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Copyright Luiz Zanotti

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Z36u Zanotti, Luiz Urucuia: Próxima parada/ Luiz Zanotti. São Paulo: Catrumano, 2019. 14 x 21
Z36u
Zanotti, Luiz
Urucuia: Próxima parada/ Luiz Zanotti.
São Paulo: Catrumano, 2019.
14
x 21 cm.
76
pgs
ISBN: 978-85-64471-59-7
1.Poesia brasileira - B869.1
CDU 82-1
CDD 028.5

Produtora da ficha: Renata Lopes Mariano dos Santos CRB-8/7615.

Diagramação: Ricardo Bomfim Projeto Gráfico: Jurandir Barbosa Revisão: O autor Fotos: Acervo do autor

Impresso no Brasil

Esse livro foi impresso por Jurandir Barbosa Durães de Oliveira Editora Catrumano do Brasil Eireli CNPJ: 13.055.552/0001-49 São Paulo-SP | Setembro/2019

‘‘

andando, se esbarrando, nunca sabendo onde vai chegar ’’

Yamile 1

Jazmín arrancada de mi jardin Que insiste en difundir tu perfume.

El

jardín fue profanado una vez más.

Y

yo

Destrozado como Violeta Estoy soltando mis lagrimas Por toda el America Latina Saudades por no lo habido conocida.

1 Abogada y dirigente política Yamile Guerra, fue asesinada porque defendía el páramo de Santurbán, acosado ya años por varios proyectos mineros, que pueden dañar todos los ecosistemas que protegen a la ciudad de Bucaramanga. También era conocida por promover el proceso de restitución de tierras despojadas por la violencia".

URUCUIA: próxima parada
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Prefácio

Pois é. A gente vai andando, se esbarrando, sendo barrado, esculhambado e nunca sabe onde vai chegar. Sai de Bateias meio desacorçoado. Sai dos botecos de Campo Largo. Pois este é o meu caso, acadêmico, professor e doutor, virei e girei e acabei em Urucuia. Tenho muito medo dos bits vencerem os beats, Talvez eu seja o ultimo beat. Mas ai, lembro Aristóteles. Daí, salto de novo para a cruz. Vendo nascer novos urucuianos que não Joãozinho empinando sua pipa. Onde que é isto Sô. Para quem não sabe é a região onde Guimarães Rosa escreveu Grande Sertão:

Veredas. Coincidência? Eu também sou Roza. Luiz Roberto Zanotti. Luiz Roza. Mas enfim, este panfleto fala sobre um pouco sobre Campo Largo, um pouco sobre a Romênia, um pouco sobre Urucuia, mas muito deste meu coração beat. Ele sussurra enquanto devia uivar como Ginsberg. Se cala muitas vezes. Pira, transpira pois somos corpos. Tenta fazer as pazes com a morte, a pior espécie de solidão. Este livro mistura o sertão com uma série de poemas que tem a ver como a vida e as mulheres na minha concepção ou pelo menos as que eu tive oportunidade de conviver que são construídas em nossos imaginários como castelos contra a dor e a solidão mas não passam de castelos de areia que o mar da vida quebra e leva embora ver o programa mulheres de areia.

Luiz Zanotti

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Mas estou em Brasov, na meia noite de um dia

inteiro. No expresso da noite inteira. Alguém roubou

meu palhacinho na Fazendinha, maldade

Urucuia, cidade laranja. Não quero falar como é pequeno o meu pintinho. Vou caminhando iuiuiu. O

barzinho perto da rodoviária. Os sorrisos desdentados. É um livro de lembranças de pessoas que já se foram. A saúva continua cortando nosso coração. Mas o mais importante pra mim foi perceber a importância da água. Pois todas estas minhas lágrimas que correm dos meus olhos não serão jamais suficientes para nos fazer navegar o Judá.

A merda da internet é fazer como autores como

eu pirar. Eu não sei o que escrevi ontem e não tenho projeto do que vou escrever amanhã. Então, aquela grande poesia, aquele grande texto se perde na rede intratexto. Sorry. Eu estou bêbado como sempre e quero falar de uma nova história que ainda não inventei. Pêra

ai, é do cara e do coroa. Fui hoje beber no Pepino. A mente a mil. Vejo a senhorinha descendo estrada de terra que vai levar ao meu lugar. Abaixo anda passos de japonesa. Passos tímidos. Todos os meus relógios que estavam parados voltam a funcionar, mesmo aqueles que a arquitetura urbana das cercada por grades deixou fora do meu pensamento: De onde vem tanto medo

O Rio Cascavel mostra o movimento de nossos

intestinos ao percorrer a areia arenaginosa do sertão

paranaense. Surto bem ao lado de uma escola primária. Vivo o reino maravilhoso de Baco.

Mas existe

URUCUIA: próxima parada
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Em cada esquina um cão raivoso. Eu morto de raiva. E daí, só me resta esperar a próxima carona. Mas não espero, eu corro. Pois a vida continua deliberadamente correndo. E dance, como nos propõe Zaratustra, vida é movimento, é dança. Danço com milhões de gafanhotos. Vintu de jos. * da manhã. Continuo pela mesma estrada. Qual será a próxima parada. Ades? Terei que enfrentar os cães de Caronte? Ou a perda do sentido das palavras? Nada disso, vou voltar a viajar. Não continuo até a próxima estação. Inácia? Talvez?

Luiz Zanotti

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SILVER

Este livro foi feito em homenagem à Silvinha Silvia/ Silvona/ Silver Mar de prata no meu olhar Estrelas na sua visão Hoje já sinto a sua falta Melhor amiga/ Melhor mãe Florinda das flores Sussurro/ Surro/ Substituo

O sorriso por Silver

Prepotente, presunçosa, assim como eu

Melhor amiga/ Melhor avó Iemanjá/ Baile de formatura Hoje já não sinto a sua falta Porque você está em mim

A cada simples momento da fluidez do meu sangue

Me falando/ Minha irmã/ Melhor bisavó

Você tomaste todos os líquidos Que ainda mereceriam ser conquistados Mas ainda ei de achar um novo

E este novo liquido que vai nascer eu chamo

SILVER

O liquido prateado de nossas vidas

Água e os sonhos

O impulso que escava o fundo do ser primitivo

Que estabelece a profunda germinação. Mergulho na sua piscina para encontrar a semente Numa profundidade que valoriza o mistério Uma imaginação aberta. Pois é, você sempre sonhou antes de contemplar Tudo pra você é onírico Nós nos banhamos duas ou três vezes no mesmo rio

URUCUIA: próxima parada
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E será no infinito ou no encontro nas águas.

Que nós de novo nos encontraremos.

Está cravado na profundidade. Na nossa casa natal Em nosso aquário

A água prateada sempre surgirá.

Pois você como a água é também um das maiores valorizações do pensamento humano: a valorização da

pureza.

A

supremacia da água doce sobre as águas dos mares.

O

universo é infinitamente pequeno.

Para as águas prateadas, para suas águas amorosas. Aquela água que você sempre me devolveu um pouco de inocência e de naturalidade. Aquela chuva que você faz cair Águas profundas, águas mortas, água pesada. No fundo do meu coração uma lembrança imperecível. As águas nos levam para a morte Toda água é clara, límpida como uma musica cristalina, mas que vai se escurecer. Contemplo Silver e me sinto escoar, morrer. Pois a água , substancia da vida, também é da morte para o devaneio ambivalente.

A Morte é uma viagem.

Silver e o mar, símbolos maternos. Nós te amamos e damos a você a infinitude do amor por uma mãe. Alimenta com seu leite. Toda água é um leite. Mergulhe em mim, para poder surgir de mim. Silver você que sempre nos ensinou a falar, apesar das dores e das lembranças, me ensina a lidar. Com a sua falta. Tenho sede.

Luiz Zanotti

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GERAÇÃO PSIU

Infelizmente ou felizmente, sofro de alka-seltzer, digo Alzheimer, e não poderei lembrar-me da riqueza das poesias que os poetas da Geração Psiu trouxeram para esta casa das Rosas. Rosas, Guimarães Rosas, Elomar Figueira de Melo. Lembro o ultimo, nos êxtases do Alzheimer para dizer: Mas foi tanto doa=s vaqueiros que reinou no eu sertão, se cantando o dia inteiro não menajo todos não. Casas das rosas, apesar desta azia cerebral não posso deixar de pontuar a importância do movimento que já sobrevive a duras penas, não dos escritores, a trinta anos. Psiu estabeleceu a importância da poesia em alguns poucos setores da sociedade. Não somos beat, não somos civilizados, não somos EUA, somos Montes Claros. Não somos Ginsberg, nem Kerouac, nem tampouco Burroughs, somos Aroldo, Turiba, Jurandir e tantos mais. Somos Téo de Azevedo. Mas, também não temos Donald Trump, e trampamos pra caralho pois vender um livrinho de poesia por dez reais é mais difícil que convencer todo um povo. A Geração Psiu pode ter passado despercebida pela mídia devorada pelos metais sertanejos. Mas ela nunca deixou de ser fazer presente e deixar o povo falar. A Geração Psiu será descoberta daqui a muito muito tempo quando deixarmos de ser um Brasil mudo. Quando elevarmos nossa voz e sairmos do berço esplêndido O nosso Psiu não é pra calar e sim pra deixarem ouvir a nossa voz. É pra mostrar que conseguiremos rever a nossa voz e deixar calar as Dilmas e Lulas da vida. É pra deixar calar os que não se preocupam com a fome, com a violência e com a mulher. Mas este país nos ensinou a nós Geração Psiu, que é melhor calar do que o calabouço. Nós desta geração que vivemos sobre o hedge do silencio.

URUCUIA: próxima parada
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As crianças nas cadeiras jesuíticas convidadas a calar. O réu político corrupto frente ao júri diz que nada tem a dizer. Instalado uma lei do silencio moral e imoral de assedio sexual que proíbe o psiu para a moça mas que deixa o pedófilo ficar calado apesar de condenado em varias instancias. Psiu não é para calar e para você ouvir a nossa geração Psiu. Alguém fez psiu e ecoou no coração do Brasil. E da deixamos de nos calar

Luiz Zanotti

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SUSSUIVO Para Allen Ginsberg

E quanto mais eu me embaraçava

Mais eu procurava entender o significado Das estreitas estradas de barro e lama da Fazendinha Procurava entender a casa onírica

A

minha mãe

E

vamos revolucionar

Cadê os piolhos Cadê os chatos da sua buceta Não me vexe não Tenho um acorde misterioso no meu coração

Não uivo, simplesmente sussurro Tudo aquilo que as monjas de verdade não querem

ouvir

A verdade

Não existe verdade Somente resquícios da pele fina Do diamante fino Daí, eu lapido as palavras Mas não sou um bom ourives

Não consigo fazer ou trazer perolas do fundo da

linguagem/pensamento

Canso

Como canso nesta minha imensa inabilidade de transformar bosta em perolas Sou o Rei Merdas Transformo perolas em merda

E daí

Tudo é matéria

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Pelos franceses caídos pelo Estado Islâmico SUS Surro O governo pelos doentes brasileiros Muito mais que os cento e vinte franceses Que vão morrer Não por culpa do Estado Islâmico Mas por culpa de nós todos Surro e sussurro a minha, a nossa poesia, porca e decante Que não mais altera nada, não serve pra nada Sussurro e surro e me tornarei surdo Pelos apelos de humanidade Pelas velas recolhidas e postadas em frente a tantos altares da miséria e da televisão e da internet Quero voltar aos apelos de uma humanidade que tinha Kerouac Ginsberg Burroughs Mas sou apenas UM VAGABUNDO UIVO NÚ NA ESTRADA

Luiz Zanotti

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INAUGURANDO 2019

Gritos de horror Frio na espinha Ranger da geladeira Nada de Magic Slim Nenhum Jimmy Hendrix Só nos sobrou Bolsonaro Os bits venceram os beats Aplausos emocionado de honor Brasa do churrasco Crepitar das chamas Tudo do Adolf Eternamente Costa e Silva Vivemos com o que sobrou nos nossos bolsos Os bits venceram os beats

URUCUIA: próxima parada
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PRÓXIMA PARADA

Procurando Urucuia Procurando sem insensatez a minha identidade Olhei de um lado

O

meu lado cimento

E

do outro

O

lado tijolo

Um cinza nojento

O outro

Um coração crioulo Quem é o herói da historia?

Luiz Zanotti

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FUNGO

Fungo

Sempre que se dá um breakdown, Eu procuro você Minha poesia

Merda, poeira, nada

Não consigo resgatar nada

E existe algo a ser resgatado?

Sempre que eu me encontro numa storm

E eu procuro dentro de mim

Só vejo a merda, a poeira, o nada

Que poderiam me dar consistência Então procuro o puro,

O puro, o pulo, o vinho

Fungo cada vez mais

E cada vez mais me pareço com os fungos

Sempre que se dá um deja vu,

eu procuro você Minha poesia Carinhosa, poeira, nada

Consigo resgatar o nada do seu olhar Nada a ser resgatado

A tempestade se encontra em mim

Esta longe de dentro de mim

A merda, a poeira, o nada

Que poderiam me dar consistência

Puro, puro, Pulo o vinho Fungo cada vez mais

E cada vez mais me pareço com os fungos

URUCUIA: próxima parada
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DESISTI

Realmente o que leva um ser a desistir

O

que leva um ser a existir

E

o que o leva a coexistir?

Difícil questão. Poderíamos ser sozinhos Como os pássaros ao deixar o ninho Mas somos incentivados a união Seres humanos

Animal consciente Falava Aristóteles Idealmente o que leva um ser a se incluir Numa atmosfera bizarra de um facebook

O

que a achar que assim existe

E

o que o leva a coexistir?

Difícil questão. Poderíamos ser sozinhos Como os ácaros num colchão Mas somos incentivados a viver em colônia

Somos seres humanos Mais jamais animais conscientes Desculpe Aristóteles

Luiz Zanotti

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Preâmbulo

Eu jamais conseguirei ser cem por cento poeta como foram Ginsberg e Whitman, pois pousa sobre mim a importância da família, de educar, de ter posto alguém no mundo pra cuidar. Além disso, existe o lance da epifania, pois, diferentemente do que todos os poetas acreditam escrevemos com o corpo com as mãos, com a maquina de escrever, e este momento é o ultimo que temos possibilidade de abarcar a realidade. Esperou para escrever depois, já era. Foi e não é mais arte, e como diz Heidegger, a poesia é o nosso único e ultimo contato com a realidade, e daí eu escrevo esta epifania quando voltava de Curitiba para Campo Largo:

CALO?

Na velocidade desenfreada do carro de Jagrena Vejo a imagem obliterada pelos pingos da chuva no pára-brisa da Igreja da Fazendinha Estou no fundo do fundo do poço que ainda tem um alçapão Mas é melhor viver calado e deixar um regado Deixei minha terra, minha saudade, meu pé de qualquer coisa, no meio de uma fumaça, solidão e fuligem. Moloch de Ginsberg Mas sempre quis deixar algo, que alguém falasse, que alguém achasse legal dizer, como um santo, um político ou ao menos um fanfarrão. Queria deixar a pureza que existe no teatro triste tigre de Vilsek

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Queria levar os acordes dissonantes que tiram o som e o sono de Jaremick Queria ser mais Campo Largo e menos São Paulo No congestionamento asfixiado de racionalidade cartesiana Não consigo desvelar o seu eu que existe Além do seu eu minha amada Estou no alto da montanha, acima de tudo, Grito e ouço meu eco Vou atrás do meu eu verdadeiro que é cantador, poeta e preliminarmente falso. Ouço o meu eco, melhor do que ser cantado é ser lembrado, algoz juvenil. Volto para estrada, de nunca deveria ter saído On the Road, sou Kerouac Sai da onda de falar sobre a exacerbação da racionalidade Vou falar somente sobre a Roberta dançando com as mãozinhas de Cleópatra Somente as canções que a Luiza gosta de cantar:

Maria, Maria Exatamente o que você espera: não vou ser como a maioria dos poetas:

Vou calar

Luiz Zanotti

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LONGE DA CRUZ

Salto de novo a realidade

E peço um pouco de carinho

Lembro dos momentos no caminho Do perdão que machuca e fere

A

luz se ascendeu

E

não me deixou mais ver as estrelas

O

amor nunca mais ira brotar

Outros são os planos Outros são os tempos Suas mãos, este imenso tormento

Os seus braços cruzados em cruz Final da paixão

Apaixonar, verbo difícil de predicar

A rudez, a insensatez

Choro por dentro este encontro Minha cruz

O abraço, a nudez

Falo insanamente Quero morrer longe desta cruz

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NEGRINHA

Vejo uma negrinha sentada na beira fio Ouve um regae, um funk, sei lá

Na janela à frente pendurado um guarda chuva

A chuva chegou em Urucuia

Não como queiramos Mais veio

O sapo que eu tirei com o ancinho pela manhã

Esbalda-se numa das poças

O feijão de corda esta seco

Mais um filho de Urucuia nasceu

Gabriel

Não consigo amarrar os cadarços do meu tênis Vejo uma borboleta sentado numa flor

Orquídea, violeta, flor campestre, sei lá No pasto à frente nenhum boi, nenhuma grama Eu derrapando pela areia de Uru cuia Não como desejava Mais aconteceu

O carro eu quase caiu na ribanceira pela manhã

Agora troca pneus

A carne seca não secou

Mais um filho de Urucuia nasceu

Odília

Luiz Zanotti

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PIRO

Transpiro

Vejo o suor saindo de suas palavras nuas

Toscas, enviesadas, sem sentidos Você emaranha meu cabelo Desafia meu tesão

Que está perdido entre as minhas pernas magras Nas piras, nas pirocas Nos porres de Houfhman, nas piras das tochas olímpicas Mas este suor Não é desidratação de água e sal

É puro esperma

Mas não de uma relação entre corpos solitários

É um suor sozinho e solitário

Então Trans-piro

E percorro todo caminho trilhado pela humanidade

Percorro por tudo que é abjeto e que é saído de nossos

corpos

Tudo o que nos enoja Urina, suor, merda, saliva, esperma, catarro, menstruação, gases, babo

Amanhã acordaremos com o fedor de nossas bocas mal

escovadas

Cheias de e/ou cheirando o gosto acre da buceta ou do

caralho

Você ira colocar a gravata

E você o salto alto pra mais um dia de trabalho

Tudo não passa de uma grande alegoria

O pau que tocou fundo

Que lhe fez chamar de meu amor Esta perdido na cueca samba canção Mas na verdade a única musica que tocou na madrugada

perdida

Foi a musica do corpo

URUCUIA: próxima parada
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O resto não valeu a pena Não vale a pena comentar Falar Falo/ânus /falaz

Luiz Zanotti

VERDE

Joãozinho empina sua pipa

Verde e branca pelo céu azul Vai Joãozinho solta a linha do carretel De repente a o fio elétrico

E

a pipa vira bandeirinha de Portinari

O

verde da pipa cresce num muro

Bem na frente da criança Que não o vê

O muro as separa

Dentro deste muro uma casinha de boneca

E mais verde crescendo pelas arvores

Uma renda portuguesa

E Bela Adormecida voltando para a casinha

Uma grande pedra de cristal e o príncipe Agora o vento empina a pipa de Joãozinho Solta do seu carretel, mas presa ao destino de pipa

O cárcere liberto do céu azul

Vai Joãozinho pelo muro

De repente o tombo para o outro lado

E

o vermelho do sangue vira quadro de Poloski

O

vermelho se espalha por entre o verde do muro

Bem na nossa frente Que não vemos (ou esquecemos) a criança

O muro que nos separa

Deste mundo descolorido

E da casinha de boneca

Com todas as suas matizes

Está pintado de vermelho e verde

Parado

Agora só me resta Soltar a linha do meu carretel

E esperar novos ventos

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QUIMERA

Faixas continuas dos lados Viajo Não como Kerouac Mas na estrada de Bateias Onde procuro quimeras Que merda Rifes de guitarra Mostram a vida Que muito segurei Dedilhados do teclado Trazem os sonhos Mas ai acordo No beco do Zampier Gente ouvindo merda alto Cachorros deseducados como os donos Dormindo o dia Uivando a noite Gente ruim, gente pior que gado Se você me discordar Não posso me desculpar Vou ouvir meu radinho Baixinho Em outro lugar

Luiz Zanotti

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FAZES

A since

Ridade

As vezes

Rói

As vezes

Dói

Fases

Fazes

Fezes

A terceira

Idade

A humanidade

Muitas

Mas as vezes

É dor

Cadáveres

Putrefatos

Cadê você? Milhares de cebolinhas Perdidos no balcão Uma aliança

E um discurso

Perdido

Que não sabe

O que quer

Ser

Assassino ou pastor Realidade ou escritor Pai severo

Ou mero gestor Querendo tudo

E não é nada

URUCUIA: próxima parada
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RAPIDAMENTE

Depois de tantas palavras ditas Dito Benedito acredito Em dEUS? Talvez. Encontro com bêbados igual a mim Nos butecos de Campo Largo

E , depois de tantas palavras tontas

Tonteria, tolice, cálice Sempre acaba em dEUS? Talvez não sejamos capazes de falar da mãe Da canção que adormece as crianças Da canção que nos tira da embriagues

E mesmo sabendo que a palavra dita

É a Benedita

A raiz de um povo que não saiu do rascunho de um

papel

Que enobrece capitães Que não são de areia

E preferem o chumbo

Dito Benedito acredito Em dEUS?

Talvez.

Luiz Zanotti

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A MORTE

Nada acontece em Urucuia Todos dias iguais

A eternidade

Nada muda Todos os dias morremos um pouco

Por que fez aquilo

A morte no Islamismo

Porque não atropelou ele Porque não vai pelo caminho direto

E ai continuamos

Perdemos amigos

Garotos

Que vão direto pra o céu

Herói, mártir

Não confiamos em você

Burguês

Achei que você não entenderia

Sexo

Me conta, preciso saber.

Vida

Me fale deles. Deus.

Aqueles santos que o guiam. Sete dias, hora do rush

As células

Abra o portão do paraíso Hades, Caronte

Quero desistir Me aguarde Instale o programa Vamos estourar a célula Vou embora

Não

URUCUIA: próxima parada
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Vou sair

É uma pena

Quero ser mulçumano Mal conheço a si mesmo Que alguém cuide de minha alma

Já que eu não pude cuidar

Sou um bom policial Esta não é a questão Qual será o numero de vitimas Santiago de Compostela era o purgatório agora escrever sobre a morte

Dante

Urucuia

Qual o numero do seu terno para o enterro

Ruídos

Som de zumbido Coberto de sangue Bem-vindo a Meca Mexendo nas coisa dele Ele esta mentindo Abre a porta do elevador Stairways to haven

Zora

Porque deixou ele entrar

Eu que insisti Sinto muito Você está me machucando

O que você quer contar neste momento final

Problemas

Lava o seu corpo Bata na porta Noque noque on the heabes door Sabe como eu percebi

Não se encontre sozinho com a esposa de outro

O alvo tem que mudar

Luiz Zanotti

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Ordens são ordens Somos bárbaros, inimigos

A sua bota espremendo meus dedos

Explosão

Mulheres e crianças Seu filho Ninguém pode deter o mal Comece a rezar Cala a boca, vai se danar Quem dá as ordens Estamos em guerra

Vitimas

A bíblia em suas mãos

Explicação

Guerra santa

Alá

Matar crianças

Responda

O meu olhar penetrando o seu olhar

Estou fora

Sangue jorrando

Inferno

Ler Dante Saio do carro e encontro você Qual vai ser o campeão Vou acreditar que você é melhor do que eu

Não tenha medo

Ela vem lentamente Por mais rápida que apareça

E fecha a porta para a realidade

The Doors

Chore

Beije

Se possível na boca. Não custa nada

URUCUIA: próxima parada
33

Lagrimas não enchem o Urucuia Beba um copo d’água Enquanto existe Bombas no porta-mala

No dia seguinte seu corpo estará coberto de sangue Ou sem

O que eu quero dizer?

Que compartilho a sua visão de mundo.

Que você não está sozinho. Abra a porta para o inferno

Grave a ultima entrevista com o diabo

Fale

O

que?

O

que quiser.

Amanhã te encontro. Mas está morte é só sua Única coisa que em vida é só sua

Te amo.

Luiz Zanotti

34

A SOLIDÃO

O roubo dos bonequinhos dos primos

Desorientação na bebedeira para Raposo

O que eu me lembro da vida?

Tocar bateria na lata de leite ninho As idas na igreja do Jonas

Paixão pela Lidia

Festivais: minha mãe puta da cara

Rasputin

Movimento Rumo. Eu Pedro e Helton As cagadas de Urucuia

URUCUIA: próxima parada
35

BRASOV

27 de outubro de 2013 Na meia noite de um dia inteiro Dei três voltas na catedral negra Não apareceu nenhum diabo

A minha alma está em baixa

Ninguém quer Ao meio dia de uma noite inteira

Entrei pelos labirintos do conde Drácula Meu sangue avido de ser sorvido Meu corpo querendo ser tocado

Nada

Imensas galerias, escadas esperando por escalas

Bruma sem existência Castelo sem príncipe Príncipe sem princesa Sem grandes emoções

Atentei

A

sua carne branca

A

quentura de suas coxas

O

vão entre suas coxas no meu pensamento

Sórdido, porem sólido como uma rocha

Tranças trançadas trancadas na escadaria do meu

pensamento

Arranque o que sobrou da minha existência

Aquilo que nem o demônio de Fausto quis

Luiz Zanotti

36

CLUJ NAPOCA

26 de outubro de 2013 5:45 à caminho de Vintu de Jos

O expresso da inteira noite

As janelas sujas e embaçadas não permitem ver lá fora

E nem mesmo dentro de mim

Velhos romenos de boinas dormem

Jogados sobre os bancos do trem

A inteira escuridão da noite romena

Desabou sobre a minha alma Palavras estranhas sussurradas Formando novas palavras

E se perdendo nesta mesma solidão

Mas estas palavras não são e nem soam menos estranhas Que aquelas que você inventou para me machucar Nem são mais nem menos solitárias

Somente estranhas, talvez até menos estranhas São quase humanas ou desumanas sei lá Simulacros daquilo que um dia chamamos de

humanidade

Os jovens romenos que cantavam Love my life do Quen no barzinho da peatonal Potaissa Ainda tem algo a dizer ou a cantar possível de se

entender

Eu e os velhos do trem não temos mais nada para dizer ou para cantar que possa significar algo

Somente esta maldita negritude suja e embaçada Somente este choro antigo da velha camponesa Com o mau odor do corpo ou das palavras não faladas

A incrível capacidade de sofrimento

Nada a fazer ou a falar senão sentir o medo da aproximação da morte Somentemente nada a fazer Somentemente nada a falar Somentemente o triste balançar do trem da eterna noite

URUCUIA: próxima parada
37

Sussurrando em nossos ouvidos cansados de tanta dor, de tanta vida Tata tata Tata tata Tata tata (balançar a poesia)

Luiz Zanotti

38

O ROUBO DO PALHACINHO

Mãos fortes encontram a barra da asa delta

A janela aberta expõe a intimidade do poeta

Mãos sujas agarram aquilo que está mais próximo

O infinito estará muito mais além e julgara

Olhos remelentos de drogado Mulher remelenta de drogado Mãe que encobre o crime do palhacinho Mãos que estão cobertas de ódio

Abro a porta cinzenta de um novo amanhã Tento ser um novo São Francisco Mas sou só Luiz, São Luiz Amanhã estarei de novo na Fazendinha

Orando e transando com a senhora do Miqueleto Bebendo o meu Dimel com os amigos

E

entediado com esta vida Severina

E

com o roubo feito pelo meu vizinho drogado

Mães sujas encobrem a fraqueza dos filhos Meu palhacinho da asa delta voando na sujeira deste lar

O coração do poeta não aguenta, quer voar

Mães sugam todo aquele sangue que restou do meu

coração

O finito esta muito próximo e mata

Respiração ofegante de drogada Olhar repelente de serpente Meu palhacinho abandonado Nas mãos que estão cobertas de ódio

URUCUIA: próxima parada
39

Tranco a porta violentamente para um novo amanhã Tento ser de novo um poeta Mas sou só Luiz, Jeca Kerouac Nunca mais estarei na Fazendinha

Mijando e cagando na igreja do Miqueleto

Mentindo estórias de sexo e cruz com os amigos

E

endiabrado dentro desta vida dionisíaca

E

querendo acabar com o meu vizinho drogado

Luiz Zanotti

40

NÃO QUERO

Não quero te falar Você é um pequeno amor Como é pequeno meu pinto Quero denunciar o que fazem comigo

Sou obtuso, retardado, fora do tempo

E daí?

Se eu concordar com a rejeição do meu artigo Me torna melhor?

Sim, ele entendeu.

E Allen Ginsberg entenderia?

Merda!!!

Não quero te falar

Você é o meu grande amor

Homossexual

Não como eu

Mas você faz do seu pinto o que quiser Quero mesmo denunciar o que fazem comigo Que te defendo e sou retratado como Obtuso, retardado, fora do tempo

E daí?

Me ajuda Ginsberg

URUCUIA: próxima parada
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URUCUIA II

Sobre o acidente que matou várias pessoas Cidade laranja

Com todos os seus tijolinhos intestinos a mostra

Cidade

Não esconde a dor que tem em suas virilhas

Tijolo por tijolo num desenho lógico Telhas protegendo as nossas cabeças

Rio laranja Com todos os seus redemoinhos convidando Para a morte Que não esconde a dor da vida Que vivemos Cada barco tem uma direção Algumas naufragam Salvador, Xingu

Urucuia

Falta reboco em seus lares Muros altos, pouca tinta

O rio do meu amor de Guimarães

Mostra como é difícil viver

O principio da aguacidade

Secamos a cada momento Não podemos mais esconder as lagrimas Que secam

Tudo seca

Gotejar por gotejar numa tragédia provável Telhas protegendo as nossas cabeças Do que?

E a chuva não vem.

Ao invés de redemoinhos do rio Temos redemoinhos de morte

Procuramos nos esconder Que vivemos

Luiz Zanotti

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Cada barco tem uma direção Seja para Salvador ou Xingu Todos navegam para o Ades

URUCUIA: próxima parada
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PEDRO

Se você não está lembrando Abre as portas da percepção Foi nas ruas da Zuquim Nos tempos de felicidade

E de que o amor corria lento

Você tinha tomado um pé no cú da Aurea

E eu da Silvia Bigode

Mas Santana era só felicidade Hinos de louvor no Natal nas guaritas da Voluntários

Corra, pois existem sempre gente Querendo você e te desquerendo

Olhando por cima de seu ombro para te criticar Se você esqueceu

E agora talvez tenha esquecido

Sou ainda seu melhor amigo Que perdeu milhões de chances de te fazer feliz No nosso quarto irmão da rua da Zuquim

Nos tempos de inocência De que você me levava pela mão ao Salete

Que eu ainda não tinha tantos caranguejos no peito

E eu da Silvia melhor amiga

Mas Jardim São Paulo era só felicidade Bolo de aniversário feito numa espiriteira Jacaré

Morra, pois existem sempre gente Querendo você e te desquerendo Olhando por cima e esquecendo Que também vão morrer

Luiz Zanotti

44

TODA DESCIDA

Toda descida

Toda retorcida

Tijolos de barro

O solo de jazz sobre os telhados

Que não são os daqui Mas que possuem a mesma chama de vida Você me entende Que o nunca sempre existe para aqueles que acreditam Toda reviravolta

Swinging in the rain

O som é afrodisíaco

Bandinha alemã tocando musicas folclóricas

E eu preciso ir

Para um lugar estranho, sem amigos

E quando nesta noite estranha e sem luz eu estiver

Vou querer respirar as nuvens

Vou querer muito mais que ser o tempo

E na escuridão eu furarei meu buraco

Vamos dançar na calçada Quem você acha que é

Vamos dançar Mesmo que falte o ar

Eu perdi toda a possibilidade de razão Ao menos que você volte para o meu lado Desce dos céus ao inferno Ferro virado em aço Torcida nas arquibancadas

O sono tranquilo dos corruptos

Ponte para o céu de Maomé Não chame isto de existência Você nunca me entende Que o sempre acontece numa reviravolta Como numa roda gigante ao contrário

URUCUIA: próxima parada
45

Fucking in the rain

A chuva é afrodisíaca

Um tsunami arrebentando as frágeis tendinhas humanas

E eu preciso rir

De algo estranho, coisas que acontecerem com amigos

E,

não existe a conjunção “e”

O

resto é uma possibilidade de ouvir um gemido

Sentido em meio a um sexo Um momento Em que alguém diz sentir alguma Estou num momento que não acontecera jamais Vou querer sentir o seu corpo

Vou ver muito mais que as luzes choradas de uma velha

roqueira

E na batida taquicardíaca da bateria

Vamos dançar na beirada do abismo

Você pode me ver? Vamos dançar

Mesmo que falte o chão

E nos perdemos na imensidão do vazio

Tendo você o meu lado

Luiz Zanotti

46

SAUVA

sau

va

vaidade

o

olhar se adentrou no portal

e

tornou

babou

por aquela grande figura

a vaidade

vai

a verdade

abre o coração e vê que aquela coisa que era ruim se tornou

sauva

saliva

saudade

URUCUIA: próxima parada
47

ÁGUA

As lagrimas que correm dos meus olhos Não serão jamais suficientes Para nos fazer navegar o Judá Kerouac pelos caminhos de asfalto Eu pelos caminhos secos do rio Sou pó e poeira

Água

Bendita palavra

Benta

Bendita, planeta, última vontade do meu ser/sede

O ser é sede e a sede de tudo

Alegria, dinheiro, sexo Mas, sobretudo, sede

Água

Minhas lagrimas secam como o Urucuia

E

seus afluentes, meu Judá

E

eu sou cada vez menos barqueiro

E

cada vez tenho menos vida

Águas

Só as do Hades

Caronte

Bendita vida, vamos virar esta página

E encharcar os nossos córregos e rios

Para não defrontarmos Caronte Água para nossos filhos

Luiz Zanotti

48

IUIUIUIUIU

A boca como um assobio

Iuiuiuiuiu

Pensando nas coisas deixadas

Desde que aportou aquele velho navio Neste novo mundo arcabouço

Porra

Nada muda

Nada inunda

O nada imundo do navegar

Tifo

Tiro

Pólvora

Noticias de genocídio

Destino

Porra

Lululu

Daí

Nasceu a minha bonequinha

Na boca como de quem assumiu Uma música que eu fiz

lululu

Largo os maiores portos

Seguros

Para deixar coisas importantes para traz

Desde que aportou aquele velho navio

Porra

Nada muda

Nada inunda

O nada imundo do navegar

Tifo

Tiro

Pólvora

Paz

URUCUIA: próxima parada
49

Gente que vem da Polônia Gente que vem pelo mar Felicidade rasgante Que atinge como um raio As novas descobertas Tuiui tuiui A vida como um assoalho Tuiui tuiui Solto todas as amarras Deste velho navio Longe de saber do calabouço Urra Não há mais mudas Só o meu emuder continuo Nada a falar Tipo Retiro Pó Noticias de genocídio Destinados ao jornal da noite Orra Tuiui tuiui Dali Nasceu a minha formiguinha No relógio de quem assumiu Notas músicais tralala seguro-me as corrimões Não tão Seguros Para não me deixar cair Escorregar Daquele velho navio que aportou no cai Porra Nada muda Nada inunda

Luiz Zanotti

50

O nada imundo do navegar Tifo Tiro Pólvora Paz Gente que vem da Polônia Gente que vem pelo mar Felicidade rasgante Que atinge como um raio As novas descobertas

URUCUIA: próxima parada
51

O BARZINHO

O barzinho perto da rodonãoviaria

Não tem nada Apenas apresenta a loucura de um neném no braço

Vivo apenas Vivo tudo isto e não consigo

Traduzir em palavras Este pequeno sertão Não tenho os neologismos de Guimarães Não sou nem Rosa e nem Kerouac Não sou

Nada

Vejo um vulto passar por traz de mim Um cachorro pulguento

A dona do restaurante, mãe do neném

Está aflita Quer fazer o almoço pra num sei de quem Eu no meu kit

Caralho

Podia ser homossexual, como Ginsberg e uivar a queda de Urucuia

Podia ser Toninho Silva e uivar a extinção da corrupção Mas entre a lógica e a realidade existem homens

Sapiens?

Sabia sabia assubia Esgotamos todos os recursos do mundo

Cansamos este mundo fatigado

E eu também cansei

Quero voltar a estrada com Sá. Guarabira, Kerouac e

Ginsberg

Batidas de panela as sete da noite Não são exatamente o som do jazz

E nem do rock rural

Não são nenhum som

Luiz Zanotti

52

Entrecortes servidos nos restaurantes da Paulista Baby beef não aplacam a nossa fome Não nos fazem mais brilhantes Cansei do púlpito da igreja evangélica Urucuia, a cidade e o rio se despedaçando Milhares de pivôs Robores, transformers nos amedrontando Milhares de rigotes Que veem somente Aquilo que só vamos ver a cem anos

A destruição

Bem, voltamos à estrada poeirenta até São Francisco Nenhuma estrada nos leva ao coração de Urucuia Nenhuma artéria Somos safenados Urucuia só existe no coração de cada bêbado Em cada triste habitante Em cada zumbi tomando café da manhã na frente da casa poeirenta

O mundo parou aqui e esqueceu de prosseguir

Esqueceu de mandar água Universo sem água

A frescura de um corpo jovem e nu

No abandono de uma vida vida que foi abandonada ao

Morro várias vezes

Não consigo soletrar Grande Sertão

Uai

Queria ser Ginsberg, ou pelo menos Graciliano

Mas eu sou muito mais Sou matuto

Passo ao lado deste toda esta revolução de iphones e

wifis

E ouço o ranger das rodas dos carros de bois

Uuuolllh

URUCUIA: próxima parada
53

Ooollhhha

Aaaaiiiiii

Deus quer me parar

Tem medo que eu revele o segredo da vida

Buceta

Podia ter sido traficante

Ser preso e sentenciado na Tailandia

Pena capital

Podia ser pastor de uma igreja evangélica

Ou de uma seita

E anunciar como Jim Jones a ressurreição dos fiéis

Mas prefiro a magia da folia de reis Pois entre a fantasia e a ficção Estamos nós, homem, animal.

Sapo com a boca costurada. Fabio do que? Vamos vivendo. Nos odiando e sorrindo Dois vivas para a rede Globo To o pique agora Quero ser Luciano Hulk e Faustão Batidas de punheta pelas dançarinas Não compõe um samba

Mc Donalds na veia

Geração e vida merda Imaginei Urucuia como a minha noiva Cheiros, pura e linda

Como me apresentou padrinho Guimarâes Mas no meio da festa de casamento Olhei os convidados

Na eram de Guimarães

E eu tentando realizar este casamento

Sonhando com as veredas que ainda existem

E sonhando com aquilo que temos de melhor

Ser brasileiros do norte de Minas Geraes

Luiz Zanotti

54

CALDAS

A vida no bar

Bebidas, sorrisos e desdentados Quer ver o que vai acontecer?

Entre conhaques e cervejinhas

Não consigo distinguir a face do anjo loiro

E nem tampouco beber as nuvens

Porque quero ver a cara de Deus

O cara

Morre como morre no porre de cada momento

A

cada momento que fico mais tonto e torto

E

me enrosco como uma rosca

Olá, quero falar com Alan Poe

Poire

Não

Esta palavra estava cravada em desejo

De não ser língua portuguesa Toque um som de Vitor Jara

E deixe as mãos livres pra voar

URUCUIA: próxima parada
55

SOMBRINHA

Vejo a senhorinha descendo estrada de terra Abaixo Passos tímidos Todos os meus relógios que estavam parados voltam a funcionar Vejo a arquitetura urbana das cercada por grades De onde vem tanto medo O Rio Cascavel mostra o movimento de nossos intestinos Percorrendo a areia arenaginosa do sertão Surto Ao lado de uma escola primária Vivo o reino maravilhoso de Baco Preciso saber de onde veio esta senhorinha e toda a sua humanidade Descartes bebia vinho Kant era viado Hegel nulidade Viva a vida urucuiana Da qual Guimarães é uma ínfima parte

Luiz Zanotti

56

ADEUS URUCUIA

Em cada esquina um boteco Em cada boteco a figura de um sertanejo

Passo

Em cada passo um cercado de arame de galinheiro

E um cão raivoso latindo

Se não tivesse a cerca, seria o cão mais dócil do mundo Dois troncos de madeira feito banco

Para a conversa do alvorecer e o entardecer Aqui a vida passa mansa

O vento é que incomoda

Cria moda Traz um mundarão de areia Em cada vida uma história

Legitimando este povo sertanejo

Paro

Em cada sussurro do meu pensamento Ouço um cão raivoso latindo Que se não tivesse a cerca, seria o cão mais dócil do

mundo

Duas possibilidades de vida

Para o que virá e para o que já se foi

A

decisão atrapalhada

O

vento é que incomoda

Cria moda Traz um mundarão de ideias

Em cada esquina uma esquina

O rastro morno de um sertanejo

Gaguejo

Acabo carcarejando como uma galinha Amedrontada por um cão raivoso Não percebo a cerca que me defende Duas taquaras e um rolo de arame Que brilha no alvorecer e o entardecer

URUCUIA: próxima parada
57

Aqui a vida passa mansa

O vento é que incomoda

Cria moda

Traz um mundarão de penas e ciscadas Em cada ombro, um chora Lacrimejando uma vida perdida

Titubeio

Em cada aspirada deste clima seco

E um ladrão de minha memória correndo

Que se não tivesse a cerca, seria contido Abraço-as, as diversas possibilidades da minha

existencia

Para o rir e para o chorari

Decisão atrapalhada

O vento é que incomoda

Cria moda Traz um mundarão de caminhos

Luiz Zanotti

58

CORRO

Corro sempre das discussões Estou minguando

Absolutamente

Morro

A cada uma das inter-relações

Quero vida

Viva

Coro

Dos gregos na minha morte

Soa

Os sinos da catedral que não existe

Coro

O meu rosto vermelho

Sou um ponto fora da curva

Absurdamente

Renasço

A cada uma das interrelações

Quero vida

Viva

Coro

Dos gregos na minha morte

Soa

Os sinos da catedral que não existe

URUCUIA: próxima parada
59

DELIBERADAMENTE

A vida continua deliberadamente correndo

Entre folias

As de rei

E

outras mais

O

espaço preto formado por triângulos

Dizem da eferemeridade da vida Eu vou virar um caramujo Encontrar uma concha e se esconder Mas no meio do sertão

As possibilidades são poucas

Rabisco

Tento lembrar todos os produtos do barzinho de Severo Doces de abobara cristalizado Canudos de um sorvete quente

O ser-para-a-morte continua vivo

Entre despistes

Blefes

Com a vida e outras coisas mais

O triangulo mineiro vive no espaço preto

Ouvem o sertanojo universitário

Eu sou apenas um a mais que Tenta se livrar da concha e encontrar a liberdade Escolhi o sertão Pois no meio deste mundo caramelizado as possibilidades são poucas

Desenho

Figuras dantescas que só lembram rabiscos

Traços desconsertados que se cristalizam Numa guerra de Canudos Num filme de Glauber Rocha

O sexo é uma questão sempre fundamental

Entre almas Às de paus

Luiz Zanotti

60

Nunca mais

O tempo está impregnado por triângulos

Dizem dos ascendentes da astrologia

Sou do signo de câncer Um caranguejo envolto em sua concha Que procura se esconder Mas no meio do mar Que um dia virará sertão As possibilidades são poucas

Vomito

Ponho para fora todas as lembranças

Doces de abobara cristalizado Canudos de um sorvete quente

O ser-para-a-morte finalmente segue o seu caminho

No rio Ades

O barqueiro distribuindo alpistes

Passarinhos

Com a morte e outras coisas mais

O triangulo de Maslow vive no quadro negro

Expõe-se para um publico sertanojo universitário Eu sou apenas um a menos Pois desisti de me livrar da concha e encontrar a

liberdade

Escolhi o sertão

Pois no meio deste mundo caramelizado as possibilidades são poucas

Sonho

Figuras dantescas que só lembram rabiscos Guernica de Picasso Traços desconsertados que se cristalizam Numa guerra de Canudos Num filme de Glauber Rocha Na vida que eu escolhi

URUCUIA: próxima parada
61

PRÓXIMA CARONA

As palavras me dão enjôo Vem amorfas, célticas (céticas) Tudo aquilo que penso Deteriora vira iutube As idéias cessaram

O que vive são os anfíbios

Repteis youtubers

A estrada que eu viajava

A velha highway

Hoje é bitstream

Coragem

Couraça

Tream

Trema

Que a muito tempo deixou de ser usado

É

só se adaptar

E

como os repteis que sairam do mar

E

caminhar

Por estas novas

Highways

Desculpe Kerouac Desculpe Ginsberg Mas não vou perder a próxima carona Que vem vindo

Não melhor nem pior do que a sua Mas que vem com diferenças Mais integração Mais corpo Acredite que as palavras que me dão enjoo Um dia vão se transformar em imagens Pois alguém, que não sou eu As colhera nos limbos

E as transformarão

Luiz Zanotti

62

De um estado de dicionário Naquilo tudo aquilo que penso Tudo virará iutube As ideias florescerem Como a língua que é anfíbia

Ela é a terra que púnhamos os pé

E o oceano em que nos afogamos

É a estrada que eu viajo

A velha highway

Hoje é bitstream

Coragem

Couraça

Tream

Trema

Que a muito tempo deixou de ser usado

É

só se adaptar

E

como os repteis que sairam do mar

E

caminhar

Por estas novas

Highways

Desculpe kerouac Desculpe ginsberg Mas não vou perder a próxima carona Que vem vindo Não melhor nem pior do que a sua Mas que vem com diferenças Mais integração Mais corpo Acredite, assim como lennon Um dia nosso sonho será realizado Podem dizer que eu sou um sonhador Mas eu não sou o único

URUCUIA: próxima parada
63

SEVERO

Severo, Savaedra

A última imagem da feirinha do produtor em Urucuia

Som alto Indelicadeza/ Insensatez Forço a barra para dizer algo

Algo que foi forjado às sete e meia da manhã Um kit Um Presidente e uma cerveja As roupas num continuum no varal Os livros abarrotando pra ninguém ler

A continuidade nas lembranças da feirinha do produtor

em Urucu ia Alface, couve, pastel, queijo

Delicadeza/ Amizade

Estou fora da minha camisa de força Algo que acontece às sete e meia da manhã Quando você se levanta da cama Um Gato e um Joaquim As barracas num continuum no areal

A minha cabeça cada vez mais perdida

Sem destino certo

O ultimo santinho entregue na sua missa de falecimento

Um canto de incelença Você incelença, entrou no paraíso

Adeus, adeus, até o dia do juízo Você entrou no paraíso Encontrou Dante Caronte, Deus

E daí?

Forço a barra para dizer algo Algo que foi forjado às sete e meia da manhã Um kit Um Presidente e uma cerveja

Luiz Zanotti

64

SPLATCH

Ninguém pode julgar ninguém Pelo calidoscópio de um copo de uísque Por uma saideira Fugi estrada abaixo Encontrei os três cães de Carontes Negros como as cavernas Ninguém pode julgar ninguém Atravessei navegando este copo de uísque Velejei pelos rios do Hades Aportei num porto inseguro Splatch, splatch, splatch Adormeci no meu leito Acordei, ainda sem poder julgar ninguém A garganta clamava leite Por um descanso Naveguei a bombordo Encontrei os três montanhas Cheias de vegetação e de cavernas Ninguém pode julgar ninguém Atravessei abaixado por entre morcegos e aranhas Velejei pelos fiosques Gelados de um porto inseguro Splatch, splatch, splatch Subi a escada para o meu aposento

URUCUIA: próxima parada
65

VINTU DE JOS

8 da manhã

A névoa nevoa meu olhar

Continuo na interminável vida de palavras ou sem

Desço até a profundidade do ser Para descobrir Não há ninguém Castelo de fantasmas Não sei seu nome Não sabe o meu Talvez Joana

O sol nunca brilha aqui

A névoa encobre o nosso olhar

Amor encoberto pelo latido dos cães

Queria você aqui Por um minuto ou algumas horas Sei lá Pra que? Conversar talvez Ou trepar violentamente Neste castelo de brumas Onde eu não vivo Você não vive Ninguém vive Só fantasmas

A névoa obliterando a nossa vontade

Fumaça

Só fumaça

Só fumaça

Sem trem

Luiz Zanotti

66

DANCE

Dance todas as letras para formar o meu pensamento Transe Amontoem-se como uma dupla penetração Doam ou doem Que a dor é a principal palavra do nosso dicionário Assim como pasmem ou passem (away) Infindas e infinitas Veja todas as possibilidades Dance no trapézio com todas as letras Que desamparam o meu pensamento Violente Acomode-se no sofá para ver Brasil Urgente E veja como incomodam Estas palavras Que são a dor Todas enfileiradas em nosso dicionário

URUCUIA: próxima parada
67

GAFANHOTOS

Milhões de gafanhotos Atacando as mangas e os coqueiros Nenhum ar Eu deitado Meu fígado esperando a morte de um corpo que já se foi Respiro, espiro, espirro a secura deste ar Qual movimento nos resta fazer? Sonho, sonhos semelhantes Milhões de gafanhotos Atacando a minha alma Breath Eu conformando a realidade apolínea Meu ser esperando por Dionísio Recuo, avanço O coração bate o tambor Qual movimento nos resta fazer? Caminho por lugares, lugares semelhantes Milhões de gafanhotos Se vingam no meu caminhar Vie Não tenho mais sonhos e nem tempo Tudo foi desvelado pelo meu ser Arrisco uma ultima palavra ou pensamento As palavras não querem partir Qual movimento nos resta fazer?

Luiz Zanotti

68

ESTRADA

A mesma estrada que nos leva, nos traz

A única sem volta é a do Ades

Sem lembranças, sem memória Barco em deriva, rumo certo

A mesma mão que afaga, agride

A única sem rumo é a mão do cego

Sem direção apenas pede Mente em suspenso, bruma escondida Sinto de leve de novo meu coração Sinto de neve de ouro meu coração

Peço para que alguém leve meu coração Sinto, sinto muito esta perda

A mesma volta pela estrada que já foi ida

A única ida para o além do além

Todas as recordações, mesmo aquelas do útero materno Criança em deriva, nascimento breve

A mesma mãe que cria, mata

A mãe é uma nau sem rumo

Mas mantém a somente a sua direção Para um futuro, felicidade escondida Sinto feliz de novo meu coração Sinto de leve o seu carinho Sinto que você foi muito mais para mim Sinto, que foi mais que uma simples perda

URUCUIA: próxima parada
69

PERDA

Peço perdão

Por não mais poder formular

Palavras

Todos as têm

Milhares

Em suas imaginações

Perco

A possibilidade de as livrarem dos limbos

De inventar novos ritmos

E significados

Peço licença

Para invadir a sua oração subordinada adjetiva

E dizer que nada foi acrescentado a pelo menos uma

única palavra

Porque todas são misteriosas

Bruxas

Mulheres

Em suas indagações

Passo

A última possibilidade de sobrevida

Viva

O

nada

E

que me tragam o seu significado

Luiz Zanotti

70

VIAJAR

Encontrar novas palavras

Ui!!

Esqueci tudo que eu ia escrever

Acho que falava de Hemingway

Alcoolizei

Vi um novo mundo de inspiração

Vie

Mas o gelado da vida me retroage

Viajei

Várias vezes pelo seu corpo

E descobri cartografia

Norte, seus cabelos encaracolados Sul, pés de fetiche

Leste

Seus dedos longilíneos sedentos de prazer

Oeste

O velho e belo mamilo pedindo

Um dia viajarei Para um lugar muito estranho Noruega por exemplo

Onde encontrarei novas palavras Para Amor

De novo o alzeimher

Esqueci tudo que eu ia escrever

Acho que falava de Kerouac

Alcoolizei

Vi um novo mundo de transpiração

Ame

Mas o gelado da Noruega age

E me esquenta

Lembra das poucas vezes que caminhei pelo seu corpo

E finquei minhas bandeirolas

Norte, seus sonhos enfeitiçados

71 URUCUIA: próxima parada

Sul, andando pelos caminhos beats Leste Suas unhas cravadas no meu corpo Oeste O coração é aquilo que a face mostra

Luiz Zanotti

72

Índice   Yamile 7 Prefácio 8   Silver 11 Geração Psiu 13 Sussuivo 15

Índice

 

Yamile

7

Prefácio

8

 

Silver

11

Geração Psiu

13

Sussuivo

15

Inaugurando 2019

17

Próxima parada

18

 

Fungo

19

Desisti

20

Calo?

21

Longe da cruz

23

Negrinha

24

Piro

25

 

Verde

27

Quimera

28

 

Fazes

29

Rapidamente

30

A morte

31

A solidão

35

 

Brasou

36

Cluj napoca

37

O

roudo do palhacinho

39

Não quero

41

Urucuia II

42

 

Pedro

44

Sauva 47 Água 48 Iuiuiuiuiu 49 O barzinho 52 Caldas 55 Sobrinha 56 Adeus

Sauva

47

Água

48

Iuiuiuiuiu

49

O barzinho

52

Caldas

55

Sobrinha

56

Adeus Urucuia

57

Corro

59

Deliberadamente

60

Próxima carona

62

Severo

64

Splatch

65

vinto de Jos

66

Dance

67

Gafanhotos

68

Estrada

69

Perda

70

Viajar

71