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20/11/2018

O MESSIAS E O FILHO DE HOMEM NO EVANGELHO (I)

20/11/2018 O MESSIAS E O FILHO DE HOMEM NO EVANGELHO (I) O Messias E O Filho

O Messias E O Filho De Homem No Evangelho (i)

By Julia Blum

junho 7, 2017

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Na série o Messias Oculto falamos longamente sobre um dos dilemas mais desconcertantes do Novo Testamento: enquanto os leitores Cristãos dos Evangelhos continuam chamando Jesus, o Messias de Israel, Ele mesmo desencorajou continuamente o uso do título ‘Messias’ durante seu ministério público. Até agora, no entanto, não prestamos a devida atenção ao título que Jesus aplicou a si mesmo. Embora desencorajando abertamente o uso do título ‘Messias’, repetidamente usou a expressão ‘Filho do Homem’ com referência a si mesmo. Podemos ver isso muito claramente, a título ilustrativo, a partir deste exemplo:

20 “Mas vós, perguntou ele, quem dizeis que eu sou? Então falou Pedro, e disse: És o Cristo de Deus! 21 Ele, porém, advertindo-os, mandou que a ninguém declarassem tal coisa, 22 dizendo: É necessário que o Filho do Homem sofra muitas coisas, seja rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas; seja morto e no terceiro dia ressuscite”.[1]

O Filho do Homem é o principal título de Jesus nos Evangelhos (especialmente em Marcos e Lucas). O que é notável, porém, é que a expressão nunca é aplicada a Jesus por outra pessoa como título ou

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deferência; ela é sempre colocada pelos evangelistas em Seus próprios lábios. Não seria lógico supor

que a mensagem que Ele queria expressar a Seu povo era diferente daquela de ser ‘Messias de Israel’ –

de outra forma por que Ele apenas não

chamaria a si mesmo Messias?– Claramente, Ele preferiu

expressar Sua missão em termos diferentes –pelo termo ‘Filho do Homem’–. Por quê?

É interessante que, na interpretação Cristã tradicional, essas palavras designem a natureza humana de

Jesus. Para a grande maioria dos Cristãos, Jesus chamou a si mesmo Filho do Homem porque Ele não somente era totalmente divino, Ele também era totalmente humano e Ele queria expressar essa mensagem. Muitas vezes, fiquei surpresa ao descobrir que, mesmo aqueles que possuem algum conhecimento do Judaísmo do Primeiro Século, ainda aderem a essa opinião. Então, nesta nova série, tentaremos responder a pergunta: o que Jesus quis dizer e a que Ele se referiu quando Ele chamava a si mesmo “o Filho do Homem”?

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Há uma idéia comum de que Jesus de Nazaré cumpriu quase todas as profecias messiânicas do TANACH e que foi apenas como resultado da cegueira de Israel que o povo Judeu não O reconheceu. Houve um crescente reconhecimento nos últimos anos de que esta visão do assunto está fortemente influenciada pela teologia Cristã. Quando começamos a ver a vinda de Jesus e o nascimento do Cristianismo no contexto da sociedade Judaica no início do primeiro século –quando começamos a estudar as expectativas messiânicas do povo de Israel e compará-las com o ministério do Nazareno– começamos a entender que não era, de modo algum, extremamente fácil para o povo Judeu reconhecê- lo e aceitá-lo como Messias.

Em primeiro lugar, a expressão “Reino de Deus” ou “Reino dos céus”, o ponto principal da pregação de Jesus, não se encontra em nenhum lugar no TANACH ou nos escritos apocalípticos Judaicos. E embora

a idéia do reino seja básica para o ensino de ambos os conjuntos da literatura, a compreensão Judaica deste reino é completamente diferente da visão encontrada no Novo Testamento. O reino no pensamento Judaico era aquele em que o destino de Israel, ou pelo menos de um remanescente dentro de Israel, seria restaurado e as nações vizinhas julgadas. Israel aguardava e esperava a restauração e a glória nacionais, e tudo o mais era apenas um meio para esses fins –mesmo o próprio Messias tinha que ser apenas um instrumento para alcançar esses objetivos–. Isso também deve ser entendido no contexto

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de perseguição e sofrimento que a nação Judaica como um todo sofreu sob seus opressores. A esperança futura da nação era vista, particularmente em tempos de perseguição e agitação nacional, em termos de libertação de um poder estrangeiro e a restauração de Israel. No inicio da época, o Messias esperado era considerado principalmente como um libertador militar do tipo Zelote que livraria o país de seu odiado inimigo. Essas expectativas foram claramente baseadas na Escritura Judaica (a formulação clássica desta ideologia é encontrada no oráculo de Natã em 2 Samuel 7: “fará levantar depois de ti o teu descendente, que procederá de ti… e eu estabelecerei para sempre o trono do seu reino. Eu lhe serei por rei, e ele me será por filho… a tua casa e o teu reino serão firmados para sempre diante de ti; teu trono será estabelecido para sempre“.[2]Gostaria de lembrar que mesmo os discípulos de Jesus, depois de tudo o que tinham visto, experimentado e aprendido com o Senhor, ainda fizeram a mesma pergunta: “Senhor, é neste tempo que vais restaurar o Reino a Israel?[3]

Já é fácil ver a “anomalia” das afirmações messiânicas de Jesus: Há pouco ou nada no retrato Evangélico de Jesus que esteja de acordo com a expectativa Judaica de Rei/Messias da casa de Davi. O fato de alguém poder tornar-se messias pela crucificação, ressurreição e ascensão ao céu é sem paralelo nas fontes Judaicas. Jesus não era um ‘Messias’ de concepção Judaica; Ele não veio para atender às expectativas Judaicas do Messias; como Messias, ele esteve oculto de Israel –e essa é precisamente a razão pela qual Ele não chamou a si mesmo Messias–. Em vez disso, ele chamava a si mesmo de Filho do Homem –e vocês perceberam que em todos os Evangelhos ninguém jamais perguntou–: ‘Afinal, o que é um Filho do Homem?’ Eles sabiam o que Ele estava falando se eles acreditavam em sua afirmação ou não.[4] E se realmente queremos compreender o ministério e a missão de Jesus Cristo, Yeshua Ha-Mashiach , também temos que conhecer isso. Precisamos ter uma compreensão completa do conceito de “Filho do Homem”.

(Continua…)

[1] Lucas 9:20-22

[3] Atos 1:6

[4] Daniel Boyarin, The Jewish Gospels: the Story of the Jewish Christ , The New Press, NY, 2012, Capítulo 1

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