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pombo-correio-sabe-para-onde-ele-deve-levar-a-
mensagem

Publicado em NOVA ESCOLA 01 de Julho | 2009

Animais

Como o pombo-correio
sabe para onde ele deve
levar a mensagem?
Animais
Eliza Kobayashi

O pombo-correio não leva uma mensagem


espontaneamente a um determinado destino,
como muita gente pensa. Ao invés disso, ele é
transportado de seu local de origem até um
certo ponto de partida, de onde ele saberá
como retornar à sua casa. "É um mecanismo
natural que ele tem. Trata-se de uma
estratégia adaptativa, ou seja, um resultado da
seleção natural. Alguns animais são nômades,
Pombo-correio do criador Brasilio
outros, migratórios. Já os pombos-correio
Marcandoro Neto, diretor da Federação possuem uma moradia fixa e procuram
Paulista de Columbofilia. sempre voltar para esse abrigo, onde
Foto: Fernando Moraes
encontram proteção, alimento e os membros
de seu bando", diz o professor Ronald
Ranvaud, que ministra as disciplinas de
Neurofisiologia e Ciências Cognitivas no Departamento de Fisiologia e
Biofísica do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo
(ICB-USP). "Na etologia, que engloba os estudos de comportamento, isso é
chamado de fidelidade ao sítio de origem", complementa. Ele conta que, além
dessa característica, esses animais apresentam também um comportamento
gregário, o que significa que não são solitários e, por isso buscam estar
sempre juntos a um bando.

Os pombos-correio são da mesma espécie dos pombos comuns que se veem


nas ruas, mas pertencem a uma raça diferente. Seu porte é maior e possuem
uma carúncula mais acentuada na base do bico. Durante a Primeira e a
Segunda Guerra Mundial, eles foram bastante utilizados para o envio de
mensagens, como um recurso alternativo de comunicação. "Documentos da
época mostram caminhões que serviam como pombais móveis. Mesmo que
eles fossem levados a lugares diferentes a cada dia, desde que não muito
distantes do local de origem, os pombos conseguiam voltar", conta o
professor. Ronald explica que as mensagens ou encomendas são geralmente
amarradas na perna do animal, ou colocadas em um tipo de mochila especial.
Hoje em dia, essas aves ainda são utilizadas como mensageiras. "Até
recentemente, o exército russo mantinha uma 'divisão' para pombos-correio.
Na Inglaterra, há cerca de dez anos, um hospital os usava para levar amostras
ao seu laboratório, por ser um transporte mais rápido, que não precisa
enfrentar o trânsito. E faz parte do folclore que elas também sejam usadas
no contrabando de drogas e diamantes".

Mas não é qualquer pombo que se pode usar como mensageiro. Se


pegássemos um exemplar na rua e o levássemos para um local
desconhecido, ele provavelmente conseguiria voltar para casa - mas existe
uma limitação. "Se o animal for afastado cerca de 15 km de onde vive, por
exemplo, ele certamente saberia encontrar o caminho de volta. Mas se essa
distância exceder uns 50 km, ele dificilmente voltaria, pois precisaria ter um
porte de atleta", diz Ronald Ranvaud. Por isso, os pombos-correio são
treinados desde pequenos a voar longas distâncias para ganhar resistência e
não se perderem. O treinamento começa a ser realizado a partir do momento
em que o animal aprende a voar, geralmente aos 30 a 45 dias de vida.
"Inicialmente, ele faz voos livres todos os dias, não se afastando muito do
pombal. A partir dos três meses de idade, já se pode afastá-lo uns 30 km de
sua casa que ele saberá voltar", conta o professor. Aos poucos, as distâncias
vão aumentando e as direções para onde é levado também são
diversificadas. "Cada uma dessas ocasiões representa um aprendizado",
explica o professor.

Para se guiar no caminho de volta, os pombos possuem três habilidades


fundamentais: a visão, pela qual localiza o Sol e identifica sua posição (leste,
oeste e norte); o relógio interno, por meio do qual identifica o período do dia
(manhã, meio-dia, tarde, noite); e a memória, que ele utiliza para aprender a
relação entre a posição do Sol e o horário. "O Sol muda de lugar ao longo do
dia: de manhã, indica o leste; ao meio-dia, o norte (no hemisfério sul); de
tarde, oeste. Funciona como uma bússola", diz Ronald. "Mas para usar o astro
como bússola, é essencial ter um relógio para saber qual a sua posição a cada
hora do dia". Para comprovar a importância dessa relação, o professor cita
um experimento onde um pombal é colocado dentro de um laboratório sem
janelas durante uma semana. A luz é ligada todos os dias na posição onde
nasce o Sol, mas com seis horas de atraso, ou seja, ao meio-dia, e desligada
também seis horas depois que ele se põe, à meia-noite. "Se depois disso, o
pombo for levado a uma distância pequena e liberado ao meio-dia, a ave vai
olhar para o Sol e achar que são seis da manhã, porque seu relógio interno
está atrasado. Então interpretará que a posição indicada pela luz é o leste,
quando na verdade é o norte. Então é como se ele virasse o mapa 90 graus
para a esquerda", comenta. Apesar disso, alguns conseguem voltar, mesmo
que levem alguns dias, pois, aos poucos, seu relógio e sua bússola internos
vão se ajustando. "É como o jet lag, a gente leva uns dias para se adaptar", diz
Ronald.

Atualmente, além de transportadores de mensagens e encomendas, os


pombos-correio são usados em competições chamadas columbofilia. Esses
torneios mostram que é muito difícil definir a distância máxima que esses
animais conseguem percorrer no caminho de volta para seu abrigo. "Há uma
prova na Europa em que eles partem de Barcelona e chegam à Bélgica,
percorrendo quase mil quilômetros. No Brasil, há uma em que saem de
Brasília e chegam a São Paulo, ou seja, são mais de 900 quilômetros e tem
pombo que voltou no mesmo dia. Alguns deles voam direto, sem paradas.
Outros até param para beber água, por exemplo, depende da condição de
cada um". E muitos deles não voltam: ou porque se perdem, ou porque são
capturados por predadores, como o gavião.

Além dos pombos, outros animais também possuem essa capacidade.


"Praticamente todos eles conseguem encontrar o caminho de volta para casa,
em maior ou menor grau", diz Ronald. "As abelhas fazem isso o tempo todo.
Os gatos também conseguem. Se o seu dono tenta abandoná-lo levando-o
para longe, depois de alguns dias ou semanas ele estará de volta em casa. Foi
feita uma experiência com albatrozes no sul do Havaí, levando-os para
regiões como Califórnia, Alaska e Japão, e a maioria retornou, de distância de
3 mil até 6 mil quilômetros".