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COMPROMISSO COM DEUS E COM A DOUTRINA1

REV. HERMISTEN MAIA PEREIRA DA COSTA

INTRODUÇÃO:
A educação é um fenômeno “tipicamente humano”. Os animais podem ser ades-
2
trados, mas, só o homem pode ser educado. No entanto não deixa de ser curiosa a
analogia feita por Deus pela instrumentalidade do profeta Isaías, contemporâneo de
Oséias, indicando a falta de entendimento de Israel:

“Ouvi, ó céus, e dá ouvidos, ó terra, porque o Senhor é quem fala: Criei filhos, e
os engrandeci, mas eles estão revoltados contra mim. O boi conhece o seu possui-
dor, e o jumento o dono da sua manjedoura; mas Israel não tem conhecimento
3 4
(Ҕ҅ҋ)(yaɪda‛), o meu povo não entende (ґҋᚭ) (biɪyn) ” (Is 1.2,3).

Ele toma dois animais difíceis de trato: o boi e o jumento. Mostra que a obtusidade,
a teimosia e a dificuldade de condução destes animais dão-se pela sua própria natu-
reza; no entanto, assim mesmo, eles sabem reconhecer os seus donos, aqueles que
lhes alimentam. O homem, por sua vez, como coroa da criação, cedendo ao pecado
perdeu totalmente o seu discernimento espiritual; já não reconhecemos nem mesmo
5
o nosso Criador; antes lhe voltamos as costas e prosseguimos em outra direção.

Cento e cinqüenta anos depois, antes do cativeiro do Reino do Sul (Judá), Deus,
por meio do profeta Jeremias, fez uma comparação semelhante referindo-se à Judá:

“Até a cegonha do céu conhece (Ҕ҅ҋ)(yaɪda‛) as suas estações; a rola, a andori-


nha e o grou observam o tempo da sua arribação; mas o meu povo não conhece
(Ҕ҅ҋ)(yaɪda‛) o juízo do Senhor” (Jr 8.7).

E acrescenta: “...O meu povo está louco, já não me conhece (Ҕ҅ҋ)(yaɪda‛) ....” (Jr
4.22).

No Livro de Oséias, Deus diz: “O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta
o conhecimento (ҜҔᚯ) (da‛ath) ....” (Os 4.6).

1
Palestra Ministrada no dia 21 de setembro de 2007 durante a Conferência Teo-
lógica promovida pela Igreja Presbiteriana da Praia do Canto, Vitória, ES., no perío-
do de 21 a 23 de setembro de 2007.
2
Vd. Battista Mondin, Introdução à Filosofia, 4ª ed. São Paulo: Paulinas, 1983, p. 105; Hermisten
M.P. Costa, Ser Cristão: Realismo ou Alienação?, São Paulo: 2001.
3
Um dos sentidos da palavra hebraica é o de “levar em consideração”, “considerar” (Ver: Os 13.4-5).
4
O verbo (ґҋᚭ) (biɪyn) e o substantivo (҆Ғҋᚭ) (biɪynaɪh). apresentam a idéia de um entendimento, fruto
de uma observação demorada, que nos permite discernir para interpretar com sabedoria e conduzir
os nossos atos. “O verbo se refere ao conhecimento superior à mera reunião de dados. (...)
Bîn é uma capacidade de captação julgadora e perceptiva e é demonstrada no uso do
conhecimento” (Louis Goldberg, Bîn: In: Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teolo-
gia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 172).
5
Jones explora com vivacidade a analogia do texto. Veja-se: D.M. Lloyd-Jones, O Caminho de Deus,
não o nosso, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2003, p. 43-46.
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À frente, Deus enfatiza: “Adestrei e fortaleci os seus braços; no entanto, maqui-


nam contra mim. Eles voltam, mas não para o Altíssimo” (Os 7.15-16).

Analisemos o contexto em que Deus disse isso...

1. ASPECTOS GERAIS E CONTEXTUAIS DO LIVRO:

a) Autor e Data:

Oséias, cujo nome significa “salvação”, “livramento” (#wh (Hoshea) (LXX:


W)she\) foi um profeta do reino norte (Os 5.1; 7.1), tendo profetizado em meados do
6

oitavo século (Os 1.1), pouco depois de Amós. Amós havia anunciado o juízo de
Deus sobre Israel que se daria por meio de uma nação inimiga. Contudo, não fora
ouvido; antes, considerado como conspirador, foi expulso de sua terra e proibido de
profetizar em Betel (Am 3.10-17). Porém, “em tempo oportuno, Javé preparou
7
uma ação judicial (...) contra Israel”. Agora, Oséias identificou o inimigo como a
Assíria (Os 7.11; 8.9; 10.6; 11.11).

Pouco se sabe a respeito da vida do profeta. Em nenhum outro lugar das Escritu-
ras ele é mencionado. Pela sua profecia, sabemos que ele era filho de Beeri (Os
8
1.1), esposo de Gômer (Os 1.3) e pai de dois filhos e uma filha (Os 1.3,4,6,8,9). “O
que mais contribuiu para a empatia de Oséias foi o sofrimento e a rejeição
9
pelos quais ele mesmo passou”.

Oséias, que profetizou durante algumas décadas (c. 60-70 anos), viveu nos últi-
mos anos do reino norte, iniciando o seu ministério provavelmente no final do reina-
do de Jeroboão II (782-753 a.C.). Depois de Jeroboão, cinco reis governaram Israel
10
no curto período de 33 anos: Zacarias (6 meses) (2Rs 15.8), Salum (1 mês)(2Rs

6
A sua mensagem é dirigida algumas vezes a Efraim, por ser de fato, a maior tribo (Os 5.3,5,11,13).
7
Andrew E. Hill & J.H. Walton, Panorama do Antigo Testamento, São Paulo: Editora Vida, 2006, p.
515.
8
Há verdadeira disputa quanto ao casamento de Oséias com Gômer, como sendo real ou figurado.
Particularmente entendo que isto pouco importa. No entanto, não podemos ignorar a polêmica. Há os
que entendem o casamento como sendo literal: ela era de fato prostituta ou, tornar-se-ia depois de
casada (Cf. Bruce Wilkinson & Kenneth Boa, Descobrindo a Bíblia, São Paulo: Candeia, 2000, p.
256-257; Andrew E. Hill & J.H. Walton, Panorama do Antigo Testamento, São Paulo: Editora Vida,
2006, p. 519.) e outros como uma mera “alegoria fictícia”. Para uma visão esboçada das diversas teo-
rias, vejam-se: Andrew E. Hill & J.H. Walton, Panorama do Antigo Testamento, São Paulo: Editora Vi-
da, 2006, p. 519-521.
9
William S. LaSor, et. al., Introdução ao Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 276. “A
dramatização intensa do amor rejeitado e do amor restaurado no seu casamento se tornou
a base da pregação ao povo adúltero” (Andrew E. Hill & J.H. Walton, Panorama do Antigo Tes-
tamento, p. 516).
10
Em Judá, nesta época, 4 reis governaram por um período aproximado de 103 anos. (Uzias: 52 –
2Cr 26.3); (Jotão: 16 – 2Cr 27.1); (Acaz: 16 – 2Cr 28.1); (Ezequias: 29 – 2Cr 29.1). Isto porque Uzias
e Jotão reinaram juntos durante uns 10 anos. (2Cr 26.21).
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15.13), Menaém (10 anos)(2Rs 15.17), Pecaías (2 anos)(2Rs 15.23) e Peca (20 a-
nos)(2Rs 15.27).

Em Judá reinaram durante o ministério do profeta: Uzias (767-739 a.C.); Jotão


(739-731 a.C.); Acaz (731-715 a.C.) e Ezequias (715-686 a.C.). É provável que O-
11
séias tenha começado o seu ministério nos primeiros anos do reinado de Uzias in-
do até o início de Ezequias.

No primeiro momento do seu ministério havia uma prosperidade em Israel e Judá


12
comparável apenas ao tempo de Salomão; no entanto, a vida espiritual, moral e
13
social de Israel era muito baixa. Num período de prosperidade, é muito difícil al-
guém dar atenção ao profeta que fala de arrependimento, fidelidade a Deus, à alian-
14
ça... de destruição. Oséias não foi ouvido... Antes, ele e os demais profetas foram
considerados como insensatos: “Chegaram os dias do castigo, chegaram os dias
da retribuição; Israel o saberá; o seu profeta é um insensato, o homem de espí-
rito é um louco, por causa da abundância da tua iniqüidade, ó Israel, e o muito
do teu ódio” (Os 9.7).

Este livro deve ser a conjugação de várias mensagens do profeta ao longo do pe-
15
ríodo de c. 750-723 a.C.

b) Destinatário:

A sua profecia foi dirigida primariamente ao Reino Norte. Porém, há menção –


16
ainda que incidental –, ao Reino Sul, de Judá.

11
Uzias de Judá e Jeroboão de Israel tiveram um reinado paralelo durante 14 anos (2Rs 14.23; 15.1-
2).
12
“Na metade do século oitavo, as dimensões de Israel e Judá juntos eram quase tão grandes quan-
to as do império de Salomão. E como parece ter sido aproveitada plenamente a posição na qual a re-
gião se encontrava, seguiu-se uma prosperidade desconhecida desde Salomão” (John Bright, Histó-
ria de Israel, São Paulo: Paulinas, 1978, p. 345. Vd. mais detalhes sobre a prosperidade de Israel e
Judá, p. 345s). Hill e Walton chamam o seu período de “‘era de ouro’ do reinado de Jeroboão II” (An-
drew E. Hill & J.H. Walton, Panorama do Antigo Testamento, São Paulo: Editora Vida, 2006, p. 512).
À frente: “A riqueza da monarquia de Jeroboão era demonstrada pelo esplendor arquitetônico, luxo e
fartura agrícola” (Andrew E. Hill & J.H. Walton, Panorama do Antigo Testamento, p. 514).
13
“Em Israel, o século oitavo chegou a seus meados com uma nota terrivelmente dissonante: o Es-
tado de Israel, externamente forte, próspero e confiante no futuro, estava internamente corroído, víti-
ma de uma doença incurável” (J. Bright, História de Israel, p. 356). Vd. também: Bruce Wilkinson &
Kenneth Boa, Descobrindo a Bíblia, São Paulo: Candeia, 2000, p. 254
14
Este período, “era, pelo menos superficialmente, uma época de grande otimismo e de grande con-
fiança nas promessas de Deus para o futuro” (J. Bright, História de Israel, p. 346. Vd. p. 349).
15
Vd. Gleason L. Archer Jr., Merece Confiança o Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1974,
p. 364. As variáveis obviamente são pequenas: c. 755-710 (Cf. Bruce Wilkinson & Kenneth Boa,
Descobrindo a Bíblia, São Paulo: Candeia, 2000, p. 254). Hill e Walton colocam a composição do Li-
vro como ocorrendo entre cerca de 739-722 (Andrew E. Hill & J.H. Walton, Panorama do Antigo Tes-
tamento, São Paulo: Editora Vida, 2006, p. 514).
16
“Oséias, embora falando de Israel, está cônscio de que Yahwéh fez o pacto com o povo unificado.
Não havia dois pactos nem dois povos do pacto. Portanto, quando ele fala a Israel, põe diante dos is-
raelitas seu pecado de separar-se de Judá e trazer divisão à família do pacto. Ele faz repetidas vezes
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c) Tema e Propósito do Livro:

“O tema deste livro é um testemunho sério contra o Reino do Norte por causa
da sua apostasia da Aliança e sua corrupção, em grande escala, em assuntos parti-
culares e públicos. O propósito do autor é convencer seus compatriotas da sua ne-
cessidade de se arrepender e voltar ao seu tão paciente e amoroso Deus. Tanto a
ameaça como a promessa se apresentam do ponto de vista do amor de Deus por Is-
17
rael, como Sua prole amada, como sua esposa pela Aliança”.
“Seu propósito predominante é revelar o amor de Deus para com uma nação pe-
18
caminosa e rebelde”.

A fidelidade de Deus no cumprimento da aliança, a despeito da infidelidade do


povo, perpassa todo o Livro (Os 2.13-16,23; 3.1; 14.1-8).

Deus oferece ao povo a possibilidade de salvação mediante o seu arrependimen-


to e volta à sua comunhão. O tema do amor perdoador de Deus ecoa por todo o Li-
vro, contrastando com a infidelidade de Seu povo.

A mensagem de Oséias é uma intimação ao povo para que considere o amor mi-
sericordioso de Deus e volte para Deus em fidelidade:

Deus conclama o povo ao arrependimento; todavia este persiste em seus peca-


dos: Os 11.5; 12.6; 14.1-2.

Deus promete curar a infidelidade do povo: Os 14.4.

d) Pecados dos habitantes de Israel: (4.2)

a) Falta entendimento ao povo. O vinho e a sensualidade tiram o entendimento:


4.11,14; 6.10. A ruína vem dele mesmo: 4.14; 5.5;13.9; 14.1.

b) Abandonaram a Deus, deixando de adorá-Lo: 2.13; 4.10, 12; 7.7,10; 9.1;


11.7; 13.6.

c) Rebelaram-se contra Deus: 7.13-16.

d) Entregaram-se à idolatria: 2.5; 3.1; 4.12,13; 8.4,11; 9.1; 10; 10.1,2,8; 11.2;

referência a Judá, porque Judá é também culpado dos mesmos pecados. Além disso, a restauração
do pacto deve ser iniciada por Yahwéh, cujo agente representativo estava no trono de Judá” (Gerard
Van Groningen, Revelação Messiânica no Velho Testamento, Campinas, SP.: Luz para o Caminho,
1995, p. 439).
17
Gleason L. Archer Jr., Merece Confiança o Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1974, p.
362. “O tema da Profecia de Oséias é O Amor Imutável do Senhor” (A.R. Crabtree, O Livro de
Oséias, Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1961, p. 5). (Do mesmo modo, Walter C. Kaiser,
Jr., Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1980, p. 204).
18
E.J. Young, Una Introducción al Antiguo Testamento, Grand Rapids, Michigan: T.E.L.L., 1977, p.
286.
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19
13.2. Quebraram a Aliança: 8.1. “Oséias pronuncia cerca de 150 declarações
concernentes aos pecados de Israel, e mais da metade trata especificamente da
20
idolatria”.

e) Buscaram auxílio no Egito e pacto com a Assíria; isto de nada lhes valeu:
5.13; 7.11; 8.9; 12.1. Não reconheceram a salvação que pertence unicamente a
Deus: 13.4, 9. O bezerro que construíram tornando-o seu “deus” seria levado cati-
vo: 8.5-6; 10.6; 13.2.

f) Entregaram-se à embriaguez e sensualidade: 4.10,11; 7.4,5.

g) Ladrões mentirosos: 4.1; 7.3; 12.1,7-8.

h) Maliciosos: 7.3

i) Desonestidade nos negócios: 12.7-8.

j) Coração falso: 10.2

 As conseqüências de seus pecados estavam evidentes na terra: (Os 4.3).

Através do Livro ressoa a mensagem de falta de entendimento do povo: (Os


4.1,6).

2. A CENSURÁVEL FALTA DE CONHECIMENTO DO POVO (OS 4.6)

a) Conhecimento da Palavra de Deus: (4.6)


21
“O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento (ҜҔᚯ)
(da‛ath). Porque tu, sacerdote, rejeitaste o conhecimento (ҜҔᚯ) (da‛ath), também eu
te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da
lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos” (Os 4.6).

Os sacerdotes não ensinavam mais a Lei e o povo ao longo dos anos prosseguia em
seu caminho de desobediência. Os sacerdotes falhavam em sua função principal.
Mais tarde, por meio de Malaquias, Deus advertiria aos sacerdotes: “Porque os lá-
bios do sacerdote devem guardar o conhecimento (ҜҔᚯ) (da‛ath), e da sua boca
devem os homens procurar a instrução, porque ele é mensageiro do SENHOR
dos Exércitos” (Ml 2.7).

19
Vd. J. Bright, História de Israel, p. 348ss.
20
Bruce Wilkinson & Kenneth Boa, Descobrindo a Bíblia, São Paulo: Candeia, 2000, p. 255.
21
“O conhecimento de Deus deriva daqueles acontecimentos históricos em que Deus deu provas de
si mesmo e revelou-se a indivíduos escolhidos, tais como Abraão e Moisés. Essas revelações devem
ser ensinadas a outros” (Jack P. Lewis & Paul R. Gilchrist, yãhab: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Di-
cionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 598). Esta
palavra é a mesma que ocorre em Gn 2.9,17.
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O povo era a expressão viva do sacerdote: “Como é o povo, assim é o sacerdote”


(4.9. Vd. também: 4:4).

 Povo surdo ao apelo divino:

Por outro lado, o povo tornara-se surdo ao apelo divino: “Embora eu lhe escreva a
minha lei em dez mil preceitos, estes seriam tidos como coisa estranha” (Os 8.12).

Tornara-se insensível à Palavra Profética: “Falei aos profetas e multipliquei as vi-


sões; e, pelo ministério dos profetas, propus símiles” (Os 12.10. Vd. Os 2.13).

O Livro de Reis testemunha: “O SENHOR advertiu a Israel e a Judá por intermé-


dio de todos os profetas e de todos os videntes, dizendo: Voltai-vos dos vossos
maus caminhos e guardai os meus mandamentos e os meus estatutos, segundo to-
da a Lei que prescrevi a vossos pais e que vos enviei por intermédio dos meus ser-
vos, os profetas” (2Rs 17.13).

Em Os 4.2, temos uma amostragem dos pecados de Israel; aqui cinco dos dez
mandamentos são quebrados.

É impossível manter uma vida espiritual saudável distante da Palavra de Deus.


Erasmus Sarcerius (1501-1559) observou que, “quando a Palavra de Deus é
negligenciada, a religião pura e verdadeira colapsa. Quando ela colapsa,
22
ninguém pode, nem será salvo". De fato, é impossível haver uma igreja biblica-
mente viva, sem que a Escritura seja o seu manual de ensino e prática. A Palavra de
Deus é viva e eficaz (Hb 4.12) e produz frutos (Cl 1.6; 1Ts 2.13).

A degringolada de Israel era conseqüência direta do desconhecimento e insensi-


bilidade para com a Palavra de Deus, daí a sua idolatria. A destruição existente pas-
sava por todas as suas relações: religiosa, social, econômica, moral, familiar.

A Igreja é caracterizada pelo fato de receber e guardar a Palavra de Deus: O mi-


nistério terreno de Cristo consistiu, entre outras coisas, em transmitir a Palavra de
Deus. Na oração sacerdotal, Ele declara: "Eu lhes tenho dado a Tua Palavra..."
(Jo 17.14). E, nesta mesma oração, Jesus declara o que distingue os Seus do mun-
do: receber – envolvendo o crer e o praticar – e transmitir a Palavra de Deus: “Mani-
festei o Teu nome aos homens que me deste do mundo. Eram Teus, Tu mos
confiaste, e eles têm guardado a Tua Palavra (...) Eu lhes tenho transmitido as
palavras que me deste e eles as receberam e verdadeiramente conheceram
que saí de Ti, e creram que Tu me enviaste (...) Eu lhes tenho dado a Tua Pala-
vra, e o mundo os odiou, porque eles não são do mundo, como também eu
não sou” (Jo 17.6.8,14).

Paulo rende graças a Deus porque a mensagem do Evangelho foi recebida pelos
tessalonicenses: "Outra razão ainda temos nós para incessantemente dar graças a
Deus: é que, tendo vós recebido a palavra que de nós ouvistes, que é de Deus, aco-

22
Apud Ph. J. Spener, Pia Desideria, São Bernardo do Campo, SP.: Imprensa Metodista, 1985, p.
27.
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lhestes não como palavra de homens, e, sim, como, em verdade é, a palavra de


Deus, a qual, com efeito, está operando eficazmente em vós, os que credes” (1Ts
2.13).

 Meditação e Prática da Palavra:

A Josué, quando inicia o seu comando sobre o povo de Israel, Deus ordena: “Não
cesses de falar deste Livro da Lei; antes, medita nele dia e noite, para que tenhas
cuidado de fazer segundo tudo quanto nele está escrito; então, farás prosperar o teu
caminho e serás bem-sucedido” (Js 1.8).

O Salmista, inspirado por Deus, escreve: "Tu ordenaste os Teus mandamentos,


para que os cumpramos à risca” (Sl 119.4).(Vd. Sl 119.8,51,106,167). Portanto, "a
Bíblia não foi dada para satisfazer à vã curiosidade, mas para edificar nossas
23
almas".

 A obediência a Deus deve ser exercitada diariamente: "Quanto às ações dos ho-
mens, pela palavra dos teus lábios eu me tenho guardado dos caminhos do violento.
Os meus passos se afizeram às tuas veredas, os meus pés não resvalaram” (Sl
17.4-5). "Bem-aventurados os irrepreensíveis no seu caminho, que andam na lei do
Senhor" (Sl 119.1). (Vejam-se: Dt 30.14; Rm 2.13; Tg 1.22-25).

b) Conhecimento de Deus: (4.1; 8.14)

“Ouvi a palavra do SENHOR, vós, filhos de Israel, porque o SENHOR tem uma
contenda com os habitantes da terra, porque nela não há verdade, nem amor, nem
conhecimento de Deus” (Os 4.1).

“Não castigarei vossas filhas, que se prostituem, nem vossas noras, quando adulte-
ram, porque os homens mesmos se retiram com as meretrizes e com as prostitutas
cultuais sacrificam, pois o povo que não tem entendimento corre para a sua perdi-
ção” (Os 8.14).

Israel se rebelara contra a Lei de Deus e, no entanto, dizia conhecê-Lo: “.... trans-
grediram a minha aliança e se rebelaram contra a minha lei. A mim, me invocam:
Nosso Deus! Nós, Israel, te conhecemos (Ҕ҅ҋ)(ya‫ޛ‬da‛)” (Os 8.1-2).

O povo ignorando a Palavra, ignora o Deus da Palavra. Os judeus estavam dis-


tantes de Deus; demonstravam em seus atos idólatras uma ignorância da natureza
de Deus; do Deus Santo (Os 11.9,12).

O cativeiro está diretamente relacionado à ignorância. Deus disse por intermédio


de Isaías: “.... O meu povo será levado cativo, por falta de entendimento (ҜҔᚯ)
(da‛ath) ....” (Is 5.13). (Vd. 2Rs 17.13-16; Os 11.5-7).

23
A.W. Pink, Deus é Soberano, São Paulo: FIEL., 1977, p. 137.
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O povo permanecia indiferente à manutenção de Deus: “Israel é vide luxuriante,


que dá o fruto; segundo a abundância do seu fruto, assim multiplicou os altares;
quanto melhor a terra, tanto mais belas colunas fizeram” (Os 10.1). “Todavia, eu en-
sinei a andar a Efraim; tomei-os nos meus braços, mas não atinaram que eu os cu-
rava” (Os 11.3). “Ela, pois, não soube (Ҕ҅ҋ)(yaɪda‛) que eu é que lhe dei o trigo, e o
vinho, e o óleo, e lhe multipliquei a prata e o ouro, que eles usaram para Baal” (Os
24
2.8/2.4). “Adestrei e fortaleci os seus braços; no entanto, maquinam contra mim”
(Os 7.15).

Todas as vezes que não usamos os nossos talentos, tempo, recursos e inteligên-
cia a serviço do Reino, estamos cometendo o mesmo equívoco.

 Perspectiva correta da santidade e majestade de Deus:

A Igreja mais do que nunca está precisando ter uma perspectiva correta da santi-
dade e da majestade de Deus. O conhecimento de Deus, conforme nos revela a Bí-
blia, é algo que ultrapassa em muito a nossa "vã filosofia"; e esta experiência pesso-
al e intransferível é transformadora.

O modo como pregamos o Evangelho reflete o nosso conceito de Deus. Nada é


mais importante do que o caráter de Deus. Todavia, quando perdemos a dimensão
de Quem é Deus, as demais coisas são descaracterizadas; somente a compreensão
correta de quem é Deus pode conferir sentido à nossa existência e a todo o nosso
labor missionário. Diante da majestade de Deus todas as demais coisas tornam-se
25
aos nossos olhos, o que realmente são: pequenas. De fato: “Não há glória real
26
senão em Deus”. A perda da dimensão correta da Majestade de Deus, tem como
causa primeira o descrédito para com a Sua Palavra: quando não conhecemos
27
(cremos) nas Escrituras, também não conhecemos a Deus (Mt 22.29/Os 4.1,6).
Em 1996, um grupo de Evangélicos radicados nos Estados Unidos elaborou a Decla-
ração Teológica de Cambridge. Na Quinta Tese, lemos:

“Todas as vezes que a autoridade bíblica é perdida na igreja, Cristo é despojado


de seu lugar, o evangelho é distorcido, ou a fé pervertida, a razão é uma só: nossos
interesses substituíram os de Deus e estamos fazendo seu trabalho à nossa manei-
ra. A perda da centralidade de Deus na vida da igreja de hoje é comum e lamentá-
vel. É esta perda que nos permite transformar o culto em entretenimento, a pregação

24
O povo preferia crer nos deuses cananitas, por serem em geral considerados deuses da fertilidade.
25
Comentando Dn 3.28 – quando Nabucodonosor admite que Sadraque, Mesaque e Abedenego pre-
feriram obedecer a Deus ao decreto real –, Calvino escreve: “Toda e qualquer pessoa que olha
para Deus, facilmente menospreza a todos os mortais e a tudo o que se afigura esplêndido
e majestoso no mundo inteiro” [João Calvino, O Profeta Daniel: 1-6, São Paulo: Parakletos, 2000,
Vol. 1, (Dn 3.28), p. 228].
26
João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (1Tm 1.17), p. 46.
27
“Respondeu-lhes Jesus: Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus” (Mt 22.29).
“Ouvi a palavra do SENHOR, vós, filhos de Israel, porque o SENHOR tem uma contenda com os ha-
bitantes da terra, porque nela não há verdade, nem amor, nem conhecimento de Deus. (...) O meu
povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento. Porque tu, sacerdote, rejeitaste o co-
nhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; visto que te es-
queceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos” (Os 4.1,6).
Compromisso com Deus e com a Doutrina – Rev. Hermisten - 3/4/2008 - 9

do evangelho em marketing, a confiança em técnica, ser bom em sentir-se bem a


respeito de si mesmo e fidelidade em ser um sucesso. Como resultado, Deus, Cristo
e a Bíblia acabam significando muito pouco para nós e permanecem muito inconse-
quentemente sobre nós.
“Deus não existe para satisfazer nossas ambições, desejos e apetites de consu-
midores ou nossos interesses espirituais particulares. Devemos focar a nossa ado-
ração em Deus, ao invés de buscar na adoração a satisfação de nossas necessida-
des pessoais. Deus é soberano na adoração; nós não o somos. Nossa preocupação
absoluta deve ser pelo reino e a glória de Deus, não por nossos impérios, populari-
28
dade ou sucesso”.

 Conhecimento de Deus e santidade:

A contemplação de Deus é um convite irrestrito ao nosso crescimento espiritual.


Nada mais revelante a nosso respeito do que uma visão real da grandeza de Deus:
Contemplar a Deus significa ter os nossos olhos abertos para a nossa necessidade
de santidade, de crescimento e fortalecimento em nossa fé.

O caminho da santificação passa invariavelmente pelo conhecimento de Deus


conforme Ele mesmo se revelou através das Escrituras, envolvendo uma experiência
de vida. O conhecimento de Deus é vivificador e libertador. "É quando fitamos a
face de Deus que percebemos a necessidade de santificação, e nos é ex-
posto o meio pelo qual pode ser realizada a nossa santificação, e é função
29
do Espírito fazê-lo".

A vontade de Deus é que O conheçamos – aliás, este é o motivo fundamental da


Sua revelação: para que, confrontados com ela, nos rendamos a Deus, O adoremos,
e neste ato, sejamos santificados cada vez mais. Jesus, na “Oração Sacerdotal”, diz:
"E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Je-
sus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3).

 O objetivo das Escrituras  O nosso conhecimento de Deus:

A Bíblia foi-nos concedida para que conheçamos o Seu Autor e, conhecendo-O O


adoremos e, adorando-O, mais O conheçamos (Os 6.3; 2Pe 3.18). A Bíblia foi-nos
confiada a fim de que, mediante a iluminação do Espírito Santo, sejamos conduzi-
dos a Jesus Cristo (Jo 5.39/Lc 24.27,44), sendo Ele mesmo Quem nos leva ao Pai
(Jo 14.6-15; 1Tm 2.5; 1Pe 3.18) e nos dá vida abundante (Jo 10.10; Cl 3.4). Por is-
so, "Ao estudarmos Deus, devemos procurar ser conduzidos a Ele. A revela-
ção nos foi dada com esse propósito e devemos usá-la com essa finalida-
30
de". “O conhecimento de Deus não está posto em fria especulação, mas
31
Lhe traz consigo o culto”.

28
Documento capturado em 22/07/06 no site: www.alliancenet.org
29
D.M. Lloyd-Jones, A Vida no Espírito: no Casamento, no Lar e no Trabalho, São Paulo: PES.
1991, p. 133.
30
J.I. Packer, O Conhecimento de Deus, São Paulo: Mundo Cristão, 1980, p. 15. Vd. Gerard V.
Groningen, Revelação Messiânica no Velho Testamento, p. 63-64.
31
J. Calvino, As Institutas, I.12.1.
Compromisso com Deus e com a Doutrina – Rev. Hermisten - 3/4/2008 - 10

 Conhecimento de Deus, não a respeito de Deus:

Precisamos ter um conhecimento de Deus não simplesmente a respeito de Deus.


“É propriedade da fé pôr diante de nós aquele conhecimento de Deus não confuso,
mas distinto, o qual não nos deixa em suspenso e à deriva, como o fazem as supers-
tições e seus adeptos, os quais, bem o sabemos, estão sempre introduzindo alguma
32
nova divindade, todas falsas e intermináveis”.

 A Prioridade do conhecimento de Cristo:

Paulo considerou todas as outras coisas como perda, diante da realidade sublime
do conhecimento de Cristo; conhecer a Cristo era a sua prioridade; ele declara:
"Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do co-
nhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coi-
sas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo” (Fp 3.8).

 Ignorância e insensibilidade:

O povo por não conhecer a Deus experimentalmente, não percebia a ação de


Deus: A Sua bondade: (3.5); longanimidade (3.3). O povo estava como que total-
mente dominado pelos seus pecados e por isso “não conhecem ao Senhor” (5.4).

 Esta ignorância refletia-se diretamente no Culto:

a) Deixaram de cultuar ao Senhor: (4.10; 7.7,10,14).


b) Culto aos deuses pagãos: (2.5; 3.1; 4.12,13; 8.4,11; 9.1; 10; 10.1,2,8; 13.2).
c) Clamavam a Deus hipocritamente: (7.14)
d) Ignorância em como agradar a Deus: “Pois misericórdia quero, e não sacrifício, e
o conhecimento (ҜҔᚯ) (da‛ath) de Deus, mais do que holocaustos” (Os 6.6. Vd. 1Sm
15.22). “Amam o sacrifício; por isso, sacrificam, pois gostam de carne e a comem,
mas o SENHOR não os aceita....” (Os 8.13).

 Miquéias, contemporâneo de Oséias, também falou ao povo:

“Com que me apresentarei ao SENHOR e me inclinarei ante o Deus excelso? Vi-


rei perante ele com holocaustos, com bezerros de um ano? Agradar-se-á o SE-
NHOR de milhares de carneiros, de dez mil ribeiros de azeite? Darei o meu primo-
gênito pela minha transgressão, o fruto do meu corpo, pelo pecado da minha alma?
Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o SENHOR pede de ti: que
pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus”
(Mq 6.6-8).

De fato, “Não nós é possível servir nem adorar a um Deus desconhecido, nem
33
depositar nEle a nossa confiança”.

32
J. Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, Vol. 2, (Sl 48.14), p. 368.
33
A.W. Pink, Os Atributos de Deus, São Paulo: PES., 1985, p. 5.
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O povo de Israel dizia conhecer a Deus, contudo suas obras negavam isto: “A
mim, me invocam: Nosso Deus! Nós, Israel, te conhecemos (Ҕ҅ҋ)(yaɪda‛). Israel
rejeitou o bem....” (Os 8.2,3a).

ANOTAÇÕES FINAIS:
1) Deus deu-nos a Sua Palavra para que meditemos nela a fim de conhecer a Sua
vontade para nós;

2) A Palavra de Deus deve ser o nosso manual de vida: de todo o pensar e agir, em
todas as esferas;

3) A Palavra de Deus visa nos conduzir a Deus mesmo: “Examinais as Escrituras,


porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim” (Jo
5.39);

4) Precisamos ter um conhecimento pessoal de Deus não simplesmente teórico ou a


respeito de Deus. Ele deseja que O conheçamos: “Pois misericórdia quero, e não
sacrifício, e o conhecimento (ҜҔᚯ) (da‛ath) de Deus, mais do que holocaustos”
(Os 6.6);

5) O culto que oferecemos a Deus tem que ser agradável a Deus. O nosso gosto e
senso estético devem ser subordinados às prescrições divinas;

6) O genuíno conhecimento de Deus se revela em nossa obediência a Deus e em


nossas relações justas: “Pois misericórdia quero, e não sacrifício, e o conhecimento
(ҜҔᚯ) (da‛ath) de Deus, mais do que holocaustos” (Os 6.6). “Reinarás tu, só porque
rivalizas com outro em cedro? Acaso, teu pai não comeu, e bebeu, e não exercitou o
juízo e a justiça? Por isso, tudo lhe sucedeu bem. Julgou a causa do aflito e do ne-
cessitado; por isso, tudo lhe ia bem. Porventura, não é isso conhecer-me? (ҜҔᚯ)
(da‛ath) – diz o SENHOR” (Jr 22.15-16);

7) O amor de Deus é sempre um desafio ao nosso arrependimento e volta para


Deus (Os 11.3-5; 12.6; 14.1-2).

8) Devemos sábia e prudentemente considerar o caminho do Senhor: “Quem é sá-


bio, que entenda (ґҋᚭ) (biɪyn) estas coisas; quem é prudente, que as saiba
(Ҕ҅ҋ)(yaɪda‛), porque os caminhos do SENHOR são retos, e os justos andarão neles,
mas os transgressores neles cairão” (Os 14.9).

São Paulo, 22 de agosto de 2003.


Revisão e acréscimo de 19/09/07.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

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