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REGIÃO ACADÉMICA

DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS

TRABALHO DO FIM DO CURSO

LICENCIATURA EM DIREITO

FACTORES QUE INFLUENCIAM O ELEVADO NÚMERO DE


MENORES EM CONFLITO COM A LEI - ESTUDO DE CASO:
SALA DE JULGADO DE MENORES – CARTÓRIO DA LETRA C
NO ZANGO 3, MUNICÍPIO DE VIANA/LUANDA /2019-2020

Autor: Cláudio João Matari

Orientador: Prof. Lic. Alberto Gueia

LUANDA, 2019
REGIÃO ACADÉMICA
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS

TRABALHO DO FIM DO CURSO

LICENCIATURA EM DIREITO

FACTORES QUE INFLUENCIAM O ELEVADO NÚMERO DE


MENORES EM CONFLITO COM A LEI - ESTUDO DE CASO:
SALA DE JULGADO DE MENORES – CARTÓRIO DA LETRA C
NO ZANGO 3, MUNICÍPIO DE VIANA/LUANDA /2019-2020

Autor: Cláudio João Matari

Orientador: Prof. Lic. Alberto Gueia

LUANDA, 2019
REGIÃO ACADÉMICA
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS

LICENCIATURA EM DIREITO

FACTORES QUE INFLUENCIAM O ELEVADO NÚMERO DE


MENORES EM CONFLITO COM A LEI - ESTUDO DE CASO:
SALA DE JULGADO DE MENORES – CARTÓRIO DA LETRA C
NO ZANGO 3, MUNICÍPIO DE VIANA/LUANDA /2019-2020

O JÚRI

Presidente:______________________________________________________

1º Vogal:________________________________________________________

2º Vogal:________________________________________________________

Secretário:_______________________________________________________

Classificação:____________________________________________________

Data da Defesa:____/_________/________
EPÍGRAFE

“É preciso ser forte e consequente no bem,


para não o ver degenerar em males
inesperados”. (Ruy Barbosa, 1849-1923)

I
DEDICATÓRIA

Este trabalho é dedicado aos meus pais e ao meu padrinho Armando Mangel,
Pai Januário Matari, Maria Helena Matari, Domingas Helena Matari, Marcelina
Matari da Fonseca, assim como pela minha amada Mãe Helena Domingos (em
memória), por serem pessoas que amo, por acreditarem e por toda dedicação.

A minha amada e querida esposa Carla Vieira Matari, pelo estímulo, apoio e
companheirismo, com quem pretendo continuar dividindo minhas conquistas e
alegrias por muitos e muitos anos. Assim como ao meu orientador Dr. Alberto
Gueia.

II
AGRADECIMENTOS

Antes de mais, gostaria de expressar o meu profundo agradecimento a Deus,


pela inspiração, a partir de um sonho, para a elaboração deste trabalho, e pela
Luz que sempre me guiará nesta caminhada terrena.

Agradeço aqueles e aquelas que me acompanharam e me apoiaram nesta


caminhada, muito especialmente a dona Faustina Jerónimo, (Nanina), Srº
Carlitos (Tio Dani), mãe Maria, dona Rosa, Srº Riquinho (Mam Ricas), Adolfo
de Assunção (Mano Cinquenta), Morais Garcia (Mano Morais), Nelson Matari
(Gika), Isabel Cinquenta (Mãe Isabel), dona Magda, dona Chinha, Dominginha,
Tio Mingo, meu companheiro de batalha estudantil Wongo António e ao meu
Comandante Emanuel Francisco, pelo apoio incondicional, através de gestos
e/ou palavras de incentivo, de carinho, de atenção, ou que simplesmente me
ouviram.

Ao meu orientador, o excelentíssimo senhor Doutor Alberto Gueia, pelo


exemplo, rigor, disciplina e disponibilidade demonstradas desde o início.

Por fim, gostaria de agradecer aos jovens/menores delinquentes entrevistados


nesta dissertação, por connosco terem partilhado as suas vidas, pelas
informações valiosíssimas que enriqueceram este trabalho e pela segurança
prestada durante as pesquisas.

III
RESUMO

Para o presente trabalho tivemos que recorrer em revistas bibliográficas que


retravam sobre o tem em questão, tal como a realização de uma Guia de
entrevista que utilizou-se para a recolha estatística dos dados. No nosso
estudo contou com amostra de oitenta (80) indivíduos, cuja população é
residente no Município de Viana distrito urbano do Zango 3, ao abordar este
acutilante tema, apoiámo-nos em outras ciências fundamentais, como a
Psicologia Infantil, a Psicopatologia Infantil, a Sociologia da infância e a
Criminologia, para assim melhor entender as causas deste fenómeno social,
fizemos, assim, uma caracterização sociocultural de Angola e estabelecemos
elos de ligação entre as vivências nos musseques e a delinquência juvenil. A
poligamia surge também como um fenómeno sociocultural que muito contribui
para a delinquência juvenil. No nosso estudo empírico realizado com base em
nove entrevistas a jovens delinquentes constatámos que os aspetos
socioculturais anteriormente referidos em conjugação com ambientes familiares
disfuncionais e baixa escolaridade contribuem decisivamente para a vida de
delinquência destes jovens. Assim, confirmam-se as três hipóteses colocadas
inicialmente, ou seja, a pobreza, os maus-tratos infantis e o tipo de gestão
familiar (disfuncional) conduzem os jovens angolanos à delinquência. Apesar
do enquadramento jurídico destes casos de delinquência, verifica-se que
há ainda um longo caminho a percorrer no sentido de dar voz às
crianças negligenciadas e maltratadas.

Palavras-Chave: Delinquência juvenil, Menores, Lei, Desajuste familiar.

IV
ABSTRACT

For the present work we had to resort to bibliographic journals that retrava on
the has in question, as well as the realization of an interview guide that was
used for the statistical collection of data. In our study, we had a sample of eighty
(80) individuals, whose population is resident in the municipality of Viana urban
district of Zango 3, when addressing this acutilante theme, we supported
ourselves in other fundamental sciences, such as Child Psychology, Child
Psychopathology, Childhood Sociology and Criminology, in order to better
understand the causes of this social phenomenon, we have thus made a
sociocultural characterization of Angola and established links between the
experiences in the musseques and juvenile delinquency. Polygamy also
emerges as a sociocultural phenomenon that greatly contributes to juvenile
delinquency. In our empirical study conducted on the basis of nine interviews
with young offenders, we found that the sociocultural aspects mentioned above
in conjunction with dysfunctional family environments and low schooling
contribute decisively to the delinquency lives of these young people. Thus, the
three hypotheses initially placed are confirmed, i.e., poverty, child abuse and
the type of family management (dysfunctional) lead young Angolans to
delinquency. Despite the legal framework of these cases of delinquency, there
is still a long way to go in giving voice to neglected and abused children.

Key-words: juvenile delinquency, minors, law, family maladjustment.

V
SIGLAS/ ABREVIATURAS

CF - Constituição Federal

CM - Código de Menores

CP - Código Penal

ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente

TCC - Trabalho de Conclusão de Curso

CAA – Coordenadoria de Atendimento ao Adolescente em Conflito com a Lei

CNJ – Conselho Nacional da Justiça

CNS – Conselho Nacional de Saúde

ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente

EJA – Educação para Jovens e Adultos

VI
ÍNDICE DOS GRÁFICOS

Gráfico N-1: Comparação entre população total de adolescentes anos, e


aqueles em conflito com a lei – 2019 / 2020 (Mês de Abril á Fevereiro)…..…..42

Gráfico N-2: Distribuição de entrada de Casos de Prevenção Criminal e


Protecção Social, apresentado de Abril á Junho de 2019……………….………43

Gráfico N-3: Distribuição de entrada de Casos de Prevenção Criminal e


Protecção Social, apresentado de Julho á Setembro de 2019………………….44

Gráfico N-4:Distribuição de entrada de Casos de Prevenção Criminal e


Protecção Social, apresentado de Outubro á Dezembro de 2019……………..45

Gráfico N-4: Distribuição de entrada de Casos de Prevenção Criminal e


Protecção Social, apresentado de Janeiro á Fevereiro de 2020……………….46

Gráfico N-5: Distribuição de Crimes mais Frequentes ocorrido entre 2019 á


2020……………………………………….…………………………………………..47

VII
ÍNDICE

EPÍGRAFE.............................................................................................................I

DEDICATÓRIA.....................................................................................................II

AGRADECIMENTOS...........................................................................................III

RESUMO.............................................................................................................IV

ABSTRACT..........................................................................................................V

SIGLAS/ ABREVIATURAS..................................................................................VI

INTRODUÇÃO......................................................................................................1

1.2.JUSTIFICATIVA..............................................................................................2

1.3.FORMULAÇÃO DO PROBLEMA...................................................................3

1.4.FORMULAÇÃO DE HIPÓTESES...................................................................3

1.5.OBJECTIVOS.................................................................................................4

1.5.1.Geral............................................................................................................4

1.5.2.Específico....................................................................................................4

1.6.LIMITAÇÃO E DELIMITAÇÃO.......................................................................4

1.7.ESTRUTURA DO TRABALHO.......................................................................5

CAPÍTULO I. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA....................................................6

2. Definição de termos e conceitos....................................................................6

2.1. Aspectos iniciais............................................................................................7

1.3. Enquadramento histórico..............................................................................9

1.4. A construção da adolescência.....................................................................11

1.5. O adolescente e a construção da mente criminosa....................................14

1.6. Factores que Influenciam no Elevado Número de Menores em Conflito com


a Lei....................................................................................................................15

1.6.1. Desajuste Familiar..................................................................................16

6.1.2. Envolvimento com drogas........................................................................17


VIII
6.1.3. Desigualdade Social.................................................................................18

1.6.4. Ensino Deficiente......................................................................................21

1.7. Consequências do alastramento de crimes praticados por menores.........22

1.8. Reflexão sobre o papel dos agentes ressocializadores e a aplicação das


medidas sócio-educativas..................................................................................23

1.8.1. Medidas informas.....................................................................................23

1.8.2. Medidas formais.......................................................................................25

1.9. A situação actual do adolescente como autor de acto criminoso...............26

1.10. O Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo...............................27

1.11. O quadro legislativo Nacional....................................................................27

1.11.1. O julgado de menores............................................................................28

1.11.1.1. Quadro legislativo internacional..........................................................28

1.11.1.2. Aplicação da lei do Julgado de Menores............................................28


1.11.1.3.O Papel dos juízes e procuradores no âmbito da justiça de menores
(6.º E 7.º).............................................................................................................30
1.12. Aplicabilidade e eficácia da medida sócio-educativa de internação.........31

CAPÍTULO II. MATERIAIS E MÉTODOS..........................................................36

3.1. Tipo de pesquisa.........................................................................................36

3.2. Modelo de abordagem.................................................................................36

3.3. Métodos......................................................................................................36

3.4. Instrumentos utilizados na recolha de dados.............................................38

3.4.1. Procedimentos para produção de dados.................................................38

3.4.2. Sujeitos.....................................................................................................39

3.5. Técnicas de Pesquisa..................................................................................40

3.6. Procedimento para a Recolha de Dados...................................................40

3.7. População e Amostra..................................................................................41

3.8. Variáveis......................................................................................................41

IX
3.8.1. Variável Independente..............................................................................41

3.8.2. Variável Dependente................................................................................41

CAPITULO III. RESULTADOS E DISCUSSÃO.................................................42

CONCLUSÕES...................................................................................................48

SUGESTÕES......................................................................................................50

BIBLIOGRAFIA...................................................................................................52

APÊNDICE..............................................................................................................

ANEXO...................................................................................................................

X
INTRODUÇÃO

É de reconhecer que tem se estado a apelar sobre o combate ao crime, o certo


é que as políticas públicas continuam a revelar deficiências no que tange a
promoção do bem-estar das populações, razão pela qual assistimos hoje uma
tendência progressiva da delinquência, que em muitos casos os infractores
acabam por ser menores. Só para ter uma ideia, o Diário de Notícias em sua
publicação de 1 de Abril de 2019, revelava um número perto dos 5.000 casos
de crianças envolvidas em processos judiciais, para não falar das que
encontram detidas em diversas esquadras do país.

A semelhança do que acontece em muitos países da África, em Angola os


índices da criminalidade juvenil tem vindo a atingir proporções alarmantes,
levantando grandes inquietações conducentes a uma série de questões tais
como: que sociedade terá para daqui a mais alguns anos? Porque a
delinquência juvenil cresce a um nível tão acelerado? O que é necessário fazer
para estancar tal fenómeno?

Bem, estas e outras questões serão seguramente respondidas lá mais adiante.


Por agora, cabe-nos avançar que, a discussão acerca dos factores que
influenciam o elevado número de menores em conflito com a lei, mostra-se
relevante na medida em que se procura construir uma geração futura repleta
de valores positivos, próprios de uma sociedade digna e prezada.

1
1.2. JUSTIFICATIVA

A justificativa ou importância do estudo constitui o momento em que “o


pesquisador enfatiza a contribuição que o estudo trará para o desenvolvimento
da área específica em que está inserido” (Zassala, 2012, p. 83). Falar da
criminalidade no seio dos adolescentes é falar de um problema que ameaça o
futuro de qualquer sociedade, se tivermos que ter em conta as etapas do
processo evolutivo do ser humano, no que tange a sua transição para a fase da
maturidade, pois, a fronteira que separa a fase da adolescência à fase da vida
adulta é tão milimétrica. Por esta razão, o risco de um naufrágio social torna
eminente, pois, um menor em conflito com a lei, é um potencial futuro adulto
criminoso.

A motivação para a escolha do presente tema reside em primeiro lugar no


interesse social, visto que os factos evidenciados no dia-a-dia dos
adolescentes suscitam uma série de inquietações que remetem-nos a uma
profunda reflexão, e que passa a ser da responsabilidade de todos os agentes
educadores e reeducadores sociais. Encontrar novas formas de tratar o
«fenómeno criminalidade no seio dos adolescentes», traçar novas fórmulas
para a busca de soluções imediatas.

Ainda que cientes das dificuldades, mas é nossa intenção contribuir para a
minimização do problema em estudo, fazendo abordagens não apenas críticas,
mas também conducentes a produção de resultados plausíveis, com vista a
construir uma nova moral social, assente nos valores cívicos e éticos.

Outras razões que conduziram-nos a escolher o referido tema, prendem-se


com interesse académico e científico, pese embora o tema não ser novo, mas
que sempre reveste-se de actualidades, em função dos novos contornos e das
complexidades que o fenómeno crime na adolescência vai apresentando,
fazendo nascer novas ideias e pensar em novas metodologias de combate a
este mal, pelo que torna um campo fértil para investigações científicas, e
matéria interessante para abordagens académicas.

2
1.3. FORMULAÇÃO DO PROBLEMA

Ao problematizarmos um tema, estamos a indicar a especificidade do seu


objecto, e o consequente início da investigação. Problema segundo Ferreira
(1986, p. 1394) é uma questão não resolvida e que é objecto de discussão em
qualquer domínio do conhecimento.

Para tornar realizável a nossa pesquisa formulamos a seguinte questão:

 Quais são os factores que influenciam o elevado número de


menores em conflito com a lei, tendo como estudo de caso a sala
de julgado de menores – cartório da letra C no Zango 3, município
de Viana-Luanda /2019-2020

1.4. FORMULAÇÃO DE HIPÓTESES

Segundo Jung (2009, p. 3) “hipóteses é um conjunto de argumentos e


explicações que possivelmente justificam dados e informações, mas que ainda
não foram confirmados por observação ou experimentação. O mesmo
acrescenta ainda, ser uma afirmação positiva, negativa ou condicional, ainda
não testada sobre determinado problema ou experimentação.

Em consonância com o problema formulado, apresentamos as seguintes


hipóteses:

 H1: As fracas medidas sócio-educativas e o consumo excessivo de


substâncias estão na base do elevado número de menores em conflito
com a lei;
 H2: O crescente índice de pobreza no seio das famílias, constitui o factor
que influenciam o elevado número de menores em conflito com a lei;

3
1.5. OBJECTIVOS

Objectivo é a meta a ser alcançada, e deve ser definido de forma clara, precisa
em termo do tipo de relacionamento entre as variáveis. O objectivo define-se
esclarecendo o produto final a ser obtido com determinada finalidade. (Zassala,
op. cit. p. 85).

Para o presente trabalho traçamos os seguintes objectivos:

1.5.1.Geral
 Esclarecer os factores que estão na base do elevado número de
menores em conflito com a lei tendo em conta a sala de julgado de
menores no Cartório da letra C, sita no zango 3, município de Viana-
Luanda nos anos 2019 à 2020.

1.5.2.Específico
 Especificar o papel dos agentes educadores e reeducadores (família,
igreja, escola, polícia e julgado de menores);
 Analisar as medidas sócio-educativas dirigidas aos menores e os limites
da lei na sua aplicação prática;
 Sugerir medidas que visam mitigar os problemas constatados.

1.6. LIMITAÇÃO E DELIMITAÇÃO

Em palavras mais sucintas, limitar o tema, é basicamente dizer o âmbito e o


local em que ele será abordado, tornando-o mais simples e mais específico; ao
passo que a delimitação corresponde ao período de tempo que poderá
decorrer a pesquisa.

Nesta conformidade, a nossa pesquisa focará sobre os factores que


influenciam o elevado número de menores em conflito com e lei. Os nossos
estudos decorrerão ao Julgado de Menores, e serão efectuados no período
intercalar de Junho de 2019 a Março de 2020.

4
1.7. ESTRUTURA DO TRABALHO

O trabalho será estruturado em duas partes, com a primeira a ter que ver com
os aspectos introdutórios; enquanto a segunda que debruça sobre todo o resto
do conteúdo, será composta de por três capítulos: o primeiro –
Fundamentação teórica – irá retratar o tema com base nas concepções de
diversos autores; o segundo – Materiais e métodos – versa sobre os
procedimentos metodológicos aplicados ao longo da feitura de todo o trabalho;
o terceiro e último – Análise e processamento dos dados – encarregar-se-á
de apresentar os resultados finais e as devidas conclusões e sugestões.

5
CAPÍTULO I. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2. Definição de termos e conceitos

Definir com precisão os termos e os conceitos, permite esclarecer os factos ou


fenómenos que estão a ser investigados, uma vez que sintetizam as ideias
sobre tais factos ou fenómenos. Assim sendo, temos por definir os seguintes
termos:

 Menores: Traduzindo a palavra menores em sentido jurídico, é referir-se a


pessoas que ainda não atingiram a maioridade. Em direito penal a palavra
versa sobre pessoas inimputáveis, pelo facto de a lei considerar que a estas
falta a maturidade e o discernimento necessário para entender os actos que
os mesmos cometem, por isso não respondem criminalmente, ao contrário
a eles é aplicada uma medida de segurança.

 Conflito: Podemos entender a palavra conflito como sendo uma luta de


cada um por um resultado desejável para si, cuja solução pode ocorrer
mediante três estágios: evitando-os; adiando-os ou confrontá-los. Apostila
(2018, p. 6).

 Lei: Do Latim “lex” que significa uma obrigação imposta. Em seu sentido
jurídico, lei é um texto oficial que barca um conjunto de normas ditadas pelo
poder constituído (Poder legislativo), que integra a organização do Estado.
Chimieguel (2010, p. 131). Já no sentido científico, lei é uma regra que
estabelece uma relação constante entre fenómenos ou entre fases de um
só fenómeno. Através de observação sistemática, a lei descreve um
fenómeno que ocorre com certa regularidade, associando as relações de
causa e efeito.

No entanto, o termo crianças em conflito com a lei refere-se a qualquer pessoa


com menos de 18 anos de idade (cf. art. 24.º da CRA) que entra em contacto
com o sistema de justiça, como resultado de ser suspeita ou acusada de
cometer um crime. (Trindade et. al., 2015, p. 13).

6
2.1. Aspectos iniciais

Quando se trata de menores em conflito com a lei, muito se questionam sobre


o que leva a um menor se envolver no mundo da violência, porém, não são
fáceis as respostas para tal questionamento já que em muitos dos casos foge
do alcance dos mecanismos que são utilizados no combate e na prevenção da
marginalização destes infractores, principalmente quando estes problemas vêm
sendo cometido no seio das famílias.

A literatura nacional e internacional aponta uma diversidade de estudos


levados a cabo, não só nas mais variadas disciplinas científicas que buscam
dar uma explicação aos casos de comportamentos desviantes dos menores,
mas também nos diversos relatórios que periodicamente se produzem, com o
fim de conferir os estágios de evolução do fenómeno “delinquência juvenil”,
com o cerne das pesquisas a referirem-se na maioria das vezes sobre às
causas e consequências da delinquência juvenil.

De acordo com os dados do UNICEF, em todo o mundo mais de 1 milhão de


crianças estão actualmente detidas e encarceradas em esquadras da Policia e
nas prisões. Em muitos destes centros, o direito à assistência médica, à
educação e ao desenvolvimento individual é totalmente negado. Em África,
como noutras partes do globo terrestre, o aumento do número de crianças em
conflito com a lei é muitas vezes associado aos conflitos armados e à
instabilidade política, ou a factores decorrentes da falta de políticas públicas
efectivas que defendam esta parcela da população. (criança em conf. Com a lei
em Moçamb.)

Contudo, o termo “crianças em conflito com a lei” que aqui será utilizado,
refere-se a qualquer pessoa com menos de 18 anos que entra em contacto
com o sistema de justiça, como resultado de ser suspeita ou acusada de
cometer um acto tipificado na lei penal como sendo crime.

7
As abordagens serão baseadas inicialmente em estudos doutrinários, e
posteriormente far-se-á uma breve resenha do quadro legislativo, e lá por fim
analisaremos os resultados das pesquisas de campo.

No Relatório de 1999-2013, sobre a “Implementação da Carta Africana dos


Direitos e Bem-Estar da Criança", publicado em 2014, destaca-se que, a
situação de paz em Angola que perdura um pouco mais de duas décadas
permitiu a realização das eleições legislativas de 2008 ainda baseadas na Lei
Constitucional (LC) que vigorou até 2010 e as gerais em 2012, dando outra
visão dos problemas que ainda afligem as nossas populações e
consequentemente, novas formas de abordagem das matérias respeitantes aos
Direitos Humanos (DH), com particular incidência aos Civis, Políticos,
Económicos, Sociais e Culturais na vertente Criança, premissas de maior
engajamento das instituições públicas e da sociedade civil na disseminação
dos tratados internacionais sobre direitos humanos de que Angola é Estado
parte, particularmente a Carta, que apesar de alguns constrangimentos, têm
permitido alcançar resultados expressivamente positivos, por exemplo:

a) Na implementação do Programa da Reforma Legislativa (PRL), que


resultou na aprovação da Constituição da Republica de Angola (CRA)
em 2010, cujo texto corresponde as expectativas da harmonia que se
pretende com os instrumentos jurídicos internacionais de DH e da Lei nº
25/12 de protecção e Desenvolvimento Integrar da Criança;

b) Na intensificação da formação de activistas, com destaque para os


membros dos Comités Provinciais dos Direitos Humanos e das Redes
de protecção e Promoção dos Direitos da Criança, que integram
representantes da sociedade civil, na perspectiva do reforço das
capacidades interventivas junto das comunidades;

c) Na criação da Comissão Inter sectorial para Elaboração de Relatórios de


Direitos Humanos (CIERDH);

8
d) No reforço das parcerias e cooperação com os organismos do Sistema
das Nações Unidas e com a Sociedade Civil;

e) Na reforma institucional que permitiu a transformação do “Ministério da


Justiça” para “Ministério da Justiça e dos Direitos Humanos”, conferindo
ao Executivo, maior e melhor atenção aos Direito Humanos;

f) A criação do Conselho Nacional da Criança (CNAC), bem como o


reforço e melhoramento da capacidade do Instituto Nacional da Criança
(INAC), visando eficácia no acompanhamento da execução das políticas
destinadas à criança;

g) Na continuidade da formação e capacitação dos funcionários do Sistema


de Justiça particularmente os Conservadores, Notários, Juízes,
Auxiliares de Conservadores e de Notários e outros oficiais de Justiça,
com objectivo de melhorar o funcionamento do sector em geral e
particularmente os ligados às matérias referentes à criança.

1.3. Enquadramento histórico

Desde o início do Século XIX, os debates sobre a infância tiveram a influência


dos saberes médicos e jurídicos. (RIZZINI, (1995, p. 105).

O jurista argentino Emílio Garcia Mendez ressalta que é possível pensar a


história do Direito Juvenil em três fases: a primeira de carácter penal
indiferenciado; a segunda de carácter tutelar e a terceira de carácter penal
juvenil. Para aquele autor, o nascimento do Direito da Infância e da Juventude
se reporta ao final do século XIX com a Lei das Cortes Juvenis de Illinois,
criando-se o Primeiro Tribunal de Menores. Para Mendez, aí pode ser
considerado o ponto zero, demarcando o momento que a categoria infanto-
adolescência começa a adquirir especificidade, reconhecendo a necessidade
de tratamento diferenciado em todos os planos, em especial, no jurídico; a

9
segunda fase, de carácter tutelar, tem origem nos Estados Unidos, no inicio do
séc. XX. (Mendez apud Pedreira, 2013, pp. 6/7)

No entanto, a lógica do Direito Tutelar rapidamente expandiu-se para o resto do


mundo. A terceira fase que abrange os nossos tempos, com a adopção de
novas políticas de tratamento aos menores infractores, que na verdade deixam
de assim serem considerados e passam a ter a designação de “menores em
conflito com a lei”, fruto da sua imaturidade, passaram a beneficiar de um
tratamento diferenciado, em relação ao que lhes era dado anteriormente.

De acordo com P. Ferreira, as crianças e jovens foram durante vários séculos,


alvo de um interesse reduzido por parte dos mais velhos e o tratamento de
indiferença e até mesmo de crueldade estava bem presente. Os mais novos
eram vistos como seres inadequados ao invés de serem alvo de atenção e
protecção. Somente após a Idade Média começou a ser introduzido um novo
conceito em relação ao tratamento dado às crianças e pode-se então
questionar o que até então era apenas costume. A indiferença foi substituída
pela preocupação com o bem-estar da criança. Portanto, foi nesta transição
que nasceu o conceito, como hoje conhecemos, de infância. Mas, deste novo
conceito, surgiu também a necessidade de se criar regras que permitissem
estabelecer um limite entre o que era aceitável e o que caracterizava uma
transgressão.

Ferreira prossegue afirmando, as regras então criadas permitiam uma maior


tolerância em relação aos jovens que praticavam factos tipificados como
transgressivos, embora estivem abrigados debaixo das mesmas leis a que os
mais velhos estavam sujeitos. Deu-se então a criação de instituições que
estavam direccionadas a por termo à delinquência, e foi só a partir daí que deu-
se uma certa correspondência em relação às regras que deveriam ser
aplicadas às crianças e jovens (Ferreira, 1997, p. 913 e ss)

As políticas de atendimento à criança e ao adolescente desenvolveram-se no


decorrer da história marcadas pela caracterização que esses sujeitos
adquiriram na sociedade, caracterização que foi influenciada pelos sentidos

10
produzidos através de diferentes áreas do conhecimento. A materialidade de
problemas de ordem social vivenciados pela infância e juventude levou e ainda
leva à produção de saberes, de leis e de intervenções médicas, jurídicas e
sociais que remontam o fim do Século XIX. A inter-relação entre o contexto
social e político de cada período histórico, a influência dos debates
internacionais com a produção de documentos, Declarações, Convenções e a
realidade da vulnerabilidade social das crianças e adolescentes impulsionou as
normativas e políticas nacionais nessa área. (Sartório, 2007, p. 25)

1.4. A construção da adolescência

Philipe Ariés (1973), até o século XIX, a infância era a única etapa da vida que
se diferenciava da fase adulta, sendo exigido do indivíduo, tão logo deixasse de
ser criança – ou até mesmo antes disso –, posturas e responsabilidades
atribuídas a um adulto daquela comunidade. No mesmo sentido também
Larissa M. Santos (2008) escreveu, é com a Revolução Industrial e a
necessidade crescente de especialização de mão-de-obra que começa a
aparecer o que actualmente se nomeia como adolescência. Esse processo se
inicia quando o domínio das máquinas e do modo de produção exige
trabalhadores cada vez mais qualificados, cuja preparação deverá vir de um
período de formação que precede a iniciação no trabalho (Ariés; Santos apud
Alves et al., 2009, p. 70).

Destaca-se que era necessário tratar-se de indivíduos flexíveis e maleáveis,


sem concepções e modos de funcionamento arraigados, e com habilidade
suficiente para desempenhar as tarefas industriais. Com a primeira exigência
excluíam-se os adultos e os idosos e, com na segunda, as crianças.

Surge assim segundo Jesus Palácios (1990), uma etapa intermediária entre a
infância e a fase adulta, tratada como um período de preparação para o
trabalho, em que o sujeito é visto como uma possibilidade de vir a ser capaz, e
por isso mesmo é alvo de investimentos. Desse modo, ele ainda precisa
desenvolver esse potencial para que possa figurar como um membro da
comunidade adulta. Em suma, a adolescência seria então um fenómeno típico

11
do século XX, facilitado pelo prolongamento da vida humana e pela
necessidade de uma formação cada vez mais longa para o trabalho (Palácios
apud Alves et al., idem)

A ideia da adolescência como crise foi amplamente disseminada a partir da


teoria do Ciclo Vital (ou dos estágios psicossociais), formulada por Erik Erikson
(1976). Segundo essa teoria, cada pessoa deve passar, em sua vida, por
diferentes estágios, cada qual marcado por um conflito e uma crise específicos.
Entre os estes estágios, a adolescência configura-se como aquele marcado
principalmente pela confusão de papéis e construção da identidade.
Debruçando-se nos mesmos termos Cárdenas (2000), alude que a solução
desses desafios envolve a obtenção de um “senso confortável de si mesmo
como pessoa”, pois, caso isso não ocorra, o adolescente vivencia um
sentimento de self fragmentado, marcado pela instabilidade e falta de clareza
(Erikson; Cárdenas apud Alves et al. idem).

Essa concepção de adolescência pode ser observada ainda hoje em vários


estudos sobre o assunto e também no senso comum. Esses comumente
retratam-na como uma fase marcada por rebeldia, crise e conflitos (Santos,
2008; Souza, 2007). Como afirma Menandro (2004), essa visão generalizada
do adolescente-problema pode ser percebida em pesquisas realizadas nas
Ciências Sociais e Humanas, centradas em temas como drogas, violência,
dificuldades na escola, etc. (Santos; Souza; Menandro apud Alves et al., ob cit.,
pp. 70/1)

Assim, e de acordo com Strecht:

“Fala-se da infância como a base onde o processo da adolescência


vai assentar, embora o espaço de manobra para o crescimento
psíquico transcenda o condicionalismo de vivências anteriores. De
facto, aos 13 ou 15 anos, existe ainda uma maleabilidade e
plasticidade do “eu”, que permite manter abertas muitas portas, quer
elas signifiquem passos em frente, quer tenham por fim regressões,

12
paragens ou desvios desse mesmo crescimento”. (Strecht, 2005, p.
37)
Em contraponto a essa visão, Freire cit in Alves e outros (2009, p. 71) defende
que é na rebeldia, e não na resignação, que o adolescente se afirma face às
injustiças. A rebeldia é o ponto de partida para a denúncia da situação
desumanizante pela indignação, mas por si só não é suficiente. A mudança no
mundo implica, além da denúncia, o anúncio da superação. Ou seja, a rebeldia
deve ser vista como forma de ser no mundo que traz à tona as injustiças,
devendo ser utilizada para motivar a mudança. Caberia, assim, à sociedade
reconhecer no adolescente a capacidade de rebelar-se como forma de
resistência e como forma de querer o novo, a mudança, o que é extremamente
positivo e essencial para o desenvolvimento de sua autonomia como sujeito de
suas acções, e não como objecto.

Ainda citado por Alves et al. idem, Menandro aponta que são três os critérios
segundo os quais tradicionalmente se define a adolescência: o biológico, o
cronológico e o de padrão típico de adolescente. A autora defende, no entanto,
que tais factores são insuficientes para dar conta do fenómeno. A puberdade,
estritamente biológica, é tida muitas vezes como o factor maior para a
delimitação da adolescência. Contudo, tal critério de análise ignora os
processos de mudança psicossocial pelos quais o indivíduo passa durante
essa fase da vida.

Prosseguindo nos mesmos termos, a supracitada autora avança que, a


separação com base na cronologia, ou seja, na idade do sujeito, tem sido muito
usada principalmente para fins legais e jurídicos, mas também médicos,
escolares, etc. Todavia, ela também oferece restrições, já que procura encerrar
em si um processo fluido e variável que assume novos aspectos a depender do
individuo do qual estamos falando, sua classe social, sua história privada, seu
contexto cultural e histórico. O padrão típico de adolescente, por fim, é o
terceiro critério que se propõe a definir a adolescência. Menandro é incisiva ao
criticar esse ponto, esclarecendo que ele pressupõe a adolescência como
fenómeno universal, possuidor de características fixas, inerentes e facilmente
reconhecíveis, quase uma “sintomatologia”.

13
1.5. O adolescente e a construção da mente criminosa

Vale aqui adiantar que, a análise da curva de idade dos infractores ajuda, por
exemplo, a compreender se há indicações de que a prática de delitos seja
determinada pela passagem a etapa da descoberta do mundo a volta do
indivíduo, que ocorre a partir dos 12 anos de idade.

O aumento dos estudos centrados na origem da delinquência tem sido


despoletado pelos crescentes casos de crianças/adolescentes que cometem
crimes. Se repararmos, alguns dos aspectos do comportamento das crianças
são estabelecidos durante os primeiros cinco anos de vida, sendo que alguns
problemas de índole psicológico que se manifestam na infância, quando não
correctamente tratados podem se tornar em comportamentos delituosos, como
no caso do desenvolvimento de condutas anti-sociais, que no decorrer do
tempo, com a ajuda do meio que se encontra inserido o indivíduo, tendem a
consolidar-se na idade adulta.

A respeito do assunto, Bolsoni-Silva e Prette aludem:

“Sabe-se ainda que na infância é reconhecida certas perturbações


do comportamento como a perturbação de oposição e perturbações
do comportamento, sendo que o primeiro é caracterizado por
apresentar um padrão de comportamentos de cariz negativista, hostil
e desafiante. Já as perturbações do comportamento apresentam um
padrão de comportamentos repetitivo e persistente, no qual
podemos encontrar a violação dos direitos básicos do outro. Já a
Impulsividade e a Perturbação de Hiperactividade com défice da
atenção podem conduzir a que crianças tornem-se violentas”.
(Bolsoni-Silva e Prette, 2003, pp. 91-103).

Invariavelmente, as transformações físicas serão acompanhadas pelas


transformações psíquicas. Nesta fase da vida o adolescente começa a sentir
necessidade de se afirmar socialmente, como parte da construção da sua
personalidade. Contudo, nesta confluência de sentimentos, a necessidade de

14
afirmação social e a imaturidade podem levar o adolescente a comportamentos
desviantes e, por vezes, extremos (Baptista, apud Tavares, 2016, p. ).

Os comportamentos anti-sociais englobam aqueles actos que, de certa forma,


violam as normas e expectativas da sociedade mas que podem não ser ilegais,
ou seja, assume uma maior amplitude pois referem-se a uma grande variedade
de comportamentos ou actividades de cariz transgressivo (Negreiros, 2001).

O comportamento delituoso tende a atingir o seu auge na adolescência. A


explicação deste fenómeno deu origem a diversas teorias e, entre as muitas
hipóteses, associavam os comportamentos desviantes aos níveis de
testosterona presente nos jovens rapazes. (Derbabieux e Blaya apud Iaralha,
2015, p. 18).

1.6. Factores que Influenciam o Elevado Número de Menores


em Conflito com a Lei

Uma antiga colónia portuguesa, localizada na África subsariana, fazendo


fronteiras com as Repúblicas do Congo a norte, Zâmbia a leste, Namíbia a sul,
e banhado pelo Oceano Atlântico. A contenda está instalada em todos os lares
e sítios do nosso país, seja nas grandes avenidas da cidade seja nos
Musseques (bairros de Lata, Guetos localizados dentro da Cidade e na
periferia dos Centros urbanos de Angola). O tempo urge para que possamos
efectivamente deitar mãos à obra e redefinir alguns conceitos outrora
estabelecidos mas que hoje se apagam nas nossas mentes. (Tavares, ob cit.,
p. 6).

Do ponto de vista universal, Loeber e Dishion, enumeraram alguns factores que


consideraram como grandes influenciadores da prática da delinquência entre
jovens: “(i) técnicas de gestão familiar; (ii) agressividade e problemas
comportamentais na criança; (iii) roubar, mentir ou faltas às aulas; (iv)
criminalidade entre os membros da família; (v) educação deficitária; (vi)
medidas de carácter individual diante da gestão familiar, (vii) separação dos

15
pais; (viii) estatuto socioeconómico”. (Loeber e Dishion apud Carrillo, 2000, p.
277).

Desajuste Familiar, envolvimento com drogas, desigualdade social e ensino


público deficiente.

1.6.1. Desajuste Familiar

De acordo com P. Ferreira, quando existe uma desestruturação familiar, a


família já não é mais capaz de controlar e supervisionar o comportamento dos
mais novos e, desta forma, ter-se-ia um aumento da probabilidade de
comportamentos delinquentes. O mesmo autor refere que a influência familiar
realiza-se perante três patamares: “a supervisão familiar, a identificação com
os pais e a comunicação íntima”. Portanto, para este autor, a importância da
família na vida de um jovem reside no facto de funcionar como um elemento
protector na medida que, quanto maior a supervisão dos pais e a condenação
da prática de comportamentos delinquentes, a probabilidade deste jovens e
adolescentes envolverem-se em condutas criminais é menor. (Ferreira,1997, p.
913 e ss).

Lima sustenta que, é frequente a observância de famílias completamente


desajustadas, onde as referências éticas e morais são destorcidas e em muitos
casos até inexistentes, com histórico de delinquência na própria família, não
são raros os casos em que o menor presencia ou é vítima de violência
doméstica tanto física quanto verbal, ou o pai se encontra preso ou mesmo se
depara com o abandono dos pais, sendo criados por avós ou tios, tudo isso faz
com que os jovens procurem outras influências em ambientes que nem sempre
são os mais propícios, “o menor abandonado (social ou moralmente) em todas
as condições, será no futuro, um indivíduo psicologicamente desajustado,
forçado para o caminho da delinquência, ainda na sua imaturidade pessoal,
não havendo um freio em suas atitudes ou um melhor disciplinamento no seu
modo de viver, tornando – se um delinquente em potencial”. (Lima, 2009, p.
185 e ss)

16
Do mesmo modo, a desestruturação da família emerge também em
decorrência da situação económica, sendo influenciador para marginalização
de crianças e adolescentes, pois, em “muitos desses casos originam-se da
busca de responder à satisfação das necessidades do grupo familiar, quando a
renda do chefe de família é insuficiente ou inexistente”. (AMARO, 2001, p. 152)

Perante este contexto é possível perceber-se que o controle parental está


diminuindo com o passar do tempo, conforme sublinha Carlos Eduardo Rebelo
(2010):
“Os filhos constantemente levam ao seio familiar desafios, na
medida em que foi dado aos jovens uma voz, uma liberdade, que
possibilita a eles uma actuação muito mais activa nas questões
sociais, proporcionando – os a chance de pensar por si próprios, e
muitas vezes fazendo com que eles criem conceitos antagónicos aos
dos pais. Tal característica dos tempos modernos é, sem dúvida,
muito favorável a todos os indivíduos, mas nos traz a reflexão de
que, “o ambiente é mutável e dinâmico, não devendo ser encarado
como uma entidade estática e periférica em relação ao
desenvolvimento humano”, ou seja, o ambiente familiar não é o
único factor de influência para a criança e o adolescente. Porém
quando este sector é frágil e desestruturado há uma tendência maior
de que os outros ambientes atinjam estes jovens de uma forma mais
intensa, pois eles estão mais vulneráveis as influências externas”.
(Rebelo, 2010, p…).

6.1.2. Envolvimento com drogas

A adolescência é marcada por ser um período de transformações na mente, no


corpo e consequentemente na vida do indivíduo, ao sair do ambiente familiar
para ter contacto com outros grupos de pessoas, o adolescente se torna muito
vulnerável, pois está passando por diversos conflitos psicológicos, a vontade
de ser tratado como homem, de ser considerado pelos colegas, de ser aceito
como pessoa valorizada faz com que jovens mais fragilizados psiquicamente
enveredem pelo uso abusivo de drogas (legais e ilegais) e da criminalidade. É
17
inegável que o ambiente exerce sobremaneira uma enorme influência nos
indivíduos, principalmente nesta fase da vida.

Um grande problema que afecta a sociedade é o tráfico de drogas. Com


relação aos jovens de classes mais baixas, que moram em favelas ou bairros
onde o tráfico de drogas se perpetua, a iniciação na actividade se dá bem
cedo, geralmente nas idades entre 10 e 14 anos, e estas crianças são usadas
como “aviõezinhos”, transportando as drogas de um traficante ao outro ou de
um traficante a um consumidor. Ocorre que eles começam usando drogas mais
baratas, como cola de sapateiro e quando migram para as drogas mais caras,
exemplo de cocaína e heroína, acabam por se enveredar para o mundo do
crime para consegui-las.

A influência que o tráfico exerce sobre estes indivíduos se perfaz também por
ser uma forma rápida e fácil de ganhar dinheiro, além de proporcionar a eles
um poder e um respeito sobre os demais moradores das comunidades.

6.1.3. Desigualdade Social

É um dado certo de que Angola é um país rico, não só a nível económico e


financeiro, mas também ao nível dos seus recursos naturais e humanos, a
verdade é que a maior parte da população vive em condições de extrema
pobreza.

Uma das principais mazelas que se pode observar em Angola e em diversos


países chamados de “terceiro mundo” é a grande desproporcionalidade na
distribuição de renda entre a população. De acordo com os dados da ONU,
numa pesquisa realizada pelo Instituto Nacional de Estatística, com
financiamento da União Europeia e apoio técnico do Fundo das Nações Unidas
para a infância (Unicef), com o título “A criança em Angola: Uma análise
multidimencional da pobreza infantil”, dão contas que cerca de 3 em cada 4
crianças angolanas com menos 18 anos sofrem entre 3 a 7 privações ao
mesmo tempo, uma percentagem que se fixa nos 73%. Na presentação do
estudo, o representante do UNICEF em Angola Abubacar Sultan, os resultados
18
mostram que “a atenção a dar às crianças e adolescentes continua a ser
prioritária”.

A respeito deste assunto, segundo a visão de Amaral (1995), “a principal causa


da criminalidade não está na pobreza em si, mas na disparidade entre ricos e
pobres num mesmo lugar”, o que acaba gerando um sentimento de revolta e
descrença, uma vez que as oportunidades de melhora de vida para estas
pessoas são poucas, tornando os jovens sem perspectiva, pois o que eles têm
em mente é que não haverá uma contrapartida no ambiente escolar, fazendo
com que eles migrem para algo que não está associado aos estudos, um
exemplo disto, é que grande parte dos meninos das classes mais baixas
sonham em ser jogadores de futebol, no entanto nem todos nascem com o
talento de Pelé ou Neymar, desta forma, quando estes sonhos são frustrados,
são poucos os caminhos restantes vislumbrados por estes jovens.

Quando se fala da desigualdade social, salta-se logo a vista a questão de um


lado haver os que têm, e do outro os que pouco ou nada têm. A pobreza,
segundo avançam Costa e Veronese, além de influenciar a exclusão social,
indica que muitos infantes estão expostos a situações de risco, sendo de suma
importância para o país uma política de distribuição de renda e de promoção
social. Diante das acções ilícitas em que são tomadas em busca de
sobrevivência, os reflexos reflectem economicamente à sociedade, donde se
extrai a exclusão em razão das desigualdades sociais e económicas. É
“incontestável que a pobreza é condição facilitadora para que jovens se
transformem em grupos vulneráveis a qualquer tipo de violência” (Costa e
Veronese, 2006, p. 171).

Laís Michele Brandt e Lauro Junior Brandt

 Na maioria dos casos, a indagação pela sociedade contra a


prática de actos ilícitos na infância e adolescência vem
acobertada por discriminações culturais e sociais,
principalmente por quem desconhece a realidade de quem os
pratica, pois a primeira solução que se procura após as

19
consequências geradas pela infracção está voltada a
assegurar a vida e o património de quem foi lesado, através da
aplicação de medidas jurídicas em face do infractor. (Brandt e
Brandt, 2016, p. 8)

De acordo com Yong (1997) o fenómeno social que está a verificar-se em


Angola designa-se “transição da modernidade tardia”, pois cada vez mais a
sociedade angolana tenderá a transformar-se numa sociedade excludente.
Também Hespanha (2001) assinala que, estabelecendo um nexo causal entre
a violência e a exclusão social a que os mais desfavorecidos estão votados, o
autor defende que a “privação crónica pode conduzir os pobres ao crime, do
mesmo modo que a insegurança pode levar os que vivem bem à intolerância e
à perseguição. (Yong; Hespanha, apud Tavares, 2016, p. 16).

O aumento do fosso entre ricos e pobres em Angola começa a assumir


contornos preocupantes, dado que os elevados índices de desenvolvimento
económico não se coadunam com a melhoria do modo de vida dos angolanos.
Nesta medida, os níveis de violência vêm aumentando drasticamente,
originando estratégias de apartheid social. Ou seja, assistimos a uma
proliferação de condomínios fechados que materializam uma acentuada
separação entre ricos e pobres, bem como a disseminação de empresas
especializadas em segurança privada, particularidades muito específicas de
sociedades em transição (Martin e Schumann apud Tavares, ob cit., p. 16/7).

De acordo com Leite (2011), o que impulsiona o jovem a recorrer ao mundo da


criminalidade é a busca pela sua identificação como um indivíduo pertencente
à sociedade, que quer ser visto e merece ser respeitado, apesar do total
descaso com que é tratado pelo Estado e apesar da “vista grossa” feita pela
elite “vizinha”. Para Mendonça, Loureiro e Sachsida (2003) o que ocorre é a
denominada “privação selectiva”, onde o jovem de baixa renda sente uma
enorme frustração ao conviver com o jovem de classe alta e perceber que o
seu poder aquisitivo lhe permite uma posição social privilegiada. De acordo
com as pesquisadoras, Luseni, Aquino e Enid Rocha, este sentimento de
revolta e frustração vivenciado pelos jovens das classes mais baixas somente

20
irá cessar com a promoção da inclusão social destes, que, segundo elas,
somente é possível por meio da escola e do emprego, que são as formas lícitas
de ascensão social. (Leite; Mendonça et al.; Luseni et al. apud Antunes e
Delgado, ob cit., p. 145)

A ausência de oportunidades faz com que as pessoas, e neste caso concreto


os jovens, percam toda a esperança depositada nas instituições estatais que,
infelizmente, tardam em solucionar ou melhorar as suas condições,
descredibilizando-se, assim, involuntariamente. Como se tem demonstrado,
vontade não falta para que vivamos todos em harmonia e em paz, uma vez que
a guerra aniquilou muitos dos nossos princípios e valores enquanto angolanos
e homens livres. (Tavares, ob cit., pp. 5/6)

1.6.4. Ensino Deficiente

Afirma Carlos Rebelo, que se preocupar com qualidade é ainda mais


importante do que com quantidade em termos de permanência no âmbito
escolar, uma vez que é preciso que haja uma investigação a fim encontrar
soluções para eliminar a insegurança vivenciada pelos alunos e professores,
especialmente do ensino público, pois “a permanência escolar digna ajudará a
construir seres humanos dignos”. Eis, portanto, a seguinte problemática: como
manter as crianças e os adolescentes dentro da escola de uma forma que se
atinja seu objectivo precípuo, que é a qualidade do ensino, sendo necessário
destacar que “o direito à educação não é mais tão – só o direito à vaga na
escola, mas também o direito à permanência e ao êxito nas disciplinas”. Por
fim, conclui Rebelo que as desigualdades sociais têm sua origem nas
desigualdades escolares, sendo constantemente reproduzidas. (Rebelo, 2010,
p…)

Wesley Tavares, assegura que os efeitos nocivos que a globalização, os meios


de comunicação de massas e o consumismo exacerbado geram na nossa
sociedade têm-se revelado devastadores. Com efeito, a falta da escolaridade
básica e a incapacidade de filtrar a informação veiculada por esses meios
influencia os jovens a adoptar uma postura contrária aos valores transmitidos

21
pela família. Os pais vêm-se num conflito entre a necessidade de aplicação dos
bons princípios veiculados no seio familiar, por um lado; e a incapacidade de os
menores filtrarem as influências potencialmente perniciosas associadas à
utilização das tecnologias, como a televisão ou a Internet, por outro. Ora,
encontrando-se numa faixa etária em que a sua personalidade está em plena
formação e evolução, os jovens apresentam-se como especialmente
vulneráveis a estas influências. Assim, o exercício do poder paternal é ferido na
sua génese e o dever que os progenitores o poderiam exigir dos seus filhos
não é cumprido na íntegra. (Tavares, ob cit., p. 15).

1.7. Consequências do alastramento de crimes praticados por


menores

Uma das principais consequências da prática de actos ilícitos pelos


adolescentes, conforme entendimento de Andrade (2006) é a ruptura do pacto
social e o esgotamento de valores da colectividade, a existência de uma cultura
da violência. Veja-se que a realidade quotidiana dos infantes, neste caso, está
na obtenção de artifícios malefícios que possam trazer conforto as suas
necessidades pessoais, em razão da que foge do seu alcance as
oportunidades para o seu enquadramento nas redes sociais (convívio social),
sendo a convivência nas ruas o seu principal refúgio. (Andrade apud Brandt e
Brandt, 2016, p. 12)

Assim, quando da desestruturação das relações afectivas entre os membros de


uma família, principalmente em razão da desordem das relações entre pais e
filhos, enteados, e demais sujeitos, sendo que aqui indagados o abuso de
poder geralmente posicionado pela dominação, as consequências geradas pela
violência intra-familiar além de atingir a integridade física da criança e do
adolescente vitimizada, reflecte também “na forma como ele irá educar os
seres que tiver sob sua dependência (Schreiber, 2001, p. 96).

Assim, a violência doméstica praticada contra crianças e adolescentes “não


apenas agem contra a sociedade, mas também atentam contra a essência do

22
cidadão, afrontando o princípio da dignidade da pessoa humana, fonte ética
dos direitos fundamentais garantidos pela Constituição (Schreiber, 2001, p. 92).

1.8. Reflexão sobre o papel dos agentes ressocializadores e a


aplicação das medidas sócio-educativas

1.8.1. Medidas informas

Como já vimos anteriormente, a família, a escola, a igreja, constituem os


pilares na educação das crianças, de modo a prepará-las para a vida
adolescente, e posteriormente para a vida adulta. Mas a questão que se impõe
é, será que estas instituições têm exercido o seu papel como devia ser?

a) A família
Wesley Tavares, advoga que “dadas as características específicas da família,
um dos seus objectivos centrais reside no aperfeiçoamento exigido quanto às
suas relações internas e externas, que se fortalecerão uma vez que estejam
sustentadas no amor, no afecto, no companheirismo e em actos que fortaleçam
emocionalmente os seus membros. De facto, é no âmbito familiar que as
crianças vêm os seus progenitores e responsáveis como entidades basilares
das suas vidas”.

Neste sentido, prossegue o autor, conforme discorrido no parágrafo anterior, a


administração familiar é legalmente exercida pelo instituto do poder paternal
(tanto no Direito angolano como no Direito português), daí que aos pais seja
sempre atribuída a obrigação de educar os filhos segundo a capacidade legal
que lhes foi atribuída. Consequentemente, essa capacidade implica o direito de
os progenitores exigirem dos filhos o cumprimento dos deveres que lhes são
imputados.

Ainda para aquele autor, “pesar das agruras da vida, os progenitores e os


tutores de menores não poderão desistir do exercício pleno deste poder que
lhes é concedido para a educação e formação dos seus filhos ou tutelados. De
facto, é com base numa saudável inter-relação entre ambos que se poderá

23
formar uma identidade infanto-juvenil e uma personalidade equilibrada fortes,
favorecendo a estabilidade emocional, preparando-os para o desempenho, na
idade adulta, de papéis sociais que lhes serão exigidos e para contribuir para a
construção de uma sociedade menos dissemelhante e iníqua, embora as
condições económicas não favoreçam as melhores condições de subsistência
humana”. (Tavares, 2016, p. 14)

Raíza D. Antunes e Letícia F.P. Delgado, defendem também a família como


sendo a base do indivíduo. Segundo elas, é na família que o ser humano tem
as primeiras experiências de convívio social e aprende o que é certo e o que é
errado, e é assistindo aos exemplos perpetrados pelos pais, avós ou quaisquer
que sejam as referências de família que irá formar a sua personalidade e o seu
carácter, construindo desta forma, a sua auto-imagem. Ainda, é
responsabilidade da família, asseverado em lei, garantir o desenvolvimento
saudável do menor, protegendo-o e orientando-o. (Antunes e Delgado, 2015, p.
141)

Bee, salienta que “a família pode ser destacada como responsável pelo
processo de socialização da criança, sendo que, por meio dessa, a criança
adquire comportamentos, habilidades e valores apropriados e desejáveis à sua
cultura.” Portanto, a ligação afectiva ou vinculação aos pais, a presença de
valores e a imposição de normas dentro do seio familiar influencia a não
adopção de comportamentos delinquentes. (Bee apud Maia e Williams, 2005,
p. 97).

Steibenrg (cit. in Nardi e Dell’Aglio (2010), salienta que aqueles adolescentes


que pertencem a famílias com uma boa relação afectiva apresentam um
desempenho escolar mais favorável e ainda demonstram ter maiores níveis de
auto-estima e confiança em relação aos jovens pertencentes a famílias
desestruturadas. Ferreira (1997) refere que um funcionamento familiar
normativo funcionam como um inibidor dos impulsos que levam à prática de
comportamentos delinquentes.

24
b) A igreja
c) A escola
De acordo com Carlos Eduardo Barreiros Rebelo, a educação possibilita ao
indivíduo desenvolver as suas potencialidades e formar uma opinião crítica
acerca da sociedade em que vive, contribuindo na sua preparação para o
concorrido mercado de trabalho. No entanto, de nada adianta o acesso a
instituição escolar, se não houver um acesso de facto à educação.

Vale aqui tomarmos em conta a passagem de Teixeira (2011), segundo a qual:

“Quem deixa a escola tem tanto a possibilidade de se tornar membro


de uma gangue, quanto de simplesmente estar excluído do mercado
de trabalho formal”, não sendo assim uma condição invariável do
indivíduo que abandona os estudos se tornar um delinquente”.
(Texeira, apud Antunes e Delgado).

1.8.2. Medidas formais

Nesta discussão faremos um recorte, podendo inicialmente, discutirmos as


medidas de maior gravidade, ou seja, aquelas que privam a liberdade, e
posteriormente apresentaremos as medidas de meio aberto.

Para já, é notória no ordenamento jurídico angolano, a concepção da protecção


integral a toda criança e adolescente. Mas ainda sim, tal não se tem revelado
suficiente para banir a prática de violência no seio dos menores, uma vez que,
diversas situações que levam a prática da infracção escapam dos holofotes da
sociedade, e mais longe ainda de se alcançar a intervenção do Estado, ou seja,
na maior das vezes este não chega a tempo de impedir a ocorrência da
violência, tanto sofrida ou praticada pelos menores de idade.

Como bem ilustram Costa e Terra (2010, p. 270),


“Muitas vezes, os jovens são mais vítimas do que réus, e que não se
resolvem os problemas sociais apenas com o direito penal máximo,
uma vez que as raízes dos problemas encontram-se, na maioria das

25
vezes, na base da família e na falta de política e de apoio que fora
constitucionalizada para ser ofertada à família, pelo Estado e
Sociedade, e que não o é”.

Neste sentido, defende Wesley Tavares, um Estado Democrático de Direito,


como é Angola, em que a dignidade e o valor da pessoa humana são, ou
deveriam ser, princípios estruturantes e fundamentais, o sistema jurídico jamais
poderá ser, de acordo com os pressupostos positivistas, algo estático ou rígido,
pois urge a necessidade de haver convergência entre áreas científicas que
contribuam para o progresso humano, como é o caso da Psicologia, da
Psicanálise, da Sociologia, da Antropologia, da História ou da Criminologia,
para que o Direito se aplique de acordo com a dignidade da pessoa humana.
Assim, defendemos que a penalização e o tratamento a serem aplicados ao
“menor” infractor deverão ser minorados, na medida em que este se encontra
em plena construção da sua identidade e personalidade. (Tavares, 2016, p. 15)

Para o atendimento das medidas socioeducativas de meio fechado (internação


provisória, internação e semiliberdade), há em todo o Estado apenas…
unidades de internação,

1.9. A situação actual do adolescente como autor de acto


criminoso

A questão da violência é considerada hoje um dos temas de maior


preocupação da sociedade contemporânea, vista como “assombros de uma
época” (Espinheira, 2006), fazendo com que o medo generalizado diante de
alta incidência de factos violentos crie um imaginário social em relação à
violência que a torna como tema de maior preocupação. Esse fenómeno,
associado ao crescimento do comércio de drogas que se alastra e chega até
mesmo aos municípios de pequeno porte, coloca a questão dos adolescentes
envolvidos em actos de infracções como uma problemática grave que requer o
seu enfrentamento.

26
Neste sentido, “basta o cometimento de qualquer acto infraccional para que a
sociedade clame pela adopção de medidas radicais e simplistas, colocando-se
a violência juvenil como o grande mal da violência existente na sociedade” para
Costa; Terra (2010, p. 270). Embora, a imposição do Estado deva permanecer
em face da sociedade a fim de garantir a ordem do país, muito deve se fazer
para prevenir a violência. Para Vecina (2006, p. 58), “Intervir requer vontade
política, dedicação e o compromisso com a acção social”.

1.10. O Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo

Mais de duas décadas de promulgação do Estatuto da Criança e do


Adolescente e conforme salienta António Carlos Costa da Costa, ainda em se
tratando do atendimento socioeducativo aos adolescentes em conflito com a
lei, persiste uma herança trágica do modelo assistencialista e correccional
repressivo do Código de Menores e da Política Nacional do Bem-Estar do
Menor, fazendo com que esse modus operandi continue vigente nas práticas
de atendimento, principalmente, nos contextos sociais em que se encontram as
crianças em situação de risco social.

1.11. O quadro legislativo Nacional

O Ministério Público definindo-o como o órgão da Procuradoria-Geral da


República essencial à função jurisdicional do Estado, sendo dotado de
autonomia e estatuto próprio – art. 185.º nº 1 da CRA, ao qual compete
representar o Estado, defender a legalidade democrática e os interesses que a
lei determinar, promover o processo penal e exercer a acção penal, exercer o
patrocínio judiciário de incapazes, de menores e de ausentes, promover o
processo penal e exercer a acção penal, defender os interesses colectivos e
difusos, promover a execução das decisões judiciais, etc – cf. Art. 186.º, nº 1
da CRA.

De acordo com a Constituição da República de Angola, em seu artigo,


corroborada pelo artigo 27 do Código Penal Brasileiro (1945), são inimputáveis

27
os menores de dezoito anos, sendo que as sanções e medidas sócio –
educativas a estes cominadas estão dispostas no Estatuto da Criança e do
Adolescente (1990), que em seu art. 2º, leciona: “considera – se criança o
indivíduo com até doze anos de idade e adolescente aquele entre doze e
dezoito anos”. Em alguns casos, excepcionais e previstos em lei, o ECA será
aplicável aos maiores de dezoito e menores de vinte e um anos, como no caso
previsto em seu artigo 121, parágrafo 5º, que trata da internação e diz: “A
liberação será compulsória aos vinte e um anos de idade”. Tais medidas visam
restaurar a cidadania dos adolescentes em conflito com a lei a partir de ações
de cunho pedagógico.

O Direito angolano prevê …regimes de combate à delinquência juvenil: Lei


Tutelar Educativa (Lei n.º 166/99 de 14 de Janeiro) e o Regime Especial para
Jovens (Decreto-Lei n.º 401/82 de 23 de Setembro).

1.11.1. O julgado de menores

1.11.1.1. Quadro legislativo internacional

Não bastam leis, é necessário implementar mudanças. A sociedade civil


necessita ser sensibilizada, a família que violenta, desrespeita e promove a
reprodução da violência precisa ser cuidada, os profissionais precisam ser
capacitados no sentido da interrupção do ciclo de violências e na ênfase na
protecção à infância e juventude.

1.11.1.2. Aplicação da lei do Julgado de Menores

O presente capítulo foi elaborado com o intuito de colmatar a falta de dados


oficiais que pudessem enriquecer o presente trabalho, mas, por questões de
segurança, essa informação não nos foi concedida pelas autoridades
competentes. Em alternativa, optámos por analisar a lei do Julgado de
Menores, que está intimamente associada à história de vida dos jovens
delinquentes, sujeitos do estudo empírico, que, apesar de não serem menores,
cumpriram penas em estabelecimentos prisionais (para adultos) antes de

28
atingirem a maioridade. É neste contexto de elevados índices de delinquência
juvenil, de ineficácia da aplicação da lei e da falta de medidas de proteção e
prevenção deste flagelo social, que surge a Lei nº9/96 de 19 de abril referente
ao Julgado de Menores.

Esta lei contempla na sua jurisdição normas que regulam o modo como as
crianças e os adolescentes que se encontrem em “situação de perigo social ou
de pré-delinquência” deverão ser acompanhados pelas autoridades policiais e
judiciárias, dada a sua fragilidade social, resultante não só do meio social
particularmente desfavorecido em que vivem, mas também da imaturidade
associada à sua faixa etária, que os impede de ser julgados nos tribunais
comuns. Assim, e de acordo com o Artigo 1º da Lei 9/96 de 19 de abril, “a Sala
do Julgado de Menores” é um “órgão jurisdicional de competência
especializada, integrado no Tribunal Provincial da Província”. Conforme o
Artigo 2º da Lei 9/96 de 19 de Abril, a finalidade deste órgão é “assegurar aos
menores sujeitos à sua jurisdição a protecção judiciária, a defesa dos seus
direitos e interesses e a protecção legal (...) mediante aplicação de medidas
tutelares de vigilância, assistência e educação”.

Deste modo, e segundo o Artigo 3º da Lei 9/96 de 19 de Abril, estarão sujeitos


a jurisdição do Julgado de Menores não só os menores de idade, mas também
os seus “pais, tutores ou quem tenha o menor a seu cargo” e “todo aquele que
pratique acto que constitua violação dos deveres de protecção social do
menor”. Quanto à composição do Julgado de Menores e dos órgãos que o
integram, segundo o artigo 4º nº1 e nº2 da Lei 9/96 de 19 de abril, o “Julgado
de menores é o órgão colegial, composto por um juiz especializado coadjuvado
por dois peritos assessores” (…).

Assim, as decisões são proferidas pelo juiz após auscultação do parecer


elaborado pelos peritos assessores. Os Magistrados do Ministério Público que
simultaneamente “exerçam funções nos (sic) Julgado de Menores são
designados Procuradores de Menores”, tendo competência para “representar
judicialmente o menor, defender os seus direitos e interesses”. Desta forma,

29
podem “exigir aos pais, tutores ou pessoas encarregadas da sua guarda os
esclarecimentos necessários” (Artigo 7º da Lei 9/96 de 19 de abril).

1.11.1.3.O Papel dos juízes e procuradores no âmbito da justiça


de menores (6.º E 7.º)

Feitas estas breves considerações sobre o sistema de Justiça de Menores,


atrever-me-ei, agora, reflectir também um pouco sobre o papel dos Magistrados
de Menores, como é óbvio, não com a profundidade, saber e experiência
exigidas a quem como eu ainda não viu instalado o Julgado de Menores no
Tribunal da sua Província e desconhecer o seu funcionamento aqui em Luanda
onde já está instalado. Falar do papel dos juízes talvez possa parecer uma
grande ousadia por poder ser entendido (dada a independência entre ambas)
como uma invasão em seara alheia… mas apenas o faço no estrito limite de
provocar o debate tanto mais que sendo órgão de soberania a quem compete
julgar não poderia nem saberia como contorná-lo.

Assim, permitam-me, modestamente que possa proferir algumas reflexões


resultado do funcionamento do sistema da justiça de menores mesmo ali onde
não está instalado o Julgado de Menores como é o caso do Tribunal da
Província da Huíla dando um maior enfoque às carências e insuficiências do
sistema acrescidas do facto de quer o juiz quer o Procurador de Menores –
exercem ambos esta actividade em acumulação com outras jurisdições (cível e
Administrativo, Família e Trabalho) e com cargos de direcção (um é Juiz de
Direito Presidente e o outro é Procurador Provincial da República) – na
realização dos direitos reconhecidos aos menores. Julgo que compreendendo
os princípios, a nossa tarefa poderá ser grandemente facilitada. Mas nesta
senda tentar compreender primeiro quais as atribuições e competências quer
do Juiz quer do Procurador de Menores, qual a relação existente entre estas
duas Magistraturas e como conclusão lógica ficaremos com uma ideia de qual
o papel destes magistrados no âmbito do Justiça de Menores.

Diz o art. 127.º da LCA: “No exercício das suas funções, os juízes são
independentes e apenas devem obediência a lei.” E mais adiante acrescenta o
30
art. 129.º: “Os juízes não são responsáveis pelas decisões que proferem no
exercício das suas funções, salvo as restrições impostas por lei.”

O Procurador de Menores deve ainda proteger os jovens dos efeitos nefastos e


perniciosos da publicidade nos meios de comunicação sobre o seu caso (por
exemplo nome dos jovens delinquentes, acusados ou condenados).

Em suma, o Procurador de Menores ao requerer, promover o bem-estar social


da criança e o estabelecimento de um espaço de diálogo para encontro de
soluções adequadas e justas garante e contribui para que o juiz possa decidir
com isenção e independência sobre as questões relativas quer à protecção
social quer à prevenção criminal salvaguardando dessa forma os superiores
interesses das crianças e jovens.

1.12. Aplicabilidade e eficácia da medida sócio-educativa de


internação

Todas as medidas socioeducativas, em sua teoria, buscam a responsabilização


do adolescente considerando sua condição peculiar de pessoa em
desenvolvimento e é dever do Estado garantir formas dignas para seu
cumprimento.

Todavia, há de se destacar que as medidas preconizadas pelo referido diploma


não resolvem a maioria dos casos de adolescentes infratores. E, muito embora
a infância e a juventude sempre tenham mobilizado especial atenção por
apresentar um texto legal considerado dos mais avançados em termos de
garantia de direitos e por reconhecer a fase evolutiva de um sujeito em
desenvolvimento como merecedora de cuidados específicos, ela também se
confronta com uma estrutura social e uma realidade conjuntural que limita
significativamente a sua efetiva aplicabilidade. (REVISTA LIBERDADES, 2012,
p. 60).

Conforme previsto pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, os menores


infratores são submetidos à proteção do Estado, a partir de decisão

31
especializada da Justiça. Os actos infracionais praticados pelos adolescentes,
muitas vezes ocorrem pelo meio social em que vivem. Isso ocorre não só pelas
dificuldades de sobrevivência por questões financeiras, mas também porque o
Estado deixa a desejar em investimentos na política social básica, ou seja, em
saúde, educação, assistência social, entre outros. Com isso, diante de
dificuldades, muitos se voltam para o mundo do crime.

Se, na atualidade, encontra-se essa situação, é culpa da omissão do Estado,


com investimento insuficiente na educação, alimentação, profissionalização e
também outros direitos fundamentais, de dignidade para com essas crianças e
adolescentes. O Estado que deve criar medidas, criar políticas públicas para
proteção de toda a sociedade, mas pelos fatores mais conhecidos, como a
corrupção e a impunidade dos governantes, que jogam a culpa na sociedade,
deixando à mercê seus cidadãos, apenas cabe julgar, sem ver se as crianças e
adolescentes no Brasil estão realmente beneficiados pelos seus direitos.
(MENEGUZZI, 2015).

A prática de um ato infracional não é significado de mau-caráter ou de um


desvio moral. Ela pode ser encarada como uma forma de sobrevivência, de
uma luta contra o abandono e a violências sofridas pela criança ou
adolescente. Não podemos generalizar e dizer que somente os adolescentes
que vivem à margem da sociedade cometem atos infracionais. Existem aqueles
adolescentes de classe econômica média a alta que também cometem atos
infracionais, que não se justificam por falta de oportunidade, nem discriminação
social, mas por fatores morais, psicológicos, entre outros.

A violência não pode ser solucionada pela punição, e sim pela ação nas áreas
psíquicas, sociais, morais, políticas e econômicas que são asseguradas tanto
nas medidas de proteção integral, quanto no Estatuto da Criança e do
Adolescente e na Lei do Sistema Nacional Socioeducativo. Por esse motivo, é
imprescindível garantir o tempo social de infância e adolescência, com escola
de qualidade, propiciando aos jovens condições para o exercício e a vivência
da cidadania, que permitirão a construção dos papéis sociais para a vida
em sociedade. Se o adolescente infraciona e cabe a ele uma medida
socioeducativa de privação de liberdade, que se configura entre as mais

32
rígidas, é dever do Estado assegurar os direitos que até então não lhes
haviam sido dados ou que não lhe causaram efeito.

Ao determinar qual medida deve ser cumprida pelo menor em conflito com a
lei, o juiz deve levar em conta a capacidade do menor para o cumprimento da
medida, as circunstâncias e a gravidade da infração (artigo 121, parágrafo 1º)
sendo a medida de internação sempre excepcional. Levar em conta a
capacidade não significa que o menor portador de doença mental não possa
sofrer medida socioeducativa. O ECA prevê expressamente no parágrafo 2º do
artigo 112 que os adolescentes portadores de doença ou deficiência mental
receberão tratamento individual e especializado em local adequado às suas
condições.

Cada menor deve ser julgado de acordo com a sua individualidade, pois já
houve caso de adolescente acometido de doença mental que teve o
cumprimento da medida socioeducativa de internação admitida pelo STJ.
Durante a internação, o jovem deve exercer atividades pedagógicas, com fins
de escolarização e profissionalização. Também devem ser inseridas em suas
rotinas atividades culturais, esportivas e de lazer. Se a aplicação da medida de
restrição de liberdade não produzir a educação com a intenção de
humanização, acaba por tornar o adolescente em conflito com a lei em um
preso adulto com idade não correspondente. Em observância a sua natureza
pedagógica, todas medidas socioeducativas, da mais branda à mais rigorosa,
devem ser aplicadas e cumpridas com o estrito respeito às leis.

Uma Comunidade Socioeducativa deve ser composta por profissionais


qualificados e comprometidos com a causa, devendo não abster-se da ética,
tendo como meta para ressocialização do adolescente, a garantia de direitos e
a efetiva aplicação da lei, além de manter o controle físico e o domínio
emocional. A segurança nessas unidades é precária, sendo uma ameaça
constante à integridade física dos funcionários e dos próprios adolescentes que
criam divisões entre si por diversos motivos, entre eles, facções e “crimes”
cometidos.

33
Em outra reportagem realizada pelo Portal de Noticias G1, foi relatada uma
manifestação por parte dos agentes socioeducativos, como forma de protesto
por melhores condições de trabalho e melhorias no quadro de superlotação das
unidades. Fato este que só resalta a ideia de despreparo dos agentes, de falta
de condição para o trabalho com os menores. (COSTA, 2014).

Qual o objectivo essencial da intervenção do Magistrado de Menores,


quando necessária?

Encetar ou reatar o diálogo do menor com ele próprio, do menor com a família
e a comunidade e destas entre si e com o menor.

Para alcançar esse objectivo, a actuação do Magistrado tem de se traduzir


numa comunicação com o menor, com a família e a comunidade. Desde logo
na divulgação dos direitos da criança junto da polícia nacional
fundamentalmente; divulgar os meios para a sua efectivação, em especial os
judiciários, que precisam de ser compreendidos em primeiro lugar pelos
próprios operadores da justiça mas também pela família e comunidade em
geral. E assim é, pois para aderir à decisão judicial é indispensável
compreender, o que pressupõe comunicação numa linguagem minimamente
comum propiciadora de confiança.

Na comunicação com o menor, o juiz deve, em nossa opinião, procurar


respeitar os seguintes princípios:
 A essencialidade do respeito pelo menor como sujeito e não
objecto de direitos;
 O seu estádio e processo concretos de desenvolvimento; - A
sua personalidade e o seu carácter (não é um incapaz mas
uma pessoa em desenvolvimento);
 Os valores da comunidade em que se insere, com a
consciência da sua evolução e maturação no rápido devir do
mundo de hoje; e,

34
 A ideia de que a socialização não deve tender à adaptação
pura e simples, mas ao contrário, a uma atitude emancipadora,
de responsabilidade e solidariedade.

35
CAPÍTULO II. MATERIAIS E MÉTODOS

Para melhor orientação do nosso trabalho, foram utilizados vários materiais,


métodos e técnicas que ajudaram-nos a alcançar os objectivos traçados, como
passamos a apresentar:

3.1. Tipo de pesquisa

A pesquisa a utilizar neste trabalho será a descritiva: estudo do caso. Segundo


Zassala (2012, p. 86) “estuda situações nas quais as relações entre as
variáveis já ocorreram.

Neste trabalho empregamos a pesquisa descritiva: estudo de caso, sustentado


pelos materiais bibliográficos (livros, revistas, dissertações, artigos científicos,
etc).

3.2. Modelo de abordagem

O modelo de abordagem aplicado no presente trabalho é o do tipo misto, ou


seja, quantitativa.

3.3. Métodos

Métodos são caminhos a serem percorridos, para se realizar uma pesquisa ou


um estudo, ou para se fazer ciência. Etimologicamente, significa o estudo dos
caminhos, dos instrumentos utilizados para fazer uma pesquisa científica.
(Fonseca, apud Gerhald e Silva, p. 12).

A nossa pesquisa utilizará os seguintes métodos:

 Método histórico:
Este método tem como premissa básica a crença na história como
ciência e disciplina capaz de explicar estruturas e acontecimentos,
notadamente os foros político-econômicos. O fenômeno histórico
36
proveria, neste sentido, um contexto para análise das organizações, ou
seja, os laços que amarram organizações e sociedades. (Goldman,
apud Faria 2006, p. 2).

Não sendo a delinquência juvenil um fenómeno novo, recorremos ao método


histórico para estudarmos as abordagens anteriores, e o modo como o assunto
foi tratado pela sociedade e nas primeiras legislações, quer ao nívem interno,
como internacional.

 Método analítico-sintético
“Este método constitui a tentativa de evidenciar relações existentes
entre o fenómeno estudado e outros factores. Segundo Marconi e
Lakatos (2003, p. 54), essas relações podem ser estabelecidas em
função das suas propriedades, relações de causas e efeitos”.

Com este método, foi-nos possível analisar e relacionar as motivações que


conduzem os menores a aderirem práticas ilícitas e os efeitos resultantes de
tais práticas, com ajuda de conteúdo bibliográfico, entrevistas e observações e
interação.

 Método comparativo
O método comparativo é usado tanto para comparações de grupos no
presente, no passado, ou entre os existentes e os do passado, quanto
entre sociedades de iguais ou de diferentes estágios de
desenvolvimento. Marconi e Lakatos (2003, pp. 106/7).

Considerando que o estudo das semelhanças e diferenças entre diversos tipos


de grupos, sociedades ou povos contribui para uma melhor compreensão do
comportamento humano, utilizaremos este método para estabelecer
comparações, com a finalidade de verificar o processo evolutivo da
delinquência praticada pelos menores em Angola a partir de diferentes etapas.

 Método estatístico
Segundo Rodrigues (2006, p. 20), Fundamenta-se na utilização de
teorias estatística das probabilidades. A manipulação estatística permitiu
comprovar as relações entre a classe dos indivíduos e os fenómenos

37
estudados. Com isto, foi possível obter generalizações sobre a natureza
do fenómeno “delinquência juvenil”, sua ocorrência e dados numéricos
aproximados a realidade. Foi também possível através deste método
correlacionar as conclusões e o caso estudado.

3.4. Instrumentos utilizados na recolha de dados

Um questionário constituído por respostas abertas, dirigido ao grupo amostral


constituído por jovens na faixa etária dos 12 e 17 anos residente no município
de Viana/ Luanda. 2019 à 2020, este foi instrumento utilizado na colecta de
dados.

3.4.1. Procedimentos para produção de dados

Desenvolvemos a pesquisa de campo no período de 2019 à 2020 no


município de Viana, província de Luanda, sendo que o início da investigação se
deu a partir de uma pesquisa documental realizada por meio do acesso do
pesquisador aos processos jurídicos de menores que cumpriam medida socio
educativa.

As entrevistas foram todas gravadas e, posteriormente, transcritas e impressas


para Análise. Para garantir o sigilo, as entrevistas foram realizadas
individualmente.

Dados sobre os menores que participaram da pesquisa

Nome Apelido Idade Sexo Escola- Delito que já Tempo de


(Tpc) ridade cometeu internação
Adão Bernardo Ginga 7 Quedas 17 Masc 8ª Classe Roubo 13 meses
Adão Pedro Ginga Ti- Malaria 13 Masc 5ª Classe Associação de 18 meses
Malfeitores
Alberto Álvaro Gomes Bicho-Mau 16 Masc 7ª Classe Roubo 8 meses
Alberto António Michupa 13 Masc 7ª Classe Roubo 6 meses
António José Álvaro Filho da 12 Masc 6ª Classe Associação de 18 meses
Maria Malfeitores
Mateus Álvaro Bango Kingueira 12 Masc 5ª Classe Furto 10 meses
António José André Manequim 14 Masc 5ª Classe Violação 17 meses
António Nogueira João Tribobo 14 Masc 6ª Classe Furto 9 meses
Adolfo Manuel Nimi Come-Todas 17 Masc Não Violação 14 meses
Fonte: Dados obtidos durante entrevista

38
Os adolescentes entrevistados encontram-se na faixa etária de 12 a 17 anos,
sendo que foram nove meninos. Como característica do processo de
escolarização, observamos que apenas um não se encontra matriculado e os

Quanto ao ato infracional, dois dos menores praticaram roubo, dois furto,
dois por associação malfeitoras, dois por violação, tendo como tempo de
cumprimento de medida variando entre 9 e 18 meses. Outra característica
importante que esse grupo destaca é que apenas um dos menores (tpc-Filho
da Maria) cumpria por mais de uma vez a medida de internação, quatro
haviam passado pela medida de advertência antes de ser encaminhados a
esta medida e um não havia passado por nenhuma advertência.

3.4.2. Sujeitos

As entrevistas durante o trabalho de campo foram realizadas a nove sujeitos


do sexo masculino, delinquentes menores, com idades compreendidas entre os
12 e os 17 anos, oriundos de bairros sociais degradados (musseques),
localizados nas áreas suburbanas dos principais bairros de Viana, província
de Luanda.

Estes menores, alguns pertencem a famílias disfuncionais e foram vítimas de


abusos, maus-tratos e violência doméstica. Assim, a partir das
entrevistas, pretendemos verificar se as situações traumáticas ocorridas no
passado, no meio em que estavam inseridos, influenciaram negativamente
os seus percursos de vida, conduzindo-os à marginalidade.

Caracterização dos sujeitos

Entre- Perfil dos


vistados Entrevistado

Nº Idade Zona Descrição geral


1 17 Zango Cresceu com os pais. O pai faleceu (era pastor na igreja) e a mãe
III não trabalha. Os pais fizeram a 4ª ou classe. O entrevistado
estudou até à 8ª classe. Já presenciou muitos atos de
delinquência. Jovem delinquente. Não quis revelar mais sobre a sua
vida, receando que o entrevistador pertencesse à segurança.
2 13 Zango Jovem que sofreu maus-tratos, de uma família desestruturada de
III classe media-baixa. Mais prometeu deixar marginalidade, cujo tem o
sonho de ser Medico-doutor.

39
3 16 Zango O entrevistado fez parte de um gangue que comete vários crimes.
III Não se percebe se ainda faz parte do gang ou já não, pois umas
vezes fala no presente, outras no passado. No entanto, a conclusão
que se tira é que quer dar a entender que já não pratica esses atos,
quando tal não é verdade
4 13 Zango O entrevistado cresceu com os pais e foi vítima de maus-tratos.
III Saiu de casa e foi viver com um amigo. Afirma primeiramente
que já tem uma vida normal e que a vida de crime pertence ao
passado. No entanto, no decorrer da entrevista contradiz-se ao
afirmar que continua a praticar esses crimes
5 12 Zango O entrevistado saiu de casa dos pais, pois estes não trabalhavam
III e foi viver com os tios. Cresceu num ambiente de delinquência.
Afirma ter sofrido maus-tratos da tia, que o acusava de roubá-la e
lhe tentava incutir algumas regras. A designação de “maus-tratos”
é, portanto, discutível. Contradiz-se ao dizer que gosta da vida
que tem, mas afirma querer mudar, embora não aponte razões
para tal.
6 12 Zango Cresceu num internato, onde foi levado pela tia. Queixa-se de
III maus-tratos e de normas rígidas que se não fossem cumpridas,
seriam aplicados castigos. Gostaria de mudar de vida, classifica a
vida que leva como o “caminho do Diabo”
7 14 Zango Cresceu com os pais, agora vive sozinho. Queixa-se dos maustratos
III da polícia e afirma que gostaria de ter uma vida normal
(estudar e ter outra ocupação), o que só conseguirá se tiver um
emprego.
8 14 Zango Cresceu com os pais analfabetos e depois foi viver com a tia que
III o expulsou de casa aos 12 anos e que acusa de o maltratar. Afirma
que vive na miséria (em contentores), no meio de bandidos.
Nunca encontrou ajuda para sair daquela vida
9 17 Zango Cresceu com os pais e actualmente vive com a avó materna. Antes
III viveu com a madrasta, que o maltratou. Sonha em constituir a sua
própria família, mas questiona se acontecerá o mesmo aos seus
filhos, isto é, serem maltratados por uma madrasta. Gostaria de
aprender uma profissão e mudar de vida

3.5. Técnicas de Pesquisa

As técnicas são procedimentos operativos bem definidos possíveis. A escolha


de técnicas depende do objectivo que se pretende atingir e que esta por sua
vez relacionado com método do trabalho. Nesta pesquisa utilizamos as
técnicas de entrevista, observação e de consulta bibliográfica.

3.6. Procedimento para a Recolha de Dados

Após analisados, todos os dados foram todos inseridos e processados através


de tabelas e gráficos, a fim de determinar as respectivas percentagens, de
acordo com as respostas obtidas.

40
3.7. População e Amostra

Para se aplicar os procedimentos escolhidos no estudo é necessária uma


definição da população e da amostra que foi abordada.

Lakatos e Marconi (2010) destacam que o problema da amostragem é a


necessidade de escolher uma parte (ou amostra) representativa para
investigar. Nesse caso, como o processo não é amplamente conhecido e
não foi divulgado na organização, a amostra que foi utilizada é reduzida.

Como não é viável desenvolver um método com toda a população da


pesquisa, em virtude do tempo e também ao acesso restrito de informações
sobre o processo a um número pequeno de pessoas, foi definida uma
amostra representativa da população, levando em conta o fato da pesquisa
se tratar de uma abordagem qualitativa. As pessoas selecionadas para
participarem da amostra foram aquelas que já tiveram acesso às
informações sobre o processo de avaliação de desempenho de projetos na
empresa, e que tem as suas atividades rotineiras interferidas pelo mesmo.

 Concretamente, incluíram-se na amostra menores do sexo masculino,


de idades entre os 12 e os 17 anos, cujo os mesmo têm ou já
passaram por conflitos com a lei.

3.8. Variáveis

3.8.1. Variável Independente

 Factores que influenciam o elevado número de menores em conflito com


a lei.

3.8.2. Variável Dependente

 Idade

 Sexo

41
 Habilitações Literárias

CAPITULO III. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Após o inquérito realizado na Sala de Julgado de Menores, localizado no


Município de Viana, Distrito Urbano do Zango, obtivemos resultados cujas
variáveis foram distribuídas em seguintes gráficos:

Gráfico N-1: Comparação entre população total de adolescentes anos, e


aqueles em conflito com a lei – 2019 / 2020 (Mês de Abril á Fevereiro).

22%

Adolescentes com conflito a Lei


Restantes Jovens

78%

Fonte: Pesquisa Estatista do Autor

Apesar deste pequeno percentual, o que podemos perceber pelo discurso de


grande parte da população, é que a visão sobre a incidência de adolescentes
em conflito com a lei está distorcida ou deslocada. Isso se deve, entre outras
coisas, ao discurso da média, haja vista que os adolescentes são alvos
constantes desta, que ora exalta o consumismo, através de propagandas
voltadas a este público e de programas de televisão, ora exibe notícias

42
sensacionalistas relacionadas ao público juvenil, principalmente no tocante a
atos em conflito.

Da análise das reportagens verificou-se que embora tenha havido um


expressivo crescimento do número de inserções, não houve uma melhoria na
qualidade da abordagem. Os principais problemas encontrados se referiam à
ausência de contextualização das questões abordadas, à imprecisão na
terminologia, à confusão no uso de dados estatísticos e à ausência da opinião
do próprio adolescente.

Gráfico N-2: Distribuição de entrada de Casos de Prevenção Criminal e


Protecção Social, apresentado de Abril á Junho de 2019

Protecção Social
46%
Prevenção Criminal
54%

Fonte: Sala de Julgado de Menores do Tribunal Provincial de Luanda

A esse respeito, no que abrange a Distribuição de entrada de Casos de


Prevenção Criminal e Protecção Social, apresentado de Abril á Junho de 2019,
constatou-se que no período de Abril á Junho de 2019, aplicou-se a entrada de
110 Processo de Prevenção Criminal e 95 Processo de Proteção.

Sendo assim fez-se o julgamento de 22 Processo.

Findos:

 53 Processos de Prevenção Criminal


 377 Processo de Proteção Social

43
Gráfico N-3: Distribuição de entrada de Casos de Prevenção Criminal e
Protecção Social, apresentado de Julho á Setembro de 2019

Protecção Social; 92
Prevenção Criminal ; 144

Fonte: Sala de Julgado de Menores do Tribunal Provincial de Luanda

A esse respeito, no que abrange a Distribuição de entrada de Casos de


Prevenção Criminal e Protecção Social, apresentado de Abril á Junho de 2019,
constatou-se que no período de Julho á Setembro de 2019, aplicou-se a
entrada de 144 Processo de Prevenção Criminal e 171 Processo de Proteção.

Sendo assim fez-se o julgamento de 46 Processo.

Findos:

 51 Processos de Prevenção Criminal


 87 Processo de Proteção Social

44
Gráfico N-4: Distribuição de entrada de Casos de Prevenção Criminal e
Protecção Social, apresentado de Outubro á Dezembro de 2019

Prevenção Criminal
41%

Protecção Social
59%

Fonte: Sala de Julgado de Menores do Tribunal Provincial de Luanda

A esse respeito, no que abrange a Distribuição de entrada de Casos de


Prevenção Criminal e Protecção Social, apresentado de Abril á Junho de 2019,
constatou-se que no período de Outubro á Dezembro de 2019, aplicou-se a
entrada de 177 Processo de Prevenção Criminal e 256 Processo de Proteção.

Sendo assim fez-se o julgamento de 48 Processo.

Findos:

 51 Processos de Prevenção Criminal


 66 Processo de Proteção Social

45
Gráfico N-4: Distribuição de entrada de Casos de Prevenção Criminal e
Protecção Social, apresentado de Janeiro á Fevereiro de 2020

Prevenção Criminal
24%

Protecção Social
76%

Fonte: Sala de Julgado de Menores do Tribunal Provincial de Luanda

Segundo Distribuição de entrada de Casos de Prevenção Criminal e Protecção


Social, apresentado de Janeiro á Fevereiro de 2020, constatou-se a entrada de
177 Processo de Prevenção Criminal e 256 Processo de Proteção.

Sendo assim fez-se o julgamento de 48 Processo.

Findos:

 51 Processos de Prevenção Criminal


 66 Processo de Proteção Social

46
Gráfico N-5: Distribuição de Crimes mais Frequentes ocorrido entre 2019
á 2020

Homicidio Inv.
10%

Violação Sexual
12% Roubo
41%

Associação de Malfeitores
26%
Furto
11%

Fonte: Sala de Julgado de Menores do Tribunal Provincial de Luanda

No gráfico acima fez-se a menção estatística dos crimes mais frequentes, dos
quais constatou-se que (41,2%) São por roubos, (10,9%) Furto, (26,3%)
Associação de Malfeitores já no que refere a Violação Sexual ocorre de 8/9
crimes por semestre (12,0%) e por ultimo o Homicídio involuntário ocorre de
5/6 crimes por ano (9,6%).

A seguir podemos observar ainda a incidência de outros tipos de atos


inflacionais.

47
CONCLUSÕES

Na sequência daquilo que explanámos na fundamentação teórica, uma das


fases mais importantes da vida de um ser humano reside nos primeiros
anos de vida, que poderão influenciar o seu saudável desenvolvimento
psicossocial, emocional e físico.

Neste sentido, é de capital importância que o Estado e a sociedade civil


intervenham de forma incisiva nas situações que configuram flagrantes
casos de maus-tratos, passíveis de suscitar a transformação futura de uma
criança em delinquente. Assim, estabelecendo-se um nexo causal entre os
abusos praticados pelos membros da família e pela má influência das
companhias e uma futura vida de delinquente, constatou-se que o modo como
esses abusos ou má influências são perpetrados, a reiteração e a intensidade
dos castigos conduzem o menor a projectar violentamente as suas frustrações
em terceiros. No entanto, este conceito não é estanque, pois, como
comprovámos, ao promover uma intervenção prematura e eficaz no seio da
família, bem como o afastamento do menor ou jovem desses meios
perniciosos, estaremos a contribuir para que este se desenvolva de forma
saudável e equilibrada, afastando-se das malhas do crime, formando-se assim
cidadãos aptos para a vida harmoniosa em sociedade.

As questões relativas aos menores precisam de cada vez mais autonomia e


especialização para responder não apenas aos factores socioeconómicos, à
crise e aos conflitos nas famílias, mas também à matérias interligadas. O facto
da delinquência juvenil estar assumindo dimensões alarmantes no país, com
particular realce nas zonas suburbanas e urbanas, como mostram as
estatísticas criminais, é imperativo haver uma intervenção urgente, e com
medidas eficazes de forma a amenizar a ocorrência do fenómeno e até mesmo
preveni-lo.

48
Deste modo, podem ser criados projetos para ressocializar o adolescente que
esteve em conflito com a lei, a fim de continuar o processo de educação após o
cumprimento da medida socioeducativa e prepara-lo para o convívio esperado
do adolescente pela sociedade, qual seja, afastado da criminalidade. Em
confronto a isso, é necessário ainda combater o preconceito social, que
consiste em um dos obstáculos para que esses projetos sejam efetivados, uma
vez que ocorre a rotulação desses adolescentes e a comunidade, ao invés de
oportunizar condições para que ele não retorne ao mundo criminoso, o exclui,
sendo sua alternativa a de retornar ao cometimento de atos infracionais.
Portanto, há meios de minorar a criminalidade entre os jovens no país,
ensinando-lhes ofícios, esportes, atividades culturais, bem como os tratando de
forma inclusiva nas instituições sociais, como no ambiente escolar e no de
trabalho.

De acordo com as hipóteses anteriormente levantadas, foi possível sim


confirmar que o levado número de criminalidade ou seja o conflito de menores
com a Lei, dos muitos influenciadores de crimes, resume-se em dois factores
importantes descritos no presente trabalho que são: As fracas medidas sócio-
educativas, maus tratos no seio familiar, abandono familiares, e o consumo
excessivo de substâncias estão na base do elevado número de menores em
conflito com a lei, assim como crescente índice de pobreza no seio das
famílias, constitui o factor influenciador para o elevado número de menores em
conflito com a lei.

49
SUGESTÕES

Deste modo como sugestão para se evitar ou minimizar a prática de conflito de


menores com a lei. Deste modo, e tendo uma noção mínima do tipo de abusos
a que, infelizmente, estes menores estão à benefício, e urge a necessidade de
os recuperar e tratar condignamente, ao invés de os excluir e tornar apátridas.

Assim, constatámos a falta de preparação de muitos progenitores em transmitir


a melhor educação possível aos seus filhos, que, desta forma, por vezes caem
na marginalidade.

 Neste sentido, urge a necessidade de se criarem escolas especializadas


em actividades de socioeducativas/ressocialização para este menores
(poder-se-ia designar estas instituições como Escolas Preparatórias
para a Paternidade). Estes estabelecimentos de ensino seriam
vocacionados para a formação e preparação dos indivíduos no seu
papel de pais, tendo como um dos principais objetivos alertar os
progenitores/encarregados de educação para as responsabilidades que
lhes assistem face aos seus educandos, assegurando desta forma que
essas responsabilidades sejam cumpridas com maior zelo e eficácia.

Apesar de no ordenamento jurídico angolano encontrarmos normas que


incentivam a criação de órgãos autónomos e não jurisdicionais que tutelem
a situação de crianças delinquentes e/ou em risco, como é o caso da
Comissão Tutelar de Menores e do Instituto Nacional de Apoio à Criança
(INAC), é notório o desrespeito pelos direitos dos menores, consagrados
na declaração Universal dos Direitos da Criança.

Estes comportamentos de desrespeito dos direitos das crianças provêm


essencialmente do analfabetismo e da ignorância da lei por parte dos
progenitores. Neste sentido, urge o desenvolvimento, aplicação e difusão, por
parte dos organismos estatais, de medidas de informação, sensibilização e

50
esclarecimento à população em geral, promovendo o salutar crescimento dos
menores num ambiente familiar harmonioso.

Sendo a justiça restaurativa um novo modelo no que concerne à aplicação da


justiça, e devido aos excelentes resultados obtidos em vários países em
que vigora tal sistema, em simultâneo com o tradicional, somos apologistas
da implementação deste modelo em Angola. Julgamos, pois, que a aplicação
dos princípios que norteiam a justiça restaurativa usada em outros países, se
devidamente adaptados à nossa realidade sócio-cultural, poderão revelar-se
determinantes para a construção de uma sociedade mais justa, igualitária e
equilibrada.

Uma possibilidade que o contato com estes jovens ofereceu, e não poderia ter
sido desperdiçada, foi a de coletar sugestões que pudessem servir para o
aprimoramento da medida. Até porque, um dos objetivos deste trabalho é servir
de instrumento de análise para todos os profissionais envolvidos no processo
socioeducativo dos menores em conflito com a lei.

O estado Angolano deve de forma justa analisar o poder judicial no que


concerne na aplicação de novas medidas sancionatórias em menor em conflito
a lei.

 Os juristas devem fazer um estudo permanente das especificidades de


aplicação do regulamento da prevenção dos delitos praticados pelos
menores.

51
BIBLIOGRAFIA

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(Orgs.). INFÂNCIA: violência, instituições e políticas públicas. Expressão
e Arte, São Paulo.

53
APÊNDICE
Imagem – Adolescente detido
Lei sobre o Julgado de Menores
ANEXO
FICHA PARA LEVANTAMENTO DE DADOS

DADOS PESSOAIS

Data: _____/____ /_____


Nome completo:________________________________________________________
Idade: _______Estado civil ____________Cidade em que mora: ________________
Ano de escolaridade: _________________ Com quem vives:____________________

À tua volta, há quem tenha vícios, dependência de alguma


coisa? Tabaco, álcool, drogas? Sim ( ) Não ( )
E tu? Tens algum tipo de vício? Sim ( ) Não ( )
Qual? _____________________________________________________________
Que drogas consomes? (se o entrevistado tiver referido o
consumo de drogas)
Com que frequência consomes essas substâncias? (tabaco,
álcool, drogas)_______________________________
Se sim: como financias o teu vício?____________________________________
Quando consomes qualquer uma destas substâncias, como
te sentes?____________________________________________________________
E depois do seu efeito passar, como te sentes?______________________________

Motivo do crime?_______________________________________________________
Qual foi a causa de você ter sido detido?____________________________________
É a primeira vez que isto acontece? Se não, em que outras situações?
Sentes arrependimento dos teus crimes cometido? Sim ( ) Não ( )