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A TIRANIA DO URGENTE

Você já desejou, por acaso, que o dia tivesse 36 horas? Certamente esse tempo extra
aliviaria a pressão tremenda sob a qual vivemos hoje em dia. Pense bem na quantidade de
tarefas inacabadas que terminaríamos num dia mais comprido, correspondência atrasada,
amigos por visitar, livros ainda não lidos, artigos para o jornal não escritos. Poderíamos, até
usar essas horas extras para ganhar um pouco mais de dinheiro que nos ajudaria a pagar as
despesas próprias da vida universitária.
Será que tais horas extras resolveriam o nosso problema? Ou seríamos tão frustrados
com um dia de 36 horas como o somos com dias de 24 horas? Quando paramos e
meditamos profundamente compreendemos que o nosso dilema é muito mais profundo do
que uma simples questão de tempo limitado; basicamente, uma questão de prioridades.
Não é a falta de tempo, nem o trabalho árduo que desgasta nossas forças. Todos nós
já experimentamos trabalhar horas a fio, totalmente entregues a um projeto importante. O
cansaço resultante dessa atividade é completamente recompensado pela alegria proveniente
de um empreendimento bem sucedido. Não o trabalho laborioso, mas sim, a dúvida e a
indecisão produzem a ansiedade, e, daí sentimo-nos deprimidos pela soma de tarefas não
realizadas do mês ou do ano que se passou. Aos poucos vamos percebendo que deixamos de
fazer o que realmente era importante. E assim que confessamos, à parte da confissão dos
nossos próprios pecados, que “deixamos de fazer o que devíamos; e fazemos o que não
devíamos”. A grande verdade é que somos arrastados pelo vendaval das exigências da nossa
sociedade para os recifes da frustração
Há alguns anos atrás, certo gerente de uma algodoeira, disse-me: “O maior perigo
que corremos é o de que as coisas urgentes venham sufocar aquelas que são realmente
importantes”. Provavelmente ele não sabe quão profundamente esta frase moral me atingiu.
Muitas vezes, essas mesmas palavras tem me perseguido e até me reprovado, por colocar
diante de mim o problema crítico das prioridades.
Vivemos numa tensão constante entre o urgente e o importante. O problema está em
que o importante pode ser prorrogado até amanhã. Aquelas horas extras de oração, o amigo
não cristão que precisa ser visitado, o livro que requer atenção, tais projetos não precisam
ser consumados hoje. Porém as tarefas urgentes exigem uma ação imediata. Nosso lar deixa
de ser um castelo enquanto o telefone penetra em seu interior com seus chamados
imperiosos. Tais chamadas nos parecem tão importantes e irresistíveis que devoram nossas
energias. Porém, na perspectiva do tempo, o valor desses chamados desaparece e
constatamos, então, quantas coisas importantes deixamos de realizar e, daí, reconhecemos
quão escravos temos sido da tirania do urgente.

O EXEMPLO DE CRISTO
Será que há um meio de evasão desta maneira de viver? Encontramos a resposta na
vida do Nosso Senhor. Na noite em que aconteceu Sua morte, Jesus, proferiu uma
reivindicação admirável. Disse Ele em Sua gloriosa oração de João 17: “Eu te glorifiquei na
terra, consumado a obra que me confiaste para fazer”.
Como poderia Jesus empregar a palavra “consumado”? Seu ministério de 3 anos
parecia demasiado curto. Uma prostituta na casa de Simão encontrou perdão e vida nova.
Porém, quantas outras prostitutas perambulavam, ainda, pelas ruas? Para cada 10 músculos
atrofiados que foram curados por Jesus, centenas permaneciam impotentes. No meio de
tantas enfermidades e dores terríveis e com tantas tarefas benfazejas ainda não completadas
e, ainda, a imensidão de necessidades humanas ainda não satisfeitas, Jesus teve paz por
saber que havia consumado a obra de Deus.
Porém, a vida de Jesus nunca demonstrou ser agitada. Jesus sempre tinha tempo
disponível para as pessoas. Poderia gastar horas conversando com uma pessoa, como aquela
mulher samaritana, ao lado do poço. A vida de Cristo foi maravilhosamente equilibrada e
Ele fazia tudo em tempo oportunidade.
Qual teria sido o segredo de sua vida e de Sua obra na causa de Deus? Encontramos
uma sugestão em Marcos 1:35 “Tendo se levantado de madrugada, saiu, foi para um lugar
deserto, e ali orava”. Jesus em atitude de oração esperava instruções do Seu Pai e a força
necessária para realizá-las. Deus não Lhe deu de antemão, uma planta do que deveria
consumar. Antes, Seu discernimento do Pai, dia após dia, era fruto de Sua vida de oração, e
capacitou-Lhe evitar o urgente e consumar o importante.
A morte de Lázaro demonstra claramente o princípio que afirmamos. O que poderia
ser mais importante do que o recado urgente de Maria e Marta: “Senhor, está enfermo
aquele a quem amas” (João 11:3). João, entretanto, relata a resposta do Senhor com estas
palavras paradoxais: “Ora, amava Jesus a Marta e sua irmão e a Lázaro. Quando, pois,
soube que Lázaro estava doente ainda se demorou dois dias no lugar onde estava (v.5,6).
Qual era a necessidade mais urgente? Obviamente era evitar que morresse aquele irmão
querido. Porém, o mais importante do ponto de vista divino, era a ressurreição de Lázaro
dentre os mortos. E Jesus realizou como sinal confirmador de Sua grande afirmação: “Eu
sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (v.25).
Poderíamos indagar porque o ministério de Nosso Senhor foi tão curto; porque não
poderia ter se estendido por mais uns 5 ou 10 anos; porque foi permitido que tantos
sofredores e miseráveis continuassem em sua miséria. As Escrituras não nos dão uma
resposta para essas perguntas e as entregamos aos mistérios dos propósitos soberanos de
Deus. Sabemos, porém, que o fato de Jesus esperar em oração as instruções do Pai O
libertou da tirania do urgente. Foi isto que Lhe deu orientação, constância e O capacitou
para fazer todas as tarefas que Deus lhe dera. Portanto, na última noite pode Ele dizer: “Eu
te glorifiquei na terra, consumando a obra que me confiaste para fazer”. (João 17:4)

A EVASÃO DO URGENTE
Os universitários cristãos vivem sob uma pressão tremenda. Os níveis acadêmicos,
cada vez mais altos, dificultam o ingresso nas faculdades e continuam a gerar uma
competição cada vez mais aguda.
Cada dia chega rapidamente ao seu fim, deixando muitos estudos, escritos e
pesquisas inacabadas. As finanças representam outro problema sério. De onde virá o
dinheiro para pagar as taxas, os livros e a pensão? O universitário cristão luta para se sair
acadêmica e financeiramente bem.
Além de tudo isso, sente ele um senso de responsabilidade para com seus amigos. O
testemunhar de Cristo demanda tempo. O grupo de estudos bíblicos, o culto de oração
diário, os diálogos com os amigos não cristãos, tudo isso consome horas preciosas. Como
agir diante dessas responsabilidades urgentes? Como podemos discernir o que é
verdadeiramente importante e relacionar tais coisas com as verdadeiras prioridades?
Em primeiro lugar, temos que resolver o problema em princípio. No Sermão da
Montanha, Jesus ensina o princípio básico da vida cristã: “Buscai, pois, em primeiro lugar,
Seu Reino e Sua justiça e todas as estas coisas vos serão acrescentadas” (Mateus 6:33). Não
devemos pensar em termos geográficos a respeito do Reino de Deus, antes, ele representa
um controle ativo por parte de Deus na vida de Seus servos. O Reino de Deus é Reino
dinâmico de um Deus atuante na vida diária de Seu povo. O universitário cristão tem que se
entregar a Deus em primeiro lugar, e, depois, ter como propósito encarar a vida sob o ponto
de vista de Deus. É importantíssimo que isto seja feito nos dias de estudante, pois, as
pressões da vida aumentam com o casamento, a família e as responsabilidades profissionais.
A maior experiência no trabalho e na igreja traz tarefas ainda mais exigentes.
Porém, uma vez submetidos à vontade de Deus, como escaparemos do urgente?
Encontramos outra sugestão em João 8: 31,32: “Se vós permanecerdes na minha Palavra,
sois verdadeiramente meus discípulos: e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.
Não a verdade no sentido de um conjunto de instruções, mas a verdade que vem como
resultado de uma relação pessoal com Jesus, é que nos liberta. Jesus aponta o caminho: “Se
permanecerdes na minha Palavra”. Eis o caminho para uma vida livre e frutífera. E
meditando com espírito de oração sobre a Palavra de Deus que encontro a perspectiva
divina.
P.T. Foryth disse certa vez: “O pior dos pecados é aquele de não orar”, pois, quando
falho nisto estou confessando que não necessito da orientação e força divina.
Esperar em oração as instruções de Deus é algo indispensável ao serviço efetivo. É
como o intervalo no jogo de futebol, que nos ajuda a tomar fôlego e estabelecer nova
estratégia. Nesta comunhão diária o Senhor me liberta dessa tirania do urgente. Ele mostra a
verdade a respeito de si mesmo, da vida e de nós mesmos, e, ainda, indica nossos deveres.
A necessidade não constitui em si mesma uma chamada. Deus é que impressiona em nossas
mentes as tarefas que devemos empreender, e Ele conhece as nossas limitações. Deus não
nos sobrecarrega até que desfalecemos com um esgotamento nervoso ou um colapso
cardíaco. Aquilo tudo vem como resultado de nossas compulsões internas conjugadas com
as pressões circunstanciais.
O princípio de parar um pouco para fazer uma avaliação, é reconhecido como uma
estratégia sábia pelo comerciante moderno. Quando o sr. Greenwalt era presidente da
Companhia DuPont, disse: “Um minuto gasto em planejamento poupa três ou quatro na
execução”. Muitos homens de negócio têm revolucionado seus negócios e multiplicado seus
lucros pelo simples fato de reservar a tarde de cada sexta feira somente para o planejamento
das atividades mais importantes da semana vindoura. Se um executivo estiver ocupado
demais para gastar tempo em planejar, é possível que seja substituído muito em breve por
outro que venha a ocupar melhor seu lugar. Se o cristão é ocupado demais e não para com a
finalidade de fazer um inventário de sua vida espiritual e poder assim receber instruções de
Deus, tornar-se-á mais um escravo da tirania do urgente. Poderá trabalhar noite e dia e
lograr algo que pareça importante a si mesmo e até aos outros, porém não cumprirá a obra
que Deus lhe delineou.
Uma hora tranquila para meditação nos ajuda a nos entregarmos diariamente à Sua
vontade, quando cogitamos a respeito das horas vindouras. A hora tranquila para meditação
no início de cada dia, reajusta nossa relação com Deus. Nestes momentos quietos tenho o
costume de colocar em uma lista, em ordem de prioridades, as tarefas que têm que ser
consumadas, levando sempre em consideração os compromissos já assumidos. Um general
competente sempre redige seu plano de batalha antes de se encontrar com o inimigo; não
vai ele adiando a decisão até a hora do fogo. Porém, está preparado para qualquer mudança
de planos se uma emergência assim o exigir. Por isso, estou sempre prevenido contra
qualquer interrupção de emergência ou mesmo por uma visita não esperada. Por outro lado,
procuro implementar os planos já elaborados, antes que a batalha diária contra o relógio
comece.
Além da minha hora tranquila, procuro sempre reservar uma hora por semana para
fazer um inventário espiritual. Com a caneta na mão, faço uma avaliação do passado,
destacando qualquer verdade que Deus está tentando ensinar-me e, também delineio alguns
planos para o futuro. Procuro também tirar um dia por mês para fazer a mesma coisa, só que
em escala maior. Neste aspecto tenho falhado muito. Paradoxal e ironicamente, quanto mais
ocupados somos, mais tempo necessitamos para esse exercício; porém, encontramos mais
dificuldades para cumpri-lo. Como um fanático quando desorientado, dobramos a
velocidade de nosso “corre-corre” e o serviço frenético na causa de Deus até ser uma fuga
ao próprio Deus. Porém, quando tenho bom êxito, o pensamento orientado pela oração
proporciona nova perspectiva ao meu trabalho.
No decorrer dos anos, a maior e mais contínua luta em minha vida cristã, tem sido
esta, de dispor o tempo adequadamente para diariamente esperar em Deus, e para fazer esse
inventário espiritual e, ainda, tirar um dia para o planejamento mensal. Desde que isso é
algo muito importante, Satanás tudo fará para atrapalhar nosso plano. Todavia, sei, pela
minha experiência que é somente desta forma que posso escapar da tirania do urgente. Foi
assim que meu Senhor logrou grande sucesso. Ele não consumou todas as tarefas que a
Palestina exigia, nem todas as coisas que porventura gostaria de ter realizado, porém,
consumou a “obra que me confiaste para fazer”. A única alternativa contra a frustração é a
de possuirmos a certeza de que estamos fazendo aquilo que Deus quer. Não há substituto
algum para aquela plena convicção de que neste dia, nesta hora, neste lugar, estou
cumprindo a vontade de meu Pai. É somente assim que posso pensar em todas as tarefas não
terminadas com um espírito tranquilo e entregá-las nas mãos de Deus.
Ao findar as nossas vidas, o que poderia nos dar mais prazer, do que a convicção de
termos cumprido a obra que Deus nos determinou? Isto só é possível pela graça do nosso
Senhor Jesus Cristo. Ele nos prometeu a libertação do domínio do pecado. O caminho está
aberto. Se continuarmos na Sua Palavra, somos verdadeiramente Seus discípulos e Ele nos
libertará da tirania do urgente, nos libertará para fazermos o importante, ou seja, a vontade
de Deus.