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XXI Simpósio Nacional de Ensino de Física – SNEF 2015 1

A divina comédia de Alighieri e o geocentrismo medieval na


escola básica.

Fernando J. Guilger1, Thaís C. M. Forato 2


1
UNIFESP nando_guilger@hotmail.com
2
UNIFESP thais.unifesp@gmail.com

Resumo

Este trabalho apresenta a síntese de uma proposta didática para o Ensino Médio,
propondo uma abordagem histórica da ciência em interface com a arte, a partir de um trecho
de A Divina Comédia de Dante Alighieri. Objetiva-se discutir o modelo Geocêntrico de
Universo de modo contextualizado e proporcionar reflexões epistemológicas, por exemplo,
sobre a diferença entre observar a natureza e construir modelos explicativos na ciência. Os
fundamentos metodológicos para a proposta utilizam as perspectivas de Zanetic (2006) e
Reis e colaboradores (2006), que defendem a interface entre arte e história da ciência para
uma compreensão da Ciência enquanto produção socio-histórica, influenciando e sendo
influenciada por elementos de seu entorno cultural. Para o desenvolvimento das aulas,
utilizou-se os parâmetros propostos por Forato (2009), que contemplam requisitos da
didática das ciências e da historiografia contemporânea. Como resultado, apresenta-se um
breve planejamento para quatro aulas, incluindo atividades, análise comentada do trecho do
poema A Divina Comédia e sugestões bibliográficas de apoio ao professor.

Palavras-chave: Geocentrismo, História da Ciência, Ensino de Física,


Escola Básica, Literatura no Ensino.

Introdução – História das ciências e literatura no Ensino de Física

Dante Alighieri, poeta florentino do século XIII e XIV d.C, destacou-se pela
publicação de A Divina Comédia, série de poemas que captam o espírito político,
cultural e religioso do período, narrando as peregrinações do poeta pela dimensão
espiritual. Dentre os aspectos tratados na obra, encontramos referências a
Cosmologia da época. Visando abordar o modelo Geocêntrico de maneira
contextualizada, selecionamos, para este trabalho, o trecho da explanação feita por
Beatriz no Paraíso, acerca da hierarquia celeste (ALIGHIERI, 2010b, p.21-24).

Consideramos este recorte interessante, por estabelecer relações entre a


doutrina aristotélico-ptolomaica (MARTINS, 1994, AVENI, 1993) e as classes
angélicas pseudo-dionísicas (YATES, 1964), apresentando como era entendido o
funcionamento dos movimentos celestes naquela época. Isso permite trazer a visão
holística1 presente na Idade Média de modo contextualizado, a partir de um texto da
época, visando contemplar as inter-relações entre concepções de mundo e
atividades humanas, como a arte, por exemplo (ZANETIC, 2006).
A Divina Comédia é um clássico da literatura internacional, fonte de
inúmeras referências na mídia, desde citações esporádicas até obras claramente
inspiradas, como jogos de vídeo-game, pinturas, livros 2 portanto, ainda que
1
Que defende uma visão integral e um entendimento geral dos fenômenos. "holistico", in Dicionário Priberam da
Língua Portuguesa [em linha], 2008 2013, http://www.priberam.pt/DLPO/holistico [consultado em 26-03-2014].
2
Um claro exemplo recente é o livro Inferno, de Dan Brown. Embora seja uma ficção, com os conteúdos

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indiretamente, uma obra conhecida. Sua presença em livros didáticos, como por
exemplo, em Pietrocola e colaboradores (2010), também demonstra sua pertinência
para abordar o Geocentrismo. Quando se compreende a Ciência enquanto produção
socio-histórica, influenciando e sendo influenciada por elementos de seu entorno
cultural, as diversas manifestações da arte, como literatura, música, cinema, pintura,
por exemplo, surgem como estratégias para favorecer a transdisciplinaridade,
conjugando a dimensão científica e metacientífica com a dimensão artística e
cultural (FORATO et al., 2012; REIS et al., 2006; ZANETIC, 2009).

Estabelecer uma ponte entre História e Filosofia da Ciência (HFC) e


Literatura pode contribuir tanto como estímulo à leitura, quanto ao entendimento da
ciência como parte de um contexto histórico-cultural, que não apenas é influenciada
pelo seu meio, mas também o influencia. Como mencionado por Zanetic, em 2006:
Tomando os cuidados recomendados pelo nosso historiador de
plantão, Roberto Martins, em artigos recentes, podemos estabelecer alguns
paralelos entre ciência e arte ao longo da história. A ciência e a arte, assim
como toda realização humana, estão conectadas com as condições
históricas de sua concretização. [...]
Dante Alighieri, que viveu de 1265 a 1321, no seu poema épico A
divina comédia, demonstrou a forte influência do pensamento aristotélico-
ptolomaico, a partir da leitura produzida por Tomás de Aquino, responsável
pela aproximação desse paradigma aos ensinamentos e dogmas da Igreja
de então. O paraíso de Dante é formado por nove céus concêntricos girando
em torno da Terra imóvel, seguindo de perto uma descrição de Ptolomeu.
(ZANETIC, 2006, p.48-49).

Tendo em mente esta perspectiva, surge a seguinte questão de pesquisa:


como desenvolver uma proposta para aulas de física no Ensino Médio, que possa
favorecer a compreensão da Ciência como elemento da cultura de uma época?
Tentando responder a esta pergunta, utilizamos o Canto II da referida obra
(ALIGHIERI, 2010b, p.21-24) para introduzir a interpretação do Modelo Geocêntrico
do Universo no contexto histórico do início do século XIV. Uma proposta piloto foi
aplicada no âmbito de um projeto do PIBID 3 (GUILGER et al., 2013), cuja boa
aceitação, algumas limitações e demais resultados da sala de aula motivaram sua
ampliação, conforme comentaremos na seção metodologia.
Devido às limitações de espaço, e visando atender a necessidade de
propostas com orientações metodológicas para o uso da HFC na sala de aula
(MARTINS, 2007), optamos por apresentar o resultado final da pesquisa: a proposta
aprimorada, incluindo breve planejamento didático para o professor.

Caminhos para o desenvolvimento da pesquisa - metodologias


O desenvolvimento deste trabalho surgiu a partir de uma problemática
defrontada na escola, no contexto do PIBID. Com base em avaliações de turmas de
primeiro ano, foram detectados alguns indícios de uma visão confusa e limitada
sobre a ciência e aspectos de sua construção (GIL PÉREZ et al., 2001).

apresentados a partir de uma perspectiva peculiar de seu autor, o livro alcança grande sucesso e está sendo
cotado para a produção de um filme em 2016.
3
Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência.

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Tais indícios levaram ao desejo de encontrar uma abordagem que permitisse


problematizá-los. Para tanto, fez-se necessário pensar qual concepção de Ciência
permeia a prática docente, ou seja, a reflexão sobre a prática (ROLDÃO, 2007).
Partindo do pressuposto de que o discurso do educador é permeado pelos seus
valores, portanto, não-neutro, buscamos traçar qual visão de Ciência desejávamos
comunicar.
Pensando em Ciência como uma construção permeada pelo contexto em
que se insere, considerou-se que uma forma de trazer à tona esses fatores era usar
como abordagem algo que evidenciasse estes aspectos. Acreditamos que episódios
da história das ciências permitem explicitar sua relação com outros saberes de uma
determinada cultura. Neste caso, escolhemos a interface entre Ciência e Literatura,
por acreditarmos que o trecho recortado da obra de Dante, atende justamente a
estes fatores socioculturais envolvidos com a visão Geocêntrica na Idade Média.
Inúmeros desafios permeiam a utilização de HFC no Ensino, e tanto a
literatura na área (FORATO et al., 2012; MARTINS, 2007; MATTHEWS, 1995),
quanto a experiência obtida em sala de aula (PIBID), demonstram a necessidade de
que a inserção seja cuidadosa, contínua, não bastando uma intervenção pontual.
O plano da proposta piloto, desenvolvida e aplicada no âmbito do PIBID,
surgiu com o intuito de problematizar a visão Geocêntrica de mundo. Além de
conteúdos pertinentes ao modelo Geocêntrico, objetivava-se desconstruir a visão de
uma ciência de crescimento linear (GIL PÉREZ et al., 2001), além da concepção de
que os antepassados eram ignorantes e atrasados por não terem atingido nosso
conhecimento atual. Mostrando que as ideias da época eram fundamentadas por
uma visão de mundo diferente, objetivou-se diferenciar a observação dos fenômenos
celestes da explicação construída sobre eles (MARTINS, 2006).
Buscou-se, assim, apresentar como diversos modelos podem “atender” ao
mesmo fenômeno, e como a sua aceitação está sujeita a determinados
pressupostos do seu contexto histórico. Afinal, o Sistema Ptolomaico atendia com
boa precisão as necessidades da época, a despeito de sua complexidade
(MARTINS, 1994, capítulo 6; AVENI, 1993, capítulo 5). Desse modo, além de
destacar a importância do modelo Geocêntrico, preocupou-se em desmistificar a
história medieval, retratada como período de atraso intelectual.
Naquele contexto inicial do PIBID, trabalhar essa temática com uma
abordagem de Arte e HFC suscitou questões em que as concepções prévias foram
defrontadas com o conhecimento discutido (ZYLBERSZTAJN, 1983), propiciando o
debate sobre a Natureza da Ciência, relações da ciência com a religião e o interesse
pela Astronomia. Apesar da boa receptividade, os resultados também indicaram que
o tema precisava de aprofundamento, visto que a concepção de Ciência presente no
discurso dos alunos estava carregada de aspectos deformados sobre a ciência,
como os apontados por Gil Pérez e colaboradores (2001).
O plano predecessor avaliado trazia a proposta de se trabalhar a HFC em
convergência com a arte. Os dados obtidos naquela intervenção apontaram bons
indicativos em se usar a referida obra de Dante Alighieri, para introduzir o tema do
Geocentrismo em aulas de Física (GUILGER et al.,, 2013). A inovação desta
sequência em relação à anterior é um maior destaque ao poema, usando-o quase
que integralmente, como um meio de sintetizar e exemplificar o conteúdo visto, ao
invés do caráter introdutório utilizado anteriormente. Tanto a curiosidade dos
estudantes com alguns conteúdos omitidos, quanto sua dificuldade em compreender

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a complexidade de certos aspectos apresentados do Geocentrismo — que destoava


de conhecimentos prévios, ligados a uma visão mais simplista do Sistema,
relacionado a uma interpretação da Idade Média como uma época de ignorância
científica — foram fatores motivadores para um maior espaço e tempo dedicado a
proposta com o poema.
Para o desenvolvimento das propostas foram utilizados os parâmetros
propostos por Forato (2009), que auxiliam a adequação de conteúdos da HFC para
a sala de aula. Inicialmente, os parâmetros requerem o estabelecimento dos
objetivos pedagógicos (descritos abaixo), e, a partir de então, oferecem 19 reflexões
para auxiliar a seleção do tema e recorte históricos, a abordagem de aspectos
conceituais da ciência e de seu contexto, a proposição de diferentes estratégias
didáticas, bem como a consistência entre objetivos objetivados e efetivamente
mobilizados.

Resultado

A proposta consiste em um planejamento didático para quatro aulas.


Apresentamos uma síntese4, com as ideias centrais a serem desenvolvidas:
Nível de Escolaridade: 1º ano do Ensino médio
Tema: História da Astronomia
Objetivos pedagógicos:
1. Aprender como o fenômeno de movimentação celeste foi entendido em um
determinado período histórico, de acordo com seu contexto;
2. Compreender pressupostos do Modelo Geocêntrico de Universo;
3. Discutir suas limitações como mote para a introdução do Modelo Heliocêntrico
e as Leis de Kepler;
4. Perceber a diferenciação entre fenômeno natural e explicação;
5. Perceber a ciência como parte da cultura e construto de um contexto sócio-
histórico.

Conteúdos: Geocentrismo; modelos na ciência; contexto histórico do século XIV.


Descrição das atividades:
Aula 1: Iniciar a aula abordando sobre as Grandes Navegações, tema que
eles já devem ter visto em História. Propor a seguinte questão: “Como os
marinheiros conseguiam saber sua localização?” Após um breve debate, faz-se a
leitura conjunta do texto “Guiados pelas Estrelas” (GUILGER, 2012). A ideia é
mostrar como um entendimento do céu noturno era importante para o cidadão
medieval. Discutir como Aristóteles dividia o Universo nas categorias sublunar e
supralunar, os argumentos que corroboravam tal visão e como a matéria era
entendida em cada uma dessas subdivisões, mostrando as propriedades de cada
um dos quatro elementos e do éter (MARTINS, 1994, capítulo 6). Explicar que esse
Universo era fechado, finito, indo até o limite visível, os planetas são entendidos
como “estrelas peregrinas”, dotadas de qualidades humanas, sendo esferas de luz
4
Devido a limitações de espaço não é possível apresentar todo o planejamento pedagógico em detalhes.
Oferecemos uma visão geral da proposta, que será descrita de modo integral em um artigo a ser submetido a um
periódico científico, após a interlocução com a comunidade no evento.

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diminutas, ao contrário da concepção moderna de planetas. Lembrando que a visão


medieval ocorre a partir de uma reinterpretação hermética 5 da visão aristotélica.
Pode-se usar um trecho do filme Ágora (AMENÁBAR, 2009), para mostrar a visão
geocêntrica (MARTINS, 1994; AVENI, 1993, YATES; 1964).
Aula 2: Trazer o poema (Trecho de Canto II, Paraíso) de Dante Alighieri aos
alunos e o contexto da época em que foi escrito (veja quadro 1 abaixo). Cabe
mencionar que o termo Comédia, nome dado originalmente por Dante, se refere à
poética aristotélica, em contraposição a tragédia. Enquanto esta se refere a pessoas
e feitos nobres, a comedia fala de homens comuns, geralmente recorrendo a sátira
política ou ideológica. É importante esclarecer isto, pois comédia (no sentido
moderno) tem um cunho necessariamente humorístico. 6 Trazer uma breve biografia
do autor, utilizando imagens em slides; e falar da importância do poeta. 7 Propor aos
alunos que interpretem o texto, buscando seu significado. Utilizar perguntas como:
Qual relação possui o texto apresentado com o conceito de Geocentrismo? Dante
está preocupado com as manchas visualizadas na Luz. Por que isso o preocupava?
(Leve em consideração o que foi dito sobre a Física de Aristóteles).
Aula 3: Interpretar o texto com os alunos, podendo-se utilizar suas respostas
prévias, a partir de perguntas relacionadas a um conjunto de versos, ou usar uma
apresentação puramente expositiva, se necessário. O intuito é expressar a
concepção cosmológica presente no texto (Conferir Quadro 1). É interessante
acrescentar certas características que são subjetivas no poema, como a relação de
ordens angelicais e a quantidade de orbes (YATES, 1964); ou mesmo a importância
da Astrologia para época, que entendia o funcionamento do mundo como uma
relação entre o macrocosmo (Universo) e microcosmo (Homem) (AVENI, 1993;
MARTINS, 1994, capítulo 5).
Aula 4: Sistematização do conteúdo trabalhado nas aulas anteriores. Pedir
aos alunos que descrevam com suas palavras o que entendeu do assunto,
elaborando eles mesmos um poema, uma redação, uma representação artística
sobre a visão geocêntrica do Universo. Os trabalhos resultantes podem ser
posteriormente apresentados em uma Feira Cultural.

Quadro 01: Exemplo da interpretação do conteúdo do poema


Versos (páginas 21-24) Interpretação
“Senhora”, respondi, “agradecido Dante foi levado do plano terreno, material, ao plano
A Ele (Deus) estou, por entre outras espiritual, para conhecer o Inferno, Purgatório e
primazias, Paraíso. Estando diante do Paraíso, nessa parte da
Me haver do mundo mortal removido. narrativa. É importante apresentar o contexto do
livro aos alunos (ALIGHIERI, 2010b).
Mas, o que são essas manchas Dante questiona a razão de manchas na Lua, que
sombrias invalidariam ou colocaria em dúvida a concepção
Deste corpo, (Lua) que lá embaixo na aristotélica de Universo, que atribuía a todos os
Terra corpos celestes um caráter perfeito, incorruptível.

5
Conjunto das doutrinas esotéricas, filosóficas e religiosas associadas a Hermes Trismegisto, representação
sincrética do deus grego Hermes e do deus egípcio Tot. "hermetismo", in Dicionário Priberam da Língua
Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/hermetismo [consultado em 29-03-2014].
6
Prefacio da 2ª edição da Obra: ALIGHIERI, 2010a, p. 7
7
Neste sentido, é interessante fazer uma breve citação de obras que derivam da Divina Comédia. Sugerimos
alguns exemplos: O livro Inferno (Dan Brown, 2013), narrando as aventuras do simbologista Robert Langdon;
as músicas Dante’s Prayer (Loreena McKennitt, 1997) e Dante’s Inferno (Iced Earth, 1995); o jogo de vídeo-
game Dante’s Inferno (EA Games, 2010).

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Sobre Caim (humanidade) despertam Como o mundo supralunar de Aristóteles ela


fantasias?” imutável e imaculado, as manchas lunares eram
usadas como argumento contrário a visão
aristotélica predominante (MARTINS, 1994).
dize o que por ti a respeito pensas”. Beatriz questiona o uso exclusivo da razão para a
E eu: “O que nos parece aqui diverso explicação dos fenômenos, entretanto, pede que
De massas leves julgo o efeito, ou Dante diga sua opinião a respeito. Ele, de pronto,
densas”. responde que pode ser devido a variações de
densidade. Dante aqui apresenta uma das
argumentações da época para explicar as manchas:
Elas seriam causadas por buracos na superfície
lunar, que seria um corpo sólido, material.
Na oitava esfera muitos há, luzentes Beatriz contra-argumenta que apenas a variação de
Lumes (estrelas) dos quais, no qual densidade não seria o suficiente para produzir o
como no quanto, efeito observado nas estrelas, que são diferentes
Podem notar-se aspectos diferentes. umas das outras.
Se raro e denso isso causassem tanto, A outra crença era de que os corpos celestes eram
Só uma virtude em todos estaria, compostos de éter, um ente material com
Mais repartida ou menos; entretanto propriedades distintas da matéria terrestre dos
quatro elementos (MARTINS, 1994).
se rarear fosse a razão Ela diz ainda que se as manchas se devessem a
Das manchas que indagaste, ou parte a diminuição de densidade (buracos) em partes da
parte Lua e demais objetos celestes, eles apresentariam
Deveria ter de massa privação vácuos em sua matéria. A concepção de vácuo é
Este planeta; (...) totalmente inconcebível para os aristotélicos,
buracos são imperfeições que para Aristóteles
seriam inexistentes na região supralunar (MARTINS,
1994).
(...) ver-se-ia mui bem, Se assim fosse, diz ela, esses “buracos” ficariam
Nos eclipses de Sol, transparecer patentes nos eclipses, deixando a luz solar
Seu lume, como em corpo raro advém. transparecer por essas cavidades.
Desde que o raro todo não perpasse Assim sendo, a completude do corpo impede que os
O corpo, haverá um ponto desde o qual raios de luz ultrapassem a limitação do corpo.
Irá a matéria densa obstar que passe
A luz, que então vai refletir-se, qual
Toda cor volta do vidro polido
Cuja outra face disfarça um metal.
(espelho)
(...)No nono céu, o da divina paz, Aqui, ela explica a hierarquia celestial:
Um corpo gira, no poder de Quem Do último céu (9º) parte a essência para a
O ser de tudo que ele abrange jaz. movimentação das esferas seguintes;
O seguinte, (oitavo) que tantos lumes O oitavo céu é o das estrelas fixas, onde cada
tem, estrela opera como um espelho da Glória Divina,
O reparte em essências diferentes, dividindo esse poder em vários fragmentos.
Dele distintas, que ele contém. Os sete céus correspondem aos “céus dos
Os outros céus, nos modos pertinentes planetas”, e também repartem esse poder divino,
Às virtudes de vária condição, além de serem os responsáveis por determinar as
Distribuem os seus fins e as suas características das pessoas, de acordo com
sementes. combinações posicionais em relação aos signos do
Que do alto tomam e pra baixo dão. Zodíaco.
O movimento e a virtude dos céus, O que dá movimento as esferas celestiais, é o
Qual, do ferreiro, a obra do martelo, trabalho incessante dos anjos, onde cada classe
Deve provir dos beatos anjos seus; angelical corresponde a uma esfera. (Ordens
E o Céu, que tantos lumes fazem belo, pseudo-dionisíacas)
Da excelsa Mente que o move assimila Essa explicação serve para estabelecer uma
A imagem santa e faz dela o seu selo. amalgama entre os conceitos físicos estabelecidos e
a concepção religiosa do período. Em outras
palavras, a razão do fenômeno observado é
apresentada como uma intervenção direta de Deus
na natureza (YATES, 1964; AVENI 1993).

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E como a alma, dentro à vossa argila Por fim, ela conclui dizendo que assim como a alma
(corpo), estabelece distintas funções para cada membro do
A cada único membro a faculdade corpo, Deus emana a luminosidade vista nas
Que lhe é conforme dispensa e vigila, estrelas, que tanta alegria traz ao coração humano.
Assim a Inteligência a sua bondade Esse efeito de grande beleza, nada mais é que a
Por todas as estrelas multiplica, Bondade Divina espelhada através das estrelas.
Enquanto gira sobre a sua Unidade.(...) Como essa repartição não é feito de modo
Pela alegre aptidão da qual deriva, homogêneo, o efeito que se perceberia é o de claro
Essa virtude no corpo reluz, e escuro.
Como letícia na pupila viva. Então, no lugar de termos uma relação de
Dela provém o que de luz a luz irregularidades na superfície lunar, o efeito
Vário parece, e não de denso a raro; observado seria apenas uma relação de
Esse é o formal princípio que produz luminosidade. É importante frisar durante a
Conforme sua valia, o turvo e o claro”. explanação, que essa era a explicação da época, e
hoje compreendemos o fenômeno de um modo
diferente, que serve a propósitos distintos daqueles
do período (ALIGHIERI, 2010b).

Considerações Finais
Compreende-se que existam algumas dificuldades para a aplicação desta
proposta, como a presença de um vocabulário e construção textual rebuscados,
para o estudante da Escola Básica. Entretanto, entende-se que a mesma pode ser,
igualmente, um interessante desafio ao professor e aluno, convidando ambos a
descobrirem novas perspectivas e formas de escrita, aliadas a discussões sobre a
natureza da ciência. Colocar os estudantes em contato com a poesia do período
pode ser uma experiência enriquecedora para observar algumas relações entre o
pensamento cosmológico e outras esferas sociais. Além disso, permite desconstruir
preconceitos comuns com o tema da visão geocêntrica, mostrando que tal
entendimento não se devia a uma ignorância conceitual dos fenômenos, mas a uma
percepção distinta de como eles se davam.
Envolver o estudante em diferentes estratégias pedagógicas permite
trabalhar diversas competências e habilidades, quando se busca trazer o aluno para
uma posição mais ativa em aula, convidá-lo a reflexão. Por exemplo, compreender
como o domínio da posição dos astros era importante para as navegações, já que os
navios dependiam de um conhecimento elaborado das cartas celestes para se
localizarem em meio ao Oceano. Além disso, é importante pensar em como o
modelo geocêntrico é mais intuitivo que o heliocêntrico, embora utilizemos este no
lugar daquele. Apresentar ao aluno essas questões permite trazê-lo para um ponto
de reflexão crítica de como a Ciência se estabelece e interage com a sociedade.
Deste modo, entende-se que a Divina Comédia pode ser um excelente recurso para
ensinar Ciências sob uma perspectiva contextualizada historicamente.

Referências

ÁGORA (filme). Alejandro Amenábar, Mateo Gil, Rachel Weisz, Max Minghella,
Oscar Isaac, Rupert Evans. Espanha, Mod Produciones, 2009. 127 min. son. Color.
ALIGHIERI, Dante. A Divina Comedia: Inferno. Tradução: Italo Eugenio Marco. 2.ed.
São Paulo: Editora 34, 2010.
ALIGHIERI, Dante. A Divina Comedia: Paraíso. Tradução: Italo Eugenio Marco. 2.ed.
São Paulo: Editora 34, 2010.

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AVENI, Anthony. Conversando com os Planetas: Como o Mito e a Ciência


inventaram o Cosmo. Tradução: Cecília Camargo Bartalotti. São Paulo: Mercuryo,
1993.
FORATO, Thaís Cyrino de Mello. A Natureza da Ciência como Saber Escolar: um
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GIL PÉREZ, D.; MONTORO, I. F.; ALIS, J. C.; CACHAPUZ, A.; PRAIA, J. Para uma
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GUILGER, F. J.. Guiados pelas estrelas. [S.I.]: Novo Pion, 2012. Disponível em:
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GUILGER, F. J.; FORATO, T. C. M.; FAVA, G. A. Dos Nove Céus as órbitas Elípticas.
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PIETROCOLA, M. Física em Contextos: pessoal, social e histórico: movimento,
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