos III.

Gabriel (1752-1788)
Primo de D. Maria I.
Quarto filho de Carlos III de Espanha. Casou com uma filha de D. Maria I,
Mariana Vitória, em 1785. Morreu de varíola em 1788. O único filho que lhe
sobreviveu, Pedro Carlos, foi educado na corte portuguesa.

Maria Luísa (1751-1819)


Mulher de Carlos IV, mãe de D. Carlota Joaquina.

Mariana Vitória (1718-1781)


Mãe de D. Maria I.
Filha de Filipe V e da sua segunda mulher, Isabella Farnese. Casou com D. José,
príncipe herdeiro de Portugal, em 1729. Morreu em Lisboa em janeiro de 1781.

Pedro Carlos (de Bourbon e Bragança, 1786-1812)


Neto de D. Maria I. Ver a Família de Bragança.
Filipe V (1683-1746)
Avô de D. Maria I.
Casado primeiro com Maria Luísa de Saboia (1688-1714) e depois com Isabella
Farnese (1692-1766). Pai de Carlos III e de Mariana Vitória, mulher de D. José I
de Portugal.

Aristocratas e Ministros do Estado

Alorna, marquês de (1726-1802)


Genro do marquês velho de Távora. Implicado na conspiração dos Távoras, mas
poupado ao cadafalso. Libertado da prisão em 1777. Instrumental na anulação da
sentença de culpados dos conspiradores executados.

Angeja, 3.º marquês de (1716-1788)


Irmão do conde de S. Lourenço. Nomeado presidente do Tesouro Real (o mais
importante dos secretários de Estado) em 1777. Parcialmente reformado por
motivos de saúde em 1783, permaneceu no cargo até à morte em março de 1788.

Angeja, 6.º marquês de (1788-1827)


Neto do 3.º marquês. Estava no Rio de Janeiro quando D. Maria I morreu em
março de 1816. Regressou a Portugal em 1820.

Atouguia, conde de (1721-1759)


Genro do marquês velho de Távora. Implicado na conspiração dos Távoras.
Executado em 1759.

Aveiro, duque de (1708-1759)


O nobre mais poderoso de Portugal. Cunhado do marquês velho de Távora.
Implicado na conspiração dos Távoras. Executado em janeiro de 1759.

Carvalho e Melo, Sebastião José


Ver Pombal, 1.º marquês de

Família Távora:
Marquês velho (3.º marquês, 1703-1759). Vice-rei da Índia em 1750-1755.
Marquesa velha (mulher do 3.º marquês, 1700-1759).
Marquês novo (4.º marquês, 1723-1759). Filho mais velho do 3.º marquês.
Marquesa nova (mulher do 4.º marquês, 1723-). Amante de D. José I.
A família foi implicada na tentativa de assassinato de D. José I em setembro de
1758, considerada culpada de traição e executada em janeiro de 1759. A marquesa
nova teve a sua vida poupada e foi confinada a um convento.

Marialva, marquês de (1739-1803)


5.º marquês, conhecido como marquês jovem (filho do 4.º marquês, 1713-1799).
Primeiro camarista, grão-mestre do cavalo e um dos cortesãos favoritos de D.
Maria I. Amigo de William Beckford.

Melo e Castro, Martinho de (1716-1795)


Embaixador em Londres (1763-1770). Nomeado secretário de Estado em 1770,
mantendo a sua posição quando D. Maria I ascendeu ao trono em 1777.

Mendonça, Diogo de
Nomeado secretário de Estado em 1750. Caiu em desgraça em 1756 e foi exilado
para Angola. Morreu no exílio.

Pinto de Sousa Coutinho, Luís (1735-1804)


Embaixador em Londres (1774-1788). Nomeado secretário de Estado em dezembro
de 1788. Tornado 1.º visconde de Balsemão em 1801.

Pombal, 1.º marquês de (1699-1782)


Sebastião José de Carvalho e Melo. Recebeu o título de conde de Oeiras em 1759 e
o de marquês de Pombal em 1769. Embaixador português em Londres (1739-1743)
e em Viena (1745-1749). Casou com Maria Leonor Ernestina, condessa de Daun,
em Viena em 1745. Nomeado secretário de Estado em julho de 1750. Promovido a
primeiro-ministro em 1756. Caiu do poder em 1777 e foi exilado para as suas
propriedades no centro de Portugal.

Pombal, 2.º marquês de (1748-1812)


Filho mais velho do 1.º marquês de Pombal. Autorizado a permanecer na corte
quando o seu pai caiu do poder em 1777. Presidente do Senado de Lisboa e
cavalheiro camarista.

Ponte de Lima, visconde de (1727-1800)


Também conhecido como 14.º visconde de Vila Nova de Cerveira. O seu pai morreu
na prisão em 1762. Nomeado secretário de Estado em 1777. Tornou-se presidente
em exercício do Tesouro Real depois da morte do 3.º marquês de Angeja em março
de 1788. Tornado marquês de Ponte de Lima em 1790.
Sá e Melo, Aires de (-1786)
Embaixador em Madrid até ser nomeado secretário de Estado em 1775. Manteve a
sua posição quando D. Maria I ascendeu ao trono em 1777. Adoeceu em março de
1786 e morreu dois meses mais tarde.

São Lourenço, conde de (1725-1804)


Irmão do 3.º marquês de Angeja. Cavalheiro camarista de D. Pedro. Feito
prisioneiro por Pombal em 1760. Libertado em 1777.

Seabra da Silva, José de (1732-1813)


Secretário de Estado até à sua expulsão para Angola em 1774. Repatriado em
1777. Nomeado secretário de Estado dos Assuntos Internos em 1788. Caiu em
desgraça por uma segunda vez sob o príncipe D. João em 1799. Banido para a sua
propriedade na província.

Vila Nova de Cerveira, visconde de (1683-1762)


13.º visconde (também conhecido como visconde de Ponte de Lima). Embaixador
em Madrid até ser chamado por Pombal. Preso em 1760 por oposição à
administração de Pombal. Morreu na prisão em 1762. O seu filho tornou-se
secretário de Estado dos Assuntos Internos de D. Maria I em 1777.

Padres

Anunciação, Miguel da (1703-)


Bispo de Coimbra (familiar dos Távoras). Preso em dezembro de 1768. Libertado
em 1777, retomou o seu posto em Coimbra. Morreu no cargo alguns anos mais
tarde.

Malagrida, Padre Gabriel (1689-1761)


Padre jesuíta. Nascido em Itália. Trabalhou numa missão jesuíta no Brasil.
Presente junto do leito de morte de D. João V. Banido para Setúbal depois de ter
escrito um tratado sobre o terramoto de Lisboa. Confessor da marquesa velha de
Távora. Preso em dezembro de 1758 por envolvimento na conspiração dos
Távoras. Executado em setembro de 1761.

Melo, José Maria de (1756-1818)


Nomeado bispo do Algarve em 1787. Nomeado confessor de D. Maria I em
dezembro de 1788.
Oliveira, Timóteo de
Padre jesuíta. Confessor de D. Maria I até ser banido da corte em setembro de
1757. Feito prisioneiro em dezembro de 1758 por cumplicidade na conspiração dos
Távoras. Libertado em 1777.

São Caetano, Inácio de (1719-1788)


Confessor de D. Maria I e um dos seus principais conselheiros. Recebeu o título de
arcebispo de Tessalónica. Nomeado para o gabinete de D. Maria I em agosto de
1787, tornando-se informalmente no ministro principal. Morreu em Queluz em
novembro de 1788.

Vilas Boas, Manuel do Cenáculo (1724-1814)


Nomeado bispo de Beja em 1770. Nomeado confessor do príncipe D. José em 1769
e precetor do príncipe em 1770. Despedido destes cargos em 1777 recebeu ordens
para residir no seu bispado. Nomeado arcebispo de Évora em 1802.

Estrangeiros

Beckford, William (1759-1844)


Conhecido como o mais rico dos homens comuns em Inglaterra. Caiu em desgraça
por causa de um caso escandaloso. Passou algum tempo em Portugal em 1787,
tornando-se amigo do marquês jovem de Marialva. Visitou Portugal outra vez em
1793-1795 e em 1798-1799.

Bombelles, Marc-Marie, marquês de (1744-1822)


Embaixador francês em Portugal, 1786-1788.

Mickle, William Julius (1735-1788)


Poeta escocês. Visitou Portugal em 1779-1780.

Perez, David (1711-1778)


Compositor italiano que trabalhou na corte portuguesa. Professor de música de D.
Maria I e das suas irmãs.

Stephens, Philadelphia (1750/1-1824)


Vivia com o irmão na Marinha Grande. Escreveu um relato da visita real em 1788.

Stephens, William (1731-1803)


Proprietário da Real Fábrica de Vidros da Marinha Grande. Recebeu a visita de
D. Maria I e da sua família em 1786 e, durante três dias, em 1788.

Walpole, Robert (1736-1810)


Embaixador britânico em Lisboa, 1772-1800. Filho do 1.º barão Walpole de
Wolterton. Sobrinho de Sir Robert Walpole (primeiro-ministro de Inglaterra) e
primo de Horace Walpole de Strawberry Hill.

Willis, Dr. Francis (1717-1807)


Doutor em Medicina com um manicómio privado em Lincolnshire. Tratou Jorge III
de Inglaterra entre outubro de 1788 e março de 1789. Tratou D. Maria I entre
março e julho de 1792.
NOTAS

As citações dos embaixadores e cônsules britânicos em Lisboa não são referenciadas


no texto. As respetivas cartas podem ser encontradas nos Arquivos Nacionais, em
Kew (série SP 89, para os anos até 1780, inclusive, e série FO 63, daí em diante). As
outras citações são referenciadas abaixo. Os detalhes das fontes podem ser
encontrados na bibliografia.
BIBLIOGRAFIA SELECIONADA

Fontes manuscritas
Marinha Grande, livro de contabilidade, 1786-1802
(CM) Câmara Municipal da Marinha Grande
Mickle, William Julius, vários documentos
(NLS) National Library of Scotland
Portugal, documento do Estado (SP 89)
(NA) National Archives
Portugal, documentos do Foreign Office (FO 63)
(NA) National Archives
Robinson, Frederick, cartas para Anne Robinson, 1778
(BA) Bedfordshire Archives
Robinson, Thomas (barão de Grantham), cartas para Frederick Robinson, 1778
(BA) Bedfordshire Archives
Stephens, Philadelphia, relato da visita real à Marinha Grande, 25 de julho de 1788
(WSRO) West Sussex Record Office

Fontes publicadas
An account by an eye-witness of the Lisbon earthquake of November 1, 1755
(British Historical Society in Portugal, Lisboa, 1985)
BAILLIE, Marianne, Lisbon in the Years 1821, 1822 and 1823 , 2 vols. (Londres,
1824)
BARETTI, Joseph, A Journey from London to Genoa, through England, Portugal,
Spain and France, 2 vols. (Londres, 1770)
BARROS, Carlos Vitorino da Silva, Real Fábrica de Vidros da Marinha Grande, II
Centenário 1769-1969 (Lisboa, 1969)
BAZIN, Hervé, The Eradication of Smallpox, trad. Andrew e Glenise Morgan
(Londres, 2000).
BECKFORD, William, The Journal of William Beckford in Portugal and Spain
1787-1788, ed. Boyd Alexander (Londres, 1954).
— Recollections of an Excursion to the Monasteries of Alcobaça and Batalha, ed.
Boyd Alexander (Arundel, 1972)
— Italy, with Sketches of Spain and Portugal, 2 vols. (Londres, 1834).
BEIRÃO, Caetano Maria de Abreu, Dona Maria I, 1777-1792, 2.ª edição (Lisboa,
1944)
BOMBELLES, Marc Marie, Marquis, Journal d’un Ambassadeur de France au
Portugal, 1786-1788, ed. Roger Kann (Paris, 1979)
BROUGHAM, Henry, The Life and Times of Henry, Lord Brougham , 3 vols.
(Londres, 1871)
CARRÈRE, J. B. F., A Picture of Lisbon taken on the spot… by a gentleman many
years resident at Lisbon (Londres, 1809)
CHEKE, Marcus, Dictator of Portugal: A Life of the Marquis of Pombal (Londres,
1938)
— Carlota Joaquina, Queen of Portugal (Londres, 1947)
CORMATIN, P. M. F. D., Duke du Châtelet, Travels of the Duke du Châtelet in
Portugal, ed. J.-F. Bourgoing, trad. J. J. Stockdale, 2 vols. (Londres, 1809)
COSTIGAM, Arthur William, Sketches of Society and Manners in Portugal, 2 vols.
(Londres, 1787)
CROKER, Richard, Travels through Several Provinces of Spain and Portugal
(Londres, 1799)
DALRYMPLE, William, Travels through Spain and Portugal in 1774 (Londres,
1777)
DUPERRIER Dumouriez, Charles François, Etat présent du Royaume de Portugal
en l’année 1766 (Lausanne, 1775)
EDMUNDO, Luiz, A Côrte de D. João no Rio de Janeiro (1808-1821), 3 vols. (Rio
de Janeiro, 1939-1940)
FERRO, Maria Inês, Queluz: The Palace and Gardens (Londres, 1997)
FRANCIS, David, Portugal 1725-1808: Joanine, Pombaline and Rococo Portugal
as seen by British Diplomats and Traders (Londres, 1985)
Gazeta de Lisvoa, várias datas
Gentleman’s Magazine, 1755, 1756
GREEN, Vivian, The Madness of Kings: Personal Trauma and the Fate of Nations
(Stroud, 1993)
HERVEY, Augustus, Augustus Hervey’s Journal, ed. David Erskine (Londres, 2002)
HERVEY, Christopher, Letters from Portugal, Spain, Italy and Germany in the
years 1759, 1760 and 1761, 3 vols. (Londres, 1785)
INCHBOLD, Stanley, Lisbon and Cintra (Londres, 1907)
KENDRICK, T. D., The Lisbon Earthquake (Londres, 1956)
Letters from Portugal on the Late and Present State of that Kingdom, anónimo, mas
atribuído a John Blankett (Londres, 1777)
LINK, Henry Frederick, Travels in Portugal and through France and Spain
(Londres, 1801)
The Lisbon Guide, containing Directions to Invalids who visit Lisbon, anónimo
(Londres, 1800)
LUCCOCK, John, Notes on Rio de Janeiro and the Southern Parts of Brazil taken
during a residence of ten years in that country from 1808 to 1818 (Londres,
1820)
MACAULAY, Neill, Dom Pedro, The Struggle for Liberty in Brazil and Portugal
1798-1834 (Durham, EUA, 1986)
MACAULAY, Rose, They went to Portugal (Londres, 1946) – They went to
Portugal Too (Manchester, 1990)
MAXWELL, Kenneth, Pombal, Paradox of the Enlightment (Cambridge, 1995)
MELLO MORAES, A. J. de, Chronica Geral do Brazil, 2 vols. (Rio de Janeiro,
1886)
MURPHY, James, Travels in Portugal in the years 1789 and 1790 (Londres, 1795)
O’NEILL, Thomas, A concise and accurate Account of the Proceedings of the
Squadron under the Command of Rear-Admiral Sir W. S. Smith, in effecting the
escape and escorting of the Royal Family of Portugal to the Brazil (Londres,
1807)
PEREIRA, Ângelo, D. João VI, Príncipe e Rei, 4 vols. (Lisboa, 1953-58)
RATTON, Jacome, Recordações: sobre ocorrências do seu tempo em Portugal
(Londres, 1813)
ROBERTS, Jenifer, Glass: The Strange History of the Lyne Stephens Fortune
(Chippenham, 2003)
SANTOS, Luiz Gonçalves dos (Padre Perereca), Memórias para servir à História
do Reino do Brasil, 2 vols. (Rio de Janeiro, 1943)
SARAMAGO, José, Baltasar and Blimunda, tradução revista de Giovanni Pontiero
(Londres, 2001)
SMITH, J. A. (conde de Carnota), Memoirs of the Marquis of Pombal, 2 vols.
(Londres, 1934)
SOUTHEY, Robert, Journals of a Residence in Portugal 1800-1801 and a visit to
France 1838, ed. Adolfo Cabral (Oxford, 1960)
TEIXEIRA, José, O Paço Ducal de Vila Viçosa (Lisboa, 1983)
TUCKER, Jedediah Stephens, Memoirs of Admiral the Right Hon. The Earl of St
Vincent, 2 vols. (Londres, 1844)
TWISS, Richard, Travels through Portugal and Spain in 1772 and 1773 (Londres,
1775)
WEST, S. George, The Visit to Portugal in 1779-80 of William Julius
Mickle (Lisboa, 1972)

WHITEFIELD, George, A Brief Account of some Lent and Other Extraordinary


Proceedings and Ecclesiastical Entertainments seen last year at Lisbon, in four
letters to an English friend (Londres, 1755)
WILCKEN, Patrick, Empire Adrift: The Portuguese Court in Rio de Janeiro 1808-
1821 (Londres, 2004)
WINSLOW, F. B., Physic & Physicians: A Medical Sketch Book, 2 vols. (Londres,
1839)
WITHERING, William, The Miscellaneous Tracts of the Late William Withering M.
D., F. R. S. written by his son, 2 vols. (Londres, 1822)
WRAXALL, Sir William, Historical Memoirs of my Own Time, 2 vols. (Londres,
1815)