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MANUEL DA FONS

SEQUÊNCIA 4

ECA, “SEMPRE É U
MA COMPANHIA”
Para compreender
Manuel da Fonseca
Manuel da Fonseca é um nome maior do neorrealismo1 literário português. Na obra do escritor, a navegação
pelo mundo faz-se com a limpidez das imagens sobre a infância e sobre a paisagem que não lhe abrandam o com-
promisso com as dores e os sonhos dos homens. Comunicando com o seu tempo, reinventando a tradição, de-
cantando e escrita, Manuel da Fonseca é um autor com lugar próprio e uma referência na literatura portuguesa
do século XX.
Nova Síntese, Textos e Contexto do Neorrealismo, n.° 6, Introdução, Lisboa: Colibri, 2011, p. 9.

Na obra poética como na prosa narrativa, o autor colheu na observação do real o alimento da escrita – conce-
ção em tudo propugnado pelo movimento neorrealista português, de que o escritor foi um dos principais repre-
sentantes. A par de um olhar sobre as circunstâncias socioeconómicas, quase toda a sua obra se pauta por convo-
car o espaço humano e físico do Alentejo; em particular, a quietude das planícies, das vilas provincianas perpassam
na sua escrita.
Conto Português, Séculos XIX e XXI, coordenação Maria Isabel Rocheta e Serafina Martins, Lisboa: Caixotim, 2011, p. 93.

1. Corrente literária de influência italiana.

Q 1 Indica duas características marcantes da obra de Manuel da Fonseca.

Cronologia
1911 Nasceu em Santiago do Cacém a 15 de outubro.
1923 Fez estudos secundários em Lisboa.
1939 Começou a colaborar em várias revistas literárias. Participou, ao longo de vários anos nas seguintes revistas:
Afinidades, Árvore, Vértice, Altitude, O Diabo, O Diário, Pensamento, Sol Nascente e a mais importante
Seara Nova.
1940 Em volume, começou por publicar poesia: Rosa dos Ventos.
1941 Publica um novo livro de poesia: Planície e integra a série neorrealista Novo Cancioneiro.
1942 Sai o seu primeiro volume de contos: Aldeia Nova.
1943 Estreou-se no romance com Cerromaior.
1953 Reúne na obra, O Fogo e as Cinzas, os contos que foi publicando ao longo dos anos 40.
1958 Publica um novo romance Seara do Vento, considerado por muitos a sua obra-prima.
1968 Escreve Um anjo no trapézio.
1973 Publica Tempo de solidão.
1986 Publica Crónicas algarvias.
©AREAL EDITORES

1993 Morreu em Lisboa, a 11 de março.

TEMPO HISTÓRICO-LITERÁRIO: O AUTOR E O CONTO

Seara Nova Estado Novo Presença – II Guerra Mundial


1921 1926 o Segundo 1939-45
Modernismo
1927

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CONTOS

“a luta entre a incompatibilidade com a vida


e a ansiedade de vida”
(Mário Dionísio)

SOLIDÃO E CONVIVIALIDADE
Para compreender
A Caracterização de um espaço sociopolítico
Não está na natureza destes contos a apresentação de um conflito em todos os seus vetores e na plenitude do
seu desenvolvimento; mas neles encontramos a narração de situações de precariedade extrema que contêm em si
os germes de transformações profundas e urgentes.
Maria Isabel Rocheta, “Sobre O Fogo e as Cinzas de Manuel da Fonseca”,
in Três Ensaios sobre a Obra de Manuel da Fo nseca, Maria de Lourdes Belchior, Maria Isabel Rocheta e Maria Alzira Seixo,
Lisboa: Comunicação, 1980, p. 70.

B O título do conto "Sempre é uma companhia"


O título do conto parece remeter para o benefício que, no tempo de II Guerra Mundial, a introdução de um
novo meio de comunicação (a radiotelefonia) traz à população de uma pequena e isolada aldeia alentejana.
Violante F. Magalhães, in Conto Português, Séculos XIX e XXI, coordenação Maria Isabel Rocheta e Serafina Martins,
Lisboa: Caixotim, 2011, p. 103.

C Importância das peripécias inicial e final


Nas páginas iniciais de “Sempre é uma companhia” não são apenas indiciados o isolamento geográfico, a soli-

OPCIONAL
dão, o silêncio. (…) Sobretudo, de forma extraordinariamente delicada, vai-se dando conta das condições sociais

CONTO
indignas que os habitantes de Alcaria enfrentam. Elas são de tal ordem, que os habitantes perdem as suas caracte-
rísticas humanas. (…)
[No final,] a radiotelefonia, uma inovação para a aldeia, devolveu a todos parte da humanidade perdida (ou
nunca antes experimentada).
Violante F. Magalhães, in Conto Português, Séculos XIX e XXI, coordenação Maria Isabel Rocheta e Serafina Martins,
Lisboa: Caixotim, 2011, pp. 107-108.

D Caracterização de personagens
Mais do que os fortes, encontramos os fracos, mais do que o herói encontramos o anti-herói, caracterizando
uma sociedade que afasta do seu centro (que descentra) a maioria dos seus cidadãos.
Maria Isabel Rocheta, “Sobre O Fogo e as Cinzas de Manuel da Fonseca”,
in Três Ensaios sobre a Obra de Manuel da Fonseca, Maria de Lourdes Belchior, Maria Isabel Rocheta e Maria Alzira Seixo,
Lisboa: Comunicação, 1980, p. 58.

Q 1 Indica uma característica genérica dos contos que integram a antologia O Fogo e as Cinzas.
Q 2 Identifica o tempo histórico que o conto "Sempre é uma companhia" fixa.
Q 3 Infere qual será o elemento desencadeador da ação do conto.
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Q 4 Indica o que caracteriza globalmente as personagens do conto que vais estudar.

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SEQUÊNCIA 4

EXCERTO
“Sempre é uma companhia”
António Barrasquinho, o Batola, é um tipo bem achado. Não faz nada, levanta-se quando calha, e
ainda vem dormindo lá dos fundos da casa.
É a mulher quem abre a venda e avia aquela meia dúzia de fregueses de todas as manhãzinhas.
Feito isto, volta à lida da casa. Muito alta, grave, um rosto ossudo e um sossego de maneiras que se
5 vê logo que é ela quem ali põe e dispõe.
Pois quando entra para os fundos da casa, vem saindo o Batola com a cara redonda amarfanhada num
bocejo. Que pessoas tão diferentes! Ele quase lhe não chega ao ombro, atarracado, as pernas arqueadas. De
chapeirão caído para a nuca, lenço vermelho amarrado ao pescoço, vem tropeçando nos caixotes até que lá
consegue encostar-se ao umbral da porta. Fica assim um pedaço, a oscilar o corpo, enquanto vai passando
10 as mãos pela cara, como que para afastar os restos do sono. Os olhos, semicerrados, abrem-se-lhe um
pouco mais para os campos. Mas fecha-os logo, diante daquela monotonia desolada.
Dá meia volta, enche a medida com o melhor vinho que há na venda, coloca-a sobre o balcão. Ao
lado, um copo. Puxa o caixote, senta-se e começa a beber a pequenos goles. De quando em quando,
cospe por cima do balcão para a terra negra que faz de pavimento. Enterra o queixo nas mãos gros-
15 sas e, de cotovelo vincado na tábua, para ali fica com um olhar mortiço.
Às vezes, um rapazito entra na venda:
– Tio Batola, cinco tostões de café.
O chapeirão redondo volta-se, vagaroso:
– Hã?…
20 – Cinco tostões de café!
Batola demora os olhos na portinha que dá para os fundos da casa. Mas é inútil esperar mais.
“Ah, se a mulher não vem aviar o rapazito é porque não quer, pois está a ouvir muito bem o que se
passa ali na loja!” Quando se assegura que é esta e não outra a verdade dos factos, Batola tem de le-
vantar-se. Espreguiça-se, boceja, e arrasta-se até à caixa de lata enferrujada. Mede o café a olho, um
25 olho cheio de tédio, caído sobre o canudinho de papel.
Volta a encher o copo, atira-se para cima do caixote. E, no jeito que lhe fica depois de vazar vinho
goela abaixo, num movimento brusco, e de ter cuspido com uns longes de raiva, parece que acaba
de se vingar de alguém.
Tais momentos de ira são pedaços de revolta passiva contra a mulher. É uma longa luta, esta. A
30 raiva do Batola demora muito, cresce com o tempo, dura anos. Ela, silenciosa e distante, como se
em nada reparasse, vai-lhe trocando as voltas. Desfaz compras, encomendas, negócios. Tudo vem a
fazer-se como ela entende que deve ser feito. E assim tem governado a casa.

Dórdio Gomes (1890-1976), Paisagem Alentejana.

Batola vai ruminando a revolta sentado pelos caixotes. Chegam ocasiões em que nem pode en-
cará-la. De olhos baixos, põe-se a beber de manhã à noite, solitário como um desgraçado. O fim da-
35 quelas crises tem dado que falar: já muitas vezes, de há trinta anos para cá, aconteceu a gente da
aldeia ouvir gritos aflitivos para os lados da venda. Era o Batola, bêbado, a espancar a mulher.
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CONTOS

Tirando isto, a vida do Batola é uma sonolência pegada. Agora, para ali está, diante do copo, ma-
tando o tempo com longos bocejos. No estio, então, o sol faz os dias do tamanho de meses. Sequer
à noite virá alguém à venda palestrar um bocado. É sempre o mesmo. Os homens chegam com a
40 noitinha, cansados da faina. Vão direito a casa e daí a pouco toda a aldeia dorme.
Está nestes pensamentos o Batola quando, de súbito, lhe vem à ideia o velho Rata. Que belo com-
panheiro! Pedia de monte a monte, chegava a ir a Ourique, a Castro, à Messejana. Até fora a Beja.
Voltava cheio de novidades. Durante tardes inteiras, só de ouvi-lo parecia ao Batola que andava a
viajar por todo aquele mundo.
Manuel da Fonseca, O Fogo e as Cinzas, Lisboa: Caminho, 1998, pp. 145-158.

Para compreender
Aldeia
Nove casas,
duas ruas
ao meio das ruas
um largo,
ao meio do largo
um poço de água fria.
Tudo isto tão parado
e o céu tão baixo
que quando alguém grita para longe
um nome familiar
se assustam pombos bravos
e acordam ecos no descampado.
Dórdio Gomes, Ceifeiros em Descanso, 1972.
Manuel da Fonseca, Obra Poética,
Lisboa: Caminho, 2011, p. 97.

OPCIONAL
CONTO
Q 1 Organiza o trabalho em grupos com diferentes tarefas e apresenta o resultado aos teus colegas.
a) Caracteriza o espaço sugerido no poema.
b) Constrói argumentos de forma a publicitares este espaço.
c) Caracteriza um espaço oposto ao retratado no poema.
d) Constrói argumentos de forma a evidenciares os aspetos negativos deste espaço.

EDUCAÇÃO LITERÁRIA1
1. Identifica a região portuguesa em que se passa a ação e indica os topónimos que te permitiram tal identi-
ficação.
2. Delimita os três momentos principais da ação e indica sucintamente o seu conteúdo.
3. Na primeira parte, a vida de Batola é uma “sonolência pegada” (l. 37). Ilustra esta afirmação com referências
ao texto.
4. Caracteriza e interpreta a relação entre Batola e a mulher no primeiro momento.
5. Neste conto, o espaço físico condiciona o espaço social. Documenta esta afirmação com base na vivência das
personagens na primeira parte.
6. O vendedor que chega no carro revela-se uma pessoa atenta e comercialmente experiente. Ilustra esta afirma-
© AREAL EDITORES

ção com referências ao texto.


1
As questões dizem respeito ao conto integral.

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SEQUÊNCIA 4

7. A sua chegada traz uma profunda alteração à vida da aldeia. Documenta essa alteração no comportamento do

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Batola e da mulher, bem como na vida dos habitantes da aldeia.
8. Mostra como esta transformação se reflete na perceção do tempo e na vivência do espaço.
9. Em muitos dos seus contos, Manuel da Fonseca estabelece um confronto entre o passado e o presente. Indica, justi-
ficando, qual dos dois tempos sai valorizado em “Sempre é uma Companhia”.
10. Associa números e letras, identificando recursos expressivos.

Expressão textual Recurso expressivo


1. “O chapeirão redondo volta-se vagaroso” (l. 18). A. Hipérbole.
2. “todo aquele mundo” (l. 44). B. Sinédoque.
3. “chegava a ir a Ourique, a Castro, à Messejana” (l. 42). C. Perífrase.
4. “o rebanho que se levanta com o dia, cava a terra, ceifa e recolhe vergado D. Enumeração.
pelo cansaço e pela noite”.

GRAMÁTICA
1. Relaciona a construção de campos lexicais com o tema dominante do texto e com a respetiva intencionalidade
comunicativa.
2. Identifica e interpreta discurso direto e discurso indireto livre.
3. Distingue mecanismos de construção da coesão textual entre o segundo e o terceiro parágrafo do conto.
4. Identifica uma sequência textual descritiva e outra narrativa.

ESCRITA

Visiona o trailer do filme Rede Social, de David Fin-


cher, 2010, sobre a fundação da rede social Facebook e
sua evolução e escreve um texto de opinião (180-240
palavras) sobre o vertiginoso desenvolvimento dos
meios tecnológicos e de comunicação a que assistimos
e as alterações nos hábitos, na convivialidade e no
comportamento das populações.
Fotograma do filme Rede Social.

EM POUCAS PALAVRAS

“Sempre é uma companhia” consagra um retrato económico e sociocultural do Alentejo na primeira metade do
século XX. Oferece-nos retratos humanos que atravessarão outros tempos e outros espaços. O refúgio em comporta-
mentos antissociais e a desistência da vida, as relações afetivas conturbadas e a necessidade de correr mundo em
busca de um rumo são algumas linhas de reflexão que o conto propicia.

Para concluir
• O título do conto ("Sempre é uma companhia") anuncia um novo meio de comunicação que vai mudar a
vida de uma população deprimida, no contexto da II Guerra Mundial.
• A intriga é simples e é contada de forma linear.
• O espaço exterior representa os sentimentos negativos do protagonista.
• Os homens perdem características humanas que são transpostas para o universo inanimado.
• O conto permite uma reflexão sobre a condição humana, que excede os limites temporais da ação.

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CONTOS

Memórias

Memórias de África
A Mas na metrópole há cerejas. Cerejas grandes e luzidias que as raparigas põem nas orelhas a fazer de
brincos. Raparigas bonitas como só as da metrópole podem ser. As raparigas daqui não sabem como são as
cerejas, dizem que são como as pitangas! Ainda que sejam, nunca as vi com brincos de pitangas e rirem-
-se umas com as outras como as raparigas da metrópole fazem nas fotografias.
5 A mãe insiste para que o pai se sirva da carne assada. A comida vai estra-
gar-se, diz, este calor dá cabo de tudo, umas horas e a carne começa a
esverdear, se a ponho na geleira fica seca como uma sola. A mãe fala
como se hoje à noite não fôssemos apanhar o avião para a metrópole,
como se amanhã pudéssemos comer as sobras da carne assada den-
10 tro do pão, no intervalo grande do liceu. Deixa-me, mulher. Ao afastar
a travessa o pai derruba a casta do pão. A mãe endireita-a e ajeita as
côdeas com o mesmo cuidado com que todas as manhãs ordena os
comprimidos antes de os tomar. O pai não era assim antes de isto ter
começado. Isto são os tiros que se ouvem no bairro acima do nosso.
15 E as nossas quatro malas por fechar na sala.
Dulce Maria Cardoso, O retorno, Lisboa: Tinta-da-China, 2015, p. 7.

Pitangas.

Memórias de África
B Manuel deixou o seu coração em África. Também conheço quem lá tenha deixado dois automóveis ligei-
ros, um veículo todo-o-terreno, uma carrinha de carga, mais uma camioneta, duas vivendas, três macham-
bas2, bem como a conta no Banco Nacional Ultramarino, já convertida em meticais3.
Quem é que não foi deixando os seus múltiplos corações algures? (…)
5 Lourenço Marques, na década de 60 e 70 do século passado, era um largo campo de concentração com

OPCIONAL
odor a caril.

CONTO
Em Lourenço Marques, sentávamo-nos numa bela esplanada, de um requintado ou descontraído restau-
rante, tanto fazia, a qualquer hora do dia, a saborear o melhor uísque com coda e gelo e a debicar camarões,
tal como aqui nos sentamos, à saída do emprego, num snack do Cais do Sodré, forrado a azulejos de se-
10 gunda, engolindo uma imperial e enjoando tremoços.
Isabela Figueiredo, Caderno de Memórias Coloniais, Lisboa: Caminho, 2015, pp. 35-

2. futo tropical. A Baixa de Lourenço Marques (antiga designação da cidade de Maputo, capital
2. terreno agrícola.
de Moçambique), alguns anos antes da Independência de Moçambique, em 1975.
3. Unidade monetária de Moçambique.
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SEQUÊNCIA 4

© AREAL EDITORES
LEITURA | ORALIDADE
1. O texto A é um excerto do primeiro romance que assume uma visão retrospetiva do momento histórico portu-
guês: o fim da colonização e a vinda e regresso dos “retornados”.
1.1. Seleciona expressões que comprovem que o ponto de vista apresentado é o de um adolescente.
1.2. Indica as expectativas que a personagem tem sobre a metrópole.

2. O texto B constitui um excerto do Caderno de Memórias de uma jovem, filha de colonos, que vive a sua infân-
cia em África.
2.1. Distingue as referências textuais intemporais das marcas de um contexto histórico definido.

3. Debate (30-40 min) com os teus colegas: Os retornados dos anos 70 eram refugiados? O que os distingue?

GRAMÁTICA

1. Analisa sintaticamente as expressões sublinhadas do texto A.


1.1. “Cerejas grandes e luzidias” (l. 1).
1.2. “nunca as vi com brincos de pitangas” (l. 3).
1.3. “Isto são os tiros” (l. 14).

2. Classifica as orações do texto A.


2.1. “que são como as pitangas” (l. 3).
2.2. “Ainda que sejam” (l. 3).
2.3. “como as raparigas da metrópole fazem nas fotografias.” (l. 4).
2.4. “que se ouvem no bairro acima do nosso.” (l. 14).

ESCRITA

Sobre o mesmo tema, visiona o trailer do filme


Tabu, de Miguel Gomes (2012), e escreve um texto de
opinião (180-240 palavras) sobre os diferentes olhares
que os jovens portugueses têm de África.

Fotograma do filme Tabu.

EM POUCAS PALAVRAS

No final do século XX, os textos memorialistas ganham enorme relevância. As comemorações dos 50 anos da
II Guerra Mundial lembram que há acontecimentos decisivos que não podem ser apagados da memória coletiva e que
é necessário registar os testemunhos dos últimos intervenientes vivos. Do mesmo modo, os textos de Dulce Maria
Cardoso e de Isabela Figueiredo retomam a realidade do colonialismo português em África.

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CONTOS

FICHA INFORMATIVA

TEXTO E TEXTUALIDADE: ORGANIZAÇÃO DE SEQUÊNCIAS TEXTUAIS (NARRATIVA, DESCRITIVA,


ARGUMENTATIVA, EXPLICATIVA E DIALOGAL)

FICHAS INFORMATIVAS 333

CADERNO DE ATIVIDADES 26

RECORDA

Conheces já vários géneros textuais que tens vindo a estudar: a apreciação crítica, o diálogo argumenta-
tivo, o diário, as memórias, o romance, o conto, a novela, etc.
Todo e qualquer texto releva de um género que adota e recria.
Dentro da complexidade dos diferentes géneros textuais, encontramos sequências narrativas, descritivas,
argumentativas, explicativas e dialogais.

APRENDE

• Nas sequências narrativas, relata-se um evento ou uma cadeia de eventos, com predominância de verbos
que indicam ações e de tempos verbais como o pretérito perfeito e o pretérito imperfeito e com abundân-
cia de advérbios com valor temporal ou locativo.
Ex.: O Outono passou, chegou o Inverno, frigidíssimo. Uma manhã, Pedro entrou na livraria onde o pai
estava lendo junto ao fogão; recebeu-lhe a bênção. (Eça de Queirós, Os Maias)
• Nas sequências descritivas, informa-se como é alguém ou algum estado de coisas, utilizando-se o verbo
ser e outros verbos caracterizadores, com os tempos verbais dominantes do presente e do pretérito imper-
feito, com abundância de adjetivos qualificativos e de advérbios com valor locativo.
Ex.: O vale de Santarém é um destes lugares privilegiados pela natureza, sítios amenos e deleitosos

OPCIONAL
em que as plantas, o ar, a situação, tudo está numa harmonia suavíssima e perfeita (Almeida Garrett, Via-

CONTO
gens na Minha Terra).
• As sequências argumentativas têm como funções persuadir, refutar, debater uma causa, estabelecendo rela-
ções entre factos, com abundância de marcadores e conectores discursivos que articulam as partes do texto,
e apresentando como tempo dominante o presente.
Ex.: Isto suposto, quero hoje, à imitação de Santo António, voltar-me da terra ao mar, e já que os
homens se não aproveitam, pregar aos peixes. (Padre António Vieira, “Sermão de Santo António aos Pei-
xes).
• Nas sequências explicativas, analisam-se ou sintetizam-se ideias, com uma estrutura verbal em que figuram
predominantemente o verbo ser com um predicativo do sujeito ou o verbo ter com complemento direto, e
apresentando como tempo privilegiado o presente;
Ex.: Um biochip é um dispositivo fabricado com tecnologias semelhantes às usadas nos chips eletró-
nicos, mas com a finalidade de ser usado em aplicações biomédicas. (http://www.cienciaviva.pt/sabe-
rastu/).
• As sequências dialogais abarcam a conversa usual, a entrevista, etc., com funções de intercâmbio de
ideias, de comentário de acontecimentos, de agradecimento, etc.
Ex.: − Eu hei de vê-la antes de partir para Coimbra – disse Simão.
− Olhe que ela recomendou-me muito que não fosse lá – acudiu Mariana. (Camilo Castelo Branco,
Amor de Perdição).
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SEQUÊNCIA 4

FICHA INFORMATIVA

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TOMA NOTA

• No género romance ou no género discurso político, por exemplo, encontramos frequentemente sequências
dialogais, narrativas, descritivas, argumentativas e explicativas.
• Existem sonetos com sequências narrativas e encontramos contos com sequências textuais diversas.

Para concluir
• O texto é uma entidade complexa. Os géneros textuais configuram modelos socialmente aceites e estabi-
lizados num dado momento.
• Uma sequência narrativa apresenta

Sucessão de Unidade
Enredo Transformação Moralidade
acontecimentos temática

• Uma sequência descritiva responde à questão: “dizer como é”; pode estruturar-se num esquema similar
ao abaixo apresentado.
Tema Como é a casa do Batola?

Aspetos Relações

Propriedades Partes Situação Associações

• de madeira • quarto Lugar Tempo Comparação Metáfora


• de pedras • sala
• em cima • antigamente
• em baixo • hoje
• Uma sequência argumentativa apresenta

Tese Argumentos Exemplos Conclusão

• Uma sequência explicativa nasce de um problema ao qual é necessário dar resposta:


o que é?
porquê?
como?
› Pode estruturar-se num esquema similar ao apresentado

Estratégias discursivas O que é um topónimo?

Definição Classificação Reformulação Exemplificação Analogia Citação

"consiste em" "pode subdividir- "dito de outro "para "comparativamente" "como refere…"
-se em" modo" exemplo"

• Uma sequência dialogal é muitas vezes a reprodução de um diálogo ficcionado ou não:


+
Fórmula de abertura Pergunta Resposta

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CONTOS

SÍNTESE DA SEQUÊNCIA

MANUEL DA FONSECA
“SEMPRE É UMA COMPANHIA”

• Peripécia banal: um engano de percurso leva um vendedor a Alcaria.


• Isolamento geográfico da aldeia e ausência de comunicação: abandono,
solidão e desumanização da população.
A intriga
• Chegada do novo aparelho: a radiotelefonia.
• Ligação ao mundo: música e notícias.
• Alteração de comportamentos: devolução da humanidade.

• Aldeia de Alcaria: “quinze casinhas desgarradas e nuas”.


• Estabelecimento do casal Barrasquinho: “a venda” é um local onde reina o
O espaço desleixo.
• “Fundos da casa”: espaço de habitação sombrio separado da venda.
• Locais “longínquos” por onde viajava Rata: Ourique, Castro Marim, Beja.

• Tempo histórico: anos 40 do século XX (referência à eletricidade e à


telefonia).
• Passagem do tempo condensada: “há trinta anos para cá”, “todas as
O tempo
manhãzinhas”.
• Tempo sintetizado: da chegada do vendedor à partida do vendedor e prazo
de entrega do aparelho – um mês.

• António Barrasquinho, o Batola, é preguiçoso, improdutivo, sonolento,

OPCIONAL
bêbado, bate na mulher. Tem nome e alcunha. Usa uma indumentária

CONTO
própria do homem alentejano. A morte de Rata agudiza a sua solidão.
• A mulher do Batola é expedita, dominadora e trabalhadora. Não tem nome.
As personagens • Rata é o companheiro de Batola, mendigo e viajante, é o mensageiro do
exterior. Suicidou-se quando deixou de poder viajar.
• Caixeiro-viajante, vendedor de aparelhos radiofónicos, comerciante e
amigo de vender.
• Homens de Alcaria: “figurinhas” metaforicamente aparentadas com gado.

• O narrador de terceira pessoa narra os acontecimentos, conhece o passado


e o mundo interior das personagens.
• O narrador centra a atenção do leitor no abandono e solidão sentidos pelo
O narrador
protagonista.
• O narrador conhece os pensamentos de Batola e desvenda como se vão
formando: o desgosto leva-o a fechar-se num mundo de evocações.

• Isolamento e falta de convivialidade.


• Relações entre homem e mulher.
A atualidade
• Vícios sociais: o alcoolismo, a violência doméstica.
• As inovações tecnológicas e alterações de hábitos sociais.
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