Você está na página 1de 52

AS NOÚRES

I. PREMISSAS ............................................................................................................................................................ 1

II. O FENÔMENO ...................................................................................................................................................... 5

III. O SUJEITO ......................................................................................................................................................... 15

IV. OS GRANDES INSPIRADOS ........................................................................................................................... 19

V. TÉCNICA DAS NOÚRES ................................................................................................................................... 34

VI. CONCLUSÕES ................................................................................................................................................... 44

Vida e Obra de Pietro Ubaldi (Sinopse)....................................................................................página de fundo


Pietro Ubaldi AS NOÚRES 1
AS NOÚRES é deixado à experimentação científica – que, de resto, já há de-
cênios se move sempre no mesmo círculo, do qual parece não
Técnica e Recepção das Correntes de Pensamento sabe sair nem para concluir nem para progredir – a mente hu-
mana pede um alimento mais substancial, um contato mais
“Não sabemos senão em razão da nossa elevado, uma nutrição conceptual que a sustente diretamente.
faculdade de recepção”. E eis-nos em plena ultrafania.
PITÁGORAS Cada um sente, mais ou menos distintamente, em meio à
transtornante explosão de uma nova sensibilidade nervosa e es-
I. PREMISSAS piritual, entre ímpetos de nervosismo e irritabilidade (erronea-
mente considerados patológicos, e que, ao invés, são um novo
Cada século tem uma característica dominante que lhe é pró- modo de sentir, que já não suporta as velhas formas da vida,
pria, especializando-se numa criação particular que parece a ra- mas impõe novas), cada um sente revelar-se em si o fenômeno,
zão de ser desse tempo; e é justamente o produto dessa criação que é substancial, em meio àquelas escórias e desvios; é uma
que sobrevive, transmitido aos séculos porvindouros. O nosso é nova capacidade de sentir o pensamento, de perceber à distân-
o século dos nervos. Parece até que nossos pais não os possuí- cia. E tudo isso já não se perde no fantástico, mas aparece como
am; pelo menos, assim nos aparecem em sua vida sem agitações, intuição, pressentimento de um real estado futuro, estado do ser
em sua calma, que nós já não conhecemos nem quando repou- humano hipersensível, que transmite e registra correntes de
samos, tanto que, frequentemente, nos acreditamos enfermos; pensamento, noúres2, e o faz relacionando-se com seres que pa-
mas, então, todos estamos doentes. Os nervos, porém, não são recem irreais porque imateriais, mas que estão vivos e presen-
apenas irritabilidade, inquietude, insaciabilidade; não têm, fe- tes, porque sabem dar de si manifestações aos nossos mais sen-
lizmente, só o aspecto visto pela ciência – o pseudopatológico sibilizados e aperfeiçoados meios perceptivos.
da neurose – mas possuem uma face ainda não percebida, o as- O tema que vou desenvolver, se pode parecer avançado para
pecto evolutivo de uma nova criação biológica: o psiquismo. os nossos dias, amanhã será de domínio científico, e é também
Em nossa época atual, o tipo humano está deslocando sua de interesse atual para a grande maioria que apenas começa a
funcionalidade do campo muscular para o campo nervoso e agitar-se. E começa, porque é inegável a necessidade de um re-
psíquico. Algures, desenvolvi este tema, mas devo agora a ele torno ao espírito. Não é somente retorno de reação ao materia-
voltar, porque, se representa o terreno sobre o qual se apoia lismo, não é apenas um reflexo de cansaço em face de uma ori-
nossa vida, em que se agita nossa luta e nossa conquista se rea- entação que se mostrou impotente, com seus meios e métodos,
liza, é também o cenário em que se enquadra e se justifica o para chegar a uma conclusão. É uma retomada, em cheio, como
problema presente neste volume de ultrafania 1. Não se trata, jamais arrostada na história, com as armas de uma ciência
portanto, de um fenômeno casual: é momento substancial e lo- aguerrida de experiências; é uma revolução que avança, trove-
gicamente situado no curso da evolução biológica e das ascen- jando, das profundezas do espírito, que quer saber e deliberar, a
sões espirituais humanas. No caso específico da mediunidade, fim de guiar-se conscientemente na vida. E esta palavra – espí-
não poderia deixar de influir a repercussão daquele caso geral, rito – transporta-se das igrejas e das religiões e aparece franca-
que condiz com o momento de acelerado transformismo que mente no grande ambiente social e vibra na política, nas insti-
em nosso planeta atravessa hoje a evolução biológica, em sua tuições, nas leis, nas crenças e nas obras do mundo.
mais alta fase humana, evolução que, em torno de sua mais ex- Paralelamente, o fenômeno ultrafânico se aprimora e se vi-
celsa criação, febrilmente se afana. goriza. Este período pós-bélico (embora seja difícil o juízo para
E a mediunidade se modificou com o transformar-se de to- quem está imerso nessa própria época) é indubitavelmente gran-
das as coisas; devia, primeiramente, transformar-se na mais de na história por uma febre de criações universais que, embora
evidente manifestação da alma humana. Apresentou-se a me- resistências e lutas, se preparam para lançar as bases de uma no-
diunidade, no cenário do mundo atual, através da observação va civilização. Nesta nossa época, surge a ultrafania, como ma-
cientifica, sob a forma de mediunidade física, de efeitos mate- nifestações de força espiritual, agindo em colaboração com as
riais, com características musculares, tais como eram as mani- forças superiores que guiam o mundo em sua atual laboriosa as-
festações predominantes do espírito humano nas grandes mas- censão. Parece que, nesta agitação geral, que é fragmentação e
sas, até o nosso século; hoje, no entanto, tornou-se ultrafania, restauração de pensamento, também as correntes de pensamento
isto é, uma mediunidade superior, evolutivamente mais desen- que circundam o ambiente humano intervêm, ativas e operosas,
volvida – mediunidade de efeitos psíquicos. Uma vez que tudo para guiar e iluminar. É natural que uma deslocação de forças
evolve, e a evolução nunca se processou tão vertiginosamente psíquicas excite outras deslocações, porquanto nada é isolado no
como hoje, também a mediunidade deve conhecer sua ascen- universo, e os fenômenos das forças psíquicas obedecem às
são. De quanto isso é verdadeiro, também por minha íntima e mesmas leis de coordenação e de equilíbrio a que obedecem
profunda experiência, direi mais adiante. também as leis da matéria e das forças inferiores. E a vida, que
Desse modo, até hoje, tem a mediunidade evolvido, em jamais pode extinguir-se (isso seria um absurdo lógico e cientí-
muitos casos, desde a forma física de manifestações materiais fico), é natural que se comova e desperte, até nas suas formas
até à forma psíquica de manifestações intelectuais. E tanto, que imateriais, se percutida pelo eco das vicissitudes humanas, que
a primeira forma se apresenta aos nossos olhos, agora mais ex- naquela imaterialidade se continuam e se completam.
perimentados e mais habituados a examinar o mistério, como E, então, pela convergência de duas forças, isto é, a sensibi-
qualquer coisa cada vez menos assombrosa e menos probató- lização da consciência humana, a superar os últimos diafrag-
ria. Cada vez mais se dissipa a mania do maravilhoso; nossa mas, e a atração dos altos centros de pensamento, que se voltam
crescente sensibilidade analítica vai tendo sempre menos ne- para a Terra pela lei de equilíbrio, de bondade e de missão – en-
cessidade do choque que o prodigioso provoca; sempre e me- tão, a ultrafania assume o poder de grande inspiração, ativa e
nos nos abala o espetáculo das levitações, dos “apports”, das consciente. O fenômeno mediúnico eleva-se ainda mais. Deixa-
manifestações acústicas, óticas e táteis. Ao passo que tudo isso mos atrás a mediunidade física. Superamos a mediunidade de
1 2
Ultrafania: de ultra, lat. “além”, e fania (faneia), grego: “luz”. Ultra- Noúres – neologismo formado de dois elementos gregos: nous (pen-
fania: luz do além, do plano espiritual superior, produzida pelas noúres samento, espírito, inteligência) e rhéo (correr, fluir). significando, pois,
(correntes de pensamento) (N. do T.). “correntes de pensamento” (N. do T.).
2 AS NOÚRES Pietro Ubaldi
efeitos intelectuais que se manifestam na inconsciência do mé- vel, que facilmente pode ser encontrada na imprensa e que não
dium, cujo “eu” é adormecido e momentaneamente eliminado. é oportuno repetir, existe toda uma história interior, que eu vivi
Falarei, neste volume, de um tipo de mediunidade intelectual no silêncio e na solidão, a história da maturação do meu espíri-
ainda mais elevado, uma mediunidade inspirativa consciente, to, para que pudesse atingir este momento – talvez esperado e
operando em plena luz interior, em que o sujeito receptor co- preparado há milênios – momento de sua maior realização.
nhece a fonte, analisa-lhe os pensamentos, com ela sintoniza e a É útil conhecer esta história interior, tanto quanto a exterior,
ela se assemelha, buscando-a pelos caminhos da afinidade; me- para que se possa enquadrar o fenômeno da recepção inspirati-
diunidade ativa, operante, fundida no temperamento do indiví- va e das “noúres”, de que nos ocuparemos agora: fenômeno
duo, emanação normal na sua personalidade; mediunidade a tal complexo, em que intervêm elementos morais, espirituais e bio-
ponto límpida no seu funcionamento, na consciência deixada lógicos, cuja solução implica a dos mais vastos problemas do
em seu estado normal, que é possível, através de um exame in- universo, fenômeno que não se pode, por isso, isolar de todos
trospectivo, realizado racionalmente, com os critérios científi- os fatores e elementos concomitantes. É um fenômeno concre-
cos da análise e da experimentação, reconstituir a técnica do fe- to, inseparável do fato qual eu o vivi, e não se pode reduzi-lo,
nômeno inspirativo, tendo por base fatos e estados vividos, de- sem mutilação, à estrutura linear de uma simples hipótese vi-
duzidos diretamente da observação. bratória de transmissão e recepção de ondas.
Com esta definição realista do problema, a hipótese e a Este é o meu caso; dele não posso prescindir, portanto. Se
afirmação gratuita de que o pensamento registrado pela mediu- é particular (e do particular ascenderemos, através dos fatos,
nidade inspirativa provém do subconsciente humano são auto- ao geral), é também real, isto é, pertence em grande parte à
maticamente excluídas, porquanto todos os fatos que tenho vi- categoria dos fenômenos controláveis pelo método objetivo da
vido em mim e objetivamente notado como observador impar- observação. Creio que seja meu primeiro dever ater-me a essa
cial, falam em sentido completamente diverso. Aquela hipótese realidade objetiva.
excluída não merece, portanto, uma refutação explícita. E todo Objetividade, fria análise científica, mas profundidade de
o desenvolvimento da técnica do fenômeno será seguido preci- introspecção simultaneamente, para penetrar e solucionar este
samente com referência a uma fonte por completo distinta da mistério do supranormal que tenho vivido. Estas confissões,
consciência do médium receptor. que devo fazer porque vão permitir a compreensão daqueles es-
O mundo do além aparecerá tão vivo através da descrição critos, aclaram o fenômeno e podem, portanto, ser úteis a essa
de minhas sensações, que adquirirá o caráter duma realidade ci- nascente ciência da alma, que, eu o sinto, é a ciência do futuro.
entífica. Como vê o leitor, não estou aqui a expor baseando-me Estudo imposto pelo dever, embora possa parecer autopromo-
em indagações teóricas, nem me refiro a opiniões ou interpreta- ção; estudo difícil, porquanto o supranormal foi mal compreen-
ções alheias, nem me interessa alardear erudição. Toco o fenô- dido pela ciência, que o quer relegar ao patológico, confundin-
meno com as mãos e relato quanto me disseram minhas sensa- do-o com o subnormal; estudo não bem interpretado pelo públi-
ções e minha experiência direta. co, que, no vórtice totalmente exterior da vida moderna, ignora
◘ ◘ ◘ completa ou quase completamente esta segunda vida do espíri-
Saio, cheio de impressões ainda recentes, duma experiência to, não sabe ver bem e desfigura o problema, porque o enxerga
novíssima. A 23 de agosto de 1935, às 11 horas da noite, aca- de um plano de consciência diverso e inferior. Difícil estudo es-
bava de escrever A Grande Síntese, em Colle Umberto, Perusa, te, porque nenhum auxílio me pode chegar do mundo dos ho-
na torre de uma casa de campo, à mesma pequena mesa onde mens, porque o saber terrestre não sabe dar-me uma direção em
quatro anos antes, no Natal de 1931, noite alta, havia iniciado a meu caminho, nem me dizer algo que me dê a solução destes
primeira das mensagens de “Sua Voz”. problemas; mas difícil principalmente em si mesmo, porque o
Quatro anos de superprodução intelectual, de intenso drama supranormal, até nos momentos excepcionais em que se revela
interior, de hipertensão, de sublimação psíquica, de sublimação mais poderosamente, parece querer esconder-se nas vias de or-
espiritual, emergindo da cinzenta monotonia do magistério, es- dem natural, como se o esforço de exceção que supera o co-
forço diário que me é imposto no cumprimento do dever de to- mum fosse continuamente detido, refreado e encoberto pela lei
dos, de ganhar a vida com o próprio trabalho. universal, que quer parecer invariável.
Quem me sustentara no árduo trabalho de uma tão intensa Nada estou pedindo aos meus semelhantes. Sei que nada
produção? Uma fé profunda se assenhoreou de mim, arrastando- têm para me dar. Estou só e sozinho permaneci diante dos
me com uma febre de altíssima paixão. Este é o segredo da maiores mistérios, de que nem ao menos suspeitam. Tenho vi-
afirmação de um escrito3: havê-lo, antes de tudo, vivido profun- vido de ousadias, de prostrações, de lutas e de vitórias que, no
da e intensamente, de modo a fazer dele o espelho de uma fase espírito de meus semelhantes, que meu olhar tem examinado
da vida; haver nele, todo, lutado e sofrido, conceito por concei- por toda parte, quase nunca encontro. Sou feito de dor e não
to, e oferecê-lo vibrante como a alma, palpitante como foi o fe- aceito, não quero para mim, triunfos humanos, e, isso, não por
nômeno interior que o gerou. O leitor sente, embora inadverti- mérito meu, mas porque, espontaneamente, o centro de minhas
damente, esta sinceridade e alegra-se em poder satisfazer o ins- paixões se encontra distante das coisas terrenas. Tenho amado,
tinto humano de mergulhar nas profundezas do mistério de outra estremecido e sofrido sozinho, diante do infinito, numa sensa-
alma. Naqueles escritos, não ofereci o produto de estudos exte- ção titânica de Deus. Tenho agarrado pela garganta as inferio-
riores à minha personalidade e dela separáveis; pelo contrário, res leis biológicas da animalidade, para estrangulá-las e supe-
dei-me totalmente, qual hoje sou, na fase de maturação que atin- rá-las. Tenho vivido minhas afirmações como realização bio-
gi no meu caminho evolutivo. E, expondo aqui, sem disfarce, as lógica, antes de formulá-las em palavras.
profundas vicissitudes de uma alma, substancialmente relato a Sob as aparências de uma vida simples e uniforme, tenho
história do espírito humano, na qual o leitor se achará mais ou vivido as grandes tempestades do espírito humano e já me habi-
menos a si mesmo. Narro o eterno drama das ascensões huma- tuei a olhar, sem tremer, nas profundezas vertiginosas do infini-
nas. Anatomizo, refletido no meu caso particular, mas concreto to. É por isso que posso empreender o estudo do fenômeno ins-
e vivido, o fenômeno cósmico, que é de todos. pirativo, sem profundos sinais de cultura preexistente, sem pre-
Se aqueles escritos têm uma história própria, exterior e visí- conceitos ou referências, com a alma solitária e nua diante do
fenômeno, livre e independente de qualquer ideia humana,
3
O autor se refere a A Grande Síntese, escrita de 1932 a 1935, durante tranquilo e virgem de espírito, como na aurora da vida.
os breves períodos de férias escolares do Prof. Ubaldi (N. do T.). Bem sei que o mistério científico é protegido pelas forças
Pietro Ubaldi AS NOÚRES 3
4
da Lei e, algures, já o disse por que . Estou, porém, acostu- enxertar-se nas correntes espirituais do mundo. Uma vez, po-
mado a violar essas proteções; direi melhor, acho-me em par- rém, desfechada a centelha do pensamento, a ideia é uma for-
ticularíssimas condições, em minha fase evolutiva, de extrema ça lançada e, como o som e a luz, caminhará sozinha, ten-
sensibilização perceptiva, que me possibilitam sentir além do dendo a difundir-se na proporção da potência do centro gené-
limite dado e não superável pelo método racional e objetivo tico, a multiplicar-se por ressonâncias infinitas no coração
da ciência moderna. Conheço esse método, conheço a sufo- dos homens. A lei de todas as coisas marca o ritmo também
cante psicologia dos chamados intelectuais de profissão, da deste fenômeno, que deve ter o seu tempo.
cultura que repete eternamente o passado, que comenta e ana- Estava sozinho naquela noite, em face do fato consumado,
lisa, que nada cria, que pesa e mata o espírito. da obra7 a que me havia dado totalmente, a que havia dado meu
Estou nos antípodas. Detesto a bagagem embaraçante dos “eu” maior, qual sou na eternidade. Tremia diante de uma visão
conhecimentos elementares e considero um crime desperdiçar imensa, completa finalmente agora, diante de um pensamento ti-
energias psíquicas para armazenar e conservar o que deve ser tânico que me havia redemoinhado durante quatro anos, numa
confiado às bibliotecas. Sou livre e devo sê-lo para poder vo- tempestade sobre-humana, não percebida exteriormente. Exulta-
ar, leve, rápido, destilando intelectualidade, não como esma- va na satisfação perfeita de um profundo instinto biológico, pre-
gadora mole de sabedoria, mas num sentido de orientação, parado em minha eterna evolução, instinto inconsciente e abso-
que possa cingir todos os conhecimentos humanos, como a luto como o de uma mãe que dá a vida a seu filho. Sentia haver
vista domina as coisas. tocado, finalmente, um vértice de minhas ascensões, sentia ha-
Do Natal de 19315 até agosto de 1935 6, decorreram quatro ver obedecido e triunfado ao mesmo tempo, cumprindo minha
anos em que ao meu espírito afloraram, progressiva e metodi- missão e função de cidadão do universo, inclinando-me ao co-
camente, profundos estados psíquicos, após lenta incubação, mando da grande lei de Deus. A flor, fecundada por uma vida de
culminando na maturação de minha personalidade eterna. Ex- sofrimentos, havia nascido; eu não vivera, portanto, e não sofre-
porei, porque é necessário à compreensão do fenômeno inspi- ra tanto, em vão. Minha vida, tão difícil, havia dado um fruto
rativo por mim vivido, os estados psíquicos que precederam que a valorizava, minha paixão incompreendida pudera explo-
este período e que constituíram sua preparação; exporei, em dir-se na criação de uma obra de bem. Ao meu coração, que ha-
seguida, a maturação em mim, em forma clara e ativa, de uma via suplicado simpatia e compreensão, a que o mundo não quise-
nova psicologia e a produção que a continuou, explicando co- ra responder, respondeu uma voz do infinito. Essa voz me to-
mo, sem qualquer preparação volitiva e consciente, abando- mou pela mão, guiando-me pelos caminhos do mistério, ajudan-
nando-me a esses estados de espírito até então desconhecidos do-me a ascender a novas fases de consciência. Deu-me a visão
meus, pude eu desenvolver um trabalho intelectual correspon- deslumbrante da Divindade. Inebriou-me com o cântico das
dente a um plano lógico de desenvolvimento, ao qual não se grandes leis da vida. Fez-me sentir o princípio das coisas. Mara-
pode negar uma ideia diretiva, uma proporção de partes e mei- vilhou-me com a sensação do choque das forças cósmicas. Ani-
os em face de um alvo conhecido e desejado, mas desde o quilou minha natureza humana e me fez renascer numa natureza
princípio estranho à minha consciência habitual. superior, numa vida mais alta, em que eu chorava, cantava e
É científico colocar o fenômeno no seu ambiente. É neces- amava, em harmonia com todas as criaturas irmãs.
sário fazer preceder esta parte descritiva à outra, em que me Despertei de um sonho maravilhoso, potente e dulcíssimo,
aproximarei da substância do fenômeno, para explicar-lhe a es- de um êxtase profundo cuja recordação não se apaga, para des-
sência e o funcionamento, até que desponte a compreensão do cer novamente à triste realidade humana. Minha visão seria,
típico fenômeno inspirativo. mais tarde, compreendida e sentida por outros. Mas eu a vivera,
Naquela noite de agosto, uma fase de minha vida se en- primeiramente, na forma do contato mais imediato, por sensa-
cerrava. A vida é verdadeiramente um caminho, e, nas vicis- ção direta, sem leitura e sem palavras, sozinho, com aquela voz,
situdes de cada dia, a alma elabora o seu destino. A vida é disperso numa magnificência única de beleza, sob um poder de
uma deslocação contínua do ser no tempo. Não se entenda conceito esmagador, num ímpeto de paixão arrasador, arrebata-
este, no entanto, como ritmo de movimentos astronômicos, do a um grau supremo de sublimação de todo o meu ser. Eu ha-
redutíveis há anos, dias etc.; isso não é senão a medida exte- via vivido todo aquele escrito, como concepção e como drama,
rior do ritmo, convencional e cômoda. A substância do tem- como sensação e como paixão. Cada palavra, cada pensamento
po é o transformismo fenomênico, que, no mundo humano, é havia transformado uma gota de meu sangue, havia arrancado
evolução da vida e do espírito. Percebo que deve soar estra- um pedaço de minha alma. Naquela noite, olhava para mim
nhamente a expressão desta minha psicologia interior neste mesmo estupefato, corpo exânime, mas revigorado de eterna
nosso mundo hodierno, todo projetado para o exterior, em mocidade no espírito. Exultante e prostrado, olhava aquele li-
que as criaturas tendem a olhar para as outras, e não para si vro, saído de minha pena, não sei de que resplandecente fonte,
mesmas. Hoje, esse meu tempo está cumprido. Aqueles es- através de minha alma extasiada; aquele livro escrito sem pre-
critos se espalharam pelo mundo. meditação e sem preparação, tão estranhamente desejado pelo
Naquela noite de agosto, eu me encontrava só. Distante, a destino. E perguntava a mim mesmo se ainda estava sonhando
ou estava louco; a mim mesmo perguntava que significavam
família vozeava em torno da mesa de jantar. Minha filha me
essas coisas maravilhosas para minha vida e para a vida do
chamava do terraço: “Papai, vem brincar!”. Mais longe ainda, o
mundo. Olhava a obra concluída, à qual fora loucamente lança-
imenso silêncio do campo adormecido. O mundo não via e não
do por um impulso mais forte do que eu, e que havia levado a
compreendia. Eu estava só.
termo sem saber e sem desejar, porque um centro, diverso da
A ideia tem seu ritmo de divulgação, deve vencer obstá-
minha consciência normal, sabia e desejava por mim.
culos psicológicos e práticos, canalizar-se pelos caminhos da
Naquela noite, eu senti, transfundido em mim, o poder de
imprensa, superar como força a inércia psíquica do ambiente,
quem comprimiu o universo num monismo absoluto, de quem
4 encontrou o caminho das causas no dédalo dos efeitos. A es-
Ver A Grande Síntese, Cap. XLIII, “As novas sendas da ciência”
finge que mata quem revela o mistério me haveria aniquilado?
(N. do T.).
5
Data da 1 a das Mensagens Espirituais (N. do A.). Não. Eu havia obedecido, e por mim velava a suprema autori-
6
Fim da composição de A Grande Síntese. Sua 1a edição foi publi- dade da Lei. Eu não havia violado, mas respondido; havia se-
cada em fascículos pela revista Ali dei Pensiero de Milão, de janeiro
7
de 1933 a setembro de 1937 (N. do A.). A Grande Síntese (N. do A.).
4 AS NOÚRES Pietro Ubaldi
cundado, sem rebeldia, o novo equilíbrio dos tempos madu- nos propósitos humanos.
ros. Naquela noite, a cabeça em chamas, achava-me no paro- Por isso não tenho sentido este novo escrito senão como um
xismo da minha festa de espírito. novo dever. Proponho-me, pois, fornecer os dados, o mais pos-
O meu ser estava todo imerso numa onda de pensamen- sível objetivos, para o estudo do fenômeno deste meu particular
tos, ressonante de vibrações, que por tanto tempo me haviam tipo de mediunidade e particular sistema de conceber e escre-
alimentado. ver, o que será, pelo menos, um exemplo interessante para os
A vida continuava a mesma, supremamente indiferente anais biopsíquicos. A obra aí está, como fato concreto, analisá-
em torno de mim, no seu curso milenário, obedecendo à sua vel como construção de pensamento e produto do fenômeno.
eterna lei. Aquém, no entanto, desse resultado, processou-se toda uma
Cantavam os grilos pelos campos, dormiam as plantas, e as transformação e maturação de minha personalidade, e existe
estrelas cintilavam. Pelo espaço, os mesmos silêncios das anti- um imenso mundo meu, cuja descrição é necessária para escla-
gas noites egípcias; no coração dos homens, as mesmas paixões recer a origem e fazer compreender a íntima natureza do es-
pré-históricas. No entanto algo de extraordinário acontecera: crito, não acessível, certamente, à primeira vista; e tanto mais
em minha alma, a eterna evolução rejubilava-se pela maturação que, de um modo geral, ele será acareado justamente com a
de uma sua fase mais alta. E dos longes do universo eu percebia psicologia chamada normal, que está muitíssimo longe de pos-
ressonâncias, em resposta a esse secreto júbilo. Júbilo de meu suir os meios de intuição necessários para penetrar a substân-
ser, que mais se avizinhara da lei de Deus, júbilo da lei de cia fenomênica ou descer a profundidades.
Deus, que se tornara mais real em mim. Será também esta a história de uma alma, e o leitor vê-la-á
Passou o tempo. Tranquilizou-se depois minha alma, e agitar-se, palpitante de novas paixões; será espectador de um
tornei a descer do meu paraíso ao inferno da psicologia hu- intenso drama espiritual em que se movem, vivas, as forças e os
mana corrente. Aquele estado de hipertensão psíquica sere- princípios das leis cósmicas.
nou, e voltei a ser o homem comum e normal que se movi- Procurarei comunicar a “minha” sensação do fenômeno, fa-
menta na vida, ensinando na escola, onde a normalidade psí- zendo sentir como vibraram em mim essas forças do espírito,
quica e nervosa é posta seriamente à prova, cada dia. Sei mui- que tão frequentemente escapam à percepção comum e que
tíssimo bem o que é essa normalidade que a ciência quer ne- muitos negam porque não sabem senti-las.
gar aos hipersensitivos da minha espécie e sei bem usá-la em Procurarei fazer viver esta nova vida muito maior que eu te-
minha defesa, onde esta me é imposta. Simplicíssimo! Basta nho vivido, este rapto dos sentidos que me tem dado a sensação
descer biologicamente aos instintos primordiais, reduzir-se do paraíso e que me permitiu, demoradamente, ausentar-me da
psíquica e espiritualmente, manifestando-se nas formas menos pesada atmosfera terrestre. Existe também, em tudo isso, algo
evolvidas de vida física e passional, e a criatura se torna nor- de supremamente fantástico e aventuroso, embora conduzido
mal, compreendida e admitida entre os semelhantes. com seriedade científica.
Estou escrevendo à distância de um ano daquela noite de Aqui está todo um ser que se movimenta, coração e inteli-
máxima tensão e do mais intenso êxtase. Quero retornar ao fe- gência, num espasmo de humanidade e de super-humanidade,
nômeno com a mente fria do positivismo científico, com a psi- que não pode deixar de despertar ressonâncias noutras almas. E
cologia demolidora da dúvida, com a inteligência normal e ob- aqui são postos de frente os mais graves problemas da psique e
jetiva da maioria dos leitores. Volto normal: quero usar a forma do espírito, e dessa superdelicada ciência do futuro, em que se
mental dos meus semelhantes. Regresso ao fenômeno com a fala de ondas-pensamento, de ressonâncias intelectivas, de cap-
desconfiança de que, parece, a ciência deve estar sempre arma- tação de correntes psíquicas, de atrações e simpatias entre os
da para sua garantia e seriedade. Desconfiança de mim mesmo, mais distantes centros vibratórios do universo.
natural agora que me movo no mundo sensório e ilusório da Aqui se defronta um novo método de pesquisa científica por
normalidade, agora quando raciocino e controlo; mas absurda intuição e uma nova técnica de pensamento, que circunda os
quando navegava seguro nos braços da inspiração. E vou ser problemas por espiras concêntricas, comprime-os em ângulos
normal, isto é, duvidoso e incerto, avançando às apalpadelas, visuais progressivos, afronta-os por visões de concepção polié-
por hipóteses, enquanto puder, porque, a um dado momento, se drica, aproximando-se sempre, cada vez mais, de sua íntima es-
quisermos resolver este problema das noúres, terei que abando- trutura, até desnudá-los em sua essência.
nar estes métodos de cegos e surdos, para lançar-me ao coração Problemas científicos profundos, do futuro, que eu antecipo
do problema com o método intuitivo. Estou colocando minha e investigo para resolvê-los. Existe no fenômeno complexidade,
alma, novo holocausto de mim mesmo, na mesa anatômica da riqueza de aspectos e, simultaneamente, um frescor de verdade;
ciência, para que o bisturi desapiedado da observação lhe sonde e por ser apresentado como realidade vivida, interessa não só ao
o interior, não importa quais sejam as conclusões. Depois, e cientista, mas também ao filósofo e ao artista. No momento das
melhor do que eu, outros se darão ao esforço da análise e toma- conclusões, eu saberei ascender em minha psique de intuição e
rão a responsabilidade de um juízo. com ela arrojar-me ao mistério, que não poderá resistir-me.
Considero, porém, após a compilação dos escritos 8, dever No fenômeno há também um lado místico e religioso,
meu este de narrar, de descrever sinceramente o que senti e porque ele se realizou numa atmosfera de fé intensa e de gra-
vivi, ainda que me enganasse, mas eu mesmo é que devo fazê- ça espiritual; existe nele um amor todo dirigido para o Alto,
lo – embora este meu novo esforço possa parecer objetivar como no misticismo, e que pode recordar (embora muito de
outros fins – porque só eu posso saber e dizer com exatidão longe e que se me perdoe a recordação) o amor como São
muitas coisas que os outros não poderão jamais deduzir senão Francisco o sentiu na Verna.
através de minhas declarações. Para compreender-me, seria necessário saber como vivo,
O leitor, porém, compreende o absurdo de qualquer menti- como penso, como sofro, como amo.
ra para atingir mesquinhos objetivos humanos, porquanto mi- É absurdo estudar os fenômenos abstratamente, separados
nhas palavras revelam, à evidência, em que mundo distante do da atmosfera em que nasceram e se desenvolveram. A reali-
humano eu me agito; o leitor compreende como a sinceridade dade nos apresenta casos concretos, que, para serem verda-
é necessária em meu trabalho e como seria absurdo usar o in- deiros, devem ser particulares. Se queremos tocar com a mão
finito, em que eu tenho vivido, a serviço do finito, dos peque- uma realidade, devemos deter-nos no particular. É, porém, no
particular do meu caso que irei encontrar as leis gerais do fe-
8
A Grande Síntese (N. do T.). nômeno inspirativo, comuns a muitos outros casos que ob-
Pietro Ubaldi AS NOÚRES 5
servarei ao lado do meu. ao geral, do relativo ao princípio das coisas. Quando este méto-
O mundo tem necessidade destas revelações íntimas. Pelo do não mais for suficiente para resolver os problemas, eu me
menos, a literatura se enriquecerá de algo verdadeiro, vivido, transporei, num voo, ao método da intuição, de modo que o lei-
substancial, e isso já é muito. O mundo precisa destas afirma- tor possa vê-lo, aqui, não só descrito, mas operante na solução
ções de espiritualidade, necessita de quem grite, em tempos de das questões mais complexas.
materialismo e egoísmo desenfreados, a grande palavra da al- O tipo de inspiração emotiva, em mim, é diferente do tipo
ma; de quem dê, em tempos de apatia e indiferença, exemplo de de inspiração intelectiva. Minha mediunidade, verdadeira fun-
fé vivida; de quem repita, em forma científica e moderna, as ção de vida, não é fenômeno de tipo imóvel, mas se transforma
grandes verdades esquecidas. E esta é vida, vida de espírito, a com a minha evolução. No primeiro caso, são mobilizados os
mais possante, a mais intensa que se possa imaginar. E, se, em centros nervosos afetivos do coração; no segundo, os centros
lugar de usar os termos vagos das religiões, precisarmos os nervosos intelectivos do cérebro. Atravessando estes dois tipos
problemas da alma, analisando-a e anatomizando-a, então a de- de inspiração, vivi em dois centros de vida distintos, nos quais
terminação em pormenores do aspecto de tais fenômenos não se condensavam todas as minhas sensações.
poderá senão reforçar os princípios, como atualmente a presen- Não insisto no primeiro caso, que é particularmente o dos
ça dos aparelhos radiofônicos não permitirá à maioria duvidar místicos, porque a produção que dele resulta, embora em lógico
da existência das ondas hertzianas. desenvolvimento, não é um verdadeiro organismo conceptual. Is-
Aqui prossigo em minha luta pela afirmação do espírito, a so pode deixar duvidosa a ciência, porquanto o “eu” se expressa
única coisa que me tem parecido digna de valorizar uma vida, nos vagos termos do sentimento, e poderiam os céticos achar fa-
luta que considero, doravante, como missão. cilmente um modo de introduzir, na interpretação, um despertar
Luto para que estas realidades mais profundas sejam vistas, de estados de subconsciência, com distorção e translação de ima-
para que estas concepções, altamente benéficas individual e gens psíquicas, concluindo, finalmente, com o patológico da neu-
socialmente, desçam à vida de cada dia e lhe comuniquem rose. Não me refiro, naturalmente, a quem crê, sente e raciocina.
aquela esperança, aquele sopro de fé, tão necessários, sobretu- Conheço bem, no entanto, o contrário – a mentalidade preconcei-
do nas penas do trabalho e da dor. Será este um romance de tuosa de certa ciência catedrática e oficial, e é a esta que aludo.
gênero novo, um drama superlativo em que se acossam as vi- Agora, quando nos achamos diante de um tratado em que o
cissitudes de minha alma. sentimento é relegado a plano secundário e se enfrentam e re-
Tenho vivido muito intensissimamente e ainda tenho muito solvem problemas que aquela ciência provou ser incapaz de re-
para dizer. Criei o hábito de quem tem pressa, isto é, de dizer solver, porquanto, por concepções arbitrárias, absurdamente os
tudo do modo mais simples, mais breve, mais sincero. situou, aquela ciência não poderá refugiar-se muito facilmente
Nestas páginas, nasceu em mim um fio de pensamento, que na hipótese do patológico; o fenômeno mediúnico inspirativo,
tomou uma direção e se desenvolve. Não sei aonde poderá che- revolucionando, como método de pesquisa, o passado, não po-
gar. Segui-lo-ei e convido o leitor a segui-lo comigo. E começo. derá senão resplandecer em toda a sua beleza. Se me abandono,
em certos momentos, ao meu lirismo, no ímpeto das impres-
II. O FENÔMENO sões, ele é sempre circunscrito e controlado por uma fria razão,
que é minha garantia, é sempre refreado por uma subversão de
Senti e observei em mim a marcha do fenômeno em seu psicologia, que em mim é rápida e instintiva e que me leva a
desenvolvimento interior e exterior, permanecendo ele, assim, ver de cada ideia o seu contrário, e a demolir o que não é bem
individuado no seu aspecto dinâmico – gênese, desenvolvi- firme, com a psicologia destruidora do ceticismo científico. A
mento e plenitude – até ao seu produto concreto: o pensamento fusão entre fé e ciência, tão auspiciada, já se completou em meu
fixado em escritos, que são o documento, sempre suscetível de espírito; visão única na substância, e de uma a outra eu passo
observação, último termo do fenômeno, o resultado definitivo unicamente por uma mudança de perspectiva visual ou de foca-
do processo terminado. lização de meus centros psíquicos.
Relatei esta cronistória pessoal, embora necessária à com- ◘ ◘ ◘
preensão do fenômeno, mas não me cabe repeti-la aqui. Agora Abaixemos, portanto, as luzes e entremos no templo do
vamos observar o fenômeno, não mais no seu desenvolvimento pensamento. Vamos penetrar num mundo de vibrações delica-
no tempo, mas em sua profundidade, para pesquisar-lhe e des- das, de formas fugidias, que o pensamento cria e destrói, mun-
cobrir-lhe a técnica, isolando-a num dos momentos culminantes do de fenômenos evanescentes e sutis e, no entanto, reais.
e mais intensos: a recepção da minha última obra. A insolubilidade de muitos problemas talvez seja motivada
Minha tarefa e meu método são objetivos; anatomizo por justamente pela maneira errônea de situá-los: a solução é mui-
seções diversas, trabalhadas primeiro longitudinalmente, na tas vezes impedida pelo próprio preconceito, embora inconsci-
direção do tempo, e depois verticalmente, em profundidade. ente; a conclusão já é dada pela primeira posição do problema.
O leitor compreende que a recepção, que se estendeu por três Aproximamo-nos da gênese do pensamento. Talvez todo o
verões9, implica necessariamente na repetição de normas fenômeno do pensamento não seja senão um fenômeno mediú-
constantes, consuetudinárias, na formação de um verdadeiro nico de ressonância noúrica e ambos possam reluzir-se ao
método receptivo. mesmo princípio, de modo que muitas diferenciações precon-
É minha tarefa, agora, descrever as condições de ambiente cebidas, que prejudicam a visão substancial do fenômeno, não
e de espírito exigidas, os estados psíquicos vividos, o compor- terão sentido.
tamento de meu ser físico e psíquico, considerado como meio Virão à luz expressões audazes e desconcertantes, mas que-
do fenômeno, precisando todos os fatores que para o mesmo ro levar à superfície da consciência – onde tudo é claro, sensí-
possam ter concorrido. vel, racional – estes mistérios evanescentes das profundezas;
E isso, para individuar as características, definir o tipo e, fi- quero medir este, quase direi, singular pensamento radiofônico,
nalmente, encaminhar-nos ao descobrimento da lei daquele fe- que tão estranhamente emerge dos abismos.
nômeno. Operarei indutivamente, pelo menos nas primeiras fa- Desçamos às profundezas desse oceano que existe no íntimo
ses da pesquisa, remontando dos efeitos às causas, do particular de nossa personalidade psíquica.
Começo do exterior, da superfície, da descrição do a m-
9
A Grande Síntese, iniciada em 1932, foi escrita nos três verões de biente. Não posso escrever em qualquer lugar. Num ambiente
1933, 1934 e 1935 (N. do A.). de desmazelo, desordenado, desarmônico, não asseado, novo
6 AS NOÚRES Pietro Ubaldi
para mim, não impregnado de minhas longas pausas no meu Basta a imersão nas noúres para poder absorver-lhe todo o ali-
estado de ânimo dominante, não harmonizado com a cor psí- mento energético e atingir o isolamento das correntes inferio-
quica de minha personalidade, não posso escrever senão mal e res. Isso constitui felicidade, êxtase, esquecimento de tudo, até
com esforço. Eis-me, ao contrário, em meu pequeno gabinete, o momento de despertar na consciência normal, em que há uma
ambiente de paz, onde os objetos expressam minha própria espécie de penosa turvação de potência perceptiva.
pessoa, onde a atmosfera é ressonante de minhas vibrações e Antes, porém, de estabilizar-me nessa como estratosfera de
tudo, por comunhão de vida, está sintonizado com meu tem- evolução, enquanto atravesso as camadas inferiores, permaneço
peramento. Por aí me deter longamente para pensar e escre- vacilante na minha hipersensibilidade, desproporcionada à vio-
ver, saturei as paredes, a mobília e os objetos de um particular lência do assalto, muito vulneravelmente exposto ao choque de
tipo de vibração, que agora a mim retorna como uma música forças misteriosas. Sinto essas forças vagarem em torno de
que harmoniza o meu pensamento. mim. Sinto, como sentem todas as formas da vida, o terror, a
Este é o primeiro problema: harmonização, que me permite ameaça de um perigo desconhecido nas sombras.
a seleção de correntes e a imersão nelas; esses delicadíssimos Se, no alto, sou forte, porque sustentado pela corrente, sou
estados de consciência não posso atingir senão num oásis de humanamente débil cá em baixo, e devo, timidamente e sozi-
paz, através de um processo inicial de isolamento vibratório do nho, dar os primeiros passos dessa grande viagem, que implica
violento ruído do mundo. numa transformação de consciência. Procuro conseguir isso,
Antes de lançar-me à exploração do supranormal, tenho ne- auxiliando-me com um processo de progressiva harmonização,
cessidade de encerrar-me, para minha ajuda e proteção, nesse que se opera do exterior para o interior. É com a harmonia, co-
invólucro de vibrações simpáticas, harmônicas, leves, como meçando do campo acústico musical, que consigo vencer as
num veículo que me permita flutuar no oceano das vibrações dissonâncias dilacerantes das correntes barônticas 10 do mal; uti-
comuns da vida humana, que são densas, sufocantes, cegas. lizo a música como primeiro degrau no caminho do bem e da
É noite, aproximadamente dez horas. É ótima hora, em que ascensão do espírito. Isso estabelece relações, ainda não suspei-
minha capacidade receptiva se intensifica, até cerca de 1 h da tadas, entre música, prece e evolução da alma para o bem.
madrugada, em que diminui, então, por cansaço. Existe um an- Harmonizar-me é o meu problema, porque subir significa
tagonismo entre meu pensamento e a forte radiação solar; pare- encontrar a unificação; porque, ascendendo, minha sensibilida-
ce que a luz embaraça minhas funções inspirativas, neutralizan- de aumenta e mais sofro por qualquer dissonância.
do as correntes psíquicas que me circundam. Amo as luzes tê- Um dos tormentos de minha vida é a convivência no tortu-
nues, difusas, coloridas, que deixam vaguear os objetos nos rante estrépito psíquico humano, que só a insensibilidade dos
contornos indefinidos da penumbra. involuídos pode suportar. Assim, uso a música como outro
Li que quando Chopin improvisava, fazia baixar as luzes e meio inicial de sintonização de ambiente, a fim de que me aju-
procurava a “nota azul”, que devia ser a nota de sintonização de a saltar da harmonização nesse primeiro plano sensório exte-
entre sua alma e a do público. rior para a minha harmonização nos mais altos planos supersen-
No meu caso, o público está materialmente distante, mas sórios; essa música obtenho através do rádio e do radio-
fonógrafo, especialmente a melhor música sinfônica, tipo Wag-
espiritualmente está presente e próximo, e eu o sinto, imenso,
ner, Beethoven, Bach, Chopin e outros.
estrondeando mil vozes: é a alma do mundo.
Então, lentamente, a percepção sensória do mundo é subs-
Minha solidão está cheia dessas vozes; é um oceano sem
tituída por uma diferente, interior, anímica, que tudo sente
limites que sobe em marés, ruge na tempestade, submerge-me e
diversamente.
levanta-me em seus vagalhões. Depois se aquieta e escuta, ven-
As harmonias musicais da audição se transformam nas mais
cido por essa potência de pensamento que me arrasta.
profundas harmonias dos conceitos. Música suave e, em torno,
Em minha sensibilidade, o pensamento adquire o poder do
silêncio completo. Luzes moderadas, em tom menor; em torno,
raio, as correntes espirituais do mundo são tangíveis, essas for-
tudo escuro. Minha alma é uma chama que arde na noite.
ças sutis são reais, e entre elas vou avançando e navegando
Percebo sua luz e seu cântico, solitários, e eles surgem as-
com destreza. sim, logo que adormece a consciência do dia. Lentamente, as
A princípio, sinto-me extraviado, sozinho no vácuo, e im- coisas perdem o seu perfil sensório; então, vejo vibrar seu espí-
ploro apoio moral, consentimento, confiança. Peço às menores rito. E ouço a voz das coisas, que cantam. Minha consciência
harmonizações de ambiente o primeiro auxílio para o impulso; adormece para o exterior, meu “eu” morre para as coisas do dia,
peço um encaminhamento a uma cadeia de simpatias humanas, mas ressuscita numa realidade mais profunda.
que funcionem como círculo mediúnico, embora espiritual e É noite avançada. A vida humana repousa em silêncio. São
longínquo: uma espécie de caixa de harmonia das minhas res- antagônicas as duas vidas: a do pensamento desperta, enquanto
sonâncias espirituais. a outra adormece.
Vou subir a uma atmosfera rarefeita, e minha humanidade E, quanto mais adormecido, mais me torno inconsciente da
tem necessidade de um invólucro de simpatia que a aqueça e realidade exterior, volitivamente consumido, ausente do mundo
proteja, que a auxilie a lançar-se além da zona humana das tem- de todos, e mais a visão se faz nítida e profunda e mais consci-
pestades, onde minha alma se encontra exposta ao embate de ente ressurjo nessa lucidez interior.
forças titânicas. Não se pode imaginar o poder de harmonização A sonolência é, portanto, superficial e condiciona o desper-
que emana de um ato de bondade; a bondade é uma música que tar num outro estado de consciência, diferente, mais profunda,
eu respiro e que docemente me impele à corrente. Esta vibra mas sempre minha, ativa, lúcida. Processa-se uma como con-
muito mais pela bondade que pela sabedoria: é perfeição moral. traversão no funcionamento psíquico humano, à medida que se
Para conquistar o conhecimento, devo alcançar um estado de distanciam os estados de atenção volitiva que o caracterizam;
purificação, que é leveza espiritual. Apresentam-se, desde agora, dá-se uma inversão de consciência, uma conquista de potência
as necessárias relações entre evolução e ascensão de um lado, e na passividade, tanto que desaparece toda sensação de trabalho
mediunidade inspirativa de outro; esboça-se a afirmação de que e esforço e se produz num estado de abandono.
a verdadeira ciência não pode ser senão missão e sacerdócio. A vontade, no comum sentido humano, encerrada num cír-
Atingido o indispensável estado de tensão nervosa para
submergir-me na corrente, esta me arrasta; o próprio estado de 10
Neologismo formado de elementos gregos: “barós”, pesado, denso,
tensão me protege do choque das vibrações inferiores, e o mun- e “ontos”, ser, entidade. Barônticas; provenientes de espíritos de cons-
do humano desaparece, distanciando-se de minhas sensações. tituição densa (entidades inferiores) (N. do T.).
Pietro Ubaldi AS NOÚRES 7
culo de conquistas terrenas, é verdadeiramente para mim um normal, porquanto, em face da minha outra consciência, os ter-
estado de vibração involuído e violento, que perturba os mais mos simplesmente se invertem. Para que uma possa despertar, é
sutis estados vibratórios do pensamento. Os volitivos comuns, necessário que a outra adormeça. Evidentemente, a volta ao es-
se são aptos para dominar, são impotentes em face dessas de- tado normal dá-me vivíssima sensação de enfraquecimento inte-
licadas percepções. lectivo, de redução da personalidade, de queda em dimensões
Lentamente, então, vou perdendo a sensação física do corpo, mais involuídas, em que tudo está comprimido entre barreiras e
embalado por complexos ritmos sinfônicos de uma vasta orques- encerrado em limitações: há uma sensação de gigante abatido.
tração, e adormeço num estado de tranquilidade confiante. Torno a cair, então, na realidade cotidiana, onde os outros
Atravessada essa primeira fase de negação sensória, desper- têm razão, e não eu. A visão desfaz-se, o céu se fecha. Estou
to além da vida normal, numa outra consciência. Adormentados sozinho. Novamente encontro o trabalho e o cansaço da vida e
os sentidos, desaparecido de minha percepção o mundo concre- retomo o peso da minha luta de cada dia.
to que me circunda, posso abismar-me na vertigem da abstra- Tenho, pois, a sensação de que existem em mim duas cons-
ção. Não estou morto, nem passivo, nem inconsciente, porque ciências, colocadas e operantes em planos visuais distintos.
todas as sensações da vida retornam, mas com uma potenciali- Elas se excluem mutuamente e me disputam o campo da perso-
zação nova e maravilhosa de todas as faculdades de minha per- nalidade, que não podem possuir plenamente, senão cada uma
sonalidade, com um vigor e uma profundeza de percepção e por sua vez. É necessário, antes, que eu adormeça, como num
ainda com um lirismo de afetividade que antes desconhecia; pa- sonho, e é nesse sonho que o meu eu pode transferir-se à cons-
rece que, somente agora, despida a alma de sua veste corpórea, ciência mais profunda.
ela poderia revelar-se inteiramente. Estudaremos melhor, a seguir, o significado dessas diferen-
O pensamento regressa, mas com uma sensação de potência tes focalizações e deslocamentos de centro de consciência, por-
titânica, com uma profunda lucidez de visão, com uma rapidez que aí se encontra a chave de minha técnica receptiva.
vertiginosa de concepção; percebo-o despojado de palavras, em ◘ ◘ ◘
sua essência. Sou possuído de uma sensação de leveza e de li- A rápida descrição dessas minhas sensações, esta narrativa
bertação de véus e limitações; sinto dotada minha consciência do meu caso interior, que anteponho para enquadrar o fenôme-
do poder da intuição e do domínio de uma nova dimensão con- no, já basta para fazer nascer na mente do leitor um bom núme-
ceptual. Despertou-se-me um olhar mais penetrante, que vê o ro de interrogações. A elas daremos gradualmente respostas.
interior, e não mais somente a superfície que registra nas coisas Tive que descrever o fenômeno no seu lirismo, na intensi-
não só reflexos óticos, mas também psíquicos; esse novo olhar dade com que o senti e vivi, e isso para ser verdadeiro e objeti-
já não é interceptado pela forma, mas penetra diretamente na vo, tendo por fim apresentar fotograficamente o fato interior.
substância, buscando o conceito genético, o princípio que ani- Agora, vou deixar de lado meus entusiasmos e encarar o fenô-
ma e governa as coisas. Vejo, então, o que se encontra além da meno com a diferente psicologia analítica.
realidade sensória do mundo exterior, isto é, as forças que o Embora esses meus mobilíssimos estados de ânimo, porque
movimentam e lhe mantêm o funcionamento orgânico. Essas incontroláveis pela observação exterior (embora me sejam ne-
forças tornam-se vivas, os fenômenos me aparecem com uma cessários), possam reduzir-se a um acontecimento pessoal de
vontade própria de existência, uma potência de individualidade relativa importância e também ser discutidos e negados, todavia
que investe sobre mim e grita: “eu sou”. resta sempre, tangível e indestrutível, o seu produto: o volume
Cada forma se reveste de um hálito divino de conceito, que foi escrito, com seu conteúdo filosófico e científico, com a
que eu respiro; é então que sinto, verdadeiramente, que o uni- solução dos problemas defrontados, com sua técnica de pensa-
verso é um grande organismo dirigido pelo pensamento de mento, elementos largamente suscetíveis de observação.
Deus. Tudo possui, então, uma voz e me fala; todas as forças, O fenômeno completo, embora encerrado em sua imobili-
todos os fenômenos, toda a vida, desde o mineral, todas as dade, é uma afirmação realizada, que aí está como testemunho;
criaturas de Deus irradiam um cântico, que eu escuto e perce- e os sutis processos de combinações psíquicas que lhe deram
bo harmonizar-se na sinfonia imensa da criação. Desenvolve- origem podem ser reconstituídos.
se um colóquio íntimo, que registro; despertaram todas as cri- Os estados psicológicos acima descritos não foram inúteis,
aturas irmãs, que me olham, dizendo: “Quem és tu que ouves? porquanto geraram um efeito, que deve ter uma causa; embora
Escuta-nos, nós te falamos”. possam parecer de exaltação, produziram um organismo con-
O colóquio torna-se, então, um imenso amplexo, um perder- ceptual lógico e profundo. Se o efeito revela a natureza da cau-
se de aniquilamento no seio de uma luz resplandecente. A ciên- sa, se ele é uma construção racional, precisa, completa, não é
cia é um cântico e uma oração. Abre-se o abismo do mistério, e justo atribuir sua origem ao acaso ou a uma anormalidade psi-
contemplo: é uma visão, um êxtase. Mais não sei dizer. cológica ou patológica; se o escrito supera a potência cultural e
Não há palavra que possa descrever a vertigem desses esta- intelectiva do escritor, deve existir em algum lugar uma fonte
dos de consciência, a potencialidade desses clarões interiores, o que a tudo isso deu origem.
júbilo dessa paixão maior que a vida e a morte, a festa desse li- Conservar-se cético, negar uma causa ao efeito, não perce-
bertar-se do corpo e desse evadir-se da Terra, a sensação de ber um liame de proporções entre os dois termos, não é racio-
força e de eterna juventude que emana desses triunfos do espíri- nal nem científico.
to. Assim imagino o meu paraíso. Esses meus estados psicológicos ainda representam mais:
Relato essas coisas para inflamar os ânimos, induzindo-os a significam uma nova técnica de pensamento, que pode revoluci-
essas altas paixões, porque desejo que todos encontrem essa vi- onar os processos psicológicos até agora habitualmente usados.
da de perene mocidade e o dinamismo incansável que existe na Este exame que aqui estou fazendo não tem somente a im-
substância vibrante do espírito. Esse vórtice de sensações faz portância de um estudo sobre um particular tipo de mediuni-
perceber, do modo mais palpável, que o espírito existe e que dade, mas é o estudo do grande problema da gênese do pen-
sua potência suprema não pode morrer. samento, de uma sua novíssima técnica, de um novo método
Terminada a visão e a registração, o processo se inverte nu- de pesquisa filosófica e científica. Essa técnica e esse método
ma descida: é o retorno à consciência humana. Assim como o eu os usei largamente e aqui apresento seu primeiro resultado.
transe lúcido e consciente é preparado por uma fase de ador- Denomino-o método da intuição e, como já o tenho adota-
mecimento, do mesmo modo termina por uma fase de despertar; do, proponho-o, por ser mais poderoso que o método indutivo-
essa sonolência e esse acordar referem-se à minha consciência experimental. Este último, creio, já deu seu máximo rendi-
8 AS NOÚRES Pietro Ubaldi
mento; também creio ser necessário mudar de sistema, se a ci- de tipo mais elevado, e chego quase a duvidar que em tais níveis
ência deseja progredir em profundidade, se quer encontrar sua possa ainda subsistir toda a estrutura da concepção espírita co-
unidade (agora que está em perigo de pulverizar-se no particu- mum, ou que a tudo isso se possa chamar ainda mediunidade,
lar e na especialização), se quer descobrir os princípios cen- porquanto ela coincide e se confunde com o fenômeno da inspi-
trais e obter uma conclusão, após tantos anos de inúteis tenta- ração artística, do êxtase místico, da concepção heroica, da abs-
tivas. Urge devolver à ciência, que descambou em utilitaris- tração filosófica e científica, fenômenos todos que possuem um
mo, a dignidade que lhe é própria, levando-a a descobrir no fundo comum e que se reduzem, não obstante as diferenças par-
campo do espírito, guiando-a ao caminho justo da verdade, ticulares, ao mesmo fenômeno de visão da verdade no absoluto
que o mundo espera e pede há tanto tempo, em vão. Urge ele- divino. Nesses momentos, que são chamados, justamente, de
var a ciência ao nível da fé, para que se funda com esta e se inspiração – diz Allan Kardec no seu “Livro dos Médiuns” (pág.
unifique o pensamento humano. Também esse é o objetivo da 245) – as ideias abundam, se seguem e se encadeiam por si
obra que recentemente concluí. mesmas, sob um impulso involuntário e quase febril; parece-nos
Ainda que abstraindo seu conteúdo, que pode ser conside- que uma inteligência superior vem ajudar-nos e que nosso espí-
rado como revelação, o referido escrito permanece íntegro no rito se haja desembaraçado de um fardo. Os homens de gênio, de
campo científico, como realização completa do novo método todas as classes, artistas, cientistas, literatos, são indubitavel-
de pesquisa. Com este método, sem profunda e especializada mente espíritos adiantados, capazes de compreender e conceber,
preparação cultural, com rapidez e trabalho relativamente mí- por si mesmos, grandes coisas; ora, é precisamente porque os
nimo, pude resolver problemas que os outros métodos não julgam capazes que os espíritos, quando desejam executar de-
conseguiram solucionar 11. terminados trabalhos, lhes sugerem as ideias necessárias, e, as-
O método da intuição é o método da síntese, dos princípios, sim, na maioria dos casos, eles são médiuns sem o saberem.
do absoluto, é o método interior da visão e da revelação; o mé- Concebo, desse modo, estes meus estados e qualidades co-
todo indutivo-experimental é o método da análise, do relativo, é mo uma sublimação normal de todo o meu ser psíquico, atin-
o método exterior da observação. O segundo é prático, utilitá- gida por minha natural maturação biológica, que figuro como
rio, mas desperdiça o conhecimento; o primeiro é abstrato, teó- uma continuação, no campo psíquico, da evolução orgânica
rico, mas toca a verdade absoluta, atinge os princípios univer- darwiniana. Foi desse ponto de observação, a mim oferecido
sais diretivos dos desenvolvimentos fenomênicos. por estados de consciência supranormais em face da mediana
Há a considerar também a questão da entidade, ou seja, do evolução biológica, mas normais para a fase por mim atingida,
transmissor, questão árdua, para cuja solução teremos, mais que eu pude contemplar a síntese do cosmos. E é por isso que,
adiante, melhores elementos de juízo. Por enquanto, devo ob- desse nível biológico, me inspira o maior desagrado a mediu-
servar que, conforme suas próprias declarações, a fonte afirma nidade física, que percebo como algo de violento, sufocante,
não ser uma personalidade no sentido humano. Em sua primei- involuído. Deixo a esse mais áspero trabalho do espiritismo o
ra comunicação, Sua Voz enuncia, realmente, como primeiro valor probatório para a hodierna ciência da matéria, para os
fato, estas já citadas palavras: “Não perguntes meu nome, não cegos do espírito, mas permaneço em minha sensação de re-
procures individuar-me. Não poderias, ninguém o poderia; não pugnância e de desagrado.
tentes inúteis hipóteses”. Além disso, tenho lido na imprensa A minha paixão é, ao contrário, subir, sutilizar-me espiritu-
espírita, repetidamente, que essa impessoalidade do centro almente, aperfeiçoar-me sempre como percepção. E esta é a
transmissor é mais séria e mais verdadeira do que seu exato condição de minha mediunidade. Fujo, por isso, do que é terre-
definir-se numa assinatura, embora esse nome seja dos grandes no, das formas de vida humana, de todas as manifestações barô-
da história. E é intuitivo que, embora sobrevivendo, a persona- nticas, que arrastam meu espírito para baixo e, ao invés de abri-
lidade humana deva experimentar mutações que lhe fazem lo para a compreensão e a luz, o sufocam num cárcere de trevas.
perder seus atributos humanos, seus sinais de identificação Minha paixão é evadir-me das baixas camadas da animali-
psíquica e as características que lhe eram próprias no ambiente dade humana, e essa é minha meta e o significado de minha
terrestre. E isso deve ser mais intensamente positivo quando se mediunidade. Quando esta, embora vagando no além, permane-
trata de entidades que jamais viveram na Terra, ou também ce em nível humano ou subumano, não tem mais razão de exis-
que sejam tão elevadas que vivam normalmente em dimensões tir para mim, porquanto não mais significa evasão e libertação.
conceptuais e planos de consciência superiores. Observar o mundo dos vivos ou o mundo dos mortos é para
E, se a virtude destes meus estados psíquicos particulares é mim problema secundário em face do de minha evolução. Sou
de me fazer atingir conscientemente esses planos, deverei achar um exilado na Terra e busco desesperadamente a minha gente e
suficiente falar não de espíritos no sentido comum, mas somen- a minha pátria distante. Meu esforço objetiva reencontrar algo
te de centros emanantes de correntes psíquicas, as noúres, em de grande que eu já senti ou vivi, um conhecimento, uma bon-
que justamente se processa minha imersão, correntes que eu dade, um poder que se abalou, não sei como, neste mundo. Meu
percebo, vibrações que registro em minha hiperestesia psíquica. esforço é para subir, subir moralmente sempre mais, para
Reconhecer-se-á lógica a necessidade de alteração de perspec- aprender sempre melhor a manter-me em equilíbrio estável ao
tivas, quando se pensar que longa e estranha viagem seja neces- nível de consciência representado por essas noúres que eu capto
sário realizar até atingir o outro limite da comunicação. e registro. Procuro simplesmente tornar normal para meus pul-
Por isso meu caso é bem diferente dos tipos comuns de me- mões a respiração, que é difícil para um ser humano, naquela
diunidade. Não é mediunidade física, de efeitos materiais, que atmosfera rarefeita, mas puríssima e esplêndida.
lança mão de centros humanos e subumanos, de caráter barônti- Toquei de leve, neste momento, uma corrente que me de-
co. Não é mediunidade intelectual inconsciente, em que o mé- lineia uma interpretação do fenômeno. Sinto desse modo,
dium funciona como simples instrumento e cuja consciência se muitas vezes, nascerem em mim os mais inopinados concei-
afasta no momento da recepção. É, porém, mediunidade intelec- tos. Minhas capacidades consistem, portanto, no saber eu mo-
tual consciente no plano superior em que trabalha e para o qual ver-me, em plena consciência, de um plano conceptual huma-
se desloca, na plenitude de suas forças. É, portanto, mediunidade no a um plano conceptual sobre-humano; no saber efetuar,
com a sonda de minha superconsciência, reconhecimentos nas
11
Atualmente, em 1950, as últimas teorias do grande físico e matemá- profundezas do plano superior e trazer os resultados da in-
tico Albert Einstein vêm confirmando plenamente as intuições de há vestigação à consciência normal, para poder, através desta e em
18 anos, de A Grande Síntese (N. do A.). terminologia desta consciência, fazer a comunicação dos
Pietro Ubaldi AS NOÚRES 9
mesmos, isto é, pô-los em forma racional, compreensível aos res e superficiais com meios sensórios e instrumentos apenas,
meus semelhantes. Eis o conceito de que falei: a linha que mas se usa a consciência do observador, que é elevada a instru-
percorro e ao longo da qual me elevo e desço é a dimensão mento de pesquisa. Procede-se, aqui, por sintonização entre o
evolução (confronte A Grande Síntese, Cap. “Teoria da evolu- psiquismo do observador e o psiquismo diretivo do fenômeno; é
ção das dimensões”), e tudo isso pode acontecer porque me necessário, em outros termos, que a alma do observador se dilate
encontro numa fase de transição e transformação entre consci- e expanda do exterior para o interior e entre em contato com a
ência e superconsciência, que ainda me permite oscilar entre substância, o princípio animador do fenômeno, e não somente
as duas fases contíguas de evolução psíquica. com sua forma externa e com o aspecto exterior de seu desen-
Em face de tudo isso, pode-se ver como se deve abandonar, volvimento. É o estado de espírito do poeta e do místico, de
caso se queira compreender a fundo o problema, o simplismo simpatia por todas as criaturas, de paixão de conhecimento para
da ideia de uma entidade que fala mais ou menos materialmente o bem, de visão estética do artista, não mais vagas, mas dirigidas
aos ouvidos do médium. E daí também se compreende a extra- com exatidão científica no campo das concepções abstratas.
ordinária importância que tem para esta minha qualidade de re- Nestas formas de pensamento, sinto que se dilatam os hori-
cepção inspirativa – para completá-la, mantê-la, aperfeiçoá-la – zontes novíssimos da ciência do futuro, sinto que nestes concei-
o fator moral; compreende-se que importantíssima função pos- tos que aqui estou expondo está a semente de uma profunda re-
sui, em face dessa minha mediunidade, o fator dor, que refina, volução na orientação do pensamento humano, sinto que este
educa, purifica; compreende-se como fazem parte integrante do assunto é o problema fundamental, o mais importante a que
fenômeno e como é necessário dar-lhes um verdadeiro peso ci- possa dirigir-se hoje a mente humana. Aquém deste estudo, que
entífico, fatores de caráter religioso, ético, espiritual, que a ci- parece apenas de um caso pessoal, se agita o grave problema do
ência acreditou até agora poder ignorar como um não-valor. conhecimento humano e dos novos métodos para atingi-lo. Tu-
No meu caso, por isso, a recepção se realiza por sintoniza- do isso demonstra que a verdadeira ciência, a profunda ciência
ção, isto é, capacidade de vibrar em uníssono, que se pode que toca a verdade, só é atingida pelas vias interiores, através
chamar simpatia, envolvendo o conceito de afinidade de natu- de um processo de harmonização da consciência com as leis da
reza. Devo, então, submeter minha natureza humana ao martírio vida e com o divino princípio que tudo rege; demonstra que os
de viver num nível que não é o dela, entregando-se em holo- caminhos do conhecimento não podem ser senão os caminhos
causto de uma lenta morte; devo saber continuamente realizar, do bem, que o saber é um equilíbrio de espírito, que a revelação
entre as cargas de minha vida humana diária, o esforço de er- do mistério não se verifica senão quando se alcança a fase de
guer-me, como consciência, a um nível sobre-humano e nele perfeição moral; demonstra que a ciência agnóstica, amoral, é a
manter-me através de uma tensão nervosa esgotante, em que ciência do mal, que se destrói a si mesma, e que é absurdo, por-
muitas vezes me abato, caindo humanamente desfalecido. É tanto, ignorar certos imponderáveis substanciais e prescindir do
através de um sofrimento contínuo que eu posso declarar-me fator ético na pesquisa; demonstra, finalmente, que a ciência
uma antena lançada no céu dos antecipadores da evolução. Só a não deve ser senão uma ascensão cultural e espiritual tendente à
dor pode permitir perdoar a audácia destas afirmações. unificação de tudo – arte, filosofia, religião, saber – em Deus.
Referi-me, assim, às notas fundamentais do fenômeno tal Porque a lei de evolução é também lei de unificação.
como eu o vivo. Pode ele definir-se como um estado de acentu- Com este método, escrevi uma obra que foi publicada como
ada hiperestesia psíquica, que me permite a captação consciente ditado mediúnico, e isso, se corresponde à verdade, não basta
de correntes conceptuais emanantes de centros psíquicos que para fazer compreender todo o fenômeno. Vê-se agora como
existem em formas biologicamente superiores e dificilmente esse escrito foi gerado num plano de consciência supranormal e
individualizáveis para o homem, em face de suas limitações que eu tinha que possuir as qualidades necessárias para saber
sensórias e conceptuais. Esses estados podem ser chamados transferir-me àquele plano e, assim, poder perceber aqueles
medianímicos e são, no meu caso, conscientes, lúcidos, utilizá- conceitos. Meu esforço não foi, na verdade, o esforço cultural
veis pela minha possibilidade de retroceder biologicamente aos do estudioso, mas um trabalho completamente diverso. Nada de
estados de consciência normal e traduzi-los em forma humana livros, de resto inexistentes em tais campos inexplorados e so-
de pensamento; possibilidade, para mim, de oscilar entre essas bre tais novíssimas concepções; nenhuma preparação cultural
duas consciências, que são duas fases de evolução biológica no particular, nenhuma coletânea de materiais, nenhuma pesquisa,
nível psíquico. São capacidades supranormais em face do nível no passado, do pensamento alheio, mas um contato imediato
médio, mas normais para mim, porque atingidas por normal com o problema e com o fenômeno, com uma nova e diferente
processo evolutivo; capacidades abertas a todos e às quais a focalização de consciência. A libertação do estorvo cultural foi,
humanidade chegará por via normal de evolução no tempo. Fe- pelo contrário, a primeira condição que me permitiu a leveza
nômeno de sintonização entre os dois centros comunicantes, o necessária ao voo, numa espécie de virgindade de espírito, livre
que implica afinidade e, de minha parte, a tensão para manter- de todos os preconceitos de precedentes interpretações alheias.
me num alto nível biológico, expresso neste campo psíquico A dificuldade da composição não se assentou no estudo de li-
por leis morais. Tudo isso eu adoto praticamente como um no- vros, mas na busca do estado de espírito. O fenômeno e sua lei
vo método sintético, por intuição, de pesquisa filosófico- me falaram diretamente, sem véus; a verdade me tocou como
científica; tenho-o utilizado, ofereço-o e também seus resulta- um lampejo de concepção instantânea; nenhuma incerteza, ja-
dos à ciência, para seus objetivos. No fundo, não é senão o an- mais a tentativa da hipótese. Prendia, num voo, o princípio, sem
tiquíssimo método dedutivo da revelação, que a ciência, atual- perder-me nunca no dédalo do particular e da análise. Jamais
mente, trocou pelo método indutivo; é o retorno às fontes da oscilei na dúvida em que a ciência se debate. Nenhum registro
verdade, ao outro extremo visual do conhecimento. necessário, multiplicado pela observação prolixa e paciente;
Com este método se introduzem na pesquisa científica fato- não mais o comportamento lento e incerto do cego que, para
res delicadíssimos. Considero absurdo falar, no presente caso, de certificar-se da segurança, deve tocar tudo de todos os lados,
gabinetes e experimentações num sentido materialista, porque a mas um senso da verdade, uma registração rápida de totais,
primeira coisa a fazer não é tanto induzir o cientista a estudar o uma potência de síntese que imediatamente conclui. Não mais
fenômeno com sua psicologia, mas reconstruir, desde os funda- um mesquinho contato com o fenômeno apenas pela estreita via
mentos, a psicologia do cientista. Meu fenômeno não pode ser dos sentidos, mas uma comunhão aberta de par em par, uma
apenas objeto de observação, mas é um método científico “para transposição completa do meu centro consciente ao centro do fe-
a observação”, em que não se procede por verificações exterio- nômeno, seja ele o menor ou o máximo do universo. Os dois
10 AS NOÚRES Pietro Ubaldi
termos que devem compreender-se, observador e fenômeno, eu contraste falta, o fenômeno deve ser julgado suspeito. E se es-
os ponho à mesma altura; não me canso em mudar os casos e as candalizam por eu abolir, abertamente, no meu caso, essa pre-
condições do fenômeno, mas mudo o observador e suas quali- sunção de completa ignorância como elemento probatório e por
dades perceptivas; restituo sua alma ao fenômeno e o compre- diminuir essa distância entre as capacidades culturais do mé-
endo. Na transmutação da consciência, sintonizo os íntimos dium e o produto intelectual. Já falei, porém, sobre sintonização.
movimentos vorticosos do meu psiquismo com aqueles que É evidente, pois, que o centro receptor, para poder entrar em
constituem a essência do fenômeno; reduzimo-nos ambos (eu e ressonância, deve saber elevar-se até atingir um estado de afini-
o fenômeno, elementos que devem tocar-se) à última e mais dade qualitativa com o centro transmissor, que tanto pode ser
simples expressão cinética. Reduzidos, assim, ao mesmo de- uma noúre, como a alma do fenômeno em sua própria expres-
nominador, as duas expressões podem comunicar-se, minha são. E, nos assuntos mais modestos, como a compilação de um
consciência pode sobrepor-se e coincidir com a consciência do quadro, de um diagrama, a execução de um desenho, o controle
fenômeno. Este método de pesquisa por sintonização fenomê- de um cálculo ou de uma fórmula, o desenvolvimento de concei-
nica atinge também fenômenos longínquos ou não mais repro- tos mais simples, o próprio, mas raro, retoque da forma etc., é
duzíveis, não suscetíveis, portanto, de observação, como, por natural e justo que esse trabalho menor de contorno, serviço se-
exemplo, as origens da vida, as dimensões conceptuais etc., fe- cundário, seja confiado à psique menor, para deixar, evitando
nômenos que não podem ser arrostados senão com esses meios inútil desgaste de energias, o trabalho central de direção à psique
de pesquisa, pois a ciência não os possui. superior, que se reserva à função mais elevada de lançar os pla-
Nestes estados, não sou apenas consciente, mas também nos da obra e iluminar a essência dos fenômenos. Tudo isso cor-
ativo centro investigador, e não me limito à percepção de noú- responde a um plano lógico de divisão de trabalho.
res ou correntes de pensamento emanantes de centros psíqui- Ouçamos o que, sobre o assunto, diz Allan Kardec no seu
cos distintos de mim, mas sinto diretamente a grande voz das Livro dos Médiuns: “É possível reconhecer-se o pensamento
coisas, vejo o princípio que as anima, percebo as correntes sugerido, por não ser jamais preconcebido; nasce à medida que
que delas emanam. É natural que, transferindo-me eu a um se escreve e é frequentemente contrário à ideia que anterior-
plano de consciência mais avançado em evolução, tudo na- mente se formara (exatíssimo); pode, além disso, ser superior
quele nível se manifeste em forma de vibração psíquica, por- aos conhecimentos e capacidades do médium (...) Este último,
quanto, nas fases superiores, todo o universo se torna espírito. para transmitir o pensamento, deve compreendê-lo e, de certo
E tudo abarco porque, se adormeço na consciência normal, na modo, apropriar-se dele, a fim de traduzi-lo fielmente, e, no en-
outra desperto, e esta é muito mais elevada e potente; nesta tanto, esse pensamento não é seu...” (pág. 243). “Todo aquele
adquiro uma nova amplitude de visão e de discernimento, vi- que, seja no estado normal, seja no de êxtase, receba, pelo pen-
são minha, livre e autônoma. Também na percepção e capta- samento, comunicações estranhas às suas ideias preconcebidas,
ção de noúres permaneço consciente, examino, exercito um pode ser colocado na categoria dos médiuns inspirados. Esta é
poder de juízo e de escolha. Daí se pode compreender a que uma variedade de mediunidade intuitiva, com a diferença que a
grau de consciência atinge minha mediunidade e como eu intervenção dum poder oculto é aí muito menos sensível, tor-
domino completamente o fenômeno em toda a sua extensão, nando-se ao inspirado muito mais difícil distinguir o pensamen-
permanecendo senhor de suas possibilidades. to próprio daquele que lhe é sugerido. O que caracteriza este úl-
Apresenta-se agora uma delicada questão: saber se o seu timo é, sobretudo, a espontaneidade” (pág. 244).
produto é absolutamente meu; em outros termos, a quem cabe a Leio mais adiante, no mesmo volume (pág. 308 e seguin-
paternidade da minha produção, chamada mediúnica. A questão tes), uma comunicação de um espírito, que diz: “Quando en-
é sutil, justamente porque, em tais níveis de consciência, não só contramos em um médium o cérebro dotado de conhecimentos
conquisto um particular poder de visão no absoluto, não só per- adquiridos em sua vida atual e o seu espírito rico de conheci-
cebo o pensamento de outros centros, como também, naquele mentos anteriores, latentes, próprios a facilitar-nos as comuni-
nível, a distinção individualista humana, própria do separatismo cações, dele nos servimos de preferência, porquanto, com ele, o
imperante nos planos mais baixos de evolução, se anula na uni- fenômeno da comunicação é muito mais fácil do que com um
ficação, própria dos planos superiores. Já afirmei que a lei de médium de inteligência limitada e cujos conhecimentos anterio-
evolução é também lei de unificação. Subindo a superiores di- res sejam insuficientes... Nossos pensamentos não necessitam
mensões conceptuais, é natural, portanto, que a individualidade da vestimenta das palavras... Um determinado pensamento po-
se reabsorva na unidade. Atingindo aqueles planos, eu sinto, na de ser compreendido por tais ou quais espíritos segundo seu
verdade, apagar-se a distinção entre o eu e o não-eu, sinto-me adiantamento, ao passo que, para outros, esse pensamento, não
anulado, fundindo-me e ressurgindo numa unidade mais alta e despertando nenhuma lembrança, nenhum conhecimento que se
poderosa, sinto atuar-se a unificação entre mim e o princípio abrigue em seu coração ou em seu cérebro, não lhes é perceptí-
animador dos fenômenos, não apenas entre mim e as noúres, vel... ”. “Com um médium cuja inteligência atual ou anterior se
mas ainda entre mim e os centros de pensamento que as emitem. ache desenvolvida, nosso pensamento se comunica instantane-
Ascendendo-se, atinge-se a unificação com o princípio univer- amente, de espírito a espírito. Neste caso, encontramos no cére-
sal, em que a individualidade se aniquila. Meu ser se harmoniza, bro do médium os elementos apropriados a vestir nosso pensa-
então, de tal modo com o funcionamento orgânico do universo, mento com a palavra correspondente ao mesmo. Eis porque os
que dele não se sente mais separado, unificando-se, fundindo-se ensinamentos assim obtidos conservam um cunho de forma e
e perdendo-se no grande incêndio de luz da Divindade. colorido pessoais do médium. Se bem que os ensinamentos não
É para mim difícil reduzir a grandiosidade de sensações des- provenham de modo algum deste, ele influi sempre em sua
te fenômeno aos termos do vocabulário mediúnico. Muito mais forma, tanto pelas qualidades quanto pelas propriedades ineren-
difícil porque devo ainda, por amor à verdade, acrescentar que, tes à sua pessoa... ”. “Quando somos obrigados a nos servir de
também nos estratos inferiores de minha consciência, quando o médiuns pouco adiantados, nosso trabalho se torna muito mais
trabalho lhes era apropriado, este lhes era confiado em colabora- longo e penoso, porque somos coagidos a recorrer a formas in-
ção harmônica, pela lei do meio mínimo. Alguns, ao julgar-me, completas, o que é para nós uma complicação. Sentimo-nos fe-
procuraram a evidência do fenômeno mediúnico na ausência, lizes, por isso, quando podemos encontrar médiuns aptos, bem
em mim, de uma adequada preparação cultural e viram a prova aparelhados, munidos de materiais prontos a serem utilizados.
disso no contraste entre minha cultura, amplamente inferior, e o É por essas razões que nos dirigimos de preferência às classes
escrito produzido, até ao ponto de considerar que, quando esse cultas e instruídas... e deixamos aos espíritos galhofeiros e pou-
Pietro Ubaldi AS NOÚRES 11
co adiantados o exercício das comunicações tangíveis, de pan- tensão; rompera-se-me o fio do pensamento; a visão se apagara
cadas e transporte...”. Uma importante “observação” encerra, aos meus olhos; estava desanimado e havia perdido o senso da
no citado volume (pág. 312), essa comunicação: “Disso deriva, verdade. A consciência comum nada me sabia dizer, era cega.
como princípio, que o espírito colhe não as suas ideias, porém Foi então que, passeando, numa hora tardia duma noite estival,
os materiais necessários para exprimi-las, no cérebro do mé- num terraço, à luz das estrelas, orando e suplicando, vi toda a
dium e que, quanto mais rico é esse cérebro em materiais, mais teoria num lampejo, um esplendor de conceitos sobre o fundo
fácil se torna a comunicação...”. Compreende-se que os espíri- cintilante do firmamento. Foi um átimo, porque a visão concep-
tos devem preferir os instrumentos de uso mais fácil ou, como tual está verdadeiramente além da dimensão tempo.
dizem, os médiuns bem aparelhados, do ponto de vista deles. A intervenção, pois, do fator supranormal é evidente. É pre-
No meu caso, portanto, a cultura não somente não deve ser ciso somente compreender a complexa estrutura dessa interven-
excluída, mas é um instrumento precioso fornecido ao centro ção e evitar o simplismo que reduz tudo à ação de um espírito
transmissor, como igualmente podem ser a elevação de senti- sobre os centros psíquicos passivos do médium. Isso justifica a
mentos e a afinidade moral, que é condição de unificação. Mi- qualificação mediúnica dada ao escrito desde o princípio. As-
nha mediunidade é, portanto, um caso de verdadeira colaboração sim como a compreensão da transmissão radiofônica, embora
consciente e ativa; não é, assim, absurdo que sejam chamados a muito simples para comparação, presume o conhecimento da
cooperar e a dar todo o seu rendimento os melhores recursos que eletrotécnica, igualmente, para entender este meu fenômeno, é
minha personalidade pode oferecer. Certamente é difícil precisar preciso haver assimilado toda a obra que produzi, como inter-
a distinção entre o meu e o não-meu, como também já não sinto pretação da fenomenologia universal, para poder também situar
a que existe entre o eu e o não-eu. Se eu sou o pedreiro, terei este caso harmonicamente no seio do funcionamento orgânico
ofertado algum tijolo, tendo sido confiada a mim também a do todo. Atrás destas minhas palavras, como explicação e base,
construção de alguma parede e o mecânico trabalho cultural que exponho aquele quadro completo, quando falo de minhas duas
preenche os interstícios, mas não poderei jamais igualar-me ao consciências e da minha oscilação entre elas, ao longo da di-
arquiteto que concebeu o plano da obra, que lhe traçou as linhas, mensão da evolução, referindo-me à teoria da evolução das di-
que por ela sempre velou e ainda assinalou, entre os limites que mensões conceptuais e à fase humana da evolução espiritual. É
quis, o meu trabalho menor. Tudo é questão de gradação e de racional e científico – científico também no sentido da velha
medida. Eu só tive um escopo: o de completar a obra e a ela me escola materialista – falar de níveis e planos de consciência. Es-
dei totalmente com a máxima tensão. Era nessa identidade de tes não são mais que os graus sucessivos, as fases da evolução
metas que se processava a unificação entre mim e o centro supe- afirmada por Darwin no campo orgânico e continuadas, logi-
rior; e aquele eu, que consagrei inteiramente à minha obra, foi camente, no único campo onde uma continuação pode e tem de
conduzido por essa atração do Alto a tal grau de sublimação, existir, isto é, no campo psíquico. Tudo isso corresponde aos
que nele não mais encontro o meu pequeno eu normal. Em su- conceitos das religiões e aí se encontra traduzido em diversas
ma: aquela concepção passou, qual novo Pentecostes, como um palavras, que exprimem substancialmente estes níveis, como
incêndio através de meu espírito, e todas estas palavras demons- “hierarquias angelicais”, ou vários céus, ou “esferas celestes”.
tram quanto, não obstante meu desejo de discernimento, me é É esta unidade fundamental, na profundeza em que tudo se uni-
difícil reencontrar-me a mim mesmo naquele incêndio. fica e a que permaneço aderente, que me permite, muitas vezes,
Durante o desenvolvimento do texto, oscilava eu entre minha mudar de forma e estilo, passando equivalentemente da ciência
consciência humana e a outra, superior, que também seria minha à fé e vice-versa, reduzindo assim os grandes inimigos a ques-
naqueles momentos, conforme as necessidades da compilação tões de palavras, e não de substância.
impunham; aterrava e decolava quando era preciso, porquanto o O fenômeno apresenta, portanto, duas faces e resulta justa-
objetivo era produzir, e não estabelecer distinções. Recordo-me mente de sua conjunção: o lado humano, em que se encontra
muitíssimo bem como, ao engolfar-me como de hábito, sem o minha preparação cultural, as qualidades de meu temperamen-
saber, na angústia de difíceis soluções e sem saída visível, a ins- to, o meu grau de evolução e a minha capacidade de transferên-
piração me tomava a mão e me guiava, ela só, através do vazio cia a um superior plano de consciência; e, no outro extremo, o
em que sentia perder-me. Uma direção superior, embora inad- lado super-humano, que desce, se adapta a mim e, ao mesmo
vertida e latente, devia estar sempre presente, pois era meu hábi- tempo, me adapta a si, guiando-me e atraindo-me para o alto.
to arrojar-me, sem preparação, sobre os argumentos mais difí- Existem, pois, não somente dois centros: um radiante, transmis-
ceis, ignorando aonde chegaria; e não obstante isso, atingia um sor, e um registrador, receptor; existem também duas atividades,
bom porto, sempre guiado por um misterioso senso da verdade. em que ambos os centros, laboriosamente, se acham estendidos
Todas as teorias e desenvolvimentos conceptuais por mim se- um para o outro, a fim de atingir a unificação, pois a identifica-
guidos não foram, na verdade, meditados; não os compreendi in- ção é a fase da comunhão perfeita. Só através da tensão deste
teiramente senão depois de escritos; eu não conheço um proble- trabalho de recíproca aproximação pode estabelecer-se a comu-
ma senão depois de completamente exposto, porque, durante o nicação; por isso, de minha parte, como centro registrador e re-
seu desenvolvimento, se processa em minha mente um continuo ceptor, dou todo o meu esforço e conheço toda a minha fadiga
projetar-se de luzes, um multiplicar-se de perspectivas inespera- para alcançar a altitude evolutiva do transmissor e nela me
das, um surpreendente pulular de imprevistos. Isso sucede quase manter. A estação receptora não é, portanto, necessariamente
sempre, de modo que eu não sei se dito ou escuto, se escrevo ou passiva, como um aparelho radiofônico, mas sim consciente-
leio. Só sei que de mim sai esse fio de pensamento contínuo. In- mente ativa; sabe, investiga, escolhe, lança-se com todas as suas
dubitavelmente um controle e um consenso superiores se mani- forças para conseguir a captação das noúres, multiplica suas
festam em cada palavra, porque uma dolorosa dissonância feriria energias, dá-se completamente, aniquila-se em face da criação
logo minha hipersensibilidade, apenas me afastasse da linha de nascitura. É nesse sentido que em minha obra se encontra todo o
harmonização. A execução inferior me foi confiada, e eu sigo meu eu, toda a minha fé, minha paixão, minha pobre cultura; ali
tranquilo enquanto são suficientes os recursos da consciência está meu pequeno eu multiplicado pelo infinito, que, com sua
humana; muitas vezes, porém, numa curva inesperada, numa atração, me arrebatou para o alto e fecundou meu esforço, cen-
passagem difícil, sinto-me atemorizado como uma criança per- tuplicando-lhe o rendimento. Ali está meu pequeno eu, porque
dida e, então, me uno novamente ao guia. Recordo-me de que no aquela concepção, embora muito longínqua, também se encon-
desenvolvimento da teoria da evolução das dimensões, cheguei a tra na linha de minha evolução, e eu a senti, palpitante, como um
um ponto em que me julguei extraviado, não podendo resistir à sonho, inatingível hoje, de uma perfeição a cujos pés me humi-
12 AS NOÚRES Pietro Ubaldi
lho, porque não me encontro amadurecido e careço de forças. perfície, que para os outros é tão fundamental. Não mais vejo,
Essas noúres superiores estão no meu futuro e me atraem. então, o fenômeno no seu aspecto exterior, mas sinto o princí-
Encontram-se na outra extremidade, no segundo termo da co- pio que o movimenta; não vejo, por exemplo, a semente em
municação. Devemos entender-nos, desde agora, a respeito do seus caracteres morfológicos, mas a enxergo na íntima estrutura
conceito de noúres, que é muito vasto e complexo e que apro- de seu ser, como vontade de desenvolvimento, como presciên-
fundaremos no estudo da técnica do fenômeno. cia do ambiente (instinto) e da meta a atingir; vejo, mais pro-
As noúres não são somente correntes psíquicas, uma espécie fundamente, o ritmo das infinitas formas do passado e a vonta-
de pensamento radiante, apenas vestido da onda dinâmica mais de de desenvolvê-las e, mais longe, sinto o grande princípio da
degradada e evolvida, como seu único suporte sensório; são cor- vida que, naquele tipo, palpita e se exprime.
rentes conscientes, que conservam, como as inferiores formas Quando, no silêncio da noite, completo o processo de ador-
dinâmicas, as qualidades típicas, e nesse caso conscientes, do mecimento da minha psique sensória, na harmonia e nos tons
centro genético. Essas correntes não são senão a expansão da- menores das luzes, no fundo da penumbra, ao ritmo submisso
quele centro e conservam sua consciência e conhecimento. Con- das orquestrações sinfônicas, as coisas perdem seu perfil concre-
ceitos abismais, porque não sabemos imaginar ondas que possu- to, o mundo se torna irreal, isto é, ressurge numa realidade dife-
am tais qualidades. Porém há mais ainda. Do lado transmissor, rente, e eu sinto o equivalente psíquico e espiritual das formas.
não devemos enxergar apenas os centros superevoluídos, mais Há uma correspondência entre os vários planos de evolução,
ou menos individualizáveis como personalidade no sentido hu- porque a essência das coisas que destila dos planos mais altos se
mano, mas devemos ver também, como já mostrei, a alma dos projeta como uma sombra nos planos inferiores. E isso é lógico,
fenômenos, alma que se manifesta a si mesma, isto é, o psiquis- porque toda unidade está ligada à superior na linha da evolução.
mo que existe em todos os fenômenos, o princípio e conceito Ora, minha ascensão de dimensões conceptuais me permi-
animador que os assinala e dirige o transformismo contínuo, o te subir da projeção concreta à substância espiritual. É por
eterno tornar-se. Ainda aqui, é preciso haver compreendido o essa correspondência entre os diversos planos que se pode fa-
espírito de meus escritos. Uma pedra também é viva, e existe ne- lar por parábolas, que o simbolismo pode exprimir os princí-
la um psiquismo animador, concedido pelo conceito divino que, pios abstratos e as realidades mais dificilmente imagináveis
a cada instante, nela se realiza, exteriorizando-se. Por isso, tam- para os incultos, traduzindo-as em sua sombra mais densa ou
bém uma pedra, ou o mais simples fenômeno químico ou físico, projeção concreta, que também as ficam possuindo, embora
emana noúres e é perceptível como noúres, no meu mais eleva- veladamente. Assim se conseguiu dar expressão, sensorial-
do nível de consciência. Neste plano, todo o universo se trans- mente acessível, à realidade abstrata do superconcebível, tra-
forma em noúres. Desse meu estado psíquico e dimensão con- zendo-a para o nosso mundo ao revesti-la de um invólucro
ceptual que, na profundeza, sente a essência além da forma das que a torna tangível. Eu destruo essa redução, subindo a cor-
coisas, percebo efetivamente o universo em sua superior dimen- rente em direção oposta, e esse esforço visa a lançar por terra
são psíquica, que lhe é própria na escada das fases evolutivas. os véus e superar os símbolos, para restituir à luz da compre-
Basta esta minha mutação de consciência para alterar e deslocar ensão a verdade, que neles teve de ocultar-se por exigência
toda a gama de minhas ressonâncias interiores, para me fazer da psicologia humana involuída. Vimos, desse modo, o con-
perceber o universo qual é em sua fase superior. A evolução, teúdo científico do conceito da Trindade.
que passa do plano físico ao dinâmico e ao psíquico, transforma No mundo dos fenômenos histórico-sociais, enxergo,
todo o universo num psiquismo, e em psiquismo ele se torna, atrás dos acontecimentos, a sutil trama em que se tece a
como sua real e nova forma de ser, desde que nessa nova dimen- causalidade projetada na direção do efeito, vejo o progredir
são eu saiba apresentar-me conscientemente. Eis então o que de um conceito até à meta, vejo o fio que sustém como um
significa dizer que todo o universo se transforma em noúres. É colar a série dos episódios e o desenvolvimento lógico que
que, realmente, então, tudo que existe exala pensamento, e assim guia o curso do fenômeno histórico.
eu sinto o universo nestes meus estados medianímicos, como um No mundo da matéria inorgânica, sinto o redemoinhar inte-
possante organismo conceptual. A verdadeira grande noúre a rior dos átomos, suas atrações e repulsões, seus amplexos por
que me aferro e que registro é a emanação harmônica e orgânica afinidade, o dinamismo de suas correntes elétricas, a combina-
do pensamento infinito de Deus. ção e a união de seus movimentos planetários em fusões que
Cai, então, naturalmente, o véu dos mistérios, e tudo ex- originam os diversos tipos das individuações químicas.
pressa a substância de seu ser numa espontânea revelação. Nes- Não adquiro conhecimento dos fenômenos por aquisições
sas minhas superelevações de dimensão de consciência, tenho a culturais particulares e numerosas, através do método comum,
visão, nas profundezas de um abismo infinito, desse centro que repete o saber dos outros; mas possuo um senso único de
conceptual. As dimensões gigantescas do fenômeno, a grandio- orientação que me abre o caminho da compreensão de todos os
sidade esmagadora do segundo termo comunicante, dariam uma fenômenos. Não compreendo como a ciência possa imaginar
sensação de vertigem a quem não houvesse atingido esses esta- que, por exemplo, contando cuidadosamente o número das fo-
dos, como eu, através de longos e lentos exercícios e de matu- lhas, observando-as e descrevendo-as, se possa chegar ao en-
ração biológica não se sabe quantas vezes milenária. É necessá- tendimento do princípio da vida das plantas; sinto a absoluta
rio, aqui, um equilíbrio mental não comum, porque posto a dura impotência sintética do método da observação. E, no entanto,
prova; e a objetividade e a minuciosa segurança com que me qualquer fenômeno, sem multiplicação de casos, traz escrito em
analiso demonstram quanto estamos, no caso, distanciados da si mesmo a sua lei; basta escutá-la.
consumação neurótica, tão frequentemente invocada pela ciên- O método experimental me dá a impressão da cegueira, que
cia como explicação de semelhantes fatos. precisa recorrer ao tato. Na profundeza das coisas existe, indis-
Sou, assim, lançado num mundo maravilhoso. Possuo, en- cutivelmente, um princípio que as governa; não busco esse
tão, uma nova vista, um feixe de sentidos novos e, sem órgãos princípio penosamente, pelos longos e laboriosos caminhos da
físicos, um poder de percepção anímica direta, supersensória. análise e da hipótese, mas o alcanço por percepção direta, atra-
Assim se explica a necessidade daquela espécie de transe que vés de um meu sentido da verdade, um novo sentido de orien-
me livra da presença ativa dos sentidos físicos, a fim de que tação conceptual, que sintetiza e supera todos os outros. Avan-
eles não me tornem a chamar à realidade sensória exterior, que ço, assim, por instinto, por contínua registração de totais, sem
não sabe falar-me senão da forma. Devo realizar, antes de tudo, distrair-me no particular; alcanço o conhecimento por deduções,
a tarefa de me libertar dessa estorvante psique racional de su-
Pietro Ubaldi AS NOÚRES 13
descendo ao particular, desde os princípios que anteriormente Aludi, no início deste capítulo, às ótimas condições habitu-
havia percebido e que o contém por inteiro. Jamais tento a lon- ais de minha registração mediúnica. Isso não me impede de
ga via que sobe lentamente em direção oposta. Nunca vejo um sentir e registrar também em outros ambientes além de meu ga-
problema, ainda que mínimo, isolado, mas sempre relacionado binete, embora sua escolha tenha sempre importância capital,
com a organização de toda a fenomenologia universal e resol- porque meu ser recebe as vibrações de tudo que o circunda. Às
vido em relação a ela. Somente com este método se podia fazer vezes, aquele lampejar de conceitos explode imprevistamente,
uma síntese e encontrar a unidade. ou, também em meio ao estrépito psíquico, já tormentoso para
O uso deste método, a princípio intuitivo e depois dedutivo, mim, oferecido pela presença de pessoas heterogêneas, uma
é necessário hoje, como método sintético e unitário, para contra- inesperada e inadvertida sensação pode excitar a visão interior.
balançar a dispersão do conhecimento, a que chega logicamente, Minha psique já se habituou a essa audição pela qual afloram à
por sua natureza, o método indutivo. Se, com uma mudança ra- minha consciência concepções imprevistas, que me pareciam
dical de direção intelectual, não se reagir contra essa tendência, desconhecidas. E, mesmo agora, enquanto escrevo, surpreendo-
acentuar-se-á sempre mais o isolamento do saber humano na es- me com conceitos que me nascem inopinadamente, de modo
pecialização e na desorientação, em face das causas primeiras. que não conheço completamente determinado argumento senão
quando terminado o trabalho.
Este meu estudo encara os males congênitos da ciência mo-
Em ambientes inadaptados, a audição só pode ser desorde-
derna e se propõe saná-los. Já disse que evolução é unificação;
nada e fragmentária. Ambientes bem sintonizados são a mon-
e, se o tempo é o ritmo de uma evolução necessária, deve ele
tanha, o campo tranquilo e, sobretudo, a solidão dos bosques.
trazer necessariamente unificação. Não pode haver outra meta
As grandes árvores têm, no lento fluir de sua vida, algo de
nem outro futuro. É natural que, elevando-me eu evolutivamente tanta sabedoria e de tanto pensamento, que me guiam a uma
a superiores dimensões conceptuais, haja súbita e espontanea- atmosfera de meditação. A vida vegetal, talvez pela sua natu-
mente encontrado a unidade. O método da intuição é, portanto, o reza complementar da nossa vida animal, oferece uma sensa-
método unitário e sintético que deve dar um amanhã à ciência e ção de repouso e de pureza; a vida humana, principalmente
ao pensamento humano. Só assim se pode encontrar a unidade, nas grandes e rumorosas aglomerações, traz uma sensação de
aprendendo as relações entre os fenômenos aparentemente mais asfixia. Um ser da minha sensibilidade não pode deixar de
distanciados, mas que, apesar disso, se sentem e se influenciam sentir todas as emanações de cada ambiente. Cada coisa, cada
reciprocamente. O saber moderno se tornou tão gigantesco e ser tem uma voz que lhe é própria.
confuso, que há necessidade de uma reordenação, de um desfo- Sendo o fenômeno inspirativo de natureza vibratória, nele a
lhamento; a ideia múltipla do particular precisa ser reduzida à harmonização vibratória do ambiente é fundamental. Já expli-
ideia simples, central e sintética, que tudo diz mais brevemente; quei como preparo a interior harmonização conceptual, partin-
após haver criado tantas disciplinas, urge saber encontrar os li- do de uma primeira harmonização exterior, ótica e acústica, do
ames que as unam, agora que elas tendem a separar-se, a fim de ambiente, quando trabalho no meu gabinete.
fundi-las em uma verdade, que deve ser simples e única. São pe- No campo, tudo já é naturalmente harmônico, as formas, as
rigosas essas especializações, hoje tão em moda, mas que não cores, os sons; as luzes do dia se harmonizam no céu e na vege-
correspondem à realidade dos fenômenos, que nunca existem tação, e harmônico é o pensamento da vida, que, embora na lu-
isolados; são posições falsas essas, em que a mente do estudioso ta, é equilibrado pela convivência.
se afasta para uma ramificação última do mundo fenomênico e Todas essas harmonias são para mim caminhos musicais
do saber humano. Esse separatismo, se é utilitário, acaba fazen- que me elevam à prece e conduzem à concepção do bem. Por
do desaparecer também a visão exata do campo particular da es- isso nas igrejas há música e canto. Assim como nos teatros se
pecialização. É preciso permanecer sempre aderente ao tronco e faz caso das qualidades harmônicas de ressonância acústica, do
ver sempre tudo em função das grandes linhas centrais do orga- mesmo modo, nos ambientes de oração, que é fenômeno subs-
nismo universal. E pensar que estas linhas centrais, que servem tancialmente mediúnico, as qualidades de ressonância espiritual
de base ao conhecimento, a ciência ainda as procura e ainda pre- deveriam merecer cuidado, como de fundamental importância,
cisa encontrá-las! Em seu monismo, meu método sintético com- caso se deseje que o templo satisfaça sua função de elevar as
bate esta corrida hodierna para a dispersão conceptual. almas. Há igrejas espiritualmente mudas e, do ponto de vista da
De tudo se percebe como racionalmente eu controlo e domi- vibração psíquica, surdas e desarmônicas; e outras que, apesar
no meu transe. O acontecimento novo no mundo mediúnico do de humildes e despidas de adornos, têm suas paredes saturadas
das vibrações de fé que, durante séculos, as gerações entre elas
presente e do passado, creio que seja justamente este, de haver
geraram e projetaram. Minha audição psíquica sente imediata-
conduzido o transe a um estado de exatidão científica. No meu
mente essas ressonâncias, e minha alma responde a essas ema-
estado de imersão nas noúres, minha consciência permanece
nações que as antigas paredes me restituem, nelas infundidas
sempre presente; antes, duplamente presente, como mais pro-
pela alma das gerações que, junto delas, oraram durante sécu-
funda consciência, que implica uma capacidade de juízo superi-
los. E, nesses ambientes, consigo muitíssimo bem minha sinto-
or à normal. Estamos no extremo oposto da comum mediunida- nização mediúnica. Um dia a ciência registrará essas absorções
de intelectual passiva e inconsciente. No meu caso há uma in- vibratórias, essas emanações de estados de ânimo, essas corren-
tensificação de lucidez e potência conceptual, uma dinamização tes noúricas, que as paredes podem restituir e de que alguns
de atividade intelectiva, sendo assim que se deve e somente as- ambientes se acham saturados. Então, uma restauração artística
sim que se pode entender minha mediunidade. De outro modo, mais consciente evitará, embora conforme os critérios do olhar
não poderia nem sequer escrever estas páginas, porquanto nor- e do estilo, certas demolições irreparáveis, que destruam a at-
malmente recorro, oscilando entre os dois centros, a esta minha mosfera psíquica dos séculos, que pode ser vivíssima, inclusive
psique superior, que me permite atingir maior altura, apenas a em ambiente estilisticamente destoante. Essa atmosfera é a flor
dificuldade do problema me faça sentir a necessidade disso. mais delicada da fé, a mais evanescente, a beleza mais sutil de
Disse, de início, que minha mediunidade é progressiva. Sua um templo, seu maior valor espiritual.
evolução vai da forma menos consciente, qual era nas primeiras O problema das noúres é fundamental também nessas con-
Mensagens, à forma sempre mais consciente, qual se manifesta cepções de arte. E de outro modo não saberia explicar-me a mo-
na Síntese, que, por sua própria profundeza conceptual, implica derna e inconsciente idolatria pelo “300”12, como uma instintiva
um mais severo controle mental.
◘ ◘ ◘ 12
O “Trecento”, isto é o século XIV, a arte desse século (N. do T.).
14 AS NOÚRES Pietro Ubaldi
busca da alma faminta que pede às velhas paredes as vibrações de definir; e, um dia, a ciência as individuará em suas classifi-
de uma fé outrora poderosa e que hoje parece perdida para sem- cações morais, com registros e medidas exatas.
pre. De tudo isso se compreende que vacuidade espiritual repre- Em face de tudo isso, pode-se compreender quão tormento-
senta a mentira de certas modernas reconstruções em estilo. sos esforços a sociedade impõe a esses sensitivos, que, no en-
Em lugar algum a sinfonia é tão cacofônica como nas gran- tanto, devem dar gratuitamente, para que não se torne suspeito
des cidades modernas. Aqui, de perto ou longe, não pode aju- o fruto de suas vidas. Têm de permanecer no mundo de todos,
dar-me senão o círculo de simpatias, que, à semelhança do me- onde se deve ganhar com o trabalho o direito de viver; têm de
diúnico, estreita em torno de mim o anel da compreensão. No sofrer os choques proporcionados à sensibilidade normal, que
campo, a beleza da natureza representa uma harmonia imensa e são para eles esmagadores. Médium: ser sensibilíssimo e, por
espontânea, que guia à sensação direta do pensamento de Deus. isso, vulnerabilíssimo, o que quer dizer desgraçadíssimo. E este
Que ambiente mais harmônico que o da natureza, que em tudo é o verdadeiro e lento martírio que deve completar seu aposto-
está sintonizado com o pensamento divino? Que convite mais lado. É natural que a eles, que vivem projetados no futuro e que
doce e poderoso que a vibração em que se organiza o universo? veem quanto há ainda que progredir, o mundo humano apareça
Quando do íntimo dos seres e das coisas se eleva semelhante bárbaro, feroz, às vezes pavorosamente inconsciente.
emanação, a sintonização é fácil. Nas cidades, tudo isso é des- Entretanto, se o dever que nossa época impõe é o de ir ao
viado por mil barreiras, e a atmosfera espiritual que se despren- encontro do povo, este é também o seu primeiro dever, porque
de das massas humanas é baixa e suja, nela dominando senti- eles se encontram mais no alto. É preciso indicar e abrir os ca-
mentos de violência, avidez, egoísmo, depressão, sempre desa- minhos ativos da ascensão ao povo, porque este não sabe e se
gregantes, que roubam energia e impedem o fenômeno. A psi- atira por caminhos que encontra abertos.
que do sensitivo é, aí, mais intensamente prejudicada, porque se Não se pode imaginar que tenacidade de resistência, que
trata de vibrações de tipo humano, mais próximas, por sua natu- massa de inércia represente o homem médio, justamente o que
reza, do sujeito e, assim, mais tendentes a uma interferência que impõe as normas da vida social. É de se quebrar a cabeça a ba-
as outras dissonâncias da natureza, evolutivamente mais distan- ter contra essa massa bruta de psiquismo humano, tanto mais
tes, que são, de resto, absorvidas pela potência da ordem uni- tenaz quanto mais ignorante. Apesar disso, os tempos impõem
versal. Nas cidades, a presença de grosseiríssimas ondas- um nivelamento, que deve ser não por ascensão dos piores, mas
pensamento é imediata, invasiva; é um assalto de vibrações por descida dos melhores. Se essa imisção em massa nos direi-
ofensivas, de caráter inferior, equivalentes, quanto aos efeitos tos da vida é a grande obra de civilização moderna dos tempos,
na registração, aos distúrbios, aos ruídos parasitas e às distor-
desenvolvida em número mais que aprofundada em qualidade,
ções da audição radiofônica.
a favor de uma só classe aristocrática, compreende-se a espécie
A recepção inspirativa, para resultar pura, exige uma pureza
de holocausto, sobre o altar do número, que ela representa para
de ambiente, de ânimo, de objetivos. Eis porque é nela funda-
os tipos de exceção, que lutam sozinhos pela preparação de um
mental a purificação do médium, problema de que trataremos
distantíssimo futuro. Se a exceção não é levada em conta, pode
separadamente mais adiante. Toda vibração que fuja do estado
ter, no entanto, uma fundamental função biológica, espiritual e
de equilíbrio e de elevação moral age como perturbação, apare-
social. O sensitivo luta por cumpri-la no seio de uma atmosfera
cendo como mancha na registração e provocando distorção das
surda, luta por não se banalizar; por não descer, adaptando-se
imagens conceptuais. Elevando-se a natureza espiritual do mé-
por repouso; por não se mutilar no nivelamento. E, no entanto,
dium, torna-se mais difícil sua ressonância às vibrações baixas,
deve descer para promover a elevação do homem médio, a as-
tendentes a inquinar o fenômeno.
censão das classes espiritualmente mais baixas, embora ricas,
A presença de certas pessoas espiritualmente fétidas pode
representar para o sensitivo um intenso sofrimento. Quando, porque essa é a sua missão. É lei que o alto se incline para o
por necessidade social, ele é obrigado a viver em tais ambien- baixo. A fim de que o inferior se eleve, é preciso que o superior
tes, então sua alma não pode permanecer senão fechada em si desça, pelo mesmo princípio unificador de fraternidade, através
mesma, nunca se abrindo, só ocupada em defender-se. Não se do qual chegam ao sensitivo luzes e auxílios espirituais do Alto.
pode imaginar que condenação seja para ele o ser constrangido, Heroísmo trágico é esta descida, por que subverte as mais sa-
às vezes, a viver no seio de certas imundícies espirituais, onde gradas forças da alma, mas é simultaneamente ascensão, porque
ele sufoca, ao passo que outros respiram a plenos pulmões. Tu- envolve o auxílio das forças superiores. Contra essas descidas o
do é relativo e é questão de sensibilidade. espírito se rebela, entretanto deve ele abaixar-se para dar-se,
No caso de minha mediunidade, a natureza da onda psíquica deve esquecer a grande paixão do céu, para fundir-se na paixão
das noúres que me vêm ao encontro é de tal delicadeza, que se humana, feita de lama e de sangue, oferecendo ao homem igno-
ressente de todos os estados psíquicos do ambiente, ou, em ou- rante e sofredor uma centelha roubada ao céu na visão. Por isso,
tros termos, uma fonte de emanações psíquicas de caráter mo- embora seja julgado misantropo, orgulhoso ou louco, tem o di-
ralmente baixo tem o poder de deformar a própria onda. É pos- reito à solidão, para encontrar de novo o céu, para dele receber
sível obter-se o isolamento, mas à custa de reações, isto é, esta- novas forças, para reunir-se às hierarquias dos seres superiores
belecendo um estado reativo que representa para o médium um que descem em cooperação.
grande dispêndio de energias, com prejuízo para a registração A delicadeza íntima do fenômeno inspirativo, a presença
que delas necessita Qualquer ruído, qualquer desequilíbrio de ativa nele (ambiente e sujeito) de fatores que, como a moral,
sintonização, a mínima perturbação de qualquer natureza, so- que a ciência sistematicamente ignora, a característica do fe-
bretudo se imprevista e repentina, faz precipitar a tensão nervo- nômeno consciente (como médium ou noúres), de fenômeno
sa, às vezes dolorosamente, destruindo a visão com o imediato progressivo, como superior fase de evolução biológica, em cuja
reaparecimento do mundo sensório. elaboração colaboram fatores como espiritualidade e dor, tudo
Estas afirmações têm uma importância mais ampla que a re- isso define o fenômeno como um tipo a que não são aplicáveis
ferente ao fenômeno que estudamos, porquanto nos abrem hori- os habituais critérios de observação e experimentação, que po-
zontes novos no campo da ética, dando-nos dela não mais so- dem ser ótimos para outros fenômenos. Não se pode sujeitar
mente uma concepção filosófica ou religiosa, mas uma concep- aos preconceitos da ciência um fenômeno que, nos seus resul-
ção científica, isto é, de quantidades avaliáveis como um estado tados, a domina. Ele não responde ao comando da vontade hu-
cinético-vibratório da psique humana, que o médium sente qual mana que objetive uma experiência. Em face de uma imposição
centro constantemente irradiante de noúres, de correntes que po- exterior, ele se fecha e se desfaz.
Pietro Ubaldi AS NOÚRES 15
O fenômeno está em relação com impulsos e fatores deter- médium. Trata-se de uma nova e sutilíssima química do futuro,
minantes completamente diferentes, tais como uma missão de em que se combinarão em novas harmonias ou dissonâncias os
bem ou uma excepcional necessidade do momento histórico, elementos de novíssimas e progressivas sinfonias fenomênicas.
que justifique a intervenção de forças no caminho evolutivo da Se a ciência não souber evoluir e transformar seus métodos,
humanidade, porquanto não se determina à vontade o tipo que a premissas e conceito diretivo, jamais atingirá tais fenômenos.
evolução lança à ribalta da vida. O fenômeno supera, em seus Destrui-los-á, contorcê-los-á, sem compreendê-los. Essa per-
elementos determinantes e em suas finalidades, toda a psicolo- cepção inspirativa deve ser entendida como uma prece, pois
gia da observação e da experimentação, toda a forma mental implica uma elevação espiritual, que segue a linha das forças
oferecida pela psicologia científica dos tempos atuais. Nesses boas do universo, isto é, positivas e criativas.
fenômenos, a mentalidade da desconfiança, da dúvida precon- A visão da verdade é uma ascensão do espírito para a uni-
cebida, que é a base da seriedade científica, pode ter poderes dade. A pesquisa científica, nesse nível, é oração, é religião, é
inibitórios sobre o fenômeno e estorvar sua verificação. santidade e não pode prosseguir a não ser sintonizando-se com
O fenômeno baseia-se na sintonização psíquica, e a mente a harmonia do universo; e isso porque, a certo ponto, a verdade
do observador, se não afasta com suas emanações um objeto do e o bem se identificam e, sem o bem, a verdade não acede ao
microscópio nem influencia um fenômeno físico ou químico, conhecimento, escondendo-se à investigação humana.
pode paralisar, todavia, o funcionamento de um fenômeno psí-
quico. O fenômeno tem suas defesas e se retira em face da III. O SUJEITO
ameaça à sua vitalidade, e a ciência, então, não consegue a ob-
servação, mas sim sua destruição. Já observamos as características fundamentais do fenôme-
Um mínimo choque pode desagregar esses fenômenos deli- no inspirativo, movimentando-se em seu ambiente tal qual eu o
cados, de um psiquismo que, abandonando os velhos caminhos vivi. Dado que coisa alguma sucede na natureza de modo abs-
tradicionais, se aventura, num voo, por rotas supersensórias. E, trato, mas sempre individuada num caso particular da realidade
no entanto, devem realizar-se no mundo psíquico humano, que concreta, não se pode prescindir do sujeito, entendido como
muitas vezes pode ser a mais rebelde e imprópria atmosfera. organismo físico e psíquico, instrumento através do qual o fe-
Basta o estado de ânimo da dúvida para determinar uma corren- nômeno se verifica.
te negativa demolidora, ao passo que a fé, qualidade antiobjeti- De início, importa particularizar para não fugir à verdade.
va por excelência, tem a máxima força criadora. Donde se con- Somente depois poderemos generalizar. É por isso que não iso-
clui que a psicologia de desconfiança, que a ciência emprega lo o fenômeno, separando-o da forma concreta de seu ambiente.
por sentido de objetividade, como maior garantia de seriedade, E esse conhecimento tenho o dever de oferecê-lo, eu, que mais
possui, pelo menos sobre os fenômenos que estudamos, poderes imediatamente o sinto e possuo, pois os outros só poderão obtê-
destrutivos. O observador se encontra no ambiente e também lo por vias mais remotas e indiretas.
ele é gerador de noúres. E importa que se encontre num estado Falei a respeito de ciência. Ora, a verdadeira ciência não po-
de confiança, de fé, que atraia, que abra o caminho, aquecendo de ser um fato exterior, mecânico, adaptável a todos, como habi-
o ambiente, dando oxigênio ao invés de absorvê-lo. É necessá- tualmente acontece hoje; é, pelo contrário, uma qualidade interi-
ria essa vibração positiva de simpatia, sintonizada, modulada or, um profundo estado de pensamento, em que se deve trans-
em uníssono, apta a ser fundida e somada, fator de crescimento formar toda a personalidade. Ela deve mudar a concepção e o
em aliança com as correntes do fenômeno, e não a vibração dis- regime de vida, o modo de sentir e de agir. É algo imensamente
sonante da dúvida, da má-fé, que subtrai energia ao fenômeno e diverso do verniz cultural que, atualmente, com universidades e
o lança contra uma corrente deformadora. láureas, se pode aplicar sobre a epiderme de todos e que nada
Importa que o observador faça um severo exame de suas vale, pois, substancialmente, nada modifica; se um indivíduo é
qualidades psíquicas, porque estas pesam sobre o fenômeno. É um selvagem, continua perfeitamente um selvagem. É um me-
indispensável, coisa inaudita, que ele limpe moralmente sua canismo exterior utilitário. A verdadeira ciência, porém, é uma
alma e a do ambiente, como tem cuidado em manter limpa a realidade profunda, completa, uma reviravolta de alma, uma re-
mesa das experiências químicas, a fim de que uma substância ligião e uma fé, em face da qual ninguém pode sorrir com ceti-
estranha, entremetida em suas combinações químicas, não lhes cismo nem permanecer agnóstico. A verdadeira ciência é apos-
altere o desenvolvimento. No campo psíquico, um estado de tolado e martírio e não pode nascer da psicologia do lucro.
ânimo presente no ambiente é um elemento que se introduz na Tudo isso tive eu de viver para levar a bom termo minha
combinação que se estuda e, por isso, tem ele importância. E, obra. Se não realizei o esforço de uma preparação cultural no
assim como uma operação cirúrgica pode representar graves pe- sentido comum, tive de realizar outro, muito maior, de mudar
rigos, se realizada em ambiente contaminado por micróbios pa- minha própria personalidade espiritualmente, até ao ponto de
togênicos, do mesmo modo é necessária, em nosso campo, a es- poder atingir e tocar as fontes do pensamento. Os cursos cultu-
terilização psíquica do ambiente. O mundo psíquico tem seus rais eu os realizei dentro de mim mesmo, sozinho, face a face
parasitas, seus micróbios patogênicos, suas correntes de vida ou com o mistério, guiado pelas leis biológicas, sustentado pelas
de morte, às quais está exposto plenamente o sensitivo quando, gigantescas forças do imponderável. Não creio nas verificações
alijados os invólucros, se abandona à inspiração, com a alma humanas. Creio num outro tipo de saber, em que é preciso ser,
desnuda. Ele é um organismo vivo, vulnerabilíssimo em sua de- mais que parecer, e que serve para a eternidade. Creio numa ou-
licadeza, e o mínimo choque psíquico, de que o mundo está tra sabedoria, em que se movimentam as forças da vida e que
cheio, constitui para ele uma ameaça e um perigo. Na vida nunca pode mentir, porque foi conquistada, a sangrar, na dor. A
normal, sua sensibilidade é protegida por um manto voluntário força do conhecimento só é dada a quem muito tem sofrido di-
de indiferença, mas, nesses momentos, a flor, para assenhorear- ante de Deus. Certas expressões de fé absoluta, certas frases
se da luz, deve abrir-se até às mais íntimas corolas. audazes que arrastam, é preciso haver conquistado em face da
Quem não sabe avaliar esses fatores e manejar com prudên- eternidade o direito de pronunciá-las. Só quem segue o cami-
cia essas realísticas forças imponderáveis, quem não se encon- nho da cruz adquire o direito de julgar.
tra provido de adequada sensibilidade e não possui a finura Atrás de minha produção ultrafânica, como certamente
psíquica apropriada, deve abster-se de intervir nesses fenôme- acontece com outros hipersensitivos, se desenvolve toda a his-
nos, porquanto não só os deforma ou destrói, como ainda pode tória de minha vida eterna, que explode nesta culminância; aí
vibrar dolorosos e prejudiciais golpes contra a sensibilidade do se desenrola todo um drama apocalíptico, em que todas as forças
16 AS NOÚRES Pietro Ubaldi
do bem e do mal se desencadearam em torno de mim, lançan- cer. Foi uma exaustiva guerra de trincheira. Ao mesmo tempo
do-se sobre minha alma para dilacerá-la e sublimá-la. Atraves- em que me abandonava ao êxtase dos místicos para a ascensão,
sei sozinho o ilimitado deserto da desesperação, sem a compre- controlava as posições racionalmente, com objetividade cientí-
ensão de ninguém; na louca dança dos egoísmos, ninguém ja- fica, para consolidar as bases. Não se consegue o voo senão
mais soube oferecer um gesto de amor ao meu ser quebrantado. através de longas experiências, em que se deve conquistar uma
Agora, porém, já venci. Não mais necessito da compreensão da complexa técnica. Relatei, em termos científicos, os caminhos
Terra, porque já me chegou a do Céu. Deixo aqui a expressão das ascensões espirituais dos místicos. E tudo isso não foi senão
de orgulho, tal como me escapou, humanamente, no primeiro um dos aspectos do meu sofrimento.
ímpeto, a fim de que minha alma apareça nua, inclusive em sua Sobre todas essas coisas devo falar porque esclarece minha
imperfeição. E agora me inclino, humilhado por tanta felicida- inspiração, porque esse doloroso esforço de desprendimento da
de; inclino-me ante meus irmãos da Terra, porque todos deve- natureza humana inferior, que fui deixando atrás de mim, san-
mos iniciar e percorrer o longo caminho. grando, aos pedaços, ao longo do caminho de minha vida, foi a
Eis aqui o sujeito. Minha produção intelectual é a explosão condição daquela inspiração, preparou-a e explica-a. Assim, de-
da minha paixão de bem, constrangida num organismo científi- fino seu tipo como um estado de hiperestesia nervosa e super-
co, a fim de que se impusesse, assim, à racionalidade humana. psiquismo intelectual, atingidos através das vias normais que
Fazer o bem é a mais difícil das tarefas, e eu a desejei em continuam a evolução orgânica darwiniana. Foi através desse
grande escala, um bem nascido de meu tormento e que agora esforço de triunfos biológicos que consegui a transformação de
caminhará por si mesmo. Esta é a reação de meu sofrimento: o minha consciência numa superior dimensão conceptual, que me
perdão de Cristo. É esta a ideia gigantesca que, na minha permite a visão, o uso do novo método de pesquisa por intuição
obra, se vestiu de fórmulas e conceitos; esta a paixão que se e a captação de noúres, que estão no centro deste estudo.
prendeu numa vestidura racional, da qual se rompe, todavia, Expus as relações entre o desenvolvimento espiritual, a as-
dando asas ao escrito. Eis em que se transforma a necessidade censão moral e meu tipo de mediunidade num meu artigo:
de amar quando a alma se identifica com as correntes espiri- “Selbsbeobachtete Medialitat – Geistige Entwicklung und sittli-
tuais da inspiração. cher Aufstieg ais Faktoren einer hohen Medialitat”13. Apareceu
Falei a respeito de sofrimento. De que espécie? Físico e mo- na “Zeitschrift fúr Metapsychische Forschung”14, dirigida por
ral, simultaneamente. Para compreender minha personalidade, Schroder, de Berlim.
importa haver assimilado os conceitos expostos em A Grande Ora, esta chamada mediunidade não é senão a progressiva
Síntese como conclusões no campo da evolução individual e realização de meu desenvolvimento intelectual, alcançado não
especialmente os seguintes: “As sendas da evolução humana”, por vias culturais exteriores, mas por sensibilização, obtida
“A lei do trabalho”, “O problema da renuncia”, “A função da através da purificação moral e orgânica de todo o meu ser físico
dor”, “A evolução do amor”, “Psiquismo e degradação biológi- e psíquico. Se, como já disse, qualquer emanação barôntica in-
ca”. Não os repito. Esses conceitos eu os vivi todos. O ponto de quinasse o fenômeno, eu tinha, antes de tudo, de eliminar em
vista com o qual a ciência materialista lança ao patológico esses meu organismo a gênese de tais vibrações; devia distanciar-me
tipos de personalidade foi por mim destruído completamente. O evolutivamente delas, evitando correspondência, isto é, não en-
sofrimento me vem do esforço de realizar minha evolução espi- trando em ressonância com tais ondas, mas, pelo contrário, es-
ritual, fundido como me encontro num organismo animal que tabelecendo ressonância com ondas moral e conceitualmente
me arrasta para baixo, constrangido a um trabalho que me in- superiores. Como se vê, chego à conclusão, coisa que a ciência
clina para baixo, localizado numa atmosfera humana que me ignora, de que a verdadeira cultura é um fato também de caráter
atrai para baixo. Verdadeiramente, o espírito possui uma força moral; que as portas do conhecimento só se abrem a quem se
titânica para poder realizar seu trabalho em tais condições. No haja tornado digno dele, dando garantias do bom uso que dele
meu esforço, conheci horas turvas e horas de derrota. Os impul- fará. Portanto, como essas vitórias biológicas da ascensão mo-
sos biológicos do passado são forças reais, que reagem e se lan- ral não se conseguem senão através dum combate titânico con-
çam contra quem queira esmagá-las. Em mim, o espírito, prin- tra as resistências do misoneísmo atávico, senão quando o espí-
cípio positivo, ativo, que sempre dá gratuitamente, viril na luta, rito, num incêndio, se empenha na luta contra as atuais leis bio-
escolheu o maior inimigo – as forças da vida – das quais os lógicas, o fenômeno da inspiração está intimamente condicio-
homens não são senão os executores inconscientes (instintos), e nado àquele doloroso esforço de libertação. Eis porque tive ne-
quis impor-se à matéria, ao passado sobrevivente na animalida- cessidade de falar sobre dor. É justo, é lógico e cientificamente
de, o princípio negativo, passivo, que sempre requer uma com- equilibrado que a maior potência e felicidade que a evolução
pensação utilitária. Não pode pretender ensinar aos outros quem confira, deva ser ganha e compensada pelo esforço da conquis-
nem ao menos experimentou primeiramente quão difícil é cons- ta. Tive de falar sobre o sofrimento porque ele é condição de
truir-se a si mesmo. Esse esforço, realizado nas profundezas de ascensão espiritual, condição da inspiração, que para mim não
minha natureza humana, nas raízes dos instintos primordiais, foi dom gratuito. Por isso este livro sobre as noúres, como
torna indispensável uma tenacidade, um equilíbrio, uma lucidez qualquer arrazoado meu sobre mediunidade, deve ser também o
que se mantêm somente à custa de uma tensão e uma presença livro e o discurso da ascensão moral, da purificação espiritual.
de espírito intensos e constantes. Imagina o leitor que significa Se algures15 coloquei a dor como base da evolução (reden-
ter por antagonista as forças biológicas? Quem vive de instintos ção), aqui devo acrescentar que a dor também está posta como
e não discute a própria natureza humana, quem vive de acordo base da mediunidade inspirativa. Quantos novos fatores, es-
com os impulsos milenários e se deixa arrastar pela corrente, tranhos e sutis, devemos considerar, fatores do destino, que
não pode imaginá-lo. Eu sou, porém, um revolucionário e um não se determinam à vontade, que não existem nos gabinetes
rebelde, e todas as forças atávicas se encarniçam em torno do de experimentação!
violador que quer superá-las. Tenho vivido dias de tempestades Para poder avançar na investigação científica e ver no ín-
em que todos os vendavais do universo pareciam agredir-me. O timo das coisas, é indispensável a sutilização do instrumento de
bem e o mal são forças reais, e, na minha hipersensibilidade,
pude medir-lhes todo o ímpeto. Agonizei em poder de correntes 13
“Auto-observação da Mediunidade” – Desenvolvimento espiritual e as-
barônticas que desejavam estrangular-me. Disputei e defendi, censão moral como fatores de uma mediunidade mais elevada (N. do T.).
palmo a palmo, minha estrada, calculando o assalto e a resis- 14
Revista de Pesquisas Metapsíquicas (N. do T.).
15
tência, com a estratégia consciente de quem quer dominar e ven- A Grande Síntese, Cap. 81, “A função da dor” (N. do T.).
Pietro Ubaldi AS NOÚRES 17
pesquisa: a consciência. É necessário, portanto, introduzir na o seu combate. Ele tem o conhecimento e se move num oceano
ciência, se quisermos avançar, não mais apenas microscópios e de luz. Embora a agressividade humana estampe em sua alma a
telescópios, raios e instrumentos, mas bondade de vida e retidão derrota de uma hora, ele sente e atrai as forças do universo, tem
de intenções, como correntes positivas que pesam sobre o fe- o poder da sinceridade, da verdade, da justiça, luta por um prin-
nômeno. No meu caso, a relação entre o fator lucidez inspirati- cípio, por um ideal, e aquelas forças se insurgem como por uma
va e o fator pureza moral é tão íntima, que eu poderia traçar um violação de si mesmas e do principio divino que as governa,
diagrama para assinalar-lhe o desenvolvimento paralelo; um re- quando quem fala em nome do bem é esmagado. Quem atirou
trocesso moral é imediatamente seguido de uma turvação de vi- para longe de si as armas da luta humana, apodera-se de outras,
são intelectual. Profundidade de visão e pureza de registração mais sutis e poderosas, para uma luta mais digna.
não se obtém senão impulsionando sempre mais para as pro- Meu sofrimento provém do fato de o espírito, atingido cer-
fundezas do ser o processo de purificação, justamente para ou- to nível, não saber e não poder mais adaptar-se a viver no cár-
torgar-lhe a capacidade de ressonância e de sintonização, por cere sensório do organismo corporal. Quer evadir-se a cada
afinidade, com as noúres mais puras, mais profundas e, por is- instante de sua prisão, a prisão do ambiente terrestre. É trágico
so, mais poderosas, mais próximas do centro espiritual do uni- ouvir o cântico da grande pátria distante, invocá-la da terra do
verso. Por isso falei, com referência ao meu caso, de mediuni- exílio e não poder atingi-la. É um contraste maravilhoso e sá-
dade progressiva, sujeita a um normal processo evolutivo. Po- bio de forças, em que o espírito é constrangido a curvar sua
deria usar a terminologia mística e religiosa, que para mim é potência sobre a matéria para sacudi-la, animá-la, atraí-la con-
equivalente à científica; esta, porém, é mais apropriada a preci- sigo para o alto, já que não pode desprender-se dela e abando-
sar e melhor corresponde à mentalidade hodierna. Somente ná-la. Só esse ambiente denso oferece a resistência necessária
agora, após estas últimas observações, é possível compreender para fazer dela um campo de exercícios. Eis porque se nasce
plenamente a história do meu caso, exposto de início. neste mundo, com um incêndio dentro da alma. Esta deve, en-
Esse sofrimento meu não é, portanto, patológico; sua nor- tão, aquietar seu impulso, estudar o ambiente, analisar-se, ca-
malidade é compreensível e justificada pelas condições parti- nalizar suas forças para uma produtividade real. E, nessa com-
culares que atravessa minha personalidade, não equilibrada pressão de impulso, o espírito se fortalece, se concentra, e a
como a da mediania num ambiente de forças proporcionadas, alma, repelida para dentro de si mesma por um exterior que
mas lançada numa fase em que esse equilíbrio sofre desvios não a sacia porque não lhe corresponde, parece encontrar nessa
violentos pela introdução, no campo dinâmico de minha vida, compressão a força para descer às profundezas, profundezas
de novos impulsos. estas cada vez maiores, e aí, nas grandes fontes da vida, adqui-
Para compreender meu caso, importa compreender a mim rir potência. Então, e só então, quando se é assim pela divina
e a esses problemas, o que não é, pois, uma questão ociosa. sabedoria introduzido nesse encaixe, retoma-se à força, com a
Desequilíbrio, portanto? – perguntar-se-á. Mas ele é o primei- energia do desespero, o caminho da própria evolução biológica
ro desequilíbrio do voo que já se equilibrou num equilíbrio e continua-se a via das ascensões espirituais.
mais dinâmico e mais ágil; é ele um desequilíbrio que, ainda A sabedoria que criou no passado novos órgãos e organis-
no período de formação, foi por mim guiado, a fim de condu- mos, novos instintos e novas disposições psíquicas, obedeceu a
zi-lo a estes resultados, e cerceado nos limites de uma intensa essa mesma lei de necessidade de expansão pela compressão,
produtividade. Sempre dominei esse desencadear de forças, necessidade de vida ou de morte. A evolução é uma força irre-
para que não me desorientasse, e a pseudoneurose caiu sub- freável, e, quando se chega a uma encruzilhada – na época pale-
missa a meus pés; isso significa um equilíbrio e uma potência ontológica ou, como atualmente, na fase da evolução psíquica –
mais que normais. E, daquela destruição de animalidade, que é indispensável escolher: ou avançar ou morrer. Eu tive de avan-
decepa egoísmos, voracidades e paixões, renasci numa vida çar. Muitos, quando chegar sua hora, deverão fazer o mesmo.
maior, numa juventude de espírito que jamais perece. Essa foi Tudo isso serve para fazer compreender porque, como base
minha conquista maior, minha redenção, como Cristo nos in- da minha mediunidade, eu coloco, na condição de fundamentais,
dicou, atingida na cruz, através da dor. E Ele, primeiramente, o caráter de normalidade, enquanto é fenômeno biológico, e o de
obedeceu à Lei, para nos mostrar que, até para Ele, há neces- progressividade, enquanto é evolução moral. A desarmonia entre
sidade de segui-la e como ela é sentida tanto mais inviolável o hipertrófico desenvolvimento psíquico e o funcionamento or-
quanto mais alto se sobe na harmonia da ordem divina. Estes gânico, necessariamente levado à atrofia por progressivas redu-
conceitos a ciência não pode compreender, mas se encontram, ções, traz consigo um contínuo e sutil sofrimento nervoso, não
não obstante, nas bases da evolução humana. localizado, difuso, mas intenso e incessante, como uma verda-
“Se ascendemos aos mais altos níveis – diz uma registração deira sensação da vida. Por isso a alegria de viver se transferiu
minha – parece que a velha forma biológica que se atrofia não inteiramente para o centro psíquico do espírito. O processo de
mais pode suportar o psiquismo hipertrófico, e surgem desequi- purificação é tão completo e profundo, que atinge também as ín-
líbrios aparentes, que a ciência, não sabendo compreendê-los, timas camadas do metabolismo orgânico. Esse processo de re-
classifica de patológicos, fazendo-os ingressar nas formas da novação interior, que cria funções novas, dá uma sensação de
neurose”. Fixemos nossa atenção, pois, a fim de não nos enga- agonia à vida no nível físico, porque se realiza nas profundezas
narmos, observando superficialmente e baseando-nos em ape- do ser; trata-se de uma mudança substancial de formas e de exis-
nas qualquer sintoma; não confundamos, tão levianamente, o tência; desce até tocar os íntimos movimentos eletrônicos dos
patológico com o supranormal, colocando ambos igualmente átomos e os motos vorticosos que os unem na química celular; é
fora da lei que, só porque é da maioria, é considerada verdadei- verdadeiramente uma transmutação de órgãos e substâncias em
ra. Não elevemos, com essa adoração do tipo médio, um mo- outras, de diversa composição química e diferente orientação
numento à mediocridade humana; aprendamos, finalmente, a atômica. A substância muda de forma no curso da evolução; é
vibrar numa paixão mais elevada, que não seja a do eterno co- atingida até a alma de sua estrutura cinética. Esta não é apenas
mer e reproduzir-se, orgulhar-se e enriquecer; quebremos de purificação e esforço moral, mas também purificação e esforço
uma vez o ciclo em que se repete sempre a animalidade huma- orgânico, que penetra no campo da medicina.
na! Outra, porém, é a realidade. Cada forma de vida elabora, Nesses hipersensitivos, a vida orgânica não mais tolera o
apenas nascida, suas defesas; e quem abandonou, no caminho grosseiro e violento ciclo vegetativo da vida dos antepassados;
do perdão e do amor, nas pegadas de Cristo, seus ataques e de- paralela a essa hipertrofia de psiquismo, verifica-se uma inadap-
fesas não está por isso desarmado e sabe, igualmente, combater tabilidade, não só moral, aos sentimentos dos instintos animais
18 AS NOÚRES Pietro Ubaldi
humanos, senão também física, a um funcionamento vital indo- em especial o alimento, diretamente em circulação. Uma subs-
lente, dificultoso, absorvente de muita energia, qual o da assimi- tância dissonante continua emitindo sua voz, sua radiação caco-
lação intestinal, o da respiração, o da circulação sanguínea. fônica, enquanto dela permanecerem traços no organismo.
A certo momento da evolução, tudo isso pesa demasiada- Como já falei, quanto à verificação do fenômeno, a respeito
mente, tornando-se não mais um veículo de vida, mas uma es- de esterilização psíquica do ambiente, aqui estou falando sobre
torvante massa que o espírito assaz sutilizado não mais pode ar- purificação celular. E esta deve ser não um fato momentâneo,
rastar, a cujo nível ele não mais sabe descer. mas um método dietético constante, um verdadeiro regime de
A evolução sempre forneceu exemplos da criação de fun- vida. Chega-se, assim, por esta via, a tal grau de sintonização
ções novas. Por que deveria deter-se agora? Pode algo estaci- com a harmonia universal, que já não é lícito violá-la senão à
onar no universo? E, se evolução é ascensão, onde poderá ha- custa de graves sofrimentos, inclusive no campo moral, feito de
ver criação agora, senão no campo psíquico? Isso é absoluta- sutis vibrações e atitudes de espírito. Sente-se, então, a culpa
mente científico, é a continuação, que importa ver, da ciência não como vantagem, mas como dor.
que todos aceitam. Pureza! Eis ampliado até ao campo da medicina o sistema
A medicina fala de atrofias deste e daquele órgão, desen- dos místicos. O alimento jamais foi considerado um amigo dos
volvidos nos antepassados e que agora tendem a desaparecer, místicos, que viviam sempre entre jejuns. A quantidade pesa. O
porque, não mais alimentados pelo uso, lentamente foram pos- cérebro deve servir a outras funções, atraindo para si a circula-
tos fora do ciclo do metabolismo orgânico. A função se desloca ção e a nutrição do sangue. O sistema nervoso não mais pode
ao longo da linha da evolução, à medida que o ser progride, descer ao serviço de uma laboriosa digestão acumuladora de
abandonando a forma de expressão do passado e plasmando gorduras. O místico é magro e desejaria ser transparente. E, no
novas. Para compreender isso, porém, importa haver entendido entanto, é dinâmico, é um contínuo lampejo de energia. Isso
que a evolução orgânica darwiniana não é senão o último efeito mostra que é cem vezes mais vivo e mais jovem. O longo e si-
sensível de uma evolução do psiquismo da vida, que, em pro- nuoso caminho intestinal, em que o alimento permanece até à
gressivas formas orgânicas, se tem expressado e se exprime. E putrefação, lhe traz inevitavelmente uma nota venenosa à sen-
ao se falar que, um dia, novos órgãos poderão atrofiar-se, isso sação orgânica da vida. Vencida a quantidade, importa atender
sucederá porque a atrofia terá primeiramente atingido o centro à qualidade, a fim de que o grosseiro sistema de reabastecimen-
psíquico, interrompendo, desse modo, a alimentação energética to dinâmico a que está ligado o psiquismo, dê o maior rendi-
do órgão interessado através das vias nervosas. A evolução or- mento com o menor prejuízo possível. Tóxico se torna, então,
gânica será sempre a forma exterior de uma evolução psíquica tudo que contêm álcool, as drogas, o fumo, os caldos, a carne
mais profunda, que dirige aquela, e qualquer desvio que esta (especialmente a que não é branca), tudo que é gostoso e exci-
determine nos órgãos só se verificará quando já houver realiza- tante ao paladar e não seja simples e puro produto da natureza.
do e estabilizado suas conquistas em planos mais elevados. As frutas, as verduras, o peixe, o leite fermentam menos. E, de-
Tudo isso devo afirmar porque faço de minha inspiração um pois, a vida ao ar livre, em contato direto com o sol e o ar, com
caso de evolução também orgânica. Não posso prescindir, no as grandes correntes da vida. É ao ar livre que se realiza a sin-
estudo do fenômeno da captação noúrica, do estudo do orga- tonização psíquica que registra as noúres, é aí que se processa
nismo em que o fenômeno se processa e das profundas muta- também a sintonização de todo o organismo com elas. Por isso
ções que nele, por isso, se verificam e devem verificar-se. Tudo o místico também deve ser um esportista ágil e dinâmico, seja
isso é e deve ser conexo; o meu método de intuição é uma supe- qual for a sua idade; resistente à neve, aos banhos, ao sol, ma-
relevação de consciência ao seu limite mais avançado, que se gro, bronzeado, sempre jovem de corpo e de espírito.
comunica com o outro extremo que, em mim, tende a desapare- A verdadeira saúde é um regime. A medicina hoje preponde-
cer, abandonado ao passado – a estrutura e o funcionamento do rante é um desvio de princípios por escopo utilitário. Acrescen-
meu organismo animal. Quanto mais avança o primeiro, mais tar ao recâmbio orgânico substâncias novas para corrigir exces-
reage sobre o segundo, modificando-o. O processo de sensibili- sos precedentes, adicionando uma ação violenta para corrigir a
zação espiritual tem ressonâncias nos mais baixos níveis do natural reação orgânica ao erro cometido anteriormente, é um
mundo orgânico, e a purificação moral, nos níveis elevados, se absurdo; seria necessário, ao invés disso, não fixar as causas ma-
completa, igualmente, pela imposição de uma purificação celu- léficas e, quando elas produzissem efeito, pelo menos não flage-
lar, isto é, de células e tecidos, à substância orgânica. É um fato lar ainda mais o organismo, e sim dar-lhe tempo para digeri-las.
que, com a alimentação, introduzimos substâncias químicas em É, porém, cômodo acreditar no milagre; além disso, os re-
nosso organismo, substâncias que depois o constituem. Para o médios se vendem, mas os conselhos sábios não se encontram
sensitivo, então, que tudo percebe como noúres, isto é, como à venda, e custa esforço segui-los. E desse modo se multipli-
correntes de emanação espiritual, certas substâncias, vistas em cam os prejuízos.
sua mais profunda essência, são instintivamente repelidas como Como principio geral, importa dar ao corpo o que lhe é ne-
intoleráveis. A grosseira estrutura normal resiste a muitos ve- cessário, bem como a uma máquina o seu alimento, o combus-
nenos, a que o sensitivo não pode resistir. Desloca-se a gama tível, e isso segundo o trabalho que se exige do organismo. Até
considerada média da tolerabilidade, e algumas substâncias do poucos anos, a maioria da humanidade só se ocupava em traba-
regime dietético comum se tornam superlativamente tóxicas. lhos físicos, por isso a carne lhe era necessária e as refeições
Tóxicas porque o organismo sensibilizado consegue perceber pantagruélicas à Luís XIV podiam ser seu sonho e sua necessi-
nas substâncias nutritivas emanações que, antes, não percebia; e dade fisiológica. A um tipo de homem, porém, que hoje se vai
quando ele houver introduzido em seu organismo aquelas subs- normalizando com funções preponderantemente nervosas e psí-
tâncias impróprias, será torturado por aquelas emanações, du- quicas, aquele sistema é tóxico e, no meu caso, insuportável.
rante seu longo ciclo, que não termina senão com sua elimina- Quando o trabalho da vida é quase exclusivamente psíquico, a
ção final, através do metabolismo orgânico. Daí a necessidade alimentação deve ser adequada. Isso é lógico. E direi mais. Dia
de observar atentamente os alimentos, pois, pelo mínimo erro, por dia, conforme o trabalho a realizar, físico ou psíquico, a
surge uma fonte de novos sofrimentos, além do perigo contínuo quantidade e a qualidade da alimentação devem mudar, propor-
de prejudicar-se a capacidade receptiva das noúres. O organis- cionalmente ao determinado trabalho. E se o trabalho é habitu-
mo do sensitivo é uma orquestra ressonante de correntes espi- almente sedentário e intelectual, o regime dietético deve ser
rituais, e, no concerto, nada se pode introduzir de heterogêneo, também habitualmente vegetariano.
Pietro Ubaldi AS NOÚRES 19
Assim, a espiritualidade se completa nos baixos níveis da da humana possibilidade de ascensão. Se a recepção noúrica é
evolução orgânica e sobre esta reage, dando também ao orga- fenômeno de elevação humana às altas esferas do superconcebí-
nismo físico suas qualidades de juventude perene. vel, a que tensão do ser, a que vertigem de altura, a que vértice
A causa da vida, o seu motor, é o espírito. Quanto mais se é de potência terá chegado a alma humana nesses casos! E como
espírito mais se domina a decadência senil e se sente que a se torna pequenina e inadequada a ciência, com sua análise, em
morte não mata. Envelhece-se, então, na direção de uma juven- face desses fenômenos que governam a história do mundo!
tude que é plena de força, porque é festa de espírito. Diante dos grandes inspirados, desses gigantes que se mo-
Envelheço e não morro, morrerei e viverei: sublime expe- veram numa atmosfera de pensamento titânico, em face da po-
riência! tência dessas forças vivas do espírito que descem à Terra para
fundir-se na história, para dar o sopro da vida às civilizações e
IV. OS GRANDES INSPIRADOS orientar o progresso do mundo, diante das revelações que, por
contato espiritual direto, atingiram a verdade das fontes primei-
Realizei o exame de meu caso em seus mais salientes parti- ras do pensamento de Deus, em que se transforma a ciência,
culares. É chegado o momento de sair deste caso individual pa- com seus métodos exteriores, com seus preconceitos inibitórios,
ra remontar a uma visão mais vasta do fenômeno, observando com a incerteza de suas dúvidas e de suas hipóteses? Em que se
os casos de mediunidade inspirativa que a história nos oferece. converte, em face desses fenômenos que superam completa-
Semelhanças e pontos de contato permitir-me-ão estabelecer a mente o homem, a pobre ciência humana, perdida nos tortuosos
lei do fenômeno melhor que a observação de um só caso. caminhos da análise e que, no entanto, tudo quer julgar e apri-
No precedente estudo de anatomia psíquica, realizei a vivis- sionar na pequenina técnica de sua experimentação? A ciência,
secção de minha alma. Era isso necessário para a compreensão com seu método, encerrou-se em limites que ela própria traçou,
de meus escritos mediúnicos, dos quais o presente é o comple- constringindo-se na incompetência, nestes casos em que no fe-
mento e a continuação lógica. O meu caso mediúnico, porém, nômeno atuam fatores transcendentais.
se desenvolve sobre a perspectiva grandiosa de muitos casos Nesses casos, as noúres conduziram o homem a uma tão
maiores. Embora distanciados grandemente por importância grande altura ao longo das hierarquias que se elevam e con-
histórica e potência e não obstante as naturais diferenças dadas vergem para a Divindade, que o fenômeno já não se pode re-
pelo temperamento do médium, pela natureza particular das duzir a um conceito científico, porque se realiza fora do mun-
circunstâncias e pelo ambiente imposto ao seu trabalho, todos do e de sua ciência.
esses casos têm um fundo único, possuem notas características As religiões, que significam uma orientação dada pelo Alto
comuns, que renasceram também no meu caso menor. Isso cor- ao espírito humano, para guiá-lo no caminho de suas ascensões,
robora minhas afirmações e interpretações do fenômeno com a
são uma descida do espírito divino através das revelações. No
presente teoria das noúres.
fundo delas existe uma única religião, que caminha e na qual,
Muitas palavras têm sido usadas para defini-las: inspira-
adaptando-se à psicologia dos povos nas formas do tempo, a
ção, visão, êxtase, rapto dos sentidos, intuição, mediunidade,
ideia de Deus avança. Avança da Atlântida à Índia, ao Egito, à
o demônio, as musas, o espírito, a subconsciência, a super-
Grécia, ao monoteísmo da intuição de Moisés, imposto ao povo
consciência, etc.
de Israel, a fim de que conservasse a ideia até Cristo, que deve-
O misticismo, as religiões, o espiritismo, a filosofia, a arte,
ria continuá-la e fecundá-la no Seu Evangelho de amor.
a psicologia, cada atitude do pensamento humano criou sua ex-
pressão e observou de um ponto de vista particular o mesmo Todos os grandes criadores do pensamento humano atingi-
fenômeno. O místico, o santo, o profeta, o poeta, o artista, o he- ram por inspiração a mesma fonte única, expressando-a pro-
rói, o cientista, o inventor, ou, numa palavra, o gênio em todas gressivamente sempre mais perfeita: Krishna, Zoroastro, Her-
as suas formas, têm vivido igualmente aquele fenômeno. mes, Moisés, Buda, Orfeu, Pitágoras, até Cristo, que supera to-
É um fenômeno próprio dos grandes avançados na evolu- dos. A verdade é uma só. As aproximações humanas é que são
ção, da qual o gênio não é senão o antecipador que agita o ar- diversas, sucessivas, proporcionadas ao progressivo desenvol-
chote do espírito no seio de uma triste normalidade. O fenôme- vimento da evolução psíquica do homem.
no é tão universal e antigo quanto o homem; mais ainda, foi Eis porque a ideia de Deus, em sua essência, é um super-
justamente na Antiguidade que ele foi mais reverenciado, concebível. O homem deve limitá-la para reduzi-la ao seu con-
quando o conhecimento se atingia diretamente por revelação e cebível, que é para ele a única medida que pode, em seu relati-
o método intuitivo e dedutivo, que a racionalidade moderna não vo, assinalar-lhe os limites. Esse relativo, porém, se dilata por
mais sabe usar, era muitas vezes o único método de pesquisa evolução do sujeito humano, e aquela ideia, portanto, se amplia
para a solução dos problemas e a conquista do saber. A alma paralelamente. Desse modo, a evolução da ideia de Deus é pa-
humana, então mais virgem, parecia mais próxima das origens, ralela à evolução humana. O Deus do poder e da vingança, de
podendo atingi-las diretamente. Hoje, o pensamento se encontra Moisés, torna-se o Deus cristão do amor e do perdão e tornar-
decaído, havendo-se precipitado profundamente na racionalida- se-á o Deus científico da sabedoria; o Deus terrível, que apare-
de, sem saber reencontrar os princípios. Desses grandes conta- ce entre raios no Sinai, inexorável e tremendo em sua justa vin-
tos espirituais nasceram as revelações. gança, completa-se e agiganta-se no gesto mais humano da
Entramos, agora, num mundo maravilhoso. O fenômeno bondade, aproxima-se da Terra e nela lança, com o Evangelho,
da registração inspirativa não se pode encerrar nos limites de a semente da paz de espírito e da convivência social. E, hoje, a
um fenômeno científico. Este caso está para a simples capta- rude potência da revelação mosaica e a profunda bondade da
ção noúrica como um raio para uma centelha elétrica, pois que revelação evangélica se continuam e se fundem na luz da racio-
o homem é levantado num turbilhão à face de Deus, centro nalidade científica moderna, que também nos tem ensinado a
conceptual do universo, que aparece e se revela para assinalar pensar e que hoje atinge a hora de sua compreensão. Há, desse
os destinos do mundo. modo, uma contínua proporção entre a descida das noúres, que
Se, no meu pobre caso, tive de falar em ascensão espiritual e revelam a Divindade, e a capacidade intelectiva humana. Há
purificação, quais condições de uma sintonização que não pode uma paralela ascensão do homem e de sua representação con-
realizar-se senão por afinidade, a que vórtice de potência se terá ceptual do Centro e uma descida progressiva da verdade, por
realizado a transumanização desses grandes inspirados que che- revelação; uma contínua purificação dos atributos humanos da-
garam a ler o pensamento de Deus! E aqui se toca o caso limite quele conceito, à medida que o próprio homem purifica os seus.
20 AS NOÚRES Pietro Ubaldi
Em pobres palavras: Deus, verdadeiro centro dinâmico e Esta é a necessidade dos tempos, a fim de que o Evange-
conceptual do universo, conta de Si, através da revelação confi- lho seja de novo sentido. Para que a moderna concepção do
ada a poucos escolhidos, aquele “quantum” que a criança hu- saber não se extravie, ela é chamada às origens, fundida com
mana pode compreender, à proporção que vai crescendo; dizer- as antiquíssimas intuições dos iniciados e utilizada, no mo-
lhe mais, sobre um conceito sem limites, seria inútil e perigoso. mento da maturidade espiritual atingida, como meio de di-
Devo falar a respeito de Deus porque é justamente desse vulgação dos mistérios, entre os quais já não é mais permiti-
Centro que desce a mais elevada noúre. Assim, a Divindade se do hoje esconder a verdade.
avizinha sempre mais do homem, sempre mais viva e sensivel- Unidade – diz hoje a grande noúre, unidade de religiões e de
mente se torna real em seu coração, despojando-se, pouco a ciência, descoberta de uma consciência unitária de humanidade
pouco, de todas as reduções impostas pela representação huma- em torno de um Deus único, ideia central, que deverá salvar e
na e fazendo-se sempre mais verdadeira, sempre mais transpa- dirigir o mundo na nova civilização do Terceiro Milênio. As-
rente, em sua essência, ao espírito humano. Tudo isso é também sim, a ciência é recuperada totalmente com a Síntese no ciclo
um engrandecimento seu, porque a visão se torna vertiginosa; evolutivo das revelações, para preparar no seio da humanidade
mas, justamente por isso, ela não é concedida senão gradativa- a maturação de uma nova consciência cósmica. O momento
mente. A ideia de Deus é necessária ao homem; deve estar-lhe histórico é grave, solene, rico de valores em decomposição e de
próxima para sua vida; deve, para ser útil, proporcionar-se à sua germens em frenético desenvolvimento, como nos tempos mes-
compreensão e necessidade de ação; deve, como representação, siânicos. Em meu estado de contínua percepção noúrica, sinto
manter-se a uma justa distância, que ilumine sem cegar, que se as correntes espirituais do mundo e tenho a sensação viva de
revele e se esconda, ao mesmo tempo. iminentes e novas orientações do pensamento humano, que aba-
Assim, o grande conceito desce ao mundo por sucessivas terão as resistências de todos os misoneísmos. E me entreguei
aproximações. Inspirados e revelações se encontram unidos em completamente às forças do Alto, a fim de lançar, entre muitos,
cadeia, na expressão progressiva de um pensamento único e uma semente que germinará.
contínuo que governa o mundo. Existe uma grande noúre que Observando os ciclos das revelações do passado que mais
desce contínua, através de diversos instrumentos, e é essa divi- proximamente se encontram da civilização europeia, vemos de
na unidade de princípio que mantém a continuidade de pensa- início um período heroico, que é sublimação de potência da
mento através dos ciclos das várias civilizações, ciclos que se vontade, explosão da corrente positiva e masculina da vida – o
rompem e se reatam. É essa unidade originária, ramificada no ciclo mosaico e do profetismo hebreu; depois, o período da
pensamento humano, que mantém uma linha verificável e evi- bondade, que é sublimação do amor, explosão do princípio
dente de desenvolvimento lógico através das vicissitudes histó- oposto da vida, da libertação pelo sacrifício, da redenção pela
ricas do mundo. Isso prova que é idêntico o centro irradiante e dor. Na primeira revelação, a voz de Deus, virilmente, diz: “Eu
animador dos vários instrumentos registradores, grandes e pe- sou”. Na segunda, a mesma voz redime a mulher e eleva a mis-
quenos, todos coordenados no tempo, sob o mesmo impulso, são criadora do amor. Hoje, a revelação reaparece, equilibran-
para a execução da mesma obra da revelação progressiva do do-se numa pulsação de retorno, para alimentar e impelir para o
pensamento divino. Cada um diz, frequentemente sem saber tu- alto o princípio masculino, que afirma e de novo diz “Eu sou”,
do, uma como que frase sua, e, da união de todas essas frases, mas não com o terror da força e do mistério, e sim na potência
sairá composto, depois, um discurso cheio de sabedoria. luminosa da sabedoria.
Assim, fundiram-se num só corpo as vozes dos profetas do Jamais na história do mundo, a inspiração se apresentou em
povo de Israel na ideia do Messias. Assim, em expressões proporções tão gigantescas como em Moisés, no momento da
mais vastas, reúne-se novamente a visão mosaica (que reduziu promulgação da lei no Sinai. A voz emerge de um fragor de ba-
ao monoteísmo a fragmentação da unidade divina do polite- talha, em meio a um terrível desencadear de forças naturais,
ísmo), através de todo o cristianismo, ao atual monismo, que como condutora de povos e dominadora de paixões; emerge do
nos apresenta a Divindade não só como única, justa e boa, caos das vicissitudes humanas num ímpeto de potência esma-
mas realmente palpitante, qual sensível psiquismo animador, gadora. A luta entre as forças do bem e do mal assume um as-
presente em todas as coisas. pecto concreto, desce até à alma dos fenômenos físicos; a terra
Moisés teve que imprimir com um ferrete de fogo, na alma treme, abrem-se as águas dos mares. Deus é força ante a qual
de seu povo, a ideia de um Deus terrível, que para nós é absur- vacilam céu e terra. Indubitavelmente, Moisés transferiu à reli-
da e repugnante, pois fomos acariciados pela piedade de Cristo. gião hebraica a sabedoria da iniciação egípcia, que consigo le-
Hoje, o terror é desaparecido, tão mitigada foi aquela vin- vava como esteio. Mas foi a grande voz interior da inspiração
gança, que não conhecia piedade, mas subsiste o mistério. Sem- que o sustentou e guiou nos grandes momentos. O pensamento
pre menos se pode impor uma fé aterrorizando a mente e muti- era, então, densamente revestido de ação e se expressava súbi-
lando o conhecimento, e a revelação da bondade é continuada na to, em ato nos acontecimentos; deveria, pois, possuir em suas
revelação dos mistérios. Hoje, não se eleva mais apenas o gesto origens a violenta potência energética que lhe permitisse pene-
do profeta que diz: “Penitência, para aplacar a ira de Deus”, nem trar as densas camadas da matéria e do espírito humano. A ver-
apenas o gesto de piedade que fala: “Bem-aventurados os que dade devia ser simples, precisa, mas lançada como um projétil e
sofrem”; dá-se, porém, em termos precisos de razão e de ciência, cortante como uma espada, para poder penetrar no duro coração
a explicação da inflexibilidade da justiça divina e da redenção do homem. O profeta tinha de ser um condutor de povos, e seu
cristã através da dor. Nada foi modificado do pensamento pre- pensamento deveria estar armado de potência humana e sobre-
cedente, pensamento perfeito. Mas ele foi continuado. O mesmo humana. A lei de um Deus único devia impor-se, por seu poder,
pensamento, após milênios, é novamente trazido à luz da cons- no seio da idolatria dos vários cultos; devia imprimir-se na
ciência humana, atualmente saída da menoridade, não mais ape- consciência de um povo, em meio à anarquia das nações. A so-
nas como ato de fé e estado de graça, mas como uma imprescin- litária e dolorida sublimação mística dos santos do cristianismo
dível necessidade racional, que aquela mesma doutrina “impõe” ainda não nascera; antes da sutilização na pureza, importava
para os caminhos novos, únicos que, em tempos de perda de fé, trovejasse a força, para desbastar o espírito humano.
permanecem ativos, isto é, os caminhos da racionalidade, que é A cosmogonia mosaica é uma rude e imensa construção ci-
justamente a forma mental do nosso momento. A noúre, em sua clópica, reduzida a linhas essenciais para que fosse compreen-
profundidade, traz de novo à luz, mas agora em forma de ciên- dida; permanece verdadeira até hoje, embora lhe faltem porme-
cia, o Evangelho, substancialmente esquecido. nores de desenho arquitetônico. O gesto criador de Deus é ma-
Pietro Ubaldi AS NOÚRES 21
terial como o gesto do homem, que projetava no Céu a multi- tempestades de nuvens a rugir, coruscantes de raios; as faldas
plicação infinita dos próprios atributos, não sabendo dizer de do monte enegrecidas de massas humanas, efervescentes de
Deus senão o que a própria evolução psíquica lhe permitia paixões, lançadas à conquista do próprio destino. Eis o quadro
compreender. Aquele gesto se espiritualiza hoje na voz que grandioso, o ambiente de sintonização em que se realizou o diá-
desce para iluminar e animar a ciência, e o pensamento da Gê- logo entre o profeta e a voz de Deus e entre o profeta e seu po-
nese retorna num mais elevado plano de conhecimento. vo. A vibração se mantinha na desnuda potência das coisas
A Gênese é o primeiro livro do Pentateuco, a que se se- primitivas. Era o primeiro grande choque cósmico das forças
guem: o Êxodo, o Levítico, os Números e o Deuteronômio, e espirituais e se converteu numa atmosfera de revolta e de san-
foi escrito sob a inspiração de Moisés, enquanto vagueava no gue, sob um céu negro de tempestade, com a matança dos re-
deserto com o povo de Israel. Começa com a criação, descreve beldes idólatras, desobedientes à lei, diante dos quais a ira do
depois o dilúvio (submersão da Atlântida), a torre de Babel, a profeta quebra as tábuas de pedra, convicto do direito absoluto
história dos patriarcas até José. da verdade, da comunhão com o Alto, da proteção das forças
O Êxodo é a saída do povo de Israel do Egito e a promulga- supremas. Sem essa presteza e prepotência de ação, jamais
ção da lei no Sinai. O espírito de Deus é presente a cada mo- Moisés teria imposto sua autoridade e a nova lei de Deus. A fe-
mento. No Cap. XIX do Êxodo, descreve-se um continuo coló- rocidade humana impunha os caminhos do terror.
quio entre Moisés e Deus: O contato com a divina fonte se estendeu continuamente, no
01.Ao terceiro mês da saída de Israel da terra do Egito, nesse seio do povo hebreu, através do profetismo.
mesmo dia, chegaram à solidão do Sinai. Este meu pobre estudo sobre o fenômeno inspirativo mani-
02.Por isso, partidos de Rafidim e chegados ao deserto do Sinai, festa-se, sem que eu o quisesse, com força interpretativa e de-
estabeleceram nesse lugar os alojamentos, e aí Israel esperou, dian- monstrativa deste grande fenômeno histórico e teológico, que
te do monte. foi considerado pelos apologistas, ao lado dos milagres, como a
03.E subiu Moisés a Deus, e o Senhor o chamou do alto do mon- coluna probatória da verdade do cristianismo. E aqui a ciência,
finalmente não mais inimiga, dá sua contribuição.
te, dizendo-lhe: Estas coisas dirás à casa de Jacó e anunciarás aos fi-
Se a arte divinatória é comum a todos os povos da Antigui-
lhos de Israel. (...)
dade, o profetismo, entre os hebreus, potencializando-se na
09.O Senhor lhe disse: Virei logo a ti na obscuridade de uma nu-
concepção monoteísta, se eleva a meio de comunicação direta
vem, a fim de que o povo me ouça a falar contigo e creia em ti perpe-
com a Divindade, prossegue e traduz o pensamento da eterni-
tuamente. Pois Moisés havia anunciado ao Senhor a palavra do povo.
dade na maturação do destino de um povo e, na espera do Mes-
10.Ele lhe disse: vai ao encontro do povo e faze com que todos se
sias, do destino do mundo.
purifiquem hoje e amanha e lavem suas vestes.
Após o Pentateuco, a Bíblia continua e, no livro de Josué,
11.E estejam preparados para o terceiro dia, porque no terceiro dia
escrito pelo mesmo Josué, sempre por divina inspiração, pros-
descerá o Senhor, aos olhos de todo o povo, sobre o monte Sinai. (...)
segue a história do povo de Deus. Moisés morreu, mas o divino
16.E, ao despontar o terceiro dia, à claridade da manhã, principia-
colóquio não cessa.
ram a ouvir-se trovões e resplandeceram relâmpagos; e uma densís- Nos quatro livros dos Reis falam Samuel e os profetas Gade
sima névoa cobriu o monte, e o vibrante sonido da trompa retumbava e Natã. Precisamente no terceiro desses livros, Cap. XIX, há
fortemente; e o povo, que se encontrava nas tendas, se atemorizou. uma referência ao profeta Elias, que, internando-se no deserto,
17.E havendo-os Moisés conduzido para fora dos alojamentos, ao desejava a morte e disse:
encontro de Deus, pararam ao pé do monte. “Basta, ó Senhor, toma minha alma”. E se lançou por terra e ador-
18.E todo o Monte Sinai fumegava, porque o Senhor aí descera meceu; mas eis que o anjo do Senhor o tocou e lhe disse: “levanta-te e
em meio ao fogo; e o fumo dele saía como de uma fornalha, e todo o come”. Voltou-se ele e viu, perto de sua cabeça, um pão cozido sob as
monte infundia terror. cinzas e um vaso de água. Então, comeu e bebeu. Fortificado com es-
19.E o sonido da trompa pouco a pouco se fazia mais forte e mais se alimento, caminhou quarenta dias e quarenta noites, até um monte
penetrante. Moisés falava e o Senhor lhe respondia. de Deus chamado Horebe. Lá chegando, abrigou-se numa caverna. E
20.E desceu o Senhor ao Monte Sinai, sobre o próprio cume do logo o Senhor lhe falou dizendo-lhe: “Que fazes tu aqui, Elias?...”.
monte, e chamou Moisés àquele cume. (...) E se desenvolve o colóquio. Mais adiante, ainda de Elias fa-
25.E Moisés desceu e contou todas as coisas ao povo. la o livro IV dos Reis17, Cap. II:
E assim nasceu o Decálogo, da palavra pronunciada por 11. E enquanto caminhavam e conversavam juntos, subitamente
Deus, Cap. XX: um carro de fogo, com cavalos de fogo, separou um do outro; e Elias
01.E o Senhor pronunciou todas estas palavras: (...) subiu ao céu num turbilhão.
02.Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirou da terra do Egito, da O primeiro livro de Esdras foi por este mesmo, que era
casa da escravidão. de linhagem sacerdotal e doutor da lei de Deus, escrito sob
03. Não terás outros deuses diante de mim. (...) inspiração.
18.E todo o povo percebia as vozes, e os raios, e o sonido da Também o livro de Judite, que se lhe segue, é considerado
trompa, e o monte que fumegava; e o povo, assustado e tomado de divinamente inspirado.
medo, pôs-se de longe. No livro de Jó, este frequentemente profetiza a respeito
Eis a narrativa do momento culminante da mais poderosa de Cristo.
recepção noúrica que o homem conhece. No livro dos Salmos, o rei Davi, instrumento do Espírito,
E o espetáculo é verdadeiramente de uma grandiosidade ter- profetiza sobre Cristo e escreve hinos maravilhosos, que são
rível. A mole imensa, severa e selvagem do Sinai, a recordar o poesia, profecia, sapiência, oração. Em Davi, o pressentimento
Brocken16 goethiano, a grande montanha de granito, nua e escu- do novo pensamento de Cristo é vivo. Ninguém, antes dele, ha-
ra, cujo cimo é o trono de Eloim, circundada de legendas pavo- via ousado falar de Deus com tanto amor e confiança, no seio
rosas, ecoando estrondos de trovões; os cumes escondidos nas do povo hebreu, que entendia a proteção divina como um do-
16 17
Brocken (ou Brock) – elevada e granítica montanha na Alemanha, O 4o Livro dos Reis corresponde à divisão da Bíblia Hebraica, de
onde, conforme as superstições medievais, imperava o chefe das for- que se serviu o autor. Nas edições grega e latina (a dos Setenta e a
ças do mal, o “Senhor Uriano” (Herr Urian) na versão do Fausto de Vulgata) o antigo livro de Samuel é dividido em dois e igualmente o
Goethe. Era o local da noite de Valburga (ou Walpurgis) – a “Wal- seguinte, o dos Reis. Assim, o texto citado encontra-se em nossas Bí-
purgisnacht” (N. do T.). blias atuais, no II livro dos Reis, Cap. II – vers. 11 (N. do T.).
22 AS NOÚRES Pietro Ubaldi
mínio severo, cheio de terríveis punições. Davi cantava com sas figuras pensativas de profetas prostrados diante do Infinito,
sua harpa não mais um Deus que subjugava pelo pavor de suas invocando luz e paz para a alma humana em tempestade, eu,
cóleras e vinganças, mas um Deus doce e bom que se aproxima que escrevi a demonstração científica da realidade dessas forças
do homem no esplendor de suas obras: tremendas e que as sinto agitarem-se em mim e no mundo, ou-
“Os Céus narram a gloria de Deus e o firmamento anuncia Suas ço estranhas ressonâncias nas profundezas de minha consciên-
obras. Um dia dirige a palavra a outro dia e a noite a outra noite a re- cia, e me sacode um calafrio de temor. A sabedoria moderna,
lata. Sem palavras, sem discursos, entende-se a sua voz, que se ex- que matou essa sensibilidade, poderá sorrir ceticamente. Mas,
pande por toda a terra e ressoa até aos confins do mundo”. nas lágrimas de Jeremias, no gesto solene de Ezequiel, que pro-
Inspirado é o livro dos Provérbios, ditado pela sabedoria de fetiza, nessa voz concorde que, desde Isaias até Malaquias, fala
Salomão, livro cheio de sentenças sublimes. de Cristo e prossegue até à voz de Joana D’Arc, criando uma
Inspirado foi o livro da Sabedoria, ao mesmo Salomão mártir e salvando a França, sinto algo de tão terrivelmente po-
atribuído. deroso, que não encontro outra postura de espírito além da ora-
Inspirado também é o chamado Eclesiastes. ção. Tudo mais é inconsciência. Inconsciência num momento
E eis que surge, na Bíblia, Isaias, o primeiro dos grandes em que a Europa inteira se arma, embora trema diante do espec-
profetas, majestoso nas suas predições referentes ao Messias. tro de uma guerra que sente seria o fim de sua civilização 18.
Após, fala Jeremias, profeta desde os 15 anos, até depois da Cada gesto profético é dirigido pela mão de Deus. E a Europa
destruição do templo e da cidade de Jerusalém, quando, pros- será dividida, ao longo de uma frente mediana, em duas partes,
trado sobre as ruínas da Cidade Santa, deixou rebentar sua dor a da ordem e a da desordem, em que lutarão objetivamente as
nas Lamentações. Vem a seguir seu discípulo Baruque, tam- forças cósmicas do bem e do mal. Se as forças desagregantes
bém profeta. Ezequiel começou a profetizar no quinto ano de do mal chegarem a vencer as forças construtivas do bem, então
seu cativeiro na Babilônia; foi o inspirado misterioso, taciturno as portas da Europa desorganizada se abrirão de par em par di-
e terrível, que viu a destruição de Jerusalém, a dispersão dos ante da ameaça imensa da Ásia, do dragão gigantesco e terrível,
hebreus e, após, sua volta, a reconstrução da cidade e do tem- que já levanta a cabeça, mirando a presa suculenta. Enceguece-
plo e o Reino do Messias. o, porém, uma luz que se irradia de Roma, centro espiritual do
Profecias relativas ao Messias contém o livro de Daniel, mundo. Na Terra e no Céu irrompe uma vastíssima tempestade
por ele mesmo escrito na corte dos reis caldeus. Seguem os de pensamento que, em grandes correntes, luta e se lança à
profetas menores: Oséias, Joel, Amós (talvez também mártir), conquista da unidade espiritual do planeta.
Obadias; Jonas, o náufrago vomitado pela baleia; Miquéias, a ◘ ◘ ◘
quem se deve a célebre profecia sobre Belém-Efrata, onde de- A principal ideia desenvolvida pelo profetismo hebreu, num
veria nascer o Messias; Naum, que predisse a destruição de ascensional movimento de evidência e poder, foi a ideia da cen-
Nínive e viu sobre os montes “os pés Daquele que anuncia a tralidade espiritual de Jerusalém e da vinda do Salvador do
boa nova”; Habacuque, que, conforme se crê, foi transportado mundo. Sempre mais nítida se faz essa visão, descendo a por-
por um anjo até Babilônia para dar alimento a Daniel, prisio- menores, e nela, na contemplação da doce figura do Cristo, se
neiro na cova dos leões; Sofonias; Ageu, também profeta do acalmam as tempestades angustiosas do espírito. Alimentada
Messias; Zacarias, em quem a profecia da vinda do Cristo se pela vibrante palavra dos profetas, a imagem messiânica se
faz sempre mais clara, precisando seu ingresso em Jerusalém, grava e se agiganta na consciência, até aos últimos tempos, em
sua morte, os trinta dinheiros como preço da traição, a destrui- que se sentia, por toda parte, vaga, mas seguramente próxima, a
ção de Jerusalém e a perseguição; finalmente, Malaquias, que realização tão esperada e predita.
anuncia claramente a vinda do supremo Mestre. A história, na plenitude da hora romana, continha os germes
Por oito séculos, a ideia viva de Deus assim resplandece na do desfazimento e da ressurreição, como hoje. Os deuses pa-
alma de um povo, e a mesma luz desce sempre ao mundo, colo- gãos vacilavam, e o equilíbrio do mundo se deslocava para um
rindo-se diversamente, através de personalidades diversas, mas novo eixo. Algo abala a civilização até aos fundamentos, e
nunca deixa de ser a voz com que Deus clama, chamando os também o mundo pagão desperta ao primeiro choque, que é
homens extraviados. sempre de almas, e o manso Virgílio vê:
A inspiração se faz auditiva ou visual conforme as disposi- Ultima Cumoei venit jam carminis actas,
ções do ambiente, mas a corrente é uma só, embora assuma di- Magnus ab integro soeclorum nascitur ordo,
ferentes formas de vibração. Existe um pensamento constante, Jam redit et Virgo, redeunt Saturnia, regra;
desenvolvido através de recursos diversos e fragmentado no Jam nova progenies coelo demittitur alto.
tempo, mas, apesar disso, coerente e contínuo, testemunhando Tu modo nascenti puero, quo ferrea primum
sua origem de uma fonte única. Essa unidade de ideia manteve Desinet, ac toto surget gens aurca mundo,
coeso um povo, trabalhado pelas mais venturosas vicissitudes, Casta, fave, Lucina; tuns jam regnat Apollo.
até ao surgimento de sua flor magnífica – Cristo, após o que ... Aspice, convexo nutantem pondere mundum,
este povo se dispersa. Terrasque, tractusque maris, coelumque, profundum;
A Bíblia é o mais vasto documento de recepção noúrica Aspice venturo laetantur ut omnia soeclo19
mundial, atingindo as mais elevadas fontes. O povo hebreu nos (VIRGILIO, Écloga, IV)
dá o exemplo de um fenômeno inspirativo gigantesco, prolon-
gando-se por séculos e séculos, funcionando como preparação 18
Este livro – As Noúres – foi escrito no verão de 1936 e publicado,
do evento que daria origem à civilização destinada a governar o em 1a edição, por U. Hoepli, de Milão, em 1937 (N. do T.).
19
mundo. Não é possível a dúvida nem a negação em face de fa- “A última idade da predição de Cumas já chegou;
tos históricos de tal importância. E o cristianismo foi esperado e a grande ordem dos séculos nasce de novo.
preparado por essa elevadíssima mediunidade inspirativa, que Já volta a Virgem e os reinos de Satumo.
agora estudamos, e desses contatos superiores continuamente se Uma nova progênie desce já do mais alto Céu.
Casta Lucina, ampara; teu Apolo já reina.
tem alimentado e fortalecido no seu exaustivo caminhar. ... Vê como estão de acordo o mundo de pesada abóbada
Em face da narrativa bíblica das visões dos profetas, como a E as terras todas, e a extensão do mar, e o céu profundo.
de Isaias, que vê Babilônia destruída, recordando as de São Jo- Vê como tudo se alegra com os séculos por vir”.
ão; em face das visões terrificantes de Ezequiel, bem como ou- (Vírgilio, Écloga IV)
tras, feitas de luz e de bondade, todas grandiosas; em face des- Tradução de Ruth Maria Chaves Martins.
Pietro Ubaldi AS NOÚRES 23
Com Cristo surge, em sua plenitude, um conceito que parece Senhor, perdido nos silêncios da contemplação, penetrava o
preparado, de há muito, no passado de toda a evolução espiritual pensamento profundo de Cristo por um estado de graça que lhe
da humanidade. Esta já está amadurecida para subir mais um dava o amor. E, até muito depois, até São Francisco, nenhuma
degrau em sua ascensão espiritual, e a revelação inicia um novo força aproximou tanto de Cristo o homem, abrindo de par em
ciclo. O conceito de bem e de virtude adquire um novo valor, e a par as portas de seu coração, quanto o amor.
dor se sublima na cruz como meio de redenção. É anunciada a O Apocalipse do apóstolo João foi por ele escrito depois de
boa nova de um novo Reino dos Céus, que está, antes de tudo, seu Evangelho, pelo ano 96 de nossa era, no seu exílio da ilha
no coração dos homens. Atinge-se um novo poder, que Moisés de Patmos. O nome grego “Apocalipse” significa “revelação”.
não possuía: o poder do amor. “Não penseis que vim abolir a Lei Esta, que havia tomado o homem pela mão, desde o princípio,
ou os Profetas; não vim aboli-los, mas completá-los”, disse Cris- para acompanhá-lo até ao nascimento de Cristo, agora continu-
to (Mateus, V, 17). A revelação continuava. ava predizendo os destinos da Igreja, desde seus primeiros
Seria absurdo querer reduzir a ideia de Cristo a um fenôme- combates na Terra até seu último triunfo no Céu. É uma visão
no inspirativo, de tanto que o transcende, de tão inadequados grandiosa, cheia de mistério:
que são os recursos da observação e da compreensão humanas, Cap. I
de tão profunda e completa que foi Sua unificação com o centro 01. Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe concedeu, a fim de
conceptual do universo. Devido à fraqueza humana, temos ne- fazer conhecer aos seus servos as coisas que cedo devem aconte-
cessidade, para nossa compreensão, de fenômenos mais acessí- cer e que Ele, enviando-as por intermédio do Seu Anjo, significou ao
veis, mais mitigados de potência, menos transparentes de Di- seu servo João.
vindade, a fim de que não pareçam cegar. 02. O qual testificou a palavra de Deus e tudo quanto viu de Jesus
Tenho sentido, em meus profundos estados inspirativos, a Cristo. (...)
proximidade de Cristo, não o Cristo reduzido à imagem hu- 09. Eu, João, vosso irmão e companheiro na tribulação, no reino e
mana, mas um Cristo real, cósmico, um espírito radiante, cen- na paciência de Jesus Cristo, estive na ilha que se chama Patmos,
tro de atração espiritual, em torno do qual gravitam os mun- por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus.
dos; um Cristo que me inflamou e me tem dado força para vi- 10. Fui arrebatado em espírito num dia de domingo e ouvi por de-
ver e trabalhar e a Quem tudo devo. Ele me atrai da vertigem trás de mim uma forte voz, como de trombeta.
dos céus, para os quais me arrasta, de esfera em esfera, fusti- 11. Que dizia: escreve o que vês num livro.
gando minha carne para que eu possa aligeirar-me e subir, 12. E voltei-me para ver quem falava comigo, e voltado vi sete
numa visão de sabedoria e de bondade em que minha mente candelabros de ouro. (...)
se perde. Outra coisa não sei dizer de Cristo, outra coisa não 13. Escreve, pois, as coisas que viste, as que são e as que devem
sou digno de dizer e calo-me. acontecer depois destas.
Sinto que se aproximam para o mundo acontecimentos A percepção, a princípio auditiva, se transforma em visual.
enormes e terríveis, sinto um distante fragor de tempestade, um De quando em quando diz: “Eu vi”. A fonte da grande corrente
vagalhão que ameaça a grande civilização. E são pouquíssimos noúrica, porém, é a mesma, não importando em que forma de
os que veem e sabem. Tenho implorado para que se veja e sai- vibrações sensoriais se materialize para ferir os sentidos. Há um
ba. Neste ambiente pesado de ameaças em que louqueja o mun- comando explícito da voz: “Escreve”. Há um aturdimento de
do, meu espírito oprimido não repousa senão na doce visão do sentidos que faz João cair como morto, mas a voz lhe diz: “Não
Cristo, que acalma as águas enfurecidas e salva o barco que temas, sou eu, o primeiro e o último”.
ameaça naufragar. Cristo é verdadeiramente uma força real, ◘ ◘ ◘
sempre presente, a guiar os centros espirituais do mundo, irra- Passam-se os séculos. A voz que havia detido São Paulo na
diando Sua luz. Conforto-me com Suas palavras, citadas pelo estrada de Damasco repercute numa multidão de mártires. Os
Apóstolo João: “Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas, primeiros séculos do cristianismo ecoam de vozes, mas, depois,
por enquanto, estão acima de vossa compreensão” (João, XVI, a tenebrosa Idade Média trabalha duramente para reencontrar as
12). “Tenho-vos dito estas coisas por comparações. Mas vem a fontes do espírito, e a tradição se quebra.
hora em que não vos falarei mais por parábolas, mas aberta- Como Sócrates tinha o seu gênio, a voz superior que ele
mente vos falarei acerca do Pai” (João, XVI, 25). Eram as pala- ouvia falar-lhe interiormente, dando nobilíssimos conselhos,
vras de adeus. Mas, antes, havia dito: “Eu rogarei ao Pai, e ele também tinha seu gênio o filósofo Filon. Porfírio e Plotino de-
vos dará outro Consolador, a fim de que permaneça para sem- claram possuir num espírito familiar sua fonte de inspiração.
pre convosco, o Espírito de verdade, que o mundo não pode re- Como Maomé ouve a voz do seu arcanjo, igualmente Alarico,
ceber, porque não o vê nem o conhece; vós, porém, o conhe- rei dos Visigodos, se dizia inspirado pela voz de um espírito
ceis, porque ele habitará convosco e estará em vós. Eu não vos que o excitava a marchar contra Roma. “Um gênio”, dizia,
deixarei órfãos; voltarei a vós” (João, XIV, 16, 17, 18). “sempre me guia: Avante! Avante! Destrói Roma!”. Esta últi-
Qual será o sinal dos tempos? O descobrimento completo ma voz talvez fosse barôntica, que não se eleva pela nobreza
dos mistérios, que a revelação dá à mente humana, já amadure- de objetivos morais e sociais nem pureza de inspiração, não
cida pela ciência. Porque, como já dissemos, a revelação é pro- merecendo, pois, atenção.
gressiva e proporcionada ao desenvolvimento da inteligência As vozes elevadas só se encontram no seio de uma grande
humana e o Cristo está com ela sempre presente. É chegada a fé, quando a inspiração é também missão, apostolado, muitas
hora em que a mudança da civilização impõe um passo à frente vezes martírio. Só estas são dignas e me interessam.
na lenta e progressiva realização do Reino de Deus na Terra, de Se o fio da revelação se rompera, talvez por razões profun-
que o Evangelho não foi senão o anúncio; impõe sua atuação das, ou talvez só aparentemente, a fé em Cristo não fora destru-
individual e coletiva na organização social humana, o advento ída. A ascensão espiritual, culminando nas figuras dos santos
de Cristo à sociedade, a descida do espírito da verdade, do amor que iluminam em multidão a Idade Média, era contínua e labo-
e da justiça às instituições e à vida dos povos. O Pentecostes, riosa. As correntes desciam sempre do Alto para os desposórios
outrora limitado aos escolhidos, se estende agora a todos os com a Terra, fecundando-a. E germinavam exemplos de holo-
dignos pela bondade e maduros pelas forças intelectivas. caustos no esforço por abraçá-las. A grande emanação do Cris-
O primeiro gigante da revelação cristã é o próprio São João. to jorrava ora aqui, ora acolá, como revelação não mais heroica
João, alma profunda, intuitiva e ardente, enamorada e triste, e guerreira, apocalíptica e tonante, mas apaixonada e gentil,
impetuosa e sonhadora; João, que inclinava a cabeça no seio do amansando a ferocidade dos tempos com a doçura do amor evan-
24 AS NOÚRES Pietro Ubaldi
gélico. E surgem almas novas, ardendo em paixões mais eleva- duzem uma alma do mundo a Deus, projetando-a na vertigem
das. A força se desmaterializa num perfume de sentimento. A da inspiração mística, têm raízes profundas, em que se encontra
voz não mais troveja o fragor das batalhas nem o terrível desti- a chave do mistério. Essas súbitas crises psicológicas não são
no dos povos, mas canta as harmonias da criação. senão o precipitar do equilíbrio biológico normal, em conse-
E desponta Francisco de Assis, qual diferente cantor de quência de impulsos amadurecidos no eterno. E, como sempre,
Deus, que já não é como o rude Moisés, nem o tempestuoso é necessário estudar e compreender o sujeito para entender o
Isaias ou o terrível Ezequiel, nem mesmo o apocalíptico João! fenômeno. Francisco se isolava no silêncio dos bosques e dos
Verdadeiramente, com o Cristo, o mundo do espírito se trans- montes para orar e para ouvir; essa necessidade de solidão, pró-
formara. A fé se dulcifica como o cântico de um poeta ou uma pria dos inspirados, foi para ele fundamental, especialmente nos
visão de artista, como se transmuda em beleza a própria verdade mais importantes momentos de sua missão.
que se eleva a um plano mais alto. A fé canta e sorri entre os do- “Vade igitur et repara illam mihi!”. Nas vizinhanças de S.
ces pintores das escolas umbra e toscana, gorgeante de crianças Damião, o céu e a terra, tudo sorri numa nova luz, como que
graciosas e perfumosas dos suaves semblantes das Madonas. E, impregnado da grande emanação espiritual do santo. A beleza
seja atingindo poetas, artistas ou santos, é sempre a mesma fonte natural parece brilhar em mais profunda beleza de alma. Toda a
inspirativa, que desce do Alto e faz do “Trecento” o século das criação em torno se vivifica no espírito e também ora num im-
mais puras criações espirituais. Que importa a forma com que pulso de fé, dobrando-se em sintonia para alimentar o fenômeno
essa inspiração se imprime na matéria? Grande inspirado foi de Francisco e de sua vibração de amor a Deus. Nos momentos
Dante, como foi Giotto e depois Rafael. Sempre, onde se mani- de sua grande inspiração, a natureza também é chamada a cola-
festa um pensamento novo, profundo e nobre, o Alto vibra e se borar, em harmonia de fé e amor, como uma realidade viva, ar-
dá. O “Trecento” parece uma descida de anjos para rasgar as dente, também enamorada de Deus, pois a grande recepção noú-
trevas de um milênio. Foi a primeira dulcificação de costumes rica é um concerto imenso em que toda a criação canta em Deus.
na fé cristã, a primeira grande onda de preparação do Reino dos A inspiração dulcíssima do amor de Cristo se verifica, aqui, não
Céus. Falo a respeito de forças reais, presentes e decisivas na mais entre as tempestades do Sinai, porque a nota de sintoniza-
evolução da civilização. Falo da minha mística Úmbria, onde, ção é completamente diversa, mas na musicalidade doce da pai-
com tanta suavidade, floresceu aquele sonho de fé! sagem úmbrica, que ainda hoje canta e sobe, simples e mansa,
A voz falou pela primeira vez a Francisco (1182 - 1226) em como por humildade, perdendo-se nos esplendores azuis do mis-
São Damião, em Assis. Assim relata o acontecimento o Pe. V. ticismo. Verdadeiramente, jamais encontrei mais apropriado
Vacchinetti em sua “Vida de São Francisco”: ambiente de sintonização espiritual que esta paisagem úmbrica.
“Existia então, como ainda hoje, no declive da montanha (o Francisco, entretanto, não havia compreendido bem. O
Subásio, próximo de Assis) uma capela dedicada a S. Damião. despertar de uma alma imersa na carne, embora seja ela forte,
São Francisco gostava de recolher-se na penumbra daquela não pode ser instantâneo. Seu olhar é, a princípio, exterior
igrejinha abandonada, a orar diante de um crucifixo. Um dia, também nos conceitos, está materializado pelas sensações e, só
estava ajoelhado diante daquela imagem do Redentor... e supli- mais tarde, atinge os profundos significados de espírito. Tam-
cava poder conhecer, finalmente, qual fosse a vontade divina a bém com Joana D’Arc aconteceu o mesmo. Mas, depois, o
seu respeito. Eis que, então, ainda banhado em lágrimas e com ambiente se purifica, o contato se faz mais vivo, a percepção
o coração agitado pelo ardor da oração, tendo os olhos fitos no mais transparente. Aqui também, embora preso num turbilhão,
crucifixo, o vê avizinhar-se de si, e de seus lábios divinos per- o fenômeno é progressivo. Não era, pois, a restauração materi-
cebe sair uma voz que lhe diz: “Não vês que minha igreja está a al da igreja de S. Damião, obtida com o transporte de pedras,
desabar? Vai, pois, e restaura-a para mim!”. E por três vezes se mas a restauração espiritual de Sua Igreja o que Cristo indica-
repete o amargurado apelo, a divina oração: “Vade igitur et re- va. “Eu não vos deixarei; voltarei a vós”, Ele já havia dito.
para illam mihi!”20 (aquela imagem conserva-se ainda hoje na Voz universal, ativa e presente, infiltra-se no mundo através
Basílica de Santa Clara, em Assis). A essa voz, Francisco, tre- dos caminhos de quem sente, responde e fala, segundo o poder
mendo de espanto e comoção, respondeu com entusiasmo: “Fá- de cada um para ouvi-la. Que evidência deveria, pois, atingir
lo-ei de boa vontade, Senhor!” (“Liberter faciam, Domine”). E através de uma alma como a de Francisco!
logo se levantou, para iniciar o trabalho”. Tudo está em relação à capacidade individual, à sensibiliza-
Esta é a narrativa: ção espiritual, e esta se relaciona com o grau de purificação
A voz do Alto a descer para salvar os destinos da Igreja. O atingido. Aqui, ressalta em primeiro plano a relação, já notada,
impulso de Cristo volta a manifestar-se presente. Esses fenô- entre elevação moral e potência perceptiva da alma, pois impor-
menos de exceção não sucedem ao acaso, mas em momentos ta um estado de afinidade vibratória para poder obter-se a sin-
particulares, com objetivos excepcionais. As correntes puras tonização. Compreendem-se, assim, os três votos franciscanos
não descem ao nosso plano para curiosidade científica, mas – pobreza, castidade, obediência – que azorragam no corpo e
obedecem a equilíbrios profundos, que as guiam para alimentar nas paixões toda a animalidade humana.
os valores espirituais do mundo quando estes vacilam. Para sentir a palavra de Cristo, Francisco devia tornar-se
De há muito, Francisco procurava, mas ainda não se havia semelhante a Ele na dor e no amor, e tão intensamente os teve
encontrado a si mesmo. Esquecera-se, na quadra alegre da ju- unidos a Ele, que se imprimiram em seu corpo com os estig-
ventude, mas era momentâneo o esquecimento; ao primeiro mas, no incêndio espiritual da Verna.
choque, sua alma desperta, e do íntimo se elevam as realidades No espírito franciscano existe um conhecimento profundo
do espírito, para as quais estava amadurecida. Na prisão dos pe- dos caminhos desse laborioso esforço da ascensão espiritual.
rusinos e, depois, na enfermidade em Spoleto, as primeiras vi- Basta recordar o episódio da perfeita alegria, em que, diante
sões revelam a Francisco o seu verdadeiro ser. Creio que esses dos ataques mais cruéis e dos decepamentos mais radicais im-
primeiros contrastes interiores sejam o momento psicológico postos à natureza humana, Francisco conclui sempre com um
mais decisivo para a compreensão daquele tipo de personalida- crescendo impressionante de exemplos: “Ó Irmão Leão, escre-
de e de toda a fenomenologia supranormal que se lhe formou ve que nisso está a perfeita alegria” (“Florinhas”, VII). Mas
em torno. Esses deslocamentos de equilíbrio interior, que con- uma verdadeira técnica de ascensão espiritual, uma descrição
dos métodos usados pelo destino para impô-la ao homem, é
20
“Vai, pois, e restaura-a para mim! – como já está escrito, duas linhas descrita no Cap. XXV das “Fioretti”. Encontra-se aí narrada,
atrás, para o vernáculo (N. do T.). na forma simbólica da época, o esforço do processo evolutivo
Pietro Ubaldi AS NOÚRES 25
do psiquismo humano, que, em A Grande Síntese, é explicado ciam asas; mas, como antes, não esperou que elas crescessem per-
cientificamente; concordâncias que reciprocamente se ilumi- feitamente; pondo-se a voar, uma vez mais, antes do tempo: caiu ou-
nam. Um frade sonha que: tra vez sobre a ponte, e igualmente as penas. Percebendo que a
“... ele foi arrebatado e conduzido em espírito a um altíssimo mon- pressa de voar sem que houvesse chegado o tempo próprio era a
te, junto ao qual se via um precipício muito profundo; e, aqui e ali, pe- causa das quedas, começou a dizer a si mesmo: “Quando me nasce-
nhascos fendidos e lascados, rochas desiguais que se elevavam da rem asas pela terceira vez, esperarei até que sejam bastante gran-
massa de pedra; era pavoroso o aspecto do precipício E o Anjo, que des para que eu possa voar sem cair de novo”.
conduzia esse frade, empurrou-o, lançando-o precipício abaixo. E o E, estando assim a pensar, notou que lhe nasciam asas pela ter-
frade, bamboleando e ferindo-se de pedra em pedra, de calhau em ceira vez, mas esperou que elas crescessem suficientemente. Pare-
calhau, finalmente caiu no fundo do precipício, completamente des- ceu-lhe que, desde o primeiro surgimento das asas até ao terceiro,
membrado e despedaçado, conforme lhe parecera. E, jazendo, assim haviam decorrido bem cento e cinquenta anos. Finalmente, dessa
desacomodado, em terra, aquele que o conduzia disse: terceira vez, levantou voo com todas as suas forças e chegou até
– Levanta-te, que te é necessário fazer ainda uma viagem maior. onde estava o Anjo e, batendo à porta do palácio que atingira com
Respondeu o frade: seu voo, começou a olhar as paredes maravilhosas do palácio; e
– Pareces-me um homem imprudente e cruel; vês-me quase mor- eram estas tão transparentes, que ele claramente podia ver os coros
to pela queda que me despedaçou e ainda dizes que me levante! dos santos e tudo que lá dentro se fazia... E, logo que entrou, sentiu
O Anjo, porém, aproximou-se dele e, tocando-o, ligou com per- tanta doçura, que esqueceu todos os sofrimentos por que havia pas-
feição seus membros, curando-o completamente. E depois lhe mos- sado, como se jamais os tivesse sofrido”.
trou uma grande planície, coberta de pedras pontiagudas e cortan- Eis o caminho da sutilização espiritual, eis o gabinete de ex-
tes, de espinhos e sarças, e disse-lhe que seria necessário atraves- perimentação em que se prepararam os estados de ânimo para a
sá-la descalço, até ao fim, onde existia uma fornalha ardente, em recepção das mais elevadas correntes noúricas. Atrás da narrati-
que ele deveria entrar. va cheia de imagens, sente-se o esforço, a luta, o caso vivido, a
Tendo o frade transposto toda a planície, com grande angústia e percepção direta das forças espirituais da vida, ouve-se o eco das
pena, ouviu do Anjo: assustadoras provas da iniciação egípcia, realizadas nos grandes
– Entra nesta fornalha, porque assim te é necessário! templos de Tebas ou de Mênfis pelos sacerdotes de Osíris; há
Respondeu o frade: nela um senso difuso da ciência do bem e do mal, que a alma
– Pobre de mim! Que guia cruel me tens sido! Vês-me quase mor- dolorosamente aprende, como já narravam os mistérios de Elêu-
to por atravessar esta planície e agora por repouso me dizes para en- sis na queda da virgem Perséfone, por obra de Eros, no tenebro-
trar na fornalha ardente!... so reino de Plutão. E, verdadeiramente, a divina Perséfone, caída
E, olhando, o frade viu em torno da fornalha inúmeros demônios, no sofrimento do inferno, era o símbolo da alma humana, que
que seguravam forquilhas de ferro e com estas, porque ele demorava expia na vida e na luta pela sua redenção, que cai e se purifica
a entrar, o arrastaram subitamente para as chamas... das baixas paixões e reencontra a visão da verdade. Como já
... E o Anjo que o conduzia, impeliu-o para fora da fornalha, di-
disse e repito, o fenômeno noúrico que estamos estudando não é
zendo-lhe:
senão o fenômeno da evolução, o fenômeno da ascensão da al-
– Prepara-te para uma horrível viagem, que ainda tens de fazer!
ma humana. Que a ciência não o isole, mas compreenda que é
Recomendando-se, disse o frade:
fenômeno de imensa vastidão, em que se precipita o equilíbrio
– Ó duríssimo condutor, que nenhuma piedade tens de mim! Vês
biológico de todo um passado, estabilizando-se num mais eleva-
como me queimei na fornalha e ainda me queres levar a uma viagem
do equilíbrio de forças espirituais; compreenda que a alma não
perigosa e horrível!
atinge a percepção inspirativa senão através da dolorosa elabo-
O Anjo, porém, tocou-o, e ele se tornou são e forte. Conduziu-o,
ração dos milênios. Esse lampejo de intuição, que lhe permite
depois, a uma ponte, onde não se podia passar sem grande perigo,
sentar-se no Alto, diante do trono de Deus, finalmente digna de
porque era muito frágil e estreita, muito escorregadia e sem parapei-
tos; por baixo passava um rio terrível, cheio de serpentes, dragões e conhecer a verdade, está no ápice da escala da evolução huma-
escorpiões, que exalavam muito mau cheiro. E disse-lhe o Anjo: na. Concluo com as “Florinhas” de São Francisco:
– Passa esta ponte. De qualquer modo deverás atravessá-la. “A águia voa muito alto, mas, se ela tivesse ligado algum
– Como poderei transpô-la sem cair neste perigoso rio? peso às suas asas, não poderia voar muito alto”.
Respondeu-lhe o Anjo: A apoteose de Francisco é no Verna. A corrente divina des-
– Vem após mim e põe o pé onde eu puser o meu e assim pas- ce na nova forma de amor, desejada por Cristo, e a alma de
sarás bem. Francisco não a alcança completa senão na plenitude de sua
E o frade acompanhou o Anjo como este lhe havia ensinado e maturidade, no fim de seu caminho terrestre:
chegou até ao meio da ponte, quando, então, o Anjo ausentou-se “Na dura pedra, entre o Tibre e o Arno,
num voo e se postou no cume de um monte elevadíssimo, muito lon- Recebeu de Cristo o último sinal,
ge da ponte. Examinou bem o frade o lugar para onde voara o Anjo; Que seus membros por dois anos levaram.” 21
viu-se, assim, sem guia e, olhando para baixo, viu os terríveis ani- Eis, brevemente, a viva narrativa das “Fioretti”:
mais que, do seio das águas, levantavam suas cabeças e abriam as “... e São Francisco, de manhã bem cedo, antes do despontar do
bocas, como se preparando para devorá-lo, se ali ele caísse. Estava dia, se põe a orar diante da porta de sua cela, volvendo o rosto para o
tão amedrontado, que não sabia o que fazer ou dizer, porque não nascente... E, estando assim, inflamando-se nessa contemplação,
podia recuar nem avançar. Vendo-se em tão grande tribulação e que nessa mesma manhã, viu vir do céu um Serafim com seis asas res-
não teria outro refúgio senão somente Deus, inclinou-se e, abraçado plandecentes e flamejantes; e o Serafim, num voo veloz, aproximou-
à ponte, e de todo o coração e com lágrimas, suplicou a Deus que, se de São Francisco, tanto que este o pôde discernir, percebendo cla-
por Sua santíssima misericórdia, o socorresse. Feita a oração, pare- ramente que tinha diante de si a imagem de um homem crucificado...
ceu-lhe que lhe nasciam asas, e esperou com imensa alegria que E, estando assim admirado, foi-lhe revelado por aquele que lhe apa-
elas crescessem, a fim de poder voar até onde se encontrava o Anjo. recia que, pela divina providência, aquela visão lhe surgia de tal forma
Depois de algum tempo, pelo grande desejo que tinha de abandonar a fim de que ele compreendesse que, não por martírio corporal, mas
a ponte, pôs-se a voar. Como as asas, porém, não eram suficiente- por incêndio mental, teria ele de ser completamente transformado na
mente grandes para o voo, ele caiu sobre a ponte como também as positiva semelhança de Cristo crucificado.
penas. Novamente abraçou a ponte e, como já havia feito, recomen-
dou-se a Deus. Terminada a oração, de novo percebeu que lhe nas- 21
Divina Comédia, canto XI do Paraíso (N. do T.).
26 AS NOÚRES Pietro Ubaldi
“Nessa aparição admirável, todo o monte do Verna parecia arder Apareceu, pouco depois de Francisco, em Foligno, uma mu-
em brilhantíssimas chamas, que iluminavam todos os montes e vales lher admirável pela sua inspiração, tanto que foi chamada “ma-
em derredor, como se o Sol houvesse descido à Terra; e os pasto- gistra theologorum”22, embora desfavorecida de estudos: a
res, que velavam nessas redondezas, vendo o monte incendiado e bem-aventurada Ângela de Foligno (1249-1309). Diante de cer-
muita luz em torno dele, tiveram grande medo, conforme depois con- tas verdades elevadíssimas, muitas vezes é melhor sonhar, por-
taram aos frades, afirmando que aquelas chamas duraram sobre o que as descobre mais facilmente o poeta que o cientista, ou en-
monte do Verna por espaço de mais de uma hora. Igualmente, ao tão o cientista deve fazer-se poeta, para saber olhar o mundo
esplendor dessa luz, que atravessava as janelas das hospedarias da com a ingenuidade de uma criança.
região, alguns tropeiros que iam para Romagna se levantaram, cren- Há também na vida de Ângela um período preparatório de
do que já fosse dia, e carregaram seus animais, e, após iniciarem a maturação, feito de dúvidas e contrastes, da vida mundana
viagem, no caminho, viram cessar aquela luz e levantar-se o Sol. que, numa curva do destino, se modifica em vida de perfei-
... “Nessa aparição seráfica, Cristo, que se tornou visível, falou a ção moral. E, nesse momento, também uma voz fala, produz
São Francisco certas coisas elevadas e secretas, que jamais em vida um choque, e o ser se transforma. Existe sempre um momen-
o santo quis revelar a ninguém... Desaparecendo a admirável visão, to crítico na evolução das almas, em que os equilíbrios pre-
após falar durante muito tempo e em segredo, deixou no coração de cedentes se precipitam para se restabelecer novamente num
São Francisco um ilimitado ardor de amor divino e, na sua carne, plano mais alto. O despontar do estado inspirativo parece ser
deixou um maravilhoso sinal e imagem de paixão de Cristo...” a nota fundamental do fenômeno da gênese mística; sempre o
O fenômeno foi tão forte, que assumiu forma visual e au- encontramos ligado à aparição de estados morais de elevada
ditiva e atingiu efeitos físicos permanentes. O espírito do cris- perfeição. Reaparecem aquelas relações que já, de início, ob-
tianismo alcançou no Verna um dos mais elevados vértices de servamos. Ângela ouviu a voz da inspiração na igreja de São
sua realização. Francisco, em Foligno, a poucos passos de distância de seu
Atingido seu ápice espiritual, a vida de Francisco não mais palácio, enquanto orava. Aquela voz a inflamou de divino
tinha motivo de continuar sobre a Terra, e cede ao cansaço do amor e assinalou a mudança de sua existência para uma vida
corpo, esgotado pelo grande incêndio, e se extingue cantando as de pobreza e contemplação. A recordação de Francisco, fale-
harmonias da criação. cido há pouco, era próxima; próxima estava também sua Assis.
No “Cântico das Criaturas”, a unificação é atingida, a alma A vida mundana se transforma em vida de penitente, e, parale-
se harmonizou com a sinfonia do universo, tudo revive no es- lamente, explode a inspiração. Diz-se que se dirigia à famosa
pírito, e à grande corrente espiritual do amor de Cristo que basílica de Frei Elias em Giotto, realizando a pé um trajeto de
desce ao coração humano responde, em sintonia, o cântico de cerca de quinze quilômetros, sempre absorta em meditação.
toda a criação: Retornando certa vez a Assis, pouco além de Spello, onde a es-
“... Louvado sejas meu Senhor, com todas as tuas criaturas, es- trada começa a subir, ouve o espírito dizer-lhe: “Acompanhar-
pecialmente o senhor irmão Sol que nos dá o dia e nos ilumina... te-ei até São Francisco, falando contigo, fazendo-te provar di-
Louvado sejas meu Senhor, pela irmã Lua e pelas estrelas, que vinas alegrias... Eu sou aquele mesmo que falava aos apósto-
no céu formaste claras, preciosas e belas. los... sou eu, o espírito... não temas...”. Despertando de seu êx-
Louvado sejas meu Senhor, pelo irmão Vento e pelo ar, nubla- tase ao ingressar no templo, pôs-se a clamar em presença de
do ou sereno, e por todo tempo, pelo qual a todas as criaturas sus- todos sua sobrevinda visão. Depois concluía como São Paulo,
tentas. que, arrebatado ao terceiro Céu, confessava: “o olho não viu
Louvado sejas meu Senhor, pelo irmão Fogo, com que iluminas a nem o ouvido jamais ouviu as misteriosas palavras...” 23; o con-
noite. E ele é belo, alegre, robusto e forte. ceito expresso na tradicional terminologia religiosa permane-
Louvado sejas meu Senhor, por nossa irmã e mãe Terra... ceria verdadeiro, embora traduzido para a moderna nomencla-
Louvado sejas meu Senhor, por nossa irmã, a Morte corporal, da tura científica, demonstrativa e exata.
qual nenhum homem pode escapar...” Sempre mais purificada pelo sofrimento e pela renúncia,
Os laudes do Senhor por suas criaturas são o último canto Ângela se torna mulher famosa, como Rosa de Viterbo e Cata-
do grande inspirado, com que a voz interior se cala. A emana- rina Benincasa, filha de Jacó, tintureiro de Fontebranda (S. Ca-
ção radiante do divino centro do universo, as vibrações espiri- tarina de Siena). São inúmeros os casos de pessoas que, sem a
tuais cheias de reflexos do princípio animador de todas as cri- mínima preparação cultural, muitas vezes analfabetas, sabem
aturas e de todas as coisas se fundiram, numa harmonia única, argumentar acerca de altos problemas de teologia.
no espírito daquele que foi, a um só tempo, grande sensitivo, Novamente penso em S. Félix de Cantalice, em S. João de
artista, poeta e santo. E o encanto dessa harmonia, na qual to- Cruz; em Santa Brígida, que afirma haver recebido da voz do
da a criação canta em Deus, terá tido seu paraíso no Céu como Cristo as regras da ordem por ela fundada em S. Agostinho, que,
o fora na Terra. nas suas “Confissões”, assevera também a presença de uma voz
Falei sobre Francisco com a alma trêmula de veneração e que o guia. Penso em tantos, que é impossível enumerá-los.
amor, como quem olha um gigante que se encontra na vanguar- Certos caminhos que se abrem aos humildes parecem dever
da do caminho da vida, que se move nos cimos vertiginosos da estar fechados aos sábios. “Há verdades que se recusam a quem
perfeição que desejaríamos atingir, mas em face dos quais as as investiga, para se concederem a quem as sente”, disse Car-
pobres forças humanas caem prostradas. los Delcroix. A verdade não se conquista por violência de von-
◘ ◘ ◘ tade, mas por estados de sutil penetração de alma. Acrescenta
Falar sobre todos os inspirados desde a Idade Média até Schuré, em sua obra “Grands Initiés”, em uma nota à pág. 649:
nossos dias seria um enorme trabalho, que não poderia caber “Les annales mystiques de tous les temps démontrent que des vé-
nas breves páginas deste volume; seria um inútil alarde de eru- rites mora1es ou spirituelles d'un ordre supérieur ont été perçues par
dição, fácil de adquirir, de resto, nas páginas de uma enciclo- certaines âmes d'élite, sans raisonnement, par la contemplation inter-
pédia, além de que, seria ainda um tratado demasiadamente ne et sous forme de vision. Phénomêne psychique encore mal counu
denso para o leitor. Prefiro vaguear de braços dados às atra-
ções de minha simpatia, que me garante, aliás, minha compre- 22
Mestra de teólogos (N. do T.)
23
ensão, permitindo-me uma visão mais cálida e mais íntima. I Epístola de São Paulo aos Coríntios, 2:9 (N. do T.).
Pietro Ubaldi AS NOÚRES 27
de la science moderne, mais fait incontestabie. Catherine de Sienne, ca de um ambiente apropriado à percepção interior. Aos 16
filie d'un pauvre teinturier, eut, dès 1'âge de quatre ans, des visions anos, tomava ela o hábito de S. Domingos; iniciada uma vida
extrêmement remarquables24”. de sacrifício, a potência visual se apura, intensificando-se as
Esses seres excepcionais se elevam na graça divina, absor- místicas visões. Alimentada por estas, desce depois ao mundo
vem-lhe a essência e, depois, descem até junto dos homens para para fazer o bem. Começou-se, então, a compreender sua per-
dar-lhes a sabedoria e a felicidade de que se inundou seu ser. sonalidade, formando-se em torno dela uma coroa de compre-
Tudo isso foi chamado histerismo. Sabe, porém, a ciência o que ensão e de admiração, e ela se dá totalmente à obra de conforto
é histerismo? Se o soubesse, curá-lo-ia. Isso chamo de simplis- material e espiritual; ensina, defende, encoraja. Dilata-se, as-
mo. E, se desse suposto mal patológico provêm produtos tão sim, sua vida pública, e daí nasce um vasto epistolário, endere-
elevados, que se impõem à atenção e veneração do mundo e çado a papas, cardeais, reis, príncipes, capitães mercenários,
ofuscam a sabedoria humana, se tudo isso é desequilíbrio, ben- homens de estado, nobres, homens do povo, grandes damas e
dita seja então essa doença, bendito seja esse desequilíbrio, pois humildes religiosas. Não escreve, embora o houvesse aprendi-
são os caminhos daquela luz que não é atingida pelos sentidos do miraculosamente, mas dita, como era uso em seu tempo.
dos sãos e dos normais. Pelo contrário, veem-se aqui os sinais Nasce, desse modo, uma volumosa correspondência que, jun-
de verdadeira maturidade de espírito, que significa a conquista tamente com o “Diálogo”, todo escrito em êxtase, forma um
realizada dos mais elevados valores morais, individuais e soci- monumento, admirável pela pureza de linguagem, beleza de
ais, aqueles por cuja conquista a humanidade, ainda involuída, imaginação, profundeza de conceito, altitude de perfeição mo-
vive sofre e trabalha; tudo isso significa a evolução realizada ral. Propaga em torno de si o incêndio de sua elevada paixão e
nos mais altos níveis biológicos, que são os do espírito, de que induz, finalmente, o pontífice, exilado na França, a retornar a
o homem comum, ainda muitíssimo próximo da animalidade, Roma, realizando assim uma missão política que se assemelha
está imensamente distanciado. à de Joana D’Arc, que a biosofia venera como sua patrona.
A alma de Ângela maturou-se não no estudo, mas na dor. Pronuncia Catarina, mais tarde, um discurso no Consistório,
Analfabeta, talvez, não deixou ela, diretamente, nenhum es- em presença do colégio dos cardeais, para salvar a Igreja do
crito. O evangelista do verbo de sua alta intelectualidade foi o cisma. Viveu uma vida de lutas e esforços imensos, em que era
irmão Arnaldo, franciscano de Foligno. Em estado de êxtase, sustentada pelos seus íntimos contatos com o Alto. Cristo é
ela lhe falava das coisas elevadas que ouvia e que a palavra sempre, como para Francisco, o grande animador dessas vidas
não lhe era suficiente para traduzir. Arnaldo escrevia, buscan- que se movimentam como uma emanação de sua força e de seu
do atingir-lhe o pensamento sem consegui-lo e, quando apre- pensamento. Dessa vez, a corrente de pensamento e de paixão
sentava a Ângela o escrito, esta se surpreendia, quase não o re- desce para salvar a Igreja em perigo. O fenômeno obedece
conhecendo, e dizia: “Disse eu isso? Não te disse isso. Não re- sempre a uma lei lógica de finalidade, a que se proporciona.
conheço haver pensado como está escrito”. Frequentemente, Histerismos, pois, também estes que tiveram uma missão soci-
ficava absorta, durante dias, em suas visões. Também neste ca- al, que inspiraram a arte, que forneceram uma produção literá-
so, Cristo é o centro de irradiação; Cristo, que foi precedido ria, que interessaram o mundo, que são venerados pelas multi-
por uma corrente que, no profetismo hebraico, o esperou, ago- dões nos altares entre as coisas santas?
ra, no Cristianismo, é seguido por uma corrente que o recorda Há um fato que ressalta evidente em todos estes casos, mas
e em que revive. Assim, essa insigne mulher da Itália alcan- especialmente neste: as correntes noúricas não se manifestam
çou, por elevação de conceito, os mais árduos campos especu- jamais através daqueles que parecem os mais preparados, isto é,
lativos; raciocinava, com engenho sutil e com tranquila subli- os poderosos e os sábios, mas preferem os simples e os humil-
midade, sobre a essência da Divindade e sobre Seus mistérios; des, escolhendo para instrumento os que parecem ser os últimos
dos mortais. Característica do fenômeno, que tem seu significa-
alcançava, no campo teológico, uma orientação que os sábios
do, porque a cultura é um preconceito e o poder, uma vontade
não possuíam; navegava, segura, num mar de abstrações con-
rebelde, que obstam ao livre fluir das correntes e sua aceitação.
ceptuais que estavam absolutamente acima de seus normais
Há uma necessidade de solidão para a busca da sintonização
poderes psíquicos. Voava, assim, por intuição, constituindo-se
receptiva; é a solidão dos anacoretas no deserto, dos eremitas
modelo vivo, ela que era mulher inculta, de teologia mística,
nos montes, dos monges nos claustros; necessidade de silêncios
de coisas transcendentais do espírito, tanto que foi chamada
do mundo, para que neles se possa ouvir a voz da alma. Vêm
“magistra theologorum”, isto é, considerada como grande
depois a dor, a renúncia, que distanciam o espírito da Terra, e,
exemplo de sabedoria mística. Em vida, muitos vinham de
frequentemente, uma progressão de potência receptiva e de cla-
longe para conferenciar com ela a respeito de difíceis proble-
reza perceptiva, proporcionais à purificação atingida através da
mas do espírito e da fé, e, depois de sua morte, recebeu a ho-
dor e da renúncia. Existe na alma um senso de missão que justi-
menagem da ciência e das letras da Itália e da Europa.
fica a dor, o esforço, a vida, que anima e sustém o árduo traba-
Outra grande mulher apareceu logo após, no cenário da vi- lho do apostolado, que tudo guia ao plano da ação.
da, para influir e impor-se à atenção do mundo: Catarina de Aparece, então, frequente e evidentemente, o momento crí-
Siena (1347-1380). Muitíssimo conhecida, não havendo neces- tico da crise espiritual em que a voz se faz ouvir, distinta, in-
sidade de se repetir sua história, faz pensar na coroa de delica- flamando a vida e jamais se calando. Verifica-se, simultanea-
das flores que a Idade Média soube produzir. Ávida de solidão mente, uma ascensão moral contínua, e, no fundo de tudo, a
desde criança, nela se refugiava para deliciar-se em suas vi- grande força animadora que fala, que vibra, que inflama é Cris-
sões. “O beata solitudo! O sola beatitudo!”, dela também se to. De Moisés aos nossos dias, temos visto, sempre idêntica, es-
poderia dizer. Mas esse isolamento não é vazio, é apenas a bus- sa potência de divino pensamento descendo e governando o
24
mundo. É uma realidade histórica que não se pode destruir. E
Os anais místicos de todos os tempos demonstram que verdades frequentemente há, em face dessa grande força, uma imolação
morais ou espirituais de uma ordem superior têm sido percebidas de todo o ser, um martírio breve ou demorado, de uma vida in-
por certas almas de elite, independentemente de raciocínio, pela
contemplação interna e sob a forma de visão. É fenômeno psíquico
teira. Sempre a mesma dor e a ciência de vencê-la num mundo
ainda mal conhecido da ciência moderna, mas constitui fato incon- mais elevado, que a mediania não vê. Só isso parece dar o direi-
testável. Catarina de Siena, filha de um pobre tintureiro, desde os to e a coragem suprema de falar em nome de Deus. Saberá,
quatro anos de idade, teve visões extremamente notáveis”. (Schuré, pois, a evolução, sozinha, resolver o grande problema e obter a
Os Grandes Iniciados) (N. do T.). vitória sobre a eterna inimiga do homem – a dor?
28 AS NOÚRES Pietro Ubaldi
É grande o número dos místicos, e, quando dizemos místi- cia. Lendo novamente, desse modo, a vida de Joana, nos planos
cos, dizemos inspirados; de Santa Clara a Santa Gertrudes, a mais elevados do espírito, podemos compreendê-la. Para enten-
Santa Teresa (a carmelita de Ávila, reformadora de ordens, der esses fenômenos, importa haver penetrado a personalidade e
célebre por suas visões místicas; 1515-1582), à extática de Pa- toda a vida espiritual do sujeito; é preciso, quando se afrontam
ray-le-Monial, que foi comparada ao extático de Patmos; o essas vidas de missão e de martírio, possuir uma alma sensível a
apóstolo da doçura, João, que havia repousado ao peito do esse mundo de sutis vibrações. De outro modo, seremos incom-
Cristo; a mística esposa Margarida Maria Alacoque (1647- petentes como um matemático que quisesse resolver problemas
1690). Nela, o colóquio com Cristo é contínuo, intenso, dori- sem possuir o senso da matemática. Tal foi Anatole France na
do e inefável de alegrias espirituais. Como os profetas e após- sua “Vie de Jeanne D’Arc”. Nesses casos, o pensamento perma-
tolos, Margarida Maria fala com Deus e recebe uma revela- nece negativo e não atinge senão a destruição. Reservamo-nos,
ção, que transmite à humanidade; mas tudo isso faz humilde- porém, para o trabalho mais difícil, que é o de afirmar e criar.
mente, silenciosamente, em afetuoso tom menor. Sua ascen- Encontramos novamente aqui, como já vimos em muitos
são se gradua por colóquios sucessivos, em que se revela o outros casos, os elementos do fenômeno inspirativo, que o pre-
plano de sua missão. Por inspiração, recebe mensagens e as param e o acompanham. Para compreendê-lo, eu o reduzo à sua
transmite, entre as quais uma para o Rei Sol, Luís XIV, que estrutura essencial, que é um cálculo de forças imponderáveis e
não a escuta. É uma característica desses séculos, especial- reais, provenientes de centros superiores de emanação noúrica,
mente na terra latina, essa florescência de mulheres místicas, que descem para unir-se e combinar-se com as correntes espiri-
às quais parece confiada a divulgação do novo sentido de tuais da história e do destino individual.
amor trazido por Cristo; a mulher, que não havia aparecido no A elevada origem dessas forças, sua proveniência dos mais
seio do severo e tempestuoso profetismo pré-cristão, pode altos planos espirituais, não padece dúvida no caso de Joana
agora fazer brotar sua flor de delicadíssima fragrância. O po- D’Arc. Ela havia feito pintar em sua bandeira, de um lado, as
ema gentil de Francisco continua, e, através dos séculos, se palavras: “De la part de Dieu”, e do outro o moto “Jhesus-
estende uma sinfonia de almas harmonizadas em torno de um
Maria”25. Este moto ela escrevia em suas cartas, como fazia
pensamento único e de uma missão constante: fazer reviver o
Santa Catarina de Siena. Isso demonstra que, também aqui, o
Cristo na Terra, mantê-lo presente, a fim de que se realize sua
pensamento de Cristo era dominante no espírito de Joana. Ela
palavra: “Eu não vos deixarei órfãos; voltarei a vós” (João,
amava imensamente sua bandeira e a quis a seu lado na catedral
XIV, 18). É o novo cântico que continua o profetismo hebreu,
de Reims, na plenitude do cumprimento de sua missão política e
o cântico da realização, na Terra, do Reino dos Céus.
guerreira, quando da coroação de Carlos VII. Do seu estandarte
Assim, chegamos aos tempos modernos, em que o fenôme-
dizia: “Il avait été à la peine, c'était bien raison qu'il fut à l'hon-
no assume novos aspectos. Poderia referir-me a muitos outros,
como Catarina Emmerick, a grande vidente alemã do século neur”26 (Proc. 1, 187). A última palavra que Joana pronunciou,
XIX. E que dizer de Teresa Neumann, de Konnersreuth, a fa- na fogueira, em face da morte, quando já não se pode mentir,
mosa vidente bávara, a estigmatizada, que, nas suas visões, se- foi: Jesus. Além disso, aquele “Venho da parte de Deus” é a in-
gue a paixão de Cristo, revive-a no seu corpo, ouve e repete pa- vocação suprema que traz Deus como testemunha, é o juramento
lavras em grego, hebraico e aramaico, línguas que ela não co- que empenha toda uma vida até ao martírio. Um instintivo terror
nhece? Também neste caso, há paixão, amor e dor, sublimação impede de mentir, de falar em nome de Deus quando disso não
no espírito, o elemento moral elevado ao primeiro plano, a vir- se é digno. Joana, que era uma inspirada e deu sua vida para tes-
tude heroica do sacrifício para o bem dos outros. Existe um tão temunhar a verdade de suas vozes, não poderia deixar de sentir
profundo contato espiritual com Cristo, que constitui para Tere- quão tremenda é esta expressão: “Falo em nome de Deus”.
sa sua principal nutrição e substitui o alimento de que, por lei A Igreja, que jamais, nem sequer no momento de maior ce-
orgânica, todos têm absoluta necessidade de ingerir para viver. gueira, quando Joana foi condenada à fogueira (grande respon-
O fato, que é tendência geral dos místicos, de descuidar-se sabilidade moral para a Universidade de Paris), cogitou de
do alimento material, preferindo o espiritual, faz pensar que, qualquer mutilação das capacidades intelectivas humanas, re-
nos mais elevados graus de evolução, o ser possa conseguir correndo à tese de sugestão, histerismo ou neurose na interpre-
seu reabastecimento dinâmico diretamente de fontes imateri- tação do fenômeno de Joana, só teve uma preocupação, que foi
ais, sem ter de percorrer o longo caminho dos órgãos digesti- a de saber se as correntes provinham do Alto ou do baixo, de
vos. O estudo, porém, destes problemas colaterais nos levaria Deus ou de Satanás, se eram, pois, da verdade e do bem ou do
a grande distância. erro e do mal. Essa é a questão fundamental. E, se, num primei-
Omiti, para sobre ela falar agora, particularmente, pois que ro momento, no processo de condenação de 1431, o sereno jul-
se eleva como cimo solitário entre a multidão dos inspirados, gamento é ofuscado por ódios de facção, por interesses, por in-
quer pela potência da percepção, quer pela vastidão da missão vejas, por erros do clero local, que se impõe, enquanto o papa-
e tragédia do martírio, a grande inspirada, a heroína da França, do (Eugênio IV) está longe e não informado, a Igreja, em se-
Joana D’Arc (1412-1431). Seu caso, que é inspirativo por ex- guida, talvez na própria impossibilidade de salvar Joana, se dis-
celência, se distingue sobre o mesmo fundo místico pelo cará- pôs à mais completa e explícita reparação no processo de reabi-
ter heroico que lhe confere a particular missão imposta pelos litação, empreendido quase imediatamente, em 1456. Esse pro-
tempos. Essa distinção nos é necessária para traçar, com cesso de revisão, iniciado quatro anos antes por vontade do
exemplos, as notas fundamentais do fenômeno, as mesmas que Pontífice Calixto III, do Rei Carlos VII e da mãe de Joana, é
nos darão a expressão de sua lei. encerrado com uma sentença de reabilitação, em que a inspira-
Observemos como, neste caso, as forças superiores organiza- da já aparece em sua linha de santidade, que a coloca nos ele-
ram a missão e dispuseram os elementos decisivos na estratégia vados níveis da inspiração cristã. Finalmente, a própria Igreja,
do destino de Joana. São estes, queiramos ou não, os elementos após a beatificação (1909), proclamou a canonização em 1920,
que individuam o fenômeno e lhe acompanham o desenvolvi- e Pio XI, em 1922, a declarou santa.
mento. É a uma consciência das causas, que são essas correntes
que iluminam, guiam e querem, que devemos juntar a lógica e 25
Assim mesmo, na ortografia da época (Jhesus) (N. do T.).
inegável concatenação dos efeitos. É a essa história interior que 26
“Estivera presente (como ela, Joana) nas horas de sofrimento, as-
eu vejo, a esse drama que se agita nas profundezas da trama his- sim, com mais forte razão, deveria estar presente no instante da glo-
tórica externa, que todos conhecem, que dou a maior importân- rificação” (N. do T.).
Pietro Ubaldi AS NOÚRES 29
No fenômeno inspirativo de Joana D’Arc refulge logo, e Demonstrado este ponto da elevação inspirativa de Joana
sempre mais intensa, esta característica, que considerei funda- D’Arc, da progressão de sua ascensão moral, fenômeno parale-
mental para a pureza da revelação: a altitude espiritual da fon- lo a uma intensificação de sua dor, depois de haver recordado,
te. Não nos admiremos da diferente compreensão daquele tem- também no presente caso, a relação já descrita anteriormente
po. Uma ideia não poderá ser compreendida no seu século se entre sofrimento e progresso espiritual, observemos agora como
este é surdo às ressonâncias que ela excita. Quando as almas se comportam as suas vozes, como agem quais forças conscien-
são surdas a esse gênero de vibrações, então a maioria nega, o tes. Qual seja a técnica científica de sua descida é outro pro-
fenômeno se refreia numa aparência de falsidade, desapare- blema, de que cuidaremos posteriormente.
cendo no silêncio, para levantar de novo sua voz mais tarde, No caso que estamos examinando, as correntes noúricas re-
quando as almas souberem responder. Nem todos os tempos velam uma consciência do momento histórico; sua intervenção
são capazes de compreender. Assim, Joana dormiu quatrocen- supranormal é justificada por uma necessidade excepcional e
tos anos e depois despertou; foi esquecida pela frivolidade do impelente; sua ação direta, que guia uma camponesinha, uma
século XVIII, negada pelo materialismo, mas despertou na re- criança quase analfabeta, é proporcionada aos eventos, oportu-
ligião e desperta na ciência, que já não pode negar. Quando os na, vitoriosa. A causa, portanto, é extremamente inteligente, de
tempos são surdos à compreensão, o fenômeno sabe esperar a uma potência volitiva e compreensiva superior aos homens, in-
época de sua ressonância, em que, finalmente, a vagarosa alma clusive o escol da época, que formam o fundo cinzento e baixo
coletiva haja sabido atingir sua altitude, condição necessária de vileza sobre o qual se move o destino radioso de Joana.
para o contato da compreensão. O momento histórico não poderia ser mais trágico para a
Esse lado moral, de que a ciência prescinde, é para mim França. Existem uma proporção e uma tempestividade entre ele
fundamental nesses fenômenos, porquanto é ele que define o e a obra de Joana, embora o quadro histórico completo de seu
timbre das vozes e estabelece o seu valor. A elevação moral da tempo ela não o pudesse ver, não só porque ignorante, mas
fonte encontra-se espelhada toda no sujeito, no gênero de vida também porque continha ele germens de longínquos desenvol-
que lhe é imposto pela inspiração; projeta-se, desse modo, tam- vimentos, para cuja compreensão seria necessário distanciar-se
bém em nosso mundo, em atos que são garantia de pureza noú- do momento contemporâneo e obter aquela visão de conjunto
rica, o sinal que nos garante estarmos longe daquelas horríveis que somente à distância de séculos se pode possuir. De fato, a
comunicações barônticas, de que tenho horror como de um in- missão histórica de Joana não foi compreendida senão muito
cubo. E a grandeza moral de Joana é triunfante em todos os mais tarde; os contemporâneos, atentos às coisas próximas, em
momentos. Sozinha contra todos, ela impõe à França sua salva- geral veem pouco ou nada desses destinos de vanguarda.
ção. É humilde e obediente às suas vozes. Jamais coisa alguma Naquela época, a civilização europeia, que é civilização
solicita para si, mas dá-se em abnegação completa à sua missão cristã, ameaçava ruína. Da Itália, da Alemanha, da Espanha na-
e, para não renegar sua verdade, afronta o martírio. As mesmas da se podia esperar. A Europa está confundida pelo cisma, por
forças do Alto a mantêm nesse caminho de pureza, mas, apenas contínuas guerras, e os infiéis ameaçam do Oriente. A França,
realizado o esforço da vitória e dominada a ameaça de um re- esgotada pela Guerra dos Cem Anos, entre heresias e pilhagens,
pouso entre glórias humanas, elas se ausentam de Joana, fazen- está material e espiritualmente prostrada. Importava restituir a
do-a cair numa prisão. A ascensão moral lampeja mais inten- paz à Europa, fazer cessar a invasão inglesa, que, submergindo
samente na última fase da missão de Joana, que, logo após a a França, ameaçava seu destino e sua missão de desenvolvi-
apoteose do triunfo heroico na Terra, é subitamente lançada à mento da civilização europeia. Essas coisas os contemporâneos
conquista da vitória espiritual no Céu. É lei das elevadas cor- não poderiam enxergar. As almas, prostradas por longuíssimas
rentes o dar sempre ao espírito, tudo negando ao corpo. No ní- e extenuantes lutas, encontravam-se abatidas, e a anarquia
vel humano, Joana, combatendo os ingleses, que eram a injusti- triunfava. Faltava a centelha que reacendesse a esperança e a
ça e a opressão, combatia pela legalidade, que era, então, a base coragem. Joana responde à necessidade impelente de arrastar
do poder e a forma que naquele tempo assumia a justiça e, por para o Alto a alma coletiva. A história não é feita pelo homem,
isso, faz consagrar Carlos VII em Reims. Só um rei assim coro- mas pelas forças imponderáveis que a guiam. E elas intervêm
ado poderia, conforme o conceito da época, governar legitima- de maneira evidente quando existe um grande motivo e, no caso
mente diante de Deus e dos homens. Joana usa e suporta a guer- que examinamos, urgia salvar uma civilização que, criada pelo
ra como um recurso indispensável e um mal inevitável em face Alto, pelo Alto foi sempre guiada e protegida.
da justiça de seus objetivos. Guerra pela salvação da pátria, pe- Olhemos mais de perto o momento histórico.
la glória de Cristo, pelo triunfo de um princípio de bem coleti- Desposada com Carlos VI, Isabel de Baviera, ávida, viciosa
vo. Joana não é uma partidária da guerra até ao extermínio; e traidora, tanto quanto louco era o rei, lhe impõe o tratado de
embora hábil estrategista, inovadora, rápida, inteligente coman- Troyes, que, em 1420, abre as portas da França aos ingleses. O
dante, não amava a guerra, mas a paz. Guerra justa e ofereci- rei é abandonado, e Carlos VII, seu filho, vem a ser o Delfim da
mentos de paz – é o seu sistema. Em suma, embora no inferno França em 1416. Basta olhar-lhe o retrato. Por amor à vida
guerreiro a que teve de descer para o bem de sua pátria, sua po- tranquila, faz-se rebocar, como um peso morto, pesadamente
sição moral encerra sempre o máximo de altitude que as condi- por Joana, pondo a perder o fruto das conquistas da heroína.
ções do trabalho imposto permitiam. Elevação que foi de todos Em 1415, Henrique V da Inglaterra pretende o trono da
os instantes, jamais desmentida, coerente e imutável, elevação França e se prepara para conquistá-lo, a fim de fazer dele um só
que avança até à paixão e ao martírio. Há também uma progres- reino com a Inglaterra. A alma da França está dividida por riva-
são ascensional no caminho espiritual de Joana, assinalada pela lidades e discórdias de partidos. Os ingleses avançam. Em
intensificação de sua dor. Sofrimento e desapego, também neste 1420, Carlos VI firma o tratado de Troyes, pelo qual a coroa da
caso, paralelizam com o avanço da perfeição espiritual. Sempre França passa ao Rei da Inglaterra. Em 1422 Carlos VI morre e
o mesmo processo de purificação, que é sublimação de espírito. Carlos VII torna-se rei, mas não ainda legitimado pela coroação
É sempre a dor que põe em relevo a intervenção do Alto, pro- de Reims, que será obra de Joana. Os pequenos senhores estão
porcionada, em sua intensidade, à altitude da fonte. Superando divididos, inconscientes do momento, ambiciosos, passivos di-
as quedas da fragilidade humana, a dor é a garantia indiscutível ante do perigo. Quem salvará a França, governada por um rei
do valor da inspiração, pois o espírito só se aformoseia se é fla- irresoluto, empobrecido, abandonado? Urgia uma ação guerrei-
gelado. A ascensão é o esforço de sua reação, a dor é a força ra e política, um impulso que mudasse o curso da história. Esse
que o desnuda, o purifica e lhe dá brilho como a um diamante. impulso não poderia provir de nenhum recanto da Terra.
30 AS NOÚRES Pietro Ubaldi
Joana nascera em 1412. Aos 13 anos, em 1425, ouve as cação espiritual da heroína. A dor atinge, pois, somente a se-
primeiras vozes. Por quase quatro anos, de 1425 a 1429, escu- gunda fase do desenvolvimento individual da missão, quando o
ta-as, amadurecendo a própria preparação espiritual. E, ao remate da obra política se deu.
despontar de 1429, a heroína de dezessete anos entra em ação. Aos treze anos, no verão de 1425, Joana ouve as vozes no
São quatro rápidas e progressivas etapas: encontro em Vau- jardim da casa de seu pai. Essas vozes são o “leitmotiv” da vida
couleurs com o capitão Roberto de Baudricourt, encontro em de Joana, sempre presentes, sobretudo nos momentos mais de-
Chinon com o Delfim, libertação da cidade de Orléans dos in- cisivos. Elas se encontram à retaguarda dos fatos, são o centro
gleses, coroação de Carlos VII em Reims. Foi em julho que se motor de toda a sua missão. Dos treze aos dezessete anos, do
deu essa consagração. Três anos e meio de incubação do fe- verão de 1425 ao fim de 1428, isto é, três anos e meio dura o
nômeno, cinco meses e meio para traduzir o pensamento em período de preparação do instrumento, três anos e meio para
realidade. O impulso, que não poderia originar-se da Terra, que a inspiração se apoderasse inteiramente daquela alma. O
desce do Céu. A centelha que faltava à consciência nacional fenômeno é progressivo. Antes que a luta se exteriorize na Ter-
Joana a encontra no espírito, grande força também nos even- ra, através de fatos concretos, deve ela completar-se no espírito,
tos políticos. Políticas e guerreiras eram as necessidades do tem de ser antes solidamente estabilizado o equilíbrio interior
momento, e essa é a forma que assume a inspiração. A fonte das forças motrizes do fenômeno. Eis como Joana descreve sua
das correntes inspirativas não é apenas moralmente elevada, primeira percepção das vozes:
senão também supremamente inteligente. “Losque j’avais 13 ans, j’ai eu une Voix de Dieu pour m'ai-
A obra de Joana, assim, é aqui sentida como força ativa que der à me gouverner; et la première fois, j'eus grand peur. Cette
intervém e atua na história. As noúres, que eram bondade e Voix, vint vers midi, en été, dans le jardin de mon père; je
justiça, pensamento e consciência, eram também vontade e n'avais pas jeuné la veille. J'ai entendu cette Voix sur la droite,
energia de ação. E o caso de Joana não é único. A história, du côté de l'église, et je l'entends rarement sans voir une clarté.
como todos os fenômenos, tem sua meta e se desenrola segun- Cette clarté est du côté oú la Voix se fajt entendre et elle est
do um princípio lógico de desenvolvimento. Vejo nesse desen- habituellement très vive”27 (Proc. 1,52).
volver-se de todos os fenômenos, inclusive no histórico, um O primeiro sentimento é de medo, e, também aqui, a primei-
último termo substancial, que é a força que os movimenta. ra advertência da voz é: “não temas” (“ne crains rien”). Mais
Existe uma lei de equilíbrio entre os impulsos de todos os fe- tarde, quando o costume já houver tranquilizado Joana, a voz se
nômenos, e todos são imateriais, conexos, obedientes a uma fará mais forte e segura, iniciando seus apelos de comando:
única lei central, que é Deus. Nos momentos de depressão nas “Va, va, fille de Dieu, va...”28 e acrescenta: “a missão vem de
forças diretivas dos acontecimentos humanos, o vazio do infe-
Deus” (“de la part de Dieu”)29.
rior na Terra atrai por equilíbrio uma corrente espiritual do
As vozes são diversas. A primeira é de São Miguel, o anjo
Céu, e esta desce por vias inspirativas. Os impulsos do mal
guerreiro, o santo das batalhas, que guia os exércitos. Chegam-
têm de ser equilibrados com os do bem. Esta é a lei que faz
lhe depois, em auxílio, como que para proporcionar-se melhor,
nascerem os heróis, os gênios, os santos, quando urge uma
ameigando-se à feminilidade de Joana, outras duas vozes: S.
missão redentora. No momento decisivo da crise que ameaça
Catarina e S. Margarida. Existem também aí razões de simpa-
os sagrados valores do espírito, que sintetizam uma civiliza-
tia, de atração e de afinidade de missão.
ção, alguma coisa “tem” de nascer. Por isso nasceu Joana.
Esta última santa era representada na capela de Domremy,
Cristo, a grande força que havia fundado a civilização cris-
tã, velava, sempre presente, pela sua conservação. Desperta, terra natal de Joana, por uma estátua que ela venerava. A voz
então, o destino e sacode as almas adormecidas. Carlos VII, guerreira de São Miguel desaparece depois, nos fossos de Me-
embora rei, substancialmente era um nada; Joana, não obstan- lun, ao término da missão guerreira da heroína, quando seu des-
te ser uma pastorinha, substancialmente era a força que ex- tino se eleva pelas vias místicas do martírio. Então, somente fa-
plodia a seu lado. lam as duas santas do sacrifício e da virgindade.
Na história, entra em ação, nos momentos decisivos, a reali- Joana vê também um resplendor na direção da voz. Ouve,
dade do valor, e não a aparência da posição social. E que dife- vê, tem até sensações táteis e olfativas; as correntes assumem as
rença de armas e de métodos! Joana caminha rápida, reta e segu- mais diversificadas formas de vibrações sensórias, mas, acima
ramente, porque maneja as forças do bem, da justiça e da verda- de tudo, ela ouve. O ambiente de sintonização está inundado de
de; o rei e seus cortesãos vão pelas estradas tortuosas da dúvida uma paz idílica, de singela musicalidade campestre, cheia de
e da traição, incertos, vazios, desunidos. O espírito e o bem tudo poesia. Nesse ambiente, as correntes espirituais saturam de suas
governam, e Joana os possuía ambos. Ela era uma chama viva; energias a alma de Joana, o veículo que devia, depois, comuni-
os outros, um archote apagado. Eis o segredo de seu triunfo. car a transfusão espiritual à alma da França.
A inteligência do centro inspirativo, neste caso de Joana, Os bosques deviam ser seu ambiente de sintonização prefe-
não é somente provada pela tempestividade da intervenção, pe- rido, porquanto, durante o processo, imersa em vibrações mais
la ação proporcional aos acontecimentos da época, mas também baixas e opacas, Joana despendeu maior esforço para ouvir e,
pelo desenvolvimento lógico inegável que aquele centro im- numa sessão, chegou a dizer: “Se fosse num bosque, ouviria
prime ao destino de Joana. A inspiração tinha uma finalidade minhas vozes”. Joana, naqueles três anos e meio de sua prepa-
exata e constante, um plano de ação complexo, que muda de ração espiritual, como camponesa que era, vivera no ambiente
natureza ao longo de seu desenvolvimento e tem um período de rural, entre bosques e igrejinhas de aldeias tranquilas, na mais
preparação para a formação gradual do instrumento. harmoniosa atmosfera vibratória. Nesse ambiente, ela assimila-
Observemos de perto como nasce e se desenvolve a inspira-
27
ção de Joana, qual o motor espiritual de toda a sua missão ativa. “Quando eu tinha treze anos, ouvi uma voz de Deus, que buscava di-
Reencontraremos muitos dos conceitos já observados. A forma rigir-me; da primeira vez, senti grande temor. Essa voz manifestou-se
imposta pelas circunstâncias ao desenvolvimento dessa missão, por volta do meio-dia, no verão, no jardim da casa de meu pai. Eu não
havia jejuado na véspera. Percebi essa voz à minha direita, do lado da
que é confiada a uma adolescente, não poderia permitir os lon- igreja, e raramente a ouço sem que perceba também uma claridade.
gos períodos de maturação através da dor, que achamos em ou- Essa luz é vista sempre do meu lado, de onde a voz se faz ouvir, e é
tros casos. A distribuição das fases é invertida, e o fator dor é habitualmente muito brilhante”. (Processo, I, 52) (N. do T.)
todo condensado no final. E isso porque o primeiro escopo, em 28
“Caminha, caminha filha de Deus, caminha...”. (N. do T.)
29
ordem de tempo, é a salvação da França; o segundo é a purifi- “Da parte de Deus”. (N. do T.)
Pietro Ubaldi AS NOÚRES 31
va as correntes, intensificando suas qualidades de ressonância, Se as duas vontades se põem de acordo, permanecem, to-
aperfeiçoando sua afinidade com as mesmas correntes, até fun- davia, distintas, como distintos são os trabalhos a realizar. A
dir-se e tornar-se, ela própria, o impulso que lhe foi transmitido. vontade mais alta e mais sábia permanece na direção e guia; a
A primeira voz se manifesta no jardim da casa paterna, con- outra a segue. No caso de Joana, as vozes não revelam todo o
tinuando-se o contato, prosseguindo a iniciação, não mais com plano, mas, embora demonstrando conhecê-lo completamente,
interrupções, e sim constantemente, várias vezes por semana, só lhe comunicam, nos momentos oportunos, a parte dele que
um pouco em toda parte: pelas colinas do Mosa, aonde Joana interessa à sua execução. O inspirado é, pois, sempre guiado
conduzia a pastar seu rebanho; sob a árvore chamada “das fa- pela mão, como uma criança. A missão é revelada aos poucos,
das”; pelos bosques que cobriam a região; junto das fontes, entre e a comunicação se limita ao mínimo necessário. Parece quase
o canto dos pássaros e o perfume das flores, ao som dos sinos, que as vozes amam esconder no silêncio o que a alma não teria
que Joana muito amava e que verdadeiramente, especialmente força para aceitar, guiando-a, docemente, com o menor dis-
se grandes, são dotados de uma extraordinária potência de har- pêndio possível de energias.
monização vibratória. Eram estas as doces vibrações que as cor- Observemos como as vozes se comportam na vida de Joa-
rentes espirituais seguiam como vias de descida, como fundo de na. Concluída a tarefa de preparação, Joana é lançada pelas
ressonância, constituindo o harmonioso motivo de matéria sobre vozes em sua missão e parte no momento justo. Ela não sabe
que se apoiava a sinfonia divina. O concerto devia ser perfeito, outra coisa senão isso: “Va, va, filie de Dieu, va...”. As vozes,
sem dissonâncias, até seus ecos longínquos no mundo físico. porém, sabem e precisam, imediatamente, quatro objetivos:
Assim descia a noúre ao espírito de Joana, através da voz Vaucouleurs, Chinon, Orléans e Reims, conexos entre si por
interior das coisas boas e doces que se lhe inclinavam em torno, uma proporção e lógica de desenvolvimento que ascende a
em coroa, oferecendo-se como canais de sintonia. Assim se es- uma única meta. Quando as vozes não têm de ser precisas,
condem na humildade as grandes coisas. não o são. Há um acordo entre a sabedoria do Céu e as exi-
O ambiente das vozes é, pois, quase sempre nos campos e gências dos acontecimentos.
em lugares distantes e solitários, onde Joana gostava de refugi- Elas sabem que Orléans é a chave de toda a posição e que,
ar-se. E a campina de Domremy, onde vivia Joana, é ainda hoje perdida esta, desabaria a missão, que é de salvar a França do
verdadeiramente sugestiva pela sua tranquilidade e silêncio. domínio inglês. Orléans está sitiada desde outubro de 1428. Ao
As vozes, entretanto, falam também na igreja, outro ambi- iniciar-se 1429, Joana já se acha em movimento. Reims é o ob-
ente místico excelente, isto é, na igrejinha de Domremy e no jetivo político que não se pode atingir senão numa segunda fa-
vizinho santuário de Nossa Senhora de Bermont. Na primeira se. Primeiro, a vitória que permita a legitimação; e, depois, a
havia a estátua de S. Margarida, e, diante dela, Joana orava. O legitimação que confirme a vitória.
santuário de Bermont, isolado em silêncios, entre árvores, era o A marcha heroica se desenvolve com uma segurança de guia
ambiente afastado ideal de suas inspirações. A solidão daqueles que os grandes chefes daquela época não possuíam. Tudo é pre-
silêncios era necessária a Joana, a fim de ouvir melhor, e ela a dito. Joana, no caos, segue reta como uma flecha. “Mau grado
buscava para sua preparação. Ocupada em seu profundo traba- os inimigos, o Delfim se tornará Rei, e sou eu quem o conduzirá
lho interior, sua alma tinha necessidade de paz no exterior. à consagração” (Proc. II, 450). Assim afirmou a pequena pasto-
Nesse ambiente, a camponesinha da Lorena teria feito sua pro- ra. Como podia uma tão humilde criatura afirmar isso sem ser
messa solene, aceitando sua missão e comprometendo-se com o louca e, se era louca, como acertar com tamanha precisão?
Céu a segui-la até ao fim. A história não assiste a essa íntima Em março Joana está em Chinon e reconhece o Delfim entre
cena, em que a alma de Joana deve ter falado e talvez também a multidão dos cortesãos... “par le conseil de ma voix, qui me le
lutado longamente com suas vozes. Certamente elas estavam révelait” (Proc. I, 56). “Quand j'ai vu le Roi pour la première
presentes como estiveram no Sinai, em Patmos, em S. Damião. fois il y avait là plus de 300 chevaliers et de 50 torches sans
Existe na capela de Bermont um Cristo dorido e amargurado, a compter la lumiêre celeste. E j'ai rarement des revelations sans
Cujos pés a jovenzinha deve ter pronunciado o seu sim, um vo- qu'il y ait de lumière” (Proc. 1, 75). “Je l’entends rarement sans
to solene recolhido pelo Cristo moribundo e do qual não mais voir une clarté...”30, já havia dito Joana a respeito de sua pri-
poderia afastar-se. Aquele voto era também de dor e de paixão. meira aparição. Ao falar com o Delfim, ela lê no íntimo de seu
A lei de Deus desce e se humilha perante o consentimento espírito, atingindo suas secretas dúvidas, isto é, se ele era filho
da alma, porque, respeitando a liberdade desta, respeita a si legítimo de Carlos VI e Isabel. E Joana lhe diz que, justamente
própria. Somente agora Joana, desenvolvida antes de tudo inte- por sê-lo, ela o fará consagrar em Reims.
riormente, poderia lançar-se pelos caminhos do mundo. O doce Outro sinal se acrescenta: o miraculoso encontro da espada
período das efusões espirituais está terminado. Iniciar-se-á ago- enterrada de S. Catarina, coisa que Joana não podia saber e que
ra a grande batalha da conquista e do martírio. lhe foi indicada pelas vozes31. Em Orléans, a inspiração sustenta
Disse “lutando com suas vozes”. Sim, porque Joana não a estratégia e a técnica militar com uma capacidade que Joana
aceita passivamente, mas discute e frequentemente resiste às su- não podia possuir e que superava a dos chefes de seu tempo. Em
as vozes. Ela lhes opõe os raciocínios do seu bom senso, que poucos dias, uma camponesa de 17 anos consegue o que não o
calcula as dificuldades tanto quanto as próprias forças. As vozes puderam fazer, em vários meses, os homens aguerridos da épo-
eram sempre distintas do seu eu, com o qual às vezes colidem, ca. Orléans é libertada. As vozes tiveram uma confirmação exa-
sem se confundirem jamais. Dá-se um encontro entre sua vonta-
de humana e a vontade superior, uma como progressiva tomada 30
“Pelo aviso da minha voz, que mo revelou (Processo, I, 50). Quan-
desta sobre aquela, mas não existe qualquer violência que anule do eu vi o Rei pela primeira vez, lá estavam mais de trezentos cava-
vontade e liberdade. Se Joana obedece, é porque anteriormente leiros, sob a luz de cinquenta archotes, sem contar a luz celeste. Ra-
discutiu, compreendeu, convenceu-se. Forma-se um pacto entre ramente recebo revelações sem que haja manifestação de alguma luz”
dois seres livres, conscientes e consencientes. As forças do Céu (Processo, I, 75). Também raramente ouço sem que perceba também
e da Terra são distintas, encontram-se e lentamente se fundem uma claridade... ”. (N. do A.)
31
É uma referência a um fato realmente notável. As vozes disseram a
numa força única. Para isso, foi necessário um longo período de Joana que ela deveria usar, na luta contra os ingleses, a mesma espada
incubação, muito mais longo que o da conquista guerreira e do de Carlos Martel, que em 732 (sete séculos antes!) expulsara os mu-
martírio; um período de preparação invisível, antes que o fenô- çulmanos invasores da França na batalha de Poitiers, entre Poitlers e
meno pudesse explodir em sua maturidade; um processo de pro- Tours. E as mesmas vozes lhe indicaram onde a encontraria, enterrada
gressivo desenvolvimento antes de ele atingir sua plenitude. e esquecida, sob o altar de uma igrejinha campestre. (N. do T.)
32 AS NOÚRES Pietro Ubaldi
ta. Joana, porém, sabia que era preciso tudo realizar rapidamente Somente quando a alma adquiriu a força de olhar face a face
e tem pressa de concluir sua missão guerreira. Importava consa- o martírio, é que as vozes falam mais claramente Quando Joana
grar no rei a vitória conseguida, completá-la num plano de direi- foi capaz de compreender o verdadeiro sentido da sua liberta-
to. E avança contra Reims. Na tarde de 16 de julho, Carlos VII ção, só então as vozes lhe disseram: “Encara tudo isso com
entra na cidade, como as vozes haviam predito. Imediatamente, bom ânimo. Não te preocupes com teu martírio. Entrarás, fi-
no dia seguinte, um domingo, é realizada a coroação. nalmente, no reino do Paraíso”. E isso porque o significado
“Gentil Rei” – diz-lhe Joana – “acaba de realizar-se a von- profundo do fenômeno que estamos estudando se acha na evo-
tade de Deus, que queria se levantasse o sítio de Orléans e vos lução do espírito, no trabalho de sua potencialização que lhe
conduzisse a esta sagrada cidade de Reims para receber a San- permita, como vimos nas “Florinhas” de Frei Francisco, levan-
ta Consagração, mostrando, desse modo, que sois o verdadeiro tar voo para superiores planos de vida.
rei a quem o reino da França deve pertencer” (Proc. IV, 186). Vejamos, porém, mais de perto os acontecimentos. Depois
A França estava salva. As vozes, que haviam atingido seu de Reims, a estratégia de Joana é deixada aos seus recursos hu-
primeiro objetivo, já não têm, por algum tempo, a precisão e a manos. Ela havia trabalhado no baixo mundo humano, e é lei
potência de Domremy. De fato, com que proveito, se seu obje- que esse mundo devesse reagir; ela havia triunfado demais e não
tivo é outro? A pucela havia despertado a alma nacional. O des- poderia deixar de excitar ciúme e inveja de muita gente. A gran-
forço francês por ela preparado avançará e libertará sua pátria. deza a isolava. Os níveis de consciência humana comuns são
Todas as suas profecias se cumprirão. O ânimo de Carlos VII baixos, e os homens não sabem aliar-se senão por interesse, ra-
ressurgirá, e, quatro lustros mais tarde, a França será livre. Era ramente por um ideal. É natural que o conhecimento limitado de
suficiente aquela centelha. As forças haviam limitado sua inter- Joana, não mais sustentado pelas forças superiores, tivesse logo
venção ao mínimo indispensável. de despedaçar-se de encontro às astúcias de gente dada a todas
Depois de Reims, é outro o objetivo das vozes, e para essa as insídias, e ela cai vítima da traição. Os homens eram cegos;
nova meta se dirigem e com ele se harmonizam. As vozes per- só enxergavam o interesse mesquinho, por ser próximo e indivi-
manecem em seu método de dizer, guiar, encorajar e promover dual. Somente as potências do Alto haviam demonstrado uma
acontecimentos, parceladamente. Aí começa um novo destino de superior consciência do momento histórico, dominando no espa-
Joana, mas elas não lho revelam; só falarão claramente na Pás- ço e no tempo. Os homens inferiores são, porém, os mais tena-
coa de 1430, em Melun. O seu destino sobe, lenta e inadverti- zes e armados de vontade, de astúcia, de mentiras. O plano lógi-
damente, dos triunfos humanos aos triunfos divinos; já não se co de Joana era de avançar logo sobre Paris e aí concluir a paz,
trata da salvação da França, mas da sublimação da alma de Joa- como vencedora. Carlos VII, por quem ela lutava, pessoalmente
na através da dor. E sua paixão começa. É uma vitória maior, lhe frustra os planos, preferindo um armistício com Paris e uma
que deve consolidar a primeira e fazer de Joana uma santa. Pro- paz acomodatícia. Todo o impulso moral dado à França por Joa-
gressão ascensional do fenômeno, que o conduz a um limite na é quebrado: ela é traída pelo seu próprio rei. No momento da
imensamente mais elevado, em que o sofrimento, como já vi- ação decisiva, que deveria recolher todos os esforços anteriores,
mos, é o fator fundamental. Para Joana era necessário consolidar o rei vadia e espera. Em setembro, Joana ataca Paris. Aí se dá a
e consagrar sua ideia no martírio, que continha algo de maior primeira traição. Vários comandantes, não desejando a vitória da
que a salvação da França e que, no testemunho da morte, devia empresa, retiram-se da luta. No dia seguinte anuncia-se que é
estender-se ao mundo inteiro. Para que Joana, entretanto, pudes- expressa vontade do rei que se abandone a ofensiva.
se realizar sua ascensão, era indispensável, para ela, a falência E a traição continua. A primeira derrota ofusca a auréola da
de seu triunfo humano; importava que sua grandeza terrena nau- heroína. O povo quer o triunfo, a esmagadora persuasão do fato
fragasse na traição e no abandono por parte dos ingratos, em fa- concreto, que tudo justifica, o delito ou o milagre. Em face da
vor de quem ela havia lutado. Não devia ser ela quem colhesse, derrota, a santa é transformada em feiticeira. Joana permanece
para si, glórias terrestres. Sua glória devia ser seu puríssimo sa- cada vez mais sozinha, contra todos. O rei não quer senão man-
crifício pela França. Recompensas e gozos humanos teriam dis- driar; não cuida de Joana; sonha a paz. Naqueles tempos, nin-
sipado completamente essa sutil fragrância do espírito. guém desconfiava das demolidoras hipóteses do materialismo.
Uma vez mais, vemos, no fundo de todas as missões, Cris- Hoje, Joana estaria entre os loucos. Mas, naquela época, só po-
to a resplandecer, Cristo que atrai a si, na renúncia e no martí- deria ser ou feiticeira ou santa. Para os franceses, enquanto lhe
rio, as almas eleitas. Há, pois, um desenvolvimento lógico no foi útil com suas vitórias, era naturalmente uma santa. Para os
intimo progredir do fenômeno; o primeiro cuidado das forças ingleses, por ser inimiga de seus interesses, era uma bruxa, tese
superiores foi, assim, despojar a pucela de todos os triunfos que lhes foi querida e que farão triunfar. As nações, como os
humanos, que naturalmente estavam para envolvê-la, amea- homens, acreditam que Deus esteja sempre de seu lado, que
çando seu triunfo maior. Importava avançar ainda mais. As imaginam ser sempre o lado do direito e da justiça. O pior foi
vozes, porém, guiam com delicadeza, sem esmagar o espírito que, por inveja, os franceses, desde a primeira derrota, começa-
com uma perspectiva imediata, demasiadamente vasta, que o ram a considerá-la feiticeira, apertando em torno dela um círcu-
desoriente, que excite revolta ou temor. Elas o encaminham lo total e fatal, que finalmente a estrangulará. Entretanto, se os
para a inevitável estrada, conservando-se sempre presentes, séculos se recordam daquele tempo e de todas aquelas persona-
embora, às vezes, pareçam ausentes, mas apenas usam a inte- gens insignificantes, é somente em virtude da heroína persegui-
ligente estratégia do silêncio. da que eles quiseram esmagar. Somente a dor, nunca a astúcia
Na vida eterna de Joana, era chegada a hora da grande vitó- ou a força, cria as coisas eternas.
ria, e importava afrontá-la com uma grande prova, porque é es- A hora, porém, da maior traição se precipita. O destino to-
ta a lei das almas maduras. Até o fim, as vozes usam a piedade mou resolutamente um novo caminho, e as vozes voltam a falar.
do mistério, fazem-na entrever a libertação, entendida, porém, Até então se haviam calado. Em face da derrota de Paris, silên-
num sentido espiritual, não lhe revelando que horrível morte a cio. “Quando caminhava para Paris, não tive revelações de mi-
esperava, justamente a que ela mais temia. Falam-lhe, mas sua- nhas vozes” (Proc. 1, 146); diz Joana: “não foi nem a favor nem
vizam os caminhos da dor. O Alto, diferentemente dos planos contra a ordem de minhas vozes” (Proc. 1, 169). As vozes dei-
inferiores, conhece essa piedade e, se não pode evitar o sofri- xaram, pois, que seu destino de mártir se cumprisse, permitindo
mento, é porque este é parte essencial e integrante da ascensão que a traição, que o condicionava, prosseguisse, assim como
que o mesmo Alto deseja, por ser o caminho da felicidade. também Cristo deixou que Judas o traísse por ocasião da Ceia.
Quantas coisas sutis e profundas nos ensina esse ponderado Existe, desse modo, um senso de fatalidade no destino, que, uma
avançar das vozes pelos caminhos do Senhor! vez fixado em suas causas, não mais se pode interromper.
Pietro Ubaldi AS NOÚRES 33
As vozes encontram de novo a potência de Domremy, numa salva. Eles acreditavam que aquela ilusão da forma pudesse
nova curva decisiva. “Na semana da Páscoa, quando me en- bastar para sustentar um fato que era mentira e hipocrisia. As
contrava nos fossos de Melun, foi-me anunciado pelas vozes, forças reais da vida, porém, depois se levantam e impõem a re-
isto é, por Santa Catarina e Santa Margarida, que eu cairia abilitação. Quando se compreenderão essas leis?
prisioneira antes da festa de São João e que assim deveria su- No caso presente, estamos vendo, no entanto, a que extremo
ceder; que eu não me surpreendesse, mas recebesse tudo de de injustiça pode chegar a justiça humana.
bom ânimo, porque Deus me ajudaria” (Proc. 1, 115-116). Es- As vozes, porém, falavam com Joana, e ela respondia a to-
távamos em abril de 1430. São um fato verificado esses perío- dos, simples e sublime. Esta é a grande força sem armas, a for-
dos de silêncio; parece que a voz se ausenta e se extingue; to- ça do justo e do verdadeiro. Quando são iniciados certos cami-
davia, no momento oportuno, ela ressurge vibrante; compreen- nhos, não mais se pode retroceder. Dois dramas se desenrolam
de-se, então, que ela esteve sempre presente, guiando tudo sem nesta última fase: o drama exterior, que é o do processo em que
que se revelasse. Silêncios necessários, que fazem parte do pla- a autoridade cega, cheia de ideias preconcebidas, de má-fé, se
no diretivo, da estratégia dos repousos e dos retornos, em que precipita de erro em erro, até bater a cabeça na fogueira, diante
amadurecem os impulsos mais elevados. Joana, pois, deveria da qual um dos juízes ingleses gritará: “Nós nos enganamos!
cair prisioneira: esta era a vontade de Deus. É requerida uma Queimamos uma santa!”. O bispo Cauchon, juiz no processo, a
nova aceitação, mas, ao mesmo tempo, se encoraja e se promete quem Joana havia admoestado mais de uma vez, chorará. Ao
um divino auxilio, que, depois de Orléans, vai operar o segundo lado de tudo isso se desenrola o drama interior de Joana, que
milagre da inabalável firmeza de Joana até à fogueira. resplandece sobre o fundo cinzento de tantas baixezas. Neste
De fato, Joana foi feita prisioneira em Compiègne, por uma drama se agiganta a grandeza do Céu, e Joana, destruída, fulgu-
nova traição. Entra na cidade sitiada, sem de nada suspeitar, ra replena da potência do infinito. Está sozinha, mas suas vozes
mas, ao fazer uma incursão pelas suas proximidades (o inimigo estão com ela. Isso lhe basta. A unificação se completou em
talvez estivesse mancomunado com os próprios chefes da cida- Vermont e não mais poderá romper-se, nem sequer na hora do
de), os ingleses lhe cortam a retirada. Nesse ínterim, Compièg- Getsêmani e do Gólgota. São liames que não se desatam no
ne levanta as pontes e fecha as portas. Joana teve que se render tempo e permanecem além da morte.
e foi aprisionada, em virtude da traição dos próprios franceses. As vozes são piedosas; amparam, não amedrontam. Prome-
Diz-se que a traição foi regiamente compensada. teram a libertação e não mentiram, porquanto se referiam à li-
Prisioneira! Assim, de mãos a mãos, ela passa aos ingleses, bertação maior. Não tiravam de Joana a esperança de uma liber-
vendida para eles, que pagam alto preço pela rica presa. Os tação humana, para não a afligirem antes do tempo, para lhe ofe-
acontecimentos se aceleram. Joana arrasta sua paixão, de cárcere recer uma oportunidade de compreender seu novo esforço e
em cárcere, até que se inicia seu processo. Nas mãos dos ingle- amadurecer, gradativamente, para a grande ideia do martírio.
ses, Joana deveria ser considerada uma feiticeira: esta a conclu- Busca a fuga, espera a salvação material, e essa interpretação lhe
são preposta a todo processo, porque deveria este servir ao inte-
é deixada como uma doce piedade que mitigue sua paixão. Mui-
resse de anular a consagração de Reims, reduzida, desse modo, a
tas vezes, é benéfica a ignorância das disposições do destino;
um sacrilégio, destruindo com isso a autoridade conferida a Car-
certas ilusões da alma são frequentemente necessárias para que
los VII por esse novo juízo de Deus. Na incerteza das vicissitu-
ela afronte situações que a amedrontariam. As vozes a encora-
des humanas, o povo havia percebido essa milagrosa interven-
jam a resistir até à libertação. Só mais tarde haveria de compre-
ção divina, que era garantia da legitimidade real. Entretanto os
ender. “Ne crains rien”, elas haviam dito desde o princípio.
trezentos homens do processo, tão aguerridos em sabedoria, não
Era necessária a prova suprema, para dar ao mundo o tes-
compreendiam esta verdade elementar: que todas as suas astú-
temunho da origem divina das vozes. O destino de Joana não
cias e violências, se podiam aniquilar Joana, o rei e a França,
tinha de atingir somente o alvo de salvar a França, de santificar
não tinham poder de violentar Deus, tampouco aqueles que por
Ele eram protegidos, isto é, ligados ao círculo das forças superi- sua alma, mas também de afirmar ao mundo a verdade do espí-
ores da Divindade. Os juízes, ao buscarem o ponto de contato rito. Joana deu a vida por essa afirmação. Jamais renegou suas
entre Joana e Satanás, assinalaram, ao contrário, o ponto de con- vozes e sempre repetiu seu moto: “De la part de Dieu” (venho
tato entre a santa e Deus. Contra ela foram utilizadas as palavras da parte de Deus). E repete no final: “Se eu dissesse que Deus
de São Paulo. Sua perseverança foi considerada pecado de orgu- não me enviou, eu me condenaria. Verdadeiramente, Deus me
lho. Melhor não se poderia mentir. Não obstante tanta dialética, mandou”. Somente na jornada do cemitério de Saint Ouen, tem
tanta pompa de encenação judiciária, tanta fúria de força e astú- um momento de fraqueza humana. Seu cansaço cedeu em face
cia, não puderam cancelar uma sílaba da simples e sublime ver- de tantas pressões e astúcias; talvez tivesse sido enganada com
dade de Joana. Para destruir o que representava a salvação da substituições de textos ou talvez se houvesse enganado, pen-
França, os juízes procuraram aniquilar a heroína e a santa, pon- sando que aquela fosse a esperada libertação. Vacilou um mo-
do em seu lugar a figura de uma feiticeira. Importava inverter a mento, vencida pela vontade tenaz de seus juízes, que, no en-
situação e substituir Deus por Satanás. Pobres míopes, que não tanto, não passava de uma força que desejava sua retratação,
viam que essa inversão de valores era justamente o pedestal da para condená-la de qualquer modo. São bem humanos esses
grandeza da santa, porque era a condição de seu martírio! Eles desânimos que obscurecem o senso de responsabilidade. Joana,
eram a força ignara que o Alto utilizava para a vitória de Joana! porém, apenas readquire alguma força, temeu em face de suas
Na Idade Média era fácil a acusação de feitiçaria. A atmos- vozes, por havê-las desmentido, embora por um momento, e
fera parecia estar saturada da ideia do demônio e, verdadeira- imediatamente recobrou ânimo. E seu último grito, o maior
mente, com todas aquelas mortes violentas e cruéis, com tantos lançado ao mundo, entre as chamas da fogueira de Ruão, foi:
ódios e vinganças, ela devia estar espiritualmente irrespirável, “Minhas vozes vinham de Deus”.
profundamente impregnada de emanações barônticas. Testemunho solene, feito em face da morte, quando não se
Joana está sozinha, oprimida, privada até do conforto da re- pode mentir; relâmpago de verdade eterna, descida como sem-
ligião; sozinha diante dos insultos dos carcereiros e dos ataques pre de uma cruz, verdade provada com o martírio.
à sua pureza; sozinha diante de uma terrível assembleia de juí- Que diz a ciência dessa espécie de provas? Na apoteose do
zes inteligentes e de má-fé, que tentavam, por todos os meios, sacrifício, Joana reafirma, dando por isso a própria vida, as su-
arrancar-lhe a renegação de suas vozes, para obter, assim, o premas verdades do espírito, testemunhando que elas existem e
meio legal de condená-la, a fim de que a forma da justiça fosse se atingem através da dor.
34 AS NOÚRES Pietro Ubaldi
No momento supremo, a Pucela de Orléans encontra o pon- volutivo ao mundo mais concreto das oscilações da matéria,
to de contato que a une a Cristo; novamente penetra e se fixa, vestindo a irradiação primitiva de um invólucro físico que lhe
como força palpitante de vida, no plano divino da Sua reden- permita estimular a reação sensível da psique imersa nos cen-
ção. E Cristo é seu derradeiro grito, que é de vitória. tros cerebrais. Recordemos, pois, que este estudo do fenômeno,
Jamais na história, como neste caso, as forças do espírito no seu menor aspecto técnico, o abrange apenas no plano hu-
desceram tão perto da Terra e, numa luta corpo a corpo, tão re- mano de chegada, e não no sobre-humano de partida. Neste es-
solutamente se impuseram aos acontecimentos humanos; ja- tudo, a fim de atingir a solução desses inexplorados problemas,
mais o contraste foi tão vivo, a intervenção tão evidente, nem para a qual não encontro no conhecimento humano elementos
os acontecimentos foram tão intensamente violentados pelos guiadores, servir-me-ei, quando não me bastarem cultura e ra-
impulsos do imponderável. Os dois mundos se defrontaram e zão, do método intuitivo e da pesquisa por captação de corren-
olharam face a face, desafiando-se. E o espírito venceu. tes noúricas. Neste momento, sinto que apenas possuo uma
ideia vaga e inicial do assunto, mas sei que, ao escrever, irei
V. TÉCNICA DAS NOÚRES tendo resposta a cada interrogação.
Ao estudar o fenômeno em seus casos grandes e pequenos, já
Quando, do estudo do meu pequeno caso, nos elevamos à delineei uma sua interpretação sumária. Nas características, que
interpretação dos gigantescos casos da inspiração, devíamos ter vimos retornarem com constância, revelando um significado,
percebido que a ciência, com suas concepções, é muitíssimo traçamos uma linha fundamental de sua figura. Entre essas ca-
pequena para contê-los, pois eles envolvem algo de sobre- racterísticas, vimos estar em primeiro lugar a progressividade,
humano, indispensável para sua compreensão, e fatores trans- pela qual defini o fenômeno inspirativo como um caso normal
cendentais que a ciência ignora. Existem no fenômeno elemen- de sensibilização por evolução biológica, continuada nos superi-
tos substanciais e determinantes, que encontramos em todos os ores estados de evolução psíquica e ascensão espiritual. O caso,
casos e que representam, portanto, suas características funda- como evolução, é normal, mas, como posição, em face da relati-
mentais; elementos não menos reais por serem imponderáveis, va mediania, é supranormal. Trata-se de um processo evolutivo
embora a ciência moderna, por suas premissas e orientações, se de desmaterialização do ser em planos superbiológicos, de um
houvesse tornado incompetente para apreciá-lo. processo de purificação psíquica e orgânica, cujos fatores são
Para trazer o fenômeno aos termos da psicologia científica dor, renúncia, regime de purificação passional e dietética. A esse
moderna, impõe-se uma redução, quase uma mutilação, do respeito já falei nos capítulos: “O Fenômeno” e “O Sujeito”.
próprio fenômeno, em seu aspecto técnico e mecânico, qual é o Encontramos esses elementos na história dos grandes inspi-
da psicologia. É este lado particular, técnico e científico, do rados. Suprimindo-se esses fatores determinantes, naturalmente
problema que vamos aprofundar neste capítulo. Buscaremos, o fenômeno se detêm ou retrocede. Estes conceitos, embora
simultaneamente, elevar a ciência, infantil neste campo, até à conduzam a um campo supercientifico, possuem bases científi-
compreensão destes fenômenos e das forças imponderáveis cas, pois representam a continuação da evolução biológica dar-
que os governam. winiana, evolução orgânica que, se deve continuar, como a ló-
Temo-nos movido, até agora, num campo supercientifico, gica impõe, já não pode ser senão psíquica e espiritual.
num mundo de sonhos, de emoções e de esperanças, o mundo Se a ciência materialista quiser continuar seu progresso, é
do espírito. Para quem o sente, tudo isso já é por si mesmo su- necessário que ela compreenda justamente este problema da
premamente persuasivo. Agora vou mudar a engrenagem do desmaterialização do organismo humano, obtida lentamente por
meu pensamento e falar a quem não sente, a quem, para con- progressiva atrofia de funções orgânicas e hipertrofia de fun-
vencer-se, tem necessidade de tocar, medir, experimentar. Im- ções psíquicas. Refiro-me a posições relativas ao momento evo-
porta, porém, considerar aqueles fatores espirituais – embora lutivo atual. Também isso é lógico, e sobre o assunto já falei.
exista quem os negue, por não possuí-los na própria consciên- Esses princípios gerais, como sempre sucede na natureza, pas-
cia – porquanto constituem fatores integrantes do fenômeno, sam por adaptações no caso particular, que é sempre o de um
fundamentais na definição de seu desenvolvimento. De resto, já tipo especializado, e permanecem verdadeiros, embora não apa-
afirmei que eles são produto de estados evolutivos que se eleva- reçam no breve âmbito de uma vida.
ram além da mediania. É óbvio, pois, que, somente através de Falei em progressividade de sensibilização. E que é a evolu-
uma descensão, eles se possam reduzir aos limites da psicologia ção senão um processo de sensibilização contínua? Num pri-
normal da realidade sensória. meiro plano, temos o mineral, que, sentindo a resistência do
Assim, pois, ao falarmos sobre vibrações e ondas, recorde- ambiente, também sabe modelar-se nas formações cristalinas;
mos que apenas tocamos a fase perceptiva humana do fenôme- depois a planta, com uma sensibilidade que abrange a vida ve-
no, a última e mais baixa zona da transmissão noúrica, seu ter- getativa; em seguida, o animal, que vê e ouve, no qual se deli-
mo inferior e seu momento final de chegada, que é o mais com- neia o mundo sensório; logo após, o homem, que, da síntese
preensível, por ser o mais próximo da fase sensória que chega sensória, se eleva a uma interpretação racional da vida; depois,
ao contato humano. A fase mais elevada é uma emanação abs- o super-homem, que, com a capacidade da intuição, supera os
trata, supersensória e superconceptual, que se verifica numa ou- limites da razão e sente diretamente o universo. E poderíamos
tra dimensão de consciência e num outro plano de evolução, fa- continuar com os seres incorpóreos, chamados anjos, através de
se que a ciência e a própria psique humana normal não podem toda a hierarquia de sua elevação.
perceber e conceber por falta de meios, a não ser que haja uma O mineral se orienta, a planta sente, o animal percebe, o
redução dimensional, que é justamente o que a recepção inspi- homem raciocina, o super-homem conhece por intuição: eis a
rativa opera nas correntes noúricas. evolução da sensibilidade.
Quando, na fonte, nos encontramos num nível evolutivo su- Se, com a civilização, diminui a ferocidade, é porque au-
pertemporal e superespacial, é absurdo pretender compreendê- menta a sensibilidade, à qual ela é inversamente proporcional.
lo inteiramente nos termos de uma pura questão técnica. No seu Como se cultivam as plantas, cultivam-se os espíritos e se do-
estado de emissão, a noúre ainda não é pensamento, qual nor- mesticam os animais. E a planta cultivada abandona os espi-
malmente o concebemos. Para falar nos termos da psique nor- nhos; o animal domesticado perde os instintos ferozes; os ho-
mal, eu mesmo tenho de operar uma redução da emanação ori- mens civilizados se enobrecem nos pensamentos e nos atos.
ginária e de minha percepção dela à dimensão pensamento, que Trata-se de um idêntico e universal processo de sensibilização,
é um estado vibratório muito mais denso; operar um regresso in- que absorve a ferocidade. Por isso a sensibilidade dolorífica dos
Pietro Ubaldi AS NOÚRES 35
animais e dos selvagens é muito menor que a do homem civili- a diferenciação individual que os separa, encontram sua unida-
zado. A reação investe sempre mais os estratos profundos. Os de na grande corrente central, que se chama DEUS.
limites do universo são dados unicamente pela capacidade per- Aprofundemos, pois, o aspecto técnico do fenômeno, foca-
ceptiva e se dilatam à medida que essa capacidade aumenta. lizando novamente nossa atenção. Qualquer fonte de emanação
Notamos também outra característica do fenômeno inspira- irradia em torno de si um impulso que se transmite. Chamemos
tivo, comum a certos inspirados, isto é, a crise espiritual em que essa fonte de centro transmissor. Verifica-se por lei geral, em
o fenômeno explode após uma longa e invisível maturação. Es- todos os planos de evolução, inclusive os superpsíquicos e, por-
sa explosão se liga a profundas deslocações nos equilíbrios evo- tanto, superespaciais, este fenômeno de expansão cinética, que
lutivos e a novas estabilizações em planos mais elevados. Vi- é um princípio de unidade e amor que coliga em suas partes e
mos, depois, o problema das melhores condições de ambiente e elementos todo o universo. Faltam-me palavras superespaciais,
a importância deste para a pureza da recepção. Existe sempre, supertemporais e superconceptuais que me permitam exprimir-
para todos os inspirativos, uma necessidade de solidão, que me, por isso evito qualquer referência às dimensões espaço e
funciona como isolante, e também de oração, que eleva o espí- tempo, que, no centro transmissor, não existem mais. Para en-
rito e põe a psique em estado de receptividade, o que significa tender também este aspecto técnico, importa haver compreen-
corrente elétrica negativa, necessária para fechar o circuito com dido o universo, escalonado como é em suas fases evolutivas,
a corrente das noúres, que é positiva e ativa. A prece pode ser que significam planos ou níveis de existência, de sensibilidade,
também um desejo que auxilia a elevação da tensão nervosa de concepção. As fases mais concebíveis e mais próximas de
necessária para atingir os planos superiores de consciência, nosso universo são matéria, energia e espírito; o universo físico
mais sutis, porém mais potentes, que representam, portanto, em evolve para universo dinâmico, que evolve para universo psí-
face das correntes nervosas no estado normal, correntes de alto quico; mais além, evoluciona para planos superpsíquicos, que,
potencial. Tudo que eleva o potencial nervoso facilita a recep- atual e normalmente, constituem para o homem um inconcebí-
ção noúrica, porquanto dinamiza; e, na evolução, a desmateria- vel. É preciso haver compreendido e ter presente a teoria da
lização é proporcionalmente compensada por esta sua inversão evolução das dimensões, como é desenvolvida em A Grande
dinâmica. A percepção noúrica, de fato, dá uma sensação de Síntese, pois a passagem, por evolução, de um plano a outro
alegria e de potência ao espírito, verificando-se em organismos provoca mudança de sua dimensão ou unidade de medida. Vol-
purificados da animalidade e representando, em si mesma, um vendo ao conceito inicial: aquele principio de irradiação lança,
raio de ação e sensibilização muito mais vasto que o normal. nas várias dimensões de evolução, emanações que, ao encontra-
Descrevi minhas progressivas posições até alcançar a sintoni- rem um centro sensível, podem ser registradas. Veremos, de-
zação com a emanação noúrica, no processo de adormecimento pois, se isto constitui uma recepção passiva ou uma captação
da consciência em seu potencial normal e de ativação da consci- ativa. Este segundo centro é o instrumento receptor.
ência em um alto potencial, que momentaneamente neutraliza e Estão assim determinados os dois termos do fenômeno, que
reabsorve o funcionamento da outra. Começam a delinear-se aqui é essencialmente um fenômeno de transmissão e recepção e tem
o significado e o porquê das condições do fenômeno. sua correspondência, no plano inferior do universo dinâmico,
na transmissão acústica e, num nível relativamente mais eleva-
Nesta primeira parte do capítulo, procurei eliminar os as-
do, na transmissão radiofônica por meio das ondas hertzianas,
pectos mais espirituais e menos técnicos da questão, a fim de
forma de energia mais evolvida das ondas acústicas.
sondar o fenômeno até seu aspecto mais simples e esquemático,
Trata-se sempre de oscilações no centro transmissor, comu-
mais facilmente analisável, portanto. Das outras características,
nicadas por vibrações do meio (ar ou éter) ao receptor (ouvido
sumariamente indicadas nos primeiros capítulos, como capta-
ou aparelho radiofônico). As variações ou modulações do im-
ção consciente e ativa das noúres, individualidade ou natureza
pulso originário são repetidas exatamente pelo órgão de chega-
de sua fonte, minha capacidade de oscilação entre consciência e
da, pois os dois centros distantes são aproximados pelo meio,
superconsciência, sintonização por afinidade entre centro que os torna realmente comunicantes e fundidos numa união de
transmissor e meu centro psíquico registrador, etc., falaremos movimento. O símile acústico ou radiofônico não prejudica a
no estudo técnico que se segue, que não poderia ser feito na espiritual imaterialidade do transmissor, porquanto, efetivamen-
primeira parte, preponderantemente descritiva, mas só agora, te, o universo, nos seus vários planos, responde a um princípio
que já expus e fixei os elementos de fato. único, que, embora no Alto seja um inconcebível, se reflete em
São dois momentos estes, que tinham de ser bem distintos: nosso universo físico, se bem que tornado rude pelo seu reves-
primeiro, a descrição e, depois, a interpretação dos fatos; ob- timento mais denso. No Alto, apesar de nos movermos em di-
servação exterior de conjunto, a princípio, e penetração do sig- mensões superespaciais, permanece, mesmo quando destilado
nificado, no final. Compreender-se-á, então, a necessidade de como pura emanação cinética, o princípio que, nos planos infe-
um ambiente bem sintonizado, como o dos bosques e monta- riores, é transmissão espacial por ondas esféricas. A analogia
nhas, de um templo ou do próprio gabinete saturado de emana- implica uma redução de potência e de pureza, mas é exata, con-
ções noúricas; a necessidade de estados de ânimo de paz e do siderando-se que a vibração ondulatória é a forma de chegada
afastamento de interferências de vibrações psíquicas baixas, (pensamento), e não a forma noúre, de partida. Por isso apenas
que perturbam a pureza da registração; compreender-se-á a ne- chamamos emanação, a fim de exprimir o mesmo princípio de
cessidade da purificação orgânica e psíquica, processo evoluti- difusão, recordando, entretanto, que estamos além do plano es-
vo que leva à afinidade com a fonte, possibilitando, portanto, a pacial, dinâmico e do próprio plano psíquico.
sintonização com ela do instrumento de ressonância, que é toda Existe, todavia, uma grande diferença entre o caso inspira-
a personalidade do médium; compreender-se-á o paralelismo tivo e o confrontado. Neste, transmissor e receptor se locali-
que existe entre ascensão espiritual e sensibilização receptiva. zam ambos no mesmo plano de evolução (dinâmico), ao passo
Compreender-se-á como o instrumento, à semelhança do que que, no caso inspirativo, os dois termos comunicantes estão si-
tem acontecido com alguns místicos, possa a princípio interpre- tuados em dois planos diversos de evolução e, portanto, em
tar mal, se ainda não se encontra bem maduro; compreender-se- duas dimensões diferentes. Na recepção radiofônica, o período
á, no meu caso, a transformação progressiva da minha mediu- final é acústico como o inicial; a vibração acústica originária é
nidade, de passiva e inconsciente, a princípio, a uma forma transformada em vibração elétrica para, finalmente, retornar à
sempre mais ativa e consciente em seguida. Compreender-se-á, forma acústica; e tanto melhor será a recepção quanto mais o
finalmente, como todos esses fenômenos noúricos, não obstante fenômeno final se identificar com o inicial. Houve apenas uma
36 AS NOÚRES Pietro Ubaldi
transformação da forma dinâmica menos evolvida e, portanto, samento, na inspiração, falar de vibrações é um absurdo, por-
mais lenta, menos ágil e veloz, porque mais aprisionada na ma- quanto a dimensão da zona psíquico-conceptual foi superada.
téria, o som, na forma elétrica, que, sendo mais evolvida, mais Direi mais exatamente: no fenômeno inspirativo, não encon-
rápida, mais livre da dimensão espacial, domina um campo es- tramos a forma vibratória da onda-pensamento senão na extre-
pacial muito mais amplo. E nisso consiste justamente a utilida- ma fase da recepção, no final da redução involutiva, qual últi-
de e o progresso da descoberta. mo derivado, por continuidade, da emanação original, traduzida
Na recepção ultrafânica, temos muito mais. Não existe ape- em termos do pensamento humano. Por tudo isso, compreende-
nas uma transformação temporária, com o objetivo único de se quanto estes fenômenos superam a psicologia experimental
transmissão, para voltar ao ponto de partida. Em radiofonia há de gabinete e como é necessário, para seu estudo, que a ciência
uma permanência no âmbito da dimensão espaço-tempo do se afine e faça seus esses elementos do transcendental.
mundo dinâmico. Em ultrafania atravessa-se uma mutação mui- As duas estações estão, pois, situadas, uma, na fase evolutiva
to mais substancial e profunda, que não é uma simples trans- do plano dinâmico (no caso de mediunidade à base de percep-
formação de ondas acústicas em elétricas e vice-versa, nem ções sensórias) ou psíquico (no caso de conceitos como na me-
uma simples transmissão espacial. A fonte inspirativa se locali- diunidade intelectual-inspirativa), isso, do lado humano; a outra,
za numa outra dimensão, e a transmissão não se dá num sentido do lado super-humano, está situada na dimensão superconsciên-
espacial, isto é, no campo da mesma dimensão espaço, porém cia, que supera a do psiquismo humano. Não me refiro à mediu-
através de diversas dimensões. nidade barôntica ou física, em que o transmissor pode encontrar-
Como já disse, aqui os conceitos científicos não bastam, e se no mesmo nível humano ou ainda inferior a este. E, se evolu-
é necessário que a ciência faça seus estes conceitos transcen- ção é desmaterialização e espiritualização, a comunicação entre
dentais, indispensáveis à compreensão também do aspecto o transmissor evolvido e o receptor humano relativamente invo-
técnico do fenômeno. luído não se pode realizar senão materializando a emanação, o
O centro genético das emanações noúricas não possui nem que significa redução de potência e revestimento do conceito
os caracteres do mundo dinâmico nem os conceptuais do mun- abstrato, sintético, instantâneo com a forma do pensamento ob-
do psíquico humano, mas está situado numa dimensão super- jetivo, analítico e progressivo na palavra, qual é o humano.
conceptual de caráter abstrato, onde se encontram os princípios Vejamos, agora, como se pode estabelecer a comunicação
universais. A fonte não vibra, não irradia vibrações no sentido entre os dois centros. Sendo o universo sempre todo presente
por nós conhecido, embora sejam elas de pensamento; não em suas várias fases evolutivas e dimensões, as quais os seres
transmite ondas-energia na dimensão espaço-tempo, mas emana atravessam no infinito, é evidente que o limite do perceptível
um quid absolutamente imaterial, um impulso, uma potência somente existe nos meios individuais de percepção, e não nos
que não se pode definir com os atributos das dimensões do nos- fenômenos. Assim, por exemplo, o ouvido humano não abarca
so universo. Dessa sua dimensão mais elevada, a emanação de- senão uma determinada faixa de frequência de vibrações dos
ve descer; essa potência deve precipitar-se sobre a dimensão sons, além da qual não há percepção. É óbvio também que,
conceptual do pensamento humano, e a chamada recepção não assim como, com a criação de novos instrumentos e recursos
pode realizar-se senão em virtude dessa descida. de pesquisa, se alcançou a revelação de um novo mundo, do
O fenômeno muito mais complexo da inspiração, e que a mesmo modo toda extensão de sensibilidade desloca o limite
distingue da radiofonia, é justamente este. Os dois termos do do cognoscível, que é justamente uma função daquela, um re-
circuito estão qualitativamente distantes, e, portanto, a comuni- lativo suscetível de contínua evolução. O perceptível, pois,
cação que determina a repetição do impulso originário no re- não tem fronteiras em si mesmo, mas apenas na relatividade
ceptor não se pode estabelecer senão através de um processo de de nossa posição evolutiva; se esta se eleva, automaticamente
transformação dimensional. Este processo noúrico poder-se-ia também se dilata o perceptível.
comparar ao de um transmissor que pensasse ou compusesse Já expliquei como evolução é progressividade de sensibili-
“diretamente” em ondas hertzianas, que, para serem percebidas zação. A percepção e a concepção do universo são, portanto,
no plano sensório, devem sofrer uma transformação involutiva relativas à sensibilidade individual e mudam, dilatando-se com
até se tornarem energia mecânica (vibração da membrana mi- o progredir desta. Amplia-se a visão do universo à medida que
crofônica) e, finalmente, sonora. a consciência evolve. Do mesmo modo, também, o concebível
Para unir os dois polos do circuito, é necessário realizar esta é progressivo, a visão da verdade é relativa à potência indivi-
inaudita operação, que é a passagem de um plano evolutivo a dual e não pode ser atingida senão por sucessivas aproxima-
outro, o que significa mudança de substância, de uma a outra ções. Se quisermos traduzir graficamente o conceito, podería-
forma sua. Noutros termos, para exprimir a emanação originá- mos graduar a sensibilidade progressiva do ser em evolução ao
ria como pensamento, dentro do concebível humano, importa longo de uma escala, nesta ordem: mineral, planta, animal,
operar uma redução de dimensão; essa descida à Terra significa homem, super-homem, capazes de responder a uma gama de
que aquela potência tem de percorrer um regresso involutivo; é radiações sempre mais vasta e profunda. Isso equivale ao pro-
esta a condição para que ela possa manifestar-se na dimensão cesso de exteriorização cinética, que é a substância da evolu-
humana do inteligível. Essa redução de dimensão e esse regres- ção, sendo simultaneamente dilatação de consciência ao longo
so involutivo são um processo de íntima transformação da subs- da linha da sensibilização psíquica e manifestação da Divinda-
tância cinética da forma radiante, que se realiza não no espaço, de, duplo processo de aproximação dos dois extremos, através
mas atravessando várias dimensões de diversas fases evoluti- do qual a criatura volta ao Criador.
vas, para chegar isolado ao termo de sua transformação, à nossa Pode-se, pois, estabelecer para todo indivíduo, conforme o
dimensão e fase de evolução. O caminho não é, pois, percorrido ponto mais elevado que alcançou na escala, uma amplitude de
em sentido espacial, mas sim em sentido evolutivo, isto é, ao capacidade perceptiva que compreende todas as menores, mas
percorrer a dimensão evolução, evolvendo, se ascende para o da qual se excluem as mais amplas. Para que dois seres, inclu-
transmissor, e, involvendo, se desce para o receptor. sive no mundo humano, possam comunicar-se, isto é, com-
Como vemos, não obstante a correspondência entre os vá- preender-se, é necessário que usem a mesma linguagem e ex-
rios planos, inevitável num universo orgânico regido por um pressem a mesma sensação do universo, o que significa que
princípio unitário, o fenômeno inspirativo é bem mais profundo sua sensibilidade deve abranger o mesmo campo de capacida-
e complexo que o fenômeno radiofônico. Se, por exemplo, em de perceptiva. A compreensão só é possível até onde o campo
telepatia se pode falar de ondas-pensamento, porque existe pen- se sobrepõe, até onde haja coincidência de amplitude. Assim, o
Pietro Ubaldi AS NOÚRES 37
mais pode compreender o menos, mas não o contrário. Expe- se possa estabelecer a comunicação, é necessária uma sintoni-
rimentemos explicar um conceito abstrato a um ignorante, e zação entre a consciência do médium e o centro de emanação,
ele não o compreenderá se não soubermos reduzir a ideia abs- um estado de simpatia que permita a atração, um estado com-
trata à sua dimensão conceptual de representação sensória. Es- plementar e de semelhança que estabeleça a fusão. As leis de
ta é a condição da comunicação. afinidade se encontram na base de todos os fenômenos de atra-
Tudo isso também pode ser dito doutro modo. Se, postos ção psíquica, inclusive daqueles comumente controláveis. Eis
dois diapasões vibrantes à mesma nota, percutirmos um deles, porque tanto tenho insistido sobre o paralelismo entre sofrimen-
fazendo-o vibrar, o outro também se porá em vibração, emitindo to e mediunidade inspirativa, justamente porque o primeiro é
o mesmo som. Este princípio de ressonância é universal e ver- instrumento de evolução, que é sensibilização conducente à afi-
dadeiro tanto no campo acústico ou elétrico quanto no psíquico nidade com os mais altos centros transmissores. A recepção
e superpsíquico. O contato da consciência com o mundo exterior noúrica, que é comunicação com centros superevoluídos, exige
pelos caminhos dos sentidos é devido justamente a um fenôme- a ascensão espiritual até àquele nível. Para que se possa estabe-
no de ressonância. Nisso se baseiam a radiofonia e a telepatia. lecer o contato com a fonte, é necessário que a consciência se
Muitas vezes, quando uma pessoa está para nos dizer uma coisa, sensibilize por evolução, até ao ponto de atingir uma amplitude
nós já a sentimos no próprio pensamento. “O fenômeno de res- de capacidade perceptiva que se sobreponha à da fonte; esta é a
sonância consiste no fato de que dois órgãos suscetíveis de osci- condição da compreensão; importa adquirir por ascensão de es-
lações, tendo a mesma característica ou frequência (no caso de pírito a capacidade que lhe permita responder às sutis emana-
um diapasão, o número de vibrações por segundo), podem influ- ções noúricas. “Para comunicar-se, o espírito desencarnado se
enciar-se reciprocamente, se um deles, mediante as próprias os- identifica com o espírito do médium, e esta identificação não se
cilações, produz ondas num meio que abranja ambos” (Eng. E. verifica senão quando existe entre eles simpatia, pode dizer-se
Montú, “Rádio”, pág. 31). Também o pensamento pode transmi- mesmo, afinidade”, diz Allan Kardec no seu Livro dos Mé-
tir-se por ressonância quando os centros cerebrais, nos movi- diuns, Cap XX: “A alma exerce sobre o espírito livre uma espé-
mentos atômicos de sua estrutura celular, sejam suscetíveis de cie de atração ou de repulsão, conforme o grau de semelhança
oscilações que possuam idênticas características. Então, os dois ou diferença entre eles; ora, os bons sentem afinidade pelos
centros psíquicos podem influenciar-se mutuamente, através de bons, e os maus, pelos maus, donde se segue que as qualidades
um meio comum que receba e transmita suas vibrações. É indu- morais do médium têm uma influência essencial sobre a nature-
bitável que o pensamento seja uma vibração, porém reduzida a za dos espíritos que se comunicam por seu intermédio. Se ele é
sutilíssima e evolvidíssima forma dinâmica, em vias de superar vicioso, em torno dele se agrupam espíritos inferiores, sempre
a dimensão espaço-tempo. Na verdade, a psique humana é um prontos a tomar o lugar dos bons espíritos que foram chamados.
órgão capaz de vibrar e de entrar em ressonância, de transmitir e As qualidades que atraem, de preferência, os bons espíritos são:
registrar normalmente correntes psíquicas, porquanto é assim a bondade, a benevolência, a simplicidade de coração, o amor ao
que se forma, se projeta, se comunica e se recebe o pensamento, próximo, o desprendimento das coisas materiais; os defeitos que
que, como a luz, circula por toda parte na atmosfera humana e os afastam são: o orgulho, o egoísmo, a inveja, o ciúme, o ódio,
além dela. Assim se transmitem estados de ânimo, sentimentos, a cupidez, a sensualidade e todas as paixões por meio das quais
além de conceitos. O segredo dos oradores, dos caudilhos que o homem se prende à matéria. Todas as imperfeições morais são
arrastam as massas, está em saber despertar essas ressonâncias. outras tantas portas abertas que dão acesso aos maus espíritos”.
O pensamento vibra no universo, repercute, reage, volve à fonte, Temos, portanto, dois centros, transmissor e receptor, situ-
une em sintonia os centros distantes, anula-se, acumula-se, so- ados em planos diversos de evolução. Comunicam-se pelo
ma-se, desintegra-se; nós irradiamos e recebemos irradiações do princípio de ressonância, que se dá somente quando exista ca-
ambiente humano, dos planos inferiores, do Alto, num mar de pacidade de vibração em uníssono, o que sucede, por sua vez,
noúres, de vibrações infinitas. Cada um entra em correspondên- apenas quando os dois centros se encontram no mesmo nível
cia como sabe e como pode, conforme sua capacidade; mas a evolutivo, isto é, de sensibilização, perfeição moral e potência
consciência do sensitivo é uma caixa harmônica fremente de to- perceptiva conceptual.
das as irradiações do universo. Kardec considera particularmente o lado moral da afinidade,
A telepatia outra coisa não é que um fenômeno de ressonân- mas evolução é ascensão de todo o ser e implica também uma
cia. Ressonância significa sintonização no mesmo estado vibra- sensibilização às ressonâncias mais sutis, uma expansão per-
tório, base da percepção sincrônica. Significa simpatia, afinida- ceptiva e uma potencialidade conceptual. O fenômeno da me-
de. E por ressonância não só se transmite, mas também funcio- diunidade intelectual inspirativa é, pois, um fenômeno de sinto-
na o pensamento, que é levado a mover-se por conexão de idei- nização, cuja condição é a afinidade. O problema da comunica-
as, que é sua forma de menor resistência. As ideias se atraem ção reside, portanto, na afinidade. Há uma distância qualitativa,
espontaneamente, por afinidade. Sua reaparição na consciência de capacidade de correspondência, entre os dois centros, e é
se deve à excitação de um estado vibratório que se propaga às preciso preenchê-la. Para sua união em sintonia, impõe-se então
formas semelhantes, capazes de ressonância. Os caminhos da uma transformação, e são dois os casos. Ou a transformação se
mnemônica são os caminhos dessa ressonância por conexão. As processa por obra do transmissor, que involve suas emanações
estradas reais da consciência coletiva são as da ressonância. A (os dois centros são ativos e conscientes) até ao nível percepti-
compreensão é um fenômeno de ressonância. O pensamento, vo sensório do receptor, e este é o caso das audições acústicas,
finalmente, tende, como todas as formas menores do mundo di- visões óticas e outras percepções sensórias de vários místicos,
nâmico, à difusão e, uma vez projetado, é indestrutível. cuja fonte, embora de efeitos físicos, se distingue sempre das
Tudo isso nos conduz às mesmas conclusões do início. Para produções barônticas pela elevação da proveniência demons-
que se efetue a comunicação entre os dois centros, é indispen- trada pelo tipo de aparição e pelo seu elevado conteúdo moral.
sável a mesma capacidade de ressonância, isto é, que eles sejam O encontro pode, assim, dar-se também no plano sensório hu-
suscetíveis de deslocamentos cinéticos dotados das mesmas ca- mano, se esta é a via de menor resistência, dadas as característi-
racterísticas. Ora, para obter isso, é necessário partir do mesmo cas do médium. Este pode ser um santo do sentimento e da
equilíbrio cinético, isto é, importa achar-se no mesmo grau de bondade, e não da intelectualidade, não especializado, portanto,
evolução e de sensibilização, abrangendo o mesmo campo de no lado psíquico, até à superconsciência. Ou então, no segundo
capacidade perceptiva ou conceptual. Só então pode realizar-se caso, a transformação se efetua por obra do receptor, que, pelo
a sintonização. A base desta, portanto, é a afinidade. Para que seu grau de evolução, sabe elevar-se por si mesmo até ao plano
38 AS NOÚRES Pietro Ubaldi
conceptual do transmissor. Este é o meu caso de mediunidade saberia exprimir-se e, se conseguisse expressar-se, seria julgado
intelectual inspirativa e consciente. Agora se começa a compre- um louco. Além de tudo isso, deve ele possuir também a memó-
ender sua estrutura e seu complexo funcionamento. ria precisa de seus complexos estados, para poder oferecê-los
Neste caso, sabendo a distância que o separa da fonte inspi- como elementos de observação; deve ter igualmente qualidades
rativa, a capacidade do médium consiste em ascender ele pró- de autoanálise e introspecção, que lhe permitam analisar e inter-
prio a escala evolutiva e alcançar a afinidade, que é base do fe- pretar o fenômeno e apresentar e usar o método intuitivo na pes-
nômeno da ressonância, e isso no campo particular (moral, inte- quisa sistemática científica do inexplorado.
lectual, artístico, heroico) que diz respeito à comunicação32. O No meu caso, a registração dos conceitos não é recepção
inspirado deve saber emergir ativa e conscientemente na dimen- passiva, mas captação ativa; não de sinal negativo, mas positi-
são conceptual própria do centro transmissor e, para atingi-lo, vo. Minha inspiração pode ser definida, então, como mediuni-
deve haver atravessado todo o tormento de sua purificação, por- dade intelectual (registração de conceitos), inspirativa (proveni-
que só esta pode sensibilizá-lo até à captação das noúres mais ente dos mais elevados planos de evolução), ativa (por capta-
elevadas. Se, atingida a imersão numa atmosfera rarefeita, a re- ção) e consciente (nos vários planos e dimensões). Tudo isso se
cepção é espontânea, agradável, dinamizante, o esforço, não só torna para mim um método normal de pesquisa por intuição,
da longa maturação evolutiva, mas também o imediato, de colo- uma verdadeira técnica de pensamento, um sistema intelectual e
cação em fase de alta sintonização e de atingir a necessária ten- cultural que domino perfeitamente.
são nervosa em alto potencial, é todo do médium. E ele tem de Já descrevi os meios com que o consigo e conservo. Se par-
manter-se, demorada e normalmente, em casos de registrações ticulares condições são requeridas, isso não tira o valor dos re-
volumosas, naquele estado de tensão; tem de suportar sozinho, sultados práticos que com ele obtenho e que constituem um fato.
sem conforto e sem compensações humanas, a exaustão orgâni- Nos descritos estados de adormecimento da consciência
ca subsequente e a tristeza na solidão que sucede ao esforço su- normal, eu realizo, por iniciativa e com esforço próprios, a
pranormal. Atingida a noúre, ele deve manter o contato em per- transformação acima descrita, que faz ascender meu eu consci-
feita consciência, relacionando tudo e conservando completa- ente a uma dimensão superior. E, quando a visão superespacial,
mente a própria lucidez e potência de análise. Finalmente, em- instantânea, abstrata, atravessa minha sensibilidade, devo saber
bora imergindo numa diversa localização em fase de consciên- descer novamente ao nível psicológico normal, realizando a
cia, o inspirado não deve fechar as pontes atrás de si, e sim dei- transformação em direção inversa, pois que, sem isso, não me
xar unidas sua superconsciência e sua consciência normal, a fim seria possível comunicar-me nem me fazer compreendido. De-
de que seja possível, após haver subido evolutivamente, descer vo, assim, saber oscilar ao longo da escala da evolução e da in-
involutivamente para transmitir à sua consciência comum, e com volução, com diferentes focalizações de consciência, que me
esta aos seus semelhantes, o conteúdo de sua visão. permitam exprimir, em termos racionais e de análise, a intuição
Indispensável é, pois, saber manter desperta a consciência sintética, que em sua forma originária é inexprimível.
nos diferentes planos, não só no alto, mas também nos planos O que descrevi é, sobretudo, a técnica funcional do meu fe-
inferiores, e saber sustentar as já referidas união e comunica- nômeno, que, melhor que ninguém, eu conheço. Assim, confi-
ção, para poder sempre surgir à superfície da consciência hu- ando-me, nos pontos mais salientes, à intuição, defini o proble-
mana normal. Continuamente se faz preciso o dinamismo des- ma, para mim também até agora incerto, de minha inspiração.
sas deslocações, que permitem a tradução das sensações e con- ◘ ◘ ◘
cepções de um a outro plano. O inspirado tem, pois, não só de Estabelecida, assim, a estrutura central do fenômeno, com-
dominar uma amplitude perceptiva amplíssima, em que sua pletemo-lhe a interpretação em outros aspectos seus.
sensibilidade é posta a dura prova; seu ouvido psíquico não de- O pensamento é, portanto, totalmente uma noúre e se comu-
ve captar somente uma gama musical imensamente mais ampla nica e ecoa de centro a centro; o universo está saturado de ema-
que a do concebível humano, mas também tem ele que possuir nações conceptuais, que são percebidas todas as vezes que o ser,
rapidez de mutação interior, agilidade de deslocação ao longo por evolução, haja alcançado o grau de sensibilização suficiente
da linha da evolução, presteza de adaptação às sucessivas foca- para entrar em ressonância. No plano dinâmico e psíquico, o
lizações das várias perspectivas de visão. Sem essas qualidades, universo aparece ao sensitivo como um oceano ilimitado de ir-
seu trabalho seria impossível. E essas deslocações ele tem de radiações de todo gênero. Essas emanações, cada uma em seu
efetuar sem descontinuidade, sem zonas de inconsciência, sem- nível, em formas diversíssimas, obedecem ao mesmo princípio
pre consciente. Deve movimentar-se comodamente de um a ou- universal de expansão, coligam o universo em todas as suas par-
tro extremo, seja na pequena consciência sensória e racional, tes e representam o órgão de sua sensibilidade física e psíquica.
apropriada aos conceitos analíticos e ligados à vida humana, seja Quanto mais se ascende evolutivamente, mais sutilmente se sen-
na consciência intuitiva, adequada aos grandes conceitos lon- te o universo, mais claramente se percebe e concebe a si mesmo.
gínquos, abstratos e sintéticos do absoluto. Somente neste caso A consciência altíssima, que conhece todo o funcionamento do
se pode falar de mediunidade inspirativa consciente, que domina grande organismo, é a ideia diretriz de Deus. É este o centro em
o fenômeno, sente, joeira e escolhe as correntes, controla seu direção ao qual ascendem os vários planos da evolução, a meta
pensamento, julga-o e o aceita. Quando o grau evolutivo do ul- longínqua a que tendem esses sobrepujamentos de consciência e
trafano é inferior ao da noúre captada, então a redução dimensi- de dimensões. Eis porque o conteúdo da mediunidade inspirati-
onal não pode efetuar-se em sua consciência e tem-se a mediu- va é a revelação, eis porque ela conduz à unidade e à verdade.
nidade mais comum, passiva e inconsciente, em que o sujeito é Isso nos faz compreender como, somente em nosso mundo
um mero instrumento que registra sem compreender. O verda- involuído, em que o pensamento é continuamente estorvado em
deiro ultrafano consciente tem de realizar, nas profundezas de sua circulação pelas resistências da matéria, possa ser ele con-
seu eu, um laborioso esforço, pois funciona como transformador cebido aprisionado, separado na forma da individualidade hu-
de emanações noúricas em vibrações-pensamento, como instru- mana. Somente nesses planos mais baixos, o pensamento pode
mento de redução do superconsciente inconcebível ao consci- permanecer diferenciado, entre barreiras pessoais; mais no alto,
ente concebível. Se não executasse essa descida psicológica, não ele circula livremente, fundindo com facilidade, na mesma res-
sonância, os centros hipersensíveis, que assim se unificam no
32
Estes esboços serão completados e esclarecidos no desenvolvimen- mesmo modo de ser, cujo timbre é definido pela corrente de seu
to de outros conceitos e teorias nos volumes da II e III trilogias do plano. Nesse nível, a forma do ser é psíquica, não mais física;
mesmo autor (N. A.). não é mais um corpo, mas um estado de consciência, e é defini-
Pietro Ubaldi AS NOÚRES 39
da pela irradiação naturalmente dominante naquele plano, em luído. No Alto, como realidade objetiva e científica que eu sinto,
que os seres automaticamente se equilibram, pelo seu peso es- se acha uma estrutura de hierarquias que gravitam, de esfera em
pecífico, na escala da evolução. Como estamos vendo, é possí- esfera, na grande luz de Deus, prolongando-se até aos planos in-
vel enfrentar e resolver problemas de alta teologia com os con- feriores, e a Terra recebe as irradiações do Alto e é guiada.
ceitos mais exatos da psicologia científica. Após tudo isso, compreende-se sempre melhor que o pro-
Pode-se, agora, melhor compreender o que já foi dito sobre blema para mim fundamental, como primeira condição para
o problema da individualidade do centro transmissor, como já minha captação noúrica, é o da ascensão espiritual; compreen-
foi por outrem percebido, isto é, que essa voz inspirativa “não de-se como, para mim, a questão da mediunidade e a do aper-
deve ser entendida como um ser invisível individual, mas como feiçoamento espiritual devem coincidir.
uma emanação de energias espirituais fundidas num feixe” Se a fonte da inspiração está no Alto, eu devo viver sempre
(Ferder, “O Ciclo Progressivo das Existências”). estirado para o Alto, para poder atingi-la. Sou uma antena sen-
Quando a inspiração toca certo nível, não mais se pode fa- sibilizada pela dor, que deve elevar-se o mais possível aos pla-
lar de uma entidade como centro psíquico, num sentido pesso- nos superiores, a fim de trazer deles ao nosso suas concepções.
al humano, não se pode definir nem limitar a fonte a um no- Quanto mais me purificar, mais alto poderei subir e mais se
me; pode-se apenas indicar a direção de proveniência e falar ampliará meu raio de sintonização e captação. Em ultrafania,
de planos de evolução e de correntes noúricas que os percor- vigora a lei de afinidade. É princípio geral que cada médium
rem e definem. não pode entrar em sintonia consciente senão com a noúre do
Foi nesse sentido que falei de Cristo como centro de emana- próprio nível evolutivo. Isso porque a recepção inspirativa não
ção, fonte de revelação, corrente de pensamento sempre presen- se deve a uma transmissão individual, mas é uma imersão mi-
te que governa o mundo. Somente esta concepção cósmica do nha numa corrente de pensamento ou atmosfera conceptual,
Cristo, muito superior à histórica e humana, pode dar-nos o em sintonia com a qual se determina a forma de minha consci-
sentido de Sua divindade e de Sua presença, atividade e função ência. Por isso, se eu descer moralmente, me dessensibilizo
histórico-social. A imprensa sul-americana, com muita precipi- também e perco a consciência daquele plano de noúres, densi-
tação e simplicidade, atribuiu, sem mais, a Cristo as Mensagens fico meu peso específico e perco a capacidade de mover-me
e A Grande Síntese, pelo seu sabor evangélico. É preciso, po- naquelas alturas. Devo afinar diariamente o delicado instru-
rém, compreender quão perigoso e anticientífico é definir, de mento da minha ressonância no sofrimento e no desapego, a
forma tão categórica, uma proveniência que reduz o Cristo à fim de poder facilmente superar, sem correspondência, o mar
comum concepção histórica humana; é preciso entender que o das noúres involuídas e barônticas que me circunda. Devo sen-
Cristo real não pode ter, em Sua essência, nenhuma forma em sibilizar cada dia o ambiente, para que, por diferença de sua
nosso concebível, que não o alcança nem o contém senão redu- natureza, permaneça surdo às vibrações mais baixas e se lance,
zidamente. No meu caso, pois, só se pode falar de direção da pelo contrário, para o alto, somente vibrando se percutido por
descida das noúres; pode-se dizer que, desde a direção, nin- emanações elevadas. Do mesmo modo que a onda elétrica, por
guém sabe quão longínqua e de qual vertiginosa altura, que tem ser mais evolvida, é também mais potente e mais livre que a
seu início em Cristo e na Divindade, procede uma noúre, atra- onda acústica, isto é, domina um raio de ação mais vasto, che-
vés não se sabe de quantos planos e sofrendo desconhecidas re- ga mais depressa e mais longe porque mais supera a dimensão
duções de adaptação, até ao plano em que minha mais alta espaço-tempo, também a emanação ultrafânica, captada pela
consciência inspirativa, ascendendo fatigosamente, pode captá- minha recepção, quanto mais no alto estiver situada evoluti-
la, para realizar o último e certamente o mais rápido caminho vamente, tanto mais poderosa e livre é e mais amplamente su-
que devia levá-la à forma da psicologia humana. pera os limites das dimensões inferiores, e tanto mais vasto é o
“A vós venho do Alto e de muito longe”, diz Sua Voz na campo conceptual que domina. De qualquer modo, quanto
Mensagem do Perdão. “Não podeis perceber quão longo é o mais elevada for, mais poderosa será. Quanto mais eu subir
caminho que nós, puro pensamento, devemos percorrer a fim evolutivamente, mais potente será a fonte que poderei atingir,
de superar a imensa distância espiritual que nos separa de vós, mais se dilatará, pois, o raio de minha captação conceptual,
imersos na terra lodosa. Vossas distâncias psicológicas são mais profunda será minha visão das verdades absolutas. O pro-
maiores e mais difíceis de ser vencidas que as distâncias de gresso e o fortalecimento de minha inspiração provém inteira-
espaço e de tempo”. mente de meu progresso espiritual, porquanto basta subir para
Isso significa distância conceptual da fonte e longo caminho saber. Eu não estudo em livros, mas leio na vida. “Há mais coi-
percorrido, isto é, redução dimensional efetuada para superar sas no livro de Deus que nos vossos” – dizia Joana D’Arc – “e
aquela distância e descer daquela altura ao nosso plano de evo- eu sei ler num livro que vós não sabeis ler”. A sabedoria mais
lução; distâncias psicológicas, evolutivas, de dimensão concep- profunda é dada pela evolução, e não pela cultura. Isso poderá
tual. Só agora, que delineamos este estudo técnico sobre as noú- parecer absurdo em face da psicologia prática, mas os fenôme-
res, podemos compreender o processo de redução que essa des- nos têm uma lógica, e é preciso segui-la até às profundezas.
cida de correntes espirituais implica, a série de filtragens que é Compreende-se, deste modo, como eu situo o problema de
necessária, através de vários planos, para que a luz seja percep- minha mediunidade inspirativa e por que acredito que assim se
tível e a irradiação acessível, e quantos intermediários, de gra- deve orientar o estudo dos casos de ultrafania elevada. Ao pas-
dual transparência espiritual, devem colaborar para que a ce- so que a grande distinção da mediunidade comum é entre vida
gueira espiritual do intermediário possa alcançar o alto e a po- terrena e além, a minha diferenciação fundamental é entre in-
tência conceptual possa chegar límpida, sem ofuscar-se, ao pla- voluído e evoluído; meu problema mediúnico é problema éti-
no terreno. Nesse complexo processo, muitos auxílios são ne- co, é o problema da ascensão do universo e, enquanto imerge
cessários ao lado de meu esforço, e, não obstante minha forma suas raízes na mais baixa animalidade, expande suas ramifica-
de mediunidade inspirativa consciente, grande parte da trans- ções no céu das dimensões superconceptuais. No meu caso,
formação tem de se realizar fora de minha consciência, em pla- por isso, não tem sentido, deixando-me indiferente, a comuni-
nos superiores aos que me são acessíveis; um trabalho de prepa- cação com os espíritos de defuntos que, situados mais ou me-
ração, que ignoro, tem de realizar-se acima de mim, para trazer a nos no nosso nível, nada sabem, nada têm para nos dizer, repe-
noúre até ao plano de minha captação. O fenômeno é vasto, feito tindo as velhas e pobres coisas humanas.
de diversas colaborações, através de gradações de pureza e ele- A mim urge, ao contrário, superar este plano humano em
vação de que eu sou apenas o último termo, o mais baixo e invo- que vivos e mortos se agitam e em que se permanece sempre a-
40 AS NOÚRES Pietro Ubaldi
qui em baixo, na sombra. Hamlet dizia: “ser ou não ser”. Eu ele assistam senão através destas minhas descrições. Para estes,
digo: “subir para saber, eis o problema”. Estabelecida a pre- não existe senão a possibilidade de estudo das minhas declara-
missa, demonstrada em A Grande Síntese, da evolução das di- ções e da estrutura psicológica das registrações conceptuais por
mensões e da ascensão dos seres através de planos de sensibili- mim realizadas. Permanecerão de fora, contudo, aqueles que
dade, de perfeição moral e de potência conceptual; estabelecido não o puderem compreender, porquanto as mesmas leis do pen-
o monismo, também demonstrado em A Grande Síntese, isto é, samento, que também agora permanecem reais, não me permi-
um universo gerado por um princípio único – Deus – e, final- tem comunicar minhas sensações senão a quem é capaz de en-
mente, admitida esta teoria, já agora evidente, por mim realiza- trar em ressonância com tal ordem de vibrações. É natural, pois,
da, da percepção noúrica por sintonização, compreende-se co- que muitos neguem, porque não acham nenhuma correspon-
mo minha mediunidade não pode ser senão a forma da evolu- dência na própria sensibilidade. Nada posso fazer por eles. Não
ção psíquica e espiritual do homem, repetindo a aspiração de se pode fazer ouvir o som a um surdo, nem fazer ver a luz a um
todo o universo, a encaminhar-se para seu centro, Deus. cego. Os fatos, porém, continuam representando um enigma, e,
Minha mediunidade ora e adora e, por isso, é religião, colo- com a acusação de desequilíbrio neurótico, me será atribuída a
cando-se assim em face da ciência, porque possui e demonstra a paternidade absoluta de A Grande Síntese, o que esta desmente
verdade. O fenômeno da minha captação noúrica está aberto di- com toda a evidência. Para todos, permanece indestrutível o
ante da eternidade. Sinto que, através dele, de corrente em cor- produto do processo inspirativo, a verificação de que é difícil
rente, de esfera em esfera, eu me remonto àquele divino centro consegui-lo com os recursos culturais normais; permanece a ló-
de poder e de conceito. Sinto que Ele me chama das profunde- gica desta minha interpretação, uma construção conceptual que
zas do meu eu e das profundezas dos seres. Imergindo por meio se estende através de todo este volume só para sustentar uma
de minha mediunidade, nos estratos mais íntimos de minha inexplicável humildade que renuncia a fazer próprio um produ-
consciência, sinto que, através deles, subo aos vários planos to intelectual que eu tinha a meu alcance.
evolutivos e que meu espírito encontra a unidade, o principio, a Desçamos, agora, da altura da emanação noúrica ao nível
substância, o absoluto. Nas entranhas do relativo e além dele, humano, onde se detém a transmissão e se fixa a recepção. O
sinto a verdade imóvel, em torno da qual ele vai girando no último termo da transformação noúrica, o mais baixo do pro-
vórtice da evolução. Porque a direção das noúres está nas pro- cesso fenomênico, a zona de máxima involução, está no orga-
fundezas do nosso eu e das coisas, onde se encontra Deus. nismo nervoso-cerebral do médium. Já mostrei que importa
◘ ◘ ◘ elevar o potencial nervoso para atingir a percepção noúrica. É-
Dirijamos agora o olhar para o outro extremo, mais baixo e me necessário, por isso, um aumento de tensão elétrica que me
mais acessível, do fenômeno. É evidente que, em suas zonas su- permita entrar em ressonância com a corrente noúrica, assu-
periores, o fenômeno não pode ser atingido pela observação e mindo uma frequência maior (intuição) do que a racional nor-
que, além destas declarações, que só eu posso fazer, o fenômeno mal. O período de adormecimento da consciência normal, que
permanece, em sua fase de origem, cientificamente incontrolá- inicia a recepção, é o trabalho de colocação em fase com uma
vel. Pensemos na relatividade da nossa posição na escala da evo- frequência de percepção superior à normal, saindo da ordem de
lução intelectual dos seres e como nosso maior gênio representa vibrações comuns, para sintonizar com outra mais poderosa. A
uma redução de dimensão, um meio denso e material em relação vontade é uma irradiação mais involuída, proveniente de uma
a fases mais evolvidas e espirituais. Já nos espantam a instanta- frequência vibratória inferior e cuja presença tem um poder
neidade do pensamento e a profecia, que domina o futuro, e es- destrutivo sobre esses mais evolvidos e delicados estados vibra-
tas são apenas as primeiras vitórias sobre a dimensão temporal. tórios que permitem a sintonização com a noúre. Por isso o ins-
A ciência, produto da psique humana, não pode possuir os meios pirado é um sensitivo, e não, exceto raramente, um volitivo e
de observação do que supera a capacidade da própria psique. dominador, tipo apto para dirigir e que, diante de tais proble-
Em sua origem, a noúre elevada da revelação não é pensa- mas, por sua vez, é impotente.
mento, que se transmite esfericamente, por ondas, ainda que Tudo isso explica o trabalho de sintonização ambiental que
através dum meio sutilíssimo, aos últimos limites da dimensão auxilia minha registração, a necessidade que tenho de encami-
espacial; é, porém, emanação de um superior estado cinético da nhá-la a uma harmonização vibratória de meu próprio eu, a
substância que, transportado ao nosso concebível, constitui uma qual, quanto mais se eleva, mais tem de ser profunda. Explica-
realidade inimaginável, porque estendida numa gama de esta- se assim o fato de um afrouxamento de tensão de minha parte,
dos cinéticos com os quais a psique humana normal não sabe por cansaço ou por distúrbios no ambiente, poder produzir ver-
entrar em ressonância (compreensão). dadeiros fenômenos de esvanescimento, analogamente ao fe-
A noúre penetra na zona do perceptível normal somente em nômeno de evanescência (fading) das radiotransmissões. Em
sua fase de chegada, assumindo a forma vibratória de pensa- sua zona mais baixa, o fenômeno tem características elétricas,
mento só depois de concluído o processo de transformação in- pois é constituído, na verdade, no plasma cerebral, por disposi-
volutiva na consciência do médium. A ciência não possui, por ções de cinética atômica, e o átomo é um organismo elétrico.
isso, outro meio de pesquisa e não pode atingir o fenômeno se- Essa oscilação, pois, que meu ser psíquico tem de realizar
não através desse instrumento. Não existe nenhum veículo me- ao longo da escala de evolução e involução para ascender a
cânico que possibilite a alguém percorrer a dimensão evolução, uma dimensão superior e depois reduzi-la à normal, se reflete,
senão o próprio eu que evolve. Não existem meios para captar o em sua zona mais baixa, em mudanças de potencial, de tensão e
supersensório a não ser esse órgão ultrafânico que funciona de frequência vibratória no meu sistema nervoso e cerebral. A
como transformador noúrico ou redutor de dimensões. Não res- transformação de dimensão, iniciada pela emanação originária
ta, pois, à ciência senão uma observação indireta do fenômeno, por processos imateriais supersensórios, incontroláveis pela ob-
tal como aparece refletido na psique do médium inspirado. Por servação, à medida que desce involutivamente, vai-se tornando
isso, quis analisar o meu caso, porque só eu o tenho, completo e acessível aos métodos da ciência, porque se manifesta, final-
à mão, para as observações. Só reunindo na mesma pessoa a mente, em forma de onda-pensamento no meu cérebro e termi-
função da ciência que observa e a do ultrafano que sente e re- na através de movimentos musculares da mão sobre a ponta da
gistra, pode-se estudar intimamente o problema. Outra pessoa, pena. Esta é a fase final, a mais densa, da materialização da
embora mais sábia, não possui o contato direto com os fatos do noúre. O pensamento, que antes era móvel e fluido, solidifica-
meu mundo interior. Somente eu assisto ao processo de minha se agora na palavra, cristaliza-se numa forma imutável. O pen-
captação noúrica, e não me é permitido fazer com que outros a samento que antes eu sentia completo, instantâneo e contempo-
Pietro Ubaldi AS NOÚRES 41
râneo, justamente porque numa dimensão supertemporal, devo Korsakow, Mussorgsky, Glasunow, Albeniz, Palestrina, Debus-
transformá-lo, na redução, em consecutivo e filiforme como na sy e muitos outros, ao passo que Stravinsky, por exemplo, me
palavra: redução de dimensão volumétrica a linear. irrita, a potência de Beethoven, assim como a de Miguel Ânge-
O momento em que o fenômeno se torna tangível é o da co- lo, me esmaga, Mozart não sofre e não clama como eu deseja-
agulação da substância mobilíssima e evanescente, rapidíssima ria. Tenho necessidade de compositores cuja noúre se afine
para escapar, e que eu trago segura, num estado de extrema de- com a minha, para que sua música me ajude, fundindo-se em
licadeza perceptiva, que é também vulnerabilidade nervosa, que minha sintonização.
me faz estremecer a cada perturbação ou interrupção. Isso se
mostra lógico, desde que se pense no processo que se tem de
realizar em minha psique e no meu cérebro. Acompanho a cor-
rente noúrica como arrebatado em êxtase; devo enfrear e domi-
nar sua contemporaneidade na gênese filiforme do pensamento;
devo fazer transparecer na modulação racional e linguística a
modulação da emanação superconceptual originária; devo man-
ter, através da minha tensão, a percepção supersensória anímica
e abstrata como uma ligação delicadíssima que, ao mínimo
choque, se rompe. Medite-se em quanto a emanação de origem
está distante da registração final e, no entanto, elas devem estar
unidas em ressonância, e a modulação de chegada, embora re-
duzida, deve coincidir, sem distorções, com a modulação de
partida. A mínima vibração desarmônica (quanto mais alto se
sobe mais o estado harmônico é necessário, porque é um avizi-
nhar-se da unificação), qualquer choque heterogêneo, acústico
ou psíquico, que penetre o ambiente pode produzir distorções
por interferência. Nesse caso, eu sofro e me canso (e aí não de-
ve haver cansaço), pois que tenho de reconstituir a tensão.
Um conceito é um estado vibratório individuado e delica-
díssimo, que, uma vez perdido, não mais se acha nem com a
lógica e muito menos com a vontade, não retornando senão
quando excitado por conexão de ideias isto é, por uma nova
passagem próxima num estado vibratório afim. Por isso, eu es-
crevo rapidamente, deixando a forma aos automatismos; minha Resumindo, pois: quanto mais abstrato é o pensamento tan-
cultura me é necessária por esse motivo, pois certos conheci- to mais desmaterializada pela forma dinâmica é a onda de sua
mentos inferiores, para alcançarem mais depressa o objetivo, vibração. O conceito, em sua origem, nem sequer de palavra se
devem ser instintivos. Neste caso, as capacidades culturais re- reveste, não tem linguagem, involvendo-se, em descida cada
presentam a exercitação e o crisol do instrumento e são neces- vez maior, até à percepção sensória e à imobilização no escrito.
sárias pela lei do meio mínimo33. Quanto mais desce o fenômeno involutivamente, mais é
Se a tensão é igual e a sintonização aderente, sem perturba- apreciável na forma ondulatória das ondas hertzianas e do som,
ções e interferências, a registração se processa segura, perfeita da luz, etc., localizando-se também, especialmente, numa sede
no conceito e na forma. Por isso tomo as minhas precauções e física: o cérebro. Pode-se buscar aqui o órgão especifico da
escrevo à noite, quer pela ausência de ruídos quer pela seguran- inspiração ultrafânica: a epífise. A epífise pode definir-se: “o
ça de não ser interrompido, mas sobretudo pela tranquilidade órgão do cérebro, não ainda suficientemente conhecido, que é
que, com o sono, sobrevêm ao estado psíquico geral, que, du- indicado, ultrafanicamente, como o meio mecânico através do
rante o dia, pelas emanações violentas, me é verdadeiramente qual as noúres são recebidas pelos hipersensitivos” (Trespioli,
atordoante, e, finalmente, porque sinto que os próprios raios so- “Biosofia”, pág. 232). O órgão da sintonização noúrica se en-
lares têm um poder destruidor. contra no cérebro e é particularmente a glândula pineal. Disse
Sei que muitos escritores e artistas trabalhavam à noite (por – “particularmente”. Devemos entender-nos logo a respeito
exemplo, Debussy). Sinto até os distúrbios elétricos da atmos- dos princípios de fisiologia. A ciência materialista teve a ma-
fera. Tudo que perturba o rádio também me prejudica, embora nia da localização das funções cerebrais, dando-se à caça da
relativamente. Porque as descargas elétricas, se bem que pode- sede fisiológica das funções psíquicas através de experiências
rosas, provenientes de planos de evolução diferentes (dinâmi- de extrações localizadas. Tudo isso é resultado de sua orienta-
cos, e não psíquicos), sendo de natureza diversa, estão qualita- ção materialista e não poderia revelar-lhe senão relações e as-
tivamente mais distantes de mim, ao passo que um estado de sociações superficiais, nunca o princípio funcional do cérebro.
ânimo barôntico (involuído) dos meus semelhantes, que apre- Este é somente o órgão das funções psíquicas, e sua estrutura é
sentam maior afinidade com minha natureza humana, se intro- efeito, e não causa de funções. O pensamento não é uma secre-
duz mais facilmente em meu estado vibratório. Ferem-me, por ção do cérebro, mas sim o cérebro é, se podemos dizer assim,
isso, um impulso de ira que se dê nas vizinhanças, as emanações uma secreção do pensamento.
dos alcoolizados e de qualquer ambiente moralmente pouco O órgão cerebral é o produto mais elevado da evolução bio-
evolvido. Tudo isso, especialmente se inesperado, pode consti- lógica; é o órgão através do qual a química inorgânica do mun-
tuir para o meu sistema nervoso um choque que é agudo sofri- do pré-vital, internando-se, posteriormente, no complexo meta-
mento. Certas músicas, ao contrário, especialmente se de pro- bolismo da química orgânica, atinge um estado de superquími-
funda orquestração, têm para mim um poder sintonizante acen- ca, em que os íntimos movimentos planetários atômicos se des-
tuado, como Bach, Wagner, o piano de Chopin e Liszt, Rimsky, locam até à desmaterialização da matéria.
A ciência não admite nem possui os recursos de observação
33
O princípio do meio mínimo “regula a economia da evolução, evi- para conhecer as formas de vida invisíveis, mas reais, que a
tando inútil dispêndio de forças”. Sobre o assunto fala A Grande Sínte- evolução biológica produziu após o cérebro, isto é, a consciên-
se no seu Cap. XL (“Apectos Menores da Lei”) (N. do T.). cia. Encontra-se, pois, estudando o cérebro nas mesmas condi-
42 AS NOÚRES Pietro Ubaldi
ções de um selvagem que observasse um aparelho de rádio sem em contínua oscilação, funcionando constantemente como
conhecer-lhe o princípio. É inútil olhar exteriormente os fios, transmissor de vibrações-pensamento. Assim como o olho
lâminas e válvulas, se não se conhece o princípio das ondas sempre vibra à luz e o ouvido ao som, do mesmo modo vibra o
hertzianas. É inútil pesar o cérebro, medir-lhe o volume, se é a cérebro ao pensamento. Este princípio geral se aplica no caso
qualidade que importa, e não a quantidade; inútil estudar-lhe a da recepção noúrica, em que se destaca evidente a ressonância.
anatomia, contar-lhe as circunvoluções, localizar centros corti- Na percepção sensória, a ressonância se dá dirigida por um
cais, perseguir os circuitos elétricos centrífugos e centrípetos meio condutor; na noúrica, processa-se livre, mas sempre se
através do sistema nervoso. A ciência se achará sempre e uni- trata de vibração por sintonização. Isso é compreensível hoje,
camente em face dos fundamentos do edifício, não lhe enxer- quando também a telegrafia se tornou sem fios.
gando a superelevação evolutiva no mundo do imponderável, No meu caso, a epífise deve haver atingido um grau evolu-
outro organismo vivo, em funcionamento, palpitante de vibra- tivo de potencialidade (não volume, mas orientação cinética
ções, mas imaterial, cujo conhecimento anatômico é atingido atômica) e de sensibilização que a possibilita funcionar como
por outros caminhos e com outros instrumentos, porque situado antena na dimensão evolução e como transformador, isto é,
em dimensões hiperespaciais. O cérebro é o substrato material como redutor involutivo.
destas forças superbiológicas, seu ponto de contato com o or- O outro problema afim é o de saber como estes órgãos atin-
ganismo animal; é o órgão por meio do qual o organismo psí- gem esse grau evolutivo. O funcionamento e o desenvolvimen-
quico entra em contato com o mundo sensório da matéria. O cé- to evolutivo de um órgão é dado pela corrente nervosa que o
rebro, pois, que foi meio construtivo do psiquismo, é igualmen- mantém e lhe excita as trocas, fornecendo-lhe a alimentação di-
te seu invólucro exterior, seu apoio material e funcional, e está nâmica. Quando do centro não descem mais essas correntes
para a consciência como o esqueleto está para o organismo hu- nervosas, o órgão se atrofia e, quando as correntes se intensifi-
mano que sustenta, mas de que não poderá jamais revelar nem cam, ao contrário, desenvolve-se.
o princípio nem o complexo funcionamento. Para compreender
o órgão cerebral, não basta, portanto, olhar seu exterior com
simplismo pueril, mas importa penetrar na orientação cinética
dos movimentos planetários dos átomos de suas células, obser-
var as deslocações que as vibrações ondulatórias do pensamen-
to operam nessas disposições e as mudanças que aí operam as
emanações noúricas quando chegam, por redução involutiva, a
esse plano de oscilação dinâmica. A anatomia tem que descer à
análise da natureza magnética dessas correntes imponderáveis
que emanam de todas as coisas e que impressionam esses cen-
tros, nos quais a sensibilização é máxima, porque se encontram
no ápice da evolução biológica.
Compreender-se-á, então, como o cérebro, órgão normal da
consciência, em certos momentos e casos, não a possa conter
completamente, e ela dele extravase, superando as limitações
do meio com uma percepção anímica direta, supersensória. E
tanto a consciência supera o meio, que sobrevive à sua destrui-
ção, com o grau de sensibilidade que é dado, como vimos, pelo
plano de evolução espiritual alcançado em vida, isto é, propor-
cional ao grau de desmaterialização realizado.
Leio, num tratado, que, mesmo com a destruição de um he-
misfério cerebral completo, a consciência também pode persis-
tir. Isso demonstra a loucura da teoria das localizações e como
é absurdo pretender estabelecer o lóbulo central da consciência.
O cérebro não pode ser reduzido à função mecânica de um ór-
gão muscular. Pense-se que ele funciona não somente movido
por correntes elétricas nervosas internas, mas também percutido
por correntes ondulatórias que percorrem o espaço sem suporte
material, ao influxo das quais ele também vibra. Essas correntes não são mais que impulsos elétricos que
Tudo isso expus para demonstrar que a localização da re- modificam a orientação dos íntimos movimentos do átomo, que
cepção noúrica na glândula pineal é relativa e aproximativa, é um organismo elétrico, alterando, assim, toda a química da
sendo melhor dizer que nela o fenômeno é preponderante, pois troca, que pode, assim, encaminhar-se para a atrofia ou para su-
todo o cérebro vibra em ressonância, todo o sistema nervoso, periores formas de evolução.
todo o organismo. A glândula pineal é o órgão central, o con- O centro irradiante destas correntes está além do sistema
densador variável da sintonização e, também podemos dizer, o nervoso e do cérebro, que são dois meios intermediários mais
órgão de amplificação da registração noúrica. Mas todo o or- baixos; é a própria consciência que está à frente da marcha evo-
ganismo colabora mais ou menos diretamente, em conexão, lutiva e que, à medida que se vai elevando, retira as correntes
funcionando como caixa ressonante em que as radiações se re- do funcionamento nos níveis inferiores, centralizando-as num
percutem e se harmonizam. funcionamento evolutivamente mais alto. Desse modo, no ins-
Na epífise, a percepção noúrica se realiza por uma diversa pirado, o organismo tende ao emagrecimento muscular, as fun-
orientação impressa pelas vibrações da corrente noúrica, degra- ções digestivas não mais admitem labores pesados, tudo tende à
dada na forma de onda, nos movimentos planetários internos atrofia do que é físico para alimentar o que é psíquico. É absur-
dos átomos das moléculas, lançadas no metabolismo celular da do procurar no intelectual e no gênio um cérebro mais volumo-
substância glandular pineal. O último termo dos fenômenos está so, quando ele se acha justamente no caminho da desmateriali-
sempre na cinética atômica. Todo o cérebro, porém, é sempre zação. Estamos nos antípodas da ciência. No caso do órgão ce-
percutido e percorrido por correntes psíquicas, que o mantêm rebral, a desmaterialização progressiva de funções por evolução
Pietro Ubaldi AS NOÚRES 43
é, como já disse, problema de cinética atômica, e é neste senti- do-me indiretamente, também com seres e coisas de planos in-
do que aqui falei de funções espirituais. feriores. Eu, porém, não os aceito senão como elementos ambi-
A glândula pineal é, pois, o órgão central da ressonância psí- entais secundários de harmonização; poderiam eles ser úteis pa-
quica e da sintonização noúrica. No meu caso, essa glândula é o ra a inspiração artística e musical, mas não para a conceptual.
órgão principal da ressonância superconceptual e, simultanea- Existe também nas profundezas de minha psique o poder seleti-
mente, de transformação de dimensão, isto é, o órgão em que se vo, sem o qual se daria, como em alguns velhos rádios, uma
forma, por deslocações cinéticas na intima estrutura dos átomos, confusão de harmonias. Há em minha glândula pineal um órgão
a redução da emanação noúrica em forma de pensamento. de seleção, de que me utilizo, não para captar, mas para afastar,
As ressonâncias, porém, não são todas iguais nos diversos após havê-las reconhecido, as ressonâncias que se apartam de
ultrafanos. Alguns deles têm uma extensa gama de possibilida- minha registração conceptual e que me soam como dissonân-
des de sintonização, embora se mantendo num nível mais bai- cias barônticas, como distúrbios de que procuro isolar-me.
xo; e, entre todas, existe muitas vezes a sintonização preferida,
que é aquela de maior afinidade. O meu caso, pelo contrário,
poder-se-ia chamar de sintonização fixa, de ressonância única,
porque, por instinto de simpatia, eu me ligo ao contato de má-
xima elevação que minha evolução me permite e rejeito todos
os outros. Pelo fenômeno da ressonância, que é unificação de
vibrações, estabelece-se como que uma fusão do meu eu mais
elevado com o centro emissor, uma reabsorção de minha perso-
nalidade na noúre, pela qual, naquele nível, não mais existe dis-
tinção entre o eu e o não-eu, e tudo se torna a mesma força, o
mesmo pensamento, a mesma corrente.

Se a glândula pineal ou epífise, órgão da sintonização noú-


rica, não pode sobressair radioscopicamente, pela transparência
dos tecidos aos raios, todavia zonas de maior sombra na foto-
grafia positiva e maior luz na negativa, na zona craniana central
(nas fotos I e II, um pouco acima do centro, entre os olhos; nas
fotos III e IV, no centro da caixa craniana) indicam a sede da
A matéria separa, mas, quando nos elevamos e nos aproxi- função noúrica, no ponto central da esfera cerebral e craniana,
mamos da unificação, a evolução nos conduz ao centro divino. que funciona como invólucro exterior, protetivo e ressonante.
Naquele plano, não mais faço distinção entre a entidade Se, ao centro dessas zonas de maior densidade, se localizam o
inspiradora, a noúre captada e o meu eu mais profundo. É na- condensador variável da sintonização e também o órgão de am-
tural que o mais absorva o menos, que a pobre chamazinha de plificação da registração noúrica, a quase-esfera de matéria ce-
meu espírito se confunda no incêndio e que eu não mais saiba rebral, delineada pela quase-esférica caixa craniana, como teci-
dizer: “eu”. A distinção renasce, rápida, apenas quando, na re- do especializado, exerce sua função de caixa harmônica de res-
dução de dimensão, torno a descer, involutivamente, até minha sonância e segundo órgão de amplificação. A estrutura geomé-
personalidade humana. O meu caso é, pois, de ultrafania espe- trica desse primeiro ambiente fechado é apropriada à potencia-
cializada na captação conceptual, e esta é verdadeiramente a lização da onda transmissora e da onda captada, o que se verifi-
marca das minhas registrações. ca na emanação e na recepção noúricas. Sobretudo neste último
Tendo à ligação máxima porque esta me dá o conceito má- caso, da registração de emanações provenientes de dimensões
ximo. Isso não impede que a ressonância possa formar-se, ferin- superconceptuais, quando a corrente atinge por redução dimen-
44 AS NOÚRES Pietro Ubaldi
sional a fase dinâmica, assumindo a forma de onda que se cesso da racionalidade consciente e reflexa é como que suspen-
transmite por pulsações esféricas, então a caixa craniana, fe- so, para que, por construções superiores, um mecanismo mais
chada em si, multiplica e amplifica, por refração interna (no íntimo e complexo seja posto em movimento numa zona mais
ambiente cerebral particularmente apto a entrar em vibração, se profunda de nosso eu, a funcionar com métodos supervolitivos
excitado pela ação de tais ondas psíquicas), aquelas ondas, que, e super-racionais.
justamente na zona cerebral, realizam a última fase de sua re- Os inspirados sempre tiveram uma voz; os poetas, as musas;
dução dimensional, já iniciada antes, fora do espaço e depois no os musicistas, a inspiração.
espaço de emanação psíquica do sujeito. Assim transformadas e Wagner dizia no seu diário de vida veneziana, a propósito
potencializadas no cérebro, em que, por absorção, se revestem de uma passagem do seu Tristão: “Aquela passagem me apare-
de energia nervosa, ribombando, finalmente fechadas na caixa ceu clara; transcrevi-a rapidamente, como se de há muito já a
craniana, isolante e internamente quase-esférica, as ondas po- soubesse de memória”.
dem impressionar muito mais energicamente a epífise noúrica. Perosi diz que o compor é para ele uma necessidade impul-
Na radioscopia lateral, é visível, como em seção, à margem, siva do temperamento, que tem necessidade de produzir.
a caixa óssea, que funciona como invólucro isolante do ambien- Chopin compunha numa espécie de êxtase.
te amplificador cerebral. Esta massa se abre para uma zona de Na realidade, artistas e gênios são ultrafanos, registradores
maior transparência e menor densidade, que, na positiva, é uma de noúres.
zona de maior luminosidade, e isso na direção do alto, que é a É um fato que todas as mentes, sejam de artistas, sábios ou
direção das correntes noúricas. E esta seria, por razões de dire- santos, cada um em seu campo, todas as vezes que verdadeira-
ção e de menor resistência, como também de equilíbrio vibrató- mente se projetaram na direção do alto, para arrancar uma orla
rio, a zona normal de penetração noúrica, a porta aberta através do grande mistério das coisas – verdadeiros tentáculos que a
da qual a epífise pode comunicar-se externamente com as ondas evolução lança, antecipadamente, de encontro ao infinito – usa-
que, na fase dimensional mais próxima, são espaciais. E esta não ram esses meios, que escapam à racionalidade comum. Esta,
seria apenas a zona de penetração, mas também a janela aberta comparativamente, aparece como coisa vulgar, inferior, conde-
da projeção noúrica, o ponto em que aflora e se projeta exteri- nada por natureza a jamais saber elevar-se acima do plano em
ormente a irradiação espiritual. Quando, através desse processo que se move, no infinito trabalho de análise, sem esperança de
e dessa técnica, a emanação atinge o sujeito e penetra em sua síntese. É questão de grau, porém a inspiração artística se es-
caixa craniana, a corrente noúrica, degradada em forma de onda, fuma na mediunidade, como no caso de Rosvita Bitterlich, a
está apta a imprimir e imprime uma diferente orientação aos menina de Innsbruck, cujas telas, tanto pelo conceito como pela
movimentos planetários dos átomos das moléculas das células técnica, assombram os pintores e confundem os psiquiatras.
cerebrais. Então, a pura excitação noúrica se materializa ainda Existe outro fato, que é a fundamental unidade interior da
mais, revestindo-se de energia psíquica e nervosa e tornando-se inspiração, idêntica para todos em suas origens e que se espe-
praticamente perceptível, inclusive por instrumentos ou como daça e modula em diversas formas somente quando desce ao
sensação, e, então, atingida sua última fase de transformação, é mundo exterior, pelos caminhos oferecidos pela capacidade do
suficientemente densa, podendo por isso impressionar a epífise, sujeito. Isso corresponde àquela unidade de princípio de que já
que, arrastando consigo, em sua sintonização, o cérebro e o sis- falei e a que se tende por ascensão evolutiva.
tema nervoso, dirige a função mecânica muscular da escrita. Desse modo, a ideia abstrata do bem pode tornar-se músi-
ca, poesia ou pintura, renúncia, martírio ou ação heroica, con-
VI. CONCLUSÕES forme o ambiente humano em que se materializa. Cada reali-
zação concreta é um processo involutivo em que a unidade se
Esse mundo em que nos temos agitado até agora não é um ramifica no particular. Por isso cores e sons e as várias sensa-
mundo fantástico. Num campo muito menos elevado, a rabdo- ções humanas se equivalem num plano mais alto e não passam
mancia, renascente hoje com o nome de radiestesia, demonstra de diferentes vestiduras do mesmo conceito. Esse conceito foi
que, se o sensitivo que passa sobre um manancial de água ou percebido por Franz Liszt quando, de Roma, escreve ao seu
uma jazida mineral sente algo que pode especificar com grande amigo Berlioz, dizendo-lhe como sentia um secreto parentesco
exatidão, isso quer dizer que eles emitem qualquer coisa, algu- entre Rafael e Mozart, entre Miguel Ângelo e Beethoven, entre
ma irradiação de ondas eletromagnéticas que o sistema nervoso Ticiano e Rossini. Poder-se-ia afirmar que na profundeza da
humano, sensibilizado, percebe. Os minerais, portanto, também consciência se tocam os planos superiores, onde a ideia, antes
emitem correntes, e no seio do universo subsiste toda uma de descer e diferenciar-se na forma concreta, é abstrata e existe
emanação imaterial. E, se emitem correntes os minerais, tam- em tipos simples e únicos para muitos grupos de manifestações
bém as produzem as plantas, e uma paisagem será uma sinfonia diversas, e que, quanto mais subimos para o centro, tanto mais
de vibrações que o musicista poderá transformar em harmonias a ideia originária se faz abstrata e única, até identificar-se na-
musicais. Todos os seres transmitem correntes, e, entre todos, a quele monismo absoluto, que é Deus. Assim, a arte e a fé, a ci-
psique humana, que é a central mais dinâmica. ência e a ação não passam de diferenciações produzidas pela
O problema das noúres adquire, assim, uma importância descida daquele único princípio.
muito mais vasta que a mediúnica. O problema das noúres é o Estes elevados problemas de psicologia têm também uma
problema da inspiração artística, que só elas podem explicar; é grande importância prática, porque sua compreensão e solução
o problema do desenvolvimento psíquico da humanidade, dos revolucionam todos os rumos intelectuais e científicos de nos-
sistemas de aquisição cultural, dos novos métodos de pesquisa sos tempos. Revolucionam os métodos de pesquisa científica,
necessários ao ulterior progresso da ciência, métodos de con- tanto quanto os sistemas de aquisição cultural.
cepção que deem novos rumos à filosofia e a todo o cognoscí- Estou persuadido de que o saber humano, em todos os
vel humano, com repercussões na direção da vida social, de campos, não mais pode avançar com os velhos métodos e que
modo a tornar possíveis as bases de uma nova civilização. é iminente e necessária uma mudança de rota. É evidente que a
Observemos estas últimas consequências que enunciamos. verdade, que tão laboriosamente se acomete, já existe íntegra,
É um fato verificado, para os que estão habituados à criação completa, funcionando desde toda a eternidade. O universo é,
intelectual e artística, que esta não se realiza, verdadeiramente, não de agora, um organismo perfeito, não dependendo, para is-
pelas vias da consciência quotidiana normal, que tão útil nos é so, da compreensão humana. Possui ele sua sabedoria e suas
para as necessidades e relações da vida. Parece quase que o pro- leis e sabe aplicá-las com consciência e equilíbrio. Não se trata,
Pietro Ubaldi AS NOÚRES 45
pois, de criar coisa alguma, mas de saber enxergar o que já sopro novo tem que dinamizar tudo no espírito, pois, de outro
existe, de atingir conceitos que se distanciam de nosso relativo. modo, a vida se apagará. E deve ser uma espiritualidade não
É absurdo continuarmos a observar eterna e exteriormente os vaga, sentimental, enfermiça, porém viril, operante, científica,
fenômenos, multiplicando observações e classificações, e per- volitiva, consciente do titânico trabalho construtivo que a es-
manecermos esmagados sob a mole divergente do particular. pera e que ela tomará para si. A luta pelo espírito será a luta
Importa aperfeiçoar e potencializar esse instrumento de pes- mais digna da vida.
quisa que é a consciência humana, se quisermos algo que pro- Ainda outras consequências de índole prática se pode extrair
duza um resultado prático. desses conceitos. Frequentemente tenho perguntado a mim
Para mim, o método racional analítico não passa de uma re- mesmo: Sabemos pensar e aprender? Não encontraremos nessas
dução involutiva do método intuitivo sintético. A evolução psí- profundezas psicológicas novos métodos mais fáceis e mais
quica do homem impõe a ascensão a este método mais profun- produtivos em favor da aquisição cultural?
do. Estou convencido de que a solução dos problemas não se Ao estudar e aprender, atemo-nos aos sistemas mais empíri-
acha no exterior sensório, mas no interior intuitivo, e só pode cos, como ler, repetir, memorizar, sem percebermos a essência
ser alcançada se nos projetarmos dentro de nós mesmos, com a do pensamento e dos fenômenos psíquicos nem de que comple-
introspecção, e não fora de nós, com a observação. xa entrançadura de vibrações e de ressonâncias sejam eles a sín-
Sinto que os princípios não se podem encontrar senão por tese, sem nos preocuparmos de quais interferências de ondas e
visão, por uma transformação de consciência que se identifique de quantas captações noúricas a mente seja suscetível. Não ati-
com o fenômeno, por uma transferência do eu a um novo plano ramos, talvez ao acaso, diante da mente um alimento para que
conceptual; enquanto se permanecer na dimensão atual da ra- ela o assimile, não se sabe como?
zão, certos problemas permanecerão insolúveis. É fato compro- Reconheço bem quanto a psique humana, na massa comum,
vado que as mais elevadas verdades, as sínteses conceptuais, é imatura para estas sutis operações de pensamento, e minha
sempre se descobrem a golpes de gênio, isto é, de revelação por audácia está justamente em pensar na normalização de tais mé-
inspiração, e não por análise objetiva e racional. Esta não sabe todos. Entretanto estou certo de que o homem se acha numa
tomar a seu cargo senão o desenvolvimento metódico de um grande curva de seu caminho evolutivo, que a eterna criação
princípio, quando este e sua orientação já foram apresentados. biológica está operando atualmente no nível psíquico, e que
A audácia de minhas conclusões está em propor à ciência o novos métodos se impõem pela lei do meio mínimo. Por que o
método de pesquisa por inspiração noúrica como método nor- método intuitivo deve limitar-se apenas às formas artísticas e
mal, a fim de que o método da intuição complete o dedutivo poéticas? E por que não poderá existir uma nova e normal ins-
experimental; estou convencido de que os conceitos já existem piração filosófica, matemática, social, moral, científica? Por
em forma de emanações radiantes, de correntes em expansão, e
que não reconhecermos que a sabedoria não se encontra nos li-
que basta captá-las; sinto que o problema do conhecimento só é
vros, farrapos do passado, mortas cristalizações do pensamento,
solúvel com este novo método de sintonização noúrica que te-
mas sim nas vivas correntes conceptuais em que palpita e em
nho vivido, aplicado e aqui amplamente descrito. Certamente
que se sustém todo o universo? E que, para saber, esse grande
que é um método delicado e complexo. É necessário antes
livro do infinito é o único que importa ser lido? E, para a for-
compreendê-lo para se saber usá-lo. Exige uma delicadeza psi-
mação cultural, por que às longas e exaustivas vias do estudo
cológica para que não se maltrate nem prejudique o delicadís-
não se preferirão as da purificação da consciência, da evolução,
simo instrumento de pesquisa que é a psique do ultrafano. Será
que a conduz à dimensão superconceptual, onde a visão da ver-
preciso tempo; deverão ser superadas as resistências opostas
dade é espontânea? No Alto, a sabedoria é gratuita, e, através
pelo misoneísmo do passado; será laborioso reformar a psico-
de sua progressiva espiritualização, o homem adquirirá, um dia,
logia da ciência, mas não existe outro caminho para avançar.
o conhecimento por imersão em estados vibratórios e por expo-
A própria evolução tem de levar, inevitavelmente, à norma-
lização da intuição. sição da psique às correntes noúricas.
O homem, chegado a uma determinada fase de sua evolução Por que, ao invés de um esforço mnemônico para acumular
psíquica, tem de atingir, normal e naturalmente, o conhecimen- noções, a formação cultural não deverá ser um processo de sen-
to pelas vias da captação noúrica. sibilização da psique, que lhe permita a captação das ondas-
Os tempos já sentem, confusamente, essas iminentes revo- pensamento por sintonização?
luções que abalarão em suas bases o pensamento humano; já se Tenho a sensação de um erro fundamental em todo o siste-
pronunciam vagas palavras que exprimem tentativas e tendên- ma cultural moderno, consistente na descentralização do co-
cias. Importa indicar exatamente, aprofundar, falar de coisas re- nhecimento no particular, o que conduz ao desnorteamento na
ais e casos vividos, já haver aplicado o método e realizado os especialização; tenho a sensação de que sob o peso esmagador
resultados. Os inspirados se têm mantido até agora, comumen- de uma série enorme de noções, ao invés da centralização con-
te, no campo dos princípios gerais, nos termos vagos do senti- ceptual, que, nos princípios, nos fornece a chave de todos os
mento, nas elevadas, mas imprecisas, aspirações do misticismo problemas, se atinge a dispersão. O saber não é uma congérie
e, permanecendo na linha da inspiração artística, não fizeram da de conhecimentos; é uma superfície que não se domina perma-
intuição uma verdadeira técnica de pensamento, metodicamente necendo no chão, percorrendo-a em todos os sentidos, mas so-
dirigida na direção da pesquisa científica. Importava chegar a mente elevando-se à altura de uma dimensão superior. A ver-
uma revelação científica exata, dando à ultrafania um conteúdo dadeira cultura é algo de qualitativamente diferente da erudi-
vasto e concreto, que dela fizesse um instrumento portador de ção, é um sentido. Para o registro e armazenagem da erudição
contribuições tangíveis à ciência. não bastam as bibliotecas? A psique tem funções diretivas a
Nesta efervescência dos tempos, ansiosos de novas direções, cumprir mais importantes que as registrações mecânicas, seme-
foi lançada uma corrente de ideias que não poderá ser detida. lhantes a pesada carga para a inteligência, correspondente a tra-
Achará ela ressonâncias que a amplificarão. Repercutirá nas balho material de caráter inferior.
consciências que, fazendo-a suas, a levarão a grandes distâncias. Na verdade, hoje se começa a pensar, mas como? A produ-
O futuro da humanidade está biologicamente em sua espiri- ção é caótica, paleontológica, estrondeante; não é um concerto.
tualização. Ou espiritualizar-se ou morrer. Tenta-se, mas não se domina. A mole cultural é embaraçosa,
O materialismo aprisionou e comprimiu o espírito na ma- não auxiliando, antes dificultando a síntese; o saber é exterior e
téria, talvez somente para que ele pudesse melhor explodir. Um desorientado e não destila na transparência que deixa ver os prin-
46 AS NOÚRES Pietro Ubaldi
cípios. É raro o caso da intuição que se desembaraça do passa- ao desenvolvimento gradual, na Terra, do pensamento de Cris-
do, deixando de repetir velhas coisas que existem em todos os to, que, como vimos, é uma contínua emanação. A Síntese torna
livros e se lança, virgem, pelas vias da criação. A orientação a trazer ao seio da vida o Evangelho, que hoje parece constituir
materialista do século mecanizou também o saber, criou um ti- suprema utopia, unido à grande inimiga – a ciência – como um
po de sabedoria utilitária acessível a todos, uma vestimenta que novo passo no caminho milenário que conduz à realização, na
todos podem usar; a cultura, porém, é um impulso interior, cujo Terra, do Reino dos Céus.
segredo está na força da alma. Séria afirmação! Ondulou vagamente na profundeza de mi-
É necessário impelir o atual desfraldar de competições para nha consciência, através de todo este escrito, e somente agora,
uma direção diferente, importa deslocar o centro psicológico quando tenho de concluí-lo, encontrou um caminho para explo-
da vida. Atualmente o pensamento é um esforço, porque tem dir em sua plenitude. Eu mesmo não havia avaliado a profunda
de emergir da cegueira da matéria; porém, em fases mais altas significação desta ou daquela sentença por mim proferida, e es-
de sensibilização, é espontâneo, jubiloso, repousante. As at- te conceito só agora o compreendo, ao investir-me ele como
mosferas mais rarefeitas da evolução são construídas de pen- uma revelação. A forma da mediunidade possui uma gradação
samento; basta atingi-las. evolutiva: involve na direção da forma física e evolve no senti-
A escola deveria ser uma palestra para a formação de cons- do da forma inspirativa.
ciências, nunca de fatigados carregadores de conhecimentos, Agora compreendo o significado da dor, da purificação, da
oprimidos pelo trabalho aquisitivo de noções. ascensão moral, colocadas no caminho da evolução de minha
A sufocante supercultura moderna deve ser aligeirada em mediunidade, único caminho que me pode permitir alcançar es-
verdades mais simples e sintéticas. Estas podem parecer coisas tas noúres mais elevadas, que são minha meta. Agora compre-
longínquas, mas o são talvez menos do que se acredita. A vida endo porque, no conjunto dos grandes inspirados, escolhi ins-
caminha e não pode parar. A evolução se dirigirá necessaria- tintivamente, por simpatia, os inspirados da revelação cristã,
mente à normalização de todas estas audácias; a ciência não apartando-me dos outros, embora também grandes. Assim,
poderá permanecer sempre tão limitadamente utilitária e sentirá compreendo agora que me movo na linha da inspiração cristã e
necessidade de completar-se. E o mundo explodirá nesses psi- reconheço com que imensa noúre me acho em sintonia. Enten-
quismos superiores. O pensamento superará seu hodierno perí- do porque, ao traçar a história dos grandes inspirados, anterio-
odo paleontológico e será a potência do homem do futuro, pois res ou posteriores a Cristo, sempre os vi encaminhando-se para
o mundo tem vivido sempre e sempre viverá de superações. Sua figura, central no mundo, e eles me apareceram natural-
Já agora tudo disse a respeito do meu caso. Em A Grande mente unidos em corrente na linha do lógico desenvolvimento
Síntese, descrevi as noúres como as senti; aqui, descrevo as mi- desta grande noúre, em cuja esteira também se arrasta minha
nhas sensações ao senti-las. Observamos o fenômeno inspirati- inspiração. Agora compreendo todo o significado de A Grande
vo em muitos outros casos, separamo-lo tecnicamente e agora Síntese e como existe, na verdade, essa grande noúre cristã que,
concluímos com as consequências práticas. Agora se pode de Moisés até hoje, jamais silenciou.
compreender o que é A Grande Síntese. Exteriormente, é uma Com tudo isso, quero indicar apenas a direção de proveni-
nova filosofia da ciência, com conclusões ético-sociais, uma ência da minha fonte noúrica, que, localizando-se no Alto, está
demonstração racional de problemas científicos e éticos até próxima daquela unificação em que tudo se funde em Deus.
agora ainda não resolvidos e demonstrados. É uma reconquista Não é Ele a fonte de todas as coisas? Que há de extraordinário
de todo o disperso conhecimento humano, para levá-lo à unida- em uma inspiração descer do Alto? Por que essa grande potên-
de. E, por esta sua amplitude de visão conceptual, que reúne o cia central deveria estar ausente, distante da Terra? Não existe
pensamento religioso e o científico, a gênese mosaica e o evo- lá para erguer continuamente as criaturas no caminho das as-
lucionismo darwiniano, já expresso pela esfinge egípcia, reli- censões do espírito? Falo do Cristo cósmico, imensamente mai-
gando-se assim a todas as revelações e atingindo a verdade úni- or que o Cristo histórico. Com isso, repito, somente indico a di-
ca, é realmente a obra da unificação. Unificação mais profunda reção, porque, como já disse, a luz, filtrada através de potências
do pensamento humano, mais completa fusão de ciência e fé intermediárias e noúres de redução, não sei quanto teve de
não se poderia imaginar. A evolução biológica tem seu prosse- ofuscar-se para chegar até mim, não obstante minha tensão as-
guimento na ascensão espiritual das religiões, ao longo de uma censional, e isso por causa da opacidade de minha mediação; na
única linha. A Grande Síntese realizou a audaciosa obra de fa- registração, certamente o pensamento original assinalará traços
zer a ciência flanquear a revelação na mesma linha de desen- de meu cansaço e de minha inferioridade humana. Nada disso é
volvimento. É também o fato completo a demonstrar a prática prodigioso; tudo é lógico, normal.
aplicabilidade do método da intuição, que nela oferece seus O martírio era um meio feroz, necessário para, em tempos
produtos concretos e úteis. É uma nova pedra do edifício inspi- ferozes, fazer compreender a verdade a uma humanidade feroz.
rativo, que prova a realidade da captação noúrica e, mais longe, Já não é ele hoje necessário, porque se entendeu a psicologia
da evolução psíquica em vários planos de consciência. de reação que as perseguições geram e é, por isso, considerado
A Grande Síntese, porém, é algo mais. Possui um seu aspec- ato de má política. Atualmente, importa trabalhar não com o
to interior e é o documento que comprova a existência real do sangue, mas com o pensamento.
supersensório, atingido através da inspiração. Poderá tudo isso O momento histórico justifica essa descida de pensamento
parecer exaltação, entretanto tudo está preso em cadeias de ló- dos planos superiores, e já vimos que a história é uma consci-
gica. As pedras são inertes, o espírito é vivo e audacioso, e eu o ência viva que lança forças próprias e produz os acontecimen-
prendi num cárcere de racionalidade, a fim de que esta ofere- tos necessários à sua evolução. O momento histórico é grave.
cesse a garantia da seriedade. Há em seus eventos um preparar-se de maturações tão solenes
No seu aspecto interior e profundo, A Grande Síntese é uma como jamais houve em tempo algum. Encontramo-nos numa
revelação. Num mundo em que todo ser é constrangido por uma grande curva da história do mundo, e todos o pressentem. A
lei feroz a reclamar da carne do semelhante o seu próprio ali- humanidade está lançando as bases do novo milênio, está jo-
mento, esta é uma voz que tem um timbre diferente. É uma re- gando a carta de sua salvação ou de sua ruína. Há hoje aquela
velação atingida conscientemente, através de métodos precisos, mesma plenitude da civilização romana, que se precipitou nas
de que apresentei a técnica. Sua vestimenta científica é exterior invasões bárbaras, a mesma plenitude da realeza da França,
e cobre, realmente, uma substância evangélica que une a Síntese que se precipitou na Revolução.
Pietro Ubaldi AS NOÚRES 47
Importa dar novamente à Europa a consciência da unidade Com o presente volume, não apenas cumpri um novo dever,
de civilização e de destino; depois da conciliação política, na mas este trabalho de reflexão foi indispensável, sobretudo para
Itália, entre o Estado e a Igreja, urge atualmente esta maior mim mesmo, para minha própria compreensão.
conciliação espiritual, no mundo, entre a ciência e a fé; é neces- Fiz, neste escrito, afirmações graves; elas me empenham.
sário encontrar em Deus a unidade fundamental da verdade e Destruí as pontes à minha retaguarda: não mais me é possível
do pensamento. Existe, porém, nas almas o desejo da verdade, e retirar-me. Este também era um dever meu.
a cisão entre ciência e fé é um caso de involução. A evolução, Que sucederá agora? Aonde me conduzirá a evolução de
entretanto, é a grande lei da vida, é irresistível lei de unificação. minha mediunidade? Que novos conceitos registrará minha
As civilizações se cansam; só o espírito pode dar-lhes a for- captação noúrica? Que nova maturidade espiritual e sensibiliza-
ça capaz de rejuvenescê-las. E o espírito está no Alto, na dire- ção perceptiva me trará o futuro? Que sucede nas profundezas
ção de Cristo, Que está presente, sabe e vela. de meu destino? De qual meta, na eternidade, me aproximo eu?
Compreendido o mecanismo interior da vida e da sua evo- Espero a maturação de meus estados interiores e, através de-
lução, tudo isso é lógico. É lógica também esta minha sinceri- la, o contato com novas correntes de pensamento que revelem,
dade. Agora se pode entender como este segundo volume é primeiramente a mim mesmo, qual seja a direção que deve as-
necessário para esclarecer, no mais íntimo, A Grande Síntese, sumir meu trabalho. Sei que a fonte de pensamento é inesgotá-
que, de outro modo, poderia permanecer ininteligível, mal in- vel. Entretanto, seja o que for que possa acontecer, de uma coisa
terpretada em sua linguagem, por vezes audaz e apocalíptica, estou certo: o passado não morre; o passado é a base do futuro,
a ponto de poder parecer ironia se aceita como produto de mi- no qual sempre ressurge e, por isso, jamais foi vivido em vão.
nha consciência normal.
Eu mesmo deveria e só eu poderia explicar certas coisas. FIM
Através desse dobrar-se sobre mim mesmo, tinha de chegar a
compreendê-las.
O MISSIONÁRIO
Vida e Obra de Na primeira semana de setembro de 1931, depois da grande decisão fran-
ciscana, Cristo novamente lhe apareceu e, desta vez, acompanhado de São

Pietro Ubaldi Francisco de Assis. Um à direita e outro à esquerda, fizeram companhia a Pie-
tro Ubaldi durante vinte minutos, em sua caminhada matinal, na estrada de
Colle Umberto. Estava, portanto, confirmada sua posição.
Em 25 de dezembro de 1931, chegou-lhe de improviso a primeira mensa-
(Sinopse) gem, a Mensagem de Natal. Por intuição ele sentiu: estava aí o início de sua
missão. Outras Mensagens surgiram em novas oportunidades. Todas com a
mesma linguagem e conteúdo divino.
O HOMEM No verão de 1932, começou a escrever A Grande Síntese, a qual só termi-
nou em 23 de agosto de 1935, às 23h00min horas (local). Esse livro, com cem
Pietro Ubaldi, filho de Sante Ubaldi e Lavínia Alleori Ubaldi, nasceu em capítulos, escrito em quatro verões sucessivos, foi traduzido para vários idio-
18 de agosto de 1886, às 20:30 horas (local). Ele escolheu os pais e a cidade mas. Somente no Brasil, já alcançou quinze edições. Grandes escritores do
onde iria nascer, Foligno, Província de Perúgia (capital da Úmbria). Foligno fi- mundo inteiro opinaram favoravelmente sobre A Grande Síntese. Ainda outros
ca situada a 18 km de Assis, cidade natal de São Francisco de Assis. Até hoje, compêndios, verdadeiros mananciais de sabedoria cristã, surgiram nos anos se-
as cidades franciscanas guardam o mesmo misticismo legado à Terra pelo guintes, completando os dez volumes escritos na Itália:
grande poverelo de Assis, que viveu para Cristo, renunciando os bens materiais 01) Grandes Mensagens
e os prazeres deste mundo. 02) A Grande Síntese - Síntese e Solução dos Problemas da Ciência e do Espírito
Pietro Ubaldi sentiu desde a sua infância uma poderosa inclinação pelo
03) As Noúres - Técnica e Recepção das Correntes de Pensamento
franciscanismo e pela Boa Nova de Cristo. Não foi compreendido, nem poderia
sê-lo, porque seus pais viviam felizes com a riqueza e com o conforto proporci- 04) Ascese Mística
onado por ela. A Sra. Lavínia era descendente da nobreza italiana, única herdei- 05) História de Um Homem
ra do título e de uma enorme fortuna, inclusive do Palácio Alleori Ubaldi. As- 06) Fragmentos de Pensamento e de Paixão
sim, Pietro Alleori Ubaldi foi educado com os rigores de uma vida palaciana. 07) A Nova Civilização do Terceiro Milênio
Não pode ser fácil a um legítimo franciscano viver num palácio. Naturalmen- 08) Problemas do Futuro
te, ele sentiu-se deslocado naquele ambiente, expatriado de seu mundo espiritual. 09) Ascensões Humanas
A disciplina no palácio, ele aceitou-a facilmente. Todos deveriam seguir a orien- 10) Deus e Universo
tação dos pais e obedecer-lhes em tudo, até na religião. Tinham de ser católicos
Com este último livro, Pietro Ubaldi completou sua visão teológica, além
praticantes dos atos religiosos, realizados na capela da Imaculada Conceição, no
de profundos ensinamentos no campo da ciência e da filosofia. A Grande Sínte-
interior do palácio. Pietro Ubaldi foi sempre obediente aos pais, aos professores, à
se e Deus e Universo formam um tratado teológico completo, que se encontra
família e, em sua vida missionária, a Cristo. Nem todas as obrigações palacianas
ampliado, esclarecido mais pormenorizadamente, em outros volumes escritos
lhe agradavam, mas ele as cumpriu até à sua total libertação. A primeira liberdade
na Itália e no Brasil, a segunda pátria de Ubaldi.
se deu aos cinco anos, quando solicitou de sua mãe que o mandasse à escola, e
O Brasil é a terra escolhida para ser o berço espiritual da nova civiliza-
aquela bondosa senhora atendeu o pedido do filho. A segunda liberdade, verdadei-
ção do Terceiro Milênio. Aqui vivem diferentes povos, irmanados, indepen-
ro desabrochamento espiritual, aconteceu no ginásio, ao ouvir do professor de ci-
dentes de raças ou religiões que professem. Ora, Pietro Ubaldi exerceu um
ência a palavra “evolução”. Outra grande liberdade para o seu espírito foi com a
ministério imparcial e universal, e nenhum país seria tão adaptado à sua mis-
leitura de livros sobre a imortalidade da alma e reencarnação, tornando-se reen-
são quanto a nossa pátria. Por isso o destino quis trazê-lo para cá e aqui com-
carnacionista aos vinte e seis anos. Daí por diante, os dois mundos, material e es-
pletar sua tarefa missionária.
piritual, começaram a fundir-se num só. A vida na Terra não poderia ter outra fi-
Nesta terra do Cruzeiro do Sul, ele esteve em 1951 e realizou dezenas de
nalidade, além daquelas de servir a Cristo e ser útil aos homens.
conferências de Norte a Sul, de Leste a Oeste. Em oito de dezembro do ano se-
Pietro Ubaldi formou-se em Direito (profissão escolhida pelos pais, mas ja-
guinte, desembarcaram, no porto de Santos, Pietro Ubaldi acompanhado da es-
mais exercida por ele) e Música (oferecimento, também, de seus genitores), fez-se
posa, filha e duas netas (Maria Antonieta e Maria Adelaide), atendendo a um
poliglota, autodidata, falando fluentemente inglês, francês, alemão, espanhol, por-
convite de amigos de São Paulo para vir morar neste imenso país. É oportuno
tuguês e conhecendo bem o latim; mergulhou nas diferentes correntes filosóficas e
lembrar que Ubaldi renunciou aos bens materiais, mas não aos deveres para
religiosas, destacando-se como um grande pensador cristão em pleno Século XX.
com a família, que se tornou pobre porque o administrador, primo de sua espo-
Ele era um homem de uma cultura invejável, o que muito lhe facilitou o cumpri-
sa, dilapidou toda a riqueza entregue a ele para gerencia-la.
mento da missão. A sua tese de formatura na Universidade de Roma foi sobre A
Em 1953, Pietro Ubaldi retornou à sua missão apostolar, continuou a re-
Emigração Transatlântica, Especialmente para o Brasil, muito elogiada pela ban-
cepção dos livros e recebeu a última Mensagem, Mensagem da Nova Era, em
ca examinadora e publicada num volume de 266 páginas pela Editora Ermano
São Vicente, no edifício “Iguaçu”, na Av. Manoel de Nóbrega, 686 – apto. 92.
Loescher Cia. Logo após a defesa dessa tese, o Sr. Sante Ubaldi lhe deu como
Dois anos depois, transferiu-se com a família para o Edifício “Nova Era” (coin-
prêmio uma viagem aos Estados Unidos, durante seis meses.
cidência, nada tem haver com a Mensagem escrita no edifício anterior), Praça
Pietro Ubaldi casou-se com vinte e cinco anos, a conselho dos pais, que es-
22 de janeiro, 531 – apto. 90. Em seu quarto, naquele apartamento, ele comple-
colheram para ele uma jovem rica e bonita, possuidora de muitas virtudes e fina
tou a sua missão. Escreveu em São Vicente a segunda parte da Obra, chamada
educação. Como recompensa pela aceitação da escolha, seu pai transferiu para
brasileira, porque escrita no Brasil, composta por:
o casal um patrimônio igual àquele trazido pela Senhora Maria Antonieta Sol-
11 ) Profecias
fanelli Ubaldi. Este era, agora, o nome da jovem esposa. O casamento não esta-
va nos planos de Ubaldi, somente justificável porque fazia parte de seu destino. 12 ) Comentários
Ele girava em torno de outros objetivos: o Evangelho e os ideais franciscanos. 13 ) Problemas Atuais
Mesmo assim, do casal Maria Antonieta e Pietro Ubaldi nasceram três filhos: 14) O Sistema - Gênese e Estrutura do Universo
Vicenzina (desencarnada aos dois anos de idade, em 1919), Franco (morto em 15) A Grande Batalha
1942, na Segunda Guerra Mundial) e Agnese (falecida em S. Paulo - 1975). 16 ) Evolução e Evangelho
Aos poucos, Pietro Ubaldi foi abandonando a riqueza, deixando-a por con- 17) A Lei de Deus
ta do administrador de confiança da família. Após dezesseis anos de enlace ma- 18) A Técnica Funcional da Lei de Deus
trimonial, em 1927, por ocasião da desencarnação de seu pai, ele fez o voto de
19 ) Queda e Salvação
pobreza, transferindo à família a parte dos bens que lhe pertencia. Aprovando
aquele gesto de amor ao Evangelho, Cristo lhe apareceu. Isso para ele foi a 20 ) Princípios de Uma Nova Ética
maior confirmação à atitude tão acertada. Em 1931, com 45 anos, Pietro Ubaldi 21) A Descida dos Ideais
assumiu uma nova postura, estarrecedora para seus familiares: a renúncia fran- 22 ) Um Destino Seguindo Cristo
ciscana. Daquele ano em diante, iria viver com o suor do seu rosto e renunciava 23 ) Pensamentos
todo o conforto proporcionado pela família e pela riqueza material existente. 24) Cristo
Fez concurso para professor de inglês, foi aprovado e nomeado para o Liceu São Vicente (SP), célula mater. do Brasil, foi a terceira cidade natal de Pie-
Tomaso Campailla, em Módica, Sicilia – região situada no extremo sul da Itália tro Ubaldi. Aquela cidade praiana tem um longo passado na história de nossa
– onde trabalhou somente um ano letivo. Em 1932 fez outro concurso e foi pátria, desde José de Anchieta e Manoel da Nóbrega até o autor de A Grande
transferido para a Escola Média Estadual Otaviano Nelli, em Gúbio, ao norte da Síntese, que viveu ali o seu último período de vinte anos. Pietro Ubaldi, o Men-
Itália, mais próximo da família. Nessa urbe, também franciscana, ele trabalhou sageiro de Cristo, previu o dia e o ano do término de sua Obra, Natal de 1971,
durante vinte anos e fez dela a sua segunda cidade natal, vivendo num quarto com dezesseis anos de antecedência. Ainda profetizou que sua morte acontece-
humilde de uma casa pequena e pobre (pensão do casal Norina-Alfredo Pagani ria logo depois dessa data. Tudo confirmado. Ele desencarnou no hospital São
– Rua del Flurne, 4), situada na encosta da montanha. José, quarto No 5, às 00h30min horas, em 29 de fevereiro de 1972. Saber quan-
A vida de Pietro teve quatro períodos distintos (v. livro Profecias – “Gêne- do vai morrer e esperar com alegria a chegada da irmã morte, é privilégio de
se da II Obra”): dos 5 aos 25 anos  formação; 25 aos 45 anos  maturação in- poucos... O arauto da nova civilização do espírito foi um homem privilegiado.
terior, espiritual, na dor; dos 45 aos 65 anos  Obra Italiana (produção concep- A leitura das obras de Pietro Ubaldi descortina outros horizontes para uma
tual); dos 65 aos 85 anos  Obra Brasileira (realização concreta da missão). nova concepção de vida.