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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO


INSTITUTO DE HISTÓRIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA COMPARADA
DOUTORADO EM HISTÓRIA COMPARADA

MODERNIDADES SORTIDAS: O ESPORTE OITOCENTISTA


EM PORTO ALEGRE E NO RIO DE JANEIRO

Cleber Eduardo Karls

Orientador: Prof. Dr. Victor Andrade de Melo

Rio de Janeiro, 2017


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MODERNIDADES SORTIDAS: O ESPORTE OITOCENTISTA


EM PORTO ALEGRE E NO RIO DE JANEIRO

Cleber Eduardo Karls

Tese de doutoramento apresentada ao Curso de


Doutorado do Programa de Pós-Graduação em
História Comparada do Instituto de História da
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ,
como parte dos requisitos necessários à obtenção
do título de Doutor em História Comparada.
Orientador: Victor Andrade de Melo

Rio de Janeiro, 2017


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FOLHA DE APROVAÇÃO

Tese de doutoramento apresentada ao Curso de


Doutorado do Programa de Pós-Graduação em
História Comparada do Instituto de História da
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ,
como parte dos requisitos necessários à obtenção
do título de Doutor em História Comparada.

Aprovada por:

_______________________________________
Prof. Dr. Victor Andrade de Melo - Presidente

_______________________________________
Prof. Dr. Fabio de Faria Peres

_______________________________________
Prof. Dr. Flávio dos Santos Gomes

_______________________________________
Prof. Dr. José Costa D´Assunção Barros

_______________________________________
Prof. Dr. Maurício da Silva Drumond Costa
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Para minha amada esposa Thaina.


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AGRADECIMENTOS

A escrita de uma tese de doutoramento só pode ser efetivada e consumada a partir de


uma decisão individual, na qual o doutorando está consciente que deverá optar por uma série
de responsabilidades inerentes ao tamanho deste compromisso. Em contrapartida, este
caminho, trabalhoso é verdade, mas cheio de descobertas e momentos ímpares de felicidade,
só pôde ser atingido de forma plena através de uma ampla rede de apoio e cooperação que
foram essenciais para que esta tese tomasse forma.
Declaro, sem titubear, que este período no qual cursei o doutorado no Rio de Janeiro
foi um dos mais gratificantes da minha vida. Na cidade maravilhosa conheci pessoas
sensacionais, frequentei um ambiente acadêmico saudável e amigável. Enfim, tive ótimas
condições para desenvolver este estudo que vos apresento. Portanto, é impossível agradecer a
todos individualmente, já que muitos são os responsáveis. Todos ficarão eternamente
marcados nesta feliz jornada.
Agradeço imensamente ao meu orientador, amigo e irmão Victor Andrade de Melo,
que acolheu minha proposta e aceitou conduzir este gaúcho que queria se aventurar pela
“Capital do Império”. No decorrer do curso nossas discussões de cunho acadêmico ou não,
contribuíram muito para o meu crescimento, não somente intelectual, mas também pessoal.
Victor foi um maravilhoso orientador que se tornou, também, um grande amigo, exemplo de
pessoa generosa, competente e séria, a quem agradeço muito a chance de poder seguir adiante
meu sonho de percorrer uma vida universitária de satisfação com a pesquisa.
Também foram essenciais para que tudo isso acontecesse minha irmã Caroline e seu
marido Érgeles, que abriram as portas da sua casa e fizeram do seu lar o meu no primeiro ano
do doutorado. Sou grato imensamente pela compreensão e a paciência em aceitar alguém que
tornou o cotidiano um tanto mais agitado e a casa um pouco menor. Também agradeço ao
Yuri, que vi crescer diariamente a partir dos seus três meses de idade. Sem dúvida, a sua
presença me trouxe mais esperança, alegria e vontade de trabalhar. A pureza das crianças,
indubitavelmente, é inspiração e fonte de energia. Talvez daqui alguns anos ele leia este
trabalho e saiba que também cooperou para a sua realização. Agradeço aos meus pais, Waldir
e Mara, que lá do Rio Grande do Sul sempre torceram pelo meu sucesso e de diversas
maneiras contribuíram para que tudo desse certo. Um pouco desta tese é a nossa história.
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Não poderia deixar de agradecer ao meu amigo Silvio Marcus de Souza Correa, que
desde a graduação acompanha a minha jornada acadêmica e foi um dos principais mestres e
incentivadores da minha escolha pela pesquisa histórica. Ao Silvio devo muito da decisão de
me tornar pesquisador, desbravar o Brasil e estudar no Rio de Janeiro. Seguramente, uma
resolução acertadíssima.
Sou extremamente grato ao Sport – Laboratório de História do Esporte e do Lazer.
Este grupo de sérios e competentes estudiosos foi essencial nestes anos para que eu pudesse
aprimorar cada vez mais minhas ideias enquanto pesquisador do esporte. Nossos debates,
leituras, discussões, foram primordiais no meu desenvolvimento intelectual. Este maravilhoso
grupo de investigadores também se tornou um formidável “bando” de amigos. Devo ao Sport
uma parcela significativa da paixão que desenvolvi pelo Rio de Janeiro. Muito obrigado por
tudo ao Fábio, Maurício, Rafael, Álvaro, Nei, Pipo, Eduardo, Luiz, Vivi, Karina, Aline,
André, Ricardo e demais colegas que tiveram passagens rápidas pelo grupo, mas que sempre
fizeram a diferença. Ao Sport também devo uma das maiores felicidades da minha vida que
foi conhecer minha esposa, companheira e meu amor, Thaina!
À Thaina tenho muito a agradecer. Obrigado por todo o carinho e amor recebido que é
fonte inesgotável de energia e satisfação. Agradeço por me ajudar a conhecer novos sabores,
sentimentos, lugares. Obrigado por me tornar mais tolerante e compreensivo e perceber que
em tudo sempre há um lado positivo. Enfim, sou grato por ter escolhido ser minha
companheira, por me fazer acreditar na força da união. Obrigado pelo apoio em todos os
momentos da elaboração desta tese.
Muito obrigado a professora Teresa González Aja que me acolheu de maneira muito
afetuosa na Universidad Politécnica de Madrid e contribuiu para que o período de estágio na
Espanha se tornasse muito prazeroso o produtivo.
Agradeço a Universidade Federal do Rio de Janeiro, principalmente à coordenação e
secretaria do Programa de Pós-Graduação em História Comparada que estiveram sempre à
disposição para qualquer demanda, especialmente a secretária Márcia.
Devo meu agradecimento a CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de
Nível Superior pela bolsa de doutorado no Brasil e de doutorado sanduiche no exterior que me
proporcionaram suporte financeiro para realizar este curso.
Por fim, agradeço a diversos e variados colaboradores que fizeram parte direta ou
indiretamente na construção desta tese. É impossível, no entanto, nomeá-los individualmente.
Agradeço a todos que de múltiplas maneiras me ajudaram a elaborar esta pesquisa que tem
tanto o meu trabalho como o apoio de muitos, sem o qual isso não seria possível.
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“O Rio Grande do Sul é a Hungria do Brasil, - é a província em que


todos sabem andar a cavalo e em que o cavalo desempenha um
importantíssimo papel na economia social. Nosso povo é
extraordinariamente inclinado a esse gênero de diversão; é uma
tradição que lhe vem do passado.”

(Gazeta de Porto Alegre, 15/05/1880)


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RESUMO

O século XIX foi o palco do surgimento e consolidação dos esportes modernos no Brasil.
Nesse período, uma série de práticas corporais, originárias da Europa, conquistou cada vez
mais espaço no país, se estruturando, se organizando e assumindo o status de esporte, a
exemplo do que já acontecia no velho mundo. É o caso do turfe, do ciclismo e do remo, entre
outros, que, articulados a um discurso de modernidade, passaram a ser assimilados,
praticados, ou, pelo menos, admirados por grande parte da população nacional. Essas
atividades fizeram parte de um novo contexto de ideias que reviram a relação do homem com
seu próprio corpo. Da mesma forma, um campo foi criado em torno das práticas esportivas, o
que incluiu a organização dessas atividades com regras definidas, federações, estruturação de
jogos, espetáculos e a profissionalização dos seus praticantes. Tendo em conta essas ideias,
este estudo realizou uma análise comparativa entre as cidades do Rio de Janeiro e Porto
Alegre, no que se refere à formação e consolidação do campo esportivo, ocorrido na segunda
metade do século XIX. Buscamos entender a relação do esporte com as ideias de modernidade
características do período, levando em consideração as distintas interpretações realizadas
nessas duas urbes brasileiras. Trata-se de dois destacados municípios, mas com características
diversas de formação, estrutura, status e relação com os pensamentos da época e,
consequentemente, com os esportes. Para esta investigação, utilizamos, como fonte,
principalmente, periódicos publicados em Porto Alegre no período em pauta, que foram
confrontados com a historiografia produzida acerca do esporte na cidade do Rio de Janeiro.

Palavras-chave: Esporte, Divertimento, Século XIX, Porto Alegre, Rio de Janeiro.


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ABSTRACT

The XIX century was the stage of the emergence and consolidation of modern sports in
Brazil. During this period, a number of bodily practices originating in Europe gained more
and more popularity in the country, structuring, organizing and taking the sport status, as had
already happened in the old world. This is the case of turf, cycling and rowing, among others,
which articulated a discourse of modernity, have become assimilated, practiced, or at least
admired by much of the national population. These activities were part of a new framework of
ideas that retraced the man's relationship with his own body. Similarly, a field was created
around the sports practices, which included the organization of these activities with defined
rules, federations, game structure, shows and the professionalization of its practitioners. In
view of these ideas, this study aims to conduct a comparative analysis between the cities of
Rio de Janeiro and Porto Alegre with regard to the formation and consolidation of the sports
field, in the second half of the XIX century. We seek to understand the sport's relationship
with the characteristics of modernity ideas of the period, taking into account the different
interpretations made in these two brazilian cities. These are two prominent cities, but with
different characteristics formation, structure, status and relationship with the thoughts of that
time, therefore, to sports. For this investigation we used as sources, mainly periodicals
published in Porto Alegre during the period in question, which were compared with the
historiography produced about the sport in the city of Rio de Janeiro.

Keywords: Sport, Fun, XIX century, Porto Alegre, Rio de Janeiro.


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SUMÁRIO

Introdução.......................................................................................................... 12

Capítulo 1
O Princípio: as práticas de divertimento e a formação do campo esportivo

1.1 Formação e desenvolvimento do campo esportivo no Rio de Janeiro


e em Porto Alegre: o século XIX......................................................... 26
1.2 Os diferentes momentos da formação do campo esportivo................. 32
1.3 Primeiro momento da formação do campo esportivo (primeira
metade do século XIX)........................................................................ 33
1.4 Segundo momento da formação do campo esportivo (terceiro
quartel do século XIX)......................................................................... 37
1.5 Terceiro momento da formação do campo esportivo (último quartel
do século XIX)..................................................................................... 42
1.6 Porto Alegre e Rio de Janeiro dos viajantes: um olhar estrangeiro..... 48
1.7 Práticas de divertimento ..................................................................... 57
1.7.1 Circo ................................................................................................... 59
1.7.2 Cavalhadas........................................................................................... 69
1.7.3 Rink ..................................................................................................... 74

Capítulo 2
Nas praças e nos prados: as touradas e o turf

2.1 Touradas ............................................................................................. 82


2.2 O Turf.................................................................................................. 98
2.2.1 O início dos hipódromos...................................................................... 103
2.2.2 Dos cavalos gaúchos: quando os mestiços superam os puro-sangue.. 112
2.2.3 Normas, brigas, linguiças e tribofes.................................................... 116
2.2.4 Os gerentes........................................................................................... 124
11

Capítulo 3
Na água e sobre rodas: as regatas e o ciclismo

3.1 Regatas ................................................................................................ 129


3.1.1 O Rio de Janeiro e o Simulacro de Regatas em Porto Alegre............. 129
3.1.2 Os clubes de regata.............................................................................. 132
3.1.3 Dos conflitos e relações étnicas no remo............................................. 138
3.2 Ciclismo .............................................................................................. 147
3.2.1 A institucionalização: os clubes de ciclismo e os velódromos............ 150
3.2.2 Para o desenvolvimento do esporte, da habilidade e da saúde ........... 160

Considerações Finais .......................................................................... 168

Referências ......................................................................................... 173

Fontes ................................................................................................. 181


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Introdução

O século XIX foi um período emblemático na história do Brasil. Representa uma


época singular no que tange a sua formação enquanto estado-nação e no que se refere ao
desenvolvimento das ideias de modernidade em grande parte de todo o seu extenso território.
Foi uma fase de intensas mudanças em várias esferas. Em conjunto às transformações do país
e do esforço para se firmar enquanto Estado independente, as práticas esportivas irromperam,
se difundiram e acompanharam as diferentes alterações em um território que passou de
colônia a império e república.
Os discursos acerca da modernidade, acompanhados por uma série de inovações que
modificaram diversos aspectos das relações sociais, do trabalho, da produção e, certamente,
do pensamento, influenciaram também o vínculo do ser humano com seu corpo e suas
práticas. O perfil do homem moderno se diferenciou frente a essas novas dinâmicas e ao
desenvolvimento do capitalismo. Nesse contexto, o esporte participou enquanto prática
moderna e modernizadora.
Para um melhor entendimento dessa proposição, Victor Melo (2010c) esclarece que a
palavra sport parece ter sido registrada, pela primeira vez, na Inglaterra do século XV,
originária do francês antigo disport, que teve origem no latim deportare, que significava
“enviar para fora”, mesma gênese da palavra deportar. Na França, a palavra foi utilizada com
o sentido de diversão, mas também fazendo referência à prazer. Na Inglaterra, acabou
assumindo uma definição aproximada, de divertimento e travessura, mas a ideia de
competição não estava explícita. No século XVI, sport começou a adquirir o sentido de “jogo
que envolve atividade física”. No século XVIII, identificou-se o uso de sportsman, para
designar o envolvido constante com a prática, e sportsmanship para designar uma natureza de
envolvimento. Nesse momento, a ideia de competição tornou-se mais clara, mas não
hegemônica. Foi somente no século XVIII que o esporte, fortemente ligado à situação
sociocultural inglesa, estruturou-se, marcado pela ideia de racionalidade, bem como inserido
em um mercado de entretenimento em gestação. Da mesma forma, alguns “empresários”
estruturaram a prática de acordo com o novo espírito comercial. Logo, surgiu a necessidade
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de estabelecimento de normas, o desejo de registrar o feito dos campeões, enfim, a exigência


de uma estrutura em torno dos esportes1.
Mesmo contando com um grande número de variáveis regionais e diferentes leituras
do discurso moderno no Brasil, o século XIX contribuiu para o início da mudança de perfil
das principais cidades nacionais. Com um desenvolvimento um tanto diferenciado, se
considerarmos as diversidades locais de todo o país, podemos inferir que um inédito
paradigma de sociedade estava se formando e colocando o ser humano frente a uma nova
paisagem, com o tímido princípio de uma industrialização e ampliação da urbanização. Nesse
conjunto, os meios de comunicação também estavam se desenvolvendo e contribuíram para
que os ideais modernos se ampliassem cada vez mais e com mais velocidade, facilitando o
aumento dos seus “domínios”. (BERMAN, 1986, p. 19)
Para Sandra Pesavento (2002), a cultura da modernidade é eminentemente urbana e
comporta a conjugação de duas dimensões indissociáveis: por um lado, a cidade é o sítio da
ação social renovadora, da transformação capitalista do mundo e da consolidação de uma
nova ordem; por outro, a cidade se torna, ela própria, o tema e o sujeito das manifestações
culturais e artísticas.
O esporte em si pode ser considerado um produto da modernidade. Bourdieu (2003)
sinaliza que as práticas esportivas nasceram justamente de uma normatização dos jogos
populares na Inglaterra. Ao redor desses, no interior das escolas burguesas inglesas, criaram-
se regras e gestaram-se novos sentidos e significados, transformando a linguagem do corpo. A
prática esportiva surgiu dentro desse novo contexto e passou a dialogar com uma nova
conjuntura racional e científica. Ao longo dos séculos XVIII e XIX, os esportes foram
ampliando seus territórios. Extravasaram a superfície britânica e foram perpetrados,
desenvolvidos e reinventados no restante da Europa, assim como em grande parte do novo
mundo que se abria, cada vez mais, às ideias estrangeiras e modernas. Contudo, cada espaço
que se inspirava nas práticas britânicas, interpretava e criava relações a sua maneira para o
que era chamado de sport, que desenvolvia inúmeras variáveis pelo mundo. Ao pensamento
importado, reinterpretações, diferentes leituras e variados arranjos se adaptavam às realidades
locais.
Como destaca Victor Melo (2010), o esporte constitui-se em poderosa representação
de valores, sensibilidades e desejos que permeiam o ideário e o imaginário da modernidade.
Richard Holt (2008, p. 418) sublinha que, inicialmente, coube a uma elite social ser defensora

1
Sobre o desenvolvimento do conceito de “esporte”, ver: MELO, Victor Andrade de. Esporte e lazer: conceitos
– uma introdução histórica. Rio de Janeiro: Apicuri, 2010.
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dos esportes, que exaltavam um novo corpo que seguia, como padrão, normas neoclássicas.
Era muito mais que exercícios que buscavam o prazer. As práticas esportivas correspondiam a
objetivos morais, sociais e ideológicos. A saúde era tanto física quanto mental.
Os ideais de modernidade passaram a fazer parte do projeto de construção de muitas
nações, nomeadamente de grande parte do mundo ocidental, onde estava incluído, por sua
vez, o Brasil. Esse modelo de pensamento estava incorporado em uma lógica capitalista que
teve sua gênese nas principais potências econômicas mundiais:

Naqueles países em que pioneiramente se organizou no decorrer do século XIX


(Inglaterra, França e Estados Unidos), a estruturação do campo esportivo tem forte
relação com a nova dinâmica dos tempos sociais (uma decorrência do modo de
fabricação fabril), com o crescimento das cidades e o desenvolvimento de uma
cultura urbana, com o incremento das preocupações com o corpo, com a saúde e
com a higiene, com a valorização das ideias de espetáculo e consumo na
configuração dos novos imaginários; enfim, com as dimensões que marcam a
modernidade. (MELO, 2009b, p. 35)

Essas novas concepções não puderam deixar de sofrer influência local, visto as
diversas realidades regionais deste país dos trópicos. Os hibridismos esportivos
acompanharam as demais “importações” modernas que aqui atendiam a diferenciadas
funções, tanto na capital brasileira, o Rio de Janeiro, quanto em Porto Alegre, cidade-sede do
Rio Grande do Sul. Essas práticas, moldadas com as características regionais, adequaram as
ideias de modernidade europeia às peculiaridades nacionais e locais.
No Brasil, as práticas esportivas logo ganharam espaço entre as classes altas e
populares, e passaram a fazer parte do cotidiano urbano característico do período. A nascente
burguesia industrial europeia contribuiu para a difusão dos ideais de modernidade, lançando
sua influência nas terras além-mar, o que incluiu, além de princípios capitalistas e culturais
diversos, os esportes. Victor Melo (2010b) lembra que, dado o pioneirismo no que se refere à
ascensão da burguesia e ao desenvolvimento do modo de fabricação fabril, a Inglaterra
protagonizou a construção do ideário de modernidade, já no século XVIII. Em terras d´além-
mar, o Brasil e, notadamente, sua capital à época, o Rio de Janeiro, foi um dos países que
identificou impactos e influências do processo de construção da modernidade de forma mais
concreta, já na segunda metade do século XIX e início do XX, no âmbito, portanto, da
Segunda Revolução Industrial.
Essa crescente incorporação do esporte às atividades cotidianas derivou da gestação de
um contexto que incluía não somente aspectos econômicos, filosóficos ou científicos. O
esporte fez parte desse cenário como uma ferramenta que auxiliava na “readequação dos
corpos” e sua adaptação a uma nova realidade. Dessa forma, sobre a europeização e,
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consequentemente, a modernização dos países considerados “inferiores”, Fabio Franzini


(2009) destaca que de nada adiantaria todos os investimentos ingleses que foram
transformados em ferrovias e urbanização, se o modo de vida também não fosse modernizado.
E era, justamente, a europeização do Brasil que tinha como objetivo a transformação,
não somente da sua estrutura física, mas do seu modo de ser e enquadrar o país, a partir de
ideias vigentes no velho continente. O aburguesamento da sociedade nacional era o caminho
de transformação do povo, que acabava participando direta ou indiretamente e, muitas vezes,
contribuindo para esse processo de acordo com suas interpretações e práticas particulares, que
caracterizavam essa demanda.
A influência dos estrangeiros, tanto no Rio de Janeiro quanto em Porto Alegre, é um
fator importante a ser considerado no desenvolvimento do campo esportivo no país. Os
europeus trouxeram o hábito e o desejo de estruturar clubes, organizar competições esportivas
e, até mesmo, ensinar práticas ligadas às atividades físicas. Enquanto o Rio de Janeiro possuía
o status de capital nacional, Porto Alegre era uma cidade que crescera muito a partir do século
XIX, devido ao recebimento de levas de imigrantes e de gente do interior, que buscavam o
maior centro urbano da província (PESAVENTO, 2007).
Em que pese o prestígio dos adventícios do velho mundo e seus “evoluídos” hábitos,
notadamente, ingleses e franceses na cidade mais importante do Brasil, a partir da
independência em 1808, uma configuração esportiva iniciava a sua gestação no Rio de
Janeiro. Victor Melo (2014b) enfatiza que corridas de cavalo já eram promovidas na praia do
Botafogo nas primeiras décadas do século XIX, onde as mais diversas camadas sociais eram
atraídas e se entusiasmavam com as disputas. Um modesto mercado começava a se formar em
torno dos certames. Outras práticas passaram a ser comentadas pelos periódicos e pelos
cronistas do início do período oitocentista, como o cricket e os desafios de canoas, que, cada
vez mais, conquistavam a predileção da população, a exemplo do que ocorrera na Europa.
As atividades esportivas e corporais no Brasil, inseridas nesse contexto, apresentaram
momentos distintos. Se a partir do século XVIII, ações organizadas de jogos e apostas, como
as touradas, já existiam e conquistavam relativo sucesso, Melo (2009b; 2014b) defende a ideia
de que o turfe, no século XIX, foi o primeiro momento do esporte moderno no país. As
corridas de cavalo, nesse período, se tornaram mais organizadas, baseadas nas regras da
competição europeia, disputas de origem aristocrática, mas que logo se tornaram predileções
populares.
O Rio de Janeiro tem seu ponto inicial no ano de 1847. O primórdio foi um manifesto
publicado no dia seis de março, no Jornal do Commércio, por um grupo de indivíduos da elite
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carioca, que requeriam a adoção de “regulamentos e estatutos do Club de Newmarket, da


Inglaterra”, o que, em 1849, daria origem ao Club de Corridas, certamente uma das primeiras
agremiações exclusivamente esportivas do país (MELO, 2010b). Já em Porto Alegre, temos
notícia que, no ano de 1872, foi criado o primeiro hipódromo, denominado Jacome, situado
no Campo do Bom Fim (A REFORMA, 30/07/1872, p. 2).
Se as classes menos abastadas não competiam propriamente nesse primeiro momento,
apostavam, torciam e se emocionavam com o esporte. Ao mesmo tempo, se no Rio de Janeiro,
no final da década de 1880 e primeiros anos do decênio seguinte, já existiam cinco clubes
destinados às corridas de cavalo: o Jockey Club (mais antigo), o Turf Club, o Clube do Prado
Guarani, o Hipódromo Nacional e o Derby Club (MELO, 2009b, p. 49), em Porto Alegre, a
realidade era muito parecida. De acordo com a imprensa porto-alegrense, em meados do
século XIX, a prática do turfe já ocupava espaço de destaque no cenário esportivo da capital
do Rio Grande do Sul, com a existência simultânea de quatro hipódromos.
Posteriormente ao sucesso do turfe, com o desenvolvimento de novas teorias
científicas resultantes de uma concepção moderna de mundo, o corpo, a higiene e,
consequentemente, a água, passaram a ser valorizados enquanto princípios benéficos à saúde
e legitimados nas práticas esportivas, como o remo. O mar passou a ser visto como solução
para problemas de saúde, justificando e popularizando o seu uso esportivo. O ciclismo
também se destacou enquanto representante das inovações tecnológicas. Essas práticas, mais
tarde, se diversificaram e se transformaram em alternativas de lazer (MELO, 2001).
No fim do século XIX e início do XX, o remo tornou-se uma febre no Rio de Janeiro,
em uma estrutura que extravasava os clubes. Havia federações estruturadas e competições
frequentes, lotadas de público. Em outras cidades brasileiras, o remo também se desenvolveu
e o gosto por este esporte se tornou popular, a seu exemplo. Mesmo com peculiaridades,
pode-se afirmar que os sentidos e significados eram bastante aproximados aos observáveis na
capital do país (MELO, 2009b, p. 59). Em Porto Alegre, a década de 1880 foi marcada pela
constituição dos clubes de regata. No dia 10 de fevereiro, foi fundado o precursor Club de
Regatas Porto-Alegrense (A FEDERAÇÃO, 11/06/1884, p. 3), seguido por outras duas
agremiações de participação teuto-brasileira marcante: o Ruder Club ou Clube de Remo, em
21 de novembro de 1888 (O CONSERVADOR, 24/11/1888, p. 2), e o Ruder Verein
Germânia, em 13 de julho de 1889 (A FEDERAÇÃO, 10/07/1889, p. 3).
O cotejo a um ideal moderno, evoluído culturalmente e representante das novas teorias
acerca do corpo, transformaram o remo em um esporte que era a própria representação desse
espírito, com suas teorias que ligaram a água, saúde e higiene. Corpo e limpeza fizeram parte
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de um mesmo contexto, onde as práticas de banho e o pensamento em relação à água, no final


do século XIX, supunham uma total conversão do imaginário das cidades, bem como uma
total transformação do imaginário do corpo (VIGARELLO, 2008). O homem se tornou o
centro do desafio e a força esportiva. Não mais o animal, como no turfe, o que representou um
novo contexto nas competições.
Outras práticas esportivas ou divertimentos, que não possuíam o status de esportes, se
ampliavam e faziam parte do cotidiano das duas capitais na segunda metade do século XIX.
As distintas diversões desenvolviam habilidades e, cada vez mais, cativavam o gosto da
população pelos entretenimentos e disputas, que, em muitos aspectos, se assemelhavam aos
recentes esportes. As touradas eram um atrativo, tanto em Porto Alegre como no Rio de
Janeiro, assim como as sociedades ginásticas. Os rinks faziam sucesso com seus patins, a
natação atraia enorme público, da mesma forma como os circos de ginástica e clubes de tiro e
caça. O sul e o sudeste brasileiro, com seus distintos perfis, faziam parte de um processo bem
similar, cada um com suas especificidades.
Considerando esse contexto, esta pesquisa tem como objetivo realizar uma
investigação que analise, comparativamente, a formação e desenvolvimento do campo
esportivo em duas importantes cidades brasileiras, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Temos,
como recorte temporal, o século XIX, principalmente a sua segunda metade. Pretendemos
perceber como, em função das particularidades na construção das ideias de modernidade, cada
urbe estabeleceu uma relação peculiar com os esportes, se apropriando, a sua forma, dessas
ações e discursos, destacando as diferenças e similitudes em relação às práticas esportivas
nessas cidades.
Seguimos até o ano de 1900. Este ponto final do recorte temporal foi adotado, pois
entendemos que, ao desfecho do século XIX, já tínhamos um campo esportivo sólido
constituído, tanto no Rio de Janeiro quanto em Porto Alegre. Foi, também, nos primeiros anos
do século XX que um novo esporte se desenvolveu no Brasil e, gradativamente, assumiria o
status de prática mais popular do país, o futebol. Por entendermos que, a partir do século XX,
um novo contexto em relação ao desenvolvimento e prática esportiva foi colocado,
principalmente, com a prosperidade e popularização do futebol, restringimos a nossa
investigação até o ano de 1900, período que julgamos ser suficiente para atender aos objetivos
desta análise.
A escolha destas duas cidades se deve a algumas razões. O Rio de Janeiro foi a capital
do Brasil de 1763 até 1960 e, dessa forma, era uma das maiores e mais movimentadas
metrópoles do país. Passou de sede da colônia para a capital do Reino Unido de Portugal e
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dos Algarves, entre 1808 e 1815; entre 1815 e abril 1821, sediou o Reino Unido de Portugal,
Brasil e Algarves, após elevação do Brasil à parte integrante do Reino Unido. Com a
independência do país, em 1822, se tornou a capital do Império brasileiro e, em 1889, passou
a ser a capital da República. Recebia influências culturais dos principais países do mundo e
pretendia ser um espelho do velho continente. Como destaca Victor Melo, “dada a sua
posição política e simbólica, o Rio de Janeiro tornou-se, durante anos, uma caixa de
ressonância, disseminando pelo país as ideias e símbolos relacionados à modernidade,
inclusive aquilo que se refere à prática esportiva” (2010, p. 21). Consideramos que foi na
cidade do Rio de Janeiro que a atividade do esporte moderno foi inaugurada no Brasil.
Porto Alegre possuiu um desenvolvimento econômico e industrial posterior ao sudeste
do país. Até o século XIX, apresentava uma tímida participação na vida política e financeira
brasileira. Dessa forma, no período analisado, não era economicamente que o território
limítrofe do Brasil se destacava. O Rio Grande do Sul teve, como característica marcante, o
recebimento de correntes imigratórias europeias que contribuíram na geração e tiveram
relevância no desenvolvimento de vários clubes e associações esportivas. Além disso, sua
posição fronteiriça aos países platinos é um aspecto destacado para a compreensão da sua
formação e relevância na composição do campo esportivo nacional.
Nesse contexto, a capital sulista apresentava considerável destaque no
desenvolvimento esportivo nacional. Em que pese uma diversidade étnica fruto de uma
política de colonização do sul brasileiro, assim como diversos fatores inerentes a uma região
de fronteira, é, também, devido ao associativismo relacionado diretamente a uma identidade
germânica que esse processo pode ser analisado, como bem salienta Seyferth:

A concepção de uma germanidade teuto-brasileira (significado mais próximo, em


português, da palavra Deutschbrasilianertum) está vinculada à ideia do
pertencimento nacional pelo direito de sangue – uma formulação do nacionalismo
alemão. Com base nisso, reivindica-se o direito à existência de um grupo étnico
teuto-brasileiro cujo ponto de referência espacial são as chamadas “colônias
alemãs”. É preciso observar que o termo “colônia”, nesse contexto, não diz respeito
apenas ao meio rural ou às legiões de assentamentos de imigrantes alemães, mas
também às comunidades (no sentido de comunidades étnicas) que congregam
pessoas dessa origem nas cidades maiores como Porto Alegre, Curitiba ou São
Paulo. (1994, p. 18)

Além dessa, outras características próprias faziam de Porto Alegre uma cidade
diferenciada do Rio de Janeiro, dada a sua própria formação histórica, que tinha na afinidade
entre o homem, os animais e o campo um diferencial frente à capital do Império. Da mesma
forma, geográfica e culturalmente, o Rio Grande do Sul tem uma relação íntima com seus
vizinhos uruguaios e argentinos (que foi muitas vezes beligerante), o que criou, também, um
19

perfil diferenciado das relações humanas na fronteira do país e nos próprios fronteiriços, traço
marcante na personalidade dos gaúchos2.
A opção por essas duas destacadas cidades brasileiras em um estudo comparativo
busca analisar o mesmo processo em dois territórios de diferenciadas características. Se Porto
Alegre era capital estadual, o Rio de Janeiro acumulava a posição de sede do Brasil. Urbes
relativamente populosas para a época3, que apresentavam várias distinções enquanto processo
de formação, relevância cultural e econômica para o país. Consequentemente, um estudo
comparativo entre elas se justifica.
Uma investigação, que pretende analisar o campo esportivo, busca entendê-lo como
um espaço de relações objetivas, no qual se encontram os agentes sociais ocupando diferentes
posições, e que faz com que se possa pensar em termos relacionais e não em termos de
realidades que podem ser vistas claramente (BOURDIEU, 1989). Enfim, para historicizar de
forma competente o esporte, é necessário apreciar toda a sua estrutura e conjuntura. As
relações que envolvem essas práticas devem ser avaliadas para que se tenha uma real
consciência da complexidade que abrange essas atividades. Isso envolve não somente a sua
ação, mas a leitura de questões que extravasam o âmbito esportivo.

2
Queremos destacar que, quando nos referimos ao termo gaúcho nesta tese, estamos fazendo menção ao
gentílico do Rio Grande do Sul, independentemente da sua origem étnica. Não buscamos discutir acerca da
etimologia da palavra, tão pouco temos a intenção de nos reportarmos ao gaúcho uruguaio ou argentino.
3
Segundo o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a população brasileira total no ano de
realização do primeiro censo demográfico nacional, 1872, era de 9.930.478 habitantes, aumentando para
14.333.915 habitantes em 1890 e chegando a 17.438.434, em 1900. Não temos dados muito precisos sobre Porto
Alegre e Rio de Janeiro, especificamente, nessa época, mas números aproximados. De acordo com registros do
alemão Rovert Avé-Lallement (1980, p. 110), no ano de 1858, “deve haver em Porto Alegre uns três mil
alemães, ao passo que toda cidade não tem mais que 20.000 habitantes”. Esses dados são confirmados no relato
posterior do também alemão, Johann Eduard Wappäus, que esteve em Porto Alegre entre 1863 e 1871: “A
população de Porto Alegre, no ano de 1863, já era de 17.765 habitantes e atualmente beira entre 20 e 24.000
almas. Encontram-se entre elas cerca de 3.000 alemães, sendo a maioria descendente de antigos colonos de São
Leopoldo, aos quais se uniram muitos soldados e oficiais, desligados da Legião Alemã, constituindo um
elemento importante da população”(WAPPÄUS, 1871, p. 151). Na cidade do Rio de Janeiro, Manolo Florentino
(2002), registra que, de acordo ao Mapa de População de 1799, relativo tão-somente às freguesias urbanas da
cidade, os “brancos” somariam vinte mil pessoas, com quinze mil “escravos”, e nove mil “pardos e pretos
libertos”. Já no século XIX, Florentino informa que a população da cidade em 1849 era de 268.386 habitantes,
sendo 205.906 provenientes de freguesias urbanas e 62.480 de freguesias rurais, ao passo que em 1872, a
população era de 274.972 almas, sendo 228.743 em freguesias urbanas e 46.229 em freguesias rurais. O
historiador ainda analisa o crescimento populacional da cidade: “até o definitivo fim do tráfico atlântico de
escravos (1850), o crescimento populacional do Rio de Janeiro deveu-se menos aos saldos entre a natalidade e a
mortalidade do que à incessante recepção de africanos e de imigrantes portugueses. Embora de modo menos
acentuada, a natureza demograficamente aberta da província perdurou nos anos ulteriores, com a cota global de
livres em aumento e o número de escravos em franco declínio. Nada mais natural, porquanto o tráfico interno se
revelava incapaz de repor os cativos, e a imigração europeia continuava a todo vapor” (2002, p. 11-12). São
números que demonstram a grande diferença entre a capital do Império e da Província de São Pedro do Rio
Grande do Sul, mas que podem nos ajudar na compreensão das diferentes realidades daquelas duas cidades
importantes no seu contexto.
20

Os trabalhos de Pierre Bourdieu se colocam como importantes ferramentas na análise


da problemática proposta. Dessa forma, engloba diferentes variáveis sociais que são meios
necessários para a compreensão de todo um campo. Bourdieu faz uma investigação
conjuntural sobre os esportes, destacando que, para uma análise da história esportiva, é
necessária a verificação de todo um cenário:

O sistema das instituições e dos agentes que estão associados ao desporto tende a
funcionar como um campo, segue-se que não se pode compreender diretamente o
que são os fenômenos desportivos num momento dado num ambiente social dado
pondo-os diretamente em relação com as condições econômicas e sociais das
sociedades correspondentes: a história do desporto é uma história relativamente
autônoma que, ainda quando é escondida pelos grandes acontecimentos da história
econômica e política, tem seu próprio ritmo, as suas próprias leis de evolução, as
suas próprias crises, em suma a sua cronologia específica (BOURDIEU, 2003, p.
183).

Bourdieu (2004, p. 210) destaca que um esporte não é um universo fechado sobre si
mesmo, mas, sim, está inserido em um contexto mais amplo de práticas e consumos que
devem ser tomados em consideração para uma ampla análise. Num enredo de inúmeras
contribuições, o pensador francês ainda problematiza a individualidade dos esportes dentro do
conjunto das práticas esportivas. Não é possível a compreensão de uma atividade isolada do
seu cenário. Essa apreciação é fundamental para o que propomos nesta pesquisa. A
necessidade de reconhecer o papel que cada prática ocupa no espaço desportivo é uma
averiguação destacada por ele:

É preciso primeiro perceber que não se pode analisar um esporte particular


independente do conjunto das práticas esportivas; é preciso pensar o espaço das
práticas esportivas como um sistema no qual cada elemento recebe seu valor
distinto. Em outros termos, para compreender um esporte, qualquer que seja ele, é
preciso reconhecer a posição que ele ocupa no espaço dos esportes (BOURDIEU,
2004, p. 208).

Assim, para um estudo acerca da constituição e consolidação do campo esportivo no


Rio de Janeiro e em Porto Alegre, Bourdieu nos auxilia na ampliação da visão analítica.
Buscamos, dessa forma, dilatar as variáveis que consideramos fundamentais para o que
propomos. A história de um campo muda à medida que agentes e instituições entram no jogo;
à medida que novos interesses substituem os antigos e outros objetos de disputa passam a
orientar a rede de relações e atrair a atenção dos jogadores (MARCHI Jr.; SOUZA, 2009).
Para Bourdieu, passa a ser uma questão de equilíbrio entre a oferta e a procura:
21

A distribuição diferencial das práticas esportivas resulta do estabelecimento de uma


relação entre dois espaços homólogos, um espaço das práticas possíveis, a oferta, e
um espaço das disposições a serem praticadas, a procura: do lado da oferta, temos
um espaço dos esportes entendidos como programas de práticas esportivas, que são
caracterizadas, em primeiro lugar, em suas propriedades intrínsecas, técnicas (isto é,
em particular, as possibilidades e sobretudo as impossibilidades que eles oferecem à
expressão das diferentes disposições corporais), e, em segundo lugar, nas suas
propriedades relacionais, estruturais, tal como se definem em relação ao conjunto
dos outros programas de práticas esportivas simultaneamente oferecidas, mas que só
se realiza plenamente num dado momento, recebendo as propriedades de
apropriação que sua associação dominante lhes confere, tanto na realidade como na
representação (2004, p. 214).

A visão analítica do pensador destaca, também, a relação da valorização das exibições


para a popularização dos esportes. Se no século XIX, a espetacularização dos eventos teve
cada vez mais expressão, o esporte, muito com o advento da tecnologia, também se
transformou em show. Mesmo que os avanços tecnológicos do final do século XIX e início do
XX fossem ainda bem inferiores à segunda metade do século XX, o esporte-espetáculo já
aparecia como uma mercadoria de massa e a organização de espetáculos esportivos como um
ramo entre outros da indústria do entretenimento. (BOURDIEU, 2003, p. 191)
Nesse sentido, Bourdieu (2003, p. 192) entende que o gosto pelo esporte só é possível
quando o público compreende o processo e tem a possibilidade de opinar, participando, de
certa forma, do que está acontecendo mesmo que a modalidade nunca tenha sido praticada. O
suspense, a ansiedade do resultado e a probabilidade do “conhecedor” ver aquilo que o
profano não enxerga, são ingredientes destacados para um esporte se tornar predileção
popular.
Aliado às análises do pensador francês sobre a constituição do campo esportivo,
incorporamos os estudos de Victor Melo nesta pesquisa. Seus trabalhos tratam, entre diversas
temáticas, da questão do lazer, dos entretenimentos e dos divertimentos, além do próprio
esporte no Brasil. Percebendo que uma relação íntima entre todas essas atividades está ligada
às práticas corporais e ao desenvolvimento esportivo, julgamos necessária essa relação,
inclusive considerando nesta investigação a sua proposta de modelo heurístico. Essa
proposição busca analisar a trajetória conceitual moderna do fenômeno esportivo com a
hipótese de que sua estruturação seguiu um conjunto aproximado de transformações, não
lineares, não excludentes e que devem sempre ser prospectadas tendo em conta as diversas
realidades em que se inserem. (MELO, 2010c)
Esta é uma pesquisa de história comparada. Embora a comparação seja uma prática
comum e importante na historiografia, ela se diferencia e se coloca como uma modalidade
22

historiográfica fortemente marcada pela complexidade, assim como uma forma específica de
propor e pensar questões em situações diferenciadas, como destaca Barros:

A comparação neste momento - diante de um desafio ou da necessidade - impõe-se


como método. Trata-se de iluminar um objeto ou situação a partir do outro, mais
conhecido, de modo que o espírito que aprofunda esta prática comparativa dispõe-se
a fazer analogias, a identificar semelhanças e diferenças entre duas realidades, a
perceber variações de um mesmo modelo (2007, p. 5).

A história comparada permite que aproximações sejam feitas entre regiões que
pareciam isoladas, uma esperança de comunicação entre as várias histórias nacionais que
aparentavam ser soltas e desconectas. A comparação permite, portanto, que o historiador
esteja apto a identificar semelhanças, bem como diferenças, no seu objeto de análise, partindo
de múltiplos campos de observação (BARROS, 2007). Como também “é o método de
pesquisa que convida a uma mudança de atitude no modo de fazer história; é uma nova
perspectiva dos pesquisadores como sujeitos em relação ao objeto de pesquisa”
(BUSTAMENTE; THEML, 2007, p. 16). Desta forma, o método comparativo “é justamente o
que permite estabelecer o estranhamento, a diversificação, a pluralização e a singularidade
daquilo que parecia empiricamente diferente ou semelhante, posto pelo habitus e reproduzido
pelo senso comum” (BUSTAMENTE; THEML, 2007, p. 15). Podemos, ainda, apontar o que
sugere Marc Bloch, que “aplicar o método comparativo no quadro das ciências humanas
consiste (...) em buscar, para explicá-las, as semelhanças e diferenças que apresentam duas
séries de natureza análogas” (1930, p. 31).
Dessa forma, em uma pesquisa em que a história comparada é empregada, uma série
de cuidados são necessários, (pré)conceitos devem ser excluídos e a adoção de uma nova
postura é fundamental. Além disso, deve existir uma coerência entre o que será comparado.
Para Lima e Rust (2008), “um exame epistemológico mais cauteloso dos fundamentos da
História Comparada revela a impossibilidade de „comparar o incomparável‟: sempre se
compara o humanamente comparável”. Cuidados devem ser tomados, visto a singularidade da
comparação histórica, como destacam Bustamante e Theml:

É necessário afastar-se de todo tipo de hierarquização de culturas e sociedades, de


níveis de realidades estanques ou de supremacia de uma domínio sobre o outro pois
existem diversas redes de imbricações, quando se tratam de fenômenos sociais, que
não são necessariamente lineares, causais e evolutivas. Estas redes têm mais
condições de serem percebidas e elucidadas quando se tornam objeto de uma
abordagem comparativa pela construção de um conjunto de problemas, que
perpassam as pesquisas da equipe disposta a trabalhar comparativamente. Logo, não
há preocupação com hierarquias pois não se objetiva formular modelos abstratos,
leis gerais, relações de causalidades, origem nem essência dos fenômenos, mas sim
23

descobrir formas moventes e múltiplas com as quais as sociedades se depararam, as


representaram e se transformaram (2007, p. 11).

Ao mesmo tempo em que realizamos este trabalho de história comparada,


concordamos com Barros (2007), que destaca a importância da interação com outros campos
historiográficos, numa tentativa de ampliar o modelo de observação e complementar a sua
atuação:

Uma outra questão importante para o delineamento de um trabalho de história


comparada é a sua interação com outros campos historiográficos. Definida por uma
abordagem, isto é, por questões que se relacionam a aspectos metodológicos, o
historiador que utiliza as abordagens da História Comparada deve fazer também
suas escolhas relativas a certas perspectivas que já se referem às dimensões da
sociedade que são trazidas a primeiro plano pela análise historiográfica - a História
Cultural, a História Política, a História Econômica, a História Demográfica, as
mentalidades - e a certos campos do interesse que já são da ordem dos domínios
temáticos (BARROS, 2007, p. 17).

Com efeito, procuramos estabelecer uma relação entre a história comparada e a


história cultural, visto que as práticas esportivas se relacionam diretamente às ações e
representações definidas culturalmente. Nesse caso, a história cultural tem o seu maior campo
de atuação nas representações, que podem ser entendidas como “o instrumento de um
conhecimento mediato que revela um objeto ausente, substituindo-o por uma „imagem‟ capaz
de trazê-lo à memória e „pintá-lo‟ como é” (CHARTIER, 2002, p. 74). Sandra Pesavento
destaca especial importância às representações na história cultural:

a representação é uma construção imagética e discursiva que enuncia ou presentifica


o outro – no caso, recria o real. Neste processo, a evocação não precisa ter
correspondência reflexa com o objeto representado. Ou seja, a adequação das
representações não se mede por critérios de autenticidade ou veracidade, mas pela
sua capacidade mobilizadora, de motivar práticas sociais e de granjear credibilidade,
indo ao encontro daquilo que os indivíduos visam, sonham, esperam, temem...
(1993, p. 112).

Enfim, esta pesquisa trata de uma investigação que emprega a história cultural em uma
perspectiva comparada entre as cidades do Rio de Janeiro e Porto Alegre, que tem o século
XIX como recorte temporal, privilegiando a sua segunda metade. As fontes utilizadas para
esta investigação foram, basicamente, os jornais publicados em Porto Alegre, disponíveis na
Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, na Hemeroteca Digital da mesma instituição, assim
como no Museu de Comunicação do Rio Grande do Sul Hipólito José da Costa, situado em
Porto Alegre. Na busca pela documentação, tivemos acesso e utilizaremos, como testemunhos
do período analisado referente à capital do Rio Grande do Sul, os periódicos A Democracia, A
24

Federação, A Imprensa, A Reforma, Gazeta da Tarde, Gazeta de Porto Alegre, Jornal do


Commercio, O Amolador, O Conservador e O Século. Essas fontes, inéditas na sua maioria,
foram confrontadas com a historiografia produzida acerca do esporte e do entretenimento na
cidade do Rio de Janeiro, no período em pauta.
Como forma de complementação e contextualização histórica, no item 1.6, utilizamos,
como fonte, o relato de viajantes estrangeiros que estiveram no Rio de Janeiro e em Porto
Alegre no século XIX. Os testemunhos desses desbravadores se tornam interessantes para a
compreensão da conjuntura que envolvia os esportes e os divertimentos nessa época.
Temos clareza sobre os limites dos periódicos que priorizamos utilizar como fonte de
pesquisa. Ao mesmo tempo, sabemos que nenhum trabalho histórico tem condições de dar
conta de toda uma complexidade intempestiva. Portanto, mesmo circunscrita como qualquer
outra fonte que pudesse ser utilizada, a imprensa representa uma leitura de uma época em
determinado local que tem suas peculiaridades e que, ricamente, contribui para a interpretação
de um processo a partir de um tipo de olhar e um cunho de discurso.
Como qualquer outro documento, cabe ao pesquisador lançar a sua visão crítica sobre
ele e, através da sua habilidade e compreensão contextual, tentar encaixar as peças e montar o
quebra-cabeça histórico. São os jornais, fontes privilegiadas, que contém informações e
sensibilidades sobre o cotidiano. Nesse sentido, concordamos com Luca (2011), quando
ressalta que a imprensa se valorizou enquanto fonte quando a própria história percebeu a sua
incapacidade de dar respostas globais e construir verdades. A pesquisa histórica passou a
apreciar e considerar novos documentos que não eram mais os detentores das respostas a
todas as perguntas, mas, sim, representantes de valiosas interpretações e representações de um
tempo. Nesse conjunto, a imprensa se encaixa exatamente, com suas opiniões, posições,
impressões, destaques e tudo o que faz dela uma riquíssima fonte de informações.
Justificamos este método, visto que existe uma extensa produção sobre os esportes na
capital fluminense, em que fontes primárias foram utilizadas como documentação,
diferentemente de Porto Alegre. Sobre a história do esporte na capital Sul Rio-Grandense, no
século XIX, ainda temos escasso material que, da mesma forma, apresenta várias incoerências
e lacunas com relação às suas fontes e metodologia. Consequentemente, se tornou necessária
uma investigação documental de fôlego no Rio Grande do Sul, para que pudéssemos ter
argumentos e comprovações consistentes ao compararmos as duas cidades. Com efeito, em
um trabalho destes, limitado ao tempo imposto pelo curso de doutorado, essa condição de
comparação entre fontes primárias (Porto Alegre) e historiográficas (Rio de Janeiro) se
legitima.
25

Para tanto, organizamos esta tese em três capítulos. Na parte inicial, contextualizamos,
histórica e comparativamente, o Rio de Janeiro e Porto Alegre no século XIX, aproximando a
conjuntura política, cultural e econômica do processo de desenvolvimento do campo
esportivo. Utilizamos, para isso, o modelo heurístico proposto por Victor Melo (2010c).
Também abordamos relatos de viajantes estrangeiros que, no período investigado, estiveram
tanto no sul quanto no sudeste brasileiro e registraram suas impressões sobre essas cidades e
destacaram as diversões e os esportes emergentes nesses territórios aflorados em um amplo
contexto. Ainda no primeiro capítulo, tratamos sobre práticas de divertimentos que, de acordo
com a nossa avaliação, contribuíram sobremaneira para o sucesso do esporte nessas cidades,
como os circos, as cavalhadas e a patinação.
O segundo capítulo está reservado para os esportes com animais, especificamente o
turf e as touradas. Analisamos a importância destas práticas para a popularização e o
desenvolvimento dos esportes e apontamos questões específicas da relação do homem com os
animais em dois contextos distintos, como o do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro. Nesta
etapa, as características locais foram destacadas, pois determinaram uma série de
peculiaridades na prática e apreensão dessas atividades e suas relações com as ideias de
modernidade.
O capítulo de número três trata dos esportes que tem, na sua essência, a força humana
como principal responsável pelo desempenho. Ao tratarmos do ciclismo e das regatas,
analisamos atividades em que o homem, seu esforço e sua habilidade eram os responsáveis
diretos pelos resultados. Conjugado com as tecnológicas bicicletas ou com a saudável água e
musculosos corpos, esses esportes colocaram o homem em destaque, conjuntamente com suas
novidades científicas.
Desta maneira, esperamos contribuir para a discussão acerca do surgimento e
desenvolvimento das práticas esportivas no Rio de Janeiro e em Porto Alegre, no século XIX.
Desejamos que esta tese seja, de alguma forma, fator de inquietação e determine, se não
muitas respostas, ao menos algumas novas perguntas e inquietações.
26

Capítulo 1

O princípio: as práticas de divertimento e a formação do campo esportivo

1.1 Formação e desenvolvimento do campo esportivo no Rio de Janeiro e em Porto


Alegre: o século XIX

O século XIX se mostra expressivo para o Brasil no sentido de sua formação enquanto
estado-nação e a composição da sua “personalidade” de país independente na América Latina
(CARVALHO, 2012). A partir de 1808, muitas transformações se tornaram marcantes na
história brasileira, que passou por uma reconfiguração em vários aspectos. Se foi nesse século
que o esporte formou o seu campo e se consolidou, não foi sem a influência de um cenário um
tanto controverso.
A transferência da coroa portuguesa para o Brasil, no ano de 1808, foi o início de um
novo processo, que teve, como corolário, modificações nos aspectos políticos e sociais. De
acordo com Alberto da Costa e Silva (2011, p. 25), nesse ano, “de um dia para outro, o Rio de
Janeiro transformou-se na capital portuguesa”. Buscando uma alternativa frente ao avanço das
tropas napoleônicas e a impossibilidade de cumprir as exigências francesas, como o bloqueio
continental que deveria fechar suas costas aos navios da Inglaterra, sua aliada histórica, a
corte portuguesa foi transferida para o Brasil. O país, em 1815, alcançou a condição de Reino
Unido a Portugal e Algarves. Lisboa passou a receber instruções e ordens do Rio de Janeiro, e
este a administrar todas as regiões do Brasil. (COSTA E SILVA, 2011)
Esse contexto político que, em 1822, foi determinante para a independência do Brasil,
também contribuiu para uma série de instabilidades políticas e revoltas de caráter nativista e
regionalista. Essa vulnerabilidade política também cooperou para o surgimento de inúmeras
insurreições no período regencial (1831-1840). (COSTA E SILVA, 2011)
José Murilo de Carvalho (2012) destaca que foi entre os anos de 1831 e 1889 que o
Brasil consolidou a sua independência. Foi nesse período que deu os primeiros passos na
industrialização e, embora muito lentamente, livrou-se do trabalho escravo, compensando-o
com a imigração de trabalhadores europeus. A abolição da escravidão, em 1888, que precedeu
a proclamação da república, em 1889, inaugurou um novo cenário no Brasil. Lilia Moritz
Schwarcz (2012) sublinha que o contexto, que então se abriu, era propício a todo tipo de
27

utopia e projeção: “a República surgiu alardeando promessas de igualdade e de cidadania –


uma modernidade que se impunha menos como opção e mais como etapa obrigatória e
incontornável”. (SCHWARCZ, 2012, p. 19)
Alguns fatores registraram sua marca perpétua na formação do país e na configuração
das práticas esportivas, mesmo que diretamente pudessem parecer fenômenos distintos, como
a substituição da mão-de-obra escrava pela assalariada europeia e a industrialização nacional,
ainda tímida no período oitocentista. Os estrangeiros trouxeram consigo, além do seu
conhecimento técnico e potencial produtivo, hábitos de uma Europa que já tinha, no esporte,
um comportamento consolidado. Schwarcz (2012) destaca que a imigração europeia do século
XIX mudaria as feições, os dialetos e a culinária, levando a mudanças aceleradas no
comportamento da população local, que passou a transitar pelas ruas da cidade: “a „boa
sociedade‟ descobriu novos hábitos sociais: os bailes, o turfe, o trottoir e as noitadas no
teatro”. (SCHWARCZ, 2012, p. 47)
Esporte, modernidade e saúde se adaptavam ao discurso e às práticas nacionais, onde
ideias progressistas se miscigenavam a costumes conservadores, em uma tradução inédita de
pensamentos que, no Brasil, assumiam um novo significado: “se, por um lado, os engenheiros
converteram-se em símbolos máximos de modernidade, de outro, práticas rituais legadas dos
tempos da escravidão insistiam em dividir os mesmos espaços dessa urbanidade recém
inaugurada” (SCHWARCZ, 2012, p. 22). Conjugado a inúmeras outras variáveis regionais, o
campo esportivo se configurou no Brasil, se adaptando a perfis de formação e
desenvolvimento singulares, em que estão inseridos o Rio de Janeiro e Porto Alegre.
A cidade do Rio de Janeiro, no contexto do Brasil do século XIX, merece destaque
especial. Em grande parte da sua existência, esta urbe foi a principal via de ligação entre o que
era a mais importante colônia portuguesa com sua metrópole europeia e demais territórios do
Velho Continente. Mesmo após a independência brasileira, continuou a ser um dos principais
pontos de intersecção com a Europa. Esses estreitos laços implicavam, também, em uma nova
assimilação e adaptação de hábitos “importados”, entre eles, os esportes. Antes do período
oitocentista, desde a chegada dos europeus a este continente, um certo “adestramento dos
civilizados” do velho mundo deveria ser sobreposto à “selvageria” americana. Os “bárbaros”
do novo continente deveriam adotar os hábitos superiores, os modos de se portar à mesa, de
vestir, de falar. Nesse caso, mesmo as práticas anteriores ao surgimento do esporte moderno já
preparavam o campo para o que mais tarde faria parte do processo civilizatório nacional (DEL
PRIORE, 2009c).
28

Desde o século XVIII, o Rio de Janeiro passou a ocupar a função de capital do Brasil,
o que favoreceu ainda mais o seu crescimento econômico, que também aconteceu devido a
sua privilegiada localização. No século seguinte, foi palco de uma série de transformações
políticas e sociais, como a já referida vinda da família real portuguesa (1808), a
independência (1822), a abolição da escravidão (1888) e a proclamação da República (1889).
Também, é nessa época que o campo esportivo começou a se formar e se consolidar no país.
Uma série de influências fez com que o esporte surgisse, crescesse e se desenvolvesse no
Brasil.
Mais ao sul do Brasil, o século XIX, em Porto Alegre, também foi referência para a
constituição e a consolidação dos esportes. A capital da capitania e mais tarde Província de
São Pedro do Rio Grande do Sul, nesse período, teve um destaque regional, se diferenciando
como a principal cidade do estado. Tímida, se comparada ao Rio de Janeiro que já era a urbe
mais importante do país.
Diversas peculiaridades permitiram que, a partir de uma série de variáveis, o esporte
ali fosse implantado. Para esse entendimento, é necessário compreender a formação desse
território, visto que as origens de Porto Alegre mesclam-se, e por óbvio fazem parte, do
próprio processo de formação histórica do Rio Grande do Sul.
A província, inicialmente, tinha uma posição secundária na economia nacional, tendo
o fornecimento de charque e muares à região das “Gerais” como função principal. Porto
Alegre galgou cada vez mais relevância no cenário nacional com a chegada dos primeiros
imigrantes europeus, que haveriam de guardar essa fronteira, assim como desenvolver esta
parte do Brasil. No século XVIII, destaca Sandra Pesavento, que:

o “Porto do Dornelles” recebeu novos moradores: os “Casais d´El Rei”, vindos de


Açores para ocupar o território das Missões, que pelo Tratado de Madri de 1750
passara a ser propriedade de Portugal. As guerras e os novos acertos diplomáticos
entre as coroas ibéricas, fazendo retornar as Missões à Espanha, não possibilitaram a
ocupação daquela região, de modo que os açorianos acabaram provisoriamente
“arranchados” à beira do Guaíba, na região que passou a ser conhecida como Porto
dos Casais. A área onde ficaram “arranchados” os colonos açorianos cresceu e se
tornou o embrião da vida urbana local, que se ligou, através de caminhos que
cortavam a península no sentido leste-oeste, à Aldeia de Gravataí e a Viamão. (1999,
p. 28)

Diferentemente do “Porto dos Casais”, o status que o Rio de Janeiro apresentava no


contexto nacional era um tanto destacado. Até a primeira metade do século XIX, a capital
fluminense era pouco parecida com as metrópoles europeias. Progressivamente, o período
29

oitocentista presenciava a materialização das ideias d´além mar de progresso e modernidade,


que buscavam construir uma “Paris-sur-mer na sua vertente tropical” (PESAVENTO, 2002, p.
161). A capital francesa vinha como o exemplo bem-sucedido das intervenções do Barão de
Haussmann na Paris que inspirava a principal cidade brasileira no seu ideal moderno:

Se o Rio não nascera de um “parto da inteligência” e se as preocupações de uma


“cidade ideal” não estava nas cogitações de Estácio de Sá e seus companheiros
fundadores no distante século XVI, com a transmigração da Corte, no início do
século XIX, a situação mudou. De capital do Reino Unido à capital do Império
Brasileiro, o Rio colonial só teve agravados os seus problemas, como maior centro
urbano do país, maior porto, maior núcleo de escoamento da produção cafeeira,
maior mercado de escravos do país.
Tal situação cêntrica fez do Rio, ao longo do século XIX, a porta de entrada de toda
uma ligação com a Europa, estabelecendo uma linha de continuidade entre as ideias
sobre a cidade do “Século das Luzes” até as concepções de renovação urbana da
época de Haussmann. A França, no caso, se apresentava como interlocutor
privilegiado. (PESAVENTO, 2002, p. 166)

O Rio de Janeiro para o Brasil estava posto como a representação mais próxima da
Europa que, com suas metrópoles, como Londres e Paris, emanavam os princípios da
modernidade. É o que a historiadora Sandra Pesavento chamou de “uma cidade no espelho”
(2002), fazendo referência às ideias consideradas “superiores”, que aportavam no Brasil
através do velho mundo.
Outra contribuição destacável na capital nacional foi a britânica. A Inglaterra, que
sempre foi um grande parceiro do Brasil, teve uma presença muito forte, principalmente na
ordem comercial, financeira e tecnológica (MELO, 2001). É da Inglaterra, com suas
experiências em clubs, que chegavam muitas das propostas de práticas esportivas que, com o
passar do tempo, ganharam a predileção das diversas camadas sociais do Rio de Janeiro.
Esses hábitos se difundiram, originados, primeiramente, de práticas aristocráticas, mas que,
aos poucos, conquistaram o gosto popular. Mesmo antes do século XIX já havia ações que
favoreceram o desenvolvimento esportivo no Rio de Janeiro, destacados por Melo:

(...) os momentos iniciais da prática esportiva devem-se aos ingleses, que no Rio de
Janeiro (entre outras cidades brasileiras) se estabeleceram por razões de comércio e
por posições políticas junto à Corte portuguesa (desde 1808) ou junto ao imperador
(a partir de 1822). A organização de eventos “esportivos” (nesse momento o campo
ainda não estava efetivamente delineado) era uma das formas de recrear típicas
atividades britânicas de diversão, de gerar mecanismos de auto-identificação, de
minimizar as dificuldades de viver em uma cidade que parecia bastante provinciana
para quem vinha de um país em grande efervescência. (2010c, p. 50-1)

Gilberto Freyre (2000), em Ingleses no Brasil, apresenta aspectos interessantes a


serem considerados. Para o intelectual, os britânicos tiveram uma parcela relevante na
30

disseminação de hábitos modernos e burgueses, que contrastavam com a tropicalidade


nacional. Inúmeras práticas são numeradas pelo pernambucano, que passaram a fazer parte
dos hábitos brasileiros cotidianos e alguns a compor o campo esportivo nacional, como o rifle
esportivo, o tennis, o turf, o termo sport, e, evidentemente, o próprio conceito moderno de
esporte. Somam-se a isso inúmeros vocábulos em inglês, que são assimilados no Brasil como
buffet, iate, club, match, entre outros. Acrescentamos, a esse “pacote”, as ideias liberais, além
do consumismo, da moda e de outras variáveis que compõe a sociedade burguesa do século
XIX e que ajudaram a formar o Brasil do período.
Juntamente com essas “novas” ideias, o esporte formava o seu campo e, aos poucos,
era introduzido como referência nesse conjunto de pensamentos. O que aconteceu foi uma
tentativa de reprodução da “evolução” europeia, um espelhamento no exemplo a ser seguido
que já era discutido entre uma elite intelectual e econômica da época. Esses princípios se
cruzavam com as ascendentes práticas esportivas em voga. O esporte também era sinônimo de
progresso e evolução:

Os espaços “culturais” da vida elegante, nos quais se cruzavam as conversas da vida


mundana carioca com ditos e espírito e comentários sobre obras, autores e “modos”
e “modas” de pensar; eram, principalmente, as livrarias, os cafés e as confeitarias. E,
sobretudo, havia ainda a Rua do Ouvidor, preexistente à reforma urbana do Rio,
tradicional ponto de encontro onde a elite se reunia para discutir, observar o
movimento e, fundamentalmente, para ser vista. A socialização mais ampla seria
dada pela frequência à Ópera, ao Joquey Club e aos clubes sociais e “salões”, cópia
nacional dos salões literários franceses, assim como a assistência a conferências,
outra mania importada e que se tornara “coqueluche” no Rio da Belle Époque.
(PESAVENTO, 2002, p. 179 – grifo meu)

Esse desenvolvimento cultural, intelectual e, por consequência, das ideias que faziam
com que as diversões e o campo esportivo ganhassem cada vez mais espaço estava ligado a
um grande contexto de ampliação de instituições, como as faculdades de direito e medicina, e
o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Estas entidades estavam encarregadas, entre
outros propósitos, de pensar o Brasil. A produção científica europeia aportava no país e
ganhava cada vez mais apreciadores, conquistando, dentro desse cenário, cada vez mais
espaços de discussões. (SCHWARCZ, 1993)
Contribuindo nesse sentido, foi uma prática comum entre a elite nacional, enviarem
seus filhos para estudar nas universidades europeias. Os estudantes brasileiros, que
retornavam do velho continente embebidos de novas ideias, traziam para o Brasil os hábitos
daqueles países, entre eles o gosto pelos esportes. Da mesma forma, a influência dos
imigrantes, que chegavam ao país por diversos motivos, seja como comerciantes,
31

pesquisadores ou como uma mão-de-obra assalariada num processo de abolição da


escravidão, também contribuiu para uma mudança da postura nacional frente às novidades
estrangeiras. Dessa forma, o século XIX foi o momento de convergência de um conjunto de
esforços de modernização nacional, que tinha o Rio de Janeiro como vanguarda, e, neste
campo, estava incluído o esporte.
Porto Alegre, no século XIX, possuía, ainda, uma postura um tanto provinciana que
iniciava uma série de mudanças nas práticas sociais, que já eram realidade na capital nacional.
A imagem de uma cidade tranquila iria ser, ao longo do século XIX, modificada por novos
moradores urbanos. Junto a toda uma complexa remodelação econômica, social e política,
brotaria uma outra cidade, norteada por valores burgueses e perpassada pela ideia de
progresso. O resultado seria o consolidar-se de uma nova identidade urbana, ao longo de um
período de cerca de setenta anos, quando Porto Alegre transitava, tal como o país, nos rumos
da lenta internacionalização do capitalismo. (PESAVENTO, 1999)
Paralelamente ao desenvolvimento comercial, surgiria, nas áreas limítrofes, os
primeiros arraiais, que eram locais onde se erguiam olarias, moinhos e matadouros.
Lavadeiras, doceiras e negros alforriados, que se dedicavam a toda sorte de pequenos serviços
urbanos, davam o contorno de um mercado informal de trabalho em formação. Do traçado
dessas ruas e becos, resultam, ainda hoje, muitos dos trajetos das ruas centrais da cidade; dos
arraiais tem-se a formação dos bairros atuais de Porto Alegre, inflados por diversões, como
destaca Pesavento (1999, p. 29-30): “neste contexto, os jogos de entrudo, as festas do Divino,
as corridas de cancha reta, as sessões de batuque e os „cocumbis‟ traçavam o panorama das
vivências populares da Porto Alegre de então”.
Nesse emaranhado de variáveis sociais, Porto Alegre convivia com clubes e
associações alemãs, negros escravos e livres, tropeiros, ginetes, e toda uma variedade étnica e
cultural que, ao mesmo tempo, aproximava a capital do Rio Grande do Sul da Europa, o
campo da cidade e o conservador do progressista. Toda essa miscelânea tornava a capital
sulina um caso específico no trato da modernidade com os esportes.
Entre Porto Alegre e Rio de Janeiro, uma série de aproximações fez com que os
processos de construção e consolidação das práticas esportivas se efetivassem. Da mesma
forma, as cidades capitais regionais e do país, no caso do Rio, viviam momentos distintos no
seu desenvolvimento. Em meio a essa diferenciação de status, o processo de constituição do
campo esportivo, por vezes, também foi distinto, respeitando o momento e as características
próprias a cada local, seja no sul ou no sudeste brasileiro.
32

1.2 Os diferentes momentos da formação do campo esportivo

Para uma melhor compreensão do processo de formação e consolidação do campo


esportivo em Porto Alegre e no Rio de Janeiro, consideramos de fundamental importância, a
adoção de um modelo heurístico elaborado pelo prof. Victor Andrade de Melo. Embora
possamos perceber que exista uma série de divergências cronológicas em relação a uma
periodização na estruturação dos esportes nas duas cidades, esse modelo de análise permite
que possamos comparar, de uma forma mais objetiva, esse mesmo desenvolvimento no Rio
Grande do Sul e no Rio de Janeiro, tendo, para isso, um parâmetro bem definido.
Dessa forma, é compreensível que duas cidades, com características um tanto
diferenciadas, apresentassem, também, maneiras e períodos divergentes. Mas são, justamente,
essas especificidades que fazem parte dos objetivos desta pesquisa, assim como as
convergências que existiam entre os dois locais investigados. Portanto, através de um modelo
homogêneo, buscamos a heterogeneidade do processo que estruturou os esportes no sul e no
sudeste do Brasil. É aquilo que Melo destaca, ao apresentar sua proposta:

Sua estruturação (esporte) seguiu um conjunto aproximado de transformações, não


lineares (não devem ser vistas como uma progressão matemática), não excludentes
(isto é, os momentos são cumulativos e mesmo se misturam) e que devem sempre
ser prospectados tendo em conta as diversas realidades em que se inserem (isso é,
ainda que haja um vetor principal de influência, em cada espaço/momento o esporte
também desenvolveu peculiaridades; essa talvez seja uma das chaves para entender a
sua enorme capacidade de difusão e popularidade: poucos produtos são tão globais e
locais simultaneamente). (2010c, p. 97)

A nossa intenção, ao apresentar um contexto comparado das duas cidades nos


diferentes períodos da formação e consolidação do campo esportivo, é estabelecer uma ideia
conjuntural do processo que estava ocorrendo e que, devido a um grande número de variáveis,
tinha características específicas em cada uma dessas cidades e regiões. Se não tínhamos um
desenvolvimento uniforme em Porto Alegre e Rio de Janeiro, essa esquematização tem,
justamente, a função de informar acerca das diferentes realidades em períodos próximos.
Adotamos esse modelo para que possamos ter uma melhor visualização, investigação e
comparação dos processos de formação e consolidação do campo esportivo, e para que
possamos ter uma análise mais global do desenvolvimento dos esportes no Brasil, não
deixando de lado as especificidades locais.
33

1.3 Primeiro momento da formação do campo esportivo (primeira metade do século


XIX)

A primeira metade do século XIX nos parece o início de um processo de formação de


uma nação, com sua própria identidade de país independente a partir de 1822 e que, portanto,
deveria se inserir em um processo de desenvolvimento e modernização. Afinal, o Brasil já não
era mais colônia. Assim como o seu status, que se tornou destacado ao se firmar enquanto
sede da corte portuguesa e do reino unido, o país também se remodelou com a sua
independência frente à antiga metrópole ibérica.
Em razão disso, houve a necessidade do desencadeamento de uma transformação
nacional, que incluía, entre outros fatores, a formação de uma elite pensante e a inserção do
país em um processo de modernização, o que significava modificações nas urbes em
desenvolvimento, além da adoção de ações ditas “superiores” vindas d´além mar. A França se
tornou o modelo, mas influências viriam de todos os lados e se moldariam ao que já existia
aqui no hemisfério sul. Alencastro e Renaux (1997, p. 292-3) sublinham que, forjadas na
Colônia, as práticas e concepções de vida privada, de sociabilidade, de comunidade de
costumes e de crenças modelavam o que eram brasileiros e impunham-se àqueles que,
desembarcados nos portos do novo Império, aqui chegavam. Os hábitos nacionais seriam,
portanto, o resultado de um complexo processo.
O hibridismo entre o que o país já possuía associado ao que chegava nos portos e a
vontade da corte de modernizar o Brasil atribuíam uma nova postura à recém independente
nação. É dessa forma que as práticas de divertimento e os esportes começaram a ganhar
espaço e se desenvolver no início do século XIX. Se nos primeiros anos oitocentistas ainda
não tínhamos o esporte estabelecido enquanto prática moderna no Brasil, possuíamos outras
modalidades de entretenimentos com características próximas, muitas vezes, alvo de
fiscalização e repressão, como bem aponta Mary Del Priore:

Os jogos estavam na moda: o bilhar desde o século XVI. Os dados - que tiveram
início com gregos e romanos – a partir de então se disseminaram. Produzidos na
Europa e exportados para as Américas, os baralhos, com vivas pinturas, se tornaram
uma febre. Presentes nas casas de família ou em espaços público, não poucas vezes
suscitavam brigas, “indignações, execrações, perjúrios e escândalo do povo”. Por
isso mesmo as chamadas “tabolagens” eram proibidas a eclesiásticos ou seculares,
sob pena de pagamento do mil réis. Em domingos e dias de festa, só eram falcutadas
depois da missa ou dos demais oficios para evitar tensões no dia santo. Cabia às
justiças seculares perseguir as “casas de jogos públicas”, informam-nos as
Constituições do Arcebispado da Bahia, leis aplicadas na Colônia desde 1707.
(2010, p. 22)
34

Dessa forma, a capital nacional, o Rio de Janeiro, foi o local onde havia maior
circulação de estrangeiros no Brasil. Eles buscavam, na cidade mais importante do país,
ampliar seus negócios, desenvolver suas pesquisas, conhecer os trópicos, entre outros. Mesmo
que até a primeira metade do século XIX o Rio fosse pouco populoso e estruturado a partir de
uma lógica rural, ele já convergia atenções, sendo a mais destacada urbe do país.
Essas características se converteram a partir do momento em que a cidade assumiu o
posto de sede da corte. Surgiu a necessidade de uma nova estrutura. Foi, portanto, o Rio de
Janeiro o local onde foi percebida, com maior ênfase, a incorporação dos ideais modernos,
visto sua condição privilegiada. Victor Melo (2009b) sublinha que não é equivocado afirmar
que foi mesmo no Rio de Janeiro do século XIX que se estruturou, pioneiramente, o campo
esportivo brasileiro.
Já o sul do Brasil possuiu um processo de desenvolvimento diferenciado nesse
período. O Rio Grande do Sul fazia parte da periferia econômica nacional. Responsável,
principalmente, pelo fornecimento de gêneros primários ao centro do país, a sua função de
guardião da fronteira nacional era mais valorizada do que propriamente sua relevância
econômica. No século XVIII, as primeiras levas de imigrantes açorianos se instalaram em
Porto Alegre. Mas, foi somente em 1824 que os primordiais imigrantes germânicos chegaram
ao Rio Grande do Sul, com a intenção de promover a colonização da província e auxiliar na
agricultura.
De acordo com Oliveira (2008), a fundação da Colônia de São Leopoldo (que
atualmente se localiza na região metropolitana de Porto Alegre) em 1824, é considerada como
o marco inaugural da colonização alemã no Brasil, em razão de ser o primeiro
empreendimento de notável sucesso, mesmo que outras tentativas já tivessem ocorrido desde
o início do século XIX. Até o ano de 1830, 5.350 imigrantes alemães já se encontravam no
Rio Grande do Sul (OLIVEIRA, 2008, p. 20).
Esses estrangeiros modificariam parte da estrutura agrária local, com a pequena
propriedade rural de mão-de-obra familiar, contrastando com as grandes estâncias de criação
de gado e de mão-de-obra escrava da fronteira com a América Espanhola. Os alemães, além
de alterarem parte da lógica produtiva rural local, também revolucionaram o cenário urbano
de muitas cidades, sendo uma delas Porto Alegre. Esses europeus contribuíram muito com
suas especializações de ferreiros, marceneiros, sapateiros, mas também, com seus hábitos que
beneficiaram o surgimento de práticas de divertimento e esportes na capital do Rio Grande do
Sul, como salientam Alencastro e Renaux:
35

Mas foi o próprio sistema comunitário formado pelos pequenos núcleos auto-
suficientes que se encarregou da estrutura básica nas áreas de colonização. O modelo
de convivência levou ao surgimento, entre os imigrantes, de uma série de
associações cujo objetivo era a manutenção de seus costumes. As primeiras
associações foram as das escolas e igrejas, destacando-se também as destinadas a
promover o convívio social. Havia sociedades de ginástica, de acordo com uma
concepção saudável de vida. Havia também sociedades de fumantes onde os homens
se reuniam para fumar cigarros, charutos e cachimbos. Os clubes de caça e tiro
obedeciam à mesma finalidade de lazer e de convívio. Sua origem remontava às
corporações de jovens na Alemanha que, em tempos de perigo, se reuniam para a
defesa de burgos e castelos e, em tempos de paz, participavam dos festivais de
colheita na primavera. Aí, ao lado das competições de tiro, realizavam-se jogos,
danças, cantos, etc., cujo propósito era exercitar o corpo, promover a diversão e
estimular a camaradagem. (1997, p. 326)

Da mesma forma, esses imigrantes e seus descendentes assimilavam os hábitos da


população regional, assim como a intimidade com os animais. O cavalgar, que para os recém
chegados do Velho Mundo era uma prática aristocrática, ganhava, no sul do Brasil, ares
populares, visto a proximidade dos moradores locais com os animais, especialmente os
equinos. No Rio Grande do Sul, “viam a população local como portadora de uma cultura
urbana, mas também pastoril e, como tal, detentora de um status social. É que o cavaleiro „de
traje distinto e bravura‟, facilmente se identificava com a classe senhorial europeia”
(ALENCASTRO; RENAUX, 1997, p. 326).
Nessa época no Brasil, mesmo com um campo esportivo ainda muito tímido em
formação, já existia uma estrutura de espetáculos de diversão que percorria as principais
cidades do país e nações vizinhas. É o que depõe Ermínia Silva (2010), no seu trabalho sobre
os circos no Rio de Janeiro no século XIX. A pesquisadora aponta que, até o final do ano de
1810, há poucas fontes documentais, como registros cartoriais, periódicos, entre outros, no
Brasil, que atestem a presença de artistas circenses. Contudo, Silva (2010) destaca que, ao
entrar em contato com as investigações de pesquisadores latino americanos, em particular os
argentinos, se encontra muitas informações de grupos de artistas percorrendo todo o
continente. Rio de Janeiro e Buenos Aires eram as principais cidades do período a receber
constantemente trupes estrangeiras. Entretanto, cidades como Porto Alegre, São Paulo,
Montevidéu, Assunção e Lima também faziam parte da rota de artistas, de um modo geral, e
de circences, em particular. Frequentemente, esses espetáculos estavam associados ao lado
das habituais barracas de comidas, bebidas e bailes das festas religiosas e patrióticas.
Procuravam estabelecer seus roteiros com as festas, como a do Divino, na capital do Império
(SILVA, 2010, p. 128).
No Rio de Janeiro da primeira metade do século XIX, temos uma prática que se
consolidou muito antes de Porto Alegre e que fez parte do processo de construção do campo
36

esportivo nessas duas cidades. Na capital da Coroa, temos notícias de touradas realizadas,
pelo menos desde 1808, em comemoração à chegada da família real à cidade. Essas
festividades se repetiram várias vezes, como, em 1817, no casamento de D. Pedro com D.
Leopoldina ou, ainda, na aclamação de D. João VI, em fevereiro de 1818. Essas atividades,
que atraíam cada vez mais público, passaram, a partir de 1820, a ser mais organizadas e
produzidas por empresários que promoviam espetáculos com toureiros famosos e bravos
touros (MELO, 2009b).
Já em Porto Alegre, uma cidade bem mais ruralizada e de menor expressão econômica
e política no Brasil, temos o anúncio da primeira corrida de touros no jornal A Reforma, de 17
de janeiro de 1875, com a promessa de “diversão inteiramente nova na cidade”. Este informe
ocorreu mais de 60 anos depois da capital do país.
A prática das corridas de touros teve uma significativa importância no Rio de Janeiro,
com o seu circo armado no local que hoje se chama Campo de Santana. No entanto, Mary Del
Priore enfatiza as poucas opções de divertimento naquele período. Segundo a pesquisadora,
por volta de 1840, cronistas locais ainda assinalavam os escassos divertimentos que se
limitavam, no Rio, ao Teatro São João e alguns teatrinhos, piqueniques e soirées em que se
bailava a gavota, a mazurca e as quadrilhas francesas. Música e dança servia para traduzir,
sutilmente, o que não podia ser vivido de maneira mais direta (DEL PRIORE, 2010, p. 31).
É importante indicar que uma prática que teve um relativo sucesso no Rio de Janeiro
do início do século XIX foi a patinação. Era uma diversão que existia na capital desde 1820 e
que, segundo Victor Melo (2001, p. 27), “era curioso observar que não era no princípio uma
atividade eminentemente competitiva, mas sim basicamente um espaço onde a população
podia alugar patins, encontrar uma estrutura física adequada, além de dispor de instrutores
dispostos a ensinar os „truques‟ da patinação”.
O Rio de Janeiro, mais uma vez, demonstrou o seu ineditismo no Brasil, já no final da
primeira metade do século XIX, com a inauguração do esporte moderno no país. Melo
(2010c) defende que foi com o turfe que, no Brasil, surgiu o esporte de acordo com os moldes
modernos europeus. Em 1847, foi publicado um anúncio no Jornal do Commercio (6/3/1847)
que, futuramente, daria origem ao primeiro clube do turfe brasileiro, de acordo com o padrão
dos demais clubes existentes na Europa. De fato, em 1849 surgiu o Club de Corridas, que foi
a primeira associação estritamente esportiva na cidade (MELO, 2009b). Da mesma forma
como nas touradas, Porto Alegre teve a sua inclusão nos esportes modernos anos após a
capital do Brasil. Tivemos acesso à primeira notícia de corrida em um hipódromo referente a
37

uma disputa do dia 11 de agosto do ano de 1872, no Prado Jacome (A REFORMA,


30/07/1872).
Nesse contexto de instauração do esporte moderno no Brasil, o século XIX foi um
período de transição entre um país colonial e escravista para uma nação independente e
moderna, aos moldes nacionais. Empreendimento esse, ainda um projeto a se realizar. Na
primeira metade do século XIX, enquanto perdurava o comércio internacional de escravos,
tanto a política agrária brasileira como seu corolário - a política de imigração - permaneceram
ilusórios. Na verdade, os fazendeiros continuavam a comprometer o país nos seus próprios
ideais: a introdução maciça de africanos expandia as fronteiras e reforçava o escravismo, que
seria combatido com a independência e, mais tarde, a proclamação da república. Dessa forma,
o esporte passou a formar definitivamente o seu campo no Brasil, a partir da segunda metade
do século XIX. Todas essas mudanças políticas e econômicas trouxeram, a reboque, novos
hábitos e pensamentos, principalmente a partir de 1850, quando o contrabando negreiro foi
definitivamente suprimido e a substituição da mão-de-obra escrava, pela livre europeia, se
tornou uma realidade (ALENCASTRO; RENAUX, 1997, p. 293).
O Brasil, na busca de uma identidade própria, esforçou-se para se moldar a valores
importados, tanto pelos seus intelectuais nacionais quanto pelos seus imigrantes, que
formaram a nação. Essas características, em diferentes tempos, influenciaram as práticas
esportivas que começaram a se desenvolver, primeiramente, no Rio de Janeiro e, após, em
Porto Alegre.

1.4 Segundo momento da formação do campo esportivo (terceiro quartel do século XIX)

O ano de 1850 inaugurou um período muito significativo para a formação da nação


brasileira e a sua inserção em um panorama de país moderno. A relevância da lei Eusébio de
Queirós, de quatro de setembro, está relacionada a uma série de desdobramentos que
extravasaram o seu objetivo primário, que foi a proibição do tráfico interatlântico de escravos.
As suas consequências foram muito além da configuração de um novo padrão na mão-de-obra
brasileira, agora livre, que teria que ser importada. Praticamente, era a chance, de acordo com
parte da intelectualidade da época, de modernizar o Brasil e inseri-lo em um novo patamar de
país civilizado e desenvolvido. Essa posição, no entanto, não era unanimidade entre as elites
nacionais, onde estava em pauta até mesmo a conservação da unidade do país. Nesse caso, a
38

manutenção da escravidão seria fundamental (CARVALHO, 2012). Novamente, o Brasil


estava colocado em um impasse entre o moderno e o tradicional.
O país, até então predominantemente rural e aristocrático, via que esse momento
proporcionara uma boa oportunidade de mudança. Alencastro e Renaux (1997) destacam que,
para os altos funcionários imperiais e a intelectualidade nacional, o fim do contrabando
negreiro abria a oportunidade tão esperada de “civilizar” o universo rural e, mais ainda, o
conjunto da sociedade, reequilibrando o povoamento do território em favor da população
branca. No horizonte da questão imigratória, os debates definiam uma visão de
contemporaneidade oitocentista brasileira, da evolução das sociedades modernas e dos modos
de vida predominantes no país. Numa nação, envolvida pelas oligarquias e desorganizada pela
violência social e a heterogeneidade cultural que resultavam das formas de trabalho
compulsório dominantes na economia, a “civilização” da sociedade aparecia como um dos
objetivos essenciais do Estado.
Dessa forma, o Brasil vivia um período de mutação entre o novo perfil a se definir,
urbano e republicano, e uma conservadora aristocracia rural que se refletia, inclusive, na
relação da sociedade com os esportes, como o turfe. Esta atividade estava,
concomitantemente, representando aquilo que, por uma parte da sociedade, deveria ser
superado e, ao mesmo tempo, era uma prática avançada, moderna e civilizadora:

Podemos considerar as décadas de 1850 e 1860 como o período embrionário do


turfe. Foi um momento marcado pela indefinição dos caminhos da modalidade, algo
relacionado às próprias peculiaridades de uma sociedade que se abria para uma
maior vivência pública, mas que ainda mantinha antigos padrões familiares que
valorizavam mais as experiências privadas. A partir da década de 1870, novos
clubes são criados e se consolidam. (MELO, 2010d, p. 56)

Vêm à tona as divergências sobre os rumos passados e futuros do destino brasileiro, da


visão do cotidiano nacional, da vida pública e privada de uns e de outros, da casa-grande e do
sobrado, do campo e da cidade. Desta forma, o esporte “civilizador”, “evoluído” e moderno,
que cada vez mais conquistava espaço e ganhava admiradores, também teve a sua função
social no Brasil da segunda metade do século XIX. Como consequências desses novos
pensamentos, estão a saúde, higiene, moralidade e as ideias de modernidade, interpretadas de
muitas maneiras.
Assim como o esporte no terceiro quartel do século XIX se colocava cada vez mais
como um instrumento higienizador (no sentido corporal e moral), outras práticas passaram a
ser combatidas com mais empenho, como foi o caso dos jogos de azar. Juliana Souza (2010)
39

salienta que estas disputas eram praticadas nas residências, nas ruas, hotéis, botequins e casas
comerciais. O jogo era apreciado por escravos, homens pobres livres e pela elite. Era um
divertimento comum, difícil de ser circunscrito a um espaço específico, assim como parece
inadequado atribuir, a determinado segmento econômico ou social, um pendor especial para
esse hábito.
Englobado num contexto de desenvolvimento nacional, o que justificava a proibição
dos jogos de dados e cartas, na prática, os alvos primordiais da repressão empreendida pelas
autoridades públicas, era o vínculo frequente dessa atividade com as apostas em dinheiro.
Essa forma de divertimento era vista com muita desconfiança, pois tenderia a levar os
indivíduos à degradação física, financeira e familiar, em decorrência das paixões e comoções
que provocava ou por conta do vício que incitava. Identificado como um hábito pernicioso ao
meio social, o jogo de azar contrariava as noções de moral e bons costumes pretendidas pela
“boa sociedade” fluminense. (SOUZA, 2010)
Causa estranheza que, ao mesmo tempo em que essas práticas eram combatidas de
forma efusiva, as apostas do turf eram comuns e o esporte galgava cada vez mais relevância.
Essa aparente incoerência pode demonstrar a relação que a modalidade assumia com uma
modernidade, organização e civilidade. Às apostas, cabia um status diferenciado: eram
racionais, baseadas em resultados anteriores, pensadas e, portanto, não eram considerados
jogos de azar. Podiam ser concebidas, também, como uma importante fonte de arrecadação de
verbas para a manutenção dos prados e do nobre esporte. Para além das disputas, os
hipódromos sustentavam o discurso de que também eram locais para o desenvolvimento da
raça equina, tão útil ao Brasil.
Nesse contexto de modernização do país, percebemos diferentes níveis de apropriação
e tradução desse paradigma. Entre os anos de 1850 e 1875, já tínhamos práticas de esportes
modernos constituídos tanto no Rio de Janeiro quanto em Porto Alegre. Mesmo que
existissem ações nas quais o corpo humano não fosse o principal ator, como o turfe e jogos de
azar sendo combatidos em nome da moralidade, uma nova variável nasceu nesse momento.
Foi nessa época que surgiram inéditas percepções em relação ao corpo, que passaram a
influenciar as práticas esportivas. O corpo humano passou a ser o elemento central das
disputas e, desta forma, atividades que sintonizavam suas ações com a saúde e a higiene
ganharam cada vez mais espaço, como foi o caso do remo, da natação e do atletismo (MELO,
2010c).
A capital do império parecia ser a porta de entrada para as ideias que influenciaram
boa parte do Brasil. O Rio de Janeiro era o principal receptor e, ao mesmo tempo, emanador
40

das ideias que estavam associadas à modernidade. Esses pensamentos, que chegavam ao país
pelos seus portos, como a higiene, estavam intimamente ligados ao desenvolvimento do
campo esportivo nacional e, também, ao combate de outras práticas moralmente condenadas.
Com o objetivo de melhor enquadrar a capital brasileira a esse novo arquétipo de
desenvolvimento, que envolvia práticas de saúde moralmente aceitas, a municipalidade
passou a investir crescentemente nos serviços ligados à limpeza e à saúde. Mobilizaram-se
esforços de médicos e engenheiros, que paulatinamente passaram a ocupar função de destaque
na sociedade. O espaço urbano, lentamente, se modificou e foram implantadas medidas para
tornar a cidade “mais habitável”, aumentando as preocupações com a água encanada e com as
alternativas de distribuí-la, considerada fundamental para evitar as epidemias: os “poderes” da
água passaram a ser ressaltados. Nesse contexto, os banhos de mar passaram a ser sugeridos
como prática terapêutica. Já em 1850, a Câmara do Rio de Janeiro lançou um edital com uma
série de conselhos para evitar as doenças, como, entre os quais, fazer uso repetido dos banhos.
O mar não era encarado como alternativa de lazer, mas como uma solução para problemas de
saúde. (MELO, 2009b, p. 53)
Concomitantemente à valorização da água e da orla, a elite econômica da capital
fluminense iniciou uma mudança de perfil. Um novo setor com características urbanas e
formado por pequenos industriais, comerciantes e intelectuais de origem nacional assumiu
posição de destaque e passou até mesmo a questionar o próprio ethos da elite agrícola
nacional e carioca. Essa nova classe burguesa inverteu o eixo de desenvolvimento da cidade e
avançou rumo à zona sul, rumo às praias, inversamente ao que acontecia, que era a ocupação
da zona norte. A procura, nessa segunda metade do século XIX, era por locais mais
“arejados” e mais “agradáveis”, salubres, enfim, próximos às medicinais águas. (MELO,
2010b, p. 25)
No entanto, este contexto também facilitou o desenvolvimento de outro esporte que
teve uma importância fundamental no desenvolvimento do campo esportivo nacional e que
tinha, na água, a sua área de atuação. O remo se estruturou, a partir do final da década de
1860, enquanto divertimento e prática saudável e, mais no final do período oitocentista,
através dos clubes de regata, definitivamente se consolidou. (MELO, 2010b)
Consigo, as regatas introduziram um novo perfil estético do esportista, no qual o corpo
musculoso, proveniente da atividade física, se tornou sinônimo de saúde. Enfim, tendo o
remador como um dos símbolos, mesmo que ainda não consolidado, no terceiro quartel do
século XIX, o padrão de estética corporal valorizado/aceito começava a modificar-se
41

substancialmente. Tal esporte, cada vez mais, encontrava possibilidades para se desenvolver
na cidade do Rio de Janeiro. (MELO, 2001)
Ao sul do Brasil, a chegada de médicos europeus que, juntamente com demais
imigrantes, desembarcavam em grande quantidade no Rio Grande do Sul, fez com que se
valorizassem os aspectos nacionais e regionais e se desenvolvesse estudos sobre doenças nos
trópicos e sua prevenção. Dessa forma, Joana Schossler (2013) sublinha que os banhos
terapêuticos, nas águas marinhas do Rio Grande do Sul, já eram procurados por alguns
curistas. Quem recomendava as imersões eram médicos de origem europeia que imigraram
para o Brasil ao longo do século XIX, e por alguns brasileiros que estudaram em
universidades do velho continente ou que conheciam seus balneários e estações de banho. Da
mesma forma como acontecera no Rio de Janeiro, a água no sul do Brasil, também passou a
ser sinônimo de saúde.
Por outro lado, a capital do Rio Grande do Sul teve um perfil diferenciado de
formação do campo esportivo nesse período em relação à capital fluminense. Porto Alegre foi
influenciada fortemente pelas características de sua estrutura étnica, notadamente a alemã, que
consigo apresentou sua aptidão para a ginástica, principalmente a partir de 1867, com a
fundação da Sociedade Ginástica Porto Alegre (Turnerbund), que foi fundamental para o
desenvolvimento de uma série de práticas corporais na cidade. O primeiro clube esportivo da
capital austral abrigava não apenas a ginástica, mas outras atividades, como o tiro ao alvo, e
esgrima (1899), o bolão (1901), o futebol (1908), o punhobol (1911), o atletismo (1913), o
tênis (1914) e, mais tarde, outros esporte coletivos, como o voleibol (1926) e o basquetebol
(1926). A Turnerbund foi uma referência para as outras sociedades de ginástica fundadas nas
cidades do Rio Grande do Sul, cuja presença da comunidade alemã era expressiva. Até o fim
do século XIX, foram criadas aproximadamente 15 sociedades de ginástica no Rio Grande do
Sul, incluindo-se a Turnerbund. (MAZO, 2003)
O desenvolvimento esportivo sulino, no terceiro quartel do século XIX, vivia uma
realidade bem mais tímida do que era presenciado no Rio de Janeiro. Além da inauguração da
Sociedade Ginástica Porto Alegre – SOGIPA, também teve o início do funcionamento da
Gessenchalft (atual Associação Leopoldina Juvenil), em 1863, que inicialmente se dedicou a
promover bailes, jantares e demais festas para a comunidade teuto-brasileira, somente
agregando esportes, como o bolão, às suas atividades posteriormente a Turnerbund.
(GOELLNER; MAZO, 2010)
Em Porto Alegre inaugurou, definitivamente, ao final desse período, no ano de 1872, o
primeiro hipódromo, que trataremos de maneira mais enfática no próximo ponto. O Prado
42

Jacome, surgiu no Campo do Bom Fim, estreando o esporte moderno na capital do Rio
Grande do Sul e colocando a cidade em um patamar considerado muito mais civilizado e
desenvolvido, agora com práticas dos “superiores” esportes.

1.5 Terceiro momento da formação do campo esportivo (último quartel do século XIX)

O terceiro momento da formação do campo esportivo no Rio de Janeiro e em Porto


Alegre é a fase final de análise desta tese, que tem como escopo o século XIX. O quarto ponto
do modelo heurístico, que se refere à transição entre os séculos XIX e XX, não será utilizado
neste momento, já que nossa pesquisa não pretende se alongar até esse período.
Para compreendermos o contexto dessas duas cidades nesse terceiro momento, é
importante perceber que os últimos 15 anos do século estudado foram marcados por um novo
ambiente sociocultural, caracterizado, mais fortemente, pelas ideias de consumo e espetáculo.
Nesse período, houve destaque do desenvolvimento tecnológico e a valorização do progresso
e da velocidade que se uniram ao esporte. São exemplos desse momento: o ciclismo e,
futuramente, o automobilismo e a aviação. Dessa forma, as novas tecnologias ampliaram a
estruturação e o alcance da cultura de massa, marcaram a nova excitabilidade pública e
geraram novos comportamentos. (MELO, 2010c)
O Brasil, nessa época, viveu o fim da monarquia e os primeiros anos de um sistema
republicano, o que significou uma série de mudanças na estrutura produtiva e administrativa
nacional. Foi um período conturbado, politicamente, onde os últimos 14 anos da monarquia
foram marcados pela irradicação da escravidão, pelo surgimento dos militares como atores
políticos e pelo crescimento do movimento republicano. Todos esses fatores contribuíram
para a perda de legitimidade da monarquia perante os setores influentes da sociedade.
(CARVALHO 2012, p. 117)
Esse contexto político e social ganhou respaldo entre os setores urbanos que
conquistaram mais poder com a abolição da escravatura, em 1888, e com a proclamação da
República, em 1889. Melo destaca que, “influenciados pelo positivismo, pretendiam
„modernizar definitivamente‟ o país. Na verdade, o que se observou não foi uma cisão, mas
uma acomodação entre os diversos setores” (2010c, p. 108). Nesse novo cenário de república
e de trabalho livre, com a importação massiva de mão-de-obra estrangeira europeia, em sua
maioria, o ideal moderno fazia parte dos objetivos daqueles responsáveis por pensar o Brasil.
43

Essa conjuntura, que a um olhar desatento não tem uma relação direta com o
desenvolvimento esportivo brasileiro, na verdade, influenciou fortemente a consolidação de
uma maior organização esportiva nacional, que teve início no princípio do período
oitocentista. Os europeus, que, entre vários motivos, vieram ao Brasil buscar segurança e
possibilidades dignas de vida, também contribuíram com o processo de disciplinarização das
práticas esportivas, ao mesmo tempo em que desejavam reproduzir, no novo mundo, as
condições de sua vida anterior, através das corporações profissionais, das quais se
orgulhavam, assim como suas associações esportivas e de divertimento. (ALENCASTRO;
RENAUX, 1997, p. 321)
Esse período de relação íntima entre o desenvolvimento tecnológico, esportivo e a
chegada de imigrantes europeus foi fundamental para que as práticas esportivas,
definitivamente, tivessem importância crucial no cotidiano brasileiro. Porto Alegre, uma das
cidades brasileiras que mais sentiu a influência dos adventícios europeus no seu
desenvolvimento, também recebeu, além das especializações profissionais, a habilidade
esportiva e o gosto pelas associações. Nesse contexto, a imigração alemã e italiana, o
desenvolvimento da agricultura comercial da região serrana e a comercialização desses
produtos através do porto da capital, facilitada pela construção das linhas férreas, criaram
condições favoráveis para o ciclo de crescimento econômico e urbano de Porto Alegre. A
partir de 1893, a cidade alegrou-se com a instalação da iluminação a gás nas ruas principais
(PESAVENTO, 2007, p. 233).
Parece-nos evidente que, se Porto Alegre, ao final do século XIX, tinha uma grande
influência europeia, o Rio de Janeiro não apresentava características muito distintas. Acontece
que, se a capital brasileira também contava com a presença de alemães e italianos, possuía,
além destes, uma diversidade muito mais ampla na sua configuração. A capital do país,
praticamente desde o início do século XIX, com a chegada da família real portuguesa, se
consolidou como a cidade mais importante do Brasil, com o contato mais próximo da Europa.
É aquilo que Sandra Pesavento (2002) aponta, quando escreve que a antiga capital, nos
últimos anos do período oitocentista, com suas grandes reformas urbanas, buscava construir
uma Paris além mar e tropical. Além de suas modificações físicas, também alterara a sua
própria identidade: “não importava que a Rua do Ouvidor fosse quase um beco ou que a
Avenida Central não tivesse a pompa e a dimensão da parisiense Champs Elysées, pois a
sensação de viver numa metrópole dava sentido à existência” (PESAVENTO, 2002, p. 161).
Diferentemente, Porto Alegre teve um desenvolvimento bem posterior, com um
destaque econômico nacional muito mais acanhado, sendo mais importante no cenário
44

nacional enquanto posicionamento estratégico de fronteira do que, de fato, era


economicamente. Com uma indústria ainda muito tímida, de acordo com Monteiro (2007), o
Rio Grande do Sul se destacou no período pelo fornecimento de produtos agrícolas e
industriais derivados da agropecuária para a região sudeste. A imigração alemã e italiana, o
desenvolvimento da agricultura da região serrana e a comercialização dessas mercadorias na
capital meridional, criaram condições favoráveis para um ciclo de crescimento econômico e
urbano em Porto Alegre (MONTEIRO, 2007).
Portanto, se em Porto Alegre, no século XIX, temos uma influência marcante e
fundamental dos europeus, principalmente alemães, para o entendimento do desenvolvimento
esportivo, é relevante compreender o período na capital nacional. O Rio de Janeiro possuía
uma diversidade muito mais ampla de influências culturais devido ao seu destacado status e
referência para os estrangeiros, sem contar a superior prosperidade econômica, que também
tinha influência no progresso esportivo.
Dessa forma, Porto Alegre se desenvolveu enquanto metrópole em uma época
posterior ao Rio de Janeiro, tendo conquistado status de relevância nacional tardiamente em
relação à capital nacional. No período final do século XIX, a cidade austral crescera, inchara.
Imigrantes davam um ar cosmopolita à urbe, gente do interior afluía à capital em busca de
trabalho e estudo. O moroso processo de extinção do regime servil, por seu turno, fora
colocando no maior centro urbano do Rio Grande do Sul, os egressos da escravidão. Sandra
Pesavento destaca que, por outro lado,

ao longo do século XIX, alguns imigrantes alemães e italianos, sobretudo, foram


constituindo uma sorte de burguesia endinheirada, com capitais investidos no
comércio, nos bancos e nas indústrias nascentes, nas quais acolhiam, como
operários, preferencialmente os trabalhadores da mesma etnia. Uma população de
trabalhadores, nas fábricas e no comércio, nas pequenas atividades de rua, nos
trabalhos pesados do porto, movimentava a cidade, dando à cidade um certo aspecto
de metrópole, devido à agitação da vida urbana. (2007, p. 178)

Justamente, foi no final do século XIX que a capital do Rio Grande do Sul se
aproximou mais das características de uma metrópole do centro do país. No último quartel
oitocentista, Porto Alegre era uma urbe com uma variedade social, econômica, cultural e
étnica. Melhor dizendo, com ricos, pobres e remediados; com chaminés de fábricas e
comércio movimentado; com gente elegante a desfilar na Rua da Praia e com uma massa de
trabalhadores a crescer. Queria ser moderna e mostrava já as desigualdades que esse processo
acarretava. (PESAVENTO, 2007, p. 178)
45

Mesmo assumindo de vez o caráter moderno e tecnológico do final do século XIX,


não deixava de valorizar a sua herança campeira, estabelecendo uma relação muito próxima
entre o urbano e o rural, o sofisticado e o tradicional. Para Sandra Pesavento, esse debate, no
Rio Grande do Sul, tinha um caráter diferenciado do centro do país. A historiadora declara
que “o apelo do passado é muito forte, ele tem mais a oferecer ao presente do que possíveis
articulações valorativas que se pudessem estabelecer em torno da vida urbana”
(PESAVENTO, 2002, p. 261). A capital do Rio Grande do Sul se apresentava como o local de
intersecção em um estado multifacetado.
Com relação ao desenvolvimento esportivo do final do século XIX, uma nova postura
em relação ao corpo e as práticas corporais estavam sendo assumidas em Porto Alegre e no
Rio de Janeiro. Na capital brasileira, no final do século XIX, o remo ganhou espaço e
prestígio, inserido no quadro de modificações socioculturais em curso. Práticas associadas à
água fizeram com que um novo padrão corporal de beleza se modificasse, influenciado por
uma inédita realidade científica e cultural do momento, como destaca Victor Melo:

Para a ocupação das praias, do mar, e principalmente para o desenvolvimento do


esporte náutico, foram fundamentais o delineamento de uma cultura urbana, o
enaltecimento de padrões saudáveis de vida, a aceitação de exibição de um corpo
belo e forte, a difusão do “pensamento científico”, a emergência e valorização do
lazer, a busca de novas formas de sociabilidade (MELO, 2010, p. 109).

Porto Alegre, diferentemente do Rio de Janeiro, tem, no último quartel do século XIX,
o início daquilo que podemos considerar o esporte moderno, já que foi somente em 1872 que
o primeiro prado foi instalado na então província. O Prado do Jacome, localizado no Campo
do Bom Fim (também chamado de Campo da Redenção), foi o primeiro a se estabelecer,
sendo que, até o final do século, quatro outros hipódromos já existiam, o que evidencia o
rápido desenvolvimento do esporte e sua popularização, que tomou conta de alguns bairros
importantes da cidade, como: o Prado Rio-Grandense (Menino Deus), Prado Boa-Vista
(Partenon), Prado Independência (Moinhos de Vento) e Prado Navegantes (Navegantes),
conforme podemos verificar no mapa abaixo.
46

Planta da cidade de Porto Alegre, 1896. (grifos nossos)


Estão identificados com as setas negras, os quatro hipódromos existentes na cidade, ao final do Século XIX,
assim como o Campo da Redenção, que foi local privilegiado para a instalação de circos, práticas esportivas e
divertimentos.

Nesse mesmo contexto, Porto Alegre, desprovida de mar, mas com a costa doce do
Guaíba a sua disposição, também teve no desenvolvimento das práticas náuticas um ponto
importante para a consolidação das atividades esportivas na cidade. O cenário para o remo e a
natação não era o Oceano Atlântico, como no Rio de Janeiro. O Rio Guaíba assumia a função
de propiciar a formação de clubes de regata e de competições que tinham a água como seu
palco.
Um inédito olhar foi lançado sobre o Guaíba, a partir do seu novo aproveitamento. Ele
já não tinha somente importância como rota comercial ou de transporte de pessoas, mas,
também, assumira a função de ser o responsável por novas modalidades de disputa e
divertimento, que atraíam a atenção da população. Foi nas duas últimas décadas do século
XIX que o remo se desenvolveu na cidade. No dia 10 de junho de 1884, foi fundado o
precursor Club de Regatas Porto-Alegrense (A FEDERAÇÃO, 11/06/1884, p. 3). Em 1888, o
Ruder Club Porto Alegre, ou Clube de Remo, iniciou suas atividades (O CONSERVADOR,
24/11/1888, p.2). Já no ano de 1889, nasceu mais uma associação com o nome de Ruder-
Verein Germania, cuja festa de inauguração se deu entre os dias 13 e 14 de julho daquele ano
(A FEDERAÇÃO, 10/07/1889, p. 3).
47

Foi nesse mesmo momento, último quartel do século XIX, que os banhos de mar se
tornaram verdadeiramente celebrados na cidade do Rio de Janeiro, no contexto que precede
uma reforma urbana radical e um novo estilo de vida na cidade. Nota-se que, diferentemente
de Porto Alegre, essas práticas já faziam parte do cotidiano da capital brasileira desde o final
do segundo quartel e foram ganhando espaço, progressivamente. Contribuindo para a
disseminação dessas atividades, está o fato de que os banhos de mar estavam cada vez mais
sendo exaltados pelas suas propriedades terapêuticas, até mesmo com o desenvolvimento de
um mercado em torno dessa prática. (MELO, 2001, p. 41)
Interessante perceber que, nesse período, a cidade do Rio de Janeiro foi alvo de graves
epidemias. José Murilo de Carvalho (1987) sublinha que o ano de 1891 foi particularmente
trágico, coincidindo epidemias de varíola e febre amarela que se somaram às tradicionais
malária e tuberculose. “Nesse ano, a taxa de mortalidade atingiu seu mais alto nível, matando
52 pessoas em cada mil habitantes. Até 1896, a mortalidade permaneceu acima de 35 por mil,
com a única exceção de 1893” (CARVALHO, 1987, p. 19). Portando, com uma cidade pouco
salubre, estar em contato com a água parecia ser um bom argumento para a ampliação da
prática dos esportes aquáticos.
Da mesma forma, foi no período final do século XIX que uma série de atividades
esportivas foram lançadas e desenvolvidas em Porto Alegre. Assim como a natação e o remo,
que tiveram influência direta dos alemães imigrantes e seus descendentes, o tiro ao alvo e a
ginástica também se tornaram práticas em destaque na Porto Alegre que se aproximava do
século XX.
Também já na década final do XIX, uma nova modalidade, símbolo do
desenvolvimento tecnológico, foi inaugurada: o ciclismo. A associação precursora desta
modalidade, no Rio Grande do Sul, foi o Bycicle-Clube, um clube para corridas de
velocípedes, fundado em 1886, que parece ter tido um funcionamento breve (O
CONSERVADOR, 24/01/1886). No ano de 1895, foi criada a União Velocipédica de
Amadores. Em 1898 foi construído o primeiro velódromo de Porto Alegre, no mesmo local do
Prado Independência, no bairro Moinhos de Vento. Assim como no remo e na natação, os
italianos e alemães se destacavam nas disputas de bicicletas.
Dessa forma, como em Porto Alegre, no Rio de Janeiro, aponta Victor Melo (2009b),
o ciclismo foi encarado como uma maneira de identificação com o mundo europeu,
destacando-se o Velo Club, criado em 1896, que instalou seu velódromo na Rua do Lavradio.
Com efeito, no Rio de Janeiro, todo um campo esportivo estava formado no fim do
século XIX. Já existiam clubes e competições de atletismo, criquete, natação, polo aquático,
48

ciclismo, tiro ao alvo, tênis, esgrima, hipismo, iatismo e lutas, além do turfe e do remo
(MELO, 2010b, p. 46). Na capital fluminense, também aconteceram as primeiras lutas de
boxe do país, que foram realizadas nos anos finais dos oitocentos, normalmente em ringues de
patinação e circos. Nesse primeiro momento, eram desafios individuais, com regras definidas
a cada encontro, diferente de um esporte organizado, o que vai acontecer somente no século
XX (MELO, 2010b).
Com isso, apresentamos o último momento de formação do campo esportivo no século
XIX, contextualizando Porto Alegre e o Rio de Janeiro. Analisaremos, mais especificamente,
as modalidades esportivas e os divertimentos no desenvolvimento deste capítulo e desta tese.

1.6 Porto Alegre e Rio de Janeiro dos viajantes: um olhar estrangeiro

Inúmeros interessados em investigar o Brasil oitocentista estiveram por essas paragens


no decorrer do século XIX. Entre estes, grande parte oriunda da Europa. Várias foram as
motivações que fizeram com que artistas, geógrafos, biólogos, comerciantes, cientistas, das
mais diversas áreas, cruzassem o Oceano Atlântico e registrassem suas impressões sobre o
Brasil. Este texto é um exercício de sensibilidade acerca da percepção do olhar dos viajantes
europeus sobre o surgimento e desenvolvimento do campo esportivo brasileiro. Dessa forma,
práticas de diversão, lazer e mesmo dos esportes foram identificadas e discutidas, num
contexto comparativo entre as cidades do Rio de Janeiro e Porto Alegre.
Com efeito, essa perspectiva estrangeira pode auxiliar a compreensão das
especificidades locais a partir de um olhar “de fora”, trazendo consigo mais variáveis
analíticas, diferente da maioria das demais fontes utilizadas nesta tese que, na maior parte das
vezes, foram produzidas por brasileiros. É um ponto de vista que se agrega à documentação
nacional. Notadamente, a diversidade profissional desses viajantes pode cooperar na
discussão sobre a constituição das práticas esportivas em Porto Alegre e Rio de Janeiro.
Partindo de variados relatos, procuramos interpretar os diversos conjuntos de
informações que nos trazem esses apontadores das características do Brasil oitocentista. Da
mesma forma, não temos intenção alguma de esgotar a discussão sobre essas fontes, mas sim
de traçar algumas considerações sobre aquilo que julgamos pertinente em uma massa
documental imensa e que, sabemos, pode render, ainda, inúmeras outras ponderações.
A pujança econômica crescente e a constante circulação de europeus no século XIX
foram registradas por diversos viajantes que, das mais distintas nacionalidades e com os mais
49

diferentes objetivos, aportavam no Rio Grande do Sul. Um desses casos é do comerciante


inglês John Luccock, que, em Porto Alegre, esteve no primeiro quartel do século e registrou
algumas importantes impressões, como a busca de um ideal “civilizado”:

Grande número de ingleses de há muito que se estabeleceu em redor dessa


localidade favorecida, mas o lugar ainda não progrediu bastante nas artes da
vida civilizada, para que já seja de residência agradável. Um deles houve que
tentou melhorar sua lavoura, introduzindo o arado nas margens do Taquari, cerca de
noventa milhas a montante de Porto Alegre, creio que sem resultado. Este lado da
província, contudo, progride rapidamente e dia por dia, apesar de que o povo
não tem instrução e muito menos cultura moral e religiosa. (1942, p.28, grifos
meus)

Luccock, nesse fragmento, apresenta um pouco do ideal britânico, que, além de


procurar negócios, buscava civilizar. É evidente que, enquanto potência econômica e
industrial mundial, essa “política” civilizatória se estendia não somente ao Brasil, mas a todas
as regiões onde a Inglaterra possuía parcerias comerciais. Essa estratégia agia por diversas
frentes, onde a instrução dos habitantes se destacava na tentativa de adequação do povo aos
novos hábitos propostos.
Nesse sentido, os relatos do europeu apontam para as peculiaridades que deveriam ser
desenvolvidas em Porto Alegre, como o próprio viajante registra: as “artes da vida civilizada”,
que podem ser entendidas como um conjunto de regras e hábitos comuns aos habitantes de
boa parte do velho mundo e que, ao sul do Brasil, ainda estavam defasados, na sua visão. No
pacote de “evoluções” proposto pelo inglês, cabia não somente o aumento da produção
agrícola com a adoção de novas técnicas e equipamentos, mas, também, o desenvolvimento
do homem do novo mundo. A moral britânica e europeia deveria ser espraiada e sobreposta
aos hábitos “bárbaros” que ali se mantinham. O desenvolvimento brasileiro, e no caso de
Porto Alegre, passava por um refinamento de costumes e pensamentos que teria sempre a
Europa como modelo e a sua religião como a portadora da moralidade condizente a um país
que deveria se desenvolver de maneira superior.
O registro desse Brasil a ser formado pelos europeus, agradável, mas não refinado o
suficiente, converge em muitos viajantes que neste país fizeram seus apontamentos. Essa
“necessidade” e tendência a adotar os hábitos dos seus “civilizadores” também foi alvo de
crítica por alguns estrangeiros. O pintor alemão Johann Moritz Rugendas anotou, na década
de 1820, no Rio de Janeiro, a inclinação de parte da população à imitação dos costumes
ingleses, o que foi reprovado por ele:
50

É de bom tom, na alta sociedade, imitar os costumes ingleses; mas estes são tão
contrários à vivacidade dos habitantes e mesmo ao clima que uma tal
preocupação só pode provocar uma impressão desagradável no estrangeiro
imparcial. Este não pode deixar de se sentir chocado ao deparar, no meio de uma
nação tão grande e tão original, com as mesquinharias, as bobagens e os
preconceitos da alta sociedade europeia e, principalmente, inglesa. Assim, por
exemplo, nenhum aspecto agradável apresenta ao artista o transeunte que, como é
aqui de praxe, atravessa o Passeio Público vestido à última moda de Paris ou
Londres. (RUGENDAS, 1972, p. 186, grifo meu)

A influência europeia no Brasil, notadamente a inglesa, era referência a hábitos


civilizados, característica de uma nação que buscava se desenvolver e, para tanto, pretendia se
consolidar em práticas superiores. O viajante, no entanto, alertou para essa sobreposição de
valores. A valorização do way of life britânico deveria ser tomada com cautela para que, com
ele, não fossem agregados os vícios da antiga sociedade d´além mar. O alemão declarou que
os habitantes do Rio de Janeiro, com todas as suas características tropicais vestidos à europeia
e desprezando sua cultura local, lhe causavam estranheza. Como o próprio sublinhou, esse
novo hábito era mais perceptível nas altas classes, que tinham um contato mais próximo com
os representantes da cultura do antigo continente e, por consequência, eram os mais
influenciados e pressionados a aderirem ao modo de ser inglês.
Rugendas via nessa atitude uma contradição muito grande, frente à incompatibilidade
proposta. A ele, era incoerente que nativos do Rio de Janeiro, com a exuberância de praias e
com seu clima tropical e hábitos próprios, exaltassem modas de países de clima temperado,
em nome de uma dita cultura superior e civilizada. Tal crítica continuou quando o viajante
sublinhou os pontos negativos da alta sociedade do velho mundo. Para ele, era incoerente um
povo tão original, como o brasileiro, se travestir de europeu, o qual, segundo o seu relato, era
uma comunidade cheia de mesquinharias, bobagens e preconceitos. Portanto, essa tendência a
imitação inglesa, para Rugendas, fazia com que se perdesse o que de único e positivo existia
no Brasil (no Rio, principalmente, onde a presença da alta sociedade europeia era mais
marcante) e se adotasse velhos hábitos viciados que não combinavam com o ambiente do
novo mundo.
Essa europeização dos costumes brasileiros continuou sendo alvo das anotações de
Rugendas no Rio de Janeiro. Novamente, o alemão registrou o que, para ele, era uma
incongruência. O viajante declarou que existia uma maior influência da cultura europeia nas
classes mais elevadas, assim como nas localidades que possuíam portos de mar, que eram
locais propícios a trocas culturais (RUGENDAS, 1972, p. 129). Essa é uma característica do
Rio de Janeiro e não de Porto Alegre, que também é uma cidade portuária, mas, por sua vez,
51

está na costa doce, na orla do Rio Guaíba, cujo acesso se dá através do Oceano Atlântico e
Lagoa dos Patos.
Da mesma forma, Rugendas aponta incompatibilidades culturais, contradições
causadas pela “imposição” dos hábitos estrangeiros. Seriam incoerências que não
contribuiriam ao desenvolvimento brasileiro, visto que as características naturais dos nativos
estariam sendo desvalorizadas frente a valores importados e que não poderiam ser
sustentados. Essa “imitação” não era compartilhada pelas classes mais pobres, que, para o
artista, eram mais francas e sinceras. A eles, era cara a prática de hábitos refinados, e, ao
contrário, demonstravam sua alegria com expansão, característica dos fluminenses. Até
mesmo a festividade do povo do Rio de Janeiro teve destaque frente à sobriedade das camadas
abastadas, que buscavam imitar os comedidos estrangeiros:

Seria difícil pintar com traços marcantes e gerais o caráter nacional dos brasileiros,
tanto mais quanto começam apenas a formar uma nação. Partilham até certo ponto
os traços principais do caráter português. Por outro lado, nas classes elevadas e
sobretudo nos portos do mar, é comum renunciarem à sua personalidade para
entregar-se à imitação dos costumes ingleses, imitação que não pode favorecer
os habitantes mas tão somente prejudicá-los com exigências e formalidades de
toda ordem. Tais costumes, de resto, supõe a existência de um grau de civilização
mas não o outorgam; ademais restringem as manifestações e o desenvolvimento das
disposições naturais de que os povos meridionais são tão ricamente dotados. Estes,
no entanto, muitas vezes se rejeitam como contrárias à boa educação.
Se há pouca diferença, sob este aspecto, entre Lisboa e o Rio de Janeiro o mesmo
não ocorre nas classes inferiores, e só estas podem ser chamadas povo. Nelas nada
impede o desenvolvimento do caráter nacional, e elas se diferenciam no Rio de
Janeiro e cercanias, das classes inferiores de Portugal, ou pelo menos da capital de
Portugal; suas atitudes são mais francas e mais desembaraçadas. Tudo no Rio de
Janeiro é mais animado, barulhento, variado, livre. Nas partes da cidade
habitadas pelo povo, a música, a dança, os fogos de artifício emprestam a cada
noite uma atmosfera de festa, e se não se encontram grande vigor nem muita
delicadeza na letra das canções para violão, e nas conversas barulhentas dos
grupos, observam-se pelo menos bastante espírito e bom senso. (RUGENDAS,
1972, p. 129, grifo meu)

Nesse mesmo registro, Rugendas demonstrou a dificuldade em estabelecer um padrão,


ou seja, um caráter nacional dos brasileiros. Ele aponta uma identidade nacional indefinida,
com certas características da postura portuguesa. Positivamente, o alemão chamou a atenção
para os hábitos dos estratos inferiores. Para ele, era a essência do Brasil, com suas
características próprias, e não uma imitação da Europa. São diferenciadas da população pobre
de Lisboa, pois nelas está a verdadeira essência nacional, onde, no Rio de Janeiro, se
destacavam a alegria, a música e a dança, assim como as conversas barulhentas, contrastando
com o caráter grave das classes altas que tentavam assumir uma postura “civilizada”.
52

Da mesma forma, as particularidades regionais da capital do Rio Grande do Sul


também se realçavam na visão dos europeus. Saint-Hilaire (2004, p. 38), que esteve no Brasil
em parte do primeiro quartel do século XIX, anotou que “aqui (Porto Alegre) lembramos o sul
da Europa e tudo quanto ele tem de mais encantador”. Da mesma forma, um diferencial, com
relação ao Rio de Janeiro, é a composição étnica da população, com um grande percentual de
brancos europeus, notadamente muitos alemães, como o viajante francês destacou: “Aqui
veem-se pouquíssimos mulatos. A população compõe-se de pretos escravos e de brancos, em
número muito mais considerável, e constituídos de homens grandes, belos, robustos, tendo a
maior parte o rosto corado e os cabelos castanhos” (SAINT-HILAIRE, 2004, p. 38). Ele ainda
salientou que, em Porto Alegre, não havia tanta vida social como nas cidades europeias, mas
que, em relação ao Brasil, era visível uma maior atividade, onde “são frequentes as reuniões
nas residências para saraus musicais, tocando algumas senhoras, com maestria, o bandolim e
o piano” (SAINT-HILAIRE, 2004, p. 43).
Essas mesmas características eram causas, juntamente com a heterogeneidade
destacada pelo alemão Reinhold Hensel, que desembarcou no sul do Brasil em 1865, para a
grande quantidade de clubes mantidos por alemães, o que fez da capital do Rio Grande do Sul
um espaço de formação peculiar:

As maiores casas comerciais pertencem aos alemães, e estes, em sua maioria, são
também os empregados. Em parte é essa diferença na composição da sociedade
alemã, em parte é o antagonismo entre os alemães imigrados e os que nasceram no
país, o motivo da existência de vários clubes de nossos compatriotas, entre os quais
o Germânia ocupa o primeiro lugar. Ele reúne com os alemães todos aqueles que
tem a educação como exigência e ao mesmo tempo sentem necessidade de
entretenimento e sociabilidade. (HENSEL, 2004, p. 144-5)

Para os representantes do velho mundo que faziam seus registros quando aportavam
por Porto Alegre, as características locais eram fatores determinantes para a formação das
sociedades esportivas, no século XIX. A tradição do comércio de gado e equinos, as
tropeadas, e a própria miscigenação cultural campesina do Rio Grande do Sul, aliada aos
hábitos modernos, favoreceram o surgimento dos esportes. Se, por um lado, existiam os
alemães com o seu comportamento associativista, por outro, também figurava o gaúcho rude,
acostumado às carreiras, gineteadas, jogos de aposta e demais divertimentos. Nesse sentido,
Oscar Canstatt demonstra muito bem essa coexistência na capital da Província, no ano de
1871:

Porto Alegre é ricamente dotada de praças públicas, e ao lado das já mencionadas


existem ainda muito perto da cidade um grande campo, a Várzea, que serve de
53

picadeiro e pastagem para cavalos e bovinos. Uma larga escadaria fechando uma
estrada, leva a um prado um pouco mais baixo donde se goza um desses belos
panoramas de que Porto Alegre é tão rico. Verdade é que faltam às montanhas no
horizonte o adorno das florestas, contudo os tons peculiares do fundo e os topos das
palmeiras aparecendo aqui e ali entre as casas dão ao quadro um caráter
decididamente meridional. Quase todos os dias a Várzea oferece um espetáculo
diferente. Um dia são as grandes manadas de cavalo meio selvagens, e gado bravio,
que vieram do alto da serra para serem vendidos em Porto Alegre, guardados por
tropeiros saltando de um lado para outro nos seus feios cavalos, e noutro dia
carreiros acampados debaixo dos seus carros tomam o seu lugar. Uma grande
fogueira, por cima da qual ferve o caldeirão para a indefectível feijoada de feijão
preto com charque, e em círculo ao redor delas as caras escuras de alguns homens
indolentes, porém fortes, condizem perfeitamente com o cenário exótico que o
espectador encontra aí. Cavaleiros de carreira utilizam muitas vezes as amplas
arenas para suas corridas. Chegada a noite a campina fica deserta e uma espécie
de hálito espalha-se melancolicamente sobre ela como uma névoa até perder-se no
infinito. Volta-se então de bom grado ao convívio dos compatriotas para esquecer
que um mar imenso separa aquelas terras da pátria. A sociedade alemã divide-se
em muitas agremiações, entre as quais, durante minha permanência em Porto
Alegre o Clube e a Germânia eram as principais. Nem num, nem noutra, se
interessavam por assuntos intelectuais de maior relevo, e as distrações
limitavam-se principalmente ao jogo de cartas, bilhar e dança a uma
temperatura de 20 a 30 graus Réaumur. As conversas, diante da cerveja, a que
uma parte dos comerciantes amantes do jogo de cartas e da dança se entregava,
careciam de substância. (p. 155-6, grifos meus)

Nesse contexto, o cavalo tem uma ligação direta com a história e a formação do Rio
Grande do Sul. É o animal companheiro da lida campeira do sul rio-grandense, no qual tem
gravado a sua relação desde os primórdios do desbravamento dessas terras, e foi peça
importantíssima na formação territorial e cultural do sul do Brasil. Com efeito, também foi
fundamental na constituição do campo esportivo em Porto Alegre.
Ao mesmo tempo em que os equinos foram ferramenta de trabalho dos gaúchos,
também eram peças importantes na sua diversão. As carreiras, espécies rústicas de corridas de
cavalos, foram uma prática comum, tanto no interior do estado como na sua capital. No
entanto, no século XIX, essa cultura equestre se transformou, também, em prática esportiva,
que tomou um grande volume de seguidores em Porto Alegre. O turfe, como se chamou o
esporte, fez com que uma representativa estrutura se formasse em torno dessa prática,
principalmente com a fundação dos hipódromos.
As aptidões, que ajudaram a desenvolver a prática em Porto Alegre e no Rio de
Janeiro, além das peculiaridades locais, também estavam baseadas em divergências
conjunturais de formação e desenvolvimento, miscigenadas às influencias estrangeiras. No sul
do Brasil, as correntes imigratórias europeias, responsáveis pela ocupação, defesa e
desenvolvimento da região, demarcaram considerável diferença em relação à capital brasileira
54

que já possuía uma íntima relação com a Europa e seus hábitos burgueses, anteriormente ao
Rio Grande do Sul.
Ainda na primeira metade do século XIX, a influência da imigração dos alemães era
notada como destacada em relação à organização de eventos de lazer e divertimento. Se Porto
Alegre atraía os europeus devido à possibilidade de bons negócios, também a cultura do velho
mundo era “importada” como fator civilizatório e relevante para o desenvolvimento dessa
cidade da América. Os alemães e, posteriormente, os teuto-brasileiros, buscavam reproduzir
aquilo que viviam na sua antiga pátria, o que foi fator determinante para o surgimento de
sociedades de divertimentos, que também assumiram um caráter esportivo, como destacou o
comerciante europeu Michael Kröff:

Após julgar ter adquirido alguns conhecimentos locais e da língua, estabeleci-me em


Porto Alegre para estender meus negócios a outros artigos comerciais aí em curso.
Também nessa cidade moram muitos alemães que organizaram sua vida social bem
à maneira da usual em sua pátria antiga; foi instalado um cassino alemão, realizam-
se bailes alemães etc. Pela tarde, após a conclusão dos negócios, é costume fazer,
junto com a esposa, um passeio a cavalo; e tampouco os comerciantes como os
artesãos privam-se desse prazer. Aliás, faz-se muito luxo com os cavalos no Brasil;
todos os negócios fora da cidade são realizados a cavalo, e os colonos vão a cavalo
até a Igreja. (1986, p. 124-5)

Segundo os relatos, é inegável a relevância dos alemães no desenvolvimento das


diversões e dos esportes em Porto Alegre. Essa destacada influência, que por parte se faz
justamente pela grande quantidade de teutos que aportaram no sul do Brasil, também se fez
pelo seu prestígio econômico. Se esses criaram os seus próprios clubes, para se divertirem
entre eles, também assumiram o hábito do andar a cavalo regularmente, característica
marcante do gaúcho.
Para Kröff, havia um destaque nesse ato, já que, na Europa, a prática equestre estava
muito ligada à nobreza, e, no Rio Grande do Sul, era habilidade inerente à maioria da
população. Os animais, por sua vez, eram muito valorizados pelos seus proprietários. No
século XIX, praticamente não existia gaúcho a pé, mesmo que fosse estrangeiro ou
descendente de europeus. Essa ligação, com o manuseio e utilização diária do cavalo,
aproximava os imigrantes e seus descendentes dos demais brasileiros sulistas, já habituados a
essa prática.
A presença europeia, notadamente alemã, e a sua importância na formação cultural,
social e econômica, foi destacada por diversos viajantes que estiveram no sul do Brasil, no
55

século XIX. Fator que, segundo os registros, era percebido rapidamente por aqueles que ali
passavam, como o médico alemão Avé-Lallemant, que anotou, em 1858:

Mas a reminiscência nórdica não se restringe apenas ao alto da Cidade de Porto


Alegre, de onde se pode contemplar longa distância. Desce também a parte
comercial. Ali em toda parte se vê gente de raça loura perambulando. A cada
momento se vê um alemão transitando, a cada momento se vê um nome alemão
sobre as portas das casas e se houve falar a rude língua alemã de Holstein e do
dialeto pomerânio até ao bávaro renano. Deve haver em Porto Alegre uns três mil
alemães, ao passo que toda cidade não tem mais que 20.000 habitantes. (1980, p.
110)

É importante observar que a parte alta da cidade era considerada a zona nobre,
residência das mais importantes famílias, enquanto que a área comercial estava ligada, de um
lado, ao rio Guaíba, região portuária e de vocação comercial. Do outro flanco da cidade,
também na parte baixa, estava a várzea, chamada de Campos do Bom Fim e, posteriormente,
Redenção e Parque Farroupilha. Neste local, realizava-se o comércio de gado, com a chegada
de tropeiros, e havia também o encontro dos peões que ali faziam suas carreiras, cantorias e
festas. A várzea foi o local privilegiado para grande parte das primeiras práticas esportivas e
de lazer em Porto Alegre, como as touradas e o velódromo, que discutiremos adiante. Dessa
forma, Avé-Lallemant demonstrou como a participação alemã era ativa. Mesmo fora das suas
próprias associações, é possível arriscar que eles estavam presentes em praticamente todas as
práticas de lazer e diversão, essenciais na formação do campo esportivo na cidade.
Esses estrangeiros buscavam, também, desenvolver o amor ao seu país (ou região) de
origem, a partir de associações e rituais que evocassem o nacionalismo e a identidade cultural.
Essa aptidão merecia destaque nos registros dos viajantes que cruzavam pelo Rio Grande do
Sul, e notavam a supremacia alemã frente a outros europeus, como anota Hörmeyer, em 1851:

Eu já havia notado em outras cidades meridionais, grande número de alemães e


Porto Alegre pareceu-me uma cidade inteiramente alemã. Todas as lojas, todas as
oficinas pareciam ser de alemães, todas as estalagens, todas as vendas tinham nomes
alemães e o cabelo louro parecia predominar. Vi poucos escravos. Os brasileiros
geralmente ficam em casa e abandonam a cidade aos alemães. (p. 133)

Salvo alguma provável supervalorização da presença germânica em Porto Alegre,


notadamente, parece ser essa relevância dos alemães na cultura e economia da capital do Rio
Grande do Sul um dos diferenciais destacáveis frente ao que acontecia na sede do país.
Porém, essa característica deve ser analisada com prudência, visto a miscelânea étnica
56

presente no Brasil. De toda a forma, é necessário que compreendamos que essa é uma variável
destacada na formação do campo esportivo em Porto Alegre. No Rio de Janeiro, não
percebemos uma influência cultural única que tenha tamanha significância. O intenso fluxo de
alemães era considerado fator primordial para o desenvolvimento do associativismo esportivo
em Porto Alegre, característica marcante do sul do Brasil, como aponta Friedrich, que
registrou entre os anos de 1861 e 1862:

Em Porto Alegre, encontrei também uma vida alemã ativa – até mesmo com seus
vícios, com um monte de associações – mas por outro lado também com todas as
suas virtudes e méritos. Lá, mais que em qualquer outro lugar, encontrei os alemães,
ativos na manutenção e no fortalecimento do seu elemento patriótico, e nenhum
outro lugar seria tão apropriado para oferecer-lhes um vasto campo para sua
atividade. Porto Alegre é a verdadeira chave para todas aquelas colônias da
província, densamente povoadas pelos alemães. (1863, p. 124)

Em um diferenciado contexto, o Rio de Janeiro vivia uma realidade particular, mesmo


que intensamente influenciada por europeus. Ao mesmo tempo em que era uma das urbes
brasileiras que mais recebia visitantes e imigrantes da Europa e que tinha uma ligação muito
íntima com o velho continente, não existia uma única influência que podemos destacar frente
ao desenvolvimento do campo esportivo, impregnado das mais diversas referências.
Se Porto Alegre, nos relatos dos viajantes, é destacada pela quantidade de alemães,
cabe uma nota para realçar a presença negra na maior cidade do Brasil. Rugendas registra que,
talvez, o Rio de Janeiro seria o melhor lugar para se observar todos os tipos de raças de
negros, “membros de quase todas as tribos da África” (1972, p.89). Ainda destacando a
quantidade e variedade de africanos no Rio de Janeiro, o viajante alemão anota que, para se
observar em outro local o que ele vê na capital brasileira com relação às diferentes etnias
daquele continente, somente “através de longas e perigosas viagens a todas as regiões dessa
parte do mundo” (RUGENDAS, 1972, p. 89).
Da mesma forma, a capital do Brasil era o destino preferido da maioria dos
negociantes estrangeiros que aportavam no país. Como cidade polo da economia, convergia as
atenções dos investidores do antigo mundo. Essa íntima relação econômica compartilhava
muito mais que mercadorias. Ideias liberais e novas propostas para a transformação do Brasil
em uma potência além-mar necessitavam, entre outros, de conhecimento e desenvolvimento
científico e tecnológico importado, por óbvio, dos “superiores” europeus.
O ideal inglês parecia pressupor a predisposição a suas propostas. Juntamente com os
produtos britânicos, os novos modos de comportamento ditavam modas, os consumos, como
57

destaca novamente Johann Rugendas, quando escreveu que “os processos da civilização no
Rio de Janeiro, durante os últimos dez anos, são principalmente o resultado das inúmeras
relações comerciais com as nações europeias” (RUGENDAS, 1972, p. 185). Dessa forma, o
viajante atestava o Rio de Janeiro como tendo “um caráter estrangeiro e se mostra na vida
social, nas variações e no desenvolvimento do luxo e das necessidades” (1972, p. 185), assim
como nas classes elevadas, no desejo sempre crescente de cultivar, de maneira mais
complexa, as suas faculdades intelectuais.
Esses viajantes demonstraram, cada um a sua maneira, as aproximações e os
distanciamentos entre Porto Alegre e Rio de Janeiro, no século XIX. As duas cidades
brasileiras se adaptaram e assimilaram os esportes e as diversões através de práticas
diferenciadas. É uma realidade em que a cultura esportiva é, sim, vinda d´além-mar através
dos europeus. No entanto, cada região adaptou essas novidades a sua realidade, e o que se
pôde constatar foi uma “negociação cultural” entre os hábitos importados, como os esportes e
as ideias de modernidade, com aquilo que já existia no Rio de Janeiro e em Porto Alegre. Os
próprios comportamentos europeus foram se miscigenando à cultura americana, acrescentado
diferenças marcantes, como a relação estreita de Porto Alegre com os hábitos rurais e a
posição de destaque nacional do Rio de Janeiro. Enquanto capital nacional, este tinha íntima
relação com a corte e a Europa e, ao mesmo tempo, com o continente africano. Esses são
apenas algumas considerações que serão ainda ampliadas no decorrer do desenvolvimento
desta tese.

1.7 Práticas de divertimento

Ao propormos uma fração desta tese dedicada à análise das práticas de divertimento,
estamos sugerindo um estudo que analise globalmente o processo de formação do campo
esportivo em Porto Alegre e no Rio de Janeiro, que parte da sua formação,
instrumentalização, até a sua consolidação com a ampla prática dos esportes. É aquilo que
Pierre Bourdieu (2003) expõe, quando identifica a necessidade da existência de condições
favoráveis para o surgimento e desenvolvimento dos esportes e para a formação de um
campo.
Usamos o termo “divertimento” no sentido de “lazer”, que seria justamente o resultado
da relação entre o processo de expansão econômica, as ideias de modernidade e os
entretenimentos. Ao mesmo tempo em que concordamos com Marzano e Melo (2010), que
58

entendem que “lazer” pode ser um termo limitado para designar os divertimentos em uma
sociedade que ainda não conhecia a circunscrição legal das jornadas de trabalho e, com ela, o
reconhecimento do direito ao tempo livre, entendemos que o século XIX é um caso à parte.
Um intenso debate já era travado acerca da civilização e da modernidade, e inúmeras ações já
buscavam inserir o Brasil em uma realidade de trabalho livre, que incluía, por conseguinte,
práticas de diversão. Para que a proposta do mundo europeu fosse reproduzida nos trópicos,
uma nova dinâmica deveria ser criada, o que incluía consumo, espetáculo e lazer.
No caso do Brasil, um país que transitava entre divergentes paradigmas de
desenvolvimento e pensamento, se adaptava, a sua maneira, às consequências de uma
sociedade cada vez mais propensa aos divertimentos no seu formato moderno. Victor Melo
(2010c, p. 57) atesta que foi, ao final do século XIX, que o conceito moderno de lazer estava
definido, sendo fruto de uma mais clara divisão dos tempos sociais a partir da definição da
jornada diária de trabalho e do desenvolvimento de uma indústria de massa, que não
significava a mesma oportunidade para todos, mas que ampliara notavelmente as alternativas
de participação da população nos divertimentos.
Ao considerarmos a afirmativa de Melo, também ponderamos acerca das diversidades
e heterogeneidades latentes entre a Europa e a América que buscamos apontar. O estágio de
desenvolvimento econômico e industrial era diferente, assim como a apreensão do lazer. Em
que pese divergências locais, desenvolveu-se uma ideia que antes parecia paradoxal, onde
estavam inseridas as atividades de diversão e entretenimento:

Descansar não é mais não fazer nada, mas escolher entre um novo conjunto de
atividades que se apresenta. Na verdade, paulatinamente a dinâmica do tempo da
produção (do trabalho) impregnará o lazer (não trabalho), um dos elementos que
ajudam a entender (como causa e consequência) a nova excitabilidade pública
(MELO, 2010, p. 57).

Para que o esporte se colocasse enquanto campo, uma série de fatores foram
necessários para garantir que ele pudesse se desenvolver, como a própria ideia moderna de
prática esportiva, a disciplinarização e uniformização das práticas corporais, além de um novo
contexto social onde o capitalismo teve papel relevante.
É nesse sentido que os divertimentos ajudaram a propiciar as condições aceitáveis ao
desenvolvimento dos esportes. Não estamos afirmando que esse processo foi linear,
progressivo e uniforme, mas acreditamos que foi substancial para a formação desse campo.
Ações, que tinham como objetivo entreter, introduziam movimentos em que o desempenho
corporal era fundamental, da mesma forma que a disputa de habilidades. Os circos já faziam
59

grandes demonstrações de força com seus famosos “gymnásticos”. Festas religiosas, como as
cavalhadas, que tinham na sua essência a disputa entre cristãos e muçulmanos, também
possuíam, entre os objetivos do certame, a disputa de habilidade, velocidade e coragem. Os
rinks com seus patins tecnológicos atraíam as famílias para um programa em conjunto, onde o
gosto pela patinação era incentivado. Aqueles que não possuíam a habilidade, eram ensinados.
Ao mesmo tempo, as companhias tauromachicas atraíam multidões para assistirem os
famosos toureiros desafiarem os famigerados animais numa demonstração espetacular e
corajosa.
Dessa forma, entendemos as práticas de divertimentos como essenciais para o
surgimento das condições necessárias para o desenvolvimento dos esportes modernos. Não
existe um ponto de ruptura entre elas, mas muitas intersecções. No entanto, reconhecemos
que, antes da existência da ideia de esporte moderno, os divertimentos já aconteciam e
permaneceram concomitantemente ao seu desenvolvimento - contribuíram e foram
fundamentais para o seu surgimento. Destacamos e analisamos algumas dessas atividades a
seguir, que tiveram relevância, principalmente, na imprensa do Rio de Janeiro e Porto Alegre,
no século XIX, e que serviram como contribuição para o desenvolvimento das práticas
esportivas modernas.

1.7.1 Circo

O que pode ser definido como circo, no século XIX, “espetáculo artístico, voltado para
o entretenimento” (SILVA, 2010, p. 125), não deve, ao mesmo tempo, ser identificado como
uma prática esportiva. No entanto, inserimos as atividades circenses entre as variáveis que
colaboraram para o desenvolvimento do campo esportivo no Brasil, principalmente pela sua
ênfase em movimentos corporais e ginásticos. Por outro lado, o circo, para o século XIX, em
determinado nível, já era um desdobramento moderno, que tinha por objetivo reunir,
disciplinadamente, no mesmo local, grande número de artistas que antes, individualmente,
desempenhavam suas funções na rua. Também havia uma cobrança sistemática de ingressos,
além da inserção do papel do empresário que comandava o espetáculo. O corpo humano, com
seus limites cada vez mais ampliados, e muitas vezes com o auxílio de animais e diversos
aparelhos, era a própria atração artística. O circo fez com que se inserissem atividades
corporais e “gymnásticas” dentro de um contexto organizado de espetáculo, fundamento que
também foi assimilado pelos esportes.
60

As práticas circenses, para Ermínia Silva (2007), nos remetem ao final do século
XVIII, quando as apresentações equestres gozavam de prestígio em toda Europa.
Paralelamente aos espetáculos de montaria, havia caças e combates de animais acompanhados
de cavalgadas e de fanfarras, assim como nas corridas hípicas, em particular na Inglaterra,
tiveram início demonstrações de acrobacias equestres de egressos das fileiras militares. Por
não estarem vivendo situações de combate, ao mesmo tempo em que desenvolviam cursos de
hipismo para nobres, alguns grupos de ex-cavaleiros militares saíram dos “muros
aristocráticos” das exibições particulares para a nobreza, organizando espetáculos ao ar livre,
em geral nas praças públicas, mediante pagamento.
Dessa forma, a arte circense se expandiu para além do Velho Mundo e chegou a
América e, consequentemente, ao Brasil. Como já era de costume na Europa, essas trupes
eram nômades e realizavam viagens por todo o continente. Ermínia Silva (2007) sublinha que
esses artistas, que migraram no final do século XVIII e durante quase todo o século XIX para
a América Latina, percorreram vários países antes de passar a viver como itinerantes,
preferencialmente, em um deles. E, mesmo quando isso ocorria, as turnês eram frequentes,
possibilitando trocas de experiências. Rio de Janeiro e Buenos Aires eram as principais
cidades do período a receber constantemente trupes adventícias. Entretanto, cidades como
Porto Alegre, São Paulo, Montevidéu, Assunção e Lima também faziam parte da rota de
artistas em geral, e, como não poderia deixar de ser, dos circenses.
No início da década de 1820, já existiam exibições equestres em Porto Alegre, como
do acrobata Manoel Antonio da Silva. Da mesma forma, em outubro de 1827, havia o anúncio
de apresentações, no Theatro São Pedro D´Alcântara, de “M. e Ma. Righas”, que encenariam
uma “peça italiana” e “uma dança”, seguidas pela mulher executando um “concerto de piano-
forte”, além de “diversos exercícios de equilíbrio, de destreza e de força” (SILVA, 2007). A
mesma autora ainda complementa: “estes artistas aparecem quatro meses depois, em fevereiro
de 1828, no Teatro Coliseo de Buenos Aires, anunciando sua chegada do Rio de Janeiro, e são
mencionados por Teodoro Klein (1994) como artistas circenses”. (SILVA, 2007, p. 58)
No entanto, Hermínia Silva destaca que é em 1834 que se tem notícia da chegada do
primeiro circo formalmente organizado no Brasil, cujo dono era Giuseppe Chiarini,
considerado uma das maiores dinastias italianas dos picadeiros (2007, p. 58). De acordo com
sua pesquisa, a trupe, que vinha de Buenos Aires, tem seu primeiro registro no Brasil em um
requerimento de seu proprietário, em 18 de junho de 1834, pedindo licença para um
espetáculo de dança no Theatrinho, em São João D´El Rey, Minas Gerais (SILVA, 2007, p.
61). Pode-se supor que a companhia já havia se apresentado em inúmeras outras cidades
61

brasileiras e, de acordo com sua rota, pode ter chegado ao país antes mesmo de 1834. Essas
informações apontam, ainda, a grande probabilidade de Porto Alegre ter recebido o Chiarini
antes mesmo do Rio de Janeiro, já que, geograficamente, a capital da então Província de São
Pedro do Rio Grande do Sul é muito mais próxima da Argentina do que a capital do Império à
época. O circuito circense parece não ter uma rota fixa, mas, sim, pontos preferenciais onde
Porto Alegre e Rio de Janeiro se encaixavam, assim como os países platinos.
De acordo com a imprensa porto-alegrense, os circos que ali aportavam, tinham as
mais diversas origens, da mesma forma que os destinos eram variados. É o que podemos notar
pelo jornal A Reforma, de 21 de maio de 1870. O anúncio das atividades do Circo Americano,
em Porto Alegre, alertava que teria “muito prazer em dar mais algumas representações nesta
hospitaleira cidade, antes da sua partida, em seu próprio navio, para os Estados Unidos”. Da
mesma forma, companhias se retiravam da capital do Rio Grande do Sul e seguiam ao interior
do estado em busca de maior público. Fato, esse, registrado por A Reforma, em 22 de janeiro
de 1875, quando o circo Ferraz se retiraria para São Leopoldo porque “não obteve a pública
concorrência que merecia”, ao mesmo passo que o jornal destacou que todos reconheciam que
ele achava-se “composto de artistas de muito merecimento”.
Com efeito, companhias consagradas nacional e internacionalmente tinham um roteiro
que incluía tanto a capital brasileira, Rio de Janeiro, quanto cidades de relevância do século
XIX no Brasil. A Companhia Chiarini, por exemplo, no jornal A Reforma, de 23 de janeiro de
1877, destacou que “esta afamada companhia cujo chefe tem se feito um renome universal,
acaba de chegar a esta cidade, com procedência do Rio de Janeiro”. Seu sucesso foi atestado
quando o periódico ressaltou que “se fez notar pela variedade das suas representações e pela
consumada perícia dos seus artistas”. A companhia anunciou, em 10 de fevereiro de 1877, no
Jornal do Commércio, que seu próximo destino seria a cidade de Pelotas e, posteriormente,
Rio Grande, urbes prósperas à época, mas interioranas do Rio Grande do Sul.
O mesmo jornal, mas com data de 11 de setembro de 1881, noticiou que “o muito
conhecido artista italiano Chiarini, que por diversas vezes esteve nesta capital, acha-se
atualmente em Bombay, na Índia”. O circuito dos circos, que passavam por Porto Alegre, não
tinha uma rota fixa. Os itinerários das companhias circenses incluíam tanto as principais
cidades brasileiras da época como pequenas urbes interioranas. Esse fato não impedia que as
trupes cruzassem até mesmo o Atlântico em busca de plateia. É fato, portanto, que Porto
Alegre, e não menos o Rio de Janeiro, participassem desses roteiros. Ideias também
percorriam esses meios que serpenteavam por distintos territórios. Mesmo que indiretamente,
62

os circos eram ferramentas de ligação entre o antigo e o novo mundo, entre grandes e
pequenas cidades brasileiras.
O Rio de Janeiro participava desse circuito, enquanto capital nacional e uma das
cidades brasileiras mais desenvolvidas. As diversas companhias circenses, que já realizavam
turnês pela capital Fluminense, no início da década de 1820, frequentemente armavam seus
anfiteatros ou barracas ao lado das habituais tendas de comidas, bebidas e bailes das festas
religiosas e patrióticas. Procuravam estabelecer seus roteiros com as festas, como a do Divino,
na capital do Império (SILVA, 2010).

Imagem 1: A Reforma, 14/03/1875, p. 2.

Essa prática de conjugação de festividades, que incluía a flexibilização de horários na


busca por um público cada vez mais numeroso, também acontecia em Porto Alegre, como
atesta A Reforma, de 16 de maio de 1875, sobre a decisão do Circo Universal: “o diretor
deliberou dar hoje à tarde esta função em consequência de a noite haver fogos e mais
distrações da festa do Divino Espírito Santo”. À justificativa da mudança de horário, são
agregadas outras variáveis: “pelo motivo de algumas famílias poderem assistir com seus
meninos e também para todos os caixeiros que não podem assistir as funções da noite”.
As atividades circenses, no século XIX, tinham, como uma das suas características, as
atrações cuja essência era a pantomima, prática que aliava representações teatrais com
desempenho físico e ginástico. Essa tradição, que tem uma longa história no teatro e no circo,
acrescentou habilidades físicas no seu desenvolvimento, como destaca Ermínia Silva:
63

Na história do teatro a pantomima tem uma larga tradição, tendo sido nos séculos
XVII e XVIII um gênero muito em voga na Europa, particularmente nas feiras
francesas e teatros ingleses. Nas descrições das atuações dos artistas das feiras desse
período encontramos diversas características que estarão presentes nos grupos
responsáveis pelo processo de constituição dos circenses, no final do XVIII:
apresentavam uma variedade de números, como trapézio, equilíbrio, engolidores de
fogo e de espada, ilusionismo, animais treinados, pernas de pau, música, histórias,
performance (2007, p.38).

Ainda de acordo com Silva (2007), a pantomima não se constituiu como “unidade”
genérica coerente. Dentro do espetáculo pantomímico, a experiência se dava sempre sobre a
música, sendo ou não usada a palavra. O “mimo” utilizava várias ferramentas de
comunicação: sabia recitar e declamar, assim como mimicar o monólogo cantado pelo coro.
“É preciso levar em conta que a pantomima sempre foi produzida para uma plateia
fundamentalmente oral, em um mundo quase iletrado, e, dessa forma, „fica mais claro o
porquê da existência desta cena com predominância de gestos‟, e a intensa absorção pela
plateia” (2007, p. 39).
Uma questão que ligava diretamente a pantomima do circo ao que seriam os esportes
modernos era a inserção constante da relação entre ela e as práticas físicas e ginásticas. As
atividades “gymnásticas”, nos circos, faziam parte dos atrativos, que, juntamente com a
temática pantomímica, eram a essência da apresentação. Os espetáculos buscavam extrapolar
o limite humano, onde o caráter moderno podia ser exaltado, numa tentativa de sempre
ampliar a atuação do homem, que, principalmente, a partir do século XIX, através da
racionalidade científica, se sobrepunha ao dogmatismo religioso que tinha uma herança
medieval, como destacam Melo e Peres:

Uma vez mais o circo refletia um dos dramas da modernidade. Era possível superar
os limites divinos por um processo de produção racional de conhecimento. Doenças
podiam ser superadas pela medicina. Pontes superavam obstáculos naturais. As
técnicas permitiam aos homens flutuar. A ginástica dos circos transitava por padrões
de racionalidade tanto quanto a dos médicos. A diferença era a especificidade do
diálogo (2014, p. 57).

A imprensa da época retratava muito bem essa relação entre pantomima e ginástica,
que acabavam sendo modos de expressão corporal fundidos em um só, que é o circo. É o que
podemos perceber no anúncio do dia cinco de março de 1870, do jornal A Reforma, que fez
menção ao Circo Norte-Americano. Entre as atrações estavam o “exercício perigoso e difícil
sobre a corda pelo Sr. Ravel” e “as argolas suspendidas pelo terrível „gymnástico‟ Sr. D. Juan
Messas”. O anúncio encerrou com a comunicação de que a companhia “concluirá a função
64

com uma linda e bonita pantomima intitulada „estátua branca” e que haveria uma
representação inteiramente nova no sábado.
As mesmas empresas apresentavam várias e diversas pantomimas em suas estadas.
Nesse caso do Circo Norte-Americano, em 1870, pudemos notar algumas outras
representações apresentadas em Porto Alegre, como “o phantasma branco” (A Reforma,
05/07/1870), “a filha do sapateiro” (A Reforma, 12/05/1870) e “o remendão e o alfaiate” (A
Reforma, 21/5/1870).
Outro caso parecido de relação entre atividades ginásticas e a pantomima pode ser
percebido no anúncio de estreia do Theatro de Variedades, exposto na Gazeta de Porto
Alegre, de quinze de dezembro de 1883. No comercial, a companhia se apresentou como
“equestre, „gymnástica‟, acrobática Paulistana”. Na programação exposta, além das
tradicionais sinfonias e orquestra, podemos observar também luta romana, “exercícios
diabólicos”, barra aérea e, por fim, a pantomima “a rosca”. No jornal O Conservador, de oito
de julho de 1888, o espetáculo do Theatro de Variedades promete “vários trabalhos equestres,
gymnopedicos e acrobáticos dos mais aplaudidos do repertório da companhia”. O anúncio
destacou o grande final reservado para essa função: “Terminará esta função com a
espetaculosa pantomima histórica, em 25 quadros, ornado de bela música, bailado, combate,
etc. etc., a qual será exibida positivamente pela última vez Os salteadores da Calabria ou a
morte de Luidge Vampa, o terror do século XIX.”
Inserido nesse mesmo contexto, o Rio de Janeiro apresentava características muito
parecidas com o que acontecia nas apresentações de Porto Alegre, já que grande parte dos
espetáculos que eram exibidos na capital nacional também se destacavam no sul do Brasil.
Porto Alegre, assim como o Rio de Janeiro, fazia parte de um roteiro de espetáculos, que
tinha, nas duas cidades brasileiras, aportes privilegiados.
Melo e Peres (2014) escrevem justamente sobre a ginástica nas atrações circenses,
destacando que essas práticas ganhavam ênfase nos periódicos da época, onde exercícios de
força e destreza se intercalavam com saltos ginásticos, saltos aéreos, elevações ginásticas e
volteios ginásticos. Assim como no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro, esses exercícios
estavam inseridos em um contexto pantomímico, por vezes de caráter histórico, como
podemos notar nas atrações que integraram a programação do Circo Olympico, de 27 de maio
de 1860 (Correio Mercantil, 27/5/1860, p. 4), citados por Melo e Peres:

Em muitas ocasiões as referências às cenas tinham relação com feitos “históricos”


(como “O grego heróico em combate com o mouro rebelde”) ou “primitivos” (como
65

“o selvagem do norte no exercício da caça) ou „exóticos” (como “a carreira rápida


do volteador chinês” e “a carreira veloz da sílfide”) (2014, p. 57).

Essa relação entre o circo e as atividades artísticas e ginásticas nos parece associar
tanto às cidades analisadas, Rio de Janeiro e Porto Alegre, quanto às principais potencias
mundiais da época, principalmente os países da Europa. Essa rede de espetáculos, além de
demonstrar afinidade entre diversas regiões brasileiras, confirmava a compatibilidade entre o
Brasil e o velho continente, em relação aos seus artistas e práticas físicas, que era valorizada,
inclusive, nos anúncios de jornal, como o do Circo Universal, em A Reforma, de vinte e três
de fevereiro de 1875, em Porto Alegre:

Nesta noite tomarão parte nos trabalhos, os principais artistas da companhia, entre
eles distingui a “Mlle. Pereira”, a verdadeira filha do ar. Artista sem rival,
“gymnástica” e equestre. Será executado nesta função, o surpreendente trabalho no
trapézio aéreo volante; execução feita, com destreza e agilidade, por Mlle Pereira,
que tantos aplausos tem recebido na Europa e América.

O mesmo circo anunciou, em 30 de maio de 1875, em A Reforma, a sua última função


em Porto Alegre. O motivo, muito relevante: a ida do diretor Albano Pereira a Europa em
busca de uma companhia completa, totalmente desconhecida nesta capital, “para que assim
possa dar uma prova de estima e consideração para com os dignos habitantes de Porto
Alegre”. A comunicação ainda destacou que “para isso tem que construir nesta capital um
circo de estilo europeu que possa oferecer todas as comodidades, asseio e elegância aos
frequentadores de suas funções”.
A viagem do Sr. Albano seria um desdobramento desse processo. De fato, alguns
meses após a sua viagem, tivemos a notícia da inauguração de um novíssimo “Circo-Theatro”,
que aconteceu no dia 14 de agosto de 1875, na praça Conde D´Eu, atual Praça XV de
Novembro, nos fundos do Mercado Público de Porto Alegre (A REFORMA, 17/08/1875). O
que se pode notar é que o já celebrado Circo Universal tinha sido completamente
reestruturado. O jornal A Reforma, de 17 de agosto de 1875, dedicou grande parte da sua capa
para a descrição do novo estabelecimento. A grandiosidade da nova estrutura do circo era
tamanha que o periódico destacou que, na América do Sul, não existia outro circo-teatro do
gosto e proporções dele. Para o jornal, nem mesmo na América do Norte existia um circo que
pudesse ser comparado ao Universal.
Ao mesmo tempo em que foi exaltada a coragem do Sr. Albano Pereira em investir em
tamanho empreendimento, também foi aplaudida a sua iniciativa de contratar artistas do mais
alto gabarito, que formaram um elenco “condigno com a ilustrada população da capital e com
66

o belo Ninho da arte, erigido na Praça Conde D´Eu”. O circo era destacado como uma
excelente companhia equestre, “gymnástica” e mímica.
É possível perceber o sucesso do empreendimento pelos números da sua inauguração 4,
listados em A Reforma. De acordo com o periódico, no dia do espetáculo inaugural, a
bilheteria foi esgotada. Mais de duas mil pessoas estavam acomodadas, divididas entre
camarotes, cadeiras reservadas, cadeiras não reservadas e as acomodações gerais. Até mesmo
parte do público, que chegou atrasado, insistiu para assistir o espetáculo. Não tendo como
contê-los, mais de 200 pessoas acabaram assistindo ao show em pé. Esse numeroso público e
a visível estratificação demonstram, para além do quão frequentada era essa diversão, a
diversidade do público dividido em vários níveis de preços5. A exemplo dos outros demais
entretenimentos, essa diferenciação era uma estratégia que possibilitava tanto o acesso de
pessoas de diferentes poderes aquisitivos quanto a separação entre aqueles que não gostariam
de se mesclar a discrepantes camadas sociais - uma estratégia do crescente mercado do
entretenimento.
A descrição da estrutura do circo, tecnológica e refinada para a época, também
chamava atenção. A parte interna era “brilhantemente iluminada à gás”. O vasto recinto era
formado por um octógono composto por colunas, em cuja base superior repousavam as
arestas que convergiam para o elevado centro do edifício, ficando as arestas em forma
piramidal. Também, a parte externa fora elogiada, pois tinha se transformado no “mais belo
jardim que se possa imaginar”. (A REFORMA, 17/08/1875, p. 1)
Não satisfeito com o sucesso, A Reforma destacou, em 16 de setembro de 1875, que “o
Sr. Albano Pereira, interessado como está em apresentar trabalhos que satisfaçam ao público,
mandou vir da corte novos artistas, que, segundo consta, devem chegar por todo este mês”.
É possível inferir que, nessa época, a estrutura física da maioria dos circos ainda não
fosse um dos seus pontos de destaque. A busca por um espaço mais agradável e confortável
para os espetáculos se deu de forma mais enfática com a proximidade do século XX, como a
promovida pelo Sr. Albano Pereira. Foi possível perceber que, por vezes, as trupes dividiam a
mesma infraestrutura para as suas apresentações, mesmo se tratando de duas companhias
consagradas, como o Chiarini e o Universal, que, em 1877, na cidade de Porto Alegre,
4
Digno de nota é a descrição do momento da inauguração que aconteceu às 20 horas em ponto: “rompeu a
superior orquestra da companhia o hino nacional, depois o português e por último o alemão” (A REFORMA,
17/08/1875, p. 1). Mesmo sendo a companhia circense itinerante, assim como grande parte dos artistas, a ligação
entre Brasil, Portugal e Alemanha foi muito forte em Porto Alegre no século XIX. Essa relação será percebida
mais fortemente com a análise das demais diversões e modalidades esportivas investigadas nesta tese. No
entanto, este ato demonstra o quão marcante era esta vinculação nas diversões porto-alegrenses.
5
O preço mais caro era o camarote, que custava 10$000, passando pelas cadeiras reservadas 3$000, cadeiras
avulsas 2$000, gerais 1$000 e crianças até sete anos 500. (A REFORMA, 17/08/1875)
67

compartilharam o mesmo picadeiro. Nessa ocasião, o Chiarini, com seu “circo equestre e
agregação zoológica”, anunciou suas apresentações que aconteceriam no Circo Universal (A
REFORMA, 28/01/1877, p. 3). Essa característica pode ser entendida como a marca de um
período onde o espetáculo teatral dos circos, as atividades físicas e, principalmente, uma
indústria do entretenimento ainda estavam se consolidando enquanto parceria. Os circos,
seguindo a tendência de modernização dos entretenimentos, também privilegiariam condições
onde o público fosse atraído por um conjunto de fatores que iam além do espetáculo em si e
as possibilidades de consumo fossem ampliadas largamente.

Imagem 2: A Reforma, 28/01/1877, p. 3.

Essa relação direta que o circo faz entre a representação pantomima e exercícios de
ginástica, aliado à grande circulação dos seus membros, tanto em Porto Alegre quanto no Rio
de Janeiro, além de outras grandes e pequenas cidades do Brasil, da América, Europa e outros
continentes, se destacaram como indicativo de figurar como fator relevante no
desenvolvimento do gosto pela ginástica, além de várias outras práticas corporais a ela
ligadas.
Se o circo fez com que o desafio corporal do homem fosse disciplinado e
espetacularizado, também foi incentivador de um novo patamar no desenvolvimento dessa
correlação, que foram os esportes modernos. Essa vinculação podia ser muito bem percebida
nos anúncios de jornais, sendo o circo o local onde todas essas variáveis interagiam, como é o
caso da comunicação no Jornal do Commércio, de Porto Alegre, de 12 outubro de 1881. Ela
anunciava a Companhia Luso-Brasileira, “equestre-gymnástica, acrobática, mímica e
68

coreographica, dirigida pelo afamado artista e primeiro equestre brasileiro, Manoel Pery,
discípulo querido do grande Antonio Carlos, de saudosa memória, o rei da equitação”. O
mesmo reclame deu ênfase à participação do “celebre distinto artista Augusto Coelho,
primeiro equilibrista, verdadeira maravilha, que com seus arriscadíssimos trabalhos aéreos
assombrou a América do Norte, Europa e ultimamente o Rio da Prata”.
Durante o século XIX, esses exemplos foram frequentes. É o caso do Theatro de
Variedades, que publicou, em oito de julho de 1888, a sua programação na qual anunciou
“vários trabalhos equestres, gymnopédicos e acrobáticos dos mais aplaudidos do repertório da
companhia” (O CONSERVADOR, O8/07/1888, p. 3). Em quatro de maio de 1898, A
República publicou o anúncio do Circo Serino, companhia chilena “equestre, acrobática,
mímica contorcionista e equilibrista”.
Aparentemente, a aproximação entre o circo e os esportes modernos se tornou mais
intensa e evidente com a proximidade do fim do século XIX. As próprias designações dadas
aos artistas se tornaram um tanto próximas ao que conhecemos atualmente como atleta. É o
caso do Grande Circo Pery, em Porto Alegre, que publicou no Jornal do Commércio, de 19 de
maio de 1899, a comunicação que sua “renomada agremiação equestre brasileira da capital
federal em digressão aos estados do sul”, dentro do seu programa de apresentação, dava
destaque a diversos artistas/esportistas, como: “o sem rival jockey brazileiro Anchises Pery”,
“o veloceman brazileiro Polybio Pery”, “os arrojados acrobatas Pery Filho e Kaumer Pery”,
“o celebre gymnasiarco Jose Pantojo”, “o celebre equilibrista Avelino Costa”.
O circo, que, por um olhar superficial, pode não ter uma relação direta com o
desenvolvimento dos esportes, a partir de uma análise mais atenta, demonstra grande
intimidade com as praticas esportivas modernas. Porto Alegre e Rio de Janeiro, cada cidade
com suas características específicas, recebeu esses artistas/esportistas que, da mesma forma,
em grande parte, eram oriundos ou tinham considerável relação com a Europa ou outros
continentes e percorriam grandes distâncias demonstrando suas habilidades físicas,
contribuindo para a sua disseminação e alargando a abrangência dos picadeiros.
Esse circuito dos circos contribuía para um maior conhecimento das práticas
ginásticas, físicas e equestres. Se Porto Alegre e Rio de Janeiro eram cidades com níveis de
desenvolvimento e relação diferenciada frente a outras grandes urbes do país e a nações da
América e da Europa, o circo era fator de integração e divulgação de práticas relacionadas ao
corpo e à modernidade.
69

1.7.2 Cavalhadas

Herança dos povos ibéricos, as cavalhadas são celebrações que tem origem na luta
entre cristãos e muçulmanos no período da reconquista. Para Jean Batiste Debret (1981), após
o retorno do comando da península ibérica aos cristãos, no século XV, conservou-se entre eles
o amor aos torneios cavaleirescos. Entretanto, o francês também destaca que, pouco a pouco,
o caráter belicoso de tais exercícios foi atenuado mediante regras mais tranquilas, mas na
equitação permaneceu a paixão dominante da corte. Com o nome de cavalhadas, o torneio
transformou-se em uma série de exercícios de destreza, tomados de empréstimo de todos os
povos cavaleiros. E, anualmente, na época consagrada às cavalhadas, viam-se, em Lisboa, os
príncipes de sangue e os outros fidalgos exibirem uma notável habilidade no manejo de seus
ágeis e elegantes corcéis resplendendo sob a riqueza dos arreios. (DEBRET, 1981, p. 586)
Essas festas foram comuns em todas as áreas colonizadas por Portugal e Espanha,
adaptando-se a cada região de acordo com suas características locais, mas seguindo a sua
essência medieval. Jean Batiste Debret depõe que as cavalhadas foram introduzidas no Brasil
pelos governadores portugueses das províncias, nas cidades do interior, em Minas, São Paulo,
Rio Grande do Sul e Santa Catarina, e “logo formaram elas uma multidão de hábeis cavaleiros
capazes de rivalizar com os portugueses em destreza e com a vantagem do acréscimo, a seus
jogos de manejo original do laço e das bolas” (se refere às boleadeiras de origem indígena,
utilizadas no Rio Grande do Sul como ferramenta de caça) (DEBRET, 1981, p. 586).
O cronista Achylles Porto Alegre registrou a forma como esse folguedo se inseriu nas
tradições da capital do Rio Grande do Sul, tornando-se “uma festa „essencialmente gaúcha‟,
que revelaria a doçura poética romântica e ao mesmo tempo guerreira e cavalheiresca da
índole dos sul-riograndenses” (PORTO ALEGRE, 1994, p. 88). José Rivair Macedo (2008)
indica que, no período colonial brasileiro, existiam festejos cavaleirescos por parte dos
portugueses que emigravam para a colônia: “em seus passatempos, dedicavam-se à caça e aos
exercícios equestres, corridas e torneios estilizados: competições denominadas canhas e jogos
de argolinhas” (MACEDO, 2008, p. 6). Assim como a nobreza pernambucana e baiana
apreciavam as cavalhadas, e em São Paulo estas festividades eram organizadas pelos homens
bons em meados do século XVII, em 1585, no Rio de Janeiro, já ocorriam espetáculos
equestres com grande pompa, ao som de tambores e pífanos (MACEDO, 2008).
Com efeito, é importante deixar claro o que era essa prática que estivera presente por
todo o Brasil desde o período colonial e que é costume representado até o presente:
70

De modo geral, as cavalhadas são atividades lúdicas e recreativas. Herdeiras dos


torneios e justas, manifestam-se em jogos equestres nos quais os cavaleiros tem a
oportunidade de demonstrar sua habilidade no domínio do cavalo e no manejo de
armas. A competição constitui-se de provas em que os participantes devem atingir
alvos previamente colocados em campo (bonecos, cabeças de papelão) e recolher
pequenas argolas penduradas numa trave, tudo isso durante rápido galope. (...) Nesse
caso, há luta simulada entre dois grupos de cavaleiros, em batalha campal. A
dramatização tem início com a apresentação dos grupos e a troca de embaixadas, na
qual o emissário do rei cristão propõe aos mouros que aceitem o cristianismo, e,
mediante a negativa, declara-lhes guerra. A luta se desenvolve mediante a exibição
de diferentes evoluções executadas pelos participantes, com a subsequente tomada
de um castelo. Os participantes vestem trajes adornados – os cristãos, com cores
azuis, e os mouros, com vermelho. Os animais também aparecem enfeitados, alguns
com estrelas e outros com a lua crescente. As armas são lanças, espadas de madeira,
garruchas ou pistolas. A evolução dos movimentos é permeada por insultos e
desafios verbais, por música e bailados. Ao final, os mouros são invariavelmente
vencidos, acabando por aceitar o batismo e converter-se. (MACEDO, 2008, p. 2)

Em Porto Alegre, esses festejos se tornaram muito populares, ao passo que, segundo
Achylles Porto Alegre, por volta de 1870, “raramente havia uma festa religiosa ou cívica sem
„cavalhada” (PORTO ALEGRE, 1994, p. 88). No caso da nossa análise, cabe destacar que,
mesmo sendo uma atividade cultural com um fundamento religioso, todo o ritual era baseado
em disputas de habilidade. Entendemos que existiam vários pontos de convergência com as
práticas esportivas, já que se tratava de competições disputadas de diversas formas, com
provas de perícia, velocidade e perspicácia. Esses eventos eram, inclusive, denominados de
divertimentos pela imprensa da época. Pretendemos demonstrar, portanto, como as cavalhadas
do século XIX, no Rio de Janeiro e em Porto Alegre, faziam parte do processo de
desenvolvimento do campo esportivo nessas duas cidades.
Quando destacamos que as cavalhadas assumiram as cores da região onde eram
realizadas, entendemos que também incorporaram as temáticas inerentes àqueles locais, como
foi o caso da Guerra do Paraguai, que envolveu todo o país, mas que teve o Rio Grande do
Sul como um dos seus palcos principais. No ano de 1870, uma grande festividade foi
realizada para que se homenageassem os Voluntários da Pátria. Ao mesmo tempo em que a
cavalhada, na sua essência, servia de confirmação da vitória cristã sobre os muçulmanos,
neste caso, vestiu uma nova representação e ostentou a supremacia do Brasil sobre o Paraguai.
O jornal A Reforma de Porto Alegre, publicado em onze de maio de 1870, anunciou
uma cavalhada, que realizar-se-ia nos dias 15, 16 e 17 do corrente, no circo preparado na
várzea (Redenção), “em regozijo pela terminação da guerra”. A esta temática se acrescentou
mais um motivo beneficente, que foi a venda de camarotes para “o fim humanitário de
libertação de crianças cativas”.
71

A programação consta que, no primeiro dia da festa, os voluntários da pátria deveriam


receber uma mesura em nome do público em geral, entregue pela comissão de festividades,
“pelos serviços prestados por esses bravos soldados em defesa da honra nacional”. Seguindo a
homenagem, seria “servido aos praças desse glorioso batalhão uma refeição de assados com
couro, segundo o costume da província, abundantemente preparado e com tudo que é preciso
para torná-la completa”. A festa só começaria com a presença do presidente da província, à
uma hora da tarde, sendo que os próprios soldados ocupariam os lugares na encenação.
A Reforma, de quinze de maio de 1870, parabenizou a comissão de festejos da
cavalhada, destacando que “ela concorre também, ainda que em pequena parcela, para
satisfazer uma grande necessidade atual do país, para seu progresso e desenvolvimento pelo
trabalho livre”. A referida edição ainda apontou, no mesmo sentido: “é uma pedra que ela
coloca no grande edifício do nosso futuro”. Não é de se admirar esse posicionamento do
jornal, favoravelmente aos atos de alforriamento e valorização do trabalho livre, já que estava
a serviço do Partido Liberal.
Podemos perceber mais detalhes dessa grande festividade que aconteceu em Porto
Alegre, em maio de 1870, por uma longa crônica publicada em oito de junho do mesmo ano,
no jornal A Reforma. Segundo o relato, os Voluntários da Pátria, objeto das homenagens do
folguedo, eram “nobres cruzados porto-alegrenses que tinham ido pelejar pela honra da pátria,
e na pugna horrível se haviam coberto de louros e de glórias”. Entre várias descrições, como
do assado com couro oferecido aos soldados, os competidores também foram alvo do
cronista:

Quase todos eles moços de profissões inteiramente diferentes, corriam sobre seus
fogosos e bem ajaezados cavalos com uma destreza e perícia admiráveis. A diversos
cidadãos residentes em Viamão e Aldeia dos Anjos ouvi eu a confissão de que a
corrida estava na altura das que são feitas nos lugares de suas residências, onde os
corredores estão acostumados a cavalgar os mais fogosos corcéis. (A REFORMA,
08/06/1870, p. 2)

De acordo com a crônica, esteve presente o presidente da província e sua família, e o


festejo iniciou com a representação dos mouros tomando uma moça dos cristãos, que
posteriormente foi reavida com uma invasão ao seu castelo e uma batalha de espadas. Após,
houve a paz e “deu-se começo ao divertimento das cabeças que consiste em derribar umas a
lança, outras a tiro de pistola, e levantar outra do chão com espada. Conclui a festa com
argolinha”. Segundo o jornal, havia mais de 6.000 pessoas assistindo ao divertimento, em que
houvera, inclusive, alforriações de crianças escravas com o apoio do presidente da província,
que, após ser homenageado pela presença, “respondeu congratulando-se com a província pela
72

brilhante realização da citada ideia e pelo complemento que lhe tinha sido dado: a libertação
de escravos” (A REFORMA, 08/06/1870, p. 2).
O Rio de Janeiro, enquanto capital do Brasil, também utilizava as cavalhadas como
forma de divertimento e ratificação do seu poder em dias de festividades. Em momentos
importantes da história nacional do século XIX, como o casamento da princesa real D. Maria
Teresa, em fins de 1810, e, em 7 de fevereiro de 1818, nas festas de aclamação de D. João VI,
houvera cavalhadas (BRANDÃO, 1978). Nesta ocasião, uma rica descrição feita por Jean
Baptiste Debret demonstrou como esse tipo de festividade aliava, além das questões culturais
e religiosas, práticas de competição e habilidade. Mesmo que em determinado momento do
divertimento, obrigatoriamente, o ganhador fosse o cristão sobre o mouro, existiam várias
outras fases onde se davam disputas, exercícios que, de certa forma, eram regrados e
acirravam o ar de competição do folguedo:

O primeiro exercício consistia em tocar com a lança, a galope, numa pequena


barquinha cheia de água, suspensa, a doze pés de altura, a uma corda esticada e
amarrada pelas duas pontas a dois postes entre os quais passava o cavaleiro. Um
golpe bem dado deveria escravizar a barquinha. O segundo exercício consistia em
quebrar com a lança um pote de barro pequeno, suspenso do mesmo modo, e dentro
do qual havia um pássaro que, libertado, erguia vôo fazendo flutuarem as fitas
amarradas nas suas patas. O terceiro exercício consistia em enfiar a lança numa
argola, também pendurada a mesma altura dos objetos precedentes. No quarto
exercício o cavaleiro serviria da ponta da lança para espetar uma cabeça de papelão
colocada numa pequena bandeja à altura de um homem. No quinto, com um tiro de
pistola, carregada somente com pólvora, fazia ele saltar uma cabeça igual, na mesma
posição da outra. O sexto consistia em erguer do chão uma cabeça de papelão na
ponta de uma espada. Esse gênero de exercício precedia outro, que consistia no
encontro de dois cavaleiros correndo a galope. Em primeiro lugar era preciso cortar
com um golpe de espada uma cana-de-açúcar jogada pelo adversário mais ou menos
à altura da cabeça do rival. Essa luta de habilidade era repetida alternadamente em
número igual de vezes por ambos os adversários, a fim de estabelecer-se um termo
de comparação. Em segundo lugar devia-se correr, com um pequeno escudo no
braço, e aparar com destreza laranjas de cera cheias de água, jogadas pelo adversário
no momento do encontro; esse exercício se repetia como o primeiro. Para mostrar ao
expectador afastado a eficiência do golpe da laranja em vez de enchê-la de água,
faziam-no às vezes com polvilho, plumas coloridas ou apenas papel branco picado.
Os diferentes modos de manejar a lança e a pistola foram empregados com
habilidade a fim de se variarem as seis representações sucessivas. (DEBRET, 1954,
p. 74)

Em que pese as divergências quanto aos motivos dos festejos, que são religiosos na
sua essência, nas diferentes localidades, as cavalhadas assumiram posturas distintas quanto
aos seus propósitos e representações. Tanto o Rio de Janeiro quanto Porto Alegre, colocaram-
nas como instrumentos de competição. Independentemente, a “batalha” entre cristãos e
mouros que se dava ao sul ou ao sudeste brasileiro, cada qual com suas características
regionais, em que as disputas de habilidade, velocidade, enfim, do desempenho dos
73

participantes era fator fundamental, fazia com que os folguedos estivessem muito próximos
aos esportes considerados modernos.
Em outra oportunidade, temos o anúncio de mais uma cavalhada promovida em Porto
Alegre. A Reforma de 29 de junho de 1900 publicou o anúncio do folguedo, prometendo que
“bizarra diversão será efetuada amanhã no Prado Rio-Grandense”. A organização estaria a
cargo do Grêmio Gaúcho,

(...) fundado com o objetivo de avivar os tradicionais costumes gaúchos, tão simples
e francos como grandes e nobres, tão hospitaleiros na sua amena rusticidade como
altivos e leais na defesa de seus brios, tem se empenhado em mostrar o que a alma
rio-grandense possuía de elevado e ainda possui, já no exercício da vida do trabalho,
já nos torneios em que são requeridos, por igual, bravura, destreza, e garbo. (A
REFORMA, 29/06/1900, p. 2)

Relatando as festividades acontecidas, o jornal A Federação, de dois de julho de 1900,


destacou que a cavalhada foi um sucesso, tendo como público não menos de sete mil pessoas:
“naquele dia executaram-se 14 marcas do belicoso torneio, apenas deixando de efetuarem-se a
escaramuça denominada castelo de cruz e de repetir-se uma vez a sorte das argolinhas”. O
jornal destacou a curiosa sorte das caveiras, na qual os cristãos se sagraram campeões com 46
pontos contra 30 dos muçulmanos. A popular sorte das argolinhas também foi favorável aos
cristãos, que conseguiram tirá-la seis vezes, enquanto que os mouros, quatro vezes. O
encerramento da festa se deu às cinco horas da tarde com os campeões vestidos luxuosamente
com roupas de veludo com elegantes bordados, muitos desses a ouro. Os ginetes enfeitados
com o rigor de praxe, tilitantes de guisos, enfeitados de fitas azuis, brancas e encarnadas, e
reluzentes da prataria dos aperos.
Mais uma vez, a lógica béligerante das cavalhadas, que representa a luta entre os
cristãos e os muçulmanos, se apropriou da mitificação histórica do Rio Grande do Sul para
estabelecer uma relação entre as guerras acontecidas no sul do país. O jornal registrou o feito
como uma comemoração às façanhas dos gaúchos, celebrando um passado de glórias,
exaltando o que fora representado na competição: “o passado heroico e legendário do Rio
Grande do Sul ressurgia vencedor em toda a linha” (A FEDERAÇÃO, 02/07/1900, p. 3).
As cavalhadas, portanto, tinham, na sua fundamentação guerreira, a representação
mitificada de vitórias do passado, que assumiam posturas diversas e significados distintos. Se,
na capital do império, celebravam as vitórias, conquistas, casamentos da sua nobreza, tendo
como pano de fundo a luta entre cristãos e muçulmanos, o mesmo acontecia em Porto Alegre,
por outro prisma.
74

Na capital do Rio Grande do Sul, diferentemente do Rio de Janeiro, o que motivava


essas festas eram as celebrações das conquistas do povo gaúcho, numa guerra como a do
Paraguai ou, simplesmente, para reviver antigos triunfos. No entanto, o que nos interessa
refletir é a sua relação com o processo de desenvolvimento dos esportes nas duas cidades.
Expusemos vários exemplos em que podemos relacionar as cavalhadas a características
esportivas. Mesmo não se enquadrando enquanto prática esportiva moderna, a cavalhada
assumiu papel de competição, onde existia a busca por um ideal que extravasava o objetivo
representado pela dominação da península Ibérica ou a conversão de infiéis.
Tematizados em uma luta religiosa, cristãos e mouros disputavam suas habilidades em
seus cavalos e nas variadas etapas em jogo. Desta forma, entendemos que tanto as cavalhadas
realizadas em Porto Alegre quanto no Rio de Janeiro, mesmo com suas especificidades
temáticas e comemorativas, convergiram naquilo que as ligavam ao esporte, que foi a
competição. O certame que ganhava ares históricos era, na verdade, o propósito principal.
Portanto, entendemos que, mesmo se diferenciando em uma série de questões, as cavalhadas
foram além do pretexto religioso ou beligerante e contribuíram para o desenvolvimento do
que entendemos como campo esportivo, principalmente no que se refere a sua disseminação e
incentivo.

1.7.3 Rink6

Uma prática bastante comum no Brasil e que chamava muito a atenção da população
das grandes cidades, no século XIX, como Rio de Janeiro e Porto Alegre, foi a patinação,
chamada também de rink ou skating-rink. Victor Melo (2007b), no Dicionário do esporte no
Brasil, sublinha que, mesmo na sua forma de lazer e não como competição, também podia ser
considerado uma prática esportiva no século XIX. No entanto, optamos por classificar o rink
enquanto atividade de divertimento, já que consideramos que grande parte das suas
características vinculavam-no muito mais ao entretenimento do que aos esportes, pelo menos
em sua fase inicial.

6
Uma versão deste texto foi escrito em formato de artigo e está publicação na revista História Unisinos, volume
20 (janeiro/abril 2016), já com resultados parciais da pesquisa desta tese. O trabalho foi desenvolvido em
conjunto com o professor Victor Andrade de Melo sob o título A modernidade sobre rodinhas: a patinação na
Porto Alegre do século XIX (1878-1882).
75

O prelúdio da patinação no Brasil nos remete ao início do século XIX. Victor Melo
(2007b) destaca o vanguardismo do Rio de Janeiro, em 1820, tendo sido o primeiro ringue do
Brasil instalado na cidade, na antiga Rua Larga (que atualmente denomina-se Floriano
Peixoto). Foi, contudo, a partir de 1870 que acabou se tornando uma “febre” nesta cidade,
com a abertura de um novo “skating ring”, onde se podia alugar patins e contar com o apoio
de instrutores. No mesmo dicionário, Victor Melo depõe sobre o sucesso dessa atividade no
Rio de Janeiro. Segundo o pesquisador:

A moda da patinação era tamanha que, em 1878, é lançado no Rio de Janeiro um


periódico específico, o “Skating-Rink”. Na ocasião, o ringue de patinação se tornou
uma grande moda e uma diversão procurada por toda a família. Era um verdadeiro
complexo de entretenimento, onde vários tipos de atividades eram oferecidos. Por
exemplo, o ringue da Rua do Costa, nas décadas finais do século XIX, promovia não
só os bailes típicos, como até festivais de patinação fantasiada, baile de máscaras
sobre patins e patinação dançante com orquestras. Em 1891, mais um ringue é
aberto no Rio de Janeiro, também oferecendo corridas a pé e de bicicletas. Como a
patinação ainda manteve durante um bom tempo a sua capacidade de mobilização de
público, no século XX alguns clubes passaram a abrir seus ringues próprios, como o
Clube de Regatas do Flamengo, em 1919. (MELO, 2007b)

Até mesmo a imprensa de Porto Alegre noticiava quando, na capital do império, se


inaugurava uma nova estrutura para o rink, tamanho sucesso que o divertimento adquirira
entre a população local. O jornal A Reforma, de dezoito de julho de 1878, reproduziu na
íntegra o que a Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, havia descrito sobre a inauguração da
nova pista, demonstrando toda a sua grandiosidade e luxo. Podemos perceber a riqueza do
rink, que acolhia, entre outros, a família imperial. É dado destaque a detalhes que refletem a
postura moderna do esporte, como o asfalto, o grande número de luzes, assim como a
estrutura anexa. Descrevemos o anúncio de A Reforma:

Com a presença do SS. MM. Imperiais inaugurou-se ontem este estabelecimento. É


um edifício de uma construção ligeira, assaz ventilado e medindo 50 metros de
comprimento por 20 de largura; o espaço destinado aos patinadores, o qual é de
asfalto é perfeitamente preparado para os exercícios a que é destinado. Esse espaço é
cercado no mesmo plano por uma espaçosa galeria, onde há lugar para quatro ou
cinco filas de cadeiras cujas costas dão para jardins, que estavam iluminados e onde
estão mesas e cadeiras. A meia altura do edifício há, por cima da entrada principal, o
camarote imperial e dos lados uma vasta galeria para espectadores. Em dois
pequenos gabinetes, que há ao lado da entrada, alugam-se “patins” para homens e
senhoras. No pavimento térreo e no superior há “bouffets” de grande capacidade. A
fachada do edifício é dividida em três corpos, o principal e dois pequenos e
elegantes torreões. É grande o número de luzes; mas tão vasto é o salão que a
empresa necessariamente ver-se-há na necessidade de o iluminar melhor. A
concurrência de espectadores foi regular e escolhida. A dos “patinadores” foi maior
do que se esperava. Senhoras, homens e crianças, tudo “patinava” com a firmeza de
quem nunca fez outro exercício senão “patinar”, e cair algumas vezes, o que
constitue também uma parte importante do divertimento. Suas magestades
76

percorreram o edifício e retiraram-se das 10 ½ horas. Durante a noite duas bandas de


música tocaram escolhidas peças. O “skating-rink”, vai forçosamente ser o lugar do
“rendez-vous” da sociedade fluminense. Parabéns a empresa e ao público.

Já no sul, o cronista Achylles Porto Alegre denominou o gosto das pessoas pela
patinação na capital do Rio Grande do Sul como uma verdadeira “febre” (PORTO ALEGRE,
1994, p. 36). Segundo seus relatos, por volta da década de 1870, a Praça da Harmonia era
muito procurada aos domingos, transformando-se num ponto “chic” da cidade. Para o
cronista, o Rink teve a sua época em Porto Alegre e, “à falta de um lago de Bolonha
congelado, ou outros, como algumas cidades elegantes da Europa, era no „skating-rink‟ da
praça da Harmonia que se realizavam, aos domingos, os serões de patinagem, a que
concorriam, alvoroçadamente o belo e o feio sexo da cidade” (PORTO ALEGRE, 1994, p.
36).
Assim como os circos, os rinks também tinham um caráter nômade, com presença
comum nas maiores cidades do país. Rinks que faziam sucesso em Porto Alegre poderiam ser
os mesmos que se apresentavam no Rio de Janeiro, como uma espécie de intercâmbio entre os
locais e os patinadores, o que se percebe no jornal A Reforma, de 26 de julho de 1879, quando
destaca o anúncio da apresentação: “na função da noite, O Laço de Fita, engraçada diversão,
das que mais agradaram no Rink da Corte, e na qual tomaram sempre parte os mais distintos e
hábeis patinadores”.
De acordo com a imprensa gaúcha, a inauguração do primeiro rink de Porto Alegre se
deu em 27 de outubro de 1878. O jornal A Reforma (26/10/1878) anunciou o que seria a
“grande e esplêndida inauguração do skating-rink americano”, na Praça da Harmonia. Como
atrativo ao “respeitável público desta ilustrada capital”, a oportunidade de passar algumas
horas, e todos os dias, de “verdadeira distração, tão inocente quanto útil”. O aviso ainda
destacava que o “skating-rink” seria um dos divertimentos mais “fashionables” e populares,
tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. O jornal ainda se referia aos benefícios físicos,
agregados aos interesses dos seus praticantes: “divertimento este que não só se recomenda
pela sua grande utilidade a saúde, como pelo interesse que oferece aos seus frequentadores”.
77

Imagem 3: A Reforma, 29/11/1878, p. 2.

Como fator de destaque no rink a ser inaugurado, a sua inserção aos princípios de
modernidade, com grandes inovações tecnológicas e o conforto necessário ao espetáculo,
como sendo “abundantemente iluminado a gaz hidrogênio carbonado”, além de oferecer
“todas as possíveis comodidades aos seus respeitáveis frequentadores”. E para valorizar ainda
mais esse dia, “duas excelentes bandas de música abrilhantarão com bonitas e escolhidas
peças de seus repertórios a inauguração do primeiro skating-rink da briosa província do Rio
Grande do Sul” (A Reforma, 26/10/1878, p.2).
Nota-se, também, que, para a ampliação do gosto e da frequência da população ao
rink, eram ministradas aulas de patinação. Havia anúncio de escola com música e com a
orientação de um professor e duas professoras (A REFORMA, 11/03/1878, p. 3). Neste
mesmo sentido, e, aparentemente com a função de divulgação e informação sobre o recente
esporte inaugurado na cidade de Porto Alegre, o Jornal do Commércio, de 10 de novembro de
1878, publicou uma espécie de histórico da patinação. Nele, o periódico apontava sua
invenção na França, em Paris, em 1820. O responsável teria sido o célebre Mazurier,
“dançarino, mímico, acrobata e ator, que teve a honra de inaugurar no palco os primeiros
patins de rodinhas”. O sucesso viria 30 anos mais tarde com o ballet de patinadores “O
Propheta”, organizado e delineado por Mabille. Segundo o artigo, “naquela mesma época, um
indivíduo chamado Constant, entusiasmado pelos patins de rodinhas, vaticinava a propagação,
a universalização do uso dos patins e para corroborar sua profecia andava pelas ruas com seus
patins”. Esses atos elaborados por Constant se davam em plena Praça da Concórdia, em Paris.
Segundo o periódico, acumulava, perto de si, curiosos e transeuntes. Com efeito, o Jornal do
78

Commércio ainda destacava que não foi imediatamente que os patins conseguiram sua
inserção no mundo esportivo. Foi apenas com a sua exportação para além-mar que sua
consagração se deu:

Foi preciso o patim transpor o mar, receber o nome de skate, para ser afinal adotado
pela moda.
Na Inglaterra inventaram uma palavra, um nome até então desconhecido, afim de
emprestar-lhe um caráter esquisito e servir-lhe de passaporte: Skating-Rink.
A palavra Rink não significa absolutamente coisa alguma; e talvez por isso mesmo
obtivesse imensa aceitação e fosse adotada com facilidade na língua e no uso
(JORNAL DO COMMÉRCIO, 10/11/1878, p.2).

O que notamos em relação à prática da patinação, em Porto Alegre, é que, pelos


anúncios publicados, existiam quase que diariamente sessões de “patinação geral”, onde o
público interessado podia alugar os patins e se exercitar ao som de bandas musicais. Essas
patinações gerais eram, muitas vezes, intercaladas com espetáculos profissionais. Como
exemplo, temos a publicação do jornal A Reforma, de 30 de novembro de 1878. No anúncio, o
Rink promete para o mesmo dia, às 8 horas da noite, “grande patinação geral com
acompanhamento de música”. Na mesma publicação, o anúncio para o domingo, 1 de
dezembro, com “exercício de patinação das 6 ½ às 9 horas da manhã”, o que parece se
diferenciar da “patinação geral”, marcada para as 4 horas da tarde do mesmo dia, que
antecedia a apresentação das 9 ½ às 10 horas, uma “nova e chistosa pantomima intitulada „O
Dr. Amolação”, que seria finalizada por um grande desafio sobre patins. Após, das 10 às 11
horas da noite, novamente “patinação geral” (A REFORMA, 30/11/1878, p. 3). Para facilitar
a locomoção dos frequentadores, “todas noites em que funcionar o rink, haverá na praça da
harmonia um ônibus e um breck” (A REFORMA, 27/11/1878, p. 3).
No ano de 1879, o mesmo Skating-Rink Americano anunciou a inauguração do seu
circo para o domingo, seis de julho. Nos festejos, “patinação geral e grandes corridas de
patinadores para os quais haverá um bonito prêmio que será oferecido ao vencedor”. Segundo
o anúncio, “diversão tão apreciada no Rio de Janeiro, São Paulo e em todos os circos de
patinação” (A REFORMA, 04/07/1879, p. 3). Além desses atrativos, é interessante a busca
pela participação feminina, com promoções que incentivassem esse público, não somente a
fazer parte da patinação, mas a desenvolver suas habilidades, como esta:

Nos ensaios de patinação, que se realizarão todos os dias das 3 às 5 da tarde, as


Exmas. Sras. Que desejarem tomar parte nesta tão útil quanto agradável diversão,
NÃO PAGARÃO ENTRADA.
79

As senhoras que patinarem bem ficam com direito a um prêmio dado pela empresa,
que constará de um cartão de entrada permanente no circo, em todas as suas funções,
independente de qualquer contribuição. (A REFORMA, 04/07/1879, p. 3)

A questão da habilidade e da disputa parecia ganhar cada vez mais espaço no rink de
Porto Alegre. Além dessa valorização e incentivo à participação e destreza feminina sobre
patins, os frequentadores passaram a clamar por corridas entre eles, o que foi realizado pelo
estabelecimento. Como aponta A Reforma, de 14 de agosto de 1879, a pedido “de muitos
frequentadores do rink desejosos de verem os meninos mais destros nos exercícios de
patinação, tomar parte nas tão apreciadas corridas de patinadores”. Além dessa disputa, o
anúncio esclarece que “correrão duas turmas compostas somente de meninos”. A patinação é
um destacado exemplo de como um divertimento, aos poucos, conquistou um número maior
de praticantes através de ações que objetivavam o ensino da habilidade, assim como o
incentivo da sua prática que se tornou competitiva.

Imagem 4: A REFORMA, 29/10/1878, p. 2.

O desenvolvimento desse esporte e a sua crescente popularização parecem ser alguns


dos fatores que levaram à criação de um “Club de Patinadores”, no dia 12 de agosto de 1879,
anunciada no dia anterior (A REFORMA, 11/08/1879, p. 2). Essa sociedade começou a
participar ativamente das promoções do rink, até mesmo preparando novas “diversões” (A
REFORMA, 19/10/1879, p. 3). Esses entretenimentos promovidos pelo club consistiam em
provas de habilidade sobre os patins. Temos um exemplo divulgado no dia 31 de outubro de
1879, no jornal A Reforma. O nome da diversão era A ponte perigosa. A prova, mesmo não
80

sendo uma modalidade esportiva, se utilizava da patinação, esta, sim, considerada um esporte,
no incentivo à disputa por prêmios, como o jornal descreve:

Consiste esta diversão num aparelho de madeira, em forma de ponte, medindo 24


palmos de comprimento sobre dois de altura. Colocado no meio do circo o
patinador, depois de uma pequena volta, terá de atravessá-lo, subindo 12 palmos até
a altura de 2 e descendo outros 12.
Da simples exposição que ali fica, se evidencia a dificuldade da prova, que o público
apreciará, perfeitamente executada, na função de amanha a noite.
O club oferece um bonito prêmio a pessoa que conseguir fazer a travessia da ponte.
Este trabalho é invenção do sr. Francisco de Paula Pinto, presidente do aludido club,
e que o executa magistralmente, levando a dificuldade ao ponto de subir a ponte e
dar em cima rapidamente uma volta para descer de costas e em pé. (A REFORMA,
31/10/1879, p. 3)

A essa modalidade se somam outras, como “James e John” (A REFORMA,


16/11/1879, p. 2), que se acrescentavam às práticas que já existiam no rink de Porto Alegre,
mencionadas anteriormente. Além disso, diversas atividades parecem se agregar à patinação
no rink , como o tiro ao alvo premiado, inaugurado no dia 25 de junho de 1882, e que oferecia
prêmios aos melhores atiradores (O SÉCULO, 25/06/1882). Com efeito, a disputa parece ter
se inserido de forma satisfatória no rink, visto a regularidade com que acontecia e até mesmo
o registro pela imprensa do seu sucesso, como no Jornal do Commércio, de 14 de outubro de
1882 (p. 2): “a diversão do tiro ao alvo, pela partida a pistola, que se anunciara entre dois dos
melhores atiradores desta capital, concorreu anteontem muitos apreciadores”.

Imagem 5: O Século, 08/10/1882, p. 3.

Nesse sentido, a patinação, ou os rinks, foram componentes importantes no


desenvolvimento do campo esportivo no Rio de Janeiro e em Porto Alegre. Podemos notar
81

que esse divertimento teve um papel de destaque na ampliação do gosto pelo esporte, que
estava se tornando cada vez mais modernizado, até mesmo na sua diversificação, como é o
caso de Porto Alegre. O rink, na sua ambição de contagiar o público em geral, acabou
envolvendo seus praticantes e fazendo com que as variáveis inerentes a essa prática também
fossem importantes no seu exercício, como a habilidade e a competição, essenciais na
atividade esportiva moderna. Além disso, foi um dos divertimentos/esportes que mais teve a
preocupação da divulgação da sua prática com a possibilidade do aprendizado, o que fez com
que a população se tornasse cada vez mais íntima dos patins e, por consequência, das práticas
corporais e esportivas.
82

Capítulo 2

Nas praças e nos prados: as touradas e o turf

2.1 Touradas7

Desde a primeira metade do século XVII, e mais constantemente a partir de meados do


século XVIII, corridas de touros 8 foram promovidas no Brasil, inicialmente integrando a
programação de festejos que, relacionados a datas importantes da família real portuguesa,
procuravam fortalecer os símbolos e a ideia de união do Império. (MELO, 2013)
No Rio de Janeiro, as corridas de touros foram mais frequentes exatamente no
momento em que, em função das guerras napoleônicas, a família real portuguesa se
estabeleceu no Brasil (1808-1821). No imediato pós-independência, contudo, deixaram de ser
promovidas durante muitos anos, quando as muitas turbulências políticas se faziam sentir no
cenário sociocultural, reduzindo a vida social da Corte.
Quando reapareceram na capital brasileira, na década de 1840, os eventos
tauromáquicos já adotaram um novo modelo: não mais financiadas pelo Estado, passaram a
ser organizadas por companhias profissionais que dependiam da acolhida do público para a
manutenção dos espetáculos que, aliás, eram bastante custosos.
No caso da sociedade da Corte, alternaram-se períodos em que as touradas
consolidaram-se, atraindo grande público, com outros em que desapareceram. Como razões
para tal fato, pode-se elencar questões estruturais da cidade (como epidemias, por exemplo) e
dificuldades financeiras das empresas promotoras, mas também tensões diversas que se
estabeleceram ao redor da tauromaquia.

7
Uma versão deste texto foi publicado em forma de artigo no ano de 2014, já com resultados parciais da
pesquisa desta tese. Foi desenvolvido em conjunto com o professor Victor Andrade de Melo, com a seguinte
referência: KARLS, Cleber Eduardo; MELO, Victor Andrade de. Tradição e modernidade: as touradas na Porto
Alegre do século XIX. História Unisinos, São Leopoldo, Vol. 18 nº 2, maio/agosto 2014.
8
Utilizamos aqui os termos touradas e corridas de touros como sinônimos. Na Península Ibérica, em Portugal e
Espanha, lugares de origem da prática no Brasil manifesta, é mais comum o uso do segundo termo. A instalação
destinada à realização de espetáculos tauromáquicos é chamado de arena, redondel, praça de touros, circo de
touros. Por vezes eram construções bem precárias; em outras ocasiões eram bem construídas e confortáveis.
83

Entre os frequentadores das corridas de touros, paulatinamente, foi aumentando o grau


de exigência no tocante à organização e emoção dos espetáculos, algo que nem sempre era
atendido pelos promotores. Um dos desdobramentos da insatisfação do público foram
tumultos nas arenas, situações que acabavam por acentuar as crescentes críticas à adequação
da prática, levando, por vezes, a sua proibição. Numa cidade que progressivamente aderia aos
discursos de modernidade, aspirando “civilizar-se”, as touradas passaram a ser, por alguns,
consideradas como um costume bárbaro e ultrapassado.
A chegada da República, com seus discursos de mudança, poderia significar que o fim
das corridas de touros na capital brasileira estava próximo. Todavia, não foi o que ocorreu,
pelo menos não de imediato: os espetáculos tauromáquicos permaneceram ativos até 1907,
quando foram definitivamente proibidos no Rio de Janeiro9. Na verdade, curiosamente, esse
foi o auge da presença da prática na cidade que tanto pretendia ser (e em certo sentido era
mesmo) a caixa de ressonância da mensagem de um novo tempo para o país (MELO e
BAPTISTA, 2013).
Pelo cruzamento de referências ao seu redor, as touradas parecem ser um valioso
objeto de estudo. De um lado, por seu passado, era um espetáculo profundamente ligado à
monarquia. O imperador brasileiro, entretanto, sempre aspirando representar-se ao país que
governava como adepto da ideia de civilização, não apoiava a prática, jamais tendo
comparecido a uma sessão10.
As corridas de touros jamais deixaram de ser uma lembrança do antigo colonizador.
Eram, assim, para alguns, uma presença incômoda não somente por sua inadequação
civilizacional, mas também porque lembravam um momento da história, cujas referências
deveriam ser substituídas pelas advindas dos “países desenvolvidos” (notadamente França e
Inglaterra). A despeito disso, tais espetáculos entusiasmavam a muitos.
A princípio, as corridas de touros eram uma prática profundamente ligada aos
costumes da aristocracia. O crescimento da cidade e o surgimento de um maior e mais
influente setor empresarial, aliados às mudanças de mentalidade em curso, poderiam ter
decretado sua extinção. Contudo, pelo menos no caso do Rio de Janeiro, não foi isso que

9
Somente em 1934 uma lei federal proibiu as touradas em todo território nacional: decreto n. 24.645 de 10 de
julho (Estabelece medidas de proteção aos animais).
10
De toda forma, as companhias tauromáquicas, por diversas vezes, tentaram se aproximar da família real,
reservando um espaço especial na arena, pedindo seu apoio ou fazendo homenagens. Por exemplo, em Porto
Alegre, a tourada de 2 de dezembro de 1881 foi dedicada a “comemorar o feliz aniversário natalício de S. M. D.
Pedro II” (A IMPRENSA, 1881, p. 3). Observa-se que a grafia das citações foi atualizada.
84

ocorreu. Aliás, curiosamente, até mesmo um setor da burguesia nacional se aproximou delas e
fez uso para divulgar suas bandeiras (como o abolicionismo)11.
Na capital do Rio Grande do Sul, no século XIX, havia leituras peculiares dos ideais
de modernidade, mediadas pelo diálogo com certas dimensões regionais. Deve-se ter em
conta que, no período, a província se destacava pelo fornecimento de produtos agrícolas e
industriais derivados da agropecuária. Porto Alegre refletia o arranjo entre o rural e o urbano,
entre antigos costumes e novos hábitos.
Para Pesavento (2007), tratava-se de uma cidade em transformação, que conjugava
práticas modernas com atitudes tradicionais. O positivismo, de grande importância no
contexto político local, se manifestava em uma sociedade que mantinha características ainda
muito conservadoras.
De toda forma, a república havia trazido à Porto Alegre, com suas ideias positivistas, a
meta da modernidade urbana e da organização disciplinada do espaço, de acordo com os
ideais do progresso econômico e da ordem burguesa. Sonhos de mudança a serem aplicados
numa cidade ainda acanhada, mas que almejava mudar (PESAVENTO, 2007, p. 172).
Enfim, tendo a “modernidade gaúcha” uma forte ligação com uma tradição rural, na
qual a lida entre o homem e o animal era uma prática cotidiana, podemos dizer que as corridas
de touros não eram tão estranhas aos hábitos locais. Ao contrário, relatos como o de Achylles
Porto Alegre (1994) atestam o sucesso que essas apresentações obteriam junto ao povo
gaúcho. Para o cronista, os Porto-alegrenses se exultavam e se agitavam, talvez porque “o
sangue castelhano é possível que influísse nesse entusiasmo, por que o gaúcho tem muito dele
nas veias” (PORTO ALEGRE, 1994, p. 90).
Alguns autores, sem grande precisão, informam que as corridas de touros já eram
promovidas em Porto Alegre desde 1875, lideradas por um notável toureiro, Francisco
Frascuelo (MACEDO, 1982; PEREIRA, 2012). De fato, nos jornais do Rio de Janeiro,
encontramos notícias esparsas sobre a viagem de companhias tauromáquicas para o sul do
país. Além disso, sabemos que Frascuelo atuou muitas vezes em Buenos Aires e
Montevidéu12. Não seria difícil que ele tivesse passado pela capital gaúcha.

11
Para mais informações sobre as touradas no Rio de Janeiro, ver Melo (2009), Melo (2012) e Melo e Baptista
(2013).
12
Na verdade, Frascuelo atuou em muitos países, inclusive França, Espanha e Portugal.
85

Devemos também ter em conta que, no início dos anos 1870, houve muitas touradas
em Pelotas e no Rio Grande13. No decorrer do tempo, inclusive, muitos originários dessas
cidades se apresentaram em Porto Alegre14. Há que se considerar que na região, até o início
do século XX, se encontrava a vanguarda econômica da província. Em função disso, vida
cultural era intensa e a estrutura de entretenimentos era diversificada, inclusive com forte
presença de práticas esportivas (MASCARENHAS, 2006).
A breve nota publicada em A Reforma, de 17 de janeiro de 1875, parece ter sido um
dos primeiros anúncios de que as touradas desembarcavam em Porto Alegre: “Corrida de
touros – Hoje às 5 horas da tarde, no circo da Várzea, haverá corridas de touros. A diversão é
inteiramente nova nesta cidade; e por isso grande deve ser a concorrência de povo” (A
REFORMA, 1875a, p. 3). Os espetáculos já eram organizados segundo um modelo que, com
poucas alterações, permanecerá no decorrer do século: tratava-se de um acordo comercial
entre o proprietário da arena, os donos dos animais e o diretor da companhia de toureiros.
A especulação do periódico parece ter se comprovado. As touradas rapidamente
caíram no gosto da população, superando, na preferência do público, as antigas diversões. Em
função do sucesso, a temporada seria estendida até março. Mais ainda, vinda de outras cidades
da região sul, em abril, desembarcaria na capital outra companhia, liderada por João
Fernandes, que apresentaria um espetáculo completo à moda portuguesa, trazendo uma
novidade que entusiasmou o público: os forcados, que pegavam os touros “à unha” (A
REFORMA, 1875b, p. 3).
Uma nota, comentando que uma apresentação de uma companhia dramática esteve
esvaziada, sugere que o povo “está inclinado para outras diversões”, preferindo “jogos de
força, equilíbrio e corridas bovinas” (A REFORMA, 1875c, p. 3). O tom era de lamento, mas
não de desprezo pelos novos divertimentos. O cronista apenas lembra que o teatro “também
constitui uma escola”, merecendo, portanto, mais atenção.
Em outras oportunidades se observou a mudança de costume: a população preferiria o
circo e as touradas ao teatro (A REFORMA, 1875d, p. 1). Para o jornalista, isso seria uma
prova de atraso da capital. Logo, descobrir-se-ia que não: a diversificação e melhor
estruturação dos entretenimentos era um indicador de que Porto Alegre “progredia”, e a

13
Nos jornais do Rio Grande do Sul houve referências às touradas da região. Por exemplo, em o Amolador
(19/04/1874, p. 3), publicado no Rio Grande, sobre uma dessas ocasiões há uma charge que ironiza o touro de
baixa qualidade.
14
Um dos mais famosos foi Carlos Augusto de Faria, vulgo Carlitos, um dos destaques das touradas em 1881 em
Porto Alegre organizadas.
86

valorização de práticas com animais tinha a ver com uma adesão peculiar às ideias de
modernidade.
Em 1875, a cidade já tinha uma estrutura social mais diversificada. O jornalista de A
Reforma, ao enumerar as opções disponíveis - apresentação musical no Teatro São Pedro,
corridas de touros, função do Circo Casali, festa na Fábrica de Cerveja do Caminho Novo,
exibição de uma retreta em frente ao Palácio do Governo - observa: “Já veem os leitores, que
sobraram diversões no último domingo” (A REFORMA, 1875d, p. 1). Os promotores das
touradas chegaram a baixar o preço dos bilhetes, “atendendo à afluência de divertimentos
n‟esta capital” (A REFORMA, 1875e, p. 4).
A propósito, as corridas de touros foram organizadas no sítio que, no decorrer do
tempo, se conformará como espaço por excelência, não só das touradas como também de
outras diversões, um lugar importante no que tange à sociabilidade pública em Porto Alegre: a
Várzea do Portão que foi, em 1870, oficialmente denominada como Campo do Bonfim,
posteriormente, foi renomeado para Campo da Redenção e, já no século XX, para Parque
Farroupilha.
Depois das touradas de 1875, somente conseguimos informação sobre a temporada de
1881. O anúncio da sessão inaugural, contudo, nos dá pistas que antes houvera corridas,
embora se informe que é a “primeira função”, observava-se que se tratava de uma “nova série
de corridas” (GAZETA DE PORTO ALEGRE, 1881a, p. 3). Além disso, informava-se que os
bilhetes estavam à venda pelos “preços de costume”. É possível, assim, que o Campo do
Bonfim estivesse, há algum tempo, acolhendo espetáculos tauromáquicos.
As touradas de 1881 foram promovidas por um dos mais notáveis toureiros a atuar no
Brasil: Francisco Pontes. No Rio de Janeiro, se tornara um dos grandes responsáveis pela
popularização da tauromaquia, por sua notável performance nas arenas, por sua capacidade de
organizar espetáculos de qualidade e por seu constante envolvimento com a filantropia
(MELO e BAPTISTA, 2013).
A Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, chegou a sugerir: “de todos os artistas
tauromáquicos que nos têm visitado, nenhum se tem distinguido mais do que Pontes”. Ele
conseguiria aliar um “conhecimento profundo da arte difícil e arriscada” a “grande sangue
frio, firmeza e perícia” (1878, p. 1). Conhecido como “rei dos toureiros”, tornou-se
personagem conhecido na sociedade da Corte.
Em Porto Alegre, Pontes tornou-se também renomado. Na temporada de 1881, ele
chegou a receber uma valsa de presente, “Primavera”, composta por João Fernandes de Souza
87

Lima. A ele oferecida como “prova de simpatia e admiração, pelos seus méritos artísticos”
(GAZETA DE PORTO ALEGRE, 1881b, p. 3).

Imagem 6: O Século, 25/09/1881, p. 4.

O toureiro sempre procurava retribuir o carinho do público. Por exemplo, nas corridas
de 11 de agosto de 1889, “tanto os bilhetes de sol como os de sombra” foram acompanhados
de seu retrato, que poderia ser retirado “pela pessoa que os comprar antes de entrar para a
corrida”. Explicitamente desejava agradecer “o publico e a imprensa d‟esta capital, pela
maneira generosa por que o têm acolhido, revelada nos abundantes aplausos prodigalizados à
sua companhia e na valiosa proteção que lhe há dispensado” (A FEDERAÇÃO, 1889a, p. 3).
Essa temporada de 1889 foi, efetivamente, a mais organizada até então na capital gaúcha. Ela
merece nossa atenção.
Em julho de 1889, é anunciado que o “Circo Tauromáchico”, dirigido por Pontes,
ofereceria um “grande, variado e estrondoso espetáculo em que serão corridos sete valentes
touros, todos novos e melhores que os da última corrida” (A FEDERAÇÃO, 1889b, p. 3). A
temporada estava a pleno vapor. Melhor estruturada do que as ocasiões anteriores. Dessa vez,
a programação das sessões era mais diversificada: eram oferecidas não somente as corridas de
touros, como também atrações ao modelo das companhias circenses que, desde os anos 1830,
já se apresentavam com frequência em muitas cidades brasileiras (SILVA, 2007). Nas
touradas de 1875 e 1881, já houvera o uso dessa estratégia, todavia de forma bem mais
comedida.
88

As touradas, majoritariamente, seguiam os moldes já consagrados no país, realizadas à


moda portuguesa: sem a morte do touro no final, valorizando o toureio a cavalo, inserindo os
forcados e a pega do animal “à unha” na programação. Além disso, a “embolação”, isso é, a
colocação de armações de couro e metal nos cornos para que não ferissem os toureiros, era,
em si, uma atração.
No Brasil, essa modalidade se consagrara tanto por ser uma forma de contestar as
críticas à “barbaridade” das touradas (já que não culminava com o animal sacrificado) quanto
pelo envolvimento da grande colônia de portugueses estabelecida no país. De toda forma, em
Porto Alegre, muitos toureiros espanhóis também foram apresentados como grande atração.
De fato, houve espetáculos com os touros em “aspas nuas”, ou seja, com os chifres
descobertos, o que aumentava o risco e a emoção. Além disso, em pelo menos uma sessão, foi
anunciada a morte do animal na arena, sendo previsto que a carne seria distribuída “aos
pobres” (A FEDERAÇÃO, 1889c, p. 3)15.
Nessa ocasião, transpareceu um incômodo com as touradas, que teve menos a ver com
a prática como um todo, mas sim com o modelo adotado e a falta de habilidade dos toureiros,
que maltrataram demais e não conseguiram matar o touro. Protestou-se “contra a selvageria,
com que não está acostumado o nosso povo” (A FEDERAÇÃO, 1889d, p. 2). O jornalista
ironizou: “Quem perdeu com isso, ou antes, quem ganhou foi a pobreza, (...), porque só assim
livrou-se de ingerir carne cansada e de sofrer as consequências d‟essa má alimentação”.
Ainda que em algumas ocasiões houvesse ressalvas à atuação da companhia, em geral,
os toureiros receberam grande destaque, ressaltando-se sua destreza e coragem. Lourenço
Delgado, por exemplo, tornou-se um ídolo por sua capacidade de realizar técnicas muito
distintas e arrojadas. Geminiano de Carvalho ganhou fama por ser um “artista ginástico” (A
FEDERAÇÃO, 1889e, p. 3). Isso tinha relação com o fato de que ele tinha força para
suspender um touro, bem como porque aceitava desafios de luta romana, realizados em plena
arena16. Mais ainda, em mais de uma ocasião, enfrentou um animal muito feroz, chamado de
Tigre Rochedo17:
Não tem explicação o arrojo do festejado artista Geminiano, que é o primeiro
brasileiro que atreve se a enfrentar uma terrível fera como o TIGRE ROCHEDO.
Tanta audácia será verificada pelos espectadores, que serão testemunhas dos
enormes perigos a que se expõe o intrépido artista (A FEDERAÇÃO, 1889f, p. 3).

15
Para uma discussão sobre as duas formas de toureio, a portuguesa e a espanhola, ver Capucha (1988).
16
Geminiano estreara nos eventos tauromáquicos na temporada de 1881; na ocasião, somente apresentando suas
“proezas ginásticas”. Naquele momento, contudo, a grande atração era Francisco Americo de Rezende, com seu
“salto à vara larga”.
17
Essa referência relembrava um fato da temporada de 1881, quando um touro bravo chamado de Tigre foi uma
grande atração. Ver Gazeta de Porto Alegre, 1881c, p. 3.
89

O artista se tornou admirado em Porto Alegre. Chegou a inspirar a propaganda da Loja


de Fazendas de Pedro Soares de Barcellos, que, ao anunciar suas promoções de roupas, em
letras garrafais, evocava: “AO GEMINIANO E O FEROZ TIGRE ROCHEDO... É a última
palavra” (A FEDERAÇÃO, 1889g, p. 3).
Nas corridas de Porto Alegre, houve mulheres lidando com os touros. Em 1889,
atuaram Petrona Nogueira, Maria Soares e, com muito destaque, a espanhola Maria Dolores,
considerada “valente e corajosa heroína”. Ela chegou a enfrentar um touro com “aspas nuas”,
além de encarar o quase onipresente Tigre Rochedo (A FEDERAÇÃO, 1889g, p. 3).
Já na temporada de 1875, se apresentara Julia Rachel, casada com o afamado toureiro
Miguel Tranzado, anunciada como “a única n‟este difícil trabalho em toda a América do Sul”
(A REFORMA, 1875f, p. 3). Suas proezas eram anunciadas com grande alarde, o mesmo que
ocorreu com outra pioneira, que atuara nas corridas de 1881: Zulmira da Conceição
(GAZETA DE PORTO ALEGRE, 1881c, p. 4).
Houve outras situações em que mulheres desempenharam papéis inusitados à época.
Para as corridas de 4 de agosto de 1889, por exemplo, foi anunciado:

Duas grandes e atraentes novidades se apresentam n‟esta tarde para fazerem as


maiores delícias aos espectadores: duas destemidas e valentes heroínas rio-
grandenses se apresentam na arena para disputar uma grande aposta em luta romana,
da cintura para cima, as sras. Brígida de Jesus e Severina de Souza, as quais, em um
intervalo, formarão a grande luta até que seja derrubada na arena, tendo a vencedora
ganho a aposta e para esta decisão os espectadores em geral formarão o júri (A
FEDERAÇÃO, 1889h, p. 3).

Valerá no futuro discutir mais profundamente a participação dessas mulheres nessas


práticas, em Porto Alegre, mais intensas do que se observava em outras cidades, como no
caso do Rio de Janeiro. Autores como Ismério (1995) e Leal (1996) já se dedicaram a
compreender a peculiaridade da construção da imagem feminina no Rio Grande do Sul, muito
influenciada pelo positivismo. É verdade que, em boa medida, isso significou uma visão
conservadora e moralista, mas também gerou um protagonismo que pode ter contribuído para
aumentar sua presença pública. Trata-se de um importante debate que foge, contudo, aos
limites deste estudo.
De toda forma, elas eram mais uma das atrações. Desafio, risco, humor, novidades -
tudo isso tinha em conta atrair o público, a grande necessidade dos empresários no sentido de
manutenção da prática. No anúncio da sessão de 14 de julho de 1889, vemos um apelo direto
90

à assistência, uma estratégia que se tornou muito comum na trajetória das touradas no país (e
também em Porto Alegre):

AO RESPEITÁVEL PÚBLICO. O beneficiado mais uma vez recorre aos seus


amigos e a todos os amadores, pedindo lhes o seu concurso para abrilhantarem a sua
festa, sem o que não poderá nutrir a esperança de ver coroados de bom êxito os seus
ingentes esforços. Pelo que merecer do ilustre e generoso publico, confessa-se o
beneficiado eternamente penhorado (A FEDERAÇÃO, 1889e, p. 3).

Como era usual em outras cidades, também em Porto Alegre foram organizadas
touradas com fins beneficentes, uma iniciativa que ajudava a aumentar o reconhecimento
social para com a prática. No caso das corridas promovidas por Pontes, era também uma
forma de expressar sua vinculação a certas causas políticas. Já citamos sua ligação com a
classe caixeiral, e vale ainda mencionar sua relação com as causas abolicionistas. No Rio de
Janeiro, o toureiro se envolveu profundamente com a luta contra a escravidão (MELO e
BAPTISTA, 2013). Na capital gaúcha, uma das ocasiões em que isso se manifestou foi uma
sessão dedicada à Sociedade Floresta Aurora, uma ativa agremiação de negros (A
FEDERAÇÃO, 188l, p. 3)18.
Se o formato das touradas em Porto Alegre era bem similar ao que se definirá no
conjunto de tensões que marcava a prática em outras localidades, como no Rio de Janeiro,
havia peculiaridades na capital gaúcha, como, notadamente, indicadores de maior tolerância
social.
Na cidade, em muitas ocasiões se ofereceu uma modalidade que se tornara usual no
país: o touro para “curiosos”, isso é, para amadores que se candidatavam a enfrentar o animal
por um prêmio (um bilhete de loteria ou dinheiro, entre outros, por vezes colocado no próprio
animal). Na capital gaúcha, todavia, havia algo incomum: muitas vezes destinou-se um
“tourinho para se divertirem” (A FEDERAÇÃO, 1889b, p. 3), crianças de até 12 anos19.
Além disso, deve-se ressaltar o destaque que recebiam os criadores de touros (bem
como a raça dos mesmos). Em todas as temporadas isso se repetiu e, por vezes, tocou na
questão da qualidade do gado gaúcho. Por exemplo, assim o cronista criticou uma sessão em
que os animais não eram adequados: “É uma vergonha aquilo, e faz-se mister mostrar a esses
artistas estrangeiros que se o Rio Grande não possui picadores e capinhas de tal fama, tem

18
O grupo musical dessa sociedade atuou frequentemente nas touradas de 1889, como o fizera na temporada de
1881. Para mais informações sobre essa agremiação, ver Pereira (2007) e Zubaran (2009).
19
De forma menos frequente, essas provas já existiam nas touradas de 1875 e 1881. Nessas últimas, na verdade,
houve amadores que integraram os programas em conjunto com os profissionais, ganhando mesmo destaque nas
sessões.
91

contudo touros fortes e bons, que dão perfeitamente para diverti-los a eles e para divertir
nosso povo” (CORREIO DO POVO, 1898a, p. 2).
Por vezes, uma mesma sessão tinha touros de diversos criadores, marcados com fitas
de cores diferentes, exibidos ao público nos dias anteriores às corridas. Houve, até mesmo, na
temporada de 1875, uma curiosa aposta entre estancieiros: “(...) um conto de reis, que será
ganho por aquele que, na opinião dos julgadores, apresentar os touros mais bravos” (A
REFORMA, 1875e, p. 4).
Em outubro de 1889, quando a temporada já se encerrava, os amantes das touradas
tiveram mais algumas oportunidades para assistir aos espetáculos que tanto apreciavam,
anunciados com uma novidade: “Corrida de touros noturna – Aparatosa, ótima e deslumbrante
corrida de 7 bravos e valentes touros” (A FEDERAÇÃO, 1889m, p. 3). Em 1881, houve
várias provas semelhantes, com a arena iluminada a gás e o exterior com lampiões de
petroline (GAZETA DE PORTO ALEGRE, 1881c, p. 3). Essas ocasiões eram sempre
celebradas como expressão de progresso, como sinal de que a cidade se sintonizava com as
novidades que chegavam dos países mais desenvolvidos.
Como o encerramento da temporada de 1889 foi realizado no Teatro de Variedades,
localizado no mesmo Campo da Redenção, houve preocupação com a segurança do público,
que chegou a mobilizar o chefe de polícia; nada que afastasse a assistência e diminuísse a
curiosidade. Chegou-se, aliás, a providenciar bondes extras para o “Caminho Novo e o
Menino Deus” (A FEDERAÇÃO, 1889n, p. 3).
Não fora a primeira vez que isso ocorria. Outra situação curiosa ocorreu em 1881,
quando foi organizada uma corrida noturna no dia 24 de dezembro. Foram colocados bondes
em frente à arena para que o público chegasse “a tempo de assistir à missa na capelinha do
Menino Deus” (GAZETA DE PORTO ALEGRE, 1881d, p. 4)20.
Depois que Pontes e sua companhia partiram para o interior da Província, Rio Grande,
Pelotas e Bagé, antes de retornarem ao Rio de Janeiro, a despeito do sucesso das corridas de
1889, somente em 1891 a cidade voltaria a receber espetáculos tauromáquicos, em uma nova
arena construída no Campo da Redenção, na qual se apresentou uma companhia de espanhóis
dirigida por Anastasio Mateo.
Essas funções foram irregulares. Algumas razões podem ser aventadas. Uma delas é o
fato de serem touradas mais tradicionais, sem a inserção das atrações circenses, conforme
ocorria no período anterior. O público gostava de estímulos diversos, que não eram atendidos

20
Na verdade, essa era uma providência usual na cidade, executada em ocasiões que mobilizavam grande
público.
92

somente pelas corridas, um formato que, pelo menos naquele momento, acabava por
desinteressar parte da assistência, além de ser mais caro para manutenção. Além disso, os
toureiros não lograram a mesma popularidade de Pontes e seus companheiros.
Em janeiro de 1892, A Federação dá conta do fracasso da iniciativa, ainda que
algumas corridas com bom número de espectadores tenham sido realizadas. Encerrava-se,
melancolicamente, a temporada com baixo público, adicionado ao não cumprimento do
programa por causa da chuva e touros de má qualidade. Como observa o jornalista: “Por
cúmulo de caiporismo, a companhia que, como em quase todas as outras funções, só teve
prejuízos, sofreu ontem ainda vivas demonstrações de desagrado” (A FEDERAÇÃO, 1892, p.
2).

Imagem 7: A Reforma, 26/09/1891, p.

Durante muitos anos, só eventualmente surgiu alguma notícia sobre as touradas. Em


1895, uma lei municipal isenta companhias públicas de impostos. As tauromáquicas, todavia,
ficaram de fora, causando estranheza no cronista de A Federação: “são as que, aliás, mais
concorrem, ao lado das dramáticas particulares, para o desenvolvimento da nossa estética!”
(A FEDERAÇÃO, 1895, p. 1). É possível, portanto, que tenham se realizado corridas
ocasionais no período. Nas fontes que consultamos, entretanto, não conseguimos mais
informações.
93

Foi possível, sim, perceber que, em maio de 1897, teve início uma nova temporada,
realizada no Circo de Touros, construído no Campo da Redenção. Os espetáculos foram
conduzidos por uma companhia formada por espanhóis e portugueses (CORREIO DO POVO,
1897b, p. 3). Mesclavam-se elementos das duas modas: algumas provas com touros de “aspas
nuas” (comuns na Espanha), com outras cuja atração era o toureio a cavalo e a apresentação
de forcados (típicos de Portugal).
A sessão inaugural foi prejudicada pela intensa chuva, que interferiu no afluxo de
público (ainda que o comparecimento da assistência tenha sido razoável), levando à
interrupção do espetáculo em alguns momentos e deixando a arena muito enlameada,
prejudicando, assim, a performance dos artistas. De toda forma, o cronista reconheceu a
qualidade do touril (“vasto, alto e de construção muito sólida e bem cuidada”, oferecendo
“todas as garantias de segurança e comodidades”) e dos touros (“gordos e bravios,
perfeitamente em condições de se apresentarem as lides”). Quanto aos toureiros, sugeriu:
“diante das dificuldades com que lutou a empresa, achamos prudente aguardar a função de
domingo próximo para julgar o mérito dos artistas” (CORREIO DO POVO, 1897c, p. 2).
Mesmo com os elogios, o empresário promoveu mudanças na arena (para aumentar o
conforto) e contratou tanto novos toureiros quanto uma banda de música melhor. Na verdade,
percebem-se sensíveis diferenças com a temporada de 1889. Tratava-se de um modelo de
espetáculo mais estruturado. Mesmo a tradicional prova dos curiosos ganhou uma nova
conformação: os touros somente poderiam ser enfrentados pelos amadores, os quais recebiam
uma autorização do diretor da companhia.
O promotor teve sensibilidade para perceber que já se tratava de um público mais
exigente, entendendo que a continuação de seu negócio dependia de conformar estratégias
para sempre envolvê-lo e bem acolhê-lo. Contudo, a diversificação da programação era mais
restrita. As novidades eram mais internas ao campo da tauromaquia, não tão circenses como
as de 1889.
Era uma postura necessária numa cidade que diversificara ainda mais sua estrutura de
entretenimentos. Lembremos que, desde 1881, isso já causava preocupação por dividir o
público. Vejamos este informe:

O espetáculo começara às 5 ½ da tarde, hora escolhida para que os frequentadores


do Prado e do Theatro possam assistir a todas as diversões, sem prejuízo de tempo
algum; pois devendo terminarem as corridas do Prado antes das 5 horas e
começando o espetáculo no S. Pedro às 8 ½ , hora esta em que já deve ter terminado
a função no circo, os dilletandi das três diversões podem assistir a todas mui
folgadamente (GAZETA DE PORTO ALEGRE, 1881d, p. 4).
94

Assim como ocorrera em 1889, os nomes dos toureiros ganharam notoriedade. Era
muito apreciada, por exemplo, a performance de Saturnino Nenê, membro da família de
Joaquim da Silva Nenê, um dos destaques nas corridas de 1881, na época, apresentado como
“bizarro amador porto-alegrense” (GAZETA DE PORTO ALEGRE, 1881f, p. 4). Em 1898,
outro renomado artista, Alfredo Tinoco, que já fizera fama na capital da República, chegou à
cidade. Suas proezas eram narradas em tom épico. O público o admirava: “o que mais agrada
o nosso povo: alta dose de coragem, admirável sangue frio, e uma acentuada predileção pelos
passes arriscados, a que se aventura de instante a instante” (CORREIO DO POVO, 1898a, p.
2). Alguns se tornaram verdadeiros atrativos:

Uma enchente à cunha, a ponto de ser suspensa a venda de bilhetes, por falta de
localidades, teve anteontem a praça de touros, onde fez benefício o simpático e hábil
artista Francisco Cruz. O circo, assim repleto, oferecia um belíssimo aspecto, vendo-
se ali o que de mais escolhido tem a sociedade porto-alegrense (CORREIO DO
POVO, 1898b, p. 1).

A fama do toureiro Tinoco é comprovada por conta da publicação da notícia da sua


morte no jornal O Paiz, do Rio de Janeiro, em 18 de setembro de 1899. Na capa, o periódico
exaltou as qualidades do artista, qualificando-o como “guapo toureiro, que deslumbrou
Lisboa, que foi aplaudido na Espanha, que deliciou Paris e que no Rio de Janeiro e no Rio
Grande e em Belém conquistara torrentes de simpatia e turbilhões de aplausos”. Seguido a
isso, uma biografia do toureiro português, que nasceu em Lisboa, em seis de junho de 1855,
mas teria se consagrado na capital espanhola, Madri. Reunindo muitos elogios, o artigo
termina com a afirmação de que “a notícia da sua morte entristeceu quantos o admiravam na
velha praça de Vila Isabel e na praça nova das Laranjeiras; foi-se a esperança de vê-lo ainda
garboso e elegante revelar-se artista completo na lida tauromachica”.
Nesse mesmo contexto, como de costume, poucas críticas eram veiculadas sobre a
adequação das corridas de touros. Pelo contrário, por vezes, se observava o quão “atenuada”
era a modalidade que se praticava no Brasil. O cronista do Correio do Povo, quase
lamentando, registrou: “As touradas não têm entre nós o bárbaro encanto dessa deliciosa
selvageria que faz o orgulho e a característica das civilizadas gentes da Espanha” (1898a, p.
2). Para ele, “tudo ocorre sem maiores riscos”, sem lances sangrentos, sem grandes sensações:
“Nem perigos, nem emoções violentas: - luta pacífica de inimigos que, quando pisam a arena,
bem sabem já que é do prévio ajuste a cláusula humanitária de não se infligirem maus tratos”.
Porto Alegre acolhia, com tranquilidade, esses espetáculos com características rurais.
Eventualmente, surgia alguma referência à superioridade das atividades teatrais, mas nada que
95

desautorizasse as corridas de touros. De fato, foi mesmo manifestada por muitos a preferência
pelas touradas, consideradas ajustadas às peculiaridades locais.
Havia, até mesmo, alguns posicionamentos curiosos sobre as similaridades entre as
touradas e certas práticas rurais comuns em Porto Alegre. De fato, houve vezes em que se
mesclaram as atividades. Por exemplo, na sessão de 24 de junho de 1875, uma corrida de
argolinhas integrou a programação, na qual atuaram “campeiros (...) vestidos a caráter” (A
REFORMA, 1875i, p. 3).
Não poucas vezes, contudo, se ressaltou a necessidade de marcar as diferenças entre as
práticas. Observa, por exemplo, um cronista, em certa ocasião: “Outrossim, faz-se mister que
o cavaleiro tenha trajo apropriado para o trabalho, de modo a não se apresentar na arena como
qualquer gaúcho que vai fazer aparte em curral de estância” (CORREIO DO POVO, 1897a, p.
1). As corridas de touros eram encaradas como uma experiência moderna, ao contrário do que
ocorria no Rio de Janeiro, onde já eram vistas como uma persistência de um passado que
deveria ser abandonado.

Imagem 8: A Reforma, 29/11/1891, p. 3.

Críticas, quando havia, era à qualidade das apresentações, notadamente dos touros (um
problema constante, já que era difícil conseguir animais adequados), da banda de música e da
direção das atividades. Por vezes, também se contestou o preço dos bilhetes, que aumentara
em algumas ocasiões (como ocorrera em 1898, quando dobrou de custo) (A REPÚBLICA,
1898, p. 1).
Na verdade, houve, pelo menos, uma voz em Porto Alegre que se levantou contra as
touradas. Seus argumentos merecem nossa atenção. Em 1897, Germano Hasslocher era
redator da Gazeta da Tarde. Filho de imigrantes alemães (fundadores da cidade de Santa Cruz
96

do Sul), foi personagem de destaque na capital gaúcha. Advogado formado pela Faculdade de
Recife (depois de ter passado por São Paulo), ele foi vereador, deputado federal e um dos
líderes políticos mais ativos do Partido Republicano Rio-Grandense, tendo atuação marcada
por suas posições liberais, abolicionistas, federalistas, anticlericais e pela defesa da liberdade
de expressão21.
Para Germano, o intendente municipal deveria fazer cessar imediatamente “os tristes e
selvagens espetáculos da praça de touros no Campo do Bom Fim” (GAZETA DA TARDE,
1897a, p. 1). No seu modo de entender, na Espanha, até se poderia justificar a manutenção das
corridas, já que eram desempenhadas com habilidade e faziam parte dos costumes do povo,
mas, no Brasil, tratava-se de “uma diversão que já em si é contra as ideias do tempo em que
vivemos”, podendo “concorrer para perverter o sentimento do povo”. Para fortalecer seu
ponto de vista, lembrava que as repúblicas da América do Sul já tinham proibido-nas22.
Ele não media as palavras para execrar as touradas: “uma brutalidade sem nome, uma
verdadeira infamia tolerada pelo poder publico que dá pasto à brutalidade humana”
(GAZETA DA TARDE, 1897a, p. 1). Tratava-se, a seu ver, de um monte de “maltrapilhos
que martirisam pobre animais esfaimados”. O que, para os defensores, era considerado como
suavidade, por não haver a morte do touro ao final, para Germano era encarado como
explícita crueldade, pelas farpas no animal cravadas. Na sua descrição, o público,
“contaminado pelo delírio da malvadez”, batia com “bengalas na triste féra exausta,
ensaguentada, arrastando sobre o pescoço descarnado um mundo de farpas”. Era uma visão do
horror, nada glamourosa.
Indignava-lhe que ninguém levantasse a voz para denunciar o que considerava um
descalabro. O centro de sua crítica era desconsiderar-se que a defesa dos animais era um sinal
de civilização, “não porque esse sentimentalismo piegas inspire compaixão pelo irracional,
mas porque é esse um meio de cultura, porque assim educa-se o sentimento público,
exercitando-o na piedade pelos que sofrem” (GAZETA DA TARDE, 1897a, p. 1). Tratava-se
claramente de uma posição inspirada por seus princípios liberais e positivistas 23. Germano
articulava, ainda, seu ponto de vista à defesa de uma condição de nacionalidade:

21
Para mais informações sobre a atuação política de Hasslocher, ver Pistoia (2009).
22
Na verdade, somente no Chile fora já proibida, na ocasião. Na Argentina, isso somente ocorreria em 1899. No
Uruguai, ocorreu em 1912. Em alguns países existe até os dias de hoje, como no Equador e no Peru.
23
Vale citar que Germano era um entusiasta do esporte, por ele considerada uma prática adequada aos novos
tempos. Devemos lembrar que, no Rio de Janeiro, houve, por diversas vezes, essa tensão entre o esporte e as
touradas (Melo e Baptista, 2013), algo que, de alguma forma, mesmo que indiretamente, supunha Hasslocher.
97

Somos brasileiros e devemos ter orgulhos nisto, porque os nossos costumes


divergem muito da selvageria de povos que pretendem dar lições ao mundo.
(...). Porque havemos de importar o que repugna aos nossos costumes e ir
assim introduzindo inovações que podem perverter a grande pureza
característica do nosso povo? (GAZETA DA TARDE, 1897a, p. 1).

Hasslocher retomou o tema na edição de 12 de agosto. No seu entender, seu artigo


teve boa repercursão em Porto Alegre: “Diariamente recebemos felicitações (...) e pedidos
insistentes para que não cessemos a guerra contra aquella exibição cruel da estupidez e
maldade humanas” (GAZETA DA TARDE, 1897b, p. 1). Conforme sua avaliação otimista,
“todo o mundo entre nós deseja ardentemente a proibição dos espectáculos”. A companhia
estaria, até mesmo, cometendo irregularidades, como adquirindo animais inadequados
(terneiros e não touros). Por isso, reforçava o pedido para que o intendente, José Montaury24,
colocasse “um ponto final na orgia”.
O jornal chega a comemorar a proibição das touradas em meados de agosto (GAZETA
DA TARDE, 1897c, p. 1). As corridas, todavia, ainda tiveram continuidade. Para o periódico,
tratava-se de um absurdo, somente não sendo pior porque “O publico porto-alegrense
procedeu correctamente negando seu apoio aos improvisados toureiros do Campo da
Redempção” (GAZETA DA TARDE, 1897d, p. 1).
Na verdade, parece que a interrupção teve mais relação com motivos comuns ao
campo da tauromaquia, como a qualidade dos animais ou problemas financeiros da
companhia. O fato concreto é que, em fevereiro de 1898, novas corridas de touro foram
organizadas, contando, novamente, com grande público. A única grande diferença é que
alguns jornalistas passaram a defender a prática mais explicitamente.
De fato, mesmo que não em todos os anos, nem com a mesma intensidade em todas as
temporadas, pode-se perceber que houve touradas organizadas em Porto Alegre até 1934,
quando houve a sua definitiva proibição no Brasil. Nessa ocasião, os eventos foram realizados
no Anfiteatro Alhambra, localizado no costumeiro Campo da Redenção (A FEDERAÇÃO,
1934, p. 2).
Podem ter, de fato, no recorte de nosso estudo, surgido em Porto Alegre outras vozes
contrárias às corridas de touros, para além de Germano. Nas fontes que consultamos, todavia,
essas não aparecem. Efetivamente, encontramos o oposto: o elogio a uma prática que parecia
reforçar certa representação identitária do habitante da província do sul. Moderno, talvez, mas
sempre gaúcho.
24
Ligado ao Partido Republicano Rio-Grandense e a Julio de Castilhos, Montaury foi o primeiro intendente de
Porto Alegre eleito pelo voto. Sua gestão se caracterizou por uma série de intervenções urbanas, tendo em vista
modernizar a cidade. Para mais informações, ver Bakos (1998).
98

Como foi possível perceber, não surpreende o envolvimento dos porto-alegrenses com
divertimentos com cavalos e gado, dado que havia uma proximidade histórica e cotidiana com
esses animais. De fato, poucas foram as críticas à adequação das corridas de touros. Os
espetáculos tauromáquicos, na capital gaúcha, eram mesmo vivenciados como uma
experiência moderna, atraindo um público que se tornou cada vez mais exigente no que tange
a qualidade, mas que não demonstrou grande apreensão com a “barbaridade” da modalidade.
No caso de Porto Alegre, os ajustes entre o rural e o urbano, entre o tradicional e o
moderno, ajudam a entender a legitimidade de uma prática que estava tanto em xeque em
várias localidades, inclusive na capital do país. Articuladas com importantes temas do
momento, indícios da gestação de uma sociedade do consumo e espetáculo, as touradas
gaúchas nos permitem ver como os diálogos com a ideia de modernidade foram originais,
eivados de peculiaridades, solicitando-nos um olhar atento e disposto a captar a sua
complexidade. O Rio de Janeiro percebia as apresentações tauromachicas de maneira
diferenciada. As sessões de tauromachia, pelo o que constatamos, pareciam ser uma prática
bem mais exótica que aos olhos dos gaúchos, muito mais íntimos das lides campeiras e do
trato com o gado. Se, para a capital do império, tinha ares selvagens, aos gaúchos parecia um
divertimento elaborado e moderno.

2.2 Turf

As corridas de cavalo fazem parte da história dos divertimentos no Brasil, assim como
das primeiras práticas esportivas realizadas no país, no século XIX. Corridas de argolinhas,
cavalhadas, carreiras, faziam sucesso e atraíam público desde o período colonial. Os
entretenimentos com o uso do cavalo, que dividiriam, posteriormente, o triunfo com o turfe,
têm uma origem que se confunde com a formação do próprio Brasil (DEL PRIORE, 2009c).
Com efeito, essas atividades estavam inseridas em discussões mais amplas. Nesse contexto, se
apresentava a relação dos entretenimentos e dos esportes com o próprio projeto de país, no
qual estavam inseridos os discursos de modernidade que influenciavam as concepções de
desenvolvimento e a interpretação das características locais. Em parte, os esportes traduziam
aquilo que se projetava em um país que estava sendo pensado.
Essa afinidade entre o esporte e as ideias de modernidade pode ser verificada através
de artigos jornalísticos que já debatiam a relação entre os divertimentos e os projetos de
desenvolvimento no século XIX. É interessante perceber como atividades, que não tinham
99

relação direta com teorias desenvolvimentistas ou políticas, impulsionavam discussões onde


as corridas de cavalo estavam envolvidas. As ideias progressistas agregavam, através dos seus
princípios, argumentos que utilizavam os divertimentos e os esportes como ferramentas de
legitimação.
Antes mesmo do surgimento dos primeiros prados no Rio de Janeiro e em Porto
Alegre, o debate gerado em torno das corridas de cavalo já envolvia assuntos diversos que
relacionavam as duas cidades brasileiras. Foi o caso da publicação do jornal Correio
Mercantil, do Rio de Janeiro, em 01 de dezembro de 1831, que abordou uma corrida de
cavalos realizada em Porto Alegre no mês de outubro daquele ano no campo denominado
Várzea (atual Parque Farroupilha, conhecido popularmente como Redenção), a que
concorreram perto de três mil espectadores. A mesma matéria destacou que “à primeira vista,
parece um acontecimento pouco digno de atenção, pode com tudo suscitar muitas e mui
diversas reflexões”.
A corrida foi utilizada como pano de fundo para justificar uma série de contrastes que
Porto Alegre apresentava em relação a outras cidades de diferentes regiões brasileiras,
consideradas de “ânimos inquietos e perturbadas”. Os habitantes de Porto Alegre eram
classificados como tranquilos e concorrentes “ao divertimento mais estimado dos filhos da
Província”, ou seja, as corridas de cavalo. Neste artigo publicado na capital do império, os
gaúchos foram julgados como um povo ordeiro e trabalhador, que, aliado às condições
geográficas generosas, locais que os aproximava da Europa, obtinha sucesso:

Ao bom senso dos Rio-Grandenses, e os princípios quase geralmente homogêneos


da População devemos a origem deste fenômeno. E qual será o homem pacífico,
industrioso e trabalhador, que precise de um asilo no grande Continente Americano,
e que não venha buscá-lo nas férteis, e vastas Campinas do Rio Grande do Sul?
Clima temperado, e saudável, solo adaptado às produções do antigo, e novo Mundo,
as melhores proporções para o comércio, a paz, e tranquilidade de que gozamos,
tudo em fim chama para o nosso país os possuidores de um cabedal qualquer, ou
seja, em moeda, ou nalguma indústria útil ou necessária, ou mesmo em dois braços
capazes de fertilizar o ceio da terra. (CORREIO MERCANTIL, 01/12/1831, p.1)

Aliado a essas características, o periódico fluminense expõe o sucesso dos imigrantes


europeus nas terras meridionais do Brasil. Segundo o jornal, “a comodidade, e direi mesmo, a
abundância, em que vivem os Colonos Alemães mostra bem como o solo abençoado desta
Província paga com usura às fadigas do homem trabalhador”. Pode-se notar, pelo relato, que
boas quantias em ouro e prata já eram apostadas naquela época, fruto do sucesso dos
trabalhadores que, em Porto Alegre, fixaram residência e se desenvolveram. Para o Correio
Mercantil, “é mui fácil entre nós adquirir uma fortuna: e as somas em ouro, e prata que se
100

apostaram na tarde do dia primeiro deste mês provam com evidência que boa parte dos nossos
metais preciosos tem escapado ao sorvedouro” (CORREIO MERCANTIL, 01/12/1831, p.1).
Portanto, não se poupou elogios ao Rio Grande do Sul e aos moradores de Porto
Alegre. Foi justamente pela visão eurocêntrica do jornal fluminense que o Rio Grande do Sul,
no caso Porto Alegre, se destacou como vetor privilegiado de desenvolvimento. No sul do
Brasil, além das condições naturais singulares, o excepcional trabalhador do antigo continente
seria o responsável pela condução do território ao progresso. Mesmo ainda sem o Turf, as
corridas de cavalo, assim como as altas apostas, já eram uma realidade recorrente na antiga
Província de São Pedro.
As carreiras, as corridas de cavalo, se organizaram, se disciplinaram e, a exemplo do
velho mundo, deram origem ao Turf. No ano de 1877, quando já tínhamos essa atividade
estabelecida como uma das principais práticas esportivas nas cidades de Porto Alegre e do
Rio de Janeiro, o jornal A Reforma (04/01/1877), da capital do Rio Grande do Sul, em uma
crônica retirada do carioca Sportsman, tratou de exaltar a popularização e o desenvolvimento
que as corridas atingiram no Brasil. De acordo com o periódico gaúcho, aparentemente
surpreso, declarava que “bem incrédulo havia de mostrar-se provavelmente qualquer
sportsman do tempo de Jorge IV, a que se predissesse que cinquenta anos depois haveria nas
cinco partes do mundo reuniões de corridas como as do Epsom e de New Market. E foi, no
entanto, o que aconteceu”.
Para que isso ocorresse, A Reforma destacou que uma série de fatores foram
necessários, como os cavalos de sangue puro que atravessaram o mar para o desenvolvimento
das raças, assim como a vinda de trabalhadores especializados, “um exército de joqueys e de
indivíduos que preparam os animais para as corridas”. Ainda de acordo com o boletim,
“surgiram estrebarias de todos os lados, e atualmente vê-se cavalos nascidos muito longe do
Tâmisa, ganhando o Blue Ribband e os descendentes de Blay Midleton disputando páreos até
sob o enervador sol dos trópicos”. O turf inglês se espalhara pelo mundo.
De acordo com o jornalista que registrou e assistiu a “uma das lutas hípicas, que há
todos os anos na capital do Brasil”, a corrida tinha um nível muito semelhante ao percebido na
Europa, no que se refere à estrutura e regras, como destaca:

Nada se poupa para dar a estas reuniões um aspecto sério e elegante. Tudo quanto é
atinente a parte técnica foi minuciosamente regulado e, quando o tempo é favorável,
o aspecto que apresentam a arena das corridas e as tribunas é realmente encantador.
Tendo sido trazidos da Europa a maior parte das minudências da organização, e da
França os melhores animais que até agora se apresentaram na raia.
101

Mais uma vez, foi citado que o Brasil nunca foi um centro de criação como os países
que se estendem dos dois lados do Rio da Prata. Seria a configuração do solo brasileiro e,
principalmente, a natureza do seu clima, que não ofereceriam as mesmas condições de
desenvolvimento. Essas características limitadoras da criação equina no Brasil não seriam
verificadas no extremo sul do país, como o periódico pontua:

dá-se no Brasil muita importância a criação da Província de São Pedro, que, sendo
limítrofe do Uruguai, também possui vastas campinas na sua parte meridional. É ali
que o exército vai buscar melhores remontes da sua cavalaria e os seus mais
adestrados cavaleiros, espécie de “gaúchos” que passam a vida à cavalo.
Os animais criados naquelas paragens são, pouco mais ou menos, como os dos
Pampas: lembram, se bem que tenham menor pureza no sangue, o tipo árabe, são
esguios, ágeis, elegantes. Tem celebridade e robustez, mas não podem correr tanto
quanto os animais de sangue puro.

O meridional brasileiro estava se destacando como um caso à parte na realidade


nacional, com influências e aptidões diferenciais, em especial, a criação equina, fator
primordial na prática do turf, que deveria, e de fato estava, se difundindo por grande parte do
território nacional.
Essas competições que aconteciam no Brasil e que tiveram início no Rio de Janeiro,
espelhadas nas práticas do Velho Mundo, sofreram um processo de desenvolvimento e
refinamento. Esses desdobramentos que incluíram, além da importação de matrizes cavalares
e mão-de-obra especializada, viam a adoção de adaptações às realidades locais como condição
necessária ao seu desenvolvimento. Era permitido que animais mestiços, americanos e meio-
sangue competissem, tanto na capital brasileira quanto em Porto Alegre. Uma adequação à
necessidade da época:

Quando se resolveu, a alguns anos apenas, estabelecer as corridas no Rio de Janeiro,


teve-se de aproveitar primeiramente todos os elementos então existentes.
Organizaram-se os programas de cada corrida, de modo que uma parte dos páreos
fosse disputada pelos animais americanos; porém, no intuito de chamar ao país,
tanto quanto fosse possível, os cavalos de sangue estrangeiro, reservaram-se grandes
corridas aos animais de qualquer procedência: finalmente estabeleceu-se um grande
prêmio de seis contos de réis (16.000 francos pouco mais ou menos) que,segundo
consta, será no ano próximo elevado a dez contos (cerca de 27.000 francos). (A
REFORMA, 04/01/1877, p. 2)

Da mesma forma, o artigo destacou que “animais importados da Inglaterra e da França


figuravam em cada uma das reuniões hípicas e, dois anos consecutivos, o grande prêmio foi
ganho por cavalos que tinham corrido em Longchamp e em Chantilly”. Esses animais não
102

estavam na primeira linha da genética europeia, mas, no Brasil, eram valorizados devido a sua
descendência, necessária ao melhoramento da “raça cavalar”.
Essa necessidade de adaptação ao modelo europeu, novamente foi exposta quando A
Reforma, de acordo com suas palavras, “censura” o modo como são montados os cavalos.
Para o periódico, aos cavaleiros, que são bons em sua maioria, falta a técnica, o refinamento e
a sensibilidade esportiva presente nos sportman estrangeiros:

(...) não sabem esperar nem estudar os seus adversários, nem aproveitar a ocasião
propícia para tirar do animal todo o partido que dele se pode tirar; ordinariamente
começam a porfia logo que é dado o sinal de largada e assim chegam exaustos a
última volta da raia (A REFORMA, 04/01/1877, p. 2)

Esses exemplos, de 1831 e 1877, momentos distintos do desenvolvimento esportivo no


Rio de Janeiro e em Porto Alegre, são apenas pequenas demonstrações do processo de
desenvolvimento da prática do turf e do campo esportivo nas duas cidades. Mesmo que em
épocas diferenciadas da progressão da prática esportiva, podem ser usados como mote em
uma discussão que conciliava a questão do divertimento à ânsia na aplicação de ideais
modernos que se adaptavam de forma singular em cada uma das cidades.
Na visão dos jornais, o trabalhador de origem europeia, com sua eficiência,
conjuntamente com as condições geográficas “propícias” do sul do país, atingia o sucesso
financeiro para fazer grandes apostas em ouro e prata nas corridas de cavalo. Essa
proximidade às características do velho mundo fornecia os melhores animais e cavaleiros. Por
outro lado, a capital do Brasil organizava eventos que nada deviam aos realizados na Europa.
Os acontecimentos, que tinham como modelo as disputas realizadas no velho continente, na
realidade, se adaptavam de acordo com suas possibilidades, gostos e características regionais.
Essas práticas d´além-mar precisaram se ajustar ao que o Brasil oferecia. As regras
europeias poderiam se moldar aos cavalos mestiços e aos cavaleiros gaúchos como uma
tentativa de se aproximar ao que se praticava na Europa. No entanto, o limite era aquilo que o
Rio de Janeiro e Porto Alegre ofereciam como possibilidade. Temos, portanto, uma capital do
Rio Grande do Sul muito próxima da Europa em alguns aspectos, mas com hábitos um tanto
depreciados, se analisarmos pelo ponto de vista dos discursos de modernidade. Por outro
olhar, temos uma corte que se inspirava no esporte do velho continente, mas que admirava o
povo sulista, suas virtudes e habilidades. Trata-se de contradições e peculiaridades do Brasil
que buscamos tratar.
103

2.2.1 O início dos hipódromos

As corridas de cavalo foram práticas regulares no século XIX, tanto no Rio de Janeiro
quanto em Porto Alegre. Ao sul, era uma atividade que estava ligada a muitas características
sociais e culturais do Rio Grande do Sul, que faziam do cavalo um personagem do cotidiano
sul-rio-grandense. Essas corridas, carreiras de cancha reta e demais provas de habilidade junto
ao cavalo, estavam inseridas no contexto social daquele período. Nas palavras de Achylles
Porto Alegre (1994), antes mesmo dos hipódromos, as corridas eram realizadas num trecho de
estrada ou na Várzea, nas imediações do Colégio Militar. Era a cancha preferida. Ainda
completa:

Ali se reuniam, aos domingos e dias feriados, os moradores dos subúrbios e dos
povoados vizinhos, que tinham paixão pelas corridas de cavalos.
Desde bem cedo começavam então a convergir para esse sítio os que tinham
interesse pelo divertimento tão apreciado pelos nossos antepassados.
Muitos patrícios eram infalíveis ali, vindo mesmo com mau tempo e de longe.
(PORTO ALEGRE, 1994, p. 102)

Na capital brasileira, de acordo com Melo (2001), por trás do desenvolvimento


pioneiro e do interesse privilegiado pelo turf em relação a outros esportes, alguns fatores
devem ser levados em consideração enquanto hipóteses bem relevantes. Os cavalos, assim
como no Rio Grande do Sul, mas num patamar um pouco diferenciado, há muito ocupavam
importante lugar na sociedade como meio de transporte e carregamento. Além disso, a
utilização dos cavalos já estava ligada a atividades de diversão, como cavalhadas e touradas.
Essas características nos ajudam a refletir que o turf, no Rio de Janeiro, não significava uma
ruptura com os hábitos da sociedade no que se refere à repulsa aos esforços físicos, mas uma
readequação, ou melhor, uma adaptação à prática esportiva.
Na capital fluminense, as corridas de cavalo, no século XIX, tinham status de grande
evento, onde autoridades, nobres e negociantes concorriam nas praias cariocas. As corridas de
cavalo na sede da corte, mesmo antes da sua organização em hipódromos e clubes, nas
primeiras décadas do período oitocentista, já estavam carregadas de simbolismo. Na maior
cidade do Império, os nobres desfilavam e a população identificava os mais poderosos,
inclusive a família real. Como destaca Melo (2014b, p. 208), a cidade e esses eventos tinham
a função de arena pública. Também, eram locais onde “as elites se encontravam e teciam suas
alianças e acordos. Estrangeiros e nacionais vivam um „simulacro de civilização‟”.
Diferentemente do que acontecia no Rio Grande do Sul, os principais organizadores eram os
estrangeiros, geralmente britânicos:
104

Morando em uma cidade que possuía um padrão de sociabilidade e de divertimentos


muito diferente daquele a que estavam acostumados em seus países de origem, os
estrangeiros passaram a organizar uma diversão já comum na Inglaterra, a partir do
modelo que conheciam. Lançavam, assim, as bases do turfe, que obviamente
adquiriria um sentido diferenciado quando efetivamente se estruturasse um campo
esportivo, já com uma participação maior dos brasileiros. (MELO, 2009b, p. 46)

Esse turfe, organizadamente, lançaria suas bases em um manifesto, que, além de


chamar a atenção para as corridas, também influenciaria a formação do primeiro clube de
turfe brasileiro. O Club de Corridas iniciaria suas atividades em 1849 e seria o primeiro do
gênero no Brasil. O seu hipódromo, o Prado Fluminense, foi instalado em um alagadiço nas
redondezas dos atuais bairros de São Francisco Xavier e Benfica (MELO, 2001).
A inspiração para a instalação do turf no Rio de Janeiro e, consequentemente, no
Brasil, era o esporte inglês e francês. Do velho mundo vinha o modelo de competição, com
suas regras e nomenclaturas, até mesmo a ideia de superioridade que uma prática europeia
causava à época. Os hipódromos inauguravam, no Rio de Janeiro, um novo local de
sociabilidade, com novos hábitos inspirados no velho mundo. Ambientes onde os membros da
elite nacional, de origem principalmente rural, podiam exercitar o seu sentimento de distinção,
com suas belas vestimentas, a exemplo do que já acontecia na Inglaterra e na França (MELO,
2001).
Ainda de acordo com Victor Melo (2009b), o turf se desenvolveu rapidamente na
capital do Brasil. Entre os anos de 1870 e 1890, tornou-se uma das diversões preferidas, assim
como assunto obrigatório em jornais, tendo influenciado vários costumes, como o linguajar e
o vestuário. No final de 1880 e nos primeiros anos da década seguinte, o Rio de Janeiro
possuía cinco hipódromos: o Jockey Club (mais antigo), o Turf Club, o Clube do Prado
Guarani, o Hipódromo Nacional e o Derby Club. Este último surgiu em 1885, organizado por
um grupo de sócios oriundos do extinto Derby Fluminense, que, por sua vez, era originário do
Club de Corridas Vila Isabel. (MELO, 2009b, p. 49)
Em Porto Alegre, tivemos acesso à primeira notícia de corrida em um hipódromo,
referente a uma disputa do dia 11 de agosto do ano de 1872. Esse anúncio foi publicado no
jornal A Reforma, em 30 de julho do mesmo ano. A missiva prevenia os sócios do Club de
Corridas, assim como o público em geral, sobre a disputa que se realizaria no Prado Jacome,
privativo de amadores. O anúncio que destacava essa atividade como passatempo, fez
algumas orientações aos competidores que deveriam declarar o nome dos corredores e
cavalos, assim como as características principais dos animais, como pelagem, idade, sinais
105

mais salientes, e, também, as cores das vestimentas dos jockeys. Não obtivemos uma fonte
precisa sobre a data exata da primeira competição, mas temos 1872 como o ano que se
destacou como o ponto inicial da prática do turf em Porto Alegre, corroborado nas pesquisas
de Del Priore e Melo (2009).
Na edição do dia 25 de agosto de 1872, o jornal A Reforma publicou os resultados de
uma corrida realizada no Prado Jacome no dia 18 do mesmo mês. Notamos que as
informações indicam que essa foi uma das primeiras disputas realizadas naquele local. O
periódico depôs que “as corridas do último domingo, posto que não apresentasse a animação
das primeiras com que foi inaugurado o Prado, estiveram concorridas, apesar de o dia
ameaçar chuva”.
Confirmamos que o Prado Jacome foi o pioneiro do turf em Porto Alegre, quando
analisamos um artigo publicado na Gazeta de Porto Alegre, em 15 de maio de 1880. O texto
tem como título “inauguração do hipódromo” e trata da abertura do Hipódromo Porto-
Alegrense, que se realizaria no dia 23 de maio de 1880. Nessa menção, o jornal fez referência
às primeiras corridas de turf, que ocorreram na cidade, onde o Jacome e o seu fundador foram
citados como os precursores do esporte em Porto Alegre: “tivemos aqui uma tentativa; foi a
feita no tempo em que aqui se achava o Hypologo brasileiro Sr. Luiz Jácome, que fundou um
Jockey-Club, mas com sua retirada da província adormeceu o útil instituto”. Seria, portanto, o
Porto-Alegrense, a segunda tentativa que, definitivamente, “não só atrairá grande
concorrência a festa inicial, senão que se conservará também vivo o interesse por esta tão útil
instituição”. (GAZETA DE PORTO ALEGRE, 15/05/1880, p. 1)
Da mesma forma, a Gazeta de Porto Alegre exaltava os benefícios desse novo
empreendimento que incorporaria a capital do Rio Grande do Sul aos costumes de outros
grandes centros, sublinhando que “era realmente tempo que Porto Alegre imitasse o exemplo
da corte, de S. Paulo, de Pelotas, que todos possuem clubs de corridas em completa
florescência”. Vários eram os argumentos que exaltavam o potencial de Porto Alegre para
desenvolver esse esporte hípico. O jornal se firmava, principalmente, nas características
históricas e culturais da então província, comparando a região à Hungria do Brasil, e, segundo
o periódico, tendo, os habitantes, uma aptidão natural com trato com os cavalos, como
podemos perceber:
E, entretanto, é justamente nesta província que os clubes de corrida deviam abundar
e prosperar, porque o Rio Grande do Sul é a Hungria do Brasil, - é a província em
que todos sabem andar a cavalo e em que o cavalo desempenha um importantíssimo
papel na economia social. Nosso povo é extraordinariamente inclinado a esse gênero
de diversão; é uma tradição que lhe vem do passado. (GAZETA DE PORTO
ALEGRE, 15/05/1880, p. 1)
106

Ainda referenciando as corridas de cavalo como algo que estava inserido aos hábitos
locais, a Gazeta de Porto Alegre ratificou que “há 50 anos, não conhecia, o rio-grandense,
outras diversões públicas além das carreiras e das cavalhadas. Ainda hoje não há na campanha
festa sem o divertimento das cavalhadas e não passa semana em que não hajam carreiras”.
Exaltando e justificando a inauguração de um hipódromo, o jornal listou alguns benefícios
que isso acarretaria, como o desenvolvimento da raça cavalar, que seria incentivado através
das corridas. O artigo dá como exemplo os casos de São Paulo e Pelotas, que, após a
instalação de clubes de corridas, animais de boa raça foram introduzidos, contribuindo para o
desenvolvimento dos equinos. Novamente o periódico apontou que “as carreiras são a
diversão predileta de todo o verdadeiro filho da província”, e “era de estranhar-se que a nossa
cidade mais populosa não possuísse um clube de corridas com organização regular”.
O periódico buscou demarcar definitivamente as divergências entre as carreiras e o
organizado turf. O hipódromo seria o local de desenvolvimento de hábitos civilizados e
modernos, e um aperfeiçoamento da primitiva, quase selvagem, carreira. Por um lado, o artigo
valorizava as qualidades dos gaúchos, como a habilidade ao cavalgar e a intimidade com as
lides do campo e com as corridas de cavalo. Colocava, no entanto, o turf em um novo
patamar. Seria o desenvolvimento e o aperfeiçoamento das rudimentares carreiras. Para o
impresso, “o povo não deixará de tomar parte na festa, porque se trata de uma diversão
favorita, porém em forma pouco usual”. O termo utilizado, “pouco usual”, nos parece que se
refere à diferença em relação ao que seria praticado no hipódromo, onde um esporte muito
mais refinado seria desenvolvido. Para o jornal, “as carreiras entre nós são em geral por
sistema muito primitivo, isto é, corredores em manga de camisa, com o lenço amarrado na
cabeça e em cavalos não encilhados”. Era necessária a modernização, a adequação da prática
tão comum entre os sul-rio-grandenses ao modo europeu. Seria uma questão de adaptação e
evolução. Conciliar a habilidade do cavaleiro gaúcho, que foi comparado a um centauro, às
técnicas e aos cavalos europeus puro sangue seria um fator fundamental para o sucesso do
hipismo em Porto Alegre:

Não desdenhamos do sistema, como não podemos desdenhar da maneira por que
montam os nossos centauros da campanha, embora seja mui diversa da escola de
montaria usada na Europa.
O nosso cavaleiro é um herói, parece ligado ao seu animal e não há perigo que o
assuste, obstáculo que o detenha, desde que esteja bem montado.
A mesma coisa se dá com as carreiras pelo velho sistema da província; há mister de
mais audácia, de mais agilidade e força, para correr como o fazem na cancha os
nossos corredores do interior. (GAZETA DE PORTO ALEGRE, 15/5/1880, p.1)
107

Acontece que a campanha insistia que os antigos hábitos deveriam ser substituídos por
práticas que colocassem Porto Alegre no patamar da civilização, dos grandes centros
mundiais. Aquelas antigas carreiras representavam uma cidade que deveria ficar no passado e
a adoção de maneiras refinadas, importadas do velho mundo, era essencial, como o próprio
artigo declarou: “a civilização tem suas exigências; os usos do século passado não servem
para o nosso século; uma populosa cidade, como a nossa, deve possuir um clube de corridas,
em que o estrangeiro possa reconhecer o sistema usual em todos os países”.
Não era só a maneira de competir que deveria ser modificada para que o turf gaúcho
pudesse se assemelhar ao que era praticado na Europa. Os cavalos ingleses, que necessitavam
ser introduzidos, não estavam habituados ao que se fazia nas carreiras, não se adaptavam a
“práticas ultrapassadas”, como correr sem sela. Até mesmo a estrutura física dos jóqueis
estava sendo copiada, segundo o jornal: “fazem bem os fundadores do Hipódromo, adotando
o sistema de corridas usual na Europa: Jóqueis de pouco peso, cavalos encilhados e
observações de todos os preceitos de ordem”. Também se incentivava a presença de um
público cada vez mais heterogêneo. A partir de 1884, por exemplo, o Prado Boa Vista passou
a não cobrar entrada das senhoras que fossem ao hipódromo. Uma provável tentativa de
agregar novos frequentadores que não tinham, até aquele momento, o hábito de comparecer
regularmente àqueles locais. (A FEDERAÇÃO, 25/04/1884, p.2)

Imagem 9: A Federação, 25/04/1884, p. 2.


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O uso de grande quantidade de regras, comum aos hipódromos do velho e do novo


mundo, é uma característica da modernização das corridas de cavalo. No entanto, parece que,
em Porto Alegre, a forte ligação com as práticas campeiras, associada a um regulamento
uniforme e normas definidas, fazia com que houvesse uma espécie de transição ou intersecção
entre o que era considerado primitivo e aquilo que buscava se inserir enquanto prática
civilizada. Trata-se de uma terceira via na tentativa da “evolução” das corridas nos prados e
uma estratégia para seduzir a população e, ao mesmo tempo, apresentá-la as novas condutas
que deveriam ser praticadas. Atraía-se a plateia, os “primitivos cavaleiros”, para então
“civilizá-los” no moderno Hipódromo Porto-Alegrense:

os diretores do Hipódromo não quiseram privar o povo inteiramente do seu antigo


sistema e por isso lhes proporcionam uma corrida de cavalos sem selas, permitindo
que os próprios donos montem os seus animais e é ao vencedor nesta corrida
propriamente rio-grandense, que será oferecido o delicado mimo (obra da província)
exposto na vitrine da Livraria Americana.
Assim, pois, foram consultados todos os gostos, observadas todas as conveniências e
só louvores podemos ter para a inteligente direção que foi dada ao novo Hipódromo.
(GAZETA DE PORTO ALEGRE, 15/05/1880, p. 1)

O artigo clamava, ainda, para que esse hábito não se perdesse, destacando que a sua
sobrevivência somente seria possível se houvesse a presença do público. Numa clara visão
elitista, o jornal convocava para que se inscrevessem, como sócios, aquelas pessoas que tem
interesse pelo assunto e “meios” para isso, sendo que “o povo, em geral, deve ao menos
comparecer às corridas”.
O chamado do jornal se fez no sentido de não se deixar morrer o hipódromo, a
exemplo do Club de Corridas, o que “seria uma vergonha para Porto Alegre, se não
conseguíssemos conservar uma instituição que Pelotas, S. Paulo e a corte possuem,
desenvolvendo-a cada vez mais”. É como que se o desenvolvimento e a modernização da
cidade estivessem atrelados à permanência da prática moderna, que era o turf.
A Gazeta de Porto Alegre valorizava a identificação que a cidade apresentava com os
cavalos, praticamente naturalizando as relações entre homem e o animal, quando definia que
“trata-se no caso de um ramo de sport, que é inteiramente próprio da província, e que está
aliás nas nossas tradições populares”. Utilizava argumentos como a existência, em Porto
Alegre, de bons cavalos e hábeis cavaleiros, ou ainda declarava que “o nosso povo entende do
assunto”. Tudo isso para enaltecer o esporte e reafirmar que a cidade possuía todas as
condições necessárias para uma longa duração do hipódromo.
109

O artigo se encerrou com uma nova afirmação, onde destacou os valores modernos,
assim como atentou que esses seriam brevemente aceitos. Era a necessidade de importação,
tanto de hábitos quanto de animais europeus que honrariam o objetivo do hipódromo:
“Estamos certos que logo que o gosto das corridas pelo sistema europeu houver feito mais
seguidores, serão importados cavalos de raça, conseguindo-se assim o fim utilitário da nova
instituição”. A Gazeta de Porto Alegre ainda fazia o chamado: “Assim, pois, seja no dia 23 a
devisa geral: ao Hipódromo! Ao Longchamps porto-alegrense!” (GAZETA DE PORTO
ALEGRE, 15/05/1880, p. 1). A instalação dos hipódromos se apresentava, praticamente,
como um requisito necessário ao desenvolvimento de Porto Alegre, assim como a sua
modernização.
Mesmo depois de 10 anos, percebemos que as relações entre os hábitos culturais dos
gaúchos com relação ao cavalo e o esporte persistiram, como uma espécie de hibridismo entre
a tradição e a modernidade, onde se aliava aquilo que estava enraizado nos comportamentos
regionais com novos hábitos importados.
Gaúchos, com seus cavalos crioulos, disputavam páreos nos hipódromos à moda
europeia. Percebemos isso no jornal A Reforma, de 4 de agosto de 1900, que anunciou uma
prova que seria realizada no Prado Rio-Grandense, permitindo somente a participação de
cavalos crioulos, seguindo o método rio-grandense: “vestirão bombachas, não descalços, em
mangas de camisa, um lenço atado na testa e um chicote, em cada mão. Os animais não
levarão peça alguma de arreiamento, a não ser o indispensável, o freio”. O artigo ainda
informava: “que o Derby vai ser pequeno para os curiosos nem é preciso adiantar”. E parece
que a expectativa se confirmou, pois em A Reforma, de 6 de agosto de 1900, a matéria sobre a
corrida deixou bem claro: “como não sucedia a muito tempo, ficou ontem o Derby Club
transbordando de espectadores”. De acordo com o texto, esta corrida à gaúcha “era
ansiosamente esperada pelo público que manifestava simpatia por todos os corredores e pouca
firmeza em determinar qual seria o vencedor”.
Concomitantemente aos defensores das tradições, muitos eram os que lutavam pela
modernização das corridas de cavalo. Inúmeros eram os argumentos para a criação dos
hipódromos e para o desenvolvimento do turf em Porto Alegre. Como já demonstramos, a
prática desse esporte seria uma ação civilizadora e modernizadora, modificando hábitos
considerados obsoletos.
Para além destes argumentos, o jornal Gazeta da Tarde publicou, em 29 de abril de
1895, um artigo assinado pelo seu diretor Germano Hasslocher. Dessa vez, a justificativa para
a criação de um Jockey-Club era a necessidade de reprodução dos cavalos que, segundo a
110

divulgação, foram praticamente dizimados pela revolução, “a ponto de não possuirmos mais
cavalhadas, nem para as mais insignificantes exigências do serviço público”. A referida
ebulição é a Federalista (ou Revolução da Degola), que até hoje é considerada o mais
sangrento conflito acontecido no sul do Brasil. Esse perdurou entre fevereiro de 1893 e agosto
de 1895, entre Chimangos, também conhecidos como pica-paus, defensores do governo de
Júlio de Castilhos, e os Maragatos, federalistas, opositores de Julio de Castilhos e do governo
federal.
Publicado antes mesmo do fim do embate, o texto escrito por Germano percebeu a
necessidade de um Jockey-Club e defendia veemente a sua criação. Segundo ele, necessário
“hoje mais do que nunca”. Ele ainda destacava a dependência brasileira em relação às
criações equinas dos demais países do Prata, “que nos fazem pagar a peso de ouro os animais
de que precisamos para o exército”. Na avaliação de Hasslocher, a revolução estava
praticamente extinta, restando apenas alguns grupos de “homens sem fé nem crenças,
sedentos de vingança”, cujo único objetivo era perturbar a tranquilidade pública. Segundo o
artigo, com a proximidade do fim do conflito, brevemente recomeçaria a vida regular nas
estâncias.
Para o jornalista, essa seria a oportunidade de dinamizar ainda mais a criação de
cavalos no estado, aperfeiçoando os métodos de reprodução. Germano destacou que “era
muito primitivo o nosso sistema, tanto para a criação de gado cavalar como vacum”.
Complementando, ele defendia que o Estado intervisse na criação desses animais, animando
os criadores através de premiações para exposições. Da mesma forma, haveria o incentivo, o
que motivaria aqueles investidores de altas somas em cavalos puro-sangue importados, que se
destinariam, também, à reprodução. O Jockey-Club, para além do esporte e da diversão, na
interpretação de Germano Hasslocher, seria uma instituição “protetora do desenvolvimento da
indústria criadeira de cavalos”. O jornalista justificava a sua argumentação dizendo que, dessa
forma, “será indubitavelmente o mais importante fator do nosso progresso na matéria”.
O surgimento dessa entidade incentivaria, ao mesmo tempo, a moralização das
disputas, sua disciplinarização e, não menos importante aos olhos do crítico, o
desenvolvimento genético dos cavalos, significativo não somente para o esporte, mas a todo o
serviço do povo gaúcho. Esse “trabalho” teria, como necessidade fundamental, o auxilio
financeiro estatal. Germano finalizou o seu artigo neste sentido: “com o Jockey-Club que
fundarmos as carreiras serão serias, dirigidas sempre por pessoal acima de toda suspeita, pois
não visando interesse para a associação, só cuidará de firmar os seus créditos e tornar uma
111

realidade os seus elevados intuitos. (...) Por hoje aqui fico, certo de que o assunto merecerá a
atenção do governo”. (GAZETA DA TARDE, 29/04/1895, p.1)
Esse projeto, que teria como um dos objetivos o desenvolvimento esportivo com a
adoção de uma série de medidas modernizadoras características de um Jockey-Club, aos
poucos foi tomando forma. No ano de 1899, o Correio do Povo publicou na sua coluna Sport,
uma notícia sobre a formação dessa entidade em Porto Alegre. O periódico depõe, em 22 de
janeiro de 1899, que os diretores dos prados Independência e Rio-Grandense acordaram na
forma de se criar um Joquei-Clube, seguido pelo mesmo regulamento do Joquei-Clube do
Rio. Esse deveria ser instalado nas dependências de um dos prados, caso seja impossível nos
Campos da Redenção. E, novamente a exemplo da capital nacional, os quatro hipódromos
seguiram o formato dos do Rio, e tornaram-se sociedades esportivas sem fim lucrativo.
Não é de se estranhar que também houvesse discursos contrários ao turfe, ou, pelo
menos, a algumas práticas que nele aconteciam. Paralelamente à defesa do esporte, debates
também eram travados em relação às apostas feitas nos cavalos. Podemos compreender que,
de certa forma contraditória, era a defesa de uma prática, ao mesmo tempo, civilizadora e
moderna, e, por outro lado, um hábito considerado imoral, a jogatina. É evidente que,
juntamente com as denúncias de práticas desagradáveis que eram as apostas, justificativas
ajudavam a legitimá-las, como o texto publicado no jornal Correio do Povo:

É certo que a aposta é um mal; mas no turf é um mal necessário, mal comum, aliás,
e inerente, sob esta ou aquela forma, a toda a espécie humana.
O turf em Porto Alegre pode presentemente ser considerado um salvador da
mocidade inesperta.
Cremos que só a nossa polícia ignora que em Porto Alegre funciona diariamente,
além de inúmeras casas de jogo de cartas, seis de roleta e lansquenet bancado.
Se a mocidade não tivesse os hipódromos para ir divertir-se aos domingos,
invariavelmente seria, em sua maioria, arrastada a esses focos de perdição.
(CORREIO DO POVO, 21/7/1898, p. 3)

Argumentos defendendo a prática das apostas ainda são entoadas pelos atuais
sportman. Para o Jockey Clube Brasileiro, apostas em cavalos não são jogos de azar. Do total
apostado, apenas uma parte é retirada para novos investimentos no desenvolvimento do turf,
sendo que o restante é devolvido aos ganhadores das apostas, de acordo com O Turfe no
estado do Rio de Janeiro (1999). As apostas incentivariam o desenvolvimento dessa nobre e
civilizada prática.
Dos males o menor: se as apostas nos prados não eram agradáveis aos olhos de todos,
também era uma atividade que servia de subsídio e incentivo a um esporte moderno,
civilizado e superior, que era o turf. Apostariam, portanto, em algo que lhes traria vantagem.
112

Nesse caso, os jogos eram atos refinados e modernizantes, que atrairiam a mocidade para
saudáveis costumes.

2.2.2 Dos cavalos gaúchos: quando os mestiços superam os puro-sangue

O discurso de modernização que acompanha as práticas esportivas engloba vários


fatores daquilo que compreendemos enquanto campo. No século XIX (assim como em toda
história do esporte), não bastava somente a execução da modalidade esportiva de acordo com
um conjunto de normas. Os ideais de adequação atingiam muitas dimensões, que abrangiam
aspectos de comportamento, estrutura física relativa à prática esportiva, técnicas, etc. No caso
do turf, um debate que cercava constantemente esta atividade, e que foi recorrente na
imprensa da época, era a importância do desenvolvimento racial dos cavalos para a expansão
e qualificação do esporte.
Em Porto Alegre, tivemos relatos de disputas entre os cavalos puro-sangue,
considerados “o desenvolvimento máximo da raça”, e mestiços sul-rio-grandenses, julgados
por muitos como uma segunda linha equina. No caso, diversas vezes, o resultado final das
corridas refutava o discurso sobre a superioridade dos puros importados. Todavia, isso não era
visto pela imprensa como algo negativo, mas, sim, como uma possibilidade de diferencial das
criações gaúchas em relação às demais. Mais uma vez, as características específicas do sul do
país em relação aos cavalos se destacariam frente ao restante do Brasil.
O jornal Gazeta da Tarde, de 16 de setembro de 1895, demonstrou um desses
exemplos. O artigo tratou sobre a disputa do Grande Prêmio 20 de setembro, realizado no
Prado Boa Vista, pelos “melhores puro-sangue que existiam em nosso turf e pelo valente
mestiço Frade”. Estavam escritos para esse páreo, Aguazil, Pillo, Bismarck, Audinot, Honora,
Centauro, Buenadicha, e Frade. Acontece que, após uma bela disputa, chegou em primeiro
lugar o único entre eles que não possuía uma raça definida. Com efeito, esse fato parece não
ter sido estranhado pela imprensa, que exaltou o feito e valorizou o cavalo gaúcho:

A vitória do meio sangue rio-grandense sobre os puro sangue platinos causou


alegria, mas não surpresa – pois já é a terceira vez que ele bate os puro sangue
estrangeiros.
Diz-se que eles estavam em mau estado, mas é inexato. Frade venceu brilhantemente
em uma corrida admirável e com o tempo que deu teria vencido quase todos os
Grandes Prêmios que se tem realizado no Rio de Janeiro – batendo os cavalos
ingleses e franceses que mais tem figurado ali. Esta importante vitória que veio
113

honrar a criação rio-grandense se presta a considerações importantes que faremos


em subsequentes artigos. (GAZETA DA TARDE, 16/9/1895, p. 3)

De fato, no dia seguinte, 17 de setembro de 1895, a Gazeta da Tarde discutiu


novamente a vitória do meio sangue Frade sobre os puro-sangue concorrentes. Na matéria, se
vê claramente a tentativa de legitimar a vantagem da mestiçagem gaúcha sobre os demais
cavalos considerados superiores racialmente. A comprovação se dava através de uma série de
comparações estatísticas de tempos obtidos pelos destacados equinos que competiam na
capital fluminense, com o tempo feito por Frade no Grande Prêmio 20 de setembro. De
acordo com os dados comparados, pelo seu desempenho, Frade seria o vencedor em todas as
poules. Para o jornal, “desta simples confrontação vê-se que o meio sangue rio-grandense
bateria facilmente todos os vencedores dos Grandes Prêmios Nacionais batendo os puro
sangue do Rio e São Paulo”. (GAZETA DA TARDE, 17/9/1895, p. 3)
As comparações que exaltavam os cavalos rio-grandenses não se restringiam a Frade.
Eram muitas as apologias aos mestiços criados no Rio Grande do Sul, como “Tenerife”, que
“bateu em São Paulo à trote todos os cavalos da sua idade, mesmo de puro sangue”; “Diactor,
outro meio sangue rio-grandense, percorreu em 1892 em São Paulo os 1450 metros em 93
segundos – tempo que nenhum puro sangue estrangeiro fez naquele ano naquele turf”.
Se existia o elogio e a tentativa de comprovação da superioridade dos cavalos gaúchos
frente aos importados, também havia uma orientação econômica nesse interesse. Para os
criadores do Rio Grande do Sul, bastaria aliar as raças estrangeiras à nativa do sul do Brasil
para que os melhores exemplares fossem garantidos e, consequentemente, o mercado nacional
fosse monopolizado. Esse discurso pode ser percebido no jornal Gazeta da Tarde, que
destacou:

Chegaremos a animadora conclusão de que nossos simples meio sangue são


suficientes para bater os puro sangue paulistas e fluminenses e que só de nós
depende monopolizarmos aqueles importantes mercados de produtos nacionais. Para
isso – foi o que quisemos mostrar – não nos é absolutamente necessário empatar
grandes capitais finíssimos e éguas puro sangue; qualquer criador de poucos
recursos com garanhões estragados e baratos como Emilio 2º, St. Leon e o pai de
Frade e as nossas éguas crioulas poderá obter produtos extraordinários como os que
acabamos de lembrar. (GAZETA DA TARDE, 17/9/1895, p. 3)

Aliado a essas justificativas, explicações de cunho geográfico ajudavam a legitimar a


superioridade racial dos equinos mestiços do sul do Brasil frente aos estrangeiros, onde
“condições cósmicas entram por muito nestes resultados”. No entanto, a principal justificativa
para essa superioridade no desempenho era realmente a raça crioula, nativa do sul do Brasil,
114

que, com suas qualidades, influenciaria beneficamente os cavalos mestiços aqui produzidos.
A exaltação era tanta ao equino sul rio-grandense que o periódico declarou que “é o sangue
crioulo, oriundo da nossa raça crioula, incontestavelmente a melhor raça cavalar que existe
no mundo, e a mais suscetível de melhoramentos” (GAZETA DA TARDE, 17/9/1895, p. 3,
grifo meu).
Segue, na edição seguinte, a defesa das qualidades do cavalo rio-grandense. Na Gazeta
da Tarde, de 18 de setembro de 1895, novamente um comparativo foi desenvolvido entre o
meio sangue Frade, dessa vez, com os puros-sangue estrangeiros vencedores dos Grandes
Prêmios Fluminenses. Mais uma vez, foi feita uma tabulação dos cavalos com seus
respectivos escores para legitimar a informação de que o animal gaúcho sairia vencedor em
todas as corridas com seus adversários imigrantes.
Parece-nos que o posicionamento do periódico frente à qualidade dos cavalos
importados, em nenhum momento, minimizou o equino nacional. Ao contrário,
aparentemente, a Gazeta estava adversa a uma tendência de importar matrizes biológicas,
valorizando o animal nativo e destacando a sua potencialidade:

Imaginem, pois, os criadores rio-grandenses o que teria feito este meio sangue no
Rio, e o que poderia fazer ainda, se estivesse inscrito no Stud Book brasileiro – e
tratando de inscrever seus produtos – continuem a criar confiadamente por que não
tardará muito que outro meio sangue – excepcional como o Frade – vá ao turf
fluminense honrar a criação rio-grandense – encaminhando para os nossos
paupérrimos estabelecimentos de criação as quantias fabulosas que vão anualmente
para estrangeiros em troca de animais que, pela maior parte, podem ser batidos pelos
nossos meio sangues. (GAZETA DA TARDE, 18/9/1895, p. 3)

Supostamente, o jornalista responsável pelas crônicas relativas ao turf era um criador


de cavalos, o que, em parte, pode justificar a valorização exacerbada dos animais locais. Na
Gazeta da Tarde, de 19 de setembro de 1895, o cronista anunciou a sua retirada temporária à
sua fazenda de criação. Ele agradeceu a gentileza pelo acolhimento do que chamou de
“insignificantes escritos sobre o turf”, que julgou “no desejo sincero de concorrer para que ele
se torne moralizado e útil como deve e como infalivelmente, há de ser”.
O articulista militava a favor de uma série de mudanças necessárias aos nossos
hipódromos, uma maior organização e o cumprimento dos objetivos dos prados, que se
relacionavam ao desenvolvimento da raça cavalar, sendo as instituições responsáveis pelo
estímulo às criações equinas: “com programas bem organizados, poderão obter maiores lucros
favorecendo ao mesmo tempo, como é seu dever, os criadores, despertando neles o estímulo e
o interesse e a confiança no público”. Inserido nesse contexto, o apelo se dava no sentido de
115

que os prados “sejam úteis e não continuem a ser, como tem sido meras casas de jogo cujo
barato vai humanamente aproveitar em parte à pobreza”. (GAZETA DA TARDE, 19/9/1895,
p. 2)
A apologia à criação de cavalos no Rio Grande do Sul, assim como o desenvolvimento
do turf e dos hipódromos, ganhava, nas palavras de seu defensor, argumentos que iam bem
além de interesses esportivos. Da sua justificativa, faziam parte argumentos econômicos,
bélicos e de soberania, que ajudavam na sustentação das suas ideias:

Quando o governo estudar este magno assunto compreenderá que o turf e


especialmente os hipódromos são as fontes mais seguras e econômicas para
melhorar a raça cavalar e que lhe compete patrioticamente o turf e os hipódromos
para que amanhã possa ele ter bons e numerosos cavalos não só para vencer uma
revolução, como ainda para opor-se a uma guerra externa, o que é muito mais grave.
(GAZETA DA TARDE, 19/9/1895, p. 2)

A questão do desenvolvimento racial dos cavalos rio-grandenses foi apenas uma das
variáveis em um grande discurso permeado de ideias de modernidade. No caso de Porto
Alegre, em que existia uma relação diferenciada e muito próxima aos animais, se criou uma
nova adaptação do pensamento moderno às características locais. Inserido nessas relações,
questões econômicas, históricas e até mesmo geográficas fizeram com que a capital do Rio
Grande do Sul percebesse essas ideias de maneira diferenciada ao Rio de Janeiro, que vivia
um contexto também singular no Brasil. O turf se desenvolveu nas duas cidades, mas a forma
como ele foi percebido e adaptado ao local foi diferenciado.
A capital brasileira se associava com o turf de maneira um pouco distinta à capital
gaúcha, já que, assim como o perfil da cidade era diferente de Porto Alegre, os promotores
das corridas também se distinguiam. O desenvolvimento e a organização dos hipódromos no
Rio de Janeiro servia a uma elite econômica, que conferia um “ar aristocrático” (MELO,
2001, p. 59) aos eventos, com poderio financeiro superior ao da capital sulina.
Em que pese o fato de que o Rio de Janeiro concentrava grande parte da sociedade
abastada brasileira, o turf ia além da prática esportiva e ajudava, justamente, na legitimação de
uma elite nacional que via a necessidade de se espelhar na Europa. Para Victor Melo, “o
interesse central estava ligado à necessidade de ser reconhecido como „elemento de elite‟,
digno de frequentar determinados círculos fechados. Além disso, era uma oportunidade para
alinhavar e fechar contatos e negócios”. (MELO, 2001, p. 60)
Nesse contexto, os hipódromos cariocas, que foram inspirados diretamente nos
exemplos da França e da Grã-Bretanha (assim como, em parte, os prados de Porto Alegre),
valorizavam de maneira mais enfática os valores da elite do antigo continente. Isso incluía o
116

desenvolvimento da raça cavalar nacional, considerada de menor valor frente às raças


europeias e platinas.
Se os prados fluminenses funcionavam como pontos privilegiados para a diversão da
elite carioca, por outro, existia a preocupação com o cavalo pela sua importância na
sociedade, nos negócios e na guerra. Um pouco diferente do Rio Grande do Sul, que via, nas
suas matrizes, capacidades únicas frente aos cavalos adventícios. No Rio de Janeiro, existia
uma maior busca pela identificação com o mundo estrangeiro. A admiração e o investimento
nos cavalos europeus equipariam o Brasil, pelo menos simbolicamente, aos países mais
desenvolvidos do mundo (MELO, 2001).
O cavalo, no Rio de Janeiro, ainda sustentava uma simbologia aristocrática que o
ligava a nobres hábitos, diferentemente do Rio Grande do Sul, que não sentia nem necessitava
dessa aproximação. A motivação comercial era vigente tanto no sul quanto no sudeste; Porto
Alegre, talvez, pelo seu menor poder econômico, mas certamente, pela tradição na criação
equina defendia os seus mestiços; o Rio de Janeiro, enquanto capital do império e,
posteriormente, da República, tinha que amparar seu status.

2.2.3 Normas, brigas, linguiças e tribofes

O processo de constituição do esporte assimilou, entre várias características, o caráter


civilizador da proposta moderna. Nesse sentido, foi necessário que essas práticas fossem
legitimadas enquanto superiores, dignas a tomar o lugar de outras consideradas selvagens e
ultrapassadas, como as carreiras, no caso do turf. Dessa forma, era necessário que os esportes
demonstrassem cumprimento as suas regras, sem fraudes ou corrupções, sendo exemplos
racionais da modernidade. Com isso, era grande a repercussão e a tentativa de combate àquilo
que era chamado de “linguiça”, nos páreos do Rio Grande do Sul, e “tribofes”, no Rio de
Janeiro. Ou seja, tudo que causava confusão, fraudava normas e que ferisse competições
justas, beneficiando alguma parte indevidamente, deveria ser combatido.
No caso de Porto Alegre, a imprensa se posicionava no sentido de moralização das
corridas, solicitando até mesmo intervenção externa, através de denúncias às irregularidades,
como registrou a Gazeta da Tarde, de 22 de julho de 1895: “decididamente é preciso que a
autoridade intervenha no assunto, socorrendo quanto antes o público espoliado. Não há
regulamento que garanta o povo que lá vai. A vontade dos diretores de corrida impera
soberana”. Segundo a denúncia, várias irregularidades eram promovidas, começando pelas
117

chamadas das inscrições, onde não havia lealdade e cavalos não relacionados eram inscritos
na hora do páreo, destoando daquilo que foi publicado nos jornais.
Além dessa, várias foram as acusações na mesma edição da Gazeta da Tarde: “em um
dos páreos realizados, o cavalo „Audinot‟ ainda não havia chegado e já davam o sinal de
partida e isto tão fora de tempo que nem sequer a música começou a tocar, anunciando que o
jogo estava encerrado”. O jornal comentou que, mesmo que o prado tenha ressarcido os
apostadores do cavalo prejudicado, todos os outros também tiveram prejuízos, pois o
percentual das apostas foi diminuído. O artigo apontou que “pouco se importa se o cavalo
corra ou não: ele (o prado) ganha de qualquer forma”.
Outra insinuação que o periódico depôs estava relacionada aos tratos com os animais.
A prática civilizada, superior e moderna, necessitava ter uma relação com os animais digna
desses adjetivos, contrariamente ao que estava acontecendo:

Outra coisa indecente e que é tolerada pelos prados, é o espetáculo selvagem que
dão alguns proprietários de animais na partida. Colocam dois sujeitos armados de
enormes rebenques atrás dos animais e no instante em que partem os relhos caem
sobre o lombo dos pobres quadrúpedes para excitá-los. Já se tem chegado ao cúmulo
de armar dois tipos com ferros pontiagudos com que ofendem o animal, para com a
dor tomar vantagem na saída. Isto é bárbaro e não deveria ser tolerado em um centro
que pretende os foros de civilizado. (GAZETA DA TARDE, 22/7/1895, p. 3)

A denúncia segue no sentido de que os nobres objetivos do hipódromo estavam sendo


denegridos. A Gazeta da Tarde destacava que as corridas, em Porto Alegre, deixaram de “ser
um divertimento útil, para transformarem-se em fonte de renda para os prados que não tem
escrúpulos e só buscam o seu interesse”. Mesmo a organização dos páreos em prados, sua
espetacularização e a vinculação das apostas a ganhos financeiros fosse uma consequência da
modernização desta prática, por vezes, essas características se tornavam contraditórias. Um
esporte baseado em regras racionalmente desenvolvidas, que tinha as apostas como base do
seu sustento, não poderia desacreditar seus jogadores. Enfim, o jornal militava por uma
moralização das corridas, recorrendo, novamente, à intervenção da polícia para que isso
acontecesse:

É tudo de tal ordem, quanto a escândalos, que a polícia devia intervir, fazendo ela
um regulamento de carreiras, tornando obrigatório o seu cumprimento, para assim
moralizar aquela imoralidade.
É a bem da ordem pública que este regulamento impõe-se, pois é raro o dia em que
em nossos prados não tenhamos de presenciar tristes cenas originadas pelos abusos
constantes e explicáveis num povo que reage contra a especulação que o vitima.
(G.H.) (GAZETA DA TARDE, 22/7/1895, p. 3)
118

O mesmo caso foi publicado no mesmo dia 22 de julho de 1895, desta vez no jornal A
República, que tratou o acontecido de forma muito similar, mas de uma maneira mais
sintética. No entanto, o tom discriminatório sobre a direção do prado continuou, sendo que
seu gerente foi responsabilizado e acusado de conivente ao crime, caso não tomasse as
devidas providências.
As críticas às linguiças e demais corrupções nos prados não cessavam. Em um artigo
intitulado Turf: criação, sport e lavoura forrageira, assinado somente pelo pseudônimo Um
criador, em 16 de agosto de 1895, no jornal Gazeta da Tarde, são atacadas veementemente
essas práticas. Para o articulista, a luta tem sido árdua, mas improfícua frente ao que ele
chamou de “placet fortificador” dos prados. Ele destacou que a desorientação, a imoralidade,
a rotina, a ignorância e o egoísmo das sociedades de corrida “aviltam o nosso turf,
envergonham a nossa capital e prejudicam a criação cavalar, da qual, entretanto, dependem a
integridade da Pátria, a paz, a segurança, e as tradições gloriosas do Rio Grande do Sul”.
(GAZETA DA TARDE, 16/8/1895, p. 3)

Imagem 10: A Reforma, 18/07/1886, p. 2


119

No artigo, o cavalo é tratado como fator de interesse do Estado e da União, sendo


chamada a atenção dos poderes públicos para o desvirtuamento do turf. Para o texto,
diferentemente do resto do mundo, onde as sociedades esportivas são vetores do progresso da
criação cavalar, em Porto Alegre, “são apenas parasitas que vivem da sua seiva, vampiros que
vivem do seu sangue e de sua vida”. O turf foi evocado, novamente, como prática útil,
promotora da civilidade, que é reconhecido pelos povos mais “adiantados”. No entanto, foi
destacado um diferencial negativo frente ao turf do Rio de Janeiro e São Paulo: “o turf rio-
grandense além de não ter como ele utilidade direta tornou-se pernicioso e antipático pela sua
imoralidade desde a organização das sociedades até a execução das corridas”. O artigo, que
tem um caráter analítico, indicou alguns objetivos dessas colunas no jornal, quando destacou
que buscará tirar do abismo em que se achavam algumas das sociedades esportivas para torná-
las dignas da gratidão dos criadores, da confiança do público, da simpatia da imprensa e dos
favores do governo, facilitando-lhes os objetivos de que todas tem se afastado: “o
melhoramento da raça cavalar de acordo com as necessidades pátrias da indústria e da
guerra”. (GAZETA DA TARDE, 16/8/1895, p. 3)
Mas as críticas não eram impostas somente aos diretores dos prados. O público, e até
mesmo os jockeys, eram responsabilizados por transformar os hipódromos em um verdadeiro
palco de injustiças, onde uma grande variedade de “aproveitadores” passou a agir. Mais uma
vez, o jornal clamou pela moralização e o fim das injustiças nos prados. É o que destacou a
Gazeta da Tarde, na sua coluna “pelos prados”:

A ladroeira nos prados é enorme. Ali vão gatunos que surrupiam o relógio do
incauto; outros há que vendem poules falsificadas, mas não há quem intervenha. A
cancha é invadida pela multidão que se aglomera quase debaixo das patas dos
cavalos. Os jockeys fazem trapaças de toda espécie. Enfim, é uma balburdia incrível.
Por melhores que sejam os desejos das diretorias, nada é possível fazer sem polícia.
É necessário que o nosso digno intendente, a quem está afeto este serviço, revise o
regulamento dos prados e trate de fazer aplicar severamente as suas disposições,
introduzindo medidas que garantam o público contra as patifarias dos srs. jockeys.
(GAZETA DA TARDE, 13/4/1896, p. 2)

As famosas linguiças também eram tratadas pelo jornal Correio do Povo. De uma
maneira um tanto ácida, o periódico buscou retratar, na sua edição de seis de janeiro de 1897,
o que acontecera no Hipódromo Rio-Grandense. De acordo com o impresso, de forma
bastante irônica, nada faltou para que aquele local tivesse, no dia anterior, um turno cheio de
“desastres: desde a linguicinha bem apimentada e fina, de carne de porco, com bastante salsa
e alho, até a linguiça grosseira e detestável, de carne de boi magro, abatido em mês de
setembro”. Essa referência às trapaças era dada com tanta ênfase devido ao grande número de
120

irregularidades registradas no páreo: “poules aumentadas na pedra depois de dada a última


numeração; cavalos que não haviam vendido poule ganharam corridas e distribuíram
dividendos; (...) animais que haviam cansado em corridas de volta e meia, ganharam depois”.
(CORREIO DO POVO, 06/01/1897, p. 1)
A denúncia às irregularidades no prado era clara. O jornal declarou que “foi péssima a
impressão trazida por quase todos aqueles que foram às últimas corridas do Rio-Grandense”.
O artigo se posicionou em defesa do público, segundo ele próprio. Perante os acontecidos, os
relatos destacaram que a credibilidade dos prados estava ameaçada e, consequentemente, a
frequência dos aficionados:

Reinou geral descontentamento entre os espectadores, notando-se que o mau efeito


produzido pelos desastres do Rio-Grandense, em muito prejudicou os outros prados,
afastando deles, senão para sempre, ao menos por alguns meses grande número de
frequentadores, tal foi o enojamento do público pela verdadeira espoliação de que
foi vitima nas últimas corridas daquele prado.
Grande tem sido o número de reclamações que temos recebido de pessoas que
assistiram às corridas do Rio-Grandense, pedindo para protestarmos contra os
abusos que vimos de referir.
À diretoria daquela associação transmitimos, pois, essas reclamações, esperando que
ela, já que não pôde coibir, procure ao menos evitar, esses abusos, si é que não quer
contribuir para o desaparecimento do público em suas diversões. (CORREIO DO
POVO, 06/01/1897, p. 1)

Na imprensa da época, inúmeras eram as denúncias de fraudes por culpa da


incompetência e interesse dos juízes, com a consequente revolta popular. Ao que nos parece,
havia uma relação direta entre os diretores dos prados com os devidos juízes, que transitavam
pelos diversos hipódromos da cidade de Porto Alegre. Havia momentos, inclusive, de
agressão física dos ditos corruptos. No Correio do Povo, de 17 de julho de 1897, há a
descrição de uma dessas confusões, ocorrida no Prado Boa Vista. Após várias denúncias de
irregularidades do senhor Azevedo com demais juízes sob sua orientação, o povo partiu para a
agressão do responsável, que, num primeiro momento, foi defendido por oficiais da Brigada
Militar.
No entanto, a precaução inicial parece não ter surtido efeito posteriormente:
“Momento depois, devido, segundo ouvimos, a uma imprudência, a agressão projetada antes
tornou-se efetiva, ficando o sr. Azevedo levemente ferido na face e na cabeça, e o seu filho,
Raul Azevedo, que acudiu ao local para defendê-lo, também saiu um tanto pisado”. O jornal
lamentou esses incidentes por “acusações de procedimentos pouco dignos daquele lugar”.
121

Como consequência dessa grande quantidade de corrupções nos prados, alguns


periódicos relataram a existência de uma decadência das sociedades turfísticas de Porto
Alegre, baseada, principalmente, nesse descrédito com a transparência das carreiras. É o que a
Gazeta da Tarde destacou, em 30 de janeiro de 1899, quando publicou que “torna-se assunto
de comentários a decadência das nossas sociedades turfísticas; não há como negá-lo, o
marasmo predomina e o entusiasmo pelo jogo tem cessado”. Em seguida, o periódico tentou
esclarecer: “qual a causa? É que o público completamente desnorteado só assiste a escândalos
sucessivos”.
O texto argumentou que a maior parte dos páreos, cheios de “bacamartes”, eram
disputados indecentemente, com as carreiras fraudadas pelo arranjo e as apostas aumentadas
mesmo depois de começadas as corridas, desrespeitando o código de corridas e criando a
necessidade recorrente de se solicitar a influência da polícia. Essa decadência foi ratificada
quando outro jornal, em 19 de maio de 1900, destacou a festa hípica que se realizaria no
Prado do bairro Moinhos de Vento: “é motivo para nos fazer lembrar os bons tempos de
outrora em que as reuniões naqueles hipódromos eram de grande animação”. (A REFORMA,
19/5/1900, p.3)
Paralelamente às críticas, existiam as tentativas de moralização dos prados, fator
essencial para o sucesso e credibilidade esportiva. Em artigo publicado no jornal Correio do
Povo, de 08 de janeiro de 1897, sob o título de Regeneração dos Prados, verificou-se uma
tentativa de revitalização das práticas esportivas, para que se expurgassem as ilegalidades.
Segundo o jornal, as corridas foram fiscalizadas pela polícia, o que surtiu efeito, “que
conseguiu por tudo nos seus eixos, impondo-se ao respeito dos contumazes trapaceiros que
fazem desse gênero de diversão o campo vasto de suas especulações indecentes”. Para que
isso se efetivasse e consolidasse, uma série de medidas foram providenciadas:

O Sr. Louzada fiscalizou em pessoa todo o serviço de pesagem dos joqueys antes e
depois de cada corrida; esteve efetivamente junto aos juízes de chegada e de saída,
apreciando de visu o resultado de cada corrida; proibiu o abuso de venda de poules
depois de fechada a casa de apostas; intimou os corredores de cavalo a não fazerem
mau jogo; tomou, enfim, todas as providências que eram necessárias para garantir a
moralidade nos prados e livrar os incautos da espertezas de que habitualmente eram
vítimas (CORREIO DO POVO, 08/01/1897, p.1).

O artigo continuou destacando o esforço das autoridades para a moralização dos


hipódromos, para que esses locais cumprissem as suas funções, que, segundo a missiva, era
“fomentar o aperfeiçoamento da raça cavalar no Estado, e não antros de jogatina indecente,
onde se fazem todas as bandalheiras imagináveis”.
122

Aparentemente, toda essa campanha “educativa” surtiu efeito. Essa premissa pode ser
percebida no Correio do Povo, de 27 de agosto de 1897: “É fora de dúvida que o gosto pelo
sport está de novo fazendo época aqui na capital, e isso devido as acertadas medidas de
moralidade que ultimamente foram tomadas e postas em prática pelos atuais diretores de
prados”.
Ao mesmo tempo em que se festejava a volta do público às corridas, novas
solicitações visando melhorias nos prados eram requeridas no sentido de aperfeiçoar a
estrutura física dos hipódromos e atrair ainda mais pessoas, ou melhor, famílias inteiras.
Solicitou-se a colocação de cadeiras no lugar das arquibancadas de madeira, o que atrairia
mais público, especialmente “sportswomen, que, com suas graciosas presenças, abrilhantarão
as diversões sportivas” (CORREIO DO POVO, 27/8/1897, p. 1). Já que as corrupções
estavam sendo combatidas, ao moderno e civilizado esporte se agregaria uma agradável
estrutura para que, cada vez mais, a presença do público (especialmente o feminino) fosse
efetiva.
No Rio de Janeiro, as “tribofes” também eram práticas comuns e fartamente
divulgadas pelos jornais da época. Muito parecido com o que acontecia em Porto Alegre, na
capital fluminense, a tensão era constante, como destaca Victor Melo:

As confusões eram das mais diferentes ordens: suborno de jóqueis, árbitros que
ocasionalmente se equivocavam com os resultados (já que na época não havia
muitos recursos eletrônicos); árbitros subornados que “fabricavam resultados”; e até
episódios descaradamente desonestos. Muitas vezes essas confusões eram seguidas
de violência, depredação dos hipódromos, surra nos jóqueis e proprietários dos
animais. (MELO, 2001, p. 114)

Enquanto, em Porto Alegre, não detectamos um palco principal de acontecimento das


“linguiças” e suas confusões, Victor Melo (2001) defende que, no Rio de Janeiro, esses
conflitos eram mais graves no hipódromo mais popular, que era o Guarany, embora as
desordens também fossem constantes nos clubes mais seletos. Para o pesquisador, essas
práticas eram reações de amantes do esporte, que estavam excluídos da possibilidade de
influenciar na direção do espetáculo, relegados ao pior lugar dos hipódromos. Considerado
mero coadjuvante, o público reagia da forma que era possível. “Ao se sentir burlado,
encerrava qualquer pretensão de „civilidade‟ e utilizava os recursos de que dispunha: destruía,
simbólica e literalmente, a farsa montada” (MELO, 2001, p. 114).
Assim como as denúncias feitas no Rio Grande do Sul as responsabilizou, coube à
desonestidade e desorganização de alguns clubes do Rio de Janeiro a causa da sua falência.
123

Soma-se a essa variável, algumas restrições impostas pelas associações nobres da cidade que
não queriam que parte de um potencial faturamento se dissipasse nos prados de menor
expressão, mesmo que a participação fosse comum, às vezes, até mesmo
disfarçados/escondidos de indivíduos que pertenciam às elites ou por elas transitavam.
Outra atitude tomada pelos hipódromos fluminenses foi uma tentativa de moralização
dos seus prados, antes mesmo do que aconteceu no Rio Grande do Sul. Foram desenvolvidos
rigorosos códigos de corridas, em que eram abordados aspectos, como o corpo de árbitros, as
formas de competição e a vestimenta obrigatória para os jóqueis.
Além disso, em 1886, organizou-se um código de corridas e um study book – livro de
classificação e catalogação de cavalos, comum para os clubes mais nobres. Todavia,
divergências internas entre as agremiações levaram cada um a reeditar regulamentos próprios,
o que causava inúmeros desacordos. Isso levou o governo a regulamentar especificamente a
questão dos cavalos, criando, em 1891, um study-book oficial. As entidades tentaram, várias
vezes, reeditar a ideia de um código e um study-book únicos. Até mesmo foi criado, em 1894,
um Conselho Superior de Corridas, responsável pelos regulamentos e por decidir sobre
polêmicas constantes. No entanto, as divergências entre eles continuavam e nunca deixavam a
ideia avançar muito. (MELO, 2001)
Outro fator de discordância nas corridas realizadas no Rio de Janeiro eram as apostas,
também alvos de desconfiança. Nesse caso, essa prática, que era comum nas corridas de
cavalo, se polemizou sobremaneira no Rio de Janeiro frente à atuação dos bookmakers, que
eram casas de jogo especializadas em apostas, as quais prosperaram rapidamente e se
multiplicaram. O fato é que esses estabelecimentos não tinham uma vinculação direta com os
clubes e, embora muito procurados, não possuíam muita credibilidade e estavam
constantemente envolvidos em denúncias de não pagamento aos apostadores ou, até mesmo,
na “fabricação de resultados”. (MELO, 2001)
Pelo que apuramos, as casas de jogo disputavam com os clubes a exclusividade da
organização das apostas. Esses casos eram vistos como um empecilho ao desenvolvimento
esportivo, já que o turf, que teria nobres fins, acabaria sendo um balcão de apostas dos
interessados em engrossar seu faturamento. Estava em jogo o caráter esportivo das disputas,
que não poderia se transformar apenas em jogo, ameaçando a própria essência esportiva da
prática.
Victor Melo (2001) destaca que, desde 1873, o Jockey Club reivindicava a exclusiva
responsabilidade pelas apostas. No entanto, agentes clandestinos e as casas bancárias
atrapalhavam seus intuitos, o que foi conquistado somente em 1895. Neste ano, foi aprovada
124

uma legislação confeccionada pelo Conselho Municipal, privando os bookmakers de sua


possibilidade de atuação e aumentando a ação da força policial para controlar tais casas.
Da mesma forma, como em Porto Alegre, o Rio de Janeiro solicitava recorrentemente
auxilio das autoridades policiais no controle das irregularidades. O que estava em jogo não era
somente o lucro das apostas, mas a própria credibilidade esportiva que deveria ser mantida
para que o turf sustentasse o seu status de esporte nobre e civilizado.
Por certo, tanto Porto Alegre quanto o Rio de Janeiro percebiam, na rígida
regularização e moralização dos prados que buscavam o fim das “linguiças” e “tribofes”, a
perpetuação de um esporte considerado refinado e superior. Justamente por isso, não podiam
admitir, na sua prática, atitudes que ferissem a essência da disputa, baseada em regras claras
que beneficiavam uma concorrência transparente e imparcial. Além do sucesso entre a
população, estava em jogo uma considerável movimentação financeira em apostas,
pagamentos e estruturas que esses hipódromos sustentavam. Era necessário, portanto, que se
mantivesse e se afirmasse a lisura das disputas. Além disso, principalmente no Rio de Janeiro,
antiga sede da corte, a prática do turf era uma forma de garantir o propagar de sentidos
interessantes às elites, garantindo, ao esporte, o seu papel como prática que concedia status e
distinção.

2.2.4 Os gerentes

Merece destaque, e nos chamou a atenção na documentação relativa a Porto Alegre,


uma série de críticas e ataques aos gerentes dos prados, feitos, principalmente, pelo jornal
Gazeta da Tarde.
No artigo intitulado “gerentes e diretores”, publicado em 19 de agosto de 1895, o
periódico iniciou sua argumentação destacando a sua insistente afronta às direções dos
hipódromos, quando ratificou: “por mais de uma vez temos atacado a direção atual dos
prados, confiada a gerentes – coisa que não se dá em nenhum lugar onde o turf é digno desse
nome”. O jornal se preocupava em relativizar as críticas, destacando que não eram acusações
pessoais, mas sim, que esse estava defendendo os interesses do esporte, visto que os gerentes
dos prados exerciam uma influência direta sobre o turf e a criação.
O periódico sublinhava que a ação dos gerentes estava sendo “a mais perniciosa
possível e os interesses tão sérios da criação, ao qual se ligam os maiores interesses da pátria
não podem continuar a ser sacrificados pelos gerentes”. Da mesma forma, os administradores
125

são culpados por uma suposta imobilidade e atraso em relação ao esporte, uma “falta de
orientação e estudos, traduzidos em fatos”, sendo os gerentes, também, responsabilizados
pelas imoralidades nas corridas.
Antes dos ataques fervorosos, uma pequena análise da função dos atarefados gerentes:
de acordo com o jornal, eles eram os responsáveis pelo serviço interno da escrita, balanços,
contas, eram obrigados a fazer um programa de corridas trabalhoso, fiscalizar as
arquibancadas, a pesagem, a casa das apostas, o botequim, a saída, o percurso, a chegada; eles
tinham de dispor os juízes, conferir as sentenças, resolver as dúvidas e protestos, estabelecer
os pesos, o que, para o periódico não poderia ser responsabilidade de uma única pessoa: “é
serviço tão variado, tão penoso, tão cheio de responsabilidades que uma pessoa só, jamais
poderia fazê-lo”. A essa atarefada função, a publicação delega parte da responsabilidade
daquilo que considera como frouxidão na fiscalização e consequente descrédito.
A feroz ofensiva do jornal iniciou no item referente à preparação dos programas de
corrida. O articulista os acusava de agrupar os animais “não pela sua idade, sangue ou
procedência – mas pelos interesses do jogo, aliviando este, sobrecarregando aquele – tudo ao
seu livre arbítrio – o que o coloca na falsa posição de ser censurado por todos”. As críticas
ficaram cada vez mais ásperas, colocando os gerentes como principais responsáveis pelo
descrédito das corridas nos prados:

Nos chamados juízes de interesses alheios (e às vezes do próprio interesse) ele (o


gerente) não pode deixar de cometer as maiores injustiças, sejam involuntárias – por
falso critério ou erro de apreciação sejam voluntárias procurando proteger os
amigos, ceder a pedidos, castigar desafetos, ou recompensar a boa vontade de quem
lhe enche o programa em ocasiões difíceis.
Na raia ele é o bode expiatório de todas as más saídas, quer casuais quer propositais
e isso dá-se, também, nas decisões da chegada e como os gerentes quase todos são
os mais fortes jogadores do prado – o povo desconfia e grita muitas vezes que há
saídas e decisões interessadas e até certo ponto é justa a grita do povo porque o
gerente que joga pode – mas não deve ser juiz. (GAZETA DA TARDE, 19/08/1895,
p. 1)

Os gerentes também eram acusados de ser coniventes ou tomarem parte nas fraudes
promovidas pelos proprietários e jockeys. Essa atitude tornaria ainda mais falsa a posição dos
administradores, já que uma atitude moralizadora faria com que ele tivesse que lidar com o
ódio dos punidos. O artigo reforçava que a imoralidade estava insustentável e defendia a
intervenção imediata da polícia. Dessa forma, o jornal argumentava para que se fizesse, entre
os associados dos prados, uma divisão de tarefas para que a corrupção fosse minimizada.
Ao mesmo tempo em que se exigiam variadas alterações, como mudança de horário,
maior organização e diminuição no número de corridas, o discurso civilizacional
126

acompanhava o apelo do jornal quando este declarou que deveriam acompanhar “o progresso
cedendo ao exemplo de outros meios mais cultos”, sendo que uma reforma nos prados seria
necessária “à moralidade e utilidade das corridas”, “antes que o poder público, mais bem
orientado, impunha esta como outras muitas reformas necessárias ao grande problema da
regeneração do turf e do melhoramento da raça cavalar”. (GAZETA DA TARDE,
19/08/1895)
No dia seguinte, em 20 de agosto de 1895, a Gazeta da Tarde publicou artigo
destinado ao turf, intitulado As chamadas. Este ratificava as suas críticas do dia 19 e,
novamente, adjetivava os gerentes e os seus sistemas de organização dos prados de
“ignorante, retrógrado, injusto, arbitrário, antipatriótico”. Segundo o jornal, esta afirmação
estava em plena confirmação nas chamadas feitas para as últimas corridas dos prados,
Navegantes e Independência.
Seguido a essa lamentação, o periódico fez uma análise na qual admitiu que seria mais
vantajoso ao criador investir em cavalos de segunda qualidade, que chama de “pungas”, do
que despender valores maiores em bons cavalos. Essa consideração se deu em função de que
seria muito mais barato criar “pungas”, pois teriam mais certames sendo estes, também, mais
fáceis de disputar, diferente dos “bons” cavalos, aos quais eram oferecidas menos corridas e
mais raros prêmios. Novamente, a ofensiva recaiu sobre os gerentes, com cada vez mais
ênfase, como podemos notar: “Oh! Os gerentes! Águias que ofuscam o sol e lá do alto
recebem as ovações até da própria imprensa que deveria entristecer-se de ver tanta vitalidade,
tanta animação, tanta riqueza perder-se numa obra inútil de um retrogradismo antipatriótico!”
(GAZETA DA TARDE, 20/08/1895, p. 1)
O autor do artigo, identificado como Um criador, lamentou que, em Porto Alegre, ao
contrário do que se praticava na Inglaterra, na França e mesmo no Rio de Janeiro, se procura,
em páreos distintos pela idade, pelo sangue, pela nacionalidade, provar quais eram os animais
melhores. Para a Gazeta da Tarde, no Rio Grande do Sul, procurava-se nivelar tudo, tirar toda
a probabilidade de vencer o melhor. O jornal fez essa argumentação para justificar a vitória
dos puro-sangue platinos sobre os cavalos mestiços gaúchos. De acordo com a Gazeta, caso
se fizesse uma programação justa, com cada equino competindo com animais com as mesmas
características, os meio-sangue rio-grandenses provariam seu valor. Para o articulista, essa
seria uma atitude patriótica.
No terceiro dia seguido de críticas, a Gazeta da Tarde lançou, em 21 de agosto de
1895, novos ataques aos gerentes dos prados. Em meio a muitas denúncias e julgamentos,
ficou a esperança do articulista de que a nova direção do Prado Rio-Grandense tivesse
127

iniciativa na regeneração do turf gaúcho. Para que isso acontecesse, novamente, a solicitação
era de que se acabasse com os gerentes dos prados, que “tem feito retrogradar o nosso turf,
que vivem a opor obstáculos à criação, que o exploram em seu benefício, que matam o
estímulo, esterilizam os esforços nobres e esgotam a boa vontade” (GAZETA DA TARDE,
21/8/1895, p.1). O artigo ainda afirmou que, se o Prado Rio-Grandense conseguisse fazer essa
primeira reforma, só com isso teria feito um enorme serviço aos criadores, entregando seus
interesses a uma “diretoria sem egoísmos, sem interesses particulares, sem ódios e
prevenções, em vez de estarem como hoje estão à mercê da ignorância esportiva e do arbítrio
e má vontade dos gerentes”.
A ofensiva não cessava. Mais uma vez, pelo quarto dia consecutivo, em 22 de agosto
de 1895, Um criador escreveu nas páginas da Gazeta da Tarde. Desta vez, o foco das
declarações não estava centrado nos gerentes dos prados, mas, sim, em diversas prioridades e
interesses do turf, julgados como essenciais. O autor declarou com ênfase de que seus artigos
“tem merecido aprovação de vários cavalheiros amantes do esporte, do turf e da criação,
plenamente de acordo com as ideias que vamos desenvolvendo”. Essas notícias estariam o
incentivando na sua “campanha patriótica a favor do esporte, da moralização do turf e do
desenvolvimento da criação” no Rio Grande do Sul, onde a regeneração do turf seria uma
aspiração geral.
O artigo, que demonstrou os interesses de vários ramos sociais na dita regeneração do
turf gaúcho, destacou que “se ela não se realizar pela evolução espontânea das associações
esportivas ela há de vir pela intervenção legal dos poderes públicos”. O jornal depôs que essa
seria uma das necessidades mais palpitantes da criação estadual e, se for preciso, o colunista,
na qualidade de criador, apresentaria um projeto sobre o assunto.
Para encerrar a série de ataques frente à organização do turf sul rio-grandense, em 24
de agosto de 1895, a Gazeta da Tarde publicou um novo artigo. Desta vez, Um criador
elogiava a atitude do Prado Rio-Grandense e de seus acionistas, pois propuseram uma reforma
de estatutos onde o hipódromo pudesse ser dirigido por uma diretoria no lugar de um gerente.
Segundo o jornal, esse ato provava que “aqueles cavalheiros, patriotas e bem intencionados,
querem também a moralidade e orientação no nosso turf”, sendo um exemplo digno a ser
imitado. Também, de acordo com a coluna, já eram vistas tentativas de se melhorar as
categorias das corridas, no sentido de tornar as classificações por idade, sangue e procedência
mais justas. Destacava que “tudo isto denota a boa vontade do Prado Rio-Grandense que
conseguindo obter os melhoramentos e prestar os serviços que tem em vista, será um
128

verdadeiro jockey-club – inatacável como sociedade esportiva e digna dos favores do povo,
da imprensa, dos criadores e do governo” (GAZETA DA TARDE, 24/08/1895, p. 1).
O turf, pelo o que pudemos perceber, vivia constantemente entre a tensão e a
responsabilidade de manter o seu status de um esporte evoluído, moderno e civilizatório, mas
tendo que negociar regularmente com características locais e mesmo propícias a existir em
qualquer atividade, como a corrupção, principalmente em casos em que questões financeiras
estavam envolvidas. O esporte, contudo, não poderia se corromper, pois nele estavam
princípios que fariam parte da “evolução” nacional, e o enquadramento do Brasil, como um
país moderno, passava por essa etapa.
A moralidade e a transparência eram valores essenciais e, por esse motivo, tão
requisitados. Regras, normas e justiça eram, justamente, o que diferenciava a “selvagem”
carreira do “civilizado” turf. Esses princípios, portanto, deveriam ser mantidos.
129

Capítulo 3

Na água e sobre rodas: as regatas e o ciclismo

3.1 Regatas

3.1.1 O Rio de Janeiro e o Simulacro de Regatas em Porto Alegre

Ao compararmos o desenvolvimento de práticas esportivas ligadas à água em distintas


cidades, como o Rio de Janeiro e Porto Alegre, é necessário, antes de qualquer consideração,
entender a relação das duas urbes com suas orlas. Estas tem, no seu cotidiano, uma ligação
direta com a água doce do Rio Guaíba e salgada do Oceano Atlântico, mas com perfis e
identificações diferenciadas.
Mesmo que o Rio de Janeiro tivesse no mar a principal ligação com a antiga metrópole
europeia, e mesmo que, pelo oceano, tenha chegado grande parte dos trabalhadores nacionais
e da nobreza d´além-mar, sendo eles imigrantes europeus ou escravos africanos, o oceano não
possuía uma significação que envolvesse o corpo, a saúde e as práticas corporais. O
Atlântico, praticamente, não tinha uma função associada aos divertimentos ou esportes até o
século XIX.
Com a valorização que a orla, a água e o mar, cada vez mais, assumiam, as práticas de
lazer e diversão tiveram, nesses locais, ambientes fecundos para o seu desenvolvimento. É o
caso dos banhos de mar e as primeiras corridas de canoa, que, embora tivessem um
fundamento de disputa, ainda não eram competições estruturadas como atividades esportivas.
A primeira corrida de que temos notícia na capital fluminense foi realizada em 1846, entre as
embarcações Lambe-Água e Cabocla e que, de acordo com a imprensa da época, mobilizou
grande público para o evento (MELO, 2001).
Fica claro que o vínculo direto que o Rio de Janeiro tinha com o mar facilitou o
desenvolvimento esportivo das regatas. A ocupação das praias também foi um elemento
importante para o desenvolvimento esportivo fluminense, mesmo que estas práticas
enfrentassem uma resistência que, aos poucos, foi sendo desfeita por uma mudança nos
130

sentidos da ocupação da praia, até mesmo com uma nova estética corporal a ser aceita e que
incentivou a prática do remo, como destaca Victor Melo:

Influência dessa nova aceitabilidade no que se refere à exposição corporal, de um


novo modelo aceitável de corpo, da valorização da “busca da saúde” e da ocupação
das praias com outros sentidos que não somente terapêuticos (dimensões com
certeza bastante articuladas), o remo começa a se desenvolver. Tornara-se possível
assistir homens “nus” e musculosos competindo nos mares da cidade (MELO, 2001,
p. 50).

Um conjunto de fatores fez com que o mar se “aproximasse” do cotidiano fluminense.


Envolvido nesse contexto em que a relação entre regatas, água e saúde se estabeleceu, as
disputas de remo se tornaram atividades que associavam salubridade e estética. O esporte, que
era realizado na praia, tinha dupla utilidade. Ao mesmo tempo em que o corpo era exercitado,
a água, com suas propriedades medicinais, contribuía categoricamente com esse esporte que
se difundiria cada vez mais com o desenvolvimento do século XIX.
Por outro lado, o sul do Brasil tinha uma relação um pouco diferenciada com as águas.
A prática de regatas, em Porto Alegre, anteriormente a sua institucionalização em clubes e
associações, recebera apoio de outras entidades, que as incentivavam e animavam. No caso do
Rio Grande do Sul, foi em 1865 a primeira disputa, considerada oficial, da história do
desporto gaúcho, realizada na cidade de Rio Grande, em 16 de julho, na data da chegada do
Imperador D. Pedro II a então província (CRUZ, 1865, p. 13). A competição, denominada
Regata Imperial, aconteceu em homenagem ao monarca por ocasião da sua passagem pelo
Rio Grande do Sul, que era um dos principais palcos da Guerra do Paraguai, que acontecia
naquele momento. O cronista oficial da viagem, Gervásio José da Cruz, relatou que “fora
frenético o entusiasmo com que os Rio-Grandenses receberam o seu monarca”, que se satisfez
com tamanha demonstração de carinho. “Não consentiu Sua Majestade o Imperador malgrado
as mais instantes suplicas das autoridades, e de notáveis cidadãos da província, que se lhe
fizesse ruidosa recepção, como aliás era desejo dos Rio-Grandenses” (CRUZ, 1865, p 14).
Outro caso, desta vez em Porto Alegre, e que parece ser a preparação para o início da
prática regular de regatas, foi o evento denominado um “simulacro de regata”, que aconteceu
no ano de 1877, na capital do Rio Grande do Sul. Os anúncios do Jornal do Commércio, de
16 de fevereiro, e d´ A Reforma, de 17 e 18 do mesmo mês, fizeram o chamado aos
interessados em “tomar parte da diversão”, que se realizaria no domingo próximo, dia 18, e
destacou: “a oficialidade da canhoneira Henrique Dias promove a realização de um simulacro
131

de regata para o próximo domingo entre os escalares dos navios de guerra, capitania e arsenal
de guerra”.
Na edição de A Reforma, de 20 de fevereiro de 1877, uma descrição foi feita sobre o
“simulacro”. De acordo com o periódico, a regata foi organizada quase que exclusivamente
pelos oficiais da canhoneira Henrique Dias, em uma tarde excelente onde “crescido concurso
de povo correu a presenciar o útil e viril divertimento”. Além da competição em si, outros
atrativos, que se relacionavam à disputa e que agregavam valor de entretenimento e
espetáculo, foram mencionados, como duas bandas de música que “enchiam o espaço de
alegres acordes”. Também foi ressaltado que o interior do Henrique Dias estava repleto de
convidados de ambos os sexos, e foi o lugar onde a festa correu mais animada.
Percebe-se que houve o interesse do jornal em apoiar o desenvolvimento das regatas
em Porto Alegre, apontando para a tendência da valorização da água e dos exercícios físicos.
O periódico declarou que “a feliz tentativa deixa, pois, as melhores impressões. Bom seria,
por conseguinte, que esta proveitosa diversão se aclimasse entre nós e que a nossa mocidade
voltasse também para ai o seu entusiasmo e a sua atividade, desbaratados quase totalmente na
moleza dos bailes” (A REFORMA, 20/02/1877, p. 3).
O incentivo ao desenvolvimento das regatas, inclusive com o desejo da fundação de
um clube, se agregou à declaração da existência de uma boa estrutura física disponível, que
propiciaria a execução dessa prática, com o argumento de que “o porto oferece excelentes
campos para a luta”. O jornal continuou pregando a favor das regatas, quando declarou que
seu desejo é que “constitua-se, pois, um clube de regatas, como já se constituiu um clube de
caçadores, e outro de atiradores; adquiram-se embarcações apropriadas; adestrem-se os
amadores que o sucesso não será difícil”. A esta declaração ainda se agregou que “estes
prélios pacíficos, viris, elevam o homem” (A REFORMA, 20/02/1877, p. 3).
No mesmo dia 20 de fevereiro de 1877, desta vez no Jornal do Commercio, a
declaração foi de que “uma grande concorrência de espectadores acudiu a todos os pontos do
litoral, donde podiam presenciar tão aprazível diversão”. Na edição seguinte, do dia 21 de
fevereiro de 1877, do mesmo jornal, foi feito um relato mais detalhado das disputas,
sublinhando novamente a grande presença de público, valorizando o feminino. O Jornal do
Commercio seguiu a campanha para que a prática de regatas fosse desenvolvida em Porto
Alegre. A sua esperança era que o êxito do evento animasse a população ao repetir outras
vezes essa disputa, “sendo de esperar que o gosto por esta útil e agradável diversão se
desenvolva ao ponto de organizar-se regularmente, como no Rio Grande, um clube de
regatas” (JORNAL DO COMMERCIO, 21/02/1877, p.2).
132

De fato, Porto Alegre seria um ambiente propício ao desenvolvimento de clubes de


regata. É notável o interesse no espraiamento do esporte na capital do Rio Grande do Sul. As
práticas ligadas às competições náuticas teriam terreno profícuo a sua prosperidade, fazendo
do Rio Guaíba seu principal palco. Dessa forma, seguindo uma tendência ao que já estava
acontecendo na capital brasileira, esse esporte, gradativamente, assumiu lugar de destaque na
predileção da população dessas duas cidades. O caráter “útil” das competições de regatas, que
se pode ler como uma atividade saudável e ordeira, estava presente tanto no que acontecia no
Oceano Atlântico quanto no Rio Guaíba, e, com efeito, foram discursos importantes para a
consolidação da prática desses esportes nas duas cidades, que, com destaque, se
desenvolveram com clubes e associações, como veremos.

3.1.2 Os clubes de regata

Apesar da relação estreita das cidades do Rio de Janeiro e de Porto Alegre com os
esportes aquáticos e com os próprios clubes de regata que foram comuns nas duas capitais,
alguns aspectos merecem destaque no momento em que detalhamos e comparamos algumas
variáveis particulares a cada uma delas. Dessa forma, ao contrapormos a gênese dessa prática
esportiva, em seu momento institucionalizado, é importante atentar para as peculiaridades de
cada local, mesmo sabendo que, ao mesmo tempo, outros atributos são comuns a elas.
No que se refere a Porto Alegre, o jornal A Federação, de 11 de junho de 1884,
publicou uma declaração destacando que, no dia 10, houve uma reunião no Clube Comercial,
ficando organizado o Club de Regatas Porto-Alegrense. Essa seria a primeira agremiação da
cidade dedicada a essa prática25. Para o jornal, Porto Alegre iria “gozar de mais uma diversão,

25
Na historiografia produzida com referência às práticas de regatas em Porto Alegre, no século XIX, algumas
contradições foram verificadas, se compararmos o que já foi elaborado sobre o assunto à documentação
recolhida em jornais da época, que estão sendo analisados no decorrer desta tese. Em Associações esportivas no
Rio Grande do Sul: lugares e memórias (MAZO, 2012), a relação de associações não confere com o que
possuímos baseado nos periódicos. Para Mazo, no século XIX, na capital do Rio Grande do Sul, as associações
relacionadas a regatas eram o Ruder Club (Clube de Remo), iniciando suas atividades em 21/11/1888 (p.63), que
é destacado como o precursor no estado, e o Ruder Verein Germânia (Clube de Remo Germânia), fundado em
29/10/1892 (p.66). No entanto, a partir de um cruzamento de dados, apenas se ratifica a data de constituição do
Ruder Club. Baseado na imprensa gaúcha do século XIX, uma primeira experiência com clubes de regata em
Porto Alegre foi percebida em 1884, sendo a fundação do Club de Regatas Porto-Alegrense a quem caberia o
status de pioneiro no associativismo de regatas. Essa informação não consta nos trabalhos de Mazo, assim como
a data de fundação do Ruder Verein Germânia não confere como sendo em 1892. As fontes a que tivemos acesso
identificam a data como sendo entre 13 e 14/7/1889. Na sua tese, Mazo (2003) já havia registrado os mesmos
dados, assim como em outro trabalho publicado em 2010, dos quais divergimos aqui. Mantivemos, portanto, as
informações verificadas nos periódicos.
133

que, sendo agradável, tem o seu lado de grande utilidade” (A FEDERAÇÃO, 11/06/1884, p.
3).
Após essa notícia, não temos mais nenhum registro de atividades realizadas pela
entidade até outubro do ano seguinte. O Club de Regatas Porto-Alegrense, por meio do jornal
A Federação, nas edições de 17 e 30 de outubro de 1885, anunciou as regatas que se
realizariam no dia 6 de dezembro de 1885, que faziam parte dos festejos comemorativos ao 7º
centenário da morte de D. Affonso Henriques, considerado o fundador do reino de Portugal e
o seu primeiro rei. Nos dois comunicados, não tivemos muitos detalhes sobre a programação,
apenas a previsão de seis corridas e pequenas instruções quanto à inscrição de interessados.
Maiores detalhes dessa regata foram mencionados na véspera do evento. A
programação do dia iniciaria com uma grande alvorada festiva, às 4 horas da madrugada, com
uma salva de 21 tiros. Na Praça Pedro II (atual Marechal Deodoro, conhecida popularmente
como Praça da Matriz), quatro bandas tocariam os hinos português e nacional brasileiro e, em
seguida, sairiam em desfile pelas ruas Duque de Caxias, Arroio, Riachuelo, até em frente ao
consulado português, onde tocariam o respectivo hino. Por fim, iriam até a Praça da
Alfândega, para então se dispersar. As regatas iniciariam às 9 horas da manhã. À
programação, se acrescentaria, ainda, um sarau filarmônico-literário e um baile na parte da
noite do dia 7 (A FEDERAÇÃO, 05/12/1885, p. 3). Na edição seguinte à festividade, A
Federação destacou: “o que mais interesse despertou foi a diversão das regatas no Guaíba” (A
FEDERAÇÃO, 07/12/1885, p. 3), o que demonstrara grande gosto pela atividade do remo em
meio a esse grande leque de possibilidades.
As regatas continuavam sendo celebradas. Infelizmente, não temos como saber ao
certo a sua regularidade devido à inconstância de informações nos periódicos. No entanto, o
desenvolvimento de clubes com essa proposta seguiu, sendo que, em 21 de novembro de
1888, se deu a fundação de mais uma agremiação destinada ao remo, o Ruder Club ou Clube
de Remo. Na imprensa da época, a iniciativa foi celebrada. O jornal O Conservador, de 24 de
novembro de 1888, informou sobre a apresentação do regulamento da nova agremiação, assim
como a exposição dos planos para o seu desenvolvimento. Além disso, esse militava a seu
favor, destacando que “tão útil e agradável distração há de encontrar apoio, e é justo que a
mocidade de Porto Alegre que fica convidada para aquela reunião, não deixe de concorrer
para o bom êxito da sociedade” (O CONSERVADOR, 24/11/1888, p. 2). O mesmo periódico
declarou que, no dia três de dezembro de 1888, aconteceu a primeira disputa sob
responsabilidade do Ruder Club, sendo que o evento teria atraído grande público, com
destaque para a relevante quantidade de famílias (O CONSERVADOR, 04/12/1888, p. 2).
134

No ano seguinte, 1889, mais um novo clube de regatas celebraria a sua inauguração, o
Ruder Verein Germânia. As festividades de abertura das atividades aconteceram nos dias 13 e
14 de julho, sendo seu quadro social composto por “distintos moços empregados no
comércio”. Na programação do dia 13, constava a entrega de estandarte e baile comemorativo
à noite. Já no dia 14, o ponto alto das comemorações seria o batismo de duas embarcações,
Gig e Outrigger, vindas diretamente da Europa. Ainda, vapores estiveram à disposição para
um passeio à Ilha da Pintada, que finalizaria os festejos (A FEDERAÇÃO, 10/07/1889, p. 3).
Numa descrição posterior às funções, se percebeu que um discurso em alemão foi proferido,
enunciado pelo senhor Fernando Iagwersen, posterior à declaração feita pelo senhor Carlos
Otto Schilling, que oficializou a inauguração do clube. Esse detalhe demonstrava a intimidade
dos sócios com a língua, o que pode destacar a origem da maioria dos seus agremiados (A
FEDERAÇÃO, 15/07/1889, p. 3). Essa característica, inclusive, causou vários conflitos onde
a origem étnica foi a principal causa das desavenças. Essas rusgas, que aconteceram nos
clubes porto-alegrenses, serão discutidas em outro ponto desta tese.
No Rio de Janeiro, o início dos clubes de regatas parece ter se desenvolvido
concomitantemente a sua vizinha Niterói, onde o primeiro grupo foi organizado por
estrangeiros, em 1851. Na capital do Brasil, o grupo foi criado no mesmo ano a Sociedade
Recreio Marítimo. Logo após a fundação do Club de Corridas, em 1849, a sociedade de
regatas veio corroborar a ideia de que o Brasil estava cada vez mais se apropriando de
determinados parâmetros simbólicos do mundo “civilizado”. Essa era uma prerrogativa
necessária ao desenvolvimento brasileiro. (MELO, 2015)
Assim como foi feito na cidade de Porto Alegre, anos mais tarde, a legitimação e
incentivo a essa prática, que foi “importada” da Europa, se dava, entre outros, pela imprensa
que a considerava de real utilidade para a população, como consta no jornal Correio
Mercantil de 1861 (apud MELO, 2001, p. 52). Este fazia a defesa das regatas, que “reúnem as
duas condições recomendadas: utile et dulce”, termo este que se tornara comum no incentivo
às práticas esportivas pelos jornalistas. A justificativa se dava no sentido de que as pesadas
tarefas do cotidiano se tornariam agradáveis divertimentos, seguindo lógicas parecidas às
utilizadas em outros esportes (MELO, 2014b).
Enfim, foi no ano de 1862 que surgiram duas associações, o grupo Regata e o British
Rowing Club (este de formação eminentemente inglesa). Mas, como destaca Victor Melo
(2001, p. 52), “o remo ainda não era uma febre, não estava bem estruturado, nem tampouco
era completamente aceito na cidade. Mas os primeiros passos já tinham sido dados”.
135

Nesse sentido, uma série de novas associações, que tinham no remo e nas atividades
de regata seu principal objetivo, encontraram, no Rio de Janeiro, local profícuo ao seu
desenvolvimento. É o que percebemos em 1867 com a fundação do Club de Regatas, que
realizou suas atividades na enseada do Botafogo até 1868. No entanto, foi somente em 1874
que se deu a inauguração daquele que foi considerado o “baluarte que definitivamente
implantou o regimen das associações náuticas e abriu de vez novos horizontes ao seu
desenvolvimento” (MENDONÇA, 1909, p. 12, apud MELO, 2001, p. 68), o Club
Guanabarense, que seria sucedido por várias outras agremiações, principalmente a partir da
década de 1880 26 , quando muitas competições foram realizadas e o remo começou a,
definitivamente, se implantar na cidade.
No entanto, o sucesso e a aceitação das regatas na capital brasileira somente se deram
de forma mais efetiva nos anos finais do século XIX, especificamente nos cinco últimos,
tendo como marco principal a criação do Club de Regatas do Flamengo. Segundo Victor
Melo (2001), esse parece ter sido o luminar da quebra de resistência ao remo na cidade, assim
como aos seus atletas com novos modos de se vestir e novas modelagens corporais
proporcionados pelos exercícios físicos:

O caso do Flamengo é bastante interessante, por refletir mudanças que ocorriam na


sociedade carioca. O clube, fundado como Grupo de Regatas (o objetivo prioritário
inicial era promover regatas e divertimentos náuticos, embora sempre se aventasse a
possibilidade de se ampliar para outros esportes), era uma associação formada
principalmente por jovens pertencentes aos setores urbanos das elites da cidade,
entusiastas e já praticantes do remo, e envolvidos diariamente com os banhos de mar
(MELO, 2001, p. 69).

Outro clube que contribuiu muito para a popularização e o gosto pelo remo no Rio de
Janeiro foi o Clube de Regatas Vasco da Gama, fundado em 1898. Acontece que uma das
preocupações da agremiação era a formação de atletas remadores. Essa sociedade foi
responsável por uma das primeiras “escolinhas” do esporte na cidade, contribuindo
sobremaneira para o desenvolvimento de simpatizantes e praticantes das regatas. Dessa forma,

26
Podemos notar a grande quantidade de clubes de regata fundados no Rio de Janeiro a partir do último quartel
do século XIX, como segue: Clube de Regatas Guanabarense (1874); Clube de Regatas Paquetaense (1884);
Cajuense (1885); de Regatas Internacional (1887); Union des Cantioners e Fluminense (1892); Botafogo, 15 de
agosto e Escola Militar (1894); Gragoatá, Icaraí e Flamengo (1895); Natação e Regatas (1896); Boqueirão do
Passeio (1896); Caju (1897); São Cristóvão e Vasco da Gama (1898); Guanabara (1899); Náutico e Internacional
de Regatas (1900). Sem falar em dissidências que surgiram no interior de clubes, dando origem a novas
associações, como o Grupo Luiz Caldas, o Sul Americano e o Veteranos, originários do Botafogo. Curioso
também observar que, em 1900, surgiu um clube de regatas infantil, que teve curta duração. (MELO, 2001, p.
80)
136

ao final do século XIX, o remo se tornara aceito pela população e valorizado pelas elites, que
também estavam em claro processo de mudança de perfil. (MELO, 2001)
Ao pensarmos nos casos tanto de Porto Alegre quanto do Rio de Janeiro, percebemos
que ambas as cidades estavam imbuídas em um mesmo paradigma, onde sustentavam a
prática do remo como uma atividade útil e saudável. Esses adjetivos poderiam estar
vinculados tanto a novos conceitos e modas com relação ao corpo quanto à possibilidade de
amenização das atividades laboriosas: o sacrifício se tornaria prazer através do esporte.
Temos, também, outros fatores que podem ligar o sul ao sudeste no desenvolvimento das
regatas, como as ideias de modernidade que valorizaram a higiene, a água e as atividades
físicas.
No Rio de Janeiro, “uma nova cidade deveria ser criada”. Esta afirmativa se deve,
entre outros, ao momento político do país. A sua capital deveria ser um novo modelo, não
mais da “atrasada” monarquia, mas deveria conter traços da modernidade republicana.
Características de um novo pensamento deveriam ser agregadas àquela urbe, que tão
fortemente carregava marcas da corte. A proclamação da república, em 1889, precisava se
legitimar também no cotidiano da cidade através de novas práticas que refletissem essas
ideias. “A cidade precisava ter uma nova experiência „civilizada‟ que levasse a população e os
investidores internacionais a esquecerem do mundo „atrasado‟ da monarquia” (MELO, 2001,
p. 70-71).
O remo tinha um pouco dessa função. Ao mesmo tempo em que desfocava os olhos da
população do aristocrático turf, fazia com que ideias cada vez mais valorizadas como
progresso, limpeza e higiene fossem cultivadas em um ambiente que passou a ser salubre e
avançado, o mar. O Rio de Janeiro era uma cidade que buscava se higienizar em um sentido
latto, principalmente no início do período republicano, o que significava, também, a
perseguição a capoeiras, à luta contra os bicheiros, além da destruição do mais famoso cortiço
do Rio, o Cabeça de Porco, em 1892 (CARVALHO, 1987). O Rio antigo, doente, colonial e
monárquico deveria ser omitido. Nesse sentido, a prática de esportes ligados à água estava
correlata ao projeto que se tinha para a capital brasileira.
No Rio Grande do Sul, esse simbolismo não se verificava. Ao contrário do Rio de
Janeiro, Porto Alegre não possuía a marca de ser uma cidade que passou de capital do império
à capital da república. Por outro lado, havia uma influência que era um diferencial no
desenvolvimento esportivo e, no caso, das regatas: os imigrantes alemães e seus descendentes.
Esses europeus deixaram sua marca em Porto Alegre desde 1824, quando começaram
a desembarcar do velho continente a partir de um projeto imigratório constante, promovido,
137

principalmente, pela coroa e pela província. Os imigrantes eram atraídos através de uma
política de incentivos que visava, entre outros objetivos, o povoamento e exploração de novas
regiões no Brasil por brancos não portugueses. (ROCHE, 1969)
Esses colonos conquistaram uma fatia expressiva da economia sulista, configurando-se
como “personas do capital”, segundo a definição de Sandra Pesavento (1994, p. 200). Para a
historiadora, foram esses negociantes que possibilitaram a acumulação de capital necessário
ao princípio da industrialização gaúcha, assim como nas demais áreas de colonização, onde
eram os comerciantes das vendas localizadas junto aos lotes, das casas comerciais no
entroncamento das linhas e nos núcleos coloniais. No entanto, para além das questões
econômicas, pode ser creditada aos alemães uma relação mais enfática de Porto Alegre com
as ideias de modernidade, como aponta Pesavento:

Executores de um processo de modernização, os alemães propiciaram as condições


para que a experiência histórica da modernidade se generalizasse e se difundisse
entre os consumidores dos efeitos da modernização. De forma indireta, as práticas
efetivas dos alemães e seus descendentes acabaram por gerar uma atitude de
modernidade. (1994, p. 200)

Dessa forma, enquanto um dos promotores na geração de “uma atitude de


modernidade”, os alemães tiveram fundamental importância no surgimento dos clubes de
regatas em Porto Alegre (sem falar nas demais modalidades e agremiações que estamos
discutindo separadamente), sendo eles ou seus descendentes os principais fundadores dessas
associações, no século XIX, na capital gaúcha. Basta, para isso, verificarmos os nomes dos
fundadores dos clubes de regatas em Porto Alegre, no período oitocentista.
Mesmo que a primeira entidade que temos referência, o Club de Regatas Porto-
Alegrense, não tenha como característica o sobrenome alemão nos membros da sua primeira
diretoria27, identificamos essa como sendo uma marca bastante forte nos outros dois clubes de
regatas existentes em Porto Alegre, no século XIX. É o que podemos verificar no Ruder Club
(Clube de Remo, em alemão), que tem como fundadores: Alberto Bins, Balduíno Röhrig,
Fernando Ingwersen, Otto Hasche, Gustavo Knoblauch, Luiz Voelcker, Carlos Goeden, Oscar
Teichmann, Júlio Issler Filho e Frederico Engel, além dos membros da primeira diretoria:
Alfredo Schuett (presidente); F. Igwersen (vice-presidente); Júlio Issler Jor (primeiro
secretário); John Day (segundo secretário); Luiz Köhler (tesoureiro), H. V. Schwerin
(zelador) (MAZO, 2012, p. 63). Da mesma forma, o Ruder-Verein Germânia também seguiu
27
A primeira diretoria eleita ficou composta pelos senhores: Ambrose Archer Júnior (presidente); João da Matta
Coelho (tesoureiro); José de Araújo Vieira, Arthur New e luiz Clementino da Silva, diretores. (A FEDERAÇÃO,
11/06/1884)
138

essa característica e destaca, como fundadores desportistas de sobrenome alemão, Carlos


Endler, Cristiano Bohrer, Germano Wetter, Oscar Heller, Walter Stosch, Kurt Wetter e Edgar
Barth. (MAZO, 2012, p. 66)
Isto posto, a modernização e a valorização da água, do corpo sadio e dos exercícios
são paradigmas comuns ao Rio de Janeiro e Porto Alegre. No entanto, características locais se
agregam a esses princípios, que determinaram às regatas significações diferenciadas em
contextos divergentes. Se é correto afirmar que a prática do remo era uma atividade
identificada com a modernidade (e nas duas cidades isso está bem claro), também é pertinente
apontar que ocupavam funções diversas. Na capital nacional, a tentativa de “construção” de
um novo perfil de país que buscava, também no esporte, demonstrar a sua potencialidade e se
alinhar com os mais “avançados” gêneros de pensamento da época, passava pelo remo. Porto
Alegre teve, no caráter associativista dos seus habitantes, fator diferencial. Entre os europeus,
em especial os alemães, essa propensão ao desenvolvimento de agremiações culturais e
esportivas facilitou a criação dos clubes de regatas. Os teuto-brasileiros assumiram, portanto,
parcela significativa do campo esportivo na capital do Rio Grande do Sul.

3.1.3 Dos conflitos e relações étnicas no remo

O fato de os clubes de regatas de Porto Alegre terem, no seu quadro societário, uma
fatia expressiva de alemães, ou mesmo teuto-descendentes, criou, por vezes, conflitos em que
a questão esportiva se alinhava à referência étnica. Havia opiniões antagônicas que traziam à
tona inúmeras características divergentes entre os “alemães” e os “brasileiros”. É importante
mencionar que, quando os jornais porto-alegrenses se referiam aos alemães no século XIX,
poderiam estar fazendo menção tanto àqueles que propriamente nasceram na Alemanha, e
chegaram ao Brasil como imigrantes, como aos descendentes desses, os teuto-brasileiros, que
mesmo tendo o Brasil como nacionalidade, conservavam consigo a identidade europeia de
seus antepassados e suas relações pessoais. É o que Giralda Seyferth (1994) destaca quando
aborda que, ao mesmo tempo em que se reivindicava a participação dos colonos no processo
político, qualificando-os como cidadãos, estes afirmavam suas diferenças em relação aos
“brasileiros”, através do postulado da germanidade, criando identificações próprias, como
uma comunidade étnica:
139

A formulação ideológica de uma comunidade étnica teuto-brasileira partiu, pois, da


própria visibilidade das diferenças sociais e culturais em relação à sociedade
brasileira mais ampla; diferenças associadas à colonização e à conservação dos
costumes e tradições trazidas da Alemanha. Ao falar em comunidade estamos
preservando um termo valorizado na ideologia étnica teuto-brasileira em muitos
planos, e cujo corolário mais óbvio é o privilegiamento do coletivo. Comunidade
étnica, neste sentido, substitui o termo grupo étnico, e sua percepção se aproxima
bastante das definições mais tradicionais, que ressaltam usos e costumes comuns
como base das diferenças. A comunidade étnica teuto-brasileira foi definida
objetivamente por seus membros a partir do uso cotidiano da língua alemã, da
preservação de usos e costumes alemães (incluindo, entre outras coisas, hábitos
alimentares, organização do espaço doméstico, formas de sociabilidade,
comportamento religioso, etc.), da intensidade da vida social expressa pelas muitas
associações que assumiram forte caráter étnico (como as associações de tiro, de
ginástica, de canto, escolares, de auxílio mútuo). (SEYFERTH, 1994, p. 15)

De fato, através dos relatos jornalísticos, podem ser verificadas uma série de
peculiaridades relativas às questões esportivas com relação à etnicidade. O esporte, nesse
momento, seria um tradutor das tensões sociais da Porto Alegre do final do século XIX, que
demonstrava suas contradições e divergências. Uma cidade colonizada por povos de diversas
origens. No entanto, os esportes eram atividades em que os alemães e seus descendentes
tinham participação privilegiada e, talvez por isso, essas apreensões se redimensionassem ali.
Uma crônica publicada no jornal Gazeta da Tarde, em 31 de agosto de 1895, assinada
por G.H., que acreditamos ser Germano Hasslocher, redator do mesmo jornal e filho de
imigrantes alemães 28 , colabora no sentido de trazer muitos indícios dessas relações que
percebemos ser tensas em vários momentos.
O texto aponta que o Clube de Regatas (Ruder Verein) foi fundado em 188729 por
brasileiros de origem alemã, assim como por alguns alemães natos. Legalmente, esse seria um
clube sem uma identificação étnica definida, mesmo que nos seus encontros o idioma habitual
fosse o alemão. De qualquer forma, a publicação destacou que todos eram aceitos na
agremiação, independentemente da sua origem, a qual nem era cogitada, segundo o jornal. O
articulista ainda ratificava a ideia da disposição associativista e esportiva dos germânicos que
participavam do clube, que, segundo ele, “recebia, é certo, dos alemães que dela faziam parte
o mais poderoso concurso, conhecidas como são as tendências dos mesmos para todos os
esportes que fortalecem e desenvolvem os músculos”. (GAZETA DA TARDE, 31/08/1895, p.
3)

28
Já nos referimos a Germano Hasslocher com mais detalhes na página 95.
29
Temos a data de fundação desta agremiação publicada nos periódicos como sendo 21/11/1888 e não 1887,
como consta no artigo da Gazeta da Tarde. Essa divergência pode ter acontecido devido a uma diferença entre o
início das atividades e a sua inauguração oficial, ou, até mesmo, por um equívoco do jornalista.
140

De acordo com o periódico, o conflito iniciou quando a entidade se negou a participar


dos festejos de 15 de novembro de 1894, dia comemorativo à proclamação da república
brasileira, alegando que um artigo dos estatutos vetava ao clube intervir em qualquer
manifestação de caráter político. O problema se deflagrou em primeiro de abril de 1895, por
ocasião do aniversário de Otto Von Bismarck, considerado o estadista mais importante da
Alemanha no século XIX, sendo um dos principais responsáveis pela unificação do país.
Nessa data, as sociedades alemãs em Porto Alegre resolveram felicitar, por telegrama,
aquele que nomearam como sendo “o grande chanceler de ferro”, e pediram ao Clube de
Regatas que se associasse a essa manifestação. Tal pedido foi negado, pois estaria em
desacordo com o mesmo artigo que o proibira de tomar parte nos festejos de 15 de novembro.
Esse ato desapontou profundamente os sócios alemães, que, prontamente, defenderam a ideia
de torná-lo um clube exclusivamente germânico. Tanto defenderam que ocorreu uma votação
que tratou de modificar os estatutos, como destacou a Gazeta da Tarde: “depois de renhida
luta, por uma maioria de quatro votos, contados nela os votos de doze brasileiros, venceu a
ideia e o Clube de Regatas, de internacional que era passou a ser alemão” (GAZETA DA
TARDE, 31/08/1895, p. 3).
O jornal tentou explicar a decisão, ao contextualizar a origem do clube, destacando
que “os alemães eram a alma do Clube de Regatas”, e que o sentimento na associação era o
mesmo. O periódico tentou justificar ainda mais a deliberação tomada em solo brasileiro de se
ter um clube exclusivamente formado por sócios alemães (alemães e teuto-brasileiros, na
verdade), listando uma série de razões que os fizeram tomar tal resolução. O jornalista, que
não havia tomado um posicionamento aberto até então, fez uma apologia acerca das
vantagens da influência alemã, entre as quais o desenvolvimento racial e cultural. Para ele, os
benefícios influenciavam até mesmo os teuto-descendentes, que seguiriam a cultura
germânica em Porto Alegre em detrimento da portuguesa, conscientes da sua vantagem:

Os próprios teutos, brasileiros incondicionais como são por efeito da hereditariedade


e da educação, seguem mais os costumes alemães, o que é muito explicável e
indiscutivelmente vantajoso para nós, pois, não resta a menor dúvida que além da
vantagem do aperfeiçoamento da raça, ganhamos mais a da introdução dos costumes
que fizeram o grande povo vencedor em 70 e 71 30 . (GAZETA DA TARDE,
31/08/1895, p. 4).

30
Acreditamos que o jornalista deve estar se referindo a Guerra Franco-Germânica, que ocorreu entre 19 de
julho de 1870 e 10 de maio de 1871. Esta foi uma vitória incontestável da Alemanha que marcou a unificação do
país e a queda de Napoleão III e da monarquia francesa.
141

Novas justificativas do articulista davam cada vez mais argumentos àquele ato. Para
ele, essa decisão seria quase que natural e totalmente aceitável, visto que “ninguém poderia
contestar que, internacional como era o Clube de Regatas, o sentimento ali dominante era o
alemão e isto muito justamente” (GAZETA DA TARDE. 31/08/1895, p. 4).
Diferentemente, a partir do próximo parágrafo, G.H. relativizou o seu posicionamento
em relação à germanização da entidade, parecendo se colocar contrário ao feito. Ele destacou
que “a exigência de nacionalizar o clube foi uma injustiça, uma ofensa ao nosso amor próprio,
tanto que mais para esse resultado concorreram brasileiros que são brasileiros por que assim
quiseram um dia” (GAZETA DA TARDE. 31/08/1895, p. 4).
Além disso, o jornalista acusou esses “alemães” de serem oportunistas. Para G.H., os
sócios do Clube de Regatas, que votaram pela germanização, utilizavam essa cidadania
quando lhes fosse mais cômodo, já que, para ele, muitos se naturalizaram brasileiros para
gozar dos benefícios da posição. Também denunciou que muitos brasileiros, nascidos em
Porto Alegre e que passaram longos períodos na Alemanha, lá se diziam brasileiros para
escaparem do serviço militar, e aqui no Brasil reivindicavam sua origem alemã, “que parecem
amar quando isentos das obrigações do patriotismo” (GAZETA DA TARDE. 31/08/1895, p.
4).
O jornal ainda denunciou que os negociantes sócios do Clube de Regatas pressionaram
seus caixeiros, também sócios, a votarem a favor da nacionalização, mesmo contra sua
vontade. Segue, dessa forma, a denúncia, pelo periódico, das vantagens obtidas pelo Ruder
Vereim por ser um clube brasileiro, aberto a todas as nacionalidades, como o terreno público
recebido onde se encontra a sua sede:

Foi a uma sociedade internacional, composta também de brasileiros, que a câmara


concedeu um terreno para a construção de um clube. Esta concessão não seria feita a
uma sociedade estrangeira por que a isto apunham-se as leis em vigor. Nem pode
uma sociedade estrangeira, em vista da lei expressa, possuir botes de regatas e a
capitania do porto, armada com a lei, fará com que o Clube de Regatas o seja
nominalmente apenas, a não ser que a sociedade que entendeu dever nacionalizar-se
encontre um brasileiro que preste o seu nome para registro de suas embarcações.
(GAZETA DA TARDE. 31/08/1895, p. 4)

Após a denúncia, novamente a questão do oportunismo dos teuto-brasileiros foi


destacada no jornal, falando de pessoas, que para G.H., “só sabem ser alemães quando livres
do serviço militar na Alemanha”. O jornalista da Gazeta da Tarde, então, justifica seu
posicionamento contrário à germanização do clube, contrapondo-se àquilo que considera
“sentimentos de ridícula patriotice”. Na sua percepção, era um insuspeito ao posicionar-se, já
142

que é um brasileiro por nascimento e buscava servir a sua pátria buscando, na cultura alemã,
as grandes lições da ciência. Ao mesmo tempo, afirmava com convicção sua origem
germânica: “por índole e educação não posso enjeitar o tronco de que sai”, mas, novamente
reafirmava a sua ideia contrária à germanização do Clube de Regatas, com os seguintes
argumentos:

Se se tratasse de uma sociedade fundando-se alemã desde o seu início, nada se


poderia dizer. Mas, germanizar uma associação que lutou muito para firmar-se e que
para isso recebeu indistintamente os serviços de todos, é mais que uma ingratidão, é
uma injustiça. O Brasil é um país onde o sentimento de cosmopolitismo impera.
Nobre, generoso, ele abre os seus braços a todos. Por que feri-lo assim? Não são
dignos de pertencer a este clube os que não tiveram a ventura de nascer alemães?
Qual o motivo?
Se ao menos os defensores dessa ideia justificassem a sua conduta, apresentassem
uma razão bem fundada, talvez a gente se rendesse. Mas, não, por enquanto é apenas
um capricho, o inspirador de tudo. (GAZETA DA TARDE. 31/08/1895, p. 4)

O artigo foi encerrado com a frase “mau, muito mau”, e o texto é concluído com a
assinatura “G.H.”. Essa discussão, que estava repleta de variáveis, mas que tinha no esporte e
na sua organização institucional o palco das discórdias, acabou ganhando cada vez mais
espaço na imprensa Porto-Alegrense do final do século XIX. Dessa vez, o jornal A Federação
tratou do assunto, frisando que “está no domínio público e tem despertado vivos comentários
a deliberação da assembleia geral do Club de Regatas” (A FEDERAÇÃO, 02/09/1895, p. 2),
que lhe deu o caráter exclusivo de clube alemão.
A Federação, na edição de dois de setembro, buscou explicar o que chamou de
“exclusivismo odioso”, classificando de “incidente ofensivo por um lado, e feio desvio da
linha moral por outro” (A FEDERAÇÃO, 02/09/1895, p. 2). O jornal, ligado ao Partido
Republicano Rio-Grandense (PRR), confirmou a origem do clube aos imigrantes alemães e
seus descendentes. Segundo ele, a agremiação foi fundada por “um grupo de rapazes da nossa
melhor sociedade, de origem alemã” (A FEDERAÇÃO, 02/09/1895, p. 2). Agregado a essa
informação, o jornal depôs no sentido da importância alemã para o desenvolvimento esportivo
em Porto Alegre. Haveria um interesse maior dos teuto-brasileiros nas atividades ligadas ao
corpo, o que justificaria essa predominância étnica na fundação do clube:

E como os nacionais de procedência lusitana e de outras, comumente não se


preparam, como os teutos, por uma proveitosa educação física, para certos gêneros
de esporte, os fundadores do clube deram-lhe desde logo um caráter cosmopolita,
mas admitindo o idioma alemão, familiar aos brasileiros de origem teutônica, para a
confecção dos estatutos com o fim de atrair europeus a agremiação esportiva. (A
FEDERAÇÃO, 02/09/1895, p. 2)
143

O periódico ressaltou que, apesar do caráter internacional da associação, a grande


maioria dos integrantes do Clube de Regatas eram brasileiros de origem germânica. De
acordo com A Federação, o motivo do conflito e a atitude de elaborar uma nova
regulamentação que tornou o clube “alemão” convergiam com o que havíamos constatado na
Gazeta da Tarde: o descontentamento em relação ao artigo do estatuto que impedia a
exposição política da entidade e, consequentemente, a congratulação do aniversário de
Bismarck.
Cabe destacar que, novamente verificamos que brasileiros naturalizados e até mesmo
teuto-brasileiros votaram pela germanização da sociedade. De forma mais contundente, A
Federação também se posicionou contrária à atitude do Clube de Regatas, destacando como
um ultraje a ação tomada: “Foi uma ofensa ao pundonor nacional o procedimento incorreto do
Clube de Regatas, excluindo do seu grêmio compatrícios nossos, em terra nossa e em gozo de
favores nossos, para germanizar-se egoisticamente, odiosamente!” (A FEDERAÇÃO,
02/09/1895, p. 2).
No dia três de setembro de 1895, a Gazeta da Tarde novamente dedicou espaço nas
suas páginas para essa discussão, exaltando a repercussão que o assunto tem tomado na
sociedade porto-alegrense. No artigo, novamente assinado por G.H., foi abordado o risco de
conflitos causados por essa atitude. Para G.H., o incidente do Clube de Regatas “está dando
lugar a interpretações apaixonadas e já não falta por ai quem lhe dê um caráter de afronta
nacional, meditando represálias violentas” (GAZETA DA TARDE, 03/09/1895, p. 3).
O jornalista da Gazeta da Tarde assumiu uma postura pacificadora, dizendo se sentir
entristecido com as consequências das atitudes tomadas pela sociedade. Defendeu que não se
deveria tomar a ação como uma afronta ao brio nacional, convicto de que “certos como
podem estar todos de que não foi essa a intenção dos alemães quando resolveram nacionalizar
o clube” (GAZETA DA TARDE, 03/09/1895, p. 3).
A argumentação de G.H., para que esta atitude fosse desprezada, seguia na linha de
que essa foi uma conduta de indelicadeza, sem a intenção de afetar o orgulho nacional. Para
ele “foi um ato de egoísmo e mais nada”. Tentou remediar e minimizar o conflito, destacando
que os “brasileiros” não estavam impedidos de participar do clube, mas, sim, de votar na
ocasião de suas decisões. Parece-nos que o papel de mediador do conflito, onde se colocou o
próprio G.H., pendeu para a legalidade das atitudes dos sócios do Clube de Regatas,
recorrentemente justificadas por ele, como no fragmento abaixo, mesmo com as devidas
punições impostas:
144

Que os alemães tinham o direito de assim proceder ninguém o contesta e é isto uma
das belezas das nossas instituições.
O que não é possível é modificar-se a lei e por isto eles hão de perder o seu pavilhão
e os botes que pertenciam a sociedade, coisas estas de que é dono o Clube
Internacional de Regatas e não o Clube de Regatas Alemão. (GAZETA DA
TARDE, 03/09/1895, p. 3)

A militância se deu no sentido de que os botes do Clube de Regatas fossem recolhidos


e a associação novamente refeita como “internacional”. Com isso, e com os botes que fossem
adquiridos pelos “alemães”, disputas poderiam ser feitas entre “brasileiros” e “germânicos”.
De acordo com a sua constatação, seriam grandes eventos, “teriam as proporções de
acontecimento, haveria um estímulo para elas e um resultado prático – o desenvolvimento de
um „sport‟ que fortifica a mocidade”. Não é de estranhar que o seu incentivo ao esporte fosse
mais longe, quando sublinhou que “temos uma juventude esplendida na Escola Militar e, no
entanto, em vez de cuidar dos esportes, cuida da política” (GAZETA DA TARDE,
03/09/1895, p. 3). Trata-se de uma clara valorização dos esportes e práticas corporais sobre as
habilidades políticas dos jovens. Nesse momento, também houve uma comparação com o que
estava acontecendo na capital brasileira, o Rio de Janeiro: “quantos velocipedistas há na
escola. Talvez meia dúzia. Na do Rio há um clube de regatas e a estatística das corridas
marítimas acusou um grande saldo em favor da Praia Vermelha contra a Escola de Marinha”
(GAZETA DA TARDE, 03/09/1895, p. 3).
O texto de G. H. incentivava que a disputa fosse feita no campo esportivo, não
cabendo um caráter patriótico ao certame. Suas recomendações eram que se deveria ensaiar os
alunos, exercitá-los no remo para, assim, desafiar o clube alemão, “voando sobre as águas nos
seus botes impelidos pelos seus músculos valentes” (GAZETA DA TARDE, 03/09/1895, p.
3). Esse tipo de embate, para ele, seria honrado, onde a indignação teria um resultado prático
no cenário esportivo.
Parece que essa pressão por parte da imprensa, ou talvez a ameaça do recolhimento
dos seus barcos, fez com que a decisão fosse reconsiderada. A Federação de quatro de
setembro de 1895 anunciou, baseada em depoimentos de alguns “alemães”, que uma nova
assembleia seria convocada e que o caráter germânico do Clube de Regatas seria revogado,
assumindo uma postura internacional.
Essa reconsideração foi novamente pautada em sete de setembro de 1895, em A
Federação. O periódico destacou que não foi em vão a campanha feita pela imprensa da
capital gaúcha contra o que chamou de “ato irrefletido da germanização do Clube de
Regatas”. Parece, realmente, que, devido à repercussão assumida pelo fato, a diretoria do
145

clube resolveu tomar um novo rumo quanto à decisão, o que foi decidido no dia anterior,
conforme atesta o jornal:

Ontem, reunidos 37 sócios do clube, ficou deliberado convocar-se uma grande


reunião de assembleia geral, afim de reconsiderar-se o ato.
Falaram vários oradores, todos afirmando inteira ausência de intuitos hostis a
hospitaleira terra em que vivem cercados de completas garantias, trabalhando
fecundamente para o seu bem estar.
É quase certo que o Clube de Regatas deixará de ser alemão, não para reassumir o
seu caráter internacional, mas o de brasileiro-alemão. (A FEDERAÇÃO,
07/09/1895, p. 1)

De fato, não percebemos mais nenhum conflito dessa ordem nos periódicos. É de se
constatar, no entanto, que, na capital do Rio Grande do Sul, existiam tensões de ordem étnica
que envolvia os esportes. É inegável a participação e a importância dos alemães e seus
descendentes no desenvolvimento esportivo de Porto Alegre. Se é fato que os germânicos
cooperaram na construção dos clubes e dos esportes no sul do Brasil, também é importante
salientar que ocorrências como essa relatada podem ter sido mais comuns do que temos
notícia, se considerarmos a grande proporção de teuto-brasileiros entre os esportistas do
século XIX.
Na capital brasileira, inferimos um perfil diferenciado nas relações entre os clubes de
regatas e as suas origens étnicas. Se o Rio de Janeiro possuía algumas das suas agremiações
ligadas culturalmente aos países de origem dos seus praticantes, também é relevante pensar
que essa polarização era bem menor que em Porto Alegre, onde a predominância alemã era
marcante. O Rio, enquanto principal ligação do Brasil com a Europa, capital do Império, e
após 1889 da república, concentrava, no seu território, uma diversidade que não favorecia a
centralização de uma única descendência no desenvolvimento do remo. Dessa forma,
divergências que se relacionavam a questões esportivas e étnicas, simultaneamente, não
possuíam um destaque maior no Rio de Janeiro do século XIX.
O que se percebe é que, enquanto os clubes de regata de Porto Alegre tinham suas
relações ligadas, em grande parte, à Alemanha, (tanto que mantinham essa língua como
predominante nas suas reuniões, da mesma forma como uma grande repercussão foi criada
pela impossibilidade de homenagear Bismarck) o Rio de Janeiro, talvez pelo seu caráter
cosmopolita, se diferenciava e buscava se sustentar enquanto referência nacional. Essa
característica pode ser notada com maior ênfase quando verificamos a fundação de uma
pioneira entidade representativa dos clubes de remo em 1895, quando os clubes Botafogo,
146

Union de Cantioners e Luiz Caldas (do Rio de Janeiro), Gragoatá e Icarahy (de Niterói)
criaram a União de Regatas Fluminense (MELO, 2001, p. 125).
Esta entidade passou a coordenar, através de um rígido código, e a promover regatas
bem organizadas, o que fez com que a União de Regatas fosse se afirmando e ganhando
espaço. Esse trabalho fez com que, cada vez menos, competições estivessem fora da sua
alçada, assim como muitos clubes passaram a solicitar filiação à entidade, que tinha alguns
objetivos bem definidos, como destaca Mendonça (1909, p. 70), citado por Melo (2001, p.
126): “o trabalho desse grêmio diretor concentrava-se todo em angariar o domínio completo
de todas as sociedades de regatas, afim de que dispersos não ficassem elementos de valia”.
A União, em 1900, modificou o seu nome para Conselho Superior de Regatas, o que
carregou um teor ainda mais forte de controle e regulamentação, como pode ser identificado
na postura do seu estatuto, que pretendeu assumir cada vez mais a postura de comando no
Brasil, se colocando como representante brasileiro do remo:

Além de ampliar o rígido controle, no Código do Conselho Superior de Regatas,


logo no primeiro parágrafo do artigo primeiro, pode-se identificar uma mudança de
pretensões em relação ao código anterior. Afirmava-se em tal parágrafo que o
objetivo central do Conselho seria: „representar o esporte náutico brasileiro,
promover e auxiliar seu engrandecimento, e organizar a defesa de seus interesses
gerais‟.
Por ocasião da criação da União de Regatas Fluminense não ficava tão clara a
intenção, nem tampouco a auto-intitulação de representante brasileiro do remo.
Tratava-se agora de não somente controlar as entidades do Rio de Janeiro, mas de
todo o país. Isso ficava ainda mais claro no artigo 4º: „os efeitos do presente código
poderão estender-se aos Clubes de Regatas fundados nos Estados Brasileiros, desde
que sejam aceitas integralmente todas as suas disposições‟31. (MELO, 2001, p. 126)

Fizemos essa comparação no sentido de destacar pontos que divergem os interesses


entre as regatas de Porto Alegre e Rio de Janeiro. Mesmo que a capital do Rio Grande do Sul
tenha fundado o Comitê de Regatas do Rio Grande do Sul anteriormente, em 1894,
considerado a primeira federação esportiva do país, o perfil das associações se difere, sendo
essa predominantemente teuto-brasileira (SILVA, 2011, p. 57). Cabe destacar a diferenciação
das características das cidades que propiciava essa divergência: Porto Alegre, uma capital
fronteiriça, com presença marcante de imigrantes e descendentes de alemães na sua
composição demográfica, os quais formavam a maior fatia entre os sócios dos clubes de remo,
sendo, também, seus principais fundadores; o Rio de Janeiro não possuía toda essa
concentração, já que lá existiam clubes que tinham uma identificação étnica, como o Clube de

31
Código do Conselho Superior de Regatas. Rio de Janeiro: Typografia Ribeiros, Macedo & Cia, 1900.
147

Regatas Vasco da Gama, pelos portugueses, mas as amarras aos países de origem eram muito
mais difusas que no Rio Grande do Sul.
Além disso, como destacamos, a capital brasileira tinha a preocupação em ser modelo
nacional. Sua ideia era centralizar o remo do Brasil. Sede do império português, brasileiro e
da República até a segunda metade do século XX, a capital fluminense era uma urbe
cosmopolita que não centralizava as discussões em torno de uma referência que concentrava
(até por que esta não existia) o desenvolvimento esportivo. É possível inferir que o Rio de
Janeiro, no século XIX, foi uma cidade de inúmeras culturas e influências. Não podemos
afirmar veementemente que não houve divergências onde estiveram vinculados esportes e
origem étnica. De fato, não encontramos ocorrências sobre isso nas fontes pesquisadas
relativas ao Rio de Janeiro, diferente do que demonstramos com Porto Alegre.

3.2 Ciclismo

A bicicleta no século XIX foi uma das marcas do desenvolvimento e da prosperidade


tecnológica do momento. Ferramenta do homem para superar os seus limites, a máquina
substituíra o animal, e este já não era mais o responsável pelo desempenho. A performance
estaria baseada tanto na capacidade de engenhar, quanto na habilidade técnica e física do ser
humano. Novos materiais, medidas, conceitos, velocidade e conhecimentos fizeram do
velocípede um símbolo desse período. Além disso, o palco dessa modalidade não poderia
deixar de ser a cidade, local privilegiado, primórdio de todas estas mudanças.
Alguns apontamentos indicam a invenção de um esboço, protótipo daquilo que hoje
conhecemos como bicicleta, ligado ao renascentista italiano Leonardo da Vinci. Também é
vinculada à criação de outra máquina antecessora à bicicleta, ao Barão de Drassler, na
Alemanha em 1817. A engenhoca se chamava Draisana, e consistia em duas rodas ligadas
por um tronco. Sua movimentação era feita com os pés do condutor empurrando o solo, o que
limitava a velocidade alcançada e impossibilitava sua utilização em subidas mais íngremes.
Com o transcorrer do século XIX, essas máquinas se refinaram e sua tecnologia evoluiu. O
eixo da direção passou a ser móvel e, inserido pelos irmãos franceses Pierre e Ernest
Michaux, em 1861, os pedais fixos na roda dianteira permitiram que a bicicleta pudesse ser
movimentada e controlada pela força humana. A direção e a velocidade dependiam agora da
vontade, da potência e robustez do seu condutor. (VIGARELLO, 1988; SCHETINO, 2007)
148

A partir daí, inúmeras variações com duas ou três rodas, de vários diâmetros, pesos e
materiais foram desenvolvidos e aperfeiçoados, demonstrando como os velocípedes
velozmente se multiplicaram e conquistaram um vasto território além da Europa, que incluiu
o Brasil, no século XIX.
Os primeiros velocípedes chegaram ao Brasil no final da década de 1860, mas
passaram a ser importados em maior número, nos anos 1890, momento em que, também, as
primeiras corridas começaram a ser organizadas e os nascentes clubes e associações de
ciclismo foram constituídos. São Paulo foi precursor, mas prontamente capitais como Porto
Alegre e Rio de Janeiro aderiram a essa prática de forma efusiva. (MELO, 2009b)
No Rio Grande do Sul, a primeira bicicleta de que temos notícia foi descrita pelo
mecânico Adolfho Pompílio Mabilde, através de uma carta dirigida ao diretor do jornal
Correio do Povo, jornalista Caldas Júnior, e publicada na edição de 08 de dezembro de 1907,
na coluna “Sport e Reminiscências”. De acordo com a missiva, o Sr. Mabilde estava
estabelecido com sua oficina na então Colônia de Santa Cruz e, ao final do ano de 1869, teve
de ir a São Leopoldo a negócios, acompanhado do seu cunhado Pedro Petersen. Na
oportunidade, se deparou com o Sr. Alfredo Dillon, filho de comerciante porto-alegrense, que
estava naquela cidade divulgando a nova máquina importada, estadunidense: um velocípede
que foi chamado de “cavalo de ferro”.
A demonstração do comerciante causava furor, espanto, indignação! Havia os que
diziam que o ciclista tinha parte com o diabo, pois corria numa máquina em que não se via
ninguém puxar a frente ou empurrar atrás. “Corria ligeiro feito um raio, e o pior de tudo era
ter somente duas rodas, uma atrás da outra!”
O mecânico, Sr. Mabilde, vendo que o Sr. Dillon embarcara no vapor rumo a Porto
Alegre, origem do velocípede, fez o mesmo para que pudesse, curiosamente, especular sobre
todos os detalhes daquela curiosa máquina. Logo, o hábil braçal percebeu que não era
necessário nenhum pacto com o diabo para que se “domasse” aquela engenhoca. Todas as
notas foram tomadas para que, em sua oficina, em Santa Cruz32, uma máquina daquelas fosse
montada.
O velocípede consistia em uma estrutura com uma roda dianteira de 90 cm e uma
traseira de 80 cm de diâmetro. Eram fabricadas em madeira com arco de ferro, para aperto das
cambotas, bem feitas e leves em relação à resistência. A viga curva, em que havia a sela

32
Atual município de Santa Cruz do Sul, situado na região central do estado, distante 150 km da capital Porto
Alegre.
149

comprida, era uma mola de aço chato, maciça e de ferro forjado. Assim, o resto da ferragem,
excetuando a bucha que girava a guia, que era de ferro maleável.
Nas manivelas, que eram fixadas diretamente sobre os extremos do eixo da roda
grande, ficavam os pedais de madeira torneados em forma de carretéis como os de linha,
girando sob espigas de ferro. A pintura era toda de vermelhão, com listras brancas e
envernizadas. O senhor Adolfho Mabilde se gabava de ter, em Santa Cruz, produzido a
segunda e a terceira bicicleta do Rio Grande do Sul, juntamente com seu irmão e sócio
Emilio. Com as devidas adaptações na construção, a máquina circulou pelas ruas da pequena
colônia causando tanta admiração quanto o fez em São Leopoldo.
Mesmo sendo um equipamento um tanto tosco para os dias atuais, com um
funcionamento grosseiro e simples, a engenhoca causou espanto e admiração nos gaúchos. A
tecnologia, a engenharia e a possibilidade de locomoção rápida sem a ajuda de animais era
uma novidade bem-vinda. O cavalo de ferro passou a fazer parte do cotidiano dos porto-
alegrenses, tanto para o seu lazer, funcionalidade e trabalho, quanto para as disputadas
esportivas que, em breve, se desenvolveriam. Para o Sr. Adolfho Mabilde, “é esta, sem
dúvida, a verdadeira história da primeira perpetração cicloviária em Porto Alegre”
(CORREIO DO POVO, 08/12/1907, p. 2).
No Rio de Janeiro, a prática do ciclismo era vista como uma forma de aproximação
com o mundo europeu. O esporte, na capital federal, recebia, nos seus pontos de prática, como
o velódromo da Rua do Lavradio, aquilo que era considerado o que havia de mais chique e
elegante no high-life fluminense nas noites de “calor senegalesco”. (MELO, 2009b)
Tanto no período imperial, quanto na nascente república brasileira, o ciclismo atraia os
mais abastados moradores da capital fluminense interessados em ver e serem vistos,
praticando um esporte que era a própria representação do período e da modernidade.
Rapidamente, esta prática e, principalmente, suas competições, passaram a ser
organizadas majoritariamente por clubes especializados na modalidade. Rio de Janeiro e Porto
Alegre prontamente o institucionalizaram, organizaram competições e tiveram os prados, que
também eram utilizados pelas corridas de cavalos, como seus primeiros velódromos. Isso, no
entanto, não significou que o seu hábito enquanto ferramenta de transporte e lazer tenha se
desvalorizado. Ao contrário, a prática do ciclismo se desenvolveu no século XIX em um
patamar que absorveu tanto aqueles interessados em se deslocar mais rapidamente, ou terem
mais uma alternativa de diversão sem compromisso com as competições, quanto os
aficionados pelo esporte e pelas corridas. Em pouco tempo, a bicicleta deixou de ser
novidade. Tomaria as ruas do Rio de Janeiro e Porto Alegre como já havia ocupado as de
150

Paris, se tornando um dos meios de transportes mais populares da História. Nesse sentido, os
clubes dedicados às corridas de bicicleta foram ferramentas importantes no espraiamento do
gosto pela moderna máquina, como veremos a seguir.

3.2.1 A institucionalização: os clubes de ciclismo e os velódromos

Grande parte das modalidades esportivas se consolidou e, realmente, se desenvolveu a


partir do momento em que houve a sua institucionalização em clubes e associações. No caso
do ciclismo, essa característica parece se confirmar de forma enfática. Mesmo que a bicicleta
tenha funções para além das competições, foi no âmbito das agremiações que este se
potencializou enquanto prática esportiva. Dessa forma, tanto Porto Alegre quanto o Rio de
Janeiro tiveram na institucionalização das corridas de bicicleta uma ferramenta fundamental
para que a prática se desenvolvesse. Com características, por vezes, distintas, ambas as
cidades alargaram o seu gosto pelos velocípedes e fizeram do esporte algo habitual no final do
século XIX, tanto nas ruas enquanto prática de lazer, divertimento e ferramenta utilitária,
como nos insurgentes velódromos ligados à competição.
Na capital brasileira da época, a prática do ciclismo, associado a entidades esportivas,
iniciou a partir da apreensão da modalidade por clubes que não tinham a sua atividade
principal nas corridas de bicicleta. Nas últimas décadas do século XIX, as disputas a pé eram
atividades rotineiras entre os clubes de atletismo da capital fluminense. Associados a essas,
eventualmente, corridas de velocípedes começaram a ser organizadas por essas entidades, na
maioria das vezes, conjugadas a festejos organizados pelas mesmas. Gradualmente, os
certames ciclísticos foram conquistando mais espaço e status, como no ano de 1885, na
ocasião da inauguração do Club Athletico Fluminense, que contou com a presença do
Imperador D. Pedro II. Nesse dia, as corridas ciclísticas foram destaque. O clube estava
situado na Rua Conde de Bonfim, atual bairro Tijuca, e era frequentado pela alta sociedade da
época, que organizava disputas mensais e, em festas especiais da entidade, agregava corridas
a pé e de velocípedes. (SCHETINO, 2007)
Schetino (2007), ao mesmo tempo, destaca a importância dada pelos periódicos da
época à prática do ciclismo e sua previsão de que, em breve, este seria um dos
entretenimentos mais populares do Rio de Janeiro, graças ao Club Athlético Fluminense (do
Rio de Janeiro) e ao Olympico Guanabarense (de Niterói). Eles eram os responsáveis pelo
151

desenvolvimento das corridas de velocípedes, o que contribuía tanto para a popularização do


esporte quanto para o aumento do número de ciclistas.
No entanto, a criação da primeira agremiação, que adotou o ciclismo como sua
finalidade principal, se deu somente com a falência do Club Athlético Fluminense, em 1887.
Os sócios da antiga associação fundaram o Veloce-Club, o precursor do ciclismo na capital
brasileira. A pompa da sua inauguração, com a presença de “Suas Altezas Imperiais” pela
segunda vez em uma disputa de bicicletas, demonstrou que o Veloce gozava de um
considerável prestígio com a monarquia. As corridas iniciais aconteceram na raia do Rio
Cricket Club, a Rua Paissandú, no bairro Flamengo. (SCHETINO, 2007)
A proclamação da república realocou o ciclismo no cenário do Rio de Janeiro. As
bicicletas se enquadraram rapidamente em um contexto onde era necessário que os símbolos
nacionais ligados à monarquia fossem obliterados, e novas significações deveriam remodelar
o recente período republicano:

Decorridos oito anos das primeiras provas no Club Athletico Fluminense e de um


esporte caro que sempre contou com o apoio e presença das elites ligadas à
monarquia (inclusive da Família Imperial), o ciclismo agora era um dos
divertimentos exaltados como novidade no Rio de Janeiro republicano. Assim como
vimos a “transformação” de monarquistas em republicanos com a proclamação da
República, vimos também o ciclismo, que sempre contou com o apoio e a presença
de personalidades do antigo regime surgindo novamente sem qualquer menção aos
seus anos anteriores na cidade. (SCHETINO, 2007, p. 88)

O Velo-Club, juntamente com o Bicyclette Club, sustentava a posição de primeiros


clubes dedicados fundamentalmente às bicicletas no Rio de Janeiro, ambos em 1897. Schetino
(2007) destaca que essas duas associações possuíam um perfil diferente. O Bicyclette Club
realizava suas corridas na Quinta da Boa Vista e era uma sociedade tradicional e mais
exclusiva. Ela era composta por moços de distintas famílias dos bairros São Cristóvão e
Engenho Velho. Já o Velo-Club tinha objetivos mais amplos. O clube lutava pela ampliação
da prática do ciclismo no Rio de Janeiro.
Os clubes de ciclismo da capital brasileira, da mesma forma como em Porto Alegre, no
início do seu funcionamento, não davam privilégio à função competitiva. As associações
procuravam incentivar a prática e o desenvolvimento da habilidade do ciclista, promoviam
passeios e pick nicks. Somente com a popularização das bicicletas é que a valorização dos
tempos e das disputas foi crescendo cada vez mais. (SCHETINO, 2007)
No sul do Brasil, as disputas organizadas entre bicicletas tiveram início na década de
oitenta do século XIX. Uma novidade fora anunciada para Porto Alegre: as corridas de
152

velocípedes, que se realizaram, pela primeira vez, no Jockey-Club Porto-Alegrense, em


janeiro de 1886 (O CONSERVADOR, 13/01/1886). Da mesma forma, a consagração da
modalidade parece ter sido rápida, já que, no mesmo mês, foi anunciada a criação do Bycicle-
Clube 33 , “um clube para corridas de velocípedes” (O CONSERVADOR, 24/01/1886).
Embora essa pareça ser a primeira tentativa de organização desportiva em torno do ciclismo
na cidade, poucas são as informações que temos sobre a agremiação, que aparentemente foi
volatizada de forma rápida, mas que foi a primeira experiência de gestão de que tivemos
notícia.
No ano de 1892, no anúncio de inauguração de um prado no campo da Redenção,
denominado “Avenida”, marcado para o dia quatro de setembro, percebemos a existência de
disputas entre bicicletas mescladas a corridas a pé. O anúncio comercial do jornal A
Federação, de três de março de 1892, anunciava, para o próximo dia, a “primeira diversão
dedicada à mocidade de Porto Alegre”. Na programação, constavam seis corridas: a primeira
consistia em uma volta, para velocípedes de uma roda. A segunda e a terceira, uma volta, a
pé. A quarta, uma volta com velocípedes de duas rodas. Na quinta corrida seriam duas voltas
com velocípedes de uma roda. E para a sexta disputa, uma volta a pé. O anúncio ainda
apontava que não se admitia, como competidoras, pessoas que não fossem “decentes”.
De qualquer forma, as corridas passaram a ser organizadas de forma mais sistemática,
a partir do surgimento de dois clubes dedicados especialmente ao ciclismo. Essas duas
agremiações foram fundamentais no desenvolvimento das competições no Rio Grande do Sul,
e iniciaram suas atividades nos anos finais do século XIX. As associações foram muito ativas
na cidade e tiveram uma existência relativamente longa. Foi fundada, no dia 10 de março de
1895, a União Velocipédica (A FEDERAÇÃO, 07/03/1895), procedida pela Radfahrer Verein
Blitz, no ano de 1896 (CORREIO DO POVO, 19/05/1896).
No final do mesmo ano de 1895, a União entrou em acordo com a diretoria do Prado
Rio-Grandense, no bairro Menino Deus, para utilizar a sua estrutura para reuniões, exercícios
e corridas, em todos os domingos e feriados, excetuados os dias em que houvesse disputas de
cavalo naquele local (A FEDERAÇÃO, 10/12/1895). No entanto, foi no espaço do Prado
Independência, no bairro Moinhos de Vento, que, em 1897, se projetou um velódromo de
terra batida. Ele foi construído ali e inaugurado no dia 30 de janeiro de 1898 (CORREIO DO
POVO, 30/01/1898). O primeiro, portanto, na cidade de Porto Alegre.

33
A historiografia que trata sobre o ciclismo no Rio Grande do Sul não destacou em oportunidade alguma a
existência deste clube. Até o momento, portanto, colocamos o Bycicle-Clube como o precursor do ciclismo em
Porto Alegre, ratificando as informações das nossas fontes.
153

Em uma fase inicial, as descrições das atividades dessa associação nos remetem, em
grande parte, a ações recreativas, como passeios ciclísticos mensais aos bairros da cidade e
pick nicks dos sócios. Aos poucos, aparentemente, a União Velocipédica assumiu um perfil
mais esportivo e começou a se dedicar ao ciclismo de competição. Agregado a esse
desenvolvimento, estava a discussão acerca da construção de um velódromo mais moderno,
que incorporasse diversas variáveis a sua proposta, principalmente em relação a sua
localização e ao aumento do número de praticantes, que era um objetivo estimado. Um bom
circuito não era o suficiente. Era necessário que os interessados tivessem facilidade para
acessá-lo, assim como o fornecimento de uma estrutura de entretenimento mais ampla.
O outro clube, ligado essencialmente ao ciclismo, foi fundado em 19 de maio de 1896
(CORREIO DO POVO, 19/05/1896), pouco mais de um ano depois da Velocipédica. Essa
associação tinha forte ligação com os imigrantes alemães e seus descendentes, e se chamou
Radfahrer Verein Blitz, ou, popularmente, Sociedade Ciclística Blitz. Uma curiosidade é que
seus fundadores, Oscar Schaitza, Theodoro Schaitza, Eduard Schaitza, O. Brenner, Duetz e
Alberto Binz, já eram conhecidos desportistas na cidade. Todos, também, fundadores do
Ruder Verein Germânia, importante clube de remo porto-alegrense. Essa, talvez, pudesse ser
uma atitude da comunidade teuto-brasileira para demarcar território também nesse esporte,
visto que a União Velocipédica não possuía uma identificação étnica definida. As cores
escolhidas foram a amarela e a preta. A camiseta tinha essas cores em faixas horizontais e, por
isso, os associados foram logo chamados de abelhas. (CORREIO DO POVO, 11/10/1896)
As atividades ciclísticas dos dois clubes estavam intensamente relacionadas em todo o
período de funcionamento dessas entidades, o que era elogiado pela imprensa. Esta percebia
com entusiasmo a oportunidade das entidades incentivarem e popularizarem cada vez mais
esse “útil e interessante gênero da mais inocente distração, tão festejada pelas famílias da
Europa” (CORREIO DO POVO, 20/12/1896).
Essa rivalidade “nos pedais” teve início no final do ano de 1896, quando a Blitz
desafiou formalmente a União Velocipédica (GAZETA DA TARDE, 22/12/1896). Após
consultar seus sócios, a entidade aceitou a provocação, tendo a disputa sido realizada no dia
10 de janeiro de 1897, com seis ciclistas concorrentes: João Ribeiro Alves, Luiz Rist e Vasco
D´Azambuja, pela União; os dois irmãos Oscar e Edward Schaitza e Brenner pela Blitz. A
raia era uma extensa rua de mais de cinco quilômetros, denominada Caminho Novo (atual
Voluntários da Pátria), porém só um trecho dela fora aproveitado para pista, em uma prova de
nove quilômetros. Quem venceu a disputa foi o representante da União, João Alves, que
terminou o certame com um pedal quebrado e dois tombos. Parece que, a partir desta
154

competição e com o acirramento das disputas, a União e o Blitz redimensionaram suas


atividades e o ciclismo. (CORREIO DO POVO, 12/01/1897)
O ano de 1898 marcou fortemente as discussões para a construção de uma nova pista
de competição em Porto Alegre. A necessidade de um local apropriado à prática seguia o
desenvolvimento do gosto pelo “salutar” esporte. Ganhava ainda mais relevância pelas
justificativas, que destacavam que essa era uma atividade que estava atraindo intensas
simpatias da sociedade porto-alegrense, “como as de todo o mundo culto”.
A União Velocipédica, que já possuía o seu velódromo de terra batida nas
dependências do Prado Independência, fundado em 30/01/1898 (CORREIO DO POVO,
30/01/1898), foi a pioneira. No entanto, foi a Rahfahrer Verein Blitz que inovou,
tecnologicamente, em seguida. A nova raia foi construída em uma área da atual Rua
Voluntários da Pátria, cedida gratuitamente pelo Dr. Luiz Englert, pelo prazo de 10 anos. A
pista tinha 400 metros, toda revestida de laje e cimento, e iniciou as suas atividades no dia
quatro de setembro de 1898 (CORREIO DO POVO, 04/09/1898).
A União Velocipédica também buscava ampliar a sua estrutura na intenção de não ser
superada pela coirmã Blitz, no desejo de construir o novo velódromo, visto a defasagem do
seu. O Correio do Povo, de 23 de novembro de 1898, descreveu detalhes da discussão gerada
em torno do novo empreendimento. O periódico apoiava a atitude, mas fora avesso a uma
primeira proposta de local, que seria no bairro Moinhos de Vento, onde se encontrava.
Ecoavam as vozes dos amantes do ciclismo. A área proposta para um novo
empreendimento não foi bem recebida, pois, para os especialistas, não era um local propício
ao desenvolvimento do esporte. O velódromo deveria ser um local de encontro, ponto
predileto de reunião nos dias de lazer e o lugar preferido para alegremente “matar o tempo”.
Dessa forma, deveria achar-se o mais próximo possível, ao alcance dos seus prováveis
frequentadores. Um caminho acidentado que a ele conduzia, dificultando-lhe o acesso, não era
dos menores inconvenientes que apresentaria sua instalação no Moinhos de Vento.
Os argumentos contrários indagavam que, principalmente os ciclistas, eles próprios
obrigados a conduzir suas máquinas, sentiriam o incômodo de transitar por estradas eriçadas
de obstáculos – incômodos esses que os fariam preferir qualquer outro arrabalde para passeios
ou excursões recreativas.
As avaliações convergiam para um futuro onde a prática do ciclismo fosse ainda
maior. Legitimando ainda mais a contrariedade do velódromo no bairro Moinhos de Vento, se
imaginava que a bicicleta fosse usada “até” entre as senhoras. Estas ficariam quase que
impossibilitadas de levar, ao velódromo da União, segundo os críticos, o encanto
155

insubstituível de sua graça e elegância, o cunho adorável da suprema distinção que


indispensável se tornava aos “temperamentos de elite, aos espíritos dedicados e finos”.
O que levava a imprensa a um posicionamento contrário frente à construção de um
velódromo no distante bairro, era a ideia de galgar entre as inúmeras ladeiras. Este penoso
caminho dos esportistas até o local faria arrefecer o entusiasmo da mais ardorosa ciclista, e
“os próprios marmanjos de musculatura rija chegariam a arena de suas incruentas lutas cheios
de suor e de fadiga” (CORREIO DO POVO, 23/11/1898). Contrário à proposta de construção
do novo velódromo no Moinhos de Vento, o Correio do Povo apresentava a própria situação
da atual raia, como prejudicial ao desenvolvimento do esporte, “cuja situação tem custado
tantos trabalhos aos ciclistas que a demandam”.
A preferência incontestavelmente se dava pela construção de um velódromo na área da
Várzea, local de fácil acesso, no centro de Porto Alegre. E o que aconteceu foi justamente
isso, a União Velocipédica recebendo um terreno cedido pela prefeitura, localizado no bairro
Menino Deus.
No dia doze de março de 1899, foi anunciada a colocação da pedra fundamental para a
construção do velódromo, com direito à festa e cerimônia pomposa descrita pelo Correio do
Povo, de 14 de março do mesmo ano. Por essa ocasião, o ciclista e conhecido desportista,
Germano Hasslocher, pronunciou um discurso, valorizando o ato e elogiando o bello sport,
segundo ele, do qual as gerações futuras tem a esperar grandes benefícios. Terminaria, assim,
a festa oficial da União, com um almoço no hotel Lagache, em que tomaram parte cinquenta
unionistas com o uniforme social. Segundo a imprensa, ao dessert, comissionado pelos seus
consócios, falou novamente o Dr. Hasslocher, que explicou os fins daquela reunião, e brindou
o presidente da sociedade, alvo da solidariedade e simpatia de todos os presentes. Depois de
feitas outras saudações, a festa foi encerrada, com o brinde de honra à pátria brasileira,
entusiasticamente correspondido.
No mesmo ano de 1899, no dia 19 de novembro, foi inaugurado o referido velódromo
do Menino Deus (A FEDERAÇÃO, 20/11/1899). A todos os sócios, foi solicitado que
comparecessem ao local, rigorosamente uniformizados de calção e camisetas regulamentares
e sem palletot, a fim de receberem o estandarte da sociedade e formarem o préstito que
deveria entrar no velódromo. Após a cerimônia, que fez com que o velódromo recebesse
grande público, ocorreram corridas na nova pista. Os festejos continuaram por toda a semana,
tendo se encerrado somente no dia 26 de novembro.
A nova obra atraia a atenção da imprensa pelo seu caráter moderno, despontando entre
os empreendimentos esportivos da cidade. O projeto, baseado no trabalho do engenheiro
156

francês Bourlet, causava admiração. Realmente, a descrição da estrutura elaborada pelo


Correio do Povo, não somente da pista, mas de toda a luxuosa construção do velódromo,
apresentava uma proposta refinada, tecnológica como o ciclismo e forte como seus
sportsman, a qual reproduzimos:

O velódromo da União Velocipédica que hoje se inaugura no Campo da Redenção,


ocupa uma vasta área de 17.000 metros quadrados, todo murado e com gradil. (...) A
planta da pista foi levantada pelos hábeis engenheiros nacionais Lindolfo Silva e
Alfredo Leyraud, servindo de base o trabalho o provecto engenheiro francês Bourlet,
que fez um estudo especial do assunto publicando a respeito um livro.
A pista é de forma oval, e tem pela linha de medição 333m, 33 e 1m, pela margem
interior; as curvas do ponto mais alto ao mais baixo tem 4m, 8 de altura e são
divididas em três partes quase iguais, que se subdividem em uma central circular, de
25m de raio e duas laterais, envolvente e evoluta, ambas parabólicas.
A sua construção é a mais sólida possível, tendo uma camada superior de cimento de
0,10m de espessura.
Aos olhos desprevenidos de um estranho ao ciclismo, parece incrível que se possa
andar ali de bicicleta, tal é a elevação das curvas.
Devida a sua construção moderna, pode se obter a velocidade máxima de setenta
quilômetros por hora.
O elegante chalet da sociedade, ao lado da pista, apresenta a par da beleza que
presidiu a sua arquitetura, todo conforto em uma casa daquela ordem.
Tem ele de frente a extensão de 40 metros, sendo a parte superior dividida em
diversas salas destinadas a toilette das senhoras, diretoria, secretaria, arquivo,
enfermaria e grande salão para restaurante, como sejam, copa, cozinha, etc.
No exterior dois confortáveis torreões, que servem de coreto na parte alta, e na baixa
de excelente ponto para palestras; casinhas para os juízes e apontadores, latrinas com
um serviço de esgoto tão perfeito como é possível entre nós, e finalmente uma farta
iluminação a gás carbono, com bico Auer, tendo em volta da pista 30 bicos e 55
profusamente distribuídos pelos salões.
Toda a mobília, sem ser luxuosa, é de irrepreensível bom gosto e foi confeccionada
nos estabelecimentos dos Srs. Kappel & Irmão, no Triunfo. O arquiteto, Sr.
Guilherme Koch, foi quem executou as obras principais.
O custo total da obra é de cerca de cem contos de réis. (CORREIO DO POVO,
19/11/1899, p. 1. Grifos meus)

A imprensa exaltava o feito. Além dos mil e cem sócios registrados, que
demonstravam a grandeza da União Velocipédica, se desconfiava que nos principais centros
civilizados do mundo não houvesse outra associação do tamanho (A FEDERAÇÃO,
20/11/1899, p.2). Também foi creditado, a este clube, a popularização do esporte em Porto
Alegre. Antes da sua existência, era uma prática apenas para rapazes, e, com seu trabalho, o
ciclismo foi disseminado para todas as idades, profissões e gêneros, destacavam os
periodistas.
O feito da União Velocipédica ecoava longe. Até mesmo os jornais da capital da
república descreviam o novo e grandioso velódromo construído em Porto Alegre. O jornal A
Federação, de 21 de novembro de 1899, reproduziu a publicação do periódico fluminense
Semana Sportiva do dia 11 de novembro de 1899. Neste, se exaltava o sucesso atingido pelo
157

ciclismo em Porto Alegre que, de acordo com o artigo, foi conquistado devido à existência de
duas grandes agremiações, que constantemente se enfrentavam e estimulavam a disputa. Uma
era a União Velocipédica, e a outra associação era a Blitz, fundada por “um grupo de belos
rapazes teutônicos com a galhardia e resolução características da raça alemã”. Ao periódico,
parecia que os ciclistas da Ruder Blitz eram “endiabrados rapazes”, “mais ardentes do que
todas as espumas de todas as cervejas do mundo”! (SEMANA SPORTIVA, 11/11/1899 apud
A FEDERAÇÃO, 21/11/1899).
De toda a forma, o sucesso do ciclismo do Rio Grande do Sul, para o Semana
Sportiva, se devia, principalmente, à concorrência entre os dois clubes. Seus múltiplos
desafios contribuíam para o crescimento, tanto quantitativo do quadro social, quanto
qualitativo, no que se refere ao desempenho dos seus ciclistas e à estrutura dos seus
velódromos, cada vez mais modernos e qualificados. Esse diagnóstico foi colocado
claramente no seu escrito: “O velódromo que a União Velocipédica atual inaugura amanhã34
em Porto Alegre, com mais de setecentos sócios montados é o mais perfeito em seu gênero
aqui no Brasil. Sua pista encontrará bem poucas construídas com iguais condições de
velocidade tangencial” (SEMANA SPORTIVA, 11/11/1899 apud A FEDERAÇÃO,
21/11/1899). O periódico ainda destacou que, não tão rico quanto o seu congênere paulista, o
velódromo de Porto Alegre era, contudo, dotado de todos os aperfeiçoamentos, muita
elegância e comodidade.
Já no Rio de Janeiro, Schetino (2007) destaca que o ciclismo, que contava com o apoio
e presença das elites ligadas a monarquia, após a proclamação da república, continuou
atraindo uma camada privilegiada financeiramente da capital brasileira. Esses passaram a se
encontrar nos locais próprios a esta prática, os velódromos, também conhecidos como
bellodromos. Esses espaços foram importantes e concorridos pontos de reunião da sociedade
carioca. O primeiro a ser inaugurado foi o Bellodromo Nacional, situado na Rua do Lavradio,
próximo à Praça da República, atual Campo de Santana. Esse, por muito tempo, carregou o
status de principal espaço das corridas ciclísticas na capital nacional. O Bellodromo iniciou
suas atividades em 1892 e possuía uma grande estrutura:

O bellodromo está construído bastante confortavelmente; ali fica-se ao ar livre,


perfeitamente a gosto nos 64 camarotes, nas arquibancadas e mesmo em baixo, nas

34
Temos aqui uma pequena anacronia. A data provável, da qual temos vários documentos convergindo para o
mesmo ato, se refere a 19/11/1899 como sendo o marco de inauguração do novo velódromo da União
Velocipédica. Esse artigo, de acordo com A Federação, teria sido publicado no Rio de Janeiro, em 11/11/1899, e
referencia à inauguração como sendo em 12/11/1899. No entanto, essa pequena contradição não é relevante na
análise proposta.
158

entradas gerais. Dos 64 camarotes, 32 estão colocados nos fundos e outros 32 á


frente, nos dois extremos do estabelecimento; tendo cada um lugar para 4 pessoas,
com mesas colocadas em um espaço lateral, para serviço do botequim, do qual nos
ocuparemos adiante. Nas arquibancadas, que se acham á direita, cabem muito
folgadamente 1000 pessoas, podendo sentar-se até 2000 se forem utilizados todos os
degraus. No centro d‟elas está colocado uma espécie de coreto reservado, em frente
justamente a um outro construído do lado esquerdo e destinado a banda de musica,
que deve tocar durante as corridas. Debaixo das arquibancadas está a diretoria
construindo uma serie de quartos para aproveitar o espaço, a fim de alugá-los depois
aos corredores amadores, que d‟eles se utilizarão para guardar suas maquinas,
vestimentas, etc., e mesmo vestirem-se e despirem-se á vontade. A grande área das
corridas está construída com todas as regras exigidas pelo gênero de sport a que é
destinada e perfeitamente cimentada, medindo 23 metros de largura sobre 82 de
comprimento. A raia tem 10 metros de largura e acha-se limitada internamente por
um traço vermelho de 146 metros de circunferência; a circumferencia externa tem
cerca de 185 metros, ficando uma media de 150 metros pouco mais ou menos para
cada volta das corridas. O estabelecimento é todo iluminado a luz elétrica, com 124
lâmpadas incandescentes e quatro grandes lâmpadas de arco, três das quais estão no
centro da área e uma na porta do edifício. A máquina produtora tem uma força de 20
cavalos. Á direita de quem entra, no pátio, está construído o botequim confortável e
bom dos Srs. M. F. Ferreira & C., onde os frequentadores do Bellodromo podem
encontrar de tudo e do melhor, conforme tivemos ocasião de verificar ontem; e á
esquerda, os 14 guichets para vendas de poules. (JORNAL DO BRASIL,
08/12/1892, p. 2)

Pouco mais de um ano depois do primordial Nacional, foi fundado o Bellodromo


Guanabara. Esta pista se localizava na praia do Botafogo, com 204 metros, quinze metros de
largura nas curvas e nove nas retas. Sua construção foi inspirada nos velódromos franceses,
destacadamente no Park Bourdeaux (JORNAL DO BRASIL, 10/08/1893, p. 2).
Completando um trio de velódromos que funcionavam concomitantemente no Rio de
Janeiro, foi fundado, em 1897, o Frontão Velocipédico Fluminense. Assim como o Nacional,
esse velódromo se encontrava na Rua do Lavradio. Da mesma forma como as outras duas
pistas da cidade, o Fluminense possuía toda a estrutura necessária às corridas de bicicleta, mas
tinha uma peculiaridade: sua pista, de 200 metros, era de madeira, sendo o lado esquerdo
móvel, com a finalidade de ser deslocado para a realização dos jogos de pelota. (SCHETINO,
2007)
Uma particularidade marcante do ciclismo do Rio de Janeiro eram as apostas nas
disputas. Não podemos negar a existência desse tipo de desafio em Porto Alegre. No entanto,
não obtivemos nenhuma informação sobre a sua presença. É provável que, se houvesse no sul,
fosse uma atividade inconstante e extraordinária. Na capital brasileira, essa era uma ação
comum e estimada. A exemplo do turfe, para além da atividade esportiva, os velódromos
também se tornaram territórios dos apostadores e, consequentemente, daqueles que
procuravam burlar as regras e se beneficiar de corrupções, ou seja, dos populares “tribofes”
(SCHETINO, 2007).
159

Estas práticas burlatórias foram tão costumeiras que se tornaram, até mesmo, tema
para produções teatrais de um dos maiores dramaturgos brasileiros, Arthur Azevedo, que
buscava retratar, nas suas peças, a sociedade brasileira do século XIX. Dessa forma, Melo e
Knijnik (2015) analisam que, na sua peça Capital Federal (1897), Azevedo questionava o
esporte que era considerado tão desenvolvido e moderno, mas seguia as mesmas retrógradas
práticas da velha sociedade imperial. As fantásticas engenhocas eram um misto de tecnologia
e futurismo que se mesclavam a atitudes há muito condenadas, como as deturpações dos
resultados das corridas. Talvez, essa fosse uma metáfora da “nova” república, que trazia
consigo os vícios do “antigo” regime monárquico.
Mesmo considerando o Rio de Janeiro e Porto Alegre cidades com características um
tanto distintas, percebemos que a criação de clubes associados ao ciclismo e a construção de
velódromos estiveram ligados diretamente à divulgação e à ampliação da sua prática,
principalmente no caso das competições. Por outro lado, existia uma ligação marcante dos
esportistas das duas localidades com a Europa, mas com características distintas. No Rio de
Janeiro, havia uma elite nacional, muito vinculada à antiga monarquia e a uma aristocracia,
que via no ciclismo um esporte refinado e que a ligava aos hábitos considerados superiores e
evoluídos do antigo continente.
Em Porto Alegre, percebemos uma referência à Europa dos antepassados,
principalmente em relação aos teuto-brasileiros, que evocavam seguidamente os benefícios e
as virtudes da cultura do “povo alemão”, em que o associativismo e as práticas corporais eram
valores cultivados. Praticando o ciclismo se cultuava as virtudes dos seus antecessores
europeus, não como uma questão aristocrática como no Rio, mas como uma consideração a
sua antiga “pátria”, como a valorização dos costumes dos seus patrícios, a nostalgia. É
provável, contudo, que, em Porto Alegre, havia praticantes do ciclismo, de várias referências
étnicas. No entanto, essa era uma característica marcante no esporte do Rio Grande do Sul,
não somente com as bicicletas, mas em várias modalidades esportivas.
Aristocrático ou saudoso, o ciclismo em Porto Alegre e no Rio de Janeiro era,
inegavelmente, a representação dos novos tempos - tempos tecnológicos de velocidade e
ciência, sendo a bicicleta e suas competições legítimas representantes desse período.
160

3.2.2 Para o desenvolvimento do esporte, da habilidade e da saúde

Em Porto Alegre, algumas ferramentas extrapolavam os velódromos e, também,


contribuíam para a expansão do ciclismo, realizando uma função de divulgação e instrução
sobre o “andar de bicicleta”. O sucesso das modernas máquinas era tamanho, que tutoriais
eram disponibilizados nos jornais, com o intuito de apresentar dicas e desenvolver maiores
habilidades nos amantes pelo esporte. Sem dúvida, também era uma forma de expandir o
conhecimento acerca das bicicletas, numa tentativa de popularização daquele tão “útil e
agradável” esporte.
Um exemplo do que estamos relatando, é um artigo intitulado: Como se aprende a
montar (A FEDERAÇÃO, 03/07/1899, p. 1). Uma série de orientações foi repassada aos
interessados na prática. A primeira dica exposta encorajava o ciclista. Era imprescindível não
ter medo de cair, além da indispensável instrução de um professor competente e uma bicicleta
de tamanho adequado. De acordo com o tutorial, não se deveria esmorecer rapidamente, pois
com a ajuda de um bom tutor, em um terreno plano ou levemente inclinado, na segunda ou
terceira lição, a pessoa já estaria dominando a técnica. Eram habilidades necessárias
sublinhadas pela matéria que deveriam ser desenvolvidas: o equilíbrio e a posição dos pés, o
modo de segurar o guidão, fazer curvas e apear da máquina (a inclinando; pelo pedal
esquerdo; junto ao passeio das ruas).
Em diversas edições, seguiram as diretrizes, indicando, aos condutores de bicicletas, o
modo de guiar e se portar corretamente. Em uma dessas instruções, lições complementares (A
FEDERAÇÃO, 07/07/1899, p. 2), orientações “mais avançadas” foram dadas aos ciclistas,
visto que havia aqueles que dominavam o modo de conduzir suas máquinas e precisavam
refinar essa habilidade.
De acordo com o periódico, era necessário que o condutor inclinasse ligeiramente o
corpo quando guiasse sua bicicleta, o que era uma atitude, ao mesmo tempo, higiênica e a
mais elegante. No entanto, era uma referência que não deveria ser praticada a todo o
momento. De vez em quando, o ciclista deveria descansar e evitar as curvaturas resultantes de
uma posição imutável. Outros detalhes de ajustes foram assinalados - A ponta da sela deveria
ficar a 10 centímetros atrás da linha vertical que passa pelo eixo da manivela. A altura da sela
deveria ser tal que, na posição mais baixa do pedal, o joelho ficasse levemente curvado. A
posição do guidão deveria ser um pouco acima da sela, braços estendidos e ligeiramente
arqueados, segurando naturalmente os punhos, sem fadiga e sem inclinação. A posição dos
161

pés nos pedais, para um máximo de força com um mínimo de fadiga, deveria ser de tal forma
que a parte mais larga correspondesse ao eixo dos mesmos. Também faziam parte do processo
de ensinamentos o procedimento de frenagem, ou até mesmo a forma necessária para
conseguir abandonar as mãos do guidão, caso fosse inevitável espantar algum inseto ou
consultar o roteiro de viagem. (A FEDERAÇÃO, 07/07/1899, p. 2)
Os tutoriais presentes nos periódicos destacavam detalhadamente as aptidões
necessárias aos ciclistas. É inevitável perceber que essa prática ganhava cada vez mais espaço
entre os desportistas do final do século XIX, e isso podia ser percebido pelo grande espaço
que ocupavam e o destaque que recebiam na imprensa.
Aliado a essa prática que associava a força e a habilidade humana à tecnologia
inerente a essas máquinas, a eclosão de um comércio especializado também podia ser
percebido. Quando a indicação tratou sobre os detalhes necessários à compra de uma
bicicleta, sob o título como se deve comprar uma bicicleta (A FEDERAÇÃO, 11/07/1899, p.
1), a existência de um refinado varejo pôde ser constatada. Interessante observar que a
atividade esportiva também estava coligada à comercial. Para A Federação, o negociante,
geralmente, também era o proprietário do velódromo, onde também havia o aprendizado da
habilidade e, consequentemente, a tentativa de comercialização do produto. Uma estrutura de
aprendizado se ligava à comercial. Como era uma atividade relativamente nova, era
necessário o ensino da habilidade. Desenvolver o gosto no esportista/cliente para
comercializar o produto se fazia fundamental para a expansão do esporte.
Portanto, a imprensa chamava a atenção para que os esportistas não caíssem na
tentação e na lábia de vendedores mal intencionados, que poderiam fazer com que o ciclista
menos experiente fosse enganado. Dessa forma, nunca se deveria comprar uma bicicleta sem
saber montar (guiá-la) com desembaraço, para não estragá-la em demasia e de forma
prematura. Era desaconselhável comprar uma bicicleta antes de ter se informado com um
ciclista experiente ou qualquer livro que tratasse do assunto sobre as condições especiais que
a máquina deveria preencher, não só quanto ao indivíduo como a região em que ela deveria
servir, plana ou acidentada, pavimentada ou não.
É de notável relevância a importância que era dada a uma série de ajustes em relação
ao condutor e ao objetivo da bicicleta, o que representava um considerável desenvolvimento
tecnológico e ergonômico, onde as questões do desempenho e da saúde estavam associadas,
como a relação entre o tamanho do quadro e do ciclista para um maior desempenho e bem
estar. E, de fato, um respeitável comércio em torno da atividade parecia existir à época, visto
as possibilidades expostas.
162

Imagem 11: Jornal do Commercio, 25/05/1899, p. 2.

Até mesmo os aspectos técnicos das condições de velocidade eram expostos,


demonstrando grande desenvolvimento científico na sua elaboração. A física, relativa à
velocidade, e a relação entre a pedalada, o giro completo (desenvolvimento), eram explicados,
assim como os tamanhos das engrenagens que poderiam ser utilizadas para que o desempenho
se alterasse. Além dessas características que deveriam ser levadas em conta na hora de se
adquirir uma bicicleta, existia outros requisitos que a máquina deveria preencher, como ter um
peso adequado: 11 a 12 quilogramas para uma mulher e 13 para um homem mediano. Um
obeso não deveria hesitar em pedir a adição de um segundo tubo reto na sua máquina. Da
mesma forma, havia uma medida correta da relação entre o tamanho da bicicleta e do ciclista,
que deveria corresponder à altura do entre-pernas do ciclista, entre outras medidas, com a
altura do selim. “Em suma, a altura mínima será aquela em que o ciclista colocando a axila
(sovaco) na ponta da sela e espichando o braço toque com a extremidade dos dedos no eixo da
manivela dos pedais”. (A FEDERAÇÃO, 19/07/1899, p. 1)
A compra de uma bicicleta com medidas não condizentes com a estatura do
desportista causaria uma série de incômodos. A insuficiência de altura obrigaria o ciclista a
dobrar demasiadamente o joelho, causando constrangimento e fadiga. O pedal deveria ser
163

estreito, para o espaço entre as pernas ser o menor possível. As manivelas deveriam ser
compridas, pois permitem maior desenvolvimento da força. Os punhos deveriam ser fixos no
interior dos tubos do guidão. Um guidão largo era conveniente, não só porque facilitava o
amplo desenvolvimento do peito, como também, porque quando a máquina for munida de
freio, o extremo da alavanca desse, situado embaixo do mesmo, não ferirá o joelho do ciclista.
(A FEDERAÇÃO, 19/07/1899, p. 1)
Não sabemos se, de fato, as orientações publicadas eram levadas em consideração
pelos desportistas na hora da aquisição de uma bicicleta, ou mesmo, se todas essas
possibilidades de escolha existiam no comércio de Porto Alegre, no final do século XIX e
início do XX, o que seria bem difícil. No entanto, é fácil notar que existia um
desenvolvimento tecnológico extremamente refinado e, ao menos, um conhecimento sobre a
prática que era disseminada, também, através dos jornais. Um desses casos foi a orientação da
relação existente entre o tamanho do quadro da bicicleta com a estatura do ciclista. Toda uma
argumentação teórica acerca do equilíbrio, segurança e do desempenho foi relatada. Da
mesma forma, orientações técnicas sobre reposição de peças eram repassadas, como o pedal,
as rodas, o comprimento das manivelas, os punhos, o guidão, os freios... Até mesmo noções
de mecânica eram evidenciadas nas páginas dos jornais. Dessa forma, os periódicos se
tornavam, momentaneamente, publicações especializadas no ciclismo, visto a quantidade de
informações e detalhes fornecidos. (A FEDERAÇÃO, 19/07/1899, p. 1; A FEDERAÇÃO,
21/07/1899, p. 1)
Acontece que o ciclismo era representante de um conjunto de ideias inseridas em um
contexto de modernização. A tecnologia das máquinas, sem dúvida, era um dos principais
atributos desse tão famoso esporte. Neste contexto, sua prática era tão incentivada, pois
também nela se via um caráter útil e saudável, características marcantes dos esportes
modernos.
Inúmeros eram os argumentos apresentados em Porto Alegre para legitimar a sua
prática, um verdadeiro discurso científico a seu favor. Justificativas que ajudavam ainda mais
na sua popularização. Recorridas eram as afirmações de que o exercício da bicicleta imprimia
felizes modificações no organismo e, por isso mesmo, tinha correspondência notável e muito
favorável sobre as massas cerebrais e sobre todas as fibras nervosas que delas se derivavam.
Sublinhavam que o esporte velocipédico era um estimulante do cérebro, sendo que esse,
utilizado de forma regular e frequente, era o mais agradável calmante da excitabilidade
nervosa e dos nervos, repousava da fadiga e excitava ao trabalho (CORREIO DO POVO,
09/04/1899). Ratificando ainda mais os valores do ciclismo, até mesmo resenhas de artigos
164

científicos eram publicados, como A influência do bicyclete a propósito da saúde e da doença


(A FEDERAÇÃO, 11/03/1895, p.1), vinculado à Academia de Medicina de Nova York.
Ainda de acordo com os periódicos porto-alegrenses, com a prática do ciclismo, o
sono tornava-se calmo e fácil; as faculdades intelectuais retomam toda sua intensidade, a
memória, muitas vezes enfraquecida, torna-se mais precisa e mais rápida, a alegria substitui a
tristeza, a sociabilidade substitui a hipocondria. Agregado a essas “prescrições” biológicas, a
sensação salubre que a bicicleta provocava no ciclista, retirando-o do sedentarismo. De
acordo com as descrições da época, em alguns minutos, sua máquina o transportaria a regiões
incessantemente renovadas, fornecendo-lhe sensações novas e fazendo desaparecer as
preocupações cotidianas, cuja atenção tanto abate o sistema nervoso. (CORREIO DO POVO,
09/04/1899, p. 1)
Colaborando ainda mais com essas premissas, o ciclismo era visto como o vetor de
uma ação benéfica, com um caráter essencialmente higiênico. E, dentro desse contexto, um
olhar especial era dado à participação feminina nessa modalidade. Se a presença das mulheres
era incentivada, também a elas era dada atenção especial, visto as suas características (e
sensibilidades) únicas.
Um artigo do jornal Correio do Povo, de 07 de junho de 1899, debateu, justamente, as
especificidades femininas nos exercícios junto às bicicletas. Às mulheres, eram colocadas
razões favoráveis para a prática do ciclismo, já que elas sofriam frequentemente de anemia e
de perturbações nervosas, que eram a consequência direta ou indireta da falta de exercício e
do seu viver sedentário. Aquelas consideradas mais ativas, não tinham tanta necessidade dos
exercícios.
Os velocípedes eram indicados como um poderoso regulador das funções digestivas.
Sua prática era julgada como um exercício atraente, moderno, de fácil aprendizado e para o
qual as mulheres poderiam ter a companhia de seus irmãos ou de seus maridos. De acordo
com o anúncio, os médicos, aconselhando o exercício, só teriam motivos para se felicitarem
por ter as suas recomendações atendidas. Até mesmo as mulheres menos habituadas a
qualquer sorte de exercício (excetuado o da dança) tornavam-se capazes de resistir seriamente
à fadiga produzida pela máquina, depois de um uso muito moderado.
Ainda, a prática do ciclismo era mais indicada que outros esportes, como a equitação.
Os saltos sobre a sela faziam recair o peso das vísceras sobre a madre (útero), a cada
movimento do animal, inconveniente que não existia na bicicleta, munida de pneumáticos. O
ciclismo era a única atividade esportiva permitida às representantes femininas.
165

No entanto, os passeios sobre estradas mal calçadas não eram adequados às mulheres,
pois ofereciam os mesmos inconvenientes da equitação. Via de regra, a bicicleta tinha uma
influência favorável sobre a frequência das regras, sobretudo quando elas são, em demasiado,
espaçadas, e também sobre as dores que são, a miúdo, acompanhadas.
No mesmo artigo, um tópico especial destacava, entre as mulheres, as Condições
necessárias para que o ciclismo não seja perigoso (CORREIO DO POVO, 07/06/1899, p.1).
Outros cuidados deveriam ser tomados, como abster-se absolutamente de andar de bicicleta
enquanto estiver incomodada e com suspeita de gravidez. Esta interdição era particularmente
imperiosa para as mulheres cuja madre tinha tendência a descer. Esse cuidado deveria ser
redobrado no período do aprendizado, onde um esforço maior era requerido. Também era
conveniente insistir sobre o perigo do ciclismo durante as regras e no começo da gravidez,
visto os perigos inerentes ao feto, nesse caso.
O zelo com as mulheres deveria ser categórico. Mesmo que tomadas as devidas
prevenções, os cuidados com o “belo sexo” eram imperativos. Até mesmo os parteiros
opinavam sobre o assunto. Eles autorizavam o exercício somente àquelas mulheres cujo útero
estava em retroversão (útero invertido). Era prudente que as mulheres se abstivessem do
ciclismo durante os dois primeiros meses que se seguiam ao parto. Ainda, as que
amamentavam não deveriam andar de bicicleta ou, pelo menos, não deveriam se entregar a
esse esporte, senão por poucos momentos e andando com muita moderação, a fim de que o
exercício não provocasse uma transpiração abundante e secasse, ao menos temporariamente, a
secreção láctea.
Também existiam indicações sobre o tipo de roupa que as mulheres deveriam usar,
assim como divergiam opiniões sobre o tipo do quadro (estrutura) da bicicleta a ser
empregado. No entanto, o mais sensato sempre era escolher uma máquina de pequena
complicação, e que, na marcha, não excedesse as condições indicadas. (CORREIO DO
POVO, 07/06/1899, p.1)
Seguindo uma tendência que estava em voga não somente no Rio Grande do Sul,
como pudemos perceber, mas também na Europa e no Rio de Janeiro, as praticantes femininas
do ciclismo, cada vez mais, ampliavam sua participação no esporte, rompendo paradigmas.
Na capital fluminense, essas mudanças tinham ligação direta com uma nova dinâmica social
fin de siècle. Melo e Schetino (2009) depõe no sentido de que essas alterações estavam
vinculadas a um processo de urbanização e desenvolvimento de um melhor sistema de
transporte que convidava as mulheres à rua, aumentando suas possibilidades de mobilidade,
criando contrapontos à tradicional ideia de confinamento doméstico. Nesse período, tornou-se
166

cada vez mais comum a presença feminina nas competições esportivas, nos teatros e nos
salões.
No século XIX, eram raras competições que continham mulheres como competidoras.
Alguns páreos envolviam crianças, meninos e meninas, preferencialmente em datas festivas.
Houve, no Rio de Janeiro, algumas disputas mistas, em bicicletas para dois ocupantes,
chamadas de tandens, conduzidas por um casal. Essas corridas se deram no Frontão
Velocipédico Fluminense, também chamado de Velo-Sport, que foi fundado no ano de 1897.
A direção do velódromo estava a cargo do ciclista francês, Victor Laborde, que procurava
colocar em prática algumas ideias avançadas e inovadoras para a época, com o objetivo de
diferenciar o seu estabelecimento. Justamente, somente temos referência de competições
femininas no referido local. (MELO e SCHETINO, 2009)
Porto Alegre se associou ao Rio de Janeiro no que se refere a inúmeras percepções da
participação feminina no esporte. Se, por um lado, a beleza das mulheres era exaltada de
forma unânime, a fragilidade corporal do “belo sexo” também era reforçada. Ao mesmo
tempo em que os exercícios com as bicicletas eram recomendados, cuidados especiais
deveriam ser tomados. Melo e Schetino (2009) sublinham que o caráter masculino dos clubes
de ciclismo, no Rio de Janeiro, era realmente preponderante. Ratificamos essa característica
em Porto Alegre.
Fora do âmbito dos clubes, as fluminenses de famílias ricas já começavam a circular
pela cidade. Existiam até mesmo roupas específicas para estas amadoras que se dedicavam a
pedalar, inspiradas na moda parisiense. “Vestimentas elegantes, direcionadas às mulheres de
elite, expressando a ideia de que o andar de bicicleta deveria ser encarado como um passeio,
momento em que se expressaria a beleza, a elegância e delicadeza” (MELO e SCHETINO,
2009, p. 129).
No Rio Grande do Sul, tivemos acesso a longos artigos jornalísticos preocupados com
a “inclusão” das mulheres no ciclismo, em que a atenção quanto às especificidades femininas
foi latente. Se elas não eram visualizadas enquanto desportistas de alto rendimento, eram, por
sua vez, definidas como importantes presenças nos velódromos de Porto Alegre. Até mesmo
se pregava uma maior possibilidade de entretenimento nos locais de competição, visto as
distintas demandas propostas pelas mulheres. Para uma ampliação dos divertimentos, bandas
de música eram requeridas para que a monotonia das corridas fosse amenizada e o gosto pelo
esporte incentivado, o que já era praticado por grande parte dos clubes de outras modalidades
esportivas da época. O jornal A Federação, de 09 de maio de 1900, destacou que, além das
centenas de sócios que não eram ciclistas, muitos frequentadores dos velódromos eram
167

mulheres que não eram praticantes, e por isso seria interessante o aumento no número de
atrações. (A FEDERAÇÃO, 09/05/1900, p. 2)
Da mesma forma, no Rio de Janeiro, a presença feminina nos belódromos era vista
como uma maneira de embelezar o espetáculo. Por vezes, até mesmo a responsabilidade de
ornamentar o local cabia a elas (MELO e SCHETINO, 2009). Porto Alegre ou Rio de Janeiro,
inseridos em um processo de modernização e desenvolvimento de uma indústria do
entretenimento e dos esportes, favoreceram e incentivaram a participação feminina no
ciclismo. Os velódromos e os clubes foram as principais ferramentas no processo de
ampliação da prática do ciclismo, mesmo que este não se restringisse somente às pistas de
corrida. Enfim, as tecnológicas e velozes bicicletas, assim como a recente participação do
“belo sexo”, traduziam esse período fin de siècle em que o ciclismo era legítimo
representante.
168

Considerações Finais

Quando uma investigação deixa de ser mera suposição, para, lenta e gradativamente,
tomar corpo, método, documentação, e se tornar uma tese, muitas são as afirmações anteriores
que se transformaram em dúvida, assim como novos desfechos incrementaram ainda mais um
tema que, mesmo anteriormente à averiguação empírica, já indicava um prisma um tanto
diverso e complexo. De fato, essa multiplicidade de variáveis se confirmou.
Para comparar a formação e o desenvolvimento do campo esportivo no século XIX em
realidades tão diversas, como Porto Alegre e Rio de Janeiro, foi preciso compreender a
formatação e a estrutura de funcionamento das duas urbes com características distintas, em
uma conjuntura de um país que teve, naquela ocasião, inúmeras mudanças de caráter político,
social e cultural. No século XIX, o Brasil deixou de ser colônia, foi monárquico e depois
republicano.
O período oitocentista também foi o palco do fim do trabalho escravo, assim como da
chegada massiva de imigrantes europeus. O país se reconfigurou em muitos aspectos. Essa
etapa também assistiu a uma intensa urbanização e à influência das ideias de modernidade
que, no Brasil, atuaram em uma série de mudanças em diversos níveis, o que incluiu, por sua
vez, o desenvolvimento esportivo.
Acontece que Porto Alegre e o Rio de Janeiro eram distintas cidades com
funcionamentos, status e realidades diferenciadas. Não cabe aqui discutirmos novamente as
peculiaridades de cada local, o que já foi debatido no desenvolvimento desta tese. No entanto,
para que o fenômeno da esportivização e do desenvolvimento de todo um campo em torno dos
esportes acontecesse, processos tão singulares quanto às características que compõe estas
cidades se engendraram.
É inevitável perceber e confirmar que ambos os locais desenvolveram uma série de
práticas esportiva no decorrer do século XIX. No entanto, o caminho e a maneira como esse
processo se expandiu foi, muitas vezes, um tanto distinto. No período analisado, o Rio de
Janeiro foi a cidade mais importante do país. Enquanto capital fluminense, foi o principal
ponto de confluência e contato entre o Brasil e a Europa. Justamente essa grande variedade de
influências e o status de principal cidade brasileira ajudaram a fazer do Rio a precursora na
169

maioria das práticas esportivas. Não é de total exagero declarar que, na maioria das vezes, o
que acontecia no resto do Brasil já havia passado pela sua capital.
Nesse sentido, Porto Alegre apresentava características incomuns que podiam, de certa
maneira, fazer dessa cidade um caso particular. A principal urbe do Rio Grande do Sul era
(como ainda é), fisicamente, muito mais próxima de outras capitais e grandes cidades dos
países vizinhos Uruguai e Argentina, que do Rio de Janeiro, favorecendo uma integração
muito grande entre elas. O caso é que, no século XIX, já existia uma relevante rede de
divertimentos itinerante, profissionalizada, que não raramente percorria vários países. Alguns
desses artistas, “gymnásticos”, esportistas, tinham origem no velho mundo e circulavam nesse
meio.
Porto Alegre pode ter se beneficiado da proximidade com importantes cidades de
países próximos e tido acesso a atrações de uma indústria do entretenimento em crescimento e
cada vez mais potente que percorria um circuito que incluía as capitais platinas, cidades do
interior do Rio Grande do Sul, para depois seguir em direção à capital da corte, devido a
questões de proximidade geográfica. Esse é o caso dos circos e companhias tauromachicas,
por exemplo.
Não podemos minimizar, também, o fato do Rio Grande do Sul ser um território
fronteiriço e, dessa forma, estar permanentemente em contato com a cultura estrangeira. No
caso, Uruguai e Argentina, de colonização majoritariamente hispânica, não podem ser
desprezados quando se pretende compreender a formação identitária do Rio Grande do Sul.
Outra condição que demarca definitivamente distinções em relação aos esportes nestas
duas cidades são as práticas que envolvem animais. É nos divertimentos/esportes onde existe
a utilização de animais que essa diversidade se torna mais clara, destacando aspectos culturais
e históricos regionais, assim como os distintos arranjos das ideias de modernidade nas duas
cidades.
Ao tratarmos do turf ou das touradas na cidade de Porto Alegre, percebemos uma
realidade onde a intimidade com os cavalos e os touros era naturalizada. Independentemente
da origem étnica do morador da capital do Rio Grande do Sul, a proximidade do povo que ali
habitava com gado bovino ou equino foi uma característica histórica percebida de forma
contundente no cotidiano porto-alegrense. Porto Alegre, mesmo crescendo, recebendo
imigrantes estrangeiros, sendo o polo regional mais importante do estado, também era a área
de interseção entre o Rio Grande do Sul pecuarista, latifundiário e escravista, com a região
que tinha, como característica, a agricultura imigrante europeia de pequena propriedade rural
e mão de obra familiar, assim como a urbanidade de uma cidade cada vez mais importante no
170

cenário regional e nacional. O peão de estância convivia com o tropeiro, com o escravo, com
o descendente de português, com os bacharéis e doutores da Universidade do Rio Grande do
Sul, assim como se relacionava com o grande número de imigrantes e descendentes
germânicos, os teuto-brasileiros. Essa realidade, influenciada progressivamente pelos ideais
modernos, se adaptou às condições encontradas. Porto Alegre recebeu, e aplicou de maneira
única, as novas ideias vindas d´além-mar, que poderíamos, até mesmo, apelidar de
“modernidade à gaúcha”.
Nessa confluência de diferentes pensamentos, culturas e tradições, os cavalos crioulos,
mestiços, eram tão exaltados quanto os puro-sangue ingleses. A maneira de montar do gaúcho
era questionada, já que, em poucos detalhes, se aproximava do jeito europeu de cavalgar. Ao
mesmo tempo, o jockey, ou o ginete sul rio-grandense, fora apelidado de “centauro dos
pampas” em referência a sua habilidade destacada. As touradas, para os gaúchos, significaram
a disciplinarização e a espetacularização daquilo que aqueles que lidavam com o gado
diariamente faziam: uma demonstração de coragem, habilidade e destreza do homem sobre o
animal selvagem e, inúmeras vezes, mais forte e pesado.
Percebemos que, no Rio de Janeiro, os mesmos esportes que fizeram sucesso no sul do
Brasil, também atraíram grande público na capital do país. No entanto, a compreensão e a
significação dessas práticas foram diferenciadas. Enquanto, no Rio Grande do Sul, o cavalo e
as disputas entre eles estavam relacionados diretamente com o cotidiano campeiro, onde o
animal e o homem possuíam uma relação muito próxima, no Rio de Janeiro essas disputas
estavam ligadas a uma representação associada, principalmente, à aristocracia, à nobreza e à
manutenção de um status superior.
É importante lembrar que o Rio de Janeiro, mesmo sendo uma cidade densamente
populosa para a época, tinha como característica marcante ser a sede da corte no Brasil. Essa
aristocracia era composta, na sua maioria, por integrantes de origem europeia ou que, pelo
menos, estavam muito mais próximos dos hábitos cultuados no velho continente do que das
camadas populares brasileiras. Dessa forma, o cavalo ainda tinha um nobre simbolismo que o
remetia às práticas da fidalguia europeia e dos esportes ingleses. Não estamos descartando
que em Porto Alegre esse sentimento não existisse, mas, no Rio Grande do Sul, essas
atividades não identificavam uma representação tão arraigada quanto no Rio de Janeiro, se é
que existiam.
Da mesma forma, as touradas se apresentavam na capital fluminense como práticas
mais exóticas que no sul brasileiro. Em Porto Alegre, até mesmo um “tourito” era oferecido
para crianças brincarem, o que demonstrava o quão familiarizados eram os infantes. No
171

entanto, existem alguns pontos de convergência entre as corridas de touro do sul e do sudeste.
Uma das principais aproximações eram as companhias tauromachicas que, salvo exceções,
eram as mesmas que transitavam entre as duas capitais. Também era comum existir um perfil
beneficente em muitas apresentações, talvez com o intuito de reforçar o caráter progressista e
civilizado das touradas, já que, tanto no Rio de Janeiro quanto em Porto Alegre, essas práticas
eram combatidas por aqueles que eram partidários de atividades “humanitárias” e “evoluídas”
não “selvagens” ou “ultrapassadas”, como frequentemente as corridas eram rotuladas.
Quando tratamos dos esportes que tem a água como seu palco principal, Porto Alegre
e Rio de Janeiro se aproximam no sentido de que essas foram práticas muito difundidas nas
duas capitais. Para além do Oceano Atlântico ou do Guaíba, da água salgada ou da doce, a
destacada diferença na prática dessa modalidade estava no perfil dos seus praticantes. De
acordo com nossa pesquisa, o Rio de Janeiro possuía uma superioridade numérica na
quantidade de associações ligadas às regatas. Essa maior quantidade de clubes também se
demonstrava na variedade de seus praticantes. Se é correto afirmar que o Rio de Janeiro
possuía, na sua formação étnica, uma diversidade muito mais significativa que Porto Alegre,
também é possível inferir que essas características estavam presentes no remo, mesmo que
houvesse agremiações identificadas com alguma origem étnica, como o Clube de Regatas
Vasco da Gama com os portugueses, por exemplo.
Em Porto Alegre essa particularidade é muito mais definida com relação aos
“alemães” e os “outros”. Conforme demonstramos nesta tese, o Rio Grande do Sul teve uma
colonização germânica intensa, que pode ser percebida acentuadamente na sua formação
esportiva. Não podemos afirmar que existiram somente clubes de regatas associados aos
alemães em Porto Alegre, mas esses foram de extrema relevância para o desenvolvimento das
competições de remo. Essa forte presença teuto-brasileira, causou, inclusive, debates
acalorados acerca do perfil desses clubes e a possibilidade de participação de “brasileiros” ou
não nas suas atividades. No Rio de Janeiro não apreendemos essa bipolarização, assim como
debates étnicos também não foram verificados.
Essa forte referência étnica ligada aos alemães em Porto Alegre também pode ser
percebida no ciclismo, assim como nos clubes de ginástica e outras associações que não
abordamos nesta tese, mas que tivemos acesso à documentação, como clubes de tiro, caça e
bolão. Essa, sem dúvida, é uma das principais características que diferenciava Porto Alegre do
Rio de Janeiro. A capital brasileira, enquanto cidade de maior destaque no país, recebia
distintas influências, pessoas de muitos lugares do mundo, era a sede da corte e não
172

apresentava referência étnica que tivesse relevante evidência nas práticas esportivas,
diferentemente do destaque germânico no Rio Grande do Sul.
Não temos dúvida da relevância da influência teuto-brasileira no desenvolvimento
esportivo em Porto Alegre. Todavia, esta destacada dimensão percebida neste estudo pode ser
o resultado do tipo de documentação utilizada que se insere em um determinado contexto
histórico e social. Conforme revelamos na introdução desta tese, temos total consciência dos
limites das fontes operadas. Estamos cientes que os periódicos explorados são incapazes de
perceber toda a complexidade local daquele período, característica inerente a qualquer tipo de
fonte que fosse investigada. No entanto, os dados obtidos e analisados neste trabalho são
frutos das possibilidades e das características de um determinado tipo de informação,
produzidos em um específico contexto e que não deixam de apresentar importantes
constatações que não são as únicas, mas que fazem parte de um complexo quebra-cabeça que
cabe, dentro das possibilidades, ao historiador remontar.
À vista disso, acreditamos que a constituição do campo esportivo em Porto Alegre
possa conter ainda mais peculiaridades que deverão ser investigadas. Certamente, com o
acréscimo de novas fontes de diferentes perfis, a compreensão deste distinto processo será
enriquecida. Este é um desafio que está posto e que, certamente, será enfrentado nos próximos
anos. A presente tese não é um resultado final, mas o princípio de uma intensa jornada.
Com características únicas, Rio de Janeiro e Porto Alegre presenciaram, ou melhor,
participaram do processo de instituição e desenvolvimento do campo esportivo, no século
XIX, no Brasil. Essas práticas modernas e modernizantes encontraram ambientes fecundos,
mas diversos para a sua prosperidade. Inseridas em realidades diferenciadas, as práticas
esportivas se adaptaram, se moldaram às condições de cada local e, de formas diferenciadas,
conquistaram o gosto tanto dos fluminenses quanto dos gaúchos. As ideias de modernidade e,
neste contexto, a indústria do entretenimento, se desenvolveu inserida em uma conjuntura
inerente à época que atingiu tanto o Brasil quanto grande parte do mundo ocidental.
No entanto, a modernidade e os esportes se espraiaram e se transformaram a partir de
diversas realidades. As próprias companhias itinerantes, que atuavam tanto em Porto Alegre
quanto no Rio de Janeiro, buscavam e sabiam se moldar aos diversos públicos regionais.
Concomitantemente, o sul e o sudeste do país assumiram e adaptaram os esportes as suas
demandas e características. O pensamento moderno irrompeu em ambas as cidades. Sendo um
dos representantes dessa nova realidade, o esporte assumiu uma relevante função que
conjugou práticas cada vez mais populares e passou a fazer parte do cotidiano e a estar
marcado perpetuamente na história destas cidades e do Brasil.
173

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