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PERIÓDICO IITfEl.ll.IO.

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POMPREHENDE OS N.« 73 A 84

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JL*- SEMESTRE DE 1 8 4 8 ^

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aris© Pm®*?©
TYPOGRAPHIA IMPARCIAL DE BERNARDO XAVIER PIM0 DE SOUSA,

1848

im-*, 1
ASSIGNANTES
que se dignarão subscrever para esta folh<j(
no semestre próximo passado.
Os Illms. Srs.
Bernardo Jaciiitho da Veiga Campanha
C ti mi Uo Josc de Faria (vigário) Santa Anna de Sapuzáhfi
Domingos José Ferreira Gualda Forc/uim
José Ankmio da Costa Minas Novas
José Francisco das Chagas Patrocínio
José Ijmrcnçn Estaitisldu Carmo da Itabira
Marciano A Irares Pereira Ubd
tVenccsUío Pereira de Oliveira Curvclo

RECENSEAMENTO DA REDACÇAÕTRIENNAIJ

DG RECREADOR MI2EIR0.

Scznnrh as matérias designadas nas seis Indicações Clássicas do


Rccra/dt-r, oblem-sc :
>ia i. Seccão
pela 491 ) í históricas
•49 > PEÇAS -£ philosophícas
pela 5. ^45 3 f poéticas
Tôtsl 7 i 3 diítribuidas em i l 5 » pnginas cot
ordenadas em 6 volumes alem de 11 gravuras representando a Au»
gu^a Imperatriz do Brazil a Sr.' D. Thereza Maria Christina , como
P r nci[.e Imperial de saudosa memória ; uma vista da Imperial Ci-
dade do Ouro P r e t o ; Gomes Freire de Andrade, conde de Boba-
della ; vi*ta de *\ Sr." da Gloria , e da barra-do Rio de Janeiro ; v i l a
da Igreja de S Sebastião do Rio de Janeiro ; vis-ta do Botafogo da
me«mn cidade; vi>tida Capital do império, tomada de Santa ü i e -
reza ; o Conde das Antas; Napcleão na campanha da Prússia ; Na-
poltão na retiraca da Rússia ; e os Gêmeos de Sião.
O Rccreailor Mineiro.
PERIÓDICO LITTERiRIO.

"JíBQJD 7.* 1. DE JANEIRO DE 1848.

E S C H O L I O AOS 6 V O L U M E S DO
RECREADOR MINEIRO.

Os Redactores desta litteraria empreza , suirando o Ion«


$o espaço de três annos no íadigoso empenho de seus pe-
riódicos trabalhos , transmiltem a seus Assignantcs com o
presente escholio aos 6 volumes do R. Mineiro as seguiu*
tes considerações sobre as matérias da precedente rcdaccSa
triennal.
Numerosas peças originaes , communicadns , transcriplas,
c traduzidas constituirão , e lerão sempre de constituir as
parles integrantes do R. Mineiro. Na parte original, a peça,
que traz por inscripção—Monumento Geographico, e Histó-
rico, que á Pfovincia de Minas Geraes tributa, e consagra por
grata memória o R. Mineiro,—distinguida entre honrosos a-
preços na capital do Império, foi espontaneamente transcn-
pta pelo Ostensor Brasileiro , n.° «i(i , a paginas 361 , fa-
zendo lithographar por Heaton , e Rensburg uma interes-
sante copia da Imperial Cidade do Ouro Preto , que o mes-
mo1 periódico apresenta extrahida da gravura, que acompa-
nha o mencionado artigo do Recreador , para o qual é sem-
pre summamente lisongeiro emittir, e legar á posteridade
recordações da pátria historia.
Na serie dos autographos de peculiar composição dos
n5; O RECREADOR MINEIRO
. j,
R R. , apparece em scena a philosophia , a moral, a cri-"
tica , os planos de melhoramento para a instrircção publica,
(e estes por dclcrminação do Ex.m° Governo da Provincia)
a philologia, os princípios de pedagógica , a sciencia gi^p*-
íjíraphica, a corographia, a topographia de duas inJeres«
santes capitães, como sejão a do Império, e a da Provincia
de Minas, a archeologia de anligos monumentos do Bra-
sil , & • e quando estes fructos da humana inlelligencia se
transportão á luz publica, a philosophia recebe homena-
gens , honras a litteratura.
Os artigos traduzidos, (menciona-se somente os de tra«
ducção dos li 11.) apresenlão-se como outras tantas peças
originaes dos mesmos R R . , debaixo das relações de sua
versão. Eminentemente árdua é a tarefa, que intenta de-*
parar no idioma em que traduz com o fac-similé do idioma
traduzido. Entre a dilTerença de linguagem onde está esse
equilíbrio do equivalente das phrases? E com esta privação,
ora invocando-se as circumlocuções, ora apropriando-nos de
.um só lerruo, mais, ou menos intenso na accepção , adul-
•iera-se o pensamento original, ou succumbe o Altico a-
sgudo, e enérgico , arrastado por essa longa cauda da dif-
fusão Asiática. Mas quando sobrevenha , ou deixe de so-
brevir esta dolorosa alternativa , o traduçtor , feliz na copia
do seu verdadeiro prolotjpo V qual o pensamento que trans-
fere para o pátrio idioma, írueto nunca sazonado sem a
Juz dos princípios, e o laborioso das fadigas, é sempre
.ídigoo dos altiliiítos honrosos da originalidade.
Os R R. tem o nobre orgulho de declarar, que "en-
tre os arligos communicados ao Recreador apresentão-se peças
de poesia, e prosai padrões duradouros não só do mérito
de alguns Jitteratos de paizes extrangeiros . residentes-nesta
Província , mas gòbre tudo do gênio , e iUustrjt^|ÍlMineira.
O RECREADOR MINEIRO. Ii57

Os R R. tem a singular ufania de haver transmiltido a luz


iublica tão eminentes producções do espirito, que abri-
f hantão o solio das sciencias, honrão , e enriquecem o al-
cáçar da litleratura.
Pelo'itiethodo scientiíico das divisões,, e subdivisões , que
organisão os seis Índices clássicos de outros tantos tomos do
Recreador, deprehender-se-lia quaes as propriedades da ma-
téria , e donlrina deste Periodijco Lilterario , onde fui-
gurão tão distinctos tractados de agricultura , e industria ,
scinlillando diclames de economia clássica , riqueza , e pros-
peridade provincial* mas a obra, cujo plano consagra de-
.terminadas sccções á philosophia , e a historia , filhas da
razão, e da illustrada reminisccncia idos homens, utiiisa
ás massas sociaes nas idades do presente, e do porvir.
Mas que calaclvsmo perlináz de folhetins, ameaçando*'
extinguir no arrojo de sua inundação a existência de tão
grave empreza ! Qual o útil, qual o interesse desenvolvido:
em tão iílusoría lição?
Os R R. acreditão com fé explicita , que uma parte
dos leitores lè na letlra do escri-plor a outra parte lè no
seu espirito. Os 11 11. olferecerião cabal resposta á prece-
dente eensifVa com o artigo — Romance — que exararão no
1.° volume do Recreador, a paginas 19; com tudo , elles
se comprazem em addicionar uma nota ampliativa ao ci-
tado artigo.
O romance , ou folhetim , foi sempre o fruclo do bom
gosto, da polidèz e da erudição dos Gregos, cultores das
scVncias , e das artes; mas no século 11.% o folhetim de-
generou de sua pureza;com a barbaridade dessa époeha ,
e com seus costumes grosseiros; insensivelmcnte porem res-
taurou;* e aperfeiçoou sua primitiva llieoria. As naçõescul-
jas modernas tem-se dedicado,, e coatiuuão a dedicar-se a
H5& O RECREADOR MINEIRO;

este interessante gênero de producção , vinculando-o á no--


breza , e utilidade do assumpto; e empregando-o para ias-
pirar com a jucundidade o amor dos bons costumes, e i n -
cutir a virtude por meio de quadros simplices , nataraes,
e engenhosos dos accidentes da vida humana. Para se d e -
cidir das propriedades enérgicas desta feliz producção , ou-
'ça*se o doutíssimo Cavalheiro deJaucourt.— O romance, diz
elle, é a ultima instrucção que resta a prescrever-se a um
rpovo, quando por nimiamente corrupto se torna inacces-
sivel a outro qualquer gênero de lições moraes — . Encer-
tra peis esta classe de composição tão grandes modelos de
'constância , e virtude ; tão heróicos exemplos de ternura,
c desinteresse; tão justos, e perfeitos caracteres, que o seu
espirito, reflectidamente comprehendido sem a phantasma**
'•goria litteral, moralisa o coração humano com o quadro
'dos sentimentos , que lhe perscruta , ou com as emoções
'que lhe excita.
Os R R . previrão que uma parte das matérias admit-
itidas na precedente redacção triennal encontraria leitores
fcio mais justo contacto com os princípios, e elementos das
ünesmas matérias; porém aquella previsão não continha o
Wireito de negar a uma parte dos leitores essa*classe de ar-
iiigos , cujo assumpto residisse segregado do seu alcance. Se-
ira sempre um dever de boa justiça distributiva, liberali-
zar aos que não possuem, como dantes se liberalisára aos
•que não possuião ; e com tão perfeita igualdade de títulos,
injustiça fora no Recreador a omissão de artigos quando r e -
clamados pelo direito de os conseguir. A existente gefa-
ção , por isso mesmo que iílustrada no centro da socíabi-
lidade, não se opporá jamais ao menor contingente da lnz
lilteraria preparado para a geração futura; por que esta,
Hão alcançando a seus precursores já extinctos, lançará suas
6 RECREADOR MINEIRO. í»6g

vistas aos monumentos que delles restarem. Na corte de


Trajano escrevia Plinio o Moço , não tanto para o seu sé-
culo illustrado , como para as vindouras idades. Disia elle:
—ignoro se algum interesse existe para com os meus escriplos;
mas sinto-me convencido de que realmente o merecem , não
pelos meus talentos, o que em mim seria orgulho; mas pela'
minha solicitude, pelas minhas fadigas, econsideração para'
com a posteridade— ( 1 ) Tal é a divisa do Recreador Mineiro.*
Os !\ R. , posto que na sua folha litteraria transmitlão
alguns artigos sem declarar a fonte de sua extracção , sus-*
tentão a ingenuidade de não roubar a anterior , ou poslhuma
gloria de pennas illustres. 0 Recreador não anhela o cunho
»da depreciação na sua vida periódica; porque a um Bálhil-
lo não falta um Virgilio , nem á conducta de Bálhillo o;
ludibrio de Roma. Abrão*se essas producções de longa his-
toria ; e cada um dos íactos ali consignados não tem de cer--
to por fonte peculiar, ou commun o cérebro do escriptor; ;
talvez comprehenda a sua obra tantas linhas quantos os au-
tores precedentes, ou contemporâneos donde as exlrahio; e por,
.ventura individualisa çlle a pár de cada um dos factoso ma-
nancial , que lhos prodigalizara?
Mas apezarde tão profundo silencio sobre as fontes d'ex-
tracção, oescriptoré avidamente procurado, sua penna pre-
conisa~se , e nunca o odioso da dobrêz lhe foi lançado com.
o manto irônico da — Ingenuidade — . O R. Mineiro não
é o catalogo , ou o atlas dos escriptores, cuja nomenclatura'
imprelerivelmente deve apparecer nesse gênero de produc-
çõts; é pelo contrario o mensageiro do recreio , instruin-
• i.n *—
( 1 ) Cura an aliqua nostri, néscio; nos çerte meremur ttt sit alitjua; non
dico ingênio, id enim superbum , scd studio, sed labore, sed reverinlia pôster umm
( Outr'ora o elegemos para epigraphe do nosso — Lycèo Liberal; e mai.
Urde , para o POSSO — Albecôo Popular, ) ->
•tlSo RECllEABOTt MINEIRO:

'do: e que mais conseguiráelle rubricando algumas paginas


com a inscripção das fontes, em que se enriquecera , que
igualmente o não consiga sem taes rubricas? E é ponto bem
singular , e genuíno, que aquelles , que affirmão conhecer
essas fontes, e que as designão por seus próprios nomes, sejão
os mesmos que censurão o Recreador de as não decla»
Tar ! Se vós as conheceis, para que solicitais declarações?
Sejulgaís inútil a reproducção d'artigos', que tendes lido em
diversas obras, apezar de que se não achem ao alcance de
muitos outros , para que fim exigis contra vossos princípios
uma declaração do que vos é inútil por vos ser sabido ? Se
;<como illuslrados sustentais o deposito da lilteratura , e da
erudição, as fontes das luzes permanecem bem garantidas em
"vossa guarda, por que encontrão em vossas pessoas os arau-
tos de sua nomenclatura, bem como no vosso saber , e i-
jáexpíicavel zelo o antídoto de seu olvido.
Os R R. concluem este artigo fazendo ardentes YO*=
ios para que a sua Empresa posssa encerrar a expressão de
sua grata memória para com o Publico Mineiro ; e qualquer
que seja o destino de seus escriptos ^os R R. felicitão»se com
•a. duração deste solemne testemunho dè seus sentimentos.

MINAS GERAES. outros morros cobertos de bos-


S. DOMINÓS. ques. Algumas ruas de peque-
( TEBMO BE MIRAS NOVAS. ) na extensão, e uma espaço*
sa praça , que forma um qua-
Este arraial fundou-se a- drílongo , compõem toda^esta
cima do Ribeirão de S. Do- povoação. A igreja onde se
mingos, e ergue»se sobre o ver-, celebrava o serviço divino , é
tice de um morro, domina- muito pequena , e pouco or-
do em todos os seus lados por «uada i mas construio-se ou-
O RECREADOR MINEIRO. ti 61

tra , que melhor convirá á e os arredores de S. Domin-


população actual. As cazas são gos tornarão-se povoados, o
aceadas, cobertas de telhas , arraial reconslruio-se , e foi
e construídas umas com a- erccto em freguezia por de-
dôbos , e outras com barro, creto de 23 de março de 181*?.
e páos a pique. -ríí Ainda se mostra com uma es--
S. Domingos foi fundado pecie de orgulho a caza, que
em 1728 por aventureiros que sendo actualmente a mais p e -
encontrarão ouro no leito do quena de todo o arraial, era
ribeirão , e nas faldas de a l - a maior, c tinha o nome de
guns morros visinhos. A for.» Caza Grande , antes de ser ii»-^
tuna destes aventureiros não troduzida no paiz a cultura dos
teve longa duração ; e o a r - algodoeiros, o que data pouco
raial foi quasi inteiramente mais ou menos do anno do
abandonado corno outros mui- 1808.
tos o tem sido. Entretanto, É desta cultura que vivem,
uni particular da Bahia ten- os habitantes de S. Domingos,:
do annunciado, que compra- e este logar pode ser consi-
va a 4UO00rs. todo o a!go«- derado como o centro do com-
dão , que lhe apresentassem, mercio do algodão no termo
alguns colonos calcularão que de Minas Novas.
se esta cultii-ra prosperasse, pos Fabríca-se em S. Domin-
derião pelo preço offerecido gos com este producto cober-,
indemnisar-se de seu traba- tores , redes , teias , guarda-
lho. O êxito mais completo napos, e toalhas de meza mui
coroou sua tentativa, pois que finas. Posto que neste Jogar
os algodoeiros produsirão com não exista estabelecimento al-
•fbundaneia, e producto da gum fabril, comludo, os parti-,
melhor qualidade. Outros co- culares trabalhão em suas pró-
lonos reunirão-se immediata» prias cazas nos differentes teci-
mente, attrahidos pelo feliz dos. Ha na povoação muitas
successo de seus precursores, lojas , e mui bem fornecidas.-
n6a O RECREADOR MINEIRO

AMOR E AMIZADE. ha" differença é somente no'


gráo: os sectários desta dou.*
Falla-se todos os dias em trina sustentão que a amiza-
amor e amizade; faz-se um de é um amor novo ou mais
uso espantoso destas duas pa- frio ; amor uma amizade forte
lavras ; não ha por ahi quem ou mais velha, de maneira que
não tenha amizade a esta ou pelo simples faclo de crescer
áquella pessoa, e bem assim ou diminuir pode degenerar
quem não tenha lido seus a- um sentimento no outro; i-
mores, tenha-os ou venha a deia que elles exprimirão n'esu
ie-los; e entretanto não me la quadrin li a *
consta que alguém se tenha da* De uma simples amizade
do ao trabalho de analysar Muitas vezes sem querer, )
estes dois sentimentos a vêr Vai crescendo a &ympatlúa
qaal dos dois é o mais for- Que de amor nos faz morrer.
te , mais doce, mais nobre ; Quanto a mim os que as-
qual offerece mais encantos á sim pensão estão completa-
humanidade e garantias ásua mente enganados; não só ha
duração. Não serei eu o mais muita differença entre estes
animoso para involver-me nes- dois sentimentos, como até são
ta questão, pois que para pro- inimigos irreconciliaveis, lan*
funda-la serião necessárias to, que não podem«habilar jun»
forças e dados que eu não hei: tos debaixo do mesmo tecto.
direi porem algumas palavras Se um homem tem amizade
a respeito, que distituídas de a pessoa de: outro sexo , e a-
interesse e importância, terão presehta^se o amor, declara-se
ao menos o mérito da fran- immediatamente a guerra em
queza e |, ingenuidade. Ha treosdois sentimentos, e o a*
quem diga que amor e ami-» mor, quasi sempre mais forte,!
zade são sentimentos em tudo canta a victoria e fica senhor
semelhantes, arroiosque nas- do terreno; quando acontece
cem da mesma fonte*, e que se o contrario,o amor>denota•<
ORECftEADOR MINEIRO. ilG3

do , foge e desapparece ; nun- •aelysmos nos tractos da vida


ca ha entre elles capitulações, humana ; faz milagres de cuja
tratados de paz ou armistícios; veracidade se não pode du-
tão forte é a antypalhia que vidar; de absurdos fas axio-
entre elles existe. Reconheço mas, torna o branco cm pre-
que a amizade é um:senti- to , faz do curto comprido ,
mento nobre, divino, capaz de do feio bonito do fraco forte,
grandes sacrifícios , e quando do amargo doce? Causa eef-
gerado em corações bem for. feito ao mesmo tempo, para
niados, aepões e excessos pra- elle não ha impossíveis; as*
tica que muito honrão e en- leis da sabia natureza, os prin-
nobrecem a espécie humana: cípios scientificos que regulão
ahi estão para prova-lo Cas- seu curso inalterável e har-
tor e Pollux, Pylades e O* monioso não servem de obs-
restes, Achilles e Pa troei o &. táculos ao amor quando é pro-
Por um amigo ou um irmão fundo e verdadeiro. Possue
faz-se muitas vezes aquillo que alem de todos os altribulos da
não faríamos por nosso res* amizade outros que lhe são
peito; soffre-se ás vezes de um próprios e ingenitos, e que o
amigo offensas que a mais nin- tornão incontestavelmenle o.
guém soffreriamos; compro- mais sublime e divino , bem1
meltemos moitas vezes a nos- como o mais doce c terno de
sa reputação, fortuna e a pró- todos os sentimentos. Que elle
pria existência para salvarmos faz milagres ninguém o pode
a um amigo desgraçado. Mas negar, e as provas eu acharei
a que é, tudo isto em presen- em muitos dos meus leitores,
ça dos prodígios e elfeitos que dos quaes sem duvida alguns"
produz o amor, cuja natu- terão amado, ou amão, e en-
reza inexplicável, cujo poder tão devem saber que inspi-
incomprehensivel e .Ilimitado rado pelo amor, mesmo sem
transtorna a ordem natural das ler-se o dom da palavra, ex-
pousas, produz verdadeiros ca» prime-se muitas vezes com u*
ii6< O RECREADOR MlNEIRO.n

ma eloquencia verdadeira- tempo que tem durado. Que


mente divina e dcmoslhenica ; injustiça! e que blasfêmia 1,
se é fraco e medroso fica co- Uma das melhores obras da
xajoso e intrépido; sei melan- natureza não pode formar-se
cólico e taciturno torna-se a- com : semelhante rapidez; pelo
legre e jovial. Quantas vezes contrario gera-se, toma vulto,
um homem grosseiro, rústico vai >• crescendo, cria raizes
e intratável tornâ-se para a- que lhe servem de firmes a-
gradar á dama dos seus pen- licerces, e por fim tal solidez
samentos , corlesão deli ca - adquire que atura longos an-
do e amável; quantas outras nos e mui Ias vezes vai alem
aquelle com reconhecida ne- dou túmulo.* Amores ha em
gação para a poesia faz lindos verdade que nascem c morrem
"versos !. Quem não sabe que como fogo de; palhajomas o
quem ama vive a vida de sua que ha no mundo que não
amada , soffre suas dores, gosa esleja sujeito a esta lei ? Por
seus prazeres, sente, suas afílL» ventura todas as creanças, a-
çõese risse de seus risos! Nin- animaes e insectos que nascem
guém o ignora, c então for•-•• tem longa vida? Quantas plan-
ça é confessar-se que o amor tas no mesmo dia em que ap-«
alem de tudo maif é mila- parecem na flor da terra são
groso. Dizem que a amizade esmagadas ou deyibadas pelo
só nasce á força de tempo , vento ? Quantas amizades a-
que vai-se desenvolvendo pou- inda em começo , coirir todo
co a pouco, e que é tanto o viço afrouxão e acabão ?
mais forte quanto maior tem Posto que sujeitos á mesma
sido o período de sua dura- lei geral de destruição o amor
ção. Que o amor pelo con*. tem.em seu favor uma cie—
trario nasce com a rapidez do custancia que muito contribua'
relâmpago, que com a mes- para a sua duração, e. vem a
ma d esap parece e que^a sua ser que a amizade fundasse s o -
força está na razão inversa do mente nas qualidades moraes,
O RECREADOR MINEIRO. II65

e o amor baseasse não só nestas mor verdadeiro e puro, é en-


como também nas physjcas ,. e tão que ella torna-se mais ter*-*
estando a duas amarras é obvio na e carinhosa, procurando
que pode durar mais do que com sua doçura e seus cari-
aquella. Dizem mais que am- nhos amenisar**Ihe a d ô r , e
bos os sentimentos são de fogo., confortar-lhe o animo. Creio
mas que o fogo do amqr quei- que já lenho dito quanto bas-
ma e o da amizade aquece, do ta para bem discriminar-se um;
que não duvido; mas o do a- sentimento do outro, e collo-
mor n3o só aquece, como tão*» car-se o amor muito acima
bem cosinha, assa, queima, tor- d'amizade; mas como ainda-
ra, arde, incendeia, e portanto me resta a convicção de que?
tem mais utilidades e vanta- o amor é uma necessidade.'
gens do que o fogo que só ser*. ou uma condição inherente
•ye para um fim. Ia . esque- á espécie humana, termina-
cendo-me de tocar num pon- rei com esta mal alinhada'
to a meu ver muito impor- quadrinha que pôde servir de
tante, que 6 o desinteresse resposta á que vem no co-
com que o amor sempre se meço do artigo:
apresenta, o que não mui-
tas vezes acontece á amizade. Quem a chama de amar não sentg
Não sabe para o qiie nasceo ,
Ò rico que vê-se freqüente" E se morre sem ter amores
mente rodeado de numero- Não sabe para o que viveo.
sos amigos incensando-o dia
e noite com os thunbulosda (T. F.)
Usonja e da mentira, se cáe em
desgraça e fica pobre é prom-
ptaniente abandonado por to- VERIFICAÇÃO ENGENHOSA.
dos elles, que ás vezes até lhe •*.*'"!

ncgão um simples cortejo; Em cada uma das extremi-


mas s'clle tinha uma aman* dades da ponte de .Waterloo
te que o amava com um a- ha cidade de Londres , na
n6fi O RECREADOR MINEIRO.

frente dos gabinetes para os DIMENSÃO PRODIGIOSA.


recebedores dos direitos, ha A maior pyramide do Egy-í
uma engenhosa machinacom plo, denominada de Chéops ,
um sarilho de ferro commu- tem de base 11 acres inglezes.
nicando-se por meio de rodas Nós reduziremos agora a
denleadas com uma espécie de precedente avaliação do Ge-
quadrante collocado no inte- ographo Dr. Goldsmith a me*
rior de cada gabinete. Serve didas vulgares do nosso paiz.
esta machina para verificar o O acre inglêz é de 160 per-
numero das pessoas que pas- chas quadradas , e a percha
sarão pela ponte durante o tem^22 pés de superfície. 0 -
dia. O sarilho pelo qual in- ra , tendo o acre inglêz 160
dispensável mente se ha-de perchas quadradas , 11 acres
passar , e que tem a fôrma de terão 1760 ; porque 11 H 160
uma cruz, está disposto de S-.1760, isto é , 11 multi-
maneira que não gira de ca- cado por 160 é igual 1760 ;
da vez mais do que um quarto e tendo cada percha 22 pés ,
de circulo, tanto quanto é ne- 1760 perchas terão 38720 pés,
cessário para dar passagem a que reduzidos a passos de 5
uma pessoa ,* e nesse momen- pés cada um , medida geomé-
to por intermédio de certo trica, obter-se-ha 38720 d i -
mechanismo cáe num cofre vidido por 5 , igual a 7744*
fechado a marca que aunun- passos, que reduzidos a legoas
cia a passagem. Uma igual de 3000 passos cada uma, me-
disposição tem logar a res- dida geométrica , obter-se-'
peito dos carros; e á noite, ha 774*4 dividido por 3000
os encarregados de verificar
a receita não tem mais do que igual a 2 ^ , isto é , 2 l é -
contar as marcas para saber guas e 1744 passos, ou 2 le-
quantas pessoas , carros , ôu goas e meia e 244 passos ,
animaes passarão durante o que tanto tem de base a py-
dia. ramide do rei Chéops.
O RECREADOR MINEIRO. 1.6;

ANECDOTA. Rogamos aos srs. assignqn-


tes que ainda não pagarão ceu**
Um pobre homem, que tinha a sa alguma da sua assígnatura;
baiba crescida, e a algibeira min- aos que devem dous annos e
goada, pedio a um barbeiro que lhe meio; e aquelles que não s£l«.
fizesse & barba pelo amor de Deos;
o .barbeiro com a água fria, e sem
darão as suas contas quando;
sabão começou com uma foice a terminou a remessa das folhas,
chacinar ; o nomeai impava de dor a bondade de consultarem a
res. Neste tempo a mulher do bar- relação destas dividas, que ,<
beiro eslava lá dentro machucan- para seu melhor conhecimen-
do o focinho a um gato que b u - to, distribuímos avulsa com o
fava', e miava furiosamente, e diz
o barbeiro para o -homem: — ,, Ora
n.° antecedente.
que, eslaráõ aquelles diabos fazen- Rogamos igualmente aos?'
do áquelle gato ?,, A barba pelo srs. assignanles que alli não;
amor de Deos, " lhe respondeo forâo mencionados, e que d e -
o homem padecente. vem um e dous annos da sua'
assígnatura, o obséquio der;
mandarem satisfazer a impor*
tancia respectiva.
CHARADA.
As pessoas por quem esta'
• folha se tem distribuído gra-
Tenho vinte e quatro filhas ;
Quando moita he a primeira, tuitamente, porjem, no fim dé-
Outra na'cc , e assim por diante , cada semestre, mandar rece*.
Té nascer a derradeira -—*—«— a
Quem promelle alguma vezes ber, encadernado, o tomo,
Pronuncia o nome meu ; respectivo.
Foi ma sou do syllogismo, Comprão-se nesta typogra~
EigOçhe claro quem sou eu a.
phia, ou trocão-se por outros
Si h um a só pessoa falia ,
Píüo posso então ter lugar; folhetos, os n.-s 4 , 45, 51 , e
Si querem dar- me existência , 72 dó Recreador Mineiro.
Dous ou mais devem foliar.
fA)
A5NL-NC10S Resultado dos.Exames da Escolla de Tnslrocção primaria de Antônio Dia».'
O Alumtio João de Deos Couto, fi'lio do Sr. Alfcr-r» Francisco ilc Sallcs Couto, roípon»
dco com piomptidâo a todos os quesitos degramm-ilica,) e fez com desembaraço divcKfrB»
problemas de Airlhmelica.
OAluruno Augusto Fausto, nelto do Sr. Coronel Rodrigo Pereira .«Soares do Al»
berjana, mostrou baslantc desembaraço na leitura, c uos problemas de Arithmetica, que
vcsolvco com saptisfaçâtt d« .*t espectadores : O mesmo acouteceo ao* Fcguinlcs Aluamos.
j-auslitio Joviia, filho dn Sr. Rcrnardo de Araújo CamisJo; Augusto de Mello, sobri-
•Tão do Sr. Modesto de S. Rosa : llonovro He irique, filho do falecido Sr. T. C. Manoel
Soares do Couto; Fraucico Anlão, frlhotloSr. l.lr. Joaquim Anlão Fiz. Leão ; Florindo
Dias. filho d* Sra. Paschoa Lopes- l'«tivcráo presentes go Almnuos. e muitos destes sç
tli-linguirão cm leitura, escrita, i uas h operações de Arillimctica. Ouro Prcte 8 do De*
aeaibio de 1847- O Professor Agostinho José Ferreira Andrade Júnior.
Fugio ha mais de um mez da fazenda de Santa Maria município d» Villa de
Itabira de Malto Dentro, um Africano jpor nome André ( não sei porôm de que
fiação) , estatura ordinária corpulento , e «le idade de 3o annos, pouco mais ou
menos , pertencente á Antônio Pires da Silva Pontes. Este Africano sendo preso cm
Santa B rbara , ao chegar á mencionada fazenda de sei dito senhor, evadio se s e .
gunda vez , deixando em poder «le quem o levava preso varias cartas de padrinho
com sobscripto ao abaixo assignado , de quem se iuculcava ser escravo : cslractage»
ma r.tc de que lançou mão talvez por saber ,*fque o abaixo assignado scudo irmão de
•eu senhor- reside actualmcnlc em o Municipio de Mariann» , direcção esta , que
sempre que foge tema com o .fito de se Iram portar para o Rio de Janeiro. Quom
o prendor c levar á seu senhor na dita fazenda c municipio da Itabira , ou ao
abaixo as?iguado no arrafcl do Sumidor , município de Manai,na , recebera boa»
alviçaras , e será indemnisado de quaesquer despezas que poi* ventura houver feito.
Arraia) do Sumidor 10 de Dezembro de 1847, — Manoel Dias Paes Leme,
Os vigésimos da 11.*^ Loteria do Monte Pio geral, re*
mettidos pelo seguro do Correio ao Sr. Luiz de  Imeida Car-
valhaes Cabral, do Termo da Villa do Rio Pardo , no dia 5
de Julho próximo passada , como se annunciou em o n.» 62
desta folha , sahirão premiados com a vigésima parte de
20<*#)000 rs. , isto é, com a quantia de 1*000 rs., os n.°*
976*1983-2490-2902*2910-4574-5802 «5887 • r* e brancos
os n.°* 9724 305-2097*2488-2731-2737-2740-2905 2908-
•3002-3004H3062-3070-4Í97..4200«.4577-4579.4735-5762-
5767-5862-5866 e 5893. >( O que se declara para conheci-
mento dos interessados, e tudo consta da Lista geral dos pre
mios da mencionada Loteria, recebida da Corte. da qual foi
vm exemplar remetlido ao dito Sr. Luiz de Almeida, e
O vigésimo n = 3 1 4 7 da 7 * Loteria das Cazas da Caridade da Piovin»
cia do Rio de Janeiro, vendido em casa de Bernardo Xavier Pinto de Sousa
ao *sr. Antônio Mourao da Cidade Diamantina, saio premiado com um conto de reis.
Igual prêmio teve o vigesi.no n. o 2 9 0 6 da Lotaiõa a beneficio da fabrica
de papel de Zelenno Ferrez remeüido pela mesma casa ao Sr Venancio Ribeiro '
à
?José
Z ÇFarnezi
-, Tr> * -Cid.*
da Paixão,
de D am anl a
j J «l
da referida > e P" e»e vendida ao Sr. Joaquiny
Cidade.
O Recreador inc.ro.
P/JEUIOOICO LITTERARIO.

*JJ(DSQD 7.' 15 DF. MNBIfíO DK 1848. ti.' 74

LEVANTAMENTO EM MINAS GERAES NO AN NO OG 1708.

{Extraclo da vida do Padre Belchior de Pontes, escripta pelo Padre Manoel da


Fonseca, Jesuítas, e àaturaes de S Paulo.
> J
Sendo de ordinário as guerras civis o de pio , chegava a conoeiunar a açoules
«.coute, ooiii que Deos easliga aos povo», o transgressor, como se lôra escravo, teu-.
nio será muito de estranhar que aos pec-. fio a fortuna de encapar algum por justos
oados dos mu adores das Minas se allri • respeitos. AoompaniiavaS a e-*te mons-
buaÕ as guerras, que entre si tiverão, taS tro os contínuos r< ubos , os homicitlios t
celebres e deomtad H com o apellido do as injustiças, e finalmente tudo aqtiillo
levant** dus B nbuábas oonira Paulistas que c istuma naver naqurlles lugares, onde
ilaviaõ dez annos que se tinliaõ desco- lia falta de homens virtuosos , qoe com
berto aquelles thexouros da natureza, e seu exemplo excitem aos mrrs a viver
•otn a lama do ouro tinha uonoorrid > tanto oomo christaSs, e o temor das justiças,
povo, naõ só de S Paulo e dé tudo o que com oastigo determinado pelas leis o-
Brasil. mas passando alem do mar a no. brijruem , se naõ a obrar bem , ao menos
ticia de ta5 precioso metal, se abalarão a fugir do mal
também os Èiiropeo* com tal eínpénh >, Nuô faltaváõ com tudo alguns pode-
que nestes brevgsií ànnns se achava©-já rosos , que usurpando a jurisdição , que
naquclle* até entaõ iiirJuftos sertões , e só naõ havia uaquelles lugares, se intrometa
habitados de Ieras e gentios , grandes po» linô a fazer justiça, prendendo em um cir-
voaç.Ses de Portugiieze?. NkS havia en culo, que com um bastaõ faz ia õ ao re-
tre elles lei, que os obrigasse a viver su- dor do delinqüente, impondo lhe lo/ro penri
jeitos , e só com uma 1'vre,* escravidão se de morte se sahisse delle sem satisfazer a
aujeitavaõ todos nos seus vioios parte que o aceusava A mesma penase
Reinava entre tanta abundância de ou» impunha muitas vezes aos devedor es, para
ro -*, luxuria , e estava estabelecida com que pagassem: e se acaso entre o juiz e o
lei inviolável pena de morte a todo aquel» réo liaviaõ contas, esquecia-se o juiz da de
le que , sem attençaõ ao mau estad« do diminuir. querendo receber por encheio
o que lhe pertencia, reservand*» para a
seu próximo, se atrevesse a violar o oooasiaõ de melhor commodo a satisfação
tlirtl.imo da concubina, bastando para a
do que lhe pediaS de desconto ; e o i-cior
-.ecuçaÕ de tnõ iníqua lei pequenos in-
era que destes juizes, naõ havia a-mei-
dioios; e quando o oliendido se prezava
1170 O RECREADOR MINEIRO.

laçaõ , ainda que havia tanto aggravo. quellas povoaçSes , vivendo tedos mistu-
Eraõ os complices mais freqüentes dotes rados , mas desunidos ; c querendo Ueo*
delictos os Paulistas .* porque como vi- castigal-os, permittiu que no arraial do
viaõ abastados de Índios, que tinliaõ tra- Rio das Mortes mata-se um Paulista a
zido do sertaõ , e de grande numero de um forasteiro, que vivia de uma pobi**.
escravos, que com o ouro tinhaõ comprado, agencia. Como os os ânimos estavaS taS
se fizeraÕ notavelmente poderosos, che mal dispostos, e eraõ contínuos os aggra-
gaudo alguns a tanta soberania , que fol- vos que recebiaõ os forasteiros, deter-
iando coirr os forasteiros os tratavaõ por vós, minarão unidos vingar com o titulo do mor»,
como se fossem escravos; e porisso eraõ to as próprias injurias ; e ainda que com
delles maiores as queixas, ainda que em diligencia procurarão ao matador, com tudo
grande parte nasciaÕ dos Mamalucos, que elle, ou estimulado da própria consciência,
tinhaõ em casa, sem que talvez cheiras ou porque o leservava o Ceo para algum
sem à noticia dos amos os seus desmanchos. desino de altíssima providencia, se au»
Dava oecasiaõ a estes insultes o or- sentou com tal pressa, que 0 nao po-
dinário modo de viver daquelles tempos; derão alcançar. A este, ao p-ieoer,pe»
porque como o intento de muitos, prin- queno açcidenle se a juntou culro, com
cipalmente Europeos, era adquirir 11a- o qual se perturbarão as Minas ; porque
fjiiellcs lugares o que haviaõ de gastar estando no adro da igreja do arraial d»
nos povoados , entravaõ como .Jacob pe . Caeté Jeronimo Pedroso e Júlio Cezar,
regrinos . e encostados a um bordão , o naturaes de S Paulo, succPtleu passar
qual, ainda que lhe servisse para o al- acaso um forasteiro com uma clavinav •
livio do corpo, de nada servia para a re- e querendo elles tomar-lha , o descom- ,,
putação da pessoa , a qual só pendia em
pu.zeraÕ brotando naquellas palavras, qiw'1
tempos taÕ mui ordenados do estrondo das
subministra a cólera na falta da razaõ. Q
armas, e multidão dos pagens. Adver-
tiao neste descuido algumas pessoas, e Bem sei que o auetor da A^merica Pori
entre ellas um religioso Trino , cujo solar tugueza, informado deste caso, escreveu;!
era a illustrissima casa de Águas-Bellas, que elles a queiiao furtar : mas eu naõ .
e condoídos dos muitos aggravos, com que me atrevo a pôr este labéo em sujeitos,
viaÕ ultrajados muitos homens de bem . a quem o nascimento dei**, mais altos brios.
começarão a persuadir aos sujeitos, que Bem pode ser que na casa de algum del-
tomavaõ o officio de conduzir escravos, les falta-se alguma clavina , que fosse em
que d'alli por diante entrassem com elles tudo similhanle,e que o forasteiro a oom-
armados: para que, indicando o lustraso prasse ao mesmo que a furtou .* irias de
das armas o esplendor da pessoa, se d i - qualquer sorte que fosse o caso, o eerto
tassem os desatinos, que sem remédio é, que estando presente áquelle acto Ma-
tanto se lamentavaÕ Como esta dontrina noel Nunes Vianna, forasteiro poderoso,
«se fundava nu experiência , pois se tinhaõ e conhecendo a inmcencia do injuriaUo,
por grandes e de respeito os que tinhaõ lhes estranhou o meio e o modo com qfíe
quem os fizessp respeitados , começarão queiiaõ haver a arma. Como estavaõ ai-»
d'alli por diante a entrar armados, c a fazer- terados os ânimos, seguiraõ-se os desa-
se poderosos , adquirindo com os cabedaes fios de. parte a parte, ainda que por en-
e lespeito , de que íanló necessitarão. tão com alguns pretextos se torrarão a
Neste Miberavel este tio se acbavftõ 2». rejeitar pelos deis aggressorcí*. Mas com»
ficou mal apagada aquella fais-a, comt-
O RECREADOR MINEIRO; I.-;I

«•ara© os dois a ajuntar armas, e a con- 1 veriguaçaÕ da verdade, fundados BÓmcníe


vidar os parentes , para qu; com novo nos desastres passados se unirão entre
desafio satisfizessem a cólera, e ao desa i, e buscando a Manoel Nunes Viaan.i
«om que no seu parecer tinhaõ ficado. o elegerão por Governador de todas as
Fez.seesta junta com taÕ pouoo segre. Minas em quanto S M. naõ mandava
<lo , que chegou logo á. noticia dos Io sujeito , que exercesse aquelle cargo Aa-
rasteiros, que habitavaõ os arraiaes do ceitou elle o po»to, e naõ t;u <hi ao en -
Caeté , Sabarabuçú , e Rio das Vellia-r viados di» Minas Gerac.v, Ouro Preto,
o» quaes julgando a offensa de Ma- e Rio das Mortes, os quacs saudondo-o
noel Nunes Vianna, a quem tinhaõ por com o mesmo appellido de governador, lhe
proteotor, oomo injuria commu.n , e sup pediraS soecono • porque naquelas par-
pondo que com a sua vida perigava a tes se adiava com muitas forças o par-
de todos , caminharão * a sucoon-el-o, ar tido dos Paulistas, e naõ deixavaÕ de
mados e dispostos para qualquer assalto ; executar as mesmas insolencias , com que
e bastando esta determinação para que até então tinhaõ vivido.
os contrários mudassem de opinião, e Partiu logo para as Minas Geracs o
mandassem dizer a Manoel Nunes Vi novo Governador, e com a sua chegada
anna que quei-iaõ viver em paz e boa pôz em segurança aquelle partido : mas
correspondência com os forasteiros, com tendo noticia que no Rio das Mortes era»
tudo passados poucos dias um novo ac contínuos os insultos, por viverem na-
oidente os tornou a pertubar de sorte quelle arraial poderosos Paulisias, e que
que nunca mais se uríiraõ; porque ma» os forasteiros tinhaõ chegado já quasiá
tando um Mamaluco a um forasteiro, que ultima miséria, .estando reduzido* a um
vivia com agencia de uma taberna, se pequeno redueto de fachina e terra, que
«coutou na casa de Josepli Pardo, Pau- para sua defeusa tinhaõ fabricado, lhes
lista de respeito e poderoso, o qual a- enviou a Bento de Amaral Coutinho, na-
inda que teve lógar para dar fuga ao tural do Rio rle Janeiro . com mais de
matador, naõ pôde socegar a fúria dos que mil homens valentes e bem armados. Ex-»
o bòsoavaõ enfurecidos . que naõ aiten- ecutou elle a ordem, e bastou chegar ao
dendo nem ás razões, com que o quis* Rio das Mortes para que ficassem livres
persuadir que **,aõ estava em sua casa o do perigo aquelles miseráveis. Aquarte-
matador, nem á lembrança da concórdia lou*se no mesmo logar com a gente que
pactuada naquelles dias, lhe tirarão a vida levava, e tendo notioia que peios lugares
Com este mau suecesso se tornarão a vizinhos vaguenvaõ alguns Paulistas com
unir os Paulistas, ajuntando armas, es- animo de vingança, fez diligencia para
cravos, e parentes; e feita uma assem - oolhel-os, ainda que sem effeitc, porque
bica pelos fins do mez de novembro de elles a toda a pressa se retirarão paia
1708, se espalhou uma voz, a qual af- S, Paulo.
unilava que nella se tinha determinado Sabendo porém que em distancia de
pastar a ferro em o dia 15 de Janeiro cinco léguas se achava um numeroso troço
do anno seguinte a todos os forasteiros de Paulistas destemidos e bem armado»
que vivessem em qualquer arraial perten- mandou contra elles um destacamento de
cente ás Minas. Apenas correu esta voz, muitos homens, á obediência do capitão
quando os moradores do Caeté, Sabara- Toma-* Ribeiro Corso, o qua) ainda que
buçú , é Rio d«is Velhas, sem mais a- chegou a vel-os , com tudo receando o
ti;» O RECREADOR MINEIRO.

choque . por julgar o partido comrario com ticía dos distúrbios das Minas, determi.

I
poJer superior ao sen , voltou a dar oonta noii,- ir em pessoa socegal-os , elegend»
a Bento de Amaral Era csie sujeito pou- i a a sua guarda quatro companhias pagas.
co soflíido . e cheio de cólera partiu logo Chegou ao Rio das Mortes, onde se
a buscai-os. DiverliaÕ -se elles naquella deteve algumas semanas ; e como neste
occasiaÕ com o exercício da caça em tempo se mostrasse inclinado ao partido
uma dilatada campina, que cercava um dos Pauistas, ti atando mal aos forastei-
capaõ , ou pequena matta, onde tinhaõ tro , deraõ elles logo aviso aos outros
os seus alojamentos, e sunponuo que n arraiaes , dizendo que o novo Governador
cabo era o mesmo Amaral a quem el- carregado de correntes' e algemas vinha
les conheciaõ por lira*'o e cruel , se re- a castigal-os , provando o seu pensamen-
tirarão á matta com animo de resistirem to com as companhias, r-ue pára sua gu«-
Á fúria dos forasteiros, que os buscavaõ arda tinha levado. Alteiaraõ-se' tanto com
Tanto qiíe estes os viraÕ recolhidos, cer- estas vozes os forasteiros, que unidos
carão a malta • mas Ibraõ recebidos com buscarão Manoel Nunes Viana, para se
uma descarga das clavinas, que empre«- opporeni á entrada'de seu legitimo Go-
gando a sua violência nos sitíadores, ma vernador. Com esta determinação foram
iaraõ logo um valente negro, e a min- esperal-o ao sitio das Congonhas,'distan-
tas pessoas principaes deixarão feridas te do Ouro .Preto quatro légua,, e avis-
Corno os forasteiros os naõ podiaõ of*- tando a casa onde estava, se lhe apresen-
ftndter, e só pertendiaõ tirar-lhes as ar- tarão cm um "alto em forma de batalha,
mas-, e naõ as vidas, persi-tiraõ no cerco pondo a inlanteria no centro, e a ca-
lima noite c um dia despachando logo para 'vallarla' nos lados
'o- arraial os feridos para serem curados Tanto que os viu D Fernando, des-
No dia seguinte mandarão os cercados um pachou um capitão de irifanteiia eonl al-
boletim com bandeira branca , pedindo bom gumas pessoas mais, pára que Roubes-*-
quartel, e promettendo entregar as ar« sem de Manoel Nunes Viarinii, que ca-
inas. Concedeu-lhes Bento de 'Amaral o pitaneava ó exercito', qual era o intento
que* pediaõ . mas faltando como pérfido e
daquella acçaÕ Recebeu Manoel Nunes
cruel, tanto qne os viu sem armas, deu
o enviado e depois de ter com elle al-
ordem em alias vozes para que os ma-
gumas conferências, fo"**, acompanhado
tassem ; e sem mais conselho, acompa
nhadó dos escravos e ânimos mais vis da- de alguns homens do seu partido, fallar
quele exercito, ainda que com pena e a D Fernando; e estendendo-se a ,pra»
reprehensaõ das pessoas de maior sop** tica a uma larga hora, voltou para o posto
jrosiçaõ e qualidades, que nelie se acha que tinha deixado Desta conferência se
vaõ fez um tal estrago naquelles mi - seguio dar volta ao Rio de Janeiro D. Fer-
seraveis, que deixando o campo'coberto nando , e Manoel Nunes conli.iuando com
de mortos e feridos foi causa de que ainda o seu governo creou os ministros e ofíi-
hoje se conserve a memória de tanta (vi- ciacs, que julgou necessários para o exettt*
lania, impondo aquelle Jogar o infainc creio .das armas e justiças. Mas julgando
titulo de Capaõ da traição os homens de maior capacidade que a»
quclic governo naõ era seguro , nem po-
Governava neste tempo a Praça do Rio dia durar muito , enviarão a Fr. Mi-
de Janeiro D Fernando Martins Masca- 4cc! Ribeira, Religioso de N, Senhora
renhas de Aleauastro, o qual tendo jig- das Mercê» coai cm ias para Antônio dé
O RECREADOR MINEIRO. I17*

>
Albuquerque Coelho, que tinha chegado — único amigo de quem não tem1 amigos
v s de Lisboa com o governo d" Rio de Ja
s ibre a terra — que exiende ao moribao-
neiro, pedindo-lhe, que os fosse gmer-* d a;|uella cruz que tantas vezes tem re-
liar , e 1 Ar em paz Em quanto elle faz cebido o derradeiro suspiro do honum na
"• soa viagem, demos uma volta a S hora do passamento, e aquella mão que
Paulo, para darmos noticia do que Ia é a uliima que se aperta ao despedir do
«e obrava. mundo, já diante da eternidade ! — de-
pois da missão d'este honrem, a mais -u-
( Continuar-ee-ha ) bhme de todas as missões sociaes é a do
m;dico
Sacerdote do fogo sagrado da vida, o
medico, como o sacerdote elmstSo. tem
O MEDICO deveres a cumprir igualmente nobres e i^
gualmente sublimes. Diante do doente deve
1. desapparecer para elle toda a idéia de ir.»
tecesse pessoal; deve sacrificar todas as
Lâ pios haute mwsione de l'homme, suas conveniências, a sua reputação mesmo:
aprés ccllc «lu xervice dus atileis , est, depositário dos preceitos da arte de curar
délrn prelre du f<:u sacro du Ia vie , não ha para elle descanço nem no leito ,
ditpensatuur des pius bcaux dons de porque a qualquer hora deve elle correr a
Diou , et maitrc der torce» ocçultai toda a parte onde ouvir um gemido do ho-
de Ia natrue, c'e»t-á dire, d'6 rc Me» mem "que soffre.
decin. IlupíLAfiB — AGhorismet. Apparece um contagio que caminhando
de cidade em cidade vai em cada um de
Depois da missão do homem que , rom seus passos esmagando milhares de exis-
pidos os laços da pátria e de família, corre tências ; que fazendo desapparecer, um
por toda a pai te onde, ha uma alma que por um , todos os membros de uma fa-
resgatar para o Cèo *. que, alfrontaiido as mília deixa apenas ficar, no seu leito de
iras de povos bárbaros e selvagens, vai morte, um que viu morrer os pães e de-
sereno plantar no meio ri'elles a cruz du pois dos pães os irmãos, que viu morrer a
Redemptor; e só , erfl paiz desconhecido, esposa e depois da esposa os filhos j cuja
sem esperança de gloria, ao som do rugir fronte amarcllada já está cingida pelo *ni-«
fio tigre, levanta a Deos uma oração pe- dario da morte: — um , que ficou sò, sem
los homens; —- que , desgarrado do mun- esperanças de soecorro, sem ter ao menos
do , se sujeita a uma yida austera de so uma creaturn humana que o ajude a mor-
lidão para ir, no alto dos. Alpes, appa- rer porque todos o fogem e todos o aban-
recer como um anjo ao desgraçado, cujo donão horrorisados pelo contagio ! , . . .
corpo cnregcliido com o frio dormia já , dous homens ha que caminhão direito para
sobre,, osm leito de neve, um, somno d'onfle o agonisante, porque ha naquelle homem
nunca havia de acordar: — depois (|a, mis- dous elementos que precisão ambos de soe-
são d'este hoineriV^que inclina a sua Irou» corro, •—- o corpo,, de saúde e de vida • a
te. encaneoitla ná..virtude e . na piedade ., alma , de consolação e de esperança
sobre o leito do pobre, tomo do rico , d'> Grande deve de ser a coragem do me-
grande como do pequeno ; a qiicm se con- dico que assim caminha sereno' para o eon»
f i o es segredos mais' intimo? do curarão tagio !
O RECREADOR MINEIRO

O Guerreiro que no campo da bata» 11.


lha , vai de encontro ao adversário vê nas
mãos deste scintillarcm aj armas que o Ame del'um*cr. , Dieu . péra, eréaV.a*
podem. ferir e matar, mas vê também m Som (ous cet uowi diferi jo crois cn loi,
polido dessas mesmas armas o reflexo da* Scigncur 1
suas, vê também nas próprias mãos uma LAMARTIM.
espada, para cruzar..se com aquella; é uma
lucta igual de homem para homem , face a Ja ia alta a noite : o medico oançad»
face. O contagio é um adversário bem cias lidadas fadigas do dia atiraraese sobre
difFerenle, è um inimigo occulto, impla- o leito : mal tinha cerrado os olhos, umas
cável, cuja arma se naõ pode cruzar com oancadas batidas apressadfmente á sua por-
arma alguma, que com força irresistível ta , viera o disperta Io : — era alguém que
abre com uma maõ o túmulo para arro- vinha, pedir-lhe soecorro • levantou-se e
jar là dentro com a outra todas as victima-, correu para onde o chamavão
que encontra no seu caminho : o medico Entra em uma casa de família, e v ê ,
«que no meio de um contagio corre a sal estendido sobre um leito, oonsummjdo pela
var os doentes bem conhece que caminha moléstia, um corpo de mulher para quem
sobre um terreno minado por toda a par a hora derradeira devera de vir bem lon-
t e , que pode a cada momento despeda- ge. Examina-a com toda a attenção, não
ça-lo na sua explosão; mas nem por isso, lhe esquece oousa alguma porque ' todo o
diante de tamanho perigo, lhe entra na pensamento se lhe resumiu ii'uma sb i-
alma mais que um receio — o de chegai deia — a de salvar a doente. Todos os
ja tarde. olhos dos circunstantes estio cravados no
No entanto, para o soldado que mor medico a ver se podem penetrar o que
reu no campo da batalha ha uma nação se roassa dentro delle : mas de balde ! por-
inteira para escrever sobre a sua sepultura que o medico é obrigado a trahir os seus
a palavra — GLORIA: O seu nome escri- próprios sentimentos, e a não deixar trans.
pto na lista dos que morrerão pela pa parecer cousa alguma que. possa desani-
tria , è lido por todos com respeito e com mar o doente; sb os olhos se lhe erguerão
saudade. involuntariamente ao oéo como quem dis-
Para o medico que morreu victima de sesse que para aquella almaja não ha-
um contagio, que elle arrostou impeflido via esperanças na terra. Depois receitou
pelo dever e pela cbaridade, sem ser ao e sahiu.
inenos embalado por uma esperança de No caminho para casa, o medico en-
gloria, ha só o esquecimento de todos os controu se com o acompanhamento lune*»
homens! y bre de um funeral que entrava nà igreja.
Bem elevada é pois a missão do me- O corpo que alli ia morrêra-lhe nos bra-
dico : para subir à altura delia é-lhe ne- ços no dia antecedente.
cessário pas?ar por bem grandes saorifi „ Morreu, reflectiu elle , porque a me-
cios : —— mas quantas vezes encontra elle na dicina não teve forças para salva*lo .-—
sua vida uma hora de recompensa que os meios que a experiência ou o estndo
o faz esquecer todos esses passados sa- me poderão fornecer todos os empreguei
crifícios , que vem oor momentos tro-. e u , mas de balde, para lhe restituir a
car por flores os espinhos da sua co- saude. Agora que o corpo cahi» na se-
roa/,,. pultura o medico ja nada tem que fazer
O RECREADOR MINEIRO, H7J

*b
eom elle : aqui só se tem que fazer o chris-voava a igreja de mil formas mal .de - f
Uo „ senhadas que, apparecendo de relance,
E o ohrislio entrou na igreja para figuravão á imaginação do homem o as-^
tinir a sua á voz do sacerdo e que en- pecto de phanlasmas.
toavu as sublimes palavras da oração pelo- " E' a luz a luetar com as trevas —-
fiiiados;—ultimo serviço que o medico pôde murmurou elle — como o homem a quem
prestar ao seu doente. o deslin-j vai desenrolar a ultima paging,
Se este homem não tivesse cumprido da vida, a debater-se nos braços da)|
morte*
cs seus deveres, se tivesse conimétlido al«- - *
fumu negligencia ou descuido , é impossí- Mas n'um momento eu posso fazer rév
vel que a voz da consciência lhe não mur- viver essa luz amortecida .esse fogo quan
murasse lá dentro — Alli vai o cadáver cio extineto,'—não poderei lazer o mesmo
homem que tu assassinaste ao fogo da existência que se apaga ? não.
O medico nada tem com os tribunaes poderei
«ei soprar
soprar aa vrua
vida naqueue
naquelle corpocorpo que'que
dos homens ; do que se passou entre ei» assimii escorrega para o túmulo ? r,ão ha-
le e o seu doente ninguém lhe pede con«- verá alguma esperança para ella ? J,
v
tas senão Deus e a consciência Meu ueus // porque
leu Deus porque fizeste o soffri»'
Que será pois do medico que não c i ê / meu to tão grande e a medicina tão pe>»
que não pensa que os homens que elle quena! ?
precipitou na sepultura são outras tantas E o medico saiu : a idéia de salvar o
testemunhas que hão de ser chamadas para doente lhe absorvia todo o pensamento .-'
a sua coiidemnação no dia tremendo do saiu a consultar os livros escriptos por
julgamento ! homens, médicos como elle, que fingão
Que será do medico sem consciência / legado aos seus collegas pela imprensa 9
que não teme que as sombras das suas frueto de uma experiência de muitos annos.
viclimas venhão persegui Io na hora ter- Ahi o tendes então-:—o medico,para
rível do remorso! quem o curar é um fim e não um meio,
que oomprehende bem a sua missão,è
111. que conhece quaes farão as obrigações
• que oontrahiu quando deixou que com a
coroa de Hypocrates lhe ciogissem a fron».
".. . ne songe jamais â toi te — a trocar o repouso pela fad.iga, o
mais penseuniquemenlaux somno pela vigília, porque sabe ^q-ie é *
inalades. Uura-anD.
um dever seu esgotar todos os recursos,,
da arte e porque havia de ,empregar to-
O corpo foi entregue á terra. O me- dos os meios que a arte lhe fornece a-
dico ficou sò no meio do profundo silen- inda que nisso sacrificasse a vida : ,— para.
cio do templo, e o seu pensamento se elle todos os affeotos jfo coração lhe desi-
volveu» então para o doente cuja salvação appareoerão diante de um affecto, fará**
lhe estava confiada. elle não ha naquella hora no mundo se-
Em uma lâmpada pendente do tecto não o medioo e o doente .. . ,
briixiileava uma luz que espalhava em torno Ao jer as paginas do scík livrg as -se-j
uma claridade vaga e incerta. guintes reflexões jhe .ôqcprrJiai*. ., ' '
Ora quasi que se extitiguia de todo, 0
»» ' i' • *»* •- * *.-ií»-i»-f* Ç'-«l.. . 1 >*F

•ru, conto em um derradeiro esforço, po-a ! „ Revolver, uma por uma , Todas efU^n
paginas, e Ter por Ioda a parte, a par'
*-76 O RECREADOR MINEIRO

d'esta horrível moléstia, esoripta uma sen- IV,


tença de morte ; ver por toda a parte ,
a par do prognostico delia , o pavoroso Out 1'impie asgint.int a toa lienr» supremo
epitheto da> fatal \ Me tiise pas : Voyes, il Ircuiblt* corume moi
Fatal! — palavra que tantas vezes me tukMAKtlN*'
fez estremecer no meio da minha carreira
de medico, que me faz hoje. tremer a Os cuidados em que a gravidade da
Inda mais porque vem cortar uma exis- moléstia , que o medico acábá de destru. •
tência, na melhor quadra da vida, que ir o trouxera constantemente envolvido,
me esta confiada a mim que fui chama e a felicidade que elle vira espalhada
elo para salva «Ia! por uma lamilia inteira, não o deixara*,
E' uma causa 'sagrada o ter uma vida sentir que uma enfermidade terrível lhe ia
»as nossas mãos! — e é bem triste o ver pouoo a pouco consumindo as lorças e a
é cabeceira do leito de quem ja está pen- vida — a elle tão prompto a oorrer em
dente sobre o túmulo, os olhos de uma soecorro dos outros.
náe e os de um marido a pedirem nos , Ree.jlheo se do3 seus trabalhos de todos
jor entre lagrimas, uma esperança, quan- r* dias e ao cruzar os umbraes da sua
do a cadeia de tão doces aflectns que li- porta as forças fraquearão lhe quasi a pon-
**avão essa existência ao mundo tem de to de o não deixarem suster-se: foi en«
dilacerar , no seu rompimento, os corações tão que elle caiu em si do alto dos seus
*á que ia prender-se ! „ pensamentos sempre dedicados aos outros,
Assim desenganado por tantos medi • e que se achou diante de toda a gravi- *
a o s , cujas palavras tinha tantas vezes ac- dade do seu mal; então conheceu elle que
«rtditado, nem porisso deixou elle de pro- aquelle dobrar dos joelhos sob o pêze
curar na sua imelligencra recursos que os do corpo lhe drziã que por alli elle
livros lhe não davão: á força de meditar, ja não havia de sahir senão para a se- •**,
«noontrnu meios que poz por'obra e o do- pültura
ente foi salvo Parou então um momento no limiar'*
E as lagrimas de alegria de uma mãe da porta e lançou pela; ultima vez os »M
apertando contra o seio a filha que es- Ihos para o mundo — para aquelle mun-
tremecia ! e a indefinivel satisfação de um do que lhe tinha corttumido a vida, a
marido apertando nos braços a esposa que quem elle ja de nada podia servir e que
julgava perdida paia sempre! o medico no o deixava agora sò diante da sua dor.
meio d'lies, olhado como um anjo de sal- Neste volver de olhos tão sentido,
vação a sentir caiar-lhe pelas veias a- as lagrimas cahião-Ihe em fio pelas faces :
quella alegria, filha da consciência de uma lagrimas de homem que se não derramão
boa obra, que se sente , mas que sa não senio com profundo sentimento.
descreve! —que recompen-a haverá ahi Com passos mal seguros, foi elíe de-
que poss» comparar-.se c m esta! única pois caminhando para o leito, e ahfc, es-
ffjue pode pagar tanto tempo empregado tendido procurava 'ugir do seu pensamen- ,
• o estudo, tantas horas consumidas nos to que lhe revolvia a idéia da morte e"
hosfikaes, tantas noites passadas á ca- lh'apresentava por todas as faces.
beceira dos doente» a coutar um par um A hora extrema do medico chegara em
últimos SUIUÇOB do homem que ex- ) fiim ; essa hora em que a consciência se
a! t •* I
ffe! ergue diante do homem e lhe desenrola toda
RECREADOR MINEIRO. "77
M ..'..i
a vida passado, hor^* por hora , momento Para o medico estendido no seu leito
por momento, parti lhe pedir oonta dos de morte nenhuma esperança lhe resta , .
seus aotos, *-*y porque elle pode penetrar dentro em si
Desgraçado do homem que neste' mo- mesmo e sentir-se morrer, ver a morte
mento da vida'•• nSo tem o apoio de uma èe.rer-lhe de envolta com o sangue e
crença que o conduza tranqüillo para a contar os momentos da vida pelas polv
sepultura; desgraçado do*que crê sb no «ações do coração.
mundo è vê esse tniindo desfeito parn elle ; De que lhe serve a sciencia neste mo»
desgraçado do que não tei». a-par das lá mento extremo ? —para lhe fazer confie-
rimas que chora sobre um passado, que cer todo o incurável do seu mal, todo o
f he aooene ao longe por entre as incer
tezas do túmulo ! ....-*
desesperado da sua posição ,* para lhe di-
zer que o viver é impassível, para lhe
O túmulo ! —. idéia que sorri ao des- destruir todas as illusões que neste mo<
graçado* q.ue devora ná soledade as la- mento vendão os olhos de todos* os ou-
grimas da sua dof quando ja nem o cho- tros homens e lhes encobrem o sepulcliro.
rar lhe pode. ser .alivio, mas que se a- Oh que para este homem a ultima hora
levanta,pavorosa diante do homem para da vida deve de ser bem solemne e bem
quem ainda resta nq mundo uma esperança! terrível! Elle que nunoa se chegou ao
M ORREB ! sentir-se arrebatada do mun - leito de um enfermo que lhe não deixas-
do, além do qual está para uns , o nada; se uma esperança , «muitas vezes mentida,
para outros,, a ETERNIDADE,- para a mas animadora sempre, que tinha elle a-
maior parje a duvida! gora para si quando a enfermidade ahi es-
Como o morrer do marinheiro que sen- tava diante de lie em toda a sua inten-
te o seu navio afundar-se com a água que sidade? só a resignação —— aquelja vir-
lhe jorra lá dentro e vem subindo palmo tude que faz com que o clnistão que se
a palmo, a estender o corpo para a victima sente mui fraco para os seus males se
que a espera lá cm cima e que a cada atire ao seio da Providencia confiado na
movimento das ondas responde com um justiça e na omnipotenoia divina
grito de dor *. como o 'morrer' deste ho« Passou a mão pela fronte escaldada
inem que foge cspavorido diante da água com a febre e ergueu o seu pensamento
que procura ccro%fc*> por toda a parte, para Deus.
e sente -abraçado, «o tapo do mastro, o „ Eisme. no ultimo transe da vida:—
navio na sua ultima-agonia, assim é o pensou elle para comsigo — . .. mas a
morrer do medico f u h * s . . , , minha vida não foi como a dos outros
Mas para Q maripbfjjro que assim vê homens.... foi o viver do medico que
abrir-se -.lhe p túmulo, e gj-e, neste tran- se deixou.-morrer a si em quanto cura»
se terrível. contempla as águas balouça* va os outros
rem-se altiv*^^o «-seu deitainsoiiõavel por Que.fizeste no teu perigrinar por este
toda a vastidão dos, mares, e enxuga as mundo, tu quê le votaste ao cumprimen-
lagifmas que lha corram fio. a hio para to de uma missão sagrada ? me pergunta
correr com os olhos todo o horizonte, a consciência. ...«V ;,
ha aiuda uma esperança — o alvejar de Que fiz eu ? ! . . . per toda esta' manha
uma vela no longe por entre as ondas do vida não me correrrão plácidas e riso*
occeano que "possa correr a^elle^e sal-.. nhos senão os dias da mooidade tu-
yá-lo. do o mais foi um continuo lidar entre eu*»
1178 01ECRGAD0R MINEIRO.

farmos e agonisantes, entre cadáveres mil ANECDQTAS.


vezes.
Um sugeito que estava (br* dé casa,
Vi as lagrimas da gratidão do pobre a
recolhendo-se foi visitar um amigo, qne
quem eu tinha restituido á saúde e ao
achou morto, e estirado no feretro no meio
trabalho , e vi os seus nlhinhos, a quem
da casa armada: ficou triste, e espantado, e
a orphandade houvera precipitado na mi
i perguntou ao primeiro creado , o que fora,
seria, sorrirem-se para mim e brincarem
e como se chamava o Medico que lhe
alegres na casa de seus pais.
assistira. Fulano, disse o creado. — Pois
Não encontro momentos mais felizes
diga-me onde mora, que me é preciso para
por toda a minha vida . é uma re-
minha mulher.
cordação esta que vem lançar bastante a-
livio nas minhas dores presentes.. . que-
ro descer abraçado com eila para a se» Aqui na minha rua estava uma mulher
pultura. chorando, e carpindo amargamente á porta
Restitui muitas vezes o filho ao pae, da sua casa: passou um grave, e circuns-
a esposa ao marido, o irmão ao ir- pecto Cabo de esquadra da policia com sua
mão . . . . e este pae, este. marido e es- competente patrulha, e perguntou à mulher
te irmão por ventura se esquecerão de a causa do seu pranto , a que re.pondeo:
mim . . . . nenhum delles virá curvar o jo- que o marido a acabava de massar; a-
elho sobre a lajem da minha campa para cudio o marido , e disse : que apenas lhe
erguer aos Ceos uma oração pelo seu a - tinha dado com seu lenço pela cara , que
migo extincto. naõ fizesse sua mercê caso daqueUa invin-
Que fazem esses homens que eu tan- oioneira; ao que acuJio a; mulher luriosa: —
tas vezes livrei das garras da morte e a " Oh ! Senhor Cabo, olhe que este desa-
cujos leitos eu fui tantas vezeí levar a vergonhado assoa-se á mao ! —•».
vida ? — Folgão alegres por esse mundo
e nem ao menos evilão ao seu amigo o CHARADA.
morrer ao desamparo.
Embora ! Que me importa a mim a De quanto se passa n' alma
ingratidão dos homens na hora extrema Sou eloqüente expressão:
da v i d a . . . - foi com o pensamento em Solto me perco nos are/.
Deus que andei sempre por este mundo Preto opprimo ao coração. t
. . . . a justiça de Deus me julgará. „ Eu sou principio, e sou fim
Feliz do homem que na hora em que se Da vaidosa humanidade!
sente morrer vê luzir-lhe o pharol da es- De mim o mundo formou-ta
perança , acendido pelos seus sentimen Entre as mãos da Divindade. i
tos de Christãu e pela consciência de
ter cqmprido na terra aquillo para que o , Quer no gosto, quer no cheiro,
destjnára o Ceo ! Agradável planta sou;
Um dia. depois caminhava pela porta do Muita gente d' outros tempos
medico um sabimento, sem ostentação e Comungo se coroou.
sem grandeza: a pedra da campa fechou* A. de J. A.
se sobre o jxu cadáver, uma pedra sin-
gela e sem -ínseripçSe» — esqaecida de A charada do a.* .«'«cadente exprime a
todos! palavra — Dialogo.
D R E C R E A D O R MINEIRO. li79

Do Annuario político , histórico e estatístico do Bra-


sil , publicado em Paris nó anno próximo passado, extra-
ímos o seguinte

QUADRO LITTERARIO.

IWTA DOS JORNAIS QUE ACTÜALMENTE SE PUBLICAÔ NAS


PROVÍNCIAS E NA CAPITAL DO IMPÉRIO.

Litlcrario» e «cientificou.

Rio de Janeiro* -^Jlevista Trimensat do Instituto Histórico.


- Annaes de Medicina.
—Archivo Medico ( mensal ) .
—Minerva Fluminense ( semanal ).
—Gazeta dos Tribunaes.
—Ostensor Brazileiro ( com estampas ) .
-Auxiliador da Industria Nacional.
-Ramalhete das Damas (musical e poético ) .
—Jardim Romântico (. Ijtterario ).
Archivo Romântico (Iítterario ) .
~A Mulher do Simplicio ( poético).
v

Nalici.dorcs e cotnmerci.es, e accidcatalmentc político*.

—Jornal do CommereiQ*
—Mercantil.
^Diário do Rio*
-~Courrier Brèsilien.
V
Poli lisos.

-Sentinetta 4a M.onarchia.
~->Brazil.
Social.
—Tempo,
-~Brado do Amazonas.
tiSo " 0 RECREADOR HINEIRO.

Kictlieroy —O Socialista.
uj) Governisla, Provinciano.»
Campos • ._0 Monitor Campista.
~0 Commercial Campista.
Políticos.

Ouro Preto , . *-0 Constitucinal.


"O Publicador Mineiro.
—Ü Recreador ( lilterariò ) .
Políticos.

Gojaz ~ 7 —Correio.offlcial.
-O Goyano. ^
S. Paulo , . jQ Governista.
—O Censor. ,«.*,
Porto Alegre —-O Imparcial.
. —O Çommercio..
Rio Grande _.; JO Rio Grandense..
ScientiGcos e litter.no».'

Bahia ~" 7-rO Mosaico ( quindeceodial ) .


—O Crepúsculo ( idem ) .
—A Escola Domingueira.
Motieíadores e eommereiaef ; accide3.Ulmen.tc polièico»»

-*0 Mercantil.
~X) Çommercio.
-Gazeta commercial.
—Correio Mercantil.
Políticos,

***© Guaycurü.
OCabalisla.
r~A Sove Ia.
Caxoeira. . —O Brasileiro.
0'RECREÁlf0R MIN EI R d •1.81

Santo Amaro '"Pkilppãlria; ( litterario ) .


1
Sergipe . . . "ydorreio Scrgipcnse.
•i^strélla.
Alagoas. ^ . — O Alagoano.
•**Voz AlagQcnsc
Pernambuco --.Revista Medica,( scieutiGco).
/ •
Conrmcrciaos , noliciaclorus c políticos.
^Diário de Pernambt^co.
—Diário Novo.
—O Lidado r.
• • •

Poliliccs.

-A) Clamor "pubticà.


-A) Sete de Setembro-
—.0. Azurrague.
~A Carranca (avulso )
—O Cometa (irregulMr ) .
•±-0 Guarda Nacional.
—O llegemrador.
—O Verdadeiro Regencrador.
—O Esqueleto ( irregular ) .
—O Bezerro de Vera ( idem ) .
Tíazarèth . ****0 Nazarenp
Ceará . . -*Pedro Segundo
—Fidelidade.
Piauhy . «— Correio da Assemblha.
Maranhão .^Archivo Maranliense ( liltterario )
--Revista Maranhense.
^Publicador Official.
•-.Correto Maranhense.
—-O Unitário*
^.Correio de Annuncios.
—O Patusco ( irregular ) .
Caxias ? -A) Brado dé Caxias
Pari _-» Treze de Maio ( Oficial),
.8a O RECREADOR MINEIRO. •»

Alguns destes periódicos desappa- mais de 700 , agora, em 1846. con«


-ccetn depoi» de publicados poucos ta mais de 4*000. O Diário do Rio,
números; tuas outros novos surdetn que naquelle primeiro a
período teria
t vem substituir o lugar dos que fe- quando muito i 4oo, hoje, conta mais
aecérâo ; de sorte que he diflícil fi- do a;.00. O Mercantil, muito mais
xar em huma época a lista exacta dos moderno que os antecedentes, tem
existentes, sem incorrer o risco de cerca de 2:700.-"^
eomprchender alguns extinctos , e ex- Ainda he outra prova dos progresso»
cluir cilros recém-nascidos1. Mas es- da no.-sa imprensa , o engran-iecimen-
ta incorrecçáo , so por ventura se der to do formato que tem adquirido a
nn lista que apresentamos pouco in- maior parto dos jornaes, O do Com*
fluirá para as considerações que va- mercio principiou em 189,7 do tanta*»
mos dtüduzir nho de. huma folha de papel almoça
Comparando esta ultima lista com de marca vulgar em i83S augmtma
a de i835 , vemos que o numero dos tou a maior formato, e em .838.a»
jornaes cresceu , elevando-se agora a tu liou ao ponto em que o vemos no*
*78, e mostrando por conseqüência je ,* competindo em tamanho, em ?a«
hum excesso de »9 sobre os quecx- riedade e interesse das matérias conti-
islifio na época anterior. Mas não das nas suas collumnas, e na nitidez
he tanto este excesso o que poro Pa e oorrecção da impressão» com os
os progressos da nossa imprensa , e mais acreditados jornaes de França e
e desenvolvimento do gosto, tanto dos Inglaterra. Quando este jornal traz
escritores , como dos leitores dos jor- supplemento, durante as discussões
naes. O que prova incontestavelmente das câmaras,, encerra nas suas pagi-
estes progressos , he o augmenlo,, no nas tanta escripturação, quanta pôde
numero dos periódicos meramente sei.» conter hum livro em 8." Francez de
cnliíicos e lilterarios, os quaes actu*> aoo a »5o paginas. O Mercantil ri-
almeule na capital são em numero de valisa com ó Jornal do Çommercio em
onze, e em todo o Império montão a tudas estas qualidades, e o Diária do
desastte; quando no período antece- Rio aproximasse-lhes. Também mui»
dente erão somente cinco : o qme ve- tos outros jornaes da Bahia , Peruam»,
rifica hum accrescinio do triplo. O buco e Maranhão , adaptarão grandes
que ainda mas patenteia estes progres- formatos e se Caiem interessantes pela
so» , he f> maior crescimento da cir- variedade das matérias que contém
culação dos jornaes, os quaes de an» As typographias tem geralmente au-
no a anno vao ganhando hnm campo gmontado em numero, e melhorado*
mais vasto de leitores : assim, por muito em material, machinas efypos.
exemplo, o Jornal do Çommercio, Só no Rio de Janeiro existem actual»
que quando principiou a sua carreira mente em aclividade dezoito tjpogra-
em 1827 tinha apenas 4oo assinan- phias , das quaes. a do Jornal do Com.
te. , eque em i835 aiada não possuía mercio he incontestavelmente a mais
O RECREADOR MI N E I R O . 1.8'

Importante. Tem esta hei» mah*rltd <*jue ü fíollànda 2500000; a Rús-


iè pôde estimar em cerca de i .o contos;
possue três prelos mechanícos, é mui tos sia com os seus 60 milhões
outros deformarordinária ; tem mais d'habitantes 5200000; a Di-
de oitenta indivíduos empregados no namarca 129000 ; a Áustria
sou costeioou do jornal , e pôde com 2000; os Estados Sardos 5600;
grande rapidez imprimir para o dia se-
guinte as mais prolixas discussões da os Estados do Papa 4*200; Ná-
câmara dos deputados, posto que a poles 9400; e a Sicilia 1700
publicação destas ordinariamente sabe
com hnm ou dois dias de intervallo.
O capital circulante deste valioso es-
tabelecimento regula para mais de 200
contos annualmeiite. Rogamos aos srs. assignan*
tes que ainda não pagarão
A typographia do Mercantil, posto
cousa alguma da sua assigna*
que esta empresa seja de data muito
mais moderna . tem já hum material
tura ,* aos que devem dous
de mais de 60 contos, e emprega 76
annos e meio; e aquelles que
pessoas nos coiteio do estabelecimen-
não saldarão as suas contas
to d serviço do seu jornal, A imprensa
nacional he igualmente huma oflicina
quando terminou a remessa
importantíssima, com nove excelleiites
das folhas, a bondade de con-
prdos e 6a empregados As lypogra-
sultarem a relação destas di-
phtas do Diário do Rio , dos senhores.
vidas , q u e , para seu me-
Laffyntaert, Paula Brito, do Bfazil, e
outras , posto que muito menos impor»
lhor conhecimento distribu-
tantas que as supra mencionadas, sao
imos avulsa com o n.° 72.
também valiosos estabelecimentos, on-
Rogamos igualmente ans srs.
de existem continuamente em activi-*
dade -. muitos trabalhadores. >assignantes que alli não forão
mencionados, e que devem
um e dous annos da sua as-
CONSUMO* DO CHÁ NA INGLATERRA. sígnatura, o obséquio de man-
darem satisfazer a importância
'$gx 1833 ,>jso a cidade de respectiva.
Londres consumio vinte e sete
milhões dé libras de chá ,
quando a França inteira con-
sumira apenas 220C00 libras;
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•§ S o . 2 o -S *í' •«*• 5 S S * S.» * - 3 " « " - •-*• S? •**•*• 2 **•

1 s ! ^ 1 i g a-Sl S I l TJ-S'? f-5 I |J*5 S.f J.


O O 4 3 C P . ! * CD. S 2 « S B ft-n !=Jn-' * * * " : « i— --». ,{B *»*l - *».
••;.«,' m. **
O Recreador Mineiro.
Pl*RlODICO ' U T T E I I A R T O .

-gr-pm® 7** 1/ DB FEViiaEino DU 18Í-8. N. 73

BBfia.aBã-i
' LEVANTAMENTO EM MINAS GERAES de de religioso e patricio grave pacificasse
NO ANNO DE I 8 0 3 i os ânimos, e de.«fizesse as tropas-que ik
(Continuação do n.* antecedente) estivessem alistadas, armando-u para •***<•
Escandalizados os Paulistas da aiortan- c m umas cartas que dizia serem d'EiRei,
dade rr que por ordem de Amaral se tinha nas quaes se prohibia aos Paulistas o sa-
feito no Capaõ da Traição, se'recolherão turem de S. Paulo armados. Quiz (ambo-ru
4 S. Paulo com animo de se despicarem; com os raios das censuras impedir o ea«ou«-
e convocados os moradores, lhes propu- n lio, e atalhar os damnos que se teria-
zeraõ a desgraça sucoedida, as fazenda» ao, o grande Prelado D. Francisco de
e reputação perdidas l e , declarando*.ti es S Jeronimo, mandando publicar um mo -
juntamente com graves^razões a tençaõ nitorio : pois naõ era bem que deixasse de
que tinliao de se vingarem, lhes pedi- concorrer a igreja para a desejada paz.
rão adjutorirJi, artimando-os á empreza core Mas como todas estas diligencias acharão
a elficacia que costuma subministrar a hon- oi ânimos taÕ mal dispostos, só poderão
ra gravemente' òffendifla. Foíaõ ouvidos esfriar o fervor de alguns , que mais te-
com altençaõ, e em breve tempo alista- mentes a Deos , e reverentes ao Rei, dei-
is.5 mil e trezentos .hamens , os quaes por xarão de seguir as bandeiras dos apai-
conimiim consentimento elegerão para go- xonados, os quaes antes de emprehendereiii
vernar' a todo o exercito a Amador Bu- a jornada, imitando aos bons catholicos,
eno da Veiga, tJaro.dc a outras pessoas de quizeraÕ implorar o favor divino, mandan-
major suppo,|lçaS os postos inferiores. Fo- do oantar uma missa, á qual assistiu o
..inenyitaõ a empreza alguns Iheologos, novo Governador e seus «equazes.
daodo por justo o titulo da guurra, e Partirão finalmente em direitura de Ta •
naÕ faltou quem esqiitisjdd da paz que bate, para se incorporarem com mais al-
deixeu Christo cm pltruitonio á sua igreja , gumas tropas, que de outras partes es«
do mesmo púlpito os animou á . jornada peravaÕ, e caminharão com tanto vagar,
NaÕ se obrava isto em S. Paulo com que em quasi vinte dias só vencerão o
tanto segreda, que naõ chegasse logo ao caminho , que. em cinco dias coinmoda-s
Hifr.de Janeiro a noticia desta desordem • mente se pótle andar. Nesta villa se de-
e querendo atallial-a Antônio de Aliou- tiveraõ lar«*o tempo , esperando que se u«-
-uci*q.ue Coelho , que jii tinha tomado pos- nisse a gente, que pouoo a"pouco ia con-
se do Governo,despachou a toda a pre* correndo ; e querendo Deos dar-lhes a co-
a ao Padre Simaõ de Oliveira, da Com- nhecer o pouco que lhe agradara a jor-
•.anliia.de .Jesus, para que com autonóa-. nada, pcnnittiu que se abrisse nó convento
! 1 Sò O RECREADOR MINEIRO.)

«ir* S. Francisco uma sepultura, na qual e deixado em paz os forasteiros, oami-r


*•«• ach«>u um cadáver ineorrupto com pos- nhava para S Paulo; e como necessa-
.ura de r|uesn atira; porque tinha um jo- riamente se havia de encontrar com elles;
flhü c;n terra , o braço esquerdo estendido, determinarão recebel-o cortezmeute: e lan<
«> o olho direito aberto. Ao horror se se- to que o viraõ , apurarão as leis da boa
guiu lo*ro a noticia de que o sujeito lòrt*. 1 policia. Animado com tanta benevolência,
de l:iõ iii.v vida, que, perdendo o res» tratou da paz , mas elles a naÕ admittiruõ,
pciirr a Deos e aos seus ministros, com uma persuadindo se que aquelle tratado nascia
lula fui ira o braço de um sacerdote, dfti-^ do incido, que o seu.,t>xercitfl tinha oatV«
xando prime ro ferida uma imagem de Chris- sailo ia nos ânimos dos Embuábas, Rs*-
lo, i|ue eüe trilha na maã. Mas como este candalizado Antônio de Albuquerque com
«•uteesso naõ abrandasse ânimos taõ bravos,, a repulsa t lhes di-,se que fqssem ; mm
d,: Ta bate caminharão para Guaratinguetá, que advertissem que eraõ poucos para o
gastando nas maiehas mais de um mez. que intenlavaõ. Naõ falta quem diga que
Em quanto o exercito marchava, naõ elles o quizerao prender, e que tendo a*
dp-eansava no Rio de Janeiro Antônio de viso secreto deix.-i.ra de ir a S Paulo,
Albuquerque , antes julgando que com a como intentava: mas ou fosse esta no--
sua presença se applacaiiaõ os ânimos, e ticia verdadeira, óu falsa, o certo é que
tleslariaõ as inimizades , caminhou para as elle por Paraty, se retirou pára o Rio de
Muras , e encontrando no caminho a Fr Janeiro, donde a toda a pressa fez aviso
Miguel Ribeira , que com as cartas dos pelo caminho no*gp'aos moradores das Mi«-
tnoiadores o procurava , se alegrou muito, nas, que.viviaõ em um total descuido,
le.-tejando , como era bem , aquella offer- rJo perigo que os ameaçava.
ta. Chegou finalmente acompanhado de Marchou o exercito p a r í o Rio dns
dois capitães, dois ajudantes, e dois sol- Mortes, que era o alvo aonde se diri-
dados ao Caeié, aonde estavaõ a? pessoas. gia a sua primeira vingança, e encontrando
de maior supposiçaõ das Minas , com- no caminho com alguns dos contrários,
pondo umas discórdias , que entre Ma-* que deseiaÕ das Mitías,a Paraty com as
nocl Nuiies e os moradores do Rio das suas fazendas, naõ só os deixarão ir li-
Velhas se tinhaõ originado : e sendo Jogo vres, mas ainda houve tal, que sabendo
reconhecido por Governado*, se retirou que um seu escravo liai lia roubado a um
Manoel Nunes eom beneplácito seu para destes viardante, o castigou asperamen-
as >uas fazendas do Rio de S. Francisco, te ," obrigando-o a restituir tudo o que lhe
t-ontmuando Antônio de Albuquerque, que linha tomado. Depois de dezeseis dias. de
com o seu guverno creou ministros de jus- marcha chegarag aos, Pouzos altos , onde
t i ç a i offioiaes de guerra, confirmando a fuernõ conselho de gnsrra; e como o fim,
maior parle dos que tinha creado seu an- a «)iic se dirigia , era escolher meio com
tecessor ; e tanto que fez o que julgou que se're.stauias.se a reputação perdida.
necessário p r a a paz e bom governo da- e as f-izendas , que nas Minas tinhaõ dei-
quelles povos, caminhou para S. Paulo xado . assentarão naõ fazer damno aiodo
com animo de pacificar também os Paulistas o E-nbuába que livremente rendesse as
Mas cintes de chegar a Guaratinguetá, armai , jul^and,* que com uma taõ hu-
onde já havia cinco ou seis dias que se milde acçaõ se satisíaziaõ cabalmente tan-
detinha o exercito, correu voz que tendo tos aígra vcs.
o novo Guveraador vizitado as Minas,
Chegarão finalmente ao Rio das Mar»
O RECREADOR MINEIRO. I187

tes , onde os forasteiros, avisados pelo Al- hir do fortim dezeseis cavaüos; os quar*
buquerque , tinhaõ formado para sua de— encontrando ao sahir aos Paul>las, th«>«.
fensa em uma eminência, que distaria das deraõ uma valente car«ja. e«os obriçaiaõ
canas da povoaçaÕ um tiro de pedra, um a buscar as casas, junto ás quaes se tra-
fortim , no qual emavaÕ recolhidos; e a- vou a escaramuça, ainda que com par-
vistando estes as primeiras fileiras do ex- tido muito desigual, porque os Einl.nábns
ercito , que descia de uma serra, sabiraõ pelejava© em campo razo e a peito dos,
a recebei-os com animo determinado a paz, coberto com alguns Paulistas, que dandu
e á guerra: e como naõ admittirnõ os a conhecer o feu valor se deix-nnõ ficar
Paufistas as uondiçõe-i da paz, travarão no campo, relirandfj.se os mai«« ás casa-,
uma brava escaramuça, que apartou a donde a peito coberto e com pontaria cer-
noite , sem mais perda de parte a parte do ta damnificaraõ muito aos Embuába». Ki-
que a de alguns cavallos, ficando os Pau- gnalou-íe nesta oceasiaõ Fiancisco Bircnr,,
listas senhores das casas e os Embuába. re a quem acompanhava um filho de poucos
colhidos no seu fortim , o qual cercarão Io annos, mijo valor mereceu especial me-
go os Paulistas continuando por quatro dias mória ; porque ferido com uma bafa em
e noites as baterias com vario0 suecessos, e um braço, respondeu ao pai, que o re?
talando os gados, mantimentos, e tudo o prehendia de ter saindo ao campo, que
que podia satisfazer a sua ira, e causar para taõ generoso succe«so tinha entradq
tlamrio ao partido contrario. na peleja. Signalou-se também Luiz Pc-
Cercado o fortim, mandou o Governa- droso, e outros; e finalmente chegada a
dor Amador Bueno guarnecer as casas noite, e mortos quasi todos os Êmbu«òbn» ,
com alguma gente; e para que melhor apartou o escuro a contenda
podesse attender ás necessidades dos oer» Acabado o choque , mandarão os Pau-
cadores, se retirou a uma alta atalaya listas , que guarneciaõ as casas, pedir ao
com o resto das tropas. De noite inten Bueno, que eslava na atalaya com a maior
taraÕ os cercados queimar as casas, c naõ parte do exercito , munições ; noas aclrnn»
faltarão logo cinco Embiúbas , que, fin- do-o os mensageiros com animo de levan-
gindo»se Paulistas fugidos do forte, se a tar o cerco, e retirar se, ou porque o
•limassem i empresa , e pegassem o fogo, medo os inciiava áqurlla resolução, ou
mas com taõ mau«*successo, que conhe- porque se tinha mettido entre elles a dis-
cendo os Paulistas o engano , lhes tirarão córdia, voltarão para as casas, desani-
as vidas; e para evitarem novo accidenle mando muito com esta nolicia aos que as
se conservarão d'alli por diante ambos os defendiaõ. Naõ faltarão logo alguns, a
partidos em vigia. Ao amanhecer torna- quem parecesse bem a resolução, e qui-
TaÕ ás armas, e mostrou o suecesso que zessem seguir o exemplo ; mas Luiz IV-
na mesma noite tinhaõ cuidado os Pau- droso, sentindo o desmaio , lhes fez uma
listas em queimar- também as casas do pratica, dizendo que estando a victoria na.*.
forte-, porque de manliãa viraÕ uma gua» mãos, seria cobardia deixar o i.iimigo já
rita fabricada por JoaÕ FalonÕ cm um lo- prostrado, e quasi rendido; e que auseiir-
g«ir, que descortinava o interior do forte, de tandor-se to companheiros, caberia maior
donde lhos lançarão tantas freehas acceza* gloria aos poucos que vencessem : que
•obre as casas, que eraõ de palha, que a- para elles vencerem naõ eraõ necessários
teando-se o fogo, foi mui diificil apagai o. mais, pois os tinha ensinado ja a expe
Mandou tanibcn Ambrosio Caldeira «a rienc*a que sem elles tinhfo atj* então per
I iS8 O RECREADOR MINEIRO.

lépido , e reduzido ao inimigo ao mise*- mostras da sua determinação , anianbçoei*


i.nel, estado em que se achava ,- e que po- arvorado 110 terceiro dia um estandarte
dendo elles só resistir a tantos, porque naÕ bianco no mais alto da muralha. Persua-
poderiaõ asora rem'er aos poucos, que iJiruõ-se os Paulistas que era aqoeJIa côí
reslavaõ E tònalmeiitc que no caso em signal de entrega , e com as salvas do
que elles também quizessem pôr nodoa mosqueleria trataiaõ logo de festejai a .*
ira gua (ama , deixando cobardes a bata» mas os cercados com os seus mosqticles
lha , que elle o naõ faria; pois lhe seria e clarins declararão.a tençaõ que tinhaõ
melhor ficar morto corno valente no campo, de pelejar; e fazendo primeiro um ensaio
do que -npparecer com o desar de fugir-' dentro do forte, sahiraõ armados de' es»
tivo em S. Paulo. padas e pistolas, investindo, com. grande
Animados com e-tas razoes investirão fúria aos Paulistas , que os .;receberaõ
ao fortim com tal fúria, que fazendo muifo mettidos nas casas. Persistirão algum tem-
i«'íro,,e mettendo grande espanto, deter- po no campo, mas como do seu valor naõ
minarp.õ render-se os cercados. Houve tiravaõ mais frueto do que perderem, como
tregffas para se a juntarem as capitulações valentes, as vidas, porque os Paulistas
da entrega, oflerecendo os cercados coro com pontaria certa e sem risco os acaba»
as armas tudo o que se achasse no forte, vaõ, tocarão, a recolher, sem mais fruetu
f-onientaiido-se com que llies permittisaem do que deixarem no campo alguns mortos.
*>«s vencedores as vidas : mas como hou- Recolhidos continuarão até, à noite a
vessem alguns Paulista», que lembrados peleja com as arenas de fogo, tendo até cn-
da mortandade do Capaõ, e esquecidos* taÕ perdido os Embunbas oitenta homens,
do assento que ,tinhaõ feito em Pouzos e os Paulistas somente oito, com naÕ
ai.)os , de-naÕ .fazerem mal aos Embua- poucos feridos, de que perigarão também
feas que livremente rendessem as armas, alguns. Foi a cansajlesta notável desigu-
íjaõ quizessem acceitar mais condição* do aldade a vigilância que havia da parte dos
fjue tirarem a todos aa vidas, naõ foi pos- Paulistas, e a destreza com que usavaõ
sível aju-tar-se nada. Por cartas, que das escopetas, pois» apenas npparooia«a»*bre
Jiies lançavaÕ em frechas os Paulistas que a muralha alguma cabeça, quando-lego
estavaõ nas casas, sabiaõ os sitiados a com' um ,*Aeli)üro a faziaõ victima da sua
má vontade que havia em |%uns do ar- ira: e como obí'igav»õ.»as*-im aos,9Ítiado*o
raial inimigo, e ainda assim continuarão a pór somente a b.«cca das suas slavina»
a propor algumas condições .' mas como sobre o muro, c-*. disparar sem ponta-
nus Use concedessem as vidas , e outros ria, evitarão 03 danmos >, que ; tanto la-*
lhes respondessem com os tiros das es-> mentavaõ os seus contrários* Vendo ti"
eopetas, pedirão finalmente que ao me- naliiier.tc os Embnábas que sem remédio
nos deixassem sahir livres «is -mulheres e perdiaõ as tida?, «e re?olveraõ eutaõ ao
cs meninos; mas era tal o orgulho e mà ultimo esforço , determinando saturem *te-«
vontade dos que já se suppuuhuõ victo- dos no dia seguinte. Prepararão-se toda
riosos, que nem iüto quiaeraõ admítlir a a o u t e , e dciiran «Io. sobre a muralha ui
iiip. imagem cie S. Antônio, sahiraõ d*
Pasmados dois dias» movidos,os cerca» forte ao anianhecer de uai snbbado, com
doa com a ultima desesperaçaõ, determina- tal -foituna que j á naõ acharão coia quem
ra© morrer antes pelejando no campo como peleja**.; porque os Paulista»;, f>u diseor-
v*jeatc|, úp que perder as vidas como co- l jes» entre si ou temerosos com a. noticia
bardes no ret-i-jto, do foi te 7 e para darem
O RECREADOR MINEIRO. 1 89

de mil e tresentos homens , que do Ouro lillcnl eílava a esprciln cerro «ot
Preto marchavaõ a soecorrer os sitiados, atirador rm sri liw lia perdida , que.
tinhaõ (ugido naquella noute sem serem espera o morr.cnlo de surprender uniu
.etitidos. vedela do inimigo. Escondido 110 an-
Foi voz constante que ao voltarem os gulo de «ma porta cocheira , ajfiiar
Embuábas paro o fui te aeliaraõ a S An- dava alguma cousa eom a paciência
tônio em outro higar eom uma bala en- natural aos an antes e que sempre
gastada ro cordaõ, e a uma imagem de
acaba por lhes fornecer a occauiao
N. Senhora com um milagroso suor ; e
que agradecido» ao seu bemfeitor o le- que proouraõ e da qual elles saiuIU
varão enuprocèssBÕ , e o eollcoarüõ com aproveitar-se. Quasi defronte do i c -
grande júbilo- no seo antigo lugar Km canto , em que Leopoldo estava e s -
quanto porém se celebrava no forte a condido, elevava-se uma linda casa
na6 esperada liberdade, caminhavaõ para que o manctbo n.ô perdia de vista :
S: Paulo o* deseitores eom tal pi essa , a poiln d*«s(a casa abriu-se, e sabiu
qne chegando poueo depois a? tropas, que um oilicial de lanceiros, dinda 11 ôço,
vinhaÕ soecorrer aos sitiados , ja naõ os vestido cem o sen grande uniforme r
encontrarão, ainda que leiader, da fuiia Leopoldo d eixo 11-o passar ficando
milhar lhes seguirão por oito dias os al- muito quieto. Alguns miuulos depois-
cances. Com;- este mau suecesso naõ des
sahiu d'esla casa um lu rr.cm já de i -
maiaraõ os Paulistas, antes como valen-
tes Antheos cuidarão-em alistar soldados, dade , e apenas elle passou para outra
e eleger novos cabos : mas estando ja rua , Leopoldo sahiu de seu conto,
cm boBS termos* a «uptexa, apparrceu bateu mansamente, e dando seu non.r-
Antônio 'le Albuo-***«|*Me com o governo ao porteiro, suLiu a um salaô rica»
ile S. Paulo , e ape-taJas ordens d'EIRei, mente adornado, onde estava certo
para que fossem os Paulistas habitar pa- que havia de encontrar a pessoa quo
cificamente as Minas, impondo graves pe- procurava. Com efieilo alli se achava
nas aos que primeiro violassem a paz; uma menina , sentada junto do fejrSo,
e entendendo o Sobeiano que ânimos ge- o sústentaqebo em suas niveas tirai .*
nerosos se dcixaÕ ««vencer com qutrlquer um livro que folheava sem ler : logo
affago,lhes enviou pelo novo Governador
que cila avistou Leopoldo , largou o
um retrato seu-, que ainda hoje se con-
sewa1 na easa da Câmara, para que en- livro, n com ocotoveüo apoiado no
tendessem que visitando-os daquelle modo, braço du cadeiia, e a face enco*'ada
já que pessoalmente o naÕ padia fazer, na maõ , | òz-se a olhar al.cnlamcu .
tomava aos Paulistas debaixo da sua real te para elle.
pretecçaõ» Com este sii**^**»r favor se .«-n-
tisfizjraÕ os Paulistas, ti esquecidos dos — E eiitJo" Cecilia'• lhe diz Leopoldo-
aggravos «-lassados deptizeraõ as armas — E então, meu caro Leopoldo! diz
a menina com um ar tri«te.
— Bem o vês, Cecilia, eu estou per-
A EXPEKIEJÍCIA.
dido , não tei.Iio já esperança... e
comtudo tu anias-me.
Na rua Du^asis^. em Versalhes • —Ara o o duvidas ? repliteu cila a»
am marjcekv**, chamado* Leopoldo Du baixando, os olhos. •**
nOo O RECREADOR MINEIRO.

O' meu Deus, não! diz Leopoldo • mas uma paixão violenta por mim.
também eu oão duvidava de leu pae; — E o senhor Dubois, teu pae, nlo
é verdade que elle nada me tinha pro- pode recusar cousa alguma aos senhoe
medido , mas via com gosto o nosso res de Marsan , pie e tilho ?! pergun-
amor , « isto , e tudo me induzia a tou Leopoldo pálido e tremulo de co«-
crer , que me acceitaria para gemo : e lera.
tu vês o que aconteceu. —- E* verdade , responde a menina
Dizendo isto , havia-se aproximado de Dubois.
Cecilia ; e seu olhar, sua altitude, seus — E tu ?
suspiros, tudo annunciava o mais vi- — Eu, amo-te , Leopoldo , mas toda
olento amor. a minha vida obedecerei a meu pae ,
— .VI. DJbois, meu pae , quer-me e elle quer que eu case com o capi-*
•mais que a si mesmo , meu caro Le» tão. Não fatiando de sua riqueza, e de
«opoldo, e está disposto a dar minha suas qualidades exteriores, disse-me que
-mão ao homem que julgar irnis pro- se eu o recusasse, isso o malquistaria
jirio , por sua posição , e por tua for- com o senhor de M irsan , um amigo
tuna , a fazer a minha felicidade. de trinta annos. Além d*isso , pensa elle,
— Mas o amor ] exclamou o joven a- que Gustavo de Marsan é o uuico ho-
mante. mem que possa fazei-me feliz, e ac*
— Sim , o amor ! replica Cecilia, é crescenta , que se eu * não obedecer ,
u única cousa que vemos no mundo, elle nSo dará seu consentimento a ne«
nós que somos moços; mas os pães nhum outro casamento , e que morre»
tem outras idc.es , elles põem o amor rá de dôr.
ou classe das cousas futeis, passagei» A voz da senhora Dubois ia enfra*.
i a s , e.... quecendo á proporção que fallava, por
— E na podes crer qne o amor que fim os soluços sulTocaião-n* , e derra-
tenho por ti se enfraquecerá ? mou uma torrente de lagrimas.
Eu t não , Leopoldo , é meu pae que — Assim , tu me és roubada ! e x -
lem essas idéas, tu sabes que M. de clamou Leopoldo ; *u a quem eu amo,
Musa ri, capitão de lanceiros, nova- tu que eu adoro , por quem 'daria cem
mente de guarniç-So em Versalhes, che- vcz:*s a minha Tida p e sem a qual me
cou antes de hontem. sei ã impossível viver! I
— Sim. e eu esperei que teu pae e — Eu serei victima da minha obe-
elle tivessem saindo de casa , para a- diência filia" repetiu Cecilia ; eu obe-
«mi entrar f t o r n e i a sido impossível decerei para não passar per má filha í
conter me diante d'este odioso rival mas eu amo-te, Leopoldo , só a ti é
— O capitão de Marsan é íilho de que amo*
tini iniimo amigo de meu pae, está Então LeopoMo levantou s e . passe-
<*in relações mui intimas com meu ir- ou no salão com um ar afflicto », de»
mão , que , como sabes , serve também pois aproximando-se da sua amada,
na o.v.'llaria. Os dous pães proinette- lhe disse:
jão unir seus filhos , ou para me ex- — Não me esqaecerás nunca ?
plicar meliior, o senhor de Marcan — Nunca , Leopoldo.
pediu este favor a meu pae, e o senhor — Mas obedeceras a teu pae ?
tapii-lo de lanceiros julgou que tinha • — Farei todas as deligeacias para te*
O» BECttEAOOR MINEIT.O iir,.

se consigo rfazel-o mudar de resolução. cília ; eu sou moço ainda . e po»so es-
— Mas confesfo-le qüe não me pa- peiar uma longa vida, pnis bem! o .
.ece um meio infallivel, disse DutiU a daria toda por seis mezes, por três,
leul cem vote sombria. por dous.. que digo? por um inez ,
— Diz, meu amigo , diz qual ét com tanto que eu vivesse couitigo du-
— Eu me encarrego de o pôr em rante esse mrz.
pratica. >*.-. — Üe que amor me priva meu pae!
— Deveras , tens tenção de fallar com exclamou involuntariamente C«*cilia. En-
meu pae? ...« tão , accrescenlou e4la , se me aronte-
. •— Não , Ceeilia , eu faltarei com o cesse urna desgraça imprevista , se per-
senhor de Marsan. •»« • desse as minhas riquezas , meu pae....
— Que pretendes fazer meu querido?! se a opinião me censurasse, se a ca*
armar uma pendência por minha causa? lutnnia lançasse uma mancha na mi-
coinproinetlcr-me , fazer de mim o pre- nha reputação , esse amor , seria sem*
90* ,de sangue, e condemnar-me as la- pre o mesmo ?
grimas e íi desgraça qualquer que seja —> E podes -kiviJar d'isso? replicou
o resultado do combate ? 1 Oh ! não , Leopoldo. Toda a minha desgraça pro.
meu amigo , não ! tomemos meios mais cede de tu seres rica , feliz, estimada....
suaves. Vae ter com meu pae , falia- se assim não fos»e o senhor de .Mar-
lhe do teu amor, e também tio meu, san não te procuiaria, e nós seriamos
que isso te permitto , e depois .-ataque- dilosos.
mos o senhor de Marsan por meio de — Ouve, Leopoldo, replicou a me-»
considerações mais judiciosas, a que nina , meu casamento roín o senhor d<*
ha de ceder, . se for homem de brios Marsan está resolvido , mas ainda não
cavalheiros,. 1. está feito , temos ainda tempo, sus.
O joven amante não quiz escutar es- pende por ora esses projectos de vin-
tes, conselhos , enfureceu-se , disse que gança que me fazem estremecer, e per •
não podia viver sem a m a amada ; que mitte me que tente um ultimo esforço
sabia muito bem que a vontade do se- junto de meu pae.
nhor Dubois não mudaria , e que de Leopoldo Dutilleul sahiu triste e ir.
Marsan não mudaria também de amor, ritado , e longe de seguir o conselho
pois Cecilia era muito bella para que de sua amada , apenas chegou a casa,
alguém voluntariamente renunciasse h foi seu primeiro, cuidado enviar um
sua posse; que erajypreciso acabar com cartel ao seu rival-, fechou depois a
isto, desembaraçar-se d'um rival odioso, carta , pnz-lhe o sobrescripio «
ou morrer aos seus golpes , terminan- deitou-se cheio «1'cstns idéas de de*.
do aaiim uma vida desgraçada. alio, que per imbuo o soiiino: SIM
— Então , amas-mc tu muito ? lhe noite foi agitada , elle dormio mal, n
dissq, Cecilia chorando. de madrugada j.i o seu criado o achou
—.Se eu te amo 1 Houve por ven- levantado.
tura em tempo algum paixão mais vi- — Leva .esta caita á pessoa a quem
olenta que a minha?.... Fortuna.... se dirige.
riqueias..., futuro.... eu daria tudo pe- O criado leu o sobrescripto, e r e s -
la felicidade de ura só momento,, Ce- pondeu a Dutilleul;
flgft 0 REGRE ADOR MINEIRO.

— O senhor de Marsan I elle está na Dubois. e entendi que a política me


sala de espera e deseja fallar-lhe i prescrevia a obrigação de vir partici-c
— iManda»o e>trar. par-lhe. Já não tem competidor, sé,
O official de lanceiros entrou : vestia nhor, pódc casar com ella se qnias***4
feu uniforme pequeno , e saudou Du- — Senhor..', muito.obrigado', res-
tilleul com toda a política e cortezia. pondeu Dutilleul, perturbado , por tal
— Senhor . diz elle. eu não tenho cumprimento ; mas poderia eu saber.,.
a honra pe o conhecer , e também não -!- Nada , senhor. .
meconhece a mim-; entretanto na si* — Comtudo as razões....
tuação em que ambos estamos , deve — As razões que me determinarão
achar-se bem natural a minha visita. são minhas , não respeitio a pessoa al-
Dutilleul lez uma profunda cortezia-, guma , e assim não tenho que dar con»
o ofücial continuou -. ta d'ellas, nem o senhor tem o direito
— Meu pae é amigo intimo de M. de exigir informações : isso pertence ao
Dubois ; eu tenho grandes ligações, com pae e ao irmão da menina , e a estes
seu Gllio, que serve no meu regimen- eu sei o que hei de dizer. Tenho a
to ; estas relações levarão meu pae a honra de o cumprimentar. O senhor
desejar fazer-me esposar a filha do seu de Marsan lez com effeilo uma grande
nniigo , e eu abençoei o acaso .que, cortezia e retirou-se.
trazendo-me de gnarnição a Versalhes, Quando Dutilleul ficou sd , lançou os
parecia facilitar esta uniãe. Vi Cecilia e olhos sobre a «*arta de desafio , que es-
•ornei-a.... O senhor concordará facil- tava intacta sobre a sua banca, e pôz»
mente cm que isso não é diffici!. se a reflectir profundamente.
O sculior Dubois teve a bondids de Teria Cecilia ia liado ao senbor de
mforiuar-m* que o tenhor Dutilleul a- Marsan sobre seu intentado desafio? isse
mava sua filha, e que esta lhe cor- não era provável. Retirar--se-ia o ca-
•respondia $. «mas um amante não du- pitão de lanceiros com o receio de um
vida jamais de que seu amor será bem duello? naõ, isso não era crível. Ha-
recebido , principalmente se este aman- via comtudo alguma cousa que obrigava
te é novo , rico , de boa família , e tem o mancebo namorado a dar de mio a
algumas qualidades phisicas; porisso uma menina rica .•bella e bem appa-
estou certo que me perdoará o ter con-« rentada-o que tinha descoberto o Stf«
servado esperanças. nhor de Marsan ? algum defeito, a»«
Eu estava decidido, senhor, a dis- guma mancha.- ura enredo amoroso
putar-lhe a mão da senhora Dubois por talvec... um erro.... ura amante*.:;
todos os meios possíveis- tinha por mim quem sabe! uma d'esras amizade* cri*
a amizade do irmão ,. o consentimen- minosas, que deshonrão uma vida in*
to do pae, e mais tarde estou certo teira....
que teria o amor da filha. Esta idéa era muito -cruel para^e de-
— Senhor ? morar n'ella ; rejeitou-a pois, mas ella
— E' esta a minha opinião : e eu fal. voltou , e elle se foi costumando ape»
Jo-lhe assim para fazer- lhe comprehen zal a no seu espirito, encarou a de
«cr que o senhor não entra em nada mil maneiras; e havia-se demorado mais
na minha nova resolução. Mudei de de uma hora n'esta meditação quan-
opiniso j renuncio a mão da senhora do lhe rierão trazei* agia çarla*^ Era de
O RECREADOR MINEIRO. n93

Cecilia Dubois , que se exprimia asiim-. ..centro.


a Meu caro Leopoldo , vem depressa- • — Meu caro senhor de Marsan, lhe
eu creio que meu pae começou a estar diz elle, quanto me alegro de encou-
pelo que é justo • de duas uma, ou tral-o aqui J espero que agora leia a
tem esfriado a respeita do senhor^ de bondade de explicar-me...
Marsan , ou comprebende que não é • — Senhor ' de Marsan ! respondeu
tossirei amar. veidadeirameme uma fi. O oflicial : engana-se , senhor - eu clia-
Iha ,', e contrarial-a nas suas mais ca-
ras affeições. Vem , o momento é ia-
ino-ine Dubois. Ah ! ah '• ah t j» sei !
àccrescentou o capitão Dubois., •• o se-
roravel, e espera* te.j. CECÍLIA. » nhor Dutilleul. àh * a h l e um liso
— O momento i favorável , e espera- jnextingüível se apoderou do capitão.
te Cecília • exclamou Leopoldo Dutil- — Porque â eíse riso , senhor 1
leul depois de ter lido esta carta *, eu \ — Quer explicações? diz ò capitão
o creio. Quando se retira um amante, para isso não poderia dirigi i-se melhor,
i muito mais commodo o assegurar-se t u lh'as dou.
de outro *, quando se perde um genro, \ Minha irmãa amava-o , senhor ; meu
não é mito ficar eom outro á mão.,.. pae queria com effeilo . casal-a com o
Ah t ah ! Cecilia •-•.então teu pae es» senhor de Marsan, meu amigo > e eu
ftiou-se a respeito do senhor de Mar. levava muito em gosto este matrimo»
San," que recusa casar comttgo , e me» nio ; minha irmãa potém resistia , in-
Ibor instruída do que eu , sabes tam- sistindo em que o sejihor tinha por ella
bém a causa. Ah ! um pae què ama um amor qfie nad*' podei ia enFracJMC-*
verdadeiramente sua filha não contra- cer- nem destruir; eu propuz uma
ria o seu amor ! A historia não está experiência. Sou eu quem fingio e pa-
mal arranjada ! por desgraça tua , es- pel de Marsan , e^qhe pela texperien-
queceu-te que hontem me disseste, que dia a mais simples provei a"Cecilia quão
teu pae morreria de dor se não cazas» podia ella contar com" o sèü amor. O
ses.com "o filho do sen amigo. resto sabe o sr. O verdadeiro Marsan não
Dutilleul julgou-se trahido, julgou- chegou a Versalhes senão oi to dias depois
se enganado • suspeitou que querião fa- da sna partida. Elle é bello é amável:
zer d^lle tolo. Na sua opinião , a me- não lhe custou muito' fazer»se amar de
nina Dubois era mil vezeS mais culpattV Cecília, e ha um mezque é seu mando.
que seu pae. •*í* : Está contente , senhor ?
,Em conseqüência d'esta opinião to- Dutilleul não estava nada contente,
mou as suas disposições . seguiu para nías não ousou affròní?!*' um duelle ,
Pari» i e li tomou uma sege de posta . cujo resultado teria podido augmentar
que o coduziu a Torena, a casa de a sua confusão. Disse paia sempre a-
um t i o , que tinha, jà velho. dèus, a Versalhes, e estabeleceu.se na
Ties mczes depois achava-se elle na Torena. _______
formosa cidade de Tours, passeando de-
baixo de uma alameda de.arvores ma- População do Brasil-
gníficas ; eis que viu approximai.seum
emcialde lanceiros, que lhe pareceu O iTenso^ de 1798 deu lhe o numero de
jà ter visto em outra parte ; reconhe- 'i.ÓOO-ÍKJO de habitantes. Secundo o rela-
ceuto -finalmente, e coracu ao seu eu*^ tório diricido ao Rei em 1819 eontava se uo
**í)4 O RECREADOR MINEIRO

Brazil 3:617:900 habitantes. as históricas, 6oo:o2o


8»3:000 iiraneos
1:728:000 pretos captivos. MARANHAS.
426:010 mestiços mulatos, mame-
lut-os, libertos 1835. Startz. 213:f>oo
259:400 Índios de varias castas. 1838. Fabregas 2oo:ooo
202:000 mulatos captivos. 1841. Presidente , J.-A. de
159:500 pretos forros. Miranda. 217:o54

3:617:900 pessoas. PARA .'


Desde então o senador José Saturnino
ila Costa Pereira em 1831 (&. Diccionario 1835. Sturtz; 176:ooo
lopographico ) calcula em 3:800:000 indi 1838. Fabregas. 180:000
Md nos. De Huinbolijt ejeva a 4:000:000 1842. J.-A. de Miranda. 2oo.*ooo
o lotai da população , e o Senhor Sturtz
( Slatisliçaâ Re.view) apresenta ern 1835 CEARA'.
liuiii total de 4:050:000, habitantes , e o
senhor Fabregas Sur'f?uí? *m 1838 f .4/- 1835 Sturtz. N. 186.000
niitnak do Império) lunn effeçlivo. de 1837. Relatório do ministro do
4:206:000 habitantes. Império. 199:51o
* • •
1838. Fabregas. 18o:ooo
MAPPA8. DA POPULAÇÃO REPARTIDA 1839. Pte., JoaÕ A. de Miranda. 2o8.l2J
PELAS PROVÍNCIAS.
MINAS GKRAES.
RIO DE JANEIRO..
182o* Spix et Marlius. 621:885
A-inos Autoridades Numero,.. I8S5. Sturtz. 834:ooo
J835 Segundo «Sturtz. •, 450:000 1838. Fabregas; 760.000
1838 » Fa,brf*gas. 4Q0.000
1840 Relatório do ministro do s» PAULO.
Império. 430:000
1844. Relatório do ministro do 1835. Sturtz. 338:ooo
1 mperio. 436:483 18.38. Brigadeiro Müller.' 326.000
1838. Fabregas. 32o.-ooo
BAHIA, 1840. Relatório do ministro. 363:624

1835. Sturtz. 650:000 .810 GRANDE DO SUL.'


1838. Fabrega3. 650.000
.1845. Diccionario de Millitt. 650:000 1834. Visconde de S. Leopoldo. J64:5oo
1835. Sturtz. 169.ooo
PERNAMBUCO. 1838. Fabregas. 16o:ooo

1835. Stnrtz. 348 000 SANTA CATBARIKA.


1838. Fabregas. -, 3200:000
J*842. B. F. Gama. Memóri- 1835. 8tnrtz> . 56:oo«-
O RÉéREÁDOR M I N E i r o . n95

1838 Fàbtega». 5o:ooo 1839. Ministro do Império. 97:692


1841. Ministro do Império. 66:228
184*4 C. Vali Lede. 67:218 MATO GROSSO.

ESPIRITO SANTO. 1835 Sturtz. 46:000


1838 Fabregas. 40; 000
181*7. Memória de hum Capixaba. 24:587 1844. Ministro do Império. 37:826
1895 Sturtz. 44;ooo .V. B. Diffieil he conseguir exacto
1838- Fabreiras. 46:000 cotnputo da população do Império, pois
1833. Ministro dó Império. 2«3.*ooo segundo certas autoridades o recensea •
1811. Ministro do Império. mento dá hum calculo, e segundo outra*
encontra-se hum numero contrario. O
SERGIPK. censo do Senhor B.-F. Gama apresenta
para a provincia de Pernambuco em 1842,
1835; Sturtz I28:ooo 400:020 habitantes livres , sem dar conta
1838. 12o:ooo dos escravos ; o censo foi tirado em 1842
1839. Ministro do Império 167:387 para a eleição da presente legislatura, pelo
1845. Ministro do Império. 128:000 qual conta5r.se na provincia 120:004 fo~
Í?OS , a cada hum dos quaes dà-se cinco
RIO GRANDE DO NORTE. pessoas : a escravatura diz o mesmo se-
nhor excede muito pouco aos dous ter-
18.11 Sturtz. 46.000 ços da população livre. Vê-se clara-
«836. Ministro do Império. 87:«J00 mente que este calculo íoi baseado sobre
1838. Fabregas 40:000 a precisão e manejos eleitoraes, e qu«
eqüivale ao da provincia do Maranhão qnc
PAR Ali! BA DO NOKTE. deu quatro mil eleitores na mesma época.
Basta para se convencer da dificuldade
1835- Sturtz. 109:000 • de tirar hum censo exacto da população
1838. Fabregas. 100:000 de huma cidade ou de hum reino, de
comparar os divergentes assentos d os geo-

ALAGOAS.
.graphos a respeito da população da capital
do Império do Braz.il.
1835. Sturtz. 126:000 Fabri. 30:000
1838. Fabregas." 12C-000 H assei. 120.000
Mawe. 100.000
riAUBT. Blackenridge. 90000
Caldleugh. 125:000
18*35. Sturtz. 68:000 Roussin. 120:000
f838.'' Fabregas. 60.000 Spix Marlius. 1)0.000
1839.. Ministro de Império. 92:000 Luccock. 76:000
Weech. 180.000
O0TAZ. Shaffer. 210:000
Volger. 200.000
1835. Sturtz. 63:000 Ministro do Império, 97.-I6. e J3; :000
183». Fabre-^s; 60:000 (para o municipio e m 1838.
1196 O RECREADOR MINEIRO.

Farre**as em 1838 2I0:800 r e n d a . Annunci5o«*se pois, como teu*,


Milliet em 1815. 170:000 do o poder de resuscilar os defun-
Este ultimo ceri^o que se lê no Noo» tos ; e para que não haja duvida d*istd
diccionano groçraphico do Império d promeltein restituir a vida ao fim de
Brasil, por Milhet e Caetano Lopes il* Ires seman-ts, em o cemitério que se
Moura, parece exaeto; elle dà 170;000 ha
bitantes para a capital assim repartidos lhes quisesse indicar, a qualquer defuo»
60:000 Brazrleiros natos, e adoplivo- to que seja , aindr que tenha dez an-
25:000. Estrangeiros de varias naçõ •» nos de sepultura. Entretanto rogao
85:000 Escravos de toda a côr e sex. ao juiz da villa os mande guardar
á .vista para ter certeza de que nao fu->
170:000 girao; e que lhes seja concedida licença
Pode ser calculada hoje a população do para venderem remédios» e exercerem
Império , de cinco mjUiõis e meio a •*««• as suas habilidades Pareceu tao bella
milhões de habitantes; os negros eap'i»**v a proposição, que ninguém duvida
montaõ a 3/5 pouco mais uu menos da em os consultar, runche-.se a sua casa
população total. C< nlbrme infonmiçõ
exactas ha no município neutro e na pro de compradores; todos achao dinhei-
• incia do Rio de Janeiro hum milhào de ro para pagar a estes médicos, de nova
escravos , t p6de«-se sem exa^ei-açaõ con- espécie. O mais moço dos dois. char"
tar dous milhões no resto do Biazil. latnes que linha menos audácia,
DIVISÃO DOS ESCRAVOS. deo parte dos seus temores ao «eu
Dividem-se os escravos da maneira se- companheiro: " Apezar de, toda a vos*.
guinte : ,, sa habilidade, creio que nos .ex*.
Kscravos empregados na Iavaura 2:£0000i „ pondes a sermos pedrejados; por
» domésticos 100:01 X ,, que, finalmente, não tendes o poder
» sem olficio 200:0' ( ,, de resuscilar os defuntos, e per-
» alugados. 200:0t» ,, tendeis fazer mais do que o Ides-»
„ sias mesmo,' que não resuscitou La»
TOTAL 3:oOO.*00'
\„ zaro, senão depois de quatro dias.
Do Animario P. H. e estatístico do Brasil
•> —Não conheceis os homens, re*
M plicOiU o doutor; eu estou mais
MODOS DE VIDA.
,, soçegado do que pensas.,, .*-;•
Um dia chegarão dois charlatães a Ju-tificou-se a sua presumpção :
uma pequena villa • mas como Ca mal tinha elle fallado, quando re-
^liostro Mosmer e outras perso- cebeo uma carta ds u«n fidalgo da
nagens importantes acabavão de se vi.-inhança em que lhe dizia :' •• '
appresentar em Pariz, com o tí- ,, Sr. contarao-me que estais pãwt
tulo de doutores, que pelo* gesto e ,, fazer u a ) a grande operação, que
o contacto, eurav-õo todas as molés- >» me faz tremer de medo. Eu ti-»
tias , elles julgarão que era necessá- M nha uma má mulher : Deos foi ser*»
rio fazer alguma cousa mais extra- I ,, vido livrar-me d'ella , e hoje seria
ordinário para acreditar a sua çc*** ,i o míis desgraçado tios homens, «se •
O RECREADOR MINEIRO. i 9-

\, vós a resuscitassps ; por tanto ro- \ CHARADA


,, go-vos não façaes uso do «osso se*
,, gredo na nossa villa; e aceiteis Os hospedes meus não fallão 2
y, uma pequena indemnisação'de 5o Faço a grande pequenina. 1
,, Louises , que eu vos mando , etc.
Uma hora depois, ch> garao a ca«a dos CONCEITO.
charlatães , d»*.*- moços banhados em
lagrimas, « ófferecendo«-lhes < o Lou Chamo a ricos, chamo a pobres ;
jses, com a condição de não usarem Desterrei das casa» nobres
do seu sublime talento, porque ei A quiiihemi.-ta busina.
les receavão da resurreiçao de um
parente velho cuja herança acabarão
de receber. A estes suecederáo outros Rogamos aos srs. assignai»
que também trouxerao seu dinheiro,
epor semelhante medo fiseráo a mes tes que ainda não pagarão
•ma stipplica. Finalmente, o juiz mes cousa alguma da sua assígna-
mo veio dizer aos dois charlatães . tura ,* aos que devem dou**
que nao duvidava , de modo algum,
do seu poder maravilhoso do que
annos e meio; e aquelles que
tinhaõ dado bastantes provas por mui não saldarão as suas contas
lissimas curas extraordinárias; mas quando terminou a remessa
que a famosa experiência, que elles das folhas, a bondade de con-
estavao para fazer no dia seguin-
te, no cemitério já linha amotina»' sultarem a' relação destas d i -
do toda a villa, que receava-se mui» vidas , que, para seu me-
to ver resuscilar defuntos cujo lhor conhecimento, distribu-
volta podia causar grandes revoluções ímos avulsa com o* n.^ 72.
nas fortunas ; e*em conseqüência dis-
so , rogou-lhes que partissem , oflerc Rogamos igualmente a«s srs.
cendo lhes uma attestaçao feita cnm assignanles que alli não forão
todas as formalidades , na qual cons- mencionados, e que devem
taria que elles verdadeiramente re-
suscitavão os defuntos, Com etTeito
um e dous annos da sua as-
foi assi^nada, firmada , legalisada a sígnatura, o obséquio-de mau-*
dita certidão ; e os dois cpmpanhei- darem satisfazer a importância
rof carregados de dinheiro, forão mos- respectiva.
trando por todas as províncias a prova
legal do seu talento sobrenatural.
(Publicação a pedido de um assi- *- A charada do n. antecedente ex,-
gnante). | prime a palavra — A"po.
1 if.tr O RECREADOR MINEIRO.

CORRESPONDÊNCIA.
Rogo-lhe o favor de admittir na sua folha, para ter a
devida publicidade, a presente Tabeliã, ou regulador dos.
\alores da Prata , que foi o segundo metal a que os ho-
mens derão estimação, e descoberta por Mercúrio 5.» mui
próximo ao Monte Pangeo em Tracia.
A Prata nasce em muitas partes das índias, de'Hespa-
nlta. e também em as faldas da Serra Morena, e Guadal-
cauái, muito nomeada, e rica mina que em nossos tempos ap->
pareceo, donde sahia a Prata pura , que sem trabalho se
reduzia á sua maior iineza.
A Prata é um metal branco, e claro brilhante, de tex-
tura solida , e por conseguinte capaz de bom polido; ven-
ce em malleabilidade, e ductilidade a todos os demais me-
taes , excepto ao Ouro*
A Prata é de menos valor que o Ouro na proporção
( regulada na Lei de k de Agosto de 1688 que subsiste, até
hoje) como de l para 16.
A Prata divide-se em dous gêneros; uma perfeita . e
outra imperfeita: a perfeita é a que é pura sem mescla
incorporada em si d'algum outro metal; a esta chama-
mos de 12 Dinheiros, e delia se acha alguma* a outra se re**
fina com chumbo por copellação.
A Prata imperfeita é aquella que não cnega á sua ma-**
ior fineza , em razão de ter em si incorporada liga de co-
bre, e alguma de mistura com latão, que faz declinar da sua
perfeição descendo-a de valor.
A Tabela que abaixo apresento , instruirá o justo va-
lor da Prata no peso de um marco ,'ho de onça, e"no
de uma oitava reduzido do de dose dinheiros a um $ -
wheiro , em concordância, com o actual valor do Ouro na
proporção de 1 como para 16.
{Segue-se a Tabela do valor da Prata)
0 R E C R E A D O Ri M I N E I R O . 1.99

i inheiros Valor do Marco. Valor da Onça Val<;r da Oitava


12 17..454 6 11 avo* 2,. 181 9 Ilavo- 272 8 11 avós
11 16„000 2,000 Í50
10 .,'14„545 5 „ „ I..8I8 2 „ V 227 *** *, >»
9 I3..090 10 „ „ I..636 4 „ V 201 6 -, ,,
8 11,636 4 „ ^ l„454 6 „ •< 181 9 .. „
7 10..I8I 9 „ W„ 1„272 8 „ ,, 1.59 1
0 8,.727 3 „ „ l„090 10 „ 1» 136 * >, -
5 ... ?,,272 8 „ „ ,,909 1 „ » 113 «-*
4 5,,818 2 „ „ ,,'27 3 „ »> 090 1 0 „ „
3 •.,,363 7 „ „ ,,515 5 „ » U68 »> ,»
2 2„909 1 „ „ ,,363 7 „ ,» 015 5 » J.
1 I..454 6 „ „ .,181 9 ,. 022 8 ,, »

Esta outra Tabela que annexa se apprezenta , do valor


do Ouro por Quilates alternados é para provar como cor-
responde o valor jila Prata na razão de um para 16 com
o do Ouro, o que se evidencia nas duas Tabelas; pois que
multiplicando-se qualquer das addições das columnas da
Tabela supra do valor da Prata pelo multiplicador 16 in-
dicador de Marcos, ou de Onças , ou de Oitavas, o pro-
ducto que der qualquer multiplicação, se é o mesmis*.
simo já reproduzido nesta outra Tabela, na mesma co-
lumna. e addição.
Quilates. Dinheiros Valor do Março Valor da Onça Valor da Oitava 1
24 ou 12 2 7 9 , 2 7 . 8 11 avoí 34„909 1 11 avós 4,,363 7 11 avós
22 ou 11 2$6„000 32„000 4.,000
20 ou 10 232„727 a ,. 29„090 10 „ „ 3„636 4 „ „
18 ou 9 209., 154 6 „ 26„I8J 9 „ „ 3 , 2 / 2 8 „ „
16 ou 8 I86..I81 9 ,. 23„272 8 „ „ 2,-903 1 „ ; ,
14 ou 7 162..909 1 „ 20..363 7 „ ., 2„545 5 „ „
12 ou 6 13 9 „636 4 ,, I7„454 6 „ „ 2-, 181 9 „ „
lO.ou 5 I16..363 1 » I4..545 5 ., ;, I„8I8 2 „ „
8 ou 4 93„090 10 „ H-636 4 „ „ J.,454 b* „ .,
6 ou 3 69„818 2 „ 8„727 3 „ ,, )„090 \õ„ ,,
4 ou 2' 46„545 5 ., 5„818 2 „ „ 72- 3 „ „
2 ou 1 2.3„272 8 ,, » 2„909 1 „ „ .'«ô3 7 ,. ,, 1

Feita» a concertadas pelo ..* Ensainlor <!o Ouro das Reparliçõe.cilinet.s. — Ouro I rito
-i\ de j»eiro de 1848. — Agcsliuko Antônio Tass.ra de Padua,_
ánu
Vendesse hum sitio denominado Montanhas, distante meia légua da
villa de Caelhe comarca do Rio das Velhas , na provincia de Minas
Gcraes coin hutna porção do terras do plantas e de pastaria iguaes em
extensão pouco mais ou ineno** a huma. sesmaria, com restinga* de matto
virgem capoeiras, muita e boa aguada* hum grande barreiro do irclhor
barro prato hum novo prédio be.nr coimruido do comprimento de cento
e triola e trei palmos e hum terço e de quarenta palmos de largura •
coberta de telha destinada ao fabrico do louça com algumas rodas,
prateleiras, niczas, etc., etc. Tem mais huma boa chácara annexa
com casa de vi venda , senzallas . estiibariá , hum grande rego d'agua tirada
do córrego soberbo, dentro do mesmo sitio , t|iie o atravessa , e muitas
plantações de cafezei<*os, banana" arvores fructjieras indígenas e da buro-
pa amoreiras branca» para a creação de bivos de seda, etc. etc.
Quem pertenrler fazer ac'UKÍçao do dito *>%to , com seus annexos ,
poderá dirigir-se na dita villa de Caelhe ao liliV snr. s mor Caetano
de Sousa Telles Guimarães , em mãos de quem | 9 ncliao depositados o*)
respectivos tit il«»s e que tem plenos pudores para tratar da venda.
O proprietário propõem ceder 10comprador destes bens todo*oseu direito;
em três lotei ias concedidas pela asseinbléa legislativa provincial eni i84o . a be-
neficio d'huma fabrica de louça fina qus se u-.nciunava estabelecer no dito sitio.
Fiigionodii i» rie Ago*to de 18.7 dó Cui rthe , hum escravo por
nome Adaõ pertencente a huma Orpha filha dfci finado Tenente Jaaquiiu
lvodrignes de Vasconcelos. *Jsf signaes são os seguintes : jiardo trigueiro,
estatura ordinária, corpulento, 0'ihos ordinários bem barbado, bons
denteíj_,_entra'ia«. grandes, tem hum golpe de ferro cortante sobreate:tr,
pescoço curto, e em huma das pernas hum signal de ferida, idade
pouco mais ou menos 40 unetos ,| he oo.«tumado a tomar aguardente, e
'«ogador. - Consta ter. sido visto pelas partes -do Serro. Quem o prendar
dirija-se ao snr. maj ir ('a^iinjro carlos da («unha Andrade , ha villa da Itabi*»
ra^. Ie.vando-0 aoditrsnr luencioiiado, receberá *O<"$í>()00 rs.—Uuioíre»
to,,11. de fevereiro, de i8_8 —João'íAodrigues da Cunha.
Na Livraria de Bernardo Xavier Pinto de Sousa, esta*-
bçleqida no Opro Preto, vende-se o Regimento pelo qual se
regulão os emolumentos que competem aos. juizes de direito,
juizes munieipaeá e de prphãos , delegados e subdelegados de
policia partidores , distribuidores/contadores , escrivães,
iabelliães e oíEciaes de justiça. •*
O. P. 1848, T-p. Irrip, de 3- X. P. «ieTSaüsa.
O Recreador Mineiro.
PERIÓDICO LITTERIRIO.

*J3)ÜTD 7.* 15 DE FEVEREIRO DE 1848. N.*-*G

RELAÇÃO DO LEVANTAMENTO QUE DOITVE NAS MINAS GERAES N 1 ANNO DE


1 7 2 0 , GOVERNANDO O CONDE DE AS9UMAR D. PEDRO D'AI. 1EDA.

Véspera de S. Pedro á noite desceu do ou cabeça , que fosse seu língua, No dia
morro do Ouro Preto um motim de gente seguinte de S Pedro mandarão um bo-
armada, e da parte do Padre Faria se letim , com uns ca-nlulos ao ronde de As»
levantou outro, e juntos ambos acomette- suniar,general das Minas, que ooin pru-
rio a casa do ouvidor geral o doutor Mar' dência lhes respondeu qua se aquietassem,
linho Vieira; e sahindo este da caía, cs» porque elle paternalmente trataria do bem
capo.it da fúria, e da morte. Subindo commum do povo, e que algumas tou-
una desses amòtinadores acima-, lhe des- sas que pedião, vinha o resolutas por S.
truirão tudo o que tinha cm casa, lan- M. nas cartas que recebera da frota : e
çando das janetlas ns Ordenações do quanto As demais, tinha chamado os ou-
lletoò, es livros da Fazenda Real, vidores para outros negocias . c de cami-
e todos os mais papéis pertencentes nho lhes proporia as suas razões, para se
no teu ministério, ;tendo-«é as serítenças tomar e parecer que a todos fosse oon-
c despachos com cscarnco e vittiperio veniente.
do ouvidor, cuja vara empunhava t-iti Nas noites seguintes até 16 de julho
cfas amòtinadores, clamando ao povo se 'parecia toda aquella villa um interno t?irn
niorião que lhes fizesse justiça , que as desordens, motins, e distúrbios ciui-
cite nlti estava, .tfcompanhaitdo com esta sados por uns mascarados , que descião do
acçSo algumas vôze9 c palavras d e igno- morro do Ouro Preto, os quaes de ma*
mínia contra o dito ministro nhãa se aquartelavão, vindo abaixo a-
íeífo este primeiro insulto , começarão companhadus ile negros e mulatos, arrom-
a dar vozes dizendo: viva o povo, viva bando ca*as, ferindo, espancando , e ma-
o poro, e nssim lorão augnrciitanilo par- tando aos que lhe resistião. Os da vi-la.
ciaes, dos quaes uns por vontade, c ou- do Ouro Preto tirarão as fazendas das lo-
tros á força, e por evitarem os dam nos jas, e as esconderão nos matos com medi»
tle filies 'quebrarem as portas e mais ex- dos roubos e insultos que fazião : e com
tal pertinácia, que parecião demônios
torsões sanguinolentas, que fazião , os se-
saltos cora poder de diflundir a ville
guião nesse motim. Vierão lo-jo a in
e toda a povoação «\o primeiro de ju-
corporar»se, e a fazer-se fortes no alto
lho mandou o conde general a um reli-
da casa da caraaia , e igreja de S. Qui
teria: e alii elegei So um juiz do povo, I gioso da companhia Uc Jesus, dos que
120. O RECREADOR MINEIRO.
I.Ml ÍMII

a«.*istiáo em sua casa , a que intentasse rorosa a sua marcha com gritos , alaridos,
apaziguar o povo, persuadil-o a bem, e e vozes de vioa o poro : e mandando o
lhes mostrasse o inconveniente a que se conde general religiosos e sacerdote- que
expunhão com o inutirn : e que se tinhão no alto do Rozario i_ ermida na entrada do
algum requerimento que fazer ás ordens Ribeirão) os detivesse.i* com modo ur-
de S. M. , que o fizessem por modo co- bano e sem estrepito algum de ira , e me»
medido e usado nos povos, qual é o dos nos de guerra, para o que mandou , até
procuradores das câmaras. E'les, sem o SenvJo da câmara desta villa, oom o
adiuiltirem razão, ( deixados outros mo- seu pendío arvorado, e acompanhado dos
do-i de impropério com que tratarão a este homens bons da ierra, não bastou esta
teliij-ioso ) o qaizerão represar, metten- brandura e comedi mento da oonde gene-*
f!o»ílie armas aos peitos E no mesmo dia ral para pôr em razão ao povo. Chega-
despachou o oonde general da villa do rão em fim ao palácio, e adi expuzerão
Ribeirão do Carmo ao tenente general com publicamente o seu intento, e ás claras
o perdão, o qual não aeoeitsrão antes iifanifestaraõ a razão do motim , que era
insultarão ao tenente, e o qiuzerão re« não quererem acceijar. pasa de fundição
presar. ; , ,., de quintos , como havia um anno que S.
Continuou o conde general, este ex- M. a mandara erigir por lei nova, e d*
pediente com patcrnal prudência., amor e que esiavão os povos noticiados em todo
brandura, despachando ao mestre ,de cam- esse tempo de espere, para consu mo do
po Domingos Teixeira, que se achava ouro em pó, e. como tinha sido acecita-
nas Minas , ao qual commetteu que tra-, da ppr um termo , em que se * assigna-.
balhasse muito, por serviço dflj, Deo(s. e. raõ todos os homens pri.icipaes das Mi-
de S. M . , de accomínodar o povo, e de nas : e também de não acccitarcm casa
o pôr capaz de razão , e ,não obstante de moeda, como,para allivio do mesmo
estas diligencias , nem as pessoas que para povo, e por carta da paruara do Ribeirão,
esse rim mandara, nem se aquietarão com se havia .pedido a S. M ': e á vplta des*.
o perdão, nem com os respeitos, se sa-- tes pontos principaes sahirão com Outras
t:-,fi/.erão : e incitados na iiumliãa seguinte petições de tão pouco momento , que bem
a brados, que se ouvirão d) morra) mar- se via que só os dois, que encontravão
charão para o Ribeirão, tenda na noite as ordens de S. M. , ^ra o seu facto to<
antecedente escripto ao conde general a do , e o porque se levatítarão.
câmara de Villa Rica que o povo queria Concedeu»lhes o conde general o que
que o dito conde fosse áquella villa, mas pedião, por não querer derramar sangue
que havia de ir só sem acompanhamento, do povo que governava, e lhes mandou
•Iorque o povo se nao irritasse, cuidan- publicar perdão em nome de S. M. pelo
do que ia a castigal-o. E mandándo-lhe crime então commettido, do modo e com
dizer o conde gener-d que o esperassem as circunstancias que elles quizerão, pro»
até ás nove horas da manhãa, elles an* mettendo elles de se aquietarem, e não
tes de romper o dia partirão de Villa Ri-* continuarem no motim. Parecia que aqui
ca para o Ribeiião. devião ficar sepultadas todas as inquieta-
No dia duis deste mez marcharão do ções das Minas : mas oomo o fim úni-
Ouro Pieto formados ao Ribeirão, tra- co deste motim era a rebelltão , que in<»
zendo comsigo, e obrigando ao seu se- tentavão contra o general do soberano, r.So
gui mento os que cnc.ntravão, fazendo hor- por outra causa mais qut quererem vi*
O RECREADOR MINEIRO lãoS

ver sem1 governador; e ministros de jus- e todos clamando por justiça pedião fa-
tiça que os governassem , e talvez sem o- vor ao conde general.
bediencia do monarcha ; pouco a pouco Mandou o conde general prender aos
forão descobrindo a sua intenção. que prudentemente julgou por causa, mo-
Aos 6 de julho tornarão a amotinar- tivo , e occaziao deste motim .- e ne.n com
se | e a pedir que mandasse retirar ao estas prisões se aquietou a rebellião, an-
doutor ouvidor geral, e a câmara as» tes se exasperou mais, e acccndeu com
sim o escreveu ao conde general com ter» maior fúria, e já com suspeita evidente
mos indecentes de ameaços O conde ge- de maior ruína nas Minas. No dia 11
neral o mandou sahir da comarca: po- de julho foi tão horroroso o motim, que
rém nio se contentando com o juiz mais desceu do morro, e eomjtal ímpeto,que
velho por ouvidor, na forma da lei, em forão á casa do rm. ° mestre escola vi-
auzencia do proprietário por elles expulso, gário da vara do Ouro Preto, e o tizerãi»
pedirão com novo motim nuclurno ao dou» levantar da cama, para que lhes abrisse
tor- Mosqueiia por ouvidor. O conde ge- a porta da igreja, suppnndo que o res-
neral , para cs aquietar, lhes concedeu pro- tante do povo estava nella, aonde forão,
visão para o tal doutor servir de ouvi- e revolverão com indecência até os alta-
dor: tanta era a paciência do conde ge- res. Nesta noite forão maiores as dcsoiv:
neral em eoffrer o povo pelos accomíno- deus , quebrando as portas e jnnellas dos
dar, ainda prevendo que tudo quanto o moradores, e matando a um homem do
novo ouvidor fizesse era nullo e de ne» mesmo morro, que, suppunhão dava os a»
nhum vigor, esperando que em melhor visos ao conde general,-;
tempo a razão os convencesse deste ab- No dia 15 avisarão ao conde gene-
surdo. Vendo-se o povo como queria ral da insolcncia ja declarada desses le-
em parte , mas não com tudo quanto que* vantamentos , e do ultimo rim e ruína tlcsst
ria, declararão de todo a conjuração em rebellião : e desabridamente Ibe mandarão
expulsar das Minas o conde general, seu dizer que tomasse as medidas da -ahidn,
governador . para o que se ajuntava gente porque certamente o expul-avão das Mi-
dos subúrbios desta villa , convidando mais nas. Os moradores do Ouro Freto, que
gente das outras povoações, e com voz se vião já desesperados do que padf ciao,
oommum que sò depuis de um motim ge» instavão com supplicas que os fosse <>
ral se aquietarião, e que nas Minas não conde general soecorrer, e livrar da op.^
entraria outro governador, nem justiças pressão que padecião. Os moradures du
postas por S. M, As mais povoaçõc* das Padre Faria, por mais appostos aos do
Minas estavSo observando o fim deste le-* morro, ( e tanto que sempre se oppuze-
vantamento e rebellião do Ouro Preto , rão ao atigmento des-a povoaçãi* ou ar-
para assim se declararem. O perigo actu- raial do morro ) padecião com mais im •
al, alem de grande, fazia mais temerc- paciência eslas insolencias, e com tal de-
so e eminente o futuro que se temia de sesperarão se virão na primeira noile d.i
maior conseqüência. Os de Villa Rica motim, que quizerão subir ao morro com
experimentavaÕ extorsões*, assaltos, e in- guerra declarada a se matarem uns aos
sultos grandíssimos dos que descião do mor- outros com hostilidades, e destruir t.»da--
ro eom maldados de homens jà íácino- as casas do morro, chegando de pai te n
rcsos. uns espancados , outros acomet parte a empunhar se as arrr as no mesmo
tidos em suas casas , a quem roubavão» acto do tumulto ; e suecedera grande mor-
1904 O RECREADOR MINEIRO.

tandade pela opposição dos dois partidos, zerão E logo o dito oapitão de dragSes
se o reverendo doutor Luiz Ribeiro os chegando á casa do mestre de campo Pas»
não dissuadisse disso, dizendo-lhes que coal da Silva Guimarães , mandou entrar
procurassem o remédio para esta oppres- um capitão de ordenanca, que oomsigo
.são pelo conde general. levava , para que retirasse as imagens e
Delrberou-se em fim o conde general, ornamentos do oratório da dita casa, e
carregado de razão, paciência , prudência mandou entregar tudo o que pertencia ao
e justiça, partir do Ribeirão aos 16 de culta divino ao reverendo vigário da ma»
julho, dia felicíssimo por ser dia de Nos- triz de Antônio Dias, conforme a ordem
sa Senhora do Carmo , padroeira do Ri- do oonde general: e começando a pôr
beirão , e marchou para \ illa Rica a-» o fogo, acudiraÕ três visinhos a se la-
companhado dos dragões e dos mirado mentarem , cuidando que a todas, as ca-
res desta villa , e com seus escravos tam- sas se ateava o fogo, ao que aoudtu o
bém com armas,, para se oppor á rebel capitão Antônio da Costa de Gouvêa , e
jião , que com tanta prudência e paciên- lhes segurou que o fogo só era para
cia procurava aquietar e entrando em as casas dos conhecidos autores, e que
Villa Rica, sabendo de certo que ainda se aquietassem, ooma fizera© aJguns . &
110 morro eslavão actualmc-nte aquartela porisso livrarão as suas «asas
fios os assassinos , amutiuadores e levan- Mas oomo no dito morro mineraõ dois
íados, e que pelos matos vizinhos tinhão mil negros, ou perto de três mil, vendo
mettido gente armada , ou para invasão» aquelle espectaculo de fogo se alterarão ,
ou para defensa de sua rebellião ( o que e sahindo das covas, e>n que.cavavaõ ou-
«jcrlameiile exccutarião se se lhes não im- ro , cuidando que se punha geialmente
pedisse ou atalhasse o intento ) tomou a fogo a todas as casas sem distineçai,
o conde general por expediente mandar foraõ entrando, pelas que se achavaõ deo
jrôr fogo ás casas dos principaes autores sertas , e as roubarão e queimara**': a»
c fautores do motim. que o capitão Joaõ de Almeida naõ po-
E assim mandou o capitão de dragões dia acudir; porque naõ só o fogo e o
João de Almeida de Vasconcellos subir terreno escabroso o embaraçava.» mas era
ao morro, destinando..lhe o sargento niór preciso , segundo a ordem do oonde ge-
JHanoel Gomes da Silva, o oapiirão An- neral , estar com os^seus soldados fo»ia-
tônio da Costa Oouvêa, e o alteres Bal. dos, em quanto se executava a casa de
thasar de Sampaio, moradores, no morro, Pascoal da Silva, pelo risco de gente
para que estes lhe nomeassem as casas armada que se dizia estar no inato vi»
dos que publica e notoriamente fossem ar zinho, pana assim evitar o perigo de al-
inotinadorcs e fautores deste motim, e gum assalto repentino. E passando este
compiices neste delicio , e lhes poses»e capitão a fazer a mesma execução no
logo. Chegado o capitão de dragões ao Ouro podre, ( logar sito no mesmo mor-
morro com os homens que lhe nomeou, o ro ) pôde pôr guardas em uma passagem
«•onde general, lhes protestou que de nc estreita, para. que os negros se nJfe mis.
uhjma maneira encarregassem suas cons tarassem com os soldados ; a isto fe* que
ciências por ódio algum, ou paixão par- a execução- se fizesse ahi só em, uma
ticular , e só lhe signalassem as casas casa de um culpado, e sem confusão nem
dos conhecida mente autores, fautores, e ruína dos que o naõ eraõ.
eempüces a-j delicio, o que asíiro o ü- Até arui a relação. a quaj ainda que
(KBECREADOR MINEIRO. ÍIOO

naÕ declara os sujeitos, qne foraõ, cm sotr tinhaõ feito um niu/.cu i-cinplft.), de ;*e-
corro do conde generql, e os castigos que çai destacada**, repreM*nian*.« «.-aiia unia
depois se executarão em alguns, que ou algum ponto de vísKa ao nluam-f* de «ua.
eraõ ou se julgarão cúmplices no crime prisaõ fluptaitte, e c«*ilamente o at-a-o ilc
da rebellião, que eu deixo, por serem sua posição os serviu á medida de sua
sabidos e fora do meu intento*, com tudo vontade, porque o-trabalho dos homeii*»- e
delia bem se emende a razaõ porque o da natureza prodigou perspectivas ailmi-
padre Belchior de Pontes prohibiaa Joaõ .raveis entre King-ton e Dublin , até o
da. Costa Aranha chegar no Ribeirão, promontorio de llowth-IIill
mandando.lhe que vendesse fórá daquel» : Julgavaõ os UOSSJS dou-; marinheiros ter
Ia villa as suas cargas. uma fortuna'que desfru'*'fir, mo.*.! raudo
este muséo á capital ria Manda, e so-
( R. Triineiisal. \ , bretudo provocando a polit<ou iiiunificencia
de algum riou |.<rd qnè comprasse por
preço enorme este bello trabalho. Ceies -
tino e Xavier naõ tinhaõ um. schelling-
Ulí ACTO OE DESESPERAÇAO. na algibeira, mas naõ teiiaõ vendido sen
museu por vinte mil libras slerliuas .- em
Quando se fez o tratado de paz de 1811, seu amor próprio úe autores, avaliava»
foraõ postos cm liberdade todos os pri- seu capital em quatro vozes, pelo mc>*
sioneiros francezes que se aehavaõ a bordo nos , este valor.
do pontaÕ de Kingston, na Irlanda, e Alugarão um quarto de snbrelojn na
no dia immediato ao de sua soltura, quasi praça de C/irist Churclt, e afixarão esl-
todos atravessarão o canal de S George, rotulo: .,
para se transportarem á França Entre
o pequeno, numero d'aquelles que naÕ ma- CREAT ArTRACTlO". !
nifestarão a mesma sollicittide em tornar
'* (
a ver a pátria, Dublin conservou os nu-
vinde ver .
mes dos insignes Celestino e Xavier: e-
todas as maravilhas do porto e da
raS dous orphãos que , por seu nasci men.,
cidade do Dublin !
to , pertencia» an^s ao mar do que á
esta flor da terra, esta pérola
terra, e que., nada,«tendo em suas. lem»
do mar!
brancas, nem carioias maternas, nem cam-
panário de aldêa, nem esponselias sus- Um schelling por entrada.
pensas pela oonsoripçaõ, acharão que
Dublin era uma cidade que merecia ser Nunca a multidão falta ás exibições em
habitada como qualquer outra, e resol- Inglaterra ,* é um paiz cheio de gente que
verão ficar, ao menos provisoriamente, tem muita satisfação em trocar um *-«-liel-
ii'esta magnífica e hospitaleira • capital. ling por uma emoção de dous minutos: as
ifavia alem d'isso uma razaõ maior, leceitas eraõ magníficas. Celestino e Xa-
que os levava a fundar um modesto es- vier sonhavaõ sonhos de ouro; em oito
tabelecimento em Dublin. Em seu longo dias tinhaõ jà em cofre cem libras ster-
oaptiveiro elles utilisavaõ um talento mui linas em notas de cinco libras, que saõ
notável de artistas em fina marcenaria: as mais pequenas das notas do banco.
i *" 6 ORECREADOR MINEIRO.

YiitÕ se inillionnriris no fim do anno , por- ma olhada a prumo sobre as águas ama-
que seu plano era correr todas as grsn» rella.las e correntes e o mesmo olhar
fies cidades da. Inglaterra, e voltar á fatal se voltou para n cara de Xavier.
França com uma sege de posía e dous — Eu te comprehendo ! disse Xavier ;
lacaios somos destinados a perecer na água dôoe.
Acaso ou ódio destruiu em um instan- Abracemo-nos , c assim seja !
te estes bellos projectos. — Condemnado seja eu se recuar! disse
Um incêndio devorou o museu de Ce- Celestino
le.-tino e' de Xavier , elles mesmos es- E saltou sobre o parapeito de Stepkens*
caparão de perder a vida tentando ar Bridge Xavier deu igual salto. Ambos
rançar ás chammas sua fortuna, desgra- cruzarão fortemente os braços no peito,
çadamente muito combustível. A moda como para exprimirem a si mesmos a e-
dos seguros contra o incêndio era ainda nergica resolução de naÕ nadarem como
nessa epecha quasi desconheci Ja em Du perfeitos marinheiros que eraõ , e se pre-
Win. Demais d'isso , os nossos dous ma- cipitarão de cabeça para baixo no Liffey.
íinbeiros naõ se teriaõ lembrado de to- O grande estrondo que fez esta dupía
mar esta precaução. queda de dous grandes corpos despertou
"" Kean e Kemble se confrangeraÕ mui» sobresaltada uma matilha de cães da Ter»
tissimas vezes de desesperaçaõ ante o . ra Nova que, havia pouco, tinhaõ cn-
publico inglêz ; mas a pantonuma deao** eetado seu serviço na entrada da ponte.
lauto destes adores foi vencida pelas COH- Liord O' Calligham , celebre pbilantropo
vtil.õcs dos nossos dous* pobres marinhei- irlandez, era o fundador deste corpo de
ro.* I ogo que pôde uma * palavra chegar guarda de cães salvadores , e n'esse dia
aos lábios cadavericos de Celestino, elle" precisamente abria a matilha da Terra Nova
exclamou: «eus trabalho*} de salvamento Os a»*eis
— Maldita sorte ! (elle era de Marse animaes ühegaraõ ao fundo do Liffey ao
lha ) fomos certamente amaldiçoados nos mesmo tempo que Celestino e Xavier.
beiço! Saltamos, no Oriente, em Al» Os dous marinheiros se seutiraõ agar-
«Hitikir; somos pescados e enviados ás ga- rados ás abas das suas casacas por duas
lés de Pliiuoulh ! bem! Fugimos. Em bocas vigorosas ; mas como era irrevo»
Trafalgar, mettein-nos a pique com o In- cavei o seu projecto #e suicídio , lutta»
fernei ! tornaõ a peícar-uos e a enviar- raõ com incrível energia contra seus ge«-
nos a Kingstou '. ainda melhor! Rema- nerosos salvadores. Homens e cães subi-
mos dez annos nos balelões , fazemos rnõ de súbito _ superfície das águas • o
vinte primores de obra com nossos dedos , rio escumava revolvido por estas convul-
eom nosso* dentes, e com ruim ma- sões de patas, de mãos e de péz. Já
deiia manada : d'esta vez-tocámos á for- dous cães , mais exercitados que os ou-
tuna. Eis que o inferno nos envia uma tros em salvar , e mais encarniçados sobre
*rno«,'-a rle suas caldeiras e nos queima os dous marinheiro.»», eslavaõ a pont%de
vive»! Maldição ! sotfrer a pena de seu zelo, e apenas ex*
Faltando a***im ia Celestino atravessan- balavaõ <la garganta "alguns gritos suffo-
do a ponte de Saint-Stephens ; debaixo de oados, semelhantes ao da agonia , porque
seus pés roncava o rio de Liffey, que o tinhaõ bebido mais água lodosa do que
derretimento das neves tinha engrossado é mister a dez christãos para se afoga-
consideraieluierite, Ornariiihciro lançou u- tem , quando Celestino e Xavier, movi»
O RECREADOR MINEIRO. .-07

dos de compaixão a favor d'estes dous rêm sim um crime combinado pela inveja,
pobres' animaes agonisantes, os arrasta- ou pela vingança , em prejuízo de dous
rão comsigo a nado para a margem do francezes; de maneira que cada homem
Liffey, e os salvarão da morte. que passava julgavaõ ver seu incendiario
Também se salvarão a si do mesmo inimigo. Estes dous desgraçados , depois
lance , por descuido e sem o quererem de terem uma vez lançado sua vida **<•
A multidão que acudiu , testemunha d'es fundo di Liffey, e suppondo naÕ ter mais
ta scena, tributou sua admiração aos cães dever algum que cumprir sobre a terra,
e sua compaixão aos dous marinheiros nem mais pumçaõ alguma humana que ie-
O soheril Edmundo Thaoker, velho de «rear, combinarão um plano inferna! con-
setenta annos, lez um pequeno discurso se tra aquella cidade de Dublin , que os ti-
gundo a circunstancia aos estrangeiros sal nha morto pela sgua e pelo fogo.
vados das acuas, e os oonduzio processio- — Escuta , Xavier, dizia Celestino : rrt
nalmente á igreja oatholica de Saini-.Patrick. ouvi contar a bordo, na minha infância,
•* Celestino e Xavier gorravaõ do beneficio à historia de M. Roux , negociante de
de uma segunda vida: tinhaõ morrido uma Marselha. M. Roux tinha suas razões
VPZ e re-usoítavaõ. Estes dous Lar/aros da de queixa dos inglezes, como nós. Era
marinha tinhaõ adquiiido em Dublin, so- um rico particular que emprestava dinhei-
bretudo entre o povo, uma celebridade ro a Luiz XVI e que naõ sabia o que
merecida , por causa de seu suicídio a- tinha de seu; teria posto, durante um
boTtado. Esta illustrnçaõ , conquistada nas quarto de hora, cifras adiante da unida-
aguaft do** Liffey , era entretanto assaz es» de, sem dar a conta de suas riquezas.
teril para elles: naõ lhes restituia riem o Tinha uma esquadra de vinte navios mer-
seu bello museu queimado , nem a gran- cantes, e naõ sei quantos corsários M.
de fortuna que os aguardava no fim de Roux, vendo que Luiz XVI ficava tran.
cem exibi-ÕrtpO scheril tinha-lhes dito : qiiillo, declarou a guerra, elle Roux
„ Trabalhai, meus filhos, ganhai v«t»u ao rei da Gram Bretanha Sua carta que
poõ , e ' Ririda encontrarei.** a felicidade » annunciáva as hostilidades começava as,
No essencial, o seherif tinha razaõ. ,Na sim:» Ei; Roux 1 A GEORGE III. Es-
idade de trinta annos, em qualquer po tava em regra. Roux 1 começou por fa-
ziçaõ que seja , hafsempre paõ no fim de zer muito mal aos inslezcs; mas o rei
dous braços. Mas Celestino e Xavier se de Hespanha e Luiz XV) interyieraõ en-
tinhaõ oollocado , por um raciocínio lalso , tre as duas potências beltigerantes , c as-
fora do dever oommum : soffriaõ e traba signou •«- o tratado de paz
lhavaõ desde a idade de dez annos; ti-
nhaõ se ennervado na ittlmobilidade irido- — Sei er*sa historia , disse Xavier, veja-
lente do pontaõ ; os primores sabidos das mos onde nos deve ella levar.
pontas de seus dedos naõ tinhaõ podido dar — Pois naÕ o comprehendes, meu amigo?
energjj alguma a seus mu seu'os; este tra- — Falia sempre , meu Provençal.
balho de bordadura os tinha , pelo con- — Pois bem ! nós vamos fazer como o
trario , efleminado e tornado impróprios meu compatriota Roux 1 : declaramos a
ás obras viris. - Depois tinhaõ chegado , guerra a Dublin.
marchando da conjectura á convicção , a ' — Declaremos.
se persuadi-* que o incêndio do seu mu- — Temos um antecedente : a nossa po-
seu naÕ era um' sutcestso de acaso , poe sição é melhor qtje a' de Roux 1 ,- es-
tamos no coráçaÕ do nosso inimigo.
J5oS O RECREADOR MINEIRO.
««*•«-—•»

— N'as entranha-*. tamos em estado de incendiar toda a cor-


E si o nosso inimigo nos .'ecusar a<* respondência da Irlanda , alguns milhões
contribuições de guerra , lazemol o saltai de estofos, e todo Sakcrille-.Stresl por
tio mesmo modo que elle nos fez saltar tablilho, coípp e bens. Na noite de a>,
«*m Aboiikir; isto éjusto, Xavier, naõ inanhãa, altíxamos nos quatro cantos de
«• assim ? Dublin-um cartaz assim, concebido, e di-
— Celestino, logo a primeira vista eu rigido AOS HABITANTE?:
approvei o teu plano ; honem, quando m'o „ Os dous marinheiros alfogados e sal"
indicaste sem desenvolvimento... vos do Liffey declaraÕ guerra á cidade da
— Eu t'o desenvolverei, Xavier.. Dublin.
— Para inetter também alguma cousa, „ EstaÕ, morando em Sakeville-Street,
eu refluzo este plano a sua verdadeira ex- n 27. entre, Post>0l'fioe «e a manufactu-
pressão, moralisando-o. Tu dizes que a- ra de Ricardo Shawb.
Ligamos uin primeiro andar em Sakevil-. „ O soalho de seu quarto contêm um bar-
le- Street .. , ril de duzejwas libras de pólvora, prompto
— Sim. a fazer explosão nos casos seguintes :
— Bem : embarcamo^nos no navio Sa- „ 1. ° Sé os homens de policia fizerem
keville , e imos bater-nos contra o na- a menor tentativa para entrarem no quart»
vio Dublin. Será um combate naval da pólvora.
em terra- „ 2. c Si prenderem a um dos dou* ma-
E' isso. rinheiros , aquelle que andar passeando em
—' E quando a declararão das hostili** Dublin , quando o outro estiver com o
dades , Celestino! ^ í morraõ acceso sobre o barril.
— Quando çstiverem prdmptas as nos- „ 3. G Se naÕ trouxerem aos dous ma-
sas baterias..'. Amanhãá rinheiros todas as cousas necessárias á sua.
— Sim^ amanhã .*' estou ancioso por fa- existência e, a seus divertimentos, quando
zer o meu quarto a l o d o de Sakeville, elles as pedirem :
fundeado entre duas casas ; temo ter o „ 4 . ° Se os visinhos se retirarem de
enjôo de terra, pois que nunca naveguei suas casas como para os isolar, e ame»
no continente. Tu teiís.o pé terrestre, Ce- açaí os assim com algum attentado da po»
lestino ? :• lieia. ét
— Xavier, o homem se habitua a tu- „ 5 ° Os dous «yarinheiros promettem
do, quando uma vez morreu em sua vi- pela honra proteger noite e dia a cidade
da como i nós dous. Escuta, tu approvas- e as propriedades dos habitantes de Du«
te o meu plano, cumpre resumil-o em ai blin , si os habitantes de Dublin se com»
gumas palavras. portarem bem acerca de dous infelizes ,
— Com nossas compras feitas parcial- honrosamente conhecidos na capital da Ir-
mente em diversos pontos de Dublin , te- landa
mos um barril de pólvora ingleza de pri- „ 6. ° Um dos dous marinheiros dará
meira qualidade ; eis a base do nosso ne- i todos os dias em Dnblin o seu passeio do
gocio. Alugamos um primeiro andar em meio dia ks cinco horas; todos os cida-
Sakeville..Street, entre a casa do correio dãos saõ convidados a velarem sobre ei»
e a bella manufactura de Ricardo Shawb; les: se ás cinco horas e meia elle se naõ
è uraaposiqaõ soberba: occopamos o cen- tiver recolhido , seu camarada deixa ca-
tre do mais rico bairro de Dublin, es hir o morraõ sobre o barril, e Sakeville
O RECREADOR MINEIRO.
#
asse**
salta como o Oriente, em Aboukir. Celestino tomou um punhado de giã s
„ Assignados, CELESTINO E XAVIKB „ de pólvora, e apresentando o ao scheri :
f ; — Vê* de , disse , é da qualidade s*--
Quando suas disposições foraS toma- perií r ; julgae do nosso Vet-iitiu dome*
das e todas habilmente calculadas, Xavier tico pela amostra. Levae isso para vo***...
sahiu no meio da noite com uma cente- casa afim de o mandardes tnaly-ar CM ,-
na de copias d'esta proclamaçaõ , e a af- vosso» químico*, os quaes Vos diraõ sr •
fixou por toda a parte» Ao nascer do sol, semente <Je cebola. Agora no» vos resi •
o Rcherif recebeu uma carta dos dous a- tuimos á vossa liberdade , senhor sob-n .
migos pela qual era convidado a ir imine* O anciaõ se levantou sem ousar faz- r
diatamente a casa d'elles , por interesse apparecer em seu semblante o mem-r sen-
da cidade de Dublin timento que podesse ofender dous inimi-
A essa hora, ainda Dublin naõ estava gos terríveis, e sem pronunciar uma pa-
com os olhos bem abertos para ler a pro- lavra , porque naõ podia fallar senso para
clamaçaõ dos dous marinheiros. ex igmatiiiar . como digno magistrado , Ú
O scherif que sabia que essses dous crime d'e.**les projectos incendiarirs. Ce-
furioso» francezes eraõ capazes de todas lestino e Xavier o conduzirão até á es-
as loucuras, esqueceu seu posto c cedeu cada , um obi igando-o a receber a amo«- •
ao convite. Foi recebido, no quarto da tra de pólvora em uma caixinha, o outro a -
pólvora com grande polidez decomêz. Ce- presentando lhe o morraõ acceso, como um*.
lestino lhe apresentou uma cadeira e lhe sentinella apresenta as armas a seu cheít.
dissei Algumas-horas depois era fácil ver q-;c
—- Meu honrado scherif, tende a bondade a proclamaçaõ tinha produzido o seu ei-
de ler este exemplar da proclamação que «1'eitO. Nos arredores do monumento de
nós affixamos nos quatro cantos de Dublin .Nfison c diante do palácio dos cortei*.-.,
O sberif olhou para Celestino, pegou no a multidão de todos os dias estava red
papel» por. os óculos, c leu, dando um pulozida a alguns grupos inquietos Os oi -
*. na cadeira, em cada artigo -. íiciaes de justiça inundavaõ Sakeville, po.í
' — Honrado scherif, prosegaiu Celes- rem fingindo que nada havia de hostil e
tino, agora estaes taõ bem informado do de ameaçador em sua altitude. Ao longe,
- nosso negociozinhf» como nós • resta -me via-se ò scherif, que tinha parado fora
apresentar-vos o nosso palladio : é um pa do alcance da erupção , e que parecia ,
por seus gestos, reòoinmendar prudência
' iol de domicilio que ahi está diante de vós,
ao nível do soalho, um pequeno volcaõ de a seus interlocutores.
algibeira ... naõ tenhaès medo ... nem Ap meio dia, Celestino, em^ trajo de
griteis ! ao menor grito, meu sslterif, nó* marinheiro de nau, e de tope francês?
saltamos por.cima do campanário de Saint» em seu chapéo álea troado, sahiu afoita-
Patrick. Vede Xavier que aproxima o mente pela rua de Sakeville ; e , quair,-.
morrão... um morraõ que arde sempre, do chegqu ao meio d'esta rua de uma lar-
meu scherif; é ofogo.de Vesta. As vestaes gura immen*a, voltou-se para trocar cor-
mudarão de sexo unicamente Que dizeis tezia» com Xavier, que se mostrou um
da idéa, soherií ? instante na janeila, com seu morraõ ac-
O velho magistrado, immovel de surpresa ceso na inao.
e de susto, olhava para o circulo ameaçador Celestino caminhou direito ao sclierif,
e negro, fortemente firmado no soalho. e lhe disse: ."".
ia o O RECREADOR MINEIRO

— A peça está começada, e vai mar Greame-.il, e pediu com voz marítima è
chando muito bem ; Dublin será pruden-* provençal que lhes servissem que almoçar*
te, e nós seremos gratos, ToduS os criados de ambos os sexos,
— Senhor disse o scherif, o serviço do com o land/ord na frente, acoorreraõ ás
r.-rreio soffre muito , as lojas naõ se a- ordens de Celestino ; seiviraõ-lhe trinta
b.-em èm Sctkeoille-Street : vede, ha in- pratos sobre a mesa * e vinhos do Porto,
«jiiietaçaõ de sheriye de Claret. Terminado o al-
— Oh ! de que se inqnietaõ honrado . moço, elle escolheu entre os pratos ih-
scherif? nossas intenções saõ puras, De- lactrs, metleu-us n'uma cesta, e, cha-
viaõ inquietar se quando a maõ de um mando o Innd lord, lhe disse :
criminoso incendiou o nosso museu e nos —«•- Senhor, isío é para meu irmaõ Xa-
reduziu á indigencia. Hoje, faça Du- vier ; é seu almoço. Agora, dae tudo o
blin o seu dever, que tudo irá bem. E J que deixei a èstésgrupos.de mulhereâpc
vou encommendar o nosso almoço no ho- bres que assistirão pelas janellas ao meu
tel de Greamesh o primeiro hotel do almoço.
mundo. Desnecessário é dizer-vos , sche- O dispense|ro se inclinou, fazéndd -um
rif, que, á menor dôr de entranhas, nós aceni muito expressivo de obediência ás
vos accusamos de envenenamento, e Sakvil- 'vontades do barril de pólvora : visinho ,
le salta em cem milhões de pedaços representado peta marinheiro* francezé
Tudo está previsto, scberif, tudo, mes- •Celestino deu o signal conveneionado an«
mo a tentativa de envenenamento. tes de abrir a po'rta do quarto vbfoanieo,
— Naõ tenbaes receio , senhor .. e Xavier aproximou o morraõ acce,so do
— Receio! qual ! é Dublin que deve barril de pólvora. Celestino tarnVu a fe-
tremer/ Receio! eslaes zombando de niim? char a porta com três1 voltas , e pôz as
De-de o meu nascimento a bordo do In- '. provisões sobre uma mesa ,,n
dien , passo a minha Vida a morrer; te-, *— Aperta-mé esta maõu, Xavier, •<disse
írho visto o inferno cinco ou seis vezes elle sentando se :l tudo vae bem ; a ma-
diflcrentes, assim como vos estou vendo china está admiravelmente bem montada;
— Porém , senhor** acrescentou o sche- Dublin é-nopso . Que almoço acabo de
rif com voz branda e persuasiva , reiuin- devorar em casa de Greamesh .' que vi-
ciacs a esta abominável loucura, a . . . nhos! que criados amáveis ! . Almoça, a!»
— Scherif, naõ acrescenteis mais uma moça por teu turno", meu amigo ' eu en-
só palavra, ou eu faço um aceno , e nós commendei o nosso jantar paia. as sete
saltamos por cima das nuvens ! horas . . . .
Depois*, dirigindo**se á multidão que o — E o scherif, o scherif? perguntou Xa-
rodeava, o marinheiro acrescentou: vier/trrnchando um rumpsleake de presunto.
— Senhores , ordeno-vos que vos reti» -— O scherif tem medo, conhece--nos ;
i eis, que tenho precisão de ar; deixae-tiie só. tudo Dublin nos conhece , Xavier / todos
Eii um momento a multidão tinha des- sabem que nós- somos homens capazes de
appareoidó bem como o scherif. fazer seguir-se o facto á ameaça. A po«
Celestino resentiu um justo sentimento licia está embaraçada, procura um expe-
de orgulha ao ver cõm que facilidade u- diente e nada acha. Quando eu vinha me
ína de suas palavras lançava a consterna recolhendo , encontrei Com um indivíduo
çii3 no povo de Dublin. Com passo ma- que se chegou a mim com polidez e me
gtuto3o encaminhou-se para o hotel de disse: —Em nome de Deus, capitão,
Ú RECREADOR MINEIRO. 1119

•*•*•»

nftü vos «éqt.ecjáè** de ves recolher hs cin- — E quem pagará ?


co horas. — Que intereMe tendes n'isso?f — Ora, quem ? Shawb e Greamesh
pèr^tíntei^lhei **- Etí sdu Ricardo Shawb. nossos Sogros.
vosso visinhé. «Ah ! tíoinprchéndo, dis - — E' justo, Celeítino ; mas depois
se-lhe; pois beta, fioae desceuçado, que como tacabarà tudo isto ?
eu stffèi pfndènte • mas que Dublin seja* — Ah ! quem sabe ? Talvez naõ aci-
também prudente' O senhor Ricardo me bará , nem é necessário que acabe; ha
respondeu pela prudência de Dublin. de começar tedos os dias; teimo até o
— Bofl! exclamou Xavier , se Dublin projeclo de fazer com que me nomecm
nos vexar, tuandnUo-fiemos passear à a mim maire de Dublin, c a ti prefeito do
" lua. departamento da Irlanda. Em quanto naõ
*-*• Oh ! elle bem 6 sabe. Deveras , es- damos um vôo fabuloso á nossa ambição,
tou encantado da Vida que se abre diante, comecemos pelas eousas fáceis *. casemo-
de ttós. E ja tenho cem projeotos na ca» nos ; quando tivermos filhos , estabelecel-
beca .. Primeiramente , vou'pedir em ca- os-liemos vantajosamente nos Três Reinos.
samento a filha de Ricardo Shawb, nos- Esta conversação foi interrompida por
so visinho um estrondo tumultuoso de musica ingleza
—- Ah! meu Deus ,Celéstino!.. .:' que enchia Sakeoilte-Slreel. Celestino a-
— E caso-te a ti também na mesma briu e fecou a porta, sempre <*om as pre-
ooeasiaé jdtnr-tèa filha de M. Greamesh, cauções de costume, e desceu à rua, on-
uma ruiva encantadora que tem doze mil de naõ deixou de encontiai-se com seu
libras de dote, cem mil escudos. visinho Ricardo , que parecia ligar-se a to-
— MaS que noa importa o dote, Ce- dos os seus movimentos.
reslihe , pois que estamos aqui presos para — Que é isto ? perguntou vivamente
toda a Vidfc ; eòmo gosar de um dote? Celestino a M. Shawb.
'•"*_» E quem conhece o futuro? Tomemos t —- E' o feSlieál de Dublin que vae pas«
sempre - o Übte se se apresentar. A» sando, respondeu polidamente o sr. Ri-
manhãa peço miss Shawb para mim, e cardo.'*
1
miss Greamesh para li. . . . — E onde vae este festival endiabrado ?
— E se nos recusarem . . . . . — A Towne-.Hall.
— Saltaremos ^ é a resposta a tudo . . . •*— E quê vae fazer em Towiu-Ilaã esta
só saltaremos uma vez.. Amanhãs man» musica de dan nados ?
do mobilhar dous quartos nupciaes pelo —- v*ae acompanhar tfe«entos chorista*
primeiro armador de Dublin. Teremos duas que cantarão b Greai-Gode a Creatiou
nupeias soberbas.... dé Ilaendcl >
— Onde? — Senhor Ricardo Shawb ide div.r-r
— Onde? em casa de Greamesh/'em a esse festiva! que eu gosto da musica,
; magníficos salões Ta serás o primeiro, e que quero ouvir o Gread-God e a Cre-
«tt^o seguido, porque é prec-isb que aliou debaixo de minlia jarcella, alü, esta
sempre um de nbs dous" esteja de guarda tarde, antes do pôrxlosol.
a e&tc-oloaõ Convidamos às nossas nu» -*— Capitão , disse Ricardo, nós vamos
pcia* toda a alta sociedade'** de Dublin*, fazer o que -podermos para vos arranjar
dançante até* de «manhãa, devoramos em issa... •
«rfa banquete e ela -u*m baile cem mil fra-i- — Confo! víis hesitaes ! •«»-.-
•os.... • •-' — Naõ ? naõ , nada é laõ fácil; vou
1.1. O RECREADOR MINEIRO,

ver o scherif, e havemos de trazer-vos o em que se achava Dublin pelos dous ma-
festival. rinheiros francezes.
Celestino tornou a subir ao seu a- Operários de Ricardo Shawb, empre-
posento e antiunuiou a Xavier o concerto gados de Posl-Office, convivas habitu-
da tarde, que acabava de encommendar ados de Greamesh, todos mais immedi-
ao senhor Ricardo atamente interessados que,; os outros ci-
— Ha de ser um bello t-iumpho, dis. dadãos n'este singular negocio, se fazião
se lhe , se tivermos esse exercito de mú- notar pela violência de seus discurso0..
sicos. — Não é justo , dizia-se n'este grupo,
E poz-se á janella para esperar pelo fes- que duas ou três pessoas ricas paguem
por toda a cidade. Só essa loucura do
tival.
festival tirou mais de duzentas fibras da
Uma hora antes do pôr do sol, viu-se algibeira de M. Greamesh. - Outras ve-
apontar na extremidade de Sakeville M. zes dizião .- — Se se prolongão estas fan-
Shawb triumphante, que servia de .van- tazias dos marinheiros, Greamesh e Rj-
guarda ao festival. O exercito deT:eon- cardo ficão arruinados em oito dias — E '
certantes de.-lilou -por aquella rua, a mais evidente ! — E que quereis que se laça.?
larga de todas as ruas do universo , e se
jrôz em linha de batalha diante de Post* — Escreveu-se liontem ao governo; — Bel-
Office .Uma synphonia serviu de introito; lo recurso ! O governo não ha de fazer
cada musico, conforme o uso , locou a sua nada — Mandará tropas.—Oh ! elles _-,-.
ária favorita, com aquella nobre indepen- zem bem caso de tropas ! — O mais des«
dência que caracterisa c artista inglêz agradável é que em Dublin se forma um
Depois preoi pitarão-se trezentas bocca* pai tido a favor d'esses dous marinheiros.
scbre Haendel, e o dilacerarão sem mie — Um partido ? —Sim , os pobres são
seiicordia. .por elles. Esta noite os músicos, ebrios
Celestino, do alto de sua janella , a** de cerveja, gritarão .* Houra for Cetestin !
gradeceu aos choristas e aos 'músicos, e , e era Greamesh quem pagava Oh!
em sua munificencia de rei , ordenou a isto não pôde durar ;. ,
Greamesh que matasse a »êde do^exer- A multidão correu para a procissão que
cito com a fabrica de serveja de Luxton. ia atravessandp Pha>nix-Park, Celestino
Greamesh se inclinou. No. entanto-, fa^ se voltou e se achou ^sara a cara com o
cil era ver que Greamesh se constrangeu senhor Ricardo. ... »
violentamente para não deixai* escapar u» — Ah /, eu não vos deixo , disse-dhe
ma violenta desesperação este em voz muito baixa/., ,
A's nove horas, estando a noite muito — T o m a i sentido , senhor Ricardo; não
se inbria por causa de uma trovoada do façaes o papel de meu a n j o . da «guarda,
começo do verão, não pôde Celestino re- tomae sentido! , *-«*, <* —.
sistir ao desejo de sahir, porém em tra- - • — C a p i t ã o , reoçlheiijros, recolhei.vps,
jo» os mais desconhecidos , para ouvir j à é tarde ; pdde o vosso amigo fazer ai.
as conversações que havião a seu respeito guina a c ç ã o desagradável , «•*"".*
ücs passeios públicos. Havia muita gente —» Ficae d e s c a n ç a d o ; o m e u amigo
em Phtenix-Park. O marinheiro se intro- tem as minhas i n s t r u c ç Õ c s . . . A propó-
duziu tenebrosamente nos grupos , e sua sito , senhor R i c a r d o , quero, que m e deis
curiosidade teve motivo de ficar satisfeita. um . c o n s e l h o ; tomae _o m e u b r a ç o , e
Não se fallava senão do estado de assedio conversemos como bom visinhos, , --.§
Ü AKCREADOU M I N E1W O, 1S1?)

— Capitão, eu folgarei muito- de vos pausa , quando tivermos es«a fortuna em


dar um conselho* nossa carteira, e quando houvermos apa-
— Sim, de caminho, dae-me um con- gado o nosso morrão, como tolos, se-
selho . . Eu tenho vontade de me ca- remos enforcados.
sar ; que pensaes d'isto ? m, — Oh ! exclamou o senhor Ricardo ,
— Mas . capitão . . . eu penso . . . . «nadii temaes: cem dos principaes de Du»
—. Vós oomprehendeis , stenhor Ricar- Win o schçrif à sua frente, e eu, juramos
do , que nÓ3 não podemos viver,' eu e sobre a Escriptura sagrada, que nenhuma
Xavier- n'esle estado de isolamento:; .te- vjiolencia vos será feita, e que licito vos
mos deveres a preencher para ooma so- será ir rever vosso pai»*, com vossa for-
ciedade. ••- Í • .***-' ' tuna e vossa liberdade
—. Pois bem., eu penso que , se tcndçs, . | --.Isto requer reflexão, meu visinho . . .
no coração algum amor de inoçidade . . . , , Escutar, lemos um termo médio . . . . Vós
— Não , senhor Ricardo, não , todos ps dareis duzentos mil francos ao meu amigo
nQasos- amores de liiocidade são pobres; £avicr. o qual .partirá, ..ficando eu cm
hoje temos pretenções ; aspiramos a dotes. Dublin à e-pera que elle tenha chegado à
O bello sexo é magnilico cm Dublin; nós l/iauça , por£m sempre en de sintinelja
jà fizemos a nossa escolha ao pé do barril, de pólvora. Desta ma-
J neira, ao menos, fareis um feliz, e só
AJ, t disst o senhor Ricardo com vctl
sullooada,' jà fizeres uma esoelha ? - havérA uni enforcado.
— Duas csoolhas...."-.l«lgar*s que as •***, Não: haverá nenhum
famílias consentirão em «utaiieleecr-nos ? —• Accitáes a minha proposição, visinho?
— E porque «ã** ?. respondem o visinho — Aceito.
de Celestino com voz tremula, Não. sois. —r Pois bem, também eu aceito a vossa,
vós maiioebãs honrados ? jde ]i\ ucoupar-vo*. do negocio.
Assim pensamos. j —- Agora roesiuo , capitão : o solo es-
O senhor Ricardo cah*u( em .profunda tá em brqza, não ha nqitç. Ao r a , a r da
meaita-.ão, ê depois de ulgtyis momentos aurora, esmero*-vos em casa de Gjreamesh*'
de silencio , disse a Celestino: -—Adeus, meu visinho.
m. EsouV» capitão . ' vtís me pedistes — Boa noite , capitão ; ver-me-heis an-
um conselho, cii'.-micro dar-yos um con- tes do nas,òér do sol.
selho de amigo {, ó,Bn,cedeis--fiíe' lieença r Celestino cahiu d'alli a pouco nos lira-
Dao-o., inèu visifiho ços de seu amigo, contoi>'he sua entre-
— l.des pr-eparar-vòs uma vida de in-- vista com o 'visinho , c ambos se pu/erao
ferno, acredita*,*-»»1'' •• Dublin, vos devo Uma a dançar de contentes em roda do voluão.
satisfação, e eu vos afianço que Dublin De madrugada, estavão delronte da
vol»a dará. Os principaes habitantes, M, casa de Celestino os cem principaes, ««
Greamqsh, a adniinistraçãq dos correios e duzentos mil francos, o s^chenf e a Ri»
eq , faremos um saçrifici i; de uma só vez blja. Xaxier desceu, recebeu o juramento
vos fiiriuiiecerèmoi e vos poremos qo ca- e as iiota«* do banco, e partiu para Kingslon
minho de França, oom duzentos mil fran- na *ege de posta do senhor Ricardo.
cos em vossa carteiro e com n liberdade. Celestino estava guardando o vulcão.
Celestino parou, e•fitou os olhos nos Chegando a Cafars , Xavier escreveu u-
do senhor Ricardo. ma carta ao seu amigo, dizendo-lhe que
--» Meu visinho , disse depois de longa estava à saa espera, com cs olhos fitos-na
O RECREADOR MfNEIrfo
i-'4

Manclia. Celestino sahiu afoitamente com ponto de desmaiar de alagria e espanto.


a cinta de Xavier na mão, e com seu O opeiario estava dinnto d*elle com
iiurão apagado- O povo o acompanhou seus instrumentos na maõ. O mance-
na estrada de Jvngston aos gritos mil ve- ho o examinou desde a cabeça até nos
zes repetidos de Honra for Cetestvi! . pés , cite se examinava a si depois com
N'este momento Xavier e Celestino vi a-mesma altençaõ, e parecia compa-
-.em no canto mais fértil do departamen- rar sua figura com o que elle via. Tiir-
to des Bouulies du Rhône; são membros
tia sociedade de agricultura, e os primei- do lhe parecia exactair.cnle semelhan-
íos Hirroitomos do Meio dia. Celestino in te excepto as maõs ; porque ella to-
ventou um i-ementeiro mechaíiibo, e mereceu mava os instrumentos do cirurgião por
una medalha de ouro na ultima exposição parle das maõs." lim quanto • estava
ME'RY, oecupado n'este examo , sua mãe , que
naõ podia conter por mais tempo as ter-
nas sensações , de que seu coraçãoRes-
tava ngilailo , so lha lança aò pesco-
Uma gazeta de França apresen- ço , gritando : a Meu filho 1 Meu caro
ta ns circunstancia* as mais inte- <x filho ! » O mancebo reconheceu a*i*òz
ressantes que acorrp.Tnharão a ope- de suá mãe , e só pôde pronunciar es-
ração da cataracta -feita a uin man- tas palavras; «So.is.vosl... E' minha
cf^bo de «-inte annoá de idade, e que « m a e . . . e desmaiou. Havia no quaiv.
linha nascido cego. Julgamos que to uma rapariga; com quem o mance-
f?sli« narração interessará a nossos lei- bo linha sido creado , e que, mesmo'•
tores da U'esa,a sorte que nos inte- cego como era , elle amava, e era d'el» -
lessun , e por isso lha olTe; Ceemos. Ia amado ternamente. Quando ella o
Tendo o cirurgião (Mi*. G r a n i , ) vio sem sentidos , deixou escapar al-
assegurado aos pães du jbven cego que guns grilos dejlôr, que parecerão re-
«.•He destruiria o obstáculo, que o pri- animar a sensibilidade do mancebo.
vava da vista junlúrão-se muitas pes- Voltando a si, seus olhos se íixáraõ no
soas para serem testem unhas da opera- óbjeclo amado, cuj;j fóz elle reconhe-
ção. Tf»dos os espectadores tinhaõ cia. Depois de alguns momentos de
prouieit ido guardar silencio se a o- silencio : » Que me fizeraõ ?» Diz .elle :
peraçaõ produzisse o desejado elTeito , « onde me t-ouxeraõ? « O que eu íin»
a-fim d» melhor se observarem os mo-> Í< to cm torno de mim é a (uz , de que
vimenios, que produziria» na alma do « me failáraõ tantas vezes ? O novo '
uj'*ncehf) as novas senspções, que elle «sentimento , que eu súffro é o da vis-
soflVesse. A operação surtiu lodo o ef- ff ta? Todas as vezes que vósdizeis gtie
feito que se esperava. Quando os « vos alegrais de verdes uns aos outros,
olhos do maiicebo foraõ feridos pelos rt sois taõ felizes, como eu sou agora ?
primeiros raios da liiz',, vio. se euri toda jt Onde está Thotn, que me serve de
a .sua pe-sna a expressão de um extra*, ffguij ? Pareceme que agora eu anda-
uidiuaiio Uauspoite; elle pareceu a « ria bem se ai elle. » Elle. quiz.dar ai»
O RECITITÍJ^^INEIRO. 1-1$

pstn passos ; n»a., parou , e pereceu para atua amada; chamava-a .ocando-a
aterrado de tudo, o que o cercava. Co- e lhe pedia que foliasse", para se
mo a agitação de sua alma era extre- assegurar se era ella , que elle tocava.
ma , disseraõ-lhe que era necessário Tudo o admirava : confundia t i d o : o
qtie elle voltasse por algum tempo ao «6 por gráog chegf>u a distinguir eco»
sau primeiro estado, a fim de dar pouco nhecer as fôrmas, as c >res e as distancias.
a-pouco a seus alhos a força dé suppor-
tar,tgraduajr~**rente •» «npresseõ da luz; CtUI-iADA.
e que era necessário que elle se fosse * * •

costumando a vêr por .grãos , di mes- Sou. Quem ? 1


ma maneira qne "seiíáná costumado a Macho não. 3
afljdiar. Elle se rendeu com muito pezar Mulher sim.
a estas razões; liveraõ-no algum tem* ( A. )
po.com os olhos cobertos; e n'esta no»
«*? cegueira elle se queixava amarga-
m*Mile de que o linhaõ enganado : que Rogamos aos srs. assignantes ,
atfjguo. encanto tinha sido -empregado que ainda não pagarão cousa
pàr_ lhe fazer crôr que elle gosava.fdo
que se chama luz : elle acerescentava, alguma da sua assígnatura; aos
que as impressões, que lhe linhaõ íi*-* f\i\e devem dous annos e meio*,
cado nvalma , eraõ laes que enlòu- 'e aquelles que não saldarão as
qMceria se naõ lhe rostUnissem a vis-
ta. Outras vezes, elle procurava ad»
suas contas quando terminou
vinhar os nomes das pessoas. que a remessa das folhas, a bonda-
litjlua vislo , ou queria contar o que ti- de de consultarem a relação
nha notado.; mas, faltavaõ-lhe termos destas dividas, que , para seu
pata se exprimir. Finalmente quan-
do julgarão que elle estaria em estado melhor conhecimento, dislri-
de supportar a luzf çncarregáraõ a sua mos avulsa com o n.^ 72.
amada de lhe tirar a venda dos olhos . | Rogamos igualmente aos srs.
(; de procurar distrahir com seus dis»
cursos a impressão mui viva dos obje-
assiernantes que alli não forão
ctòi. Ella se chegou a elle , e ao tem- mencionados, e que devem um
pòlque ia desatando" a venda , ia com e dous annos da sua assígnatu-
palavras ternas renovando os seus pro- ra, o obséquio de mandarem
leitos de amor , e mostrando descon-
ftjptnça de ser abandonada pelo seu a satisfazer a importância res-
mante no seu novo estado, Elle renova pectiva. . .
todos os seus juramentos; e torna a ver
a luz cem a mesma perturbação, e c n * — » » - • . . . .. «

cauto, Naõ podia cansar-se de olhar ; A charada d.j n." antecéâtuiie es.-»,
a prime palavra — Campainha.
1
M LIVRARIA DE
Z&, iX* P» «.ftl

E S T A B E L E C I D A MO OURO P R E T O ,
@VI£SI^*2'7I-.**@u_ IPi-IRA <ü IP«IBM«l.«f-$í-(í) -Da.

os
•*_i PARÁ P I A N O .
PELO GOMMENDADOR

FRANCISCO XAVIER•BOMTEMPÒ
r
OFFICIAL MAIOR PRAPUADO OA SECRETARIA D*ESTAD3 DOS NEGÓCIOS
DA MARIKH A.

• < As pessoas que subscreverem nesta provincia fica--


ráõ com a obra ( que já se acha prompta)pelo preço
a^ do Rio de Janeiro , isto é, pela quantia de 5;00(TJ*S, ,—-rj
toda a collecção,--— pagos ao recebimento da mesma ;
preço esle que depois se ! augmentará para os qu&
não forem assignantes.

O. P. .848, Typ. Imp . de 1$. X. P. do Sousa.


O Recreador Mineiro.
PERIÓDICO IÍITTERARIO.

_•<£_-D 7.' 1.* DE MARÇO DB 1848. N.-77

O PROBBETA MISTERIOSO. sado por vários degraus de cor-


rupção antes de chegar a esse
Nos fins do século passado, em que a achamos.
nos últimos annos do reinado Educada n'um convento ,
do Sardanapalofrancez, Luiz ao sahir delle entrou para a
XV, existia uma moça formo- casa de uma costureira-mo-
síssima : seü .corpo esbelto e dista , mas levada por seu gê-
elegante, seus grandes olhos nio , não se podendo conten-
ãzues , sua boca encantadora, tar com os laboriosos ganhos
sèu olhar vivo , terno e Volu-* da agulha, ella achou que de-
ptuoso . seus mimosos pés, via constitui-se sacerdotiza
suas mãos delicadíssimas erão- de Venus mercenária.
lhe armas poderosas que lhe Havia nesse tempo uma mar*»
asteguravão a conquista dos queza Duquesnoy que dava
corações. — Ghamavão-a ma- partidas de jogo , e para en-
demoiselle Lange. Amazia do godar os tolos, e depennar
Conde du Barry, seus favores os patinhos , convidava quan-
andavão em almoeda a quem tas conhecia pródigas de seus
mais desse, e com o sórdido amores , estipulando a compe-
preço que lucrava , sustenta" tente commissão. Nesse covil
va«os pródigos vicios de seu a- teve entrada a nossa Venus.
mante. Nessa nouteahi encontrou*
Filha natural de uma po- se um conde João du Barry,
bre costureira, tinha ella pas- homem de crapulosa immor.
1-18 O RECREADOR MINEIRO.

validade , perdido de dividas, Mademoiselle Lange conti-


e que vivia á custa do jogo e nuou seu passeio, não sem
das moças. Mademoiselle Lan- muitas vezes parar, sem mui-
ge deu«*lhe no olho ; suain» tas vezes virar-se : o mance-
ia mi a logo calculou quanto bo acompanhou-a inseparável;
lucraria , lomando-a por a- quando ella parava , elie tam-
mante : fez-lhe oflertas, que bém parava , quando appres-
forão acceitas: e aqui temos sava o passo, elle também ap-
nossa mademoiselle Lange im* pressava o passo; dir-se-hia
patronizada no mundo , e a- que era sua sombra.
mazia de um conde. E' nessa Emfim a moça recolheu-se
posição que a tomamos para para sua casa : o mancebo fi-
assumpto deste appendice. cou muito tempo parado em
Um dia estando a passeiar frente delia , e só retirou*-se
no jardim das Tulherias sen- quando chegou à noite.
tiu que a acompanhavão; — No dia seguinte ao sahir
voltou-se, e deu com um mo- para o seu passeio, mademoi-
ço elegante : seus olhos gran- selle Lange encontrou-o de
des , pretos , e cheios de fogo. novo á sua porta; de novo
sua boca engraçada , e mais elle acompanhou-a , de novo,
que tudo um não sei que mys- quando ella se recolheu, ficou
terioso e melancholico , que parado diante de#sua janella.
se descobria em sua phisiono»- Tinha-lhe nesse passeio ma-
mia, o tornavão interessante: demoiselle Lange facilitado
elle trajava uma casaca de seda mil occasiões de chegar-sè pa-
azul clara , bordada de estrei- ra ella . de com ella fallar
to galão de oiro , calções da já affectando passar pelos lu-
mesma fazenda , jaleco ama- gares mais retirados , já p i -
rello desmaiado : suas fivelas, fando , e lançando-lhe olha-
seu calçado , sua espada , seu res animadores- mas ou fosse
chapéu , tudo indicara bom por nimia timidez, ou n 0 r
1
to, e riqueza. um motivo secreto, o m a n -
O RECKEADOR MINEIRO i_,9

cebo sempre se conservava na o espirito de mademoiselle


mesma distancia , nem se che- Lange, antes deu campo á mil
gava , nem fallave. conjecturas, cada qual mais
, * Tao extravagante procedi- absurda e infundada. — Será
mento excitou a curiosida- algum ladrão , algum assas-
de feminina de mademoiselle sino ? — dizia ella , e tremia.
Lange. Apenas chegada á casa, Todavia na manhãa seguinte,
chamou uma criada , que ti- a curiosidade vencendo os re-
nha , muito experta , e deu- ceios , ella animou«.se a pas-
lhe commissão para ir inqui- seiar. lira principio do in-
rir do mysterioso mancebo o verno, cahia muita neblina.
que lhe queria , e porque a Aosahirella olhou em tor-
acompanhava. A criada sa- no de s i , não vio o mo-
hiu , e ella" foi-se pôr, porde- ço ; dirigiu-se para o lugar de
traz da vidraça da janella , á seu costumado passeio , tudo
espreitado que se passava, estava deserto. A cerração ia
viu a criada chegar-se para ò augmentando, já em pequena
moço , viu que com elle tra- distancia mal se destinguião
vava animada conversa, viu- os objectos. Eis que de entre
a retirar-se apressada , e^o o nevoeiro, surge de súbito
mancebo, com manifesto des- por detraz delia um indiví-
contentamento, e insólito car- duo ; ella volta-se, era o
regume retir,ar*-se também. —- mysterioso mancebo. — Sr. !
EentSo? disse elja , apenas snr. , não me,: mateis / excla-
viu a criada. — Ah 1 sr.», a- ma espavorida , nunca vos oi-
quelle moço é um doudo, ou fendi, nunca... — Tinha-se a
cousa ainda peior; disse-me, esse tempo o moço lançado a
qua vos não acompanhava, que seus pés, e beijando-lhe as
com vosco se não importava . mãos : Snr.*, dizia com voz
e que nada queria. — meiga e melancholica, pro
Semelhante resposta não e- meitei-me, ah I promettei-me
ra de natureza a tranquülizar que me concedereis a primei-
1.90 O RECREADOR MINEIRO.

ra mercê que vos pedir, quan*- amante de Luiz XY, e a f i -


do-fardes rainha de França! lha' sem nome dos impudicos
— Sim , sim, quando eu fôr amores de -uma costureira ,
rainha de França conceder- chamava-se condeça d« Barry.
vos-hei quantas mercês me pe« era mulher legitima de um
dirdes, por agora deixae-me , conde de França.* «o
— respondeu ella appressada Tudo na corte obedecia ás
e com um tom em que se des- suas* .ordens : uma meretriz
cobria o receio de achar-se a da mais ínfima relê calcava
sós com um louco, que de um aos pés o orgulho da nobreza,
instante para outro podia tor- fazia e desfazia ministros, es-
nar-se furioso, o desejo de pefdiça.va aos milhões o 'di..
ver-se quanto antes livre de nheiro do erário-, era na' re«*
tão perigosa companhia , e a alidade rainha de França, è
vontade de rir que devia cau* rainha absoluta; *
sar tamanho disparate. — Não «. No meio de suas novas gran-
me tomeis por louco, tornõu- dezas , que mezes antes nem
Ihe o moço , que havia per- mesmo suppunha * possíveis}
cebido os secretos sentimen- tinha-se ella inteiramente es-
tos de mademoiselle Lange, quecido do mysterioso* pro**
vossa elevação será extraor- pheta, que lh'as havia an.-.
dinária , como extraordiná- nunciado. Um dia ao entrar
ria será vossa queda / Adeus, na real capella ,* para otíyit
rainha de França, nós nos tor- missa , seus olhos dislrahidoi*
naremos á ver , lembrae-vos encontrão parado á porta é
de mim , rainha de França. trajando as mesmas vestes &
— Disse e retirou-se. elegante mancebo ; um doce
Passarão-se os tempos: ma- surnso animou-lhe, o bêllo
demoiselle Lange, correndo melancholico semblante, elle
seus destinos, havia subido inclinou o corpo como para
ao leito do rei de França , a comprimenta-la , e ella ouviu
amante de João du Darry era que*«ecq • tom 'baixo lhe dizia;
0'BECRKADOR SinVEIRO. it*.

--Lembrastes-ies-demim, ra- pintada no sobre scriplo uma


inha de França ?—A conde- caveira • > abriu»-a , e leu o se-
na'perlurbou*-*wf>}iC0rou , quiz guinte ; •—, j
responder :i mas em balde " Senhora. —Em vosso no-
procurou o * m-rncèbo , elle " me perseguem-me ; a poli*»
havia desapparecido. Duran- " cia não poupai diligencias
te*o officio divino seus olhos " para saber quem sou, onde
inquietos, em ? vez de «re-- ei imoro.i' Onde moro! ah !
•ligiòsamemte'** contemplarem ei 'ninguém deseje sabel-o !
as ceremonias santas,*"a que '•' Quando se entra na minha
tinha vindo írésistiry peccof- " casa, é para nunca mais
rião investigadores todo o in«' *•' sahir. Quem sou 1 ah ! que
terior do edifioio.: *-em balde! i( ninguém ò pôde saber sé*»
«lie tinha desapparecido. •" não morrendo.
*-•' Nunca o officio diviwo lhe " F a z e i pois cessar as impor-
pareceu tão comprido , nunca •" tunas indagações da poli*
tanto desejou vê-los* acabar • '•"tia.-Annunciei-vòs prospe-
em fim elle terminou V reco- " ridades , não me enganei:
lhida a seu palácio , a con» '< annuncio-vos catastrophes-,
«deça'mandou -chamar o mi- " não me engano: ver-méf*
nistro da policia, e deu-lhe ' • heis ainda uma vez que será
•ordem *para qu^ fizesse appa- " a terceira:<ab.! se me ti-
recer o joven mysterioso. Para ." verdes de vêr pela quarta
iazer*lhe a Vontade , a policia " veEÍ.Mnfeliz! eu vos Jas>
desenvolveu todas as suas for- " t i m o 11,
ças , todos 'os seus espiões sa- ''Essa mysteriosa cartsu essa
hirão a campo;* a condeça es- caveira, esses sellos pwtos ,
perava etn breve satisfazer* sua esses «symbolosda morte, esse
curiosidade, quando uma ma* tom ameaçador levarão a peu-
rinS, ao er^uer«se ; acha a seu turbação ao espirito da real
lado, uma t; eárla ! feixada com méretriz : no'mesmodiatí mit-
finco ífeílès f retos / e leh dô uistro jda policia teve: «ordena
._*.*-. O RECREADOR MINEIRO.

para cessar suas indagações. fundindo-se com a multidão,


No turbilhão dos prazeres desappareceu. O coche par-
que a rodeiavão , na guerra tiu, e a condeça recolhida,
viva de intrigas cortezãas em mau grado seu, a um conven-
que se achava envolvida, pou- to, teve de fazer longa peni-
co tempo teve a condeça du tencia de sua Vida peccadora.
Bury para meditar nessa car- Os annos volverão. — O gê-
ta ; sua tristeza em breve dis- nio das revoluções havia so*-
sipou»se , e nem mesmo re»* prado sobre a França... Luiz
cordações lhe ficarão da ah* XVI, o rei reformador, tinha
nunciada catastrophe. pago na guilhotina os disper*
Em fim uma hedionda, e dicios e os crimes de seus an-
terrivel enfermidade ,. fructo tepassados... o sangue corria
da libedinagem e da depra» aos jorros... Essa brilhante no«
vação veio accommetlera ve- breza de França que o occio ti-
lhice do real amante da con« nha corrumpido, que a licçao
deça. Luiz XV morreu. Um dos reis e dos príncipes tinha
dos primeiros cuidados de seu feito chegar ao ultimo grau
successor foi expulsar do pa- de im moralidade e deprava-
lácio , c fazer recolher a u m ção achava-se dispersa em
convento a amante de seu pae. terras entranhas, mendigando
Quando ia obedecera essa o pão da esmola , exposta á
ordem, quando entrava no co- miséria. A condeça du Bar-
che , —ouviu a condeça uma ry intrépida, e generosa es-
voz baixa-que lhe disse ao ou- palha o boato que fora rou-
vidor— Eis a catastrophe que bada , que os ladrões havião
te hrçia promettido , — lem« assaltado sua quinta, eleva»
hras-fc de mim, rainha de do suas jóias, que valiãp mais
França ? — Ah ! exclamou el- de 1:800:000 francos, —eU
la , e virando*se deu com o Ia espalha que tem noticia
mysterioso prophela. Este i n - que os ladrões se achão na
clinou-se, saudando-a, e con- Inglaterra, e apoiada por esses
O RECREADOR MINEIRO. ' me*

rumores, implora e obtém o ça:-ella, pobre moça, sem


que então difficilmenle se con- pae, sem prolector no mundo,
seguia — um passaporte para tinha-se elevado ao mais alto
Inglaterra. — Mas suas jóias grau de poder a que pôde e*-
não lhe haviao sido roubadas, levar-se uma mulher! Um
ílla as tinha mandado vender terrível presentimento aper-
em Amsterdam, eera o preço ta-lhe o coração , ella recor-
dellas , erão esses 1:800:000 da-se do elegante mancebo,
fr. que ia distribuir na In- de suas inesperadas appari-
laterra pelos nobres foragi- ções, das ameaçadoras pala-
S os. De volta de sua missão de
charidade, a ex-condeça du
vras, de sua carta... — Que te
disse eu , lembras-te de mim.
Barry retirou-se pára sua rainha de França, — dizalhe
quinta, e ahi empregava seus ao ouvido uma voz que ella
dias- e a immensa fortuna, bem conhece. A infeliz vira-
que' tinha amuado , em soc- se , dá com o mysterioso pro-
correr os augustos infortúnios phela era o carrasco I
das victimas do terror. HISTORIA DE UISS AMORES ANTES
Mas nessa epocha erão cri- DO DILÚVIO.
mes a generosidade e a vir** Era Hilpa uma das cento e
tude. Madame du Barry foi cincoenta filhas de Zilpah ,
levada ante o tribunal revo- descendente de Cohu , que al-
lucionário, e condemnada á guns autores julgão ser Cain.
morte. Como fosse muito formosa ,
h Já no carro fatal a mísera ainda não bem contava seten»
recordava todas as circunstan- ta annos de idade, e já at«*
cias de sua extraordinária es.*** tendia ás finezas, que lhe ren«=
istencja; ella recordava, como dião vários moços, que a na-
da mísera cazinhade uma po- moravão. Entre estes se dis_
bre costureira.se havia ergui- tinguião dous irmãos, Har„
do até o palácio de Versalhes , phat, e Shalum : o {jrimoge..
até o leito de um rei de Fran- uito, Harpath, era senhor d a
1-írf
O RECREADOR MINEIRO.

fértil região , qúe se acha si» I nas contava cem annos; e por
tuada nas faldas do monte isso que era em extremo ar-
Tirzah , ao sul da China. Sha- rogante e insolente, fez es-
lum,(que na lingua Chineza carneo de seu irmão Shalum,
significa lavrador ) , possuía o qual, não possuindo mais
todos os outeiros circumvisi- do que uma extensa cadêa de
nhos, e aquella corda de ser- rochedos e de montes , tivera
ras, geralmente chamada Cor*, a ousadia de aspirar á mão
dilheira de Tirzah. Harpa th da formosa Hilpa. Shalum re-
era dotado de um caracter al- senho-se tanto d'este insulto,
tivo e desprezador ; tinha Sha*- que amaldiçoou a seu irmão
lum um gênio meigo e bran- na amargura de seu coração,
do , gosava da estimação de e fervorosamente pédio a Deos1
Deos, edo amor dos homens. que o fizesse expirar esmagado
Dizem que antes do dilúvio, pela queda de um de seus
ehegárão as filhas de Cohu a montes, se elle algum dia ,
fazer-se celebres , em conse- fugindo aos ardentes raios do
qüência do muito apreço, em sol, viesse procurar descansar
que tinhão as riquezas: c foi á sombra d'elles.
por este motivo que a bella Desde então nunca Harpa*-"
líilpa, vendo os numerosos th se aventurou a passar os
rebanhos deHarpath espalha- limites de seu| valles* mas,
dos pelas vastas e ricas terras affogando-sé n u m rio, ao que-
que rematão nas faldas da Cor- rer atravessal-o, terminou por
dilheira de Tirzah, e admiran- uma morte prematura a sua
do as claras fontes , e os mui- brilhante carreira , aos duzen*'
tos ribeiros , que as aformosê-- tos e cincoenta annos de idade.
ão , preferio este a Shalum. Em conseqüência d'este^ri§te
Harpalh andou tão depres- acontecimento, dêo-se ao tal
sa com o seu namoro, que. ca- rio o nome de Harpath ; e o
sou com Hilpa ainda na flor que não deixa de parecer ex-
da idade , pois que ella ape- traordinário , é que elle nas*
0'RICITEiriTOR MINEIRO. 12.5

ce lia baze dè u m ' d'aquelles effectuou o casamento de Har-


montes, que Shalum, no mo- path, a cultivar a região mon-
mento de amaldiçoar a seu tanhosa , que lhe tocara por
irmão na ablafgúra de seu sorte. Elle conhecia perfeita-
coração, desejara que o se- mente a qualidade do terreno,
pultasse debaixo de si. que convinha ás diversas plan-
te tinha Hilpa âójcento e ses- tas ,- e até dizem que herda-
senta ánnos , quando seu ma- ra do primeiro homem mui-
rido lhe faltou , e não ficou tos segredos d'esla importan-
senão com cincoênta filhos que te arte. Este trabalho, ao pas
delle houve. so que o dislrahia de suas pe-
í*"rmcipiárflo logo muitos à nas, foi-lhe no resultado sum-
fá-zer a b o r t e á joven viuva , mamente proveitoso: denlro
sô bérn que se persuadissem em poucos annos apparecerão
Çue á todos levaria a palma seus montes cobertos de ten-
o seu 'primeiro amante Sha- ras arvores , as quaes , á
rúm ,* o íftial dè novo lhe tri- medida que ião crescendo ,
butou seus affectos , perto de ião também formando lindos?
dez annos depois da morte de arvoredos , bosques , e flores-
Harpath : ti'àquelle tempo , tas , intermediados com pas-
não ficava airoso a'uma vi- seios, e jardins; tanto que
uva receber os obséquios, e toda aquella região , triste ,
corresponder átffinezas de um núa , e despovoada , como e~
homem , seftão no fim de dez ra d'antes, em tudo parecia
annos de viuvez. agora um segundo paraizo. A
V Passava Shalum a sua vida belleza do lugar , e as ma-
entregue a uma profunda me- neiras civis e delicadas de
lancolia ; e como estivesse re- Shalum, a quem os contem-
solvido a remover o grande porâneos tinhão pelo homem
obstáculo, que impedira a sua mais affavel e mais sábio do
tão desejada união com Hil- seu tempo , alrahirão milha-
pa , principiou , logo que se res de pessoas, que sem iuter-
isSG O RECREADOR MINEIRO

rupção se dérão ao trabalho No anno 788 depois da crc*


de fabricar poços, e cavar ação do mundo.
fossos, a fim de encaminhar
a água para todos os pon- " Quanto não tenho eusof-
tos d "aquella vasta plantação. frido, oh tu , filha de Zilpahl.
As moradas de Shalum cada desde que te lançasle nos ora-»
anno parecião mais formosas ços do meu rival! Aborrecido
aos olhos de Hilpa ; no fim da luz do sol, busquei a es-*
de setenta outonos ficou ella curidão, e sempre tenho vi-
por extremo encantada da a- vido longe do mundo no cen-
gradavel perspectiva das mon- tro dos bosques e florestas.
tanhas de Shalum ; as quaes, Pelo espaço de setenta annos
a esse tempo achando-se já tenho eu deplorado a tua per**
cobertas de um sem conto de da no cume do monte Tirzah-,.
arvores, offereci-ão á vista a e muito me hei esforçado por
paisagem mais formosa possí- suavisar a minha melancolia,
vel. nutrindo-a por entre as tns*-
Os Chinas conservão uma tonhas sombras, que muito a*>
carta , que , segundo dizem , lém do numero de mil se con-
Shalum escrevera a Hilpa, no tão nas minhas montanhas.
undecimo anno da sua viuvez. Hoje essas minhas moradas as-
Aqui a transcrevo fielmente , semelhão-se ao jardim de De-
julgando não dever afíaslar- os; a cada passf» n'ellas se en-
me da simplicidade, e da fran- contrão frutas, ores, e fontes.
queza dos sentimertfos, que Já mandei perfumar todo o
tanto luzem no original. monte , para te convidaj a vir
Shalum tinha n'aquelle tem- honral-o com a tua presença*.
po cento e oitenta annos, e Vem pois, deixa os teus val-
Hilpa cento e setenta. les , oh minha muito atuada !
Shalum , senhor do Monte e povoemos esta pequena por**
Tirzah, a Hilpa, Senhora dos ção do mundo com uma linda
Valles. raça de mortaes j sim. a»
O RECREADOR MINEIRO. Í5í_7

formoseémos estas*7 agradáveisctualmente na Bucaina , p r o -


sombras com um numero vincia de S. Paulo, aonde
prodigioso de filhos, e filhas.
exerce a profissão de lavra-
Lembra-te, oh filha de Zilpah!dor , no meio da abaslanca ;
que a idade do homem não lem de idade 107 annos, e pos-
passa alem de cem mil annos; to que avelhentado é assaz for-
te para esta idade, na qual
que a belleza, esse divino dom,
que tanto te adorna , não duragoza integralmente das facul-
senão uns poucos de séculos. dades da alma, sendo seu gos-
Ella florece á maneira do car-to predileclo relatar a todos
valho , ou do cedro , que se as mais pequenas circunstan-
descobre no cume do monte cias de sua vida e mocidade.
Tirzah, o qual, no fim de tre- Sem se poder jactar degas-
zentos ou quatrocentos annos, tronomo , come este veterano
murcha , perece , e d'elle a todos os dias, ao almoço, u -
posteridade se não recorda ma galinha ,assada , um pra-
mais, se de suas raizes não to de hervas com ovos e fa-
brotarem tenras hastes. Pen- rinha de milho, e bebe sem
sa bem nisto, e conserva sem- grande repugnância meia
pre na lembrança o leu vi- garrafa de vinho, sem contar
sinho das montanhas. ,, que pordesfastio costuma ma-
Tendo inserido esta carta ,tar o bicho, no inverno, com
que me parece ser o único meio martelinho da branca.
bilhete de amores do tempo an- Foi casado uma só vez e
enviuvou aos 99 annos, subs-
terior ao Dilúvio, que hoje ex-
iste, no numero seguinte trans-tituindo logo no primeiro dia,
creverei a sua resposta , e a o logar da defunta por uma
conclusão d'esla historia. caseira bella de menos de 30
i • —_
annos, a qual , rumorão as
LONGEVIDADE. .más línguas , accelerára a
Manoel Carvalho da Costa, morte da primeira por ciúmes.
nascido em Paraty , mora a- Teve do legitimo matrimônio,
isaS O RECREADOR MINEIRO.

Vinle filhos; dos quaes , doze, se grande picador , não mon-


vierão ao mundo aos pares, ta a cavallo, sem o ter
de seis vezes; e conta hoje antes feito cançar por um
vivos cem netos, quinze bis- dos filhos ou netos , e ainda
netos e seis tataranetos , tendo assim faz-se amparar peltís
o mais velho 8 annos de i- lados por dous escravos qüé
dade. Parece que este vete- o contenhão; nos dias de gran-
rano da espécie humana , não de calor não se expõe ao sol,
eslá muito resolvido a, de mo- resguarda-se da chuva e em
tu próprio, deixar este mun- uma palavra é a hygiene
do , visto que pretendendo- personalisada. (Est.)

COMPÊNDIO
J3A

WDSJtBVál IÍÀ<B*2®JtA& •
PELO PROFESSOR

MTOSSIICD &ÍL\7Í_IEL_S, ÍP.2&IB31BÜ (B-DlBt!lc£.ü .


MEMBRO DO INSTITUTO HISTÓRICO B «EOGRAFICO BRASILEIRO, E NATURAL
DA CIDADE DE POI*.TO**AI.EGHE, CAPITAL DA PROVÍNCIA DE SAÔ
PEDRO DO UIO GKAXDB DO S U L , ETC,

Animado polo bom successo de ai» Orlhograftd da Língua Nacional *àti


guns Compêndios que tenho orjj-ani • que tanlo carecíamos.
sado para o ensino da mocidadc do Depois que o padre João de Mo*
qjs a vinle annos ine cccupo , em> racs dè Mudurcira Feijó em 17*34 fe'»
prehef.di o presente Compêndio da j imprimir a sua orthograíia , em grau*
O RECREADOR MINEIRO. iss»)

de parte fundada nos princípios do gras sobre as consoantes dobradas ;


padre D. Rafael Bluleau , nenhuma formação dos pluraes dos nomes e di-
outra tem apparecido que pos.-a satii* versas inflexões dos mesmos tanto nos
fazer os desejos dos estudiosos : mas substantivos como nos adjectivos ; uso
assim como anies delle João de Bar- das abreviaturas dos nomes tanto na
ras, o Licenciado Duarte Nunes de pratica commum e na commercial, co-
Leão, Álvaro Ferreira de Vera e mo na scientifica ; regras de ponluaçãa
outros íherao neste gênero excellen- acompanhadas de exemplos apropii»
tes composições, alguma*; das quaes ados e explicações dos diíFerentes
pelo volver dos tempos cahirão em signaes orthogralicos e accentos pro-
desuso ; assim também o padre Ma- sódicos ; conjugaçõe* dos verbos rè«
dureira depois que apparecerao os gulares e irregulares , e as diversas
Diccionario» de Antônio de Moraes e inflexões em suas diífereutes vozes ;
Silva e Francisco Solano Constando, nomes próprios de homens e mulhe-
tem perdido aquelle interesse que ins- res , e alguns sobrenomes de escri-
pirara na época de sua primeira e- tura duvidosa em ordem alfabética ;
diçâo. Porém o grande vulto daquel- nomes das cidades e villas notáveis do
les Oiccionarios, a cuja leitura por Brasil lambem em ordem alfabética,
elevado preço nao podem chegar to- e escritos da maneira porque tem ap«
das as, classes , principalmente* a da- parseido nas peças oíficiaes.
quelles que nao tendo em vista pro.» Seguir-se«ha um extenso Vocabu-
curar significações da palavras con- lário , que atem de mencionar as pa-
lenlão-íe com bem escre *ôl-as, faz lavras mal pronunciadas entre o vul-
que suas doutrinas não possão chegar go , constará em geral de todas as
a todos: julguei portanto fazer um palavras de nossa língua que apre-
serviço apresentando compendiada- sentarem duvida na pronuncia ou na
ment*. a presente Orlhograíla que con- escrita: os nemes em eaja pronun-
tendo a mesma otMem nas doutrinas cia ou modo do escrever houver du-
de que tratou o padre Madureira, vida irão com ella explicada; os plu-
encerra todavia explicações minuci- raes duvidosos, irão por extenso; os su-
osas , claras e concisas das matérias perlalivos irregulares e alguns com*
que fazem o seu objeclo. parativos irão unidos a seus positi-
Neste Compêndio encontrara o Lei- vos ; irão também por extenso as ter-
tor explicações sobre as letras do alfabe- minações femininas de adjecti.vos em
to, seu dso e pronuncia, e sobre os di- que possa haver duvida; os verbos
tongos ; os diversos sons de algumas irregulares terão referencia á pagina
consoantes nas línguas vivas, com que em que se achar a sua respectiva con-
estamos mais em relação; observa* jugação : os participios irregulares i»
çOer* á cerca do uso do * . a, w . rào juntos de seus respectivos verbos,
k, ph , Ih , y, aulorisadas eom ex- Encontrar-stj-hão neste Vocabulário
plicaçôe. de differsatc. autores; re- as palavras que tem ch coa. som de
..S** O RECREADOR MINEIRO;

«7 ; as de x com suas diflerentes pro- ANECDDTA.


núncias ; as de som ambíguo entre
r e i , é entre o e u ; as que tive- SanteoH se tinha sentado um dia*
rem de escrever-se. com c e st, g em um confessionário , talvez para
e y , 5 e x , ch e x; as que tem U meditar em "tguma• obH• í um..'' m'ú'-
liquido nas sillabas gue e fcui, ttde e Iher. jttlgandi* sér um tídnfeW, s*>
tpii ; as que se houverem de escre«* pôz de joelhos, e lhe córitòü»lod* *
ver com th, e em geral as de con- sua vida. A medida qj-e õ p,eétB i*òé-
soantes dobradas : explicações das pa- hava alguma cousâr; a boa pentte*H*te,
lavras de pnnuncia semelhante , que que pensava seretlt rèpre^en^M, se-
ce escrevem diversamente segundo a dava pressapat-a acabar a *fla confis-
diflerença de suas significações ; mui- são. Qdando acabou, petcebtío qlíe 6
tos nomes estrangeiros entre nós in- contessor não dizia cousa alguma: leV'
troduzidos -, com ris nossos corres» mou pois o partido* d 6 íhe pedir a tfbíttí*
pondenles ao lado a fim de se fazer vição. f Por vtínlura útfíou pairei,,
délles bom uso e evitar o seu abuso; lliediz Santeuil " Como 1 ,, diz a mu-
muitos nomes irão com a explicação lher admirada : e para que ma eSCu-
de sua pronuncia, o que a tornará tastes vÔá? E para qr»e nte (atiitsM tu ?
mais fácil aos estrangeiros : em ge- " terna Santeuil •* Eu tõu fe-zerqoe... '
ral todos os nomes do Vocabulário xa ao Prior „ diz a mulher: " e eu a
irão acompanhados da classificação teu marido, responde» SáüCeuil.
a que pertencem entre as partes da
Oração, o que muito facilitará aos
que se de.em ao estudo da analise
grammalical.
, CHARADA.
Nao è este livro escrito para os O Sacramento Eiícharislíc»
sabics e literatos, que alem da opi- Aqui foi instituído 2
nião que já devem ter formado so- E aquelle outro do BajAi-nio
bre a matetia , terão sem duvida e i - Ministrado aqui tem sido 2
cellentes autores a consultar; desses
espero eu em tempo a devida cri- Em Confraria
Ou Irmandade
tica para melhor perfeição da obra em Tem servaniia
8'guma -futura edição : escrevo sim E utilidade.
fará aquelles que não podendo dar-
se ao estudo da língua, se conten-
CA)
iao com escrevél»a sem erros.
Antônio Abes Pereira Coruja
« ' - r,
Subscreve-se no Ouro Preto na Li-
vraria de Bernardo Xavier Pinto de A charada do n. antecedente exprime
Sousa pela quantia de 3.000 0 nome — Eufemea.
O Recreador Mineiro.
PERIÓDICO LITTER.1KIO.

fddDIXKD lã DB MARÇO DE 1848. •».• 78

BIOG1UPHÍA DO DOUTOR MANOEL IGNACIO DA SILVA ALVAREN6A.

Nasceu este lilterato brasileiro na ei» de iilteratura , que o tornarão ce-


dado de S. Joaõ d'ElRei, da provin- lebre.
cia de Minas Geraes. Foi seu pae o Começara elle os seus estudos ma»
musico Ignacio .da Silva , que aman« iores em Coimbra , quando o mar-
te das bellas artes fez aproveitar nas quez de Pombal reformou aquella u-
aulas dessa cidade os claros indícios dos niyersidade . e Manoel Ignacio apro-
talentos de seu filho, applicandoo veitando taõ opportuno ensejo com»
a todos os estudos com que depois põz e publicou excellenles poesias ,
honrasse a pátria e a lilleraliira bra- pela» quaes se conheceu que já da
sileira. Manoel Ignacio concluiu, tan- pátria levava grande cabedal de lit-
to em S. Joaô d*EIRei, como no Rio teralura e depurado gosto , adqui-*
tje Janeiro», os seus estudos prepara- rido naõ só nas aulas que freqüen-
tórios ,* e porque enlaô nenhum es- tara, mas ainda da aturada applica-
tudante podia adiantar a marcha dos çaõ em seu gabinete. A ode a mo-
s*.'is estudos sem procurar fora da pa cidade portugueza por oceasiaõ desta
tria os conhecimentos necessários ao reforma; o poema herci-comico in-
deionvolvimcnto do gênio ; e Coimbra titulado o .Deiertor das lellras „ quo
era para os portuguezes o que Athe- por ordem do marquez fora impres-
nas fora n'oulro tempo para os Gre- so contra a vontade do seu auetor
os ,'isto c , o ponto central do en- porque ainda o naõ havia sufllcicnte-
5 no das lellras e sciencias que se cul-
tivavaõ em lodo o reino , passou Ma-
mente corrigido, deraõ-Ihe créditos
de lilterato, e o descobrirão dis-
noo^ Ignacio a esse grande Licéo, e tineto poeta. -,ti
começou a ser respeitado por seus ta- Recebido o grau de bacharel for-
lentos applicando-se ao estudo de mado em direito, regressou elle à
J*iii-prtideiicia em que depois se Lisboa onde o estudo das bellas let«
graduar» , e enriqueceudo o seu es- trás a a communicat-aô com os ho-
pirito cem as luzes de diversos ruaiof mens mais grados cm saber de tal
is3a O RECREADOR MINEIRO.

sorte pungiraõ a sua emulação , e ar- ao mesmo tempo ensinando gratuita-


rebatarão o seu gênio, que elle foi mente rhetorica aos eMudantcs seus
respeitado pelos litteratos como um patrícios , cujos talentos houve que
dos bons poetas que ainda fazem co- devia aproveitar por um trabalho que
nhecido na republica das leltras o tnnlo se casava com o seu amor ás bel-
reinado de D. José com o ministé- las leltras. Sem nunca esquecer-se do
rio do marquez do Pombal. As suas seu amigo José Basilio da Gama ,
poesias. inaugurando-se a estatua remelteu-lhe do Brasil a composição
tquestre daqueile rei, daõ-lhe dis- métrica , intitulada Templo de Neptu*
lineto logar entre os homens de no , como derrota da sua viagem ma-
tettras, que eniaõ se esmerarão em rítima ; e logo depois a intitulada
suas composições. Apesar do prejuízo Gruta Americana , que foraõ impres-
que dominava a corte portugueza so- sas no Parnaso Brasileiro, Mnqoel
bre o accidente da cor parda , Ma- Ignacio passou de S. Joaõ d'ElRei
noel Iguacio era convidado ás mais ao Rio de Janeiro por ter sido des-
brilhantes sociedades, e nellas aco- pachado , da corte , professor regiO
lhido com particular estimação e res- de rhetorica e poética; abriu o seu
peito , que lhe mereciaõ as suas rn« primeiro curso na presença das pes-
ras o brilhantes qualidades. Elle fa- soas mais gradas do Rio de Janeiro
zia o encanto e a admiração dos que em agosto de 1782, encontrou par-
o communicavaõ , ou pelos seus diss ticular estimação no vice-rei Luiz de
cursos facetos eruditos, e ricos de Vasconcóllos e Sousa , decidido pro*.
ajuisada critica . ou pelas suas poesias, tector dos litteratos brasileiros, a-
em que a uma fértil imaginação se colhendo-oi em partidas de poesia e
juntava o desempenho dos preceitos musiea no seu palácio , e 'animando»
dos melhores mestres , ou finalmen- os cm uma academia litteraría, da
te pela dexteridade e gosto com que qual em seu governo alguns trabalhos
na roda dos seus amigos tangia uma appareceraõ , e se ^eraõ á luz em
rebeca , exercício a que se afeiçoára Lisboa.
desde menino, seguindo as instrucções Parece qne a providencia quízerá
de seu pai. Algumas das suas po- contrastar o brilhante vice-reinado de
esias dirigidas ao seu patrício e amigo Vasconcellos com o taciturno do
José Basilio da Gama, entaõ favore Conde de Rezende ; que lhe suece-
«ido do marquez de Pombal, e em- dera , pois que á franqueza e joviali-
pregado em seu gabinete , fazem ver dade daqueile seguiu-se a desconfi-
que o msrito lilterario ligava em par» ança e melancolia deste. A instiga
ticular estimação estes dous poetas, entaõ acastellada nos claustros, ra-
qne tanto honraõ às musas brasileiras. lando«se pela inveja de ver roubarem-
Mauotl Ignacio voltou ao Brasil e se»ibe os louros das sciencias, que
descansou algum tempo na sua pátria os frades ainda queriaõ exclusivamen-
seguindo a profissão de advogado . e te monopolisar, apesar das sabias dis%
O RECREADOR MINEIRO, 1.35

posições do marquez de Pombal, a» gnacio dava lições de eloqüência e da


proveitou a occasiaõ; e interessan- poética * colherão grandes fruetos do
do em sua baixa vingança a imbeci- seu magistério; elles ainda hoje ap-
lidade de um vice-rei suspeitoso, in- parecem nos escriplos daquelles que
clinado a ver como insulto á sua pes» ouvirão suas lições, ou que tem si-
•oa a falta do elogios taõ justamen- do instruídos depois pelos discípulos*
te offerecjdos ao seu antecessor, pin- de Manoel Ignacio. O impulso que
tou como criminosos aquelles que por recebera na Europa pela reforma ão
suas letlras illiistrayao a pátria. O ensino publico operada no anno de
despotismo colonial folgou de achar 1772 pelo marquez de Pombal, e que
na estúpida denuncia de um m Iva- taõ bons litteratos dera á naçaõ nes-
do rábula, que o ódio fradesco ini- sa épocha, coinmiiico,i-*se por este in -
ciara na mais vil intriga, um pretex- signe professor d'3 rhetorica aos bra-
to para aferrolhar nos subterrâneos sileiros, muitos dos quaes correspon-
da Ilha das Cobras , por mais de dois derão per seus trabalhos lit.erario-j
annos, e com inaudita barbaridade, aos seus patrióticos desvelos. A elo-
naõ só o nosso poeta Manoel Igna- qüência , contida alé entaõ nas des-
cio , como também outros muitos só- carnadas formas de dissertações ihe-
cios da academia lilteraria do Rio de ologicas , lidando desgraçadamente
Janeiro, que na grey franciscana sa- com as antilheses e conceitos que
tyricaunenle se. appelidava club de Ja- cansava© o espirito sem locar o co»
cobinos. Foi tal a sanha dos seus raçaõ , tomou um nobre võo , e se»
guindo a carreira luminosa dos ora-
victoriosos perseguidores , que estas
dores romanos e francezes descobriu
suas victimas naõ poderão sahir dos
no Brasil gênios admiráveis, que mar»
humidos e escuros subterrâneos se-
cnõ a era da renovação da boa lit-
não de.poisde.se repelir mui posi-. teralura , e a continuação dos novos
tivamente de Lisboa a ordem de sol- estudos a que a mocidade se entre-
tura. m gara com gloria. Talvez quo sem as
Manoel Ignacio oecupou-se de novo lições de Manoel Ignacio naõ tivessem
em ensinar rhetorica e advogar sem- apparecido nas cadeiras sagradas do
pre com credito e geral estimação, a» Rio de Janeiro os Frias, os Rodova**.
té que sentindo os eíTeitos da vida lhos , os S. Carlos, os Sampaios, os
sedentária , *a que se entregava por Ferreiras d'Azevedo os Oliveira», os
uma espécie de melancolia , contra» Alvernes , e outros pregadores de no-
lúda em sua injusta prisaõ, termi- meada , que , deixando os hábitos da
no*» a sua vida nu dia i.° de novem- anlisra escola abrirão carreira lumi-
bro da iSi4> letido vivido perto de nosa aos que annunciaô com mais
oitenta annos, dignidade e elficacia as doutrinas da
A mocid.de brasileira , principal-» nossa santa religião
mente das provincias mais próximas Manoel Ignacio. concebeu a ide*
do Rio de Janeiro , onde Manoel I*
1*34 O RECREADOR MINEIRO.

de crear no liio de Janeiro uma po- gumas dessas peças abi foraõ applau-
esia e um thealro brasileiro. Anima- didas; mas a falta de impressão ás
do pela estimação do protector das fez cahit* em esquecimento, e alé os
feltras o vice-rei Luiz de Vasconcel- nomes de seus auetores foraõ devo»
los e Sousa , elle prestom-se de bom rados pela negligencia.
grado aos conselhos do seu particu- Cheio da idéa de que o Brasil a*
lar amigo José Bazilio da Gama no preseuta objeclos magestosos e gran-
estabelecimento de uma Arcadia, que des como solo virgem ha pouco sa-»
.se ramificou em Minas Geraes , e da hido das mãos da- natureza, enrique-
qual ainda nos reslaõ excedentes po- cido de preciosos thesouros , quiz
esias Esta associação foi lego ac- Manoel Ignacio crear uma poesia Iam*
crescenlada com outros ramos de bern nova e brasileira, que se pro-
Philolrgia , que a tornarão ulil e de porcionasse aos grandes sentimentos
Jionra á nossa pátria. Cláudio Ma» que deixa nas almas dos philosophos
jnoel da Costa pelos seus poemas, que pensadores o aspecto deste paiz por
se podem ler no Pamazo Brasileiro, tantos motivos admirável. A empre»
dâ provas des»a associação de arca- sa era grande de certo; e a honra
des , que por algum tempo abrilhan- de a tentar levou Manoel Ignacio aos
tara a comarca do Rio das Mortes em primeiros passos de taõ difficullosa
Minas. Manoel Ignacio pela sua sa- carreira. Substituindo em suas cem*
lyra aos vícios, pelo seu poemeto em posições aos similes sediços e velhas
louvor das artes, pelas suas odes e similes brasileiros mais arrebatadores
canções á Vasconcellos na fundação e de melhor monta , elle queria as-
de excellenles obras publicas com que sim por seu exemplo chamar os estu-
aformoseara a cidade do Rio de Ja- diosos a uma occupaçaõ mais patri»
neiro e que também se encontraõ no ótica e de maior novidade, casan-
Pamazo Brasileiro , deixou viva lem- do a poesia com* a musica , porque
brança do seu ardente zelo pelo cul- a experiência o convencia que ella
to das musas. Os seus esforços nes- muito se prestava*ao nosso gênio;
ta parte foraõ até fazer crear um pe- compôz elle os seus Bondas, cantan-
queno thealro doméstico , onde é do assim as nossas arvores, fruclos,-
hoje o palácio do visconde do Rio flores , montanhas . rios , e florestai,
Comprido para nelle ensaiarem-se com tal harmonia , qne parece que a
algumas composições cômicas c trá- musica acompanha necessariamente o
gicas, tanto de seus discípulos, como pensamento do poeta, A* esta collecçaO
de seus amigos : eiias eraõ depois de Bondas, que um seu discipubi fi-
censuradas eui jury particular dos ar° zera publicar em Lisboa, juntou elle
cades, alé que levadas á maior per- harmoniosos JHadrigaes , que podem
feição pela lima de seus auetores se ser modelos aos que se derem a taõ
tornassem dignas de serem represen- sentimentaes composições.
tadas no lheatro publico do Rio. Al- Desgraçadamente naõ era ainda «hei
O RECREADOR MINEIRO -.35

;ado o tempo de taõ almejada re« Meias dos homens pardos da sua co-
fnecessária
orma; a dependência
a das leltras.
colonial fazia
Nem os Ren-.
marca do Rio das Mortes ; era de
core semblante carregado, e de falia
dós , nnm os Madrigaes nem outras pausada, estatura alia, repleta, e forte,
compoMÇÕes de Manoel Ignacio , e« ü seu gosto e delicada critica roí
mlnentementt brasileiras, liveraõ em todos os ramos de lilteratura ainda
seus dias a voga que entaõ merece-* se fazem conhecer em suas poesias,
raõ outros poesias suas adubadas com e sentia-se complacentemente no seu
as figuras e donaires da poesia por- trato familiar. A estimação que elle
tugueza. Ü Tejo e o Mondego eraõ consagrava aos seus dicipulos, quan-
mais applaudidos nos versos do que do nelles (obrigava talentos e gênio „
o Amazonas e o Prata ; o louro e o eraõ o assomo do mérito em que de-
myrto muito móis do que a manguei- pois appareceriaõ e talvez uma recom-
ra e o cajueiro"; flores cahiaõ da penr, mendaçaõ respeitável para quem sa-
na dos poetas que nunca se haviaõ bia apreciar as raras qualidades da
oflerecido a vistas brasileiras, e a taõ dislineto philologo. Fora uma hon-
mythologia com iodo o seu nume- rosa empresa publicar em uma só col-
roso cortejo empunhava despotica o lecçaõ as muitas e boas poesias que
sceptro de"seu dominio. A idéa do nos- sahiraõ da sua penna e que avulsas
so poeta naõ foi ainda assim perdida ; correm o mundo litter-rrio estampa-
porque novos gênios vão apparecen- da* em diversas épochas mas já quo
do na terra de Santa Cruz, levando naõ podemos pagar este tributo d*
avante a diflicultosa empresa de pro- gratidão á memoiii de um mestre, a-
porcionar a nossa poesia á grandeza quem devemos inslrucçaõ, e nos hon*.
dos objectos que de todas as partes rara com sua particular amizade,
nos cercaõ. Assim também o theátro conteniamo-nos em salvar o seu nome
se vai enriquecendo de peças brasi- da voragem do esquecimento , para
leiras, moldadas por exemplares da que seja conhecido como um dos nos.
nova escola , qu§> na Europa tem fei- sos melhores litteratos, dos nossos
to grandes progressos, bons poetas que honraõ a lilteralu*
ra brasileira. .-*'
Manoel Ignacio voltando de Lisboa
recebeu a patente de coronel de mi» | O. G J. C. B.
l_3G O RECREADOR MINEIRO.

GRUTA AMERICANA.

POR ALCINDO PALMIRENO ARCADE ULTRAMARINO , A,' TIR*-


MINHO SIPIUO . ARCADU ROMANO.

Por Manoel Ignacio da Silva e Alvarenga á José Bazilo da Gama,

N'um valle estreito o'pátrio rio desce


De altíssimos rochedos despenhado
Com ruido, que ás feras ensdrdece.
Aqui na vasta gruta socegado
O velho pai das Nynphas tulclares
Vi sobre urna musgosa recotado;
Pedaços d'ouro bruto nos altares
Nacem por entre as pedras preciosas,
Que o Cèo quiz derramar nestes logares.
Os braços daõ as arvores frondosas
Jím curvo amphitheatro , onde respiraõ
No ardor da sesta as Dryades formosas.
Os Faunos petulantes, que delirão
Chorando o ingrato amor que os atormenta,
De tronco em tronco nestes bosques giraõ.
Mas que soberbo carro se apresenta ?
Tigres e antas forlissima Amazona
hege do alto iognr, em que se assenta.
Prostrado aos pés da intrépida Matrona,
Verde , escamoso jacaré se humilha ,
Amphibio habitador da ardente zona.
Quem és do claro Céo inclila filha ?
Vistosas pennas de diversas cores
Vestem e adornaõ tanta maravilha.
Nova grinalda os Gênios e os Amores
Lhe offerecem , e espalhaõ sobre a terra
Rubins saphiras, pérolas e flores.
Juntaõ-se as Nymphas que esle valle encerra ,
A Deosa acena e filia : o monsfio enorme
Sobre as mãos se levanta , e a áspera serra
Escuta , o rio pára o vento dorme.
,, Brilhante nuvem d'curo
Realçada de branco, azul e verde,
O RECREADOR MINEIRO. Utj

Nuncia de fausto agouro ,


Veloz cóbe e da terra a vista perd3 ,
Levando vencedor dos mortaes damnos
0 Grande Rei José d'entre os humanos.
., Quando ao Tartareo açoito
Gamem as portas do profundo Averno ,
Igual á espessa noite
Võa a infausta Discórdia ao ar superno,
E sobre a Lusa America se avança
Cercada de terror, ira, e vingança;
,, Eis a guerra terrivel
Que abala, atemorisa, e turba os povos,
Erguendo escudo horrível ,
Mostra Esphinge , e Medusa , e monstros novos j
Arma de curvo ferro o iniquo braço :
Tem o rosto de bronze , o peito d'aço.
„ Pálida, surda , e forte ,
Com vagaroso passo vem soberba
A descarnada morte.
Com a miserrima triste fome acerba ,*
F a negra peste*, que o fatal veneno
Exhala ao. longe e offusca o ar sereno,
,, Ruge o Leaõ Ibero
Desde Europa troando aos nossos mares.
Tal o feroz Cerbero
Latindo assusta o reino dos pesares.
E as vagas sombras ao trifauce grilo
Deixaõ medrosas % voraz Cocyto ;
,,Os montes escalvados),
Do vas'o mar eternas atalaias,
Vacillaô assustados
Ao ver tanto inimigo em nossas praias.
E o pó sulphureo, que no bronze sôa,
O Céo, e a terra, e o abysmo atròa,
,,, Os ecos pavorosos
Ouvisfe , ó terra aurifera e fecunda ,
E os peitos generosos»
Que no seio da paz a gloria inunda ,
Armados correm de umae de outra parte
Ao som primeiro do.terrivel Marte.
,, A hirsuta Mantiqueira ,
1*38 O RECREADOR M I N E I R O .,«-

Que os longos campos ab-azar presume,


Viu pela vez primeira
Arvoradas as Quinas no alto cumo ,
E marchar as esquadras homicidas
Ao rouco som das caixas nunca ouvidas.
., Mas oh Rainha augusta ,
Digna Filha do Céo just» e piedoso.
Respiro . e naõ me assusta
Oeslrepito e tumulto bellicoso ,
Que tu lanças por terra n'um só dia
A discórdia, que os povos opprimia,
,, As horridas phalanges.
Já naõ vivem d'estrago e de mina ,
Deixaõ lanças . e alfanges,
E o elmo triplicado , e a malha fina;
Para lavrar a terra o ferro torna
Ao vivo fogo e á rígida bigoma.
,, Já cahem sobre os montes
Fecundas gotas de celeste orvalho ;
Moslraõ-se cs horizontes ,
Produz a terra os fructos sem trabalhe ;
E as nuas Graças , e os Cupidos ternos
Canlaõ á doce paz hymnos eternos.
, , I d e , sinceros. votos ,
Ide, e levai ao Throno Lusitano
Destes climas remotos
Que habita o forte c adusto Americano-,
A pura gratidão c a lealdade,
O amor , o sangue , e a própria liberdade» ,.
Assim fallou a America ditosa ,
E os mosqusados tigres n'um momento
Me roubarão a scena magestosa.
Ai , Termindo , rebelde o instrumento
Naõ corresponde á maõ , que já com gloria
O fez subir ao estrellado assento.
Sabes do triste Alcindo a longa historia ,
Maõ cuides que cs meus dias st* serenaõ ,
Tu me guiaste ao Templo da Memória
Torna me às Musas , que de lá me acenaõ.
( R, Trimensal. )
O RECREADOR MINEIRO. i»S«
oram

jCOK-CLUSÃO DÀ HISTORIA DE São estas riquezas para se com-


H.1LPÀ E SHALUM. pararem com as dos valies ?
Eu conhéço-te , oh Shalum!
Hilpa ficou tão agradada da Tu' és o mais sábio, e o mais
carta de Shalum , que em me- feliz de todos os filhos dos h o -
nos de um anno enviou"lhe a mens. Tu vives no centro dos
seguinte resposta: cedros; conheces a diversidade
Hilpa, senhora dos valles, dos terrenos , entendes da in-
'« Shalum, senhor do monte fluencia dos aslrOs , e obser-
Jirzah. vas a mudança das estações.'
* Pôde acaso uma mulher pa-
jVo anno 789 depois da recer amável aos olhos de um
creação do mundo. homem dotado de tão raro en-
.-,, Que tenho eu comtigo , genho ? Não me inquietes , •
oh Shalum ! Tu louvas a for- oh Shalum ! Deixa-me , em
mosura de Hjlpa ; mas, dize, paz , desfruclar os muitos e
n8o estarás, antes mais namo- preciosos bens , que me t o -
rado da belleza de seus pra- carão por sorte. Em Vão per-**
dos?'Por ventura não te a-*/ tendes tu reduzir-me a sym-»
pràz mais a perspectiva de se- pathtsar com teus desejos , á
us verdes e floridos valles força de delicadas e sedueto-
do que a vista da sua pessoa? ras expressões. Possãn as tuas
Os mugidos tanto de meus ga- arvores crescer , e multipli*-
dos, como de. meus rebanhos, car-se até ao infinito; mas ,'
produzem um écho agradável não tornes a chamar Hilpa1
nas tuas montanhas , e sôão para destruir a tua solidão,
docemente em teus ouvidos. e provar o teu retiro. ,,
Se bem que muito me agra- Referem os Chinas que e l -
dkio os brandos movimentos la pouco tempodepoisfoi as-
«das tuas florestas , e os deli- sistir a hum banquete n uma
ciosos perfumes, que ardem das próximas collinas, para o
IÍO cume do Tirzah : o que! qual Shalum a convidara, Du-
"i _«•*,<* O RECREADOR MINEIRO.

rau aquelle bançjuete dous effeilo, testemunhou-lhe tan-


annos; e dizem que custara to amor. tantos extremos> que
a Shalum quinhentos veados, ella , no momento da partida.
dous mil abestruzes, e mil fez-*-lhè uma espécie cte pro-
toneladas deleite; mas , o que messa , e compromélleflrVse',
o tornou mais apreciável e debaixo de palavra; a dar-lhe
sumpluoso , foi a prodigiosa uma resposta*positiva aô< fim
.variedade de deliciosas frutas, de cincoenla annos.
n o que pessoa nenhuma d'a- De volta a seus valles, nSò
quelle tempo era capaz de r* passou muito tempo sem. q-tw'*.
gualar, quanto mais exceder recebesse novos oííerccimen-
a Shalum. tos, e logo depois uma es-*
Elle hospedou-a na latada plendida visita de Mishpach ,
de jasmins e roseiras, que homem rico e poderoso -, que
pl-ajstára no bosque dos rou- edificára uma grande ck-ade*.
xinóes. Era composto aquel- e lhe dera o seu próprio no-
le- bosque de todas as arvores, me. Todas as casas havião
que são mais próprias para as sido feitas para durar mil an-
'diversas espécies de pássa- nos*, algumas até eglav>ão ar-
ros ; de maneira que para al- rendadas por três vidas: de
li alrahira toda a musica do maneira què os que hoje ex;-
paiz , e em todas as estações , istimos , não podemos^imagi-
desde o principio alé ao fim nar bem a'quantidade de pe- s
do anno, n elle resoavão os , dra e madeiras, que se gas-
mais agradáveis concertos. tarão na extraordinária coírs-
, Cada dia lhe mostrava elle trtreção d'aquella cidade. Es-
alguma linda e admirável le grande homem divertio-a*
scena , n'aquella nova região com a doce harmonia de- ins*-
de arvoredos.; proporciona- trumentos recentemente i n -
rão-se-lhe d'esíe modo mui- ventados, e dançou na sná
tas oceasiões de communicar- presença ao som do pandeiro.*
lhe seus sentimentos, e com Também a presenteou, çosou
O RECRRADOR MtNEiRO. Ai

Vários utensílios démesticos certeza , quando sobreveio um >


de ferro e cobre,, que, elle acontecimento , que determi-
de próximo mandara fabricar nou a sua escolha. Havia em
para conveniência da vida. Mishpach uma torre mui alta,
N?este meio tempo, vivia Sha- feita de madeira ; um raio i n -
lufrft ent continuo sobresalto, cendiou aquella torre , o fogo
e deo»-se portão ofíendido da commúnicou-se ás cazas vi~
obsequiosa recepção , com que sinhas , e foi progredindo, até
Hilpa honrara Mishpach, que que ficou toda a cidade rè->
não lhe escreveo ,. nem n'ella duzida a cinzas. Resolveo
fallou , durante uma revolu- Mishpach reedifical-a a todo*'
ção inteira de' Saturno ; p o - 3 custo : e como já houvesse
rem , vendo que aquelle co*- consumido toda a madeira do'
nhecrniento não passava àé tt- )aiz, teve de recorrer a Sha-
ma simples visita, de novo um , cujos mattos havia e n -
dirigio suas expressões amo- tão duzentos annos que esta-
rosas aquella , q u e , em em vão plantados. Comprou, pois,
quanto durou tão dilatado si- aquelles mattós a troco do
lencio , não deixara de vez tantos gados e rebanhos, e àé
em quando de ter saudades tão a vasta extensão de campos
esoltar suspiros, consideran- c pasto , que Shalum de r e -
do de longe o Monte Tirzah. pente se vio senhor de muito'
Hilpa ainda se mostrou in*- mais riqueza do que Mishpach;
decisa*, pelo espaço de vinte e foi tão agradável a impres-
annos mais, entre Shalum c são , que esta feliz mudança
Mishpach ; por quanto, se na sua fortuna causou a Hií>i
bem que o primeiro fosse do pa , suas excellentes qualida-
se» - agrade-, e até por eHe des realçarão enlão tanto a
senftsse paixão , fallava-lhe o seus olhos, que ella não dif"-
interesse' de uma maneira i r - ferio por mais tempo a dádiva
rersrètTvei a ftrvordo segundo. da sua mãó. Pasmados alguns
Estava sen, coração a'esta in- dias,, Shalata recefetfo em seus
ír4» O S R E R E CA D O R M I N E I R O ,

braços a formosa Hilpa, a qual ANECOOTA.


•já não via obstáculos que se Um deputado da câmara francesa ,'
podessem oppôr á ventura do pai de 6 filhos exercendo lodosos car-
poderoso , amável, constan- gos públicos , subio a tribuna para
te , e extremoso Shalum. (aliar a favor de uma proposta minis-
terial, Um seu collega , membro da
Âddison. opposiçao, qniz vêr se o continha,
reprehendemto-o d'esta maneira : —
Amigo 1 Olhe que seus filhos já estilo
— Andava o grande actot Talma todos empregados. •*•»» E' verdade, rei»
visitando os diversos departamentos pondeo o orador, mas è <fue minha mm
*la França; chegando a Bordeaux , lher está outra vez pejada.
recebeo a seguinte carta :
Ao filho de Mclpomcne. ADBVINHAÇAÕ.
Acho«me destituído , sr. , de todos
©s recursos ; restao-me só seis fran- Ha um par, que é macho efemeáj
cos • e agora justamente que me dis» De igual matéria formados ;
ponho a terminar minha existência, Pela má condição dclle , '11~
acabo de saber que vindes honrar es- Estão sempre "separados :
tá cidade com a vossa furiosa presen» Elle as vezes que a prouurâ ,
ça. Pretendo , por tanto , diflerir o E' sempre para a zurzir ;
•meu projectp; e como zeloso admi Porque q que lhe dá são sovas ,
Tador de vossos talentos, que pe-
la vós da fama tem chegado ao meii Que ella soffre sem fugir :
conhecimento, vos supplico que a» Ella não se fez sem elle ;
|>resseis a vossa viagem , para eu po» Elle não se fez sem eIJa ;
der admirar»vos e morrer. Cedei, eu Saber qual se fez primeiro, '
-/os imploro, aos rogos do um vosso Não é qualquer bagatellal **'
semelhante, que não podendo viver Consiste em duas perguntas
xenão quatro dias mais , reparlio pela Esta grande confusão: .
maneira seguinte a quantia , que lhe Qual primeiro se .faria ?
resta : E a fêmea e o macho quem são ? '
Sustento para quatro dias 3 fr.
Um bilhete de platca 2 „ 5o c.
Yerttno, „ 5o c A charada do n ° antecedente ex«
prime a palavra — Mesa rio.
Total. 6 fr. •aosomaaam^aamaamaaMasammnm-~*-->---*-af--^*nMrMr-4MH____|.

Oaro Preto, 1848. Typ. Imp, «»t


<8> B. X, I>, üe Soma.
O Recreador Mineiro.
PERIÓDICO B^V-rERARIO.

H«3)U1(D ?•' l.° DE ABRIL DE 1848. »*'79

O PASSAPORTE. companhias, e ia vivendo no mun-


do sem ser notado: não era no en-
tanto seu caracter destituído de uma
— Então ó* verdade, Leoncio, posso
certa originalidade. Entregue a si mes-
fazer te meus. comprimento»: tu vaes mo na idade de vinte annos, senhor
te casa* 7 de suas acçOes e dè sua fortuna, Le-
— Certamente... Estaes vendo meus oncio nunca mostrara vocação paia
baliús promptos para a viagem da- o celibato, não tinha nem os gostos»
qui a uma hora o «oche de posia nem as paixões que dão preço á vi»
me recebe, chego ámanliãa a Mon- da de solteiro. Pará elle a indepen-
targis , apresento-me depois de a dência não linha encantos; fugia dos
mantiãa em casa de minha noiva, qne ruidosos prazeres; alienavam-no in-
mora numa chácara, a poucas léguas trigas amorosas': u amor, eüc o nao
d'alli. conciliava senão com uma ternura
—E é bonita a tua noiva? suave e perpetua. De índole fácil,
-.Lindíssima; ainda nlo a v i , mas molle, sujeitando-se de boa Vontade
meu tio Lombard, que teve a bon- a qualquer opinião que se lhe im«
dade de arranjar-me esse casamento punha, Inclinado á obediência, gos-
me faz da moça um retrato encanta- tando de deixai- se governar, elle se
dorí dezoito annos, loira, cem mil achava naturalmente predisposto para o
francos de dote, e o dobro em legi- casamento , e 'todavia as damas
timas esperanças. «Tu a verás, Júlio ; ríão li viam sentido quantas garan-
tu és do pequeno numero dos meiis tias conjugues offerecia esse boín mô«
fimigos do tempo de solteiro, a quem ço n > invólucro do celibatoriò) nHo
depois de casado não prohibiiei a en- tinham descoberto òptilno marido ,
trada da minha casa. e apesar de seus Seis mil fran-
— Muito agradecido ; mas o mo- cos de rendimento ánnual , e de
mento da lua partida vae chegando, sua ardente Vontade de cazar-se, Le-
adeus. Boa viafem e boa hora. oncio ainia estava solteiro e ja ti-
Leoncio Durand era um uiôco as- nha vinte e oito annos de idade.
ai» elegante, de feições agradáveis, Tão tréslbiicádb coitio impaciente,'
cujo espirito andava no justo meio Leoncio dirigiu-se a principio a Uma
entre o medíocre e o brilhante. viuva ainJa maça. cujos namoros e
MUdepitOf, • dando pouco que faltar agradiuhos qúix pagar propondo lhe
de si, elle era rec^ktd*. em todas as
«•44 O BEC.READOR MINEIRO

-**-*-
clara e formalmente o santo matri- elle nunca havia procurado a inclina-
mônio. A viuva, que o nlo espera ção de Leoncio, que, liberal por es-
Ta, ficou admiradissima de ver que sência , era tolerante , e tinha por
tinham tomado em serio seus galan- princípio naõ contrariar as inclinações
teios; mas ella apreciava em demazia e gostos dos outros. Tendo de partir
a viuvez para ir assim á tôa re- para uma longa viagem elle disse a seu
nunciai' a tão doce estado ; ella a- sobiinho :
gradeceu a seu respeitoso adorador, — Naõ te afflijas, rapaz , eu me en**
o qual por ter querido ser marido vior carrego de procurar-te uma esposa per-
se despedido de ser amante. feita , arranjar-te-hei tudo , tu náõ te
Este revez atordoou Leoncio, e de incommodarà. se nao para ir casar:
'então seus passos eram regulados por confia em mim que tenho boa ma5
uma desconfiança desageilada que lhe para escolher. D'aqui a um mez, terá»
foi funesta. Quando por três vezes noticias minhas.
foi recusado, não se fallou mais se- Havia M, Lombard desempenhado
não de suas derrotas, esquecidas su- sua palavra : três semanas depois da
as bellas partes; as famílias cuja a- sua partida escreveu a seu sdbrinho :
liança procurou assustaram*-se. Nãi o ,, Meu caro amigo, tenho a fortu-
quiz, diziam, M"* de.... não o quizerani na de informar-te que , conforme com
M. r \...e....è impossível que debaixo a nossa convenção , porcurei-te , e a»
de tão bellas appaiencias não en- chei-te uma noiva soberba. E'uma mo«-
cubra este m: ço algum vicio oceulto. ça linda como um anjo , que tem ma-
O campo era vasto e azado para gníficos olhos azues, bellos cabellos lou»
terríveis commentarios e extraordinárias tos , e é filha única de uma mulher
supposiçf es. Muitos annos se passa- que possue quinze mil francos de ren-
vam assim; e de mais opprimido pelo dimentos de bens de raiz. O dote que
pezo de suas desventuras, alquebrado leva ser à de cem mil francos. Espero
por tantas derrotai, cahiu n u m pro- que não teias razão de queixa contra
fundo desanimo e abatimento. mim. Põe te de viagem apenas rece«
Veio felizmente em seu socorro o beres esta, e apressa-He de casar. Nao
tio Lombard. M. Lomb«rd lia via si* poderei assistir a teu casamento porque
do em sua mocidade caixeiro viajan- devo sem demora sffguir paia Marse*
te; tendo enriquecido, e achando-se lha e demorar-me na Provença perto
como sócio á frente de uma opulen. de dons mezes. Quando voltar terei
Ia casa de çommercio, elle havia re- grande prazer de te achar casado, e
servado para si a parte das viagens, ! no entanto fico fazendo sinceros votos
afim de que u-o perdesse seus antigos e por tua felicidade. Adeus , meu amigo.
queridos hábitos. Haviam já trinta Teu tio que te ama , *
annos que M Lombard percorria a IsiDf-RO LOMBiBD,
França, e vaidoso pretendia que em t >- P. S. Eis aqui o nome e a morada de
das as cidades e aldeias do reino dei- tua noiva — Me. Euphrasia DutiTlois,
xara enamoradas. Para justificar esse em casa de Mme. Dutillois, sua mãe, em
cosmopolismo amoroso convém advertir Bony perto de Montargis.
que M. Lombard era elegante e bem Esta carta encheu Leoncio de insólito
feito : paitidista estrenuo do cçlibato, júbilo ; elle partiu apressado, cheio de,
DOR MINEIRO. i»4">

esperança , e imaginando um risonho sru gosto, fez proposta de seu sobri-


futuro. Em Fontainebleau , o cocbe de nho , e foi aceita.
posta parou , e o cojiductor deu vinte O Jovin (leoa mui,o mortificado com
minutos aos viajantes para que jantas- esse acontecimento , elle havia contado
sem. Sen taião-se à ineza. N'uma sala para o triuinpho com sua teimosa in-
vizinha os viajantes de outro coclie qu<' sistência , • com os poucos recursos
vinha de Lyão acabavão de jantar , <-* que se acharão em Bony ; mas quan-
se dispunhão a continuar sua viagem > do viu qne Pariz vinha entrar em coni
quando os gendarmes se apresentarão cunencia , o coitado perdeu toda a es-
para visitar os passaportes. Todos de. perança. Depois ele haver tudo dispos-
rão os seus , elles os receberão , e os to para o casamento de seu sobrinho,
examinarão cuidadosos que corrião M. Lombard havia pai lido, Leoncio
boatos de conspirações, de rusgas, de devia chegar no dia seguinte a Bony.
não sei mais o que. Mine. Dutillois conversava com sua fi-
Depois de preenchidas todas as for lha , e fallava-ihe de seus direitos e rlc
malidades do estylo , os gendarmes de seus deveres futuros ; Euphrasia , que
rão volta a ambas as inezas , e fazen- havia uma hora não dava uma pala-
do a chamada des viajantes forão en* vra interrompeu de repente sua mie,*
.regando a cada ain seu passaporte. dizendo lhe :
Em quanto Leoncio batia a estrada —- Parece-me, mama , que muito nos
de Montargísi oecupavão-se d'elle na apressamos de acceitar M. Durand pe.
aldêa de Bony. Merecia Euphrasia Da Ias boas informações que d'elle no3 deu
tillois os elogios com que o tio Lom- seu lio f
bard havia encarecido sua belleza-, era — M. Lombard, respondeu Mine. Dti«
uma moça que sò tinha um defeito , tillois , é incapaz de enganai-nos. Alem
o de ser um pouco amiga de fazer d isso meu labcllião que encarreguei
suas vontades, defeito tão commum eu. de indagar quem era o moço , aflir-
tre os filhos únicos, que o amor dos ma que é verdade quanto disse o tio.
pães deitão a perder ,- mas esse defei — Não duvido mama, dos seis mil
to quadrava peifeitamente com o ca- francos de renda que possue M. Du-
racter de Leoncio. Herdeira de quin- rand , quero acreditar qne pertence a
ze mil francos dst rendimento animal família honesta, que è bem morige.
era Euphrasia em demasia rica para qne rado. Isso vos basta ; vossa responsa»
podesse em Bony achar marido : nem bilidade de mãe está garantida : tendes
um pretendente se tinha apresentado com isso convenientemente estabelecido
exceptuando apenas um primo, Pam» vossa filha. Mas isso me não basta a
philio Jovin , um grosseirão , que ella mim ; é de mister que esse senhor me
mais de uma vez tinha desenganado , agrade e eu notei que M. Lombard,
mas que não havia desacoroçoado , e ao tempo que nos gabava o bom c».
teimaso esperava. Pas-ando por Mon- racter de seu sobrinho , evitava com
ta rgis recordou se M. Lombard que seu cuidado de fallar de sua pessoa.
amigo M. Dutillois havia por sua mor» Verdade é que M. Lombard havia»
te deixado uma viuva com uma filha se mostrado muito discreto nesse ca<
única, e fortuna soffrivel. Elle diri- pitulo , c isto por uma razão mui sim-
giu-se para Bony, achou Euphrasia a ples ; é que M.. Lombard não dava a-
í*4-S O RECREADOR MINEIRO.
-ÍSS___M___*-

preço nos homens senão a uma espé- ado. Euphrasia dirigio se à dona dá
cie de belleza. Para ser bello , em sua casa que respondeu com boa vontade
opinião, preciso"'era teí- oito a nove a todas as suas petrguntaS,
palmos de altura , fortes espadiias, fa- — Entre as pessoas chegadas hoje dè
ces bem vermelhas e suissas bem cabel- Pariz, veio também um M, Durand ?
ludas ' não reunia Leoncio fao brilhan — Sim , minha senhora, sim , um
tes dotes , e porisso M. Lõinbard que moço que veio casai se aqui na terra,
achava que a natureza o hívia^inal^ tra- ao que pude colher das conversações'
tado , só havia dito a respeito d elle: que ouvi. Elle disse que pretendia ir
— Tenho quasi certeza que vós não amanhãa até ã aldêa de Bony. Tl.omaz
desgosta reis de sua pessoa. — Palavras deve leval-o no carrinho da casa pa-
ambíguas que tinhão lahçado Eujfmra- gando elle cinco francos. A viagem fiV
S*ia na duvida e na inquietação. caria bem paga com três francos, mas
— Pois bem , continuou M ne. Dutil- quando se vae ver sua noiva que impor»
lois , estas ainda perfeitamente livre ta se pague mais caro ! As senhoras
Amanhãa veremos M. Duranfl , e si el- conhecem M. Durand ? Querem que vá
le te não agradar, nòs o despediremos. avis.il-o , que o procurão ? Elle ainda
Mas apoàto que elle le lià'de agradar. não está deitado ; em seu quarto a ve*
— E' assim mesmo ; vossa confiança U ainda não esta acceza. Sim, qué
faz vossa força ; julgaes que è fácil di- n'este mesmo instante acaba Cathari-
_er m cara de alguém ide»vo* embo- na de trazer me o passaporte d'clle: ,
ra , acho-vos desagradável e feio ? vou escrever seu nome no registo da ;
Tião minha mãe , quando chegardes ca.-ia ; que é preciso obedecer as aUtò*1
a esse ponto , eu vos Verei tão emba ridades e não nos involver-mcs com a
j-açada tão afflicta que por compaixão, policia. As senhoras querem cear ?
por dó , sacriíicar-me**hcis, cizarei.... — Sim , respondeu Euphrasia , sim,
S i m , que me conheço ... Felizmente fazei que nos sirvãó depressa.
lia um recurso que tudo concilia. Dentro de mu minuto, senhoras, ''
— Qual é P Ella retirou-sé deixando em cima da
Eil-o : mandai que Estevão prepare meza o passaporte. Euphrasia lançou
a sege, vamos a Montargis, d'aqui a mão d*elle dizendo *.
três horas lâ chegaremos, apeiemos. — Talvez não nos"* seja preciso ver
nos na estalagèm em que parão os co- M. Durand ; seu retrato ha de achar-se
ches de Paiiz, ninguém nos conhece , n'este papel.
ceiamos à meza commnm com os vi- Ella abriu e leu.
ajantes por ultimo chegados ; encon- „ Ern nome d'El-Rei.. Pedro Igna-
tro-me com M. Durand ; se me não cio Durand....
servir escreveis-lhe uma carta que lhe — Chama-se Ignacio!-que nome tão
poupe o trabalho de ir a Bony , e a feio ! - •*
vós uma explicação que não deixa de — Escolher-lhes-has óutr i mauf bo*.
ter seus embaraços: que tal achaes meu nito, respondeu Mine. Dutillois , è que
plano ? mais te agrade.
Quando Mme. Dutillois e sua filha n- Euphrasia passou á desdrlpi/âó da pes*
pearãose na estalagein dcslimdi eiao soa .- ella empallideceu , a tnao. trémcui
nove horas da noite, já se havia ce- lhe-, e ella disse paraísua mSe;
O RECREADOR MINEIRO. fc-47

— Dar lheJiei, também outros ca» tem está preso a três léguas daqui...
Sbcllo. que mais m«, agradem ? , Ignacio Durand, cabellus vermelhos,
— Como ? marcado de bexigas» com uma verru-
— Tem cahellos vermelhos. ga, — é elle mesmo, ceila-do .' e des»
— Verintlhos 1 exclamou Mine. Du «robrando enião outro papel; Leoncio
tillois...' Ah i,M. Lombard. M. Lom- , Ürirand , cahellos pretos nariz medio
bard 1 M. Lombard ! cirrr.oval....é isso mesmo* Tomae, se-
— Não é só isso mama , continu- nhor, tivemos Irontein um engano
ou Euphrasia com-sangue (rio de riuem erão dous Puraijd. XJm vinfin de Pa-
já esta resolvida a oitvit" o reHof* riz , outro para lá ia : trocarão vossos
i — Sobrancelhas cor de «fogo , olhos pissaportes .quando voi-os entregarão j
eívcrde.ulos, n««riz ar hatado, boca gr a n leve esse en o, funestas conseqüências
de , barba avermelhada , cara toda in.ii- pura -vosso fiomniiyuro que foi,preso,
Cida de, bexigas. — Signal parlicufai: e acha-se' a e.-la, hora na cadeia desla
Uma verruga em cima di venta esquenta. cidade, Tu tio agora se explica , c vou fa-
— Mine. Dutillois caliiu cnns-ierjia» zel-o soltar. Deveis dar-vos por feliz,
d a ; Euphrasia já tinha «leci-dido o que senhor Leoncio Durand , de que não
liavia de fazer ,. como moça que sabe vos trouxe semelhante engano conse-
que nunca lhe faltarão maridas qaiando qüência nenhuma desagradável.
< ijuizer escolher. A esulrj.ideira Voltou, — Dou me com effeiio por mui feliz./
annunciou que a cia estava na meza -,. Depois da desgraça de Montargis, Le-
e« ajuntou : oncio iorncu.se philosopho: vendo que
— 11. Durand ainda não está deita- lhe eía impossível cazar-se, reconc-
do • elle acaba de pedir pennas, pa* liou-se com i vida de solteiro , a he-
pel c tinta. ... rança de seu tio veio permitiu-lhe que
Que nos importamos com* isso? respon. se entregasse a todos os divertimen-
deu Euphrasia .* não conhecemos-esse tos de un>,opulento celibatario M. Lom-
senhor, o de que ainda agora vos fal- bard morreu repentinamente em Mar-
íamos é meu pae, e tem cincoenta selha , ileis indo a sen sobiinho O me-
annos. lhor d e quinhentos mil francos. Des«
No dia seguinte'Leò-ncto se dispu- de então Leoncio venceu sua índole»
nlià a* pariir para Bony no 'carrinho entregou-se aos prazeres, e encarou,
do Thouia quando recebeu uma cai* o casrtineuto debaixo de muito diverso
ta de Mme* Dutillois. A despedida es- aspecto. • . «"
.
tava phrascada de um inodo* polnti**o! .vUm anno tinha passado depois de
allegavão-se fovtuitas circiimstanciasj, sua desvenuirada viagem de Montai»
desculpas que -ão admitiiâo replica. gis , quando Leoncio encontrou n um
Leoncio comprehendcu que uma.-fala- baile uma moça liiui bonita, que ou»
lidada o ligava ao celibato, resignou-se vindo seü nome, lhe disse: ' -***
c tomou cheio fie tristeza o caminho — Eu estive* por pouco a chama r-
de* Pariz Em iônlaineble.iu ò cabo da ine Mme. Durand. *<\
«jcndarmai ia que examinou seu passa- .— Ah:, talvez algum dos meus na*
porte, exclamou 5 reriies! -7
-r- Ah I cisaqui rriíia grande venta» — O'senhor-Ignacio Duiaiid , ren-
íiv \wi\ aquelle«cnlifoi;que de-Álc hon*- deiro de Pariz, c vosso conhecido'.•J
is4S ò RERECADOR MINEIRO.

— Sim certamente , e foi bem ex- da na flor dos annos, experimentou


travagante o modo porque nos conhe- a perda de seu pai , e o trabalho de
cemos O anno passado, n'uma viagem suas mãos apenas chegava para a tua
que ambos fazíamos, trocarão se nos- subsistência, e de sua mãe sotTreado
sos passaportes, prenderão,-©. Felizmen- sob o poso 'de enfermidades»
te ao menos para elle tive no dia se-
guinte de manhaa de voltar de Mon Ella era formosa e bem feita; e
targis , e • • •. a natureza a dotara de urn talento
— De Montargis ! e vossos passapor- agudo, recto e solido. Aprendôo a
tes estavão trocados ? lèr eom sua mãe , e um velho cura
— Sim , minha venhora , elle estava lutherano a inslruio nos princípios e
com o m e u , e eu com o delle: foi nos deveres da religião.
um erro do gendarme e como em Ainda bem Catbarina não tinha
nada nos parecíamos.••• quinze anno*, quando lhe monco sua
—Ah ! meu Deus ! que me dizeis !... mSe; ella foi viver na companhia do
Ereis vós. . . cura lutherano , e deo ás filhas d a -
— Como, era eu? perdoae-me, senho-
ra,' não vos entendo.
queile sacerdote a educação, que d'el-
— Eu sou Euphrasia Dutillois , se- le recebera na sua infância. Tomou
nhor', fui espferar-vos com minha mãe, junto com suas discípulas lições de dana,
«à > hospedaria dé Montargis, vi vosso ça e de musica , e continuou a apor- -
passaporte ,' 6'.' . . . feiçoar-se n*e.«las duas artes até a mor-
-w E a deseripção da pessoa borro» te do seu bemfeitor.: em conseqüên-
risaiícvos : era feita pira isso. E eu cia d'aquella desgraça , cahio n*um
que* me dava par feliz de não ter sof- horroroso estado de indigencia ; e t
frido serias conseqüências d'esse enga- guerra , que se ateou entre a Rússia
no .*• Màs senhora , se agora me fosse e a Suécia , obrigou Calharina a dei-
licito esperar.,.1 xar a pátria , e a ir buscar um asyn
— -Agora .senhor . estou casada; cha- Io em Marienbourg,
:
mo me M.ne. Jovin , meu marido alli
está 'n aquella meza de jogo' defronte Ella vio se na rigorosa necessida-
de nós. ?
** de de atravessar a pé um paiz, que
E élla mostrou a Leoncio um gor- assolavao dous exércitos inimigos. De-
ducho com ar de tolo , cuja cara se ar- pois de escapar a muitos perigos,
reganhava alegre diante de suas cartas. foi acommettiJa por dous soldados
— —Maldito passaporte! disse baixi- Suecos , os quaes sem «duvida lhe -te*
nho. Euphrasia rião feito violência, se um official in-
•**' ferior nao se apressasse a foccor-
HISTORIA DE CATIÍARINA ALEXOWNA, rêl-a. Cuidou logo em manifes»ar a
Esposa de PEDEO GRANDE, im • gratidão, que fhe inspirava uma ac-
perador da tlus-ia, ção tão generosa ; mas , que espanto
Gathariua Alexowna nasceo perto não foi o seu, reconhecendo na pes-
de Derpart, pequena cidade da Livo- soa de seu libertador o filho do pas-
oia . de 'parentes mui pobres. Aia» tor lutherano • que tanto a protegi*
O RECREADOS IUNEIR.O; «49

ra nos tenros annos I O joveti cíBcial ver colhido o fruto da genarosidada


ministrou a Calharina os soccorro» e da gratidão de sua esposa.
necessários para concluir a sua vi- Continuou o cerco com furor ; •
rgem , e lhe deo uma carta de re- Marienbourg foi tomada de assalto.
commendaçüo para Mr. Glnck , an- A guarniçao, os habitantes, as mu-
tigo amigo de seu pai, entüo «eu in- lheres , as crianças. Indo foi passada
timo amigo em Marienbourg. Aquel ao fio da espada. Em fim , cessou
Ia carta, e mais que tudo, o seu a -mortandade , e os vencedores fòrao
talento , suas engraçadas maneiras, achar Calharina escondida n*um forno.
e a sua belleza , valerao-lhe uma tão Tendo jà arrostado com a indigen-
favorável recepção, que apezar de cia , também soube conservar na es*
nâo ter mais de desasete annos de i- cravidao toda a sua serenidade. Esta
dade , Mr. Gluck logo lhe confiou a coragem, varonil , e seu raro mereci*-
educação'de suas duas filhas. N'este mento bem depressa a dorão n co-
emprego, soube ella tão bem gran» nhecer. Houve quem d'ella Paliasse
gear a estima do pai de suas discí- na presença do priacipe MenzikofT.
pulas, que Mr. Gluck, a esse tem- general Russo, cujo destino , pelo
po viuvo , julgou do seu dever of- que linha de extraordinário muito
- fertar-ihe a sua mão. Calharina a se assemelhava ao de Calharina. Elle
recusou; e sem mais demora, offereceo quiz vel-a ; ficou cativo da sua boi*
a sua ao seu libertador , posto que leza ; comprou-a ao soldado . propri-
elle tivesse perdido um braço, e se etário dVlla , e a confiou ao cari-
achasse desfigurado por numerosas ci- nhoso cui lado de sua própria irmã;,
catrizes. em fim , tralou»a com o respeito .
. Era por certo impossível presen- e todos os d es velos devidos &o seu
tir a futura grandeza de Calharina ; sexo, e a seus infortúnios.
mas , mesmo suppondo que assim Passado algum tempo , foi Pedro-
fosse possível, %ses. que a previs- Grande fazer uma visita ao príncipe
lem . desde logo conhecerião que u* MenzikoiT. Calharina servio à meza
ma alma tão bem formada seria em com muita graça e modéstia. Foi
todo o tempo superior è fortuna, ainda grande a impressão , que ella produ-
a mais brilhante. O joven olficial zíb no animo do -imperador; o qual
estava então de guarniçao na cidade. voltou logo no dia seguinte, mandou
Sua surpresa foi igual á sua gratidão,* vir á sua presença a formosa escrava,
elle aceitou com transporte a mão de fez-lhe varias perguntas, e achou que
CaiUarina. fioháo já os dous noivos os encantos do espirito erão n'ellà
*receb\d<^ a benção nupcial; no mes-. ! superiores aos da figura. Pedro, quo
mo dia p'em os Russos sitio a Me. sabia crear o; homens, sabia lambem
rienbourg; o joven olficial ó chama- julgaUos. Elle persuadin.se que Ca-
do para repellir um assalto, e ex- lharina era digna de ajudai o cm sua*
pira , coberto de gloria , antes de ha- grandes e vastas emprezas; e assim,
ia 5o 0 R E G R E A D 0 R* M I N E T R 0Y,

sympalhisando o amor com suas vis- OS BAZARES B CA«*AS DE PASTO Dl


tas políticas , resolveo casar-se com , ;,,. L-0NSTANT1N0PLA. j\
ella. Informou-se de todas as parti- •Londres e Paris, metrópoles Wvaes na
cularidades da sua vida foi conlie- . riqueza' e magnificência dos armazeris
•cêl-a nos seus primeiros annos ; a~ de fazenda**., na multiplicidade e varieda-
eouipanliou-a na sua ohsctiridade , de das lojas, não tem cousa que se pa*
ji'esie estado', em que a alma , obri- reca com o hazar granrJe, ou mercado o
gada a valer-se. de suas únicas e pro» Ifira * puhliea de Coi'*»l".minopJa, Ac-
prias forças , luta com a fortuna sem cumulai, na imaginação, todos os bairros".
ter espectadores , que a observem . •dide a íniJusfna párisieu-e e o çommercio
« triuutpha sem receber ãpplausos. or;itaiinico osteuláo as suas prijduoções*
| juntai-lhe, se tendes v*i»iraclo a 'America,
'E vendo que Calharina sempre sus- os arriiamènt.-s de New Yuifc, de Bostuu
tentara um caracter tiubre, e ver« e de Philadojphia; e só assii**, podoteis
dadeiramente grande «, julgou q:o. fe- formar ideada espécie de cidade coberta
r a este .um titulo mais que suUicienJ 'a que os liahiiaiites de IStiiiiihü' 'fchn-
Ste para o elevar ao grau de impera•• mão o seu baíiâr giandí on principal:
triz : todavia, aebou convenisnle c e - D-enirp ilellc podeis 'vaguear..(has. iníci.,
lebrar as suas nupeias occuliamenle. •os,_«seguindo, a-r \árias lamifyjaçõe* do.*. ,
Collocada no throno imperial, Ca canijnln.s, e fa.éndp p-.il ^;ío4«;iòs, sea,
iichardes termo, à vossa pxcijrsãp. .Um,
tharina réciüsou a.*, esperanças de seu
passeio, por esle sitio di\ muitíssimo, pra*
digno esposo Em quanto Pedro cui- zer, .mas não è um prazer sen, ÍIICQIII«
•dava cm formar os homens taes como mo-lo Os concunentes á/iinhãu-se, como
queria qne'-elle*» fossem, c l b não se entre'nós, á puití das" igrejas cm dia dè
•poupava *ao trabalho de aperfeiçoara lesta. Eiripiixâo da direita, erfof>(iÍrSò'.ftJa
educação das pessoas do teu sexo , esquerda, ora pflra•diante, ora & oiirairgtie,..
"mudando-lhes o''V3:<luaiio, inspiran- ,a, anda-se nó ar, andá-íie. ao* acaso. %em
do-lhes b gòslo da l e i t u r a , e esta« ser po.s-ivçl regular Os .passo».* IX Attífy/j
JjelcrCeíiflo o uso das sociedades: ella banda,, acotovellán o^inc-xpeitr* putiooo
os turnos de mulheres.-ituieásr, Üe, ohi«
consagrou toda a sua vida aos deve-
iifíiiiilias . ariiarellíis c.-.yt-os. pela.^ijbesç».,
í e s de" imperatriz, de amiga , de*os'-* que \%o aluindo passagem; de^o^li-a
•pesa e de mão. Em fim, Calha* .banda o abalroa, um rnliço c nçdip .es-
riria possuía os lalent-os do outro sexo, cravo fjue leva-aa uollp ''uíHV^cjtiaú^i;
Aias nunca lhe sacrificou ás virtudes? alrsz cii-íio agüenta o víolentoeriipurrílo
e os adornos do seu ; e a coragem, rio /cercas armado desde1 ©'Tricp^ffos r'nf$
que a acompanhara na 'deí-gráça e'a aié ii greolia, qrre-vai'(3260^°pS^i p á -
distinguira no' llironõ não a desâ*m« ra o' transito de • éfiafo&Wa/stitWljmgt-*
parou nos últimos m o m e n t o s , com tiar'ó. -A única r*íí*ül i%Sd**'»t*áof»toVÍk»'^ii^até
aperto-éj em vez Üe iilaí^rqa-^azas,
essa mesma morreo.
apertar os eoJ-.gvel.los contra a coqio* e «s
nrãos .souieías -ídpfaim', cyikíxw: cpe '
•*»»!>• **3> «"fí** ®>y"da-:.djijEjiielJã. •luiilúúior^fMAodtiff.i)*
O RECREADOR MINEIRO. i-Si

trajes, de todas as. ÍijigQa*« de todos os re as fazendas que o frangue regateia,


lotej nos vio baldeuBa> até onde que- observão-lhe os modos e os movi iienlos,
ríamos ir e, se descalça a luva ou puxa pela bol-
As ruas do- bazar siò cobertas, na sa, pegãò em qualquer destas comas e
altura de um terceiro andar, com vastos as irrirão muito bem sem pedir licença.
.aixilhos de vidraça que só as oliuvas Sfe traz anneis ou ocllar de ouro, pe>»
limpão, e que, por isso mesmo, apenas gão na mão ou no ojllar para verem
ileixão passar uma claridade soturna, com todo o seu va»ar. Ninguém ha
proveitosa aos vendedores, Todos as lo- que se exima desta busca ou pesquisa
jas são uniformes; em geral não cheiião lemiiiil « Estava- um dia (diz um via*-
a ter uma braça de largura» Em cada jante) na rua dos Lenços bordados, por-'
uma está o dono ou carneiro assentado que cada fazenda tem seu arruamento-
de pernas enoruzadas cm cima dé um cliamei um judeo, gente prompta sempre
moslrador da altura de uma cadeira, e a servir de interprete aos estrangeiros •;
daqueile telonio apresenta aos freguezes disse lhe que me guiasse á melhor loja,
o que lhe pedem, sem mudar de pos- e em breve me introdu/.io em uma, on-
tura. Por diante destas lojas ou cubícu- de me apresentarão prodigiosa qiiantida.
los, separadas umas das outras tão so- de de bordados dos mais beijos e mi-
mente por meio de insignitioantes tabi- mosos lavores. Emquanto eu escolhia,
quês, corre uma bancada de madeira a uma rapariga esbelta se pòz a meu la-
todo o comprimento da rua, O compra do acompanhada por duas escravas. O
' dor senta se no balcão para a turbamulta meu annei de turquezas (jóia muito es-
da rua o não arrastar na torrente, e o timada na Turquia) excitou-lhe a curió-»
vendedor lhe mostra os gêneros em cima sidade: travou-me da mão, depois de nli-
dos joelhos, sem proferir palavra, salvo rar e remirar, largou-n>'a cjm indilTe-,
para dizer o preço das fazendas. A's ve- rença, e seguio caminho sem abrir boca.'
zes o sisudo traficante vai fazer a ablu Fiz um gesto significativo ao meu ju-
çaõ ou lavaturio que o rito lhe prescre deo que me retorquio que este caso
ve, e desobriga se dè suas rezas e prós- nada tinha de particular ou de extraor-.
trações, sem fazer o mínimo caso do dinai). Continuei a feirar; e, passado
enuipralor nem da cliusma que vai pas- um instante, eis comigo a voltas a mes-
sando. ma visita: puxou-me pela manga, e quan-
l**'ii Cbustatitinopla, um frangue (como do ia a inclinar-me para o seu lado,
«s Turcos climSo os Europeus) não entra estrelou-me rapidamente um dedo pela
em huma loja sem aitrahir a atlencão lace, olhou depois e retirou-se. Nâi»
publica: se aponta para uni lenço bor- sabendo que pensasse da fnniiliarida-,
dado, para um bom chaie, etc , ei Io de desta senhora, ,ignorando se devia
que o oereão as senhoras turcas de al- corresponder ús. sua» meiguices, ques-
ta jtfarvhia sem a menor ceremçnia, pa tionei o judeo, que me explicou que a
r*. verem de perto o objecto que o es- côr iiimianieníe rubicunda das minhas
trangeiro quer ooinprar, não mostrando faces, rara entre os Orientaes, provo-
outro receio senão o de deixarem ver cara suspeitas á dama, que quiz certi-
a cara, que occullão cuidadosamente ficar* se se eu punha çôr na cara E«i-
««om a* d.jbra» do \è>; estas verdadei- tas palavras tranquülisárã» a minha itaa-
ra» filhas «le Uva exsaiaâo pr.tiaJai«ca- jriaaç.o.».
19 5 a O RECREADOR MINEIRO

No centro do bazar esta situado o que melhores mestres de Paris alli tomarilo
chan Si Bezessein, com quatro lados, e lições quanto aos gelados. O assucar»
só patente ao publico desde as sete ho- oandi não está encerrado em reJomai;
ra da nianliãa até ao meio dia; é o ergue-se em figura de rochedos ou de
coração de Constantinopla, é o loeo do columnas atè o teoto das loja*, e, bii*
orientulismo; sò ahi se vendem armas e lhando com todas ns cores do íris, é
outros objectos de grande preço. Neste uma maravilha das mil e tuna noites
sitio è mais alio o tecto, e ha mais realisada, e o preço que custa è outra
obscuridade que nos outros babares; os maravilha; por dous vinténs compra-se
mercadores destas lojas são velhos, de um pedaço de certa casta mui lina, poe-
credito bem firmado. Todo o lugar é ticamente denominada ôalsamo peitoral,
pitoresco. Depois de terdes admirado de tamanho tal, que o maior gblòso dé
as espadas de Damasco com riquíssimas assucar-candi dificilmente vencerá a
bainhas e punhos resplandecentes, guar* quarta parte. Se dermos credito aos Tur-
hecidos de pedras preciosas, os punhos cos, as mulheres de Constantinopla qua-
com seus cabos . em que scintillão a si que vivem só de doces. Cem mulhe*
esmeralda e o diamante, as espingardas res do sultão oecupão quinhentos cozi-
embutidas em nacar, prata e ouro, nheiros, e consomem 2,5oo libras de
voltai cs clhos para outra galeria. Que assucar por dia. E' esta a maior des»
aspecto respeitável o de tantas veneran- peza da cozinha do serralho.
das cabeças cobeitas de cans, coroadas Uma das cuiiozidades da immcnsa capi-
peles turbantes alvos como a neve! São tal do império ottomano è uma casa
os Turcos do antigo regimen, os res- de pasto turca. Diz a este respeito certo
tos poéticos do Oriente, os destroços da viajante: « N'um gyro que fiz com o
nação que Mahmoud desfigurou la.en- meu cônsul, aconteceu achai mo-nos qua-
do-lhe adoptar os usos occidentaes; são ; si em jejum, ao meio dia, defronte de
os consumidores de ópio que o fumão uma casa de pasto afamada, sita ao pi
até a dormir, e que não beberião vinho do mercado dos escravos. Confesso
ainda quando Ih*o ministrassem, as for- que à primeira vista não fiquei muito
mosas huris do paraíso musulmane; são satisfeito, e tive poucas tentações de
os fatalistas que rão lotnarião o traba- saciar o appetite em* semelhante lugar.
lho de se ai rodarem de um leão furioso , Um Turco rochnnchudo, luzindo lhe a
e que duvidão tanto dos milagres de Mafo- pelle com gordura, de braços arregaça-
rria como do tamanho do caximbo por dos, estava de pè á porta da caza e
onde fumão. A riqueza das mercadorias convidava os passageiros batendo com
que estes negociantes chãos e abonados uma enorme faca de cozinha na polpa
vendem é estupenda; as fazendas mais da perna de um carneiro já aviado,
delicadas alli se encontrão, bem como as pendente da banda de fora. Chegava
mais preciosas, e os preços são incom- qualquer- curioso: o bom do Tureotcor-
paravelmente mais baratos que na Eu- tava logo uma talhada, partia-a em pe-
ropa- dacinhos, e, enfiando-os em um espeto,
O armamento ou bazar dos confeiteiros os punha ao lume. E* isto o que em
c também esplendido e muitíssimo bem Constantinopla chamão kibodsi o nosso
prwidó. Staaibul é* afamado pelos seus I cônsul, -que já estava fajniliarisado com
cxccilcnte3_ doces, e não sem razão; os ' este guisado, entrou na casa sem hesi-
O RECREADOR MINEIRO. i*èa

tar. e tu segui-o. O sebento cozinheiro, e m III R E C E N T E .


•uai nos vio pano» riaoifha. as -calça»*
fa/gfs, - arranjou q cinto, ui-ntou uma boa
fatia do -carneiro, * apytUoM-nos para Nos arredores tJe Tour cont->
um estrado; aqui nos acCüintnoiláiiKrs ce-
ino pudemos, cruzando as pernas c as« metteu-se um horroroso assassi-*-
sentando nos í oriental sobre os calca, nato do modo seguinte :
irharei, As emanações aHiciadoras que O juiz civil de uma villa d e -
no.* vinhio fia lajejYa ppoieçavão já a via enviar a uma aldâa vizinha a
reoonciliar«-rne o estômago com os olhos, quantia de 1200 francos ; sua jo-
quando a vista do prato de eítanho, «cheio
tios kibods, me trouxe nova oerplexida- ven filia se deliberou a ser a
de. Os taeí bife,**., de tanta fama viahão eonduetora , pegou no seu cabfz,
a fumegar, «cobertos de fplhas de sala- carregou o de dinheiro , c já se
da e pedaço/ de páq; todavia o otíeifo dispunha a partir , quando i*m
era appetitoso; ferrei dentes no primeiro: **U'irda lhe aconselhou que não
O sabor corresp-jnileii ao <cheiro, e as mi-
nhas preocupações logo desvanecerão»se fosse pelo caminho ordinário que
•completamente, Cpm *éfí.ei^o, são os estava obstruído pelos gelos , e
Itibods muito boa,, comida; pias para a o tornavão impraticável ; aceres-
"tlesfructar è .misler besuntar , os dedos, cenlando que melhor seria tomar
porque nas casas de pasto -turcas nem um atalho pelo qual ainda q u e
garfos nem facas estão em uzo.
rodeasse alguma cousa , pederia
Tascas destas e os cajes satisfazem a caminhar mais oominodamc-nte»
gula das classes media e rasteira d >
povo daquellâ ..papital; uii prato de Tomou e»te conselho a joven,. o
kibods è o jantar desta geute, e mui- ao passar pelo lugar m; is povo-
tas taças de caüji os sustenJSo po resto do ado de árvores , q u s no transito se
dia. Dous homens bem et-fajniados não achava, cahio ferida de uma baila :
poderão acabar o nuSso prato, que to*- seguidamente se -lançou a ella o
flavia nos custou ainèi menos (le um tostão.
guarda , arrancou-lhe os brincos
Os Turcos, por índole graves e se-
dentários, não tem preoisão de passei- das orelhas, e o collar, a cruz de
os; pelo que raros ha nas vizinhanças ouro que levava , e so apossou do
de Constantinopla*" apenas aqui' e auclã sueco de dinheiro que meltco 110
se encontrão kiosques ou pavilhões, e seu surrão. Não muito longe d'al-
fontes crectas pela piedade dos fieis; li um ancião que conduziu uut
ao pè destes sítios vem os niusulma-
íios âjmar e tomar ca è. Chegando a feixe de lenha , presenciava !
e-la^
boca na . oração, fazem a sua ablução, scena íjorrivtl ; m u d o f c espao»*"
estendem uma alcatiía no chão, e de- to , eícondèndo-sc entre os t r o n -
sempenhão o seu dever sagrado. Se al- cos das arvores, ora filhando par»
guma vez pa^seião, è nos cemitérios, que o jumenta q u e -oceulíamente se-
sfo tpdo-y plantjados de arvoredo e os
túmulos t>ero°4os de flor«*s;: guia . ora voltando a vista de quan*
1*54 O RECREADOR MINEIRO;

do em quando para o lugar do da justiça , pois aos gritos do de-


c r i m e ; ate que já em alguma dis sesperado pai icudirão os visi*
lancia lançou mão do sen mach *** nhos, e o a*sassin<> foi prezo e sq
4J0, e assobiando se pôz a oortar acha agora na cadea.
jtenha. O guarda, que o vio, a-
*/ançou-sobre elle, perguntando-
Ihe quem era ; porém como o in-
feliz-velho titubiasse na declara-
ção de seu n o m s , di>to n i s c e o
CHARADA,
uma renhida altercação entre o
guarda e elle. ., Anda comigo a Dou ao corpo
Almo descanço 9
casa do juiz da povoação vi«inha '• Tal a certeza
l h e disse aquelle , e- o agarrou pelo Do rjue avanço, já.
pescoço. O velho_se deixava con-
duzir , ainda qne tingia alguma HTO.
resütenoia, até que por fim c h e -
Negro destino
garão Á casa do juiz. E' o do amante
, , Dize-me o teu nome. " A- Que separado
gora sim, disse o velho , chamo- Vive distante
m e fulano porem alrever-te- DJ SUJ bellj ;
Tudo sem ella
has tu a dizer-me o teu ? JNão vi Torna «se triste.
eu tudo o que acabaste de fazer? Seja *na corte
. , O guirda Gcou inteiramente pai Tumultuaria ,
J i d o , descorados seus lábios , e Ou ir'essa villa
tre^noios seus joelhos. ,, Senhor T«o solitária,
j u i z , continuou o velho , sabeis
onde está vossa fiiha ? Vós a jul •
giis na aldêa viiinha aonde a en-
viastes ; porem não está alli, não:
está DO próximo bosque', morta
pelo guarda , que tem o sqco de A adeviohaçao do numero ante»
dinheiro qua ella conduzia , o col- cedenle é — Martelo e Bigorna —.
Jar e os brincos de vossa filha. ,,
Apenas deixou acabar estas p i -
Javras , o guarda que já o linha
agarrado pelo pescoço . o apertou
entre sins mãos ate que o afogou;
Oar» Prctf», t848. Tjp. Ir*»,
'Ütas a l o pôde livrar-se do braça Jr>. X. f. èt S*«.i,
O Recreador mineiro.
PERIÓDICO IilTTEIfiAICIO.

tf®BID 7.» 15 DE ÍBRIL DE 1848.


N.° 8 0

AMOR MATERNO. menos trabalho: traduziremos mas*


Vos audita cst in Rama. com a liberdade de que usamos i-
llachcl ploran» lilio* suos... et no- remos cortando no ori-rinal o qne nos
luit cor.soUri quía jarh non sirnl. parecer inulil, desenvolvendo o que
Cada vez que lemos estas palavras julgarmos carecer de desenvolvimen-
fia santa escríplura, e«las palavras to , alterando o que acharmos quo
qne em sua singeleza revelaô os mais para ser mais facilmente entendido d*í-
recônditos arcanos do coração ma- ve ser alterado, li' a historia de Hog,
terno , os mais pungentes segredos a historia de um cão, que vos vamos
dl dôr , cahe-nos o livro das mãos, contar: ouvi-nos.
o absortos parece-nos ter ante os o- Na cidade de Londres em uma
lhos essa mãe sublime , que naõ quiz caza de fcuston-Square morava uma
ter consolada porque elles, seus filhos, familia abastada : tudo no seu inte-
jà naõ existem,' ohl qual o poeta , qual rior anniinciava a independência de
o autor profano capaz de com laõ pou fortuna filha da liberdade e do com»
eu exforço, com taõ poucas palavras , mercio, nada faltava, nada havia-de
e tanta verdade commuiiicar-nos taõ inútil verdadeiro justo-meio entre
profundas sensações 1 o fausto da nobreza , e a miséria do
Livro sagrado , auando para pro- povo. Virtude do protestantismo , —
var»nns que naõ ès obra de homens, o aeeio reinava em toda a parte: ás
que és filho da inspiração , faltassem nove horas todas as camas ostavaõ
argumentos , bastaria teu estylo para feitas toda a casa varrida e limpa,
convencer os móis incrédulos bus todos os moveis sacudidos : era o si**
tariá tua poesia > o lua eloqüência I lencio de 11.11 templo niclhodista, o
Mas aonde nos leva a penna? naõ é o o aceio d; um escriptorio hollandez.
•logío da bíblia naõ saõ bellas phra- Km a mora ja de Mislriss Philipps ,
ses liríàTrc o a.nor milênio ipic iiiten- filha de um opulento mercador t!e
tiiinôs e«crcver ; queremos, leitor bo- ferragens, qtis tendo em sou nego-
iie.olo contar-vos uma historia, qie cio agenciado grande fortuna achou
achamos cm um limito qie rios veio que devia com cila dourar o bra-ao
as iriaos *. traduziremos , que nada ha de alg'im nobre faminto , dando-lha
4» iH-lhc-i*, porque nada ha que dô a mau de sua li!ha * tuas o mvica*.
56 t) R E C R E A D O R MINEIRO.
iS

•dor naõ foi taõ néscio que naõ sou- Mas ó medico Ifios havia o ambas
besse assegurar o futuro da filha è prohibido essas imprudências, que
porisso no contrato de cazamento es- ambas eraõ doentias e podiaõ as**
tipulou que ella conservaria inteira! sim cornprometter sua saúde .' um
a propriedade , administração è usu- rlieiimalismo agudo «lliacava Sarah,
íructo dos bens que lhe daVa , Ou que e Mistriss Philipps éra valotudinaria,
por suà 'rnorte herdasse. Prudente è depoi* de sèu parto ia diariamen-
foi a èstipulaçáõ parque, o lortl era te elanguecendo. Quando seecnoti»
•um debochado , e perdulário , queStravaõ as duas frises :—Quis vindes
dava mnito ma Vida a sua mulher, j fnzer aqui senhora , dizia S.arah
Elle tinha sido desterrado de Londres, e yossa lànguidez ! 'Que Vindes fazer
e de seu .desterro só se lembrava de aqui Sarah I è vosso rhcumaiismol
escreverr-Hie pára «pedir-lhe dinheiro — Eu ouvi a menina chorar, senho*» ,
para ameaçal-a , e para desejar-lhe ra. — K' mentira , Sarah ha mais
** morte . a fim de poder-, tutor de de duas horas que esWa acordada. —
sua filha, , entrar na administração \h 1 senhora , tanto'tempo acordada,
'« goso àe süa fortuna e esbàn'al-«a. e ò m'edico , 'e vossa sàude 1 — Olha.
Uflistriss Philipps tinha*, como 'já an- Sarah 1 olha para Lucy-, Ve com»
•"•huiiciamos', uma filha , era a peque- dorme I 'como e**'tá stirrindo! •*-- e am*<
na Lury, menina encantadora,— has emmudèciaõ contemplando, adp»
como ô "Sàõ todas as méhina*s na In- rando sua filha. Sim, que os me*
glaterra.— Na époch-t em que V&s riinos , quando dormem , ?aõ aWjos
representamos e^sa 'família . Lucy t subém àos ceos, — e se ríòs naõ dizetís
nha quatro ànnose nada havia mais I o que lá .-êm é porque o èsquacem.
epgraçddo, mais lindo-, inais ciôr de Mas quem éra esse médico , a cujas
rosa do (jüê a pequena Lucy. E por ordens tanto ébedcciaõ as doas mães ?
isso éra efla ò oVjedto único dos pen- Gonsinta O leitor que 'com vlle gas-
sares dos desvellos de sua mae , *è temos algumas pa!a*'*.is. ..
de Sarah, criada da caza, ja meia; 'Ghamavaõ--o o doolor Yoh-g , bàvià
madura , que havia carregado com sido o medico de IVfi.«,tiiss Phitípps •,
o maior pe*zo de sua crèaçaõ. Mil quando donzella, e medico de suà
vezes ambas sé encorttravaõ alta boi- mãe ;'e por isso tinha naquella fanri •
te ao pé do berço de Lucy.* vinhaõ tia uma autoridade de avô: confiden-
ver se Lucy estava 'beto coberta, se te das enfermidades do corpo , tinha
Lucy estava socegada , Se a *Iu'z da alcançado sem indiscripçaõ , 'pélo^s-
jampada nao lhe dava nos olhos : cendente «único de sua posição, con-
mas tudo isso eraõ pretextos; o que fidencia das enfermidades da alma.
as levava ao pè do 'berço era o de- Amigo da mae de Mistriss Philipps
sejo de respirar o hálito dè LtícV, de tinha aconselhado seu cazamento, é
beijar-lhe a angélica boca, e de contem o bom emprego de sua fortuna ê
filar absortas as graças de sua filha. agora que a u-ii ccaducti*, e o al#an«
•O 'RECREADO* MINEIRO. 1*07
m.
'dono de seu marido a f<>zi*>õ des- ! hora doítfrosà -do parto, -passa a nai-
graç-sdi , 'condemnava se com a de- j te em pé, junto delia, aôompanh*»
voçad de um bom pae a reparar 'o | suas dores , awimando-a com o lis*
erro, com que sua imprudência ha-; raro da •mafernidade. Eí-fa mae; ei***
via carregado o 'futuro dè tua filha, le se rtlira sem 'duvida para des*
•K quando fls forças de nua protegida •cançar : na«5 , á porta o "espera uma
cediaõ an pefco dos desgostos , qna/n carruagem; élhe precio ir ver um
'do à ir-rítaçao taoral, influindo no velho que a apopfexia accoinaíelteu.
sangue se transtornava em langríi- AcabB -de dar vida a -um infante
'dcz febril, 'depois de ter combatido vae arrancar á moite um Velho ! Sua
a tristeza 'com 'palavras ctfnsofladtrfa-s, existência •ei-la -ahi ,«éuin Comba-
'combalia a enfermidade com as ar- te •continuo cotn a destruição ., f5 o
mas da scieiícia Aponlando-lhe Lu«- •espectaculo 'da htirr.anidcdc 'cm peri*
*cy taõ fecunda cm graças, e belle»*! go-, pálida /e àgonrsaiíte. E quando
za , obliriha que iiin surriso de Cs-« o 'menino nasceu , quando o ÍCHIA
•jierança animasse as macilcntas •fa-* «ollou a existência, daõ-lhe algnfrs
•cês, e ps lábios descorados de Mis»; vinténs a esre anija da ressurif-içaõ-,
•triss Philipps; e 'assim por meio da e dizem : — Pogueihlhe ?èn .'«mpu.
mãe' salvava a mulher 'como as ve •É o medico recebe esses "vinténs, 'o
zes se cura um membro doente Ira,: naõ tem direito de queixar-se da'frr-
lando de Outro'membro grátida*õ:! Kis o que *èra o dl*. -Vong.
Por inconcebível faculdade do sua Temos percorrido 'toflas as'perso-
'rtòbre prpfissáô , o dr. Yong exercia, nagens do drama': , . ah ! 'falta'v-r»«
'em 20'famílias diversas essa doce pa» nos fallar da principal, de -Rog. ;flog
ternidade da sciencia , sem nunca se era um'ca*xoi*to da 'mais'feia raça «que
esgotarem seu*s 'recursos de ivlTeiçaõ,, se 'pode imaginar , *seu ip«ílo 'era >dfe
e bondade. '. "üma côr "suja , *sitas Tfelhrrs «disfor-
Avaliaes bem o^acrificio -deste "ho £ u*es e Sempre cm nó direcçaõ::
muni , qifo em quanto pensaes em v; s- quando uma s* h'varitava •abtmava
sa fortuna , 'èm 'vossos prazeres ,-pen- se a outra ; "signal phtânnlo-tjico d -**
-welle etnvoísa "vida, 'que lhe levaes; cães ladrões, Apefcar porem 'He *SI-H
toda dilacerada pela lula do mundo, fealdade , apezar de se*tis dlbos'apn»
*e das 'paixões"? — Para -vós a alegria,, gadffs , -apezar de'tudo 'Rogcra f-ir-
— para t^lls naõ —-:üma operação! graçado , 'porque *Rog "éra moço, 'e
dolorosa p'récedeu Seu ijantar , outra' tudo o que 'é moço agraSta-; r.i.-g <-i>_
'o espera quando acorda , e 'Sua 'maõ o companheiro inseparável du ;re-
'naõ devo tremer. Em quanto vos ri- quena 'Lucy , 'que 'juntos brir-ea-v^e,
des élle pensa ; em quanto dJnça- que'juntos rolavaõ pelo chaõ qr'e
es ao som de mil inátrumculos, ao cla- juntos dcrni.íõ abraçados-; o'tiriien
rio de mil bugias, elle recebe em enfeite dò caõ era um lu-iJo c lar
seus -braços a joven esposa, n* de ialaõ «com -este -le-lre-iro-: — •tóyg
1.58 REREGADOR MINEIRO,
O

pertence á pequena condeça Lucy, Não — era a resposta de todus, r-s-


Um dia , . . — Mistriss Philipps. que po«ia que cahia como uma massa da
se sentia ir abatendo, havia uns ves«-. ferio sobre o coração da mãe ! Cer-
prras com seu amigo o doutor dado teza horrível / ninguém naquelle quar-
providencias, para que a fortuna teirão sabia da menina ninguém po-
que , por sua morte linha d e perten- dia dar informações a SOU respeito.
cer «a Lncy fo.-ge posta em bom re-» —- Mas , Sarah . dae«mo um con-
nato e escapasse á administração selho — Qne fazeis ahi com esse ar
«le seu marido, tutor natural delia, de consternação ! Tomae de rnim ex-
que a haviq de esbanji.r, — Um dia a emplo ; vedo, eu naõ desanimo. —
porta da caza de Kuslon Square es- A. mísera eslava livido.
tava escancarada e as janeilas lam- Oh 1 conselho* naõ faltavaõ : uns
bem : cousa sern exemplo nesta mo- diziao que f js°e á policia , para que
rada da ordem-e do socego. a policia a procurasse ; outros lem-
Mistriss Philipps inlerrogiya a Sa- bra.-aõ q* inspeciones do rio para ver
rah . precipitando ambas, gestos e se a linhaõ achado afogada.
palavras. . . Em fim Mistriss Ptiilipps lembrou-
— lixaminastes tudo, tudo ? Sarah! se do. seu amigo , do dr Yong , e—i
naõ me alemorisejs com esse ar es» vou ter com e|ls Sarah! ficae na
'pautado. porta á minha espera ; naõ vos reli**
— Fxqminei tudo, senhora, tudo. reis daqui ; pela aluía de vossa maa
— E o jardim ? vos imploro,
— E o jardim o pateo „ por Iraz Ah I senhora! - . .
das portas , dentro dos armários — Sim , ficae aqui para recebei-a,
— Sabeis que ella brincava em bai- quando a trouxerem, e dae abri mi*
xo da cama nha secretaria dae , aqui tendes a
— Por baixo da cama também, sra. chave dae 10:000 guineos a quem
— E nas -iguas furtadas? a lrox3r ; mais ainda ,%e mais pedir ,*
— A menina nunca lá subi*. ludo, se tudo quizer.
— Ide , ide ver: há de estar nas a- li ei-Ia a pobre mãe, que corre pe«
guas furtadas. Ias mas do Londres em busca da fi-
Sarah ja linha subido , e de lá gu- lha , ou da caza do amigo.
iava : — Naõ está , sra, Para recuperar o tempo que sua
— Vede nos telhados. irresoh-çaõ pirdêra-lhe enfia ruas , 9
— Naõ está , sra. ruas sem saber onde está, sem se (em-
— L' que naõ sabeis procurar, des- brar para onde se dirige, sò sí**bia que
cei q*ie eu subo. perdeu sua filha, só se lembra que
A rua eslava Ioda em alvoroço, a anda procurando. No meio da hu-
as janeilas abertas todos uns para lha, do tumulto, só ouve a voz de.
os outros perguntavaõ, «e linhaõ vis- Lucy que esmagada pelos pés do*
t,ja pequena Lucy, cavüllo-, pejaj rodas das carruagens.
O fEGREADOR MINEIRO. i2ã9

WS!

g r i t a - — m a m ã e ' — e porisso naõ o» E o peito dá mísera mãe está ar»


lha senaõ para baixo das rodas e dos rebentado ; dores horríveis a pun-
pâs dos cayallos. Chega-se para to«« gem n'um lado : — Lucy Luey
dos os grupos de meninas que en- exclama, — e a menina pára : — Que
contra , olha para ellas : saõ filhas querei* com Lucy , sra. , como sa-
de outras; como que as amaldiçoa, bejs meu nome ?
— sim que o excesso da desgraça é A menina era filha de outra mu»
egoísta tanto quanto o excesso da fe- lher e chamava-se lambem Lucy.
licidade. Neste instante de horrível decepção.
Sins olhos ao longe procuroõ nes- Mistriss lliilipps desconfiou de U<M'S,
se mar de homens e de cavallos um e r—; Que le fiz exclamou, para sec
vestido branco , um avental verde , assim ludibriada I
um chapeo cpr de rosa ; — que des- Prostrada simi- morta achou-se,
cobriu? Eil-a que corre ei»la que sem saber como , perto de um cerni»,
passa por entre dous carrinhos por terio : meninas vestidas de branco es-
.onde parecia impossível que passas- lavaõ jqntas, e naõ brincayaõ ; uin
se o corpo mais delgado , porem pensamento serio as preocupava.
as mães , quando procUra*» suas fi- — Sois yjfjs , sra,, disse-lhe uma
lhas , nar} tem corpo ; — que des- dellas, a mãe da menina afpgada
culiriu ? foj ao looge um chapeo côr cujo corpo esperamos para acompa-
dé rosa : um chapeo côr de rosa nhar ao cemitério,
è sua filha ; —» naõ , uma modista o fvlistriss Philipps tremeu, e com u»
levava , era alguma cncommerida. ma yoz que alterrou soas interloc.*
Sua filha , sim sua filha ha de ser toras exclamou:— Afogada! e desde
assa cnbecinba loura que longe, quando? — Dasde limitem, sra. vós
nvista : Lucy tinha um chapeo: um devei* sabel-o , porque sois sua mae.
chapeo ? roubaraõ-o, pei deu-o; sim, — Minha filha ainda esta manh-i es-
ha de ser Lucy. tava viva.
Exausta de fof*,as Mistriss Phi- — Entaõ foi esta manhã que mor-
lipps já naõ pode andar. — põem rei* vossa fiiha ?
6u a correr. — tylorreu 1 naq, perdeu-se e eu
E a criança ao longe corre tam- a estou procurando.
bém : —L 1 Lucy naõ ha duvida , — Naõ vos lastimeis assim, sra.
(é Locy •* como corre ! ella" me está perdj-me também na idade de 4 annos,
procurandq. Lucy I Lucy! Ella me acharaõ-me e leva'aõ-uio para caza.
naõ ouve : estas seges fazem tanta — Levarap-te , e viva ?..
hulrH 1 L u cy - Lucy I na0 tenho for- A menina desatou a rir. — Si n que
ças parn alcançai a : perdela hei de •me tinhaõ ensinado a dizer chamo-
1'ovo I ah meu Deus ! tlcixae-ma ai wie Sopliia Ve.rnon , moro em Ktppel*
rançar, ainda que logo depois eu Street n. c 20.
morra I — — Ah / como fui imprudente! mj»
isCo O RECREADOR MINEIRO

nha Lucy naõ sabe como se chama, do pregaõ. — Avental verde e cha**
nem onde mora / peo branco; exçellentes alviçaras a
A desesperaçaõ tem gradações , quem ureslituír a sua mãe. — Hi ura
não mata de uma vez : se o fizesse, erro, sr. , um erro em vosso pre-
seria um mal? Ella nos deixa, e da- gão , a menina tinha um chapeo cor
pois volta, vai Ia de forças, zotnba de roza. --.•
rniii nosco, e mente. Sen nome mesa — Ofha a ladrona, como se alfai»'
mo é uma implacável mentira ; es- coou , grilaõ mil vozes «'uma só voz,
peramos mesmo' na maior desespera1 e maldições, e ameaças, e pancadas
çaõ. cabem sobre a mísera. — Da-nos con-
A crise das lagrimas chegou em ta da menina ladra infame, da me*
fim para Mistriss Philipps. Alé a-íora, nina qtre roubaste —Naõ fui eu quem
disse, lenho procurado minha filha, a furtei, eu a procuro, sou sua mãe.
ainda por ella naõ perguntei a nin- — T J sua mae , íu auiarella como
guém- — e chegando-se para Um ho- uma criminosa! —Sou sua níi.*.
mem que ia passando : —Sr. , sa- — Tu , com esses cabellos desata»'
bei* dizer-me se acharão uma me- dos, cobertos d<* sangue, e lama)—
nina de quatro annos , muito linda , Sou sua mãe.
vestida de branco com um avental — Tu miserável , sua mae , tu
verde, c chapeo cõr de rosa ? sr. , infame, tu ladra? — Serei'o que quin
eu sou sua mãe : respondei-me pelo zerdes , mas sou sua ir.ae.
amor de Deos. — Sra. respondeu — Si és sua mãe, torna, aqui es-
elle , saheis me dizer se acharão 3 tá tua filha , — disse uma mulher tra-
siil gtiínecs muito novos . e muito zendo nos braços uma criança.
bonitos? Eraõ mens, perdi-os no Jo- Mistriss Philipps precipitou-se, e
go; respondei me pelo1 amor de Deus I depois recuou ; — fM&ã, disse , essa
A pobre mãe julgava fatiar com naõ é minha, filha. —
um homem, faltava com um jogador. — E' uma boa mae è uma mãe
Emíim ella achou-te n"um cães verdadeira, clamarão iodos à uma,
muita gente estava reunida em tor- naõ é uma ladrona de crianças.
no de um homem que lia um pre A criança havia sido trazida parar
gaõ , ella confundio-s3 com a mul- examinar se Mistriss Philipps tinha
tidão, e ouvio altenta ; o homem di- realmente perdido sua filha, ou se
zia ; —Perdeu se hoje ás quatro lio- era alguma ladra de efiicio
ias da tarde uma menina de* 4 a n ' K como a haviaõ insullaèo * Ias**
nos, que morava ern Euslon-Sqaa- timaraõ-a : como a haviaõ maltra-
ie.... — tado , abraçarão a , e acompanha-
Mistriss Philipps chegou se até o raõ-a em eortejo até sua caza , pro*
interior do circulo. —Trajava um mettendo procurar sua filha , a »e>
vestido branco um avental verde...— pararaõ-.-e repelindo pela* ruis —
a mae bebia as palavras do homem Perdeu* se uma menina, chamada Lu*
O RECREADOR MINER0; 1*6!

cy . . E as mae» que a eaies grilos do! —Tr&z-me minha (ilha —Nos-


disperlavaõ espavoridas , nbraçavao sa filha , sra. — Ah ! meu Deus, meu
Suas filhas. Rog , vem meU filho/—E aribas
Eraõ duas horas da noite , havi. descerão para abrir ã porta — Era
fiõ dez horas que Mistriss Philipps Rog , Rog muito enlameado, muito
Unha sabido. e dez horas também sujo , tendo na beca um grande os-
que Surah a esperava na porta. As so : Cra o que trazia, — coutae cuin
duas mulheres encaravaõ uma para o in«tinclo doS animais !
a Outro : e se entenderão sem se fal- No di<i's(-g-iintc o dr. Ycng eslava
tarem : juulas entrarão , e foíaô sen- consolando as duas mães. — Nao vi s
tar»«e porto da uni fogareiro, sem deixeis abatler , esperai ainda st a.
notar que naõ havia fogo acceso, Ah .' vós esperais ainda , disse M s-
e conservaraô-se mudas por mais de triss Philipps com um tom de desdiui,
meia hora r enifim interrompendo o e de tristeza. — Sim espero que
silencio, Mistriss Philipps disse: — confio na eflicacia de inuilos meios
Sortb. os que boje nao jantarão de- de que vos naõ letnbrastcs
vem ter fome a esta. hora I — Per- Um sigtiol negativo um leve mo-
doae me , sra., lnje naõ me lembrei vimento de cabeça fui a única roa*
do jantar»—-Sarah , os que naõ tem posta da mãe. - Sim , continuou o
fogo para òs aquecer, devem estar dr., raciocinemos. Naõ .se roubaõ
com fiio á festa hora I — Peidoae- crianças por amor de crianças, njui
uio , sra. eu vou accender o fogo. para matal-as, nem para .ctnieUas.
**— Sarah , os que naõ tem cama para O dr. parou , que naõ sabia como
os agazalhar , devem passar bem má continuar seu raciocínio. — Dcvê- >e
noite. — Peidoae-me , sra., vou in- ter algum fim ; e esse fim . , U t.r
direütar a cama. — Sarah ; Lucy naõ eslava suando. — Esse fiai è seinpit*
jantou, Lucy tem frio, Lucy tem um interesse; cflerecii um inleitsse
somno « talvet. . . . maior, vossa filha ser-vo."há icsli*
E depois a mae dirigiu-se para a tuida,
cama da filha 6 beijou no traves- Mistriss Philipps sahiu entaõ do t«r«-
seiro o lugar em que descançava sua por em que estava , e oIliu«i pura
cabeça, e endireitou a coberta , e o dr. : esle proseguio : — E como baõ
feixou o cortinado, como se sua fi- sempre pobres os que roübaõ ciiauç^s,
lha estivesse deitada ; depois virau-. oíícrecendo dinheiro , . .
ào se deu com Sarah , voltou a si — Sim, sim exclamou ftistiiss,
e cahiu chorando nos braços delia. Philipps , ollerecendo diiiht i; u u.t.i-
Dois gritos ao mesmo tempo sahi-. to dinheiro , nossa filha ser-nos-lia
raõ por fim de saas bocas : — Sarah 1 rcsiiluida. Sarah dae-uie uu.a pem.a,
— Senhora / — Ouvis ? — Es elle. — papel, deptetsa : Jae m e . — a t i | ; |
E'elle? — Sifn. ]_'Rog, sra. ; como se pO*z a escrever deprtssa , c m -
ladra I dir-se»ia que nos cslà chamau* vulsa , palavras illgiveis que rlstivu,
is6. O RE6READ0R M FN E1R O.

que emendava. Sua. maô esquerda mava o preço de um chapeo de me-


jipplicada ao peito ma| podja con» nina côr de ro*sf* , que, o caõ havia
ter os Ímpetos do coração. — Eis-a* estragado Mistriss Philipps pagou-
q u i , disse ella.» p que amanhãa se lhe tamhem : e depois pondo ao eól-
leia em todos os cantos de Londres, io o pobre Rog, que de susto tre«»
«J-iqni a Ires dias por toda a Ingla» mia, : passou-lhe a mao pela cabeça»
terra , por toda a Europa : cis-aqui 1 beijando e chegandorse-lhe ao ou„
A h ! doutor Deus vos inspirou um vido : — tu tapbem meu Rog, pro-
pensamento de apjo. Toma Sarah, curasle Lucy tu procurasic \tOCJ
yae á imprensa , manda que tirem e naõ achaste ; —- à repetição d° n o-
deste annuncio um milhão de exem- me de Lucy, Rog soltou um gemido.
plares e que daqui a uma hora em Tu a pròcuraste como eu a pro-
pada capto da rua leia-se : curei , aodasto pela lama toda a noi«
'• Uma mina de carvaõ que rende te , por entre cavallos , o sejes I Rog
, por anno cincoenta mil guineos, — agitou-sp convulso. Maltralaraõ-te ,
, mais duzenlas mil libras esterlinas como me maltratarão ; expulsarão -
, de acções da companhia das índias, t e , como me expulsarão, meu Rog:
( é ainejade do que possuo doutor) -— fajscas eietrjcas sahiraõ dos olhos,
a quem restituir á sua aíTjicla mãe do paõ. Espaqcaraq-|e como rap es-
, uma menina de quatro annos, cha? pancarão 1 —Rog gemei*, gemeu; —»
, mada Lucy • en* Ejt'stoq-*Square . a dor tem uma língua geraj jiitelle«
fregtiezia de S. Pancraciq. Para give| para todq* os «iqtes.
segurança da promc.tlida recom- —• Vamos. , djsse q doutor , é, pe*?
pensa depositaõ«*so os litulos das rigos.o p excesso de sensibilidade á
t propriedades em casa do taballiaõ que yqs cnlregaes.
}, Burns e uma mãe o jura por Deus, —. Mas , doutor, disse Mistriss Phi-
„ e por sua dôr. *' lipps banhada em pranto . si Rog
O choque deeta imprevista esperan- rasgou esses vestidos brancos , si el-
ça a fez sucumbir ella deixou-se ca- le rasgou esses charcos cr^r de rosa
hir n'uma cad 'ira ; seu semblante foi porqiie tamhem procurou minha.
e.síava livido como o de um cadáver, Luc** , que Lucy quando se perdeu
iras um surrjso pairava em seus lá- linha um' chapeo cqr de rosa , e um
bios. Uma circunstancia imprevista vestido braneq.
veio pôr fim. a este abatimento. r
fres annos passarão.
Dous indivíduos entrarão ; um era O vento a chuva rasgarão de há
mercador de roupa , — Rog - havia muito os annuncios da recompensa,
dilacerado , um por um todos os prometiida a quem trouxesse a*me»
vestidos de criança de cassa que es- nina.. . . Lucy está para sempre per-
yaõ expostos á venda. Mistriss Pb"--* dida* Ella teria agora 7 annos, ida-
Jipps paçou^lhe o damno. de encantadora / sempre presente aos
A outra era uma modi-la. que recla- - o|hos da imaginação de sua mae, —»
O RECREADOR MINEIRO. \m
*m
«lia acompanha todos os desenvolvi- cup<írareis o uso das peroas , de alegre
mentos da ín-telligeocia e do corpo de quebraria já e já estes óculos. Mas,
tua filha. •paciência vós me gurareis e appo-.
Mas essa engenhosa illusaõ , bem iar-vos-heis em mim.— K quem mo
que consoladora, naõ podia fartar-lhe carregará a mim , que mal posso mo»
o coração .* esses trez annos tinhaõ ver-me por causa de meus rheuma-
causado bastantes alterações: antes tismos? interrompeu Sarah , indirei»
porem que as notemos cumpre dizer tando o trave»93Íro que erguia a ca-*
•que lord Philipps havia morrido em beca de suo ama. Seca-esse.pobre Rog
seu desterro da» conseqüências de um tâo velho, tao maltratado . alem do
duello, a cego?
Mistriss Philipps já de ha muito Admiração deve causar que o no mo
que se naõ ergue da cama. a seu [ia-' de Lucy nao tivesse sido proferido
do duas cadeiras estaõ sempre occu» entre estai trez pessoas, que costu-
'padas , uma ó de Sarah , outra do inavâo sempre teUo na boca : é que
dr. Yong : viclima lambem da des- ha um anuo o dr. obteve de Mistriss
truição do tempo, e dos pezares > Philipps sob pena de não voltar mais
já bem enfermo e quasi cego, o-dr. a sua Casa, qne df-Jla se nao failaria,
Vtmg passa seus dias à cabeceira de pois bastava proferir esse nom<í para
sua amiga. despertar na mãe intermináveis cri-»
Estava-se no veraô; alegres raies ses nervosas e mortal habatiinento:
do sol brilbavaô na câmara , — câ- para condescender com o ami#n _
mara de enfermo , atmosphera de e • mae só fallava de sua (ilha a Deus,
ther , e ds remédios ; garrafas cobri- a Deus que se não cança de ouvir as
«aô as mal dispostas mezas. A cama mães
•eslava virada para a janella de mo- •'. — Dr., continuou ella ..aflectan•
do que a claridade dava em cheio so- do um ar alegre , tenho que pedir-
bre as faces macilenlas e pálidas da vos um favor.—Que favor me pe-
-enferma ; seus flhos azuss conserva - direi» que vòl-o nao conceda? - - Pro*»
vaô algum brilho, mas tinhaõ per- metteis«m'o ? — Sim . falLe*.
dido sua vivacidade , e estavaõ tm- E o doutor pegou na mirei ãe suar
moveis ; una mosca importuna vinha amiga, e fingindo que escutava o que
obstinadamente poisar sobre sem lá- dizia , sò escutava a: reveladoura ar»'
bios descorados. Um berço vasío es. teriii — tí'i desejava conversar com
lava ao pé da cama. i*.*•-., um sacerdote, nosso excelleute pas-
v Q u e belladia, dr.. para itHfiefles tor , M Burtiey. Não ralheis coui*»
•f-.ue esliiô no eanüpo* — E* prazer às migo. — E r j& betu tarde I disse o-
que 'ainda havemos-gosair.neste verão. dr. comsigo mesmo, e em Voz altu
'«—•. Dí., frà naõ tenho pernas.— A«h . — Eu r ai liar comvosco ! — Dr. eu sei
•era- , se eu pudesse recuperar a per - que não estou muito mal ; mas é
•«Lida vista , como estou*-certo q,ue re* I um desejo , que tenho .... ( Eila seu-*'
7.64 O RECREADOR MINEIRO.
, I- • n »

tia-se ir morrendo , mas quôrra rh e depois desdobrava as camisinhas /


Judir o dr. ) — Muito mal! pelo con- c beijava «as no Inger por onde devia'
trario f acho-vos melhor ( e duas la- passar a cabeça de sua filha , e Pa*
grimas iao-se engrossando nos olhos reuvell l disía tires— Fareuveli, esse
do. dr. ) — S i m doutor eu me sin- tao terno , e tão cumprido adeus dos
to nif-fhor. ( E as extremidades do rnglezes, *— E depois abria os vesti 1
corpo lhe estarão enregeladas ) Com- dos, beijava-as , dobrávamos de novo«
tudo ide buscar o pastor. — Sim e drsiaalhes adeus ; e depois prgova
sim , eu vou : ma*s por isso qne vos nas pequenas maias enfiava«as cm seus
obedeço com tanta promptídão j níiO braços descarnados beijava-as , di *
imagineis que vos acho em perigo. sia-lhes adeus; adeus lambem (.«
— Ah l como o illudi" disse com» seus olhos ião féisandor-se ) adeus aos
•sigo a mísera , quando o vi» sahir, çapatinhos, adeus ás loucas adeirt
«sinto que não tenho duas horas que a tudo adeus adens. Eella.já na'*
viver. da via e ainda procurava, ibeijar e
— Ahí como a illudi í disse o dr. que lhe ralava de sua filha , e jé
«mirando em seu carrinho : daqui a não podia acertar cotn a b o c a , . . .
duas horas* ella terá* ces-ado de pa-« Adet-js ! t i
•decer. E a.tampa do baú cahiu. — Sarai!
— Sarah ! Sarah! abre depressa feixou os cortinados, acendeu uma'
fsse armário,- depressa . dà-me o ba**] lâmpada, e orôtr.
*tt«-ziiibo d<5 cedro. |. U dr. Yong ao entrar no carrinho,
Sarah obedeceu í Mistriss Philipps morreu , alla-cado de apoplexia.
estava branca como seu travesseiro; Toda a fidalguía inglêz» precedia'
cila pôz as mãos e m cima do baú, o enterro de Mistriss Philipps, — O
•abriu-o , sustentando a* tampa : ruas rei linha, para honrai-a* mandada
•as forças lhe faltarão , a tampa cahio, suas «arruagens. DetraZ dos -grandes»
o cofre feixou-se. EÍIa o abriu de detraz dos nobres , detraz dos ricos,
novo . e com a veneração devota de detraz-do povo, delrfc dos pobres que'
quem pega em reirquiasssntas.com cboravão ,
a avidez ingênua de noiva que con- !
Ia um eao cego*
templa seus atavios , ella lirou do baú Entre os papeis de Mistriss PJii--
o enxoval de sua filha. Camisinhas Irpps* achou-se este testamento. ~-
bardadas , toucas graciosas , çapati- r, Todos os meus bens-, excfpto a casa
iibos-que mais andao na algibeira das em que morei que fica pertencendo
»ni«s do que nos pés da criança, brin- a Sarah,- serão para aquelle qoexom
quedos iiinumeros, bonecas de to- o favor de Deus, meu senhor mr-
dos os (amanhos- , ir mãas sem vida da sericordioso, achar minha Lucy.
irmãa que com ellas brincava : —- ,-, Os que me amao perdoar-me-hão
Mistriss Philipps as beijava nas faw não ter feilo esse sacrifício em qrian*»
ces que sua filha as havia beijado : to fui viva: meu marido também vi»
b "ftfcCRfíAtiOR MlftEIRÔV i.»

Víft *, e por isso eu nfiô podia dísp'r Ihoüelte i, Jhç disse o rei " o ves-
fienSo da metade da minha forlun-*; ..'• so castello de SilhüueUe é magni-
;>j.E oito annos depjis cm um pas» fijd. Qümtas janellas tem elle de
sojo de Londres, a, multidão sé api.
frente ? Não Sei ; ., respondèo ò
nhou n*um ponto , e nesse ponto viu-
se um Cflo puchando puchando pelas ministro , que de certo não con-
mangas, petas saias dè urha moça de tava com semelhante pergunta J
l5 annos. Espancad o , e elle uso a e o rei irmneilialamerite lhe vol-
abandona ; cdnçao-se de ospahcal-o, lou as dostis< »• Mr. de Silhou-
e elle se nflo cança dè srflVer ; sua etfe, „ disse Mr, de Caiácioli ,
cabeça' está toda ensangüentada, soii« embaliadot' de "Sapolès , que en-
guc e lagrimas sahem dás cavidades tão se achava presente ;.«« vós G-
de «eus c-lllos. A mpça bem que as--* ,t zestes muito mal em responder
sustada ,,pôde ler na coleira docao a .1 não sei ; quando se está con-
-fajafrá - - R d g , —- ella diz, Rog ! e 0
,. versando 1.0'ti Os* réis, é pre-
cfio larga o vestido que eslava dila-
cerando, e julgando-se reconhecido, t* ciso sempre iriostrar que se sate
èalta , pula de alegre , põe-se á an- ,,» tudo i ainda mesmo aqui Ho q«e
dar, e obriga a moça d seguil-o. Ella • > de todo se não sabe, Yale mais
vai pouco á poücÒ retcífdando cpdsas ii responder aoatíaso, do q u e c o n -
de quê já se não lembrava . está pa- 15 fessar igridranCia. Olhai ; ó rei
rede branca nao lhe é estranha , esta i, sabendo qtie eü já estive'ira
porta ,*-*•'. O cito poz-se a latir. ti Veneta , inopimdamente me
A porta abriu-se , e Sarah que n ,i perguntou antes de limitem :
veio abrir, recuou : a moça era Lücy*. >. Si*, embaixador- de quantos jú-
-r-Lord Philipps a, havia mandado; ri» izes se compõe o Conselho cios
Roubar para impossibilitar que Mistriss >, dez ? De dezoito , Senhor , lhe
Philjpps o privasse por.sua morte" da >, respondi eu logo Sem hesitar •
àdmiuislraçao dos bens de sua íiíha.
>, e S. M. ficou muito sati-.feitld
>, com a minha resposta. ,,
ANECDOfá.

Mr. de Silhotlefte eslava pira irVsrnticçÕEs ÍACOSICAS br. i-ftEf***-


ser apresentado a Ldü XV >' na BICO II A UM GBM2RAL.
qualidade de Sjndico-Mor do Rei Escrevendo Frederico II um.dia ao ge-
fro. ^Persuadido qne o rei o inter- neral Salriion sé expressava deste modo : „
rogaria sobre bbjéctos relatiios ao Meu caio Salmon, se pS Aüsliiaccs passa-
seu ministério , cuidou de veras rem pelo meu íerritorio j flizei-lnes que sé
enganarão no caminho; se quizèrem fazer.-?
em por-se em estado de poder vos observai-Bes, aprisionados : se se dei"
reíponder a ludo. •• Mr, <Je Sí- fentlereai, matai os.,-,
"1-6* O RECREADOR MINEIRO.

ÇAS-MEXTO A* GUISA DB GUI, ais acções olTendd a honra , e o


LHBRMB TELL, decoro publico; pelo que convém
saher a causa , que motivara esta
Nas gazetas francezas recem«ohega
das encontramos a seguinte anedoota: expressão. Havia uma pedra eleya»
" Huma das nossas dafnas elegantes da junto do pórtico principal do
e romântica!*, muito rica, e viuva ainda Capitólio da antiga Roma, aa qual
moça , annuncioii ha. poucos dias aos sons se achava, esculpida a figura de
numerosos pretendentes que se t,ohava re- ura Leão. Aquelles que fazi»
solvida a pqntrahir s.egunda,«i iiupcias,
E<ta declaração, fez a na-sa viuva no ão hanca-rota, ou quebra do-
çirçb. de Lepage, onde cortoorre diaria- losa , e que se vião na necessi-
mente, vestida de homem, pára o ex-erçücio dade de abandonar os bens aos
de atirar ao alvo á pistola. Logo os pie seus credores , erão obrigados a
tendentes que ouvirão a suspirada reso«- a«entar-se ni*s sobre esta pedra,
lução da sua dama se apuiharão em
torno delia para implorar a preferen- e clamai em alta v**_ — cedo bona
cia , porçuj, seu, ai dor esfriou «joosiclcra- —«. eu, abandono os meus bens ,
velmente quando a joven viuva lhes ma seguindo-se a esta declaração ò
niíestou que só daria a sua. mão de es- baterem treá veasus na dita pe-
posa aquelle que. consentisse em ter o dra com o trazeiro ; com efftjitp.
seu relógio pendurado na '>onia doa de-
dos , a 30 .passos de distancia, para sendo de inverno, , não era má
lhe servir de alvo, que ella pfóiwfettÃà peça ; pobres homens ! . Passada
çsmigalhar ao primeiro tiro i!c pistola esta pratica. - irrisória,,, ( que to«i
1.1. de, F.,.. , o mais intirfepido ou o davia j^ara alguns geria ;fo'rte*,
mais enamorado , foi. o única que con- melivo , para serem mais eseru-
sentip, cm admitiu- tão perigosa dau.iula.
Collocou.- sç com eiíeito, a SO passos pulosos , e não delapidarem os
apresento*! o sçu relógio e esperou, o bens dos cutroí) nao podião ser
tiro. Ç> relógio foi partido em. mil pe- mais inquietados^; & além disso
daços ap, primeiro ú$ox e a. viuva ouro- fie-aVão diffatnidos , erão declara-
prio a sua palavra casando, cora o in-
trépido pretendente. Hoje- não he co
dos intestaveis, e -ate não pt>»
nheeida em Pfuis esta seirhora, senão pelo dião depor em juízo como tes-
i)ome de. Mrtdame GuiÜiérme TelL" temunhais'; tali era a njanerea como.
corregião os, devedores dolosos»
A. PEBRA. DO ESCAHDA^O,,,
^o*^Osaaaaas^*^araBsaaaaaM»aaaMfmasa*w*ana^etoaama**m*w^

È. mui vulgar u.-ar-se desta A charada do numero antece--


«•«.pressão , quando se quer tor- ; d-ente è—-Tvlacabe— .
nar mais odioso o máo procedi- Oor, Preto, i» ,8. Typ, Imp, «|.
mento de qualquer, que çeías su- & X . P,-d*feèM v
O Recreador ineiro.
-fJfíBíHD -'•i l . « DE H41O p-j I.84B. N. 8t

UMA VINGANÇA,. dessas cúpulas , a união ria arte mou-


risca ao pensamento calhplico , tudo
concorre para causar essa feliz snrpre-
. '• Sois Francez, me disse D. Rafael ,
*, por tanto curioso , deixae que vá za que inspira um expectaculo nunca
p*i8car meu capote , e depois iremos visto, uma graça a que não estamos
dar umas vpltas , quero mostrar-vos as acostumados
bejlezas de SJaragoça. Gonduzir-vos-liej Apenas entrados levou me D. Rafa»
ao Pilar- à S é , passaremos pela porta,cl ao Pilar, relíquia de Saragoça, o
ejpassejo de S. jEngracia atp o Torero, santo baluarte do Aragão , no qual a
oaae admirareis a bellez. de nosso ca- Virgem Maria Puríssima dignou-se des<
nal. E' verdade qne não estamos nem c.inçsr quandp baixou dos ceos em au-
cm Pariz, nem em M»dricl comi nu- xilio, de seu povo para que derrotasse
ou com emphase >, espero todavia mos- os Mouros. Em torno do sagrado pe-
trar-vos que ha cousas dign>s de se- destal aíflue de continuo devota mul-
rem vistas n'esta velha capital dos reistidão. Para todo o bom Aragonez que
da , ArggSro. entra era Saragoça c o primeiro ne*
gocio , e mais urgente ir rezar seu 10-
Sahitnos, e oito dias depois ainda eu
mal conhecia o inextrieavel labiriutho zario aos pés da celeste rainha. Sol-
pejoqual tive de acompanhar meu guia, dados e paisanos , cidadãos e campo-
que as ruas de Saragoça volieão , cor. nezes , velhas , moças e meninas to-
re*n . .serpenteiàof como nm mal em- das vem ajoelhar se sobre a lage san-
pançado nqvello de linhíjs. finalmen- ta , e outra hulha se não ouve que não
te depois de haver dobrado vinte ye> seja o susurrp das preces e o som das
zes ps ângulos irregulares dessas linhascontas dos rosários. Kunca notei mais
achei me em frente da Igreja.de CJ. §, devoto recolhimento em igreja Irespa-
do Hila**, monumento extraordinário nhola : mas também que magnificen»
que -|pezar de sua mo|e irammepsa irão cia ' Uma capella, como talhada no
de*.xa de ter grap*j,.e ajegria,. Nume- mármore , e tão leve que «Jir se-liia
ru«.asforres erguem a por fia do meio sustentada pela mão milagrosa de Ma-
ria , columnas jonias, balaustradas de
do. telhado eseui o suas cúpulas verdes .
em quanto que um vasto znuboiio as prata mossissa , e 110 fqndq em cima
cobra todas com seus largos flancos de do altar radiante de luzes a Virgem
«•nnbra , e de magesiade. A mescla de Santíssima , vestida de prata , coroada
coces, a forma oriental do edilicio, o jde oiro e gemmas , e repercutindo com
brilho das ciu.es que adornão cada unu • seus Olhos de diamantes o esplendor
V-C8 0 HERECADOR MINEIRO.

das vcllcs que incessantes ardem dian. o vi parar na attitude do respeito - ri


te delia. Que effeito não devem pro- ao mesm > tempo que entrava com pas»
duzir tantos prestígios sobre um povo so vagaroso, e ar doentio acompanha»
cuja devoção è algum tanto pagãa , e da de uma criada vestida de preto ,
que recebe a f * mais pelos olhos do uma senhora , que escondia cuidado-
que pelo coração ! samente a cara no veo de Sua mantilha-.
Ensobei becido por ver minha admi Tinhão se nesse rápido instante o
ração, D.Rafael, como digno hespa semblante moreno* e as feições bem
tihol que era , não me poupou nem marcadas de meu guia revestido de
uma particularidade. Fez. me pas ar em notável expressão de compassiva a-
revista objectos d'arte, e objectos pre- diniração. Quando a sra. se achou suf«
ciosos de valor mais que sobejo para ficienlemente afastada . deixou elle ca-
servir de garantia a avultados emprés- hir o reposteiro , e lomando-ine pelo
timos. Em quanto tudo examinava-mos, braço: - Sois feliz , me disse, acabaes
indicou-me com o dedo uma cavidade de ver a mulher mais extraordinária da
na abobada da nave. — Eis ahi disse» Hespanha ; voltemos ao Pilar talvez que
m e , o logar de uma bomba fraiiceza , possamos distinguir suas feições.
a única que em 1808 veio cahir n'es* No entanto a dama que euacompa»
ta igreja. O povo acredita que a pro- nhava com os olhos , tendo-se dirigido*
tecção da Virgem não consentiu que directamente , para uma pilastra que ti*
cahisse, que viesse esmagar a multi- cava á esquerda d*. Virgem, como para
dão que se lamentava e re/ava no san» um lugar costumado , ajoelhou-se, le-
to recinto. Suspenderão-a os frades na vantou o véo , tomou um livro de Hore*
altura em que assegmão que parou , e que lhe deu a criada ; e nós por detrás
durante todo o assedio nós a vimos de uma columna que ficava em face .in-
essa mansa de ferro , librando ein cima vernos tempo de contemplai a com to-
de nossas cabeças signal evidente de do o vagar. Era bella ? que idade po-
que a Virgem estava com nosco. O mi-, dia ter ? Sua longd madeixa era loura ,
lagre não é dos mais authenticos , con- ou preta? Sua mantilha atraieoava ou
tinuou D. Rafael como para respon- não as graças aragorftzas voluptuosa»
der a um surriso que manifestava mi. rivaes das graças andaluzes ? Não o
nha incredulidade, mas certo é que ser» sei; não o vi: captiva-tne os olhos um
viu para dobrar a energia e a confian- único objecto.
ça do povo. D. Rafael era Chrislino , Sim , no momento em qne o ardor
como toda a classe mediada Hespanha, de minha curiosidade me fez lançar-lhe
grande inimigo dos frades, e algum rápido a vista, achei realmente mãos
tanto philosofador - elle nao sabia se de mulher vestidos de mulher - mas
acreditava ou não em Deos, e no en- a cabeça era de mármore : sim de "Már-
tanto tinha fé viva nos milagres de more ; alvo era o rosto , alvissimos os
seu Pilar. lábios, alvissiinas palpebras rebaixadas
Em fim , dando por concluida nos* occultavão-lhe os olhos um todo des-
sa visita , iaino-nos retirar, e elle er- maiado , calmo immovel como o a»
guia já a esteira de palha, que , como labastro. Nesta carne enrigelada rei*
m Itália , serve de reposteiro à entra- nava a tranqüilidade e a fé, e todavia
da das igrejas , quando de repente eu I não sei porque examinando com va*
G RECREADOR MINEIRO 1*69

gar essa tranqüilidade tão triste , sen» siderável. A affluencia dos pretendeu*
tia ir-se commorendo a alma até es* tes começou de novo a importunai a
tremecer - até chorar, mas pouco durarão seus suspiros. Não
Ella resava , e o movimento imper- sei porque ningnem se queix/m e
ceptível de seus lábios era o signal todos se affastaião.
único que revelava a rida ; nem um Chegou todavia o instante em que
instante se erguerão seus olhos nem esse coração insensível devia receber
mesmo em suas preces para encara» a faísca animadora. Entre os estran-
rem essa Virgem cujo coração foi trás- geiros que attrahe cada anno a repu-
passado por sete espidas de dór. tação de nossas festas do Pjllar a-
Há uma horrível historia inscripta chou-se um joven lord.
neste rosto , exclamei eu ! — Horrivel Cem de nossos mancebos erão mais
é verdade , disse flegmaticamente D. bellos do que elle mas elle tinha
Rafael, — E sabe la-heis por ventura? esse typo inglêz tão diverso do nos-
tornei-lhe com vivacidade. — Sei, e so 1 era instruído, espiriluoso , ele-
contar-vo-Ia h e i , respondeu-me , sur* gante , mas sua elegância não era a
1 indo se de minha impaciência , mas elegância hespanhola. Suas ideas , seu
não aqui ; saiamos. — De bom grado, modo de exprimi Ias erão ião diver-
que temo que a perseverança de meus sas dos nossos , que mal o entendia,
olhares tenha afnigido essa infeliz. — mos bem que fatiasse todavia caste-
"Miro o receieis ; ella nem si quer vos lhano mui puro, alterado por esse
vio , que para ninguém repara. tom estrangeiro que as senhoras achão
Entrei com D. Rafael era um bo- tão engraçado. De muitas conquistou
tequim -, é o lugar em que de pre- os affectos e com ella* divertio»se al-
ferencia conversão os habitantes de gum tempo , até que fallarão-lhe de
Saragoça, fomo-noi sentar no canto Luiza ; desejou vê-la , ficou delia e»
• mais escuro, e nessa bella lín- namorado * e não sei com que pliil»
gua castelhana , tão simples e tão har- thro captivou.lhe o coração tão facil-
moniosa contou-me elle a seguinte mente que dir-se-hia que ella o es-
historia * — Na #dade de i5 annos perava. A insensível moça sendo com
Luiza de V- era a moça mais for- delicias extender-se sua alma, como
mosa de Saragoça. Ainda que ro- que duplicar-se • a vida era-lhe flor
deiada das mais brilhantes homena- que desabroxava. Ella amava , e i n -
gênua o confessou: taes são as «lamas
gens ninguém tinha dispertado a po-
hespanholas ; quando amão , entre
tência de amar, que havia em seu
senlil-o e confessa-lo, vai a distancia
coração e quando sen pai instou que
única do pensamento á palavra.
aceitasse a mão do marquez de Milar
lioinqp. riquíssimo , mas de avançada A felicidade de D. Ai 1 Irus ( com esse
idade , ella condescendeo com a von- nome era conhecido o inglêz nesta ci-
tade paterna feliz por poder dar dade ) não foi mistério para niiignem.
prova de submissão de filha. No impulso de sua paixão , a inarque-
A morte do marquez deixou-a , na za parecia fazer garbo de ostenta»
idade de 17 annos , herdeira de uui Io. Nos passeios , nos bailes
fedia titulo , c de uma íormna con- no tue.tro. »»s partidas estava -em-
\%1% O RECREADOR MINEIRO.

pre pendurada ao braçq delle, co- tas : tudo estava disposto para que.
mo suspensa a suas palavras* Foi partisse n-i noite seguinte.- a irar.
por algum tempo uma fúria de cor qrezi «ionlrcceo que sua sorte estar?,
ínenUrios de contumelias femininas: va decidida.
a marquesa, nem se mostrava enver- A**" hora" marcada D,,* ^rtht*.-. entroti,
gonhada , nem se cohibia. Mas seus no palácio da marqueza : nem um
amores liuhão um não sei que , tão criado encontrou , foi a marqueza
terno , tão singelo e tão puro que quem veio recebe-lq . Elle ficou ex,«
todos se acostumarão a respeitai os lasiado '-nunca Luiza lhe havia pa«*
corno se fosse uma união consagra» reciilo tão bella , todos os soecor-
da e legitima. Havia 5 annos que ros que a arte e o desejo de agra» *
durava essa felicidade; quando Fer- dar podem ministrara uma moça for-
nando Vil e sua corte vierão pas- mos^ , brilhavão , surriàq , arredonda-
sar algum lempp em Saragoça. vão se em sua (-encantadora pessoa ,
Muitq agradou a D, Arthus esse seu vestido franco/. , as cores de seus
acontecimento que lhe promettia dis- atavios . seu p^etjteadó tudo havia
tracções e festas. Trez annos de du- sido combinado para dar realce à sua
ração lrayião bastante lesfriado seu belleza e a sua graça *. viva , mas com-
amor ; sua boca achava ainda juras primidas conimoção dava a seus olhos
e promessas , mas não as dietava mais inexplicável brillíq e fazia sobresahii*
O coração. Entre as bellezas da Cor- O azul de suas veias na fina c delica*
*.e uma moça de Sevilba , pela y}ya- da pele de seu rofto. — Pcrdoae es»
cidade de seus, olhos , e por esses en* ta reçepçfq , meu caro Arthus, disse
levos andaime» atrauio-lbe a attenção: lhe ella. vosso bilhete causou-me sur-
ella resistiu-lhe , e a resistência e os presa , que q não esperava , a to»
obstáculos que ella oppunha , «le um dos os meus criados déi hcepça pa«*
«capricho fizerão uma paixão. Nada é ra irem boje a festa de » . íiqueí
mais prespicaz do que os olhos de u- $6 com minha çainãrista, Mas sup-
*çna amante; a marquesa sentio im- piiremos a essa falia . ajimtou com
mediaiamente que Arthus lhe era in- um tom meigo e carinhoso', e en*
fiel Occuliando no entanto seus ze- quanto me ti verdes a vosso lado npn^
Jos , ella perserutava-lhe todos os pas- ca vos filtari quem vos sirva.
so? , g disfarçava quanto descobria. Graças & marqueza ', o jantar este-
Em fim soube quê o inglêz se dispu- ve qlegre e animado , £) Arthus <pn*í
nha 3 fugir secretamente com sua. "no- cantado nSo se cançava de excitai-a,
va amante. Em seu espirito germi- e de quvil-a. Ella patenteou então
narão do prompto as mais extiaya- recônditos thesouros f*.e jqvialidade e
pautes resoluções : a noi|e que pas*» de deliçade-zá: Arthqs sentia que se a t
8QU foi tão cruel que ella não dtj- leayãq , se n q em seu coração ^ a o
sej|ria igual a seu maior inimigo, Ao menos em sua cabeça algumas faís*
amanhecer recebeo um bilhete dp pér- cts «4e seu antigo amor. iVJais de u-
fido .- cqm termos cheios de ternu- n*a vez elle; achou-se triste e des-
ra supplicava-Uie licença para vir jan» contente : na véspera de sua perfídia
iar corn ella: era um meio de que teria querido vel a menos alegre é
l^Ç-ava mão atim de desviar suswei» menos feliz*. * »"
O RECREADOR MINEIRO: i*7i
«-—
Depois, do jantar , ja com seus cs»Uma voz em que mil diversas com*
íiqhos,, ja com seus folguedos , ella ir.oç3es se conftindião, jtirastes qae
o foi levando insensivelmenle para fo- me não deixarieis se não moiieiido,
ra do salão , e insensivelmenle acha-. preparai-vos pois para morrer. — Não
rão-se no jardim perto de um ban- te julgava tão perfeita no gênero ira-
co de pedra em que costutnivão sen- gico , minha linda actora, disse Ar-
tar-se. 0 inglêz uTio pôde resistir a thus si*rrindo'Se , mas com ar ínrruie»
to. —Desgraçado! inieriompeo ella,
taritos attrativos, elle tinha recupera-
do'todo o seu amor: sua linguagem nâo rias , sei de tudo ; lu me aliai-
era" terna a da marqueza chasquea* çoaeste , quizeste fugir com ouira a«
dora : elle procurou abraça-la mauhaa de noite, as escondidas, co-
ella
fugio lhe leve como um pássaro. mo um ladrão , como um cobarde,
não ti assim ? ignoro alguma coisa 1
-f-Uin beijo, Luiza, dizia Arthus cor-
rendo atraz delia. — N ã o quero da- D. Ai thus aiU-rorisado nao sabia o
]o e contra vossos ataques serve-me que respondesse.
de, abrigo este banco, — Esse banco? — E tu te attreveste, continuou ei**
disse Arthus e dando um pulo achou- Ia , a conceber semelhante piojecto,
Se ao lado delia. não recciasle minha vingança ? To»
'— A gilidade de jnglez tornou Lui- mavas-me por alguma fraca lngleza ,
Sa, um Hespanhol saltaria por cima tomavas-me por um brinquedo que
se mau.Ia deitai fora , , quando já tem
fâelle com os pés attados.; - lal-ohiéis
taiiibein? — Será minha recompensa bastante servido. Oh ! meu Deos ! co.
um* beijo ? — Sim uni beijo , e a- mo acreditar que elle um dia me ha.
baixou-se surrindo , e com sua man- via de tractar assim t Lagrimas de rai»
Va corrião-lhe dos olhos : o teriorde
ta etou-lhe 'forteAiente as pernas.» D.
Arthus ia npplicar as mãos ao ban- D. Arthus tinha subido de ponto , ei.
co para pular. — Não , dis&e a mar- le se via entregue à mercê de uma
mulher delirante de desesperaçã» e
que»,* , não, deve ser assim ,' seria ga-
nhar deslealmente , nao deveis seivn- de ciúme -. fez esforços porá levan-
•os de vossas mão* — Pois h e m l a - tar-se lançando os oluòs em derredn»;
tae*as % disse Aitim*-. do jardim como quem procurava Jcc»
Ella as tomou com. vivacidade , e c o r r o . . . . — Queres evitar-me , não é
ligou as e m solidez O mancebo dis- assim ? disse a marqueza respondeu*
punha-sc de novo para saltar ; cho- do a seu olhar e a seu pensamento.
que' imprevisto o fez cahir : elle le- E' impossível ! h* ter com a outra ?
vantou os olhos para rir com a mar. não pendes nisso ! Tu e's méu , e's
quei» dessesinistro: que súbita mudan-meu. Tu para outra t Não nâo ,
ça cin-^uas leiçôes f nunca !
Seu rosto estava pálido . seus deu. — Luiza' se me amas ... disse Ar-
tes apertados, seus olhos lançivão thus com vozsuppücante.—Se te amo!
fuga., seu peito palpitava sua mão julga pelo que faço. —Elta inclinou
convuloa eslava annula com um pu» se por cima delle , applicoullie so-
jii.al. bre os lábios um beijo -phrcnetico«
—• AÍ.bid. disse-lha- em fim co;« o Ipgle- duo um g r i l o . . .
1*7» 0 RECREADOR M1NER0.
•»-T

'* Chegado o dia da festa , prc-«


Muitas semanas f continuou D. Ra« parava-se o rei para esta devota Cd*
*ael , silencio lu-mbre reinou uo pa- remonla , confessando-se 6 coinmuri.*
lácio de Milar •* duas Vezes somente gando Os doentes reunião s** em
nesse intervalo abrio-se a porta j à em Uma das maiores Salas do p;,|ii-
hoste, para dar entrada a um velho cio onde o rei depois Vinha em
monge confessor da marqueza j em grande pompa e acompanhado de
fim um dia virão sabir e dirigir-se toda a sua corte. N'um aliar pa-
para a igreja esse cadáver ainda vi- ra esse lim ali ptc-parado celebra-
vo que tanto vos comoveo , é o que
lesta de uma das mais bellas senho- va missa o cápellaõ-mor , que Io-
ras de toda a Hespanh. dos ouviaõ de joelhos e com as
maõs posta*, invocando o auxilio
O PODER DÈ CURAR AS ALPORCAS.
de Deos pelo ministério do rei.
" Acabada ã missa , metliaõ to-
A ignorância da idade media at- dos os doentes em uma fileira, Etf***
tribuio aos reis de França e Ingla- taõ o rei , tendo a direita o .grani*
terra o poder de curar as afporcas de chanceller , e á esquerda 0 es-
com o simples toque de seus de- moler-mòf* , chegava â frente de*
dos : nao consta com certeza a o cada doente , ao mesmo tempo que
rigem desta pratica supersticiosa : por detraz deste os primeiros mé-
porem alguns èscriptofes a fazem sti» dicos e cirurgiões d*e!'*rei ihe se»
hir a S. Duarte . rei de Inglaterra guravão a t cabeça bom ambas as
e a Clodoveo , de França. O cer- mãos , (evantando-lh a para que o
to é que por alguns seculbs durou rei o podesse tocar mais cominuda*
esta crença extravagante ; e eis aqui mente.
o modo por que se fazia a ceremo- " O rei estendia a mao sobra
nia publica , segundo refere um an-
a cabeça do doente , passando-Ih'*.
tigo historiador francês;
depois sobre o rosttt desde a testa
•* Nas grandes festas do anno se alé á barba , e de Uma a outra
reunião na corte todos os doentes orelha , dizendo at> mesmo tempo í
escrophulosos , que não só das pro« — o rei le toca , e Deos te cura»
vincias da França , mas de mtii re- e lançava lhe depois a sua beuçaõ.
motos paizes estrangeiros , vinhaõ *" O esmoler-mór dava logo ao
procurar o remédio a seu mal. doente a esmola de cinco soldos aos
" Ao passb que vinhaõ chegan- estrangeiros , te de tre-e soldos jos
do , eiaõ visitados pelos primeiros Frãnceües * e em quanto os olhei.
médicos do rei, que alistavaõ os aes da corte o fazião retirar para
verdadeires doentes e despediaõ os fora da sala , para que naõ fosse
fingidos ; pois muitos procuravaõ metler-se em outra parte da fileira
introduzir-se, por causa da esmola afim de receber duas esmolas , o
que se lhes dava*. )3iurd9mo-inór apresentava a tsi-tt.1
O RECREADOR MINEIRO. I.-/3

l)'tíma salvo dâ Oüfo Uma toalha mo- te quereres refrescar,- e pretendei


lhada em Vinho e água , para Ia*» lutar com especuladores tolineiros
var oS dedos com que tocara aquel* cuja posição social è formada pelo
las moléstias imniundas. jogo.
•• Ar-sim continuara a fazer se até — Julgas por ventura que estou
ao ultimo doente. Findo este aeto bêbado ? Ku não bebi , ou, se be»
de exemplar caridade christâa , re- bi, foi quasi nada: aquelle que mo
tiráva-se o rei A jantar , sendo as- disser que eu bebi é um tolo • di-
sistido de toda a sua corte. go-lhe que mente formalmente , cm
•« Entre os estrangeiros linhaõ os signal do que lhe lanço a minha
Ilcspanhòes sempre o primeiro lu- luva.
gar, o Nao havia ninguém na rus , se
O que o historiador esqueceo de não um cão sem asylo e sem do-
dizer-nos ô se os doentes saravaõ; no , que gostava sem duvida de pas-
mas cremos nós que o remédio naõ sear muito sedo : a (uva lhe voou
eer.a muito eflicaz. ao focinho ; o quadrúpede agarrou
com gosto n'es',e novo projectil. Giu-
lio arranca immediatamenle da ts*.
pada , persegue o cao, alcança o,
' A TORRE NEGRA. lereo de um golpe mortal e recon-
quista sua luva.
Haviaõ apenas alguns minutos que — Tenho um escrúpulo , diz el-
o sol nascente dourava a ponta dos le um minuto depois ; o sangue da
campanários de Verona, dous man- um cao, de um animal dos mais
tebos SahiràO de uma casa de jogo vis , manchou a minha espada,
onde tinhaõ passado a noite inteira que agora é indigna de figurar à
i agitar cartas e dados : erão Giu-* cinta de um homem de honra.
lio e Antônio , aflitos primos , per- ti quebra a lamina curiosamente
tencentes a uma antiça familia. Ac- lavrada dè sua espada e lança os
crescentarei , para augmentar a e- pedaços d^ella por cima dos muros
xactidãd de minha narração, que de um jardim.
se estava no mez de julho do anno -—Se vés n*es*e andar» meu ca-
que vio Henrique II perecer *n*um ro , ê preciso que tenhas nchado
torneio. a pedra philosophal. Perdesle esta
—-JÜaídiçtio . exclamou «Giulío > noite 4 ooe sequius * quebra-s a*»
nao ore deixarão na argibeira um só gora uma espada que vale cento o
seqtíim , um s-ó miserável ducadol cio conta; nao es ra-snavel.
-*-Devias esperar por isso. Sem- — Nao sou rasoavel, replicou Giu -
pre assomado, e muito animado por lio > qne* quasi nao conservava a
luas freqüentes libações > esquentas- lucidez de Suas idees ; mea caro ,
te-te consideravelmente â força de' olha , vis a<j*.efla losrc , a do tor-
O RECREADOR MINEIRO.
-.»7<*

leaõ do defunto meu pai • pois te- cios , cujas paredes so elevavíio a
nho alli mais ouro do que imagi- prumo acima das águas do Ariiga ,
nas mais do que posso dizer ; le- espécie de cidadcllas onde as dis-
nho tanto que me posso fazer rei córdias sempre renascentes, e mui*.
de Verona , se assim me agradar. Ias vezes ensangüentadas, das republi-
Sim ffa*me a fantazia de comprar cas italianas forçavao cnlao os .no-
\erona toda .* homens mulheres , bres a tomarem domicilio. Dirigem»
creanças , cães, gatos cavallos se juntos para uma torre , sobre
animacs e gente. Aqui , meus sab- a qual tinha a idade lançado um
ditos , ^sois meus i pago^vos a di- crcpi sombrio ; chamavâo-a sórnc.u*
nheiro não apreço ; ponde vos de a Torre ÍSegra, Sobem uma esca-
joelhos ante mim quero que me da estreita , tortuosa interminável;
adorem : lenho ouro quero obras em cima de tudo se acha uma por-*
-primas , imensos palácios ! Poetas , ia guarnecida de chapas de ferro :
á obra, fazei-me cousas sublimes • Gifjlio introduz uma chave na pe*
eu estou acima da lei, acima do Do sada fechadura : os dous mancnbos
ge , acima dq Conselho dos Dez , yiitrao i)'u;ii quartinho abobadado quo
acimt do imperador, estou. 11.10 recebe claridade se nao por al-
— Estas doido , trez vezes doi» gumas aberturas engradadas de fer-
do archidoido , meu caro. On- ro : corta pejo meio um tu bique de
de sonhaste tu que tinhas todo o espessas lâminas de ferro e dian»
ouro de que tens a hocca cheia ? Teu te de uma espécie de posligo so
pai era rico , bem o sei ; mas o estendo unia pequena plataforma
que elle le deixou não justifica o muito pouco elevada.
teu dilhyrambo. Giulio se appioxima com uma
— Meu pai / Julgas acaso que espécie de precaução , fuss andar u*
elle revellou a ninguém o segredo de ura mola secreta : o t ubíqua se abre
sua opulencia? Escuta , Antônio: e dei*;a ver um va.-lo» quarto enta,
nós somos desde a infância como lhado , c o termo, de moedas de
dous irmãos , nada temos tido de ouro f. de ha:ias de ouro.
occulto um para o outro ,• creio po- — Eniao ! tinha ou naõ tinha eu
der confiar em li Meu pai me ti- rasaõ ? Qne dizes aporá Antônio"?
nha recommendado expressamente E , tornando a fechar a por»
que nunca revelasse este mysterio a Ia e pegando em seu primo pelo
ninguém : mas tu és outro eu : ve- braço , Gjulio so preparou a rédea
rás meus thesouros ; segue*» me. cer Anlonío permanecia como p7j-»(
Cada vez mais exaltado e ceden- trifícadi) de pasmo,
do ao accesso de ternura que a em, — Par quem 6s flizj-me, meu
briaguez determina em certos co.-c-« caro como se acumularão em lua
bros, conduzio Giulio seu primo a casa todos estes thesouros,?
um desses sombrios e negros palá- —- Nada sei .* creio que isto re**
Ó* RE&RBADOB MINEIRO. Í*7«>

•«« n iJiá
monta* aa 'alg.iiway
a gerações : eu uno — E' um primor de obra , tor-
tjivé cütthecfinehtr* da c-inteneia des nouGíulij-* com " complacência : vês
te 'fosedndrijo iehtto por um escripto agora que o alçapão eslá fechado,
que , no seu leito de morte , 3 meu posso bater c<nn o'pé sobre «elle
pái me entregou fechado ' com trez dançar e pular cm cima ; é solido
ohreas. *" ' como nina' rocha V " edm tanto que
—- Os ladrbes poderiâo arruinar**-te. eu nao loque n'tiste'ferrolho. -**i
'••—líih piiii.eiro 'lugar deveriaoto- E batia 'com força sobre o sda»
mar conheciu.-p.nto das localidades. Ihü." ' '-»* 'Cl n<pt j ,! ,,,
1
Tu'vais ver. Toca COih ttia espada Uni ginsto rápido, como o relâm-
noite ferrolho "q-ie paretíe dever ser-' pago *í"—um grito agudo e pene-
vir''pára se abrir o póstigò. Acau- trante . — Antônio se pirei pilo» co-
tela-te." •* ' •*•• *•*••• " ' " •'"•'*• mo louco fora de-se quarto funesto,
;
' 0 soalho se entraibrio "iinmedia- estava só. «-'>*• '"t* * -M , »> .j»
tamente , e deixou ver um sombrio A corrente do Vio linha lançado
O negro abysmo , tio fundo do qual sobre a arêa ,* um > pouco abaixo de
féfaiao Adiga': lâminas agudas dís- VcWiina , o • cadáver *** mutilado de
postas; de travéz devião mutilar o Giulio. * A 'hfi -c n,r.'i :«n:
desgraçado' que cahissenaqtielle sbr- Forão apanhados na rua os pedaços
vetloütó'1: era uni alçapão que-na de sua espada, havia sangue na cal-
da . deixava que desejar ao conhece- çada,1 e pOde-se Crer com algum fun*
dor o mais difficil de satisfazer nes- damento que elle tinha 'perecido nfu-
se gênero. '• L,a '•'•'• ma d'essas contendas taõ: communs
f
- — Parece', meu caro prOseguio entaõ. Seus bens. passarão a An-
Giulio, que esta engenhosa maclii- tônio , que tomou pos«e do pa»
ná foi feita u, por Orilem *do um de iacio c que estimulou sem des**
meus antepassados ', por' uni mecha* canço, porem sem proveito , a**-
nijta0allemio muitou pi>tito ; tu vCfz diligencias da senhora justiça afim
que nella se sireriíicou inteiramente de se doícobrirem os assassinos de
o* 'agradável* ad * ulil. '•* Depois de a- seu primo. ""• • on . •*#•:
cabada, receou meu avô qüe o a*, Dilacerado de remorsos, mais des-
lemao violasse o* segredo do escoa*.* graçado cem vezes no meio de sua
drijo : allrahio aqui sob': preMÍto opulencia do que o cego que men*
de algumas re*parações , e o (fgz ca- diga seu paõ ,? Antônio arrastrava u«
hlf' no ábvstno.' Zas'.' foi tlitò e ft*i- ma vida miserável ; casou-se : sua
to^era rileíii ' d'isso , um processo mulher «i.baltiva ,'Caprichosa , lyra-
que não autorisaviio os propi-iOs-coS'- nica lhe fez solírer mil males. Mo
tumes- do fatnpo. <• '•*•>-' * • • "! cabo de dous annos , ella Ibe pres-
-Antônio';'ha*da respondeo: seu o- tou , bem 'contra a -sua vontade ,
íhéf-4-1 ostava fixo , frio auór fhe eo- um grandíssimo serviço; morreo:
bria o ro.lo.J deisava-lhe uma filha par nome Bi-
O RECREADOR MINEIRO
I»76

anca. Foi n'esta filha que Antônio dizia Bianca uma manhâa a sen es»
concentrou todas as suas affeitões ,* pose acreditara* que eu conheço
amava a com a mais fervoro-a tar» aqui um lugar onde ha dez vezes mais?
pura : ella fazia sua única felicida- E contou como seguira seu pai á
de só ella por momentos de* torre , e retrucou tudo quanto li-
senrugava um pouco a. froute car- nha visto.
regada do homicida. — A cousa merece confirmação,
Curiosa como uma creança mimo- respondeo Lorenzo, queres que Vja*.
sa tinha Bianca reparado nas con- mos verificar o faclo ? NAo;qi;e nâo.
tinuas idas e vindas de seu pai á sejamos ja bastante ricas ,* , mas meu
Torre Negra. Um dia , seguio-o pai repetia muitas vezes que , para.
de longe nas pontas dos pés , olhou se ter bastante fortuna 6 mister.ler-,
atraz da porta entreaberta , e vio«o se muita de mais. Se é nosso to-
«star a encher saccos com ouro do o ouro que vis,te , muito tojps
que tomava ás maõs cheias no for- seriamos em deixa-lo lá sem lhe to-
midável cscondrijo. Tomou a des- carmos. , ,; 0 „.
cer. Antônio tranportou todos aquel- De braço dado. rindoyse cóiuo ;
les ihezouros para as adegas do pa creanças que fogem da eschola , sa-
lacio ,* fechou enlão para sempre gnem ambos a escada da Torre Ne-
as portas do sombrio torreão , e gra ; abrem , naõ,, sem .djfficuj..,
nunca mais se aproximou d'elle. dado a porta cujas molas eslavap,
Sua filha guardou o silencio; cres- carcomidas pela le. mijem : ej-Lps
ceu e chegou á sua décima seti* no quartinho abobadado. Com, uma
ma primavera. Um mancebo de uaaõ em roda da cintura de sua
uma das melhores famílias de Ve- mulher que se indircita em seus,
rona vio-a , amou-a e lhe agradou: mimosos pés arregalando (i os olhos,,
coucordou-se no casamento ; mas, que dilata a curiosidade, Lorenzo
pouco antes da épocha aprazada carrega coma outra no ferrolho do
Antônio cada vez mais atormen- perigo, •
tado , expirou no delírio de uma O escondrijo estava vazio, Pô-
febre ardente , antas de ter podi- de-se ouvir um eslridor semelhante
do dar o nome de genro a Loren- ao de uma ponte lovadiça que se
zo delia Scalla. abaixasse e se levantasse de repen-
Um anno mais tarde, acabavão te cotizo por meio de uma mola.
Bianca o Lourenzo de ser unidos : No dia seguinte , estaca a cnihe»
as riquezas achadas nas adegas do dral de Verona illurninada e arma**
palácio linhão enchido de e-pantoa da de preto * celebravaõ-se as exe«
cidade inteira , ç forão durante três quias de Lorenzo e de Bianca: al«
mezes o ohjecto de todas as con- guns pescadores tinhaõ achado nas
versações. águas do rip seus cadáveres corber-
— A propósito deste dinheiro » los de horríveis feridas.
6 RERECADOR MINEIRO. 1*1
V
O soiiiiio. gar a controvérsia quando sôa a meia
imite, e tanto o homem jovial como o
. Entre as muitas modificações que trjsle, o esperto como o tolo, o fatia-
• orgulho do homem a cada passo en- dor como p taciturno , o trabalhador
tWOtra,, « principal é a ignorância das como o ocioso, todos cedem aquelle
(ausaa e efleilos commuiis ; defeito poder benigno , e repousão nos braços
tanto mais sensível, quanto maior é do somno,
Si diligencia que fazemos por desvane - Tern muitas vezes a philosophia di-.
ea-lo. Os entendimentos supcríieiucs .ligenciado reprimir a soberba,, in-
confundem ordinariamente o effcilo sinuando que a todas as dignidade» e
OOm a causa , e julgão conhecer a fun- condições nivela a morte ,* mas esta i-
do a natureza das cousas se alcanção déa , .posto que humilhe o homem feliz,
»aher qual é a fôrma dellas c o seu u- nao pôde confortar o desgraçado , a
so ; porôm o especulador , que senão quem será mais jucundo o pensar q^o
Satisf»z facilmente com idéas vagas, o somno, assim como a morte , iguala
cansa a.sua curiosidade, o quando lhe todas as creâturas; lembrando-se , 110
parece ter já descoberto muito,, fica meio de suas fadigas, de que mo dis-
eiilflo conhfecohdo qu_> limitados são ta muito a hora em que o halsamo do
os teus conhecimentos. repouío se derrame sobre todos os vi»
O somno c um entorpercimento em ventes , qualquer que seja a sua idade,
que se passa boa parle da vida. Não sexo ou estado.
ha animal conhecido cuja existência Refere-se de Alexandre Magno que,
não,tenha certos inlerviillos de insen- no meio de suas soberbas conquistas e
sibilidade,, e alé alguns modernos phi» cercado de tanto esplendor, declarara,
losophos estenderão o império do som» que somente se recordava de que era
no ao reino vegetal; porém ainda nin» homem quando linha precisão de dor-
fUam atinou com a causa efliciente ou mir. Seja' o somno necessário ao es-
Í inal desta alternativa tao freqüente , pirito ou seja necessário ao corpo
t»o importante , tio geral e necessária ; sempre é evidente documento da fra-
ainda se nao sabe porque força irresis- gilidade humana. O corpo que ião
tível ficão por muito tempo o espirito freqüentemente exige renovação de
e os membros n*um estado tão pareci- farças, não dá provas de immortalida-
do com a morte., de; e o espirito, que se deixa gosto-,
Seja qual for a multiplicidade e samente cahir na insensibilidade , is-
difforença de opiniões sobre este obje- tá mui |onge da verdadeira felicidade.
cto, fempre a natureza tem zombado Nada t
**. tão capaz de reprimir as vio-
das theorias. O mais solicito observa lentas paixões , perturbadoras da paz
dor nao será capaz de conservar os fo- do mundo . como a recordação de que
lhos por muito tempo abertos; o dis- muitas vezes , sem querer, se desce da
pulador mais teimoso e obrigadj a lar- j mais alia esphera ao piais iufeiior aba*.
1.78 O RECREADOR MINEIRO."
»-9
limento , de que nao poucas deixamos thodo particutaV^-^àfa ^dissuadir a$
voluntariameiito os bens da vida para idéas do seu estado pre«enle.
jios envolvermos nos seus, males; e de Não é muita a porrjáo 'de vida ojua
que n'algumas horas todo o esplendor applicamos a nossos devores , e cada
esmorece a nossos olhos os mais lt- dia deixamos fugir muitas horas eeoi
•songeiros louvores perdem-se para os proveito algum intelleclüál.' Andamos
.nossos ouvidos, os sentidos lição es» •muitas vezes oecupados em illusões
Ara n li os aos objectos, e a razão per. fantásticas, quo seremos pouco depois
•jmaiiece inactiva." obrigados a deixar para sempre , sem
Que sao pois neste mundo e a que sabermos em que tem-os --gasío1a vida.'
•se reduzem Iodas ás esperanças e ma* Alguns ha qwe-reputãof*'por . mais
gniíiccncias que lra«í com sigo a cobiça, gratos momentos os >q*ue passáo na
a ambição e a rapacidade ***' Deixai que solidão, entregue**, "á própria1 imagi*.
o ambicioso consiga quanto deseja, ve- nação que ás vozes lhes: põe sce«
ieis que nunca chega a estado lal que ptros na mão ou mitras na cabeça,
por um dia e uma noite se repute Sa- que lhes varia a scena dos prazeres
tisfeito , sem ter a'gum inlervallo" de por rril medos, e os deslumbra com
"repouso e esquecimento da vida ,' ain- fantásticas illusões de belle.as e de
da quando estivesse na sua mão dei- regalos. E' fácil, sonhando, reunir
xar de dormir. todas as felicidades possíveis, trans-
Miserável loucura é um homem in- tornar o curso do sol , fazer reviver
vejar a fortuna de outro , quando ainda o passado e anlicipar o futuro , go-
este nâo está com ella satisfeito. Ka« zar as bellozas das estações todas o
2aò ha par? acreditar que as distincçõas as producções de todos os climas.
humanas tem mais de apparencia que Tudo isto nao passará de um lison»
ún realidade, pois que todas em ge geiro sonho , ou transição momenta*»
xal se reputaò mais cheios de cuidados nea das realidades, da vida para fie-
cjuè de prazeres , e que , tanto o forte çõef aéreas que mostra a sobordi.
como o fraco, tanto o sábio como o i- nação habitual da razão â imaginação.'.
gncranle, concordão cm um desejo Outro* ha. que receiáo estar sós .-*
universal , qual é o implorar da na» e entretemrse era suecessivas compa-
lureza o doce nectar do esquecimento. nhias; porém nao 6.a differença con-»
E* tão forte o appetile que ' temos •sideravel : sonhamos na solidão e Iam*
ile abstrabir-nos de hós mesmos, que bem na assambléa e o desejado fim
bchi poucos ficão satisfeitos sô com á de tudo isto ó o esquecimento de nós
porção de somno que hasta para des» mesmos ir., o somno •' - •
canso do corpo e do espirito. O já
cíládo Alexandre jantava a intenípe-
ràriça ao somno, e com os vapores
de vinho allíviava o peso do s«beplro Our? P í e t o , ; i 8 4 8 . Typ. I « p . «Je '"'i
do mundo : quasi lorjos lem seu ráe- B. X. J». de Stm»«.
PERIÓDICO LITTERAUIO.

•fjíDUII) ?•* 15 DE MAIO DE 1848, N.*8_

O AJIANTE DE UMA IMPERATRIZ. toria tocante de furna alma fiel e obs-


cura , perdida pelo capricho de huma
H a na entrada fliie conduz, p viajan lesta curoada. A po.ii-* os pa>^os de dis-
te de, & Peter*l>urgo a .* Tzar-koiofílp tancia da casa deserta, lia perto de
uma pequena CARÍI regalar, .construída vinte eftoupanas de moujiçks, que pa-
Segundo os prinóipios da arte. grega, e i ecetn estar semeadas na-- bordas fio re-
notável sobretudo jielo bom gQ»,1* e pu*. iratp;. e mais longe os túmulos dos lia-
reza dos orn»tos. O gênio., çsplavonio, ' bitaol.es da aldêa fazem voltear n'uma
tío poueo dotado d' originalidade, re- grande extensão de lerceno" suas ruas
produzio com paoiencia todas as parti- ; mortuaria*. Deixei a estrada, e desvi-
cularidades de,uma casa at-tica* As ar- ei -me do „ edifício grego e arruinado
vores e os .pinheiros do norte se* agi- ide Calliaiina paia me diiigir para este
tão em torno destas elegantes jeíihi,- cemitério , ti' uma tarde d> outono de
Binatas.eseu murmúrio. pareOft-fer um 1826. Não se ouvia su-urro algum:,
amargo queixume coutra esta inva**ão o ar era frio , e profunda a solidão*
da arte..brilhante' e meridional nos pai- .0 monótono oatalago destes nomes de
zes do septeiitrião» Aq-ii vemos estes defuntos obscuros , e a enumeração de
pórticos, e.estas arcadas destinadas em todas as suas virtudes patcrnnes, filiaes
outros tempos a o/fercoer aos ^assean- conjugaes e t c , tinhão jà fatigado meus
tes, uma doce sombra e uma salutar olhos, quando descohri ejf. um canto
ftjescura , que hoje % vento norte açoita poi;, do cemitério uma pedra negra sem no-
espaço de uove mezes , sibilando com me e sem inseript-ão* Assentei-me jun-
ijonja no meio destes Ijios mármores. to delia, e perguntava a mim n.esmo
Aqui se ,v£ as atvtigas estatuas , hei- quem poderia ser o anonvino hahitaatc
lia, pela sua nudez pagaã, que offeiide (lesta sepultura. A igualdade taõ gaba-
a-vista, em um pajz obiistão, Todas as da,da morte, dizia eu, será também chia
j»i*f}|las estão fechadas ha 40 anno-;;, e jncrica? pois também- haverá paixões,
o**,,-pinheiros, incultos , o , terreno árido , debaixo da terra, assim co.no as ha
as ruas dp jardim apagadas e deslcitas, em cima delia?. Nenhum signal,
zpmKrio boje da ,arte e dus lhesouros nenhuma palavra havia que excitasse a
pj-odigalisadoà pela imperatriz, que em memória deste finado. Alias hervas cer-
c#vtr,o tempo .cieou este retiro para os cavaõ o sepulcrt*; o verfe musgo arre-
snis aurore**» . dondava seus ângulos, tudo annunciava
A historia desta babHaçla he a his ijue o corpo sobre que pesava a pedra
VI*'J
127S O RECREADOR MINEIRO.v

jazia a'i -desde muito tempo. Mas para dorme debaixo déstã' pedra teria iim no-
que er\ este silencio e este esqueci meu me brilhante, que o mármore, o ouro
to de inscripções fúnebres ? Os eriliies e o diamante ainda .não serião dignos
do defunto teriao'sido tão horríveis qnr •)e transmitir á posteridade. Mas não
fosse indecoroso publicar lhe o nome r vades vós trair-me , porque se bem qmf
Era este na verdade o único liimulo os tempos em que reinava a grande Tza««
cuja merroria naõ linviá sido conser- riria svjSo passados , e niftgufem aesfáf
vada por uma fiel afleicaõ. alJêa conheça já o pobre And rei e seu
— Pobre dormente / exclamei . eu in irmão , o velho coVeiVo , a maldade""ètrm*
voluntariamente, sozinho entre estes mor- tudo nunca morre , e eu tenho um neto
tos tu te introdiiziste entre elles como que he tambor na guarda impeíi-f.
sa fosses hum foragido ! O atijo que no Grabowi'cli calou se. Approximou-se
dia de juizo , vier a estes lugares para da humilde pedra , com o baffretc na
chamar seus habitantes que nome te mão, e os cahellos brancos fifot trato dbf
dará? P« r quem o saberá elle? Será i mercê do vento; depois lançou Uma
por esta dourada flor cuja raiz se tem comprida .vista sobre o tumu!d' eoberto
alimentado no sangne de tuas íêas ? das grandes hervas , como se elle fi**-
E terá ella (alia para contar a historia zesse penetrar seus olhos e sen espi -
«'aquelle que seus coiio-dadaõs nao on» rito 110 mais recôndito do sepulcrr*. A
sàraõ nomear? sua narração pareceu-me singular é c»-
A minha solidão foi interrompida pela -acteristica. Á* semelhança de todos o»'
apparirão de um velho monjick de liussos da classe inferior , á qual ain-
barbas brancas , que havia jà alguns da não chegou a eivilrsaçãb írarteéza ,
minutos se encostava a uma pà e mr elle gostava de eobiir com um vèo bri*.;
observava em silencio. Parecia elle in- lhante e imagens metaphuricas seus pén*»
teiramente pacifico neste reino da morte, samentos e sentimentos: he nisto, que
e assemelhava, se a Caronle em pé so- se revela a origem oriental deste povo;
bre soa baiea fatal *—* A minha memória, me disse elle
Vultei me para elle e pergiintei-.lhe o assentando-se perto do túmulo , he tão
nome desta pedra muda , e com o seu fiel às recordações desses tempos do
barrete de pelles na mão respondeu: nosso esplendor passa-lo . como o cão
— Este homem nunca viveu que guarda as riquezas do seu dono
Roguei lhe se explicasse mais clara*- jà morto. Eu estou vendo ainda esta
ir.«;nie. E depois de uma curta pausa , soberana, a representante de D e o s , a
etntinuou com tom rnaí> socegado: Tzarina quando «eus olhos se volverão
— Quizerão qne cüe morresse, e que- para mim e para meu irmã), foi na
rrm que nunca tivesse vivido; foi ris época da grande revista anterior à guer-»
endo do rol do* vives e dos mortos. ra contra os Turcos , a qual teve lu-
!Se desejais saber quem he este homem gar nos arrabaldes da noisa aldèa-j, A
ucndemnado a et-li nada , ninguém na immensa planície que acolá vedes , tão
aldéa vos pode instiuir senão eu, e triste , devíeis então vela. A linha in-.
ici.iguem melhor do que eu mesmo. Ah! imita dos uniformes , das armas e das
se o t-èo não tivesse ordenado de ou bandeiras estendia-se atè se perder de
tia maneira , não seria eu hoje o po vista; soldados, officia es, generaes , ba-
bie Grabuwüch, o c«veiro; aquelle que talho :s em columna cerrada, encliião
O RECREADOR MINEIRO. tíTflt

p. horizonte todo; os ajudantes galopa- partio com promessas de voltar, e com


v i o , os tambores tooavão, as vozes de a resolução de se distinguir muito nos
commando misturavaõ «se aos passos es combates para voltar olficial, e para
trepitosos dos cavallos. Neste lu nulto recobrar um dia sua liberdade à força
espantoso as ave» corlavão ligeiras os de heroísmo , e para apparccer diante
ares;, e nota-se que desde esse tempo de sua amada, não amante escravo e
abandonarão seus antigos ninhos. Logo obscuro , mas mando livre e glorioso.
no principio da revista, a Tzarina sa- Apesar de taes promessa?, e como por
hio da carruagem e montou a cavall>; um píesentimento do futuro, a sepa-
e emqu into ella estava dandi uma oi ração tinha sido dolorosa para a donzelit.
dem a um olíicial , ca!iiu-llic uma das Inconsolavel de pois da partida de
luvas. Um ajudante de campo correu seu amante, Suena tinha cahido pou -
para a apanhar; mas meu irmão, o jo- co a pouca em uma melancolia mortal.
ven Andrei, de joelhos diante da im- Klla não se tinha reanimado senão um
peratriz , jà a esse tempo lha apresen.. instante no dia da revista, quando ti-
tava. Os olhos imperiaes fitarão-se so- nha visto o seu Andrei desfilar na pla-
bre elle e sobre mim: este olhar nun- nície da aldèa sim pátria. E*>te dia
ca mais me esquecerá. tinha sido para cila um dia de festa e
Andrei meu irmão , o homem mais de vida, alè ao momento em que el-
bello da aldêa, e talvez da provincia, la tinha visto Aodrei levai-tar a luva
merecia na verdade um volver de olhos da imperatriz , e esta lançar i-eus olhos
da Tzarina. Era elle um aldeão •*, que sobre Andrei. Mas então efla senlio
nascera para príncipe. Talvez tenhais toda a exten-So da sua desgraça: co-
reparado no nosso paiz em betulas «no mulher - ella tinha comprehenfiido o
novas com seus desempedidos caules volver d^lhos de uma mulher; tinha eom-
altos e direitos izentos não sò das plan- prehendtdo que o sdu amante estava
tas .parasitas que crescem ao pè dos cir perdido para ella, e que o coração de
vàllios, mas tnmbein das replante» que um homem na t podi i ser disputado por
ceroão os olmos: taes são os verdadeiros uma aldcãa a una imperatriz
fiflios da Moscovia ; ellas são esbellas No entanto Andrei , que queria ser
c desembaraçadas*eomo a nossa raça heróe, não sonhava senão combates e
Sua fôrma he direita; sua folhagem não via senão inimigo''. Joven e ar-
pallida balanceia-se brandamente e com dente , pensava sempre na gloria e no
negligencia; pòde-se dizer dellas que amor. Calharina quis* ser para elle ao
slo o senhor da paisagem no meio de mesmo tempo objecto de amor e de
seus vassallos. o-Ioria. Ella ordenou-lhe que amasse,
Tal era André". Todos os pais o « não havia remédio se não obedecei»
terilo desejado . para genro , e toda» lhe. D'entre todos os seus camaradas,
as d-yizelfas para marido. Uma dellas, fui elle o único que não marchou con-
a joven Suena, tinha, havia 1 *ngo tra os inimigos da Kussia. E nquanto
tempo, attrahido as atlençSes e con outros alcauçavão hnnra á custa do
qiiistado o coração de.Andiei, e An- próprio sangue , a elle ÉÒ cabião cur-
drei lhe tinha inspirado tanto amor quan- tos ' instantes voluptno os um clarão de
to elle sentia por ella. Chamado da- grandeza, e no fim a morte! Pare-
hi a pouco MS bandeira- de Catliarina, ce me que ainda o vejo encostado con»
1200 O RECREADOR MINEIRQ.'

tra uma arvore acolá em baixo, com e para dar todo o seu coração á' Ca*«
os olhos fitos sobre um ponto afas- tharina; porque nosssos senhores,1 .são
tado , como o amante que segue de nossos senhores, e nos&a? almas lhes pèrten*-
longe os passos de sua amada: erão oem assim oomo nossos corpos.
nossos soldados que ião combater, e Entretanto que Suena suspirava em
que seus olhos seguião atè ao ultimo silencio , a vergonha e desesperaçSo' de
limite do horizonte. Andrei erão ofluscadns com rasgos do
A aldêa estava de-ierta • todos os favor imperial. Os mesmos farrapos lu»
homens que podião tinhão seguido as zcjn quando saS dourados pela luz do sol'
bandeiras da pátria; sò velhos, mu- O palácio que acolá vedes / mandou-»
lheres e crianças tinhiío fioado ; e teve a imperatriz edificar, como pòr'encan>,
também de ficar como um velho , ooino to , para o seu amante. Ella queria,
uma criança, oomo uma mulher, Ah I se dizia , passar ahi a bclla estação lon-
elle tivesse ficado por Suena, se elle ge do tumulto da capital Com Andrei;
tivesse desertado por seu amor, teria A simplicidade , sinceridade , franqueza
sem duvida esquecido sua paixão pela e afTeição de Andrei-, crao cousas to-
gloria, vivendo em obscura felioidade talmente novas para a Tzsrina. Quan -
junto da sua amante: mas não! era- d o , com olhos arrazados de lagrimas
íhe preciso renunciai* ás suas, mais ca- por causa das ternas saudades de Su-
ras illusões , ou ás mais doces - espe- ena, elle su-pplicâva a Cathárina que o
ranças ; era preciso esquecer suas duas deixasse seguir o exercito , nehum vo 1-
esposadas—«a guerra e Suena—-paia ver de olhos ameaçador linha punir a
vegetar em um palácio, para obedecer sua ousadia, Ella, viuva de um mo«
às vontades da imperatriz; porque tal narcha, converl<a-se' em aduladbra e
era o poder dos senhores neste para e escrava do aldeão, e sè entretinha a
a disciplina dos povos, que atè mes- instruil-o nas sciencias e nas artes.
mo ás paixões destes obedecem aquel No fim do verão, Cathárina rão
les , e atè o amor se submette no co- voltou para a capital ; as compridas
ração dos subditos. noites do inverno, pasava-as ella so-
Na França, na Itália, ou em qual- zinha com Andrei; à luz. de um can-
quer cu'.ra parte, a donzella abando- dieiro estavão os dou* aman'cs senta»
nada teria, se não realisado , ao me- J'*«! um junto do outro, embebidos nes-
nos meditado vingança; à. falta de pu ses misteriosos entretenimentos que ne-
nhai ou de veneno, votos ao menos nhum ouvido indiscreto • podia escutar,
terião attentado contra os dias de Ca- Se o tempo estava bom, davão passeios
lharina! Aqui porem a donzella curvou a a pè ou a cavallo, pelas vizinhanças do
cabeça, resignou-se a morrer, sem uai iwlacio. O cão doméstico não se«*ue,
murmúrio, sem uma queixa mais assiduo os passos de seu doiio
O mancebo, em outra nação , teria do que a rzarina seguia cs do**seu
tentado salvar-se com sua amante, ou amante. Mas neste nosso paiz a pri-^
teria continuado ao menos a ama Ia em mavera e o sol vecejão e resplánde-.
segredo; mas aqui Andrei, como su- cem com rapidez enganadora; c os ca-
bdito fez generosamente todos os seus es prichos da alma são " rápidos como os
forf-osi para esquecer o primeiro amor ardores do-verão,
O RECREADOR MINEIRO. 1281

Eu que jà fui o illustr*. irmão do sultos; e este exílio uma satisfação.


favorito , estou hofe feito covei- Houve o competente desifio , e o ccin-
rro. , A pá funerária he o meu ga- bate foi à pistola. Toila a gente af-
nha-pão. Fazer as sepulturas para os frrnia qne a arma qne se deu á victima
meus semelhantes he asilo segu-o con- estsva carregada de pólvora secca. O as-
tra a ma sorte; e he este o uíeu sassino (dou-lhe este nome, e não terei
uuico recurso. Quem tal diria ? O fi- razão para isso?) atravessou o cora-
nal da minha historia he triste e ção de An Irei com uma baila e
Eoderá talvez acordar estupefactos os não ficou ferido.
abitanles destas sonilni.is moradas. Tal foi o de«fecho dest» amizade
He uma bem extraordinária aventur.*. imperial. O cadáver foi levado de
Calou.se. Meus olhos se firmarão noite ao cemitério *. quebrou se uma
na sua face engellinda. Nestas fei» espada sobre sua cova , e seu nome
ç5cs tnirrudas pela velhice queria eu foi votado ao esquecimento, por ter,
descortinar a belleza de Andrei, que segundo diz.ão, violado as leis do
linha seduzido a imperatriz *, estava duello. Eis a verdadeira historia do
a figurar sobre estas curtaÍ espadoas homem desconhecido que esta lousa
uma cabeça coberta de compridos ca cobre
bellos louroS, quando elle me inter- Gommoveu me na verdade a bis*,
rompeu di/endo: toria d'este infeliz, que uma mulher
— Dispensai-me de contar particu- Invia escolhida para saiisfo.io de seu»
laridades imiteis Elias magoar ão vos- prazeres, da mesma soile que nós
so coração , apezar de não lerdes eo- tomamos um criado para nos servir.
nhecido o meu Andrei, orgulho da Era um criado para a cama que se
minha mocidade e o único amigo podia despedir como se faz aos outros.
do meu coração. Sua historia he muito Mas esta política , que fazia que a
doloroza, Calharina mudou. Calha- aimiite desboiuaise o próprio tumu»
rina não tardou a affeiçoar se de ou- Io do favorito, parecia me execraa-
Iro homem mais sagiz, mais corte d,i. Esta mulher riscando até o mes-
zão do que meu irmão e que por mo nome de Andrei, depois de se
isso soube encaixar o coração impe ler servido do seu amor c ler tira-
rial com peias mais seguras. Km lu do a sua vida, parecia me facto ião
car de amor - o pobre Andrei não te- monstruoso como certos ac'.os dos
ve senão o odío desta mulher- que imperadores da antiga lloina.
por fim "ão quiz ' mais vê-lo , nem Grabowitch continuou:
delle ouvir falia**, .— Suena morreu depois de Andrei;
O raio protector havia ja desappa eis ali seu túmulo. E como eu , de-
recido. Andrei tornou a ficar na pois da desgr.iça de meu n-inlo .
sua antiga obscurida.le. Porem era me fiz coveiro para poder viver
uma***teitcmui*ha e f.ui.i*se mister dar colloquei esta terna victima ao lado
caba oe' uni homem que ia revelar de Andrei como deveria ler estado
iara a aldô« os Íntimos s«'g*e(los do durante a vida.
Í ei to imperial. Em conseqüência «lis
t a , ,uri\ -infame , que, m a u ilragoaas
E suspendendo por u;n in-tante o
seu discurso > continuou depois era
de offici.il, provocou Andrei com ins voz sumida:
i s8_t O RECREADOR MINEIRO.

— Como aqui ninguém nos ouve , I via com sua n t lher e seus 1*3,
posso dizer-vos que a Tzarina, em filhos , o mais velho dosquttei»
quanl > viveu, veio todos os anoos
visitar o túmulo de Andrei; e pa1*3
de idade de oito anno-i era Idiota',
vos dizer tudo o que eu penso , ac- o segundo , de cinco annos , ' m u -
crescenlou elle na sua crença meio-, do e o mais; nova contava ape-
christua e meio escandinava , se Deos nas dois annos. Aconteoeor que
vinga ,1a no céo os delidos cá da ter- .um dia deixarão o mais pequeno
ia , elle deve os ter lá juntido , co-
mo eu aqui fiz aos corpos, Estas du- só com os seus dois irmãos.
as almas separadas sobre a terra , de- Apen is a mâi se ausentou , p.o-
ve elle te-las casado no paraíso á vista zerão-se a correr de um lado
da imperatriz ; será este o castigo e para o outro , e a final furão lo»i»
d inferno dessa mulher, se ella ain-
da ama Andrei.
ge de casa brincar e siltt*.r- so»
bre os rochedos. Voltando a
O coveiro então ausentou-se pondo
o dedo na boca para aconselhir si- mâi á chftupana e nãó encon-
lencio ; mis eu quiz contar esta his- trando os filhos , foi em sua pro-
toria ignorada de um pobre moujick cura e conseguio acha-los ; mas
moscovita que pagou cara a honra de deo fó com os mais velhos ; o
ser amado de sua soberana.
mais pequeno tinha desappare-
Q tanto sangue não custa o capri-
de uma testa coroada! Quão gran- cido. 0 idiota manifestava o pra-
de he a tyrannia que se exerce até zer de que se achava possuído
sobre os corações! Como he terrível pelos mais extraordinários trejei-
aquelle idolo que só se sastifaz com tos ; o pobre mudo pelo con-
victimas humanas aos pares, e que
sobre seus altares devora homem é trario , parecia consternado , e
mulher ! a expressão de terror que se di-
visava em seus olhos dava á mãi
os mais terríveis Dresentimentos.
Debalde procurava esta infeliz
CREANÇA ARREBATADA POR rjMA advinhar os gestos pantomimicos
AGUIA DOS ALPES. de seus filhos, de que tanto
tinha a recear. O júbilo sin-
Um lavrador Suisso, pai de gular do idiota e o semblante
três filhos, tinha ido passar o ve- espavorido do mudo nada lhe pa-
rão ,a uina dessas choupanas para tenteavão. Finalmente , os gestos
onde os habitantes dos delicioso? mais expressivos do mais velho, as«
va-lltís do Vaud se relirão para a- semelhavão-se aos de uma pessoa
pascentarem seus rebanhos nas que com grande satisfação tivesse
vertentes das montonhas* Alli vi- encontrado aquiUo que prouu,ra?"t
0-: RE RECADO R MINEIRO, 1-83

* â e i d e muito tempo : e isto fez agiria ouvio grito* , e distingui©


aorwlitar à mâi q u e seu filho o corpo de uma creança que o
houvesse sido levado por algum pássaro levava nas garras! Então
ítillgo oü vrsinho ; o que ás ve- naõ hesitou em fazer fogo sobre
zes acont«ci i , por ser muito es o animal , se bem que corrfsso
timado da visioh-nça , em razão o risco de matar a c r e a n ç a ;
de sua belleza e mansidão. Mas comtudo era o único partido que
veio a noite , e nada se soube lhe restava ; e implorando a p r o -
da creança. No dia seguinte tecção divina , fez pontaria e des-
voltáião os pais em busca de seu carregou a espingarda : a bala
filho. Estavão ainda perto da ferio a águia na cabeça, e a p o -
choupann , quando uma águia bre creança , escapando das gar-
lhes veio ffdisl>r por cima das c a - ras do trciipiul.) monstro , foi
beças : apenas os dois rapazes a entregue a sua ineonsoluvtl mâi',
'virão , manifestou logo o idiota a ò u e m , ainda depois de aper«
o muior p r a z e r , e o mudo prin- ta-ía em seus braçOs, 'parecia
cipiou a t r e m e r , a chegar-se para impossível torna-la a ver. As gar-
o pai c a tapar os olhos com as ras da águia tinhào horrivelmente
mãos para nâo vêr o p-issaro. dilacerado a creança, mas por
Então comprehendeo a mãi que fortuna nenhuma das feridas era
seu filho tinha sido arrebatado mortal.
por algum i ave de rapina.
Na mesma manhã em que e s -
te funesto accidente oocorrêra , A VIRTUDE CUINEZA
tinha-se emboscado um caçador
Na China no principio de cada anno, o
perto do ninho de uma águia , Governador de cada Cidade, por ordem do
com tenção de lhe a t i r a r , logo Imperador, depois de ter colliido as urais
'que ella se recolhesse.—Depois exaclas informações dú um grande banquete
a todos aquelles que no decuive do anno que
de ter esperado algumas horas . expirou praticarão alguma acçãn virtuosa.
vio finalmente uma dessas t e r - . Esto banquete 6 preparado na praça publi-
ríveis aves , adejando com diffi- ca, e dentro de uma barraca por cima da qual
culdade sobre os rochedos . e se Ifiem estas palavras: " Homens Je Iodos os
estados e eondições , a virtude e' quem vus torna
qu% lhe pareceo de um tamanho tçdos ignaes" O povo contempla e examina Io-
extraordinário. — Imagine-se a dos os convidados ,e se visse um só entre t-llcs
surpreza e . o terror do caçador , que nao merecesse aquella honra, obriga-lo-
hia,pelas suas vozeiras, a sabi. da irtaa , e a
quando . aproximando-se mais á ir esconder-se.
1284
O RECREADOR MINEIRO.

O fine pode a miséria. o dos. salões e dá com a ponta do


dedo a sua offorenda , por naõ di-
N'uma d'aquellas noites em que zer a sua coni.ribuic.au calcando aos
todos os. eleinenlos parecem querer péi esta máxima : a esmola deve sahir
desprender-.se contra os infelizes cm do coração e não passar dos lábios,
jo maior crime é naõ terem asylo A desgraça havia-se fortemente
nem amigos ; n*uma daquellas lon- apoferado do infeliz Arnold elle
gas noites de iaverno em que a ne« tinha tido beílos dias e hnmensos
ve cahia e cobria as ruas de Lon- amigos ; porem açora estava de-grar-
dres d'utn lençol gelado naõ s*i çado , e a sociedade naõ lhe ixà\
encontrava , com um tempo tão me» portava a causa da sua indigencia;
donho , se naõ alguns guardas no» elle estava pobre , e a pobreza é
cturnos embuçados nos seus capotes, uma^ offença que se condemna sem
perseguindo os desgraçados para o» sei* julgada : por muito tempo Ar*
brigal-os a trocar a sua penosa li- nold tinha luttadp contra a hydra
berdade pelas doçuras d'uma prisaõ. da calamidade *, porem tinha sido
N'ess*a noite pois em que nin- veneido , estava'pobre , e pobre sem
guém poria fora da porta nem o caõ esperança de melhoYar a' sua sorte.
do seu inimigo atravessava um Checou à sua casa ( eraõ umas
homem mal vestido a passos lentos, aguás furtadas ) cujas paredes ver-
as ruas da cidade sem lhe impor- tiaõ hilmidade ,' s mobilhadas com
tar o tempo nem a opinião que um enxergao .algumas cadeiras, o
delle se poderia formir como se 'uma mesa "olha de mogno , único
uem um ente dfevesse interessar-se resto do seu explendor passado, A
pela sua sorte. 15 comtudo naõ a» sua companheira linha nos braços
contecia assim; a sua miséria era sua filhinha , por nome Maria, e
partilhada , elle tinha mulher e u«- receheo»o com um d'esses trisleg
ma filha „ uma mulher rapariga*, c sorrisos que equtvallea. a uma agu-
bella outr'ora feliz e de vigorosa da punhalada. •
íaude , a qusm agora a miséria , Eslou sem emprego , diz Arnold ,
íinha imprimido nas faces as rugas chegan<lo-«se para uma cadeira ; ò
. da velhice : sua filha chorava pelo minha m-iiher e minha filha mor*
grosseiro alimento de que sua mâi' rendo a fome / . . , minha
se linha privado havia quatro, dias Mariquinhas , meu anjinho ! excla-
para lhe dar- Ah ! quantas des- mou este aftlcto pai , e.a innoceu»
graças ha occullas sobre as qunes a te e infeliz; creança sorrio-se _tara
#
charidude derrama lagrimas, em tan- elle.
to que ulgun as gotas do seu bal- Querida filha , acrescentou Ar-
samo poderiaõ cicatrisar muitas cha« nold , quem terá cuidado de li",
gas ignoradas .' mas naõ a hypo- quando fores orplíaò *? Quem te tra-
erisia quer a publicidade das ruas tará quando estiveres doente ? Quem
O RECREADOR MINEIRO 1*85

entenderá a tua linguagem ? Quem sua filha dormia e sua mulher.


fará as vezes de teu pai ? com as maõs postas, estava em o*
Oh 1 Deos I Deos 1 a vida do in- raçaõ. Que terrivel quadro para es-
feliz é uma agonia perpetua ; po- te pai 1 ,
rem par mais horrenda que seja, Já naõ posso diz elle sufocar
conservai«m'a para amparo oeste an- a voz da natureza , ja me naõ é
jinho I , possível por majs tampo procurar
Anima-te , meu querido Arnold, a agonia de minha mulher e di mi-
lhe diz sua mulher , amanhãa se- nha filha , e taõ certo como haver
rás mais feliz do que hoje ; a tua um Deos que domina ludo , haó de
actividade e honradez são conhe- ter paõ.
cidas , portanto não poderás estar No mesmo instante sahe , a rua
muito tempo' sem emprego : espe- estava deserta , a noite muito avan-
ra pois, a Providencia velará so*. çada , e com um tempo taõ tene-
bre nós. broso 'parecia, que á excepçaõ
A Providencial exclamou Arnold, d elle nem um vivente estaria fo-
com ironia , ella vela sobre o ri- ra de casa.
co : a Providencia / Ella é surda à A final passa um indivíduo pe-
Voz do pobre. . ,- «Neste momen- la esquina d'nma rua visinba ; o co»
to ja nao havia lagrimas nos seus raçaõ de Arnold palpitava com vio-
olhos afogueados. Entregou um shi- lência , ia retirar-se • mas julgan-
"ing a- sua mulher. do ouvir os gritos de sua filha ,
E* o ultimo lhe diz elle , com- aproxima-se do sujeito com timidez,
pra alimentos para ti, e lua íilha , e supplica»ihe que lhe dê uma es-
em quanto a mim , não lenho fo- mola. Yà-se daqui mandriaõ.
me. . . já comi . depois, diz o venturoso Fariseo naõ tem
som dar mais palavra , deita-se no vergonha de se deilar a essa vida?
seu enxergao. • vá-se com o diaba. . trabalhe;
Assim se passarão quatro dias, e dito isto , afastou-se a passos larn
e cada hora tornava mais deplorá- gos.
vel a posição d'esta infeliz família. Arnold estava desesperado : Tra-
O frio augmentava como a fome balha ; diz elle , eis a phrase tri-
e esta pobre mai , para aquecer vial de que se servs a avareza 1
soa filha , nao so tirava da cama Trabalha 1 quando apenas tenho íoi*»»
•a p^r cumulo de infortúnio , o pa- ça para me suster quando ha
deiro tinha recusado continuar a seis dias que nada tenho comido 1
dar-lha pao qu*e ja lhe naõ podia Trabalha ! ! 1 Talvez diga a socie-
pagar. . . . dade que este homem é estima-
Arnuld . tendo-se resolvido final- vcl e humano ? Ah 1 sociedade!
monta a sahtr , tornou a entrar; sociãdade ! 1 1 A outro que appare-
1286 O RECREADOR MINEIRO.

—-.
ça já naõ lhe vou pedir . . pre- po procurou conciliar o somno , que
ciso paõ paõ para minha fi- só lhe veio escoltado de muita fome.
lha : e preciso delle jà Raiou finalmente o dia , e Ar»**
Poucos minutos depois aproxima- nold naõ foi como era de costu-
se um mancebo; — Arnold agar- me procurar emprego , julgava qo«
ra -lhe pela gola da casaca : a sua todos os homens descobiiiiuõ nclle
bolsa , lhe diz elle minha filha a expressão do crime. Para acftl".
naõ tem que comer 1 — Tendes máo mar a sua agitação , põZise a- u-
officio , lha responde o sujeito sur- ma janella* que doitava para .a rua.
prehendido de semelhante attaque ,- e logo reparou em dous imdiiridueib
porem vou satUfazer-vos , aqui es- que porecinõ observar a casa com
tá minha bolça — Que contem el- attençaõ ; n'um julgou reconhecer
la ? perguntou Arnold. Umas moe- o sujeito da véspera-, tinha as mes-
das d'oiro e alguma prato. —- mas feições , o mesmo facto ; fi-
Arnold abrio-a , tirou-lhe dez shil nalmente naõ havia mais uue duvi-
Iings , e restituio-lh'a. Naõ quero dar , era elle ! Arnold ficou as-
mais . diz elle , agora ja tenho paõ sombrado como do um itaitO •• fa*
para minha filha. —Ide-vos em paz, gío-lhe a luz dos olhias , tornou-ee
o pordoai-me 1 . . . pallido como um moribundo . e re-
Admirado o indivíduo de uma tal tirou-se , n'uma convulsão , para o
conducta , seguio Arnold. A pou- canto mais recôndito do seu quar«
cos passos vê-o bater á porta dum to ; depois aproximando-se da mu-
padeiro e sahir carregado de paõ .* lher e sua filhai , a 9 chega con-
alli sabe que Arnold se via redu- vulsamente ao seu coração.
sido a maior miséria , e que ha- Ouve passos pela escada , e per-
via muitos dias , que elle , sua mu cebendo que era gente que subia,
lher e suã filha estavaõ privados de foge * para um quarto inmiediato
lodo o alimento. jSensibilisado pela e fecha a porta. •
narração do padeiro, dá lhe um gui» Os dous estranhos entrarão n'es-,
néo , para que forneça o paõ a es- te momento ; Senhora , diz o mais
ta iufi liz família , e promelte vol- moço , temo a portunidade da
tar. Entrando em casa, põe Ar- minha visita , porem attento o
nold o paõ sobre a mesa , e diz: seu motivo , espero me desculpeis:
TOOID , minha querida mulher eis vós estae.s em desgraça , permitiu
aqui paõ para uma semana , já ar- me que vos offereça o meu pres-
ranjei tudo , a nossa menina naõ timo , e dizendo isto , poz*sobre
morrerá de fome e tu mesma naõ a mesa uma bolsa cheia de ouro.
jt juaiàs: quanto a mim acho-me can- A mulher de Arnold levantou os o-
tado: boa noite; e deitou-se oppri- lhos para o generoso visitador , cu-
uiido de remorsos. Por muito tem- jo olhar mavioso parecia implorar o
a RECREADOR MINEIRO. 12S?

perdia' do s*u beneficio . e choran- me de traição, foi logo arrebata -


do de reconhecimento . lhe cahirSo tado do seü* retire para ser sèpíil-
algumas lagrimas sobre a innocen- i tado n*uma rnasmorra da Torre • dè
te filhinha que tinha nos seus bra- Sabugal. A sua imaginação lhe sng-
ços. Artfnld I Arnold 1 nao forao gerio um m«*io assa* bizarro de sa-
baldadas as minhas orações 1 vem cá, hir da prisão. Olilcie do seu guar-
tem detoréssa , eu bem te linha da uma pcuca de farinha para fa-
dito que a Providencia velaria so- zer ( dizia elle ) um. remédio neces-
bre nos 1 sário para certa cbra que preci-
Porém Arnold nada responde . sava . e juntamente uma I isoura para
Sua mulher corte ao gabinete, e talhar o seu facto; e d*ahi a dias ptí-
nao acha ninguém1 . . dio lambem um livro , para des-
No mesmo momento ouve-se um sipar' com a sua leitura tri.-lezas , e
estroudo na rua , e os gritos dà mul- pezares. Teve pòís a ' paciência de
tidão que rodeada o corpo de um cortar as differentes letras',' que cotri»
homem - que se havia precipitado punhaó esla obra, e colloca-las so-
do janella abaixo u'um accesso de bre algumas folhas de papel re-
desesperarão. servadas para este effeito , e escre..
Era o Corpo de Arnold. veo as«im uma extensa epístola ao
rei que lhe reslituio a liberdade,
-*at3i£6-«s*- assim como o seu emprego de go-
vernador. Gomo Cscriptor deixou
SpUtola Singular. um poema heróico o — Yirialo trá-
gico — em vinle cantos. A pessr.a
Rraz Mascarenhas , portuguez, en- do nosso heroe anima gérarmento
cantado pelo gosto das viagens a vasta scena , que apresenta o seu
deixou a casa paterna para ir bus*-- poema , e eleVa muitas vezes o in-
car om remotiy climas objectos de teresse do seu caracter ao mais su-
interesse , que lesonjeassem a sua bido gráo: fioreceo nos primeiros
imaginação : porem logo na pri- cincoenta annos do século XVil.
meira viagem teve a infelicidade de
ser captivo dos piratas : passado al-
gum tempo, conseguio recuperar a
sua liberdade ; e se dirigio então ao Os Hypocriias.
Brasil , aonde se disliuguio du-
rallte a guerra, que os intrépidos
collonos fazião aos Hollandezes. Vol- Se bem que seja difficil conhecer
tando é pátria » oecupou ainda di«- esta casta de gente", com tudo eis
versos empregos i sendo um o de a sua elhopeia' ou' réliato moral
governador do Forte de Alfayalé ; que respeita a pintura individual ,
potem . como fosse aceusado do cri" e pai titular dos sujeita. D.z se hy-
Ia88 O RECREADOR MINEIRO.

pocrita em geral todo aquelle, que I INDUSTRIA DE UMA. AVEZINHA.


debaixo de especiosas apparencias,
é assas iniciado em todos os ardiz > - *-*-•«•«•»-

e argucias conserva o segredo de


occultar aos olhos do publico as 0 papa-formigas é um passarinho
desordens , e desvarios d'uma vi* insectiv-oro , do tamanho e do gê-
da estragada e muitas vezes cri- nero do cataxo : busca o sustento
minosa. Neste sentido não se po- por variados modos , seguindo o
de duvidar de que a hypocrisia se instineto que lhe deu o Creador co-
acha desgraçadamente generalisada mo aos de mais viventes; mas é so-
por todas as classes da sociedade , bretudo digno de observação o meio
fazendo brotar um grande numero engenhoso de que se serve quan-
de impostores. Com effeilo quan- do descobre algurn formigueiro, pa-
tos malvados e perversos se achao ra colher as moradoras delle, que
revestidos de hábitos honrosos ! Quan- saõ os insectos de que mais especi-
tos corrompidos cujo dorso lhe almente é goloso. Põe-se na en-
curva com o pezo de iniquidades , trada do formigueiro de modo que
e que se apresentaõ com lodo o o tapa inteiramente com o corpo
fausto , e ostentação de probidade! e as formigas alvoroçadas para sa*»
Quantos embi.steiros insolenles se hir aeodem de rondaó á porta, e
gabaõ de guardar os foros de uma embaraçaõ-se por enlre as pennas
acrisolada sinceridade I Traidores da ave. Esla entaõ toma o vôo ,
hábeis em se ostentarem como mo- e vai largar n*um terreirinho ou es-
delos de fidelidade , e patriotismo! paço de chaõ calcado , sacudindo
E quantos outros homens sensuaes, com força as azas , lodo o provi-
escravos das paixões as mais infa- mento de que se carregou : ahi es-
mes ousaõ aÕeclar pureza de cos- tá a sua mesa posta : ahi se regala
tumes , alardeando alé de a pos- á vontade com o producto da sin-
suir quaes ri-pidos Catões em gráo gular caçada. Causa. gosto observar
de severidade 1 Ao contrario quan- a ligeireza com que, voltando-se
tos justos victimas de injustas ac«-- para qnantos lados as formigas des-
cusações , c condemnados 1 Ou- íilaõ para escapar consome o ban-
tros pela malignidade do século de- quete em poucos minutos.—Pala
sacreditados , soffrendo o ferrete da lei das compensões , também o pa-
calumnia ! Quantas virtudes herói- pa formigas é comido pelos caça-
cas contestadas- Quantas obras boas dores. 0
censuradas t E finalmente quantas
intenções rectas mal explicadas -

Oura Preto, i848. Tyn. Iiitp. de


K. X. P. de So*.-..
O Recreador ineiro.
PERIÓDICO IITTERARIO.
IO'

•rjqDOKD -'.• 1, ° DE JUNHO DE 1848. N.*85

UM ILLUSTRE AVARENTO lácio do general Zaionczek logar-


tenente do reino, que na auzeri-
Iaõ dous estudantes da univer- cia do Czar Alexandre exercia em
sidade de Varsovia passaodo pela Polônia a autoridade real.
rua que se chama o bairro de Gra- — Sabes que original é aquelle?
o v i a , fronteira à columna do rei perguntou um dos estudantes ao seu
Sigísmundo, columna cujo vértice se companheiro.
eleva acima da capital da Polônia , e — Naõ o conheço; mas , a jul-
cujo pedestal está cercado por um gal-o pelo seu triste trajo, por sua
cordaõ de rnercadoras que vendem inagreza , e por seu rosto sombrio,
aos caminhantes fructas. bolos, e penso naõ enganar-me tomando-o
toda qualidade de cousas ; pararaõ por um conduetor de pompas fú-
e se puzersÔ a cotitetnpl ir um ori- nebres.
ginal qu« lhes atrahia a atteuçaõ — Naõ acerlaste, meu caro : é
por sua figura , seu parte e seu Stanislau Staszic.
vestuário. Tinha de cincoenta a — Staszic! repetio o estudante o-
sessenta annos: sua casaca preta, lhaado para o homem que entrava
velha e surrada ao ultimo ponto .- no palácio do lugar-tenente do rei-
cobria um corpo emmagrccido pe- no. Como , proseguio elle este ho<«
los trabalhos , *)u pelos pezares : mem que corre a pé , que no meio
seu largo chapeo cobria um rosto da rua compra e come uai pedaço
enrugado ,, e seu andar mais que de paõ , é poderoso e rico ?
apressado , provava que elle naõ —- Sim , é Stanislau Staszic , rei
era senhor do seu tempo. Este ho- plicou o outro; acreditas que de-
mem cuja vivacidade offerecia um baixo daquella mesquinha apparen»
contraste singular com a fraqueza cia se esconde um dos nossos mi-
de seu corpo , se dirigio para a nistros mais influentes , um dos
coltiftma onde parou , comprou mais illustres sábios da Europa ?
um soldo de paõ branco , comeu E com effeito , o homem que lhes
um pedaço , guardou o resto na havia attrahido a attençaõ pela sin-
algibeira da casaca e proseguio gularidade, de seu trajar , *e pela
seu caminho dirigindo se para o pa- originalidade de seu porte, era o
129» •O R E C R E A D O R MINEIRO.

próprio Staszic , ministro de esta- Um homem do povo qus se ele-


do , presidente da academia das Sci- va acima da multidão , sem embar-
encias cavallciro de varias ordens, go dos serviços que presta, excita
aulhor de obras taõ notáveis por sua contra si a maledicencia e a inve •
erudição , como por seus seniraien ja: a mediocridade se vinga pela
tos patrióticos. calumnia. Por isso nao é de ad-
O homem cujo exterior contras- mirar que Staszic , chegado ao cu-
tava com sua posição social , que me do poder, tenha encontrado nu-
era taõ poderoso , quanto era mes- merosos inimigos. Sua fortuna era
quinha sua apparencia, que era taõ attribulda á intriga , sua elevação á
rico quanto parecia pobre, devia lisonjaria seus benefícios á vaida-
sua fortuna a si mesmo , aos seus de ; o que porem dava uma ap-
trabalhos e ao seu gênio. Nado de parencia de verdade a estes boatos
parentes pobres deixou a Polônia malévolos erão sua originalidade e
para ir beber nas escholas estran- sua avareza inconcebíveis. Fazia
geiras as luzes que no seu paiz naõ largos donativos em proveito da sei«
padia adquerir. Passou alguns an- i encia e do paiz ; mas podia o po-
nos nas universidades de Leipsick | vo crer em sua generosidade , quan-
e de Goeltingue , continuou seus do via suas casacas estragadas, seu
estudos no collegio de França , sob alimento mais que ordinário , e sua
a direcçao ds Brisson e d'Auban- morada mais que modesta ?
ion , conquistou a amisade de Bufe Por isso , quando elle atravessa-
fon visitou os Alpes e os Apen- va as ruas de Varsoviá todos os
ninos , e nao regressou á sua pá- olhires se volvíao para o illristre o»
tria se não para fazer reverter em riginal ; aponlavao para elle, os
proveito de seu paiz o frncto de garotos davao brados contra o mi*
seus longos esludos , e de suas pe- lionario que andava a pé . em vez
nosas pesquisas. de andar de sege , seguido de cria-
Instruído , laborioso, estimado dos. •
por seu bello proceder , foi cha- Formasse um grupo em roda do»
mado por um dos mais ricos ma estudantes , onde se vé um no-
guatas polacos para dirigir a edu- bre e um padre. Todos olhão pa-
cação de seu filho. Em breve o ra o sábio ministro , e cada qual
governo qüiz aproveitar seus talentos, solta a seu respeito um dito male.
e Staszic, de posto cm posto , se volo.
elevou aos primeiros cargos ás mais — Por Nosso Senhor JezusCris-
altas dignidades. A economia o fez to t exclamou o nobre , de bigodes
rico : quinhentos servos cullivavâo brancos , e cujo trajar recordava a
suas terras , e os capitães que pos- moda do tempo do rei Sigismun»
suía a juros no banco igualarão seus do , quem diria que aquillo é um
bens de raiz* ministro de estado? Não era assin»
O RECREADOR MINEIRO: 189-

que no mundo appareciãd os ser- — E que tem elle ffei-o ? per


vidores da nossa velha republica ! guntou o padre.
Quando um palalino atravessava a — A Academia das Sciencias care-
capital, ia precedido e seguido de cia de lugar para a biblioteca e
'guardas a cavallo. Os soldados dis- nao tinha fundos suílicientes para
persavao a multidão que se apinha- alugar um local. Quem lhe olle-
va no seu transito. Que respeito receo um palácio magnífico ? não foi
se pode ter por um avaro que le-- Staszic ?
me comprar uma sege , e que nas — Sim, sim, foi Staszic , porque
ruas come um pedaço de pao , co é tão ávido de louvores como de ou-
mo o faria um mendigo sem eira ro. A vaidade venceo a avareza;
nem beira? elle bem sabia que os jornalistas
Elle envergonha a nossa sagrada deslumbrados farião d'elle um se-
corporação , accrescentou o padre; mideus.
féz-se monge e nunca o vêem na — A.Polônia conta como sua pri-
igreja * seu coraçtlo é tao duro co- meira gloria o sábio que descobriu
mo o cofre em que encerra o seu a lei do movimento sideral. Qual
ouro ; pode .o pobre morrer á sua foi o homem que lhe erigio um mo-
porta que elle lhe recusará a es- numento digno de sua fama ? qual
mola. foi o rico que chamou o buril de
— Ha dez annos que anda com Canova para honrar a memória de
a mesma casaca , disse um da Copernico ?
roda*. — Sim , foi ainda Staszic , repli-
— Senta-se no chão para não es- cou o padre : mas também toda a
tragar cadeira , replicou outro ; e Europa admira o generoso senador . . .
cada qual accrescentava o que que- Meu joven amigo não é para fa-
ria , e todo o mundo zombava. zer estrondo no mundo*, não é k
Um joven estudante das minas es- claridade do sol que deve brilhar a
cutava em silfneio estes ditos que caridade christãa. Quereis conhe-
o ferifio no coração * soffria visivel- cer o homem ? penetrai no «eu in-
mente , entretanto calava-se *, porem, terior sondai sua vida ^ privada.
quando a malevolencia chegou ao Este avaro orgulhoso eu o conhe-
seu auge , nao podendo mais repri ço i nos livras que publica *
mir o ímpeto de seu coração -, vol- gemo «obre a sorte dos campone-
tou-se para o padre : zes , e em seus vastos dominios em-
fg- Deverieis fallar com mais res- prega quinhentos servos desgraçados:
peito . disse-lhe , de um homem amaldiçoa o luxo e os prazeres da
que se distingue por sua generosi- nobreza , e entregue ao prazer
dade. Que nos importa a nós co vai secretamente aos divertimentos.
me elle se veste e o que come Ide ao theatro , escolhei o lugar de
ie faz nobre uso de sua fortuna ? menos custo, ponde-vos a um can-
l i Ca O R E R E CA D O R MINEIRO.

to no meio dos garotos e dos judeos, tos . se volta para um de seus visi-
e abi encontrai eis Staszic. Desde o nhos e o cobre de apupadas e de
romper do dia ide à sua casa , qne vaias. Este homem ultrajado p u b l i -
•chareis uma pobre mulher banhada camente era Staszic. A multidão r e -
de pranto que pede e um rico es- conheceo o avaro n o actor , e acha
loico que repelle '• o homem opul- sua victima no homem que lhe ser -
lento é Staszic; a mulher desdenhada vio de modelo. Staszic oppôe uma
é sua irmãa. Este homem que of* serenidade passiva aos movimentos
lerece palácios que-manda fazer es- convulsivos do p-iblico e perinane-
tatuas para obter applausos , deveria ceo indefferente até ao fim do espe-
antes enxugar as lagrimas dos cam*- ctaculo.
ponezes que opprime , e da família JNo dia seguinte vai o estudante i
que desampara. morada do seu bemfeitor • e ahi acha
O mancebo quiz responder - mas uma mulher que chora e que praguee
•mão o escutaram. Triste e oppresso , ja seu irmão deshumuno. Este fa»
afastou-se abalado em sua opinião ares» cto o faz pasmar. despedaça-lhe a al-
peilo do homem que era seu bemfeitor. ma e lhe inspira uma resolução ina-
Querendo certificar se se os factos balável. Foi Staszic quem o metteo
erão verdadeiros , • foi de noite ao the- na eschola das minas , é elle quem
alro : representava»se o Avaro. Zolko- lhe fornece os meios de continuar seus
ivski , bufão amado do povo de Var- estudos .* o mancebo repellirà seus
sovia, devia reproduzir na scena po» dons , nSo quer receber os benefí-
faca uma da mais bellas concepções cios de utn homem que se não com»
de Moliére. A multidão entulhava as move das lagrimas de sua irmãa.
entradas da sala -, era sobretudo dif- • Ao avistar o sen favorecido pre«
ficilimo penetrar nas toninhas ; esses dilecto o sábio ministro não sus-
lugares de pouco erão reservados pa- pencleo seus trabalhos , e lhe disse
ra as bolsas desguarnecidas , e para escrevendo :
o*, judeos sem exceppão, aos quaes a — Es tu , Adolpho que queres?
intolerância vedava a entrada dos ca- Precisas de livros ? tira-os na minha
marotes e da plaléa. Resolveo o biblioteca. Faltão->le alguns instumen»
nosso joven estudante abrir caminho tos ? compra-os por minha conta. E'
p o r entre a multidão , penetrar na insufficiente para as tuas precisões a
salla e chegar ás toirinhas. Em bal- pensão qne te dei? augmenta-Ia hei
de seus olhos procurão o homem enforme os teus desejos. Falia co-
que a opinião publica aceusa , e que mo a teu amigo como a teu pai.
elle quereria admirar : não o acha nem
— Pelo contrario, venho aqui pa-
o pode reconhecer. Seu coração se
ra vos agradecer os vossos benefícios,
alegra: mas foi de enrta duração sua
e para vos dizer que a elles renun»
alegria. Levanta-se o panno , uma
cio pira sempre.
trovoada de applausos saúda o actor
que tomou a casaca , o porte e o — Pois eit.iá rico ?
andar de Staszic. O joven esludante — Sou pobre como d'antes era.
soffre , mas suadôr se augmenta quan- — E a eschola das minas ?
do o publico , composto de garo« — Abandono-.!.
— Impossível'. exclamou Star-i*
O áECREADOR MINEIRO. •|2fj3

levantando-se e procurando penetrar que a Polônia inteira lhe faria jus-,


os pensamentos do mancebo. T u , tiça e em que elle serii posto .»
o 'mais Capaz dos nossos alutnnos, a lrente dos homens os mais genero-
esperança dos nossos engenheiros . sos , e os mais dedicados á felicida-
Por minha alma, não ha-de ser assim_ de de seu paiz,
'Dúbalde quiz o joven estudante oc- Ein 20 de janeiro de 1 8 2 6 , trin-
cultar a verdade : á força de insú-tir, ta mil habitantes com as lagrimas
o sábio ministro . conhaceo o nobre nas olhos , oceorrerão junto ao seic
motivo que fazia obrar seu prote- leito mortuario. e disputa o entre si
gido, os andrajos que o cobrem.
~— Vós me quereis beneficiar , dis*» O exercito russo não pode coinpri»
se-lhe o maticeb • , á custa dos ser- mir a homenagem que o povo de
vos que pata vós trabalhão ** á custa Varsovia rendeu a este homem illua-
de vossa família que soffre. tre. Seu testamento explicou seu pro-
Staszic não pôde encobrir sua e- ceder , fes conhecer o inovei de
mojãc ; inclinou a cabeça , o cahirão- sua avareza e de sua fortuna. • Sim,
lhe lagrimas dos olhos. Depois de al- dizia elle , eu me impuz rudes pri««
guns momentos de silencio , apertou vações , porque , pobre , era somen-
» mão do mancebo e lhe disse com- te por este meio que podia chegar
movido : á fortuna , fortuna que destinara to*
— Joven amigo , abstem-te de jul- da ao meu paiz,»
gar os homens e suas acçôes antes do As vastas terras que elle possuía,/
fim de sua vida. Não ha virtude repailio-as entre quinhentos campo-
que não possa ser manchada pelo vi- neses , os servos ficarão livres e pro-
cio , não ha calumnias que o tempo prietários. Uma eschola prolicionat*
"não consiga dissipar. 0 meu proce- ensina áscreanças diffei entes officios r
dimento é um enigma para ti , e eu grandes melhoramentos são introdu-
nao t\> posso, explicar , porque é o se- zidos na pequena republica que fun-
gredo da minha vida. dou Staszic com appiovação do impe-:
Vendo que o maucebe permanecia rador Alexandre.
inabalável , acrescentou ; Um fundo de reserva foi destina-
— Conta o dinheiro que te adian- do para soecorrer o camponez faU
to , considera-o como um empréstimo, lido por qualquer aceidente. Um
e quando, à foiça de estudos e de imposto módico arrecadado sobie os
trabalho, tiveres enriquecido resti- servos libert s é destinado a r«-s!*;r-
tuil-o-has a uni mancebo C3paz , que tar a liberdade dos visinhos condem-
estiver em necessidade > Quan- nados como o forão à servidão e ás
to a m i m , espera a minha morte corvéas
pa*^ julgares a minha vida, Depois de ter assegurado a sor»
te de seus camponezes , «Vtaszic nfn
Durantá cinroenti annos , SUnis- icreceo seiscentos mil Horins p«ra se
l.io Suszic permiitio que a c.ilumnia fundar um bospitil modelo , e dei-
denegrisse todos os act.is de sua vi- xou soturnas consideráveis para "uu-i-
da s s-bia que che^a-u um du em üaría. a muâdaJe estudiosa.
-_8Q4 O RECREADOR MINEIRO*

••"S

Quanto à sua irmãa , gozou da ludos theologicos competentes , e a


mesma renda que possuía durante a 2. •** os bons costumes — Quanto
vida de sen irmão , porque esta mu» _ . . • " • ( respondeo o encarniçado
Jher não conhecia o valor do dinhei- inimigo da água ) eis-aqui os diplo->
ro , e dissipava sem discernimento tu- mas que provaõter eu cursado com
do quanto obtinha de sua beneficên- proveito as competentes classes da
cia.
sciencia lheologica ' e quanto á a. "**
Stanislao Staszic foi muito tempo
victima e martyr da calumnia. De- como sou parle,, talvez naõ seja
pois de sua morte , quinhentas fa- acreditada a minha justificação. Só
mílias chamadas à felicidade e à li- pievino a Y. Exc. que tenho inimi-
berdade elevão cada dia sua voz a- gos , e talvez por elles tenha sido
gradecida para honrarem a memória calumniado,—Sim homem tem-
do illustre avarento. se-me dito que és um bêbado , tar-
rasso de profissão, um ignorante ,
-s-eCBCse-. indigo da tonsura. — Vejo porem,
continua o Prelado , que estás ha-
RESPOSTA CATHEGORICA. bilitado nos estudos ; mas quanto 4
beberrice ainda estou em jfijum.
Certo devoto de Baccho, que tinha cur — Vamos lá , quero experimentar
sado os estudos lheologícos, pretendia se ao menos és taõ perito na iheo»
ordenar-se padre , mas como tivesse gonia Bacchanal, como na escolas-»
inimigos , ou invejosos dos seus pro- lica. — Diz«me qual é o melhor
gressos , bem depressa foi o Bis- petisco pára beber um copo de vi-
po infomado dos gostos profanos e nho ? — Uma azeitona respon-
irregulares do estudante. Por mais deo o estudante. — Já vejo que és*
requerimentos que fizesse ao prela- um ignorante replicou o Bispo*,
do a fim de obter a tonsura , to- julgava que me fallarias em carne
dos lhe sahiaõ indefleridos ; porem, de viuho d'alhos , salsichaõ , aren-
apezar disso tanto fez e tanto ques de fumo ^etc. -"- V. E x . , res-»
atormentou o escrupuloso Bispo ponde o interrogado , fatiou-me sé
que esse por fim resolveo«-se a de- em um copo , e naõ em urn bar-
sengana Io , se com effeito o achas- ril porque entaõ eu lhe teria ci-
se indigno de ordens. Mandou-o pois tado esses e outros melhores ex-
vir á sua presença , e fallou-lhe as- citantes. — O Prelado , convencido
sim .* — Homem nem todos estaõ de que quem mostrava tal inlelli*
habilitados para serem Ministros do gencia havia de ser bom Pastoj da
culto e Pastores do Povo. Duas Igreja, ordenou-o.
grandes qualidades saõ principalmen-
te necessárias para se peder aspirar
a uma tal dignidade : t. «* os es-
O RECREADOR MINEIRO u9S

ACTO DE JUSTIÇA DO SULTÃO e lhe fizesse conhecer a esperança


de occupar altos empregos — Q
AMURATH.
Visir representou perfeitamente o seu
papel pelo espaço de muitos dias.—
( No reinado do Sultão Amurath , Encantado o Hoggia com os discur-
yendo.se um Turco sem mulher e sos do Visir e mais que tudo com
sem filhos e querendo ir em ro- as promessas que este continuamen-
maria á Meca , julgou que a nin- te lhe fazia julgava ter jà con-
guém melhor podia confiar o que [ seguido o que tanto desejava Mas
tinha mais precioso, do que a um não ficarão aqui as couzas : o Vi-
fíoggia ( Doutor em Leis) seu co- sir , por ordem secreta do Grão
nhecido. — Entregou-lhe pois algu*. Senhor , mandou que o Hoggia
mas jóias dentro de um saquinho, lhe desse conta de quantos crimes
e pedio-lhe que lh'as guardasse com oceorressem , e ouvindo cada dia o
cuidado até ao seu regresso , com relatório do Hoggia, pergunlava-lha
à condição de ficar dellas herdei- o Grão Senhor a sua opinião' as-
ro , se , durante a viagem proje- sim como qual era o castigo que
ctada , elle viesse a fallecer, — Vol- merecia o culpado i conformando»
tou felizmente da Meca o peregrino se sempre com a sentença proferida
e pedindo ao //f/ggm que lhe resti- pelo mesmo Hoggia a quem ha.
luisse o deposito que lhe havia con- via nomeado Relator e dado um
fiado , rospondeo-lhe este , com o Emprego em sua casa.
maior sangue frio , que nada sa- Decorrerão cinco ou seis mezes
bia do que elle pertendia. — Co- sem que appareccsse o menor in •
, mo o negocio só fora tratado en- dicio do furto ; é necessário adver-
tre ambos dissimulou o peregrino tir que o peregrino dera exacla con-
o seu desgosto , e passados alguns ta ao Grão Senhor dos objecto**
dias , foi fallar ao Grão Visir, que tinha m«ttido no saquinho de
aquém relatou % occorrido. — Vendo que acima se filiou ; fazendo en-
este porem que o negocio era me>* tre outros , especial menção de um
lindroso , e que o Hoggia facil- tes-buch de primorosissimo coral Este
. mente negaria o que ninguém pre- tes btich é uma espécie de ro.-ariu
senciara , respondeo ao peregrino de noventa contas que serve aos
que se houvesse com paciência por Musulmanos para repelirem certas
mais alguns dias , alé que elle fat- palavras tiradas do alcorao.
iasse ao Grão Senhor. Informado üs Turcos devotos trazem sempre
est*f do caso , ordenou ao Visir que na mão este rOsario quando vao vi-
| procedesse com cautela na indaga- sitar alguém principalmente quan-
« çfio do facto , porque queria apro- do perteudem fallar aos Grandes ;
-
; funda-lo ; que mandasse chamar o e a esta circunstancia se dev** o pro-
• Hoggia , ligasse amizade com elle, va do furto praticado pelo Hoggia.
r
Ia96 O RECREADOR MINEIRO.

— Um dia que , indo ao serralho, que so lhe armava querendo ainda


levava este rosário , notou-o o Graô mais caplivar a benevolência do Sul*»
Sanhor, e desconfiando que fosse , taõ , respondeo immediaiamente ,
como de faclo era , o do queixo- que -alie possuía um annel , do di-
so , gabou-lho*o muito, to ourives , e que so sua Alteza lha
Julgando o Hoggia que o Graõ permitlisse teria muita honra e sa-
Senhor tinha empenho em o pos- tisfação em lh'o offcrccer.
suir , apressoi-se a oíTerecer-lh*o , Acceitouio o Graõ Senhor e vol-
e aquelle a acceila-lo com signaes tando para o seu Palácio , mondou
de gratidão. — Mas naõ bastava u~ logo chamar o Visir e o peregrino,
ricamente um indicio , era necessá- e com o rosário na maõ como quem
rio que houvessem mais alguns. — orava , esperou que o peregrino'o
Como sabia que no dito saquinho reconhecesse , como de faclo reco*
hav'*a um annel ; obra prima no nhoceo , assim como o annel ; o
seu gênero e de grande valor [ an«* dando logo ordem para que o //<*<7-
jiel que os Turcos trazem no de- gia comparecesse na sua presença ,
do pollegar quando manejaõ o ar- perguntou-lhe o Sullao o que mere-
co ) esperou outra oceasiaõ para cia quem similhante acçaõ houves-
melhor descobrir o furto , e con- se praticado. ,— Taõ longe estava
vencer plenamente o Hoggia. —- Pro- este de pensar que era a seu respeito
porcionou-a o próprio s-jltaõ cValli que tal pergunta se fazia , cjue, que-
a dias mandando a um dos seus rendo mostrar grande inteireza', dis-
pagens que manejava bem o ar- se : '* que o réo •merecia' ser pi-
co , que fosse á praça do Girit lado vivo em um almofariz. ,, A
aonde o próprio Sultaõ. também estas palavras ordenou o> 'Sultaõ
lançou maõ de um • naõ havendo que o prendessem , mandou-lhe dar
no Império quem o excedesse em busca á casa , e "sendo-lhe achado
força ném no exercício da fror-ha. tudo quanto havia negado ao pe-
Ao dobrar o nrco, queixou-se que regrino , foi-lhe afpheada' a sen-
o seu annel lhe magoava o dedo , tença por elle próprio proferida.
bem certo de que o Hoggia , que
Para esta se levar á execução fu-
alli se achava presente e lhe havia
rou-se uma pedra para fazer o éf*
já offerecido o seu rosaiio nao
feito de almofariz aonde f./i lan-
deixaria de o mimosear com o au*
nel que recebera do peregrino. — çado nu e pilado vivo pela inaò do'
Será possível exclamou o Graõ Se*•• algoz.
nhor queya naõ haja quem faça Esta pedra existia ainda ha^cém
um annel laõ perfeito como o ou- annos época em que foi vista pòr
rives Fulano , que ha tempos é íal» Tavemier.
lecido ? O Hoggia, a quem falta-
va agud-sza para conhecer o l«*çq
O RECREADOR M I N E RO. 1*97

CAnitEiiu MILITAR E POLÍTICA, DO Príncipe de Ponte-Corvo em j u -


ULTIMO HEI DA SUÉCIA. nho de 1806 ,*
Governador das Cidades Anseaticas»
Carlos João XIV ( João Batista Jú- e commandante em chefe do exerci-
lio Bernadolte) nasceu em Pau (Fran- to dcitinadv* para cooperar c om os
ça ) , cm 26 de Janeiro de 1764. movimentos da Rússia e da Diia-
Assenlou praça d« soldado volunta- marda contra a Suécia em 1807 ;
riamente no regimento real de ma- Eleito príncipe hereditário pelos
rinha em 3 de setembro de 178O; estados geraes da Suécia u 2i de a-
Passou a granadeiro em 3o de maio gosto de 1810, e adaptado por filho
de 178. ; pelo rei Carlos XUI ;
Cabo a 16 do junho de 1 780; Proclamado rei de Suécia e Norwega
Sargento a 3i de agosto; a 5 do fevereiro da 1818 ;
Forriel a 21 de junho d", 1786; Morreu a 8 de mar;o de 184* 1*.
Sargento-siajor a 11 de maio de
.788;
^ Ajudante a 7 de fevereiro de 179O;
Tenente no regimento d'Anjou(n. A CRUZADA DOS RAPAZES
36 ) a fi de novembro do 1791 ;
Ãjudante-major a ão de novembro No anno de i 2 i 2 passou-ss na
de 179»; França e na Allcmanlia um dos factos
Capitão a 18 de julho de 1793 ; mais extraordinários de ipis lázaro,
Chefe de batalhão a 8 de fevereiro menção os annaos da idade media
de 1794 ;1 um erro inaudito cm todos cs sé-
Chefe da 7t CB meia brigada a 4 culos .corno diz Mathieu Paris. Se-
de abril seguinte ; gundo refere este historiador um
General de brigada em junho ; rapaz, 'vagando pelas cidades c ai»
General de divisão no mesmo anno, dêas de França , ia grilando por toda
General da%epublica franceza em a parte, como se fora inspirado do
Deos, qus deviáo todos os moços
1790;
ir resgatar a santa cruz. Os outros
Embaxador da corte de França em rapazes da sua idade, ouvindo-o se-
Vicnna cm abril de 1798 ; guiao-no em multidão , abandonan-
Ministro da guerra em julho de do seus pais , seus mastres e seus
*7-)9. amigos sem qne nada os podesss
Conselheiro de eslndò e general em
chífe do exercito de Oeste em 1800; center. Os que precediâo as tur»
Marechal do império a 19 de maio bas, arvorando pendõas, dizião que
elles deviáo atravessar o mar, pois
de IS04J
assim como oulr'ora os filhos de Is-
General em chefe do exercito Je rael sahidos do Egyto ha**ião ob-
Ilanover e governador deste paiz em tido a terra da promissã,. assia
180Õ ;
w O RECREADOR MÍI* É I R O . ?

-aa*
poderiso elles também possui-la. derem ir alé Jerusalém, sr-guindo o
Entretanto o mesmo se passava leito enxuto do .nriàr Mediterrâneo.
na Allemanha. Bandos de rapazes: Logo que virão dissipada a sua illu-
de todas as idades e todos os sexos,; t*ao!, dispersárào-se pelásndifferedtes
alguns dos quaes nao contavão ainda cidades'Tirarítlinás da Italrà , mas cm
doze annos , se reunião á voz de um parle nenhuma poderão obléí* navios
chamado Nicoláo. O seu numero ,. para a sua viagem, a liutao , diz um
em os dous paizes , subio acima de historiador,, os que restarão se vfrffo
9o,oooj e todos experimentarão os cahidos ein tão g.-andf* miséria*,
mesmos desastres. Depois dt soí'fri« que ninguém os queria recolher, e
mentos inauditos, os cruzados de, bem se lhes podido applicar as pa«
França chegarão emfim , jiV mui di-; lavraVda. Jeremias :*« Ó*'meninos^-j-
minuidos em numero, a Marselha.* dirão.pao e naõ houve quem'ltVo des-
Ahi dous mercadores desta cidade ,! se.»rBe*m poucos-dalles conseguirão*
Hugo Ferreus e Guilherme Porcus ,; voltai* a suas casas: a-maior parte
offerecsrüo-lhes transporta-los ao Ori- ficou reduzida a servirem como es-
ente sem paga algima , asseguran-! cravos os habitantes do páiz.
do ser a piedade o único motivo da Assim acabou esta singular e mi»
sua resolução. Sete navios se fizc- •serave! tentativa ds crusada , que
rão de vela carregados de rapazes. havia abalado profundamente os es-
Assaltados de uma tempestade duran- píritos mais illustrados do tempo r e
te a navegação, dous deites navios fez dizer !ào.p-ipa Inhocen*cio III: «
forão tragados pelas ondas, e os ou- Estas crianças nos- aceusaõ de estar-
tros eiueo , depois de muitos tra- mos sepultados no somno , emquaa-
balhos , chegarão a Alexandria , on- to eflW correm á dereJtã* da Terra
de os dous Marselhezes vendôráo aos Santa.p
Sarracenos es miseráveis rapazes 'co-
mo escravos. A maior parte'das chronicas con-
temporâneas fazem 'mençaõ destes
Os pequen os cruzados da, Alterna. acontecimentos r e.O%taisi he que o
nha naõ tiverão melhor sorle' Na fazem com uma espécie de apologia,
longa peregrinação que lhes foi pre- tal era a ignorância e à'cegueira d o
ciso fazer para chegarem à Itália:,: fanatismo do século í , !
a fome, a fadiga e os calores os f»
zião morrer aos milhares; Segundo
«ma revelação divina que um dele -•«••^©"êss*»
les pretendia haver reeehido, ião
IELASDEZ riavo ' «
todos persuadidos que a secca , por
faltas de chuvas , devia ser tal nes Pergurrtavão a* un lrlanrlez muito to-
te anno que os abysmos do mar lo , se entendia o Frarrcez: —. Per fet-
íicarraõ em secco; e assim chegarão a tamente, respondeu. ..elle,, com tanto
Gênova na firmo esperança de po que mo lallem em lrlandez.—»
O RECREADOR MINEIRO. 18
99

•PRODIGIOSA: tbftfcEVlDÀlJE. lhe»'a saúde, visto que a


«-o
falta de exercício a impe-
JJma 4 a m a í**anceza es- diria de digerir seus alimen-
tabelecida em ^eW-yO>rk di- tos. É muito possível que
rigiu-a uma sná amiga, em viva ainda muito tempo. A
França , uma Carta em que única dor que sente, diz
se acha o seguinte: ella , é uma dor intermitlen-
Devo faílar-le , minha te na palma da mão esquer-
chàra amiga, d'um facto mui da , e quando lhe vem a
potável. Vi Joíce Heth , ama dôr põe-se a gritar: My handl
ou antes cazeira de-Greges my hahd ! e a fecha ao mes-
Washinhton'. Nasceu em'Ma- mo tempo com força por
dagascar em 1674 e tem h b - alguns segundos , depois* fica
je; (lÔIfj) 161 annos. Ha 25 socégada. Os médicos altri-
annos perdeu a vista e é o- buem esta dôr á contracção
brigada a es.àr, deitada. Séü dos músculos ressequidos pe-
ouvido está perfeitamente la idade, e não conhecem
conservado, falia com muita remédio -, nem meio de ali-
facilidade , 'e tem uma pro- vio. Esta mulher deixou cres-
nuncia muito agradável. En- cer as unhas da m ã o , ss
tretem os que a visitam com quaes tem uma polegada de
anecdotas diferentes relati- comprimento • não posso d i -
vas á ínfarffcia de seu anti- zer se é por gosto ou se é
go amo, que assim chama por, sentir sensação desagra-
ella. a Washington. Come dável cortando-as. Esque-
com appètile, bebe e fil- cime de informar-me a es-
ma com prazer, e a pessoa te respeito. Quanto ás unhas
que cuida d'ella me disse dos pés, são realmente cu-
u% ella se occuparia todo riosas : figura tu que a unha
3 ia n'isso se lhe quizessem
dar ouvidos. Forçoso é tel-a
é revestida de muitas cama-
das sobre-poslàs, e que tudo
gm réginien para conservar- termina em uma ponta r e -
O RECREADOR MINEIRO
100O

trás annos , onde qs sitados per-


torcida como um bico de derão mais de 5o:r>oo homens , o
papagaio , de sorte que es- os sitiantes perto de 80:000, sen-
ia parte de seu corpo as- do tomada a final em i6o4 , Hen-
semelha-se menos^ á forma rique IV. lhe perguntou quaes erío
os seus projectog na próxima cam-
iiumana do que á de uma panha , em que hia entrar , in**
ave de rapina. Tem quatro timatnente persuadido , que olhano
pés e meio de altura, e [as do-o como alliado secreto do Con-
de Maurício de 'Nassau contra o
diflerentes parles de seu cor- qual tanto se distinguio na batalha
po são proporcionadas. Não de Flandres, lhe daria uma infor-
a vendo de perto, parece mação opposla a tudo aquillo, que
uma creança de 12 ou 1.3 se propunha fazer. Spinõla fez;
chair o rei no laço, que ella mes •
annos deitada em uma ca- mo linha armado : com a maior
ma. Eu julgava que sua exacção expôs a Henrique o plaa
avançada idade me offere- no intentado; então o Monarcha
escreveo a Maurício contando-lhe
cia um objecto desagrada- o contrario de tudo aquillo que o
rei á vista ; porem enganei- seu rival de gloria lhe havia dito.
me* posto que ella não tenha se Assim Henrique e Maurício ficaa
não pelle e ossos, como uma ráo logrados ca sua suspeita. " Og
outros enganao, mantindo ( dizia
múmia, pode julgar-se que Henrique IV ) .* este eugaaa , di*»
loi bonita em sua mocidade. zendo a verdade. ,,

O ENCAPADO POR ESPERTO.


CHAR4DA.
O celehre Marquez de Spinola *
descendente d'uma illustre família P'ra fazer uma canada
de Gcnova foi um dos grandes Quanto me falta ? Nada — 1 —»
generaes que teve a Hespanha ti- Fará fazer uma Matriz
tulo que grangeou em . razão dos Quanto falia ? Falta um triz — 1 —•
importantes serviços . que fez no
coinmindo das tropas Hespanholas Se pela parte direita
EOS Paizes Baixos: linha adoptado A mim se chega um Leaõ , •
t;-ia singular maneira d'enganar os Eis que logo deixa ver-se
s.-us inimigos ; qual era dizer lhes Patente o Camaleão. (A. )
1
' ' —_•—m
a verdade. Vindo a Paris depois O. P. i8/|S Xyp. Irap. de D,
do cerco de Ostende, que durou X. P, de Soa...
O Recreador Mineiro.
PERIÓDICO l.ITTIItlItIO.

^(DQKD 7. 15 DB JUNHO DE 1 8 4 8 . N. 84

O REI IllCK. bem construída repoisava sobre ci-


ses hombros de gigante negro. Pren-
Foi na cadeia de Dartmouth que es- deram Dick com cincoenta esciavo*.
ta niagestade negra se offereceu á negros em uma sala da prisão de
minha observação. Devia seu thro- Dartmouth , sala que tinha o n, °
no á sua superioridade physica. Ti- 4- Como visitei a sala n. ° 4 du-
nha cortesãos ei» sua prisão , budget, rante rainha detenção em Dat-lnioulh,
lisongeiros e até mesmo um papa podem-me acreditar. Dick sabia es»
votado a seus interesses - juro-vos qué grima , dançava bem jogava o sô«
era muito respeitado, e que merecia co maravilhosamente, e tocava vio-
este respeito. lão. Elle civilisa seus cincoenta bo«-
Em íBia declarou-se a guerra en- mens , b-ubmette-os á sua vontade
tre os Estados-unidos e a Inglaterra. divide*»os, e os aperfeiçoa elles obe-
Havia então em Londres um negro mo- decem. Em breve se instruem *>.ira
ço , nascido, em Salem , na A.rica. dar acs brancos o que receber Ho
Tinha-se alistado como marinheiro de seu chefe negro: e*.ta instrucção
aos deze*eis annos na marinha ing'e- que vendem depois de a haverem
za. Servia b e m . Ricardo Seavers recebido grátis e' para elles de lu-
(tal era seu nome ) , filho colossal da cro *. abençoão o rei Dick.
África, dotado d e alia estatura e Com os seus cincos pés e seis po-
d'um aspecto atlético., justificava o legadas suas espaduas de loiro .
alcunha de Poderoso Dick , pelo qual suas ilhargas de Hercules sua cabe<
era conhecido. Dick declarou que ca de bronze e seu cérebro domina-
era Americano , que não pegaria em dor Dick a ninguém temia. O po-.
armas contra os que lhe haviam for- der n*elle era natural; achou se rei
necido os primeiros alimentos e os sem pensa-lo. Um gesto de monar-
primeiros,, coa-beciiiientos de seu offi- clia identificava seus subdilos com
cio, Responder*o-ihe que n'ess* ca- o pó. Visitava todos os dias todos
so seria çquiüderado como prisionefe os cantos da prisão , examinava aí
ro ^le guerra. -! v *-* camas via se tudo estará em seu
—- Para a prisaõ Dick , si sois lògai- vigiava o aceio do seu rei»
Americano: para bordo si sois lii* no •* nas grandes circunstancias pen-
glez 1 — ü i t t : , foi para a prisão. dia-Uie dos hoiiibros uma pelle do
, O principio jó .bello; o lestor- é urso , e trazia na mão um bqrdãe
digno d'esle principio.; tuia cabeça em forma de clava, do qual ser-
tão* O RUCB E A D OR MI N E R 0.
•***• •r--*-

via se às vezes» e era sceptro, bas* — sociedade còmpleiaY —• civiliiaçilo


tão, mão de justiça e varinha de acabada.
:
commando. - 'U ,' -" •' •Pergunto «i|ora;í "e". não 4 esta a
Dick era justo e severo. Vi um formação, do throno e do clero ? Não
pobre rapaz expeditaiiiiente esboíétèa- está aqui todo o segredo das iegttl-a*-
do por ter furtado um pedaço de pões ?
toucinho. Foi contra o furto qne o • O rei Dick inorreo em Boston em
nosso rei Dick se armou particular- janeiro de 1 8 3 . •, todos o respeitavão*
mente. 0 reinado de Dick nem
sempre foi tranquillo, Como a maior
parte dos soldados aventureiros e dos
Iieroes coroados, disputou o thro-
no a seus inimigos. Conspirarão para nonos DE CONHECEU. SE 0 VINríO
desthronisal-o , elle frustou as cons- TEM AfSOA.
pirações. 0* rei Dick , escapastes ara»
nhando no dia em que acordastes so-
bres altádo e vos achastes rodeiado de i. ° Deitando perás , ou maçã* sil«
vossos subditos rebcllados cobardes vestres no vinho , se ellas ficarem na-
que vos atacavão dormindo. Foi uma dando sem irem ao fundo é signal que
das bellas occasiões da existência re- o vinho esta puro,
al de Dick. 0 monarcha saltou riu a. ° Deitando.lhe dentro um ove .
cama, pegou em um conspirador pe- se fôi* logo ao fundo , o vinho está mis»
los pés , e servio-se desta clava viva turado com agoa ; sega-iar algum tem--
para bater e quebrar as cabeças po para decer, está puro.
inimigas. A mortandade foi espanto- 3. ° Deitando aígum vinho sobre uma
sa ; cf-ihi em diante ninguém mais pedra de cal viva , se elle estiver mi»"
conspirou. tarado com agoa, logo a ea. se desfará •
A este throno em miniatura , a es» se o vinho estiver puro, ficará a cal in-
te rei de cincoenta homens se jun. teira e com a mesma dureza.
tavaõ um altar uma igreja e um 4- ° Deitando vinho nas* mãos", e es«!
padre de proporcionadas dimerrsÕes< fregando-as, se o licor parecer vis coso»
Um negro que sabia lei* , qne prega- é certo que não. téíA** agoa*; pelo co»*
va e se havia feito receber sacerdo- trario, se elle se não pegar ás mãos .
te , havia especialmente fígado seu è uma prova de que a tem.
destino ao de Dic1:. Elle o sustenta-,
va com seus discursos , ínculcava a
obediência ', pregara a boa ordem;;
e fazia sentir a necessidade de um
poder'único. Em troca do sòccorrò
infèileciuai quê elle prestava a Dick', A PERNA QÜEBRA&4.
o irnonarcha dava'lhe o auxifio fie
seu brdçò e de ièir ^àstío. Sob à
lei unida destes'dons homens . nin- Um ; tiomevri. *«.*; conhecido por
guém se mexia : — t á - f o r moral e suas relações com todos os aa-
physíco admiràvèfàçntç oirgábisjfdo • I biòs dós dous hecaíspherios , re-
O RECREADOR MINEIRO. io*>**

cebeo de um porto d" America O IXHüACHlM.


t^ma carta concebida nestes ter-
mos ; t cheguei emGin aqui Certo fanfarrão , achando-<ce em
depois de uma viagem fe- uma sociedade . gabava-se do im-
liz , a qual não offereceo acon- menso numero de mortes que
tecimento notável ; apenas o se- tnha feito nas suas campanhas,
guinte pôde merecer a vossa at- as quaes pel> seu calculo che-
tenção *.— Um grumete cahio da garião ao menos a 5oo. Um cir-
ponta do rnatro sobre a cober- cunstante que o queria lornar a

I
ta e quebrou uma perna ; e a- ridículo, olhando para elle dis-
tando lh'a fortemente com uma se :—Não me admira, porque nas
corda , um instante depois elle minhas viagens fiz outro tanto ;
pôde fazer uso d«lla como an- olhe , em Madrid matei 5 , em
tes do accidente. ,, Esta carta, Cadiz 5 . Lisboa to , 20 em
levada á academia de cirurgia , Pariz , 3o em Yienna , em Bru-
fez dar aos demônios toda a cias* xellas o dobro . outro tanto em
se cirúrgica. Elles lamentavão a Berlim » etc. , etc. , mas por Gm
inferioridade de seus talentosa atravessando o Canal de Dever
vista do praticante obscuro que para Calais , apenas tinha desem-
tio subitamente curou uma per- barcado quando Um maldito fi-
na quebrada. Um dtlles então com* lho do Diabo , me matou com
poz uma obra muito enérgica um tiro de bala. •— Matou! per.
onde explicava da maneira mais gnnta o fanfarrão todo admirado,
peremptória os procedimentos você está mangando comnosco.
cirúrgicos pelos quaes podia o- -—Amigo, replicou o assassina-
íerár-se uma cura tão maravi- do , e se eu não lhe contestei
f Hosa. 'Este * curioso livro , lá a as suas mortes para que ha de
•ser da$o ao prelo, quandq se- você duvidar da minha ?
gunda carta chega d'America e
foi apresentada á academia. Ali
se. lia esta, phrase : •' Meu ami- NOVO GÊNERO DE INDÜSTRI i,
\go » eu'folgo •> ter omittido uma
«peomena circunstancia em a nar- Um esturdio desprovido de dinhei-
1 ro , soube que um eslalajadeiro a»
• n t f o do suecé-so* de * iqúé ulti-
!
"mamente - rd$ dei parte' : a per- cubava de ser condemnado a des
'*_tátjftik o grúmette em questão escudos de multa por ter. dado u-
1
''i*aÜsm ^uétfrado era d e p á o . ma bofetada em certo cidadão. Bem
cerf» do fado foi em direitura ah
*****
t3oÍ O RECREADOR MINEIRO.

jar-se na mesma estalagem eali pas-1 nheiro e o facto que roubarão


sou trez ou quatro dias à regallada,' a um desgraçado a meia milha da
de modo que a eonta ja subia a q*ii ou os levo comigo para 0 in«
seis escudos. Quando se eslava forno I A esta (remenda ameaça ,
despedindo do dono desta casa , es- e 6 vista de um oratigolango côr de
te lhe pedio o seu dinheiro, mas carvaõ , os supersticiosos salleadores
o sujeititiho lhe respondeo ; — Eu, pouco aíTeilos a laes lances , ire-
nao tenho real ; assim faça-me a; mando de o ver approx,imar-se , des-
merco de me dar uma boLtada e pejaõ as nkibeiras , alirão ao chaõ
de me entregar a dcuiazia , pois quanto tinhaõ e deilaõ a fugir a
uma bofetada, como vme. sabe i va- toda a brida. O supposlo espirito
le dez escudos , e eu não lhe de- infernal recolhe os artigos abando-
vo se naõ 6eis. nados , c os vai entregar ao aldeiiÔ,
>eiimm-»
que'-'achou r.elles cm dinheiro peito
de um terço mais do que lhe tinhão
ARDIL DE UM NEGRO. levado..— Em Paizes da Europa oh-
de ha abundância de prelos • saõ
Um negro , ' creado de servir dç esles olhados sem a menor curiosi-
certo negociante de Slock/ilmo ca-, dade ; mas entre os povos/do Nor-
minhando de tarde para a quinta te quando apparece algum . inspira
do senhor, encontrou a duas . lé- a mesma estranheza como s* {os&e
guas da cidade um aldeaõ senta- uni animal feroz. ...
do a chorar, ao pé do um bardo.l
Movido do compaixão , chega-se a —aW»C9CII0ni

elle., e indaga o motivo, das suas ..QUfS PRO QUOS.


queixas. O aldeaõ responde-lhe , Uma menina psdio a; um pintor,
que indo para a feira de . . a que lhe lirasse um fiel retraio do
comprar gado , encontrou dous sal- noivo córn-quem estava para se ca-
teadores que lhe : roubarão o dinhcU sar. O retratista qraccjonb.ecia mui-
ro e o faclo.* A qne horas foi is- to bem ò sujeito, pintou- lhe um
so e onde estataõ elles *' • pergun- burro mui grande , de boca aber-
tou o negro,: —,"j**larj,.õ apenas a ta èm disposição de dizer ; hin , ban
meia milha de distancia , e toma*. hin, han. A moça apenas vio olriirrb,
raõ este;/caminho ,. respondeo o ou-* se havia de dizer, que aqôélle rifio crVa
tro. A eslas palavras despe o ne- O retrato do seu noivo, reparou cjue lhe
gro todo o facto , q^e.,entrega ao; •faltava a cangai ha*; p-.a6 o pintor res-
talôio com a rccommendaçaõ do pondeo*»! h e ; Isso lhe poríVVnvçrme-
O esperar ali, parte como um 'raio, ./hor.doque eu.: A nojva/inha ^fiçau
« em hreVá os alcança. ladrões , envergonhada , e foi então que.se, íiie
lhes grita elléi, com uma voz ãh^a*. lembrou dó dizer que se.uppivo nà'o e»
cadora , cutrejjuem ja ê já o di- ra um burro.
O RECREADOR MINEIRO. i3o5

| VU CASAMENTO P0B StBTERFTJGI í terrivel proBibiçad testamerilaria ? Ca-


*** , sar-se dentro d'um anno naõ é cou-
Temos de offerecer aos legat a rios, sa diffícil, mas será possível fa-el-
reduzidos a escolhei* entre o amor e o com uma pessoa que naõ seja a
a fortuna, um meio de livrar-se do que se ama? Por outro lado. é du-
embaraço , e aos tios testadores u m ro renunciar um legado, mas é lam-
exemplo da maneira por qus sao bem terrível renunciar o objicto a-
executadas suas derradeiras e extra- mado. Maldita condição que vem
vagantes vontades. assim metler-se de permeio cutre duas
« Item. Dou e lego a * * * meu cousas que andam taõ hem cm com-
«sobrinho leda a fortuna que ficar panhia 1 Condição fatal que quer dir
« por minha morte , com a condi» ao amor por morada umas águas
« ção de casar-se dentro d'um anno furtadas , ou ao perjuro um castel-
« contadp do dia da minha morte , e lo I O legislador deveria doctarar
« de o naõ fazor com a snra. * * *; illicita uma tal condição subversiva
« de outra maneira nullo será o le- das mais ternas affeições, premiado*
« gado e de nem um effeilo etc.» ra da iafedilidade.
Tal é em substancia a dispoziçaõ Em quanto es amantes , entre os
testamentaria , pela qual o sur. de quaes um tio bárbaro quiz elevar bar-
J . . . . . official superior', fallecido reira eterna e insuperável, em vaõ
em 1835 na commum de P.. . . , ean< procuraõ um expedisnte para supe-
taõ dTIarcourt, deixava a seu sobri- ral-a ou passar de lado, o tempo corre,
nho , joven e amável olficial de ca- o anno vae chegando a seu termo ,
vallaria , uma brilhante fortuna , que e ávidos collateraes eslaõ ahi prom»
auzmentava muito o mérito do le- ptos a lançar mão da appetitosa hei
ga tario. rança. N'esta delicada conjunefura,
Más ai! naõ ha verdadeira feli- o amor , de ordinário tão cheio de
cidade n'este'rjo§ndo. Naõ tem a invenção e engenho, d amor que
rosa espinhos ? Ao lado do legado daria muitas vezes lições ao próprio
se achava- o impedimento ds gosar Escobar , ficará em falta ?
tTolIe. Por quanto o legatario tinha O official monta em seu cavallo
dado seu coração e sua palavra a e se põe em campo, correndo mon-
«.ssa mesma pessoa com quem o tes- tes e vales em' procura d*un. expe»
tamento prohibia casar-se. Uma chcu- diente difficil «ie encontrar. Por aca ÍO
pana è seu coração', sem duvida è passando pela commum de Tou-n. . ,
muiA hello em theoria, mas em visinha d'aquerlla onde o espera a ri-
realidade um coração com um cas- ca heraíiça', vô na porta d*uma chrm-i
tollo tem ainda mais valor. Gomo pana enfumaçada uma mulher* ve***
conciliar a lè jurada com a cindi- lha encarquilliaJa , cujo nariz , co-
ç.õ sinc quâ non do legado ? Como mo o da padre Aubry-j asp:ra o
se' faria passar* o amor a lrav.*z da túmulo, cujo coraças deve estar os-
i3o6 O RECREADOR MINEIRO.' o

sificado á muito tempo , e que não DUliI.1.0 DE COZINU-MOS.


deve ter vida senão para tossir um
sim conjugai e assignar um contra» N* uma das extremidades de Pa-
cio de casamento. Feliz inspiração' ris , longe do rodar dos O m oi bus.
eslâ achado o expediente .* aqui está do reboliço dos lheatros , do conti-
o tcsla.-de-ferro matrimonial de que nuo pregoar dos vendilhões , e da
necessitava; aqui está a esposa in par* incommoda curiosidade dos vadies,
tibus que formará o laço ha tanto está situado o palácio ainda res-
tempo e tão em *vao buscado , o plandecente, do conde de B. . ,
qual as«egurará o gozo da fortuna uma das celebridades gastronômicas
sem prejudicar o amor. do Directorio. Ainda ha bem pouco
A velha consentiu. A miserável foi este palácio thealro de um
choupana transformou-se em uma acontecimento que em melhores
bonita casinha, mobilhuda com aceio, tempos , houvera servido de entre»
na qual a abundância succedeu á ne- tenimento a toda a cidade e a cor-
cessidade. Os sinos da parochia an» te, e teria dado a Mme. Scvígoé'
nunciaram a união que felicita a dous; assumpto para uma carta eloquen
sim a dôus, cada um a seu modo, tissima, e passou sem darrse-lhé, a
por que nem todos são felizes da minima attenção escapando até <-,
mesma maneira. A viuva de Tho- rede da imprensa, posto que se
xnaz Pedro Nicolau que em quan- tratasse de um peixe bem cevado.
to viveu foi iornaleiro em Tourn Era o conda de B. ura dos
. * ^^ ^ •
foi esposa do snr. * * * proprietário representantes mais austeros da gas*
em P . . . e capitão de cavallaria. troaomia franecza. Puritano no que
Uma boa renda foi determinada no respeita á sopa , e anabapthta no
contracto de casamento e como a relativo á pinga , naõ teria elle con-
nova esposa tem suas amizades que sentido nem por nada em violar a
dalão de 85 annos , em quanto que jerarchia do antigo serviço da mesa;
os deveres de seu officio chamam o permhtia, e alé goUava das inno-
official de cavallaria á guarniçao vações, mas sempre na essência,
de Pariz elle dá um beijo de cas- e nunca na fôrma. Podtaõ inventar-
tidade em sua metade que apenas se guizados novos, mas por isso
se lembra do que é um beijo e naõ era preciso inverter a ordem
vae reunir-se a seu regimento, e da classificação. O conde pretendia
ao objecto de seus pensamentos , aos que os homens de hoje comem ,
pés do qual depôs it •* , como penhor mas naõ jantaõ. e ultimamejile
_e inviolável ternura, o contracto linha despedido um cozinheiro , que
de casamento que assignára. havia muito «empo conservava só

^"u>'*•*•^•-*^^,•ir^^!^|gii0a^^^
Í por haver emitlido a doutrina sub-
versiva de que — a sopa podia sem
inconveniente servir te depois iq auadçl l
- . 3
ORECREADOR MINEIRO. 1007

O lugar vago pela despedida do um bom suéto á pansa , e promo-


cozinheiro innovador excitava todas vendo pelo exercício um bom appe-
as ambições da profissão. Em todo tils , afim de desempenhar conve-
um mez foraõ o porteiro e a ama nientemente as fuocções de juiz do
do velho conde o foco de intrigas campo.
e de mil sollicilações : apresenta- A's cinco horas da tarde trazem
vaõ-se-lhes em casa , com suas os dous irmaõs cada um o seu
casacas pretas a franceza «que è o prato muito bem 'coberto perante
traje mais decente dos cozinheiros o juiz , e se reliraõ para dei\a-lo
que se trataõ com dignidade, c mais deliberar. O juiz reltecte um pou-
de cincoenta vice-cozinheiros lhes co e depois delibera manducan-
enviarão seus requerimentos cm pi- do • o primeiro prato parece-lhe
pel porcelana com uma coroa de excellenle , o segundo sabc«-lhe que
baraõ, Mas o conde , que era ja nem gaitas, e naõ sabendo a qual
velho no officio, naõ se contentava dar a preferencia , e naõ querendo
lá com uma reçoinmendaçaõ singela perder nada do seu prazer o con-
ou duplicada; abrio em sua casa de mistura os dous pratos, c com-
um concurso de cozinheiros. Trin- binando eslas duas boas invenções,
ta oppositores se inscreverão. Três prega com tudo no bandulho e
eraõ as questões a tratar: decidir chega ao sublime 1 •
qual vale mais, o assado à ingleza A's seis horas . quando os dous
ou á iranceza; determinar se a cozinheiros entrarão na sala do
caça é melhor fria ou quente; e in- jantar para saberem a qual deites
ventar um novo prato. pertencia a victoria, naõ poderão
Só dous concorrentes conseguirão obter do seu juiz resposta alguma.
resolver estes problemas difficeis, O conde de B. . . • tinha morrido
e eraõ dous irmaõs, cuja rivalidade com uma indigestão fulminante I
se tinha de ha muito feito prover-
bial nos annnts da cozinha. Um
era Etéocles , e o outro Polynice.
Famintos de gloria , como o ce- A VACINA NA CHINA.
lebre cozinheiro Valei, ambos que»
riaô apoder&r-se de Thebas, isto ó, O flagello das bexigas assola an-
ficar cozinheiros do conde, Ambos nualmenle às províncias meridionaes
elles tinhaõ seus partidários; e as- da China: ella mata ou t!e.«IL-ura
sim-) todos os cosinheiros de. Paris aos centos os pobres habitanles,
tinham os olhos fitos nos dous ri- amontoados em miseráveis choças
vaes, que iam travar uma batalha ou em pequenos barcos sobre a
decisiva. praia. A recente introducção da
No dia marcado para o duello , vaccina da esperanças da de-Uuiçâo
tinha-te o conde preparado dando desse terrível mal.
iõoS O RECREADOR MINEIRO.

Foi em 18o5 que um negociante effeíto adquirio um cabedal assiz


português transportou de Manilha considerável ; porem como julgasse,
ara Macáo muitas pessoas inocu- que jamais podia ser feliz apezar de
Í idas „ e convidou alguma» familias similhaiite riqueza, uma vez que a
chinezas a experimentarem esta des- nao partilhasse com uma mulher de
coberta, Esse negociante não en- merilo , e probidade , e não a>
controu tanta opposiçao como a que chando n'aquelld ilha quem lhe'
soíTrêrão os «primeiros discípulos deconviesse , resolveo-.se incumbir a
lonner nos paizes mais civilizados um dos* seus correspondentes em
tia Europa. Na verdade, os pa* Londres da remessa fi uma esposa,
ares, que os enfermos chamão para conforme os seus desejos, que as-
conjurarem os espíritos malignos, e saz se manifostáo no extracto da
os médicos nao poupa nao meio sua carta, que nos parece muito
algum para mctter a ridículo o curiosa-.
que lhes era prejudicial. Mas o Item. sr RosoIvendo«-me casar , e
povo teve confiança; apenas cqme«- nâo achando aqui uni partido para
çou a experimentar os felizes resulta-
mim conveniente, rogo*vos qne me
dos da inoculação, foi imitado pe- envieis no primeiro navio carre»
las classes médias; agora chegou gado para este porto uma rapa.
a vez dos grandes. Vê-se pois que riga dás qualidades, e fôrma se-
na China as innovaçõos progridem guintes*' —Primeiramente que não
de baixo para cima ; na maior par- tenha dote; mas sim que ella per-
te das nações succede o contrario, tença a uma familia honesta; qu e
lím Cantão associarão-se os prin- tenha a idade dè 20 alé 20 annos;
cipaes negociantes Hong par» ani- de eslatura mediana , e bem pro-
mar a propagação da vaccin» ; el- porcionada ; d'um semblante agra-
les abonaõ um. módico, prêmio ás dável , d*e gênio dócil, e mais que
mais que levaõ seus filhos aos mé- tudo d'uma reputação^ illibada ; de
dicos naquelles dias em que se* boa saúde e (Fuma constituição
guodo a superstição chineza , é pe- furte para- sorpporrar os; incommo-
ligoso tomar qualquer espécie de dos da viagem e a mudança do
remédio. clima * em fim que seja tal' que
me nao veja obrigado a encom-
<*m> mendar-vos outra na falta desta ,
• A. NOIVA EMPACOTADA OU O CASA-
o que traiia graves inconvenien»
MENTO DESINTERESSADO.
tes - vista a grande distancia , p**;-
rigos de mar , e as dè<pezas do
erto negociante, tentando' me- transporte. Se chegar bem a con-
C lhorar a sua fortuna, foi as- " diciooada , ( e sem avaria ) com
Í
sentar o seu domicilo em uma uma letra endossada pot vós, ou.
da* ilhas da America, onde com ao menos com attesladoj aiflfcnti»
O RECREADOR MINEIRO. 1309

eos, eu me obrigo a fazer boa a di» '. será paga." E ao mesmo tempo
ta letra, e a esposar a portadora } lhe entregou a dita letra do SPU
aos quinze dias de vista; em fé correspondente, nai costas da qual
do que assígno esta, etc. se achava escripto _"" Passada á or-
O correspondente de Londres leo dem da Dama C _** Se-
repetidas vezes este artigo extraor- nhora lhe diz o Americano eu
dinário , no qual trata vi a futu- naõ tenho jamais deixado protestar
ra esposa da mesma maneira que as minhas letras de cambio, e por
os diversos pacotes de fazenda que conseguinte vos juro , quo naõ
tinha a enviar a seu amigo. lille faltarei a esta. Certamente me olha-
admirou a prudente exactidaõ, <• rei como o mais feliz dos homens
estilo lacônico do Americano; e se vós me promclteis o seu desem-
tratou de satisfazer aos desejos do penho. •• Esta primeira intervi>ta
seu correspondente. Depois de al- foi logo seguida das nupeias; e
gumas indagações julgou com ef- este casamento foi um dos mais fe-
feito achar o objecto desejado numa lizes da Colouia.
rapariga amável, mas sem fortu-
na , a qual acceilou a proposta.
Seguio-se immediatamente o seu
embarque munida dos certificados
em fôrma , endossados pelo cor- A FESTA DO FOGO DA ÍNDIA,
respondente , sendo o artigo da
sua remessa concebido nos termos Afesta do fogo, chamada pelos
seguintes: índios — nesoupyson tironai — é CB»
Item I_ Uma rapariga de 21 an- lebrada naõ em honra do fogo ,
nos de idade , da qualidade, fôr- que elles reverenceaõ de baixo do
ma , e condição segundo a or- nome de—agnimds— em memória
dem : como «consta dos attesla- do sacrificí» da prova , a que se
dos que ella produzirá."!" Antes sujeitou rToutro tempo Draopada,
da partida do navio o correspon- mullier dos filhos de Pandoa, uni
dente linha expedido ao futuro dos antigos reis de Delhi, Ella ca-
uma carta de aviso , dando-lhe sou com cinco irmaõs, chamados
conta da preciosa mercadoria que Pândavas nos poemas heróicos da
oblivera em seu nome. Tudo che- Índia ; quando deixava um dos seus
gou felizmente ao porlo : o Ame- esposos para seguir outro se pu-
ricano jà prevenido achava-se na rificava marchando sobre carvões
occasiaõ do desemhaque ; foi entaõ em fogo. Tal é , segundo a tra-
que vio suhir uma bella rapariga , dição dos indios de Coromandela,
a qual ouvindo-lhe o nome lhe origem desta festa , que nao tem
diz " Senhor eu tenho uma letra epocha fixa , mas., nâo pode cele-
•acada sobre vós ; espero pois que bra r»se sepão nos três primeiros me-
|3io O RECREADOR MINEI,«O

zes do anno , que correspondem aos O niEIXOSO LACÔNICO.


nos.-os d*abril , maio e junho ; e
dura dezoilo dias. Os que tèem O preíi,'inte ao queixoso : Ex**
feito voto de se purificarem devem phque-se si.bre a Rrcu-açaõ** un fez.
nestes dias jejuar, e dormir sam O queixoso: Valha mu Deus,
qualidade alguma de cama sobre isso mesmo ó o que pretfiido.
o chão. Ao décimo oitavo dia , O presidente : E recurnniendo«*lho
depois de terem preparado a ca- que sej-i breve.
beça com flores, e pintado o cor- O queixoso: Eu me explico em
po com açafrâo , se apresenlão, ao duas palavras : bateram-me.
som de vários instrumentos no O presidente : Isso é ser lacônico
lugar onde se acha estendido um de mais ; diga pois de que modo
hiazeiro , que d' ordinário, tem trio*. lhe bateram.
ta ou quarenta pés d'extensão. El- O queixoso, : Deram-me pontapés
les vão cantando , e levâo come e socos sem eu saber como nem
sigo as imagens de Draopada e de porque, e o mais. é qne me achei
Dharmaradjo o mais velho dos no meio do rhaõ como por ma.
cinco esposos , collocados debaixo quinismo de thealro.
de pequenos pavilhões enfeitados O presidente: li- pretende pardas
com coroas e bandeiras. Tanto e damnos?
que esta procissão tem dado trez O queixoso : Oh ! por certo, naõ
voltas em roda do brazeiro me» hei querer., se v. s. me quizer
chem-.o para augmentar o fogo ; os fazer esse.favor. .(Risada no audi-
penitentes se mareão na testa com tório. )
uma porção de cinza e comoção
O presidente: Quanto pretende?
a andar de um lado para o outro
sobre os cartões em braza , mais O queivoso * Ura essa è boa
ou menos lentamente segundo a o que v. s. fizer está bem feito,
sua devoção. Alguns, ao tempo na certeza de qu§ antes de mai»
que vno passando manejao os se- do que de menos.
us alfanges , lanças , ou estandartes; O presidente : E' preciso deter-
outros Itvantão meninos nos seus minar uma quantia.
braços, oú levaõ sobre a cabeça O queixoso, cocando a cabeça:
vasos , ' ou inr*a especió de gaiolas Com os demônios como hei de
ornadas de flores , e pequenas ban» eu fazer esse calculo ! houve me-
deiras. Concluída esta cerimonia, dico botíca e reeeUa; alem dis-
o povo se apressa em ir recolher so 0 estrago tio tucu fí.lo,*'*"' O
uma pouca de cinza d'aquelle bra- meu padeciuieiilo , Maõ é nada ?
zeiro e pedem aos penitentes A calcular isso con toda a con-
alixi.nias flores das suas grinaldas sciência , naõ posso levar menos
para as couserrar piedosamente. de i5o fraucjs, e ainda. . (Ria
sada geral.)
O RECREADOR MINEIRO. tsit
i«i

Pa-sa-se a ouvir o depoimento ma estava um no chaõ . e o outro


das testemunhas. dando-lhe murros , e vocô chama
Primeira testemunha: Que quer a isso jogar a pancada? mas e a
v. s. que eu diga? olhe que eu naõ vejo senaõ um a d a r , e
p«puco ou nada sei. outro a levar.
O procurador regio : Mas v. m. Terceira * testemunha -, Eu nessa,
sabia muita'coisa quando se tirou tarde cominandiva uma patrulha d a
a devassa. guarda nacional e aproximei-me
Primeira t e s t e m u n h a : Ah/ dia- para restabelecer o socego e a boa
brura I mas é necessário que v. s. ordem quando me disse o aceu-
sado: Esti bom , está bom sr. cabo
saiba , que eu naõ venho aqui
não lhe importe comigo que eu tam-
tenaõ para adoçar a coisa.
bém sou da gualda nacional, co-
(.Risada. J mo v. ni.
O procurador regio: Não se tracta O (presidente : e que queria elle
de adoçar a c o i s a , Iracla-se de fazer ?
dizer o que sabe. A testemunha : Pela minha vida ,
' Primeira t e s t e m u n h a : A h ! se não sei , porque quando eu cheguei ,
isso assim é , entaõ vamos ao ca* jà tudo estava acabado.
so : eu estava comendo a minha Ouvem-se outras muitas testemu-
fritada de quatro ovos. (Tor- nhos , cujos depoimentos, apezar do
na-se a risada geral e o mesmo muito favoráveis sempre patenteam
tribunal naõ se pôde conter. ) De- alguns factos contra o aceusado.
O presidente : Que foi que deu
pois de restabelecido o silencio ,
motivo á vossa desordem ?
f«?z a testemunha o seu depoi- O aceusado, íindo^se : O amor,
mento, que se reduz a que cotnep-. meu presidente* ( Risada geral. )
do como d i z i a , a sua fritada O presidente *, Mas em fim essa
de quatro ovos, ouviu dizer ao desordem havia de ter um principio.
aceusado, que«pe naõ matasse o quei- O aceusado rindo ainda mais :
xoso , amargaUo-hia depois. «Sem duvida, queixas , descomposui-
Segunda testemunha : E u vi es- ras , e pancada , eis aqni tudo :
tes dois homens em açcaõ de jo- isto estava na ordem,
garem a pancada. O presidente : Qual foi que de»
O procurador r e g i o : E quem primeiro ?
O aceusado , ás gargalhada? : Quem.
est.iva debaixo ?
o pôde lá saber! isso no primei-
Segunda testemunha • Q snr. ro ímpeto foi reciproco
( Jrpontaudo para o queixoso..) Por accordão do tribunal , (Vi
O procurador regio : E qual del- o aceusado condemnado em quinze di.*s
les era o q;ie dava no outro ? de prisão e »oo francos de perda»
Segunda testniunha : O senhor. e damnoi.
( Apontando para o accosado. )
O procurador regio : Dessa fôr-
joi» O RECREADOR MINEIRO.

ILogogr.pS.o- A charada do n. antecedente er.*»


Nas vogaes minha primeira prime a palavra — Cama —
De certo occupa lugar ; i
Também é affirmativa
Sendo verbo auxiliar. Termina com este numero «o
Goma segunda e terceira publicação do Recreador Mi-
Vais um dos doze formar - neiro. Ao despedir—nos dos no$«
•Que entre Câncer fe Virgo
fUettamente has de encontrar. sos assignantes , cumpriméÊum
A quaita não é vivente, grato dever agradecendo-lhes o
E ás vezes ( cousa incrível / ) apoio que nos prestarão, ma-
E cego, sem sêr com ludo
De sentidos susceptível. xime aquelles , que , dedicados
Fôrma a quarta com a quinta a nossa empreza, constantes em
Do filho a cara metade , sua pràtecção nos acompanha*
Aquella a quem nos altares rão desde o 1.* até o ultimo
Prometteo fidelidade.
Mostra a quarta com primeira numero.
€m nome- tao santo e tal, Opportunamente distribuire-
Que só por elle escapamos mos por estes srs. o Índice ge-
Do dilúvio universal.
ral das matérias que compõem
A quinta com a segunda
Facilmente enconlrarás, os 7 tomos do Recreador Mi-
Se te reúnes ao povo , neiro.
Também co'ella te acharás. Os srs. assignantes que se
E a primeira e a quinta
Verdugo da formosura achão em debito são rogados
Velos como o pensamento a mandar saldar us suas contas,
Nos conduz á sepultura. poupando-nos assim ao tra-
Sendo beila como a rosa , balho de outros avisos, anrun-
He pura como o jasmim ,
Ornada de mil virtudes, cios e mais diligencias a tal
E' na terra um Serafim f respeito.
A. M. R. Indemnisaremos os srs. as-
Não podentl') «iai-se na loura i.-ine-
diata ( pela simples ratão de não I a-. signantes de qualquer nulhero
ve-la ) a deoiíração deste Ligoirripho, ir que se extraviasse.
imHtido por uni dor nosos a«^si^n,t,itos , nós
e--peranios que os doutíssimos decitra-
«Joies, penei-ando «,s arcano* r'a sciericii*, Ouro Freio 18^8, Tjp, Imp, _« Q, \ ,
reparem a no-sa orrn.são involuntária. í, d e ÜQtXH,
' JWT- IJ