Tradução de José Ubaldino Motta do Amaral

MINHA MÃE, A PRINCESA IMPERIAL VIÚVA
PIA MARIA, Princesa Imperial do Brasil, Condessa René de Nicolaÿ

MINHA MÃE, A PRINCESA IMPERIAL VIÚVA PIA MARIA Princesa Imperial do Brasil, Condessa René de Nicolaÿ

MINHA MÃE, A PRINCESA IMPERIAL VIÚVA Tradução de José Ubaldino Motta do Amaral

Editora ... Rio de Janeiro Do original em francês "Le Temps de ma Mère" Edição da Autora 1990

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Usaram-se neste trabalho as denominações de parentesco aprovadas pela Colégio Brasileiro de Genealogia, procurando apresentar o maior número de dados sobre a pessoa citada. Usaram-se as abreviaturas: nascido (*), falecido (†), assassinado (as), tombado (t), executado (ex), suicídio (sd); casado (X), separado, desquitado, divorciado, matrimônio anulado (÷), morganático (mg); união ilegítima ou não oficializada (&).

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ORELHA Pia Maria, princesa do Brasil e de Orléans e Bragança, era filha caçula de D. Luís, Príncipe Imperial do Brasil, e de Maria Pia, princesa de Bourbon-Sicília, sendo, por seu pai, neta de Isabel (I), chefe da Casa Imperial do Brasil (a nossa princesa Isabel), e por sua mãe, neta de Afonso, conde de Caserta, chefe da Casa Real das Duas Sicílias (Nápoles). Nascida (1913), durante o exílio da Família Imperial do Brasil, no palacete de Boulogne-sur-Seine, casa de sua avó paterna, perto de Paris, tinha, como irmãos, D. Pedro (III) Henrique, Chefe da Casa Imperial do Brasil, e de D. Luís Gastão. Era a única princesa brasileira de sua geração e foi educada à brasileira por seu pai, a quem era profundamente afeiçoada, e com quem aprendeu o português, falando e escrevendo correntemente, apesar de nunca ter vivido realmente no Brasil. Infelizmente, perdeu-o quando tinha apenas 7anos incompletos, fato que fez dela uma menina um tanto fechada, tímida e triste. Sua educação foi continuada pelos avós (a princesa Isabel e o Conde d’Eu) e por sua mãe, cuja biografia ela relata nessa obra. A morte dos primeiros, ela, no castelo d’Eu (1921) e ele, a bordo do “Massília” (1922), tiveram graves consequências: seus irmãos, D. Pedro Henrique e Luís Gastão, se tornaram, respectivamente, Chefe da Casa Imperial e Príncipe Imperial do Brasil; e sua mãe passou a chefiar a família em nome do filho a maioridade deste (1927). Chocada com o falecimento do sogro em seus braços durante a viagem, a princesa imperial viúva sentia-se bastante desamparada, motivo pelo qual sempre adiou a vinda definitiva da família para a terra do marido. Mas soube dar aos filhos excelentes professores, como monsenhor Renato Delair, o Padre d’Armaillac e Carlos Delgado de Carvalho, que lhes completaram a educação, tornando-os aptos ao ingresso nas universidades, e contrabalançar a timidez da filha com uma educação esportiva (tênis) bastante avançada para a época. Em 1931, a morte de D. Luís Gastão fez com que a autora se tornasse Princesa Imperial do Brasil, como herdeira direta do irmão, situação que ela jamais desejara, mas que ostentaria por sete anos, até 1938, quando, de seu casamento com a princesa Maria da Baviera, D. Pedro Henrique tornou-se pai de D. Luís, atual Chefe da Família Imperial e resolveu radicar-se no Brasil. A série de nascimentos (1938, 1939, 1941 e 1944), bem como a doença do filho mais velho, o impediram de fazê-lo, e a família acabou impossibilitada, pela guerra, de sair da Europa até 1945, ano em que conseguiu aqui se fixar. Assim, a autora só veio a conhecer sua terra em 1946, deixando, entre nós, uma lembrança de simpatia, afabilidade e inteligência. Em 1948 casou-se com o conde Renato de Nicolaÿ, de quem teve dois filhos e de quem enviuvaria precocemente seis anos mais tarde (1954). Dedicou-se então à educação dos filhos e ao cuidado da mãe idosa, que viria a falecer aos 95 anos (1973), alternando sua residência entre Mandelieu, Paris e o castelo do Lude,
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propriedade da família do marido, onde, com o cunhado, fundou o espetáculo beneficente “Son e Lumière”, que se tornou uma tradição turística e cultural do lugar. Mas continuou sempre ligada ao Brasil, visitando-o, uma vez ainda em companhia do marido, outras com a mãe (já livre de seus traumas), e mesmo tendo vindo com sua prima, a Condessa de Paris, para acompanhar os restos mortais dos avós (1952). Assim, já só, aqui esteve inúmeras vezes, mesmo depois da morte do irmão (1981), cuja vida acompanhava com amorosa atenção. Como este nada deixara escrito, ela resolveu registrar algumas lembranças de sobre a mãe, trabalho que editou em 1991. Teve a alegria de casar os filhos e conhecer seus nove netos. Veio a falecer no castelo do Lude, em 24 de outubro de 2000, aos 87 anos de idade.

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PREFÁCIO Até meus quatro anos, tinha ideias muito vagas sobre a História do Brasil. Ouvira falar dos índios e de Cabral, e leram-me, num livro infantil, sobre a infância de D. Pedro II, aprisionado na Quinta da Boa Vista, enquanto via os outros meninos correrem, subirem em árvores e brincarem à vontade, mas eu mesmo não conseguia atinar bem de quem se tratava. Foi em 1942 que escutei, dos adultos, comentários sobre o falecimento do Cardeal D. Sebastião Leme, em consequência do qual, o casamento de uma princesa em Petrópolis seria presidido pelo arcebispo de Niterói. Tratava-se da princesa Francisca de Orleans e Bragança e de Duarte, duque de Bragança. Perguntei a meu pai se o Brasil tinha príncipes, e ele me respondeu que havia descendentes do Imperador, mas não soube especificar quais eram. Falou-me dos imperadores D. Pedro I e D. Pedro II, de D. João VI e da princesa Isabel. Deu-me a entender que já tínhamos evoluído para uma república, e que os reis, fadados a desaparecer da história, só existiam, ainda, na Inglaterra, Suécia, Noruega, Dinamarca, Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Liechtenstein, Mônaco e Grécia. Não soube me responder por que razão tais países não eram tão “evoluídos” como o Brasil. E deixou-me no espírito aquela dúvida. Em 1946, passando uns dias em casa de meus avós paternos (minha avó era neta do Visconde de Maracaju), fomos convidados para ir a Petrópolis cumprimentar a princesa Maria Pia que havia chegado da Europa. Fizeram-me beijar a mão de uma senhora alta, corpulenta, vestida de negro, de óculos escuros, mas muito sorridente e falando um português quase perfeito (como comentavam as senhoras presentes). Disseram-me que ela era nora da princesa Isabel, daquela mesma que libertara os escravos, e que seu filho seria o nosso Imperador. Foi assim que entrei em contato pessoal com alguém da Família Imperial. Já no colégio, aprendi que o governo de D. João VI tinha sido muito bom (melhor do que os de Getúlio Vargas e de Dutra, como dizia a professora); que D. Pedro I tinha feito a independência; que D. Pedro II, um sábio, governara sabiamente; que a princesa, na ausência do pai, libertara os nascituros e, mais tarde, os escravos todos. Entretanto, ninguém conseguira me explicar por que esse sistema – que dera tudo ao Brasil – teve de ser mudado. Foi minha mãe que me explicou que, ao assinar a Lei Áurea, a princesa caíra na ira dos donos dos escravos que, juntamente com o exército, a tinham expulsado. Isso bastou – a lógica infantil é mais lógica do que se pensa – para que eu identificasse a república com a instituição da escravidão. Daí em diante, passei a estudar o assunto a fundo, e,
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quanto mais estudava, mais chegava à conclusão de que a proclamação da república era a raiz de todos os nossos males; e que a monarquia era o sistema que controlava os defeitos de caráter de nosso povo. Estudei a fundo a Família Imperial; entrei em contato com todos os membros vivos, e com os monarquistas de mais nome. Assim, falando com o professor Sebastião Pagano, soube que ele tinha os direitos de tradução de “Un jeune Prince Chrétien – Louis d’Orléans-Bragance”, cedidos pelo próprio Monsenhor René Delair. Ofereci-me para fazer a tradução, e ele aceitou, solicitando-me que a fizesse de modo que o livro parecesse escrito para brasileiros sobre um príncipe brasileiro, ainda que nascido na França e vivendo no exílio. Procurei, também fazer os comentários, pois, para um leitor desavisado, os fatos pareceriam quase lendários, irreais e arcaicos. Nunca encontraram patrocínio para essa publicação. Muitos anos mais tarde, escrevi à Condessa de Paris sobre a má qualidade da tradução de seus livros autobiográficos “Tout m’est Bonheur” e “Les Chémins creux”, publicados no Brasil sob o título “De todo Coração”. Ela encarregou-me de re-tradução (infelizmente só se pôde publicar a primeira parte), bem como da tradução de outras obras, das quais só se publicou “Contos de minhas Terras”, ficando em aberto “Le Journal de la Reine Marie Amélie” e “Blanche de Castille, mon Aïeule”, com o falecimento da Autora. Verificando, assim, que, sobre a Família Imperial Brasileira, nada tinha sido escrito (D. Pedro Henrique, sucessor da princesa Isabel, falecera em 1981, sem deixar algo), julguei ser preciso que ficasse alguma coisa de autoria dos netos da princesa Isabel, verdadeiramente dinásticos. Percebendo que, mesmo nos meios monarquistas, D. Maria Pia, a viúva de D. Luís, aquela mesma que eu conhecera em Petrópolis, tinha a fama de pouco simpática ao Brasil e aos brasileiros, escrevi a sua filha, D. Pia, a condessa de Nicolaÿ, lembrando-a que era a última de sua geração e que poderia deixar algo de positivo sobre sua mãe. Ela, que já devia ter essa ideia, tratou de pô-la em prática, mas, muitas vezes, consultou-me sobre pequenos pontos da História do Brasil, e trocamos muitas ideias sobre o livro. Ao publicar a biografia numa edição particular, envioume um exemplar. Verifiquei que também era um livro, senão demasiado francês, demasiado napolitano, de pouco interesse aos brasileiros. Ela mandou que fizesse as alterações devidas (a maioria na ordem dos capítulos) e lhe enviasse a tradução. Infelizmente, também, seu falecimento impediu a resposta. Mas a tradução está aí. Fiz os comentários como tinha feito nas obras de Monsenhor Delair e da Condessa de Paris, juntando mais algumas fotos, cedidas por arquivos particulares, que me pareceram interessantes. Cabe ao leitor apreciar.
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MARIA PIA DE BOURBON-SICÍLIA Este livro não tem outra pretensão senão fixar, na memória de meus filhos, as imagens daqueles que os precederam na terra, para que, um dia, por sua vez, as possam transmitir a seus descendentes. Tal ideia me veio numa bela tarde de outono, quando chegava de Le Lude ao meu apartamento térreo parisiense. O sol da tarde iluminava a pequena sala de jantar, onde três quadros recebiam os últimos raios. Eram os retratos de meu bisavô, D. Pedro II , de meu pai, D. Luís e de minha mãe, a princesa Maria Pia de Bourbon-Sicília . O primeiro, evidentemente, não conheci, mas tanto tinha ouvido falar dele que me parecia vivo na tela. Fixei a vista em Papai, procurando senti-lo perto de mim novamente, e me admirei com a semelhança das duas fisionomias: os cabelos de um louro dourado, as testas largas e altas, os narizes bem longos e finos, traço revelador de força de vontade e de decisão; enfim, as sobrancelhas caídas nas extremidades exteriores. Entretanto, os olhos de Papai eram mais azuis do que os do imperador: tinham o azul miosótis dos Orléans; mas nem assim a semelhança diminuía. Mamãe era extremamente graciosa. Seu pescoço esguio sustentava um rosto oval perfeito, com lábios finos e um nariz longo e levemente arrebitado na ponta, como são os de vários Bourbons-Sicília . Os olhos eram de um azul pervinca e os cabelos de um negro azeviche. Enxerguei-me menina, sentada, contemplando-a e assistindo, com interesse e não sem alguma angústia, o "cerimonial" de seu penteado. Depois de, com legítimos pentes de tartaruga vindos de Nápoles – ela não usava outros –, pentear cuidadosamente os cabelos, ela os enrolava com capricho, de maneira a formar um coque no alto da cabeça. Seguia-se, então, a parte mais emocionante: uma mecha de cabelo pinçada com um pequeno torcal de ferro era enrolada em volta do coque, e, num abrir e fechar de olhos, colocada no lugar adequado. Enfim, para completar o conjunto, um grande bucle, munido de dois grampos de cabelo, era fixado na frente para dar mais doçura à testa. O resultado era encantador pela elegância e distinção.

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Meus pais eram três vezes primos-segundos, tendo como antepassado comum, Francisco I , rei das Duas-Sicílias. Papai descendia dele por Teresa Cristina Maria , imperatriz do Brasil, mãe de minha avó paterna, a princesa Isabel ; Mamãe, por Fernando II , rei das DuasSicílias, pai de meu avô materno, Afonso, conde de Caserta , e por Francisco de Paula das Duas-Sicílias, conde de Trapani , pai de minha avó materna, Maria Antonieta, condessa de Caserta . A consanguinidade não parecia amedrontar os Bourbons. Mamãe tomava como prova o caso dos faraós que costumavam se casar com as próprias irmãs, "para manter a pureza da raça", conforme afirmava peremptoriamente. O parentesco, quer nas viagens, quer no exílio, fazia com que as famílias se encontrassem. Uma das visitas de D. Pedro II a Cannes me foi contada por Mamãe. Ela tinha seis anos e, como toda menina bem educada, já tinha recebido as primeiras aulas de piano e demonstrado, logo, um talento que deveria desenvolver depois. Quando D. Pedro II avisou que ia visitar a Vila Maria Teresa , meu avô materno, a quem chamávamos de Nonno , à napolitana, reuniu todos os filhos para apresentá-los ao imperador. Mamãe teve que mostrar seu talento precoce e tocar a "Marcha Turca" de Mozart. Pode-se imaginar aquela criança que, chamada pelos pais, entrava na sala de música de pesadas cortinas vermelhas, fazendo uma perfeita reverência àquele senhor de longa sobrecasaca negra e de barbas brancas que lhes desciam até o peito, e sendo mandada ao piano para executar a "Marcha Turca"! Essa verdadeira provação marcou-a para sempre, fazendo com que ela, desde então, tivesse horror àquela bela obra de Mozart... Entretanto, provação maior a esperava. Logo surgiu o problema de dar às quatro princesas de Bourbon-Sicília, Maria Imaculada (Giet-ta) , Maria Cristina (Titine) , Maria Pia e Maria Josefa (Beppa) , uma formação cultural e moral para a vida. Para tanto, foram matriculadas no Colégio do Sagrado Coração de Aix-en-Provence , que era a escola mais próxima de Cannes, freqüentada por meninas da alta-sociedade. A partida se efetivou em novembro, num cenário que nos faz sorrir e nos emociona um pouco. O chefe da estação, usando seu uniforme de gala, tinha mandado estender um tapete vermelho que ia da entrada da estação até o vagão. Instaladas as meninas em seu compartimento, ele levantou a bandeira, e o trem partiu. O mesmo ocorreu em Aix-en-Provence, onde as freiras vieram "passar recibo" do precioso grupinho. Mas não pensem que elas estavam numa instituição de disciplina relaxada. Mamãe guardou lembrança atroz das camas de lençóis úmidos e frios, de sermões aterrorizantes que ameaçavam os cristãos que caíssem em tentação com as torturas de
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um inferno eterno , e da longa temporada longe dos pais. Elas não voltavam a Cannes senão pelo Natal e, depois, só no fim do ano letivo, em junho ... Tolhidas assim, como aquelas meninas podiam se exteriorizar? Pregar peças e fazer travessuras são a válvula de escape das crianças, e disso, elas não se privaram. Uma noite, combinaram com as colegas descer à capela e trocar a água benta por tinta. Pode-se imaginar os olhares prévios e as risadas abafadas que acompanharam a entrada silenciosa das primeiras religiosas na capela. Não sei qual foi o castigo, mas creio me lembrar que o gênio alegre de certas freiras contribuiu para que as penas não fossem demasiadamente duras. Tem-se dificuldade de imaginar essa época tão próxima e tão remota... Entretanto, a educação era perfeita. A caligrafia "Sagrado Coração" bastante legível. Sempre admirei as cartas de Mamãe. Eram de uma caligrafia elegante e de uma clareza perfeita. Eu me espantava que uma criança de sua idade pudesse já "sentir" a beleza. No jardim do colégio de Aix, encontrava-se o lindo Pavilhão Vendôme que eu certamente nunca teria visitado se não tivesse ouvido de Mamãe uma descrição entusiasmada. Ela sempre demonstrou sensibilidade à beleza, encantando-se com a harmonia de uma paisagem ao percorrer os sítios admiráveis da riviera francesa, então, ainda em toda sua pureza primitiva. Diante das belezas da criação, sua alma e seu coração, repletos de gratidão, entoavam um canto de louvor a Deus. A casa de seus pais era um lugar especial, cuja beleza ela podia desfrutar também. Ficava em frente à baía de Cannes, onde hoje se encontra o Hotel Martinez. Era uma grande "villa" clássica de dois andares, encimada por um telhado de ardósia e rodeada de um grande jardim plantado de palmeiras, magnólias e outras árvores exóticas. Uma mureta encimada por uma grade do estilo da época, isto é, feita de barras ferro semelhantes a lanças, pintada de cinza, protegia o terreno. De cada lado, ao longo dos muros, es estendiam touceiras de evônimos , de folhas grossas, em cujos galhos as crianças podiam subir, se imaginando exploradores ou macacos. Nonno a tinha adquirido depois de ter vagado pela Europa após o triste fim do reino das Duas-Sicílias , a procura de um "ponto de pouso", para se empregar uma expressão moderna. Primeiro, tinha ido a Göritz, onde se encontra o túmulo de Carlos X , rei da França; depois, a Frohsdorf, junto ao conde de Chambord . Penso que uma história que Nonna , minha avó materna, me costumava contar, se situa nessa época.

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Nonno e Nonna eram ainda jovens quando estiveram em Frohsdorf. Foram recebidos de abraços abertos pelos condes de Chambord que lhes pediram que ficassem com eles por algum tempo. Na primeira noite, Nonna se vestiu para o jantar e desceu ao salão, onde todos costumavam esperar, sentados em volta de uma grande mesa. Seguindo as regras da etiqueta que lhe tinham sido ensinadas, ela não tinha levado mais que as luvas e uma carteira. A condessa de Chambord a interpelou, dizendo: "Minha filha, você não trouxe seu trabalho manual?" Minha avó enrubesceu e disse que o tinha esquecido. De fato, ela não imaginava que, à noite, na "corte do rei" , era de bom tom parecer ocupada ... A viagem prosseguiu, em visita a parentes, até Viena, pois o imperador Francisco José era considerado um tio . Mas Nonno tinha nostalgia do Mediterrâneo. Dirigiu-se para a riviera francesa e, um belo dia, passou por Cannes. Sua escolha foi imediata. Ele tinha encontrado, na baía de Cannes, um pouco de sua querida baía de Nápoles e da atmosfera única do Mediterrâneo. Comprou uma pequena casa, chamada "Vila Coquete", de frente para o mar, na Croisette" , e ali se instalou com sua esposa e seus dois filhos, Fernando e Carlos . Fernando, o tio Nando, tinha nascido em Roma, no soberbo palácio Farnese , que pertencia à Família Real das DuasSicílias, em 25 de julho de 1869. Quando o Rei Francisco II viu as tropas de Garibaldi se aproximarem de Roma, e que não havia mais esperança, alugou enfiteuticamente o palácio Farnese à França por um período de noventa e nove anos. Começava, então, o exílio. A Vila Coquette era uma casa modesta, suficiente, a principio, para os avós e seus dois filhos, mas, bem depressa, os nascimentos se sucederam uns atrás dos outros, e foi preciso pensar em aumentá-la para alojar os seis, oito, dez filhos que deveriam nascer em Cannes. A ajuda do céu veio de um donativo de napolitanos fiéis à causa dos Bourbons-Sicília, e a Vila Coquete se transformou em "Vila Maria Teresa". Nonno lhe deu esse nome em homenagem a sua mãe, segunda esposa de Fernando II, e filha de Carlos , o arquiduque da Áustria que conseguira deter o avanço napoleônico. Mamãe evocava essa ascendência com um arzinho de orgulho, que nos encantava. Uma grande mansão quadrada se ergueu no lugar da modesta Vila Coquette. Entrava-se lá, subindo três ou quatro degraus para atingir a porta de entrada, onde um porteiro que se chamava Februário, em uniforme com as cores das Duas-Sicílias, vermelho e azul, atendia e anunciava o visitante. Seguindo por um corredor, passava-se diante da porta da mesma sala de música, onde minha pobre mãe teve de tocar a "Marcha Turca", e penetrava-se num grande salão claro, mobiliado nos quatro cantos com cadeiras de espaldares altos e
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chatos, guarnecidos de pequenos calindogues de porcelana, que pareciam olhar o visitante com seus olhos glaucos sobre os focinhos achatados. Uma porta envidraçada se abria para o lado da rua e do mar. Na parede oposta, uma porta dupla dava para a longa sala de jantar, onde todos os filhos e netos presentes costumavam rodear Nonno e Nonna. Nas refeições, éramos colocados, naturalmente, na extremidade oposta à cabeceira da mesa, mas não, como em certas casas, obrigados a um silêncio total. Este não existia naturalmente, pois todos os tios e tias tinham a palavra e senão o senso de humor bastante fáceis. O bode expiatório de tio Januário e de tio Filipe era a dama de honra de Nonna, a princesa Capecce Zurlo , que todo mundo chamava simplesmente de "Lilly", que era para eles como uma boa tia e bastante inteligente para rir das brincadeiras. A pobre Lilly tinha uma afeição especial por Mamãe, cuja beleza e inteligência ela admirava. Digo "pobre" porque ela morreu subitamente, depois de uma crise de flebite. Sentimos muito seu desaparecimento. Algum tempo depois, um tabelião chamou Mamãe ao telefone, dizendo que a princesa Zurlo lhe tinha deixado de herança todos seus quadros e objetos de arte. Quando abrimos as caixas, encontramos uma coleção de quadrinhos que mostravam cenas da campina romana, cada um mais bonito que o outro. Mas não quero me antecipar: voltemos à Vila Maria Teresa, na penúltima década do século XIX. Ali Mamãe passou a infância e, terminados os estudos, a juventude. Era uma criança tão viva que Nonno a chamava, muitas vezes, dizendo: "Acino-e-pepe – grão de pimenta no dialeto napolitano – venha cá!" Era a predileta do pai e, como líder, arrastava todo o bando de irmãos e irmãs em direção à praia. Naquela época, a Croisette não era mais que uma estrada de terra que se podia atravessar sem perigo, para descer o barranco e chegar à areia aquecida pelo sol, e, rapidamente, entrar na água, onde se podia tomar um delicioso banho na doçura do mar Mediterrâneo. Depois do almoço, havia mil atrações à disposição de toda aquela criançada, no jardim. Uma palmeira bem alta era usada como poleiro. Um dia, Mamãe subiu nela, desobedecendo aos apelos imperativos de sua governanta que, não conseguindo convencê-la, foi buscar uma escada e subiu atrás dela. Acino-e-pepe não pensou duas vezes: saltou da árvore e retirou a escada, deixando a chorosa governanta a gritar desesperadamente por socorro. Mamãe que gostava de rememorar sua vida naquele casarão, me contava também que, à noite, um empregado abastecia de óleo as

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lamparinas das crianças, que ficavam alinhadas na copa, aonde cada uma ia pegar a sua para subir para o quarto. A escada que levava aos andares superiores era muito escura, pois não tinha janelas. A fila de crianças caminhava à luz vacilante das lamparinas, num silêncio um pouco angustiado, até um certo ponto onde, num recanto, se deparavam com uma estátua de bronze negro. Então, simultaneamente todos se punham a saltar os degraus, de quatro em quatro, para se afastar daquele lugar aterrorizante e atingir o segundo andar, onde estavam as empregadas prontas para ajudá-los a se despir e se deitar. Só então se sentiam a salvo. No verão, a família deixava "o grande calor do litoral". Subiam a Saint-Martin-Vésuby , onde costumavam alugar um chalé por toda a estação. Na época, a viagem era uma verdadeira expedição. Tomavam o trem até Nice. Lá, num carro a cavalos, onde cada um se instalava como podia, partiam de manhã para chegar no final da tarde. As crianças, na maior parte do tempo, saltavam a viatura e corriam na frente ou do lado dos cavalos. O descanso era a parada para a merenda. O copeiro que acompanhava a família estendia uma toalha branca num prado semeado de pequenas flores silvestres de todas as cores. Abasteciam-se as garrafas com uma água quase gelada, num um regato que descia da montanha. Depois do almoço, voltavam à viatura corajosamente. Os adultos, um pouco sonolentos, se deixavam embalar pelo passos dos cavalos e, quando se avistava o chalé, já estava terminando o dia. Entretanto, no fundo, Mamãe não gostava dessas vilegiaturas nas montanhas, que a privava da vida cotidiana da Vila Maria Teresa, que ela amava acima de tudo. Sua maior alegria era, na viagem de volta, numa curva da estrada, avistar o Mediterrâneo, ao longe, bri-lhando ao sol. Nesse momento, ela sabia que, logo o trem estaria na estação de Cannes, que logo voltaria a seu quarto, onde, no dia seguinte, poderia abrir totalmente as persianas para aspirar o odor do mar e escutar o doce marulhar das ondas que deslizavam sobre a areia e pareciam lhe dizer: "Você voltou". Gostaria de saber contar, com a mesma vivacidade de Mamãe, todos os fatos de sua vida. Havia uma história que me fascinava, pois mostrava bem a coragem e a têmpera de Nonna. Numa noite, na Vila Maria Teresa, depois do jantar, Nonno tinha saído e Nonna se encontrava na sala de estar com Lilly e alguns filhos. A calma reinava na casa quando, de repente, a porta da sala se abriu e um empregado, Vicente, entrou todo assustado, dizendo: – "Gustavo está querendo matar todo mundo. Ele bebeu demais e está nos ameaçando com o facão de cozinha". "Mas, onde?" – perguntou
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Nonna. – "No alto da escada de serviço, armado com o facão e proferindo injúrias contra nós, aos gritos". – "Pois bem, deixe comigo", e ela subiu a escada de serviço, seguida pelo empregado todo trêmulo. Gustavo estava no patamar, gritando e brandindo o facão. Nonna foi em sua direção e, olhando-o diretamente nos olhos, disse-lhe: "Dê-me isso". O homem caiu em si e lhe entregou a arma, chorando. A coragem de Nonna era tão célebre quanto seu juízo sobre as pessoas. Quase sempre, quando precisava contratar um empregado, era ela que o entrevistava. Nunca se enganou, mesmo se, algumas vezes, por uma questão de escrúpulos e de caridade cristã, atenuasse sua desaprovação, com as palavras "Vamos pensar um pouco mais sobre o assunto". Havia, também, o entrelaçamento de famílias. Uma irmã de Nonno, Maria das Graças , tinha se casado com Roberto I , duque de Par-ma, que era por sua mãe, Luísa de França , sobrinho do próprio Conde de Chambord. Mamãe era sua afilhada e, muitas vezes, ia para a casa do padrinho, onde de podia estar com um imenso número de primos e primas. O duque de Parma tinha tido vinte e quatro filhos: doze com Maria das Graças das Duas-Sicílias, e doze com Maria Antônia de Bragança . Três filhas da segunda dúzia entraram para o convento das beneditinas, depois de terem sido moças alegres, cheias de idéias novas e de fantasias. Um dia, duas delas apareceram diante dos pais, de cabelos cortados como rapazes e vestidas com ternos dos irmãos. Pode-se imaginar o espanto dos duques de Parma. As três se tornaram religiosas no mosteiro de Santa Cecília em Solesmes . Muitas vezes as visitei, acompanhando Mamãe. Faziam-nos entrar num dos locutórios, separado da clausura por uma grade de madeira. Após algum tempo, uma cortina era afastada e ouvia-se: "Deo gratias, Pia, como estamos contentes em revê-la! Depois, as recordações jorravam através da grade. Elas eram três, depois somente duas. A última sobreviveu às outras por muito tempo . Chamavam-se Adelaide (Madre Maria Benedita OSB), Francisca Josefa (Madre Escolástica OSB) , ambas abadessas de Santa Cecília, e Maria Antônia (Irmã Maria Antônia OSB) . Outra irmã, Zita , imperatriz da Áustria e rainha da Hungria e da Boêmia, vinha passar algumas semanas na abadia de Solesmes para estar com as irmãs. Mesmo depois da morte da irmã Maria Antônia (1937) e de Madre Maria Benedita (1978), ela continuou ainda suas visitas, nunca esquecendo de avisar Mamãe de que estava lá. Eu também costumava acompanhar Mamãe. O locutório reservado para a imperatriz era no fim do corredor. Subíamos alguns degraus e entrávamos numa peça um pouco maior do que a que a das religiosas, mas sempre com o mesmo cerimonial da cortina afastada em último lugar, e evocavam-se, de novo, as lembranças de outrora,
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transmitindo-se notícias de todos os casamentos e nascimentos dos parentes. A imperatriz veio a falecer aos noventa e sete anos, em 1989. Era preciso muito espaço para alojar uma família tão grande. O Duque de Parma ocupava a "Villa Pianore" , grande mansão de estilo indefinido, de uma cor entre o rosa e o vermelho, situada entre Viareggio e os contrafortes das montanhas de Carrara . Ali, a vida era muito simples. O dia começava, como na Vila Maria Teresa, pela missa matinal e, depois do café da manhã, o Duque de Parma amontoava, como podia, seu bando todo numa charrete de bancos de madeira, e os levava até Viareggio, onde os despejava na praia. Assim, os parentes mutuamente se conheciam. Havia tempo de sobra, os vínculos de família eram mais fortes do que atualmente, quando a rapidez dos meios de transporte não facilita a duração das estadias, e as dificuldades de manter uma casa grande, muitas vezes, encurtam o tempo de duração das visitas. Os jovens Bourbons-Sicília cresceram nessa atmosfera de relacionamento exclusivamente familiar, que se tornou mais amplo no final do século XIX. Foi, para Cannes, uma época excepcional. Pouco a pouco, todas as famílias reais tomaram o hábito de passar ali o inverno. As grandes famílias francesas e, até mesmo, numerosas famílias inglesas, a exemplo de Lord Brougham , tinham lá sua casa de praia. Uns deixavam os gelos do norte, outros vinham encontrar parentes e amigos. A rainha Vitória da Grã-Bretanha costumava se instalar em Nice, no alto de Cimiez, numa casa cuja entrada principal era vigiada por dois guarda-costas ingleses reforçados por dois policiais franceses. Contase que, deixando Nice no fim de uma temporada, ela mandou um presente aos policiais: um recebeu um relógio de bolso, o outro, a corrente... Os grãos-duques russos preferiam Cap d'Antibes, enquanto os grãosduques de Mecklemburg-Schwerin eram fiéis a Cannes. Alexandrina , sua filha mais velha, futura rainha da Dinamarca, a irmã desta, Cecília , futura princesa imperial da Alemanha, a princesa Maria Urussov e Mamãe formavam um quarteto de amigas jovens, belas e muito elegantes. As saias longas, os cintos largos que apertavam as cinturas finas, as blusas cujos plissados subiam até a gola, as barbatanas que seguravam a camiseta que cobria o pescoço, os penteados altos, encimados de chapeuzinhos de ráfia levemente inclinados sobre a testa, davam um encanto especial às fisionomias de então.

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Maria Urussov, Cecília de Mecklemburg-Schwerin e Mamãe acompanharam, com interesse, as peripécias do noivado e do casamento de Alexandrina, que teve lugar em Cannes, a 10 de abril de 1898, com o futuro Cristiano X, Rei da Dinamarca. Uns trinta anos mais tarde, eu, meu irmão Luís Gastão e Mamãe voltávamos de carro para casa. Ela tinha apanhado a correspondência no correio e, abrindo uma carta, apoiou, desastradamente, o cotovelo na maçaneta da porta que se abriu, e a atirou para fora, justamente quando passávamos sobre a ponte de Riou, entre Mandelieu e La Napoule . Foi tudo tão rápido que não tivemos tempo de segurá-la. Paramos o carro e corremos para levantá-la. Ela tinha batido a cabeça contra o calçamento da ponte e apresentava uma forte contusão. Apesar de tudo, não tinha perdido a consciência e só pensava em recuperar as cartas espalhadas na estrada, aqui e ali. Nós a levamos para casa e chamamos urgentemente o médico que procurou nos tranqüilizar, pois tinha constatado que o ferimento sangrara abundantemente. Mesmo assim, deixou o diagnóstico final para o dia seguinte, e tivemos de ficar na angústia da espera. Enquanto estávamos junto de Mamãe, a rainha Alexandrina chegou à nossa casa. O mordomo, ainda assustado, lhe disse afobadamente: "Sua Alteza Imperial não está". A rainha entendeu que algo de grave tinha se passado e não insistiu. No dia seguinte, pediu notícias de Mamãe pelo telefone, lamentando não ter podido vê-la, já que estava de volta, naquele mesmo dia, para a Dinamarca. Pouco antes, cerca de 1925, estávamos na sala do palacete de Boulogne quando Alfredo, o mordomo, anunciou: "A condessa Igna-tiev". Uma mulher de aspecto pobre, que, apesar de tudo, conservava um ar de grande distinção, entrou. Mamãe a reconheceu imediatamente: "Maria Urussov!" e, estupefata, a abraçou e beijou. A condessa Ignatiev estava chegando da Rússia na maior pobreza. Seu marido tinha sido assassinado pelos bolchevistas, mas ela e os filhos tinham se salvado graças a Gilbert, embaixador da França, que facilitara sua saída da Rússia. Como as reações são estranhas nos momentos de grande emoção! Ouço, ainda, a condessa Ignatiev dizer a Mamãe: "Pia, você não imagina quanto é bom voltar a pisar num tapete!" No tempo da monarquia, ela tinha sido dama de honra das grãsduquesas , e duvidava, ainda, da realidade do massacre de Ekaterimburg , apresentando, como prova, que os relatórios oficiais citavam que tinham sido encontradas, junto aos restos mortais, barbatanas de coletes, mas que as grãs-duquesas absolutamente não as usavam. Desde então, passou a vir freqüentemente a Boulogne, com seus três filhos e sua filha Olga Alekseievna. Trabalhando para
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pagar-lhes os estudos, pintava echarpes de seda, então, muito na moda. Admirávamos sua coragem. Fui visitá-la em Vanves , logo após a II Guerra Mundial. Ela morava num apartamentinho modesto, e morreu pouco tempo depois. A guerra tinha transtornado o mundo e separado as famílias reinantes. Mamãe nunca mais viu a rainha Alexandrina, nem, evidentemente , a princesa imperial da Alemanha, que parece não ter sido muito feliz no casamento. Mas é preciso voltar atrás para conhecer as circunstâncias que aproximaram D. Luís do Brasil e Maria Pai de Bourbon-Sicília. Como já contei, D. Pedro II mantinha relações com os primos exilados e, ele mesmo no exílio, reatou esses vínculos, vindo visitá-los em Cannes. Havia, também, outras ocasiões de encontros de família quando meus avós Caserta iam a Paris visitar a rainha Maria Sofia , viúva de Francisco II, último rei das Duas-Sicílias, que tinha sustentado, heroicamente, o cerco de Gaeta junto com o marido. Nonna exigia que os filhos fossem cumprimentar a última rainha das Duas-Sicílias. Mamãe seguia esse exemplo e, um belo dia, chegou a minha vez de fazer reverência à rainha, pouco antes da morte desta . É uma lembrança da infância que me vem à memória enquanto escrevo: vejo-me entrando, um tanto emocionada, na sala de visitas de um pequeno palacete em Neuilly . A peça era guarnecida de pesadas cortinas que tornavam a atmosfera ainda mais pesada, e de um tapete grosso que abafava o ruído dos passos, e eis-me fazendo uma reverência diante de uma senhora toda de preto, com uma mantilha na cabeça. Ela me pareceu muito magra e alta, embora estivesse sentada numa poltrona. A conversa entre ela e Mamãe ficou nos meandros do esquecimento, pois eu me sentia petrificada pela presença histórica daquela senhora, cuja coragem e heroísmo Mamãe evocava tantas vezes. Quando Mamãe completou dezoito anos , meus avós julgaram que seria conveniente e bom levar as três filhas mais velhas à Áustria para apresentá-las à corte de Francisco José. Mamãe nos contou essa viagem e guardava uma lembrança particularmente impressionante, sobretudo da recepção no Hofburg, palácio imperial de Viena. A maioria dos homens usava uniformes; as senhoras, vestidos de seda bordada, que desciam até o chão; e as moças que iam se apresentar ao imperador usavam, igualmente, um vestido longo, de preferência branco, ou, ao menos, de cor clara. As princesas e as senhoras de uma certa idade levavam diademas. Esperavam conversando. Algumas, tímidas como Mamãe, não falavam, mas observavam bem aquele cenário de outrora.

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Depois de um certo tempo, o mordomo anunciou: "Sua Majestade, o Imperador!". O silêncio foi completo, o hino imperial começou, os homens puderam-se em posição de sentido, as senhoras se prepararam para a reverência, cada uma se curvando à medida eu o imperador passava diante delas. A imperatriz Elisabeth tinha, então, sessenta e um anos e ainda era muito bonita, mas nunca se recuperara do choque produzido pela morte trágica de seu filho Rodolfo, em Mayerling . Ela fugia o mais que podia de suas obrigações de imperatriz, fazendo longas viagens pelo sul da Europa. Deveria, assim, encontrar a morte dois anos mais tarde, assassinada na beira do lago de Genebra, por um anarquista . No dia seguinte, houve um jantar em família no lindo palácio de Schönbrunn. A atmosfera foi menos rígida, ainda que as regras do protocolo fossem mantidas . Almoçava-se rapidamente na corte da Áustria. Os copeiros retiravam os pratos logo que o último convidado era servido. Parece que esse hábito permitia às damas e aos empregados ligados ao imperador se alimentarem com o que sobrava das bandejas. No fim de vinte minutos, o imperador se levantava: a refeição tinha terminado. Realmente, nunca tomava muito tempo. De Viena, Nonno e Nonna levaram as filhas a Munique, onde a acolhida foi bem mais simples e descontraída. Entretanto, houve um almoço de gala oferecido pelo regente da Baviera. Mamãe sempre me dizia o quanto esse almoço descontraído, ainda que bem régio, a tinha agradado. Atrás de cada convidado, postava-se um jovem lacaio em uniforme com as cores do país: azul e branco. A neta do regente, Maria da Baviera deveria se casar com o irmão mais velho de Mamãe, tio Nando, Duque de Calábria. Era assim que se formavam os vínculos entre todas as famílias reais da Europa. A I Guerra Mundial parece, com o passar dos tempos, uma insensatez difícil de se explicar. De certa maneira foi uma guerra entre parentes próximos, dirigida por forças ocultas que, em seguida, se apoderaram do poder nos diversos estados marcados por milhões de mortos nos campos de batalha.

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D. LUÍS DO BRASIL Antes de falar do primeiro encontro de meus pais, é preciso que eu fale dos ancestrais de D. Luís do Brasil, de sua infância e de sua juventude, como fiz com Maria Pia de Bourbon-Sicília. Sabemos que o Brasil foi descoberto por Portugal que, como não podia deixar de ser, utilizou o único meio possível na época para colonizá-lo: a escravidão africana. Portugal não foi seu inventor, e o colono português não foi o pior senhor dentre todos os europeus que colonizaram a América. Mas não se pode deixar de perguntar: como um país eminentemente cristão pôde agir dessa forma sem nenhum remorso digno de nota? Embora a colonização portuguesa no Brasil não fosse de modo a desenvolver o país, pois Portugal, sempre em luta para se defender da absorção castelhana, nunca pôde conceber uma monarquia múltipla, ela terminou de maneira bem melhor do que a colonização espanhola. Por incrível que pareça, deve-se isso a Napoleão1. Invadindo Portugal em 1807, Napoleão não imaginava que o Príncipe NAPOLEÃO I 1º Cônsul da França (09-11-1799/08-05-1804), Imperador do Franceses (18-05-1804/11-04-1814 e 01-03/09-061815), Chefe da Casa Imperial da França (09-06-1815/05-051821)(* Ajácio, Córsega, 15-08-1869; † Santa Helena, 05-05-1821), filho de Carlos Bonaparte e de Letícia Ramolino; X I Paris, França, 09-03-1896, ÷ ibd. 16-02-1809, Maria Rosa JOSEFINA Tascher de La Pagérie (* Saint Pierre, Martinica, 23-06-1763; † Malmaison, França, 29-05-1814), filha de José Gaspar Tascher de La Pagérie e de Rosa Clara des Veergers de Sannois, s.s., X II Viena, Áustria, 11-03, e Paris, 01-04-1810 MARIA LUÍSA Leopoldina Francisca Teresa Josefa Lúcia, arquiduquesa da Áustria (* Viena, 07-12-1891; † ibd. 17-121847), filha de Francisco I, Imperador da Áustria, e de Maria Teresa, princesa de Nápoles e Sicília, de quem teve um filho, Napoleão II (Rei de Roma), Duque de Eichtädt, Chefe da Casa Imperial da França.
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Regente, D. João2, que governava o país em nome de sua mãe, a Rainha Maria I3, então interditada, fosse um adversário de peso. Entretanto, D. João fez a única coisa que deveria fazer: fugiu para o Brasil com todo o governo, não se deixando aprisionar pelos franceses como acontecera com quase todos os soberanos europeus. Uma vez no Brasil, D. João transformou a colônia numa nação. Foi, realmente, o fundador da nacionalidade brasileira. Elevou o Brasil a reino unido a Portugal, concedendo-lhe a soberania. Com a morte da rainha4, tornou-se D. João VI, nome pelo qual é mais conhecido, embora sempre de maneira caricata. Expulsos os franceses, o rei não

JOÃO VI Maria José Francisco Xavier de Paula Luís Antônio Domingos Rafael, o Clemente, infante de Portugal, Príncipe Real de Portugal e Algarves (11-09-1788/20-03-1816) e do Brasil (15-121815/20-03-1816), Regente de Portugal e Algarves (01-03-1792/2003-1816) e do Brasil (15-12-1815/20-03-1816), Rei de Portugal e Algarves (20-03-1816/1820), Rei de Portugal (1820/10-03-1826) e do Brasil (20-03-1816/07-09-1822)( * Lisboa, Portugal, 13-05-1767; † ibd. 10-03-1826); X ibd. 09-01-1790, CARLOTA JOAQUINA Teresa, infanta da Espanha, (* Madri, Espanha, 14-04-1775; † Queluz, Portugal, 06-01-1830), filha de Carlos IV, Rei da Espanha, e de Maria Luísa, princesa de Parma, de quem teve oito filhos, entre os quais Pedro I (IV), Imperador do Brasil e Rei de Portugal, Miguel I, Rei de Portugal (usurpador) e Isabel, rainha da Espanha. Sucedeu sua mãe, Maria I, em 20-03-1816, sendo sucedido por seu filho Pedro IV (I), em 10-03-1826. 3 MARIA I Francisca Isabel Josefa Antônia Gertrudes Rita Joana, Princesa da Beira (17-02-1734/31-08-1750), a Piedosa, Princesa Real de Portugal e Algarves (31-08-1750/24-02-1777), Rainha de Portugal e Algarves (24-02-1777/20-03-1816) e do Brasil (16-12-1815/20-031816) (* Lisboa, Portugal, 17-02-1734; † Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 20-03-1816), filha de José I, Rei de Portugal e Algarves, o Reformador, e de Mariana Vitória, infanta da Espanha; X Lisboa, Portugal, 06-06-1760 PEDRO III Clemente Francisco José Antônio3, infante de Portugal, prior do Crato, Príncipe Real Titular de Portugal e Algarves (31-08-1750/24-02-1777), Rei Titular de Portugal e Algarves (24-02-1777/25-05-1786)(* Lisboa, Portugal, 05-07-1717; † ibd. 05-03-1786) (* Lisboa, Portugal, 24-08-1717; † ibd. 25-051786), filho de João V, Rei de Portugal e Algarves, o Magnânimo, e de Maria Ana, arquiduquesa da Áustria; de quem teve seis filhos, entre os quais D. João VI, Rei de Portugal e do Brasil. Sucedeu seu pai D. José I, em 24-02-1777, sendo interditada em 01-03-1792, e foi sucedida por seu filho D. João VI em 23-03-1816. 4 23 de março de 1816.
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voltou imediatamente a Portugal. Quando, finalmente, foi embora, deixou seu filho, o Príncipe Real D. Pedro5, como regente do Brasil. O resto se sabe. A assembléia constituinte, onde os deputados portugueses eram a maioria, querendo anular a soberania brasileira, provocou a reação da independência. D. Pedro, decidindo permanecer no Brasil6 e enfrentando as ordens da constituinte, sempre ajudado pela esposa, D. Leopoldina da Áustria7, acabou por proclamar a independência em 7 de setembro de 1822. Seria o imperador D. Pedro I. Após um início tão promissor, não se pode dizer que o governo de D. Pedro I fosse bom. Hoje, com estudos mais profundos e mais isentos, ele talvez possa ser julgado mais benignamente. Sabemos, entretanto, que sua queda foi provocada pela "fala do trono" que iria pronunciar em 3 de maio de 1831, diante da Assembléia Geral8: ela pedia estudos sobre a abolição da escravatura. PEDRO I e IV de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim, o Rei-Soldado, infante de Portugal, Príncipe da Beira (11-06-1801/2003-1816) e do Grão-Pará (15-12-1815/20-03-1816), Príncipe Real de Portugal (20-03-1816/10-02-1826) e do Brasil (15-12-1816/07-091822), Regente do Brasil (26-04-1821/07-09-1822), Imperador do Brasil (07-09-1822/07-04-1831), Rei de Portugal (10-03/02-051826), Regente de Portugal (01-07-1828/20-09-1834), Duque de Bragança (07-04-1831/29-09-1834)( * Lisboa, Portugal, 12-10-1798; † ibd 29-09-1834), filho de D. João Vi, Rei de Portugal e do Brasil, e de Carlota Joaquina, infanta da Espanha. X I Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 06-11-1817, Maria Leopoldina, arquiduquesa da Áustria, de quem teve seis filhos, entre os quais Maria II, Rainha de Portugal, e D. Pedro II, Imperador do Brasil. X II Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 0208-1929, Maria AMÉLIA Augusta Eugênia Napoleona de Beauharnais, princesa de Leuchtenberg (* Milão, Itália, 31-07-1812; † Lisboa, Portugal, 26-01-1873), filha de Eugênio de Beauharnais, Príncipe de Leuchtenberg, e de Amélia Augusta, princesa da Baviera, de quem teve uma filha. Sucedeu a seu pai, D. João VI, e foi sucedido no Brasil por D. Pedro II, em 07-04-1831, e em Portugal, por D. Maria II, em 02-05-1826, seus filhos. 6 9 de janeiro de 1822, "Dia do Fico". 7 Maria LEOPOLDINA Josefa Carolina7, arquiduquesa da Áustria (* Viena 22-01-1797; † Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 11-12-1826), filha de Francisco I, Imperador da Áustria (Francisco II, Imperador da Alemanha) e de Maria Teresa, princesa de Nápoles e Sicília. X I Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 06-11-1817,D. Pedro I (IV), Imperador do Brasil e Rei de Portugal, de quem teve seis filhos. 8 Parlamento.
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Seu filho, D. Pedro II, de que falei no início deste relato, começou a governar com cinco anos de idade. Aos quinze, foi declarado maior já que as regências que vinham governando em seu nome, em atos cada vez mais desastrados, quase acabaram com a unidade do Brasil. Desde sua maioridade, a política brasileira começou a se estabilizar. D. Pedro II governou pessoalmente o país durante quarenta e nove anos. Foi o período áureo da História do Brasil. Vale a pena recordar que D. Pedro II era o oposto de um autocrata, tudo fazendo para que o estado brasileiro chegasse a uma democracia plena9. Gostava da vida em família, dos estudos e do contato com escritores. Sua correspondência com Gobineau10 é importante e célebre11. Em certo sentido, ele era o oposto a seu pai, D. Pedro I, que, encantador e brilhante, sempre a cavalo, galopando de uma fazenda à outra, tinha perdido a conta de suas conquistas amorosas. Seu casamento com Teresa Cristina Maria, filha de Francisco I, Rei das Duas-Sicílias, começou realmente com uma grande decepção. Os casamentos régios se faziam – freqüentemente, obrigatoriamente no caso do Brasil12, separado pelo oceano das cortes da Europa – de longe. Uma das filhas13 de Francisco I foi escolhida. Mandaram ao imperador um retrato em miniatura da princesa jovem e bonita. Mas, quando esta viu que era preciso atravessar o oceano e deixar a família para sempre14, ela voltou atrás e recusou, peremptoriamente, a honra que lhe era oferecida. Sua irmã Teresa Cristina Maria se Não confundir democracia com república. José Artur, conde de Gobineau (* Paris, França, 14-07-1816; † Turim, Itália, 13-10-1882). Diplomata (Irã, Alemanha, Grécia, Brasil e Suécia), filósofo e escritor francês. 11 Como também os contatos com Vítor Hugo e Pasteur. 12 Como foi o caso de D. Pedro I, em seus casamentos com Leopoldina da Áustria e Amélia de Leuchtenberg, onde as esposas só foram vistas pelos maridos ao chegarem ao Brasil. 13 Maria CAROLINA Fernanda, princesa das Duas-Sicílias (* Nápoles, 29-11-1820; † Triste, Itália, 14-01-1861), filha de Francisco I, Rei das Duas-Sicílias, e de Isabel, Infanta da Espanha. X Caserta, Itália, 10-07-1850, CARLOS ("VI") Luís Maria Fernando, infante da Espanha (31-01-1819/29-03-1830), pretenso Herdeiro do Trono Espanhol (2903-1830/18-05-1845), Pretendente ao Trono Espanhol (18-051845/13-01-1861). Conde de Montemolin (* Madri, Espanha, 31-01-1818; † Trieste, Itália, 13-01-1861), filho de Carlos ("V"), infante da Espanha, Pretendente ao Trono Espanhol, e de Maria Francisca, Infanta de Portugal, s.s. 14 Realmente Teresa Cristina só voltou a Europa, em passeio, em 1871, quando sua mãe, parte de seus irmãos e o próprio reino das Duas-Sicílias não mais existiam.
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prontificou e aceitou partir em seu lugar. Ela não era nenhuma beleza15, e a longa travessia, empreendida depois da cerimônia de casamento por procuração (30 de maio de 1843) com um desconhecido, ainda que fosse um imperador, sem dúvida não melhorou as coisas. Quando anunciaram a chegada do navio que trazia a jovem esposa16, D. Pedro II correu para vê-la, mas não pôde reter uma exclamação de desaponto: "Como ela é feia!" Entretanto, Teresa Cristina Maria, pouco a pouco, foi ganhando o coração do povo que lhe deu o título de "Mãe dos Brasileiros". Por outro lado, o imperador sentiu-se tocado pela doçura e bondade sem limites de sua esposa. Foram, até o fim da vida, um casal feliz. Infelizmente, as mortes dos filhos homens17 vieram enlutar os primeiros anos do casamento. Entretanto, em 29 de julho de 1846, nascera minha avó Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga, que se tornaria Princesa Imperial do Brasil, cognominada "a Redentora", a quem, mesmo na França, chamaríamos de "Vovó". Vou recordar algumas passagens da vida de D. Pedro II. Como já disse, ele procurava se instruir sempre. Em 1876 empreendeu uma viagem aos Estados Unidos, comparecendo à Exposição de Filadélfia18, onde reconheceu um professor a quem tinha sido apresentado em Boston quando visitava uma escola para surdosmudos. O professor se chamava Alexandre Graham Bell19 e disse ao imperador de sua tristeza: tinha trazido à exposição uma nova invenção que os juizes tinham desprezado. D. Pedro II se interessou,
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Talvez esse fato explique a diferença entre o retrato mandado e a realidade. 16 03 de setembro de 1843. O casamento foi realizado no dia seguinte. 17 AFONSO Pedro de Alcântara Cristiano Leopoldo Filipe Eugênio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga, Príncipe Imperial do Brasil (23-021845/11-06-1847)(* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 23-02-1843; † ibd. 11-06-1847); e PEDRO AFONSO Cristiano Leopoldo Miguel Gabriel Rafael Gonzaga, Príncipe Imperial do Brasil (19-07-1848/09-011850)(* Rio de Janeiro, RJ, 19-07-1848; † ibd. 09-01-1850). 18 Dia 25 de junho de 1876. 19 Alexandre Graham Bell (* Edimburgo, Escócia, 03-04-1847; † Breinn Bhreagh, Canadá, 02-08-1922), filho de Alexandre Melville Bell e Elisa Grace Simonds. X Boston, EUA,11-07-1877 Mabel Hubards, filha de Gradiner Greene Hubard, de quem teve quatro filhos. Professor de sudos-mudos e inventor do telefone, membro da Academia de Ciências dos Estados Unidos, colaborou com diversas invenções (fonógrafo, fotografia, aviação). Naturalizou-se ianque em 1882.
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fazendo com que os juizes experimentassem a invenção. Foi um espanto geral e a invenção faz sensação: era o primeiro telefone. No Museu Imperial de Petrópolis, antigo palácio de verão, pode-se ver, sobre a escrivaninha do imperador, aquele famoso telefone. Não é preciso dizer que, durante o reinado de D. Pedro II, o Brasil se desenvolveu de maneira extraordinária. O imperador procurava fazêlo progredir sempre mais, mediante a aquisição de todo o tipo de novidades20. Mas, o mais importante era que D. Pedro II era abolicionista. Sempre procurou minorar o sofrimento dos escravos quer com medidas governamentais a seu alcance, quer de seu próprio bolso. São inúmeros os exemplos onde o imperador adquiriu escravos de particulares para alforriá-los. A primeira medida governamental foi, em 4 de setembro de1850, com a Lei Eusébio de Queiroz (n. 581), que abolia o tráfico negreiro. Estancava-se, assim, a maior fonte da produção de escravos no Brasil. Era pouco, mas era o primeiro passo. Contaram que, um dia, ele de encontrou de frente com um negro que, manifestamente, não fazia esforços para lhe ceder a passagem. D. Pedro II, tranqüilamente, desceu da calçada diante do olhar indignado de seu ajudante de ordens, que lhe perguntou: "Como Vossa Majestade pôde se rebaixar diante de um negro?" A resposta veio imediata e calma: "Se eu não lhe ensinar a polidez, quem ensinará?" D. Pedro II fez questão de que Vovó recebesse uma educação primorosa, que a tornasse digna e capaz de sucedê-lo no governo do Brasil. Contratou, como preceptora, a condessa de Barral21, cuja influência nos sentimentos da aluna não pode ser esquecida.

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Estrada de ferro, telégrafo, cabo submarino, telefone, etc. Luísa Margarida Portugal Borges de Barros, Condessa de Pedra Branca (16-12-1864/13-01-1891)(* Salvador, Brasil, 13-04-1816; † Voiron, França, 13-01-1891), filha de Domingos Borges de Barros, Visconde de Pedra Branca, e de Maria do Carmo Gouveia Portugal. X Boulogne-sur-Mer, França, 19-04-1837, João José HORÁCIO Eugênio (* Paris, França, 21-10-1812; † ibd. 21-03-1868), Conde du Barral e Marquês de Montferrat, de quem teve um filho, Domingos, Conde du Barral e Marquês de Montferrat. Mulher de grande cultura e inteligência, preceptora das filhas de D. Pedro II, teve grande influência sobre suas pupilas, e era a grande amiga e confidente do imperador.
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Por outro lado, meu avô paterno, o conde d'Eu22, a quem chamávamos de Bon-Papa, era filho mais velho do duque de Nemours23. Como todos os Orléans24, ele desejava seguir a carreira militar, mas não podia fazê-lo na França, onde o governo de Napoleão III25 proibia aos descendentes dos reis franceses entrar no exército. Voltou-se para a Espanha26, onde reinavam os Bourbons. A Luís Filipe Maria GASTÃO (I), príncipe de Orléans-Nemours, Conde d'Eu, Príncipe Imperial Consorte (15-10-1864/05-12-1891), Chefe Consorte da Casa Imperial do Brasil (05-12-1891/14-11-1921), 1º Príncipe de Orléans e Bragança (24-09-1909/28-08-1922), Regente da Casa Imperial do Brasil (14-11-1921/28-08-1922)(* Neuilly-doSena, França, 28-04-1942; † a bordo do "Massília" 28-08-1922), filho de Luís, príncipe de Orléans, Duque de Nemours, e de Vitória Antonieta, princesa de Saxe-Coburgo-Gotha. X Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 15-10-1864, Isabel (I), Chefe da Casa Imperial do Brasil, der quem teve três filhos, entre os quais Luís, Príncipe Imperial do Brasil, e Pedro de Alcântara, 2º Príncipe de Orléans e Bragança. 23 LUÍS Carlos Filipe Rafael, príncipe de Orléans, Duque de Nemours (* Paris, França, 25-10-1814; † Versalhes, França, 26-06-1896), filho de Luís Filipe, Rei dos Franceses, e de Maria Amélia, princesa de Nápoles e Sicília; X Saint Cloud, França, 27-04-1840, VITÓRIA Francisca ANTONIETA Juliana Luísa, princesa da Saxe Coburgo Gotha (* Viena, Áustria, 26-02-1822; † Claremont, Inglaterra, 10-11-1857), filha de Fernando, príncipe de Saxe-Coburgo-Gotha e de Antonieta, princesa de Koháry, de quem teve quatro filhos: Gastão, conde d'Eu, Fernando, duque de Alençon, Margarida, princesa Ladislau Czartoryski, e Branca. 24 Ramo caçula da Casa Real de França, os Orléans tinham chegado ao trono pela revolução de 1830, que fez de Luís Filipe, duque de Orléans, "rei dos Franceses". O Duque de Nemours era o segundo filho de Luís Filipe e de Maria Amélia das Duas-Sicílias, tia-avó de D. Pedro II, da Princesa Isabel (através da imperatriz), e dos Condes de Caserta, 25 Carlos Luís NAPOLEÃO III, príncipe Bonaparte, príncipe da Holanda, Presidente da República (10-12-1848/02-12-1852) e Imperador do Franceses (02-12-1852/21-05-1870) e Chefe da Casa Imperial da França (21-05-1870/02-12-1873)(* Paris, França, 20-04-1808; † Chislehust, Inglaterra, 09-01-1873), filho de Luís, príncipe Bonaparte, Rei da Holanda, e de Hortênsia, Beauharnais, condessa de Saint Leu, X Paris, França, 29 e 30-01-1853 Eugênia Maria Palafox y Kirkpatrick, condessa de Teba (* Granada, Espanha, 05-05-1826; † Madri, Espanha, 11-07-1920), filha de Cipriano Palafox, conde de Montijo, grande de Espanha, e de Maria Manuela Kirkpatrick, de quem teve um filho, Napoleão (IV), Chefe da Casa Imperial da França. 26 O duque de Nemours conseguira de seu irmão, Antônio de Orléans, Duque de Montpensier, casado com a Infanta Luísa, irmã da Rainha Isabel II, a colocação de seu filho no exército espanhol.
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Rainha Isabel II27aceitou que ele seguisse os cursos da Academia Militar de Segóvia. No fim do curso de suboficial, recebeu da rainha a patente de subtenente do exército espanhol. A Espanha estava, então, em guerra com o Marrocos. O general O'Donnell28, comandante geral, tomou o conde d'Eu como ajudante de ordens. Na batalha de Tetuan, Gastão de Orléans demonstrou uma coragem e uma audácia prodigiosas e, no fim da campanha, foi condecorado com a Ordem Militar de Isabel II e recebeu a patente de capitão. Tinha 18 anos somente ... Assinada a paz entre a Espanha e o Marrocos, Bon-Papa voltou a Segóvia para terminar os estudos o curso de oficial, que tinha começado antes da guerra. Dois anos mais tarde, em 1864, quando tinha 22 anos, partiu para o Brasil em companhia de seu primo-irmão Augusto de Saxe-CoburgoGotha29. Os dois primos pensavam em se casar30 e desejavam Maria ISABEL II Luísa, Infanta da Espanha, Princesa Real da Espanha (10-03-1830/29-09-1833), Rainha da Espanha (29-091833/30-09-1868), Chefe da Casa Real da Espanha (30-09-1868/2501-1870)(* Madri 10-03-1830; † Paris, França, 09-04-1904), filha de Fernando VII, Rei da Espanha, e de Maria Cristina, princesa das Duas-Sicílias; X Madri, Espanha, 10-10-1846, Francisco de Assis, infante da Espanha, Rei Titular da Espanha (10-10-1846/30-091868), Duque de Cádiz, filho de Francisco de Paula, infante da Espanha, Duque de Cádiz, e de Luísa, Princesa das Duas-Sicílias, de quem teve nove filhos, entre os quais Afonso XII, Rei da Espanha. Sucedeu seu pai Fernando VII, em 29-09-1833, e foi sucedida por seu filho Afonso XII, em 29-12-1874. 28 Leopoldo O'Donnell (* Santa Cruz de Tenerife, Canárias, Espanha, 12-01-1809; Bayonne, França, 05-11-1867), general e estadista espanhol, lutou por Isabel II contra os carlistas; Com o golpe do general Espartero, seguiu a regente Maria Cristina ao exílio; Com a queda de Espartero (1856) voltou a Espanha, onde foi várias vezes primeiro ministro (1856, 1858-63, 1865-6). Sua política foi moderada. Chefiou a campanha de Marrocos (1859/60), recebendo o título de Duque de Tetuan. Foi derrubado pelo general João Prim, em 1866, retirando-se da Espanha. 29 Luís AUGUSTO Maria Eudes [Gousti], príncipe de Saxe-CoburgoGotha, Duque de Saxe, (* Eu, França, 09-08-1945; † Karlovy-Vary, Boêmia, 14-09-1907), filho de Augusto, príncipe de Saxe-CoburgoGotha e de Clementina, princesa de Orléans. X Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 15-12-1864, Leopoldina, princesa do Brasil, de quem teve quatro filhos, dois dos quais (D. Pedro Augusto e D. Augusto Leopoldo) se tornaram príncipes brasileiros. Era irmão de Fernando I, Rei da Bulgária.
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conhecer as jovens princesas brasileiras. Isabel era a mais velha e herdeira do trono; Leopoldina31, a segunda. Bon-Papa casou-se com Isabel, e Augusto de Saxe-Coburgo-Gotha, com Leopoldina. Foram casamentos felizes32. Vovó e Bon-Papa passaram a morar no Paço Isabel (hoje Palácio Guanabara), que decoraram com um gosto discreto conforme convinha a sua idade, desde a volta da viagem de núpcias à Europa. Bon-Papa tinha desejado apresentar sua jovem esposa aos parentes. Mas, logo depois, a guerra desencadeada pelo Paraguai contra o Brasil, Argentina e Uruguai trouxe o jovem par de volta ao Brasil. O Conde d'Eu decidiu juntar-se ao imperador na frente de batalha33. Logo foi nomeado marechal do império34, o que não agradou muita gente. A guerra do Paraguai terminou de maneira trágica. López35, em seu heroísmo suicida36, combateu até o fim, quando já não havia mais D. Pedro II procurava maridos para as filhas, talvez em face de um suposto pedido da mão da princesa Leopoldina do Brasil feito pelo ditador do Paraguai, Francisco Solano López. Para tanto, escrevera à irmã, Francisca do Brasil, princesa de Joinville, cunhada do duque de Nemours e de Clementina de Orléans, princesa Augusto de SaxeCoburgo-Gotha. Esta, diante da negativa do próprio filho, Pedro de Orléans-Joinville, duque de Penthièvre, lembrou-se dos sobrinhos do marido, o Conde d'Eu e do Duque de Saxe. 31 LEOPOLDINA Teresa Francisca Carolina Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga, princesa do Brasil * Rio de Janeiro, RJ, Brasil, (13-07-1847; † Viena, Áustria, 07-02-1871), filha de D. Pedro II, Imperador do Brasil, e de Teresa Cristina, princesa das Duas-Sicílias; X Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 15-12-1864 Augusto príncipe de Saxe-CoburgoGotha, Duque de Saxe, c.s. 32 O Conde d'Eu destinava-se à princesa Leopoldina, e o Duque de Saxe, à Princesa Isabel, mas depois do conhecimento mútuo e pessoal, as simpatias não foram recíprocas e houve troca de noivos. 33 Logo após a invasão Paraguaia no Rio Grande do Sul, o imperador e o Duque de Saxe dirigiram-se para Uruguaiana, onde, cercado, o general paraguaio Estigarríbia se rendeu. O Conde d'Eu alcançou o sogro e o concunhado mais tarde. 34 De início a nomeação era apenas honorária. 35 Francisco Solano López, presidente do Paraguai (16-10-1862/0103-1870) (* Assunção, Paraguai, 24-07-1826; † (t) Cerro-Corá, Paraguai, 01-03-1870), filho de Carlos Antônio López, presidente do Paraguai, e de Joana Paula Carrillo. & Paris, França, 1860, Elisa Alice Lynch (* Cork, Irlanda, 03-06-1835; X I, s.s., Paris, João Maria Armando de Quatrefages; † Paris, França, 1886), com quem teve cinco filhos, e de quem sofreu grande influência.
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esperança. Quando as hostilidades cessaram havia poucos homens vivos no Paraguai37. E a vida retomou seu ritmo. Como se sabe, o imperador passava os verões em Petrópolis e o resto do ano na Quinta da Boa Vista, levando uma vida de família e gostando de passear pelas ruas do Rio de Janeiro como um simples cidadão. Chegou-se a pensar que a sucessão de D. Pedro II terminasse caindo na Casa de Saxe-Coburgo-Gotha, pois a princesa Leopoldina, falecida em 1871, deixara quatro meninos38, enquanto Vovó só teve o primeiro filho aos onze anos de casada39. Uma menina nascera morta no ano anterior40. Papai nasceria três anos mais tarde41. Em 1871, livre das preocupações com a guerra, o imperador resolveu enfrentar o problema da escravidão. Nomeou o visconde do Rio Branco para Presidente do Conselho de Ministros, mas, com a morte da princesa Leopoldina, estando a imperatriz com a saúde abalada, teve de empreender a primeira viagem à Europa. Vovó, com apenas 25 anos de idade, ficou na regência do Império, pela primeira vez. Filha de quem era, Vovó não poderia deixar de ter horror à escravidão. Assim, deu todo seu apoio ao projeto de Rio Branco: declarar livres os filhos nascidos das escravas. Era a Lei do Ventre Livre (n. 2.040), sancionada por ela, em 28 de setembro de 1871. É interessante notar que o partido republicano nascera no meio dos senhores de escravos nessa mesma época, como uma reação aos projetos do imperador. O jornal que mais se mostrara hostil à lei chamava-se – diga-se de passagem – "O Repúblico". Como outros ditadores e tiranos (Napoleão, Hitler, Mussolini), López não teve a visão estratégica da impossibilidade de vencer uma guerra simultânea contra três inimigos, coisa, aliás, que não fez Bismarck que, em seu objetivo de unificar a Alemanha, venceu os inimigos (Dinamarca, Áustria e França) um a um,. 37 Cerca de 28.000. 38 D. Pedro Augusto (1866-1934), D. Augusto Leopoldo (1867-1923), D. José Fernando (1869-88) e D. Luís Gastão (1870-1940). O segundo e o último deixaram descendência (Nicolis de Robilant,Tasso-Bordogna e Valnigra, Formentini e Dettori; e BarattaDragono). 39 No dia em que fazia 11 anos de casada (15-10-1875), a princesa Isabel deu à luz D. Pedro de Alcântara, príncipe do Grão-Pará. 40 Em 28 de julho de 1874 41 Em 26 de outubro de 1878.
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Naturalmente houve muita gente tentando burlar a Lei do Ventre Livre, inclusive fazendo registrar os recém-nascidos com data anterior. Mas, no conjunto, a lei foi benéfica. A oposição escravagista tudo fez para impedir outras leis mais liberais. O imperador – lembremo-nos – não era um soberano absoluto. Não podia legislar. Conseguiu, somente em 28 de setembro de 1886, a lei SaraivaCotegipe, chamada Lei dos Sexagenários (n.3.270). Ela declarava livres os escravos aos 60 anos. Vovó esteve mais duas vezes na regência do Império. Durante a viagem do imperador a Europa em 1883, quando, provavelmente Mamãe o conheceu e teve de tocar piano para ele; e, em 1887, quando com a saúde abalada, D. Pedro II fora se tratar na Europa. Nessa ocasião decidiu apressar a libertação total dos escravos. Decidiu – contra o conselho de Bon-Papa – assinar a lei que abolia a escravidão total e definitivamente, cujo projeto lhe fora apresentado pelo presidente do Conselho de Ministros, João Alfredo Corrêa de Oliveira. A lei se chamou "Lei Áurea" (n. 3.353) e foi sancionada em 13 de maio de 1888. Vovó ganhou o apelido de "Redentora", e continuou a ser considerada no Brasil como uma heroína e uma santa. O Papa42 lhe enviou, como condecoração, a "Rosa de Ouro", maravilhoso ramo de roseira em ouro, distinção deferida às pessoas que empreendem um grande gesto de caridade cristã. Vovó a levaria ao exílio, e ele seria, na capela do palacete de Boulogne, um testemunho de sua fé cristã sem limites. Meu irmão mais velho43 herdaria a "Rosa de Ouro" e, mais tarde, a traria de volta ao Brasil, doando-a à catedral do Rio de Janeiro. É difícil julgar tal ato como separar a política e a verdade cristã. Todos são unânimes em dizer que Vovó sacrificou seu trono pela raça que libertava. Concordo, mas penso que ela estava consciente do sacrifício que julgava que viria de forma legal: os republicanos, apoiados pelos escravagistas prejudicados, seriam, um dia, maioria na Assembléia Geral. Ela nunca poderia imaginar que o exército tomaria o partido dos antigos senhores, açulado pelos positivistas e anticlericais. Desde 1871, Vovó tinha sido a principal vítima da propaganda republicana pelo fato de ser mulher, ser católica praticante e estar casada com um estrangeiro44. Bon-Papa tinha se
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Leão XIII D. Pedro (III) Henrique. 44 Com exceção de Maria I, Rainha de Portugal (com um tio), e Isabel II, rainha da Espanha (com um primo-irmão), todas as outras rainhas
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naturalizado brasileiro e renunciado aos seus direitos eventuais ao trono francês, e eu me pergunto: onde D. Pedro II teria arranjado um genro príncipe não estrangeiro? Mas a verdade é que, poucos dias após o baile da Ilha Fiscal, onde o governo brasileiro recepcionava a armada chilena, um golpe militar depunha e exilava o velho imperador e toda sua família, diante do povo completamente alheio a ato tão impatriótico. Do navio que os levava ao exílio, os membros da família viram, pouco a pouco, o litoral e as luzes da cidade sumirem nas águas escuras. Depois, os cimos dos grandes morros, o Pão de Açúcar e, enfim, o Corcovado, desaparecerem aos olhos dos exilados. Apoiados na amurada, não podiam acreditar na realidade. Pode-se imaginar a dor que confrangia a família: eram obrigados a sair de sua encantadora pátria. Diante deles, principalmente para os três meninos, estava o desconhecido do outro lado do mar. Sabiam que iam encontrar os primos em Paris, em Nápoles, em Viena, mas, serem expulsos do próprio país, que tristeza! Eles tinham 13, 11 e 8 anos. Só último, D. Antônio45, tinha nascido em Paris durante uma viagem que seus pais tinham feito à Europa. Penso que só ele teria um sentimento de consolação misturado à curiosidade de conhecer o país onde tinha nascido! Assim, travaram conhecimento, no Velho Mundo, com primos poloneses46, pois a irmã de Bon-Papa, Margarida de OrléansNemours47, tinha se casado com o príncipe Ladislau Czartoryski48. européias se casaram com estrangeiros: Maria II (Augusto de Leuchtenberg e Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha), rainha de Portugal; Maria I (Filipe II da Espanha), Maria II (Guilherme de Orange), Vitória (Alberto de Saxe-Coburgo Gotha) e Elisabeth II (Filipe da Grécia e Dinamarca), rainhas da Inglaterra; Margarida II, da Dinamarca (Henrique de Laborde-Montpezat), Carlota do Luxemburgo (Félix de Bourbon-Parma), Guilhermina (Henrique de Mecklemburg-Schwerin), Juliana (Bernardo de Lippe-Biesterfeld), Beatriz (Claus de Armsberg), rainhas da Holanda. 45 ANTÔNIO Gastão Filipe Francisco de Assis Miguel Gabriel Rafael [Totó], príncipe do Brasil e de Orléans e Bragança (* Paris, França, 09-08-1981; † (ac) Edmonton, Inglaterra, 29-11-1918), filho de Isabel (I), Chefe da Casa Imperial do Brasil, e de Gastão, príncipe de Orléans-Nemours, conde d'Eu. 46 Os príncipes Adão Luís e Vitoldo Czartoryski. 47 MARGARIDA Adelaide Maria, princesa de Orléans-Nemours (* Paris, França, 16-02-1846; † ibd. 25-10-1896), filha de Luís, príncipe de Orléans, duque de Nemours, e de Vitória Antonieta, princesa de
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Formaram entre si um tratado – a tríplice aliança – onde se escrevia num código que empregava desde sinais astecas até hieróglifos. Possuo, ainda alguns exemplares desse código entre primos. O exílio49 fortalecia os vínculos de família. Deixava-se o sangue comum criar amor, e levar consolação e reconforto aos recém-exilados. O Colégio Stanislas foi encarregado da instrução e da educação dos jovens Brasil. Um velho caderno de Papai mostra que, no princípio, sua ortografia era bem estranha, mostrando reminiscências do português. Papai escreveu "la montanhe"50 por exemplo, mas, muito inteligente, logo se colocou entre os primeiros e, na distribuição dos prêmios, ele voltava para casa com os braços cheios de livros. Mais tarde, livros de sua autoria foram distribuídos aos alunos da geração seguinte. Meu cunhado, Cristiano de Nicolaÿ51, tinha recebido como prêmio "Através do Indokush". Quando me mostrou, ambos achamos graça e ficamos emocionados de ver esse novo vínculo de ligação entre as duas famílias52, do qual jamais tínhamos tido a menor idéia. Enquanto preparava este relato, senti vontade de reler certas obras de Papai. "Nos Alpes" me levou com ele à escalada do Cervino, e não resisti ao prazer de transcrever uma passagem escrita por aquele rapaz de 18 anos: "Depois de ter escalado as rochas lisas onde, várias vezes, é preciso subir com a força das mãos, exercício extremamente fatigante para Saxe-Coburgo Gotha; X Chantilly, França, 15-01-1872, Ladislau, príncipe Czartoryski, c.s. 48 LADISLAU, príncipe Czartoryski, duque de Klewan e Zukow (14-111865/23-06-1894) (* Varsóvia, Polônia, 03-07-1828; † Boulognesur-Mer, França, 23-06-1894), filho de Adão Jorge, príncipe Czartoryski, duque de Klewan e Zukow, e de Ana, princesa Sapieha; X I Malmaison, França, 01-03-1855, Maria AMPARO Muñoz y Bourbon, condessa de Vista Alegre (* Madri, Espanha, 17-11-1834; † Paris, França, 19-08-1864), filha de Fernando Muñoz y Sanchez, Duque de Riansares, e de Maria Cristina, princesa de Bourbon-Sicília, de quem um filho, Francisco Augusto, conde de Vista Alegre (padre); X II Chantilly, França, 15-01-1872 Margarida, princesa de OrléansNemours, de quem teve dois filhos, Adão Luís, duque de Klewan e Zukow, e Vitoldo, príncipes Czartoryski. 49 Os Czartoryski estavam exilados na França desde 1848, ano em que a Rússia se apoderou da Polônia. 50 Correto: "la montagne". 51 Cristiano, conde de Nicolaÿ (* ; †), filho de João, conde de Nicolaÿ, marquês de Goussainville, e de Ivone de Talhouët-Roy. 52 Brasil e Nicolaÿ. O primeiro era o próprio casamento da Autora com o conde Renato de Nicolaÿ.
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os dedos por causa da pouca espessura das cordas, avançamos lentamente, evitando tudo o que podia dificultar os que nos precedem e os que nos seguem. De vez em quando, um lugar favorável permite que descansemos e gozemos o encanto indefinível, misto de um início de vertigem e da idéia de um possível perigo a que nos expomos por estar assim, suspensos no espaço, longe do resto do mundo, do qual nos separam insondáveis abismos. Depois, a escalada recomeça tão absorvente que nos esquecemos de tudo o que nos rodeia para só prestar atenção à dificuldade do momento. Mais uma meia hora desse esporte emocionante e o ângulo da aresta diminui de repente. Estamos no topo do Cervino. Esquecemos o cansaço e quase corremos. Mais algumas placas de neve semeadas de seixos a atravessar, alguns pequenos rochedos a escalar e, às 8:30h, pomos o pé no cume de nossos sonhos. Diante de nós se estende a aresta de neve que, como uma linha suspensa, liga entre si as duas extremidades do Cervino. À esquerda, abaixo de uma longa cornija formada pela própria aresta, os rochedos que encimam Breuil, ornados de uma franja de monstruosas estalactites de gelo; à direita, uma encosta de inclinação média, em parte coberta de neve, vai do lado onde começam os precipícios. Mais alguns passos e eis-nos sobre o cone pontudo de neve imaculada que forma o cume suíço do Cervino. Desta vez é a vitória completa. Assim, estamos nós, em alguns minutos, tomados pela alegria do triunfo. O espetáculo que se apresenta a nossos olhos é fascinante. Assim, perdidos em nossa estreita plataforma que limita de um lado o abismo, inconscientes do que nos separa do resto da terra, da qual nenhum ruído chega até nós, parecemos pairar no espaço ... Acima de nós, um céu sem nuvens, parece quase negro em contraste com a neve. A nossos pés, num deslumbramento de luz, um gigantesco caos de massas de todas as formas, de todas as cores, se estende até os últimos limites do horizonte... Temos, abaixo de nós, quase toda a cordilheira dos Alpes. Primeiro, o incomparável massiço dos Alpes Peninos Centrais, rodeando como uma coroa de rosas brancas entremeadas de espinhos, o vale do Meije, bem verde com seus chalés limpinhos, menores do que nunca, de onde sobe ao céu uma lenta fumaça branca. Diante de nós, parecendo muito próximo, o Dente Branco, imensa pirâmide toda cercada de rochedos; mais longe, o Gabel Horn53, o Hot Horn54, com suas serras delicadas, tão delicadas que parecem à mercê do vento; depois, o Weisshorn55. No centro, nó poderoso desse colossal amontoado de neve e de rochedos, o Monte Rosa, com sua
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Pico Duplo. Pico Vermelho Pico Branco
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série de Pontas e sua longa cauda de geleiras; mais perto de nós, a crista prateada do Kuskann, as pirâmides do Cástor e Pólux, as cúpulas do Brethorn56, flanqueados pelo Pequeno Cervino. A oeste, o prolongamento dos Alpes do Valais indo, numa série de formidáveis geleiras, até o Grande Combin e ao Monte Velan, soberbos em seu isolamento. Uma larga falha deixa ver o vale do Ródano até o lago de Genebra, do qual se enxerga alguns reflexos. Depois, só, numa auréola de sol, que a neve nos envia, o gigante dos Alpes, o Monte Branco!" Para terminar, citarei, ainda, trechos de "Em volta da África", viagem que Papai fez em companhia de seu amigo Humberto d'Archer. Depois de ter contornado a ponta da África do Sul e feito uma escala de alguns dias na Cidade do Cabo, os dois viajantes foram a Durban para tentar alcançar o local da resistência dos bôeres. Depois de terem errado algum tempo, chegaram às trincheiras dos bôeres, no local onde os ingleses sofreram uma terrível derrota em 15 de dezembro de 1899. Os bôeres defendiam a país que vinham ocupando pouco a pouco desde o século XVII, quando um grande êxodo de protestantes deixou a Holanda e a França, no auge das guerras de religião. Papai analisa, com clareza, aquela guerra estranha, feita de paradas súbitas, retiradas e avanços de uma parte à outra. O ponto central era a defesa do alto Veld. Havia uma quantidade de comandos de todas as nacionalidades, aventureiros, traficantes e outros: "Ao lado dos franceses, acampam os italianos de terríveis bigodes; mais longe, portugueses doces e inofensivos, espanhóis arrogantes, russos que só sabem sua língua, belgas, gregos, suecos, ninguém aceitando servir sob as ordens de um "estrangeiro", donde se pode julgar o tipo de ajuda prestada aos bôeres. Papai penetrou com seu amigo no Veld para encontrar o general Botha57, comandante do estranho exército bôer, assistindo, depois, a vários encontros entre tropas inglesas e os bôeres. O general Botha lhe dá todas as possibilidades de cobrir a evolução das batalhas, até o dia marcado para a partida. Papai nota: "A ceia foi triste. Era a última noite que passávamos na tenda do general Botha. Não queríamos abusar mais da hospedagem tão amavelmente oferecida".
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Pico Largo Luís Botha (* Greytown, África do Sul, 27-09-1862; † Pretória, ibd. 27-08-1919); X Ana Emmett, c.s. General bôer e ministro da África do Sul (1907-10). Procurou, após a guerra conciliar bôeres e ingleses. Tentou anexar legalmente a Namíbia à África do Sul após a I Guerra Mundial.
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Depois, os dois amigos fizeram uma escala em Moçambique, onde as saudades do Brasil apertaram: "O Palácio do Governador Geral situado em frente ao cais me fez lembrar o Paço da Cidade no Rio de Janeiro ..." Não vou citar as duas últimas obras de Papai, "Através do Indokush" e "Sob o Cruzeiro do Sul", onde escreve que, chegando à baía de Guanabara, ele pôde rever a pátria. Esperava que lhe fosse permitido pisar no solo brasileiro, mesmo por algumas horas. Infelizmente, a república tinha muito medo dele58. Que decepção ver todos os passageiros do "Amazonas" tomarem as lanchas e se afastarem em direção à terra que ele tinha deixando dez anos antes! No entanto, quando as lanchas chegaram ao cais e os monarquistas brasileiros viram que seu príncipe não tinha tido autorização para desembarcar, tomaram as mesmas lanchas, e foi uma verdadeira avalanche de amigos que veio ao seu encontro. Papai quase se sentiu sufocado pelo número incalculável de fiéis que o abraçaram. O desfile continuou durante toda a tarde, e o calor humano dos brasileiros fez com que ele sentisse que, durante algum tempo, tivera o direito de voltar à pátria. Depois de um longo périplo pela Argentina59, Chile e Peru, Papai voltou à França, ao encontro dos pais e irmãos. 1903. D. Luís do Brasil tinha 25 anos. Começou a pensar em casamento e a visitar os parentes, entre os quais os "Caserta", como eram conhecidos os Bourbons-Sicília. Eu ainda não disse que Nonno tinha recebido o título de Conde de Caserta pelo fato de ter nascido naquela cidade, no soberbo palácio de Caserta, onde a água das montanhas, captada em lagos artificiais, corre de tanque em tanque, e verte em repuxos, formando um conjunto digno das cortes do século XVIII. Como sabemos, a família Caserta era numerosa. O casal tinha tido doze filhos, oito meninos60 e quatro meninas, das quais Maria Pia era a terceira. Moça inteligente e bonita, com seus cabelos negros de azeviche e seus olhos azuis pervinca, tinha a mesma idade de Luís. A simpatia foi mútua e, mais tarde, Mamãe me contou que, depois de D. Luís metia tanto medo à república que a Lei do Banimento só foi revogada depois de sua morte. 59 Também pela Bolívia, onde pode atravessar uma linha imaginária que separava esse país do Brasil, e entrar em território brasileiro, acompanhado de alguns amigos. 60 Na época eram sete apenas, pois Francisco de Paula tinha falecido aos três anos em 1864.
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conhecê-lo, dissera aos pais: "Jamais me casarei com outro". Entretanto, ela devia passar por uma prova de paciência. O irmão mais velho de Papai, tio Pedro61, tinha, por sua vez62, conhecido a jovem condessa Elisabeth Dobrzensky de Dobrzenicz63. Na época, as leis das famílias reinantes eram restritas e formais. O herdeiro de um trono64 só podia se casar com uma princesa de sangue real65. Meus avós pediram ao filho mais velho que aceitasse uma espera de cinco anos de reflexão antes de tomar sua decisão. PEDRO DE ALCÂNTARA Luís Filipe Maria Gastão Miguel Gabriel Rafael Gonzaga [Pedrão], Príncipe do Grão-Pará (15-10-1875/05-121891), Príncipe Imperial do Brasil (05-12-1891/30-10-1908), 2º Príncipe de Orléans e Bragança (28-08-1922/29-01-1940)(* Petrópolis, RJ, Brasil, 15-10-1875; † ibd. 29-01-1940), filho de Isabel (I), Chefe da Casa Imperial do Brasil, e de Gastão (I), príncipe de Orléans-Nemours, conde d'Eu; X Versalhes, França, 14-11-1908, Elisabeth, condessa Dobrzensky de Dobrzenicz, de quem teve cinco filhos, entre os quais, Pedro Gastão, 3º Príncipe de Orléans e Bragança, Isabel, condessa de Paris, e Francisca, duquesa de Bragança. 62 Em 1900, na Áustria, onde era oficial do exército. 63 Maria ELISABETH Adelaide Teresa [Elsie], baronesa (07-121875/05-04-1906), condessa Dobrzensky de Dobrzenicz (05-041906/10-06-1951)(* Chotebor, Boêmia, 07-12-1875; † Sintra, Portugal, 10-06-1951), filha de João Venceslau, barão, depois conde Dobrzensky de Dobrzenicz (05-04-1906), e de Adelaide, condessa Kottulinsky de Kottulin, baronesa Krzischowicz; X Versalhes, França, 14-11-1908, Pedro de Alcântara, 2º Príncipe de Orléans e Bragança, c.s. 64 Em 1903, D. Pedro de Alcântara ainda era herdeiro dos direitos de sua mãe. 65 Não a Constituição Brasileira de 23 de fevereiro de 1824. Esta só regulamentava o casamento das princesas herdeiras do trono. As leis da Casa Real da França eram mais rigorosas quanto às cônjuges dos príncipes. No caso em tela era provocado, especialmente, pelo desejo do conde d'Eu de deixar, entre seus filhos, uma descendência principesca puramente francesa. Ele já não fazia parte da Casa Real da França desde seu casamento com D. Isabel do Brasil, quando renunciara a eventuais direitos ao trono da França. A este fato, aliava-se a preocupação de Filipe (VIII), duque de Orléans, Chefe da Casa Real da França, em evitar que a sucessão francesa viesse a cair na Casa Imperial do Brasil. O duque de Orléans não tivera filhos de seu casamento com a arquiduquesa Dorotéia da Áustria, nem conseguira anular esse casamento; tinha somente dois herdeiros indiretos com probabilidades de sucessão: Henrique de OrléansChartres, conde de Paris (1908-1999) e, mais remotamente, Carlos Filipe de Orléans-Nemours, duque de Nemours (1905-70). Os três
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Papai também se impôs esses cinco anos. Certas cartas nos mostram que ele tinha profunda estima e afeição por aquela que devia se tornar sua cunhada, mas a decisão dos pais era sagrada para ele. 1909. Os cinco anos de reflexão passaram. Os dois irmãos ficaram fiéis às eleitas de seus corações. D. Luís do Brasil casou-se com Maria Pia de Bourbon-Sicília em 04 de novembro de 1908, na igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, em Cannes66; e D. Pedro de Orléans e Bragança casou-se, em 4 de novembro de 1908, com Elisabeth Dobrzensky de Dobrzenicz, na igreja de Versalhes, renunciando67 seus direitos ao trono do Brasil. herdeiros mais próximos, seu irmão Fernando de França, duque de Montpensier (1884-1924), então solteiro, seu primo e cunhado João de Orléans-Chartres, duque de Guise (1874-1940), e Manuel de Orléans-Nemours, duque de Vendôme e de Alençon (1872-1931), dificilmente viriam a ter outros filhos. Realmente, eram fundados seus receios, visto que somente o conde de Paris veio a dar continuidade à Casa Real da França. As propostas apresentadas pelo conde d'Eu ao duque de Orléans eram, em resumo, que este concedesse aos príncipes brasileiros o direito de sucessão no trono francês em caso de extinção da Casa de França; em troca, um de seus filhos renunciaria aos direitos ao trono do Brasil, evitando que príncipes brasileiros viessem a ocupar a Chefia da Casa Real francesa. Supunha-se que D. Luís, segundo filho, apresentasse sua renúncia aos direitos brasileiros, mas como este se negasse a fazê-lo, o conde d'Eu acabou por propô-la ao primogênito em troca da obtenção da licença para casar com a condessa Dobrzensky de Dobrzenicz junto ao Duque de Orléans. Tais propostas foram finalmente aceitas pelo Duque de Orléans em 24 de abril de 1909 (Convenção de Bruxelas), quando a esposa de D. Luís já se encontrava esperando seu primeiro filho e a renúncia de D. Pedro de Alcântara já se tinha concretizado. Prova do cumprimento do acordo por parte da Casa Real de França foi o fato de, em 1931, aceitar o casamento da filha mais velha de D. Pedro de Alcântara, Isabel de Orléans e Bragança (1911-2003), com o então Delfim, conde de Paris. 66 Como herdeiro do trono do Brasil, desde 30 de outubro de 1908, eu casamento deveria ter-se realizado em Boulogne-do-Sena, local de sua moradia. O de D. Pedro é que poderia ter-se realizado em Chotebor, na Boêmia, moradia da noiva. Vê-se aí a influência do conde d'Eu que achava mais importante ser herdeiro de seu título do que ser herdeiro do trono de sua mulher. Interpretou-se a escolha dos locais dos casamentos apenas pela linha masculina francesa ou a demora da renúncia não permitiu o casamento em Boulogne. De qualquer forma, Versalhes não era residência de nenhum dos noivos. 67 A renuncia foi anterior ao casamento de D. Luís, isto é, em 30 de outubro de 1908.
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Meus pais tinham, então, trinta anos. Partiram em viagem de núpcias para a Itália, onde Mamãe conheceu todas as lembranças caras a sua família napolitana68. Possuo uma linda fotografia dela, sentada no vão de uma sacada na Vila d'Este69, através da qual transparece uma imensa felicidade. Depois, fizeram uma longa viagem às Índias onde foram recebidos e homenageados num cenário completo da Índia dos marajás, participando da caça ao tigre, penetrando na floresta no dorso de elefantes ajaezados. Essa viagem foi para Mamãe um prolongamento inesquecível de sua viagem de núpcias. Depois da morte de Papai, de vez em quando, ela abria um grosso álbum de fotografias tiradas durante aquela viagem maravilhosa. Folheava lentamente, invocando, diante de nós, aquele país longínquo, cheio de mistério para nossas mentes infantis. Em seu rosto passavam ondas de tristeza, e nós sentíamos que ela procurava, com saudade, a felicidade perdida. Mas não quero me antecipar outra vez, agora que a época dos nascimentos vai começar. Em 13 de setembro de 190970, nasceu no lar de Luís e Maria Pia, um menino que recebeu os prenomes de Pedro de Alcântara Henrique Afonso Filipe Maria Miguel Gabriel Rafael Gonzaga71. Era uso, em nossas famílias, confiar a criança a um Como membro da Casa Real das Duas-Sicílias, embora cidadã francesa, D. Maria Pia estava proibida de entrar na Itália, até o tratado de Latrão (1929). A obtenção de passaporte e cidadania brasileiros a permitiram conhecer os lugares que tinha sido ensinada a amar. 69 Palácio de estilo renascentista construído em Tívoli, perto de Roma, pelo cardeal Hipólito d'Este, filho de Lucrécia Bórgia, e neto do papa Alexandre VI. 70 Muitos monarquistas brasileiros quiseram que D. Maria Pia viajasse incógnita, via Argentina, na companhia de seu médico e de sua mãe e algumas parentas não brasileiras para ter esse filho no Brasil. 71 PEDRO (III) de Alcântara HENRIQUE Afonso Filipe Maria Gabriel Rafael Gonzaga [Pápi], Príncipe do Grão-Pará (13-09-1909/26-031920), Príncipe Imperial do Brasil (26-02-1920/14-11-1921), Chefe da Casa Imperial do Brasil (14-11-1921/05-07-1981), príncipe de Orléans e Bragança (* Bolonha-do-Sena, França, 13-09-1909; † Vassouras, RJ, Brasil, 05-07-1981), filho de D. Luís, Príncipe Imperial do Brasil, e de Maria Pia, princesa de Bourbon-Sicília; X Nymphenburg, Baviera, Alemanha, 18 e 19-08-1937, MARIA, princesa da Baviera [Deidi], de quem teve doze filhos, entre os quais Luís, Chefe da Casa Imperial do Brasil, Beltrão, Príncipe Imperial do Brasil, Antônio João, príncipe do Brasil (único com sucessão masculina), e Eleonora, princesa Miguel de Ligne.
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grande número de santos protetores72. O acontecimento teve lugar no palacete particular de Vovó73, no número 7-bis do bulevar de Boulogne, em Boulonha-do-Sena74. O batismo foi celebrado dois dias mais tarde na pequena peça transformada em capela, que se encontrava no segundo andar, e que não podia conter mais que dez pessoas. Encontrei uma foto tirada na ocasião. Vovó segura ao colo o menino vestido com uma linda camisola de batismo de rendas de Bruxelas, com as armas da Família Imperial. Vêem-se, depois, Bon-Papa e, ao fundo a baronesa de Muritiba75, dama de honra de Vovó. O resto da assistência está fora do campo da objetiva: Papai e alguns brasileiros76que tinham seguido o imperador e a princesa Isabel no exílio. Dois anos mais tarde, em 19 de fevereiro de 1911, um outro menino veio ao mundo, desta vez em Cannes, residência dos avós Caserta. Ele recebeu o nome de Luís Gastão. Passaram-se, ainda, dois anos, e foi a minha vez77de chegar a este mundo. Minha atração pelos banhos de mar e de rio vem, sem Nos Bourbons-Parma o número de prenomes é espantoso. O palacete de Boulogne, de propriedade de D. Isabel, era residência de exílio da Família Imperial Brasileira, enquanto o castelo d'Eu, de propriedade do conde d'Eu, era residência dos príncipes de Orléans e Bragança. 74 Boulogne-sur-Seine, cidade satélite de Paris, na Ilha de França (Seine-et-Marne) 75 Maria José Velho de Avelar (* Rio de Janeiro, Brasil, 07-01-1851; † Petrópolis, Brasil, 13-07-1932), filha de Joaquim Ribeiro de Avelar, visconde de Ubá, e de Mariana Velho da Silva; X Rio de Janeiro, 1711-1869, Manuel Vieira Tostes Filho, 2º barão de Muritiba (13-071888)(* Salvador, BA. 14-10-1839; † a bordo do Bagé, 15-08-1922), filho de Manuel Vieira Tostes, marquês de Muritiba, e de Isabel Pereira de Oliveira, s.s. 76 Realmente em outra foto aparecem D. Luís, a baronesa de São Joaquim, que levou água do chafariz do largo da Carioca no Rio de Janeiro para esse expresso fim, e o padre Gerard que ministrou o batismo. (V. Iconografia deste) 77 PIA MARIA Renira Isabel Antonieta Vitória Teresa Amélia Geralda Raimunda Ana Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga [Coucoutz], princesa do Brasil e de Orléans e Bragança, Princesa Imperial do Brasil (08-09-1931/06-06-1938) (* Bolonha-do-Sena, França, 04-031913; † Lude, França, 24-10-2000), filha de D. Luís, Príncipe Imperial do Brasil, e de Maria Pia, princesa de Bourbon-Sicília; X Paris, França, 12-08-1948, Renato, conde de Nicolaÿ, de quem teve dois filhos.
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dúvida, do fato de eu ter nascido na grande banheira de zinco ao andar térreo do palacete de Boulogne. Não posso esquecer os nascimentos de meus primos, filhos de tio Pedro e de tia Elisabeth, a quem chamávamos de tia Elsie, pois passamos nossa infância juntos como irmãos. A mais velha, Isabel (Bebelle)78, nasceu em Eu – de que ela muito se orgulhava79, em 13 de agosto de 1911. Veio, em seguida, Pedro Gastão (Pedrinho)80, nascido em Eu em 19 de fevereiro de 1913; depois, Francisca (Chica)81, nascida, também em Eu, em 8 de setembro de 1914; João82 (Joãozinho)83, em 15 de outubro de 1916, em Bolonha-doISABEL Maria Amélia Luísa Vitória Teresa Joana [Bebelle], princesa de Orléans e Bragança (* Eu, França, 13-08-1911; Paris, França, 0507-2003), filha de D. Pedro de Alcântara, 2º Príncipe de Orléans e Bragança, e de Elisabeth, condessa Dobrzensky de Dobrzenicz; X Palermo, Itália, 08-04-1931, Henrique (VI), conde de Paris, c.s. 79 Quando o texto estava sendo escrito, ainda era viva a condessa de Paris. Além do mais, ela sobreviveria à Autora. 80 PEDRO de Alcântara GASTÃO João Filipe Lourenço Humberto Miguel Gabriel Rafael Gonzaga [Pedrinho], príncipe de Orléans e Bragança, Príncipe-Herdeiro de Orléans e Bragança (28-08-1922/29-01-1940), 3º Príncipe de Orléans e Bragança (29-01-1940/26-12-2007), Pretendente à chefia da Casa Imperial do Brasil (* Eu, França, 19-021913; † Sevilha, Espanha, 26-12-2007), filho de D. Pedro de Alcântara, 2º Príncipe de Orléans e Bragança, e de Elisabeth, condessa Dobrzensky de Dobrzenicz; X Sevilha, Espanha, 18-121944, Esperança, princesa de Bourbon, de quem teve seis filhos, entre os quais Pedro Carlos, herdeiro de Orléans e Bragança, e Maria da Glória, princesa Alexandre da Iugoslávia. 81 MARIA FRANCISCA Amélia Luísa Teresa Vitória Isabel Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga [Chica], princesa de Orléans e Bragança (* Eu, França, 14-09-1914; † Lisboa, Portugal, 15-01-1968), filha de D. Pedro de Alcântara, 2º Príncipe de Orléans e Bragança, e de Elisabeth, condessa Dobrzensky de Dobrzenicz; X Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 e Petrópolis, RJ, Brasil, 15-10-1942, DUARTE (II), Duque de Bragança, Chefe da Casa Real de Portugal, c.s. 82 JOÃO Maria Filipe Miguel Gabriel Rafael Gonzaga, príncipe de Orléans e Bragança, (* Bolonha-do-Sena, França, 15-10-1916; † Rio de Janeiro, 26-06-2005), filho de D. Pedro de Alcântara, 2º Príncipe de Orléans e Bragança, e de Elisabeth, condessa Dobrzensky de Dobrzenicz; X I Sintra, Portugal, 29-04-1949; ÷ Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 1971 FÁTIMA Xerifa Chirine (* Cairo, Egito, 19-04-1923; † Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 14-03-1990), filha de Ismael Bey Chirine e de Aixa Mussalam, de quem teve um filho. X II Petrópolis, RJ, Brasil, 2904 e Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 11-05-1990 Teresa de Jesus César Leite (* Ubá, Brasil, 11-10-1926), filha de José da Silva Leite e de Branca Queiroz César dos Santos, s.s
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Sena, e, finalmente, Teresa (Tetê)84, nascida em 18 de junho de 1919, também em Bolonha-do-Sena. Foi principalmente com Bebelle e com Pedrinho que passamos os dias felizes de nossa infância quer em Eu, quer em Boulogne. Esses dias85 indicam que as lembranças um tanto nebulosas da primeira infância se situam no início da I Guerra Mundial, a "Grande Guerra", assim chamada por causa das atrocidades e do heroísmo dos homens lançados na fúria dos combates. Bon-Papa quis retornar às atividades militares: foi nomeado sentinela diante do castelo d'Eu. O ano de 1916 nos encontrou, de novo, em Boulogne. Um acontecimento inesperado me dá certeza disso. Eu tinha três anos. A empregada me tinha levado ao bosque. Do portão da casa para entrar no "Bois de Boulogne" era preciso, apenas, atravessar o bulevar, sobrar à esquerda onde se encontrava, e se encontra, ainda, a Porta de Longschamps. Um caminho começava ali, seguindo uma alameda para cavalos, em direção às profundezas do bosque. Nossa empregada se chamava Joana Maurer, era alsaciana e tinha um forte sotaque, mas nós a adorávamos. Uma bela manhã, ela me levou para passear e, encontrando um banco, se sentou, deixandome brincar a seus pés. Sem dúvida, absorta num trabalho manual Hoje esse apelido é dado a seu filho, João Henrique de Orléans e Bragança. 84 TERESA Maria Teodora [Tetê], princesa de Orléans e Bragança (* Bolonha-do-Sena, França, 18-06-1919; † Estoril, Portugal, 18-042011), filha de D. Pedro de Alcântara, 2º Príncipe de Orléans e Bragança, e de Elisabeth, condessa Dobrzensky de Dobrzenicz; X Sintra, Portugal, 07-10-1957, ERNESTO de Martorell y Calderó (* Lisboa, Portugal, 07-09-1921; † Madri, Espanha, 10-01-1985), filho de José Martorell y Panyellas, e de Conceição Calderó y Coronas, de quem teve duas filhas. 85 É interessante notar as coincidências, propositais ou não, das datas relativas a D. Isabel e seus descendentes: 15 de outubro: casamento com o conde d'Eu (1864), casamento de D. Francisca de Orléans e Bragança com o duque de Bragança (1942), nascimento de D. Pedro de Alcântara (1875) e de D. João de Orléans e Bragança (1916); batismo da princesa Diana de França (1940), filha dos condes de Paris.19 de fevereiro: nascimento de D. Luís Gastão do Brasil (1911) e de D. Pedro Gastão de Orléans e Bragança (1913); 8 de setembro: nascimento de D. Francisca de Orléans e Bragança (1914) e falecimento de D. Luís Gastão do Brasil (1931); 12 de agosto: nascimento de D. Maria Pia (1878) e casamento de D. Pia Maria com o conde Renato de Nicolaÿ (1948); 2 de fevereiro: nascimento de D. Beltrão do Brasil (1941) e de D. Fernando de Orléans e Bragança (1948).
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qualquer, não percebeu que eu tinha desaparecido seguindo o caminho que devia parecer, a meus olhos, conduzir ao País das Maravilhas. E bem longe, sem dúvida, porque um cavaleiro, vendo aquela garotinha sozinha no meio do bosque, a colocou na sela e a entregou ao guarda na Porta de Lonchamps. Este, já alertado por Joana Maurer, me levou ao número 7 do bulevar de Boulogne. Bons tempos aqueles em que o belo "Bois de Boulogne" era freqüentado por gente boa86

A GRANDE GUERRA 1915. Papai procurou se alistar, para combater do lado dos aliados O governo francês tinha indeferido seu pedido: todo príncipe de sangue francês estava, automaticamente, excluído das forças armadas. Voltou-se, então, para a Bélgica, pois era aparentado com o rei Alberto I , já que a rainha Luísa , avó deste, era filha de Luís Filipe . O rei respondeu que a situação seria constrangedora demais para ele diante de seus aliados, principalmente da França. Papai não desistiu: dirigiu-se ao rei Jorge V da Inglaterra, cuja avó, a rainha Vitória, era prima-irmã da duquesa de Nemours, que aceitou engajá-lo, como tenente, ao 1º Corpo britânico do general Douglas Haig . Desde 25 de agosto de 1915, ele conseguiu assegurar, com a maior eficácia, a comunicação entre as tropas inglesas e francesas, notadamente no combate de Landrecies ; mais tarde, durante a retirada, colocou-se nos pontos mais expostos às incursões alemãs, particularmente em 3 de setembro, nos arredores de Cháteau-Thierry .
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Hoje, o "Bois de Boulogne" é lugar perigoso devido à alta freqüência dos casos de assalto.
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Depois da batalha de Marne , ele assistiu, em 7 de setembro, com o 18º Corpo, ao ataque de Montreau-les-Provins , e, no dia seguinte, ao combate de Trétoire . Depois, de 3 de setembro a 15 de outubro, à primeira batalha de Aisne no setor de Bourg-et-Comin , assegurando , inúmeras vezes sob o fogo da artilharia, a comunicação entre os setores vizinhos do seu batalhão. Durante os trágicos dias da primeira batalha de Ypres , de 20 de outubro a 21 de novembro, onde a linha inglesa quase foi rompida, ele continuou, dia e noite, com uma energia a toda prova, a propiciar a comunicação do exército inglês com as unidades francesas próximas, num local em que o avanço inglês formava como que uma protuberância nas linhas inimigas, e se encontrava sob o fogo de três setores da artilharia alemã especialmente no combate de Bois-Choote , em 22 de outubro, e em Zombecke , com a 18º Divisão – e no combate de Vedhock , com os zuavos do coronel Eychène , em 31 de outubro. A partir de 10 de janeiro de 1916, foi transferido para o estado-maior do 1º Exército, passando a acompanhar o general Douglas Haig. Ali, contribuiu, notadamente, em 10 de março, para a tomada de Neuvela-Chapelle , depois de Cambrai e Fosse-Calonne . “Nessa diferentes missões, nunca deixou de mostrar um entusiasmo comunicativo, um grande sangue-frio nos piores momentos, uma coragem inalterável durante o combate e uma compreensão das situações, que lhe permitia observações táticas de grande precisão” (Extrato de sua citação à ordem do dia do exército). Infelizmente, aquela rude campanha do Yser alterou-lhe a saúde e o obrigou, prematuramente, a se retirar do estado maior, onde sua partida foi lamentada por todos. As seqüelas da guerra produzidas pela umidade das trincheiras provocaram, em Papai, um estado reumatismal muito doloroso que, em crises cada vez mais próximas, o paralisava. O médico aconselhou-o a fazer um tratamento em Dax , onde os banhos de lama tinham a reputação de avaliar e curar o reumatismo. Enquanto Papai permanecia em Dax, Mamãe nos levou a Vernet-lesBains , nos Pirineus. Hospedamo-nos num grande hotel onde havia uma piscina coberta, à qual se chegava por um longo corredor. Mamãe gostava de se banhar ali, usando maiô negro munido de saia. Protegia os cabelos de uma maneira estranha: um triângulo de borracha, que devia ser muito eficaz, pois nunca a vi de cabelos molhados. Depois de algumas braçadas, ela vinha me buscar, me punha nas costas, e assim, atravessávamos toda a piscina. A água era quente e deliciosa. Eu me sentia no céu.
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Mamãe se ocupava de nós com dedicação total, ajudada por Joana Maurer, que, apesar dos anos, nunca perdera seu sotaque alsaciano e nos dizia: “Fenham, griandzas!” . À tarde, dávamos longos passeios nas trilhas das montanhas. Mamãe inventava tudo para nos distrair. Dizia-nos que, nos Pirineus, havia ametistas, e que, se procurássemos poderíamos encontrá-las. O passeio era um encantamento certamente previamente prepara-do. Fixávamos a vista nos recantos do caminho, e podem imaginar nossa alegria quando aparecia, de repente, uma linda pedra roxa! Voltávamos ao hotel com nosso tesouro, orgulhosos e felizes. Mas, dessa temporada, tenho outra lembrança muito importante. Mamãe costumava jogar tênis e eu era uma espectadora de quatro anos, que corria atrás das bolas perdidas para alcançá-las. Uma noite, no hotel, ganhei um pacote. Abri. Era uma raquete de tênis de criança. Coloquei-a em minha cama e adormeci com ela. Sem dúvida, foi isso que provocou minha paixão pelo tênis. Houve outra circunstância menos feliz: contraí tifo. Minha pobre mãe passou noites de angústia junto a mim. Ela recorreu ao Dr. Chevel, marido de uma de suas colegas do Sagrado Coração. Mas o Dr. Chevel estava, por sua vez, de cama com uma congestão pulmonar, e era sua esposa que fazia o leva-e-traz, dando, da parte do marido, indicações a serem seguidas, e lhe levando notícias da evolução da doença à medida que Mamãe as constatava. Graças a isso, acabei como um frangalho, não me agüentando sobre as pernas, mas curada. Mamãe faz nova amizade em Vernet. Sua amiga se chamava Carmem Johnson e lhe foi um grande apoio moral. Bem mais tarde, voltei a encontrá-la no Brasil. Foi ocasião de fortalecer nossa amizade com a família Gouveia Vieira , já bem ligada à Família Imperial. Terminada minha convalescença, tomamos o trem para Paris, onde meus pais se encontraram, felizes de estarem novamente juntos. Em Dax o estado de saúde Papai tinha apresentado melhoras, mas nunca mais ele pode retornar ao serviço no exército. A guerra se eternizava em volta de Verdun. Bon-Papa recebia o “Excelsior” , que mostrava, em pequenos mapas, as posições dos beligerantes. Tudo isso é muito pouco, no conjunto de minhas lembranças da infância, mas, apesar de tudo, certos detalhes como os lampiões de gás, ao longo do bulevar, que o acendedor ia, aos poucos, acendendo, ainda permanecem vivos. Os vidros tinham sido pintados de azul para que os aviões inimigos não pudessem identificar a cidade. No inverno, o “Bois de Boulogne” ficou coberto
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com um manto branco. Desse modo, com o trenó puxando mais dois outros menores, ele pôde, um dia, nos levar a todos, primos e primas, bem agasalhados, a um passeio pelo bosque. O jornal do dia seguinte publicou nossa foto com a seguinte legenda: “Não foi na Rússia: foi ontem, no “Bois de Boulogne”...” Parece-me que, durante o ano de 1918, ficamos reunidos em torno de Vovó e de Bon-Papa, em Boulogne. É o momento de descrever aquele casarão – aliás, o “palacete”. Minhas recordações me levam a ele, como se eu subisse, com meus irmãos e primos, os dez degraus que conduziam ao patamar encimado por uma marquise. A porta dupla envidraçada sempre estava fechada. Era preciso tocar a campainha para que Alfredo, o mordomo, a viesse abrir. À direita, uma portinha dava para o escritório de Bon-Papa. A temperatura aí nunca era menor que 23 graus e, apesar disso, ele usava, sempre, um manto bege nas costas. Ele chamava os filhos de Tio Pedro de “meus repolhões” e a nós, de “meus queridinhos”. Íamos beijá-lo e ele nos perguntava o que tínhamos feito. A porta-voz era sempre Bebelle, futura condessa de Paris, que tinha a voz mais alta e, desse modo, ele conseguia ouvir. Assim mesmo, usava uma espécie de corneta de prata, para escutar melhor. De lá, íamos à sala de Vovó, que se situava do lado sul. Uma porta envidraçada se abria numa escadaria de ferro que levavam jardim. Descíamos por ela enquanto Vovó retomava seu trabalho ou seu exercício musical, acompanhando, ao piano, White , um violinista negro vindo com eles do Brasil. Nosso lugar preferido para brincar era a “cocheira”, um espaço entre duas garagens, coberto por uma grande clarabóia. Um cavalo de balanço, branco, era nosso brinquedo favorito. Eu poderia me balançar nele por horas a fio. As estrebarias ficavam no fundo da cocheira. Ouvia-se Lloyd, um galês que tinha sido ordenança de Papai durante a guerra e não quisera mais deixá-lo, assobiar enquanto lustrava o couro e areava os metais dos arreios dos cavalos. Antes da guerra, Papai costumava jogar polo. Tinha conservado um cavalo, “Amuinho”, e uma égua, “Tosca”, com os quais ele e Mamãe davam longos passeios. Podia-se atrelar um desses cavalos a uma bonita charrete que tinha um banco dianteiro, onde ficava o cocheiro. O lugar ao lado do cocheiro era o mais disputado por nós. Atrás, havia dois assentos colocados frente a frente, e uma porta que se abria para fora. Subia-se por um pequeno estribo. Quantas vezes atravessamos assim o bosque de Boulogne para ir à Escola de equitação Pelletier, na rua Chalgrin! Meus avós tinham, como cozinheiro, um bretão chamado Imhoff. Creio que posso dizer que nunca provei comida melhor do que a dele. Para tanto, todas as manhãs, ele ia a “Les Halles” , fazer com-pras e
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escolher os melhores produtos. Aí estava o segredo da fama da mesa da Casa Imperial. Imhoff, entretanto, não gozava das facilidades que temos hoje em dia. Tomava o primeiro bonde e devia baldear várias vezes para chegar ao mercado. Nunca ouvimos dele a menor queixa. A cozinha era algo de sagrado para ele. Quando se aposentou e se retirou para sua Bretanha natal, sentimos um choque e um grande vazio. Como gostávamos de ser mimados por ele! A guerra prosseguia sem que, entretanto, nós, crianças, tivéssemos verdadeira consciência dela. Víamos militares nas ruas, e nos falavam do grande “Bertha” , e, depois, houve o armistício . Creio que não pudemos festejá-lo muito, pois, logo a seguir, a família ficou enlutada . D. Antônio, o tio Totó, último filho de meus avós, tinha se juntado às forças aliadas, alistando-se na aviação inglesa. Alguns dias depois da assinatura do armistício, ele recebeu ordens de voltar a Londres. Fazia um tempo escuro e um mau pressentimento o torturava. Entretanto Bon-Papa aconselhou-o a partir para cumprir seu dever. Chegando à Inglaterra , a neblina estava espessa e o avião chocou-se com os fios do telégrafo . A notícia da morte de tio Totó chegou rapidamente, desnorteando seus pais, seus irmãos e nós mesmos que, apesar de nossa pouca idade, gostávamos muito daquele tio, sempre brincalhão conosco. Uma nuvem de tristeza desceu sobre a casa. Tenho outra lembrança ainda viva: a grande parada das tropas aliadas triunfantes, subindo a avenida “Champs Elysées”. Bon-Papa tinha levado a família ao apartamento de um amigo, cujas janelas davam para a avenida. Sentaram-me no parapeito com as meninas menores. Lá embaixo, diante de nós, havia um verdadeiro assalto as árvores por parte das pessoas que sabiam subir ou tinham uma escada. Com as pernas penduradas por entre os galhos, elas esperavam, pacientemente como nós, dizendo piadas de uma árvo-re para a outra. A espera me pareceu longa até que alguém gritou: “Lá vêm eles!” Seguiu-se o reboar dos aplausos que se aproximava com a chegada dos diferentes heróis daquela guerra impiedosa. Era como se erguesse uma onda. A multidão gritava, agitava lenços, e diziam uns aos outros: “Olha o Foch!” , “Olha o Joffre!” . Mesmo para as crianças como nós, que não podíamos compreender, totalmente, a soma de coragem e de dor que os combates tinham comportado, aqueles minutos foram de pura exaltação. Mais tarde, Mamãe nos levou à floresta de Compiègne para visitar o vagão onde Foch tinha recebido a capitulação alemã.

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1921 Vovó costumava passear numa pequena charretinha de vime puxada por um pônei. Ela gostava muito desses passeios e freqüentemente levava seu cavalinho até as extremidades do parque do castelo . Eu me lembro de, certo dia, ela me ter encontrado com a babá no fundo do parque, ter parado e ter-me feito subir com ela na charrete. Associo esse fato a um tempo muito frio, e muitas vezes me perguntei se não foi então que ela pegou a congestão pulmonar. Fazia um tempo cinzento e úmido, e quando entrou em casa, ela tiritava. No dia seguinte, caiu de cama, infelizmente, para não mais se levantar, e morreu em 14 de novembro. Talvez, também, as mortes de seus filhos Antônio e Luís já lhe tivessem tirado a vontade de viver. O enterro teve lugar em Dreux. Partimos, de novo, numa manhã gelada, da estação dos Inválidos, onde um vagão especial nos levou
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até lá. Na estação de Dreux, fiacres fechados nos esperavam: a família toda se enfiou neles que subiram a colina, a pequeno trote dos cavalos, até a capela São Luís. O negror dos fiacres, o negror das tapeçarias, o negror dos assistentes me davam tristeza e angústia. Era meu mundinho que pouco a pouco desaparecia. Depois da cerimônia, era tradição que todos se reunissem no Hotel Paraíso , ou melhor, no "Bispado", pequeno pavilhão que se encontrava dentro dos muros que rodeiam a capela. Todos parentes espalhados através da França e da Europa se encontravam e experimentavam a alegria de se rever. Bon-Papa chamava isso de "fantasia macabra". Mas era a descontração dos nervos após terem participado do desgosto e da dor desse novo luto que mutilava a família. Bon-Papa voltou a Eu, e penso que passamos ali boa parte do inverno . As lembranças da infância são sempre marcadas por um acontecimento ou um prazer gravados no cérebro, ainda novo. São muitas vezes pueris. Ganhei de Natal um carrinho de bebê repleto de pequenos objetos que rodeavam a boneca. Isso aconteceu no corredor, junto de nossos quartos, no segundo andar. Eu me pergunto: como alguém pode descrever o prazer intenso de uma criança no momento da descoberta de um objeto maravilhoso? Vejo, também, a gruta que Mamãe criou, amassando um papel castanho de modo a parecer pedra, para que nós concretizássemos, então, nossa crença, e, assim, pudéssemos atingir a verdadeira dimensão de Deus que se fez homem para melhor amar a humanidade, e pequenino para se fazer amar na pureza da infância. Bon-Papa, sem dúvida, para se ocupar e se consolar, chamava Mamãe para lhe ditar pensamentos e lembranças. Ela tinha que descer uma escada tão encerada que se tornava perigosa, em cujas paredes pendiam fotografias das excursões em montanha de Papai e de seus irmãos, fazendo-a reviver todo o passado. Ela ia ter com Bon-Papa no pequeno escritório, também superaquecido como o de Boulogne, onde passava toda a manhã. Que diziam eles naquelas horas em que suas dores se juntavam? Que fim terão levado esses últimos escritos de Bon-Papa? A I Guerra Mundial tinha separado as famílias. A nossa era particularmente internacional . A Europa das monarquias era uma única parentela, fosse entre a Inglaterra e a Rússia , fosse entre os Orléans e a Bulgária , fosse entre os Bourbons, a Áustria e a Bavie-ra . Como cada uma dessas famílias se encontrava em campos opostos, tinham perdido o contato durante os quatro anos da guerra.

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Mamãe e Nonna decidiram ir a Lucerna, pedindo aos parentes do outro lado para nos encontrar nesse país neutro que era a Suíça. O ponto de encontro foi o Hotel Tívoli, em Lucerna, onde Nonna era recebida com muitas reverências. Ela tinha um porte tão nobre que todos, automaticamente, se levantavam quando ela entrava numa sala. Para distrair a nós, crianças, nos mandaram alugar, com os Baviera e os Habsburgo , um desses barcos comuns nos lagos suíços. A partida foi calma, cada um em seu remo, mas, de repente, alguém disse uma palavra a mais a respeito da guerra que acabávamos de atravessar. Começou uma discussão, o ambiente se envenenou, os tom das vozes se elevou, pronunciaram-se palavras infelizes que não vou repetir, e o barco se pôs a dançar perigosamente no meio do lago. Voltamos ao cais vermelhos de furor. Foi preciso que nossos pais nos chamassem à razão para que o bom entendimento voltasse. Foi a nossa primeira guerra.

1922 A primavera nos levou a Cannes, à querida Vila Maria Teresa. Mamãe resolveu me instalar com ela em seu quarto de duas camas, onde a escrivaninha inglesa nos fazia sempre lembrar Papai. Ele tinha escrito tanto nela que parecia presente, vivo de novo, se bem que invisível. Eu tinha nove anos e devia ser confirmada por Monsenhor Chapon87, bispo de Nice, com quem meus avós maternos mantinham estreitas relações de amizade. Mas, por ocasião de um passeio de bicicleta, no bulevar Midi88 que ainda era de terra poeirenta, fiz um movimento em Henrique Luís Chapon (* Saint-Brieuc, França,1845; † Nice 14-111925), ordenado sacerdote (Orleans, 22-05-1869) e bispo de Nice (30-05-1896).. 88 Meio-dia, isto é Sul.
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ziguezague e o resultado não se fez esperar: a bicicleta derrapou e fui projetada contra o meio-fio de pedra. Foi o que me contaram, pois me levaram para casa desmaiada. Foi a queda? Foi um vírus? Só sei que uma forte icterícia me atacou e me prendeu à cama por dezessete dias, e sem comer! O Dr. Bourcard foi inflexível. Mamãe não me deixou um só segundo, me ajudando e me contando histórias, ou me iniciando em pequenos trabalhos manuais para enganar a fome que me tomava o estômago. E eu recebia visitas com desgosto. No fim de dezessete dias, a primeira coisa que me permitiram tomar foi uma taça de champanhe acompanhando um musse de frango. Minha confirmação foi adiada para o ano seguinte. Minha convalescença foi longa. Hoje, me pergunto se o tratamento foi adequado. Evidentemente a medicina não era, ainda, muito evoluída. O verão avançava. A família fora oficialmente convidada para participar das cerimônias do centenário da independência, proclamada em 7 de setembro de 1822, quando meu trisavô, D. Pedro I, tinha desembainhado a espada e gritado: "Independência ou morte!", às margens do rio Ipiranga. Bon-Papa decidiu voltar lá em companhia de Mamãe e de meus irmãos. Pedi muito que me levassem também, mas meu estado de saúde foi julgado muito precário. Fui confiada a Nonna, enquanto Mamãe e meus irmãos se juntaram a Bon-Papa em Bordéus para embarcar no "Massília". Bon-Papa se fazia acompanhar pelo fiel Latapie e por uma religiosa que vinha, muitas vezes, tratar da família em Eu, a irmã Fidelina. Ele sabia que sua saúde era frágil. Seu coração tinha dado alguns sinais de fraqueza, mas decidiu peremptoriamente fazer essa viagem para apresentar Mamãe e meus irmãos, sobretudo Pedro Henrique, Chefe da Casa Imperial do Brasil depois da morte de Vovó, e colocá-los a par da situação do Brasil. Tudo se passou bem até o equador. A vida a bordo era agradável, principalmente para meus irmãos que participavam de todos os jogos que o comissário inventava para distrair os passageiros. Na noite de 28 de agosto, Bon-Papa desceu, como de costume, em companhia de Mamãe para jantar na mesa do comandante, sentando-se ao lado dela. De repente, ela o viu se voltar em sua direção e só teve tempo de abrir os braços e evitar a queda no chão. Levaram-no para a cabina, e o médico de bordo alertado, correu para aplicar uma injeção e tentar trazer Bon-Papa à vida, mas em vão. O coração tinha cessado de bater. A morte tinha sido súbita. O comandante pediu que Mamãe o seguisse a seu gabinete. Explicoulhe que as leis do mar não permitiam conservar um cadáver a bordo, e que deveriam proceder a cerimônia da imersão. Minha pobre Mãe
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ficou desnorteada. Estava só. Corajosamente suplicou ao comandante que encontrasse outra solução. Emocionado pela situação, o comandante se afastou um pouco para pensar, voltando pouco depois e lhe dizendo: "Alteza Imperial, como o presente caso é muito especial, penso poder tomar a responsabilidade de infringir a lei. Mas só há uma possibilidade de evitar a imersão: descer o corpo do conde d'Eu para o frigorífico89. V. Alteza Imperial aceita? Peço silêncio sobre o que tratamos aqui." Foi assim que Mamãe chegou ao Rio de Janeiro, trazendo o corpo de seu querido sogro, obrigada a tomar pé, sozinha com dois filhos, de treze e onze anos, num país que ela só conhecia por descrições e onde, em lugar da alegria das festas, ela levava o duplo luto do marido e do sogro. No momento da morte de Bon-Papa, passou-se um fenômeno estranho. Tio Pedro, tia Elsie e seus dois filhos mais velhos90 se encontravam em outro navio, o "Curvelo", vindo também em direção do Brasil. Nesse mesmo dia 28, tia Elsie estava no convés conversando com o comandante sobre pintura, quando, de repente, ele a interrompeu, dizendo: "Há ali um passageiro que eu não conheço ... é curioso". Continuando a falar, ela o convidou para, mais tarde, ver, na cabina, algumas pinturas executadas por ela. Ao entrar, o comandante viu a foto de Bon-Papa. Estupefato, ele disse: "Mas é essa a pessoa que eu vi no convés agora mesmo!" Esse fenômeno sempre nos intrigou. Que será que se passa no momento em que a alma deixa o corpo? Mamãe e toda a família participaram, em grande luto, de todas as cerimônias da festa da independência. Mostraram-me uma foto dela no Corcovado. Está segurando uma colher de pedreiro e coloca uma pedra no lugar onde seria erguido o belo monumento ao Cristo Redentor, que domina a cidade e a baía91. Foi um sonho ou eu vi realmente? Enquanto Mamãe se encontrava no Brasil, Nonna me levou a Samoens92, onde o ar devia me fazer bem. Para me distrair, ela ma fazia pintar. Eu inventei uma paisagem com Tal providência permitiu que o corpo chegasse intacto ao Rio de Janeiro e fosse embalsamado na Santa Casa da Misericórdia, permanecendo em velório público por muitas horas; voltando à Santa Casa, lá ficou até ser levado para a França. 90 Isabel, condessa de Paris, e Pedro Gastão, 3º Príncipe de Orleanse-Bragança. 91 Cerimônia realizada a 04 de outubro de 1922. 92 Estação de águas na Alta-Savóia, com fontes ferruginosas e sulfurosas.
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um morro bem alto, com que presenteei Mamãe quando ela voltou. E ela me disse: "Você sabe que pintou a morro do Corcovado?" Foi em Samoens que eu soube, pela querida Nonna, da morte de Bon-Papa. Ela entrou no meu quarto e, com toda doçura, me pegou nos braços e me disse: "Vou-lhe contar uma coisa triste: seu querido Bon-Papa morreu, mas não é preciso chorar. Ele está junto da esposa, na luz de Deus". Assim mesmo, foi para mim um grande choque, do qual nunca me esqueci. Mamãe e tio Pedro trouxeram o corpo de Bon-Papa para Dreux, respeitando as últimas vontades de seu sogro e pai, a fim de que ele pudesse repousar junto da esposa, como sempre desejara. O desaparecimento de meus vós paternos fez com que tio Pedro e Mamãe partilhassem os bens entre os dois ramos da família. Tio Pedro ficava como castelo d'Eu, e nós recebíamos o Palacete de Boulogne, o que satisfazia a ambas as partes. Tio Pedro começou a restauração da parte do castelo que tinha sido incendiada93, aquela mesma sobre cujas vigas, que dominavam o vazio, nós gostávamos de passear. Ele fez uma habitação confortável, onde teve a gentileza de nos hospedar a mim e a meus irmãos, toda vez que nos convidava para a caça no parque. Ali matei minha primeira galinhola. De seu lado, Mamãe resolveu clarear um pouco o palacete de Boulogne, onde tudo era pintado de castanho, moda do fim do século XIX, principalmente, na parede do fundo do saguão, onde um espelho rodeado de molduras castanhas e uma guirlanda de rosas cor de chocolate eram o ornamento principal. Tudo aquilo desapareceu para dar lugar a cores mais leves, que valorizavam o grande pára-vento Coromandel. A grande mesa redonda permaneceu. Nela nos reuníamos, à noite, depois do jantar, para escutar as leituras que o padre Delair nos fazia. Todos os Labiche, Paul Divoy, Jules Verne desfilaram diante de nós. Ele era um maravilhoso leitor, e nós ficávamos em silêncio escutando até que o relógio soasse dez horas fatídicas, quando era preciso subir e dormir. A grande casa nos parecia então bem vazia, tantos eram os seres queridos que nos tinham deixado. O segundo andar foi reservado para a rouparia e para a sala de estudos. Só Pedro Henrique conservou seu quarto de infância. Boubou e eu descemos para o primeiro andar, onde Mamãe me instalou num quartinho junto ao seu. À noite, depois me ter posto na
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Em 1901, antes da aquisição do mesmo pelo conde d'Eu.
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cama, Júlia Bilier abria toda a grande janela para mudar o ar. Ouviase, então, o ruído surdo da cidade enquanto o ar novo vinha acariciar minha cama e purificar a atmosfera do quarto. Eu adorava aquele momento: bem ociosa na cama quente, escutava, por algum tempo, Mamãe tentando falar de política com a boa Júlia, que não tinha nenhum interesse pelo assunto, e respondia com uns "hum, hum" que pouco a pouco me levavam ao sono. Imhof, o cozinheiro, ficou conosco, e retomou seu reino na grande cozinha, situada num meio-porão. A gula nos levava muitas vezes a esse mestre-cuca que nos presenteava com pequenas delicias preparadas em segredo. Para quem tinha a vocação de bom cozinheiro, preparar um almoço era uma verdadeira arte. Imhof saía todos os dias, pelas 4:30h da madrugada, para estar nos Halles94 na hora da chegada dos produtos bem frescos. Tinha que tomar o bonde até Auteil95 e, depois, o metrô. Ida e volta representavam entre uma hora e meia e duas horas, mas sua compensação era escutar, com orgulho, atrás das portas, os elogios que eram feitos às suas obras culinárias. Certas "percas à Cardinal" ficaram célebres. Mamãe se ocupou muito com arrumação do jardim, depois do desaparecimento do velho "pai Auger", o temível jardineiro que corria atrás de nós, gritando: "Não passem através de minhas begônias", que dizia "begô". A horta e a estufa não me ficaram na lembrança. Penso que deveriam ser bem restritas. Enfim, tudo o que era desse gênero desapareceu para dar lugar ao campo de tênis. Ali passávamos horas de prazer e de descontração, com meus irmãos, primos que vinham, às vezes, aos domingos, e numerosos amigos: Hugo de Place e suas irmãs, Luís Alleau, Carlos Henrique de la Cornillière, Armando de Saint-Perrier... Mas, quando vinha a Paris, tio Pedro preferia se hospedar no Palacete Lambert96, em casa de tio Adão97, príncipe Czartoryski. Lá ainda vigoravam os laços de sangue. Eles eram primos irmãos, pois a mãe de tio Adão, Margarida, era irmã de Bon-Papa, como eu já disse. As relações continuaram na geração seguinte, quando nós nos víamos Mercado municipal. Subúrbio de Paris. 96 Residência da família Czartoryski desde a época que se refugiou na França, expulsa da Polônia pelos russos. 97 ADÃO Luís, príncipe Czartoryski, duque de Klewan e de Zukow (* Varsóvia, Polônia, 05-11-1872; † ibd. 26-06-1937), filho de Ladislau, príncipe Czartoryski, duque de Klewn e de Zukow, e de Margarida, princesa de Orléans-Nemours; X ibd. 31-08-1901, Maria Luísa, condessa Krasinska, de quem teve oito filhos, entre os quais, Margarida, princesa Gabriel de Bourbon-Sicília, Isabel, condessa Zamoyska e Iolanda, princesa Radzwill.
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em Cannes, onde os Czartoryski tinham uma pequena casa perto do cemitério, e se perpetuou, ainda, na geração de meus filhos que se ficam felizes em rever seus primos poloneses. Havia uma espécie de acordo entre Mamãe e tio Pedro para que primos não perdessem o contato. Em domingos alternados, Bebelle, Pedrinho e Chica vinham a Boulogne; e na outra semana, éramos nós que íamos ao Palacete Lambert. Continuávamos juntos nossas façanhas no telhado do palacete de Boulogne, para pavor dos vizinhos que vinham dizer a nossos pais que "as crianças acabariam se matando". Os domingos no Palacete Lambert passavam em brincadeiras de esconde-esconde, que terminavam, com urros selvagens, no belo pátio do século XVIII, cujo valor nós ainda não apreciávamos. O bom Lloyd tinha levado para Eu os dois cavalos que reencontraram sua cama de palha nos boxes da estrebaria. Mamãe não montava mais depois da morte de Papai, mas um dia, sua égua Tosca escapou, pois tinha encontrado um jeito de, com a língua, abrir o postigo na porta de seu cubículo. Grande susto! Todo mundo procurava segurar a égua que corria de um lado para o outro. Ouvindo o barulho, Mamãe saiu e, vendo o que se passava, assobiou. A égua ergueu suas compridas orelhas, e veio trotando ao encontro da dona. Tosca morreu pouco depois. Mamãe decidiu nos mandar melhorar nossas noções de equitação na Escola Pelletier, na rua Chalgrin. Deixávamos Boulogne na charrete puxada por Amuinho e conduzida por Lloyd que, de tempos em tempos, fazia o favor de nos passar as rédeas. Atravessávamos, assim, todo o bosque de Boulogne, margeando o grande lago, para, depois, tomar a avenida do Bosque (hoje avenida Foch) e chegar à rua Chalgrin, à escola, onde Gougaud, o diretor, começou a nos ensinar a "manter assento" para não resvalar da sela. Confiou-nos depois a Bernard, antigo cavaleiro de Saumur98 que adiantou nossa educação eqüestre até nos ensinar a pôr um cavalo em "alto estilo", o que é a sensação mais maravilhosa que conheço. Nosso último professor foi o célebre Charpentier, de quem André Maurois99 fala em sua memórias. A rainha da Inglaterra100 lhe tinha mandado um cavalo soberbo, mas rebelde, para ser domado. Petrificados, assistíamos a luta entre o animal e o
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Célebre escola de equitação. André Maurois, pseudônimo do escritor francês Emílio Herzog (* Ebeuf (Alsácia), França, 1886; † 1967). 100 MARIA Augusta Luísa Olga Paulina Cláudia Inês, princesa de Teck (* Londres, Grã-Bretanha, 26-05-1867; † ibd. 14-03-1953), filha de Francisco, duque de Teck, e de Maria, princesa da Grã-Bretanha e Irlanda e Cumberland; X ibd. 06-07-1893 Jorge V, Rei da GrãBretanha e Irlanda, Imperador das Índias, c.s.
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cavaleiro, combate extraordinário de vontades de ambas as partes. Por três vezes, Charpentier foi lançado ao chão e, apesar de sua arte e tenacidade, não pode atingir seu objetivo. O cavalo teve que voltar para a Inglaterra... Lembrando-se como eu tinha chorado a perda de Pompom, Mamãe me deu um pequeno jumento negro, a quem dei o nome de Pompom II, e era muito mais inquieto que o primeiro. Essa nova aquisição me encantou. Como era difícil de montar, decidiu-se que ele seria mais útil para puxar a charrete. Eu experimentava um prazer especial em atrelar Pompom II, em passar-lhe o freio na boca, em tomar as rédeas e, sem seguida, partir para o bosque na companhia do fiel Lloyd. Meu jumento não tolerava ser ultrapassado por qualquer bicicleta: houve corridas épicas na avenida Rainha Margarida, com o ciclista pedalando tanto quanto podia e eu procurando conter Pompom II que galopava, de boca bem aberta, atrás de sua presa. Felizmente, Lloyd estava ali para evitar um desastre. Outras lembranças mais sérias me levam às visitas a que Mamãe fazia conosco. Primeiro, à casa de tia Branca101, irmã de Bon-Papa. Ela morava na num pequeno palacete na avenida Kleber, que penso ser o número 9. Subíamos uma pequena escada, e nos faziam entrar numa sala muito escura. Tia Branca se achava numa poltrona, com uma grande mantilha branca na cabeça. Ela sofria da vista e tinha uma voz estranha que me parecia sair de além-túmulo. Se estávamos um pouco agitados, ela dizia a Mamãe: "Você não sabe conter seus filhos". Ao contrário, quando íamos nos despedir dela na estação de Austerlitz, onde sempre se instalava em seu compartimento bem antes da partida do trem, ela se mostrava toda gentilezas. Até deixava-nos brincar com seu cãozinho bassê enquanto conversava com Mamãe. Dessa forma, todo ano, tia Branca ia a Lourdes. O chefe do vagão-dormitório tinha pequenos cuidados para com ela, cedendo a todos os seus caprichos, fazendo mesmo parar o trem em pleno campo, para que o bassê fizesse suas necessidades. Nós o encontramos mais tarde, num trem que nos levava a Lourdes, onde tia Branca desejou ser enterrada. Ele guardava daquela passageira um tanto exigente uma lembrança de ternura e admiração. BRANCA Carolina Amélia Margarida Luísa Vitória, princesa de Orléans-Nemours (* Claremont House, Inglaterra, 28-10-1957; † Paris, França, 04-02-1932), filha de Luís, príncipe de Orléans, duque de Nemours, e de Vitória Antonieta, princesa de Saxe-CoburgoGotha. Sua mãe faleceu em conseqüência de seu nascimento; o pai não permitiu seu casamento com o duque de Norfolk, nobre inglês católico. A princesa Branca se tornou fria e dura, e agressiva para com toda a família (Orléans), desejando ser enterrada em Lourdes e não em Dreux "com aquela gente".
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Mamãe nos levava muitas vezes a lanches em casa de brasileiros fiéis que tinham seguido a família imperial no exílio. A baronesa de São Joaquim102 morava num apartamento no quarteirão Scheffer. Ela sempre nos esperava com um lanche suntuoso. José, seu fiel empregado negro, nos abria a porta, sorrindo com dentes brilhando de brancura em contraste com sua face escura, porque sabia que a vinda de Mamãe era uma grande alegria para sua patroa. Lá, também, encontrávamos outra senhora de cabelos brancos, só que sentada numa cadeira de rodas. Entretanto, em minha lembrança, essas visitas não eram tristes. Outras vezes davam-se na casa da condessa Pereira Pinto103, depois em casa de sua filha, a condessa de Montlaur104. Toda essa gente brasileira morava no 16º distrito105 em grandes apartamentos, onde quebravam a cabeça para arranjar brinquedos próprios à nossa idade. Enfim, na avenida Raimundo Poincaré se encontravam os Silva Ramos, a condessa viúva106, suas duas filhas, Hortênsia107 e Carolina108, bem como os dois filhos, Edgar109 e Gustavo110. Hortênsia pertencia à ordem terceira de São Joaquina de Oliveira de Araújo Gomes [Nina] (* ..., Brasil, 28-121849; † Paris, França, ...1929), filha de José Maria de Araújo Gomes, 2º barão de Alegrete, e de Joaquina de Oliveira Álvares; X Rio de Janeiro, Brasil, 20-05-1869 José Francisco Bernardes, barão de São Joaquim (05-07-1888/27-11-1916) (* Piraí, Brasil, 26-11-1839; † Petrópolis, Brasil, 27-11-1916), filho de Antônio José Bernardes e de Augusta Maria da Silva, s.s. 103 Ana Vicência da Silva Prado, condessa Pereira Pinto (* São Paulo, Brasil, ...; † Paris, França, ...), filha de Martinho da Silva Prado (irmão do barão de Iguape) e de Viridiana Valéria da Silva Prado (filha do barão de Iguape); X ... Antônio Pereira Pinto Júnior (* ...; † ...), filho de Antônio Pereira Pinto e de Maria da Glória Gavião, de quem teve quatro filhas, entre as quais Margarida, Sra. Miguel Calógeras, e Alice, condessa de Montlaur. 104 Alice Prado Pereira Pinto (* ...; † ...), filha de Antônio Pereira Pinto e de Ana Vicência da Silva Prado, condessa Pereira Pinto; X ... ... Conde de Montlaur (* ...; † ...), filho de ... e de ..., c.s. 105 XVI arrondissement. 106 Hortênsia Pereira Pinto (* ;†) X Hermano Cardoso da Silva Ramos, conde Hermano Ramos (* ; †), c.s. 107 Hortênsia da Silva Ramos (*;†), filha de Hermano Cardoso da Silva Ramos, conde Hermano Ramos, e de Hortênsia Pereira Pinto.. 108 Carolina da Silva Ramos (*; †), filha de Hermano Cardoso da Silva Ramos, conde Hermano Ramos, e de Hortênsia Pereira Pinto. 109 Edgard da Silva Ramos (*;†), filho de Hermano Cardoso da Silva Ramos, conde Hermano Ramos, e de Hortênsia Pereira Pinto. Seus descendentes vivem ainda na França, mas mantêm a nacionalidade brasileira. 110 Gustavo da Silva Ramos (*; †), filho de Hermano Cardoso da Silva Ramos, conde Hermano Ramos, e de Hortênsia Pereira Pinto. Seus
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Francisco; Carolina representava o mundo. Elas costumavam receber muitos escritores e filósofos. Mamãe procurava assim, apesar do desaparecimento de Papai, depois do de Vovó e de Bon-Papa, manter contato com todos os elementos brasileiros presentes em Paris. Aqueles anos de pós-guerra, de pós-lutos, se passaram assim. Nonna vinha passar algumas semanas conosco, e depois, chegando o verão, voltávamos para Cannes, muitas vezes fazendo uma volta pela Suíça, onde Mamãe visitava tia Titine, ali exilada com seu marido, tio Pedro Fernando111, e meus primos Godofredo112, Helena113, Jorge114 e Rosita115. descendentes vivem ainda na França, mas mantêm a nacionalidade brasileira. 111 PEDRO (I) FERNANDO Salvador Carlos Luís Maria José Leopoldo Antônio Ruperto Pio Pancrácio, arquiduque da Áustria e príncipe de Toscana, Príncipe-Herdeiro de Toscana (17-01-1908/02-05-1921), Chefe da Casa Grã-Ducal de Toscana (12-05-1921/04-10-1948)(* Salzburg, Áustria, 12-05-1964; † Sankt-Gilgen, Áustria, 04-101948), filho de Fernando IV, grão-duque de Toscana, e de Alice, princesa de Bourbon-Parma; X Cannes, 08-11-1900 Maria Cristina, princesa de Bourbon-Sicília, de quem teve quatro filhos, entre os quais Godofredo, Chefe da Casa Grã-ducal de Toscana, Helena e Rosa, duquesas do Württemberg. 112 GODOFREDO (I) Maria José Pedro Fernando Humberto Antônio Ruperto Leopoldo Henrique Inácio Afonso, arquiduque da Áustria, príncipe de Toscana, Duque-Herdeiro de Toscana (17-01-1908/0811-1948), Chefe da Casa Grã-Ducal de Toscana (08-11-1948/21-011984) (* Linz, Áustria, 14-03-1902; † Bad Ichl, Áustria, 21-01-1984), filho de Pedro Fernando, arquiduque da Áustria, Chefe da Casa Ducal de Toscana, e de Maria Cristina, princesa de Bourbon-Sicília. X Sarvar, Hungria, 02 e 03-08-1938 DOROTÉIA Teresa Maria Francisca, princesa da Baviera (* Leutstetten, Alemanha, 25-03-1920), filha de Francisco, príncipe da Baviera, e de Isabel, princesa de Croy, de quem teve quatro filhos, entre os quais Leopoldo (III), Chefe da Casa Grã-Ducal de Toscana. 113 HELENA Maria Alice Cristina Josefa Ana Margarida Madalena Galburga Blandina Cecília Filomena Carmela Inácia Rita de Cássia, arquiduquesa da Áustria, princesa de Toscana (* Linz, Áustria, 30-101903; † Tübingen, Alemanha, 08-09-1924) filha de Pedro Fernando, arquiduque da Áustria, Chefe da Casa Ducal de Toscana, e de Maria Cristina, princesa de Bourbon-Sicília; X Altshausen, Alemanha, 24-101923, Filipe (I), Chefe da Casa Real do Würtemberg, de quem teve uma filha. 114 JORGE Maria Reiniro José Pedro Huberto Godofredo Eustáquio Ruperto Inácio, arquiduque da Áustria, príncipe de Toscana (* Parsch,
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Tia Titine era encantadora. Parecia-se muito com Mamãe, só que era muito distraída. No tempo da monarquia austro-húngara, os membros da família Habsburgo, próximos do imperador, moravam no palácio imperial de Hofburg. Recém casada, ela decidiu sair do palácio para dar um passeio. A banda da guarda se pôs a tocar o hino reservado aos arquiduques. Tia Titine parou, muito interessada em ver a pessoa que ia passar. E como a banda continuasse e tocar indefinidamente, ela compreendeu, enfim, que era ela mesmo que eles saudavam. Passamos uma semana em Lucerna, junto deles, percorrendo aquela bonita cidade, passeando de barco no lago, fazendo excursões nos arredores. Os parentes que viviam na Alemanha116 vinham nos visitar para estar com Nonna que costumava se hospedar no Grande Hotel de Burgenstock, ou num hotel mais moderno em Lucerna. Procuravase esquecer a guerra e, sobretudo, prestar a atenção para não dizer qualquer palavra que pudesse, de novo, meter fogo no paiol. A descida para o sul era fantasista, ao sabor do vento e do humor. Passávamos pelo Brenner e pela Itália, ou bem mais simplesmente, atingíamos Genebra, Grenoble e a estrada dos Alpes até Cannes, felizes de encontrar o sol, a praia e a alegria da Vila Maria Teresa.

Áustria, 22-08-1905; † Altshausen, Alemanha, 22-05-1952), filho de Pedro Fernando, arquiduque da Áustria, Chefe da Casa Ducal de Toscana, e de Maria Cristina, princesa de Bourbon-Sicília. X SanktGilgen, Áustria, 29-08-1936 Maria Valéria, condessa de Waldburg-Zeil e Hohennems, de quem teve nove filhos. 115 ROSA Maria Antônia Roberta Josefa Ana Galburga Carmela Inácia Rita da Cássia [Rosita], arquiduquesa da Áustria, princesa de Toscana (* Parsch, Áustria, 22-09-1906; † Friedrichshaffen, Alemanha, 17-091983); filha de Pedro Fernando, arquiduque da Áustria, Chefe da Casa Ducal de Toscana, e de Maria Cristina, princesa de BourbonSicília. X ibd, 01-08-1928 Filipe (I), Chefe da Casa Real do Württemberg, c.s. 116 Fernando, duque de Calábria, e Imaculada, princesa João Jorge de Saxe.
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1925 1925 foi um ano memorável no verdadeiro sentido da palavra. Pio IX117 anunciou a canonização de irmãzinha Teresa de Lisieux118,
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PIO XI (Ambrósio Damião AQUILES Ratti)(* Desio, Itália,31-051857 † Roma, 10-02-1939), ordenado sacerdote, Milão, Itália, 20-121879; Núncio na Polônia (03-06-1919); bispo, 28-10-1919; arcebispo de Milão e cardeal 13-06-1921; eleito Papa 06-02-1922, sucedendo a Bento XV; foi sucedido por Pio XII. Assinou com Mussolini (governo italiano) o tratado de Latrão (10-02-1929) que devolveu parte do poder temporal dos Papas (cidade do Vaticano), reconheceu a Itália unificada em detrimento das dinastias depostas (Bourbon-Sicília, Bourbon-Parma, Módena e Toscana), suspendendo a excomunhão
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intitulando-a "apóstola das missões". Mamãe nos propôs irmos a Roma para assistir às cerimônias desse importante acontecimento. Partimos de trem: Mamãe, tio Reiniro119, tia Carolina120, meus dois irmãos e eu. Chegando em Roma, Mamãe tratou de avisar o príncipe Lancellotti121 que assistiríamos à canonização. De manhã bem lançada contra a Casa de Savóia por Pio IX. O Conde de Caserta o apoiou plenamente, sendo por ele elogiado. Contrário ao comunismo, também condenou o fascismo e o nazismo pouco antes de morrer. 118 Maria Francisca TERESA Martin [Teresinha](* Alençon, França, 0201-1873; † Lisieux, França, 30-09-1897), filha dos veneráveis Luís José Estanislau Martin e de Maria Zélia Guérin. Beatificada em 29-041923; canonizada em 17-05-1925; declarada padroeira universal das Missões, em 14-12-1927 por Pio IX; doutora da Igreja por João Paulo II, em. 19-10-1997. Conhecida como Santa Teresa do Menino Jesus, Santa Teresa de Lisieux ou, mais popularmente, como Santa Teresinha, ela entrou no Carmelo aos 15 anos de idade (08-04-1888) e faleceu aos 24 anos, como mestra de noviças. Seus escritos e sua doutrina sobre o amor de Deus influenciaram grandemente o pensamento católico moderno, varrendo os últimos resquícios do jansenismo existente no espírito francês. É considerada a maior santa dos tempos modernos. Festa 01-10. 119 RENIRO (I) Maria Caetano, príncipe de Bourbon-Sicília, Duque de Castro, Príncipe Herdeiro das Duas-Sicílias (01-12-1914/07-011960), Chefe da Casa Real das Duas-Sicílias (07-01-1960/13-011973)(* Cannes, França, 03-12-1883; † Roquebrune-sur-Argent, França, 13-01-1973), filho de Afonso, conde de Caserta, Chefe da Casa Real das Duas-Sicílias, e de Maria Antonieta, princesa de Bourbon-Sicília-Trapani. X Druzbaki, Boêmia, 12-09-1923, Carolina, condessa Zamoyska, de quem teve dois filhos, entre os quais Fernando (IV), atual Chefe da Casa Real das Duas-Sicílias. Sucedeu a seu irmão Fernando (III), duque de Calábria em 07-01-1960) e foi sucedido por seu filho Fernando (IV), também duque de Calábria, em 13-01-1973. 120 Carolina, condessa Zamoyska (* Cracóvia, Polônia, 22-09-1896; † Marselha, França, 09-05-1968), filha de André, conde Zamoyski, e de Carolina, princesa de Bourbon-Sicília-Trapani (irmã da condessa de Caserta); X Druzbaki, Boêmia, 12-09-1923 Reiniro (I), Duque de Castro, Chefe da Casa Real das Duas-Sicílias, c.s. 121 D. José, 2º Príncipe Lancelotti, Nobre romano conscrito (* Roma, Itália, 19-11-1866; † Briano, Itália, 22-01-1945), filho de Filipe Maximiliano Massimo, 1º Príncipe Lancelotti, e de D. Elisabete Aldobrandini; X Frescati, Itália, 14-10-1889, D. Lesa Pia Aldobrandini (* Frescati, 29-07-1871; † Briano, 15-09-1952), filha de D. Pedro Aldobrandini, Príncipe de Sarsina, e de Francisca de La Rochefoucauld, de quem teve seis filhos, entre os quais, D. Filipe, 3º Príncipe Lancelotti,
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cedo122, me vestiram toda de branco, com uma mantilha branca na cabeça. Eu tinha doze anos. Meus irmãos puseram terno azul escuro. Tio Reniro pôs fraque e todas as suas condecorações. Mamãe e tia Carolina usaram vestido longo negro, uma gola alta para cobrir o pescoço e uma mantilha negra na cabeça. Às 8:30h um carro de aluguel, especial para a cerimônia, nos veio apanhar no hotel, e nos levou através da cidade até a porta Vaticana, situada à esquerda da igreja de São Pedro, pequena porta por onde as autoridades entravam na basílica. Um guarda suíço, em traje de gala, nos esperava e nos conduziu à tribuna reservada aos príncipes, à direita do trono Papal, e em frente à tribuna do corpo diplomático. Como eu era pequena, me colocaram na primeira fila, o que permitiu não perder um só instante daquela cerimônia soberba que durou, pelos menos, cinco horas. A entrada do Papa na sedia gestatoria123, o ruído dos aplausos que acompanhavam sua aproximação, depois, mais tarde, as trombetas de prata que soavam no momento da elevação, a missa tão imponente e, ao mesmo tempo, tão piedosa, a suntuosidade do cenário, não podem ser esquecidos. O contraste entre a munificência da cerimônia e a vida tão simples da irmã Teresinha era profundamente comovente. Revejo-o ao escrever e ele me traz um sentimento de reconhecimento para com Mamãe que me fez viver tal momento. Mamãe tinha solicitado, se possível, uma audiência com Pio XI. Era o costume. Os príncipes, chegando a Roma, deviam pedir uma bênção especial ao Papa. Dois dias se passaram sem que a carta-convite chegasse. Pensando que o Papa estivesse sobrecarregado, Mamãe e tio Reniro decidiram ir a Nápoles. Um trem, ainda bastante lento na época, nos levou à capital do reino das Duas-Sicílias, aonde chegamos sob uma forte chuva, na hora do jantar. Apenas o tínhamos terminado, o porteiro do hotel trouxa a tio Reiniro uma mensagem de Roma: a audiência estava prevista para a manhã seguinte. As valises foram refeitas às pressas e tomamos o trem para chegar a Roma à 1:00h. Às 8:00h, enfiamos nossos trajes de gala, que eram os mesmos da canonização, e seguimos para o Vaticano. Na época, havia ainda o grande cerimonial: a guarda suíça batia os calcanhares e apresentava as armas, isto é, as alabardas; depois, o mestre-de-cerimônias nos conduzia através de várias salas: a primeira, com uma fileira de oficiais em trajes de gala; depois, as dos guardas nobres; enfim, a dos camareiros secretos, com trajes renascentistas negros e gola de renda em volta do pescoço. Enfim, chegávamos a um pequeno salão, onde mandaram-nos esperar. Demoraria? "Tudo depende do que o Santo Padre tenha vontade de Dia 17 de maio. Trono-andor em que o Papa era levado para ser visto pela multidão.
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saber do visitante que se encontra em audiência", nos disse o camareiro que nos acompanhava. No fim de uns vinte minutos, a porta se abriu. Era nossa vez de entrar na sala do representante de Jesus Cristo na terra. Momento de emoção. Fizemos a primeira genuflexão dupla, mais dois passos, segunda genuflexão, mais dois passos, e, na terceira nos encontramos aos pés do Papa, e nos abaixamos para beijar-lhe o calçado. O Papa nos fez levantar e nos convidou a nos sentar em poltronas à sua volta. Fez perguntas a tio Reiniro e a Mamãe sobre as respectivas famílias, e nos deu uma medalha. A saída se dava como a entrada, com genuflexões e recuos. Pio XI era imponente, mas bastante frio e distante. É preciso dizer que o cerimonial do qual acabávamos de participar devia ser cansativo para ele.

1926 Uma notícia caiu como um raio sobre a família: Nonno ia vender a Vila Maria Teresa! Nós todos vínhamos desfrutando da hospitalidade de nossos avós, sem pensar que ela pudesse ter fim, sem pensar que a vida se tornava cada vez mais cara, sem pensar que alojar e alimentar tanta gente, e manter tantas peças custava uma fortuna. Februário, o porteiro, tinha morrido e seu posto não tinha sido preenchido. Ficavam Lasse, o excelente cozinheiro, e Luís o segundo copeiro. Nonna mantinha Batistina, sua fiel camareira, da qual falarei mais tarde. Silvy, o jardineiro-chefe, com seu grande avental azul e
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seu chapéu de palha já tinha se aposentado. Só nos restava a lembrança do ruído de suas tesouras podando os evônimos, de seu ancinho nas grandes alamedas de cascalho. Maiffret, o segundo jardineiro deveria continuar com meus avós na nova morada: a Vila Maria Teresa II, que não valia nada a nossos olhos em comparação à primeira. Estava situada na estrada de Antibes, continuação da rua de Antibes, local que, para nós, já era o interior do país. Era uma casa de tamanho médio, de dois andares, rodeada de um pequeno jardim com algumas palmeiras. Dentro, duas salas de visitas e uma sala de jantar. No primeiro andar, três quartos permitiam a Nonno, Nonna e tia Beppa estarem perto uns dos outros. No segundo andar, encontrava-se o quarto de Batistina e um outro que poderia receber um hóspede de passagem. Adjacente ao térreo, encontravase a capela. Penso que foi ela que mais fez com que Nonno comprasse aquela casa124. Ele desejava que houvesse ali missa todas as manhãs, o que Canonico pôde fazer tanto quanto sua saúde permitiu. Mas o pobre padre sofria do mal de Parkinson: ano a ano, víamos seu tremor se acentuar até que a doença o prendeu a uma poltrona em casa. Morreu por volta de 1930, sendo enterrado no cemitério de Cannes, não longe do mausoléu dos Caserta, aos quais ele tinha, por assim dizer, dedicado a vida. Mamãe não queria se afastar de seus pais. Tratamos, pois, de procurar um lugar ideal onde montar nossa tenda. Cap d'Antibes a atraía muito, mas já era muito habitado e demasiadamente sofisticado. Andamos de carro em todo lugar. A paisagem do lado de Mangins era encantadora: uma abundância de flores de todas as espécies, de orquídeas selvagens cor de rosa ou azuis, anêmonas em profusão, de lírios dos campos, e voltamos para casa com grandes braçadas perfumadas, mas de lá não se via o mar. Dirigimo-nos, então, a Mandelieu, que até então tinha sido para nós um lugar de passeio de que gostávamos especialmente, pois lá se chegava por um trenzinho, onde um vagão fechado permitia aos mais idosos estarem abrigados do vento, e cujos trilhos margeavam a Estrada Nacional 7, até Termas de Mandelieu. O vagão rebocava um "dançarino"125, vagão sem portas, com simples bancos, cujo nome se justificava pelo balanço que projetava os passageiros para a esquerda e para a direita. Naturalmente, o escolhíamos, o que nos permitia admirar a bela campina entre La Bocca e Mandelieu. De boa vontade, eu podia imaginar Mamãe e seus irmãos, antes de chegarem a Cannes, Segundo o testemunho de Monsenhor Delair, esta capela foi a primeira coisa que o Conde de Caserta fez questão de construir em sua nova casa, não admitindo apenas um oratório instalado em qualquer sala: "Em minha casa, Deus deve ser o mais bem alojado", dizia ele. 125 “Baladeuse”
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galopando ao longo do mar, através daqueles prados ainda inteiramente semeados de margaridas e botões de ouro, para, enfim, entrarem em fila na Croisette. Nossas pesquisas deveriam nos levar para aquele lado. Mandelieu era, então, uma cidadezinha de dois mil habitantes, situada ao longo da Estrada Nacional 7. À entrada, se achava campo de polo, e uma lembrança que, pouco a pouco, se formava em minha memória, me levava ao tempo em que vínhamos ver Papai jogar. Isso deveria ser logo depois da guerra. É ainda uma dessas evocações difíceis de descrever, pois a lembrança daquele pai que tínhamos amado tanto é formada por imagens suaves, nunca desaparecidas, fixadas na profundidade do coração de uma infância sofrida. Tinham mostrado a Mamãe terreno à venda no lugar chamado Minelle. Metemo-nos na estrada do Esterel, e o corretor nos fez logo subir uma pequena ladeira, e nos encontramos numa espécie de platô cultivado por um agricultor chamado Narbonnant, de boa reputação. A vista nos encantou. Diante de nós se estendia uma planície que ia até os pinheirais do golfo de Mandelieu; mais longe, a vista alcançava o Esterel, o mar, as ilhas de Lérins, a baía de Cannes, e terminava nos Alpes, que se mostravam em toda a magnificência de seu manto de neve. Mamãe foi no dia seguinte ao tabelião, Sr. Vial, e efetivou a compra do terreno. Aqui, gostaria de fazer uma pausa e sonhar. Ver uma casa ser construída é uma maravilhosa aventura. É como gerar um filho; é como construir um ninho; é como realizar tudo o que as crianças fazem ou sonham em fazer. Tio Januário, seguindo o exemplo de Mamãe, comprou o terreno do lado. Depois, tia Gietta ofereceu um pequeno lote à tia Beppa. A família se reagrupou de novo, ficando cada um em sua própria casa. Tio Januário conhecia em ex-aviador que, depois da guerra, virara arquiteto. O projeto de três casas não o amedrontou. Sua planta inicial agradou a Mamãe que faz apenas algumas modificações. Os trabalhos da fundação começaram logo depois que os limites das paredes fossem definidos por cordas presas por estacas fincadas nos diferentes cantos. Depois, o futuro porão foi cavado, e chegaram as pedras, aquelas belas pedras do sul, de cor ocre, às vezes rosadas. E os pedreiros se puseram a edificar as paredes, colocando as pedras num determinada posição para evitar a infiltração da água; depois, com cimento que manuseavam com uma pá, uniam as pedras já colocadas a outras pedras cuidadosamente escolhidas para se encaixarem perfeitamente nas pedras vizinhas. E a parede se elevava
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pouco a pouco sob nossos olhares embevecidos. A riviera francesa regurgitava de bons pedreiros, a maioria deles vindos da Itália. Tinham a profissão no sangue. Para eles, o trabalho era uma arte que amavam, falando das pedras como de um material vivo. Diziam: "É preciso que a pedra possa respirar; é preciso prestar atenção e colocar a quantidade certa de cimento para não sufocá-la". Às vezes, voltavam-se para um de nós, e entregando-nos uma pedra diziam: "Vamos, coloque-a assim, bem delicadamente". Eu tinha a impressão de que eles acabavam de nos oferecer um presente único, uma parte de sua própria pessoa: o saber que passava de pai para filho.

1927 O ano começou com um luto: nossa prima Bárbara , terceira filha de tio Nando, faleceu bem no dia 1º de janeiro, em conseqüência do parto de sua filha Sofia , como acontecera três anos antes com outra prima, Helena, filha de tia Titine. Nesse mesmo ano, Ongá se casou. E Mamãe teve nisso um papel bem importante, pois via seu irmão caçula um pouco triste como solteiro no meio de todos os irmãos casados. Falou-lhe de Margarida
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Czartoryska , por quem ela tinha grande afeição, promoveu encontros entre os dois, que terminaram se entendendo e se casando. Em 25 de agosto, na igreja de Saint-Louis-en-Île , o órgão soou para a anunciar a entrada dos noivos. Margarida estava radiosa em seu vestido de noiva, e Ongá, bem bonito em seu uniforme de oficial espanhol. Iolanda Czartoryska e eu fomos as damas de honra. Fizeram-nos usar imensos chapéus que nos davam um aspecto um pouco achatado, ainda mais que nem uma, nem outra, éramos altas, mas ficamos radiantes de acompanhar a noiva. A saída se deu numa confusão geral, e voltamos à pé para o Palacete Lambert, onde um almoço sem protocolo nos reuniu em torno de tio Adão e de tia Luísa , na bela galeria de teto pintado por Lebrun . A alegria reinou, acompanhando a felicidade dos noivos. Nós nos instalamos em nossa nova casa no início de setembro, num calor tórrido sem uma árvore ao redor. Mamãe mandou montar um grande toldo no terraço, que produzia uma sombra benéfica. Podíamos, assim, sentarmo-nos fora para tomar café e olhar os navios de guerra ou os grandes transatlânticos que, cortando o mar azul, entravam na baía de Cannes. A primeira visita que Mamãe recebeu foi João , conde de Barral, amigo de sempre da família, que nos chamávamos de "anão amarelo" por causa de seu porte e sua tez, herdados de sua mãe e de sua avó brasileiras, a última tendo sido dama de honra da imperatriz Teresa Cristina. Pouco tempo depois, foi a baronesa de São Joaquim que se fez anunciar. Mamãe a recebeu com prazer, pois gostava muito dela, mas sua chegada trouxe um certo número de problemas. A boa Ni-na não mais andava e devia ser transportada numa cadeira de rodas. Ora, os cômodos do térreo ainda não estavam prontos, e dois homens tiveram de carregá-la para o primeiro andar pela escada que não era muito larga. Enfim, graças a Deus tudo se passou sem incidente nem acidente. O mais feliz de todos por se achar naquela região de sol foi José, o criado negro da baronesa. Quando nós nos instalamos em Mandelieu, o primeiro dever de Mamãe foi visitar o pároco, que morava em Capitou onde se achava a velha igreja e a casa paroquial. Capitou era uma aldeia bem mais provençal que Mandelieu-les-Thermes. A igrejinha, com seu velho campanário, tinha um certo encanto. A casa paroquial era separada da igreja por um jardim que podia muito bem ser chamado de "jardim de padre", meio cultivado, meio abandonado pelo pobre sacerdote que não tinha quem o ajudasse. A meus olhos, ele era um velho, embora provavelmente não tivesse mais que cinqüenta anos. Era gordo e alto, com uma cabeleira branca como a neve que, junto com a voz profunda e forte, o tonavam bem imponente. O conforto
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da casa paroquial era mais que modesto. Creio que ele não acendia a lareira durante todo o inverno. Recebeu-nos com muita gentileza e disse que se chamava Padre Penon. Acabara de construir a capela de Mimosas, para que o culto pudesse ser levado a todos os moradores daquela nova aglomeração de casas que se estendia ao longo da Estrada Nacional 7, e que começava a se estender em direção do rio Siagne e do mar. Quando nos mudamos, só existia a nave central da nova capela. Mas logo constatou-se que ela era muito pequena e uma nova nave lateral foi construída. Uma artista ianque, a Sra. Saens, que possuía um certo talento, propôs ao padre decorar o painel do coro com um afresco que representava a Virgem Maria com um ramo de mimosas na mão. São Francisco de Assis pregando às aves foi também pintado no painel da nave direita. Tratava-se, depois, de pensar no jardim, muito importante, porque sua área era de 1 hectare e meio. Mamãe contratou um jardineiro chamado Roustand, que morava em La Napoule. Ele possuía um barco, mas a pesca não dava muito lucro e, para ajudá-lo, ele pediu licença para trazer o filho. Este último, Leão Roustand, será o personagem mais célebre de Mandelieu em todo esse tempo. Quando os dois voltavam a La Napoule, os outros pescadores os interpelavam "marujos-jardineiros!" Eles riam e voltava para abrir sulcos de terra nos Mas São Luís, plantar flores, roçar, ajudar no transporte das mudas das oliveiras e dos pinheiros parassol, trazidos em grandes caixas de madeira. Pareciam ter trabalho naquilo toda a vida. Pouco tempo depois, Leão se casou com uma mocinha provençal de 17 anos, Maria Luísa Volla. Passaram a morar num pequeno apartamento em La Napoule, e um ano mais tarde, uma pequena Emiliana veio completar a felicidade do jovem casal. Leão e Maria Luísa, a célebre Sra. Roustand, tornaram-se logo, e como vou contar, o apoio fiel de Mamãe que eles acompanharam e de quem cuidaram até sua morte. Assim, pouco a pouco, o jardim foi tomando forma, os pássaros vinham também procurar sombra naquele lugar outrora desnudado. De manhã, a brisa chegava como uma doce carícia; nesse momento, os rouxinóis se punham a cantar enquanto ouvia-se o ruído regular dos ancinhos sobre o cascalho.

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1928 Em 8 de junho, meus avós festejaram suas bodas de diamante: sessenta anos de vida em comum, sem atritos, durante os quais eles, por assim dizer, nunca se tinham separado.

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Nessa ocasião, seus filhos, ainda restavam dez126, chegaram dos quatro cantos da Europa onde as exigências da vida os tinham levado. Para maior clareza e para que os que lerem essas linhas se encontrem nos nomes e apelidos dessa numerosa descendência, citarei o primeiro nome, o título e, entre parênteses, o apelido. O mais velho, Fernando, duque de Calábria (Tio Nando) e sua esposa, Maria (Tia Maria Calábria), princesa da Baviera, filha do rei Luís III127, chegaram com quatro128 de suas filhas: Maria Antonieta (Madi)129, Maria Cristina (Titô)130, Lúcia131 e Urraca132. Vinham de Lindau, sobre Dois filhos, Francisco de Paula, falecera aos três anos em;1873, e Francisco de Assis, aos 26 anos em 1914. 127 LUÍS III Leopoldo José Maria Aloísio Alfredo, príncipe da Baviera (13-06-1886), Príncipe Real da Baviera (12-12-1912/05-11-1913), Rei da Baviera (05-11-1913/11-11-1918), Chefe da Casa Real da Baviera (11-11-1918/18-10-1921)(* Munique,Baviera,Alemanha, 07-011845; † Sarvar, Hungria, 18-10-1821), filho de Lutpoldo, Príncipe Real e Regente da Baviera, e de Augusta, arquiduquesa da Áustria, princesa de Toscana. X Viena, Áustria, 20-02-1868 MARIA TERESA Henriqueta Dorotéia (* Brunn, 02-07-1849; † Wildewart, Alemanha, 03-02-1919) arquiduquesa da Áustria, princesa de Módena, Princesa Real da Escócia (15-12-1849/20-11-1875),Chefe da Casa Real da Escócia (20-11-1875/03-02-1919), filha de Francisco, arquiduque da Áustria, príncipe de Módena, Duque Herdeiro de Módena, Príncipe Real da Escócia, e de Isabel, arquiduquesa da Áustria, paladina da Hungria, de quem teve treze filhos, entre os quais Ruperto (I), Chefe da Casa Real da Baviera e da Escócia, Maria, duquesa de Calábria, e Francisco, pai de Maria, princesa Pedro (III) do Brasil. A rainha Maria Teresa era, por sua mãe, meia-irmã da rainha Maria Cristina da Espanha. Sucedeu a seu primo Oto II, em 05-11-1913 e foi sucedido por seu filho Ruperto (I) em 18-10-1921. 128 O casal tinha tido seis filhos, mas Rogério, duque de Noto (* 0709-1901) falecera em 01-12-1914; e Bárbara, condessa Francisco Xavier de Stolberg-Wernigerode, falecera em 01-01-1927. 129 MARIA ANTONIETA Leônia (Madi), princesa de Bourbon-Sicília (* Madri, Espanha, 16-04-1898; † Winterthur, 04-01-1957), filha de Fernando (III), duque de Calábria, Chefe da Casa Real das DuasSicílias, e de Maria, princesa da Baviera. 130 MARIA CRISTINA (Titô), princesa de Bourbon-Sicília (* Madri, Espanha, 04-05-1899; † Quito, Equador, 28-04-1985), filha de Fernando (III), duque de Calábria, Chefe da Casa Real das DuasSicílias, e de Maria, princesa da Baviera. X Roma, Itália, 03-03-1948 Manuel Sotomayor Luna (* Quito, 27-11-1884; † Guaiaquil, Equador, 16-10-1949)
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o lago de Constança, onde habitavam a Vila Amsee que pertencia à família real da Baviera. Depois, vinham de Madri, o infante Carlos (Tio Nino) e sua esposa, Luísa133, princesa de França, filha do Conde de Paris. Tio Nino tinha se casado em primeiras núpcias com a infanta Mercedes134, filha do rei Afonso XII135, herdeira presuntiva do trono espanhol até o LUCIA Maria Reinira, princesa de Bourbon-Sicília (* Munique, Alemanha, 09-07-1908; † São Paulo, Brasil, 03-11-2001), filha de Fernando (III), duque de Calábria, Chefe da Casa Real das DuasSicílias, e de Maria, princesa da Baviera. X Munique, 29-10-1938 EUGÊNIO Afonso Carlos Maria José, príncipe de Savóia-Gênova, duque de Ancona (Turim, Itália, 13-03-1906; † São Paulo, Brasil, 0812-1996), filho de Tomás, príncipe de Savóia, duque de Gênova, e de Isabel, princesa da Baviera, de quem teve uma filha. 132 URRACA Maria Isabel Carolina Aldegunda Carmela, princesa de Bourbon-Sicília (* Munique, Alemanha, 14-07-1913; † Sigmaringa, Alemanha, 03-05-1999), filha de Fernando (III), duque de Calábria, Chefe da Casa Real das Duas-Sicílias, e de Maria, princesa da Baviera. 133 LUÍSA Francisca Maria Laura, princesa de Orléans (24-021882/24-08-1883) e de França (24-08-1883/08-04-1958)(* Cannes, França, 24-02-1882; † Sevilha, Espanha, 08-04-1958), filha de Filipe (VII), Conde de Paris, Chefe da Casa Real de França, e de Isabel, princesa de Orléans-Montpensier. X Woodnorton, Grã-Bretanha, 1607-1907, Carlos, príncipe de Bourbon, c.s. 134 MARIA DAS MERCÊS Isabel Teresa Cristina Afonsina Jacinta, infanta da Espanha, Princesa das Astúrias (* Madri, Espanha, 11-091880; † ibd. 17-10-1904), filha de Afonso XII, Rei da Espanha, e de Maria Cristina, arquiduquesa da Áustria, princesa de Teschen; X ibd. 14-02-1901 Carlos, príncipe de Bourbon, c.s. 135 AFONSO XII Francisco de Assis Fernando Pio João Maria da Conceição Gregório Pelágio, Príncipe das Astúrias (28-11-1857/2912-1874), Rei da Espanha (29-12-1874/25-11-1885), filho de Isabel II, Rainha da Espanha, e de Francisco de Assis, infante da Espanha, duque de Cádiz, rei titular da Espanha; X I Madri, 23-01-1878 Maria das MERCÊS Isabel Francisca de Assis Antônia Luísa Fernanda, princesa de Orléans-Montpensier, infanta da Espanha (* Madri, 2406-1860; † ibd. 26-06-1878), filha de Antônio, príncipe de Orléans, duque de Montpensier, e de Luísa, infanta da Espanha, s.s. X II ibd. 29-11-1879 MARIA CRISTINA Desidéria Henriqueta Felicidade Reinira, arquiduquesa da Áustria, princesa de Teschen (* Gross Seelowitz, 2107-1858; † Madri, Espanha, 06-02-1929), filha de Carlos Fernando, arquiduque da Áustria, duque de Teschen, e de Isabel, arquiduquesa da Áustria, paladina da Hungria, de quem deve três filhos, entre os quais Afonso XIII, Rei da Espanha, e Maria das Mercês, princesa Carlos de Bourbon. A rainha Maria Cristina era, por sua mãe, meia74
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nascimento do filho mais velho do rei Afonso XIII136. Tio Nino, ao se casar, teve de renunciar seus direitos à sucessão hipotética do trono das Duas-Sicílias. Do seu primeiro casamento, ele tinha um137 filho, Afonso138, e uma filha, Isabel139; do segundo, um filho, Carlos140 (Carlito), e três filhas, Dolores141, Maria142 e Esperanza143. irmã da rainha Maria Teresa da Baviera. Sucedeu sua mãe Isabel II, em 29-12-1874, e foi sucedido por seu filho Afonso XIII, postumamente, em 17-05-1886. Nesse período (25-11-1885/17-051886), o país ficou sem rei, visto ser uma mulher (Maria das Mercês), a filha mais velha de Afonso XII, condicionando-se sua proclamação ao sexo da criança da qual estava grávida a rainha. 136 AFONSO XIII Leão Fernando Maria Jaime Isidro Pascoal Antônio, Rei da Espanha (17-05-1886/14-04-1931), Chefe da Casa Real da Espanha (14-04-1931/28-02-1941), (* Madri, ESpanha, 17-05-1886; † Roma, Itália, 28-02-1941), filho de Afonso XII, Reid a Espanha, e de Maria Cristina, arquiduquesa da Áustria, duquesa de Teschen; X Madri, Espanha, 31-05-1906 Ena, princesa de Battenberg, s.s. 137 Houve outro filho, Fernando, infante da Espanha, falecido aos dois anos em 1903. 138 AFONSO Maria Leo Cristino Afonso de Ligório Antônio Francisco Xavier, infante da Espanha (* Madri, Espanha, 30-11-1901; † ibd. 03-02-1964), filho de Carlos, príncipe de Bourbon, e de Maria das Mercês, infanta da Espanha, princesa das Astúrias. X Viena, Áustria, 16-04-1936, ALICE Maria Teresa Francisca Luísa Pia Ana Valéria, princesa de Bourbon-Parma (* ibd. 13-11-1917), filha de Elias, Chefe da Casa Ducal de Parma, e de Maria Ana, arquiduquesa da Áustria, princesa de Teschen, de quem teve três filhos, entre os quais, Carlos, pretendente ao trono das Duas-Sicílias. 139 ISABEL Afonsina Maria Teresa Antônia Cristina Mercedes Carolina Adelaide Rafaela, infanta da Espanha (* Madri, Espanha, 16-10-1904; † ibd. 18-07-1985), filha de Carlos, príncipe de Bourbon, e de Maria das Mercês, infanta da Espanha, princesa das Astúrias. X ibd. 09-031929, João Constantino (Kanty), conde Zamoyski (* Varsóvia, Polônia, 17-08-1900; † Monte Carlo, Mônaco, 28-09-1961), filho de André, conde Zamoyski, e de Carolina, princesa de Bourbon-SicíliaTrapani, de quem teve quatro filhos. 140 CARLOS Maria Fernando Luís Filipe Lourenço Justino [Carlito], príncipe de Bourbon (* Santillana del Mar, Espanha, 05-09-1908; † (t) Elgoybar, Espanha, 27-09-1936). 141 Maria das DORES Vitória Filipa Maria das Mercês Carlota Eugênia, princesa de Bourbon (* Madri, Espanha, 15-11-1909; † 11-05-1996), filha de Carlos, príncipe de Bourbon, e de Luísa, princesa de França. X I Lausanne, Suíça, 12, e Ouchy, ibd, 16-08-1937, Augusto, príncipe Czartoryski, Duque de Klewan e de Zukow (* Varsóvia, 20-10-1907; † Sevilha, 01-07-1946), filho de Adão, príncipe Czartoryski, Duque de Klewan e de Zukow, e de Luísa, condessa Krasinska, c.s. X II Sevilha,
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De Friburgo de Brisgóvia (Alemanha), chegaram Maria Imaculada (Tia Gietta) e seu marido, João Jorge, príncipe de Saxe (Tio Hans)144, filho do Rei Jorge I145, que não tinham tido filhos. De Lucerna, na Suíça, chegaram Maria Cristina (Tia Titine) e seu marido, o arquiduque Pedro Fernando, Chefe da Casa Ducal de

Espanha, 29-12-1950, Carlos Chias y Osorio (* Barcelona, Espanha, 26-02-1925), s.s. 142 MARIA das Mercês Cristina Januária Isabel Luísa Carolina Vitória, princesa de Bourbon (* Madri, Espanha, 23-12-1910 † Lanzarote, Ilhas Canárias, 02-01-2000), filha de Carlos, príncipe de Bourbon, e de Luísa, princesa de França. X Roma, Itália, 12-10-1935, João (III), Conde de Barcelona, c.s 143 Maria da ESPERANÇA Amália Reinira, princesa de Bourbon (* Madri, Espanha, 14-06-1914; † Villamanrique de la Condesa,, Espanha, 08-08-2006), filha de Carlos, príncipe de Bourbon, e de Luísa, princesa de França. X Sevilha, Espanha, 18-12-1944, Pedro Gastão, 3º Príncipe de Orléans e Bragança, c.s. 144 JOÃO JORGE Pio Carlos Leopoldo Maria Januário Anacleto [Hans], príncipe da Saxônia (* Dresda, Alemanha, 10-07-1869; † Altshausen, Alemanha, 24-02-1938), filho de Jorge I, rei da Saxônia, e de Maria Ana, infanta de Portugal. X I Stuttgart, Württenberg, Alemanha, 0504-1894, MARIA ISABEL Teresa Matilde Josefina, duquesa de Württenberg (* Gmunden, Áustria, 30-10-1871; † Davos, Suíça, 2405-1904), filha de Filipe, Duque de Württenberg, e de Maria Teresa, arquiduquesa da Áustria, princesa de Teschen, s.s. X II Cannes, França, 30-10-1906, Maria Imaculada, princesa de Bourbon-Sicília, s.s. 145 Frederico Augusto JORGE I Luís Guilherme Maximiliano Carlos Maria Nepomuceno Batista Xavier Romano, príncipe da Saxônia, Príncipe Real da Saxônia (09-08-1854/29-10-1873), Rei da Saxônia (29-10-1873/15-10-1904)(* Pillnitz, Saxônia, Alemanha, 08-081832; † ibd. 15-101-1904), filho de João I, Rei da Saxônia, e de Amélia, princesa da Baviera. X Lisboa, Portugal, 12-05-1859. MARIA ANA Fernanda Leopoldina Micaela Gabriela Carlota Antônia Júlia Vitória Praxedes, infanta de Portugal (* Lisboa, Portugal, 21-071843; † Dresda, Saxônia, Alemanha, 05-02-1884), filha de Maria II, Rainha de Portugal, e de Fernando II, príncipe de Saxe-Coburgo Gotha, Rei titular de Portugal, de quem teve filhos, entre os quais Frederico Augusto III, Rei da Saxônia, Maria Josefa, mãe do imperador Carlos I da Áustria, e João Jorge. Sucedeu seu pai João I, em 29-10-1873, e foi sucedido por seu filho Frederico Augusto III, em 15-10-1904.
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Toscana, filho de Fernando IV146, último duque de Toscana, com seus três147 filhos: Godofredo, Jorge e Rosa (Rosita). Em Cannes, ou melhor, em Mandelieu, já se encontravam Mamãe e nós três, tio Januário, com sua esposa Beatriz Bordessa148 (Tia Beá), tio Reiniro, duque de Castro, com sua esposa Carolina, princesa Zamoyska, filha do conde André Zamoyski149 e da velha tia Carolina150, princesa de Bourbon-Sicília-Trapani, que era irmã de Nonna, e seus filhos Carmen151 e Fernando152; tio Filipe, com sua FERNANDO IV Salvador Maria José João Batista Francisco Luís Gonzaga Rafael Reiniro Januário (* Florença, Itália, 10-07-1835; † Salisburgo, Áustria,17-01-1908), filho de Leopoldo II, Grão-duque de Toscana, e de Antonieta, princesa das Duas-Sicílias; X I Dresda, Saxônia, Alemanha, 24-11-1856 ANA Maria Maximiliana Estefânia Carolina Joana Luísa Xaviera Nepomucena Aloísia Benedita, princesa da Saxônia (* Desde, Alemanha, 04-01-1856; † Nápoles, Itália, 1001-1859), filha de João I, Rei da Saxônia, e de Amália, princesa da Baviera, de quem teve uma filha; X II Frohsdorf, Áustria, 11-011868, Maria Alice, princesa de Parma, de quem teve dez filhos, entre os quais Pedro Fernando, Chefe da Casa Ducal de Toscana, e Luísa, rainha da Saxônia, e Sra. Henrique Toselli. Sucedeu seu pai abdicatário, Leopoldo II, em 21-07-1859, e foi sucedido por seu filho Pedro (I) Fernando. 147 O casal tinha tido quatro filhos, mas a mais velha, Helena, princesa Filipe de Württemberg, já tinha falecido em 1924. Seu viúvo se casaria com sua irmã Rosa, naquele mesmo ano. 148 Beatriz Dorotéia Bordessa (Beá), condessa de Villa Colli (09-011923/28-08-1963)(* Chester, Grã-Bretanha, 29-12-1881; † WestMalling, ibd., 28-08-1863), filha de ... Bordessa e de ...X Londres, Grã-Bretanha, 27-01-1922 Januário, príncipe de Bourbon-Sicília, s.s. 149 ANDRÉ Przemislaw Constantino João Ladislau Zdislaw Augusto Estanislau Kotska Adão Alberto, conde Zamoyski (* Varsóvia, Polônia,10-07-1852; † Podzamcze, Polônia, 05-06-1927), filho de Estanislau, conde Zamoyski, e de Rosa, condessa Potocka; X Paris, França, 19-11-1885, Carolina, princesa de Bourbon-Sicília-Trapani, de quem teve sete filhos, entre os quais João Kanty e Carolina, duquesa de Castro. 150 Maria CAROLINA Isabel Fernanda, princesa de Bourbon-SicíliaTrapani (* Nápoles, Itália, 20-03-1856; † Varsóvia, Polônia, 07-041941), filha de Francisco de Paula, príncipe das Duas-Sicílias, conde de Trapani, e de Maria Isabel, arquiduquesa da Áustria, princesa de Toscana; X Paris, França, 19-11-1885, André, conde Zamoyski, filho de Estanislau Kotska, conde Zamoyski, e de Rosa, condessa Potocka, c.s. 151 Maria do CARMO Carolina Antônia, princesa de Bourbon-Sicília (* Podzamcze, Polônia, 13-07-1924), filha de Reiniro (I), duque de
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segunda153 esposa Odette Labori154. E Gabriel (Ongá), último dos Bourbons-Sicília, acompanhado de sua esposa Margarida Czartoryska, grávida do filho Antônio, Para fechar a série, a última filha, Josefa (Tia Beppa), solteira, que morava na Vila Maria Teresa II, sempre a cuidar do Nonno e da Nonna. Tudo isso dava bem umas quarenta pessoas, às quais se juntaram amigos e empregados para assistir à missa na pequena capela da Vila Maria Teresa II. Cada um tinha que levar um presente pessoal, do qual não era exigido valor, mas somente que fosse feito pelas próprias mãos. Lembro-me do belo vaso de porcelana pintada por minhas primas espanholas, e do conopeu155 que eu tinha bordado de flores de lis douradas, e que ornou, por muito tempo, o tabernáculo da capela. Seguiu-se um grande almoço servido no Grande Hotel. À tarde, voltando a Mandelieu, vimos, pouco a pouco, chegar toda a família, procurando um descanso após as emoções e do ágape da festa. A pradaria em frente à casa estava em perfeito estado, e os primos organizaram uma partida de futebol, aceitando que as moças Castro, Chefe da Casa Real das Duas Sicílias, e de Carolina, condessa Zamoyska. 152 FERNANDO (IV) Maria André Afonso Marcos, duque de Castro, Príncipe Real das Duas Sicílias (17-01-1960/13-01-1973), Chefe da Casa Real das Duas Sicílias (13-01-1973/20-03-2008) (* Podzamcze, Polônia, 28-05-1926; † Suresne, França, 22-03-2008), filho de Reiniro (I), duque de Castro, Chefe da Casa Real das Duas Sicílias, e de Carolina, condessa Zamoyska. X Giez, 23-07-1949, Francisca CHANTAL, condessa de Chevron-Villette (* Le Cannet des Maures, França, 01-11-1925; † Suresne, França, 24-05-2005), filha de José Pedro, conde de Chavron-Villette, e de Maria de Colbert, de quem tem três filhos, entre os quais Carlos (II), Duque de Calábria, atual Chefe da Casa Real das Duas-Sicílias, e Beatriz, princesa Carlos Napoleão. Sucedeu seu pai Reiniro (I) em 13-01-1973, e foi sucedido por seu filho Carlos em 22-03-2008. 153 Ambos tinham tido seus respectivos primeiros casamentos anulados. 154 ODETTE Fernanda Labori (* Paris, França, 22-11-1902; † Lião, França, 22-06-1968), filha de Fernando Labori e de Margarida O'Key; X I ..., ÷ Dino Cerretti († 1927); X II Paris, França, 10-01-1927 Filipe, príncipe de Bourbon-Sicília, s.s. 155 Termo em desuso. Designava uma espécie de cortina que vedava a porta dos sacrários.
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entrassem no jogo. Como o mês de junho estava quente, saímos todos da partida, que fora encarniçada, vermelhos como tomates. A proximidade do mar permitiu que todos se refrescassem. Assim terminou aquele belo e inesquecível dia.

1929 Um ano e meio mais tarde, em 20 de janeiro, Margarida deu à luz um menino que, no batismo, recebeu o nome de Antônio156. Mas, ai, poucos dias depois, o médico diagnosticou febre puerperal! Tudo foi posto em prática para debelar a infecção. Na época, não se tinham muitos remédios para combater esse mal que, freqüentemente, atacava as parturientes. Mamãe, que tanto tinha favorecido o casamento de Ongá e Margarida, ficou preocupadíssima. Vendo que a febre não diminuía, chamou, como último recurso, o professor Abrami, grande especialista nesses casos. O professor tomou o trem, em Paris, à noite, mas quando chegou a Cannes, Margarida já não mais vivia. Tivemos um imenso desgosto. O pequeno Antônio foi confiado a Nonna que o criou com toda ternura durante os três anos de viuvez de Ongá.
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ANTÔNIO Maria José Afonso Adão e Todos os Santos (* Cannes, França, 20-01-1929), filho de Gabriel de Bourbon-Sicília, e de Margarida, princesa Czartoryska. X Altshausen, Alemanha, 18 e 1907-1958 ISABEL Maria Margarida Alice Helena Rosa Filipa Cristina Josefa Teresa do Menino Jesus, princesa do Württemberg (* Stuttgart, Alemanha, 02-02-1933), filha de Filipe, Chefe da casa Real do Württemberg, e de Rosa, arquiduquesa da Áustria, princesa de Toscana, de quem teve quatro filhos.
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Barcelona. Tio Nino acabava de ser nomeado Capitão Geral da Catalunha. Essa província da Espanha sempre foi considerada como de natureza independente e particularmente difícil de governar. Afonso XIII, dando esse cargo a meu tio, fazia apelo a todo o senso de diplomacia e de autoridade incontestáveis que este tinha. A Capitania Geral era um grande edifício de pedra, com uma fachada imponente. Entrava-se aí, passando sob uma abóbada, onde uma sentinela prestava as honras, para chegar a um pátio e alcançar o primeiro andar por uma longa escada. Tio Nino, tia Luísa e os primos nos esperavam, e logo encontramos o caloroso ambiente de família. No dia seguinte, fomos em família ao mosteiro de Montserrat, empoleirado no alto da serra, onde se sobe por uma estrada em curvas bastante impressionante, para chegar, enfim, ao cimo, e encontrar a bela abadia beneditina fundada no século XI. A Virgem negra, dominando o altar, está vestida à espanhola, com tecidos preciosos, e ornada de jóias. É uma das virgens mais veneradas da Espanha. Desse ambiente se desprende uma atmosfera que nos incita à prece. O abade, informado da vinda de tio Nino, nos fez visitar detalhadamente tanto a bela igreja como a abadia. Assistimos uma missa bela e recolhida nesse lugar privilegiado. Ficamos cinco dias em Barcelona, onde, a cada dia, visitávamos um lugar famoso. Lembro-me, sobretudo, da abadia de Poblet, mosteiro cisterciense fundado no século XI, por Raimundo Berengário IV157, conde de Barcelona, o que nos obrigou a fazer um soberbo passeio na província de Tarragona. Uma noite, enquanto estávamos à mesa, um guarda veio murmurar algo no ouvido de tio Nino que se levantou imediatamente, levando com ele D. José, o capelão. Este voltou, logo depois, dizendo: "Há uma agitação na cidade e D. Carlos foi verificar. Ele pede que vocês
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RAIMUNDO BERENGÁRIO IV, o Santo, 12º Conde de Barcelona (19-07-1131/06-08-1162)(* ..., 1113; † Barcelona, Espanha, 0608-1162), filho de Raimundo Berengário III, o Grande, 11º Conde de Barcelona, e de Dulce I, Condessa de Provença. X 1135 Petronilha I, Rainha de Aragão († Barcelona, 15-10-1173), filha de Ramiro II, o Monge, Rei de Aragão, e de Inês, princesa de Poitou, de quem teve cinco filhos, entre os quais, Afonso II, Rei de Aragão e Conde de Barcelona, Sancho, 5º Conde de Provença, Leonor, condessa de Urgel, e Dulce, rainha de Portugal. Sucedeu seu pai Raimundo Berengário III em 19-07-1131, sua mãe Dulce I, no mesmo ano, e foi sucedido por seus filhos Afonso II em Barcelona, e Sancho, em Provença, em 06-08-1162. Com ele, se reuniram, definitivamente, as coroas de Aragão e Barcelona.
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fiquem bem tranqüilos na Capitania Geral". Ficamos com tia Luísa, um pouco angustiados; sabíamos que uma parte da Catalunha queria se separar da Espanha. Tio Nino voltou muito tarde, mas com a fisionomia tranqüila, e nos disse: "Houve um certo descontentamento na população, mas, agora, todo está em ordem". Soubemos mais tarde que, chegando ao local onde havia o tumulto, ele avançou sozinho e falou à multidão. Uma vez mais sua galhardia e sua coragem funcionaram e os revoltosos voltaram calmamente para suas casas. Isso não nos impede de, hoje, olhando tudo aquilo, dar-nos conta de que a revolução já começava em surdina. Mais tarde, tio Nino foi nomeado Capitão Geral da Andaluzia, para grande felicidade de meus primos e primas que encontravam, perto de Sevilha, a maravilhosa propriedade de Villamanrique, que lhes vinha da Condessa de Paris158, mãe de tia Luísa. Eu tinha tantas vezes ouvido meus primos falar dessa propriedade que, quando tio Nino e tia Luísa levaram lá, a mim e a Renato, meu marido, eu sabia exatamente o que ia encontrar, e pude saborear, durante um dia inteiro, da atmosfera cativante desse canto da Andaluzia. Em 1930, uma revolução no Brasil derrubava a 1ª república. Era o fim de uma era que começara em 1889. A predominância dos estados de Minas Gerais e São Paulo sobre os demais, e a manutenção do poder nas mãos das elites escravagistas tinham provocado uma revolta que depressa se alastrou em todo o país, e teve como pretexto as eleições fraudulentas que deram a presidência a Júlio Prestes. Antes que este tomasse posse, o candidato vencido, Getúlio Vargas, levantou a bandeira da revolução no Rio Grande do Sul, e marchou em direção ao Rio de Janeiro, sendo apoiado pela maioria da população e pelas forças armadas enviadas contra ele. O presidente Washington Luís, ainda no poder, teve que tomar o mesmo caminho do exílio que 41 anos antes D. Pedro II tomara. Os monarquistas apelavam para que Pedro Henrique voltasse de vez para nossa terra. Embora já maior em 13 de setembro, Mamãe o achava muito jovem para tanta responsabilidade. Achava que ele, antes, devia se casar e ter um herdeiro que continuasse a dinastia.
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Maria ISABEL Francisca (* Sevilha, Espanha, 21-09-1848; † Villamanrique, Espanha, 23-04-1919), filha de Antônio, príncipe de Orléans, duque de Montpensier, e de Maria Luísa, infanta da Espanha. X Kingston-do-Tâmisa, Grã-Bretanha, 30-05-1864, Filipe (VII), Conde de Paris, Chefe da Casa Real de França, de quem teve sete filhos, entre os quais Filipe (VIII), duque de Orléans, Chefe da Casa Real de França, Amélia, rainha de Portugal, Helena, duquesa de Aosta, Isabel, duquesa de Guise, e Luísa, princesa Carlos de Bourbon.
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1931 Neste ano, minha prima Bebelle se casou com Henrique, conde de Paris, em Palermo, em 8 de abril. O noivo, herdeiro do Chefe da Casa Real159, estava exilado da França, residindo na Bélgica; o governo francês pressionou a Bélgica para que não permitisse que o casamento se realizasse "tão próximo". Então, escolheram Palermo, onde a Casa de França possuía o palácio Orléans, desde que a princesa Maria Amélia de Nápoles se casara com Luís Filipe, duque de Orléans, nossos trisavós. Também nesse ano, em Villamanrique, a república surpreendeu a família de Tio Nino, sempre fiel a seu rei que, devido à amplitude do movimento160 foi forçado a deixar o país e se exilar em Roma. Tio Nino embarcou com todos os seus em direção a Marselha. Não me lembro como Mamãe foi prevenida, mas ela nos levou a nós três no grande Peugeot 18CV, e chegamos bem a tempo de acolhermos o tio, a tia e os primos, e voltar de carro, à noite, a Mandelieu. Tio Nino já tinha reservado quartos no Hotel Beau Rivage, em La Napoule, que pertencia à família Carl. A bandeira real da Espanha foi hasteada sobre o hotel. Imaginem a emoção que nos tomou, Então, o duque de Guise. Não foi uma revolução, mas a subida ao poder do partido republicano, através de eleições.
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principalmente a Mamãe que, como já disse, tinha uma afeição especial por aquele irmão. Estávamos felizes de que eles estivessem escolhido a baía de Cannes para se fixar no exílio, mas quanto tempo duraria este? Acabaram tomando a mesma cadência de vida que nós, isto é, inverno em Paris, onde graças à madre Loriga, uma religiosa espanhola, superiora do convento da Assunção, se instalaram na rua Milleret de Brou, num pequeno apartamento. Madre Loriga estava no céu por ter seus príncipes tão perto dela. O maravilhoso parque da Assunção foi aberto à família, e lembro-me de, ali, ter dado, a cavalo, bons galopes com os primos. Mamãe nos tinha matriculado no Palácio do Gelo, transformado hoje em restaurante, situado entre a rótula dos Champs Elysées e a entrada do Grand Palais. Meu primo Carlito logo se tornou muito hábil, fazendo numerosas figuras complicadas. Eu nunca fui uma patinadora perita. Jaime161, o segundo filho de Afonso XIII, aproximou se quis me ajudar. Ainda sinto a partida em linha reta, os pés cada vez mais rápidos, o corpo não acompanhando os pés, terminando tudo num patinar a dois sobre os traseiros, debaixo da risada zombeteira da família. 1931 fora para os primos, a queda da monarquia e o exílio. Para nós, a morte de meu segundo irmão, Boubou, a quem todos nós amávamos. Ele era bonito, alto, tinha as maçãs do rosto e os olhos azuis dos Orléans. Tinha igualmente um caráter de uma retidão sem desfalecimento162. Sem dúvida, essas almas de elite não são feitas para o nosso mundo de misérias e de esperanças terra-a-terra. Ele contraiu aquilo que se chamava, então, pudicamente, uma doença de langor. Mamãe ficou desnorteada. Ela já tinha visto morrer assim um JAIME Lutpoldo Isabelino Henrique Alexandre Alberto Afonso Vítor Acácio Pedro Paulo Maria, infante da Espanha (23-06-1908/11-061933), Duque de Segóvia, Chefe da Casa Principesca de Bourbon (2802-1941/20-03-1975), filho de Afonso XII, Rei da Espanha, e de Vitória Eugênia, princesa de Battenberg. X I Roma, Itália, 04-031935; ÷ Bucareste, Romênia, 04-05-1947, Manuela de Dampierre (* ibd. 08-11-1913), filha de Rogério de Dampierre, duque de San Lorenzo, e de D. Vitória Ruspoli de Poggio-Suasa, de quem teve dois filhos; X II Innsbrück, Áustria, 03-09-1949, Carlota Tiedmann (* Königsberg, Aslemanha, 01-01-1919; † Berlin, Alemanha, 03-071979), filha de Otão Tiedmann e de Luísa Klein, s.s. Seu neto é hoje pretendente ao trono francês. 162 Ver "Um jovem Príncipe Cristão - D. Luís Gastão do Brasil", de Monsenhor Renato Delair.
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de seus irmãos, Francisco de Assis163. Uma longa estada nas montanhas do Maciço Central não trouxe nenhum benefício a meu irmão. Mamãe o levou a Boulogne e o bom Dr. Poirier fez o que pôde por ele. Nós o víamos depauperar dia a dia, mas conservar sempre a gentileza e o bom humor. Sua fé inquebrantável e sua confiança na vontade de Deus o susteve até o fim. Ele morreu na noite de 8 de setembro, festa da Natividade de Nossa Senhora, com a qual ele tinha uma devoção toda especial. O choque foi terrível para Mamãe, para Pedro Henrique e igualmente para mim164. Formávamos um todo que víamos se mutilar. Mas a dor não pode ser compartilhada. Ela permanece em nós como uma ferida incurável. Mamãe, desolada, só lentamente tomou o gosto pela vida. Monsenhor Delair a ajudou muito naquele momento, fazendo-a ver que Boubou fora tão piedoso, que seus pensamentos aqui na terra se voltaram sempre para o Céu, que, certamente, então, ele gozaria de uma felicidade muito maior do que a que poderia ter tido em vida. Seu corpo repousa na cripta de Dreux, junto a Papai. Uma nova nave tinha sido anexada à igreja, pouco antes da morte de Boubou. O bom padre Penon admirava a pureza daquele jovem paroquiano tão assíduo às missas. Por isso, mandou colocar uma imagem de São Luís acima do altar lateral, e pintar a abóbada superior de ocre avermelhado, semeado das letras LG. Mamãe ficou profundamente tocada por esse gesto, bem que achasse aquilo demasiado vistoso. Mas o bom padre tinha feito aquilo com tanto amor que ela agradeceu simplesmente. Bem mais tarde a igreja foi FRANCISCO DE ASSIS Maria Fernando Odo (* Cannes, França, 1301-1888; † ibd. 26-03-1914), filho de Afonso (I), conde de Caserta, Chefe da Casa Real das Duas-Sicílias, e de Maria Antonieta, princesa de Bourbon-Sicília-Trapani. Penúltimo filho dos condes de Caserta, faleceu na mesma data, seis anos antes, que o pai da autora. 164 Para a Autora apresentava-se mais um problema. Com a morte do irmão, ela passava a ser Princesa Imperial do Brasil, herdeira de D. Pedro Henrique, posição que sua modéstia e timidez não desejavam. Qualquer infelicidade acontecida ao irmão, ela seria Chefe da Casa Imperial, tendo, portanto que pensar em casamento e em filhos. O fato foi de tanta importância que os príncipes de Saxe-Coburgo e Bragança, descendentes da princesa Leopoldina do Brasil renunciaram um a um a seus direitos (27-12-1931), com exceção de Teresa Cristina, baronesa de Tasso-Bordogna e Valnigra, que passou a ser herdeira direta da Autora. Como entre 1871 e 1875, a sucessão quase caía na Casa de Saxe. Tal situação só viria a se resolver em 06-06-1938, com o nascimento de D. Luís, filho mais velho de D. Pedro Henrique.
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aumentada e repintada e tudo desapareceu como pude constatar ao assistir ali uma missa em 1987. O principal meio de Mamãe fugir à dor, sempre foi, depois das preces e das peregrinações a Lourdes, o automóvel. Ela tinha começado depois da morte de Papai, a se evadir, rodando, não importa aonde, mas sempre procurando visitar as cidades italianas e nos iniciar na beleza delas.

1932 Em compensação, tivemos em 1932 um verão sem igual. Carlito e Pedro Henrique tinham comprado seus respectivos veleiros. Quando o vento oeste soprava, partíamos para a regata, cada família no seu barco. Um terceiro veleiro vinha se juntar a nós, com Baba Clews, filho do casal Clews165, proprietários do castelo de La Napoule. O vento oeste sopra regularmente e é uma brisa bastante forte para permitir que as velas se encham em proporções razoáveis, o que não é o caso dos outros ventos. Os barcos tinham recebido nomes estranhos: o dos primos, "Cadomaes"166, e o nosso "Pacou167", formados com uma sílaba de nossos nomes ou apelidos. Procurávamos, assim, adoçar, de uma parte e de outra, a dor que nos apertava o coração168. Henrique Clews Júnior (1876-1937), filho de Henrique Clews e de Lúcia Madison Worthington. Banqueiro e artista (pinto e escultor) ianque que adquiriu em 1918 as ruínas do castelo (romano e medieval) de La Napoule e, com a ajuda de sua esposa Maria Elsie Whelen Goelet († 1959), o restaurou. Hoje faz parte da Fundação Henry Clews, gerida por seu neto Cristóvão Clews.. 166 CArlos, DOlores, MAria e ESperança. 167 PupPA e COUcoutz, apelidos de D. Pedro Henrique e da autora. 168 Exílio de ambas as famílias; morte de D. Luís Gastão, na família brasileira.
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1932 foi também um ano de revolução no Brasil. O Estado de São Paulo, desejoso de recuperar sua hegemonia, se levantou contra o governo provisório de Getúlio Vargas, imposto pela revolução de 1930, tendo a constitucionalização do país como pretexto. De longe, não podíamos julgar, mas sabíamos que a unidade nacional estava em perigo. Uns acreditavam na sinceridade dos revolucionários; outros achavam que eram, apenas, as elites de 1889 querendo retomar o poder. Em três meses eles foram vencidos. Pedro Henrique acompanhava tudo por cartas e por notícias em jornais. Mas uma assembléia constituinte foi convocada dois anos depois. Estabilidade? Não. Um regime imposto pela força só poderia viver pela força. Em 15 de setembro, em Cracóvia, Ongá se casava pela segunda vez, com outra polonesa, a princesa Cecília Lubomirska169. Tendo refeito seu lar, pôde levar o pequeno Antônio com ele. Cecília só tinha cinco anos mais que eu, e logo uma concordância de pensamentos nos aproximou, e nos tornamos como duas irmãs. Isso reforçou mais ainda os vínculos que nos uniam a Ongá. Para Pedro Henrique, ele foi a tio predileto. O futuro se encarregaria de aproximá-los ainda mais, reunindo-os no Brasil.

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Cecília, princesa Lubomirska (* Porieba Wielka, Polônia, 20-061907; † São Paulo, Brasil, 20-09-2001), filha de Casimiro, príncipe Lubomirski, e de Teresa, condessa Wodzicka; X Cracóvia, Polônia, 3009-1932 Gabriel, príncipe de Bourbon-Sicília, de quem teve quatro filhos.
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1933 Mamãe continuava a gostar do palacete de Boulogne, mas dali também ela procurava fugir. O pretexto de 1933 foi o frio. Com o alto custo do carvão, ela nos propôs montar nossos quartos em cima da garagem. Foi uma aventura bastante curiosa, que não durou muito, mas que nos permitiu passar dois meses, com aquecimento, nos quartinhos forrados de pano de Jouy. Fazia realmente frio no começo de 1933. Os caixilhos das janelas estavam cobertos de gelo. Pedro Henrique imaginou transformar o campo de tênis, onde a neve congelara, em rinque de patinação, e eis-nos calçando nossos patins e organizando uma partida de hockey sobre o gelo. Eu era a goleira e o disco escorregava diante dos malhos dos atacantes, chegando a mim numa velocidade vertiginosa. O grande frio durou uma boa semana, com -15 graus à janela. Nós nos aquecíamos empreendendo grandes andadas no bosque e patinando.

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Seguíamos os acontecimentos políticos bastante perturbados; os governos caíam, e com outros recomeçavam, de Boncour170 a Daladier171. Os camponeses fizeram uma manifestação diante da Câmara dos Deputados, e, como sempre, não conseguiram quase nada. Circulavam os boatos mais fantásticos. Uns viam a república cair, outros o império172 voltar. O manifesto do duque de Guise173 teve boa receptividade. Mamãe e eu íamos sempre à casa da condessa Marcel de Flers que tinha sempre notícias excitantes para nos contar. Ela gostava das visitas de Mamãe que tinha sido amiga íntima de sua mãe, a marquesa de Ploeuc. Dois anos antes, ela tinha me pedido para ser madrinha de seus filhos gêmeos. Levei, pois, um bebê em cada braço. Luís, de um lado; Adriano, do outro, à igreja de São Fernando. Um pequeno lanche nos reuniu depois. Então, não podíamos imaginar, então, a tragédia que ia atingir aquela família por ocasião da derrota da França e da ocupação alemã. O casal foi preso e deportado. Marcel de Flers174 morreu em Mathausen, e Foc, assim era o apelido da esposa, sofreu as piores torturas. Março. A primavera se anunciava, as últimas neves tinham sucedido ao frio rigoroso do inverno, mas o moral não. O pessimismo ganhava José PAULO Boncour (* Saint-Aignan, França, 04-08-1873; † Paris, França, 28-03-1972). Deputado, três vezes senador, presidente do Conselho de Ministros. 171 Eduardo Daladier (* Carpentras, França, 18-06-1884 † Paris, França, 10-10-1970), primeiro-ministro do partido Radical Socialista. Cedeu diante das exigências alemãs até 1939, mas aprovou a declaração de guerra. Capturado no norte da África, foi preso no campo de concentração de Bunchenwald, donde foi libertado no fim da guerra. 172 Dos Bonaparte. 173 JOÃO (III) Pedro Clemente Maria [Papa-Jean], príncipe de Orleans-Chartres, Duque de Guise, Delfim de França (30-011924/28-03-1926), Chefe da Casa Real de França (28-03-1926/2508-1940) (* Paris, França, 04-09-1874;† Larache, Marrocos, 25-081940), filho de Roberto de Orleans, duque de Chartes, e de Francisca de Orléans-Joinville. X Twickenham, Inglaterra, 30-10-1899, ISABEL Maria Laura Mercedes Fernanda [Miou], princesa de Orléans (07-051878/25-03-1886), princesa de França (* Eu, França, 07-05-1878; † Larache, Marrocos, 21-04-1961), filha de Filipe (VII), príncipe de Orleans, Conde de Paris, Chefe da Casa Real de França, e de Isabel, princesa de Orleans-Montpensier, de quem teve quatro filhos, entre os quais Henrique (VI), Conde de Paris. Sucedeu a seu primo e cunhado Filipe (VIII), Duque de Orléans em 28-03-1926, e foi sucedido por seu filho Henrique (VI), em 25-08-1940. 174 Marcelo de La Motte-Ango, conde de Flers (* França, ...; † Alemanha, 1944), filho de Roberto de La Motte-Ango, conde de Flers e de ... Sardou. X ... de Ploeuc, c.s.
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o mundo. Na Alemanha, as últimas eleições deram enorme maioria a Hitler175 que era ainda um personagem, misterioso, perseguindo os comunistas e proibindo o nudismo em progressão. Não se sabia ainda como julgá-lo, mas já se sentia medo dessa Alemanha eletrizada. Fomos a Montmartre176 rezar diante do Santíssimo. Deus não deixaria a França perecer, apesar de todas as profecias que diziam que uma grande punição deveria cair sobre ela. A psicose de guerra aumentava. Isso não nos impediu de ir a Eu, rever tio Pedro que desejava tratar dos negócios do Brasil177 com Mamãe. Na volta, fizemos uma breve passagem por Paris, e tivemos tempo de almoçar na casa das irmãs Silva Ramos. Hortênsia era uma espécie de religiosa leiga, mergulhada no estudo de profecias; Carolina, a intelectual, muito monarquista, só sonhava com o retorno os monarcas aos tronos vazios. E lá íamos nós de novo na estrada, com a grande Peigeot 18CV, encontrando numerosos soldados, o que nos excitava o espírito? Haveria guerra? Paramos em Saulieu para jantar. O restaurante era famoso, conhecido pela qualidade gastronômica, e fora montado pelo cozinheiro francês do Kaiser que o tinha despedido no início da I Guerra Mundial. Na manhã seguinte, seguimos até Fréjus, onde almoçamos num outro restaurante repleto de oficiais militares. Quando tio Nino, que nos acompanhava, atravessou a porta, num único movimento, todos eles se levantaram e se puseram em posição de sentido. Conto isso para lembrar a presença extraordinária de meu tio. Logo tivemos a impressão de que os oficiais franceses estavam surpresos com sua própria reação diante de um desconhecido. A chegada foi alegre como sempre. Nonno estava passando melhor. Tinha tido uma forte gripe, mas se recuperava perfeitamente. Aos noventa e três anos, ele ainda teimava em descer as escadas correndo para assistir a missa na capela. Era comum ouvir-se um forte ruído de algo despencando, e alguém dizer "Nonno caiu de novo na escada!" ou "Sua Alteza Real levou mais um tombo!" Mas ele não tinha jeito e fazia tudo de novo. Adolfo Hitler (* Brunau-do-Inn, Áustria, 20-04-1889; † (sd) Berlim, Alemanha, 30-04-1945), filho de Aloísio Hitler (Schickgruber) e de.Clara Pölzel Fundador do nazismo, chanceler (28-01-1933) e Líder (Führer)(02-08-1934) e ditador alemão, principal causador da II Guerra Mundial. X Berlim,29-04-1945 Eva Braun (* Munique, Alemanha, 06-12-1912;† (sd) Berlim, 30-04-1945), filha de Fritz Braun e de Francisca ..., s.s. 176 Santuário dedicado ao Coração de Jesus, construído por um voto nacional depois da derrota da França em 1870. 177 Os bens da família no Brasil ainda estavam sob o regime de condomínio.
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Quanto à missa, o caro Canonico estava paralisado pelo mal de Parckinson e não mais podia vir. Foi o cônego Aissa que o substituiu. Por polidez, ele chegava um quarto de hora antes do horário, para preparar tudo. Por respeito ao padre, Nonno se pôs a descer um quarto de hora antes dele. No fim de um mês, a missa estava começando às 6:00h da manhã! Protesto geral. Acertaram o relógio, mas o problema se repetiu ainda uma ou duas vezes ... Então era preciso decidir a sorte do palacete de Boulogne. O custo de vida subia cada vez mais, e éramos poucos para morar uma casa tão grande, com as despesas que isso impunha. Apesar do desgosto que lhe causava a eventualidade de deixar aquela casa onde ela tinha sido feliz e que ela tinha tão bem decorado, Mamãe decidiu alugá-la e arrumar um apartamento menor em Paris. O Dr. Roussel se apresentou como candidato à locação e ofereceu um bom preço. Mamãe assinou um contrato de três anos, renovável por seis e nove. Fomos procurar uma moradia parisiense. Depois de ter visto muitos, cada um mais lúgubre que o outro, encontramos um apartamento térreo no bulevar Lannes, claro e alegre, que nos pareceu ideal. Vivemos ali três anos. Pedro Henrique prosseguia seu doutorado em Ciências Políticas, do qual saiu brilhantemente e com boas notas, e onde fez um grupo de amigos: os Place, já mencionados, Luís Alleau, que se casou logo e, com sua mulher Vivette Roche, ainda faz parte de nossa roda de amigos, e muitos outros mais. O tempo de Roland-Garros178 tinha começado. Ainda morando em Boulogne, tínhamos assistido partidas que nos entusiasmaram. Os "quatro mosqueteiros"179 reinavam, excitando as multidões. Lembrome de uma partida onde Cochet180 estavam perdendo por 2 sets a 0, 5 jogos a 3, e, de repente, saiu com seu estilo brilhante e não deixou mais nenhuma chance ao adversário. O estádio seguia a partida de pé, urrando de entusiasmo. Na riviera participamos de vários torneios e jogamos lado a lado com grandes jogadores, salvo Borotra181 que só esteve lá uma vez. Num Centro francês de tênis de fama internacional. Cochet, Borotra, Brugnon e Gillan Renato Lacoste (1905-95), campeões imbatíveis na década de 1930. 180 Henrique João Cochet (* Lião, França, 14-12-1901; † 01-041987). Campeão de tênis: quatro vezes em Roland-Garros (1926, 1928, 1930, 1932), duas em Wimbledon (1927, 1929), uma nos Estados Unidos (1928) e seis na Taça Davis (1927/32) 181 João Roberto Borotra (* Arbonne, França,13-08-1898; † 17-071994). Campeão de tênis: duas vezes em Wimbledon (1924 e 1926),
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certo ano, Pedro Henrique e eu chegamos a ganhar a Taça das Famílias, de Monte-Carlo. Muitos anos mais depois, após a guerra, numa tarde, eu estava sentada em Roland-Garros, na arquibancada do campo nº 2, quando meu vizinho voltando-se um momento para mim, disse: "Boa tarde, Princesa. A senhora ainda joga?" Era Jacques Brugnon182. Respondi: "Só jogo partidas de castelo". "Eu também", retrucou ele, que era a gentileza e a modéstia em pessoa. O rei Gustavo V183, da Suécia, "Sr. G." nos campos de tênis, gostava muito de vencer, e o tomava sempre como parceiro. Para o duplo-misto, o campeão holandês, Wim Karsten184 me pediu para ser sua parceira para poder enfrentar o rei. Foi épico! Mas, fechemos aqui os parênteses do tênis. Em 6 de junho, Nonno e Nonna iam festejar suas bodas de ferro185. Posso ver em meu caderno de notas: "Quarta-feira, 7 de junho, Nonno e Nonna vêm a Mandelieu enquanto preparam a capela no salão verde. Às 14 horas, a criadagem foi se congratular com os Nonni, dando-lhes de presente dois lindos vasos de metal prateado, com as datas 1868-1933 gravadas. Que bonita idéia. Até mesmo Maiffret, o velho jardineiro se vestira com uma "roupa de festa"." Às 6 horas da tarde, toda a família se reuniu na Vila Maria Teresa II para cumprimentá-los e dar-lhes presentes. Graças a Deus, Pedro Henrique pôde chegar a tempo186. O padre Morello, pároco de Nossa Senhora dos Pinheiros, e os padres jesuítas, Desribes e d'Armailhacq concelebraram a missa no dia seguinte. Toda a família estava presente, até mesmo tia Carolina, irmã de Nonna, que, apesar da cegueira, tinha querido acompanhar

uma na Austrália (1928), uma em Roland-Garros (1931), e várias na Taça Davis (1927/32). 182 Tiago Brugnon [Totô] (* Paris, Frnça, 11-05-1895; † 20-03-1978). Campeão de tênis: Taça Davis (1927, 1930/2) 183 Oscar GUSTAVO V Adolfo, príncipe real da Suécia (18-091872/08-12-1907), rei da Suécia (*Drottningholm, Suécia, 16-061858; † Estocolmo, Suécia, 29-10-1950), filho de Oscar II, rei da Suécia e Noruega, e de Sofia, princesa de Nassau. X Karlsruhe, Alemanha, 20-09-1881, Sofia Maria VITÓRIA, princesa de Baden (* Karlsruhe, Alemanha, 07-08-1862; † Roma, Itália, 04-04-1930), filha de Frederico I, grão-duque de Baden, e de Luísa, princesa da Prússia. O casal teve dois filhos, entre os quais Gustavo VI, rei da Suécia, 184 Wim Karsten ??? 185 65 anos de casados. 186 De Paris, onde estudava.
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tio Reiniro, e trouxe sua filha Teresa Jerzieska187. Também compareceram todos os empregados. O reencontro de primos e primas vindos dos quatro cantos da Europa era maravilhoso. É, sem dúvida, difícil educar uma família grande, mas que alegria é para os descendentes se encontrarem em tão grande número! O almoço foi simples. Os primos se reuniram à tarde em Mandelieu, no campo de tênis. Como os verões eram tranqüilos naquela época! Os turistas e veranistas não tinham descoberto a delícia de um verão no litoral do Mediterrâneo, e nós podíamos aproveitar dele como verdadeiros proprietários. Íamos caçar tordos e coelhos na pradaria, atrás da casa, em meio aos odores de tomilho e de lavanda. Leão Roustand, com a bolsa de caçador a tiracolo, e os ouvidos à espreita, nos alertava dos menores movimentos das plantas, que indicavam uma presa a vigiar. Era a liberdade completa em contato com a natureza ainda intacta. À noite, depois do jantar, ficávamos no terraço, escutando o concerto das cigarras. Pouco a pouco a noite caía, o céu se tornava azul intenso e depois negro, e as estrelas apareciam. De nariz para cima, procurávamos a estrela Polar, a Ursa Maior ou a Cassiopéia. De quando em quando, uma estrela cadente atravessava a abóbada celeste e desaparecia, dissolvida na imensidade. Os mais corajosos saíam com Leão e seu pai para pescar com lanterna188, lâmpada que se pendurava na proa do barco, ou, às vezes, na lateral. O pescador se armava com uma espécie de arpão rústico e quando o peixe, atraído pela luz, se aproximava do barco, toc! Era preciso mirar e arpoar. Leão era de uma habilidade extraordinária, já que era preciso fazer a retificação da trajetória do arpão, pois a água deforma a imagem do peixe. Pedro Henrique também era muito hábil nisso. Acima de tudo, lá no meio do mar, o momento era extraordinário: o barulho do barco sobre o mar tranqüilo, a visão das luzes de Cannes no outro lado da baía, e a calma que se tornaria cada vez mais rara. Como descrever tudo isso. É preciso ser poeta. O mês de julho passou como um sonho, com uma breve escapada a Paris para concretizar o aluguel do apartamento do bulevar Lannes, e participar da Copa Davis que, aliás, perdemos.

Maria Teresa, princesa Zamoyska (* Varsóvia, Polônia, 29-111904; † Druzbaki, Polônia, 28-12-1953), filha de André, conde Zamoyski e de Carolina, princesa de Bourbon-Sicília-Trapani. X 2601-1938 Jorge Jezierski (* Sobienie, Polônia, 20-03-1895; † (as) ... 1939). 188 "Lamparon".
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Como estávamos em Paris, a política mundial retomou seus direitos. O pacto a quatro, assinado entre a França, a Grã-Bretanha, a Itália e a Alemanha, nos deixou cépticos quanto os resultados. "O mês de agosto está terminando, e se fôssemos a Roma?", perguntou-nos, um dia, Mamãe que, segundo seu próprio termo, estava com "romite" aguda. Foi um entusiasmo geral na casa dos tios Nino. Partimos em três carros. Éramos onze com os motoristas Albano e Pepe que se compreendiam, não sei como, pois um só falava espanhol e o outro, só francês. Seguimos a costa tão bela, com o Mediterrâneo azul, azul, azul, à nossa direita. Paramos em Rapallo, de nome já cheio de sol e de alegria. No dia seguinte, passamos o Bracco, montanha selvagem, onde a estrada serpenteia, sobe e desce, sem ter fim. Os três carros se encontram em Tarquínia, cuja visita é obrigatória. Mergulhamos num passado que precedeu a civilização romana: lindos vasos pintados na bonita combinação de creme e castanho. D. José, capelão de tio Nino, não se cansava de tocá-los para estar certo de que estava realmente ali. Mas sua emoção chegaria ao auge quando avista, ao longe, as cúpulas de Roma. Pôs a dizer uma série de Deo Gratias, juntando as pontas dos dedos. É verdade que, cada vez que se chega a Roma, sente-se uma alegria intensa. O coração do catolicismo está lá. Havia um jubileu naquele ano. Decidimos fazê-lo, visitando as quatro basílicas189. E visitávamos Roma ao mesmo tempo. Nunca nos cansaríamos. Apesar das desagradáveis lembranças que ela guardava de seus estudos no colégio do Sagrado Coração de Aix-en-Provence, Mamãe conservava um certo vínculo com a instituição. Além do mais, Nonna tinha sido educada no colégio da mesma ordem, em Roma, no lindo convento da Trindade-dos-Montes, que domina a escadaria onde os romanos vão comprar flores ou, simplesmente, se sentam nos degraus, meio rosa, meio ocre, aproveitando a doçura e a luz incomparável da Cidade Eterna. Fomos, pois, à missa no convento, sendo depois recebidos pela Madre Desplat, que Mamãe tinha conhecido, como religiosa, em Aix-en-Provence. Depois da missa, nos mostraram o claustro onde se encontram os retratos de todos os reis da França. Uma outra madre se aproximou de nós. Quando criança, tinha brincado com Papai e seu irmãos. Sentimo-nos em casa. Antes de partir, fomos rezar junto do altar da Mater Admirabilis190, lindo quadro que representa a santa Virgem sentada numa cadeira de madeira de espaldar alto, com um lírio num vaso à direita e um fuso à esquerda. Conta a lenda que o pintor tinha começado a obra quando foi interrompido por uma obrigação material. Quando voltou São Pedro, São João Latrão, Santa Maria Maior e São Paulo extramuros. 190 Mãe Admirável, uma das invocações da Virgem Maria na ladainha.
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para retomar o trabalho, o quadro estava miraculosamente terminado. Nonna gostava de vir se recolher diante dessa Virgem tão pura. Voltei várias vezes à Trindade dos Montes e, a cada vez, pude sentir aquela atmosfera de pureza e de calma que desprende do quadro Mater Admirabilis. Naturalmente, Mamãe e tio Nino solicitaram uma audiência ao Papa. Naquela época, era de tradição e praticamente obrigatório que os príncipes católicos fossem se ajoelhar diante do chefe da cristandade. Tio Nino e sua família foram recebidos em primeiro lugar. Para a ocasião, tia Luísa e as primas, como infantas da Espanha191, estavam usando seus pentes espanhóis, cobertos de longas mantilhas negras. Voltaram da audiência impressionados. Enquanto isso, fomos rezar no túmulo de Pio IX192, pensando em Nonno e em Nonna, cujo casamento ele abençoara; depois no túmulo de Pio X193, aonde uma verdadeira peregrinação contínua de pessoas vinha tocar objetos piedosos. Pio X já era considerado um santo. Ao lado de seu túmulo, encontra-se o do cardeal Rampolla194 que, depois da morte de Leão XIII195, teria sido eleito Papa, eleição à qual o imperador da Áustria teria oposto veto, achando que Rampolla era demasiadamente francófilo. Dizem que Rampolla teria se levantado, retirado sua candidatura, protestando solenemente contra esse atentado à liberdade da eleição196. Na realidade não eram infantas, o pai seria um infante-consorte viúvo. 192 Na igreja de São Lourenço extra-muros. 193 Pio X (José Melchior Sarto [Beppi](* Riese, Itália, 01-06-1835; † Roma, 20-08-1914), filho de João Batista Sarto e de Margarida Sanson; ordenado padre 18-09-1858; bispo de Mântua 10-11-1884; cardeal Patriarca de Veneza 12-06-1892; eleito Papa em 04-08-1903, em sucessão a Leão XIII. Foi sucedido por Benedito XV. Beatificado em 03-06-1951, canonizado em 29-05-1954 por Pio XII. Festa 21 de agosto. Foi o Papa da Eucaristia e que condenou o modernismo. 194 Mariano Rampolla, marquês del Tíndaro (* Polizzi, Itália,17-081843; † Roma, Itália, 17-12-1913); Arcebispo titular de Heracléa, 0812-1882 Cardeal 26-10-1890. Secretário de Estado de Leão XIII. 195 Leão XIII (Joaquim Vicente Rafael Aloísio Pecci)(* Carpinetto Romano, Itália, 02-03-1818; † Roma, Itália, 20-07-1903), filho de Ludovico Pecci e de Ana Prosperi; ordenado padre 31-121837;Núncio na Bélgicxa, 01-01-1843; bispo, 19-02-1843; arcebispo de Damietta 19-02-1844; arcebispo de Peruggia, 26-05-1846, cardeal 19-12-1853; eleito Papa em 20-02-1878, em sucessão a Pio IX; foi sucedido por Pio X. 196 Pela constituições canônicas vigente, a Áustria tinha direito de veto, que foi comunicado ao conclave pelo cardeal Puzyna de
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Setembro começava. Tivemos nossa audiência com o Papa, no dia 3, às 11:45h. Foi preciso usarmos um vestido longo, negro, lenço, mantilha, e Pedro Henrique, fraque e condecorações. Às 10:30h deixamos o hotel para chegar com quarto de hora adiantados, o que nos valeu. Fizeram subir num elevador, e nos introduziram numa sala onde a guarda suíça apresenta as armas. Eram soberbos em seus uniformes medievais, de cores múltiplas. Na antecâmara, esperamos com o marquês de Felice197, todo de negro e gola de renda em volta do pescoço, e a guarda nobre de serviço. A Itália estava em pleno fascismo e eles estavam orgulhosos disso. Enfim, a porta de abriu e entramos no gabinete do Papa. O protocolo não era o mesmo: só se fazia uma genuflexão, em lugar de três; o Papa não estava mais numa escrivaninha, mas numa cadeira alta no fundo da sala. A audiência não durou mais que um quarto de hora. Pio XI tinha esperanças quanto ao Brasil; e nos falou da França: "há duas Franças, a primeira, má, com a maçonaria que, evidentemente, pratica o mal; mas também a outra França, que pratica o bem. Esperemos." A bela viagem em companhia dos primos não poderia continuar eternamente, apesar de todo o prazer que nos dava. Voltamos para casa, isto é, para Mandelieu. Nonno e Nonna estavam cada vez mais velhos e Mamãe não queria se afastar deles. O tempo dos estudos não nos prendia a um único lugar. Pedro Henrique voltou para Paris, onde devia fazer alguns cursos em Ciências Políticas. Voltou a Mandelieu pelo Natal, com dois colegas, Hugo de Place e Yves Meunier, que alegraram nossa casa. Tio Filipe tinha mandado passar as férias conosco seu filho Caetano198 que tinha tido de seu casamento com a princesa Maria Luísa de Orléans-Nemours199, filha do duque de Vendôme200, casamento aliás Kosielsko (1842-1911), arcebispo de Cracóvia, na Galícia, Polônia, então província do império austro-húngaro. 197 Felice (???) 198 CAETANO Maria Afonso Henrique Paulo, príncipe de BourbonSicília (16-04-1917/1939) (* Cannes, França, 16-04-1917; † Harare, Zimbábue, 27-12-1984), filho de Filipe, príncipe de Bourbon-Sicília e de Maria Luísa, princesa de Orléans-Nemour. X Paddington, Inglaterra, 16-02-1946, Olívia Yarrow (* Dumfries, Escócia, 16-071917; † Harare, Zimbábue, 24-05-1987), filha de Carlos Artur Yarrow e de Gladys Winifred Foulkes, de quem teve dois filhos. 199 MARIA LUÍSA Fernanda Carlota Henriqueta, princesa de OrléansNemours (* Neuilly-do-Sena, França, 31-12-1896; † Nova Iorque, EUA, 09-03-1973), filha de Manuel, príncipe de Orléans-Nemours, duque de Vendôme, e de Henriqueta, princesa da Bélgica; X I ibd. 12-01-1916,÷ 1925 e 1926, Filipe, príncipe de Bourbon-Sicília, de
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anulado no fim de alguns anos. O pobre pequeno Caetano tinha sido educado por uma babá inglesa muito ríspida, que tinha, ainda mais, um hábito que nos revoltava: dava banho no cachorro e em Caetano juntos na mesma banheira. O resultado era que o pobre menino tinha um olhar medroso e não ousava se aproximar dos adultos. A chegada dos amigos de Pedro Henrique foi benéfica por ele: passou a inventar brincadeiras e farças e a partilhar de todos os nossos jogos. No dia da partida, ele tinha realmente um ar infeliz por nos deixar. Só tinha dezessete anos, idade em que o adolescente se questiona sobre seu futuro. Sua educação tinha sido feita em colégios ingleses, sua vida era na Inglaterra. Em 1939, ele solicitou e obteve facilmente a nacionalidade britânica. Entrou na Real Força Aérea onde atingiu o posto de comandante. Em 1946, casou-se com Olívia, filha do tenente-comodoro Carlos Artur Yarrow, a qual fez questão de apresentar a Mamãe. Era uma jovem britânica morena como são às vezes as escocesas. Nos os levamos a fazer piquenique nas ilhas. O contato conosco os relaxou e os fez sentir em família. Mais tarde, emigraram pra o Quênia. Tiveram dois meninos: Adriano Filipe201, nascido em 1948, e Gregório Pedro202, nascido em 1950. As perturbações causadas pela revolta dos Mau-mau forçaram-nos a se mudar mais para o sul. A Rodésia ao acolheu. Os meninos fizeram bons estudos e se tornaram advogados.

quem teve um filho. X II Chichester, Grã-Bretanha,12-12-1928, Walter Kingsland (* Nova Iorque, EUA, 23-04-1888; † ibd. 20-071961), s.s. 200 Filipe MANUEL Maximiliano Maria Eudes, príncipe de OrleansNemours, duque de Vendôme (* Obermais, França, 18-01-1872; † Cannes, 01-02-1931), filho de Fernando de Orléans-Nemours, duque de Alençon, e de Sofia, duquesa em Baviera; X Bruxelas, Bélgica, 1202-1896 Henriqueta, princesa da Bélgica, de quem teve quatro filhos, entre os quais Maria Luísa, esposa de Filipe de Bourbon-Sicília (tio da autora) e Genoveva, marquesa de Chaponay. 201 Adriano Filipe de Bourbon (* Warrington, Inglaterra, 07-04-1948), filho de Caetano de Bourbon e de Olívia Yarrow. X Harare, Zimbábue, 20-03-1976, Linda Idensohn (* Harare, Zimbábue, 03-02-1950), de quem teve dois filhos. 202 Gregório Pedro de Bourbon (* Warrington, Inglaterra, 02-011950), filho de Caetano de Bourbon e de Olívia Yarrow. X I Rusape, Zimbábue, 15-05-1971, ÷, Maureen Powell (* Bulawayo, Zimbábue, 19-04-1951), de quem teve dois filhos; X II Brisbane, Austrália, 3008-1986, Carrie Anne Thornley (* Cessnock, Austrália, 02-02-1945).
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1934 Fevereiro nos encontrou em Paris, onde tínhamos vindo depois de uma curta estada em Villars-sur-Ollon, com tio Nino. Três dias de esqui numa neve perfeita nos deixou com o moral ao máximo. O famoso 6 de fevereiro!203 Pedro Henrique e Pedrinho não resistiram à curiosidade de ver as manifestações, e nos contaram que tinha havido tumultos, tiros de fuzil-metralhadora. Eles mesmos tinham forrado os chapéus de papel para amortecer, em caso de necessidade, as bastonadas. A causa desses acontecimentos tinha sido o caso Stavisky204. Primeiro, o governo Chautemps205, mais
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Chamado tumulto da Concórdia, em que multidão de direita atacou a Câmara dos Deputados, de maioria esquerdista. 204 Escândalo financeiro, no crédito municipal de Bayonne, revelado em dezembro de 1933. Contribuiu pra a queda do Ministério Chautemps, para o levantamento da estrema direita e para as agitações de 06-02-34. Em sua origem se encontrava o financista
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tarde o Daladier, estavam comprometidos no escândalo. Os antigos combatentes tinham ido se manifestar e todas as boas vontades de direita lhes foram dar apoio. No dia seguinte, a curiosidade feminina nos fez partir, eu e Mamãe, em direção à avenida Friedland, depois à Madalena, e, enfim, à praça da Concórdia. Havia grupos parados e Paris tinha um ar revolucionário. Figuras estranhas, quase nenhum movimento nas ruas, às vezes um quiosque queimado; na Concórdia, gradis meio estragados e marcas de balas nas árvores. À tarde, Pedro Henrique Pedrinho nos levaram dar uma volta pela cidade. A praça da Concórdia continuava sendo o ponto de movimento. Fomos testemunhas de duas cargas de cavalaria. Foi terrível e soberbo. Lado a lado, os soldados e suas montarias tentaram dispersar os manifestantes, que lançavam contra eles tudo o que tinham ao alcance das mãos. Gritos de "abaixo os ladrões!" "Daladier, você vai se arrebentar!", "ditadura!". Quando um oficial passou, a multidão gritou: "Viva o exército!" Discutiu-se muito, naquele momento, se o duque de Guise teria uma chance, se apresentando em França206. Com o passar do tempo, vi que foi melhor ele se abster. Domergue207 chegou a tempo, e tudo acabou. Ele foi considerado como um salvador. Foi uma curva da História bastante dramática. Embora não o conhecêssemos pessoalmente208, muito sentimos a morte do rei Alberto da Bélgica209. Pedro Henrique foi às exéquias, Sérgio Alexandre Stavisky († 01-1934), cuja morte, suicídio ou assassinato jamais foi esclarecida 205 Camilo Chautemps (* Paris, França, 01-08-1886; † Washington, EUA, 01-07-1963). Três vezes primeiro ministro da França, teve um papel bastante controvertido na rendição da França aos alemães. 206 Na época dos acontecimentos estava exilado em Woluwe-SaintPierre, Bélgica. 207 Gastão Domergue (* Aigues Vives, França, 1863; † ibd. 1937). Presidente da República. 208 O rei Alberto I é que dera ao pai da autora, D. Luís do Brasil, o cognome de "Príncipe Perfeito". 209 ALBERTO I Leopoldo Clemente Maria Menrado, príncipe da Bélgica, Duque de Flandres, Príncipe Real da Bélgica (16-11-1905/17-121909), Rei da Bélgica (17-12-1909/17-02-1934)(* Bruxelas, Bélgica, 08-04-1875; † (ac) Marches-les-Dames, Bélgica, 17-02-1934), filho de Filipe, príncipe da Bélgica, Duque de Flandres, Príncipe Real da Bélgica, e de Maria, princesa de Hohenzollern-Singmaringa. X Munique, Alemanha, 02-10-1900, ISABEL VALÉRIA Gabriela Maria, duquesa em Baviera (* Possenhofen, Alemanha, 25-07-1876; † Bruxelas, Bélgica, 23-11-1965), filha de Carlos Teodoro, duque em Baviera, e de Maria José, infanta de Portugal. O casal teve três filhos: Leopoldo III, rei da Bélgica, Carlos, duque de Flandres, regente da Bélgica, e Maria José, rainha da Itália. Sucedeu a seu tio Leopoldo II,
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acompanhado de Edgar da Silva Ramos; voltou muito impressionado pela tristeza do povo belga e pelo amor que este dedicava a seu rei. Foi o começo de acontecimentos dolorosos. Mamãe gostava muito de seu primo Sixto de Bourbon-Parma210, e este retribuía sua afeição. Vinha muitas vezes a Boulogne bater papo com ela. Voltando de uma viagem ao Saara, contraiu septicemia. Infelizmente os antibióticos ainda não existiam, e seu estado cada vez dava mais preocupações. Muitas vezes Mamãe ia à rua de Varenne, no belo palacete, hoje embaixada da Itália. Na última vez em que foi, me levou com ela. Eu fiquei no carro, mas, quando a duquesa de Parma soube, mandou Caetano, o último dos vinte e quatro irmãos, me buscar. Encontrei o ambiente de Pianore, apesar da angústia que se lia em todos os rostos. A família inteira estava lá. Mas as notícias da saúde de Nonno nos obrigaram a partir, no dia 16 de março, para Mandelieu. Tio Sixto morreu naquele mesmo dia. Soubemos quando chegamos em Cannes. Como Nonno parecia se recuperar um pouco, Mamãe não resistiu à tentação de ir assistir à canonização de Dom Bosco211, que toda a família imperial reverenciava, desde que Vovó e Bon-Papá o tinham conhecido pessoalmente. Foi uma viagem curta, mas isso não a prejudicou em nada, pois tivemos a oportunidade de assistir, na Quinta-feira Santa, à missa do Papa na Capela Sixtina, tão bela e ainda mais emocionante, no meio de cantos maravilhosos do coral, com o representante de Cristo na terra. Ele parecia cansado. O cargo de suas responsabilidades era terrível. Era o peso do mundo em seus ombros, apesar de tudo, humanos. Não pudemos ficar em Roma. À noite, um telegrama de Cannes nos chamava urgentemente. Tomamos o trem de manhã para chegar, à meia-noite, em Cannes. Tio Nando nos esperava na estação. Nonno em 17-12-1909, e foi sucedido por seu filho Leopoldo III, em 17-021934. 210 SIXTO Fernando Maria Inácio Pedro Afonso Roberto Miguel Francisco Carlos Luís Xavier José Antônio Pio Tadeu João Sebastião Paulo Brás Estanislau Benedito Marcos, príncipe de Bourbon-Parma (* Wartegg, Baviera, Alemanha, 01-08-1886; † Paris, França, 14-031934), filho de Roberto I, duque de Parma, e de Maria Antônia, infanta de Portugal. X ibd. 12-11-1919, EDVIGES de La Rochefoucauld. O casal teve apenas uma filha. 211 João Melchior Bosco (* Becchi, Itália, 16-08-1815; † Turim, Itália, 31-01-1888). Fundador das ordens dos Salesianos e das Filhas de Maria Auxiliadora, ordenado sacerdote em 05-01-1841. Foi beatificado em 22-06-1929 e canonizado em 04-04-1934,por Pio XI. Do processo canônico constam 652 milagres. Festa, 31 de janeiro.
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tinha sofrido uma pequena crise e começava a delirar. A doença durou oito dias, durante os quais todos os filhos se revezavam, dia e noite, junto a ele, que estava com pulso a 120, mas não tinha febre. Foi um a semana penosa, depois houve recuperação. A família se dispersou de novo. Recebemos a visita do padre Hipólito Chauvelon, salesiano, missionário no Brasil. Parecia estranhamente com D. Bosco. Nos encantou com seus relatos sobre sua vida de missionário na Amazônia, tentando fazer contato com a tribo dos Xavantes de quem ninguém tinha conseguido se aproximar. Um dia, um índio fez uma demonstração: tinha desenhado um círculo na terra e, esticando seu arco, enviou uma flecha no ar que veio se fixar exatamente no meio do círculo. Isso queria dizer: "Se não estivermos contentes com vocês, nossa flecha vai encontrá-los". Escutávamos coma paixão todos aqueles relatos, vivendo com ele num país imenso que eu ainda não conhecia. A capela do Mas São Luís estava terminada. Havia, na extremidade do terraço, ao lado da sala de jantar, uma espécie de claustro em arcos que dava para o jardim. Só foi preciso envidraçar as aberturas e colocar uma porta de madeira envernizada dando para o terraço. O carpinteiro Fazio fez um bonito altar de madeira dominado por um tabernáculo, nove fileiras de três genuflexórios que permitiam a capela comportar uma grande assistência. Não havia necessidade de se adquirir quadros e objetos piedosos. A casa estava cheia deles. Ali, a primeira missa foi celebrada pelo padre Desribes; a segunda, pelo bom padre Chauvelon. Os tios Reiniro moravam em Var, na grande propriedade de SaintSauveur, que tia Gietta lhes tinha dado de presente. O sonho de tia Carolina era ter ali também uma capela. Ela se lembrava da infância na Polônia, onde os castelos, afastados das cidades, possuíam sempre uma capela. Tinha pedido a Dom Bosco de realizar seu sonho. Foi com dupla alegria que ela pediu ao padre Chauvelon que fosse a Saint-Sauveur abençoar a peça transformada em oratório. A saúde de Nonno estava um pouco melhor. Ele queria ainda ir à capela e beijar o chão como fazia sempre. Tinham-no convencido de não mais descer as escadas correndo, pois isso era o terror da família. Como a melhora persistisse, partimos para Paris onde era preciso assinar papéis no tabelião. A boa "Moimoi" (Srita. Gautier), fiel secretária de Mamãe, nos esperava no apartamento, tendo preparado tudo, como sempre, para que não entrássemos num lugar triste e frio. E não levou nem meia hora e tia Luísa chegou. Tinha acabado de receber um telefonema de Cannes: Nonno estava muito mal.
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Retomo meu diário: "Corremos para reservar lugares no carrodormitório e nos encontramos no mesmo vagão que tio Nino. Chegando em Cannes, fomos diretamente à Vila Maria Teresa. Como Nonno tinha mudado! Apresentava uma respiração muito curta e tinha 40 graus de febre. "Congestão pulmonar", diagnosticou o Dr. Guizol. Chamaram um frade italiano para cuidar dele, pois aquela longa agonia era bem penosa. O frade tinha um ar doce e competente. Ficamos para jantar na Vila, e voltamos muito tarde para Mandelieu, em companhia de tia Gietta, tia Titine e Jorge. Estes último tinham acabado de chegar de Lucerna. Tinham partido na véspera, à tarde, viajaram toda a noite, sofreram nove enguiços, o que fez com que chegassem somente cerca de 21:00h. Que viagem! No sábado, 26 de março, todos nós assistimos a missa no quarto de Nonno. Apesar de seu estado, ele ainda pôde receber a santa comunhão, como, aliás, tinha feito nos dias precedentes. Era uma grande graça de Deus. Quando rezava na cama, tinha o ar de um São José. Às 22:00h, nós estávamos todos em baixo e tio Januário estava de guarda, segurando o pulso de Nonno. Sentindo que enfraquecia, disse a tio Filipe para nos chamar. Creio que pudemos receber seu último suspiro. Ele se foi sem nenhum sofrimento. "Sua alma de justo deve ter subido direto ao Céu", disse o padre Morello, pároco de Nossa Senhora dos Pinheiros, que fora tão bom durante toda a doença de Nonno. Depois de ter orado longamente, a pobre Nonna se retirou, e nos a seguimos até a saleta. Daí em diante, ela teria muita necessidade de ser rodeada por nós. Antes de voltar a Mandelieu, subimos ao quarto de Nonno. Ele repousava numa tranqüilidade maravilhosa, vestido com o burel da Ordem Terceira de São Francisco. O padre Desribes teve uma frase feliz: "Ele não quis outra coisa senão o hábito de monge". Os familiares foram chegando: Pedro Henrique, com os filhos de tio Nino; depois, Ongá, após uma longa viagem desde a Polônia. A família estava toda reunida, com os nervos à flor da pele; as discussões se tornavam violentas e depois se acalmavam na tristeza da ocasião. Entrou em jogo o protocolo dos lugares na igreja: protocolo real ou familiar? Acabaram chegando a um consenso. Quarta-feira, dia 30, desde as 7:00h, as chegadas se sucedem sem parar: Madi e sua irmã Urraca, filhas de tio Nando, depois o príncipe de Hohenzollern212 e tia Mimi, com quem Nonna se emocionou
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FREDERICO VÍTOR Pio Alexandre Leopoldo Carlos Teodoro Fernando, Príncipe Herdeiro de Hohenzollern (08-06-1905/22-101927), Chefe da Casa Principesca de Hohenzollern (22-10-1927/0602-1965) (* Heilingendamm, Mecklemburg, 30-08-1891(gêmeo); †
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profundamente por ser a primeira vez que estava com ela, desde a morte do Rei Manuel II. O arquiduque Otão213, que lembra a carta que Nonno lhe tinha mandado por ocasião dos seus vinte e um anos, e que ele guardava com carinho; Jaime, o filho surdo-mudo do rei da Espanha, pessoa de ar bem espanhol, sem ser belo, era muito régio. Ele representava o rei, e, enfim, o general Patourneaux214, representante do duque de Guise. Aí, uma pequena dificuldade se apresentou: o general era representante, mas não o duque de Guise, Chefe da Casa Real de França. Pedro Henrique e o arquiduque Otão tinham sido colocados à frente dele, o que ele não admitiu. Contornou-se a dificuldade, colocando-o ao lado de Monsenhor Rémond215, bispo de Nice. A propósito de Monsenhor Rémond, gosto de lembrar uma bonita frase que ele disse após rezar junto de Nonno. Ao declarar que viria às exéquias, Nonna lhe disse que seu marido tinha desejado um Krauchenwies, Alemanha, 06-02-1965), filho de Guilherme, príncipe de Hohenzollern, e de Maria Teresa, princesa de Bourbon-SicíliaTrani; X Sibyllenort, Alemanha, 02-06-1920, MARGARIDA Carola Guilhermina Vitória Adelaide Albertina Petra Huberta Paula, princesa da Saxônia (* Dresda, Alemanha, 24-01-1900; † Friburgo-deBrisgóvia, Alemanha,16-10-1962), filha de Frederico Augusto III, Rei da Saxônia, e de Luísa, arquiduquesa da Áustria, princesa de Toscana, de quem teve seis filhos, entre os quais, Frederico Guilherme, Chefe da Casa Principesca de Hohenzollern. Por sua mãe, era sobrinho neto do Conde de Caserta. Sucedeu a seu pai Guilherme em 22-01-1927, e foi sucedido por seu filho Frederico Guilherme em 06-02-1965. 213 Francisco José OTÃO (I) Roberto Maria Antônio Carlos Maximiliano Henrique Sixto Xavier Félix Renato Luís Caetano Pio Inácio, arquiduque da Áustria, Príncipe Imperial da Áustria e Real da Hungria (21-11-1916/01-04-1922), Chefe da Casa Imperial da Áustria e Real da Hungria (01-04-1922/04-07-2011) (* Vila Wartholz 20-11-1912; Pöcking, Baviera, Alemanha, 04-07-2011), filho de Carlos I, Imperador da Áustria e Rei da Hungria, e de Zita, princesa de Bourbon-Parma. X Nancy, França, 10-05-1951 REGINA Helena Isabel Margarida, princesa de Saxe-Meiningen (* Würzburg, Baviera, Alemanha, 06-01-1925; † Pöcking, Bavuera, Alemanha, 03-02-2010), filha de Jorge III, Duque de Saxe-Meiningen, e de Clara Maria, condessa de Korff-Schmising-Kerssenbrock. O casal teve seis filhos. Sucedeu a seu pai em 01-04-1922, e foi sucedido por seu filho Carlos (II e V) em 04-07-2011. 214 Patourneaux ??? 215 Paulo Remond (* Salins, França, 16-09-1873; † Nice, França, 2404-1963); ordenado padre (10-07-1899); bispo (29-05-1921), bispo de Nice (20-05-1930) e arcebispo de Nice (07-01-1950).
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enterro de pobre; ao que ele respondeu: "Mas Alteza Real, eu costumo ir também aos enterros de pobres". Como sempre, nos momentos mais tristes, acontece algo inesperado e engraçado. O conde Barberini216, camareiro de honra do conde de Caserta, tinha sido encarregado de receber as famílias reais. O pobre homem tinha, na última hora, alugado um terno que era muito largo. Como tinha esquecidos de usar suspensórios, não ousava se mexer com medo de perder as calças. A missa foi simples como Nono tinha desejado, mas muito piedosa e bela. O bispo de Nice fez uma curta alocução, na qual lembrou as virtudes do desaparecido. Elogiou, principalmente, sua total submissão às diretrizes do Papa, depois evocou sua última visita ao defunto e disse: "Vocês pensam que esse descendente de nosso Luís XIV, esse herdeiros dos reis de Nápoles, esteja coberto com um manto real? Não. Ele quis que sua última veste fosse aquela dos pobres frades menores de São Francisco. Depois da missa, Nonna quis permanecer para apertar a mão de todos, agradecendo pessoalmente aos que tinham vindo compartilhar de sua dor. Naquele tempo, usavam-se véus de crepe, e no calor daquele mês de maio, era uma prova difícil de suportar. Nonno, Afonso, Conde de Caserta, Chefe da Casa Real das DuasSicílias, repousa na linda capelinha, desenhada por tio Januário, no cemitério de Cannes. Nonna nos tinha pedido para ir almoçar com ela, e tinha convidado, também, Otão da Áustria e, irmã de Bóris III,217rei da Bulgária, Henrique Barberini, 9º Príncipe de Palestrina, Senhor de Montecastel, San Petro e Capranica, nobre romano conscrito (* Roma, Itália, 24-10-1892; † ), filho de D. Luís, marquês Sacchetti, e de D. Maria Barberini-Colonna, 8ª Princesa de Palestrina; X Roma, 11-06-1921 Ana Henriqueta de Frankenstein (* Roma, 06-09-1895; †), filha de Henrique, conde de Frankenstein, e de Ana Bruwster, de quem teve dois filhos. 217 BERNARDO III Clemente Roberto Pio Luís Estanislau Xavier, Príncipe Real da Bulgária (30-01-1894/03-10-1918), Rei da Bulgária (03-10-1918/28-08-1943), filho de Fernando I, Rei da Bulgária e de Maria Luísa, princesa de Bourbon-Parma (a primeira dos vinte e quatro irmãos)(* Sófia, Bulgária, 30-01-1894; † ibd. (as) 28-081943); X Assis, Itália, 25-10-1930, JOANA, princesa de Savóia (* 1311-1907; † Estoril, Portugal, 26-02-2000), filha de Vítor Manuel, Rei d Itália, e de Helena, princesa do Montenegro, de quem teve dois filhos, entre o quais Simeão II, Rei da Bulgária. Sucedeu a seu pai
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Eudóxia218 de quem Mamãe era muito amiga. Assim, ambas puderam a conversar sobre os acontecimentos na Europa. Eudóxia lhe contou que a situação da monarquia na Bulgária era muito grave, que ela temia que, em alguns meses, o trono fosse derrubado. Realmente, quando a guerra começou, o rei procurou manter a neutralidade. Ele morreu depois de uma entrevista com Hitler. Dizem que este o mandou envenenar, pois não tinha conseguido que ele tomasse o partido da Alemanha219. Uma outra pessoa importante veio prestar homenagem a Nonno. No dia seguinte, já há algum tempo, nós descansávamos na praia, mas como o calor estava muito forte, resolvi voltar ao Mas São Luís; ao chegar, Mamãe me gritou "Corre e vai buscar teus primos e primas! O rei Afonso XIII veio de Roma e está na Vila Maria Teresa II". Partimos num rojão em dois carros para chegar no momento em que o carro do rei saía de volta para a estação. Retorna, motorista! E partimos no sentido inverso, chegando bem a tempo de cumprimentar o rei na plataforma da estação. E repetiu a Mamãe quanto sentira não ter podido chegar a tempo de assistir às exéquias. Fosse como fosse, antes da morte de Nonno, ela já tinha estado com a família e mesmo assistido à extrema-unção. Ficamos emocionados ao constatar quão marcante tinha sido a personalidade de Nonno. Tudo isso me parece ainda tão recente e, ao mesmo tempo, tão remoto, sobretudo extraordinariamente de outra época, quase de outro mundo. Éramos rodeados de uma família, de avós, pais, tios e primos, e parecia que tudo deveria ser sempre assim. Às vezes, os corações se punham a bater: era um tempo de doçura e de amizade partilhada. Tínhamos os mesmos gestos, e eu diria, os mesmos pensamentos. Os vínculos de parentesco permaneceram sólidos, apesar de tudo que se passou, como acontece, provavelmente, em todas as famílias. Nada e ninguém são perfeitos neste mundo, mas, Fernando I em 03-10-1918, e foi sucedido por seu filho Simeão II, em 28-08-1943. 218 EUDÓXIA Augusta Filipa Clementina Maria (Coca), princesa da Bulgária (* Sófia, Bulgária, 19-01-1898; † Friedrischshaven, Alemanha, 04-10-1985), filha de Fernando I, rei da Bulgária, e de Maria Luísa, princesa de Bourbon-Parma. Esta era a primeira dos vinte e quatro filhos do duque de Parma (Pianore). 219 Morto o rei, o trono passou para seu filho menor, Simeão II (hoje primeiro-ministro da Bulgária), sob a regência do príncipe Cirilo, seu tio, que se submeteu a Hitler. Os russos invadiriam a Bulgária depois da guerra, dariam o poder aos comunistas que deporiam o rei e fuzilariam o regente.
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devo dizer que a palavra "primo" continua, para mim, uma palavra querida. A morte de Nonno trouxe um problema: que ia ser de Nonna? As discussões começaram entre tios, tias e Mamãe. Ela não poderia permanecer na Vila Maria Teresa II, de manutenção demasiado cara. Nonno sempre esperara que o governo italiano lhe devolvesse os bens confiscados na queda do reino das Duas Sicílias. Mas, para tanto, não se podia contra com Mussolini. O único que tinha boas disposições para com a família era o príncipe do Piemonte, que, aliás, tinha enviado um telegrama de condolências ao tio Nino. Era um primeiro passo, mas ele não era dono da situação220, como a História viria a demonstrar. Por enquanto, a preocupação de Nonna era responder as inúmeras cartas, bem comoventes, que tinha recebido. Tentamos ajudá-la, mas, nesses momentos de dor, era melhor deixála responder ela mesma, e não a preocupar demais quanto ao futuro, que se desanuviaria sozinho, mais tarde. Em setembro, depois de um agosto passado tranqüilamente no Mas São Luís, a "romite” aguda nos atacou de novo e, queimando etapas, chegamos, com uma alegria, sempre renovada, à Cidade Eterna. Roma é uma cidade que se pode visitar sempre, e sempre se encontra um novo itinerário ainda mais lindo que o anterior. Dessa vez, foi a visita ao túmulo de Pio IX, depois à igreja de São Lourenço, passeios ao magnífico penedo de Óstia que pertencia ao príncipe Chigi221, depois, outro dia, uma excursão aos montes cobertos de floresta que dominam Castel Gandolfo222, onde nos paramos na volta. Uma multidão pululante subia em direção ao palácio de verão do Papa. Nós a seguimos para chegar à pequena praça diante da Humberto II fora sempre contrário ao fascismo, a ponto de não residir em Roma, mas em Nápoles. Apoiou o pai quando este demitiu Mussolini. Entretanto, todos os erros do nazismo recaíram sobre ele, que pôde reinar apenas um mês. 221 D. Luís, Príncipe Chigi della Rovere Albani, 8º Príncipe del Santo Romano Impero, 8º Duque de Albano e de Formelle (* Ariccia, Itália, 10-07-1866; † Roma, Itália, 14-11-1951), filho de D. Mário Príncipe Chigi della Rovere Albani, 7º Príncipe del Santo Romano Impero, 7º Duque de Albano e de Formelle, e de Antonieta, princesa de SaynWittgenstein-Sayn. X Roma, 05-06-1893 Da. Ana Aldobrandini (* Roma, 08-12-1874; † Ariccia 17-09-1898), filha de Pedro Aldobrandini, príncipe de Sarsina, e de Francisca de La Rochefoucauld. O casal teve dois filhos, entre eles D. Sigismundo, Príncipe Chigi della Rovere Albani, 9º Príncipe del Santo Romano Impero, 9º Duque de Albano e de Formelle. Os príncipes Chigi são responsáveis hereditários pelo fechamento da sala dos conclaves. 222 Palácio de veraneio do Papa.
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residência do Santo Padre que, parecia, ia dar a bênção. A multidão aumentava em torno de nós, com os olhos fixos na sacada onde o Papa deveria aparecer. Apenas uma cortina se abriu, todos começaram a aplaudir. Alguns agitavam pequenos cartazes, nos quais tinham escrito: "Santidade, volte logo!" Quando a Santo Padre apareceu, todo mundo começou a gritar: "Eviva il Papa!", agitando lenços. Pio XI deu sua bênção e entrou, para partir imediatamente para Roma. Os relatos do fim do reino das Duas-Sicílias e os diferentes acontecimentos dos quais Nonno tinha participado e os lugares onde tinham ocorrido nos fascinavam. Fizemos ali uma peregrinação, viajando, pouco a pouco, na História. Fomos, pois, à encosta do Monte Rotondo, esperando, do caminho, topar com um rebanho de búfalos, para chegar a Mentana. A região é formada por grande quantidade de pequenas colinas, tal como Nonno nos tinha descrito quando nos contava a famosa batalha, da qual ele participara como guia, já que conhecia tão bem o terreno. No dia seguinte partimos para o sol, atravessando os pântanos pontinos, onde admiramos o enorme trabalho levado a efeito por Mussolini para devolver à agricultura uma área imensa, outrora malsã e inútil. Chegamos a Terracina, onde se avança por uma espécie de istmo em direção ao rochedo de Gaeta. O bloco rochoso, plantado no mar, é impressionante, e muito mais imponente do que eu imaginara. A primeira coisa que vimos ao chegar foi uma placa onde estava escrito: "Qui fu l'ultimo reffugio della mala signoria Borbonica"223 Podem imaginar a reação de Mamãe, da qual partilhávamos do fundo do coração. Almoçamos espaguete num pequeno restaurante e o rádio pôs-se a anunciar que a Princesa do Piemonte tinha dado à luz uma filha, Maria Pia224 Se tivesse sido um menino225, haveria uma "Aqui foi o último refúgio do mau domínio dos Bourbons" MARIA PIA Helena Isabel Margarida Milena Mafalda Luísa Tecla Januária, princesa de Savóia (* Nápoles, Itália, 24-09-1934), filha de Humberto II, Rei da Itália, e de Maria José, princesa da Bélgica,; X I Cascais, Portugal, 12-02-1955,÷ 1966, ALEXANDRE, príncipe da Iugoslávia (* White Lodge, Inglaterra, 13-08-1924; XII, c.s.,Paris, França,, 03-11-1973, Bárbara, princesa de Liechtenstein (* Mährisch, Áustria, 09-07-1942, filha de João, príncipe de Liechtenstein e de Carolina, condessa de Ledburn-Wicheln), filho de Paulo, príncipe da Iugoslávia, e de Olga, princesa da Grécia e Dinamarca, de quem teve quatro filhos. XII Mandalapan, FLA, EUA, 16-05-2003, MIGUEL Maria Xavier Valdemar Jorge Roberto Carlos Eimar, príncipe de BourbonParma (* Paris, França, 04-03-1926; X I, c.s., ibd. 23-05 e 09-061951; ÷ 1999, Iolanda, princesa de Broglie-Ravel (* Paris, França, 26-08-1928), filha de José, príncipe de Broglie-Revel e de Margarida
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salva de 121 tiros de canhão... Mamãe não se mostrou nada triste com o fato de não ter sido um menino. O passado estava ainda recente demais para que ela não mais sentisse nenhum rancor contra os Savóia. Mais tarde, a delicadeza e a gentileza do Príncipe do Piemonte a conquistariam completamente. Ela ia perceber que o desejo dele era acabar, para sempre, com a querela entre as famílias. Depois do almoço, tomamos um fiacre para visitar Gaeta. O cocheiro, bem napolitano, nos contou com muitos gestos, a história da cidade. Na igreja de São Francisco, ele nos fez admirar as duas estátuas que ornam a entrada: o rei Fernando II lhe era familiar, mas Carlos III tinha virado Napoleão. O interior da igreja nos foi explicado de maneira nem estranha. Cristo era São Francisco. Terminada a visita, ele se voltou para o altar e, com o polegar, enviou uma saudação fascista ao tabernáculo... Tomando seu fiacre, no guia original nos levou à Montagna Spacatta. A lenda diz que a montanha se fendeu em duas no momento da morte de Nosso Senhor. Da janela da capela, erguida entre os dois rochedos, e pode-se dar conta naquela fenda extraordinária. Ficamos um bom momento na capela, evocando o encontro de Pio IX com Fernando II, onde ambos tinham vindo orar por ocasião da fuga do Papa. Para terminar fomos ver a bela catedral onde se encontram os túmulos dos generais que combateram durante o triste cerco de Gaeta. Nonno tinha muitas vezes mencionado o heroísmo de todos aqueles militares que rodeavam o rei Francisco II e a rainha Maria Sofia. Não pudemos ficar mais tempo. Mamãe devia acompanhar Nonna e tia Beppa à audiência com o Papa. Eu e Pedro Henrique tivemos a graça de, assim, poder acompanhar Nonna. O príncipe Diogo Pignatelli226, que tinha sido indicado para servir de cavaleiro de honra da condessa de Caserta, chegou às 11:30h. Chegamos no mesmo número que em 1925, refazendo o mesmo itinerário. Nonna estava muito emocionada. Temíamos por sua saúde abalada pelo luto recente, mas logo ela reagiu e passou dignamente diante dos guardas de La Cour-Balleroy), filho de Renato, príncipe de Bourbon-Parma e de Margarida, princesa da Dinamarca, s.s.. 225 Na casa de Savóia vigorava a lei sálica. Somente em 1937 os Príncipes do Piemonte teriam um filho homem. 226 Diogo Pignatelli, Príncipe do Sacro Romano Império, Patrício de Nápoles (* Palermo, Itália, 11-03-1882; † Nápoles, Itália, 11-061935), filho de José Pignatelli, 14º Príncipe de Noia e de ... X Nápoles, 16-10-1886, D. Rosa Ficci (* Palermo, 01-09-1869; † Nápoles, 0401-1945), filha de D. Luís Fici, Duque de Amalfi, e de D. Ludovica Flores, de quem teve quatro filhos.
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suíços que apresentavam armas. Monsenhor Nardone227 a esperava e a conduziu, sempre seguida de nosso pequeno grupo, até a antecâmara Papal. Nonna nos deixou admirados: recuperou a calma e conversou durante um quarto de hora com a guarda nobre de serviço, falando de todas as pessoas da sociedade romana que ela conhecia. Enfim, a porta se abriu e Monsenhor Maglione228, núncio em Paris, saiu. Ele nos pareceu muito vermelho e suado... É preciso dizer que a nunciatura em Paris não era um dos lugares mais tranqüilos do mundo naquele momento. Chegou nossa vez e entramos. O Papa impediu que Nonna se ajoelhasse. Parece-me mais paternal do que em 1925. Nonna se exprimia em italiano, o que facilitava a conversa, e, falando de Nonno, disse que ele tinha morrido como um santo. O Papa respondeu: "Ele viveu como um santo, não poderia morrer senão como um santo". Em seguida nos ofereceu medalhas e pareceu particularmente feliz de ver Pedro Henrique229. Saindo, tivemos a impressão de ter estado com um grande Papa. Cinco dias depois, Mamãe e eu tomamos um trem para visitar os Pianore. Tia Maria Antônia, duquesa de Parma, nos esperava na estação de Viareggio. Ela era alta, magra, tinha os cabelos bem negros e usava um grande gorro que acentuava mais sua fisionomia. Vinha com Xavier230 e Margarida, nascida Thurn e Taxis231, que Nardone.??? Luís Maglione (* Casoria, Itália, 08-03-1877; † Roma, Itália, 2408-1944), ordenado padre Nápoles, Itália, 25-07-1901; bispo (titular de Cesaréia da Palestina), 26-09-1920; cardeal, 16-12-1935. Foi núncio apostólico na Suíça (01-09-1920) e na França (23-06-1926), prefeito da Cúria (22-07-1938) e Secretário de Estado de Pio XII (1003-1939), quando agiu sempre a favor dos judeus perseguidos pelo nazismo, dando total apoio ao núncio Ângelo Roncalli (mais tarde, Papa João XXIII), então delegado apostólico na Grécia e Turquia.. 229 Em 1937, D. Pedro Henrique, recém casado, teria uma última audiência com Pio XI. 230 Francisco (III) XAVIER Carlos Maria Ana José, príncipe de Bourbon-Parma, Duque-Herdeiro de Parma (27-06-1959/25-111974), Chefe da Casa Ducal de Parma (25-11-1974/01-09-1984) (* Camaiore, Itália, 25-05-1889; † Zizers, Suíça,, 07-05-1977),filho de Roberto I, Duque de Parma, e de Maria Antônia, infanta de Portugal; X Lignières, França, 12-11-1927, Maria Madalena de BourbonLignères-Busset, de quem teve cinco filhos, entre os quais Hugo, Chefe da Casa Ducal de Parma. Sucedeu seu sobrinho Roberto (II), em 25-11-1974, e foi sucedido por seu filho Carlos (IV)Hugo, em 0109-1984. 231 MARGARIDA Maria Teresa Isabel Frederica Alexandra Luísa, princesa de Thurn e Taxis, (* Beloeil, Bélgica, 08-11-1909), filha de Alexandre, príncipe de Thurn e Taxis, 1º Duque de Castel Duíno, e de
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parecia ainda mais loura e clara no meio de seus cunhados que eram todos uma mistura de Bourbon e de Bragança, morenos, com olhos e cabelos negros. Foi ela que nos levou num Lancia muito rápido, mas com uma destreza que tirava qualquer medo. Chegamos rapidamente ao castelo, onde nos esperavam ainda Luís232, Madalena233, nascida Bourbon-Busset, esposa de Xavier, francesa em toda a expressão da palavra, enfim Henriqueta234, a última filha da segunda dúzia dessa numerosa família. Era apelidada Nica e tinha ficado surda e muda, ao cair dos braços da ama. Entendemo-nos maravilhosamente durante os dez dias que passamos juntas. Cheguei a compreendê-la bem facilmente, e ela parecia feliz em conversar comigo e aumentar o afeto mais e mais profundo de uma parte e de outra. Mais tarde, à noite, chegaram Duarte235, duque de Bragança e suas irmãs Filipa236 e Maria Adelaide237. Logo compreendemos que tia Maria, princesa de Ligne. X Paris, França, 29-04-1931; ÷ Budapeste, Hungria, 30-08-1940; 1955) CAETANO Maria José Pio, príncipe de Bourbon-Parma (* Pianore, Itália, 11-06-1905; † Mandelieu, França, 09-03-1958), filho de Roberto I, Duque de Parma, e de Maria Antônia, infanta de Portugal, de quem teve uma filha. 232 LUIS Carlos Maria Leopoldo Roberto, príncipe de BourbonParma,(* Schwarzau-de-Steinfeld, Áustria, 05-12-1899; † Mandelieu, França, 04-12-1967), filho de Roberto I, Duque de Parma, e de Maria Antônia, infanta de Portugal; X Roma, Itália, 23-10-1939 MARIA Francisca Ana Romana, princesa de Savóia (* Roma, Itália, 26-121914; † Mandelieu, França, 04-12-2001), filha de Vítor Manuel III, Rei da Itália, e de Helena, princesa Petrovich-Niegoch do Montenegro, de quem teve quatro filhos. 233 Maria MADALENA de Bourbon-Lignères-Busset (* Paris, França, 23-03-1898; † ibd. 01-09-1984), filha de Jorge, príncipe de BourbonLignères, visconde de Busset, e de Joana de Kerret; X Lignières, França, 12-11-1927 XAVIER, Chefe da Casa Ducal de Parma, c.s. 234 HENRIQUETA Ana Maria Imaculada Josefa Antônia [Nica], princesa da Bourbon-Parma (* Pianore, Itália, 08-03-1903; † Marti, Itália, 1306-1987). 235 DUARTE (II) Nuno Fernando Maria Miguel Gabriel Rafael Francisco Xavier Raimundo Antônio, príncipe de Bragança (23-09-1907/21-021920), Príncipe da Beira (21-020-1920/20-07-1920), Príncipe Real de Portugal (20-07-1920/02-07-1932), Chefe da Casa Real de Portugal (02-07-1932/15-01-1977), Duque de Bragança, (* Seebenstein, Áustria, 23-09-1907; † Lisboa, Portugal, 15-01-1977), filho de Miguel, Duque de Bragança, e de Teresa, princesa de LöwensteinWertheim-Rosenberg. X Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 12, e Petrópolis, RJ, Brasil, 15-10-1942 Maria Francisca, princesa de Orléans e Bragança, de quem teve três filhos, entre os quais Duarte (III), Duque de Bragança. Sucedeu a seu parente D. Manuel II em 02-071932, e foi sucedido por seu filho Duarte (III) em 15-01-1977.
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Parma e Mamãe tinham pensado que, talvez, Maria Adelaide pudesse agradar a Pedro Henrique, e que Duarte e eu formaríamos um bom par238. Foram organizados grandes passeios que nos permitiram admirar as maravilhas de Toscana, mas logo vimos que não éramos feitos uns para os outros, o que nos permitiu continuarmos apenas bons primos e aproveitar a bela estada sem intenções ocultas. Os quinze dias que passamos junto com essa família querida ficaram em minha memória como um tempo encantado. Não poderia citar todas as maravilhosas voltas feitas, admirando os tesouros de Pisa, Pistóia. Siena e sua incomparável catedral, San Giminiano delle belle Torre, onde cada família tinha direito à sua torre tão mais alta quanto à nobreza da família. Xavier, Luís ou Margarida revezavam-se como cicerones. Com tia Parma, fomos ao encontro de Nonna que vinha de Roma, encantada de ter visto ou revisto todas as maravilhas da Itália. Isso foi, do ponto de vista moral, muito bom para ela e para tia Beppa, depois das tristezas daquele ano. As noites eram também muito alegres. Organizavam-se todas as espécies de brincadeiras, ou, às vezes, a conversa dominava. Estávamos num período da História que nos entusiasmava a todos. Xavier pensava que Mussolini era uma vantagem para a Itália. A tia era menos otimista, achando os atos do governo eram muito parecidos com o dos bolchevistas. Falamos muito da família de Savóia. Vivendo na Itália, os BourbonsParma tinham julgado que era preciso tentar uma reconciliação239, o que era, aliás, o desejo do Papa. Eles afirmavam que a rainha240 era FILIPA Maria Ana Joana Micaela Rafaela, princesa de Bragança (27-07-1905/21-02-1920), infanta de Portugal (21-02-1920/07-071990)(* Fischhorn, Baviera, Alemanha, 27-07-1905; † Ferragudo, Portugal, 06-07-1990). 237 MARIA ADELAIDE Manuela Amélia Micaela Rafaela, princesa de Bragança (31-12-1912/21-02-1920), infanta de Portugal (21-021920)(* Saint-Jean de Luz, França, 31-12-1912); X Viena, Áustria, 13-10-1945 NICOLAU João Maria de Uden (* Venlo, Holanda, 05-03-1921; † Lisboa, Portugal, 05-02-1991), filho de Adriano de Uden e de Cornélia ..., de quem teve seis filhos. 238 Duarte se casaria, em 15-10-1942, com Maria Francisca de Orleans e Bragança, prima da autora. 239 O primeiro sinal dessa reconciliação foi o casamento de Luís de Bourbon-Parma com Maria de Savóia. 240 Helena, princesa Petrovich-Niegoch do Montenegro (* Cetinhe, Iugoslávia, 08-01-1873 ; † Montpelier, França,28-11-1952 ), filha de
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muito bondosa e que o rei241 atraía a todos com sua inteligência e com seu espírito. Enfim, no dia da partida, fomos a Livorno, fazer uma peregrinação ao santuário da Virgem de Montenegro, onde nos divertirmos com os exvotos ingênuos que enchem a igreja. Saindo, vimos o Mediterrâneo que se espraiava a nossos pés. O tempo estava ótimo, e podiam-se ver as ilhas de Gorgona, Córsega, Capraia, Monte Cristo, Elba, e mesmo um pouco da Sardenha. Era lindo e cativante. Uma despedida feita de luz e de doçura nos tinha reservado a bela Itália. Voltamos a Pianore, com o coração um pouco apertado, ao pensar que aquele era o último dia. Estávamos a ponto de dormir quando bateram a nossa porta. Tia Parma entrou agitada para nos anunciar que o rei Alexandre da Iugoslávia242 e o ministro Barthou243 tinham sido assassinados em Marselha. Um emigrado iugoslavo tinha saltado ao estribo do automóvel e dado quatro tiros de revólver. O coronel Piolet, que escoltava o carro, abatera o assassino com golpes de abre. Levaram o rei à Prefeitura, aonde chegou morto. Ninguém se Nicolau, Rei do Montenegro, e de Milena Vucotic. X Roma, Itália, 2410-1896 Vítor Manuel III, Rei da Itália, c.s. 241 VÍTOR MANUEL III Fernando Maria Januário, Príncipe do Piemonte (09-01-1878/29-01-1900), Rei da Itália (29-01-1900/-09-05-1946), Imperador da Etiópia (09-05-1936/03-09-1943), Rei da Albânia (1604-1939/03-09-1943)(* Nápoles, Itália, 11-11-1869; † Alexandria, Egito, 28-12-1947),filho de Humberto I, Rei da Itália, e de Margarida, princesa de Savóia-Gênova. X Roma, Itália, 24-10-1896 Helena, princesa Petrovich-Niegoch do Montenegro, de quem teve cinco filhos, entre os quais Humberto II, Rei da Itália, Joana, rainha da Bulgária, e Maria, princesa Luís de Bourbon-Parma. Sucedeu a seu pai assassinado em 29-01-1900, e foi sucedido por seu filho Humberto II em 09-05-1946. 242 ALEXANDRE I, Príncipe Real da Sérvia (15-06-1903/16-08-1921), Rei da Sérvia (16-08-1921/02-10-1929), Rei da Iugoslávia (03-101929/09-10-1934)(* Cetinhe, Iugoslávia, 04-12-1888; † (as) Marselha, França, 19-10-1934), filho de Pedro I, Rei da Sérvia, e de Zorka Nicolaievna, princesa do Montenegro. X Belgrado, Iugoslávia, 08-06-1922, MARIA, princesa da Romênia (* Gotha, Alemanha, 0901-1900; † Londres, Inglaterra, 22-06-1991), filha de Fernando I, Rei da Romênia, e de Maria, princesa de Saxe-Coburgo-Gotha, GrãBretanha e Irlanda, e Edinburgo, de quem teve três filhos, entre os quais Pedro II, Rei da Iugoslávia. Sucedeu seu pai Pedro I em 16-081921, e foi sucedido por seu filho Pedro II, em 09-10-1934. 243 João Luís Barthou (* Oleron-Sainte-Marie França, 25-08-1862; † (as) Marselha, França, 09-10-1934). Deputado, diplomata, conseguiu a entrada da Rússia soviética na Liga das Nações. Era Ministro das Relações Exteriores do governo Domergue quando foi assassinado.
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preocupou com Barthou, julgando-o levemente ferido. Quando o transportaram ao hospital, o pobre tinha perdido todo o sangue. Uma atadura poderia tê-lo salvo. O prefeito de Marselha tinha dado ordem de colocar uma guarda de spahis em volta do automóvel real, e Paris tinha contra-ordenado. Tinham suprimido a ala de soldados para conter a multidão, e não havia tropas seguindo o cortejo. Afinal, tinham feito muito menos do que se devia, enquanto a multidão esperava, com entusiasmo, a passagem do cortejo real. O corpo do rei foi levado à Iugoslávia pelo mesmo navio que tinha transportado o restos do arquiduque Francisco Fernando ... Soou a hora da partida e deixamos Pianore em 18 de outubro, acompanhados, ainda, durante um pedaço da estrada, por Henriqueta e os três primos Bragança. Depois, num cruzamento da estrada, eles voltaram para sua agradável morada e nós nos dirigimos para oeste, para atingir Cannes e Mandelieu, onde encontramos os espíritos traumatizados pelos acontecimentos de Marselha. Falavam muito de conspirações internacionais para isolar a França. A Itália ainda era nossa aliada, mas a Alemanha de Hitler se tornava cada vez mais ameaçadora e já havia boatos de guerra, mas ninguém acreditava muito neles. Tio Nando, agora Chefe da Casa Real das Duas-Sicílias, chegou com Titô à Vila Maria Teresa II, para fazer companhia a Nonna e a tia Beppa, sozinhas na casa, agora triste e fria. Ele trazia uma carta de uma pessoa do séquito do Príncipe do Piemonte perguntando se ele daria a permissão, o príncipe se encarregando das despesas, de fazer voltar a Nápoles os restos do rei Francisco II. A carta estipulava que, se tio Nando não aceitasse, o negócio permaneceria em segredo. Com a aprovação de Nonna, tio Nando deu sua aquiescência. Foi o primeiro passo em direção a reconciliação entre as duas famílias.244 Pedro Henrique estava mais interessado no Brasil. Recebia sempre relatórios sobre os diversos movimentos monarquistas. Percebendo haver uma certa fricção entre eles, nomeou Cândido Guimarães, fiel amigo de Papai, seu lugar tenente, o que mundo o tocou. Sua correspondência punha os brasileiros a par dos acontecimentos europeus, então já bem inquietantes. Esperava-se, com ansiedade, o resultado do plebiscito do Sarre. Afinal, o Brasil era a nossa pátria e para lá é que deveríamos nos mudar em caso de perigo. Mas Mamãe queria, antes, ver-nos casados. Também via Nonna envelhecer e não queria afastar-se dela. Naquele ano, o Brasil entrava na 2ª república, com uma nova constituição, inteiramente inspirada na constituição alemã de Weimar, o que não era bom, porque o Brasil pouco tinha de
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O segundo seria o casamento de Lúcia, uma das filhas de Fernando (III), Chefe da Casa Real das Duas-Sicílias, com Eugênio de Savóia-Gênova, duque de Ancona.
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comum com a Alemanha. O chefe do governo provisório, Getúlio Vargas, tinha sido eleito presidente, mas logo declarou que era impossível governar com aquela constituição. Era verdade, como a História viria a confirmar. E o mundo parecia, aliás, estar sobre um barril de pólvora. O problema do Sarre ocupava todos os espíritos. O governo francês obteve das Nações Unidas que o voto não fosse obrigatório e que não haveria represálias e que, se isso acontecesse, o Estado do Sarre poderia apelar em Genebra. Apesar de todas as promessas, os alemães começaram sua propaganda. Os católicos, seguidos pelos comunistas, declararam que não queriam estar sob o regime nazista. A propósito de todos esses problemas, uma discussão se elevou entre tia Maria Calábria e tia Gietta a respeito da visita que von Papen245 tinha feito a Roma, não tendo sido recebido pelo Papa. Tia Maria achava que von Papen era uma pessoa perigosa e velhaca. Tia Gietta, em sua santidade e bondade, acreditava que ele era bom e que era para impedir um mal maior que ele tinha entrado no governo de Hitler246. As discussões na família eram sempre encarniçadas, e, muitas vezes, faziam a alegria dos que não faziam parte delas, e que olhavam essas lutas orais como boas partidas de box. Na França, a subida de Domergue tinha acalmado muito os ânimos. Todos apreciavam seu ar bonachão e seu sorriso. Cantava-se "Domergue, diga-me, Domergue, diga-me o segredo de seu sorriso!" Ele tinha diminuído os impostos! A França se recuperava devagar. E estava-se em pleno caso Stavisky. A comissão de inquérito não chegava a nenhuma conclusão o que dava para pensar que o governo estava querendo abafar o caso, já que um número demasiado de pessoas importantes estava metido nele. Sabe-se como isso acabou. Mamãe nos tinha inculcado sua paixão pelos "acontecimentos" vindos de todos os cantos da Europa, e a época, em que nos encontrávamos, aguçava, em nós, ainda uma espécie de excitação em não ficar fora do movimento do mundo. As conversas e as discussões acabavam tarde da noite. Vivendo na França, nós sentíamos que nos dizia a respeito. Por ocasião das eleições alemãs, meu primo Filipe de Württemberg ficou em casa para não votar. Os nazistas vieram e o prenderam. Não sei sob que influência ele foi solto, mas com a proibição de voltar Francisco von Papen (* Werl, Alemanha, 20-10-1879; † Obersasbach, Alemanha, 02-05-1969). Militar e diplomata alemão. Ajudou a Hitler subir ao poder, Foi absolvido pelo Tribunal de Nurenberg. 246 Realmente, tinha razão de assim pensar, como a história mostraria.
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para junto de sua esposa. O irmão de Filipe247, que tinha tomado o hábito dos beneditinos, foi obrigado, certa noite, a fugir e se esconder na floresta do castelo, e depois se exilar nos Estados Unidos até o fim da guerra. Tal era o ambiente no qual viviam todos os parentes alemães. Nós sentíamos pena e, ao mesmo tempo, estávamos apavorados com aquela potência diabólica que crescia do outro lado do Reno. Quando comentávamos em Paris, sempre nos respondiam: "Ainda bem que temos a linha Maginot"248 Numa manhã, indo à Vila Maria Teresa II, tia Beppa, muito assustada, nos contou que a casa tinha sido arrombada. Ela tinha ouvido alguns ruídos no terraço, mas, tendo olhado pela janela e nada visto de especial, pensou que era um empregado que voltava um pouco "alto", o que às vezes acontecia. Naquela manhã, José, o copeiro, entrando na sala de jantar, viu que duas ripas da persiana estavam quebradas e que, na mesa, havia traços de que tinham comido e bebido ali. Entrando na capela, viu que o tabernáculo tinha sido arrombado, o cálice e o cibório derrubados, as hóstias despejadas sobre o altar; no chão, o cálice que tia Gietta tinha dado aos pais. A estátua da Virgem jazia por terra. Foi um grande choque para a pobre Nonna, a quem um sacrilégio perturbava. Partilhávamos dos seus sentimentos. Teriam os ladrões desejado cometer um sacrilégio ou pensavam que os objetos sagrados eram de grande valor? Teriam ouvido tia Beppa andar, sentiram medo e fugiram? A polícia mandou dez homens para fazer a averiguação. Eles não se mostraram nada interessados no que acontecera, nem mesmo verificando as impressões digitais nos guardanapos. As coroas que ornavam as toalhas pareceram interessá-los mais. Ficaram por aí, e nunca se soube quem tinha entrado na casa naquela noite. Minha pobre Nonna, ao descer para tomar o café da manhã, às 9:00h como era seu hábito, encontrou ali toda aquela gente. Tia Maria Calábria foi perfeita na circunstância. Ela lhe contou, calmamente, o que tinha acontecido. Esqueci-me de dizer que Nonna era surda. Comunicava-se com ela com auxílio de um longo tubo que terminava, de um lado, numa espécie de funil, que ela enfiava no ouvido, enquanto seu interlocutor falava-se na outra extremidade munida de CARLOS ALEXANDRE Maria Filipe José Alberto Gregório [Padre Odo de Württenberg](* Stuttgart 12-03-1896; † Altshausen 27-12-1964). 248 Série de enormes fortalezas construída ao longo da fronteira franco-alemão, ligadas entre si por estrada de ferro subterrânea, munida do armamento mais moderno da época. Como não cobria toda a fronteira francesa do leste e os limites com a Bélgica (região das Ardenas) permaneceram desguarnecidos; de nada adiantou por ocasião da invasão alemã. Cercada, rendeu-se em pouco tempo.
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uma espécie de corneta. Era muito bom para as conversas particulares, mas evidentemente ela não podia tomar parte nas conversas em grupo, o que a contrariava bastante. Germani, o homem de negócios italiano, devo dizer, napolitano, chegou em Cannes para abrir o testamento de Nonno. Havia bens na Itália, mas tudo tinha sido confiscado, e havia pouca chance de recuperá-los apesar do processo iniciado. A situação mundial se complicava e não era fácil tratar-se dessas coisas. Hitler acabava de se encontrar com Mussolini em Veneza. Um aperto de mãos e os dois pretendiam "varrer as nuvens que pesavam sobre a Europa e, assim, impedir a guerra". Os bens da Casa Real das Duas Sicílias estavam longe do pensamento deles... Pobre Nonna que procurava estar presente a todas as reuniões! Apesar de sua surdez, seu espírito claro seguia tudo com perspicácia e com uma satisfação extraordinária. 1934 foi particularmente belo no sul. Enquanto os tios e Mamãe procuravam resolver a situação de Nonna, os primos e nós navegávamos ao máximo, percorrendo as praias e o mar que pareciam nos pertencer. Não havia ainda a invasão dos turistas e das pessoas em férias. Nossos barcos ficavam amarrados no cais de Riou de l'Argentière, guardados por todos os pescadores de La Napoule. Partíamos quando nos dava vontade. Íamos às ilhas ou a La Galère tomar banho de mar. Era a doçura de uma ociosidade inimaginável. Antes da tempestade vem a bonança. No fim de julho, o chanceler da Áustria, Dollfuss249 foi assassinado. Era o único chefe de governo que se ligava ao catolicismo. O diabo tinha escolhido sua vítima. A Alemanha fomentou agitações, inundando a Áustria de nazistas. França, Grã-Bretanha e Itália gritaram alto: "Jamais deixaremos que se toque no território austríaco". Belas palavras que iludiram os ocidentais por algum tempo ainda. Apesar dos acontecimentos inquietantes, nos voltou o gosto por viagens. Mamãe nos aconselhou a partir na frente, com Pedro Henrique, e os primos Carlos e Pedrinho, para ter com tio Pedro e tia Elsie, em Attersee, na Áustria. Ela iria de trem e nos alcançaria mais
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Engelberto Dollfuss (* Texing, Áustria, 10-10-1882; † (as) Viena, Áustria, 25-07-1934). Tentou resistir aos nazistas que queriam a união da Áustria à Alemanha (Anschluss), dissolvendo partidos de oposição (nazista e comunista) e criando um estado semi-fascista. Foi assassinado a mando de Hitler, sendo substituído no poder por Schusschnigg.
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tarde. Fizemos uma viagem caótica, atravessando a planície de Milão sob um calor tórrido, para subir o Brener e chegar à fronteira austríaca, onde tivemos a acolhida simpática, como sempre, desse povo. Mais desagradável foi a passagem pela Alemanha, onde os uniformes e as cruzes gamadas dos nazistas e os "Heil Hitler"250 nos encheu de um sentimento de angústia. Felizmente a passagem foi curta e nos encontramos outra vez na Áustria: Salzburg sempre tão bela e cheia de encantos, bem que lá já se sentisse medo. O silêncio se fazia cada vez mais envolvente e pesado. Apesar de tudo, a calorosa recepção por parte de tio Pedro e tia Elsie nos devolveu a alegria. Tomamos uma série de banhos no lago Atter, onde um dia, tio Pedro arrastou a prima de tia Elsie251, com roupa e tudo, para dentro da água, debaixo da risada de todos. Outro dia, demos um passeio na montanha, atrás de Pedro Henrique e dos primos que tinham ido caçar camurça. Descendo, despencávamos por grandes morainas, fazendo rolar os seixos sob nossos pés. Mamãe devia chegar em Salzburg no dia 13. Fomos recebê-la na estação. Ela tinha passado pro Lindau, para rever sua cunhada Maria, duquesa de Calábria, e estava ainda impressionada do que se passava lá. As vexações contra os católicos se multiplicavam. Ruperto, Chefe da Casa Real da Baviera, tinha partido para o exterior. Um dos arquiduques tinha sido preso num campo de concentração, de onde, felizmente, puderam-no fazer sair, antes que a guerra estourasse. Numa tarde fomos a Ischl252, visitar os arquiduques Huberto253 e Clemente de Toscana254, do ramo chamado "Salvador"255, netos256 do "Salve, Hitler!" Elisabete Maria Augusta [Beth], princesa de Isemburg-BüdingenWächtersbach (* Wächtersbach 12-11-1883; † Vandières, França, 10-10-1982), filha de Frederico Guilherme, 2º príncipe de IsemburgBüdingen-Wächtersbach, e de Ana, baronesa Dobrzensky de Dobrzenicz; X Lugano, 21-05-1910, Eduardo, conde Desrousseaux de Vandières (* Vandières, 31-05-1966; † Paris, França, 19-05-1935), c.c.. Mãe de Bob, companheiro de infância da Autora. 252 Na propriedade de Ischl, Francisco José, imperador da Áustria, conheceu sua prima Elisabeth (Sissi), duquesa em Baviera,e a pediu em casamento em lugar de sua irmã Helena (Nenê), com quem sua mãe, a arquiduquesa Sofia, tinha planejado casá-lo. A propriedade passou, por herança, aos netos do imperador. 253 HUMBERTO SALVADOR Reiniro Maria José Inácio, arquiduque da Áustria, príncipe de Toscana (* Lichtenegg, 30-04-1894; † Persenbeug, Áustria, 24-3-1971), filho de Francisco Salvador, arquiduque da Áustria, e de Maria Valéria, arquiduquesa da Áustria, princesa da Hungria. X Anholt, 25 e 26-11-1926 ROSEMARIA ,
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imperador Francisco José, e também primos-irmãos de Mamãe257. Eles moravam numa casa de veraneio do imperador, de arquitetura leve, que ia bem com o espírito austríaco, sempre leve e encantador. Fomos recebidos de braços abertos e os vínculos de família deram oportunidade à conversas em torno de mil lembranças. Deixamos Attersee e a Vila Orléans com tristeza. Devíamos chegar a Viena antes de prosseguir nosso périplo e nos dirigir a Graz, onde as lembranças de Papai deixaram Mamãe toda emocionada. Bom-Papá, que quis que seus filhos tivessem uma educação militar, obteve do imperador Francisco José que eles se matriculassem e se formassem na Academia Militar de Graz. Papai teve que se desligar do exército austríaco quando a Áustria entrou em guerra contra a França e seus aliados. Perto de Graz, encontrava-se o castelo de Brunsee, que pertencia aos Lucchesi Palli, descendentes, como se sabe, da duquesa de Berri258, O princesa de Salm-Salm (* 13-04-1904; † Persenbeug, 30-05-2001), filha de Manuel, Príncipe Herdeiro de Salm-Salm, e de Maria Cristina, arquiduquesa da Áustria-Teschen, de quem teve quatro filhos. 254 CLEMENTE SALVADOR Leopoldo Bendito Antônio Maria José arquiduque da Áustria, príncipe de Toscana, conde de Altenvburg (19-02-1930/15-12-1949), 1º Príncipe de Altenburg (15-12-1949/2008-1974) (* Walsee 06-10-1904; † Salzburg, Áustria, 20-08-1974), filho de Francisco Salvador, arquiduque da Áustria, e de Maria Valéria, arquiduquesa da Áustria, princesa da Hungria. X Viena, Áustria, 20-02-1930, Isabel, condessa Reseguier de Mirémont (*Nisko, Polônia, 28-10-1906, † Salzburg, 09-07-2000), filha de Frederico, conde Reseguier de Mirémont, e de Cristina, condessa Volkenstein, baronesa de Trostburg e Neuhauss, de quem teve nove filhos, entre os quais Clemente, 2º Príncipe de Altenburg. 255 Todos os homens dessa ramo têm esse prenome. 256 Por serem filhos da arquiduquesa Maria Valéria, filha caçula do imperador. 257 Por serem filhos de Imaculada de Bourbon-Sicília, irmã do conde de Caserta. 258 Maria CAROLINA Fernanda Luísa [Carolinella], princesa das DuasSicílias (* Caserta, 05-11-1798; † Brunsee, Áustria, 26-04-1870), filha de Francisco I, Rei das Duas Sicílias, e de Maria Clementina, arquiduquesa da Áustria; X I Nápoles, Itália, 06-04 e Paris, França, 17-06-1816, Carlos de França, duque de Berri (* Versalhes, França, 24-01-1878; † (as) Paris, 14-02-1820), filho de Carlos X, Rei da França, e de Maria Teresa, princesa de Savóia, de quem teve quatro filhos, entre os quais Henrique (V), conde Chambord, e Luísa, duquesa de Parma; X II Roma, Itália, 14-12-1831 Heitor Carlos, conde Lucchesi-Palli, 4º Duque de La Grazia (* Palermo, Itália, 02-081906; † Brunsee, 01-04-1864), filho de Antônio, conde Lucchesi-Palli,
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conde Lucchesi-Palli259 tinha se casado com uma das vinte e quatro Bourbon-Parma, a quem Mamãe apelidara de Ghigara, mas cujo prenome era Beatriz260, e ainda Columba Maria Imaculada Leônia. Era pouco. Quando se procura nos livros de genealogia dos príncipes alguma informação, e que se põe a percorrer os nomes de cada um, fica-se admirado do número de santos a cuja proteção fomos confiados. Chegamos em Brunsee no correr da tarde. Tia Ghigara esperava Mamãe com impaciência, e uma caiu no braço da outra. Brunsee era um bonito castelo de formas clássicas austríacas, com um pátio interior. A tia nos fez admirar as lembranças da duquesa de Berri261, que a família Lucchesi-Palli conservava religiosamente. Lembro-me de algo que me marcou profundamente: os olhos extremamente azuis de todas as miniaturas. A coleção era muito importante, mas não sei se foi salva da guerra. É de se esperar, pois eram lembranças únicas. Brunsee estava muito próxima da fronteira iugoslava262. Das janelas podíamos ver colinas azuladas e nos disseram que ali era o limite do território austríaco. À tarde, Pedro Henrique e tio Lucchesi-Palli foram caçar. Tentaram me fazer pescar uma carpa, mas sem sucesso. Passamos uma noite bem agradável em Brunsee, no calor meridional, deixando as lembranças do passado nos penetrar e nos arrastar numa doce nostalgia. No dia seguinte, voltamos a Viena, parando em Schwarzau

7º Príncipe de Campofranco, 3º Duque de La Grazia, e de Maria Francisca Pignatelli, de quem teve cinco filhos. Era meia-irmã da imperatriz Teresa Cristina. 259 D. Pedro, conde Lucchesi-Palli (* Roma, Itália, 07-02-1870; † Brunsee, Áustria, 15-12-1939), filho de Henrique, conde de LucchesiPalli, 11º Príncipe de Campofranco, 9º Duque de La Grazia, e de Maria, condessa Waidek. X Schwarzau-de-Steinfeld, Áustria, 12-081906, Beatriz, princesa de Bourbon-Parma, de quem teve dois filhos. 260 BEATRIZ Columba Maria Imaculada Leônia [Ghigara], princesa de Bourbon-Parma (* Biarritz, França, 09-01-1879; † Brunsee, Áustria, 11-06-1946), filha de Roberto I, duque de Parma, e de Maria Pia, princesa das Duas-Sicílias; X Schwarzau-de-Steinfeld, Áustria, D. Pedro, conde Lucchesi-Palli, c.s. Por sua mãe, era prima-irmã de D. Maria Pia. 261 Era tia-bisavó da autora, por ser meia-irmã da imperatriz Teresa Cristina. 262 Hoje, eslovena.
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para visitar tio Elias263, o mais velho dos Bourbons-Parma. Guardo uma triste lembrança dessa visita, não por que o tio não nos tenha recebido bem; ao contrário, ele manifestou uma grande alegria em rever Mamãe. Mas todas as paredes da sala de visitas estavam cobertas de molduras vazias, sem as pinturas e os retratos. Não ousamos perguntar a razão daquilo, e como ele não nos falou, ficou um estranho mistério264. Foi a última lembrança do ano de 1934 na Áustria. Voltamos a França, felizes de nos encontrar em nossa casa.

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ELIAS Roberto Carlos Maria Pio José, príncipe de Bourbon-Parma, Príncipe Herdeiro de Parma (10-03-1939/07-01-1950), Chefe da casa Ducal de Parma (07-01-1950/27-06-1959), filho de de Roberto I, duque de Parma, e de Maria Pia, princesa das Duas-Sicílias; X Viena, Áustria, 2505-1903 MARIA ANA Isabel Epifânia Eugênia Gabriela, arquiduquesa da Áustria-Teschen, (*Linz, Áustria, 06-01-1882; † Lausanne, Suíça, 25-02-1940), filha de Frederico, arquiduque da Áustria, duque de Teschen, e de Isabel, princesa de Croy, de quem teve seis filhos, entre os quais Roberto (II), Chefe da Casa Ducal de Parma, e de Alice, princesa Afonso de Bourbon. Sucedeu a seu irmão José (I) em 07-01-1950) e foi sucedido por seu filho Roberto (II) em 27-06-1959. Era irmão de Ghigara, portanto primo-irmão de D. Maria Pia. 264 Como Filipe de Württemberg que salvou todos os vitrais das igrejas e dos conventos de seu país, abrigando-os dos bombardeios e das pilhagens no porão de seus castelos, Elias de Bourbon-Parma pôs as obras de arte a salvo de uma possível pilhagem nazista, e de uma possível guerra.
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Não sei porque compareci ao casamento da infanta Beatriz265 da Espanha com o príncipe Torlônia266, em 15 de janeiro. Acho que Mamãe tinha sido convidada267 e, não querendo ir para não ser obrigada a visitar os soberanos italianos, me mandou representar a família. Em Roma, encontrei todos os Bourbons-Sicília no Hotel Éden. No dia seguinte eu e os "tios Gabriel"268 fomos convidados para almoçar com o rei da Espanha, que morava numa bonita mansão no bairro de Paroli. Afonso XIII tinha um encanto extraordinário. Observando-o bem, via-se que não era bonito, mas de tal modo "régio" que fascinava qualquer um. Tinha grande admiração por Mamãe, da qual eu tirei proveito, pois foi delicado e afetuoso para comigo durante todo o almoço. Beatriz, a noiva, parecia muito com ele, o mesmo nariz aquilino, o mesmo encanto do pai. Eu estava curiosa por conhecer o noivo: pareceu-me um gigante, de tipo muito ianque. Na mesa, Cecília foi colocada à direita do rei, e eu, à esquerda. Do outro lado, meu vizinho era João269, conde de Barcelona, meu futuro primo afim, e pai do rei João Carlos270. BEATRIZ Isabel Frederica Afonsina Eugênia Cristina Maria Teresa Benvinda Ladislaia, infanta da Espanha (* San Ildefonso, Espanha, 22-06-1909; † Roma, Itália, 22-11-2002), filha de Afonso XIII, Rei da Espanha, e de Vitória Eugênia, princesa de Battenberg; X 15-01-1935 Alexandre, Príncipe de Torlônia de Civitelli-Cesi, c.s. 266 Alexandre, 5º Príncipe Torlônia de Civitelli-Cesi (* Roma, Itália, 07-12-1911; † ibd. 12-05-1986), filho de Marino Torlônia, 4º Príncipe de Civitelli-Cesi, e de Elsie Moore; X Roma, 15-01-1935 Beatriz, infanta da Espanha, de quem teve filhos. 267 Na verdade, o convite fora feito a D. Pedro Henrique, Chefe da Casa Imperial do Brasil e, sendo ele solteiro, por extensão, a sua mãe. A autora os representaria. 268 Gabriel de Bourbon-Sicília (Ongá) e Cecília Lubomirska. 269 JOÃO III Carlos Terésio Silvestre Afonso, infante da Espanha, conde de Barcelona, Príncipe Real da Espanha (21-06-1933/15-011941), Chefe da Casa Real da Espanha (15-01-1941/22-11-1975 e 14-05-1977), Rei da Espanha (postumamente)(* San Ildefonso, Espanha, 20-01-1913; † Pamplona, Espanha, 01-04-1993), filho de Afonso XIII, Rei da Espanha, e de Vitória Eugênia, princesa de Battenberg. X Roma, Itália, 12-10-1935 MARIA, princesa de Bourbon, de quem teve quatro filhos, entre os quais o rei João Carlos I. Sucedeu a seu pai abdicatário, Afonso XIII, em 15-01-1941, e foi sucedido por seu filho João Carlos I, de fato, em 22-11-1975, e, legitimamente. em 14-05-1977. 270 JOÃO CARLOS I Afonso Vítor Maria, Príncipe Real da Espanha (0501-1938/22-11-1975)(* Roma, Itália, 05-01-1938), Rei da Espanha (22-11-1975 e 14-05-1977), filho de João III, Rei da Espanha, e de Maria, princesa de Bourbon. X Atenas, 14-05-1962 Sofia, princesa da
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Ongá achava que era nosso dever por polidez, fazer – como chamávamos em família – um "salamaleque" ao rei e à rainha da Itália. Sempre econômico, achou que não tínhamos necessidade de um carro especial, e que um simples táxi poderia muito bem nos levar à Vila Savóia, o que Mamãe, mais tarde, achou pouco apropriado. Com um motorista muito excitado pelo que lhe acontecia, atravessamos um parque muito bonito. Ele nos deixou na porta principal, depois de ter dado uma derrapada no cascalho, diante dos degraus da entrada. Apenas tiramos os casacos, o rei chegou e nos fez entrar numa grande sala, nos apertando a mão de um a um, e batendo, ruidosamente, os calcanhares. Ele me pareceu baixo demais, mas com tipo muito italiano. Depois, a rainha se aproximou, muito alta, bela e majestosa, com os cabelos negros cor de azeviche. Primeiro, cumprimentou Cecília que mergulhou numa linda reverência que logo imitei; depois, Ongá, que, por sua vez, bateu os calcanhares. A rainha iniciou a conversa, falando de hospitais, enquanto o rei conversava sobre caçadas com Ongá. O terreno neutro tinha sido bem preparado. No fim de uns vinte minutos, a rainha se despediu de nós. O rei nos acompanhou até a porta. A polidez tinha reinado de um lado e do outro, mas não passou disso, pois não fomos convidados para a recepção do dia seguinte. No dia seguinte, fomos visitar os príncipes do Piemonte, no palácio Quirinal. Este, antiga residência dos Papas, parecia um grande quartel. Apenas tínhamos dado alguns passos da entrada, quando um senhor do séquito do príncipe chegou. Quanta água havia corrido debaixo da ponte desde que a História tinha cavado um fosso entre as duas famílias! De um lado e do outro, estávamos ansiosos com esse primeiro encontro. Humberto da Itália era muito bonito e tinha soberbos olhos negros. Subimos uma grande escadaria para chegar à sala onde nos esperava a princesa Maria José271, muito tímida, mas sinceramente bem mais bonita que nas fotografias. Falava com uma voz doce, quase inaudível272. Logo, Humberto se sentiu completamente à vontade, e pôs-se a falar de genealogia e de Grécia e Dinamarca (* Psychiko, Grécia, 03-11-1938), filha de Paulo I, Rei da Grécia, príncipe da Dinamarca, e de Frederica, princesa de Brunswick e Hanôver, da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, com quem teve 3 filhos, entre os quais, Filipe, Príncipe das Astúrias. Rei da Espanha por ocasião da morte de Francisco Franco (22-11-1975), sucedeu a seu pai João (III), em sua abdicação em 14-05-1977. 271 MARIA JOSÉ Carlota Sofia Amélia Henriqueta Gabriela, princesa da Bélgica (* Ostende, Bélgica, 04-08-1906; † Genebra, Suíça, 27-012001), filha de Alberto I, rei da Bélgica, e de Isabel, duquesa em Baviera; X Roma, Itália, 08-01-1930, Humberto II, Rei da Itália, c.s. 272 Como sua mãe, a rainha Isabel da Bélgica.
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parentescos, o que, parece, era seu forte, pois se interessava muito pelo assunto. No fim dos vinte minutos protocolares, levantamo-nos para as despedidas, sabendo que, depois de nós, viriam os "tios Nino"273. No jornal do domingo, dia 14 de janeiro, li a indicação dos lugares marcados na igreja, para a cerimônia do casamento. Eu era uma das últimas. Senti-me um pouco vexada, mas não quis deixar transparecer. Tio Nino pensava diferentemente. Sem nada dizer, telefonou ao marquês de Torres, porta-voz de Afonso XIII, dizendolhe que, sem dúvida, deveria houvera um erro, ainda que involuntário274. No dia seguinte, partirmos, cada grupo num carro. Quando entramos na igreja, ela já estava repleta, e muitas pessoas já instaladas em seus lugares marcados. Havia muitas espanholas com grandes pentes cobertos por mantilhas. Diziam que duas mil pessoas tinham vindo da Espanha. À esquerda do coro, encontravam-se as poltronas para os reis da Itália e da Espanha. Segui comportadamente Cecília e as primas, quando Henrique, conde de Paris, me chamou para mostrar meu lugar, bem ao lado de sua irmã Fatti275, princesa Cristóvão da Grécia. E eis-me em meio às honrarias pela da intervenção do tio Nino! Tive todo o tempo para admirara a igreja maravilhosamente ornada. Os círios que ardiam diante da imagem de Nossa Senhora do Pilar eram vermelhos e amarelos276. Já estávamos todos instalados quando chegaram os príncipes do Piemonte, depois o rei e a rainha da Itália, casal desproporcionado, ela tão alta, ele tão baixinho. Enfim, o rei da Espanha, dando seu braço a Beatriz, vestida bem simplesmente, com Carlos de Bourbon [Nino] e Luísa da França. Como Princesa Imperial do Brasil e representante de seu irmão, deveria estar entre os chefes das casas reais. 275 FRANCISCA Isabel Luísa Maria [Fatti], princesa de OrleansChartres (25-12-1902/30-01-1924), princesa de França (28-031926/25-02-1953), filha de João (III), duque de Guise, Chefe da Casa Real de França, e de Isabel, princesa de França (* Paris, França, 25-12-1902; † ibd. 25-02-1953); X Palermo, Itália, 11-02-1929, CRISTÓVÃO, príncipe da Grécia e da Dinamarca (* Pavlovski, Rússia, 10-08-1888; X I Vevey, Suíça, 01-02-1920, Anastásia May Stewart [Nancy](* Zanesville, EUA, 20-01-1878; † Londres, Inglaterra, 2908-1923), filha de Guilherme Carlos Stewart e de Maria .... s.s.; † Atenas, Grécia, 21-01-1940), filho de Jorge I, Rei da Grécia e príncipe da Dinamarca, e de Olga Constantinovna, grã-duquesa da Rússia. O casal teve um único filho, o príncipe Miguel da Grécia, escritor. 276 Cores nacionais da Espanha.
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um longo vestido branco, cuja cauda saía dos ombros e se confundia com o véu, e era levada por três meninas vestidas como as infantas de Velasquez: de amarelo e um laço vermelho nos cabelos. O noivo, vestido simplesmente com um terno negro, entrou de braço com sua mãe, a princesa Torlônia277. Ela era muito bonita, mas não podia esconder sua origem ianque. Afonso XIII dissimulava sua emoção, fazendo comentários em voz alta. Quando as palavras sacramentais foram pronunciadas, ele disse: "Já acabou? Não foi longo". A noiva fazia uma reverência cada vez que ela passava diante dos soberanos. Foi o cheiro das flores ou a emoção? Só sei que no meio da cerimônia ela se sentiu mal. O príncipe do Piemonte, previdente, tinha sais aromáticos no bolso, e fê-los chegar à jovem noiva. A pobre Beatriz procurava se dominar, mas via-se que ela não podia mais. Mas foi preciso, ainda, agüentar o sermão do cardeal, que, felizmente, não durou mais que vinte minutos, mas parecia eternizar-se. Enfim, a cerimônia terminou e os recém-casados puderam ir à audiência Papal. Todos os convidados se encontram no Grande Hotel, onde se realizou o almoço. Esperando Suas Majestades278, ouvia-se o barulho característico dos reencontros dos parentes. Eu pedi para ser apresentada a Maria de Savóia279, não sabendo que, mais tarde, nos encontraríamos em circunstâncias mais trágicas. Todos os Baviera da Espanha280 estavam lá: Adalberto281 e Pilar282, o Padre Jorge de Saxe283 que morreu no tempo do nazismo de um Elsie Moore (* Nova Iorque, EUA, 22-10-1889; † Roma, Itália, 2112-1941), filha de Carlos Artur Morre e de Maria Campbell. X Greenwich, Inglaterra, 15-08-1907 Marino Torlônia, 4º Príncipe de Civitella-Cesi, filho de Júlio Torlônia, 2º Príncipe de Civitella-Cesi, duque de Pola e Guadagnolo, e de D. Teresa Chigi-Albani, c.s. 278 Os reis da Itália. 279 MARIA Francisca Ana Romana, princesa de Savóia (* Roma, Itália, 26-12-1915; † Mandelieu, França, 04-12-2001), filha de Vítor Manuel III, Rei da Itália, e de Helena, princesa do Montenegro; X Roma, Itália, 23-01-1939 LUÍS, príncipe de Bourbon-Parma (). 280 Príncipes descendentes da infanta Maria da Paz, filha de Isabel II, e de Luís Fernando da Baviera, que adquiriram nacionalidade espanhola. 281 ADALBERTO Afonso Maria Ascensão Antônio Huberto José Todos os Santos (* Nymphenburg, Alemanha, 03-06-1886; † Munique, Alemanha, 29-12-1970), filho de Luís Fernando, príncipe da Baviera, e de Maria da Paz, infanta da Espanha; X Salzburg, Áustria, 12-061910, AUGUSTA Maria Gabriela, condessa de Seefried e Buttenheim (* Znaia, 20-06-1899; † Munique 21-01-1978), filha de Otão, conde de Seefried e Buttenheim e de Isabel, princesa da Baviera, de quem teve dois filhos.
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modo trágico e misterioso: encontraram suas roupas da beira de um lago e seu corpo, mais longe, na outra margem; o duque de Espoleto284, um gigante, e não vou citar mais ninguém. Enfim, a rainha da Itália apareceu com um casaco longo de veludo grená que lhe caía maravilhosamente bem. O rei também estava lá, mas era tão baixinho que não consegui vê-lo. O duque de Bérgamo285 veio me buscar para acompanhar-me à mesa. Era igualmente baixinho, louro, com um olhar um pouco fixo, mas muito amável e falava bem o francês. O almoço foi bem curto, o que nós muito apreciamos. Aquela estada romana foi realmente muito boa. Havia tantos parentes a visitar que os dias passavam como um sonho. No penúltimo dia, os tios Gabriel me levaram ao restaurante Alfredo, onde me regalei com o excelente espaguete. O rei da Espanha dava ali um jantar a seu séquito. Nós o encontramos outra vez, à tarde, na Villa Ruffo, onde fomos para nos despedir dele. Afonso XIII se queixou que o Papa não tinha tratado os espanhóis com bastante consideração, dando-lhes a bênção da sacada ao invés de fazê-los entrar. Ongá apresentou seus argumentos, sem querer criar uma polêmica. O rei retorquiu: "Com Gabriel não se pode discutir: ele tem sempre a lei nas mãos". Cito este fato para mostrar a atmosfera alegre e despreocupada que reinou durante aquela estada. Maria do PILAR Eulália Antônia Isabel Luísa Francisca Josefa Rita Eufrásia e Todos os Santos, princesa da Baviera (* Nymphenburg, Alemanha, 13-03-1891; † ibd. 19-01-1887), filha de Luís Fernando, príncipe da Baviera, e de Maria da Paz, infanta da Espanha. 283 Frederico Augusto JORGE Fernando Alberto Carlos Antônio Maria Paulo Marcelo [Yuri, Pe. Jorge de Saxe SJ], príncipe Real da Saxônia (15-10-1904/15-08-1924) (* Dresda, Saxônia, Alemanha, 15-011893; † (afogado) Gross-Glienicke, Alemanha, 14-05-1943), filho de Frederico Augusto III, rei da Saxônia, e de Luísa, arquiduquesa da Áustria, princesa de Toscana. Suspeita-se que tenha sido assassinado pelos nazistas. 284 AIMON Roberto Margarido Maria José Turim, príncipe de Savóia, duque de Espoleto (09-03-1900/04-07-1931), duque de Aosta (0407-1931/29-01-1948) e rei da Croácia (Tomislau II - 1941/3)(* Turim, 09-03-1900; † Buenos Aires, Argentina, 29-01-1948), filho de Emanuel de Savóia, duque de Aosta, e de Helena, princesa de França; X Florença, Itália, 01-07-1939, IRENE, princesa da Grécia e Dinamarca (* Atenas, Grécia, 13-02-1904; † Fiesole, Itália, 15-041974), filha de Constantino I, rei da Grécia, e de Sofia, princesa da Prússia. O casal teve um único filho. 285 ADALBERTO Leopoldo Heleno José Maria, príncipe de SavóiaGênova, duque de Bérgamo (* Turim, Itália, 19-03-1898; † ibd. 1212-1982), filho de Tomás de Savóia, duque de Gênova, e de Maria Isabel, princesa da Baviera.
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No último dia, fomos à embaixada da França. O conde de Chambrun nos acolheu, dizendo a Ongá: "Vossa Alteza está em sua casa". Subimos a grande escada para ver a embaixatriz, nascida princesa Rohan-Chabot e viúva Murat286. Ela não era nada bonita, mas, em compensação, muito inteligente. Fez-nos visitar aquele esplêndido edifício onde tantas lembranças históricas e familiares afloraram em nossa memória. Foi a última visão de Roma, no fim dessa estada cheia de animação e de diversos encontros. No dia seguinte, tomamos o trem de volta à França, sempre acompanhados de guardas fascistas, para chegar em Cannes às 22:00h, e encontrar Mamãe e os "tios Januário"287 na estação, impaciente de ouvir nossos relatos sobre a primeira retomada de contato com a família de Savóia. A atração pelos campos de neve e o fato de saber já estar Pedro Henrique em Saint-Moritz, onde se encontrava a baronesa de Flers, tentava era uma grande tentação para Mamãe. Dois dias depois, descíamos no Hotel Palace, local de encontro da nata européia. Um velho conde polonês, instalado no salão anotava os que chegavam; depois apareceu Renato de Bourbon-Parma e o príncipe Henrique de Ligne288. Saint-Moritz é verdadeiramente um lugar delicioso, e havia um número suficiente de pistas de diferentes dificuldades para nos permitir nos divertir segundo nossa capacidade. À noite, cada um saía mais elegante que o outro, o que era um prazer para os olhos. Para as gerações atuais, tem-se dificuldade de descrever o que era a elegância de antes da guerra. Tudo era feito de mesura e de beleza. Não ficamos senão poucos dias e partimos, Mamãe e eu na Talbot de Pedro Henrique, com a intenção de para na casa dos tios Calábria289, Augusta Josefina Inês MARIA (* Paris, França, 24-05-1876; † ibd. 03-10-1951), filha de Alano de Rohan-Chabot, 11º duque de Rohan, 13º príncipe de Léon, e de Hermínia de La Brousse de Verteillac; X I ibd. 03-06-1897 LUCIANO Carlos Davi Napoleão, príncipe Murat (* Mustafá, Argélia, 08-07-1870; † Rabat, Marrocos, 20-12-1933), filho de Aquiles, príncipe Murat e de Salomé Davidovna, princesa Dadian da Mingrélia, c.s.; X II Roma, Itália, 22-11-1934 Luís Carlos Pineton, Conde de Chambrun, s.s. 287 Januário de Bourbon-Sicília e Beatriz Borghesa [Bea], 288 HENRIQUE Florêncio Eugênio Francisco José Lamoral, príncipe de Ligne (* Paris, França, 29-12-1881;  Montreux, Suíça, 15-05-1967), filho de Carlos de Ligne e de Carlota de Gontaut-Biron. X Paris, França, 13-04-1910, Carlota, princesa de La Trémoille (* Bruxelas, Bélgica, 16-0601911;  Paris, França, 27-10-1971), filha de Luís Carlos, príncipe de La Trémoille e de Thouars e de Helena Pillet-Will, de quem teve um filho. 289 Fernando de Bourbon-Sicília [Nando]) e Maria da Baviera.
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em Lindau. Atravessamos os passos de Julier, numa estrada ladeada de dois metros de neve de cada lado, mas rodeado de uma paisagem de grande beleza. Chegando em Bregenz, pensamos em encontrar um consulado alemão. Infelizmente, era preciso voltar a Innsbrück para ter um visa. Jogando uma cartada decisiva, Mamãe nos disse de ir até a fronteira. É preciso confessar que os fiscais aduaneiros alemães eram muito amáveis. Pediram-nos para deixar os passaportes na fronteira que nos devolveriam na volta. O passaporte diplomático brasileiro fazia efeito e Lindau não estando senão a quatro quilômetros da fronteira, não tivemos aborrecimentos. A família nos esperava. Tio Nando nos disse que a polícia alemã era sempre amável com os estrangeiros. No dia seguinte, indo à missa, a impressão foi penosa. Nevava e, nas ruas, reinava um silêncio de morte, cada um seguindo seu caminho sem dizer uma palavra. Tia Maria não respondia às pessoas que a saudavam levantando o braço, no gesto nazista. Ela deixava explodir seu furor, dizendo que o governo só dizia mentiras e que o povo ignorava o que se passava no país. Depois dessa curta parada em família, tomamos o caminho de volta da Áustria e da Suíça, para chegar à noite em Lucerna, na casa de tia Titina, que tinha acabado de chegar de Salzburg, onde fora com o marido ao enterro da sogra, a grã-duquesa de Toscana290, irmã caçula do duque de Parma. Havia um mundo de gente, uma grande quantidade de delegações austríacas, de camponeses vestidos em costumes tradicionais, todos ainda muito ligados à monarquia dos Habsburgos. Para terminar o turnê de família, partimos no dia seguinte em direção ao lago de Genebra, para visitar a família de tio Nino em Villars-surOllon. A primeira parte da viagem foi particularmente penosa. A neve derretia e nós andávamos, a maior parte do tempo, em ziguezague, embora as rodas estivessem equipadas com correntes. Pedro Henrique ficou nervoso e pediu para Mamãe rezar... e para eu me calar. Acabamos num atoleiro, felizmente perto de uma fazenda, cujos proprietários, alertados, trouxeram um cavalo e correntes para ALICE Maria Carolina Fernanda Raquel Joana Filomena, princesa de Parma (* Parma, Itália, 27-12-1849; † Schwertberg, Áustria, 1601-1935), filha de Carlos III, Duque de Parma, e de Luísa, princesa de França; X Frahsdorf, Áustria, 11-11-1868 FERNANDO IV Salvador Maria José João Batista Francisco Luís Gonzaga Rafael Reiniro Januário, Grão-Duque de Toscana (* Florença, Itália, 10-06-1835; † Salzburg, Áustria, 17-01-1908), filho de Leopoldo II, Grão-Duque de Toscana, e de Maria Antonieta, princesa das Duas-Sicílias, de quem teve dez filhos, entre os quais Pedro, Chefe da Casa Ducal de Toscana, e Luísa, rainha da Saxônia.
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nos arrastar. Houve, ainda, outras emoções, mas finalmente atingimos a subida de Villars-sur-Ollon, onde aparecemos de improviso diante de tio Nino, que não estava absolutamente ao par das intenções de Mamãe. Meu pobre primo Carlito tinha acabado de sofrer um acidente estúpido, jogando boliche. No momento em que ele segurava uma bola, o groom mandou uma outra que veio bater na dele, esmagando-lhe o dedo mínimo entre as duas. Foi preciso amputar a falangeta. Ficamos três dias em Villars, pois Mamãe estava muito contente em rever o irmão que ela mais queria. Penso que poderei intitular o ano de 1935 de "ano espanhol", pois, fosse em Paris, fosse na riviera, encontramo-nos sempre com os primos espanhóis. Contei o casamento da infanta Beatriz com o príncipe de Torlônia. Agora, vou falar do batizado da filha291 do infante José Eugênio da Baviera292 que, espanhol por sua mãe, tinha dela a nacionalidade. A família o chamava simplesmente de Pepe da Baviera. Ele tinha se casado com Maria Solange de Mesia y Lesseps293, apelidada Marie Sol. O batismo foi realizado em SaintHonoré-d'Eylau, na presença de numerosos parentes: o conde de Covadonga294, filho mais velho de Afonso XIII, a infanta Eulália295, a
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MARIA CRISTINA Paz Teresa Afonsina Eugênia Rita e Todos os Santos de Baviera y Mesia (* Paris, França, 06-02-1935), filha de José Eugênio da Baviera, infante da Espanha, e de Maria Solange de Mesia y Lesseps. X Madri, Espanha, 12-07-1967 João Manuel de Unquijo y de Morales (* San Sebastian, Espanha, 08-12-1937; † Madri 09-10-2002). 292 JOSÉ EUGÊNIO Afonso Fernando Mariano Terésio Antônio Jesus Santiago Isidoro Raimundo Bráulio e Todos os Santos [Pepe], infante da Espanha (* Madri, Espanha, 26-03-1909; † ibd. 16-08-1966), filho de Fernando Maria, príncipe da Baviera, e de Maria Teresa, infanta da Espanha. X Urrugne, França, 25-07-1933 Maria Solange de Mesia y Lesseps, Condessa de Odiel, de quem teve quatro filhos (Condes de Odiel). 293 MARIA da Assunção SOLANGE de Mesia y de Lesseps [Marie-Sol], Condessa de Odiel (* Londres, Inglaterra, 30-09-1911), filha de Fernando de Messia y Stuart, Conde de Mora, Duque de Tamames, e de Maria Solange Lesseps, X Urrugne, França, 25-07-1933, José Eugênio da Baviera, infante da Espanha, c.s. 294 AFONSO Pio Cristino Eduardo Francisco Guilherme Carlos Henrique Eugênio Fernando Antônio Venâncio, infante da Espanha, Príncipe das Astúrias (10-05-1907/11-06-1933), conde de Covadonga (11-061933/06-09-1938) ** Madri, Espanha, 10-05-1907; † Miami, EUA, 06-091-938), filho de Afonso XIII, Rei da Espanha, e de Vitória Eugênia, princesa de Battenberg. X I Ouchy, Suíça, 21-01-1933 (÷ 1937) Edelmira Sanpedro-Ocejo y Robato (Sagua-la-Grande, Cuba, 05-03-1906; † Miami, EUA, 23-05-1994), filha de Luciano Paulo Sampedro y Ocejo, e de Edelmira Robato, s.s. X II Havana, Cuba, 03127

duquesa de Montpensier296 que, como sempre, andava coberta com um monte de jóias, tio Nino e família, tio Filipe e uma boa quantidade de Lesseps e de Mora. Como toda a família estava presente, a conversa corria solta, e de repente, percebemos que o padre já estava prestes a pronunciar as palavras do batismo. O rei e a rainha da Espanha eram os padrinhos. Esperanza e eu estávamos, cada um de um lado, e, na nossa frente, uma senhora com um vestido de negro, aliás muito elegante,. Tio Nino nos fez sinais, indicando-a. Intrigada, Esperanza perguntou depois ao pai de quem se tratava. O tio respondeu: "Vocês não reconheceram a Madre Loriga?" Realmente não. Não podíamos imaginar que a superiora das irmãs da Assunção, sempre estritamente de hábito, e aquela senhora eram a mesma pessoa. Mais tarde, elas nos explicou que, como estava proibida por lei de sair na rua com o hábito religioso, quando tinha de tratar de negócios do convento, usava roupas civis. Estava feliz por não ter sido reconhecida. A infanta Eulália, que gostava muito de Mamãe, a levou para um canto, e se pôs a contar todas as fofocas possíveis e imagináveis, o que, no fundo divertia Mamãe que não acreditava nem na metade, pois a querida tia tinha uma imaginação demasiadamente fértil297. 07-1937, Marta Rocafort y Altuzarra (* Havana, Cuba, 18-09-1913; † Miami, EUA, 04-02-1993), s.s. 295 Maria EULÁLIA Francisca de Assis Margarida Roberta Isabel Francisca de Paula Cristina Maria da Piedade, infanta da Espanha (* Madri, Espanha, 12-02-1864; † Irún, Espanha, 08-03-1958), filha de Francisco de Assis, Rei Titular da Espanha, e de Isabel II, Rainha da Espanha. X Madri, Espanha, 06-03-1886 ANTÔNIO Luís Filipe Maria de Orléans (* Sevilha, Espanha, 23-02-1866; † Paris, França, 24-121930), Duque de Galiera, filho de Antônio de Orléans, duque de Montpensier, e de Luísa, infanta da Espanha, de quem teve dois filhos. 296 Maria Isabel Gonzalez de Olaneta y Ibarreta [Belina], 3ª marquesa de Valdeterrazo, 2ª Viscondessa de Los Andrines (* Madri, Espanha, 22-04-1897; † ibd. 11-06-1958), filha de Afonso Gonzalez de Olaneta y Ibarreta, 2ª marquês de Valdeterrazo, 1ª Visconde de Los Andrines, e de Isabel de Ibarreta. X I Randan, 20-08-1921, FERNANDO Francisco Filipe Maria Lourenço, príncipe de França, duque de Montpensier (* Eu, França, 09-09-1884; † Randan, França, 30-011924), filho de Filipe VI, Conde de Paris, Chefe da Casa Real da França, e de Isabel, princesa de Orleans-Montpensier, s.s. X II ... Uriarte Mendicoa, s.s. 297 A infanta Eulália descrevia, como se tivesse sido testemunha ocular, o episódio das trocas de noivas entre o conde d'Eu e o duque de Saxe, afirmando ter sido simples como "quem troca cavalos"...
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Mas, em minha memória, o que mais marcou a ano de 1935 foi o tríduo de missas celebrado em Lourdes, nos dias 25, 26 e 27 de abril. Faço uso de meu caderno de notas, e vejo que enfrentamos mil dificuldades para chegarmos a Lourdes, como se o diabo quisesse nos impedir. "Partimos de Mandelieu, às 5:00h da manhã, Mamãe, tia Beppa, Pedro Henrique e eu. Tudo foi bem até Narbonne, onde abastecemos o carro, que se pôs a engasgar como se a gasolina não chegasse ao motor. Bem ou mal, chegamos a Tolosa, onde paramos diante de uma passagem de nível, que se fechara. O motor morreu e não queria mais pegar. Com dificuldade, chegamos até uma oficina Talbot, onde, depois de uma hora de exames, o mecânico declarou: "É preciso trocar a bomba de gasolina". Devíamos, pois, passar a noite em Tolosa. No dia seguinte partimos, mas a bomba nova não funcionava melhor que a velha. A dez quilômetros de Saint-Gaudens, novo enguiço. Um mecânico nos ajudou. Parece que tinham esquecido de colocar uma das molas da bomba. Ficamos desesperados, porque devíamos estar às 15:00h em Lourdes. Consertada a mola, partimos cheios de confiança; em Tarbes, novo enguiço! Bem ou mal, prosseguimos. E, Deo gratias, ao meio dia fizemos nossa entrada em Lourdes que fervia de gente. Nossos problemas não tinham terminado. Numa rua estreita, um caminhão parou e, não é que a Talbot morreu bem na frente dele, engarrafando a rua? Graças a Deus, todo mundo estava com vontade de ajudar o próximo. Ninguém se esquivou. Novo enguiço sobre a ponte do Gave. Tia Beppa e Mamãe resolveram desembarcar e seguir a pé. Pedro Henrique e eu empurramos o carro um pouco para frente, para não impedir a circulação, e o abandonamos enquanto vimos passar um esquadrão da cavalaria, que ia render homenagens ao cardeal Pacelli298 que estava chegando. No hotel, encontramos nossos passes livres enviados pelo conde de Beauchamps299. Almoçamos correndo. Pedro Henrique foi ver o carro enquanto eu corri para EUGÊNIO Maria José João Pacelli (* Roma, Itália, 02-03-1976; † ibd. 09-10-1958), filho de Filipe Pacelli e de Virgínia Graziosi. Ordenado padre Roma 02-04-1899; bispo13-05-1917;Núncio na Alemanha, 22-06-1920; cardeal 16-12-1929. Eleito Papa (Pio XII) 02-03-1939, em sucessão a Pio XI. Mostrou-se ferrenho adversário do comunismo e do nazismo, apesar das acusações que se levantam contra ele. Dele disse Hitler: "Pio XII foi o único homem que era meu adversário e que nunca me obedeceu". Seu pontificado atravessou a II Guerra Mundial e a "guerra fria". Nele foi declarado o Dogma da Assunção da Virgem Maria. Foi sucedido por João XXIII. 299 Conde de Beauchamp, diretor do Centro de Peregrinação de Lourdes
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buscar minha prima Tetê300 em seu hotel. Trouxe-a comigo em galope triplo. Chegamos ao hotel às 14:24h. Como tinham-nos mandado estar na igreja às 14:30h, Mamãe estava numa grande ansiedade. Suas irmãs Gietta e Beppa já tinham saído. Enfim, nos dirigimos à igreja do Rosário, onde se daria a recepção ao cardeal. Começou a chover torrencialmente, e Mamãe ficou exasperada, dizendo que não chegaríamos a tempo de entrar. Mas tudo se resolveu. Depois de ter passado por vários cordões de isolamento, nos dirigimos a um padioleiro que nos levou ao escritório da Recepção, onde encontramos o conde de Beauchamp em companhia do tio Hans. Um quarto de hora depois, o conde nos acompanhou à igreja e nos instalou em nossos respectivos lugares, onde encontramos tia Gietta e tia Beppa. A igreja começou a encher. Havia quatro cardeais, sessenta e quatro bispos, três mil padres e peregrinos de todas as nações. Quando o cardeal chegou, todo mundo se levantou. Depois de um momento de preces, houve a Saudação e a Bênção do Santíssimo. Então, o cardeal foi se sentar no trono enquanto foi lido o breve do Papa nomeando-o legado pontifício para as festas de Lourdes a latere. O discurso de monsenhor Gerlier301, bispo de Lourdes e Tarbes, foi excelente. Via-se que ele tinha sido advogado, pois falava maravilhosamente, mas toda sua pessoa tremia. Ele disse que o Papa tinha vindo visitar Maria, pois via que todas as nações estavam presentes, assim como todas as sociedades, desde os mais humildes trabalhadores até representantes das famílias reais. Depois, o cardeal Pacelli subiu ao estrado e pronunciou um discurso de agradecimento em francês, mas seus gestos eram de uma eloqüência inteiramente italiana. Pude admirar a fineza de suas mãos e toda a distinção de sua pessoa. O cardeal Verdier302, que tinha sido tão bom por ocasião da morte de meu irmão Boubou, veio nos cumprimentar e, aproximando-se de Mamãe, lhe disse: "Alteza Imperial, como estou contente de vê-la aqui!" Teresa de Orleans e Bragança, mais tarde, Sra. Ernesto de Martorell y Calderó. 301 Pedro Maria Gerlier (* Versalhes, França, 14-01-1880; † Lião, França, 17-01-1965). Ordenado padre, Paris, 29-06-1921; bispo de Tarbes e Lourdes, 22-07-1929; arcebispo de Lião, 20-07-1937; cardeal 13-10-1937. 302 João Verdier (* La Croix-Barrez, França, 19-02-1864; † Paris, França, 09-04-1940). Ordenado padre, 09-04-1887 (PSS); bispo de Paris, 18-11-1929; cardeal 16-12-1929; arcebispo de Paris 29-121929.
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Depois da cerimônia vieram nos buscar para nos levar à gruta de Massabielle. Havia genuflexórios reservados, junto aos bispos, onde já se encontravam a imperatriz Zita e tia Parma. Foi uma prece à Virgem, seguida de uma saída através da multidão, que não foi das mais fáceis, em direção à igreja do Rosário, para assistir à missa, à meia-noite no altar-mor enquanto missas simultâneas eram celebradas em todos os outros altares. Foi muito bonito. No sábado, dia 27, houve audiência com o cardeal Pacelli, às 10:00h. Às 9:30h, fomos tranqüilamente ao palácio episcopal. Chegando à porta, o guarda não nos quis deixar entrar, temendo um atentado. Graças a Deus, monsenhor Gerlier chegou e nos saudou. Mas não foi suficiente. O guarda perguntou-lhe: "Vossa Excelência se responsabilizar pela entrada dessas pessoas?" "Sim, sim!" respondeu o bispo e, caminhando conosco, comentou: "Vossas Altezas Imperiais não sabem o efeito que produz na população saber que os príncipes vieram assistir às cerimônias de Lourdes". Chegando na sala de audiências, Mamãe e tia Gietta trocaram mil rapapés para não ficarem no primeiro lugar, demonstração de timidez que muitas vezes eu vira em Mamãe. Enfim, o cardeal Pacelli, vestido de preto, chegou e nos fez entrar. Começou a conversa em italiano, falou em alemão com tio Hans, em português comigo e com Pedro Henrique, e enfim, em francês com Tetê, dizendo que mandava sua bênção a Henrique e Bebelle. Parecia estar preocupado com a situação mundial. No fim de vinte minutos, se despediu. Saímos dominados pelo charme do legado, que tinha maneiras de um grande senhor. Descansando um pouco de todas aquelas manifestações piedosa, fomos almoçar em Argelès, onde os Parma tinha montado seu acampamento. Como disse Xavier, "era bom todos se encontrarem assim em Lourdes". Aí a conversa desceu para a terra, e falamos sobre viagens, caçadas e automóveis. Voltamos às 14:00h para terminar o último dia do jubileu. Graças aos padioleiros, pudemos chegar de novo até à gruta, onde encontramos tio Nando e tia Maria Calábria. O tempo estava radioso. Verdadeiramente nunca tinha tido tanta facilidade de rezar como ali. A missa pontifical durou uma hora. De vez em quando um pássaro cantava ou saltava de roseira em roseira. A missa foi seguida de procissão, onde índios seguiram ao nosso lado. Fiquei impressionada com a beleza de um indiozinho que levava um véu vermelho. Os reis da Bélgica303 tinham mandado um
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LEOPOLDO III Filipe Carlos Alberto Menrado Humberto Maria Miguel, príncipe da Bélgica, Duque Herdeiro de Flandres (16-111905/17-12-1909), Duque de Flandres, Príncipe Real da Bélgica (1712-1909/17-02-1934), Rei da Bélgica (17-02-1934/17-07-1951)(* Bruxelas, Bélgica, 03-11-1901; † ibd. 25-09-1983), filho de Alberto I, Rei da Bélgica, e de Isabel, duquesa em Baviera. X I Bruxelas, Bélgica, 10-11-1924 ASTRID Sofia Luísa Teodora, princesa da Suécia
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arranjo de flores, que imediatamente foi pendurado às grades da gruta. No domingo, dia 28, às 10:00h, o cardeal Verdier celebrou a missa pela França. Tia Gietta estava conosco. Tio Hans preferiu se abster, pois os nazistas tinham espiões por toda parte e ele julga que poderia ter aborrecimentos ao voltar para a Alemanha. Atrás dos cardeais se encontrava o general de Castelnau304. Saindo da missa, as pessoas gritavam: "Viva o marechal de Castelnau!" a até "Viva o cardeal de Castelnau!" Ouvi alguém dizer: "Olhe a bela Zita!" e alguém corrigir: "A imperatriz, pelo menos!" Enfim, à tarde houve a cerimônia do encerramento. Às 14:00h, as portas do parque de Massabielle já estavam fechadas e os escoteiros não nos quiseram deixar entrar: o bispo responsável pelo local proibia. Uma senhora e um padre reconheceram Mamãe; ela lhes entregou seu passe, que mostraram ao bispo, o que nos permitiu entrar. Mas, nesse momento, a multidão empurrou as grades e fomos literalmente lançados no interior. Tive medo por Mamãe, pois senti que ela ia cair, mas felizmente uma senhora a segurou, defendendo-a dos riscos e perigos. Mamãe, agradecida, deu-lhe um beijo. Às 14:45h, o cardeal Pacelli chegou. A multidão estava compacta nas duas margens do Gave. Um padre subiu a uma cadeira, e, se confundindo, disse: "Vocês vão receber a benção pontipapal". A risada geral que se seguiu deixou a multidão menos tensa. Depois, fez-se um silêncio impressionante. Não se ouvia senão o Gave correndo e um pássaro cantando sobre a gruta. Regularam a aparelhagem. "Alô, Lourdes! Aqui é Roma. Estão me ouvindo?" Ao fim de dez minutos, pudemos ouvir a voz do Papa, e a multidão se ajoelhou. O Papa deu sua bênção em latim, primeiro para a França, depois para o mundo. Sem dúvida, a geração atual terá dificuldade de compreender nossa emoção, habituada desde cedo a ouvir vozes vindas do outro lado do mundo, mas para nós era uma novidade.

e de Vestrogótia (* Estocolmo, Suécia, 17-11-1905; † (ac) Küsnacht, Suíça, 29-08-1935), filha de Carlos, príncipe da Suécia, duque de Vestrogótia, e de Ingeburga, princesa da Dinamarca, com quem teve três filhos: Balduíno I e Alberto II, que o sucederam; e Josefina Carlota, grã-duquesa do Luxemburgo. X II 11-09 e 06-12-1941, Maria LILIANA Baels, Princesa de Réthy (* Londres, Inglaterra, 2811-1916; † Bruxelas, Bélgica, 07-06-2002), filha de Henrique Baels e de Maria de Visscher, com quem teve mais três filhos. Sucedeu seu pai Alberto I em 17 de fevereiro de 1934, e foi sucedido por seu filho Balduíno I, ao abdicar em 17-07-1951. 304 Marechal de Castelnau.???
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Pelas 17:00 vieram buscar tio Hans, Pedro Henrique, Otão e Xavier305 para levar o pálio do Santíssimo Sacramento. O conde de Beauchamps convidou-nos a seguir logo atrás, o que aceitamos com alegria. E recebemos, com todos os doentes e com a multidão, a bênção do Santíssimo. Insaciáveis, à noite, voltamos à gruta para agradecer aqueles três dias passados no paraíso. No dia seguinte, seria preciso descer à terra. E que queda! No caminho de volta nos encontramos de novo na hora do almoço em Castelnaudary, num restaurante onde nos serviram um cassoulet de nos deixar doentes. Eis-nos caídos no materialismo. Para nos recuperar, paramos no colégio dos Jesuítas, para visitar o padre Desribes e lhe contar os três dias maravilhosos em Lourdes. O bom padre ficou deslumbrado com o que Mamãe lhe contou, mas, logo, tomou a palavra, e como era muito falante, não pudemos fazê-lo parar. Automaticamente, suas recordações foram ao Líbano, onde ele fora, durante muito tempo, professor no Colégio dos Jesuítas de Beirute, e ficara apaixonado pela vida que levara lá: pesquisas prehistóricas e, sobretudo seu apostolado. Disse que o Líbano era um país atacado, de modo especial, por Satanaz, e que, várias vezes, ao batizar uma criança, no momento das palavras sacramentais, os móveis começavam a se mexer e até mesmo voar. Quando vimos que a tarde caía, o deixamos para chegar tarde em Mandelieu. Depois do famoso almoço de Chatelnaudary, não estávamos com nenhuma vontade de jantar, mas, ao contrário, bastante contentes de voltar aos nossos quartos e lembrar os belos dias que acabávamos de passar. O jardim do Mas São Luís estava em todo seu esplendor. Mamãe tinha mandado plantar muitas roseiras. Lembro-me, vagamente, dos nomes: as Mme. Henriot, perto da entrada da casa, as Paul Scarlet, contra o gradil do campo de tênis; depois, nos fundos, as Crimson cobrindo todo caramanchão; mas esqueci os nomes das outras porque não anotei em meu caderno. Os pinheiros parassol começavam a crescer e a dar um pouco de sombra. Naquele tempo Leão Roustand divida seu tempo entre pescar e servir de motorista para Pedro Henrique. Mamãe contratou outro jardineiro, João Cavallo que mantinha maravilhoso todo o redor da casa. Bem cedo de manhã, já se ouvia o ruído do ancinho que limpava nossos canteiros. Ele aparava o gramado de maneira que a grama ficava bem verde, pois não se conheciam ainda os corta-gramas. Cuidava também do campo de tênis, que nos usávamos muito no verão, Os quatro chefes ou representantes de Casas Imperiais (Áustria, Brasil), reais (Saxônia) e ducais (Parma).
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quando já tinham terminado os torneios da riviera francesa. Esse pobre João Cavallo teve um triste fim. Como era italiano, não tinha sido recrutado no tempo em que a guerra estourou. Sentiu um complexo de inferioridade que se transformou em loucura mansa que o minou. Um dia, entrou na sala de visitas e se ajoelhou diante de Mamãe, lhe pedindo perdão, em prantos. Mandamo-lo a Nice para se tratar, e ele voltou, parecia, curado. Mas a doença voltou silenciosamente e, numa noite, ele se enforcou. Ficamos consternados. Outro jardineiro, Batistino Monge, o substituiu. Era um excelente trabalhador. Tudo o que plantava crescia maravilhosamente. Em casa, tínhamos o casal Brunet, e as duas irmãs Billier, Júlia e Margarida. Quanto faço conta de toda a criadagem, pergunto-me como cabíamos todos em casa. É verdade que tudo era bem mais fácil do que hoje. Ia esquecendo de falar de minha horta, que estava situada num terreno do outro lado da estrada. Ali passei muitas horas de prazer, ajudada, muitas vezes, por um primo ou uma prima que tinham vindo visitar Mamãe. Sempre fomos gente ligada ao solo. Lendo minhas anotações, vejo que passamos dez dias em Paris, no final de maio. Não me lembro porque. Talvez para assistir o torneio de Roland-Garros. Naquela época não faltávamos a nenhuma dessas apaixonantes manifestações esportivas. Voltando a Mandelieu, encontramos Nonna e tia Beppa instaladas em nossa casa. Mamãe vinha, há muito tempo, propondo a sua mãe deixar a triste Vila Maria Teresa II, e vir morar conosco. Ficamos contentíssimas de ela ter aceito. Fui morar com tia Beppa no Mas São José, e Júlia vinha dormir conosco. Levamos também os dois cachorros Athos, o cocker, e Chuli, o pequeno fox terrier que eu tinha treinado como a um cão de circo: fingia-se de morto, subia nas oliveiras e saltava em meus braços, e mil outras coisas. Meu pobre cachorrinho morreu de fome durante a guerra. Não podia, como nós, entender que era preciso se alimentar do que houvesse... Nonna estava encantada de estar em Mandelieu. Mamãe a levava a passear de carro, cada vez mais longe. Isso despertou nela o desejo de ir à Polônia, ver Ongá e, principalmente, penso, o pequeno Antônio, que ela tinha começado a criar desde que nascera, quando sua mãe, Margarida Czartoryska, tinha morrido. Então Nonna ia à Polônia! Mamãe e tia Beppa fizeram todas as objeções possíveis: a viagem era longa, a época que não era nada tranqüila - há dez anos esperava-se uma guerra a qualquer momento, em casa de Ongá ela estaria longe de tudo. Nada a
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adiantou. Nonna decidiu partir, e tia Beppa, tão feliz em sua própria casa, ficou desolada de ter que deixá-la tão rapidamente. Em 9 de julho, foram a Paris, para assistir o batizado do filho306 de Isabel Zamoyska307, bisneto de Nonna308. Depois, tomaram o trem, seguindo num carro-leito até Varsóvia, onde Ongá veio buscá-las, e tudo se passou sem o menor percalço. E Mamãe estava feliz com a presença de seu irmão preferido, tio Nino, que se tinha mudado para La Napoule. Ela assistia com ele as regatas de que participavam Pedro Henrique e Carlos, em seus pequenos veleiros. Nós subíamos no "Maria Luísa", o "pontudo" de Leão, um grande e sólido barco que nos permitia fazer um piquenique nas ilhas, onde, depois, os veleiros se iam juntar a nós. O espírito inquieto de Mamãe não parava aí. Se Nonna tinha ido até a Polônia, por que não faríamos nós uma viagem à Áustria ... e até a Polônia? Foi dito e feito. Decidimos partir com o Talbot de Pedro Henrique, com Titô, a segunda filha de tio Nando, que gostava de viagens; Mamãe convidou Dolores, filha mais velha de tio Nino, para ir também. Aí, era preciso um outro automóvel. Não tinha problema: usaríamos meu Peugeot 201, conversível. Só foi o tempo de ir a Nice, arrumar os papéis e obter o vistos necessários. Enquanto isso, consertamos o radiador que vazava e substituímos as pastilha de freio bem gastas. O mecânico Allard nos entregou o carro, na véspera da partida, às 23:00h. Albano, o novo motorista, nos acompanhou. Para meu carrinho vermelho seria uma aventura. Portanto, seguimos em dois carros: no Talbot, Pedro Henrique, Mamãe e Titô; no segundo, Albano, Dolores e eu, embora, no decorrer do trajeto, Titô e Dolores permutassem de viatura. Passamos a garganta de Tende onde já precisamos engatar a primeira. Pedro Henrique e Mamãe nos esperavam na fronteira, caçoando de minha lentidão. E foi assim por todo o caminho que nos José Miguel, conde Zamoyski (* Neuilly, França, 27-06-1935), filho de João Kanty, conde Zamoyski, e de Isabel, infanta da Espanha. X Ermita del Rocío, Espanha, 03-05-1973, Maria Antônia Navarro y Gonzales (* Sevilha, Espanha, 08-05-1935), de quem teve dois filhos. 307 ISABEL AFONSINA Maria Teresa Antônia Cristina Mercedes Carolina Adelaide Rafaela de Bourbon, infanta da Espanha (* Madri, Espanha, 10-10-1904; † ibd. 18-07-1985), filha de Carlos de Bourbon-Sicília, e de Maria Mercedes, infanta da Espanha, X ibd. 0903-1929 JOÃO Constantino (Kanty), conde Zamoyski (* Cracóvia, Polônia, 17-08-1900; † Monte Carlo, Mônaco, 28-09-1961), filho de André, conde Zamoyski, e de Carolina, princesa de Bourbon-SicíliaTrapani. O casal teve quatro filhos. 308 E de sua irmã Carolina, pelo lado paterno.
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levou, no primeiro dia, até Stresa. Que beleza, no dia seguinte, quando visitamos as lindas ilhas Pescatori e Bella, tão perfumadas, onde não nos cansávamos de passear entre tantas flores. Mas, era preciso seguir viagem, por Pallanza, Locarno, Lugano, e tomamos a direção de Como. Fazia muito calor, mas continuamos corajosamente nosso caminho. Meus Deus, como aqueles lagos florido de todos os lados, eram bonitos! A cinco quilômetros da fronteira italiana, uma quantidade de automóveis estava esperando para passar. Chegamos bem antes dos outros. Apresentei meu passaporte brasileiro, Albano, o dele, mas Dolores tinha entregue o dela a Mamãe. Expliquei ao guarda da alfândega que o passaporte que faltava chegaria em outro carro. Ele fica perplexo e impaciente para ver se era verdade. Enfim, surgiu a Talbot. Tendo em mão todos os documentos exigidos, nos fizeram passar na frente de toda a fila de carros, com muitas "Altezza imperiale". Fazia cada vez mais calor e, em Como, nos precipitamos em um vendedor de sorvetes, imitados por todos os automobilistas que paravam uns atrás dos outros. E a viagem continuou, percorrendo nós uma região cada vez mais bonita, para dormir em Bellagio. No dia seguinte, apreciamos o lago de Guarda, que contornamos, para subir o vale até Bozano. Viam-se já os Dolomitas, bem rosados contra o céu azul, que nos tentou a tomar a estrada deles. Começamos uma subida difícil. Eu me perguntava sempre se meu carrinho resistiria a essa ascensão em primeira. Enfim, acabamos numa pradaria, donde se tinha uma vista maravilhosa das montanhas: cadeias de rochedos denteados, cada vez mais rosadas à medida que a tarde caía, que contornamos até Carezza del Lago, onde, contraste estranho, elas dominam um pequeno lago escuro! A estrada subia sempre, chegando a 1.700m de altitude; eram já às 18:00h, mas, felizmente, a estrada começou a descer. Estávamos um pouco perdidos quando encontramos uma espécie posto de pedágio, onde era preciso pagar para ir adiante. O guarda nos saudou em italiano, Mamãe respondeu; ele repetiu em alemão, Titô respondeu; ele falou em francês, e depois nos indicou a estrada, numa espécie de esperanto, nos fazendo sinal de tomar a esquerda, dizendo: "A destra". Enfim, graças a esses dados pouco precisos, chegamos a Canazei. Fazia frio no automóvel descoberto, mas, graça a Deus, o hotel era bem aquecido. No dia seguinte, que desolação! Estava chovendo. Esperamos até as 9:00h, hesitando em continuar, quando, felizmente, a chuva parou, e pudemos avistar o cimo do Pordói. Albano nos fez medo, dizendo que o carro não andava, que havia um pistão quebrado. Eu rezei a Boubou. Partimos: o carro não fazia mais barulho. A estrada através dos abetos era magnífica, Mamãe, que tinha medo de altitude, estava mais calma, e, assim, chegamos à garganta do Pordói (2.234m de altitude). A estrada começou a descer ao longo de um vale, em direção ao massiço de Civretta. Mais uma subida para chegar à
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garganta de Falzango, onde a estrada descia para Cortina d'Ampezzo, mas continuávamos, ainda, acima da bruma, com as pontas dos abetos parecendo flutuar e, de vez em quando, via-se o cume de uma montanha. O efeito era dos mais curiosos. Atravessamos Cortina sem parar para prosseguir na direção norte, seguindo um vale, no meio do qual corria uma torrente. O tempo ficou cinzento e o lugar era lúgubre. É que tínhamos deixado o belo sol do Mediterrâneo. À tarde, atravessamos a fronteira austríaca. O ambiente começou a ficar mais pesado. Retiveram-nos durante três quartos de hora antes de nos deixar prosseguir. Nossa intenção era tomar a estrada de Glossklocker, a mais alta da Europa, que acabava de ser inaugurada. A primeira subida nos levou até Lienz, numa neblina muito desagradável. E mais desagradável ainda, depois de ter subido a 1.700m de altitude, e constatar que a estrada descia até 1.000 metros. Pobre Peugeot! Foi preciso engatar a primeira para retomar a subida até Heilingenblutt, onde a nova estrada realmente começava, e para cujo uso devíamos pagar 8 xelins por pessoa. Depois, foi a dura subida, sempre em primeira, sem poder mudar, o que nos permitiu, ao menos, apreciar a paisagem soberba. Debaixo, viam-se, num raio de sol, as três geleiras de Glossklocker. Subimos como um funicular: 1.500, 1.700, 2.000 metros, e uma parada para ver se o motor não tinha fervido. A cada dois quilômetros havia um posto de água, com um regador. Um pouco acima, a Talbot nos esperava. A coitada de Mamãe estava morta de preocupação vendo que estávamos demorando a chegar. Retomamos a subida. A estrada era uma rampa bem inclinada até um túnel. Estávamos na altura da geleira que chegava até a margem da estrada. Pensando que não tínhamos mais a subir, passei o volante a Albano que estava atrás, com cara de floco de neve. Saindo do outro lado do túnel, nos encontramos entre duas paredes de gelo. A neblina impedia-nos de ver o vale, e, subitamente, em vez de descer, a estrada subia. O ponto culminante estava a 300 metros acima, adiante de nós. O pobre carrinho estava quase se recusando a subir. Tivemos um momento de angústia. Seria preciso descer para aliviá-la e empurrá-la? Não! Ela conseguiu chegar bem no ponto culminante. Cocoricó! A descida se deu ainda com algumas aventuras, que não vou contar. Entramos em Salzburg, à meia-noite. No Hotel “Österreichicherhof" disseram-nos que a cidade estava lotada e que não havia quartos. Retomamos a estrada para Sankt-Gilgen, onde chegamos às 2:00h da manhã. Na praça, estavam três tiroleses sentados num banco. Perguntamos: "Pension Lüg, bitte schön!"309 Num golpe, eles se
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Pensão Lüg, por favor!
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levantaram e perguntaram: "Where do you want to go?"310 Felizmente, aqueles bravos ingleses conheciam a pensão, e nos indicaram como chegar lá. O gerente, prevenido por Salzburg, já nos esperava, e, enfim, pudemos, bem felizes, repousar num ambiente aquecido. Era sempre para Mamãe uma alegria encontrar sua irmã Cristina. Elas eram tão próximas que minhas primas e eu as chamávamos de "Mamãe Titine" e "Mamãe Pia". Ficamos uma semana nessa encantadora parte da Áustria, remando no lago ou visitando os arredores. Retomamos a estrada na direção leste, atravessando Viena, para, em seguida, entrar na Hungria e dar uma parada em Budapeste, onde, no dia seguinte, visitamos o arquiduque José311. Chegamos a um grande palácio branco, de arquitetura bastante estranha. O arquiduque nos esperava, vestido com seu uniforme, coberto de condecorações. Parecia uma visita oficial nos tempos da corte. Muito cortesmente, deu o braço a Mamãe. No alto da escada, encontravamse a arquiduquesa312, princesa da Baviera, volumosa pessoa de cabelos entre o vermelho e o amarelo, e a irmã313, muito parecida com ela. Titô era o vínculo de conhecimento que nos unia a esses parentes longínquos314. Depois de alguma conversa mundana, nos Aonde vocês querem ir? JOSÉ AUGUSTO Vítor Clemente Maria, arquiduque da Áustria e paladino da Hungria (13-06-1905/06-07-1962) (* Alcsut, Hungria, 09-08-1972; † Rain, Áustria, 06-07-1962), filho de José, arquiduque da Áustria, paladino da Hungria, e de Clotilde, princesa de Saxe Coburgo Gotha; X Munique, Alemanha, 15-09-1893 Augusta, princesa da Baviera, de quem teve seis filhos. 312 AUGUSTA Maria Luísa, princesa da Baviera, (* Munique, Alemanha, 28-04-1875; † Ratisbona, Alemanha, 25-06-1964), filha de Leopoldo, príncipe da Baviera, e de Gisela, arquiduquesa da Áustria, princesa da Hungria X Munique 15-11-1893 com José Arquiduque da Áustria, paladino da Hungria, c.s. 313 ISABEL Maria Augusta, princesa da Baviera, (* Munique, Alemanha, 08-01-1874; † Gresten, 04-03-1957), filha de Leopoldo, príncipe da Baviera, e de Gisela, arquiduquesa da Áustria, princesa da Hungria X Gênova, Itália, 02-12-1893 com Oto, conde de Seefried de Butenheim, barão de Hagenbach (* Bamberg, 02-09-1870; † Steibar, 05-09-1951), filho de Luís, barão de Seefried e Buttenheim, e de Hagenbach, e de Emília de Schmaltz, com quem teve cinco filhos. 314 Tinham como antepassados comuns Francisco I, Imperador da Alemanha, e Maria Teresa de Habsburgo, rainha da Hungria e da Boêmia, sextos avós da autora. Porém, o filho do arquiduque José era casado com Ana, princesa de Saxe, uma das sobrinhas afins de tia Gietta, e também bisneta de D. Pedro I.
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mostraram o palácio. Num pequeno gabinete, tivemos a surpresa de ver aparelhos de remo. As duas tias nos disseram que elas faziam exercício todas as manhãs. E por que não? Deixamos Budapeste um pouco decepcionados, com a intenção de chegar a Cracóvia. Atingimos a fronteira checa para nos encontrar, num domingo de manhã, num país extraordinário. A estrada estava bordejada de casas de teto de colmo e paredes pintadas de azul. Encontramos numerosos camponeses indo à missa, com roupa de domingo. Era encantador de se ver. Tinham um aspecto um pouco mongol. Continuando nosso caminho, chegamos Titô, Albano e eu, numa aldeia onde perguntamos o caminho para Cracóvia. Felizmente, as pessoas falavam alemão e nos disseram que, se quiséssemos ir a Cracóvia, era preciso atravessar a fronteira ali. Não vendo nada que se assemelhasse a uma fronteira ou a um posto de alfândega, avançamos tranqüilamente quando vimos uma nuvem de poeira vindo em nossa direção. O Talbot estava, como nós, à procura da fronteira. Seguimos em direção a uma floresta, para encontrar um posto de fronteira polonês que nos deixou passar sem explicações. Enfim, após mil aventuras, chegamos a Cracóvia, onde nos encontramos no meio de uma população de judeus, que levavam um longo casaco e cabelos cacheados. Era de espantar. Diante das dificuldades das estradas, decidimos deixar os carros em Cracóvia e, naquela noite, tomar o trem para Varsóvia. Visitamos a capital, que não tinha o encanto de Cracóvia, e tomamos outra vez o trem para Przystan. Vimos que não era tão fácil viajar num país cuja língua não falávamos. Mostrando nossos bilhetes, felizmente alguém que falava alemão nos explicou que devíamos desembarcar na sexta estação: Ostroleka, onde o carro enviado por Ongá nos esperava. As bagagens deveriam chegar mais tarde. Partimos para logo cair num fosso. É que havia minério de ferro sob a estrada e, para explorá-lo, tinham aberto a metade da pista. Enfim, chegamos, encontrando, em plena floresta, uma bonita casa, toda de madeira, naturalmente. Nonna e tia Beppa estavam lá há um mês. Nonna, contentíssima de ter encontrado o pequeno Antônio, e a boa tia Beppa, se acomodando a tudo. Cecília era uma excelente dona de casa, e tinha arrumado o interior de uma maneira muito simpática. Ongá tinha aprendido o polonês em tempo recorde e se arranjava muito bem na gerência da propriedade composta, principalmente, de imensas florestas de pinheiros. Mamãe estava deslumbrada em ter conseguido chegar ao termo de uma viagem tão aventurosa, e de reencontrar a mãe, a irmã e o irmão.

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Um dia, fomos até Krasne, na casa dos Czartoryski. Tia Adão, tia Luísa e Isa nos receberam de braços abertos, nos fazendo visitar o haras, a criação de bois e de porcos. Tudo lá também a guerra devastou. O que terá sobrado daquelas casas? Todos os primos poloneses, depois de mil aventuras tristes, estão espalhados pelo mundo ... Ficamos oito dias em Przystan. Depois, de terem em trem, voltamos a Cracóvia para pegar os automóveis, e levar, conosco, Augusto Czartoryski até a fronteira checa. A travessia da Checoslaváquia foi particularmente interessante. Todo o mais era maravilhosamente cultivado. Nenhuma polegada de terreno foi esquecida. Depois, dirigimo-nos diretamente para a Áustria, passando por Brno, para chegar à noite, em Attersee. Não me lembro mais se foi nessa ocasião que tio Pedro, vendo a quantidade de hóspede, cedeu sua cama e – lembrança do Brasil – pendurou uma rede entre duas paredes para dormir. Mas estas eram apenas divisórias: à noite, ouviu-se um grande estalo e grande um ruído. Uma das divisórias tinha cedido e o pobre tio estava estendido no chão. Não contarei o fim da viagem. Seria cansativo. A volta o Mas São Luís era sempre uma alegria. Iolanda Czartoryska tinha se juntado a nós, pois tinha sido convidada para o casamento de Maria, em 12 de outubro, em Roma. Para o casamento do conde de Barcelona e de Maria de Bourbon, partimos, de novo, em dois caros. Os dois irmãos de Mamãe, Januário e Reiniro foram conosco. Fizemos uma parada em Assis, onde encontramos Lily315, condessa de Rambuteau, e seu filho Filiberto316. Lily era, como eu, prima irmã de Maria, ambas neta de Filipe, conde de Paris. Ela já tinha dado muita animação ao hotel, e ficamos contentes em encontrá-la. Para o casamento, tinha escolhido um vestido vermelho, que a tornava ainda mais vistosa. Chegamos, AMÉLIA FRANCISCA Maria de Mac-Mahon-Magenta [Lily] (* Luneville, França, 11-09-1900; † Rambuteau, França, 30-05-1987), filha de Patrício, 7o, Marquês de Mac-Mahon e 2º Duque de Magenta, e de Margarida, princesa de Orléans-Chartres; X Paris, França, 0502-1921 AMALARICO Lombard de Buffières, conde de Rambuteau (* Genebra, Suíça, 29- 08-1890; † Buchenwald, Alemanha, 13-121944), filho de ... Lombard de Buffières, conde de Rambuteau, e de ..., de quem teve quatro filhos. 316 FILIBERTO Lombard de Buffières de Rambuteau, Conde de Rambuteau (13-12-1944)(* Paris, França, 14-09-1923), filho de Amalarico Lombard de Buffières, conde de Rambuteau, e de Amélia Francisca de Mac-Mahon-Magenta [Lily].
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pois, em bando, a Roma, e encontramos, no hotel, mais parentes ainda. O casamento teve lugar no dia seguinte, 12 de outubro, na igreja de Santa Maria das Flores. Não citarei os nomes dos convidados, em grande parte Bourbon, pois era um casamento "Bourbon y Bourbon". Maria usava um vestido de noiva muito bonito e simples. Não levava nenhuma jóia. Muito altos, ela e João formavam um bonito par. O príncipe do Piemonte representava a família real italiana. No momento de dizer "sim", Maria se voltou em direção do rei da Espanha, e lhe fez uma graciosa reverência. A saída, se não me engano, foi muito digna para o rei e para o príncipe do Piemonte e para os recém-casados, mas, depois, tornouse uma espécie de debandada, sem o menor protocolo. Nós nos devíamos encontrar no Grande Hotel para o almoço em família, num salão cheíssimo, onde todos estavam felizes de encontrar um parente. O príncipe do Piemonte veio buscar Mamãe para conduzi-la à mesa. Ver Mamãe, a mais Bourbon de todos os irmãos e irmãs, de braço com Humberto de Savóia foi para mim um verdadeiro espanto! Essa lembrança me ficou tanto na memória, que esqueci todo o resto... Voltamos a Mandelieu onde Nonna já estava definitivamente instalada. Os tios falavam em vender a Vila Maria Teresa II, que já não tinha razão de existir. Como Nonna tinha junto dela uma criada de quarto, de confiança, Batistina, sabíamos que podíamos nos afastar sem medo, o que nos permitiu dar alguns pulos a Paris.

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1936 No mês de julho de 1936, os acontecimentos se precipitaram na Espanha. Estourou uma revolta contra o governo vermelho. O general Franco317, seguido por todo o exército espanhol da África, rebelou-se e tinha tomado a direção das operações. Logo, o general Queipo de Llano318 entrou em Sevilha. Tio Nino recebeu noticias mandadas por seu mordomo, Aramburu, que, no momento do ataque, estava em Villamanrique319, na Andaluzia, propriedade da família. Parece que a
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Gonçalo Queipo de Llano y Serra (* Tordesilhas, Espanha, 1875; † Sevilha, Espanha, 1951). Militar espanhol, que se tinha rebelado várias vezes na monarquia, sendo reformado. Voltou à ativa na república, e se rebelou contra o governo socialista. Conseguiu conquistar Sevilha, de onde fez várias declarações pelo rádio, que muito influenciaram os que as ouviram. Desentendeu-se com Franco em 1939, e se retirou do cenário político. 318 Francisco Paulino Hermenegildo Teódulo Franco y Bahamonde (* El Ferrol, Espanha, 04-12-1892; † Madri, Espanha, 10-11-1975), filho de Nicolau Franco y Salgado-Araújo e de Maria do Pilar Bahamonde y Pardo de Andrade; X Oviedo, Espanha, 22-10-1923, Cármen Pólo y Martinez-Valdés (* Oviedo, Espanha, 11-06-1900; † Madri, Espanha, 06-02-1988), Senhora de Meirás, filha de Filipe Pólo-Vereterra y Florez e de Raimunda Martinez-Valdés y Martínez Valdés, c.s. Revolucionário espanhol, de linha direitista, que derrubou a 2ª república, tornando-se Chefe de Estado (ditador) até o fim da vida. Preparou a restauração da monarquia, o que se deu após sua morte. 319 Trata-se do Palácio de Villamanrique de La Condesa, próximo a Sevilha, propriedade da infanta Maria Luísa, filha de Fernando VII, duquesa de Montpensier, que a deixou para sua filha caçular, Isabel de Orléans-Montpensier, condessa de Paris; e passou à filha caçula
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luta tinha sido dura. Ao mesmo tempo, Burgos, Saragoça e Navarra tinham se sublevado sob as ordens do general Mola320, que já marchava sobre Madri. Houve uma espera na serra de Guadarrama. O movimento tinha a fama de fascista, mas os carlistas321 dele participaram, usando boina vermelha e desfraldando bandeiras bordadas com a imagem da Virgem. Mas Madri, nas mãos dos vermelhos, resistia sempre. Dizia-se que o general Mola esperava Franco para entrar na capital. Por mensagens chegadas, soubemos dos horrores cometidos pelos vermelhos, e participávamos com o tio Nino e todos os primos espanhóis da angústia do momento, e da esperança que parecia nascer no horizonte. Foi então que meu primo Carlito decidiu partir para a Espanha. Tinha pedido permissão ao rei que lhe dissera não ver nisso nenhuma inconveniência. Fomos todos acompanhá-lo à estação de Cannes, muito emocionados de um lado e de outro. Pedro Henrique subiu no trem e acompanhou-o até Saint-Jean-de-Luz. Pepe de Baviera partia também com o conde de Mora. Em Saint-Jean-de-Luz, foram levados a uma vila que pertencia a filipinos, e era uma espécie de GQG dos rebeldes e dos que partiam para se juntar às tropas carlistas ou franquistas. Logo vieram buscar Carlito, dizendo-lhe que devia partir em seguida. Ele subiu num carro que o devia conduzir a um posto da fronteira espanhola, onde encontraria outra viatura que o levaria a Pamplona, onde devia se apresentar ao comandante militar. Pedro Henrique voltou muito emocionado, dizendo que, na costa basca, havia grande entusiasmo, e que se pensava que uma grande sublevação levaria a uma pronta vitória. desta, Luísa de França, princesa Carlos de Bourbon (tio da Autora), dela à sua filha caçula Esperanza de Bourbon, 3ª. Princesa de Orleans e Bragança, e desta a sua filha Maria da Glória, ex-princesa Alexandre II, da Sérvia, e marquesa de Segorbe. 320 Emilio Mora y Vidal (* Placetas, Cuba, 1887; † (ac) Castil de Peones, Burgos, Espanha, 1937). General espanhol que, como comandante de Pamplona organizou um exército de recrutados que marchou contra San Sebastián e Madri. Foi nomeado por Franco comandante do exército do norte. Morreu num acidente de aviação. 321 Inicialmente, nome dado aos partidários do infante D. Carlos, afastado da sucessão espanhola pela revogação da lei sálica por seu irmão Fernando VII, que quis assegurar a coroa à filha Isabel II; e posteriormente aos prerrogativas locais e tradicionais das diferentes regiões da Espanha, a união da Igreja com o Estado e outros pontos de vista conservadores. Com a extinção da descendência masculina de D. Carlos, o carlismo deixou de ter razão de ser já que a sucessão passou para a linha do infante Francisco de Paula, cujo filho, Francisco de Assis, se casara com Isabel II, fundindo-se numa só pessoa (Afonso XIII, neto de Isabel II) os eventuais direitos liberais e carlistas.
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Em 30 de julho, um acontecimento feliz teve lugar em Cannes: o nascimento de Maria do Pilar. Na véspera, à noite, minha pobre prima, Maria, condessa de Barcelona, tinha ido à estação se despedir do irmão. Ela correu para chegar a tempo da partida do trem, e à noite, foi se deitar chorando. O bebê estava previsto para 10 de agosto. A rainha Vitória Eugênia322 e Beatriz Torlônia vieram almoçar no dia seguinte, na Vila São Brás, onde os Barcelona estavam instalados. Mas eis que chamaram João ao telefone, dizendo de vir imediatamente a Cap Martin, onde uma delegação de espanhóis queria vê-lo. Ele só teve tempo e chegar e voltar, pois a criança nasceu às 15:00h. Mais tarde, acompanhamos Nonna a Cannes. Numa sala, se encontravam tia Luísa323, de enfermeira, o casal Torlônia e a rainha Vitória Eugênia atacada de lumbago. O telefone tocava de três em três minutos, e a pobre condessa de Rocamora324, que tinha atendido Maria todo o tempo parecia morta de cansaço e emoção. Um pouco mais tarde, trouxeram o bebê para que Nonna, a bisavó, pudesse ver. Nos retiramos para que o repouso voltasse àquela casa, mas de nada adiantou, pois um grupo de espanhóis veio pedir ao conde de Barcelona que partisse com eles para a guerra. João respondeu que tinha que pedir permissão ao rei Afonso XIII, então em Königsmark, na Alemanha. A comunicação telefônica era impossível. João, então, mandou um telegrama. A resposta do rei foi: "Vá, meu filho, que Deus te abençoe e salve a Espanha". João partiu no dia seguinte. Escrevendo, revejo todo aquele ambiente trágico, porém cheio de esperança. A pessoa de Pilar representava a vida, o que aumentava ainda mais a emoção que sentíamos, vivendo e seguindo os acontecimentos. Mas João voltou quatro dias mais tarde. Chegando em Burgos, um oficial tinha detido seu automóvel e o obrigado a fazer o caminho de volta. Nunca se soube a razão, mas como ele era o herdeiro do trono,
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Para os íntimos, era conhecido como tia Ena. Mãe da parturiente. 324 Condessa consorte, Maria de Araceli Carlota Eugênia Isabel de la Lastra y Mesía (* Madri, Espanha, 09-03-1905; † ibd. 30-06-2004), filha de José Maria de la Lastra y Romero de Tejada e de Ângela Mexía y Fitz-James Stuart, X Madri, Espanha, 09-05-1925, João Manuel Agrela y Pardo, 8º conde de Granja de Rocamora (18-041929/1976), filho de João Manuel Agrela y Herreros de Tejada, e de Maria Josefa de Prado y Manuel de Villena de Artur de Pardo e Inchausti, 7ª condessa de Granja de Rocamora, c.s.
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talvez julgassem, na Espanha, que ele não devia arriscar a vida.325 Em todo caso, esse gesto teve grande repercussão no exército e na população espanhola. As notícias se precipitavam. Irún, depois, Tolosa, caíram nas mãos dos nacionalistas. Carlito tinha sido um dos primeiros a ali penetrar. Seguiu-se a tomada de San Sebastián em setembro. Carlito escreveu, dizendo que tinha encontrado alojamento num vagão-dormitório, e que nunca uma cama de trem lhe tinha parecido tão confortável. Tio Nino pediu permissão aos nacionalistas para ver o filho em San Sebastián, mas isso lhe foi negado. Sabendo que Maria e o bebê estavam bem em Cannes, ele e a tia partiram para Paris, mas não queriam permanecer na França, cujo governo esquerdista fornecia armas aos vermelhos da Espanha. Assim, voltaram à Suíça. Quando se preparavam para deixar o apartamento da rua Milleret de Brou, o embaixador Quinones de León326 veio lhes dar a terrível notícia da morte de Carlito, no assalto de Elgoybar. Felizmente, Pedá estava na casa deles justamente no momento, e pôde ajudar o embaixador nessa horrível missão. Alguns dias mais tarde, tivemos, aos poucos, mais detalhes trazidos por Henrique de Vilmorin, correspondente de guerra, que tinha visto Carlito meia-hora antes de sua morte. Ele tinha dado seu capacete a um dos soldados que não tinha. Duas balas de metralhadora o atingiram na cabeça. O capelão lhe dera absolvição in extremis. Afonso XIII enviou ao tio Nino esse telegrama: "Carlos de Bourbon, presente!" É inútil dizer como a tristeza se abateu sobre nós. E aquela horrível guerra continuou. Sabíamos sua evolução, com a morte da alma, vendo que Madri era revitalizada em armas, pela França e pela Rússia. Tínhamos os nervos à flor da pele e escutávamos tudo o que se dizia. Ficamos muito impressionados ao tomar conhecimento de uma profecia de um padre polonês que predissera a guerra civil da Espanha, a derrota dos vermelhos, seguidas de uma guerra mundial. Ele era herdeiro de Afonso XIII, e tinha apenas uma única filha. Em caso de morte, uma menor, menina, herdaria do avô a Chefia da Casa Real da Espanha, e as herdeiras, na história espanhola, sempre trouxeram graves problemas. 326 José Maria Venceslau Quiñones de León (1873-1957), embaixador espanhol na França (1930-31). Exilado na França, tonou-se chefe e financiador do movimento anti-republicano e anticomunista espanhol, no exterior.
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Na França, a situação tornava-se cada vez mais difícil e o governo Blum parecia incapaz de dominá-la, havendo uma greve atrás da outra. Depois, veio o caso Salengro327. Sofríamos por ver o país naquele estado. Mamãe quis muito ver o irmão que tinha se instalado em Lausanne. Partirmos em outubro e encontramos tio Nino muito abatido, dando, pouco a pouco, conta da realidade da morte daquele filho em quem tinham posto tanta esperança. A tia e as primas328 estavam como que petrificadas, não podendo acreditar que tal infelicidade pudesse acontecer. Ficamos alguns dias com elas, depois seguimos até Lindau, onde encontramos toda a família Calábria, assim como duas sobrinhas de tia Maria, Deidi329 e Loll330da Baviera. Não me lembro se tal encontro foi premeditado, mas, em todo caso, foi a primeira vez que Pedro Henrique viu sua futura esposa. Elas nos convidaram a vir até Leutstetten, residência da família real da Baviera. Fomos recebidos de uma maneira encantadora, sem, entretanto, falar muito de política, pois todos eles estavam sob ameaça dos nazistas. E retornamos, no mesmo dia, a Lindau, vendo, no caminho de volta, aviões militares em exercício, que mergulhavam quase verticalmente sobre pretensos objetivos. Era impressionante. Rogério Salengro (* Lille, França, 1890; † (sc) Paris, 17-111936). Militar, jornalista e deputado francês que lutou na I Guerra Mundial, sendo feito prisioneiro em 1915, e libertado depois da derrota da Alemanha. Foi nomeado Ministro do Interior do governo Blum, em 1936. Acusado de ter desertado, foi julgado e absolvido por um conselho do governo, presidido pelo general Gamelin, mas deprimido e só, suicidou-se. A seu funeral compareceram 1 milhão de pessoas. 328 Dolores e Esperanza, ainda solteiras. 329 MARIA Isabel Francisca Josefina Teresa [Deidi], princesa da Baviera (* Nymphenburg, Alemanha, 09-09-1914; † Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13-05-2011), filha de Francisco, príncipe da Baviera, e de Isabel, princesa de Croy. X ibd. 19-08-1937 PEDRO (III), Chefe da Casa Imperial do Brasil, de quem teve doze filhos. 330 ELEONORA Teresa Maria Josefa Gabriela [Loll], princesa da Baviera (* Nymphenburg, Alemanha, 11-09-1918; † ibd. 19-082009), filha de Francisco, príncipe da Baviera, e de Isabel, princesa de Croy. X ibd. 14-08-1951 Maria CONSTANTINO Frederico Jorge Guinibaldo Guilherme José Antônio, conde de Waldburg-Zeil e Trauchburg (* Zeil, Alemanha, 15-03-1909; † Feldafing, Alemanha, 27-02-1972), filho de Jorge, conde de Waldburg-Zeil e Trauchburg, e de Maria Teresa, condessa de Salm-Reifferscheid-Raitz, de quem teve seis filhos.
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Quando, voltando à França, contamos o que tínhamos visto, as pessoas riram na nossa cara ... Por ocasião de um torneio em Cannes, nós fomos convidados por Muriel Thomas, uma moça inglesa muito alegre, nascida nas Canárias, para participar de outro torneio no Queen's Club de Londres, torneio que precede o de Wimbledon. Pedro Henrique estava um pouco contrariado, pois tinha aceito nos levar. Levamos tio Januário que ia ao encontro da esposa, que já estava em Harrogate, junto aos pais. Faço uma observação sobre tia Bea: nunca tinha conseguido aprender o francês corretamente, e cometia lapsos de linguagem, que eram nosso divertimento. Dito isto, era a melhor pessoa do mundo. Eis-nos pois, de carro em direção norte, chegando a Bologne-sur-Mer, onde almoçamos e, às 14:00h, com o automóvel embarcado, o navio se pôs ao mar. Uma hora e meia de travessia eram suficientes para mim, que nunca tive estômago para grandes navios. A visita a catedral de Cantuária nos deixou maravilhados. Um coral ensaiava para o ofício do dia seguinte. Violinos acompanhavam os cantores, e nós estávamos extasiados, lamentando, apenas, a separação das igrejas331. Chegamos bastante tarde em Londres, e descemos no Hotel Príncipe de Gales. Todos os restaurantes estavam fechados, e nos concederam apenas uma fatia de presunto. O que nos encantou foi a polidez das pessoas na rua, dos motoristas que paravam para que nós atravessássemos. Visitamos a National Gallery, e logo encontramos Muriel que nos levou para jogar em Wimbledon, às 14:30h, num calor tórrido. Mas foi divertido conhecer um clube tão célebre. Não tivemos êxito no torneio do Queens Club. Havia uma chuva intermitente e tivemos de colocar meias grossa sobre o calçado para não escorregar na grama do campo. Logo, a partir do segundo turno, o torneio continuou sem nós. Creio que foi nessa ocasião que fomos almoçar na embaixada do Brasil. Os embaixadores eram Raul Régis de Oliveira332 e Gina333, de quem Mamãe era muito amiga. Entre as igrejas anglicana e católica. Raul Luís Francisco Régis de Oliveira (* Paris, França, 10-101874; † Rio de Janeiro, RJ, 10-07-1942), filho de Francisco Régis de Oliveira e de Amélia da Silva Guimarães; X Rio de Janeiro, Brasil, 1211-1908, Maria Georgina de Araújo, de quem teve uma única filha, Sílvia de Araújo Régis de Oliveira (* Rio de Janeiro, 09-08-1909; †
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A embaixada estava instalada numa dessas pequenas casas inglesas que têm uma ou duas peças por andar. Tudo ali se passava verticalmente, mas a embaixatriz, de quem voltarei a falar, arrumou a sala de jantar e a sala de visitas de uma maneira linda, como tudo que fazia. Demos, depois, uma volta rápida pela Inglaterra, chegando até os lagos Windermere e Dewent Water. Tio Januário que tinha passado muitos anos na Inglaterra como adido militar espanhol, era um excelente cicerone. Pudemos visitar York, mas não sua maravilhosa catedral pois se realizava, então, um serviço religioso. Paramos em Cambridge, esperando ver meu primo Caetano. Infelizmente, ele estava ausente, mas pudemos assistir uma missa muito piedosa na capela daquela célebre universidade.

Paris, 14-02-1970), princesa João Luís de Faucingny-Lucinge. (* Paris, França, 10-02-1904; † ibd. 13-05-1992). Embaixador brasileiro em diversos países da Europa. 333 Maria Georgina de Araújo [Gina] (* Rio de Janeiro, RJ, 27-111883; † Paris, França, 21-02-1960), filha de Joaquim Henrique de Araújo Olinda (filho do visconde de Pirassununga, neto paterno do barão de Pirassununga, e neto materno do marquês de Olinda), e de Luísa de Faro. X Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 12-11-1908, Raul Régis Bittencourt, c.s. De personalidade marcante, a embaixatriz tornou-se íntima da família real inglesa, tendo entrada livre no palácio de Buckingham, sendo professora de piano das princesas Elisabeth (atual rainha) e Margareth.
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1937 Pedro Henrique estava com pressa de voltar a Paris para escolher o anel de noivado. Assim, não vou falar do nosso retorno que se deu rápido como um relâmpago. Chegando a Paris, soubemos, com alívio, que o governo Blum tinha caído. Pedro pôde escolher um bonito anel de safira e um lindo pendente de águas-marinhas para sua noiva, e seguimos para Lindau, aonde chegamos ao mesmo tempo que os Baviera. No dia 28 de junho, depois de ter assistido piedosamente à missa, vi Mamãe e tia Isy sentadas na mureta de pedra à beira do lago, em silêncio. Afinal, Mamãe disse: "Já que estamos de acordo, o melhor é não adiar e anunciar o noivado". "Sim", respondeu tia Isy, sempre pouco loquaz, e chamou tio Francisco que achou aquelas senhoras um pouco precipitadas, mas, depois, concordou. Chegando todos a um consenso, disseram aos noivos: "Vamos, podem se beijar". Pedro Henrique obedeceu imediatamente, Deidi ficou vermelha como um pimentão, e ambos voltaram-se para Mamãe, que estava tão vermelha quanto eles. Mas todos sentimos que estavam muito felizes. As primas Calábria prepararam um almoço de noivado, que foi muito alegre. E, como nos contos de fadas, eles se casaram, foram felizes e tiveram muitos filhos ... Ficamos ainda em Lindau, aproveitando a hospitalidade de tia Maria, pois a Vila Amsee pertencia à família real da Baviera. A casa parecia mais um pequeno chalé, e era tão velha que não se permitia que muita gente se reunisse na sala: temia-se que o chão afundasse, mas
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a atmosfera familiar era calorosa e simpática. Não longe, encontravase o castelo da família real do Württemberg, a qual fomos visitar. Tinham-nos dito: "Principalmente, não se atrasem, pois os Württemberg são muito pontuais, e esperam nos degraus da entrada". Chegamos com cinco ou dez minutos de atraso, e encontramos exatamente como previsto, a duquesa Rosita, minha prima-irmã, o duque Filipe, rodeado pelos irmãos e tios . Entramos naquele castelo cheio de retratos e objetos preciosos. Rosita tinha cinco filhos , cada um mais bonito que o outro. As vexações nazistas atingiam também essa família, e eles se davam conta de estar sempre vigiados, com a ameaça de ver Maria Cristina , filha mais velha do duque mandada para um campo de trabalho, o que se evitou graças a um atestado médico de que a saúde dela não suportaria a disciplina do campo. Tio Januário nos tinha acompanhado. Era um maravilhoso companheiro de viagem, sempre alegre e se interessando por tudo. Formamos um bom grupo de família em Sankt-Gilgen. Os comentários sobre a situação voltaram. Tia Titine achava que Mussolini tinha vendido a Áustria à Alemanha, sendo o chanceler Schuschnigg fraco demais para resistir. Durante esse tempo, meus primos Godofredo e Jorge percorriam o país, presidindo manifestações monarquistas. Quanta ilusão! Fiquei feliz de conhecer um pouco melhor Maria Valéria , com quem Jorge tinha se casado um ano antes. Ela esperava um bebê e ficamos impressionados com sua palidez. O bebê , se bem me lembro, não viveu muito tempo. Ficamos oito dias naquele lindo lugar. Pedro Henrique e Deidi chegaram de Munique. Tinham decidido se casar em 17 de agosto, mas, infelizmente, soubemos da morte do tio Adão Czartoryski, que tinha sucumbido após "uma longa enfermidade". O casamento de seu filho Augusto com minha prima-irmã Dolores, marcado para o dia 15 de julho, foi adiado para 16 de agosto. Pedro Henrique e Deidi marcaram o seu para o dia 19. Partimos para Munique de maneira a poder visitar o castelo de Nymphenburg. Chega-se lá bordejando um longo canal, onde, parece, Luitpoldo, o regente, avô de tia Maria Calábria, mergulhava todas as manhãs. O castelo de Nymphenburg tinha um aspecto imponente: no centro, um pavilhão; de cada lado, duas alas que se ligavam a dois pavilhões e terminavam por duas outras alas. O interior era encantador e levemente rococó, com cores suaves do século XVIII. O guia nos explicou que o príncipe Ruperto era o Chefe da Casa Real da Baviera, o castelo lhe pertencia e, levantando a voz, que ele voltaria a reinar
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quando quisesse. A capela era linda e suficientemente grande para conter a família. Mas era preciso voltar para reunir todos os documentos e certidões necessários para um casamento na Alemanha nazista. Deidi nos acompanhou até Meersburg, onde tomamos o barco para Constança para chegar à noite em Friburgo-de-Brisgóvia, em casa de tia Gietta. A Gestapo tinha vindo inquiri-la sob pretexto de que ela se ocupava de uma obra para padres... A inquietação reinava em toda a parte. A casa de Friburgo era muito agradável. Deram-me um quarto luxuoso, com uma sala, na qual havia um armário, dentro do qual se encontrava a banheira. Era original, mas, creiam, muito prático. O café da manhã de tio Hans ficou célebre. Um prato com seis ovos foi colocado na mesa. Pensávamos em nos servir, quando o tio disse: "É tudo para mim", e debaixo de nossos olhares aturdidos, engoliu tudo num abrir e fechar de olhos. Fora disso, ele era o melhor dos homens. Tia Gietta, tão fina e encantadora, tinha aceito seu pedido de casamento, sabendo que ti-nha uma missão a cumprir junto dos sobrinhos do marido, filhos do rei da Saxônia , abandonados pela mãe , que tinha fugido com um compositor italiano . Tia Gietta foi uma mãe admirável para todos eles. Também foi admirável durante a I Guerra Mundial, quando interveio, visitando e aliviando a sorte dos prisioneiros franceses. Entretanto, não foi recompensada, quando, em 1944, as tropas francesas ocuparam Friburgo-de-Brisgóvia, e a maltrataram bastante, até que chegasse o general de Tarragon e pusesse as coisas nos devidos lugares, tornando-se um apoio maravilhoso para minha pobre tia. Deixamos Friburgo em 13 de julho, abrindo caminho em direção ao sul para poder encontrar logo a doce atmosfera da França. Em Grenoble, à noite, de repente, soou a música dos Caçadores Alpinos, e, do hotel nos precipitamos para a rua. Estava quente. Um pouco mais longe, numa praça, havia um concerto num coreto, onde um velho guarda usava seu bastão para expulsar os garotos que trepavam no gradil para estar mais perto dos músicos. As pessoas passeavam abraçadas pela cintura. Estávamos em casa. Na noite de 14 de julho, estávamos em Mandelieu, não tendo visto senão uma bandeira vermelha em toda a estrada. O Sr. Brunet, novo vigia, nos disse que, na Riviera, havia mais tranqüilidade. A era Blum se apagava da História. Pedro Henrique se desdobrou para juntar todos os papéis necessários para seu casamento. Era preciso reunir os do Brasil, os de
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Nápoles, do Vaticano e da França. Tudo isso foi resolvido em vinte dias, o que me pareceu um feito notável, e lhe permitiu nos deixar no início de agosto para encontrar a noiva. Devíamos ir ter com ele em Lausanne, onde nos encontraríamos no casamento de minha prima Dolores com Augusto Czartoryski, que devia preceder o dele em quatro dias. Chegando em Lausanne, em 14 de agosto pela manhã, Mamãe, tia Beppa e eu encontramos Nonna acamada, tendo apanhado um forte resfriado. O médico a proibia formalmente de se levantar. Ficamos desoladas por ela ficar privada daquela grande festa de família, bem como do casamento de Pedro Henrique, ao qual ela teria muito prazer em assistir. Toda a família estava reunida. Afonso XIII, os condes de Barcelona que tinham levado Pilar, já um lindo bebê, o rei Fernando da Bulgária, que se tinha feito convidar pela rainha Amélia de Portugal, os condes de Paris, bem como Isa e Estêvão Zamoyski . Para resumir, digo "todos os parentes estavam lá". Henrique, conde de Paris, nos arrastou, na noite anterior ao casamento, a um restaurante em Ouchy. Reinava a alegria, e houve um pouco de confusão. Como manda a etiqueta, no dia 15, fomos entregar pessoalmente, os convites aos diferentes reis e rainhas e parentes. É um costume que não mais se usa, na agitação da vida atual. Em 16 de agosto, celebrou-se o casamento na pequena igreja construída entre Lausanne e Ouchy. Acompanhei a noiva. Ela estava muito bonita e levava na cabeça um diadema como os que se vêem nos retratos de princesas russas. Tia Luísa Czartoryska estava presente apesar de seu luto recente. Ao entrarmos na igreja, vi que as três majestades imperavam em seus tronos no coro. Tive tempo de observar o rei da Bulgária de barbicha branca, já um pouco curvado, tipo misto de Orleans e oriental . A noiva entrou de braço com o pai (tio Nino). O caro Pedá fez um lindo sermão que emocionou a assistência, e o pároco de Saint-Louis-en-Île celebrou a missa. Não tivemos tempo de ficar para o almoço depois da cerimônia. Foi preciso refazer as bagagens e correr para Munique, aonde chegamos no dia seguinte. Pedro Henrique nos esperava no hotel. O casamento civil teve lugar na mesma manhã. Tia Isy tinha querido que a cerimônia se desse em sua casa, mas o prefeito disse que, nesse caso, ele levaria o retrato de Hitler, para que o casamento se desse diante da figura do führer. Naturalmente, ela não aceitou, e fomos todos para a prefeitura, ornamentada por uma profusão de bandeiras nazistas.

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Em fim, à tarde, a avalanche familiar chegou à estação. Eu e tia Beppa logo ficamos aturdidas, mas, pouco a pouco, viajantes e bagagens se encontravam sãos e salvos no hotel reservado para a ocasião. Monsenhor Delair veio passar cinco dias em Munique. Seu gosto pela beleza foi satisfeito. Apesar de já bem doente, ele visitou museus e palácios, e era visível sua alegria de assistir ao casamento de seu pupilo. No dia 18, véspera do casamento, no castelo de Nymphenburg, um almoço de mesinhas foi programado. Foi uma noite muito alegre. O conde de Paris tinha seu lugar marcado na mesa de honra, mas conseguiu fugir e veio se juntar a nós, os jovens. O ambiente estava lindo, iluminado por velas, que davam ainda mais encanto e delicadeza ao cenário rococó, presidido pelo príncipe Ruperto , imponente em seu uniforme de marechal. Mas as lembranças da I Guerra Mundial tinham se apagado, pois éramos todos contra o nazismo, aquele monstro que começava estender sua barbárie sobre a Europa. Vivíamos os últimos dias de uma época ... 19 de agosto de 1937, dia do casamento de Pedro Henrique e Maria da Baviera. Começamos por ir piedosamente comungar em família, em Leutstetten. Os noivos estavam particularmente emocionados diante da nova vida que ia se abrir diante deles. Dei-xamos os Baviera para voltar ao hotel e nos vestir para a cerimônia. Meu pobre irmão ficou nervoso e não conseguia fechar o colarinho da camisa. "Digam que eu não vou! Não vou conseguir ficar pronto!" Acabou por se acalmar e subimos no carro. Mamãe usava um soberbo vestido de faille violeta, com um grande chapéu do mesmo tom. Eu era dama de honra, junto com minhas primas Bourbon e com as irmãs de Deidi e usávamos vestidos de uma espécie de malha branca, uma larga faixa azul na cintura e uma fita azul e rosa nos cabelos. Eram 10:30h quando deixamos o hotel, um pouco angustiados, porque não estávamos adiantados. Mas, enfim, chegamos. O rei da Espanha e todos os convidados já estavam lá. A noiva chegou pouco depois. Estava encantadora, com um vestido simples, mas com um soberbo véu de renda que lhe cobria a cabeça e os ombros, Éramos seis damas de honra encarregadas de abrir o cortejo que se dirigia à capela do castelo, maravilhosamente ornada de flores brancas. Tia Isy estava de cinza pérola, que lhe caía muito bem. Tio Francisco parecia particularmente emocionado de levar sua filha mais velha ao altar. Mamãe, de porte bem imperial, seguia de braço com Pedro Henri-que, também emocionada diante do acontecimento que era uma mudança tão importante na vida dele. O cardeal Faulhaber , arce-bispo de Munique, pronunciou uma bela alocução, que infelizmente compreendi pouco, mas que Mamãe traduziu-me simultaneamente, e depois deu a bênção aos recém-casados e leu
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uma mensagem do cardeal Pacelli, que transmitia a bênção do papa Pio IX. O almoço de casamento foi bem alegre. O rei Afonso XIII, convidado mais importante, deu o tom, pondo-se a dizer brincadeiras e a jogar bolinhas de miolo de pão através da mesa. O príncipe Ruperto não pôde deixar de rir, o que pôs todo mundo na atmosfera de alegria que reinou durante toda a refeição. Penso que a moldura tão harmoniosa da sala ajudou. E depois, aquela espécie de acontecimento que reunia tio e tias, primos e primas, só podia nos levar ao bom humor e a esquecer que dançávamos sobre um vulcão. O jovem casal partiu para Roma. Mamãe, tia Beppa e eu alcançamos Lausanne, para encontrar Nonna e lhe contar das festas das quais ela não tinha podido participar Enquanto isso, no Brasil, novo golpe de estado. O presidente Getúlio Vargas, achando-se impossibilitado de governar, alegando o perigo do comunismo e do integralismo, derrubara a constituição de 1934 e se proclamara chefe de Estado, outorgando uma constituição inspirada no fascismo, a de 1937, que nunca funcionaria direito. Era a 3ª república, o Estado Novo, que haveria de durar até 1945.

1938 O ano começou com um falecimento. Tio Hans morreu em Friburgode-Brisgóvia, em 24 de janeiro, mas a vida também deu o seu sinal. Deidi estava grávida. Sua mãe chegou no fim de maio para estar junto dela na hora do parto. Em 6 de junho, nasceu o primeiro filho de Pedro Henrique, o primeiro de sua geração na Família Imperial. Recebeu o nome de Luís334 em homenagem a Papai. Mamãe foi sua madrinha. Tia Isy e ela estavam orgulhosas e felizes com aquele primeiro neto de ambas. Assim, começou para o casal uma série de nascimentos, já que doze irmãos se sucederiam, formando uma soberba família. Terei ocasião, a medido de meu relato, de falar de cada um deles em particular. Seguíamos com certa inquietação os progressos do nazismo, o crescimento sempre maior do exército e da aviação da Alemanha. Em setembro, houve o acordo de Munique, onde Daladier e

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LUÍS (I) Gastão Maria José Pio, Príncipe Imperial do Brasil (06-061938/05-07-1981), Chefe da Casa Imperial do Brasil (05-07-1981), príncipe de Orléans e Bragança (* Mandelieu, França, 06-06-1938)
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Chamberlain335 cederam diante de Hitler, que anexou a região dos Sudetos336, da Checoslováquia. Como tinham evitado a guerra, ambos foram recebidos delirantemente, e entretanto isso marcou o fim das democracias. Ninguém se mexeu. Desde janeiro, Nonna tinha desejava ir a Friburgo, ver sua filha Gietta, muito só desde a morte de tio Hans, e consultar um médico que, lhe tinham dito, fazia milagres em casos de deficiência de audição. Em setembro ela foi, mas contraiu uma gripe que se transformou numa congestão pulmonar que a levou, em 12 de setembro. Mamãe quis ir até lá, mas sua saúde não estava boa. Fosse o desgosto, fosse um gosto excessivo por chocolate, só sei que, certo dia, ela amanheceu com uma urticária gigante no rosto. Pedro Henrique estava resolvido a partir para o Brasil assim que o pequeno Luís estivesse mais forte, provavelmente antes do inverno. Mas, em outubro, Deidi encontrou-se novamente grávida ...

Artur Neville Chamberlain (* Birmingham, Grã-Bretanha, 18-031869; † Heckfield, Grã-Bretanha, 09-11-1940), filho de José Chamberlain, político inglês, e de Florência Kenrick. X 05-11-1911 Ana de Vere Cole (1883; † ...), de quem teve dois filhos. Primeiro ministro inglês, cuja conduta ultra-pacifista, fez com que cedesse a tudo o que os nazistas exigiam, em detrimento de povos não ingleses. Seu governo caiu em 10-05-1940, e foi substituído pelo de Winston Churchil, que enfrentou os alemães na II Guerra Mundial. 336 Região montanhosa da Checoslováquia, junto à fronteira da Alemanha e a, habitada por uma minoria alemã, e onde estavam instaladas as indústrias Skoda.
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1939 O desaparecimento de Nonna foi uma nova provação para Mamãe. Com o eczema nas pálpebras, seu estado nervoso se agravou. Só encontrava alívio passeando de automóvel. Assim, sugeri uma nova viagem à Itália. Ela aceitou com entusiasmo, propondo a tia Beppa que nos acompanhasse. Também foi pensando na solidão desta última que essa viagem foi planejada. Encontramos na Itália um acolhimento simpático. Todos queriam nos falar em francês. Paremos em Siena. Mamãe já se sentia melhor e, no dia seguinte, pudemos visitar o mosteiro do Monte Oliveto, perdido numa espécie de deserto dantesco, onde ela queria rever o belo Cristo, quadro de Sodoma, que tinha admirado em companhia de Papai. Temíamos a atitude dos italianos, tão ligados aos alemães, mas em todo lugar só encontramos gentilezas, até mesmo uma demonstração de plena confiança. Em Acquapendente, onde paramos para almoçar, vimos que nossas carteiras estavam vazias, mas o hoteleiro nos disse: "Não tem importância, vocês me mandam o dinheiro de
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Roma". Acho que nossos passaportes brasileiros abriam todas as portas. Em 12 de fevereiro, deveria haver uma cerimônia na basílica de São Pedro, para comemorar o décimo aniversário do Tratado de Latrão, mas no dia 10, Pio XI teve uma crise cardíaca e morreu. Roma inteira cobriu-se de luto, mas quase que imediatamente uma excitação geral se apoderou da Cidade Eterna, com o pensamento no futuro papa. Quem seria? Quanto a nós, tínhamos a esperança de que fosse o cardeal Pacelli. No dia seguinte, Titô, juntou-se a nós e nos arrastou a visitas a seus conhecidos. Primeiro, aos príncipes della Scaletta337 que possuíam uma maravilhosa vila acima da Praça del Popolo; depois aos Lancellotti, nossos amigos de sempre, cujo palácio dominava a Praça Navona. Como a princesa era uma Merode338, a conversa se desenrolou em francês. Depois de uma visita ao rei da Espanha, prestamos uma última homenagem ao papa Pio XI, cujo corpo estava exposto na basílica de São Pedro. A longa procissão que se comprimia à entrada nos levou, em sua corrente, no meio de padres, soldados, crianças, mulheres, até diante do corpo do papa, na capela do Santíssimo Sacramento. Não pudemos nos deter, empurrados pelo fluxo que nos levava à saída. Em 14 de fevereiro, houve o sepultamento. Assistimos da tribuna, já ocupada por todos os príncipes espanhóis. As mantilhas pesadas, presas ao alto das cabeças com grandes pentes de tartaruga, não nos permitiram senão um restrito campo de visão. A cerimônia foi longa. Distingui apenas o rosto do camerlengo, Cardeal Pacelli que parecia abalado pela dor, e apresentava, cada vez mais, o aspecto de "Sua Santidade" No dia seguinte, deixamos Roma, e seguimos para a Sicília, via Nápoles, levando Titô conosco, feliz de fazer essa viagem. Paramos em Nápoles. Depois, no outro dia, pela linda estrada que passa por Sorrento e Amalfi, chegamos a Paestum, para visitar o pseudoRUFO Vicente, 5º Príncipe Ruffo, 11º Príncipe della Scaletta (* Roma, Itália, 15-12-1888; † ibd. 20-20-1959), filho de Antônio, 4º Príncioe Ruffo, 10º Príncipe della Scaletta, e de Luísa Borghese.; X ibd. 28-11-1914, Gabriela, condessa Bacci (* Bolonha, Itália, 11-061892; † Roma, Itália, 26-02-1978), filha de Aníbal, conde Bacci, e de Alfonsina, marquesa Rusconi. O casal teve três filhos. 338 MARIA RUDOLFINA Natália Gislena, condessa de Merode (* Bruxelas, Bélgica, 28-09-1884; † Roma, Itália,19-02-1973), filha de Henrique, conde de Merode, marquês de Westerloo, 5º Príncipe de Grimberghe, e de Natália, princesa de Croy. X Westerloo, Bélgica, 0809-1910 Luís Massimo-Lancellotti, príncipe de Prossedi, c.s.
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templo de Poseidon. Por que me decepcionei? Sem dúvida, estava cansada, mas mesmo assim, decidimos prosseguir viagem em direção ao sul. Enquanto nos enfiávamos pelas montanhas, a paisagem se tornava cada vez mais severa e selvagem; atravessamos algumas raras aldeias pouco atraentes, enquanto a noite caía vagarosamente. Pelas 20:00h paramos numa aldeia chamada Torre Orsaia. Sobre a porta de uma das casas, surgiu um letreiro "Osteria"339. Paramos de qualquer jeito. Logo, toda a população masculina da cidade nos rodeou, exclamando com um ar perplexo: "Quatro femmine!"340. Tia Beppa se prontificou em ver o albergue. Uma velha a recebeu e interpelou-a: "E che venite a fa?" "E perchè?" "Che volete?"341 Finalmente, lhe mostrou dois quartos de três camas. Era o que havia e passaríamos a noite ali. Entrei com o carro no saguão do hotel, que era uma espécie de depósito onde tudo se amontoava de qualquer maneira: sacos de mantimentos, esfregões e baldes. Saímos do carro no meio de toda aquela desordem, o tranquei, e subimos para nossos quartos. A dona do albergue nos ofereceu espaguete e queijo para o jantar, mas antes seria preciso que sua família se alimentasse. Eram cerca de vinte pessoas que se instalaram na cozinha, em volta de uma mesa que tinha, ao centro, uma única grande bacia de espaguete. Tal jantar durou cerca de meia hora. Então, nos pediram para sentarmos à mesa. A empregada fez o obséquio de trocar a toalha, mas nos distribuiu os talheres, “por via aérea”. Depois do jantar, houve a cerimônia das fichas a preencher, sob os olhares de suspeita da família inteira. Enfim, pudemos subir. Fazia um frio de cão, e não preciso dizer que dormimos com as roupas do corpo. As camas estavam limpas, mas as gavetas das mesas de cabeceira guardavam os efeitos das noites anteriores. Durante toda a noite fomos o assunto das conversas. Pedaços de frases chegavam até nós: "La macchina ... stranieri342", depois ainda: "la macchina". Apesar dos meus temores, ninguém tocou no veículo. Essa estranha noite nos custou 26 liras! E, pela manhã, mais tranqüilizada, aquela brava gente percorreu a região à procura de café para nos servir, produto bem raro na época. Deixamos nossa singular parada às 7:00h da manhã. A estrada descia e logo, vimos, com alegria, o mar muito azul, e pudemos tomar um reconfortante café da manhã em Sapri.
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Hospedaria. Quatro mulheres! E o que vieram fazer? E por quê? O que querem? O carro, estrangeiros ...
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Surgiu, então, o problema da gasolina e do óleo. Havia quatrocentos quilômetros a percorrer até Reggio. Num posto, completamos o tanque, mas não havia óleo. Felizmente, o Peugeot, por milagre, aceitou passar sem ele, e pudemos admirar, bem à vontade, – salvo Titô, atacada por forte gripe – a soberba costa da Calábria. Paramos em Paola, onde logo o carro foi rodeado por um formigueiro de crianças, vivas e barulhentas, intrigadas em saber nossa nacionalidade. "Napoletana", lhes disse Mamãe. Eles ficaram satisfeitos: "Ah, bravo puro sangue è il vostro, allora!"343 Almoçamos numa pequena tratoria344, mas, na saída, vimos quer dois pneus estavam furados. Os meninos os trocaram e consertaram com uma rapidez extraordinária, felizes de receber 5 liras pelo trabalho. Continuamos em direção a Reggio. Meu Deus, que bela região nos atravessamos! A estrada subia, às vezes, até 700 metros de altitude, através de imensos olivais. As mulheres usavam, ainda, os costumes regionais, saia vermelho-escarlate, avental de renda, amarrado atrás, azul ou amarelo. Andavam descalças, de cabeça erguida, levando um quadrado de pano na cabeça. Chegamos tarde a Reggio, com minha pobre prima cada vez mais abatida pela gripe. Graças a Deus, o hotel era confortável. No dia seguinte, atravessamos o estreito de Messina para chegar a Taormina, na Sicília. Não sei descrever esse lugar tão conhecido, pois herdei a gripe de Titô e passei três dias de cama com um bom princípio de congestão pulmonar, felizmente muito bem tratada por um excelente médico e por um criado do hotel, chamado Giovanni345. Mamãe não teve receio de me deixar aos cuidados deles para receber a visita de tio Nando346, recepcionado por uma das grandes famílias sicilianas, os Carcacci. No dia 27, voltamos, aborrecidas de ter perdido a volta pela Sicília que teríamos gostado de fazer, mas também desejávamos chegar em Roma, a tempo de assistir a eleição do papa, fixada para 2 de março. Consolamo-nos um pouco, subindo a soberba rampa acima de Scilla e do golfo de Lívia. Numa aldeia, pedimos a uns meninos que saíam da escola que nos indicassem um restaurante. Todos se propuseram a nos acompanhar. Colocamos um deles – altivo como um pavão –
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Ah, bravo, então seu sangue puro!" Taverna. 345 João. 346 Como Chefe da Casa Real das Duas Sicílias, era extremamente considerado em todo o sul da Itália, onde a unificação não trouxera efeitos positivos.
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dentro do carro, enquanto os outros corriam atrás. Depois, foi a subida até Nápoles, onde encontramos as duas irmãs SerraCapriola347, Maria Sanfelice348 e os Ferrante349. Toda essa gente já nos deixou, e eu me sinto emocionada ao reler-lhes os nomes. Enfim, Roma, no fim da tarde de 1º de março. Todo mundo estava na maior excitação: a eleição do novo papa devia ter lugar no dia seguinte. Seria eleito no mesmo dia ou no fim de cinco, como seu predecessor? No dia 2, às 11:00h, fomos à praça de São Pedro, que pouco a pouco se encheu de gente. Ouviam-se todas as línguas, viam-se todas as ordens religiosas, todos os seminaristas de batinas vermelhas, violetas, brancas, segundo sua origem. Cerca do meio dia, a fumaça começou a sair, primeiro branca, mas escureceu rapidamente. Decepcionada, a multidão se dispersou. Às 16:00 h, voltamos à praça que estava negra de tanta gente. Parece que nossa parentela estava toda lá, mas ninguém encontrou ninguém. Pouco depois das 17:00h, a fumaça saiu de novo branca, logo parou. Uma criança gritou "È bianca!"350 A multidão vibrou, pois esperava ansiosa. Sobre as colunatas, os membros do corpo diplomático fizeram grandes gestos de bênção como para nos avisar que já tínhamos um papa. Enfim, a janela da loggia se abriu e um tapete vermelho foi pendurado do balcão. Um cardeal apareceu e recitou a fórmula: "Annuntio vobis gaudeam magnam: habemus papam, reverendissimum cardinalem Eugenium351 ..." E a multidão completou, gritando: “... Pacelli!", seguido de uma tempestade de aplausos. Participamos, com todo nosso ser, desse entusiasmo. A claridade estava quase no fim, num azul profundo, as estrelas já estavam aparecendo, e uma calma, uma espécie de alegria serena parecia pairar sobre o mundo. Logo se acenderam as luzes da galeria de São Pedro. Família da nobreza napolitana, sempre fiéis à monarquia dos Bourbons. 348 Maria, princesa Sanfelice (* Paris, 03-03-1865; † Savignano, Itália, 24-02-1942), filha de Francisco de Assis Sanfelice de Bagnoli, 1º marquês de Monteforte, patrício de Nápoles, príncipe de Viggiano, e de Francisca de Paula, princesa Ruffo della Scaletta. 349 Família da nobreza napolitana, sempre fiéis à monarquia dos Bourbons. 350 "É branca". Sinal de um papa ter sido eleito. 351 Anuncio-vos uma grande alegria: temos Papa, o reverendíssimo cardeal Eugênio Pacelli.
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Quando Pio XII apareceu já vestido de branco, a multidão se ajoelhou, e, depois da bênção, o aclamou longamente, pois ele era o predileto de todos os corações. Eu fiquei pensando na previdência de Pio XI que o tinha preparado tão bem para desempenhar as funções de um papa moderno, enviando-o, como seu o representante, a todas as partes do mundo... Quando tomamos o táxi de volta, o motorista voltou-se para Mamãe e lhe disse: "L'abbiamo fatto, il papa!"352 Como a coroação não devia ter lugar senão a 12 de março, decidimos ficar em Roma, fazendo visitas às famílias que conhecíamos. O príncipe Lancellotti tinha estado, como assistente do príncipe Chigi353, grão-mestre da Ordem de Malta, no fechamento das portas do conclave, nos contou que todo mundo estava em grande gala e os cardeais Belmonte354 e Pacelli tinham sido os últimos a entrar, com fisionomias alegres, certos de não serem eleitos... Pacelli já tinha preparado seu passaporte para ir repousar na Suíça. Mamãe me levou para apresentar os cardeais que ela conhecia. Primeiro, foi o cardeal Gerlier que nos recebeu com sua bondade habitual, lembrando-se do tríduo de Lourdes, antes de nos contar sua instalação no conclave, onde os cardeais ficam inteiramente murados. Mesmo as janelas de seu quarto estavam seladas... Interrompeu bruscamente: "Não se sabe mais o que se pode revelar, pois estamos sob perigo de excomunhão, à menor indiscrição", nos disse. Passou, então, a nos falar de sua esperança quanto ao soerguimento da França. "Afinal, fizemos o papa". . D. Luís, Príncipe Chigi della Rovere Albani, 8º Príncipe del Santo Romano Impero, 8º Duque de Albano e de Formelle (* Ariccia, Itália, 10-07-1866; † Roma, Itália, 14-11-1951), filho de D. Mário Príncipe Chigi della Rovere Albani, 7º Príncipe del Santo Romano Imperio, 7º Duque de Albano e de Formelle, e de Antonieta, princesa de SaynWittgenstein-Sayn. X Roma, 05-06-1893, Ana Aldobrandini (* Roma, 08-12-1874; † Ariccia 17-09-1968), filha de Pedro Aldobrandini, príncipe de Sarsina, e de Francisca de La Rochefoucauld. O casal teve dois filhos, entre eles D. Sigismundo, Príncipe Chigi della Rovere Albani, 9º Príncipe del Santo Romano Impero, 9º Duque de Albano e de Formelle 354 Januário Granito-Pignatelli di Belmonte (* Nápoles, Itália, 10-041851; † Vaticano, 16-02-1948), filho de Ângelo Granito-Pignatelli, Príncipe de Belmonte e Marquês de Castellabate, e de Paulina Pignatelli y Americh. Ordenado 07-06-1879; bispo em 26-11-1899; cardeal em 27-11-1911. Núncio na Bélgica e na Áustria. Era conhecido por sua caridade para com os doentes.
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Em seguida, Mamãe pediu audiência a D. Sebastião Leme355, cardeal arcebispo do Rio de Janeiro, que nos pediu para vir no dia seguinte, às 11:30h, ao Colégio Brasileiro. Tomamos um táxi para chegar lá. O colégio estava situado na via Aurélia, bastante longe, quase na campina romana. Um padre nos esperava na porta e nos fez entrar numa sala. Logo chegou o cardeal. Ele tinha conhecido Mamãe por ocasião da triste viagem ao Brasil, no curso da qual Bon-Papa morrera356. O cardeal lhe disse que ela tinha deixado uma lembrança imperecível no Brasil e que era absolutamente necessário que voltássemos para lá. E acrescentou: "A situação lá está calma, enquanto que, na Europa, certamente haverá guerra". Do ponto de vista político, ele lamentava que o presidente Vargas imitasse demais o nazismo. Depois de uma hora, ele mandou que o colégio se reunisse para apresentar Mamãe. Havia uns trinta padres e seminaristas, aos quais o cardeal disse: "Eis a nossa Imperatriz"357. Mamãe pediu-lhe que rezasse por Pedro Henrique para que ele pudesse cumprir sua tarefa se um dia Deus o chamasse a isso. Depois, todos em coro cantaram o hino nacional, e gritaram "Viva a Imperatriz!" ao que Mamãe respondeu: "Viva o Brasil! Viva o cardeal!". Depois, todos nos acompanharam até a porta, dando, ainda, vivas. Na hora de voltar, o pobre motorista do táxi estava tão impressionado que não conseguia fazer o motor pegar. No hotel, ele correu para nos abrir as portas, nos saudando em voz baixa, recuando e dizendo: "Grazie, grazie, grazie!"358 Estávamos satisfeitas de ter prolongado a estada em Roma. Toda tarde, tia Ghigara vinha ver Mamãe, e evocavam juntas as respectivas infâncias. Ela estava feliz de não se encontrar em D. SEBASTIÃO LEME da Silveira Cintra (* Espírito Santo do Pinhal, SP, 20-01-1882; † Rio de Janeiro, RJ, 17-10-1942), filho de Francisco Furquim Leme e de Ana Pio da Silveira Cintra. Ordenado sacerdote São Paulo, 28-10-1904; bispo titular de Artósia (24-061911), arcebispo de Olinda (29-04-1915), arcebispo-coadjutor do Rio de Janeiro (15-03-1921) e 2º Cardeal do Rio de Janeiro (30-061930), sucedeu ao Cardeal D. Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcânti, e foi sucedido por D. Jaime de Barros Câmara. Era bispo coadjutor do Rio de Janeiro em 1922. 356 Quando ainda era bispo coadjutor na arquidiocese do Rio de Janeiro. 357 D. Sebastião Leme, com certeza, sabia que D. Maria Pia nunca poderia ter usado esse título, pois ficara viúva antes do falecimento da sogra que nunca abdicara em favor do filho. Mas era mais fácil chamá-la de "Imperatriz", subentendendo-se "Mãe", do que de "Princesa Imperial Viúva", título de difícil compreensão. 358 Obrigado, obrigado, obrigado!
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Brunsee, onde os nazistas tornavam a vida cada vez mais insuportável. Depois, fazíamos passeios sem fim na pela campina romana. Fizemos uma peregrinação a Genazzano, onde se encontra a Virgem do Bom Conselho359. Nesse ínterim, Maria, condessa de Barcelona, deu a luz à segunda filha, Margarida360. O batismo, com grande pompa, celebrado por um cardeal, teve lugar na igreja de Nossa Senhora de Montserrat, sendo padrinhos o tio paterno, Jaime, duque de Segóvia, e a tia materna, Esperanza. Os reis da Espanha tinham o ar de estarem muito felizes por se encontrarem juntos. Assim aqueles dez dias se passaram rapidamente, e chegou o dia da coroação. Para a ocasião, tinham sido alugado dois carros de luxo: no primeiro foram tio Nando e toda sua família361; no outro, tia Gietta, seu sobrinho afim362, Yuri, padre jesuíta, Mamãe e eu. Saímos às 8:30h, embora só devêssemos chegar às 9:15h para entrar na basílica. Estava programado que os príncipes de Parma chegassem às 9:00h; os de Nápoles (e do Brasil), às 9:15h; e os da Espanha, às 9:30h. As ruas do centro que davam acesso à Praça de São Pedro tinham sido mantidas livres para facilitar a chegada dos convidados. Ao penetrarmos na basílica, Yuri disse: "Estamos entrando no teatro de Deus!" Era um pouco verdade, mas, meu Deus, como era bonito! A basílica estava forrada de vermelho. Na véspera tínhamos assistido aos malabarismos dos sanpietrini363, pendurados em cordas, lançando-se de uma coluna à outra para fixar as tapeçarias, o que era realmente impressionante. Entramos, precedidos pelos guardas suíços e ladeados por um camareiro secreto. Os Parma já estavam lá: tia Antônia, Luís e Maria, recém-casados, Xavier, Isabel364, Caetano365, bem como Duarte, Segundo a tradição, o quadro da Virgem do Bom Conselho foi subtraído, milagrosamente, da Albânia, onde tinha sido pintado, e levado para a Itália, em face da ameaça muçulmana. 360 MARGARIDA Maria da Vitória Esperança Jacobina Felicidade e todos os santos, infanta da Espanha, duquesa de Sória e Hernani (* Roma, Itália, 06 de março de 1939), filha de João III, rei (titular) da Espanha, conde de Barcelona,e de Maria, princesa de Bourbon. X Estoril, Portugal, 12-10-1972, Carlos Zurita y Delgado (* Málaga, Espanha, 10-10-1943). O casal tem dois filhos. A infanta nasceu com grave deficiência visual. 361 Dela fazia parte a prima Titô. 362 Filho do irmão mais velho de João Jorge de Saxe (tio Hans). 363 Operários que trabalham na basílica. 364 ISABEL Maria Antonieta Luísa Edviges (* Paris, França, 24-031922), filha de Sixto, príncipe de Bourbon-Parma, e de Edviges de La Rochefoucauld-Deaudeville; X ibd. 22 e 23-06-1943 (÷ 1966) 364
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duque de Bragança e sua irmã, a infanta Filipa. Colocaram Mamãe na primeira fila, e eu a segui, dizendo não poder deixá-la sozinha por causa de sua deficiência visual. Logo depois, chegaram os espanhóis que, salvo o rei e a rainha, foram colocados aleatoriamente atrás. Muito egoistamente, me rejubilei com isso. Os grandes pentes espanhóis não me iriam impedir de ver. Estavam lá, também, Eudóxia e Nadejda da Bulgária366, e a filha do Príncipe Imperial da Prússia367, que, embora, protestante, não faltava a uma cerimônia sequer na basílica de São Pedro. Na Elevação e na Comunhão, não se ajoelhava, mas se sentava para não ser vista em pé. Às 9:45 os príncipes do Piemonte368 deram entrada na basílica, bem lenta e dignamente. Maria José estava vestida de branco, privilégio da Casa de Savóia369, com jóias e diadema. Ambos tinham um grande porte e foram colocados numa tribuna diante do lado da epístola.370 ROGÉRIO Alexandre Luciano Francisco, conde de La Rochefoucauld (* Paris, França, 08-10-1915; † (ac.) Saint-German-les Paroisses, França, 13-08-1970), filho de Pedro, conde de La RochefoucauldEstissac, e de Henriqueta de La Roche. O casal teve 5 filhos.. 365 CAETANO Maria José Pio, príncipe de Bourbon-Parma (* Pianore, Itália, 11-06-1905; † Mandelieu, França, 09-03-1958), filho de Roberto, duque de Parma, e de Maria Antônia, infanta de Portugal; X Paris, França, 29-04-1931; ÷ Budapeste, Hungria, 30-08-1955, MARGARIDA Maria Teresa Isabel Frederica Alexandra Luísa, princesa de Thurn e Taxis, (* Beloeil, Bélgica, 08-11-1909; † Forte dei Marmi, Itália, 21-09-2006), filha de Alexandre, príncipe de Thurn e Taxis, 1º Duque de Castel Duíno, e de Maria, princesa de Ligne. O casal teve apenas uma filha. 366 NADEJDA Clementina Maria Pia Majela, princesa da Bulgária (* Sófia, Bulgária, 30-01-1899; † Stuttgart, Alemanha, 15-01-1958), filha de Fernando I, rei da Bulgária, e de Maria Luísa, princesa de Bourbon-Parma; X Bad-Mergentheim, 24-01-1924, Alberto Eugênio, duque do Württemberg (* Stuttgart, Alemanha, 08-01-1895; † Gmünd-da-Suábia, Alemanha, 24-06-1954), filho de Alberto, duque do Württemberg, e de Margarida Sofia, arquiduquesa da Áustria, paladina da Hungria. O casal teve cinco filhos. 367 ALEXANDRINA Irene, princesa da Prússia (* Berlin, Alemanha, 0704-1915; † Starnberg, Alemanha, 02-10-1980), filha de Guilherme (II), Chefe da Casa Real da Prússia, e de Cecília, princesa de Mecklemburg-Schwerin. Sua mãe era amiga de juventude de D. Maria Pia. 368 Humberto de Savóia, príncipe herdeiro da Itália, e sua esposa Maria José, princesa da Bélgica. 369 E das rainhas católicas. 370 Lado direito de quem olha para o altar. Denominação anterior ao Concílio Vaticano II.
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Imediatamente depois, chegaram Félix371, grão-duque372 do Luxemburgo, e seu filho João373, o duque de Norfolk374, representando o rei da Inglaterra, o conde de Flandres375, o rei da Bélgica376, depois todos os chefes de governo: Ciano377, FÉLIX Maria Vicente, príncipe de Bourbon-Parma (* Schwarzaude-Steinfeld, Áustria, 28-09-1893; † Fischbach, Luxemburgo, 08-041970), filho de Renato, duque de Parma, e de Maria Antônia, infanta de Portugal; X Luxemburgo 06-11-1919, CARLOTA Aldegunda Isabel Maria Guilhermina, princesa de Nassau e do Luxemburgo, GrãDuquesa Herdeira do Luxemburgo (25-02-1912/15-01-1919), GrãoDuquesa do Luxemburgo e Chefe da Casa Ducal de Nassau (15-011919/12-11-1964) (* Colmar-Berg, Luxemburgo, 23-01-1896; † Fischbach, Luxemburgo, 09-07-1985), filha de Adolfo II, Grão-duque do Luxemburgo e Chefe da Casa Ducal de Nassau, e de Maria Adelaide, infanta de Portugal. O casal teve seis filhos, entre os quais João I, que sucedeu a sua mãe, e Alice, princesa de Antônio de Ligne, mãe da princesa Antônio João do Brasil. 372 Consorte, pois sua esposa Carlota, era grã-duquesa reinante. 373 JOÃO I Bento Guilherme Roberto Antônio Luís Maria Adolfo Marcos de Aviano, príncipe de Bourbon-Parma, Herdeiro da Chefia da Casa ducal de Nassau, Grão-Duque Herdeiro do Luxemburgo e Nassau (0501-1921/12-11-1964), Grão-Duque do Luxemburgo, Chefe da Casa Ducal de Nassau (12-11-1964/07-10-2000),* Berg, Baviera, Alemanha, 05-01-1921; X Luxemburgo 09-04-1953, JOSEFINA CARLOTA Ingeburga Isabel Maria Josefa Margarida, princesa da Bélgica (* Bruxelas, Bélgica, 11-10-1927; Fischbach, Luxemburgo, 10-01-2005), filha de Alberto I, rei da Bélgica, e de Isabel, duquesa em Baviera; O casal teve cinco filhos, entre os quais Guilherme I, atual grão-duque.. 374 BERNARDO Marmanduke Fritzalan-Howard, 16º duque de Norfolk, conde Arundel, Surlfolk e Berkshire, Carlisle e Effingham,, barão Fitzalam de Derwent, (* Arundel, Inglaterra, 30-05-1908; † ibd. 3001-1975), filho de Henrique, 15º duque de Norfolk, conde Arundel, Surlfolk e Berkshire, Carlisle e Effingham,, barão Fitzalam de Derwent, e de Guendolina Constable-Maxwell, 12ª baronesa Herries de Terregles, X Lavínia Maria Strutt (* Londres, Inglaterra, 22-031916; † ibd. 10-12-1995). O casal teve três filhas. 375 CARLOS Teodoro Henrique Antônio Menrado, príncipe da Bélgica, Duque de Flandres, Regente da Bélgica (20-09-1944/01-07-1950)(* Bruxelas, Bélgica, 10-10-1903; † Ostende, Bélgica, 01-06-1983), filho de Alberto I, Rei da Bélgica, e de Isabel, duquesa em Baviera. X Paris, França, 14-04-1977, Luísa Maria JACQUELINE Peyrebrune (* La Réole, França, 16-02-1921), filha de Alfredo Oeyrebrune e de Maria Madalena Triaut, s.s. 376 LEOPOLDO III Filipe Carlos Alberto Menrado Humberto Maria Miguel, príncipe da Bélgica, Duque Herdeiro de Flandres (16-11165
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representando a Itália, Champetier de Ribes378, representando a França. A longa fila de cardeais entrou e se colocou entre o trono de São Pedro e o altar mor. As trombetas de prata anunciaram a chegada do papa, levado na sedia gestatoria. Ele abençoou a multidão que a aplaudia. Passando diante de nossa tribuna, abençoou-nos especialmente. Um a um, os cardeais subiram os degraus do trono e beijaram o anel do Santo Padre. O velho cardeal Baudrillard379 teve que ser amparado por um mestre de cerimônias. Enfim, os bispos se aproximaram e beijaram o calçado do papa. O príncipe Colonna380, assistente al trono, colocou-se à direita de Pio XII.

1905/17-12-1909), Duque de Flandres, Príncipe Real da Bélgica (1712-1909/17-02-1934), Rei da Bélgica (17-02-1934/17-07-1951)(* Bruxelas, Bélgica, 03-11-1901; † ibd. 25-09-1983), filho de Alberto I, Rei da Bélgica, e de Isabel, duquesa em Baviera; X I Bruxelas, Bélgica, 10-11-1924; ASTRID Sofia Luísa Teodora, princesa da Suécia e de Vestrogótia (* Estocolmo, Suécia, 17-11-1905; † (ac.) Küsnacht, Suíça, 29-08-1935), filha de Carlos, príncipe da Suécia, duque de Vestrogótia, e de Ingeburga, princesa da Dinamarca. O casal teve três filhos: entre os quais Balduíno I, Alberto II, reis da Bélgica, e Josefina Carlota, grã-duquesa do Luxemburgo. X II 11-09 e 06-121942, MARIA LILIANA Baels, Princesa de Réthy (* Londres, Inglaterra, 28-11-1916; † Bruxelas, Bélgica, 07-06-2002), filha de Henrique Baels e de Maria de Visscher. O casal teve três filhos. 377 João Galeazzo Ciano, conde de Cortelazzo (* Liorna, Itália,18-021903, † (fuzilado)Verona, Itália, 11-01-1944), filho de Constâncio Ciano, conde de Cortelazzo, e de Carolina Pini; X Roma, Itália, 24-041930 Edda Mussolini (* Forli, Itália, 01-09-1910; † Roma, Itália, 0904-1995), filha de Benito Mussolini e de Raquel Guidi. O casal teve três filhos. Colaborador de seu sogro, desentendeu-se com ele e se afastou do governo. Partidário da rendição da Itália aos aliados, teve de fugir. Capturado pelos alemães, foi fuzilado como traidor a mando do próprio sogro. 378 Augusto Champetier de Ribes (* 1882; † ... 03-1947) 379 Alfredo Henrique Maria Baudrillart (* Paris, França, 06-01-1859; † ibd. 19-05-1942). Ordenado, 09-07-1893; bispo, 28-20-1921; arcebispo, 12-04-1928; cardeal, 16-12-1935. Ferrenho anticomunista, apoiou o ministro Pedro Laval, no governo de Vichy. Bispo Titular de Eméria e Meelitene. 380 D. Marcantônio, príncipe Colonna, 15º Príncipe de Paliano (08-081923/09-03-1947) (*Roma, Itália, 25-07-1881; † ibd. 09-03-1947), filho de D. Fabrício Colonna, 14º Príncipe de Paliano, e de D. Olímpia Doria-Pamphili-Landi; X 08-07-1909 Isabel Helena Sursock. O casal teve três filhos.
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A missa começou, concelebrada por Pio XII, pelo cardeal Gerlier e por um bispo de rito oriental. Admirei a agilidade do papa que se ajoelhava e se levantava com uma facilidade surpreendente apesar dos paramentos particularmente pesados de que estava revestido. No momento da Elevação, as trombetas de prata soaram novamente, mas o momento mais emocionante foi o da Comunhão. O cardeal Verdier trouxe o cálice para o Santo Padre que tomou um terço do vinho com uma espécie de cânula de vidro. O cardeal Gerlier e o bispo oriental consumiram os outros terços. Depois o papa tomou igualmente um terço da hóstia e se recolheu tão profundamente que o mestre de cerimônia teve de tocá-lo ao ombro, para fazê-lo voltar à terra. Não se pode esquecer uma tal cerimônia. Ela permanece entre os favores que Deus houve por bem nos conceder. Logo depois da missa, fomos conduzidos para fora pelo camareiro secreto Caraccio di Torino, à tribuna do corpo diplomático, onde encontramo-nos lado a lado com delegados brasileiros e franceses. O tempo estava soberbo, mesmo muito quente, a praça de São Pedro negra de tanta gente. O papa apareceu na loggia, levado sobre a sedia, encontrando-se na altura do peitoril. A multidão gritou "Eviva il papa!"381 e depois calou-se para o instante da coroação que foi muito rápida. Pio XII deu, em seguida, a bênção urbi et orbi382. Calmamente nos retiramos com o coração cheio de alegria. Foi um dia inesquecível. Ao cair da tarde fomos a uma recepção no soberbo palácio do Corso, do príncipe Colonna. Entramos com os tios Calábria, escoltados pelo príncipe Lancellotti. O príncipe Colonna nos recebeu à porta e nos apresentou a princesa383 que era libanesa. Os salões estavam apinhados de gente. Ficamos só uma hora, mas tivemos tempo de ver o "trono do papa", voltado para a parede desde o fim do poder temporal384. Durante essas horas extraordinárias, tínhamos esquecido a gravidade da situação internacional. A Alemanha acabava de invadir a Checoslováquia, apesar da promessa assinada por Hitler em Munique. A Europa assistiu esse drama sem mover um dedo. Durante a semana santa, a Itália entrou na Albânia, reclamou, em seguida, a Viva o Papa! À cidade (Roma) e ao mundo. 383 Isabel Helena Sursock (* Beirute, Líbano, 16-02-1889; † Roma, Itália, 05-11-1984), filha de Alexandre Nicolau Sursock e de Emília Xehde. 384 Para a aristocracia romana, o tratado de Latrão dava apenas uma migalha ao papado. Roma inteira, pelo menos, é que deveria ter sido devolvida à Santa Sé. Por isso a poltrona (trono) continuava voltado para a parede.
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Tunísia, a Córsega e a Somália Francesa, ao que Daladier respondeu com uma viagem à Córsega e à Tunísia, onde foi recebido triunfalmente. Os meses da primavera passavam e a vida continuava. Houve quermesse na igreja de Mimosas, onde o bom padre Penon tinha sido substituído por um mais jovem, o padre Guillon, que se tornou para nós mais que um pároco, um amigo, que ia nos amparar nas horas difíceis no tempo da guerra. Foi ele que, mais tarde, diria a missa de meu casamento. Penso em citá-lo, ainda, no curso desse relato. Houve também uma festa de gala no Cassino de Cannes, para ajudar as Irmãs de Caridade. Eu fui encarregada por minha amiga Annette Baude de vender convites. Ainda vejo o vestido de Annette, de musselina vermelha, que caía bem com sua esbeltez e seus cabelos louros. Seguiu-se um jantar presidido pela duquesa de Vendôme385 e pelo rei Gustavo V, da Suécia. Os outros patronos eram o prefeito de Cannes, Sr. Nouveau, os marqueses de Chaponay386, ela muito bonita em seu vestido branco, e eu. O Cassino de Cannes era um lugar elegante, onde toda a sociedade de antes de guerra vinha, fosse para jantar, fosse para lanchar, fosse para tentar a sorte na roleta. O monstro que se construiu em seu lugar me faz empalidecer de tristeza, cada vez que vou a Cannes. O verão foi bem calmo. Voltamos, ainda, uma vez à Itália, para acompanhar tio Nando que desejava concluir a venda da vila de Caprarola. Já tínhamos visitado essa propriedade da Casa Real das Duas-Sicílias e ficamos desoladas com a decisão do tio, mas parece que, para salvar o que sobrava das paredes e das lindas fontes, não havia outra solução.

HENRIQUETA Maria Carlota Antonieta (* Bruxelas, Bélgica, 30-111870; † Sierre, Suíça, 28-03-1948), filha de Filipe, príncipe da Bélgica, conde de Flandres, e de Maria, princesa de Hohenzollern X Bruxelas, Bélgica, 12-02-1896 Filipe MANUEL, príncipe de OrleansNemours, duque de Vendôme. O casal teve quatro filhos, entre os quais Maria Luísa, esposa de Filipe de Bourbon-Sicília (tio da autora) e Genoveva, marquesa de Chaponay. 386 GENOVEVA Maria Joana Francisca Chantal Mônica Luísa Albertina Josefina Gabriela Manuela Henriqueta, princesa de Orléans-Nemours (* Neuilly-do-Sena, França, 21-09-1901; † Rio de Janeiro, Brasil, 2208-1983); X Neuilly-do-Sena, França, 02-07-1923, ANTÔNIO, marquês de Chaponay (* Paris, França, 30-01-1893; † Rabat, Marrocos, 09-09-1956). O casal teve dois filhos.
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No início do mês de junho, o Principado de Mandelieu teve sua população aumentada. Dia 9, nascia Eudes387, segundo filho de Pedro Henrique e de Deidi. Moreno, fisicamente bastante parecido com o pai, tinha uma personalidade bem forte, comparando-se com a de Luís, mais calmo e louro como um bávaro. Pedro Henrique esperava apenas que Deidi pudesse viajar e que o bebê ficasse mais forte para enfrentar a viagem que os levaria definitivamente ao Brasil. Infelizmente, o eczema das pálpebras de Mamãe só piorava. Aconselharam-na a fazer uma hidroterapia em La Roche-Posay, célebre pelo alívio que suas águas traziam às doenças de pele. Eisnos, de novo, na estrada. Júlia Billier, a empregada, nos acompanhou, e chegamos no dia seguinte a um lindo "buraco". O único ponto bonito era a igreja românica, e gostamos dos nomes das ruas: Bourbon, São Luís, Du-Guesclin ... Mamãe começou corajosamente o tratamento que deveria durar três semanas, sob a supervisão do diretor do estabelecimento termal, Dr. Huet. Às tardes visitávamos os arredores que eram bem bonitos, chegando até Saumur, Poitier ou mesmo Richelieu, da qual não restam senão a parte baixa dos muros. Tive de deixar Mamãe por dois dias, para ir representá-la nas cerimônias comemorativas de 700 anos da trazida para a França, da Coroa de Espinhos, por São Luís. Foi um dia bem emocionante, onde os príncipes, na pessoa de Xavier de Bourbon-Parma e eu, festejamos nosso santo antepassado, em companhia da república, representada por Champetier de Ribes, mandado pelo presidente, e do subprefeito de Sens, particularmente amável. O cardeal Gerlier estava igualmente presente. No almoço, que reuniu gente tão diferente, ele me disse: "É preciso que seja uma festa verdadeiramente religiosa para conseguir reunir, em volta da mesma mesa, Vossa Alteza Imperial, os representantes da república, e os cardeais..."

EUDES Maria Reniro Pedro José, príncipe do Brasil (09-061939/03-06-1966) e de Orléans e Bragança (* Mandelieu, França, 09-06-1939); X I São Paulo, SP, Brasil, 08-05-1967; ÷ Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 1976, ANA MARIA César de Moraes e Barros (* São Paulo, SP, Brasil, 20-11-1945), filha de Luís de Moraes e Barros e de Maria do Carmo Cerqueira César. O casal teve dois filhos. - X II Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 26-03-1976, MERCEDES Willemssens Neves da Rocha (* Petrópolis, RJ, Brasil, 26-01-1955), filha de Guy de Proença Neves da Rocha e de Lia Veiga Willemssens. O casal teve quatro filhos.

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Voltando a La Roche-Posay, encontrei Mamãe bem melhor. O tratamento parecia estar tendo êxito. Infelizmente, a guerra impediu que voltássemos lá no ano seguinte como tinha sido previsto. Mamãe quis ir à Suíça para estar com seus parentes, mas a guerra se desenhava cada vez mais no horizonte. A atmosfera tornou-se extremamente tensa. Hitler se mostrava mais a mais exigente por Dantzig388, e concentrava tropas na fronteira com a Polônia, mas ninguém queria acreditar que o conflito explodiria. Chegando da Suíça, vimos as praias repletas de gente, os campings cheios e as estradas com engarrafamentos monstros. Como a atmosfera era diferente da que tínhamos visto na Alemanha e mesmo na Suíça! Bruscamente, enquanto os delegados franceses e ingleses se encontravam em Moscou procurando tratar com a Rússia, os alemães e russos assinaram um tratado de não-agressão389 Dessa vez, a guerra parecia inevitável. O fim do mês de agosto foi de uma expectativa penosa. Como sempre, as conversações entre Chamberlain e Hitler se arrastavam sem fim, enquanto o mundo inteiro ficava à escuta. O que será amanhã? De nosso terraço de observação, vimos carros se dirigirem para o Oeste, carregados de malas, de roupas amontoadas, colchões sobre o teto, gaiolas de passarinho sobre o porta-malas. Cannes se esvaziou quase completamente. Para complicar as coisas, o pequeno Luís foi atacado de poliomielite. Não havia vacinas e o tratamento era quase que paliativo. Meu sobrinho se salvaria, mas ficaria com graves seqüelas. Passou o mês de agosto. Em 1o de setembro, Hitler tornou públicas suas exigências, que eram inaceitáveis. Desta vez era mesmo guerra. Ficamos pendurados no rádio, ouvindo notícias transmitidas de Juanles-Pins. Os alemães tinham bombardeado Varsóvia, Cracóvia, Grodno e outras cidades. Tinham usado a Checoslováquia anexada como base do ataque. Percebia-se, agora, como tudo tinha sido calculado de antemão. Estávamos sempre no escuro, e as notícias mais extravagantes corriam as ruas e as multidões. A Itália teria aberto as fronteiras à

Porto da Prússia Oriental, tinha sido transformado em "cidade livre" pelo tratado de Versalhes. 389 Tratado de Ribentrop-Molov, que dividia a Polônia entre russos e alemães.
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França. O general Gamelin390 estaria na fronteira". Mais tarde, soube que essa era sua idéia, mas o governo o impedira. Dia 3 de setembro, os embaixadores da França e da Inglaterra deram seu ultimato ao führer: "Retire suas tropas da Polônia, ou entraremos em guerra". No dia seguinte, às 14:00h, a rádio anunciou que as hostilidades tinham começado. Todos esses acontecimentos não serviam para melhorar a saúde de Mamãe. Vivíamos numa atmosfera de nervosismo, o que aumentava o prurido que ela sentia nas pálpebras. Os benefícios de La RochePosay regrediram pouco a pouco, e os médicos não sabiam mais o que fazer para aliviá-la. A mobilização foi feita da maneira mais estranha possível. Viam-se militares com velhos uniformes da I Guerra Mundial; puseram um dentista para se ocupar de cavalos... Todos os recrutados eram bravos e corajosos, estavam prontos a lutar, mas a falta de preparação nos deixava embasbacados. Quando pudemos, fomos a Saint-Sauveur visitar tia Carolina que estava na maior angústia, pois não tivera mais notícias de suas irmãs391. Dos Czartoryski, também, nenhuma notícia. Que teria acontecido com Dolores e Augusto, a cujo casamento tínhamos assistido com tanto prazer, há tão pouco tempo? Pedro Henrique ainda pensava em partir para o Brasil, mas havia o problema de saúde de Luís, que o preocupava, e o tempo passava bloqueando os lugares onde ele se encontrava, cortando-lhe todas as possibilidades de sair da França. Maurício Gustavo Gamelin (* Paris, França, 20-09-1872; † 1958). Ministro da Guerra do governo Deladier procurou melhorar o exército francês; Foi substituído pelo general Máximo Weygand em 17-051940; preso, em 1941, pelo governo de Vichy, foi entregue aos alemães em 1943. Libertado em 1945, publicou suas memórias em 1946. 391 2) Maria Josefa, princesa Zamoyska (* Varsóvia, Polônia, 23-031887; † Le Vesinet, França, 17-02-1961) X I Varsóvia, 12-06-1906 Carlos, príncipe Radzwill (* Berlin, Alemanha, 13-03-1904; † 21-101976); X II Florença, Itália, 12-02-1912, João Bisping (* Strubnica, Polônia, 30-01-1880; † (as) ... 1939). 2) Maria Isabel [Rosa], princesa Zamoyska (* Cracóvia, Polônia, 30-04-1891; † Druzbaki, Boêmia, 11-06-1957); X Cracóvia, Polônia, 12-06-1910 Estêvão, conde Brzozowski (* ... 1881; † ... 1940). 3) Maria Teresa, princesa Zamoyska (* Varsóvia, Polônia, 29-11-1904; † Druzbaki, Polônia, 2812-1953), filha de André, conde Zamoyski e de Carolina, princesa de Bourbon-Sicília-Trapani. X 26-01-1938 Jorge Jezierski (* Sobienie, Polônia, 20-03-1985; † (as) ... 1939).
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A Espanha desempenhou um papel benéfico naqueles dias sombrios, permitindo que a maior parte dos parentes escapasse daquele inferno. Soubemos, por tio Nino, que Augusto e Dolores tinham conseguido sair da Polônia e chegar à Espanha. Pelo menos alguns parentes estavam são e salvos. Em compensação, soubemos que Henrique Grocholski, com o qual tínhamos estado, em Lourdes, um ano antes, tinha sido morto: ferido em combate, os alemães abandonaram-no no caminho, deixando-o morrer por falta de socorro. Novembro avançava. A "guerra engraçada"392 começava e a vida voltava ao normal. Era preciso registrar os carros na polícia a cada semana, mas graças a um pequeno passe livre, podia-se andar quanto quisesse, pois gasolina não faltava. Por essa época, houve a profissão religiosa de Batistina. Como eu já falei, ela era criada de quarto de Nonna, a quem tinha devotado a vida. Algum tempo depois da morte de Nonna, Batistina veio participar a Mamãe que ela ia entrar no convento das cistercienses de Castagniers. Esse mosteiro, no flanco de uma elevação, domina todo o vale do Var. De lá, a vista se estende até o mar. É um lugar sublime e, com certeza, deve ajudar a alma elevar-se a Deus. Seria cansativo demais para Mamãe assistir toda a cerimônia da profissão e tomada de véu, mas eu e tia Beppa comparecemos. A superiora, ao receber-nos, disse que, para provar a obediência da postulante, ela tinha declarado que a mesma se chamaria, em religião, irmã Maria Gertrudes, e não irmã Maria Imaculada, como tinha solicitado. Assim, quando o padre superior, abade de Lérins lhe impôs as mãos, dizendo "Você se chamará irmã Maria Imaculada", o rosto de Batistina se iluminou de felicidade. Foi tia Beppa que a levou até a porta do convento, onde ela bateu três vezes para solicitar sua admissão. O mosteiro tinha preparado um almoço no qual tomaram parte o abade, três párocos de aldeias circunvizinhas e quatro monges. Literalmente nos fartamos, mas nos divertimos muito a escutar as histórias dos três padres, dos quais um era um verdadeiro provençal, não medindo palavras e expressões. O abade se divertia tanto quanto nós e, de vez em quando, nos olhava de esguelha. Quanto lamentamos que Mamãe, por motivos de saúde, se tivesse privado de um dia como aquele! Depois, nos engajamos em diferentes serviços. Pedro Henrique passava as noites, da 1 às 7:00h ajudando e dado apoio aos soldados Período da II Guerra Mundial que vai da declaração de guerra (1939) à invasão da França pelos alemães (1940).
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que passavam pela estação de Cannes. Alistei-me na Cruz Vermelha, onde tive o prazer de encontrar Cristiana de Marcé. Por um momento tememos por Deidi, que poderia ser constrangida por sua nacionalidade alemã, mas ela se manteve com tal equilíbrio de comportamento que todos ficaram admirados. Pedro Henrique tinha o dom de cativar as pessoas. Um dia, soldados que se diziam anarquistas vieram convidá-lo para uma pequena festa que queriam organizar, dizendo: "Sabemos, entretanto, que, sendo anarquistas, não temos nenhuma oportunidade de sermos aceito junto do senhor". Pedro Henrique se pôs a falar com eles e quando voltaram ao quartel, uns diziam aos outros: "Tinham-nos dito que os príncipes eram altivos e orgulhosos. Pois bem, o que encontramos não é assim absolutamente. São pessoas como ele que faltam para nos governar". O Principado de Mandelieu aumentou ainda mais. Ganhamos novos vizinhos: Luís de Bourbon-Parma e sua jovem esposa, Maria de Savóia. Ficamos amigos rapidamente, e Deidi e Maria deram à luz em datas bastante próximas. Alistada na Cruz Vermelha, eu tinha direito a 210 litros de gasolina por mês, o que me permitia levar Mamãe a Nice, três vezes por semana, ao consultório do Dr. Carlotti. Por momento, seu estado melhorava, mas depois as dores voltavam e seu nervosismo dominava. Ela não admitira de boa vontade que eu trabalhasse na Cruz Vermelha e, entretanto, revendo meus cadernos de notas, vi que dezembro de 1939 valeu para mim um curso de medicina, com aulas práticas por que me apaixonei. Além disso, havia momentos cômicos. Os soldados tinham grande prazer de serem tratados com ventosas. Um dia, eu precisei colocar ventosas num soldado gordo, apelidado "Bouboule", que parecia estar com uma forte bronquite. Mas ele tinha as costas tão peludas que, mal eu colocava a ventosa, os pelos se eriçavam e a ventosa saltava. Seus colegas queriam raspar-lhe as costas: "Senhorita, devo trazer uma navalha?" Mas Bouboule se opunha energicamente. Achamos uma solução: cobrimolo de vaselina e fixamos as ventosas.

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1940 Fevereiro nos trouxe a triste notícia da morte de tio Pedro. Mais tarde, uma carta nos informou que ele, já há algum tempo, estava ameaçado de um edema pulmonar. E, um dia, estando no cinema com tia Elsie, Pedrinho e Chica, começou a tossir de uma forma bizarra. Chica segurou sua mão e verificou que estava gelada. Apesar dos protestos do pai, ela o forçou a voltar para casa, mas, infelizmente, apesar da intervenção do médico, ele morreu rapidamente. Sentimos muito a morte daquele tio, o último de sua geração. Outra perda foi causada pela morte do bom padre Desribes, encontrado morto na cama, com a fisionomia calma e repousada, tal como ele sempre tinha desejado.
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Tinham-nos recomendado os banhos de Aix-en-Provence. Já estávamos no mês de maio, a situação parecia calma, a guerra estava estagnada e decidimos partir, levando Carmem conosco. O Dr. Charpin, responsável pelo balneário examinou Mamãe e a encorajou, dizendo que o reumatismo dos olhos já tinha passado. Mandou que ela tomasse 100ml de água duas vezes por dia. Quanto a Carmem e a mim, devíamos tomar certos banhos calmantes e muito agradáveis. Estávamos satisfeitas na linda cidade, tudo parecendo calmo até que, no dia 10, pela manhã, ao ligar o rádio, o que ouvimos foi: "As tropas alemãs entraram na Holanda, na Bélgica e no Luxemburgo". Decidimos voltar naquela mesma noite a Saint-Sauveur e a Mandelieu, mas, antes, Mamãe resolveu dar uma passada pelos jardins do Colégio do Sagrado Coração, onde ela tinha estudado, para rever o belo Pavilhão Vendôme, que pertencia, agora, a uma família suíça. Não vou contar aqueles dias em que passávamos pendurados no rádio. Escutávamos os comunicados de hora em hora, e pregamos um mapa na parede para marcar o movimento das tropas. Mas tudo se passou tão depressa. A proclamação de Paulo Reynaud e a fuga sem rumo de milhões de pessoas pelas estradas francesas. No dia 24, vimos chegar Pedá. Seus superiores lhe tinham ordenado que deixasse Paris. Como um autômato, ele veio se refugiar junto a Mamãe. Sábado, dia 8. Leio em meu caderno de notas: "Dias negros, negros, negros. Há três dias vivíamos um pesadelo. O governo francês decidiu não defender Paris e se retirou para Bordéus. Ontem, os alemães entraram na capital". Estávamos arrasados, com os nervos à flor da pele, prestes a brigar por uma ninharia. Continuamos pendurados no rádio. As coitadas de Deidi e de Maria não falavam nada. Elas nos faziam mais pena porque sofriam ainda mais que nós: eram seus países a causa de todo aquele mal. O monstro Hitler era certamente guiado pelo diabo. No dia 10 de junho, fomos, com ele, à recitação do terço e a Cannes. Voltando, vimos Luís Parma e Pedro Henrique que nos esperavam com os rostos sinistros. Sem preâmbulos, disseram-nos que Mussolini tinha declarado guerra à França. Maria, desolada, repetia: "Meu pai , com certeza, não tem nada com isso". Quinta-feira, dia 13. Tínhamos ido à praia em La Napoule. Deidi, os meninos e eu. Na hora de voltar, soou a sirene. Não nos deixaram prosseguir, pois era proibido andar de carro durante os alarmes antiaéreos. Deidi mandou a babá, a pé, com Eudes; nós ficamos na
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beira da praia. Ouviram-se chegar os aviões italianos, e, no fim de dez minutos, vimos cinco bombardeiros sobre o mar, e de repente, pluf, pluf, pluf, a água saltando entre as ilhas e a praia. Em menos de um minuto estávamos no abrigo. Três rapazes, membros da "Defesa Passiva", sabiam que Maria era italiana, mas foram calmos e amáveis. Nosso abrigo era um velho fosso sob a linha férrea. Deramnos cadeiras. O pequeno Luís não sentia medo e, a cada bomba, dizia: "Outra vez bum!" Ouviam-se o ronco dos aviões e as bombas que caíam. A defesa antiaérea entrou em ação. Não era nada agradável. Às 12:30h pudemos sair de nosso fosso. Encontramos Mamãe nos degraus da escada da casa, muito assustada. Ela tinha se refugiado com Pedro Henrique e tia Beppa na igreja de Nossa Senhora dos Pinheiros. Uma bomba tinha caído trinta metros à direita; outra, a cinqüenta metros à esquerda. Como quase não enxergava mais, tudo se tornou mais pavoroso para ela. Entrou em casa transtornada. O final de junho foi horrivelmente penoso para o moral francês. Os alemães tinham invadido todas as partes da França e marchavam em direção ao sudoeste . O gabinete fantasma de Paul Reynaud tinha caído e o marechal Pétain tinha formado um novo governo com o general Weygand , na pasta da Guerra, e o almirante Darlan na pasta da Marinha, um clarão de esperança, logo desaparecido. O marechal acabava de falar pelo rádio, perguntando aos alemães quais as condições para um armistício. Nós e os Parma estávamos aterrados e não encontrávamos consolação senão na missa celebrada diariamente por Pedá, onde todos juntávamos nossas dores. Tanto Maria, como filha do rei da Itália e casada com um príncipe italiano, como Deidi, alemã e casada com um príncipe brasileiro, estavam desesperadas de ver o comportamento de seus respectivos países. Bravamente, participaram de todas as manifestações civis ou religiosas que reuniam a população de Mandelieu. Embora nenhuma delas fosse de nacionalidade francesa , compartilhavam das dores do país onde moravam. A pobre Mamãe se ressentia com todos esses pro-blemas e o mal de suas pálpebras só piorava, Apesar de tudo tínhamos a esperança de que o marechal Pétain conseguisse pôr um pouco de ordem no que restava como território livre . Mas em 5 de julho, um novo golpe esmagou ainda a pobre França. A marinha britânica mandou uma esquadra diante de El Kebir, e exigiu ao almirante Gensoul a rendição ou o afundamento de seus navios . Vencido o prazo de dez horas dado, os ingleses abriram fogo e muitos navios franceses afundaram. O almirantado deu ordem aos navios restantes de se dirigirem a portos franceses. Tia Beá era inglesa. Encontramo-nos na rua e trocamos palavras duras. À noite, vendo-a chegar pela estrada, tomada de remorsos,
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me preparei para lhe pedir desculpas, mas ela se adiantou correndo e se lançou em meus braços. Tal era a atmosfera daqueles dias passados, tanto os nervos estavam tensos. Leão Roustand, o "jardineiro-pescador", nosso faz-tudo, esperava sua convocação impacientemente. Quase todos seus amigos já tinham partido para Toulon. Mexiam com ele: "E a convocação?" Uma bela manhã, ele a recebeu, partiu e ..., oito dias depois, voltou desmobilizado. Assim, nossa vida seguia ao sabor dos acontecimentos. O governo Pétain, bem que restrito em suas possibilidades, parecia colocar ordem na administração do país. A França tinha sido esmagada, era preciso sobreviver e esperar num tempo melhor, pensar nos dois milhões de prisioneiros, pensar em ajudá-los, enviando-lhes auxílio pelo correio. A posição de brasileiros nos punha em condições de recebermos pedidos de um e de outro. Passávamos a solicitação a Maria Parma, que escrevia a sua mãe pedindo que aliviasse a sorte de tal ou tal prisioneiro. Albano, nosso antigo motorista, obteve, assim, licença para escrever mais vezes à esposa. Não vou me estender sobre todos os truques que podia empregar para tratar de Mamãe, encontrar os medicamentos e manter o tratamento prescrito pelo Dr. Carlotti. Os tempos de acalmia, quando ela se sentia melhor, eram raros e eu via, com tristeza, sua cegueira de agravar. Nós nos resolvíamos com bicicletas, mas ela só podia andar a pé ou de automóvel. A gasolina tinha quase desaparecido. Ela se encontrava verdadeiramente privada de tudo. Felizmente, os filhos de Pedro Henrique vinham muitas vezes ter com ela. Luís era muito sério e estudava profundamente o que lhe diziam para fazer. Eudes, mais preguiçoso e também menor, esperava pacientemente para ver o que o irmão faria. No dia 7 de agosto, o "Principado de Mandelieu" se enriqueceu com um novo membro. Maria deu a luz a um menino, que recebeu o nome de Guido , de quem fui madrinha, e Renato , irmão de Luís, padrinho. Este tinha ido parar em Cannes, depois de fugir de Paris para a Bretanha, aonde os alemães chegaram quase que ao mesmo tempo que ele; dali, alcançou Biarritz, e finalmente, chegou a Cannes, não sabendo do paradeiro de sua mulher nem de seu filho mais velho . Com ele estava somente a filha , que se casaria mais tarde com o rei Miguel da Romênia . Puderam, graças a Deus, partir de lá para os Estados Unidos, onde já se encontravam a imperatriz Zita e a família grão-ducal do Luxemburgo.

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A guerra prosseguia no exterior. Seguíamos, pelo rádio, os acontecimentos na Grécia, na Albânia e na África. As notícias dos nossos diversos parentes filtravam pela Suíça e pela Espanha, e o tempo passava. Não nos sentíamos mais donas do nosso destino e esperávamos, dia a dia, o que ia nos acontecer. As restrições se faziam cada vez mais severas. Tinham instituído o sistema de cartões de racionamento e as rações e tornavam-se, cada dia, mais modestas. Compramos uma vaca para que aos meninos, ao menos, não faltasse leite. Foi uma aventura fazer chegar em casa o animal que se encontrava nas montanhas atrás de Nice. Enfim, numa bela manhã, a empregada do pároco, Sra. Scoffier, chegou, puxando, atrás de si, a vaca que se chamava "Negrita", era de raça holandesa e tinha um ar "inteligente". Colocamos a vaca na garagem do jardineiro, e Leão foi encarregado de ordenhá-la. Ela só dava seis litros dos nove prometidos, mas o leite era muito grosso. Toda noite fabricávamos manteiga, sacudindo, com as mãos, por uns bons vinte minutos, duas garrafas de leite. O prefeito nos concedeu vinte litros de gasolina por mês para podermos levar Mamãe à estação, para tomar o trem de Nice, onde consultava o Dr. Carlotti. Nas quintas-feiras, havia feira livre, e comprávamos uns bolos, e tomávamos o trem de volta, onde encontrávamos toda a população da riviera, carregada de cestos de provisões. Dois acontecimentos sociais tiveram lugar naquele ano. Primeiro, o casamento de Genoveva de Hachette com o marquês de Caumont . A Sra. Hachette mandou-nos um táxi, onde tio Januário e tia Bea, Luís e Maria Parma, Pedro Henrique e Deidi e eu nos amontoamos, mas nos divertimos muito. A noiva usava um soberbo vestido da casa Worth , e o almoço teve lugar na Villa Valetta. Fui colocada numa mesa com a marquesa de Pracomtal e sua mãe, a Sra. Lacroix-Laval, e a Sra. Norman, que parecia uma arara tantas eram as cores de seu vestido. O segundo foi bem mais íntimo. Annette Baude, minha amiga de infância, casou-se com o tenente João Deleris, em 24 de outubro, na capela de Souvenir. Felizmente não chovia, porque tivemos de ir de ônibus. Saltando, vi um homem me cumprimentar. Eu o conhecia, mas não ligava o nome à pessoa. Enfim, ele se apresentou "Bob Derrousseaux" . Meu Deus, há dez anos que eu não o via! E aquilo me vez rever todos os belos anos passados em Boulogne e os passeios a cavalo no bosque. João Deleris e ele se tinham conhecido em Marrocos. Bob chegava da Bélgica. Tinha lutado todo tempo num tanque, tendo sido ferido em Dunquerque, e capturado pelos alemães. Por ocasião de uma troca de prisioneiros, ele conseguiu se fazer repatriar como "gravemente ferido". Ainda sinto remorsos de
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tê-lo feito andar, tanto tempo, na estrada de Cannes a Mandelieu, quando ele ainda sentia o ferimento, e eu o levei para rever Mamãe. Ele me disse de João Deleris: "Vale ouro". A guerra passara, então, para a África. Estávamos numa espécie de espera, vivendo só das notícias de rádio. A resistência trabalhava em surdina. Tivemos a visita do padre Winter que acabava de deixar o general Giraud , que tinha escapado da fortaleza alemã onde estava preso. O padre Winter era loreno e muito ativo. Tinha um transmissor de rádio portátil. Isso foi, infelizmente, o que causou sua prisão pelos alemães, logo depois de nos deixar, quando deixava Marselha em direção a Argel. Uma outra heróina da Riviera francesa foi Helena Vagliano, que mantinha toda uma rede de resistência sob suas ordens. Ela foi detida e encarcerada em Grasse. Puderam sua mãe da cela do lado, e elementos da Gestapo começaram a torturá-la, enfiando-lhe fósforos acesos sob as unhas. Ela não falou absolutamente nada, e morreu sem que nenhum de seus colaboradores fosse denunciado. Era uma moça muito doce e bonita, que eu muitas vezes via na sociedade de Cannes. Ninguém imaginava que sob aquele aspecto, ela escondesse uma coragem sem limites. No fim do ano, o inverno foi glacial. Os termômetros desceram a 6 graus negativos, e as frieiras começaram a aparecer. Só podíamos sair a pé ou de bicicleta, e eu me lembro de ter voltado de Cannes com tanto frio que quase desmaiei. Felizmente, a casa do padre Guillon, nosso pároco, ficava no caminho. Parei e bati na porta. Ele me deu um bom copo de vermute que me aqueceu, um pouco, o sangue. Pouco a pouco chegavam notícias dos parentes: no Brasil, se refugiaram Iolanda e Isa Czartoryska e Olgierd Czartoryski ; na Espanha, tio Nino abrigara, além de Augusto Czartoryski e Dolores, Ongá e família; em Marrocos, os condes de Paris com seus seis filhos ; na Alemanha, tia Gietta vivia escondida num porão; na Inglaterra, Caetano ganhava seus galões na Real Força Aérea; enfim, na Polônia, a velha tia Carolina tinha encontrado, escondida entre as monjas beneditinas de Varsóvia, sua filha Teresa, cujo marido tinha sido levado pelos russos e assassinado.

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1941 No Ano Novo, o príncipe do Piemonte telegrafou a Mamãe. Ela quis responder, mas o correio recusou transmitir a mensagem. Tudo era tão diferente da época anterior, que eu tinha a impressão de estar num outro mundo. Não contente com isso, peguei varice-la, o que, pelo menos, nos valeu alguma coisa boa: todo mundo nos mandou lenha para poder aquecer água para os meus banhos, e acabamos

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tendo tanta água quente em casa que a família inteira pôde se banhar. Mamãe e tia Beppa cuidaram de mim com toda dedicação. No início do ano, tivemos o desgosto de ver o bom Pedá morrer. Ele sofria dos pulmões e uma bronquite o levou. Uma de suas últimas palavras foi para dizer que estava feliz em morrer em Cannes, por estar perto de nossa família. Perdemos um grande amigo. Deidi esperava seu terceiro filho, o que não a impedia de andar de bicicleta de um lado para o outro. Teve um parto normal, e ficou orgulhosa em poder mostrar ser o nascimento de um bebê um acontecimento dos mais banais. Beltrão nasceu em 2 de fevereiro. Tio Januário foi o padrinho e eu, a madrinha. O batizado foi no Mas São José e não no Mas São Luís, que estava sendo desinfetado dos "meus micróbios". Certa manhã, soubemos da morte do rei Afonso XIII . Uma crise cardíaca o derrubara. Teve tempo de chamar João , em favor do qual já tinha abdicado, e lhe dizer: "Majestade, antes de tudo, a Espanha!" Morreu como tinha vivido: altivamente. Mamãe sentiu muito o desaparecimento daquele parente que ela apreciava particularmente. Tio Reniro, que tinha oficial no exército espanhol, mandou celebrar uma missa pelo rei, na igreja de Nossa Senhora da Boa-Viagem, a qual compareceu uma multidão. Naquele inverno, o frio prejudicou muito os olhos e as pálpebras de Mamãe. Tomamos o trem para voltar a Nice, levando, como presente ao Dr. Carlotti, um casal de patos. Através da porta, ouvimo-lo dizer: "Que presente elegante!" Tempos engraçados, quando se ofereciam patos em lugar de bombons e couves-flor em lugar de buquês de flor. Apesar de voltar mais aliviada de suas pálpebras, Mamãe continuou sentindo a visão diminuir. Quando chegamos soubemos da notícia da morte de tia Carolina de Bourbon-Trapani , irmã de Nona. A notícia chegou através da Espanha. O passado ia se eliminando com o desaparecimento das gerações mais velhas. Em quanto nossa vida continuava, a guerra prosseguia na Grécia e na Cirenaica. Amávamos a Itália e ficávamos desoladas de vê-la metida naquele vespeiro. Parecia que havia uma força oculta desejosa de destruir tudo o que era católico: a Espanha, a Polônia, a Bélgica, a França, e agora, a Itália. A atitude do marechal Pétain nos tranqüilizava. Ele levava o país de volta às suas tradições à sua fé. Esperávamos muito dele. Os acontecimentos de precipitaram. Pouco tempo depois, vimos, numa noite, a Via Nacional 7, toda guardada, depois, um comboio de
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viaturas militares indo em direção à Itália. Pela rádio suíça, soubemos que era o general Franco que ia encontrar-se com Mussolini em Bordighera, na Itália. O marechal Pétain tinha partido para sua residência de Villeneuve-Loubet. Nada transpirou, mas soubemos, de fonte fidedigna, que, no dia seguinte, Franco também tinha se encontrado com Pétain em Montpelier. Uma esperança nascia em nossos corações. Que fazer nesses dias de espera onde estávamos privados de toda atividade criadora? Íamos nas casas uns dos outros. A viúva Clews, no castelo de La Napoule, tinha o dom de atrair todas as pessoas que passavam por Cannes. Certa tarde, ela ofereceu um lauto lan-che, ao qual Deidi, já fora do resguardo, pôde comparecer. Lá esta-vam a condessa de Dampierre, o general Gudine, russo que tinha feito uma soberba reconstituição, em soldados de chumbo, do exército dos tsares, a Sra. Marchetta d'Allegri e a Srita. Vandam. A conversa, de um lado e do outro, versava sobre a maneira de se arranjar comida! Havia, também, encontros mais interessantes, onde compareciam o embaixador romeno, Vacarescu, e Helena, sua encantadora esposa, e, aí, o nível da conversa se elevava acima da terra. Havia, também, momentos cômicos. Tínhamos reservado quartos em Annecy para passar um mês com os meninos e tomar um pouco de ar da montanha. No dia 17 de julho, sexta-feira, Mamãe partiu de carro, com Deidi, os meninos, Maria Parma e o bebê Guido. Um ciclista foi contratado para levar nossas bagagens até a estação de Cannes. Segui de bicicleta com a babá Júlia e Pedro Henrique. De repente, o pneu da bicicleta de Júlia se rasgou. Era impossível consertá-lo. Felizmente, passou um ônibus e nós três o tomamos. Chegamos à estação e fomos hostilmente recebidos pelos automobilistas, que achavam que tínhamos tomado o simplesmente por preguiça. Irmã Inácio e tia Beppa tinham ido antes e já estavam lá, e não sei porque também o embaixador Vacarescu, que não parava de admirar Eudes. Luís Parma e Pedro Henrique despacharam as malas. Às 8:30h, o trem entrou na plataforma, e nos precipitamos no assalto ao vagãodormitório. Deidi levava Beltrão, o fiel Leão, Luís; eu, Eudes; e Irmã Inácio e tia Beppa ajudavam Mamãe. No momento em que íamos embarcar, desembocou, em sentido contrário, toda a família La Force. Beija-mãos, etiqueta costumeira: "Vossa Alteza Imperial vai viajar?". "Sim, para Annecy". "Oh, nós vamos a Evian". Enfim, pudemos subir, enfiando-nos no primeiro compartimento. Leão colocou Luís no fundo do banco, eu fiz o mesmo com Eudes e Deidi, com Beltrão. Mamãe entrou com irmã Inácio e tia Beppa. Logo, estávamos tão apertados que Leão não conseguia sair. E, atacados por um acesso de riso, não nos podíamos mexer. Finalmente, se comprimindo ao máximo, tia Beppa e a irmã conseguiram se extrair da cabina, o que permitiu que Leão saísse. O trem partiu, mas parou dez metros adiante. Felizmente, pois vimos Leão correndo, quase
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voando, com uma valise na mão. Era a maleta de jóias de Maria Parma. Enfim, tudo voltou ao lugar, e eis-nos deslizando em direção a Lião. Indo procurar Júlia no vagão de poltronas e vi o Dr. Vandremer , amigo fiel de Nona. Trouxe-o para junto de Mamãe, que ficou contente de poder conversar com ele. Ela disse que, de Annecy, ela desejava ir a Roche-Posay. O doutor se propôs a passar por Vichy e, de lá conduzi-la de carro a Roche-Posay. Não contarei mais as mil pequenas aventuras ferroviárias, e digo somente da nossa satisfação quando descobrimos a encantadora cidade de Annecy e o hotel tão agradável que Pedro Henrique escolheu para nossa vilegiatura. De nossa janela, víamos o lago de águas azuladas, as altas montanhas que o rodeiam, altas, mas de formas suaves. Tudo respirava paz e alegria. O prefeito de Annecy era o general Cartier. Pedro Henrique e Luís Parma fizeram-lhe uma visita de cortesia, e ele mandou que nossa estada fosse facilitada ao máximo. Alguns dias mais tarde ele veio pagar a visita e nos encantou com sua conversa. Cortesia igual foi feita ao prefeito do departamento, bravo homem de Rouergue, que veio, por sua vez, nos visitar no hotel. Um dos nosso passeios preferidos era ao convento da Visitação. A superiora se chamava Madre Uriarte e era espanhola. Quando Mamãe lhe disse que era irmã do infante D. Carlos, ela não sabia como manifestar sua alegria. A irmã da roda se punha de joelhos toda vez que via Mamãe, o que muito a constrangia . Quanto a Maria, ela tinha encontrado a porta de uma pastelaria e se apresentou ao proprietário, que se chamava Gruffaz, nome bem saboiano. Tivemos, graças a ela , direito a uma visita completa a Annecy, guiada por Gruffaz, seguida de mil mimos de sua paste-laria, muito apreciados. Desfrutávamos bem tranqüilamente a vida calma de Annecy, quando, no dia 12 de agosto, enquanto festejávamos o aniversário de Mamãe , vieram nos dizer que, de Vichy, nos chamavam ao telefone. Era o Dr. Vaudremer, avisando que tinha conseguido um carro para levar Mamãe a La Roche-Posay, e que o marechal Pétain nos esperava naquela mesma tarde, às 16:00h! Respondi que nos era impossível partir assim tão rapidamente. Ele desligou, mas Mamãe me pediu que o chamasse de volta e dissesse que estaríamos em Vichy nos dias 14 e 15. Pedro Henrique decidiu nos acompanhar e o jovem Fernando , filho de tio Reniro, suplicou que Mamãe o levasse com ela.

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Partimos à 14 de agosto, com baldeação em Lião para tomar o trem no dia seguinte para Vichy. Na estação, o Dr. Vaudremer nos esperava com um luxuoso carro do Ministério da Guerra. Primeiro, fomos à igreja de São Luís, assistir a missa, depois ao Hotel Majestic. A primeira impressão de Vichy foi bizarra: grandes hotéis guardados por sentinelas, e alguns solitários fazendo a estação de águas. Sentimo-nos um pouco exilados. O Hotel Majestic era ao lado do Hotel du Parc. Os embaixadores se hospedavam ali, mas isso não quer dizer que ele não fosse simpático. Fomos almoçar no restaurante do Hotel Carlton. Que atmosfera! Jornalistas abriam documentos importantes diante dos garçons, falando de tudo, à alta voz. Quantas intrigas deviam rodear o chefe do estado! Quando o Dr. Vandremer chegou, nos comunicou que o marechal nos receberia no dia seguinte. Vaudremer desejava que Mamãe relatasse ao marechal tudo o que ela lhe tinha contado sobre a Alemanha. Mamãe respondeu que não seria ela a falar, mas que responderia todas as perguntas que lhe fossem feitas. Pouco mais tarde, o Dr. Vaudremer nos levou à casa de uma certa Sra. Lesueur que parecia ter muita influência sobre o marechal. Com cabelos brancos, muito elegante, bastante maquilada, ela me fez lembrar a marquesa de Pompadour . Parecia ter saído de um quadro do século XVIII. Vaudremer lhe contou a conversa que tivera com Mamãe. "É ao almirante que isso tudo deve ser dito", disse ela. O assunto da conversa passou a ser o Almirante Darlan que parecia não ser muito querido em Vichy. Depois nos contaram todas as sortes de "disse que disse". Em que deveríamos acreditar? Passeamos um pouco por Vichy, procurando sempre a sombra, pois fazia um calor tórrido. Vichy é uma cidade elegante. As vitrinas das lojas estavam cheias de lindos tecidos. Mas logo tivemos de voltar ao hotel, aonde o Dr. Vaudremer foi ter conosco para jantar. O hotel era confortável, sobretudo porque tinha água quente, o que nos permitiu tomar um banho recuperador. O encontro com o marechal estava marcado para as 16:30h. Vestimo-nos para a ocasião, com os homens praguejando para colocar os colarinhos duros, aos quais não estavam habituados. E fazia tanto calor... Retomo minhas anotações: "Às 16:00h o Dr. Vaudremer veio nos buscar. Dirigimo-nos ao Hotel du Parc. Felizmente uma passagem interior liga os dois hotéis". O Hotel du Parc estava guardado militarmente. Atrás de cada vidraça havia uma sentinela. Até aquele momento, estávamos desagradavelmente impressionados com a atmosfera antipática de
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Vichy. Um elevador nos conduziu ao terceiro andar, onde se sentia uma atmosfera de trabalho, havendo, em cada porta, uma placa "Secretaria de Estado". Nos introduziram numa pequena sala. Uma senhora idosa já estava lá. Ela rezava. Sem dúvida, tinha vindo pedir um favor. E o que podia ela pensar de nós? Normalmente, o marechal não dava mais que cinco minutos de audiência. Chamaram-na enfim. Ela voltou no fim de cinco minutos, como previsto. O coronel Bonhomme , ajudante de ordens do marechal, nos disse: "Ele atenderá os senhores por cinco minutos, depois se levanta. A audiência estará encerrada". Às 16:30h, ele mesmo nos introduz num corredor escuro. A forte estatura do marechal se destaca contra a parede. Ele tomou paternalmente a mão de Mamãe e a conduziu ao seu gabinete. Feznos sentar em volta e dirigiu a conversa como uma manobra em campo de batalha. Sua boa aparência nos espantou. Ele absolutamente não aparentava os oitenta e cinco anos que tinha, com os olhos bondosos, não exatamente azuis, mas azul claro acinzentados. Depois de todos nos termos sentado, a conversa começou. "Então, disse o marechal, o que os senhores têm a me dizer? Podem me falar como a um confessor, nada sai daqui". Ficamos um pouco embaraçados com essa entrada no assunto. Pedro Henrique, que estava mais apto a falar sobre a Alemanha, explicou que tudo o que ele sabe é através de seus sogros bávaros. O marechal se interessava muito pelo fato de o tio Ruperto, Chefe da Casa Real da Baviera, estar proibido de voltar à Alemanha, e perguntou se ele conhecia os generais alemães atuais. Pedro Henrique respondeu que seu sogro lhe dissera não conhecer nenhum. "Pois bem, eu conheço!" E o marechal contou várias anedotas sobre eles. Vaudremer interveio: "Talvez Suas Altezas Im-periais possam revelar coisas que interessem ao marechal. Pedro Henrique respondeu: "O Senhor Marechal está certamente bem mais informado que nós". Assim, o marechal esboçou para nós um quadro da situação européia. "No momento, é preciso deixar agir a Alemanha que nos presta um grande serviço lutando contra o bolchevismo, pois a revolução ameaça toda a Europa". Mas enxergava claro quanto aos ocupantes da França: "Não se pode acreditar nas promessas deles. De manhã, me fazem mil gentilezas, a noite me dão um golpe. Eles conservam os prisioneiros para ter mais vantagens no tratado de paz". E a propósito de não sei mais o que, ele voltou: "Mas, um dia, nos iremos rendê-los em seu país", interrompendo, depois, quase com lágrimas nos olhos: "Não, não devo falar assim. É preciso que cesse a luta entre esses dois povos." O marechal não gostava dos ingleses. Dunquerque lhe pesava na alma.

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Esqueci de anotar muitas frases. Lembro-me, entretanto, que, mostrando um mapa da Rússia, ele traçou uma linha imaginária e disse: "Se eu estivesse no lugar dos alemães, eu parava por aqui. Não se deve entrar Rússia a dentro". Depois: "Na França, é preciso aparar o golpe com paciência e restabelecer a ordem interna, nas leis e nas instituições, que estão podres ..." Depois de lhe apresentar Fernando , Mamãe se despediu, e o marechal lhe disse: "Bem, tivemos uma conversa bem franca e muito simpática, ao menos de minha parte". "Da nossa também", respondemos. Ele retomou: "Agora, peço-lhes de fazer tudo para que essa conversa não saia dessas quatro paredes, pois, se ele souberem, me farão pagar caro. Têm uma mão pesada..." O marechal nos acompanhou até o elevador, e o coronel Bonhom-me até a saída do hotel. À noite, voltamos a Lião e, no dia seguinte, Mamãe e eu voltamos a Mandelieu. Estávamos encantadas com o marechal, e pensávamos que, se lhe dessem tempo, ele chegaria a pôr as coisas em ordem na França, como desejava. Voltamos decididas a não mais falar em comida e a não fazer mais coisas pouco corretas, censurando o mercado negro... Ai, oito dias mais tarde, só falávamos de cenouras e alhos-porros; ofereceram-nos batatas a 15 francos o quilo e nós compramos, o que nos valeu um sermão do pároco, que, entre parênteses, tinha feito o mesmo que nós, talvez a um preço mais baixo ...

1942 As irmãs enfermeiras do Bom-Secours tinham colocado, junto a Mamãe, uma irmã de nacionalidade britânica, ameaçada de ser mandada para um campo de concentração. Irmã Inácio era a própria
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alegria e trouxe muita descontração para nossa casa. Ela tratava de Mamãe com muita dedicação, e a distraía, contando, com um humor inglês, todos os tipos de história. O verão de 1942 avançava, fazia muito calor e eu pensava que Mamãe estaria melhor em Annecy, com a irmã, no lindo Hotel São Francisco, freqüentado por bispos e padres, que sempre vinham repousar ali. Chegando lá, Mamãe teve o pesar de receber a notícia do falecimento de seu amigo, o embaixador Raul Régis de Oliveira, no dia 10 de julho, no Hotel Glória, no Rio de Janeiro, onde estava hospedado; mas esse pesar foi compensado pelo prazer de rever Monsenhor de La Villerabel393, Monsenhor Marietain394 e outros sacerdotes, e ter com eles conversas reconfortantes. Certo dia, passou por lá um beneditino luxemburguês que a encantou, contando-lhe a fuga com que tinha conseguido evitar ser mandado para um campo de concentração. Infelizmente, no fim de pouco tempo, a superiora do Bon-Secours reclamou a presença de irmã Inácio. Fui para Annecy e trouxe Mamãe de volta a Mandelieu. Pedro Henrique nos esperava com um reboque para transportar as bagagens, e fomos consoladas pelas manifestações de alegrias dos meninos aos verem a avó. Em 15 de outubro, Chica casava-se, em Petrópolis, com o duque de Bragança. Recebemos o convite, mas era impossível comparecer. Quem deveria celebrar o casamento era o cardeal Sebastião Leme, tão nosso amigo, mas ele estava bem doente e veio a falecer no dia 20. Assim, o celebrante foi o bispo de Niterói395. O outono trouxe o desembarque dos ianques na África. Ficávamos pendurados no rádio, seguindo os acontecimentos da Argélia, até o dia em que as rádios inglesas e ianques de puseram a repetir incansavelmente: "Franceses, não se mexam! Saibam ser dignos sem se sublevar!" Que Deus tivesse piedade da França", pensávamos.

Florêncio du Bois de Villerabel (* 1877; †... 1951), bispo de Aix da Provença; Ordenado sacerdote (),. Não deve ser confundido com seu primo André du Bois de Villerabel (1864-1938), bispo de Ruão, que fez a oração fúnebre da princesa Isabel. 394 Marietain ??? 395 D. José Pereira Alves (* Palmares, 05-03-1885; † Niterói, 21-121947). Ordenado sacerdote 17-11-1907; bispo de Natal 27-01-1928; de Niterói 20-05-1928.
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Em 11 de novembro, veio a ordem de Hitler para que as tropas alemãs atravessassem a zona de demarcação de Vichy396, e bem depressa, vimo-las chegar em Cannes. Foi um choque! O estado de saúde de Mamãe se ressentiu com todos esses trágicos acontecimentos. Avisaram-nos de o Brasil tinha rompido relações diplomáticas com Vichy. Irguay, cônsul do Uruguai em Cannes, tinha estado em Vichy e falado com o embaixador brasileiro Souza Dantas, que sempre tivera uma conduta muito firme diante dos alemães, e lhe disse: "O Brasil, absolutamente, não rompeu relações com a França. Diga à Família Imperial para não sair do lugar, no momento". Para mostrar o quanto a vida era curiosa naqueles momentos históricos, leio em minhas notas, na mesma data: "10:30h. Vou à inauguração do dispensário da Cruz Vermelha, em La Bocca. À noite, levamos nossa colheita de 103 quilos de azeitonas ao moinho para ter azeite. Com a falta de gasolina, o carro ficou na garagem. Parto na carroça do açougueiro, puxada por um pobre cavalinho tão mal nutrido quanto nós, mas que, bravamente, nos levou até o moinho de Nossa Senhora da Vida". Isso nos deu 18 litros de azeite. Quão precioso! Depois, houve a ameaça alemã contra a frota francesa que ainda restava em Toulon, e o afundamento heróico397 mas tão doloroso de todos aqueles belos navios de guerra. Enquanto o "Estrasburgo" afundava, o corneteiro fez seu instrumento soar até que a água lhe chegasse ao peito. Tio Januário, que tinha feito o serviço militar na marinha espanhola, vibrava de orgulho, vendo o heroísmo dos marinheiros franceses. Entretanto, para os franceses, o desaparecimento dessa bela esquadra não soava como um toque de finados? Nossos amigos de Cannes, os La Force, Baude, Galliéni, Clémencin du Maine, Lensquesaing, vinham muitas vezes a Mandelieu partilhar conosco suas dores e suas esperanças. Recebíamos como podíamos. O grande recurso era o fubá que nos permitia fazer grandes pratos de polenta. Como todos tinham fome, achavam tudo muito gostoso. O encontro perpétuo com soldados alemães era penoso e evitávamos olhar para eles. Felizmente para nós, era a Reichwehr e não os SS que ocupavam Mandelieu. Um dos oficiais era primo de Deidi398. Linha entre a França conquistada e a França de Vichy. O governo francês preferiu pôr a pique a própria esquadra do que entregá-la aos alemães. Foram afundadas 99 unidades. 398 O tenente-coronel Schreiber.
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Vinha, discretamente, nos visitar, sofrendo, de seu lado, as dores daquele guerra horrível. Com a falta de combustível para enfrentar o frio, mudamo-nos, provisoriamente, para Cannes, e festejamos o Natal com as crianças. Primeiro em Garibondi, na casa de uma senhora inglesa idosa, Lady Paget, que não tinha querido deixar sua casa apesar da guerra; depois do Hotel des Anglais, onde tínhamos instalado nosso quartel de inverno; finalmente, na casa de Luís e Maria de Bourbon-Parma que também tinham emigrado para Cannes. Foi o Natal mais bonito que passamos. O contraste entre a tristeza do momento e a alegria que explodia nos risos dos meninos era como um raio de esperança. Mais um ano de guerra que terminava. Tínhamos sempre a esperança de que fosse o último ...

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1943 O início do ano de 1943 nos deu alguma esperança. Os aliados acabaram por ocupar, pouco a pouco, toda a Argélia, mas foi preciso esperar, ainda, o mês de julho que nos fazer vibrar com a notícia do desembarque aliado na Sicília. Nesse ínterim, fui com Pedro Henrique, Luís de Bourbon-Parma e Maria, com quem formava o grupo dos capetíngios-ciclistas das viagens a Camargue, a Paris, para assistir o casamento de Isabel de Bourbon-Parma (5ª capetíngia-ciclista) com o conde Rogério de La Rochefoucauld. Na gare de Lyon, pensei estar sonhando: a condessa de Flers nos esperava com um automóvel espanhol. Abri bem os olhos para ver Paris, tão bela naquele mês de junho, mas, chegando à praça da Concórdia, que horror! Imensas bandeiras com a suástica tremulavam em todos os lados. E, depois, soubemos das tragédias. O conde de Flers tinha sido preso pelos alemães, e mandado para Fresnes, e a irmã da condessa de Flers, Helena de Ploeuc, deportada para a Alemanha. Nenhum dos dois voltaria. O casamento de Isabel teve lugar da igreja de São Pedro de Chaillot, seguido por um almoço na rua Galiléia, em casa de Edviges de La Rochefoucauld399, mãe da noiva e viúva de Sixto de Bourbon-Parma, almoço estritamente em família. Ficamos felizes em rodear Isabel, apesar da tristeza daqueles tempos de guerra, quando se via Paris cheia de uniformes e bandeiras odiosos. No dia seguinte, fomos almoçar na casa da condessa Costa de Beauregard400, no bonito palacete da rua Barbet de Jouy. Ela me colocou entre o Sr. Vassilópulos, grego, e um oficial italiano. Perguntei a meu vizinho grego o que ele pensava da situação, e ele me respondeu: "Espera-se o desembarque dos aliados com impaciência" e continuou "e saiba que seu vizinho da esquerda, o italiano, pensa da mesma maneira". Fiquei alguns dias ainda em Paris, festejada por meus afilhados Flers, que disputavam meu braço na rua. Voltamos às agradáveis conversas de antes da guerra, mas também, infelizmente, ao relato das as atrocidades e vexações perpetradas pelos nazistas na França. A condessa de Flers, com sua coragem, procurava fazer soltar as
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EDVIGES Francisca Luísa Maria de La Rochefoucauld-Deaudeville (* Paris, França, 15-02-1896; † ibd. 07-05-1986), filha de Armando de La Rochefoucauld, duque de Bisaccia e de Daudeville, e de Luísa, princesa Radzwill; X ibd. 12-11-1919 Sixto de Bourbon-Parma. O casal teve uma filha. 400 …???
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pessoas conhecidas, presas pelos alemães. Também passava mensagens e nada detinha seu ardor. Pagaria duramente tudo isso. Detida pelo nazistas, seus filhos foram recolhidos pelo duques de Noailles. Voltando a Cannes, encontrei Mamãe morta de inquietação, pois não tinha recebido a carta que eu lhe tinha escrito. Senti remorsos. Sabia que a menor preocupação facilitava a volta de sua enfermidade. Vendo que ela estava ficando cada vez mais nervosa, decidi fazê-la partir, com irmã Inácio que tinha voltado para nós, para Annecy, aonde, no dia seguinte, eu iria ter com elas. Foi o que se fez. Encontrei Mamãe, no Hotel São Francisco, bem contente, rodeada de Monsenhor de Villerabel e de Monsenhor Harscouët401, com os quais ela podia ter conversas que a apaixonavam e a reconfortavam. Irmã Inácio punha em tudo alegria e fantasia. Um dia, a levamos a passear de barco no lago. Quando cruzamos com um barco cheio de soldados alemães, a irmã simplesmente se levantou e entoou o "God save the King"402. Em 15 de agosto, à noite, ouvimos o ruído de uma esquadrilha. Eram aviões aliados que iam bombardear Turim. Depois, um silvo acima de nossas cabeças, seguindo de barulho e explosão. Corremos à janela e vimos uma grande chama se elevarem. Um avião tinha acabado de cair. Soubemos que quatro aviadores puderam se salvar. Um deles saltou no momento em que o avião se espatifava e caiu sobre um monte de estrume. Quando deu por si, um desconhecido o olhava. Ele perguntou: "Italiano?" "Não", respondeu o homem. "Então, você quer me salvar?" "Quero", E o fez passar à Suíça. E o enterro dos que tinham morrido foi uma manifestação monstra. Logo toda a família imperial estava no Hotel São Francisco. Meus sobrinhos davam mais animação a nosso grupo, e rodeavam a avó com sua alegria, pedindo-lhe sempre para contar histórias. E Mamãe melhorou um pouquinho. O bom padre Fromaget, vigário local, promoveu um chá beneficente em favor do mosteiro da Visitação403, pedindo a mamãe para presidilo ao lado do prefeito do departamento. À noite, descemos ao Hotel Imperial onde teria lugar esse evento. Apenas nos tínhamos sentado, uma explosão sacudiu o prédio e a luz apagou. O padre não se Rodolfo Otávio Harscouët (* Saint-Brieuc 14-06-1874; † Chartres 18-10-1954). Ordenado sacerdote 09-07-1899; bispo de Chartres 2207-1926. 402 "Deus salve o Rei!" - hino nacional da Inglaterra. 403 Ordem francesa, fundada por Santa Joana Frémiot de Chantal, sob a orientação de São Francisco de Sales.
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perturbou e continuou a falar. Pouco depois Maria Marquet entrou, trazendo um candelabro aceso, e declamando com sua voz soberba. O efeito era extraordinário. Logo soubemos que uma torre de eletricidade tinha sido destruída. Amavelmente, o prefeito nos acompanhou até o nosso hotel. No dia seguinte, sentindo que os acontecimentos estavam se precipitando, todos nós resolvemos voltar naquela mesma à noite, para o sul. Mas, em Saint-Raphaël, a família teve que se separar. Embora aqueles trágicos dias em que passamos juntos nos tivessem unido ainda mais, Pedro Henrique tomou a decisão de se refugiar com Deidi e os filhos em La Bourboule, em Puy-de-Dôme, região mais central da França, lugar onde dificilmente a violência da guerra chegaria. Quarta-feira, 8 de setembro de 1944, os aliados desembarcaram na Calábria. Nenhuma resistência lhes foi oposta404.
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Vítor Manuel III, rei da Itália, na iminência da guerra total em seu próprio território, demitiu e mandou prender Mussolini, terminando o estado de beligerância com os aliados. A reação nazista não tardou.

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1944 Em Mandelieu, retomamos nossa "velocidade de cruzeiro". Uma manhã, quando eu voltava, de bicicleta, de Thermes onde tinha ido buscar algumas provisões, vi, diante da quitanda, um ajuntamento de gente e um corpo estendido no chão. Como havia muitas pesso-as e médicos presentes, continuei adiante, mas a quitandeira correu atrás de mim, gritando: "Princesa, é Sua Alteza!" Tio Januário acabava de ser atropelado por um caminhão militar alemão. Estava verde de dor e quase não podia respirar. Olhou-me e disse: "Viu? Eles me pegaram!" Alguém trouxe um cobertor e passamos-lhe sob o corpo. Dois médicos de Mandelieu tinham chegado ao mesmo tempo. Mandei um rapaz de bicicleta avisar tia Beá. Afinal, depois de quarenta minutos de angústia, uma ambu-lância chegou a levou os tios para uma clínica em Cannes. Um comando alemão foi pedir desculpas a tia Beá que os recebeu friamente. Meu tio se recuperou de vagar e pôde mesmo voltar a sua casa em Mandelieu, depois de três meses de internação, onde fora admiravelmente tratado. Podia andar somente com a ajuda de duas bengalas, mas se sentia contente de se encontrar em casa. A guerra se aproximava cada vez mais de nós. Vimos, com desespero, ser construído o "muro do Mediterrâneo", que, desde então, nos impedia o acesso à praia. Não se via mais o mar. O muro tinha sido construído por operários requisitados no local. Eles procuraram colocar areia demais na argamassa, o que permitiu, na época de libertação, que esse muro horroroso fosse facilmente demolido. A evacuação da costa foi ordenada pelo inimigo, e vimos todos os habitantes de La Napoule subir as colinas. A Sra. Clews se instalou no Mas São José, e trouxemos os móveis de Pedro Henrique para o Mas São Luís. Depois, foi o casal Roustand, que sempre tinha mora-do em sua própria casa em La Napoule, que veio ocupar o aparta-mento em cima da garagem, donde nunca mais sairiam. Outro marinheiro veio com eles. Enfim, os dois Mas e a casa de tio Januário estavam repletos. Não sabiam mais onde colocar nossos objetos e achávamos que tudo ia ser confiscado pelos alemães. Assim, nos desembaraçamos de certas coisas, vendendo-as. Isso dava algum numerário, pois não recebíamos nada, de lado algum. Um dia, quatro soldados alemães se apresentaram em casa de Tia Beá, para requisitar quartos. Ela respondeu que as três casas já estavam cheias, que seu marido tinha sido atropelado por um
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caminhão alemão, e que, se quisessem, se dirigisse ao OberstLieutenant Schreiber que poderia instrui-los a respeito. A esse nome, ele se tornaram mais compreensivos e fomos salvas de ter as casas ocupadas. Os ataques aéreos ingleses e ianques se faziam cada vez mais próximos. Visavam a estrada de ferro. Víamos, de longe, as esquadrilhas mergulharem em direção da ponte de Anthéon e sabíamos que era da Real Força Aérea. Os ianques deixavam cair as bombas de muito alto. Acabamos por nos habituar a esses ataques quase cotidianos. Certo dia, o bom Leão Roustand veio nos dizer: "É preciso abrir imediatamente uma trincheira atrás da casa, porque, se a marinha atacar, ninguém estará a salvo no Mas São Luís”. A sugestão foi executada. A trincheira viria a servir para o avanço das tropas aliadas, apoiadas pela marinha, e para que tia Beppa e o casal Roustand conseguissem se pôr a salvo por ocasião do ataque aliado. Pedro Henrique nos suplicava de vir ter com ele em La Bourboule, o que Mamãe acabou por aceitar, desolada de se separar de tia Beppa que, sendo cidadã italiana , não podia deixar o departamento. Não vou descrever a viagem, com as baldeações, os controles, os rafles tão penosos nos trens. Enfim, chegamos a La Bourboule, onde a alegria dos filhos de Pedro Henrique nos reconfortou. La Bourboule era zona protegida, reservada às famílias numerosas. Assim, pululava de crianças. Famílias do norte, como os Thibault (8 filhos) e os Daniel (12 filhos) travaram conhecimento com Pedro Henrique e com Deidi, outras vez grávida, e alegraram os dias sombrios que íamos passar. No dia 5 de abril, nascia uma menininha, Isabel , que recebeu o prenome da madrinha, a condessa de Paris. Os três irmãos ficaram encantados com a irmãzinha que era miudinha e bonitinha. Foi um raio de sol nas tristezas daqueles dias, pois recebemos notícias alarmante de Mandelieu. Tio Januário estava muito mal. Ele morreu quatro dias mais tarde . Tinha recebido a extrema unção na mesma hora em que Isabel recebia o batismo. Curiosa era aquela vida em La Bourboule. Indicaram-nos para cuidar de Mamãe, um médico acupunturista, o Dr. Ferreyoles, que tinha estado na China e trazido um método de cuidar dos doentes, tocando-lhes os pontos nevrálgicos com pequenas agulhas, que ele espetava nos lugares determinados. Prescreveu, ao mesmo tempo, um tratamento homeopático. No fim de alguns dias, mamãe sentiu um grande alívio. Ficamos cheias de esperança. As notícias da guerra
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iam melhorando. Roma caiu, ou melhor, foi salva. Pio XII deu sua bênção aos beligerantes que pouparam a cidade. Nos dias seguintes, houve grande animação em La Bourboule. Passaram caminhões militares. Disseram-nos que o desembarque dos aliados se efetuaria em 6 de junho. E, realmente, na manhã daquele dia, o rádio anunciou a acontecimento. Toda La Bourboule, tomada de pânico, se refugiou na campina, para depois voltar e ficar discutindo nas ruas. Os maquis quiseram levar o prefeito, mas, finalmente, o deixaram e partiram com os caminhões cheios de tudo o que puderam pegar. O pobre prefeito recebeu um aviso oficial: eram os alemães que passariam, então, a chefiar a polícia. Nossa cabeça girava no meio de tantos desencontros. E íamos ao teatro de bonecos com as crianças. Três dias mais tarde, as vias de comunicação com Clermont-Ferrand foram cortadas. Nada de trem, de automóvel ou telefone. Sobrava o rádio. Por ele, soubemos que de Gaule tinha chegado a Bayeux. Na Normandia o desembarque continuava. Depois nos disseram que os alemães estavam empregando contra a Inglaterra uma arma recente, muito nociva, que não se sabia se era um avião sem asas ou uma bomba alada . No fim de julho, a batalha da Normandia chegava ao seu auge. Os russos, no oriente, repeliam, pouco a pouco, os alemães. Na Itália, os aliados avançavam em direção ao Norte, e em La Bourboule os maquis vinham, regularmente, cercar a tabacaria para levar mantimentos... E íamos ao teatro de bonecos com as crianças. Como os maquis tinham feito explodir um túnel entre ClermontFerrand e La Bourboule, os correios organizaram uma companhia de cavaleiros, que subiam de Clermont-Ferrand através dos atalhos nas montanhas. A chegada da primeira delas foi um acontecimento. Colocaram um monte de sacos na praça. Todo mundo aplaudiu o feito. E o correio funcionou assim durante dois meses. Depois, veio o tempo das atrocidades. Em Tulle, os alemães fuzilaram trezentos reféns e enforcaram sessenta homens nas sacadas da cidade, e eu paro por aqui. Vivíamos num horror e só o frescor das crianças nos tirava do pesadelo dessa guerra atroz. Havia um vai-vem de maquis e alemães que passavam através de La Bourboule, sem se encontrar. Contemplávamos tudo sem compreender. Parecia que cada um tinha recebido um horário especial.

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Em 14 de julho, os ianques praticaram um gesto que me ficou na memória. Mandaram aviões sobre La Bourboule e lançaram de páraquedas mantimentos para os maquis. Eram como grandes gaivotas brancas no céu, e pareciam uma mensagem de esperança. Os maquis vieram festejar a data nacional, com cocardas tricolores sob a camisa. Temíamos a chegada repentina dos alemães, mas, graças a Deus, isso ficou no domínio do temor. Uma pequena equipe da Cruz Vermelha tinha montado em minihospital para tratar dos guerrilheiros feridos que desciam a La Bourboule. Uma das minhas amigas de Cannes veio pedir para ajudálos, o que aceitei com entusiasmo. Era preciso se desdobrar para, com os meios materiais que se tinha, para tratar as feridas e cuidar dos doentes. Tínhamos como médico um judeu russo. Depois dos primeiros cuidados, mandava-se, depressa e clandestinamente, o ferido para Clermont-Ferrand. Eu comecei no setor de higiene daqueles "senhores". Era bastante engraçado. Depois me mandaram para a sala de curativos. Ainda vejo o guerrilheiro que tinha sido atingido no ventre por uma bala que saiu por onde vocês podem imaginar... Foi horrível! O médico tinha, como fio de sutura, cordas de violino! O que terá acontecido àquele infeliz? Para não ficar só nas tristezas, gostaria de me lembrar dos passeios no planalto de Charlannes, onde íamos buscar queijos numa fazenda. Nunca mais vi tanta flor em pradarias do que lá, escabieuse azuis, botões de ouro, espécies de anêmonas silvestre vermelhas, todas as cores da paleta flamejando no verde das campinas. Era uma verdadeira sinfonia, onde se sentia a pureza da natureza. Um verdadeiro paraíso. A 23 de agosto, almoçávamos com Pedro Henrique. Ligando o rádio, a primeiras coisa que ouvimos foi "Paris foi libertada!" , seguido de uma vibrante Marselhesa. Não vou relatar esses acontecimentos demasiadamente conhecidos. Celebramo-los, brindando-nos com champanhe. Que alívio! Enfim, podíamos respirar. Infelizmente a atmosfera foi desagradavelmente estragada pelas represálias públicas contra aqueles que supostamente tinham colaborado com o inimigo. Viram-se, em Clermont-Ferrand, casas onde havia o letreiro "fuzilado por engano". O prefeito de La Bourboule foi destituído e substituído por um comunista. Mas, também, sobreveio uma certa reação de vida. Não pensávamos senão em voltar para o sul, para saber o que tinha acontecido com tia Beppa. E pouco a pouco, vimos partir as famílias refugiadas, os Thibault, os Dellasalle, os Tibergen, os Motte e outros. Tomavam-se os táxis quer para Paris, quer para Lião ou para Lille.

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Em nosso hotel, encontrava-se o casal Bedry, de Salon-de-Provence, que, como nós, só pensava em voltar para casa. Tinham encontrado um caminhão cujo motorista, Néan, aceitava nos levar até nossas respectivas casas. Aproveitamos a oferta, e Pedro Henri-que se juntou a nós, deixando Deidi e as crianças em La Bourboule. Foi uma viagem homérica. Na véspera da partida, nossos anfitriões, o casal Perrière, hoteleiros, nos ofereceram um lanche de despedida. Na verdade, tínhamos passado juntos dias inesquecíveis, e eles tinham sido para Mamãe, de uma gentileza e de uma deferência perfeitas. Nos abraçamos com muita emoção. Partimos um tanto aventurosamente, estando todas as comunicações cortadas: telégrafo, telefone, correio. Mas nada podia nos reter mais ali. Para poupar a saúde de Mamãe, Pedro Henrique achou que deveríamos descer com ela, de táxi, até Beauvoir. Fizemos bem, pois, chegando lá, soubemos que o caminhão tinha enguiçado e só poderia seguir dentro de três dias, tempo de encontrar as peças necessárias para o conserto. Pedro Henrique voltou a La Bourboule com o táxi, e nos esperamos pacientemente com o casal Teresa e Guido de Neufbourg, evocando todo o que tinha acontecido naqueles últimos anos. Nossos novos anfitriões procuravam tudo o que nos pudesse distrair e convidaram, um dia, o conde Amadeu d'Andigné , que deveria se tornar meu primo-irmão afim. Ficamos encantadas com sua inteligência e cultura. Encontro em meu caderno de notas: "enfim, depois de algumas dificuldades e emoções, Pedro Henrique voltou com o famoso caminhão, já carregado de malas e caixas. Despedimo-nos de Teresa e Guido que nos tinham tão amavelmente recebido, e embarcamos. Mamãe teve direito, por seu estado e sua natureza, do lugar ao lado do motorista. Atrás foi bem pior. Encaixaram-se, primeiro, pequenos pacotes entre as malas e valises. Duas grandes malas foram colocadas atrás. Sobre a da direita, Pedro Henrique e o Sr. Badry; na esquerda, a Sra. Badry e eu. Colocaram uma cadeira dobrável para a fiel Júlia. Fecharam as portas traseiras da carroceria e enfiaram um pequeno banquinho de meu sobrinho Luís entre minhas pernas e as de Pedro Henrique. Jaime, de 19 anos, filho do casal Bedry, sentouse ali. É o mesmo que dizer que eu tinha os pés esmagados. Guido de Neufbourg nos tinha conseguido um livre passe assinado pelo general De Gaule, que foi um maravilhoso "abre-te, sésamo!" a cada passagem FTP que encontramos. O combustível do motor do caminhão era lenha que se colocava numa espécie de fornalha ao lado do motor . Isso implicava em que, quando a provisão de lenha diminuía muito, tivéssemos de procurar uma garagem onde pudéssemos renovar o suprimento. Viajamos assim, atravessando Lião, devastada pelos combates, e entramos na Via Nacional 7, onde
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desembarcávamos e seguíamos a pé, ao lado do veículo, para aliviar o peso do caminhão ou empurrá-lo, cruzando com o exército do marechal Lattre de Tassigny , que subia à toda velocidade na direção norte. O espetáculo ao longo da estrada era triste: aldeias destruídas, pontes cortadas, pequenas cruzes recordando que ali houvera vítimas humanas. Às 19 horas, estávamos num estrada secundária, à procura de lenha. A noite caiu e não encontramos a serraria. Era preciso voltar. A manobra quase terminou tragicamente. Néan, o motorista, deu marcha à ré sem olhar e parou a dois metros de um barranco profundo. Os gritos de terror do pessoal que estava atrás felizmente o advertiram do perigo. Decidimos dormir em Valença, no Hotel de France. Nos mostraram quartos "um pouco especiais", como nos disse o hoteleiro. Com efeito, as divisórias tinham sido destruídas por uma explosão, e era preciso dormir em público! Enfim, chegamos ao Hotel d'Angleterre, cujo gerente, vendo nossos passes livres, contou-nos que era de Eu e tinha conhecido tio Pedro. No dia seguinte, 13 de setembro, seguimos debaixo de um verdadeiro dilúvio, mas o caminhão andava maravilhosamente e seguíamos na direção sul. Em Livron, entramos na ponte sobre o Drôme, que não era mais que uma passarela de madeira: um baque, gritos dados por negros ianques que reparavam a ponte, e ficamos a dois dedos de mergulhar no rio, onde já se encontrava grande quantidade de veículos alemães. Simplesmente tínhamos perdido a roda dianteira esquerda. O eixo estava partido e nos obstruíamos a estrada, onde comboios militares de amontoavam de ambos os lados. Mas não por muito tempo, pois os negros foram buscar um pequeno trator que logo nos segurou pelo pára-choque, nos arrastou fora da ponte e nos deixou desdenhosamente de lado, no acostamento. Néan resolveu voltar a Valença para soldar o eixo. Um carro aceitou levá-lo. Ficamos por duas horas e meia na casa de uma velhinha, que nos contou sobre a batalha que ali se travara recentemente: "Os alemães procuraram fugir, os FTP os impediram, os ianques os atacaram pelo flanco, no vale do Drôme, enquanto os aviões me rodopiavam em torno da cabeça". Juntamo-nos aos homens, em volta de uma fogueira acesa pelos soldados negros, onde pudemos nos aquecer bem. Enfim, Néan chegou com seu eixo e pudemos continuar a viagem. A Sra. Bedry disse timidamente: "Hoje é sexta-feira 13..." Não falarei do lugar em que passamos a noite, lugar onde todo o exército tinha dormido antes... Seguimos de madrugada, com os faróis acesos, e pouco a pouco o dia se levantou sobre a campina provençal, perfumada de alecrim, de tomilho e de hortelã. Não longe de Avinhão, o sol apareceu, acariciando nossas pessoas ainda enregeladas. Atravessamos o rio
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Durance numa ponte sobre barcos, pois a grande ponte tinha desabado, e chegamos a Salon, onde os Bedry desembarcaram e nos convidaram para tomar café com eles. O tempo estava soberbo, e o ar tão doce parecia nos acolher e nos envolver para nos reconfortar. Não nos restava mais que abrir caminho em direção à Riviera francesa. Não encontrando mais nenhum hotel com quartos vagos, a experiência da noite anterior não nos aconselhando a renová-la, seguimos, noite a dentro, até a casa do tio Reniro, a bela propriedade de Saint-Sauveur. Apesar da hora, foi com gritos de alegria que tia Carolina nos abriu a porta. Num instante fomos rodeados, assediados de perguntas. Depois, nos contaram, por sua vez, os terríveis e interessantes dias que acabavam de viver. Carmem me contou que tinham prevenido a população se de abrigar, se possível, nos porões, mas ela não tinha resistido à curiosidade, veio para fora e assistiu à chegada de centenas de pára-quedistas, em ondas azuis, brancas e vermelhas, seguidos de planadores. "Era soberbo, me disse ela, e a emoção nos dava um nó na garganta". Muitos desses heróis subiram até a casa dela e um deles pediu a meu primo Fernando: "Please, cognac and ... women! " E a conversa continuou enquanto tia Carolina nos improvisava um pequeno jantar e Carmem nos arrumava camas, nas quais um sono reparador logo se apoderou de todos nós. No dia seguinte, domingo, fomos em família agradecer a Deus por nos ter preservado. A missa foi dita pelo Monsenhor Gaudel , bispo de Fréjus, em honra dos franceses mortos nos campo de batalha na Itália. Não sabíamos ainda que Carlos de Lambilly, com quem tínhamos estado no ano anterior no Hotel des Anglais, estava entre os mortos. Deixamos os caros primos depois do almoço e continuamos a viagem em direção a Mandelieu, isto é, em direção ao desconhecido. Em Fréjus, um casal nos pediu carona. Para eles era uma aubaine ter encontrado um meio de transporte. Nosso estranho veículo subiu, com dificuldade, a ladeira do Esterel, depois ganhou velocidade. À medida que nos aproximávamos de Mandelieu, a emoção ia tomando conta de nós. O que íamos encontrar? Poderíamos habitar nossa casa? Enfim, eis a aldeia de Tremblant. Em todas as casas havia fortes marcas da batalha. Em Minelle, um enorme buraco de bomba no meio da estrada. Com o coração apertado, subimos a pequena ladeira que leva ao Mas São Luís ... e oh milagre: a casa estava aparentemente intacta! A cozinheira, Mariana Lovera, e seu marido Luís se precipitaram em nossa direção e começaram, com volubilidade, a contar todas as peripécias da batalha. Com a marinha bombardeando a costa, um obus caiu na sala de jantar e outro no terraço, mas os quartos estavam intactos e podíamos começar a esvaziar nossas malas e nossas caixas no saguão. Nesse ínterim, tia Beppa chegou de Salut. Contou-nos como tinha sido abrigada pelo casal Roustan na casinha de Tanneron, no alto da montanha. Leão,
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Terça-feira, 14. Tínhamos acabado de almoçar quando Batistino, jardineiro dos Bourbon-Parma, chegou pálido, e nos avisou que sabendo que a tia estava completamente só no Mas, e vendo que o bombardeio ia começar, desceu com Maria Luísa, aproveitando a ravina e trincheira aberta para se protegerem, e levaram tia Beppa pelo mesmo caminho. Tais gestos jamais podem ser esquecidos! Nossa reinstalação no Mas São Luís nos ocupou todo o resto do outono de 1944. Chamamos nosso carpinteiro, o Sr. Fazio (que também era soldador) para arrumar nossas janelas. Os pedreiros se puseram, em primeiro lugar, a consertar as paredes do térreo. Vivemos por dois meses "no vento", com um cabo de vassoura no lugar da folha da porta de entrada. Tínhamos sido recebidos com tais manifestações de simpatia que ficamos certos de que não nos aconteceria nada de desagradável. Mesmo pessoas desconhecidas vinham nos cumprimentar e mesmo nos abraçar. Isso nos emocionava. Soubemos que o prefeito Maurer, um loreno que tinham feito mui-tos jovens se engajarem na guerrilha tinha sido detido por um bando de FTI e posto na prisão de Nice. Apesar de todas as intervenções, o pobre homem ficou sete meses trancafiado. Quando, finalmente, foi solto, só pensou em voltar a sua Lorena natal. Como devemos lamentar que certos energúmenos que, sem dúvida, tinham, no início da guerra, denunciado os patriotas aos alemães, pudessem se unir à alegria da libertação. Nosso bom pároco, o padre Guillon, retomou o hábito de vir uma vez por semana celebrar a missa na pequena capela do Mas São Luís. A guerra continuava, mas os alemães, cercados por todos os lados, começavam a dar sinais de descontrole. Seguíamos todos os acontecimentos com cada vez mais esperança de ver enfim guerra terminar e o nazismo desaparecer. Uma letra da Carolina da Silva Ramos nos fez saber que a embaixada do Brasil tinha sido reinstalada em Paris, e que, logo, o correio poderia nos dar notícias de nosso país. Depois, deu-se a última arremetida dos alemães nos Países Baixos e na Bélgica. Ficamos apavorados, mas uma carta de tia Odete que se tinha alistado, como enfermeira, no exército do marechal Lattre de Tassigny, nos devolveu a esperança. Ela se mostrava bastante entusiasmada e tinha certeza de que o fim da guerra estava próximo.

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Maria, Luís e os filhos acabavam de ser detidos pela Gestapo. Tinham-lhes dado uma hora para fazer as malas, dizendo que levassem vestes grossas, depois os levaram em dois carros. Maria teve tempo apenas de rabiscar um bilhete para Mamãe. "Estamos sendo levados para a Alemanha. Confio minha casa a você". Que fazer? "É preciso prevenir Xavier", disse Mamãe. Naqueles dias, as cartas chegavam, às vezes lentamente, mas sempre chegavam. Xavier respondeu, e no fim de setembro veio apanhar as jóias e os papéis que tínhamos retirado do Mas São Remígio. 1945 O ano de 1945 começava. As notícias chegavam mais facilmente. Soubemos do casamento de meu primo Pedrinho com minha prima Esperanza . Tínhamos recebido o convite, e gostaríamos muito de ter assistido a cerimônia , mas os meios de transporte ainda eram difíceis demais. Em 12 de janeiro caía neve, e durante todo o mês o termômetro não subiu acima de zero grau. Todos estavam enfraquecidos e as frieiras nos pés e nas mãos foram o quinhão da maioria. Bruscamente, no início de fevereiro, o calor voltou e tivemos três meses excepcionais. Dia a dia, tomávamos conhecimento da derrocada do exército alemão: a libertação do Luxemburgo, da Alsácia, a travessia do Reno pelas tropas aliadas, a tomada de Viena pelos russos, a libertação em massa dos prisioneiros, o suicídio de Goebbels, a captura de Himmler e de Göring que se suicidou também, o desaparecimento de Hitler, e a ocupação total da Alemanha pelos exércitos aliados. Durante o mês de março, hospedamos três legionários no Mas São Luís. O capitão Miville, comandante no exército suíço, tinha se alistado na Legião Estrangeira Francesa, "para conhecer a guerra". Seu ordenança era um espanhol vermelhão e seu motorista, um belga. Gostaria de ser caricaturista para desenhar esse trio, três cabeçasduras, mas muito simpáticos. O capitão era um cavaleiro de provas hípicas, tinha viajado um pouco por toda parte, e tínhamos os mesmos conhecimentos. Um dos seus ancestrais tinha combatido pelos Bourbons em Gaeta. "Os suíços de boa família de alistavam nos exércitos dos Bourbons, quer por tradição quer por amizade", dizia ele. Seu ajudante, o belga Maurício engrolava um francês ininteligível, o que não o impedia de lançar olhares lânguidos para Margarida, nossa jovem cozinheira. Isso fez com que nosso trivial, bem magro nesses tempos de racionamento, melhorasse bastante. Ele nos emprestava chocolate, conservas, chá e café, surrupiados na ração do capitão que
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chegou, um dia, a nos pedir que o convidássemos para almoçar, pois seu ordenança tinha esvaziado todas as suas provisões. O motorista era um madrilenho alto e belo, vermelhão, mas, assim mesmo, muito gentil conosco. A pequena Bubu, então com um ano, conquistou o capitão. Ele vinha tirá-la do carrinho e passeava com ela nos braços, dizendo: "Vale a pena a gente se casar para ter uma Bubu". Chegando para ficar oito dias, nossos legionários ficaram um mês no Mas São Luís. Numa manhã, eles nos deixaram para se juntar aos atacantes do forte de Authion, nos Alpes, ainda em mão dos alemães. Ouvíamos, ao longe, o ruído dos canhões, e ficávamos tensas pensando que eles poderiam morrer ali. Assim, qual não foi nossa alegria quando, depois de quinze dias, os vimos reaparecer. Nosso capitão e sua equipe vinham nos pedir hospitalidade por mais alguns dias. O ataque tinha sido muito difícil, havendo grande número de mortos e feridos. Tinham tomado Authion, mas num determinado momento, a ação se tornara tão sangrenta, que acharam melhor descer montanha a baixo, enquanto, na encosta oposta, os alemães faziam o mesmo, todos sentindo que a guerra estava no fim e não valia a pena se deixar matar por tão pouco. Foram embora depois de cinco dias de convalescença para tomar posição em Saint-Jean-La-Rivière. Nesse ínterim, a Alemanha capitulou. Nossos legionários voltaram ainda uma vez com um enorme buquê de cravos e a promessa de passar lá em casa, no correr da semana, antes de deixar a riviera. Mas, como irmã Ana , não vimos ninguém chegar e soubemos que tinham partido para Paris. Mamãe recebeu, seis meses mais tarde, uma linda cigarreira assinada por um grande joalheiro suíço, que trazia dentro uma carta de Miville. O rádio nos anunciou a libertação e a volta da condessa de Flers. Lançada no canto de um acampamento, onde se encontrava no tempo da retirada alemã, ela se salvou por um milagre. Um soldado ianque, passando perto dela, viu que ela respirava e lhe lançava um olhar de súplica. Tomou-a nos braços e levou-a ao general Paton, que a enviou, de avião, a Paris. Ela pesava 22 quilos! Ao escrever a Mamãe, em maio de 1945, ela não sabia ainda que seu marido não mais voltaria. Mas seu caráter enérgico ajudou-a, aos poucos, a vencer, a fraqueza. Quanto sofrimento Hitler tinha causado! Que poder maléfico lhe teria sido dado para que conseguisse arrastar multidões atrás de si?
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Na mesma época, Mamãe recebeu uma carta de Maria , condessa de Sièyes, dizendo que sua irmã, Lily de Rambuteau, tinha sido libertada a pedido do rei da Suécia , e se encontrava, então, em Estocolmo. E tinha sabido da morte do marido de uma maneira atroz. Não tinha nenhuma notícia dele nem dos dois filhos presos, e estava prestes a sair do campo de concentração, quando o oficial alemão a chamou: "Viúva Rambuteau!" As atrocidades dos nazistas apareciam à luz do dia, e tudo de horroroso que se tinha contado não chegava à metade do que se descobria cada dia, pelas imagens que se publicavam, e, sobretudo, pela prova palpável e dolorosa registrada pelos que saíam daquele inferno. Não tínhamos nenhuma notícia de Maria e de Luís de Bourbon-Parma. Mamãe guardava como uma preciosidade a mensagem ra-biscada que Maria lhe tinha mandado entregar pelo jardineiro. Ora, uma bela manhã, vimos a porta da sala se abrir lentamente, deixando Maria entrar. Ficamos mudas de surpresa, sem saber o que dizer. Maria disse simplesmente a Mamãe: "Pia, você pode me hospedar por alguns dias?" Depois, nossas línguas se soltaram e as perguntas se fundiram. Donde vinha ela? Luís estava livre também? E as crianças? Ela nos contou que os dois anos se tinham passados, primeiro num campo de concentração, em local bem próximo às câmaras de gás, depois ela, Luís, as crianças e a babá tinham sido levados para uma fortaleza no norte da Alemanha. Maria contava, com humor, os passeios na floresta, acompanhada por um guardião que não prestava atenção a ela, e o medo de se encontrar sozinha sem saber onde estava e como encontrar o caminho da fortaleza. No dia seguinte, batendo à porta de seu quarto, ouvi um herrein quase gritado, e me dei conta de quanto ela ainda se encontrava sob o terror que a dominara durante aqueles dois anos. Sua chegada foi uma alegria para toda a nossa região. Realmente, no tempo da ocupação italiana, quanto tinha ela tinha feito para que os habitantes de Mandelieu não sofressem aborrecimentos... Não podíamos ainda usar o Peugeot, bem abrigado em sua garage, pois a gasolina era reservada às tropas. Um dia vimos chegar um grande caminhão americano. Ao lado do motorista, estava a Irmã Inácio, que fez descer do caminhão dois galões de gasolina. Ignoro como ela fez para obter o que ninguém tinha naquele momento, mas pudemos, assim, colocar o carro em funcionamento. O decidido Leão Roustand se ocupou da direção, e Mamãe pôde aproveitar de novo seu automóvel para sair. Maria nos deixou no fim de oito dias para encontrar seu marido e seus filhos no Luxemburgo, onde ela os havia deixado com seu cu203

nhado Félix, marido da Grã-Duquesa Carlota. Ruperto, Chefe da Casa Real da Baviera, sua mulher, irmã da grã-duquesa, bem como suas filhas, tinham sido libertadas na mesma época e estavam todos no Luxemburgo, em família, cuidando das feridas de guerra. Soubemos, assim, pouco a pouco, quanto nossos parentes tinham sofrido sob a tirania assassina de Hitler. Tia Odete veio também, desmobilizada depois da vitória. Ela tinha passado por Landau, por Altshausen e por Sankt-Gilgen e pôde dar a Mamãe notícias tranqüilizadoras de seus irmãos e irmãs. E pensar que nós tínhamos atravessado os quatro anos de guerra sem maior infelicidade, enquanto milhões de homens e mulheres tinham morrido ou sofrido no corpo e na alma. Que extraordinária proteção recebêramos do Céu! Por quê? Tranqüilamente, os exilados da costa voltavam para casa. A viúva Clews, proprietária do castelo de La Napoule, deixou o Mas São José, embora sua casa não estivesse absolutamente em condições de recebê-la. Ela se instalou no alojamento do porteiro esperando que os danos nas portas e janelas e em outras partes fossem reparados. Uma bomba tinha feito uma enorme cratera no jardim. Como ela adorava receber em casa e não pudesse ainda abrir seus salões, convidava seus amigos para ver "seu buraco". Um lanche se seguia, servido entre as alamedas bordejadas de buxos. Pouco a pouco, a costa curava suas feridas. Viu-se, com uma alegria sem nome, desaparecer bem rapidamente o "muro do Mediterrâneo", que contornava toda a baía, desde La Napoule até Cannes. Foi preciso retirar as minas de toda a planície entre Mandelieu e La Napoule, procurar os obuses, as granadas, munições espalhadas depois da rude batalha que deixara novecentos mortos de um lado e de outro. Tudo isso levou longos meses. Um dia, para nosso grande pavor, vimos os três filhos de Pedro Henrique, chegarem muito orgulhosos, um deles levando, na mão, triunfalmente, uma granada. E Eudes nos dizia com um grande sorriso: "Olhem só o que nós encontramos. E tem um barbantinho na ponta!" Graças a Deus não tinham ousado puxar aquele barbante, mas ficamos, por um momento, petrificados de medo. Desde a libertação, Pedro Henrique estava atrás de um meio de transporte para se mudar com sua família para o Brasil. Foi avisado pela embaixada que o navio português "Serpa Pinto" deveria partir em data próxima para a América do Sul . Pôde reservar as cabinas necessárias para ele, Deidi, novamente grávida, e os quatro filhos, Luís, Eudes, Beltrão e Bubu.

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Mamãe, embora julgasse essa separação necessária, sentiu muito. Decidiu acompanhá-los até Paris, onde as irmãs Silva Ramos tinham, gentilmente, posto à nossa disposição seu grande apartamento da avenida Raymond Poincaré. A primeira pessoa que veio visitar Mamãe foi tia Elsie. Ela chegava do Brasil, desejosa de rever os membros da família, depois daquela longa e dolorosa ausência. Mamãe ficou profundamente tocada com essa visita e teve imensa alegria em revê-la. As duas concu-nhadas se puseram a contar mutuamente os acontecimentos de família, ocorridos tanto no Brasil como na França. Tia Elsie aproveitou para nos prevenir que Pedrinho tinha sido obrigado, durante a guerra, a tomar certas disposições sobre a "Fazenda Imperial de Petrópolis" . Ela estava contente em saber que Pedro Henrique tinha partido para o Brasil e que poderia, assim, esclarecer a situação com seu primo. Soubemos, depois de um tempo que parecia não ter fim, que o "Serpa Pinto" tinha chegado bem ao porto do Rio de Janeiro. Soubemos, pouco tempo depois, que Ongá, Cecília e todos os filhos, tinham deixado a Itália e, por sua vez, desembarcado no Brasil. Pedro Henrique nos escreveu, dando essa notícia, e manifestando grande alegria. Ongá era o irmão mais moço de Mamãe, e não havia senão doze anos de diferença entre ele e meu irmão. Sempre se tinham entendido às mil maravilhas, e ambos estavam felizes de se encontrar no mesmo país para aquela nova fase de suas respectivas vidas. Gosto de chamar o fim de 1945 de "tempo dos americanos", pois, nos libertando, eles tinham trazido sua alegria e devolvido a nossa. As casas dos amigos se abriam uma após as outras, deixando de novo penetrar a alegria dos reencontros numa atmosfera de paz. Íamos freqüentemente à casa de monsieur Charles, personagem misterioso, provavelmente espião dos americanos antes do desembarque destes na "Côte d'Azur". Tinha um nome polonês, cuja ortografia não ouso especificar, e que ele preferia, aliás, que não fosse mencionado. Coabitava com uma senhora, ou melhor, com uma moça belga, de idade incerta, que atendia pelo bonito nome de "Primerose". Esta última, depois da morte de monsieur Charles, voltou para a Bélgica, donde nos escrevia fielmente todo ano. Morreu santamente num convento de beneditinas. A guerra permitia equívocos que não nos cabe julgar. As noites na casa de monsieur Charles eram muito alegres. Nós íamos lá em companhia de Luís e Maria de Bourbon-Parma, e encontrávamos militares americanos convidados por nosso anfitrião.
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Era a época do boogy-woogy, dança inteiramente nova para nós, mas que correspondia à necessidade de se exprimir e exteriorizar a alegria se de sentir de novo num país livre. Às vezes, Mamãe nos acompanhava e, apesar da cegueira, gostava de ouvir esse novo ritmo musical, vindo do outro lado do mar. Aproveitamos a hospitalidade dos Silva Ramos e, depois da partida de Pedro Henrique, ficamos em seu apartamento em Paris. Estáva-mos em outubro e já fazia frio. Não havia nenhuma possibilidade de fazer funcionar a calefação. Andávamos de casaco de peles a maior parte do tempo. Mamãe desejava manifestar sua afeição à condessa de Flers. Quando a vimos pela primeira vez, ficamos abaladíssimas. Meu Deus, como deveria ela ter sofrido! Era só pele e ossos, não pesando mais que 22 quilos! E sentia-se que toda sua pessoa estava num estado de esgotamento total. Quando ela viu Mamãe, olhou-a intensamente, esboçou um sorriso, e, abrindo os lábios, disse algumas palavras, com uma voz quase inaudível. Seus filhos e filhas a contemplavam, sabendo que o pai e a tia não voltariam mais. Não se pode descrever um momento como aquele. Era duro demais, desumano demais. Mamãe não pôde esconder sua emoção. Foc, como se sabe, era filha de sua amiga íntima, a marquesa de Ploeuc, que tinha sido sua confidente e seu apoio depois da morte de Papai. Tinha morrido bem antes da II Guerra Mundial, e Mamãe transferira a afeição para a filha, na casa de quem ela gostava de estar ao cair da tarde, quando as lembranças lhe voltavam e os desgostos se tornavam mais pesados. O professor Gennes tinha sido chamado para cuidar e devolver à vida aquela pobre mártir dos nazistas. Nisso empregou todo seu talento, seu saber e seu coração, conseguindo o milagre de colocá-la de pé depois de muitos meses de cuidados de sua parte, e de uma vontade enérgica de se curar, por parte da paciente. Depois que me casei, ela passou a vir escrever para Mamãe, e levá-la passear docemente pela avenida Victor Hugo. É toda uma vida de amizade que eu evoco aqui. Mais tarde, quando Foc se recuperou, eu me juntava às discussões que versavam sobre política e terminavam, invariavelmente, na esperança de ver a monarquia voltar à França. Meus dois afilhados tinham sido recolhidos, depois da prisão de seus pais, pelos du-ques de Noailles que também tinham sido duramente provados. Seu filho, o duque de Ayen , morreu deportado. Antes, seu encantador neto, Maurício , já tinha morrido em combate, quando uma ponte desabou sob o caminhão que o transportava. Mais de quarenta anos se passaram no momento em que escrevo essas lembranças, mas me

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são tão pungentes, que tenho o coração apertado. Meu Deus, quando a paz reinará definitivamente entre os homens? O frio persistente daquele começo de outono nos incitou a deixar Paris mais depressa do que tínhamos planejado, para voltar à riviera e encontrar nosso Mas cheio de sol. O curso e a agitação da vida voltaram à rotina, sem muita animação. Mamãe, eu e tia Beppa nos sentíamos bem sós sem Pedro Henrique e seu quarteto. O inverno passou assim numa espécie de torpor. A gasolina era ainda rara e a guardávamos para necessidades urgentes. Isso privava Mamãe de passeios mais longos. Boas andarilhas, dávamos grandes voltas a pé, pelos diversos estradas e caminhos que conduzem, quer a Napoule, quer às colinas do Esterel. Mas era preciso ocupar o resto do dia. As leituras se tornaram, assim, nossa salvação. Perdi a conta dos livros que li, em voz alta, para Mamãe. Cada vez mais, encontramos prazer na leitura. Parece que, dessa forma, o relato ficava mais amplo e mais verídico, suscitando em nós duas mais interesse, que nos fazia, em seguida, trocar impressões. O Natal chegou, trazendo uma nova onde de frio. O tempo estava cinzento e as nuvens, baixas. Não montamos a árvore de Natal, pois nosso moral não estava para isso. Um pequeno presépio só nos fazia lembrar que o menino Jesus tinha vindo à terra para nos amar e nos ensinar a saber partilhar as alegrias e os sofrimentos. Mas tínhamos recebido uma boa notícia. Em 1º de dezembro, em Petrópolis, nascia Pedro, quinto filho de Pedro Henrique e de Deidi, o primeiro membro da Família Imperial nascido no Brasil depois da revogação da lei do banimento. Víamos poucas pessoas, pois todos estavam ocupados em reparar os estragos que a guerra tinha causado em suas casas. De vez em quando, chegava um polonês, à procura de Saint-Sauveur e de tia Carolina, nos trazendo um bafo de excentricidade. Uma noite, deveria ser mais de 11:30h, ouvimos bater na porta envidraçada do saguão. Fui ver quem era e me deparei com uma espécie de tártaro, com grandes bigodes, tal como se vê nos romances russos. Tirando seu gorro de peles, ele se apresentou "conde Tyszkiewicz" , o que me tranqüilizou, sabendo que se tratava de um membro uma família nobre polonesa. Entrando na sala de visitas, ele se pôs de joelhos e beijou a mão de Mamãe que pediu para que ele se sentasse. Pôs-se então a nos
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contar suas aventuras de guerra. As palavras saíam de sua boca como uma torrente tumultuosa que arrastasse seixos num fluxo contínuo. O que ele contava era interessantíssimo, e lamento não me lembrar bastante fielmente das aventuras, por vezes rocambolescas, onde atravessava mil perigos, donde escapava sempre miraculosamente. Tinha chegado numa grande motocicleta de fabricação inglesa. Quisemos retê-lo para passar a noite no Mas, mas ele preferiu continuar a viagem para chegar logo em Saint-Sauveur. Vimo-lo se afastar na noite, acompanhado pelo ruído longo e estrepitoso do motor, que, pouco a pouco, diminuiu até desaparecer. Tia Carolina tinha um outro primo que nos fazia rir por sua originalidade. Era o conde Gawronski , que se deslocava, depois do fim da guerra, numa camioneta, em cuja traseira tinha sido instalado um quarto de dormir, se é que podemos chamar de quarto a caçamba de uma camioneta. Ele tinha colocado ali dois colchões, um para ele e outro para uma dama italiana que tinha partilhado de sua vida aventurosa. No inverno, seis ou sete cobertores eram estendidos sobre os colchões, e à medida que o verão avançava e aquecia a atmosfera, os cobertores mudavam de lugar e desciam, um após outro, para debaixo dos colchões. Quando nós o conhecemos, junho já chegava, trazendo o doce calor do verão. Tia Carolina nos tinha convidado para um jantar ao ar livre em La Combe, que não, na época, era mais que um redil. Grawronski se instalou com sua camioneta sobre os belos pinhei-ros. Tia Carolina e Cármen já tinham acendido o fogo de lenha para cozinhar batatas na cinza. Nada podia ser mais agradável. O pequeno vinho rosado de Saint-Sauveur se deixava beber, enquanto, pouco a pouco, a noite se enchia de milhares de estrelas, e as cigarras, uma a uma, iam parando de cantar. A Polônia se punha, então, a exprimir, pela boca de Gawronski que nos levava, através da Europa, em direção a seu país, seu heroísmo e sua dor, no ruído das batalhas ou no silêncio das florestas protetoras, escapando, assim, de um lado, da perseguição dos panzers alemães, e de outro, das tropas russas, pois seu infeliz país tinha sido comprimido, como num torno, entre aqueles dois monstros. Escutávamos, fascinadas, enquanto o fogo se apagava docemente ...

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1946 Agora, as cartas de Pedro Henrique chegavam regularmente. Elas terminavam quase sempre nos pedindo para vir ter com ele no Brasil. Eu sempre tinha tido muita vontade de conhecer o meu país. Mamãe não dizia nem que sim, nem que não. Um belo dia, ela se decidiu e fomos a Paris reservar uma cabina no "Campana" que deveria deixar Marselha no mês de setembro405. Voltando a Mandelieu, começamos nossos preparativos. À medida que a data da partida se aproximava, Mamãe se tornava cada vez mais inquieta. Ela estava pressionada entre a vontade de rever o filho e os netos e o medo – dizia ela – de não mais encontrar com vida sua irmã Beppa que deixava só em Mandelieu. O dia da partida chegou, nossas bagagens estavam prontas. Mamãe, sentada em sua poltrona, me disse subitamente: "Não vou!" Eu sabia bem o que ela não queria confessar: era a lembrança da viagem com seu sogro em 1922. O fato de ele ter caído morto em seus braços a bordo do “Massília”, era para ela um verdadeiro pesadelo. Por isso, respondi calmamente: "Bem, Mamãe, fique. Eu vou". Já tinha 32 anos, portanto mais que maior, e depois sabia que ela não aceitaria me deixar partir sozinha. "Está bem. Eu vou com você", me disse. A partida estava ganha. Tive ainda um momento de inquietação, ao chegar diante do "Campana". O bom Leão Roustand que nos levou a Marselha com sua eterna Peugeot, vendo o belo transatlântico, disse, de chofre, com seu sotaque provençal: "Quem diria que um belo navio como esse pode se partir entre duas vagas?" Eu o repreendi: "Por favor, Leão!". Mas, um pouco mais tarde, olhando de novo o "Campana" com seus olhos de marinheiro, ele se pôs a dizer: "E A autora e sua mãe ficariam no Brasil de setembro de 1946 a janeiro de 1947.
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pensar que um navio como esse pode pegar fogo ..." Felizmente Mamãe não ouviu nenhum desses funestos comentários. Enfim, eis-nos subindo a bordo. O comissário nos levou à nossa cabina que era ampla e clara. Isso vinha realmente a calhar, já que o navio estava lotadíssimo. Havia mil passageiros a bordo. Logo travamos conhecimento com os novos embaixadores da França, que iam tomar posse de seu posto no Brasil. O casal Guérin406 foi para nós de grande valia durante a viagem. A única escala foi em Dacar, onde pudemos descer e visitar o mercado cheio de cores, admirar a beleza das mulheres senegalesas, altas e magras, usando longos vestidos multicores. Era um verdadeiro jorro de cores que se movia sob o sol da África. Depois começou a grande travessia. O mar imenso nos rodeava por todos os lados. Houve a tradicional festa da passagem do equador, das quais participamos como espectadoras, ao lados dos embaixadores. O batismo de Netuno se fez num espirrar de muita água, fazendo desencadear risadas por todos os lados. O ar estava quente e um pouco de água refrescante era sempre bem vinda. É difícil e aborrecido se manter isolado num navio. Travamos conhecimento com várias pessoas interessantes, entre as quais uma jovem professora do Liceu Francês em Buenos Aires, cuja filha de doze anos, parando diante de nós, disse à mãe, num tom desapontado: "Pensei que as princesas usassem uma coroa na cabeça..." O tempo passou, Mamãe ficou feliz de ter vencido suas apreensões e, no décimo-quinto dia, entramos na baía de Guanabara. Infelizmente, caía a noite, a bruma escondia a costa e só as luzes difusas da cidade atravessavam a neblina que cobria a baía. Fomos avisadas de que o navio não acostaria como previsto. Não nos restava senão descer à nossa cabina e preparar as valises para o desembarque no dia seguinte. Aliás, o comissário veio nos avisar para que não nos apressássemos, pois, antes de tudo, a polícia e a alfândega tinham registrar os passageiros que iam desembarcar no Rio, e nós éramos mil. Um pouco decepcionadas, descemos para repousar e estarmos em condições de enfrentar o dia seguinte, Bem fizemos, pois, no dia seguinte, a grande agitação no navio nos encontrou prontas. A alfândega estava instalada na ponte. Pediram que puséssemos nossos cinco dedos sobre almofadas com uma tinta
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Guerin ???
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simpática, e recebemos rapidamente a autorização para desembarcar. Um carregador negro e alto desceu conosco à cabina para apanhar as bagagens. Vendo a etiqueta com o nosso nome, voltou-se para Mamãe e disse num grande sorriso: "Então, a Senhora é da nossa Família!407" Nada poderia mais reconfortar nossos corações. Pensei em Papai, tantos anos atrás, chegando como nós, vendo recusada sua entrada na própria pátria. Como deveria ter sofrido! Enfim, eis-nos na passarela, desembarcando. Pedro Henrique e uma parte dos filhos nos esperavam no cais. Estávamos felizes, e Mamãe particularmente satisfeita de ter conseguido dominar o medo e vencer a lembrança atroz que guardara de sua primeira viagem e de sua chegada ao Rio de Janeiro, com o caixão que continha o corpo de seu bem amado sogro. Entretanto, uma outra provação a esperava. Pedro Henrique lhe contou que, ao chegar, teve de enfrentar uma situação família terrivelmente penosa. Não vou dar detalhes do caso, mas só o pensamento desse fato me deixa um sentimento de grande tristeza. Mas o Brasil é um país de tão grandes atrativos que guardo, apesar de tudo, uma lembrança feliz daquele primeiro contato com minha pátria. Também vários amigos tinham vindo se juntar à nossa família. Mamãe teve grande alegria ao ver Cândido Guimarães408, amigo pessoal de Papai, com sua esposa Edite409, bem como a filha deles, Pia410, que era sua afilhada. A emoção nos dava um nó na garganta, mas logo a alegria dominou. Quantas coisas tínhamos que contar! Antes de mais nada, era preciso chegar em casa, casa que Pedro Henrique tinha alugado. Um grande carro de fabricação americana, conduzido por um soberbo motorista negro, subiu a ladeira que fazia parte – disseram-me – do caminho que levava ao Corcovado.

Nas monarquias as famílias reais são tidas como pertencentes ao povo. Daí o "nossa". 408 Cândido Rodrigues Guimarães (* †), filho de Sebastião Guimarães (filho do barão de Jaguarão) e de Guilhermina Rodrigues. X Edite Wilson de Azevedo Macedo, c.s. 409 Edite Wilson de Azevedo Macedo (* †), filha de João Álvares de Azevedo Macedo e de Alice Wilson. X Cândido Rodrigues Guimarães, c.s. 410 Maria Pia Macedo Guimarães (* ), filha de Cândido Rodrigues Guimarães e de Edite Wilson de Azevedo Macedo. X Paulo Niemeyer, c.s.
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A casa se situava no bairro de Santa Teresa, de onde de podia ver o centro da cidade e uma parte da incomparável baía. O tempo estava bom e fazia calor, o que não nos desagradava absolutamente. Eu e Mamãe nos sentíamos felizes em estar de novo no meio da toda aquela felicidade familiar. Pudemos conhecer o primeiro brasileiro da família imperial a nascer no Brasil, Pedro de Alcântara411, que já estava com oito meses era um lindo bebê lourinho. A casa era grande e bem arejada; ela podia nos abrigar a todos sem dificuldades. Logo, Deidi nos mostrou seu lindo jardim, onde, graças a seu conhecimento, ele tinha sabido misturar harmoniosamente as plantas tão bonitas e extraordinárias do nosso país quente e chuvoso com flores próprias da Europa. No Brasil anoitece cedo. Então, as crianças se esgueiravam para perto de Mamãe para que ela lhes contasse uma história. Foi assim que começaram as aventuras de "Micky Mousse"412. Mamãe tinha uma imaginação fértil. As crianças permaneciam em volta dela, num grande sofá, sem se mexer, com os olhos fixos nela, mergulhados num sonho, seguindo, com paixão, as aventuras do conhecido personagem. Cem metros rua abaixo, ficava a igreja paroquial. Chegava-se lá por uma ladeira extremamente inclinada, cujo pavimento cuidadosamente colocado, aderia suficientemente às solas dos sapatos, permitindo-nos descer a pé, sem o risco de um escorregão desastroso. O pároco de Santa Teresa era monsenhor Nabuco413. Pertencente a uma grande família brasileira, ele tornou-se logo amigo e confidente de Pedro Henrique, com quem usava o tratamento a que tinha direito "Dom Pedro". Monsenhor Nabuco subia, muitas, vezes até a casa de Pedro Henrique, para grande prazer das crianças, com quem ele gostava de mexer. Depois, sentava-se ao lado de Mamãe e ambos tinham longas conversas que lhes davam visível prazer, pois, ao confrontarem suas idéias, viam que, na maioria das vezes, eram idênticas. PEDRO DE ALCÂNTARA Henrique Maria José Miguel Gabriel Rafael Gonzaga, príncipe do Brasil (01-12-1945/28-12-1972) e de Orléans e Bragança (* Petrópolis, RJ, Brasil, 01-12-1945); X Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 04-07-1974 Maria de Fátima Andrada Baptista de Oliveira Lacerda Rocha (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 14-07-1952), filha de Orlando Lacerda Rocha e de Sílvia Maria de Andrada Baptista de Oliveira. O casal tem cinco filhos. 412 Forma afrancesada de Mickey Mouse, o camundongo Mickey, personagem de Walt Disney. 413 Joaquim Nabuco Filho (* Rio de Janeiro, RJ, 16-01-1894; † ibd. 17-10-1968), filho de Joaquim Aurélio Nabuco de Araújo e de Evelina Torres Soares Ribeiro (filha do barão de Inoã).
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Minha querida "Bubu" ou "Bica", era uma menininha de dois anos, bonita e ajuizada, até que teve a idéia de cortar os punhos das mangas da blusa, manchados de suco de tomate, dizendo, cheia de orgulho, a Deidi que tinha se zangado com ela, "agora elas estão limpas". Muitas vezes íamos à cidade, usando como ponto de encontro o escritório de Cândido Guimarães, cujas janelas davam para a baía. A vista era fascinante, com os navios chegando, os veleiros marcando de branco o azul do mar, e o Pão de Açúcar colocado lá como se um pássaro gigante, de passagem, o tivesse deixado. Mamãe gostava de reviver com Cândido as lembranças de Papai. Uma certa nostalgia se instalava entre os dois, deixando perceber a tristeza do seu desaparecimento. Nos os deixávamos a sós e eu acompanhava Pedro Henrique à sala da secretária, Olga Carapebus414, que nos atendia pessoalmente. Ela tinha passado a juventude em Paris, com seus pais, monarquistas fiéis. Seu maior desejo era rever a França. Pôde realizar seu sonho quando eu já estava casada, e vir até o Lude, o que a encheu de alegria. Edite Guimarães se transformou em nossa guia. Foi ela que me fez admirar, pela primeira vez, as belezas dos arredores do Rio. Levounos até Copacabana, onde os edifícios começavam a substituir as casas e os pequenos palacetes ao longo da praia de areia branca. Depois, à floresta da Tijuca, de árvores equatoriais, suntuosas em seu verdor, com largas folhas brilhantes, misturadas ao aveludado das lianas. Fazia-me pensar na floresta encantada dos meus contos de fada da infância. Nessa época, Mamãe ainda enxergava bastante para que se desse conta dos lugares onde nos encontrávamos. Na manhã em que empreendemos o passeio ao Corcovado, senti que a emoção a dominava. Ela revivia as horas dolorosas de sua chegada tão trágica em 1922. Pôs-se a contar de novo todas as cerimônias de que tinha participado, em luto pesado, com meus irmãos e a família de seu cunhado, nas festas do Centenário da Independência. Deixamos o carro no meio do caminho para tomar o trem que sobe através da floresta, esta também cheia de mistério a meus olhos, ainda pouco habituados a tanta exuberância. Enfim, o Cristo! Ele estava lá, de braços abertos sobre o Rio de Janeiro, protegendo o Brasil.
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Olga Andrews de Carapebus (* Rio de Janeiro, RJ, 1891; † ibd. 1950), filha de José Inácio Netto dos Reys, conde de Carapebus, e de Margarida de Assunção Andrews. Era irmã de Maria Francisca Andrew de Carapebus (1887-1977)[D. Francisquinha], conhecida professora de francês no Rio de Janeiro.
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Mamãe tinha colocado a pedra fundamental do monumento em 1922. A reputação dos médicos brasileiros já era conhecida. Aconselharam a Mamãe a consultar, no Rio, o Dr. Couto e Silva, de capacidade renomada. Era um homem encantador e Mamãe rapidamente se tornou amiga dele, indo às consultas com visível prazer. Depois de ter examinado cuidadosamente as pálpebras dela, ele receitou, para acalmar a irritação e aliviar a dor, um tratamento ultra-moderno que consistia em injetar, por via hipodérmica, extrato de veneno de abelhas, começando com uma dose microscópica, que aumentava um décimo de miligrama por dia. Quando se atingia a centésima dose, era preciso retornar ao início, décimo de miligrama por décimo de miligrama. Esse tratamento aliviou os sofrimentos de Mamãe, mas não podia impedir que sua visão continuasse a diminuir. Já estávamos há um mês no Brasil, quando a casa de Pedro Henrique se tornou um verdadeiro hospital. Meu irmão começou com uma forte coqueluche; depois, foi minha vez de sentir mal. A rubéola se declarou e eu fiquei doente como nunca tinha estado. Deidi teve que chamar uma enfermeira, Maria, que corria de um quarto ao outro, procurando aliviar nossas misérias. A presença de Mamãe foi uma bênção para as crianças que, desde que a viam, precipitavam para ela para que ela continuasse a lhes contar sua apaixonante história. Ficavam praticamente imóveis, atentos às aventuras que Mamãe descrevia com uma profusão de detalhes que pareciam reais. No fim de quinze dias, com a saúde algo recuperada, fomos convidadas a um grande lanche onde todas as senhoras da sociedade do Rio de Janeiro compareceram. Dona Maria Pia, minha mãe, e Dona Maria, minha cunhada, muito à vontade, conversavam com todas aquelas damas extremamente elegantes. Eu, Dona Pia Maria, as invejava, mas me sentia ainda tonta, andando e falando como uma sonâmbula, tendo somente vontade de me sentar na relva e contemplar a beleza das flores, deixando-me levar até ser tragada pelos encantos do meu país. Por ocasião de sua passagem por São Paulo em 1922, Mamãe tinha sido recebida por numerosos amigos de Papai. Agora, pediam-lhe que fosse novamente ter com eles. Novembro chegou, eu já tinha recuperado minhas forças: vários banhos de mar em Copacabana, numa água deliciosamente tépida, tinham me devolvido a saúde. Reservamos uma cabina no trem noturno da Central do Brasil, que deixava o Rio tarde da noite e chegava cedo em São Paulo. Quando desembarcamos na gare, numerosas pessoas nos aguardavam.
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Infelizmente chovia, mas que importava a garoa paulista se nosso coração estava acalentado por aquela rede de simpatia? Chegando ao hotel, encontramos o quarto cheio de flores, cada uma mais bela que a outra, sem falar das orquídeas de cores doces e harmoniosas ... Eduardo415 e Maria Helena Ramos, esta, filha de Antônio Prado Júnior416, íntimo amigo de Papai, vieram nos buscar para almoçar em sua linda casa, situada, se não me falha a memória, nas cercanias da cidade. São Paulo, naquela época, não era ainda a cidade do tipo norteamericano, de arranha-céus de mais de vinte andares, mas uma bonita cidade de belas avenidas sombreadas de árvores soberbas. O desenvolvimento da cultura de café, no século XX, tinham atraído numerosas famílias que se enriqueceram, assim, rapidamente. Cada um queria ter uma moradia na cidade, donde a construção de bonitas casas de estilo clássico. Isso dava à cidade um caráter de nobreza e de prosperidade, da qual os habitantes se sentiam, com razão, muito orgulhosos, e encantava os recém-chegados. Mamãe estava feliz de encontrar seus amigos e poder evocar, com eles, as lembranças de Papai, que ela tinha amado tanto. Em seguida, Eduardo e Maria Helena nos levaram a fazer a primeira visita à cidade. Vimos o monumento erigido no bairro do Ipiranga, no local onde D. Pedro I tinha declarado a independência do Brasil. Recuando no tempo, um sentimento de admiração me levou a pensar em tudo o que determina, no futuro desconhecido, um gesto, uma palavra, diante do mundo. Ficamos quatro dias em São Paulo, fazendo, graças a outros amigos, maravilhosos passeios nos arredores, visitando estufas cheias de orquídeas, das quais ainda tenho uma lembrança maravilhosa, atravessando paisagens desconhecidas e de uma selvagem beleza. No último dia, Mamãe ofereceu um grande lanche no hotel para agradecer a todos e a cada um. Tenho a lista dos convidados sob os olhos. Seria longo demais citar todos os nomes. Os salões se encheram de amigos conhecidos e muitos outros. Fomos rodeadas, festejadas, e imploraram que não fôssemos embora tão rapidamente. Íamos de grupo em grupo, emocionadas pela sinceridade que se Eduardo da Silva Ramos (* São Paulo, SP, 08-09-1902; † ...), filho de Ernesto Rudge da Silva Ramos e de Marieta Chaves. X ibd. 13-12-1920 Maria Helena Prado (* São Paulo, SP, ...1903; † ), filha de Antônio Prado Júnior e de Eglantina Penteado, c.s. 416 Antônio Prado Júnior (* São Paulo, SP, 05-04-1880; † Rio de Janeiro, RJ, ), filho de Antônio Prado e de Maria Catarina da Costa Pinto.
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manifestava das palavras de cada um. Não sabíamos mais como testemunhar nossa gratidão e emoção. Devíamos partir no dia seguinte. Unanimemente, aconselharam-nos a preferir a via aérea à estrada de ferro, e se encarregaram de trocar as passagens de trem por outras de avião. Seria para nós duas o batismo do ar. Quando entramos no avião, tivemos a impressão de penetrar numa estufa, tantas flores lá havia como presente de despedida. Foi um momento cheio de alegria. Como é bom se sentir amada! O vôo foi sem história. Mamãe ficou encantada de, pela primeira vez, ter utilizado esse novo meio de transporte tão rápido e confortável. Pedro Henrique nos esperava no aeroporto. Contou-nos que tinha alugado uma casa em Petrópolis, pois o calor estava se tornando forte demais no Rio. Deidi e as crianças já se encontravam lá. O carro nos levou, pois, primeiro contornando a baía, depois subindo pela Serra do Mar, onde as flores se misturavam às cascadas refrescantes, colorindo a vegetação exacerbada de potência, subindo pelas árvores ou ao longo das rochas, com um vigor cada vez renovado. Eu não tinha olhos bastantes para tudo olhar e admirar. Enfim, chegamos à cidade imperial de Petrópolis. Primeiro, fiquei um pouco espantada. Estava fora de todas as normas que eu tinha conhecido até então. Precisei de um certo tempo para perceber o encanto meio fora da moda, meio progressista daquela cidade tão querida por D. Pedro II. A casa que Pedro Henrique tinha alugado ficava situada num pequeno vale, onde corria um curso de água. Cinqüenta metros adiante, ficava a casa de D. Joana Monteiro de Barros417, sogra do conde de Barral. Era uma vizinhança bem agradável e, como a vida em Petrópolis se desenrolava tanto dentro como fora das casas, tínhamos muitas ocasiões de nos encontrar. Os lanches preenchiam a vida mundana. As donas de casa se sentiam honradas em nos oferecer a melhor pastelaria e os melhores doces do Brasil. Lá voltamos a encontrar os embaixadores da França, o casal Guérin que parecia feliz em começar sua função no ambiente encantador de Petrópolis, no meio daquela sociedade hospitaleira que falava tão bem o francês quanto o português, o que lhes facilitava a
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Joana Rabelo, esposa de Vicente de Paulo Monteiro de Barros, e mão de Maria Lúcia Monteiro de Barros (Luci), esposa de João Domingos, conde de Barral e Marquês de Montferrat.
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conversação, embora eles já estivessem bastante exercitados na língua de Camões. Gostaria de citar aqui todas as famílias amigas que nos receberam, mas a lista seria longa demais. Em todo lugar, a acolhida foi das mais simpáticas. A baronesa de Bonfim418 foi a primeira a nos receber em sua bonita casa. Já era uma pessoa de idade avançada e passava o dia numa grande poltrona. Quis se levantar para fazer uma reverência a Mamãe, que procurou, em vão, impedi-la. Depois, as duas senhoras se sentaram e entabularam uma longa conversa, onde se misturavam lembranças do passado e comentários do presente, interrompida, de vez em quando, pela chegada de pessoas que vinham se apresentar a Mamãe. Passeávamos muito em Petrópolis, seguindo os canais que percorrem a cidade, muitas vezes, detidas por amigos, como os Leitão da Cunha, os Bandeira de Melo, o casal Odivelas, portugueses muito ligados ao Brasil, os Queiroz Matoso, os Lisboa, os Machado Brandão, e não terminaria mais se quisesse citar a todos. Mais longe se encontrava o sítio de Maria de Roure419, casa encantadora, aberta a todos como era o coração de Maria. Para cuidar dos pobres da redondeza, ele tinha montado um ambulatório, centro de saúde bastante rústico, que dirigia com o apoio de um médico. Meus sobrinhos vinham, de vez em quando, ajudá-la a receber os doentes. Ela nos falava dos acontecimentos do dia e nos deixava espantadas com a extensão de seus conhecimentos. Outro lugar maravilhoso nos esperava. Era a propriedade de Andréa Morgan Snell420. Depois de seguir um longo vale, descobria-se uma habitação cor de rosa. Era a casa grande da fazenda, cuja dona nos Maria José de Siqueira (* ...; † ...), filha de Antônio Antunes de Siqueira e de Josefina Vilas-Boas; X 23-09-1895 ..., barão de Bonfim (19-08-1888) (* ..., † 23-09-1895), filho de Jerônimo José de Mesquita, conde de Mesquita, e de Elisa Maria de Amorim, c.s. 419 Maria da Costa (* Petrópolis, RJ, 29-09-1901; † ibd. 2001) X 1923 Agenor de Roure Filho (* 1895, † 1927), filho de Agenor de Roure e de Antônia Gurgel do Amaral, s.s. 420 Andréa Gustava von Bülow (* São Paulo, SP, 24-01-1899; † Itaipava, RJ, 31-08-1989), filha de Adão Diogo von Bülow e de Ana Luísa Otília Schaumann; X São Paulo, SP, 1919, Luís Morgan Snell Filho (* Recife, PE; † Rio de Janeiro, RJ), filho de Luís Morgan Snell e de Cândida de Moraes Gomes Pereira, c.s., entre os quais a pintora Maria Angelina Flora de Morgan Snell, condessa Antônio de Moustier († 12-01-2007).
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esperava na porta, e inclinou-se numa reverência digna do século XIX, quando Mamãe desceu do carro. O interior da casa, de temperatura agradável, era cheio de poltronas confortáveis, e enquanto nos entregávamos a conversa com os anfitriões, as crianças se precipitaram numa grande piscina, onde encontraram Isabel421, filha de minha prima-irmã, a duquesa de Ancona. E, de novo, as flores nos rodeavam. Todos os tons imagináveis estavam ali reunidos. A delicadeza das orquídeas, suspensas nas árvores, a profusão dos ibiscos... descobria-se, mais longe, o tapete selvagem de maria-sem-vergonha422 que brotam naturalmente no Brasil e cobrem o solo debaixo das copas das árvores. Meus olhos não se cansavam de olhar e admirar aqueles dons da natureza. O Natal se aproximava, o calor se tornava cada vez maior, trazendo consigo uma série de tempestades e chuvas torrenciais. 25 de dezembro não escapou ao dilúvio. Foi minha única decepção. Felizmente, Deidi tinha montado o presépio e ornado a casa para que, depois da meia-noite, nos sentíssemos reconfortados naquele tempo de esperança, quando a chegada do menino Jesus nos traz uma renovação de vida, que brilha em todos os rostos. Ficamos, ainda, algum tempo em Petrópolis, mas era preciso pensar na volta. Mamãe tinha pavor de morrer longe do lugar onde Papai repousava. Não foi sem uma certa dilaceração da alma que nos arrancamos de Petrópolis em janeiro de 1946. Tínhamos reservado uma cabina do "Florida". Pedro Henrique e Deidi nos acompanham até o Rio. Estávamos desolados só em pensar que o oceano ia, de novos, nos separar. Voltamos em sentido inverso o percurso da ida, com um mar calmo, onde as vagas pareciam nos levar. No meio do oceano, certa noite, o comandante nos fez admirar as estrelas, num céu todo semeado de luzes. Momento extremamente emocionante: na proa do navio, via-se a Ursa Maior, na popa, o Cruzeiro do Sul... Mas a viagem fez muito bem a Mamãe. Curou-a de seu trauma, e todas as lembranças amargas desapareceram de sua memória.

Maria ISABEL Helena Imaculada Ana Paz (* Roma, Itália, 23-061943), filha de Eugênio de Savóia-Gênova, duque de Ancona, e de Lúcia, princesa de Bourbon-Sicília). X Roma, Itália, 19-02 e Lausanne, Suíça, 29-04-1971 Alberto Frioli (* Rímini, Itália, 07-041943). O casal teve 4 filhos e reside no Brasil. 422 Impatiens sultanii;
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Voltaria várias vezes ao Brasil423, comigo, com Pedro Henrique, e com amigos brasileiros ...

1947 Não sei como fizemos conhecimento com um casal brasileiro que voltava a Paris. Luís424 e Tatá425 Falcão tornar-se-iam nossos mais íntimos amigos. Ambos tinham passado a juventude na França e falavam um lindo francês. Nunca perdemos contato. Chegando em Marselha, selamos aquela nova amizade com uma bouillabaisse num pequeno restaurante do Velho Porto. Lembro-me do espanto deles ao ver uma charrete puxada por dois cavalos. A velha Europa lhes pareceu ter parado no tempo. Chamado por telefone, o bom Leão Roustand veio nos buscar com o fiel Peugeot, e encontramos emocionadas o Mas São Luís bem arrumado e aquecido, pois fazia frio e nós vínhamos de um país onde a temperatura variava entre 30 e 35 graus. Entretanto, as amendoeiras estavam todas floridas e formavam como um imenso tapete rosa na planície.

Infelizmente, a Autora não descreve essas viagens. Luís Aníbal de Mesquita Falcão (* Paris, 10-04-1897; † Rio de Janeiro, RJ, 30-07-1968), filho de Aníbal de Mesquita Falcão e de Luísa Nilson; X Petrópolis, RJ, Emerita Maria Coelho de Almeida, s.s. 425 Emerita Maria Coelho de Almeida [Tatá](* Rio de Janeiro, RJ, 1605-1901; † Petrópolis, RJ, 1994), filha de Bento Benedito Coelho de Almeida e de Ernestina Francisca de Carneiro e Castro; X Petrópolis, RJ, Luís Aníbal de Mendonça Falcão, s.s.
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No mês de maio, dei uma escapada a Paris. A condessa de Flers tinha me pedido para visitá-la, o que aceitei com alegria e muita emoção. Apesar das seqüelas deixadas pelos sofrimentos da deportação, ele tinha recuperado o ânimo, rodeada pelos filhos. Encontrei meus afilhados crescidos, mexendo comigo e procurando, cada um deles, se apoderar mais de meu afeto. A vida retomava seu vigor, e como Paris parecia bela naquela primavera de paz! Telefonei a Tatá Falcão, que morava no Hotel Regina, ocupando aposentos que davam para a Praça das Pirâmides e para o jardim das Tulherias. Como tínhamos deixado alguns objetos no apartamento dos Silva Ramos, fui lá buscá-los e. ao mesmo tempo, me veio a idéia de perguntar à porteira, se não havia ali no prédio algum apartamento para alugar. Após pensar um pouco, ela me disse que os apartamentos do 5º andar eram ocupados pelo conde de Miribel, que ali vinha raramente, e que talvez quisesse me ceder uma parte. Voltei no dia seguinte e o Senhor Miribel me declarou, muito amavelmente, que, se Mamãe quisesse voltar para Paris, ele ficaria feliz em ceder-lhe o apartamento da frente, por 10.000 francos mensais, um verdadeiro presente! E isso foi o início do caminho para eu conhecer Renato de Nicolaÿ426. O resto já se sabe ... Voltando a Mandelieu, participei a Mamãe o negócio e, toda feliz, ela decidiu vir a Paris e rever os amigos. Passamos ali todo o mês de junho, sob um calor tórrido. Tatá Falcão vinha muitas vezes ver Mamãe, e as duas combinaram uma viagem pela Itália, passando pela Suíça para rever os parentes instalados em Lucerna. E eis-nos de volta às estradas, e eu, como sempre, desempenhando o papel de motorista. Não vou contar todas as peripécias dessa viagem. Só digo que chegamos em Roma, onde tivemos a alegria de rever a família Lancelotti, em seu bonito palácio na Praça Navona. O príncipe Lancelotti tinha um fraco por Mamãe e, se fosse preciso, se punha de quatro para facilitar a entrada dela no Vaticano. Entretanto, dessa vez, ele foi reticente ao nosso pedido. O Papa, fatigado, descansava em Castel Gandolfo. Mas, por desencargo de consciência, ele telefonou ao secretário pessoal do Santo Padre. Pio XII respondeu: "Sim, desejo ver a Princesa". E fomos recebidas pelo Papa em Castel Gandolfo, no jardim que domina o lago Albano. Renato de Nicolaÿ (* Lude, França, 17-01-1910; † Paris, França 14-11-1954), filho de João de Nicolaÿ, marquês de Goussainville (1880-1937), e de Ivone de Talhouet-Roy (1885-1941). X Paris, 1208-1948 Pia Maria, princesa Imperial do Brasil, de quem teve dois filhos.
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Por outro lado, Tatá Falcão conhecia o conservador do Museu do Vaticano, um brasileiro, Dioclécio427. Nos o encontramos em Nápoles, e graças a ele, pudemos fazer instrutivas visitas às ruínas de Pompéia. Ele conseguia nos tornar presente o drama daquela cidade tão artística, coberta, em poucas horas, pelas cinzas do Vesúvio. Para Mamãe, Nápoles era a cidade de seus antepassados. Ela revivia toda sua história com um prazer não dissimulado. Naturalmente, fez questão de comprar os pentes de tartaruga que apalpava com as mãos, já que seus pobres olhos quase não exergavam mais. Fazia um tempo magnífico. Um vaporetto428 nos levou a Capri. Visitamos a Gruta Azul e guardo ainda na memória, os reflexos azuis daquele lugar maravilhoso. Era preciso tomar a direção norte, nos dirigindo à Suíça, onde, em Genebra, Tatá Falcão deveria encontrar uma mensagem do marido. As relações epistolares e monetárias ainda não eram muito fáceis, e a Suíça, sempre neutra, era o recurso dos estrangeiros desejosos de se deslocar pela Europa. De lá voltamos à França, fazendo uma parada em Dijon. Tatá estava orgulhosa de nos apresentar o "Poço de Moisés", que nem Mamãe nem eu conhecíamos, e que fica no jardim de um hospício. Depois de ter admirado os detalhes dessa obra-prima única em seu gênero, agradecemos ao guia. Tatá, voltando-se para ele, disse: "Você está diante da Imperatriz do Brasil". O homem nos olhou, sacudindo a cabeça. Sem dúvida pensava ele "essas mulheres deveriam é estar aqui". Voltamos a Paris, passando por Lourdes... Luís Falcão nos esperava no Hotel Regina, zangado por termos raptado sua esposa. Mas que belas lembranças guardamos daquela viagem! 1947 terminou com boa dose de tristeza. Com dois meses de intervalo, Mamãe perdia suas duas irmãs mais velhas. Tia Titine morreu em Sankt-Gilgen, em 4 de outubro; em 23 de novembro, em Muri, na Suíça, era a vez de tia Gietta nos deixar.

Deoclécio Redig de Campos (*Belém, PA, Brasil, ...-1905; † Roma, Itália, ... 1989), X ... Virgínia Kanbo, c.s.; arquiteto, restaurador e museólogo. 428 Pequeno navio que faz a travessia marítima entre o continente e a ilha de Capri.
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1948 No início do ano, soubemos do nascimento de Fernando, 6º filho de Pedro Henrique e de Deidi429, ocorrido em Petrópolis, em 2 de fevereiro. Nessa época, tio Nando se encontrava em Locarno. Mamãe não resistiu a seu chamado. Por acaso ou, antes, a Providência, fez com que eu e Renato de Nicolaÿ nos reencontrássemos430. A identidade de pensamentos nos aproximou, e Mamãe o convidou a Mandelieu. Não é preciso dizer mais. Ficamos noivos dois meses mais tarde. Renato afastou meus escrúpulos ao dizer: "Sua Mãe terá seu quarto no Lude, junto de nós". Obrigado, meu Deus! Nosso casamento foi celebrado pelo cardeal Grente431, da pequena capela do arcebispado de Paris, em 12 de agosto de 1948.432 FERNANDO Dinis Maria José, príncipe do Brasil (02-02-1948/2402-1975) e de Orléans e Bragança, * Petrópolis, Brasil, 02-02-1948; X Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 19-03-1975, MARIA DA GRAÇA Carvalho Baere de Araújo (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 27-06-1952), filha de Walter Baere de Araújo e de Maria Madalena de Siqueira Carvalho. O casal tem três filhas. 430 Parece ter havido um convite proposital por parte do Duque de Calábria, informado pela irmã, da simpatia existente entre a sobrinha e o conde Renato de Nicolaÿ. 431 Jorge Francisco Xavier Maria Grente (* Peroy, França, 05-051872; † Le Mans, França, 05-05-1959). Ordenado sacerdote 29-06222
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Pedro Henrique ficou algum tempo com Mamãe até que voltássemos a Mandelieu, depois de ter escalado as montanhas em Engadine, e, em Roma, ter recebido a bênção do Papa. Estávamos no fim de agosto e fazia um tempo bom e quente. Convenci Renato de tomar banho de mar numa enseada, perto de Trayas. Mergulhamos naquelas águas límpidas, mas eu não sabia ainda que um Nicolaÿ podia ir a pique. Graças a Deus, Renato voltou à tona e nós alcançamos a praia sem mais dificuldades. Depois foi nossa chegada ao castelo do Lude, onde o marquês de Talhouët-Roy433, avô materno de Renato, nos esperava. Seus grandes olhos azuis se fixaram em nós com uma terna emoção. Tomou nossas mãos e as segurou entre as suas. Tinha 92 anos e – que pena! – não sobreviveu mais que dois meses. Na mesma época, em 8 de novembro, em Sankt-Gilgen, faleceu o cunhado de Mamãe, tio Pedro, Chefe da Casa Grão-Ducal de Toscana, viúvo de tia Titine. Não resistira mais que um ano a ausência da esposa. Mas, voltando ao Lude, depois da morte do avô de Renato, houve uma reunião na grande sala de jantar, com toda a criadagem. Margarida de La Raudière, que tinha administrado aquela casa durante a guerra, voltou-se para mim e disse: "Pia, cabe a você recomeçar..." Em fins de outubro, encontrávamos, eu e Renato, sós na mesa. Eu disse a Fernando, o velho mordomo: "É tão triste sermos somente dois nessa mesa tão grande". E ele teve uma resposta maravilhosa: “Senhora condessa, isso me faz lembrar quando eu comecei aqui, só com o senhor marquês e com a senhora marquesa"434 O vai-e-vem entre o Lude e Paris começou. Encontramos Mamãe rodeada por Pedro Henrique e numerosos amigos. Mas logo o frio a fez tomar o caminho de Mandelieu. Renato me apresentou o coronel Le Blanc, seu sócio, major formado pela Escola Politécnica, e pai de oito filhos. Para manter família tão numerosa, tinha fundado uma companhia de seguros, à qual pediu que Renato se associasse. O coronel nos acompanhou a Mandelieu na 1925; bispo de Le Mans 17-04-1918; arcebispo 03-1943; cardeal 1201-1953. 432 Aniversário da mãe da noiva. D. Maria Pia completava 70 anos. 433 Renato, marquês de Talhouët-Roy (* 1856, † 1948), filho de ... de Talhouët-Roy e de ... X 1884 Isabel de Moustier-Marinville, de quem teve duas filhas. 434 De Talhouët-Roy, pais de Ivone, mãe de Renato.
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primavera seguinte. Ele deixou Mamãe encantada, ao falar de todas suas lembranças do exército. O ano de 1949 passou calmamente. Meu bebê estava previsto para início de setembro, mas só chegou no dia 18. Pedro Henrique veio ao Lude, e preocupado com a irmã, levou-me à clínica de Le Mans, enfrentando os protestos de Mamãe, que tendo tido todos os filhos em casa, achava que não se devia agir de outro modo. Dois dias depois, Renato me trouxe para casa de ambulância, e o jardineiro nos acolheu com essas palavras: "Agora, o senhor conde está renovado!" Luís João435 foi batizado 15 dias mais tarde, na matriz do Lude, pelo cardeal Grente, tendo como padrinhos Aymard de Nicolaÿ e Mamãe. Roberto436 chegou dois anos e meio mais tarde, em 17 de fevereiro de 1952, em circunstâncias bem pouco ordinárias, mas tudo está bem quando termina bem. Entre os dois nascimentos, tivemos a alegria de saber do nascimento de Antônio437, 6º filho de Pedro Henrique e de Deidi, nascido no Rio de Janeiro, em 24 de junho de 1950; a tristeza dos falecimentos do tio Nino, em Sevilha, em 11 de novembro e de tio Filipe, em Saint John's, Canadá, em 10 de dezembro; e fomos ao Brasil, deixando Luís João aos cuidados de Mamãe, no Lude. Foi uma estada curta, mas Renato pôde conhecer bem o meu belo país. Nossos amigos Falcão nos levaram até o rio São Francisco, onde – curiosa coincidência – Luís Falcão encontrou, na beira da água, uma pequena moeda com a efígie de D. Pedro II, que deu a Renato como lembrança de viagem.

LUÍS JOÃO Maria, conde de Nicolaÿ, * Le Mans, França, 18-091949; X Hex, Luxemburgo, 23-08-1980, BÁRBARA Maria Ana Joana, condessa de Ursel (* Kinxaxa, Zaire, 08-08-1958), filha de Miguel, conde de Ursel, e de Fernanda de Diana. O casal tem 4 filhos. 436 ROBERTO Maria Pio Bento, conde de Nicolaÿ * Neuilly, França, 1702-1952; X Paris, França, 05-02-1983, NATÁLIA Letícia Joana Ivone Maria, princesa Murat (* Neuilly, França, 05-04- 1961), filha de Napoleão, príncipe Murat, e de Inês d'Albert de Luynes. O casal teve 5 filhos; uma deles (Irene) faleceu num acidente hípivo.. 437 ANTÔNIO JOÃO Maria José [Tôni], príncipe do Brasil (2º na linha de sucessão), e de Orléans e Bragança, * Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 24-06-1950; X Beloeil, Bélgica, 25 e 26-09-1981 CRISTINA Maria Isabel437, princesa de Ligne (* Beloeil, Bélgica, 11-08-1955), filha de Antônio, 13º Príncipe de Ligne e de Alice, princesa do Luxemburgo, Nassau e Bourbon-Parma. O casal tem 3 filhos, que são os 3o, 4 o e 5o e na linha de sucessão, tendo perdido o primogênito (Pedro Luís) em um acidente aéreo..
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Fizemos amizade, também, com o casal Brandão. Francisco e Maria foram, pouco tempo depois de nossa volta à França, nos visitar no Lude. Renato achava graça em Francisco, com suas histórias extravagantes e sua linguagem que misturava português e francês. Como Renato não podia ficar mais tempo ausente, no fim de um mês, voltamos num navio quase vazio. Corriam boatos de uma possível guerra438 e o número de brasileiros que viajavam diminuiu. Havia um total de dez passageiros na primeira classe. Almoçávamos e jantávamos na mesa do comandante, em companhia de uma jovem licenciada em Letras e um professor do Liceu de Marselha, e de Roberto Garric. As tardes se passavam em longas partidas de canastra, que não nos impediam de manter uma conversação interessante, principalmente com Roberto Garric, que nos tinha seduzido por seu conhecimento sobre o Brasil e pela profundidade de seu pensamento cristão. Chegando em Paris, Garric convidou Renato para fundar uma instituição de acolhida para estudantes brasileiros. Infelizmente foi mandado para a Holanda como diretor da Universidade de Utrecht, onde, então, se sentiria exilado. Mamãe nos esperava no Lude, onde ficara para que a babá não ficasse só com a responsabilidade de cuidar de Luís João. E foi logo me dizendo que era preciso despedi-la e colocar uma pessoa mais jovem junto do menino, o que fiz, sentindo, pois sabia que ela gostava dele. Aliás, gostava demasiadamente dele. Com o passar do tempo, fora sendo tomada de um sentimento de pânico, imaginando sempre que havia alguém que queria raptá-lo. E para protegê-lo, segurava-os nos braços durante toda a noite. O resultado foi que encontrei o menino extremamente excitado. Levei mais de dois meses para lhe devolver a tranqüilidade, tarefa em que fui ajudada pela Senhora Martinet, mulher do jardineiro, que substituiu a babá interinamente, até que chegou uma jovem angevina, Naná Gicquiau, que se ocupou com competência e dedicação de meus dois filhos. Em junho de 1951, soubemos do falecimento de tia Elsie, ocorrido no dia 10, em Sintra, Portugal, na quinta do Anjinho, propriedade dos condes de Paris. O corpo foi levado para o Brasil, de navio, por Bebelle, para ser foi enterrado junto ao tio Pedro, no cemitério de Petrópolis439. Foi um choque para Mamãe que tinha perdido já vários irmãos e cunhados. Com a morte da concunhada, ela se tornava o último membro vivo de sua geração na família de Papai. Início da "guerra fria". Hoje, o casal repousa no Mausoléu da Família Imperial, na catedral de Petrópolis.
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Mas, nós, os Nicolaÿ, tivemos quatro anos maravilhosos. Renato se orgulhava dos filhos e gostava de brincar com eles, de fazê-los rir, encantando-se com o seu alegre frescor. Voltamos a Mandelieu e eu ainda vejo na memória Renato correndo com os meninos na praia. Parece irreal de tão belo que era!

1953 No início desse ano Mamãe se viu às voltas com um problema de consciência. Apesar da proclamação da república, o governo brasileiro, fiel à memória de Vovó que tinha assinado a lei da abolição da escravatura, pedia autorização para trazer para o Brasil os restos mortais dela e de Bon-Papa. Foi para Mamãe uma decisão muito difícil de ser tomada. Teria ela o direito de aceitar a exumação daquele que a tinha feito prometer que, se morresse fora da França, traria seu corpo para ser enterrado ao lado da esposa? Por outro lado, como, no Brasil, Vovó era considerada uma heroína nacional, era difícil recusar as honras que nosso país desejava lhe prestar. E não se podia imaginar que aquele casal tão feliz em vida pudesse estar separado na morte. Mamãe terminou por dar seu consentimento ao conde de Paris440, que agiu com extremo tato nessa difícil circunstância. O conde de Paris, como Chefe da Casa Real da França, era administrador da Capela de São Luís, em Dreux, onde o casal estava enterrado com os filhos Luís e Antônio, e com o neto Luís Gastão.
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Enquanto isso, nascia em Jacarezinho, em 20 de maio, a segunda neta de Mamãe. Eleonora441, 7º filho de Pedro Henrique e de Deidi. Por ocasião das festa da coroação da rainha Elisabeth II da Inglaterra, o Brasil tinha enviado à Europa o cruzador "Barroso". Era ocasião de transportar dignamente os corpos de meus avós. A Embaixada do Brasil mandou perguntar se alguns membros da família desejariam acompanhar os despejos mortais. Mamãe não estava em condições de saúde para suportar uma tal viagem, embora fosse a única sobrevivente da geração dos filhos do casal. Os outros netos442 já estavam no Brasil ou em Portugal443. Não restávamos senão Bebelle444 e eu. De comum acordo, decidimos representar a família. Partimos seguindo a viatura mortuária até o Havre. O "Barroso" estava acostado. Desceram os esquifes e enquanto esperávamos, Monsenhor Doyen445, o dedicado secretário da Sociedade de Dreux, aproximou-se de mim e disse: "O corpo do conde d'Eu está intacto446. Pude constatar pela janela de vidro da tampa do caixão". Foi um choque terrível. Renato tentou em vão me consolar e enxugar minhas lágrimas. Enfim, um grupo de marinheiros subiu com os esquifes a bordo, enquanto que o apito do "Barroso" soava prestando honras militares. Henrique e Renato se retiraram e nós duas fomos levadas às nossas respectivas cabinas. Bebelle, na cedida pelo almirante Freire, e eu, na do imediato. ELEONORA Maria Josefa Rosa Filipa Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga [Tútsi], princesa do Brasil (6ª na sucessão) e de Orléans e Bragança * Jacarezinho, PR, Brasil, 20-05-1953; X Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 10-03-1981, MIGUEL Carlos Eugênio Maria Lamoral, príncipe de Ligne, Príncipe-Herdeiro de Ligne (03-03-1985), 14º Príncipe de Ligne filho de Antônio, 13º Principe de Ligne, e de Alice, princesa do Luxemburgo, Nassau e Bourbon-Parma. O casal tem dois filhos que são portadores de direitos hereditários ao trono do Brasil (7º e 8º na sucessão). 442 D. Pedro Henrique; D. Pedro Gastão, D. João e D. Teresa de Orleans e Bragança. 443 D. Francisca, duquesa de Bragança. 444 D. Isabel, condessa de Paris. 445 Doyen. Deão da Capela de São Luís, em Dreux. 446 Fora embalsamado ao chegar ao Rio de Janeiro em 1922 na Santa casa da Misericórdia para poder ficar exposto no velório realizado na igreja de Santa Cruz dos Militares,
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O almirante fazia boa figura, mas não parecia particularmente feliz em ter duas passageiras a bordo. Veio, com o rosto imperturbável, nos dar um pequeno aviso: "Vossas Altezas são duas mulheres e há mil e duzentos homens a bordo. Peço a Vossas Altezas ficar em suas cabinas até que nos ponhamos ao largo. E obedecer estritamente as minhas ordens". Nossas cabinas se comunicavam, o que era ótimo. À noite, um taifeiro veio nos trazer o jantar que era, meu Deus, muito bom! Permanecemos, assim, por vinte e quatro horas, muito bem comportadas, em nossos quartos. No segundo dia, o comandante veio nos libertar e nos levou para visitar o navio. O marinheiro, por outro lado, eram encantadores; eram eles que nos traziam discos, livros e revistas a fim de que pudéssemos matar o tempo mais rapidamente. No andar inferior se encontrava a capela, onde, todas as manhãs, o capelão celebrava missa a que assistíamos com prazer. Um dia, conversando com ele, soubemos que tinha quatorze irmãos. Perguntei se todos eram piedosos como ele, e ele me respondeu: "De jeito nenhum. É preciso de tudo para se ter um mundo. Tenho até um irmão que é um ladrão." Fizemos escala em Tenerife, na Grande Canária. O "cabildo"447veio nos convidar para visitar a ilha. Um farto almoço nos esperava aos pés do monte Teide, vulcão extinto. Depois, através dos bananais, alcançamos o jardim botânico, de mil plantas e árvores exóticas. Fomos levadas à outra extremidade da ilha, na esperança de ver o raio verde. Infelizmente havia bruma e não vimos o famoso raio. Enfim, já à noite, visitamos um orfanato mantido por religiosas. Um pouco cansada sentei-me numa poltrona. O capitão-de-fragata Chamoun448, que nos acompanhava, inclinou-se para mim, com olhos brilhantes, e me perguntou: "Fatigada?". Respondi: "Eu, sim, mas ela, – e mostrei minha prima – de jeito nenhum". Voltamos ao mar no dia seguinte. Houve uma bonita cerimônia em honra a Nossa Senhora de Fátima, com os marinheiros, em procissão, levando a imagem em volta da ponte até a capela. No alto mar, a travessia tornou-se mais movimentada. A proa do cruzador mergulhava na vaga que se erguia contra nós. Tinham-nos emprestado capas-de-chuva americanas impermeáveis, que nos permitiam receber a maresia sem ficarmos molhadas. A atmosfera
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Governador. Chamoun. Não identificado.
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dentro do navio se tornou mais descontraída. Já não tinham medo de nós. No meio do oceano, as águas se tornaram cada vez mais agitadas, e meu estômago cada vez mais enjoado. Minha boa prima cuidou de mim com a máxima dedicação. Enfim, eis-nos entrando na baia de Guanabara. O almirante nos fez subir no torreão, ao seu lado. Nunca esquecerei essa cena extraordinária. Nos barcos, os marinheiros em posição de sentido nas retrancas, e um silêncio impressionante. Foi profundamente comovente. Em seguida, depois da missa449, houve um interminável desfile, a que compareceu grande parte da população negra do Rio de Janeiro, e que nos deixou as mãos ligeiramente inchadas. Mas como tudo nos tocou e foi emocionante! Não podíamos ficar muito tempo longe dos filhos, e voltamos de avião, num grande constellation, que era o máximo do conforto na época. Henrique e Renato450 nos esperavam em Orly451. 1954 Renato me levou diretamente a Mandelieu. Em minha ausência, os meninos tinham sido muito mimados pela avó a quem adoravam, mas tiranizavam também; e pelo casal Roustand que os levava no "Majô"452 para apanhar mariscos nas pedras e ouriços no fundo do mar. A volta ao Lude se fez em duas partes. Naná levou Roberto de trem, e nós levamos Luís João de automóvel. Eu já dirigia há um bom tempo e meus "homens" pareciam se divertir enormemente no banco de trás. Num certo momento, voltei-me e vi que suas caras estavam todas lambuzadas de chocolate. Cada um parecia mais orgulhoso que o outro daquela brincadeira...

Missa de corpo presente na antiga Catedral do Rio de Janeiro, onde Capela Imperial. Os corpos só seriam levados para o Mausoléu da Catedral de Petrópolis em 1973, quando a autora novamente compareceria às cerimônias. 450 Condes de Paris e Nicolaÿ. 451 O aeroporto mais antigo de Paris. 452 Nome composto das sílabas de "Ma Joconde", apelido dado por Leão Roustand a sua esposa.
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O inverno daquele ano foi frio e nos achamos melhor ficar em Paris. Isso permitiu que Renato nos fizesse conhecer sua numerosa família. Certo dia, encontrei, na rua, uma senhora de porte altivo, que me deteve e disse: "Não procure mais! Sou uma das cento e cinqüenta Nicolaÿ que você tem que conhecer. Era a marquesa de Nicolaÿ453, nascida Lubersac. Um dos nossos maiores prazeres era visitar os viscondes de Rohan454, tios de Renato, que, com seus filhos455, sempre nos convidavam. Tia Ana456 era completamente surda, mas sabia ler nos lábios do interlocutor, e, assim, conseguíamos manter uma conversação mútua e bem interessante. Ela era fascinante pela fineza e distinção de seu rosto, e por seu espírito sempre engraçado e a propósito. Outra grande dama que desejo citar aqui era a marquesa-viúva de Voguë, nascida de Arenberg457, que, na juventude tinha conhecido Nona. Isso criou entre nós um vínculo de amizade, e muitas vezes subi a escada principal de sua casa, no palacete da rua Faubert. A primavera e o verão se passaram sem problemas. O doutor Choisy, com a esposa e filhos, vieram nos ver no início de outubro. Tínhamos um tempo de alegria e de despreocupação, preenchido com visitas aos lugares históricos dos arredores do Lude, e partidas de caça, Maria Teresa de Lubersac (* ..., 1904, †...), filha de ... de Libersac de ...; X Paris, França, 07-04-1926 Aymard, marquês de Nicolaÿ (* Loiré, França, 28-09-1902; † Souverain Moulin, França,, 03-031962), filho de ... Nicolaÿ e de ..., de quem teve três filhos. 454 Maria JOSÉ Teobaldo João, visconde de Rohan, * Paris, França, 27-06-1884; † ...), filho de Carlos Josselino de Rohan-Chabot, 12o duque de Rohan e de Margarida de Rohan-Chabot. X ibd.10-11-1906 Ana de Talhouet Roy, de quem teve quatro filhos. 455 Hermínia de Rohan-Chabor, condessa Carlos de Cossé-Brissac; Margarida de Rohan-Chabor, condessa Hugo de Cheyron du Pavillon e, mais tarde, Sra. Pedro de la Raudière; e Renato, conde de RohanChabot. O casal tinha tido outro filho, Henrique, conde de RohanChabot, falecido na guerra (1940), que deixara viúva (Catarina de Brémond d’Ars) e duas filhas: Ana e Chantal de Rohan. 456 Ana de Talhouët Roy (* Paris, França, 22-02-1887; † ... ), filha de Renato, marquês de Talhouët-Roy e de Isabel de Monstieu-Marinville. X ibd. 10-11-1906 José, visconde de Rohan, c.s. Era irmã de Ivone, sogra da Autora. 457 Maria Luísa, duquesa de Arenberg (* Manetou-Salon 23-11-1872; † Paris 24-10-1958), filha de Augusto, duque de Arenberg, e de Joana de Greffulhe, X Paris 03-08-1892, Luís, marquês de Voguë (* Paris, 1868; † ibd. 09-03-1948), filha de ... Vogué e de Margarida de Vigué, irmão de Maria de Vogue, mãe do sogro da autora.
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paixão do médico quando, bruscamente, Renato caiu doente. Como me é duro evocar as horas alternadas entre o temor e a esperança, passadas na clínica em Paris! Como Renato me tinha feito prometer que chamaria um padre se um dia ele se encontrasse em perigo de vida, obedeci a seu desejo e telefonei ao padre Milary que veio na mesma noite trazer-lhe os últimos sacramentos. Renato, ao receber a extrema unção, elevou os olhos ao céu e exclamou: "Que lindo! Que lindo!" Teria tido a visão da beatitude no momento em que a eternidade se abria para ele?458 A mesma graça do sacramento da extrema-unção eu deveria testemunhar no caso de Mamãe. Durante a enfermidade de Renato, Mamãe levou Luís João a Mandelieu, para subtraí-lo do ambiente doloroso do momento. Por outro lado, a querida tia Paulina de Nicolaÿ459, vendo todos os problemas de que eu estava sobrecarregada, se propôs em levar Roberto para o castelo de Creux, junto com Catarina de Bodinat, anjo de doçura e de paciência, que Deus me tinha enviado. Apesar de todas as demonstrações de afeto, o fim de 1954 e o começo de 1955 ficaram em minha memória como um tempo em que tive dificuldade de acreditar que ainda estava viva.

1955 Apesar de tudo, esse ano nos touxe a alegria da notícia do nascimento de Francisco , 9º filho de Pedro Henrique e de Deidi, ocorrido em Jacarezinho, a 6 de abril. O verão chegou. Mamãe tinha decidido encontrar seu irmão Nando em Chaumont, sobre o lago de Neufchâtel, e sugeriu que eu também fosse até lá com os meninos. Cristiana de Macé que me acompanhou, encarregou-se de passear com as crianças, de ler para Mamãe e de me fazer retomar o gosto pelo tênis. Conseguiu convencer-me de, certa tarde, assistir a uma partida; uma espectadora inglesa, que usava um grande chapéu todo florido, sentou-se ao lado de Mamãe e nos brindou com "Bravos! Wimbledon!", excitando nosso ardor ao jogo. Foi uma estadia vivificadora. Minha prima Rosita, duquesa de Württemberg, avisada de nossa presença, nos propôs passar alguns dias com ela no castelo de Altshausen, antes de voltar para a França. Renato de Nicolaÿ faleceu em Paris, para onde tinha sido transferido, em 25 de novembro de 1954. 459 Paulina de Nicolaÿ (*..., †..), filha de Antônio de Nicolaÿ e de Maria de Vogué Era irmã de João de Nicolaÿ, marquês de Goussainville, sogro da autora.
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Fizemos grandes passeios pelas imensas florestas que rodeiam aquela bela morada. O contato com a prima com a qual passara uma parte de minha infância foi um bálsamo para meu coração. E a volta ao Lude se realizou numa paz reencontrada. Querido Lude! Que reconforto me foi trazido certa noite, quando me sentia esmagada pelo desânimo e pelo desgosto. Uma delegação da cidade pediu para ser recebida. Recebi-os na sala de visitas, onde se sentaram à minha volta. O Senhor Lelay tomou a palavra em nome dos demais: "Senhora, vimos lhe pedir para não deixar o Lude. Vamos ficar ao seu redor e lhe dar todo nosso apoio". Cumpriram a palavra. Nunca mais me senti só. Uma rede silenciosa de amizade se organizou tanto na cidade como entre os vizinhos. Nas férias escolares, partimos para Mandelieu, onde Aymard e Amícia , marqueses de Nicolaÿ deixando sua propriedade em Montfort, vieram nos encontrar, numa demonstração de afeição, que me foi de grande auxílio. Foi uma das grandes temporadas de Mandelieu, entre os banhos de mar, as encarniçadas partidas de tênis de onde saímos vermelhos como tomates, os piqueniques nas ilhas aonde Leão e sua "Joconde " – assim apelidava ele sua esposa – nos levavam em sua "Majô". Num desses passeios marítimos, levamos o cônego Maupeon e sua irmã Ana. Alguém emprestou a máscara ao padre, que desceu para explorar o fundo luminoso desse mar tão calmo entre as ilhas. Ele não voltou senão depois de uma boa hora, e com o rosto tão extasiado que lhe perguntamos se ele tinha acabado de pregar aos peixes como São Francisco. Mamãe não faltava a nenhuma dessas expedições. Com o "Majô", atracado ao cais de Riou, balançando docemente, dava-se a cerimônia do seu embarque. Ela se achegava à borda do cais e Leão lhe dizia: "Alteza Imperial, nós dois, agora!". E Mamãe, segura pelas mãos firmes de Leão, saltava confiante para dentro do barco, com tal leveza que sempre ficávamos admirados ...

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1956 No Brasil, em 1949, Pedro Henrique se mudara de Petrópolis para o Rio de Janeiro; e em 1952 conseguiu adquirir uma fazenda em Jacarezinho, no interior do Paraná, para onde se transferiu com toda a família: Deidi, Luís, Eudes, Beltrão, Bica, Pedro, Fernando e Tôni. Tia Isy foi ter com eles para conhecer as instalações e onde e como sua filha e netos iam viver. Foi uma nova etapa na vida da Família Imperial do Brasil. A fazenda progrediu e garantia-lhes um sustento honrado. Deidi se dedicava, além dos trabalhos da casa, de esposa e mãe, à catequese das crianças da colônia. Os filhos estudavam na escola pública da cidade, onde Pedro Henrique fez amizade com os bispos e com os padres palotinos. Mas
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eram crianças trilíngues: todos falavam português, francês e alemão. Atingindo certa idade, os meninos foram estudar em centros maiores: Rio de Janeiro, São Paulo ou mesmo na Europa, onde vinham visitar constantemente a avó. Luís estudaria química em Munique; Eudes entraria para a Marinha; Beltrão estudaria direito em São Paulo, Bica, assistente social, e Tôni, engenharia em Vassouras. Quando estavam em Paris se hospedavam em casa dos viscondes de BretizelRambures. Lucette , a viscondessa, tinha sido nossa companheira de infância. Em 1956, Mamãe se animou em conhecer a fazenda, e me convidou a ir com ela. A viagem foi feita, desta vez, de avião. Do Rio de Janeiro fomos a São Paulo, sempre amavelmente recebidos por nossos amigos. Em São Paulo, onde Pedro Henrique nos esperava, soubemos que Deidi tinha perdido um bebê depois de uma gestação difícil. Ficamos desoladas. Seguimos de trem para Jacarezinho. Apenas chegando, fomos à clínica, onde ela ainda estava internada. Mas, com sua boa saúde e sua energia, Deidi se recuperou rapidamente e pôde voltar à fazenda, onde as crianças, Pedro, Fernando, Tôni, Tútsi e Francisco a acolheram com gritos de alegria. Ficamos felizes em constatar que, apesar das dificuldades que tinham atravessado, aquela era uma família feliz. A casa era grande, muito cômoda, mas sem nenhum luxo. Deidi também cultivava seu lindo jardim, cheio de plantas tropicais e mesmo algumas flores europeias aclimatadas, pois o clima de Jacarezinho era frio, sujeito até a geadas. Continuava com a catequese entre os filhos dos empregados da fazenda, que, em sua rudeza, chamavam a meu irmão de "Seu Adão Pedro" . Em Jacarezinho, Mamãe teve a alegria de rever Ongá que lá também tinha se instalado com Cecília e as crianças, numa perfeita adaptação. O mútuo apoio entre tio e sobrinho muito a tranquilizou. Pedro Henrique queria que Mamãe fosse morar com eles no Brasil. Mas ela não queria me deixar a sós com meus filhos, nem a tia Beppa. Além disso, continuava com pavor de morrer e ser enterrada longe de Papai. E as dificuldades para trasladar os restos mortais da Família Imperial eram grandes: o custo era enorme e havia o problema da transferência para o exterior da obra de arte, que era a estátua jacente de Papai, de autoria de João Magrou , com o que o governo francês dificilmente concordaria. Porém, apesar da estadia ter sido breve, ela continuou seu papel de avó contadora de histórias. Sua imaginação a fazia inventar para os netos menores, histórias diferentes, mais atualizadas e mais ao gosto
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daquela geração. Apesar de não lhes poder conhecer os traços, apenas as silhuetas, ela os amava ternamente.

OS ÚLTIMOS ANOS O tempo e os anos passaram, a escola livre do Lude dava as primeiras noções educativas a meus filhos. Renato vivera ocupado em manter essa escola cristã na cidade, e para tanto organizava, todo ano, um bazar no terreno da escola. Eu participava, presidindo o salão de chá com a Sra. Chasles, mulher do excelente diretor. Era um dia cheio demonstrações de muita amizade, e de vida, mas que dava poucos resultados práticos. Corajosamente, Renato decidiu, com a ajuda da Sra. Martinet, transformar o bazar de caridade em quermesse no gramado do castelo. Foi o início de uma longa seqüência de manifestações de êxito cada vez maior, até a noite de verão de 1957, quando o pároco do Lude veio falar comigo.

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Tinham acertado, como tema naquele ano, "No tempo das crinolinas". Em segredo, um grupo de senhoras tinham ido a Tours alugar roupas de teatro. Cada uma, vestida na moda do século XIX, se punha diante de sua barraca para atrair compradores. O pároco se fazia intérprete delas para me pedir a permissão para um desfile noturno diante do castelo a fim de reembolsá-las do aluguel das roupas. "E por que não faríamos uma reconstituição de um baile do século passado?" perguntei. Eis como germinou a idéia do "Som e Luz".460 Meu cunhado Francisco461 entrou no jogo e trouxe toda sua animação. Nosso relacionamento se tornara cada vez mais próximo e fraterno. Não vou contar aqui a história do "Som e Luz", nem de seu rápido sucesso que deu ao Lude uma nova fama.

Em 1957, logo em janeiro, Madi morria em Winterthur, na Suíça. A triste notícia do falecimento de tia Luísa, viúva de tio Nino, em Sevilha, no dia 18 de abril, foi compensada pela do nascimento de Alberto462, 10º filho de Pedro Henrique e de Deidi, ocorrido em

Jacarezinho, em 23 de junho. E, na primavera, Mamãe não deixou de vir a nosso encontro. Meus filhos esperavam sua chegada com impaciência. Sabiam que o porta-malas do carro estaria cheio de surpresas para eles, e, apesar de ela não mais enxergar, gostava de sentir o prazer dos netos. Seu quarto se tornava um verdadeiros caos, com papeis e caixas espalhados pelo tapete. À medida que os anos passavam, parecia que sua acuidade de percepção tinha se desenvolvido, substituindo-lhe a visão. Quando a levavam passear de automóvel, ela sabia exatamente onde se encontrava, podendo mesmo dizer "é preciso dobrar à direita" ou "é preciso tomar a estrada à esquerda". Isso deixava estupefatos os que não a conheciam bem, Graças a Deus, ela conservava boas pernas e podia fazer longos passeios pelo parque. Descrevíamos para ela a paisagem, as cores do outono, o pôr do sol, e ela via!

"Son et Lumière" - Festa beneficente que tornou célebre o Castelo do Lude, como ponto turístico. 461 FRANCISCO de Nicolaÿ (* 1919; † 1963), filho de João Maria de Nicolaÿ, conde de Goussainville, e de Ivone de Talhouët-Roy; X 1950 Maria Helena baronesa Zuylend-Niveldt (* 1927; X II, c.s., Guido, barão de Rotischild), filha de Egmundo, barão Zuylend-Niveldt e de Margarida Nametalla. O casal teve um filho. 462 ALBERTO Maria José João Miguel Gabriel Rafael Gonzaga, príncipe do Brasil (23-06-1957/2212-1982) e de Orléans e Bragança, (* Jundiaí do Sul, PR, Brasil, 23-06-1957), filho de Pedro (III), Chefe da Casa Imperial do Brasil, e de Maria, princesa da Baviera; X Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 1101-1983 MARITZA Ribas Bokel (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 29-04-1961), filha de Jaddo Barbosa Bokel e de Maria Bulcão Ribas. O casal tem quatro filhos.

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A música era uma de suas grandes alegrias. Ela gostava de se sentar ao piano e tocar todas as músicas que sabia de cor. Isso encantava a criadagem que atravessava silenciosamente a biblioteca para não interrompê-la. E o piano era ainda aquele de Vovó, que eu tinha trazido ao Lude depois de nossa partida definitiva de Paris. Numa noite de chuva, vieram nos avisar que Valéry Giscard d'Estaing463 estava jantando no restaurante Auberge des Îles. Francisco mandou alguém convidá-lo a vir até o castelo. Giscard d'Estaing chegou com seus filhos464 que se juntaram aos meus e foram brincar no grande salão. Ele sentou-se ao lado de Mamãe que ficou totalmente subjugada pelos encantos do futuro presidente da República. Entretanto a chuva não parou e o espetáculo não pôde se realizar. Desta página, posso dizer "lembranças, lembranças e a vida passa". Nossa querida Ana de Maupeon465, sempre pronta a prestar um serviço, sempre vinha buscar Mamãe para um passeio de carro. Esses passeios se tornaram, pouco a pouco, verdadeiras viagens até a Bretanha, onde Ana tinha numerosos parentes. Mamãe voltava encantada de conhecer aquelas famílias "tão simpáticas", como me dizia, ao chegar. No inverno, uma conspiração de amigos e parentes se organizava para lhe fazer companhia. De volta a Mandelieu, Mamãe passava a maior parte do dia na grande poltrona, perto da lareira, tomando parte em toda a conversação, não deixando de fumar um charuto que soltava suaves volutas pela sala. Ivone, marquesa de Barral, ficava com ela algumas semanas. Minha amiga Cristiana de Marcé veio tantas vezes que perdi a conta. Ambas gostavam de história e política, o que levava Mamãe a contar suas lembranças históricas de Nápoles, da França e do Brasil, que as deixavas apaixonadas. E ela se preocupava também com os acontecimentos do decênio. Pio XII, tão seu amigo, morreu em 9 de outubro de 1958. A eleição de João XXIII466 e o Concílio Vaticano II muito interessaram a Mamãe,
Valério Giscard d'Estaing Secretário de Estado de Finanças nos governos Antônio Pinay e Vilfredo Baumgartner; Ministro das Finanças nos governos Debre e Pompidou; Chaban-Delmas e Messmer; Presidente da República (1974-81). Depois vem sempre exercendo cargos legislativos. (* Coblença, Alemanha, 02-02-1926); filho de Edmundo Giscard e de ...; X 17-121952 Ana Aymone Sauvage de Brantes (10-04-1933), de quem teve quatro filhos. 464 Valéria Ana (01-11-1953), Henrique (07-10-1956), Luís Joaquim (20-10-1958) e Jacinta Giscard d'Estaing (1960). 465 Irmã do padre Meaupeon, pároco do Lude. 466 João XIII (Ângelo José Roncalli), filho de João Batista Roncalli e de Maria Ana Mazzola (* Soto il Monte, Itália, 15-11-1881; † Vaticano, 03-06-1963), ordenado sacerdote Roma, Itália, 10-081904; bispo titular de Areópolis, 19-03-1925; Delegado Apostólico na Bulgária (16-10-1931), na
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que acompanhava as notícias pelo rádio ou pela leitura que os outros lhes faziam. João XXIII morreu antes de se encerrar o concílio, em 3 de junho de 1963, e Paulo VI467 o substituiu. E Mamãe seguia interessada por tudo o que dissesse respeito à Igreja, da qual a família de seu pai fora tão dedicada servidora. Mas não só da Igreja: a queda da IV República na França e a subida de De Gaulle também a interessaram. E o golpe militar no Brasil, onde Eudes era oficial da Marinha, em 31 de março de 1964, com todo seu impatriotismo, com todas suas mazelas e barbaridades, não foi nenhuma surpresa para ela que, apenas, ficou preocupada com a segurança de sua família: as repúblicas vivem de golpes. Era assim na França, seria assim no Brasil. Nem ela nem mesmo Pedro Henrique468 viriam o poder voltar aos civis. Enfim, cada vez mais freqüentemente, vinha Lily, condessa de Rambuteau. Com ela, chegava a fantasia. Ela conseguia levar Mamãe a fazer apostas nas corridas de cavalo. Tia Beppa, sempre humilde, pedia docemente para fazer sua apostazinha também ... Lily tinha a alegria no coração. Uma noite, conseguiu arrastar-me ao cassino, onde costumava jogar febrilmente o bacará, e donde voltava, na maioria das vezes, dizendo: "Titia, fiquei depenada!" Mas, impenitente como era, recomeçava no dia seguinte. Um dia, ela nos levou à casa de uma pedicure que tinha sido sua companheira de campo de concentração. A alegria dessa mulher ao ver Lily era indescritível. Ela se voltou para nós, dizendo: "Se não tivéssemos tido conosco a Sra. de Rambuteau, durante nosso cativeiro, jamais teríamos agüentado. Ela nos levantava o moral com seu modo de ser e chegava mesmo a nos fazer rir quando estávamos à beira do desespero". Outro membro da família que também tinha o costume de vir fazer estadias em Mandelieu era o padre Odo de Württemberg469. Suas histórias tinham, certamente, um fundo de verdade, mas ele gostava de aumentá-las em proporção ao seu próprio volume. A paróquia de Mandelieu acabava de mudar outra vez de pároco. O bom padre Guillon tinha morrido, vítima do diabetes. Um jovem
Turquia (12-01-1935), Núncio na França (23-12-1944),Patriarca de Veneza, 15-01-1953; cardeal (Paris,12-01-1953); eleito Papa em 28-10-1958, como sucessor de Pio XII. Foi sucedido por Paulo VI. Beatificado em 26-08-2000 por João Paulo II. Convocou o Concílio Vaticano II. 467 Paulo VI (João Batista Henrique Antônio Maria Montini)(* Sarezzo, Itália, 26-09-1897; † Vaticano 06-08-1978), ordenado sacerdote Brescia, Itália,29-05-1920; bispo 1937; arcebispo de Milão 12-12-1954; cardeal 15-12-1958,e eleito Papa 21-06-1963, como sucessor de João XXIII. Foi sucedido por João Paulo I. Sua grande tarefa foi a implantação na Igreja das decisões do Concilio Vaticano II. 468 D. Pedro (III) sobreviveria à mãe apenas oito anos. 469 Falecido em 27-12-1964, em Altshausen, Alemanha. Ver 1934, nota 42.

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sacerdote, o padre Pantani o substituiu. O padre Pantani era muito fantasioso. Sua paixão era o ciclismo: nada o detinha. Um belo dia, vimo-lo chegar de bicicleta ao Lude. Suas homilias eram cheias de tiradas engraçadas, por onde transparecia uma fé profunda. Um domingo, fomos à missa matinal na igreja de Capitou. Chegando o momento dos avisos, depois de ter mencionado um enterro para a segunda-feira, um casamento para a terça, disse: "quinta-feira, quinta-feira não há nada". E, olhando para Mamãe, perguntou: "Princesa, quer que eu vá celebrar em sua casa?" Lamento que o registro no papel não possa transmitir o sotaque. Fechamos com dupla chave de ouro a década de 50. Em Jundiaí do Sul, em 14 de julho de 1959, nasciam as filhas (n. 11 e 12) de Pedro Henrique e de Deidi, as gêmeas Maria Teresa470 e Maria Gabriela471. A Família Imperial do Brasil estava completa na geração dos netos. A década de 60 nos trouxe alegrias e dores como sempre. Tio Nando, o irmão mais velho de Mamãe morreu em Lindau, em 7 de janeiro de 1960; a embaixatriz Gina Régis de Oliveira, em Paris, a 21 de fevereiro; e Francisco de França472, segundo filho de Bebèlle e Henrique, conde de Paris, tombava em Taurit-Ali-u-Nasseur, na Argélia, em 10 de novembro. Uma pausa de três anos separaria esse acontecimento trágico de outras mortes na família: tia Bea, viúva de tio Januário, morreu em West Mailing, Inglaterra, em 20 de agosto de 1963; Chica, segunda filha de tio Pedro, duquesa de Bragança, morreu em Lisboa, a 15 de janeiro de 1968; tia Odete, viúva de tio Filipe, falecia em Lião, em 19 de junho; e nosso amigo Luís Falcão, em 30 de julho do mesmo ano, no Rio de Janeiro. Mas tivemos três alegrias: Eudes, segundo filho de Pedro Henrique e de Deidi, após renunciar a seus direitos dinásticos, casou-se com Ana Maria de Moraes Barros, em São Paulo, em 8 de maio de 1967. Mamãe teria, ainda em vida, a alegria de ter dois bisnetos, ambos no Rio de

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MARIA TERESA Aldegunda Luísa Josefa Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga [Rese], princesa do Brasil (14-07-1959/04-11-1995) e de Orléans e Bragança, (* Jundiaí do Sul, PR, Brasil, 14-071959), filha de Pedro (III), Chefe da Casa Imperial do Brasil, e de Maria, princesa da Baviera; (gêmea), X Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 04-11-1995, JOÃO Hesse, fidalgo de Jong (* Joure, Holanda, 05-03-1954), filho de Cornélio Hesse, fidalgo de Jong, e de Madalena Maria Thole. O casal tem dois filhos. 471 MARIA GABRIELA Dorotéia Isabel Josefa Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga [Lele], princesa do Brasil (14-07-1959/20-12-2003) e de Orléans e Bragança, (* Jundiaí do Sul, PR, Brasil, 14-071959), filha de Pedro (III), Chefe da Casa Imperial do Brasil, e de Maria, princesa da Baviera; (gêmea). X Petrópolis, RJ, 20-12-2003; ÷ 2005, Theodoro de Hungria Machado (* 1952), filho de Paulo Hungria Machado e de Sylvia Emília de Mello Franco Senna. 472 FRANCISCO Gastão Miguel Maria, príncipe de França, Duque de Orleans (título póstumo),; (* Manoir d'Anjou, Bélgica, 15-08-1935; † (t) Taurit-Ali-u-Nasseur, Argélia, 11-10-1960), filho de Henrique (VI), Conde de Paris, Chefe da Casa Real de França, e de Isabel, princesa de Orleans e Bragança

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Janeiro: Luís Filipe473, nascido em 6 de março de 1969, e Ana Luísa de Orléans e Bragança474, em 16 de junho de 1971. A irmã mais moça de Mamãe, a boa tia Beppa, que o padre costumava chamar de "modesta violeta", como sabemos, nunca deixara os pais, e depois que esses se foram, refugiou-se junto a Mamãe. Ela nada mais queria na vida que ajudar e servir ao próximo. Já, no início da Primeira Guerra, ela tinha se alistado como enfermeira no hospital São Carlos, em Cannes, tratando com dedicação os feridos vindos da frente de batalha. Um deles, curado, voltou a lutar e lhe escreveu uma carta comovente sobre a batalha de Verdun, contando os preparativos de sua companhia para atacar as linhas alemãs, sob o fogo da artilharia, sendo novamente ferido, encontrando-se miraculosamente num hospital. Todo o horror daquela batalha se encontra nessas linhas. Ela morreu cerca de dois anos antes de Mamãe, em 22 de julho de 1971. Sentimos muito, mas, mesmo nessa ocasião, ela deve ter pedido a Deus para atenuar nossa dor, pois nunca se viu uma seqüência de tantos quiproquós como a que houve e que acabaram por nos fazer sorrir contra a vontade. Sentada em sua poltrona, Mamãe recebia os pêsames dos vizinhos. Aproximou-se Aleixo, neto de Leão, acompanhado de um jovem marinheiro. Aleixo se inclinou para Mamãe e disse: "Alteza Imperial, eu lhe apresento minhas condolências ... (uma pausa) e meu cunhado". No dia seguinte, morria também a viúva Volla, mãe de Maria Luísa, mulher de Leão, que morava com o casal no pavilhão da garagem. Ouvimo-lo ao telefone: "Alô! É da funerária! Voltem!" Depois, entrou no salão, dizendo: "Eles logo vêm para o enterro. Coitados, só tiveram um tempinho! Nem tiveram folga!" Enfim, uma vizinha chegou e, sentando-se junto de Mamãe, demonstrou estar penalizada com aqueles tristes acontecimentos, perguntando-lhe se não se sentia cansada. "Como não, Senhora?! Duas mortes numa semana. É de matar!"
LUÍS FILIPE Maria José Miguel Gabriel Rafael Gonzaga, príncipe de Orléans e Bragança, (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 03-04-1969), filho de Eudes, príncipe de Orleans e Bragança, e de Ana Maria César de Moraes Barros. 474 ANA LUÍSA Maria Josefa Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga, princesa de Orléans e Bragança, (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 19-06-1971), filha de Eudes, príncipe de Orleans e Bragança, e de Ana Maria César de Moraes Barros; X Indaiatuba, SP, Brasil, 18-05-1996 Paulo Ibrahim Mansour (* São Paulo, SP, Brasil, 02-02-1962), filho de Ibrahim Mansour e de Regina Chamiê. O casal tem dois filhos.
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Minhas queridas mortas, perdoem-me, mas estou certa de que, agora, na beatitude celeste, vocês não ficarão zangadas de eu ter relatado esses acontecimentos que nos ajudam a lembrar de vocês de maneira doce e tranqüila! O fim de uma geração de doze filhos é bem triste para quem vai ficando, e mesmo para a geração seguinte. Mamãe, os tios e tias formavam um arcabouço que nós víamos se desmontar pouco a pouco. A querida tia Carolina, esposa de tio Reniro, tinha morrido, vítima de um câncer, em Marselha, em 9 de março de 1968. Tinha sido para mim mais uma amiga que uma tia. Uma viagem a Bretanha nos tinha reunido um ano antes. Paramos uma noite em Ploërmel onde só havia dois quartos e uma banheira para nos alojar a todos. Ninguém dormiu naquela noite. Uma descida à praça de Quiberon trouxe um pouco de bálsamo ao coração de todos. Tio Reniro sobreviveu cinco anos à sua esposa. Ele se instalou com Carmen na propriedade de La Combe, que se tornou o alvo dos passeios de Mamãe que se agarrava a este último membro da família que vivia próximo, já que Ongá morava no Brasil. Juntos, reviviam as lembranças de suas vidas. Ele tinha feito seu serviço militar na cavalaria espanhola. Muito amigo de Afonso XIII475, eles costumavam jogar polo juntos. Era um cavaleiro emérito e elegante. Tio Reniro morreu em La Combe, em 13 de janeiro de 1973. Teve uma bela missa na igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem em Cannes, à qual assistiu o rei Humberto II, o que sensibilizou muito a família. Meu primo Fernando, que se tornara o Chefe da Casa Real das Duas Sicílias, organizou um almoço em família no Hotel Beau Rivage em La Napoule, e colocou Mamãe ao lado do rei, o que, aparentemente, agradou a ambos, apesar da tristeza das circunstâncias. O vazio se fez sentir em seguida. Praticamente, Mamãe era a última sobrevivente daquela família numerosa. O que se passava com ela naqueles momentos? Ela se encontrava como a única de sua geração. De início, nada pareceu mudar em sua natureza. Continuou a dar seus passeios, fosse com Leão, fosse comigo. Um dia, o pobre Leão caiu doente e foi levado para o hospital, aonde íamos visitá-lo para levantar-lhe o moral. Graças a Deus e a um tratamento enérgico, ele se recuperou e pôde retomar seu serviço junto de "Sua Alteza Imperial" a quem ele adorava. Pude, assim, voltar ao Lude, onde numerosas ocupações me esperavam. Pouco tempo depois, um dos maiores incêndios florestais se declarou no Esterel. O fogo, impulsionado por um violento mistral, subiu em
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Ex-cunhado de seu irmão Carlos.

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direção à propriedade dos Bourbons-Parma, devastando tudo à sua passagem. As pinhas incendiadas estouravam e voavam a toda velocidade, em direção ao Mas Saint-Louis. Mamãe estava sozinha. Maria Luísa instalou-a no salão, pronta a levá-la a La Napoule se o calor do fogo se tornasse muito forte. Enquanto isso, ela e Leão, de mangueiras em punho, procuravam impedir o progresso do incêndio. Por um instante, deixou seu posto para verificar o que se passava no interior da casa. Abrindo a porta do salão, ela viu Sua Alteza Imperial de joelhos, tateando sobre o tapete, procurando algo. "Não consigo encontrar a relíquia da Santa Cruz que peguei comigo" disse-lhe Mamãe. Maria Luísa viu a relíquia no chão e lhe entregou. E, inteiramente tranqüilizada, saiu dizendo: "Sua Alteza Real está rezando à Santa Cruz. O fogo vai parar". E o fogo parou no limite da propriedade. Chegando precipitadamente do Lude, pude ouvir, com muitos detalhes, o relato daqueles impressionantes acontecimentos. O doutor Ghirlanda vinha regularmente ver Mamãe, controlando seu estado de saúde. Ela tinha retomado sua rotina, interessando-se por tudo que se passava ao redor dela ou pelo mundo. Esperávamos vêla viver ainda muito tempo, já que tinha tanta vitalidade! No início de junho de 1973, voltando de Paris com minha prima Aymardine de Talhouët-Roy, a encontramos muito bem, e contente de poder conversar sobre política e sobre ... cavalos de corrida. Foi, então, que, de repente, ela sofreu um ataque. Chamado às pressas, o doutor Ghirlanda que me declarou francamente: "Eu posso prolongarlhe a vida com injeções. Ela viverá talvez uns três meses, mas sofrerá muito". Era uma decisão dolorosa, mas não pude deixar de dizer-lhe: "Deixe-a morrer em paz", e sai para telegrafar a Pedro Henrique. Vendo-a piorar, fui procurar o pároco e lhe pedi para levar-lhe a extrema-unção476. Como Mamãe sempre tinha manifestado grande medo da morte, ele me disse: "Prepare-a com cuidado e diga-lhe que, amanhã, eu vou lhe levar a santa comunhão. E realmente assim fez. Depois, simplesmente lhe disse: "Alteza Imperial, eu também lhe trouxe o sacramento da extrema-unção". Mamãe abriu tranqüilamente as mãos, e recebeu os últimos sacramentos numa imensa paz. Depois de ter acompanhado o bom padre até a porta, voltei para junto dela que foi me dizendo: "Viu? Morrer não é tão difícil como se pensa". Era a graça sacramental. Mamãe viveu ainda alguns dias, dormitando a maior parte do tempo. Uma manhã, entrando em seu quarto, aproximei-me dela para lhe dar de beber um pouco de água, preparada numa pipeta de vidro, que ela segurou com as duas mãos para levar à boca. Alguns
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Termo ultrapassado depois do concílio Vaticano II. Melhor seria “unção dos enfermos”.

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momentos depois, tentei retirar, mas suas mãos seguraram o canudo até que não houvesse mais nada dentro. Estranhando, quis saber o que tanto a agradara. O cheiro de champanhe me revelou. Perguntei a Maria Luísa: "Você pôs champanhe aqui?" "Claro que sim! Sua Alteza Imperial gostava tanto de champanhe. Eu quis lhe dar esse último prazer..." Como ela estava certa! Infelizmente, quando Pedro Henrique reconheceu. Ele sentiu imensamente. chegou, Mamãe não o

Ela viveu ainda alguns dias, repousando tranqüilamente, sempre velada por sua fiel Maria Luísa. E numa manhã clara como as de que ela tanto gostava, em 20 de junho de 1973477, a alma de "Acino-ePepe" voou para o Céu, para a imensidão do amor de Deus, onde seus olhos se reabriram para rever aqueles a que ela tanto tinha amado e tanto chorado, no curso de sua longa vida na terra. Mandelieu, 17 de junho de 1988

QUADROS GENEALÓGICOS
DESCENDÊNCIA DE D. LUÍS DO BRASIL E DE D. MARIA PIA DE BOURBON-SICÍLIA LUÍS, Príncipe Imperial do Brasil (* Petrópolis, RJ, Brasil, 26-101878; † Cannes, França, 26-03-1920); X Cannes, 04-11-1908,
D. Maria Pia viveu 94 anos, 10 meses e 8 dias, faltando, portanto, 53 dias para completar 95 anos. Sobreviveu ao marido 53 anos. Sobreviveu a um filho, alguns sobrinhos e dez irmãos. Foi sepultada na cripta da Capela de São Luís, em Dreux, junto de seu filho, seu marido e seu cunhado. Já é tempo de se providenciar a trasladação dos restos mortais desses quatro membros da Família Imperial do Brasil, exilados em Dreux, para o Mausoléu da catedral de Petrópolis.
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MARIA PIA princesa de Bourbon-Sicília (* Cannes, França, 12-081878; † Mandelieu, França, 20-06-1973). Pais de: A - PEDRO (III) HENRIQUE, Chefe da Casa Imperial do Brasil (* Bolonha-do-Sena, França, 13-09-1909; † Vassouras, RJ, Brasil, 05-07-1981) X Nymphenburg, Baviera, Alemanha, 18 e 19-08-1937, Maria, princesa da Baviera [Deidi](* Nymphenburg, 09-09-1914; † Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13-05-2011). Pais de: AA - LUÍS (I), Chefe da Casa Imperial do Brasil (05-07-1981)(* Mandelieu, França, 06-06-1938) AB - EUDES (* Mandelieu, França, 09-06-1939); X I São Paulo, SP, Brasil, 08-05-1967; ÷ Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 1976, Ana Maria César de Moraes e Barros (* São Paulo, SP, Brasil, 20-11-1945). Pais de: ABA - LUÍS FILIPE (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 03-04-1969) ABB - ANA LUÍSA (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 19-06-1971), X Indaiatuba, SP, Brasil, 18-05-1996 Paulo Ibrahim Mansour (* São Paulo, SP, Brasil, 02-02-1962). Pais de: ABBA - RODRIGO RUI Mansour (* São Paulo, SP, Brasil, 19-071997) ABBB - GUILHERME Mansour (* São Paulo, SP, Brasil, 13-11-2002) AB - X II Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 26-03-1976, Mercedes Willemssens Neves da Rocha (* Petrópolis, RJ, Brasil, 26-011955). Pais de: ABC - EUDES (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 17-12-1977), X Rio de Janeiro, Rj, 15-03-2008 Patrícia Annechino Landau (* Rio de Janeiro, RJ, ...) ABD – MARIA ANTÔNIA (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 18-08-1979) (gêmea). X Rio de Janeiro, 15-06-2007 Eduardo de Carvalho Moreira (* Rio de Janeiro, ...) ABE - MARIA FRANCISCA (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 18-081979) (gêmea) X ibd. 07-05-2005 Bernardo Almeida Braga Ratto (*). Pais de: ABEA – LUCAS Ratto (* Rio de Janeiro, RJ, ) ABF - GUI (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 08-10-1985) AC - BELTRÃO, Príncipe Imperial do Brasil (* Mandelieu, França, 0202-1941) AD - ISABEL [Bica], princesa do Brasil (* La Bourboule, França, 0504-1944) AE - PEDRO DE ALCÂNTARA [Pedrinho](* Petrópolis, RJ, Brasil, 0112-1945). X Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 04-07-1974, Maria de Fátima Andrada Baptista de Oliveira Lacerda Rocha (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 14-07-1952). Pais de: AEA - MARIA PIA (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 23-08-1975). X ibd. 25-08-2001, Rodrigo Otávio Broglia Mendes (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 07-11-1974). AEAA – ANTÔNIO Broglia Mendes, * São Paulo, SP, 21-10-2004
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AEB - MARIA CAROLINA (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 19-09-1978); X ibd. 02-12-2005 Nuno de Carvalho Moreira (* Rio de Janeiro, RJ, 20-09-1974) AEBA – JOAQUIM PEDRO de Carvalho Moreira (* São Paulo, SP, 13-04-2009) AEC – GABRIEL (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 01-12-1980) X ibd.-072009. Luciana Guaspari (* ...) AED - MARIA DE FÁTIMA (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13-05-1988) AEE - MARIA MANUELA (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 26-05-1989) AF – FERNANDO (* Petrópolis, Brasil, 02-02-1948). X Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 19-03-1975, Maria da Graça Carvalho Baere de Araújo (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 27-06-1952). Pais de: AFA – ISABEL (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 30-01-1978) X Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 16-10-2009, ALEXANDRE, conde de Stolberg-Stolberg (* Franqueforte-... 22-02-1974). AFB – MARIA DA GLÓRIA (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 11-111982) AFC – LUÍSA CAROLINA (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 27-10-1984) AG – ANTÔNIO JOÃO [Tôni], príncipe do Brasil (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 24-06-1950). X Beloeil, Bélgica, 25 e 26-09-1981, Cristina, princesa de Ligne (* Beloeil, Bélgica, 12-08-1955). Pais de: AGA – PEDRO LUÍS, príncipe do Brasil (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 12-01-1983; † oceano Atlântico, 31-05-2009) AGB – AMÉLIA, princesa do Brasil (* Bruxelas, Bélgica, 15-03-1984) AGC – RAFAEL, príncipe do Brasil (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 0204-1986) AGD – MARIA GABRIELA, princesa do Brasil (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 08-06-1989) AH – ELEONORA [Tútsi], princesa do Brasil (* Jacarezinho, PR, Brasil, 20-05-1953), X Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 10-03-1981, Miguel, 14º Príncipe de Ligne. Pais de: AHA – ALICE, princesa de Ligne (* Bruxelas, Bélgica, 03-07-1984) AHB – HENRIQUE, príncipe de Ligne (* Bruxelas, Bélgica, 01-031989) AI – FRANCISCO (* Jacarezinho, PR, Brasil, 06-04-1955), X Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2812-1980, Cláudia Regina Martins Godinho (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 11-07-1954). Pais de: AIA – MARIA ELISABETH (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 01-03-1982) AIB – MARIA TERESA (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 31-01-1984) (gêmea) AIC – MARIA ELEONORA (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 31-01-1984) (gêmea)

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AJ – ALBERTO (* Jundiaí do Sul, PR, Brasil, 23-06-1957) X Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 11-01-1983 Maritza Ribas Bokel (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 29-04-1961). Pais de: AJA – PEDRO ALBERTO (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 31-05-1988) AJB – MARIA BEATRIZ (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 27-07-1990) AJC – ANA TERESA (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 11-02-1995) AJD – ANTÔNIO ALBERTO (* Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 29-051997) AL – MARIA TERESA, princesa do Brasil (* Jundiaí do Sul, PR, Brasil, 14-07-1959) (gêmea). X Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 04-111995, JOÃO Hesse, fidalgo de Jong (* Joure, Holanda, 05-031954). Pais de: ALA – JOÃO PEDRO, fidalgo de Jong (* Londres, Inglaterra, 24-041997) ALB – MARIA PIA, fidalga de Jong (* Bruxelas, Bélgica, 12-072000) AM – MARIA GABRIELA [Lele], princesa do Brasil (* Jundiaí do Sul, PR, Brasil, 14-07-1959 (gêmea) X Petrópolis, RJ, Brasil, 20-12-2003; ÷ 2005, Theodoro de Hungria Machado (* ... 1952) B – LUÍS GASTÃO [Boubou], Príncipe Imperial do Brasil (* Cannes, França, 09-12-1911; † ibd. 08-09-1931) C – PIA MARIA [Coucoutz], Princesa Imperial do Brasil, (* Bolonhado-Sena, França, 04-03-1913; † Lude, França, 24-10-2000). X Paris, França, 12-08-1948, Renato, conde Nicolaÿ (* Lude, França, 17-01-1910; † Paris, França, 14-11-1954). Pais de: CA - LUÍS JOÃO, conde Nicolaÿ (* Le Mans, França, 18-09-1949). X Hex, Luxemburgo, 23-08-1980, BÁRBARA, condessa de Ursel (* Kinxaxa, Zaire, 08-08-1958). Pais de: CAA - MARIA ADELAIDE, condessa Nicolaÿ (* Bruxelas, Bélgica, 16-08-1982) CAB - MARGARIDA, condessa Nicolaÿ (* Bruxelas, Bélgica, 22-071984) CAC - ANTÔNIO, conde Nicolaÿ (* Le Mans, França, 07-09-1988) CAD - ARNALDO, conde Nicolaÿ (* Le Mans, França, 25-08-1991) CB - ROBERTO, conde Nicolaÿ (* Neuilly, França, 17-02-1952). X Paris, França, 05-02-1983, NATÁLIA, princesa Murat (* Neuillydo-Sena, França, 05-04- 1961). Pais de: CBA - IRENE, condessa Nicolaÿ (* Bolonha-do-Mar, França, 06-111985; † ... 10-04-2007) CBB - LUISA, condessa Nicolaÿ (* Bolonha-do-Mar, França, 15-031987) CBC - ELVIRA, condessa Nicolaÿ (* Bolonha-do-Mar, França, 07-081988) CBD - RENATO, conde Nicolaÿ (* Bolonha-do-Mar, França, 29-041991) CBE - CRISTIANO, conde Nicolaÿ (* Bolonha-do-Mar, França, 1101-2002)
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ANTEPASSADOS DE D. LUÍS DO BRASIL 1 - D. LUÍS, Príncipe Imperial do Brasil 2 - Gastão de Orléans-Nemours, conde d'Eu 3 - ISABEL (I), Chefe da Casa Imperial do Brasil 4 5 6 7 Luís de Orléans, duque de Nemours Vitória Antonieta de Saxe-Coburgo-Gotha D. PEDRO II, Imperador do Brasil Teresa Cristina das Duas-Sicílias

8 - Luís Filipe I, Rei dos Franceses 9 - Maria Amélia das Duas-Sicílias 10 - Fernando de Saxe-Coburgo-Saalfeld 11 - Antonieta de Koháry 12 - D. PEDRO I, Imperador do Brasil 13 - Maria Leopoldina da Áustria 14 - FRANCISCO I, Rei das Duas-Sicílias 15 - Maria Isabel da Espanha 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 Filipe II, Duque de Orleans Adelaide de Bourbon-Penthievre FERNANDO I, Rei das Duas-Sicílias Maria Carolina da Áustria Francisco de Saxe-Saalfed-Coburgo Augusta de Reuss-Ebersdorf Francisco José de Koháry Maria Antonieta Waldstein-Wartenberg D. JOÃO VI, Rei de Portugal e do Brasil Carlota Joaquina da Espanha FRANCISCO I, Imperador da Áustria Maria Teresa das Duas-Sicílias Fernando I, Rei das Duas-Sicílias = 18 Maria Carolina da Áustria = 19 CARLOS IV, Rei da Espanha Maria Luísa de Parma

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ANTEPASSADOS DE D. MARIA PIA DE BOURBON-SICÍLIA 1 - MARIA PIA de Bourbon-Sicília 2 - AFONSO (I), Conde de Caserta, Chefe da Casa Real das Duas-Sicílias. 3 - Antonieta de Bourbon-Sicília-Trapani 4 5 6 7 FERNANDO II, Rei das Duas-Sicílias Maria Teresa de Áustria-Teschen Francisco de Paula das Duas-Sicílias, Conde de Trapani Maria Isabel de Toscana

8 - FRANCISCO I, Rei das Duas-Sicílias 9 - Maria Isabel da Espanha 10 - Carlos da Áustria, duque de Teschen 11 - Henriqueta de Nassau-Weilburg 12 - Francisco I, Rei das Duas-Sicílias = 8 13 - Maria Isabel da Espanha = 9 14 - LEOPOLDO II, Grão-Duque de Toscana 15 - Maria Antonieta das Duas-Sicílias 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 FERNANDO I, Rei das Duas-Sicílias Maria Carolina da Áustria CARLOS IV, Rei da Espanha Maria Luísa de Parma LEOPOLDO II, Imperador da Alemanha Maria Luísa da Espanha FREDERICO GUSTAVO, Duque de Nassau-Weilburg Luísa Isabel de Sayn-Hackemburg-Kirchberg Fernando I, Rei das Duas-Sicílias = 16 Maria Carolina da Áustria = 17 Carlos IV, Rei da Espanha = 18 Maria Luísa de Parma = 19 FERNANDO III, Grão-Duque de Toscana Maria Luísa das Duas-Sicílias Francisco I, Rei das Duas-Sicílias = 8 = 12 Maria Isabel da Espanha = 9 = 13

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