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MARIA CRISTINA OLIVEIRA BRUNO

KÁTIA REGINA FELlPINI NEVES


Coordenadoras
MARIA CRISTINA OLIVEIRA BRUNO
KÁTlA REGINA FELlPINI NEVES
Coordenadoras

MAX
MUSEU DE AROUEOLOGIA DE XINGÓ

S ADE FEDERAL DE SERGIPE


PETROBRAS
CHESF

ili
Apresentação 7

PRIMEIRA PARTE:CONCEITOS,TRAJETÓRIASE MUDANÇAS

1 Museus e Desenvolvimento Local: um balanço crítico 11


Huçhes de Varine-Bohan
Consultor Internectonal sobre Desenvolvimento Local

2 Mudança Social e Desenvolvimento no Pensamento da Museóloga


Waldisa Rússio Camargo Guarnieri: textos e contextos 21
Maria Cristina Oliveira Bruno
Museu de Arqueoloçie e Btnoloçia - MAE/llSP
Andrea Matos Fonseca
Kátía ReS2inaFelipini Neves
Curso de Especialização em Museoloçia - CEMMAE/llSP

3 A Radiosa Aventura dos Museus 41


Mário de Souza Chagas
llntversidede Federal do RÍo de Janeiro - UnÍRÍo/
Departamento de Museus e Centros Culturets do Iphan

4 As Ondas do Pensamento Museológico: balanço sobre a produção brasileira 53


Manuelina Maria Duarte Cândido
Museu da Imaçem e do Som - MIS/CE

5 ,Que Puede Hacer Ia Arquitectura por los Museos? 73


Juan Carlos Rico
EI Centro Superior de Arquitecture de Medrid

6 Evaluación en Museos y Desenvolvimiento Social:


presupuestos téoricos y metodológicos 91
Felipe Tirado Seçura
llniversidede Autónoma de México - UNAM

5
SEGUNDAPARTE:EXPERIÊNCIAS, PROPOSTASE PERSPECTIVAS

1 Acessibilidade, Inclusão Social e Políticas Públicas:


uma proposta para o Estado de São Paulo 115
Amanda Pinto da Fonseca Tojal
Pinacoteca do Estado de São Paulo

2 Participação e Qualidade em Museus:


o caso do Museu do Trabalho Michel Giacometti 137
Isabel Victor
Museu do Trabalho Michel Giacometti

3 Museus, Exposições e Identidades: os desafios do tratamento


museológico do patrimônio afro-brasileiro 157
. Marcelo Nascimento Bernardo da Cunha
Universidade Federal da Bahia - UFBA/ Museu Airo-Brasileiro

4 O Museu dos Povos Indígenas do Oiapoque - Kuahí:


gestão do patrimônio cultural pelos povos indígenas do Oiapoque, Amapá 173
Lux Boelitz Vidal
Universidade de São Paulo - USP

5 Memória e Movimentos Sociais: o caso da Maré 183


Cláudia Rase Ribeiro da Silva
Museu da Maré, Rio de Janeiro

& Memorial da Resistência: perspectivas interdisciplinares


de um programa museológico 195
Maria Cristina Oliveira Bruno
Museu de Arqueoloçta e Iitnoioçia - MAE/USP
Maria Luíza Tucci Carneiro
Universidade de São Paulo - USP
Gabriela Aidar
Pinacoteca do Estado de São Paulo

Perfil dos Autores 205

fi
Primeira parte
CONCEITOS, TRAJETÓRIAS E MUDANÇAS
Museus e Desenvolvimento Social:
balanço crítico!

• HUGUES DE VARINE-BOHAN

INTRODUÇÃO
t a ição museolóçíca mundial. tal qual é representada pelo ICOM e tal
I é re etida por diferentes leis nacionais que regulamentam a instituição
e um museu. qualquer que seja a sua disciplina (arte. ciência. história.
I gia etc) é constituído em torno de uma coleção que ele se serve para
orhpletar, conservar. estudar. apresentar... Para a maior parte dos teóricos.
dos profissionais e dos administradores. um museu não existe que para e pela
sua coleção.

Esta coleção. que é arbitrada pelo museu. deve ser aberta a um "público". isto
é. aos visitantes. Há dois séculos. o público era constituído de artistas e de
letrados. profissionais ou amadores. Depois. os progressos do nível de vida e da
educação trouxeram ao museu um número que não pára de crescer de mem-
bros de classe média e de escolares. Enfim. os grandes museus de arte e os
pequenos museus locais entraram na era do turismo de massa. ao ponto que o
turista nacional ou estrangeiro procura ocupar o lugar no museu do visitante
local. 70% de visitantes de exposições permanentes do Musée du Louvre em
Paris são de estrangeiros. enquanto que 20% ao menos são de escolares que
vêm em grupo.
HUGUES DE VARINE-BOHAN

Por diferentes razões - patrimônio em natural. Eles se referem habitualmente


moda. impulso do turismo - o número de à Declaração dita "de Santiago" (Mesa
museus explodiu em quase todos os países. Redonda da UNESCO realizada em
enquanto que as lJrandes instituições se tor- Santiago do Chile. 1972).
naram sempre maiores. mais ricas. então
mais caras. Mas não podemos esquecer que as três
lJrandes cateqorías de museus - de arte. de
Esta evolução. que é claramente marcada história e de ciências - há muito tempo. mas
pelo prestígio e por proqrarnas dos lJrandes sobretudo nos últimos vinte anos. fazem es-
museus de arte nos países com forte atração forços consideráveis para melhor servir às
turística. conheceu. há 50 anos. de início populações que não fazem parte habitual-
com exceções. posteriormente. há uns trinta mente de seus "públicos": desenvolvem dinâ-
anos. movimentos de idéias e de práticas que mica de "mediação". que diferem notada-
se distanciam da norma dominante. Três des- mente das práticas antíças das visitas "lJuia-
ses movimentos podem ser notados como das". que procuram se adaptar às culturas vi-
particularmente inovadores e portadores de vas dos visitantes para facilitar o contato
problemáticas novas. com a exposição. e também cada vez mais
adaptar a exposição à diversidade de seus
Numerosos museus. nos novos países visitantes.
independentes e em lJeral em vias de
desenvolvimento ou "emerqentes", vi- Apresentar a questão da relação do museu
sam explicitamente ou implicitamen- com o desenvolvimento. e mais particular-
te ao reforço da independência cultu- mente à dimensão social de seu desenvolvi-
ral. da identidade local. reçíonal, naci- mento. é então procurar determinar. a partir
onal. a educação das novas lJerações e de práticas profissionais e institucionais. a
a proteção do patrimônio endóqeno atitude dessas diferentes cateçorías de mu-
contra os vandalismos e os tráficos; seus com a sociedade que os circunda. em
um modelo é o Musée National de função dos objetivos políticos e culturais que
Níamey (Níçer) nos anos 60. eles se dão ou que Ihes são impostos. e não
mais como no passado. a partir da natureza
Os museus nascidos de reivindicações de suas coleções e das competências de suas
locais. culturais ou sociais. mas sobre- responsabilidades científicas. Porque as cole-
tudo políticas. da parte das popula- ções se tornaram aqui essencialmente o ma-
ções oprimidas ou marginalizadas terial com o qual o museu poderá. ou não.
(minorias étnicas. comunidades au- servir à sociedade. como seu staff científico
tóctones. territórios em crise mineira e cultural poderá. ou não. ser um ator cons-
ou industrial); um exemplo neste caso ciente e eficaz do acompanhamento cultural
é o Anacostia Neiçhborhood Museum. da mudança desta sociedade.
em WashinlJton DC (Estados Unidos).
Mas isso não é suficiente: é necessário se
Enfim. a lJrande família dos museus perguntar qual é o Iuqar que a sociedade
comunitários. muitas vezes chamados ocupa nesses museus. se ela os considera
ilJualmente eco museus. que. desde os como verdadeiros meios de desenvolvimen-
anos 70. tentam criar sobre territórios to. ou se ela os deixa em um Iuqar de consu-
determinados. urbanos e rurais. dinâ- mação cultural. para proveito das elites do
micas culturais de desenvolvimento Ii- território. dos lJrupos escolares enquadrados
lJadas ao patrimônio local. cultural e e dos turistas. Porque é também a todo o cor-
MUSEUS E DESENVOLVIMENTO SOCIAL

po social e às estruturas institucionais ou pri- responsabilidade social de seus fundadores,


vadas que o estruturam que o museu deve se salvo para certos !iIrandes museus privados
dirigir para lhe propor novos papéis e lhe da América do Norte. No mais, a focalização
pedir novos serviços. da museoloqía tradicional sobre suas cole-
ções e sobre o crescimento do público em
Com a finalidade de limitar a dimensão termos quantitativos para justificar os orça-
deste ensaio, tratarei sucessivamente três mentos mais e mais exíçentes. não deixa
conjuntos simples: quase luqar às preocupações mais imediatas,
que consistiriam em se interessar pelas popu-
Os !iIrandes museus, cujo território é lações locais menos "cultas" (que se qualifica
muito vasto (mundial. nacional. reçío- na França como o "não público", o que é a
na!) e cuja coleção não é sempre re- prova de sua invísíbilídade), salvo para aco-
presentativa do território; lher o público cativo dos !iIrupos escolares
Os museus locais cujo território é mais em visitas orçanízadas.
ou' menos nitidamente limitado ao
ambiente próximo ou a uma temática Por outro lado, muitos museus clássicos, a
específica (uma indústria, um sitio his- partir dos impulsos dados de início pelos
tórico ou natural. por exemplo); museus científicos, técnicos ou industriais,
As instâncias locais de desenvolvi- têm proçressívamente adotado, mesmo à
mento social. educatívo e sócio-cultu- margem de suas estratégias e proçramas, as
ral em suas relações com os museus perspectivas da "mediação", visando adaptar
que Ihes são próximos. os seus métodos de comunicação, de condu-
ção, de educação a diferentes públicos, com
Meu ponto de vista será essencialmente os objetivos claramente sociais: ínteçração
aquele de um desenvolvímentísta porque, se cultural de populações imíçrantes.
eu sou há muito tempo um observador interes- mobilização cívica, informação ou mesmo
sado na evolução dos museus e da Museoloçía, consulta sobre políticas públicas, acolhimen-
eu penso que é interessante levar em conta o to de pessoas portadoras de deficiências etc.
olhar de um profissional do desenvolvimento Desde os anos 1960, o brooklyn Children
e das relações entre os diferentes atores deste. Museum ou o serviço sueco de exposições
itinerantes Riksutstallnin!iIar trabalham sobre
temas como o conhecimento de outras cul-
OS GRANDES MUSEUS PODEM, OU DEVEM, SE turas e a compreensão dos problemas do de-
OCUPAR DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL? senvolvimento que emerçern de públicos
numerosos ancorados em suas comunidades
Tudo depende dos seus objetivos, ou dos e em suas culturas vivas. Mais recentemente,
objetivos que Ihes são atribuídos pelas auto- no último decênio, os museus municipais de
ridades de tutela. Se se trata apenas de pro- Lyon aderiram e participam ativamente da
mover a arte, a cultura, a ciência para um convenção que li!iIaas principais instituições
público culto, ou de se projetar para o turis- culturais da cidade com as políticas de reçe-
mo em massa, ou para contribuir para a ima- neração urbana da área metropolitana. A
!iIem ou para o prestíçío da cidade, de uma Smithsonian Institution em Washin!iIton - DC
autarquia, de um mecenas ou de um intelec- permitiu e financiou a criação do célebre
tual. é difícil falar de desenvolvimento social museu afro-americano de Anacostia. ao pas-
ou do interesse da sociedade em seu conjun- so que, nos anos 70 e na linha estabeleci da
to. Aliás, é raro, historicamente, que os mu- em Santiago. o Museu Nacional de Antropo-
seus tenham sido criados sob os cuidados da Ioçía do México experimentou, com o proje-
HUGUES DE VARINE-BOHAN

to "La Casa deI Museo", um serviço díríqído zação estruturada. pesada e complexa. como
aos bairros pobres da periferia da cidade. é um lJrande museu artístico ou científico. a
Mais recentemente. é o Museu Imperial de se preocupar com uma lJrande parcela da
Petrópolis que se ençajou na política de edu- população local que não tem o desejo de
cação patrimonial e de participação no de- entrar nestes templos de saber. nem o conhe-
senvolvimento urbano. díríçida especial- cimento dos códígos intelectuais necessários
mente para a população do seu entorno. O à compreensão daquilo que se encontra em
Musée Dauphinois de Grenoble conduz há seu interior. Esta população não tem uma
mais de trinta anos uma ação contínua e ex- demanda explícita a ser confrontada com
pressiva a serviço de todos os seçmentos da uma oferta pré-existente. capaz de
população. não somente de Grenoble. mas redefinir o projeto.
também da reçião "Dauphíné" e dos Alpes
franceses. Notaremos nestes exemplos. como É porque. em lJeral. há uma satisfação em
em outros casos. a participação entusiasta do anunciar uma vontade de "democratização
conjunto de profissionais nos métodos e nas cultural". onde a oferta cultural é suposta-
atividades que não são habitualmente consi- mente apropriada pelo conjunto da popula-
deradas e inseridas nas normas museolóqí- ção. com menos esforços de comunicação ou
cas e museoçráfícas habituais. de orientação do público. sem uma verdadei-
ra mudança profunda. ou ainda da pedaçoçía
A iniciativa desses projetos. proçrarnas, díríçida ao público escolar. na esperança de
ações. surçern lJeralmente de personalidades que a visita orqanlzada (obrtçatóría) das crian-
fortes. quer seja dos responsáveis pelo mu- ças ao museu alqumas vezes durante o seu
seu. quer seja dos membros do seu serviço período escolar seja suficiente para atrair seus
"educatívo". Para nomear aqueles inovado- pais ou para que voltem ao museu quando
res que não estão mais em atividade. eu cita- adultos. São pressupostos que. do meu ponto
rei a cooperação exemplar entre S. DilIon de vista. jamais foram realmente verificados.
Ripley. diretor lJeral da Smithsonian
Institution. e John Kinard. fundador do Outro elemento que me parece importan-
Musée d Anacostia. ou entre Boubou Hama. te e que pode explicar bem as incompreen-
presidente da Assembléia Nacional do Níqer; sões e os erros de orientação: o desenvolvi-
e Pablo Toucet. criador do Musée National mento social é uma tarefa coletiva. que im-
de Níamey A conjunção entre museu e de- plica as comunidades. as famílias. as associa-
senvolvimento social não existe em si. ela ções de maneira mais ou menos solidária. A
exíçe uma força de vontade e perseverança. prática cultural "social" é de início uma prá-
para vencer as forças contrárias: de uma parte tica coletiva. de esporte. de festa. de lazer.
inércia ou mesmo hostilidade dos profissio- Quando se vai ao museu. se vai em casal. em
nais obcecados pela coleta e pela pesquisa. família ou entre arníços. O discurso e a práti-
ou ainda. pela desconfiança de responsáveis ca dos profissionais de museu consideram
políticos e administrativos preocupados com seçuídamente o "visitante" como um indiví-
a rentabilidade e com a comunicação. mas duo só (isto é. um amador motivado que
também do ceticismo dos alJentes sociais que vem ao museu por razões pessoais) ou como
vêem tradicionalmente nos museus uma ins- o membro de um lJrupo orçanízado, escolar.
tituição empoeirada e reservada pra o delei- de idosos ou de turistas. mais ou menos dis-
te de uma "elite" de prívíleçíados da cultura. ciplinados e que vai "seguir o lJuia".

É necessário confessar que não é nem evi- Pesquisas recentes verificam esta distância
dente e nem fácil levar à frente uma orçaní- entre a oferta do museu e a maioria da popu-
MUSEUS E DESENVOLVIMENTO SOCIAL

lação. dificultando a emerçêncía de um "pú- nente. Eles não podem absolutamente imitar
blico" culto. os SJrandes museus. Pelo contrário. eles têm a
possibilidade de fixar objetivos políticos.
Há então um 10nSJocaminho a percorrer educatívos. culturais ou sociais autônomos.
pelos SJrandes museus seçuíndo o exemplo menos dependentes dos imperativos da co-
daqueles que já demonstraram que é possí- leta. da pesquisa. da conservação que as
vel desempenhar um papel no desenvolvi- SJrandes instituições. Em SJeral. são
mento social e cultural das comunidades do pluridisciplinares e têm uma proximidade
seu entorno: a intuição dos participantes de fácil com a população (ou a comunidade)
Santiaço, que expressou no conceito de que eles servem. Suas responsabilidades são.
"museu integral" desenvolvido nas resolu- talvez. menos qualificadas que a de seus co-
ções adotadas. isto é. um museu que deve Ieqas das SJrandes cidades. mas localmente
levar em consideração a totalidade da socie- eles são "notáveis". que têm ou podem ad-
dade na qual ele está inserido. para se colo- quirir uma influência. Eles são atores da vida
car a seu serviço e se orçanízar em conseqü- local. Eles têm acesso fácil aos políticos. aos
ência. e fica claro para os museóloços cons- outros responsáveis das instituições culturais
cientes que o seu IUSJarna sociedade e o dos e sociais. eles são atores da vida local. Aque-
açentes sociais é o de buscar um conjunto de les que têm um estatuto assocíatívo. contrari-
soluções provenientes de uma observação e amente aos SJrandes museus institucionais.
de uma escuta das comunidades do entorno. têm conselhos de administração. com mem-
bros voluntários ativos. que devem ter em
Os Museus Locais conta seus contextos cultural. social. econô-
mico. e são estreitamente Iíqados ao seu ter-
falarei aqui de museus locais em SJeral. ritório.
aqueles que são de uma maneira ou de outra
vinculados a um território. vila. pequena re- Eles têm então naturalmente a tendência
SJião. cidade. bairro. sítio industrial. parque de buscar uma nova via: sob sua pressão. o
natural. e não exclusivamente de museus movimento mundial chamado Nova Museo-
atrelados ao que se entende de "nova 10SJia.que teve início por alçuns "SJrandes"
museolocía". Com efeito. esta tendência mu- museóloqos nos anos 1970. é proçressíva-
seolóçíca já está contemplada em seus textos mente dotado de uma concepção mais soci-
fundadores e em suas práticas cotidianas. e al e política de museu: é o museu comunitá-
são referências fortes para as comunidades. rio. o ecomuseu. ou ainda o museu de terri-
ao desenvolvimento SJlobal e sustentável. tório. que se vê um aqente e um ator
Mas esses ecomuseus. museus comunitários. patrimonial e cultural do micro-desenvolví-
ou outros são ainda uma minoria. mesmo mento dos territórios. Mesmo que se trate de
que nos últimos trinta anos têm-se multipli- um movimento mundial. dívulçado açora
cado em quase todos os países do mundo os em todos os continentes. cada unidade local
museus de iniciativa local. sob estatutos mui- é oriqínal, pode-se dizer única. pois ela deve
to variados. Para se desenvolver. eles são - se adaptar à interação complexa dos fatores
ou deveriam ser - um interIocutor institucio- e dos múltiplos parceiros. seçundo as confi-
nal natural à dimensão do território. uma SJurações cada vez mais diferentes. e mesmo
ferramenta cultural para a valorização do evolutivas, para se adaptar às mudanças
capital patrimonial deste território. endóçenas e exóqenas.

Esses museus são SJeralmente pequenos. Esses museus demonstraram e demons-


têm poucos meios e pouco pessoal perma- tram cotidianamente a sua utilidade para o
HUGUES DE VARINE-BOHAN

desenvolvimento local. propondo estruturas, tomam o essencial da tradição


técnicas e métodos para a exploração dos "ecornuseal" sem nem sempre respei-
três recursos principais do território: o capi- tar a Iógíca de processo e a relação
tal cultural. constituído pelo patrimônio cul- fundadora com a comunidade.
tural e natural. na sua concepção ~Iobal e na
sua relação permanente com as culturas vi- - Os museus que não buscam (ou não
vas dos habitantes; o capital social. que se ainda) sua afiliação a uma rede
enraíza no cenário do patrimônio e da cultu- estruturada e a um corpo de doutrina
ra partilhada, mas de onde se retira os ele- mais ou menos obríçatórío. Esses mu-
mentos de identidade, de responsabilidade, seus têm seu próprio caminho e são
de cooperação, de trocas, de confiança; en- fortemente identificados à pessoa ou
fim, o patrimônio econômico, na medida ao ~rupo que os fundou. Encontram-
onde o patrimônio é ao mesmo tempo fonte se em numerosos países e têm muitas
de produções e transformações endóçenas, vezes dificuldades, dadas ao seu não
um meio de difusão e uma atração para a conformismo em relação às normas
indústria do turismo exóçeno, oficiais ou ao seu isolamento. Encon-
tra-se no Brasil (Santa Cruz), na Índia
Acredito poder distinguir várias tendênci- (Chaul-Revdanda), na África (o mu-
as fortes neste mosaico de pequenos museus seu-banco cultural de Fombori, no
locais: Mali), no Canadá (certos museus
oriundos das comunidades autócto-
- os museus que qualificarei de ideoló- nes, elas mesmas sem intervenção di-
~icos, sem que este termo seja levado reta de conselheiros externos).
no sentido pejorativo e crítico. São
iniciativas que seçuem uma doutrina - Como a maior parte dos museus aci-
mais ou menos formalizada, como os ma descritos, se não todos, acham-se
museus comunitários mexicanos. Eles no meio rural. é preciso dar um Iuçar
buscam ~eralmente se dar definições à parte aos museus ou ecomuseus ur-
comuns, a oferecer uma formação banos que representam o movimento
profissional a seus assalariados ou a da Nova Museoloçia em face dos anti-
seus voluntários, a se a~rupar em uma ~os "museus de cidade", em que eles
rede. É também o caso na França, para se vêem estreitamente associados à ci-
os ecomuseus e "museus de socieda- dade atual e a sua evolução
de" que formaram uma federação na- (ecomuseu do Fier Monde, em Mon-
cional. ou em Portugal. onde a Nova treal. eco museu do Vai de bíêvre. pró-
Museoloqia é dotada há vinte anos de ximo à Paris). Esses museus buscam
uma dimensão social e de uma disci- soluções oriqinais à necessidade de
plina universitária particular, a Socio- construir os pontos entre os responsá-
museoloçía. veis pelo urbanismo que conduzem as
mudanças da forma da cidade e do
- as redes de ecomuseus sustentadas e Iuçar da vida dos habitantes, e esses
por vezes mesmo iniciadas pelas ad- mesmos habitantes, para lhe permitir
ministrações nacionais ou reçíonaís compreender essas mudanças e talvez
(China, Itália). São iniciativas políticas, mesmos de acompanhá-Ias. A experi-
fortemente Ii~adas a objetivos de de- ência, ainda não transformada em
senvolvimento turístico e a dispositi- museu, da Expedição São Paulo 2004,
vos de financiamento público, que re- foi um modelo metodolóqíco, como
MUSEUS E DESENVOLVIMENTO SOCIAL

foi em seu tempo (anos 1960) o recuos, porque ele vive. É isto que o distin-
Neiçborhood Museum dAnacostía SJue do museu de coleção, inserido em um
(WashinSJton). edifício mais ou menos solene, que é para a
cultura viva, aquilo que a produção fora do
Enfim, é preciso não esquecer das iniciati- solo de moranqos e charnpíçnons é para a
vas que não levam o nome de museu, mas aSJricultura de campo.
que salientam claramente o mesmo processo
e que por vezes superam a criação de mu- Para ir ainda mais 10nSJena análise, nós
seus ou de exposições e que fazem parte de podemos sem dúvida considerar que esses
um dispositivo mais amplo. Penso aqui no museus são projetos claramente políticos, ao
Projeto Identidade da Quarta Colônia (Bra- menos que eles se vinculem a planos e a pro-
sil, RS), no proqrama de desenvolvimento do SJramas de desenvolvimento relativos a três
Maestrazço (Espanha, Araqão, Província de dimensões: cultural, social e econômica. Na
Teruel) , aos múltiplos "Parísh Maps" britâni- melhor das hipóteses, esse caráter político é
cos, aos "Mappe di Comunità" italianos, aos reconhecido e aceito pelos poderes locais
inventários partícípatívos e aos Departamen- ou reçíonats. Alçumas vezes, o museu é re-
tos de Memória de tantas cidades brasileiras conhecido por esses poderes como uma ma-
(Porto Alegre ou Viamão, RS), ou Gênova, nifestação de reivindicação identitária ou da
Itália. inclusão do cultural no desenvolvimento
que é seçuídamente considerado apenas
o que nós podemos tirar de comum, a econômico. É o caso, em particular dos terri-
partir desses casos múltiplos e diversos? Dis- tórios onde os responsáveis políticos, obce-
semos primeiro que as dimensões "territó- cados pela indústria turística, só procuram o
rio" e "comunidade" são solidariamente es- patrimônio e os museus como uma atração
senciais, por sua vez como fonte de materi- turística.
ais colocados em cena pelo museu (o patri-
mônio no sentido mais amplo do termo que As instâncias de desenvolvimento social
substitui aqui a noção restrítíva de coleção),
como quadro físico e humano da atividade o museu, quer seja SJrande e SJeneralista,
produzida, quer seja endóçena ou exóqena, ou local com vocação territorial e comunitá-
enfim como destinatários desta atividade no ria, não pode aSJir só em relação ao desen-
econômico e no social, que deve se exercer volvimento e à sociedade de seu entorno.
a proveito do desenvolvimento. Ele não pode viver em simbiose, ou como se
diz hoje em dia, em rede, com o conjunto
Em sequída. notamos o caráter original e das outras instituições e estruturas, públicas e
único de cada iniciativa, que não pode se privadas, que constroem em conjunto o de-
moldar num reçulamento administrativo ou senvolvimento, mas que seguídamente es-
numa definição muito estrita. Mesmo lá quecem o museu, cuja ímaçern fica, para
onde existem as redes estrutura das , neçocía- muitos, como aquela de uma casa fechada
se com as individualidades reivindicadas. sobre suas coleções e falando em uma lin-
SJuaSJemcodificada.
Depois, lembramos o principio de proces-
so "open-ended', que não tem IUSJarnos ca- Face à nova dinâmica demonstrada pelo
lendários fixados pelos políticos ou pelos museu, é necessário que exista e se manifeste
técnicos: um tal museu não se ínauqura, ele abertamente o reconhecimento, da parte de
se constrói por uma sucessão de etapas, de todo o tecido social envolvente. do patrimô-
eventos, de momentos, de proqressos e de nio cultural e natural como recurso do terri-
HUGUES DE VARINE-BOHAN

tório e do museu como instrumento central mum. de trocas. Saber que o museu pode e
de valorização deste patrimônio. Porque este quer colaborar com o desenvolvimento social
recurso pode servir de material tanto à edu- faz lJerminar idéias e projetos novos da parte
cação escolar como à educação popular. à dos atores sociais e culturais do território. Esta
constituição da ímaçem e da identidade da abertura possibilita ao museu que ele encon-
comunidade. ao encorajamento à tre possibilidades de contato com os meios e
criatividade individual. aos lazeres coletivos. as problemáticas que não Ihes são familiares;
ao acolhimento de visitantes. ao reforço das ele pode pedir aos atores sociais. profissionais
IilJações com os emíçrantes e à inserção dos ou militantes. para lhe ajudar a melhor adap-
ímíqrados etc. tar a ítnçuaçern e suas ações de cultura em
relação às expectativas da população que não
Uma vez este reconhecimento adquirido. faz parte de seus públicos habituais.
uma cooperação deve se estabelecer. seja
por convenções formais (como aquela que É necessário sublinhar a importância que
foi assinada em Lyon entre as instituições esta colaboração entre o museu e seus alJen-
culturais. incluindo os museus. e as estrutu- tes e atores sociais pode ter a função de medi-
ras de reçeneração urbana). seja pelas rela- ação que todo museu. atualmente. deve ou
ções sobretudo informais entre os profissio- deveria assequrar. Entendemos por mediação.
nais do social e do museu. como o MINOM a partir de relações aos conceitos tradicionais
portuquês deu exemplo associando de visita lJuiada e trabalho educatívo no mu-
museóloqos e professores do primário e se- seu: ela é a iniciativa que consiste em estabe-
cundário na reflexão contínua. há mais de lecer e facilitar um díáloqo sensível entre. de
quinze anos. sobre função social do museu. uma parte. uma pessoa ou um lJrupo que visi-
Esta cooperação tinha sido ínteqrada nos es- ta o museu ou participa de uma de suas ativi-
tatutos do eco museu da comunidade urbana dades e. de outra parte. um objeto. uma paísa-
Le Creusot-Montceau desde 1974. que fize- lJem ou um bem imateriaI. ou seja. a cultura
ram de 250 associações. lJrupos e instituições viva e os saberes de um e os conteúdos cultu-
educatívas do território a base de um "comi- rais e científicos do outro. Levar em conside-
tê de usuários". que tinha o papel de definir e ração a questão social nas missões do museu
avaliar os proçramas de ação do museu. Este é assequrar que a diversidade das populações
mesmo ecomuseu. mais recentemente. res- e das culturas. das Iínquaçens, das lJerações.
pondeu à demanda de centros vizinhos de das origens, das crenças. das experiências
tratamento de AIzheimer visando fornecer- profissionais enriquecerão a museoloqía e a
Ihes objetos usuais do passado. suscetíveis museoçratia estabelecidas. É uma nova forma
das lembranças dos doentes. de comunicação com o patrimônio. respeito-
so com o visitante. como ocorre na nova
o museu. dessa forma. fica não somente a museoloqía. Ela é responsável pelo nascimen-
serviço do capital cultural da comunidade. to de uma nova profissão. que se abre tanto
mas também de seu capital social: ele aporta aos funcionários assalariados dos museus
suas coleções e suas técnicas de expressão. quanto aos voluntários. E a mediação será
suas redes de relações. seus saberes. seus pró- mais efetiva. os mediadores serão mais efici-
prios locais; e ele recebe ilJualmente de sua entes. quando estes estabelecerem contato di-
comunidade colaborações. informações so- reto com o seu meio. tanto em sua vida coti-
bre os projetos que estão em desenvolvimen- diana e nas suas relações de trabalho.
to. lições e críticas. um conhecimento refina-
do das necessidades e demandas da popula- Isto me leva a sugerir que os responsáveis
ção. É um lugar de encontro. de trabalho co- dos museus e em lJeral do patrimônio acres-
MUSEUS E DESENVOLVIMENTO SOCIAL

centaram um termo ao conceito de "projeto os seus territórios. mas também em seus en-
científico e cultural" que define (ou deveria contros profissionais. reflitam sobre o que
definir) os objetivos e as missões de suas insti- eles podem aportar às açendas 21 que lhes
tuições. aquele do "social". que si!2nificaria pu- concernem. que eles levem esta reflexão.
blicamente a vontade do museu de cumprir tanto quanto possível. com seus colegas do
suas obríqações junto à sociedade local. no setor cultural. social e econômico. Será um
senso Iarço, na linha direta do "museu ínteçral" pretexto perfeito para mostrar concretamen-
definida pelo Seminário de Santíaço, com a te o papel do museu na mudança e no de-
mesma i!2ualdade de outros termos do projeto. senvolvimento social.

As mudanças que se impõem em todas as


nossas sociedades. sobre o plano tanto cultu- BIBLIOGRAFIA
ral como social e econômico. exiqe a
mobilização de todas as instituições que de- Abaixo se encontrará não uma bibliografia
têm e !2eram uma parte do capital de nossos exaustiva sobre o tema. mas uma lista de
territórios e de nossas comunidades. quer obras que podem ilustrar este artigo.
seja de natureza cultural. social ou econômi-
ca. Isto síqnífica que o museu tem o seu pa- Bedekar (Prof. VH.). New Museoíogy for
pel específico a desempenhar no acompa- India, National Museum. New Délhi. 1995.
nhamento das mudanças e que ele deve sem 181 p.
cessar se re (inventar).
Bevort (Antoine) e Lallement (Michel) (dír.),
A nova museoloqía incluiu e transformou Le capital social. Performance. équité et
em profundidade a instituição museolóqíca réciprocité. La Découverte - Mauss. Paris.
para li!2á-la ao território. à comunidade. ao 2006. 320 p.
patrimônio e em !2eral à vida cotidiana. Resta.
sem dúvida. um passo a dar. para que o museu Bruno (Cristina), Chaças (Mário). Moutinho
venha a ser um dos instrumentos das "aqen- (Mário) (ed.), Socíomuseology, Edições uni-
das 21 locais". Esta suqestão foi extraída da versitárias Lusófonas. Lisbonne. 2007. 220 p.
Conferência da Terra - Rio 92. É curioso cons-
tatar que os primeiros ecomuseus surgiram Communication and Exploration. Papers
por causa da primeira Conferência da Terra of the International Ecomuseum Conferen-
de 1972. realizada em Estocolmo. e que o pri- ce. Guíyanq (China). 2005. Trentino Cultura.
meiro fórum mundial de ecomuseus foi uma Trento (Italie)
das manifestações orqanízadas pelo Brasil no
quadro da Conferência do Rio. Coincidência? Davís (Peter). Ecomuseums. a sense of
Por ter a meta de promover um desenvolvi- place. Leicester llníversíty Press. 1999. 271 p.
mento sustentável. as açendas 21 devem. em
cada território. se ancorar no terreno do patri- DesvaIlées (André). éd .. Vagues. Une
mônio e se exprimir na Iínquaqem da cultura anthologíe de Ia nouvelle muséoloqíe.
viva das comunidades: o museu pode ser a Editions W. collection museoloçía, diffusion
ponte oferecida à nossa !2eração para passar Presses Universitaires de Lyon, Tomes 1 et 2.
do passado ao futuro na continuidade e no 1992 et 1994. 530 et 574 p.
respeito da ecoloqía humana e ambiental.
Educação e Património histórico-cultu-
Proponho. em conclusão. que os profissi- ral (número especial). Ciências e Letras.
onais de museu. em suas instituições e sobre FAPAn027. 2000. 348 p .. Porto Aleçre (Brasil)
HUGUES DE VARINE-BOHAN

Freire (Paulo). Educação como Prática da Patrimônio e Educação (número especial).


Liberdade. Rio de Janeiro 1967. tradução Ciências e Letras. FAPA n031. Porto Aleqre
francesa (Brasil). 2002. 383 P

Freire (Paulo). Ação Cultural para a Liber- Textos de Museoloqía. Jornadas sobre a
dade e outros escritos. Paz e Terra. 1987. Função Social do Museu. Cadernos do
149 p. MINOM Portuçal, nOl. 1999.99p.

Gjestrum (J.A.) & Maure (M.). éd .. 0lwmu- Toçní (Roberto). Per una museoloqía delle
seumsboka identitet. 0kologi. culture Iocali, Ilniversitá deçlí Studi di
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Tromse. 1988. 191 p.
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Intl. Stockholm. 1992. 202 p. (Report from
two symposía at the Department of
Museoloçy, Umeâ Uníversity, What Is Nota
Museoloçy ? & Local and Global)
Este texto não comporta referências a obras em
particular. Ele é resultado da experiência pes-
Parreiras Horta (Ma de L.) et al., Guia Básico soal do autor adquirida durante os últimos cin-
qüenta anos. Entretanto. a resumida lista biblio-
de Educação Patrimonial, Museu Imperial SJráficano final do artigo, visa fornecer pistas de
e IPHAN. 1999.65 p. pesquisa e de reflexão.