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INTRODUÇÃO

TEONTOLOGIA
INTRODUÇÃO

O homem é naturalmente um ser religioso, trazendo consigo uma forte consciência


da existência de Deus. Contudo, sua percepção das coisas Divinas foi maculada e
distorcida pelo pecado.

Isto se vê especialmente pelas inúmeras correntes teológicas surgentes mundo afora


e que buscam fazer de Deus um mero objeto de estudo ou ainda alguém que existe para
satisfazer as vontades e caprichos da humanidade.

Não obstante, procuraremos aqui, demonstrar como esse glorioso Deus, se fez
conhecer por seus atributos que, embora sejam inumeráveis e indecifráveis em sua
totalidade, não são um mistério absoluto.

Como veremos, os atributos de Deus não fazem, simplesmente, parte do seu Ser,
antes constituem o próprio Ser de Deus.

Para que possamos estudar tais atributos, partiremos da premissa de que Deus
existe e que já nascemos com a ideia de Sua existência impressa em nossa consciência.
Veremos ainda que Ele é cognoscível e se revela por meios naturais e sobrenaturais.

Veremos ainda que, embora seja único, esse Deus subsiste em três pessoas
diferentes, de personalidade distinta, mas que estão em perfeita unidade.

Ao final, devemos ter, ainda que de forma limitada, uma noção sobre quem é Deus
e seus atributos.
1. A EXISTÊNCIA DE DEUS

Como em todo estudo e/ou pesquisa, para que possamos ter uma compreensão
adequada sobre Deus, devemos partir de uma origem, ou seja, precisamos de um
referencial a partir do qual estabeleceremos nossas proposições. Sendo assim, nosso
referencial será a Sagrada Escritura, a qual parte da premissa de que Deus existe e não
somente isto, mas está em plena relação com suas criaturas.

1.1 DEUS EXISTE

A negação da existência de Deus sempre foi uma realidade na história da


humanidade e nunca esteve ausente desta. Diante disto, o salmista Davi ressalta: “Diz o
insensato no seu coração: Não há Deus” (Salmo 14.1a). Não obstante, tomou novo folego
a partir do existencialismo ateu do filósofo Jean Paul Sartre.

Seja com base em conceitos filosóficos, empíricos ou científicos, sempre houve a


tentativa, frustrada, diga-se de passagem, de negar a existência de Deus. Isto procede,
especialmente, por parte de pessoas que exigem provas científicas e incontestáveis de que
de fato ele existe.

O astrofísico britânico Stephen Hawking, afirmou em uma entrevista que antes que
a ciência fosse compreendida era comum a crença em Deus, mas que na atualidade, ela
não faz sentido.

Agora a ciência oferece uma explicação mais convincente. O que quis dizer quando
disse que conheceríamos a mente de Deus [escreveu isso no livro “Breve História
do Tempo”] era que compreenderíamos tudo o que Deus seria capaz de
compreender se por acaso existisse. Mas não há nenhum Deus. Sou ateu. A religião
acredita em milagres, mas estes são incompatíveis com a ciência. 1

O também cientista britânico, Richard Dawkins, autor de vários livros, dentre eles
“Capelão do Diabo” e “Deus, um delirio”, afirmou ser Deus, um “delinquente psicótico” do
Antigo Testamento (DAWKINS, 2006).

1
http://observador.pt/2014/09/21/nao-ha-deus-nenhum-afirma-stephen-hawking/
Por outro lado, ateus e pessoas descrentes, com a religião, afirmam que ninguém
jamais viu a Deus e, portanto, não podem crer nele. De fato, ninguém jamais viu a Deus ou
o tocou; entretanto, ninguém jamais viu o vento ou o tocou, porém todos aceitam que ele
existe. Distintamente, as pessoas querem provas de que Deus existe. Todavia, querer
provar sua existência é um esforço inútil, pois a existência de Deus não pode ser provada,
mediante experimentos científicos e/ou empíricos. Para os cristãos, Deus simplesmente
existe e não há necessidade de testes comprobatórios de sua existência. Como bem
afirmou o teólogo holandês Abraham Kuyper:

A tentativa de provar a existência de Deus ou é inútil ou é um fracasso. É inútil se o


pesquisador acredita que Deus recompensa aqueles que O procuram. É um
fracasso se se trata de uma tentativa de forçar, mediante argumentação, ao
reconhecimento, num sentido lógico, uma pessoa que não tem esta pistis. (Apud.
BERKHOF, 2007, pág. 20).

Diante do exposto, aceitamos a existência de Deus não com base em ensaios


científicos, mas pela fé. Entretanto, como afirma Louis Berkhof, “essa fé não é cega, mas
fé baseada em provas, e as provas se acham, primariamente, na Escritura como a Palavra
de Deus inspirada, e, secundariamente, na revelação de Deus na natureza” (Ibidem).

Alguns olham para a Bíblia como se ela fosse um livro científico e como se a mesma
devesse provar seus argumentos acerca de Deus e da fé exigida a todos os que Dele se
aproximam. Porém, a Bíblia não é um livro de ciências exatas e/ou humanas, mas um livro
de fé. O objetivo da Bíblia não é provar a existência de Deus, pois ela foi escrita partindo
da premissa de que Ele existe. Todavia, ela traz consigo inúmeros textos que evidenciam
Sua existência (Gênesis 1.1, 1.26-28; Eclesiastes 2.24; Isaías 44.6; Marcos 12.28-29;
João 17.3; Romanos 16.25-27; I Timóteo 1.17; Hebreus 11.6).

Assim, para aqueles que avaliam corretamente as evidências, tudo o que há nas
Escrituras e tudo o que há na natureza provam claramente que Deus existe e que
ele é o Criador potente e sábio descrito pela Bíblia. Portanto quando cremos que
Deus existe, baseamos nossa crença não em alguma cega esperança alheia a
qualquer evidência, mas numa estonteante quantidade de provas confiáveis
encontradas nas palavras e nas obras de Deus. A verdadeira fé caracteriza-se como
confiança baseada em evidências fidedignas, e a fé na existência de Deus tem tal
característica (GRUDEM, 1999, pág. 99).
1.2 A IDEIA DA EXISTÊNCIA DE DEUS É INATA AO HOMEM

Embora, haja por parte de alguns, a negação incoerente da existência de Deus,


como por exemplo: os ateus práticos2 e os ateus teóricos3; ainda assim, o conhecimento
de Deus lhes é inato. Contudo, tal conhecimento não é capaz de conduzi-los à salvação,
uma vez que tal conhecimento diz respeito ao que Deus manifestou, acerca de si mesmo,
na Revelação Geral:

A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que
detêm a verdade pela injustiça; porquanto o que de Deus se pode conhecer é
manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis
de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade,
claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio
das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis;
porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe
deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios,
obscurecendo-se-lhes o coração insensato (Rm 1.18-21).

Neste mister Calvino afirmava que ao nascer, o homem traz em si a “sêmen


religionis”, isto é, a semente da religião. “Como a experiência mostra, Deus tem semeado
uma semente de religião em todos os homens” (Apud. CAMPOS, 2002, pág. 30). Destarte,
ser humano algum nasce ateu, todos apresentam de modo inerente, a semente da religião.

O Dr. Heber Carlos de Campos, afirma que:

A religião natural mostra que há um Deus com atributos como poder, divindade,
justiça. Esses são atributos naturais que Deus manifesta, mas a sua misericórdia é
expressão da sua vontade, e Ele a manifesta quando quer. Embora a misericórdia
seja parte da essência de Deus, a sua manifestação depende do exercício da Sua
vontade. (Idem, pág. 31).

Essa religião natural está diametralmente ligada à “sêmen religionis” descrita por
Calvino. Posteriormente, o famoso teólogo Dr. Charles Hodge, também afirmou que “todos
os homens têm algum conhecimento de Deus. Isto é, temos a convicção de que existe um
Ser de quem somos dependentes e perante quem somos responsáveis” (HODGE, 2001,
pág. 143).

2
Pessoas que na prática, não contam com Deus e vivem como se Ele não existisse.
3
Intelectuais que buscam, mediante raciocínio lógico, provar a inexistência de Deus.
Diante do exposto, todos são indesculpáveis quando não tributam a Deus, a glória e
a honra devidos ao seu nome, pois todos trazem impressa em sua consciência a “ideia” da
existência de Deus.

1.3 A COGNOSCIBILIDADE DE DEUS

Os argumentos hodiernos sobre a cognoscibilidade de Deus, dividem-se


basicamente em três grupos: a) os que creem na existência de Deus, mas que ele não pode
ser conhecido (agnósticos); b) aqueles que creem não apenas em Sua existência, mas
igualmente em sua autorrevelação (cristãos); e c) os que creem que existe um Deus, mas
que este não se envolve com sua criação (deístas)4.

Quando ponderamos sobre a cognoscibilidade de Deus, pensamos a respeito do que


Dele pode ser conhecido, pois como veremos adiante, não podemos conhecê-Lo de forma
absoluta, isto é, em Sua totalidade.

Alguém já disse que “somos seres finitos e estamos a considerar o Infinito”. Isso
significa que o homem por si só, não pode conhecer a Deus, pois Sua grandeza excede
todo nosso entendimento. Portanto, faz-se necessário que o próprio Deus se revele a nós,
afim de que o possamos conhecer, compreender e termos relação com Ele.

O apóstolo Paulo afirma que o “mundo” não pôde conhecer a Deus por intermédio
de sua própria sabedoria (I Coríntios 1.21). Mas, qual a razão das pessoas não poderem
conhecer a Deus por seus próprios esforços e/ou sabedoria?

J.I. Packer, diz que: “Ninguém conheceria a verdade sobre Deus, ou seria capaz de
se relacionar com Ele de um modo pessoal, se Ele não tivesse agido primeiro para ser
conhecido” (PACKER, 2004, pág. 3). O pensamento do Dr. Packer, é corroborado pela
declaração do apóstolo Paulo em Romanos 1.19. E ainda, por Jesus, ao afirmar que só é
possível alcançar ou ter tal conhecimento de Deus, mediante a revelação vinda do próprio
Senhor (Mateus 11.27).

Embora afirmemos que necessitamos que Deus se revele para que o possamos
conhecer, precisamos entender que por mais que conheçamos a Deus, jamais o

4
Os deístas não devem ser confundidos com os teístas. Os últimos creem em um Deus pessoal e que se relaciona com
suas criaturas, destacando-se neste grupo os cristãos.
compreenderemos completamente, isto é, o conhecimento absoluto de Deus, transcende
nossa capacidade de raciocínio.

Devido nossa incapacidade de conhecer a Deus em sua plenitude diversas teorias


têm sido apresentadas, especialmente por expoentes da ciência e da filosofia, alguns dos
quais, embora não neguem a existência de Deus, não admitem haver qualquer
possibilidade de o conhecermos e mais, rejeitam qualquer ideia de relacionamento com
esse Deus. Destacam-se dentre eles, Hume (pai do gnosticismo moderno), Comte (pai do
positivismo) e Herbert Spencer, um dos maiores expoentes do gnosticismo científico.

Não obstante, o Dr. Kuyper observa que diametralmente oposta à experimentação


cientifica, Deus não é objeto de estudo.

Karl Barth5 concorda com Kuyper quando diz que Deus nunca poderá ser objeto,
senão o sujeito.

Via de regra, no estudo científico o homem apresenta-se como superior ao objeto


estudado, extraindo dele o conhecimento da forma que lhe pareça mais conveniente.
Todavia na teologia, Deus é o sujeito transmissor do conhecimento e nós o receptáculo de
tal ciência.

1.4 REVELAÇÃO GERAL E REVELAÇÃO ESPECIAL

Como vimos, o homem jamais conheceria a Deus se este não se manifestasse, ou


seja, se Ele mesmo não tomasse a iniciativa ainda estaríamos na escuridão da ignorância.
Mas, como Deus se manifestou aos homens? Que meios usou Ele para termos ciência de
sua existência? E qual a base desse conhecimento, ou seja, qual a motivação de tal
revelação Divina?

Para que possamos compreender melhor este assunto faz-se necessário dividir o
tema em duas categorias: revelação geral e revelação especial.

Por revelação geral, nos referimos à manifestação de Deus por meio da consciência,
da natureza e das coisas criadas, onde ele torna conhecida de todos os homens sua
existência, poder e divindade.

5
Propositor da Teologia Neo-Ortodoxa no século XIX.
Este meio de revelação é obtido por meio da razão, não sendo suficiente para salvar
ou mesmo conduzir os pecadores à salvação.

As Escrituras nos dão abundante prova desta revelação, a exemplo dos textos
abaixo:

 Salmo 19.1-2 - Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia


as obras das suas mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela
conhecimento a outra noite.

 Atos 14.17 - Contudo, não se deixou ficar sem testemunho de si mesmo,


fazendo o bem, dando-vos do céu chuvas e estações frutíferas, enchendo o
vosso coração de fartura e de alegria”.

 Romanos 2.14-16 – Quando, pois, os gentios, que não têm lei, procedem, por
natureza, de conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si
mesmos. Estes mostram a norma da lei gravada no seu coração,
testemunhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos,
mutuamente acusando-se ou defendendo-se, no dia em que Deus, por meio
de Cristo Jesus, julgar os segredos dos homens, de conformidade com o meu
evangelho.

Uma vez conscientes desta revelação, todos deveriam tributar louvor, honra e glória
ao Deus Todo-Poderoso, criador dos céus, da terra e de tudo o que neles há. Mas, por
falharem em render a Deus aquilo que Lhe é devido, tais pessoas recebem sobre si o juízo
Divino, como nos mostra o apóstolo Paulo em Romanos 1.18-21.

Distintamente, a revelação especial diz respeito à manifestação Divina, por meios


sobrenaturais e pelas Escrituras. Em tempos passados, Deus se valeu de outros meios
para se comunicar diretamente com os homens, a exemplo dos profetas que transmitiam
os oráculos Divinos. Contudo, com a plenitude dos tempos, tal comunicação se deu
especialmente por intermédio de Cristo e das Escrituras. Vejamos como exemplo os textos
abaixo:

 II Reis 17.13 – O Senhor advertiu a Israel e a Judá por intermédio de todos


os profetas e de todos os videntes6, dizendo: Voltai-vos dos vossos maus

6
Neste caso, vidente não indica alguém que faz adivinhações, mas alguém que declara os oráculos de Deus; sendo
apenas um sinônimo de profeta.
caminhos e guardai os meus mandamentos e os meus estatutos, segundo
toda a Lei que prescrevi a vossos pais e que vos enviei por intermédio dos
meus servos, os profetas.

 Salmo 103.7 – Manifestou os seus caminhos a Moisés e os seus feitos aos


filhos de Israel.

 Hebreus 1.1, 2 – Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas


maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho,
a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o
universo.

Entretanto, a revelação especial não contradiz a revelação geral, antes, uma


contribui com a outra para revelar o Supremo Deus.

Ao refletir acerca da revelação especial, Dr. Packer (2004, pág. 19), pondera que
esta, é na verdade, uma suplementação à revelação geral. Para ele a revelação, “ocorrida
na história e incorporada à Escritura”, abre a “porta da salvação aos perdidos”. A revelação
especial é assimilada somente pela fé e esta é dom de Deus, conforme ensina o apóstolo
Paulo (Efésios 2.8). Tal revelação proporciona aos eleitos e tão somente a estes, um
conhecimento soteriológico7 de Cristo Jesus.

1.5 A RELAÇÃO ENTRE O SER DE DEUS E SEUS ATRIBUTOS

Diversas teorias foram desenvolvidas ao longo do tempo no sentido de explicar a


existência de Deus, a maneira como podemos ter conhecimento de Sua pessoa e até
mesmo o quanto Dele podemos conhecer.

Alguns, a exemplo de Victor Cousin, afirmaram que Deus pode ser plenamente
conhecido, entrementes, outros negam a possibilidade de adquirirmos qualquer
conhecimento acerca de Deus, como Hamilton e Mansel (gnosticos); há por outro lado os
que afirmam a possibilidade de conhecermos a Deus, ainda que não na plenitude de seu
Ser (cristãos). De fato, como vimos anteriormente, Deus se revela, mediante a Revelação
Geral e a Revelação Especial.

7
Relativo à salvação.
O Dr. Orr, afirma categoricamente: “Não podemos conhecer a Deus nas profundezas
do seu Ser absoluto. Mas podemos, ao menos, conhecê-lo até onde Ele se revela em sua
relação conosco” (Apud. BERKHOF, 2009, pág. 44).

Sabemos que Deus existe, podemos conhecê-Lo e como Ele se revela, porém que
aspectos ou características de Sua pessoa podemos conhecer.

Antes de analisarmos os atributos propriamente ditos, precisamos saber que Deus


não é formado por várias partes; como se estas partes constituíssem o todo do Ser de
Deus. Berkhof esclarece que “comumente se diz em teologia que os atributos de Deus são
o próprio Deus, como Ele se revelou a nós” (ibidem).

Os atributos de Deus estão em absoluta consonância com seu Ser, ou seja, não
podem acrescentar nada a Deus e também não podem mudar nada Nele. Na verdade,
como diz Berkhof, seus atributos “são qualidades essenciais de Deus, inerentes ao seu
próprio Ser e com Ele coexistentes e desde que são qualidades essenciais, cada um deles
revela-nos algum aspecto do Ser de Deus” (ibidem).

Não obstante, nos referirmos às características e virtudes Divinas denominando-as


de atributos, esta, nos parece, não ser a melhor expressão para descrever o que não faz
parte, mas é o próprio Ser de Deus. Todavia, como é a expressão mormente utilizada, não
fugiremos à regra, utilizando-a apenas como uma maneira de melhor compreender aquilo
que o próprio Deus revelou de Si.
2. OS ATRIBUTOS DE DEUS

Por mais que nos esforcemos, jamais conseguiremos relacionar de forma adequada
todos os atributos de Deus, que são na verdade, expressão de seu caráter e que não podem
melhorar ou tornar pior em nenhum aspecto o Autor da vida. Não obstante nossas
limitações, devemos ponderar sobre algumas perspectivas dos atributos de Deus, como
por exemplo os Seus nomes, pois estes revelam sem dúvida algo do caráter ou da
personalidade do Seu Ser.

Por outro lado, percebemos que diversos métodos de estudo têm sido empregados
para discorrer sobre os atributos de Deus, porém dentre tantos, há dois que se destacam:
Atributos Incomunicáveis e Atributos Comunicáveis. E são estes que nos guiarão nas
proposições e ponderações a serem perpetradas. Entretanto para que possamos ponderar
acerca dos atributos de Deus, devemos entender que Ele é um Ser Absoluto. Todavia, não
conforme o absoluto da filosofia, pois para Hegel, o Absoluto é “a unidade do pensamento
e do ser, como totalidade de todas as coisas, que inclui todas as relações, e em que todas
as discordâncias do presente se resolvem em perfeita unidade” (apud. BERKHOF, 2009,
pág. 57). E na concepção de Francis Bradley o “Absoluto não se relaciona com nada, e
não pode existir nenhuma relação prática entre ele e a vontade finita” (ibidem).

O Absoluto ao qual nos referimos é “a Causa Primeira de todas as coisas existentes,


o fundamento último de toda realidade. Ele é autossuficiente, mas ao mesmo tempo
pode entrar livremente em várias relações com Sua criação como um todo e com
suas criaturas” (idem).

2.1 OS NOMES DE DEUS

No antigo Oriente, o nome de uma pessoa tinha total relação com seu caráter, sua
personalidade ou ainda com algum evento marcante da vida.

O Dr. Heber Carlos de Campos, ressalta que: “dar nomes às pessoas nos tempos
da Bíblia era um fato muito significativo. Tinha muito a ver com a experiência dos próprios
pais e daquilo que eles queriam que os filhos fossem” (CAMPOS, 2002, pág. 84).

Encontramos nas Escrituras, diversos exemplos das afirmações supracitadas: “Eva


(Gn 3.20); Noé (Gn 5.29; Esaú (Gn 25.25); Moisés (Ex 2.10); Jesus (Mt 1.21). Quando as
pessoas sofriam alguma mudança, seja no caráter seja na função, seus nomes era
trocados: Abraão (Gn 17.5); Sara (Gn 17.15); Israel (Gn 32.28); Pedro (Mc 3.16)”
(CORDEIRO, 2008, pág. 11).

Destarte, para que possamos ter uma maior clareza sobre o ser de Deus, precisamos
observar algumas de suas características apresentadas nos nomes a Ele atribuídos nas
Sagradas Escrituras. Contudo, devemos atentar para o fato de que há uma diferença
fundamental entre os nomes dados por uma pessoa a outra e os nomes dados a Deus, pois
o fato é que não foram os homens que nomenclatularam a Deus, mas Ele mesmo revelou
seus nomes ao seu povo. Vejamos alguns dos nomes de Deus e seus significados:

2.1.1 El (‫)אֶ ל‬

Este é um nome genérico. Era usado pelos povos antigos, para referir-se tanto ao
verdadeiro Deus, como a qualquer outra divindade, isto é, os falsos deuses. Quando usado
em referência ao Deus das Escrituras, era-lhe atribuído um complemento, conforme os
exemplos abaixo:

 El-Shaddai (‫)אֶ ל שַׁ דַׁ י‬, Deus Todo-Poderoso (Gênesis 17.1-2) – este nome
aponta para o Deus que, embora, seja tão grandioso em poder, estabelece
aliança com os homens e tem poder para as cumprir.

 El-Elyon (‫)אֶ ל עֶלְ יֹון‬, Deus Altíssimo (Gênesis 14.17-24) – indica que Deus está
acima de tudo e de todos. Revela a força, o poder e a majestade de Deus
sobre as obras dos homens.

 El-Olam (‫)אֶ ל עֹולָם‬, Deus Eterno (Gênesis 21.33) - este nome aponta não
apenas para a eternidade de Deus, mas também para sua imutabilidade. Deus
é o que foi e será sempre o que é. Veja Malaquias 3.6 e Tiago 1.17.

Derivando da raiz El, temos Elohim (‫)אֱֹלהִ ים‬, que é sua forma pluralizada e mormente
utilizada para indicar a majestade e poder de Deus; sendo um forte indicativo da Triunidade
de Deus, especialmente, se visto à luz do Novo Testamento. Este nome é utilizado nas
Escrituras, sobretudo, para indicar a soberania Divina em seu ato criador e na redenção de
seu povo (Gênesis 1.1; Isaías 45.18, 54.5; Deuteronômio 8.11-20; Salmo 68.6-10).
Segundo o Dr. Heber Carlos, o nome Elohim, “aparece mais de 2.200 vezes no Antigo
Testamento” (CAMPOS, 2002, pág. 85).
2.2.2 Adonai (‫)אֲ ֹדנָי‬

Adonai significa Senhor, soberano, possuidor. Esta palavra enfatiza a autoridade e


superioridade do Deus de Israel sobre os falsos deuses das demais nações. Isto fica claro
ao voltarmos nossos olhos para a declaração de Moisés em Deuteronômio 10.17 e do
salmista no Salmo 136.3.

O texto de Deuteronômio 10.12-22, é de suma importância no entendimento deste


nome Divino, pois em toda esta perícope, Moisés se refere a Deus como Yahweh (‫)יַׁהְ וֶה‬,

mas no verso 17, ele muda a nomenclatura repentinamente para Adonai (‫)אֲ ֹדנָי‬,
referindo-se a Deus como “Senhor dos senhores”. Tal mudança não é sem sentido, pois o
que se enfatiza ali é a soberania do Deus de Israel sobre os falsos deuses das nações.

Também se evidencia aqui que Deus governa sobre toda a sua criação e os povos
estão sob sua autoridade.

2.2.3 Yahweh (‫)יַׁהְ וֶה‬

Este é o nome próprio e/ou pessoal de Deus, enfatiza sua auto existência e foi o
nome pelo qual se revelou a Moisés em Êxodo 3.14. Ao que parece, está relacionado ao
verbo ser e aponta para a eternidade e infinidade de Deus.

O nome Yahweh está relacionado a uma conjuntura de redenção, em que Deus


cumpre as promessas feitas em sua relação de aliança com os homens, a exemplo de
Gênesis 3.15. Compare ainda Gênesis 15.12-21 com o Salmo 136.10-24.

Porque Deus é o Eu Sou, o Deus sempre presente, suas promessas de salvação


são eternas. É o nome que liga Deus aos filhos de Abraão. Esse nome enfatiza a
relação infalível entre Deus e a descendência de Abraão para sempre, porque ele é
o eterno Eu Sou. Convém lembrar que essa relação entre Deus e seu povo é sempre
de caráter redentor. Yahweh é o Deus da libertação. (CAMPOS, 2002, pág. 90).

Diante do exposto, vejamos alguns textos das Sagradas Escrituras relacionados ao


nome Yahweh.

 Yahweh Nissi (‫)יַׁהְ וֶה נִ ִ ִּֽסי‬, O Senhor é a minha Bandeira (Êxodo 17.15) – Este

nome indica que a vitória de Israel sobre seus inimigos não depende de suas
próprias forças, mas de Deus. Todo o povo de Deus é reunido sob a égide de
sua autoridade. Ele é a bandeira não apenas da nação Israel, mas também
de todos os que por Ele são chamados.

 Yahweh Rohi (‫)יַׁהְ וֶה ֹ֜ר ִ֗ ִעי‬, O Senhor é o meu pastor (Salmo 23.1) – Este nome
apresenta Deus como aquele que protege, alimenta e provê o necessário para
a subsistência de suas ovelhas. É nele que encontramos paz e segurança.

 Yahweh Shalom (‫)יַׁהְ וֶה שָ ל֑ ֹום‬, O Senhor é paz (Juízes 6.24) – A paz do povo
de Deus não depende de circunstâncias favoráveis e/ou da ausência de lutas
e problemas. Depende antes, do próprio Deus. É ele que nos dá a paz, mesmo
diante das adversidades.

 Yahweh Elohim (‫)יַׁהְ וֶה אֱֹלהִ ים‬, Senhor Deus (Juízes 5.3) – É mediante este
nome que o Deus de Israel é distinguido dos falsos deuses das nações, sendo
assim apresentado, como o verdadeiro Deus.

Estes são apenas alguns exemplos encontrados nas Escrituras e que estão
relacionados ao nome Yahweh (‫)יַׁהְ וֶה‬. Existem ainda, vários outros e que demonstram que
o Senhor é um Deus pessoal e que se relaciona com o povo escolhido.

No Novo Testamento não há uma tão vasta relação de nomes para Deus. Entretanto,
existem algumas denominações que devemos analisar.

2.2.4 Theós (θεός)

Embora seja muito abrangente, sendo aplicado a várias situações, como por
exemplo, a pessoas a quem era dada certa autoridade, quando usado nas Escrituras, via
de regra, refere-se ao Soberano Deus.

Theós, traz consigo ainda, um caráter redentivo, pois foi o próprio Deus quem
escolheu e redimiu o seu povo, mediante o sacrifício vicário de Jesus (I Coríntios 1.18-31).

Precisamos ainda, atentar para o fato de que assim como no Antigo Testamento, os
nomes de Deus estão sempre ligados a um adjetivo que aponta para um traço específico
do seu caráter e personalidade (Lucas 22.69; II Coríntios 6.18; Apocalipse 4.8).
2.2.5 Kyrios (κυριος)

O nome Kyrios, está ligado à legitimidade da autoridade exercida por Deus sobre
todas as coisas. Ele é o Senhor e isto de forma legal, justa e equável com toda sua
existência.

Faz-se necessário ressaltar que tal título não é aplicável apenas ao Pai, visto ser
atribuído também ao Filho (Marcos 16.19; Atos 7.59; Romanos 1.7; Filipenses 2.5-11). O
Espirito Santo também recebe tal qualificação (II Coríntios 3.17-18).

Dentre tantas implicações práticas que este nome Divino traz consigo, penso que
uma que merece nossa atenção é o que fica subtendido em sua expressão máxima: Ele é
o Senhor e todos os demais seres, existem para servi-lo. Está compreensão tem sumido
de muitos púlpitos e da vida de muita gente que afirma a Ele pertencer.

2.2.6 Páter (πατηρ)

Todos os que são justificados é Deus servido, em seu único Filho Jesus Cristo e por
ele, fazer participantes da graça da adoção. Por essa graça eles são recebidos no
número dos filhos de Deus e gozam a liberdade e privilégios deles; têm sobre si o
nome deles, recebem o Espírito de adoção, têm acesso com confiança ao trono da
graça e são habilitados, a clamar “Abba, Pai”; são tratados com comiseração,
protegidos, providos e por ele corrigidos, como por um pai; nunca, porém,
abandonados, mas selados para o dia de redenção, e herdam as promessas, como
herdeiros da eterna salvação. (WESTMINSTER, 2011, pág. 107).

Uma das mais belas doutrinas ensinadas nas Sagradas Escrituras é a da nossa
adoção por parte de Deus (Romanos 8.15; Efésios 1.5). Ela está diretamente ligada ao
título Divino de Páter (Pai).

O peso que este nome traz consigo é imenso, uma vez que o Deus Todo-Poderoso,
o Soberano, o Senhor dos senhores foi quem nos elegeu, redimiu e adotou como filhos.
Não obstante, uma ressalva deve ser feita: somos filhos de Deus, não por uma questão de
essência, mas de adoção. Apenas Jesus é Filho de Deus em essência, somente ele
pertence à esfera Divina e compartilha de sua natureza. Quanto a nós, somos filhos de
Deus porque ele nos escolheu e entrou em uma relação de aliança conosco, por intermédio
de Cristo Jesus (Gálatas 4.4-7).
2.2 QUALIFICAÇÃO DOS ATRIBUTOS DE DEUS

Por muito tempo estudiosos tentam de diversas formas perscrutar o Ser de Deus,
tarefa que seria impossível, não fosse o fato de que o próprio Deus se manifestou para que
pudéssemos, ainda que tateando conhecê-lo (Atos 17.24-29). Dessa forma, surgiram várias
proposições, com diferentes pontos de vista, na tentativa de explicar a existência de Deus,
a maneira como podemos ter conhecimento de Sua pessoa e até mesmo o quanto Dele
podemos conhecer.

Nessa busca pelo conhecimento de Deus, algumas características de seu ser têm
sido apresentadas, especialmente pela nomenclatura de “atributos”. Sendo assim divididos:

 Atributos naturais: auto existência, simplicidade, infinidade, etc.

 Atributos morais: verdade, bondade, justiça, santidade, etc.

 Atributos relativos: essência de Deus em relação a criação.

 Atributos imanentes: não se expõe nem operam fora da essência divina, mas
permanecem imanentes, como imensidade, simplicidade, eternidade, etc.

 Atributos emanentes: são os que se expõem e produzem efeitos externos


quanto a Deus, como onipotência, benignidade, justiça, etc.

 Atributos absolutos: a essência de Deus.

Tais atributos não são compartilhados totalmente, mas parcialmente. Dessa forma,
há em nós certa bondade para com as demais pessoas, porém esta bondade não é inerente
ao homem, senão comunicada, compartilhada pelo próprio Deus. Semelhantemente, o
mesmo acontece com os demais atributos comunicáveis, a ponto do apóstolo João
escrever: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (I João 4.19).

Entretanto duas formas de classificação têm sido destacadas, sendo definidas como
Atributos incomunicáveis e Atributos comunicáveis.

2.3 ATRIBUTOS INCOMUNICÁVEIS

Por atributos incomunicáveis nos referimos aos atributos que Deus não compartilha
conosco, a exemplo de sua auto existência, transcendência, onipotência. Isto implica em
dizer os atributos incomunicáveis de Deus, dizem respeito às perfeições absolutas de seu
Ser e, portanto, não são compartilhadas com suas criaturas.

Tratando desse assunto, o famoso teólogo holandês Hermann Bavinck ressalta que
“Se Deus não é independente e imutável, eterno e onipresente, simples e livre de
composição, Ele é puxado para o nível da criatura e identificado com o mundo e sua
totalidade ou com uma de suas forças” (BAVINCK, 2001, pág. 148).

Os atributos de Deus são inúmeros, mais do que somos capazes de enumerar.


Assim, nos limitaremos a analisar apenas alguns, a fim de que possamos ter alguma luz
sobre este assunto.

2.3.1 Auto existência

Com este termo afirmamos que Deus não precisa de qualquer de suas criaturas para
que possa existir. Ele existe por si. Deus não foi criado e não precisa de nenhuma fonte
externa para sua existência. Somos seres finitos e limitados, porém Deus não está preso
às limitações do espaço-tempo.

Há pessoas que acreditam que Deus sentia-se só e por essa razão criou todas as
coisas, inclusive o homem para que com este pudesse relacionar-se. Não obstante, se
fizermos ou concordarmos com tal afirmação, estaremos asseverando que Deus
necessitada de Sua criação para continuar existindo. Deus não se sentia solitário e isto fica
claro na oração de Jesus em João 17.5 e 17.24. Acerca disto, Wayne Grudem afirma
acertadamente: “Havia amor e comunicação entre o Pai e o Filho antes da criação”
(GRUDEM, 2010, pág. 110).

Uma vez que Deus é auto existente e não precisa de suas criaturas, isso significa
dizer que não temos valor algum? Não necessariamente, pois todas as obras de Deus têm
valor, uma vez que o próprio Criador as valoriza. Não obstante, nosso valor não é inato,
antes provém daquele que nos criou para o louvor de sua glória, conforme nos ensina o
apóstolo Paulo em Efésios 1.11-14. Deus existe fora do tempo, isto é, ele é atemporal. Com
isso reafirmamos que ele sempre existiu e prova disso é o fato de que tudo o que existe é
obra sua (Apocalipse 4.11).

O nome divino que Deus revelou a Moisés, “Eu Sou o que Sou”, aponta para sua
auto existência. Também sugere que Deus existe em um estado eterno. Ele criou o
próprio tempo e, portanto, é independente dele. Tal atributo da existência divina é
chamado de Eternidade ou Atemporalidade. Gênesis 21.33 diz que ele é “o Deus
eterno”. O Livro de Salmos revela que ele é “de eternidade a eternidade” (41.13), e
que ele é “desde a eternidade” (93.2). O apóstolo Pedro escreve: “para o Senhor
um dia é como mil anos, e mil anos como um dia” (2 Pedro 3.8). (CHEUNG, 2003,

pág. 45).

2.3.2 Transcendência

Vicent Cheung observa que “os atributos metafísicos de Deus demonstram a sua
transcendência” (CHEUNG, 2003, pág. 51). Dizer que Deus é transcendente, implica em
que ele vive de forma independente do tempo e do espaço.

A terminologia supracitada, revela que Deus é perfeito e absolutamente isento de


qualquer limitação ou defeito, sendo também conhecida por Infinidade de Deus.

Ao afirmar que Deus é isento de limitações, nos referimos inclusive ao espaço-


tempo. O Dr. Packer afirma que “Deus não é limitado nem pelo espaço - Ele está
continuamente em todo lugar em sua plenitude - nem pelo tempo - não há momento
presente, no qual Ele esteja contido, como nós estamos” (PACKER, 2004, pág. 35).

Ao ponderarmos sobre a infinidade de Deus, devemos pensar não em termos


humanos, como se Deus simplesmente ocupasse todo o espaço; devemos antes, refletir
em termos de qualidade, ou seja, Sua santidade é perfeita, sem restrições ou propensa ao
fracasso (II Samuel 22.31; Jó 11.7-10; Mateus 5.48).

2.3.3 Imutabilidade

Sendo Deus auto existente, transcendente e consequentemente perfeito, podemos


afirmar também que Deus não muda. Uma vez que ele é absolutamente perfeito é
impossível haver variação para melhor ou pior. Deus não está sujeito a mudanças como
nós estamos. Seu caráter é eternamente integro; aquilo que ele determinou irá se cumprir
cabalmente; seu amor e poder não podem ser maximizados ou minimizados. A isto
chamamos Imutabilidade de Deus.
O Dr. Packer observa que “é precisamente a imutabilidade de seu caráter que
garante sua fidelidade às palavras que pronunciou e aos planos que fez” (PACKER, 2004,
pág. 35).

As Sagradas Escrituras não deixam dúvidas quanto a esta questão.

O Salmo 102.25-27 afirma que mesmo que a criação entre em declínio, Deus
permanece o mesmo: “No princípio firmaste os fundamentos da terra, e os céus são obras
das tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permanecerás; envelhecerão como vestimentas.
Como roupas tu os trocarás e serão jogados fora. Mas tu permaneces o mesmo, e os teus
dias jamais terão fim”.

Em Malaquias 3.6, Deus assevera: “eu, o Senhor, não mudo; por isso, vós, ó filhos
de Jacó, não sois consumidos”.

Tiago diz também ressalta que em Deus não pode haver mudança: “Toda boa dádiva
e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir
variação ou sombra de mudança” (Tiago 1.17).

Além dos textos bíblicos corroborarem com o fato de que em Deus não pode haver
mudanças, temos também a experiência vívida desta realidade, através do relacionamento
que ele mesmo estabeleceu conosco. Embora, diga-se de passagem, nossas
comprovações empíricas sem a confirmação das Sagradas Escrituras não podem servir
como base fundamental para tais proposições.

Mas que dizer de situações onde Deus muda seu modo de agir diante de
determinadas circunstâncias?

Precisamos compreender que Deus é um Ser ativo e não está inerte. O que
entendemos como mudança de Deus em determinados textos bíblicos ou situações da vida,
na verdade são apenas reações de Deus a tais circunstâncias e estas não mudam o seu
Ser, ele é imutável, ele é o que é. Suas decisões, atributos, propósitos e promessas
permanecerão inalteradas. Mesmo essas “reações” a tais circunstâncias, estão dentro do
proposito final de Deus.

Desde toda eternidade e pelo mui sábio e santo conselho de sua própria vontade,
Deus ordenou, livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém, de modo que
nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada
a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas.
(WESTMINSTER, 2011, pág. 33).
2.4 ATRIBUTOS COMUNICÁVEIS

São atributos que Deus, por sua livre e perfeita escolha, resolve comunicar ou
compartilhar conosco, ainda que não de forma absoluta, isto é, plenamente. Berkhof sugere
que os atributos incomunicáveis dizem respeito ao absoluto de Deus e os comunicáveis à
Sua natureza pessoal.

Os atributos comunicáveis são tão numerosos que é impossível enumerá-los e


descrevê-los aqui. Se nós quisemos tratar deles adequadamente nós teríamos que
fazer uso de todos os nomes, imagens e comparações que as Sagradas Escrituras
usam para nos dar uma ideia de quem e de que Deus é para suas criaturas e
especificamente, para seu povo. (BAVINCK, 2001, pág. 151).

Destarte, destes atributos podemos destacar: a bondade, misericórdia, santidade,


amor, etc.

2.4.1 Bondade

Grudem dá a seguinte definição para a bondade de Deus: “A bondade de Deus


implica que ele é o parâmetro definido do que é bom, e que tudo o que Deus faz é digno de
aprovação” (GRUDEM, 2010, pág. 143). Semelhantemente, Berkhof afirma que “Deus é a
fonte de todo o bem” (BERKHOF, 2007, pág. 68).

A bondade de Deus é naturalmente refletida na vida de suas criaturas, podendo ser


definida como “a perfeição de Deus que O leva a tratar benévola e generosamente todas
as suas criaturas. É a afeição que o Criador sente para com as suas criaturas dotadas de
sensibilidade consciente como tais” (ibidem).

Nossa bondade, deve estar sempre pautada pela que é demonstrada por Deus. Ele
é o parâmetro pelo qual devemos julgar nossas atitudes, de maneira que possamos
identificar se as mesmas estão de fato sendo boas ou más.

Nosso senso de bondade, é reflexo da bondade de Deus, que nos é comunicada


através da relação que Ele mantém conosco. Diante disso Paulo fala com propriedade: “E
não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos.
Por isso, enquanto tivermos oportunidade, façamos o bem a todos, mas principalmente aos
da família da fé” (Gálatas 6.9).
Embora a bondade não esteja limitada aos cristãos, somente estes gozam de suas
dádivas de forma mais completa, pois a utilizam buscando agradar Àquele que
comunicou-lhes tal benefício.

2.4.2 Misericórdia

Podemos definir a misericórdia Divina como aquele atributo pelo qual Deus se
demonstra compaixão para com todos os que se acham imersos em suas próprias misérias
e desgraças, ainda que seus méritos sejam inexistentes.

Como a misericórdia também é um atributo essencial de Deus, podemos dizer que


ele é eternamente misericordioso. Contudo, a manifestação de misericórdia só foi
possível após o estado de miséria do ser humano. Portanto, a misericórdia sempre
pressupõe pecado. Não se pode entender a manifestação da misericórdia à parte
da queda. (CAMPOS, 2002, pág. 290).

Fala-se da misericórdia Divina em termos de Deus não nos dando o que de fato,
merecemos, ou seja, juízo. Assim, a misericórdia de Deus se manifesta pelo fato de que
Deus não nos trata conforme nossos méritos. Prova disso é a afirmação do profeta
Jeremias, em Lamentações 3.22: “As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos
consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim”.

Este é um atributo comunicável, pois Deus o compartilha conosco e mesmo, exige


que o exerçamos. Vejamos o que nos diz Mateus 9.13.

A prática da misericórdia, deve levar-nos a exercício da compaixão para com todos;


mesmo e sobretudo para com os que mesmo merecem.

Alguns aspectos da misericórdia Divina são:

 Sua amplitude (Salmo 145.8-9);

 Sua pessoalidade (Salmo 51.1; 103.13);

 É eterna (Salmo 103.17; Isaías 54.8);

 São inumeráveis (I Crônicas 21.13; Salmo 119.156);

 É imutável (Isaías 54.10).


2.4.3 Retidão, Justiça

O Antigo Testamento apresenta Deus como Yahweh Tsidkenu )‫)יְ הוָ ָ֥ה צִ ְד ִּֽקנּו‬, Senhor,
Justiça Nossa (Jeremias 23.6). “Esse nome apresenta o Senhor como aquele que é
absolutamente reto por natureza, que não faz nada contra a sua constituição santa”
(CAMPOS, 2002, pág. 91).

Embora para nós retidão e justiça sejam expressões com características diferentes,
no Antigo e no Novo Testamento, elas são sinônimas. Destarte, de maneira a facilitar nosso
entendimento, as utilizaremos no sentido bíblico, ou seja, como tendo o mesmo significado.

Quando afirmamos que a justiça é um dos atributos de Deus, estamos dizendo que
Ele sempre age de modo justo, pois em última análise, Deus é o maior referencial de justiça.
Sendo Ele o parâmetro para todo e qualquer julgamento justo.

Quando Deus nos perdoa os pecados, não nos punindo pelos mesmos,
aparentemente Ele está agindo de forma injusta. Entretanto, ao olharmos para cruz, vemos
a justiça de Deus sendo satisfeita por meio do sacrifício de Jesus Cristo. Ele mesmo “levou
sobre si os pecados de muitos e pelos transgressores intercedeu”, nos diz o profeta Isaías,
no capitulo 53, verso 12 de seu livro.

A ideia fundamental de justiça é a de estrito apego à lei. Entre os homens ela


pressupõe que há uma lei à qual eles devem ajustar-se. Às vezes se diz que não
podemos falar de justiça em Deus, porque não há lei à qual Ele esteja sujeito. Mas,
embora não haja lei acima de Deus, certamente há uma lei na própria natureza de
Deus, e esta constitui o mais elevado padrão possível, pelo qual todas as outras leis
são julgadas. (BERKHOF, 2007, pág. 72).

Em suma podemos afirmar que “tudo o que se conforma ao caráter moral de Deus é
justo” (GRUDEM, 1999, pág. 150).

2.5 OS ATRIBUTOS DE DEUS E SUAS IMPLICAÇÕES

Como seres finitos e limitados que somos, não temos os recursos teológicos,
espirituais, morais e intelectuais necessários para esquadrinhar de forma adequada os mais
diversos atributos de Deus. Não obstante, Ele mesmo revela-se a nós, de forma que
podemos ainda que como uma penumbra, vislumbrar alguns aspectos desses infindos e
incomparáveis atributos Divinos.

Como Deus não está limitado como nós no espaço-tempo, Seus atributos que são
na verdade expressão do seu Ser, não estão e jamais ficarão obsoletos. Diante disso, os
atributos que nos são comunicados, ainda que de forma parcial e não absoluta, devem ser
utilizados para glória do Seu nome, revelando a majestade do Seu Ser, demonstrando a
grandiosidade de Sua existência.

Fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Isso significa dizer que precisamos
enfaticamente revelar seu caráter através de nossas atitudes, pensamentos e palavras.
De forma prática, poderíamos afirmar que a exemplo do samaritano descrito em
Lucas 10.25-37, que vendo uma pessoa necessitada demonstrou-lhe amor, bondade e
misericórdia, precisamos também nós ditos cristãos evidenciar em nosso viver, dia após
dia os atributos que o próprio Deus tem compartilhado conosco.

Em meio às guerras que destroem tantas vidas; à corrupção que campeia aberta e
livremente; de pessoas que morrem por falta de alimento, teto e esperança; temos o dever
urgente de demonstrar misericórdia e amor, estendendo a mão que pode também levar
esperança. Por outro lado, precisamos erguer nossa voz e combater a corrupção e as
guerras que a tantos tem molestado; faz-se necessário, como arautos do Rei, vindicarmos
sua santidade, de forma que seu santo nome seja honrado e seu amor que jamais terá fim
possa ser experimentado por aqueles que não sabem o que é verdadeiramente ser
amados.
3. A TRINDADE

A doutrina da Trindade é certamente uma das mais complexas concepções do


cristianismo, pois refere-se a três pessoas de igual substância ou essência, que subsistem
como um só Ser.

A essência de Deus é o Seu ser. Para ser mais preciso, essência é aquilo que você
é. Sob o risco de soar muito físico, essência pode ser entendida como o “material”
do qual você “consiste”. Certamente estamos falando por analogia aqui, pois não
podemos entender essência de uma forma física em relação a Deus. “Deus é
espírito” (Jo.4.24). Além disso, claramente não devemos pensar em Deus
“consistindo” de outra coisa além da divindade. A “substância” de Deus é Deus, não
um monte de “ingredientes” que misturados produzem a divindade. 8

Somos incapazes de decifrar os mistérios reservados por Deus para sua própria
glória e se intentássemos tal feito, seríamos não apenas insolentes, mas também
incidiríamos num fracasso previamente anunciado. A existência de Deus como Pai, Filho e
Espirito Santo está além de nossa compreensão natural.

A tripla personalidade de Deus é, exclusivamente, uma verdade da revelação, e que


está além do reino da razão natural. A sua altura, profundidade, comprimento e
largura não podem ser medidos, devido ao fato que o finito está a considerar o
Infinito. Querer dar uma explicação completa da natureza de Deus, dentro dos
limites da nossa razão humana, é o mesmo que tentar meter o oceano dentro de
uma chávena.9

Diante das considerações acima, dediquemos algumas linhas a esta tão preciosa
doutrina cristã, ponderando sobre o que foi revelado nas Escrituras acerca do Ser deste
Deus que é Uno, mas também Trino.

3.1 ORIGEM HISTÓRICA DA DOUTRINA

No segundo século da era cristã, Tertuliano (160-220 d.C.), já havia tratado do tema
supracitado. De acordo com Berkhof (2007, pág. 79), “Tertuliano foi o primeiro a empregar

8
http://voltemosaoevangelho.com/blog/2010/06/agnosto-theo-john-piper-o-que-e-a-doutrina-da-trindade-22/
9
http://monergismo.com/loraine-boettner/a-trindade/
o termo ‘Trindade’ e a formular a doutrina, mas a sua formulação foi
deficiente, desde que envolvia uma infundada subordinação do Filho ao Pai”.

Mais tarde, por volta do ano 318, Ário levantaria o conceito de que Cristo teria
sido criado por Deus, sendo, não mais que qualquer homem, mas apenas mais uma
criatura de Deus. Para ele, “como uma criatura, o Logos estava sujeito à mudança
e capaz, pelo menos em princípio, tanto da virtude como do vício, exatamente como os
seres humanos” (WALKER, 2006, pág. 156).

Diante das heresias de Ário e da conturbação provocada por seus conceitos, o


imperador Constantino convocou e presidiu em 325, um Concílio na cidade de Nicéia, que
de acordo com a tradição cristã, teria definido os verdadeiros fundamentos da ortodoxia.

Atanásio, o maior opositor de Ário, obteve então, sua grande vitória, pois no Concílio
de Nicéia, foi promulgada a confissão que afirmava a consubstancialidade do Filho (Logos)
em relação ao Pai.

Nesse Concílio foi elaborado um credo que efetivava suas decisões:

Creio em um Deus, Pai Todo-poderoso, Criador do céu e da terra, e de todas as


coisas visíveis e invisíveis; e em um Senhor Jesus Cristo, o unigênito Filho de Deus,
gerado pelo Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, Luz da Luz, verdadeiro
Deus de verdadeiro Deus, gerado não feito, de uma só substância com o Pai; pelo
qual todas as coisas foram feitas; o qual por nós homens e por nossa salvação,
desceu dos céus, foi feito carne pelo Espírito Santo da Virgem Maria, e foi feito
homem; e foi crucificado por nós sob o poder de Pôncio Pilatos. Ele padeceu e foi
sepultado; e no terceiro dia ressuscitou conforme as Escrituras; e subiu ao céu e
assentou-se à direita do Pai, e de novo há de vir com glória para julgar os vivos e
os mortos, e seu reino não terá fim. E no Espírito Santo, Senhor e Vivificador, que
procede do Pai e do Filho, que com o Pai e o Filho conjuntamente é adorado e
glorificado, que falou através dos profetas. Creio na Igreja una, universal e
apostólica, reconheço um só batismo para remissão dos pecados; e aguardo a
ressurreição dos mortos e da vida do mundo vindouro (ANGLADA, 1998, pág. 180).

Mas, foi somente em 381, no Concílio de Constantinopla que as proposições arianas


foram totalmente rejeitadas, sendo reafirmadas as decisões do Concílio Niceno. Outrossim,
foi ressaltada a divindade do Espirito Santo, sendo reconhecido que ele é da mesma
substância e essência que o Pai e o Filho.
As decisões do Concílio de Nicéia e Constantinopla ajudaram a igreja de Cristo a
balizar sua fé, estabelecendo marcos que até os dias hodiernos matem-se firmes e
certamente se manterão até a volta de Cristo Jesus, verdadeiro Deus e Senhor da igreja.

3.2 CONCEPÇÃO DO TERMO

Como vimos, o termo Trindade, foi empregado inicialmente por Tertuliano, não
sendo, portanto, uma denominação bíblica para definir o Ser Divino. Tal nomenclatura,
embora extra-bíblica, aponta para uma verdade apresentada exclusivamente cristã, visto
que em nenhuma outra religião no mundo, há tal concepção de um Deus que subsiste em
três pessoas distintas, porém coiguais e consequentemente, consubstanciais. Contudo,
talvez, este vocábulo não traduza adequadamente o entendimento cristão acerca do Ser
de Deus, pois pode dar a ideia de que cremos em três deuses e não apenas em um.

Tal nomenclatura, foi questionada pelos opositores desta maravilhosa doutrina, ao


que João Calvino respondeu:

Agora – embora os hereges vociferem a respeito do termo “pessoa”, ou alguns mais


impertinentes alardeiem que não admitem um nome inventado pelo arbítrio dos
homens, uma vez que não podem nos demover de que sejam nomeados três, dos
quais, dos quais cada um é seguramente Deus, e de que não há mais deuses –,
qual não é a improbidade de condenar as palavras que não explicam senão o que
foi atestado e consignado na Escritura? (CALVINO, 2008, pág. 116).

Muito embora não contradiga o reformador genebrino, Stanley Rosenthal faz uma
interessante observação de tal terminologia em um livreto produzido pela Editora Fiel:

Para descrever corretamente o verdadeiro conceito bíblico da natureza de Deus,


deveríamos usar o vocábulo triunidade, em lugar de trindade. O termo triunidade
transmite a ideia de que Deus é um só, ao mesmo tempo em que consiste em três
pessoas. (ROSENTHAL, pág. 2)

Não obstante as informações supracitadas e dado o fato que a terminologia mais


adotada seja Trindade, a usaremos como designativo da subsistência Divina em três
pessoas distintas, mas de igual substância, poder e eternidade. Para tanto e no afã de evitar
uma má compreensão desta afirmação, devemos iniciar nossa abordagem reafirmando a
doutrina Bíblica de que há apenas um Deus (Isaías 44.6).
3.3 MONOTEÍSMO

O monoteísmo é a crença e por que não dizer, a defesa, de que existe apenas um
Deus, indivisível e que é Senhor sobre tudo o que existe.

O cristianismo tem sua base no pensamento judaico antigo e, portanto, traz consigo
alguns conceitos defendidos pelo povo de Deus no Antigo Testamento. Exemplo disto é a
afirmação peremptória de que só há um Deus. Todavia, conforme exposto anteriormente,
entendemos que na Divindade há três pessoas, enquanto que o judeu nega tal realidade.

A pergunta que surge, uma vez que o judeu não crê na Triunidade Divina e nós como
herdeiros de sua teologia não apenas cremos, mas também a defendemos, é: o conceito
concebido pela nomenclatura Trindade é bíblico? Pois como vimos, este nome não aparece
nas Escrituras.

Respondemos a tal indagação citando R. C. Sproul (2013, pág. 65): “Tudo o que a
palavra Trindade faz é expressar, linguisticamente, o ensino bíblico sobre a unidade e a
tri-personalidade de Deus”. Não obstante, devemos ponderar o pensamento judaico acerca
deste assunto.

O entendimento judaico acerca do monoteísmo está baseado na declaração de

Moisés em Deuteronômio 6.4: ‫ְש ַׁ ַ֖מע יִ ְש ָר ֑אל יְ הוָ ָ֥ה אֱ ֹלהַ֖ינּו יְ הוָ ָ֥ה׀ אֶ ָ ִּֽחד׃‬ (Ouve, Israel, o

SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR).

O que devemos levar em conta aqui é que a revelação de Deus é progressiva e


dinâmica. Assim, como veremos adiante, o termo hebraico ‫( אֶ ָ ִּֽחד‬echad), traduzido como
único, é um substantivo que revela uma unidade coletiva. É o caso da congregação de
Israel que voltou do cativeiro babilônico, quarenta e dois mil trezentos e sessenta pessoas,
mas que fazia parte de apenas um único povo (Esdras 2.64).

Rosenthal ressalta que “o incrível é que Shema é uma das mais poderosas
declarações em favor da tri-unidade de Deus que se pode encontrar na Bíblia
inteira” (ROSENTHAL, pág. 4).

Deus é uma Trindade, e todos os atributos divinos aplicam-se a cada membro da


Divindade. Ainda que haja somente um Deus, ele subsiste em três pessoas, cada
uma delas plenamente participante na única essência divina. (CHEUNG, 2003,
pág. 52)
3.4 HERESIAS ACERCA DA TRINDADE

Antes de passarmos a uma defesa bíblica sobre a Trindade, devemos olhar, ainda
que de forma sintética, para alguns conceitos, embora não todos, que surgiram ao longo da
história acerca deste assunto.

3.4.1 Monarquismo

O monarquismo foi uma tentativa de salvaguardar o monoteísmo judaico e surgiu em


meados do século III. Os adeptos de tal teoria, não negavam a deidade de Jesus, contudo,
rejeitavam a ideia de que Pai, Filho e Espirito Santo, fossem a mesma pessoa.

O Dr. Charles Hodge, observa que, “ao negar a pessoalidade do Pai e do Espirito,
com quem cada crente mantinha uma relação pessoal, a quem adoração e orações eram
dirigidas, ela não podia ser recebida pelo povo de Deus” (HODGE, 2001, pág. 340) .

Em pouco tempo essa heresia tomou forma e dois conceitos surgiram a partir de
suas proposições: a) monarquismo modalista ou modalismo; b) monarquismo dinâmico ou
adocionismo.

3.4.1.1 Modalismo

O principal defensor deste conceito filosófico-teológico foi Sabélio, por isso o


modalismo é também conhecido como “Sabelianismo”.

Para os modalistas, Pai, Filho e Espirito Santo são a mesma pessoa, não três. Em
seu ponto de vista, Deus se manifestou inicialmente como o Criador e Legislador,
entregando aos homens, sua Lei; nesta manifestação, ele ficou conhecido como Pai. Como
o homem estava decaído e precisava de salvação, Deus se manifestou como Redentor,
concedendo aos pecadores a redenção de que necessitavam; assim, manifestou-se como
Filho. Contudo, estes pecadores agora redimidos, necessitavam de santificação; destarte,
o mesmo Deus se manifestou como o Espirito Santo, a fim de realizar tal obra.

A pessoa divina que veio a terra como o Jesus encarnado era a mesma pessoa que
havia criado todas as coisas. Quando ele retornou ao céu, assumiu novamente o
seu papel como Pai, mas depois, retornou à terra como Espirito Santo. (SPROUL,
2013, pág. 36).
“O mesmo Deus teria três pseudônimos. Deus é indivisível, não existe comunhão de
três pessoas nele; o que existe é a unicidade divina projetada para nós mediante três modos
diferentes”10.

3.4.1.2 Adocionismo

O adocionismo, assim como o modalismo, procurou preservar o monosteísmo


judaico. Porém, seus conceitos foram rejeitados, uma vez que negavam que Jesus fosse o
Eterno Filho de Deus.

Para os adocionistas, Jesus era um homem comum, mas que em um determinado


momento, talvez em seu batismo, teve sua natureza humana absorvida pelo Filho de Deus,
o Logos.

Felix, bispo de Urgel, foi o grande defensor desta doutrina.

Ele considerava Cristo, quanto à Sua natureza divina, isto é, o Logos, como o
unigênito Filho de Deus no sentido natural, mas considerava Cristo, em Seu lado
humano, como um Filho de Deus meramente por adoção. Berkhof (2007, pág. 283)

Não obstante, os adocionistas rejeitam a eternidade do Logos, tanto quanto a de


Jesus. Para eles, o Logos é a primeira de todas as criaturas de Deus. Portanto, ele não é
Deus, nem igual a Deus. Mas, o Logos foi absolutamente obediente ao Pai e dessa forma,
foi adotado por Deus.

Por isso, é apropriado chamar o Logos de Filho de Deus. Entretanto, ele se tornou
o Filho de Deus dinamicamente. Houve uma mudança. O Logos não foi sempre o
Filho de Deus, e sua filiação foi algo que ele ganhou pelo que fez. (SPROUL, 2013,
pág. 37).

Para os adocionistas, mesmo após ter sido “adotado por Deus”, Jesus não era
detentor de uma natureza Divina, era meramente um homem de caráter nobre e que Deus
chamava de Filho de forma ímpar, ou seja, de modo único e especial.

10
http://www.monergismo.com/textos/trindade/trindade_isaias.htm
3.4.2 Triteísmo

O triteísmo discorda da concepção cristã de que Pai, Filho e Espirito Santo sejam
três pessoas distintas sendo, contudo, um só Deus. Para eles, as três pessoas da Trindade,
são três deuses independentes e autônomos. Para os triteístas, esses três deuses são
apresentados como sendo um único Deus, porque tem o mesmo propósito e caráter.

Na concepção triteísta, Jesus não é o Filho de Deus, mas apenas finge ser. Não há
como um Deus, ser filho de outro. Destarte, o triteísmo não passa de uma distorção da
doutrina bíblica da Trindade, pois nega o fato de que Pai, Filho e Espirito Santo são apenas
um único Deus, da mesma substância e iguais em poder e glória.

Grudem (2010, pág. 183), observa que “poucas pessoas ao longo da história da
igreja defenderam tal concepção, que revela semelhanças com muitas antigas religiões
pagãs que pregavam uma multiplicidade de deuses.

3.5 PROVAS BÍBLICAS DA TRINDADE

Os textos vetero e neotestamentários trazem consigo diversas provas da Tri-unidade


Divina. Temos que compreender, no entanto, que com relação que tais textos não são tão
claros se não forem examinados à luz Novo Testamento. Destarte, vejamos alguns textos
que apontam na direção desta verdade tão gloriosa que como afirma Bavink,

[...] é o coração e o núcleo de nossa confissão, a marca registrada de nossa religião,


o prazer e o conforto de todos aqueles que, verdadeiramente creem em Cristo. Essa
confissão foi a âncora na guerra de tendências através dos séculos. A confissão da
santa Trindade é a pérola preciosa que foi confiada à custódia da Igreja Cristã.
(Apud. LIMA, 2013, págs. 60-61).

3.5.1 Evidências no Antigo Testamento

Conforme vimos anteriormente, o texto veterotestamentário declara, de forma


incisiva, a existência de um só Deus (Deuteronômio 6.4-5; Isaías 44.6).

Embora, não traga consigo a plena e explícita revelação da existência trinitária de


Deus, o Antigo Testamento, contém vários indicativos da mesma. Assim, vejamos, algumas
destas evidências:
Os textos de Gênesis 1.26, 3.22, 11.7 e Isaías 6.8, parecem apontar para uma
conversa intra-Divina, onde Deus estaria tomando conselho consigo mesmo, visto que
nenhuma outra criatura pode ser seu conselheiro (cf. Isaías 40.13-14).

Temos ainda, textos que mostram a ação do Espirito Santo como pessoa, bem como
possuidor de atributos que são característicos do Ser Divino (Juízes 3.10; Jó 33.4;
Isaías 11.2; Salmo 139.7-8).

Ao vislumbrarmos o registro feito por Moisés sobre a criação, mais especificamente,


Gênesis 1.1-2, não encontramos de forma explicita, uma referência à Trindade. Contudo, o
Texto Sagrado nos mostra que o Pai e o Espirito Santo, agiam conjuntamente desde o
início. Outrossim, à luz de João 1.1-3, entendemos que o Filho também se fazia presente
na obra da criação. Outrossim, em um dos seus embates com os judeus, Jesus afirmou
que Abraão se alegrou em ver o seu dia (João 8.56-58); mas quando Abraão teria visto a
Jesus? Certamente, Jesus se referia à ocasião em que o Senhor apareceu a Abraão antes
da destruição de Sodoma e Gomorra e reforça a promessa de um filho (Gênesis 18.1-19).
O apóstolo João, ressalta que Isaías vira a glória de Jesus; mas, quando isto acontecera?
Não há dúvidas de que a referência é à visão que Isaías teve do Senhor (Isaías 6.1-10).

Por outro lado, estudiosos têm defendido que “o Anjo do Senhor” era na verdade
uma Teofania, isto é, uma manifestação visível de Deus (Gênesis 16.7-13, 22.11-18, 31.11-
13; Êxodo 3.1-6; Juízes 2.1). Grudem (2010, pág. 326), observa que,

Esses são claros exemplos em que o anjo do Senhor, ou o anjo de Deus, aparece
como o próprio Deus, talvez mais especificamente como Deus Filho revestido de
um corpo humano por curto tempo a fim de tornar-se visível aos homens.

O Dr. Leandro Lima segue na mesma direção ao afirmar que, “geralmente


associa-se essa figura do Anjo do Senhor com a Segunda Pessoa da Trindade” (LIMA,
2013, pág. 64). Corrobora com essa ideia, textos em que parece haver uma distinção entre
o Anjo do Senhor e o próprio Senhor (Êxodo 23.23; Números 20.16; II Samuel 24.16).

Temos ainda, passagens bíblicas conhecidas como “textos messiânicos” que


apontam para a divindade do Messias prometido, bem como seu cumprimento histórico:
Jesus. Vejamos alguns desses textos: Salmos 2.6-8 (Hebreus 1.5), 45.6-7 (Hebreus 1.8-9),
110.1 (Mateus 22.41-44); Isaías 9.1-7 (Mateus 4.15-16; Lucas 1.32-33); Jeremias 23.5-6;
Miquéias 5.2 (Mateus 2.1-6).
3.5.2 Evidências no Novo Testamento

O Novo Testamento traz consigo uma revelação mais clara das distinções da
Divindade. Segundo Benjamim Warfield, “foi na vinda do Filho de Deus, na semelhança da
carne do pecado, para se oferecer a Si mesmo com um sacrifício pelo pecado; e na vinda
do Espírito Santo, para convencer o mundo do pecado, da justiça e do juízo, que a Trindade
de Pessoas na Unidade da Divindade foi revelada, de uma vez para sempre, aos homens”.

3.5.2.1 A deidade do Espirito Santo

Assim como no Antigo Testamento, o Espirito Santo é apresentado como uma


pessoa distinta e possuidora de atributos Divinos. Destarte, o Espirito Santo:

 Tem vontade própria – Atos 16.7; I Coríntios 12.11;

 Tem sentimentos – Romanos 15.30; Efésios 4.30;

 Intercede pelos santos – Romanos 8.26;

 Consola e ensina os crentes – João 14.26; 16.7-15;

 Fala aos homens – Hebreus 3.7.

Os textos supracitados demonstram que o Espirito é uma pessoa e os que se


seguem revelam sua Divindade.

 Possui atributos Divinos – Romanos 15.18-20; Hebreus 9.14;

 Regenera o homem – João 3.5-6; Tito 3.4-5;

 Inspira as Escrituras – II Timóteo 3.16-17 (cf. II Pedro 1.21);

 É soberano – Atos 15.28; II Coríntios 3.18.

 É chamado de Deus – Atos 5.3-4; II Coríntios 3.17-18;

Até mesmo no primeiro capítulo de Gênesis”, diz o Dr. Charles Hodge, o Espírito de
Deus é representado como a origem de toda a inteligência, ordem e vida, no
universo; e nos livros seguintes, do Antigo Testamento, ele é representado como
sendo o inspirador dos profetas, concedendo sabedoria, força e bondade, a
estadistas e a guerreiros, e ao povo de Deus. Este Espírito não é uma agência, mas
um agente, que ensina e seleciona; um que pode ser entristecido e contra quem se
pode pecar; e que, no Novo Testamento, é revelado, inequivocamente, como uma
Pessoa distinta. Quando apareceu João Batista, vemo-lo falando do Espírito Santo
como de uma Pessoa com quem os seus compatriotas estavam familiarizados,
como um objeto digno de ser adorado, e o Doador de bênçãos divinas e salvadoras.
Nosso Senhor também toma esta verdade como aceite, e promete enviar o Espírito,
como um Paracleto, para tomar o seu lugar; para instruir, consolar e fortalecer, e a
quem deviam receber e obedecer. Assim, sem uma transição violenta, a revelação
mais antiga deste mistério se foi abrindo gradualmente, até que o Deus Trino, Pai,
Filho e Espírito Santo, aparece no Novo Testamento como Deus universalmente
reconhecido por todos os crentes. (Apud. BOETTNER, pág. 21).

3.5.2.2 A deidade de Jesus Cristo

A divindade de Jesus foi negada pelos hereges monarquistas no século III e


considerado como inferior ao Pai pelos subordinacionistas do século II, sendo esta doutrina
rejeitada no século seguinte no Concílio de Nicéia.

Como vimos anteriormente, os textos de Hebreus 1.5, 1.8-9; Mateus 2.1-6, 4.15-16,
22.41-44 e Lucas 1.32-33, são a comprovação histórica do cumprimento das profecias
acerca do Messias e não apenas isto, ratificam ainda a deidade de Jesus, o Filho de Deus.
Mas, Jesus não é apenas o cumprimento de antigas profecias, senão o próprio Deus.

O apóstolo João fala com clareza acerca da divindade de Jesus, tanto em seu
Evangelho, quanto em seus escritos posteriores (João 1-3 e 14, 5.18-23, 14.8-9, 20.24-28;
I João 1.1-3, 2.22-23, 5.20; Apocalipse 1.1-8, 17.14 (cf. Salmo 136.3), 21.1-7, 22.12-17).

Os Evangelhos sinóticos também falam da divindade de Jesus (Mateus 9.6, 11.1-6,


14.33, 16.16-17, 25.31-46; Marcos 8.38, 9.2-8, 15.39; Lucas 1.31-33, 39-41).

Os demais escritores do Novo Testamento corroboram a divindade de Jesus


(Romanos 9.5; II Coríntios 2.8; 5.10 (cf. Romanos 14.10); Filipenses 2.5-8; Hebreus 1.1-8;
Tiago 1.1; II Pedro 2.1).

3.6 A UNIDADE DA TRINDADE

As Escrituras não apenas falam da divindade das Pessoas da Trindade, mas revelam
também, que existe a unidade existente entre elas.

 No batismo de Jesus – Perceba que no batismo de Jesus, as três pessoas da


Trindade estão envolvidas. Quando Jesus sai da água, o Espirito Santo desce
em forma de pomba e o Pai fala dos céus: “Este é o meu Filho amado, em
quem me comprazo” (Mateus 3.13-17). As três Pessoas da Trindade estão
presentes simultaneamente neste evento.

 Na formula batismal – Após sua morte e antes de sua ascensão aos céus,
Jesus orientou seus discípulos quanto à sua missão, ordenando-lhes
batizarem em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo (Mateus 28.18-20).
Mais uma vez, as Pessoas da Trindade aparecem como uma unidade.

 Na benção apostólica – Ao abençoar a igreja de Corinto, o apostolo Paulo


invoca as pessoas do Pai, do Filho e do Espirito Santo (II Coríntios 13.13),
evidenciando assim, a unidade existente na Trindade Santíssima.

 Na salvação e santificação – É de suma importância percebermos que a


unidade existente na Trindade vai além de momentos específicos. Ao
examinarmos I Pedro 1.1-2 e Judas 20-22, percebemos que a Trindade está
inteiramente envolvida, na salvação e em todo o processo de santificação do
servo de Deus.

Outros textos que igualmente expressam tal unidade são:

 João 10.30 – Jesus afirma explicitamente que ele e o Pai são um,
demonstrando assim, sua Divindade e unidade com o Pai.

 João 14.8-9 – Jesus diz a Filipe que quem o vê, vê o Pai e que suas obras
são as obras do Pai.

 João 14. 16 e 23 – Aqui vemos que tanto o Espírito Santo prometido por Jesus
como Ele mesmo e o Pai viriam e fariam morada nos discípulos. Isso nos
mostra claramente a unidade existente na Trindade.

 Efésios 4.4-7 – Este texto revela que a unidade da igreja está fundamentada
na Santíssima Trindade.

 I João 5.7 – Este certamente é o texto mais claro acerca da unidade e


existência da Trindade.

As palavras de Irineu de Lion, considerado “o pai da ortodoxia cristã”11, expressam


de forma ímpar a unidade existente na Trindade:

11
http://www.mackenzie.br/6930.html
Portanto, não foram os anjos que nos plasmaram – os anjos não poderiam fazer
uma imagem de Deus – nem outro qualquer que não fosse o Deus verdadeiro, nem
uma Potência que estivesse afastada do Pai de todas as coisas. Nem Deus
precisava deles para fazer o que em si mesmo já tinha decretado fazer, como se ele
não tivesse suas próprias mãos! Desde sempre, de fato, ele tem junto de si o Verbo
e a Sabedoria, o Filho e o Espirito. É por meio deles e neles que fez todas as coisas,
soberanamente e com toda a liberdade, e é a eles que se dirige quando diz:
“Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. (Apud. FERREIRA e MYATT,
2007, pág. 165).

3.7 ASPECTOS TEOLÓGICOS

Para uma adequada compreensão da doutrina da Trindade, precisamos abordar,


ainda que suscintamente, dois aspectos: ontologia e economia da Trindade.

3.7.1 Trindade Ontológica

Afirmamos anteriormente que o Pai, o Filho e o Espirito Santo são três pessoas, com
personalidade distinta12, mas da mesma substância ou essência. Isto implica em dizer que
não há uma relação de subordinação do Filho para com o Pai, ou do Espirito quanto ao
Filho. A este respeito o Dr. Leandro Lima (2013, pág. 68), observa que:

Dentro da Trindade existe absoluta igualdade de essência, logo, não existe qualquer
grau de subordinação, nem mesmo de honra. O Pai não é maior em essência do
que o Filho e nem o Filho maior do que o Espirito Santo. O Pai não deve ser mais
adorado do que o Espirito, ou o Espirito mais do que o Filho.

Quando falamos em Trindade Ontológica, nos referimos à relação existente entre o


Pai, o Filho e o Espirito Santo, dentro do Ser Divino (opera ad intra). A este respeito Berkhof
(2009, pág. 85), ressalta que “são operações pessoais, não realizadas pelas três pessoas
juntas, e são incomunicáveis”. Destarte, na Trindade Ontológica, é papel exclusivo da
Primeira Pessoa, ser Pai; semelhantemente é papel privativo da Segunda Pessoa, ser
Filho; bem como é prerrogativa da Terceira Pessoa, ser o Espirito enviado.

12
Campos descreve uma personalidade sucintamente como consistindo da presença de: autoconsciência (capacidade
de estar consciente de própria identidade, de saber quem ela é); inteligência (capacidade de relacionar as coisas, de
estabelece metas e atingi-las inteligentemente); autodeterminação (elaboração e execução de plano); afeições
(capacidade ter afeições ou sentimentos). (Apud. CORDEIRO, 2008, pág. 29).
Em termos mais simples, quando fazemos referência à Trindade Ontológica,
enfatizamos que cada Pessoa da Trindade tem um papel definido e exclusivo. Contudo,
precisamos ressaltar o fato de que mesmo tendo papeis distintos, as três Pessoas da
Trindade trabalham em plena harmonia.

3.7.2 Trindade Econômica

Se quando falamos em Trindade Ontológica, ponderamos sobre Sua ação dentro do


Ser Divino (opera ad intra), ao nos referirmos à Trindade Econômica, tratamos de Sua
relação quanto à criação (opera ad extra) ou como diz Berkhof (2009, pág. 85): “são as
atividades e efeitos pelos quais a Trindade se manifesta exteriormente”.

Conforme vimos, na Trindade Ontológica, o papel de cada Pessoa é distinto.


Contudo, em seu aspecto econômico, as Pessoas da Trindade estão envolvidas numa
íntima aliança entre si, de forma a realizar sempre, a vontade uma da outra. Portanto,
mesmo que suas funções sejam distintas, todas as Pessoas da Trindade operam em plena
comunhão. Assim:

Devemos evitar a formulação simplista de que o Pai é o responsável pela Criação,


o Filho pela Redenção, e o Espirito pela santificação, pois a Trindade participa
conjuntamente de tudo isso. A distinção que podemos fazer é a seguinte: Ao Pai
pertence mais o ato de planejar, ao Filho o de mediar, e ao Espirito o de agir. (LIMA,
2013, pág. 70).

É mediante, a compreensão do que é a Trindade Econômica que algumas


afirmações de Jesus passam a fazer sentido para nós. Vejamos alguns exemplos:

 O Pai é maior do que eu (João 14.28) – Se Jesus é igual ao Pai em essência


como, pois, pode o Pai ser maior do que ele? A explicação se encontra no
fato de que Jesus não está falando sobre sua natureza ou substância, mas
sobre sua encarnação, ou seja, a função que está exercendo naquele
momento não em relação ao Ser Divino (opera ad intra), mas em relação à
criação (opera ad extra), providência e redenção. Comparemos o texto de
João 14.28 com II Coríntios 8.8-9; Filipenses 2.8-11; Hebreus 12.1-2.

 Deus é o cabeça de Cristo (I Coríntios 11.3) – Paulo está falando aqui sobre
a submissão da esposa ao marido e para fundamentar sua proposição, ele
aponta para a submissão de Cristo a Deus (Pai). Por vezes, há confusão na
interpretação deste texto, por se pensar em inferioridade de uma pessoa em
relação à outra. Contudo, Paulo não está ensinando aqui que a mulher é
inferior ao homem ou que Cristo seja inferior a Deus Pai. Sua proposição se
refere à função exercida por um e por outro.

Precisamos, contudo, evitar que nossas mentes se percam na divagação, caindo na


heresia nestoriana de pensarmos que Jesus, em algum momento deixou de ser Deus para
ser homem, pois o Ser Divino é indivisível e Jesus foi plenamente Deus e absolutamente
homem.
Conclusão

Diversas teorias foram formuladas ao longo do tempo para classificar os atributos de


Deus. Não obstante, apenas duas permanecem firmes, balizando nossas proposições e
impedindo-nos de cairmos no despenhadeiro das heresias.

Embora diferentes terminologias sejam usadas, a verdade inabalável de Deus,


permanece. Assim, mesmo diante da incapacidade humana de relacionar e compreender
adequadamente os atributos Divinos, precisamos pela fé e ainda pelas provas
escriturísticas aceitar o fato de que Deus é imutável, sua misericórdia não tem fim e seu
amor é eterno e inigualável.

Ainda que homens se levantem a afirmar que Deus não existe, eles jamais poderão
fazê-lo de forma isenta, pois a ideia da existência de um Ser Superior lhes é inata,
porquanto o homem traz consigo a sêmem religionis (semente da religião). Também não
poderão afirmar, sem que estejam absolutamente equivocados, que é impossível conhecer
a Deus, pois o apóstolo Paulo afirma em Romanos 1.19-20: “porquanto o que de Deus se
pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos
invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade,
claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das
coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis”.

Diante de tudo isso, concluímos que por mais que os homens tentem em sua
digressão e antropocentrismo negar a Deus, negando-Lhe a glória devida, ainda assim, a
revelação geral e a revelação especial, estarão prontas a testemunhar contra eles.

Também percebemos que os atributos de Deus nos são comunicados para que sua
glória seja manifestada por toda a terra e que ainda que não os compreendamos, eles
jamais se chocam, antes existem em perfeita harmonia, pois não são partes, senão próprio
Ser de Deus.

Testemunha conjuntamente com tais fatos a Escritura que nos ensina que Deus é
único sendo, contudo, Triúno. E esta triunidade não faz Dele três deuses, ou mesmo um
único Deus com diferentes manifestações ou ainda, gera subordinações entre as pessoas
da Trindade. Ele é e sempre será o Deus único e verdadeiro que subsiste em três pessoas,
de igual poder, honra e gloria. Sendo assim, a Trindade sempre existiu. O Pai é eternamente
Pai, o Filho é eternamente Filho e o Espirito Santo é eternamente o Espirito Santo.
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