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Escola Superior de Ciências Marinhas e Costeiras

Licenciatura em Oceanografia

MAPEAMENTO DE ÁREAS INUNDADAS PELA MARÉ


PARA AUXÍLIAR O REFLORESRTAMENTO DE
MANGAL EM ICIDUA, QUELIMANE, ZAMBÉZIA

Orlando Ribeiro Rogério Guta

Quelimane, Agosto de 2017

Pág.I
Escola Superior de Ciências Marinhas e Costeiras

Monografia Submetida para obtenção do grau de Licenciatura em Oceanografia

MAPEAMENTO DE ÁREAS INUNDADAS PELA MARÉ


PARA AUXÍLIAR O REFLORESRTAMENTO DE
MANGAL EM ICIDUA, QUELIMANE, ZAMBÉZIA

Autor:

Orlando Ribeiro Rogério Guta

Supervisor: Prof. Doutor Fialho Nehama

Co-Supervisor: Dr. Noca Bernardo Furaca Da Silva

Quelimane, Julho de 2017


Pág.I
UEM-ESCMC/2018

Agradecimentos

Primeiramente, agradeço ao Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis, pela
vida que me foi concedida, pelos Pais, irmãos e toda família que Deus mi deu e por tudo que tem
feito ao meu favor. Eis que tudo deve ser feito para Sua Honra e Glória.

Agradeço ao meu Pai, Sr. Cristóvão Rogério Guta, e a minha Mãe Maria da Conceição Mateus,
pelo amor, carinho e todo apoio. Agradeço ao meu Tio Orlando V. Guta por estar presente nas horas
em que eu me considerava sem saídas. Sem esquecer dos progenitores destes, Avó Páscoa Mambara
e Beatriz Lopes por esses Bons Pais e por repetidamente dizerem “Vai meu Neto”, palavras essas
que me enchem de forças.

Agradecer pela supervisão do Dr. Fialho Nehama, de todo trabalho realizado por mim, com o
auxílio indispensável do Dr. Noca Furaca. Um especial agradecimento vai a este último, pois
mesmo tendo muitos afazeres sempre disponibilizou tempo para mim, o meu muito obrigado de
coração.

À minha “mão-de-obra barata”, que mostrou interesse em ajudar, sem nada em troca, e é composta
por: Tárcio Mendonça, Basílio Ernesto, Elias Cumbane, Sergio Eusébio. Muito Obrigado.

Agradeço em especial ao Gaston Emile, Cândido Timba, Ernesto Tembe, Zunchany Trinta Matola,
e Feliz Sodasse, pelos 4 anos de caminhada conjunta, construindo o meu perfil académico,
profissional, social e cultural; pelos apoios e críticas, por partilharem comigo suas experiências e
mostrarem como se faz. As pessoas que alimentaram o meu espírito, em algum momento serviram
de inspiração: drª. Nélia Mozolande (Licenciada em Oceanografia), Nelson Cabazar, Justino Nino, e
outros.

A toda residência, não tem como esquecer de vocês, Cláudia Machaieie, Orlando Macicame,
Orlando Jamisse, Erasnes Howana, Alberto Sibie, Flávio Inácio Jeje, Sergio Caetano, Salvador
Zeca, Amós Nhaca, Ricardo da Florência, Deuclésio Jubilo, Valentim José, Leovistônia Cúmbi,
Luísa Banze, Farida Cadir Suleimane.

Orlando Ribeiro Rogério Guta pág.II


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Dedicatoria
Dedico este trabalho ao meu Pai, Sr. Cristóvão Rogério Guta, e a minha Mãe Maria da Conceição
Mateus, os quais garantiram os meus estudos.

Orlando Ribeiro Rogério Guta pág.III


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Declaração de honra
Declaro por minha honra que o conteúdo deste trabalho de licenciatura em oceanografia é da autoria
da autora, fruto de esforço e dedicação, excepto o que foi devidamente referenciado, sobre
assistência do orientador. De salientar que o trabalho nunca foi apresentado na sua essência, para
obtenção de qualquer outro título similar.

Quelimane, Abril de 2017

A autor:

___________________________________________________________________

Orlando Ribeiro Rogério Guta

Orlando Ribeiro Rogério Guta pág.IV


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Resumo
Devido a dificuldades no reflorestamento de mangal nas áreas de reserva em Icidua, muitos estudos
são realizados na área com vista a aumentar o conhecimento científico relacionado ao fracasso no
reflorestamento. Deste modo, o presente trabalho tem como base de contribuição, o mapeamento
das áreas inundadas a partir do levantamento topográfico e da sua relação com os níveis de maré
observados naquela área, pois parâmetros como a salinidade, que é um dos limitantes no
crescimento das espécies de mangal, dependem da frequência de Inundação da área.

Saídas de campo foram realizadas afim de fazer o levantamento topográfico em duas áreas distintas
(área A que apresenta resultados negativos ao reflorestamento e B que possui resultados positivos)
que com base na variação da maré mapeou-se as áreas inundadas e fez-se a classificação
Hidrológica de Watson (1928), determinando assim a frequência de inundação com vista a escolher
as melhores espécies e locais que melhor se adaptam as condições Hidrológicas. Os resultados
apontaram para um reflorestamento com avicénia marina nas áreas pertencentes a classe 2 (zonas
frequentemente inundadas), e sugeriu-se a abertura de canais para que a inundação observada na
classe 2 possa se estender para mais locais em toda Área de reflorestamento A. Esta área A, possui
uma elevação média de 6,45m ao contrário da Área B onde a elevação media é de 5,89m, fazendo
com que a inundação influenciada por uma maré de 3metros alcance quase metade da área total.
Conclui-se também que o nível de inundação influencia na salinidade do solo tendo maior
salinidade a Área com baixa frequência de Inundação (A) em comparação com a Área com maior
frequência de inundações (B), associando assim este factor ao fracasso no reflorestamento da Área
A.

Palavras-chave: Inundações, Classificação Hidrológica, Salinidade, Reflorestamento, Icidua.

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Abstract
Due to difficulties in mangrove reforestation in Icidua reserve areas, many studies are conducted in
the area to increase scientific knowledge related to failure in reforestation. Thus, the present work
has as base of contribution, the mapping of the flooded areas from the topographic survey and its
relationship with the tide levels observed in that area, because parameters such as salinity, which is
one of the limiting factors in species growth, depend on the frequency of flooding of the area.

Field trips were carried out in order to make a topographic survey in two distinct areas (area A that
shows negative results for reforestation and B that has positive results). Based on the variation of
the tide, the flooded areas were mapped and the Hydrological Classification Watson (1928) of was
made, thus determining the frequency of flooding in order to choose the best species and sites that
best adapt to hydrological conditions. The results pointed to a reforestation with Avicennia marina
in the areas belonging to class 2 (frequently flooded areas), and it was suggested the opening of
channels so that the observed flood in the class 2 can extend to more places in Area of reforestation
A. This area A has an average elevation of 6.45m as opposed to Area B where the average elevation
is 5.89m, causing flooding influenced by a 3m tide to reach almost half of the total area. It is also
concluded that the flood level influences the salinity of the soil having a higher salinity to the Area
with low frequency of Flood (A) in comparison to the Area with more frequent floods (B), thus
associating this factor with the failure in the reforestation of the Area A.

Keywords: Floods, Hydrological Classification, Salinity, Reforestation, Icidua.

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Lista de Figuras

Fig.1: Distribuição Mundial do Mangal. Fonte: Giri et al, (2011)………………...…………….pág.5

Fig.2: Distribuição Nacional do Mangal. Fonte: Zide & Rajkaran (2014)…………………………..pag.6

Fig.3:Distribuição de espécies de mangal. Fonte: Rey & Connelly (2002)……….…………….pág.8

Fig.4: Área de reflorestamento junto ao estuário dos Bons Sinais-Quelimane, Zambezia,


Moçambique. Fonte:ArcGis10.1. ArcMap ………………………………………….…………pág.14

Fig.5: Pontos para levantamento Topográfico, Área A à esquerda e Área B à direita. Fonte: Google
Earth...…………………………………………………………………………………………..pág.16

Fig.6: Instrumentos usados na colheita de cotas: A)Tripé; B)Régua (3m) C)Teodolito e


D)GPS………………………………………………………………………………………….pág.16

Fig.7: Análise de dados com vista a igualar as cotas ao mesmo referencial ZH……………….pág.17

Fig.8: Esquema para determinação da duração da inundação. Fonte: WaterLevelAnalysis..….pág.18

Fig.9: Pontos de Colheita de solo………………………………………………………………pág.19

Fig.10: Instrumentos usados na medição de salinidade: Salinómetro; Becker;


Balança….………………………………………………………………………………...……pág.20

Fig.11: Levantamento topográfico da área A de mangal em icidua, Fonte ODV4……….........pág.21

Fig.12: Levantamento Topográfico da Área B de reflorestamento de mangal em Icidua. Fonte:


ODV…….……………………………………………………………………………………...pág.22

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Lista de Tabelas

Tabela 1: Classificação de Watson derivada do sistema de mangais na Malásia (Van Loon et al.,
2016)………………………………………….………………………………………………..pág.11

Tabela 2: Classificação hidrológica adaptada, incluindo grupos comuns de espécies de mangais do


sudeste asiático. A elevação (em itálico) é incluída para características de inundação para regiões de
mangal com regime regular de marés e perfil de elevação regular (Van Loon et al., 2016)…..pág.11

Tabela 3: Localização geográfica dos pontos de colheita de solo para medição da salinidade...pág.19

Tabela 4: Classificação Hidrológica na Área de reflorestamento de mangal…………………..pág.22

Tabela 5: Classificação Hidrológica de Watson incluindo espécies adaptáveis………….…….pág.23

Tab.6: Níveis de marés e áreas de inundação em percentagem………………………………...pág.23

Tabela 7: Salinidade nos pontos da Área de reflorestamento A (A1 e A2) e B (B1)………………24

Simbolos: Unidades no Sistema Internacional

Abreviações

CCAP

DPTADER = Direcção Provincial da Terra Ambiente e Desenvolvimento Rural

ESCMC = Escola Superior de Ciências Marinhas e Costeiras

INAHINA = Instituto Nacional de Hidrografia e Navegação

UP = Universidade Pedagógica

USAID

Orlando Ribeiro Rogério Guta pág.VIII


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Índice

Conteúdo Pág.
Agradecimentos ................................................................................................................................... II
Dedicatoria .........................................................................................................................................III
Declaração de honra .......................................................................................................................... IV
Resumo ................................................................................................................................................ V
Abstract ............................................................................................................................................. VI
Lista de Figuras ................................................................................................................................ VII
Lista de Tabelas ............................................................................................................................... VIII
Simbolos: Unidades no Sistema Internacional ................................................................................ VIII
Abreviações ..................................................................................................................................... VIII
Capitulo I ..............................................................................................................................................1
1. Introdução .....................................................................................................................................1
1.1. Problema ................................................................................................................................1
1.2. Justificação ............................................................................................................................2
1.3. Objectivos ..............................................................................................................................3
1.3.1. Geral ...............................................................................................................................3
1.3.2. Específicos .....................................................................................................................3
Capítulo II – Fundamentação Teórica ..................................................................................................4
2. Mangais .........................................................................................................................................4
2.1. Distribuição Mundial e Nacional ..............................................................................................5
2.2. Zoneamento ou Distribuição das espécies de mangal ...............................................................7
Capítulo III ...........................................................................................................................................8
3. Condições Ambientais que influenciam na Distribuição das Espécies ........................................8
3.1. Clima .....................................................................................................................................8
3.2. Solos ......................................................................................................................................9
3.3. Salinidade ..............................................................................................................................9
3.3.1. Tolerância das espécies ................................................................................................10
3.4. Condições Hidrológicas .......................................................................................................10
3.4.1. Marés ............................................................................................................................10
Duração e frequência da maré .....................................................................................................10
3.4.2. Lençol freático..............................................................................................................12
Capítulo IV .........................................................................................................................................14

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4. Metodologia ................................................................................................................................14
4.1. Área de Estudo.....................................................................................................................14
4.2. Materiais e Métodos ............................................................................................................15
4.2.1. Materiais .......................................................................................................................15
4.2.2. Métodos ........................................................................................................................15
a) Levantamento Topográfico..................................................................................................15
b) Determinação da frequência de inundação ..........................................................................17
c) Determinação da duração da inundação ..............................................................................17
d) Identificação de áreas inundadas .........................................................................................18
e) Determinação da Salinidade do Solo ...................................................................................19
Capítulo V ..........................................................................................................................................21
5. Resultados ...................................................................................................................................21
5.1. Levantamento do Perfil topográfico ....................................................................................21
5.2. Determinação da duração e frequência da inundação .........................................................22
5.3. Mapeamento de áreas mais propensas as inundações .........................................................23
5.4. Determinação da Salinidade do solo ...................................................................................24
Capítulo VI .........................................................................................................................................25
6. Discussão ....................................................................................................................................25
Capítulo VII........................................................................................................................................26
7. Considerações Finais ..................................................................................................................26
Capítulo VIII ......................................................................................................................................27
8. Recomendações...........................................................................................................................27
Capítulo IX .........................................................................................................................................28
9. Referencias Bibliográficas ..........................................................................................................28
Anexos ................................................................................................................................................30

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Capitulo I
1. Introdução

Mangal é um ecossistema costeiro de transição entre os ambientes terrestres e marinhos,


característicos de regiões tropicais e subtropicais, constituído por espécies lenhosas típicas além de
micro e macroalgas. As condições para a sua formação incluem clima intertropical, substratos
aluviais, locais com baixa energia de ondas e marés, presença de água salobra e grande amplitude
de marés (Fruehauf, 2005).

A dominância relativa das espécies e a sua distribuição no mangal são influenciados pela
topografia, Geomorfologia, Hidrologia e sedimentologia. O padrão da distribuição das espécies esta
relacionado as modificações impostas pela microtopografia e frequência de inundação, resultando
em gradientes físico-químicos, tornando o processo de distribuição das espécies respostas a esses
gradientes (Fruehauf, 2005).

Nas florestas de mangais, como em todos os sistemas entre-marés, o hidro período é de grande
importância para a vitalidade das florestas. A inundação das marés afecta os níveis de extracção de
água, pH, potencial redox no solo e na água e na distribuição das espécies. (Rodrigues et al, 2009)

Watson (1928) definiu zonas de Mangal como áreas específicas influenciadas por uma combinação
de frequência e classes de inundação pelas marés destacando o padrão de inundação como factor
primário na distribuição das espécies (Fruehauf, 2005).

1.1.Problema

Em Quelimane na zona municipal ao longo do Rio dos Bons Sinais, existe uma grande faixa de
mangal na comunidade de Icidua e Mirazane. Ao longo do tempo, o mangal foi usado para diversos
fins dentre os quais o bate para construção de habitações, uso das áreas de mangal para a prática do
fecalismo a céu aberto, abate de mangal para construção de salinas nas proximidades do mangal,
estes factores concorrem para a destruição desta importante infra-estrutura verde.

Em Abril de 2015, o programa da USAID de Adaptações das Cidades costeiras (CCAP) às


Mudanças climáticas, em colaboração com o Município de Quelimane, a Direcção Provincial da
terra Ambiente e Desenvolvimento Rural (DPTADER), Escola Superior de Ciências Marinhas e
costeiras (ESCMC) a Universidade Pedagógica (UP) e as comunidades locais iniciaram uma serie

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de acções visando o reflorestamento e protecção do mangal, que tem apresentando resultados


negativos em algumas áreas de Icidua.

Pois, mudanças nas características do solo pela influência das inundações de marés devem ser
consideradas em actividades como o reflorestamento de mangal, a desconsideração do
comportamento dinâmico dos estuários e suas áreas de inundação para efeitos de restauração
hidrológica da floresta de mangal, influência para baixa eficiência do restauro do mangal em Icidua.

1.2.Justificação

Na região costeira da província da Zambézia, na localidade de Icidua, verifica-se a perda


ecossistema do Mangal, o que deixa a costa e a população que nela reside, susceptível a as cheias e
a erosão, por este facto há necessidade de se fazer estudos relacionados com a dinâmica de maré do
Estuário, a qual tem influência no desenvolvimento do ecossistema do Mangal, mapeando as áreas
propensas as inundações de maré, que é a condição base para a restauração desse ecossistema,
redistribuindo as espécies de acordo com as suas exigências fisiológicas para um bom e rápido
desenvolvimento, como por exemplo a salinidade.

O fracasso no reflorestamento do mangal em Icidua deve-se a desconsideração das áreas afectadas


pela inundação, estudos de condições hidrológicas no local fazem referência do nível do lençol
freático, precipitação e altura do solo em um e único ponto, tendo assim a duração e frequência da
inundação para um ponto, não considerando a distribuição das espécies de mangal influenciada pela
diferença nas características da inundação ao longo da área de reflorestamento.

Orlando Ribeiro Rogério Guta pág.2


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1.3.Objectivos
1.3.1. Geral
 Determinar a melhor espécie para o reflorestamento do mangal em Icidua de acordo com as
características da inundação e da salinidade;
1.3.2. Específicos
 Identificar as áreas propensas as inundações das variações de maré em Icidua;
 Fazer o levantamento topográfico da área de reflorestamento em Icidua;
 Mapear áreas com maior probabilidade/frequência de inundações;
 Determinar a Salinidade do Solo;
 Identificar as melhores espécies/área a serem usadas no reflorestamento de acordo com a
classificação Hidrológica dos Solos;

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Capítulo II – Fundamentação Teórica


2. Mangais

Os mangais são formações vegetais que se desenvolvem em zonas de transição entre ambientes
marinhos e terrestres, ocorrendo junto a desembocadura de rios, estuários e lagunas costeiras, no
espaço designado de entre marés, podendo estender-se até onde o efeito da salinidade se faz
(Cardoso, 2017).

O mangal é um ecossistema costeiro de elevada importância ecológica, situado em uma zona de


transição entre os ambientes terrestre e aquático, característico de regiões tropicais e subtropicais
(Costa & Cestaro, 2010), desempenha papel fundamental na estabilidade da geomorfologia costeira,
na conservação da biodiversidade e na manutenção de amplos recursos pesqueiros, geralmente
utilizados pela população local.

Os mangais estão entre os ambientes mais produtivos do mundo. Esses biomas são o habitat para o
crescimento e refúgio de diversas espécies de animais e no ciclo de nutrientes, e têm grande valor
no controle da erosão costeira (MADI et al, 2015). É um dos agentes reguladores da dispersão de
sementes vegetais e das larvas de muitas espécies, uma vez que está situado em uma área de
transição entre os ambientes terrestre e aquático, sujeito ao regime diário das marés (Costa &
Cestaro, 2010).

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2.1.Distribuição Mundial e Nacional

A área ocupada por Mangais em todo o mundo situa-se em torno de 162.000km2. Representando
cerca de 75% da vegetação entre-marés das áreas tropicais do globo (Fruehauf, 2005). Os mangais
ocorrem nas regiões tropicais e subtropicais de todo o globo maioritariamente entre os paralelos
30ºN e 30ºS (Fig. 1) (Cardoso 2017).

Eles são encontrados em 118 países e territórios em todo o mundo. Possuem uma cobertura global
de entre 10 e 24 milhões de hectares (Fig.1), que abrange cerca de 1% da superfície terrestre da
terra, com 73 espécies a nível global. A maior região de ocorrência fica na Indonésia, cuja área
estimada de mangais é de 4.200.000ha, extensão que representa cerca de 20% das Florestas de
Mangais do mundo (Fruehauf, 2005).

Fig.1: distribuição Mundial do Mangal. Fonte: Giri et al, 2011.

Entre os factores que limitam a sua distribuição global a temperatura da água parece ser
preponderante, uma vez que os mangais ocorrem apenas onde a temperatura mínima seja superior a
20ºC e a variação sazonal inferior a 10ºC (Cardoso 2017).

Assim como muitos outros ecossistemas, os mangais enfrentam ameaças globais, como
é o caso da degradação dos habitats, a poluição, a sobre--exploração por via de abate de árvores, e a
substituição de florestas/pântanos de mangal por usos intensivos como a aquacultura (Cardoso,
2017. Globalmente, os manguezais ocuparam 75% das costas tropicais, mas devido para o rápido
desenvolvimento costeiro, apenas 25% das costas tropicais do mundo agora apoiam as Florestas de
Mangal (Rodrigues et al,2009).

Orlando Ribeiro Rogério Guta pág.5


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Os habitats de mangal em Moçambique abrangem 318 851 ha, o que representa cerca de 2,3% do
total de cobertura de mangal global (Fig.2) (Giri et al, 2011), sendo a segunda maior área de mangal
em África depois da Nigéria (Zide & Rajkaran, 2014).

Fig.2:Distribuição Nacional do Mangal. Fonte: Zide & Rajkaran (2014)

A distribuição dos mangais diminuiu globalmente. Em 2002, estimava-se que cerca de um terço dos
mangais globais se perderam ao longo de um período de 50 anos devido a actividades antrópicas.
Sitoe et al (2014) estimam que em Moçambique, cerca de 12,5% dos mangais se perderam ao longo
de um período de 32 anos entre 1972 e 2004, com uma taxa de desmatamento de cerca de 15,9
km2/ano. (Zide & Rajkaran, 2014).

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2.2.Zoneamento ou Distribuição das espécies de mangal

Zoneamento é o termo usado para exprimir a forma de colonização do espaço em zonas, camadas
ou faixas distintas, compostas por apenas uma espécie ou por um dado conjunto de espécies
arbóreas, sendo estas distribuídas espacialmente em relação à linha de água (Fruehauf, 2005).

A distribuição das espécies de mangal é estudada por vários autores em diferentes pontos de vista,
considerando variações de muitos parâmetros, como salinidade, pH, matéria orgânica, entrada de
nutrientes, competição interespecífica, inundação por marés, entre outros, como factores que
influenciam na distribuição das espécies (Fruehauf, 2005)

A dominância relativa das espécies e sua distribuição no Mangal são influenciados por muitos
factores como a topografia, geomorfologia, hidrologia e sedimentologia de cada sistema (Rey &
Connelly, 2002).

Assim, pode-se concluir que o padrão de distribuição das espécies está relacionado às modificações
impostas pela microtopografia e frequência de inundação, resultando em gradientes físico-químicos,
sendo os processos de sucessão e distribuição das espécies resultantes de variações destes
gradientes (Fruehauf, 2005).

A distribuição de espécies de mangal, é mais frequentemente manifestada como um mosaico que


varia com o complexo de interacções físicas, químicas e biológicas que ocorrem em uma área
específica (Fig.3). Como os ambientes de mangal são tão diversos, geralmente é difícil determinar
os requisitos ecológicos gerais de diferentes espécies, pois estudos detalhados em uma área podem
ser contraditórios por estudos igualmente precisos das mesmas espécies em uma área diferente (Rey
& Connelly, 2002).

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Fig.3: Distribuição de espécies de mangal. Fonte: Rey & Connelly, 2002.

Capítulo III
3. Condições Ambientais que influenciam na Distribuição das Espécies
3.1.Clima

Os padrões climáticos, em especial a pluviosidade, contribuem para condicionar as áreas passíveis


de ocupação dos mangais, limitando-se à aquelas com maiores aportes de água, dos rios, chuvas ou
marés (Fruehauf, 2005). Assim, as florestas de mangal mais desenvolvidas ocorrem onde a
precipitação anual excede os 2.000 mm e onde não haja uma estação seca pronunciada (Costa &
Cestaro, 2010).

Todas as espécies do Mangal são sensíveis ao frio, por isso a propagação destas, em ambos os
hemisférios terrestres, é limitada pela temperatura de 16ºC mínimos de isoterma da água. Devido a
temperatura da água, os Mangais encontram-se principalmente na costa oeste dos continentes entre
30º de latitude norte e 30º de latitude sul. A dependência por um abastecimento periódico de água
doce explica a falta desta forma de vegetação nos litorais com clima desértico (Fruehauf, 2005).

Segundo Mastaller (1990), as condições ideais de temperatura e precipitação para o


desenvolvimento dos Manguezais são (Fruehauf, 2005):

 Temperaturas médias acima de 20°C;


 Média das temperaturas mínimas não inferior a 15°C;

Orlando Ribeiro Rogério Guta pág.8


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 Amplitude térmica anual menor que 5°C;


 Precipitação pluvial acima de 1.500 mm/ano, sem prolongados períodos de seca.

3.2.Solos

Além da temperatura e precipitação, há ainda outras condições para o aparecimento dos Mangais
(Fruehauf, 2005):

 Solos aluviais onde predominam os lodos finos e ricos em matéria orgânica;


 Áreas litorâneas, planas e calmas, protegidas do impacto das ondas;
 Larga amplitude da maré;
 Existência de água salobra, formada pela mistura de água doce do rio com água salgada do
mar.

As espécies vegetais de mangal apresentam alta plasticidade na utilização das diferentes formas
iónicas resultantes dos processos de oxidação, redução e variações de salinidade do solo em
decorrência da hidrodinâmica do manguezal, assim, a acção das marés interfere na variação da
disponibilidade de nutrientes e na distribuição irregular dos mesmos na forma livre e particulada,
com maior aporte onde há maior deposição de sedimentos (Madi et al, 2015).

3.3.Salinidade

A Salinidade é o principal factor abiótico ao qual as espécies de mangal estão sujeitas, a salinidade
no ambiente marinho e no mangal deve-se, principalmente, ao cloreto de sódio (NaCl) dissolvido na
água, correspondente a 86% do total de sais dissolvidos, onde a concentração média de sais na água
é de 35g/kg (Pascoalini et al, 2014). Estas alterações provocadas pelo aumento na concentração de
sais podem desencadear processos de competição e extinção das espécies ali viventes (Esteves &
Suzuki, 2008).

A salinização é um factor limitante para o desenvolvimento e produtividade de plantas, e vem


afectando os recursos hídricos de zonas áridas, semiáridas e mediterrâneas. (Esteves & Suzuki,
2008).

A distribuição de espécies vegetais é um aspecto notável em muitos mangais. Dentre vários


parâmetros ambientais, a salinidade é um parâmetro de grande importância ecológica e está
directamente relacionado com a distribuição das espécies de mangal e com desenvolvimento delas,

Orlando Ribeiro Rogério Guta pág.9


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tanto a altura das árvores como a diversidade de espécies diminuem com o aumento da salinidade
(Costa & Cestaro, 2010).

Alem desses efeitos, o excesso de sal pode alterar a concentração de clorofila, oque pode reduzir a
capacidade fotossintética de algumas espécies de mangal, vários autores observaram a redução da
eficiência fotoquímica com o incremento da salinidade em Avicena marina, B.parviflora e
Rhyzophora mucronata (Pascoalini el al, 2014).

3.3.1. Tolerância das espécies

A tolerância à salinidade de plantas é a capacidade de desenvolverem e completarem seu ciclo de


vida sobre um substrato que contém elevada concentração de sais solúveis. Quanto a tolerância as
espécies podem ser halófitas, plantas que podem tolerar taxas elevadas de salinidade, e glicófitas,
que não conseguem desenvolver-se sobre o substrato com elevadas taxas de salinidade (Esteves &
Suzuki, 2008). Quanto à tolerância ao sal pelas plantas, Rhizophora, é menos tolerante
desenvolvendo-se melhor em locais com taxas menores que 50 ‰, sendo Avicennia mais tolerante
conseguindo sobreviver em locais onde as águas chegam a conter 65 a 90‰ e Laguncularia com
tolerância intermediária.

3.4.Condições Hidrológicas
3.4.1. Marés

Além da grande importância que o Estuário dos Bons Sinais possui, para a pesca, turismo,
actividade económica, este possui um alto valor ecológico, por ter a si associado grandes densidades
de mangais que proporcionam locais de reprodução de maior parte de peixes, com alto valor
económico (Timba, 2014). Portanto, os mangais que fazem com que o estuário seja importante, tem
sido nos últimos anos alvo de vários estudos em diferentes áreas de acção como, na oceanografia,
Biologia Marinha e Química Marinha, olhando para a sua conservação e uso sustentável.

As marés no Estuário dos Bons Sinais são semidiurnas e a onda é estacionária dentro do estuário, a
sua altura de varia entre menos de 35 centímetros e cerca de 500 centímetros durante marés
extremas. As amplitudes das marés variam ao longo do ano entre 100 centímetros durante as marés
mortas e cerca de 380 centímetros durante as marés vivas.

Duração e frequência da maré

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Actualmente, a clássica classificação hidrológica de mangal de Watson (1928) ainda é aplicada e


recomendada (Van Loon et al.,2016). De uma pesquisa extensa na Malásia, Watson descobriu que
as espécies que crescem nas florestas de mangais da Malásia podem ser agrupadas em 5 classes com
base em três variáveis: regime de maré, elevação e frequência de inundação (Tab.1).

Tabela 1: Classificação de Watson derivada do sistema de mangais na Malásia. Fonte: Van Loon et
al. (2016).

Elevação Frequência de
Classe Regime da Maré
[m+marco] inundações [inund/mês]
1 Todas <2.44 56-62
2 Medias 2.44-3.35 45-56
3 Normais 3.35-3.96 20-45
4 Altas 3.96-4.57 2-20
5 Equinócio >4.57 <2

As áreas da classe 1 são inundadas com muita frequência para que as espécies de mangais
sobrevivam, resultando em lamas vazias de vegetação. Na classe 2, apenas espécies pioneiras, como
Avicennia sp. e Sonneratia sp. Podem se estabilizar. Classe 3 é a classe mais diversificada, com
condições hidrológicas adequadas para grupos de espécies, incluindo Rhizophora sp., Ceriops sp. e
Bruguiera sp.. A classe 4 é raramente inundada pelas marés e, portanto, permite que outros grupos
de espécies entrem na composição da vegetação de manguezal, ex.: Lumnitzera sp., Bruguiera sp. e
Acrosticum sp.. A classe mais alta, classe 5, que quase nunca é inundada, é adequada apenas para
espécies de manguezais como Phoenix paludosa Roxb.

Apesar da ampla aplicação da classificação da Watson fora da Malásia, algumas desvantagens desta
classificação foram identificadas para uma aplicação mais geral. A desvantagem mais importante é
que a classificação de Watson é desenvolvida para regiões com um regime regular de maré e um
perfil de elevação regular. Devido a um regime de maré irregular e a microtopografia, as
características de inundação de uma floresta de mangal apresentam variabilidade espacial muito
maior do que o esperado (Van Loon et al., 2016).

Portanto propõe-se algumas alterações à classificação original de Watson para torná-la mais
adequada às marés e à elevação irregulares (Tab.2).

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Tabela 2: Classificação hidrológica adaptada, incluindo grupos comuns de espécies de mangais do


sudeste asiático. A elevação (em itálico) é incluída para características de inundação para regiões de
mangal com regime regular de marés e perfil de elevação regular.

Duração da Duração da
Elevação
Classe Inundação Inundação Espécies
[cm+NMM]
[min/dia] [min/inundação]
1 <0 >800 >600 Nenhuma
2 0-50 400-800 450-600 A.alba Blume, Sonneratia sp.
Avicennia sp., Rhizophora sp.,
2* 50-100 250-400 200-450
Bruguiera sp.
Rhizophora sp.,Ceriops sp.,
3 100-150 150-250 100-200
Bruguiera sp.
Lumnitzera sp., Bruguiera sp.,
4 150-210 10-150 50-100
Acrosticum aureum L.
Ceriops sp., Phoenix paludosa
5 >210 <10 <50
Roxb.

As mudanças mais importantes incluem:

 Divisão da classe 3 mais diversificada na classe 2 e na classe 3 para reflectir a maior


sensibilidade das espécies de manguezais às condições hidrológicas em torno da classe 3.
 Omitir a variável "regime de maré", porque é muito vago e não é útil em situações com
marés irregulares;
 Usando "duração da inundação" em vez de "frequência de inundação", para aumentar a
usabilidade em situações com perfis de elevação irregulares e marés irregulares;
 Introduzindo duas formas de medir a duração da inundação, porque descobriram que estes
são ambos importantes para determinar a classe de vegetação correta.

Na Tabela 2 a variável "elevação" ainda está incluída, mas alguns autores não recomendam sua
utilização e mencionam que a elevação só pode ser usada em regiões de mangais com regime
regular de maré e perfil de elevação regular, onde não podem ser feitas medidas de níveis de água e
existirem medidas precisas de elevação.

3.4.2. Lençol freático

O Lençol freático é um reservatório de água presente nas partes subterrâneas da terra, variando de
500 a 1000metros de profundidade. A drenagem deste, é necessária em regiões de clima húmido e

Orlando Ribeiro Rogério Guta pág.12


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subhúmido para manter a concentração de sais na solução do solo em níveis aceitáveis para as
florestas de mangal presentes no ecossistema (Pyaraly, 2017).

O nível do lençol freático na região do Icidua esta a uma profundidade média de 1.6metros, com
variações temporais, máximas de 1,2metros e mínimas de 2,5metross associados as precipitações e
Influencia de marés (Pyaraly, 2017), Este Autor concluiu com base nos níveis d lençol freático que
a área de reflorestamento em Icidua possui condições hidrológicas aceitáveis para o reflorestamento
da Avicennia marina.

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Capítulo IV
4. Metodologia
4.1.Área de Estudo

O bairro de Icidua localiza-se no segundo posto administrativo de Quelimane, faz fronteira com o
estuário dos Bons Sinais e possui uma área de reserva de floresta de Mangal que é influenciada pela
hidrodinâmica do estuário (Fig.4). O clima da região de quelimane é marcado por uma estação fria e
seca (Abril a Outubro) e uma estação quente e húmida (Novembro a marco), as temperaturas
diurnas são em geral superiores 30ºC na estação quente, mas as vezes podem baixar ate 20ºC na
estação fria.

Fig.4: Área de reflorestamento junto ao estuário dos Bons Sinais-Quelimane, Zambézia,


Moçambique. Fonte: ArcGis10.1. ArcMap.

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4.2.Materiais e Métodos
4.2.1. Materiais

Desde a colheita de dados, processamento, ate a construção dos gráficos foram usados os seguintes
materiais e Programas:

Materiais: Programas: Outros:

Teodolito, Tripé e Régua; Folha de cálculo Microsoft Tabela de Marés


Excel 2010; (INAHINA);
GPS;
Ocean Data View 4 (versão
CTD (RBR);
4.7.2);
Becker;
Base Camp;
Balança Gravimétrica; WaterLevelAnalysis (Java);

Google Earth
(ver.7.1.8.3036);

4.2.2. Métodos
a) Levantamento Topográfico

O levantamento do perfil topográfico foi realizado nas áreas de reflorestamento de mangal em


Icidua (Fig.4) divididas em A e B. A área A possui resultados negativos ao reflorestamento, com
características como desertificação do solo, possui uma área de 23Km2 (Fig.5). A área B possui
resultados positivos ao reflorestamento de mangal com características como Humidade no solo,
com uma área de 19,8km2 (Fig.5). Em cada Área foram marcados pontos, onde mediu-se, com os
instrumentos da Fig.6, a altura da superfície através do Teodolito e com auxílio de uma régua
graduada ate 3metros, seguida da marcação do ponto no GPS (Latitude e Longitude) ate concluir a
varredura de toda área, para a posterior obtenção das linhas de contorno do perfil topográfico no
programa Ocean Data View 4.

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Fig.5: Pontos para levantamento Topográfico, Área A à esquerda e Área B à direita. Fonte: Google
Earth.

Fig.6: Instrumentos usados na colheita de cotas: A)Tripé; B)Régua; C)Teodolito e D)GPS.

Os dados de elevação, foram lançados no pacote estatístico Microsoft Excel 2010 onde foram
organizados (em perfis) e associados aos dados de localização de cada ponto, extraídos do GPS a
partir do programa Base Camp. Foram feitos ajustes de cotas com vista a organizar as elevações

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tendo como referencia o Zero Hidrográfico (Fig.7). Os dados foram transportados ao programa
Ocean Data View, onde foi possível visualiza-los na forma de mapas (contendo linhas de contorno).

Fig.7: Análise de dados com vista a transferir as cotas ao referencial ZH.

b) Determinação da frequência de inundação

A determinação da frequência de inundação consistiu na contagem de número de inundações em


unidade de tempo (mês), considerando uma área inundada quando o nível de maré transcendia a
linha de referencia (altura do solo) para cada área, contando se assim as vezes que a maré
transcendia a altura do solo.

Legenda:

𝐹𝑖 – frequência de inundação Eq. 1


𝐻1 +𝐻2 +𝐻3 +⋯𝐻𝑛
𝐹𝑖 = 𝐻𝑛 – número de inundações
𝑇
𝑇 - tempo

c) Determinação da duração da inundação

Para determinação da duração da inundação diária, usou-se os dados da previsão de maré


(INAHINA) o qual ilustra os níveis de água em função do tempo. Com o tempo de início e fim de
cada inundação, foi possível determinar o tempo em que o nível da água encontrava-se acima do
nível referencial da área (altura do solo) a partir das análises do programa WaterLevelAnaysis o
qual usa o esquema abaixo (Fig.8).

Orlando Ribeiro Rogério Guta pág. 17


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h1

t2 B

A t1
h2

Fig.8: Esquema para determinação da duração da inundação. Fonte: WaterLevelAnalysis.

Assim na Fig.8, pode-se obter os valores de t1 e t2 usando as seguintes equações:

Legenda:
ℎ1 𝑡1 Eq.2
= ℎ1 -hora inicial
ℎ2 𝑡2

ℎ2 -hora final

𝑡1 -tempo inicial Eq.3


𝑡1 + 𝑡2 = 1
ℎ2 -tempo final

d) Identificação de áreas inundadas

Níveis de maré, da previsão do INAHINA, são expressos em metros e calculados para cada porto
em relação ao zero hidrográfico, que se situa ligeiramente abaixo do nível da baixa-mar da Maré
Viva (INAHINA, 2017).

Alturas de maré foram usadas para a comparação com elevações da topografia tendo em conta o
mesmo nível de referência (zero Hidrográfico), considerando assim área inundada a toda área que
se encontra abaixo em relação a um dado nível de maré, e as áreas mais propensas as inundações as
que possuem duração e frequências de inundação elevadas, segundo a classificação hidrológica.
Observações foram associadas ao método para mapeamento das respectivas áreas.

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e) Determinação da Salinidade do Solo

Para a determinação da Salinidade do solo, escolheu-se três pontos estratégicos de colheita tendo
em conta as características do solo (a olho nu) e a distância do canal de abastecimento de água,
como ilustra a Fig.9 e suas respectivas coordenadas na tabela 3. Nesses pontos foram colhidos solos
a uma profundidade de 0.2m, com vista a descrever melhor as características do solo de toda área de
estudo.

A1

A2

B1

Fig.9: Pontos de Colheita de solo. Fonte: Google Earth 2017.

Tabela 3: Localização geográfica dos pontos de colheita de solo para medição da salinidade

Pontos Latitude Longitude Observações do solo (olho nú)


A1 17º53ˈ24.00ˈˈS 36º54ˈ28.25ˈˈE Baixa resposta ao reflorestamento, baixa
humidade.
A2 17º53ˈ26.44ˈˈS 36º54ˈ26.86ˈˈE Sem respostas ao reflorestamento,
salinização e compactação do solo.
B1 17º53ˈ29.20ˈˈS 36º54ˈ32.11ˈˈE Boa resposta ao reflorestamento, solo
húmido,

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A determinação da salinidade do solo foi realizada através do método proposto por EMBRAPA,
segundo o qual a amostra de solo foi submetida a secagem, homogeneização, diluição em água
destilada e posteriormente a determinação da salinidade por um salinómetro. Para este fim, a
secagem foi feita ao ar livre, de modo a eliminar apenas uma parte da humidade da amostra. A
homogeneização consistiu na destruição dos grãos maiores de modo a obter a mesma granulometria.
Os grãos homogeneizados foram posteriormente misturados com água destilada em proporções de
solo (g) : água destilada (mL) (1:5), num Becker de 1L (ilustrado na figura 10). Um salinómetro
(RBRconcerto versão 0.1) foi depois usado.

Fig.10: Instrumentos usados na medição de salinidade: a)Balança, b) Salinómetro e c) Becker.

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Capítulo V
5. Resultados
5.1. Levantamento do Perfil topográfico

a) Área A

O levantamento do perfil topográfico realizado na Área A, tem como resultado uma elevação média
de 6.45m, máxima de 7.22m e uma mínima de 5.22m (Fig.11) com pontos mais altos mais
próximos ao estuário e pontos mais baixos mais adentro.

Fig.11: Levantamento topográfico da área A de mangal em icidua, Fonte ODV4 (adaptado)

a) Área B

O levantamento do perfil topográfico realizado na Área B tem como resultado uma elevação média
de 5,89m, máxima de 7,32m e uma mínima de 4.33 m (Fig.12) com pontos mais baixos mais
próximos ao estuário e pontos mais altos mais adentro.

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Fig.12: Levantamento Topográfico da Área B de reflorestamento de mangal em Icidua. Fonte:


ODV.

5.2.Determinação da duração e frequência da inundação

As marés de 1 a 2 metros de altura são as mais frequentes, mas não alcançam a área de
reflorestamento em estudo, os níveis de 4 a 4.8 metros alcançam a área de reflorestamento em
estudo mas a sua frequência é muito baixa (como observado na Tab.4)

Tabela 4: Classificação Hidrológica na Área de reflorestamento de mangal.

Superfície Tipo de Marés Marés (m) Frequência (I/m) Classe de Watson


-- Todos 0-1 Sempre 1
-- Medias 1-2 60 1
<5.5 Normais 2-3 58-60 1
6 Vivas 3-4 20-58 2–3
>6.5 Equinocio 4-4.8 <20 4

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Fazendo a correspondência das frequências das inundações ao tipo de espécie adequada a tais
classificações hidrológicas, a espécie que melhor se adapta a área de reflorestamento, que tem como
elevação média da superfície 6m é avicénia marina (Tab.5)

Tabela 5: Classificação Hidrológica de Watson incluindo as espécies adaptáveis.

Superfície Marés Frequência Classe Espécies


(m) (I/m) Watson
-- 0-1 Sempre 1 Nenhuma
-- 1-2 60 1 Nenhuma
<5.5 2-3 58-60 1 Nenhuma
6 3-4 20-58 2-3 Avicennia e
>6.5 4-4.8 <20 4 Lumni. Brugui.

5.3.Mapeamento de áreas mais propensas as inundações

Os níveis com maior frequência de inundação, sendo mais baixos, pouco alcançam as áreas de
reflorestamento, fazendo com que as áreas mais propensas as inundações sejam pequenas, nos
níveis abaixo de 3m.

O nível de maré que melhor alcança as áreas de reflorestamento possui uma altura de 4,6m que é
suficiente para inundar maior parte da área de reflorestamento A e B como verificado na Tabela 6.
Mas as mais propensas as inundações (inundações com maior frequência) são em menor
percentagem pois os níveis de maré que inundam essas áreas são baixos.

A maior altura de maré, causada pelas variações de maré nas Marés vivas mais altas (4.8m), causa
inundação em toda área de reflorestamento vindo assim a juntar as águas da área de reflorestamento
A e B (Anexos).

Tab.6: Níveis de marés e áreas de inundação em percentagem

Área Inundada (%)


Níveis de Maré (m)
Área A Área B
1-2 -- --
2-3 10 30
3-4.6 70 100
>4.8 100 100

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5.4.Determinação da Salinidade do solo

A salinidade do solo foi maior no ponto A2, que já demostrava solo característico de altos níveis de
salinidade a olho nú (Anexos), a menor salinidade foi registada no ponto B1, conforme a tabela 7.

Tab.7: Salinidade nos pontos da Área de reflorestamento A (A1 e A2) e B (B1).

Pontos Salinidade (PSU)


A1 8.5
A2 9.0
B1 7

Orlando Ribeiro Rogério Guta pág. 24


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Capítulo VI

6. Discussão
Do levantamento topográfico em Icidua verifica-se que a área A possui maior elevação comparado
a área B, com uma média de 6.45m e 5.89m respectivamente, como observado em campo a área
com menor elevação (área B) apresenta respostas positivas ao reflorestamento de mangal,
observado a partir de características como altura da planta e desenvolvimento das folhas, Por estar
mais susceptível às variações de maré, com frequência e duração da inundação favorecendo o
crescimento da avicénia marinha segundo Watson (1928) nos mangais da Malásia como observado
na tabela 4.

A partir da Classificação Hidrológica na tabela 4, afirma-se que segundo a frequência de inundação


de 20-58 inundações por mês, a classe hidrológica das florestas de mangais em icidua é a 2, que se é
favorável ao crescimento da avicénia marina (Tab.5)

Segundo Fruehauf (2005) locais onde a maré chega poucas vezes ao dia ou onde há menor
influência da água doce (ou das marés), as salinidades podem ser tão elevadas que as plantas não
crescem, o mapeamento de áreas inundadas na área A mostra que 80% da área é inundada pela maré
acima de 4.6m de altura, as quais são resultado so de marés vivas, que possuem baixa frequência.
Dificultando assim o crescimento das plantas.

A salinidade do solo é baixa no ponto B1, pertencente a Área B, em comparação ao ponto A1,
pertencente a Área A (Tab.7), causado pela maior frequência de inundação na Área B em
comparação com a Área A, justificando assim o bom desenvolvimento das espécies na área B em
comparação a Área A.

Orlando Ribeiro Rogério Guta pág. 25


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Capítulo VII
7. Considerações Finais

Os níveis de maré com maior frequência de Inundação não alcançam a altura da superfície do solo
na Área A e B de reflorestamento, inundando apenas os canais de abastecimento de ambas áreas. O
nível mínimo de maré que inunda as duas áreas de reflorestamento em estudo (A e B) é de 3m, mas
devido a altura da maré nesta classe, apenas 10% da Área A é afectada pela maré e na área B
alcança ate 30% (Anexos) que são os locais com melhor resposta ao reflorestamento do mangal.

Devido a altura da superfície do solo na área de reflorestamento A, esta área não é inundada com
boa duração e frequência, sendo responsáveis pela sua inundação as marés com uma altura acima de
3m, enquanto que a área de reflorestamento com resultados positivos (Área B) já se encontra
inundada ao mesmo nível de maré.

De acordo com a classificação Hidrológica nas áreas de reflorestamento em Icidua, A classe


hidrológica é a 2, com frequência e duração de Inundação que favorece o crescimento de Avicénia
marinha apontada por Muabsa (2017) como a espécie mais abundante em Icidua.

A frequência e duração de inundação causada pela maré na Classe 2 na Área A (área de


reflorestamento em foco), cria boas condições de crescimento a avicénia marinha sendo assim
recomendada o reflorestamento do mangal com essa espécie, devendo tomar em consideração a
abertura de canais para que esta maré alcance mais áreas.

A Salinidade da Área A é muito maior em comparação com a salinidade da Área B, a abertura de


canais acima recomendada vai fazer com que a maré alcance mais áreas na área A, condicionando
assim a diminuição da salinidade pela acção da maré.

Orlando Ribeiro Rogério Guta pág. 26


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Capítulo VIII
8. Recomendações

Recomenda-se o estudo das características do solo com o objectivo de reflorestar com outras
espécies que resistem melhor a altas taxas de salinidade, pois o uso do reflorestamento do mangal
pela avicénia marina é baseado no historial do local visto que a avicénia marinha é a espécie mais
abundante no local. Assim as actividades de reflorestamento dão prioridade as espécies nativas, em
perigo ou em via de extinção.

Orlando Ribeiro Rogério Guta pág. 27


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Capítulo IX
9. Referencias Bibliográficas
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extensão. Faculdade de ciências. Dissertação para Mestrado em Ecologia e Gestão
Ambiental. Lisboa.
 Carlos, P., (2017) Condições Hidrológicas nos campos de recuperação de mangal de Icidua,
cidade de Quelimane, Monografia apresentada a Universidade Eduardo Mondlane,
Zambézia.
 Costa, D. F. S. & Cestaro, L. A. (2010) Análise fitoecológica e distribuição da vegetação de
mangue no estuário hipersalino apodi/mossoró (rn - brasil) Dissertação apresentada ao
Programa Regional de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente, da
Universidade Federal do Rio Grande do Norte (PRODEMA/UFRN). Brazil.
 Esteves, B. S. & Suzuki, M. S. (2008) Efeito da salinidade sobre as plantas. Programa de
Pós-graduação, Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, Brazil.
 MITADER(2015) Estratégia e plano de acção nacional para restauração de mangal 2015-
2020, abril de 2015.
 Fruehauf, S. P. (2005) Rhyzophora mangle (mangue vermelho) em áreas contaminadas no
manguezal na baixa santista. Tese apresentada à Escola Superior de Agricultura “Luiz de
Queiroz”, Universidade de São Paulo, Brazil.
 Giri, C., Ochieng, E., Tieszen, L. L., Zhu, Z., Singh, A., Loveland, T., Masek, J., Duke, N.
(2011) Status and distribution of mangrove forests of the world using earth observation
satellite data. United kingdom. Global Ecology and Biogeography 20:154-159. Disponível
em: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1466-8238.2010.00584.x/abstract.
 Madi, A. P. L. M., Boeger, M. R. T. & Reissmann, C. B. (2015). Composição química do
solo e das folhas e eficiência do uso de nutrientes por espécies de manguezal. Revista
Brasileira de Engenharia Agrícola e Ambiental, Campina grande PB, UAEA/UFCG, disponível
em: http://dx.doi.org/10.1590/1807-1929/agriambi.v19n5p433-438.
 Oliveira, D. F. (2013) o risco de inundação urbana nas frentes de água de deltas e estuários
em cenários de alterações climáticas, lisboa.
 Pascoalini, S. S., Lopes, D. M. S., Falqueto, A. R., Tognella, M. M. P. (2014) Abordagem
ecofisiológica dos manguezais: uma revisão. Brazil. Disponível em:
http://dx.doi.org/10.5007/2175-7925.2014v27n3p1.
 Rey, J. R. & Connelly, C. R. (2002) Mangroves. University of Florida. Florida. Disponivel
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Orlando Ribeiro Rogério Guta pág. 28


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 Rodrigues, W., Urish D. W., Feller I. C., Wright R. M., (2009) Relationships between
Frequency of ground exposure and Forest cover in a mangrove Island ecosystem.
Washington, D.C, U.S.A.
 Timba, I. L. (2014) Propagação da onda de maré no estuário dos Bons Sinais. Monografia
apresentada a Universidade Eduardo Mondlane. Quelimane.
 Van loon, A.F., Te brake B., Van Huijgevoort, M.H.J., Dijksma R., (2016) Hydrological
classification, a practical tool for mangrove restoration. Plos one 11(3): e0150302.
Doi:10.1371/journal.pone.0150302.
 Zide, A. & Rajkaran, A. (2014) Avaliação da biodiversidade do habitat crítico do riacho
costeiro Nhangonzo. Relatório nr.1521646-13543-17, Elaborado por EOH Coastal and
environmental services para Sasol Petroleum Temane, Sasol Exploration & Petroleum
International Londres, Moçambique.

Orlando Ribeiro Rogério Guta pág. 29


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Anexos

Características do solo para escolha de ponto de colheita de amostra

Fig.1: Carateristicas do solo salino da Área A

Fig.2: Inundação causada pela maré de 4.6m, na Área B.

Orlando Ribeiro Rogério Guta pág. 30


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Fig.3: Inundação causada pela maré de 4.6m na Área A.

Fig.4: Mapeamento das Áreas Inundadas pela maré de 4.6m na Área A e B

Orlando Ribeiro Rogério Guta pág. 31


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Fig.5: Mapeamento de Áreas inundadas pela maré de 3m de altura

Fig.6: Mapeamento de Áreas inundadas pela maré de 4.6m

Orlando Ribeiro Rogério Guta pág. 32


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Tab.1: Cronograma de Actividades

Objectivos: Actividade/Materiais/Softwares: Observações:


Levantamento Teodolito; GPS; Régua. Período: Maré morta.
Topográfico da  Reconhecimento da área (GPS) Pessoal: 5Pessoas.
área de Icidua  Levantamento topográfico Data:
(Teodolito e Régua). Horas: 8h – 15h
Previsão de Tabela de marés (INAHINA); Excel O INAHINA faz previsões de
Marés  Lançar os valores de nível (Excel). maré com modelos mais
 Fazer o gráfico das elevações em precisos.
função do tempo (Excel).
Mapear áreas Ocean Data View (ODV) ODV oferece linhas de
propensas as  Lançar os dados do Levantamento contorno para as diferentes
Inundações topográfico no ODV. elevações que em comparação
com os Níveis de Marés
resultam e áreas Inundadas.
Identificar as Revisão de Literatura; Discussão e Recomendações
espécies de  Zonação de Mangais
Mangais,  Condições de Humidade
tempo/freq. de  Fisiologia das espécies.
Inundações

Orlando Ribeiro Rogério Guta pág. 33

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