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A Hiroko e Ronaldo.

2
AGRADECIMENTOS

Ao prof. Licurgo Brito pelo incentivo na elaboração


desta segunda edição.

Aos meus alunos do curso de redação. Através da


convivência com eles percebi a necessidade de
melhorar a primeira edição deste livro. Espero ter
conseguido.
3
DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DO LEITOR

Artigo primeiro e único: “Todo leitor tem direito a um texto


claro, interessante, organizado de
modo lógico e agradável de ser lido,
independentemente de seu idioma
natal, raça, posição social,
convicções políticas ou crenças
religiosas”.
4
NOTA DO AUTOR

As citações que não constam da lista de referências


foram usadas apenas como ilustrações nos diversos exemplos de
texto e não correspondem necessariamente a uma obra real.
5
SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO

DEDICATÓRIA

AGRADECIMENTOS

DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DO LEITOR

1 INTRODUÇÃO

2 UMA VISÃO GERAL

2.1 OS ALICERCES DO TEXTO INTELIGÍVEL

2.1.1 A clareza

2.1.1.1 A fuga da união por vírgula.


2.1.1.2 O Efeito “Conto de Fadas”
2.1.1.3 O paralelismo
2.1.1.4 O tempo verbal: presente ou passado?

2.1.2 A organização

2.2 A CONSTRUÇÃO DO TEXTO INTELIGÍVEL

2.3 OS OITO PASSOS MAIS IMPORTANTES

3 O PARÁGRAFO

3.1 AS CINCO LEIS BÁSICAS

3.1.1 Lei do foco


6
3.1.2 Lei da unidade
3.1.3 Lei da coerência
3.1.4 Lei da continuidade
3.1.5 Lei do desenvolvimento

3.2 OS TRÊS TIPOS FUNDAMENTAIS DE PARÁGRAFO

3.2.1 Parágrafo de discussão

3.2.1.1 A sentença-tópico: caracterização


3.2.1.2 O que uma sentença-tópico deve ser
3.2.1.3 O que uma sentença-tópico não deve conter
3.2.1.4 Sentenças de suporte primário e suporte
secundário

3.2.2 Parágrafo introdutório

3.2.2.1 Tipos de sentença de abertura


3.2.2.2 A sentença-tese
3.2.2.3 Sentenças intermediárias

3.2.3 Parágrafo de conclusões

3.2.4 Exemplo de uma composição

3.3 AS PRINCIPAIS ESTRATÉGIAS

3.3.1 A estratégia de definição

3.3.1.1 A sentença-tópico
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3.3.1.2 Os exemplos
3.3.1.3 As palavras de transição

3.3.2 A estratégia de descrição

3.3.3 A estratégia de prescrição

3.3.4 A estratégia de comparação-contraste

3.3.4.1 O padrão meio a meio


2.3.4.2 O padrão característica
3.3.4.3 As palavras de transição

3.3.5 A estratégia causa-e-efeito

3.3.5.1 A técnica causa para efeito


3.3.5.2 A técnica efeito para causa
3.3.5.3 As palavras de transição

4 O CAPÍTULO

4.1 O CAPÍTULO INTRODUTÓRIO

4.1.1 O parágrafo de abertura


4.1.2 Os parágrafos de revisão
4.1.3 O(s) parágrafo(s) de apresentação

4.2 OS CAPÍTULOS DE DISCUSSÃO

4.2.1 O capítulo de metodologia


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4.2.1.1 A estratégia de definição


4.2.1.2 A estratégia de prescrição

4.2.2 O capítulo de testes controlados

4.2.2.1 A estratégia de descrição


4.2.2.2 A estratégia de comparação-contraste
4.2.2.3 A estratégia de causa-e-efeito

4.2.3 O capítulo de interpretação de dados reais

4.2.3.1 A estratégia de descrição


4.2.3.2 A estratégia de prescrição
4.2.3.3 A estratégia de causa-e-efeito

4.3 O CAPÍTULO DE CONCLUSÕES

4.3.1 O parágrafo de reafirmação da apresentação


4.3.2 O(s) parágrafo(s) de sumário
4.3.3 Os parágrafos de generalização

5 O RESUMO

6 CONCLUSÕES

REFERÊNCIAS

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
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EXERCÍCIOS
Exercícios sobre a sentença-tópico: Fragmentos de texto
Exercícios sobre a sentença-tópico: Clareza
Exercícios sobre a sentença-tópico: Especificidade
Exercícios sobre a sentença-tópico: Substitutos vulgares
Exercícios sobre a sentença-tópico: Substitutos desgastados
Exercícios sobre a sentença-tópico: Substitutos fracos
Exercícios sobre a sentença-tópico: Verbosidade
Exercícios sobre a sentença-tópico: Múltiplos significados
Exercícios sobre a sentença-tese I
Exercícios sobre a sentença-tese II
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1 INTRODUÇÃO

Qualquer sistema, do mais simples ao mais complexo, está


sujeito a leis e regras. Leis são necessárias para manter a ordem
e a harmonia de um sistema, caso contrário ele se tornará
aleatório, imprevisível, difícil de entender. Evidentemente para
bem desempenhar o seu papel, uma lei deve ser eficaz. Ela não
pode ser absolutamente inócua como aquela vigente em
Vermont, Estados Unidos que estabelece a ilegalidade de se
assobiar debaixo d’água. Não pode ser tampouco truculenta,
como a lei indonésia que pune com a decapitação aquele que se
masturba. As leis da Natureza, como a lei da gravitação
universal de Newton, são exemplos de economia e eficiência.
Apenas algumas dezenas ou centenas delas conseguem manter
virtualmente todo o universo funcionando.
Toda lei é feita para atuar em algum elemento. A lei de
Newton atua em qualquer partícula do universo que contenha
massa. Os artigos do código penal atuam em indivíduos de uma
sociedade. Uma língua também contém leis que atuam em
diversos elementos. Por exemplo, a Ortografia é um conjunto de
leis que atuam nas letras. Não é qualquer combinação de letras
que forma um vocábulo. A Sintaxe, por sua vez é um conjunto
de leis que regulamentam tanto a disposição das palavras na
frase como a disposição das frases no discurso. Estas leis são
rígidas e o não cumprimento delas implica erro gramatical.
Neste livro estudaremos regras que, à semelhança da
Sintaxe, atuam sobre sentenças para formar parágrafos. Além
disso, trataremos das leis que agem na disposição dos parágrafos
para formar um capítulo e na dos capítulos para formar uma
11

dissertação. Estas leis não são tão rígidas como as leis


gramaticais. O seu descumprimento implica apenas o perigo de
o texto tornar-se menos claro.
Na próxima seção apresentaremos uma visão geral sobre a
estruturação de um texto claro e organizado. Nas seções
seguintes analisaremos em detalhes as estruturas do parágrafo e
do capítulo. A seção final será reservada a recomendações para a
redação do resumo. Em adição a estas seções apresentamos em
seções anexas, ao final do livro, exercícios resolvidos e
propostos.
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2 UMA VISÃO GERAL

2.1 OS ALICERCES DO TEXTO INTELIGÍVEL

A capacidade de escrever bem é um dom restrito a uns


poucos privilegiados? A facilidade de escrever bons textos pode,
sem dúvida, ser devida a um dom trazido do berço. Machado de
Assis, por exemplo, mesmo não tendo tido acesso a cursos
regulares, publicou, aos 15 anos, seu primeiro trabalho literário.
No entanto, qualquer estudante pode aprimorar a prática na
redação de textos que transmitam ao leitor informação de forma
fluida e agradável através de duas ferramentas fundamentais: a
clareza e a organização.

2.1.1 A clareza

São diversas as recomendações existentes para tornar


uma sentença mais clara. Muitas delas serão estudadas ao longo
deste livro. Descreveremos nas próximas seções quatro preceitos
fundamentais que são pouco conhecidos e pouco usados pela
maioria dos estudantes, pelo menos de forma consciente.

2.1.1.1 A fuga da união por vírgula

A união por vírgula consiste em unir duas orações


principais através de uma vírgula ao invés de uni-las através de
uma conjunção. Alternativamente, as orações principais podem
ser separadas por um ponto ou por ponto e vírgula. Este mau
hábito, bastante comum até mesmo em escritores profissionais,
deve ser ferrenhamente combatido por ser um potencial gerador
de textos obscuros. Considere o exemplo

“Em 1937, num jornal local, começa a publicar em


folhetins A Solidão, sua primeira peça teatral, encenada no
13
Teatro Dom Pedro II em junho de 1939, foi escrita
especialmente para a comemoração do bicentenário da cidade”.

A confusão existente nesta sentença só é percebida pelo


leitor bem perto do seu término porque a união das duas orações
principais por uma vírgula, fortuitamente permitiu uma
continuidade, não só gramatical, mas também contextual. A
sentença, corretamente pontuada seria

“Em 1937, num jornal local, começa a publicar em


folhetins A Solidão. Sua primeira peça teatral, encenada no
Teatro Dom Pedro II em junho de 1939, foi escrita
especialmente para a comemoração do bicentenário da cidade”.

Assim, a união por vírgula, associada a uma fortuita


continuidade contextual pode produzir textos muito difíceis de
serem lidos, obrigando o leitor a retornar ao início da sentença
para tentar desvendar a verdadeira mensagem que o autor
desejaria transmitir.

2.1.1.2 O Efeito “Conto de Fadas”

Como segundo exemplo de técnicas voltadas ao


aprimoramento da clareza mencionamos o “Efeito conto de
fadas”, desenvolvido por Williams (2000). Leia as duas
sentenças abaixo e escolha a que você acha mais clara.

1) “Uma vez, quando um passeio através da floresta estava


sendo dado por parte de Chapeuzinho Vermelho, o surgimento
do Lobo Mau ocorreu, causando susto em Chapeuzinho
Vermelho.”

2) “Uma vez, Chapeuzinho Vermelho estava passeando na


floresta quando o Lobo Mau surgiu e a assustou.”
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É quase certo que você tenha preferido a sentença 2. Por


quê? Desde a nossa infância, nos acostumamos a escutar
narrativas simples em que o sujeito gramatical de uma oração
coincide com o personagem da história e os verbos da oração
coincidem com as ações da história.
Veja abaixo como na sentença 1 os sujeitos gramaticais
(em negrito) não coincidem com os personagens (sublinhados)
ao passo que na sentença 2 eles coincidem (ambos em itálico).

1) “Uma vez, quando um passeio através da floresta


estava sendo dado por parte de Chapeuzinho Vermelho, o
surgimento do Lobo Mau ocorreu, causando susto no
Chapeuzinho Vermelho.”

2) “Uma vez, Chapeuzinho Vermelho estava passeando na


floresta quando o Lobo Mau surgiu e a assustou.”

Além disso, observe abaixo como na sentença 1 as ações


(negrito) não coincidem com os verbos (sublinhado) ao passo
que na sentença 2 ações e verbos coincidem (ambos em itálico).

1) “Uma vez, quando um passeio através da floresta estava


sendo dado por parte de Chapeuzinho Vermelho, o surgimento
do Lobo Mau ocorreu, causando susto no Chapeuzinho
Vermelho.”

2) “Uma vez, Chapeuzinho Vermelho estava passeando na


floresta quando o Lobo Mau surgiu e a assustou.”

Numa oração, a presença de ações sob a forma de


substantivos (passeio, surgimento) e de verbos vazios que não
expressam nenhuma idéia (sendo dado, ocorreu) são
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diagnósticos de fuga da estrutura “conto de fadas”, indicando
que a sentença está ficando perigosamente obscura.
Observe nas sentenças 3 e 4 abaixo como, num exemplo
mais complexo, o “efeito conto de fadas” melhora
substancialmente a clareza da sentença.

3) “A despeito do seu conhecimento sobre a necessidade,


por parte das cidades, de mais verba, seu veto sobre um
orçamento maior para a educação almejava produzir pressão nos
prefeitos por um aumento nos impostos municipais. (Sem o
efeito conto de fadas)”

4) “Embora o governador soubesse que as cidades


precisavam de mais verbas para educação, ele vetou um
aumento no orçamento para encorajar os prefeitos a aumentar
os impostos municipais. (Com o efeito conto de fadas)”

2.1.1.3 O paralelismo

O paralelismo pode ser melhor entendido através da


analogia com a propriedade distributiva da soma, que garante a
igualdade 3a+3b+3c = 3(a+b+c). A colocação do número 3 em
evidência no termo da direita da equação acima a torna mais
simples e menos cansativa. A mesma estrutura aparece na
construção de sentenças. Considere o exemplo

“A poluição está aumentando nos rios, está aumentando


nos lagos e está aumentando nos mares.”

Note como o texto fica pesado e cansativo de ser lido


devido à repetição da locução “está aumentando nos”, que pode
ser colocada em evidência:

“A poluição está aumentando nos rios, lagos e mares.”


16

Observe que, se a sentença fosse ligeiramente diferente,

“A poluição está aumentando nos rios, está aumentando


nos lagos e está aumentando nas florestas.”,

não seria possível colocar a locução “está aumentando nos” em


evidência porque “florestas” é substantivo feminino. Assim,
teríamos que evidenciar apenas “está aumentando”, produzindo:

“A poluição está aumentando nos rios, nos lagos e nas


florestas.”.

Este ganho em concisão pode, no entanto, ameaçar a


clareza da sentença se esta se tornar mais longa e o autor for
descuidado. Veja o exemplo abaixo.

“A poluição está aumentando em Belo Horizonte e São


Paulo ameaça a qualidade de vida em Porto Alegre e Curitiba já
está atingindo cidades serranas como Petrópolis e Teresópolis”.

A confusão nesta sentença foi causada pelo desrespeito a


uma regra fundamental chamada paralelismo, que deve ser
observada ao se colocarem locuções “em evidência”. A sentença
acima, usando o paralelismo e a pontuação correta seria:

“A poluição está aumentando em Belo Horizonte e São


Paulo, ameaçando a qualidade de vida em Porto Alegre e
Curitiba e atingindo cidades serranas como Petrópolis e
Teresópolis”.

Observe que o paralelismo exige que os primeiros


vocábulos de cada segmento de sentença que foi agrupado
(vocábulos em negrito na sentença acima que doravante serão
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chamados “marcadores”) devem pertencer à mesma classe
gramatical. Se forem verbos, o mesmo tempo verbal deve ser
usado. Os marcadores, quando corretamente empregados,
ajudam a tornar a sentença mais clara porque indicam que está
começando um novo segmento de sentença com uma nova idéia.
Na sentença mal-construída dois dos marcadores são verbos (em
tempos diferentes) e um é advérbio (mostrados em negrito na
sentença abaixo).

“A poluição está aumentando em Belo Horizonte e São


Paulo ameaça a qualidade de vida em Porto Alegre e Curitiba já
está atingindo cidades serranas como Petrópolis e Teresópolis”.

A falta de paralelismo é um erro comum em sentenças


grandes porque induz o autor a se esquecer que cada sentença
introduzida não é independente do termo que foi posto em
evidência. Para testar se o paralelismo está correto, basta aplicar
a propriedade distributiva, re-introduzindo a locução que foi
posta em evidência. No primeiro caso a sentença fará sentido.

“A poluição está aumentando em Belo Horizonte e São


Paulo, está ameaçando a qualidade de vida em Porto Alegre e
Curitiba e está atingindo cidades serranas como Petrópolis e
Teresópolis.”,

mas não fará qualquer sentido no segundo caso:

“A poluição está aumentando em Belo Horizonte e São


Paulo, está ameaça a qualidade de vida em Porto Alegre e
Curitiba e está já está atingindo cidades serranas como
Petrópolis e Teresópolis”.

A não observância do paralelismo pode ser catastrófica,


como no exemplo abaixo.
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“Preciso de um empregado para ordenhar vacas e preciso


de cozinheiras.”

Ao colocar “Preciso” em evidência a sentença correta


seria

“Preciso de um empregado para ordenhar vacas e de


cozinheiras.”

Note que os primeiros vocábulos dos segmentos de


sentença que foram agrupados pertencem à mesma classe
gramatical (a preposição “de”). Uma falha ao esquecer essa
preposição muda completamente o sentido:

“Preciso de um empregado para ordenhar vacas e


cozinheiras.”

2.1.1.4 O tempo verbal: presente ou passado?

Os tempos verbais devem ser uniformizados? Qual o


tempo mais apropriado? São comuns dúvidas deste tipo na hora
de redigir uma dissertação. Os tempos verbais certamente não
devem ser uniformizados porque eles não carregam apenas
conotação cronológica.
O presente do indicativo é empregado também para
expressar ações válidas a qualquer tempo, como:

“A luz se propaga a uma velocidade de trezentos mil


quilômetros por segundo.”
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Por sua vez, o pretérito perfeito do indicativo, ao denotar
uma ação já finalizada é associado a experimentos realizados,
medições, observações, como:

“O veículo se deslocou a uma velocidade média de


sessenta quilômetros por hora entre os pontos A e B.”

Assim, na descrição de procedimentos bem estabelecidos


ou de leis bem conhecidas usa-se o presente do indicativo.

Exemplo:

“Existem três meios de se extraírem células-tronco


adultas. A mais eficaz é a punção com agulha do sangue de
cordão umbilical, após o nascimento da criança. É um
procedimento indolor e que não oferece nenhum tipo de risco
para a mãe ou para o recém nascido.”

Por outro lado os relatos de experimentos, realizados


pelo autor, devem ser expressos no pretérito perfeito do
indicativo ou na forma passiva “ser + particípio”, dependendo se
o autor quer que sua própria presença nos experimentos seja
notada ou não.

Exemplo: a presença do autor é explícita na descrição do


experimento.

“Após o ato anestésico, posicionei a paciente em posição


de litotomia e visualizei o colo através de um espéculo. Injetei
2 ml do corante no colo uterino utilizando uma agulha de
raquianestesia. Apliquei a injeção às 3, 6, 9 e 12 horas na
mucosa e estroma próximo ao tumor. Evitei a injeção do corante
dentro do tumor sempre que possível para diminuir o
extravasamento do corante.”
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Exemplo: a presença do autor não é explícita na
descrição do experimento.

“Após o ato anestésico, a paciente foi posicionada em


posição de litotomia e o colo foi visualizado através de um
espéculo. Foi injetado 2 ml do corante no colo uterino
utilizando-se uma agulha de raquianestesia. A injeção foi
aplicada às 3, 6, 9 e 12 horas na mucosa e estroma próximo ao
tumor. A injeção do corante dentro do tumor foi evitada sempre
que possível para diminuir o extravasamento do corante.”

2.1.2 A organização

Mostramos acima que a clareza é fundamental para que a


mensagem do autor seja captada corretamente. O leitor,
entretanto deseja mais do que simplesmente entender a
mensagem. Ele quer que a mensagem, corretamente recebida
através da leitura, seja registrada na sua memória semântica
(aquela que arquiva os conhecimentos gerais) para ser resgatada
em momento oportuno. As informações recebidas pelo cérebro
são classificadas e armazenadas em uma “vizinhança” onde
informações correlatas já estão armazenadas. Assim, o cérebro
funciona em módulos cooperativos, que se ajudam na hora de
recuperar informações. Quanto mais caminhos levarem a elas,
mais fácil será o "resgate". Se, por exemplo, um conceito estiver
conectado simultaneamente a uma imagem e a um som, pelo
menos três áreas diferentes do cérebro trabalharão para
recuperá-lo. Existem diversas fórmulas mnemônicas como a
associação de números a cores, música a frases complexas. A
organização da mensagem transmitida ao leitor é de extrema
importância, porque ela ajuda o cérebro a classificar e a
armazenar a informação, facilitando assim o seu futuro resgate.
21
Para ilustrar a importância da organização na
recuperação da informação pelo cérebro, leia as duas seqüências
de letras e números abaixo apenas uma vez. Depois disso, feche
o livro e tente reproduzir ambas as seqüências de memória.

R7T1P4Q3V2U6S5

P1 Q 2 R3 S 4T5 U6V7

Muito provavelmente você conseguiu reproduzir a


segunda seqüência, mas não a primeira. A organização imposta à
segunda seqüência permitiu o armazenamento da informação
numa vizinhança do cérebro onde informações anteriores sobre
ordenamentos crescente e decrescente de números e letras já
estavam armazenadas. No caso da primeira seqüência, o cérebro
apresenta dificuldade em descobrir uma vizinhança contendo
informação correlata, dificultando, desse modo, a recuperação
da informação. Note que ambas as seqüências são formadas pelo
mesmo grupo de letras e números.
Como exemplo adicional da importância da organização,
estude atentamente a figura abaixo por 20 segundos. Depois,
feche o livro e tente lembrar da forma e da cor de cada objeto,
bem como da sua posição no plano da figura.
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Agora repita o procedimento para a figura abaixo

Muito provavelmente você conseguiu reproduzir as


posições dos objetos no caso da segunda figura, mas não no caso
da primeira. Isto se deve ao fato da organização dos objetos por
grupo ter permitido você armazenar a informação demandada
numa vizinhança do cérebro onde estava previamente
armazenada informação sobre ordenamento linear de objetos
idênticos. Conseqüentemente, foi preciso apenas que você
identificasse cada categoria e contasse o número de objetos em
cada uma. No caso da primeira figura, além da quantidade de
objetos de cada tipo, foi preciso armazenar a posição de cada
objeto. Como o padrão da distribuição de objetos no caso da
primeira figura é aleatório, o cérebro não encontrou uma
vizinhança com informação correlata previamente armazenada,
tornando a tarefa praticamente impossível.
Ao longo deste livro serão estudadas diversas técnicas de
organização de texto. Na próxima seção será mostrada, de modo
sintético, a construção passo a passo de uma composição clara e
organizada. Nos capítulos subseqüentes estas técnicas serão
analisadas em detalhe.
23
2.2 A CONSTRUÇÃO DO TEXTO INTELIGÍVEL

Antes de começar a escrever, o autor deve definir o


público-alvo e estruturar a obra. A definição do público-alvo
determina essencialmente o vocabulário a ser empregado. Ela
permite que o autor não se sinta na obrigação de explicar ou
definir jargões ou termos técnicos que são correntemente
empregados por um determinado grupo de pessoas. A definição
do público-alvo deixará claro para o autor que não se pode
escrever para todas as pessoas e agradá-las ao mesmo tempo.
Um texto sobre gravitação dirigido a alunos do primeiro grau
será enfadonho e desinteressante para estudantes de pós-
graduação em física e vice-versa, mas o público-alvo eleito, em
qualquer dos casos (os alunos do primeiro grau ou os estudantes
de pós-graduação em física), certamente ficará satisfeito. Um
texto que se proponha a atingir desde estudantes de primeiro
grau até alunos de pós-graduação provavelmente não satisfará
nenhum dos dois grupos.
A estruturação de uma composição deve ser feita do
seguinte modo. Primeiramente estabelece-se o assunto a ser
desenvolvido, que contém a idéia ou tese que se deseja defender
perante o leitor. A seguir, definem-se os suportes que irão servir
de subsídio para a demonstração da tese. Por exemplo, imagine
que você quer convencer o leitor sobre a enorme dependência do
homem moderno em relação ao automóvel. Esta é a tese. Para
dar suporte a ela, selecionamos algumas evidências, ou causas
para essa suposta dependência exagerada do homem em relação
ao automóvel. Uma vez definida a tese e o suporte, podemos
construir a mais importante sentença isolada de uma
composição: a sentença-tese. Esta sentença é importante porque
ela ao mesmo tempo estrutura e organiza a composição. Por
exemplo, considere a sentença-tese: “O homem moderno está
cada vez mais dependente do automóvel porque este lhe
proporciona conforto e status social”. Esta sentença não está só
24
estruturando a composição, ou seja, estabelecendo a tese e o
suporte. Ela está também organizando a composição, ou seja,
indicando que, primeiramente será reservado um parágrafo para
mostrar ao leitor como o conforto influencia na dependência em
relação ao automóvel, e depois um parágrafo sobre a influência
do status social.
De posse da sentença-tese podemos construir o parágrafo
de abertura que consiste de três partes: a sentença de abertura, as
sentenças intermediárias e a sentença-tese. Estas sentenças
articulam-se do seguinte modo.

A sentença de abertura é uma sentença com conotação


ampla, ao passo que a sentença-tese é específica. As sentenças
intermediárias têm o papel de produzir uma transição suave
entre estas duas sentenças.
A sentença de abertura é uma sentença que tem a
finalidade de atrair a atenção do leitor. Existem para isso quatro
estratégias envolvendo:

a) humor;
b) drama;
c) citação;
d) polêmica.
25
Exemplos:

a) “Carro é como marido: ruim com ele, pior sem ele!”;


b)“A poluição causada pelos automóveis está
começando a comprometer a estabilidade climática
do planeta”;
c) “Aquilo que guia e arrasta o mundo não são as
máquinas, mas as idéias.”;
d) “Devemos alimentar o sonho do carro próprio, ou
investir na produção de melhores veículos
coletivos?”.

Suponha que escolhemos a opção (a). As sentenças


intermediárias deverão fazer uma transição suave entre as já
definidas: sentença de abertura e sentença-tese, como ilustrado
abaixo.
“Carro é como marido: ruim com ele, pior sem ele!”.
Este foi o desabafo de dona Teresa ao receber a conta do
mecânico. O duplo protesto de dona Teresa reflete um
sentimento cada vez mais comum entre a classe média
brasileira: a crescente dependência física e psicológica do
homem em relação ao automóvel. O dependente compulsivo
desta droga mecânica executa ações tresloucadas, gastando
mais com um eventual conserto do carro do que com alimentos
para a família. Um viciado em estágio avançado que for
temporariamente privado deste entorpecente ficará confinado
em casa incapaz de encarar o mundo sem a sua armadura
mecânica. O homem moderno está cada vez mais dependente do
automóvel por que este lhe proporciona conforto e status
social.”
Neste ponto estamos preparados para começar o corpo da
composição, isto é, os parágrafos de discussão. Como foi visto
acima teremos dois parágrafos, de acordo com a estruturação
dada pela sentença-tese: um sobre o conforto e o outro sobre o
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status social que o automóvel proporciona ao seu dono. Vejamos
agora a estrutura de um parágrafo de discussão. Ele é composto
por três tipos de sentenças: a) a sentença-tópico; b) as
sentenças de suporte primário; e c) as sentenças de suporte
secundário. Estas sentenças articulam-se no parágrafo de
discussão do seguinte modo.

Uma sentença-tópico é uma sentença que funciona como


o rótulo do parágrafo. Ela estabelece e limita o assunto do
parágrafo a um grau de detalhe que possa ser escrito em poucas
linhas. Para tanto, ela tem que ser específica. Sentenças-tópico
genéricas levam o autor a divagar, fugir do assunto e a introduzir
mais de uma idéia no parágrafo (cada parágrafo deve ter apenas
uma única idéia). Assim, uma possível sentença-tópico para
nossa composição seria: “Um automóvel moderno proporciona
alto grau de conforto aos passageiros”. Observe como essa
sentença é suficientemente específica para ser desenvolvida em
um parágrafo. No entanto, a sentença-tópico não deve conter
apenas vocábulos específicos, caso contrário não haverá espaço
para o desenvolvimento do parágrafo. Neste caso a sentença
seria uma mera constatação de um fato. No exemplo acima o
termo “conforto” permaneceu amplo porque ele será detalhado
na discussão que será o alvo do parágrafo. Esse detalhamento se
dá em dois níveis: o do suporte primário e o do suporte
secundário.
27
Uma sentença de suporte primário é aquela que atua
sobre a idéia da sentença-tópico, reafirmando, explicando,
dividindo, adicionando ou ilustrando o que foi dito na sentença-
tópico. Assim, um exemplo que introduz uma subdivisão do
termo “conforto” na sentença-tópico acima seria: “O isolamento
acústico permite que o motorista se desconecte do ruidoso
mundo exterior”. Esta sentença especifica um subgrupo do
grupo “conforto”, que é o isolamento acústico.
Devem seguir a sentença de suporte primário, uma ou
mais sentenças de suporte secundário. Estas são sentenças que
fornecem explicações ou ilustrações adicionais e mais
específicas que as de suporte primário. São exemplos concretos
na forma de citações, explicações, estatísticas que esclarecem os
termos ainda gerais das sentenças de suporte primário,
aumentando a chance do leitor entender e acreditar no que você
está dizendo. Exemplo: “No interior do Honda Civic 2007, por
exemplo, a intensidade sonora é 40 decibéis abaixo da
intensidade sonora produzida pelo tráfego médio de uma
cidade”.
Observe que um outro conjunto de suportes primário e
secundário poderia ser incluído neste mesmo parágrafo, como:
“Adicionalmente, o ambiente climatizado de um veículo
moderno proporciona ao motorista controle de temperatura e
umidade. O ar condicionado de um Renault Clio, por exemplo,
é capaz de manter a temperatura em 21 o C e a umidade em
75%, mesmo sob condições de verão tropical”.
O segundo parágrafo de discussão deve, por sua vez, na
nossa composição, abordar a elevação do status social
promovida pela posse de um automóvel. Um exemplo, com a
mesma estrutura de sentença-tópico, suporte primário e suporte
secundário, seria: “A posse de um automóvel é comumente
associada a um status social acima da média. O valor de
compra e as despesas com a manutenção do veículo, por
exemplo, evidenciam que o dono de um automóvel pertence a
28
uma das classes mais elevadas em relação à renda familiar. O
gasto com combustível e manutenção, mesmo para um carro
pouco luxuoso, é de pelo menos R$700,00 por mês, o que limita
o acesso ao carro às classes sociais A e B”.

Finalmente, o último parágrafo de uma composição,


chamado de parágrafo de conclusão consiste de três partes: a)
sentença de reafirmação da tese; b) sentenças de síntese; c)
sentença generalizadora. Estas sentenças articulam-se no
parágrafo de conclusão do seguinte modo.

Note que a estrutura deste parágrafo é invertida em


relação ao parágrafo de abertura. Na primeira sentença é feita
uma reafirmação do sentido da sentença-tese. Esta reafirmação
não deve ser, evidentemente, palavra por palavra. Exemplo: “Se
quisermos entender a dependência do homem moderno em
relação ao automóvel, devemos analisar que benefícios ele traz
aos seus proprietários”.
As próximas sentenças devem efetuar um sumário dos
principais resultados apresentados na composição. Exemplo:
“Como proprietário de um automóvel, o homem desfruta do
conforto proporcionado pela tecnologia moderna e se destaca
da maioria em relação ao status social”.
29
A última sentença de um parágrafo de conclusões deve
conter uma generalização que mostre a relevância,
universalidade ou profundidade da composição. Exemplo:
“Tudo aquilo que traz intensas e agradáveis sensações físicas e
emocionais no homem, podem induzi-lo à dependência”.
Vejamos agora como ficou a composição de corpo
inteiro. Observe que sua estrutura global é:

“Carro é como marido: ruim com ele, pior sem ele!”.


Este foi o desabafo de dona Teresa ao receber a conta do
mecânico. O duplo protesto de dona Teresa reflete um
sentimento cada vez mais comum entre a classe média
brasileira: a crescente dependência física e psicológica do
homem em relação ao automóvel. O dependente compulsivo
desta droga mecânica executa ações tresloucadas, gastando
mais com um eventual conserto do carro do que com alimentos
para a família. Um viciado em estágio avançado que for
temporariamente privado deste entorpecente ficará confinado
30
em casa incapaz de encarar o mundo sem a sua armadura
mecânica. O homem moderno está cada vez mais dependente do
automóvel por que este lhe proporciona conforto e status
social.
Um automóvel moderno proporciona alto grau de
conforto aos passageiros. O isolamento acústico permite que o
motorista se desconecte do ruidoso mundo exterior. No interior
do Honda Civic 2007, por exemplo, a intensidade sonora é 40
decibéis abaixo da intensidade sonora produzida pelo tráfego
médio de uma cidade. Adicionalmente, o ambiente climatizado
de um veículo moderno proporciona ao motorista controle de
temperatura e umidade. O ar condicionado de um Renault Clio,
por exe,plo, é capaz de manter a temperatura em 21 o C e a
umidade em 75%, mesmo sob condições de verão tropical.
A posse de um automóvel é comumente associada a um
status social acima da média. O valor de compra e as despesas
com a manutenção do veículo, por exemplo, evidenciam que o
dono de um automóvel pertence a uma das classes mais
elevadas em relação à renda familiar. O gasto com combustível
e manutenção, mesmo para um carro pouco luxuoso, é de pelo
menos R$700,00 por mês, o que limita o acesso ao carro às
classes sociais A e B”.
Se quisermos entender a íntima relação do homem
moderno com o automóvel, devemos analisar que benefícios ele
traz aos seus proprietários. O proprietário de um automóvel
desfruta do conforto proporcionado pela tecnologia moderna e
se destaca da maioria em relação ao status social. É preciso, no
entanto ser prudente. Tudo aquilo que produz intensas e
agradáveis sensações físicas e emocionais pode levar à
dependência”.

2.3 OS OITO PASSOS MAIS IMPORTANTES


31
Os oito passos mais importantes na construção de um
texto inteligível são:

1) Escrever, ler, reescrever;


2) Reler, reescrever;
3) Reler, reescrever;
4) Reler, reescrever;
5) Reler, reescrever;
6) Reler, reescrever;
7) Reler, reescrever;
8) Reler, reescrever.

Colocada desta maneira, a recomendação pode parecer


uma anedota, mas na realidade ela retrata, de modo fidedigno,
exatamente o que fazem os bons escritores. A leitura repetida de
um texto aumenta a percepção do autor sobre possíveis erros,
inconsistências e falta de clareza. No entanto, reler um texto
escrito por você mesmo pode não ser tão trivial como parece.
Em primeiro lugar é preciso atenção e concentração extremas.
Além disso, é preciso estar imbuído de um grande senso de
humildade e auto-crítica, ou seja, ser extremamente exigente
consigo, tendo a certeza que um texto sempre pode ser
melhorado. É bastante pertinente neste contexto a sentença: “O
gênio é composto por 1% de talento e de 99% de exaustivo
trabalho”. Esta sentença (e suas variantes) é atribuída a tantas
figuras ilustres, de Beethoven a Einstein, passando por Thomas
Edison. Os bons textos, da mesma forma, demandam apenas 1%
de inspiração, mas 99% de trabalho duro. Finalmente, uma das
qualidades essenciais para se reler um texto e melhorá-lo é
conseguir imaginar jamais tê-lo lido. Dessa maneira, abstraindo-
se de toda informação a priori sobre o texto, o autor poderá
avaliá-lo, analisando apenas o emprego das palavras, se a
mensagem está clara. Exatamente como fará o leitor.
32
3 O PARÁGRAFO

3.1 AS CINCO LEIS BÁSICAS

A menor unidade de comunicação com sentido completo é


a frase.

Ex.: “O fim da inflação.”

Uma frase é caracterizada por:

a) elemento básico: palavra.

b) lei atuante no elemento básico: as palavras devem


formar um sentido completo.

Se mantivermos o elemento básico, mas mudarmos a lei,


definiremos a oração como a menor unidade de comunicação
formando um pensamento completo.

Ex.: “O fim da inflação deve ser buscado.”

Assim, uma oração é caracterizada por:

a) elemento básico: palavra.

b) lei que atua no elemento básico: as palavras devem


formar um pensamento completo.

Definição de Parágrafo:
33

“Parágrafo é um conjunto de orações conectadas lógica e


suavemente, contendo uma única idéia central, bem definida,
bem dividida e bem balanceada.”

A definição acima mostra que o elemento básico do


parágrafo é a oração. A estrutura do parágrafo é caracterizada
pelas cinco leis estruturais abaixo definidas.

3.1.1 Lei do foco: “Escolherás um assunto sobre todos os


demais.”

A analogia com uma fotografia é bem pertinente. Você não


consegue fotografar todas as pessoas da sua cidade, nem
tampouco todos os estudantes de sua turma. É mais apropriado
fotografar uma única pessoa. Mesmo neste caso pode ser
atrativo fotografar um detalhe do indivíduo, como o rosto, os
olhos. Assim, o que vai ser enfatizado deve estar contido na
foto, com enquadramento e foco adequados. Se se quer chamar
a atenção para um detalhe do nariz, por exemplo, a foto não
deve ser de corpo inteiro. Ao contrário, se se quer chamar a
atenção para a proporção do corpo, não se pode tirar uma foto
somente da cintura para cima. Se se deseja descrever o corpo
todo em detalhe, serão precisas várias fotos de detalhe.

Assim é na redação. Não se consegue escrever sobre tudo.


O elemento fundamental da redação, o parágrafo, corresponde a
uma foto, que deve ter enquadramento e foco para descrever um
detalhe escolhido. A reunião de vários parágrafos conterá a
descrição detalhada de um assunto mais complexo, por partes.

Exemplo: parágrafo focalizado


34

“A dissertação de XXX está muito bem redigida. Em


primeiro lugar, a introdução claramente estabelece o tema a ser
estudado, bem como a abordagem empregada no trabalho. Além
disso, observa-se o uso efetivo de técnicas de redação como as
estratégias de definição, no capítulo de metodologia, e a de
comparação-contraste, na descrição dos testes, em que a
metodologia proposta é comparada com outras. Finalmente, o
capítulo de conclusões reforça, de modo conciso, os principais
resultados alcançados, culminando com sugestões de extensão
da metodologia proposta a situações mais complexas, bem como
de possíveis aplicações a outras áreas do conhecimento. A leitura
dessa dissertação é um prazer para qualquer leitor.”

Exemplo: parágrafo fora de foco

“A dissertação de mestrado de XXX demorou muito tempo para


ser concluída. No entanto, os resultados conseguidos foram
muito importantes. A análise foi principalmente teórica e não
houve exemplos práticos para substanciar as conclusões. O grau
de originalidade não é muito elevado devido à semelhança com
certos trabalhos já publicados. A redação é razoavelmente clara,
embora pudesse melhorar bastante. A dissertação de XXX é
polêmica.”

3.1.2 Lei da unidade: “Não fugirás do assunto.”

O assunto escolhido como idéia central do parágrafo não


deve ser mudado dentro do parágrafo. Uma das maneiras mais
fáceis de quebrar a unidade e a atenção do leitor é pular de um
35

assunto para outro. O primeiro exemplo, além de foco, contém


unidade: o assunto é a redação da dissertação de XXX. O
segundo exemplo contém unidade, uma vez que o assunto é a
própria dissertação de mestrado de XXX. Entretanto, em vez de
escolher um aspecto do trabalho, vários aspectos foram
abordados (falta de foco). O exemplo abaixo ilustra a falta de
unidade em um parágrafo.

Exemplo: falta de unidade

“Concluir uma dissertação de mestrado é muito


trabalhoso. Depois de escolher o tema, é preciso fazer uma
pesquisa bibliográfica. No entanto, as bibliotecas de nossas
universidades são muito pobres em quantidade e qualidade de
títulos. Isto é uma conseqüência do estado de
subdesenvolvimento ao qual nosso país é submetido. A
instabilidade econômica do país condiciona grandes flutuações
no mercado de trabalho e às vezes eu me pergunto se
conseguirei um emprego que compense o esforço dispendido
durante a pós-graduação.”

3.1.3 Lei da coerência: “Darás uma seqüência lógica às partes de


teu parágrafo.”

O assunto escolhido no parágrafo é abordado por meio de


alguns aspectos selecionados pelo autor. No primeiro exemplo,
os aspectos são a introdução, o corpo e as conclusões da
dissertação de XXX. Estes aspectos formam as partes do
parágrafo, que devem estar conectadas de modo lógico por meio
de uma ordem ou seqüência. Há casos em que as partes do
parágrafo naturalmente definem uma ordem cronológica ou
36

espacial. Receitas, por exemplo, começam pelos ingredientes,


seguindo-se a preparação na ordem de execução. No primeiro
exemplo, a ordem natural é acompanhar a seqüência da própria
dissertação. O exemplo abaixo mostra o mesmo tipo de
parágrafo com falta de coerência.

Exemplo: falta de coerência

“A dissertação de XXX está muito bem redigida. As


conclusões estão reforçadas de modo conciso, bem como os
principais resultados alcançados, culminando com sugestões de
extensão da metodologia proposta a situações mais complexas.
Não menos importante foi a maneira clara de apresentar o tema
na introdução, junto com a abordagem empregada no trabalho.
O desenvolvimento central da dissertação mostra o uso efetivo
de técnicas de redação, como as estratégias de definição, no
capítulo de metodologia, e o de comparação-contraste em que a
metodologia proposta é comparada com outras. A leitura da
dissertação de XXX é um prazer para qualquer leitor.”

3.1.4 Lei da continuidade: “Lubrificarás as partes de teu


parágrafo.”

As partes de um parágrafo devem estar conectadas de


modo a haver uma transição suave entre elas. Os “lubrificantes”
são as conjunções, preposições, advérbios e as correspondentes
locuções. A introdução dos lubrificantes tem dupla finalidade.
Primeiro, torna o parágrafo mais agradável de ser lido. Segundo,
torna a leitura mais fácil e mais clara, porque o tipo de
lubrificante no início da oração já antecipa ao leitor a conexão
da oração em questão com as anteriores ou com as subseqüentes.
37

Por exemplo: “É muito trabalhoso redigir de modo claro. Uma


boa redação melhora muito a comunicação com o leitor. Vale a
pena investir tempo aprimorando as técnicas de redação.”
Observe como o fragmento de parágrafo acima pode ser
melhorado através da conexão das três orações:

“É muito trabalhoso redigir de modo claro. Entretanto,


uma boa redação melhora muito a comunicação com o leitor.
Portanto, vale a pena investir tempo aprimorando as técnicas de
redação.”

Observe que as duas primeiras orações carregam idéias


opostas, realçadas pela conjunção entretanto. Contudo, a
predominância da segunda idéia sobre a primeira permite uma
conclusão em favor da segunda. A conclusão está reforçada pelo
emprego da conjunção portanto na terceira oração. O fragmento
acima poderia ser melhorado mais ainda, introduzindo-se desde
o início a tese de predominância da segunda idéia sobre a
primeira, de modo explícito por meio da conjunção embora,
ligando a primeira oração (que passará a ser subordinada) com a
segunda oração (que continuará a ser principal):

“Embora seja muito trabalhoso redigir de modo claro, uma


boa redação melhora muito a comunicação com o leitor.
Portanto, vale a pena investir tempo aprimorando as técnicas de
redação.”

O domínio sobre o uso de conjunções, preposições e


advérbios deve ser cultivado por todo autor. Um texto preliminar
deve sempre ser relido tendo em mente a utilização dos
“lubrificantes” mais eficientes possíveis. Esse trabalho é como o
38

de uma lapidação que transforma a pedra bruta, sem brilho nem


beleza, numa rica peça de ornamento, agradável de se olhar.

O parágrafo abaixo mostra como o primeiro exemplo de


parágrafo poderia ter sido um parágrafo sem continuidade, se os
“lubrificantes” em primeiro lugar, além disso e finalmente não
tivessem sido empregados:

Exemplo: falta de continuidade

“A dissertação de XXX está muito bem redigida. A


introdução claramente estabelece o tema a ser estudado, bem
como a abordagem empregada no trabalho. Observa-se o uso
efetivo de técnicas de redação como as estratégias de definição,
no capítulo de metodologia, e a de comparação-contraste na
descrição dos testes, em que a metodologia proposta é
comparada com outras. O capítulo de conclusões reforça, de
modo conciso, os principais resultados alcançados, culminando
com sugestões de extensão da metodologia proposta a situações
mais complexas, bem como de possíveis aplicações a outras
áreas do conhecimento. A leitura dessa dissertação é um prazer
para qualquer leitor.”

3.1.5 Lei do desenvolvimento: “Serás justo na divisão de teu


parágrafo, porque somente os justos entrarão para o reino
dos bons autores.”

Um parágrafo apresenta, naturalmente, uma divisão em


três segmentos: a introdução, a discussão e a conclusão (note a
semelhança com as divisões da dissertação e do capítulo). O
parágrafo deve estar bem balanceado nesta divisão, de modo que
39

a introdução e a conclusão componham, cada uma,


aproximadamente 1/6 do parágrafo. Os restantes 4/6 devem
caber à discussão. Cada segmento (particularmente a discussão)
deve ser plenamente desenvolvido. Os parágrafos seguintes
ilustram os casos de parágrafos mal desenvolvidos e mal
balanceados.

Exemplo: parágrafo mal desenvolvido

“A dissertação de XXX está muito bem redigida. Em


primeiro lugar, a introdução claramente estabelece o tema a ser
estudado, bem como a abordagem empregada no trabalho. Além
disso, observa-se o uso efetivo de técnicas de redação como as
estratégias de definição, no capítulo de metodologia, e a de
comparação-contraste na descrição dos testes, em que a
metodologia proposta é comparada com outras. A leitura dessa
dissertação é um prazer para qualquer leitor.”

Observe que a proposta é analisar a dissertação de XXX, e


uma parte dessa dissertação, a conclusão, não foi referenciada.
Desse modo, o parágrafo não está totalmente desenvolvido.

Exemplo: parágrafo mal balanceado

“A dissertação de XXX está muito bem redigida. O


estudante dedicou boa parte de seu treinamento aprimorando
técnicas de redação, chegando a fazer um curso especial sobre o
assunto. Este treinamento mostrou-se muito útil durante a
redação final da dissertação. Inicialmente, ele sentiu alguma
dificuldade, e até mesmo um certo desânimo por achar que não
conseguiria melhorar de modo qualitativo a sua habilidade como
40

autor. Contudo, com o passar do tempo, ele assimilou as idéias


globais sobre uma boa redação e adquiriu um domínio efetivo
sobre elas. Sua dissertação mostra que tanto a introdução e a
conclusão, como os capítulos de discussão foram elaborados
com bastante cuidado, utilizando as técnicas que ele aprendeu. A
leitura de sua dissertação é um prazer para qualquer leitor.”

Observe, no exemplo acima, que a introdução toma


aproximadamente 4/6 do parágrafo, ao passo que a discussão
apenas 1/6 (o oposto é o desejável). O que o parágrafo propõe é
a análise da dissertação de XXX, e isto é feito somente com uma
sentença. Este parágrafo está desbalanceado e tem a proporção

em vez da proporção “áurea”:


41

INTRODUÇÃO

3.2 OS TRÊS TIPOS FUNDAMENTAIS DE PARÁGRAFO


DISCUSSÃ
Os tipos fundamentais
O de parágrafo são: introdutório, de
discussão e de conclusões. O parágrafo introdutório capta a
atenção do leitor, apresenta e restringe o tema a ser discutido no
capítulo. O parágrafo de discussão desenvolve a análise ou
CONCLUSÃO
discussão do tema, substanciando as idéias apresentadas com
exemplos específicos. O parágrafo de conclusões resume os
principais pontos discutidos e esboça uma generalização que
evidencie a relevância da discussão apresentada. Apresenta-
remos inicialmente o parágrafo de discussão que forma o corpo
do capítulo (ou pequena composição). Uma vez dominada a
técnica de redigir parágrafos de discussão, estudaremos como
começar (parágrafo introdutório) e como terminar um capítulo
(parágrafo de conclusões).

3.2.1 Parágrafo de discussão

3.2.1.1 A sentença-tópico: caracterização


42

O parágrafo de discussão começa com uma sentença-


tópico, que deve não só indicar de que o parágrafo irá tratar,
como também deixar claro do que o parágrafo não irá tratar.
Assim, a sentença-tópico define e limita o tópico do parágrafo.

A sentença-tópico difere de um título de três maneiras.


Primeiro, ela é colocada dentro do texto e não fora dele. Se-
gundo, a sentença-tópico contém um pensamento completo, ao
passo que o título não contém um sentido completo, mas apenas
um fragmento de pensamento (frase). Terceiro, a sentença-tópico
tem o papel de estabelecer uma envoltória convergente que
limita o parágrafo, ao passo que o título estabelece uma
envoltória divergente que tende a expandir uma composição.

SENTENÇA-TÓPICO

Exemplo: sentença-tópico Envoltória convergente


limitando o parágrafo

“Elaborar uma tese de doutorado requer muito mais auto-


confiança que elaborar uma
Envoltória dissertação de mestrado.”
divergente
expandindo a composição

TÍTULO
43

Exemplo: sentença-tópico

“Estudantes de Matemática, em geral, não gostam de


Literatura porque a última é um assunto subjetivo.”

3.2.1.2 O que uma sentença-tópico deve ser

a) Completa – Uma sentença-tópico deve conter um


pensamento completo e não apenas um fragmento.

Exemplo:

- fragmento: “Uma maneira segura de se trocar um pneu.”

- sentença completa: “Há um modo seguro de se trocar um


pneu.”

b) Clara - A sentença-tópico é o rótulo do parágrafo,


comunicando ao leitor o que será nele tratado. Assim, a
sentença-tópico não deve confundir o leitor com a introdução de
mais de um possível significado.

Exemplo: sentença com vários possíveis significados.

“Para se tocar qualquer tipo de instrumento, é preciso


conhecer alguma coisa sobre ele.”

Observe a multiplicidade de possíveis tópicos específicos


que estão englobados nesta sentença, como:

Exemplo:
44

“Para se tocar qualquer tipo de instrumento de percussão é


preciso ter um bom senso de ritmo.”

Exemplo:

“Para se tocar trombone é preciso desenvolver lábios


fortes”

c) Específica – Esta qualidade está diretamente


relacionada com a anterior. Uma sentença específica tende a ser
clara, ao passo que sentenças genéricas tendem a ser obscuras.
Há, entretanto, diferença entre ser claro e ser específico. Ser
claro significa fazer uma asserção óbvia em vez de sugeri-la
apenas. Ser específico significa limitar o tópico ao tamanho
adequado ao parágrafo.

Exemplo: sentença muito ampla

“Hoje em dia é difícil seguir Os Dez Mandamentos,


mesmo para os religiosos.”

Exemplo: sentença específica

“O pai de uma criança faminta é dolorosamente compelido


a desrespeitar o sétimo mandamento.”

Uma das estratégias mais eficazes na elaboração de


sentenças-tópico específicas é a introdução de uma idéia
controladora.

Exemplo: sentença muito ampla


45

“O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz, é um livro


interessante.”

Exemplo: sentença específica pela introdução de uma


idéia controladora.

“O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz, é uma


crítica incisiva aos valores religiosos da sociedade portuguesa”.

Observe o papel literalmente controlador da idéia


controladora. Adicionando mais ou menos detalhe à idéia
controladora, o escopo do parágrafo é adequadamente
sintonizado. A idéia controladora (grifada no exemplo acima)
atua sobre uma classe mais ampla de características (“crítica
incisiva”, no exemplo acima), especificando-a em nível desejado
de detalhe. A classe mais ampla de características não deve, no
entanto, ser tão ampla a ponto de impedir a atuação da idéia
controladora. Assim, palavras como interessante, importante,
polêmico não são suficientemente específicas para permitir a
introdução de uma idéia controladora, devendo, portanto, ser
evitadas em sentenças-tópico. Da mesma forma, tanto a classe
mais ampla de características, como a idéia controladora não
devem ser completamente específicas, caso contrário a sentença
não conterá uma idéia a ser desenvolvida no parágrafo, mas uma
simples constatação de um fato. Por exemplo

“O motorista que avança o sinal vermelho é multado em


cento e cinqüenta reais”.
46

O que pode ser acrescentado a esta sentença? Posso


discutir as causas que levam o motorista a avançar um sinal, ou
a adequação da penalidade imposta, mas estas análises
introduzirão uma nova idéia, o que me fará violar a Lei da
unidade. Não há praticamente espaço para detalhamento ou
ilustração da idéia contida na sentença.
A sentença-tópico deverá conter uma, ou no máximo duas
palavras representando classes “ligeiramente” amplas. Entende-
se por “ligeiramente” ampla uma classe que permitir a alguns de
seus elementos serem selecionados para ilustrar a idéia da
sentença tópico. Considere o exemplo da sentença-tópico usada
no capítulo 1:

“Um automóvel moderno proporciona alto grau de


conforto aos passageiros”

Nesta sentença, a palavra “conforto” representa a classe


“ligeiramente” ampla, de modo que dois ou três de seus
elementos podem ser selecionados como suportes primários (V.
seção 3.2.1.4) para ilustrar a idéia contida na sentença-tópico.
Os elementos, pertencentes à classe “conforto” escolhidos neste
exemplo foram “isolamento acústico” e “ambiente climatizado”.

No exemplo

“O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz, é uma


crítica incisiva aos valores religiosos da sociedade portuguesa”

há duas classes ligeiramente amplas: “crítica incisiva” e


“valores religiosos”. Na seção que trata dos suportes primário e
secundário, ilustraremos como deve ser gerenciado o caso de
47

haver mais de uma classe ligeiramente ampla na sentença-


tópico. Mais de duas classes ligeiramente amplas numa sentença
tópico, entretanto, tendem a degradar a clareza do parágrafo, e
devem, portanto, ser evitadas por quem está começando o
treinamento na técnica de redação.

3.2.1.3 O que uma sentença-tópico não deve conter

a) Substitutos vulgares. São palavras que não são


exatamente palavras, mas substitutos de palavras.

Exemplo: substituto vulgar

“Avião é uma coisa que voa.”

b) Substitutos desgastados. Algumas palavras ou


expressões já estão literalmente gastas de tanto uso e são
chamadas clichés. Atualmente, elas não transmitem vitalidade a
um texto.

Exemplo: substitutos desgastados

“Aquele homem é forte como um touro.”

“Ele é tão delicado que é incapaz de ferir uma mosca.”

“Minha boca é um túmulo.”

c) Substitutos fracos. São palavras e expressões que


carecem de força e exatidão. Devem ser substituídas por
comparações ou por medidas exatas.
48

Exemplo: substituto fraco

“Está muito quente hoje.”

O termo muito quente acima pode ser substituído por:

Exemplo: uso de comparação em lugar de substituto fraco

“O calor de hoje chega a derreter o asfalto.”

Exemplo: uso de medidas exatas em lugar de substitutos


fracos

“Hoje está fazendo um calor de 40 graus.”

d) Verbalismo – A escolha da palavra certa é como a busca


de uma gema perfeita. O autor deve dar maior peso à qualidade
e não à quantidade de palavras. Especialmente trabalhos que
serão submetidos à publicação devem sofrer uma redução
drástica de palavras desnecessárias.

Exemplo: verbalismo

“Em nossos ensaios com a droga K, feitos com o propósito


de testar seu efeito em coelhos, ela foi administrada a esses
animais por via endovenosa. Nessas experiências, utilizamos
quantidades relativamente pequenas de K, injetando de 2 a 3
centímetros cúbicos de solução que continha 1% da substância
ativa, em coelhos com 2 a 3 quilogramas de peso. Em todos os
casos observados o resultado sempre foi fatal, morrendo os
animais apenas decorrido um lapso de tempo igual a 5 minutos
após a injeção” (Rey, 1972).
49

Exemplo: redução do verbalismo do exemplo 23

“A injeção endovenosa de K mata os coelhos em 5


minutos, na dose de l0 mg por quilograma de peso” (Rey, 1972).

e) Substitutos para evitar repetição de palavras: este,


esse, aquele, ele. – Embora a repetição excessiva das mesmas
palavras seja cansativa ao leitor, a potencial perda de exatidão
decorrente do uso dos pronomes este, esse, aquele e ele é muito
mais prejudicial, de modo que tais substitutos devem ser
evitados.

Exemplo: perda da clareza através do uso de substituto


para evitar repetição de palavras

“O padre, o delegado e o médico chegaram


simultaneamente ao local do acidente. Esse, no entanto não
conhecia aquele.”

3.2.1.4 Sentenças de suporte primário (SP) e suporte secundário


(SS)

A sentença de suporte primário consiste de grupos de


palavras que atuam diretamente sobre a classe “ligeiramente”
ampla discutida na seção 3.2.1.2. A estratégia fundamental do
suporte primário é a divisão. Entretanto, a divisão pura leva a
textos pouco enriquecidos. Eles podem ser melhorados bastante
com as estratégias de divisão ilustrativa e divisão explicativa.
A sentença de suporte secundário tem como objetivo
detalhar a informação contida na sentença de suporte primário.
O suporte secundário pode atuar tanto na classe (através de
explicações, ilustrações, estatísticas ou citações) como no
50
indivíduo membro da classe (através de exemplos concretos).
No primeiro caso, qualidades da classe são especificadas
enquanto no segundo, atributos do indivíduo são relacionados.
As sentenças de suporte secundário, além de dar mais vida ao
parágrafo, fornecem o detalhe suficiente para aumentar as
chances de o leitor entender e acreditar na idéia contida na
sentença-tópico.
Nos exemplos a seguir usaremos as convenções: ST para
sentença-tópico, SP para suporte primário e SS para suporte
secundário. Na sentença-tópico, a classe ligeiramente ampla a
ser detalhada está realçada em negrito e o tipo de estratégia
usada está assinalado em itálico. Os exemplos concretos são
fictícios.

A. (ST) Há trezentos anos atrás, Londres não era um local


muito saudável para se viver. (SP divisão-ilustração)
Londrinos, ricos ou pobres, banhavam-se raramente. (SS
explicação) A maioria das famílias comprava diariamente
uma quantidade limitada de água e não possuía banheiros
privativos.

B. (ST) Há trezentos anos atrás, Londres não era um local


muito saudável para se viver. (SP divisão-ilustração) Não
havia, por exemplo, coleta de lixo pela prefeitura. (SS
ilustração) O lixo era acumulado em quintais ou despejado
nas ruas.

C. (ST) Há cem anos atrás, Londres apresentava sérios


problemas acerca do lixo doméstico. (SP divisão-ilustração)
O lixo era acumulado em quintais ou despejado nas ruas. (SS
ex.concreto) Em 1880, a célebre Trafalgar Square, por
exemplo, acumulava tanto lixo que a estátua do almirante
Nelson parecia ter afundado um metro no solo.
51
D. (ST) Viver nas grandes cidades pode ser uma experiência
desagradável. (SP divisão) A falta de solidariedade humana,
por exemplo, é muito freqüente. (SS estatística) Uma
pesquisa divulgada pelo Jornal da Tarde em 6 de maio de
1998 relata que 90% dos entrevistados na cidade de S. Paulo
declararam não parar para ajudar uma pessoa acidentada na
rua.

E. (ST) Viver nas grandes cidades pode ser uma experiência


desagradável. (SP divisão-ilustração) A violência, por
exemplo, pode provocar traumas psicológicos em muitas
pessoas. (SS ex.concreto) Meu vizinho, após ser vítima de um
seqüestro-relâmpago no Rio de Janeiro, em que foi ameaçado
com uma arma apontada para sua cabeça, precisou de
assistência constante de um analista durante seis meses.

F. (ST) Uma dieta não balanceada pode ser prejudicial à


saúde. (SP divisão-ilustração) Por exemplo, a ingestão de
gorduras em excesso pode predispor uma pessoa a sofrer de
doenças cardíacas. (SS citação-estatística) Um estudo da
Sociedade Brasileira de Cardiologia (Weiss, 1999) relata que
75% dos pacientes com enfarte do miocárdio atendidos no
Instituto do Coração durante o ano de 1998 praticavam uma
dieta rica em gorduras saturadas.

G. (ST) Uma dieta não balanceada pode ser prejudicial à


saúde. (SP divisão-ilustração) O hábito de ingerir
suplementos vitamínicos, por exemplo, pode provocar
doenças tão ou mais sérias que aquelas provocadas por um
quadro de hipovitaminose. (SS ilustração) A ingestão de
doses de vitamina A superiores a 3 mg diários, por exemplo,
pode provocar doenças hepáticas graves, segundo uma
pesquisa divulgada pelo Instituto de Medicina Americano.
52
H. (ST) Uma dieta muito pobre em gorduras pode ser
prejudicial à saúde. (SP divisão-explicação) As vitaminas A,
D, E e K, por exemplo, são melhor absorvidas na presença de
gordura. (SS citação) Flinn (1997) reporta uma grande
incidência de casos de cegueira noturna entre pessoas que
praticaram uma dieta isenta de gordura por mais de seis
meses.

Observe, nos exemplos F e G, o estabelecimento de mais


de uma classe ligeiramente ampla na sentença-tópico. A
estratégia a ser usada para a sentença de suporte primário neste
caso é a exemplificação de um elemento de cada classe. Note
como no exemplo F, a sentença de suporte primário “Por
exemplo, a ingestão de gorduras em excesso pode predispor
uma pessoa a sofrer de doenças cardíacas” apresenta um
elemento da classe “dieta não balanceada”, que é “ingestão de
gorduras em excesso” e um elemento da classe “prejudicial à
saúde”, que é “doenças cardíacas”.
Note também que o grau de detalhe sobre o assunto a ser
discutido num parágrafo (Lei do foco) é variável e depende do
objetivo que o autor quer atingir. O exemplo C apresenta uma
sentença-tópico com grau de detalhe muito próximo ao da
sentença de suporte primário do exemplo B. Para estudantes que
estão iniciando na técnica de redação é recomendável que não se
escolha um assunto muito abrangente porque ele pode induzir à
fuga do assunto, quebrando a Lei do foco e a Lei da unidade. É
importante ressaltar que as diretrizes mostradas neste livro não
devem ser vistas como regras rígidas, que não possam ser
quebradas, mas apenas como uma ajuda para o treinamento na
produção de textos claros e organizados por aqueles que estão
iniciando nas técnicas de redação. Uma vez dominadas as
técnicas, as regras podem ser flexibilizadas desde que não
prejudiquem a clareza.
53
Mostramos abaixo dois parágrafos que abordam assuntos
extremamente amplos na sentença-tópico. Eles foram escritos
por um autor experiente (Parenti, 1980), que, ao invés de uma
sentença de suporte primário e uma de suporte secundário,
lançou mão de um grupo de sentenças de suporte primário
(negrito) e um grupo de sentenças de suporte secundário
(itálico). Apesar de não seguir rigorosamente as regras aqui
apresentadas, o texto é claro e apresenta com fluência os
suportes para a mensagem contida na sentença-tópico.

1) Quanto mais rico o indivíduo, maiores serão suas


oportunidades de gozar de isenções de imposto sobre ganhos de
capital, títulos municipais e estaduais não tributáveis, ações e
vários tipos de deduções profissionais e em transações
comerciais. Para os muito ricos, virtualmente qualquer
investimento pode ser protegido contra impostos. É
permitido, por exemplo, que se lancem como perdas a
manutenção ou a depreciação de: rebanhos de gado, times
de baseball, plantações de laranja e edifícios comerciais
durante o tempo em que eles não são lucrativos. Assim,
lucros imaginários que não se concretizaram podem ser
declarados como prejuízos, de modo que uma pessoa muito
rica pode auferir lucros reais astronômicos, mas
demonstrar prejuízo e gozar, portanto, de uma substancial
dedução de imposto. Em 1976, 182 milionários não pagaram
um centavo sequer de imposto. Bilionários como H. L. Hunt e J.
Paul Getty, com rendas anuais de US$ 50 milhões e US$ 100
milhões, respectivamente, pagaram somente alguns milhares de
dólares de imposto. Em contraste, um lavador de pratos em
Nova Iorque, que ganha US$ 4800 por ano, paga US$ 1213 em
impostos federais, estaduais e municipais, mais outros US$ 200
de ICM, ou seja, o equivalente a quatro meses de salário (Stern
1977).
54

2) Recentemente tem havido notícias sobre corrupção


envolvendo funcionários federais, estaduais e municipais em
todos os estados da União. No Congresso, “A corrupção é tão
endêmica que se torna escandalosa. Mesmo os homens
honestos são corrompidos  normalmente por grandes
grupos econômicos e por indivíduos ricos que financiam
campanhas eleitorais” (Agree, 1976). “Em alguns estados 
Louisiana, por exemplo  os escândalos são tão numerosos
que expô-los não causam mais nenhum impacto na opinião
pública”, relata um observador (Simon, 1964). Um
republicano do estado de Illinois estima que um terço de seus
colegas legisladores aceitam suborno. Num período de seis
anos, o número de funcionários públicos condenados em cortes
federais incluía um vice-presidente, três chefes de gabinete, três
governadores, trinta e quatro deputados estaduais, cinco
procuradores gerais, vinte e oito prefeitos, onze promotores
públicos e 170 delegados  e esta lista inclui somente os mais
azarados ou descuidados que puderam ser apanhados
(Washington Monthly, fevereiro 1972) Corrupção generalizada
tem sido constatada nas forças policiais de Chicago, Filadélfia,
Indianápolis, Cleveland, Houston, Denver e inúmeras outras
cidades menores, envolvendo práticas como proteção ao
narcotráfico e a jogadores, aceitação de suborno, roubo ou
encobrimento de roubo de lojas, pilhagem de parquímetros
extorsão de prostitutas e intimidação de testemunhas que se
propõem a depor contra crimes na polícia.

3.2.2 Parágrafo introdutório

O parágrafo introdutório é a parte mais crítica de uma


composição ou capítulo. Ele contém a isca, ou sentença de
abertura, especialmente construído para atrair a atenção e o
55

interesse do leitor. O parágrafo introdutório contém ainda, no


seu término, a sentença-tese, que organiza e estrutura o
desenvolvimento dos parágrafos seguintes.

3.2.2.1 Tipos de sentença de abertura

A sentença de abertura, de acordo com seu conteúdo


pode pertencer a quatro gêneros: humor, drama, citação e
polêmica.

a) Humor

Exemplo:

“ No Rio de Janeiro, atletas que não levarem ouro, prata


ou bronze, poderão ainda levar chumbo”.

b) Drama

Exemplo:

“O desmatamento da floresta amazônica pode ocasionar


profundas mudanças climáticas em todo o planeta.”

c) Citação

Exemplo:

“Aquele que destruir o olho de outro homem terá seu olho


destruído, escreveu Hammurabi em 2100 a.C.”

d) Polêmica
56

Exemplo:

“Apesar da crescente especialização do conhecimento


humano, precisam os geofísicos de uma formação ampla?”

3.2.2.2 A sentença-tese

A sentença-tese é a mais importante sentença isolada


porque ela limita e organiza a discussão nos parágrafos
subseqüentes ao parágrafo introdutório. Esta sentença apresenta
a tese (proposição) que será defendida na composição ou
capítulo. Além disso, ela indica a ordenação dos argumentos.
Observe a sentença-tese usada no capítulo anterior: “O homem
moderno está cada vez mais dependente do automóvel por que
este lhe proporciona conforto e status social”. Ela especifica
que o primeiro parágrafo após a sentença-tese tratará da
influência do conforto na dependência do homem em relação ao
automóvel. Este parágrafo deverá começar com uma sentença-
tópico limitando-o a discutir essa influência. O parágrafo
seguinte, por sua vez tratará da influência do status social e
deverá iniciar com uma sentença-tópico que o limite a discutir
este aspecto.

Este exemplo mostra que uma sentença-tese bem dividida


irá naturalmente dividir a composição (ou capítulo) em seções
que a tornarão mais fácil de ser redigida, mais bem estruturada
e mais agradável de ser lida.
57

Os exemplos abaixo comparam sentenças-teses divididas e


não divididas.

Exemplo: sentença-tese não dividida

“Escrever uma boa dissertação exige muito esforço.”

Exemplo: sentença-tese dividida

“Ser policial requer importantes qualidades como


prudência, coragem e rapidez em tomar decisões”.

A divisão da sentença-tese pode seguir diversos critérios:

a) Cronológico: deve-se proceder do mais antigo para o


mais recente.

Exemplo: divisão cronológica da sentença-tese

“Sendo tão dependentes da mãe ao nascer, tão vulneráveis


ao acasalamento e tão úteis ao morrer, as baleias são uma
espécie em risco de extinção.”

b) Espacial: deve-se proceder do mais afastado para o


mais próximo.

Exemplo: divisão espacial da sentença-tese

“Para combater o mosquito transmissor da dengue,


devemos acabar com os focos de águas paradas nos bosques,
jardins, e em casa.”
58

c) Importância: deve-se proceder do menos para o mais


importante.

Exemplo: divisão por importância da sentença-tese

“O vazamento de óleo provocado pela colisão de dois


petroleiros foi uma calamidade porque manchou os cascos de
vários barcos, sujou as areias da praia e levou milhares de aves e
peixes à morte.”

Na divisão da sentença-tese, o paralelismo deve ser


rigorosamente respeitado (V. seção 2.1.1.3).

3.2.2.3 Sentenças intermediárias


Uma vez construídas a sentença de abertura e a sentença-
tese, conheceremos o início e o fim do parágrafo de abertura.
Saberemos de onde sair e aonde chegar. As sentenças
intermediárias têm o papel de promover uma transição suave e
gradativa entre a sentença de abertura e a sentença-tese.

Exemplo de parágrafo de abertura.

“Em plena avenida Atlântica no Rio de Janeiro, lê-se o


nome sui generis de um bar: O Engenheiro que Virou Suco. Esse
nome refere-se ao proprietário, o senhor João, que, após padecer
por inúmeros anos sem emprego na sua profissão, decidiu abrir
o próprio negócio. O caso do senhor João não é único no país e
reflete uma dura realidade brasileira para aqueles que passaram
quatro anos ou mais em uma universidade e não conseguiram
concretizar o sonho de se tornarem profissionais na área que
tanto almejaram. Os tempos mudaram e o desemprego está
atingindo cada vez mais as pessoas portadoras de diplomas de
59
curso superior. Os jovens estão cada vez mais desmotivados a
ingressar em um curso superior devido à alta taxa de
desemprego entre os profissionais que cursaram universidades, à
falta de direcionamento de ensino à carreira profissional e ao
distanciamento entre os interesses acadêmicos e empresariais.

3.2.3 Parágrafo de conclusões

A estrutura do parágrafo de conclusões é oposta à do


parágrafo introdutório. O parágrafo introdutório começa com
uma sentença geral e caminha para a sentença-tese através de
sentenças de transição mais e mais específicas. Assim, o
parágrafo de conclusões começa com uma reafirmação da
sentença-tese (não deve, entretanto, ser uma repetição palavra-
por-palavra da sentença-tese). As próximas sentenças devem
resumir as idéias desenvolvidas na composição (ou capítulo).
Por último, deve-se acrescentar uma generalização relevante que
fará a composição terminar decisivamente, reforçando as idéias
principais. Esta generalização é necessária para mostrar a
relevância, universalidade ou aplicabilidade das idéias
desenvolvidas.

O parágrafo de conclusões é a última chance de persuadir


o leitor; assim, devem-se evitar:

a) expressões como eu acho, na minha opinião;

b) introdução de novas idéias ou novas evidências;

c) introdução de dúvidas ou questões.


60

O conteúdo do parágrafo de conclusões é o que o leitor


carregará consigo. Desse modo, deve-se tirar proveito desta
última oportunidade de demonstrar segurança e convicção sobre
o que foi escrito.

3.2.4 Exemplo de uma composição

As regras estabelecidas anteriormente para elaboração


dos 3 tipos de parágrafos (e também as cinco leis básicas) serão
ilustradas na composição abaixo.

Com a finalidade de guiar o estudante, os diversos tipos de


sentenças estão marcados no texto, seguindo as seguintes
convenções:

(AB): sentença de abertura

(IN): sentença intermediária

(TE): sentença-tese

(TO): sentença-tópico

(SP): sentença de suporte primário

(SS): sentença de suporte secundário

(RT): sentença de reafirmação da tese

(SI): sentenças sintetizadoras, ou de sumário

(GE): sentenças generalizadoras


61

ÍNDIOS VS. COLONIZADORES: UMA BATALHA


DESIGUAL

(AB) “Nós desenvolvemos nossa grandiosidade num


período em que uma sociedade migrante tomou conta de um
continente rico e vazio”, disse o reitor Conant da Universidade
de Harvard em 1948, referindo-se à colonização dos Estados
Unidos pelos europeus. (IN) Sua afirmação foi correta, a menos
do fato que a América do Norte no século XVI dificilmente
poderia ser rotulada como vazia em termos de habitantes. (IN)
Ao contrário, alguns milhões de índios, agrupados em centenas
de tribos, encontravam-se espalhados por todo o país. (IN)
Nesse momento, um conflito entre duas forças desiguais teve
lugar. (IN) Os colonizadores brancos, graças à sua supremacia
em número, organização e poder de destruição, expulsaram
continuamente os índios de suas terras. (TE) Das raízes do
conflito, três principais causas são evidentes como as mais
decisivas na constante perda de terra sofrida pelos índios: o
interesse do homem branco na exploração dos recursos naturais,
a sua necessidade da própria terra e as dificuldades criadas pelos
índios para a exploração e posse da terra pelo homem branco.

(TO) A ganância do homem branco com respeito aos


recursos altamente lucrativos, contidos no novo continente, foi
uma força decisiva na constante destituição dos índios de suas
terras. (SP1) Em primeiro lugar, o território ocupado pelos
índios continha enormes quantidades de pedras preciosas e
metais nobres. (SS1.1) Wissler (1941) afirma que por volta de
1849 a Corrida do Ouro na Califórnia era tão intensa que os
Teton, uma divisão dos Dakotas e Sioux, tornaram-se alarmados
62

e hostis. (SS1.2) Este mesmo autor diz que os Pueblos e os


Mound Builders eram muito ricos em turquesa que eles próprios
lavravam e trabalhavam, produzindo ornamentos. (SP2) Além
disso, por todo o país os recursos florestais eram abundantes.
(SS2) Alpern et al. (1977) reportam que em uma área em Maine,
usurpada dos índios, as indústrias atuais estão extraindo madeira
e utilizando-a na fabricação de celulose.

(TO) Outra principal causa da perda de terra pelos índios


foi a necessidade que teve o homem branco da posse da terra
para suas próprias finalidades. (SP1) Primeiramente, os
colonizadores precisavam de um lugar para viver. (SS1) Trippett
(1977) escreve que os pioneiros americanos possuíam um desejo
incontrolável de possuir terras. (SP2) Adicionalmente, o número
crescente de novas indústrias e a expansão desenfreada das
indústrias antigas demandavam grandes extensões de terra, não
só para as construções e equipamentos, mas também para a
produção de matéria-prima. (SS2) Alpern et al. (1977) reportam
que uma área altamente industrializada de 125 milhões de acres
em Maine foi tomada ilegalmente dos índios em 1794. Hoje,
essa área contém pelo menos quatro fábricas de celulose, duas
indústrias madeireiras e milhares de acres ocupados por
plantações de batata.

(TO) Os índios criaram sérios problemas ao homem


branco com respeito à exploração da terra, uma vez que eles
pertenciam a mundos completamente diferentes e possuíam
diferentes escalas de valores. (SP1) Primeiro, os índios não
costumavam extrair da Natureza nada que fosse além de suas
necessidades imediatas. (SS1) Mr. X (1978) diz que mesmo
63

atualmente muitos índios antiquados são contrários à extração


de seus próprios recursos naturais nas reservas indígenas, porque
eles ainda são sensíveis ao culto de reverência à Natureza. (SP2)
Além disso, os índios usavam a terra de modo comunitário,
diferentemente do homem branco, que herdou dos europeus um
sistema econômico baseado essencialmente na propriedade
privada. (SS2.1) Trippett (1977), por exemplo, reporta que os
índios viam a terra como uma dádiva a ser usada por todos e que
a idéia de que a terra pudesse ser vendida era para eles
inconcebível. (SS2.2) Al Chacon (1978, com. pess.) diz que,
para os índios, a terra era como o fogo, o ar e a água, que
obviamente não podem ser vendidos.

(RT) Se desejamos entender as causas da perda de terra


pelos índios, devemos concentrar nossa atenção para as
discrepâncias econômicas e culturais entre a sociedade indígena
e a do homem branco. (SI) O homem branco demandava uma
exploração em larga escala dos recursos naturais, enquanto os
índios usavam somente o essencial para a sua sobrevivência e
respeitavam o equilíbrio ecológico natural. (SI) Além do mais, o
sistema econômico da sociedade ao qual o homem branco
pertencia era baseado na propriedade privada, enquanto, do
ponto de vista do padrão cultural indígena, a terra era uma
entidade doada pelo Grande Espírito, para uso coletivo por todos
os homens. (GE) Desde o início do conflito entre os primeiros
colonizadores e os índios, o futuro resultado já era claramente
previsível: a derrota dos índios. (GE) Quando duas forças
desiguais são confrontadas, o resultado é sempre a destruição da
mais fraca.”
64

3.3 AS PRINCIPAIS ESTRATÉGIAS

Dependendo da mensagem a ser transmitida ao leitor, o


autor pode lançar mão de diversas estratégias de redação de
parágrafos. Analisaremos aqui apenas as estratégias que
consideramos as mais importantes na redação de uma
dissertação: definição, descrição, prescrição, comparação-
contraste e causa-efeito. Estas estratégias são aplicadas somente
aos parágrafos de discussão. Assim, uma composição do tipo
causa-efeito deverá ser constituída por parágrafos de discussão
que sigam a mesma estratégia.

3.3.1 A estratégia de definição

Esta estratégia é empregada quando o autor quer explicar


o que é um sistema, uma qualidade, ou com o que ela se
assemelha, ou como ela funciona. Uma definição explica, limita
e especifica. Um parágrafo de definição é constituído de duas
partes: a sentença-tópico e os exemplos.

3.3.1.1 A sentença-tópico

A sentença-tópico de um parágrafo de definição deve


apresentar uma classe à qual o termo a ser definido pertence, e
sua diferenciação, que esclarece como o termo difere dos outros
membros da mesma classe. Existem cinco regras fundamentais
para a elaboração de uma sentença-tópico de definição.

a) A classe e o termo a ser definido devem pertencer à


mesma classe gramatical. Assim, define-se um substantivo com
outro substantivo, um verbo com outro verbo, etc.
65

Exemplo: uso incorreto da classe na definição

“Estádio é onde se realizam competições esportivas.”

Exemplo: uso correto da classe na definição

“Sangue é um líquido espesso, de cor avermelhada, que


enche as veias e as artérias.”

Exceção aceitável a essa regra é o uso dos pronomes que


isoladamente são pronomes adjetivos, mas atuam como
substantivos. Por exemplo: “Pessimista é aquele que, tendo
sofrido muitas decepções, encara a vida de forma negativa.”

b) A classe, dentro da qual o termo vai ser colocado, deve


ser a mais restrita possível, caso contrário, haverá a necessidade
de muitas características distintivas para separar o termo a ser
definido dos outros membros da classe.

Exemplo: classe muito ampla na definição

“Gestante é o indivíduo do sexo feminino que carrega no


seu útero um feto em desenvolvimento.”

Repare que o termo indivíduo é muito amplo e necessita


de características adicionais, como sexo feminino, para distinguir
o termo dentre os demais membros da classe indivíduo.

Exemplo: classe específica na definição

“Gestante é a mulher que carrega no seu útero um feto em


desenvolvimento.”
66

Se a classe não for restrita, e não forem utilizadas


características adicionais, a definição torna-se pobre e pouco
esclarecedora.

Exemplo: definição dúbia

“Fermento é algo que se coloca no bolo para que ele fique


melhor.”

c) O termo deve ser definido em uma linguagem mais


simples, com outras palavras que lhe são similares em
significado, mas que serão mais facilmente compreendidas pelo
leitor.

Exemplo: uso de termo menos compreensível na definição

“Patriotismo é um chauvinismo pouco acentuado.”

Exemplo: uso de termo mais compreensível na definição.

“Patriotismo é o orgulho e a devoção sentidos pela


grandeza da pátria.”

d) Nunca usar definição em círculo, ou tautologia, isto é, o


uso, na definição, do próprio termo a ser definido, ou de outro
termo derivado dele.

Exemplo: definição circular

“Comunismo é uma forma de organização econômica


adotada nos países comunistas.”
67

e) Nunca empregar, na definição, palavras carregadas de


emoção, uma vez que o objetivo do autor é definir o termo
racionalmente e persuadir o leitor por meio de argumentos. Uma
asserção notoriamente emocional enfraquece a composição.

Exemplo: uso de emoção na definição

“Senado é um grupo de pilantras, corruptos, que, ao invés


de trabalhar pelo povo, passa a maior parte do tempo fazendo
conchavos.”

Exemplo: uso de emoção na definição

“Senado é um grupo de homens cultos, patrióticos e


tementes a Deus, que se dedicam de modo abnegado a trabalhar
em prol do seu país e do bem-estar da coletividade.”

3.3.1.2 Os exemplos

Os exemplos, num parágrafo de definição, formam a


substância do parágrafo, e irão esclarecer, explicar e convencer o
leitor sobre a definição apresentada na sentença-tópico. Os
exemplos devem ser concretos, mas não particulares.

Exemplo: exemplo concreto na definição

“Otimista é o indivíduo que tende a estar satisfeito com


tudo. Ele é capaz de enxergar o lado positivo de um revés e
transformar derrotas em vitórias.”

Exemplo: exemplo particular na definição


68

“Otimista é o indivíduo que tende a estar satisfeito com


tudo. Quando Jessé, por exemplo, derruba um copo cheio de
café na mesa de trabalho, fica satisfeito, porque teve a chance
de, finalmente, efetuar a limpeza geral da mesa que ele vinha
planejando há muito tempo.”

Os exemplos particulares devem ser evitados. Eles são


pertinentes à estratégia de descrição, mas não de definição.
As técnicas usuais empregadas nos exemplos de definição
são:

a) Fornecer ilustrações úteis sobre o objeto, fenômeno, etc.


que está sendo definido.

Exemplo: definição direta

“Um inimigo é alguém que está sempre desejando que


você se saia mal em qualquer circunstância. Ele espera que você
seja reprovado nos exames, ou que seja rejeitado na entrevista
para conseguir um emprego. Se ele for realmente um inimigo
dedicado, ele se esforçará ao máximo para garantir que tudo vá
de mal a pior para você. Ele não hesitará, por exemplo, em
contar ao seu patrão sobre as imitações que você costuma fazer
dele. O que é pior, se ele perceber que você está deprimido,
correrá a lhe apontar as suas deficiências, de modo que você se
sinta ainda pior. Finalmente, um inimigo, às vezes, surge
simulando ser seu amigo. Tal inimigo amigável é o pior de
todos. Uma vez que ele é uma pessoa próxima a você, conhecerá
exatamente aquilo que o fará sentir-se inferior e inseguro.”
69

b) Explicar aquilo que alguma coisa não é.

Exemplo: definição por exclusão

“Um amigo é uma pessoa que, desinteressadamente,


preocupa-se com o que lhe acontece. Ele nunca fará nada que
possa magoá-lo, nem permitirá que outras pessoas o façam. Um
amigo nunca trairá a sua confiança, nem deixará de ampará-lo
em horas difíceis, quando você se sentir deprimido. Ele não
hesitará em lhe dar um bom conselho baseado na sua própria
experiência de vida. Finalmente, um amigo nunca deixará você
perceber o esforço que ele está fazendo para ajudá-lo, de modo
que você não se sinta obrigado a qualquer tipo de retribuição.”

c) Explicar como funciona, ou o que faz aquilo que está


sendo definido.

Exemplo: definição funcional

“O Licenciamento Personalizado do Detran foi, na década


de 80, um sistema destinado a agilizar o processo de legalização
de veículos de pessoas físicas. A finalidade era incentivar os
proprietários a cuidar diretamente da documentação, sem a
intervenção de despachantes. Inicialmente, o proprietário
dirigia-se à Transitolândia e dava início à maratona da
legalização, preenchendo vários formulários. Depois de
aproximadamente 30 minutos, ele estaria apto a solicitar uma
guia (para o pagamento no banco) da solicitação da certidão
negativa de multas, o que ele levaria a termo após 40 minutos de
espera numa fila onde apenas dois caixas atendiam cerca de 100
clientes. Em seguida, ele deveria retornar para a mesma pessoa
70

que lhe forneceu a guia e solicitar a certidão negativa. Caso


houvesse multa, ele deveria voltar ao banco, de onde ele havia
saído há menos de 10 minutos e, após outros 40 minutos, ele
conseguiria pagar as multas. Isso, se ele fosse realmente uma
pessoa de sorte, e o computador que controlava o registro das
multas não estivesse fora do ar. Depois disso, ele voltaria mais
uma vez ao balcão de largada e conseguiria uma licença
provisória para o veículo, devendo retornar daí a um mês. A esse
tempo, ele deveria trazer fotocópias de todos os seus do-
cumentos, entrar em outra fila para pagar a taxa rodoviária e
aproximar-se da reta final. Após uma hora e meia na fila,
aparecia alguém por trás do guichê, apanhava o protocolo de
umas 4 ou 5 pessoas e voltava a desaparecer nos bastidores tão
rápida e inesperadamente quanto havia aparecido. Após uns 35
minutos de espera (que a essa altura o proprietário já nem
percebe passar), o funcionário reaparecia com a documentação.
Claro que ainda não era o documento final. Era apenas o seguro
obrigatório contra terceiros, que deveria ser pago no banco e que
tomava mais outros 30 minutos, ao fim dos quais, o extenuado
proprietário voltaria mais uma vez para a fila da reta final.
Depois da reprise de uma sessão de uma hora e meia para o
funcionário aparecer e outra de 35 minutos para ele reaparecer, o
grande momento chegava. Pronto! O veículo estava licenciado.
O proprietário agora estaria livre de filas e esperas. Pelo menos
até o próximo ano!”

3.3.1.3 As palavras de transição

As palavras de transição que ligam as diversas sentenças


do parágrafo de definição são:
71

a) Pronomes e palavras-chaves. Observe no exemplo de


definição direta como a palavra-chave inimigo e o pronome ele,
substituindo inimigo, são abundantemente utilizados no início
das sentenças. O mesmo é válido para o exemplo de definição por
exclusão, mas não para o exemplo de definição funcional.

b) Expressões enumerativas como

- primeiro, primeiramente, em primeiro lugar

- além disso

- além do mais

- finalmente

c) Transições lógicas para exemplos

- por exemplo

- especificamente

- nomeadamente

- concretamente

3.3.2 A estratégia de descrição

Esta estratégia é empregada quando se deseja


primordialmente fornecer informação plástica sobre objetos ou
pessoas. Assim, uma descrição é comparada a um retrato escrito:
72

ele explica com o que as coisas se parecem e como elas estão


dispostas umas em relação às outras. Embora outras
características abstratas possam ser acrescentadas à descrição,
como o cheiro, o som, o centro da descrição é o aspecto plástico.

Exemplo: parágrafo de descrição

“Minha sala é de tamanho médio. Ela é de forma


retangular, com a porta de entrada ocupando uma das paredes
menores do retângulo. A outra parede menor abriga duas janelas
com esquadrias de alumínio. As paredes maiores são de cor
pérola e formadas por divisórias, enquanto as menores são de
alvenaria e pintadas de branco. Ao entrar, há, do lado direito, um
arquivo de aço de cor creme, com 3 gavetas grandes e 2
pequenas. Em cima dele há 3 vasos com plantas. Ainda do lado
direito há uma estante de aço, sem porta e vazada dos lados. No
centro da sala situa-se uma mesa com dimensões de 1,20 m por
2,00 m, disposta transversalmente à maior dimensão da sala. Em
cima dela, há uma pequena estante vazada. Há duas cadeiras na
sala, uma de cada lado da mesa. Atrás dela, encostados na
parede oposta à entrada, e abaixo das janelas, há dois armários
com portas, à esquerda dos quais há uma pia e um pequeno
armário espelhado acima dela. ”.

Observe que, na estratégia de descrição, estamos


descrevendo alguma coisa particular. Logo, todos os exemplos
devem ser concretos e particulares. Observe também que não
deve haver caracterização funcional (para que servem) dos
objetos. Apenas interessa o seu aspecto visual e a disposição
entre eles.
73

3.3.3 A estratégia de prescrição

Esta estratégia é empregada quando se quer relatar um


procedimento que pode ser reproduzido, de modo exato,
executando-se um número limitado de passos.

O parágrafo de prescrição consiste da sentença-tópico e


das etapas. Na sentença-tópico, a finalidade do procedimento, ou
a que ele leva, deve ser explicitamente estabelecida.

Na construção das etapas, as seguintes regras devem ser


observadas:

a) os diversos passos devem, sempre que possível, ser


agrupados em estágios;

b) os passos devem ser organizados numa seqüência


lógica; a seqüência cronológica é a mais comum;

c) a linguagem deve ser simples e as explicações as mais


breves possíveis; caso haja necessidade, as palavras técnicas
podem ser definidas;

d) chamar a atenção do leitor para o que ele não deve


fazer.

Exemplo: parágrafo de prescrição

“Para polir um carro você deve seguir os seguintes


passos. Primeiro, você deve lavá-lo muito bem. Isto é feito,
primeiramente, ensaboando-o com água contendo um pouco de
sabão em pó dissolvido e, posteriormente, enxaguando-o
74

abundantemente com o auxílio de uma mangueira. Depois de


lavar o carro, você deve secá-lo completamente com o auxílio de
estopa ou tecido velho de algodão. A seguir, você deve aplicar
cera e espalhá-la por todo o carro. No entanto, seja cuidadoso!
Não use muita cera porque desse modo ela causará um brilho
irregular. Então, você espera cerca de dez minutos para a cera
secar. Finalmente, você precisa remover a cera. Isto deve ser
feito com muito cuidado usando um pano limpo e seco.
Continue esfregando até que o brilho apareça.”

Observe o uso freqüente de advérbios e locuções ad-


verbiais. Isto ocorre porque as etapas são em geral
procedimentos ou ações, que são definidas por um verbo. A
especificação detalhada de diferentes ações demanda o uso de
advérbios para modificar e qualificar os verbos empregados.

Aqui, as palavras de transição são as que ligarão cada


passo ou grupo de passos:

- primeiro, primeiramente, em primeiro lugar

- depois

- então

- a seguir

- em seguida

- finalmente, por último

3.3.4 A estratégia de comparação-contraste


75

Esta estratégia é empregada quando o autor quer realçar o


quanto duas coisas são semelhantes (comparação) ou diferentes
(contraste).

As semelhanças e diferenças entre as coisas podem ser de


vários tipos.

As semelhanças podem ser:

a) Literais. São semelhanças baseadas na percepção de


afinidades entre elementos que pertençam à mesma classe. Por
exemplo:

“Ambas as mesas são redondas.”

“Ambas as mulheres cozinham bem.”

b) Figurativa. São semelhanças baseadas na percepção de


afinidades entre elementos que pertençam a classes distintas. Por
exemplo:

“Ela tem a pele macia como a pele de um pêssego.”

”Ele é esperto como um rato.”

As diferenças podem ser:

a) Em espécie. Baseadas na percepção de diferença em


pedaços ou aspectos comuns das coisas. Por exemplo:

“Esta flor tem pétalas brilhantes e coloridas, mas aquela


tem pétalas pálidas e apagadas.”
76

b) Em grau. Baseadas na percepção de intensidades com


que uma coisa é diferente da outra. Por exemplo:

“A televisão exerce maior influência nas pessoas do que os


jornais.”

3.3.4.1 O padrão meio a meio

Neste padrão todas as características para o primeiro


elemento são descritas antes de passar para o segundo elemento.

Elemento 1

característica 1

característica 2

etc.

Elemento 2

característica 1

característica 2

etc.

Exemplo: parágrafo de contraste, padrão meio a meio

“Poodles e perdigueiros são fisicamente diferentes porque


os poodles foram produzidos para serem animais de estimação
para aristocratas enquanto perdigueiros foram produzidos para
caçar. Em primeiro lugar, os poodles são geralmente pequenos.
77

Um poodle médio, por exemplo, não é maior que 30 cm de


altura. Além disso, o seu pêlo é agradável ao tato.
Especificamente, o pêlo de um poodle é macio e onduloso.
Finalmente, os poodles são animais delicados. Um poodle pode
facilmente se ferir se for derrubado da altura de uma mesa.
Perdigueiros, por outro lado, são cachorros grandes.
Tipicamente, os perdigueiros variam de 40 cm a mais de um
metro de comprimento. Além disso, o pêlo do perdigueiro é
longo e grosso a fim de repelir água. Finalmente, perdigueiros
são fortes e robustos. Um perdigueiro pode, por exemplo,
suportar o ataque de um animal ferido, como uma raposa.”

3.3.4.2 O padrão característica

Neste padrão, cada característica é completamente coberta


para todos os elementos a serem comparados antes de passar
para a próxima característica:

Característica 1

elemento 1

elemento 2

etc.

Característica 2

elemento 1

elemento 2
78

etc.

Exemplo: parágrafo contraste, padrão característica

“Poodles e perdigueiros são fisicamente diferentes porque


os poodles foram produzidos para serem animais de estimação
para aristocratas, enquanto perdigueiros foram produzidos para
caçar. Em primeiro lugar, poodles são pequenos, ao passo que
perdigueiros são grandes. Por exemplo, o poodle médio não é
maior que 30cm, enquanto o tamanho de um perdigueiro varia
entre 35 cm e 1m. Além disso, o pêlo do poodle é mais
agradável ao tato que o do perdigueiro. Especificamente, o pêlo
do poodle é macio e ondulado. Em contraste, o pêlo do
perdigueiro é longo e grosso a fim de repelir água. Finalmente,
os poodles são animais delicados, ao passo que os perdigueiros
são fortes e robustos. Tipicamente, um poodle que cai da altura
de uma mesa pode se ferir bastante; entretanto, os perdigueiros
podem suportar o ataque de um animal ferido, como uma
raposa.”

3.3.4.3 As palavras de transição

As palavras de transição que ligam as diversas sentenças


do parágrafo de discussão na estratégia comparação-contraste
são:

a) Expressões enumerativas

- primeiro, primeiramente, em primeiro lugar

- além disso
79

- além do mais

- finalmente

b) Transições lógicas

i) Para exemplos

- por exemplo

- especificamente

- nomeadamente

- tipicamente

ii) Para comparação

-e

- não só ... como também

- não só ... como

- tanto ... como

- como

- bem como

- assim como

- do mesmo modo
80

- da mesma forma

- igualmente

- similarmente

iii) Para constraste

- mas

- porém

- todavia

- entretanto

- em contraste

- ao passo que

- enquanto

- por outro lado

- diferentemente

3.3.5 A estratégia causa-e-efeito

Esta estratégia é empregada quando o autor trabalha com


informações que relacionam dois eventos. Embora causa e efeito
estejam interligados e possam ser misturados na composição, é
interessante analisar separadamente duas técnicas: uma com
ênfase na causa e outra com ênfase no efeito.
81

3.3.5.1 A técnica causa para efeito

Neste tipo de técnica procura-se responder a pergunta: o


que acontece quando...? através do estabelecimento de uma
relação de dependência em dois níveis distintos. O primeiro é
uma relação puramente empírica, constatada através de
observações diretas, ou correlacionando-se a ocorrência de um
fato com outro. O segundo é uma relação que tem algum
fundamento em alguma lei que já é bem estabelecida. A
estrutura geral do parágrafo que usa esta técnica é a seguinte:

Causa

Efeito 1 (1o ou 2o nível)

Efeito 2 (1o ou 2o nível)

etc.

Conclusões (sumário)

Exemplo: técnica causa para efeito

“(sentença-tópico) O hábito de fumar traz como


conseqüência graves doenças cardíacas. (1o nível) Sempre que
um fumante traga uma quantidade de fumaça de seu cigarro e a
expele em seguida, uma parte da nicotina contida no fumo é
absorvida e entra na circulação sangüínea. (2o nível) A nicotina,
por ser um vasoconstritor, diminuirá o calibre dos vasos
sangüíneos, promovendo aumento da pressão arterial, bloqueios
82

arteriais, aneurismas e enfartes. (sentença concluinte) Portanto,


fumar faz mal à saúde, podendo inclusive levar à morte.”
Observe que o 1o nível pode vir a ser mais detalhado
porque o leitor supostamente não está familiarizado com os fatos
apresentados. Neste nível aparecem, em geral, os resultados da
pesquisa que o autor realizou. O 2o nível amarra os resultados
observados com efeitos gerais por meio de teorias, relações ou
fatos já bem conhecidos, com os quais, presume-se, o leitor já
esteja familiarizado.

3.3.5.2 A técnica efeito para causa

Neste tipo de técnica, procura-se responder a pergunta por


quê?, ou seja, dado um efeito, quem possivelmente o causou? O
leitor deverá ser convencido de que A é uma causa de B,
simplesmente provando-se que A implica B. Assim, a técnica
efeito para causa reduz-se à técnica causa para efeito, em geral,
por meio do uso das palavras e locuções de transição porque,
como, uma vez que, já que. A estrutura geral do parágrafo efeito
para causa é a seguinte:

Efeito

Causa 1

Causa 2

etc.

Conclusões (sumário)
83

Exemplo: técnica efeito para causa

“(sentença-tópico) A causa principal da inflação é o fato


de o governo gastar mais do que arrecada com a cobrança de
impostos. (transformação para o 1o nível da técnica causa para
efeito) A inflação é causada por um governo devedor porque
nesse caso ele é obrigado a tomar dinheiro emprestado de um
agente financeiro para saldar suas dívidas, injetando, desse
modo, grande quantidade de moeda num determinado setor da
economia. (2o nível da técnica causa para efeito)
Conseqüentemente, os outros setores econômicos, que não
foram diretamente contemplados nesse processo, aumentarão o
preço de seus produtos e serviços de modo a abocanhar uma
parte do dinheiro injetado pelo governo. Com o aumento dos
preços, a arrecadação do governo aumenta, permitindo, então,
que ele salde suas dívidas junto à entidade financeira. (sentença
concluinte) A inflação, portanto, não é mais que a socialização
de uma dívida.”

Observe que, dentro das estruturas das técnicas


apresentadas acima, podem ser incluídas sentenças de suportes
primário e secundário:

Causa para efeito:

Causa

efeito 1

suporte primário
84

suporte secundário

efeito 2

suporte primário

suporte secundário

Conclusões

Efeito para causa:

Efeito

causa 1

suporte primário

suporte secundário

causa 2

suporte primário

suporte secundário

Conclusões

3.3.5.3 As palavras de transição

a) Expressões enumerativas:

As mesmas expressões enumerativas empregadas na


estratégia comparação-contraste podem ser empregadas aqui.
85

São empregadas na enumeração dos efeitos na técnica causa


para efeito e na enumeração das causas na técnica efeito para
causa.

b) Transições lógicas:

i) Causa para efeito

1o nível

- quando

- sempre que

2o nível

- conseqüentemente

- em decorrência

Conclusão

- portanto

- assim

- logo

- então

ii) Efeito para causa

- porque
86

- como

- uma vez que

- já que

4 O CAPÍTULO

Conforme mencionado na Introdução, a estrutura de uma


dissertação pode ser caracterizada, em linhas gerais, por um
capítulo introdutório, capítulos de discussão e um capítulo de
conclusões.

4.1 O CAPÍTULO INTRODUTÓRIO


87
O capítulo introdutório, ou introdução de uma dissertação,
tem por objetivo situar a pesquisa desenvolvida, no contexto da
literatura especializada sobre o assunto e estabelecer claramente
qual a contribuição dada em relação a trabalhos anteriores
versando sobre o mesmo tema. Para tanto o capítulo introdutório
precisa fornecer três grupos de informação: 1) o assunto a ser
tratado; 2) as principais contribuições anteriores ao mesmo
tema, salientando as suas vantagens e restrições; 3) o objetivo da
dissertação, salientando a contribuição feita em relação aos
trabalhos anteriores. Observe como estas informações estão
interligadas. Para estabelecer a contribuição da dissertação, é
preciso saber qual a dificuldade existente, entre os trabalhos
correntes, que foi atacada. Para informar esta dificuldade, é
preciso explicitar as limitações dos trabalhos sobre o assunto, e
para tanto o assunto precisa ser estabelecido. Note também que a
revisão bibliográfica não tem como finalidade demonstrar a
erudição do estudante nem a sua ampla informação acerca de
todos os trabalhos sobre o tema. Desse modo, somente os
trabalhos que ajudam a entender a contribuição dada devem
ser citados.
O capítulo introdutório consistirá, portanto, de três
grupos distintos de parágrafos: o parágrafo de abertura, os
parágrafos de revisão e o(s) parágrafo(s) de apresentação. Estes
três grupos de parágrafos guardam uma estreita semelhança
funcional com as sentenças de abertura, intermediárias e a
sentença-tese, no parágrafo do tipo introdutório.

4.1.1 O parágrafo de abertura

A finalidade do parágrafo de abertura é o estabelecimento


tanto do assunto a ser tratado na dissertação, como de sua
relevância dentro de um contexto mais amplo. O grau de detalhe
com que o assunto será estabelecido e o grau de generalidade do
contexto mais amplo podem variar. Além do assunto, o
88

parágrafo de abertura deve estabelecer, ao seu final, o problema


a ser atacado.

Exemplo: parágrafo de abertura

“A acumulação do petróleo se dá em armadilhas


estratigráficas ou estruturais. Entre as armadilhas estruturais, as
mais comuns são as dobras e as falhas, que podem estar
associadas a elevações do relevo do embasamento de uma bacia
sedimentar. Devido ao grande contraste de densidade entre o
embasamento e os sedimentos de uma bacia, o método
gravimétrico tem sido amplamente empregado para estimar a
topografia do embasamento, e, assim estabelecer os locais mais
promissores para a acumulação do petróleo. Esta, no entanto não
é uma tarefa trivial, uma vez que os dados gravimétricos
sozinhos não são capazes de produzir uma solução única para o
problema. A unicidade pode, no entanto, ser conseguida através
de premissas a priori sobre a geometria do relevo do
embasamento.”

4.1.2 Os parágrafos de revisão


Estes parágrafos têm a finalidade de promover uma
revisão da literatura sobre o assunto focalizado no final do
parágrafo de abertura. Uma revisão torna-se mais fácil para
escrever e mais clara para ler quando ela é organizada de alguma
maneira. Assim, os trabalhos não devem ser citados a esmo, mas
de acordo com uma seqüência que leve em conta a evolução dos
trabalhos que atacaram o problema estabelecido no parágrafo
introdutório. Para cada estágio da evolução, alguns trabalhos
são escolhidos e citados como representantes típicos.
89

Exemplo: parágrafos de revisão

“Para obter uma solução única ao problema de estimar o


relevo do embasamento, o procedimento comumente empregado
é o de presumir que a topografia do embasamento é suave. Para
tanto, alguns autores submetem os dados a um filtro de
suavização que elimina os componentes de alta freqüência
(Oldenburg, 1974; Guspí, 1993). Outros autores preferem
empregar parâmetros de amortecimento (Pilkington e Crossley,
1986) ou buscar a solução através do método da regularização
de Tikhonov (Tikhonov, 1977), introduzindo explicitamente na
estimativa relevo, a imposição de uma topografia suave
(Medeiros e Silva, 1996; Barbosa et al., 1997). Os dois últimos
grupos de trabalhos apresentam a vantagem de serem menos
subjetivos que os do primeiro grupo, uma vez que as escolhas do
filtro e da freqüência de corte são arbitrárias.”
“Todos os métodos acima descritos produzem soluções em
que o relevo estimado do embasamento é suave. Portanto, estes
métodos apresentarão desempenho satisfatório somente quando
aplicados a dados oriundos de bacias intra-cratônicas, cujos
relevos do embasamento são formados por dobras ou falhas de
pequeno rejeito, configurando assim uma topografia suave. Se
aplicados a bacias marginais, em que a tectônica predominante é
de extensão, com falhas de grande rejeito, nenhum dos métodos
acima apresenta desempenho satisfatório.”

4.1.3 O(s) parágrafo(s) de apresentação


90

Este(s) parágrafo(s) têm a finalidade de esclarecer ao leitor


exatamente o que será apresentado nos capítulos de discussão da
dissertação e qual a contribuição da pesquisa. Estes parágrafos
têm, para a dissertação, a mesma função que a sentença-tese tem
para a composição. Assim, a essência do conteúdo dos capítulos
deve ser enfatizada de modo explícito, mas não
obrigatoriamente capítulo por capítulo. O importante é
relacionar a seqüência dos assuntos que serão abordados, na
ordem em que serão introduzidos. Os assuntos mais importantes
devem ser descritos com maior detalhe.
O exemplo abaixo ilustra este tipo de parágrafo para o
mesmo capítulo introdutório dos exemplos anteriores.

Exemplo: parágrafo de apresentação

“O objetivo deste trabalho é apresentar um novo método


para estimação do relevo do embasamento de uma bacia
sedimentar a partir de dados gravimétricos. O método foi
especialmente desenvolvido para produzir boas estimativas de
uma topografia descontínua do embasamento, a qual é
comumente encontrada nas bacias marginais. O método consiste
em relaxar a imposição de relevo suave em alguns locais do
embasamento, mantendo tal imposição ao resto da bacia. O
método foi extensivamente testado em dados produzidos por
corpos anômalos simulados, tendo produzido excelentes
resultados. Planos de falhas com ângulos de até 85o foram
localizados e delineados com precisão. O método foi também
testado em uma anomalia real do Steptoe Valley, Nevada,
Estados Unidos. Esta localidade pertence à província Basin
Range, que, à semelhança das bacias marginais, evoluiu através
91

da tectônica de extensão, produzindo, como resultado, bacias


cujo embasamento apresenta relevo falhado. As falhas mapeadas
nas bordas da bacia foram de alto ângulo (maiores que 70o). O
relevo estimado apresentou fundo achatado com profundidade
de 3 km.”

4.2 OS CAPÍTULOS DE DISCUSSÃO

Os capítulos de discussão de uma dissertação contêm o


relato detalhado da pesquisa realizada. Esta descrição deve estar
organizada de modo lógico. Assim, pelo menos três tipos de
capítulos de discussão são necessários.

4.2.1 O capítulo de metodologia

O primeiro capítulo de discussão deve ser reservado à


descrição da metodologia. É muito comum se presumir
erroneamente, que a descrição de uma metodologia consiste de
uma relação das etapas realizadas durante a pesquisa. O capítulo
de metodologia deve, na verdade, descrever os fundamentos
teóricos de todos os experimentos efetuados durante a
pesquisa.
Como um fundamento teórico se baseia em leis e regras
bem estabelecidas e permanentemente válidas, o tempo verbal
que predominará no capítulo de metodologia será o presente do
indicativo (V. seção 2.1.1.4).
As estratégias mais comuns neste capítulo são as de
definição e prescrição.
92

4.2.1.1 A estratégia de definição

Exemplo: estratégia de definição no capítulo de


metodologia

“A estimativa de um parâmetro pelo método de mínimos


quadrados é aquela que minimiza a soma dos quadrados das
diferenças entre cada observação e uma função ajustante,
avaliada nos mesmos pontos onde as observações foram
efetuadas. Esta estimativa é muito simples de se obter através de
uma fórmula explícita, tanto para problemas de uma dimensão
como para problemas multidimensionais. A estimativa pelo
método dos mínimos quadrados tem um comportamento ótimo
em comparação com as estimativas de outros métodos, quando
as observações estão contaminadas por ruído Gaussiano. A
estimativa pelo método dos mínimos quadrados, entretanto,
produz, em geral, péssimos resultados no caso em que as
observações estiverem contaminadas por certos tipos de ruído,
tais que algumas poucas realizações tenham altas amplitudes,
como é o caso do ruído que segue a distribuição de Cauchy.”

4.2.1.2 A estratégia de prescrição

Exemplo: estratégia de prescrição no capítulo de


metodologia
“Para estabilizar um problema, originalmente instável, usa-
se a técnica do ridge trace, descrita a seguir. Em primeiro lugar,
forma-se a matriz de sensibilidade A. A seguir, soma-se aos
elementos diagonais desta matriz um valor positivo k da ordem
de 0,00001. Inverte-se então esta nova matriz e pós-multiplica-
se o resultado por AT.y, em que y é o vetor de observações,
93

obtendo-se assim uma possível estimativa para cada parâmetro.


Em seguida, o processo é repetido para valores de k de 0,0001,
0,001, 0,01, 0,1, 0,2, 0,3, 0,4, e 0,5. Constrói-se então um
gráfico dos valores das estimativas de cada parâmetro contra
valores crescentes de k. Finalmente, escolhe-se como valor
ótimo de k aquele a partir do qual os parâmetros deixam de
apresentar oscilações no gráfico acima mencionado.”

4.2.2 O capítulo de testes controlados

O nosso mundo real é encantadoramente complexo e o


estudo quantitativo de alguns de seus aspectos pode ser
extremamente difícil. Algumas áreas do conhecimento admitem
a possibilidade do estabelecimento de modelos quantitativos
para simular sistemas, regiões, populações. A proposição de um
modelo requer necessariamente simplificações, ou seja, o
abandono de alguns fatores sabidamente existentes no mundo
real. O sucesso de um modelo consiste em abandonar somente
os fatores que causam muito pouca influência no efeito que está
sendo estudado.
As áreas do conhecimento que admitem o
estabelecimento de modelos quantitativos são agraciadas com a
possibilidade de estudar um fenômeno da Natureza, por
exemplo, no laboratório ou num sistema computacional
(simulação). Assim, antes de se fazer a coleta e interpretação de
dados do mundo real, é extremamente útil trabalhar com dados
simulados através de um modelo quantitativo. A grande
vantagem desta abordagem é que, por hipótese, o objeto-fim do
estudo (evolução de uma população, imagem tomográfica de um
órgão do corpo humano) é conhecido e isto permite assinalar
94

maior peso aos métodos que, numa simulação, levaram a


estimativas mais próximas do objeto-fim. Dessa maneira é
possível comparar diversos métodos de interpretação, bem como
modificar as condições da modelagem, introduzindo ou
retirando componentes mais ou menos complexas do fenômeno.
A interpretação somente de dados reais pode ser
questionada, uma vez que o fenômeno a ser estudado não é
conhecido, não sendo possível, desse modo, avaliar se a
interpretação está correta. A geração de dados sintéticos a partir
de modelos que sejam próximos da situação real e a sua
subseqüente interpretação permitem ao pesquisador avaliar o
quão correta é uma interpretação porque neste caso o objeto-fim
do estudo é conhecido por hipótese.

O segundo capítulo deve, portanto, descrever, quando


pertinente, experimentos realizados em condições controladas,
sejam de laboratório, sejam simuladas por meio de computador.
Ele deve ser organizado de alguma maneira lógica. Esta
organização pode ser por seqüências individuais de testes, ou
por blocos de testes.

Na seqüência individual, cada teste deve ilustrar a


influência de um fator predominante:

Teste no 1: influência do fator 1 (Ex.: ruído Gaussiano)

Teste no 2: influência do fator 2 (Ex.: truncamento da


anomalia)

etc.
95

Outro tipo de organização é a que agrupa os testes


efetuados em blocos que representam uma situação
caracterizada por um grupo de fatores:

Grupo 1: influência de corpos superficiais

Teste 1: corpos pequenos e muito rasos

Teste 2: corpos rasos e extensos

Grupo 2: influência de corpos laterais

Teste 1: corpos largos e pouco espessos

Teste 2: corpos estreitos e muito espessos etc.

Em qualquer que seja o tipo de organização, os testes


devem começar pelos mais simples e caminhar para os mais
complexos. A estrutura geral neste capítulo deve ser a de des-
crever as condições do teste (ou experimento) e então descrever
os resultados obtidos com o teste. Se a estrutura é seqüencial,
algumas conclusões parciais sobre os resultados podem ser
introduzidas ao final de cada teste. Se a estrutura for por blocos,
conclusões parciais só deverão aparecer no final de cada bloco
de testes.

As estratégias mais comuns neste capítulo são as de


descrição, comparação-contraste e causa-e-efeito.

4.2.2.1 A estratégia de descrição


96

Exemplo: estratégia de descrição no capítulo de testes


controlados

“Neste teste empregamos dados de campo magnético


sintético produzido por 2 prismas verticais bidimensionais, cuja
direção infinita coincide com o eixo y. O primeiro prisma tem
espessura de 15 km e largura de 10 km, com o topo situado a 2
km abaixo da superfície, sendo magnetizado uniformemente na
direção do campo geomagnético. O segundo prisma tem o seu
centro situado a uma distância de 10 km do centro do primeiro
prisma e possui largura de 1 km e espessura de 25 km. Seu topo
está a 1,5 km abaixo da superfície e sua magnetização é
uniforme com inclinação de 5 graus e azimute de 50 graus em
relação ao eixo y. Os dados foram gerados sobre uma malha
quadrada com espaçamento de 1 km no nível z=0.”

4.2.2.2 A estratégia de comparação-contraste

Exemplo: estratégia de comparação-contraste no capítulo


de testes controlados.

O parágrafo abaixo ilustra tipicamente a realização de um


experimento da pesquisa que está sendo relatada. Desse modo, o
passado será o tempo verbal predominante.

“Os resultados deste teste mostram que, nas condições


simuladas, os métodos de mínimos quadrados e mínimos
absolutos apresentam marcantes diferenças. Em primeiro lugar,
o regional ajustado por mínimos quadrados está completamente
distorcido em relação ao campo teórico. O caráter unidimen-
sional deste campo não foi sequer sugerido. Anomalias espúrias
97

nas bordas (particularmente na borda leste) contribuíram ainda


mais para a deformação do campo ajustado. Além disso, o
campo residual obtido pelos mínimos quadrados apresentou uma
notável perda de amplitude, quando comparado ao residual
teórico. A anomalia situada próximo ao centro da área, por
exemplo, apresentou uma amplitude de 8 mGal, ao passo que a
amplitude da anomalia teórica é de 12,6 mGal, denotando uma
perda de mais de 30% em amplitude. Por outro lado, o regional
ajustado pelo método dos mínimos absolutos apresentou-se
muito menos distorcido. Em particular, a característica
unidimensional do regional teórico foi conservada. Anomalias
espúrias estiveram virtualmente ausentes neste campo ajustado.
Adicionalmente, o campo regional ajustado pelo método dos
mínimos absolutos, ao contrário do campo regional ajustado
pelos mínimos quadrados, apresentou somente uma ligeira perda
de amplitude. A anomalia próxima ao centro da área, por
exemplo, apresentou uma amplitude de 12,1 mGal, o que
corresponde a uma perda de menos de 5% em relação à
amplitude da anomalia teórica.”

4.2.2.3 A estratégia de causa-e-efeito

Exemplo: estratégia de causa-e-efeito no capítulo de testes


controlados

“As diferenças entre os ajustes produzidos pelos métodos


de mínimos quadrados e mínimos absolutos, acima descritos
(exemplo anterior), foram causadas pela maior influência que o
resíduo exerceu sobre a superfície polinomial ajustante no
método de mínimos quadrados. Em primeiro lugar, a distorção
98

do caráter unidimensional do campo regional teórico, presente


no campo ajustado pelos mínimos quadrados, foi devida à
influência da grande anomalia residual presente no centro da
área, já que o regional ajustado apresentou uma distorção
coincidente com a posição desta anomalia residual. Além disso,
a perda de amplitude das anomalias residuais foi também devida
à influência dos campos residuais reais na superfície polinomial
ajustante, porque nas proximidades dessas anomalias o regional
ajustado aumentou de valor, de modo que o residual calculado,
subtraindo-se das observações o campo ajustado, tornou-se
menor.”

4.2.3 O capítulo de interpretação de dados reais

O terceiro capítulo deve ilustrar a interpretação de dados


reais. Alusão deve ser feita, sempre que possível, aos resultados
obtidos no capítulo anterior, que são os subsídios para se avaliar
o grau de confiabilidade da interpretação efetuada, a menos que
se disponha de informação sobre o objeto de estudo, que sejam
independentes das observações.

As estratégias mais comuns neste capítulo são as de


descrição, prescrição e causa-e-efeito.

4.2.3.1 A estratégia de descrição

Exemplo: estratégia de descrição no capítulo de testes em


dados reais
99

“A área estudada, de dimensões 270 km na direção E-W


por 160 km na direção N-S, foi coberta por um levantamento
aeromagnético, perfazendo um total de 22.500 km lineares. A
altura de vôo foi barometricamente constante e igual a 2.700 m
acima do nível do mar. A direção das linhas de vôo foi N-S, com
espaçamento entre as linhas de 2 km. As leituras do campo total,
por meio de um magnetômetro de próton, foram efetuadas a
intervalos regulares de 1s, correspondendo a um espaçamento
médio de 70 metros entre as fiduciais ao longo da linha de vôo.
As linhas de amarração, no sentido E-W, estão espaçadas de
10 km.”

4.2.3.2 A estratégia de prescrição

Exemplo: estratégia de prescrição no capítulo de testes em


dados reais.

“A obtenção da anomalia Bouguer completa foi feita


através das seguintes etapas. Primeiro, os dados originais foram
corrigidos para o efeito de latitude usando a Fórmula
Internacional de 1930. Em seguida, eles foram reduzidos para o
efeito da elevação por meio da correção de ar livre. Aplicou-se,
então, a correção Bouguer, presumindo-se uma densidade de 2,5
g/cm3 na correção das estações localizadas sobre sedimentos e
2,67 g/cm3 para as estações localizadas sobre o embasamento
cristalino. Finalmente, aplicou-se a correção topográfica,
calculando-se o efeito da topografia com a ajuda de retículos
compartimentados a cada 45 graus e a cada 30 km até uma
distância de 120 km da estação cuja leitura está sendo
corrigida.”
100

4.2.3.3 A estratégia de causa-e-efeito

Exemplo: estratégia de causa-e-efeito no capítulo de testes


em dados reais

“As anomalias residuais positivas são causadas por corpos


granulíticos intracrustais rasos. Em primeiro lugar, existe uma
correlação entre a presença das anomalias residuais positivas e a
ocorrência de afloramentos de rochas granulíticas, por exemplo,
próximo das anomalias situadas no canto noroeste da área. Além
disso, a interpretação quantitativa das anomalias residuais, para
um contraste de densidade fixo de 0,4 g/cm 3, produziu
profundidades dos topos de fontes entre 8 e 12 km.”

4.3 O CAPÍTULO DE CONCLUSÕES

O capítulo de conclusões, assim como o parágrafo de


conclusões (seção 3.2.3), tem a finalidade de relembrar ao leitor
os principais resultados já apresentados e discutidos, e mostrar
possíveis generalizações que indiquem a universalidade e a
relevância do trabalho apresentado. Assim, a estrutura do
capítulo de conclusões é semelhante à estrutura do parágrafo de
conclusões, consistindo de um parágrafo de reafirmação da
apresentação, parágrafo(s) com sumário dos principais
resultados e parágrafo(s) generalizador(es).

4.3.1 O parágrafo de reafirmação da apresentação


101

Neste parágrafo, deve ser feita uma síntese sobre o que


constituiu o trabalho apresentado. Não devem ser relacionados
aqui resultados, avaliações ou conclusões.

Exemplo: parágrafo de reafirmação da apresentação.


“Este trabalho desenvolveu uma metodologia para
interpretação de dados gravimétricos que consistiu na separação
regional-residual da anomalia Bouguer, seguida da interpretação
de cada uma das componentes: regional e residual. A separação
regional-residual foi efetuada através de ajuste de polinômios
por um método robusto. A componente regional foi interpretada
como sendo causada por uma interface que separa dois meios
homogêneos, sendo, posteriormente, transformada em um mapa
do relevo da interface. A componente residual foi interpretada
através do mapeamento de contrastes de densidade aparentes e
da construção de famílias de curvas envolvendo o contraste de
densidade aparente, a profundidade do topo e a espessura.”

4.3.2 O(s) parágrafo(s) de sumário

Nestes parágrafos, o autor deve condensar os resultados


mais significativos encontrados na pesquisa. A apresentação
destes resultados deve obedecer a uma seqüência lógica, que
pode ser a mesma seqüência de apresentação dos resultados nos
capítulos de discussão. Outro tipo de ordenação seria dos
resultados mais específicos ou menos importantes para os mais
genéricos, ou mais importantes. Nestes parágrafos, os resultados
referenciados devem ser os mais abrangentes possíveis. Podem
ser concretos, mas nunca particulares.
102

Exemplo: parágrafos de sumários

“Os métodos apresentados neste trabalho tiveram seu


desempenho avaliado através de testes com dados sintéticos. A
separação regional-residual através de ajuste polinomial por um
método robusto mostrou que os campos residuais, produzidos
por esse método, apresentam amplitude, forma e gradiente muito
próximos dos valores reais. Além disso, o método não introduz
anomalias espúrias de sinais opostos, permitindo aproximar
campos regionais complexos, que podem ser, posteriormente,
modelados quantitativamente, uma vez que o vazamento do
campo residual para o campo regional estimado é minimizado
pelo procedimento robusto.”
“O método de interpretação da componente regional
produziu mapeamento de interfaces bem próximas das estruturas
reais, mesmo em situações em que as premissas necessárias para
a aplicação do método são parcialmente violadas. A
interpretação da componente residual através do mapa de
contraste de densidade aparente para valores fixos de pro-
fundidade do topo e espessura permite obter estimativas para os
limites laterais dos corpos causadores das anomalias. Estas
estimativas permanecem bastante próximas dos valores reais,
mesmo quando valores de profundidade do topo e espessura
postulados não são os valores verdadeiros. A presença de corpos
interferentes não afeta substancialmente tais estimativas.”
“A metodologia desenvolvida foi aplicada em dados
gravimétricos da região norte do Estado do Piauí e noroeste do
Ceará com o objetivo de estudar a geometria da interface crosta-
manto, bem como a arquitetura da crosta superior, possibilitando
uma proposta de organização crustal para a área. Os resultados
103

obtidos permitiram mapear, na área, espessamentos e


adelgaçamentos crustais associados a um evento compressivo
que possibilitou a colocação de rochas densas da base da crosta
em profundidades mais rasas. Além disso, a interpretação da
anomalia residual forneceu evidências sobre a continuidade do
cinturão de cisalhamento NW do Ceará sob os sedimentos da
Bacia do Parnaíba.”

4.3.3 Os parágrafos de generalização

Nestes parágrafos, o autor deve realçar possíveis


generalizações, como aplicações da pesquisa desenvolvida a
outras áreas correlatas, ou mesmo a áreas distintas do
conhecimento. Como toda pesquisa automaticamente abre
caminho para muitas outras, é também pertinente a estes
parágrafos uma referência a possíveis futuras pesquisas que se-
jam modificações, extensões ou generalizações da pesquisa
efetuada.

Exemplo: parágrafos de generalização

“A metodologia desenvolvida é suficientemente genérica,


podendo ser aplicada em outras situações geológicas, por
exemplo, no estudo de bacias sedimentares, onde o relevo do
embasamento da bacia é a fonte da anomalia regional e as
variações laterais de densidade, devidas à justaposição de rochas
sedimentares e ígneas, são responsáveis pela anomalia residual.”
“O método robusto de ajuste de polinômios empregado na
obtenção do campo regional incorpora como informação a priori
o fato que as anomalias residuais devem ser positivas. Outros
104

tipos de informação a priori sobre o campo regional ou residual


podem, em princípio, ser incorporados, como a informação de
que o campo ajustado em determinada porção da área deve ser
maior que o campo ajustado em outra porção. Este tipo de
informação é facilmente incorporado na forma de vínculos de
desigualdade. Desde que os diversos tipos de informação a
priori não sejam conflitantes, eles podem ser levados em conta
simultaneamente, contribuindo assim para uma redução
adicional da não unicidade do problema da separação regional-
residual em gravimetria.”

5 O RESUMO

Embora na versão finalizada de uma dissertação o resumo


seja o primeiro contato que o leitor tem com a pesquisa relatada,
um resumo deve ser o último capítulo a ser escrito. Mais do que
uma simples tradição, este procedimento é uma necessidade.
Um resumo deve conter a informação essencial da dissertação,
de modo que isto pode ser mais facilmente conseguido se toda a
informação a ser resumida estiver disponível, já escrita e
organizada. Este procedimento ajudará o autor a evitar, no
resumo, sentenças não-informativas como: Tal experimento foi
105

feito, ou Tal efeito foi analisado. Ao invés de sentenças como


estas, devem-se empregar sentenças como: O experimento X
mostrou tais e tais resultados. A análise do efeito de X em Y
mostrou ser X um fator importante sob as condições A, mas
desprezível sob as condições B.
Mahrer (1993) publicou um excelente guia para
elaboração de resumos de trabalhos científicos. Ele define
resumo como a síntese da informação contida num
documento, o que reforça a principal recomendação de Landes
(1966), ou seja, que o resumo deve ser informativo.
Apresentamos abaixo uma tradução das principais
recomendações de Mahrer (1993).

1) Enfatize o conteúdo, não a intenção. Um resumo deve


sintetizar o conteúdo do artigo e não a intenção do autor. Ele
deve conter somente aquilo que você está relatando no
manuscrito. Um resumo deve conter no máximo duas sentenças
sobre cada um dos quatro pilares do seu trabalho: (a) objetivos e
escopo; (b) metodologia; (c) resultados e (d) conclusões.

2) Elimine o “excesso de bagagem”. Atenha-se aos quatro


pontos (a)-(d) mencionados acima. Os seguintes assuntos não
devem fazer parte do resumo: referências, pesquisa
bibliográfica, justificativas, motivações, definição global do
problema, necessidade, benefício, reivindicações,
recomendações, opiniões e utilidade, referentes ao trabalho.
Estes itens aparecem no corpo do trabalho, mas não são
adequados ao resumo.
106

3) Presuma um leitor com suficiente embasamento teórico.


Ao redigir um artigo, há sempre a questão do nível de
conhecimento do leitor. Ao escrever um resumo, presuma um
leitor com um nível de conhecimento equivalente a um bom
orientador que entenda o tipo de trabalho, mas que não atua
ativamente na área específica do artigo e que pode, portanto não
se lembrar da nomenclatura mais esotérica. Note que este nível
de conhecimento pode não ser o mesmo que você presumiu ao
escrever o corpo do artigo. Isto indica que redigir um resumo
não se limita a mais um passo na seqüência da elaboração do
artigo. Redigir um resumo requer reconsiderações e
reformulações.

4) Escreva o resumo por último. Uma vez que o resumo é o


sumário do artigo, ele deve ser redigido por último, depois que
se tenha certeza que o artigo não vai mais sofrer alterações.
Lógica e clareza não são as únicas diretrizes na redação do
resumo. Estas devem ser mescladas com a condensação e a
síntese.

5) Evite a voz passiva. Para evitar conflitos entre intenção,


conteúdo e “excesso de bagagem”, é muito útil o uso da voz
ativa. Sentenças estruturadas como “... é apresentado”, “... é
feito”, “... é desenvolvido”, etc. são fáceis de escrever, mas
terríveis de se ler e não transmitem nada ao leitor. Elas mostram
apenas a intenção e não o conteúdo.

6) Mantenha-o curto. Como indicado anteriormente, o resumo


não precisa ser maior que oito sentenças. Se for, ou ele não está
desempenhando o seu papel e você está com “excesso de
107

bagagem”, ou você está diante de uma rara exceção. Você deve


ser capaz de completar o resumo em apenas um parágrafo. Ele
não deve conter múltiplos parágrafos. Se ele contém, então é
provável que ele contenha “excesso de bagagem”. Por causa
dessa limitação no tamanho, o seu resumo pode não fluir de
modo suave. Isto não é problema. Ele pode ser brusco, soando
staccato e não particularmente agradável de ser lido. Isto
também não é problema. Leitura agradável não é requisito para
um resumo, mas transmissão do conteúdo é. Por causa do
tamanho limitado, o leitor pode facilmente ler o resumo uma
segunda vez.

7) Faça asserções quantitativas e não qualitativas ou semi-


quantitativas. É perturbador ler que “A é grande ou profundo
ou poroso” ou que “A é maior ou mais profundo ou mais raso
que B” sem se saber quanto.

8) Não use equações matemáticas. Parece óbvio que equações


e notações matemáticas não devam fazer parte do resumo, mas
alguns autores se recusam a reconhecer tal fato. Lembre-se que
o resumo deve ser capaz de, por si só, fazer sentido e transmitir
a informação do artigo. Atribua nomes aos parâmetros, não
símbolos matemáticos. Se necessário, cite equações que sejam
bem conhecidas como a equação de Laplace, a equação da onda.

O resumo é o mostruário do seu trabalho apresentado de


um modo direto e enxuto. O resumo deve fornecer ao leitor
acidental um pouco de informação útil, não requerendo que ele
tenha que ler o artigo completo para obter tais informações. Ao
108
leitor interessado, o resumo deve fornecer um incentivo para que
ele continue lendo o artigo.
Anexamos abaixo uma tradução do artigo de Landes
(1966). Este artigo contém uma análise do Resumo e ele próprio
contém, no início, um resumo que é pobre. Ao final, é
apresentado um resumo melhorado.

UM EXAME ACURADO DO RESUMO

RESUMO

O resumo inadequado é discutido. O que deve ser coberto


por um resumo é considerado. A importância do resumo é
descrita. Definições, de dicionário, de resumo são citadas. No
final, um resumo revisado é apresentado.

O resumo inadequado é ilustrado acima. A voz passiva é


gritante ao leitor. Ele é simplesmente um esboço, no qual cada
item é expandido em uma sentença. O leitor é informado sobre o
que o artigo contém, mas não sabe sobre o que ele contribui.
Tais resumos são puros títulos expandidos. Eles são produzidos
por autores que são (l) novatos, (2) preguiçosos, ou (3) ainda
não escreveram o artigo.
Para muitos autores, a preparação de um resumo é uma
tarefa indesejável, solicitada na última hora por um editor, ou
imposta pela comissão organizadora de um congresso, mesmo
antes de o artigo ter sido escrito. Entretanto, em termos de
divulgação, o resumo é a parte mais importante do artigo. Para
cada indivíduo que lê o seu artigo, há de 10 a 500 que lêem
somente o resumo.
109

O resumo que acompanha um artigo publicado certamente


reaparecerá em jornais que só publicam resumos, em várias
línguas, e talvez até em circulares internas de companhias. É,
portanto, muito melhor agradar do que hostilizar uma grande
audiência. Artigos escritos para apresentação oral devem estar
completos antes da data de envio do resumo, de modo que este
possa ser preparado a partir do próprio artigo escrito e não de
idéias cruas, ainda em fase de formação, na cabeça do autor.
O dicionário define um resumo de dois modos: o sumário
de uma declaração, documento, discurso, etc. e aquilo que
concentra em si próprio a informação essencial de um artigo.
Esta última é a definição que eu prefiro. Possam todos os
autores aprender (e não é fácil) a arte de preparar um resumo
contendo a informação essencial de sua composição! Com este
objetivo, será anexado abaixo um resumo que deverá ser bem
melhor do que aquele mostrado no início deste artigo.

RESUMO (revisado)

O resumo é de extrema importância porque ele é lido por


um número de pessoas de 10 a 500 vezes maior do que o
número daqueles que lêem o artigo completo. Ele não deve ser
uma simples narração dos assuntos cobertos. Expressões como é
discutido, ou é descrito nunca devem ser incluídas! O resumo
deve ser uma condensação e concentração da informação
essencial do artigo.
110

6 CONCLUSÕES

Apresentamos algumas técnicas de redação que podem


melhorar sensivelmente a comunicação com o leitor. Estas
técnicas estão baseadas em regras que atuam nas sentenças, nos
parágrafos e nos capítulos. São regras menos rígidas que as da
gramática e da sintaxe e cuja não observância não implica erro
gramatical. A finalidade dos conceitos e recomendações aqui
111

apresentados é a de buscar no texto, clareza e organização para


que o leitor possa entender e, posteriormente, lembrar a sua
mensagem.
O alvo principal deste livro é a dissertação, entendida
como o relato escrito apresentado perante uma banca
examinadora para obtenção do grau de mestre, emitido por uma
universidade ou centro de pesquisa. A estruturação da
dissertação recomendada neste livro é a mesma de um artigo, de
modo que, com poucas modificações, a dissertação pode se
transformar num artigo a ser submetido a um periódico
especializado, procedimento bastante cobrado pelos órgãos de
fomento à pós-graduação atualmente.
No entanto, as recomendações aqui apresentadas podem
ser aplicadas diretamente a outros produtos literários, tais como
relatórios, trabalhos de conclusão de curso, projetos de pesquisa,
teses de doutorado. Os benefícios da clareza e da organização
transcendem a obra literária. Palestras, conferências, seminários,
apresentações em congressos certamente se beneficiam delas e
aumentam a chance do espectador entender e posteriormente
lembrar a mensagem contida na sua exposição.

REFERÊNCIAS

Landes, K. K., 1966, A scrutiny of the abstract, II: AAPG Bull.,


v. 50, p. 1992.

Mahrer, K. D., 1993, Some considerations when abstracting:


Geophysics, v. 58, p. 10-11.

Parenti, M., 1980, Democracy for the few: St. Martin’s Press.
112

Rey, L., 1972, Como redigir trabalhos científicos: Edgard Blücher.

Williams, J. M, 2000, Style: Ten lessons in clarity and grace:


Longman

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

FREW, R., GUCHES, R., MEHAFFY, R., Writer's workshop.


Palo Alto Peek Publications, 1977.
113

SULLIVAN, K. E., Paragraph practice. Riverside MacMillan


Publishing, 1976.

EXERCÍCIOS

Exercícios sobre a sentença-tópico:


Fragmentos de texto
114
Exercícios resolvidos: Os seguintes fragmentos de texto serão
transformados em sentenças-tópico:

1) Como trocar um pneu.


Qualquer pessoa pode aprender como trocar um pneu.

2) Trocar um pneu.
Um motorista pode aprender facilmente a trocar um pneu.

3) Se um motorista tem o pneu de seu carro furado.


Se um motorista tem o pneu de seu carro furado, ele deve
ser capaz de trocá-lo.

4) Uma maneira segura de trocar um pneu.


Há uma maneira segura de trocar um pneu.

5) Ensinar boas maneiras a uma criança.


Os pais devem ensinar boas maneiras a uma criança.

Exercícios propostos: Transforme os fragmentos de sentença


abaixo em sentenças-tópico:

6) Como portar uma arma com segurança.


7) Aprender a gostar de escrever.
8) Se uma pessoa quer ser popular.
9) Como evitar uma discussão.
10) Se uma pessoa quer aprender a guiar.
11) Violar o limite de velocidade.
12) Aprender a comprar bons calçados.
13) Ser um bom vizinho.
14) Como passar uma camisa.
15) Um dos principais requisitos para aprender a nadar.
16) Se o aluno quer ser aprovado numa disciplina.
17) Quando se está deprimido.
115
18) Aprender a escrever um parágrafo.
19) Escrever um artigo científico.

Exercícios sobre a sentença-tópico:


Clareza

Exercícios resolvidos: As sentenças-tópico abaixo serão


transformadas em sentenças mais claras.
116

1) A participação em esportes molda o caráter.


A participação em esportes coletivos desenvolve o espírito de
solidariedade

2) Ler compensa.
Ler as obras de Aluízio de Azevedo desenvolve criatividade
na redação.

3) Censura é um assunto polêmico.


A censura nega ao indivíduo o direito fundamental de se
expressar livremente.

4) Assistir à televisão pode se tornar um mau hábito.


Assistir a filmes de artes marciais desenvolve em
adolescentes atitudes violentas.

Observe como a sentença-tópico abaixo pode se tornar mais


clara e específica em mais de uma maneira:

5) Para se tocar um instrumento musical, é preciso saber alguma


coisa sobre ele.
a) Para se tocar bateria é preciso ter um grande senso de
ritmo.
b) Para se tocar piano, é necessário despender bastante tempo
exercitando os dedos.
c) Para se tocar trompete, é preciso desenvolver lábios fortes.

Observe que palavras tais como “polêmico”,


“controverso” “discutível”, “incerto” não são apropriadas a
sentenças-tópico porque elas denotam implicitamente a
existência de duas opiniões antagônicas sobre um assunto. Para
se demonstrar, por exemplo, que “censura é um assunto
117
polêmico”, seriam necessários dois parágrafos: um para
demonstrar seus pontos positivos e outro para demonstrar seus
pontos negativos.

Exercícios propostos:

As seguintes sentenças não contêm uma idéia única, bem


definida e fácil de ser reconhecida. Ao invés disso, elas dão
apenas indicações ou sugerem muitos possíveis tópicos ao invés
de um único. Reconheça essas falhas e corrija-as pelo menos de
duas maneiras diferentes.

6) A educação adequada a uma criança é um assunto discutível.


7) Redação não é o assunto favorito de muitos estudantes.
8) Uma pessoa não deve entrar em nada apressadamente.
9) Algumas pessoas não têm comportamento adequado.
10) Os meios de comunicação desempenham um papel importante
na formação de opiniões.
11) O feminismo é um assunto controverso.
12) Todo mundo precisa saber alguma coisa de matemática.
13) Para se fazer um terno, é preciso saber alguma coisa sobre
costura.
14) O crime está aumentando nas cidades.
15) O crime não compensa.
16) Algumas pessoas não sabem conversar.

Exercícios sobre a sentença-tópico:


Especificidade
118
Exercícios resolvidos: As sentenças-tópico abaixo serão
transformadas em sentenças mais específicas.

1) Os pais devem saber cuidar de seus filhos.


Os pais devem ensinar seus filhos a respeitar os idosos.

2) Cozinhar é uma arte que todas as pessoas deveriam aprender.


Saber preparar uma carne bovina é atividade que todo solteiro
deve aprender.

3) Esportes são bons tanto para assistir como para praticar.


Praticar corrida fortalece o sistema cardiovascular.

4) Aprender a dirigir exige tempo e muita perseverança.


Aprender a dirigir carretas exige muita perseverança.

Observe como a sentença-tópico abaixo pode se tornar mais


específica em mais de uma maneira:

5) Os franceses são mal-humorados.


a) Meu vizinho francês freqüentemente fica irritado.
b) Meu melhor amigo atribui o seu mau humor aos seus avós
franceses.

Exercícios propostos: As seguintes sentenças são muito amplas


ou muito gerais para um parágrafo. Reconheça essa falha
e corrija as sentenças pelo menos de duas maneiras
diferentes.

6) Aprender a nadar não é difícil.


7) Economia é uma carreira promissora.
8) Para uma pessoa de ascendência européia é difícil entender os
costumes orientais.
119
9) Os italianos adoram ópera.
10) A maioria dos estudantes apresenta dificuldades para dominar
a matemática.
11) O Rio de Janeiro é o estado que oferece ao turista a maior
variedade de atrações.
12) Aborto é um assunto sério.
13) Os baianos são preguiçosos.
14) Os adolescentes não são maduros o suficiente para casar.
15) Comunistas e capitalistas não têm nada em comum.
16) Os homens são todos iguais.

Exercícios sobre a sentença-tópico:


Substitutos vulgares
120
Reescreva as sentenças abaixo, mantendo o mesmo
sentido original, mas substituindo as palavras ou grupos de
palavras em negritos por termos mais exatos.

1) Aquelas coisas pontudas que existem no Egito foram


construídas por escravos.
2) Esse negócio de dirigir em alta velocidade é perigoso.
3) Dançar ao som de uma boa música é como que estar nas
nuvens.
4) A separação de casais é um negócio corriqueiro hoje em dia.
5) Mentira não é coisa de pessoas honradas
6) Ele trabalha com negócio de eletricidade.
7) Ele mexeu naquela coisa que regula a temperatura da sala.
8) Aquela geringonça que move o barco partiu-se em dois.
9) Não há coisa mais enfadonha para leigos que um congresso
de matemáticos.
10) Navegar em uma jangada é como que andar sobre as águas.

Exercícios sobre a sentença-tópico:


Substitutos desgastados
121

Os clichés estão hoje desgastados devido ao seu uso


abusivo por muito tempo. Este excesso de uso indica como eles
foram fortes ao tempo de sua criação. Um cliché expressa uma
qualificação em muito poucas palavras, transmitindo ao mesmo
tempo força e intensidade à mensagem. Por exemplo, compare a
força do cliché “minha boca é um túmulo” com a mensagem
equivalente a ela, dita de modo convencional: “Eu nunca seria
capaz de divulgar um segredo a mim confiado”.

Exercícios resolvidos: As sentenças abaixo serão


reescritas substituindo os termos desgastados por novos clichés
(exempos 1 e 2) ou por grupos de palavras com o mesmo
significado, mas com menor força (exemplo 3). Neste último
caso, observe a perda de força e concisão da mensagem.

1) A garota saiu de casa alegre como um passarinho.


A garota saiu de casa alegre como um raio de sol.

2) Aquele homem é careca como uma bola de bilhar.


Aquele homem é careca como o sol nascente.

3) Ele tem o olho maior que a boca.


A sua gula é tão grande que ele come além do que necessita.

Exercícios propostos: Reescreva as sentenças abaixo


substituindo os termos desgastados por novos clichés (tarefa
difícil) ou por grupos de palavras com o mesmo significado, mas
com menor força.

4) Ele é tão gentil que não mataria uma mosca


5) Políticos são farinha do mesmo saco.
6) Aquele professor é ativo como uma abelha.
7) O marido dela trabalha que nem um cavalo.
122
8) Ele tem bom coração, mas é teimoso como uma mula.
9) O garçom deste restaurante é rápido como uma flecha.
10) A traição é amarga como fel.
11) Sua pele é branca como a neve.
12) A notícia estourou como uma bomba.
13) A notícia se espalhou como rastilho de pólvora.

Exercícios sobre a sentença-tópico:


Substitutos fracos
123

Exercícios resolvidos: as sentenças abaixo serão


reescritas substituindo ou complementando as palavras, ou
grupos de palavras em negrito, por comparações (exemplo 1),
descrições claras (exemplo 2) ou medidas exatas (exemplo 3).

1) Esse rapaz é bem-apessoado.


Esse rapaz é tão bem-apessoado quanto o Tom Cruise.

2) Este livro é interessante.


Este livro apresenta uma análise crítica aos valores
escravagistas do período colonial brasileiro.

3) Belém é uma cidade muito úmida.


A umidade relativa do ar em Belém é de 98 por cento.

Exercícios propostos: reescreva as sentenças abaixo


substituindo as palavras, ou grupos de palavras, em negritos por
comparações (evite clichés desgastados), descrições claras ou
medidas exatas.

4) Ele é popular porque tem personalidade.


5) Aquele filme foi bom.
6) Este livro é interessante.
7) Ontem esteve muito frio.
8) Eu esperei muito tempo na fila ontem.
9) O espetáculo de ontem foi ruim.
10) A popularidade daquele candidato está muito baixa.
11) O concurso de seleção foi muito difícil.

Exercícios sobre a sentença-tópico:


Verbosidade
124

A verbosidade é um dos vícios mais difíceis de se evitar.


Muitos autores experientes são surpreendidos usando palavras
em excesso.
Observe no texto abaixo o uso de palavras e locuções
desnecessárias para transmitir a informação desejada.
“Ele era certamente um homem muito velho, e ele
definitivamente nunca houvera saído com outras pessoas no seu
pequeno barco. Ao invés disso, ele sempre ia pescar só no Golfo
do México ao largo de Cuba, e já se passavam agora oitenta e
quatro longos dias sem que ele houvesse capturado um peixe
sequer”.
Observe agora como a informação relevante pode ser
simplificada:
“Ele era um velho que pescava num barquinho na
Corrente do Golfo e passou oitenta e quatro dias sem pegar um
peixe” (Ernest Hemingway).
O exemplo acima mostra que não é apenas na redação
técnico-científica que a concisão deve ser buscada. Tenha
sempre em mente que a finalidade da linguagem é comunicar e
não atrair a atenção. O leitor não deve notar as palavras que
você usa, mas aquilo que você está dizendo com elas.

Exercícios resolvidos: nas sentenças abaixo o


verbalismo será eliminado, mantendo apenas a informação
essencial.

1) Em nossos modelos, consideramos sempre que o contraste de


densidade era constante, o que de certa forma parece estar em
plena consonância com a informação geológica que nos foi
possível coletar. (Com verbalismo).
125
Consideramos modelos com contraste de densidade constante,
em consonância com a informação geológica coletada. (Sem
verbalismo).

2) Após longos e exaustivos experimentos, conseguimos mostrar


sem a mais leve sombra de dúvida que o nosso método é
perfeitamente possível de ser amplamente empregado por uma
extensa gama de profissionais, mesmo aqueles ligados a áreas de
conhecimento aparentemente desconexas. (Com verbalismo).

O nosso método pode ser empregado por profissionais


ligados a áreas de conhecimento desconexas. (Sem verbalismo).

3) Embora muitas vezes não seja possível afirmar


categoricamente, neste caso podemos considerar, com uma
ampla margem de possível acerto, que, a nível de geologia, o
corpo intrusivo apresenta uma composição nitidamente
granítica. (Com verbalismo).

De acordo com a geologia, o corpo apresenta composição


granítica. (Sem verbalismo). Note o uso incorreto e muito
comum da locução “a nível de”).

Exercícios propostos: Leia com atenção os textos


abaixo, identifique a informação que o autor está querendo
transmitir e reconheça as palavras e termos destituídos de
informação relevante. Por fim, reescreva os textos de modo
mais conciso.
126
4) Em se tratando de uma estimativa de caráter essencialmente
preliminar, não nos resta senão afirmar que o corpo tem pelo
menos 10 m de largura.

5) A Figura 1 mostra claramente que, às vezes, podemos ter


situações em que paira uma profunda dúvida sobre o fato da
solução do problema inverso da dissipação do calor poder vir a
ser única.

6) Mesmo com as devidas considerações acerca de outras


alternativas, quer nos parecer que a profundidade máxima que o
corpo pode atingir está no entorno de 25 m.

7) Um perfil orientado na direção norte-sul foi estabelecido e,


ao longo dele, a cada intervalo espacial constante de 10 m foram
realizadas medidas da umidade do solo.

8) A escolha da melhor estratégia deve ser baseada na existência


de informações que, em princípio possam ser consideradas
como sendo de caráter eminentemente anatômico.

9) O teorema de Smith afirma que se uma linha reta traçada na


vertical vier a interceptar o corpo anômalo que está sendo alvo
de interpretação em apenas dois pontos, então é lícito afirmar
que, neste caso, a solução do problema inverso é única.

10) Ao proceder a uma extensiva pesquisa bibliográfica,


pudemos constatar que, nem sempre, mas com uma freqüência
relativamente alta, o trabalho de Figueiredo (1970) tem sido
sumariamente olvidado.
127

Exercícios sobre a sentença-tópico:


Múltiplos significados

Se várias palavras podem ser usadas para designar um


mesmo objeto, sentimento, ação, a diferença entre elas pode
retratar o sentimento do autor em relação a esses elementos. Este
sentimento pode ser classificado como positivo, neutro ou
negativo. Observe os exemplos abaixo.

POSITIVO NEUTRO NEGATIVO


esbelto magro magricela
assistente ajudante lacaio
alvo branco desbotado
absorto distraído abestalhado
forte gordo balofo

O uso adequado de um sinônimo dependerá da


mensagem que o autor que transmitir. Assim, se ele estiver
reclamando sobre um produto comprado ele não deve usar
termos positivos (exceto por ironia). Por outro lado, se estiver
escrevendo um currículo com perspectiva de obter um emprego,
ele não deve usar palavras negativas.

Exercícios propostos: Escreva cinco grupos de palavras, cada


grupo contento três conotações como na Tabela acima.
128

Exercícios sobre a sentença-tese I

A sentença-tese deve ser dividida para indicar ao leitor


não só o assunto a ser discutido, mas também como essa
discussão será estruturada. A maneira clássica de construir uma
sentença-tese é o estabelecimento do assunto e então dos
suportes. Estes suportes são introduzidos por palavras e locuções
como porque, uma vez que, devido a, tendo em vista.
Freqüentemente, a pontuação “dois pontos” pode substituir as
palavras e locuções acima.

Exemplos

A) (assunto) O brasileiro está ficando cada vez mais insatisfeito


com a sua situação financeira, (suporte) porque os impostos e os
preços aumentam mais que o seu salário.

B) (assunto) As conseqüências da contaminação dos rios pelo


mercúrio são nefandas: (suporte) morte dos peixes, morte das
pessoas que os consomem, e desequilíbrio ecológico de vastas
regiões.

Exercícios resolvidos: As sentenças abaixo não têm


suporte. Será indicada uma possibilidade de correção para cada
uma.

1) A carreira de oceanógrafo oferece oportunidades


compensadoras.
A carreira de oceanógrafo oferece oportunidades
compensadoras tais como bons salários, viagens e
participações em congressos.
129

2) A censura é prejudicial à democracia.


A censura é prejudicial à democracia porque cerceia a
liberdade de pensamento e ajuda a manter regimes
autoritários.

3) Estudar em um país estrangeiro apresenta vantagens.


Estudar em um país estrangeiro apresenta vantagens tais
como o aprendizado de uma nova língua e o contato com uma
nova cultura.

4) A tensão constante prejudica a saúde.


A tensão constante prejudica a saúde uma vez que debilita o
sistema imunológico e causa problemas psíquicos.

5) É perigoso viver no mundo de hoje.


É perigoso viver no mundo de hoje devido à poluição, à
violência, e à guerra.

Exercícios propostos: As sentenças abaixo não têm


suporte. Desenvolva-as introduzindo dois ou três suportes como
nos exemplos acima.

6) A poluição deve ser controlada.


7) Um carro pequeno tem suas vantagens.
8) Uma crise de energia pode causar sérios problemas.
9) Dirigir bem requer três qualidades.
10) O Ministério da Saúde adverte: fumar faz mal à sua saúde.
11) Um casamento sólido requer importantes qualidades do casal.
12) Na escolha da profissão vários aspectos devem ser levados
em conta.
13) Exercícios físicos fazem bem à saúde.
14) Ser médico requer importantes qualidades.
15) O aborto (não) deve ser legalizado.
130

Exercícios sobre a sentença-tese II

Freqüentemente, há a necessidade de se desenvolver a


sentença-tese a partir de idéias ao invés de sentenças já
formadas como na prática anterior.

Exercícios resolvidos: As idéias abaixo serão desenvolvidas em


sentenças-tese contendo dois ou três suportes.

1) Que lugar você recomendaria para um amigo visitar?


A Itália é um país que oferece diversos atrativos tais como a
ótima comida, os célebres locais históricos e a monumental
arte renascentista.

2) A fidelidade favorece ou prejudica o casamento?


A fidelidade é importante ao casamento porque mantém o
casal unido e reforça o sentimento de companheirismo.

3) Você é a favor da pena de morte?


A pena de morte não engrandece uma nação porque não
permite a reparação de uma condenação injusta e não reduz o
número de crimes.

4) Por que está havendo mais poluição nos rios?


A poluição dos rios está aumentando porque nos últimos 10
anos, a população, as indústrias, e o descaso das autoridades
vêm crescendo.

5) O programa espacial é importante?


O programa espacial deve ser mantido porque amplia as
nossas fronteiras do conhecimento e fomenta o
desenvolvimento de novos produtos industriais.
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Exercícios propostos: desenvolva as idéias abaixo em
sentenças-tese contendo dois ou três suportes

6) Qual a sua idéia sobre um trabalho ideal?


7) A eutanásia deve ser legalizada?
8) Os estudantes de pós-graduação em geofísica devem estudar
outras línguas estrangeiras além do inglês?
9) Em que aspecto (não) existe racismo no Brasil?
10) O uso de drogas deve ser liberado?
11) Quais os benefícios que traz um curso universitário ao
estudante?
12) Você é contra ou a favor do aborto?
13) Qual a matéria mais difícil no segundo grau e por que?
14) Porque os índios americanos foram expulsos de suas terras?
15) Você acredita em astrologia?
132

A comunicação escrita ocupa uma posição desvantajosa em


relação à comunicação oral. A entoação com que as palavras são
pronunciadas age como auxiliar na transmissão de uma
mensagem. Além disso, o orador pode recorrer a gestos e
expressões faciais para imprimir emoção ao seu discurso. O
escritor, por sua vez, não dispondo de tais recursos, deve lançar
mão das duas ferramentas básicas para melhorar sua
comunicação com o leitor: clareza e organização. Este livro
mostra como adquirir e aprimorar o domínio sobre estas duas
ferramentas e como aplicá-las ao redigir uma dissertação.

O Autor