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Os

VALENTES
DE GIDEÃO
CONVOCAÇÃO GERAL AOS HOMENS E MULHERES
QUE PARTICIPARÃO DO GRANDE AVIVAMENTO DA
IGREJA EVANGÉLICA NO BRASIL

CAIO FÁBIO *

Abba
1 -| Press
Rua Manguaba, 124 - CEP 04650-020 São Paulo / SP
T e l/F a x (011)246-7046
Os 300 Valentes de Gideão
Rev. Caio Fábio D'Araújo Filho
© Abba Press Editora e
Divulgadora Cultural Ltda.
Categoria: Reflexão Bíblica
Cód. 01.08.101.0794.1
1a Edição Especial
Julho de 1994 .
Transcrição e Estilo
Eduardo Antelmi
Revisão de Texto
VICOM
Beth Fernandes
Cida Paião
Arte / Capa
Cida Paião
Computação Gráfica
Beth Fernandes
Coordenação Editorial
Oswaldo Paião Jr.
Fotolito
MJ Serv. de Composições
Impressão
Imprensa da Fé
É permitida a reprodução de partes
desse livro, desde que citada a fonte
e com a autorização escrita dos editores

Abba
Rua Manguaba, 124
CEP 04650-020 São Paulo - SP
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Conteúdo
C a pítu lo í
Dialética da Construção e
da Desconstrução......................................................05
C a pítu lo 2
Comunidade Multiforme........................................23
C a p ítu lo 3
Avivamento:
Purificação Pessoal e Familiar................................ 33
C a pítu lo 4
Luz, Louvor e Projeto.............................................. 51
C a p ítu lo í

Dialética da Construção
e da Desconstrução
uando lidam os com a história, tem os gran ­
de dificuldade de com preender a duração
das coisas. Isso acontece com qualquer um
em qualquer época. H á sem pre aqueles que
fazem coisas num a perspectiva quase exis-
__________ tencial, ou seja, m om entânea, instantânea,
na intenção de que o que quer que façam , signifiqu e
apenas a intenção e o calor de um m om ento de vida.
H á outros que vão para um outro extrem o, e
desejam que tudo quanto puserem a mão, possa de
algum a form a du rar para sem pre, ou senão por um
período m ais longo possível.
Quem pensa do prim eiro m odo, quase sem pre
rejeita qualquer coisa parecida com instituição. Q ue-
6 ® Os 300 Valentes de Gideão
rem apenas experim entar o gosto das coisas que b ro­
tam através dos espontaneísm os da vid a e que não se
repetem nunca m ais.
Os que querem que as coisas durem para sem ­
pre, freqüentem ente fazem a opção por perpetuar as
coisas através de um processo de institucionalização
delas m esm as, de tal m odo que a instituição sobreviva
à m orte daqueles que a fizeram acontecer.
Existem coisas, instituições, form as, m odelos
com as quais lidam os todos os dias, e a grande pergun­
ta é:
- Será que qualquer dessas instituições, form as,
m odelos, podem ter estados eternos debaixo do sol?
Parece que a afirm ação bíblica feita em E clesiastes nos
deixa claro que a resposta a esta pergunta é um
contundente ndo.
A afirm ação bíblica é que tudo tem um tem po
determ inado na história, e eu e você não tem os que ter
m edo, nem do fato de que as coisas que com eçam os
podem acabar, e algum as delas podem até m esm o
acabar m al, com o tam bém não precisam os de m odo
algum , viverm os a com pulsão de fazer as coisas a fim
de que se tom em perenes. Q ualquer das duas opções
podem ser profundam ente perigosas. A sabedoria da
Palavra de D eus apenas se aproxim a de nós com um a
clareza enorm e e diz:
"D ebaixo do sol não há nada que dure para
sem pre".
A sobrevida das coisas precisa sem pre ser en ten­
dida por nós a partir desta perspectiva. Quando olh a­
m os por exem plo, para a própria revelação de D eus na
Bíblia, encontram os coisas que ficaram e coisas que já
não são. No livro de G ênesis vem os um hom em santo
casado com duas m ulheres, e na carta a 1 Tim óteo diz
que o presbítero seja m arido de um a só m ulher. N o livro
Dialética da Constmção e da Desconstrução $ 7
de Êxodo, vem os um líder espiritual assum indo as
im plicações am plas pela vida de um povo do ponto de
vista político até a dim ensão espiritual m ais profunda,
provendo para eles de com ida, à fé e consciência ética.
Em nenhum outro m om ento da leitu ra da revelação da
palavra de Deus, nós encontram os alguém sendo le­
vantado por Deus para ser provedor sim ultâneo em
todas aquelas áreas a um tem po só.
Quando olham os para a estruturação da com u­
nidade de Israel em Gênesis, descobrim os antes de
Israel, o povo hebreu, que existe em função de um a
língua, de um a origem , profundam ente tenro e flu ido
na sua existência. M as aquela existência, que era a pré-
h istória da instituição nacional, não é aquilo que se
encontra para sem pre na Bíblia. Quando se abre o livro
de Juízes, descobre-se que essa fam ília, esse clã, já
virou um a m ultidão de 12 tribos. Quando se abre o livro
de 1 Sam uel, e depois 2 Sam uel, descobre-se que essa
tribo virou um a nação. Quando se abre o Novo T esta ­
m ento, descobre-se que esta nação, vivendo sob a
opressão e a dom inação h istórica estrangeira tin h a
com eçado 700 anos antes com os assírios, aprendeu
em Babilônia, na volta a Israel no período in ter­
testam ental, e depois com os rom anos, a se relacion ar
consigo m esm a e adm inistrar a sua própria existência
debaixo de um poder alienígena que não tem nada a ver
com essa com unidade da fé. Isso fa z com que algum as
coisas m udem em Israel.
A té o tem plo ser destruído p or Nabucodonosor, o
que é que havia em Israel? H avia um país que gravitava,
que orbitava em tom o de um tem plo, em tom o dos
sacerdotes, em to m o dos rituais.
O m inistério dos profetas era um m inistério
subversivo que acontecia na periferia da fé organizada
em Israel. O m inistério dos profetas era o ponto de
8 * Os 300 Valentes de Gideâo
tensão da m isericórdia de D eus entre o sacerdote, cu ja
tendência era a institucionalização radical de tudo, e o
profeta é esse santo subversivo que cham a a com uni­
dade para m anter um a fé sem pre viva e aberta ao novo,
que Deus freqüentem ente introduz dentro da com uni­
dade. Quando o tem plo é destruído, um a terceira
realidade aparece. Não havendo m ais tem plo, aparece
a sinagoga. Sinagoga não está escrita na Bíblia. Sin a­
goga é um a resposta da inteligên cia hum ana a um a
conjuntura. O tem plo fora destruído, o povo estava
agora em Babilônia, lá não havia tem plo, B abilônia não
deixa os ju d eu s construírem grandes m onum entos
para o D eus de Israel. A ú nica coisa que se pode fazer
por lá é arranjar um cantinho em um a sala pequenina,
abrir a Torah e ensinar a palavra para seus filh os e
filhas, para que estes não se tom em pagãos no exílio.
H á então, um a inversão de m entalidade, um processo
inteiram ente novo invade o país e eles se tom am
profundam ente centrados no ensino. Por isso dim inui
a produção litúrgica, escrevem -se m enos salm os. A li­
ás, o período m ais fértil de produção dos salm os foi
enquanto o tem plo estava erguido. Sem o tem plo
porém , não há tantos cultos, não há tantas liturgias,
não há tantos corais, não há tantas sanfonas em Israel
para o povo celebrar diante de Deus, não há tanta
festa..., dim inuem os salm os e com eça a se escrever
teologia em cim a dos textos sagrados. A ênfase agora é
didática, no ensino da palavra, e a sinagoga se to m a o
centro da vida. Encontram os no Novo Testam ento
precisam ente esse tipo de estru tu ra e os nossos
presbíteros não são invenção da revelação de Deus.
N ossos presbíteros são m eras adaptações da igreja do
N ovo Testam ento à um a realidade já existente em
Israel. Sinagoga tinha presbítero.
A sinagoga inventou e adaptou-se sobrevivendo
Dialética da Construção e da Desconstrução $ 9
a um a série de form as, m odelos e estruturas que a
igreja posteriorm ente usa e adapta, porque descobre
que elas são profundam ente funcionais. Então, encon­
tra-se no N ovo Testam ento a igreja com o um a com uni­
dade se adaptando ao m undo. E é por isso que estou
convencido de que é im possível se fazer dogm as em
cim a da eclesiologia do Novo Testam ento, por um a
razão bem sim ples; não existe uma eclesiologia absolu­
ta no Novo Testamento. Parece ser essa a razão de haver
tanto conflito. H á igrejas com um a estrutura sim ples,
há igrejas com um a estrutura m édia e há igrejas com
estruturas m ais sofisticadas. Quando se apanha ape­
nas um processo, e num a leitu ra por exem plo, do livro
de Atos, atendo-se apenas a um a fatia do todo, a
tendência do sujeito é virar batista, especialm ente se
ler só até o capítulo 7 .0 diácono está com "a b o la toda".
Estêvão e toda aquela m oçada... gente m aravilhosa!
Se a perspectiva a ser lida fo r a presbiteriana, o
indivídu o vai m uito bem até os capítulos 16, 17, 18, 19,
20. Éfeso, M ileto, presbíteros vão ao encontro de Paulo
em M ileto, choram e aquela coisa toda.
Se as cartas de Paulo forem lidas m ais devagar,
com eça-se a perceber um espírito um pouco m ais
diocesano, onde a figu ra do bispo aparece super en ten ­
dendo sobre um a área um pouquinho m aior. E quando
o sujeito acaba de ler a Bíblia, porque a B íblia acaba,
e com eça a ler a história da Igreja ainda no I sécu lo dá
para notar que se evoluiu ou pouco m ais. Tu do isso
para afirm ar que debaixo do sol não há nada qu e fiqu e
para sem pre. D ebaixo do sol não há nada novo. Só há
um a coisa nova debaixo do sol, e Salom ão não sabia
dessa! Esse é u m privilégio que eu tenho e Salom ão não
teve. E não estou sendo herege, pois foi Jesus quem
disse: "Reis e profetas quiseram ver o que vocês vêem
e não viram , ou vir o que vocês ouviram e não ouviram ".
10 * Os 300 Valentes de Gideão
Jesus deu a Caio Fábio um privilégio que Salom ão não
teve. Se eu fosse escrever Eclesiastes, iria escrever que
só há um a coisa nova debaixo do sol e que o resto
acaba. Que no terceiro dia de sua m orte, em um
dom ingo, há dois m il anos atrás, o fatalism o radical da
m orte foi extinto porque Jesus levantou da tum ba.
Louvado seja o nom e de Jesus!
R essurreição é a única coisa nova debaixo do sol.
O resto é tudo igual.
O que eu estou querendo dizer à luz de Eclesiastes,

Que no terceiro dia de sua morte, em um domingo,

fiá dois m iíanos atrás, ofataíism o radicaida morte

f o i eiçtinto porque Jesus íevantou da tumba.

é que a h istória é feita de propósitos construtivos e de


propósitos destrutivos em relação às coisas. D epende
do período em que se vive, depende com o que nos
relacionam os, e qual o papel disso na sua contem po-
raneidade. A destruição das coisas não é sem pre, ou
não é necessariam ente satânica. A s coisas quando
destruídas, são satânicas, quando im plicam na d es­
truição de gente e não prom ovem a construção de algo
novo. M as do ponto de vista da Bíblia, destru ir é tão
construtivo quanto construir. Eu tenho até dificu ldade
em falar de destruição. Prefiro fa la r de desconstrução
para não ser tão negativo.
Na história, há tem po de propósitos con stru ti­
vos, tem po de algo nascer para a vida, tem po de se
plantar com esperança, tem po de se curar com com pai­
xão, tem po de edificar aonde nada havia, tem po de rir
de gargalhar, de ju bilar, tem po de saltar, de conversar,
Dialética da Construção e da Desconstrução $ 11
de dançar de em oção, tem po de ajuntar pedras e
am ontoá-las com finalidade, tem po de am arrar os
outros com o braço da gente, de am assar as pessoas
com afeto, de aproxim ar am igos com abraços saudo­
sos, tem po de buscar perdidos, de algum a form a
alcançar extraviados, de ir atrás dos que se foram , de
ir no encalço daquilo que está desaparecido, tem po de
guardar segredos, bens, em oções, palavras e forças,
tem po de cozer roupas, relações, corações e ater no
am or fraterno, tem po de falar, de gritar, de dialogar, de
clam ar, de to m a r público, tem po de amar, de gostar
com força, de se dar com o obstinado desejo de fa zer o
bem aos outros, tem po de paz, tem po de calm a, tem po
de serenar os ânim os, de levantar a bandeira branca,
de silenciar o alarido de guerra, de apertar a m ão e de
se assentar a m esa da reconciliação.
Por outro lado, com um realism o trem endo, a
Palavra de Deus diz que na história, tam bém há tem pos
e propósitos destrutivos, tem po de m orrerem as pesso­
as, de m orrerem os ideais, as idéias, os sonhos e as
instituições, tem po de se arrancar, m esm o que seja
com dor o que se havia plantado, tem po de m atar
m esm o que, o que está se m atando é aquilo que um dia
a gente deu vida, tem po de derribar aquilo que com
am or se havia construído, tem po de chorar, de despe­
dir, de acenar com lágrim as, para aquilo e para aqu eles
que um dia nos fizeram as m elhores com panhias,
tem po de prantear, de jeju ar, de convulsionar sem
agonia, tem po de perdas, tem po de idas sem volta,
tem po de espalhar, de arrem essar, de pu lverizar o que
tínham os ajuntado, tem po de evitar abraços, tem po de
afastar-se de aconchegos, tem po de evitar certas apro­
xim ações, tem po de perder e de aceitar a derrota e de
assu m ir a irreversibilidade de certas situações, tem po
de d eitar fora, tem po de ver que algo se estragou e que
12 $ Os 300 Valentes de Gideão
conservá-lo será fazer apodrecer o que restou, tem po
de rasgar, de rom per, de partir, de quebrá-las e de
perceber a im possibilidade de m anter unida a estru tu ­
ra, a relação, a situação dentro da qual se estava,
tem po de estar calado, de engolir palavras, de abocanhar
a denúncia, de se alim entar de expressões que se
cuspidas, seriam bom bas de destruição ainda m aior,
tem po de aborrecer, de declarar o abuso, de afirm ar
que se foi longe dem ais, de m ostrar a fisionom ia da
dignidade ofendida, tem po de guerra, tem po de peleja,
tem po de com bate, de questão, de enírentam ento, de
beligerân cia ju sticeira, de atitude aguerrida frente aos
exércitos da vid a e da m orte, dos hom ens, das in stitu i­
ções e do inferno.
E sta é aquela que eu cham aria de a dinâm ica do
E spírito na história. Se quiserm os entender essa din â­
m ica, tem os de entender essa dialética do construir e do
destruir.
O m esm o espírito que te dá força para construir,
pode ser o m esm o que dá força ao teu neto para destru ir
o que construíste, para o bem do futuro.
A VIND E, estava na em inência de alugar um
ed ifício de 15 andares, bonito, form idável, e conversan­
do alguém falou: "Que bênção hein, pastor! Isso vai
ficar para gerações futuras e quem sabe daqui a uns 3
anos a gente com pra esse prédio".
Respondi que ele estava falando com a pessoa
errada, que eu era m ais a favor do aluguel do que da
com pra, a não ser que com prar saísse m ais barato,
porque eu tenho a esperança de que ninguém vai
transform ar aquilo que estou fazendo num m onum en­
to e que se alguém quiser fazer ta l coisa, que um filh o,
ou neto, ou um doido qualquer derrube tudo em nom e
de Jesus. O m eu com prom isso é com as pessoas.
Se alguém quiser transform ar esse tem po, essa
Dialética da Construção e da Desconstruçâo $ 13
bênção em coisa perene para o bem do passado, é
preciso que alguém no futuro faça-o transform ar-se em
poeira.
N ão tenho m edo de edifíeio. Edifício é m elhor do
que debaixo da ponte.
Não tenho m edo de CGC, pois CGC é m elhor do
que não ser.
Não tenho m edo de conta bancária. C onta bancá­
ria é um a bênção. Ruim é tam borete, banquinho.
Não tenho m edo de com putador. Tenho m edo é
de m uita dor.
Não tenho m edo de organização. Tenho m edo é de
que por causa de purism os e rom antism os, deixar de
fa zer o m áxim o possível para potencializar, m axim izar,
en ergizar o possível daquilo que Deus m e deu para
fazer na m inha geração, no m eu país e no m eu tem po.
O que vai acontecer no fu turo eu não sei. Só sei
que D eus levantará gente para destru ir se tom ar um
cam inho errado. E D eus levanta para destruir, porque
a m ão que destrói va i ser tam bém a m ão que D eus
levan tará para construir um a coisa m elhor.
Esta dialética da construção e da desconstruçâo
com o eu disse, é o que determ ina a dinâm ica do espírito
na h istória hum ana. O m aior exem plo disso, é a vid a de
Jesus. No existir de Jesus, fica claro que a vida não se
faz apenas de belas, rom ânticas e construtivas coisas,
m as que paradoxalm ente tam bém se constrói a vid a
derrubando a vida. Na vida de Jesus percebe-se a
dinâm ica h istórica do espírito porque na vida dele há
tem po para todo propósito debaixo do sol.
Houve tem po de nascer (M t 1.18-20), tem po de
plan tar e sem ear (M t 13), tem po de curar (M t 4), tem po
de ed ificar (M t 16.18), tem po de rir, de saltar de alegria
(Lc 10.21), tem po de ajuntar (M c 3.13), tem po de
abraçar (Lc 15.20), tem po de bu scar (Lc 15.3-10), e o
14 $ Os 300 Valentes de Gideão
gadareno que é um exem plo prático de um Deus que va i
atrás, que busca, tem po de guardar (Jo 17.12), tem po
de cozer, de costurar as relações e as instituições, de
conviver 30 anos com as instituições da sinagoga, de
ou vir leitu ra de texto, decorar Isaías 61, sentar aos pés
do rabino e tem po de vira r a m esa. H ouve tem po de
falar, proclam ar e pregar, tem po de am izade, tem po de
aconchego (Lc 10 e Jo 11.12), tem po de paz (Lc 10).
H ouve tem pos difíceis e perturbadores de um outro
lado. N em tudo foram flores. H ouve tem po de m orrer.
E graças à D eus porque Ele m orreu para nós viverm os.
Tem po de se arrancar o que se plantou (M c 15.3), Judas
tinha sido plantado, depois foi arrancado, tem po de
m atar, cortar e secar. Para a figu eira Jesus disse:
"Nunca m ais nasça fru to de ti". Esse é um texto que eu
e você precisam os aprender a reler neste tem po de
ecologia. É um texto que a m aioria dos intelectuais não
gosta. Tem figu eira por aí que precisa ser seca. Tem
igreja que precisa secar sim . Não deu fruto, m ata.
Tem po de derrubar, tem po de desestruturar, tem po de
vira r a m esa (Jo 2), u sarvara, chicote, derrubar pom ba,
tem po de chorar (Jo 11.35), tem po de soluçar, prantear
(Lc 13.34-35) sobre Jerusalém , tem po de espalhar, de
m andar os que estavam ju n tin h os (Lc 10.1 e M t 2 9 .18­
20), tem po de afastar-se de abraçar, chegar para lá (Lc
9.59-60), tem po de perder (Jo 6.66), tem po de deitar
fora (Jo 6.67), tem po de rasgar, rasgar com o sábado,
rasgar com as abluções e purificações de água, rasgar
as relações com as autoridades ju daicas, tem po de
estar calado, tem po de aborrecer (M t 23.1-34), tem po
de guerra. E os últim os dias de Jesus, foram vividos
com um a estratégia de guerra, dorm indo cada noite
num lugar, m udando daqui para acolá, pois ninguém
estava para brincadeira com a vida dele, ninguém
queria fazer cafuné nele à noite. O evangelho deixa
Dialética da Construção e da Desconstrução * 15
claro que havia um plano determ inado para m atá-lo.
Então ele age com o devia, fugindo até quando achou
que deveria, e chegando a hora de m orrer decidiu por
si, pois diz: "A m inha vid a eu espontaneam ente a dou.
Ninguém a tira de m im ".
Com o iden tificar cada tem po para cada propósi­
to? Com o identificarm os o tem po de construtividade,
quais as m arcas do tem po de construtividade?
Prim eiro ele é m arcado p or um a abertura para o
novo. Todo o tem po de construir coisas novas, é um
tem po no qual a m ente das pessoas fica com aquele
santo com ichão pelo novo, aquele m aravilhoso desas­
sossego por ressu rgir algo novo no horizonte. É um
tem po m arcado por um espírito de dinam icidade, de
criatividade, de adm issão da necessidade que algum as
coisas precisam ser feita s para p o ten cia liza r ou
m axim izar os recursos do presente. É tam bém um
tem po m arcado pela evidência da desestrutura de
certas coisas ou quem sabe, do excesso de estruturação
de outras. É um tem po caracterizado por diálogo, por
encontro, pelo encontrar das idéias distintas.
De um outro lado, a pergunta é: como identificar-

r[òdo o tempo de construir coisas novas, é um tempo

no quaCa mente daspessoasfic a com aquele santo

comkftão peio novo, aquete maraviíftoso

desassossego p or ressurgir algo novo no Horizonte.

m os o propósito ou o tem po da desconstrutividade ou


da destrutividade? Quais são as m arcas desse tem po?
Realm ente, as coisas precisam ser desconstruídas
quando se tom am obsoletas, desatualizadas, velhas,
16 & Os 300 Valentes de Gideão
quando estão possessas e dem onizadas pelo espírito da
im ortalidade, quando aquilo que foi feito para servir
um a geração deseja servir a si m esm o e para sem pre,
tom an do-se incapaz de m udar e de ser penetrado pelo
espírito da conversão e pela adaptação às circunstân­
cias novas, quando se tom a superestruturado, petrado,
incapaz de se deixar sensibilizar, quando se to m a
incom unicável, fechado, im possível de ser de algum a
form a objeto da introdução de algo novo, quando se
to m a um estilo im buído daquilo que se m ovim enta na
direção da criação de algo novo que abençoa.
É nesta perspectiva, com isto em m ente, que
devem os ler todas as instituições incluindo a igreja, a
IBM, o G overno Federal, o m inistério da ju stiça, o
Lions, o R otaiy. E repetindo, não podem os poupar nem
a igreja dessa leitura. Quando tentam os poupá-la
dessa leitura, estam os fazendo m al a igreja, pois ela se
com põe de duas coisas:
- a igreja é um a instituição divina (alguém diria,
"m as desgraçadam ente de com posição hum ana").
Então, na igreja tem os o divino e o hum ano, a
revelação e a transpiração, a ilum inação do espírito e
celebração teológica. Tem os Pedro, ouvindo de Jesus:
"Bem -aventurado és, porque não foi carne, nem
sangue quem to revelou estas coisas, m as m eu Pai que
esta nos céus" e "arreda de m im Satanás".
Tem os revelação divin a e teologia herética, sain ­
do da boca de um m esm o hom em quase no m esm o
instante.
Q uando se olha para a igreja, sem pre encontra-
se essa dinâm ica e essa conflitividade do divino e do
hum ano presente.
Há duas coisas distintas ditas sobre a igreja na
história:
A igreja, enquanto institu ição divina, enquanto
Dialética da Construção e da Desconstrução * 17
projeto, sonho de Deus, povo de Deus, corpo de C risto
m ístico, é invencível, irresistível, incontrolável e pere­
ne. A s portas do inferno não prevalecerão contra ela,
não é preciso se preocupar com N ova Era, com V elh a
Era, nada disso irá prevalecer. Bom ba atôm ica, en ge­
nharia genética, seja lá o que for, podem inventar,
podem m eus tataranetos viverem num a cidade bolha,
na lua, m as as portas do inferno não prevalecerão
con tra ela, e não há nada que se possa fazer a respeito.
Se viverm os no m undo da fam ília Jetsons, va i ter
program a evangélico na televisão, vai ter conspiração
de pregação, va i ter porteiro convertido em porta com
abertura digital, D eus vai estar lá e a igreja vai rolar por
cim a disso tudo, e eu quero que o diabo e todo m undo
ou ça que nós estam os dizendo que essa é a convicção
do povo de Deus, baseado naquilo que Jesus diz, e a
palavra dEle não vai passar. Isso é um aspecto.
M as, tem um a outra igreja que m orre. A igreja,
in stitu íd a por D eus não m orre, m as a de Corinto, por
exem plo, m orre.
V ocê já foi a Éfeso? Tem culto lá? Não, não tem ,
m orreu.
Esm irna? Não está aberta às 6:00 hs, nem às
10:00 hs, nem nada, acabou. Laodicéia? Laodicéia já
era. Q uem terá recebido algum m issionário enviado
p or A n tioqu ia o m ês passado?
Q u em ou viu fa la r de um m ovim en to p a ra
evangelização dos países africanos lançado no ano
passado pela igreja de Jerusalém ?
M as a igreja está aqui! A de Corinto não está lá,
m as a de B rasília está aqui. A de É feso não está lá, m as
a da N igéria está aí firm e e forte.
Então, qual é a diferença en tre um a e ou tra? A
diferen ça é que o lado divino da igreja, que tem a ver
com o im ponderável, com aquilo que não é palpável,
18 0 Os 300 Valentes d» Gtdeâo
que não é tangível, que não recebe CGC, isso tem a ver
com "alm a", isso sim é indestrutível. M as o lado da
igreja que tem a ver com o hom em , só serve no m áxim o,
e se servir bem , a um a geração.
O grande problem a e a grande am bigüidade é que
o divino está presente dentro do hum ano. Ficam os
então num a angústia trem enda em relação ao que
gostaríam os que fosse só o divino. Tenha paciência, va i
chegar a hora em que será só o divino, porque quando
este corpo que é m ortal fo r absorvido pela im ortalidade
ficará só o que é divino. Por enquanto agüente a am bi­
güidade.
Portanto, esse lado divino é im possível de ser
institucionalizado e o lado hum ano é im possível de não
ser divinizado. Esse é o grande problem a. O divino
ninguém institucionaliza.
"O espírito sopra onde quer. Ouves a sua voz,
m as não sabe de onde vem nem para onde vai, assim
é todo aquele que é nascido do espírito".
M as o hum ano que é o que dá visibilidade h istó­
rica a isso, é um projeto m isto, é vazado, penetrado pelo
divino e condicionado pela hum anidade. E enquanto
projeto eclesiástico, ele tam bém convive com um a
am bigüidade. É que o eclesiológico e o eclesiástico
habitam a m esm a eklesia.
O eclesiológico é o do divino. 'T en d es um a só
m ente, um só espírito, um a só alma, falam todos a
m esm a coisa". Isso tudo é m uito bonito, qu isera eu
fosse assim que vivêssem os.
O projeto eclesiológico é o desafio. Nenhum a das
igrejas de Pau lo falavam todas a m esm a coisa, e eu
preferia ser pastor de qualquer igreja do Brasil, m as a
de Corinto, p elo am or de Deus, não! C orinto era uma
catástrofe, um a calam idade. M as Paulo escrevia para
eles com o "santos e am ados, santificados em Cristo
Dialética da Construção e da Desconstrução & 19
Jesus".
Então tem os na m esm a eklesia o eclesiológico,
que Paulo descreve com o sendo a igreja corpo, para
onde é que se tem que andar, e o eclesiástico, que é essa
coisa feita de presbítero, de diácono, pastor, bispo, de
ciúm e, de poder.
A s institu ições nascem quando as pessoas d i­
zem : "Eu sou de Paulo, eu sou de Pedro ou Apoio, eu
sou de São Paulo ou de B rasília ou de Curitiba".
Quando se diz: "Eu sou de", pode ser gente, pode
ser coisa, já existe um a instituição ali. O nosso prob le­
m a é que não tem os com o não dizer "eu sou de", pois
isso é algo que Deus instituiu, existe dentro de nós,
assim com o fazer colm éia, ou seja, é um a sabedoria
inerente à vespa.
Em Gn 2, o ser hum ano recebe a incum bência de
dar nom e a todos os bichos, e nós não conseguim os nos
livra r disso. V ivem os dando nom e aos bichos.
No Rio de Janeiro há alguns anos fundaram um a
sorveteria cujo nom e era Kabon, ou algo parecido. A
K ibon não gostou e processou a Kabon. Enquanto as
duas brigavam , o ju iz determ inou que até que as coisas
não se resolvessem , a sorveteria ficaria sem nom e. E
assim perm aneceu um bom tem po, vindo a tom ar-se o
nom e da sorveteria. Sem Nome, hoje, é um a rede
poderosa no R io de Janeiro.
Enquanto não tinha nom e, o pessoal arranjou
um nom e. O ser hum ano não consegue ir ao "não sei".
È le ficá no cam po filosófico, e não consegue ir a outro,
com o: "parece que é", "tom ara que seja", "não tenho
certeza". Ele não consegue ir a esse lugar, então d á um
nom e.
Eú m e sinto encurralado, desgraçadam ente en ­
cu rralado a essa fatalidade nom inadora. Eu dou nom e.
M eu filh o m ais velh o é Ciro, o segundo Davi, o terceiro
20 ® Os 300 Valentes de Gideão
é Lucas, a m enininha é Juliana, eu sou Caio, m inha
m ulher é A ld a e para com pletar, tem os um sobrenom e
D ’Araújo. Eü faço isso com filho, não tenho com o não
fa zer com carro. Se um carro é gordinho e outro é
m agrinho, cham o o gordinho de fusca. Dou nom e às
institu ições e às igrejas. Isso está entranhado dentro de
m im e de você.
Instituição existe há m uitos e m uitos anos. E la é
quase sim ultânea à existência hum ana. A ú nica coisa
que se tem observado é um a evolução no processo
institucionalizante. No início, a instituição era o sim ­
ples ato de dar nom e. Depois, virou o ato de nom inar e
ajuntar. Depois, se tom a o ato de nom inar, ajuntar e
dirigir. E assim , a instituição vai ficando m ais sofisti­
cada, até chegar nos dias de hoje onde ela não se
satisfaz com o fato de ter nom e. É preciso ter carteira
de identidade, CIC. Não se satisfaz em pegar duas
m oedinhas na boca de um peixinho que está ali de
bobeira no m ar da G aliléia e dar a um coletor de
im postos. Hoje, tem que preencher um form ulário de
im posto de renda chato.
No dia de Pentecostes, naquele cenáculo, lá em
Jerusalém , será que as pessoas pagaram 15 dólares
por dia para participarem da reunião de oração? C laro
qüe não. Por quê?
Porque o cenáculo não era cobrado, a lu z elétrica
não existia, água encanada não tinha, era a irm ã do
irm ão M anassés que pegava água no seu jum entinho.
Os garrafões tam bém não existiam , eram uns panelaços.
H oje tem os tapete, m icrofone, tubos de ar condiciona­
do central etc.
M uitos dizem que era tão sim ples fazer m issão
nos dias de Jesus. Não basta ter u m tesoureiro, hoje em
dia precisa ter u m contador. E aliás, Jesus tin h a um
tesou reiro que ficou safado, e m etia a m ão no dinheiro.
Dialética da Construção e da Desconstmção ® 21
H oje em dia, não dá m ais para fazer da casa de
M arta e M aria sua casa de ação evan gelística em
Jerusalém . D epois de duas sem anas, M arta diria ter
sabido de um a sala para alugar na esquina. M arta
tam bém , provavelm ente trabalharia de secretária no
M in istério da Ju stiça e M aria na FUNABEM, sem m uito
tem po, correndo de um lado para outro.
O que é que aconteceu? O m undo m udou. E para
dar resposta para esse m undo que m uda, o divino, que
é algo que ninguém va i acabar, m as que se veste de
elem entos hum anos, se adapta a essas novas realida­
des da vida aonde o conteúdo se tom a inalterável
ainda, porém a form a ganha m odificações.
Quando nos deparam os com coisas práticas
organizacionais do Novo Testam ento, encontram os
variações. Por exem plo, o Novo Testam ento diz, e
parece que estabelece um padrão, que qualquer igreja
que queira ser igreja, precisa ter pastor, evangelista,
m estre, apóstolos, presbíteros, diáconos. São alguns
padrões que o N ovo Testam ento coloca e não posso
alterar esses padrões, porque eles são inegociáveis.
M as, o Novo Testam ento não diz que não pode haver um
departam ento de ajuda a m eninos que cheiram cola, ou
que um grupo de líderes da igreja não possa delegar
serviços para técnicos especializados num a determ i­
nada área, que um determ inado contexto social trouxe
com o desafio para o bem do andam ento das coisas na
com unidade. O que ele diz, é que existe aquele esqu e­
leto básico. E cobrim os esse esqueleto com coisas que
são necessárias à funcionalidade do corpo organ iza­
cion al e aqui não estou falando da eclesiologia, e sim da
eklesia.
A grande força corruptora das instituições é a
bu sca do poder. Enquanto o poder não é um fim em si,
m as um m eio, e é exercido de m odo natural, qu alqu er
22 ® Os 300 Valentes de Gideão
institu ição va i bem . Não estou dizendo que se possa
d irigir um a instituição sem poder, pois ninguém faz
nada sem poder, nada, absolutam ente nada. Portanto,
o problem a não é o poder, m as com o esse poder é
exercido.
"£3\ideão só p r e c i s o u de. 3 0 0
komervs. 7\)o d i a e m q u e a
i g r e j a e v a rv g e lic a b r a s i l e i r a
fiver 3 0 0 mil p e s s o a s
^ ealm en te valerv+es e
conscientes d e D e u s e do
e v a u g e l k o , v a m o s v e r os
irvimigos d a TTerra c a ír e m " .

Caio Jáúio £)’Araújo fÜho

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