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Jornalismo Cultural:

Pelo encontro da clareza do jornalismo com


a densidade e complexidade da cultura

Isabelle Anchieta de Melo∗

Índice 1 Sobre o Nascimento do


1 Sobre o Nascimento do Jornalismo
Jornalismo Cultural
Cultural 1
2 Os Desafios Contemporâneos da For- “Que todos entendam e que os eruditos re-
mação em Jornalismo Cultural 2 speitam”. A frase dita no século XVII, mais
3 A Identidade do Jornalismo Cultural 4 precisamente em 1696, pelo primeiro teórico
4 Jornalismo Cultural como Campo In- do jornalismo, o alemão Tobias Peucer, já
terdisciplinar 6 sentencia a vocação do jornalismo como
5 Dos Princípios Gerais para a For- obra cultural. Qual seja: a de dizer coisas
mação em Jornalismo Cultural 7 complexas, por meio de formas muito sim-
6 Das Premissas Teóricas e Éticas da ples.
Formação de Jornalistas da Área Cul- O jornalismo cultural, por sua vez, como
tural 8 uma especialidade dentro do Jornalismo,
7 Bibliografia 12 emerge historicamente no final do século
XVII, segundo pesquisas do historiador Pe-
ter Burke (2004). Tal fato situa-se em um

Isabelle Anchieta de Melo é doutoranda em Soci-
período em que o próprio jornalismo ganha
ologia pela USP, mestre em Comunicação Social pela contornos mais definidos em toda a Eu-
UFMG e jornalista pela PUC Minas. Leciona desde ropa, deixando de ser uma aparição periódica
2002 e tem dois livros publicados: “Mapeamento do para tornar-se uma narrativa institucional-
ensino do Jornalismo Cultural no Brasil” (prêmio Itaú izada socialmente, ganhando ampla difusão,
Cultural) e “Sete Propostas para o Jornalismo Cul-
tural”, Miró. periodicidade e mercado.
Os primeiros impressos que indicam a
cobertura das obras culturais datam de 1665
e 1684 e são representados pelos jornais:
“The Transactions of the Royal Society of
London” e “News of Republic of Letters”.
2 Isabelle Anchieta de Melo

Ambos faziam cobertura das obras literárias ela a estreita ligação entre jornalismo e lit-
e artísticas, além de relatarem as novidades eratura).
sociais. “A resenha de livros foi uma in-
O gosto nacional pelas crônicas,
venção do fim do século XVII” (BURKE,
até certo ponto, sempre foi uma
p.78, 2004).
forma de atrair a literatura para
Mas, certamente o representante mais
o jornalismo, praticada por jor-
conhecido e marcante do Jornalismo Cul-
nalistas, escritores e sobretudo
tural viria depois, em 1711, também na
por híbridos de jornalista e es-
Inglaterra, com a criação do periódico “The
critor. De Machado de Assis
Spectator”. Criado por dois ensaístas,
a Carlos Heitor Cony, passando
Richard Steele (1672-1729) e Joseph Addi-
por João do Rio, Carlos Drum-
son (1672-1719), o periódico, segundo seus
mond de Andrade, Rubem Braga,
idealizadores, tinha o objetivo de: “trazer a
Paulo Mendes Campos, Otto Lara
filosofia para fora das instituições acadêmi-
Resende, Ivan Lessa entre outros
cas para ser tratada em clubes e assembléias,
(PIZA, p.33, 2004).
em mesas de chá e café”. Assim, “o jor-
nal cobria desde questões morais e estéticas E será a partir dos anos 50 que os jor-
até a última moda das luvas” (BURKE, p.78, nais impressos brasileiros criariam o caderno
2004). de cultura como seção obrigatória em suas
No Brasil, o jornalismo cultural só se con- edições diárias e, especialmente, no fim de
solidaria dois séculos depois, mas nasce bem semana. Quem inaugura tal seção de forma
representado por Machado de Assis (1839- pioneira é o Jornal do Brasil em 1956, com o
1908) e José Veríssimo (1857-1916). A “Caderno B”. Editado por Reynaldo Jardim
partir desse momento o jornalismo cultural e diagramado por Amílcar de Castro, o
ganha contornos mais definidos sendo ainda caderno “se tornou o precursor do moderno
conduzido por grandes nomes da literatura, jornalismo cultural brasileiro” (PIZA, p.37,
política e filosofia, como Oswald de An- 2004). Reunindo os mais significativos rep-
drade e Mário de Andrade. Ganha expressão resentantes da cultura nacional em suas pági-
máxima em 1928, com a criação da Revista nas como Ferreira Gullar, Clarice Lispec-
“O Cruzeiro”, que teve como colaboradores, tor, Bárbara Heliodora e Décio Pignatari en-
entre outros, José Lins do Rego, Vinícius tre outros, o caderno torna-se uma referên-
de Morais, Manuel Bandeira, Raquel de cia para a crítica cultural de sua época e até
Queiroz e Mario de Andrade, e era ilustrada hoje é lembrado como ponto alto da prática
por Di Cavalcanti e Anita Malfati. do bom Jornalismo Cultural.
Aqui há um rico casamento entre o poder O caderno do JB funda uma tendência
mediador do jornalismo (como forma de nar- dentro do cenário das publicações abrindo
rar para todos os públicos as obras culturais) frentes para outras experiências como a do
e a complexidade (como densidade literária “Suplemento Literário” de O Estado de São
e estética) de vários nomes importantes da Paulo, dirigido por Décio de Almeida Prado.
história brasileira. O que se materializa, es- E, para o aparecimento de nomes impor-
pecialmente, nas crônicas (forma que rev- tantes para a crítica cultural como Paulo

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Francis, que inicia sua carreira como crítico as formas artísticas tradicionais eram (e são)
de teatro no Diário Carioca em 1957 e passa, merecedores de um status e um tratamento
posteriormente, pela Última Hora e Pasquim crítico diferenciado. A designação de “arte”
pela Rede Globo e GNT. seria conferida a poucos e eram esses os
denominados artistas que mereceriam trata-
mento mais crítico, interpretativo e analítico
do jornalismo. Ao contrário disso, os pro-
2 Os Desafios Contemporâneos
dutos da Indústria Cultural (novelas; “reality
da Formação em Jornalismo shows”, programas de auditório e músicas
Cultural populares) são sempre alvo de críticas sev-
eras, ganhando apenas destaque nas colunas
de fofoca e da agenda de eventos.
Feito esse percurso, estamos hoje diante de
No entanto, é a própria proliferação das
novos desafios para a formação em Jornal-
formas comunicativas e seu alcance mas-
ismo Cultural. Isso, porque o sentido de
sivo (fato já vislumbrado por Walter Ben-
Cultura foi profundamente alterado nas so-
jamin no artigo “A obra de Arte na Era
ciedades contemporâneas. Essa mudança
de sua Reprodutibilidade Técnica”) que irá
paradigmática implica em reconfigurar o que
produzir uma mudança profunda em uma
entendemos por jornalismo cultural, cuja
série de significações culturais. Ou seja, a
identidade tem de encontrar novos elemen-
chegada dos meios de comunicação de forma
tos para definir a sua prática social. Torna-
generalizada potencializou a dissolução dos
se, dessa forma, fundamental que a formação
monopólios de interpretação da vida social
em jornalismo seja atualizada, sendo capaz
ou, nos termos de Lyotard, acelerou a crise
de abarcar essas mudanças. Entre esses de-
das grandes narrativas representadas princi-
safios para a formação dos futuros jornalistas
palmente pela Ciência e História. Os meios
culturais, temos: a abordagem de temáticas
de comunicação potencializaram o conhec-
clássicas (política, economia e etc), por meio
imento do que era distante, iluminando e
de um olhar cultural/reflexivo; a inclusão
revelando diferenças que já existiam, mas
de novas temáticas, que ganham status cul-
que eram dominadas por paradigmas total-
tural: objetos/design; moda/comportamento
izantes.
e culinária, além do desafio de tratar sem pre-
E, as diferenças, ao contrário de serem el-
conceito e com profundidade os objetos da
ementos dissonantes, são o que fundamenta
Indústria Cultural.
o movimento comunicacional. Ao invés de
Assim, antes se entendia (e, por vezes,
pretender o consenso (nos termos de Haber-
ainda se entende) que há uma Cultura “alta”
mas), a comunicação é um movimento de
e uma Cultura “baixa”, esta de menor quali-
troca sem uma finalidade última ou, que
dade, compreendendo todas as criações pop-
possua a previsibilidade de um fechamento
ulares, massivas e mercantis como obje-
e concordância. Fica a provocação: “é a
tos que não mereceriam reconhecimento e
ausência de unanimidade uma condição in-
análise de sua importância nas práticas soci-
dispensável de conhecimento verdadeiro?”
ais. Ao contrário disso, os artistas eruditos e
(MILL, p.68, 2006).

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É nesse aspecto que a passagem entre as Mundial sobre Políticas Culturais,


diferenças é tão tênue, em que há mais flexi- 1982).
bilidade e diálogo entre o próximo e o dis-
tante e que a contaminação entre as áreas Assim, cabe ao jornalismo cultural es-
de conhecimento (inter e multidisciplinar- capar à limitação temática de lançamentos
iedade) passa a ser percebida como posi- de CDs, livros e exposições de artistas con-
tiva que podemos, então, compreender por sagrados para podermos, enfim, compreen-
que a distinção entre “alta” e “baixa” cultura dermos o sentido forte de cultura, explo-
perde força. Pois, como provoca o jornalista rando mais as implicações das obras na so-
Daniel Piza, “a música de um Pixinguinha ciedade do que, propriamente, reduzir o jor-
– negro, pobre, com pouca educação for- nalismo cultural a uma agenda de eventos.
mal – é elitista”, ou ainda: “é óbvio que um Falta mais análise e mais interpretação (no
filme de Spielberg é cultura” (PIZA, p.46, sentido de estabelecer relações múltiplas e
2004). O que se torna ainda mais compli- complexas). O que exige uma perspectiva
cado quando nos deparamos com diálogos aberta para as obras humanas sem classificá-
entre esses campos, antes separados. Assim, las em paradigmas redutores. O que im-
o que dizer quando Maria Bethânia canta plica abandonar o lugar comum das análises
músicas de Zezé de Camargo e Luciano, ou de viés teórico frankfurtiano, evitando uma
quando Adriana Calcanhoto interpreta letras distinção maniqueísta entre “alta” e “baixa”
de Claudinho e Bochecha? cultura; entre Indústria Cultural e cultura
São provocações que revelam o quanto às erudita; ou mercado e arte. Demanda-
definições de cultura “alta” e “baixa” são se, para isso, uma postura mais reflexiva,
insuficientes para explicar a realidade com- democrática e menos preconceituosa que são
plexa que vivenciamos. O que foi evidenci- importantes fundamentos para definir o que
ado na “Conferência Mundial sobre Políticas é o jornalismo cultural, como veremos a
Culturais”, realizado no México em 1982, seguir...
quando houve um entendimento comum de
que seria necessário redefinir o conceito de
cultura. E ela passa a ser entendida, então, 3 A Identidade do Jornalismo
como:
Cultural
Conjunto dos traços distintivos –
sejam materiais, espirituais, int- Diante das mudanças paradigmáticas o jor-
electuais ou afetivos – que carac- nalismo especializado entra em crise. Ou
terizam um determinado grupo so- seja, se não podemos mais definir o jornal-
cial. Além das artes, da literatura, ismo cultural como uma cobertura temática
contempla, também, os modos de (música, artes plásticas etc), o que, afi-
vida, os direitos fundamentais do nal, configuraria o jornalismo cultural? Ou,
homem, os sistemas de valores e se tomamos outro caminho acreditando que
símbolos, as tradições, as crenças e tudo é cultura, o que justificaria dedicar um
o imaginário popular (Conferência espaço próprio para o jornalismo cultural

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nos meios de comunicação? Pois, pensando Definir essas duas regularidades é mais do
assim os outros cadernos, como Política, que um esforço epistemológico, mas trata-
Economia etc, já cumpririam a cobertura dos se da construção de uma identidade para
elementos culturais. o Jornalismo Cultual que é, assim, capaci-
Dessa forma os dois caminhos adotados tado a reconhecer suas potencialidades e lim-
até então para definir o jornalismo cultural itações. Passo, esse, fundamental para que
ora recorriam a idéia de cultura como “cul- os alunos de jornalismo encontrem a força
tura erudita” (desqualificando, em contra- do que é e do que pode vir a ser o Jornal-
partida , os produtos da Indústria Cultural), ismo Cultural como forma de fazer encontrar
ora perdiam-se em uma definição muito am- a democratização do conhecimento e a re-
pla e pouco elucidativa do que seja cultura, flexividade. Para tanto, analisemos com mais
tornado-se, ambos, insuficientes. É nesse atenção esses dois pontos aqui destacados:
momento que o jornalismo cultural se vê di-
ante da necessidade de trilhar um terceiro
caminho. Eis a crise de identidade do jornal- 3.1 Democratizar o
ismo cultural e simultaneamente a crise no
ensino de jornalismo cultural.
conhecimento
Mas, afinal, o jornalismo cultural é singu-
lar? O que o caracteriza? Quais elementos o Nos primórdios do jornalismo cultural, “The
distinguem ou não das outras áreas de con- Spectator” já colocava como missão “trazer
hecimento? Enfim, o que é o jornalismo cul- a filosofia para fora das instituições acadêmi-
tural e como ele pode ser compreendido, at- cas para ser tratada em clubes e assembléias,
ualmente, diante de tantas mudanças? em mesas de chá e café” (BURKE, p.78,
Há, para buscar respostas a essas inda- 2004). Assim, o jornalismo cultural nasce
gações, um recurso teórico muito rico com a função de mediar o conhecimento e
quando estamos diante de algo em transfor- aproximá-lo do maior número de pessoas. A
mação ou em crise, que é, paradoxalmente, intenção era a de não restringir a uma elite
voltar ao passado. E, por mais que o Jor- a esfera das artes, da filosofia e da literatura.
nalismo Cultural tenha sofrido muitas mu- Havia nisso um entendimento da função so-
danças durante sua história há sempre al- cial do jornalismo cultural como lócus ade-
guns aspectos que se mantém vivos e po- quado para dar acesso irrestrito a todo saber,
tentes em sua trajetória. Assim, se recorre- fato esse que se torna uma regularidade no
mos ao passado é para encontrar nele o que jornalismo cultural.
permaneceu, apesar da passagem do tempo e Como podemos observar, mais de duzen-
das mudanças. E, nessa busca, encontramos tos anos depois, no Brasil, o “Caderno
duas regularidades fundamentais. Primeiro, B” (Jornal do Brasil) continua a defender
a necessidade de democratizar o conheci- a mesma missão para o jornalismo cul-
mento e, segundo, o seu caráter reflexivo. tural, convicção essa que podemos compro-
São elas que definem o Jornalismo Cultural var na fala de um de seus articulistas, Fer-
como uma prática singular e importante para reira Gullar. Em depoimento, Gullar rejeita
a sociedade. uma linguagem elitista e aristocrática para o

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jornalismo cultural, defendendo seu amplo A reflexividade consiste no fato de


acesso: que as práticas sociais são con-
stantemente examinadas e refor-
Ora, se os críticos defendem que madas à luz de informações ren-
abandonar essa linguagem, com ovadas sobre estas próprias práti-
seus requintes, é baixar a qualidade cas, alterando assim constitutiva-
da obra e trair a cultura, o único mente seu caráter"(GIDDENS, p.
caminho que deixam é continuar a 45). Ou seja, a forma como pen-
escrever para a minoria. Noutras samento e a ação estão constan-
palavras, só existe arte para uns temente refratados entre si (GID-
poucos e raros. É claro que não DENS, p. 45).
concordamos com isso, e aí estão
várias obras, aceitas pelo público,
que negam essa tese aristocrática
(GULLAR, p.19, 1963). 4 Jornalismo Cultural como
Campo Interdisciplinar

3.2 Caráter Reflexivo A função do Jornalismo Cultural é revelar de


forma clara e acessível “que, em toda grande
obra, de literatura, de poesia, de música, de
Uma segunda regularidade do jornalismo
pintura, de escultura, há um pensamento pro-
cultural é seu caráter reflexivo. Ou seja,
fundo sobre a condição humana” (MORIN,
desde seu nascimento, o jornalismo cultural
p. 45, 2001). Eis aí a força narrativa do jor-
caracteriza-se por sua análise crítica (antes
nalismo e sua função social. Pois, faz chegar
restrita a Literatura, Artes Plásticas, Artes
a muitos o que estava restrito a poucos e
Cênicas etc). É, portanto, a reflexividade
que possui, nessa mediação, uma respons-
que distingue, efetivamente, o jornalismo
abilidade profissional acrescida da necessi-
cultural de outras editorias. Ou seja, en-
dade de uma formação humanística sólida,
quanto o caderno de Economia, de Cidades,
ciente da necessidade da codificação de uma
de Política irá noticiar as práticas, o jornal-
realidade complexa, traduzindo-a em formas
ismo cultural irá fazer uma reflexão sobre
acessíveis e democráticas. Essa vocação e
essas práticas em suas críticas e crônicas, o
essa função original ganham contornos ainda
que fica claro quando observamos os gêneros
mais evidentes em se tratando da especiali-
textuais consagrados nessa editoria que são
dade do jornalismo cultural e da preparação
a crítica, a resenha e a crônica. Todas mar-
dos futuros jornalistas dessa área.
cadas pela opinião e pelo posicionamento
Em contrapartida, não o torna uma dis-
reflexivo sobre as práticas sociais. Assim,
ciplina isolada das demais, mas ao con-
segundo Antonny Giddens, a reflexividade
trário. Como mesmo afirma o jornalista
pode ser definida como:
Daniel Piza, “há uma riqueza de temas e im-
plicações no jornalismo cultural que também

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não combinam com seu tratamento segmen- nalismo cultural” é um gênero ou espe-
tado; afinal, a cultura está em tudo, é de sua cialidade dentro do jornalismo?
essência misturar assuntos e atravessar lin-
guagens” (PIZA, p.7, 2004). Nesse sentido, • Capacitar o aluno a fazer leituras re-
é da natureza da própria disciplina o diálogo flexivas dos produtos culturais através
com as disciplinas humanísticas e práticas. de uma formação teórica cultural que
Dialoga, assim, com Filosofia, Antropolo- tanto contemple a realidade local como
gia, Mídia e Cultura, Ética e Legislação e, global. O que implica conhecer as com-
simultaneamente, relaciona-se com as disci- plexas interações contemporâneas en-
plinas práticas e específicas como jornalismo tre o local e o global; a identidade e a
on-line, rádio, TV, técnicas de reportagem e massividade; a alteridade e o compartil-
texto em revista. Se as primeiras fundamen- hamento na sociedade contemporânea.
tam e sensibilizam os alunos para compreen- • Desenvolver o sentido estético, sen-
der com mais abrangência a realidade social sível e reflexivo para a observação e
e culturalmente dada, as segundas oferecem descrição das obras culturais. Para
as potencialidades e variedades de suportes e tanto, é importante conhecer as dis-
formas de mediação necessários para o con- cussões da experiência estética na co-
hecimento cultural. municação. O que implica no aprimora-
mento do campo sensível, aliado a ca-
pacidade reflexiva na cobertura jornalís-
5 Dos Princípios Gerais para a tica das obras culturais.
Formação em Jornalismo • Apresentar o processo produtivo e os
Cultural gêneros do Jornalismo Cultural. É
necessário, então, conhecer os atores
Formar jornalistas que sejam capacitados a sociais, as instituições e sua relação
compreender e codificar em diversas nar- com os jornalistas na cobertura cultural.
rativas e suportes as obras culturais com O processo de seleção (gatekeeper) e
a complexidade e riqueza que possuem, enquadramento (framing) dos aconteci-
cientes de sua importância e responsabili- mentos culturais nos cadernos e veícu-
dade como mediadores culturais, é o objetivo los especializados. E, por fim, as es-
de uma boa formação na área. Para tanto é pecificidades da linguagem nos diver-
necessário, minimamente: sos gêneros jornalísticos: a crônica,
a crítica, o colunismo social, a re-
• Problematizar o conceito de jornalismo portagem e a notícia.
cultural. E, para tanto, devemos nos in- • Capacitar o aluno para compreender e
terrogar: o que entendemos como cul- explorar as potencialidades dos meios
tura? O que é o jornalismo cultural? E, na cobertura noticiosa cultural. Os jor-
por fim, cabe indagar se todo o jornal- nais impressos: dimensão espacial e
ismo é uma obra cultural ou se o “jor-

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de registro fidedigno na cobertura cul- 2. Da importância pública e da respons-


tural. O rádio: dimensão temporal, abilidade de sua profissão sobre a con-
sonora, imediata e lúdica na cobertura formação do real e da cultura na vida
cultural. A TV: dimensão temporal e vi- cotidiana das pessoas;
sual/sonora na cobertura cultural. A In-
ternet: extensão espaço temporal; mul- 3. Da necessidade de uma formação hu-
timídia e que concilia massividade e in- manística sólida para que compreenda a
teratividade na cobertura cultural. cultura a sua volta tanto na esfera local
como a sua relação com o global;

4. Da significância de sua mediação para


aproximar as pessoas da "poética da
6 Das Premissas Teóricas e vida", tanto no que possui de estético
Éticas da Formação de como de ético e político.
Jornalistas da Área Cultural Iremos, a seguir, detalhar cada uma dessas
premissas que norteiam a formação de fu-
Revisando os argumentos apresentados du- turos jornalistas que atuarão na área cultural.
rante o texto chegamos às seguintes premis-
sas:
A primeira diz respeito ao papel 6.1 Jornalista Cultural como
democrático e reflexivo do Jornalismo mediador
Cultural, que o particularizam como forma
de conhecimento. A segunda premissa trata
da importância e interferência da narrativa O passo fundamental na aprendizagem da at-
jornalística no dia-a-dia, no cotidiano da uação no jornalismo cultural é compreender
sociedade. A terceira, que o jornalista tem o o papel social do jornalista que atua nessa
papel de revelar aspectos culturais que nem área. Qual seja, a de um mediador cul-
todos conheciam (acessibilidade). tural. É o jornalista a pessoa responsável
Por fim, os futuros jornalistas devem com- por pesquisar, entrevistar, apurar, selecionar
preender e sensibilizar-se para a função es- e codificar de forma clara as informações que
tética, poética, cultural e política que irão envolvem o fato em questão.
ocupar na sociedade. É a partir dessas qua- Assim, é fundamental que o jornalista
tro premissas interdependentes que podemos tenha a capacidade de compreender a obra
formar futuros profissionais de jornalismo cultural em questão. O jornalista, como me-
cultural cientes: diador, deve ser aquele capaz de revelar de
forma simples a complexidade de relações a
1. Da importância de ser um bom me- que cada acontecimento está ligado. Essa,
diador cultural, traduzindo, de forma sim, seria uma aproximação com a verdade,
clara e reflexiva, informações com- como afirma o antropólogo italiano Maximo
plexas; Canevacci: “O objeto adquire uma progres-
siva configuração adequada à sua verdade

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na medida em que os pontos de observação Com tal procedimento, aproxima-se da ver-


e explicação se multiplicam: observadores dade. Eis sua função e responsabilidade.
que podem estar em tensão, contradição ou
indiferentes entre si” (CANEVACCI ,1996,
p.42). 6.2 Da responsabilidade
O jornalista, como bom mediador, deve
aprimorar a sua habilidade de pesquisa, apu-
profissional do Jornalista
ração e investigação, além de sua capacidade Cultural
reflexiva para identificar, rapidamente, acon-
tecimentos publicamente relevantes. O jornalismo é, das formas narrativas, a mais
Um bom mediador é aquele que não se presente e influente no dia-a-dia das pes-
sente intimidado ante a complexidade do soas. É uma profissão legitimada social-
acontecimento ou a autoridade e celebridade mente para representar (ou apresentar nova-
da pessoa em foco. Tal postura se dá, pois mente) os acontecimentos sociais. Cabe ao
sabe-se que sua posição nessa relação é a jornalista cultural, dessa forma, selecionar o
de um codificador. Nesse sentido cabe a ele que deve ser conhecido e como deve ser con-
traduzir uma realidade complexa em formas hecido publicamente. Assim, a sociedade
simbólicas acessíveis, sem que com isso em- confia que é o jornalista o profissional re-
pobreça a informação. Sendo simples, sem sponsável e credível por “tirar o essencial
ser simplório. O jornalista cultural deve ex- do acidental, o permanente do corrente”
plorar toda a riqueza do fato ou pessoa em (LIMA, 1969, p.47). Em que sua função é,
questão sem perder de vista a capacidade de dentre outras, a de identificar o que de rele-
dar comunicabilidade à representação sim- vante e significativo deve ser levado ao con-
bólica dele ou dela. hecimento público.
Mediar é estabelecer um campo intersub- E, ao dar visibilidade a certos aspectos do
jetivo em que interagem jornalistas, nortea- real, em um determinado enquadramento, o
dos por rotinas temporais e políticas organi- jornalista cultural conforma uma perspectiva
zacionais, em relação com fontes com inter- dos acontecimentos. É nesse ponto que está a
esses noticiosos conflitantes, utilizando uma significativa importância e automaticamente
narrativa própria que é fundamentada nos sua acrescida responsabilidade. Ou seja, o
valores sociais do seu público e do seu con- jornalista é responsável por uma significativa
texto histórico. parcela do que é dado a existir publicamente
Trata-se de um procedimento que busca o para a sociedade.
equilíbrio, sendo mais um campo de apresen- Consideramos, nos termos de Hanna
tação das interações do que propriamente a Arendt, que aparecer e existir coincidem,
crença do reflexo de uma verdade acabada ou seja, que os acontecimentos culturais,
e absoluta. O jornalismo é, assim, campo ao ganharem visibilidade pública, adquirem
de disputa e luta simbólica e deve mais ap- tanto uma realidade, quanto uma significân-
resentar a diversidade de posições sobre um cia que não possuíam antes no âmbito pri-
assunto do que enfocar um de seus aspectos. vado. Pois,

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a presença de outros que vêem o 6.3 Da necessidade de uma


que vemos e ouvem o que ou- formação humanística
vimos garante-nos a realidade do
consolidada
mundo e de nós mesmos; e, emb-
ora a intimidade de uma vida pri-
vada plenamente desenvolvida, tal O jornalismo, mais do que uma técnica, mas
como jamais se conheceu antes uma ética. Para tanto, deve ser preparado
do surgimento da era moderna e através de matérias que o capacitem a refletir
do concomitante declínio da es- sobre a cultura a sua volta (tanto no âmbito
fera pública, sempre intensifica e local como em sua relação com o global). O
enriquece grandemente toda a es- que inclui uma boa formação em Filosofia,
cala de emoções subjetivas e sen- História, Realidade Brasileira, Antropologia,
timentos privados, esta intensifi- Ética, Teorias da Comunicação e Teorias do
cação sempre ocorre às custas da Jornalismo. Sem que o aluno tenha uma boa
garantia da realidade do mundo formação humanística, a prática não é en-
e dos homens (ARENDT, 2004, carnada de um sentido forte e transformador.
p.60). Assim, consideramos que não há uma disso-
ciação entre prática e teoria. A teoria confere
Aqui a esfera pública confunde-se tanto um aprimoramento da prática, e a prática
com a própria concepção que temos do motiva reflexões teóricas, numa relação di-
mundo e da realidade quanto também a que alética.
temos dos homens. Por isso, ter visibilidade As próprias “técnicas” jornalísticas car-
nessa esfera e dar a aparecer um fato so- regam, em si, uma série de perspectivas ide-
cial nesse espaço público é constituí-lo como ológicas, pois a técnica nada mais é do que
real. E constituí-lo é também uma forma de uma criação cultural e humana, carregando
poder, já que, ao ganhar visibilidade, pode- seus valores e suas marcas. Assim, quando
se reivindicar um espaço e mobilizar outros a técnica orienta o jornalista a ser “objetivo”
atores em prol de sua causa. É exatamente e “imparcial”, o que se espera é que busque
nesse ponto que a mídia – como campo de produzir um relato que seja rico, ao apresen-
visibilidade – passa a ter papel central para tar todos os lados que envolvem a questão da
entendermos essa luta simbólica de recon- forma mais equilibrada e justa possível.
hecimento e constituição de valores publica- Assim, não se trata mais de encontrar uma
mente aceitos. verdade última ou de acreditar que os fatos
Portanto, cabe ao jornalista, ciente de sua possuem uma objetividade em si, mas de
importância pública no relato dos aconteci- buscar produzir uma narrativa equilibrada, o
mentos, ter uma formação humanística sól- que implica ouvir as várias versões do fato,
ida e ciente de suas potencialidades e limi- por diferentes fontes, apresentar a controvér-
tações, como veremos a seguir. sia, verificar documentos e dados que com-
provem ou não o fato; buscar não tomar par-
tido, entre outras condutas técnicas-éticas. É

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nesse ponto que técnica e a ética se encon- Trata-se de um conjunto paradoxal de coisas
tram no jornalismo segundo Eugênio Bucci, que transitam entre o absurdo e a beleza; en-
tre a beleza e a fragilidade e a transitoriedade
Jornalismo ético é jornalismo de da vida. Pois o jornalismo “está aí para
qualidade. Jornalismo de quali- informar o homem sobre o que está acon-
dade é jornalismo ético. Uma apu- tecendo com o homem” (ABRAMO, 1988,
ração mal feita conduz a desvios p.192). Cabe, então, ao jornalismo cultural
éticos, do mesmo modo que uma dar a aparecer as obras culturais, abordando-
edição mal feita. E aí nem esta- as em sua complexidade, sem que, com isso,
mos falando de más interpretações, perca a comunicabilidade da mensagem.
mas apenas das exigências técnicas Assim, os futuros jornalistas culturais de-
da profissão que, é bom saber, con- vem ser sensíveis para representar as obras
stituem também exigências éticas culturais. Pois, do contrário, se utilizarem
(BUCCI, p. 93-94, 2000). uma mesma forma de enquadrar, acabarão
por simplificar e amputar a força do que de-
screvem. Uma boa representação do real é
aquela capaz de transportar o sujeito para o
6.4 Sobre a função poética do fato, revivê-lo para ter dele a maior aprox-
Jornalismo Cultural na imação possível. Nesse ponto, a busca
pela objetividade jornalística, não está lig-
sociedade ada, como pensam e criticam alguns, ao re-
lato frio e burocrático do acontecimento. Ao
O jornalismo cultural cumpre simultanea- contrário, quanto mais elementos sensíveis e
mente uma função informativa e poética na materiais conciliarem-se, mais próximo es-
vida dos sujeitos. É sua habilidade tocar a tou do real. Eis, o bom jornalismo, aquele
integralidade das pessoas que, ao buscarem capaz de informar sem perder a força do
essa seção ou essa especialidade do jornal- acontecimento (suas cores, sensações, ruídos
ismo, estão em busca de um conhecimento e clímax).
sensível e reflexivo. Ou seja, buscam uma Conciliar a sensibilidade com a capaci-
experiência estética que ora cumpre uma dade reflexiva e crítica é o norte fundamen-
função puramente sensível, ora uma função tal para os futuros jornalistas dessa especial-
política e reflexiva. Assim, o jornalismo cul- idade. Já que, como mesmo considera o jor-
tural descortina as obras culturais (a liter- nalista Cláudio Abramo, para o jornalismo
atura, a música, o cinema, as artes plásticas “não existe fórmula. A fórmula é determi-
etc) em seu sentido forte; no que possuem nada pelo clima – pelo pathos e pelo ethos –
de estético e ético. Em que a dimensão es- isto é, o clima emocional e o clima moral da
tética deve ser então entendida como “aque- situação” (ABRAMO, 1988, p.191)
las coisas cujos fins devem incorporar qual- Dessa forma, “preenchidas as condições
idades de sentir” (Peirce) comuns – precisão, clareza, concisão, cul-
Há um sentido profundo em tudo o que tura – então a liberdade, em vez de ser
é humano e a cultura abarca esse “tudo”. condicionada pelo gênero, é uma exigência

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12 Isabelle Anchieta de Melo

dele mesmo e da condição do próprio jornal- MORIN, Edgar. A cabeça bem feita: repen-
ista, que é um artista como outro qualquer” sar a reforma, reformar o pensamento.
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