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Gramática e literatura em português I - aula 12

1. Resumo

Nesta aula, foi analisado o seguinte soneto de Camões:

Doces lembranças da passada glória,


Que me tirou Fortuna roubadora,
Deixai-me repousar em paz uma hora,
Que comigo ganhais pouca vitória.

Impressa tenho n`alma larga história


Deste passado bem que nunca fora;
Ou fora, e não passara; mas já agora
Em mim não pode haver mais que a memória.

Vivo em lembranças, mouro de esquecido,


De quem sempre devera ser lembrado,
Se lhe lembrara estado tão contente.

Oh! Quem tornar pudera a ser nascido!


Soubera-me lograr do bem passado,
Se conhecer soubera o mal presente.

Como temos feito, é interessante tecer associações entre o soneto que está sendo
estudado agora e outros estudados anteriormente. Foi visto na aula passada que o
soneto que se inicia “Busque Amor novas artes, novo engenho” guarda certa
ressonância com o que se inicia “Enquanto quis Fortuna que tivesse”. Também
podemos fazer relações no caso deste poema. Se, entre os dois gênios que povoam
“Enquanto quis Fortuna que tivesse” – Amor e Fortuna –, é Amor quem toma o centro
do palco no poema analisado na aula anterior, aqui quem se destaca é Fortuna.

No entanto, logo vemos que a Fortuna que aparece aqui é bastante diferente daquela
que vemos em “Enquanto quis Fortuna...” – na oração adjetiva explicativa “Que me
tirou Fortuna roubadora”, que qualifica o vocativo “Doces lembranças da passada
glória”. Se em “Enquanto...” Fortuna por vontade própria dispensava a esperança do
contentamento que levou o poeta ao ofício da escrita, aqui ela é a roubadora da passada
glória do poeta, que existe hoje apenas em doces lembranças. Ainda no primeiro
quarteto, no último verso, vemos a ressonância com o soneto “Busque Amor novas
artes...”: O poeta, destituído de esperanças, pode oferecer pouca glória para os
tormentos causados a ele.

O segundo quarteto apresenta uma estrutura um tanto mais intrincada, em que a


sintaxe vai e vem com o jogo de presente e passado. Em sua alma, nos diz o poeta, está
impressa a história de um bem que parece hesitar entre o passado e o presente: esse
passado bem nunca deixou de existir de fato ou, se deixou, nunca se tornou realmente
passado, pois segue vivo na memória do poeta – e só na memória.
A hesitação e indecisão entre passado e presente surge no primeiro terceto pareado
com a hesitação entre lembrança e esquecimento: o poeta vive nas lembranças, mas
morre no esquecimento. O terceto traz também uma menção a outra personagem: a
pessoa – cremos, a antiga amada – do poeta, em cujo esquecimento o poeta fenece. O
antigo contentamento, que segue vivo e atormentando o poeta em sua mente, parece ter
desaparecido para a pessoa amada.

Por fim, o segundo terceto invoca uma outra pessoa hipotética: alguém que pudesse
retornar no tempo e livrar o poeta do antigo contentamento, raiz do sofrimento
presente.

2. Exercícios

1. Há, no poema, uma estrutura verbal que, dependendo de como é lida, pode se
referir a dois verbos diferentes. Qual é essa estrutura?
a. “Soubera”, no último terceto: o verbo “saber” pode ter o sentido de “ter
conhecimento de” e de “sentir o sabor de”.
b. No segundo quarteto, o particípio “Impressa” pode ser lido com o
sentido de “impressão subjetiva” e “impressão gráfica”.
c. No segundo quarteto, “fora” pode ser pretérito mais que perfeito do
verbo “ir” ou do verbo “ser”.
d. No segundo quarteto, é impossível saber se o verbo “haver” tem caráter
pessoal ou impessoal.
e. Nenhuma das anteriores.
2. No primeiro e no segundo tercetos, respectivamente, há a referência a uma
pessoa externa, para além do personagem. Qual a diferença entre essas duas
referências?
a. Nenhuma. Ambas as passagens se referem à mesma pessoa: a amada do
poeta, cuja memória o atormenta.
b. No primeiro terceto, há a referência a uma pessoa que de fato pertenceu
ao passado do poeto; no segundo, a uma pessoa que o poeta desejaria
que pudesse pertencer a ele.
c. Trata-se da mesma pessoa. No entanto, no primeiro terceto, o poeta se
refere a uma memória concreta de como a pessoa esteve na vida dele; no
segundo, se refere a como ele gostaria que ela tivesse existido.
d. Trata-se de duas pessoas que existiram na vida do poeta: uma que lhe
traz boas lembranças e outra que lhe traz memórias amargas.
e. Trata-se da mesma pessoa, que aparece alternativamente em boas e más
memórias do poeta.
3. A atitude espiritual do poeta neste soneto, assim como no anterior, revela um
alto grau de passividade. A respeito desse aspecto, qual das opções abaixo
apresenta uma leitura incorreta das passagens do poema?
a. No primeiro quarteto, o poeta suplica às antigas lembranças que o
deixem pelo menos por um tempo.
b. No segundo terceto, o poeta, se sentindo impotente para modificar seu
estado mesmo em imaginação, deseja que outra pessoa pudesse fazê-lo.
c. No primeiro terceto, o poeta assume sua morte no esquecimento de
outra pessoa.
d. No primeiro terceto, o poeta declara que um dia foi abandonado pela
mulher amada.
e. No primeiro quarteto, o poeta atribui a Fortuna a perda de um estado
contente no passado, que agora só existe em memórias.
4. No último terceto, há um jogo curioso entre passado e presente, realidade e
possibilidade. Das alternativas abaixo, qual apresenta uma afirmativa adequada
sobre esse jogo?
a. O uso do indicativo mostra que o poeta acredita fortemente na
possibilidade de se modificar o passado.
b. O uso do subjuntivo reforça a ideia, que está evidente no terceto, de que
é plenamente possível, por meio do exercício da imaginação, modificar
as memórias que se tem e, portanto, modificar o presente.
c. O uso do indicativo reforça a imutabilidade do passado.
d. O uso do subjuntivo permite expressar a ideia de que a mudança do
passado, e portanto do presente, apesar de desejada, é impossível.
e. O alternância entre subjuntivo e indicativo é análoga à alternância entre
passado e presente, memória e realidade concreta.