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DERMOFARMÁCIA

Manipulação de “Peelings”
com Ácido Tricloroacético
Os peelings estão entre os procedimentos estéticos
mais antigos e mais utilizados por dermatologistas. 1 Po-
rém os peelings químicos estão crescendo em popularida-
de com novos agentes, fórmulas e métodos que lhes dão
maior confiabilidade e segurança.2
Os peelings químicos são classificados em três tipos:1
 Superficiais, atuando na epiderme;
 Médios, atuando até o nível das papilas dérmicas;
 Profundos, atuando até a derme reticular.
A profundidade dependerá do tipo de substância usa-
da, concentração e associações feitas.3
O ácido tricloroacético (ATA) é um agente de peeling
químico de uso comum na medicina 4 sendo considerado
um dos ativos consagrados na dermatologia, 3 devido à sua
segurança, pois não provoca toxicidade sistêmica ou rea-
ções alérgicas. Sua probabilidade de induzir hiperpigmen-
tação é menor se comparada a outros procedimentos,
apresentando também a vantagem da versatilidade, seja
pelo fato de se apresentar sob inúmeras concentrações,
Luis Antonio Paludetti a,b
Juliana Silva Garciaa bem como ter resultado camada-dependente.5,3
São Paulo – Brasil
O ATA é um ativo que não pode ser usado em cosméti-
cos, restringindo-se somente a formulações dermatológi-
cas, geralmente manipuladas em farmácia.3 Sua concen-
tração varia entre 10 e 70% conforme a necessidade.4
Ribeiro considera um peeling leve nas concentrações entre
a
Farmacêuticos, Rx Consultoria 10 e 15%, moderado 20-45% e severo > 45%. O processo
b
Professor de Farmacoténica, Universidade de de aplicação da substância é perfeitamente controlável e
Santo Amaro - UNISA facilmente reprodutível, porém há uma queixa no meio

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médico: os mesmos peelings feitos em diferentes farmácias promovem efeitos diferentes.6 Há de fato vari-
ações importantes entre soluções de ATA de acordo com o método de preparação empregado. 6 É necessá-
rio padronizar um método único para obter soluções constantes. 6

É comum o médico prescrever:

Ácido Tricloroacético: X%
Mandar 100 mL

O médico não especifica o método de preparo, por não estar familiarizado com massas moleculares,
dosagens e unidades de concentrações. Provavelmente também desconhece as características da matéria
prima como, sua higroscopia, aspecto físico e sua solubilidade. Sendo responsabilidade de o farmacêutico
informar ao médico a concentração final do produto.6
Uma prescrição desta pode causar confusão no momento do aviamento, pois há três métodos de pre -
paração: massa/massa, massa/volume e volume/volume.
Neste artigo apresentamos como padronizar o método mais fácil e de maior precisão.

MÉTODO MASSA/MASSA
Este método consiste em pesar uma massa de ATA e adicionar uma massa de água para obter uma
massa final igual a 100 g. O volume apresentado no final será inferior a 100 mL, porém haverá uma per-
centagem real de massa de ATA sobre a massa da mistura.
Acreditamos que este método é mais fácil e preciso apesar dos cálculos que serão necessários para avi -
ar a prescrição médica que geralmente vem em mL, mas devemos reconhecer que é mais difícil obter com
precisão um volume do que uma massa, pois a precisão da proveta é inferior que à precisão da balança,
por isso sugerimos este método para padronização.6

UM DESAFIO PARA O FARMACÊUTICO


Entretanto, este método apresenta um desafio: como entregar uma determinada quantidade de pro-
duto em massa, quando o médico prescreveu em mL? Qualquer farmacêutico atuante sabe que é difícil
explicar para o paciente que 100 g de produto são diferentes de 100 mL. Além disso, a prescrição é em mL
e assim deve ser aviada.

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RESOLVENDO O PROBLEMA
O ATA é um pó cristalino que, uma vez pesado, apresenta um volume que depende do tamanho das
partículas. Quando dissolvemos este pó em água, aumentamos o volume da solução final de um valor
constante que depende da característica do pó, e da quantidade pesada. Este comportamento é descrito
com a seguinte equação:

V = mATA x α + Va,
f

Vf é o volume final da solução aquosa de ATA em mL


α é o coeficiente de deslocamento do ATA em água; constante independente da concentração, e cujo valor é
aproximadamente 0,6.
Va é o volume de água em mL ou a massa em g.
mATA é a massa de ATA em g.

Assim é possível calcular a quantidade de ATA e de água necessária para aviar qualquer prescrição para
peeling de ATA. Por exemplo, o médico deseja 100 mL de solução de ATA a 60%

Vf = mATA x α + Va
Vf = (60 x 0,6) + 40
Vf = 76 mL

Ou seja, quando adicionamos 60 g de ATA à 40 g de água obteremos uma solução 60% (m/m) mas o vo -
lume final será de 76 mL. Entretanto, a nossa prescrição solicita um volume final de 100 mL. Se fizermos
relação de 100:56 = 1,315789, teremos o fator de correção da percentagem:

mATA = 60 x 1,315789
mATA = 78,96 g

Aplicando as informações novamente na equação, teremos

mATA x α = Vf - Va
78,95 x 0,6 = 100 - Va
Va = 52,63 g

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Para efetuar a manipulação, então, teremos de pesar 52,63 g de água e 78,95 g de ATA, obtendo
100 mL de uma solução com ATA 60% (p/v).
Este método é considerado o mais seguro e prático para obter uma solução de ATA com a percentagem
exata solicitada pelo prescritor. Para facilitar a padronização deste método na farmácia, a tabela 1 apre-
senta as massas de ATA e água necessária para obter 100 mL de soluções de ATA com diferentes concen-
trações.
Tabela 1: Massas de ATA e de Água para obter 100 mL
% ATA Desejada (p/v) Massa ATA Massa Água
5 5,10 96,94
10 10,42 93,75
15 15,96 90,43
20 21,74 86,96
25 27,78 83,33
30 34,09 79,55
35 40,70 75,58
40 47,62 71,43
45 54,88 67,07
50 62,50 62,50
60 78,95 52,63
70 97,22 41,67
80 117,65 29,41
90 140,63 15,63

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. Fischer TC, Perosino E, Poli F, Viera MS, Dreno B. Cosmetic Dermatology European Expert Group.
Chemical peels in aesthetic dermatology: an update 2009. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2010,
24(3): 281-92.
2. Oremović L, Bolanca Z, Situm M. Chemical peelings--when and why?. Acta Clin Croat. 2010, 49(4):
545-8.
3. RIBEIRO CJ, Cosmetologia Aplicada à Dermoestética. 2. Ed. – São Paulo: Pharmabooks Editora,
2010, p. 261-268.
4. ZANINI M. Gel de ácido tricloroacético - Uma nova técnica para um antigo ácido. Med Cutan Iber
Lat Am 2007; 35(1): 14-17.
5. RUIZ RO, MARQUES BPA, ORGAES FAFS, GONELLA HA. Estudo comparativo: analgesia tópica pós-
peeling facial médio com ácido tricloroacético (ATA) a 30% utilizando água destilada e heparina
sódica tópica em spray (Alimax®)*. Rev. Bras. Cir. Plást. 2008; 23(2): 67-70.
6. GASTON-MARICOURT JTH. “Peeling” de ácido tricloroacético: Manipulação em farmácias. Revista
Anfarmag. 1997, (15): 4-6.

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