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ISBN 978·85·7139-928-0

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. t Peter Burke e R. Po-chia Hs
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Maria do Rosório Longo Mortatti
ia
Maria· Encarnação Beltrão Sposilo Organizadores
Maria Fernando Bolognesi
Paulo César Corrêa Borges
Roberto André Kroenkel
Sérgio Vicente Motta
Editares-Assistentes
Andersen Noboro
Arle!e Zebber
Chrisfione Grodvohl Colas

A tradução cultural
nos primórdios da Europa
Moderna

Tradução
Roger Maioli dos Santos
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© 2007 Ediloro UNESP


© 2007 Cambridge Universily Press
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© 2008 do tradução brasileiro
· Título origino!: Cultural Translation in Early Modem Europe

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Sumário

CIP - Brasil. Catalogação no lonle


Sindicolo Nocional dos Editores de Livros, RJ

T684

A tradução culturol nos primórdios do Europc;, Moderno/Peter Burke e R. Po-chio Hsio


(orgs.); tradução Reger Moioli dos Santos - São Paulo: Editoro UNESP, 2009.
291p.
Introdução 7
Tradução de: Cultural Tronslotion in Eorly Modérn Europe Peter Burke e R. Po-chia Hsia
Inclui bibliografia e índice
ISBN 978-85-7139-928-0 PARTE I TRADUÇÃO E LÍNGUA 11
1. Tradução e interpretação - Europa - Hist6rio - Século XVI. 2. Linguagem e
1 Culturas da tradução nos prim
órdios da Europa Moderna 13
cultura- Europa- Hisl6rio. 3. Comunicação intercultural- Europa. 4. Ciêncio - Tra­ Peter Burke
dução- História. 5. Comunicação na ciência -História. 1. Burke, Peler, 1937-. li. Hsio, 2 A missão católica e as traduções
R. Po-Chio, 1953-. na China, 1583-1700 47
R..Po-chia Hsia
09-2728. CDD: 418.0209409031 3 A língua como meio de transfe
rência de val�res culturais 61
CDU: 81'25{4)" 15" Eva Kowalská
4 Traduções para o latim na Euro
pa Moderna 75
Peter Burke

PARTE II TRADUÇÃO E CULTURA


93
5 A piedade católica moderna em
tradução 95
Carlos M. N. Eire
Editoro ofiliodo: 6 A tradução da teoria política na
Europa Moderna 115
Geoffrey P. Baldwin
7 Traduzindo histórias 143
Asoc1acfón de EdHor1ales Unlvcrslt.artas Associação Brasileira de
de América Lallna y el Cartbc Editoras UnlversllArtas Peter Burke
Peler Burke e R. Po-chio Hsio (orgs.)

8 The Spectator, ou as metamorfos e s


do periódico: u m estudo em tradução cultural 163
Maria Lúcia Pallares-Burke

PARTE III TRADUÇÃO E CIÊNCIA 183


9 O papel das traduçõe s nos intercâmbios
científicos europeus nos séculos XVI e XVII 185
Isabelle Pantin
1O Intercâmbios científic'os entre o h elenismo
e a Europa: trad uções para o gre go, 1400-1700
203 Introdução
Efthym ios Nicolai'dis Peter Burke e R. Po-chia Hsia
11 Encont-ros otomanos com•a ciência européia:
traduções para o turco nos séculos XVI e XVII 217
Fez.o. Günergun
12 Traduções da literatura científica
na Rússia do século XV ao XVII 239
S. S. Demidov

Assim como a Torre de Babel veio abaixo porque seus construtores foram
Referências bibliográficas 245
dispersados pela diversidade d e línguas, a Câmara da Comunidade Européia
Índice remissivo 267
ce rtamente ruiria se privada de seu exército de intérpretes: afinal, q uem
Colaboradores 287
sab e ria a diferença entre cod, kabeljauw, morue e bacalhau (além dos mais
consumados gastrônomos) e conseguiria passar por cima de reivindicações
nacionalistas rivais d e direitos de pesca e prepares de molho, salvo os dedi­
cados tradutores e intérpretes da União Eu ropéia?
Se a comunicação entre línguas e culturas é um fato pressuposto e acei­
to em nosso mundo contemporâne o, de modo algu m ela era evid e �te no
passado. No entanto, todos os grandes intercâmbios culturais na História
envolveram tradução: fosse a versão dos textos bu distas do sânscrito e do
páli para o chinês durante o período medieval antigo; fosse; transmissão da
.·· .... Filosofia grega para o árabe nos séculos medievais antigos e a subseqüente
··,
tradução dos mesmos textos do árabe para o latim ao longo de toda a Idade
f Média; ou fossem as traduções mais recentes de textos ocidentais para o

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japonês e o chinês, que marcaram a modernização dessas duas civilizações
do Leste Asiático no final do séc ulo XIX e início do século XX. .

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�Ainda assim, é a Europa que constituiu o cenário das mais sustentadas
intensas· transferências culturais por toda a su a longa história, em um
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Peler Burke e R. Po-chia Hsia (orgs.) A lroduçõo culturai' nos prim 6rdios do Europa Moderno
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científicas, políticas e literárias, a partir de uma grande variedade de ver­ nenhum espaço para sua história. Os primeiros anos poderiam ser descritos
náculos para o latim e vice-versa, e de vernáculos que cruzavam frQnteiras como o "momento teórico" nos Estudos da Tradução, época de uma ênf as e
nacionais e lingüísticas. em sistemas as sociada a Itamar Even-Zohar e Gideon Toury (Basnett, 1980;
Os ensaios deste livro, que se originaram de uma série de seminários de Munday, 2001).
intercâmbio cultural custeados pela European Science Foundation, tratam Desde aquela época, porém, teve início o que se poderia chamar de uma
do que se poderia chamar de História Cultural da tradução, especialmente "virada histórica", uma crescente consciência da historicidade daquilo que
na Europa moderna, do Renascimento ao Iluminismo. A idéia de que a tra­ um estudo recente chamou de "equivalências lingüísticas construídas - e
dução tem uma história é antiga, mas até muito recentemente essa história amiúde contingentes" (Liu, 1999, p.5). Alguns estudiosos de destaque no
vinha sendo uma atividade academicamente marginal, praticada nas bordas novo campo, panicularmente Antoine Berman, T heo Hermans, Lawrence
da História Literária e Religiosa. Venuti, Anthony Pym e membros da escola de Gõttingen, como Wilhelm
Estudos de Literatura Comparada, por exemplo, há muito vêm tratando Graeber e Genevieve Roche, levam a História a sério (Berman, 1984; Her­
da recepção de autores famosos em outros países, como Ariosto na Fran­ mans, 1985; Graeber; Roche, 1988; Venuti, 1995; Pym, 2000). A Fédération
ça, Cervantes na Inglaterra ou Richardson na Alemanha (Cioranescu, 1938; Internationale des Traducteurs (FIT ) montou um Comitê para a História da
Fitzmaurice-Kelly, 1906; Beebee, 1990). Estudos literários do Renascimento Tradução, e um Diretório de Historiadores da Tradução foi publicado (Delisle
enfocaram traduções dos clássicos para o vernáculo, como as versões de Plu­ e Woodswonh, 1995).
tarco por Jacques Amyot ou Thomas Nonh, junto com umas poucas traduções Mesmo hoje, contudo, os profissionais desse campo têm menos a dizer
famosas de um vernáculo para outro, como a versão inglesa de Montaigne sobre os contrastes entre culturas do que entre tradutores individuais, menos
por John Florio (Matthiessen, 1931; Highet, 1949, p.104-26). Estudos da sobre as tendências de longo prazo do que sobre processos de curto prazo, e
Reforma apontaram a importância das traduções da Bíblia por Lutero e seus menos sobre a história da prática do que sobre a história da teoria. 1 Espera­
seguidores na Inglaterra, na Dinamarca, na Suécia e em outras partes (Stolt, mos que os· ensaios desta obra (de dez colaboradores que falam ao todo nove
1983). Alternativamente, seguindo o modelo da Literatura Comparada, dis­ línguas nativas) ajudem a fechar essas brechas.
cutiram a influência de Lutero na França ou de Erasmo na Espanha (Moore, Em todo caso, a guinada em direção à História dentro dos Estudos da
1930; Bataillon, 1937). Tradução ainda não foi acompanhada por um movimento em direção ao es­
Dar à tradução uma posição mais central na academia foi a meta do movi­ tudo da tradução por pane dos historiadores, nem mesmo dos historiadores
mento dos Estudos-da Tradução em fins dos anos 1970. Duas idéias discutidas culturais. Uma segunda meta deste liv:o é, portanto, estimular um diálogo
nessa época são particularmente im·ponantes para a História Cultural da tradu­ entre os profissionais dos Estudos da Tradução e da História Cultural. É
ção. Os livros anteriores sobre a arte da tradução eram geralmente normativos, central para esse diálogo a noção da tradução entre culturas e també� entre
mas o foco dos Estudos da Tradução - como o da sociolingüística - era e é des­ fínguas; em outras palavras, a adaptação de idéias e textos conforme eles
critivo, enfatizando o que os tradutores realmente fazem, e não o que deviam passam de uma cultura para outra. Essa noção está na base dos capítulos de
fazer. Em segundo lugar, enquanto os estudos anteriores haviam enfocado a Burke, Hsia, Baldwin e Pallares-Burke em particular.
fonte, como Ariosto ou Calvino, os novos estudos - como a teoria da "recepção" Uma terceira meta dô livro é complementar o trabalho existente sobre a
e a história da leitura -enfocavam o público, vendo as traduções como "fatos da História da Tradução, compensando lacunas. Enquanto obras anteriores privi­
cultura que as hospeda" e como agentes da mudança naquela cultura (Holmes, legiaram a tradução literária, este volume trata da não-ficção, da transmissão
1972;Toury, 1995, p.7-19, 24, 27). O intercâmbio cultural foi visto sob uma nova de informações e conhecimentos de uma língua para outra. Um capítulo
perspectiva, aquela do horizonte dos leitores e sua cultura, quer a chamemos enfoca textos políticos (Baldwin); outro, textos históricos (Burke); um tercei­
de "cultura hospedeira", quer de "cultura-alvo" (Liu; 1995, p.26-8). ro, periódicos (Pallares-Burke). Em comparação com obras anteriores sobre
Em um famoso mapa preliminar do novo campo, James Holmes distin­
guiu entre estudos teóricos e descritivos da tradução, mas reservou pouco ou 1 Sobre a história da teoria, Kloepfer, 1967; Kelly, 1979; Ballard, 1992; Robinson,1997.

8 9
Peter Burke e R. Po-chio Hsio (orgs.)

textos religiosos que se dedicaram a traduções da Bíblia e dos escritos dos

!.:.;.�,··
reformadores, neste livro Eire enfoca a difusão de obras de devoção (examina­
das sob um ponto de vista internacional), enquanto Kowalská analisa a Bíblia

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protestante tcheca sob uma perspectiva eslovaca. Quatro capítulos (Demidov,
Günergun, Nicolàidis e Pantin) discutem a tradução de obras de Ciência, ou
"Filosofia Natural", como ela era geralmente conhecida no período moderno, 1-..f./_,�.';·:�···-
1.·:.
contribuindo para a compreensão do papel da tradução entre línguas naquele

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movime�to mais amplo da "formação do conhecimento natural", com a tra­ -� ....

1
dução do conhecimento local em ciência universal (Golinski, 1998).
No que diz. respeito a diferentes línguas, obras anteriores se concentraram PARTE 1
em traduções do latim e do grego para o vernáculo (Bolgar, 1954; Schweiger, Tradução e língua
1830-4). Este volume, no entanto, enfatiza traduçõés entre vernáculos e tam­
bém o negligenciado mas importante tópico da tradução dos vernáculos para
o latim (BÜrke). Algun� colaboradores (especialmente Demidov, Günergun
e Nicolai"dis) examinam tanto as periferias européias como os centros, e
estendem suas pesquisas sobre o mundo além da Europa (Hsia).
Estudos anteriores da tradução se concentraram em textos impressos, 1r
embora a História da Interpretação tenha sido estudada por alguns especia­ r
t
listas, inclusive uma das participantes de nossos seminários, Dejanirah Couto i
(Couto, 2001). Entretanto, três colaborações para este livro (uma vez. mais,
Demidov, Günergun e NicolaYdis) enfatizam a importância dos manuscritos
na assim chamada "era da imprensa", especialmente na metade oriental da
Europa.
Ainda resta muito trabalho a fazer sobre a História Cultural da tradução.
O propósito desta obra é tomar mais conhecido o que já foi feito, oferecendo
algumas contribuições a mais para estimular os leitores a adentrar neste
campo fascinante.

--- 10
CAPÍTULO 1
Culturas da tradução
nos primórdios da Europa Moderna
Peter Burke"

A tradução i sempre uma transição,


não entre duas línguas, mas enm duas culturas.
(Umberto Eco)

Este �nsaio cem duas metas: apresentar uma visão geral da tradução nos
primórdios da Europa Moderna e discutir a tradução entre línguas no con­
texto da tradução entre culturas. Diferenças entre culturas, bem como entre
línguas, reduzem o que se chamou de "cradutibilidade" dos textos. Um gran­
de problema para qualquer pessoa que esteja traduzindo literatura cômica,
por exemplo, é que o senso de humor das várias culturas, suas "culturas do
riso", como foram chamadas, são muito diferences. Piadas não conseguem
cruzar fronteiras. De maneira similar, com freqüência elas estagnam ao longo
dos séculos ou se tornam ininteligíveis, como as referêncjas aos chifres dos
maridos em Shakespeare, que podem ter feito as platéias elisabetanas rolar
de rir pelos corredores do Globe, mas são saudadas com silêncio hoje em dia
(Unger, Schultze; Turk,_ 1995). ·

• Gostaria de agradecer a meus colegas no projeto de intercâmbio cultural da ESF, à Biblioteca


Real em Haia, ao Netherlands Institute for Advanced Study, a Mark Godie, do Churchill
College, e a Aleka Lianeri, do Darwin College, por me ajudarem de diferentes maneiras na
redação deste ensaio.

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Peter Burke e R. Po-chio Hsio (orgs.) A trodução cultural nos primórdios do Europo Moderno

guns dos quais, como "totem" el<tabu", introduziram nas línguas européias),
bem como do problema mais geral da comunicação entre nativos de culturas
Se o passado é um país estrangeiro, decorre que até mesmo o mais mo­ diversas. Cada vez mais, estão se conscientizando tanto dos problemas lin­
noglota dos historiadores é um tradutor (Cohen, 1997, p.297). Os histo­ '� �;;.�:.·· güísticos como dos problemas culturais mais amplos envolvidos na versão
riadores fazem a mediação entre o passado e o presente e enfrentam os
. -�· :� . .
de conversas com informantes para sua própria prosa acadêmica (Sturge,
mesmos dilemas de outros tradutores, servindo a dois mestres e tentando 1997; T ihanyi, 2004).
reconciliar a fidelidade ao original com a inteligibilidade para seus leitores O conceito de tradução cultural foi recentemente· ac:olhido por um grupo
(Evans, 1994). de especialistas em literatura ocupados com a tradutibilidade dos textos (Bu­
..
Por exemplo, deveríamos falar da "política" de um rei medieval? A pa­ dick; lser, 1996). Ele também pode ser usado para designar imagens visuais
lavra não ocorre em textos medievais. Ela não era necessária, já que um rei (discutidas por Hsia no Capítulo 2) e a vida cotidiana. Tem sido freqüente­
medieval não precisava convencer eleitores a elegê-lo apresentando-lhes um mente sugerido, desde August.Schlegel, passando por Franz Rosenzweig, até
programa de ações futuras. Ele pode ter tido uma política no sentido de certos Benvenuto Terracini, Octavio Paz e George Steiner, que o entendimento em
princípios ou estratégias subjacentes a suas ações políticas cotidianas, desde si é uma espécie de tradução, convertendo os conceitos e as experiências de
a promoção da justiça até a ampliação dos limites de seu reino, mas uma outras pessoas em seus equivalentes no nosso próprio "vocabulário". ·como
política no moderno sentido de um programa é um conceito anacrônico. diz Paz, "aprender a falar é aprender a traduzir" (aprender a hablar es aprender
Mais uma vez, pode um historiador falar de "propaganda" no caso de Luís a traducir) (Glatzer, 1953, p.255; Terracini, 1957, p.39; Paz, 1971, p.7; G.
XIV? Em seu sentido político, o termo foi cunhado no final do século XVIII Steiner, 1975, p.1-48).
com o objetivo de comparar técnicas de persuasão política com técnicas de Dentro da cultura ocidental contemporânea, por exemplo, a maioria das
conversão religiosa, como a praticada pela Igreja Católica e suas instituições pessoas não entende a linguagem técnica usada por advogados, médicos e
"para a propagação da fé" (de propaganda fide). Por outro lado, escritores e muitos outros tipos de cientistas. Isso já era um problema no século XVII,
artistas a serviço de Luís XIV não apenas glorificavam o rei em geral como quando o holandês Adriaan Koerbagh publicou um dicionário de termos legais
justificavam ações particulares, tais como a expulsão dos protestantes da no vernáculo a fim de ajudar as pessoas comuns a evitar serem manipuladas
França em 1685 (Burke, 1992). Eu diria, portanto, que falar de "propagan­ pelos advogados (Israel, 2001, p.187). A tarefa de traduzir a lei ou a mediei-.
da" nesse caso é culturalmente apropriado, mesmo que seja tecnicamente na no sentido de levar idéias legais ou médicas a atravessar fronteiras tanto
anacrônico. É uma tradução livre, mas não infiel. lingüísticas como sociais é ainda mais dificil. 2 Assim também é a tradução
A expressão "tradução cultural" foi originalmente cunhada por antropó­ de deuses, a ser discutida adiante, no contexto das missões cristãs na Ásia e
logos do círculo de Edward Evans-Pritchard, para descrever o que ocorre em nas Américas (Assmann, 1996).
encontros culturais quando cada lado tenta compreender as ações do outro Tradução implica "negociação", um conceito que expandiu seu domínio
(Beidelman, 1971; cf. Pálsson, 1993, Kissel, 1999, Howland, 2001; Rubel; na última geração, indo além dos mundos do comércio e da diplomacia para
Rosman, 2003). 1 Um claro exempl�, famoso entre os antropólogos, é o relato referir-se ao intercâmbio de idéias e à conseqüente modificação de signifi­
de como Laura Bohannan contou a história de Hamlet a um grupo de tivs na cados (Pym, 1993; Eco, 2003). A moral é que qualquer tradução deve ser
África Ocidental e ouviu a narrativa ser "corrigida" pelos anciãos até final­ considerada menos uma solução definitiva para um problema do que um
mente se ajustar aos padrões da cultura local (Bohannan, 19_71). caótico meio-termo, envolvendo perdas ou renúncias e deixando o caminho
Atuando, como freqüentemente fazem, em situações nas quais a distância aberto para uma renegociação.
cultural entre eles próprios e seus informantes é insolitamente grande, os
antropólogos são muito cientes do problema dos termos intraduzíveis (al-
2 Sobre a lei, Llu, 1999, e Legrand, 2005; sobre a medicina, Chen, 1999; sobre ajustiça como
uma espécie d1.; tradução, White, 19�0.
Uma crítica em Asad, 1986.

14 �.... •. 15
A tradução cultural nos primórdios da Europa Moderna
s.)
Peter Burke e R. Po-chio Hsio º(org

estudos focados no moviment o de idéias, como a liberdade, 0 individual is­


o egoci ada parece par­
e rno , a idéia da t raduçã n
No caso do perí odo mod ssionários
mo e a democracia do Ocidente p ara a China, o Japão, a Áfr ica O cid ental·
quando o assunto são missões . Mi
a
ticu larme nte apropriada e outras regi ões (Liu, 1995; Sakai, 1997; S chaffer, 1998; Howland, 2001).
s
p ( u, como se
cri�tãos t inham de
decidir quão longe poderiam ir ao ada
o
O foco desses estudos na tradução ent re co ntinentes não é ne nhum a ci­
tar
tavam
) a mensagem cristã à cult ura em qu es
diz ia na época, ao "acomodar"
e

, aso se de� te. Quanto maior a distância e ntre as línguas e as cult uras e nvo lvida s,
exemplo, Matteo Ricci descobriu q ue c
trabalhando. Na China, p or v tia como mais claramente aparecem os p roblemas da t radução. Mesm o assim, essa
o lev aria a sério, e por isso
vestisse como padre, ninguém
ele se es
abordagem pod e ser utilmente aplicada no contexto do intercâmbio cu ltu­
indo" a ssim su a posiçã soc
ial ra o chi ­
pa
um er udito confuciano, "trad uz ral dentro da Europa.
o
trais
que conv ertia reverenciassem seus ances
nês. Permitia que os chineses e mais social que
A tradução de text os foi central para os grandes movime ntos cultu ra is
o que esse era um cost um
à manei ra tradicional, afirmand zhu, literal ­
da Eur�pa m oderna: o Renascimento, a· Reforma, a Revo lução Científica e
_
r elig ioso . E le t raduziu
a palavra "Deus" pelo neologismo Tian o Il umm1 smo. No Renascimento, por e x emplo , a s t raduções dos clá ssicos
eses se re f erissem
ermitiu que os cris tãos chin
mente '.'Senhor dos Céus", e p do em mais
(inclus!ve t raduções do grego para o latim) ocupam o lugar d e ho nra,- mas
simplesme nte a Tian,
"Céus", como Confúcio havia feito (discuti traduçoes de grandes obras da literatu ra v ernácula, d e Orlando Furioso a Dom
detalh es a seguir, p.47-60). o à rel igião
Quixote, também foram influentes. Na Reforma e na Contra-Reforma, com o
sados de terem se c onvertid
Em Roma, os j esuítas foram acu veremos no capítu lo de Ei re (a seguir, p.95-113), t raduções de E rasmo L u­
erterem ao cristianismo. O
que em Pequim
dos chineses em vez de os conv um erro de tra­
tero, Cal ino, Luís d e G ranada, Roberto Bellarmino e outros desempe�ha­
:,r
ral, em Roma parecia ma is
parecia uma boa tradução cultu ram um importante pape l. A difu são da Revo lução Cie ntífi ca (di scu t ida nas
nários se negaram ir tão longe como
a
dução (Gernet, 1982). Outros missio p.183-246) pode a té certo ponto ser mensurada pelas traduções de Galileu e
hábitos negros e também a palav ra lati na
Ricci, mantendo seus trad icionais Newton, e a do Iluminism o, pelas de Montesqui eu e Locke.
z i-la (v er adiante, p.57). Esses confli tos
Deus, glosando -a em v ez de t radu Traduções dos clássicos, como traduções d e g randes ob ras da literat u ra
i dos e xemplos modernos
dos problemas da tradução
es tão entre os ma is vív vernácula, fora� freqüentemente estudadas. P or i sso este capítulo, com o
o entre cult uras .
tant o ent re líng uas com o restan e do li_vro, se concentra r á no q ue foi n eglige nciado : tr ad uções d e
:
o cultural é falar de um duplo
processo _
Outra maneira de discutir a traduçã nao -ficçao escnta ou nos ve rná culos da Eu ropa m od erna ou em neo latim
tualização, que primeiro busc
a se apropriar
de descontextualização e recontex íngu as pode ser (estudado em mais detalhes adiante, p.75-92). Um estudo de finitivo se isso
estica. A traduçã nt
de algo estranho e em seguida o dom
e re l
é possível, terá de aguardar até que se tenha feito um levantamento d e todas
o

desse processo, mas também como uma


vista não apenas como um exemjJlo as traduçõe: p rod�zidas na Europa m ode �na, uma tarefa acima das forças d e
na incomurneote visív el - o u· audível.
espécie de papel de girassol que a tor pectiva. uma pequena eqmpe, quanto mai s de um indivíduo .
esse processo de uma dupla pers
· Pode se r esclarecedor tentar observar hospe­ O que pode ser feito aqui é situar esses textos em seu contexto cultural
ganho, enriquece o nd a ultu a
Para o re ceptor, ele é uma forma de
c r
d ado r, incluindo os sistemas ou "regimes" de trad ução p revalente s n esse perío �
o háb il. Do po nto de v ista do o
deira em resultado de uma adaptaçã didos do - e1;1 _ out ras palavras, as regras, normas o u convenções q ue g ov ernavam
rma de perda, levando a mal-enten
por o utro lado, a tradução é uma fo sua pratica, tanto os fins ( ou "estr atég ias") como os m eios (as " tá ti cas" ou
e violen tando o orig inal. "poé:icas") (Pym, 1998, p.125-42). A visão geral desses regim es �sboçada a
segu1r - ou, c omo p refiro chamá-los, dessas " cultu ra s da tradução" na Eu ropa

moderna - o ferece respostas p rovisórias p ara seis g randes perguntas : q uem


li traduz? Com que intenção? O quê? Para quem? De que maneir a? Co m q ue

con seqüências? (Lambert, 1993).


ural , a tr adução entre línguas
Em qualquer história de intercâmbio cult
o entre a tradução li ngüí st ica
é obviamente de grande importância. A relaçã
e a t radução cultural foi recente
mente obj e to de uma série de perspicazes

17
16
Peter Burke e R. Po-chio Hsio (orgs.) A tradução cultural nos primórdios do Europa Moderno

Ili inglês eram obra de mulheres (Pym, 1998, p.144). No período modern o, as
tradutoras incluíam a italiana Giuseppa -Eleonora Barbapiccola, a polonesa
Quem traduz? Os milhares de tradutores na Europa nesse período podem Maria Sipa y llówna, as a_l emãs E leonora von Sporck e Louise Gottsched, as
ser classifi cados de v árias maneiras. Por exemplo, a maioria das traduções era d in amarquesas Dorothea Biehl e Birgitte Thott, as suecas Catharin a Gy l ­
obra de um in div íduo, mas o trabalho em equipe também pode ser encon­ lengrip e Mari a Gy llenstierna, e as francesas Genevieve Chappelain, A nne
trado nessa época, como oco rria n� Idade Média (em Toledo, por exemplo, e Dac ier, Susanne du Vergerre, Octavie Belot e Emilie, marquesa du Châtelet.
também no mostei ro sueco de Vadst ena). Assim, o editor alemão Zacharias Na Inglaterra - para citar apenas os nomes mais co nhecidos - havia Margaret
Palthen or ganizou uma equipe para traduzir as obras de Paracels o para o Beaúfort, Aphra Behn, E l izabeth Cary, A nn Cook, Arin Lok, Jane Lumle y,
latim (ve r p.196), enquanto o poeta Alexander Pope empregou uma equipe Margaret Roper, Mary Sidney e Margaret Tyler.
de colaboradores para aj udá-lo a traduzir H omero (Pantin, adiante). Em contraste com os muitos amadores, era relativamente pequeno o
A tradução colaborativa era especialment e comum no caso da Bíblia, não i número de tradutores profissionais, pelo menos no sentido ger al de dedica­
a penas porqu e o texto fosse tão longo, mas também em razão da responsa­
i rem uma parte considerável de s4a vida a essa tarefa, em geral por di n heiro.
bilidade erivolvida em interp retar a palav ra de Deus. A Versão Autorizada Os tradutmes de textos estiveram entre os primeiros autores a serem pagos
inglesa e a Bíblia de Kralice tcheca, bem como uma bíbl ia holandesa, uma por seu trabalho, e a maioria dos escritores do período moderno que aspira­
dinamarquesa, uma sueca e uma finlandesa, produzidas no período moder­ vam a .vi ver da pena, de E rasmo ao doutor Johnson, realizava traduções em
no, for am todas obras de comitês de eruditos ( no caso inglês, seis " compa­ meio a outras atividades l iter árias. Ao final do perí odo, uns poucos entre
nhias", du as baseadas em Oxford, duas em Camb ridg e e duas em Londres). eles consegui ram ganhar uma quanti a conside r ável de di n he iro. O gr up o

A formação desses grupos seguiu o modelo dos famosos Septuaginta, os 72 in cl uía uma mulher, E l izabeth Carter, que se dizia saber dez línguas e tra­

eruditos que se supõe te rem se reunido em A lexandri a a fim de t raduzir o duzia em quatro delas - grego, latim, francês e italiano. Carter ganhou mil
A ntigo Testamento para o grego. guinéus com sua tradução de Epicteto , enquanto A lexander Pope recebeu
Outra distinção útil entre tradutores divide os amadores dos profissionais. 4.500 libras pel a Odisséia em inglês, repassando uma fração dessa s oma a
A vasta maioria dos tradutores ;e envolvia nessa atividade apenas uma ou seus colaboradores.
duas vezes na vida . Os amadores incluem uma série de governantes ou futuros E n tre esses profissionais havia um número substancial de tradutores
governantes, entre os quais a rainha Elizabeth, Jaime I, Filipe IV e Filipe V orais. I nté rpretes eram freqüen temente nomeados por governos e por vezes

da Espanha e Ludwig, príncipe de Anhalt. Autores devotos com freqüência treinados em escolas especiais, em Viena, por exemplo, Ven eza ou Paris,
traduzi am outros autores dev otos (tanto Lu ís de Granada como o j esuít a o nde eram con hecidos como "les jeunes de langues" [ os j ovens de lí nguas]

Emmanuel Nieremberg, por exemp lo, tra duzir am Thomas Kemp is). Médicos (Dupont-Ferrier, 1923; Lewis, 1999). Sua posição podia ser hereditária, como
traduziam herbári os e obras de anatomia (Annibale Briganti, p or exemplo, no caso dos intérpr etes russófonos na Suécia ou dos tsujis neerlandófonos
traduziu os herbár i os de García de Horta e de Monardes para o italiano)· de Deshima, a ilha na qual os estrangeiros foram confinados pelo g overno
Hist or i ad ores traduziam outros historiadores, como Leonardo Bruni, que j aponês do início do sé culo XVII até a década de 1850 (Tarkia inen, 1972;
traduziu ou adaptou Políbio e Procópio, enquanto Johann Sleidan traduziu Goodman, 1967).
Commynes. Artistas e conhecedore s traduziam tratados sobre arte e arqui­ O recorde pelo número de textos t raduzidos nesse pe ríodo é do francês
tetura (Richard Haydocke, um médico que também era gravador, traduziu Gabriel Chappuys, que traduziu cerca de oitenta textos do italiano ou espa­
para o inglês o teórico da arte italiano Lomazzo). nhol. O holandêsJan Hendriksz Glazemaker traduziu .mais de sessenta obras
As mulheres er am �elativarn ente proeminentes nesse campo, p rovavel­ do latim, francês; alemão e italiano. O alemão Christian We isse traduziu 48
mente porque a tradução era consider�da mais compatí vel com a modéstia ob ras do i nglês. O su eco Eric Schrod er traduziu mais d e quar enta ob ras,
'
feminina do que a escr ita original. A tradição durou um longo tempo: na s obr etudo. do latim, enquanto o holandês Vincenti us Meusevoet traduziu
Alemanha, no início do sécu lo XX, 40% das traduções liter ár ias a partir do mais de 35, sobretudo do inglês:··

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1
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A lroduçõo cultural nas primórdios da Europa Moderna
Peter Burke e R. Po-chia Hsia (orgs.)

", já era uma identidade híbrida - e Lodowick Bryskett, também conheádo como
exa to chamar esse grupo de "semiprofis: ional
M esmo assim, é mais o nsin o de Lodovico Bruschetto. P rotestantes italianos refugiados eram especialme nte
a com binar a car reira d e tr adut o r com e
ue era comum n essa époc de dicio ná­ famosos como tradutores em latim ( adiante, p.81).
ila_ção
a tuação como s ecretário, a co� p
�nguas, a int erpretação, a _ No século XVII foi a vez de os re fugiados protestantes franc eses entrar em
(me smo hoJ , apen a um a mmo na de tradutores
. rios ou a escrita por dinheiro
e s

2). A sim, Meusevoet era no campo da tradução, do inglês para o francês ou vic e-versa. Pierre Coste,
gral ) (Pym, 1998, p.16 s
trabalha em p eríodo int e tradutor de Locke e N ewton, er a um hugue note exilado em Amst erdã e
retário real e intérprete. Weisse
atuava como
pastor calvinista; e Chappuys, sec E ssex (Rumbold, 1991). J ean Baptiste de Ro semond tornou-s e um clérigo
tradutor
editor e escritor, além
de tradutor. Schroder ocupava a po sição de
anglicano e traduziu seu s novo s coleg as, como Gilb ert Burnet e Edw ard
provas da imprensa real em Estocolmo e, em
r eal, mas também era reviso r de Stillingfl eet. Por outro lado, Pierre Desmaiz eaux, tradutor de B ayle, Fén elon
sua própria casa de impressão.
certo momento, também d irigiu e Saint-Evr emond, e John D esaguli ers - outro nome híbrido-, tradutor de
ral,
es assalariados em tempo integ
Para algun s exemplo s raros de tradutor obras sobre fortificação e Filosofia N atural, preferiam verter t extos franc es es
do século XVIII, onde eles eram empre­
precis am os nos voltar para a Rússia para o inglês. Desmaiz eaux também atuou como tradutor cultural em um
ersbur go e faziam reuniões regul
ares p�r�
gados pela Acad emia de São Pet sentido mais amp lo ao trabalhar como o correspondente inglês do e rudito
st ra um discurso que fe em z 1735 , Vas1hJ
dis cutir seus problemas. Com o mo periódico Nouvelles de la république des lettres [Notícias da república das letras]
fo rte senso d a missão do tradutor,
T redi akov ski, em particu lar, tinha um
rker, e enviar informaçõ es sobre novas public açõ es (Almagor, 1984).
ropéia ocidental para a Rússia (Ma
nesse caso, tr an smitir a cultu ra eu No caso da Holanda, i mi grantes de regresso fo rmam uma categoria es­
1985, p.52-3). pecial, particularmente os que haviam fugido para a Inglaterra no s tempos
auxiliar os tradutores no período
A escassez de recursos di sponíveis para
1979, p.126-30). A falta de dicionários da perseguição empre endida pelo duque de Alba aos protestant es e re tor­
moderno merece ser enfatizada (Kelly, naram posteriormente a s eu país natal para se tornar ministros calvinistas.
ularmente notáv el. Tome -se , por
bilíngües dos vernáculos euro pe us é partic
lês , O prolífico tradutor Vinc entius Meusevoet, por exemplo, viveu por alguns
exemp lo, a situação do
tr adutor em inglês. Por um dicionário francês-ing
po um anos em Norwich. Micha el Pann eel viveu em Ipswich. Johann es Beverl and,
espanhol-ingl ês, até 1591; r
foi necessá rio esperar até 1580; por um em Yarmouth. Jan Lamoot freqüentou a esco la em Londres. Willem Tee linck
inglês, até 1598. No caso da Suécia,
francês-alemão, até 1596; por um italiano-
estudou em St. Andrews, viveu em Banbury e se casou com um a mulher de
dicionário francês-sueco, até 1734
foi nec essá rio esperar até 1694 por um
alemão- sueco. Antes dessas datas, Derby. Essas experiências pessoais na Grã-Bretanha certamente ajudaram os
por um inglês- sueco e até 1749 por um
uma língua específica tinham tradutores em sua tare fa de negoci ação cultural.
tradutores que encont rasse m p roblemas com
quem fos se naJivo no idioma. Um segundo- grupo que merece menção aqui, ao lado dos re fugiados, é
d e t rabalhar com -o latim ou pe dir ajuda a
do resto. d prime iro, previ ­ o da ordem co smopolita dos j esuít as. Eles, é cl aro, eram esp eciali sta s em
Dois grupos semiprofi ssionais se d estacam
m qualific ados tradução cultural, in struídos p elo fundador da O rdem, Inácio de Loyol a (nas
rados, "anfíbios" incomumente be
siv e lme nte, é o dos e mig
carreira da m ediação entre se us palavras de São Paulo), a s er "todas as coisas para todo s" (omnia omnibus).
para sua tarefa e que, com freqüência, faziam
os intérpretes profissionais da Nesse sentido, a estratégia de Ricci de se vestir como um erudito chin ês er a
dois países. E sses med iadores europeu s, como
o como seus equivalentes nas típica de sua ordem.
époc a , não foram estudados _de modo tão intens
ras partes. No Império Otomano, A tradução entre língu as fazia part e da estratégia j esuític a d e conv er são.
Améric as, no império portugu ês e em out
os" - em outras palavra s, Mais de 250 tradutores j esuítas estiveram ativos entre a fundação da Ordem,
por e xe mp lo, os intérprete s eram amiúde "renegad
r etes portugueses n a em 1540, e o fim do século XVIII, traduzindo sobretudo, embora não exclu­
con�ertidos do cristianismo ao islã, enquanto o intérp
s

de origem judaica (Karttu­ sivament e, do vernáculo par a o latim e concentr ando- se em textos d e outros
Índia eram amiúde "c ri stão s novos", geralmente
j esuítas. O núm ero máximo de textos traduzidos por um único ind ivíduo
nen, 1994; Acs, 2000; Couto, 2001).
sta s incluem dois lon­ é trinta (no caso do flame ngo Frans de Smidt), seguido de 23 do polonês
Quanto a tradutore s de t extos, exemplos quinhenti
o que provavelmente Simon Wysocki, dez enove do alemão Conrad Vetter, dezo ito do·ne erlandês
drinos de pais italianos, John Florio - nome híbrido para

21
Peter Burke e R. Po-chio Hsia (orgs.) A tradução cultural nos primórdios da Europa Moderna

setentrional Jan Buys e dezessete tanto do francês Jean Brignon como do daram traduções em alemão e latim de livros de viagens. Impressores que
tcheco Jiri Ferus. A tradução jesuítica foi particularmente importante no também traduziam incluíam William Caxton, em Londres, Etienne Dolet,
centro-leste europeu e em sua região oriental. Assim, Jacob Szafarzynski em Lyon, e Barezzo Barezzi, em Veneza. Foi em grande medida graças aos
traduziu seu colega Rivadeneira para o polonês; Balthasar Hostovinus tra­ impressores que algumas grandes cidades tornaram-se centros de tradução,
duziu cartas das missões jesuíticas para o tcheco, e assim por diante (Burke, em particular Veneza, Paris, Londres e Amsterdã.
2006). Tradutores jesuítas também estavam ativos na China, como mostra
Hsia (a seguir, p.52).
Além dos próprios tradutores, é necessário levar em conta os patronos, IV
no sentido dos "poderes (pessoas, instituições) que podem fomentar ou im­
pedir a leitura, a escrita e a reescrita da literatura» (Lefevere, 1992, p.11-25, Com que intenções ou estratégias as traduções eram realizadas (Reiss;
na 15). Alguns deles eram figuras destacadas na Igreja. O papa humanista Verrneer, 1984, p.95-104)? Os projetos mais óbvios e talvez mais importan­
Nicolau V encomendou uma série de traduções �os clássicos gregos para o tes eram religiosos. O paralelo, bem como a conexão, entre o trabalho dos
latim. O cardeal Jiménez de Cisrieros foi patrono de uma edição poliglota da tradutores e o dõs missionários é digno de nota. Missionários como Ricci
Bíblia, bem como de uma série de obras de devoção (ver p.104-5), enquanto traduziam textos religiosos como um meio de conversão, mas eles às vezes
o cardeal da Lorena estimulou a tradução de obras devocionais do espanhol se descobriam traduzindo sua religião também, no sentido de adaptá-la à
para o francês (Martin, 1969, p.12). cultura local, e até mesmo convertendo sua língua, no sentido de introduzir
Outros patronos importantes foram governantes. Já no século XIII, o nela palavras e frases do tupi, do japonês e assim por diante.
rei Afonso X de Castela, conhecido como "o sábio" ou "o culto" (el sabia), Havia um nível con�iderável de atividade missionária na Europa, assim
encomendara urna série de traduções, especialmente de textos árabes sobre como em outros continentes; e fambém ali a tradução desempenhava um
Astrologia, enquanto cerca de trinta textos foram vertidos pará o francês a papel importante. No mundo da Contra-Reforma católica, havia o que se
mando do rei Carlos V (Pym, 2000, p.56-79). Circulando em manuscrito, es­ poderia chamar de uma. "política da tradução", associada a tentativas de
ses textos atingiam um público limitado. Na era da imprensa, Gustavo Adolfo, converter adeptos do protestantismo ou da Igreja Ortodoxa. Tal política fica
na Suécia, e Pedro e Catarina, os Grandes, na Rússia, iniciaram campanhas particularmente clara no caso do catecismo escrito por Roberto Bellarmina.,
similares de tradução que atingiram muito mais pessoas (ver p.25). que foi traduzido para vinte línguas européias (ou 22, se o piemontês e o
O exemplo de Catarina rios lembra que as mulheres eram proeminen­ siciliano, que agora são tratados como dialetos, forem incluídos) (Sommer­
tes como patronas, estimulando os homens a traduzir autores específicos vogel, 1890-1900).
para línguas específicas. As versões espanhola e inglesa do Cortegiano [O Em Roma, uma série de traduções, inclusive uma versão árabe da his­
cortesão], de Castiglione, foram resultado de sugestões de duas nobres, Ge­ tória eclesiástica do cardeal Barônio, foram financiadas e produzidas pela
rónima Palova de Almogáver e Elizabeth, marquesa de Northampton. John Congregação "para a Propagação da Fé" (de propaganda fide), e publicadas por
Floria dedicou as três partes dé sua tradução dos Ensaios, de Montaigne, sua imprensa especial a partir de 1626.3 No caso dos jesuítas, eni particular,
(1603) a seis mulheres da nobreza. A terceira tradução francesa da História é tentador falar de uma conspiração para a tradução, ou no mínimo de uma
do Concílio de Trento, de Paolo Sarpi, foi feita a mando da rainha da Inglaterra política de tradução, de livros produzidos não apenas ad maiorem gloriam Dei
(adiante, p.156). ("para a maior glória de Deus", o lema jesuíta), más também para a maior
Havia também os empresários da tradução, os impressores - alguns dos l glória da Ordem.
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quais estavam particularmente interessados nesse tipo de livro. Por exemplo, · As muitas versões da Bíblia feitas por protestantes, de Lutero em diante,
Gabriel Giolito, de Veneza. lançou uma série de traduções de obras históricas 1 : ?,�: '
oferecem outro caso óbvio de uma estratégia consciente. O mesmo faz a pro-
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clássicas (ver, p.144-5), além de empregar o espanhol Alfonso de Ulloa para
traduzir do espanhol. Theodor de Bry e seu filho Johann Theodor encomen- 3 Sobre a #política da tradúção", Toury, 1995, p.58; H�el, 1972. ·,-::·--
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Peter·Burke e R. Po-chia'Hsio (orgs.) A tradução rulturol nos primórdios d� Eur�pa Moderna

catec ismos. para mui tas línguas. exatamente o Colég io da Chancelaria ) que encomendou a tradução sueca
dução de textos luteranos, especialmente
, estoni ano (1535), do Segundo tratado sobre o governo, de Locke (Hansson, 1982, p.70; Hallberg, ·
os primeiros textos jamais impressos em letão (1525)
igo texto russo, impresso 2003, p.57n).
lituano (1547) e lapão (1649), bem como um ant
ar áfrases de obras ·de No caso da Rússia do século XVIII, é ainda mais apropriado falar de uma
em Estocolmo em 1625, foram todos traduções ou p
campanha de tradução. Tradutores trabalhavam para o Colégio de Questões
Lutero (Burke, 2004, p.78).
as do Exteriores, como já haviam feito antes (ver à p.150). Em 1698, Ilia Kopievich
Uma vez mais, quando constatamos que obras teológicas e devot
ês húngaro em fo i incumbido de traduzir nada menos de 2l títulos (Hughes, 1998, p.317).
puritano Wi lliam Perkins foram traduzid as para o holand e o
s por inglese s er m tr duz idos p ara As traduções na época de Pedro, o Grande, eram sobretudo militares, cientí­
uma época em que poucos l i vros escrito a a

to vem à mente é que os ficas e técnicas, refletindo os interesses e as políticas do czar. Incluíam obras
alguma língua estrangeira, a explicação que de imedi a
tradução. A de Anatomia (Vesálio), Cosmologia (H�yghens), Geografia (Varênio) e Ar­
calvinistas também devem ter tido uma política ou estratégia de
aolo Sarp i , quitetura (Vignola, supostamente traduzido pelo próprio Pedro). A História
velocidade com que a antipap ista História do Concílio de Trento, de P
, alemão , holand ês e latim (em estava representada pela vida de Alexandre, o Grande (escrita por Cúrcio),
apareceu em suas traduções em inglês, francês
uma vez sem dúvida um modelo para Pedro, e pela descriç ão geral dos Estados euro­
1620 e 1621, seguindo-se à edição original i taliana de 1619) sugere
peus de Pufendorf, um livro-texto nos cursos da Academia Naval (Marker,
mais uma ação coordenada no mundo protestante.
ser 1985, p.29, 248).
Estratégias ou políti cas seculares de um tipo s imilar também pode'?
Luis de A vil a, A escala dessa campanha aumentou depois da morte de Pedro, mas livros
encontradas nesse período. Por exemplo, a história oficial, por
em 1546- técnicos foram substituídos por obras de literatura, refletindo uma "tentativa
da guerra do imperador Carlos V contra os príncipes protestantes
s dos eventos n o pen s no orig i nal em autoconsc iente" de Catarina destinada a criar uma cultura vernácula laica
1547 foi publicada não muito depo i ã a a

it liano, fr ncês, fl mengo , na Rússia por meio de modelos estrangeiros, quer clássicos (Homero, Vir­
espanhol, mas também - no mesmo ano - em a a a

duç o se gílio), quer franceses (Boileau, Fénelon). A Rúss ia setecentista oferece um


latim e inglês. Essa coordenação sugere que_ a iniciati va para a tra
ã
vívido exemplo moderno da importância da tradução em casos em que uma
originou no círculo do imperador.
dada literatura é "jovem", fraca e periférica (Even-Zohar, 1979). Tradutores
N a Ingl aterra, na époc a de Henrique VIII, William M arshall traduziu
a fim passaram a trabalhar para a Academia Russa. Em 1768, a Sociedade para a
Lorenzo VaHa, Marsílio de Pádua, Martinho Lutero e Martinho Bucero
T homas Tradução de Livros Estrangeiros iniciou suas atividades, e 154 traduções fo­
de apoiar a Reforma, e foi ele próprio apoiado pelo ministro do rei,
o do ram publicadas nos doze anos seguintes. No período de 1756 <;!. 1775, foram
Cromwell, embora pareça que a iniciativa para a tradução tenha provind C/
·

2004). De maneir simil ar, publicadas 765 traduções. Os livros em francês respondiam por 402 destes;
próprio Marshall, e não do governo (Alec Ryrie,
4 a
)", .

·:-·
duções de os livros em alemão,_por 175; os em latim e italiano, por 54 cada, e os em
no reinado de Elizabeth, Richard Hakluyt parece ter estimulado tr a
inglês, por 36, embora os textos nem sempre fossem traduzidos de sua língua
livros de viagens, por exemplo, por seu assistente John Pory (que traduziu
o Africano) e também por Willi am original (Marker, I 985, p.50-8, 88, 91).
a descrição da África de a utoria de Leão,
Phillip. Em suma, a Suécia e a Rússia exemplificam a importância das contri­
· No caso da Suécia do século XVII, por outro lado, embora a iniciativ a buições culturais da periferia. A Suécia adentrou efet i vamente ê: República
fosse de um particular, Schroder, que a presentou seu plano em um livro das Letras européia no século XVII, e a Rússia, no XVIII. As elites sentiam
dedicado a Carlos IX em 1606, não estaria longe da verdade falar de uma que precisavam se atualizar em relação à Europa oci dental, e a tradução era
"campanha de tradução" oficial n a era de Gustavo Adolfo, empreendida com o meio para tanto. Por isso, a tradução era mais altamente organizada e tinha
vistas a ajudar os suecos a se pôr em dia com os desenvolvimentos culturais um status mais elevado, e o Estado estava mais i ntimamente envolvido com
em outras partes da Europa. No século XVIII também foi o Estado (mais a iniciativa do que em outras partes.
Para outras regiões, o termo "campanha" parece menos apropr iado nesse
4 "William Marshall (1540?)" no Oxford Dictionary of National Biography (Oxford). período, embora o ideal de di fundir conhecimentos por meio da tradução

24 25
Peler Burke e R. Po-chio Hsio (orgs.) A troduçõo cultural nos primórdios do Europa Moderno

estivesse por toda parte. Por um lado, traduções para o latim eram feitas Matemática, Ciência e Tecnologia, e por isso Pedro, o Grande, se propôs a
para dar à comunidade erudita acesso a obras escritas em vernáculos que ela remediar essa deficiência.
desconhecia, como no caso de traduções de obras antiquárias do italiano feitas O segundo princípio, entretanto, é o oposto do primeiro. Ele pode ser
na República Holandesa por iniciativa de Johann Georg Grévio (ver p.79). chamado de princípio da confirmação, segundo o qual pessoas de uma dada
Por outro lado, traduções eram feitas para diferentes vernáculos a partir do cultura traduzem obras que sustentam idéias, premissas ou preconceitos já
grego e do latim a fim de permitir que grupos excluídos de uma educação presentes nela. Caso não sustentem idéias _desse tipo, as traduções são mo­
· clássica tivessem acesso à sabedoria dos antigos. Motivos didáticos e econô­ dificadas, direta ou indiretamente (por meio de "paratextos" como prefácios
micos sê entrelaçavam nos projetos de Giovam1i _B.attista Ramusio, Richard ou cartas ao ieiror), a fim de dar a impressão de que o fazem, como no caso
Eden, Richard Hakluyt, T heodore de Bry e outros para dar aos europeus um do que se poderia chamar de a "protestantização" dos historiadores italianos
conhecimento melhor de outros continentes. Francesco Guicciardini e Paolo Sarpi (adiante, p.153ss.).

I
1
Outro importante motivo para traduções para os vernáculos foi o que se 1
Na Europa Moderna, o texto mais traduzido era, naturalmente, a Bíblia.
descreveu como "nacionalismo cultural". Os tradutores amiúde usavam a lin­ Traduções das Escrituras foram publicadas em 51 língua:, entre 1456 e 1699,
guagem da rivalidade. Sir T homas Hoby, por exemplo, estava ciente de que o inclusive· versões clássicas como a Bíblia· alemã de Lutero, a Bíblia de Kra­
'
Cortesão, de Castiglione, fora traduzido para o espanhol e o francês àntes que lice tcheca, a Versão Autorizada inglesa e a Bíblia holandesa "dos Estados"
ele começasse sua versão para o inglês (E bel, 1969). Gavin Douglas traduziu (Nida, 1939). Como seria de esperar durante o Renascimento, os clássicos
a Eneida, de Virgílio, para o que chamava de "the langage of Scottis natioun" [a gregos e latinos eram traduzidos com freqüência. Entre 1450 e 1600, cerca
língua da nação escocesa], contrastando-a com a tradução do poema para o de mil traduções dos clássicos gregos e latinos foram publicadas somente
inglês feita por Caxton (Corbett, 1999, p.42). em cinco vernáculos (Bolgar, 1954, apêndice 2). Depois da Bíblia, a Imitatio
As traduções de clássicos vemaculares, incluindo os poemas épicos de Christi [Imitação de Cristo](atribuída freqüentemente a T homas Kempis)
Ariosto e Tasso, para dialetos como o bergamasco, o bolonhês e·o napolitano estava bem à frente, com no mínimo 52 traduções em doze línguas, incluindo
podem ter sido feitas por razões similares às de Douglas: orgulho local. Elas bretão, catalão, tcheco, húngaro, polonês e sueco, todas publicadas antes de
também podem representar uma forma de brincadeira erudita, o equivalente 1700. Entre os autores modernos, Lutero e Erasmo estavam entre os mais
no período moderno à versão em latim do Ursinho Pooh no século XX, produ­ freqüentemente traduzidos (ver p.95).
zida por um húngaro residente no Brasil. Obras de literatura moderna eram amiúde vertidas para outras línguas. Elas
são tratadas rapidamente neste volume não porque não fossem importantes no
período, mas porque foram estudadas muito mais extensamente que obras de
V não-ficção. A Gerusalemme Liberata [Jerusalém libertada], de Tasso, por exem­
plo, foi traduzida em latim, espanhol, inglês, francês, alemão e polonês. Dom
O que era traduzido? Do ponto de vista de um antropólogo cultural Quixote já aparecera em francês, italiano, inglês e alemão, em 1648. O Pastor
ou de um historiador cultural, á tradução revela com insólita clareza o que fido [O pastor fiel], de Guarini, havia aparecido em nove línguas estrangeiras
uma cultura acha interessante em outra, ou mais exatamente o que grupos i-.
·'
em fins do século XVII: francês, espanhol, inglês, holandês, croata, grego, ale-
de uma cultura (ou indivíduos como Pedro, o Grande) acham interessante mão, polonês e sueco. As traduç�es do inglês para o latim feitas ness.e período
em outra. Poderíamos dizer que a escolha de itens para tradução reflete as incluíam versões do Shepherd's Calendar [O calendário do pastor], de Paradise
prioridades da cuitura hospedeira, embora a "refração" talvez constitua uma Lost [Paraíso perdido], do Essay on Man (Ensaio sobre o homem] e da Elegy in
metáfora mais apropriada (Lefevere, 1992). O poI_J.to é que obras parecem ser a Country Churchyard [Elegia em um cemitério no campo] (ver p.86).
escolhidas para tradução com base em dois princípios opo�tos. Em primeiro . A tradução de obras de História, Política, devocionais e especialmente

t
. 9entíficas será discutida em capítulos posteriores d�ste volume. Viagens
lugar, o que não surpreende, para preencher laêunas na cultura hospedeira
(Toury, 1995, p.27). Por exemplo, ·em 1700 a Rússia carecia de livros sobre < Geografia também eram temas populares em traduções. Por exemplo, as

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26 r ,â:;. 27
A lroduçõo cultural nos primórdios do Europa Moderno
Peler Burke e R. Po-chiô-Hsio (orgs.)

viagens de Ludovico de Varthema, publicadas originalmente em italiano em A pergunta "para quem?" exige uma resposta geográfica, além de social.
Traduções para o latim eram feitas primariamente para que homens instruí­
1510, haviam sido traduzidas para cinco línguas em 1600. As Relazioni [Re­
dos, cuja primeira língua era germânica ou eslava, pudessem ter acesso a obras
lações], ou descrições das diferentes panes do mundo, de Giovanni Botero,
escritas em italiano, francês ou espanhol (ver p.80). Quanto a traduções de
foram traduzidas ao todo ou em parte para o alemão, o latim, o inglês, o
um vernáculo europeu para outro, elas podem ser analisadas tanto de acordo
espanhol e o polonês. O interesse contemporâneo na China é revelado pelas
com sua língua original (um sinal de seu prestígio ou hegemonia cultural)
muitas traduções de Marco Polo, pela descrição da China feita pelo frade
como com sua língua-alvo (um sinal de que aquela cultura estava aberta a
agostiniano Juan González de Mendoza, e pela história da queda da dinastia
idéias de fora). Em outras palavras, a "economia política da tradução", tanto
Ming escrita pelo jesuíta italiano Manino Martini (a seguir, p.148).5
as importações como as exportações, constitui um indicador cultural revela­
dor Oacquemond, 1992, p.139).
Poucas tentativas foram feitas de compilar listas completas das traduções
VI de um vernáculo para outro, por isso as conclusões a seguir são necessaria­
mente impressionistas e provisórias. 7 Traduções foram feitas para muitas
Para quem as traduções eram feitas? Eram claramente feitas para diferentes
línguas nesse período, quer européias (basco, bretão, croata e assim por
públicos com diferentes níveis de instrução, como se pode ver pela coexistência
diante), quer não européias (armênio, aimará, chinês etc.), mas apenas umas
de duas tendências nesse período: A primeira é aquela das traduções do grego e
poucas línguas foram veículo de muitas traduções.
do latim para os vernáculos. A segunda, pouco estudada apesar da importância
Observando-se a "balança comercial" entre os vernáculos, não é surpresa
do fenômeno, é o contrário, traduções para o latim, não apenas do grego, mas
também dos vernáculos. Mais de 1.100 traduções dos vernáculos para o latim alguma encontrar um alto nível de exportações italianas, especialmente no
Renascimento. Menos previsivelmente, as importações italianas também
foram feitas entre a invenção da imprensa e 1799, com um pico de mais de
foram altas, especialmente no século XVI e a partir do espanhol, um sinal
350 textos nos cinqüenta anos entre 1600 e 1649 (ver p.78-9).
da hegemonia cultural espanhola naquela época.
As traduções em manuscrito não devem ser esquecidas, como a circulação
geral desses textos na Europa Moderna, enfatizada em alguns importantes Na França, as importações do italiano e do espanhol foram altas no final
estudos recentes (Love, 1993; Souza, 2001). Essas traduções manuscritas do século XVI e início do XVII (Balsamo, 1998). Na segunda metade do século
XVII, a cultura francesa se abriu gradualmente a traduções em inglês, cerca de
incluem versões espanholas da Utopia, de More, de The Defence of Poetry [A
defesa da poesia], de Sidney, dos Ensaios, de Montaigne, da história dos tur­ uma geração antes da "anglomania" do século XVIII. Hobbes, Locke, Richard
cos de Carnbini, do relato dos turcos de Spandugino, dos dois Guicciardinis, Baxter, Thomas Browne, Thomas Gage, Richard Allestree, William Temple
Francesco e Ludovico (ambos traduzidos pelo rei Filipe IV), e da histó�ia das e Gilbert Burnet estiveram entre os autores traduzidos para o francês entre
l 650 e 1700. O crescente prestígio do francês é revelado por seu uso ·como
Índias, de Maffei. 6 Além disso, uma tradução do historiador italiano Sabelli­
co (feita por Thomas Murner, mais famoso como crítico de Lutero), assim idioma intermediário para que livros ingleses fossem traduzidos em alemão,
como uma tradução inglesa da história da Inglaterra, do humanista italiano por exemplo, e às vezes em espanhol, italiano ou russo (Blassneck, 1934).
Polidoro Virgílio, continuaram inéditas no período moderno. Na Rússia e no No caso da Espanha, tanto as importações como as exportações parecem
Império Otomano, onde havia poucos livros impressos até os séculos XVIII ter sido mais baixas do que na Itália e na França, embora fossem mais altas do
e XIX respectivamente, as traduções geralmente circulavam em manuscrito que os estereótipos tradicionais de um "país fechado" podem sugerir. Erasmo
(a seguir, p.2 l 9s., 241ss.). foi traduzido para o espanhol relativamente cedo, junto com italianos renascen­
tistas como Ariosto, Castiglione e mesmo Aretino e Maquiavel (embora não
O príncipe). Foi somente após 1550 que essa cultura começou a se fechar.
5 De todos esses autores, Maquiavel foi o estudado com mais atenção: Gerber, 1911-1913.
6 Sobre More, Bouza, 2001, p.48; sobre Sidney, Buesa Gómez, 1989; sobre Momaigne, Ma­
7 Os estudos existentes incluem Scott, 1916; Balsamo, 1992; Hausmann, 1992.
richal, 1971; sobre os turcos, Lawrance, 2001, p.18•9.

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28
-
Peler Burke e R. Po-chio Hsio (orgs.)
A lroduçõo cultural nos primórdios do Europa Moderno

Quanto à Inglaterra renascentista, importaçõe s do italiano, do espanhol


tores políticos Botero e Fadrique Furió Ceriol (ver p.128). No século XVII, as
e do francês foram bastante altaS (do período 1550-1660, foram identificadas
traduçõe s do latim para o russo eram feitas via polonês, indicando a impor­
cerca de 450 traduções pub licadas do italiano) (Scott, 1916). Por outro lado,
tância da Polônia para os russos daquela época, como intermediária cultural
as exportações foram extremamente baixas antes de 1660. Os poucos casos
com o Ocidente.
incluem as viagens de Francis Drake, Martin Frobis her e Walter Raleigh,
Na Escandinávia, as exportações eram virtualmente inexistentes , e as
bem como textos de Francis Bacon, Philip Sidney, Jaime I, William Perkins e
impo rtações foram baixas até a campanh_a do século XVII descrita acima.
Joseph Hall. Essas traduções eram freqüentemente feitas por ingle se s, já que
Das 335 traduções para o suec o impressas no decorrer desse século, 203 ( ou
a maioria dos europeus continentai s não sabia inglês (Burke, 2004, p.115-17)·
61 %) eram do alemão, catorze do francê s e onze do inglês (as traduções do
A partir da segunda metade do século XVll, pór outr o lado, as traduções a
latim respondiam pela maior parte das demais) (Hansson, 1982).
partir do inglês se tomaram cada vez mais comuns, de The Pilgrim's Progress
"Fluxos desiguais" desse_ tipo exigem uma explicação, que foi dada em
[O progresso do peregrino) e Paraíso Perdido a obras de Locke, Addison, Fiel­
relaçã o à posição dos diversos países no centro, na periferia ou na semipe­
ding e Richardson (sobre-Tke Spectator [O espectador), ver p.163 ss. adiante)
riferia de um sistema mundial (Heilbron, 1999; cf. Milo, 1984). O que era
(Price; Price, 1934;_ Graeber; Roche, 1988; Fabian, 1992).
traduzido de uma língua para outra em dado momento oferece uma pista
No século XV1, as importações para o alemão foram mais baixas do que
valiosa quanto ao modelo cultural dominante, quer fo sse italiano, espanhol
pMa o inglês, embora de fato incluíssem a peça espanhola La Celestina (1534),
ou francês , quer provies se de uma outra cultura. N o caso da Suécia, por
o Cortegiano, de Castiglione (traduzido duas vezes, em 1565 e 1593), Guicciar­
exemplo , as traduções sugerem que o model o era a Alemanha.
dini (1574) e Rabelais (1575). A s exportações alemãs eram m otivad as pelo
A hi stória do que nã o foi traduzido, como também outra s au sências,
interesse em Lutero, mas prejudicadas pelo fato de que pouc os estrangeiros
o ferece pistas vali osas das difer_e_nças. entre as diversas regiõe s da Europa
fora da Holanda e da Europa central conheciam a língua.
moderna. Por exemplo, traduções da Bíb lia para o espanhol foram publicadas
As importaçõe s holandesas eram muito mais altas que suas expo rtaçõe s,
nesse perío do, mas só fora da Espanha (em Antuérpia em 1543, em Ferrara
como seria de esperar de uma nação pequena e também mercante, com uma
em 1553 e na Ba si léia em 1569). Os Ensaios, de M ontaigne, não estavam
cultura relativamente aberta a influências estrangeiras . Os holandeses tradu­
pub licamente disponíveis em espanhol nesse período (embora tenham sobre-
ziram muito do francês, do alemão, do italiano, do espanh ol e até mesmo do
vivido duas traduções manuscritas), e nã o apareceram em forma impressa em
inglês. Um estudo desse tópico registra nã o menos de 641 traduções do inglês
alemã o senã o em 1797. Leitores e ouvintes tiveram de esperar por traduçõe s
para o h olandês (sobretudo obras devocionias) feitas entre 1600 e 1700, e é
de Shakespeare até meados do século XVlll, a única exceção a essa regra sendo
possível acrescentar mais alguns itens à lista (Schoneveld, 1983).
uma versã o holande sa seiscentista de A megera domada.
Na Europa oriental ou do centro-leste, as importações eram mais alta s
que as exportações - como seria de esperar em uma situação de desequilíbrio
de poder-, mas ambas eram relativamente baixas. As traduções costumavam Vil
ser feitas a partir de text os em latim moderno (por Eras mo, p or exemplo,
Calvino e Lípsio), mais que de textos em vernáculo. A traduçã o para o tcheco De que maneira as traduções eram feitas? Que te oria s, explícitas ou
'�.'·
foi importante no século XVI, incluindo obras de Petrarca, Erasmo e Lutero e implícitas, os t�adutores seguiam nesse período? Chegamos ao que se po-
ü.
refletindo o alto prestígio dessa língua em meio a suas vizinhas eslavas. Por deria chamar de "táticas" da tradução, em oposição à "estratégia" discutida
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4

o utrà lado , ela declinou rapidamente no século XVII, s eguindo- se à germa­


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anteri ormente '. 8 Essas táticas devem ser compreendidas não no sentido de
nização da Boêmia após a Batalha do Monte Branco. em 1620. ·; t�;.:/'. ' egras a serem seguida s mecanicamente, mas ante s como o que o teórico
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O lugar do tcheco foi assumido pelo polonês, que e stava em �scensão social francês Pierre B ourdieu
chamou de "habitus" - em outras pa lavr� s,
como língua literária na segunda metade do século XVI. O Cortegiano, de :}! • # .:.. ;_'. - -

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Castiglione, foi vertido para o pol onês, )unto com Ario st o, Tasso e os e scri- \'.i 8 · Sobre "táticas de tradução", Lefevere, 1992, p.97-10
8.
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30
Peter Burke e R. Po-chià. �sÍâ" (Ôrgs.) A trodução culfurol nos primórdios do Europa Moderno

um princípio subjacente à espontaneidade·e à_improvisação, controlando-as /-'


·:,..
do holandês [referindo-se provavelmente ao alemão] não podem ser aqui
� ....
reproduzidos à risca".
(Bourdieu, 1972).
· A teoria da tradução não é nova, muito embora esteja passando atualmente A variedade de termos empregados em diferentes línguas no período mo­
por um maciço renascimento. Nos idos de 1420, por exemplo, o humanista derno para designar o ofício que conhecemos como tradução merece atenção
italiano Leonardo Bnmi produziu o que se chamou de "o primeiro pronun­ aqui porque proporciona pistas sobre como a prática era vista na época. Os
ciamento teórico substancial a respeito de tradução desde a carta de São termos translate, traduire, tradurre, traducir, transferre (verbo latino irregular
Jerônimo a Pamáquio", um breve tratado intitulado De interpretatione recta, com um particípio passado translatus), iibersetzen e assim por diante estavam
[Da tradução correta] (Viti, 2004; Copenhaver, 1988, p.82). Depois de 1500, entrando em uso (o italiano tradurre foi registrado em 1420, por exemplo, e
tais pronunciamentos se multiplicaram, entre eles o Sendbrief vom Dolmetschen o francês traduire, em 1480) (Folena, 1991). 1 º
[Carta aberta sobre a interpretação], de Martinho Lutero (1530); La maniere de Todavia, esses termos coexistiam com palavras que eram mais vagas e
bien traduire [A maneira de bem traduzir], de Etienne Dolet (1540); e as Régles pareciam autorizar uma abordagem livre ou domesticadora. Em alemão, por
de la traduction [Regras da tradução], de Gaspard de Tende (1660), bem como exemplo, havia verdeutschen, "alemanizar", gedolmetschen, "interpretar", ver­
prefácios gerais a traduções específicas, como o Tácito, de Nicolas d'Ablancourt setzen e ümgesetzen, bem como circunlóquios tais como "ins Teutsche gebracht"
(1640), ou o Ovídio, de John Dryden (1680) (La.rwill, 1934).9 [trazido ao alemão]. Em latim, havia versio, "volta", convertere, "converter", e
Havia debates em torno da distinção entre traduzir palavra por palavra - interpretare (lembrando-nos dos elos entre intérp retes e interp retações). Em
amiúde denunciado como "escravidão", "servilismo" ou "superstição" - e inglês, havià done into English [tornado inglês], reduced into English [reduzido
traduzir o sentido de um dado texto. Uma frase de Horácio sobre o "tradutor ao inglês] (frase de Geoffrey Fenton para sua tradução de Guicciardini) ou
fiel", fidus interpres, equivalente, para a teoria da tradução, de sua frase ut simplesmente englished [anglicizado]. Em italiano, havia volgarizzare, converter
pictura poesis [como na pintura, na poesia] na crítica da arte renascentista, foi no vernáculo (il volgare); em espanhol, vulgarizar ou romanzar, "converter em
discutida vezes e vezes seguidas (Norton, 1984). língua românica".
A idéia da intradutibilidade, resultado do gênio específico de cada língua, Passando da teoria à prática, parece possível - pelo menos em uma pri­
também foi discutida nessa época, muito antes dos famosos pronunciamen­ meira aproximação - distinguir um regime ou cultura medieval de tradução
tos de Benedetto Croce e José Ortega y Gasset (Stankiewicz, 1981; Trabant, de seu equivalente pós-medieval. Embora especialistas tenham corretamente
2000). Na Polônia, por exemplo, Jan Seklucjan argüiu que "em qualquer apontado "a heterogeneidade e a complexidade da tradição medieval", pode­
língua há muitas propriedades difíceis de expressar em outra língua com se ainda assim sugerir que o regime medieval era dominado pela tradução
palavras igualmente importantes" (citado em Mayenowa, 19.84; p.345). Na· "palavra por palavra" (verbum pro verbo, na famosa frase de Cícero), embora
França, ·o impressor e erudito Etienne Dolet e os poetas Joachim du Bellay e ele permitisse, sim, a incorporação de glosas ao texto sem assinalar que es­
Jacques Peletier du Mans fizeram observações similares: "chacune langue a ses tas eram adições do tradutor (Copeland, 1991, p.222; Pym, 2000, p.46-51,
propriétés" [qualquer língua tem suas propriedades] (Dolet); "chaque langue a 72). Como diz Theo Hermans, o literalismo era o "núcleo rígido" do regime
je ne sçay quoy propre seulement à e/le" [cada língua tem um não-sei-quê próprio medieval (Hermans, 1992, p.99).
tão-somente dela]; "les mots et manieres de parler sont particuliers aux nations" Um resultado desse literalismo, fosse ou não deliberado, era o que teó­
[as palavras e as maneiras de falar são exclusivas de cada nação] (Peletier) ricos da tradução como Lawrence Venuti chamam de "estrangeiriz�ção" [fo­
(Dolet, 1540, p.15; Du Bellay, 1549, Livro I, capítulo 5; Peletier, 1555, p.110). reignizing]. O termo, ele próprio uma tradução do verbo alemão verfrernden,
Na Inglaterra, o prefácio de Florio a seu Montaigne lamentava que a "grandi­ refere-se à introdução de palavras da cultura doadora na cultura receptora,
loqüência toscana (... ), o caráter agudo do espanhol, a forte expressividade produzindo no leitor uma sensação de distanciamento ou estranhamento.

9 S obre Luter o, Scolt, 1983: sobre Dolec, Worth, 1988; sobre Tende e D'Ablancourc, Zuber,
1968; sobre Dryden, T. Sceiner, 1975 e Kicagaki, 1981. 10 Alguma crítica à base do material espanhol em Pyrn, 2000, p.109-31.

32 33
Peler Burke e R.. Po-chio Hsio (orgs.) A lroduçõo cultural nos primórdios do Europa Moderno

Em contraste com a prática medieval, tradutores de Leonardo Bruni em Mesmo assim, as práticas de tradução no período moderno variavam
dianfe enfatizaram a necessidade de traduzir sentido por sentido (sensum de consideravelmente mais do que as teorias sugerem. Como amiúde ocorre,
sensu) (Viti, 2004; Folena, 1991, p.60-6). Apesar de referências freqüentes diferentes normas coexistiam e competiam, de modo que podemos falar de
às "leis" da tradução, a cultura moderna da tradução era de relativa liber­ culturas ou subculturas da tradução (Toury, 1995, p.53-69; Schãffner, 1999).
dade. Os tradutores geralm�nte seguiam o que Venuti chama de "estratégia Os tradutores individuais não eram obrigados a ser livres. A variedade da
fluente", aquela que "domestica o texto estrangeiro", oferecendo ao leitor prática quinhentista pode ser ilustrada a partir de diferentes versões de uma
a "experiência narcisista de reconhecer sua cultura em um outro cultural" passagem do famoso livro de etiqueta italiano li galateo [Galateo, ou dos
(Veriuti, 1992, p.5). Se ainda usassem aquele_ termo outrora em voga, os costumes], em que o assunto é a própria língua. O texto afirmava que os
antropólogos poderiam descrever o que esses tradutores estavam fazendo lombardos, por exemplo, deviam falar seu próprio dialeto, porque o falavam
como uma forma de "aculturação". melhor do que o toscano. As traduções inglesa e francesa retiveram o exem­
Muitas vezes, as traduções eram feitas indiretamente, em segunda mão. plo italiano, ao passo que o tradutor alemão substituiu-o por uma referência
As desavergonhadas referências a esse processo nas páginas de rostõ indicam ligeiramente equivalente ao alto alemão e ao saxão.
uma culturã da tradução diferente da que se tomou dominante no século XIX Um grande número de escritores distinguia �s abordagens aos diferentes
(Stackelberg, 1984). Na Inglaterra, por exemplo, textos gregos, italianos e tipos de texto - religioso e secular, verso e prosa -, assim como o próprio Jerô­
espanhóis eram freqüentemente traduzidos via francês. Os Ensaios, de Bacon, . himo havia feito ao recomendar a tradução literal da Bíblia, mas uma tradução
foram traduzidos para o francês a partir do italiano, e suas Considerations Tou­ mais livre de outros textos. Quanto mais elevado o status de um texto, maior
ching a War with Spain [Considerações tocantes a uma guerra com a Espanha] era a pressão sobre o tradutor para seguir de perto o fraseado original.
(como o Tratado sobre o entendimento humano, de Locke), para o italiano a partir A admiração por Cícero durante o Renascimento estimulou alguns hu­
do francês. O holandês foi o meio pelo qual algumas traduções de obras de­ manistas a traduzir textos - inclusive a Bíblia - em uma prosa mais próxima
vocionais de William Perl<lns e outros autores percorreram ·seu caminho do a Cícero do que o original havia sido. Entretanto, a tradução das Escrituras
inglês ao alemão. Nos séculos XVll e XVIII, muitas traduções de textos em por Sébastien Castellion em períodos ciceronianos foi geralmente condenada.
inglês para o alemão (entre elas The Characters [As personalidades], de Hall, Seguindo uma estratégia de estrangeirização, algumas traduções do Antigo
T he Praxis of Piety [A prática da piedade], de Bayly, e o Segundo tratado sobre Testamento para o inglês e o holandês (a Versão Autorizada e a Bíblia dos
o governo, de Locke) foram feitas via francês (Blassneck, 1934; Stackelberg, Estados, por exemplo) procuraram imitar as fórmulas e a sintaxe hebraicas,
1984; Graeber; Roche, 1988). fazendo grande uso da conjunção "e", bem como de repetições como "to thee this
Houve até mesmo traduções de terceira ou quarta mão. Uma versão do day, even to thee" [para ti este dia, mesmo para ti] (Hammond, 1982, p.210).
Alcorão em alemão, publicada em 1688, anunciava que fora traduzida da Diferenças em estilos de tradução expressavam visões diversas da Igreja.
tradução holandesa da tradução francesa do árabe. No entanto, estava mais Traduções do Novo Testamento foram criticadas por protestantes radicais por :Q
próxima do original do que o Alcorão holandês de 1641, feito a partir da não serem literais o bastante; por exemplo, ao traduzir episkopos como "bispo" !SI
.:.
:•
tradução em alemão de uma-tradução em italiano da tradução em latim. n em vez de "supervisor", ou ekklesia por "igreja" em vez de "congregação". No
Um exemplo ainda mais extremo é o das fábulas de Bidpai. Nesse caso, Sir caso do Antigo Testamento, Szymon Budny cunhou a palavra ofiarnik, "sacri- 1:
t

••
T homas North produziu o que se descreveu como "a versão em inglês de uma ficante", para substituir a tradução tradicional, kaplan, "capelão",«porque",
adaptação italiana de uma tradução em espanhol de uma versão em latim
de uma tradução em hebraico de uma adaptação árabe da versão pálavi do
)
i' .. _,_ _ como ele disse, "certa gente simples e inculta pode entender que homens
·( :} ; , · santos como Samuel e Zacarias (...) eram iguais a nossos padres romanos de
i•
, _ J;
_ _ :_ :' �g
original hindu" (Matthiessen, 1931, p.63n). � -.:\;;,;:, �ra, e todavia os d_ois tipos são tão diferentes como o dia difere da noite"
li ::i�L (cuado em Borowski, 1999, p.29). !,!�
l ,;$V·- Situando Calvino no mesmo nível das Escrituras, o tradutor inglês T ho-
11 u último exer:1.plo é citado por Pym, 2000, p.13; · \ · mas Norton afirmou que iria "seguir as palavras tão de perto quanto o fra-
- � . . .

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. 34 35
:, 1
..·,
Peler Burke e R. Po-chio Hsib (orgs.) A tradução cultural nos primórdios do Europo Moderno

seado da língua inglesa me permitisse" (citado em Kelly, 1979, p.208). Como Na escala de respeito, logo em seguida aos textos religiosos vinham os
Hermans observou, a estratégia do literalismo muitas vezes expressa i,nferio­ clássicos gregos e latinos. Por exemplo, as traduções relativamente livres de
ridade diante de um dado texto, autor ou língua (Hermans, 1992, p.108). Aristóteles produzidas no Renascimento por Leonardo Bruni ejohannes Ar­
Mesmo assim, alguns tradutores da Bíblia, de Lutero a Castellion, esco­ gyropulos foram criticadas por outros humanistas, como Alonso de Cartagena
lheram a estratégia fluente. Lutero, por exemplo, rejeitou a tradução literal (bispo de Burgos e tradutor de Cícero). Bruni era um purista que objetava
"a
de frases bíblicas como abundância do coração" ou "cheia de graçan. Um a termos latinos como democratia porque eram híbridos, ou, como ele dizia,
reformador, Matias Flácio, em sua "Chave da Escritura" (Clavis scripturae, "metade gregos", enquanto Cartagena preferia o empréstimo de tais termos
1567), descreveu como uma espécie de "superstição" a adesão estrita às pala­ técnicos a paráfrases (Pym, 2000, p.122-6). De maneira similar, a tradução
vras em detrimento de seu sentido. O proêmio da Versão Autorizada criticou da Eneida por William Caxton foi criticada por sua liberdade pelo tradutor
a "escrupulosidade dos puritanos", que "usavam 'lavagem' por 'batismo"'. escocês do início do século XVI, Gavin Dougias (Burrow, 1997, p.22-3).
Frente ao problema de traduzir o cristianismo fora da Europa, diferentes Na França do século XVII, houve um famoso debate sobre as novas tra­
missionários fizeram variadas opções. No Japão, alguns trataram a palavra duções dos clássicos por Nicolas d'Ablancourt. Essas versões livres e fluentes
Deus como intraduzível, deixando-a em latim (Elison, 1988). Nas Filipinas, provocaram o crítico Gilles Ménage a se referir às belles infideles, comparando
usaram as palavras espanholas Dios, Espíritu Santo e jesu-Cristo, quer para evitar as traduções às mulheres e sustentando que as belas não são fiéis, enquanto
o.risco de serem mal-entendidos, quer porque acreditassem na superiorida­ as fiéis não são belas (Mounin, 1955; Zuber, 1968; Guillerm, 1996). Em res­
de do espanhol. Também no México, os franciscanos usavam o termo Dios posta a seus críticos e secularizando uma frase tradicional de reformadores
(Rafael, 1993, p.20; Pym, 2000, p.148). No Brasil, o jesuíta José de Anchieta, religiosos como Flácio (acima, p.36), d'Ablancourt atacou o que chamava de
q�e escreveu hinos em tupi, introduziu nessa língua palavras portuguesas a "superstição judaica" de seguir o texto original palavra por palavra. "Eu
para conceitos de que os índios aparentemente careciam, sobretudo "graça", nem sempre me_ atenho às palavras do autor, ou mesmo a seus pensamentos", : 1
.,
"virgem" e "pecado" (Anchieta, 1984, p.157, 171, 178). ele declarou. "Tenho em mente o efeito que ele desejava produzir." O que
Apenas uns poucos missionários mais ousados, em geral jesuítas, troca­ ele defendia era o que poderíamos chamar de uma tradução cultural, dando
ram palavras-chave do cristianismo por aparentes equivalentes da cultura de à velha metáfora da língua, como uma forma de vestimenta, um novo viés,
seu público, como "caminho celestial" (tento) em japonês e "céus" (tian) em argumentando que "diferentes tempos não apenas requerem diferentes pa-
chinês (Elison, 1988; Higashibaba, 2001, p.39). 12 Talvez seja significativo que . lavras, como também diferentes pensamentos, e embaixadores usualmente
essas exceções venham de lugares em que os missionários careciam do apoio se vestem à moda do país ao qual são enviados" (Zuber, 1968).
, i
de uma potência colonizadora como Espanha ou Portugal, o que os tornava A liberdade reclamada por d'Ablancourt foi criticada por escritores como
dependentes da boa vontade de seus anfitriões. Gaspard de Tende, que frisãva afidélité (Mounin, 1955; Zuber, 1968, p.165-
A maioria dos exemplos apóia a generalização de que os Estados coloniza­ 279; Guilherm, 1996).13 Ménage levantou a questão do anacronismo, conde­
dores forçavam os colonizados a ver sua própria cultura através das lentes da nando "traduções que modernizaram ultrajantemente seu texto" (citado em
potência dominante (Rafael, 1993; Cheyfitz, 1991; Niranjana, 1992). Mesmo Zuber, 1968, p.195). Entretanto, mesmo d'Ablancourt defendia a retenção de
assim, a força dos argumentos em favor dessa tática não deve ser esquecida. alguns termos técnicos com·o "coorte" ou "centurião", ao traduzir escritores
Como outros tradutores, os missionários eram obrigados a fazer a sempre antigos, já que seus exércitos eram muito diferentes dos "nossos". o motivo
difícil escolha entre estrangeirizar ou domesticar; sua situação era oposta para essa transição temporária para a estrangeirização, que levou d'Ablancourt
à usual �ntre os tradutores, já que a cultura doadora nesse caso era a sua a dotar sua tradução de Apiano de um glossário, foi provavelmente o fato de
própria, e a cultura recipiente, a do "outro". ele estar escrevendo para nobres que tinham um interesse considerável pelos
detalhes da organização militar (Zuber, 1968, p.122-3, 139, 175, 211).

12 Sobre a China, ver o ensaio de Hsia nesta obra. 13 Sobre Tende, Ballard, 1992, p.186-97.

36 37
\1l.
J Peler Bvrke e R. Po-chio Hsio (orgs.) A tradução cullurol nos primórdios do Europa Moderna

\'.
No que diz respeito a textos relativamente modernos, o regime de tra­ de Platão, para o latim evitaram sua referên cia à comunidade d e mulheres.
d ução moder:no caracterizava-se por uma liberdade ainda maior do que se O nde Platão escreveu sunoikein, "coabitar", os tradutores preferiram termos
d escreveu até aqui, oferecendo bastante escopo à remod elação. Textos mo­ mais vagos como habitare, "habitar", ou adherere, "ad erir" (Ha:nkins, 1990,
d ernos não raro eram consid erad os suscetíveis d e aprimoramento por seus p.424·6). Novamente, a versão latin a de O príncipe, de Maquiavel, por Sil­
tradutores. Assim,Jean Martin, o tradutor para o francês da estória romanesca vestro Teglio, "omite sentenças-chave, como no �apítulo 18, sobre como os
italiana Polifilo, vangloriava-se - com alguma justiça, é verdade - que "de príncipes devem manter a fé" (Anglo, 2005, p.441). Passagens podiam ser
uma.prolixid ade mais que asiática ele a red uzira a uma brevidade francesa" omitidas - sem aviso aos leitores - por razões religiosas, morais ou políticas.
(d'une prolixité plus que asiatique il l'a reduict aúne briev.eté françoise), enquanto Assim, a tradução das viagens de Marco Polo pelo frade dominicano Francesco
Pierre Boiastuau d eclarou as estórias de Matteo Bandello mieux poly ("mais Pipino remove uma passagem em louvor a Buda, além de eliminar parte d a
bem lustradas", ou "mais polidas"), em sua versão francesa que n o original retórica cavalheiresca (Larner, 1999, p.76, 104, 107, 113).
italiano. O expurgo era igualmente comum em traduções para 6 vernáculo.Johann
A divisa entre a tradução e a imit�ção era traçada menos nitidamente do Fischan, mais co nhecido por suas ampliações, omitiu algumas passagen � em
que viria a ser no século XIX, embora fosse situada em diferentes pontos por Rabelais que discutiam religião. A tradução alemã de Lazarillo de Tormes omi­
diferentes indivíduos. O que o poeta quinhentista francêsJoachim du Bellay tiu algumas observações anticlericais (Brancafone, 1983, p.xv). A tradução
chamava de "imitação" foi designado como trad ução cem anos depois por italiana dos Ensaios, de Bacon , deixou de fora todo um ensaio, que tratava
Nicolas d'Ablancoun e seus contemporâneos ingleses, como John Dry de n d e religião e superstição, en quanto a versão francesa - feita a partir do ita­

(Hermans, 1992; Toury, 1995, p.132). A versão espanhola da Piazza universale liano - suprimiu algumas referências d e Baco n à história francesa rece nte
[Praça universal], de Garzoni, que relata todas as ocupações do mundo, foi (De Mas, 1975, p.160; Lawton, 1926). A tradução espanhola d e A riqueza
d escrita em sua página d e rosto como "em parte traduzid a d o toscan o e em das nações removeu as referên cias aprovadoras d e Ad am Smith à tolerância
parte composta" (,parte traduzida dei toscano y parte compuesta). (Lai, 1999, p.xix).
O po n to crucial é que o que se descrevia na época como "traduções" i· A li berdade das traduções renascentistas também in cluía a liberd ade de

muitas vezes diferia dos originais em importantes sentidos, fosse por abre­ t acrescentar material, ou, como os retóri cos diziam, de "ampliar". Não era
viar os textos, fosse por ampliá-los. Mudanças desse tipo eram amiú de feitas í in comum que os tradutores vertessem uma palavra d o original por duas,
sem que se alertasse o leitor, embora o crítico francêsJean Chapelain, tradu­ talvez por in segurança, embora possivelmen te porque expressões compostas
tor do romance espanhol Guzmán de Alfara.che, declarasse com certo orgulho agra davam aos ouvidos dos leitores do perío do. Vários tradutores do Corte·
que havia cortado, ad icionado, movido, reforçad o e atenuado passagens d o giano produziram pares dessa n atureza, traduzindo o termo-ch:ive sprcz:=tura
original, além de ter alterado metáforas e frases, produzindo um texto mais (mais ou menos "n egligência") como mespris et nonchalance [men osprezo e
longo que o original ("]'ay transposé, restably, retranché, adjousté, uny, separé, in diferença] ou Verachtung oder Una.chtsamkeit [d esprezo ou desatenção]. De
affoibli le discours, changés les metaphores et les phrases ... et plustost augmenté que resto, Florio trad uziu o simptome d e Mo n taign e como "a Symthome or pas­
diminué") [Transpus, restabeleci, removi, ajustei , uni , separei , atenuei o dis­ sion" [um si ntoma ou paixão], e seu siecle debordé [século extravasado] como
curso, mudei as metáforas e as frases (...) e antes aumentei do que diminuí]. "an irregular and licentious age" [uma era irregular e licen ciosa] (Toury, 1995,

i; ·:-•�,.tÁ:.�_·.- ·. -
O poeta Abraham Cowley foi ainda mais franco no prefácio a sua versão do p.102-12). 14
poeta grego Píndaro: "Nestas duas odes de Píndaro, ignorei e acrescentei o ª i d n
: :
que me aprouve". se u ;::;i;::��!: �:;/�::::: o
éxi � ::�! �;:; ��: :�:� �;::
A contração, a liberd ade de subtrair, assumia formas diferentes. Textos
longos podiam ser abreviados na tradução, reduzidos até a metade de sua
1 _ d e nações d o islã. A tradução d os Discorsi [Discursos sobre a primeira d écada

d e T ito Lívio], de Maquiavel, porJacques Gohorry, anuncia na página d e rosto

extensão original. Outras omissões eram uma forma de expurgo. Já se no­


tou, por exefuplo, que os humanistas italianos que traduziram a República, · . 14 Sobre Castiglione, Burke, 1995, capítulo 4.


9!!
. ;i .

•• Peler Burke e R. Po-chio Hsio (orgs.) A lroduçõo cultural nos primórdios do Europa Moderno

••
que os discursos foram "revisados e aumentados" (reueuz et augmentez). A porque os leitores espanhóis do período não esperassem aprender coisa al­
tradução do Enchiridion [Manual do soldado cristão], de Erasmo, por Alonso guma sobre guerra com os italianos. A versão polonesa do Cortegiano, de

••
F�mández se tomou tão notória por sua ampliação do texto original como por Castiglione, feita por Lukasz Gómicki deslocou o diálogo de Urbino para um
suas omissões (Russell, 1985, p.52). Não era uma aberração, simplesmente vilarejo peno de Cracóvia.
um exemplo extremo de uma tendência geral a ser encontrada na cultura Uma vez mais, a tradução para o inglês por Ludovic Bryskett, em 1608,

••
renascentista da tradução. de um diálogo sobre a vida civil do italiano Giambattista Cinthio Giraldi
O mais famoso exemplo de ampliação é provavelmente a tradução de transpôs o cenário da conversa da Itália para a Irlanda, e introduziu partici­
Rabelais por Fischart, a Geschichtsklitter ung [Colagem da história] (1575). pantes ingleses, como o arcebispo de Armagh e o poeta Edmund Spenser.

•• Nesse caso, a rivalidade entre tradutor e autor fica particularmente clara. Na verdade, o livro não foi apresentado somo tradução nem na página de
Por exemplo, as já longas listas caras ao autor original, como os 200 e tantos rosto nem na dedicatória. Somente ao fim o leitor fica sabendo que Bryskett

•••
jogos com que brincava o jovem gigante Gargântua, são expandidas ainda "anglicizou" a obra, "para meu exercício em ambas as línguas", e que omitiu
mais na tradução. Fischart nunca usava uma palavra quando duas ou três passagens e acrescentou outras porque "não quis atrelar-me às leis estritas
servissem a seu propósito, sobre-rabelaisiando Rabelais e inventando uma de um intérprete".
grotesca linguagem polissilábica toda sua. Nesse sentido, ele foi imitado Ainda mais chocante para os leitores modernos, os tradutores de obras de


•i · no século seguinte pelo tradutor escocês Sir Thomas Urquhart. O material História ou Filosofia Natural por vezes se permitiam expressar opiniões que
extra às vezes era derivado de outros textos que o "tradutor" juntava em o autor original teria repudiado. Quando T homas Dale traduziu u·m diálogo

.;
uma espécie de colagem, prática que o tradutor alemão Egídio Albertino já sobre Física do cartesiano francês Noel Regnault, por exemplo, introduziu

:1
designara como Colligiren. as idéias de Newton nas notas. Com característica audácia, quando o cardeal
Em alguns casos, a ação dos diálogos, das peças e histórias era transferida de Retz, qu_e fora ele próprio um rebelde, traduziu a história da conspiração
' i de um local para outro, processo que pode ser descrito em termos musicais do conde Fieschi escrita por Agostino Mascardi, contradisse seu texto-fonte,
i \ como "transposição", ou - seguindo a prática dos atuais tradutores de soft­ convertendo o protagonista de vilão em herói (Watts, 1980, p.134).
ware - como "localização" . 15 Peças traduzidas, por exemplo, eram situadas Essas traduções eram extremamente criativas. De fato, poderiam ser de­
em novos locais, mais familiares para os novos públicos. A versão húngara signadas mais exatamente como "tradaptações", como diz Michel Garneau. 16
de Electra por Péter Bornemisza situou a peça na Hungria, enquanto i.lma Caso contrário, como John Floria apontou no. prefácio a sua tradução dos
tradução polonesa da peça Trinummus [As três moedast de Plauto, o Protrójny Ensaios de Montaigne, obras assim chamadas originais podiam ser designa­
(1597), de Cieklinski, deslocou a ação para Lwów. Fischart transferiu os das mais exatamente como traduções. "Se nada pode ser dito agora que não
cenários de capítulos de Rabelais da França para Estrasburgo ou a Basiléia. tenha sido dito an�s_ ( ... ) o que fazem os melhores, então, senão servir-sê
Abraham Fraunce foi ainda mais longe em uma tradução de Tasso em que da colheita alheia? Tomar-lhes as cores emprestadas, herdar suas posses? O
inseriu uma nova personagem, "Pembrokiana", em homenagem a sua pro­ que fazem eles senão traduzir?"
tetora Mary Sidney. Neste ponto pode s.er útil tomar distância dos exemplos por um mo­
Um procedimento similar era seguido no caso da não-ficção. Por exemplo, mento a fim de considerar sua significância. A liberdade dos tradu�ores pode
o humanista espanhol Juan de Lucena adaptou um texto de Banolomeo Fazia ser comparada à liberdade dos escribas. Não era incomum que copistas de
sobre a vida feliz, transferindo o diálogo de Ferrara para a corte de Castela. poemas, por exemplo os de John Donne (que circularam em manuscrito no
A tradução da Arte della guerra, de Maquiavel, para o espanhol transferiu o início do século XVII), deixassem de fora estrofes ou até inserissem outras
diálogo da Itália para a Espanha e converteu os falantes em dois espanhóis, novas. O manuscrito era o que poderíamos chamar de um meio "interativo"
o grão-capitão Gonzalo Fernández de Córdoba e o duque de Najara, talvez
16 Sobre a necessidade de relacionar concepções da tradução com concepções de propriedade
15 Sobre transposição,Jakobson, 1959, p.234; sobre localização, Pym, 2000, p.H 7. intelectual, Hermans, 1992; Garneau citado em Baker, 1998, p.98.

:·:·.
40 41
Peter Burke e R. Po-c.hio Hsio (orgs.) A lroduçõo culturaJ nos primórdios da Europa Moderna

(Lave, 1993; Marotti, 1995). Como esses escribas, os primeiros tradutores de estrangeiro" (eine gewisse Farbe der Fremdheit), traduzindo Homero ou Dante
modernos de obras medievais ou modernas parecem ter-se considerado co­ em inglês ou francês medieval, ou imitando a sintaxe do grego antigo em
autores, com o direito de modificar o texto original. Na Era Moderna, não alemão (G. Steiner, 1975; Berman, 1984; Venuti, 1995). A hibridização da
foi senão muito gradualmente que se impôs a idéia do texto como obra e língua condenada por Bruni tomou-se então uma virtude, pelo me�os para
propriedade de um único indivíduo. uma minoria de tradutores.
Esse regime livre ou aberto de tradução persistiu até o século XVIII Em outras palavras, as mudanças nas práticas dé tradução se ajustam ao
(Stackelberg, 1971). Assim, a versão de Lenglet du Fresnoy por Rawlinson, modelo proposto por Michel Foucault, em que 1800 assinala uma grande rup­
publicaáa em 1 728, foi descrita na página de ros_t.o como "traduzida e me­ tura no que ele chama de "episteme" européia (Foucault, 1966). A ascensão
lhorada", bem como a versão de fins do século XVIII de Pamela, de Richard­ da estrangeirização é parte da ascensão do romantismo e do historicismo,
son. O máximo que se poderia dizer, em termos de uma tendência ao longo incluindo a idéia de que diferentes línguas expressam diferentes visões de
do tempo, é que o debate seiscentista revela uma consciência mais aguda mundo, e que o passado é um país estrangeiro. A visão de Dryden, de que
dos dilemas que se impõem �os tradutores. A distinção de Dryden entre Yi,rgílio de":'eria ser apresentado em tradução como se tivesse nascido "na era
"metáfrase" (a tradução literal), "paráfrase" (definida como "tradução com presente", foi então rejeitada (citado em G. Steiner, 1975, p.256).
latitl.!de")" e "imitação" é um famoso exemplo de tal consciência (G. Steiner, Os alemães.desempenh�ram um papel proeminente nessa tendência,
1975, 253-6). A domesticação imperava. reagindo contra a hegemonia cultural francesa associada à ênfase em valores
É verdade que, como se observou anteriormente, podem ser encontrados universais com0 a clareza e a razão (Mannheim, 1927). Nesse sentido, o
uns poucos exemplos de estrangeirização no donúnio religioso, como no caso comentário de Herder sobre as traduções de Homero é revelador. "Homero
de textos sobre o Império Otomano (a seguir, p.81) (Burke, a ser publicado). precisa entrar na França como cativo, trajado à moda francesa, para não lhes
Alguns tradutores da Bíblia se negavam a cometer anacronismos, �orno tradu­ ofender o olhar ( . .. ) Nós, pobres alemães, por outro lado ( ... ) só queremos vê­
zir o termo grego presbyteros, do Novo Testamento, por "padre". Essa recusa, lo tal qual é." (Herder citado em Robinson, 1997, p.59) Em outras palavras,
geralmente motivada pela crença de que a Igreja de seu próprio tempo era no fim do século XVIII os alemães viam a domesticação como estrangeira!
corrupta e de que era necessário um retorno à "igreja primitiva", também
revela a noção de uma distância entre o passado e o presente, em contraste
com o pressuposto medieval de que passado e presente eram próximos um VIII
do outro (Burke, 1969).
Mesmo assim, foi só por volta de 1816, ano da publicação de importantes Uma pergunta final: quais eram as conseqüências da tradução? Assim
pronunciamentos de Friedrich Schleierrnacher e Wilhelm Humboldt sobre como outras formas de fala e escrita, traduzir é um tipo de ação. Como vi­
tradução, que a tentativa deliberada de transmitir aos leitores uma impressão mos, governantes e igrejas patrocinaram a tradução a fim de mudar o mundo,
da natureza estrangeira do texto o_riginal tomou-se uma grande tendência na converter os pagãos ou ajudar a Suécia ou a Rússia à se pôr em dia com a
história da tradução. Europa ocidental.
Como disse Scheleiennacher, a escolha do tradutor era entre levar o leitor A contribuição da tradução para a difusão do conhecimento é óbvia o
até o escritor ou levar o escritor até o leitor (entweder der Übersetzer lêi.sst den bastante, mas algo também deve ser dito sobre os mal-entendidos, um tópi­
Schriftsteller mõglichst in Ruhe, und bewegt den Leser ihm entgegen; od.er er lãsst den co que ainda não recebeu dos historiadores culturais a atenção que merece.
Leser mõglichst in Ruhe und bewegt den Schriftsteller ihm entgegen) (ou o tradutor Umpequeno porém típico exemplo é aquele do artista quinhentista francês
deixa o escritor o mais possível em paz e move o leitor em sua direção, ou Bernard Palissy, cuja crença de que os fósseis eram resultado do Dilúvio­
deixa o leitor o mais possível em paz e move o escritor em sua direção]; Em decorria de um mal-entendido quanto a uma passagem de um tratado do
sua opinião, o tradutor deveria preferir a primeira alternativa. O novo ideal filq_sofo natural italiano Girolamo Cardano, que Palissy lera em uma tradu­
era dar à tradução o que Wilhelm von Humboldt chamou de "um certo tom :.\ ção em francês (Rudwick; 1972, p.41). Em maior escala, o tradutor inglês

42
A troduçõo cultural nos primórdios do Europa Moderno
Peter Burke e R. Po-chíó Hsio (orgs.)

da sátira Le philosophe de court [O filósofo da corte]. de Philibert de Vienne, Que a maior acessibilidade a textos de outras culturas alargou os hori­
entendeu de forma literal o que o autor pretendia que fosse entendido como zontes dos leitores, parece bastante plausível, mesmo que esse alargamento
Ironia, e com isso recomendou preásamente o que o autor original condenava não possa ser medido. Neste ponto, podemos retornar à recepção do Renas­
Oavitch, 1971). cimento, da Reforma e do Iluminismo e à maneira como a tradução fez algo
No caso da Bíblia, a escolha de termos-chave por parte do tradutor podia acontecer, multiplicando o efeito de certos textos importantes à custa de
ter conseqüências de longo alcance, fosse no caso de episkopos (anteriormente, mudar seu significado.
p. 36), fosse no daquela passagem do Êxodo freqüentemente vertida como No caso do Renascimento, já foram mencionadas as muitas traduções dos
"não permitirás que uma feiticeira viva" - embora Johan Weyer e Reginald clássicos para as línguas vernáculas. A tradução de tratados italianos sobre
Scot afirmassem que "envenenadora" seria uma tradução melhor do que as artes estimulou a adoção do novo estilo classicizante, e tanto as plantas
"feiticeira" para o hebraico chasaf. De maneira ainda mais radical, o livre­ como os detalhes de uma série de edificios quinhentistas na Inglaterra, na
pensador holandês Adriaan Koerbagh afirmava que a palavra hebraica no França e em outras regiões tiveram suas origens identificadas em ilustrações
Antigo Testamento geralmente traduzida como "diabo" significava na verdade no tratado de arquitetura de Sebastiano Serlio que, em 1611, havia aparecido
"acusador" ou "difamador" (Israel, 2001, p.405)_ ·-·· em holandês, alemão, francês, espanhol, latim e inglês, além de no original
.f.
O movimento da tradução nesse período teve grandes conseqüências para em italiano. Voltando-nos ao pensamento político e social, constatamos que
as línguas da Europa moderna. O teórico literário Mikhail Bakhtin chamou a Utopia, de More, escrita em latim, estava disponível em seis traduções
atenção para "a imensa importância das traduções" no Renascimento naquilo impressas antes do fim do século XVI (uma em alemão, italiano, inglês e
que ele chamava variadamente (em russo) de interação, "interorientação" e holandês e duas em francês).
"interanimação" das línguas (Bakhtin, 1965, p.470). A tradução da Bíblia e No caso da Reforma, a tradução foi ainda mais importante. Erasmo es­
dos clássicos para os vernáculos da Europa ajudou a elevar o status dessas lín­ crevia em latim para ser lido em toda a Europa, mas para atingir as pessoas
guas. Também as enriqueceu graças aos neologismos cunhados por tradutores comuns precisou da ajuda de tradutores. Seu Enchiridion militis christiani apa­
que não encontravam termos apropriados para verter o vocabulário religioso receu em nove vernáculos no século XVI - em ordem cronológica, tcheco,
do Antigo Testamento, por exemplo, ou o vocabulário filosófico de Aristó­ alemão, inglês, holandês, espanhol, francês, italiano, português e polonês
teles (incluindo termos políticos como oligarchia e democratia). O período de (Haeghen, 1897-1907). Obras de Lutero, em especial seus catecismos, foram
1570 a 1630, quando o vocabulário inglês se expandiu mais rapidamente, foi traduzidos para dez vernáculos entre 1517 e 1546. Em ordem de importância,
também uma grande era da tradução. essas línguas eram o holandês, o dinamarquês, o francês, o tcheco, o inglês,
Quando o tratado de Alberti sobre a arquitetura foi traduzido para o o italiano, o polonês, o espanhol, o sueco e o finlandês (Seidel Menchi, 1977;
francês, em 1553, a dedicatória ao rei chamou atenção para Ó enriquecimen­ Higman, 1984; Moeller, 1987). Quanto a Calvino, dezoito traduções de sua
to da língua pelo tradutor. Para traduzir Rabelais, Fischan inventou muitas obra para o holandês haviam sido publicadas até 1600, dezenÕvé para o ita­
palavras em alemão. A versão de Homero pelo poeta George Chapman intro­ liano, 32 para o alemão e 91 para o inglês (Higman, 1994).
duziu muitas palavras novas no inglês. V árias dessas palavras não fincaram Durante o Iluminismo, a tradução foi mais uma vez essencial para a
raízes, de modo que os atuais editores de Chapman consideram necessário difusão de idéias. No século XVIII, I.:Esprit des /ois [O espírito das leis], de
oferecer um glossário. Por outro lado, muitos neologismos cunhados por Montesquieu, circulou em inglês, holandês e italiano, além de n·o original
Florio em sua tradução de Montaine tomaram-se parte da língua, entre os em francês. O Segundo tratado sobre o governo, de Locke, circulou em francês,
quais amusing [divertido]. conscientious [consciencioso], efface [apagar],, effort alemão e sueco; seu Ensaio sobre o entendimento humano, em francês, latim e
[esforço], emotion [emoção], endear [tornar benquisto]. facilitate [facilitar] e alemão; e seus Thoughts on Education [Pensamentos sobre a educação], em ho­
regret [lamentar]. De resto, a versão da história dos turcos, de Andrea Cam­ landês, francês, alemão, italiano, sueco e russo. Embora tenha sido publicado
bini, por John Shute, introduziu no inglês termos otomanos como a-ga [agá], em 1776, A riqueza das nações, de Adam Smith, já circulava em alemão, francês,
cadi [cádi], seraglio [serralho], spahi [sip_ai] e vizier [vizir]. dinamarquês, italiano, espanhol e holandês em fins do século XVII!.

44 45
Peter Burke e R. Po-chio Hsio (orgs.)

Essas uaduções tinham seu preço. Tradutores têm seus próprios fins, que
podem diferir daqueles do escritor original, um ponto exemplificado adiante
(p.153ss) pela recepção no exterior dos historiadores italianos Guicciardini
e Sarpi. Mesmo quando os tradutores tentavam ser neutros, a língua que
utilizavam não o era. Veja-se o caso do Essay on the History of Civil Society
[Ensaio sobre a história da sociedade civil], de Adam Ferguson. Em alemão,
o conceito-chave foi vertido como bürgerliche Gesellschaft [sociedade burguesa],
assimilando-o à tradição legal alemã e elimin�do o "sentido original óvico
e ativista" do termo civil (Oz-Salzberger, 1995, p.142-8).
Independentemente de os tradutores seguirem a estratégia da domes­ CAP,ÍTULO 2
ticação ou da estrangeirização, e de entenderem bem ou mal o texto que A missão católica
estão venendo para outra língua, a atividade da tradução necessariamente. e as traduções na China, 1583- 1700
envolve tanto uma descontextualização como uma recontextualização. Algo
é sempre "perdido na tradução". Todavia, o exàme detido do que se perdeu R. Pó-chia Hsia
é uma das maneiras mais efetivas de identificar diferenças interculturais.
Por essa razão, o estudo da tradução é ou deveria ser central para a prática
da história cultural.

Entre o estabelecimento da missão católica na China pelos dois jesuítas


italianos Michele Ruggieri e Matteo Ricci, em 1583, e o ápice de seu sucesso,
por volta de 1700, missionários europeus compuseram· e publicaram cerca de
450 obras em chinês.1 Desse total, perto de 120 textos tratam da ciência, tec�
nologia e geografia européias; outros 330 são textos religiosos. Este capítulo
investigará o papel das traduções nesse intercâmbio cultural sino-europeu:
que textos foram traduzidos? Quem eram os tradutores? Quais eram os
diferentes processos de tradução? E que impacto as traduções exerceram na
recepção cultural da Europa na China moderna?
Nossa primeira tarefa, determinar o número exato de traduções, envolve
cena explicação. Pode-se afirmar que, dos 450 textos, pelo menos 50 são
traduções no sentido atual, ou seja, a adaptação de um texto na íntegra ou

Uma bibliografia completa das obras cristãs em chinês das dinastias Ming e Qjng está sendo
compilada sob a direção de Nicolas Standaert na Universidade de Leuven. Até a conclusão
.: deste trabalho, a obra de referência mais confiável e conveniente é Xu, 1949, que organizo_u
· a Coleção Jesuítica em Zi.kawei (Xangai) em 1940, de acordo com o tema. Todos os prefácios
.. de cada título são publicados junto com breves biografias dos autores jesuítas. Além da
seleção dos útulos mais signifü:ativ�s da Biblioteca de Xangai, Xu Zongze também incluiu
bibliografias parciais das coleções sino-cristãs na Bibliotheque Nationale de France em Paris
(atualmente Bibliotheque de France) e na Biblioteca do Vaticano, em.Roma. .... ·

46
..
I
Peler Burke e R. Po-chio Hsiéi (orgs.) A lroduçáo cultural nos primórdios do Europo Moderno

em panes de uma língua para outra. Há, por exemplo, a tradução de 1607 Os textos religiosos incluíam traduções da liturgia romana para o uso da
dos Elementa [Elementos], de Euclides, empreendida em conjunto por Matteo Igreja Chinesa (uma liturgia especial em língua chinesa foi autorizada em
Ricci e Paul Xu Guangqi, ou a tradução parcial da Summa theologica, de Tomás 1615 pelo papado, mas rescindida em fins do século XVII). As obras traduzi­
de Aquino, por Ludovico Buglio CJ ["da Companhia de Jesus"], concluída das incluíam o Missale romanum [Missal romano] (1670), o Breviarium romanum
entre 1654 e 1678. [Breviário romano) (1674) e o Manuale ad sacramenta ministranda.juxta ritum S.
Havia outros métodos de verter textos europeus para o chinês que não Romae Ecclesiae [Manual dos sacramentos a serem administrados segundo o
seguiam traduções exatas. Missionários europeus apresentavam títulos que rito da Santa Igreja Romana) (1675), todos traduzidos por Ludovico Buglio.
parafraseavam, compilavam e resumiam os textos originais, e levá-los em Traduções de preces e comentários concomitantes incluíam o Pai-Nosso, o
conta expandiria substancialmente o corpo de obras traduzidas. Em outras Rosário e o Credo. Uma compilação de_ preces cristãs, o Tianzhu shengjiao
palavras, além da tradução no sentido estrito, havia dois outros métodos nianjing zongdu, publicado pelos jesuítas em 1628, continha as usuais preces
de transmissão textual. O segundo consistia na compilação de passagens diárias, além de muitos textos do autor devoto espanhol Luís de Granada
traduzidas ou parafraseadas de textos europeus em uma única obra chinesa, (Standaert, 2002, p.616).2 A mais importante obra teológica a ser traduzida
um exemplo do que foi o altamente bem-sucedido Jiren shipian (1608), ou foram partes da Summa theologica, de Aquino, que discutiremos em detalhes
Dez ensaios de um homem notável, de Ricci, com passagens traduzidas de Esopo em uma seção posterior.
e Epicteto. Além de obras que introduziam as vidas da Virgem Maria e de José (santo
O terceiro método era a sinopse. O jesuíta italiano Giulio Aleni publicou padroeiro da China), os jesuítas também publicaram uma Vida. dos santos e
em 1635 o texto Tianzhu jiangsheng yanxing jilüe, ou O nascimento, a vida e os vidas separadas de São Josafá, São João Nepomuceno, São Francisco Bórgia,
ditos do Senhor dos Céus, que, como o título indica, constituía uma apresentação São Francisco Xavier, Santo Estanislau Kostka e São Luís de Gonzaga. Ba­
sinóptica dos Evangelhos (Bibliotheque de France (BF), Chinois 6756). Mais seavam-se em originais europeus, embora os textos exatos ainda precisem
ambíguos são textos chineses de autoria de missionários europeus baseados ser estabelecidos. Textos devocionais incluíam a Imitatio Christi [Imitação de
essencialmente em um ou mais originais europeus, tornando problemática Cristo), traduzida pelo jesuíta português Manuel Dias em 1640, e aforismos
uma conceituação precisa de "tradução" se considerarmos o corpus da produ­ de Santa Teresa d'Ávila e São Bernardo.
ção cultural européia na China moderna. Pode-se supor que todas as obras Como o catolicismo tridentino na Europa, a missão chinesa não enfatizava
científicas produzidas em chinês constituíam paráfrases ou adaptações de a transmissão da Bíblia. Uma tradução integral do Novo Testamento e partes
textos europeus existentes, quando não traduções diretas. do Antigo Testamento foram pu_blicadas somente no fim do século XVIII pelo
_ex-jesuíta Louis de Poirot, que baseou na Vulgata sua tradução para o man­
darim coloquial (em oposição ao estilo escrito clássico). Antes dessa, a única
Temas tradução bíblica parcial era o texto de Tobias (1730) em chinês, intitulado
Xunwei shenbian, concluído pelo jesuíta francês François-Xavier Dentrecolles
Os livros traduzidos podem ser divididos em três grandes categorias (BF Chinois 6750).
temáticas: religião, ciência e humanismo. As duas primeiras são de longe Na ausência de uma tradução integral da Bíblia, a história d� Paixão era
as mais importantes e podem ser subdivididas em gêneros mais detalhados. transmitida por outros métodos. A mais bem-sucedida introdução à Passio
As traduções sobre religião, por exemplo, incluíam preces, textos litúrgicos Christi [Paixão de Cristo] foi representada por uma tradução pictórica: Tianzhu
(missais, breviários), obras de Teologia, hagiografias, catecismos, regras de jiangsheng chuxiang jingjie (1637), de Giuglio Aleni, baseada em 55 ilustrações
confrarias e textos devocionais. As traduções científicas versavam sobre As­ das Evangelicae historiae imagines [Imagens da história evangélica), de Jerónimo
tronomia, Geometria, Aritmética, Hidráulica, armamentos, Anatomia, Óptica, Nadai, publicada originalmente em Antuérpia em 1595 (BF Chinois 6750).
falcoaria e Musicologia. Por fim, há um apanhado de textos que introduziam
fragmentos de obras greco-romanas aos leitores chin�ses do século XVII. 2 Texto em BF Chinois 7345.

48 49
Peter Burke e R. Po-chio Hsio (orgs.) A 1roduçõo culturol nos primórdios do Europa Moderno

As gravações em cobre de Nadal foram copiadas por artesãos chineses, que Apenas um fragmento muito breve do corpus textual greco-romano foi
as reproduziram em xilogravuras mais baratas. Esse é o melhor exemplo traduzido para o chinês. Baseados no currículo humanista da Ratio studiorum
de tradução pictórica envolvendo uma reprodução técnica (da gravura para [Razão dos estudos], familiar a todos os missionários jesuítas, esses textos
a xilogravura) e uma interpretação estilística (de motivos europeus para poderiam ser divididos ainda entre retórica e Filosofia. O altame�te bem­
chineses). sucedido Jiaoyou lun (1595), ou De amicitia [Da amizade], de Ricci, baseava-se
Nas traduções de textos científicos, as obras mais importantes tratavam em Sententiae et exempla [Sentenças e exemplos], de André de Évora, uma �
de Astronomia e Matemática, todas concluídas antes de 1640, durante as coleção de aforismos dos escritos de Cícero, Sêneca e vários autores clás­
décadas iniciais da missão jesuítica. Uma lista _de textos europeus e suas sicos.3 Outro texto de Ricci, Ershiwu yan (1605), ou Os vinte e cinco ditados,
traduções chinesas são apresentadas a seguir (Standaert, 2002, p.739-40): constituía-se da tradução de uma versão latina do Encheiridion [Manual]. de
Epicteto (Standaert, 2002, p.605).
Cristóvão Clávio, Euclidis elementorum libri XV [Os quinze livros dos elementos de
Se aos leitores chineses se ofereciam apenas fatias de textos epicuristas e
./1->
Euclirles], 1574. Tradução chinesa de Matteo Ricci e Xu Guangqi: Jihe yuanben,
1607. estóicos, era-lhes servjda uma porção muito maior de Aristóte�es. O jesuíta
Cristóvão Clávio, Geometria practica [Geometria prática], 1604. Tradução chinesa português Francisco Furtado e os italianos Alfonso Vagnone, Aleni e Fran­
· de Matteo Ricci e Xu Guangqi: Celiangfayi, 1608. -�-�.:':�/:·; cesco Sambiasi traduziram vários textos e comentários aristotélicos. Dos que
Cristóvão Clávio, Epitome arithmeticae practicae [Resumo da prática aritmética], eram usados no Colégio Jesuíta em Coimbra foram traduzidos: De coelo [Do
1583. Tradução chinesa de Matteo Ricci e Li Zhi:z.ao: Tongwen suanzhi, 1614. céu], Universa dialectica Aristotelis [Dialética universal de Aristóteles], Isagoge
Cristóvão Clávio, ln sphaeram Ioannis de Sacro Bosco commentarius [Comentário sobre Porphyrii [Introdução de Porfirio], Categoriae [Categorias], Analytica priora
a esfera deJoão de Sacro Bosco], 15 70. Tradução chinesa de Matteo Ricci e Li [Analítica prévia]. Os três jesuítas italianos traduziram partes de De coelo et
Zhizao: Yuanrong jiaoyi, 1614. mundo [Do céu e do mundo], Meteorologica [Meteorológica], De anima [Sobre
John Napier (1550-1617), Rabdologiae, seu numerationis per virgula libri duo [Dois a alma], Parva naturalia [Pequenos tratados da natureza] e Ethica Nicomachea
livros sobre a rabdologia e a numeração por vírgula], 1617. Tradução chinesa [Ética de Nicômaco].
de Giacomo Rho e Adam Schall: Chousuan, 1628. Todas as traduções foram realizadas em um período relativamente bre­
Galileu Galilei, Le operazioni dei compasso geometrico e militare [As operações do
ve, entre 1623 e 1639. Literatos chineses convertidos colaboraram de perto
compasso geométrico e militar], 1606. Tradução chinesa de Giacomo Rho e
nesses textos como co-tradutores ou editores estilísticos: Xu Guangqi, Li
Adam Schall: Biligui jie, 1630.
Zhizao (1565-1630), seu filho Li Cibin, Han Lin (1601-1644) e Duan Gun
Bartomoleu Pitisco (1561-1613), Trigonometriae [Da uigonomeuia], 1612. Tra­
dução chinesa deJohann Terenz Schreck: Da ce, 1631. · (m. 1641); dois outros, Wei Douxu e Zhu Sihan, não eram conhecidos como
Cristóvão Clávio, Geometria praciica, 1604. Tradução chinesa de Giacomo Rho: convertidos.
Celiang quanyi, 1631. Muitos desses textos não foram traduzidos na íntegra, e sim oferecidos
-· como sinopses parafraseadas ou traduções parciais. A tradução de Aristóteles
Sob o imperador Q.ing Kangxi (que reinou entre 1662 e 1722), vários acompanhou a transmissão de textos científicos europeus, o que motivou Li
jesuítas serviram como tutores imperiais. Embora diversos textos matemáti­ Zhizao, que a princípio se sentiu atraído pelo catolicismo dado seu interesse
cos europeus tenham sido traduzidos para instruir o imperador, nunca foram pela ciência européia. Em seu prefácio a Ming/i tan (1631), o título chinês
publicados. O segundo período da missão jesuítica teve poucas traduções . da primeira parte da Dialectica [Dialética], de Aristóteles, Li enfatizou que o
científicas. Uma exceção foi a teoria da pintura: Giuseppe Castiglione, um f;)ergadeiro conhecimento do mundo material dependia de classificações e con­
pintor jesuíta, colaborou com Nian Xiyao para traduzir Perspectiva pictorum . · ceit�s apropriados. Por isso, termos como genus, species, differentia, proprium,
_
[Perspectiva dos pintores] (1706), do artista jesuíta Andrea Pozzo; à obra
chinesa Shixue [Ignorante], que apareceu em 1729, contribuiu para a recepção ·_- 3 .c: Para referências clássicas completas no texto de Ricci, ver a edição crítica de Mignini,
da pintura em perspectiva na Chin.,_ do século XVIIL )' 2005.

·; 50 ,;1
· Peter Burke e R. Po-chio H·;;q (orgs.) A troduçõo cultural nos primórdios do Europa M.oderno

accidens e categoria ajudavam os literatos confucianos a praticar a Filosofia te da Ásia ou no Japão, deixando um número mínimo final de 288 jesuítas
Natural (literalmente, gewu qiongli zi dayuanbin, que significa as "o�gens de europeus ativos na missão clúnesa nesse período.6
medir as coisas e esgotar os princípios").4 Nem todos os jesuítas participavam da produção de livros. O impressio­
· Por seu turno, conhecer o mundo natural conduz a formas superiores de nante corpus jesuítico chinês foi na verdade obra de apenas 59 padres euro­
conhecimento, da metafisica e de Deus. No prefácio a Huanyou quan (1628), peus, dos quais dezoito estavam envolvidos em traduções. Por nacionalidade,
a tradução chinesa de De coelo, Li Zhizao argumentou que um real conheci­ o grupo de autores jesuítas se divide em: italianos, dezoito; portugueses,
mento da natureza e da Metafísica era essencial para combater a fabricação dezessete; franceses, quatorze; belgas, quatro; alemães, três; e um espanhol,
budista de uma miríade de cosmos. 5 Nessa importante tarefa, prosseguia Li um polonês e um austríaco. Entre os dezoito tradutores jesuítas, oito eram
em seu prefácio, ele e Furtado haviam trabalhado durante cinco anos, dadas as italianos, cinco portugueses, três franceses e dois belgas. 7
dificuldades conceituais e lingüísticas. A apresentação dos resultados iniciais À primeira vista, a representação nacion.tl de autores/tradutores jesuítas
em 1628 serviu como uma primeira amostra do muito que estava por vir; os parece corresponder à força numérica total das nações na missão chinesa:
textos chineses também desempenhavam a função de introdução à língua as três principais nacionalidades - portuguesa, francesa e italiana - têm a
para os missionários europeus. presença mais proeminente. Mas quando comparamos de fato essas cifras
Li Zhizao morreu dois anos depois, deixando apenas um fragmento da com o número preciso de missionários jesuítas acuando na China (números
tradução. Uma versão completa da Dialectica não foi realizada senão em 1684, totais de Dehergne, revisados por Girard; ver nota 6), deparamo-nos com
quando Ferdinand Verbiest apresentou uma cópia manuscrita ao imperador um retrato mais complexo.
Kangxi, que negou seu pedido de publicação, alegando a inutilidade do texto. No período de 1583 a 1723, um cocal de 129 jesuítas portugueses, de
Assim teve fim a recepção de Aristóteles na China seiscentista. longe a mais forte representação nacional, atuava na China e em Macau.
Nenhum texto de Platão e nenhuma obra neoplacônica foram traduzidos Desse total, apenas dezessete padres publicaram textos, dos quais cinco se
para o chinês. Diversamente do corpus aristotélico, Platão não era leitura envolveram em traduções. Os jesuítas franceses, que eram relativos retar­
essencial no currículo humanista da Europa moderna. Além disso, a idéia datários na Missão Chinesa, dominariam a presença missionária estrangeira
platônica da transmigração das almas era reminiscente das doucrinas budistas no decurso do século XVIII; ao codo, escavam numericamente em segundo
do carma e da reencarnação, contra as quais os primeiros missionários jesuítas lugar. Nesse período inicial, houve 58 jesuítas franceses, dos quais quatorze
e seus convertidos cravavam uma intensa e polêmica batalha. eram autores (quatro tradutores entre eles). Os jesuítas italianos ocupavam a
terceira posição, com 56 na missão, e o mais alto número de autores.- dez0ito.
ao todo, com oito tradutores entre eles.
Tradutores Digna de nota foi a produção textual dos Jesuítas das duas províncias
belgas: cinco, de um total de quatorze nesse período, escreveram e/ou tradu­
Com poucas exceções, a missão jesuítica na China foi responsável pela ziram textos para o chinês. Como veremos mais adiante, eles também desem­
produção de traduções para o chinês em fins da era Ming e início da Qing. penharam um papel-chave na tradução de textos chineses para o latim. Outra
Por essa razão, usarei o termo "jesuítas" para designar missionários europeus maneira de considerar essas' cifras é por meio das porcentagens de j�suítas
nesta discussão. Para o período até l 720, a Companhia de Jesus proporcionou na China de qualquer nacionalidade específica que também se envolveram na
mais de dois terços de todos Ós missionários europeus enviados à China.
Entre 1583 e 1723, um total de 563 jesuítas deixou a Europa rumo à China:
alguns pereceram a caminho e outros acabaram atuando na Índia, no sudes- 6 Números de Dehergne, 1973, conforme revisão de Girard, 1999, p.171-3. Este autor só
inclui as principais nacionalidades em seu cálculo revisado; um grupo pequeno de polone­
ses e jesuíta.s suíços não foi incluído em sua lista. O número real de jesuítas na China fica
4 Prefáào impresso em Xu, 1949, p.194. ligeiramente maior quando eles e os jesuítas macaístas são incluídos.
5 Ibidem, p. 199. 7 Calculado a partir de Xu, 1949.

52 53
Peler Burke e R. Po-chio Hsio [orgs.) A lroduçõo cullurol nos primórdios do Europa Moderna

produção textual; as cinco primeiras posições são: belgas (35,7%}, alemães Mêncio), sob a editoria do belga Philippe Couplet (Confucius, 1687}, jesuítas
(33%}, italianos (32%), franceses (24%}, portugueses (13%}. franceses, alemães e austríacos continuaram a acrescer o corpus de Sinica ao
Outro conjunto de estatísticas é interessante. Do número de textos chi­ longo do século XVIII. Se 1580-1680 foi o século europeu para a China, os
neses que os missionários jesuítas produziram, os alemães perfizeram em cem anos seguintes representaram o século chinês para a Europa.
média 12,3 obras; os italianos, 9,26; os belgas, sete; os portugueses, três;
e os franceses, três. Dois diretores jesuítas do Observatório Imperial e do
Tribun� de Matemática estiveram entre os autores mais prolíficos: o alemão Processo e recepção
Johann Adam Schall von Bell e seu sucessor, o belga Ferdinand Verbiest, foram
autores de 25 e 20 obras, respectivamente, a maioria delas textos científicos Algumas conclusões preliminares podem ser tiradas do que acabou de
(calendários, observações astronômicas, tabelas matemáticas etc.). Entre os ser apresentado. Embora a missão jesuítica na China estivesse sob a proteção
indivíduos, os jesuítas italianos foram os mais p�olíficos: Giuglio Aleni foi de Portugal, e levando-se em conta a predominância numérica de jesuítas
autor de 26 textos, Ludovico Buglio e Giacomo Rho, de 21 textos cada, Ricci portugueses e o enclave português de Macau na costa· meridional da China,
respondeu por dezenove obras e Alfonso Vagnoni por quinze, superando o esse país não desempenhou o p�pel crucial que seria de se esperar no in­
mais prolífico jesuíta português, Manuel Dias, que tinha treze obras a seu tercâmbio cultural sino-europeu. Em vez disso, jesuítas italianos e belgas
crédito. representaram a força motriz na transmissão de textos europeus para a China
Os jesuítas franceses fizeram uma contribuição modesta mas respeitável até 1723. Depois disso, jesuítas franceses desempenharam um papel cada
para a produção da Jesuitica sinensis Uesuítica chinesa]; também desempe­ vez mais predominante.
nharam o papel principal na introdução de textos e da cultura chinesa a um Isso não significa dizer, contudo, que os jesuítas podiam reivindicar toda
público europeu setecentista, o que explica o enfoque de seu trabalho literário a glória. Colaboradores chineses, tanto convertidos como simpatizantes, de­
e a produção relativamente modesta em chinês. sempenharam com freqüência um papel importante, tanto em composições
A relação entre a produção de livros chineses (originais, traduções ou como em traduções jesuíticas, tal como indicam os prefácios a muitos textos.
paráfrases) e a produção de Sinica [Escritos chineses] (traduções de textos Para as traduções, havia três cenários possíveis. Primeiro, os próprios jesuí­
chineses para línguas européias e escritos sobre a China publicados na Eu­ tas empreendiam a tradução dos textos europeus para o chinês. Segundo, o·
ropa) é de fato uma questão altamente interessante. Em geral, o primeiro tradutor jesuíta explicava os textos europeus oralmente a seu colaborador
período da missão jesuítica, de 1580 até cerca de 1680, testemunhou a mais chinês, que redigia a versão chinesa; o material era subseqüentemente exa­
alta produção de escritos jesuíticos em chinês. Quase todos os textos e tradu­ minado em conjunto, até que fosse acertado um texto final para a tradução.
ções importantes foram concluídos nesse período, indo de obras científicas ou Terceiro, um tradutor jesuíta compunha um esboço de tradução, que então
sobre Filosofia moral a textos litúrgicos padrão, como o Missa/e e o Breviarum era revisado estilisticamente por um colaborador chinês.
romanos, bem como traduções 9as obras de Aquino e Aristóteles. Desses três cenários, o segundo - a tradução oral jesuítica e a composição
O segundo período, de 1680 à dissolução da Companhia de Jesus, foi escrita chinesa - foi de longe o mais significativo, constituindo o método co­
caracterizado por uma queda significativa na produção de títulos chineses, f.. (-·::. mum de tradução nos primeiros cinqüenta anos da missão jesuítica na China,
pelo estreitamento dos temas (concentrando-se em obras catequisadoras e por muito boas razões. Por um lado, era o meio mais eficiente, permitindo
devoàonais}, por mais publicações na linguagem coloquial e pela tradução que os relativamente poucos missionários jesuítas produzissem um grande
de um pequeno corpo de textos cristãos para o manchu, a língua da dinastia c·orpo de traduções em chinês. Por outro, a estreita colaboração com literatos
da conquista Qjng. chineses oferecia uma oportunidade de fazer prosélitos ou de fortalecer os
Também foi significativa nesse segundo período a transmissão de' textos ._ vínculos �ntre missionário e convertido. Uma terceira razão era que esse
e da atltura chinesa para a Europa. Começando com a tradução dos Quatro -método colaborativo permitia a mais alta precisão e elegância na tradução,
Livros Confucianos (O. grande ensinamento, A doutrina do meio, Os analectos e . aproveitando ao máximo a compreensão jesuítica dos textos europeus e o

.,e,·,,·-._.
54 , < 'i'i
Peter Burke e R. Po-chia Hsia (orgs.) A tradução cultural nos primórdios da Europa Moderna

domínio chinês da elegância estilística. O prefácio de Ricci à tradução àe comentar a significância de Aquino para o saber cristão e de oferecer a obri­
Euclides é instrutivo: gatória e polida autodepreciação, Buglio descreveu a dificuldade de verter a
Summa para o chinês: "As línguas diferem de terra a terra, e as palavras são
Desde minha chegada à China, vi que há muitos estudioso.s e obras de Geo­
metria, mas ainda não vi nenhuma obra teórica fundamental (... ) Concebi então
limitadas; depois de repetidos empenhos, novas palavras são acrescidas, e a
o desejo de traduzir este livro para o uso dos cavalheiros de nossos tempos, para Pars prima está concluída, com grande esforço. Mas não ouso dizer que esgotei
assim agradecer-lhes por sua confiança em um viajante. No entanto, sou de parcos o sentido do texto original" (ibidem, p.190).9
talentos. Ademais, a lógica e a retórica do Oriente e do Ocidente são sumamente Esta passagem reflete um problema comum em todos os projetos de tra­
diversas. Na busca por sinônimos, muitas palavras ainda estão faltando. Mesmo dução: verter ou não conceitos equivalentes por meio de neologismos. Quer
que eu consiga explicar as coisas oralmente com algum esforço, pô-las por escrito se opte por criar novas palavras na língua hospedeira, correndo-se o risco da
é demasiado dificil. Desde essa época, encontrei colegas que me ajudaram de toda ininteligibilidade, quer por verter o conceito original em termos familiares
maneira, mas sempre que há dificuldades eu me detenho, já tendo avançado e à cultura hospedeira, e com isso perder talvez o sentido original, trata-se de
parado por três vezes. (Xu, 1949, p.261-2) uma tarefa intimidadora.
A última opção foi a adotada por Ricci. Ao traduzir a palavra latina Deus
Essa dificuldade só foi superada após um encontro com Xu Guangqi, ou­ para o chinês, Ricci evitou uma armadilha criando um novo termo, Tianzhu,
trora o principal ministro da corte Ming, que se tornou um dos mais valiosos o Senhor dos Céus, combinando dois termos do antigo cânon confuciano
conversos de Ricci e um líder no primitivo catolicismo chinês. Ao discutirem familiares aos literatos chineses. 10 Estilista gracioso, Ricci adotou a sintaxe e
o cristianismo e a ciência ocidental, Xu estimulou Ricci a concluir a tradução, expressões idiomáticas chinesas, tentando persuadir por meio de um discur­
"pedindo-lhe que transmitisse (o texto) oralmente e recebesse (o texto) por so cristão decorado com floreios retóricos chineses. Por mais bem-sucedida
escrito, virando-o e revirando-o para refletir sobre seu sentido, o que resultou que tenha sido com os literatos chineses, essa tradução acomodatícia foi
em sua publicação somente após três versões" (ibidem, p.262). duramente contestada por Niccolo Longobardo e outros jesuítas na China
Um exemplo de texto inteiramente realizado por jesuítas é a tradução par­ e no Japão.
cial da Summa theologica, de São Tomás de Aquino. De longe o mais ambicioso Suprimida em favor do método ricciano pelo bem da unidade interna,
projeto da missão jesuítica, essa tradução ocupou o italiano Ludovico Buglio essa controvérsia ressurgiria posteriormente e deixaria os jesuítas em difi­
durante mais de vinte anos, entre 1654 e 1678. Mesmo assim, apenas uma culdades, já que missionários dominicanos rivais acusavam a Companhia
pequena porção da Summa foi tradüzida. Buglio se concentrou na Pars prima. de misturar idolatria com a religião verdadeira por meio da acomodação
Os primeiros dez juan 8 apareceram em 1654: tratam da natureza de Deus, lingüística e cultural. A famosa Controvérsia dos Ritos Chineses foi essen­
da Trindade e da Criação. Em 1676, outros seisjuan sobre anjos e a criação cialmente uma questão de tradução: se termos chineses usados pelos jesuítas
foram finalizados. O terceiro fascículo apareceu em 1677/8 e consistiu em (Tian significando os Céus e Shangdi significando Deus nas Alturas) poderiam
outros dezjuan sobre o homem, a alma, o corpo e a soberania humana sobre representar adequadamente a noção da divindade cristã, e se rituais ances­
todas as coisas. Todos foram extraídos da Pars prima. Embora a Pars secunda trais dos chineses deveriam ser vistos como liturgia cívica ou religiosa, e por
tenha ficado sem tradução, uma pequena porção da Pars tertia - seisjuan sobre conseguinte idólatra.
o nascimento de Cristo e Sua ressurreição (a última traduzida pelo jesuíta A tradução de Aquino por Buglio enfrentou o problema opósto: a inin­
português Gabriel de Magalhães) - foi concluída em 1677/8. teligibilidade. Intitulada em chinês Chaoxing xueyao, ou Sumário do saber que
À parte o mero volume do texto, a Summa apresentava uma dificulda­ ultrapassa a natureza, Buglio decidiu verter termos latinos por sons chineses
de particular por causa de sua linguagem teológica técnica, um obstáculo equivalentes. Assim, "Spiritus Sanctus" se tornou si-pi-le-do-san-du, "theolo-
mencionado de passagem no prefácio de Buglio à edição de 1654. Depois de
9 Uma cópia da longa tradução de Buglio está disponível em BF Chinois 6907-9.
8 Juan era a unidade básica de um livro chinês e tinha entre vime e trinta folhas. 10 Para o trabalho mais recente, ver Kim, 2004.

56 57
Peter Burke e R. Po-chia Hsia (orgs.) A tradução cultural nos p,im6rdios do Europa Moderno

gia", dou-lu-ri-jia, "philosophia",fei-lu-suo-fei-ya e assim por diante. Ao traduzir No caso das coleções particulares, Nicolas Standaert examinou dez ca­
textos religiosos, preservar a aura de autenticidade sacrificando a inteligibi­ tálogos de grandes coleções do século XVII e do início do século XVIII. Um
lidade não era necessariamente uma falha. total de 96 obras jesuíticas figurava nessas publicações, das quais cerca de
Por outro lado, traduções por aproximação sonora de cantos e preces do 70% representam textos científicos. Textos religiosos e morais não eram
sânscrito dificilmente impediram a expansão generalizada do budismo na desconhecidos, embora se limitassem essencialmente aos escritos/traduções
China medieval. Além disso, muitos conceitos budistas centrais, como Buda, de Matteo Ricci (Standaert, 1985).
boddhisattva e asura, foram vertidos por aproximação sonora e se tornaram Este resultado é corroborado por um exame da Tabela de Conteúdo da
termos aceitos nos sutras budistas chineses. A ininteligibilidade, de fato, pode Enciclopédia Imperial. Aproximadamente treze mil títulos foram recolhidos
muito bem ter contribuído para a aura c;ta recitação de sutras. nesse projeto oficial sob o regime do imperador Qianlong. 12 Uma seleção
A tradução de Buglio sofria de algo mais sério: sintaxe e estilo ruins. foi feita para representar o "saber propriamente dito": 3.488 livros ao todo
Traduzir o latim escolástico de Aquino para o chinês clássico era como tor­ foram recolhidos na íntegra, 6.783 foram registrados e comentados; outros
nar Aquino inteligível para Cícero. A abundância de neologismos, orações textos considerados política ou intelectualmente subversivos foram destruí­
subordinadas e demonstrações dialéticas fizeram do Chaoxing xueyao um texto dos ou ignorados. Trinta e seis textos católicos foram incluídos na Tabela
muito dificil, senão ininteligível, para leitores chineses do século XVII. Não Abrangente de Conteúdo da Siku quanshu; uma vez mais, textos científicos
há evidências de sua recepção, e ele não foi reimpresso senão em 1932.11 ·constituíam a maioria, e textos de Ricci representavam a grande maioria de
textos filosóficos e religiosos.
Tomadas em conjunto, as evidências das coleções particulares e da Siku
Conclusão quanshu indicam que a recepção de escritos europeus estava largamente re­
presentada por textos científicos, que obras publicadas no início do século
Terão as traduções de textos europeus exercido alguma influência cultural XVII estavam mais bem representadas, e que nada menos de sete textos de
na China moderna? Em caso positivo, que temas ou livros eram preferidos? Matteo Ricci receberam um comentário dos editores imperiais ou foram
A resposta a estas perguntas depende da definição do público leitor. Dentro reproduzidos na íntegra.
de uma definição estreita da esfera de recepção, pode-se falar de um alto grau Quando refletimos sobre essa conclusão no contexto mais amplo deste
de sucesso quando se tem em mente o uso de traduções dentro da Igreja capítulo, vários pontos se tornam visíveis. A tradução de textos europeus para
Católica chinesa. Por isso, livros de preces, obras devocionais, catecismos, o chinês envolveu um esforço sustentado e contínuo de jesuítas europeus e
imagens visuais européias copiadas na China e obras teológicas serviram à seus colaboradores chineses. O sucesso desse projeto de tradução ficou muito
população convertida que atingiu um pico de 200 mil pessoas em 1700, antes evidente pelo consumo textual interno da missão chinesa.
de adentrar um período de lento declínio. A existência de reimpressões e as Fora das comunidades convertidas, os textos europeus causaram um
múltiplas cópias dessas obras em grandes bibliotecas chinesas e européias impacto considerável nas décadas iniciais do século XVII, especialmente na
dão testemunho de sua função e seu sucesso. reforma do calendário, na Astronomia, na Matemática e em outras ciências.
Fora dos círculos católicos chineses, a questão da recepção é mais dificil Além disso, vários textos de Matteo Ricci sobre temas tanto greco-romanos
de investigar. Há dois indícios da recepção geral de textos europeus (tan­ como cristãos tiveram grande circulação entre os literatos das áreas urbana,
to compostos como traduzidos) que oferecem algumas respostas: coleções graças à sua reputação. Entretanto, ao longo da segunda metade do século
particulares e a Enciclopédia Imperial, a Siku quanshu, compilada entre 1 772 XVII e do século XVIII, o "mercado" para textos europeus se tomou cada vez
e 1784. mais restrito a círculos cristãos.

11 Para edições existentes e a história das edições, ver Chan, 2002, p.284-7. 12 Sobre o Projeto da Enciclopédia Imperial, ver Guy, 1987.

58 59
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Peter Burke e R. Po-chio Hsio �rgs.) 1!
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jesuítas recorriam
Ao selecionar textos para tradução, os missionários

••
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familiar es em virtud e de sua educação e ,:/
àqueles títulos que lhes eram mais
e escrito res jesuítas em te­
seu meio: Aristóteles no currículo filosófico geral

••
e Pozzo sobre a perspec­
mas mais especializados (Clávio sobre a Matemática
ão de obras religiosas
tiva). Um esforço mais sistemático foi feito para a traduç
missão chines a. Chines es convenidos
para a vida litúrgica e dévocional da

••
cos, embora
tinham acesso a uma longa lista de livros de preces e textos litúrgi
os esforços dos
a Bíblia não tenha sido traduzida (em agudo contraste com

••
protestantes no século XIX).
o interesse por obras científicas e filosóficas concentrou-se na primeira CAPÍTULO 3
idade de conver­
metade do século XVII, tanto dentro como fora da comun A língua como meio

••
o com
tidos. O declínio do interesse por textos europeus seguiu em paralel de transferência de valores culturais
elites letrada s confuc ianas na se­
outros dois processos: o desencanto das
ão dos Ritos Eva Kowalská
gunda metade do século XVII, processo acentuado pela proibiç

••
ismo
Chineses pelo papado em 1704; e o status social declinante do cristian
depois da proibição imperial das conver sões em 1724 .

••
para o
Em comparação com a tradução concentrada de textos chineses
Leibniz
latim, que inspirou uma sustentada "onda chinesa" na Europa entre
maior de traduçõ es para o chinês colheu uma safra Como se sugeriu no Capítulo 1, do ponto de vista de um historiador
e Voltaire, o esforço muito

••
jesuítica. Os títulos e as coleçõe s cultural, aquilo que não é traduzido para uma determinada língua pode ser
cultural relativamente escassa para a missão
ento ao intercâm bio tão significativo e tão revelador como aquilo que é traduzido. No caso dos
existentes permanecem, ainda assim, como um monum
cultural cultivado por muitas gerações de pioneiros culturais. eslovacos do período moderno, as ausências significativas incluem o mais

•• traduzido de todos os textos, a Bíblia. Por que isso ocorreu será explicado
no decorrer do capítulo.

••
O uso do vernáculo na liturgia, e especialmente seu uso como meio.de
acesso à revelação divina- a Bíblia-, foi uma característica básica do pro­
testantismo dos tempos da Reforma em diante. Entretanto, uma intensa

••
discussão sobre a acessibilidade da Bíblia como fonte da verdadeira fé já
havia tido lugar na Idade Média, na qual autores ingleses e alemães foram os

••
primeiros a tomar parte (Mackenzie, 2002; Long, 2001, p.120-32, 204-11) .
Havia uma séria preocupaçio quanto a leigos ou padres ignorantes le.ndo as
Escrituras, ao mesmo tempo em que se temia que traduções para o verná­

••
culo pudessem mudar o sentido do texto, usando metáforas impróprias, por
exemplo (Marsden, 1996) .

ã
As traduções i_nglesas e alemãs da Bíblia não foram as únicas a ser ampla­
mente discutidas. A Boêmia foi outro importante centro dessas discussões,
de Jan Hus em diante (Kyas, 1997). Apesar disso, a região vizinha da Hun­
gria, incluindo a moderna Eslováquia, aceitou antes o movimento da Devotio

60
,�·
Pe1er Burke e R. Po-chio Hsio (orgs.) A !redução cul1ural nos primórdios do Europo Moderna
..

moderna do que os ensinamentos do próprio Hus (Sopko, 1997). No Reino fessional da população. No início do século XVII, os não-católicos, luteranos em
�,. sua maioria, ainda form�vam cerca de 90% da população da Alta Hungria, mas
da Hungria, as conseqüências sociais das atividades de Hus foram sobretudo
negativas. A população sofreu saques destrutivos dos hussitas em vez da a situação foi revertida ao longo do século XVIII, e os não-católicos se tomaram
mensagem de fé e da palavra de Deus na língua do povo (Bartl, 1996). De­ (na Eslováquia e no Reino da Hungria em geral) uma minoria marginalizada de
.pois da Reforma, a população eslovaca viu-se na mesma posição que outros cerca de 20%. Os membros dessa minoria não tinham permis;ão para ocupar
grupos étnicos no reino. cargos públicos (reais ou municipais), e seus direitos civis eram linútados.
O ponto de partida básico da Reforma era o acesso às Escrituras como Ao mesmo tempo, o alargamento, o reforço ou a defesa da identidade
fonte.da verdadeira fé. Todavia, não era fácil enfrentar esse desafio. A língua confessional representava um valor básico e realmente uma missão para

(
do luteranismo eslovaco foi afetada pela educação latina da elite, bem como os membros de uma determinada comunidade. A identificação com uma
por problemas teológicos. As primeiras confissões de fé, datadas de meados confissão era extremamente importante, especialmente ao ser ameaçada,

1.
do século XVI, foram compiladas em latim, e passaram-se outras três déca­ por exemplo quando a filiação .não podia ser sustentada por instituições
das an,tes que textos religiosos de vários tipos aparecessem em uma lmgua religiosas, i:nas somente por meio de sinais informais de identificação. Com
acessível ao povo (Bodnárová, 1998). 1 isso, a distinção entre os dois campos confessionais não se expressava apenas
. Para· os eslovacos étnicos, a Reforma não estimulou o vernáculo de ma­ no níve� da doutrina. As duas confissões também começaram a se distinguir
neira imediata e inequívoca, como fez no caso dos alemães e húngaros, e usando diferentes formas de língua escrita e a preferir diferentes tradições
históricas, além de desenvolver idéias opostas quanto ao caráter de seu pró-
t
:
não levou à identificação do grupo étnico com sua língua falada (Bitskey,
1999). Estes fatos são interessantes não apenas do ponto de vista da Histó­ t prio grupo étnico. Isso levou a uma acentuada diferenciação entre os dois
ria da Religião, mas também do funcionamento da língua, da transmissão �· campos - luterano e católico - no quadro de uma única unidade étnica, cada
um deles mostrando forte identidade coletiva.
de valores culturais e da formação das nações modernas, um processo que
começou nessa época. 1 A aceitação do tcheco - uma língua compreensível, mas mesmo assim

t ·. .�·
Qualquer pessoa interessada nos primórdios da formação e do desenvolvi­ de outro grupo étnico - como língua litúrgica dos eslovacos pode ser con-
[
mento de grupos étnicos subordinados na Europa central no período moderno 1 . siderada um importante fator de diferenciação dentro do grupo étnico. Ela
encontra um fenômeno interessante no caso dos eslovacos. A despeito da foi tanto um resultado do desenvolvimento da confissão luterana entre os
ausência de uma tradição histórica vívida, de uma base institucional para o eslovacos como um estímulo para seu desenvolvimento específico. O tcheco
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desenvolvimento de atividades culturais ou políticas, e até mesmo de uma . era não apenas a língua da Bíblia, dos catecismos e dos serviços religiosos,
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forma única de língua escrita, os eslovacos tinham uma identidade étnica r como também se tornou gradualmente o símbolo da conexão e da relação

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relativamente forte, e posteriormente motraram-se capazes de se desenvolver f. · · de seus usuários eslovacos com o grupo étnico de cui·as tradições históricas
como uma nação moderna. eles se apropriaram. Essas tradições não derivaram de uma experiência direta
Poderíamos supor que os iI'!'lpulsos para esse processo partiram da Igreja ao ongo de gerações ou de tradições populares mencionadas em crônicas

como instituição e símbolo da unidade étnica. Todavia, a filiação religiosa não me ievais, foram uma construção artificial dos intelectuais. 2
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teve como se tornar um fator de unificação. A Igreja Luterana mostrou-se domi­ f Um exemplo desse processo é a alegação de que o hussitismo foi o pre-
nante após a Reforma, mas no decorrer do século XVII recuou sob a pressão do t_. /�,'.- decessor direto do luteranismo, que encontrou resposta na Eslováquia a
movimento de recatolicização, que levou a uma mudança na composição con- ,. _,J;... despeito do fato de que não havia ali nenhuma continuidade direta entre os
��-.}. huss_itas e a Reforma. A língua também permitiu que a idéia de uma relação
··
direta entre os eslovacos e os tchecos penetrasse a consciência coletiva. O ·
Entretanto, os primeiros textos originais, os hinos escritos por João Silvano, foram publi­ conceito de µma tribo tchecoslov�ca unida dentro do quadro do grupo eslavo,
cados em Praga apenas em 1571. Os primeiros livros impressos em tcheco usados pelos
eslovacos foram as traduções do Catecismo, de Lutero, publicadas em Bardejov em 1581 e --.>.; ...
provavelmente el)'l 1583 em Hlohovec: Óurovic, 1940, p.38-43. Sobre a construção da história na E·uropa modem.a, Bahlcke e Strohmeyer, iooi.
' p. . � .., .

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Peter Burke e R. Po-ch,a Hsio {orgs.)
A troduçõo cuhurol nos primórdios do EurClpo Moderna

ue mais tarde desempenhou um importante papel no processo de formação N o caso d os lut eranos eslovacos étnicos, a ênfase na ausência de mu­
�a nação moderna, já aparecia no início do período moderno como parte da dança significou a renúncia à tradução de seus textos básicos (a Confissão
idéia do Eslavismo Barroco (Brtáií, 1939). de Augsburgo, a Fórmula ou Livro da Concó rdia) para sua própria língua até
A ac eitação de uma língua estrangeira como meio de comunicação culta o final d o século XVIII. A tradução dos textos "identificadores" básicos da
não é de modo algum incomum. Basta mencionar o latim como a língua franca confi�são para a língua falada, mas ainda basicamente não codificada, qu e
de toda a Europa nos períodos medieval e moderno. Todavia, a identificação carecia de uma terminologia religiosa e política precisa, poderia ter sido uma
de um grupo étnico ou de uma importante parte dele com a língua viva de fonte de mudanças significativas e com isso .uma am eaça ao status político
outro grupo étnico e a declaração de que essa forma de falar é a l!ngua ma­
vulnerável da Igreja. Imprecisões na tradução teriam permitido a oponentes
terna representam um fenômeno diferente. Esse processo teve vánas causa�, p olíticos lançar dúvidas sobre a legalidade da comunidade confessional e
_
decorrentes de desenvolvimentos específicos em todo o Remo da Hungria negar -lh e o direito de existir. No caso d o Reino da Hungria, isso significava
após a Reforma. a p ossibilidade d e que leis que d ecretavam a liquidaçã o fisica dos adeptos da
· No caso dos eslovacos, é especialmente necessário enfatizar que a Refor- Refo rma fossem aplicadas uma vez mais (Mrva, 1995).
ma não significou um impulso automático para a produção ou tradução de A posterior aceitação do tcheco pel os eslovacos como a língua da litur­
textos litúrgicos e outros textos literários em sua própria língua falada. Os gia, da Bíblia e da comunicação escrita não provocou nenhuma mudança na
divulgadores das idéias da Reforma entre os eslovac os eram os burgueses noção da importância de se preservarem os textos confessionais básicos na
e a fidalguia rural, ou seja, grupos sociais cuja educação os º i ntava ara ª
:� � . língua em que haviam sido concebidos e aceitos pelas autoridades do Estado.
cultura latina humanista. O ensino nas escolas urbanas era ministrado intei­ Pelo contrário, essa ve rsão da Bíblia tomou-se obrigatória, especial� ente se
ramente em latim. 3 Além disso, a maioria das cidades ainda tinha conexões fosse usada como o argumento final e exclusivo em apoio da identidade dos
próximas e diretas com regiões alemãs, e o alemão era uma d�s lín�uas dos lut eranos nos primórdios da maciça recatolicização na Hungria (nas décadas
conselhos municipais. 4 Graças a isso as idéias da Reforma se d1fund1ram em d e 1670 e ·1680) .6 Entretanto, nã o era apenas a política que influenciava a
sua forma original e os magistrados se correspondiam em matéria de religião possibilidade ou impossibilidade da tradução no final do século XVII e início
com O centro da Reforma Luterana em Wittenberg e com seus líderes, espe­ do século XVIII. A ortodoxia religiosa e o t radici onalismo também tinham
cialment e Filipe Melanchthon (Suda, 1996; Bodnárová, 1999). um papel na manut enção da situação existente.
Portanto, os ensinam entos da Reforma foram recebidos inicialmente em De qualquer maneira, o uso da palavra impressa não foi um aspecto
alemão e latim. Por exemplo, as confissões de cada associação urbana costu­ principal da difusão da Reforma no Reino da Hungria. A ausência de pren­
màvam obter reconhecimento legal dos novos sínodos da igreja, e suas orgàni­ sas de impressão ali até a segunda metade do século XVI era compensada
zações, junto com suas regras, eram escritas nessas línguas. Como resultado, pela extensa importação de livros (Daniel, 1998), que incluíam não apenas
obras eruditas em latim, mas também livros em alemã o é tcheco, facilmente
a insistência no caráter inalterado dos textos se tornou um importante fator
político na época da recat olicização forçosa e do cancelamento das garantias
inteligív eis no ambiente urbano : no primeiro caso, graças à coexistência d e
de funcionamento das confissões não-católicas. Com isso, artigos de fé que esl ovaco s e al emã es na mai oria das cidades; no segundo, g raças a o carát er
não tinham sido distorcidos pela traduçã o formaram a base sobre a qual os
similar e à compreensibilidade do tcheco. Seu uso entre os eslovacos já estava
luteranos foram aceitos pelo Estado (Daniel, 1980).5
estab elecid o na Idade Média g raças ao uso de textos legais, por exe�plo. En­
tretanto, alguns termos legais mudavam de significado em comparação co m
3 o resultado foi que o latim continuou a ser falado e permaneceu uma das línguas oficiais
da Hungria até a segunda metade do século XVlll (Tóth, 1996, p.130-45).
4 As cidades na Alta Hungria/Eslováquia eram ilhas lingüísticas em que o alemão se desen-
6 Daniel Klesch (1679) disse ao laicado como usar a Bíblia em disputas com missionários
volveu independentemente das regiões alemãs centrais.
católicos. Os protestantes leigos deviam frisar que os luteranos não argüiam com base na
s Sobre o discurso referente ao uso de diferentes línguas dentro do ambiente católico, Smo­ tradição, como os católicos, ou na razão, como os calvinistas. Embora as recomendações
linsky, 1998; Kõster, 1995.
de Klesch se referissem aos luteranos de fala alemã, foram aceitas de maneira geral.

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-
Peter Burke e R. Po-chio Hsio (orgs.) A !redução cultural nos primórdios da Europa Moderna

o original alemão, em resultado de diferenças nas atitudes ou simplesmente Por meio do catecismo, os fiéis que de outro modo não tinham contato
da incompetência lingüística de alguns tradutores ou usuários desses textos. com a palavra impressa travaram pela primeira vez conhecimento com ex­
Um exemplo é a tradução imprecisa do alemão para o tcheco "eslovaquizado" pressões teológicas básicas em uma língua facilmente compreensíveÍ (Zach,
de algumas partes e termos da lei de Magdeburgo, que era um modelo para 2002). Entretanto, a publicação do catecismo foi apenas um primeiro passo
as cidades reais livres na Hungria. Sua terminologia não era muito clara para rumo ao fortalecimento da identidade confessional dos crentes (Crãciun et
usuários leigos (Rysánek, 1954, p.15-25). al., 2002, p.1-30). O texto da Bíblia como ponto de partida para o ensino era
Por outro lado, a língua tcheca já tinha sido codificada (foi uma das um importante meio para a formação da vida e da identidade da comunidade
primeiras línguas européias a serem padronizadas dessa maneira) e por isso confessional.
podia ser usada como veículo de traduções (Vesely, 2002). Sua posição no Várias traduções foram usadas para tomar a Bíblia acessível às comu­
período da Reforma é revelada pela recepção da tradução do Programa de nidades protestantes dos diferentes grupos étnicos no Reino da Hungria. A
Witten berg e pelo uso de hinários tchecos, quer produzidos pelos utraquistas tradução da Bíblia p_ara o alemão esteve disponível para os luteranos alemães
(1522, 1531), ou pelos irmãos tchecos (1541), que permitiam a identificação imediatamente após sua publicação. Isso se refletiu, por exemplo, na maior
da posição confessional de cada sínodo da igreja. freqüência de bíblias em bibliotecas municipais nos séculos XVI e XVII (Cicaj,
· A transformação dos serviços da Igreja foi ·a primeira manifestação visível 1996). No caso dos húngaros (magiares), que eram o grupo étnico dominante,
da Reforma; definições mais claras das crenças só viriam mais tarde. A Bíblia houve uma situação favorável para a rápida tradução da Bíblia em sua própria
já estava acessível em tcheco antes da Reforma, por exemplo, a assim chamada língua. As necessidades culturais da elite social húngara já haviam estimu­
Bíblia de Veneza de 1506. Desse modo, os mais antigos textos relacionados lado o desenvolvimento das belas-letras, de modo que já existia uma língua
à crença religiosa produzidos em "vernáculo" (de fato na língua tcheca) no altamente culta que podia ser usada na tradução da Bíblia para o húngaro
Reino da Hungria só apareceram na segunda metade do século XVI e surgi­ (Kósa, 1999, p.249-56).
ram da necessidade de uma definição clara das posições luteranas ortodoxas Em cidades com uma população etnicamente heterogênea, o domínio de
nas controvérsias com o criptocalvinismo. O tcheco foi usado como meio de várias línguas era natural, e por isso não surpreende que por muitos anos os
comunicação porque os eslovacos entendiam-no com facilidade e, ao mesmo líderes teológicos dos luteranos eslovacos travassem debates sobre o crip­
tempo, já havia desenvolvido uma terminologia religiosa precisa. tocalvinismo e o problema das imagens em latim e alemão (Daniel. 1995).
Esse fato é extraordinariamente importante, já que somente pelo uso de Considerando-se a urgência de resolver esses problemas teológicos para o
termos inequívocos era possível evitar ser suspeito da "heresia calvinista" caráter da confissão como um todo, é natural que o latim tenha permanecido
ou incorrer realmente nela. Essa hipótese é confirmada pelo fato de que a o meio de comunicação para os intelectuais de origem eslovaca.
disputa quanto à orientação teológica das comunidades urbanas do leste da Porém, onde foi necessário usar a língua falada, eles não escolheram a
Eslováquia, expressa em obras polêmicas escritas em latim, acompanhou a "rota húngara" do cultivo da língua falada local, o que exigiria tempo e perícia.
publicação do Pequeno catecismo, de Martinho Lutero, o primeiro livro publica­ A língua culta do grupo étnico mais próximo, os tchecos, estava disponível.
do em tcheco "eslovaquizado" nessa região (Bardejov, 1581). Por meio desse Ela atendia perfeitamente ao papel da comunicação, e mesmo no século XV
livr�� os ensinamentos puros "codificados" de Martinho Lutero se tomaram já era tradição usar. o tcheco em alguns escritórios municipais e nas cortes
o padrão doutrinal para os luteranos eslovacos étnicos do período. A acei­
tação geral da Fórmula e do Livro da Concórdia como a doutrina básica do
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de alguns nobres (Skladaná, 2002).
Como os eruditos eslovacos étnicos formavam apenas um grupo muito
luteranismo só ocorreu três décadas mais tarde, no Sínodo de Zilina (1610),
após m uitos anos de debates (Daniel, 1979).7
t �l�{ pequ�no e totalmente envolvido em resolver disputas religiosas, não surgi­
,, 's:,,, ram personalidades apropriadas entre eles para levar a efeito um projeto de
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tradução que teria sido extremamente exigente. Dadas as necessidades da
·,. comunidade luterana eslovaca no Reino da Hungria, era mais conveniente
7 Sobre o sínido em Zilina (Silleín), ver Kvacala, 1935, p.293-303. l usar a Bíblia de Kralice já disponível, publicada na Boêmia em 1579-1594. Por·-·
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Peter Burke e R. Poichia Hsia (orgs.) A tradução cultural nos primórdios da Europa Moderna

muito tempo ela foi simplesmente importada como produto finalizado para o Esse meio também preservou a identidade confessional e cultural do
território da Eslováquia de hoje. Embora houvesse sido preparada por teólo­ povo, que estava privado de contato direto com pregadores em virtude da
gos da União dos Irmãos (Unitas fratrum), favoráveis ao calvinismo, isso não recatolicização. Em muitos condados, eles tinham poucas oportunidades de
era um problema no período, quando os luteranos na Hungria ainda estavam freqüentar uma igreja própria. Publicações não católicas eram drasticamente
buscando um padrão doutrinal. O que se considerava importante era tomar limitadas e chegaram mais ou menos ao fim por volta de 1730. Dessa forma,
disponível para o público geral um texto compreensível das Escrituras. o hinário e o catecismo se tornaram as fontes exclusivas de conhecimento
A suprema autoridade teológica, o Sínodo de Zilina de 161O, confirmou a dos ensinamentos da Igreja Luterana. Seu valor simbólico aumentou porque
validade da Bíblia de Kralice para os luteranos eslovacos, e com isso também eles eram os únicos recursos aprovados para a assim chamada prática privada
confirmou o uso da forma de tcheco encontrada nela como língua litúrgica. da religião. Onde quer que os fiéis luter3.1:os tivessem acesso limitado a igre­
Na época do sínodo, a Igreja estava preocupada sobretudo com a estabilização jas e escolas, o canto comunal de hinos, usualmente sem auxílio impresso,
da doutrina com base nas possibilidades proporcionadas pela primeira lei substituía as outras cerimônias.
sobre a igualdade das confissões na Hungria (1608). 8 Por essa razão, além Por essas razões não era somente a Bíblia que simbolizava a união e a in­
de aceitar a Bíblia de Kralice, o sínodo também adotou a resolução de que a tegridade dos luteranos. A língua em que ela era impressa adquiriu o mesmo
Fórmula e o Livro da Concórdia eram obrigatórios. valor "canônico". Todavia, também é necessário notar que à altura do século
N o período seguinte, a situação política se desenvolveu de maneira cada XVII essa forma de linguagem já não era a língua viva e falada no ambiente
vez mais desfavorável para os luteranos. As possibilidades materiais da Igreja étnico tcheco.9 Vinha ocorrendo um desenvolvimento que confirmava a exis­
Luterana, que declinaram com a gradual recatolicização das ricas famílias no­ tência de dois grupos étnicos diferentes - os tchecos e os eslovacos.
bres e ex-luteranas, nãó permitiam o preparo de uma Bíblia na língua falada Por meio da língua tcheca, os protestantes eslovacos dos séculos XVI e
local ou em uma forma teologicamente revisada. A posição do tcheco também XVII se af)ropriaram não apenas de uma consciência de comunidade com o
foi fortalecida pela grande onda de emigração de protestantes da Boêmia e da grupo étnico tcheco, mas tambérri de uma conexão teológica e confessio­
Morávia para a Alta Hungria após a Batalha do Monte Branco e a adoção de leis nal com o hussitismo ou a "Reforma Tcheca". Seus adeptos, na realidade
de recatolicização na parte austríaca e tcheca da monarquia Habsburgo (Mrva, meros remanescentes de forças armadas que serviam como mercenárias a
1999). Pregadores tchecos produz.iram edições populares de textos religio?os. magnatas locais, encontraram refúgio na Eslováquia no decorrer do século
. por exemplo o hinário Cithara sanctorum [A cítara dos santos], dejuraj Trano­ XV e supostamente difundiram as idéias do hussitismo. A linha direta de
vsky, de 1636. Eles foram rapidamente integrados à comunidade e se tomaram desenvolvimento da_ Reforma de J an Hus a Martinho Lutero era enfatizada.
patriotas no país que lhes h�via dado novos lares (Franková, 1993). Ao longo do século XVIII, em particular, essa idéia de desenvolvimento foi
Essas circunstâncias sociopolíticas foram mais importantes do que o de­ ·usada como um argumento teológico, confirmando o caráter "excepcional"
senvolvimento real da língua falada dos luteranos eslovacos, que ocorreu de do luteranismo eslovaco.
modo independente. A despeito da tendência de incluir elementos de sua A identificação com essa tradição espúria mas teologicamente impres­
língua eslovaca falada em textos "não bíblicos", como peças da Paixão e a sionante trouxe a seus portadores, que tinham uma posição subordinada
formulação de programas, essa tendência não se tornou dominante e não se na estrutura da população do Reino da Hungria, a possibilidade 9e alcançar
aplicou à publicação de t�XtoS bíblicos. Pelo contrário, a língua da Bíblia, a aceitação e reconhecimento dentro do quadro da comunidade multiétnica da
assim chamada Biblictina, começou a invadir todos os textos impressos e ad­ igreja. Por outro lado, essa tradição e o auto-estereótipo baseado nela, o dos
quiriu o status de língua literária. Os hinos eram a mais importante categoria luteranos eslovacos como preservadores da tradição da Reforma Tcheca, foi
da literatura. Na coletânea Cithara sanctorum, formavam um resumo de idéias um instnimei:ito apologético e uma fonte de orgulho na maturidade de toda
teológicas destinado ao público geral e mais barato que outros textos.
9 Sobre o des envolvimento especial do tcheco usado pelos eslovacos, ver Ôurovic, 1998,
8 Sobre essa importance lei, ver Pecer, 1991. 2004.

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Peler Burke e R. Po-chio Hsio (orgs.) A .tradução cultural nos primórdios do Europo Moderno

a "nação eslava", que havia panicipado na formação da vida espiritual da vários autores luteranos eslovacos também era aceitável no ambiente dos
Europa. Essa ficção foi criada precisamente nesse período em meio a diversos exilados utraquistas e até mesmo irmãos tchecos, e ajudou a manter sua
grupos étnicos eslavos. identidade confessional.·
O elemento confessional, que ainda desempenhava um papel substancial O uso consistente do tcheco bíblico em textos teológicos não bíblicos,
na cultura, contribuiu para a ênfase de outras tradições históricas. Os pro­ muitas vezes combinado com alguns elementos do eslovaco falado, foi for­
testantes eslovacos claramente não se sentiam atraídos pela combinação das talecido após� estabelecimento do Instituto Bíblico em Halle. O Instituto
tradições da Grande Morávia e de Santo Estêvão, sobre a qual se construíra publicava sistematicamente obras destinadas a uma comunidade mais ampla
a aprêsentação da Hungria como o Reino de Maria (Regnum Marianum). A do que apenas os luteranos esiovacos (Rõsei, 1961). A Bíblia publicada para
tradição inventada da influência hussita sobre a Eslováquia, conectando os os eslovacos em 1722 foi produzida em sintonia com o tcheco bíblico grama­
eslovacos com um movimento espiritual ao qual o próprio Martinho Lutero ticalmente codificado. Assim, um senso de comunidade com seus correligio­
recorrera, era naturalmente mais aceitável para eles. nários tchecos e de responsabilidade por seu destino foi criado na consciência
_ O fato de que a Grande Morávia não estava dire.tainente associada ao dos eslovacos luteranos. Posteriormente, após a promulgação da Patente de
destino da nação tcheca, na qual os protestantes eslovacos viam uma aliada Tolerância (1781), esse- senso de comunidade foi expresso em uma �tensa
e um suporte naturais em seu desenvolvimento cultural e nacional, graças � atividade mjssionária (Kowalská, 20M, p.145-7).
a elos lingüísticos e culturais, sem dúvida desempenhou um papel signifi­ A noção da língua como um símbolo de crença também foi reforçada no
cativo nessa aceitação. A atividade de Cirilo e Metódio como missionários decorrer da recatolicização. A imprensa universitária em Trnava (Tyrnau,
cristãos entre os eslavos recebeu atenção apenas com a aceitação do conceito Nagyszombat), que se achava nas mãos dos jesuítas, estava especialmente
do Eslavismo Barroco, que enfatizava as importantes contribuições de cada · preocupada com a disseminação do eslovaco nativo e falado. Os textos dos
grupo eslavo étnico para o desenvolvimento da cultura e da civilização. Sua livros e os sermões manuscritos remanescentes de franciscanos ou outros
"adoção" no ambiente não católico só veio no início do século XVIII, quando pregadores revelam um uso consciente da língua como um sinal que distin­
o respeito pelos dois santos já podia ser justificado de maneira "acadêmica". guia os_católicos d?s "hereges".
A publicação de documentos dos Arquivos do Vaticano referentes à história Entretanto, a consciência étnica dos eslovacos católicos não estava as­
primitiva da região central européia começou no final do século XVII. sociada a um meio inequívoco de declarar sua filiação confessional - a uma
Ao adotar o tcheco na forma bíblica como seu vernáculo e seguir cultivan­ tradução eslovaca da Bíblia. Os educados, que tinham o direito (de acordo
do-o, com sua gramática fixada e impressa (por Tobias Masník ou Masnício, com os decretos do Concílio de Trento) de pedir permissão para ler a Bíblia,
por exemplo, em 1696), os luteranos eslovacos simbolicamente assumiram se satisfaziam com o texto latino da Vulgata e não precisavam de tradução.
a missão de preservar a consciência confessional dos protestantes tchecos, Não houve, portanto, nenhuma tentativa de traduzir a Bíblia inteira para o
que sobreviveu apenas no exílio ou na forma de pequenas comunidades de eslovaco até a primeira metade do século XVlll, e mesmo então ela ficou
protestantes secretos e perseguidos. sem publicação.11
Todavia, as elites intelectuáis do luteranismo eslovaco (pastores e pro­ A literatura religiosa era impressa em grandes tiragens.12 Mesmo assim,
fessores) foram forçadas a deixar sua terra natal em 1674, encontrando seu a ausência dos livros que tendiam a criar normas, ou seja, um hinário am-
primeiro refúgio em comunidades eclesiásticas tchecas em várias partes da
Alemanha. Embora apenas uns poucos entre eles conseguissem obter o cargo 11 Não está claro por que a primeira tradução da Bíblia para o eslovaco falado culto (a assim
de pastor, muitos exilados da Hungria atuavam como pregadores convidados · chamada Bíblia dos monges de Camaldul, preparada para impressão em 1758) teve sua
publicação proibida. Os arquivos da Igreja na Eslováquia ainda não estão bem organiz.ados
ou publicavam sennões e literatura religiosa.10 Esses textos apareciam no
e abertos, e essá questão ainda não foi respondida por especialistas em história eclesiástica.·
tcheco bíblico tradicional, e, graças a isso, a literatura religiosa das penas de A Bíblia fpi publicada pela primeira vez por Rothe, Scholz e Dorul' a, 2002.
12 Sobre os produtos da imprensa universitária em Tmava (lyrnau, Nagyszombat), ver
10 Uma visão geral em Õui-ovic, 1940, p.80-6. . Caplovic, 1972-1984; Mizianik, 1971.

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plamente aceito e especialmente de uma tradução católica da Bíblia para a Grande Morávia. Eles até combinaram o conceito do caráter estatal da Grande
língua falada, sem dúvida influenciou a formação do tipo de língua usada no Morávia com o da Hungria. A localização definitiva do "primeiro Estado dos
ambiente dos intelectuais católicos. Seu uso da língua era mais variável do eslov.acos" no território da Panônia e da Alta Hungria, como também a ên­

••
que o dos intelectuais protestantes, e s6 gradualmente se tornou mais fixo. fase na contribuição dos eslovacos para o processo civilizador nos primeiros
Entretanto, ao ficar mais distante do tcheco, a língua' fortaleceu a cons­ estágios do reino húngaro, proporcionaram as bases para argumentos sobre
ciência da distinção lingüística e étnica dos eslovacos e facilitou sua separação a igualdade de todo o grupo étnico dentro da Hungria. 14

••
do quadro amplo do eslavismo. A estabilização do eslovaco foi sustentada Os luteranos também concordavam com essa idéia. Eles aceitavam o Es­
pela publicação de vários textos legais ou políticos, que eram lançados por tado da Grande Morávia como o ponto de partida da história dos eslovacos.
instituições governamentais mais e mais ativas. Os livros-texto introduzidos Entretanto, também enfatizavam o vínculo com as terras tchecas (especial­
nas escolas durante o primeiro período das reformas escolares na Hungria mente com a Morávia) e a preservação da cultura eslava (ou grã-morávia)

••
(1777-1790) também ajudaram a fixar a forma da língua (Keipert, 1993). na Boêmia.
Todavia, a interligação entre o tipo de língua usada por um indivíduo e Uma vez que os luteranos foram privados da possibilidade de declarar sua
sua confissão pode ser observada até mesmo ao longo da década de 1790, filiação confessional pela participação ativa nos serviços da Igreja na maior
no contexto dos livros-texto publicados e usados pelas escolas elementares parte dos lugares na Hungria, os símbolos de sua identidade adquiriram maior
estatais, especialmente o Livro de Leitura (Lesebuch), que incluía os princípios importância. A identificação dos luteranos eslovacos com uma língua que era de

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da ética e da religião cristã, bem como instruções sobre o comportamento fato estrangeira ou pelo menos compartilhada com um grupo étnico diferente,
das crianças e especialmente dos coroinhas na igreja durante as cerimônias e que funcionava em vários níveis de comunicação em paralelo com a língua
religiosas. Um dos revisores desses livros-texto recomendou o uso de uma falada local. era tão forte que a assimilação maciça de migrantes eslovacos pelo
�- forma de linguagem que não estimulasse dúvidas sobre a religião católica ao ambiente ao seu redor não ocorreu em regiões étnica e confessionalmente
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utilizar termos (tchecos) curiosos. Por outro lado, expressões acuradas do mistas, como as Terras Baixas ao sul do Reino da Hungria.
vernáculo podiam trazer os "hereges" de volta à Igreja Católica.13 Por outro lado, os católicos não precisavam se mostrar como nada mais
A formação da consciência histórica em meio aos católicos foi mais com­ do que membros da Igreja dominante. Esse ato em si lhes assegurava a plena
plicada. Ela não contou com nenhuma tradição herdada ou adotada. As lendas participação na vida pública, por exemplo, os direitos de um burguês urbano,
e crônicas que primeiro passaram para o conhecimento histórico no Reino a filiação a guildas ou o direito de ocupar cargos públicos. Manifestar sua
da Hungria não proporcionavam estímulo suficiente. Tinham sido escritas identidade em um programa ou em textos não tinha grande importância para
por eruditos medievais do círculo dos reis da Casa de Arpád, e enfatizavam a eles, e a forma da língua em tais textos era ainda menos importante.
_
tradição da tomada de terras por meio da guerra. A mais importante crônica As relações interconfessionais foram, portan10, um fator determinante
-
medieval falava diretamente da desonra dos primeiros habitantes eslavos no processo de integração do grupo étnico eslovaco em seu desenvolvimento
nativos - os ancestrais dos eslovacos. como uma nação moderna. Decerto não foi por acidente que a codificação
Até o início do século XVIll, os membros do Estado político húngaro de uma língua escrita comum só tenha ocorrido após um período de estabi­
não se sentiam comprometidos com uma identidade étnica. A identificação lização das relações interconfessionais no decorrer da primeira metade do
lingüística não desempenhava um papel muito importante. No século XVIII, século XIX. Todavia, a tradução da Bíblia para o tcheco arcaico não deixou de
aqueles que aceitavam a importância da filiação étnica, bem como o conceito ter um valor simbólico: ela continuou a ser usada na comunidade luterana
de uma nação ou Estado político, descobriram a importância do Império da eslovaca até meados do século XX.

13 Comentário do cônego Johann Ludwig Schwanz, de Niira (Nyitra), nos Arquivos Estatais 14 Esse conceito foi formulado como hipótese cientifica somente no século XVlll por Juraj
Húngaros em Budapeste, C 69, 1780, Scholae Nationales, Miscellanea, fons 3, pos. 54, Papánek na Historia gentis Slavae: de regno, regibusque Slavorum [História dos povos eslavos:
fol.97. sobre o reino e os reis dos eslavos] (Pécs, 1780). Ver Tibensky, 1992.

72 73
CAPÍTULO 4
Traduções para o latim na Europa Moderna
Peter Burke 1

É bem sabido que o latim, tanto falado como escrito, era empregado re­
gularmente na Europa Moderna não apenas na Igreja Católica, mas também
no mundo da erudição, da diplomacia, do direito e alhures (Burke, 2004,
p.43-60). A importância de traduções modernas do latim para as línguas
vernáculas da Europa também já foi reconhecida, assim como o foi a impor:
tância das traduções do grego antigo para o latim.
Por outro lado, as traduções do vernáculo para o latim têm sido rela­
tivamente negligenciadas. 2 A razão para essa negligência talvez seja que o
fenômeno parece ilógico. Afinal de contas, por que alguém iria querer fazer
traduções na direção "errada", de uma língua moderna para uma antiga? Até
.._ onde chegaram a ser estudados, esses textos, em particular as traduções de
f · clássicos literários como Dante, Ariosto, Tasso, Cervantes, Camões ou Milton,
' foram tratados como curiosidades, simples exercícios de erudição.
No entanto, descobri não menos de 1.140 traduções publicadas de textos
substanciais de autores conhecidos entre a invenção da imprensa e o ano de

3:.� . -: · Ao longo desta investigação, iniciada em 1991, recebi estímulo e ajuda de muitas pesS0'.15,
1

;� '·· :_- mas agradecimentos especiais são devidos a Rino Avesani, Dietrich Brieserneister, Zweeder
f,·-\· von Santen e Thomas Worcester. _
;.�-- Os raros estudos gerais incluem. Grant, 1954, e Binns, 1990. Estudos mais especializados
"{::-�serão citados adiante, quando apropriado.

[ ._
Peter Burke e R. Po-chia Hsia (orgs.) A tradução cultural nos primórdios do Europa Moderna
: 1
Os principais critérios para a inclusão na lista das 1. 140 traduções são � !
especialmente de livros publi­
1799, e é bem possível haver muitas outras,
dispon íveis em bibliotecas no Ocidente. Um os seguintes:
cados na Europa central e não
de todas as publicações européias do
dia; quando houver um catálogo on-line 1. O texto precisa ter um autor conhecido. Isso significa omitir discussões de
período moderno, essas omisspes virão à luz. traduções da Bíblia, desde a versão de Sébastien Castellion (criticada na época
o número dessas traduções testemunha não apenas o conheci
mento ge­ como rebuscada demais) até a de Arias Montano (criticada como literal demais).
mas também o fato de que muitas pessoas É uma pena excluir obras como as traduções de Pathelin [A Farsa do Advogado
neralizado do latim nessa época,
os vernácu los estrange iros Pathelin), Lazarillo de Tormes, Reineke Fuchs [Reineke (ou Renard), a raposa]
instruídas fora das regiões fronteiriças achavam
o que estava disponível e Till Eulenspiegel, ou de Eikon basilike [O retrato real], ou dos primeiros anos
dificeis, senão impossíveis de ler. Em comparação com
, do espanhol e das Transactions of the Royal Society of London [Transações da Real Sociedade de
para O ensino do latim, os recursos para o ensino do italiano
dades eram extrema mente limita­ Londres], ou da decisão do Parlamento de Toulouse no caso de Martin Guerre
do francês nas escolas, colégios e universi
. O inglês, (publicada em latim por Sureu em 1576), ou dos dois relatos anônimos da morte
dos, e praticamente inexistentes para o ensino de outras línguas
2004, do jesuíta Edmund Campion. Entretanto, a consistência exigiria a inclusão de
por exemplo, foi raramente ensinado antes do século XVIll (Burke,
uma massa de escritos ocasionais (descrições de chegadas reais, coroações,
113-p.7). missões e julgamentos, textos de tratados, liturgias, instruções a oficiais e assim
por diante), e é ainda mais dificil fazer uma lista completa de tais textos do que
de obras de autores conhecidos.
2. O texto· deve ser uma tradução impressa de um texto previamente publicado
no vernáculo. Portanto, as cinco traduções manuscritas de Os lusíadas produzi­
A maioria dos textos traduzidos era o que os bibliotecários de hoje cha­ das nesse período são omitidas. De maneira similar, excluem-se as traduções
mam de "não-ficção", fazendo uma grande contribuição para a difusão de manuscritas de poemas de Dante, Petrarca, Jorge Manrique, Spenser e Tasso,
informações nessa época. Um número tão grande de textos traduzidos suge­ do Alcorão (por Widmanstetter), de uma peça de Scipione Maffei, das Viagens,
re a importância de fazermos as perguntas a seguir, conforme o modelo do de Mandeville, e de tratados como o de Filarete sobre arquitetura ou o Contrat
Capítulo 1. O que foi traduzido para o latim nesse período? De que línguas? social, de Rousseau.4 Textos publicados primeiro em latim, que podem ter sido
Por quem, para quem, onde e quando? Quais eram os principais problemas traduções de um manuscrito no vernáculo, também são omitidos (por exem­
lingüísticos que os tradutores enfrentavam? plo De Germanorum origine [Da origem dos germanos], de Huldreich Múcio,
. Dada a falta de uma bibliografia das traduções para o latim, ou na verdade
De ins"titutione harmonica [Da instituição harmônica], de Pietro Aron, History of
Oxford [História de Oxford], de Anthony Wood, e Historia critica philosophiae
de um catálogo completo das publicações em qualquer país europeu nesse
[História crítica da filosofia], de Johann Brucker).
período (à part� Grã-Bretanha, Bélgica e Holanda), quaisquer generalizações
Por outro lado, os raros casos de livros publicados no mesmo ano em latim e
oferecidas aqui devem ser tidas como extremamente provisórias, e as cifras
no vernáculo (como o tratado de Scalvo sobre o rosário) estão incluídos, bem
citadas como não mais do que indicações da importância relativa. 3 Mesmo como o caso incomum de uma tradução em latim da tradução holandesa de
assim, a cronologia e a geografia das traduções são extremamente notáveis um texto originalmente.em latim (feita por Scribanius). Diferentes traduções
e sugerem que as conclusões principais deste capítulo sobreviverão à desco­ da mesma obra (incluindo as quatro traduções da Semaine [Semana], de Du
berta de mais material. Bartas, e as oito traduções dos quartetos morais de Pibrac) são contadas se­
paradamente.
3. Definir um "vernáculo" não é tão fácil como pode parecer. O número substan­
3 As principais fontes usadas para esta lista são os catálogos da British Library, de Londres; cial de traduções do grego antigo para o latim foi omitido, mas as traduções
da Bibliotheque Nationale, de Paris (hoje Bibliotheque de France); da Bodleian, em Oxford; muito mais ·raras do árabe, do grego bizantino, do chinês, do hebraico e do
e da University Library, em Cambridge. Sempre que possível consultei as edições listadas.
No caso de livros espanhóis, também usei Palau y Dulcet, 1948-77, e, para livros holandeses
e alemães, os novos catálogos on-line, o Short Title Catalogue Netherlands e o www.vd.l 7de. 4 Sobre Mandeville, Vogels, 1885.

76 77
Peter Burke e R. Po-chia Hsia (orgs.) A tradução cultural nos primórdios da Europa Moderna

persa foram incluídas (a vida de Cristo em persa, de Jerónimo Xavier, por sério, no sentido de que são necessariamente incompletos, mas a tendência
exemplo, ou a história do declínio de Bizâncio por Laonikos Chalkokondyles), parece bastante clara.
embora elas tenham sido feitas a panir de formas "clássicas" de linguagem Também cumpre notar que uma diferença considerável nos números de
escrita. 1700-1749 é causada por um único projeto empreendido na Repúblíca Ho­
4. É dificil ser específico quanto à extensão. Poemas muito breves e fragmen­ landesa, planejado origincllmente pelo erudito alemão Johann Georg Grévio,
tos como a tradução por Sainte-Manhe de pane da Franciade [Francíada], de
professor em Utrecht, e levado a cabo por seu ex-aluno Peter Burmann, o
Ronsard, não estão incluídos. Por outro lado, as três versões latinas da Elegy
Velho, professor em Leiden. Graças a essa iniciativa, mais de trinta estudos
tEiegia], de Gray, figuram na lista, junto com odes de Boileau e Dryden.
antiquários foram traduzidos do italiano e publicados em Leiden na década de
5. É ainda mais difícil ser específico quanto ao que exatamente constitui uma
"tradução" (conforme anteriormente, p.3 7). Os 1.140 itens incluem seleções 1720 como parte de uma série chamada "tesouro das antigüidades da Itália"
(entre elas os primeiros livros do Cortegiano [Cortesão], de Castiglione, e das (Thesaurus an tiquitatum ltaliae).
Istorie Fiorentine [História de Florença], de Maquiavel, e cinco histórias do As traduções do vernáculo para o .latim obviamente não desapareceram
Decamerone [Dec<!ffierão]); abreviações (como a versão por Sleidan das Chro­ depois de 1800. Hiawatha, Robinson Crusoé e obras de Goethe e Schiller, para
niques [Crônicas], de Froissart, a tradução anônima das Variatio·ns [Variações]. não falar de livros infantis como Max und Moritz Ouca e Chico], Pinóquio e O
de Bossuet, e as obras históricas de Maimbourg); e paráfrases ou adaptações ursinho Pooh, foram traduzidos desde essa época. A tradição ainda não mor­
(incluindo versões livres de Aretino, Della Porta e Milton). reu, como testemunha a versão de Peter Needham para Harry Potter, Harrius
6. Nem sempre está claro quando uma obra foi publicada pela primeira vez; se Potter et ;,hilosophi lapis [Harry Potter e a pedra filosofal] (1997). Entretanto,
foi traduzida do vernáculo para o latim, ou vice-versa; ou mesmo se certos , o período crucial foi entre 1550 e 1700.
textos latinos realmente existem ou não. Entre os "fantasmas" (em outras '
-:J��·.:
.

Só podemos especular quanto às razões para essa distribuição ao lon-


palavras, obras mencionadas na literatura secundária que até o momento . :?-·-.
,::.· �..... ' go do tempo. Duas explicações podem ser oferecidas, e, o que é bastante
não consegui localizar nos catálogos das bibliotecas, embora possam, sim,
curioso, são quase exatamente o inverso uma da outra. Em primeiro lugar,
existir em algum lugar), estão versões latinas .das Cartas, de Aretino, da His­
a falta de traduções no início do século XVI pode ser explicada pela força do
toria Caesarea [História de César}, de Mexia, do Pastor fido [Pastor fiel], de
Guarini, da história romanesca pastoral L:Astrée, de d'Urfé, e de Dom Quixote preconceito de muitos eruditos contra as línguas vernáculas. Por outro lado,
(do qual uma tradução em latim macarrônico feita por lgnacio Calvo foi pu­ o lento declínio das traduções a partir do final do século XVII corresponde
blicada em 1905). ao uso declinante do latim.
A cronologia dos textos originais também merece menção. Em vários
casos datam da Idade Média, enquanto alguns textos do século XVI não
foram traduzidos para o latim por cem anos ou mais. Na maioria dos ca­
li sos, porém, o intervalo de tempo entre a publicação original do texto e a
publicação de sua tradução em latim era relativamente curto, de apenas um
Para analisar a cronologia das traduções, é conveniente dividir o período ano no caso da Historia con cilii tridentini [História do Concílio de Trento], de
moderno em seções de cinqüenta anos. A distribuição dos textos parece ter Paolo Sarpi, por exemplo, ou das Litterae provinciales [Cartas provinciais], de
sido extremamente desigual. Apenas cinco textos foram publicados antes de Blaise Pascal.
1500. O número sobe para 61 no período entre 1500 e 1549, aumentando Um terceiro ponto diz respeito aos vernáculos de que os textos foram
para 220 textos de 1550 a 1599. Continua a subir até um pico de 387 textos traduzidos para o latim, na ordem de sua importância relativa. O italiano (com
entre 1600 e 1649 - em outras palavras mais de sete por ano, em média; 321 textos) e o francês (276) estavam à frente de todos os concorrentes, com.
declina para 249 em 1650-1699, caindo para 157 textos em 1700-1749, e 50 o italiano q_ominando a parte inicial de nosso período; e o francês, á parte
em 1750-1799 (em um total de 1.127, sendo impossível datar precisamente seguinte (51 traduções do francês _foram publicadas entre 1650 e 1699, em
os textos restantes), Os números absolutos não devem ser levados muito a L �omparação com 42 do italiano); Em �eguida, vinham o inglês (159) e o espa­
�-

78
Peler Burke e R. Po-chia _l'isia (orgs.} A tradução cultural nos primórdios do Europa Moderno

nhol (133).5 Outras línguas ficavam muito atrás: alemão (77, dominadas por senta. Os falantes de holandês e flamengo, nem sempre fáceis de identificar,
Lutero), holandês, português, árabe, persa, chinês, hebraico, polonês, catalão, contribuem com no mínimo 48, número alto dado o tamanho relativamente
sueco, grego bizantino, tcheco, dinamarquês, croata e turco (se traduções peqµeno dessa população.
· de obras anônimas fossem adicionadas, a lista também incluiria o etíope e Por outro lado, os italianos contribuem com apenas 46 tradutores, entre
0 islandês). Também devemos notar que - como não era infreqüente nesse os quais se devem notar protestantes como Celio Secundo Curione, Elio
período - várias traduções não foram feitas a partir da língua original. Diodati, Scipio G.entile, Francesco Negri, Silvestro Teglio e Giovanni Niccolà
Stoppani, todos exilados e mediadores entre suas duas culturas. Gentile vivia
na Alemanha, enquanto Curioni, Negri, Stoppani e Teglio eram todos refu­
giados na Suíça. Entre os textos seculares que traduziram estavam obras de
11,1
Maquiavel, Guicciardini e Tasso.7
as ou pseu­ Os espanhóis e os portugueses juntos contribuem com apenas dezessete
Por quem as traduções eram feitas? Umas poucas são anônim
exemp lo, ou "Philopo­ ou dezoito tradutores (incluindo os famosos humanistas Antonio Nebrija e
dônimas - "Wendrock", urh tradutor de Pascal, por
or de Huarte -, ou Benito Arias Montano), os poloneses com sete, os tchecos com quatro, os
nus", tradutor de Bodin, ou "Aeschacius Major", tradut
iu Addison, húngaros com três e os eslovenos, finlandeses e suecos com um cada. Deve­
vêm assinadas com iniciais misteriosas, como o T. G. que traduz
, o]. W. que traduz iu Boyle ou o P. I. L. M. se acrescentar que britânicos, franceses e italianos quase sempre traduziam
0 T. D. M. que traduziu Boileau
obras de suas próprias línguas, deixando aos alemães e neerlandeses traduzir
que traduziu Naudé.
vista socioló- os textos espanhóis e também muitos dos italianos.
Todavia, 557 tradutores foram identificados. Do ponto de
como não surpre ende, pelo clero,
gico, encontramos um grupo dominado,
s, que contrib uíram
especialmente o clero católico e acima de tudo os jesuíta
s protestantes, IV
com mais de oitenta traduções. Em seguida, vinham pastore
s. Os poucos
professores (em escolas e universidades), escritores e médico
p.20) incluía m Egídio Albertino Para quem as traduções eram feitas? Obviamente para a minoria de euro­
tradutores semiprofissionais (anteriormente,
André Escoro peus capaz de ler latim. O uso do latim assegurava uma distribuição geográfica
(um holandês que vivia em Munique), Caspar Barth, Caspar Ens,
alemão Kerbekius, ampla, ao custo de atrair uma minoria cultural. Esse custo era às vezes con­
e Adam Schirmbeck. Outros tradutores prolíficos foram o
6

professor de Teologia em Mogúncia, e os neerlandeses Anton Dulcken, Sigebert siderado aceitável: as autoridades da Igreja Católica permitirám que o livro
_
Martin ez Waucquier, que de Bodin sobre demônios aparecesse em latim, mas vetaram uma propost�
Havcrcamp, Michael Isselt, Teodoro Petreio e Mateo
lburg. Havercamp de tradução para o italiano (Tippelskirch, 2003, p.341).
vinha (ao contrário do.que seu nome talvez sugira) de Midde
Entretanto, as traduções para ô latim parecem ter sido feitas para uma
traduziu não menos de dezoito textos para o projeto do Thesaur
us antiquitatum
especia lizou em obras devocionais. minoria dentro da minoria dos latinófonos. Uma vez mais, uma análise geo­
já mencionado, e�quanto Waucquier se
uma sociológica. gráfica é reveladora. Uma maneira de abordar o problema do público é exa­
Uma análise geográfica oferece mais surpresas do que
Os falantes de alemão contribuem com no mínimo 164 tradutores conhe­ minar o local da publicação original das traduções, 121 cidades ao todo, de
de Altdorf a Zurique, das quais 120 ficavam na Europa (a tradução de ·uma obra
cidos. Os falantes de francês (incluindo habitantes dos Países Baixos,
enquan to os falantes de um missionário jesuíta foi publicada em Macau).
Luxemburgo e da Suíça francesa) contribuem com cem,
de inglês (incluindo irlandeses, escoceses e galeses) contribuem com ses- Houve 496 textos impressos pela primeira vez no mundo germanófono
(incluindo Basiléia, Danzig, Estrasburgo e Viena); 171 nos Países Baixos, nor­
te e sul; 112 no·mundo francófono (incluindo Genebra); 74 na Grã-Bretanha;
iscer, 1978.
5 Sobre o francês, Briesemeister, 1985; sobre o espanhol, Brieseme
1990; sobre
6 Sobre Albertino, Gemert, 1979; sobre Barth, Bataillon, 1957, e Briesemeister,
7 Sobre Negri, Zonta, 1916; cf. Kõmer, 1988.
Ens, Fitzmaurice-Kelly, 1906.

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Peter Burke e R. Po-chio Hsic (orgs.} A tradução cultural nos primórdios do Europa Moderno

apenas 56 na Itália, apesar da importância de Veneza como centro de impres­ A tradução de teólogos anglicanos por alemães merece nota como evidência
são; e meros nove na Espanha e em Portugal. O papel de cidades paniculares do contato e da simpatia entre diferentes igrejas protestantes. Não obstante,
talvez mereça menção. As cinco líderes são Colônia (115 textos), Leiden a fragmentação dos protestantes entre luteranos, calvinistas, zwinglianos
(68), Londres (54), Amsterdã (52) e Antuérp ia (45). Quatro dessas cidades e assim por diante, junto com sua ênfase no vernáculo, deve ser suficiente
são centros de publicação bem conhecidos (o total de Leiden foi aumentado para explicar por que ficaram tão atrás dos católicos. Quanto a estes, os 314
em 31 itens pelo empreendimento de Grévio anteriormente mencionado), textos incluem nada menos que cinco obras dedicadas à polêmica questão
enquanto o caso especial de Colônia será discutido a seguir. da comunhão freqüente. Porém, obras devocionais, e não obras de polêmica,
Ein suma, as evidências sugerem que a principal demanda de traduções respondem pelo grosso das traduções, incluindo o Combattimento Spirituale
para o latim proveio da Europa setentrional (incluindo a Polônia), e mais [Combates espirituais], de Lorenzo Scupoli, que foi traduzido duas vezes, e
especialmente do mundo germanófono. O latim era talvez especialmente útil a Introduction à la vie dévote [Introdução à vida devota], de São Francisco de .
em "popularizar" - se é que se pode usar tal palavra neste contexto - livros Sales (cf. o capítulo de Eire, adiante).
escritos originalmente em línguas românicas, especialme�te obras devocio­ Escritores devotos espanhóis em particular eram fluentes em latim, in--
nais (Briesemeister, 1983). Sua imponância para a recepção da cultura inglesa cluindo Pedro de Alcántara, Alfonso Rodriguez, Santa Teresa d'Ávila, San Juan
na Alemanha na segunda metade do século XVII também já foi apontada ·-�--. de la Cruz Ooão da Cruz), Juan de Jesús, Luís de la Puente e acima de tudo
(Fabian, 1992, p.181). Luís de Granada (com onze textos diferentes). A tradução latina desses textos
devocionais é um sinal, entre outros, da hegemonia cultural que a Espanha
·;·-:_· exercia sobre grande parte da Europa por volta do ano 1600. Ela coincide
V com o que se tem chamado de "invasão místican da França pela Espanha no
século XVII - em outras palavras, a tradução de escritores devotos espanhóis
Que tipos de livro eram traduzidos? Para responder a esta pergunta é para o francês (Bremond, 1916-1933).
tentador usar as categorias dos bibliotecários dos séculos XVI e XVII (Teolo­ Esses autores eram lidos fora da Espanha em traduções para o latim em
gia, Direito Canônico, Direito Civil, Filosofia Moral, Filosofia Natural etc.). sua maior parte, produzidas e publicadas no mundo germanófono, em Mo­
Entretanto, é provavelmente mais útil usar categorias modernas. As seis gúncia, por exemplo (22 textos), Munique (24) e especialmente em Colônia
maiores categorias são Religião, Ciência, ficção, História, Política e viagens, (104), onde certos editores, como Kinck, Mylius e Crithius, parecem ter se
· nessa ordem. especializado em obras de devoção. Elas se destinavam sem dúvida a leitores
Em primeiro lugar, por uma diferença muito grande, vinha a Religião, na Europa central e leste-central em panicular (a versão de 1626-1627 dos
com 422 títulos, incluindo obras de Teologia, polêmica, devoção, profecias e Opera [Obras], de Santa Teresa, foi dedicada pelo editor a um nobre polo­
sermões (pelo menos 24 itens, de autores como Andrewes, Bullinger, Calvino, nês, Stanislas Lubomirski, enquanto Bellarmino foi traduzido pelo príncipe
Camus, Coton, Gerson, Luís de Granada, Panigarola, Richeome, Savonarola, Wladislaw, ou Ladislau). Colônia era notória como falso local de publicação
Segneri, Skarga e V ieira). O total de obras religiosas seria ainda maior (470) nesse período, mas apenas uma das traduções latinas usando esse nome pare­
se fossem incluídas aqui a história eclesiástica (15 textos, incluindo obras de ce forjada, a tradução por Jouvancy de Cleandre et Eudoxus [Limpeza e êxodo],
Banoli, Bossuet, Burnet, Florimond de Raemond, Maimbourg, Sarpi e Sforza de Daniel, " typis Petri Maneau" ["pela prensa de Perrus Marteau"].
Pallaviàno) e as vidas de santos e outros líderes religiosos (33 textos, incluin­ Exceções interessantes à regra de católicos traduzindo católicos são a
do as vidas de Cristo, Lutero, Calvino, Inácio de Loyola, Francisco Xavier e tradução de Francisco Xavier pelo professor holandês Louis de Dieu e a de
Teresa d'Ávila). Esses textos serão considerados a seguir como História. Miguel de Molinos pelo destacado pietista August Herrnann Francke, publi­
Dos 422 textos religiosos, seis são judeus, um (Feofan) é onodoxo e 101, cado na Halle protestante.
ou menos de um quano, são protestantes, incluindo oito obras de Maninho Em segu ndo lugar, muito atrás da Religião, encontramos obras de História:
Lutero, quatro de João Calvino e seis do puritano inglês William;Perkins. 152 ao todo, incluindo 21 de história eclesiástica. 33 biografias de líderes reli-

82 83
Peter Burke e R. Po-çt,io _tlsio (orgs.) A tradução cultural nos primórdios do Europo Moderno _/

gioscis,cinco biografias de líderes políticos e militares (duas de Filipe ll,junto (Núncio estelar), mas mudou para o italiano para ampliar seu público do­
com Castruccio Castracani,Wallenstein e o duque de Newcastle) e 56 tratados méstico, provocando protesto de um de seus amigos alemães, Mark Welsaer.
_ antiquários (31 deles do projeto de Grévio),incluindo o estudei do exército Foi necessário que Bemegger e Diodati o traduzissem para o latim antes que
romano por Guillaume du Choul e o estudo das moedas por Charles Patin. suas idéias pudessem continuar circulando fora da Itália. Ao fim do século,
As obras traduzidas também incluem as mais famosas histórias italianas Newton - que leu Galileu em latim - tomou uma decisão similar,mudando
em vernáculo do período - Maquiavel, Guicciardini, Sarpi e Davila (mui­ de Principia [Princípios] em latim para Optics [Óptica] em inglês, traduzida
to embora Davila tenha tido de esperar mais de um século para achar um por seu discípulo Samuel Clarke.9
tradutor). Obras de italianos relativamente menores, como Pietro Bizzarri, O mais traduzido cientista europeu era Robert Boyle, com 26 obras dis­
Pandolfo Collenuccio, Gianpietro Contarini, Pompeo Giustinian, Galeazzo tintas, graças não apenas a sua reputação como filósofo natural, mas tam­
Gualdo Priorato e Giovanni Tommaso Minadoi também foram traduzidas, bém a sua relutância em escrever em latim, junto com a ignorância geral do
um sinal do prestígio do modelo italiano de escrita histórica desde o Renas­ inglês no mundo instruído (Fulton, 1961). O problema do inglês vêm à tona
cimento até o Barroco. na correspondência do secretário da Real Sociedade, Henry Oldenburg, que
Muito menos textos foram traduzidos do francês, notavelmente as Chro­ recebeu cartas de Veneza e da República Holandesa esperando por uma tra­
niques [Crônicas],de Froissart, e as memórias de Philippe de Commynes, dução em latim da história da Sociedade escrita por T homas Sprat. Embora
ambas traduzidas por iniciativa do humanista protestante Johann Sleidan, Louis de Moulin concordasse em fazer a tradução,ela nunca se materializou
ele próprio um historiador de não pouca monta.8 Commynes foi na verdade a e leitores sem inglês tiveram de recorrer a uma versão francesa (Oldenburg,
obra que melhor vendeu em latim (com duas traduções e no mínimo quinze 1965-1977, v. IV, p.69,255n, 281,326).
edições), como fizera em outras línguas (adiante, p.148). Textos ibéricos Outras figuras bem conhecidas no mundo da Filosofia Natural cujas obras
também são poucos - Correa, Herrera, Mendoza, Pulgar,Sandoval - e textos foram traduzidas incluíam Francesco Redi, Simon Stevin ejan Swammerdam.
ingleses ainda menos: há apenas Henry VII, de Francis Bacon, e a história da O número de livros médicos e farmacológicos traduzidos, mesmo aqueles por
Reforma na Inglaterra pelo clérigo escocês Gilbert Burnet, traduzida para o autores menos conhecidos, também merecem ênfase: Bauderon,por exem­
latim por um alemão em uma época em que o conhecimento do inglês estava plo, Cheyne, Fizes, Freind, Gérin, Havers,Joubert, du Laurens,Manardes.
apenas começando a se difundir, e publicada em Genebra para assim atingir A existência dessas traduções sugere que havia uma demanda internacional
um público protestante internacional. por guias práticos,assim como por obras teóricas.
Em terceiro lugar, a Filosofia Natural (da Matemática à Medicina, in­ Para atender a esse tipo de demanda,obras sobre tecnologia também eram
cluindo a magia), com 13� itens (cf. Pantin, a seguir,p.185) '. A Revolução traduzidas ocasionajmente; tratados de Arquitetura (discutidos a seguir sob
Científica fôi um movimento internacional que chegou em uma época em "arte"); a Pyrotechnica [Pirotecnia],de Biringucé:io,sobre fogos de artifício; o
que os eruditos estavam começando a abandonar a linguagem tradicional da Theatrum machinarum [Teatro das máquinas], de Boeckler,sobre máquinas; o
República das Letras. O número de traduções aumentou durante o período Speculum nauticum [Espelho náutico], de Wagenaer, sobre navegação; ou De
moderno, conforme um número crescente de filósofos naturais decidiu es­ arte vitraria [Da arte vitral], de Neri, sobre o fabrico de vidro. Mesmo assim,
crever em vernáculo. a relativa raridade desse tipo de livro sugere uma: falta de sobreposição entre
Paracelso, que insistia em escrever e até mesmo em dar palestras uni­ os membros do público capazes de ler latim e aqueles que queriam (digamos)
versitárias em alemão, foi um pioneiro nesse sentido,e - já que o alemão aprender a fabricar vidro.
não era uma língua que muitos estrangeiros conheciam - deveu uma boa Em quarto lugar,84 livros tratavam de Geografia ou "viagens", assunto
parte de sua reputação internacional às várias traduções de sua obra para o que nem sempre é fácil de distinguir da História,como no caso dos relatos do
latim. Galileu começou escrevendo em latim,por exemplo,o Sidereus nuncius Novo Mundo, âe Benzoni e Herrera,que são portanto incluídos - como rela-

8 Sobre Sleidan, Vekene, 1996. 9 Pelo menos o que Newton possuía era Galileu em latim: Harrison, 1978.
..
B4 85
Peter Burke e R. Po-chio Hsio (orgs.) A troduçõo cultural nos primórdios do Europa Moderno

tos de missões fora da Europa - em ambas as seções. Obras gerais incluíam Montgomerie, as Fables [Fábulas], de La Fontaine (três traduções), e a Elegy
as Relazioni [Relações], de Botero, a cosmografia de Sebastian Münster e os in a Country Churchyard [Elegia em um cemitério no campo], de Gray (que
atlas de John Speed e Jan Blaeu. também foi traduzida três vezes). 11
A maioria dos relatos mais conhecidos de explorações e descobertas nas Em prosa, havia histórias tiradas de Boccaccio e Cervantes ("Homo vi­
Américas circularam em latim, a começar pelos de Colombo, Vespúcio e treus" [O homem de vidro] - em outras palavras EI licenciado Vidriera [O
Cortés. Os ingleses Francis Drake, T homas Hariot e Walter Raleigh também licenciado Vidriera]), bem como a estóri� romanesca pastoral Diana, de Gil
apareceram em trajes latinos, junto com os franceses Léry e Laudonniere, Polo, o romance picaresco Guzmán de Alfarache, de Mateo Alemán, e o romance
o e·spanhol Las Casas e o alemão Heinrich_ _von Staden, que afirmava ter Télémaque [As aventuras de Telêmaco], de Fénelon (traduzido três vezes).12 É
escapado por pouco de ser comido por canibais no Brasil. V árias traduções provável que a história romanesca de Fénelon fosse lida como obra política,
desses relatos de terras exóticas parecem ter sido encomendadas por um assim como o épico de du Barcas era lido como.obra científica; raramente os
único editor, o gravador T heodor de Bry, no final do século XVI, para uma sistemas de classificação são estanques.
série sobre a América. Em sexto lugar, 64 livros sobre Política, uma vez mais dominados pelos
A Ásia também recebeu bastante atenção. Os turcos em particular eram italianos (cf. Capítulo 6). Não é uma supresa encontrar textos renascentistas
. objeto de interesse, mas havia também os relatos da Índia por.Balbi, Perus­ famosos como o Príncipe ou os Discursos, de Maquiavel, os diálogos de· Gian­
chi, Pimenta, Pinner e Varthema; do Japão por Carvalho, Frois e Kaempfer; e notti sobre Veneza, a Ragione di stato [Razão de Estado] e outras obras de
da China por Marco Polo (traduzido duas vezes), Mendoza e Pantoja, junto Botero, a Città dei sole [A cidade do sol], de Campanella, ou mesmo os Discorsi"
com o relato da embaixada holandesa à China em 1655-1657, publicado pelo sopra Cornelio Tacito [Discursos sobre Cornélio Tácito], de Ammirato. 13 Guic­
secretário dos embaixadores, Jan Nieuhof. A África, por outro lado, estava ciardini deve seu lugar aqui às máximas políticas extraídas de sua história,
mal representada, com a exceção de Leão Africano, que escreveu sobre o já que seus escritos políticos ainda não estavam impressos. A presença dos
continente como um todo, de Cadamosto sobre a África oci.dental e de Lopes escritores políticos seiscentistas Traiano Boccalini e Virgilio Malvezzi (dos
sobre o Congo. quais não menos de quatro obras apareceram em latim) merece ênfase, assim
Em quinto lugar estava a ficção, com 72 obras em diferentes gêneros. como a de Raimondo Montecuccoli sobre a guerra. 14
Havia peças, como I suppositi [Os impostores] e II negromante [O feiticeiro], Os textos franceses incluem a Comunidade francesa, de Seyssel, a República,
de Ariosto, a Celestina, de Fernando de Rojas, a Susanna, de Birk, a Aminta, de de Bodin, o ataque a Maquiavel de Gentillet, os discursos políticos e milita­
Tasso, e oAstrologo, de Giambattista della Porta. Havia épicos, como Orlando res de La Noue e o pioneiro estudo de relações internacionais de Rohan. Do
Furioso, Gerusalemme Liberata [Libertação de Jerusalém], Os lusíadas, O paraíso espanhol vem o muito reimpresso Reloj de príncipes [Relógio de príncipes], do
perdido, a Semaine [Semana], de du Bartas, a Henriade [Henríada], de Voltaire, pregador cortesão espanhol Antonio Guevara, junto com Furió Ceriol sobre
e o Messiah [Messias], de Klopstock. Havia outros poemas longos, desde a os conselheiros, o Príncipe Cristão, de Rivadeneira, o comentário de Quevedo
Divina Comédia, de Dante, e o Narrenschiff [A nau dos insensatos], de Brant, sobre o Bruto, de Plutarco, e a Idéia de um príncipe, de Saavedra (que passou
até o Shepherd's Calendar [éalendário do pastor], de Spenser, Absalom and por pelo menos onze edições em latim nó século XVII). Uma vez mais, a
Achitophel [Absalão e Aquitofel], de Dryden, e o Essay on Man [Ensaio sobre importância da Espanha merece ser notada. Quanto ao inglês, ci Leviatã, de
o homem], de Pope. 10 Poemas mais breves incluíam as líricas do poeta persa Hobbes, foi traduzido logo após sua publicação, mas o igualmente famoso
Saadi e do catalão Ausias March, obras de Ronsard, os versos moralizantes , .$i;_, Tratado sobre o governo, de Locke, não foi. 15
de Pibrac, a ode de Boileau sobre a tomada de Namur, a de Comeille sobre . i�w�! --�- ·.,
as vitórias de Luís XIV, The Cherry and the Plum [A cereja e a ameixa], de \��ff
' · ·n-- So-br- e-R-onsard, McFarlane, 1978, e Smith, 1988; sobre La Fontaine, Desmed, 1964.
·12 Sobre Boccaccio, Toumay, 1981; sobre Cervantes, Fitzmaurice-Kelly, 1897 ..
13 Sobre Maquiavel, Gerber, 1911-1913, p.60-92; Anglo, 2005.
1 O Sobre Os lusíadas, Fonda, 1979, e Briesemeister, 1984; sobre O paraíso perdido, Feder, 1955; ;�e H Sobre Boccalíni, Firpo, 1965, p.5·9-66.
sobre Klôpstock, Wallner, 1982. �/ 15,_, Sobre Hobbes, Tricaud, 1969; Lõfstedt, 1989.

86 87
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•.•
i Peter Burke e R. Po-chio Hsl!] .(orgs.)

. A maioria desses livros pode ser descrita como "filosofia política", mas
uns poucos eram mais específicos. Alguns eram obras de propagan_da, como
A lroduc;õo cultural nos prim6rdios do Europa Moderno

sistema de Direito Comum de pouco interesse no continente-, ainda era raro


escrever sobre as leis no vernáculo. Em uma classe à parte está o conselho de
1.
;

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••
os panfletos de La Chapelle, que defendeu Luís XIV durante a Guerra da Naudé sobre a formação de uma biblioteca (bastante apropriadamente, um
Sucessão Espanhola em suas Helvetii epistolae [Epístolas de Helvécio], oü o texto preocupado com o problema da classificação).
ataque de Caramuel à legitimidade do rei João IV de Portugal. Na margem Em suma, os grandes movimentos intelectuais do período - até o Ilumi­

••
entre a política e as viagens (e por isso arroladas nas duas seções), há algumas nismo - estão bem representados em traduções para o latim. O Renascimento
análises do Império Otomano e de suas forças militares, cinco em particu­ está representado por historiadores e escritores políticos italianos, além de


lar - de Giovio, Geuffroy, Lucinge, Soranzo e Tarducci. artistas. As grandes descobertas, a Reforma, a Contra-Reforma e a Revolu­
Umas poucas categorias menores merecem um breve comentário. Os ção Científica também estão obviamente presentes nessa lista. Por outro
livros de conduta, por exemplo, que iam da Filosofia Moral a conselhos sobre lado, a lista como um todo não é um simples· espelho do gosto da época. Ela
maneiras à mesa, incluem não apenas os três famosos tratados italianos de foi influenciada por uns poucos indivíduos em condições de converter seus

••
Castiglione, della Casa e Guazzo, mas também as discussões da corte por interesses pessoais em publicações. Sem T heodor de Bry, teriam aparecido
Guevara, Faret e du Réfuge, dois tratados de Gracián, o manual de civilidade menos traduções de relatos sobre o Novo Mundo. Sem Samuel de Tournes,
de Courtin e os ensaios de Francis Bacon, traduzidos sob o título "Sermones o lugar de Genebra na história das publicações científicas teria sido muito


fideles". Nesse campo, encontramos mais tradutores protestantes de textos menor. Sem Grévio e Burmann, uma série de antiquários italianos não teria
·de católicos, como Citreu que traduziu della Casa; Salmuth, que traduziu sido conhecida no exterior.

••
Guazzo, ou Wanckel, que traduziu Guevara. Os ideais de boa conduta parecem
rer sido independentes da Teologia.
A Filosofia, em seu sentido moderno relativamente estrito, tem apenas VI

••
um pequeno lugar nessa lista: dezoito itens. Dada a importância do latim
como língua em que escrever sobre Filosofia, é talvez surpreendente constatar Traduzir obras modernas para o latim apresentava o problema de escre­
que traduções para o latim fossem afinal necessárias. Mesmo assim, Descartes ver em um latim que os humanistas considerariam clássico a respeito de

••
sobre o método, Kant sobre a razão, Leibniz sobre a teodicéia, Malebranche fenômenos desconhecidos dos antigos romanos. Os próprios humanistas
sobre a verdade, Les pensées [Os pensamentos], de Pascal, e Locke sobre o en­ estavam divididos quanto a essa questão, com os "ciceronianos" opondo-se

••
tendimento humano foram todos vertidos para o latim nesse período (Hume a neologismos enquanto Alberti, Valia, Erasmo e outros consideravam qüe
só está representado por sua autobiografia). A assim chamada "Lógica de algumas novas palavras latinas eram necessárias. 16
Port-_Royal", de Arnauld e outros, o True Intellectual System of the Universe [O Por um lado, alguns· tradutores de Maquiavel tentaram classicizar o texto.

•• •
verdadeiro sistema intelectual do universo], de Cudworth, e as Cogitatio­ A versão de Silvestro Teglio para II príncipe, por exemplo, se refere não aos
nes rationales [Cogitações racionais], de Wolff, também devem ser incluídas cardeais, mas ao "colégio de sacerdotes" (sacerdotum collegium). De maneira

••
aqui, junto com três obras de Bouhours, com os neoplatônicos Leone Ebreo similar, o tradutor anônimo da Arte della guerra chamou os piqueiros suíços
e Francesco Patrizzi e, é claro, com Confúcio, cujo nome latinizado ainda de "legio Helvetica" [legião helvécia] ou "hastatorum ordines" [ordens d.os ás­
testemunha a língua em que suas idéias chegaram ao Ocidente. tatos].


Apenas um punhado de livros há de ser encontrado em outras categorias. O destino de Guicciardini em latim foi similar ao de Maquiavel (Luciani,
A arte, por exemplo (Dürer, Sandrart, Serlio, Menestrier), ou a crítica literária I 936, p.27ss, 35ss). Em seu prefácio, o tradutor, Celio Secundo Curione,

•. ;:
(Bartoli, Huet, Sforza Pallavicino, Tesauro); emblemas (Borja, Coornhert, explica a necessidade de usar palavras modernas para lugares, ofícios e equi­

.
• _j Montenay); uma gramática espanhola (Oudin); e um estudo dos preços (Bo­ pamentos modernos (locorum, officiorum, armorum et machinarum nova vocabula)
din). Mesmo o Direito está mal representado, em que pesem Azpilcueta,
Hotman, Sarpi e Selden; nesse período- fora da Inglaterra, que tinh� um 16 Sobre Alberú, Grafton, 2001, p.283ss .

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7t,. 88 89
Peler Burke e R. Po-chio Hsio (orgs.) A lroduçõo cultural nos primórdios do Europa Moderno

[novas palavras de lugares, ofícios, armas e equipamentos]. em razão "do gleses chamam de courtiership, e os italianos, de cortegiania? Dizer Aulicalitas
grande contraste entre os mundos antigo e moderno" (tanta [ ...] veterum a [aulicismo] não agrada( ...) Sou obrigado a chamar-lhe curialitas, termo que,
novis dissimilitu.do) [tamanha a diferença dos antigos para os novos], tornando · embora seja latim menos puro, aproxima-se mais da latinidade." (Quid enim
necessário escrever sobre Ammirallii [almirantes, emires]. Cardinales e assim appellem id quod Angli Coutiership, Itali Cortegianiam nominant? Aulicalitatem
por diante. dicere non placet ( ... ) Curialitatem cogor appellare, quod verbum etsi minus pure
Na prática, contudo, Curione fez de fato um grande esforço para encon­ Latinum sit, latinitati tamen propius accedit.) Ricius evitou o problema omitindo
trar equivalentes clássicos para muitos obj_etos ou organizações modernas. totalmente a frase que incluía cortegiania.
Assim; antiguardia, "vanguarda", se tomaprimum agmen [primeiro agregado]; Sprezzatura também causou dificuldades. A solução de Clerke para o pro­
a artiglerie, "artilharia", carecendo de antiguidade, se torna tormenta, termo blema foi parafrasear Castiglione, referindo-se à necessidade de agir "negli­
que originalmente se referia às catapultas romanas; bastione, "bastião" (uma gentemente e (como diz o vulgo) desleixadamente" (negligenter et (ut vulgo
nova invenção italiana), se torna valium, "fortificação", perdendo sua espe­ dicitur) dissolute), o último termo sendo sua tentativa de verter o neologismo
cificidade; ducati similarme�té se torna aureorum numum, "moedas de ouro"; de Castiglione. Ele também usou o termo incuria. Quanto a Ricius, ele verteu
lancie, "lanceiros", converte-se no clássico cataphracti; e trombetta, "trombeta", a famosa frase "usare in ogni cosa una certa �prezzatura" como "usar em tudo
em um antigo termo para arauto, praeco. Mesmo os stradiotti, uma forma �;\,�- uma coisa assim como o desprezo" (inque omni re usurpetur certa quaedam veluti
distintiva de cavalaria grega ou albanesa a serviço de Veneza, recebem o :�::;;?/� contemptio). Este certa quaedam veluti [uma coisa assim como] seguramente
·...... -;.�.t=' denuncia certa hesitação ou um desconforto com o neologismo contemptio
nome mais vago de "cavaleiros ilírios", illyrici equites. No caso de arqueiros e .,\.-;- .
,.. :
besteiros (arcieri, balestien), Curione adota um meio-termo, "aqueles a quem do tradutor.
eles chamam arcieri, e os romanos, sagittarii". -- .. Uma ilustração ainda mais dramática do problema da escolha entre "es­
. _�:ti"
.· ;,,_""._

Por outro lado, poderíamos tomar o caso da História do Concílio de Trento, trangeirizar" (anteriormente, p.33) e classicizar é o caso de livros sobre o
de Paolo Sarpi, vertida do italiano para o latim por Adam Ne�on em 1620. Império Otomano, que era desconhecido dos antigos, além de organizado de
Newton ocasionalmente classicizava, referindo-se ao Conólio como conventus maneira diferente do Ocidente contemporâneo.17 Como deveriam ser vertidos
e a universidades como academiae. Usualmente falando, contudo, ele preferia termos para itens culturalmente específicos?
manter os termos técnicos em seu latim medieval ou posterior de origem: Por um lado, a história de Veneza escrita pelo humanista ciceroniano
bulia, por exemplo, cardinales, curia romana, episcopi [bispos], jesuitae, indulgen­ Pietro Bembo classicizou os turcos, abrindo mão da especificidade a fim de
tiae, nuncii [núncios], scholastici e assim por diante. De maneira similar, os ser elegante. Bembo chamou às galeras biremes [birremes]. aos sipais equites
tradutores dos tratados de Sarpi sobre a Inquisição e o Interdito usavam os [cavaleiros], ao almirante da frota turca prefectus classis Thraciae [prefeito da
termos não clássicos inquisitio e interdictus. esquadra da Trácia] e ao sultão, "o rei trácio", Regem Thracium. Além disso,
No caso das traduções do Cortegiano, de Castiglione, para o latim, das na história de seu próprio tempo, Paolo Giovio, outro humanista, chamou o
quais houve três no período (por Bartholomew Clerke, Johannes Ricius e . ' sultão Selim de "Selyrnus Turcarum imperator" [Selim, imperador dos turcos],
-•.',;
ao passo que os janízaros, pelo menos ocasionalmente, se tornam "praetoriani
Johannes Turler), problemas foram mais raros, mas ainda mais sérios. Os �l, milites" [soldados pretorianos].
tradutores em geral tentaram escrever em latim clássico. Por outro lado, ::·-.:�{
Por outro lado, quando o humanista alemão Johannes Leunclavius tra­
•..

Castiglione estava discutindo o comportamento em um ambiente desconhe­


cido de Cícero, a corte. Inevitavelmente surgiram problemas lingüísticos, duziu os anais otomanos para o latim, decidiu ser antes útil que elegante, e
notavelmente no caso das versões dos termos-chave cortegiania e sprezzatura por isso adotou termos turcos como Bassa, Genizari, Sangiacus ou Vezir (paxá,
(Burke, 1995). janízaros, sanjacos, vizir). Uma solução similar foi adotada por Jacob Geuder
O primeiro termo, cortegiania, que o tradutor de Castiglione para o inglês quando traduziu a história da guerra entre os turcos e os persas de Minadoi.'
havia vertido como courtiership [cortesania], deu a Clerke tanto trabalho que
ele o discutiu em seu prefácio ao leitor. "Como então chan.arei o que os in- 17. Esse era um problema também para escritores e tradutores vemaculares (Burke, 2007).

90 91
l'e!er Burke e R. Po;çfi]�. tisi� (orgs.)

Depois de hesitar quanto a topônimos como "Babilonia (quae hodie Bagadat


dicitur)" ["a Babilônia (que é hoje chamada de Bagdá)"], optou por manter
termos técnicos como Caddi [cádi]. Calif, Deftadar [chefe das finanças] e as­
sim por diante. Ao traduzir o relato de Geuffroy sobre a corte turca, Geuder
seguiu um princípio similar, embora tenha usado flexões latinas em algumas
palavras turcas, como odabashi ou timariot - Odabasii, Tymariolzi etc.
Estamos acostumados a pensar que o conhecido dilema entre dois estilos
de tradução, a "domesticação" - em outras palavras, a tradução cultural -ver­
sus a "estrangeirização", remonta ao século XIX ou no máximo ao XVIII
(Venuti, 1995). Esses exemplos do Renascimento revelam uma consciência PARTE li
mais antiga do problema, complicada pela existência de uma terceira solução Tradução e cultura
possível, a classicização.
A opção classicizante poderia ser descrita como uma espécie de tradução
cultural às avessas. Conhecemos a tradução da língua do passado para a do
presente. Afinal de contas, essa é uma das principais funções dos historiado­
res. Aqui, contudo, encontramos o fenômeno oposto, a tradução da língua do
presente para a do passado, justificada pelo projeto renascentista de reavivar
a antiguidade.
A prática de classicizar, precisamente por ser estranha à nossa própria
cultura, proporciona um vívido lembrete do fato de que a língua não é neutra
nem flutua livremente. Ela é sempre onerada pela bagagem cultural. Aqui,
como em outras partes deste volume, as escolhas feitas por tradutores do
período moderno revelam muita coisa sobre sua cultura.

,. -
1.
92
1
CAPÍTULO 5
A piedade católica moderna em tradução
Carlos M. N. Eire

As traduções são tão importantes na história do catolicismo moderno


que se poderia facilmente afirmar que, "sem traduções, nada de renovação
espiritual, e nada de Reforma Católica" - pelo menos não o tipo de Refor­
ma que os histori_adores parecem agora dar como certa. Um único exercício
contrafatual deve bastar para provar esse ponto. Imagine um Santo Inácio
de Loyola diferente: um nobre basco ferido chamado Ifiigo que permaneceu
intocado pelo fervor religioso após seu encontro com uma bala de canhão na
Batalha de Pamplona em 1521. E se esse Ifiigo atingido tivesse dedicado sua
vida a coordenar a fies ta local de San Fermín todo mês de julho? E se tivesse
aguardado com mais ansiedade a corrida dos touros do que as preces _e o
serviço de Deus e da Igreja Católica? Como o catolicismo teria evoluído nos
séculos XV I e XVII sem Santo Inácio e a Companhia de Jesus?
Todo mundo sabe que a História teria dado uma volta muito diferente se
o convalescente Ifiigo não tivesse sido confinado a um quarto sem nada mais
para ler além de dois textos devocionais em tradução: a Legenda áurea, de Jacob
Voragine [ou Jacoppo da Varazze], e a Vida de Cristo, de Ludolfo da Saxônia.
Mais tarde, quando Inácio e outros à sua volta reconstruíssem a seqüência de
eventos que levaram à sua conversão religiosa, essas duas traduções receberiam
o crédito - junto com o próprio Deus - por terem transformado o soldado ferido
. t!Il1 santo. Esses textos e muitos outros como eles (alguns escritos ou traduzidos

..
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Peler Burke e R. Po:-�hio· Hsio (orgs.) A lroduçõo cullurol nos prim6rdios do Europa Moderno

por jesuítas) também receberiam o crédito por inspirar uma renovação completa portanto, tinham uma mesma necessidade de traduções. Em tudo isso, em
da fé católica. Seria um exagero essa avaliação do poder de texto� traduzidos? quase todos os níveis, salvo o do trabalho manual nas oficinas de impressão
Poder-se-ia atribuir tamanha influência a um par de textos traduzidos? e o ·da efetiva promoção e venda de livros, as elites clericais assumiam o
Sim, sem dúvida, pode-se argüir que Ifiigo poderia ter se transformado em controle desse mercado, tanto na escrita e na tradução dos textos como no
Santo Inácio mesmo sem essas duas traduções, mas é dificll imaginar como, julgamento do que era significativo. O fato de que alguns dos autores dos
exatamente. Sim, sem dúvida, também se pode argüir que o catolicismo teria principais textos devocionais também calham de ser tradutores de outros
sido renovado sem Inácio e seus jesuítas, mas é dificil imaginar os contornos títulos significativos não é nenhuma coincidência: isso se deve à liderança
dessa renovação sem eles. Da mesma maneira, é difícil imaginar o panorama desempenhada por clérigos em todo o processo.
da piedade católica nesse período sem textos devocionais traduzidos. O domínio clerical aqui é inegável. P�r exemplo, tomemos o caso de um
As traduções com freqüência assumem uma posição central em muitas dos mais significativos de todos os textos, a Imitação de Cristo atribuída a
descrições da vida espiritual católica porque a história da devoção, piedade Thomas Kempis, um cônego agostiniano, e limitemos nosso escopo apenas
ou espiritualidade - ou como quer que decidamos chamar a vivência da reli­ à Espanha. A primeira edição espanhola está em catalão, a Jmitacio de ]esu
gião - está inseparavelmente ligada a textos, especialmente após a invenção Crist, publicada em Barcelona em 1482. O tradutor, um clérigo chamado
da imprensa (Rennhofer, 1961, p.v). Textos desempenharam um papel-chave Miguel Perez, atribui o livro a Jean Gerson, um clérigo e teólogo muito pro­
na transmissão de idéias, atitudes e padrões de conduta entre os católicos eminente, além de chanceler da Universidade de Paris. Isso faz que edições
modernos, em dois níveis independentes: em meio ao clero que dava forma subseqüentes mencionem Gerson como o autor e dêem ao livro o nome de
à fé, e em meio ao laicato que aquele pastoreava. Os que escreviam textos el Gerçonzito ("o Gersonzinho"). Não sabemos quem fez a primeira tradução
devocionais na cultura católica eram na maioria das vezes "peritos", profis­ ,. para o castelhano (Zaragoza, 1490), mas as probabilidades sugerem que o
sionais em piedade e no sobrenatural: homens e mulheres que dedicavam
ij trabalho f<;>i feito por um clérigo. Essa tradução, que também presumiu a

1'
suas vidas à busca da santidade. autoria de Gerson, foi publicada sete vezes entre 1493 e 1562. Então, em
Essa classe das elites religiosas não apenas compôs a vasta maioria dos 1536, a Imitação foi traduzida para o castelhano novamente por ninguém me­

1-1.�.-
textos devocionais, como também constituiu um público crítico bem infor­ nos que Luís de Granada, um dos maiores autores espirituais da época, um

mado que controlava o fluxo de informações e dava forma à vida devocional frade dominicano cujas próprias obras seriam traduzidas várias vezes para o
da Igreja como um todo. Esse público consumia textos em latim e também latim e outros vernáculos europeus. Depois de passar por no mínimo trinta
no vernáculo. Era essa classe, especialmente os padres e frades envolvidos ,
'
o
edições, sob o título de Conteniptus mundi o menosprecio dei mundo y imitacion de
no ministério público; que destilava e transmitia ao laica to alfabetizado e .
Cristo, atribuído a Thomas Kempis, esse clássico devocional foi uma vez mais
analfabeto a piedade que os textos incorporavam. Os lei'gos, embora não ·- '
traduzido no século XVII por Juan Eusebio Nieremberg, um padre jesuíta
��·,· ..
inteiramente passivos, tendiam a ser antes consumidores que produtores, e -•" 1 ,�_ cujas obras gozam de grande popularidade e também foram traduzidas para
�-.
também tendiam a ler textos em vernáculo em vez de em latim, muito embora diversos vernáculos europeus por outros clérigos.
um bom número dos que eram alfabetizados soubesse ler latim. Lidar com a história ?ºs textos devocionais implica lidar com um processo
Traduções eram essenciais para ambos os públicos. Textos escritos em estritamente controlado de transmissão cultural e com uma estruiura social
latim pelos "peritos" - se _considerados significativos o bastante - precisa­ em que monges, freiras e padres desempenham um papel muito destacado.
vam ser traduzidos para o vernáculo para um público leigo mais amplo. Por conseguinte, uma boa parte da produção de textos devocionais se concen­
Textos significativos escritos no vernáculo, por seu turno, precisavam ser tra nessa classe elitista e se dedica a traçar as vidas desses autores clericais e
traduzidos para o latim para distribuição internacional, já que o latim era a

••
as rotas por meio das quais os textos foram abrindo caminho de uma pessoa
língua comum da elite por toda a Europa, especialmente entre os "peritos" a outra. Muito da produção acadêmica também tende a ser altamente ge­
em religião. Naturalmente, textos significativos escritos em um vernáculo nealógica e obcecada por rastrear linhagens por meio dos textos e, portanto,
também precisavam ser traduzidos para outros vernáculos. O clero e o laicato, também pelas traduções. Isso significa que a maior parte dos conhecimentos

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\1: Peter Burke e R. Po-chio Hsio {orgs.)


:?:r· A tradução cultural nos primórdios do Europa Moderno
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sobre o assunto até o presente tende a se encaixar na categoria de História longo do baixo Reno. Duas grandes tradições espirituais se fundiram ali na
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da Espiritualidade ou do Misticismo, e está esmagadoramente concentrada Baixa Idade Média; dando nascimento a correntes de devoção que domina­
em urna gama de textos e autores relativamente estreita - os "clássicos" , riam os séculos XVI e XVII: a assim chamada tradição mística renano-fla­
por assim dizer - aqueles textos que os próprios "peritos" da elite espiritual menga, que remontava ao século XIV, com raízes em Mestre Eckhart e seus
consideraram os mais significativos. discípulos, e a Devotio moderna [Devoção moderna], que derivava dela, mas
1 Isso naturalmente nos leva à questão: "o que é um texto devocional?". que também se radicava nos Irmãos da Vida Comum e nos Cônegos Regula­
•;.,.:-::�::·:·...
,,---�--.
1 Neste ensaio, considerarei "devocional" uma gama bastante ampla de litera­ res de Windesheim (Fuller,1995; Hyma, 1965; Cognet, 1968; Lücker, 1950).
-
tura. Em essência, qualquer texto que possa ser visto ou usado como meio Essa fusão produziu um grande número de textos, mas nenhum mais impor­
1 ?:�-
para estimular o fervor religioso ou moldar a fé de seus leitores será consi­ tante do que a Imitação de Cristo, atualmente atribuída a Thomas Kempis
derado "devocional". Isso significa incluir muitos tipos diferentes de texto: (1380-1471), mas por um bom tempo creditada a Jean Gerson (1363-1429).
livros de preces, manuais de instrução, sermões impressos, tratados místicos, Seu enfoque é o desenvolvimento de uma rica vida interior do espírito, o
hagiografias, catecismos, tratados polêmicos, alguns tomos teológicos e, em desprendimento do mundo, uma aguda consciência dos próprios estados
última instância, a própria Bíbliá. mentais e a completa imersão do eu em Cristo. Esse texto acabaria se tor­
Mesmo assim, embora seja absolutamente necessário ter em mente que nando um dos clássicos devocionais mais publicados e traduzidos (Iserloch,
a gama de textos que podem ser chamados de "devocionais" é deveras ampla 1971).
e que muitos textos devocionais antigamente significativos caíram na obscu­ A Imitação de Cristo foi apenas um de muitos textos influentes que brota­
ridade - hagiografias como a Legenda aurea [A legenda áurea], de Jacobus de ram das recém-concebidas prensas de impressão da Alemanha e dos Países
Voragine, outrora a mais popular coletânea de vidas dos santos, com mais de Baixos. Outro foi a Vida de Cristo, de Ludolfo da Saxônia, mais conhecido como
uma dúzia de edições e muitas traduções nos primórdios da era da imprensa, Ludolfo, o Canuxo (m. 1378). Inácio de Loyola foi apenas um dos leitores
ou o Sumário das virtudes de São José, de Gracián, e manuais como o Breve sumá­ desse texto (em tradução) que se viram profundamente afetados pelo que
rio da perfeição cristã, de Achille Gagliardi -, é igualmente necessário admitir ele tinha a dizer. As Meditationes vitae Christi [Meditações da vida de Cristo],
as limitações de uma descrição tão breve do assunto como esta. No máximo, de Ludolfo, foram impressas pela primeira vez em 1474, em Estrasburgo ie
ela pode proporcionar apenas uma visão geral dos textos e traduções mais Colônia, em latim. Não se tratava de uma narrativa da vida de Jesus, tal como
significativos, e seu enfoque principal terá de ser mais narrativo do que analí­ encontrada nos Evangelhos, mas sim de uma longa meditação a respeito dela,
tico. Sua estrutura seguirá o padrão estabelecido na maior pane da literatura abundantemente adornada com citações patrísticas, lições morais e doutrinais
secundária, rastreando a circulação de textos e traduções em três centros de e muitas preces (García Mateo, 2002; Shore, 1998; Bodenstedt, 1955; Baier,
-·.�.
origem do final do século XV ao final do século XVII - centros que tiveram 1977; Conway, 1976).
um domínio inegável sobre a cultura católica durante esse período, em ordem Textos dos discípulos de Mestre Eckhart (l 260-132 7) também se destaca­
cronológica: primeiro a Alemanha e os Países Baixos, em seguida a Espanha e, ram nas primeiras décadas da imprensa:Johannes Tauler (1300-61), Heinrich
finalmente, a França, com algumas inevitáveis olhadas de lado para a Itália ao )'
' :,, Suso (1295-1366) eJan van Ruysbroeck (1293-1381). Seus textos estavam
longo do caminho. Identificar lacunas, criticar a produção acadêmica e sugerir todos ligados por um elo comum: a crença de que no cerne de cada criatu­
novas vias de pesquisa terão de ser reservados para uma breve conclusão. ra humana reside uma fagulha divina - um ponto de unidade ontológica
com Deus que só pode ser discernido e vivido mediante o desprendimento

O epicentro setentrional • Adotamos a divisão da Idade Média utilizada pelos medievalistas franceses, entre os quais
· _: Jacques Le Goff e Georges Duby. Para esses especialistas, a Alta Idade Média correspon­
. . de a um perlodo que vai da queda do Império Romano do Ocidente, em 476, até o ano
Praticamente toda descrição da literatura devocional moderna inicia sua .;·,: · 1000- ap6s o qual inicia a Idade.Média Clássica. A Baixa Idade Média corresponde ao século
narrativa em uma região relativamente pequena da Europa setentrional, ao e meio que antecede o Renascimento, ou seja, 1300 a 1450.

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1111· 98
Peler Burke e R. Po-chio l-Ísio (orgs.) A tradução cullurol nos primórdios do Europa Moderno

do mundo. Os ensinamentos desses três discípulos de Eckhart foram ainda Esse questionamento do texto da Vulgata, junto com suas constantes
mais popularizados por um talentoso sintetizador, Hendrik Herp, <?U Hárpio críticas da Igreja da Baixa Idade Média e sua piedade, levou muitos a dizer
(m. 1477), cujas obras se tornaram imensamente populares tanto em vários posteriormente que Erasmo havia botado o ovo chocado por Lutero. Eras­
vernáculos europeus como em latim. Um grande reconhecimento também mo rejeitou tais acusações, mas não há como negar que teve um impacto
recebeu Denis Rijckel (1394-1471), mais conhecido como Dênis, o Cartuxo, duradouro sobre a piedade protestante com sua tradução de textos bíblicos.
por destilar e passar adiante essa tradição. Dênis foi um autor prolífico e Poucos anos após a publicação de seu Novo Testamento, teólogos protes­
popular de textos devocionais, com não menos de sete grandes tratados a tantes estariam centrando alguns aspectos-chave_ de sua teologia e piedade
seu crédito, incluindo um intitulado As quatro últimas coisas (Wassermann; nas traduções alternativas de Erasmo. De mais a mais, a segunda edição do
1996), que exerceu considerável influência sobre o popular gênero da arte Novo Testamento (1519), de Erasmo, acabaria servindo como base para as
de morrer bein, comumente conhecida como ars moriendi. primeiras traduções para o alemão, o francês é o inglês - as traduções usadas
Mas as raízes da literatura devocional da Baixa Idade Média alcançavam para estabelecer o cristianismo protestante na Europa setentrional.
muito mais longe que o século XIV, e tinham um alcance muito mais amplo Erasmo e vários colegas humanistas também recorreram a escritos dos
que o baixo Reno. A raiz-mestra em si, a mais profunda de todas, levava à primeiros padres cristãos, com vistas à renovação da cristandade. Muitos
dos maiores eruditos da época, e alguns dos menores também, dedicaram ·'
Bíblia. Por volta da época em que morreram Hárpio e Dênis, o Cartuxo, os
estudos bíblicos começavam a passar por um renascimento. Assim, não sur­ muito tempo e esforço a coligir manuscritos gregos e traduzi-los para o latim. !

. preende que um aluno dos Irmãos da Vida Comum que fora profundamente Por vezes, o espírito de colaboração transcendia a busca pessoal por fama.
influenciado pela Devotio moderna emergiria como o maior erudito bíblico de Erasmo, por eYemplo, publicou a tradução do humanista alemão Wilibald
seu tempo: Erasmo de Roterdã (1469-1536). Pirckheimer das Orationes [Orações], de Gregório de Nazianzo, em 1531, com
Erasmo desbravou novas trilhas, contribuindo substancialmente para o um prefácio que elogiava a versão de Pirckheimer para o latim, afirmando ser
retorno ad fontes, às fontes originais da fé cristã. De longe, seu feito mais im­ maravilhoso que não houvesse mais necessidade de se recorrer ao original
pressionante foi sua edição em 1516 do Novo Testamento, baseada no estudo grego de novo. Estranho elogio, vindo de um humanista que dedicara sua
de vários manuscritos antigos, contendo também anotações copiosas e uma vida a retornar ad fontes, mas ainda assim muito revelador, pois capturar a
nova tradução em latim que procurava melhorar a Vulgata de São Jerônimo. essência de um texto e disseminar sua tradução podia ser uma tarefa tão
A nova tradução de Erasmo proporcionava leituras alternativas de alguns importante para um humanista quanto chegar a uma versão definitiva do
textos-chave, lançando dúvida sobre a validade das inte�pretações medievais texto original (Spitz, 1963).
dessas passagens, algum�s das quais serviam há muito tempo como textos Erasmo investiu grande parte de suas energias a editar e publicar textos
de prova para importantes doutrinas. patrísticos, e a traduzir os padres gregos para o latim. No fundo, o que mais
Um bom exemplo é o texto de Mateus 4:17 que, na Vulgata, diz "Fazei importava para Erasmo e muitos outros editores e tradutores humanistas era
penitência, pois que o Reino dos Céus está próximo" (Poenitentiam agite). a recuperação da vida devocional da Igreja primitiva, não a busca pela precisão
Durante séculos, essa passagem foi interpretada como prova do fato de que teológica. Acima de tudo, o retorno aos padres era uma busca pela melhor
o sacramento da penitência fora claramente instituído pelo próprio Cris­ literatura devocional possível (Walter, 1991; Backus, 1995; Peters, 1967).
to. Em 1516, Erasmo insistiu _em que a tradução correta do grego não era Os principais entre os que receberam atenção foram Orígenes, Jerônimo e
"Fazei penitência", mas sim '½rrependei-vos" (poeniteat vos); em 1519, ele Agostinho.Junto com estes veio o padre pseudônimo do século VI, Dionísio,
insistiu, alternativamente, em "reformai-vos" (resipiscite) - duas diferenças o Areopagita. O fato de que Lorenzo Valia (1406-1457) houvesse convincen­
muito sutis mas significativas. Ao passo que Poenitentiam agite sustentava a temente lançado dúvidas sobre a identidade de Dionísio - convertendo "o
legitimidade do ato externo de confessar os próprios pecados a um padre, Areopagita" em "o Pseudo-Areopagita" - pouco_fez para reduzir a influência
poeniteat e resipiscite apontavam para um ato interior, talvez até mesmo para desse antigo autor. Os textos profundamente platônicos de Dionísio e sua
uma disposição interior. espiritualidade apofática, defendida por Marsilio Ficino (1433-1499) e pela

100 101
Peter Burke e R. Po-chia Hsia (orgs.)
A tradução cultural nos primórdios da Europa Moderna

Academia Platônica Florentina, encontraram um grande defensor no huma­ No que dizia respeito a certos místicos medievais, Lefevre não era ne­
nista francês Jacques Lefevre d'Étaples (1455-1536) que, em 1502, começou a nhum criptoprotestante, estando antes bastante alinhado com alguns de seus
editar e publicar os textos de Dionísio, junto com outros documentos cristãos irmãos devotamente católicos, e especialmente com alguns monges. A disse­
primitivos. Disponibilizar Dionísio para um público leitor mais amplo foi um minação de textos místicos da Renânia por toda a Europa foi obra sobretudo
passo crucial para forjar a espiritualidade moderna e imbuí-la de tendências de uma única comunidade monástica alemã: os cartuxos de Colônia, mais
neoplatônicas em sua metafísica e epistemologia. conhecidos em inglês como the Charterhouse of Cologne [a Cartuxa de Colônia]
Lefevre também estava bastante interessado na Bíblia. Seus profundos (Chaix, 1981; Marks, 1974; Schafke, 1991). Foi lá que muitos dos grandes
conhecimentos bíblicos tinham como meta principal a busca pelos textos "ver­ textos dos místicos da Renânia foram traduzidos para o latim, a língua franca
dadeiros" e o desenvoÍvimento de traduções fiéis, de modo que as Escrituras das elites intelectuais e espirituais. E Ruysbroeck, Tauler e Suso não foram
pudessem se tornar mais acessíveis a todos. Em 1509, Lefevre publicou um os únicos a ser disponibilizados para toda a Europa letrada pelos canuxos
livro pioneiro, o Psalterium quintuplex [Saltério quintúplice], em que dispôs de Colônia. Eles também traduziram e ajudaram a publicar uma vasta gama
lado a lado, para comparação, cinco diferentes versões em latim dos Salmos. de textos devocionais, desde o relativamente recente Éspelho da perfeição, de
Por séculos, tudo o que estivera d·isponível havia sido a tradução latina da Hárpio (1474), até as canas de Catarina de Siena (1347-1380).
Vulgata de São Jerônimo. Em 1512, Lefevre desbravou uma vez mais um Embora os cartuxos se esquivassem de revelar sua identidade, sabemos
novo território ao publicar uma tradução em francês da Epístola aos romanos, que um dos mais importantes tradutores em Colônia era Laurêncio Súrio
de Paulo, baseada no original em grego, com um comentário, também com (1522-78), que traduziu Tauler, Ruysbroeck e Suso para o latim (Hebens- �
o texto da Vulgata em latim ao lado para comparação. No comentário, Le­ treit-Wilfert, 1975). Uma de suas traduções mais significativas para o latim
fevre questionava de várias maneiras o texto da Vulgata e outras autoridades foi de um texto holandês anônimo, A pérola do Evangelho (1545). A Pérola era
veneráveis, argumentando, entre outras coisas, que a Bíblia era a derradeira um grande apanhado da mística r�nana e também uma antologia. Seções
autoridade na religião cristã - argumento que nunca se can·sou de defender inteiras das obras de outros autores, especialmente de Ruysbroeck e do mais
e que foi mais bem elaborado em 1522, quando publicou um comentário contemporâneo Hárpio, foram inseridas nela. O próprio Súrio adquiriu uma
sobre os quatro Evangelhos. reputação de sabedoria espiritual e chegou a ser reverenciado nos círculos
Embora atraísse adversários por suas opiniões e tivesse alguns escritos católicos instruídos por toda a Europa.
condenados pelos teólogos da Sorbonne, Lefevre seguiu intrépido adiante, Os canuxos de Colônia fizeram mais do que traduzir: alguns escreveram
com seus estudos bíblicos e traduções. Em pane, sua confiança decorria do seus próprios tratados, que também foram posterionnente traduzidos. Entre
apoio que recebia do rei Francisco I e da innã deste, Margarida de Navarra, eles, um dos mais significativos é João Justo Lansperger (1489-1539), mais
os quais ficaram tão satisfeitos com seu trabalho que lhe pediram que tra­ conhecido como Lanspérgio, cujos escritos mostravam-se plenamente cientes
duzisse a Bíblia inteira para o francês. A tradução de Lefevre apareceria em da ameaça representada pelo protestantismo. Seu Discurso de Jesus Cristo aos
partes: o Novo Testamento em 1523, os Salmos em 1525 e a Bíblia inteira fiéis e seu Manual do exército cristão (título que é uma alusão demasiado óbvia
em 1530. Lefevre conquistaría a reputação de criptoprotestante e até mesmo ao mais famoso livro de Erasmo), muito publicados e traduzidos, procuravam
ideólogo protestante, mas também tinha um profundo interesse por autores conscientemente defender a liberdade da vontade, a necessidade da abne­
mais recentes e textos que os protestantes evitavam. O mesmíssimo Lefevre, gação e a possibilidade de união com Deus, em oposição aos ensinamentos
reputado padrinho do protestantismo francês, louvado por T heodore Beze protestantes.
em seus Icones (livro que continha retratos e biografias concisas de todos os
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-� � Outro autor devocional cujo trabalho foi promovido pelos cartuxos de Co­
homens que haviam liderado a Reforma Protestante), também tomou a peito lônia era ainda mais popular que Lanspérgio. Trata-se de Louis de Blois (1506-
traduzir para o latim e publicar os Esposamentos espirituais, de Ruysbroeck, em ;_: 66), abade de Lessies, mais conhecido como Blósio, um grande sintetizador
1512 - um texto que todos os maiores refonnadores protestantes rejeitariam renascentista que não apenas assimilou os escritos dos místicos da Renânia,
ou até desprezariam. ., como também incorporou em si.tas próprias obras textos de grandes mestres
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A lroduçõo culturol nos primórdios do Europo Moderno
Peter Burke e R. Po:chio Hsio (orgs.)

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espirituais como Agostinho, Gregório, o Grande, Matilde de Magdeburgo, Jiménez. Os especialistas concordam que seu Livro de exercícios para a vida espi­
Tauler, Suso e Ruysbroeck (Blois, 1875). Blósio escrevera inicialmente para ritual, profundamente influenciado pela Devotio moderna, marca o início de um
os monges de Lessies, mas seus textos acabaram ultrapassando ãs paredes do sé�lo de predominância espanhola no campo da literatura devocional.
claustro e chegaram até um público leitor muito mais amplo, graças em grande Na década de 1520, um bom número de textos devocionais começou a
parte a traduções e aos cartuxos de Colônia que as publicaram e divulg.aram. aparecer na Espanha, todos eles influenciados pelas tradições espirituais do

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Seu Livro de instrução espiritual, em especial, vendeu durante várias gerações em norte: A arte de servir a Deus (1521), de Alonso de Madri; o Terceiro alfabeto

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muitas línguas (Vos, 992, esp. p.191-201). Suas obras completas, publicadas espiritual (1527), de Francisco de Osuna; a Subida do monte Sião (1535), de
pela primeira vez em Louvain em 1568, foram reimpressas e traduzidas se­ Bernardino de Laredo; o Guia de pecadores (1542) e o Livro de oração e meditação,
guidamente, e por muito tempo poucos rivalizaram com ele em popularidade. de Luís de Granada; e o Audi filia [Ouvi, filha] (1556), de Juan d'Ávila. Por
Não se deve subestimar sua influência. Em 1598, o rei Filipe II - talvez o mais sua vez, esses autores foram sucedidos pelos dois supremos gigantes da era
poderoso monarca do mundo e o mais ardentemente dedicado a defender a de ouro do misticismo espanhol, os carmelitas Teresa d'Ávila (1515-1582) e
João da Cruz (1542-1591) (Groult, 1927; Alventosa Sanchis, 1963). Há quase

•••
fé católica - pediria que Blósio lesse para ele continuamente enquanto jazia

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moribundo no Escorial. Embora o rei Filipe pudesse ter compreendido Blósio um século, os eruditos reconheceram que Santa Teresa e São João eram her­
em latim, é muito provável que tenha ouvido a tradução em castelhano da deiros diretos das tradições do none (Hoornaert, 1922; Etchegoyen, 1923) .
Instrução espiritual, de Juan Vázquez dei Mármol. Provavelmente, a maioria dos especialistas hoje também concordaria com essa
proposição: sem traduções, nada de Teresa, e nada de João da Cruz - pelo
menos não a Teresa e o João que escalaram as alturas místicas com tanta
graça e autoridade (Orcibal, 1966).

1
A era de ouro da Espanha

••
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Mas parte da colheita dessa semente setentrional mostrou-se heterodoxa,
No século XVI, a Espanha assumiu gradualmente um papel ainda maior ou perto disso. Junto com os mestres espirituais aceitos também surgiu um
na publicação e disseminação de literatura devocional. Grande parte do cré­ exército de homens e mulheres que se desentenderam com as autoridades

.,.
dito é dada ao cardeal Francisco Jiménez (Ximenes) de Cisneros (1436-1510) da Igreja. A passividade ou desprendimento tão central para os místicos se­

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; ;
tentrionais assumiu um sentido diferente na Espanha, dando origem a um

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que, como arcebispo de Toledo e confessor da rainha Isabel, patrocinou a
tradução de numerosos textos devocionais para o castelhano, especialmente
João Clímaco (570-649), Ângela de Folinho (1248-1309), Catarina de Siena,
i.
· .......
.
movimento tido como herético: os alumbrados, ou "iluminados", que começa­
ram a ser perseguidos em 1525. Em parte, o infortúnio dos assim chamados
Girolamo Savonarola (1452-98) e Ludolfo, o Canuxo.Jiménez também patro­ alumbrados pode s�r atribuído à tradução de uma única palavra dos místicos
;
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.
cinou a publicação de alg�ns textos devocionais latinos - mais �otãvelmente renanos, Inwerken [ação interior], que se referia à forma como o divino agia
internamente dentro de uma pessoa. As traduções em latim ineptamente
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de Raimundo Lúlio (1232-1316) - e a tradução de alguns textos gregos para

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o latim, incluindo uma vez mais a Scala spiritualis [Escada espiritual], de João verteram lnwerken como inactio [inação], introduzindo no. conceito uma pas­
Clímaco (Toledo, 1505), e os Erotemata [Questões] (Alcalá, 1514), de Ma­ sividade ainda mais exacerbada. A tradução dessa palavra também causou
nuel Chrysoloras (1350-1415). A partir dessa "semeadura" mística, alguns impacto na espiritualidade francesa (Van Schoote, 1963, esp. p.334-5).

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especialistas afinnam que Jiménez de Cisneros ajudou a produzir uma safra Mas isso não era tudo. Este assim chamado iluminismo também uniu

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forças com outra corrente poderosa que fluía do norte: a espiritualidade

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abundante uma geração mais tarde (Sainz Rodriguez, 1979).
Mais ou menos na mesma época, outros tradutores e editores espanhóis erasmiana (García Gutiérrez, 1999; Hamilton, 1992; Andrés Martin, 1975).
buscaram textos na tradição renana, e suas traduções estão diretamente ligadas Herdeiro ele próprio das tradições renanas e da Devotio moderna, Erasmo se

•}i à relativamente súbita efusão de fervor e textos místicos na Espanha. Entre os tornou imensamente popular em alguns círculos na Espanha antes mesmo

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primeiros a publicar na E_spanha um tratado influente esteve García de Cisneros de ser traduzido para o castelhano. Erasm� escreveu muitos tratados que
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.';-,;._ (1455-1510), abade �o mosteiro beneditino de Montserrat e primo do carde3.l poderiam ser chamados de "devocionais", e ganhou seguidores por toda a
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104 105
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Peter Burke e R. Po-chia Hsia (orgs.) A troduçõo culturol nos prim6rdios do Europa Moderno
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Europa graças mais a essas obras que a seus estudos bíblicos. De longe, o mencionado, ele atribuiu sua conversão à vida religiosa no início da década de
mais significativo desses textos foi o Enchiridion, ou Manual do cavaleiro cristão 1520 a dois textos medievais recém-publicados em traduções castelhanas, a
(1503), um manifesto da religiosidade íntima favorecida pela Devotio moderna Vida de Cristo, de Ludolfo da Saxônia, e a Legenda aurea, de Jacobus de Voragine
e pelo neoplatonismo de Ficino. (Dunn-Lardeau, 1986; Reames, 1985; Rhein, 1995). Inácio também aprendeu
O Enchiridion foi um dos textos mais amplamente traduzidos do século muito com o manual devocional escrito pelo primo do cardeal Jiménez, o
XVI, aparecendo em inglês (1518), tcheco (1519), alemão (1520), espanhol Exercitorio de la vida espiritual (1500), de García de Cisneros, que influenciou
(1524), francês (1529), holandês (1542), italiano (1542) e polonês (1585) bastante os seus próprios e imensamente significativos Exercícios espirituais,
(Haegheil, 1897-1907). 1 A tradução do Enchiridion para o castelhano em 1524, a pedra angular de toda a espiritualidade jesuítica - o manual devocional par
1528, 1541 e l 555 aumentou ainda mais sua popularidade, mais além dos excellence, que não se destina tanto a ser lido como a ser vivido ao longo de um
círculos instruídos espanhóis, mas o "erasmianismo" acabou se mostrando período de várias semanas sob a orientação de um instrutor qualificado. Os
tão inaceitável para as autoridades da Igreja como o iluminismo. Do mesmo Exercícios, de Inácio, ainda são empregados, reexaminados e constantemente
. -..,.. ·:...
,'\�._,, retraduzidos nos círculos católicos (Palmer, 1996).
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modo como os alumbrados, os erasmianos também foram esmagados. Depois


de 1559, quando as obras de Erasmo começaram a aparecer no Índice dos li­ . =--··· -
-"
Dentro da órbita da Espanha, mas decerto independentes dela - não im­
vros proibidos da Igreja, muitos de seus textos se�iam difíceis de encontrar na porta quanto de suas terras eram governadas dejure a partir.de Madri -, �guns
Espanha, embora alguns tivessem sido recentemente traduzidos e publicados escritores espirituais italianos também deixaram sua marca no século XVI. Três
(Bataillon, 193 7; cf. Homza, 2000). Alguns erasmianos, como os irmãos Juan italianos em particular eram enormemente populares e influentes. Em sintonia
e Alfonso de Valdés, acabariam sendo associados ao protestantismo fora -·�.
......... com a predileção espanhola pelo recogimiento [recolhimento], ou oração interior,
da península Ibérica. O Diálogo da doutrina cristã (1529), de Juan de Valdés, o padre capuchinho Mattia Bellintani da Saio (l 535-1611) publicou sua Prática
profundamente influenciado por idéias erasmianas e pela espiritualidade da oração mental, em 1588. Também popular e influente foi o padre jesuíta Achille
renano-flamenga, acabaria no infame Index librorum prohibitorum [Índice dos Gagliardi (1537-1607), cujo Breve sumário da perfeição cristã acabou sendo tradu­
livros proibidos], da Igreja Católica (Nieto, 1970; Bakhuizen, 1969). zido para o inglês, o francês, o holandês, o alemão e o latim. O padre teatino
Este não foi o único desdobramento da controvérsia engendrada pela Lorenzo Scupoli (1530-1610) era ainda mais popular e influente. Seu Combate
"invasão" mística vinda do norte. Entre os que permaneceram ortodoxos, espiritual não apenas teve numerosas edições em italiano, mas também muitas
as tendências passivas da tradição renano-flamenga nunca desapareceram traduções, inclusive em inglês, latim, francês, castelhano e alemão.
completamente, e riunca deixaram de atrair críticas ou acusações de heresia.
Mesmo Teresa d'Ávila e João da Cruz tinham seus críticos, que os associavam
aos iluministas. No século XVII, dentro da própria Espanha e também na O século francês
França - onde traduções dos textos dos grandes místicos espanhóis tiveram
um profundo impacto - os mesmíssimos traços passivos dariam origem a Assim como na história da espiritualidade o século XVI pertence em
uma controvérsia ainda mais intensa e a outra heresia, o quietismo. grande medida à Espanha, o XVII pertence à França. A genealogia desta assim
A Espanha do século XVI foi também a terra natal de outro grande gigante chamada "invasão mística", laboriosamente documentada em três volumes
na história da espirtualidade;
i
Inácio de Loyola (1491-1556), fundador dos por Henri Bremond (Bremond, 1916-1933; Cognet, 1949), nos leva a fundo na
jesuítas. O próprio Loyola foi profundamente afetado pela literatura devocio­ história das traduções. Primeiro, grande crédito é atribuído às traduções dos
nal traduzida e pelos esforços de publicação do cardeal Jiménez. Como já foi carcuxos de Colônia que abriram caminho até a França, revelando os grandes
textos patrísticos e medievais, bem como os da tradição renano-flamenga.
Além disso, outras traduções começaram a aparecer, mesmo enquar1to a Fran­
1963). Em 1549, foi
. ça era assolada pelas Guerras de Religião (Van Schoote,
Van der Haeghen não inclui todas as edições, contudo. Simplesmente ch ecan do o ban�o de
dados on-line Eureka (eurek.ulg.org), encontrou doze edições inglesas e quatro holandesas
não listadas nesta bibliografia. ;� Hárpio; e, começando em 1553, vários textos de Blósio. Então viera.rp. alguns
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106 ,c,.'.(,.:107
_ - · Peter Burke e R. Po:��io Hsio (orgs.) A tradução cultural nos primórdios do Europo Moderna
_

textos espanhóis em tradução: Luís de Granada em 1572; Juan d'Ávila em que aqueles que escrevem sobre Bérulle tentem com freqüência creditar sua
1586. Próximo ao fim das Guerras de Religião, surgiram os escritores italia­ espiritualidade aos vários textos traduzidos (Dagens, 1952a). Um tratado
nos: 0 Combate espiritual, de Lorenzo Scupoli, em 1595 e A vida é as obras, de italiano em particular se destaca entre todos os esforços para discernir as
· Catarina de Gênova, em 1598. fontes da espiritualidade de Bérulle: o Breve sumário da perfeição cristã, de
Depois que o Edito de Nantes encerrou a carnificina em 1598, começou Achille Gagliardi. Bérulle conquistou um grande número de seguidores e era
a aumentar a tradução de textos da tradição renano-flamenga e dos mais re­ tão popular que, em 1644, apenas quinze anos após sua morte, a maioria de
centes místicos espanhóis e escritores devocionais italianos. Do norte vieram suas obras já fora reunida em uma única edição. Seus discípulos produziram
A péro_la do Evangelho, em 1602; os Esposamentos espirituais, de Ruysbroeck, em muitos textos devocionais de sua própria lavra. Um dos mais influentes foi
1606; e tudo de Hárpio em 1607. Do sul vieram a Prática da oração mental, de Jean Duvergier de Hauranne, abade de Saint-Cyran, que teria um papel de
Mattia Bellintani da Salà, em 1600; Teresa d'Ávila em 1601; e João da Cruz destaque no desenvolvimento do jansenlsmo (Orcibal, 1961, 1962).
em 1621 (Dagens, 1952b). Além disso, as traduções de autores patrísticos A abundância de textos devocionais, contudo, não indica necessariamente
e medievais também começaram a aumentar: Gregório, o Taumaturgo, Am­ uma onda de religiosidade. Ela pode ser também um sintoma de tensões, ou
brósio de Milão, Boaventura, Catarina de Siena, Tomás de Aquino e Dionísio, talvez até mesmo a causa delas. Por conseguinte, o dilúvio de textos devocionais
0 Areopagita, para citar apenas alguns. Esse dilúvio de traduções levou um publicados na França do século XVII deve sempre ser situado no contexto das
especialista a concluir que "entre 1550 e 161O a literatura espiritual na França grandes controvérsias religiosas do período, especialmente aquela entre os
viveu de empréstimos" (Marocchi, 1988). jansenistas e seus oponentes, em sua maioria jesuítas, e aquela entre a escola
Na virada do século, conforme o fratricídio amainava, os peritos espiri­ de Bérulle, com seu enfoque no Cristo encarnado, e a assim chamada escola
tuais da França começaram a fazer suas próprias contribuições substanciais abstrata, com seu enfoque na natureza divina de Cristo, que acabou por eclodir
para a literatura devocional. Primeiro veio o exilado inglês, o capuchinho na crise quietista do final do século XVII e em suas subseqüentes condenações
Benedito ou Benoit de Canfield (originalmente William Fitch), cujo Rule of (Orcibal, 1959). Tampouco se pode ignorar o conflito entre católicos e pro­
perfection [Regra da perfeição] foi traduzido para o francês em 1609. Apesar testantes, que continuou a grassar na imprensa por todo o século XVII. Até
de infelicidades de estilo, este texto logo se tornou imensamente popular e mesmo tratados polêmicos podem contar às vezes como literatura devocional, e
influente. De acordo com Louis Cognet, "todo o misticismo da era se nutriu o número de tais tratados publicados na França foi imenso (Desgraves, 1984).2
dele". E acrescenta: "Embora fosse inglês, Canfield permanece um dos gran­ Por fim, cumpre também lembrar que no final da Guerra dos Trinta Anos, em
des nomes da história espiritual francesa, e é uma pena que não soubesse 1648, outras poderosas correntes estavam jorrando no panorama espiritual da
escrever" (Cognet, 1958, p.60). Então veio o formidável Francisco_de Sales Europa, e que entre as mais fortes havia a do ceticismo e da dúvida, levando
(1567-1622), com seu livro extraordinário, Introdução·à vida devocional (1608), ao Iluminismõ, à Revolução Científica e à derrocada final da hegemonia cristã
· texto que procurava destilar a sabedoria dos grandes peritos espirituais para na Europa. Uma boa parte do calor gerado por essas controvérsias se fez sentir
o laicato católico e colocá-los em sua própria busca pela santidade. A história fora da França, graças em grande medida a traduções.
da publicação desse tratado é notável: em 1620, haviam sido publicadas mais Isso basta como narrativa geral. Voltemo-nos agora para suas deficiências.
de quarenta edições do texto em francês; em 1656, ele estava disponível em
dezessete traduções. A isso se seguiu em 1616 seu imensamente popular
Tratado sobre o amor de Deus.· Olhando para a frente
O próximo na fila era o cardeal Pierre de Bérulle (1575-1629), fundador
do Oratório, que não apenas levou a reforma dos carmelitas descalços à Fran­ Reduzidas a seus elementos mais básicos, quase ao ponto da caricatura,
ça, como também esteve à frente de uma renovação do clero francês e de um as descrições da espiritualidade moderna no século XX adquirem feições
estilo de devoção que se centrava na humanidade de Cristo, melhor resumida
em seu popularissimo Glcírias de Jesus (1626). Não é de todo insignificante 2 Só o volume 1 tem 3.595 verbetes.

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Peter Burke e R. Po-chio Hsio (orgs.) A tradução cultural nos primórdios do Europa Moderno

similares, e a mais comum e saliente delas é sua obsessão genealógica com o E quanto a outros tipos de textos devocionais? As traduções de textos
rastreamento de linhagens por meio de textos e traduções. A narrativa básica polêmicos para minorias perseguidas, como os recusantes ingleses (Allison;
é mais ou menos assim: no século XVI, a literatura devocional medieval da Rogers, 1989-1994)? E qu.anto às Bíblias, como a tradução de Douai em in­
tradição renano-flamenga causou um florescimento do misticismo e do fervor . ·g1ês? E os manuais com instruções práticas que lidavam com questões ·éticas
religioso na Espanha, e a literatura hispano-renano-flamenga, por sua vez, ' ·e assuntos do dia-a-dia, como La perfecta casada [A esposa perfeita] (1583), de
deu origem a uma efusão ainda mais dramática de fervor místico na França '. Luis de León? Esses são apenas uns poucos exemplos; a lista de títulos até
seiscen_tista. Em seguida, esse fenômeno francês deu forma à moderna piedade "t agora ignorados pelas descrições da espiritualidade e da literatura devocional
católica. Três asserções são assim tidas como certas pela maioria dessas des­ é tão longa que ainda está para ser compilada.
crições, asserções engendradas por um tipo idealista de histór ia intelectual. Terceiro, também se presume que a Espanha e a França merecem maior
Primeiro, presume-se que os próprios textos e os temas neles encontrados atenção no período moderno porque essas duas nações produziram o maior
são t_r�smitidos de uma cultura a outra e de uma geração a outra, a exemplo número de textos místicos e devocionais - estreitamente definidos - nos sé­
de cromossomos em organismos vivos, com características distintas e pronta­ culos XVI e-XVII. Essa premissa, embora não de todo indefensável, tem uma.
mente identificáveis que podem ser rastreadas com precisão conforme abrem perspectiva duplamente distorcida: ela não apenas faz pouco.caso de textos
caminho por fronteiras nacionais e ao longo de décadas ou séculos. Além dis­ publicados em outras partes da Europa, como também ignora o mais saliente
so, também se presume que esses textos abram caminho até seres humanos j
aspecto do mundo moderno, a ascensão das culturas protestantes. �
específicos que em seguida interpretam e recombinam os elementos básicos Muito trabalho ainda resta a fazer nessa área. A tradução é a transmissão
e passam adiante os "cromossomos" em novos arranjos, por assim dizer, por de cultura, a penetração de fronteiras, a erosão da complacência, a explosão
meio de novos textos. Assim, por exemplo, torna-se possível nesse contexto ··
a,!,!:'l'lillr....
do Iocalismo. Ela envolve tradutores, editores, impressores, distribuidores,
dizer que João da Cruz colheu um traço de Ruysbroeck, outro de Tauler e viajantes. Envolve, acima de tudo, a comunicação. E no período moderno
ainda outro de Blósio, e que Bérulle, por seu turno, colheu este ou aquele envolve tecnologia e arte. É muito mais que genealogia, meros textos e idéias
traço de João da Cruz, e outro diretamente de Tauler. Todo esse processo, desencarnadas.
naturalmente, depende da tradução de textos. E muito raramente é analisado Para encerrar, como meio de ao mesmo tempo resumir o assunto e fazer
o processo da tradução com todas as suas complexidades. Ele é sempre dado sua crítica, gostaria de apontar seis lacunas bastante grandes na historiografia
como certo, tão invisível e descomplicado como as idéias desencarnadas que dos textos devocionais e de sua tradução e distribuição - falhas em nosso co­
essas descrições procuram rastrear. nhecimento que clamam por atenção e que sem dúvida levarão algum tempo
Segundo, também se presume que a literatura devocional seja primaria­ para serem preenchidas, se alguém decidir aceitar a tarefa.
mente literatura mística, ou seja, uma coleção de escritos de monásticos para
outros monásticos em busca de uma imperturbável contemplação de Deus. 1. Precisamos de uma definição mais clara de literatura devocional e de uma
classificação sistemática dos textos. Até agora, a maior parte do enfoque recaiu
Com grande freqüência, portan!o, as descrições da literatura devocional se
sobre os "clássicos" da tradição monástica contemplativa, aqueles textos que
limitam a uma gama relativamente estreita de textos. Com grande freqüência,
deram voz à busca mística ascética. Mais atenção precisa ser dada a hagiogra­
também, é dificil ou impossível encontrar uma ligação entre a vida devocional
fias, livros de preces, catecismos, manuais práticos, à apologética e, em geral,
na clausura e a do laicato. Inúmeras questões saltam de imediato à mente, a textos destinados diretamente ao laicato.
como as seguintes: e quanto às hagiografias? A que custo ignoramos o fato .. 2". O impacto da discórdia religiosa precisa ser mais levado em conta, tanto em
de que as hagiografias se tornaram cada vez mais populares após o Concílio terrrms de controvérsias internas e externas entre facções concorrentes dentro
de Trento? Por exemplo, na Espanha encontramos apenas 23 hagiografias de cada denominação como entre igrejas rivais. Este ensaio lidou apenas com.
publicadas em 1500-1559, mas em 1600-1630 o número sobe para 350, textos católicos. Muito trabalho comparativo ainda precisa ser feito sobre o
com 124 apenas na.década 1620-1629 (Sanchez Lora, 1988, p.374, 448-50). período moderno, enquanto católicos e protestantes desenvolvem suas Re­
Muitos desses textos eram traduções. formas concorrentes. A vida devocional se desenvolve tanto a partir de des-

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Peler Burke e R. Po-é:hiq Hsia (orgs.} A lroduçõo cultural nos primórdios do Europa Moderna

continuidades como de continuidades, e id1:ntidades são forjadas tanto pelo no século XVI? Textos devocionais podem às vezes ser voláteis e altamente
antagonismo e pelo conflito como pela instrução axiomática. Deve-se fazer carregados de potencial para controvérsias. Por vezes as escolhas feitas por
mais para destrinçar as similaridades e diferenças entre as tradições religiosas tradutores fazem um mundo de diferença, tanto literal como figu rativamente.
Inclusive até o mero fato de um texto ser escolhido para tradução em uma
qu_e emergiram no período moderno, especialmente à luz do fato de que no
século XVIII toda crença religiosa tradicional passou a ser contestada cada vez determinada língua, seja pela primeira, seja pela quinta ou sexta vez, levanta
mais intensamente pelo ceticismo e pela ascensão das ciências naturais. todos os tipos de questões quanto à história de um conjunto específico de
circunstâncias. As traduções da Bíblia, em particular, descerram vias quase
3; A infra-estrutura e o pessoal responsáveis pelo real trabalho de tradução em ·1 inesgotáveis de pesquisa para muitos tipos diferentes de estudiosos.
si requerem mais atenção, especialmente do ponto de vista da história social.
Mais pesquisa poderia ser feita sobre a identidade dos tradutores e de seu lugar 6. Por fim, mas decerto não menos importante, ainda precisamos de mais pesquisa
no contexto mais amplo da vida religiosa. Centros como a Cartuxa de Colônia, bibliográfica. Chegar a uma bibliografia definitiva e exaustiva das traduções
corporações como a Companhia de Jesus ou indivíduos como Juan Eusebio nessa área é provavelmente impossível, em virtude da fluidez da expressão
Nieremberg precisam ser abordados como partes de um todo maior, em seu "literatura devocional". Não obstante, ainda precisamos de um escrutínio bi­
contexto social, político e econômico. Questões de sexo e gênero também bliográfico mais completo dos textos traduzidos -visando a uma inclusão mais
precisam ser levantadas, especialmente porque a vida devocional é uma das global de títulos e a um levantamento mais detalhado de edições, impressores,
pouquíssimas áreas em que as mulheres desempenham um papel destacado e tradutores, locais e datas de publicação. Ter uma bibliografia das traduções teria
altamente visível no período moderno, em especial como autoras e paradigmas facilitado enormemente a composição deste ensaio. Também teria permitido
certa quantificação altamente necessária. Analisar este assunto sem uma bi­
de santidade.
4. O espírito de proselitismo da era também deve ser ·considerado, pois esse é um bliografia abrangente é quase como tentar pintar de olhos vendados. Quanto
período culminante na cristianização tanto de europeus como de não-europeus. mais completa a bibliografia, mais sólidas serão as evidências que teremos, mais
Dentro da própria Europa, a literatura devocional tem de ser abordada como claros os padrões que emergirão e mais bem equipados estarão os estudiosos
parte do processo de confessionalização, não apenas como um elo na cadeia para compreender as maneiras como os europeus cruzaram fronteiras e esta­
do disciplinamento social e da formação do Estado, mas também como parte beleceram suas identidades, não apenas como alemães, espanhóis, italianos ou
integral da formação de identidades culturais e religiosas. Fora da Europa, qualquer outra nacionalidade que se queira listar, mas como cristãos - católicos
mas também inseparavelmente ligada a ela, a literatura devocional se torna ou protestantes ou não denominados - e, mais importante, como europeus e
parte do trabalho missionário nas Américas, na Ásia e na África. As missões como homens e mulheres cientes de que precisavam se adaptar a um mundo em
não são uma via de mão única: o encontro com outros não cristãos produz constante mudança, em constante encolhimento e assolado por conflitos.
talvez tantas mudanças dentro da Europa em si como entre os ·"outros" que
são expostos à cristianização, quer à força, quer por mera persuasão. Toda a
literatura relacionada à atividade missionária, dentro e fora da Europa, tem
uma dimensão devocional e umaÍigação íntima com a tradução. Ela também
aguarda mais pesquisa a partir de várias perspectivas.
5. As traduções em si e por si também aguardam novas análises de múltiplas
perspectivas: lingüística, epistemológica, teológica e social. A vida dos próprios
textos ao passarem pela tradução é uma área de pesquisa que requer mais
trabalho, tanto de estudiosos de literatura como de historiadores sociais, não
apenas como parte da história das idéias, mas também como parte da história
da interação e da transmissão de culturas. Textos que passam por múltiplas
traduções em uma única língua ou para várias línguas podem projetar todos
os tipos de luz sobre várias questões. Por exemplo, o que se deve concluir da
versão do termo germânico lnwerken pela palavra em latim inactio e das conse­
qüências dessa tradução para a história da sociedade e da cultura espanhola

112 113
CAPÍTULO 6
A tradução da teoria política na Europa Moderna
Geoffrey P. Baldwin

Introdução

A imensa gama de idéias políticas que circulavam na Europa moderna


pode com freqüência parecer desconcertante, e trazer ordem e unidade a
-�;� esse quadro de diversidade pode ser difícil. Havia ideologias da monarquia,
oriundas tanto de uma tradição cristã como de uma ordem imperial roma­
l·\.�:
.r'":N.:_:

. na; teorias de resistência à tirania; idéias políticas republicanas vindas das


cidades-Estado italianas e da Holanda; teorias constitucionais; abordagens à
política decorrentes de um ceticismo epistemológico ou moral; idéias polí­
ticas baseadas na idéia do Estado; teorias do Direito Natural; e abordagens
científicas à organização política e à verdade moral. É extremamente difícil
dizer algo de inteligível a respeito de um sortimento tão complexo de idéias
políticas, não obstante sua importância para compreendermos o mundo po­
lítico moderno.
Metodologicamente, o estudo de tal gama de idéias políticas apresenta
uma· série de desafios. Uma abordagem recente tem sido a de ver os textos
· em questão não só em termos de seu conteúdo e de sua lógica, mas tam­
bém no contexto de sua criação. Isso pode ser concebido tanto em uma·
. situação política particular como dentro de uma tradição intelectual, ou,
mais frutiferarr:ente, como uma combinação de ambas. Tal abordagem nos_

--�:
Peter Burke e R. Po-chia ··Hsia (�rgs.) A tradução cultural nos primórdios do Europa Moderna

proporcionaria uma compreensão mais profunda da natureza e da vida des­ texto foi recebido com base nos vestígios fortuitos que chegaram até nós seria
sas idéias políticas. 1 irresponsável, por mais interessantes que sejam as reações individuais.
Com isso é possível chegar a uma compreensão mais próxima do que um Isso significa que não existe uma maneira simples de fechar a brecha
détermi�ado texto se destina a fazer, e de como ele se relaciona à cultura entre uma história das idéias políticas e uma história da cultura política.
política em questão. É possível discutir qual contexto em particular é mais Uma noção de cultura política derivada de uma tradição de mentalité, ou que
significativo, mas essa abordagem serve muito melhor aos historiadores do decorra da idéia de decodificar o poder simbólico de ações na esfera pública,
que uma busca eclética pela sabedoria política nos resquícios do passado. permanece em muitos sentidos incompatível com um exame detalhado de
Todavia, enfocar esses textos no momento de sua criação não proporciona escritÔs literários e políticos, e, todavia, também parece perverso não tentar
necessariamente uma visão da vida subseqüente dos mesmos. Sem dúvida, de alguma maneira combinar os dois.
é possível rastrear a vida dos que são citados, criticados e mencionados no Considerar a tradução pode nos servir de oportunidade para resolver
trabalho de outros, e com isso acompanhar o desenvolvimento de uma idéia essa lacuna e aumentar nosso entendimento da história das idéias na Europa
ou linguagem política conforme evolui por meio de uma série de diferentes moderna. Quando estamos examinando um texto, um dos mais importantes
textos e contextos. aspectos do contexto que devemos considerar é a tradição nacional dentro
Outra maneira pela qual os estudiosos têm tentado ver o destino das da qual ele foi criado: isso vale tanto para um contexto intelectual como po­
idéias depois que um autor as confiou ao papel é considerando esses textos lítico. Quando um texto é traduzido, ele é extraído da cultura que o criou e
como objetos físicos, e tentando rastrear como foram distribuídos, quem os posto em um lugar novo. Isso pode nos mostrar que tipo de textos e idéias
comprou e quem os leu. Robert Darnton procurou reconstruir os lineamentos eram atraentes através de frontei;·as culturais, e o que as pessoas no período
do comércio livreiro na França moderna (Darnton, 1982). Os estudiosos de moderno consideravam de valor em outras culturas. Podemos aprender algo
literatura dedicaram atenção ao que se chamou de "estética da recepção", e importante sobre preocupações e problemas comuns e como eles podiam
se concentraram no ato da leitura, além de na natureza e na distribuição do ser abordados:
livro como objeto físico. Um famoso exemplo inicial é a obra de Jardine e Isso pode ser especialmente interessante quando lembramos que o perío­
Grafton sobre como Gabriel Harvey leu o historiador romano Tito Lívio na do moderno testemunhou o crescimento da importância das idéias de nação
Cambridge do século XVI (Grafton; Jardine, 1990). Nesse exemplo, havia e de pátria: as tradições nacionais estavam se tornando mais significativas
informações detalhadas sobre as circunstâncias particulares de como esse para a cultura política. Essas tradições podem ser vistas como exclusivas em
texto foi recebido e entendido, mas esse nem sempre é o caso. alguns sentidos - definir uma tradição nacional de Literatura ou Direito era
Houve tentativas de examinar a margina/ia, de reconstruir o conteúdo de necessariamente um ato exclusivo. Ao mesmo tempo, o século XVI foi uma
bibliotecas e coleçõe�, e de examinar livros comuns para ver que ·passagens época em que muitos países estavam descobrindo um passado nacional e uma
interessavam especialmente aos leitores. Embora esse trabalho tenha pro­ constituição nacional fruto desse passado (Burgess, 1992, p.3-18).
porcionado alguns resultados interessantes, padece de um problema epis­ A Europa, no período moderno, e especialmente depois da Reforma, era
temológico histórico familiar: a informação que temos é superada de longe um continente dividido. As guerras internacionais e civis eram comuns e havia
pela que não temos. De uma tiragem de talvez três mil exemplares, podemos um extenso envolvimento internacional em conflitos civis. Essa foi taipbém
conhecer cinco ou seis reações individuais a uma obra; podemos conhecer uma época de imensas mudanças sociais, políticas e constitucionais por todo
o conteúdo de uma biblioteca em cada dez ou vinte. Embora isso talvez não o continente. A conseqüência é que grande pane da literatura política é ex-
constitua um grande problema para um estudioso de literatura que queira tremamente polêmica, e mesmo autores que consideraríamos representativos
dizer certas coisas a respeito de certos textos, para o historiador isso levanta da alta cultura muita vezes incorriam em ataques deveras virulentos. Mesmo
questões tremendamente importantes. Predicar uma idéia geral de como um textos que não continham argumentos tão específicos sobre dada situação
podiam apresentar argumentos aceitáveis em uma cultura, mas não em ou­
Ver Richter, 1990; Tully, 1988; Mulligan et ai., 1979. tra� Quando a censura era comum e a autoria podia ser perigosa,-traduzir

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Pe1er Burke e R. Po-chia Hsia (orgs.) A 1roduçõo cul1ural nos primórdios da Europa Moderna

uma obra que de algum modo criticasse aqueles no poder também podia ser trocar tratados em latim, e a publicação em latim continuou forte na Hun­
extremamente arriscado. Estar do lado errado de uma divisa confessional gria e em outras partes durante os séculos XVI e XVII. Milton defendeu o
podia levar alguém a ser queimado em uma estaca. · povo inglês em latim para. um público europeu, enquanto em casa defendia
Por isso é importante considerar o que podia ser traduzido de uma cultu­ a república em inglês.
ra para outra, e como o que era traduzido podia ser adaptado e moldado de A tradição literária e política clássica tinha decerto imensa importância.
maneira a se adequar a seu novo contexto, pois isso podia mudar a natureza Era algo a que se recorria como um lugar-comum, em termos tanto de textos
e o significado do texto. Também podia ocorrer pouca adaptação: muitas ve­ como de histórias - Shakespeare, em Macbeth, pôde referir-se aos passos ar­
zes algo àe uma cuitura era simplesmente despejado em outra, com poucas rastados de Tarquínio sem necessariamente ter lido Tito Lívio. Foge ao escopo
explicações. Muitos europeus modernos cruzav·am fronteiras culturais sem deste ensaio discutir o destino de textos políticos clássicos no Renascimento,
o beneficio de tradutores. Viam e reportavam o que se passava em outros mas é importante lembrar sua presença e significância contínuas ao lado
países, e liam essa literatura tão bem como a sua própria. das obras contemporâneas. Eles existiam tanto em seu original em latim ou
Fronteiras culturais, e �esmo as fortes fronteiras religiosas existentes, grego como cada vez mais em traduções, conforme crescia a demanda pela
eram muitas·vezes cruzadas com impunidade. Por exemplo, era comum que sabedoria política antiga: Esses textos e suas várias. interpretações formam
· uma espécie de pano de fundo para os textos que estamos considerando. Os
1
jovens aristocratas ingleses no século XVI"yisitassem a Itália e aprendessem
italiano: a existência do anticristo em Roma não os impedia. Philip Sidney, atores políticos modernos podiam tirar e tiravam coisas diretamente da Grécia
o grande herói protestante, foi um dos que fizeram isso, aprendendo, absor­ ou de Roma sem a assistência de seus contemporâneos.
vendo e adaptando a poética dessa cultura católica. Ao tomar-se a tradução como evidência histórica, outra ressalva é neces­
Eram as atividades desses indivíduos e as traduções que realizavam que sária. Um aspecto do passado com freqüência inacessível são os motivos dos
permitiam que existisse na Europa moderna uma cultura da tradução. Toda­ tradutores, alguns dos quais eram anônimos e muitas vezes obscuros. Textos
via, essa habilidade de traduzir significa que podemos nos eq�ivocar se pre­ podiam ser traduzidos por serem interessantes ou atraentes, ou graças a sua
sumirmos que um texto não traduzido não tinha nenhuma influência: não era relevância para uma situação política em particular, ou em razão de uma
de modo algum necessário que algo fosse traduzido para ser poderosamente significância mais geral. Um texto podia ser traduzido por lucro - uma das
influente em outro país, em outra época, em outro lugar. A rainha Elizabeth I principais razões para a maior importância da escrita nas línguas vulgares
da Inglaterra não era de modo algum excepcional por ser fluente em francês, foi o desenvolvimento da imprensa no final do século XV. Havia um novo
italiano e latim: no século XVI, ser instruído significava justamente isso. público para textos de todas as espécies - religiosa, literária ou política - não
Um aspecto desse cruzamento automático de fronteiras culturais era a necessariamente versado em latim. Esse público cresceu com o tempo, como
existência de uma língua franca na Europa - o latim -, pelo menos na forma também aquele segmento da população que podia ser considerada pane da
escrita (acima, p. 7 5-92). Quando Hobbes encontrou Hugo Grócio na Holan­ nação política, de modo que durante as grandes crises do século XVII, como
da, consta que conversaram em latim - embora Grócio declarasse que não _ a Guerra Civil inglesa ou a Fronda, imensas quantidades de pessoas estavam
entendera uma palavra! A existência de um texto em latim podia eliminar a lendo literatura política e agindo com base nela. Os tradutores também po­
necessidade de ser traduzido, ou demonstrar que se destinava a um público diam se enganar ao acharem que havia demanda para um texto em particular,
educado. Um aspecto do período moderno é a crescente importância das e com isso enganar-nos também.
línguas vernáculas da Europa: relativamente poucos tratados políticos foram Apesar de tudci, é permissível supor que um texto traduzido fosse con-

·r
, ,sideràdo apropriado ou interessante por sua nova cultura política: é impro­
escritos em língua vulgar antes de II príncipe, de Maquiavel, de 1513, mas em ,
1700 relativamente poucos eram escritos em latim. vável que o esforço de tradução fosse empreendido tão freqüentemente em
A tradução para e do latim é, portanto, uma parte vital desta história, já ;;yão. Também podemos, talvez, deduzir alguma coisa daquilo que n_ão foi ·
aduzido e ·daquilo em que as pessoas não pareciam interessadas, para aju­
que o latim podia ser usado como língua européia em um debate que pre­ ,,.}!
j. gar-nos a traçar os parâmetros de sua cultura política, embora .este seja um
tendia ter um público internacional. Jaime I e Roberto Bellarmino puderam ;
?.:' ·

118
· Peter Burke e R. Po\li}9 .Hsio (orgs.) .'
A tradução cultural nos primórdios do Europa Moderno

empreendimento mais arriscado (anteriormente, p.31). Deve ser possível, maior demanda por uma disseminação mais ampla de tais idéias. Por exem­
portanto, ver o que foi traduzido, de quê para quê, e quando, e assim esbo­ plo, o advogado civil Alberico Gentili, um fugitivo italiano da Inquí•lção que
çar os lineamentos e contornos dessas relações. As transformações por que acabou lecionando Direito em Oxford, teve grande influência na tradíção civil
0 texto passa no ato de tradução também podem ser vistas, incluindo que inglesa e no Direito Internacional em geral. Todavia, nem seu De iure belli [Do
tipo de adaptações precisam ser feitas para apresentá-lo em outra cultura. direito da guerra], nem seu texto absolutista Regales disputationes (Disputas
Esse aspecto do problema fica mais interessante pelo fato de que, para um régias]. de 1605; foram traduzidos, embora houvesse uma edição fm latim
tradutor moderno, a meta é reproduzir o mais próximo possível o original, deste último em Londres, em 1644, durante a Guerra Civil ingle;a, saída
mesmo que estejamos cientes da impossibilidade de tal tarefa. presumivelmente de uma prensa realista.
No estudo do período moderno, tais suposições não podem ser feitas. A tradição jurisprudencial natural espanhola do fim do século XVI tam­
Eram usados fragmentos de textos, não havia a menor noção de direitos au­ bém tendeu a permanecer em latim. De rege et regis institutione libri li[ [Três
torais e os originais eram muitas vezes encadernados e vendidos com outros livros sobre o rei e a instituição do rei], de Juan de Mariana, De íustitia et
textos, mesmo sem tradução, Por exemplo, em algumas edições holandesas iure [Da justiça e do direito], de Luis de Molina, Libri decem de iustitía et iure
em latim e algumas outras línguas, II principe, de Maquiavel, era encadernado [Dez livros sobre a justiça e o direito], de Domingo de Soco, e o Trcv.tatus de
junto com as Vindiciae contra tyrannos (Queixas contra os tiranos]. Será que /egibus ac Deo legislatore [Tratado das leis e de Deus legislador], de Francisco
isso nos diz algo sobre como essas duas visões aparentemente opostas da Suárez, ficaram todos sem tradução para qualquer língua vernác1;fa, Isso
dominação real eram consideradas no período moderno? Em outros momen­ talvez ocorresse por causa de sua natureza altamente técnica, e em ,�zão do
tos, o tradutor utiliza uma versão do texto traduzido ou de segunda mão, e fato de que seu público-alvo seria treinado em uma tradição legal �ímilar.
a nova versão se afasta ainda mais um passo do original. Seriam necessários talvez alguns estágios intermediários para que ti-; idéias
abrissem caminho até a corrente principal.
Posteriormente, no século XVll e pelo século XVIII adentro, os �-�óricos
Gênero 1 - A lei e as constituições do Direito Natural conquistaram mais seguidores. Hugo Grócio é p:-,,vavel­
mente um dos mais famosos. Seu De iure belli et pacis [Do direito d;; guerra
Com base nas traduções, muito se pode dizer quanto às preocupações e da paz]. em contraste com obras similares da Espanha, foi mui� vezes
políticas da Europa moderna e quanto à linhagem intelectual de várias ma­ traduzido, mas sobretudo após sua morte em 1645. Ele foi public.c-l..o pela
neiras de pensar sobre política. Há, no entanto, algumas dificuldades, por primeira vez em Paris em 1625, e depois disso houve oito ediçõesn<, século
exemplo, na área da jurisprudência e da jurisprudência natural. É um lugar­ XVII e três no XVlll. A primeira tradução foi, bastante previsivemente,
comum que lJm dos mais importantes desenvolvimemos ·na teoria política para o holandês em 1635, após o que se seguiram uma tradução in�esa de
do período moderno ocorreu no campo da lei natural e dos direitos naturais. Clement Barksdale em 1654 e outra, mais acurada, de W. Evats e11 _1682.
Isso podia significar duas coisas: em primeiro lugar, a elucidação de um Houve uma tradução francesa em 1687 feita por de Courtin, e em :eguida
conjunto de ordens morais ou direitos políticos, e, em segundo, a idéia de uma nova tradução em 1724 por Jean Barbeyrac, então professor de Bstória
basear a associação política em uma transferência de direitos que eram em e Direito Civil em Lausanrie.
algum ponto inerentes aos indivíduos. Isso foi expresso pela primeira vez Um padrão similar pode ser discernido nas edições de De iure run.irae et
pelos escritores da Segunda Escolástica em Salamanca, e posteriormente pelo gentium libri octo (Oito livros sobre o direito da natureza e dos pov;s], do
jurista holandês Hugo Grócio e por T homas Hobbes na Inglaterra (Brett, jurista alemão Samuel Pufendorf. Depois de passar por várias edi".1es em
1997;Tuck, 1979). latim, em 1703 foi traduzido para o inglês por Basil Kennett, presitbce do
O problema é que grande parte dessa literatura foi escrita em latim para Corpus Christi College em Oxford e autor de estudos sobre a poes�grega,
um público de advogados que usava o latim todos os dias. Em sua maioria, assunto sobre o qual freqüentemente discordava dos críticos frances�.Quan­
ela permaneceu nessa língua, pelo menos até o século XVIII, quando houve d0 apareceu a segunda edição dessa tradução, ela não apenas incorp1rou as

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Peter Burke e R. Po-chia Hsio (orgs.) A tradução cultural nos primórdios do Europa Moderna

anotações da tradução francesa de Barbeyrac de 1710 como foi anunciada Foi talvez a catolicidade das metas de Bodin que tornou esse texto tão
como "corrigida e comparada com a tradução francesa do sr. Barbeyrac". atraente em uma variedade tão grande de contextos: embora uma grande parte
Uma tradução italiana de Giambattista Almici se seguiu em Veneza, em 1757 do material fosse composta de especificidades legais, ele procurava oferecer
(Bazzoli, 1979). algumas definições políticas e legais mais gerais. Seguiram-se traduções para o
Um texto mais breve de Pufendorf, De officio hominis et civis [Do oficio do espanhol e o italiano, e em 1606 apareceu uma tradução composta em inglês a
homem e do cidadão], que servia como um compêndio do algo desajeitado partir das versões para o latim e o francês. Esse foi clatamente um texto muito
De iure naturae, foi muito popular especialmente na Inglaterra, onde foi im­ popular e importante, que se tornou aceito como a referência sobre a natureza
presso muitas vezes em latim, em Londres e Cambridge. Parece ter servido da lei e da soberania: no julgamento do dinheiro dos navios em 1637, os juízes
como cartilha acadêmica para o estudo do Direito Natural na Universidade ingleses citaram Bodin ao definir a natureza da monarquia de Carlos I.
de Cambridge, e também como uma introdução geral. Gershom Carmichael, Obras mais específicas, contudo, tinham um apelo menos amplo. No final
regente e em seguida professor de Filosofia Moral na Universidade de Glas­ do século XVI, o antiquariato legal defendia idéias de arranjos constitucionais
gow, provi�enciou notas e observações ao texto para uma edição de 1724 que deveriam ser concebidos como existentes ao longo de toda a história de
em Edimburgo, resultante de suas palestras sobre Ó assunto. Uma tradução uma nação ou Estado. Essas idéias eram usadas amiúde para defender da
francesa de De offido hominis et civis apareceu em 1696, mas evidentemente transgressão dos monarcas os direitos das cidades, das corporações ou até
Barbeyrac considerou-a de qualidade insuficiente e produziu a sua própria, mesmo dos povos. A despeito de sua relevância para conflitos políticos por ,
com notas, em 1707. toda a Europa Moderna, esses textos muito raramente eram traduzidos para
A última obra traduzida por Barbeyrac foi De legibus naturae [Das leis da . outras línguas.
natureza], de Richard Cumberland, uma vez mais com notas do tradutor, em De laudibus legum Angliae [Dos louvores das leis da Inglaterra], de For­
1744. O grande oponente de Cumberland, Hobbes, não recebeu o mesmo tescue, foi traduzido do latim para o inglês por Robert Mulcaster em 1567,
grau de atenção. Seu amigo Sorbiere, que ele conhecera em Paris enquanto e permaneceu um texto-chave no contexto inglês ao deixar de ser um texto
estivera associado a Mersenne e seu círculo, uaduziu De cive [Do cidadão] puramente legal para adqurir um significado político mais amplo. Houve uma
para o francês em 1649, e os Elements of the Law [Elementos da lei] em 1652. nova tradução em 1616, dessa vez com notas adicionais do jurista e antiquário
Seu Leviatã conquistou um público internacional primariamente por meio da John Selden, que passou por seis edições, a última em 1775. Em 1714, ano
edição em latim do próprio autor em 1668, embora houvesse uma tradução em que jorge, eleitor de Hanôver, tornou-se rei, foi publicada uma edição em
para o holandês em 1667: o radicalismo desse texto talvez o tornasse impró­ inglês com o título The differrnce between an absolute and a limited monarchy, as it
prio para a p9lítica conservadora da França de Luís XIV. more particularly regards the English Constitution [A diferença entre uma monarquia
Enquanto escritos sobre o Direito Natural tinham claramente grande absoluta e uma limitada, mais particularmente no que diz respeito à Constitui­
ressonânci,a entre fronteiras e culturas na Europa moderna, obras que se ção inglesa]. Com isso, um texto do século XV, escrito no exílio com o intuito
ocupavam mais com as especi�cidades da lei tendiam a ficar sem tradução. de persuadir Eduardo IV a governar de uma determinada maneira, tomou-se
Uma notável exceção são os Six livres de la république [Seis livros da república), parte central da interpretação whig [interpretação liberal] da história consti­
de Jean Bodin, de 1576, que passaram por várias edições no original francês tucional inglesa como sendo uma monarquia limitada, governando um povo

e também foram traduzidos para o latim, pelo autor, dez anos mais tarde em livre. Fortescue, entretanto, nunca apareceu em nenhuma outra língua.
uma edição claramente destinada ao público internacional. Bodin era um Houve uma edição continental em latim, feita por John Budden em 1610,
jurista e humanista francês que, mediante a análise do Direito, da História ·t' do
· texto de Sir Thomas Smith De republica Anglorum: The maner of Gouernment
e da Filologia, almejava ser capaz tanto de descrever os costumes políticos e ·-� · or policie of the realme of England [Da república dos ingleses: a forma de governo .
legais de uma grande variedade de culturas como de tirar conclusões sobre ::; ou política cio reino da Inglaterra], de 1576, que conheceu várias ediçõe�. Este
:
questões tão diversas como soberania, tributação, mudança revolucionária t_era menos um texto legal qu� umà descrição da Inglaterra e de como ela era
e caráter nacional. :.; governada, tal como um viajante informado poderia ter feito.
,
���;:-·., -

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º
Peter Burke e R. Po-chio Hsici (orgs.) A tradução cultural nos prim6rdios do Europa Moderno

Obras similares de outros países tiveram destinos parecidos. A Grande Desde a Segunda Guerra Mundial, muita atenção tem sido dedicada pela
monarchie de France [A grande monarquia da França], de Claude Seyssel, .de produção acadêmica à tradição republicana no pensamento político europeu
1519, teve várias edições em latim no século XVII, e foi às vezes encader­ e norte-americano. As idéias políticas das repúblicas citadinas italianas, es­
nada com As leis, de Platão. Também foi traduzida para o alemão por Geor­ pecialmente Florença, foram extensamente examinadas por historiadores
ge Lauterbeke com o título Vom Ampt der Kõnige und Regfrrung des gemeinen corno Hans Baron, Quentin Sk.inner e recentemente James Hank.ins (Hank.ins,
Nutzes in d� loblichen Kron Frankreich [Do oficio do rei e do governo da co­ 2003-2004; Skinner; van Gelderen, 2002; Skinner, 19 78; Baron, 1955). Eles
munidade no louvável reino da França], talvez por causa da relevância das enfatizaram a importância das idéias de governariça republicana surgidas na­
reivindicações francesas dentro do Sacro Império Romano contidas na obra quele contexto, e sua longevidade nos contextos inglês e norte-americano.2
de Seyssel. Dada a importância dessa tradição intelectual, menos textos do que ima­
A posterior Francogallia, do protestante francês François Hotrnan, foi tra­ ginaríamos foram traduzidos e circularam na Éuropa Moderna. O panegírico
duzida do latim para o francês quase imediatamente após sua primeira pu­ de Leonardo Bruni à cidade de Florença não foi traduzido para nenhuma
blicação em 1574. Esse texto se destinava a demonstrar a independência da língua vernácula, e o Dialogo dei reggimento dei Firenze (Diálogo sobre o regime
França em relação ao Direito Romano e a existência e validade de instituições de Florença), de Guicciardini, permaneceu em italiano. Em termos de textos
que podiam agir como um freio ao poder real. As edições em francês e latim em tradução, a tradição republicana não se mostra particularmente profunda.
�ram parte de uma campanha comum para descrever uma monarquia francesa O texto que Pocock identificou como central na transmissão dessa tradição,
limitada durante as Guerras de Religião, mas os textos não foram traduzidos apesar de sua natureza relativamente heterodoxa, foi Discursos, de Maquiavel.
para ne_nhuma outra língua. Apesar da possível relevância desse estudo para Jacques Gohorry, cujo principal interesse eram a Medicina e os remédios,
os debates sobre a constituição inglesa, ele não chegou ao inglês senão em traduziu-os para o francês em 1571, substituindo uma tradução anterior de
1711, quando foi publicado com um título que mostra o preconceito whig 1544. O texto foi impresso várias vezes na França e com freqüência encader­
do tradutor - Franco-Gallia, or an Account of the ancient free state of France and nado junto com a tradução de O príncipe, de Gaspard d'Auvergne. Houve urna
most other parts of Europe before the loss of their liberries, written originally in Latin tradução posterior em 1664, e ainda outra em 1694. Em 1615 houve uma
by the famous civilian Francis Hotman in the year I 574 [Franco-Gália, ou urna tradução para o holandês, e em 1636 outra para o inglês por Edward Dacres,
descrição do antigo Estado livre da França e da maioria das demais partes que também traduziu O príncipe quatro anos depois. Os Discursos constituem
da Europa antes da perda de suas liberdades, escrito originalmente em latim um bom exemplo de texto cuja disponibilidade não era necessariamente
pelo famoso civil Francis Hotman no ano de 1574). Em sua maioria, contudo, definida por sua tradução: ele fora impresso em Londres para um público
os textos que lidavam com questões constitucionais, fossem estas inglesas, inglês no original em italiano.
francesas, dinamarquesas ou alemãs, não encontravam público fora de seu Outro texto importante é De magistratibus et republica Venetorum libri quin­
contexto original. que (Cinco livros sobre os magistrados e a república de Veneza), de Gasparo
Contarini, concluído em 1534 e publicado em Paris em 1543, e depois disso
muitas vezes na própria Veneza. Contarini descrevia e elogiava a constituição
Gênero li - Monarcas e repúblicas republicana de Veneza que, no século XVI, permanecia um exemplo vivo e
quase único na Itália de uma política republicana. A idéia de Veneza e da po­
Um debate dentro da política do período moderno gira em torno de se lítica veneziana era importante em toda a Europa. Carlos I reagiu a propostas
uma constituição monárquica seria melhor que a republicana. Na verdade, constitucionais de seu parlamento dizendo que pretendiam reduzi-lo a um
essa questão era raramente debatida de forma explícita. Em vez disso, as "doge de Veneza". A tradução italiana, por Domenichi, do texto de Contarini
vantagens e o valor de uma forma de governo eram exaltadas às expensas da de 1544 foi publicada várias vezes em Veneza, onde seu apelo era óbvio. Mas
outra: o verdadeiro debate tendia a ser sobre qual forma de república seria
melhor, ou sobre como um monarca deveria agir. 2 VerWootton, 1994; Pocock, 1975; Robbins, 1959.

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Peter Burke e R. Po-chio Hsio (orgs.) A trodu�õo culturol nos primórdios do Europa Moderno

ele também encontrou outros públicos: houve uma tradução em francês por de edições. A tradução do primeiro texto para o inglês, publicada em 1539
Jean Charrier, publicada por Galliot du Pré, e uma tradução em inglês por r por John Bourchier, foi tirada não do original em espanhol, mas do texto em
Lewes Lewkenor em 1599.· francês, junto com o prefácio nesse mesmo idioma. Isso era relativamente
O exemplo do republicanismo veneziano foi disponibilizado em duas das ··,· comum quando um texto transitava entre diferentes línguas; o francês seria
��--
maiores monarquias d a Europa, e possivelmente teve um impacto maior no mais conhecido do que o espanhol na Inglaterra n o século XVII. Em 1557
desenvolvimento do pensamento republicano do que textos mais explicita­ houve uma tradução em in glês do texto mais c_ompleto, por Thomas North,
men te polêmicos que permaneceram sem tradução. Mais adiante no século famoso sobretudo por sua tradução de Plutarco.
XVI; em 1582, o panegírico de Paolo Paruta a Veneza, De/la perfettione della vita Mambrino Roseo da Fabriano traduziu a versão mais breve para o ita­
politica (Da perfeição da vida política), também foi traduzido para o francês, liano em 1543, encadernada com sua tradução de lnstitutio principis christiani
e para o inglês durante o i nterregno por Henry Cary, conde de Mon mouth, [A instituição do prín cipe cristão], de Erasmo, - formando uma espécie de
que traduziu os Discorsi politici (Discursos políticos), de Paruta, por volta da livro composto de aconselhamento humanista para príncipes. O te�to mais
mesma época. completo foi_ traduzido por Sebastiano Fausto da Longiano em 1553: ambas
. Apesar da importância de Veneza, era imenso o n úmero de textos tradu­ as versões tiveram um grande número de edições. Egídio Albertino traduziu
z_idos em circulação sobre monarquias, e não repúblicas. Um bom exemplo Guevara para o alemão em 1599, em uma versão que passou por numerosas
é o Reloj de príncipes [Relógio de príncipes], de Antonio de Guevara, de 1529. edições, e houve uma tradução para o latim deJohannes Wan ckel visando ao '
Guevara (1480-1545) era um franciscano espa nhol empregado n a casa do mercado alemão em 1601. No fim do século XVI, houve também uma edição
príncipeJuan, filho de Fernando e Isabel da Espanha. Posteriormente, tornou­ . em holandês do Libro áureo, e uma edição integral do Reloj de príncipes em
se monge e inquisidor, e finalmente bispo de Guadix e Mondeí'íedo. Escreveu 1617, na verdade tirada do alemão e traduzida do alto para o baixo alemão.
um livro na tradição dos espelhos de príncipes, que se passava por conselhos Quando chegamos ao século XVII, o texto de Guevara foi ainda mais longe.
do célebre imperador romano e estóico Marco Aurélio. Depois que o Libro Em 1610 houve uma tradução para o húngaro por János Draskovich, feita
áureo de Marco Aurelio foi publicado em 1528 em Sevilha, no que o autor a partir da edição em latim de Wanckel. Em 1616 houve uma tradução em
afirmava ser uma edição pirata, ele produziu uma segun da edição ampliada sueco por Eric Schroder, e em 1738 houve até mesmo uma tradução para o
com o título Reloj de príncipes, impressa em Valladolid no ano seguinte. Esse armênio, por Gabriel Hamazaspean.
segun do texto era bem maior, mais bem organizado e menos aforístico, em­ O que tornava esse texto tão popular? Parte da razão deve ser que, na
bora, assim como a primeira edição, muito do que continha fosse a sabedoria Itália e em outras regiões, a Europa era dominada por monarcas, de modo
conven cion al renascentista. Ele enumerava os valores que um prí n cipe deveria que textos refere n tes a sua devida conduta tinham um apelo óbvio. Ape­
exibir para governar bem, combin ando, como o título sugeria, virtudes pagãs sar das difere n ças de cultura política entre as nações européias, em grande
com cristãs e exortações à piedade.3 medida elas compartilhavam a instituição da monarquia. A tradução desse
Ambas as versões do texto se mostraram instantânea e consiste ntemente e de outros textos mostra que tinham em comum não apenas a instituição,
populares na Espanha e mais além. 4 Houve uma edição em francês quase mas a compreensão e as visões dessa in stituição sugeridas por autores de
imediata à versão mais breve, feita por Berthault de la Grise em 1531, nas teoria política. O que a história dos textos de Guevara demonstra é que uma
através
prensas de Galliot de Pré, a qual passou por um grande n úmero de reedições. .,.;; obra sobre a mo narquia podia ser interessante em toda a Europa,
O texto ampliado foi traduzido por Herberay des Essars (que também tradu­ "'f" de fronteiras geográficas e confession ais. Talvez a razão para que esse texto
ziu a imensamente popular história romanesca Amadis de Gau/a do espanhol) ;r;; �--·
r:ambém
-� conseguisse. atrair os protestantes é ser essencialmente um texto
como I.:orloge des princes em 1540 e também passou por um grande número · pré-Reforma.
'•:· A universalidade do apelo do texto de Guevara contrasta com a de àlguns
3 Sobre Guevera, ver Grey, 1973;Jones, 1975. · ,·textos post�riores que têm um viés confessional mais definido. O Tratado de
4 Para as edições ;:m espanhol, vu Foulché-Delbosc, 1915. '.h religión y virtuiies que debe tener d príncipe cristiano [O tratado da religião e

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Peter Burke e R. Po-�hici Hsio (orgs. } A tradução cultural nos primórdios do Europa Moderno

das virtudes que deve ter um príncipe cristão], do jesuíta espanhol Pedro de texto popular em toda a Europa e, desde sua origem em Urbino, definiu e
Rivadeneira, tinha em muitos sentidos uma moralidade da ação principesca criou a cultura das cortes no período moderno.6
tão convencional como a de Guevara. Era, porém, mais claro em seus alvos - Úm bom exemplo é E/ concejo y consejeros de/ príncipe [O conselho e os
não apenas os protestantes, mas todos aqueles que nas questões espanholas conselheiros do príncipe], do espanhol Fadrique Furió Ceriol, de 1559: este
adotassem uma estratégia politique [política] de temporizar com a Reforma. texto era em pane sobre a estrutura formal dos conselhos que formavam o
Depois de ser publicado em Madri em 1595, foi traduzido para o italiano em governo real na Espanha, e em parte sobre o caráter e as qualificações da­
1599, para o latim em 1603 e pata o francês em 1610. No contexto de sua
criação foi um texto popular, mas era impróprio para a Inglaterra, a Holanda, ·l queles conselheiros que ocupavam lugares nele. Apesar das especificidades
da política espanhola, esse texto teve um apelo mais amplo: no ano seguin.te,
a Suécia ou os príncipes protestantes da Transilvânia. uma edição italiana apareceu em Veneza, traduzida por Ludovico Dolce, um
Em tudo mais polêmica, apesar de ter entrado no Índice papal, a versão homem mais conhecido hoje como teórico da ane e amigo de Ticiano, que
de Nicolau Maquiavel no gênero dos espelhos de príncipes teve uma vívida o apoiou em uma variedade de atividades literárias. Em 1563 apareceu uma
história de traduções, talvez como uma versão subversiva de um gênero que edição em latim, e em 1570 William Blundeville o traduziu para o inglês com
estava em grande demanda, e que levantava questões morais mais comple­ um título que implicava que a hierarquia dos conselhos espanhóis era algo a
xas do que textos como o de Guevara. II principe passou por várias edições ser imitado. Uma versão da tradução em latim foi publicada em Cracóvia, e
em italiano na primeira metade do século XV I e foi traduzido para o latim dois anos depois a obra de Ceriol foi traduzida para o polonês com o título
em 1560; houve uma tradução em holandês em 1615, e uma em inglês em Rada paríska (O conselho do senhor). El consejo foi uma das primeiras obras
1640 por Edward Dacres. Ganhou traduções simultâneas para o francês por a considerar a questão do aconselhamento, e se mostrou popular do oeste
Guillaume Cappel e Gaspard d'Auvergne em 1553, e havia claramente gran­ ao leste da Europa.
de interesse por esse texto na França . Richard Tuck identificou um grupo O reino polonês, com uma monarquia eletiva, obviamente dependia de
intelectual franco-italiano ativo na França nos anos de 1560 e 1570 que se maneira ainda mais clara de bons conselhos, e por isso não surpreende que
identificava de perto com as políticas de Maquiavel e Guicciardini (Tuck, 1993, esse texto espanhol tenha chegado tão longe. Um dos poucos trabalhos a se­
.p.40-5). O interesse francês em Maquiavel persistiu no século XVII: houve guir na outra direção, do leste para o oeste, foi De optimo senatore libri duo [Dois
uma nova tradução de suas obras completas por Briencour em 1664, e em livros sobre o ótimo senador], de Wawrzyniec Grzymala Góslicki, publicado
1683 apáreceu uma outra tradução de II principe, dessa vez com notas, da pena pela primeira vez em Veneza em 1568. Góslicki se tornou uma grande figura
e da prensa de Amelot de la Houssaye.5 Foi essa edição que proporcionou política na Polônia ao retornar da Itália, onde De optimo senatore.fora escrito,
o estímulo para que Frederico II da !?rússia compusesse seu Anti-Maquiavel, e tornou�se um conselheiro com as qualidades que procura descrever. As
com o qual ela foi freqüentemente encadernada em edições do século XVIII. edições em latim foram populares, e houve uma tradução para o inglês em
Quando este último foi traduzipo para o inglês em 1741, veio completo, com 1598 - embora o tradutor tenha errado o nome, tendo uma cópia do texto,
uma tradução do prefácio de Houssaye a sua edição de Maquiavel. mas não conhecendo o autor. Uma segunda tradução em inglês apareceu em
Havia não apenas espelhos de príncipes no período moderno, mas tam­ 1660, o ano da Restauração, mas sem aqueles sentimentos que tendiam à
bém e�pelhos para aqueles que os serviam como cortesãos e conselheiros. limitação da monarquia.
Essa literatura ganhou importância no século XVI, conforme as cortes se Outro aspecto dessa literatura que se mostrou popular foi o inspirado
tornaram mais burocráticas e centralizadas: havia demanda por orientações pelo primeiro-ministro de Luís XIII, o cardeal Richelieu. Sua oposição à
sobre como se comportar em tais posições. O destino do Cortegiano, de Bal­ expansão dos Habsburgos, e com isso a seu projeto da Contra-Reforma,
dassare Castiglione, é bem conhecido: °instantaneamente, ele se tornou um era imensamente polêmica, e por isso ele incentivou escritores a apoiar sua
visão de governo e o papel de conselheiro principal, que tornara seu. Duas

5 Sobre a importância desta ediçao, ver Soll, 2004. 6 Ver Burke, 1995, esp. p.55-80.

. .-;J,_ 1

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Peler Burke e R. Po-chia Hsio (orgs.) A !redução cullural nos primórdios do Europo Moderno

dessas obras foram traduzidas para o inglês, apesar de não haver uma pessoa de 1589. Esse texto não apenas passou por um grande número de edições
equivalente na Inglaterra a quem tais sentimentos pudessem vincular-se. Le latinas, como também recebeu imediata atenção dos tradutores.
conseiller d'estat, de Phillippe de Béthune, de 1633, foi traduzido para o inglês Como sucesso europeu, a Política foi traduzida por Charles le Ber para
no ano seguinte, e o Ministre d'état, de Jean de Silhon, fez a mesma jornada o francês em 1590. No mesmo ano William Jones a traduziu para o inglês,
em 1658. e Marten Everart para o holandês. Ela apareceu uma vez mais em francês,
Textos que tratassem de monarcas e os que tratavam de cortesãos, con­ traduzida por Simon Goulart em 1594; em p<?lonês em 1595; em alemão em
selheiros e aqueles que serviam aos monarcas foram imensamente populares 1599, traduzida por Melchior Hagenaeus; em espanhol e italiano em 1604,
em ·toda a Europa nos séculos XVI e XVII. A.. teoria política se concentrou, em italiano de novo em 1618 e finalmente em húngaro em 1614.
ponanto, nas qualidades necessárias requeridas do monarca ou conselheiro, e O texto de Lípsio falava dos imperativos morais do Estado, mas embutida
com isso as diferenças entre as situações políticas dos monarcas em diferentes nos seis livros de seu texto estava uma sabedoria política mais generalizada
países europeus não tornavam as idéias de um incompatíveis com as de outro, que tinha claramente um vasto apelo. Como um texto composto de citações
como fora o caso com argumentos especificamente constitucionais. reunidas em capítulos apropriados, ele era em c_ertos sentidos uma inovação
O predomínio da tradição monárquica também �ignifica que é possível genérica não desligada do nascimento do ensaio, e isso contribuiu para sua
dizer algo sobre a tradição republicana na Europa moderna, cuja transmissão popularidade. Parte de seu apelo era também sua neutralidade· confessional,_
tinha de ocorrer não por meio de uma tradição ampla, mas de um peque­
no número de textos contemporâneos essenciais. Isso mostra que textos e
que provinha da do próprio Lípsio: ele tinha algo a oferecer tanto a católicos
como a protestantes. Em contrapartida, a Ragione di stato, de Giovanni Botero,
,
exemplos clássicos, tanto da Grécia como de Roma, continuaram a ter uma do mesmo ano, que tratava de um tema similar mas a partir de uma posição
influência importante e direta nas idéias políticas. Cícero, Salústio, Plutarco mais contra-reformista, era mais católica, e por conseqüência menos católica.
e Aristóteles foram a inspiração de boa parte do pensam�nto republicano Publicada em latim em 1590, foi rapidamente traduzida para o italiano, o
até o século XVII, e eram provavelmente mais significativos do que textos espanhol e o francês, e parece ter sido muito popular, mas nunca foi traduzida
vindos de centros do primitivo republicanismo moderno, como Florença ou para o inglês, o holandês ou o sueco.
Veneza. Isso também pode ser uma indicação de que a prática e a experiência As sátiras de Trajano Boccalini no gênero da arte do governo, os Ragguagli
de diferentes formas de autogoverno na Holanda e nas cidades da Europa, di Pamaso [Notícias do Parnaso] e a Pietra dei paragone [A pedra de toque],·
mesmo naquelas em Estados monárquicos, eram tão importantes como qual­ foram ambas imensamente populares, bem possível por causa de seu tom
quer tradição textual. descontraído. Ambos os textos foram publicados durante a década de 161O em
Veneza, onde a censura era mais leve e sua indecência não tão inflamatória.
Consistiam em uma série de breves sátiras sobre a cultura política contem­
Gênero Ili - Razão de Estado porânea, duzentas no caso dos Ragguali. Isso queria dizer que os tradutores
estavam livres para escolher a dedo o que traduzir e o que não, e assim para
A razão de Estado é usualmente associada à monarquia, mas claro que deixar de escolher o que pudesse irritar as autoridades ou sensibilidades
isso nem sempre foi necessariamente assim. Seus imperativos práticos e políticas em casa, ao mesmo tempo em que traziam de fora um ar verdadei-
morais giravam em torno do Estado como entidade abstrata e da necessidade ramente cosmopolita.
de mantê-lo vivo, e esse era um imperativo que os monarcas tentavam tornar . . Os Ragguali existiam em uma forma muito maleável - a edição em italiano
seu. As conseqüências morais da existência do aparato estatal eram muito de 1624, depois da morte de Boccalini, teve algumas sátiras extras acrescen­
importantes para os europeus modernos, especialmente no século XVII, o que .: tadas por Girolamo Briani, e esse foi muitas vezes o caso quando o texto foi
fica claro quando é considerada a tradução de textos. Um dos mais famosos '/ traduzido. A tradução em francês de 1615 era bastante fiel, mas acrescentava
estudos da tradição da razão de Estado foi o Politicorum sive civilis doctrinae ..t': um texto supostamente atribuído a Lorenzo de Médicis. A nadução para o
libri sex (Seis livros da doutrina do cidadão, ou da política), de Justo Lípsio, :;espanhol de 1634, de Pérez de Sousa, selecionou apenas aquelas sátiras que

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_,
Peler Eiurke e R. Po0çhi<;i: Hsio (o"rgs.) A lroduçõo culturol nos primórdios do Europa Moderno

não eram ofensivas para o império espanhol, e em edições posteriores outras de um público confessional estreito, católicos moderados que também se
foram adicionadas. Uma edição em latim apareceu em 1640, seguida de uma opunham à coroa. Este se tornou um texto popular e importante. Prova­
edição em alemão pouco depois e de uma tradução em holand.ês na década velmente escrito em laúm por Momay ou Languet, foi publicado em 1579
de 1670. Em 1626 surgiu uma edição de seleções em inglês, em um projeto e muito rapidamente traduzido para o francês, talvez por instigação de seu
colaborativo de John Florio, William Vaughn e Thomas Scott - embora não autor, em 1581, e substancialmente no mesmo contexto. Em 1588, ano da
seja realmente possível ver muita estratégia nas seleções, salvo o que lhes Armada, apareceu uma tradução em inglês do Livro IY, sobre a importância
caísse no agrado. Uma tradução em inglês quase completa foi produzida de defender a religião - apropriada para a Inglaterra protestante sob ameaça.
por volta de 1650 por Henry Cary, conde de Monmouth, que deixou de fora Uma tradução integral, por Wil!,iarn Walker, apareceu em 1648, às vésperas
apenas duas das sátiras, as quais eram particularmente viciosas com relação do regicídio. Walker era um jornalista e panfletista que servia como capelão
à rainha Elizabeth 1. a Oliver Cromwell, sendo tão íntimo deste que o chamavam de o "padre de
O apelo dessas sátiras em diferentes culcuras e até diferentes épocas Oliver". É bastante significativo que tenha publicado um texto desses em tal
é instrutivo; eram atraentes por si sós, além de adaptáveis, o que mostra época: isso não poderia ter sido feito sem a aprovação de Cromwell. Houve
quão importante era a razão de Estado. A discussão da razão de Estado por uma tradução em holandês em 1586, um ponto-chave nas guerras holandesas
Girolamo Frachetta foi traduzida para o francês e incluída na edição francesa contra os espanhóis para estabelecer uma república independente. Finalmen­
dos discursos de Ammirato sobre Tácito. Mesmo um texto publicado origi­ te, houve uma tradução para o sueco em 1639.
nalmente em segredo, as Considérations politiques sur les coups d'état [Consi­ De iure regni apud $cotos [Do direito do reino entre os escoceses], de George
derações políticas sobre os golpes de Estado], de Naudé, foi traduzido em Buchanan, foi publicado pela primeira vez em 1579, também em latim; era
inglês e alemão. obviamente um tanto mais específico que as Vindiciae, sendo sobre a Escócia.
Textos que se encaixam na categoria da "razão de Estado" parecem ter Passou por um bom número de edições em latim, e houve uma tradução ho­
sido muito interessantes do início do século XVII em diante, e todos, salvo landesa feita por Effert de Veer em 1598. Por uma tradução para o inglês ele
os mais religiosamente radicais, parecem ter sido capazes de cruzar fronteiras teve de esperar até 1680 - o auge da crise da Exclusão, e uma época de possí­
confessionais. No século XVII, qualquer discussão do Estado e dos imperati­ vel rebelião. Houve outra edição em 1689, depois de a Revolução Gloriosa ter
vos morais de sua existência atraía leitores de um lado a outro da Europa. As efetivamente ocorrido. Esses dois eventos foram importantes para estimular
questões de que a razão de Estado tratava - como preservar um Estado em a reflexão sobre a resistência. A crise de 1680 foi o motivo da publicação do
perigo, como seria possível criar um corpo viável de conhecimentos referente altamente conservador Patriarcha, de Sir Robert Filmer, que provocou uma
a assuntos políticos e estatais - eram comuns, e isso explica a popularidade �érie de respostas enfocando as idéias de resistência e republicanism�. 7 O
das traduções de tais t:xtos. radicalismo dos Discourses Conceming Goveinment [Discursos sobre o governo],
de Algernon Sidney, levou à sua execução, mas eles foram traduzidos para
o francês em 1702.
Gênero IV - A literatura da resistência Mais famosos são os Dois tratados sobre o governo, de Locke. Houve uma
tradução em francês quase imediata em 1691 e um grande número de edições
As teorias da resistência à autoridade estabelecida que emergiram na depois disso. Tanto Sidney como Locke foram importantes para o d�senvolvi­
segunda metade do século ·xv1 têm sido vistas como uma parte muito im­ mento do republicanismo francês no século XVIII, e, claro, em suas versões
portante da história das idéias, especialmente aquelas que exigiam ação em originais, para as idéias norte-americanas de independência. A resistência
nome de um povo que tinha se constituído antes da autoridade que sobre continuou importante durante todo o período moderno, e uns poucos tex-
eles imperava. Talvez a mais famosa manifestação dessas idéias fossem as
Vindiciae contra tyrannos [Queixas contra tiranos], escritas por um hugueno­
te durante a� Guerras de Religião francesas, mas destinadas a atrair, além 7 Sobre Filmer e as reações a ele, ver Daly, 1979.

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Peter Burke e R. Po-chio Hsio (orgs.) A tradução cultural nos primórdios do Europa Moderno

tos-chave tiveram um alto grau de influência, especialmente no pensamento .. Houve tanta demanda pelo texto na Inglaterra que o trabalho de impres-
político da França, da Grã-Bretanha e da Holanda. ,d,· sáo teve de ser repartido emre várias oficinas para se manter em dia: os súdi­
,_. tos de Jaime estavam ansiosos para ler sobre seu novo rei. Houve até mésmo
•. · wna edição em versos de William Willymat, consistindo no texto vertido em
Tradução e intenção 1 - Jaime I e o basilikon doron versos paralelos em inglês e latim. Contribuir para o gênero dos espelhos de
príncipes poderia mostrar suas habilidades não apenas a seus novos súditos,
Uma coisa que complica a história da tradução são os diferentes motivos mas ao mundo mais ampio da política européia. Em linha com suas idéias
que podia...'TI haver para traduzir-se um texto, e é instrutivo considerar exem­ irenistas, houve um interesse inicial por parte da Europa católica, além da
plos em que tais motivações possam ser deduzidas. Um texto em que isso protestante. O jesuíta inglês Robert Parsons leu trechos do livro para o papa
fica claro é o Basilikon doron, de Jaime VI e I, publicado pelo rei da Escócia às Clemente VIII, e afirmou que o papa se comovera com a experiência; "e, a
vésperas de sua ascensão ao trono inglês. Ele constitui um exemplo interes­ bem da verdade, eu muito admirç, várias coisas nesse livro, e nunca poder.ia
sante por causa d� tentativa de Jaime de que seu texto cruzasse fronteiras cul­ ter imaginado o que nele veria. Que Jesus Cristo o faça católico, pois ele seria
turais e, o que é especialmente significativo no fim do século XVI, fronteiras um· espelho para todos os príncipes" (Calendar of State Papers Domestic,
confi;ssionais também. O título grego Basilikon doron significa "a dádiva real", 1603-10, p.8; citado em Craigie, 1950, p.27).
e esse texto foi um exemplo da literatura principesca tão popular na Europa Parsons em seguida providenciou para que uma tradução em latim fosse
por essa época. Foi escrito em I 598, e dirigido a seu filho Henrique por um feita para o exame do papa, afirmando na carta que a acompanhava que fora
rei possivelmente preocupado com a própria morte e com a luta sucessória encomendada e era uma tradução fiel.
pelo trono inglês. O manuscrito original foi escrito no dialeto escocês, e a f� Con questa vanno l'ultimi folii della traduttione dei libro de! Re d'lnglaterra,
primeira edição impressa continha certa anglicização: foi de certo modo a commandatici da vostra Santità, il padre che l'ha tradotto e huomo dotto et
primeira tradução. Em segredo, William Waldergrave imprimiu sete cópias confidente et s'ha sfor zato d'esprimere la vera semenza dell'autore, et reddere
em Edimburgo em 1599, que foram entregues a criados de confiança da coroa, sensum sensui.8 (Fendo Borghese IV, 95, Biblioteca do Vaticano; citado em Crai­
inclusive ao tutor do príncipe Henrique (Craigie, 1950, p.4-8). gie, 1950, p.28)
Seguiu-se uma batalha com a Igreja escocesa quando o livro foi censurado,
sem que se mencionasse a identidade do autor, por opiniões erastianas sobre O papa também recebeu uma cópia da versão em latim impressa em
o governo da Igreja. QuandoJaime se tornou rei da Inglaterra em 1603, o livro Londres em 1604, na primeira parte de uma campanha européia. Apesar
se tornou parte de uma campanha publicitária para demonstrar suas capacida­ desse interesse, os acontecimentos prevaleceram sobre o texto. Na esteira da
des como monarca e seu direito de governar o novo reino, o da Grã-Bretanha. Conspiração da Pólvora, a imposição de um voto de fidelidade aos católicos
Jaime enfrentava o desafio de combinar seus dois reinos em um só e de forjar ingleses e a controvérsia pessoal de Jaime com Bellarmino sobre o assunto
uma identidade política que lhe per!]1itisse governar efetivamente em ambos. levaram à inclusão da obra no Índice.
Houve, portanto, uma edição nova e ampliada em 1603, com maior grau de , Jaime ainda queria ser um espelho para todos os príncipes da Europa.
anglicização, de modo que os habitantes de seu novo reino pudessem ler o ;;.,_ Jean Hotman, filho do jurista huguenote François Hotman, foi incumbido
livro. Em um novo prefácio ao leitor, Jaime asseverava sua ortodoxia religio­ _ por Thomas Parry, o embaixador inglês em Paris, de realizar uma tradução,
sa e a probidade dos conselhos do livro, realçando a figura de rei sábio que ::.,_ que Jaime examinou antes de autorizar que a lançassem. Embora Hotrnan
desejava assumir. Ele levava a sério seus conhecimentos, tendo sido educado i_. se queixasse de não ter sido pago, sua obra foi uma versão fiel, só tendo
por George Buchanan, autor de De iure regni apud Scotos [Do Direito do re�no �· ·.
it; -,-.---
entre os escoceses], e se orgulhava de sua habilidade de discutir em latim e [Com esta seguem-se as últimas folhas da tradução do livro do rei da Inglaterra, solicitado
em outras línguas com seus oponentes políticos e religiosos, inclusive, famo­ por Vossa Santidade; o padre que o traduziu é homem douto e de confiança, e se esforçou
sz.mente, co:n o cardeal Bellarmino quanto ao Voto de Fidelidade. · por exprimir o real pensamento do autor, e reproduzir sentido por sentido].

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f'ee" Burke e R. p;'.ch_io Hsio (orgs.)
-. A tradução cultural nos primórdios do Europa Moderna

expurgado aquelas passagens que seriam difíceis para os católicos engoli­ Tradução e intenção li - Jean Barbeyrac e o Direito Natural
rem. Ela se mostrou r:nníto popular ria França após sua publicação em 1603,
passando por muitas edições em Paris e Lyon, inclusive edições piratas. No Se, como autor, Jaimes VI e I podiam inspirar traduções, então, inversa­
· ano seguinte, saiu a t::ram1ç.âo oficial em latim, da qual há cópias em todas as mente, às vezes é um tradutor que estabelece um programa de tradução e
grandes bibliotecas da Europa. sendo que a encontrada em Uppsala pertenceu publicação de textos que os apresenta sob uma nova �uz.Já vimos que muitos
a Sigismundo III, rei da Suécia e da Polônia. textos de Direito Natural foram traduzidos por Jean Barbeyrac na primeira
A Europa meridional continuava problemática. Jaime fizera a paz com a metade do século XVIII, mas deve-se enfatizar que essa foi uma tentativa
Espanha e queria que seu rexto continuasse essa reaproximação. Dois ingleses destinada a contribuir com algo que ele sentia estar faltando na vida intelec­
foram incumbidos de uaduzi-lo: John Florio (autor do primeiro dicionário tual francesa. Com isso, ele apresentou um conjunto de idéias imensamente
inglês-italiano e tradutor de Montaigne) para o italiano e John Pemberton importantes para o progresso do Iluminismo francês.
para o espanhol. Essas duas edições, contudo, não chegaram a passar do O que tornou essas traduções tão significativas foi a extensão em que
manuscrito para a impressão - o protestantismo de Jaime estava claramente Barbeyrac as introduziu, anotou-as e procurou moldar a forma como eram
dificultando que ele fosse lido por grupos de outras denominações confes­ percebidas. Pará ele, elas eram parte de um projete, maior: a apresentação,
sionais, apesar da natureza convencional do texto. O Basilikon doron se saiu em francês, de uma filosofia moral sistemática que se ajustasse a suas idéias
melhor na Europa setentrional. Houve duas traduções para o holandês Jogo religiosas e epistemológicas. O primeiro livro que produziu foi uma tradução
de início, e em 1604 apareceu uma edição em galês, bem como outra em e anotação de De iure naturae et gentium [Do direito da natureza e dos povos],
alemão por Emmanuel Thompson, em 1604; Eric Schroder o traduziu para o de Samuel Pufendorf, uma obra imensamente popular desde sua publicação
sueco em 1606, e houve uma versão em húngaro em 1612.9 Talvez fosse seu em 1672, tendo passado por muitas edições em Londres e Amsterdã. Ele a
fracasso na Europa meridional que o tornava um sucesso em outras partes, prefaciou com uma história da moralidade que procurava mostrar por que a
já que esse texto era uma versão protestante de um gênero - os espelhos de obra de Pufendorf em particular e os teóricos seiscentistas do Direito Natural
príncipes - antes dominado pelos católicos e que, como tal, proporcionava em geral eram tão importantes.
conselhos apropriados para um príncipe e líder de uma Igreja Protestante Foi a natureza sistemática de Pufendorf que atraiu Barbeyrac. Ela conseguia
nacional. Os príncipes da Alemanha, da Suécia e da Transilvânia podiam seguir um curso entre o ceticismo completo - citando Montaigne como exem­
aprender a ser reformados sem levar a Reforma longe demais e se tornar plo dessa posição -e uma posição ultramontana, incluindo a crença nas idéias
fantoches de uma Igreja radical. inatas e a observância servil da interpretação católica das Escrituras: a obra
. A rapidez com que as traduções apareceram por toda a Europa depois contém um ataque de fôlego aos Pais da Igreja. Seu ímpeto para isso se devia
que Jaime se tomou rei deve ter sido parte de uma campanha destinada a em parte a ele pertencer.à diáspora hug·uenote, os protestantes franceses que
estabelecer sua credibilidade real e intelectual. Apesar de seu protestantismo, tinham sido expulsos da França em 1685, e que estavam por trás de uma série
havia aspectos de seu texto que podiam atrair leitores através das fronteiras; de diferentes críticas da doutrina moral e política dos católicos franceses. 10
a crer em Parsons, até o papa achava que ele tinha seus pontos positivos. Para justificar esse projeto, Barbeyrac apela para o Ensaio sobre o enten­
O ímpeto para a tradução era o desejo de Jaime de ser um rex pacificus [rei dimento humano, de Locke (ele elogia a tradução francesa de Coste): Locke
pacificador] em uma Europa dividida, e sua identidade sem dúvida ajudava ataca as idéias inatas, e todavia também proporciona uma base para acredi­
a vender a obra. A julgar pelo sucesso do texto, sua tentativa pode até ter tar-se na razão humana. Ele estava suficientemente investido nessa posição
dado certo, pelo menos em algumas partes do continente, e mesmo entre para passar algum tempo atacando a crítica religiosa de Sherlock a Locke
seus próprios súditos. e sua reafirmação da noção das idéias inatas. Um sistema moral racional e
empirista era o ideal. Pufendorf é elogiado como a culminação do projeto de
9 Craigie afirma (2) que houve também uma versão em dinamarquês, mas não há evidências
disso. Sobre a tradução para o holandês, Stilma (2005), p.159-237. 10 Hochstrasser, 1993, situou Barbeyrac nesse contexto religioso.

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A traduçõo culturol nos primórdios da Europa Moderna
-� Peler Burke e R. Po-chia Hsia (orgs.)

Grócio, após a interrupção do equivocado Hobbes, que serve como antídoto sionalmente, as criticava, acrescentando passagens de outros autores e aquelas
ao sacerdócio enganoso: . do próprio Pufendorf. Era um processo eclético, e que, como Barbeyrac sabia,
;'.- dissipava as fronteiras entre autor e editor. Ele inclui as idéias de outros:
Eles não nos deixaram um Sistema metódico, não definem exatamente todas as
!:! Virtudes, não entram em Detalhes, só dão, conforme a ocasião requeira. Preceitos Transmiti muitas vezes apenas seu Sentido geral, à minha própria Maneira; de
i gerais, dos quais devemos· extrair Conseqüências para aplicá-las ao Estado e às modo que, a menos que eu cite suas próprias Palavras em Itálico, ou assinaladas
·1
1 Circunstâncias de Pessoas específicas, como seria fácil demonstrar por muitos com Aspas invertidas, não se deve imputar tudo o que eu digo ao Autor de quem
! Exemplos, se a Coisa não estivesse evidente para todos os que leram, ainda que tomo emprestada alguma Idéia. Usei o mesmo Método no tocante às Reflexões
com pouco Cuidado, as Sagradas Escrituras. E. aqui transparece, para mencio­ perdidas do Autor, que removi para as Notas, pois nem sempre distingui exata­
ná-lo apenas de Passagem, até onde devemos confiar nos Expedientes daqueles mente as Coisas que intercalei ou adicionei. (Pufendorf, 1749, p. 74)
que, depois de terem feito Questão de arruinar à Certeza da Luz da Razão, nos
remetem à Luz da Fé para a resolução de nossas Dúvidas: como se a luz da Fé A apresentação de uma moralidade sistemática racionalista por Barbeyrac
não supusesse necessariamente a da Razão. (Pufendorf, i 749, p.72) mostrou-se imediatamente popular e famosa por toda a Europa. Ele domou
·'.. · a latinidade germânica de Pufendorf par� um público francês para o qual o
Em contrapartida, para Barbeyrac, a filosofia sistemática de Pufendorf estilo literário era tão importante quanto a exatidão lógica, e ao fazer isso
demonstra a conformidade da razão e das Escrituras: para provar isso ele cita deu-lhe uma vida nova.
Richard Cumberland, cujo De legibus naturae toas leis da natureza] ele pos­ Seu projeto não parou por aí: ele ainda traduziu De iure belli et pacis [Do
teriormente traduziria. A apresentação do texto feita por Barbeyrac incluía a direito da guerra e da paz], de Grócio, e por fim o tratado sobre Direito
feitura de alterações durante a tradução, para corrigir o que era, a seus olhos, Natural, de Cumberland. A importância de seu trabalho ficou clara quando
o barbarismo do latim de Pufendorf. Sua tradução deixou de fora algumas apareceu a segunda edição da tradução em inglês de Basil Kennet, de 1703,
passagens, especialmente aquelas de citação extensiva de outr�s autores como que Barbeyrac lamentou não ter visto antes de seu próprio trabalho. Não só
prova, e acrescentou outras, muitas delas da obra mais breve de Pufendorf, De as notas de Barbeyrac, e mais tarde seu prefácio, foram incluídas, traduzidas
officio hominis et civis [Do oficio do homem e do cidadão], que se tornara um então para o inglês, como o próprio texto foi anunciado como comparado e
texto universitário popular. Se sentisse_que a explicação era insuficiente, ele corrigido segundo o texto de Barbeyrac. O mesmo foi feito com a tradução·
a expandia, segundo, a seu ver, os princípios de Pufendorf. Era um processo de Grócio para o inglês.
geral de esclarecimento e apresentação que ele justificou fervorosamente (esta A progr�ssiva importância do trabalho de Barbeyrac ficou clara durante o
passagem da introdução não foi incluída na versão inglesa, já que Kennet não conflito entre anglicanos da Baixa e da Alta Igreja na Inglaterra na década de
mudara o texto da mesma maneira): 1720. O whig Thomas Gordon, que junto com John Trenchard escreveu Cato's
Letters [As cartas de Catão], as quais se tornaram uma expressão clássica da
Pous les autres, s'ils veulent admirer jusq'aux négligances, & aux beYÍles d'un ideologia whig e se mostraram imensamente influentes tanto na Grã-Bretanha
Auteur d'ailleurs tres-estimable, ce n'est past en leur faveur que j'ai soutenu un
·.· como na América, usou Barbeyrac para seus próprios fins. Gordon tomou o
si long & si pénible travai!: ils peuvem le mépriser, & s'en tenir au Latin; il n'est
ataque aos Pais da Igreja da introdução recém-traduzida a Pufendorf e impri­
point craindre que !'Original se perde.11 (Pufendorf, 1706, sig m, lv)
miu-o com uma introdução sua. Em uma época de grande crise no Estado e
Suas notas completavam esse projeto, aiando um texto composto que era parte na Igreja ingleses, essa foi uma tentativa de refutar à acusação de fanatismo
Pufendorf e parte Barbeyrac. Nelas, ele defendia as idéias de Pufendorf e, oca- a que os dissidentes estavam amiúde sujeitos, apontando para a duvidosa
base filosófica da Alta Igreja em oposição à moralidade da Baixa Igreja, tend_o
Barbeyrac.
11 [Quanto aos outros, se q uiserem admirar até as negligências e os enganos de um aut�r de resto , sido assim. um projeto compatível com o de

muito estimável, não é pelo bem deles que empreendi um trabalho tão longo e tão penoso: · ./: : . O exemplo de Barbeyrac ilustra tanto a importância da tradução para a
eles podem menosprezá-lo e se ater ao latim; não há risco de que o original se perca.] . ;�,. �smissão de idéias como a variedade de papéis envolvidos em tal transmis-

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Peter Burke e R. Po-chio Hsio (orgs.) A tradução cultural nos primórdios do Europa Moderno
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são. Suas traduções foram imensamente importantes para as idéias morais e censurados ou alterados para um dado público, por vezes a pedido do autor,
poÍíticas do século XVlll. Em sua escolha de textos, e em seu remodelamento e por vezes por um tradutor ansioso por criar um mercado ou apresentar
de peças por vezes obscuras, ele atingiu um nível de influência no mínimo novas idéias. A adaptação podia ser um processo positivo, permitindo que
equivalente ao dos próprios autores. Assim, o prestígio de um tradutor de- um conjunto de idéias florescesse em um novo contexto e proporcionando
. dicado podia chegar longe tanto temporal como geograficamente. inspiração a uma geração nova e diferente. As id�ias políticas dos séculos
XV1Il e XIX deveram muito aos esforços dos autores do período moderno.

Conclusão - Fronteiras da diferença

A tradução revela muito sobre as fronteiras intelectuais e morais na Eu­


ropa moderna e sobre quão porosas elas eram. Houve relativamente poucas
idéias políticas traduzidas entre a Europa oriental e a ocidental, embora isso
talvez não reflita uma incompatibilidade entre as duas, mas sim a contínua
importância do latim no Leste, onde havia maior densidade de línguas ver­
náculas dentro dos mesmos Estados e impérios. Havia também um grau
maior de censura dentro do Império Habsburgo no leste, que afetava centros
como Praga e Graz. As fronteiras confessionais também pesavam muito, e
se tornaram cada vez mais importantes após o Concílio de Trento e o enri­
jecimento das diferenças religiosas entre protestantes e católicos. Enquanto
alguns textos, como Guevara, conseguiram passar, outros, como o Basilikon
doron, de Jaime VI e I, não o fizeram. Isso continuou a afetar escritos de mui­
tos tipos até o século XVIII: as obras francesas da diáspora protestante, que
tanto fizeram para estimular o Iluminismo francês, eram publicadas antes em
Amsterdã do que em Paris: os livros podiam evadir as fronteiras mediante o
movimento físico, tão bem como pela tradução.
O que foi traduzido rev.ela a importância do monarca na Europa moderna,
e o fato de que as idéias políticas com freqüência se centravam nessa figura
ou naqueles que a serviam. A monarquia e o Estado eram grandes temas
que tinham certa universalidade, o que permitia que textos que tratassem
deles transitassem entre o Ocidente e o Oriente, entre católicos e protes­
tantes. Esse predomínio, contudo, não conta toda a história em razão da
persistência de textos republicanos clássicos e sua adaptação e importância
dentro dessas monarquias. O exemplo de Roma e a prática do autogoverno
nas cidades podiam tomar alternativas à monarquia prontamente disponíveis
para a mente moderna.
Tradução também significa adaptação, e a atitude eclética e por vezes
mercenária dos tradutores modernos significavà que havia sempre um fluxo
e refluxo de idéias políticas através da Europa moderna. Textos podiam ser

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CAPÍTULO 7
Traduzindo histórias
Peter Bu.rke

Seguindo o modelo antropológico sugerido na introdução, este capítulo


examinará traduções de obras históricas como evidência do que os leitores
em diferentes países achavam particularmente interessante ou estranho em
outras culturas no período moderno. Uma descrição das tendências gerais será
seguida por estudos de caso das traduções da História da Itália, de Francesco
Guicciardini, e da História do Concílio de Trento, de Paolo Sarpi.

. O que exatamente conta como uma obra de história não é tão fácil de de-

"<
5,/ cidir como se pode pensar. O próprio termo "história" em diferentes línguas,
do grego antigo historia em diante, constitui um desafio para os tradutores
':. (Lianeri, 2006) . 1 A fronteira entre a história e a ficção era porosa, e alguns
;}' estudiosos podem objetar a inclusão, aqui, de traduções das obras quase his­
� tóricas de Eustache le Noble. A fronteira entre a história e a biografia sempre
·ifoi aberta. No que se segue, biografias são geralmente omitidas, ma� foram
:'tncluídas nos casos de Alexandre,
'
o Grande, Carlos 11 da Inglaterra, o impe-
�'�\-:-.
··1).. � •

�·):,, Meiy; agradecimentos ao autor por mostrar-me esse capítulo antes da publicação.
A tradução cultural nos primórdios da Europa Moderna
Peter Burke e R. Po-chia Hsia (args.)

rador Carlos V, Carlos IX da Suécia, Colombo, Cromwell, Gustavo Adolfo, e 1792. A tradução dos clássicos atingiu seu pico no século XVI. o lento
Henrique IV da França, Henrique VII da Inglaterra, o imperador Leopoldo, declínio d �pois_ di�so pode significar uma perda de interesse pelos clássicos,
Luís XI, Olivares, Filipe da Espanha, Richelieu, Sebastião de Portugal, o papa ma� pode indicar simplesmente o reconhecimento de que a tarefa já fora con­
clui da. Alguns desses textos foram comercialmente bem-sucedidos durante
Sisto V e Wallenstein.
o que conta como tradução é igualmente dificil de dizer com precisão. um longo período. A versão italiana de César por Baldelli, por exemplo, 0
Por exemplo, um livro do humanista toscano Leonardo Bruni sobre os godos Josefo em alemão de Lauterbach e o Tácito em holandês de Hooft passaram
é por vezes descrito como uma tradução livre de Procópio, mas também como todos por muitas edições. O tradutor francês Nicolas Perrot d'Ablancourt
uma obra original (embora derivada - "roubada", de acordo com Gibbon), notório por sua liberdade (anteriormente, p.37), traduziu Arriano' Césa/'
que foi ela própria traduzida em italiano, francês, alemão e inglês. Aqui o Tácito, Tucídides e Xenofonte.
texto será tratado como original, seguindo-se a descrição que o autor fez da Os "dez mais" entre os autores antigos foram os seguintes: T ácito (28
obra como "não uma tradução, mas um livro escrito por mim" (non translatio traduções dos Anais, das Histórias ou de ambos); Josefo (26 traduções das
sed opus a me compositum). Um problema similar ocorre no caso da história da Antigüidades, da Guerra judaica ou de ambas); Salústio (21 traduções de Cati­
Guerra Púnica de Bruni, nesse caso baseada em Políbio - ou traduzindo-o /ina,Jugu rta ou de ambos); César (18); Cúrcio (IS); Xenofonte (14 traduções
livremente. 2 Ademais, o humanista francês Blaise de Vigenere produziu uma da Anábase, da Ciropédia ou de ambas); Justino (12); Tucídides (I l); Políbio
edição do cronista medieval Villehardouin à qual acrescentou urna versão do (l l); Diodoro Sículo (11).
texto que descrevia como "mais moderna e inteligível". Embora tenha sido Esses não são exatamente os autores que poderíamos esperar. Tomem-se
feita do francês para o francês, essa versão será contada como tradução. os trinta primeiros anos de traduções impressas, 1476-1505. As dezessete
Diversamente de outros capítulos no volume, este se ocupará apenas de traduções publicadas nesse período não incluem nada de Heródoto, Tucídides
ou T ácito. E r:1 :ez disso, encontramos quatro traduções de Cúrcio, quatro
traduções publicadas. Algumas traduções circularam, sim, em manuscrito _ _
no período, incluindo uma tradução medieval em russo de Josefo, tradu­ de Valeno Max1mo, duas de César, de Josefo, de T ito Lívio e de Plutarco, e
ções em alemão e espanhol da história das Índias pelo jesuíta Maffei, uma uma de Justino.
tradução em espanhol da história dos turcos feita por Cambini, traduções Oitenta traduções de 27 textos "medievais" foram publicadas, desde a
em alemão e inglês da obra dos humanistas italianos Sabellico e Polidoro história da Igreja por Eusébio (traduzida oito vezes) e de outros escritores
Virgílio, e uma tradução em italiano e outra em russo do estudo do Impé­ cristãos até Froissart (traduzido duas vezes). Incluíam a História eclesiástica
rio Otomano pelo romeno Dimitrie Cantemir. Mesmo assim, o volume de do povo inglês, de Beda (traduzida duas vezes para o inglês), e a crônica de
traduções publicadas em comparação com as poucas que permaneceram em sax � Gr �ático em dinamarquês (traduzida duas vezes para esse idioma),
_
manuscrito é tão avassalador que pouco se perderá com a omissão das últi­ sinais de Interesse pela história nacional. A inclusão de quatro cronistas das
mas nesta visão geral. cruzadas (Benedetto Accolti, Roberto, o Monge, Geoffroi de Villehardoin e
A importância de traduções modernas dos historiadores antigos seria Guilherme de T iro) é um lembrete de que os historiadores medievais não
de esperar. Em primeiro lugar, traduções do grego para o latim. No Renasci­ foram necessariamente desprezados na era do Renascimento.
mento, algumas foram empreendidas por humanistas famosos como Lorenzo ·· Treze traduções de sete historiadores do mundo muçulmano, que escre­
.
VIam em árabe, turco OU persa, apareceram impressas nessa época, entre elas
Valia (que traduziu Heródoto e Tucídides), Poggio Bracciolini (Diodoro e
Xenofonte) e Angelo Poliziano (Herodiano). Nos vernáculos, pelo menos 274 uma crônica otomana anônima e os anais escritos por Sa'duddin bin Hasan
traduções de 25 historiadores antigos foram publicadas nos 350 anos entre a ···· Can (também conhecido como Khojah Efendi), tutor do sultão Murad III,
invenção da imprensa e o final do século XVIII, mais exatamente entre 1476 p ublicados em latim, alemão, tcheco, italiano e inglês. Por outro lado, não
incluíam Ibn Khaldun, cuja fama no Ocidente só veio mais tarde. Além disso,
entre ,.
h �uve uma única tradução do chinês, uma versão para o francês da obra de
2 Bruni citado em Totley, 2004, p.36-7. Sobre a relação com Políbio, Botley hesita Sima Guang pelo jesuíta). A. M. de Moyriac de Mailla (1777-85). O interesse
"tradução" (26) e "remodelamento".

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pela história do Islã era um sinal da inquietação ocidental quanto à expansão como sua História de Florença deixou de ser traduzida para o espanhol. Não
do Império Otomano. é nenhuma surpresa saber que historiadores protestantes eram raramente
traduzidos no mundo católico - as exceções à regra é que são interessantes.
,,.. A história da Reforma do luterano Johann Sleidan apareceu em italiano-em
li 1557, pouco antes de o Índice de Livros Proibidos ser imposto a toda a Igre­
ja, enquanto a Crônica, do humanista alemão Jo�ann Carion, apesar de ter
No que segue, daremos mais ênfase ao que foi menos estudado até agora, sido editada por Filipe Melanchthon, apareceu em espanhol em 1553, antes
a obra de historiadores ocidentais "modernos", de Leonardo Bruni a William de ser incluída no Índice em 1559. No mundo protestante, por outro lado,
Roscoe, o historiador de Lorenzo de Médicis. É difi�il pensar em uma maneira vários livros de padres católicos como Paolo Sarpi, Famiano Strada e Louis
de compilar uma lista completa desses historiadores, mas, como no caso da Maimbourg foram publicados em tradução, mas às vezes disfarçados como
tradução para o latim (acima, p.75), acho possível afirmar que examinei uma protestantes, como veremos.
grande amostra. foram de_scobertas até agora 553 traduções publicadas de O mais interessante, ou pelo menos o máis bem documentado, exem­
340 textos escritos por 263 historiadores modernos. plo de uma não-tradução, ou, mais exatamente, da não-publicação de uma
(;orno a introdução deste volume sugeriu, podemos aprender alguma coisa tradução, se refere a uma versão em espanhol da History of América [História
tanto com a "exportação" como com a "imponação" de textos - em outras pa­ da América], de William Robertson. Proposta pela Academia de História,
lavras, com as línguas das quais e para as quais os textos foram traduzidos. apoiada pelo conde de Campomanes e traduzida por Guevara y Vasconcelos,
O italiano (com 93 textos) liderou a lista de línguas a panir das quais os esse texto teve sua publicação proibida por decreto real (Cafiizares-Esguerra,
historiadores foram traduzidos, seguido pelo francês (noventa), o latim (sen­ 2001, p.171-82).
tenta), o inglês (36, sobretudo para o holandês até o século XVIII), o espanhol Quanto a problemas lingüísticos, os historiadores britânicos padeceram
(25), o alemão (dez), o português (cinco), o holandês (três), o gr�go (dois), o pelo fato de o inglês não ser bem conhecido no continente antes do fim do
tcheco (dois) e catalão, hebraico, polonês e sueco, com uma tradução cada. século XVII. Costantino Belli, que traduziu a descrição do Império Otomano
O inglês liderou as línguas para as quais os textos foram traduzidos, com por Paul Rycaut a partir do francês, se desculpou no prefácio com a obser­
140 itens, sendo seguido pelo latim (121), o francês (102), o holandês (88), o vação de que "esta história foi escrita em inglês, talvez a língua mais difícil
alemão (oitenta), o italiano (59) e o espanhol (trinta). As demais línguas tive­ da Europa". Que a história de Henrique VII por Francis Bacon tenha apare­
ram uma contagem baixa: sueco (oito), polonês e russo (sete cada), português cido em duas traduções, em francês e latim, em 1627 e 1640, foi bastante
(quatro), dinamarquês e grego (dois cada) e árabe, húngaro e remanche (um incomum para a época. Todavia, a situação estava gradualmente mudando.
cada). A inesperada importância do inglês e o baixo desempenho da Espanha A história da Reforma por Gilbert Burnet foi traduzida para o holandês em
devem ser notados. Como no caso da tradução em geral (acima, p.24-25), a 1686, para o francês em 1687 e para o latim em 1689, enquantçi a história da
Suécia entrou no ci�cuito no século XVIl e a Rússia, no XVIII. "grande rebelião" de Lorde Clarendon apareceu em francês em 1704-1709, e
A maioria das traduções tratava da história da Europa ou de países espe­ a história de Burnet sobre sua própria época, em alemão, holandês e francês
cíficos dentro dela nos períodos medieval e moderno. Por volta de 64 textos entre 1724 e 1735.
tratavam de antigüidades. Cerca de cinqüenta lidavam com o mundo fora da
Europa, quer assumissem a forma de histórias universais, quer enfocassem
regiões como o Império Otomano, a China ou a América espanhola. Cerca de 111
quarenta textos tratavam de religião, fosse em história eclesiástica, heresias
ou missões. Os historiadores mais bem-sucedidos podem merecer um exame mais
Vale notar, como de costume (anteriormente, p.31), o que não foi traduzi­ cuidadoso: os.dezesseis autores cujos dezoito textos foram traduzidos cinco
do e por que razões. A presença de Maquiavel no Índice, por exemplo, explica �:; vezes ou mais cada, perfazendo 120 traduções ao todo (\er Apêndice 1),

146
. . Peter Burke e R. Po-chia H_sio (orgs.) A troduçõo cultural nos primórdios da Europa Moderna

. Um texto traduzido onze vezes foram as memórias de Carlos, o Temerário, bertson, também teriam aparecido na lista se as datas deste estudo tivessem
e de Luís XI, por Philippe de Comrnynes. Como vimos (anteriormente, p.84), sido estendidas por mais alguns anos (duas obras d e Robertson apareceram
só as traduções para o latim tiveram no mínimo quinze edições. Outro relato em qu.atro línguas cada antes de 1800 e em outras línguas no século XIX).
em primeira mão, a história da queda da dinastia Ming na China pelo jesuíta A história política assume o primeiro lugar nesta lista, com onze textos.
italiano M.artino Martini, foi traduzida nove vezes. Graças a suas traduções Pode ser significativo que três deles lidem com guerras civis, na China, na
para O holandês e o inglês, a obra de Martini foi usada como inspiração para Holanda e na França. A história religiosa é representada pela história da
obras de dramaturgia por Joost van Vondel (Zungchin, 1667) e Elkanah Settle Reforma, de Sleidan, e pelo relato do Concílio_ de Trento e a história dos
(A conquista da China, 1676) (Hsia, 2000). A História da Itália, de Francesco benefícios, de Sarpi, mas as histórias das cruzadas, das Índias, da revolta da
Guicciardini, também foi traduzida nove vezes. Holanda e das guerras civis na França tinham todas muita coisa a dizer sobre
Dois textos foram traduzidos oito vezes cada: os Comentários, de Sleidan, a religião. Dos dezesseis autores, seis eram clérigos.
um estudo que pode ser descrito como uma história política da Reforma, e Os dezoito textos foram traduzidos de seis línguas: latim (seis), italiano
a História do Condlio de Trento, de Sarpi. Duas foram traduzidas sete vezes: a (cinco), espanhol (três), francês (dois), português (um) e alemão (um), e
História dos inventores, do humanista italiano Polidoro Virgílio, e a Introdução para onze línguas: inglês (22), francês (21), holandês (quinze), alemão (ca­
à história internacional, do teórico político Samuel Pufendorf, que era pro­ torze), italiano (onze), latim (dez), espanhol (sete), sueco (cinco), polonês
vavelmente usada como livro-texto nos colégios. (três), dinamarquês (dois) e português (um). Em outras palavras, eles mais
Cinco textos foram traduzidos seis vezes cada: a História de seu próprio ou menos seguem o padrão das traduções da história moderna em geral.
tempo, do bispo italiano Paolo Giovio, a História de Florença, de Maquiavel, os
Quatro impérios do mundo, de Sleidan, a Guerra neerlandesa, do jesuíta Strada
(uma história da revolta contra a Espanha) e a História das cruzadas, do ex-je­ IV
suíta Maimbourg. Como as traduções das crônicas de Villehardouin e outros
mencionados, o sucesso desta obra específica do prolífico Maimbourg é um Quem lia todas essas traduções? Os números para diferentes línguas,
testemunho do contínuo interesse europeu pelas cruzadas, um movimento listados anteriormente, nos dizem algo de importante, muito embora seja
que em certo sentido não se encerrou senão ao final do século XVII, quando necessário lembrar que uma tradução para uma determinada língua pode
se fez a paz entre os impérios Otomano e Habsburgo. circular fora da área em que ela é a língua materna. No século XVIII, por
Seis textos foram traduzidos cinco vezes cada: a História natural e moral das exemplo, alguns brasileiros leram a história da América, de Robenson, em
Índias, do jesuíta José de Acosta, o relato das guerras de Carlos V, de Luís de francês.3
Ávila a História da descoberta do Novo Mu;do, de Fernão Lopes de Castanheda, O patronato oferece pistas adicionais sobre o público leitor das traduções,
as Guerras civis da França, de Enrico Caterina Davila, a História dos benefícios, de sugerindo a importância da história para as classes governantes. Antoine
Paolo Sarpi, e a História da conquista do México, do espanhol Antonio de Solís, Macault traduziu Diodoro para o francês para o rei Francisco I (sobrevive um
que era mais conhecido como dramaturgo e hoje está quase esquecido. retrato seu que o mostra apresentando seu livro ao rei), enquanto o tradutor
Os dezoito textos incluem vários clássicos, notavelmente as obras de de Guicciardini para o latim dedicou o livro ao rei Carlos IX. Na Saxônia,
Commynes e Guicciardini, mas há também surpresas para os leitores mo­ Georg Forberger dedicou sua tradução de Guicciardini ao eleitor, que ihe deu
dernos, em especial a presença de Solís, Martini e Ávila. O lugar de Ávila uma pensão para que ele traduzisse mais obras de história.
na li�ta se deve provavelmente a uma tentativa deliberada de propaganda Na Inglaterra, o duque de Norfolk pediu a Barday que traduzisse Salús­
(anteriormente, p.24). Quanto a Martini, ele tinha, como Strada, Acosta e tio. William Ceei!, ministro da rainha Elizabeth, pediu que Arthur Golding
(por algum tempo) Maimbourg. a vantagem de ser um jesuíta, já que, como finalizasse a tradução de Cúrcio iniciada por Brend. Christopher Hatton, uma
vimos (anteriormente, p.21), essa Ordem estava profundamente envolvida no
ofício de traduzir. Historiadores de ponta do Iluminismo, como Gibbon e Ro- 3 Sobre o cónego Luís Vieira, Maxwell, 2003, p.114.

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Peter Burke e R. Po-chio Hsia (orgs.) A tradução cultural nos primórdios do Europa Moderna

figura de destaque na corte de Elizabeth, foi objeto da dedicatória da versão Outros eram escritores profissionais, como os poligrafi venezianos (Bareggi,
de B edingfield para a história de Florença por Maquiavel. Três tradutores 1988). Quatro dos quatorze indivíduos recém-mencionados trabalhavam para
eram próximos ao rei Carlos I. O próprio rei estimulou William Aylesbury a um único editor, Gabriel Giolito, que tivera a idéia de lançar uma série ou um
traduzir Davila. Aylesbury foi auxiliado em sua tarefa por Charles Cotterell, "colar" (collana) de textos clássicos em tradução junto com "jóias históricas"
mestre-de-cerimônias da corte. Sir Robert Stapleton ou Stapylton, que tra­ (gioie historiche) mais recentes. Tommaso Porcacchi editou a série para Giolito
duziu Strada, era outro cortesão, além de ex-monge beneditino, convertido de 1550 em diante, traduzindo ele próprio cinco textos. Ludovico Domenichi
ao_protestantismo. O último tradutor francês de Sarpi, Pierre-François le também traduziu cinco, enquanto o poeta Francesco Baldelli traduziu oito
Courayer, dedicou seu trabalho à rainha Carolina da Inglaterra, que lhe pedira textos, de modo que Giolito deve ter achado que traduzir história era um bom
que realizasse a tarefa e lhe concedera uma pensão. No caso de Le Courayer, negócio. 4 O exilado espanhol Alfonso Ulloa também trabalhou para Giolito,
a tradução foi publicada por subscrição, de modo que sabemos que o livro traduzindo, entre outras obras, a história dos portugueses na Ásia, de João de
foi comprado - se não lido - pelos grandes e pelos bons, como bispos, pares Barros, Zárate sobre a conquista do Peru, Lopes de Castanheda sobre as Índias
do reino e diretores de colégios em Oxford e Cambridge. e uma história das viagens_ de Colombo (Cochrane, 1981, p.317-19; Binotti,
As bibliotecas e seus inventários também têm muito a nos dizer sobre o 1996). Giollto não era o único a crer que história venderia, pois pelo menos
. público leitor de obras históricas em tradução, bem como na língua original. oito obras históricas foram traduzidas po'r_ outro poligrafo, Pietro Lauro, que
Por exemplo, William Ceei! possuía uma cópia de Guicciardini na tradução em trabalhava para vários editores venezianos.
latim, como também ocorreu com Philip Marnix, conselheiro de Guilherme, A maioria dos textos traduzidos pelos poligrafi era obra de historiadores
o Silencioso, os reis Jaimes VI e I e Andrew Perne, o diretor de Peterhouse. antigos, mas os modernos incluíam a crônica de Carion, a história de seu
Sete colégios de Cambridge ainda possuem cópias de Guicciardini em latim, , tempo, de Paolo Giovio, Olao Magno sobre a história do norte da Europa e a
provavelmente adquiridas nessa época. Além disso, William Camden e An­ história das invenções, de Polidora Virgílio (Bareggi, 1988). Em outros países,
drew Perne possuíam Commynes traduzido para o latim, assim como seis uns poucos escritores profissionais, como o holandês Lambert van den Bos e
bibliotecas colegiais de Cambridge, enquanto Lancelot Andrewes possuía o capitão inglês aposentado John Stevens, se especializaram em traduzir obras
Sarpi em latim. de história moderna. O mesmo fez o nobre e amador conde de Monmouth,
Voltando-nos para as versões em inglês, Andrewes possuía Commynes e que se concentrou em textos italianos recentes como o de Guida Bentivoglio
a Histón"a de Florença, de Maquiavel; T homas Baker possuía Bentivoglio; Lady sobre a revolta da Holanda e o de Paolo Paruta sobre Veneza.
Anne Clifford, Commynes; Sir Christopher Hatton, Maquiavel; e Sir Edward
Coke, tanto Maquiavel como Guicciardini. A História do Concílio de Trento, de
Sarpi, em inglês, podia ser encontrada nas bibliotecas de Sir Edward Dering, V
um destacado membro do Parlamento; do funcionário público Samuel Pepys
(célebre por seu diário); e _de William Byrd, dono de uma plantação na Vir­ Algumas traduções eram anunciadas em sua página de rosto como par­
gínia, que também tinha Guicciardini e Davila em inglês. ticularmente fiéis. A História do Concílio de Trento, de Paolo Sarpi, foi assim
Uns poucos estudos de caso dos 500 tradutores modernos de obras his­ descrita na página de rosto da edição alemã de 1621 como "cuidadosa e fiel­
tóricas podem ser esclarecedores neste ponto, já que tradutores podem ser mente traduzida" (Jleissig und trewlich versetzt), enquanto a versão da História
vistos como leitores particularmente bem documentados. dos beneficios, de Sarpi, publicada por Cario Caffa em 1681, foi descrita como
Quatorze indivíduos publicaram cinco ou mais traduções cada, ou 89 "vertida do italiano para o latim, segundo a letra e o estilo do autor" (ex italico
textos ao todo. Alguns deles podem ser descritos como "humanistas", e se in latinum versus, iuxta Literam Stylumque Authoris).
especializaram em traduzir história antiga: o alemão Hieronyrnus Boner, por
exemplo, o mestre-escola inglês Philemon Holland, e Claude de Seyssei, bispo
que também era conselheiro de Luís XII da França. Sobre a collana; Grendler; 196�, p.158; cf. Cochrane, 1981, p.383, 388, 420, 487.

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PeterBurke e R. ·p�si:hi� Hsio (orgs.) A troduçõo cultural nos prim6rdios do Europa Moderno

Apesar de tais declarações, a traduçãó irite.rlingüística de historiadores era um exemplo paradoxal nesse contexto, pois, diversamente de seu amigo
ao mesmo tempo uma forma de tradução cultural, ou seja, uma.adaptação às Maquiavel, desconfiava de regras gerais que não dessem suficiente atenção
necessidades, aos interesses, aos preconceitos e às maneiras de ler da cultura- ;, ao que nós chamamos de "contexto" e ele, de "circunstâncias".
alvo, ou pelo menos de alguns grupos dentro dela. Tome-se o caso da tradução Mesmo assim, as observações gerais sobre eventos particulares feitas
em inglês de Pedro Mexia por William Traheron, que continuou a história por Guicciardini em sua história receberam ênfase especial e algumas vezes
dos imperadores até sua própria época e também, "por alguma razão", como foram tiradas do contexto por seus editores, tradutores, impressores e leito­
John Pocock recentemente observou, omitiu "um eloqüente relato do valor e res. Antologias desses aforismos foram publicadas separadamente e também
da antigüidade dos nobres e reis da Espanha" (Pocock, 2003, p.251). traduzidas para o latim. De maneira similar, uma gnomologia foi adicionada à
Obras de história, antigas e modernas, eram geralmente lidas no período edição de Procópio de 1594 em Genebra, ei:iquanto os volumes editados por
moderno como exemplos de conduta a imitar ou a evitar. Como um tradu­ Nannini e Belleforest já mencionados também foram dotados de índices de
tor de Guicciardini para o latim observou em 1597 (bastante ironicamente, "aforismos dignos de nota".
na· dedicatória de uma coletânea de máximas do autor, Hypomneses politicae A tradução cultural de histórias será agora explorada um pouco mais a
[Memorandos políticos]), a história ensina "não por meio de preceitos nus fundo por meio de estudos de caso ou de micro-histórias da recepção euro­
e frígidos, mas com exemplos ilustres e vívidos" (non nudis ac frigidis praecep­ péia de Guicciardini e Sarpi, e em particular da acomodação de sua obra ao
tis, sed illustribus et vivis exemplis). A importância da exemplaridade pode ser • mundo protestante.
ilustrada pela atenção dada a discursos e aforismos.
Hoje, os leitores podem muito bem se sentir tentados a pular os discursos
que encontram em histórias antigas ou modernas, discursos que sabem ter VI
sido inventados pelos historiadores, e não proferidos pelos agentes históri­
cos. No período moderno, em contraste, os discursos eram tratados como as Nunca houve uma comparação realmente completa das traduções mo­
árias de uma ópera - em outras palavras, como a melhor parte. Antologias dernas da Storia d'Italia, de Guicciardini (nove traduções de um longo texto
de discursos foram produzidas e traduzidas. Por exemplo, os discursos de para seis línguas),5 mas seria provavelmente reveladora, dada a liberdade
Tito Lívio apareceram em francês em 1554. Antologias gerais de discursos de _. normalmente exercida pelos tradutores nesse período para tanto ampliar
historiadores antigos e modernos apareceram em italiano (em dois volumes _..:. como abreviar o texto original (anteriormente, p.38). Para um brevíssimo
editados por Remigio Nannini, em 1557 e 1561), francês (editada por Fran- � exemplo do processo de ampliação, pode-se tomar a versão em 11lemão; por
çois de Belleforest, 1572, uma versão ampliada de Nannini) e latim (�ditada Georg Forberger, do famoso retrato _a pena de Alexandre VI, onde a "crueldade
por Justus Ge-senius, 1674, e Christoph Keller ou Cellarius, 1699). mais que bárbara" (crudeltà piu che barbara)" do autor se torna a "tirania e a
A organização dessas antologias dá alguma idéia de como eram usadas. :; crueldade mais que turcas" (mehr denn Türckische tyranny und grausamkeit).
Nannini e Belleforest produziram um volume de discursos militares cada.: Para um exemplo ligeiramente mais extenso de tradução cultural, podemos
,..
um, enquanto Nannini também editou um volume de orações "civis e cri- C nos voltar à relativamente pouco conhecida versão em holandês do livro de
minais". Os prefácios sugerem que o público-alvo era o dos conselheiros,· ,. Guicciardini, publicada em Dordrecht em 1599 como De oorlogen van lt{llien [As
embaixadores e capitães .. guerras da Itália], título que foi presumivelmente escolhido porque uma ênfase
Quanto aos aforismos, a referência desdenhosa a "preceitos nus e frí- -: em guerras de que a Espanha tomou parte atrairia os leitores da Holanda na
gidos" não deve ser entendida muito seriamente como evidência de uma··. época. O nome do tradutor não é conhecido; mas há indícios de sua filiação
atitude geral, já que algumas edições de Guicciardini (a edição de Veneza em' religiosa. A longa cana introdutória ao leitor descreve Guicciardini como um
1574, por exemplo) dotaram o texto de uma gnomologia, ou índice de aferis�; bom católico, m�s ciente das malfeitorias do papado, e interpreta as guerras
mos, permitindo que os leitores os encontrassem sem ler o livro inteiro (cj!;
aforismos também eram assinalados nas margens). Guicciardini constitui 5 Algumas edições e traduções são discutidas em Luciani, 1936.

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Peler Burlce e R. Po-chia Hsia (orgs.) A tradução cul!ural nos primórdios da Europa Moderna

italianas como exemplos dos "justos julgamentos de Deus" (Godes rechtveerdige uma nota dizendo que a passagem fora omitida da edição italiana) e também
oordeelen). Marginalia impressos reforçam a mensagem religiosa, introduzindo em uma edição em italiano publicada em Genebra em 1621. Entre 1602 e
referências a Deus onde o texto não o faz. O notório esboço do caráter de Ale­ 1739, o texto foi reimpresso separadamente pelo menos onze vezes em uma
xandre VI aparece com uma glosa marginal, notando que o comportamento ou mais das quatro línguas mencionadas. Raras vezes um texto censurado
do papa estava longe da perfeição que São Paulo desejara ver em um bispo, atingiu tão ampla circulação, especialmente traduzido.·
enquanto no livro quatro, em que Guicciardini discute os Estados Pontificios, Embora Guiccíardini tenha de fato escrito essas passagens, podemos
os ma:ginalia se tornam ensaios em miniatura sobre a Igreja primitiva, algo dizer ainda assim que o fato de ter aparecido impresso revela uma leitura
que interessaria aos leitores calvinistas holandeses da época. protestante de sua obra. Ele escreveu por volta de 1530 e morreu em 1540,
O destino das passagens censuradas na história de Guiciardini constitui em uma época em que ainda parecia que a cisão entre católicos e protestan­
outra ilustração vívida da tradução cultural. A edição original - póstuma - da tes poderia ser reparada. Aparecendo uma geração mais tarde, com a ênfase
Storia d'Italia, publicada em Florença (1561-1564), não era um texto comple­ especial proporcionada pela publicação à parte, a crítica do poder papal foi
to. Certos cortes foram feitos por Bartolomeo Concini, secretário do duque vista como muito mais radical. Pode-se dizer que os leitores protestantes
da Toscana. Como resultado, o livro fez sua primeira aparição destituído de éomeçaram a ver Guicciardini como um aliado.
uma importante "digressão" sobre as origens do poder temporal dos papas,
bem como de certas observações críticas sobre os conclaves papais e de um
retrato nada lisonjeiro de Leão X. Por outro lado, o retrato ainda mais pun­
gente de Alexandre VI foi mantido na primeira edição, embora desaparecesse
da tradução de Florez de Benavides para o espanhol (1581), quer por razões Foi isso também o que aconteceu no caso de Paolo Sarpi, notoriamente
religiosas, quer "nacionais" Gá que Alexandre, originalmente Rodrigo Borja, descrito por Bossuet em sua Histoire des variations des Églises protestantes [His­
era espanhol). tória das variedades de Igrejas protestantes] (1688) como um "Protestant
Os primeiros tradutores, incluindo alguns protestantes, aparentemente habillé en moine" [protestante trajado de monge] com "un coeur calviniste" '[um
não sabiam que o texto a partir do qual estavam trabalhando tinha sido coração calvinista]. Mesmo a primeira edição italiana da Historia dei Concilio
cortado. Por isso as primeiras edições da versão em latim por Celio Secundo Tridentino (1619), de Sarpi, foi "traduzida" no sentido de publicada no exterior,
Curione, um protestante piemontês refugiado na Suíça (1566), a versão em em Londres, depois de o manuscrito ser contrabandeado de Veneza por meio
francês de Jérôme de Chomedey, consei/ler no Parlamento de Paris (1568), e a da embaixada britânica (uma história insolitamente dramática para um livro)
versão em inglês feita - a panir do francês - por Sir Geoffrey Fenton (1579) (Yates, 1944; Burke, 1967). Nos paratextos da primeira edição, a Historia foi
careciam todas das passagens censuradas. reenquadrada como obra protestante, ou pelo menos como uma obra mais
Fenton estava um pouco atrás de seu tempo, uma vez que em 1579 já violenta e abertamente antipapal do que o próprio texto.
era de conhecimento público que o texto da primeira edição italiana estava Por exemplo, a página de rosto chamava atenção para "os artifícios da
incompleto, e que pelo menos uma cópia do manuscrito original estava em corte de Roma para impedir que a verdade dos dogmas se revelasse e que
circulação (a versão em latim publicada em Frankfurt em 1609 se diz tirada se tratasse da reforma do papado e da Igreja" (1 'artifici de/1a corte di Roma
"ex autographo florentino" [do original florentino]). A passagem ofensiva sobre per impedire che né la verità de dogmi se palesasse, né la riforma dei Papato e de/la
o poder temporal foi publicada separadamente (em latim e em francês, bem Chiesa si trattasse). Também houve uma dedicatória a Jaime I por ainda ou­
como no italiano original) na Basiléia, em 1569, por Pietro Perna, o refugiado tro refugiado italiano, Marco Antonio de Dominis, ex-arcebispo de Split,
protestante italiano que publicara a tradução de Curione, e uma vez mais mas por essa época deão de Windsor. A dedicatória se referia a "espíritos
em Londres (dessa vez com a adição de uma versão em inglês) em 1595. Ela livres" que tinham ciência das "fraudes e enganos" (le frodi et inganni) d.a
foi restaurada em edições posteriores das traduções em francês e em inglês · corte de Roma e de suas "invenções e estratagemas diabólicos" (inventioni e
(nesta, a panir da terceira, de 1595), na tradução em holandês de 1599 (com stratagemi diabolici).

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· Peter Burke e R. P�-chio Hsio (orgs.) A tradução cultural nos prim6rdios do Europa Moderno /

Alguns verbetes do índice sustentavam esta mensagem. Winston Chur­ A tradução em alemão de 1620, por outro lado, incluiu a "escandalosa"
chUI não foi a primeira pessoa a usar o índice de um livro - em seu caso, dedicatória, e no mínimo afiou a linguagem da página de rosto:
a história da Segunda Guerra Mundial - como arma polêmica ("Baldwin, Darinn alie Rancke un(d) Practicken entdecht warden/mit welchem der Bapst
Stanley, confessa ter posto o panido acima do país"). A tradução holandesa and der Rõmische Hoff den Keyser und die Stande des Reichs wegen dess Begenen
de Guicciardini, já discutida, inclui um verbete sob o P, "Papa arranca um Concilii eine lange Zeit geãffet.6
bocado de dinheiro do Jubileu" (Paus vischt groot ghelt uit de Jubelee), e outro
sob o G, apontando a discussão crítica de Guicciardini sobre a ascensão dos
Estados Pontifícios. Outros dentre os primeiros leitores reagiram de maneira similar. O erudi­
No caso de Sarpi, essa idéia foi levada ainda mais longe. Por exemplo, o to francês Pierre Dupuy, por exemplo, escreveu a seu amigo William Camden
índice da primeira tradução em francês inclui verbetes sobre a "Reformation que o livro teria ficado melhor sem a dedÍcatória e o subtítulo (Utinam abesset
frivole de Pie IV " [Frívola reforma de Pio IV ], a "Servitude du concile par les praefatio et etiam pars ultima tituli) [Quisera lhe faltasse o prefácio e também a
commandements de Rome" e a "Usurpation et artífice notable de Rome. última pane do título]. Outro erudito francês, Nicolas Claude Peiresc, tam­
A tradução em latim inclui verbetes como "Paulus III se Concilii cupientis­ bém escrevendo a Camden, concordou, dizendo ser uma pena que o editor
simum simulate" [Paulo III pretensamente animadíssimo com o Concílio], não fosse tão moderado como o autor, tendo sido incapaz de "s'abstenir non
"Translationi Concilii color queritus" [Um pretexto é buscado para mover o seulement de l'arraisonement qu'il a ajouté au titre, et des mots piquants et
conselho] e "Valdenses per multa secula soli pontificiae tyrannidi contrarii" paniaux qu'il a entrelacé en l'indice des matieres, mais aussi de son éphre
[Os valdenses, por muitos séculos os únicos oponentes da tirania papal]. A liminaire" [se abster não apenas do arrazoado que ajumou ao título e dos
tradução em inglês é fria em comparação, embora de fato encontremos um termos mordazes e parciais que intercalou no índice dos assuntos, como
verbete sob "Paulo III", "Sua principal virtude era a dissimulação". O índice também de sua epístola preliminar]. 7
para a tradução em alemão de meados do século XVIII é também moderado, As intenções de de Dominis (como as do próprio Sarpi) podem ter sido
exceto no que diz respeito ao cardeal Sforza Pallavicino, que escreveu contra mais ecumênicas do que protestantes, mas foram entendidas como protes­
Sarpi. tantes pelos ingleses mais envolvidos na publicação da história, o arcebispo
O próprio Sarpi preferia a linguagem da ironia e da insinuação à decla­ George Abbot, o diplomata Sir Dudley Carleton e o advogado Sir Nathaniel
ração direta, e o debate sobre suas atitudes religiosas ainda continua, mas é . ·il" Brent (um cliente de Abbot).
particularmente interessante nesse contexto notar que o autor ficou emba­ A mensagem paratextual foi frisada nas traduções da Historia que apare­
raçado pela maneira como seu livro foi reenquadrado na primeira edição a ceram no mundo protestante.no século XVII, incluindo a tradução em inglês
fim de atrair leitores protestantes. O secretário de Sarpi, Micanzio, escreveu (1620) de Brent, a anônima tradução em alemão de 1620, a tradução erri latim
para de Domirtis se queixando " [d]aquele título tão impróprio e [d]aquela anônima (também de 1620), feita na verdade por Sir Adam Newton, deão de
dedicatória terrível e escandalosa" (que/ tito/o impropriissimo e quella dedica Durham, a tradução em francês de Diodati (1621) e a tradução em holandês
terrible escandalosa) (Bianchi-Giovini, 1836, v.II, p.308). de 1621, de certo Marcus de Rogeau.
O próprio Sarpi, ouvindo que Jean Diodati, um calvinista de origem ita­ Esta última, que se limita aos primeiros cinco livros da história, inclui
liana que morava e lecionava em Genebra, estava planejando publicar uma uma longa cana prefacia] aos Estados-Gerais comentando a perseguição de
segunda edição da história, escreveu para pedir-lhe que omitisse a dedicatória, protestantes nos Países Baixos na época de Carlos V e criticando o papa, ou
que também está ausente da tradução da história em inglês, publicada em
6 [Em que se revelam todas as intrigas e práticas com que o papa e a corte romana, por conta
1620 (Makolm, 1984, p.57, 126). Vale notar que o subtítulo desta tradução
de seu desejado conálio, há muito macaqueiam o imperador e os grandes do império] (a
é mais brando do que o da primeira edição em italiano, referindo-se simples­ referência à "macaqueação" dos Estados do Sacro Império Romano é interessante como
mente às "práticas da cone de Roma, para impedir a reforma de seus erros e tentativa de demonstrar a relevância do livro para o público alemão).
manter sua grandeza" (Viallon e Dompnier, 2002, p.xliv-li). 7 13 de julho de 1619; citado em Vivanti (1974), p.xci.

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Peter Burke e R. Po-chic Hsic (orgs.) A lrcduçõo culturol nos primórdios do Europa Moderno

mais exatamente o que o autor chama de os dois papas (o segundo sendo traduit deux different auteurs" [os que confrontarem nossas duas traduções
o general dos jesuítas). Não há índice, mas a linguagem pesada da página quase crerão que traduzimos dois autores diferentes]. Le Courayer repete esta
de rosto é mantida, assim como a dedicatória de de Dominis em inglês é crítica a Diodati e acrescenta a sua própria a Houssaye. Essas controvérsias
traduzida. De modo geral, a tradução em si é fiel: foram; por outro lado, os deixam muito claro como pequenos detalhes podem fazer uma grand� con­
margina/ia que deram a Sarpi um sabor protestante, pois enfatizam os engodas tribuição para o efeito de um livro. Detalhes que, como vimos, nem sempre
papais e menos sumariam do que moralizam, com um uso regular de pontos foram fornecidos pelo autor.
de exclamação, em particular ao comentar a hipocrisia papal.
Uma tradução católica precisa ser mencionada aqui, pois se trata de uma
tradução antipapal (embora o autor acrescentasse ao texto uma declaração de · Apêndice 1: Os historiadores mais traduzidos
seu catolicismo). A versão de Sarpi por Amelot de la Houssaye foi publicada
na França em 1683, logo depois da famosa asserção de independência da Igreja l. José de Acosta, Historia natural y moral, italiano (Galucci) 1591; holandês
Francesa ("Galicana") nos Quai:ró Artigos de 1682. O livro contém verbetes an­ (Linschoten) 1598; alemão 1598; francês (Regnault) 1598; inglês (E.
tipapais e anticlericais, além de margina/ia, às vezes tão longos que contornam a Grimestone) 1604.
p�gina. Sob o verbete "Moines" [monges], por exemplo, encontramos "envieux 2. Luis de Ávila, Commentario, italiano, francês, flamengo, latim, inglês (Wilkin­
les uns des autres" [invejosos uns dos outros] e "comment ils s'enrichissent" son), todas de 1555.
[como eles se enriquecem], enquanto uma nota marginal comp ara um papa 3. Philippe de Commynes, Memoires, italiano (Raince) 1544, (Conti) 1612;
com Tibério (Houssaye era grande admirador de Tácito) dada sua habilidade latim (Sleidan) 1545-8, (Barthius) 1629; inglês (Danett) 1596, (Uvedale)
de dissimulaçfo: "Plus ce pape tenoit le concile en brassiere, plus iI affectoit 1712; holandês (Kiel) 1612, (Haes) 1757; alemão (Klosemann) 1643;
de paroitre populaire dans son discours" [Quanto mais esse papa mantinha o espan hol (Rizo) 1625; sueco (Schroder) 1624.
concílio em rédea curta, mais tentava parecer popular em seu discurso]. 4. Enrico Caterina Davila, Guerre, francês (Baudoin) 1644; inglês (Cotterell
A tradição de publicar a História em países protestantes continuou pelo e Aylesbury) 1647; espanhol (Varen de Soto) 1651; latim (Cornazanus)
século XVIII. A tradução de Sarpi em francês, publicada em 1736, apareceu 1735; inglês (Farnesworth) 1758.
em Londres, obra_de Pierre-François le Courayer, um padre que deixara a 5. Paolo Giovio, Historia sui temporis, francês (Sauvage) 1550, (Parq-Cham­
França após sua defesa da validade das ordens anglicanas e recebera uma penois) 1555; italiano (Domenichi) 1555; espanhol (Villafranca) 1562;
pensão do governo britânico. Essa edição também é digna de nota por seus alemão (Forberger e Haluerius) 1570; holandês (Heyns) 1604.
paratextos virtuais, um frontispício alegórico incluindo um velho com uma 6. Francesco Guicciardini, Storia d'Italia, latim (Curione) 1566; francês Q.
lan terna e uma vinheta da tentativa da corte de Roma de assassinar Sarpi em Chomedey) 1568; alemão (Forberger) 1574; inglês (G. Fenton) 1579;
Veneza. Outras obras de Sarpi sobre o interdito veneziano, sobre a história espanhol (Florez de Benavides) 1581; holandês 1599; espanhol (epítome,
dos beneficias e sobre a Inquisição foram apresentadas de maneira similar Nato) 1683; inglês (Goddard) 1735; francês (Favre) 1738.
em suas várias traduções. 7. Fernão Lopes de Castanheda, Descobrimento, francês (Grouchy) 1553; es­
Como no caso de Guicciardini, essas muitas versões de Sarpi nunca foram panhol 1554; italiano (Ulloa) 1577; inglês (N. Lichefield) 1582; holandês
examinadas tão detalhadamente como merecem, embora as controvérsias a (Hoogstraten) 1670.
seu respeito (especialmente a respeito das três traduções em fr an cês) sugiram 8. Niccolô Machiavelli, Historia Fiorentina, francês (Brinon) 1577; inglês (Be­
o interesse potencial de tal estudo.8 Em seu prefácio, Ho�ssaye, por exemplo, dingfield) 1595; latim (Turler) 1610; inglês (M. K.) 1674; francês 1694;
acusou Diodati de não entender nem italiano nem francês, e declarou que · holandês (Ghys) 1703.
. "ceux qui confronteront nos deux traductions croiront quasi que nous avons 9. · Louis Maimbourg, Croisades, holandês (Broeckhuizen) 1683; italiano
(Emiliano) 1684; inglês (Nalson) 1685; polonês (Andrzej) 1707; latim
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8 . Um começo já foi feito per ViaJlon; Dompnier, 2002. (Wietrowski) 1723; alemão 1776.

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. Peter Burke e R. Po-cliio Hsio (orgs.) A tradução cultural nos prim6rdios do Europa Moderno

1o. Martino Martini, De bello tartarico, aleinão (Paullinus) 1654; francês (Gi­ 1609 "Discursus de ortu pontifici imperii", in Monita política, Frankfu rt
rault) 1654; holandês (GLS) 1655; inglês 1654; italiano (Latini) 1654; (latim, italiano, francês).
espanhol (Aguilar y Zufüga) 1665; po rtuguês (Goméz Carneiro) 1657; 1609 Paralipomena quae ex ipsius Historiarum libris iii, iv et x in exemplaríbus
dinamarquês, sueco (Nidelberg) 1674. hactenus impressis non leguntur, Frankfurt (latim).
11. H. Samuel Pufendorf, Einleitung, sueco (P. Brask) 1680; alemão 1682; ho­ 1618 Guicdardini, History of Italy, Londres, "with restitution of a dí t,es­
landês (V ries) 1684; francês (Rouxel) 1685; latim 1687; inglês (Bohun) sion towad the end of the 4th booke, effaced out of ali the lt;jlian
1695; ílJ.SSO. and Latine copies in ali the late editions" ["com a restituição de uma
12. Paolo Sarpi, Historia dei Concilio di Trento, inglês (Brent) 1620; latim (Newton) digressão próximo ao fim do 4o livro, apagada de todas as cf;pias
1620; holandês (Rogeau) 1621; francês (Diodati) 1621; francês (Houssaie) italianas e latinas em todas as edições recentes").
1683; francês (Le Courayer) 1736; alemão 1620? (Rambach) 1761. 1629 "A part of the Historie of Francis Guicciardine, stolen out of his
13. Paolo Sarpi, Beneficii, inglês (Denton) 1681; latim (Caffa) 1681; francês third Booke concerning Pope Alexander the sixt", "A second J;l,ace
(Houssaie) 1685; alemão 1688; inglês Oenkyns) 172 7. conteining a large discourse by what meanes the Popes of R-.>me
14. Johann Sleidan, Quatuor imperia, alemão (Koch) 155 7; inglês (Wythers) attained to that greatnesse which they now enjoy" e "A part of che
1563, (Darcie) 1627; francês (Le Prevost) 1557; holandês 1583; sueco histoire ofFrancis Guicciardine stolen out of his tenth Booke" [�1.:ma
1610. parte da história deFrancesco Guicciardini, roubada de seu tert..eiro
15. Johann Sleidan, Commentaria, holandês (Deleen) 1558; inglês (Daus) livro, relativa ao papa Alexandre VI", "Um segundo local cont';";'Jdo
1560, (Bohun) 1689; francês (Le Prévost) 1557, (Le Courayer) 1767; um longo discurso sobre por que meios os papas de Roma ating::.-am
alemão (Pantaleon) 1557; italiano 1557; sueéo (E. Schroder) 1675. a grandeza de que agora usufruem" e "Uma parte da histór� de
16. Antonio do Solís, Conquista, francês (S. de Broe) 1691; italiano 1699; Fr�ncesco Guicciardini, roubada de seu décimo livro") (inglê�1.
inglês (Townsend) 1724; dinamarquês (Lang) 1747; alemão 1750. c. 1650 "De origine secularis potestatis in romana ecclesia", in H. Con::ng,
17. Famiano Strada, De bel/o belgico, italiano (Papini e Segneri) 1638-; flamen­ De imperio romano, Lyon (latim).
go (van Aelst) 1645; francês (Ou Ryer) 1644; inglês (Stapylton) 1650-, 1663 "Paralipomena", reimp. A. Wicquefort (ed.), Thuanus restit.1tus,
(Lancaster) 1656; espanhol (Novar) 1681; polonês (Poszakowski). Amsterdã (latim, italiano, francês).
18. Polydore Vergil, Inventores, francês (Michel) 1521, (Belleforest) 1582; 1684 "F. G. Historia Papatus_", inJ. H. Heidegger, Historia Papatus, Am�>!rdã
italiano (Lauro) 1543, (Baldelli) 1587; alemão (Tatius) 1544; inglês (Lan­ (latim).
gley) 1546; polonês 1608? 1705 "Guicciardini's account by what means the popes usurped -::1eir
temporal power", in The Present State of Europe, Londres (ingl�).
1712 The History of the Papacy wrote by Francesco Guicciardini ... whici. "Nas
Apêndice 2: Edições de Guicciardini sobre as origens dos fraudulently left out of the 4th book of his history, Londres (inglês,.
estados pontifícios 1739 Deux passages tres importants clans l'histoire de François Guicciardini, :1aia
(italiano).
1569 Loci duo ... quae ex ipsius historiarum libris iii et iv non leguntur, Basiléia
(latim, italiano, francês).
1595 Two discourses of Master Frances Guicciardin, which are wanting in the thirde
and fourth bookes of his Historie, Londres (inglês, latim, italiano, fran­
cês).
1602 Francisci Guicciardini loci duo, s.l. (talvez Genebra) (latim, italiano,
francês).

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CAPÍTULO 8
The Spedotor, ou as metamorfoses do periódico:
um estudo em tradução cultural
Maria Lúcia Pallares-Burke

Pode-se dizer que os destinos de The Spectator [O espectador] inglês


(1711-1714) e de seus seguidores, na Europa e em outras panes, represen­
tam um dos mais bem-sucedidos empreendimentos de tradução tanto literal
como cultural na história da comunicação impressa. Seu estudo proporciona
uma vívida ilustração dos problemas e dilemas do que era conhecido no século
XVIII como a boa e a má imitação, embora hoje a designemos como tradução
cultural - em outras palavras, a adaptação de um texto a novos contextos.
Jornal diário publicado intermitentemente entre 1711 e 1714, o Spectator não
foi o primeiro periódico a ser editado pelos homens de letras ingleses Joseph
Addison e Richard Steele. Eles já haviam colaborado no Tatler, que saía três
vezes por semana entre 1709 e 1711. Seu nome significa "fofoqueiro", e indica
o tom coloquial e também a atualidade temática do jornal.
Todavia, foi no Spectator que encontraram a fórmula para o sucesso tanto
nacional como internacional. Mesmo o início dessa tendência testemunha
que o Spectator, o assim chamado modelo original do gênero Spectator de jor­
nalismo, não envolveu uma completa ruptura com tendências mais antigas,
como usualmente se diz; ele envolveu, na verdade, um trabalho de tradução
cultural, e é mais bem descrito como a culminação de tendências na história
, .. da imprensa seiscentista. Assim sendo, este ensaio começará recuando até
)· as tradições periódicas que o modelo do espectador adotava e, em seguida,
·.. ;·.
. -�- ::-
Peter Burke e R. Po-chio Hsio (orgs.) A tradução cultural nos.prim6rdios da Europa Moderno

mostrará como o jornal em si foi uma adaptação criativa de tradições perió­ maioria eram monolíngües, mas em 1660 Georg Greflingen de Hamburgo
dicas anteriores, políticas, cultas e da moda - a Gazette, o Meréure galante o publicava notícias em alemão, francês, italiano e inglês. Um dos mais famosos
Joumal des savants. periódicos do século XVIII, mais conheàdo como a Gazette de Leyde, publicado
A segunda parte, sobre as imitações do Spectator, se concentrará em um em francês na República Holandesa de 1677 a 1811, intitulou-se original.­
estudo de caso do gênero Spectator de jornalismo, o trabalho de Jacques-Vin­ mente Traduction libre des gazettesflamandes et autres [Tradução livre de gazetas
cent Delacroix. Como Delacroix foi um dos ou mesmo o mais incansável flamengas e outras], disponibilizando para os leitores franceses notícias que
convicto e persistente dos seguidores do modelo inglês de jornalismo, seu normalmente não seriam publicadas na própria França.
trabalho não apenas ilumina a história do gênero Spectator, como também Um jornal muitas vezes se apropriava de material de outro. Por exemplo,
proporciona alguns insights sobre o debate acerca da tradução cultural que um estudo sobre a transmissão de notícias dos eventos de 1669 mostra que
ele provocou. certo jornal, publicado em Copenhague, fazia regularmente empréstimos de
outros publicados em Hamburgo poucos dias antes (Ries, 1977). Todavia, o
editor selecionava informações que poderiam atrair seu público-alvo dina­
A ascensão do periódico, 1450- 1700 marquês, além de traduzir do alemão para o dinamarquês. Nesse sentido,
podemos falar de uma tradução tanto cultural como literal das notícias.
Uma breve descrição do desenvolvimento da imprensa periódica européia A ascensão do periódico e do mercado para periódicos levou a uma cres­
dá testemunho do importante papel que ela desempenhou no processo de cente especialização de funções. Desenvolveram-se três tipos de periódico,
intercâmbio cultural e das traduções culturais e literais que envolveu. Entre especializados em diferentes tipos de informação: políticas, sociais e cultas
c.1450 e c.1600, as notícias entravam no prelo de forma antes "ocasional" (Sgard, 199 I).
que periódica, em proclamações e panfletos de vários tipos, tratassem eles Tome-se o caso da França. As informações políticas eram encontradas na
de batalhas, desastres naturais ou mudanças religiosas como a Reforma Pro­ Gazette, fundada em 163 l por Théophraste Renaudot. Publicado com ajuda
testante (Seguin, 1964). do governo e segundo seus requisitos, esse jornal saía duas vezes por semana
Então, na primeira década do século XVII, na Alemanha, vemos O que e trazia relatos breves e impessoais de grandes eventos políticos, nacionais e
pode ser chamado de invenção da folha de notícias, do livro de notícias ou do internacionais. Era editado em Paris, mas publicado também nas províncias.
periódico, no sentido de uma série de textos publicados a intervalos regula­ Havia jornais rivais, como as semanais Nouvel/es ordinaires, mas o apoio do
res, fosse anual, trimestral, mensal, semanal, quinzenal oú até diariamente, governo assegurava o sucesso da Gazette (Feyel, 2000).
a fim de oferecer novas infonnações aos leitores (daí o termo "news" [nov�s, Em segundo lugar, informações sociais podiam ser encontradas no Mer­
notícias)). As edições eram geralmente numeradas, para que os leitores sou­ cure galant, fundado em 1672, que saía todo.s os meses e oferecia notícias da
bessem se tinham ou não perdido alguma. A tiragem das folhas de notícias corte e do mundo da moda (sobre decoração de interiores e roupas), além de
do século XVII girava em torno de 1.500 cópias, e uma prensa podia produzir histórias e concursos (para resolver enigmas, por exemplo, ou para escrever
600 por dia (Schrõder, 1995, p.5; cf. Raymond, 1996). versos sobre um tema específico), a um público l_eitor mais amplo e especial­
As guerras do período - a guerra holandesa pela independência da Espa­ mente feminino. Também esse jornal era financiado pelo governo francês,
nha (1568-1648), a Guerra dos Trinta Anos na Europa central (1618-1648), mas, diferentemente da Gazette, não dava a impressão de ser oficial, o que
as Guerras Civis inglesas (1642-1651) e assim por diante - sem dúvida impul­ tornava seus elogios regulares ao rei Luís XIV mais convincentes (Dotoli,
sionaram as vendas dessa nova forma de literatura. Ela normalmente assumia 1983; Vincent, 1979).
a forma de uma série de relatos provindos de diferentes cidades - Veneza Em terceiro lugar, informações cultas eram proporcionadas pelo]ournal des
Roma, Paris, Viena, Londres e outras, situadas ·nas principais rotas postais'. savants. A primeira edição, publicada na segunda-feira de 5 de janeiro de 1665,
Em meados de 1660, havia cerca de cinqüenta jornais europeus, publicados continha uma nota do impressor sobre a política do jornal: "Le dessein de ce
em latim, italiano, francês, inglês, alemão, holandês e dinamar�uês. Em sua journal estant de faire savoir ce qui se passe de nouveu dans la République

164 165
A tradução cultural nos primórdios da Europa Moderna
Peter Burke e R. Po-chia Hsia (orgs.)

des Lettres" [J..:neta deste jornal é a de comunicar o que se passa de novo na O mais fam oso de todos foi o Nouvelles de la république des lettres (1684-),
República das�as]. Ele conteria quatro tipos de artigos: resumos de novos editado pelo crí tico franc�s Pierre B ay l e de seu local de exílio em Roterd ã e
livros, obituár� de eruditos, relatos de experiências e decisões de tribunais vol tado tanto aos leitores gerais como aos eru ditos. 1 Seu rival era a Bi�liothe­
leg�s. A úl � seção pode parecer estranha hoje, mas reflete o fat o de que que universe/le et historique, editada em Amst erd ã a partir de 1686 pelo exilado
m uitos erudit-c.ç franceses da época eram advogados ou tinh am estudado protestante suíço J ean Lecle rc, que justifico u sua existência ao sustent ar
Direito. O plar,i era qu e o jornal saísse seman almente, antes que as notícias que editores rivais não sabiam línguas estrang eiras o suficiente, e prometeu
fi c�ss_em desati.:.!izadas ("parce que les choses vieill iroient trop") [porque as relatos de " descobertas" nas humanida de s, bem como na Matemática e na
coisas envelht--.�am demais]. Na prá tica, contudo, o Journal des savants s aiu M edicina. Em 1687 e 1688, a lgumas resenhas de l ivros que saíram na Bib/io­
uma vez por 91.lnzena. Os assuntos discutidos incluíam l itera tura história theque foram escritas por John Locke.
ec l esiástica, ll'Was e medalhas, e Filosofia Natural (Morgan, 192;). Nesses dois jornais cultos, uma das seções mais importantes era um novo
Todos os tr!::; mod elos foram imitados fora da Franç a, i lustrando assim o gênero literário, aesenha de livros, um auxílio inestimável para a se leção e
pro cesso de im<.:;-clmbio cultural. Por exemplo, o mocrelo da Gazette foi ado ­ a discriminação em uma época em que o s le itores corriam o risco de afundar
ta do na lnglatt:::� de Carlos II e na Rús�ia de Pedro, o Grande, bem como na no " dilúvio" de novas publicações (essa vívida imagem vem da pena de um
Espanha.�� L"..rldres, ela saía duas vezes por semana e era ed itada por um bib l iotecário seiscentista). Enquanto o início do sécu lo XVII foi o momento
subse cretano dt Estado. Um a edição francesa da London Gazette foi publicada crucial para o desenvolvimento da folha de notícias, o fina l desse século foi o
de 1666 a l 70�. a o passo que em mea do s do sécu lo XVIII a Gazeta de São período de formação de jornais mensais ou trimestrais ma is substandoso s.
Petersburgo saiu� francês e alemão, além de em russo . Ambos os periódicos recorriam ao processo de c olaboração internacio nal
O Mercure �f11nt poderia ser descrito como a primeira revista feminina, e co ntribuíram para tanto . Os ed itores d ependiam de informantes cu ltos de
mesm o qu e tac.t>ém fosse lido por homens. O primeiro volume apareceu d iferentes países. Livros publicados em uma língua eram com freqüência alv o
_ de extenso s resumos em outra, pr op orci onando um subs t it uto t empo rário
em raduçao a.-� o ing l ês, como The Mercury-Gallant, em 1673. Esse empre ­
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endu ento na !-',í leva do adian te, mas várias das principais seções do jornal para a tradução . Havia planos de traduzir a l guns dos p�óprios jornais, e por
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frances_ foram JJ:,í tadas por concorrentes ingleses como o Athenian Mercury, vários anos as 'Iransactions of the Royal Society of London foram publica das em
produzido pel o t-neiro inglês John Dunton e voltado tanto a mulheres como latim para os muitos l eitores instruído s d a época que não sabiam inglês.

a homens, com �lgumas edições especiais "para as damas" e um efêmero A carreira de Bay le é um bom exemplo da importância da gran de diásp ora
j ornal irmão, Tr,.s; Ladies' Mercury. A lgumas seções especiais sobrevivem em hugu enote para a ascensão tanto do jornalismo como da tra dução, no final
revistas f em inin:,_; até os dias de hoje, em especial históri as de amor, notícias do sécul o XVII. Dep ois da Revogação do E di to de Nante s em 1685, do is

sobre a última rr)(',da, concursos e cartas das leitoras, por vez es levando seus milhões de protestantes fran ceses enfren taram as alternativas da conversão
P_ro �lem as à "coluna d a agonia" (McEwen, 1972; Berry, 2003). J ornais espe­ a o ca tolicismo ou da expulsão da França. Entre o s 200 mi l que optaram
cializados em m,/Ja apareceram algum tempo depois, entre eles o Courrier de pel a expulsão, havia muitos ministreis c alvinistas, que migraram em geral
la mode (1768-) 1; o Cabinet des modes (1785-) (Roche, 1989). para cidad es protestantes como Amsterdã, Londres ou Ber lim. A o ferta de
Qu to ao mr>delo do ]ourna/ des savants, foi seguido em uma longa série ministros nesses lugares exced ia em mui to a demanda, e foi nec essário que
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d e J o rnais cultos c.-uropeus. Entre os mais importantes de les es tavam o Phi­ a maioria dos recém-chegados enco ntrasse uma ocupação alternat iva. Al ta­
losophica/ Trans"'tÍ.ons of the Royal Society of London, que entrou em publicação mente instruídos como muitos eram, uma carreira l iterária era uma e scolha
em 1665, dando mais atenção à Filosofia Na tural que o j ornal fr ancês. Outro óbvia, fosse como autores, editores ou tra dutores, ou na nova profissão de
gr �de perió �ico foi a Acta eruditorum [Os atos dos eruditos] (1682-), pro ­ "j ornalista" (palavra que acabava de entrar em uso por essa época, em francês
duzida em laum c.-m Leipzig para um público culto internacional e incluindo e inglês) (Yardeni, 1985, p.201-7).
mais material sobre humanidad es rio que seu concorrente londrino e menos
material sobre as b elles-lettres do que seu rival em Paris (Ldeven, 1986). 1 Sobre Bayle, Labrousse, 1963-1964.

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Peler Burke e R. Po:chio Hsio (orgs.) A lraduçõo cultural nos primórdios da Europa Moderna

A tradução era outra de suas principais atividades; a cultura francesa foi Esta síntese criativa poderia ser vista, portanto, corno urna tradução cul­
difundida na República Holandesa, na Grã-Bretanha e na Prússia, e a cultura tural de tradições e gêneros anteriores para uma forma apropriada a certo
inglesa na França, graças aos esforços de huguenotes como Abel Boyer, tra­ tipo_ de leitor inglês, no início do século XVIII. Foi um sucesso instantâneo,
dutor de Racine para o inglês; Pierre Coste, mais famoso por sua tradução de vendendo cerca de quatro mil cópias por dia; sua transformação em livro
Locke para o francês; Pierre des Maizeaux, que traduziu Bayle para o inglês; ocorreu em uma época em que as edições diárias ainda estavam saindo.
e David Mazel, que traduziu Gilbert Burnet e John Tillotson para o francês. Todavia, o que é realmente notável nesse jornal é que, embora fosse es­
crito dia após dia e se voltasse às preocupações de pessoas que viviam em um
determinado local em uma determinada época, seu apelo tenha se mostrado
As fortunas do Spectator, muito mais amplo, cruzando fronteiras e até mesmo séculos, como testemu­
ou um estudo de caso em tradução cultural nha o grande número de traduções e imitações. O jornalismo de Addison e
Steele também foi traduzido, por assim dizer, para outros gêneros, já que o
Muitas seções dos periódicos mencionados anteriormente podiam ser Spectator é ampl�ente reconhecido como tendo feito uma importante con­
encontradas no efêmero mas extremamente influente jornal The Spectator, que tribuição para o que os críticos literários descrevem em retrospecto como a
se destaca como uma criativa adaptação de tradições de periódicos anteriores, tradição do ensaio inglês. Esses dois jornalistas se converteram, portanto, em
políticos, cultos e sobre moda. Pode-se dizer que esse periódico de princí­ "clássicos". Pode-se até dizer que a posteridade os "traduziu" em clássicos.
pios do século XVIII fundou efetivamente um novo gênero de jornalismo ao Independentemente de se ele iria ou não apreciar esse destino, a reputação
recorrer aos três modelos já existentes, combinando a:-sim elementos que literária de Addison há muito repousa em seus artigos para o Spectator, mais
costumavam ficar separados, além de acrescentar-lhes algo próprio. do que em obras mais ambiciosas como sua tragédia Cato [Catão].
Para começar, Joseph Addison e Richard Steele, os principais autores, A história de sucesso do Spectator no continente começa com as traduções
estavam ambos envolvidos na política de seu tempo, e seu jornal fazia co­ literais - nunca completas, apenas parciais. 3 Foram inauguradas pelos france­
mentários sobre política, declarando, como o nome "espectador" implicava, ses em 1714, seguidos pelos alemães, os holandeses, os suecos, os italianos,
estar acima dos partidos e apresentar uma visão "imparcial" na era do grande os portugueses e os russos.4 O jornal teve nada menos que dezoito edições
conflito entre os whigs [liberais] e os tories [conservadores]. Como o Mercure na Holanda, quatorze na França e quatro na Alemanha, e tornou-se objeto do
galante outros jornais sociais, o Spectator também oferecia informações sobre que os próprios contemporâneos descreveram como um "culto".
as últimas modas e tendências, embora escrevesse de um ponto de vista mais A razão para esse imenso apelo é claramente exposta pelo primeiro tra­
desinteressado e crítico do qu_e seus predecessores, como no famoso exemplo dutor, que levantou a questão: por que traduzir? Explicando-o no prefácio a
do artigo sobre o uso do leque (n.102), que atraiu tantos escritores fora da "Le spectateur ou le Socrate moderne, ou l'on voit un ponrait naff des moeurs
Grã-Bretanha, inclusive no distante Brasil. 2 Como o Athenian Mercury, ele deu de ce siecle" [O espectador, ou o Sócrates moderno, onde se vê um retrato
seguimento às tradições de estimular e discutir as cartas de seus leitores. singelo dos costumes deste século] (1714), ele orgulhosamente se colocou
Finalmente, como alguns dos periódicos cultos, o Spectator freqüentemente
discutia Literatura, Ciência e Filosofia, embora - como a declaração de in­ 3 As traduções parciais vão desde volumes de seleções, sob o título de Zuschauer, Le speccareur
ou le Socrate moderne etc. - como no caso das traduções para o francês, o holandês, o alemão
tuito publicada na primeira edição deixava muito claro - a meta dos editores ou o italiano-, em que se reconhece claramente a fonte, até a publicação de artigos indi­
fosse trazer a Filosofia "dos céus à terra" e atrair um público não acaclêmico, viduais do Spectator em vários jornais sem explicitar a fonte, como nos casos do sueco, do
feminino além de masculino. Também aqui ele oferecia tanto informação ponuguês, do espanhol e do russo.
4 Sobre os seguidores e as traduções em alemão, Martens, 1968; sobre os holandeses, Van
como comentários críticos.
Boheemen-Saaf, 1984, e Schoneveld, 1984; sobre os franceses, Gilot, 1975, e Gilot e Sgard,
1981; sobre os suecos, Gustafson, 1933; sobre os ponugueses, Picwnik, 1979; sobre os
2 The Specraror, 1711, n.102; sobre as adaptações feitas pelo seguidor brasileiro o carapuceiro italianos, Anon, 1753, Scelta delle piu belle et utili speculazioni dello Spettatore (Llvorno); sobre
(1837), Pallares-Burke, 1994a. os russos, McKenna, 1977.

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Peter Burke e R. Po-chio Hsio (orgs.) A lroduçõo cultural nos primórdios do Europa Moderno

na posição de mediador entre a Grã-Bretanha e os "países estrangeiros", e 'da, houve cerca de setenta seguidores d o tipo, publicados em holandês ou
argume ntou que a obra era digna de tradução porque podia ser rel evante ;; em francês. Na Inglaterra, as imitações foram descritas como "inúmeras"
para outros leito res além dos originalmente tencionad os. Ele c onfessava ter :: (Stephen, 1910). Na França, pelo menos cem imitações do Spectator foram
sido movido pela ambição de que a uadução pudesse ser ·seguida em o utras publicadas antes da Revolução, e, como um resenhista francês do século XVIII
partes pel os mesmos "bons efeitos" que na Grã-Bretanha, e sustentad o "pela � testemunhou no Journal étranger em junho de 1757, a excelência dessa obra
espe rança d e resgatar os h omens de seus descaminh os e inspirá-l os c om os �· estimulava a imitação: "O destino dos bons originais é ( ... ) p roduzir uma
p rincípios da Honra e da Virtude". Y infinidade de CO!=)istas, e o Spectat or inglês é pai de uma prole numerosa". No
Como a introdução a este livro sugere, a traduçã o entre línguas é uma .f mundo g ermanófono, o número de descendentes foi tão grande que já em
for ma d e tradução entre culturas, e as modificações pelas quais um texto ·�,- 1739 L ouise Gottsched, a segunda tradutora do Spectator, declarou em seu
passa na tradução não resultam apenas de fatores lingüísticos. Assim, nós · prefácio que havia tal "multidão de imitações que era dificil listá-Ias".
vemos, por exemplo, a Catedral de São Paulo se tomando o Paláci o do Kremlin Seguidores famosos do jornal incluem Der Patriot (Hamburgo, 1724), Der
na tradução russa, escravos e. sucos de frutas tropicais sendo acresc entados .. Frepnaurer [O franco -maç om] (Leipzig, 1738), o Patriotiske tilskuer [O espec­
à versão brasileira dos ensai os inglese�, e assim por diante. :: tado r patriot.a] (Copenhague, 1761), El pensad or (Madri, 1762). E, saltando
. Co m·o mode lo para a imitação mais ou menos livre ou criativa do que se ;_ para o século XlX, o bem-sucedido O ca rapuceiro, d o Brasil, proporciona, ainda
tornou co nhecido como os "semanários morais", o Spectat or foi novamente nas décadas de 1830 e 1840, evidência adicional do apelo duradouro e vast o
um s u cesso instantâneo. Mas, ao contrário do que se p od eria esperar, as do gênero Spectato r (Pallares-Burke, 1994a).
imitações locais não tomaram o lugar das traduções do original em inglês na Uma importante forma de adaptação era a tradução de um gênero para
preferência do público . Na verdade, a traduçã o do Spectat or original continuou outro, como n o caso do Female Spectato r (Eliza Hayw ood, Londres, 1744), La
a co ncorrer com suas numerosas imitações ao long o de t od o o_ sécul o, apesar spectatrice (1728), La spectatrice dano is� [A espectadora dinamarquesa] (17 48),
dos esforços de alguns descendentes locais para se alçarem a o seu nível. Die vemünftigen Tadlerinnen [As censoras sensatas] (Halle, 1725) e La pensadora
As cartas de Goeth e a sua amada irmã C ornélia oferecem um testemu­ gaditana [A pensadora de Cádiz] (Cádiz, 1763-4) (Pallares-Burke, 1994b).6
nho revelado r do duradouro apelo do Spectator. Insatisfeito com as imitações Algu mas dessas adaptações for am elas próp rias traduzidas. La spectatrice da­
alemãs, que eram ruins por copiarem a aparência externa, mas não a "ver­ noise, por exemplo, que era na verdade escrita p or um homem, Laurent de
dadeira essência d o original", G oethe estimulou C ornélia, então com quinze la B eaumelle, foi traduzida para o alemão em 1756 como Des Herr n de La
anos, a iniciar o "aprimoramento" de seu "entendiment o e vontade", lendo Beaumelle Gedanken [Pensamentos do senho r de la Beaumelle].
cuidadosamente o Zuschauer em inglês. Seu conselho era categórico: "Tome O grande número de seguidores que s e espalharam pela Europa co mo
u m número após o outro, na o rdem, leia- os atentament e, e, quando algum uma "to rrente" ou brotaram c omo "cogumelos" (para usar descrições con­
nã o lhe agradar, leia-o de novo ( ...) Eles são melhores e mais úteis d o que tempo râneas c_omuns desse fenômeno literário) proporciona uma ilustração
se você lesse vinte romances" (G oethe, 1951, p.26-8). muito vívida dos problemas e dilemas da tradução cultural. Um desses pro ­
Testemunhos mais impressionantes da r eputação d o Spectat or ao longo do blemas, como Peter Burke sugeriu, é que o tradutor de um texto e o tradutor
século vêm das desco bertas de Daniel M ornet, cuja análise de 500 catál ogos cultural enfrentam o mesmo dilema e ntre a inteligibilidade e a fidelidade. 7
de bibliotecas particulares francesas de 1750 a 1780 revelou que o Spectator Ess e foi, com efeito, o pr oblema que Borges tentou soluci onar com o
ocupava uma posição de frente, aparecend o com mais freqü_ência do que obras conceito de "infidelidade criativa" que começou a usar na década de 1930. De
de Vo ltaire, L ocke ou Rousseau (Momet, 1910). acordb com o escritor argentino, o que deve ser elogiado em uma tradução
A lista d os s eguidores do j ornal começa já em 1711 com um jornal h o­
landês publicado em francês, Le misanthrope, de J ustus van Effen.5 NaH olan- lares­
6. Para uma comparação entre os Spectators femininos em francês, inglês e esp anhol , ·Pal
Burke, 1993.
5 Sobre a história internacional do gêneroSpecraror, Rau, 1980, e Pallares-Burke, 1996. .. 7· Entrevista com Peter Burke em Pallares-Burke, 2002, p.141.

170
Peler Burke e R. Po -'c�io Hsia (orgs.) A tradução cultural nos prim6rdios da Europa Moderna

não é tanto sua fidelidade ao texto original, mas sim a audácia com que o ·· adieux du spectateur du monde politique et littéraire [O adeus do espectador do
tradutor mente, ou, em outras palavras, sua "infidelidade criativa". A tradução mundo político e literário]. Não obstante, um ano depois retorna com seu ·
das Mil e uma noites por Mardrus, segundo Borges, mostra que, quanto mais último adeus em Les demiers adieux du spectateur français [As últimas despedidas
um tradutor se atreve a mentir, mais valioso ele é, já que seus acréscimos, do espectador francês], que seriam novamente seguidas, três anos mais tarde,
inovações e retoques permitem que tenha lugar um enriquecedor diálogo por uma carta que o Spectateur[rançais endereça aos parisienses. Finalmente,
entre culturas (Borges, 1936). É, de fato, extremamente interessante notar em 1829, Delacroix anuncia seu despertar, publicando Le réveil du spectateur
que houve verdadeiras controvérsias no século XVIII sobre o que era ou não [rançais [O despertar do espectador francês], a ser seguido, um ano antes de
era uma imitação real e fiel do Spectator, revelando que havia uma consciência sua morte, por alguns "brindes" para o público, com suas Nouvel/es étrennes
contemporânea do processo que hoje chamamos de "tradução cultural". du spectateur [rançais (1830).
É nesse ponto que o trabalho deJacques-Vincent Delacroix (1743-1831) Delacroix compartilhava certos traços comuns e importantes com outros
se torna extremamente relevante. Na história internacional do gênero Specta­ seguidores do Spectator. Em primeiro lugar, como a maioria dos imitadores,
tor, esse homem de muitos dons - jornalista, advogado, historiador, professor ele freqüentemente se refere ao Spectator inglês como uma obra imortal cuja
e tradutor - se destaca como o mais convicto e persistente dos seguidores perfeição não podia ser igualada. As palavras do primeiro deles, o holandês
franceses do modelo inglês, e sua longa carreira proporciona um maravilhoso Justus van Effen, que escrevia o Misanthrope, havia dado o tom dessa admira­
ponto de vista a partir do qual se observa o desenvolvimento do gênero e o ção com grande eloqüência: "O que é bom nos bons Spectators é tão excelente
debate sobre a tradução cultural que ele provocou. 8 que não vejo como a mente humana possa realizar algo além disso" (La ba­
Começando ern 1767 com seu Spectateur en Prusse [O espectador na Prús­ gatelle, 21 de novembro de 1718).
sia] e se encerrando em 1830 com as Nouvelles étrennes du spectateur [rançais Como se não est.ivessem se colocando na posição de concorrentes, a
[Notícias inéditas do espectador francês], nada menos que quinze das obras grande maioria dos seguidores parece não ter sentido nenhuma "angústia
de Delacroix levam o título de Spectateur. Destas, pelo menos três, e prova­ da influência". Pelo contrário, parecem extremamente orgulhosos de estar
velmente mais, são periódicos - Le spectateur en Prusse (1768), Le spectateur seguindo os passos do modelo inglês, chegando até a competir uns com os
françois, pour servir de suite a ce/ui de Marivaux [O espectador francês, para servir outros quanto à fidelidade de sua imitação (Pallares-Burke, 1996). Seguindo
de seqüência ao de Marivaux] (1771-3), Le spectateur [rançais, ou le nouveau o padrão comum, Delacroix admite que "há livros originais que são inimitá­
Socrate moderne [O espectador francês ou o novo Sócrates moderno] (1791) -, veis. Foi esse o caso do Spectateur anglois que surgiu no início deste século"
enquanto as outras empregam a perso_na do filósofo-jornalista Spectateur como (Le spectateur [rançais, l 791).
figura de autoridade, como, por exemplo, em Opinion du spectateur[rançais sur Em segundo lugar, os seguidores pareciam estar unidos _nas críticas que
la proposition de supprimer la peine de mort [Opinião do ·espectador francês sobre faziam a outros produtos da imprensa. Diziam que havia periódicos demais
a proposta de suprimir a pena de morte]. ou Le captif littéraire, ou le danger de preocupados com a própria fama e que, para alcançá-la, só pensavam em
la censure, par l'auteur du spectateur [rançais [O cativo literário, ou o perigo da lisonjear e entreter os leitores em vez de ensinar-lhes algo de valor; alterna­
censura, pelo autor do espectador francês]. tivamente, não ofereciam senão notícias e opiniões parciais. Diferentemente
Na maioria dessas obras, Delacroix faz referências ao Spectator de Addison de todos esses jornais, os discípulos do Spectator declaravam seguir o modelo
e Steele, um modelo ou tradição de que ele parece indesejoso ou incapaz de original, inaugurando em seu ambiente local um novo tipo de jornalismo que
se afastar. Em 1823, por exemplo, ele se despede do gênero, escrevendo Les se concentrava na educação de seus leitores e se dedicava a unir os homens,
em vez de estimular sua divisão em partidos.
Os imitadores geralmente concordavam que seu interesse pelo bem co­
8 Para sua biagrafia, ver o verbete de M. Gilot sobre Delacroix em Sgard, 1976, p.109-12; mum era a principal razão que os levara a trilhar o mesmo cam.inho que o
sobre seu Le spectateur franfais, ver o verbete de Sgard em Sgard, 1991, p.1218-21; sobre
Delacroix como seguidor do Spectator, ver Pallares-Burke, 2004, que dá referências exatas
Spectator original. A leitura do periódico inglês e de seus seguidores era re­
para as citações dele nos próximos parágrafos. presentada muitas vezes como uma atividade tão boa para a saúde da mente

172 173
Peter Burke e R. Po-chio Hsio (orgs.) A troduçóo cultural �os primórdios do Europa Moderno

,•

como a ingestão de um bom remédio. Van Effen, por exemplo, chegou a de­ -�; um camponês na "congregação" que ajudava na organização do periódico (ver
finir o Spectator ideal como "um médico dos costumes" (médecin des moeurs), .,' a tradução alemã, Der patriotische Zuschauer, 1769, n. 3).
enquanto houve correspondentes que se referiam às diferentes edições do •. Quanto à participação dos leitores por meio da correspondência; os se-
CJ
Spectator original como "doses" regulares de um "remédio eficaz", ou como �- guidores do Spectator inglês pareciam estar cientes da imponância das cartas
"excelentes limpadores do cérebro". ; dos leitores, reais ou fictícias, como estratégia para envolver o público e fazer
Um terceiro ponto que unia a família inteira dos Spectators era sua nec�s­ ·�� dele um cúmplice no projeto iluminista do periódico. Seguindo a mesma
sidade de adotar a persona de um observador olímpico da condição humana, : tendência, Delacroix declara-se feliz por ter, como Sócrates, estimulado os
segun'do o modelo do Sr, Spectator original, um silencioso e atento observador :� homens a dar nascimento a suas próprias idéias, e por ter publicado as cartas
dos homens que desenvolvera "uma penetração mais do que ordinária para de leitores que, em seu dizer, "suplementam o conhecimento que me falta"
ver" (S de março de 1711). Seguindo essa tradição, o Misanthrope de Amsterdã, (Le spectateur [rançais avant la Révolution, discurso 25).
o Patriot de Hamburgo, a Spectatrice de Paris, a Female Spectator de Londres e a O suíço Bodmer, outro membro da f�mília do Spectator e autor de Die
Pensadora gaditana de Cádiz, em meio a numerosos outros, se apresentavam Discourse der Mahlern [O discurso dos pintores] (1721-3), _fez um comentário
'
como observadores privilegiados que assumem.o papel de guias morais em bastante revelador ao dizer que o papel das cartas do público no Spectator era
nome dó interesse público. O mundo é para eles um teatro que afirmam tão grande que a autoria do jornal deveria ser atribuída antes a "toda a cidade
observar com a imparcialidade e o desprendimento de um espectador. "Nada de Londres" do que ao "sr. Richard Steele e seu clube" (v.lll, n.24).
que interesse aos homens e diga respeito a sua felicidade me é indiferen­
te", afirma Delacroix seguindo a mesma tradição (Le spectateur [rançais, n. 4
(1791), discurso 4). O palco de sua silenciosa observação é Paris, e ele vaga A "questão do Spectator"
pelos Jardins do Luxemburgo, pela Ópera etc. - como Marivaux e Madame e o debate sobre a tradução cultural
Spectatrice haviam feito antes dele-, a.firmando-se capaz de enxergar, através
das aparências sociais, a realidade subjacente.9 O fenômeno das "inúmeras" imitações do Spectator chegou a levantar
Um último ponto que unia a família inteira dos Spectators é a necessidade na República das Letras um debate acerca do que se poderia chamar de a
de colaboradores. A despeito de suas pretensões a uma visão ampla e privile­ "Questão do Spectator", abordando muitos dos problemas discutidos hoje
giada, as personae editoriais também tendem a se apresentar como incapazes sob o tópico da "tradução cultural" (Pallares-Burke, 1996).
de abraçar sozinhas todo o espectro da experiência humana. O constante O periódico parisiense Le joumal étranger (l 754-62), jornal dedicado a
refrão dos seguidores de Sr. Spectator é a necessidade de repartir sua missão discutir a República das Letras e seus vícios, dá testemunho de um contexto
pública com outras pessoas que também desempenhem o papel de especta­ geral em que tais preocupações cresceram no século XVlll. Com a meta de
doras. Essa colaboração podia ser o trabalho ou de amigos específicos que enfatizar tanto o valor de diferentes culturas como sua interdependência,
proporcionavam ao jornal uma grande variedade de informações e pontos de um de seus temas centrais era a imitação literária; como deixavam claro,
vista, ou de qualquer leitor que tivesse informações a oferecer, questões a procurar por "nós" nos "outros" e pelos "outros" em "nós" era uma maneira
levantar, críticas a fazer, favores a pedir etc. de demonstrar que empréstimos eram relativamente inevitáveis e construti­
The Female Spectator (1744-6), por exemplo, contava com a ajuda de uma vos. Assim, a edição de fevereiro de 1755 sustenta que à comédia Pamela, de
educada senhora casada com "idéias cintilantes", de uma bela jovem e de Goldoni, superou o romance original de Richardson. A imitação de Horácio
uma "viúva de Qualidade", sem contar as "amistosas espiãs" que enviavam por Pope e a de Juvenal pelo dr. Johnson também são descritas como "prefe-
informações de lugares tão distantes como "França, Roma, Alemanha" etc. . ríveis aos originais". Em setembro de 1755, houve uma longa di_scussão de
Mais audacioso, o dinamarquês Patriotisk.e Tilskuer (1761-3) chega a i�cluir . uma imitação inglesa de uma imitação francesa de uma tragédia chinesa, o
'· - Orphan of China [Órfão da China], de Anhur Murphy, derivado do Orphelin
9 Sobre o Spectateur français, Gilot, 197 5; sobre La spectatrice, Pallares-Burke, 1994b.
-•
; . de la Chine, de Voltaire, que por seu turno seguia uma tradução francesa de·
. _.;, . "'
:-;,··?·.·

17.d.
Peter Burke e R. Po-�hi� .Hsi_o (orgs.) .. A troduçõo cultural nos primórdios do Europa Moderno

mantinham no nível de triviais lapsos de etiqueta (Holberg, 1754; 1748-9;


uma peça chinesa, cujo título fora transliterado como Tchao Chi Cou EII (idem,
1994-5, esp. p.192-3). Schlegel, 1745-6, n.1).
Em Paris, o debate francês parecia corroborar tais pontos, e há bastante
Mas o que conta como uma imitação boa ou fiel? Essa pergunta se tomou
ser evidências dos termos do debate em resenhas e comentários, desde a Bibliothe­
tema de uma polêmica internacional em tomo do verdadeiro sentido de
um Spectato r. quefrançaise (1724) e o Joumal encyclopédique (1759) até a Année littéraire (1777,
um Spectator, de escrever como um Spectator, de persuadir como
de 1784) que, no correr dos anos, fizeram comparações entre os novos Spectators
Como se o texto inglês tivesse se tornado sagrado ou canônico, o valor
de sua fidelidade ao que se acredicava ser e o modelo que deviam seguir. Intitular-se Spectateur (ou Censeur, Observateur,
seus seguidores era medido a partir
Menteur etc., todos eles títulos que aludiam à tradição do Spectator), implicava
sua forma original de ensinar, e até mesmo ao título original.
Três centros podem ser considerados os cenários dos principais debates um compromisso com uma maneira de escrever que, se não fosse observada,
sobre boas e más imitações, ou, como poderíamos dizer, traduções culturais constituiria uma falta a ser denunciada na ·República das Letras.
bem ou malsucedidas, usos legítimos ou ilegítimos do modelo do Spectator: A importância de Delacroix nesse debate se deve em particular a sua obra
Zurique, Copenhague e Paris. 10 ter sido um objeto de discussão entre os críticos que o viam através das lentes
desse debate. É interessante notar que a recepção de sua obra na República
Em Zurique, Bodmer e Breitinger, autores da primeira imitação em língua
das Letras foi, embora nem sempre calorosa, pelo menos encorajadora pela
alemã do Spectator, lideraram uma espécie de campanha contra a infidelida­
reação que provocava em pessoas tão diferentes como Fréron, Voltaire, Grimm
de do Der Patriot, de Hamburgo, e de Die vemünftigen Taddlerinnen, de Halle,
alegando que não eram leais à "natureza de um texto espectatorial" e não e os jornalistas do Journal encyclopédique. Voltaire ficou impressionado com
seu Spectateur de 1771 e o saudou em uma carta do mesmo ano como um
obedeciam à,s regras da verossimilhança, da imparcialidade e da personifica­
legítimo herdeiro de Addison e Steele, elogio que o barão Grimm considerou
ção dos persoliàgens por meio dos quais escreviam. Era, por exemplo, muito
absolutamente indevido e nocivo para a tradição do Spectator, especialmente
implausível que o periódico de Halle fosse obra de três amigas. Bodmer dizia
considerando-se que esse elogio estimulava assinaturas imerecidas do tra­
que as personae de Gottsched deveriam primeiro ter sido legitimadas antes de
balho de Delacroix.
receber "argumentos masculinos" (Bodmer, 1728, p.41).
Na Dinamarca, os escritores Holberg e Schlegel se referiram a uma ver­ É um "elogio sacrílego" chamar esse Delacroix de verdadeiro descen­
dadeira guerra interna entre os Spectators, que, em meados do século, con­ dente de Addison e Steele e somente a "clemência divina" pode perdoar essa
corriam uns com os outros pelo legítimo papel de professores de moral. Seus "blasfêmia", diz Grimm, à sua maneira bombástica. Ele associava Delacroix
a "uma tropa de irascíveis profetas" e declarava que era impossível ter um
testemunhos revelam algumas das principais questões desse debat·e. A ocasião
da polêmica fora a publicação em Copenhague de alguns peri<:>dicos bastan­ Spectateur na Frapça com esse tipo de jornalista pretensioso. Segundo Grimm,
te incisivos e impudentes que, autogenominando-se Spectators, declararam ô que tornava Delacroix não espectatorial era sua falta de modéstia (Barão
guerra aos vícios públicos e privados. Seus autores foram criticados por sua Grimm, 1830, p.406-7).
rispidez, por se pronunciarem "donos da verdade" e por presumirem que a Notavelmente similar à opinião de Grimm foi a de Fréron na Année Lit­
"conversão" das pessoas à moral poderia ser "trabalho de uma semana". Em téraire poucos anos depois, ao resenhar uma nova edição do Le spectateur de
vez disso, os críticos sustentavam que um jornalista devia ser mais como um _ 1770-1772, em que o elogio de Voltaire é uma vez mais atacado. O estilo de
"professor gentil" que, co� "brandura e graça", trabalhasse pela erradicação Delacroix é por demais "pretensioso" e "pomposo", com imagens· demais,
dos vícios e faltas. Mesmo assim, os críticos não aprovavam a maneira terna e estando tudo "estranhamente fora de lugar" em um Spectator que almeja "es­
alegre dos escritores franceses, que tampouco consideravamverdadeiram·ente boçar as maneiras de seu século". Seguindo as mesmas linhas está sua crítica
"espectatorials", já que deixavam de analisar a fundo os vícios humanos e se da maneira imodesta como o Spectateur elogia os philosophes como "homens
celestiais" por meio dos quais a humanidade pode ser libertada das trevas em
que permanece; igualmente antiespectatorial é a maneira como o Spectateur
10 Cf. Pal�es-Burke, 1996, p.7-8. desempenha seu papel educacional. A primeira meta do Spectator, diz ele, é

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Peter Burke e R. Po-chio Hsio (orgs.) A tradução cultural nos primórdios do Europa Moderno

seguramente instruir, mas nunca deve fazê-lo como um "novo Prometeu" que a Napoleão, Luís XVIII, Carlos X e Luís Filipe. Conforme ouvimos suas
entrega "luz" à humanidade; pelo contrário (e exatamente como os comen­ repetidas reflexões sobre o papel do espectador e suas réplicas aos críticos,
taristas dinamarqueses já haviam dito), deve fazê-lo gentil e discretamente, vislumbramos algumas das maneiras como esse atraente gênero setecentista
como Sócrates, "esse antigo Spectator", havia feito (I:année littéraire, 1777). foi adotado e traduzido, ou seja, adaptado às diferentes circunstâncias que
Entusiástfco quanto a um periódico que tinha o mérito de tanto agradar encontrou ao longo de sua duradoura carreira.
ao público como instruí-lo ao mesmo tempo, o Journal encyclopédique (1777) O próprio Delacroix faz comparações entre a_s circunstâncias em que o
lamenta, contµdo, que apesar de seu talento Delacroix não tenha atuado Spectator diário original fora publicado e sua própria iniciativa. Delacroix
como um verdadeiro Spectator, e isso por uma das razões também apontadas lembra a seus leitores em 1770 que o inglês estava dirigindo suas páginas a
pela Année /ittéraire: sua indisposição de deixar seu "gabinete", onde estuda uma sociedade que já havia passado por uma grande revolução e os editores
sobretudo livros e a si mesmo, em vez de a homens de verdade. É impossível estavam simplesmente tentando consolidá-la, convertendo a nação inteira à
ser um "pintor" fiel de "nossos ridículos, de nossos defeitos, de nossos vícios, nova maneira de pensar e agir associada com o novo regime. E, como Addison
da natureza hÚmana", sem exercitar o talento da observação. e Steele tinham de lutar ape�as com o gosto de seu público, e não com a fúria
Fréron também observou em sua resenha da nova edição de Declacroix dos censores, só precisavam ter talento suficiente para disfarçar seüs ensi­
para o.Spectateur [rançais que Steele e Addison não se anunciavam como ho­ namentos como diversão de modo a atrair o público. Eles podiam, contudo,
mens solitários, mas, pelo contrário, como "voyeurs" que observavam os ho­ atrever-se a esclarecer seu público com "grandes verdades", e podiam falar
mens em praças públicas, assembléias, teatros, alcovas e ateliês, na "ruidosa de tudo: "política, legislação, governo, ministérios"; enquanto ele, Delacroix,
liberdade das orgias burguesas", de onde recolhiam material para a "magis­ tinha de se manter afastado desses "grandes assuntos" e, contentando-se com
tratura moral" que haviam assumido - e que aqueles que os seguiam, verdade "uma gama muito mais estreita de coisas", simplesmente observar os homens
fosse dita, deveriam igualmente assumir. como eles são, "sem atrever-me a dizer como deviam ser".
Em suma, alguns pontos bastante interessantes se destacam nas com­ Assim, as críticas a suas observações como frívolas e rasteiras eram in­
parações feitas pela República das Letras francesa entre os novos membros justas, ele argumentava, e não lhe davam crédito pela coragem necessária a
da "família" do Spectator e seu modelo. Um Spectator não devia ser tristonho, desempenhar o papel de espectador em uma época em que havia preconceito
solitário ou contemplativo, mas um alegre e ativo espião que, em vários contra esse "mero título". Anos mais tarde, após a Revolução, ele achou que
lugares, reúne material para sua "magistratura moral", ou seja, para corrigir a aclamada liberdade de expressão lhe havia concedido o direito de não falar
a moral e as maneiras e atacar os vícios. Seu espírito deveria· ser similar ao de bagatelas e de poder repetir o que seu modelo inglês havia feito, ou seja,
que prevalece em um "teatro cômico", onde a cena é marcada pelo "deleite" falar às claras e sem muitas indiretas sobre o que até então fora forçado a
e pela "animação" enquanto a crítica social está sendo feita. disfarçar inteiramente. Em 1791 ele se equivocou a ponto de acreditar que
Esse tipo de trabalho chegou a ser descrito por um resenhista como o o novo regime político lhe permitiria imitar Addison e Steele, transmitindo
"suplemento da comédia" que faria o tempo todo o que o teatro só faz nas nas páginas periódicas o mais útil curso de "moralidade prática". "Os vícios
apresentações, ou seja, "aplicar um pronto remédio" aos tolos atos que "se e as faltas dos grandes, que haviam estado ocultos por trás de seus títulos, de
sucedem uns aos outros no palco do mundo". Mas, acima de tudo, esse seu grau e de suas distinções, apareceram em plena luz do dia" no Spectator
"remédio" devia ser prescrito com graça e tato de modo a ser engolido pelo inglês, disse Delacroix em 1791. "Aqueles que se julgavam acima das críticas,
"paciente" quase que sem notar (Z.:année littéraire (1771), VII, _124-7). graças a sua riqueza ou status, foram desmascarados."
Nesse debate sobre o Spectator, um segundo ponto imponante a notar é a Nenhuma mudança real havia ocorrido, contudo, e quando em 1793-1794 -
reflexividade de Delacroix, ou seja, seu papel como espectador dos Spectators, gentilmente e com cuidado - ousou criticar os revolucionários no poder e
sua repetida reflexão sobre o papel espectatorial que ele havia desempenhado sugerir o que eles deviam fazer, quase perdeu sua cabeça. Foi preso e conde­
na França durante tantas décadas, do final de 1760 até 1830, tendo sobrevi- nado como reàlista e "inimigo público" da Revolução por ousar aconselhar a
. vido aos regimes de Luís X:V e Luís XVI, à Revolução, à primeira República, Convenção a ouvir o público e não julgar o rei.

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Peter Burke e R. Po-chia Hsio (orgs.) A tradução cuhural nos primórdios da Europa Moderno

Conforme o tempo passava e Delacroix continuava a agir como espectador t


. o;;
xado para que a posteridade a completasse, levando em conta as diferenças
· e a refletir sobre o papel com que se identificara tão completamente, fica claro :;·· de geração, as nacionais e as históricas.
o que ele entende como seu real significado: ser um espectador é, antes de ·;�
0

Como que corroborando a idéia de Borges da "criatividade infiel" como


tudo, não ser nem realista nem republicano, mas um moralista que acredita·f regra para uma tradução de sucesso, Delacroix diz que "seria contra as re­
que a felicidade do Estado depende do respeito pelos modos (moeurs); e que,'-� gras artísticas empregar a mesma cor para pintar duas nações diferentes",
por amor à humanidade, tenta intervir até onde pode nos assuntos humanos sugerindo que estava claramente ciente de que, para continuar fiel à tradição
a fim de minimizar os sofrimentos e a dor que vê e prevê. do Spectator e para seguir corrigindo a moral e as maneiras, ele precisava ser
O que Delacroix tomou, então, do texto original inglês foi por assim diferente - em outras palavras, precisava continuar mudando para assim
dizer a inspiração para um tipo de escrita que correspondia a suas crenças ,. permanecer o mesmo, isto é, um verdadeiro, alegre e ativo Spectator.
humanitárias e lhe oferecia uma estratégia essencial para o sucesso no papel Delacroix não tinha o talento de Addison e Steele (como, aliás, ninguém
de um moralista cuja meta é, como ele insistia, produzir "le bien géneral". mais parece ter tido), mas tinha de fato uma contribuição individual a fazer
Tratava-se fundamentalmente da estratégia de se disfarçar como um como o mais sistemático espectador do gênero Spectator em si, e talvez como
observador imparcial e apol(tico, de fingir não pertencer a nenhuma sei­ um dos mais insistentes seguidores de Addison e Steele, tendo feito várias
ta, partido ou classe, e com isso não ter nenhum interesse pessoal para tentativas sucessivas de traduzir um conjunto de idéias e práticas (original­
tapar-lhe os olhos. O Spectator original (16 de outubro de 1711) havia de­ mente destinadas à Inglaterra do início do século XVIII) para os novos e
fendido o que ele chamava de "a maneira socrática de raciocinar", ou seja, sempre cambiantes contextos da cultura francesa.
a estratégia de não permitir que o antagonista percebesse que você tinha
uma opinião "firmemente estabelecida" e estava "se empenhando em con­
verter alguém mais a ela" - estratégia completamente oposta às ações e aos
escritos políticos dos censores e do governo franceses, que achavam que
podiam converter os outros a suas opiniões com "insultos", "ameaças" e
"denúncias". Somente aqueles que nunca refletiram sobre a história huma­
na podem achar possível produzir "uma revolução" na mente e nas afeições
. das pessoas por meio do "terror", argumentava Delacroix, de maneira real­
mente espectatorial.
Seguindo essa estratégia, a obra de Delacroix seguiria a "forma" do Spec- ,:
tator inglês, incluindo "vários discursos sem um elo real, muitas cartas.rea1s · ·'.
'�
ou fictícias, confidências que talvez nunca tivessem sido realmente genuínas,
projetos que podiam ter vindo de minha própria imaginação etc.". Se a meta
era melhorar as maneiras e a moral, Delacroix argumentava, "não importa
sob qual véu a razão e a v�rdade estão ocultas, desde que se possa reconhecer
sua linguagem".
Se ele varia tanto de tom - indo do grave e sério ao frívolo e mundano - e
introduz "personagens diferentes" em suas "conversas", é para melhor cativar
o público, como explica em 1824. Em suma. aos olhos desse "espectador
dos espectadores", para que uma tradução cultural do modelo do Spectator
fosse eficiente, o modelo deveria ser considerado uma "tela"; nos termos de
Delacroíx, o Spectator era uma "bela tela" que Addison e Steele haviam dei-

180 181
PARTE Ili
Tradução e ciência
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CAPÍTULO 9
O papel das traduções nos intercâmbios científicos
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europeus nos séculos XVI e XVII
Isabelle Pantin

Definição do corpus: um processo de redução

O objetivo deste capítU'lo é escudar o papel das traduções na difusão de


textos científicos do século XVI até o final do século XVII (Waquet, 1_998;
Grane, 1954; Chanier; Corsi, 1996; Burke, 20.04). Meus interesses pessoais,
minha formação e a falta de pesquisa primária no campo influenciaram em
conjunto o método seguido aqu� J:?iferentemente do que ocorre a respeito do
século XX, faltam-nos para esse período os meios necessários para se estudar
as traduções como um processo geral passível de ser quantificado ou mesmo
mapeado. 1 Em todo o caso, livros científicos representam apenas uma peque­
i:ª parte da massa de traduções feitas durante o período considerado, e não
estou convencida de que uma abordagem quantitativa seria panicularmente
esclarecedora. Este estudo examina em que medida as traduções revelam não
tanto as transformações da obra dos cientistas, mas as transformações de seu
contexto cultural. Estando interessada sobretudo nos motivos e nas metas
das traduções, recorri, na maioria das vezes, a estudos de caso.

1 Milo (1984) aplicou métodos quamimivos a um corpus do século XX.


;;
Peter Burke e R. Po-chia Hsia (orgs.) A 1roduçõo cul!urol nos primórdios da Europa Moderna

Essa orientação geral também justifica a decisão de deixar de lado o corpus Conforme Henri-Jean Martin (1969, p.303-1 I), as principais cidades en­
mais óbvio e maior, ou seja, as traduções de obras do passado (essencialmente volvidas nesse comérci<?, antes da Guerra dos Trinta Anos, eram Frankfu
rt
da Antigüidade, mas também da Idade Média), e de me concentrar em obras (sede da maior e mais internacional de todas as feiras de livros), .Leipzig,
modernas. Essa escolha pode parecer discutível em um programa de pesquisa Colônia, Basiléia, Genebra, Veneza, Paris, Lyon, Estrasburgo, Amsterdã, An­
do qual quase a metade diz respeito ao Renascimento, uma vez que na época tuérpia e Leiden. A partir do início do século XVII, Londres se tornou cada
os próprios cientistas atribuíam máxima importância ao legado do passado. vez mais ativa, ao passo que bibliotecários espanhóis estavam virtualmente
Isso f}ca muito evidente no movimento intelectual do Humanismo: citações, ausentes. Durante e depois da guerra contra a Espanha, cidades dos Países
edições e comentários de textos antigos eram com freqüência um meio de Baixos (especialmente Amsterdã) ganharam importância. Por exemplo, se­
transmitir novas idéias. gundo um catálogo publicado em 1634, a Elsevier tinha no estoque mais de
Mesmo assim, o corpus de traduções "modernas" pode ser justificavel­ três mil livros em latim (433 de Paris, 23 I de Lyon, 932 de Frankfurt, 201
mente posto à parte por apresentar problemas especiais. Considerado em si de Leipzig, 286 de Colônia, 169 da Basiléia, 456 de Genebra, 164 de Veneza,
.

mesmo, projeta uma luz útil-sobre a forma como as informações científicas 34 de Londres etc.); mais de quinhentos em francês. (322 de Paris, I03 de
recentes eram trocadas. Além isso, requer urria análise bastante complexa, ao Genebra, 27 de Lyon etc.); 307 em italiano; 32 em espanhol e apenas sete
passo que as traduções de obras antigas são mais diretas. No que diz respeito em inglês (Martin, 1969, p.311).
à ciência, em última análise o propósito das mesmas é sempre o domínio Por essas razões, o mundo hispânico, o Novo Mundo e a Europa oriental
de um ramo do conhecimento. A tradução de obras modernas, é claro, tam­ foram em geral omitidas deste estudo. Para compensar essa lacuna óbvia,
bém almeja isso, mas atende ademais a outras necessidades. Este estudo é - mais atenção foi dada a países que, por diferentes razões, tinham uma expe­
essencialmente um levantamento dessas necessidades, baseado na análise riência complexa dos problemas da língua e da transmissão de conhecimento:
de exemplos diversos que de maneira ideal devem representar o conjunto. a Inglaterra, por sua insularidade, e os Países Baixos, que tinham de se avir
Entretanto, não há a menor pretensão de que se abrangeu todo o campo da com o multilingüismo.
tradução científica. Um levantamento puramente descritivo teria sido insatisfatório, já que a
Como mencionamos antes, não existe um inventário exaustivo nesse descrição não teria sido fiel nem confiável, pelas razões já mencionadas. Por
campo. Por isso, em vez de tentar retratar o mundo das traduções cientí­ isso o que se segue enfocará, principal embora não exclusivamente, obras
ficas em toda a sua extensão, riqueza e variedade, resignei-me a salientar que passaram por processos de tradução que se poderiam chamar de "maci­
seus traços mais notórios. Considerei apenas traduções impressas, embora ços" (ou pelo menos significativos). Os heróis deste capítulo são Paracelso,
a circulação de manuscritos estivesse longe de ser insignificante no período Ambroise Paré, Simon Stevin, Galileu e William Boyle, e não os modestos
moderno. Isso fica óbvio, por exemplo, no caso de Paracelso, cuja influên­ mestres-escolas e cirurgiões cujos manuais pódem ter sido publicados em
cia se difundiu lentamente pela Alemanha e pela Suíça antes de suas obras mais de uma língua. Esta escolha é certamente discutível; talvez até mesmo
principais serem impressas. Mesmo depois que seus discípulos as editaram elitista. Ainda assim, não é arbitrária.
e traduziram (neste capítulo, mais adiante), textos e fragmentos paracelsia­
nos continuaram a circular em manuscrito, em especial. na Inglaterra, como
Charles Webster (1979) convincentemente demonstrou. A impressão de De um vernáculo para outros
um texto sugere simplesmente que seus editores e divulgadores achavam
que ele poderia atrair um número razoável de interessados (a tiragem usual Ao longo do período considerado, não era comum - mas tampouco excep­
era de 600 exemplares). No caso das traduções (especialmente em latim), -'\ dona! - que obras recentes fossem traduzidas pouco depois de sua publicação·
uma parte desses possíveis leitores era composta por estrangeiros; portanto, ·t original. Em sua maioria, eram traduções feitas do latim para o vernáculo e do
atribuí particular importância ao comércio internacional de livros que estava ·'(yernáculo para o latim, revelando assim a essência basicamente bilíngüe da
concentrado em uma área definida. cultura européia até o final do século XVIII. Em comparação, traduções de um

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Peter Burke e R. Po-chiq Hsia (orgs.) A troduçõo cultural nos primórdios da Europa Moderna

.\
vernáculo para outro eram muito mais raras, em especial no campo da ciência :-;: Todavia, o número crescente de publicações científicas em inglês após
(quanto aos romances ou à propaganda, a situação era bem dif�rente). a fundação da Real Sociedade (quando a língua inglesa ainda era pouco co­
As traduções que evitavam passar pelo latim podem ser encontradas nhecida fora da Grã-Bretanha) ocasionou algumas traduções para o francês,
sobretudo em assuntos marginais, especialmente livros utilitários: manuais embora notavelmente poucas: eram obras que careciam de uma justificativa
práticos, panfletos astrológicos ou prognósticos sobre os efeitos dos cometas, suficiente, fosse comercial ou científica. Enquanto a obra integral de Boyle foi
farmacopéias populares e livros de segredos. Por exemplo, os livros italia­ traduzida para o latim (ver p.194, 196, 200-1), apenas uns poucos tratados
nos de Leonardo Fioravanti (Secreti medicinali [Segredos medicinais], 1561; dispersos circularam em francês Oones, 1953).
Compendio di tutta la cirurgia [Compêndio de toda a cirurgia], 1561; Capricci Paracelso metece uma menção especial. 3 Seus tratados médicos mais
medicinali [Caprichos medicinais], 1564; Specchio di scientia uniuersale [Espelho difundidos, escritos originalmente em alemão, foram logo traduzidos para
da ciência universal], 1564; Regimento della peste [Regimento da peste], (1565) o holandês ou o francês (as traduções impressas em inglês foram mais nu­
foram traduzidos para o francês e o inglês. merosas, mas não apareceram antes da segunda metade do século XVII, e a
Nos Países Baixos, os impressores ou livreiros muitas vezes conseguiam paracelsica italiana foi escassa e tardia). Todos foram publicados em Antuérpia,
publicar o mesmo texto em diferentes línguas: Jan van Waesberge, de Roter­ onde Philip Herrnann fez compilações em holandês: Dat secreet der philosophizen
dã, por exemplo, imprimiu as versões em holandês e em francês do livro de [Os segredos da filosofia], Die peerle der chirurgijen [As pérolas da cirurgia] (de
Simon Stevin sobre fortificações. Isso era particularmente fácil em uma época Die grosse Wundartzney [O grande livro da cirurgia], impresso originalmente
em que os impressores se especializavam em cartografia e em livros sobre em 1536) e Een excellent tracktaet (de tratados sobre a sífilis e sua cura; Vom
instrumentos e navegação, dos quais a maior parte consistia em gravuras. Holtz Guaiaco... [Sobre a madeira do guaiacol] e Von derfranzi5sischen Kranckheit
Willem e J an Blaeu adotaram essa prática para sua coleção de mapas e guias [Sobre o mal francês], impressos originalmente em 1529 e 1530). Pieter Volck
de navegação (que por vezes envolvia pouco mais que mudar o título). A Holst, um cirurgião, traduziu Die grosse Wundartzney (Die groote chirurgie [As
Licht der zeewaert [Luz da náutica] (1608), de Willem, tornou-se assim The grandes cirurgias], 1555), e Martin Everart o Labyrinthus [Labirinto] (1563).
Light of Navigation [A luz da navegação] (1612) e Leflambeau de la navigation Everart traduziu posteriormente os outros livros cirúrgicos: De Cleyne Chi­
[A tocha da navegação], também chamado Le Phalot de la mer [O farol do rurgie ende Tgasthuys Boeck vanden seer Vermaerden [O breve livro da cirurgia e
mar] (1619).2 do hospital do mui famoso ...] (1568). Em seguida saiu La grande, vraye, et
Entretanto, outras obras além de manuais populares e livros técnicos parfaicte chirurgie [A grande, verdadeira e perfeita cirurgia] (1567), baseada na
ilustrados estavam envolvidas. O inovador livro-texto cosmológico de Ales­ edição melhorada de Die grosse Wundartzney por Adam von Bodenstein (1564).
sandro Piccolomini, De la sphera dei mondo [Sobre a esfera do mundo] (Veneza, Pierre Hassard também produziu De la peste, de ses causes et accidents [Sobre
1540), foi traduzido para o francês por Jacques Goupyl. Nessas dua:s versões, a peste, suas causas e acidentes] (1570), reunindo vários tratados sob!e a
a escolha do vernáculo foi feita não apenas em razão do público-alvo, mas peste a partir de duas coleções diferentes em alemão.
também a fim de "ilustrar" ou elevar o status das línguas italiana e francesa, O propósito dessas traduções estava claro: foram feitas por praticantes
respectivamente (esse tópico será discutido a seguir). Mutatis mutandis, as para praticantes, com a idéia de que poderiam difundir informações novas e
traduções em francês dos livros de Galileu - completas ou apenas planeja­ úteis sobre as enfermidades e doenças mais freqüentes ou perigosa�, pres­
das - feitas por Mersenne e Carcavy (Les mécaniques [As mecânicas], em 1634, tando cada vez mais atenção à exaustividade e à clareza. A próxima tradução
Les nouvelles pensées [Novas idéias], uma adaptação dos Discorsi [Discursos], francesa da Chirurgie a aparecer, em 1589, foi feita por Oaude Dariot, baseada
em 1639, e o projetado Dialogue [Diálogo]) são exceções de um tipo similar: na versão em latim de Josquin Dalhem (1573). A dedicatória deste último
eram espécimes prestigiosos mostrando que as línguas modernas eram apro­ texto a Pierre de Grantrye, assinada por Pietro Perna, o editor, menciona
priadas para transmitir uma nova filosofia. que Dalhem substituiu termos inventados por Paracelso pelo vocabulário

2 Para outros exemplos, Keuning,1973. 3 Para detalhes bibliográficos, Sudhoff, 1894.

188 189
Peter Burke e R. Po-chio Hsio (orgs.) A lroduçõo cultural nos primórdios do Europa Moderno

médico normal, e cita uma carta em que o tradutor afirma que parafraseou p!iado e transformado quando se tomou De augmentis scientiarum [Do crescimen­
as passagens obscuras. to das dências] em 1623. Esses dois livros se dirigiam a públicos diferentes:
Nesse caso, encontramos uma vez mais o proces�o comum em que o no primeiro caso, o rei e sua corte; no segundo, filósofos profissionais.
latim intervém, como no caso das Memórias matemáticas, de Simon Stevin, em Via de regra, as traduções em latim tendiam a prolongar os textos, e as
holandês (Wisconstighe ghedacht�issen), traduzidas para o latim por Willebrord vernáculas, a diminuí-los. Em 1542, Leonard Fuchs publicou na Basiléia, com
Snellius e para o francês por Jan Tuning. O manual de instruções de Willem Isengrin, seu De historia stirpium commentarii,[Comentários sobre a história
Blaeu para os usuários de seus globos terrestres e celestiais, "um de acordo das plantas], que já possuía elementos de multilingüismo: as plantas eram
com a opinião de Ptolomeu ( ... ), o outro segiindo a posição natural de Co­ examinadas na ordem alfabética de seus nomes gregos, mas listadas em um
pérnico'', passaram por um processo similar. Escrito em holandês, logo foi índice quádruplo que apresentava seus nomes em grego, latim clássico, latim
traduzido para o latim por Martinho Honênsio, e em seguida para o francês e medieval e alemão. A obra foi abreviada, adaptada e traduzida para o alemão
o inglês. O caráter técnico do livro justificava essa série de traduções. O mais de modo a se tornar acessível a boticários e jardineiros. No New Kreuterbuch
sjgnifkati�o eram suas claras simpatias copemicanas. Mesmo os cas_os aparen­ [Novo herbário], também publicado por Isengrin, a ordem alfabética é a
temente simples revelam a possível complexidade tlos fatores envolvidos. dos nomes em alemão, que também constituem a primeira seção do índice
multilíngüe (onde os nomes gregos foram transliterados). Essa versão abre­

t Latim versus vernáculo: remodelando por meio da tradução


viada foi traduzida para o holandês (Nieuwe herbarius, 1549), uma vez mais
publicada por Isengrin.
Todavia, esse esquema simples é ligeiramente complicado pela carreira
A tradução de uma obra moderna podia servir a diferentes propósitos. do livro na França. Uma tradução em francês foi feita por Eloi Maignan dire­
Sua língua original, fosse o latim ou o vernáculo, era esco!hida segundo os tamente da versão em latim (Commentaires tres excellens de l'hystoire desplantes
i:.. · requisitos do contexto. Via de regra, a decisão de traduzi-la não significava [Comentários muito excelentes sobre a história das plantas]) e publicada em
,, que esse contexto tivesse mudado, mas que o papel atribuído à obra e à Paris e Lyon, e uma nova epítome foi preparada, com um título em latim e em
i' maneira como sua recepção era concebida tinham se alterado. Dois fatores francês, e os nomes das plantas em latim, grego, francês, italiano e alemão.
.1:
principais entravam em jogo: o novo público e o prestígio associado a uma Esses poucos exemplos sugerem que as traduções para o vernáculo não eram
mudança no status da obra. todas do mesmo nível. Tampouco o eram as em latim.
Um dos sinais desses fatores é que mudar a língua com freqüência pro­
porcionava uma oportunidade de alterar o texto. Um exemplo são os Opera,
de Ambroise Paré, publicados em 1582 sob a supervisão de Jacques Guil­ O status cultural das línguas
lemeau, um dos discípulos de Paré. Esse texto em latim não é uma pura e
Conforme o Renascimento ia chegando ao fim, o latim era ainda a prin­
·iI' simples tradução das CEuvres, mas quase uma nova versão, na qual detalhes
que poderiam ser irrelevantes ou ininteligíveis para leitores estrangeiros cipal língua para a atividade erudita em toda a Europa, mas mudanças de­
i
foram cortados, e em que foram aprimorados os "auxílios para o leitor" (um cisivas haviam ocorrido, prenunciando seu lento declínio. Essas mudanças
i.. sistema de títulos, notas marginais etc.) (Pantin, 2003). envolveram as línguas vernáculas que, uma após a outra, se afirmaram como
r Há outros exemplos, às vezes na outra direção: Lau�ent Joubert escreveu . línguas de cultura, transformando a vida científica; bem como os hábitos
·t q e·requisitos dos cientistas, sem esquecer certos aspectos políticos. Dante
' 'l "'
primeiramente seus Paradoxa [Paradoxos] em latim e mais tarde seus Erreurspo­
pulaires [Erros populares] em francês, os quais eram mais longos e mais vívidos !( h�via i·ntroduzido a noção do vulgare illustre (ilustre vernáculo), e a partir
� do século XVI os íntimos elos entre o orgulho nacional e a defesa da língua
1 ,..
e pitorescos que a versão original. Em casos extremos, a adaptação resultava
Ç pátria eram reconhecidos por toda parte (Scaglione, 1984; Chiappelli, 1985;
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na composição de um livro completamente diferente. Assim, o Advancement of
leaming [A promoção do saber], de Francis Bacon, foi consideravelmente am-
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i.�í;'·�urke; 2004, p.61-88). - ·-·�·:· .,
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.· Peter Burke e R. Po-'chia .Hsio (orgs.)

Os dois campos considerados essenciais para apreciar-se o valor de uma


A tradução cultural nos primórdios da Europa Moderna

nessa língua, mas nenhuma série significativa de traduções. Poderíamos fazer

e, língua eram, por um lado, a poesia e, por outro, a "filosofia", que._ na acepção
. tradicional, englobava o que hoje chamamos de "ciência", já que desde o início
observações similares a respeito do inglês científico fomentado pela Real So­
ciedade. O volume de traduções - e esta é uma idéia de passagem - poderia
1
.,
do século XVI a separação aristotélica entre Filosofia Natural e Matemática assim proporcionar um critério que nos permitisse diferenciar uma língua
tem sido contestada. A Teologia, que os teóricos defensores das línguas amiú­ da elite de uma língua capaz de se impor em todos os setores·da atividade
de preferiam deixar fora da discussão, será omitida também aqui. científica.
Sperone Speroni, em seu Dialogo delle lingue [Diálogo das línguas] (Veneza, Todavia, próximo ao fim do Humanismo, o latim ainda era muito mais do
1542), e Joachim du Bellay, em La défence et illustration de la langue française [De­ que um meio fácil para a comunicação internacional, e pôr uma obra nessa
fesa e ilustração da língua francesa] (Paris, 1549), afirmaram que as línguas língua nem sempre implicava o desejo de difundi-la através de fronteiras na­
vernáculas eram capazes de expressar as mais elevadas concepções filosóficas. cionais. Quando Jacques Peletier du Mans tr�nsformou sua Algebre [Álgebra]
Jacques Peletier du Mans, poeta e matemático, justificou o uso do francês (1554) em De occulta parte numerorum [Da parte oculta dos números] (1560),
em ambos os domínios. Simon Stevin foi profundamente influenciado pelas suas razões foram complexas. O desejo de elevar o prestígio do francês usan­
idéias do círculo humanista de Hugo Grócio, e defendeu repetidas vezes a do-o para difundir as ciências já não era tão importante como fora uns pou­
tese de que o holandês era provavelmente a mais antiga língua do mundo, em cos anos antes.4 Pelo contrário, o uso do latim parecia apropriado pa_i:-a dar

particular apta a expressar idéias científicas (Wal, 2004, p.l 71-7). A posição à álgebra uma dignidade igual à das disciplinas matemáticas tradicionais. O
.) defendida pela Real Sociedade com respeito às línguas é bem conhecida. John
./_·
fato de Peletier haver se tornado recentemente um matemático de renome
Wallis, professor de Geometria em Oxford, escreveu a primeira "gramática internacional, graças à publicação de seu comentário sobre Euclides em latim
1 ·, filosófica" do inglês Oones, 1953, p.252).
Assim, pôr uma obra em uma língua vernácula não implicava apenas
(1557), constitui apenas uma razão em meio a outras.
Na Matemática, era difícil ser plenamente reconhecido e consagrado sem
(nem tampouco sempre) o desejo de popularizá-la. A mais completa versão o latim; mas esse era também o caso de disciplinas que haviam cedido mui­
da Sphcera mundi [Esfera dos mundos], de Oronce Finé, foi a francesa de to mais espaço ao uso do vernáculo, como a Medicina. Ambroise Paré, que
1551. Finé foi o primeiro detentor de uma cátedra real de Matemática no havia sofrido a persistente hostilidade dos doctores parisienses em razão de
College Royal (onde as palestras eram dadas em latim), e elevar o prestígio sua insuficiente formação humanística, obteve uma relativa vingança quando


da língua francesa por meio da publicação de obras científicas de qualidade suas CEuvres saíram como Opera (acima, p.190) .
• :.< era no momento um dos deveres dos palestrantes reais. Além disso, tanto

.
para o pensamento como para a comunicação entre os erudito�, as vantagens .
essenciais de uma língua materna eram facilmente discerníveis. Em cada país, O latim, edições de referência e obras reunidas
cada vez mais pessoas trabalhavam, correspondiam-se e publicavam no seu
.) vernáculo (Pantin, 1998). Em todo o caso, quando um livro circulava em duas versões, a em latim
,,1.\,
\. Por outro lado, quando se tratava da comunicação no âmbito da Europa era com freqüência a mais "viva", a que recebia comentários ou novos mate­
como um todo, o latim não tinha nenhum rival sério. Os grandes centros riais. Isso é ilustrado pela Géometrie [Geometria], de· Descartes; as edições do
internacionais do comércio livreiro estavam situados em sua maioria nas texto original em francês permaneceram praticamente inalteradas de 1637 até
áreas germânicas da Europà (com as feiras de livro de Leipzig e Frankfurt),

'.
o início do século XVIII, enquanto a versão em latim recebeu acréscimos de
onde o latim mantivera seu papel. O próprio Galileu não conseguiu fazer do Franz van Schooten, Johann de Witt e outros, provando assim a fecundidade
italiano uma língua científica européia (nem é provável que tenha realmente do texto. O mesmo se poderia dizer da Algebra, de Wallis. Sua edição em
tentado: os leitores que desejava convencer eram essencialmente italianos), e latim incluiu a primeira série completa de apêndices, e com isso constituiu a
,,r., , .:,,..
'._
a difusão do francês, durante seu glorioso auge (próximo ao fim do período
,, -�
-; clássico), produziu um grande número de publicações científicas originais 4 Sobre o "retorno ao latim" na França desse período, Faisant, 1979.
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�- :.-.
192 193
Peler Burke e R. Po-chia Hsia {orgs.) A !redução cultural nos primórdios da Europo Moderna

versão "clássica" padrão do livro. De maneira mais ge ral, a noção de " edição vers ões em vernáculo e em latim não é tão claramente marcada nesse caso .
de referência" (a edição que recebe sucessivas melhorias, tornando- se assim Os editores dos texto s em alemão tinham mai s ou menos a mesma formação
a definitiva), ·a exemplo da noção de "corpus" - no sentido de "obras reuni­ que os tradutores para. o latim e, em certas ocasiões , trocavam de domínio.
das" -, estava muitas vezes intimamente associada ao uso do latim. Claro que Gerard Dom permaneceu constantemente "latino", mas Georg Forbérger tan­
havia exceções: a edição reunida definitiva da obra de Stevin foi Les a-uvres to editou textos alemães como traduziu outros para o latim (Sudhoff, 1894;
mathématiques [A s o bras matemáticas], preparada e parcialmente traduzida Zaunick, 1977, p.37-9). Adam von Bodenstein e Michael Toxites, que esta­
por Albert Girard (1634). vam claramente situados no "lado alemão", por vezes editavam e anotavam
O latim desempenhou seu esperado papel na difusão dos livros de Boyle. tratados que estavam disponíveis apenas em remotas versões em latim (Sud­
Eles foram amplamente lidos em inglês, mas sua primeira edição reunida foi hoff, 1894, n.98, 126, 144, 160, 162). Além disso, suas produções parecem
publicada em 1677 por Samuel de Tournes , que as editou em latim (usando muitas vezes ter sido compradas e lidas pelas mesmas pessoas. Mesmo que
as traduções s up e rvisionadas pelo próprio Boyle e impressas pela primei ra as edições em latim se destinassem especialmente ao m ercado não alemão e
vez na Inglaterra, quando disponíveis, ou então obtendo edições "continen­ desempenhassem um papel essencial em difundir o paracelsismo na França,
tais "). Esse fato perl!lanece significativo, mesmo que os motivos comerciais Bélgica, Inglaterra e talvez Itália, tinham ampla circulação na Suíça, Alemanha
.prevalece ssem. O livreiro genebrino era um negociante internacional, um e Escandinávia, como é sugerido pelo número de exemplares existentes em
freqüentador assíduo da feira de livros de Frankfurt, e já havia publicado bibliotecas nesses países.
obras reunidas científicas, em e special a s de Paracelso (1658) (Bonnant, Por outro lado, as edições em aiemão não se destinavam e xclusivamente
1978, esp. 98, p.147-8). a clientes alemães. O catálogo que John Dee, preparado em 1583, atesta que
'
r Em todo caso , a coletânea não fora autorizada: Boyle era avesso a qualquer ele p ossuía então 41 livros de Paracelso e m ale mão (além de dezenove e m

H
t:
forma de sistematização, e à primeira notícia do lançamento fez publicar uma latim e dois e m flamengo) (Webster, 1979, p.331-2). A ob ra de Paracel so
h1 resenha bastante negativa na s Philosophical Transactions [Atas fil osóficas] (14 estava perfeitamente "alinhada ao novo espírito de auto-afirmação cultural
l; 1 de dezembro de 1676), deixando claro que essa edição "fora lançada sem o das nações da Eur opa ·set entrional" (nas palavras_ de Webster), e foi reconhe­
� !
c onsentimento e o conhecimento do autor". Também criticava o arranjo en­ cida c omo a prim eira obra-prima científica em língua alemã (a ssim como a
ganoso dos tratados (que ignorava s ua cronologia) e lamentava que "não se de Lutero o foi como a primeira teológica) (ibidem, p.316). Portanto, umá
l '
fizesse menção no Título Geral, nem em nenhum Anúncio, que esse s Livros tradução em latim não poderia acrescentar prestígio algum; o fato de algumas
r. eram todos Traduções do Inglês ". Além disso, Form and Qualities [Forma e obras ser em co nhecida s apenas p or meio de traduções rem ota s em latim era
qualidades]. um tratado filosófico e ssencial, fora omitido (mas acrescentado geralmente lamentado como uma perda irrecuperável. A coletânea alemã de
à coletânea em 1687) Oohns, 1998, p.508-10).s Huser (publicada na Basiléia, p or Waldkirch, em 1589-91) foi considerada a
De sua parte, Samuel de Toumes estava provavelmente convencido de definitiva. Nenhum adepto verdadeiro poderia esquecer que Paracel so havia
e star fazendo uma contribu!ção vali osa para a República das Letras. Ele se expressado veementemente sua aver são ao latim.
esforçou para reunir todo o material disponív el, encomendou algumas tra­ Des de o início , os paracelsistas foram inspirados por uma espécie de zelo
duções novas e organizou os inúmeros tratados de acordo com uma ordem filológico (claro , eles eram mais ou menos bem- suce dido s, dependendo do
temática. Sua carta prefacial ao leit or sobre o valor científico da edição era traquejo, do talento e da sort e). Procuravam manuscritos em sua busca por
mais do que propaganda c omercial. textos originais autênticos, e, como tinham de lidar com material disp erso
O longo processo de publicação, tradução para o latim e reunião das obras e muitas vezes fragme ntário, t entavam reunir diferentes tratados a fim de
de Paracelso deixa uma impressão um tanto dife rente. A fronteira entre as publicar livros suficientemente substanciais. Entretanto, o "espírito coletor "
estava mais presente pelo lado latino. Pietro Perna, que lidava com três tra­
5 Johns considera de Toumes pura e simplesmente um pirata, ao passo que o julgamento de dut ores, Gerard Dorn, J osquin Dalhei_m e Georg Forberger, havia concebido
Hunter é-mais equânime (Hunter e Davis, 1999, p.l.x.xx-lxxx.i). •. o pr. ojeto de uma coletânea. completa . em latim (Hieronymus, 1995). Os do is
--1�··
·, .
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· Peter Burke e R. Po::_chi�, Hsi·o (órgs.) A tradução cultvrol nos primórdios do Europa Moderna

volumes Operum latiné redditarum [Das obras recolhidas em latim], preparadÕs ·'.� iniciativa própria ou das pessoas ao seu redor. As traduções por vezes provo­
por Geoi-g Forberger em 1575, foram apenas Uma realização parcial (Sudhoff, · · '.� cavam polêmicas internacionais. Philip Lansbergen, por exemplo, um pastor
1894, n.165-6; Zaunick, 1977, p.39-43). Não se comparavam ·aos dez maci- calvinista destituído de seu ministério em 1613 em razão de sua impossí­
ços volumes de Huser (onze com os Chirurgischer Bücher [Livros cirúrgicos)) vel rigidez, dedicou-se à sua segunda paixão, a Astronomia (Vermij, 2002,
(Sudhoff, 1894, n.216-25). Assim que apareceu a monumental edição alemã, p.73-90). Ele considerava que sua vocação especial era recuperar o perfeito
contudo, Zacharias Palthen, um importante livreiro de Frankfurt, confiou-a a conhecimento dos movimentos celestiais outrora possuído pelos hebreus,
uma equipe de tradutores que produziu onze volumes (1603-1605). e, depois de laboriosas observações, cálculos e comparações entre sistemas,
Em 1658,Jean Antoine e Samuel de Tournes publicaram uma nova edição decidiu-se a favor do heliocentrismo. Martinho Hortênsio, um ex-aluno de
in-fólio, Opera omnia medico-chemico-chirurgica, tribus voluminibus comprehensa Isaac Beeckman e Willebrord Snellius, foi para ele o que Rético fora para Co­
[Todas as obras médico-químico-cirúrgicas, compreendidas em três volumes], pérnico. Estimulado por esse jovem entusiasta, publicou em 1629 um tratado
preparada por Fridericus Bitiskius, que se gabava de que sua tradução era mais singular: a primeira defesa da cosmologia copemicana, escrita em holandês e
completa e mais fiel aos originais, embora tivesse uma grande dívida para destinada a um grande público inculco, Bedenckingen op den dagelyckschen, ende
com a equipe de Palthen. Todavia, o importante é que uma nova coletânea iaerlijckschen loop van den aerdt-kloot [Reflexões sobre o curso diário e anual
completa em latim ainda pudesse ser planejada depois de tantas edições, e do globo terrestre. O mesmo quanto à verdadeira imagem do céu visível, em
em uma época em que os elementos essenciais da doutrina paracelsista já que as maravilhosas obras de Deus são reveladas].
tinham sido integrados às obras de discípulos e epígonos prestigiosos, de Passado menos de um ano de sua publicação, Hortênsio produziu uma
Pedro Severino aJan van Helmont. tradução em latim que foi lida por toda a Europa e foi alvo de ataques de
Alexander Ross,Jean Baptiste Morin e Libert Froidmont, os quais por sua vez
foram respondidos por Hortênsio e pelo filho de Lansbergen, Jacob (Philip
Interesses comerciais versus motivos ideológicos morrera em.1632). Essa controvérsia teve seu papel nos apuros de Galileu:
Froidmont, um teólogo de Louvain, publicou em sua segunda resposta (Vesta,
Esses diferences exemplos mostram que dois fatores principais estiveram 1634) a carta endereçada aJansênio pelo núncio de Bruxelas, que anunciava
envolvidos (e muitas vezes misturados) no processo de tradução: para dizer a condenação e a abjuração do filósofo.
cruamente, motivos ideológicos e interesses comerciais. Se os últimos eram Essa condenação (e a vergonhosa publicidade que lhe deram) foi preci­
relativamente constantes, os primeiros eram mais variados:" prestígio, o de­ samente a mácula que Galileu e seus discípulos quiseram lavar ao permitir
sejo de difundir conhecimento, de afirmar uma identidade (o. que requeria que sua ogra sobrevivesse e fosse lida por leitores livres de preconceitos
as marcas da distinção lingüística), de defender as idéias de um grupo de (Garcia, 2004; Pantin, 1999; Pantin, 20006). Nesse ponto sentiu-S<:, mais
indivíduos, ou mesmo de asseverar e proteger a propriedade intelectual, do que antes, que a circulação de seus livros em países estrangeiros era da
como no caso de Boyle, que desejava se proteger contra o plágio. Em uma máxima importância, e vários projetos de edição foram fomentados. Em 1633,
carta de 6 de agosto de 1665 ele confessou seu "desestímulo à publicação" um amigo parisiense de Galileu, Elie Diodati, enviou uma cópia do Dialogo a
de Forms and Qualities, Matthias Bemegger (em Estrasburgo), para que este pudesse traduzi-lo para
o latim, e, alguns anos mais tarde, ele próprio assumiu a mesma tarefa no
que, caso venha a público em inglês um tempo considerável antes de est� pronto caso da Carta à Grã-Duquesa Cristina. Como vimos, também foram empreen­
para ser publicado em latim, Vários dos Experimentos, que possivelmente pa­
didas algumas traduções para o francês. O próprio Galileu, que a princípio
recerão novos & um tanto Curiosos, podem, com ou sem variações miúdas, ser
se mostrara relutante, decidiu ter sua obra completamente traduzida para o
adotados & divulgados por outrem. (Hieronyrnus, 1995)
latim sob sua própria supervisão.
"Fatores ideológicos" eram muitas vezes prevalentes quando as tradu­ Vários projetos para a publicação completa das obras de Galileu em la­
ções eram feitas pelos próprios autores ou por pessoas próximas a eles, por tifr! foram concebidos simultaneamente na França, n0 império alemão e na

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Peter Burke e R. Po-chio Hsio (orgs.) A troduçõo cultural nos primórdios do Europa Moderno

Holanda, sob a supervisão de Carcavy, Giovanni Pieroni e dos Elseviers, � Sociedade, por outro lado, usava sua influência para favorecer o inglês. Nesse
respecúvamente. Por essa época, os Elseviers tinham filiais em Leiden, Haia · cóntexto, alguns livreiros ingleses, muitas vezes associados com a Sociedade
e Copenhague, e escritórios ou contatos em Veneza, Frankfurt, Londres, '.: (Barnard; McKenzie, 2002, p.302), se empenharam em formar para si mes­
Paris e Florença. Seus planos resultaram em apenas três edições da Elsevier, :: mos um rico estoque de obras científicas em inglês, cuja lista completa era
o Systema cosmicum [Sistemas cósmicos] (tradução em latim do Dialogo) em �-·"freqüentemente impressa em cada livro, à guisa de publicidade.
1635, uma edição bilíngüe da Carta a Cristina em 1636 e os Discorsi (na versão Na verdade, esse tipo de competição lingüística tinha lugar em ambiente
original) no in.ício de 1638 (Willems, 1880; Westman, 1984). ' de harmonia e compreensão mútua: o mesmo autor podia ser professor em

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A "latinização" de Paracelso por Gerard Dome outros não tinha urgência : Oxford ou Cambridge e membro da Real Sociedade (esse era o caso de Wallis
tão dramática, e dependeu mais de motivos de interesse. A partir de meados ,: e muitos outros). Ela tampouco impedia interesses conjuntos: os impresso­
do século XVI, a fama de Paracelso havia se estendido por uma grande área, = res universitários em Cambridge e Oxford estavam freqüentemente associa­
de modo que seus livros tinham potencial de venda. Entretanto, Pietro Perna, dos - ou pelo menos ligados - a livreiros em Londres que eodiam oferecer
que publicou uma série de novas traduções em lati_m na Basiléia, também foi . as versões em latim e vernáculo dos mesmos- textos ao comércio interior e
influenciado por motivos filosóficos e religiosos. Ele apoiava a alquimia e a �: exterior (McKitterick, 2002).
·, A Óptica, de Newton, e sua tradução por Samuel Clarke, prior da igreja de
medicina química, e era um protestante com certas tendências heterodoxas,
traço amiúde associado ao paracelsismo (Perini, 2002, p.61-111, 149-60). -; São Tiago (1675-1729), foram ambos publicados por Samuel Smith e Benja­
Além disso, seus tradutores, exceto por Josquin Dalhem, eram adeptos da :� min Walford (e depois por William e John Innys). Walford havia formado uma
nova doutrina. �- parceria com Samuel Smith, que era editor da Real Sociedade; ele o sucedeu
Havia duas razões principais para editar e traduzir Paracelso: atender :;'- nesse cargo após a morte de Smith, e William Innys o sucedeu (a partir de
às necessidades profissionais de praticantes ansiosos· por conhecer novos �- 1711) (Plomer, 1922, p.167-8, 298-9).
remédios e tratamentos, e promover uma nova filosofia radicalmente oposta
às concepções aristotélicas de ciência, do homem e da natureza. A limitada
coletânea em latim publicada por Perna de 1568 a 1575 sugere que ele tinha
r ·; No negócio da tradução, o desejo de facilitar a comunicação entre cien­
tistas não era o único e nem mesmo o principal fator. Os livreiros preferiam
incluir em seus catálogos tanto a versão em latim como em vernáculo de uma
ambas em vista. Além disso, suas traduções prepararam ou acompanharam a mesma obra. Os livreiros ingleses em grande parte importavam livros cultos
aparição progressiva de um novo tipo de paracelsismo, menos idiossincrático em latim: assim, a exportação das publicações científicas da Real Sociedade em
e mais bem adaptado a u m público culto (Schott; Zinguer, 1998; Grell, 1998; tradução era uma forma de compensação. Era um começo bastante modesto, e
·
Kahn, 1998; Webster, 1975; Shackelford, 2004). sem reais perspectivas: o grande obstáculo à penetração dos mercados estran­
Havia outro tipo de "ideologia" envolvido nas traduções destinadas a geiros por parte dos livros ingleses era seu custo de produção proibitivo. 6
acom?dar as necessidades e requisitos de um grupo ou, possivelmente, ins­ Os empreendimentos de tradução mais "ideológicos" tinham de satisfazer
tituição profissional. Por exemplo; os médicos investiam grandes esforços na a requisitos comerciais, como é óbvio até mesmo no caso das traduções de
tradução, defendendo por um lado o latim, em sinal de competência profis­ Galileu. Quando quis publicar seus livros no exterior, Galileu foi informado
sional, e por outro as línguas vernáculas, para permitir a distribuição de co­ de que o uso do italiano desanimaria muitos leitores. Seu discípulo Pieroni,
nhecimento útil e salutar. A Mediána era um dos campos em que a circulação em Viena, argumentou em 1635 que ele tinha numerosos adeptos por toda
simultânea do mesmo texto em duas línguas (o latim e o vernáculo) não era ;: a Europa ansiosos por ler seus livros, sem serem capazes disso: "Se os Diálo­
excepcional, em especial no caso de tratados sobre a peste. :· gos estivessem em latim, acho que já teriam sido reimpressos na França, na
Quanto às instituições, as universidades de Oxford e Cambridge apoia­ Bélgica e na Alemanha e em outros lugares, pois os interessados são muito
vam o latim. Daí, por exemplo, a tradução de A Treatise of Algebra Both Histo­
rical and Practical [Tratado de álgebra, tanto histórico como prático], de John �". · 6 · Ver a cana de Jan van Waesberthe, Um livreiro holandês, a Samuel Smith (janeiro de 1685),
Wallis, que se tornou De algebra tractatus historicus et practicus (1693). A Real '" . · citada em Johns, 1998, p.507.
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Peter Burke e R. Po-·chio Hsio (orgs.) A lroduçõo cultural nos primórdios do Europa Moderno

numerosos". Outros correspondentes escreviam que os livreiros objetavam e publicados em inglês, mas "o filósofo inglês" encomendava traduções em
. veementemente a publicar livros em línguas estrangeiras, temendo não en­ latim que eram freqüentemente impressas em Oxford ou Londres, embora
contrar compradores. sobretudo para o mercado estrangeiro. Essas primeiras versões em latim, bem
Todavia, o projeto de uma tradução completa fracassou, como vimos, como algumas mais novas, foram posteriormente impressas em Amsterdã e
por razões óbvias: dificilmente seria possível imprimir livros condenados em Roterdã, a despeito da oposição de Boyle; e finalmente, como vimos, Samuel
países católicos, mesmo na França, que se orgulhava de não seguir nenhuma de Tournes, em ·Genebra, reuniu todas as traduções existentes, mandou tra­
injunção e édito promulgados em Roma, e os livreiros obviamente achavam duzir as obras que ainda só estavam disponíveis em inglês e publicou uma
que os livros não seriam facilmente vendidos. A Elsevier só publicou obras coletânea completa em latim. Porém, em sua nota "Lectori benevolo", o
que tinham um público leitor potencial - mesmo que não grande: o livro ain­ livreiro frisava sua motivação ideológica.
da inédito sobre as "novas ciências" do movimento, que constituiu o legado Em todo o caso, a carreira editorial dé Boyle em latim permanece uma
galileano à Física, e os textos altamente polêmicos em que o filósofo atacara exceção. Nos séculos XVI e XVII, a tradução de livros científicos modernos
de frente dois problemas cruciais: a reforma cosmológica (no Diálogo) e a era apenas um fenômeno marginal, mesmo no caso da Inglaterra - eu deveria
reforma exegética necessária para harmonizar as Escrituras com o heliocen­ antes dizer de Londres -, onde havia um confronto verdadeiramente dinâmico
trismo (na Carta a Cristinà). entre o latim e o vernáculo. É significativo que o capítulo intitulado "A ciência
As observações dos discípulos de Galileu são interessantes: eles leva­ e o livro" na Cambridge History of the Book in Britain [História cambridgiana
vam fatores comerciais_ em conta, mas não para auferir lucro. Ao contrário do livro na Grã-Bretanha] não discuta o problema das traduções, e que, por
de autores como Boyle, não temiam o plágio e a pirataria: Pieroni sonhava outro lado, a parte relativa às "tradições vernáculas" nã-:> lide com a literatu­
com reimpressões "na França, nos Países Baixos Espanhóis e na Alemanha, ra científica, exceto por via da "imprensa periódica" Oohns, 2002; Nelson;
além de outros lugares", embora, se ocorressem, ele dificilmente pudesse Seccombe, ?002).
ter controle sobre elas (econômico ou científico). Essa confiança idealista
na capacidade da boa filosofia de se difundir ad maiorem veri gloriam [para a
maior glória da verdade] é típica de um determinado meio (Garcia, 2004). Conclusão: a caminho da constituição
Não obstante, não era uma atitude representativa. de uma bibliotheca philosophorum universal?
Outro sinal da importância dos fatores comerciais era que, no caso das
traduções, .uma proporção maior dos privilégios era concedida aos livreiros. Assim, não havi_a um grande fluxo de traduções científicas, e o corolário
Seria mais exato dizer que os livreiros envolvidos no "comércio da tradução" era que as obras raramente eram traduzidas apenas para abastecer o mercado.
eram os que obtinham privilégios gerais. Por exemplo, Ambroise Paré, de A grande maioria das traduções era do vernáculo para o latim, e tinha mo­
1549 em diante, ·sempre se empenhou em obter privilégios pessoais; mas tivos especiais. Acima de tudo, eram um sinal de valor. Nos prefácios, eram
os dois privilégios para os seus Opera (o de Rodolfo II, por seis anos, e o de freqüentemente apresentadas como prova da importância internacional da
Henrique III, por dez anos) foram concedidos ao livreiro, e o privilégio im­ obra, com o chavão do público estrangeiro em ansiosa expectativa. Jacques
perial também contemplou uma tradução, a versão em latim da República, de Guillemeau, na dedicatória a Marc Miron dos Opera, de Paré (1582), afirmou
Bodin (Charon, 1991, p.23"1). Maximiliano II concedeu um privilégio geral a que todos os cirurgiões que havia encontrado em suas viagens, ·italianos,
Pietro Perna em 1567, um ano antes da publicação da Pyrophilia, a primeira alemães ou espanhóis, ansiavam pela tradução, e por isso o livro teria uma
das traduções de Dom. Ele era válido para "todos os livros médicos, filosófi­ grande carteira internacional. Encontramos o mesmo chavão nas edições de
cos, históricos, matemáticos e poéticos, e aqueles que auxiliem o estudo do Paracelso em latim.
hebraico, do grego ou do latim" (Perini, 2002, p.380). Franz van Schooten expressa uma idéia similar com mais sobriedade, ao
As traduções dos livros de Boyle parecem, sim, ser um caso de uma ver­ apresentar a Geometria, de Descartes: a obra, publicada em francês doze anos
dadeira diIJâmica cortiercial: os tratados de Boyle eram quase sempre escritos antes, conquistara a admiração dos literati et ingenios_i [letrados e engenhosos];

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Pe!er Burke e R. Po-chia Hsia (orgs.)

por isso uma tradução, com notas explicativas, parecia necessária para ampliar
seu público leitor, e Jean Maire, o livreiro, conseguiu providenciá-la. Uma vez
mais, o editor da versão autorizada em latim de The Spring of the Air [A mola
do ar], de Boyle, alude a pedidos prementes de celebridades.
As tra'duções para o latim eram, para os escritores, um meio de se esta­
belecerem na dignificada República das Letras, e eram muito mais signifi­
cativas qu!1f1do se tratava de livros que haviam sido escritos primeiramente
no vernáculo por razões especiais e importantes, como o Dialogo, de Galileu,
ou o tratado de Lansbergen sobre o movimento.da Terra. Por outro lado,
elas muitas vezes reduziam o controle dos autores sobre sua própria obra. CAPÍTULO 1 O
Vários fatores contribuíam para esse efeito, desde as iniciativas tomadas por Intercâmbios científicos entre o helenismo
discípulos ou seguidores diS"tantes (e as liberdades tomadas pelos tradutores) e a Europa: traduções para o grego, 1400-1700
até as estratégias dos livreiros. Robert Boyle tinha uma visão muito aguça­
da d_os aspectos desagradáveis do processo, ao passo que Galileu acabou Efthymios Nicolai"dis
se resignando a tolerá-los, vendo que com isso assegurava a sobrevivência
de sua obra. Todavia, o mais importante era provavelmente o fato de que
o público dos livros havia mudado: ele se tornara maior, mais estrangeiro,
muitas vezes ignorante das circunstâncias da publicação original, e mais
livre em suas interpretações. Doravante, a obra seria .uma espécie de bem
público (bonum publicum), e pertenceria a toda a comunidade dos filósofos e
das pessoas letradas. As últimas décadas bizantinas

O século XV é o século da transição de poder nos Bálcãs e na Ásia Me­


nor, do declinante Império Bizantino para o ascendente Império Otomano.
Conforme Bizâncio perdia terras e poder, seus imperadores ansiavam mais
e mais por ajuda da Europa ocidental contra a conquista militar otomana.
A fim de motivar a Europa católica a auxiliar os "hereges" ortodoxos, foi
proposto um plano para a união das duas principais igrejas cristãs euro­
péias, e foram organizados debates entre elas. Um efeito colateral desses
-. contatos foi um intercâmbio cultural intenso entre os dois lados, e, no que
··
diz respeito à Ciência, a troca de manuscritos e, em alguns casos, tradu­
ções também.
Durante a última dinastia bizantina, a dos Paleólogos, os funcionários do
Estado e os eruditos pertenciam ao mesmo meio. Para ascender na hierarquia
estatal, os estudos eram praticamente obrigatórios. Os funcionários públicos
faziam usualmente cursos de alto nível, estudando o trivium (Gramática, Lógi-.
ca e Retórica) e o quadrivium (Música, Aritmética, Geometria e Astronomia).
A form ação desses funcionários e a importante posição que o que chamamos

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Peter Burke e R. Po-chio Hsio (orgs.) A tradução cultural nos primórdios do Europa Moderno

de "ciência" conquistou durante essa derradeira dinastia bizantina levavam- A história das traduções para o grego do corpus astronômico persa remonta
. nos a discutir antes Filosofia Natural que Política. bem �o início do século XIY, quando Jorge Chionades (cujo nome monástico
Com efeito, debates políticos e religiosos entre rivais que tentavam obter era Gregório), após seus estudos de Medicina em Constantinopla, foi a Trebi­
0 mesmo alto cargo estatal por vezes se convertiam em discussões científicas. zonda obter auxílio do imperador Aleixo II Comneno (que reinou de 1297 a
De resto, nomeações para alguns cargos políticos importantes eram feitas 1330) para viajar a Tabriz. Naquele período, Tabriz era um renomado centro
depois de debates científicos, como no caso de Metochites e Choumnos, que científico, onde a astronomia era ensinada por Shams al-Din al-Bukhari,
disputaram o cargo de primeiro-ministro (logothetis tou genik ou) debatendo entre outros. Seguindo essa primeira visita, Chioniades retornou a Tabriz
sobre Astronomia, e não sobre Política ou Religião (Sevcenco, 1962). Me­ como bispo do povo onodoxo da cidade, enviado pelo imperador bizantino
tochites obteve o cargo após demonstrar que era um astrônomo e filósofo Andrônico II (que reinou de 1282 a 1328).. De Tabriz, Chioniades levou de
natural mais hábil do que Choumnos. volta a Bizâncio um corpus astronômico que compreendia os seguintes textos
Esse ambiente, junto com um genuíno entusiasmo pela Astronomia e árabes ou persas:
em especial pelo cálculo dos eclipses solares, é a razão para que tantos fun­
a) O Zij al:tilâ'i, de Al-Fahhâd (c. 1176), segundo ensinado por Shams Bukhari
cionários bizantinos do Estado e da Igreja que entraram em contato com a
(Pingree, 1985-1986).1
Europa ocidental estivessem envolvidos com a Ciência. Cumpre notar que
b) O Zij al-Sanjari, de al-Khâzini (c. 1135) (Inédito, Biblioteca do Vaticano, Vat.
o interesse especial pela Astronomia estava intimamente ligado ao cálculo gr. 1058 e Vat. gr. 211, Laur. gr. 28/17).
dos horóscopos, já que a astrologia ficava cada vez mais em voga em uma c) Tabelas ainda não identificadas, que começav,am em 1093.
civilização que vinha sendo derrotada no âmbito militar. d) As tabelas do Zij-i lkhâni, de al-Tusi, que inspiraram a Sintaxe persa, de Chry­
Durante o período bizantino, três tipos de texto científico foram traduzi­ sokokkes.
dos para o grego, um do Oriente e dois do Ocidente: os textos da escola astro­ e) Vários ·textos breves e figuras, como as famosas Figuras dos corpos celestes, que
nômica de Tabriz e Maragha na Pérsia, os da escola astronômica dos judeus aparecem no manuscrito do Vaticano Vat. gr. 211, fols.115-21, inspirado pelo
caraítas na Provença, e os da escola astronômica ibérica. As traduções dos Tadhkira, de Nasir al-Din al-Tusi (Paschos e Sotiroudis, 1998).2
textos persas para o grego seriam de interesse na Europa um século depois, f) Um tratado sobre o astrolábio, provavelmente de Shams al-Bukhari.
já que astrônomos da Europa ocidental e central (Copérnico, por exemplo)
os estudariam a partir dos manuscritos bizantinos. Como já mencionado, esses textos circularam na Itália depois de
O primeiro grupo de traduções, do persa para o grego, foi feito na verda­ 1400. Entre eles, o mais discutido pelos historiadores é o escrito por Chionia­
de durante o século XIV, mas tornou-se muito popular durante o século xv,· des, intitulado Figuras dos corpos celestes. Baseado no Tadhkira, de Nasir al-Din
quando elas foram copiadas vezes e vezes seguidas. Durante o século XV esses al-Tusi, ele pode ter desempenhado um papel importante no desenvolvimento
textos chegaram à Itália levados por eruditos gregos que fugiam da conquista da astronomia copemicana, já que apresenta a "cópula matemática al-Tusi",
otomana. No contexto da retomada da língua grega pelos eruditos europeus, uma ferramenta geométrica que transforma movimentos circulares em linea­
esse material se tornou importante, já que introduzia novos conhecimentos res. Esse teorema é considerado complementar ao de Proclo, que transforma
na Itália. Incluem o corpus astronômico de Gregório Chionades, que viajou movimentos lineares em circulares.
para Tabriz no início do século XIV. Em De revolutionibus [As revoluções dos orbes celestes], Copé�nico usa o
O mais importante texto desse corpus - e o mais copiado - foi editado em teorema de al-Túsi na teoria do movimento de Mercúrio. 3 O astrônomo polo-
1347 por Jorge Chrysokokkes, e é intitulado A sintaxe persa na astronomia. Essa
Sintaxe é baseada no Zij-i Ikhâní, de Nasir al-Din al-Túsi (1201-71), o funda­ 1 Ver também Mercier, 1988.
2 Os autores argumentam que Chioniades não apenas transmitiu o conhecimento do Tadkhi­
dor do observatório de Maragha e seu mais importante astrônomo. O livro
ra, mas também modificou e aprimorou esse conhecimento (a teoria de Mercúrio sem o
de Chrysokokkes é citado pelo erudito francês lsmale Boulliau (Astronomia equante, mas com uma trajetória elíptica para o centro do epiciclo).
philolaica, 1645); mais de cinqüenta manuscritos foram preservados. 3 Observado porHanner, 1971,p.616.

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Peter Burke e R. Po-chio Hsia (orgs.) A tradução cultural nos primórdios do Europa Moderno

nês, que sabia ler grego, provavelmente achou essa informação, durante sua ;_, traduzida para o grego e também, com o título Shestokryl [Seis asas], para o
estada na Itália, no manuscrito Vaticanus graecus 211.4 De maneira mais geral, •· . russo. A tradução para o gr ego foi feita por Miguel Chrysokokkes e m 1435.
a astronomia persa da escola de Maragha se tomou conhecida na Europa após \' Esse texto traduzido se difundiu amplamente no mundo grego, e mais de
o século XV por meio das traduçõe s gregas anteriormente mencionadas, já -·· um século depois, em 1574, Damaskinos Stoudites, bispo de Lepanto e Arta,
que a língua grega tornou-se acessível aos eruditos durante o Renascimento atualizou as tabelas traduzidas. 6
e muitos manuscritos bizantinos foram exportados para a Itália na época da A tradução dess e texto para o gr ego se deveu provavelmente à rede de
queda de Bizâncio. 5 comunidade s cara!tas e aos contatos entr e os Bálcãs e o sul da França por via

O segundo grupo de traduções científicas para o grego durante o último dessas comunidades. Conh ecemos vários comentários sobre o Kanfe nesha­
período bizantino é a obra dos caraítas, fund��ntalistas jude us que rej ei­ rim, de Bonfils, escritos por caraítas e que explica como adaptar as tabe las
tavam a tradição rabínica e estavam instalados no sul da França. Durante os (originalmente calculadas para a latitude de Tarascon, 33.30°) à latitude de
séculos XIII e XIV, na Provença e no Languedoc, os caraítas, esses "judeus Constantinopla e da Criméia.
protestantes", foram conh ecidos como os cientistas da diáspo�a. Os astrô­ Como foi que Miguel Chrysokokke s e ncontrou e traduziu o texto? Já se­
nomos e matemáticos caraítas foram influenciados pelos árabes e fizeram sugeriu que.colaborou com Ioannes Kavouues. em Focéia (Diller, 1972). Em
importantes contribuições para a difusão da Ciência na Europa. A comuni­ todo o caso, as informações sobre Chrysokokkes são escassas. Sabe mos que
dade caraíta da Provença estava em permane nte contato com as comunidades foi notarios da "Grande Igreja", em outras palavras do Patriarcado de Constan­
caraítas de todo o Mediterrâneo, entre elas as de Salônica e Constantinopla. tinopla, durant e o segundo quartel do século XV. Sugeriu-se que é a mesma
Os caraítas eram tradutores em várias línguas, como o hebraico, o latim, o . pessoa que Manu e l Chrysokokkes, diácono e Megas sakelarios do Patriarc ado,
árabe e o grego. No final do século XV, vivia em Constantinopla um dos mais que esteve presente no Concílio de Fe rrara e assinou a União das Igre jas
importantes eruditos caraítas, Kaleb Afentopoulo (Elijah), que e�creveu livros (Lampsides, 1937, p.313). Ness e caso, ele se tomou diácono após 1435, e
sobre Matemática e Astronomia. então mudou s e u nome para Manuel.
O matemático Immanuel be n Jacob Bonfils de Tarascon escreveu muitos As Asas tiveram uma importante difusão durante o período bizantino e
livros, um dos quais foi o Kanfe nesharim [Asas de á guia), conhecido como pós-bizantino. Pe lo menos quinze manuscritos sobreviveram, junto com co­
Sepher shesh kenafayim [Livro das seis asas], por causa da divisão das tabelas mentários e acrésc imos como os de Oamaskinos Stoudites. Já se de monstrou
astronômicas em seis grupos, em refe rência a Isaías. Essas tabelas foram um que o principal propósito das Asas era o cálculo dos eclipses solares e lunares;
sucesso na Europa, e em razão disso Bonfils foi alcunhado o "mestre das asas" esse cálculo tinha sido a moda entre os eruditos bizantinos dos séculos XIV e
[Ba'al kenafayim]. Seu livro inclui uma introdução que come nta as tabe las, e XV, o qu e poderia explicar o sucesso das tabelas de Bonfils (Sólon, 1968).7
foi escrito em hebraico por volta de 1365 (alguns manuscritos estenderam Jacob ben David Yom-tob, ou Bong'oron, ou Bonjom, ou Yom Tov Poel
as tabelas até 1490). A obra foi traduzida para o latim em 1406 por Johan­ (e há ainda outras versões de seu nome ), foi astrônomo do rei Pedro IV de
nes Lucae e Camerino e usada por Pico della Mirandela. Post eriorment e, foi Aragão, o Cerimonioso (qu e reinou de 1336 a 1387). Seu pai era fabricante
de instrume ntos em P erpignan; s eu filho, também astrônomo, converteu-se
ao cristianismo no fim do século XIV. As tabe las astronômicas de Jacob b en
4 O primeiro a notar isso foi Neugebauer, 1975, p.1035. C( Swerdlow; Neugebauer, J 984, v.I, David, iniciadas em 1361 para uso na latitude de P erpignan, almejam especi ­
p.47-8 e v.ll, p.567-8. Mesmo assim, Copérnico nunca menciona al-Tüsi, embora mencione
ficamente, assim como as de Bonfils, o cálculo dos eclips es lunares e solares.
Prodo. Alguns historiadores concluíram que ·ele foi inspirado pelo teorema complementar
de Proclo e redescobriu o mesmo teorema que al-TOsi. Escritas em h ebraico, foram traduzidas para o latim e o catalão, tornaram-se
5 Note-se que, no que diz respeito a esse período, existe uma bibliografia que estuda as fon­
tes das traduções gregas. Alguns textos gregos foram editados com comentários extensos,
ado
sobretudo na série "Corpus des astTOnomes byz.anrins [Corpus dos astrônomos bizantinos]" 6 Tiapt1CTacru; ,cou l8' CTTJpi6cov Mriaf\À. ,:ou XpucroKót..,cou, Biblioteca do Anexo do Patriarc
(Université de Louvain-la-Neuve), dirigida por Anne Tihon. Mas ainda há muito a fazer de Jerusalém em Constantinopla, MS 317.
nesse campo, já que o texto principal, o de Chrysokokkes, continua inédito. 7 Ver também Sólon, 1970, com bibliografia.

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Peter Burlce e R. Po:chi_a Hsia (orgs.) A tradução culfurol nos primórdios do Europa Moderna ,/

populares e foram usadas ou comentadas por astrônomos posteriores como <lua. Em 1632, um colégio similar foi estabelecido na própria Pádua. Quanto
Abraão Zacuto, de Salamanca. a Roma, um Colégio para Católicos Gregos fora fundado no século XVI.
A tradução grega das tabelas de Yom-tob ocorreu graças· aos contatos . O fato de o Império Otomano não ter um sistema de educação superior - à
feitos na época da União das Igrejas. Marcos Eugenikos (e. 1394-1445), bispo parte as medreses [madraçais] ou escolas das mesquistas (discutidas a seguir,
de Éfeso, foi enviado à Itália para participar dos debates. Foi ele o repre­ p.220) - estimulou os gregos do Império Otomano a estudar no extertor du­
sentante ortodoxo que se negou a assinar o decreto da União em 1439. Na rante os séculos XVI e XVII. Pádua era a universidade favorita desses alunos
Itália, descobriu a versão em latim do texto judaico de Yom-tob e a traduziu visitantes, alguns dos quais posteriormente lecionariam Ciência nos colégios
e adaptou para o grego. das comunidades gregas do Império Otomano. Os manuais que escreveram
O terceiro grupo de traduções vem das regiões governadas pelos des­ para uso em suas aulas eram sobretudo compilações baseadas em livros que
cendentes dos cruzados, e datam do século XIV. Essas traduções provinham leram durante seus estudos em Pádua.
da tradição astronômica ibérica, em que árabes e europeus se encontravam. As fontes das traduções e compilações em grego nos séculos XVI e XVII
Elas não tiveram nenhuma influência significativa e não apa,recem muito em ainda não foram determinadas. A situação é muito diferente tanto para o
manuscritos depois disso. período bizantino como para o século XVIII, quando muitos livros gregos
Para mencioná-las de maneira breve, havia as Tabelas toledanas, de origem sobre Ciência, incluindo traduções, foram impressos; além disso, para esse
árabe, adaptadas do latim; alguns tratados em latim sobre o astrolábio basea­ período a rnaioria das fontes é bem conhecida.8
dos em fontes árabes (os tratados de Messahalla e Maslama); e finalmente as Durante os séculos XVI e XVII, há poucas traduções de livros inteiros,
famosas Tabelas afonsinas, encomendadas por Afonso X, o Sábio, futuro rei de e essas traduções datam principalmente do final do século XVII. Anastasios
· Castela e Leão (calculadas para 30 de maio de 1252), que foram um grande Papavasilopoulos, um padre-professor de Janenna, escreveu dois tratados
sucesso europeu durante mais de dois séculos. Todos esses textos foram tra­ manuscritos no final do século XVII: uma Introdução à Matemática9 e uma
duzidos e adaptados para o grego por volta de 1340 pelo nobre cipriota Jorge Filosofia Física, 10 ambas traduzidas do latim. As fontes dessas duas traduções
Lapithe e seu círculo. As Tabelas afonsinas circularam em Constantinopla no ainda não foram descobertas.
início do século XV, adaptadas para essa cidade por Demetrius Chrysoloras (e. Os livros são manuais escolares de Aritmética, Geometria e Física (de
1360-1416), um funcionário de alto escalão, partidário dos antiunionistas. "fontes antigas e modernas") a serem ensinados a seus pupilos na cidade de
Tyrnavo, na Tessália. A Introdução à Matemática foi traduzida em 1695; é um
livro educativo do nível secundário (para o período), que apresenta definições
As comunidades gregas do Império Otomano de figuras geométricas, Aritmética básica e o cálculo de superficies e volu­
mes. A Filosofia fisica foi traduzida em 1701 e apresenta um conhecimento
Diversos historiadores já apontaram a influência sobre a Ciência européia de Filosofia Natural do mesmo nível que teria sido lecionado nos colégios
dos mànüscritos científicos bizantinos levados à Europa ocidental poucos de preparação ao ingresso na Universidade de Pádua.
anos antes, ao longo e depois da queda de Bizâncio. Muitas edições européias
de antigos textos científicos gregos publicados nos séculos XV, XVI e XVII se
8 Uma bibliografia da história da ciência do período pós-bizantino (cerca de dois mil títulos)
baseavam no corpus de manuscritos científicos pertencentes ao cardeal Bes­
de autores gregos está disponível on-line em http://www.eie.gr/institutes/kne/ife/index.
sarion e a outros eruditos gregos que fugiram para o Ocidente. É a tendência htm.
oposta complementar que será discutida aqui: as traduções para o grego de 9 Eloay<iYyTJ µa8TJµcmlCT)ç ac tl]Ç J\anvwu <púlVT)Ç µemx1:teo6eíoa ... (Introdução à matemática
textos científicos contemporâneos, escrito sobretudo em línguas latinas. traduzida do latim...), Biblioteca Nacional da Grécia, MS 2139, século XVlll, fols.38a-66a.
Karas, 1992, encontrou seis manuscritos desse texto, todos do século XVIll.
Durante os séculos XVI e XVII, floresceu em Veneza uma importante lO Ene1píõ1ov tl]Ç avaL;11oacrriç (j)OO\ICT)Ç q,IÀ.oooq,1aç... (Manual da filosofia fisica revivida... ),
comunidade grega que, no fim do século XVI, estabeleceu um Colégio grego · :.• Biblioteca Nacional da Grécia, MS 1331, fols.la-98a. Karas, 1992, enconcrou dois manus­
a fim de preparar os estudantes gregos para ingressar na Universidade de Pá- �,._; critos desse rexto, ambos datados de 1701 (o ano da composição).

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Peler Burke e R. Po-chia Hsia (orgs.) A traduçõo cullurol no_s prim6rdios do Europo Moderna

O primeiro livro impresso que pode ser considerado uma tradução versa Escola Patriarcal, e continuou a ensiná-la depois que se instalou em Atenas
sobre Matemática prática - em outras palavras, Aritmética para mercadores e em 1640. Suas aulas de Fí_sica aristotélica (seguindo o curso da Universidade
também alunos do que se poderia considerar um nível primário da educação. de Pádua) tiveram grande influência sobre toda região dos Bálcãs até a in­
Essa obra foi impressa em \'.'eneza em 1568 e reeditada dezenove vezes até trodução da nova Filosofia Natural em meados do século XVIII. Corydaleus
1818! O autor, Emanuel Glyzounis (1530-96), vinha da ilha de Quios, foi havia estudado Física com Cesare Cremonini, o afamado erudito aristotélico
para a Itália estudar e se instalou em Veneza, onde se tornou impressor. Sua (que copiou alguns livros de Cremonini enquanto foi estudante em Pádua).
Aritmética prática é uma tradução de um ou de muitos livros italianos chama­ Os dois principais manuscritos redigidos por Corydaleus, Geografia (1626)
dos Abaéci, muito comuns_ naqueles tempos. Eram obras que apresentavam a e A Física de Aristóteles (1634), não são traduções literais de livros italianos,
Aritmética básica (adição, subtração, multiplicação e divisão) e também mé­ mas foram fortemente influenciados pelos livros que viu, possuiu ou copiou
todos para resolver problemas com uma incógnita. Glyzounis acrescentou um em Pádua. A Física de Aristóteles se tornou um dos livros de Física mais am­
método para calcular a data da Páscoa, já que o livro se destinava aos gregos plamen-te usados nos Bálcãs: ainda existem mais de 143 manuscritos, e uma
ortodoxos. Essa foi a obra mais popular de aritmética prática nos Bákãs até versão impressa foi publicada em Veneza em I 779.
o século XIX; foi inclusive traduzida para o romeno em 1793. 11 Junto com Corydaleus, vários eruditos constituíram uma "Escola de Pá­
Conhecemos pelo menos dois outros Abacci italianos traduzidos anoni­ dua" grega no século XVIl, lecionando Filosofia e Ciência aristotélica a co­
mamente por volta do século XVIII. Essas traduções nunca foram impressas, munidades gregas: Georgios Korressios (1570-1660), Nikolaos (Nicéforo)
e acabaram obscurecidas pelo sucesso do livro de Glyzounis. 12 Klarontzanos (m. 1645), Meletios Syrigos (1586-1664), Nicolaos Koursoulas
Entre Glyzounis, que traduziu do italiano um livro de aritmética prática (1602-52), Nicolaos Kerameus (m. 1663), Gerasimos V lahos (1605/7-1685),
para a vida cotidiana em meados do século XVI, e Papavasilopoulos, que Mathaios (Meletios) Typaldos (1648-1713) e Georgios Sougdouris (1645/7-
traduziu do latim livros de nível secundário para o ensino no .final do sé­ 1725) (Petsios, 2004). Gerasimos V lahos escreveu um livro em 1661 para
culo XVII, a educação foi reorganizada nas comunidades gregas do Império suas aulas no Colégio Grego em Veneza intitulado Harmonia definitiva entium 13
Otomano. De fato, após a queda de Bizâncio, em que havia um sistema edu­ [Harmonia definitiva dos seres] e baseado em várias fontes italianas e gre­
cacional de três níveis, algumas comunidades gregas no Império Otomano gas. Ele consiste em uma espécie de léxico escrito em duas línguas, latim e
organizaram gradualmente um sistema local de dois níveis: hier� grammata grego antigo, com definições para seres materiais e não materiais por autores
(sobretudo leitura, usando textos eclesiásticos) e em algumas comunidades antigos e por vezes bizantinos.
um "colégio" onde era oferecida educação secundária, geralmente por gregos Em 1680, Ioannis Skylitzes escreveu uma Introd ução às ciências cosmográfi­
que haviam estudado em Pádua. Até o início do século XVII, era raro que a cas.14 Nesse manuscrito, o sistema copernicano foi pela primeira vez apresen­
Ciência fosse ensinada nessas escolas. tado em detalhes na língua grega. Até o momento não sabemos nem as fontes
Em 1620, contudo, Cyril Lukaris se tornou patriarca de Constantinopla. que Skylitzes utilizou, nem as da Epítome da Astronomia, de Meletios Mitros,
Ele foi o primeiro patriarca a ter estudado na Itália. Lukaris pediu a seu amigo bispo de Atenas, escrita em 1700 (ou poucos anos antes). 15 Na primeira
T heophylos Corydaleus, que também tinha sido estudante na Itália, que diri­
gisse a Escola Patriarcal de Constantinopla. Corydaleus, que havia estudado 13 O órulo grego é Apµo111a opiçnKl] TOlV oVToov, MS, coleção do Instituto de Esrudos Bizantinos
e pós-Bizantinos em Venez.a. Uma breve descrição é feita em Tatakis, J 97 3.
Teologia, Filosofia e Medicina em Pádua, introduziu o ensino de Ciência na
14 ElOCI"fcoyl] ElÇ TCIÇ 1<ooµo-ypaqmcaç l((I\ TEXVCIÇ (Introdução às ciências e às artes cosmográfi­
cas ...), Biblioteca Paoiarcal de Jerusalém, MS 267, fols.9b-47a. Karas, 1992, encontrou dez
11 B1�À.lov ltpO):Elpov TOIÇ TaCll 7tEpi.EXOV Tl)V TE itpmrnKl]V ap18µTjTIK1]V ... (Livro fáál para todos, manuscritos desse texto: dois do século XVII (um datado de 1680) e os outros do XVlll.
compreendendo a aritmética prática ... ), Veneza, 1569. Todas as edições até 1818 foram 15 B\�À.!OV CIOTp0TJOµll,OV, l((I\ 1U:p!EICTll<OV, aµa TE l<Cil O.ltOSE!Knl<OV, �(!)V TE ltCIÂ.CI!CllV KCil VWJV (oov
publicadas em Veneza. Sobre a história e o conteúdo desse livro, Kastanis, 1998, p.3}-58; tq>EUpoov) MO Aooµ µqp1 ITTOÀ.Eµmou l<llt 1<01U:pTJ11<0u ... (Livro astronômico compreendendo
Kastanís, 2004, capítulo 2. e por vezes demonstrando a partir de antigos e modernos (tendo eles feito descobertas),
12 Ver Karas, 1992, v.I, p.157 e ss. !) Biblioteca Nacional da Grécia MS 1107, século XVI, desde Adam até Ptolomeu e Copérnico; d_eixando claro desde quando e com quém apren­
fols.42a-76b; ll) Vaticanus graecus, MS 1699, século XVIl. demos a ciência e a sabedoria dessa arte _as;ronômica.) Biblioteca do Anexo do Paoiarcado .•

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Peter Burke e R. Po-c hio .l:lsio (orgs.)
; ·.:
_ A tradução cultural nos primórdios da Europa Moderno

parte de seu livro, Skylitzes discute as constelações de ambos os hemisférios a direção do poente, a hora durante a noite, a latitude, a longitude, os pontos
e apresenta elementos de cosmologia geométrica (divisões da esfera cosmo­ cardeais, as horas do surgimento e do ocaso da lua, o horóscopo, a direção
lógica) e do movimento diurno da Terra e dos equinócios, além dos métodos de M_eca, e assim por diante. Para resolver esses problemas são necessárias
para determinar a latitude no mar. Na segunda parte, apresenta os planetas algumas tabelas, não indicadas no texto. Chrysanthos acrescenta um método
e as três teorias do sistema do universo: a geocêntrica ("a dos pitagóricos"), para a multiplicação dos graus, outro para traçar um horóscopo e um glossário
a copernicana e a tychoniana. Dá certas informações sobre o tamanho e o árabe-grego de termos relativos ao astrolábio. Esse tipo de tradução científica,
movimento do Sol, o tamanho da esfera solar (o "céu solar") e o calendário do árabe ou do turco otomano para o grego, é único.
baseado nos movimentos do Sol. O mais provável é que esse livro tenha se Embora fossem súditos do Império Otomano, os gregos tinham um siste­
baseado em várias fontes; existiam muitos livros de "cosmografia" desse tipo ma educacional à parte. O patriarca era responsável pela educação dos cristãos
na Europa naqueles tempos. ortodoxos, e as próprias comunidades gregas organizavam suas escolas. Por­
O livro de Meletios Mitras é muito mais importante (320 páginas manus­ tanto, os contatos com a Ciência otomana eram muito menos importantes que
crit_as) e pode ser considerado um manual simplificado de Astronomia em contatos com a Ciência italiana, em virtude da rede de comunidades gregas e
que o leitor encontra uma extensa introdução à cosmologia geométrica, um da crença de que a Ciência fora levada à Europa pelos gregos antigos.
método para computar tabelas para os movimentos dos planetas, o tamanho, Chrysanthos Notaras desempenhou um papel ativo em uma escola fun­
a distância e os movimentos do Sol, da Lua e dos cinco "planetas menores", dado para fornecer tradutores ao império russo. A in.stituição, chamada Aca­
e uma apresentação extensa das constelações, incluindo as ''.desconhecidas demia Eslavo-Helênico-Latina, foi fundada em Moscou em 1686 e financiada
dos antigos". Meletios Mitras apresenta em nove páginas as três principais pelo príncipe Galitzin e pelo grego Meletios Domestikos (ver p.244). Essa foi
teorias do sistema cosmológico (a ptolemaica, a copernicana e a tychoniana). a primeira instituição educacional russa de alto nível. Os primeiros professo­
A observação sobre as fontes de Skylitzes é válida também para Micros. res, os irmãos Ioannikios e Sofronios Leichoudis, foram enviados de Pádua
Uma das traduções raras é aquela de certos textos astronômicos otomanos por Dositheos Notaras, patriarca de Jerusalém e tio de Chrysanthos, que foi
por Chrysanthos Notaras (m. 1731), que teve sua educação secundária em enviado por seu tio a Moscou em 1692 a fim de contatar o czar e também
Constantinopla antes de partir para estudar em Pádua em 1697 e em Paris supervisionar as aulas dos irmãos Leichoudis na Academia, já que Dositheos
em 1700. Em 1680, antes de suas viagens, traduziu três textos astronômi­ considerava tais aulas pró-latinas demais.
cos do árabe. Na verdade, eram textos da astronomia otomana, descrições Por essa época, Chrysanthos copiou - mas não traduziu - um manuscrito
de problemas resolvidos pelo quadrante astrolábio, um astrolábio popular muito raro sobre Astronomia e Mecânica enviado pelo líder da missão jesuí­
entre os turcos (Tsakoumis, 1990). O primeiro texto, intitulado Explicação e tica na China, Ferdinand Verbiest, ao c:zar Alexei Mikhailovich (Nicolai'dis,
descrição do quarto da esfera, chamado em árabe iup-dagire, consiste na descrição 1995). Esse foi o primeiro contato importante de Chrysanthos com a nova
do quadrante astrolábio (ou "quadrante de Prefácio", em homenagem ao Ciência européia, já que Verbiest apresenta