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Psicose e embriaguez. Psicopatologia fenomenológica da temporalidade

Book · April 2018

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1 author:

Guilherme Messas
Santa Casa Medicine School, São Paulo
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Psicose e Embriaguez
Guilherme Messas

Psicose e Embriaguez
Psicopatologia fenomenológica
da temporalidade
Editora Intermeios
Rua Luís Murat, 40 – Vila Madalena
CEP 05436-050 – São Paulo – SP – Brasil
Fone: 2338-8851 – www.intermeioscultural.com.br

PSICOSE EMBRIAGUEZ:
PSICOPATOLOGIA FENOMENOLÓGICA DA TEMPORALIDADE

© Guilherme Messas

1ª Edição: Outubro de 2014



Editoração eletrônica, produção Intermeios – Casa de Artes e Livros
Revisão Marcio Honorio de Godoy
Capa Lívia Consentino Lopes Pereira

CONSELHO EDITORIAL
Vincent M. Colapietro (Penn State University)
Daniel Ferrer (ITEM/CNRS)
Lucrécia D’Alessio Ferrara (PUCSP)
Jerusa Pires Ferreira (PUCSP)
Amálio Pinheiro (PUCSP)
Josette Monzani (UFSCar)
Rosemeire Aparecida Scopinho (UFSCar)
Ilana Wainer (USP)
Walter Fagundes Morales (UESC/NEPAB)
Izabel Ramos de Abreu Kisil
Jacqueline Ramos (UFS)
Celso Cruz (UFS)
Alessandra Paola Caramori (UFBA)
Claudia Dornbusch (USP)

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação – CIP

M583     Messas, Guilherme.


   Psicose e embriaguez: psicopatologia fenomenológica da temporalidade.
/ Guilherme Messas. Prefácio de Alex de Campos Moura. – São Paulo:
Intermeios, 2014.

   282 p. ; 16 x 23 cm.

   Projeto Psicose e Drogas do Centro de Tratamento bezerra de


Menezes  

  ISBN 978-85-64586-00-0

   1. Psicologia Clínica. 2. Psicopatologia Fenomenológica. 3.


Tempo-ralidade. 4. Psicose. 5. Embriaguez. 6. Casos Clínicos. I. Título.
II. Psicopatologia fenomenológica da temporalidade III. Entre estrutura
e existência. IV. A psicopatologia fenomenológica e os problemas da
embriaguez. V. Rumo à essência da embriaguez. VI. Os casos clínicos.
VII. Redução dos casos clínicos às suas essências. VIII. As progressões.
IX. Messas, Guilherme Peres. X. Intermeios – Casa de Artes e Livros.

CDU 159.9
CDD 150.9

Catalogação elaborada por Ruth Simão Paulino


Dedicatória
A meus parceiros no Projeto Psicose e Drogas,
Fernando Sauerbronn Gouvêa, Natalie Deyna
Suplicy Figueiredo, Cassiana Léa do Espírito Santo,
Laura Fernandes Vitucci e Adrian Spremberg,
assim como aos estagiários que por lá passaram.
Nota
Os casos clínicos apresentados neste estudo são
modificações de casos clínicos reais. Trata-se,
portanto, de retratos biográficos ideais reunidos de
várias experiências patológicas.
Agradecimentos

Parte do material empírico analisado neste estudo é proveniente


do Projeto Psicose e Drogas, financiado pelo Centro de Tratamento
Bezerra de Menezes. Gostaria de agradecer a todos os membros e
colaboradores da instituição, especialmente ao seu diretor-presidente,
senhor Cláudio Lopes, que viabilizou este estudo e nos ofereceu todas
as condições para conduzi-lo.
Sumário

 13 PREFÁCIO: Entre Estrutura e Existência


Alex de Campos Moura

 21 1. A PSICOPATOLOGIA FENOMENOLÓGICA E OS


     PROBLEMAS DA EMBRIAGUEZ

 57 2. RUMO À ESSÊNCIA GERAL DA EMBRIAGUEZ


 64   A essência temporal da embriaguez
 68   A essência espacial da embriaguez
 73   A embriaguez continuada
 81   As psicoses e a embriaguez
 83   Vontade, liberdade e embriaguez
 87   Os sentidos da embriaguez na psicose

 97 3. OS CASOS CLÍNICOS
 97   Caso 1: A solidão alcoólica
118   Caso 2: O esgotamento esperançoso (ou a esperança adiada)
144   Caso 3: O veloz desequilíbrio
151   Caso 4: A prisão inter-humana
168   Caso 5: Os saltos na circularidade
183   Caso 6: A retração primordial
209 4. REDUÇÃO DOS CASOS CLÍNICOS ÀS SUAS
     ESSÊNCIAS
214 A essência geral da embriaguez em suas relações imanentes
com as essências antropológicas típicas e transcendentes com
as estruturas individuais
223 A noção de origem das psicoses
227 As essências típicas vinculadas às psicoses
228 1. O esgotamento
252 2. O desequilíbrio
291 3. A hiperestabilidade

323 5. AS PROGRESSÕES


326 Progressões para parcialidades
340 Progressões em totalidades

369 6. POSFÁCIO

373 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



Prefácio
Entre Estrutura e Existência

Uma das grandes questões do pensamento contemporâneo é,


sem dúvida, a tentativa de reaproximação, por diferentes caminhos,
daquilo que se pode chamar de domínio da existência, do concreto, ou
ainda do “mundo da vida”: seja como em Nietzsche, pelo esforço de
desfazer-se das amarras de um transcendentalismo moral e metafísico
considerado então como nocivo ao homem; seja como na Escola de
Frankfurt, pelo esforço de abandonar um modelo de racionalidade
fortemente instrumental, operante por alienação e dominação
simultâneas, avesso à autonomia humana; seja ainda por uma espécie
de “desconstrução”, recusa de uma realidade uníssona identificada a
um modelo autoritário.
Uma das questões recorrentes do século XX parece ser mostrar
os limites intrínsecos a uma teoria que constrói a realidade e a própria
condição humana por meio de essências puras, imutáveis, inteiramente
determinadas. Mas o problema com o qual parte dos teóricos se depara
então é a necessidade de encontrar, em meio a um território menos sólido
que o da tradição, uma ordem, uma direção reflexiva capaz de impedir
o pensamento de recair em uma forma qualquer de obscurantismo,
condenando-o ao irracionalismo que oblitera a visão e dá lugar aos
“tempos sombrios” sobre os quais nos alerta Hannah Arendt. O limite
entre a contingência e a razão permanece como questão e problema,
14 psicose e embriaguez

sem uma opção reconfortante em qualquer um dos lados. Para aqueles


que buscam uma conciliação, torna-se necessário encontrar, entre os
meandros de uma filosofia romântica ou intelectualista e as diretrizes
de uma filosofia realista ou empirista, o entremeio no qual a essência
e a existência, o geral e o concreto, podem coexistir, sem negação ou
exclusão recíproca.
Parece-me ser nesse terreno híbrido que o livro de Messas se
constrói. Sob as diversas e precisas análises de casos clínicos, sob a
iluminação do sentido profundo dos acontecimentos nos quais se
desenrola o drama pessoal dos sujeitos, é sempre nessa espécie
de “tensão” que as descrições do autor operam. Como ele próprio
afirma em diversos momentos, o tema de fundo que atravessa suas
descrições é a relação entre a estrutura e seu acontecer efetivo, ou,
em suas palavras, “como as estruturas individuais atualizam-se em
essências antropológicas gerais da existência, permitindo que o ser
individual seja aproximável desde um cotejamento simultâneo entre
sua individualidade e sua participação na espécie” (231). A questão
que percorre e articula as diversas análises da obra, à qual o autor
constantemente retorna, para esclarecer-nos e esclarecer-se, é o modo
pelo qual se pode conceber a relação entre a generalidade própria à
essência – seu caráter universal – e a singularidade própria ao indivíduo
– sua história e sua situação. Ao longo de todo o livro, Messas trabalha
com o intuito de preservar os dois lados da questão, a singularidade
irredutível de cada sujeito analisado e a generalidade latente ao olhar
do analista, buscando a linha tênue em torno da qual podem gravitar
os campos da individualidade e da ciência, sem chocarem-se.
E vem daí, a meu ver, um dos pontos mais importantes da obra,
em sua proposta de manter o caráter paradoxal da experiência vivida e
descrita, sem recair em uma alternativa reducionista e simplificadora.
Trata-se, afirma o autor, de formular categorias, alcançando essências
típicas, mas de tal modo que elas não sejam destituídas de sua realidade
temporal e histórica: os estudos teóricos devem ser entretecidos pelas
análises clínicas, as dimensões gerais devem ser reconhecidas na
história pessoal em que a estrutura tem seu desenrolar concreto e
guilherme messas 15

temporal, assim como a história pessoal deve antecipar ou compartilhar


certas condições gerais, permitindo o aparecimento das formas típicas
que não se esgotam nela. Ou seja, o caminho, e daí a dificuldade da
empreitada, deve ser o da dupla via, tornando explícito que assim
como a estrutura “condiciona” a experiência, esta lhe motiva e lhe dá
lugar.
Assumido esse escopo teórico, trata-se ainda, como nos adverte
o autor, de psicopatologia, e assim a investigação deve também
obedecer a uma perspectiva científica, propondo, ainda que com o
reconhecimento de sua indeterminação intrínseca, categorias gerais de
compreensão do fenômeno patológico, aqui sobretudo dos casos de
toxicomania em sua relação com a psicose. É esse entrecruzamento de
teoria e ciência que nos ajuda a compreender as inspirações teóricas
escolhidas por Messas.
O primeiro autor que figura então, em lugar central, é Husserl.
À luz da imbricação entre fenômeno e essência, ganha sentido
a forte inspiração husserliana no trabalho de Messas. Ela se faz
legível especialmente no projeto de recuperação de uma perspectiva
investigativa que não abandone um essencialismo peculiar, mas
convicto. É bem conhecido o projeto husserliano de construir uma
fundamentação segura do conhecimento, propondo a fenomenologia
como base primeira dos saberes1. Reelaborando a herança cartesiana,
Husserl tem em mente estabelecer os fundamentos da razão e da
verdade, descrevendo os modos de apreensão da consciência e de
doação do objeto. O filósofo ocupa-se, sobretudo em suas primeiras
obras, com a construção de uma epistemologia, e é à essência das
operações de conhecimento que a fenomenologia deve chegar2.
Husserl recorre, então, a dois operadores centrais: à redução
fenomenológica, como meio de estabelecer o campo próprio à
fenomenologia, campo da consciência; e à variação eidética, como

1 Conforme, por exemplo, Ideias para uma Fenomenologia e uma Filosofia


Fenomenológica Puras, entre outros.
2 A esse respeito, ver: Carlos Alberto Ribeiro de Moura, Racionalidade e Crise, São
Paulo: Discurso Editorial, 2001.
16 psicose e embriaguez

meio de estabelecer o método de sua investigação, movimento que,


ao percorrer as múltiplas aparições de um mesmo objeto, revela seu
núcleo constante e invariável. Não deixa de ser uma metodologia
análoga que podemos reconhecer no estudo de Messas: a circunscrição
de um determinado eixo, o esforço de cercá-lo, fazendo ver seu solo
permanente, nas palavras do autor, sua estrutura. Ao percorrer os
diversos casos de toxicomania e psicose, o autor parece propor uma
espécie de demarcação de seu núcleo estável, buscando o movimento
por meio do qual seu fenômeno central se dá a conhecer – em termos
conceituais, o movimento por meio do qual um termo se fenomenaliza
sem abrir mão de sua significação constante, fenômenos múltiplos de
uma única e mesma essência. É na articulação interna entre fenômeno
e essência, questão tão cara a Husserl, que se encontra uma das chaves
de leitura do estudo de Messas.
Mais ainda, vem também dessa problemática o fato de que,
ao lado da perspectiva fenomenológica husserliana, se acrescente
uma certa orientação clássica, forçosamente tributária da filosofia
antiga, em especial de Aristóteles. É à tradição aristotélica, me parece,
que o livro se reporta em diversos momentos e em diversas opções
conceituais. Entre essas múltiplas influências, podemos destacar uma
central: a discussão a respeito do modo pelo qual a potência se atualiza
na matéria. Esse debate étransposto para a perspectiva da obra, que
verifica que a significação se realiza em seu devir concreto e histórico,
mantendo-se contudo a mesma, unidade inscrita na multiplicidade.
Nas discussões a respeito da ideia de causalidade, sobre o modo pelo
qual a estrutura se “atualiza” em cada caso clínico, podemos ouvir o
eco da leitura detida e incorporada da filosofia aristotélica.
Assim, recorrendo à fenomenologia de Husserl e à metafísica
de Aristóteles, o autor busca o arcabouço teórico capaz de desvelar
as dimensões essenciais por sob as malhas da existência, a essência
que opera na singularidade vista. Mais do que isso, contudo, Messas
procura valorizar a singularidade e as metamorfoses que lhe são
intrínsecas. Ainda que, fiel a suas influências, pareça privilegiar o
movimento de busca pela essência, o autor não deixa de explicitar a
guilherme messas 17

historicidade que lhe é própria, sua temporalidade fundamental.


Dessa forma, a questão que perpassa o livro continua não
inteiramente resolvida, e assim deve permanecer por sua própria
configuração. O esforço de preservar as duas dimensões tem como
consequência a impossibilidade de uma solução definitiva, respeitando
o caráter aberto de uma dialética que busca preservar a integridade dos
termos. Ao invés da ruptura, Messas consegue encontrar pontos de
afinidade e de interdependência, por meio de uma análise cuidadosa e
requintada. De modo que o que seu estudo parece sugerir é justamente
a necessidade de admitirmos a tensão como condição mesma de
uma psicopatologia fenomenológica situada entre a necessidade de
categorização, própria à ciência moderna, e a necessidade de descrição
singular, própria à fenomenologia.
Assim, recusando-se a soluções simplistas ou unilaterais, o
livro traz, como projeto, explicitar a generalidade das significações
– em certos casos, imperativas, quase essenciais – em seu embate
constante com a singularidade de uma existência que, por princípio,
se furta à categorização. É nesse terreno paradoxal e, por isso mesmo,
profundamente fértil, que a psicopatologia fenomenológica proposta
pelo autor encontra seu lugar e seu tema inesgotável.

O Tempo

Uma outra questão que deve ser mencionada neste prefácio, e


que se encontra com a problemática descrita acima, é sem dúvida a
questão do tempo. Na centralidade que o tempo ele ocupa no estudo
de Messas, podemos reconhecer uma de suas bases fenomenológicas
mais fortes. Recorrer ao tempo como meio de compreender o sentido e
a estruturação dos fenômenos descritos é uma das chaves que aproxima
o autor dos expoentes da fenomenologia.
É sabida a importância que a questão da temporalidade ocupa
na construção da reflexão fenomenológica. A partir de Husserl, com
sua explicitação do que ele denomina “presente vivo”, um momento
alargado que rompe com a noção de “instante” tão cara à tradição, o
18 psicose e embriaguez

presente passa a não poder mais ser concebido como um ponto autônomo
e discreto, pois agora ele traz consigo uma dimensão de passado, a
retenção, e uma dimensão de futuro, a protensão. O tempo deixa de
ser pensado como sucessão, soma de objetividades independentes que
demandaria um operador externo que a unificasse. Há uma unidade
própria ao movimento de temporalização – em Husserl vinculada a
certa concepção de consciência, como bem nos explicam As Lições para
uma Fenomenologia da Consciência Interna do Tempo. Em Heidegger, por
sua vez, já é deslocada, pois agora relacionada à estrutura fundamental
não apenas da consciência, mas do próprio Dasein, configuração de seu
ser e de seu sentido. Compreensão que reaparece em Sartre e Merleau-
Ponty, ocupados também em desvelar as implicações ontológicas de
um tempo reconhecido como estrutura mesma do “ser-no-mundo”, de
sua situação e de sua liberdade.
Em seu embate com a patologia, em seu esforço de compreender
a estrutura e a essência da toxicomania, não é gratuito que Messas
busque no tempo a matriz primária de sua configuração. As questões
que ancoram o trabalho do autor, a dialética entre a essência e a
história, entre a estrutura geral e a singularidade concreta, não podem
eximir-se de seu solo temporal. Assim, Messas conduz à compreensão
da toxicomania não como fatalidade ou acontecimento orgânico,
não como deliberação da vontade ou processo fortuito, mas como
reconfiguração da temporalidade, estrutura em que as dimensões do
tempo se encontram enfraquecidas, plasmadas em uma espécie de
todo único, cujos horizontes, desvirtuados de sua condição intrínseca,
antes aprisionam do que libertam.
É no estreitamento do tempo que se encontra a matriz comum dos
casos descritos. Ainda que haja, como bem mostra Messas, variações
quanto à posição de cada dimensão temporal, conforme a situação e a
personalidade singulares, permanece contudo, como solo geral, uma
espécie de distorção do conjunto, comprometimento marcado pela
obliteração do futuro transformado em eco de um presente resoluto
a não se deixar transcender, a não passar, impulso de “permanecer
presente” que obseda o paciente e o recoloca sob a égide do vício. O
guilherme messas 19

presente se alça à condição de fatalidade, amplia-se até tomar para


si a abertura com que o futuro e, de certo modo, o próprio passado,
o revestem, e assim o sujeito vê reduzirem suas possibilidades de
saída e de instauração do novo. Reconhecendo a centralidade do
tempo na constituição do humano, o autor permanece fiel à tradição
fenomenológica, encontrando na temporalidade o sentido originário
de uma experiência que se constrói no diálogo permanente entre
o geral e o singular, entre o concreto e a essência, campo difuso no
qual a história e a liberdade se encontram para travar seu duelo e sua
comunhão sem fim.
É o tempo, enfim, um dos caminhos que apoia o autor em
seu projeto de conciliar, sem reduções ou exclusões, os termos que
podem permitir o convívio pacífico entre patologia e fenomenologia.
Assim, mais do que uma busca por respostas, o livro se propõe como
tarefa de reflexão e construção, ocupando-se do trabalho central de
refletir sobre os seus próprios fundamentos, dando-lhes seu lugar de
direito e de efetividade, propondo os alicerces de uma psicopatologia
fenomenológica.

Alex de Campos Moura


Professor e Doutor em Filosofia pela USP
1.
A Psicopatologia Fenomenológica
e os Problemas da Embriaguez

τὸ ἀπὸ τῶν ἐναργῶς φαινομένων τὰς ἀρχὰς τῶν


ἀποδείξεων ποιεῖσθαι
“Fazer dos fenômenos evidentes o princípio das
demonstrações.”
Galeno

A investigação do acolhimento que a psicopatologia fenome-


nológica deu ao tema dos problemas relacionados à embriaguez
revela seu consistente interesse pelas condições de possibilidade do
surgimento das manifestações desta na consciência. Guarda o gosto
pelo detalhe, pela particularidade, pela resistência em embarcar na nau
enganosa das sínteses magníficas. Recupera, em suas análises, a atenção
aristotélica para com uma ciência estrutural do humano, examinando
continuamente a relação entre a forma humana e a matéria que lhe
estofa. Não deixa de levar em consideração a procura do humano por
uma ascensão, uma saída de si mesmo rumo a um estrato superior
existencial e ético.
Isso se expressa com maior força na questão da temporalidade,
tomada esta como o leito exclusivamente humano no interior do qual
necessariamente recebe seu sentido consumado a existência humana.
Ser humano é desenvolver-se sobre, com e por meio do tempo, numa
22 psicose e embriaguez

amarra singular entre as leis da natureza, das necessidades da matéria,


das imposições da estrutura existencial e, acima de tudo, das incertezas
do futuro aberto e em larga parte imponderável. Temporalizar-se é
existir, e exatamente porque o humano é fruto dessa forma específica de
tempo que é a vida, torna-se capaz de experimentar potência, transição,
alargamento e sorte, sem deixar de ser destino, heteronomia e morte.
Temporalizar-se, na apreciação fenomenológica, não é sinônimo de
mecanismo reducionista, nem tampouco de formalismo eterno. É
uma síntese original de estabilidade e mobilidade, de conservação e
ampliação, de segurança e risco. Recenseemos a posição dos problemas
da embriaguez na psicopatologia fenomenológica, inspiração a partir
da qual empreenderemos nossa contribuição.
Se a experiência humana atualiza-se em temporalização, há que
se buscar suas raízes mais profundas no desenvolvimento biográfico.
Toda e qualquer vivência, portanto, recebe sua iluminação a partir do
sentido com que se implanta na trama da biografia. A embriaguez,
cotidiana e onipresente na vida humana, não poderia deixar de
obedecer a esse princípio norteador de análise. As modalidades das
relações entre embriaguez e consciência individual histórica são a força
motriz do alentado estudo de Hans Binder, pioneiro na investigação
fenomenológica da embriaguez. “Uber alkoholische Rauschzustände”3,
de 1979, debruça-se nas profundidades do problema, brandindo uma
concepção estratificada da consciência humana, a partir da qual a
embriaguez acaba por ser reveladora das estruturas fundamentais da
existência humana. Como que inspirado pelo velho adágio grego do
“Oinos kai alétheia”, recuperado na versão latina do “In vino veritas”,
o arcabouço do humano ganha uma nesga de translucidez sob o jugo
da embriaguez alcoólica.
O tema da revelação do verdadeiro caráter do homem pelo vinho
é antigo no pensamento filosófico. No último Platão, das “Leis”, o

3 “Uber alkoholische Rauschzustände”, de Hans Binder será bastante citado


ao longo desta exposição. Dessa forma, para evitar seguidas notas de rodapé
referentes à mesma obra, optamos por colocar, entre parênteses e no corpo do
texto, o número da página de onde for retirado cada trecho citado.
guilherme messas 23

pensador propugna o uso do vinho como revelador do que se oculta


no seio do homem. Lá, contudo, o filósofo não se interessa pelo exame
das características dessa interioridade, mas investiga uma técnica para
o bom regime de ordenamento da vida social. Binder, por sua vez, não
tem essa intenção4. Seu foco, o estudo diferencial e comparativo dos
estados de embriaguez, nos coloca diante da principal obra já escrita
em fenomenologia sobre o tema. Retracemos seu caminho, intentando
recolher os segredos que a embriaguez acaba por evidenciar da
estrutura da consciência humana.
A antropologia que Binder faz por revelar é hierarquizada, num
movimento descendente, que parte da experiência habitual de si mesmo
às fundações da matéria própria da vida. Ao movimento descendente
desse trajeto corresponde um grau ascendente de gravidade clínica, ou
seja, quanto mais a embriaguez compromete os níveis mais profundos
da consciência, mais uma espécie de deformidade inviabiliza a vocação
humana de despregar-se na temporalização. As camadas dessa
hierarquia são dignas de uma atenção minuciosa.

a) estrato primeiro: a consciência habitual. A historicidade da


consciência se afirma, acima de tudo, por seu perfil habitual,
no sentido de Husserl. A consciência identifica-se a si mesma
na sua continuidade pelo fato de reter certo sentido formal
que se mantêm idêntico a si mesmo ao longo da sucessão
temporal; atualiza-se como tal, em primeiro lugar, no momento
exato em que resiste ao desmoronamento do tempo. Essa é a
condição de possibilidade mesma da biografia, seu ponto de
partida. Assim, a primeira incidência sobre a consciência em
que atua a embriaguez é na sua habitualidade, entendida essa
meramente como a familiaridade das vivências, como o jeito
de ser da personalidade, valha-me o termo corriqueiro.

4 É bem verdade que Binder possa ter minoritariamente um interesse por essa
vertente de análise, dado que pretende, com seu estudo, fornecer elementos para
conclusões periciais de condutas criminosas de embriagados.
24 psicose e embriaguez

O primeiro fenômeno em diálogo com o estrato da identidade


da consciência é a embriaguez simples. Na embriaguez simples,
graduando-se de um estado de excitação eufórica ao de paralisação,
as “relações psíquicas normais e a orientação permanecem intactas até
que o embriagado adormeça” (p. 217). Consciência e mundo mantêm
sua modalidade de aproximação nativa. Tanto no polo da consciência
voltada para si mesma quanto no vertido para o mundo, nada passa
de uma modificação transitória e anódina das proporções. No polo da
personalidade, “a vontade pode controlar de modo relativo a atitude
externa e, com isso, não surgem atos estranhos à personalidade” (p.
217). Na prumada da apresentação do mundo, “inexistem ideias
delirantes ou alucinações” (p. 217).
Essa alteração efêmera das proporções da articulação da
consciência com o mundo pode ser mais bem localizada, apontando
para uma maior participação das produções que, embora mentais,
trazem marca mais pronunciada da corporeidade dentro da harmonia
do conjunto: “Chama a atenção que os efeitos excitatórios do álcool
apenas são percebidos psiquicamente na sensibilidade sensorial do
humor de base, ou seja, apenas nas funções que pertencem à camada
primitiva, vital do psiquismo” (p. 177)
Entretanto, esse nível primordial do impulso da embriaguez (que
muito nos lembra a noção aristotélica do Problema XXX) ainda não
aporta mudanças no embate face a face da consciência consigo mesma
e com o mundo dos iguais: “É portanto próprio do homem mediano
reagir ao álcool apenas com manifestações excitatórias ligeiras, de
modo que a excitação, frequentemente, quase não é percebida subjetiva
e objetivamente” (p. 177).
Nesse estrato, a embriaguez é a celebração do humano com
sua liberdade de dispor das proporções da natureza, do mundo e
de si mesmo. Celebração acanhada, ainda inútil, mesmo para as
preocupações platônicas com a revelação daquilo que já existe no seio
da individualidade. Ainda oculta, enfim, ao olhar alheio.
Um passo abaixo na incisão cortante da embriaguez sobre a
mente, contudo, rompe-se a calmaria da habitualidade. Nessa segunda
guilherme messas 25

camada do primeiro estrato, dá-se uma espécie de fratura exposta da


consciência, ao mesmo tempo descontinuidade biográfica e revelação
involuntária: “a atitude externa não pode ser preservada e originam-
se atos estranhos à personalidade” (p. 217). Na embriaguez anormal,
a continuidade familiar da personalidade desvia-se do eixo, fazendo
surgir o exótico, o estranho, o desconhecido. Elementos descontínuos
que, por sua vez, desnudam-se imediatamente na janela do mundo
social exterior da conduta. Estamos nesse ponto no limiar da
permanência indene da biografia, no marco a partir do qual já não mais
se poderá traduzir a biografia no sentido clássico de desenvolvimento
da personalidade. A embriaguez já ameaça a essência da vida nessas
alturas, expondo a linha da vida a um olhar alheio que ainda aguarda
atônito a significação dos fatos novos.
Detenhamo-nos por um átimo no afeto fundamental dessa
intervenção do álcool sobre a consciência: a euforia. Analisemos como
essa brota a partir das modificações estruturais proporcionadas pela
alcoolização. Vinculada à sua própria história pessoal (ainda que
eventualmente dela desviando-se) e atada à relação com a coletividade,
a consciência eufórica permite-se voos de libertação. Como um
jovem irreverente, a euforia diverte-se em produzir a diversidade
desinteressada, em jogar um teatro de formas humanas irresponsáveis,
cônscia de que o palco e a plateia ali estão ainda para chancelar essas
tentativas fluidas. A euforia descarrega o peso da severidade da
habitualidade, apresentando ao mundo a lembrança da liberdade –
limitada, é bem verdade – que a existência possui de autocriação. A
euforia da embriaguez simples é, assim, um exercício de saltar por
sobre o real registrado no cartório da biografia para ousar transgredir
num estado de afeto que, sem abandonar o hábito, recorda-nos a sua
por vezes presunçosa peremptoriedade.

b) estrato segundo: as raízes inter-humanas da residência


no mundo. Com seu conceito de Verfallenheit, Heidegger
nos mostra a via regia da decadência do homem. Perder
a capacidade e potência de transcender as imposições do
26 psicose e embriaguez

mundo é gradualmente neste afundar-se até a dissolução


(mais uma vez, observa-se a intuição aristotélica do Problema
XXX, ampliada pela noção da temporalidade antropológica
inaugural). Mas esse afogamento infernal é estratificado por
uma cadeia descendente de boias de salvação, que Binder
descreve com atenção.

Arrastado para baixo, pela voragem da dissolução mortal, o


humano finca suas unhas, em primeira instância (primeira no sentido
ordinal, mas suprema no sentido existencial), no seu semelhante. A
mais sólida raiz da personalidade fenecente é a inter-humanidade.
A produção reveladora dessa ossatura dramática é a embriaguez
complicada. Vejamos como essa opera, passo a passo:

“a atitude externa é aniquilada e certas ações do embriagado são


completamente estranhas à sua personalidade sóbria” (p. 187).

Nesse ponto do descenso, a personalidade histórica perde os fios


que a ligam horizontalmente consigo mesma e uma primeira visão do
abismo se vislumbra. Mas a queda derradeira se impede pela presença
negativa mas ativa do perfil de humanidade do real, capaz de atestar –
by default – a continuidade da personalidade:

“também nas atitudes completamente estranhas à personalidade


sóbria este comportamento no geral é relacionado
significativamente ao meio, é motivado de modo empático e se
dirige a objetos específicos corretamente percebidos” (p. 188)

Já esquecida de si mesma, em duas colunas inter-relacionadas


firma-se esse apoio final da personalidade. Em primeiro lugar, na
manutenção da intencionalidade da consciência visando ao mundo
histórico. As relações de significação com os semelhantes mantêm-se
intactas, evidenciando que um perfil de humanidade ainda sustenta
e informa a atividade consciente, ainda que desde fora da sua
guilherme messas 27

intimidade. Em segundo lugar, subproduto fecundo do primeiro, na


manutenção da permeabilidade da vivência na interpessoalidade; ou
seja, na capacidade que o observador retém de conferir significação
ao ato alheio. O observador reconhece no outro os mesmos veios
distinguidores da fonte de sua humanidade, golfando em desvario,
aos borbotões, é bem verdade, mas idênticos ao seu fluxo de empatia.
Essa empatia dá a chancela da semelhança de espécie, por assim
dizer. É nessa sintonia dos iguais, enfim, que se sustenta a consciência
alcoolizada decadente no reino frágil da humanidade temporalizada.
Nessa altitude, o ser sangra. Quase exangue, afana-se por
transfundir-se do remanescente da seiva da alteridade humana. Essa
laceração estrutural se manifesta fenomenologicamente de modo típico.
Vejamos suas manifestações. Todas elas expressam identicamente o
selo da adesão abrasiva, frouxa e gritante, com a humanidade.
No campo do afeto, brota o estado de irritação. A irritação
é a condição natural que aflora do humano cadente ao agarrar-se
desesperadamente às paredes do semelhante. Mantida por meio
do acréscimo dos componentes instintivos nativos da consciência,
com a irritação desaparece a distância primordial que permite que
nos relacionemos de modo sereno e cordial com nosso semelhante.
É por meio dessa distância que o fluxo de experiências entre mim
mesmo e o outro avoluma-se, permitindo uma reflexa fertilização do
campo da vida e seu consequente crescimento mental. O ser cadente
alcoolizado não pode mais permitir-se essa distância pois corre o
risco de desfigurar-se na abismo do mundo. Assim, adere com rigidez
férrea ao outro e, dessa colagem aprisionada, o outro não mais pode
surgir como integridade humana, mas como parcial superfície de
aderência. As movimentações da consciência alcoolizada atada a essa
superfície geram a irritação. A irritação, portanto, ainda que seja índice
de manutenção da permeabilidade inter-humana, não mais pode ser
entendida como um mero fenômeno de descompensação biográfica:

“Há uma diferença essencial entre os acessos de fúria transitórios


da embriaguez simples, nos quais estão envolvidos sentimentos
28 psicose e embriaguez

psíquicos específicos motivados, e essa irritação vital ancorada


profundamente, imotivada [...]” (p. 187).

A exaltação furiosa é humana, mas não é emanante da história


privada do indivíduo particular e situado. Encarcerado na espécie,
resta ao indivíduo exaltar as características desta para não se perder na
deformidade abismal. Contudo, essa exaltação não deixa de procurar
voltar-se ao mundo histórico, como que numa última tentativa de
se salvar da assimilação pela espécie. Não percamos a orientação
lógica dos fenômenos: primeiramente, devido ao descolamento
da consciência de seu trânsito nativo com o semelhante, ocorre
um acréscimo dos componentes instintuais-irritativos da mente;
secundariamente apenas essa desarmonia instintual – pelo fato de ter
ainda um canal de comunicação com o mundo – procura acessar uma
face humana. A fragilidade marca esse acesso derradeiro, do ponto de
vista da interpessoalidade. Como consequência desse conúbio entre
fragilidade relacional e estímulo abrasivo, resulta o típico ciúme do
alcoolista5, que não raro atinge a dimensão da interpretação delirante.
Menor em valor que a parceira, aguçado pelo instinto, o alcoolista adere
a esta cercando-a de um sobrevalor que o ameaça de todas as partes.
Receando o abandono definitivo no mundo, o alcoolista identifica esse
abandono imperioso em cada movimento do real inter-humano.
O risco iminente no qual patina o alcoolista complicado, por
vezes transborda as fronteiras da constituição do real e assume o perfil
espectral de um delírio. Desequilibrado e tateante, mas ainda vinculado
à inter-humanidade, o pavor que espreita o alcoolista mantém os perfis
da humanidade, fazendo com que “as ideias delirantes tenham um
caráter mais paranoide” (p. 192). Na paranoia, a humanidade apavora,
mas ainda é humanidade.
Esse resíduo de humanidade apavorante, por ser ao mesmo tempo
insuficiente e imperial (insuficiente por não conseguir efetivamente
sustentar a consciência e imperial por ser o último bastião de

5 Ainda retornaremos a esse assunto sob uma perspectiva ligeiramente diversa.


guilherme messas 29

segurança do ser), manifesta-se, por fim, em outra dimensão da inter-


humanidade: “como na embriaguez complicada [...] ainda se mantém
preservada certa relação, consciente da realidade, com o meio, ainda
é possível aquela ‹relação com o observador› que é o pressuposto da
apresentação histérica [...] É portanto psicologicamente compreensível
que encontremos configurações histéricas com muita frequência na
embriaguez complicada” (p. 192)
Em termos existenciais: macilenta, a consciência moritura rever-
bera a si mesma no espaço inter-humano; cria uma ficção gritante e
inautêntica de si mesma para conseguir alguma fixação na zona em
que habitam os humanos. Em termos clínicos: a forma complicada da
embriaguez pode mimetizar a histeria, não aqui por um fracionamento
projetivo de conteúdos biográficos, mas simplesmente para manter-se
viva.
A virulência deformante do alcoolismo pode expor, abaixo
da camada da habitualidade da consciência – na qual representou
liberdade e irreverência –, outro estrato, mais profundo. Nesse
estrato se observa como o humano se alia ao umbigo do mundo inter-
humano. São duas as forças de adesão que a consciência enfraquecida
arregimenta para não se despedir da sua pátria: a irritação furiosa e
a dramaticidade inautêntica. Em ambas, uma debilidade interrompe
o fluir da simpatia humana bilateral. Na irritação, a proximidade
excessiva com a alteridade transforma esta em superfície áspera; na
inautenticidade, perverte-a em observadora distante e incrédula de
um drama visceral e genuíno. Na primeira, o outro impera como
potência centrífuga, como nau de salvação que se afasta do náufrago.
Na segunda, como impotência descorada, como expectador incapaz de
entender a exaustão do ser. Se, por fim, essas duas instâncias caudais
vacilam, o ser afunda na matéria que o constitui, como veremos.

c) terceiro estrato: a solidão. Lixiviada, a consciência perde


suas âncoras no mundo inter-humano e soçobra na mais
desterrada e aterrorizante solidão. Desterrada, pela perda
de seu habitat natural; aterrorizante, pela emergência das
30 psicose e embriaguez

formas subterrâneas que o inferno da solidão antropológica


encerra e impõe. O abandono da ligação umbilical com o
semelhante não deriva necessariamente para a perda de si
mesmo. Contudo, essa perda torna cristalina a sustentação
inesgotável e insubstituível da consciência na comunidade
de pares. Excluída do trânsito umbilical com o mundo inter-
humano, a consciência não deságua, como uma opinião
apressada poderia fazer pensar, em um ensimesmamento
do eu. Longe disso, perder a comunidade de experiência
implica em desfazer-se num feixe incoercível de impulsos,
deixar-se dominar pela potência interior da natureza.
Inexistirá, pois, a consciência solitária em estado de paz. A
paz e a serenidade interior antes brotam do recolhimento de
uma consciência que, transpassada de mundo todo o tempo
e por todos os lados, aparta-se para um exame parcimonioso
e tranquilo desse material exorbitante que o destino lhe fez
caber.

A consciência em estado puro de solidão é invocada pela


embriaguez patológica, em sua forma crepuscular:

“Como o embriagado crepuscular capta o meio apenas de


modo fragmentário, as suas relações com ele são gravemente
distorcidas e o comportamento do embriagado é frequentemente
incompreensível para o observador, possuindo um caráter
fantástico e irreal” (p. 218)

A perda da compreensividade empática por parte do observador


é a face externa, por assim dizer, do mesmo fenômeno cujo interior é
o caráter irreal e fantástico. Binder patenteia a mais não poder, com
essa observação clínica, que o real é acima de tudo uma consagração
da experiência mundana inter-humana, sobre a qual se ergue uma
consciência reflexiva. O alijamento desta traduz-se imediatamente
em irrealidade e fantasmagoria (como nos contos do alcoolista Edgar
guilherme messas 31

Allan Poe). Mas, qual a textura dessa irrealidade? Poderia ser ela
igualada a um afastamento do mundo propiciado por uma mente
imaginativa refugiando-se de uma situação inóspita para os cumes
da mente rarefeita? A resposta colhida em Binder aponta para a
negatividade dessa pergunta. É no campo dos instintos e dos afetos
que apoiamos a demonstração da deformidade típica do crepúsculo
alcoólico.
“Ocorrem tendências agressivas, defensivas ou de fuga ‘cegas’
ou surge a expressão de um impulso sexual primitivo, não ainda
dirigido a nenhum objeto” (p. 198). Descoladas de seu acoplamento
original, as remanescências do humano deturpam-se em instintos
puros, tornando-se uma diabólica potência adirecional, uma matéria
sem fim e sem forma, se pudéssemos aqui recuperar as categorias
aristotélicas para a vida. Sem seus olhos, que conhecem desde sempre
a vazão da luz que lhes dá insolação, a humanidade torna-se cega,
rodopiando desvairada e infinitamente em grunhidos esganiçados e
movimentos decompostos. Perdendo a horizontalidade da inserção
como mundo inter-humano, a consciência não somente não consegue
alçar-se como potência histórica (como ainda veremos), mas colapsa
verticalmente nos subterrâneos de suas camadas materiais.
A tonalidade dessa solidão deformada consuma-se no estado
afetivo peculiar da embriaguez crepuscular. A exposição comparativa
de Binder merece aqui citação completa: “o humor fundamental vital
da embriaguez simples é a euforia, o da embriaguez complicada é
a irritação e, por sua vez, o humor fundamental da embriaguez
crepuscular caracteriza-se sem dúvida pelo pavor” (p. 199). No mundo
embalsamado da consciência banida para os báratros da solidão, o
correlato afetivo da invasão do fantástico irreal e do bárbaro instinto
cego é o pavor. Apenas o pavor descreve o estado de alma de um
homem que tombou aos abismos mais profundos, e dentro do qual
não divisa mais qualquer mão ofertada para lhe erguer.
Debatendo-se consigo mesma nessa solidão disforme, a
consciência onírica arrosta seus fantasmas típicos, timbrados pela
estruturação de seu vivido:
32 psicose e embriaguez

As ideias delirantes da embriaguez crepuscular são mais


fantásticas e impossíveis do que as da complicada e levam com
frequência a um reconhecimento errôneo da situação global,
no sentido de uma ideia delirante [...] as alucinações puras,
que não estão presentes na embriaguez complicada, ocorrem
frequentemente na embriaguez crepuscular [...] geralmente
são visões de faces, cujo conteúdo simboliza de modo onírico
o humor pavoroso: animais horrendos, serpentes, homens em
atitudes ameaçadoras, “visões diabólicas” (p. 200).

As formas diabólicas mostram a transição entre uma humanidade


recentemente perdida e a deformidade absoluta, ainda por ser
examinada. Guardam a nostalgia das faces humanas – seviciadas
pelo medo – e já mostram as marcas do aquém do humano, das
bestas habitantes da escuridão. O delírio, expressão do mundo da
interioridade significante, vai sendo substituído gradualmente pela
alucinação, índice de um mundo totalmente absorto em si mesmo,
indiferente às potências de significação. No delírio, a consciência
colapsa pela perda da capacidade de impor um significado imanente
e constituinte do real; na alucinação, ela já capitula e baila à deriva no
mundo do fantástico e do maravilhoso.
A aduana que barra a passagem da última parada do humano-
ainda-humano para a decrepitude da matéria inerte é explicitada:
“Aquilo que é perdido na embriaguez crepuscular é a coerência da
vivência com o meio, a sintonia com a situação real, mas não a própria
coerência interna da vivência” (grifo nosso) (p. 199). A existência, ao
perder seu passe livre para transitar no interior do campo humano,
perde o pé da realidade captável por uma sintonia que, embora inefável,
ainda é efetiva. Entretanto, mesmo nas raias da deformidade provocada
pela solidão, a consciência preserva seu sentido de identidade. O
sentido de identidade, nesse nível mais profundo e angustiante da
existência, já não é dado pela habitualidade da consciência, mas por
outra solda mais, digamos, mineral: a estrutura da vivência. Aquém
de toda historicidade e na escala final de um mergulho regressivo,
guilherme messas 33

toda vivência tem alguma estrutura que lhe é dada de antemão pela
ontologia humana, por falta de melhor explicação. Essa estrutura
interna da vivência, esse forma da experiência (um instinto, embora
levitando cegamente no vácuo, guarda a forma de um instinto, de uma
intencionalidade para com algum espectro objetal) é o reduto final da
manutenção dos perfis humanos e seu endosso primordial. Passado
este, resta a dissolução.

d) quarto estrato: o rompimento definitivo da forma. A porção


final da queda promovida pela embriaguez encontra apenas
os destroços da residência humana no mundo. A descrição
da perda definitiva do perfil da face humana muito ensina
sobre esta: a falta revela bastante da presença. De certo modo,
até mesmo mais do que nas instâncias anteriores, nas quais
a presença humana distorce-se mas permanece familiar, no
plano derradeiro do declínio percebe-se, pela negatividade
total, aquilo a que chamamos de humanidade.

Na forma delirante da embriaguez patológica, “não apenas


o comportamento do embriagado torna-se incompreensível para o
observador, [...] como o processo psíquico do delirante em si mesmo
perde sua coerência interna [...]”. A perda da unidade interna da
vivência deixa-a impossibilitada de comungar do gênero humano e
abandona-a à mercê das medusas do insiginificado mineral:

“perdida a coerência, são dominados [os processos psíquicos]


pelas descontinuidades e fissuras da dissociação” (p. 219). Aqui
se fecha o circuito de exposição iniciado com a sustentação
do caráter eminentemente temporal da existência. A perda
da silhueta da existência identifica-se com a dissolução da
temporalização, com a substituição da melodia da mente pela
atemporalidade do ser, proêmio da morte física. O estilhaçamento
da forma temporal manifesta-se clinicamente como salto (vale
anotar aqui a importância da noção de salto para a história da
34 psicose e embriaguez

psicopatologia fenomenológica, sobre a qual Binswanger apoiou


sua compreensão antropológica de Mania) e como rotura. Salto e
rotura abrangem igualmente todas as diversas dimensões do ser,
apagando as fronteiras entre normal e patológico.

Na dimensão interpessoal: “Ideias de referência fulgurantes e


intermitentes” (p. 219). A interpessoalidade perde-se, inicialmente, na
sombria noite da perseguição, como já se observou nos estratos mais
superiores da alteração. Contudo, aqui, até mesmo a experiência da
perseguição – que conta com um resíduo de humanidade, à medida que
se dá como pressuposta a existência do outro perseguidor – derrete-
se na deformidade absoluta, transformando-se em intermitência da
presença do outro, em janelas de aparição que não permitem a ascensão
e compactação da presença humana, sua passagem da espectralidade
para a comunidade.
Pelos mesmos motivos (num estágio mais agravado em relação
à dimensão anterior), a própria experiência de delírio esgota-se: “As
ideias delirantes na embriaguez delirante representam um papel muito
menos relevante do que na crepuscular; já para a alucinação se observa o
inverso” (p. 207). O delírio mostra a ânsia de significação, característica
do humano, pervertida em paralisação e vedação a novas possibilidades.
A erosão da possibilidade de significar extingue a alternativa do
delírio. A alucinação, em suas formas puras, por sua vez, debate-se
exclusivamente com a hilética da experiência, com a materialidade
que compõe o mundo natural. É por isso que no nível mais alterado
da embriaguez observam-se preferencialmente “inúmeras alucinações
estimulantes (na maior parte das vezes formas vagas e imóveis)” (p.
219). São as sombras habitantes do subterrâneo que perseguem o fio
moribundo da consciência; são as formas da mineralidade imóvel que
assomam para cravarem-lhe a unção extrema. Destaque-se a transição
cabal operada na passagem do nível anterior a este. Naquele, as formas
diabólicas remetem aos humanos decompostos e a animais, à vida,
enfim, embora desfigurada. Neste, desaparece a referência à vida,
bruxuleando a efígie do nada ou se perenizando a macicez do sólido.
guilherme messas 35

A alucinação sem significação, representante da deformidade absoluta


da relação com o mundo, é a marca final da decadência humana. Uma
forma dramática pois ainda vivente do “ao pó voltarás”.
Na dimensão corporal, por fim, a porção motora do corpo
vivo remanescente insiste na vida improvável. São suas as últimas
manifestações espasmódicas da existência-feita-pedra: “Ou ocorre
apenas uma inquietação motora amorfa ou movimentos reiterativos nos
quais o paciente se agarra, arranca ou se inquieta; ou, sob um impulso
de movimentação ainda mais intenso, ocorrem vigorosos movimentos
mecânicos de alguns membros, para frente e para trás [...]” (p. 207).
A porção motora do corpo, na qual expressa-se o significado e a
intencionalidade da mente, esvai-se na circularidade dos movimentos
rudimentares, espasmódicos, fragmentos dissonantes do que nalgum
dia serviu ao destino de significação do devir humano.
Resumamos os achados de Binder, que aqui pudemos só
brevemente apresentar e que são abundantes em ricas observações
clínicas. A embriaguez revela a vocação preferencial da situação
no mundo da existência pelo eixo vertical. É também nesse eixo
que pensadores antropológicos como Michel Foucault ou Ludwig
Binswanger, em Traum und Existenz: Einleitung von Michel Foucault ,
fundaram-na. A verticalidade é, contudo, uma apresentação secundária
de seu fundamento irredutível, que sempre permanece algo oculto por
detrás das formas mais evidentes e comunicáveis da espacialidade. A
verticalidade é a modalização espacial da temporalização humana. Na
verticalidade, a consciência humana revela o modus operandi da sua
ossatura biográfica. Na verticalidade, como na biografia, o eu passa por
sobre o horizonte que o cerca – e, é bem verdade, o informa e determina
também – e projeta-se na virtualidade, num passo desequilibrante que,
uma vez reequilibrado, mostra o compasso de evolução histórica do
ser, a saída de um momento de si mesmo rumo a um novo momento
de si mesmo.
Para Binder, a embriaguez corrói o humano temporalizado
em duas etapas: uma ilusão ascendente fugaz, contida na euforia, e
uma queda gradual e certeira, expressa na deformidade paulatina da
36 psicose e embriaguez

habitualidade da personalidade consciente. Colocado em termos do


binômio natureza-história, a concepção de Binder descreve a queda
alcoólica como uma transição da forma histórica do desenvolvimento
para as formas da natureza; a transfiguração, portanto, da temporalidade
histórica para a temporalidade natural, esta investigada em um arco
que vai da ritmicidade do instinto àquela da matéria inane. Mas quais
as características diferenciais dessa dupla temporalidade? Por onde
podemos realizar um diagnóstico diferencial das duas temporalidades,
que nos permita alcançarmos o drama humano da dupla filiação
natureza-história na pulsação de seu coração? A perspectiva tomada
por Binder passa ao largo da questão. Sua abordagem é essencialmente
clínica. Por sê-lo, permanece atenta para a descrição da porção
fenomênica das vivências, dando menor atenção às suas condições de
possibilidade estruturais. Para uma investigação propriamente dita das
questões antropológicas relacionadas aos problemas da embriaguez
crônica – a adicção, nos termos do autor – temos de nos dedicar a
outras sessões da coleção da psicopatologia fenomenológica.
O segundo trabalho a visitarmos – e o primeiro de declarado
interesse antropológico – é “Zur Anthropologie der Sucht”, publicado
em 1958 por Jürg Zutt. A duplicidade ontológica irredutível da
temporalidade humana desdobra-se numa vertente do devir
involuntário e autônomo e noutra, da ação voluntária. Existir é situar-se
na articulação dessas duas potências estruturantes. Pelo polo do devir
autônomo o humano recebe seu timbre de continuidade e correnteza
de ser. Pela face da vontade ativa, consagra-se à descontinuidade que
constrói a história pessoal: “a ação voluntária que escolhe [...] é também
renúncia”6. Ao inclinar-se para diante no tempo, o ser despede-se
irrevogavelmente, em cada passo, de um conjunto de possibilidades
com vistas ao aprofundamento em outras. Renunciando, a história
sai do campo das possibilidades e torna-se atualidade; sai do campo
da temporalidade indefinida e faz-se irreversibilidade temporal,
ganhando sua direcionalidade formal típica.

6 J. Zutt, “Zur Anthropologie der Sucht”, Nervenarzt, 1958, 29, p. 441.


guilherme messas 37

É em oposição a essa irreversibilidade descontínua que devemos


entender a tipicidade da temporalidade do devir autônomo: “é
a região de nosso devir involutário […] da eterna repetição do
semelhante [...]”7. O tempo da natureza em nosso interior é o tempo
da repetição, da retomada do idêntico privado da direcionalidade da
história. É exatamente nessa correnteza da natureza – que nos domina
desde dentro – que atua a embriaguez e a consequente toxicomania. A
embriaguez destemperada impele o ser a reduzir-se à temporalidade
da natureza, à pura correnteza dos ciclos da natureza: “A queda na
toxicomania é a transformação poderosa do fluxo ahistórico”8.
Examinemos mais de perto a temporalidade desse arrastamento
pela correnteza da continuidade cíclica. Como a titularidade dessa
temporalidade prescinde da ação voluntária humana, as características
da descontinuidade histórica se perdem. A história humana,
entalhada em recorrente renúncia na marcha do tempo, marca-se pela
divisão trinária da temporalidade: o passado, onde habita o que foi
deixado para trás e jamais retornará; o presente, no qual se dão em
simultaneidade as dinâmicas da decisão; e o futuro, virtualidade de
expansão e revigoramento proveniente do desconhecido. Nada disso
possui o tempo da natureza cíclica. Seu estado é um permanente
presente, um júbilo gozoso comandado desde fora. Ser arrastado pela
correnteza da continuidade natural é abjurar o direito à temporalidade
trinária e fundir-se à natureza doadora de tempo. Fusão absoluta, tal
qual um nadador arrastado por um gigantesco vagalhão, para quem
a temporalidade perde seu sentido e a consciência se torna completo
turbilhonamento cercado de matéria por todos os lados.
A temporalidade original dessa fusão é o presente. Mas não
se deve confundir esse presente com a apresentação original do
mundo à consciência aperceptiva (no sentido de Husserl), como
se dá na percepção ou mesmo no ato de reflexão ou imaginação.
Nestes, preserva-se uma distância entre a consciência e seus objetos
intencionados, cuja expressão afetiva supina é a contemplação e a

7 Ibidem.
8 Ibidem, p. 443.
38 psicose e embriaguez

serenidade. A fusão da consciência na embriaguez descontrolada é


de outra natureza, classicamente descrita por Bin Kimura, em Scritti
di psicopatologia fenomenologica. O descritor mais preciso da posição
do presente nas patologias da embriaguez é o instante eterno9. O
instrumento material para que o instante se fixe numa cristalização
atemporal (sem o qual a tendência imanente de temporalização faria
desse presente apenas um momento evanescente da temporalização da
consciência) de um presente puro10 é o êxtase doado por um estado de
superabundância11. É pela abundância intolerável que a consciência,
incapaz de processá-la, petrifica-se na atemporalização, como destruída
por uma luz potente demais cegando-lhe os olhos. Invadida por essa
pulsão unificadora12 com o Todo, a consciência humana embalsama-se
no estado de “eternização”, no qual se vê estraçalhada em um “duplo
movimento ontológico do viver-morrer”13. Dominique Pringuey, em
“Une phénoménologie de la dépendance à l´alcool. Une expérience
primordiale de la ‘nostrité’”, identifica nessa experiência a expressão
da fusão primordial da interpessoalidade humana. Aprisionada
na eternidade-sempre-presente, a vida humana perde sua “forma
histórica individual [...]”14e reduz-se a uma temporalidade que é tudo,
menos humana.
E a perde por circunscrever-se a uma vida dirigida ao agora,
na qual o presente domina a temporalidade da existência, acuando
o futuro e o passado, forjando um estado que caracteriza, em sua
generalidade, a adicção15. Sob uma perspectiva que muito se aproxima
da que defenderemos nesse trabalho, Kemp sugere que a morte mesma
pode ser uma modalidade de experiência buscada pelo adicto para

 9 B. Kimura, Scritti di psicopatologia fenomenologica, p. 100.


10 Ibidem, p. 101.
11 Ibidem, p. 100.
12 Ibidem, p. 108.
13 J. Santos, “O Duelo Entre Ser e Ter: Uma Aproximação do Sentido da Dependência
de Drogas na Adolescência”, em D.S.P. de Castro et al (org.), Fenomenologia e
Análise do Existir, p. 309.
14 J. Zutt, op. cit., p. 442.
15 Cf. R. Kemp, “The Temporal Dimension of Addiction”, Journal of Phenomenological
Psychology, v. 40.
guilherme messas 39

reencontrar alguma forma de significação para sua existência assim


deturpada. Uma deturpação temporal que anula a expansão pessoal
de modo variado, como aponta Otto Dörr, em Psiquiatría Antropológica:
Contribuciones a una Psiquiatría de Orientación Fenomenológico-Antropo-
lógica: por meio dos fenômenos de repetição, recaída e detenção, a
história pessoal patina sobre os mesmos temas que, doando-se da
mesma forma, não promovem uma autêntica tomada protentiva de si
mesma por parte da existência.
A peculiaridade dessa temporalidade privada dos elos que
constituem a história distingue também as psicoses originárias da
embriaguez daquelas provenientes das doenças mentais “puras”. A
perda da instalação na realidade humana, estuário do continuado uso
de embriagantes, deixa a consciência psicótica caracterizar-se por ser
“mais do que uma síndrome definível, um conjunto flutuante, pervasivo
e pouco modificável, de experiências delirantes, alucinatórias e de
alterações de humor”16. A desdiferenciação da potência naturante da
embriaguez atinge até mesmo as formas patológicas da mente adoecida,
construindo uma contrafação da deformidade “um gênero de psicose
sem sintomas francamente psicóticos”17. Dissolvida e naufragada na
pura opulência, a própria forma da patologia totipotente da psicose
tóxica não assume uma direção, mas apresenta “uma copresença de
elementos tradicionalmente distantes e distintos [...]”18. Arrasadora
até o subsolo da existência, mesmo a doença habitual humana se
desconfigura e deforma diante do poder de fusão da embriaguez.
Na doença mental “pura” ainda se pode vislumbrar a silhueta
da personalidade que se perde, mantida na capacidade de historicizar-
se. A ânsia pela temporalização que marca o perfil humano exige da
estrutura doente um ponto de apoio sólido contra o naufrágio absoluto.
Este tem sua derradeira manifestação nativa na inter-humanidade, na
presença de algum modo confortante do semelhante doando-se para

16 G. Di Petta, “I disturbi dello stato di coscienza tra poliabuso e psicopatologia”,


Accademia di studi italo-tedeschi di Merano, p.14.
17 Ibidem.
18 Ibidem, p. 13.
40 psicose e embriaguez

receber os destroços da existência alheia. Diversamente, a psicose


tóxica prescinde dessa derradeira boia de salvação no momento exato
em que renuncia a seu direito de temporalização. A consequência disso
muito revela do cerne da humanidade. Nas sempre elegantes palavras
de Gilberto Di Petta:

A psicose tóxica é ainda mais trágica, pois nela são menos


detectáveis, por exemplo, do ponto de vista psicoterapêutico,
aqueles conteúdos temáticos que tanto comovem e nos envolvem
no paciente esquizofrênico clássico [...] A psicose tóxica, portanto,
se manifesta e evolui com mais ambiguidade, oferecendo
menos pontos de apoio ao tratamento, tanto psicológico
quanto farmacológico. Parece mesmo dialogar melhor com as
substâncias [...]19.

A abertura para a interpessoalidade, pela qual transitam os temas


da vida no sofrimento e dor esquizofrênicos, brandindo por auxílio
urgente, tolda-se em definitivo, espessando a barreira de separação
entre a consciência embriagada e a consciência do terapeuta. Sem
essa ressonância da dor do outro dentro de si, o terapeuta vê reduzida
sua capacidade de entretecer sua vida com a vida alheia. Incurioso e
lasso, refratário ao mundo sonoro da inter-humanidade, o paciente
dedica-se mais e mais ao vórtice infernal da embriaguez que se renova
infinitamente, até a morte. Nem mesmo a ação farmacológica, nos
instantes do ocaso do ser, consegue mais romper a vedação dos últimos
canalículos ligando a consciência embriagada ao mundo.
O esgotamento desses canais de nutrição entre consciência e
região inter-humana pode ser perseguido em um nível intermediário.
Antes de ressecar-se completamente da seiva da alteridade, o ser vai
exsanguinando-se gradualmente. Observemos uma dessas comportas
intermédias, na qual a diretriz da vida histórica com o outro está
mantida, mas já mostra sinais de deformidade. O fenômeno que

19 Ibidem, p. 16.
guilherme messas 41

melhor simboliza essa meia-estação rumo ao estio da existência


embriagada é o ciúme do alcoolista. Daniel Lagache examinou nos
detalhes a constituição do ciúme típico do alcoolismo, desde suas
formas não psicóticas até a franca psicose. Examinemos três de suas
conclusões gerais e reencontraremos a assimilação dos perfis humanos
históricos pelos da natureza, agora num corte microscópico do tecido
inter-humano:

“2o Papel importante da lubricidade e da perversão sexual nos


conteúdos ideicos e nos comportamentos.
[...]
4o Caráter ruidoso, escandaloso e obsceno das manifestações” 20

O álcool, elevando a potência instintiva da consciência humana,


reforça as pontes sexuais ligando duas vidas enamoradas, em
detrimento das ligações de alma. A consequência dessa desmesura
naturante é o apogeu da lubricidade e o arrastamento dos critérios
de construção relacional para a esfera sexual. É no campo instável
e disforme do apetite corporal que as relações humanas íntimas se
fundem e dissolvem; é por esse diapasão que deverão agora ser afinadas
e pautadas. Enfraquecida e humilhada pela degradação corporal
ensejada pela alcoolização continuada, a consciência experimenta-se
menor e insuficiente diante do/a parceiro/a. Essa carência, contudo,
não assume a forma sentimental da impotência ou da fraqueza, pois
essas dimensões estão modificadas pelo eretismo do álcool. O campo
sentimental deixou-se inundar pelas águas intranquilas do instinto.
Logo, o locus da consciência que se inflama na dificuldade relacional é
a zona sexual e as formas da relação humana insatisfatória assumem
a dimensão da perversão, determinada pelo excesso de desejo ou pela
multiplicidade polimórfica da potência sexual. O mundo assustador da
insuficiência psicológica íntima é substituído pelo universo apavorante
de uma humanidade dominada por desejos sexuais visando a tudo e a

20 D. Lagache, La Jalousie amoureuse, p. 292.


42 psicose e embriaguez

todos, incoercíveis e indomáveis. O mundo interpessoal do alcoolista


é um mundo de monstros sexuais. Desse acréscimo de sexo, pavor e
maldade surge a flor do pântano que é o ciúme patológico do alcoolista.
As características dessa passagem do campo sentimental para
o instintual muito ensinam da espacialidade vivida pelo alcoolista.
A esfera da intimidade, sempre voltada para o jardim de inverno da
mente, mesmo em seus momentos turbulentos, escancara suas janelas
para a rua, desfraldando-se em escândalo e obscenidade. Rudolf Bilz
contribui para a elucidação dessa espécie de prolapso da vida íntima
no espaço coletivo e múltiplo, afirmando sobre a alucinose alcoólica:
“Trata-se de um conflito intrassubjetivo que se ‘espacializa [...]’”21. O
conflito sentimental do indivíduo assume uma feição tridimensional,
fruto do arrasamento das cercas delimitantes do eu. Essa difusão da
intimidade para o espaço externo tem suas preferências: “Em geral,
pode-se dizer que a região na qual se desdobra a alucinose alcoólica
não é – ou não o é primordialmente – a da família, mas a da pólis
[...]”22. A coletividade humana na qual se derrama o humor aquoso
da consciência individual toxicômana transpassa os limites mais
próximos da família – que ainda poderia ser vista como uma extensão
do eu privado – e aloja-se na visibilidade total do espaço da cidade,
da coletividade absoluta. É essa espacialidade absoluta que informa
a patologia do ciúme. A sexualidade, de privada entre duas pessoas,
passa a ser território da orgia dionisíaca, da fusão e engolfamento dos
corpos atritando-se e consumindo-se na cegueira ígnea da lubricidade.
Os sentimentos que se dirigem ao outro se deformam em instintos
carnais metralhando e sendo metralhado por uma pólis carnavalesca
e sardônica. O ser íntimo carente perdeu-se: emerge o horror de um
baile de máscaras circular e descendente.
Retornemos a Lagache, mirando seu terceiro achado:

21 R. Bilz, “Das Belagerungserlebnis in den Alkoholhalluzinosen. Eine Untersuchung


über die Situation und das Verhalten des Subjekts”, Der Nervenartz, v. 27, n. 9, p.
409.,
22 Ibidem, p. 407.
guilherme messas 43

“Influência da alcoolização e da desintoxicação na evolução do


ciúme: piora sazonal, piora vespertina e noturna, sedação após
desintoxicação [...]”23.

A batuta regente do ciúme desliza das mãos da lógica da relação


pessoal e de suas idiossincrasias e passa a regular-se pelo metrônomo
da natureza: estação do ano e final do dia, na vigência da embriaguez,
determinam o momento apical da patologia do ciúme. A consciência
individual fica, pois, à mercê das leis naturais, como um joguete dos
deuses na mitologia grega. A camada humana que a análise permite
revelar não passa pelos fatores geradores de ciúmes dentro da trajetória
de uma vida a dois. Antes, passa pela reflexão acerca da significação
do final do dia e da mudança de estações para o humano; em outras
palavras, a ênfase, mais uma vez, abandona a biografia e encontra a
espécie e sua filogênese (cuja avaliação não nos interessa no momento).
A manifestação mais evidente dessa regência tirana da biologia sobre
as formas das relações inter-humanas está no desaparecimento dos
ciúmes com a abstinência. Nenhum ato essencialmente humano aplaca
a voracidade ciumenta: apenas um ato natural – a abstinência – decide,
desde fora, o destino da relação dual.
Mas a consciência debate-se antes de ir definitivamente a pique.
Do fundo do seu ser, reúne suas derradeiras energias para agarrar-
se às paredes do real, uma vez já perdida a adesão principal à inter-
humanidade. Seu último bastião para manter-se à tona, a compensação
fenomenológica. Por meio dessa, aquém dos dissolvidos liames
históricos da linha da vida, a consciência moribunda exalta, com os
elementos distorcidos que ainda tem à mão, a mera possibilidade de
atadura entre dois elementos. Perdida a linha direcional da existência,
restam os mecanismos subjacentes à vida como fator a fornecer
alguma firmeza para o restante da consciência definhante. Jean-Marie
Barthélémy nos ensina a delimitar o angustiante fenômeno:

23 D. Lagache, op. cit., p. 292.


44 psicose e embriaguez

Os mecanismos compensatórios realizam uma obturação provi-


sória por meio da qual tentam conter e superar essas falhas (a perda
das formas estáveis). As forças de ligação são úteis nesse sentido;
elas servem como uma espécie de remendo, participando de um
processo de unificação hesitante e engendrando contiguidades
temáticas, suscitando lamentos nostálgicos e apelos repetidos;
esforçam-se em forçar junções ou relações, mesmo ao preço de se
tornarem bizarros ou incoerentes24.

A silhueta evanescente de alguma relação formal – indefinida


que seja – são os destroços que permanecem do naufrágio da vida.
Qualquer relação, por mais exótica que seja, é melhor do que o turbilhão
da deformidade incondensável em ponto algum, da flutuação de
partículas inarticuláveis e arredias a qualquer arranjo. O mero fato de
poder existir a forma “relação” é a boia nostálgica que faz lembrar ao
náufrago a memória da terra firme. Assim, um de seus pacientes será
levado a “fazer uma aproximação entre ‹um objeto marítimo› e ‹asas›,
fazendo um ‹pássaro voador›; um outro colocará ‹orelhas em sua
borboleta›”25. Desesperadamente, a existência exangue ata qualquer
ponta de seus fios perdidos procurando estancar a sangria arterial de
uma consciência desmantelada nos seus fundamentos. A compensação
fenomenológica a qualquer custo e com não importa qual resquício
temático é a derradeira e exótica atadura diante da lividez da morte.
Seu porto de despedida preferencial, a afetividade: “essa função de
salvaguarda é especialmente ativa no campo da afetividade [...]”26. Um
eventual e mesmo aparentemente injustificável ou paradoxal acréscimo
nas tonalidade da afetividade nas vésperas de um colapso mental
explicar-se-ia, portanto, pela tentativa da consciência de reencontrar o
mundo perdido pela via de uma espécie de hilética agonizante.

24 J.-A. Barthélémy, L´Analyse phénoméno-strucuturale dans l´étude psychologique


des alcooliques, p. 812.
25 Ibidem.
26 Ibidem, p. 825.
guilherme messas 45

A análise ainda não está completa. Por uma outra preciosa e


vasta janela podemos acompanhar o derrubamento da temporalidade
do ser. A estância da consciência no mundo assenta suas fundações na
corporeidade. No limite, é sempre ela a atestar a firmeza da presença
humana no mundo e a inexorabilidade da sua situação concreta.
Aproximar-se dos movimentos da existência desde o ponto de vista da
corporeidade sempre foi estratégia da antropologia fenomenológica, e
o caso da embriaguez não constitui exceção a essa regra. Das inúmeras
e paulatinas variantes de apresentação corporal da embriaguez,
limitemo-nos à exposição da condição final comum do embriagado
crônico, signo corpóreo da falência da existência global: o tremor.
Se existir é desenhar-se esboços no espaço vivencial projetado para
os horizontes do futuro, o corpo é o instrumento para a execução
desse trajeto pré-estabelecido e sempre renovado. O pressuposto que
fundamenta silenciosamente a existência é a firmeza, a capacidade
da materialidade da vida manter-se incólume diante das solicitações
da existência em seus atritos construtivos com o mundo. Em termos
aristotélicos, poder-se-ia dizer que o corpo também é a causa material da
existência formal, o modo pela qual ela pode deslizar pelo mundo sem
entrar em rigoroso colapso. O exagero contínuo da excitação alcoólica
esgota essa escora precípua da realidade, transfigurando o princípio
de firmeza em um derretimento existencial que, no corpo, é estampado
pelo tremor. O tremor prova que a consciência já não mais tem âncoras
seguras no real, que pode derribar-se a qualquer momento. Jean-Marie
Barthélémy ilustra essa condição do malogro humano: “Ligeiro frêmito
passageiro das terminações digitais, no melhor dos casos, esse tremor
por vezes toma todo o corpo com trepidações contínuas ou sacádicas
que travam e parasitam ao mesmo tempo a fala, as manipulações, os
deslocamentos e a execução de gestos. O tremor se manifesta na ponta
do lápis por um estremecimento que torna as linhas e formas incertas,
ondulantes e os trajetos tortuosos e tateantes [...]”27.

27 Ibidem, p. 816.
46 psicose e embriaguez

A dissolução da firmeza existencial executa um movimento


centrífugo e expansionista cujo didatismo implicado faz com
que mereça ser acompanhado de perto. Inicia-se pelo tremor das
pontas, indicando que o primeiro fenômeno a despedir-se da
potência futurante da existência é a delicadeza. Mais sofisticadas,
as terminações digitais são o polo expansivo da mente por
excelência, o símbolo vivo da aptidão humana para o detalhe e o
cuidado, para o trato do jardineiro ou do escultor com o mundo,
moldando, na microscopia do cotidiano paciente e incansável, a
forma representativa dos projetos da existência. O enfraquecimento
da minúscula porção corporal responsável pelo cuidado minucioso
e maternal com a existência anuncia a invasão global da devastação.
No passo seguinte, todo o corpo perde vigor e outros domínios
do ser tornam-se presa das garras do dionisíaco. As trepidações
ou descontinuidades obstam a regularidade do fluxo da vida,
enrouquecendo a voz e a mímica, que são a forma da expressão
aberta da existência, a face de comunhão corporal do eu com o
mundo. Mas não basta. Também a ocupação do espaço geométrico
no qual o corpo se faz biografia recebe sua cancela de proibição.
Com os tremores, paralisa-se o instrumento motor mais grosseiro
e mais público da existência, o próprio deslocamento no espaço.
Parasitado da delicadeza do detalhe que entalha o mundo até a
força do deslocamento que dele se empossa, o corpo perde seus
vetores de finalidade. Resta um titubeio vacilante, de trajetos
tortuosos e tateantes, signo da insuficiência ontológica radical que
já pudemos identificar sob outras tomadas de câmera. Por onde
quer que se vislumbre o ser na fase final da existência alcoolizada
(e aqui, vale lembrar, nos limitamos estritamente aos fenômenos
corporais fundamentais, visando apenas a apresentar o aspecto mais
evidente do problema. Seguramente, outras perspectivas, como a da
investigação da memória, p.ex., trariam interessantes observações.
No entanto, para as finalidades desse ponto do trabalho, é suficiente
a observação do tremor), topamos com idêntica estrutura, variando
nos seus aspectos de manifestação fenomenológica.
guilherme messas 47

Recuperemos as análises até agora desenvolvidas. A literatura


fenomenológica psicopatológica ocupa-se da experiência humana
no mundo tomando a temporalidade como caudal. Iluminando
o humano desde o ponto de vista de sua abertura, o exame das
patologias da embriaguez revelam-na como ameaça de fechamento,
de encarceramento e queda deformante e gradual. Mas até agora nos
ativemos ao papel do álcool na produção do declínio da existência.
Impõe-se a indagação a respeito da extensão da aplicação desses
achados. Seria restrita à alcoolização a caminhada subterrânea do
humano ou poder-se-ia dizer que com outras fontes de embriaguez o
mesmo se dá? Ou, formulado de outra maneira: se a investigação do
“In vino veritas” faz revelar certo campo de posições da existência, o
estudo de outras substâncias embriagantes desvelaria outras regiões
do ser? Se o álcool enfatiza a porção celebratória da existência e suas
ameaças monstruosas, é possível indagar se outra substância daria
voz a outras dimensões do ser? O feixe de estudos da antropologia
fenomenológica é exíguo no setor, mais convidando para investidas
em selva virgem do que colheita em seara madura. Mas a exceção é
loquaz. Jürg Zutt debruça-se sobre as consequências do uso do pervitin
sobre a estrutura humana. Sigamo-lo na riqueza dos seus achados e de
suas tomadas de perspectiva profundamente helênicas.
A primeira observação revela um campo da existência diverso
do movimentado pelo álcool: “Não é como no caso das pessoas sob
efeito do álcool, que se seduzem facilmente, entregando-se a fantasias
vívidas, ou procuram companhia; mas é justamente no espaço laboral
que o estímulo encontra seu alvo apropriado”28.
Do horizonte indeterminável sobre o qual pousa a existência, a
experiência com o estimulante (não apenas o pervitin, mas também
a cocaína, frisa o autor) ressalta e, por um mecanismo de hipérbole,

28 J. Zutt, “Über die polare Struktur des Bewusstseins” [1943], in J. Zutt(ed.), Auf
dem Wege zu einer anthropologischen Psychiatrie: Gesammelte Aufsätze, p. 259.
(Grigo nosso.). Essa obra será bastante citada ao longo desta exposição. Dessa
forma, para evitar seguidas notas de rodapé referentes à mesma obra, optamos
por colocar, entre parênteses e no corpo do texto, o número da página de onde for
retirado cada trecho citado.
48 psicose e embriaguez

faz-nos conhecer mais o espaço laboral e suas interdigitações com


a consciência. O espaço do trabalho caracteriza-se pelo repúdio ao
desperdício. Porém a noção de desperdício aqui assume uma feição
bastante particular, incluindo a reflexão desprovida de finalidade
e meditativa, assim como o mero prazer de gozo do mundo. O
fundamento essencial desse repúdio ao desperdício assenta-se sobre
uma elevação da direcionalidade em relação ao mundo, ou seja, os
objetos mundanos passam a tornar-se mais interessantes. A consciência
deixa o conforto de uma ação por vezes voltada para si mesma e
seus devaneios e dirige-se resolutamente para o mundo. Aferram-se,
consequentemente, as amarras entre a consciência e o mundo, ambos
passam a ligar-se por um nó demasiadamente firme, reduzindo a
amplitude da espacialidade da consciência e sua flexibilidade. Do
ponto de vista do estado global da consciência, o vivido que expressa
esse estado de coisas é a hipervigília. A consciência extremamente
ativada e clara permite que o mundo se torne mais interessante e, com
isso, entronize a finalidade como imperatriz da consciência: “No caso
do interesse, aquilo que é essencial é precisamente a sua finalidade
[...]” (p. 261). O campo de ação da consciência é campo de finalidade
visando aos objetos: a consciência torna-se, por assim dizer, pura visão
voltada aos objetos.
Com essa excessiva aproximação da consciência em relação
aos objetos e a elevação do grau de interesse destes, a forma básica
consciente – figura-fundo – deforma-se. A consequência primeira dessa
deformidade é a perda da relevância dos objetos: como tudo se torna
interessante para a consciência, inexistem, obviamente, os objetos de
menor valor a serem desprezados pela apreensão atencional. Nessa
deformidade situa-se o núcleo da patologia da embriaguez pelo
estimulante embriagante: “A fronteira entre o realmente interessante e
o desinteressante é borrada, no sentido de uma elevação do interesse,
uma inadequada acumulação do interessante” (p. 265).
Nesse mundo desdiferenciado, no qual todas as coisas perdem
qualquer hierarquia de valor, a consciência atordoa-se com um
“interessar-se vazio, um interesse que se exaure porque se ocupa
guilherme messas 49

com objetos sem valor [...] porque o valor do que é individualmente


de fato interessante não é mais captado no mundo desdiferenciado”
(ibidem). Vazia de sentidos, pois teve seu valor aplainado, tornando
iguais presenças individuais que a existência tem como desiguais, a
consciência torna-se preza fácil dos dissabores do desbalanço extremo.
Da perspectiva humoral, o interesse exagerado por um mundo
tiranicamente igualado deságua na disforia. A euforia que a droga
produz não consegue, dadas as condições espaciais acima assinaladas,
traduzir-se em qualquer forma de prazer: “não de um desejo de
alegre desfrute das esferas típicas da vida: de sociabilidade, diversão,
viagens, festas ou vivências eróticas” (ibidem). A euforia deturpa-se
na deformidade do humor, a disforia. De certo modo, toda atividade
prazerosa pressupõe uma diferenciação de mundo, uma carência do
sujeito que busca se preencher na celebração da alteridade. A alteridade
preenche uma interioridade que, por natureza, jamais pode se encerrar
completamente em si mesma. A euforia sob a perda da diferenciação,
por sua vez, ao aniquilar essa hierarquia, expressa-se unicamente pelo
atrito com o mundo, pela abrasão com uma superfície que, de tanto
interesse, perde-se em esgotamento desinteressante e irritável.
Porém, o desbalanço da hipervigília do espaço laboral pode,
condição extrema, acarretar psicoses, que respeitarão o quadro
global da desmesurada adesão ao mundo do interesse: “Insônia,
inquietação, distraibilidade, impulso de ocupação vazio, mudança da
realidade óptica no sentido de uma clareza ampliada [...]” (p. 272). O
nivelamento empobrecedor transforma-se, por fim, em paranoia, na
exagerada observação visual dos detalhes do outro, de modo que seus
movimentos passam, de neutros, a significar ameaça para a consciência
atormentada pelo excesso de clareza da vigília.
As mesmas observações aqui tomadas pela vertente espacial,
também podem ser vislumbradas pela temporalidade. Elas fazem
desmistificar a aparente associação entre espaço laboral ativo e produção
de temporalidade fértil. Numa apreciação ligeira, o espaço laboral
pode ser entendido como o fórum da inovação, o celeiro da novidade
e da renovação, ou seja, o embrião da expansão da temporalidade.
50 psicose e embriaguez

Contudo, Zutt nos dirige para o caminho inverso em sua investigação,


tanto no âmbito pré-psicótico quanto na psicose propriamente dita.
Na situação pré-psicótica, “na condição limite da consciência
hiper-vigil já existe a inabilidade de incluir novos fatos [...]” (p. 271).
O excesso de interesse pelo mundo, em vez de mostrar-se renovador,
transveste-se em vedação conservadora, negando espaço àquilo que é
genuinamente novo e necessita de paciência e complacência para sua
germinação. A proibição da abertura da consciência biográfica para
a necessária renovação pela novidade vivenciada surge com maior
evidência e dramaticidade pela via da comparação clínica entre a
psicose causada pelo estimulante e a causada pelo álcool: “as psicoses
por Pervitin [...] devem ser entendidas amplamente como aumento e
acumulação dos efeitos do Pervitin [...], não se trata pois de algo novo,
como, por exemplo, no sentido de um transtorno mental do bebedor
habitual...” (p. 272).
Na psicose pelo álcool, o mundo se desfigura em formas
subterrâneas, menores que o humano, minerais ou vegetativas.
Entretanto, de certo modo, essa invasão demoníaca da consciência
perfurada e em queda ainda prefigura um mundo aberto a novas
possibilidades em potência, ainda que a potência da morte. Na
psicose por estimulantes, a desertificação da consciência no interior do
território conhecido é absoluta, estado no qual nem mesmo um oásis
de ficção consegue medrar. Aprisionado no espaço estonteantemente
claro e evidente do mundo do interesse – o mundo laboral – o homem
não tem diante de si mais a memória da genuína novidade, do frescor
da vida. Substitui-se a genuína novidade profunda do ser pela mimese
farsesca do novo; troca-se a experiência vivida pelo aparato técnico.
Concluamos essa digressão pelo universo do mundo-feito-espaço-
laboral com a descrição feita por Zutt dos habitantes desse reino:

Para o manejo hábil de aparelhos já conhecidos e confiáveis,


ainda que complicados, essa clareza de consciência parece
apropriada (como, por exemplo, o caso de pilotos e condutores
de veículos). A grande velocidade de nossa época, desenvolvida
guilherme messas 51

no esporte e na técnica, exige tal estado de consciência. Não se


depende de imersão, de se ficar absorvido na profundidade, mas
da habilidade com aparelhos estandardizados (p. 267).

Se com o álcool espreita a consciência humana a monstruosidade


dos abismos atemporais, da fusão com a natureza bruta, a tocaia,
com o estimulante, ameaça com a transformação do humano em
administrador do objeto, da máquina. A verticalidade do álcool e a
horizontalidade do estimulante têm em comum, por sua vez, a redução
das potências de crescimento da vida mental livre, a calcificação da
forma tempo-espacial primordial que faz da vida humana aquilo que
é, reforma antropológica contínua no meio da tradição, criação sobre
a determinação, liberdade combinada com imposição. Em suma, a
embriaguez em modo de hybris é, por mais de uma via, fechamento da
nativa abertura antropológica defendida pela fenomenologia.
É sobre os ombros dessa poderosa tradição que fincaremos os pés
de nossa contribuição à psicopatologia fenomenológica das psicoses na
embriaguez. Essa contribuição, ciente da complexidade dos problemas
da embriaguez e da virtual inesgotabilidade de perspectivas de
aproximação do ponto de vista fenomenológico, parte do princípio
de que ainda se faça necessária, para a boa compreensão do tema,
a destilação da essência mesma da embriaguez. Ainda que todos os
estudos acima apresentados tenham identificado estruturas existenciais
fundamentais para a compreensão das patologias da embriaguez
– mais nas suas condições crônicas e praticamente nada nas agudas
– nos parece que um imprescindível passo posterior de investigação
tenha sido negligenciado ou não tenha sido levado às suas últimas
consequências, deixando certa incompletude nas análises. Negligência
ou incompletude seguramente não devidas a alguma pressa ou
imprecisão intelectual, mas ao estilo de se operar a fenomenologia. A
literatura citada dedica-se seja à antropologia geral da toxicomania29,
seja às psicopatologias da embriaguez. Consequentemente, parte de

29 Cf. V.E. con Gebsattel, “Sobre la Psicopatología del Vicio”, in Antropología


Médica.
52 psicose e embriaguez

uma opção epistemológica que enfatiza o aspecto longitudinal da


temporalidade, para o qual não há diferenciação entre essências e
estruturas, fazendo com que o estudo das últimas seja idêntico ao das
primeiras. Afinal de contas, examinar as essências é operar um corte
transversal sobre a existência. Em outras palavras, estudou-se com
profundidade as estruturas antropológicas dos embriagados em suas
transformações, mas não a essência da embriaguez que, encarnada
nos indivíduos, promove as tais modificações. Há, é verdade, três
estudos que mencionam a noção de essência. Um deles restringe-
se à essência da toxicomania30. Nos outros dois31, a embriaguez é
entendida como ponto de partida para a compreensão da toxicomania
e há uma preocupação em mencionar sua essência. Zutt a define como
“uma modificação polar de nosso devir involuntário [...]”32, mas não
se estende na ampliação da definição, logo retornando a seu eixo
central de reflexão antropológica. Dörr vai mais além, propondo ser
“A embriaguez um ‘agora’ desconectado da facticidade (passado) e da
possibilidade (futuro)”33, que, por essência, “empurra sempre [...] a um
não terminar, a um ‘ainda mais’”34. Entendendo-a como uma forma
extrema da queda no presente, tal qual proposta por Heidegger, passa
logo a refletir acerca dessa categoria da analítica da existência deste
autor.
Nossa visão de fenomenologia – como será largamente desen-
volvido no decorrer do estudo – pretende que as estruturas sejam
individuais e singulares, ao passo que as essências, universais e de
espécie. E que cada indivíduo recolhe e acomoda à sua maneira as
essências da espécie ou da patologia, matizando assim a estrutura
privada ou – o caso de nosso interesse – patológica. Nosso interesse

30 Cf. J. Zutt, “Über das Wesen der Sucht nach den Erfahrungen und vom Standpunkt
des Psychiaters” [1948], in J. Zutt (ed.), Auf dem Wege zu einer anthropologischen
Psychiatrie: Gesammelte Aufsätze.
31 Cf. J. Zutt, “Zur Anthropologie der Sucht”, Nervenarzt; e O. Dörr, Psiquiatría
Antropológica: Contribuciones a una Psiquiatría de Orientación Fenomenológico-
Antropológica.
32 J. Zutt, “Zur Anthropologie der Sucht”, Nervenarzt, p. 441.
33 O. Dörr, op. cit., p. 435.
34 Ibidem, p. 435.
guilherme messas 53

versará, portanto, sobre as tensões entre coletivo e individual, em uma


perspectiva dialética.
Assim sendo, embora a investigação final do psicopatologista
vise de fato às estruturas, pois será sobre elas que se inclinará sua
atividade profissional prática, estas estarão sempre modificadas
pelo imprint de uma essência geral que, por sua vez, jamais se revela
totalmente porque, sempre instanciada, não surge nunca em forma
pura. Entretanto, essa forma pura essencial é ativa na constituição das
estruturas individuais – uma força típica, por assim dizer, agindo na
configuração das patologias – e passar ao largo da sua identificação é
renunciar ao exercício fenomenológico de buscar dissecar a realidade
até seus últimos entrelaçamentos. Ademais, igualmente nos parece
que o salto cego por cima da derradeira redução fenomenológica, a
do encontro da essência da embriaguez, entorpece a clareza de visão
do fenomenólogo psicopatologista na compreensão mais profunda das
condições de possibilidade das vivências dos pacientes. A nosso ver,
somente após o reconhecimento dessa essência geral poderemos ousar
produzir uma compreensão da pluralidade das diversas patologias da
embriaguez (da toxicomania às psicoses) de maneira mais próxima
das peculiaridades do existir humano embriagado. Justamente por
empregar estratégia semelhante a essa que Ludwig Binswanger pôde
enriquecer a psicopatologia fenomenológica da esquizofrenia, em seu
artigo “Drei formen misglückten Daseins”. Estudando três essências
antropológicas gerais, demonstrou como elas configuram modalidades
diversas da esquizofrenia.
Mas há ainda outra questão. Identificada a essência da embriaguez
com a estrutura individual de instância no mundo da consciência,
os resultados provenientes da investigação fenomenológica tendem
inevitavelmente a uma perigosa generalização. Posto que o essencial
típico e o individual estruturado são vistos fusionalmente como o
mesmo objeto, o investigador, chegando a certas conclusões, as toma
precipitadamente como idênticas para todos os que sofrem os agravos
da embriaguez. Assim agindo, esquece-se de que achados gerais servem
apenas para as essências e nunca para as existências individuais. E, por
54 psicose e embriaguez

outro lado, toma como irrelevantes os achados que não se enquadrem


nessa identidade. Embora no nível antropológico essas considerações
não tenham efeitos daninhos, no âmbito psicopatológico incorrem
em enfraquecimento da precisão necessária para a constituição de
uma ciência. São as modalidades de implantação da generalidade na
particularidade o objeto por excelência do psicopatologista e, para
o exercício da tarefa de revelá-las, é imprescindível a discriminação
redutora de fenômenos que, sempre surgindo em indivíduos,
se manifestarão inevitavelmente de modo complexo. Há que se
conhecer profunda e claramente o geral para se alcançar o particular.
Uma fenomenologia do geral não contempla todos os interesses da
psicopatologia fenomenológica, além de não abrigá-la das armadilhas
dos mecanicismos tanto biológicos quanto psicológicos. Estes, ao
buscar leis gerais de explicação para seus fenômenos, as tomam
como ponto de chegada de sua empreitada científica e, com isso,
retiram a integridade da existência humana de seu solo. Solo ao qual a
fenomenologia pretende restituí-la.
Por fim, devemos anotar que nosso estudo penetra na psicopa-
tologia fenomenológica das psicoses na embriaguez a partir de uma
perspectiva em particular, a da temporalidade. A mesma investigação
poderia estabelecer-se tomando como norte outras categorias
fundamentais da existência, tais como espacialidade, interpessoalidade
ou corporeidade. Embora por todas elas abordaríamos a mesma
existência consciente humana, seguramente teríamos resultados
diversos, já que o olhar enfatizaria diferentes regiões do ser. Há, portanto,
que se justificar essa escolha. Em primeiro lugar, sustenta essa opção
a posição – já defendida por mim no trabalho “A Phenomenological
Contribution to the Approach of Biological Psychiatry” – de ser a
temporalidade o fundamento derradeiro da existência humana. Mas,
além dessa tomada de posição antropológica, um outro motivo escora
a estratégia, mais ligado à dimensão pragmática da psicopatologia.
Parece-nos ser a temporalidade, como projeção dessa matriz ontológica
capital, a dimensão da existência mais apropriada para que uma
investigação psicopatológica sirva aos propósitos clínicos que dela
guilherme messas 55

dependem. Embora nosso trabalho não avance para os desdobramentos


clínicos propriamente ditos, é imperioso mencionar que, dado ser a
estrutura da consciência-implantada-no-mundo expansão e avanço,
recortá-la desde a temporalidade, mesmo que não se atine diretamente
para isso, é ao mesmo tempo identificar os pontos pelos quais essa
expansão se vê dificultada e sobretudo favorecer sua retomada. Em
outras palavras, uma psicopatologia fenomenológica baseada na
temporalidade é aquela que mais apta está para a construção da
terapêutica. Porém, como todas as dimensões da existência estão
profundamente entrelaçadas entre si35, em diversas ocasiões menções
às demais se farão necessárias – sobretudo à espacialidade –, seja para
ampliar o entendimento de alguma situação, seja para apresentar suas
condições mesmas de possibilidade.
Assim, a seção seguinte desta contribuição deve ser entendida
como um passo preliminar para a compreensão mais acurada da
psicopatologia dos problemas ligados à embriaguez, por meio da
identificação da essência geral da embriaguez, e, a partir desta, os
caminhos que levam à adicção. Assim, nossa estratégia expositiva
nesta seção será, após a destilação da essência da embriaguez, realizar
a demonstração dos modos gerais pelos quais essa essência desfigura
gradualmente a estrutura da consciência. Parte do pressuposto de
que, embora cada substância embriagante promova uma diversidade
regional de efeitos na consciência, todos eles podem ser reduzidos a
uma unidade compreensível em suas dimensões fundamentais tempo-
espaciais. A partir da aquisição dessa unidade essencial pode-se
retornar à diversidade de manifestações das substâncias modificadoras
da consciência e, igualmente, identificar sua presença nas encarnações
individuais de cada existência, exercício a ser efetuado nas demais
seções. Esperamos com isso conferir ao ato psicopatológico em
fenomenologia um sentido mais profundo e à terapêutica um alvo
mais definido de atuação.

35 Mais do que isso: como se verá ao longo do trabalho, a dimensão temporal exige
as demais para sua atualização, sem o que se transformaria em uma abstração
intelectualista.
2.
Rumo à Essência Geral
da Embriaguez

O problema da embriaguez registra-se na grande questão da


dietética. A dietética, por sua vez, insere-se no tema global do trânsito
e da inserção da existência consciente humana no mundo da matéria.
Agregado de matéria e experiência espiritual ao mesmo tempo, a
consciência humana sabe-se livre e limitada. Livre, no território em
que o espírito encontra-se purificado e dirige-se a si mesmo e às suas
circunvoluções. Limitada, na solidez naturalista da matéria viva que
ao mesmo tempo lhe estofa e constitui as fronteiras externas e internas.
Existe, entretanto, um istmo exclusivo do humano ligando os dois
campos, terreno no qual a liberdade do espírito dedica-se a conhecer
a lógica de sua subordinação à matéria invencível. Resignado na sua
impotência, aqui o espírito livre reconhece que o máximo de seu poderio
de expressão de autonomia reside no conhecimento das características
qualitativas e das leis dominantes daquilo que é ao mesmo tempo
seu principal aliado e seu adversário: a natureza. As características
qualitativas marcam a espessura das vivências conscientes, lhe dão sua
materialidade; as leis, por sua vez, a previsibilidade do comportamento
daquelas sobre o tempo, instituídas em relações de causalidade.
O conjunto desses conhecimentos é a dietética. Tomada no seu
sentido clássico, a dietética é a práxis para a qual confluem todos os
conhecimentos da expressão da natureza na existência humana. É a
58 psicose e embriaguez

dietética a atividade que rege a condução da consciência encarnada


sobre si mesma, a produção autorregulada e individualizada dos
melhores estados de ser e de mover-se no mundo que dependem da
materialidade. Por meio da dietética a consciência tem diante de si uma
tarefa das mais sublimes: identificar sua carnadura privada irredutível
e ao mesmo tempo superá-la parcialmente no ato espiritual autônomo
capaz de reger essa textura que troca substância com o mundo, que
dele faz seu próprio estofo e insumo. No limite, com a dietética, toda
a existência humana singular está implicada simultaneamente consigo
mesma, com o mundo inter-humano e com a matéria inanimada
cósmica.
Embriagar-se é optar voluntariamente por uma das ofertas do
amplo menu da dietética. É, voluntariamente, acrescer ou reduzir
determinadas possibilidades advindas da ação da matéria do
mundo sobre a constituição global da consciência. Embriagar-se é,
por conseguinte, antes de tudo um movimento, a partida desde um
estado determinado e estável rumo a outro, necessariamente fugaz,
sustentado pela ação transitória mas eficaz do fármaco embriagante.
A compreensão desse ato vetorial embriagante requer a evidenciação
da relação entre o estado de partida e a condição transitória de
chegada36, esta última sempre gravitando em torno do primeiro, de
modo a que se constitua entre ambos uma relação dialética sobre a
qual ainda retornaremos diversas vezes. A linguagem captura o
sentido da embriaguez por meio do vocábulo “êxtase”. Embora não
necessariamente vinculado às embriaguezes de origem exógena (cf.
mais abaixo a definição operatória desse termo) – acerca das quais
limitaremos este estudo –, o estado extático revela a possibilidade
humana de sair de si mesmo, de ek-stasis, de propulsão no sentido
“para fora de um si mesmo contínuo”, mantendo-se este, contudo, em
condições normais, agarrado à identidade temporal.
Da própria particularidade do vetor ex-tático da embriaguez
delimita-se, já de partida, o núcleo epistemológico a partir do

36 Cf. G. Messas, Álcool e Drogas: Uma Visão Fenômeno-Estrutural.


guilherme messas 59

qual devemos enquadrar a fenomenologia da embriaguez. Toda


investigação de caráter fenomenológico só pode se acercar do
problema da embriaguez a partir do prisma da investigação dos
seus sentidos. E sentido deve ser entendido aqui como o modo de
inserção fundamental do estado agudo de embriaguez na totalidade
estruturada da consciência histórica existente. As resultantes pro-
priamente crônicas da embriaguez continuada não participam, em
essência, da sua perspectiva sincrônica de análise fenomenológica
estrutural, pois são novos estados estáveis da implantação da estrutura
da consciência e, consequentemente, não pertencem mais ao conjunto
de fenômenos transversais ligados à embriaguez. Por exemplo, um
estado de abstinência, embora, evidentemente, seja resultado da
sobreposição de camadas de experiências embriagantes, não é
essencialmente um estado de embriaguez. Falta-lhe a essência do fato
embriagante, tal qual devemos entendê-la neste estudo. Contudo, isso
não impede que as características da embriaguez continuada também
sejam examinadas mais abaixo.
A essência da embriaguez consiste em um deslocamento
súbito de estado, vivenciado como imanente, embora causalmente
reconhecido pelo intelecto como exógeno37. Em outras palavras, ela
é a experiência consciente de um deslocamento brusco, brotando do
interior de si mesmo, surgindo com independência em relação ao
mundo circundante, um gênero de prova constante que a existência
humana recebe de sua participação na natureza geral. Contrasta-se,
desse modo, a embriaguez da experiência, por exemplo, de enlevo.
Considere-se o enlevo a experiência de ser levado por algo excitante
ou estimulante. A primeira experiência constituinte do enlevo,
anterior mesmo aos seus conteúdos vivenciais e, portanto, condição de
possibilidade destes, é a influenciabilidade do meio externo, seja qual
modalidade ela venha a assumir. Vejamos nossa experiência diante
de, por exemplo, uma peça musical. Gradualmente, à medida que nos
deixamos por ela envolver, estados sentimentais e imaginativos vão

37 Sobre o uso do conceito de exógeno, assim como da polaridade conceitual


endógeno-exógeno, se refletirá alguns parágrafos abaixo.
60 psicose e embriaguez

se insinuando na consciência, e nos deixamos arrastar pela correnteza


do espírito da obra de arte. A partir de certo ponto do mergulho na
peça, o enlevo pode mesmo conduzir nossa atenção para regiões
muito distantes da execução musical. Nossa consciência já estará
fechada em si mesma e não mais se dirige ao momento artístico. Nessa
altura, podemos mesmo dizer estarmos “embriagados” pela música,
num transe que nos faz deslizar para fora da estrutura habitual da
consciência. Contudo, o uso da palavra aqui não pode ir além de um
emprego metafórico. Esse transe (vocábulo mais adequado a esse tipo
de experiência) diferencia-se da embriaguez farmacológica por dois
elementos fundamentais:

a) Já fizemos alusão ao primeiro deles, a abertura à exterioridade


mundana. Mesmo nos estados mais solitários para os quais
o transe nos leva, mantém-se o fio que liga a consciência
à experiência de fonte primária do enlevo. Ainda que
deslocada para o fundo do estado de consciência, permanece
no enlevado a ligação umbilical com a exterioridade, com
a alteridade radical da obra (o mesmo vale, ainda que com
características singulares que escapam nesse momento a nosso
campo de interesse, para os enlevos emanantes da dualidade
interpessoal). Em síntese, o enlevo é uma vivência individual
assentada sobre uma comunicação primordial continuada com
o mundo pático. Mesmo em caso de continuidade do enlevo
já quando rompida espaciotemporalmente essa comunhão
– por exemplo, se ao final da nossa presença no concerto
prosseguirmos algum tempo ainda tomados pelo espírito
da música –, antes teremos a experiência da ressonância da
alteridade sobre nossa consciência do que da independência
radical em relação ao mundo habitado por nós.

O oposto se dá na embriaguez farmacológica. Nela, é do fundo


exterior autônomo – transcendente à interpessoalidade primordial da
existência consciente –, “mineral” do ser que brota a alteração do estado
guilherme messas 61

consciente. Muito embora um dos principais usos da embriaguez seja


exatamente ampliar fenomenologicamente a interface de contato com
o mundo inter-humano, essa ampliação é essencialmente apenas
um acréscimo da visualização do polo noemático do ato intencional
de embriaguez; originariamente38, trata-se de um movimento de
acréscimo proveniente do exterior do si mesmo estrutural, prescindido
inicialmente de qualquer sintonia fundamental e profunda com
o mundo. Na embriaguez, o mundo inter-humano não é sítio de
mergulho, sintonia, revigoramento ou atrito e fracasso; o império da
embriaguez é o mundo exterior-transcendente e suas potências e leis.
Nesse sentido essencial, a embriaguez assemelha-se a um transtorno
mental biológico
Será sempre tendo em mente essa condição de um efeito
produzido sobre a consciência inicialmente desde uma desconexão
desta com a primordialidade do mundo, ou passando ao largo dessa
conexão (embora, lembremos, possa haver a construção temporária
de uma primordialidade vicariante), que utilizaremos neste estudo o
adjetivo “exógeno”39. Manteremos o termo consagrado pela tradição
psicopatológica, que indica uma causa de movimento da ou sobre
a consciência não proveniente do campo oposto, o “endógeno”; no
entanto, não adotaremos esse sentido tradicional.
Nesse uso aqui proposto, uma ação exógena o será apenas
pelo locus de início de seu efeito de movimentação da estrutura da
consciência-implantada-no-mundo, não podendo ser entendida de
modo a excluir o polo endógeno, como é hábito na pragmática da
psicopatologia. O campo endógeno é constituinte imprescindível da
estrutura da consciência-implantada-no-mundo; ele é, na realidade, a
rede capilar nos interstícios da qual o polo egoico, o polo interpessoal
e o polo mundano fundem-se trocando suas seivas. Essa fusão,

38 A noção técnica de “origem”, capital para esse trabalho, será ainda definida em
sua pragmática e desenvolvida em seção conveniente.
39 Aqui o termo equivale a “biológico”, tal qual desenvolvido em meu artigo “A
Phenomenological Contribution to the Approach of Biological Psychiatry”,
publicado em Journal of Phenomenological Psychology, v. 41.
62 psicose e embriaguez

misteriosa mas eficaz, faz com que mesmo os efeitos inicialmente


de causa exógena acabem por impactar secundariamente os acordos
originais entre o polo egoico e o polo mundano, que têm como
pressuposto oculto mas operante a presença continuada de todas essas
modalidades de doação, mesmo nas formas da patologia. No campo do
endógeno, é sempre uma estrutura de imbricação primordial que surge,
em busca de uma forma, mesmo que seja uma forma patológica (as
“formas da natureza”, de Binswanger). A constatação da concertação
primordial entre essa endogeneidade, a interpessoalidade e o mundo
na constituição da consciência encarnada do eu empírico não passou
despercebida a Husserl. Sigamo-lo em um excerto das suas Meditações
Cartesianas: “Se vê aqui como a comunidade temporal das mônadas
referidas constitutivamente umas às outras é indissolúvel porque está
em nexo essencial com a constituição de um mundo e de um tempo
do mundo”40.
A afirmação de um movimento exógeno, exterior ao si mesmo,
da estrutura não deve, certamente, ser confundida com a noção de
potência do ser, de expansão das possibilidades do indivíduo. Embora
também a embriaguez possa revelar esse manancial inacabável de
diferenciação individual, outra formulação, mais perigosa, pode ser
detectada: em muitas situações, cumpre a embriaguez o papel de
preenchimento secundário, epidérmico, de uma ausência primordial
de tráfego qualitativo de ressonância com o mundo pático. Mas ainda
retornaremos a esse tema.
b) O segundo elemento diferencial da embriaguez em relação a
outros tipos de vivência de transe recupera sua dimensão temporal e
foi por nós qualificado acima de “súbito”. Evidentemente, o caráter de
súbito não deve ser medido quantitativamente, em termos de segundos,
minutos ou horas. Sua acepção deve apenas manter a ideia de um
movimento que marca um contraste vivencial com o estado global
habitual vigente da consciência. A gradual melhora, por exemplo,
de uma depressão, com o uso de antidepressivos não pode, portanto,

40 E. Husserl, Meditaciones Cartesianas, p. 194.


guilherme messas 63

ser qualificada de embriagante, embora possa conter instantes de


embriaguez. O relaxamento proporcionado por um benzodiazepínico,
por sua vez, sim. Súbito aqui, portanto, deve ser entendido a partir da
sua relação com o estado global da consciência imediatamente anterior,
seu ponto de referência a partir do qual a consciência individual
percebe uma diferença contrastante, além da estabilidade dessa nova
forma e sua capacidade de ser incorporada à estrutura (voltaremos a
isso ao longo do estudo). Consequentemente – e essa consequência é
de supremo valor , dois estados coexistem na estrutura de experiência
do embriagado. O estado basal e o estado alterado. Embora esse último
possa preencher totalmente o campo vivencial em um determinado
momento, seu posicionamento sobre a globalidade apenas adquire
sentido em diálogo essencial com o estado pretérito estável que lhe
subjaz. Não há embriaguez sem uma dialética entre uma estrutura
relativamente estável de consciência e uma vivência alterada em torno
dela gravitando41. A prova mais cabal dessa afirmação encontra-se
nos já reconhecidos efeitos variáveis da embriaguez de acordo com o
estado mental do indivíduo. Aquela ingestão alcoólica que provoca
num dia uma euforia incomensurável, em outro pode apenas produzir
sonolência.
Esse caráter de ligação irredutível entre o estado alterado
de consciência e a estabilidade da estrutura que o fundamenta
diferencia a embriaguez farmacológica dos transes místicos. Nestes,
posteriormente ao estado de transe propriamente dito ou mesmo
durante, ou se dá uma renovação da estrutura global da consciência ou
a própria estrutura alça-se a uma nova forma global, embora transitória.
O místico torna-se outro, ao passo que o embriagado apenas se esquece
daquilo que continua sempre sendo. O dia seguinte do místico é de
depuração, do embriagado, de banal ressaca.
Postas estas considerações de caráter inicial, passemos a
investigar a essência temporal e espacial da embriaguez.

41 Novamente aqui se diferencia a embriaguez dos efeitos da ação antidepressiva.


Nesta, se eficaz, a própria estrutura global da vivência deve alterar-se.
64 psicose e embriaguez

A Essência Temporal da Embriaguez

Primeiramente, deve-se apontar uma assimetria entre


temporalidade e espacialidade no que tange aos estados de embriaguez
farmacológica. A temporalidade da embriaguez é única, ao passo que
sua espacialidade, como já antevira Aristóteles no famoso Problema
XXX, é múltipla42. A temporalidade da embriaguez é a do instantâneo,
a entronização do instante como modalidade preferencial de estância
no mundo. Essa entronização do instantâneo, também do ponto de vista
temporal, caracteriza-se pela modificação das relações habituais entre
as dimensões da temporalidade. O instante, embora fixado no presente,
destaca um segmento deste, transfigurando-o. O presente recebe seu
sentido de sua inserção no passado e de seu inevitável deslizamento
rumo ao desconhecido. Ele é, por assim, dizer, uma parada ínfima e
de certo modo conceitual sobre uma corrente contínua vivencial. O
instante destaca-se dessa correnteza, almejando alojar-se numa esfera
fora do tempo, unitária e sequiosa por independência temporal. Em
outras palavras, há na entronização do instante um desejo de renúncia
à temporalidade jamais saciado mas reiteradamente buscado; desejo
pleno de consequências psicopatológicas que ainda examinaremos.
Já a espacialidade, irmã caçula da temporalidade, medra com
exuberância nesse terreno volúvel mas ambicioso que a temporalidade
lhe oferece. Destacada da correnteza que lhe fixa o papel na existência,
a espacialidade da embriaguez multiplica-se num turbilhão
de possibilidades. Parece defensável dizer que o descolamento
instantâneo da temporalidade confere alforria absoluta à espacialidade,
permitindo que essa esboce formações que a gravidade do cotidiano
lhe vetaria. Entalhada entre a horizontalidade e a verticalidade, a
estância da consciência no mundo fundamenta-se na composição
trinária da temporalidade. Cambaleante esta, a espacialidade volteia
no eixo horizontal (trabalhado por Aristóteles a partir do binômio
aproximação-afastamento do mundo e pela tradição fenomenológica

42 Cf. Aristóteles, O Homem de Gênio e a Melancolia: O Problema XXX.


guilherme messas 65

por meio da noção de aproximação-afastamento da materialidade


do mundo) e vertical (desenvolvido por Binswanger nas suas “Três
Formas de Existência Malograda”) sem peias, construindo arquiteturas
de valor psicopatológico notável, como ainda veremos.
Mas mantenhamo-nos no terreno da temporalidade, já que nela
assentamos o fundamento último do ser. Algumas considerações de
ordem genérica são aqui pertinentes, embora exatamente por seu
caráter de generalidade tenham apenas a função de avançar tópicos
de observação dos fenômenos a serem examinados posteriormente na
sua encarnação real, de caso clínico. Essa última é a de maior validade.
Afirmar que a embriaguez entroniza o instante, esse irreverente
e indomável intervalo da cadeia temporal, não pode nos satisfazer,
nem mesmo em uma introdução. É necessário realizar a redução
fenomenológica do instante à sua essência. Como dissemos, o instante
coroado é uma tendência de ruptura do fluxo trinário do tempo, mas que
mantém ainda ligações com essa correnteza (sem as quais estaríamos
diante de uma experiência de estilhaçamento total da temporalidade;
de fato em alguns casos chega-se a esse ponto, mas, de modo geral, ele
é apenas um horizonte de tendência). Portanto, o instante igualmente
deve ser entendido a partir do seu modo de aparição no interior do fluxo
contínuo de consciência. O modo de aparição do instante será índice da
sua essência temporal. Típico do instante do ponto de vista essencial é
o arrebatamento, a força de arrastamento, experimentada sob a mais
exígua temporalidade, da forma da temporalidade rumo a um ponto
fixo na atemporalidade. Assim, abre-se uma heterogeneidade na linha
temporal, na vigência da embriaguez: um tempo rítmico protensivo,
linear e habitual, contemporâneo (salvo nos casos em que há uma
completa subordinação da consciência pretérita à embriagada, mas
são raros e terminais estes casos) e subordinado a um tempo invasivo,
exuberante e titânico.
A exiguidade do tempo titânico conduz à característica essencial
segunda a nos interessar: a experiência de compressão temporal de
que o caminho rumo à atemporalidade se dá por um afunilamento da
rota consubstancial à redução da experiência do tempo até coalescer
66 psicose e embriaguez

na atemporalidade43. Importante ressaltar que a temporalidade aqui


mencionada em nada identifica-se com a noção de eternidade tal qual
captada pelo espírito livre, como forma estável para além do tempo,
nele expressa e, mais importante de tudo, passível de abertura para o
polo noemático44 A atemporalidade aqui é a privação das condições de
possibilidade do tempo, o tempo deformado a ponto de não ser mais
complacente com nada que não seja idêntico à sua forma compressiva.
Um arrebatamento, desagregador da composição da tempo-
ralidade, confluindo para sua própria extinção na atemporalidade
parece, portanto, ser uma definição da temporalidade da embriaguez
que pode nos satisfazer por algum tempo para os propósitos
introdutórios e gerais dessa seção. Saliente-se que a noção de extinção
aqui não deve ser confundida com o desaparecimento farmacológico
da ação embriagante. A farmacodinâmica, embora seja relevante
para a condução clínica do embriagado, nada diz sobre a essência
da embriaguez. A extinção, do ponto de vista essencial, indica que
a própria embriaguez contém em si, na sua força de arrastamento, a
tendência de se paralisar aniquilando. A manifestação clínica evidente
é apenas um achado posterior e não necessário para a essência da
extinção. Mesmo uma mínima ação embriagante farmacológica
já contém em si o germe da extinção, da saída extática do fluxo da
temporalidade.
Mas, tendo em mente o que acabamos de desfiar, ainda não
podemos abandonar a noção de instante sem apontar para mais
uma de suas características essenciais: a força de imantação. O
arrebatamento desagregador do instante embriagado, ao forçar
a ruptura do esqueleto dinâmico da temporalidade, não apenas
tende a fraturar este, mas também a puxar para perto de si seus

43 Percebe o leitor que, para demonstrar a essência do instante embriagado do ponto


de vista temporal, foi necessário agregar-se uma compreensão espacial. Isso
se dá pelo caráter gemelar entre temporalidade e espacialidade nas origens da
experiência consciente.
44 Sem prejuízo das enormes dificuldades na avaliação das diversas experiências de
eternidade, é defensável que algumas possam se encontrar com a presença do Ser
eterno. Como nas Enéadas de Plotino.
guilherme messas 67

remanescentes, tanto do passado como das protensões futuras. A


tendência à atemporalidade, característica do instante, marca de sua
essência as demais instâncias. Vejamos como isso se dá em um exemplo
clínico típico: a reinstalação da toxicomania em ex-toxicômanos45.
Rapidamente, o antigo hábito, já acomodado no fundo do passado,
toma a frente da cena. Rapidamente, aquilo que era sedimento passa
a ser presente vívido. Do ponto de vista estrutural, esse achado releva
uma deformidade da dimensão pretérita, normalmente acomodada e
estável como uma planície, transmutando-se na atividade brilhante
do presente. O passado perde sua estabilidade, tornando-se presa
de uma particularidade essencial que lhe é totalmente estrangeira: o
arrebatamento. Há, por assim dizer, uma presentificação do passado
ligado às esferas do comportamento embriagado. O instante puxa
para si o passado, não deixando que este se dissipe ou atue de modo
silencioso, como seria de sua natureza, constituindo um passado
instantaneizado, fadado a fixar a temporalidade da existência na sua
transitoriedade instantânea46.
O mesmo se dá com o futuro. Um projeto de vida, por exemplo,
sempre se dá nas fronteiras do presente com o futuro. O futuro como
objetivo e o presente como instrumento material para sua execução.
Para que o projeto se afirme como realidade, é necessário que haja uma
gradual passagem da apresentação dos temas de tal projeto da forma
futura para a forma presente. Ou seja, é necessário que se passe do estado
imaginativo de devaneio para os esforços cotidianos para transformá-
lo em realidade. Essa operação de deslizamento dos conteúdos da

45 Nesse exemplo, já estaremos nos afastando do tema que nos ocupa neste momento,
o efeito agudo da embriaguez, para adentrarmos na zona das suas alterações
crônicas, melhor desenvolvidas abaixo.
46 Não podemos deixar de indicar a possibilidade de ocorrência de um outro
estilo estrutural para aquilo que na clínica se denomina reinstalação, no qual, na
realidade, não haveria uma deformidade de “reativação” do passado, mas apenas
a tendência inata de uma determinada estrutura a exaltar todas as suas abas
temporais cada vez que é movida pela embriaguez. Nessa possibilidade, o termo
“reinstalação” teria apenas um significado descritivo, nominalmente assemelhado
à outra acepção, mas refletindo diversidades estruturais. Aqui, a temporalidade
pretérita não está posta em causa, o que indicaria, no plano psicopatológico, um
grau menor de gravidade.
68 psicose e embriaguez

forma futura para a forma presente é perdida na condição de império


do instante. Nesta, a aparição consciente do projeto recalcitra na forma
instantânea congelante, fazendo com que jamais fundamente sua
manifestação sobre um futuro autêntico, ou seja, um futuro implicado
continuamente no presente. O resultado clínico são os típicos projetos
de vida de toxicômanos que se perdem na própria euforia, nunca se
encarnando em realizações efetivas.
A sentença final com a qual queremos definir a embriaguez
farmacológica do ponto de vista temporal é, portanto: um arrebatamento
desagregador da composição da temporalidade, confluindo para sua
própria extinção na atemporalidade e com notável capacidade de
imantação assimiladora das dimensões temporais.

A Essência Espacial da Embriaguez

Uma vez postas as anotações concernentes à temporalidade,


podemos nos voltar um pouco à espacialidade, àquilo que há pouco
dissemos ser multívoco graças à libertação dos trilhos fundamentais
da temporalidade. É, portanto, a partir da temporalidade que podemos
extrair os sentidos da espacialidade na embriaguez farmacológica. O
afunilamento da temporalidade rumo à sua paralisação calcificante
necessita de materialidade adequada para sua realização; ou seja,
paralisar o tempo só é atualmente ou “materialmente” possível por meio
de uma espacialidade enrijecida. Sem esta, a própria temporalidade
desaguaria numa nova correnteza revigorante, perdendo seu aspecto
essencial de tendência à imobilização. Assim, é importante frisar mais
uma vez que mesmo a temporalidade da embriaguez – estrutura
derradeira da implantação da consciência mundana – necessita de
uma espacialidade simultânea para sua manifestação fenomênica.
Espacialidade que, por sua vez, será a responsável pela multiplicidade
de aparições nas embriaguezes. Os elementos pré-reflexivos da
consciência mesclam-se na intimidade em uma treliça arenosa, sempre
a escorrer por nossos dedos; seu mistério é insinuado, mas não revelado
ao fim e ao cabo.
guilherme messas 69

A manifestação estrutural espacial mais adequada para o estado


de embriaguez é a de materialidade acrescida. Quanto mais compactas
as aparições fenomênicas, maior a chance de servirem à tendência
de paralisação do fluxo temporal, do mesmo modo que a maior
compactação de um dique promove melhor impedimento da força das
águas. Deve haver, portanto, um mínimo de interstícios na vivência
embriagada para a execução de sua tarefa temporal. Reduzamos
fenomenologicamente o estado de acréscimo de materialidade e
chegaremos a dois constituintes essenciais típicos da espacialidade da
embriaguez farmacológica: reencontramos aqui a acima mencionada
compressão, acrescida da exclusividade. Em todo momento de
embriaguez, as aparições dos objetos seguem, pois, a regra de serem
determinados por uma espacialidade comprimida e exclusiva. Devido
a essa dupla determinação, devem aparecer como ladeados muito
proximamente aos seus vizinhos (os demais objetos surgindo tanto
na sucessão como na simultaneidade), de modo tal que haja uma
tendência geral de aparecerem apenas objetos e não não objetos. O
vazio é um luxo que a embriaguez procura banir de todos os modos,
já que, do ponto de vista temporal, é um convite para a emergência da
novidade, inimiga da paralisação almejada.
Voltando ao extrato vivencial da consciência, teremos que,
na embriaguez, as experiências são intensas, coesas, compactas
em relação umas às outras, sem deixar espaço para emergências
inesperadas, incompatíveis com a textura global instantânea. É
assim que deve ser entendida a componente de exclusividade da
espacialidade embriagada: não como o impedimento de quaisquer
vivências, mas de vivências desarmônicas à paliçada compacta de
experiências sintônicas ao estado embriagado. Em síntese, pode-se
dizer que o indivíduo, na embriaguez, está cercado de todos os lados
por experiências sobre as quais tem pouco poder de veto ou mutação.
A embriaguez é, noematicamente, ao mesmo tempo o apogeu do foco
objetal e o encolhimento do eu diante da grandeza do objeto (mesmo
que esse objeto sejam vivências íntimas do próprio eu, como, por
exemplo, a tristeza ou ideias e fantasias).
70 psicose e embriaguez

É desse modo, por exemplo, que durante uma celebração com


amigos, se embriagados, somos tomados integral e exclusivamente
pelos afetos partícipes do ágape, sejam eles agradáveis, como o
sentimento de amizade, ou desagradáveis, como a ira. Poder-se-ia
nos ser objetado que essa afirmação estaria demasiadamente longe da
descrição de uma condição global, servindo a algumas situações mas
jamais a outras. Veja-se, por exemplo, o caso da embriaguez canábica.
Nesta, não é raro que, em celebração coletiva e festiva, o embriagado
comece a chorar do nada, revelando incompatibilidade com o afeto
circundante. Teríamos de reconhecer o caráter real e corriqueiro desse
evento. No entanto, não nos parece que sirva para infirmar nossa
afirmação. Como ainda teremos oportunidade de desenvolver com
maior precisão ao longo da exposição de casos clínicos, a origem do
estado canábico é o descolamento entorpecedor da interpessoalidade
e, consequentemente, a entrega desamparada e solitária da consciência
a si mesma ou aos produtos desarranjados de suas profundezas47,
sendo perdidas as âncoras na interpessoalidade. Desse modo, também
em tal condição, o arrebatamento de choro revelaria tanto a essência
da compressão – desdobrada na intensidade da vivência – quanto da
exclusividade – exposta na impossibilidade do indivíduo de buscar
um estado mental alternativo àquele que lhe foi imposto desde dentro.
Tendo isso em mente, cabe-nos introduzir algumas observações
acerca de três formações fenomenológicas fundamentais provenientes
desse gênero de espacialidade. Em todas, embora de caráter diverso,
reconheceremos a mesma função comum, qual seja, a de oferecer
materialidade para o pendor paralisante da temporalidade da
embriaguez.

a) A interpessoalidade: já dissemos acima que a interpessoalidade


é ator secundário no movimento da embriaguez. Entretanto,
embora verdadeira, essa anotação não pode ser assumida
sem maiores desenvolvimentos, pois correríamos o risco de

47 Não cabe aqui examinar os motivos desse desarranjo.


guilherme messas 71

negligenciar um dos aspectos mais importantes dos sentidos


da embriaguez. O início causal estrutural da embriaguez
como vivência independe da interpessoalidade, entretanto,
seu movimento frequentemente visa a uma relevante
aproximação com aquela, como já vimos na apresentação a
respeito da fenomenologia da embriaguez. Não devemos
nos repetir. Contudo, há que se acrescentar, em relação
àquela passagem, que a aproximação da interpessoalidade
serve também como polo paralisador da temporalidade. Ao
estreitarmos profundamente nossas relações com o mundo
humano a ponto de atingirmos as necessárias compressão
e exclusividade, podemos escapar transitoriamente da
mundaneidade natural de nossos seres. A diversidade dessa
aproximação não deverá ser aqui examinada.

No entanto, devemos registrar que esse gênero de doação espacial


na embriaguez pode ser descrito como fraco. Sua fragilidade revela-se
na pouca potência de paralisação temporal, devida à complexidade
operante nas relações inter-humanas. A consciência embriagada,
empurrada para dentro da interpessoalidade, tem de enfrentar um
sem número de alternativas e ofertas sentimentais provenientes da
alteridade, fazendo com que a macicez da espacialidade necessária
para a paralisação temporal não seja a mais eficaz. Pelo contrário, é na
aproximação embriagada da interpessoalidade que existem as maiores
saídas para que a embriaguez não faça atuar com potência máxima
sua inclinação paralisante e, consequentemente, estará também
na interpessoalidade o ponto da espacialidade mais eficaz para a
reconstrução da consciência após os desvios da exuberância dionisíaca.

b) A corporeidade: é um truísmo afirmar ser a corporeidade


a instância da materialidade mais afeita à compressão
exclusiva requerida pela espacialidade embriagada. Nada
mais evidente, pois a corporeidade é exatamente a expressão
acabada de compactação e macicez da implantação da
72 psicose e embriaguez

consciência no mundo, seu ponto mais sólido e mais redutível


às leis da causalidade mecânica. Resulta de imediato que
será na corporeidade que devemos buscar com mais afinco
o centro em que a extinção da temporalidade estribará suas
necessidades. Fica patente, só como exemplo, o acréscimo de
corporeidade na embriaguez diante dos quadros de violência
ou lascívia tão comuns a esse estado. É mesmo tão relevante
o papel da corporeidade na embriaguez que Aristóteles a dá
como exemplo para fundamentar sua ciência da Fisiognomia48.
c) Estados sentimentais do eu: o estado provavelmente mais
procurado pelo ébrio é a leveza sentimental, a experiência
de desterro acolhedor, distante do peso terreno assestado
pelo cotidiano. Entretanto, a correlação imediata entre essa
observação e o que acabamos de ver sobre a corporeidade
pode deixar-nos diante de um paradoxo assombroso. Como
pode, simultaneamente, uma ação ofertar corporeidade e
leveza incorpórea? É possível reunir dois polos aparentemente
antagônicos sem incorrer em crasso erro de análise? O uso da
distinção entre a estrutura da experiência e sua manifestação
vivencial parece permitir uma resposta positiva à questão. De
fato, alguns goles de bebida alcoólica podem deixar-nos nas
nuvens, fazer-nos esquecer das acrimônias do dia e incensar
em nossa mente uma experiência de desejável leveza. Contudo,
se investigarmos essa vivência do ponto de vista das suas
condições estruturais de possibilidade, veremos que ela guarda
a essência de ter sido imposta desde fora, de prescindir das
conexões com o mundo (nesse momento, de modo desejável)
e de espacializar-se de maneira compacta e exclusiva (por
isso não permite que a emergência dos sofrimentos venha
a nos incomodar), exatamente como qualquer experiência
emanante dos domínios da corporeidade na embriaguez. Há,
portanto, apesar da dessemelhança fenomênica, uma coesa

48 Aristotle, Minor Works, p. 84-85.


guilherme messas 73

identidade estrutural entre os estados sentimentais de leveza


próprios da ebriedade e o acréscimo de corporeidade que lhes
tipifica.

Corporeidade e estados sentimentais do eu têm em comum


outro aspecto, para nós da maior relevância e que os distingue da
interpessoalidade na embriaguez. No corpo e na solidão do envelope
sentimental dá-se a maior força de paralisação temporal exigida pela
temporalidade da embriaguez49. Ainda que haja contrastes entre corpo
e sentimento – e serão examinados ao longo dos casos clínicos –, em
ambos a superfície de instabilização, que abunda na interpessoalidade,
é escassa; consequentemente, as saídas da estrutura paralisante são
mais estreitas, fazendo com que as consciências que tendam a dar
proeminência ao corpo ou à leveza sentimental na embriaguez sejam
mais aptas a se perder no desvirtuamento biográfico, já que não podem
se guiar pelas complexidades da interpessoalidade para retomar o fio
da progressão vital.

A Embriaguez Continuada

Se do ponto de vista estrutural a embriaguez é um movimento


confluindo para a sua própria imobilização na coagulação do
tempo, do ponto de vista da sua dinâmica temporal somática ela é
autolimitada. O estado de embriaguez depende estreita e fortemente
da potência energética oriunda da ação do fármaco embriagante sobre
a fisiologia cerebral. A embriaguez é, consequentemente, do ponto
de vista natural, um estado físico-somático agudo produzindo uma
composição estrutural atemporalizante. Devido a essa necessidade de
uma contínua e intensa energia material para sua manutenção (o sistema
da embriaguez é, em última análise, de elevadíssima instabilidade),
o estado de embriaguez não resiste por muito tempo, desaparecendo
rapidamente. Igualmente, as exigências sobre a fisiologia do soma para

49 Nesta altura do raciocínio, estamos excluíndo ainda os quadros psicóticos.


74 psicose e embriaguez

a manutenção da embriaguez são extremadas, levando facilmente a


sobrecargas teciduais com comprometimento funcional, como o
cardíaco na intoxicação cocaínica ou o hepático e gástrico no álcool.
Em suma, por motivos biológicos, o estado de embriaguez, embora
poderoso em sua ação na estrutura da consciência, é limitado no
tempo. Essa limitação temporal da biologia da embriaguez tem
algumas consequências que nos interessam diretamente. A primeira
delas examina o momento de término da embriaguez aguda, aqui
denominada “a saída da embriaguez”.
Biologicamente, sair da embriaguez significa o término do estado
altamente instável mantido pela ação farmacológica sobre a consciência,
com o retorno ao perfil de estabilidade anterior. Estruturalmente,
por sua vez, sair da embriaguez implica abandonar a tendência de
imortalizar-se na atemporalidade e retornar ao leito temporal da
biografia cotidiana. A saída da embriaguez é um estado de intenso
contraste nos pressupostos temporais da vida consciente, o caminho
de volta de um polo atemporal ao leito habitual temporal. Passada a
onda aguda e avassaladora da embriaguez, seus escombros fazem-se
notar fenomênica e estruturalmente, revelando as consequências da
embriaguez sobre a estrutura habitual da consciência.
Fenomenicamente, resume-se no conceito amplo de ressaca o
estado imediatamente posterior à embriaguez. Fraqueza corporal,
cefaleias, enjoos, tontura, insônia ou hipersônia, irritação, tristezas
ou angústia, sentimentos de culpa ou fracasso são alguns dos
comemorativos da saída da embriaguez50. Todos esses achados mostram
como que um desgaste de material somático, corporal e sentimental –
ou interpessoal – produzido pelo excesso de emprego destes para a
sustentação da embriaguez. A corporeidade e os sentimentos, de tanto
usados e abusados, esgotam-se e ferem a totalidade da vivência, do
mesmo modo como um excesso de exercícios físicos deixaria esgotada
a musculatura no dia seguinte.

50 Manteremos-nos aqui no caráter genérico da ressaca, deixando de lado as


especificidades existentes para cada substância embriagante.
guilherme messas 75

Tomadas pela camada estrutural, contudo, todas essas obser-


vações clínicas manifestam uma característica comum que aqui
devemos reter. Façamos sua descrição em duas etapas. Primeiramente,
relembremos que a embriaguez acentua a atemporalidade na totali-
dade da consciência, dando portanto maior ênfase aos elementos,
acima vistos, responsáveis pela expressão dessa atemporalidade.
Há, por assim dizer, mais corpo e sentimentos do eu durante a
embriaguez (também poderíamos dizer que a embriaguez é “feita”
de corpo e sentimentos do eu, pois estes são a sua materialidade),
logo, com a saída da embriaguez, restam resíduos dessa corporeidade
e sentimentalidade exacerbada sobre a totalidade da estrutura da
conscência. Esses resíduos se deixariam explicar pela mesma lógica
do desgaste de material, agora na forma de uso excessivo de material,
deixando marcas na estrutura global.
No entanto, uma investigação mais precisa identifica mais do que
isso na saída da embriaguez. O excesso de resíduos da materialidade
da embriaguez revela, estruturalmente, um excesso de elementos
instáveis na consciência. Temporalmente, isso equivale a afirmar
um excesso de elementos destacados do fluxo da temporalidade
habitual da consciência. A atemporalidade gerada e mantida a muito
custo energético pela embriaguez se esgota, ensejando, pelo desgaste
do fator atemporal da temporalidade, um estado de “fraqueza de
temporalidade”, cuja expressão exterior é a instabilidade. Aqui se
diferencia a experiência da embriaguez do exemplo do esgotamento
muscular provocado por exercícios físicos. Neste, há uma
intencionalidade da ação física que faz com que sua materialidade fique
extenuada. A extinção da força muscular impede que mais exercícios
sejam realizados durante algum intervalo temporal; no entanto, a
intencionalidade da ação, ou seja, a coordenação dos músculos visando
a um fim concertado, mantém-se intacta. A ação física precisa recolher-
se temporariamente para voltar a atingir os mesmos objetivos. Não é
semelhante ao que se dá na embriaguez. Nesta, a ação concertada da
consciência sóbria fica abolida e o desgaste do material incrementa a
tendência à atemporalização em uma consciência que é, por essência,
76 psicose e embriaguez

temporal. Esse acréscimo de tendência à atemporalização estrutural


faz com que os elementos fenomênicos da embriaguez funcionem como
peças soltas na consciência, em nada servindo ao fluxo temporal51.
Esses elementos, desconectados da totalidade temporal da consciência,
regem-se pela lógica da instabilidade, ficam como que perdidos no
vácuo, gravitando em torno do nada ou das leis mecânicas próprias
de cada região particular. Por exemplo, intensificam-se as flutuações
humorais circadianas.
É exclusivamente a partir dessa lógica de instabilidade que se
podem entender os estados continuados da embriaguez. A dietética
transforma gradualmente a estrutura e o ser, acrescendo-lhes ou
subtraindo-lhes elementos à sua proporção geral. A embriaguez,
componente da dietética, se continuada, desproporciona a estrutura
global da consciência rumo a um incremento da atemporalização,
desdobrado no acréscimo da instabilidade da consciência. Essa
instabilidade se origina no desvirtuamento da vocação temporal
da consciência, atingida em seu coração em cada ato embriagado.
Todo ato de embriaguez promove uma momentânea suspensão
da temporalidade. Ao fim e ao cabo, a globalidade da estância da
consciência no mundo vai perdendo seu poder de temporalização e
instabilizando-se devido a essa perda. Do mesmo modo que um avião
estola se perde seu movimento propulsivo ou um ciclista titubeia e
cai se não avançar. Não há termo médio para a existência humana:
avançar ou afundar. A instabilização é o momento anterior ao colapso
total52 e já revela o vacilo da temporalização distintivo das psicoses.
A instabilização manifesta-se no âmbito corporal, por exemplo, pelo
fenômeno dos tremores do alcoolista, indicativos da falta de firmeza
existencial, estudado por Jean-Marie Barthélémy.
Instabilização e redução da capacidade de temporalização são
portanto duas faces da mesma moeda e são o aspecto geral comum
dos estados crônicos da embriaguez. São muitas e individualizadas as

51 A doença física tem a mesma ação sobre a consciência, não sendo pois gratuito que
Aristóteles tenha enxergado fortes semelhanças entre embriaguez e doença física.
52 Embora esse momento anterior possa durar uma vida toda sem atingir o colapso.
guilherme messas 77

formas de manifestação dessa fragilidade estrutural, mas nos pontos


em que for verificável seu aparecimento já podemos dizer estarmos
diante de um estado crônico de embriaguez. O embriagado crônico
é um indivíduo que já avança pelo interior da destemporalização –
e, portanto, da ruptura com as fundações da própria humanidade
– ao cabo de uma insistente e abusiva prática de atemporalizações
transitórias da consciência. É exatamente por isso que a embriaguez
difere radicalmente dos demais elementos da dietética, tomada esta no
seu sentido grego, contemplando as práticas alimentares, de bebidas e
de exercícios físicos. Em todos eles, a insistência leva à diferenciação
do indivíduo para algum caminho existencial; na embriaguez, leva-o
à aniquilação.
Importante frisar que, embora, no limite, qualquer componente
da dietética – exercícios físicos ou sexo, por exemplo, ou mesmo jogos
de azar e atividades no computador – possa se tornar objeto de ação
compulsiva assemelhada na superfície à embriaguez e levando a
alterações por cronificação, se atendermos aos princípios formais desta
constataremos ser a instabilização a primeira diferença estrutural
fundamental entre ela e as outras práticas.As demais práticas compulsivas
cronificáveis, por originarem-se de uma desmedida aproximação
regional entre a consciência e o mundo, produzem suas alterações pela
hegemonia de certas vivências em detrimento de outras. Mesmo que
expressiva, essa hegemonia é como que a hipertrofia de potências já
dadas de antemão na consciência, como a hipertrofia muscular. Mesmo
desbalanceando eventualmente o equilíbrio das forças do corpo, ela
deita raízes na normalidade corporal e, por conseguinte, atua sobre
um subsolo estrutural de estabilidade. A embriaguez crônica, por seu
turno, dada sua ação incialmente exógena, promove a manifestação
de experiências conscientes não necessariamente contidas a apriori nas
relações habituais históricas da consciência com o mundo, impingindo
sobre esta “corpos estranhos” vivenciais que se regem pelo princípio
acima assinalado da instabilidade. É irrelevante, em termos mais
profundos, se esses “corpos estranhos” são vivenciados como místicos,
como no canabinismo, ou meramente como movimentos súbitos de
78 psicose e embriaguez

irritação ou instabilidade humoral, como nos quadros afetivos pelo


álcool ou cocaína. Por isso, não se deve deixar levar pela semelhança
aparente entre uma irritação disfórica produzida por um abusador
de computador em abstinência e uma irritação impulsiva de um
embriagado contumaz. Elas radicam em pressupostos diversos e
possuem sentidos diferentes. Por fim, não devemos esquecer que esse
componente não está dado necessariamente em todos os quadros
clínicos individuais, fazendo com que em muitas situações possa haver
uma semelhança mesmo no nível estrutural entre as cronificações da
embriaguez e a das demais práticas dietéticas.
A segunda diferença estrutural entre embriaguez cronificada e
práticas compulsivas recupera a noção de ação exógena. Sejam quais
forem as práticas culminando na compulsão, sua origem se dá a
partir de uma relação de significação primária com o mundo, que está
distante da exogeneidade primordial da embriaguez.
Essa clave de leitura que vimos seguindo até agora colabora
para o entendimento de dois fenômenos típicos das embriaguezes
crônicas: um proveniente de uma observação sincrônica e o outro,
diacrônica. Inicialmente, o registro sincrônico é representado pela
fissura pela droga. Esse fenômeno é particular das cronificações e se
deixa compreender com maior evidência por meio da investigação
da polaridade carência-saciedade. Toda relação com um elemento
material da natureza rege-se pela experiência de uma carência
específica, preenchida pelo seu objeto particular, levando à saciedade.
Assim, por exemplo, a vivência de fome deixa inquieta a consciência,
elevando simultaneamente a participação corporal no todo consciente
e dirigindo este afuniladamente ao mundo dos alimentos. Uma vez
dado o encontro entre o polo carente e o polo desejado, desfaz-se essa
dupla ondulação da consciência. A sensação corporal desaparece e o
vínculo específico transitório entre consciência e mundo desacopla-se.
A consciência torna-se saciada, liberando-se para prosseguir no seu
desenvolvimento fundamental típico. O estado de saciedade reconduz,
portanto, o incremento de corporeidade ao seu estilo basal, ainda que
transitoriamente, até que nova carência se estabeleça. A experiência
guilherme messas 79

de fome, por sua vez, ao retornar, mantém-se semelhante ao estado


anterior, assim como a própria saciedade identifica-se com a cadeia
de saciedades anteriores. Ao longo do tempo, no mais das vezes, há
a tendência de diferenciação qualitativa da relação entre carência e
saciedade, levando ao aprimoramento do paladar. A temporalidade,
embora mantendo inalterados os estilos essenciais de doação dos
polos da relação, permite que seus modos de aproximação e deleite
progridam e se aprofundem ao longo do tempo. Há, enfim, uma
temporalização das relações materiais da consciência com o mundo e é
estritamente graças à sua inserção sólida nessa cadeia temporal que a
fome se mantém fome, a saciedade idêntica a si mesma e a articulação
entre ambas coroa-se pelo aperfeiçoamento. Em síntese, uma relação
carência-saciedade baseada na temporalidade oferece condições para
um aprendizado contínuo desdobrado na diferenciação progressiva
da capacidade de fruição.
A fissura não obedece à mesma lógica. Produto típico da perda
da temporalização estruturante da consciência, o desejo incoercível
pela droga não se institui, como vimos, sobre o eixo do tempo. Ao
desprender-se da temporalização, que lhe dá equilíbrio e fundamento,
o desejo pela droga não mais é apto para manter uma relação de
carência-saciedade na linha temporal. Os fenômenos de surgimento da
carência e busca da saciedade tendem a coagular-se temporalmente,
dando ensejo a uma fusão contínua entre os dois polos (clinicamente,
aí se instaura o uso continuado e irrefreável da substância), que
impede um aprofundamento e aprimoramento da sua relação. Assim,
não há uma progressão da relação entre consciência e substância
química ao longo do tempo; pelo contrário, observa-se uma regressão
desdiferenciada dessa relação, cuja descrição mais acabada, por parte
dos pacientes, segue o padrão: “Não sei mais por que uso, não tenho
mais prazer com o uso, mas preciso usar”. Abolida a temporalidade,
abole-se a cunha entre consciência e objetos, e derroga-se a chance
de uma relação fértil entre o todo consciente e a embriaguez. Toda
relação fértil não pode prescindir de uma distância que, por meio de
sucessivas aproximações e afastamentos, conduza ao aprimoramento
80 psicose e embriaguez

acima referido. A consciência instabilizada e perdida no vácuo gruda


na porção de mundo da qual é carente, retomando o movimento
fusional que já apresentamos na seção inicial. Na embriaguez crônica
instalada, não há um desejo propriamente dito, há uma deformidade
do polo desejante da consciência aderindo ao mundo para nele
petrificar-se em um estado deturpado de consciência. Tampouco se
mantém o registro habitual de prazer, pois este não pode abrir mão
de uma tomada de perspectiva original entre os polos, sendo o prazer
o ponto de contato celebratório entre ambos. O embriagado crônico
abusa continuamente da substância porque já não mais é capaz de
mesmo reconhecê-la em sua alteridade. Torna-se uno com ela, num
abraço mortal quase mineral. Nesse sentido, o fenômeno da fissura
revela, do ponto de vista estrutural, uma tentativa de manutenção da
integridade da continuidade do eu no tempo, já que a separação da
experiência embriagante não mais enseja uma carência sentimental ou
corporal, mas uma ruptura da própria continuidade da temporalidade,
ruptura da qual o eu, o mundo e toda a realidade sairiam eviscerados.
Em outras palavras, a intensidade da fissura releva uma tentativa
estrutural derradeira para evitar a fratura psicótica, sobre a qual
refletiremos a seguir53.
O registro diacrônico persegue as consequências da continuação
da embriaguez sobre a capacidade da consciência-implantada-no-
mundo de, temporalizando-se, florescer em um destino biográfico
singular. O fechamento atemporalizante da consciência no instante,
projetado sobre a linha do tempo biográfico, impede a correnteza
temporal pela qual a consciência individual maneja suas alterações
rumo à maturidade. Amadurecer é uma forma de expansão típica
do humano, caracterizada pela gradual e contínua transformação

53 A noção de que a fissura é um exemplo típico da tentativa de manutenção – ou


mesmo de restauração – da estrutura da estância da consciência no mundo não
se identifica com a ideia de que esta seja uma tentativa psicológica de fazê-lo,
no sentido de um mecanismo de defesa ou compensação. Apenas no nível mais
profundo da estrutura da identidade e do mundo é que se deve entender o sentido
da frase, sendo os aspectos fenomenológicos da vivência meros epifenômenos
disso.
guilherme messas 81

de suas configurações básicas de temporalidade, espacialidade e


interpessoalidade54 (Messas, 2010b). Para que essa se dê, é necessário
não apenas que – para ficarmos apenas no exemplo da temporalidade
– elementos de retenção sejam abandonados para que novos elementos
vivenciais sejam admitidos, mas sobretudo que a própria proporção
das dimensões temporais seja reequacionada seguidamente. Por
exemplo, a dimensão protentiva, na adolescência, é mais potente que na
senescência e, inversamente, nesta, a retentiva é mais poderosa. É essa
capacidade plástica de reequacionamento que permite que o humano
se dirija a todas as fases de sua vida de modo fecundo. A embriaguez
crônica impede essa remodelação estrutural da consciência humana,
obstaculizando a incontornável entrada nas fases da vida e, assim, fixa
toda a existência em um período determinado, forjando a falsificação
da autenticidade desta. Essas observações, de caráter fenomenológico,
sustentam-se também na área da neurociência, na qual se demonstra
que a ação da cannabis sobre o cérebro na adolescência impede a perda
de certas conexões neuronais importantes para a maturação do órgão.
Uma vez mantidas tais conexões, o cérebro permanece em um estado
desdiferenciado, impedidor de sua maturação e vulnerável à eclosão
da esquizofrenia55.

As Psicoses e a Embriaguez

Acabamos de afirmar ser a fissura um protótipo fenomenológico


de adesão derradeira da consciência no mundo, revelando os umbrais
da psicose. Sua presença revela o avizinhamento da psicose, pois
apresenta à consciência a ruptura temporal própria dos fenômenos
psicóticos. Há assim um contínuo partindo da experiência cotidiana de
embriaguez, passando pelas manifestações clínicas da sua cronicidade

54 Cf. G. Messas, “A Phenomenological Contribution to the Approach of Biological


Psychiatry”, Journal of Phenomenological Psychology, v. 41.
55 M. Bossong; R. Niesink, “Adolescent brain maturation, the endogenous
cannabinoid system and the neurobiology of cannabis-induced schizophrenia”,
Progress in Neurobiology, v. 92, p. 370-385.
82 psicose e embriaguez

(exemplificamos apenas com a fissura, mas outros fenômenos poderiam


representar igualmente essa afirmação) e tendo como estuário a psicose.
Esta é o apogeu do movimento de atemporalização e é por esse motivo
que dedicaremos a ela a parte clínica deste estudo. No estudo das
psicoses vinculadas à embriaguez poderemos encontrar os sentidos
desta em sua expressão mais acabada. A estratégia metodológica aqui
a ser percorrida segue a noção de que o conhecimento do mais evidente
oferta a melhor iluminação para o entendimento do menos evidente.
Partiremos de cima para baixo, estudando a vitória total da tipicidade
essencial da embriaguez – a atemporalização – sobre a estância da
consciência temporal no mundo, visando não apenas a entender seus
sentidos e meandros na produção da psicose, como também entender
a microscopia da embriaguez, suas aparições e necessidades na vida
cotidiana. Os sentidos ampliados das situações limites da humanidade
ensinam sobre os sentidos minúsculos dos empregos do viver: este
é o mote que inspira a condução deste trabalho. Para tal, temos de
inicialmente nos aproximar dos achados relacionando embriaguez e
psicoses.
No entanto, antes de penetrarmos nessa necessária senda,
um ligeiro desvio de rota analítica se faz imperioso. Não é possível
adentrarmos no tão complexo campo das psicoses na embriaguez sem
indicarmos um estonteante problema. Indubitavelmente, as psicoses
são um estado patológico do ser. Embora em algumas condições a
psicose, uma vez iniciada, possa ser experimentada como desejável
pela consciência que a experimenta (os casos de delírios de revelação
divina, por exemplo), de modo geral inexiste uma inclinação natural
para tornar-se psicótico. Um ato de vontade livre que conduza o ser por
si mesmo rumo à psicose e à destruição da própria mente não parece
defensável em condições naturais, que são as que nos interessam.
Ora, se a embriaguez, e sobretudo a sua forma continuada, é
um caminho parcial conduzindo ao apogeu psicótico, como entender
que a própria vontade livre possa se autoflagelar no estilhaçamento
da loucura? Como entender que uma prática de ação livre – o ato de
embriagar-se – leve gradualmente o ser à sua aniquilação? Claro que
guilherme messas 83

nos estados avançados de toxicomania, já na fronteira da psicose, a


ação voluntária livre pode estar comprometida. Mas não se centra nisso
nosso interesse. Antes destes, como penetrar nos segredos de uma ação
livre que induza à deformidade, que seja incompetente para se limitar
aos usos mais profícuos da embriaguez, geralmente celebratórios ou
pontualmente libertários (cf. posfácio). É nas psicoses pela embriaguez
que a questão da vontade livre assume sua face mais dramática no campo
da psicopatologia. Em última análise, esse problema remete ao tema
geral das relações entre o espírito e a matéria. Não podemos enfrentar
em âmbito genérico essa questão, mas sugerir o caminho metodológico
através do qual ela pode ser enfrentada. Caminho que, por ser o mais
apto para enfrentar uma dificuldade tão extrema, será o único pelo qual
podemos acessar o tema geral das psicoses na embriaguez.

Vontade, Liberdade e Embriaguez

No século IV, o médico Oribásio recenseia toda a literatura médica


greco-romana, na qual o elemento vinícola abunda. Em um pequeno
excerto apenas, toca nossa questão crucial. “E me surpreende como
os homens, em relação a bens e males tão evidentes, escolhem o que
há de pior, quando é possível retirar o que há de melhor do vinho”56.
Exclamação retórica, pois o tema não recebe desenvolvimento. Embora
Aristóteles sugira uma causa material para o pendor pela embriaguez57,
igualmente tal sugestão não passa de mera alusão marginal ao conjunto
de conhecimentos sobre a embriaguez. Interessado sobretudo pelos
esforços da vontade racional livre na sua autoconstituição virtuosa,
necessariamente as reflexões éticas do peripatético acabam por deixar
nas sombras as costuras da vontade com a materialidade que lhe
sustém. Para que o exame da vontade pudesse se estabelecer (e nisso São

56 Oribase, Oeuvres d’Oribase : texte grec, en grande partie inédit, collationné sur les
manuscrits / traduit pour la première fois en français,avec une introduction, des
notes, des tables et des planches par les docteurs Bussemaker et Ch. Daremberg,
tome 1, V, 8. Disponível em: <http://www2.biusante.parisdescartes.fr/livanc/?p=4
17&cote=34860x01&do=page>
57 Aristoteles, Problems, p. 80-81.
84 psicose e embriaguez

Tomás de Aquino assemelha-se a Aristóteles nas suas reflexões sobre


a embriaguez e a sobriedade), foi necessário ao pensamento helênico
destacar ficticiamente a vontade livre das suas bases materiais, embora
insistisse na existência e relevância destas na produção da conduta.
Respeitosa e reverentemente, a psicopatologia fenomenológica
deve retomar o fio deixado pela tradição clássica e adentrar nos
interstícios dessa relação, a partir da qual os sentidos da embriaguez
podem ser formulados. Do ponto de vista geral, o problema se formula
em termos do exame das relações da estrutura global da implantação da
consciência no mundo com a experiência do eu espiritual. A primeira
nota forte a orientar-nos pelo tema é a diferenciação entre totalidade
da consciência e eu livre. A consciência-implantada-no-mundo é uma
forma relativamente estável de articulação primordial com o mundo,
consigo mesma e com a alteridade humana, original e originária, que
antecede de muito a experiência de eu consciente e lhe serve como
condição de possibilidade. Nesta, bebendo da fonte da continuidade
de temporalidade essencial da vida humana, brota e mantém-se o eu
espiritual, a vivência de identidade total consigo mesmo por meio da
luz da razão. A experiência de identidade consigo mesmo modula-se
numa diversidade de aspectos, dos quais nos interessa apenas, nesse
momento, a dimensão da vontade.
Especialmente ligada à vida espiritual, a vontade livre é a
vivência de poder ativo do eu, seu cinzel mordendo o mármore do real.
Esse real, como vimos, não é apenas um real genérico, mas o real que
circunscreve e constitui o próprio eu. Portanto, temos que a vontade
livre nasce sobre um terreno que lhe é imposto desde fora (fora da
própria vontade, mas compreendendo situações originárias desde
dentro da personalidade, como o temperamento ou as condições sociais
de vida). Para que a vontade livre se manifeste, é necessário que as
camadas apriorísticas da implantação da consciência no mundo estejam
intactas, assim como é necessário que o cérebro esteja intacto para que a
linguagem se manifeste. Vontade livre deve, assim, ser entendida mais
como uma profissão de fé a respeito da responsabilidade do humano
no embate com seus destinos privados invariavelmente enviesados do
guilherme messas 85

que a descrição abstrata e exata da posição de uma vontade totividente


do mundo humano. A liberdade não se dá jamais sobre um real
cristalino e translúcido, mas sobre uma opacidade constituinte sobre a
qual o eu não pode nunca deliberar por completo. O papel da vontade
livre não será, pois, o de deliberar sobre a totalidade de ações éticas
provenientes do imaginário consciente, mas de tornar-se responsável
por mover-se no campo restrito das condições dadas – ou impostas
– sobre a consciência pela sua estrutura fundante. A vontade é mais
responsabilidade do que liberdade e exige consequentemente mais
conhecimento das formas do real do que ímpeto sonhador ou arroubos
de potência irrefreável.
A vontade responsável é o elemento que a fenomenologia deve
focar para circunscrever a questão da embriaguez e o entendimento da
sua articulação geral com a estrutura global da consciência-implantada-
no-mundo, o nó górdio a ser desemaranhado em cada individualidade.
Mas ainda não entramos no capítulo das individualidades, restando-
nos estabelecer alguns apontamentos preliminares de ordem geral.
O primeiro deles. A vontade opera sobre um horizonte que
não é por ela determinado. Há, pois, inevitavelmente, sempre uma
perspectiva para a ação da vontade livre que, embora varie ao longo
da vida, mantém sua potência de enquadre da visão e restrição do
campo de ação ou entendimento. A embriaguez é uma ferramenta
para essa vontade limitada modificar seus horizontes. Uma das mais
promissoras e ágeis, diga-se de passagem, o que faz da embriaguez
presença marcante na história da humanidade.
O segundo deles. A despeito do certo desembaraço com o qual
falamos sobre vontade livre – ou, com maior exatidão, sobre vontade
responsável – a aproximação da noção nos faz deslizar para um mistério
insondável, que poderia ser sintetizado na ideia de hibridização. A
vontade é expressão do espírito cuja característica é ser exterior à
matéria, idêntico a si mesmo e, quiçá, imortal58. Simultaneamente

58 Não atemporal no sentido de bloqueio da temporalização proporcionado pela


embriaguez, mas de fora do tempo, de identidade contínua consigo mesma, antes
e depois da presença transitória da matéria, embora nela incrustada.
86 psicose e embriaguez

– por exemplo, nos casos de vontade débil, que não é capaz de


conduzir a vida seguindo a própria razão –, a vontade é elemento da
materialidade da alma, determinado pelas forças materiais anímicas
situadas na composição estrutural da consciência no mundo.
Ou seja, ao mesmo tempo a vontade enraíza-se na eternidade do
espírito e na mundaneidade carnal da realidade. Corresponderia a
uma vontade débil – ou a uma vontade potente – a manifestação
de um espírito mais ou menos potente ou, contrariamente, apenas
mais uma manifestação da estrutura da consciência mundana? Seria
a vontade sempre uma expressão do espírito – permanecendo, em
última análise, ausente do tempo –, tornando-se sua força maior
ou menor em juízo de uma casual menor ou maior implantação do
espírito livre na totalidade da consciência mundana? Não parece
provável uma resposta definitiva a essas inquietantes questões;
porém, todas elas confluem na noção de uma indecifrável hibridez
da vontade livre e responsável em suas manifestações na vida
humana. Sempre paira atmosfericamente a indagação a respeito de
um ato ou de um conjunto deles, se motivado por uma liberdade
circunscrita ou se gerado pela força cega da natureza. Talvez apenas
nos casos clínicos individuais, e de modo bruxuleante, a chama do
conhecimento possa iluminar fortuitamente indícios de respostas a
essas questões. Não podendo solucionar o problema, contudo não
podemos deixar de mencioná-lo, mercê da sua relevância na questão
da embriaguez. De todo modo, a dimensão de responsabilidade
do indivíduo faz com que, seja qual for a modulação da vontade
operante em cada momento, sempre este seja o titular do resultado
ético de sua residência no mundo.
Mas se a vontade livre e responsável nos lança em um mistério,
as imbricações mundanas suas são mais acessíveis à investigação
humana. E, mais uma vez, devem ser encetadas por uma análise
dos sentidos da embriaguez, por uma investigação da posição da
vontade diante da solidez e dos dilemas da sua situação concreta.
guilherme messas 87

Os Sentidos da Embriaguez na Psicose

Finalmente chegamos ao núcleo temático deste estudo. Já


havíamos citado acima a importância do sentido, indagado nas relações
entre a estrutura estável da consciência em seu estado de partida, seu
estado de chegada, e a embriaguez que liga os dois polos. Retomemos
essa ideia.
O sentido rastreia os caminhos que levam da estrutura fundamental
relativamente permanente da estância consciente no mundo ao estado
embriagado e deste à psicose. Estudá-lo é, portanto, doar-se a uma
investigação de movimentos. Movimentos que partem de uma forma
relativamente estável, a da estrutura da consciência-implantada-no-
mundo, e, passando por outra forma, de uma estabilidade transitória
bem menos duradoura, fincada na propensão atemporalizante da
embriaguez, sem que os fios que liguem as duas estabilidades se
percam de vista, atingindo nova forma tendendo a alguma estabilidade,
a psicótica. Há, portanto, que se identificar três formas de estabilidade
diversa, com tempos de permanência e extinção diferentes, e um ou
mais trajetos que as vinculem. A estrutura geral da posição investigativa
é, pois: estrutura – sentido e tipologia do movimento doado pela
embriaguez – estrutura da psicose. O fato de a estabilidade da estrutura
básica – sóbria, digamos – da consciência-implantada-no-mundo ser
distinta da estabilidade transitória da embriaguez tem consequências
para a ação da vontade. Quanto menos estável uma estrutura, mais fica
disponível para uma ação oriunda de fora dela: assim, a vontade age
assimetricamente nas estruturas da consciência-implantada-no-mundo.
A estrutura da consciência embriagada oferece-se, pelo menos durante
um intervalo temporal, com maior flexibilidade ao cinzel da vontade
do que à própria personalidade típica, fazendo com que a embriaguez
venha a ser o instrumento primordial da vontade na moldagem de suas
fundações (ou seja, o modo mais fácil de se modificar a si mesmo é
pela embriaguez). O aprendizado dietético da embriaguez é de todos
o mais simples e o mais especioso, na medida exata em que permite
à vontade sentir-se como patrona de toda a espessura da consciência
88 psicose e embriaguez

mundana. No manejo da embriaguez, a própria vontade inebria-se com


seu poder, assombra-se diante do sentimento de delegar-se a si mesma
os trilhos do seu destino. Os descarrilamentos desse pequeno desvario
algo prometeico são o tema de nosso estudo.
A literatura psicopatológica de caráter epidemiológico não
passou ao largo da importância dos sentidos da psicose na embriaguez
e tampouco dos sentidos da embriaguez na psicose. Seu recenseamento
leva a resultados inconclusivos59. Procuremos dividi-los em três
categorias, embora haja sobreposição e diálogo entre elas e apenas o
espírito de didatismo sustente essa frágil divisão. Os temas da literatura
giram em torno de:

a) Gênese da psicose;
b) Especificidade psicopatológica;
c) Motivos da manutenção da embriaguez.

a) Gênese da psicose

As evidências mais consistentes se dão no caso da cannabis.


Seu uso precoce favorece a instalação de quadros psicóticos de
características esquizofreniformes ou de esquizofrenias crônicas60.
Contudo, dado o fato de que a maioria dos usuários da droga não se
torna psicótica, a hipótese mais sustentável define a cannabis como
um fator contribuinte mas não suficiente para o estabelecimento da
patologia61. Resta, portanto, estabelecer a zona de vulnerabilidade

59 S. Mathias et al., “Substance-Induced Psychosis: A Diagnostic Conundrum”, J


Clin Psychiatry, v. 69 (3), p. 358-367. É de extrema importância indicar que toda
a literatura epidemiológica estuda as psicoses e suas relações com a embriaguez
somente a partir de sua camada semiológica, jamais avançando até suas conduções
estruturais de possibilidade. Por conta disso, muito do que será estudado neste
trabalho acaba ficando de fora das investigações epidemiológicas, o que não
invalida, há que se dizer, os seus achados.
60 R. Sewell et al., “Cannabinoids and Psychosis”, Int Rev Psychiatry, v. 21 n. 2. pp.
152-62.
61 H. Verdoux, “Cannabis and Psychosis Proneness”, in R. Castle R. Murray (eds.),
Marijuana and Madness: Psychiaty and Neurolobiology, p. 75-88.
guilherme messas 89

específica ligando a substância às psicoses que produz. Indicações


sugerem que personalidades esquizoides tenham um maior pendor para
desenvolver psicose por cannabis62, embora as condições específicas,
temporais e situacionais para a eclosão das patologias não tenham sido
estabelecidas. Igualmente, constatou-se que indivíduos que vieram a
desenvolver esquizofrenia já eram mais sensíveis aos efeitos negativos
da cannabis mesmo antes da eclosão da doença63. A vulnerabilidade
também pode dar-se ao longo da linha de desenvolvimento da
personalidade, sendo a puberdade o período crítico para acarretar
complicações ligadas ao uso de cannabis64.
Analogamente, no caso da cocaína, observa-se correlação genética
entre abuso e o surgimento de quadros psicóticos65. Tipicamente, são
alterações transitórias em ligação temporal direta com a intoxicação
pela droga, tendentes à piora com o uso continuado66. Embora, de
hábito, as manifestações típicas não se mantenham após o término
da ação farmacológica da droga, pode-se postular que também a
psicose cocaínica seja índice de uma tendência geral à psicose67,
levando à questão das vulnerabilidades específicas. Observou-se risco
aumentado para o desenvolvimento de psicoses em dependentes de
cocaína com menor índice de massa corporal68, assim como naqueles
com concomitante transtorno de hiperatividade e déficit de atenção69.

62 J. Stirling et al., “Cannabis-Induced Psychotic-Like Experiences Are Predicted by


High Schizotypy”, Psychopathology, v. 41, n. 6, p. 371-378.
63 B. Peters et al., “Subjective Effects of Cannabis Before the First Psychotic Episode”,
Australian and New Zealand Journal of Psychiatry, v. 43, p.1155-1162.
64 M. Schneider, “Puberty as a highly vulnerable developmental period for the
consequences of cannabis exposure”, Addict Biol, v. 13 (2), p. 253-263.
65 J. Smith et al., “Prevalence of Psychotic Symptoms in Substance Users: A
Comparison Across Substances”, Compr Psychiatry, v. 50 (3), p. 245-250.
66 S. Satel et al., “Clinical Features of Cocaine-Induced Paranoia”, Am J Psychiatry,
v.148, p. 594-598.
67 S. Satel; W. Edell, “Cocaine-Induced Paranoia and Psychosis Proneness”, Am J
Psychiatry, v. 148, p. 1708-1711.
68 R. Rosse et al., “Cocaine Addicts Prone to Cocaine-Induced Psychosis Have Lower
Body Mass Index than Cocaine Addicts Resistant to Cocaine-Induced Psychosis –
Implications for the Cocaine Model of Psychosis Proneness”, Isr J Psychiatry Relat
Sci, v. 41 (1), p. 45-50.
69 Y.-L. Tang et al., “Comorbid Psychiatric Diagnoses and Their Association with
90 psicose e embriaguez

O álcool é elemento produtor de quadros psicóticos ligados


a condições psicopatológicas, sociológicas e somáticas de maior
gravidade70. A prevalência de quadros psicóticos em alcoolistas
homens em idade laboral é maior do que a de esquizofrenia na mesma
faixa etária, sugerindo uma causalidade diretamente dependente da
ação do álcool naqueles71, embora a própria alcoolização crônica possa
provocar o início de uma esquizofrenia72.
Embora pouco elucidativa em termos genéticos, a literatura
aponta para uma correlação entre quantidade de uso – e consequente
gravidade da dependência – e irrupção de psicoses, para as três
substâncias, sendo a cocaína a mais vinculada ao acréscimo
quantitativo73. Aponta também para uma intricada mas inegável
presença de fatores de vulnerabilidade específica para a eclosão de
psicoses74.

b) Especificidade psicopatológica

Desde Moreau de Tours, em sua obra do século XIX, Hashish


and Mental Illness, postula-se a existência de uma psicose canábica,
provocada especificamente pela ação da droga na consciência e não
adstrita a vulnerabilidades específicas para a esquizofrenia. Esta
assumiria um perfil psicopatológico particular, colorindo-se de
alterações perceptuais indefinidas, predomínio de alucinações visuais
em relação a auditivas, não se coagulando em um núcleo paranoide
organizador, como nas esquizofrenias, e desaparecendo após o
término dos efeitos farmacológicos da substância. Entretanto, não se

Cocaine-Induced Psychosis in Cocaine-Dependent Subjects”, The American


Journal of Addictions, v. 16, p. 343-351.
70 J. Perälä et al., “Alcohol-Induced Psychotic Disorder and Delirium in the General
Population”, British Journal of Psychiatry, v. 197, p. 200-206.
71 Cf. Ibidem.
72 P. Hays; N. Aidroos, “Alcoholism Followed by Schizophrenia”, Acta Psychiatr
Scand, v. 74, p. 187-189.
73 Cf. J. Smith et al., op. cit.
74 M. Di Forti et al., “Confirmation that the AKT1 (rs2494732) Genotype Infuences
the Risk of Psychosis in Cannabis Users”, Biol Psychiatry, v. 72 (10), p. 811-816.
guilherme messas 91

pode afirmar resolutamente a especificidade da psicose canabinoide


até os dias atuais75.
A noção de especificidade psicopatológica, embora jamais
resolvida, parece algo mais nítida em grande número de psicoses por
cocaína ou álcool. Na cocaína, assume-se que a paranoia seja transitória,
geralmente ocupada por temas ligados à vida social do paciente,
como de ser perseguido pela polícia ou por familiares76. Igualmente,
alterações perceptuais visuais, como a mudança na vivência de
intensidade das cores, proeminência do vermelho e verde nas ilusões77
ou as famosas alucinações táteis78 parecem ser produzidas pelo excesso
cocaínico. De modo interessante, o artigo citado acima de K. Brady
aponta para a semelhança clínica notável entre os diversos sujeitos da
pesquisa, sugerindo um papel mais importante para a droga do que
para as características individuais na produção da patologia.
No estudo “L´Expérience paranoide chez les cocaïnomanes.
Phénoménologie, psychopatholoige, traitement”, de orientação
fenomenológica, Di Petta defende a radical diferença entre a paranoia
cocaínica e aquela de origem funcional, centrada na noção de que
a primeira surge em um estado de consciência profundamente
alterado e é marcada por cinco características fundamentais: vivência
de megalomania, aumento da agressividade, “perceptização” do
pensamento, conservação de um “insight” relativo e humor disfórico.
No caso do álcool, os quadros transitórios de persecutoriedade –
geralmente incluindo delírios de ciúmes – e modificações da estrutura
geral da percepção da realidade, como as alucinoses alcoólicas e o
delirium tremens (DT) seriam característicos da ação específica do
fármaco. Ainda que restem poucas dúvidas acerca da relação causal
direta e exclusiva entre álcool e DT, o mesmo não se dá nas alucinoses.

75 W. Hall; L. Degenhardt, “Is There a Specific ‘Cannabis Psychosis’?”, in R. Castle;


R. Murray (eds.), Marijuana and Madness: Psychiaty and Neurolobiology. p. 89-
101.
76 Cf. S. Satel et al., op. cit.
77 S. Unnithan; J. Cutting, “The Cocaine Experience: Refuting the Concept of a Model
Psychosis? ”, Psychopathology, v.25, p.71-78.
78 K. Brady et al., “Cocaine-Induced Psychosis”, J Clin Psychiatry, v. 52, p. 509-512.
92 psicose e embriaguez

Nestas, permanece tal controvérsia sobre sua origem – embora haja


inequivocamente a ação do etilismo extremo – que Ilana Glassem
seu artigo “Alcoholic Hallucinosis: A Psychiatric Enigma – 1. The
Development of an Idea”, denomina como enigma psiquiátrico.
Seu ponto de corte com as esquizofrenias não é fácil de estabelecer,
embora haja sugestão de uma maior presença de transtornos do eu
nas esquizofrenias do que nas alucinoses alcoólicas e da ocorrência
das alucinações com maior frequência e em um espaço externo
definido nessas últimas79. Da mesma maneira, Tsuang et al., no estudo
“Characteristics of Men with Alcoholic Hallucinosis”, encontraram
evidências para a independência do diagnóstico de alucinose alcoólica
em relação à esquizofrenia.
Entretanto, não se pode abordar o tema das alucinações pelo
álcool sem referência ao estudo clássico de Gaetano Benedetti, Las
alucinaciones por el alcohol, o mais detalhado até hoje publicado em
termos de atenção psicopatológica na busca pelos diferenciais com a
esquizofrenia. Benedetti identifica que o núcleo estrutural da alucinose,
a partir do qual prorrompem todos os achados clínicos, é a separação
do meio social. O delírio de perseguição típico da alucinose brota do
relaxamento dos laços que ligam o indivíduo a seus semelhantes e,
consequentemente, remete a temas existenciais, distinguindo-os dos
esquizofrênicos:
A esfera vital, para a maioria dos alucinados alcoólicos,
tem outra significação existencial imediata, distinta daquela dos
esquizofrênicos. Para se destacar alguma característica, não se trata
de uma correlação simbólica de processos anímicos espirituais, mas,
antes, do ponto egocêntrico dos perigos que ameaçam a existência.
A ocorrência dramática nos alcoólicos crônicos enraíza-se sempre em
graves sensações de culpa e de inferioridade80.

79 M. Soyka, “Psychopathological Characteristics in Alcohol Hallucinosis and


Paranoid Schizophrenia”, Acta Psychiatr Scand, v. 81, p. 255-259.
80 Gaetano Benedetti, Las alucinaciones por el alcohol, p. 72.
guilherme messas 93

Perdida a ligação com o mundo social, o sentido de res-


ponsabilidade pelo desastre inundaria o sujeito, levando-o a ver,
patologicamente encenado no espaço externo, seu drama íntimo,
com cores alucinatórias e delirantes engendradas pelo etilismo, mas
coerentes com sua história pessoal.

c) Motivos da manutenção da embriaguez após a psicose

É intrigante o achado epidemiológico da elevada prevalência


de abuso de cannabis nos portadores de esquizofrenia81, dado que
o uso da substância leva à piora dos sintomas produzidos pela
doença. Por que algo que pioraria a psicose é abusado exatamente
pelos psicóticos? Decifrar esse nó vem sendo tarefa da investigação
psicopatológica há algumas décadas, ainda com inglórios resultados82.
Contudo, algumas sugestivas explicações vêm sendo aventadas. Há
sinalizações preliminares de que psicóticos tenham efeitos subjetivos
de euforia com a intoxicação, sobretudo por maconha, superiores aos
não abusadores83, fazendo com que usem a substância para modulação
do próprio humor e de sua socialização84. Diante desse quadro, até
mesmo uma hipótese de automedicação foi desenvolvida85, embora
siga sendo controversa86.

81 B. Green et al., “Cannabis Use and Misuse: Prevalence Among People with
Psychosis”, Brit J Psychiatry, v.187, p. 306-313.
82 L. Gregg et al., “Reasons for Increased Substance Use in Psychosis”, Clin Psychol
Rev, v. 27 (4), p. 494-510.
83 E. Busquets et al., “Differences in the Subjective Effects of Drugs in Patients with
a First Psychotic Episode. Preliminary Results”, Actas Esp Psiquiatr, v. 33 (1), p.
19-25.
84 N. Dekker et al., “Reasons for Cannabis Use and Effects of Cannabis Use as
Reported by Patients with Psychotic Disorders”, Psychopathology, v. 42, p. 350-
360.
85 E. Khantzian, “The Self-Medication Hypothesis of Substance Use Disorders: A
Reconsideration and Recent Application”, Harv Rev Psychiatry, v. 4, p. 231-244.
86 S. Potvin et al., “Schizophrenia and Addiction: An Evaluation of the Self-
Medication Hypothesis”, Encephale, v. 29 (3 Pt 1), p. 193-203.
94 psicose e embriaguez

No entanto, também há achados mostrando que os motivos de


uso de drogas pela população psicótica são os mesmos da população
geral87, com o emprego da cannabis, por exemplo, como estratégia para
o manejo do cotidiano ou meramente por prazer88.
Sejam quais forem os motivos para essa reconhecida associação,
contribuir para seu esclarecimento permanece sendo tarefa de principal
valor para os estudiosos das psicoses no campo da toxicomania,
pois permitiria que ações pontuais fossem efetivadas, bloqueando o
uso abusivo das substâncias e, consequentemente, a má evolução de
inúmeros casos.
O estudo abaixo se inicia partindo do princípio de que as
indefinições acima apresentadas possam ser reduzidas a partir da
investigação individual de casos, seguindo o princípio metodológico
assumido. A multiplicidade a princípio infinita de estruturas
de implantação das consciências no mundo, as variedades de
movimentação destas e as formas com que a embriaguez doa sentido
à estrutura básica poderiam oferecer clareza a esse emaranhado. Em
outras palavras, aquilo que numa visão macroscópica semiológica
pode apresentar-se como fechado à investigação, numa visão
microscópica e minuciosa, fenomenológica, pode revelar frestas para
uma compreensão mais fecunda.
A escolha dos casos a serem examinados obedeceu ao princípio
do poder de capacidade elucidativa das tensões entre indivíduos
e essências típicas da existência humana. Assim sendo, a primeira
razão de suas escolhas foi a riqueza de elementos de observação que
favoreçam a análise fenomenológica estrutural. A segunda razão
respeita a ideia de diversidade individual, sendo uma instância
expansiva do método. Para servir a ela, os casos foram escolhidos à
medida da sua diferença relativa, ou seja, do quanto proporcionam
ao leitor a visibilidade das variedades de modos pelos quais uma

87 A. Kolliakou et al., “Why Do Patients with Psychosis Use Cannabis and Are They
Ready to Change Their Use? ”, Int. J Devl. Neuroscience, v. 29, p. 335-346.
88 L. Thornton et al., “Reasons for Substance Use Among People with Mental
Disorders”, Addicitive Behaviors, v. 37, p. 427-434.
guilherme messas 95

estrutura de implantação de consciência no mundo pode desmoronar


em diversas formas de psicoses. Em tese, seriam infinitas as variações
individuais e de recepção dos efeitos da embriaguez. O primeiro
critério restringiu a amplitude do segundo.
O terceiro motivo de escolha foi a possibilidade de realização
da instância regressiva do método, quando os casos são reduzidos
a suas essências típicas, setor em que importa menos o indivíduo e
mais a tipicidade a qual pertence. Esperamos, por meio das análises
das instâncias expansivas e regressivas, ter dado voz metodológica à
tensão insolúvel da condição humana de ser completa individualidade
e ao mesmo tempo participar da tipicidade patológica da espécie.
3. Os Casos Clínicos

Caso 1: A Solidão Alcoólica

Apresentação

A embriaguez desmesurada e contínua marca toda a existência


de Otelo. Desde idade precoce sua vida oscilou entre longos períodos
de intoxicação e intervalos lúcidos cada vez menos frequentes. Esse
estilo específico de vida tatuou, em primeiro lugar, na interioridade
de seu corpo fisiológico, o emblema de seu poderio aniquilador:
aos 24 anos de idade tornou-se diabético, fruto da perda de função
pancreática causada pelo álcool. Entretanto, a fragilidade endócrina
diretamente gerada pelo álcool não é a mais primordial nem a
mais corrosiva para sua estrutura individual de implantação no
mundo. Dois anos antes, logo após a perda do pai, um primeiro
surto psicótico revelou as fragilidades dos laços de sua estrutura
de consciência-implantada-no-mundo. Faltam elementos para uma
melhor caracterização desse período imediatamente posterior ao
passamento do pai e anterior ao desarranjo psicótico. Entretanto, a
evidente associação temporal entre os dois acontecimentos nos faz
inclinar pela afirmação de uma relação motivacional entre ambos.
Ausente a escora paterna, a estabilidade da estrutura dissipa-se pela
98 psicose e embriaguez

primeira vez, iniciando o que viria a ser uma longa e incoercível


cadeia de derrubamentos da realidade.
As características clínicas desse surto inaugural revelam
elementos-chave que nos facultam a compreensão de boa parte de seu
desenvolvimento posterior, tanto do ponto de vista de identificação
do sentido primordial da alcoolização quanto da evidenciação das
alternativas de sustentação de sua débil estrutura. Delírios persecutórios
e ideias de grandeza nuclearam seu surto inaugural89. Observando
em retrospectiva o caso Otelo, sugerimos que os primeiros indicam,
do ponto de vista estrutural, o intenso desconforto interpessoal do
paciente. As ideias de grandeza, por sua vez, interligadas intimamente
com esse desconforto, parecem indicar a propensão da estrutura a
superá-lo por meio de uma expansão desmedida do eu, operando
como compensação fenomenológica (que, como veremos abaixo,
apenas em um plano superficial e enganoso tratou-se de fato de uma
expansão do eu).
O binômio estrutural fundamental “desconforto interpessoal
(primário), exaltação desmedida do eu (secundária, compensadora
fenomenologicamente)” é extremamente favorecedor dos abusos
etílicos. O álcool, ao menos nos anos iniciais de sua vida, alojou-
se nessa tendência primária de sua estrutura de implantação no
mundo, favorecendo – mas não criando do nada – a utilização de
uma via já dada pela natureza de seu temperamento. É a partir das
variações desse binômio que entenderemos seu desenvolvimento
posterior, suas tentativas de manter-se equilibrado no mundo e a
forma do seu fracasso existencial final. Importante ressaltar desde já
que a ferramenta alcoólica foi, do ponto de vista do paciente, a mais
eficaz para o gerenciamento da relação da sua estrutura buscando
equilíbrio existencial. Isso equivale dizer, como veremos, que as
ferramentas interpessoais quedaram desde sempre largamente inermes

89 Como em tantos casos de psicose, os componentes do delírio mostraram muitas


vezes as camadas mais profundas da personalidade, permitindo, com frequência,
que alguma estratégia terapêutica possa ser montada a partir da identificação
destas.
guilherme messas 99

ou insuficientes para esse manejo. Conclusão evidente, se tivermos


em mente seu primordial desconforto na interpessoalidade. Muito
embora o uso de álcool tenha sido intenso e raramente interrompido,
comemorativos típicos de abstinência foram escassos, limitando-se a
duas crises convulsivas, que também podem ser em parte creditadas
ao desarranjo metabólico. De um modo geral, o álcool mais destruiu
silenciosamente o corpo – esgotando-lhe a energia vital – do que
produziu estados de dependência com feições de intensificação do
sistema nervoso autônomo, como fissura ou estados de delirium.
Na imensa maioria das vezes, a alcoolização ininterrupta
serviu como experiência de busca de alguma sustentação para a vida
esvaziada pela psicose e pelo próprio excesso de alcoolização. Busca
fictícia de sustentação, que terminou por reduzir o mundo a um vazio
insosso e baço. Um círculo vicioso, portanto, do qual não conseguimos
escapar pelos motivos que trabalharemos mais abaixo.
O intervalo temporal sobre o qual nos deteremos e cujos
movimentos procuraremos recensear é de oito anos. Alguns dados
biográficos, de caráter geral, anteriores e concomitantes ao período,
são relevantes para o bom entendimento das análises da estrutura da
consciência desse indivíduo. Otelo foi casado por sete anos, mantendo
a relação mesmo após os primeiros surtos psicóticos. Dessa relação
nasceu um filho com o qual tem contato eventual. A vida afetiva
jamais se recompôs posteriormente à separação e, com o avanço do
alcoolismo e do diabetes, nem mesmo uma vida sexual pôde ser
conduzida, o que causava bastante incômodo ao paciente. No que se
refere às relações familiares originais, deve-se dizer que nelas residiu
a principal fonte de solidez de implantação interpessoal de Otelo no
mundo. Apesar de tumultuada e muitas vezes explosiva e inconstante,
a família do paciente foi o ponto a permitir um declínio menos íngreme
do desenvolvimento de sua história pessoal.
Profissionalmente, foi funcionário de uma grande empresa
por muitos anos, com gradual decréscimo de competência técnica
e, finalmente, encaminhamento para aposentadoria. Em apenas
uma ocasião, como estudaremos, uma tentativa – fracassada – de
100 psicose e embriaguez

realinhamento profissional foi intentada. Embora como consequência


da incapacidade profissional houvesse importante redução dos ganhos
monetários, a evolução do caso mostra que Otelo passou a tornar-se
gradualmente mais perdulário, contraindo gastos injustificáveis mesmo
se em condições econômicas favoráveis. A dimensão desses gastos,
contudo, jamais fez sombra à dimensão do comportamento ligado ao
álcool. Nos anos finais da evolução, igualmente, o comportamento de
Otelo mudou, sendo taxado, por vezes por conta disso, de psicopata.
Passou de inseguro e frágil a invasivo, desrespeitoso e por vezes até
mesmo agressivo. Em termos de diagnóstico, pode-se dizer ter havido
uma evolução processual da personalidade, envolvendo psicose
esquizofrênica com abuso do álcool. É o modo de articulação entre
ambas as pernas do diagnóstico que deve nos interessar a seguir.
Para isso, sigamos alguns movimentos do período investigado,
iluminadores seja da estrutura de Otelo, seja de seus pontos de fratura,
ensaios de expansão e solução diante da debilidade. Cada movimento,
com exceção do inicial, se define pelo período que vai de um surto
psicótico a outro. A finalidade dessa estratégia expositiva é enfatizar
o trajeto de produção dos surtos. O movimento inicial descreve o
trajeto desde o começo da observação até o primeiro surto diretamente
observado.

Primeiro Movimento – A Tentativa de Expansão

Contempla essa etapa aproximadamente quinze meses. Seu


sentido principal é a tentativa de saída de dois aprisionamentos
fundamentais: a desmotivação total e as transitórias queixas de
desconforto interpessoal, eventualmente assumindo aspecto de
referência psicótica (em geral, criticados e corrigidos pelo paciente).
O exercício de procurar reduzir esses dois aprisionamentos às suas
essências parece levar a um fator comum: um mundo não apenas
sem nenhum brilho como também marcado pela pressão do olhar
da coletividade. Importante ressaltar que as duas afirmações
descritivas não podem ser entendidas separadamente ou em relação
guilherme messas 101

causal. Não se trata de um mundo que não tem graça e por isso se
torna perigoso, tampouco de um mundo perigoso e, por isso, sem
graça. Trata-se de uma inserção débil no mundo, exageradamente
exposta ao espaço social. A abertura abusiva de sua estrutura para
a espacialidade social não se ultima, contudo, nesse momento de seu
desenvolvimento, em uma ruptura da integridade da experiência do
eu. Psicopatologicamente, isso se expressa pelo fato de que sente que
os outros olham para ele, falam para ele, até mesmo a TV por vezes
ocupa esse papel, sem, entretanto, que invadam seu espaço íntimo de
eu-dade. Em outras palavras, as experiências de autorreferência não
assumem a forma esquizofrênica. Embora esse achado demonstre a
manutenção de alguma saúde mental, traz uma indicação perigosa:
a incapacidade de afastar-se do mundo humano para dele proteger-
se, por meio da distância. A exposição total e incoercível ao olhar
do mundo humano, sem a possibilidade de escape deste, traduz-se
num acréscimo de “pressão” dentro do espaço vivencial. Todo espaço
humano circundante torna-se campo de tensão, de visualidade
extrema e atenção centrada no seu eu. O eu está preservado, mas
vivendo dentro de uma panela de pressão composta por elementos
de interpessoalidade que, por sua vez, merecem ser precisados. Por
exemplo, as vozes eventuais estariam a lhe fustigar palavras como
“vagabundo”, que provêm de um sistema de interpretação não
distante da realidade social, na qual se taxa assim aqueles que não
trabalham e passam o dia bebendo. Especificamente, diríamos que a
pressão sobre Otelo é materializada por elementos de valores morais
do mundo humano que, no seu âmago, não estão mal interpretados
pelo paciente. A hostilidade proveniente do mundo humano não é
primitiva, indiferenciada, mas está transpassada pela visão moral
de ponta a ponta. Não há alucinações ou delírios corporais puros ou
sexuais; antes, predominam imprecações gerais voltadas contra ele e
seu modus vivendi. Está pressuposta, portanto, uma presença humana
da alteridade carregada de integridade moral. Insuportável, mas
inconsútil. É o mundo dos valores que lhe espreita de exageradamente
perto.
102 psicose e embriaguez

A preservação da integridade do mundo valorativo nos auxilia


na descrição da outra face da essência de relação mundana de Otelo:
a debilidade da inserção, acima mencionada. Estar exposto em
demasia ao mundo dos valores da alteridade é, ao mesmo tempo,
não estar sendo competente para afirmar os próprios valores.
Essa debilidade de caráter constitucional parece ser, em Otelo,
incrementada pelo esgotamento da vitalidade gerado pelo abuso
etílico. Abuso etílico que, insistamos, oferece-se como operador
principal de uma tentativa exógena de ampliação da força interior,
a única competente para resistir a esse gênero de habitação estrutural
de Otelo no mundo. Num mundo de imensa presença humana
tácita, de relevante acoplamento com os valores, de impossibilidade
de alívio da pressão interpessoal, a estrutura de Otelo apresenta-
se do ponto de vista afetivo como esgotamento e inação, estando
todas as energias do eu concentradas na manutenção da sua
integridade. Esse primeiro movimento é a tentativa de expandir esse
eu, deslocando parcialmente as energias da defesa da integridade
para o enfrentamento da pressão centrípeta do mundo interpessoal.
É um movimento centrífugo, composto por duas etapas, cujas
características descrevemos a seguir.
Inicialmente, a estrutura de Otelo utilizou a interpessoalidade,
sempre de modo débil, sempre marcada pela insuficiência diante
do outro, como meio fornecedor e possibilitador de incremento
farmacológico-terapêutico da energia de eu. Isso ocorreu de modo
idêntico ao uso da alcoolização, mas com a ressalva de que o fármaco,
ofertado pelo médico, surge de uma relação de confiança interpessoal
inexistente na alcoolização solitária. Essa etapa meramente ener-
gética culminou no renascimento de um projeto de vida: tornar-se
comerciante autônomo. Iniciou a venda, para conhecidos e colegas
de trabalho, de produtos eletrônicos. Essa atividade exigia viagens
esporádicas para a compra da matéria-prima. Viagens longas, muitas
horas de ônibus. Embora o período inicial tenha sido favorável,
gradualmente observou-se uma energização exagerada da consciência,
concomitante à redução de sono. Em algumas semanas, um quadro
guilherme messas 103

de exaltação de características maniformes floresceu incoercível90.


Esse quadro inicial derivou para um desarranjo esquizofreniforme
catatônico, aniquilador absoluto da forma mental.
Façamos a análise estrutural desse movimento. Elevação de energia
mental com escassa ancoragem na interpessoalidade; surgimento –
sem dúvidas devido também à interpessoalidade – de um projeto de
vida libertador e sensato em suas linhas gerais. Execução desse projeto
comercial que, evidente e inevitavelmente, leva a um acréscimo das
relações e dos choques nas relações humanas. Elevação espontânea do
eu com a esperança de renascimento existencial, procurando passar
por cima dos atritos interpessoais: clínica maniforme. Instabilização
da estrutura frágil da consciência, motivada pela mudança endógena
maniforme. Colapso total da estrutura da consciência, arrasadoramente
catatoniforme. Fim do movimento expansionista. Enfim, a pequena
inserção na interpessoalidade favoreceu a porção endógena de
exaltação; esta, por sua vez, pressionando a forma consciente, fê-la
desmantelar.
Temos aqui uma oportunidade para refletir acerca da “opção”
existencial do paciente pela alcoolização. Nesta, embora a visualização
no horizonte de um sentido sustentável para a vida jamais tenha se
manifestado, ao menos se ofereceu à manutenção da estabilidade da
estrutura da consciência. Estabilidade mortal, fincada na dimensão
temporal estrita do presente da consciência, e baça, mas alguma
estabilidade. O arremesso da estrutura da consciência para a dimensão
futurante, brilhando no ponto limite da vida, foi fatal e virulento,
diante, sobretudo, da pobreza de inserção interpessoal, já revelada nas
experiências reentrantes de autorreferência. Há que se reconhecer, de
algum modo – e mesmo se levando em consideração a prudência com

90 Empregaremos aqui o adjetivo “maniforme” sempre de modo frouxo,


indicando um quadro psicopatológico de exaltação e leveza, necessariamente
não ligado à doença mental “mania”. Para nos referirmos a esta, utilizaremos o
adjetivo “maníaco”. Estruturalmente, maniforme recupera, no mais das vezes,
– e seguramente este caso é um exemplo – as alterações verticais da existência
esquizoide ou esquizofrênica, magistralmente denominadas por Binswanger de
exaltação.
104 psicose e embriaguez

a qual o tratamento tenha sido conduzido –, um fator iatrogênico nos


fatos. A tentativa de doar sentido à existência facultou seu afundamento.

Segundo Movimento – As Vias Tortuosas da Convalescença

Período irregular, de pouco mais de quatro anos de duração,


constituído por uma série larga de internações e reinternações
psiquiátricas. Vista globalmente, pode-se dizer ter sido essa época
uma zona de indefinição, na qual a estrutura fraturada buscou
incessantemente uma forma mínima para perdurar no mundo e
na linha de identidade. Os comemorativos psicóticos do período
mostram essa indefinição. Vivências autorreferentes típicas de seu
perfil anterior se misturam a experiências exóticas do corpo próprio,
como, por exemplo, sentir não ter mais dentes. Houve um monumental
acréscimo da alcoolização no período, mais uma vez evidenciando
o caráter integrador de identidade fornecido pela embriaguez.
Estruturalmente, é inegável um alargamento da região patológica da
consciência, ampliando-se das pressões da interpessoalidade (na qual
a espacialidade do eu mantém-se intacta) para os recônditos do corpo
próprio. Aqui, a identidade já corre risco de naufragar, talvez como
resquício da patologia catatoniforme prévia. Resultado sinistro do
período, a interpessoalidade dual entorpece-se de vez. Se, na época
anterior, havia uma relação interpessoal dual possível – embora
calcada na subserviência relacional – agora esta é abolida, apoiando-
se a consciência principalmente no álcool irmanado à solidão total.
Entretanto, ao fim e ao cabo, a estrutura cicatrizou-se, como mostra o
terceiro movimento.

Terceiro Movimento – A Transformação Processual

Nos últimos meses de reiteradas internações, não foi possível o


acompanhamento direto da evolução do paciente, pois foi necessária a
utilização de outros serviços de saúde mental. Em certo ponto, contudo,
a família busca nosso contato para a decifração de um intrigante
guilherme messas 105

fenômeno: a personalidade de Otelo havia mudado! Mudança


superficial, transitória, ou revelação final de uma personalidade oculta
por muito tempo? Nova doença ou antiga personalidade, eis o dilema
diante do qual fomos situados. Examina-se o paciente e a conclusão é
concordante com a impressão familiar: já não temos o mesmo Otelo
dos outros tempos. Em termos puramente descritivos, são estas as
neoformações:

a) uma irritação furiosa no olhar, dirigida aguda e diretamente


contra o psicopatologista. Rememore-se que a atitude
básica durante anos na relação dual de Otelo foi de quase
servilismo humilhado. Subserviência que transforma a linha
de interpessoalidade dual, passando do temor centrípeto para
uma intencionalidade centrífuga, da verticalidade estribada
na rígida hierarquização da relação para a horizontalidade
da igualdade. Igual ao psicopatologista em estatura e
altitude espacial, o olhar de Otelo nos penetra com seu
descontentamento. O sentido do medo se inverte; antes, Otelo
sentia constrangimento temeroso frente a um mundo humano
que lhe acossava pela mera presença real. Agora, somos nós a
temer a espícula de olhar agudo com que Otelo se projeta para
dentro da interpessoalidade.
b) comportamentos ditos psicopáticos: mentiras, desvio de
recursos familiares, fuga de clínicas, envolvimento em
conflitos corporais e incremento formidável da alcoolização
induziram os profissionais de saúde mental que entraram
posteriormente no caso a postularem um transtorno antissocial
de tardio surgimento. No que se refere especificamente à
relação terapêutica, esses elementos se traduzem por pedidos
inusitados, fora de propósito, incompatíveis com o padrão
anterior do relacionamento.
c) aumento das atitudes impulsivo-compulsivas. Embora estas
estivessem presentes durante toda a evolução de Otelo,
sua amplificação merece registro. Não apenas pela sua face
106 psicose e embriaguez

quantitativa – acresceram-se sobretudo as compras –, mas


sobretudo pelo aspecto contrastante em relação aos períodos
anteriores. Embora Otelo tivesse tido sempre interesse em
comprar objetos e produtos para os quais não tinha recursos
– o que inclusive motivou-o na sua empreitada comercial –,
jamais se lançou a esses desejos de forma desenfreada, como
se constata neste terceiro movimento. A distância entre objeto
de desejo e polo desejante, antes imensa, passa a ser mínima,
rendida todos os dias a seu bel prazer.

Até o final do período de observação de Otelo, mais de dois


anos após a transformação da personalidade, não havia indícios de
nenhuma reversão do último quadro psiquiátrico. Apenas o estado
geral físico tinha se deteriorado de modo assustador, como se pode
imaginar. Consequentemente, do ponto de vista diagnóstico, parece
estarmos diante de uma transformação processual da personalidade,
cujas características estruturais devem ser examinadas a seguir.
A modificação processual capital de Otelo deu-se na dimensão
da interpessoalidade. Daí a falsa impressão de tratar-se de um
transtorno antissocial, dado ser este calcado nessa dimensão. A fratura
da inserção interpessoal do paciente, por sua vez, ocorre, vista sob uma
lente de microscopia, na experiência de integridade da alteridade, o
que equivale a dizer, na espacialidade da copresença da alteridade. A
consequência imediata dessa dissolução da integridade da alteridade
é, voltando-se os olhos para a pressão básica da espacialidade dual, o
relaxamento da tensão do espaço interpessoal. A passagem a esse nível
só se faz evidente quando comparada ao padrão estrutural pregresso.
Otelo vivia, do ponto de vista da interpessoalidade, sob uma
pressão centrípeta e vertical descendente, ou seja, a alteridade era
experimentada como uma força atuante de cima para baixo sobre
sua estrutura, empurrando-a para baixo na escala de valores, para
a humilhação e o escárnio pelo seu modus vivendi. Sugerimos que
a matriz estrutural dessa condição seria a preservação total da
alteridade interpessoal como íntegra e superior moralmente à sua
guilherme messas 107

estrutura. Rompe-se essa integridade e a alteridade passa a não


mais ser experimentada, acima de tudo, como íntegra. A dualidade
não é reformada pela elevação relativa da estrutura do paciente
(psicologicamente, de sua autoimagem), mas por um ato de dissolução
da presença da dualidade. Esta passa a ser tomada como parcial e
fragmentária: não do ponto de vista da percepção ou da vivência
de identidade da alteridade, que permanecem preservadas, mas
sobretudo da perspectiva da moralidade. O outro, como fonte superior
de valores – e, consequentemente, fonte de ideação autorreferente –,
desaparece em definitivo. Esse outro, reduzido a frangalhos morais,
iguala-se à sua estatura moral. Com esse ato intencional, o outro pode
se transformar em mero objeto de prazer, de usufruto transitório.
Perde-se, com a fratura processual de Otelo, a dimensão valorativa
que tanto ameaçava lhe esmagar a existência. A vida torna-se leve,
os olhos morais do alheio enfraquecem-se e a copresença do humano
transmuta-se de pressão em júbilo, de responsabilidade intolerável em
leviandade corriqueira. Em suma, é a força da gravidade do mundo
inter-humano que desaparece, dando ensejo a um mundo de leveza
nunca antes experimentado pelo paciente fora de sua breve fase
maniforme. A contra-face da gravidade do mundo inter-humano,
projetada no seu polo consciente – a desmotivação e o esvaziamento
psicológicos –, deixa de existir, já que menos atestava a ausência
completa de energia psíquica e mais sua compressão continuada pela
pressão humana. Ausente esta, sua energia existencial volta a escorrer
livre, solta das peias que antes a agrilhoavam.
Há que se evitar, no entanto, um entendimento errôneo dessa
pseudolibertação de Otelo. A comparação da estrutura processual com
aquela da fase maniforme nos auxilia nessa tarefa. No deslizamento
maniforme, a alteridade permanece íntegra, levando a uma expansão
fictícia da estrutura de Otelo que necessariamente leva em conta
essa integridade. A expressão psicológica disso é a ideia de tornar-se
comerciante. Por mais irrealizável que fosse – e, no limite, não o era
–, esse sonho mantém tácita a noção de um papel social estabelecido,
o de comerciante. Há pressuposto um modelo extraído do corpo da
108 psicose e embriaguez

sociedade sobre o qual fundamentar seu movimento existencial. A


saída maniforme procura executar esse projeto passando por cima das
fases materiais necessárias para tal. Contudo, jamais deixa de levar em
consideração um universo de valores e representações sociológicas.
Pode-se mesmo dizer que o excesso sociológico reverbera até na
escolha temática do projeto de vida imediatamente pré-maniforme, já
que este parece ter sido escolhido ao acaso, brotando apenas ligado ao
provimento de necessidades materiais do presente, de modo instável,
portanto, frouxamente articulado com a personalidade. Do ponto
de vista da temporalidade biográfica, inexistia qualquer vínculo de
Otelo com um papel pregresso individual ou familiar de comerciante.
A introdução do papel social na consciência do paciente igualmente
desequilibrou-o por lançá-lo de súbito para a frente, sem nenhum lastro
no passado – a dimensão que confere solidez à existência. O papel,
social por excelência, imanta-o e arrasta-o integralmente, sem etapas
de maturação, fazendo-o levitar perigosa e fatalmente. Na emergência
processual, por outro lado, a conduta de Otelo não mais toma como
pressuposta nenhuma alteridade sociológica, entregando-se pura e
simplesmente ao objeto de desejo imediato.
A lição fenomenológica a se extrair dessa patologia é a unidade
indissolúvel entre os polos do eu e do outro na relação interpessoal.
A aniquilação de um dos polos conduz inexoravelmente ao enfra-
quecimento do outro. Debilitar a interpessoalidade é perder inserção
profunda da estrutura da consciência no mundo. É por esse motivo
que, embora “libertado das cadeias da interpessoalidade”, Otelo tenha-
se entregue mortalmente ao alcoolismo. Um mundo sem a alteridade
interpessoal, mesmo que regado a algum prazer imediato, jamais
será algo mais do que um espectro de mundo, habitado por figuras
antropológicas fantasmagóricas.
Gire-se a estrutura e examine-se a vertente temporal da
progressão patológica, na qual as consequências não são menos
nefastas. O universo interpessoal valorativo, embora pressurizado
a níveis intoleráveis e levado a uma experiência de urgência pré-
psicótica, é capaz de sustentar uma temporalidade humanizada,
guilherme messas 109

voltada à obtenção real dos valores psicológicos. Aniquilada esta, a


temporalidade volta-se ao imediato, ao exatamente ao lado e à frente,
no qual o impulso pontifica.
Em síntese, o desenvolvimento de Otelo mostrou a passagem
gradual e tormentosa de uma estrutura frágil e fixada na espacialidade
interpessoal até sua pseudolibertação processual da fixação
interpessoal. Com esta, a integridade da relação dual perdeu-se e a
alteridade tornou-se objeto fragmentário de prazer e o eu presa dos
impulsos comezinhos e da alcoolização incoercível.

Da Dualidade às Formas da Coletividade

Mas ainda não podemos nos contentar com as análises até agora
realizadas. Os passos da fratura da relação dual devem também ser
rastreados pelo acompanhamento das modificações ocorridas na
dimensão da coletividade. A justificativa para essa nova aproximação
se baseia num uso algo frouxo demais das noções de dualidade e
coletividade que empregamos acima, em um momento em que a visão
mais detida teria atravancado o ritmo da exposição clínica. Em suma,
devemos retomar a investigação da progressão dentro da categoria
interpessoalidade para precisarmos as mudanças de sentido que seus
componentes – dualidade e coletividade – receberam ao longo da
transformação processual de Otelo.
Primeiramente, há que se precisar a noção de dualidade em Otelo.
Esse conceito pode ser entendido em uma acepção forte ou em outra
fraca. A acepção fraca captura o fenômeno observado no tratamento do
paciente. Na acepção forte, dualidade explicita o modo de articulação
entre dois indivíduos no qual a união de ambos promove uma expansão
recíproca por meio de um enraizamento reflexo da implantação de suas
consciências no mundo. Os afetos pelos quais a genuína dualidade
se materializa não são poucos e não é de todo impossível que um
sentimento de inferiorização possa figurar como cimento para uma
relação dual verdadeira. Uma personalidade fóbica, por exemplo, pode
satisfazer-se, via inferiorização, com a sombra proporcionada por uma
110 psicose e embriaguez

alteridade potente. Da mesma maneira, um melancólico típico pode


deixar-se assenhorear, via sentimento de culpa, pela alteridade, sem
que se possa afirmar inexistir uma genuína dualidade, na qual dois
indivíduos íntegros estejam em torneio relacional. Bem verdade serem
essas relações perigosamente instáveis, nada se objeta a priori quanto à
viabilidade de sua dualidade forte.
O sentimento de inferiorização de Otelo parece radicar em
outra condição estrutural, denominada dualidade fraca. Nesta, a
dualidade não se firma como condição fundamental da implantação
da consciência no mundo, mas apenas titubeia como a última
barreira da consciência diante do englobamento completo pelas
forças da coletividade. Essa nossa posição concorda em seus pontos
fundamentais com a antropologia de Binswanger, desenvolvida
teoricamente na obra Grundformen und Erkenntnis Menschlichen Daseins,
e psicopatologicamente em seu estudo de 1957, Schizophrenie91, para
quem o Dasein limita-se e encontra alojamento no mundo por meio da
dualidade. Rigorosamente, depende da integridade da relação dual a
integridade da identidade e da própria forma do ser-aí. A dualidade é
como um dique permitindo em seu interior a emergência e permanência
do Dasein. Perdida esta, o ser tende a se dissolver e procurará a jusante
novas barreiras vicariantes a substituir – mais mal do que bem – a
paliçada primordial removida. A condição prodrômica dessa perda
da dualidade-dique anuncia-se pelo sentimento de inferiorização. Não
se trata, estruturalmente, da inferiorização do menor diante do maior,
mas do temor do quase dissolvido diante do íntegro. Mantenhamos o
termo “inferiorização”, na falta de palavra mais abrangente, mas não
percamos de mente que se trata de uma vacilação profunda, ontológica,
do ser, da qual a inferiorização é apenas a ponta mais visível. É por
esse motivo que a estrutura encontrou-se frente a um impasse do qual
não achou saída. Ainda apoiada no restante de dualidade existente,
necessitava desta para reconstituir-se como estrutura humana total; no
entanto, qualquer contato com a dualidade já se fazia experimentado

91 Embora nos distanciemos do autor no que se refere à posição do amor como


penhor da eternidade.
guilherme messas 111

como risco de fracasso do ser, dada a incomensurável desigualdade


de potência entre quem é e quem está deixando de ser. Pedir auxílio
para dualidade é ao mesmo tempo única solução e fonte de massacre.
A excessiva fragilidade da estrutura de Otelo já não conseguia manter
uma relação com a dualidade, e a consequência dessa condição foi a
valorização crescente da forma vicariante da dualidade: a coletividade.
Porém, apoiar-se na coletividade, se por um lado reduz a pungência
das dores provenientes da dualidade, por outro resulta em fundar um
edifício sobre um pântano, como analisamos a seguir.
A coletividade, menos potente do que a dualidade no apoio da
estrutura sobre o real, assumiu em Otelo três formas principais antes da
eclosão processual e uma posteriormente. Já vimos a dimensão anônima
da coletividade, manifesta nas experiências de autorreferência, nas
quais o humano coletivo, prenhe de valores, espreita e força de fora
para dentro o eu extenuado. Ela é, de certo modo, a extensão natural
da hiperpotência da dualidade, agora perigosamente difundida pelo
espaço das ruas. Vejamos as outras duas formas vigentes anteriormente
ao momento processual.
A mais importante delas foi a família de origem, tanto do ponto de
vista de sustentação vicariante da estrutura quanto da manutenção de
alguma proteção e viabilização do tratamento. Se a eclosão maniforme
representa o momento em que Otelo rompe de súbito com o passado
pessoal rumo a um futuro etéreo, na família temos a instância que mais
comprometimento com a solidez do passado oferta. Se a virulência
do desvario maniforme revela a fragilidade do aterro da retenção da
estrutura de consciência de Otelo, a vicariância familiar, substituindo a
retenção pessoal por uma forma de retenção estribada na coletividade,
busca repor essa falta de raiz. Se Otelo não possuía mais retenção, pois
sua estrutura se diluiu, tivemos apenas na família a oportunidade de
invocar alguma retenção, pois é esta a instância coletiva que melhor
retrata e faz relembrar o passado da pessoalidade. Dimensão retentiva
imprescindível para Otelo, como se saiu a família nesse papel árduo?
Não se pode dizer que mal. Foi competente na execução de seu destino
difícil e, mais importante ainda, foi o instrumento capaz de antepor-
112 psicose e embriaguez

se à força dissolutiva de anonimização observada nas experiências


de autorreferência. Dado ser a interpessoalidade excessivamente
“pesada” e a rua sem nome exageradamente aterrorizante nas suas
imposições de valores – e todo terror nasce da dissimulação de sua
face humana – coube à família o nicho de doar valores sem soterrar
a personalidade por completo. E recusar a anonimização é ao mesmo
tempo recusar o triunfo incondicional da psicose.
A forma de coletividade mais angustiante e que com maior
clareza evidenciou a firmeza de caráter e as lutas internas incessantes
da estrutura de Otelo diante de sua doença foi o trabalho. Otelo
trabalhava em uma companhia há muitos anos; com isso, cabe dizer
que uma porção do trabalho pode ser entendida como familiar,
como polo retentivo (e, diga-se de passagem, essa função primordial
foi exercida pelo serviço social da empresa de maneira incansável e
louvável). Mas essa função não reproduz a integralidade do papel
laboral. Trabalho é familiaridade, trabalho é potência de identidade
e futuração aprimorante, mas trabalho também é pressão. Um gênero
especial de pressão, pois, diferentemente da força centrípeta da
anonimização do mundo, a pressão laboral se dá sobre regras claras
e relativamente definidas. O ponto a se reter é que trabalho funde
pressão com diferenciação ou, quando menos, se não diferenciação, ao
menos manutenção do estado diferenciado vigente. Daí que, embora
Otelo performasse sofrivelmente em seu ambiente profissional, e sua
doença justificasse por completo uma aposentadoria, renitentemente
o paciente se colocou contra essa ideia, contra o abandono definitivo
dessa pressão clara e portadora de identidade e diferenciação. Talvez
tenha sido no trabalho – e na paciência dos seus pares com suas
dificuldades – o último bastião a manter Otelo em um mundo de
valores e deveres toleráveis. Se a família ofereceu retenção, o trabalho
manteve viva uma nesga de protensão, que a interpessoalidade dual
não pôde sustentar. Talvez seja por essa chama de esperança que a
estrutura de Otelo tenha “escolhido” uma profissão, um trabalho, no
seu voo cego rumo à forma da mania. Uma nostalgia de ser, doada pelo
trabalho, enfunava suas pretensões existenciais. Assim como o álcool,
guilherme messas 113

a profissão manteve íntegra sua estrutura em dissolução; entretanto,


diferentemente daquele, faltava a esta a autonomia, a acessibilidade,
a rapidez e, sobretudo, o poder de esquecimento dos quais Otelo não
podia abrir mão. No limite, sustentar-se existencialmente no trabalho
era depender da alteridade dual e contra isso apenas o álcool foi
bastante.
No entanto, o processo se fez e, com ele, anuncia-se uma nova
noção imposta de coletividade. Aprofunda-se a ruptura da integridade
já cambaleante da dualidade e, com essa piora, assistimos à dissolução
da espécie de resíduo de continuidade da dualidade para dentro da
coletividade, os valores. Já não mais será possível apoiar o ser na
coletividade como antes, pois esta se transformou ao perder suas cores
já esmaecidas de dualidade. Psicologicamente, já não mais será possível
trabalhar ou coexistir no cotidiano familiar, pois o trabalho não mais
é ponto de diferenciação e a família perde a referência de retenção.
Para que ambos executassem essa tarefa vicariante, era fundamental
que houvesse uma nostalgia de dualidade integral, agora abandonada.
Os comportamentos desrespeitosos e compulsivos de Otelo fazem
com que a família o interne em uma clínica de longa duração, voltada
para o tratamento de toxicômanos. Não avaliemos a qualidade da
clínica, mas situemos seu papel apenas. Contenção, ordenação de
agenda, regularidade heteroimposta serão as marcas do tratamento
de agora em diante. Os valores humanos, que espreitavam rodeando
Otelo, mas dos quais Otelo fazia parte, passam a ser a ele estrangeiros,
colocados desde fora de sua consciência mas em contato direto com
sua superfície corporal. A distância interpessoal que sufocava Otelo,
pois sobre ela se davam os olhares do horror da reprovação, se reduz.
Já não existe mais distância entre Otelo e os outros, estes se tornam
imediatamente acessíveis a ele, como objetos de obtenção de prazer
impulsivo-compulsivo. O sentido da coletividade, pois, se modifica.
Durante o período de manutenção da distância, a coletividade
ainda podia funcionar como uma esfera a proteger-lhe, como mãos
protegendo uma criança. Agora, reduzidas as distâncias ao corpo a
corpo da carne e do desejo ou agressividade, a coletividade passa a ser
114 psicose e embriaguez

meramente instrumento de produção mecânica de alguma distância


inter-humana, na contratendência de seus impulsos relaxados. Será a
coletividade, por via de regulamentos rígidos, a instância a impedir
que Otelo agrida o mundo e o dilacere, que invada a privacidade da
alteridade e a degluta desde dentro. Como peias ou como grilhões,
a coletividade nada mais é agora do que fator de tração horizontal
jogando Otelo para trás, para dentro de um espaço de intimidade
do eu que tende a ser perdido pela fragmentação. A instituição na
qual ele se coletiviza é agente de paralisação, de prevenção contra
danos maiores para si mas principalmente para o mundo. Se no
período da distância ainda podíamos falar de espacialidade de
consciências (para o bem e para o mal), assumimos doravante a
modalidade “espaço de corpos”, de fricção, de instantaneidade total.
Todas próprias do universo psicótico negativo e da embriaguez. Já
não se pode esperar que a coletividade execute alguma função de
diálogo com a dualidade, de parada temporária no estaleiro para
o retorno ao modo dual; esperamos apenas que a coletividade seja
guardiã da integridade dos eus das relações humanas e do eu de
Otelo, lançado no risco máximo de alcoolização. A coletividade no
período processual de Otelo faz parte do gênero coletividade-solidez,
caminhando para a materialidade das relações puramente físicas,
embora reste em Otelo suficiente discernimento para compreender
os regulamentos abstratos da instituição. Isso indica que a alteridade
como fonte de ordem ainda mantinha-se viva, escalão último antes da
mera contenção física. Tomada globalmente, essa derradeira forma de
coletividade aproxima-se funcionalmente ao uso do álcool como fator
de manutenção da integridade da estrutura da consciência. Difere
deste, é bem verdade, na medida em que protege primariamente a
integridade da alteridade para em seguida proteger a identidade.
Entretanto, num sentido mais profundo, sua emergência revela a
redução gritante da existência de Otelo à proteção de integridades.
E quando a vida se comprime no círculo estreito das proteções
últimas, já de há muito estão inumadas as potências de humanização
biográfica.
guilherme messas 115

Os Sentidos da Embriaguez

O sentido majoritário da embriaguez alcoólica de Otelo foi a


manutenção da unidade da estrutura da consciência-implantada-
no-mundo, protegendo-a de sucumbir diante das pressões a que foi
submetida. Foi, portanto, uma ação conservadora, reativa, vinculada
estritamente ao engessamento no presente, e sem nenhuma força
para auxiliar na projeção futura de sua personalidade. Nem do ponto
de vista da produção de alguma coletivização – Otelo se embriagava
sempre de modo solitário –, atenuando as arestas da interpessoalidade
dolorosa, nem do ponto de vista de um isolamento reflexivo que lhe
servisse como escudo contra o mundo. A embriaguez nem lhe fez se
voltar para a vida nem dela se retirar, apenas doou-lhe a anestesia
de um eterno presente. Se a fase maniforme ainda permitiu-lhe uma
exaltação do eu, fictícia e fugaz, mas voltada ao mundo interpessoal,
o álcool permitiu-lhe apenas e tão somente a continuidade do perfil
habitual da estrutura do eu.
Tendo em vista essa observação, não parece isento de ambi-
guidade o papel da alcoolização nos eventos psicóticos transitórios ou
no desenlace processual. À questão de se o abuso de álcool produziu ou
auxiliou na produção da doença psicótica, deve-se responder com um
não hesitante. Na sua função primordial, instantânea, farmacológica,
de manter íntegra a estrutura da consciência, o álcool não atuou como
potência psicotogênica. Pelo contrário, possibilitou uma amarra frágil
na realidade, embora a tal ponto enraizada na solidão que acabou por se
verificar prenúncio de um processo esquizofrênico. Sua ação de promover
algum equilíbrio prescindindo da interpessoalidade não favoreceu
a possibilidade de desenvolvimento desta e, consequentemente,
tampouco não auxiliou na redução do risco psicótico. Mas não parece
legítimo dizer que o isolamento alcoólico estivesse no nascedouro das
psicoses: neutro, não auxiliou – p.ex. num eventual favorecimento
de pontes interpessoais –, tampouco atrapalhou – p.ex. fazendo do
isolamento embriagado a construção de um paraíso artificial no qual a
alteridade e o mundo não seriam bem-vindos.
116 psicose e embriaguez

As próprias características fenomenológicas de suas rupturas


psicóticas, ainda que variegadas, auxiliam na atestação da nossa
tese de neutralidade. As figurações de autorreferência – que melhor
poderiam ser ligadas a uma exogeneidade direta – se deram sempre
sobre um fundo de experiência de realidade concreta indene, ou seja,
não houve um rebaixamento de consciência com perfis alucinatórios
visuais, compatível com os quadros produzidos pelo efeito direto do
álcool. A fase maniforme em nada poderia ser atribuída à alcoolização.
Os momentos mais graves da evolução psicótica, como o momento
catatoniforme, tampouco. Na etapa final, de alteração de personalidade,
os comportamentos impulsivos ou agressivos não se acompanharam
de perdas cognitivas próprias do álcool. É bem verdade que o álcool,
uma vez eclodido o processo psicótico e liberada a ação fragmentária
e invasiva sobre o mundo e a alteridade, favoreceu, por ação direta,
o componente impulsivo desses comportamentos. Contudo, esse
acréscimo quantitativo não se relaciona com a gênese da psicose; antes,
é um efeito da patologia.
Contudo, essas constatações não podem deixar de atribuir ao
álcool desmesurado uma função na gênese psicótica. Não no sentido
de uma transformação alcoólica direta da experiência do real, mas no
sentido de um esgotamento da estrutura da consciência-implantada-
no-mundo, sobre o qual ainda voltaremos. O efeito farmacológico da
substância, mantendo ficticiamente e a elevadíssimo custo energético
a unidade da mônada consciente, acaba por esgotar a sua capacidade
de deixar-se estimular exogenamente. Um efeito semelhante
à dessensibilização fez com que, a partir de certo momento, a
autoterapêutica alcoólica, mesmo mantendo a unidade da estrutura,
a fragilizasse a ponto de que um mínimo solavanco faria tudo ruir.
O solavanco veio com o projeto comercial. Esse fenômeno diverge da
adaptação típica das dependências puras. Nesta, a consciência habitua-
se a operar com elevado grau de estímulo exógeno e padece quando
da ausência deste (os sintomas de abstinência). Existe, portanto, um
equilíbrio, instável mas poderoso, entre substância e estrutura. Aqui,
inexistiu esse equilíbrio, não se pode dizer que a textura da estrutura
guilherme messas 117

consciente tenha se adaptado à embriaguez, mas simplesmente que


esta foi usada em determinada função até o ponto de exaustão após
o qual ocorreu a oscilação psicótica e a cronificação final. O álcool
esgotou-o e corroeu-o por dentro, sem que seu ser tivesse a este se
habituado ou deste tivesse medularmente necessitado. Como o prova
o diabetes precoce e o estado geral precário do final do período de
acompanhamento. O único comemorativo francamente catalogável em
termos de síndrome de abstinência – a crise convulsiva – não pode
ser indubitavelmente creditado ao álcool, já que ocorreu em estado de
descompensação diabética. Otelo mais foi parasitado pelo álcool do
que dele dependeu.
Toda reflexão sintética – como esta, pretendendo resumir uma
existência inteira em poucas palavras e em alguns movimentos
principais de uma época da vida – padece de uma insanável presunção;
a de identificar sentidos globais para uma existência. Mas corramos o
risco, sustentando que a principal dificuldade da existência de Otelo,
e que esteve na raiz de todos os seus problemas, foi a incapacidade de
erigir-se um genuíno projeto de vida, um êmulo espiritual a impelir
toda sua estrutura distorcida rumo ao futuro e à materialização de
uma forma de presença nas dimensões do real. Inexistente esse projeto
de vida, restou o desafio de manter-se vivo como unidade estruturada
de consciência. E, para essa tarefa tão penosa e tão ingrata, o álcool
foi seu companheiro mais fiel. Fiel e excludente, pois nunca permitiu
que seu acréscimo de energia transitasse para a construção de pontes
vinculantes ao mundo. A procura de construção de laços mais próxima
disso foi o projeto comercial. Este, contudo, não partia da intimidade
fecunda do eu, mas da desesperada tentativa de sair do presente no
qual o eu se encarcerara, mesmo à custa de reduzir o ser individual
a apenas um papel social. Esse papel social, insuficiente e vaporoso,
evidentemente, não poderia durar mais que o tempo da solidez de um
castelo de areia frente ao mar revolto.
118 psicose e embriaguez

Caso 2:
O Esgotamento Esperançoso
(ou a Esperança Adiada)

Apresentação

Mais do que em qualquer outro caso, aplica-se aqui o aforismo


L da Segunda Seção do Corpus Hippocraticum: “Aquilo a que se está
habituado há muito tempo, ainda que pior do que aquilo a que não
se está habituado, costuma perturbar menos; mas é necessário mudar
para aquilo a que não se está habituado”92. Essa observação clássica, de
caráter geral, pediria um ligeiro acréscimo textual para sua adequação
completa ao caso em questão e, talvez, às particularidades da existência
consciente humana. A coda contemporânea sugerida exclamaria
assim: “E a perturbação que surge quando da mudança muito revela
das características íntimas do ser”.
O aforismo estendido justificaria o achado clínico da irrupção da
psicose a que devemos nos dedicar em seguida exatamente diante do
início do tratamento. Sem nenhum outro fator relevante externo a ser
mencionado, rompe-se a estrutura da implantação da consciência no
mundo em forma psicótica exatamente quando se inicia o tratamento.
O mero ato do tratamento parece ser a perturbação aludida acima.
Essa algo misteriosa observação, sustentada em uma sentença milenar
interpretada ao bel-prazer deste autor, tentará justificar-se não no
sentido causal do modelo explicativo do pensamento positivista, mas
da perspectiva da compreensão fenomenológica. Entretanto, para
isso devemos retroceder ao início do caso, rastreando os caminhos
biográficos pelos quais essa estrutura se desviou de seus trilhos
vocacionais a ponto de perder-se na sombria psicose.
Ricardo nasceu em uma família infeliz, marcada, numa ponta,
pela melancolia e, na outra, pela impulsividade. Se a melancolia
fixa o ambiente familiar na tradição consolidada, a impulsividade

92 Hippocrates, vol IV, p. 120. (Tradução do autor).


guilherme messas 119

confere a esta uma ameaça insolúvel de perturbação. Uma turbulência


desesperançada foi o berço familiar de Ricardo. Não bastantes as
dificuldades do clima afetivo biográfico primordial, Ricardo nasce
com um temperamento inquieto e explosivo sem deixar de receber
influxos formativos do polo melancólico do núcleo familiar. Desde
cedo, portanto, teve de adequar sua potência irrequieta e muitas vezes
irascível à cerca limitante da melancolia conservadora. A inquietude
curiosa – partindo da intimidade endógena –, forçando seu ser para
o mundo, e o conservadorismo melancólico do ambiente familiar –
atuando por meio da admiração filial –, travando esse movimento, não
ofereceram condições básicas para um desenvolvimento confortável
e saudável. “Impasse existencial” seria a síntese dos primeiros anos
dessa estrutura individual. O temperamento do menino, implantando-
se primeiramente no ambiente social familiar, não pôde se dirigir ao
mundo – talvez fosse mais correto dizer, não pôde aprender como se
dirigir ao mundo para nele desenvolver-se. Encravado na família mas
sem nela poder fincar pés ou dela extrair a alavanca para projetar-se
no mundo, a vida precocemente tornou-se pressão sem escoamento ou
alívio.
A alternativa para esse impasse existencial passou a ser, desde
os treze anos de idade, o álcool. Note-se que essa alcoolização
extremamente precoce não recebeu influxos da cultura familiar, já
que inexistem casos de embriaguez abusiva na família. Nesse sentido,
pode-se dizer que o principal movimento, na pré-adolescência, de saída
da cultura familiar restringente, a primeira ruptura com a tradição
cerrada que lhe espremia de todos os lados, foi um ato de paralisação
existencial e de entorpecimento. Adiar a solução do impasse
existencial significou entorpecer-se do mundo. Entorpecimento
doloroso, pois suas características temperamentais intensas davam
um tom agressivo a essa anestesia, marcando sua história com atos
de rebeldia ou eventual violência de pequena monta. Assim, os anos
pré-adolescentes e adolescentes prepararam a consciência, via dieta
alcoólica, para resistir paralisando-se, para permanecer em estado de
suspensão existencial, deixando de enfrentar os temas que a idade
120 psicose e embriaguez

exigia ou proporcionava. Esse primeiro momento, de entorpecimento


no local, dura até os dezessete anos, quando fatores externos e internos
conduzem a uma nova formação existencial. Novamente retomaremos
a estratégia expositiva de dividir a apresentação biográfica em etapas,
delimitando estas a partir de suas relações com algum desfecho
psicótico.

Primeiro Movimento – A Saída Tresloucada

Aos dezessete anos de idade, dissolve-se o núcleo familiar de


Ricardo. Pai e mãe se separam e Ricardo, aprovado em um vestibular
em outra cidade, decide viver longe de casa. Assim, embora a
aprovação no vestibular e o início da nova vida tenham-se dado
em idade adequada, pesa-lhe sobre os ombros a dupla liberação da
articulação estrutural anterior, fundada em um conservadorismo
compulsório, explosivo e instável, intrafamiliar, feito suportável
na base alcoólica. Mas esse conservadorismo, de qualquer modo é,
consequentemente, escora de sustentação da consciência no mundo.
Distanciar-se da família significou, em uma camada mais superficial,
em primeiro lugar dar vazão ao seu temperamento, naquilo que de
mais vibrante, ardente, inquieto e turbulento possuía. Festas e uso de
drogas – com substancial acréscimo do uso de cannabis, que passaria
a ser por muitos anos sua droga de abuso preferida – preenchem a
maior parte do seu tempo, comprometendo o rendimento escolar. Até
cerca dos 25 anos de idade esse movimento se manteve irredutível,
elevando a face de anestesia e afastamento das rugosidades mundanas
por meio do uso da cannabis. Os mais de dez anos ininterruptos de
embriaguez deixaram a consciência de Ricardo perto do ponto de
desimplantação de suas raízes no real, no limiar de que algum fato
ou algum movimento súbito pudesse produzir uma irrupção psicótica.
Mas não antecipemos o desenlace.
É tempo de nos aproximarmos melhor desse período do ponto de
vista estrutural. É tempo de justificar a sentença acima, na qual dissemos
que apenas superficialmente o afastamento da família significou
guilherme messas 121

liberdade para lançar-se aos chamados do seu temperamento. Se por


um lado isso é verdadeiro, pois a vida de fato tornou-se exuberância,
descomedimento e embriaguez, por outro, o projeto contido na ideia da
faculdade muito revela da estrutura anterior, traçando uma importante
linha de continuidade que justificará compreensões posteriores.
Ricardo opta por um curso de graduação ligado à atividade empresarial
de seu pai. Nada excepcional esse fato; corriqueiro mesmo um jovem
imaginar-se seguindo a correnteza existencial de seu pai. Tanto por
comodidade financeira ou existencial quanto por admiração ou
emulação, jovens seguem ou retomam os caminhos paternos. Contudo,
o “imaginar-se” acima empregado toma aqui cores peculiares e de
valor imprescindível para o ulterior entendimento dessa biografia. Se,
por um lado, gradualmente Ricardo afastava-se da família a ponto de
em certo momento sequer manter contato telefônico com ela, por outro,
como compensação fenomenológica da desproporção contida em um
afastamento radical das âncoras anteriores da existência, hipertrofiava
a sustentação da consciência na dimensão imaginária do ser, essa
sua fonte potente porém aérea. Nos anos tresloucados de sua vida
acadêmica e pós-acadêmica, Ricardo, ao perder açodadamente seu pé
do solo do passado real das relações humanas, fincou sua mente na
areia movediça da imaginação, embora seja uma verdade atenuante
dos riscos desse movimento o fato de que sua imaginação tenha
mantido algum contato – volátil – com o passado.
Mas essa observação não esgota a compreensão do período
analisado já que, como vimos, foi untado por uma espessa nuvem
de cannabis. Vejamos já o papel representado por essa intoxicação
desmedida. O paciente relatou que o efeito fundamental obtido com
a prática da droga era o de ensimesmamento. Ensimesmamento que,
obviamente, por sua vez, dá mais força proporcional aos ditames
internos da consciência imaginativa em detrimento das imposições
da solidez do real. Nessa situação de ensimesmamento, o imaginário
isolado de Ricardo, elevado ao papel de pilastra da implantação da
consciência no mundo, ganha ainda mais importância relativa. Com
o passar dos anos, a consciência preparou-se para viver afastada do
122 psicose e embriaguez

mundo e voltada para si mesma; voltada para si mesma significando


a colheita de seiva vital de um imaginário de extração familiar sem
contato com essa família real. Essa configuração, ainda que não tenha
lhe impedido de graduar-se, cobrou vigoroso tributo no início da vida
profissional. A distância do mundo, nutrida por vários anos, cravou
obstáculos nas suas tentativas de firmar-se em algum emprego. A
distância do mundo manifestou-se por perdas cognitivas, desatenção
e falta de memória, além de certa incapacidade de tradução da
realidade factual de sua área de expertise. Entretanto, a despeito
dessa dificuldade de entrada no mundo do trabalho, Ricardo insistiu
no movimento centrífugo, não buscando, nesses momentos iniciais,
efetivamente trabalhar na empresa paterna, mas dando preferência a
empregos do “lado de fora”. Com isso, acentuou-se a desconexão do
imaginário com o seu enraizamento familiar. O imaginário – a essa
altura já realidade, pois de fato formou-se na atividade proposta –
apontava para um lado, porém a ação corria para outro. Entre a força
de retorno efetivo ao real e a força de escape iniciada aos dezessete
anos, esta última venceu mais uma vez.
Paralelamente – e de modo diretamente relacionado – a essa
impossibilidade de entrar no mundo pelas portas laborais (note-se que,
durante o período de graduação, de certo modo as festas e celebrações
embriagadas ainda serviam como uma porta de entrada no mundo
inter-humano algo adequada. Essa adequação oblíqua, contudo,
se perde completamente no universo sóbrio do mundo laboral) ou
retornar ao terreno familiar, modifica-se a dimensão do imaginário
volátil. Este, antes calcado na ideia de retomar a atividade paterna,
amplia-se para um projeto de cunho verdadeiramente pessoal, de
trabalhar na coordenação de ambiciosos projetos sociais. A entrada em
cena dessa nova produção imaginária – sobre o mesmo solo consciente
preparado pela canabinização e complicado pela rejeição à execução
do projeto original familiar – merece atenção.
Destaquemos a formação estrutural predominante até o instante
em que um projeto pessoal parece brotar: um espesso imaginário
desancorado da realidade, retendo apenas um fio temporal de
guilherme messas 123

ligadura à dimensão pretérita familiar da consciência. Com o


avanço da maturidade, um esboço de projeto pessoal surge no
horizonte. Nasce, porém, esmaecido pelos anos de canabinização e seu
consequente entorpecimento das relações sólidas com o mundo, com o
outro e consigo mesmo. O próprio projeto pessoal passa a ser solução
e terror para sua consciência debilitada. Se anteriormente a consciência
demasiadamente imaginativa e volátil ainda encontrava apoio na ideia
familiar, agora o projeto pessoal – inesperado fruto dos desígnios
insondáveis do destino humano – amplia a solidão de Ricardo. Ele
sente ser tocado pela autenticidade da existência mas, mercê disso
mesmo, estremece por não ter alavanca para desenvolver na terra o
que surge como castelos no ar esfumaçado em que vive. Sobre um
terreno já friável, acorre uma instabilidade existencial importante.
Serão duas as alternativas que a estrutura da consciência de
Ricardo escolherá para lidar com a instabilidade proporcionada pelo
brotar de um projeto pessoal. A primeira delas pode ser considerada
como parte de um movimento conservador rumo à colocação do
imaginário no chão, nos moldes originais em que foi concebido.
Ricardo assume, finalmente, parte dos negócios dos pais. Entretanto,
tarde demais. Nessa retomada do projeto inicial, constata rapidamente
que não se interessa mais efetivamente por esse gênero de gestão,
que o embrião de um projeto pessoal já não mais permitiria que se
retornasse às formulações da adolescência. Assim, essa modalidade
de implantação do imaginário no real resulta em poucos meses inútil,
ampliando o fosso entre as aspirações de Ricardo e a realidade. Estamos
diante da segunda tentativa de solução, a que pode ser chamada de
caminho direto para a psicose.
Ricardo opta pela trajetória mais arriscada. Desanimado com
a inserção real no solo familiar, parte para a Argentina, com muitas
ideias na cabeça e nenhuma relação efetiva com o país. Perde-se por
alguns meses em trabalhos temporários e insignificantes, sustentando
sua vida basicamente no uso diário volumoso de cannabis. Depois
dos meses iniciais, começa de fato as atividades de ação social que
almejava, criando, por iniciativa própria e com recursos familiares
124 psicose e embriaguez

de origem não muito bem esclarecida, uma organização não


governamental com finalidade de acolhimento de imigrantes. Não
se sabe até hoje quais eram exatamente – e se houve alguma – as
atividades dessa ONG. Ao mesmo tempo dessa investida, aumenta
ainda mais o uso diário de cannabis. O acréscimo de uso da droga – e,
portanto, de ensimesmamento da consciência – inclina ainda mais sua
estrutura para a direção do afastamento das raízes habituais de sua
vida. Assim, a embriaguez por cannabis passa a ser o principal ponto
de manutenção do equilíbrio estrutural da consciência. Em termos
estruturais equivale a dizer que a exorbitância imaginativa passa a
ser a principal estaca de sustentação da consciência-implantada-
no-mundo. Talvez não fosse mesmo exagerado dizer ser esta a única
sustentação para a implantação da consciência no mundo àquelas
alturas de sua biografia. Plainando por sobre o mundo, a consciência
está então a um passo de soçobrar por falta de sustentação material
no real, mantendo-se íntegra apenas pelo efeito paralisante e aéreo da
droga e pela atividade frágil da ONG.

Segundo Movimento – O Voo Psicótico

Desmaterializada pelos anos de canabinização e desancorada do


mundo pelo afastamento gradual dos liames históricos – desvinculação
que agora se amplia pela perda da cultura nacional na qual nasceu e
cresceu –, a consciência de Ricardo recebe mais um aporte de acréscimo
vertical dado pela nova onda de canabinização. Com esse aporte, o já
instável e débil equilíbrio da implantação da consciência se rompe, dando
vez a seu primeiro surto psicótico. Esse voo terminal de Ícaro reverbera as
características de todo arrebatamento rumo ao sol: prazer desmesurado,
sentimento incoercível de potência, generosidade, benemerência e
hiperatividade física dão formas a esse surto de características típicas
da leveza maniforme. Porém, o qualificativo geral de surto maniforme
não nos basta para o entendimento existencial de Ricardo. Faz-se
necessária para nossos propósitos a apresentação das particularidades
do conteúdo desse surto, ocorrido sobre uma estrutura de volatilização
guilherme messas 125

do real. Antes, é imprescindível frisar que essa volatilização não deve


ser entendida como uma paralisação da temporalidade autêntica do
real. A volatilização é, do ponto de vista estrutural, uma suspensão,
um adiamento de decisões da biografização e, consequentemente, se dá
sobre a esfera natural da existência, tendo como pressuposto necessário
a preservação das três dimensões da temporalidade.
Ricardo passa gradualmente a crer-se alguém muito importante,
responsável por uma ONG influente no país que vinha lhe
acolhendo. Essa crença elevada no papel da ONG implicou em um
comprometimento com gastos impossíveis de serem assumidos, assim
como ofertas à população de bens com recursos inexistentes. Em pouco
tempo, a partir desse descolamento do real, faz-se notar com evidência
a franca exaltação patológica de Ricardo e seus próprios companheiros
da ONG alertam a família. Esta, incontinenti, importa-o de volta ao
país e o interna em instituição psiquiátrica. Conclui-se, assim, o longo
ciclo de Ricardo que, partindo da infância e adolescência difíceis,
desemboca em um surto psicótico.
Retomemos a trajetória acima percorrida (da saída tresloucada
até o voo psicótico), agora deixando de lado o aspecto descritivo dos
fatos e desviando nosso olhar para as estruturas capturadas pela
atitude fenomenológica. Vistos por esse novo ângulo, os achados
não reproduzem exatamente a periodização adequada para o relato
biográfico. Se na passada descritivo-biográfica o primeiro período
caracteriza-se por uma má inserção no mundo familiar – reverberando
numa má inserção no mundo interpessoal como um todo –,
procurando ser resolvida por uma saída de casa e do ambiente familiar
completamente apressada, dando, portanto, cores de movimentação
protentiva à vida do paciente, na leitura estrutural todo o primeiro
movimento parece ser caracterizado pela tentativa da estrutura de
manter-se completamente estável e mesmo imóvel, suspensa sobre
a própria biografia. Diante da extrema e continuada dificuldade de
acoplar-se ao mundo, a estrutura da consciência opta por recusar o
diálogo com esse mundo por meio da canabinização. A via estrutural
para a consecução dessa estratégia foi o acréscimo da dimensão
126 psicose e embriaguez

imaginária da consciência. Esse acréscimo do imaginário não pode ser


entendido, nos anos iniciais, como um motor a propelir o psiquismo,
mas apenas como uma modalidade da suspensão da consciência,
embora ainda relativamente apoiada sobre o passado estabilizador. A
prova disso é a opção pela manutenção do projeto de vida no interior
do projeto familiar. Assim, pode-se dizer que o fator familiar foi o
mais forte retentor da consciência de Ricardo no largo período que
vai da adolescência até o brotar de um embrião de projeto inicial.
O acréscimo da participação imaginária volátil e desrealizante,
proporcionado pela canabinização, operou como um modo de tornar
tolerável essa retenção forte no familiar, já que, como vimos acima,
a existência de Ricardo encravara-se em uma situação de impasse,
estribado na impossibilidade de deixar de apoiar-se na família e ao
mesmo tempo de não conseguir fazê-lo com um mínimo de conforto
sustentável ao longo do desenvolvimento. A canabinização, portanto,
atuou no sentido de elevar ao nível do imaginário um estado de
impasse paralisante que Ricardo não vinha tendo competência para
viver na altitude que lhe era apropriada. Esse imaginário, estrato mais
volátil e ensimesmado exatamente por essas características, torna-se
mais tolerável ao longo do tempo. O uso de cannabis não abalou de
modo algum esse equilíbrio instável mas fundamental, calcado sobre a
noção de família distante, de familiaridade idealizada; pelo contrário,
permitiu o adiamento do confronto inescapável. Em suma, a consciência
manteve-se suspensa – numa espécie de paralisação expectante, com
seus olhos de algum modo sempre voltados para o dilema existencial –
pela cannabis, sustentando-se em uma retenção familiar que não pôde
se assentar na solidez da terra firme da sua família real.
A evidência mais nítida disso surge quando, do ponto de vista
estrutural, a posição da existência resolve, ainda que timidamente,
tatear alguns passos trôpegos. O embrião de projeto de vida autêntica
de Ricardo marca a transição do período estrutural de paralisação
para o período de uma microscópica movimentação. São duas as
linhas vetoriais dessa resolução que podem ser responsabilizadas pelo
desfecho psicótico. A primeira origina-se do próprio brotar do projeto
guilherme messas 127

imaginário primordial – trabalhar na área social. Este abandona


parcialmente a inserção retentiva no âmbito familiar, já que ninguém na
família de Ricardo havia se dedicado a algo semelhante anteriormente
e mesmo sua formação na graduação passava longe de tal atividade.
Ao perder pé do imaginário retido na família – e lembremos que esse
pé já falseava pelo caráter exageradamente imaginário que encerrava –,
aumenta o desequilíbrio da estrutura de sua consciência, lançando-se
cada vez mais em um abismo inaudito, para a defesa contra o qual não
se via preparado. Ainda faz parte da descrição dessa primeira direção
vetorial apontar como o brotar do projeto genuíno do eu significa
concomitantemente o afastar-se da família-sustentação estrutural.
Caso a retomada fracassada da empresa paterna tivesse tido sucesso,
poderíamos dizer que o projeto do eu, protensivo, teria apoio na sua
raiz familiar retentiva, dando talvez boas condições estruturais para
progressão. Entretanto, o projeto de eu nascente necessariamente
implicou ruptura das retenções: familiares, em primeiro lugar, e
culturais, em segundo lugar. Com isso, o movimento embrionário
de autenticação do ser significou um acréscimo desmesurado do
eu imaginativo sem apoio em qualquer solidez ou em qualquer
temporalidade que não a futura. E um eu gigantesco sobre uma
temporalidade completamente em suspenso, sem apoio presente na
interpessoalidade e estribada na protensão isolada, é tecnicamente
quase um eu psicótico, dado o imenso desequilíbrio dessa condição93.
A segunda linha vetorial complementa o desequilíbrio dessa
condição, empurrando-a para o desligamento delirante do ser.
Novamente, trata-se do excesso de uso de cannabis. Do ponto de
vista fenomenológico-experiencial, a função dessa nova onda de
canabinização segue a orientação anterior, volatilizando a consciência
e deixando-a ainda mais em suspenso no ar. Entretanto, as condições
estruturais são agora outras e esse efeito, outrora conservador, passa
a inverter sua valência (e isso se dá porque a orientação resultante das

93 A essência dessa temporalidade é, do ponto de vista biográfico longitudinal, a


suspensão, ao passo que a de Otelo é a paralisação. Voltaremos a essas distinções
ao analisarmos mais adiante as essências dos casos.
128 psicose e embriaguez

proporções da temporalidade se altera), tornando-se fonte de extremo


risco. A canabinização forçada eleva ainda mais o eu por sobre o real,
inclinando o desequilíbrio da estrutura para cima, para a experiência
de um eu todo poderoso. Canabinizado, esse eu em certo momento
dilacera os derradeiros liames com o real e abre-se em franca psicose
vertical. Com a psicose, perde-se novamente o embrião de ampliação
de um projeto de eu autêntico, novamente pairando a consciência nas
nuvens. Assim, o chamado, voo psicótico nada mais é, do ponto de
vista estrutural, do que uma ligeira tentativa de assunção de si mesma
por parte da estrutura, brevemente abortada pelo fato de esse eu não
possuir sustentação suficiente no real para seu crescimento.
Mas o fato dessa irrupção psicótica representar um projeto do
eu inviabilizado por condições estruturais desfavoráveis, faz dela algo
mais do que um simples descarrilamento patológico. Como na asserção
clássica94, in vino veritas, há verdade nessa subida desenfreada da
imaginação aos céus. Como o eu não se fragmentou diante do mundo
(como ainda será visto em outro surto desse mesmo paciente), mas
sobre ele ascendeu, pode-se dizer que as produções imaginárias desse
período permaneceram intactas do ponto de vista de sua manifestação
e validade interior. Assim, a ideia de um projeto profissional na área
social, embora impossível naquele momento existencial, pode ser
encarado como possibilidade existencial a ser considerada autêntica
para essa estrutura particular.

Movimentos Posteriores – Depressão95,


Nova Psicose e Convalescença

Decidimos considerar a catamnese de Ricardo após esse surto


inicial dentro de um único, grande e heterogêneo capítulo, no qual mais

94 Asserção que de modo algum pode ser deixada de lado na apreciação das psicoses
nas embriaguezes.
95 Sempre que o termo “depressão” for utilizado de maneira inespecífica, tratar-
se-á de um estado genérico depressivo, sem relação com a melancolia. Esta estará
indicada em todas as suas aparições.
guilherme messas 129

de um movimento é capturado. Fizemos isso pois os comemorativos


patológicos encontrados nesses períodos não são simultâneos ao uso
de psicoativos, a despeito de, indiretamente, permanecerem sob o
círculo de influência da embriaguez abusiva. A sua apresentação aqui,
ainda que sumária, é imprescindível para o mais agudo entendimento
das relações que vimos estudando, permitindo o melhor entendimento
dessa consciência individual por nós denominada Ricardo.
Sanou-se, do ponto de vista mais estrito, a psicose primeira de
Ricardo, após algumas semanas de tratamento. A resultante dessa cura
foi um longo período de recolhimento existencial depressivo, no qual
nenhum significado encontrava para sua vida, atirando-se na solidão
do quarto, multiplicado por um sentimento expressivo de perda
de capacidades cognitivas. Os relatos desse período exaurem-se na
autodescrição da vida como insossa, como além das suas possibilidades,
exercício impossível para um eu recurvado no sentimento de falsidade
e farsa. O caminho ascensional inflacionado pela imaginação enfunada
pela cannabis, ao esgotar-se, jogou a consciência de maneira direta e
inclemente para o solo. Arrebentada a consciência, fraturada pelo engodo
autoimposto do delírio e pelo desvirtuamento insistente da embriaguez,
resta ao eu sentir-se exageradamente aderido ao solo, ao nível sólido
do chão, incomensuravelmente menor do que o mundo sobre o qual
tatalava meses antes. O refluxo da nuvem desancorada, que culminou
no surto psicótico, revela a face negativa da mesma estrutura de mundo.
Uma consciência desajeitada, ao pôr os pés na interpessoalidade, com
pouca elasticidade e capacidade de ajuste para se acoplar ao mundo,
ora se eleva ficticiamente, sem transformar essa condição, ora se afunda,
de modo humilhante, tampouco movendo sua articulação primordial.
Verdade seja dita que as relações do si mesmo com o mundo variam de
acordo com a compensação fenomenológica principal de cada perna
dessa gangorra existencial. Na ascensão, o eu e o mundo perdem
solidez, embalados pela cannabis, que transforma a densidade do real,
da historicidade própria e das imposições das relações interpessoais.
Na decaída, já não há droga, despreza-se a leveza fluida, substituindo-a
por um eu enfrentando um mundo rochoso, no qual a plasticidade é
130 psicose e embriaguez

inexistente, no qual a interpessoalidade é inclemente e as próprias


portas de acesso à revelação do mundo – dadas na cognição – topam
com uma paralisante obliteração da porosidade. Numa consciência
oscilando tão amplamente entre solidez e esfumaçamento, deve-se
suspeitar que a justificativa para isso esteja na contínua dificuldade de
Ricardo em implantar-se no real interpessoal humano, da qual ainda
retiraremos consequências interessantes. Apenas uma consciência
tão mal implantada na interpessoalidade pode ser dominada por
compensações tão disparatadas e extremas como um voo psicótico e
um desvalor depressivo em alternância. A falta de ponto fixo na vida
interpessoal justifica a amplitude da volatilidade existencial.
A mesma falta de ponto fixo na implantação interpessoal nos
leva a descrever o fenômeno que páginas acima fez com que nos
lembrássemos do aforismo L de Hipócrates. Identificar a ausência
de fixação interpessoal – motivada e reforçada pelas dificuldades
biográficas do paciente e por seu temperamento inamistoso com o
mundo – como pivô das grandes variações fenomenológicas da patologia
de Ricardo não esgota o papel da interpessoalidade no caso. Pior ainda,
interromper a análise na identificação dessa condição deixaria de lado
talvez a principal característica dessa estrutura individual, revelada
na eclosão da segunda psicose. O surgimento de uma psicose apenas
pelo fato de iniciar-se um tratamento sugere algumas possibilidades
compreensivas. A primeira delas é a casualidade, a mais frugal a ser
levada em conta em qualquer investigação, já que nos protege de
um excesso de compreensibilidade, ilusão que deixa os mistérios do
mundo passíveis de serem todos revelados pela razão. Mas a presença
da casualidade – que não pode ser de maneira alguma afastada em
nosso caso – não ignora que condições básicas para sua eclosão já
estavam dadas, já que o início de uma psicose brotando do azul não
parece aqui plausível. Tendo ou não havido uma grande participação
da casualidade, os seguintes pressupostos dados para a sua ação
parecem legítimos.
O primeiro deles é o esgotamento da existência, exaurida por tudo
o que vimos acima. O esgotamento, por si só, poderia alavancar uma
guilherme messas 131

modificação psicótica da estrutura da consciência. No entanto, talvez


estivéssemos mais próximos da verdade dos fatos se acrescentássemos
a esse esgotamento um fator de movimentação que tivesse operado
como a gota d´água para o esfacelamento psicótico. Aqui surge a
interpessoalidade. Ricardo, iniciando o tratamento, atira-se sobre uma
nova esperança dada na relação terapêutica, na interpessoalidade
técnica e hierarquizada, na qual uma pessoa tem poderes para
conduzir a outra. A entrada em cena de um novo canal interpessoal
experimentado como fonte de poder e segurança desequilibrou a
estabilidade extenuada da consciência, levando-a a um desequilíbrio
psicótico em poucos dias. Ora, esse desequilíbrio dado pela entrada
em cena de uma nova porosidade interpessoal apenas pode se dar se
houver o pressuposto de um estado que denominaremos carência de
interpessoalidade. Apenas se a estrutura consciente estiver plenamente
aberta para a entrada de um apoio na interpessoalidade compreende-
se a ocorrência de uma força de desequilíbrio tão eficaz em tão poucos
dias. Se essa claraboia virtual, à espera da luz vital da alteridade,
estivesse totalmente cerrada, não julgaríamos ser possível que um
fluxo humano – embora desestabilizador em primeira instância –
abrisse caminho ligando essa estrutura obliterada ao mundo humano.
Assim, esse sucesso psicótico motivado pelo súbito desequilíbrio
na dimensão da interpessoalidade, mostrando simultaneamente o
esgotamento da estrutura e a carência de interpessoalidade – sobretudo
interpessoalidade hierarquizada, nos moldes da relação paternal
–, faz pensar em um esgotamento esperançoso. Um esgotamento
determinado, em uma perna, pelos anos pretéritos de crescente perda
de sustentação material para a existência; em outra, pelo lançar-se com
toda a entrega para o interior do outro, indicando haver a esperança
viva de ali encontrar guarida ou talvez redenção. Esgotamento
implicando, ao mesmo tempo – numa curiosa ambiguidade tão típica
das situações-limite da humanidade –, fim de caminho, dissolução da
capacidade de manter-se consciência humana, e início de caminho,
novas texturas humanas inexploradas, lance de dados acerca do
encontro da força externa suficiente para finalmente dar aterro aos
132 psicose e embriaguez

pilotis da existência. Esse esgotamento esperançoso, capital revelador


das entranhas da implantação da consciência de Ricardo no mundo,
merecerá pormenorização e diferenciação de suas modalidades, tanto
pela capacidade de gerar mais entendimento acerca das consequências
de sua toxicomania, quanto pela de revelar a face janusiana passível
de estar contida em um acontecer psicótico, justificando, já durante
a patologia, as chances abertas para a convalescença. Para tal, temos
de examinar a fenomenologia estrutural desse segundo episódio
psicótico, dividindo-a, para fins didáticos, na face de esgotamento e na
de esperança.

A Textura Hipermaterial do Esgotamento

Situamos há pouco o período depressivo de Ricardo, posterior


ao voo psicótico, como marcado pela compressão da existência
ao nível do solo, pela sua incapacitação de dele se descolar para as
alturas. Essa aderência ao solo, por sua vez, pode ser vista como
um acréscimo de materialidade-solidez da experiência de mundo,
contrastada ao excesso do componente aéreo-imaginativo que tingiu a
psicose inicial. A materialidade do mundo, aumentada, transforma-o
em peso, dificuldade e empecilho, enquanto a leveza fazia-o desafio
vitorioso e glória regozijante. Mas esse nível do solo ainda poderia
ser perdido, como o prova a segunda psicose, produzida pelo
esgotamento existencial. Importa aqui frisar que a cannabis não parece
ter representado um papel fundamental ou primário na gênese dessa
segunda psicose. Secundariamente, contudo, auxiliou na constituição
das figurações da psicose, conforme veremos. Se a depressão deixa-
se descrever por uma materialização do mundo, a segunda psicose se
expressa por uma hipermaterialidade. A materialização pressupõe
ainda uma integridade da presença do eu diante do mundo,
permitindo a constituição integral deste (apenas diante de um mundo
integral e compacto podemos nos sentir diminuídos e impotentes);
na hipermaterialidade, essa integridade se dissolve e eu e mundo se
fragmentam simultânea e reciprocamente, passando os pedaços de eu
guilherme messas 133

a navegar sem bússola num mundo que perde seus perfis habituais. No
plano fenomenológico-vivencial, essa hipermaterialidade manifestou-
se via um quadro hebefrênico, com diversas aparições patológicas
indiferenciadas, aparentemente incapazes de serem reunidas em um
núcleo organizador96, das quais uma em especial nos interessará, por
revelar as linhas de corte estruturais que surgem após um colapso
completo da forma existencial. Reiteremos: a segunda psicose perdeu
o nível do chão da depressão, no qual a forma da consciência, fixada
no solo, mantinha-se, como estrutura habitual, intacta. Agora, essa
linha do solo é perdida e já não mais se pode afirmar a manutenção
da estrutura habitual da consciência mas, unicamente, destroços
de uma estrutura pulverizada patologicamente. Na consciência
vivenciada, em termos psicopatológicos, essa hipermaterialidade
surge como um delírio de cores. Neste, fragmentos indiferenciados
de persecutoriedade e hipersignificação (a própria gravidade do
caso fez com que não fôssemos capazes de distinguir com exatidão
esses elementos presentes no período da segunda psicose. Mesmo o
paciente, excelente informante normalmente, não consegue recuperar
as memórias desse período fragmentário e aterrorizante) aderiram
à matéria mais irredutível do mundo visual, as cores. Nas psicoses
menos graves, se dá o fenômeno de hipersignificação, tão contundente
nas paranoias cocaínicas, por exemplo, em que a relativa neutralidade
do eu se perde e tudo a seu redor passa a ser vivenciado como a ele
dirigido. Essa configuração, de certo modo ainda saudável por manter
o aspecto habitual de um mundo dividido entre um eu e seus objetos
circundantes, perde-se na hebefrenia aguda de Ricardo. Agora, o
colapso da consciência em suas relações com o mundo é tão completo
que até mesmo a aparição dos objetos patológicos está comprometida,
substituindo-se a ênfase do ato perceptivo na forma global dos
objetos – própria das situações normais da percepção – pela sua
qualidade cromática. Por exemplo, em vez de perceber na figura de
um quadro na parede a eventual manifestação de sinais persecutórios,

96 Na verdade, o único eixo organizador foi a desordem, embora uma polarização


tenha se desenhado, como veremos na próxima seção.
134 psicose e embriaguez

percebia em uma cor predominante desse quadro os tais sinais.


Igualmente, era a própria cor de seu estojo, vermelha, que indicava
uma significação especial de caráter patológico. Os elementos do real
a serem percebidos não eram mais a totalidade perceptual dos objetos,
para os quais é necessária certa distância entre eu e objeto, distância
que reduz a “carga material” de tal objeto. Por exemplo, para que se
ouça uma música é necessário um limite no volume do som. Se esse
volume subir a graus elevadíssimos, o sentido da música se perde e
a consciência passa a atormentar-se unicamente com a materialidade
das ondas sonoras lhe invadindo em torrente. Perdida essa distância,
os objetos não mais se doam à consciência como objetos, mas como
matéria bruta, pura hilética, comprimindo os sentidos totais da
doação objetal. Há, portanto, uma deturpação da doação objetal do
real, que reduz o mundo a suas materialidades brutas, à sua hilética
selvagem, na qual eu e mundo não mais conseguem se constituir
mutuamente, mas as cores e tons do mundo misturam-se a um esboço
de eu perdido e indefeso. Nessa psicose, o mundo torna-se tão material
que não mais se pode postular a existência de um campo no qual eu
e mundo sejam polos de uma mesma balança: ambos tornam-se nada
mais do que pontos em um turbilhão inominável sugados por um
vórtice aniquilante.
Mas a hipermaterialidade cromática não foi acompanhada da
completa aniquilação da espacialidade existente entre eu e mundo,
condição esta responsável pela doação saudável de sentido para a
existência. Provas disso são, em primeiro lugar, a manutenção, embora
rudimentar, de experiências persecutórias, que exigem a presença
mínima ou transitória de um objeto completo para perseguir o eu; em
segundo lugar, a própria “opção” pelo cromatismo como estofo da
hipermaterialidade. As cores, mesmo no máximo estado de fusão que
podem encerrar, ainda são determinadas pelo espaço, pela projeção
e reflexão da luz sobre a face externa dos objetos e, portanto, têm
como pressuposto a manutenção de uma distância mínima entre eu
e mundo para que sua execução se efetive. O fato de um tombo tão
radical da estrutura nos abismos da desfiguração ter produzido uma
guilherme messas 135

hipermaterialidade ainda capaz de ser acompanhada por alguma


espacialidade vivida merece destaque, pois avança um ponto crucial:
toda espacialidade se sustenta, em última instância, numa permissão da
temporalidade para sua existência. Sem a camada de temporalidade, a
espacialidade tende a se colapsar em um estado de absoluto, do qual a
catatonia é a principal testemunha clínica. Estivemos aqui perto desta,
mas a dissolução psicótica arrefeceu no nível da hebefrenia. Se o fez,
é porque alguma temporalidade ainda havia como sustentação. Mas
não se trata de uma temporalidade normal, o arcabouço da biografia
humana.
Da perspectiva da temporalidade, aquilo que, da perspectiva
da espacialidade designamos pelo nome de hipermaterialidade, pode
ser denominado prototemporalidade ou temporalidade primitiva.
Primitiva pois reduz a aparição do objeto, temporalmente maduro e
“pronto” para ser percebido, a seus antecedentes originários ainda
informes ou sequiosos de forma, seus proto-objetos primordiais.
Estes, uma vez perdida a contenção e enquadramento dados pela
percepção objetal madura e global, liberam-se ensandecidos, fazendo
a abertura da consciência sobre o mundo vivenciá-los como pura
potência grávida de significação. Uma prototemporalidade na qual
apenas tendências aguardando significação se prefiguram é o modo de
identificação dessa experiência psicopatológica do ponto de vista da
temporalidade. Essa prototemporalidade, como tendência irresoluta
e composta por elementos os mais primitivos possíveis do objeto a
que pertencem, opera como um gerador substituto de temporalidade
para a estrutura da consciência, permitindo que esta não soçobre nos
infernos da atemporalidade da morte na pura hilética. A ruptura da
temporalidade habitual da consciência, com sua tipicidade pessoal e
da espécie, revela as potências derradeiras e indiferenciadas da mente
que vem à tona desordenadamente durante uma psicose tão grave
e indiferenciada quanto esta. Embora não sejam competentes para
restituir a temporalidade habitual, atuam na manutenção de um alento
de temporalidade que, no nosso caso em questão, não apenas vetou o
colapso completo da consciência como, ao manifestar-se na dimensão
136 psicose e embriaguez

da interpessoalidade, que nos interessará a seguir, trouxe à luz as vias


de evolução dessa biografia.

Breves Considerações Adicionais sobre as Características


Estruturais da Interpessoalidade na Segunda Psicose:
A Esperança e o Desequilíbrio

A mais notável característica da segunda psicose, observada da


perspectiva interpessoal, foi o surgimento de uma inaudita docilidade
(inaudita diante da biografia do paciente, mas habitual nas hebefrenias).
O antes impulsivo e colérico Ricardo age, durante as semanas em
que esteve psicótico, como uma criança dócil e inconsequente, por
vezes pulando por sobre a cama, deitando e rolando no chão e, na
zona da linguagem, criando neologismos repletos de diminutivos,
pronunciados reiteradamente e acompanhados por sorrisos aboba-
lhados. Mais importante ainda, o contato com o observador é o fator
motivador principal desses comportamentos pueris. Há até mesmo
uma procura bastante infantil pelo interlocutor, com a finalidade de
execução da partitura pueril, sugerindo que seu comportamento,
com a irrupção psicótica, tenha conhecido uma ampliação veloz da
importância relativa da interpessoalidade. Tanto na primeira psicose
quanto no período depressivo, a interpessoalidade manteve-se restrita
(aliás, sustentamos que a restrição da interpessoalidade seja mesma
distintiva de sua biografia). No primeiro caso, os outros se situaram
abaixo de seu voo, permanecendo como objetos a serem tutelados de
cima pela grandeza maniforme. Tornaram-se um agregado inominado
e desvalido socialmente, em relação ao qual a única modalidade de
interpessoalidade possível é a filantropia; no segundo, a alteridade
foi afastada, desvalorizada e congelada de certo modo pela rudeza de
um mundo gris e desprazeroso. Nessas configurações, a alteridade
permanece como ponto inacessível, distante demais do calor mínimo
necessário à vida. Apenas nos umbrais desse terceiro segmento
biográfico patológico a estrutura da consciência abriu-se para uma
alteridade de fato; apenas nesse instante da sua vida a alteridade passa
guilherme messas 137

a se integrar à totalidade da existência como figura central, não apenas


definida e próxima na horizontalidade do mundo inter-humano, mas
hierarquicamente superior, dotada e investida de poderes para o
saneamento dos problemas de sua vida. Importante ressaltar que esse
movimento de abertura à alteridade, que se manteve encistado por
anos na forma virtual de esperança, tem sua fonte antes na maturidade
da estrutura do paciente (a sempre enigmática maturidade, esse salto
para a frente do ser cujas origens ninguém consegue rastrear e sobre a
qual todos – incluído este autor – conseguem apenas especular) do que
na efetiva entrada em cena do psicopatologista. A prova disso está no
fato do paciente já ter sido tratado anteriormente, sem muitos abalos
positivos ou negativos. Pode-se dizer que, a certa altura da sua vida,
esgotado mas virtualmente esperançoso, o paciente “decidiu” ampliar
a doação interpessoal ao outro. São as particularidades e dificuldades
desse acréscimo inesperado que dão ensejo às reflexões a seguir.
Mas antes é imprescindível um esclarecimento categorial, sem
o qual a explanação se perderia na confusão conceitual. Temos dado
realce à ideia de esperança como princípio operante na vida de Ricardo,
e ainda voltaremos a isso ao nos indagarmos sobre o sentido da sua
embriaguez. É imprescindível evidenciar que sempre entendemos
aqui o termo no sentido técnico de “esperança vivida” (e não no seu
correlato exterior, “vivenciado”), ou seja, ao pendor da estrutura da
consciência a apoiar-se em outra para realizar seu projeto autêntico
de ser. Esse pendor é tão vigoroso a ponto de fazer com que toda a
estrutura da consciência se instabilize no momento de sua atualização.
Esperança vivida, portanto, é menos um sentimento apaziguador, de
experiência de valor próprio ligado aos desenvolvimentos futuros, do
que uma forte tendência a abrir-se a uma alteridade capaz de encravar
a consciência de modo sólido no mundo, permitindo a abertura da
estrutura para a biografização. Esperança vivida é, em última análise,
um fenômeno da seara da temporalidade absolutamente dependente
do campo da interpessoalidade. Ou melhor, que sai da potencialidade
para a atualidade exatamente no momento em que encontra estribo
na densidade da interpessoalidade. Um anseio pela interpessoalidade-
138 psicose e embriaguez

raiz, pela seiva dela emanante, pode retratar a definição aqui estrutural
de esperança.
Numa consciência saudável, à esperança vivida-estrutural
corresponde a esperança fenomênica-vivencial. Experimentar espe-
rança é estar estruturalmente apoiado na interpessoalidade a ponto
de saber que haverá tempo e espaço para o florescimento total de
nossas potencialidades. Na consciência de Ricardo inexistiu essa
correspondência. A vivência de esperança, evidentemente, não se
entremeou na fratura hebefreniforme.
Voltemos às particularidades e dificuldades dessa passagem
da virtualidade para a atualidade, que postulamos estar vinculada à
produção da psicose, dada pelo próprio desequilíbrio que ocasionou
na estrutura da consciência. Essa mutação exigiu certas condições
materiais para sua ocorrência. A primeira delas e mais óbvia foi
exatamente o início do tratamento, ou seja, a entrada em cena de
uma interpessoalidade factual no papel de profissional destinado
a conduzir o tratamento. A segunda delas é mais problemática e
parece estar mais implicada com a gênese da psicose. Examinando a
biografia de Ricardo, topamos com o fato de que jamais uma poderosa
interpessoalidade se efetivou. Consequência disso é que a textura
sentimental poucas vezes experimentou sentimentos caracterizados
pela intencionalidade de oferta e doação relacional (houve, é bem
verdade, um esboço disso em relação às mulheres no período da
faculdade, mas estas surgiram mais como objetos paralelos de
obtenção de prazer). Rememoremos que a solução dietética preferida
do paciente ao longo dos anos foi a embriaguez, que o manteve alijado
da interpessoalidade, mantendo-a em estado de congelamento no que
tange à sua diferenciação sentimental. A acumulação dessa dietética
afastadora da interpessoalidade determinou um estado habitual da
estrutura da consciência no qual a camada sentimental não era mais
capaz de experimentar o sentimento de esperança97.. Retomemos o que

97 Vale aqui recuperarmos uma citação de Binswanger, valiosa pela capacidade de


elucidação das relações entre estrutura do Dasein e camada sentimental: “Não
devemos compreender a particularidade do esboço de mundo a partir de seu
guilherme messas 139

acabamos de afirmar, agora sob registro fenomenológico. A primeira


psicose foi preenchida pelo sentimento de poderio infinito, no qual não
se faz sentido falar de esperança já que a incomensurabilidade do poder
prescinde da fragilidade da esperança. A depressão, pelo sentimento de
impotência insuperável. Em nenhuma das duas situações efetivamente
houve um sentimento original, vivenciado pelo eu, de esperança na
construção da vida segundo a própria autenticidade. Os anos de
toxicomania cegaram a consciência de Ricardo para experimentar a
esperança, colocando-a diante de um impasse. Com a movimentação da
consciência para dentro da interpessoalidade, a esperança estrutural,
vivida, manifestou-se; no entanto, não recebeu correspondência na
camada vivencial, exatamente pela falta de flexibilidade “material”
promovida pelos anos de uso de drogas. Em termos mais descritivos,
afirmamos que, no momento em que a sua estrutura da consciência
achou um canal para ligar-se à estrutura de outra consciência, faltou-
lhe a capacidade de sentir essa esperança como tal. A impossibilidade
de traduzir na superfície fenomênica os movimentos da base estrutural
levou a consciência a um estado de extremo desequilíbrio, já que
recebeu uma tração para a qual não teve competência para dar vazão
nem tampouco acomodação. Esse estado levou à ruptura do tecido da
consciência, sem, contudo, a perda dessa nova ligação interpessoal.
Uma temporalização interpessoal primordial, intensa e súbita
porquanto nova, e – o que é mais importante – ainda não refletida na
temporalidade total de sua estrutura, justifica a prototemporalidade
vivida por Ricardo.
A consciência procurou acomodar essa nova situação híbrida e
intolerável, a de encontrar uma nova forma interpessoal sem possuir
o tecido fenomenológico para recobri-la. Sem poder lançar mão do
voo maniforme, já que este depende profundamente da ausência da
interpessoalidade, sem poder cair verticalmente na depressão, pois

sentimento correspondente; devemos fazer o contrário: entender aquilo que a


psicologia de modo tão vago qualifica de sentimento a partir do ser-no-mundo e
do esboço de mundo. Apenas com isso teremos verdadeiramente compreendido
um ‘sentimento’!” L. Binswanger, Schizophrenie, p.267.
140 psicose e embriaguez

esta já é oriunda da fraca interpessoalidade, restou à consciência


convocar o tecido mais indiferenciado, mais plástico, mas afeito a
qualquer vontade, à sua disposição. Esse tecido, ainda quase virgem
de temporalização, é a prototemporalidade a que aludimos na seção
anterior. O quadro hebefrênico do paciente – que vimos da janela
da materialidade e da temporalidade integral da estrutura – é a
expressão da prototemporalidade vista agora pela tomada de cena
da entrada veloz da consciência na interpessoalidade. Portanto,
a hipermaterialidade acima estudada deve ser entendida como face
inalienável da nova configuração esperançosa da interpessoalidade.
Ela indica que uma entrada rápida na interpessoalidade pode exigir
da estrutura da consciência algo que seu nível fenomênico não pode
contemplar e acaba por desfazer as próprias camadas biográficas
(biografia que em Ricardo se liga ao distanciamento embriagado) e
buscar elementos indiferenciados para retomar gradualmente a forma
da consciência.
A docilidade abiográfica e a infantilização da linguagem indicam
uma consciência dominada pela prototemporalidade, por uma
temporalidade que jamais ocorreu abertamente na biografia de Ricardo,
mas que sempre sussurra como potência em todas as vidas humanas.
Temporalidade primitiva que, exatamente por sua desconexão com
a história vital e sua habitualidade consolidada, acabou por ser a
única a não se opor ao início de uma configuração interpessoal nova,
dando vazão à esperança antes silenciosa. A hipermaterialidade
é, para o campo da percepção, aquilo que a docilidade é para o da
interpessoalidade: redução da vida consciente às suas potências
mínimas, quando aquela vida não puder se manifestar pela via fértil da
profundidade de consciência – pela imaginação fértil apoiada no real,
pela criação, pelo amor, pela paixão, pela arte, pelo trabalho. Ambas
(hipermaterialidade e docilidade) fazem parte do nível subformal
concebido por Binder para escalonar as embriaguezes alcoólicas.
Impossibilitada de viver na temporalidade, a estrutura da consciência
recua à prototemporalidade, assim como o organismo, para manter a
vida em situação de trauma, oblitera a circulação sanguínea da periferia
guilherme messas 141

para desviá-la para os órgãos vitais. Duas observações são aqui ainda
necessárias para uma elucidação mais completa dos fenômenos
estudados e mitigação de eventuais más compreensões. A redução
da vida do ser às suas potências primitivas informes favoreceu, dado
serem estas ahistóricas e hiperplásticas, a tentativa de reconstrução da
estrutura sob outras bases. Entretanto, isso não significa de maneira
alguma que esta seja uma estratégia saudável de expansão existencial.
No mesmo sentido, e a fortiori, afirmamos que de maneira alguma se
poderia dizer que tenha havido uma finalidade na psicose – no caso,
a finalidade de reconstrução da interpessoalidade. A psicose é apenas
uma variante, um estilo de cicatrização cujas inextricáveis raízes ora
repousam na tendência constitucional do paciente, ora nos mistérios
do crescimento do ser. Casual e felizmente, examinando a microscopia
do caso Ricardo, pudemos constatar que a “celularidade” dessa
cicatriz mostrava suficiente elasticidade para a reconstrução do tecido
corporal.
Estamos, portanto, postulando, sim, que a enorme gravidade do
quadro psicótico indiferenciado continha, dialeticamente em seu seio,
a totipotência plástica competente para uma reconstrução mais ampla
de um tecido consciente desgastado em demasia para sua nova tarefa.
Essa posição, no entanto, de maneira alguma deve ser generalizada a
todos os quadros hebefrênicos. Contrariamente, em geral estes indicam
uma gravidade preocupante e grandes chances de irreversibilidade
processual98. Apenas na singularidade da história de Ricardo, e após
o acurado exame psicopatológico de sua estrutura, pode-se defender
essa posição.
Terminemos essa seção e a apresentação do caso falando de
sua convalescença e da evolução posterior. Apesar da gravidade do
surto, recuperou-se relativamente bem Ricardo. Talvez as análises que
acabamos de fazer indicassem, estruturalmente, não ser este um surto
tão grave quanto a semiologia clínica, tomada isoladamente, pudesse
fazer crer. Não se pode dizer, no entanto, que não tenha havido

98 O caso 1, Otelo, é exemplo dessa gravidade profunda.


142 psicose e embriaguez

cicatrizes. A interpessoalidade, embora saudável e confiante na relação


terapêutica, segue difícil nas demais relações humanas. Ainda vive
algo isolado do mundo, mas próximo do tratamento e de encontrar
um projeto de vida. Efetivamente, com muitas limitações, consegue
desenvolver uma atividade cultural, embora muito distante daquela
sonhada durante a primeira psicose. Não ocorreram novos episódios
psicóticos.

Trajetos da Interpessoalidade e os Sentidos da Embriaguez

A biografia de Ricardo define-se, numa aproximação deflacionária,


pela busca interminável pela afirmação de alguma implantação na
esfera da interpessoalidade. Consequentemente, os sentidos que a
embriaguez exagerada assume na sua vida seguem essa linha de força,
variando entre si, mas jamais se afastando do leitmotiv. Inicialmente,
nos tempos de adolescência, a embriaguez apenas serve ao adiamento
do enfrentamento ou ao esquecimento das dores proporcionadas pela
fragilidade de suas amarras interpessoais. Para essa função simplória e
inócua do ponto de vista do desenvolvimento total da personalidade,
o álcool tem força bastante.
Diversos são os períodos seguintes, nos quais as soluções
para o enfrentamento da fragilidade básica são abandonadas de
modo arriscado. Para essa função de maior nocividade, convoca-
se o hábito do canabinismo. Fraco por não habitar um nicho de
interpessoalidade, o eu aspira, inicialmente, a uma falsa autonomia
completa, a pseudoindependência do mundo dos outros contida no
reino da imaginação solitária. A dieta canábica potencializou as forças
verticais da imaginação, desacoplando-as gradualmente de qualquer
alternativa de inserção no solo do real interpessoal efetivo. Esse
processo dietético se manifestou pela preservação do eu imaginativo
diante das influências do exterior, boas ou más que fossem. Essa
força conservadora da cannabis imobilizou de maneira suspensiva a
estrutura da consciência no seu estado mais estável possível, dentro
do qual o principal canal de diálogo entre o eu crescentemente
guilherme messas 143

pseudoindependente e o mundo interpessoal se deu no projeto


profissional ligado à família.
A força conservadora, abusiva em sua utilização, exauriu a
estrutura da consciência, deixando-a a ponto de ruptura. Essa ruptura
se deu em duas ocasiões, ligada a motivos bastante frágeis (esboço de
projeto e início de tratamento), que só podem ser entendidos como
psicotogênicos diante de uma estrutura de consciência extremamente
debilitada mas, no segundo caso, com evidência, sequiosa por uma
relação inter-humana.
Mas a noção de força conservadora não é capaz de circunscrever
a totalidade da ação da dieta canábica sobre a temporalidade. Não
apenas a cannabis agiu contendo a temporalidade egoica e biográfica
nos extratos imaginários como, após um colapso psicótico, pelo
qual não foi a principal responsável, auxiliou na redução da própria
temporalização a seus elementos primordiais, pré-biográficos, a que
demos o nome de prototemporalidade. Com esse estilhaçamento,
a articulação da estrutura com o mundo decompôs-se, deixando a
materialidade componente do mundo fora de qualquer agenciamento
formal-temporal. Assim, pode-se dizer que a canabinização agiu sobre
uma estrutura temporal já rompida, e, portanto, secundariamente99.
O fato de constatarmos uma prototemporalidade em Ricardo nega a
inexistência de uma temporalidade genuína. A prototemporalidade
nada mais é do que uma prévia daquilo que será temporalização e, por
isso, não é incluída ainda na temporalização autêntica. É uma aposta
potencial das profundezas do ser, dada pela desdiferenciação, da qual a
cannabis é um dos agentes farmacológicos mais potentes. Esta, por sua

99 Aqui é necessário contornar uma possível fonte de má compreensão. Não se


deve confundir a volatilização causada pela cannabis com a hipermaterialização
surgida por ocasião da psicose. Nunca é demais repetir que a volalitização e
sua consequente perda de solidez, surgem sobre uma temporalidade intacta,
enquanto a hipermaterialização nasce da ação habitual do canabinismo sobre uma
temporalidade, do ponto de vista biográfico, profundamente alterada. Enquanto
houver temporalidade, não haverá hiperhilética, ao menos em casos como o de
Ricardo. Em outros casos, 4 e 6, essa relação é diferente, pois outros elementos
entram em jogo, como se verá na análise deles, que permitem o surgimento de
uma hilética elevada sobre uma temporalidade mantida.
144 psicose e embriaguez

vez, elevou desmesuradamente a hilética da relação estrutura-mundo,


desfigurando-a no sentido de uma potenciação da protosignificação do
mundo. O cromatismo do real proporcionado pela cannabis funcionou
como um atrator para a carnalidade bruta do mundo, aquém das
configurações humanas necessárias para a biografização. Mas, mesmo
nesse período de extrema gravidade, permaneceu visível o canal de
anseio pela interpessoalidade.

Caso 3 – O Veloz Desequilíbrio

Apresentação

Gentil, extrovertido, alegre e festivo, Patrick sempre soube


gozar do que a vida pode proporcionar. Mas não se tome essa
sentenciosa definição de sua personalidade como sinônimo de
dissolução e desmesura comportamentais. O jovem Patrick pode
ser descrito como apenas mais um homem recentemente saído da
adolescência em busca dos prazeres e desafios do mundo. Nascido
em uma família comprometida pela excessiva impulsividade – e baixa
compreensibilidade empática dos pais –, Patrick aprendeu desde
cedo, e com competência, a apoiar-se em outros membros da família
para fundamentar sua estrutura de consciência no real. Desse modo,
atinge o início da idade madura sem que nenhuma grande sombra
pudesse, à primeira vista, indicar no horizonte alguma fratura em seu
desenvolvimento. Na idade correta, concluiu seu ensino médio e, com
alguns anos de esforço, foi aprovado em universidade de primeira
linha. Esse passo requereu mudança de cidade, deixando a família e
passando a viver em uma república estudantil. Dois anos após sua
entrada na universidade, com dezenove anos de idade, abre-se um
grave episódio psicótico, de tons paranoides, que será mérito deste
estudo. Com a eclosão do delírio, revela-se para a família um hábito
canábico iniciado aos quinze anos. A dieta canábica, contudo, não
parecia ter gerado nenhuma complicação em sua vida, já que nem
notada fora pela família e, aparentemente, seguia os padrões de suas
guilherme messas 145

relações sociais de então. Estabelecer as relações entre o canabinismo


e a psicose é o ânimo que inspira as considerações a seguir. Dados
biográficos suplementares necessários para o entendimento do caso
serão introduzidos ao longo da exposição.

O Movimento para a Psicose – O Veloz Desequilíbrio

A saída de casa para a vida universitária implicou uma


alteração das proporções dos fatores de estabilização da estrutura
da consciência: menos família e mais amigos. Se a família – na sua
acepção mais ampliada – significava, em suas condições biográficas
específicas, conservação do centro a partir do qual seu projeto de vida
gravitava, ou seja, o núcleo para o qual dava as satisfações necessárias
de sua vida e do qual extraia força e motivação para a construção
de seu futuro, com os amigos sua inclinação festiva ganha foros de
liberdade ampliada. Liberdade significando menor gravitação em
torno desse centro importante e, portanto, menor valor para o projeto
de futuro e menor fiscalização de sua execução. A liberdade festiva,
mirando um futuro imediato, sem trilhos nem destino, nas periferias
do presente, toma parcela maior em sua vida, em detrimento do futuro
traçado para um projeto pessoal. Em termos de temporalidade, temos
a redução da temporalidade ampliada do futuro longínquo em prol da
temporalidade estreita do imediatismo intra festum, para recuperarmos
o termo de Bin Kimura, em Scritti di psicopatologia fenomenologica. Mas
nos lembremos: a futuração na temporalidade saudável rebate em
módulo sua dimensão correlata de retenção – nas épocas estáveis
da vida –, ou, em palavras fenomenológicas, para que se tenha a
consciência voltada para um horizonte amplo há que se tê-la fincada
em equivalentes raízes.
Essas raízes receberam diversos golpes fortes em estreito
período de tempo. Além do já mencionado afastamento espacial da
família, ocorreram uma elevação da quantidade de prática canábica
– incensada pelas festas da vida universitária – e um péssimo
rendimento escolar, culminando em reprovação. Façamos uma breve
146 psicose e embriaguez

redução fenomenológica desse último fenômeno biográfico. A entrada


na universidade, projeto pessoal acalentado no forno familiar, se por
um lado implicou no distanciamento mencionado, por outro denotava
atadura forte dos laços com a família, o substituto temporário da
família, o ponto material no qual a estrutura da consciência poderia
se assentar à medida que se fazia necessária a perda do contato diário.
A reprovação desacoplou sua estrutura desse ponto vicariante de
sustentação, desacoplamento complicado ainda pela culpa diante
dos familiares pelo insucesso. Com a perda de sustentação supletiva,
a temporalidade fundamental passou a vacilar, instável, sobre a
temporalidade do imediatismo.
Impossibilitada temporariamente de encontrar solo firme no
qual repousar e sugada pelo imediatismo, a opção tomada pela
estrutura foi a pior possível – mas a mais adequada à constituição de
sua temporalidade na ocasião: a embriaguez. O acréscimo do uso de
maconha, se inicialmente deu-se meramente pelo ambiente celebratório
exagerado de suas relações na graduação, passou a paulatinamente
funcionar como centro de atração de toda sua vida, determinando
assim um círculo vicioso no qual a perda das dimensões de futuro e
passado invocam a embriaguez como solução melhor possível e esta,
por fim, majora ainda mais o isolamento da dimensão presente.
Bailando sobre o abismo, a estrutura de consciência de Patrick
resiste alguns meses à custa de constante canabinização até que,
espontaneamente, rompe-se, dando vez à psicose que examinamos
abaixo em suas linhas gerais.

A Psicose Compensatória

Ao cabo de alguns dias, nos quais experimentava a televisão


dirigindo-se de modo inespecífico especialmente a ele, fecha-se o
núcleo delirante em torno da figura mais relevante de sua vida: o avô
materno. Este estaria envolvido, junto à cúpula da universidade, em um
ardil para lhe conspurcar a reputação, denunciando um crime moral
que ele teria cometido nos anos pré-púberes. Crime moral que, embora
guilherme messas 147

jamais revelado em detalhes, não parece ter tido gravidade bastante


para exigir algo mais do que algumas horas de contrita penitência
como punição. Mais importante ainda, o tal pecado capital não foi
tema relevante para o paciente até o momento da eclosão da psicose.
O crescimento da experiência persecutória culmina em alguns atos
de violência que levam à sua internação. Desta sai curado, algumas
semanas depois, lúcido para avaliar criticamente os fatos recentes.
Examinemos a estrutura da psicose. Em primeiro lugar, esta
significou a passagem brusca da levitação canábica para a solidez
da perseguição. Nessa perspectiva, ainda estamos trafegando no
interior da dimensão presente da temporalidade, aquela que conheceu
hipertrofia nos dois últimos anos de sua vida prévios à doença. Tanto
a embriaguez quanto a paranoia se dão por meio da intensificação
do instante presente; entretanto, a primeira faz, do instante presente,
enevoamento e dissolução, ao passo que a segunda fixa essa dimensão
de temporalidade, engessando a consciência frente aos riscos iminentes
para a vida e, dessa maneira, promovendo um ponto – embora
patológico – de fixação diante do esfacelamento canábico. Contudo,
dada a dor pungente da psicose, contrastante com o prazer etéreo da
embriaguez, a reação do paciente diante do início da psicose – seu
período tremático100 – foi uma elevação exponencial da dieta canábica.
Elevação que favoreceu a precipitação final da tempestade patológica.
Mas a estrutura da consciência, ao dar forma final à psicose,
escolheu uma figura de maior relevo para ser titular do enredo
difamatório. Ao eleger o avô poderoso, a estrutura retorna a um
ponto de sustentação tradicional e eficaz de sua vida. Porém, isso se
dá patologicamente, já que não havia alternativa disponível naquele
momento, mas ainda assim ponto de firmeza, competente para
amarrar o atormentador presente a um passado protetor. Temos
assim que a função primordial desse arranjo psicótico foi retroativa,
executando um fator de compensação para o desequilíbrio intolerável
em que se encontrava a sua estrutura. Com a nucleação da psicose

100 Tremático: refere-se ao estado imediatamente anterior ao início de uma psicose,


no qual uma tensão indeterminada invade a consciência do paciente.
148 psicose e embriaguez

na figura do avô, a dimensão pretérita retornou à cena de seu drama


biográfico, já não mais como longínquo ponto de apoio – e, portanto,
fincado na ação retentiva da memória –, mas como presença ativa
percebida nos sinais persecutórios – e, consequentemente, estribada
na sensopercepção. O retorno do elemento biográfico proveniente da
retenção via sensopercepção mostra como sua consciência se estreitou
danosamente no presente, já que a sensopercepção sempre atesta
a eficácia máxima da presença objetal, diversamente das sombras
fugidias nas quais a memória se oculta. Nas condições em que sua
estrutura se encontrava, a única porta de acesso ao passado passava
necessariamente pela solidez da realidade presente, transformando a
evocação imaginativa do avô em sua presença atual. Por outro lado, ao
utilizar a sensopercepção para invocar a força retentiva do avô, Patrick
cingiu-se da presença deste por todos os lados, elevando a potência da
fixação da estrutura contra o pavor indeterminado da etapa tremática.
Entender o ressurgimento do avô não prescinde, no entanto, da
investigação da falha moral, já que, na cadeia de silogismos patológicos
posteriormente revelada pelo paciente para justificar a gênese de seu
delírio, foi esta a dívida pela qual o avô ressurgiu como cobrador101.
A falha moral implica culpa e a culpa, dívida e ressarcimento. Dois
elementos dessa culpa, já estudados pela tradição fenomenológica,
requerem atenção. O primeiro elemento – na dimensão da temporalidade
– a ser ressaltado dessa culpa é o reforço pretérito que ela implica. Como
já nos mostrou Minkowski na primeira metade do século XX, a culpa é
o fator mais perene do passado, aquele que menos se corrói pela ação
liquidificante do tempo. Assim, deixar-se tomar pela culpa é reativar
algo do tempo passado. Mais do mesmo na linha da emersão do avô.
Investigar o segundo atributo da culpa requer uma mudança
de abordagem do nosso problema, transferindo a análise do campo

101 O fato de o avô estar implicado em um ato de difamação e cobrança e, ao mesmo


tempo, atuar como lastro, é significativo. Antes de ser elemento persecutório,
o avô surge como elemento de retenção do apoio biográfico. A habitual síntese
entre perseguidor e figura biográfica relevante, típica das toxicomanias, mostra
as soluções que a estrutura fraturada encontra para se reestabilizar.
guilherme messas 149

da temporalidade para o da relação binária eu-alteridade, ou seja, da


interpessoalidade. Tanto a tradição fenomenológica – pense-se aqui na
obra capital La Mélancolie, de Tellenbach, sobre a melancolia – quanto
a tradição cristã enfatizam a relação da culpa com a consciência
individual. Estar culpado é, antes de qualquer coisa, um encontro do
eu consigo mesmo no inventário íntimo de suas ações pautadas pela
ética privada. Há, portanto, na experiência da culpa, um reforço da
responsabilidade do eu, um desnudamento deste de suas modulações
sociológicas, com vistas ao enfrentamento reflexivo tête-à-tête com
sua identidade. O eu, solitário, é mais do que nunca um eu empírico
focado, nucleado, distinto e claro para si mesmo. O equivalente formal
especular da distinção e purificação do eu único e solitário no campo
da alteridade é a figura do perseguidor familiar. No gênero de relação
persecutória produzido pela estrutura de Patrick, clareiam-se dois
polos de centralização, eu e avô, numa relação de inferioridade do
primeiro em relação ao segundo. Nomeadamente, a culpa é o afeto
mais apropriado para o preenchimento sentimental dessa estrutura
ao mesmo tempo preservada e hierarquizada de relação interpessoal.
Embora a afirmação seguinte mais sirva como ponto de reparo
para observações clínicas do que como regra, vale dizer que essa
modalidade de centralização bipolar indica a preservação completa do
eu do paciente e da sua abertura à interpessoalidade personalizada,
sugerindo menor gravidade clínica, como se constatou na evolução
do caso. Em suma, pode-se dizer que sua psicose representou uma
rápida reação da estrutura da consciência no sentido de reparar a
fissura assestada, convocando elementos biográficos de elevado poder
restaurador.

Os Sentidos da Embriaguez e
Seu Papel Fundamental na Gênese da Psicose

A embriaguez é primordialmente objeto de prazer na vida do


jovem Patrick, dando cores comemorativas frequentes à sua existência.
Embora esse exagero no prazer tenha poupado seu desenvolvimento
150 psicose e embriaguez

biográfico por muitos anos, parece ter despreparado gradual e


insidiosamente sua estrutura para os solavancos inevitáveis da
vida. Num período em que normalmente a estrutura da consciência
remodela seus pilotis de sustentação no real – a entrada na vida
adulta –, a de Patrick encontrava-se em estado demasiadamente
friável, se assim pudermos nos expressar. Aprimorada na função
festiva proporcionada pela cannabis, a consciência habituou-se a
um estado de leveza que se revelou incompatível com a seriedade
cotidiana da vida universitária. A tração da seriedade, na camada
estrutural, não encontrando apoio nos pontos tradicionais biográficos,
deixa a estrutura à deriva, desacoplando-se da realidade, em uma
desarticulação cujo nome é psicose. A mesma situação, projetada desde
a perspectiva fenomenológica, pode ser traduzida pela insuficiência
da capacidade de experimentar a série de sentimentos relacionados
à seriedade, tais quais preocupação com o futuro, medo, solidão ou
vergonha pelo fracasso acadêmico. Sua tessitura sentimental reage
com leveza celebratória para todo e qualquer fato, revelando-se útil
durante a estação estival da vida, mas escapista na vertente séria do
mundo laboral.
O escapismo leve ao qual se habituou foi invocado nos primeiros
momentos da eclosão psicótica. Aumenta-se a embriaguez por cannabis
para tamponar os efeitos decorrentes exatamente do excesso de
embriaguez por cannabis. Esse é o circuito decadente mais nocivo no
qual muitas vezes naufragam os abusadores de substâncias. Restritos
a uma solução sentimental única para reagir ao mundo, acabam por
incrementá-la às máximas consequências exatamente no ponto em que
a sensatez exigiria reduzi-la. Mais droga, mais escapismo, mais perda
de pé na realidade. Felizmente, para esse caso, o circuito exponencial
de desequilíbrio em relação ao real logo encontrou oposição na forma
da psicose, como vimos, limitando a ruptura psicótica.
Em resumo, trata-se de um desenvolvimento biográfico
absolutamente normal que, diante de um momento de transição
existencial manchado por alguma dificuldade – tolerável, seguramente,
em condições normais –, fende-se em uma psicose. Esta parece ser
guilherme messas 151

justificável unicamente pelo fato de a consciência estar há muito


destemperada pelo uso crônico e exagerado de cannabis. Sem este,
nenhum sinal indicaria a iminência de alguma psicose.

Caso 4 – A Prisão Inter-humana

Apresentação

Se, numa aproximação algo abstrata e generalizante, devemos


admitir o diagnóstico clínico de embriaguez crônica ou toxicomania (são,
junto a embriaguez continuada, sinônimos para nós nesse trabalho),
para o exercício da psicopatologia fenomenológica não devemos
nos satisfazer com ele. A insatisfação não vem de sua inadequação à
realidade dos fatos, mas da sua insuficiência. Se a noção de toxicomania
retrata convenientemente o comportamento de adicção à substância,
pouco afirma a respeito das condições de habitação da estrutura da
consciência no mundo e suas respectivas relações consigo mesma e
com a alteridade. Em termos puramente existenciais, a estrutura pode
tornar-se dependente por meio de uma infindável variedade de meios,
dos quais alguns podem ser tipificados como “prisão inter-humana”. A
descrição do caso e sua análise pretendem evidenciar as características
essenciais que justificam a cunhagem desse título. Comecemos pela
súmula biográfica.
Bernardo iniciou sua carreira nas drogas aos dezesseis anos
de idade. Com um amplo espectro de drogas, atingia algum estado
prazeroso, incluindo um incremento, de rara ocorrência, no desejo e
potência sexuais com cocaína. A facilidade na obtenção de bem-estar
com a embriaguez fez com que esta lhe acompanhasse ao longo de
praticamente toda a vida a partir da idade de início, de modo que aos
quarenta anos de idade – período de partida da nossa observação clínica
– não se pudesse dizer que tenha vivido alguma época abstinente.
Junto à precocidade do apreço pela embriaguez ocorre a precocidade
da entrada nos cânones da maturidade. Descontente com as relações
familiares, casou-se na idade de dezenove anos e logo constituiu lar.
152 psicose e embriaguez

À saída precoce de casa não corresponde uma possível tendência


de desapego veloz, mas antes uma curiosidade pelo mundo e seus
atrativos. Contudo, apesar desta, sua personalidade, como ainda se
verá com atenção, distingue-se pela firme permanência na estabilidade
das relações humanas. A melhor prova da afirmação acima se revela
no fato de ter-se mantido empregado na mesma atividade e função
por mais de quinze anos e pelo casamento duradouro, que apenas
viria a romper-se com o acréscimo incoercível do uso de cocaína. Além
disso, mesmo na vigência da desmesura cocaínica, seus patrões de
estabilidade das relações humanas deram a ele todo o amparo durante
o tempo de tratamento e recuperação. De seu casamento resultou um
filho, com o qual mantém boa relação, assim como são boas as relações
com seu irmão, também escora durante o período de tratamento.
Decididamente, pode-se dizer que Bernardo é alguém muito agradável,
dado aos amigos e à constituição de relações de confiança. Num
detalhamento dessa condição, aponte-se, a partir da observação clínica,
que Bernardo “veste a camisa” dos lugares por onde passa, procurando
não apenas estabelecer laços de confiança como se oferecendo à relação
de maneira hierarquizada, como subordinado leal e fiel às regras do
jogo dos sistemas sociais aos quais pertence. Bernardo não somente se
adéqua às regras dos sistemas dos quais participa como defende esses
ideais, procurando destacar-se como um soldado exemplar a levar a
bandeira dos valores neles atualizados. Decorre dessa característica
que sua presença tende a alavancar o andamento dos grupos aos quais
pertence, incluindo notoriamente o terapêutico, facilitando e tornando
nítida a execução dos papéis sociais das alteridades a ele vinculadas.
Essa saliência da importância dos papéis se revela por meio de uma
dupla face. Por um lado, mostra-se como construtiva, exemplificada
na relação com o irmão: assim que este descobriu o uso incoercível
de drogas nos últimos anos, teve em Bernardo um subordinado
parceiro aceitando imediatamente o tratamento e os controles por ele
determinados. Por outro lado, a saliência destes faz com que a perda
de um papel fundamental acarretasse um descontrole comportamental
contra o qual o paciente não é capaz de autoconstituir barreiras:
guilherme messas 153

quando a mulher saiu de casa, o salto para o abismo da cocaína


e do crack potencializou-se às fronteiras da morte física. Tratado
inicialmente via internação – no período crítico – e ambulatorialmente
em seguida, evoluiu bem, mantendo-se até o final do registro (ano e
meio de seguimento) abstinente. Alguma dificuldade de recolocação
profissional observou-se após a convalescença, dado que não lhe foi
possível retornar ao emprego estável anterior.

A Estrutura Fundamental

Com esse histórico já podemos esboçar as peculiaridades da


estrutura de implantação de sua consciência no mundo, a partir da
qual poderemos compreender as emergências psicóticas que motivam
esse estudo de caso, assim como os sentidos que a embriaguez assumiu
em sua vida. O fundamento estrutural tanto da propensão ao prazer
artificial quanto da confiabilidade extrema na constituição de relações e
da subordinação eficaz e firme às regras éticas do grupo pode ser assim
reduzido à sua essência: uma ampla adesividade ao real. Adesividade
indicando extrema proximidade entre o polo egoico e o polo mundano
das suas experiências globais, modalizada em todas as dimensões
de abertura da consciência (consigo mesma, na interpessoalidade e
em relação à materialidade do mundo). “Mundano” aqui indicando
amplo espectro de abrangência e não apenas uma única modalidade
de doação objetal.
Mas devemos dividir e analisar em separado as diversas
modalizações da abertura da consciência ao mundo, já que dessa
discriminação retiraremos material imprescindível para o entendimento
dos comemorativos psicóticos a serem investigados. Embora a
adesividade ao real seja a descrição essencial da sua consciência-
implantada-no-mundo, as forças relativas das pontes de ligação desta
variam e, consequentemente, a ação continuada da embriaguez sobre
elas age de modo diverso.
Em primeiro lugar, examinemos as pontes sustentando as
relações com a interpessoalidade, dado serem estas as mais poderosas
154 psicose e embriaguez

e, ao mesmo tempo, em Bernardo, as mais rígidas para a sustentação


da estrutura da consciência. A lealdade incondicional acima indicada,
abrindo-se desde as relações pessoais íntimas até as laborais, tende
a fazer coalescer essas duas pontas de alternativas inter-humanas,
reduzindo-as a um só termo, no qual impera a hierarquia e mesmo a
prontidão servil. Mas esse servilismo também deve ser elucidado em
termos de sua condição de possibilidade, já que não convém à verdade
psicológica confundir a vocação para a subordinação de Bernardo
com outras aparentemente similares. Nomeadamente, Bernardo, em
sua aquiescência irrestrita para com a hierarquia e a lealdade, não
deve ser tomado por medroso, como se diria tecnicamente de um
fóbico, para quem o mundo é sempre perigoso e instável e, portanto,
requer contínua proteção dos mais fortes. Embora o fóbico também
bordeje por vezes a adulação para com os mais fortes, ansiando por
valhacouto diante das intempéries da existência, a matriz de sua
interpessoalidade é distinta. Para o fóbico, o mundo é movediço e em
parte intraduzível, esgarçável e, por vezes, lodoso, de modo que a boia
de segurança jamais está acessível de maneira definitiva para o alcance
de seus braços. O mundo é separação e estranhamento, alienação
fantasmagórica, permitindo ilhas de proteção sobre os ombros – ou
até mesmo sob o jugo – de potências maiores e mais elevadas. Nada
disso se vê em Bernardo. Sua predestinação para a subordinação
não secunda uma atmosfera de insegurança ontológica do real. Pelo
contrário, a inclinação pela subordinação parece ser um fenômeno
genuíno e primário, cuja essência102 é a ordem. Será, portanto, a
ordem o fenômeno prévio a ser investigado em suas imbricações com
a característica primordial da estrutura; a adesividade ampla. Como a
adesividade ampla, aproximando em demasia os polos egoico e objetal

102 Sempre que nos referirmos a uma essência, entenderemos o termo como
aquilo que resulta de uma redução metodológica e é, por definição, imutável.
Caso nos refiramos à estrutura primordial que, embora tenda à estabilidade,
não é imutável por definição, evitaremos o termo “essência” ou seu adjetivo,
“essencial”. Como se verá logo a seguir, a preferência será por adjetivos menos
técnicos, como “fundamental” ou “primordial”. Essas distinções ficarão muito
evidentes com o desenrolar do estudo.
guilherme messas 155

da estrutura, concede preferência à ordem como fator arregimentador


dos fenômenos da interpessoalidade? A resposta surge simples: a ordem
é a forma mais natural com que uma proximidade excessiva atinge
estado de menor desequilíbrio. Estar completamente aproximado da
realidade interpessoal é, ao mesmo tempo, estar ordenado em relação
a essa realidade. A ordem nas relações interpessoais é a forma mais
estável pela qual a proximidade excessiva se expressa e se mantém, na
qual não existe espaço para modificações ou realocações de posição.
Estar grudado é estar ordenado em definitivo, como num firmamento
hierarquizado onde eternamente os postos e estratos sociais ou
interpessoais se deixam iluminar com evidência103. Desdobrada na
esfera da interpessoalidade, a ordem se dá pela hierarquia de papéis,
pela mínima transição possível entre as fronteiras que definem as
relações humanas104.
Se o fóbico clama por proteção, o faz porque, primordialmente,
tem medo do mundo e necessita de alguém próximo para lhe proteger.
Tem, portanto, suficiente distância do mundo para que ganhe
perspectiva de visão e o experimente em sua totalidade, na qual pululam
ameaças e angústias imanentes à vida. Bernardo, diversamente, é tão
aderido ao mundo que não é competente para ganhar essa distância.
Seu posicionamento mundano dispensa o medo e as angústias da
existência, de tão aproximado do real se encontra. Da mesma maneira
que um observador que se aproxima em demasia de uma pintura não
é capaz de destacar das cores e formas que lhe saltam opressivamente
diante dos olhos o significado artístico da peça, Bernardo, de tão

103 Os esquizoides também buscam orientar-se pela ordem, num fenômeno


denominado por Minkowski, em Le Temps vécu, de geometrismo mórbido.
No entanto, essa ordenação do mundo produzida pelos esquizoides é o avesso
da experiência de Bernardo, pois, para a esquizoidia o mundo pode ser tão
desprovido de sentido que uma ordem imposta pela razão se faz necessária. Em
Bernardo, a ordenação se dá muito aquém de qualquer atitude racional, sendo
que nem mesmo se pode dizer que alguma racionalidade esteja em jogo aqui.
104 Sempre tendo vivido como funcionário, Bernardo, ao fim do tratamento, buscava
abrir negócio próprio. Embora não tenhamos nos inteirado dos resultados desse
projeto, parece indicar uma tentativa de renovação da própria vida, encarando
as dificuldades emanantes da própria estrutura e talvez procurando flexibilizar
a excessiva proximidade horizontal.
156 psicose e embriaguez

colado à parede do mundo não depreende deste muito do seu sentido


global, aí incluídos medo e angústia. Todo o campo das experiências
profundas da interpessoalidade e da existência permanece como que
oculto por extrapolar o seu campo de “visão”, tendo como resultado
seu residir na vida como ordenação segura. Assim, não se pode afirmar
lançar mão Bernardo de um mecanismo de defesa diante das agruras
da vida, mas, antes, já pré-reflexivamente, Bernardo está, por estrutura,
protegido da totalidade transbordante da vida.
Correlatamente a isso, duas características se destacam no
campo da abertura ao mundo não diretamente interpessoal (embora
uma delas transite neste), nas quais já não será a ordem o fator
essencial preponderante, embora sempre reine a adesividade extrema.
A primeira delas se dá no setor da semântica, da interpretação
do mundo. Nas produções realizadas por Bernardo durante a
observação psicopatológica, chama a atenção a incapacidade de
extrair o sentido global das situações propostas. Bernardo examina
os detalhes das situações, arrasta-se muito lentamente entre um
detalhe e outro, hesita, titubeia para, ao final, ser incompetente em
traduzir a globalidade semântica das situações-teste. Se o mundo
não é, devido à proximidade extrema, fonte de angústias, tampouco
será, pelo mesmo motivo, manancial de prazeres sofisticados, de
apreciações estéticas e mesmo de desafios éticos ou existenciais de
complexidade maior. A vertente sombria da segurança irrefletida
fornecida pela proximidade ordenadora e obediente é a dificuldade
em identificar um sentido mais profundo para a vida. A identificação
de e a autodoação a um sentido mais elevado dependem diretamente
da capacidade reflexiva, da habilidade e poder de, recuando diante
das pressões das exigências cotidianas, erigir para a própria vida um
norte que se constitua como uma obra pessoal entalhada sobre (mas
sempre em contato direto com) as rotinas triviais e desgastantes do
cotidiano e dos modismos que fazem com que este se desgaste em
monotonia e tédio. Bernardo, protegido por natureza dos pavores
da vida, está simultaneamente alijado das mais sublimes aventuras
cabíveis à humanidade.
guilherme messas 157

Dessa condição resulta a segunda característica, que nos interessará


em particular. Quase que pode ser deduzida das observações prévias.
Habitando um mundo interpessoal extremamente rígido, no qual a
obediência domina a cena; abrindo-se a um mundo de significações
globais pouco acessíveis, no qual patina na ruminação das minúcias,
girando em círculos; incapaz de lançar a própria existência para além
do cotidiano que lhe acossa de muito perto, onde obtém prazer de viver
a estrutura individual chamada Bernardo? Ora, dadas as condições
estruturais inalienáveis, só poderá extrair prazer da proximidade
excessiva com o mundo sensorial, aquém, portanto, das sofisticações e
complexidades humanas. Aprisionado em uma simplicidade estrutural
(leia-se, em uma simplicidade cuja origem não está em qualquer
debilidade cognitiva, pois Bernardo é hábil e inteligente, apesar de
suas dificuldades), Bernardo é talhado originariamente para haurir da
embriaguez intoxicante o colorido para sua vida. A embriaguez é o
modo preferencial com o qual faz vibrar as cordas da vida já que é
o único que permite a obtenção de máximo prazer com o mínimo de
modificação da relação básica inter-humana primordial, ou, em outras
palavras, é o único que permite a obtenção de prazer em uma relação
objetal pontualizada por causa da proximidade intensa. O exagero
da proximidade hiperfoca a intencionalidade da consciência visando
ao objeto, destacando e iluminando deste um setor estreito que não
necessariamente faz reverberar a essência do objeto intencionado. Não
se deve confundir a abertura intencional da adesividade, típica de
Bernardo, com a fragmentação proporcionada pelos temperamentos
dados à cisão (como a histerofobia ou certos sensitivos-esquizoides).
Se, por um lado, ambos iluminam o objeto intencionado apenas
por uma perspectiva parcial, o pressuposto de doação objetal varia
enormemente entre eles. Na cisão histérica, a consciência fragmenta-se
e faz fragmentar um objeto já carregado previamente por um sentido
pleno. Assim, por exemplo, como nas clássicas descrições freudianas,
fragmenta o sentido intolerável do impulso sexual - intolerável pelo
motivo que for – em estilhaços que não deixam de reter a totalidade,
em forma velada, desse impulso. Por sua vez, na tipicidade adesiva,
158 psicose e embriaguez

a totalidade resta aquém da revelação, dada a aproximação, sendo


que o sentido global permanece por vezes inacessível, como no caso
de Bernardo, para quem as relações inter-humanas fixam-se em
subordinação eficaz.
A embriaguez modifica o mundo sem mexer em suas estruturas
de revelação da interpessoalidade: mantém as mesmas relações
básicas da estrutura com o mundo humano, apenas enfatizando ou
diminuindo, pela sua força de instantaneidade, a tonalidade das
aparições ligadas à sensorialidade dessas relações (como o prazer
sexual, por exemplo). Embriagado, Bernardo consegue acalorar sua
existência sem se afastar das proporções da esfera interpessoal, não se
distancia o suficiente para a alteridade surgir como fonte de parceria
criativa que conduza à autotranscendência. Igualmente, na esfera da
relação consigo mesmo, não se aparta a ponto de distinguir um projeto
personalizado, original e criativo no qual fundar a vida. Observando-
se desde a experiência do eu, também se constata a adesão excessiva à
pontualidade das relações. O resultado líquido disso é a redução dos
projetos do eu a um aspecto do coletivo, no caso, como vimos, à ordem
fiel e suas organizações sociais (que, no caso de Bernardo, resume-se
à função laboral rígida)105. Aqui cabe uma distinção com a tipologia
melancólica. Esta também define seus projetos pessoais a partir da
excessiva subordinação à ordem doada pela coletividade. Contudo,
no melancólico, a separação entre eu e mundo pessoal é mais ampla
(portanto, nesse quesito, trata-se antes de um fenômeno quantitativo,
como já apontaria a tradição minkowskiana), determinando um eu com
mais poderio de auto-observação, amplitude que é sua delícia e sua
dor. Delícia pois, em média, faz com que haja maior autodeterminação
da existência. A dor vem da outra face dessa moeda pois, dada a maior
autodeterminação da existência, a estrutura melancólica tem de se
confrontar com dificuldades e conflitos internos que não ameaçam

105 Importante indicar que ainda cabe uma redução fenomenológica relativa a essa
observação, levando a uma essência antropológica que sustente essa afirmação e
permita diferenciar entre condições de possibilidade e expressões fenomênicas.
Isso será realizado no capítulo 4, em sua subseção 3: A Hiperestabilidade.
guilherme messas 159

Bernardo. Se o melancólico exige-se o dever de agir corretamente e


pena com isso, pois procura continuamente libertar-se de si mesmo,
Bernardo não se coloca tal questão. Vivendo anteriormente aos
dilemas da existência, segue direta e irrefletidamente os ditames das
relações humanas. Se com isso o melancólico agoniza entre as tensões
do binômio responsabilidade-culpa, Bernardo desconhece tais trações,
já que a ordem, como dissemos, não é dever, mas caminho único e
exclusivo. Por outro lado, se para o melancólico a embriaguez é, no
mais das vezes, remédio para resistir ao peso angustiante da vida,
para Bernardo é caminho natural para obter prazer na existência
naturalmente travada.
Sua biografia, homogênea e enrijecida, mergulha voluptuosamente
na embriaguez, a via mais móvel que lhe resta para aquecer a prisão
inter-humana em que vive. Importante frisar que ao sugerirmos esse
nome não queremos dizer que Bernardo experimentasse um tedium vitae
para o qual a embriaguez fosse solução. Trata-se de outro fenômeno, já
que, no esvaziamento para-depressivo do tédio, ao menos o mundo se
oferece como um vazio a ser preenchido. Em Bernardo há, na verdade,
uma pletora de preenchimento pontual do mundo e, portanto, ao
mencionarmos o termo “prisão inter-humana” queremos indicar sua
situação estrutural, vivida e não vivenciada, na qual o passe-partout da
vida, com os iguais e consigo mesmo, é estreito demais para que floresça
uma vida plural. Os fundamentos inter-humanos da personalidade
deixam de ser solo fértil para o florescimento e passam a ser canteiro
de piçarra, onde apenas um artificialismo exógeno cria arremedos de
gozo. Como se trata de uma estrutura pré-reflexiva, a rigor o paciente
não tem consciência vivencial dessa prisão – no que faz sua desgraça
pior do que a do entediado, já que este sofre com o esvaziamento
no qual naufraga. Bernardo experimenta, no estrato sentimental,
sentimento de orgulho pela fidelidade (o que não é desproposital, há
que se reconhecer), mas a forma com que esse sentimento de orgulho
se oferece não basta para a instituição de uma existência total. Para tal,
há que se compor uma contrafação de sentimento, o prazer total da
embriaguez.
160 psicose e embriaguez

Mas embriagar-se pode significar intensificação ou atenuação


das manifestações da realidade e, por conseguinte, vale a pena
voltarmos à biografia de Bernardo para discriminarmos um pouco as
suas preferências farmacológicas. Embora, como acima mencionamos,
Bernardo aceitasse qualquer embriagante – o que reforça a tese da
função fundamental destes na doação de cor para sua vida (o que
não quer dizer de modo algum doação de sentido!) –, gradualmente
houve uma vitória dos aproximadores da realidade (no sentido de Jürg
Zutt) em relação aos atenuantes desta. A vitória foi da cocaína e do
crack em detrimento da cannabis. Em outras palavras, gradualmente
a opção de Bernardo foi de elevar a tonalidade de sua vida, elevar
dentro do possível a proximidade em relação ao real pontual do
mundo – incluída sexualidade, a meio caminho do prazer corporal e do
interpessoal. A sexualidade é, de certo modo, a modalidade de relação
inter-humana que mais se adéqua à pontualização, já que permite
prazer sem que o todo da alteridade se faça necessariamente presente.
O mesmo poderia ser dito de outra maneira, sem prejuízo da verdade:
dotado pela natureza da estrutura às aproximações fixas, Bernardo
lançou-se com mais e mais fervor à sua inclinação, apinhando-se em
relação ao mundo não interpessoal na medida exata em que mantinha
exatamente as mesmas proporções perfeitas e inelásticas em relação
ao mundo interpessoal. Para viver nessa prisão, invocou e deu voz à
sua tendência inata. Mas nesse ponto já nos encontramos na rota que
conduziu à psicose, tema que inspirará a próxima seção.

O Movimento para a Deformidade – A Grande Desproporção

O caso de Bernardo mostra algumas das limitações do pensamento


clássico a respeito da embriaguez, produzidas pelas perspectivas
epistemológicas assumidas. Nas suas “Leis”, Platão convoca o vinho
para a revelação do caráter do cidadão. Aristóteles ensina como o vinho
multiplica o caráter daquele que o bebe, amplificando o leque de suas
potências106. Esse modelo clássico não consegue capturar o movimento

106 Cf. Aristóteles, O Homem de Gênio e a Melancolia: O Problema XXX.


guilherme messas 161

que o cocainismo encerra na vida de Bernardo. Para perseguir tal


movimento, há que se aprofundar a tese básica de Zutt a respeito da
função de aproximação dos estimulantes, já anunciada acima. Zutt,
embora mostrando como a consciência se aproxima pontualmente do
mundo laboral sob efeito do fármaco, deixa em aberto a reflexão acerca
não apenas das condições iniciais da estrutura que recebe a intoxicação
como também dos movimentos dela rumo às modificações produzidas
pelo hábito cocaínico, do qual a psicose é o caso extremo. É isso que
aqui faremos.
Bernardo, habitando um mundo ao qual adere e se dirige pelas
janelas da focalização, habitua-se a avançar no desenvolvimento
biográfico não pelos projetos pessoais ou interpessoais, mas pela
aproximação da sensorialidade do mundo. Daí deriva que seu
principal ímpeto para a vida seja o prazer do sensório pré-estético e
pontual – na cocaína e no sexo – e não algum gênero de exercício de
ideais espirituais mais abstratos, como, por exemplo, a arte, a ação
social ou mesmo a mera contemplação da vida. Ao se mover na vida
sem se mover na inter-humanidade e na relação consigo mesmo,
gradualmente eleva a participação da vida sensorial na totalidade de
sua estrutura consciente. Quanto mais a estrutura da consciência se
aproxima da sensorialidade sem modificar correlata e simultaneamente
as proporções inter-humanas e de si mesmo – modificação que serviria
para compensar fenomenologicamente a pressão de aproximação
com a sensorialidade – mais sua vida se transforma em sensório, em
matéria sólida. Diversamente do homem genial que, ao ter o mundo
excessivamente presente diante de si, procura alçar-se para um posto
no qual consegue extrair deste sua riqueza, Bernardo afunda-se
nessa materialidade acrescida. Enquanto a consciência resiste a essa
situação de contínuo acréscimo de pressão sensorial, a vida prossegue
relativamente intacta e viável, embora os primeiros comemorativos
psicóticos já se façam visíveis. Mantém-se, porém, em um equilíbrio
apavorantemente frágil. Essa fragilidade é mantida por um único e
derradeiro fio: a esposa. No momento em que esta, desgastada pelo
cocainismo do marido, decide deixá-lo, o hábito potencializa-se e a
162 psicose e embriaguez

toxicomania avoluma-se, dando vazão à psicose. A saída da esposa do


lar deve também ser abordada pela vertente estrutural. Não apenas
a saída desta significou menor freio para seu hábito, no sentido da
vigilância comportamental, como também, mais importante ainda,
significou a perda de um polo hiperestável de fundamentação da
estrutura. Para uma estrutura àquelas alturas já desproporcionalmente
amparada na sensorialidade pontual do mundo, a perda de uma
escora interpessoal implica um acréscimo desmesurado da aderência
sensorial, da qual a psicose foi a expressão fenomenológica.
Vejamos as características dessa psicose, o que muito ilustra
de sua estrutura fundamental. Inicialmente, paremos na observação
daquilo que ela não produz em relação aos quadros habituais de
cocainismo. O achado clínico mais frequente no cocainismo são as
paranoias transitórias, de caráter delirante interpretativo, geralmente
relacionadas ao período de intoxicação. A compreensão fenômeno-
estrutural desse achado mescla uma excessiva aproximação do mundo
inter-humano – responsável pela otimização da observação, por parte
dos pacientes, dos detalhes das relações, que tem como correlato um
minucioso ser-observado – com a experiência inter-humana de culpa
pelo ato desmesurado. Nos casos individuais, um ou outro lado é mais
pronunciado, de acordo com as estruturas pessoais. Clinicamente, em
geral são achados de policiais ou familiares a perseguir o toxicômano,
indicando que o círculo inter-humano – valores, papéis profissionais,
identidades conhecidas – é o fator preponderante a apertar-se em
torno da estrutura da consciência. Bernardo, por sua vez, jamais
experimentou paranoias transitórias. Essa negatividade infrequente
é repleta de importância, embora apenas revele mais do mesmo. Sua
principal indicação é que o acosso proporcionado pela aproximação
do real causado pelo cocainismo não leva em consideração aspectos
humanos. Mesmo premido mais e mais em direção do mundo a ponto
de deformar a configuração básica da sua estrutura da consciência,
Bernardo não experimenta modificações em relação às ancoragens
inter-humanas. Já por esse fenômeno poder-se-ia dizer estarmos
diante de um caso de psicose cocaínica pura, ligada exclusivamente
guilherme messas 163

ao efeito da droga sobre uma estrutura inter-humana hiper-rígida.


Aprisionado num mundo inter-humano fixo, a desproporção típica do
cocainismo deforma tão somente o mundo não humano. É por meio
dessa noção de deformidade inumana que poderemos entender os
fenômenos psicóticos constatáveis, como segue.
Dividamos a sua descrição em dois tipos, eleitos de acordo com
o grau de afastamento do eixo humano que orienta a existência. O
primeiro tipo ainda mantém algum vínculo com a presença humana,
já que é caracterizado por alucinações auditivas de vozes107. Estas, no
entanto, não chegam a se constituir como provenientes do mundo
inter-humano relacional biográfico. São vozes anônimas, nunca ligadas
a valores ou pessoas determinadas, como no caso das paranoias,
mas vinculadas estritamente ao ato da compulsão toxicômana. As
vozes dizem para usar ou não a droga, ora impelindo ora contendo
seu comportamento, mas jamais se afastando do tema único da
embriaguez. A reação do paciente diante das alucinações auditivas
igualmente nos interessa: não se abala. Diversamente dos quadros
psicóticos ditos funcionais, nos quais a irrupção da psicose mostra que
a consciência está prestes a desfazer-se nos abismos do ser, a presença
de vozes nada produz de apavorante, indicando haver uma atmosfera
de continuidade ou relativa harmonia entre o surgimento das vozes e
o fundo básico sensorial da consciência. Em outras palavras, embora as
vozes sejam identificadas pelo paciente como algo diverso do campo
normal de consciência, surgem como que apenas por um acréscimo
quantitativo deste. Como se a consciência já estivesse adaptada
a uma maior sensorialidade do mundo e, de certa forma, não fosse
absolutamente anormal que vozes pudessem surgir, como que por um

107 O fato de serem vozes humanas não é garantia de manutenção dos fios de ligação
inter-humanos típicos. Nas esquizofrenias, por exemplo, há “vozes” humanas
mesmo sem nenhuma conexão inter-humana. O penhor da manutenção da
ligação inter-humana está na condição de possibilidade dessas vozes, qual
seja, a presença tácita de outro eu integral, independente do polo do eu do
alucinante, possuidor das mesmas potências comunicativas deste. De acordo
com a psicopatologia clássica, a rigor, apenas dadas essas condições se pode falar
de alucinação verdadeira. No caso das esquizofrenias, antes se deve falar em
pseudoalucinações.
164 psicose e embriaguez

mecanismo de condensação da realidade. O fato de serem apenas vozes


anônimas, que nunca se ligam a figuras humanas integrais, reforça
a tese de uma hipersensorialização basal da consciência causada
pelos anos de prática de cocainismo; um adensamento da textura
material do mundo seria outro modo de dizer, por meio do qual a
abertura sensorial passa a receber maior aporte perceptivo bruto, sem
a lapidação da significação humana mais complexa (evidentemente há
uma significação nas ordens e contraordens das vozes em relação à
intoxicação, mas estas são ordens simples, ligadas à parte motora, final,
do comportamento, e não aos aspectos, por exemplo, sociobiográficos,
como nas paranoias nas quais o paciente se sente perseguido pela mãe).
Passemos ao segundo tipo. O adensamento da textura material
do mundo não atinge unicamente o mundo auditivo. Se este ainda é
tipicamente o mais ligado à esfera da intimidade e, portanto, no mais das
vezes, gerador de psicoses repletas de significações biográficas, o que
dizer do mundo visual, no qual a distância e a coletividade imperam?
No qual a força idiossincrática do eu dá lugar à força integradora e
unificadora da totalidade? É sobretudo através da percepção visual
que nos irmanamos em um mundo semelhante, no qual os diversos
eus são, por assim dizer, equidistantes em relação ao real; um mundo
no qual as intimidades se resguardam, revelando apenas sua face mais
controlável e, necessariamente, recortada em facetas (as Abschattungen
husserlianas). O mundo visual é, portanto, o mundo, por excelência,
mais sensível aos adensamentos sensoriais nascidos ao arrepio da
interpessoalidade (como, por exemplo, se fecharmos os olhos e os
pressionarmos com os dedos, cores pontuais surgirão). A visualidade
corresponde, na esfera das relações mundanas, àquilo que a tendência
à hierarquia representa na esfera das relações pessoais. Em ambos se dá
o máximo de convicção, certeza ontológica e imutabilidade. Uma vez
enrijecida a interpessoalidade, como se dá em Bernardo, o acréscimo
contínuo de pressão causado pelo cocainismo agirá imediata e
primordialmente no mundo da visualidade, deformando-o. A clínica
específica desse paciente singular identifica a aparição de animais
como leões ou cobras, surgindo em cores vivas e com nitidez de
guilherme messas 165

manifestação. Importante ressaltar que tais animais “fantasmagóricos”


não possuem qualquer significado para a vida consciente do paciente.
Uma consequência dessa neutralidade do reino da visão é que leões
e cobras, pululando diante do paciente, não se dirigem a ele jamais
de modo direto, enquanto as vozes, embora não o incomodem,
mantêm ainda certa direcionalidade de aparição, já que se voltam
ao eu do paciente. Nesse sentido, pode-se dizer que na alucinação
visual observa-se o máximo de neutralidade do eu dentro da condição
patológica, resultando num estado de alteração da densidade do
mundo sem imediata correspondência no polo do eu, como se este
habitasse sozinho um mundo quimérico dele independente (as
alucinações auditivas de vozes, por essa compreensão, ainda estariam
a meio caminho da paranoia). É o mundo que se desfigura, não o eu,
pois este permanece contemplativo108. Fenomenicamente, aqui temos
a distinção entre alucinação e delírio. A primeira, sobretudo quando
visual, revela maior descompromisso do eu em relação ao mundo (ou
mesmo desconexão), ao passo que o delírio sempre expõe os resíduos
do fundamental imbricamento significativo eu-mundo.
Mas a prova completa da deformidade a que chega finalmente
a estrutura da consciência de Bernardo se oferece na continuidade
das alucinações visuais – e não das auditivas – mesmo após várias
semanas de abstinência109. Dado esse estado, já podemos afiançar
o diagnóstico essencial de deformidade. Os efeitos contínuos do
cocainismo permanecem mesmo na ausência de novos estímulos
exógenos, revelando a culminação: a estrutura assentou-se numa forma
relativamente estável, na qual o eu habita um mundo corrompido pelo
adensamento da materialidade, coproduzido pela excessiva rigidez nas
proporções inter-humanas doadoras de flexibilidade compensatória110.

108 Cf. R. Bilz, op. cit.


109 Na evolução de longo prazo houve desaparecimento dos comemorativos
alucinatórios; entretanto, não é raro que estes permaneçam em caráter definitivo,
como cicatrizes da deformidade atingida, sobre as quais voltaremos.
110 A paranoia cocaínica, proveniente ainda do campo das relações interpessoais,
oferece uma compensação pela experiência de culpa ou perseguição, que acaba
por reduzir a entrega do paciente à droga.
166 psicose e embriaguez

Do ponto de vista do exame das coparticipações de cada abertura da


consciência ao mundo temos que a deformidade brota da imperiosa
desproporção da participação dos elementos sensoriais sobre os
demais.

Um Apontamento Suplementar Investigador


da Interpessoalidade

Posto que, no limite, todo tratamento das adicções depende da


condução interpessoal da terapêutica, quadra bem um apontamento
suplementar acerca da referida rigidez interpessoal à qual, dada a
intensidade, demos o nome de prisão inter-humana. O apontamento
volta a atenção para o gênero de mobilidade interpessoal que
efetivamente acaba se dando. A despeito da sua extrema rigidez, a
dualidade tem de se mover, já que há vida e vida entre os pares. O
fenômeno que gostaríamos de apontar, e que dificulta sobremaneira
a solicitação da interpessoalidade para sustentar o mundo, é o padrão
relacional “tudo ou nada”. Ou o paciente envolve-se intensamente
na relação, demonstrando toda a fidelidade hierárquica e servilismo
possíveis, ou desaparece subitamente da relação. Faltam os escalões
intermédios, sempre os mais criativos, por meio dos quais a inter-
humanidade poderia dar novas configurações ao próprio eu e
também à densidade mundana. É evidente que os períodos de “nada”
favorecem a absorção pelo cocainismo e pela densidade mundana. Já
que faltam esses degraus intermédios, temos que, do ponto de vista
da distância inter-humana, o mecanismo de “tudo ou nada” acarreta
a imutabilidade, pois tanto o “tudo” quanto o “nada” mantêm a
alteridade como presença fixa numa única e definitiva distância.

Os Sentidos da Embriaguez

Os casos típicos de toxicomania sempre ensejam reflexões


acerca da liberdade de escolha da embriaguez. Se dissemos acima
que os prazeres da intoxicação são o caminho natural – dadas as
guilherme messas 167

suas características estruturais – para Bernardo obter cor para uma


vida aprisionada nos enquadres fixos da interpessoalidade e das
relações consigo mesmo, essa asseveração nada diz acerca da questão
da liberdade em sentido existencial. Ainda que, evidentemente,
nos momentos mais intensos da habituação à droga a liberdade de
decidir abster-se ou de se intoxicar possa ter estado comprometida, na
observação global trafegamos sempre no terreno da liberdade. Se por
um lado Bernardo tem coartada a possibilidade de expansão existencial
via presença humana, por outro lado a opção pela embriaguez não
resulta como necessária e inevitável. Buscar a “leveza” (são as suas
palavras para justificar o uso contínuo) por meio da cocaína ou da
cannabis foi rumo escolhido, foi alternativa livre diante de várias
possíveis. O sentido de sua embriaguez é a escolha pelo mais fácil,
pelo mais natural para seu estilo de vida, pela incapacidade – esta
não determinada de modo algum por completo nas entranhas de sua
estrutura de consciência – de erigir um conflito diante de si mesmo.
Dado o caminho natural, Bernardo a ele entregou-se irrefletidamente,
fazendo com que nossa interpretação situe sua embriaguez no padrão
puramente hedonista.
Talvez uma boa definição do hedonismo seja a simplificação
da existência, a opção pelo caminho mais evidente, levada às últimas
consequências, a despeito das ruínas a elas subsequentes. Mesmo um
caminho estreito ou uma janela turva para o enfrentamento do mundo
podem oferecer motivo para a complexidade inevitável do existir.
Mesmo a mais dificultosa estrutura de implantação no mundo permite
suas contradições internas, faculta divergências entre as instâncias
diversas dos prazeres e das dores, diante das quais Bernardo recuou.
Nesse sentido, a modalidade hedonista de embriaguez é a mais
afastada das implicações psicopatológicas propriamente ditas e, no
que se refere aos seus sentidos, a que mais se aproxima dos dilemas da
responsabilidade e da decisão individual.
168 psicose e embriaguez

Caso 5 – Os Saltos na Circularidade

Apresentação

A interpretação psicopatológica dada pela segunda escola


fenomenológica de Heidelberg para o surgimento da mania nos auxilia
na iluminação do caso de Adílson. Hubert Tellenbach, em sua obra
Estudios sobre la Patogénesis de las Perturbaciones Psíquicas, mostra, por
meio de um caso clínico, como a erupção da fase maníaca dista muito
de ser um fato isolado puramente biológico-constitucional, irrompendo
do nada no meio da consciência. Situando a consciência na totalidade
na qual existe, faz-nos enxergar como antecede a eclosão maníaca uma
inserção prolongada da existência em estado de insuficiência relacional
para com uma dualidade de grande relevância biográfica (no caso
apresentado, para com o pai). A fase maníaca jorra no momento em
que a consciência situada procura, seja por qual motivo for, saltar por
cima dessa insuficiência sem ter as condições estruturais para fazê-
lo111. Isso ocorre da mesma maneira como uma colônia que buscasse
independência diante da metrópole com açodamento e temeridade
e, despreparada, ao afrontar-se com o caos, desvirtuasse seus perfis
arrojando-se no abismo da celebração ou da barbárie. Ou seja, nas
prévias da mania há uma excessiva vinculação de dependência dual
que, intolerável, exige independência; há, ao mesmo tempo, uma
imaturidade para essa independência, convocando o desarvoramento
formal para preencher ficticiamente a escora interpessoal perdida. A
interpessoalidade, portanto, dos prolegômenos da mania, é vertical,
de cima para baixo, hierarquizada em uma instância forte e em uma
fraca; mas, mais importante para o psicopatologista é a constatação de
que essa é uma hierarquia insatisfeita, gestante de rebeldia. Observa-

111 O conceito de insuficiência aqui não deve ser confundido com a noção de
insuficiência ontológica, na qual é a própria estância do ser como tal que está
sob risco. A insuficiência aqui mencionada – dual – opera no nível das relações
pessoais e, portanto, tem como dadas condições saudáveis de constituição tanto
do eu como da alteridade.
guilherme messas 169

se que a debilidade em estado de rebeldia – e sua correlata vivência


de fraqueza diante do mundo – é o gérmen da onda maníaca. Daí a
noção desde sempre observada pelos psicopatologistas clássicos de
que a mania é uma falsificação instável da melancolia, apenas uma
modalidade diversa da experiência de ser menor do que os outros e
aquém dos próprios propósitos.
Adílson tem cinquenta anos e um desenvolvimento biográfico
truncado. Não logrou definir ainda sua profissão, tendo tido diversas
atividades sempre ligadas à indústria de seu pai. Funções auxiliares,
antes determinadas pelas necessidades da empresa do que de
seus projetos de vida. Ou, talvez fosse mais preciso dizer, funções
demonstrativas de que sua estrutura de consciência forja-se a partir
de necessidades externas, centradas na figura paterna. Recuando
a mesma frase para sua ossatura essencial, temos que a estrutura
de consciência de Adílson é extremamente fincada na de seu pai,
num sentido retentivo da palavra. Já que a identidade profissional
é aquela que favorece o alongamento da personalidade para fora de
seu ninho inicial, o fato de não termos constatado desenvolvimento
nesse âmbito mostra como o apoio no pai opera antes como ênfase na
retenção do que na protensão. Lembremos que não se trata de seguir a
mesma atividade paterna – quando há um apoio para o florescimento
ou amadurecimento de uma tradição –, mas de manter-se acoplado
secundária e fixamente na relação dual de insuficiência. Contudo,
ainda voltaremos a esse tema. Se a posição básica de Adílson sempre
foi essa, as condições da realidade biográfica e as modalidades de seu
manejo oscilaram durante sua vida; irão nos interessar três grandes
períodos, os dois primeiros relacionados ao período pré-psicótico e o
terceiro, à explosão maníaca.

Primeiro Movimento – a Longa Infância

Presume-se, dadas as condições situacionais acima referidas,


que a infância tenha sido o período mais distintivo da existência
de Adílson. Na infância, a debilidade dual caracteriza a estrutura
170 psicose e embriaguez

existencial e, de certo modo, é inconteste. Claro que isso não implica de


imediato felicidade inocente ou favorecimento do desenvolvimento;
unicamente, significa ausência de alternativa e é exatamente dessa
vulnerabilidade que a personalidade necessitará para crescer e,
gradualmente, entre idas e vindas, fincar pé na alteridade dual retentiva
para empregá-la como ponte para, por fim, dela prescindir com o
passar dos anos. Progressivamente, a consciência alterna suas relações
com a dualidade principal da qual depende, variando experiências
de admiração e de conflito (crescentes estas últimas em geral com
a adolescência). Na base desses movimentos oscilatórios, residem
transitórias modificações nas posições relacionais da dualidade, o que
implica vivências polares de rivalidade e de reaproximação a partir
das quais a estrutura da consciência vai ganhando amplitude para
alçar um voo mais independente. É por afastar-se um pouco do polo
mais forte que a consciência consegue divisar o mundo e sentir seus
riscos; é por recuperar a proximidade protetora que recruta confiança
para a autonomia.
Esse processo implica incômodo existencial e foi contra esse
incômodo que Adílson se posicionou, acobertado pela embriaguez.
É seu relato que preferiu usar cannabis a enfrentar as adversidades
da vida, ocultando-se nas possibilidades profissionais oferecidas
pelo pai, embora a relação com este jamais tenha sido de muita
compreensão. Preferindo adiar o desequilíbrio da dualidade
relacional, procrastinar a experiência de insuficiência vivencial,
Adílson esforçou-se farmacologicamente para manter a equação de
debilidade dual. O prazer ligeiro proporcionado pela cannabis, aliado
a festas e mulheres, a uma irresponsabilidade irrefletida, nortearam
sua existência por décadas, para além do esperado pelas próprias
metas autênticas. Nada interrompeu esse movimento até a idade de
32 anos, na qual chegou não infantilizado – não seria correto dizer isso
–, mas dotado predominantemente de uma estrutura dual própria da
infância. Sem estar mais na infância, nem mesmo na adolescência, a
predominância dessa estrutura na idade adulta, reforçada pela forte
dieta canábica, resulta em grande risco, pois o “peso” da idade adulta
guilherme messas 171

pode fazer romper uma estrutura já enrijecida e fragilizada pelo seu


prolongamento para além do desejável.

Segundo Movimento – A Perda Súbita do Apoio Dual

Mas a vida traz surpresas e não mais foi possível a manutenção da


modalidade de relação com o pai. Progressivamente, Adílson afastou-
se de seu pai, malgrado ele mesmo, pois foram acontecimentos externos
que conduziram ao desgarramento. Pouco importam os motivos, mas
muito importam suas consequências estruturais. Adílson manteve seu
abuso de embriagantes, mas já não mais tinha o polo sob o qual se
apoiava inexoravelmente. A debilidade rebelde da estrutura já não
mais consegue identificar seu objeto intencional, absolutamente
necessário para a integridade de sua forma estável. Ou seja, ainda
dominado pela modalidade insuficiente dual, Adílson não encontra
mais uma dualidade biográfica para manter-se insuficiente. Toda
insuficiência exige uma suficiência para atualizar-se. Perdida esta, não
é a suficiência a qualquer custo que emerge, mas sim a instabilidade
do mundo, denominada, em linguagem psicopatológica, o pré-campo
da psicose.
Porém, são muitos os indivíduos que perdem seu polo de apoio
mais forte; são muitos os que o perdem na vigência de um hábito
de embriaguez e muito poucos se tornam vulneráveis a ponto de
afundarem na psicose. Seria psicopatologicamente leviano se nos
limitássemos às afirmações acima para postular a gênese do pré-campo
psicótico de Adílson. Peculiaridades da sua constituição imanente
devem vir em nosso socorro. Penetremos mais na microscopia do seu
pré-campo maníaco.
A temporalidade da dualidade insuficiente. A vida invaria-
velmente projeta-se para diante e, portanto, pode ser apreendida
a partir da noção de tempo vivido. Numa estrutura de relação dual
insuficiente, essa protensão continuada se habitua a operar num
tempo inautêntico, comprometendo a temporalidade de longo prazo,
na qual se assenta a experiência de constituição de valores genuínos e
172 psicose e embriaguez

de um projeto de vida. A temporalidade de longa alçada de Adílson


é, a rigor, o empréstimo da temporalidade de seu pai, deixando-lhe
simultaneamente despido de temporalidade autêntica e proprietário
de uma temporalidade de imediatismo, de mera execução do cotidiano.
Nessa temporalidade curta, imediata, operacional, não apenas a
embriaguez ajusta-se como a melhor das alternativas (pois, como
vimos, atua no curtíssimo prazo, sendo alinhada com as estruturas
ancoradas na temporalidade do imediatismo), como a impulsividade
prospera, já que é broto natural das temporalidades de curto prazo.
Assim, o afastamento do pai, na perspectiva temporal, fez ruir a
temporalidade de longo prazo que, embora inautêntica, servia como
plataforma de algum equilíbrio para sua estrutura da consciência.
Fenomenologicamente, apesar da profissão, por exemplo, ter sido antes
proposta pelo pai do que por si mesmo, Adílson tinha nela um sentido
propulsivo de imaginar-se hábil e, por isso, ser reconhecido (é sua
queixa de que perdeu a profissão e a perspectiva de ter alguma junto
com a perda da presença direta do pai). Dissolvida a temporalidade
longa, em um curto intervalo de tempo Adílson passou a ter de viver
mais e mais exclusivamente do imediatismo, ou seja, das pressões
provenientes de seus próprios impulsos defumados longamente no
canabinismo.
A espacialidade da dualidade insuficiente. Da mesma maneira
– pois temporalidade e espacialidade amarram-se inextricavelmente
–, a estrutura insuficiente dual habita um mundo no qual os objetos
humanos dos quais depende estão exageradamente aproximados. Na
rivalidade com seu pai, por exemplo, constata-se que a fonte noética
do sentimento está muito colada ao alvo noemático, a figura do pai.
E mais, que essa colagem noético-noemática apresenta uma estrutura
fortemente centralizada na porção noemática, ou seja, se dá com um
objeto pessoal unitário e forte, não facilmente substituível na biografia.
É importante frisar aqui que as mencionadas força e unidade do objeto
não parecem ter uma origem histórica, pois, tendo conhecido a figura
paterna, não pudemos nela discernir um caráter forte o suficiente para
produzir tal ligação estreita; antes, é mais palatável a ideia de que a
guilherme messas 173

própria estrutura imanente de Adílson liga-se de modo insuficiente a


uma figura única e central essencial, antes mesmo da sua atualização
biográfica. A fonte biográfica, sempre casual, em última análise, é
apenas uma encarnação temporária dessa estrutura mais estável.
Levando-se isso em consideração, temos que a subtração do
pai em pouco tempo lhe deixou em grande estado de instabilidade,
pois sua característica espacial não facilita a reconstrução de um
apoio na interpessoalidade, que lhe teria servido para a manutenção
de condições relativamente fixas. Extremamente aproximada do polo
objetal, dominada aprioristicamente por um objeto dual forte que não
mais existe, a espacialidade da consciência fica como que percutindo
vigorosamente o mundo para reconstruir seu equilíbrio perdido. A
expressão fenomênica dessa percussão contínua é a irritação, e, seu
antecedente estrutural, o anseio de continuar a lançar todo o peso da
consciência sobre alguém. Desse estado de desequilíbrio e irresolução,
resultaram as psicoses, como segue.

Terceiro Movimento – As Diversas Explosões Maníacas

Do ponto de vista estrutural, a perda da proximidade do pai


significou a perda do polo hiperssuficiente, não facilmente substituível
e mesmo imprescindível para seu equilíbrio, sem que houvesse
uma reacomodação endógena da estrutura da consciência, sem que
a consciência pudesse prescindir, dito de outro modo, de um polo
hiperssuficiente. Instabilizada, a estrutura recorre inicialmente a
seus estratos biograficamente mais habituais para a reposição da
hiperssuficiência instanciada no pai, em relação à qual, não nos
esqueçamos, mantém uma relação rebelde. Restrita a vida privada
ao círculo familiar, tendo relegado a plano secundário as relações
femininas (a títeres para deleite sexual), impossibilitado o reforço do
papel profissional, pois também foi assimilado pelo entorno familiar,
irritado e impulsionado pala embriaguez, restarão poucas opções
humanas para Adílson substituir no trono do rei deposto. Terá de
tentar encontrar, no perímetro da familiaridade biográfica, o novo
174 psicose e embriaguez

centro de equilíbrio, sem poder identificar uma integridade pessoal


poderosa para admirar e, principalmente, colidir com.
Nessa encruzilhada existencial insolúvel explode o primeiro
momento psicótico de Adílson, após um período de seis anos de
afastamento do pai e de oscilação existencial constante. Na fissura
ocasionada pela impossibilidade de recolocar uma figura humana
integral para ocupar o cargo totipotente de hiperssuficiência dual,
alargada pela impossibilidade correspondente de uma compensação
fenomenológica por parte da sua estrutura existencial (compensação
dificultada pelo canabinismo), estouram, como na ruptura de uma
represa, sem nenhum fato causal proximal evidente, as comportas da
consciência do paciente. O vetor para o qual se dirigem as forças da
ruptura respeita as necessidades estruturais simultâneas de retornar
ao entorno familiar sem conseguir admitir uma figura pessoal potente
e de saltar por cima de todas essas dificuldades: surge, desse estado de
coisas, o primeiro surto maníaco.
Suas características são ilustrativas do solo do qual emerge. Duas
tendências se apresentam, ligadas ao mesmo tronco acima assinalado.
De um lado, uma exaltação do eu típica da mania, associada a compras
abusivas e otimismo destemperado – gerados pelo salto do eu sobre
as dificuldades; junto a isso, uma enorme irritabilidade que – isso é
o que devemos destacar – se volta exclusivamente contra os objetos
da própria casa. Um quebra-quebra insano contra os objetos materiais
da família revela a solução encontrada pela estrutura de Adílson
para reorganizar-se diante da fissura psicótica: eleger um substituto
material – e, portanto, despido de vontade própria e de integralidade
pessoal – para a ausência da figura forte, totalmente interior à
habitualidade biográfica. Ficam, desse modo, preservadas duas linhas
de força muito importantes na vida do paciente: o ambiente familiar
dentro do qual sempre se encastelou e a atitude de rebeldia contra o
centro desse ambiente. O fato desse eixo duplo ter sido transmitido
de uma pessoa integral para objetos a esta submetidos apenas revela
a manutenção das mesmas proporções estruturais da consciência de
Adílson e, consequentemente, sua rigidez e dificuldade de criação
guilherme messas 175

relacional. Os objetos são metonimicamente representantes do pai


e, nesse sentido, preservam o mesmo halo de sentido envolvente da
relação paterna. Ou seja, a quebradeira impulsiva nem mesmo pode
ser considerada um desvario catártico, no qual a mente cegamente
desafogaria sobre o real todas as tensões. Mesmo insano, Adílson está
apreendido pelo círculo familiar hiperssuficiente no qual encarcerou
suas raízes. Em suma, Adílson tenta de todos os modos manter as
proporções existenciais, embora isso não mais seja possível, tanto pelo
fato histórico do afastamento paterno quanto pela maturação vital
inevitável. Já esse primeiro episódio maníaco fornece indícios para
sustentarmos a tese expressa no título do caso: a circularidade nos
saltos. Mas ainda voltaremos a isso.
Sua trilha pelas dietas da embriaguez progrediu gradualmente
das alturas da cannabis para as ênfases do eu oferecidas pela cocaína.
Se na etapa canábica a exaltação do eu produzida pela embriaguez
ainda continha uma dissolução das amarras mundanas, um embrião
de solução do dilema de estar aprisionado na família e na dualidade
insuficiente por meio da indiferença anestesiada em relação a tudo,
agora a tonalidade da experiência muda. Acicatado pela cocaína, o eu
infla-se, sim, sobre o mundo, mas sobretudo aproxima-se deste mundo
interpessoal para o qual não se vê preparado, mas do qual depende de
modo perigoso. Em termos clínicos, a paulatina passagem do padrão
canábico de consciência para o cocaínico estimulou a lamela impulsiva
do paciente, na sua dimensão voltada para a horizontalidade do
mundo interpessoal. Isso lhe custou ainda um par de internações por
quadros agressivos com tintas maníacas, sempre de rápida correção
farmacológica.
Mas, como tudo na vida, há sempre ambiguidade dialética nos
movimentos. A mesma força embriagante que empurrou Adílson
para enervar-se com o mundo, enfunado pela cocaína, também teve
como origem primária um desejo natural, coerente e saudável de
encontrar no mundo não apenas o substituto da força totipotente,
mas também o apoio caloroso do amor. Adílson, após as internações
e inúmeras recaídas na droga acima referidas, assentou-se finalmente
176 psicose e embriaguez

em uma relação amorosa, que lhe trouxe alguns anos de bonança e


paz. Esse período próspero e de relativamente longo armistício com
a vida permitiu-lhe, se não a completa reacomodação da estrutura
da consciência em uma relação mais horizontal do que a relação
anterior hiperssuficiente, uma nova zona de estabilidade, marcada
pela superação parcial do fechamento no círculo familiar, armando-
se de uma janela voltada para as relações interpessoais exteriores à
sua biografia original. A dimensão biográfica pretérita, portanto, perde
alguma força e, com ela, a vinculação dual ganha alguma densidade,
já que a mais sólida das posições humanas no mundo é a confiança
horizontal agraciada por uma relação amorosa e de confiança. Se a
verticalidade contida no binômio hipo-hiperssuficiência dá a ilusão
de segurança, também atola a consciência na rebeldia, na necessidade
atormentadora de enfrentar o polo forte, de provar o tempo todo a
si as fronteiras da própria insuficiência. Adílson temporariamente
construiu uma cabeça de ponte do lado de lá dessa debilidade.
A relação não durou, sem que se possa estabelecer com segurança
os motivos dessa ruptura. Talvez mesmo acasos da existência e nada
mais fizeram com que perdesse esse posto avançado. Mas perdê-lo
significou incremento potentíssimo do cocainismo. A nova onda de
estímulo cocaínico assolou a estrutura da consciência de Adílson,
resultando uma configuração ligeiramente diversa daquela do período
original. Agora, a proa apontava um pouco mais para o horizonte
biográfico do que das outras vezes, e é neste “um pouco” que reside
todo o perigo. Se tivesse a experiência biográfica feliz tido tempo
suficiente para dar ossatura estável para a transitória nova configuração
estrutural, talvez não tivesse havido tanto risco. Mas, seja por falta de
tempo ou por falta de assimilação estrutural, isso não se deu. Voltar
à cocaína implicou um tombo nas camadas anteriores da existência,
sem a perda completa das novas aquisições doadas fenomenicamente
pelo namoro. Esse híbrido estrutural se expressou clinicamente
por um surto maníaco de desastrosas proporções no que se refere a
gastos econômicos e, mais grave, à violência interpessoal. Mais grave
porque, mais potente do que antes e mais voltado para a exterioridade
guilherme messas 177

do círculo interpessoal, Adílson passou a executar atos violentos


contra pessoas (e não apenas contra objetos) fora de seu circuito de
conhecidos. Ao perder o polo objetal amado, recente na biografia,
procurou substitui-lo por alguém também recente ou inaudito na
biografia, mantendo, porém, o pendor intencional da agressividade,
esse resíduo da rebeldia biográfica. Como se a consciência, ainda
desabituada à suficiência dual, tivesse sido projetada violentamente
para trás, para uma insuficiência agora sem história, mas apta a operar
no terreno da não historicidade. O caso ilustra os riscos contidos nos
períodos de transição existencial, nos quais elementos do passado e
da tendência ao futuro se entrelaçam sem definição suficiente para o
estabelecimento de alguma estabilidade. Não se trata, nesses períodos
transitórios, num primeiro momento, de um retorno à forma anterior
– o que, de certo modo, protegeria a consciência do paciente pela
sua familiaridade acolhedora –, mas de uma hibridização estrutural
que, desconhecida pela própria consciência, pode causar prejuízos
inusitados de grande cunho sociológico.
Mais uma vez, após uma internação um tanto mais longa do
que as anteriores, seu estado de consciência retorna íntegro à linha de
base, respondendo facilmente ao aparato farmacológico terapêutico.
Podemos aprender muito com essa rápida recuperação consequente a
diversos episódios psicóticos maníacos, assim como podemos aprender
observando a ligeireza da duração dos episódios. É o que faremos a
seguir. Antes, contudo, anote-se que Adílson tem vivido nos últimos
anos em relativa paz, tendo estruturado sua vida a meio caminho entre
uma nova namorada e o que restou de seu papel na empresa do pai.
Não tem vida profissional autônoma. Não foram observadas outras
psicoses maníacas nem recaídas na embriaguez.

As Psicoses à Procura de um Objeto

Sabemos, desde Binswanger, que o delírio é uma cristalização que


a estrutura da consciência oferece – involuntariamente, não devemos
esquecer – para cessar alguma sangria da existência. O delírio é uma
178 psicose e embriaguez

cicatriz, uma área calcificada servindo ao isolamento de uma zona de


necrose específica do ser que, se liberada, poderia conduzir à morte
da consciência. Visualizado da perspectiva interpessoal, o delírio é,
no mais das vezes, a obturação de regiões da dualidade interpessoal,
vedando qualquer passagem de substância entre os polos112. “Antes
fechada para o mundo do que nele dissolvida”, parece ser o mote
que orienta a estrutura da consciência na construção do delírio. Nesse
sentido, a calcificação delirante é a recusa do encontro de qualquer
objeto, é o não objeto por excelência. É uma solução final para o
desenrolar da biografia; caso se possa mantê-la situada às margens da
consciência, a oclusão proporcionada pelo delírio libera forças para a
vida prosseguir com suas potências futurantes restantes. Caso tome o
centro do ser, temos a paralisação integral das esquizofrenias graves.
Nada disso se observou em Adílson. Embora sua biografia não
tenha florescido integralmente de acordo com seus legítimos anseios,
não se pode afirmar a oclusão do canal da dualidade interpessoal.
Manteve-se, balbuciante mas viva, no paciente, a voz que clama pela
constituição de uma dualidade fértil e insubstituível para a progressão
de uma vida no sentido pleno da palavra. Esse ligeiro e imanente-
ao-humano desequilíbrio estrutural inclinando a estrutura para a
dualidade jamais abandonou Adílson, embora não tenha sido forte o
suficiente para conduzi-lo a um novo estágio no qual a outra dualidade,
a amorosa, pudesse pontificar. Adílson permaneceu nel mezzo del camin.
Não conseguiu se equilibrar na forma insuficiente com o pai e não
conseguiu se inveterar na forma amorosa com as namoradas (embora
venha se esforçando na tarefa). Pode-se dizer, portanto, que a história
de suas agruras é o relato de uma existência à procura de um objeto
principal, espelhado dramaticamente no fato de também suas rupturas
serem psicoses à procura de um objeto sólido. Objeto sólido que,
felizmente, jamais encontrou, pois poderia significar a calcificação da
existência. É da manutenção de alguma higidez estrutural que provém
essa caça por um objeto que sempre lhe escorreu das mãos. À frouxidão

112 Embora no caso Ricardo constate-se uma situação rara e diferente para o delírio,
na qual a abertura não fica obturada.
guilherme messas 179

dos objetos psicóticos113 corresponde a flexibilidade da vida em seus


autênticos planos de tornar-se biografia expansiva. E talvez pudéssemos
supor que uma evolução favorável na constituição de fios ligando-o ao
objeto dual amoroso acabasse por fechar os caminhos tortos que ainda
o fazem cair nas psicoses. Encontrar o objeto na biografia é o antídoto
para buscá-lo desesperada e afanadamente na psicose114.
Tendo isso em mente, surge uma questão fundamental, de ordem
genética. A fragilidade de Adílson no enraizamento de sua estrutura
no campo da dualidade origina-se das características das pessoas
envolvidas nesse processo (pai e as duas namoradas principais) e,
portanto, teria gênese histórica, ou na textura microscópica de sua
própria constituição ou das forças profundas de seu ser e, assim,
apenas teve na história uma expressão secundária de uma dificuldade
imanente? Esta é a questão crucial para toda psicopatologia, e
respondê-la com convicção é um prazer dado com muita escassez ao
fenomenólogo. Trata-se de um exercício hermenêutico fadado ao risco,
embora a empreitada seja válida. Especulemos sobre o problema da
gênese em Adílson.
Para tal, a melhor ferramenta metodológica, faute de mieux, é
a reflexão sobre a interpessoalidade vivida na relação terapêutica.
Como esta sempre se realiza em certo momento da biografia do
paciente, e todo momento biográfico é a sedimentação da totalidade
das vivências, investigar o paciente ao cabo de dois anos após a última
derrisão maníaca, após um tempo algo menor de namoro estável
e com uma parceira dedicada, e tendo em vista que suas breves
saídas maníacas não aparentam ter deixado marcas indeléveis na
consciência, é estudá-lo no seu melhor estado psicológico dos últimos
tempos. Consequentemente, parece sustentável defender que esse
exame revelaria as forças mais representativas de sua existência. Este
estudo mostra que a tendência nativa proeminente da estrutura de

113 Eles são frouxos mas jamais fragmentados, ou seja, há um salto de um objeto
humano a outro, mas nunca a cominuição da presença humana.
114 Encontrar um objeto que, ressaltemos, contivesse em si a chance da abertura de
um canal dual de suficiência horizontal, sobre o qual voltaremos a seguir.
180 psicose e embriaguez

Adílson é mesmo a de hipossuficiência dual. Mesmo a aposta no


namoro explicita nitidamente tais traços, deixando ver a dificuldade
e o desajeitamento com que explora a dualidade suficiente amorosa.
Com isso, podemos ver que a temporalidade fundamental de sua
estrutura é mesmo estreita, sem visualizar o longínquo futuro ético de
Minkowski, próprio dos projetos de vida elevados. Podemos observar
também que a espacialidade básica – já não mais roçando a irritação, é
bem verdade – limita-se ao entorno imediato, caseiro, distante da linha
protentiva do horizonte, que ao mesmo tempo esfumaça mas liberta a
doação objetal.
Se assumirmos integralmente tais observações, teremos de nos
decidir por situar a gênese da sua dificuldade em uma particularidade
estrutural de Adílson; uma baixa flexibilidade imanente de seu tecido
estrutural, que não lhe favorece na fixação amorosa de um objeto
presente na biografia, deixando-o à mercê das vicissitudes da vida
e, por fim, da eterna procura de um objeto, mesmo durante as fases
maníacas. Sua tendência à ligação horizontal suficiente é fraca, ao passo
que a inclinação pela hipossuficiência é forte. O desafio sublime de sua
existência é buscar, mesmo contra natura, prosseguir na tentativa de
uma implantação sólida na dualidade.
São essas legítimas mas ainda infrutíferas buscas (estando
o paciente com cinquenta anos de idade, lembremo-nos) que nos
inspiraram a intitular esse caso como “saltos na circularidade”. Os saltos
traçados pela mania – como eternizado por Binswanger – podem aqui
ser estendidos à própria movimentação da estrutura da consciência
que, saltigradamente, abandona subitamente um ponto para buscar
outro com tanta rapidez que termina por girar em círculo, deslizar na
superfície das coisas, tornando o desenvolvimento biográfico marcado
por uma circularidade demasiadamente juvenil. Essa dificuldade
imanente da estrutura em penetrar nas relações humanas não pode ser
deixada de lado na investigação do papel da embriaguez em sua vida,
como faremos agora para concluir115.

115 Essa recusa da consciência individual em adentrar nos caminhos da maturação


vem sendo estudada, sobretudo na sua vertente da tomada de papéis, com
guilherme messas 181

Os Sentidos da Embriaguez

Se a embriaguez é paralisação biográfica, amortecimento e


dissolução dos carris por onde avança a vida mediante um estado
sempre renovado de leveza súbita e transitória, uma elevação às
alturas risonhas nas quais a vida será para sempre indecisão, entende-
se de imediato que para Adílson sua presença se encaixa como na
luva a mão. Encaixe preciso para uma consciência-implantada-no-
mundo tendendo a manter-se em estado dual de hipossuficiência, mas
alternando períodos voláteis de pequenas saídas não fortes o suficiente
para dar ignição a uma nova etapa. Nada melhor do que a embriaguez
para manietar esse status quo: é por isso que a embriaguez matiza
sua existência individual seja por onde queremos vê-la. O sentido
primordial da embriaguez em Adílson é adequar-se com exatidão
à sua estrutura, ser sua medida dietética, é servir aos propósitos
fundamentais e até agora inamovíveis dessa estrutura. Assim como
no caso de Bernardo, a embriaguez desmesurada brota como que
naturalmente dos padrões existenciais vividos pelo paciente e, do
mesmo modo que para aquele, remete ao exercício do hedonismo.
Contudo, diversamente daquele, para quem o hedonismo nasce de
uma prisão na interpessoalidade, para Adílson, nasce de um gosto
pelo jogo de sair sem jamais sair de uma situação: há, portanto, mais
flexibilidade na ação dos embriagantes, já que a estrutura se alterna em
saltos para frente e para trás.
Pode-se divisar duas etapas distintas para sua prática
embriagante, de acordo com os movimentos biográficos. No primeiro
momento, a equação instável de insuficiência rebelde procurou
esquecer-se de si mesma nas nuvens da queima canábica. Foi um largo
momento e, aparentemente, o preferido do paciente. Sua interrupção
se deu unicamente por acasos da vida, por decisões tomadas pelo
pai, deixando-nos com a impressão de que, se nada tivesse ocorrido,

preciosa acurácia por Georges Charbonneau, em seu artigo “Immaturité adulte


et conscience de rôle. De la notion d´ immaturité à son concept”, Comprendre,
21, p. 46-65.
182 psicose e embriaguez

Adílson tenderia a instalar-se em definitivo nessa configuração. Os


anos de excesso canábico podem ter despreparado a consciência para
a rugosidade da vida, congelando-a numa juvenilidade infinita, mas
não parecem ter sido determinantes na lavratura do terreno pré-
psicótico. O sentido precípuo da embriaguez nesse período é o do
acompanhamento dietético ideal para um estilo de vida.
Estilo de vida que lhe foi arrancado, sem compensações estruturais
imediatas e estáveis, como vimos. A dieta embriagante básica nesse
segundo período mudara-se para a cocaínica. Embora não se possa
afirmar ao certo quem começou primeiro, se a transição para a cocaína
ou o afastamento paterno, o fato é que a cocaína parece ter-se melhor
ajustado ao acréscimo de desequilíbrio em relação ao mundo provocado
pela perda do pai com consequente maior abertura ao mundo. Droga
de maior estimulação do eu e de maior propensão mundana, a cocaína,
aliada à mudança estrutural, favoreceu os comemorativos psicóticos.
Mas o exame prudente do caso sugere que a droga por si mesma não
teria sido bastante para desenhar o pré-campo psicótico. Este parece
ter sido fomentado primordialmente pelo desequilíbrio estrutural
incorrigível. Frágil e nos umbrais de uma psicose, a consciência teve
na cocaína uma função dupla: ora a gota d´água de descompensação
maníaca, ora, como parece ser a última e mais virulenta aparição da
patologia, um potente acelerador para fazer a mania mais diabólica e
violenta. Esse último episódio tem, como vimos, o agravante de tomar
de assalto a estrutura de Adílson em uma configuração especialmente
daninha, pois exageradamente desequilibrada e vulnerável. Corrobora
a nossa hipótese do papel secundário para o cocainismo na irrupção
da doença o fato de que nas piores condições estruturais nasceu a
psicose mais grave, sem que tivesse ocorrido um notório acréscimo de
droga e sem que alterações mais típicas de ação exógena da cocaína,
como a paranoia, tenham surgido nem mesmo na psicose mais grave.
A tipicidade da psicose, enfim, indica mais uma origem estrutural do
que exógena.
Por outro lado, é importante notar que a sobriedade, como temos
constatado por dois anos (no momento em que se escreve este relato),
guilherme messas 183

se não auxiliou muito na evolução biográfica do paciente, permitiu


que a tendência a manter-se hipossuficiente não sofresse assédio ou
oscilações perigosas. Portanto, parece que a embriaguez, embora
afinada com as pretensões da estrutura da consciência, produziu um
suplemento quantitativo de instabilidade para um sistema em si já
instável. Suplemento que, mesmo não tendo sido causa suficiente para
uma psicose, motivou oscilações extremamente prejudiciais para um
indivíduo tão frágil quanto Adílson. Definitivamente, a sobriedade
tem lhe feito muito bem.

Caso 6 – A Retração Primordial

Apresentação

Evidentemente, são muitos os motivos pelos quais uma ação


terapêutica sobre o problema das toxicomanias pode encontrar
empecilhos para seu bom andamento. Examiná-los em cada
singularidade clínica pode ser de extremo valor para a identificação
das características irreprodutíveis de uma consciência-implantada-
no-mundo e, por conseguinte, auxiliar na eterna necessidade de
aprimoramento técnico e ajuste individual do tratamento. Ofereçamos
a palavra a esse caso individual, internado pela primeira vez aos 44
anos de idade por risco suicida, após duas tentativas quase eficazes,
motivadas por uma intensa angústia, embalada pelo gigantesco,
incoercível e diário uso de cocaína. Júlio não desejava permanecer
internado, apesar da enorme angústia que o invadia e do risco que
era capaz de reconhecer, por uma simples razão: sentia saudades
de casa. A internação, embora competente para lhe oferecer daquilo
que necessitava naquele momento – e foi mesmo uma internação
voluntária –, não conseguia lhe proporcionar algo que muito nos
instruiu sobre sua consciência-implantada-no-mundo: o seu lar. O seu
recorte existencial de mundo talhava na realidade social uma fronteira
profunda, dividindo dois universos do campo afetivo: o familiar e o
estrangeiro. Para Júlio, o segundo universo representava incômodo, a
184 psicose e embriaguez

estância em um território do qual seu ser buscava escapar, retrocedendo


ao conhecido. Essa tendência à retração ao universo habitual, se
pudermos assim nos expressar, cunha um perfil distintivo da vida do
paciente, permitindo muitas das análises que virão, embora não seja
isenta de contradições aparentes.
A principal contradição aparente, também ilustrativa da
totalidade da personalidade, reside no fato de que sua toxicomania
desenvolvida ao longo de mais duas décadas não tenha sido jamais
– até o momento em que o próprio Júlio demanda internação –
suspeitada pela esposa116. E mencionemos ainda o fato igualmente
intrigante de que também no trabalho não apareceram sinais típicos e
arrasadores da toxicomania até algumas semanas antes da internação.
A esposa o descreve incontinenti como excelente marido (com quem é
casado há vinte e cinco anos), doado à família nuclear e ao trabalho e
responsável pela constituição de um lar feliz. Dado o caráter cordato e
sincero de Júlio, devemos saltar por cima da hipótese de uma ocultação
manipuladora, insincera para com o casamento. Este não seria Júlio, de
modo algum. Identificar os traçados dessa aparente contradição é o
motor principal para o exame do desenvolvimento da vida de Júlio.
Poderíamos começar em tom interrogativo: como pode alguém
ser ao mesmo tempo extremamente vinculado à família nuclear – a
ponto de não tolerar uma internação pela distância em relação a ela – e
despencar no desfiladeiro da toxicomania sem nada sinalizar para a
família durante muitos anos, excluída a hipótese de uma vida dupla?
Porém, essa questão está colocada ainda em termos crus, em linguagem
proveniente da atitude ingênua de mundo. Imperioso recolocá-la
em cifras fenomenológico-estruturais. Seja qual for a determinação
descritiva que dermos para a toxicomania, em todas elas acabaremos
por encontrar a noção de uma desmesura radical, de uma desarmonia
profunda entre os termos constituintes do estofo da vida consciente.
Ora, para alguém cuja estrutura-implantada-no-mundo atualiza-se tão
fortemente por meio da tradição e estabilidade da camada habitual da

116 Éverdade que a esposa observara, um ano antes, certo afastamento de Júlio da
família, não atinando para as razões do fato.
guilherme messas 185

existência, camada que tem na família nuclear uma de suas principais


manifestações – já que esta está longamente consolidada –, seria de se
esperar que exatamente essa dimensão estrutural, como fator saliente
de sustentação da consciência, receberia de imediato os choques da
drogadicção. Ou, alternativamente, que aparecesse imediatamente, na
sustentação laboral, também ponto de apoio forte dessa personalidade
tendente à retração. Os dois não se deram. Poderia se esperar um
fenômeno semelhante em consciências apoiadas demasiadamente –
como não raramente se dá nesse campo das toxicomanias – na saída da
família, nas quais o apoio nessa base de tradição é o mínimo possível,
permitindo que grandes desproporções estruturais venham à luz com
pouca participação familiar117.
Estamos assim diante de um intrigante problema: ou nossas
hipóteses preliminares referentes à sua estrutura não representam
muito da realidade desse indivíduo, ou devemos procurar noutra
roupagem fenomenológica a expressão de sua estrutura capital. A
saída do impasse passa pela identificação, por meio dos principais
achados biográficos, dos fatos que permitem as conclusões acerca
da sua estrutura consciente. Como – já o advertimos desde a menção
acerca da sua tendência à retração – trata-se de uma personalidade
extremamente fincada na preservação de suas próprias características, a
história da vida, mesmo resumida, não apresenta grandes movimentos
e rupturas. Assim, a trajetória que apresentaremos se confunde, para
servir a nosso interesse neste livro, com o histórico do uso de drogas,
num grande movimento que gradualmente se deturpa até a psicose.
Diferentemente dos outros casos até agora aqui apresentados – mas
apontando para uma tipicidade que examinaremos mais adiante,
estudando as essências típicas –, as particularidades de Júlio fazem com
que a mesma noção de etapas rumo à psicose, com a qual vínhamos
operando, possa se tornar ociosa, pois as rupturas ou solavancos
proporcionados pelas mudanças de trajetória existencial podem sequer
existir.

117 O caso típico é o dos buscadores de novidade, para quem o mundo é mais
desconstrução do que retenção.
186 psicose e embriaguez

Revelando a Estrutura Fundamental

Muito ligado à sua família de origem, bem relacionado com


os pais e os irmãos, Júlio iniciou na adolescência primeira o uso de
cocaína. Esse uso, por sua vez, deve ser entendido a princípio como
um fator cultural familiar. Todos os primos e irmãos reuniam-se
frequentemente em sessões familiares de embriaguez coletiva. Esses
banquetes familiares, dos quais Júlio começou a fazer parte em idade
muito precoce, não são meros elementos marginais na compreensão da
evolução da vida e da toxicomania desse paciente. Para além do prazer
natural proporcionado pelo álcool e drogas com os quais se fazia a
festa e do hábito e seu poder viciante ínsito, um fator característico
dessa prática deve ser sublinhado com cores vivas: embriagar-se
continuamente foi, para Júlio, desde o início, uma forma de estar
completamente no interior da família original118. Toda adaptação de
extração biológica ou representacional que sua consciência sofreu ao
longo de seu desenvolvimento vital deu-se com o mínimo abandono
do perímetro da familiaridade cultural. Se nos adiantarmos um pouco
no relato da vida, em nome do reforço de nosso apontamento, podemos
lembrar que até os dias atuais, mais de 25 anos do início do uso de
embriagantes, Júlio continua exercendo esse banquete dos iguais
em sangue (pai e mãe excluídos). Apesar de seu uso ter-se também
espraiado para a prática solitária do cocainismo, numa modalidade
que ainda examinaremos, não é irrelevante indicar que jamais Júlio
se embriagou em um grupo que não o familiar. Seu cocainismo é ou
absolutamente solitário, mesmo durante o trabalho, ou, se coletivo,
completamente intrafamília original.
Mas a adesão à família original, embora muito forte, como
vimos, não foi exclusiva. Júlio adquiriu duas fortes cabeças-de-ponte
no mundo extrafamiliar original: o casamento e o trabalho. Importante
assinalar a assimetria existente entre a função do casamento e a do

118 Trataremos aqui por “família original” aquela na qual nasceu e foi criado Júlio, e
“família nuclear” aquela constituída após o casamento, ou seja, esposa e filhos.
guilherme messas 187

papel profissional, vistas sobre o pano de fundo da característica


do paciente de tendência à retração ao habitual. Para o melhor
entendimento dessa assimetria, orientemo-nos pela ideia acima
proposta de habitualidade familiar original, ou seja, do fato de Júlio,
ao embriagar-se, aninhar-se totalmente em sua cultura de berço. Na
cultura familiar (nessa sentença tratamos o termo “familiar” no seu
sentido geral, compreendendo família original e família nuclear), os
remetimentos relacionais entre os membros integrantes do grupo
encerram-se em si mesmos, sendo regidos por um conjunto de valores
que – ainda que não hermeticamente – são fechados à ingerência
externa, salvo em casos extremos, como a violência ou a marginalidade
e o incesto. Em outras palavras, naquilo que entendemos pelo nome de
familiar, a força que mantém a estrutura da consciência é uma força
centrípeta, horizontal e recíproca, cuja tendência natural é de retração
e manutenção119. Sempre, diante de nossos pais, teremos atualizados
uma boa quantidade de afetos do passado (que o diga a psicanálise) ou
mesmo de uma tendência a assumirmos posições filiais. Nesse sentido,
para o contrapeso dessa extremamente potente força conservadora
faz-se necessária a ação de uma outra força, em sentido oposto, mas
com as mesmas características essenciais: essa presença é o casamento
e/ou a família nuclear. Também, na constituição da família nuclear,
observa-se a mesma reciprocidade dos critérios valorativos e sua
propensão ao fechamento, substanciada no ditado popular “em
briga de marido e mulher, não se mete a colher”. Assim, não parece
exagerado afirmar que a família nuclear reproduza as condições da
família original, no que tange à sua essência, mas desloca-a para
um ponto novo, futuro, da personalidade, permitindo que esta
assuma uma nova forma estável mais adiante da forma anterior,
dando vazão a novas experiências vivenciais e, consequentemente,
amadurecendo e enriquecendo a consciência. Diversamente, o papel
profissional traciona a consciência para fora, expondo-a à supervisão

119 Do mesmo modo que na nota 105, a compreensão mais completa desse fenômeno
passaria pela redução dessa força centrípeta à sua essência antropológica típica,
dada pela hiperpresentificação, ainda a ser apresentada.
188 psicose e embriaguez

ampla do grande mundo. Para um locus no qual, embora as relações


mantenham seu perfil de reciprocidade, o fundamental é exatamente
a publicidade, a anonimização do interesse, a subordinação a um
corpo de valores e responsabilidades que se move continuamente e,
mais importante ainda, aos quais o vínculo da estrutura da consciência
não é garantido perenemente de antemão. Se no interior familiar há a
garantia de continuidade na pertença aos valores fundamentais120, no
mundo profissional o indivíduo está sujeito a que toda sua correnteza
de valores seja seccionada súbita e inclementemente. Quando não
por esses motivos, também a identidade profissional surge muito
posteriormente em relação à identidade familiar original (vale o mesmo
para a identidade marital), o que lhe dá menos força e irradiação
do que a primeira. A outra face dessa precariedade da identidade
profissional é a sua potência renovadora, pois é a presença identitária
que, na vida adulta, tem a maior força na capacidade de renovação da
identidade global, por ser sua face mais em contato com as emanações
provenientes do mundo. Renovadoras ou destruidoras são essas zonas
de diálogo com o grande mundo que alargam a totalidade da estrutura
consciente. E é por tudo isso igualmente que a identidade profissional
é a mais instável, a mais dispendiosa em termos energéticos de ser
mantida, mas, uma vez consolidada na consciência, será a que esta
procurará manter a todo custo. E o faz por de certo modo perceber
que, sem ela, será tragada pela história pregressa ou pelo abismo do
nada. Lembremos que na história de Júlio o trabalho foi o último a ser
comprometido pelo uso de droga.
Temos, portanto, que Júlio fundamentou a vertente futurante de
sua vida nesses dois pilares poderosos de alargamento do ser, o que
justifica sua capacidade de ser bom marido e bom profissional e de ter
uma família composta e uma carreira honesta. Vale lembrar que até
mesmo sua profissão não se exerceu no seio familiar, atuando em uma

120 É verdade que o indivíduo pode romper com sua família, porém, o quadro
valorativo com o qual rompe mantém-se intacto como tonalidade de fundo
de sua consciência, assim como podemos romper com nossa língua-mãe, mas
jamais conseguiremos esquecê-la ou deixar de entendê-la.
guilherme messas 189

companhia independente das atividades familiares. Por outro lado, o


pendor retracionista revela-se no fato de ter trabalhado em apenas uma
– a primeira – atividade e posição laboral. Sem muitas considerações a
respeito de gostar ou não dessa atividade, interessava-se pela suposta
estabilidade da posição. E, como era de se esperar, casou-se com a
primeira namorada.
As linhas de força fundamentais que agem no interior da
estrutura da consciência de Júlio estão dadas. É tendo-as em mente
que podemos procurar definir melhor, ou seja, registrar em linguagem
estrutural, aquilo que de maneira incipiente e descritiva foi chamado
de tendência à retração ao universo habitual. Dado que a estrutura
enquadra todas essas características, ao mesmo tempo dando-lhes
liberdade e limitação em termos de temporalidade e espacialidade,
teremos que a tendência à retração em Júlio é a denominação
descritiva de uma estrutura na qual os aspectos retentivos tendem a
superar largamente os aspectos protentivos. Assim, é uma estrutura
cujo crescimento pode ser chamado de cumulativo, já que não se
alivia facilmente de elementos passados para revigorar-se com os
presentes-candidatos-a-futuros em estado mais puro mas, pelo
contrário, os elementos novos estão sempre de certo modo timbrados
pela presença do que sempre foi e, ao mesmo tempo, mantém uma
força conformadora. E mais, até segunda ordem, os elementos novos,
sempre mais desiderativos e voláteis por natureza, pois ainda não
se sedimentaram na geologia da consciência, tendem, num primeiro
momento, a serem rejeitados em favor dos estabelecidos, o que não
impede, num segundo momento, a ampliação da estrutura, como se
vê no fato de que, mesmo muito ligado à família original, foi capaz de
casar-se e de trabalhar de maneira independente. Essa modalidade
de ampliação apresenta um terceiro momento, espiral, no qual, uma
vez assimilado o novo, a estrutura tende a acumulá-lo novamente
como retenção. O exemplo clínico mais próximo disso foi o mal-estar
inicial diante da internação mesmo frente a sua necessidade inegável
e reconhecida; mal-estar que, gradualmente, substitui-se por adesão
incondicional ao tratamento.
190 psicose e embriaguez

Temos uma estrutura, portanto, densa, naturalmente propensa


a sempre “ganhar espessura” e perder mobilidade. Há, portanto, uma
espacialidade que apinha as vivências e uma temporalidade que força
as experiências sempre para seu polo já resolvido, terminado, perfeito,
dado pelo passado. Um conservadorismo de densidades, poderíamos
apodar deste modo essa estrutura.
Mas ainda não podemos nos satisfazer com essas considerações. É
necessária uma investigação suplementar dos adjetivos indicativos de
uma espacialidade marcada pela espessura: denso e cumulativo, pois
eles marcam um ponto relevante para a compreensão do caso e para
um aporte diagnóstico diferencial. Vejamos. Também os obsessivos
tendem à retração. Em vários casos, a obsessão tem exatamente essa
função de aderir a elementos retentivos, assegurando a estabilidade
da estrutura da consciência-implantada-no-mundo. Em casos mais
leves, no colecionismo, por exemplo, observa-se a mesma condição.
A diferença capital entre essas maneiras de habitar o mundo e a
densidade de nosso paciente está no fato dos elementos retentivos em
seu caso não entrarem em conflito com os presentes ou futuros, ou seja,
o bloqueio eventual gerado pela densidade sobre as experiências novas
não é vivido como incômodo pelo paciente, ao passo que nos obsessivos
há uma incessante luta da consciência para livrar-se à temporalidade.
Nos colecionistas, embora isso possa não se dar, há ao menos um
sentimento de inadequação, muitas vezes de vergonha, tisnando sua
autointerpretação das camadas protentivas. Há nestes como que uma
pressuposição de falta de protensão que inexiste em nosso paciente,
para quem a presença imperial da retenção é vivenciada como natural.
O obsessivo quer se livrar da retenção, Júlio “é” sua retenção e, nesse
sentido, sua densidade assume-se como condição natural de existência
e a acumulação é modo primordial de movimentação.
Desse modo, podemos elucidar com certa facilidade a aparente
contradição da apresentação do caso. Júlio, embriagando-se sem
interrupção, não estaria na realidade ocultando de seu entorno familiar
e laboral sua condição, com estes rompendo e, de certo modo, isolando-
se; contrariamente, Júlio, desabando na toxicomania, mais e mais
guilherme messas 191

voltava ao estado originário, à sua camada retentiva mais primordial,


e, portanto, cum grano salis, elevava sua honestidade biográfica cada
vez que se deformava com a intoxicação. Mas com isso já adentramos
na investigação da evolução temporal, que deveremos fazer a seguir.

O Movimento Involutivo Gradual

Não podemos, de maneira alguma, assimilar as características


apresentadas a uma incontornável propensão à embriaguez. Elas
são apenas um modo de ser, suficiente para uma diversidade de
desenvolvimentos biográficos, tanto malogrados quanto férteis.
Acompanhar o movimento que culminou na condução da história
de sua estrutura ao exício psicótico se faz importante agora, pois ele
não era necessário ou determinado pela estrutura mesma. Persigamos
os movimentos evolutivos da sua estrutura que fizeram com que
concluíssemos por uma resultante involutiva.
Júlio, tendo iniciado o uso de drogas precocemente, sempre
as usou. E sempre as usou em boas companhias, como vimos. Essas
relações familiares forneceram-lhe cocaína por toda a sua vida,
não cessando de fazê-lo nem no período mais crítico, logo após a
internação, favorecendo um número indesejável de recaídas. Essa frase
guarda um pressuposto de suprema importância para a compreensão
de sua ruína, qual seja, a condição de que o objeto mais saliente de
seu prazer vincula-se intimamente com a camada mais primordial
e consolidada de sua dimensão retentiva, sobre a qual sua vida
sempre se manteve assentada. Cada sessão de intoxicação era não
apenas um ato de acolhimento e renovação da inserção na cultura
familiar mas um reforço deste, o que equivale a dizer que, simultânea e
retroativamente, sua toxicomania favoreceu, no plano estrutural, uma
hipertrofia da camada retentiva primordial e foi por ela favorecida.
Por mais que sejamos capazes de identificar na estrutura de Júlio a
tal tendência à retração como constituinte natural, não podemos nos
furtar a afirmar que a intensidade com que essa retração se deu deva ser
creditada em alguma parte à toxicomania, embora essa relação não se
192 psicose e embriaguez

tenha estendido à psicose, como veremos ainda. E isso se deu, a nosso


ver, pela casualidade de que sua família reforça um hábito que tem a
peculiaridade de favorecer o enrijecimento da temporalidade. Em outras
palavras, a microcultura na qual nasceu tem uma característica que,
agindo sobre o temperamento espesso e inelástico de Júlio, favorece
o reforço de algo que poderia ter sido mitigado com hábitos menos
devastadores. É assim um caso no qual o ambiente tem papel muito
importante na gênese do problema, mais mesmo do que a tendência à
embriaguez. Isso fica claro na apreciação de Júlio sobre si mesmo e sobre
suas relações familiares. Nunca apontou o prazer da cocaína como algo
insubstituível ou celestial em sua vida, mas enfatiza como opera na
manutenção dos laços familiares. Um círculo vicioso se estabeleceu, no
qual a retenção ensejou mais retenção e esta se retroalimenta ao infinito,
sem uma participação direta monumental do prazer em si, como se
observa na maior parte das gêneses das toxicomanias.
A hipertrofia da camada retentiva primordial não impediu
a atuação expansiva nas camadas retentivas mais superficiais,
notadamente a da família nuclear. Porém, com o gradual acréscimo
da relevância daquela, os movimentos atuantes sobre as exteriores
foram perdendo potência, deixando a sua consciência cada vez mais
tomada por elementos de retenção radical e primordial, ou seja,
travando-o dentro das paredes formais da família original. Há que
se examinar aqui algumas das diferenças estruturais entre aquilo
que denominamos camada retentiva primordial e camada retentiva
superficial. No nível estrutural, podemos dizer que a primeira se
caracteriza por um enorme poder de permanência imóvel e sobretudo
de imantação da experiência consciente, maior do que a segunda,
fazendo com que a elevação da importância relativa da retenção
primordial seja equivalente a ficar à mercê de uma força de absorção
maior do que aquela da retenção superficial. Força de absorção maior
que implica uma maior gravitação das vivências em torno desse centro
e, reversamente, menor acoplamento de experiências desprovidas de
sedimentação biográfica. Em duas modalidades vivenciais esse achado
se manifesta com maior evidência.
guilherme messas 193

A primeira delas é mais importante, encontrando-se na inves-


tigação do fenômeno da culpa em Júlio. A culpa é vivência imanente
ao humano e preeminente nas toxicomanias. Nestas, tendemos
a interpretá-la como proveniente da fusão entre dois campos: a
aproximação exagerada para com a realidade – e nisso a culpa irmana-
se com a paranoia, sendo a vivência que a segue no final da intoxicação
– e a ruptura com os laços familiares, quando a expectativa da família
é constantemente vilipendiada pela toxicomania. Nenhuma das
duas expressou-se em Júlio: nem a paranoia, como ainda veremos,
nem o sentimento de dívida para com a família. A ausência deste
último já poderia ser deduzida da participação da família original no
cocainismo, pois no interior desta intoxicar-se não constitui dívida
moral de modo algum. Entretanto, não se pode dizer que Júlio tenha
passado totalmente ao largo da vivência de culpa. Esta de certo modo
surge, mas voltada unicamente à relação com a família original – o
que mais uma vez prova a força gravitacional desta família em sua
estrutura – e, surpreendentemente, com sinal invertido. Júlio sente-se
desconfortável por não saber dizer não às ofertas familiares de cocaína,
mesmo sabendo dos males que esta vem lhe fazendo. A culpa volta-
se, portanto, contra sua fraqueza diante da família originária, numa
dívida singular, não pelo fato de usar, mas pelo fato de não usar.
O impasse existencial que lhe corrói na vigência da mais dramática
toxicomania não inclui a família nuclear e nem o trabalho, apesar de
que nos momentos últimos, de eclosão final da patologia, também
esses elementos tivessem sido incorporados. A inclusão tardia desses
elementos mostra a relutância inata da estrutura em girar nos eixos
dos valores historicamente mais recentes de seu ser.
O segundo elemento a ser considerado é a intensidade da fissura.
O corpo é instância originária do eu, necessariamente presente como
atualidade contínua. Mas o corpo também é fixação da história de vida,
que se expressa tatuada em todas as dimensões da fisiognomia e da
experiência interna de solidez. Ora, se sua estrutura global fixa-se às
camadas primordiais de sua história, o corpo também tenderá a reter
encarniçadamente aquilo que desde sempre o constituiu. Na biografia
194 psicose e embriaguez

de Júlio, o corpo é especialmente o receptáculo de um passado que se


recusa à mínima prescrição, multiplicando o já natural poder da cocaína
– e da embriaguez em geral – de manter-se invocando a si mesma. Júlio
é um exemplo de como a fissura pela droga, sem desconsiderar-se os
poderes próprios de cada substância de causar dependência, depende
muito da totalidade da encarnação do ser que se embriaga.
Comprimido por essa atmosfera existencial, a vida de Júlio
progrediu elevando seu apelo retentivo, mas ainda balançando-se
numa modulação sustentada pela família e trabalho. Com o passar
dos anos, espontaneamente, o reforço da retenção foi esgarçando
naturalmente, sem nenhum grande fato ou acidente, os fios que ainda
ligavam-no às dimensões protentivas globais da existência. Ou melhor,
os fatos que poderemos relatar são antes a crônica desse esfacelamento
gradual. Não se identifica neles um fator que houvesse liberado sua
estrutura para o colapso final, a perda das últimas âncoras; antes, se
constata o seu exaurimento por inanição, diante da força voraz do
sorvedouro do pretérito absoluto. Assim, o relato que se seguirá é a
notação surda de uma deformação de mundo inteiramente desprovida
de sentido biográfico, ainda que possamos identificar algum sentido
estrutural de recomposição, como veremos.

As Formulações da Psicopatologia e da Psicose

A confluência da natural tendência à retenção com o incremento


da materialidade do mundo proporcionado pela cocaína traduz-se na
experiência vivida do adensamento da realidade121. Adensadas todas
as formas de doação do mundo objetal e subjetivo, a consciência começa
mais e mais a ter de lidar com esse “excesso de massa”. Ora, este não
incide de maneira homogênea sobre todas as modalidades do ser, já que
algumas são mais sensíveis ao adensamento, pois necessitam da leveza
aérea para existir; sendo fluidas e rítmicas, sofrem, em primeiro lugar,
os efeitos da obesidade compressora do real. O acompanhamento da

121 Utilizamos aqui o termo “vivido” no sentido técnico, explicitado em nosso Ensaio
sobre a Estrutura Vivida, no qual se enfatiza a diferenciação com “vivenciado”)
guilherme messas 195

transformação da estrutura de Júlio de um estado normal até a psicose


passa, em primeiro lugar, pela observação das mudanças clínicas
atuantes no humor e no sono, ilustres representantes da ciclicidade
da natureza na experiência humana, e, consequentemente, marcadores
emblemáticos do fato de que a toxicomania (e, de certo modo, mesmo
a embriaguez pura e simples) cocaínica é também um massacre da
natureza, uma artificialização da realidade por meio do excesso de
estímulos, a transformação da relativa impotência humana diante
dos ciclos que lhe vêm de dentro em presumível potência inesgotável
de exploração e funcionamento, de prazer e glória inexauríveis.
A toxicomania pela cocaína é, nesse sentido, não mais o acesso ao
paraíso artificial nefelibata do século XIX baudelairiano, mas a face
contemporânea do cultivo da desarmonia e da desproporção voltadas
e devotadas completamente ao mundo claro e definido, típicos da
contemporaneidade, com tudo de nefasto e de produtivo que enseja.
Produtividade que, em Júlio, revelou-se na elevação da performance
no trabalho, na aclamação de seus superiores, na otimização de toda
funcionalidade da vida. Lembremo-nos que, por muitos anos, mesmo
depois da eclosão psicótica, ainda mantinha-se marido exemplar, pai
devotado e funcionário impoluto. A paradoxal translúcida densidade
do cocainismo entregou a Júlio o máximo de desempenho no interior
do mínimo de alterações das proporções fundamentais da existência.
Nenhuma trinca na estrutura; mas nenhuma criatividade na existência.
A otimização do pronto, do acabado, do já dado e esperado dos papéis
sociais associa-se a um prazer também purificado e centrado (além de
simples), desejoso de tornar-se o centro fulgurante das atenções, como
bem o recupera a sabedoria popular alcunhando a cocaína de “brilho”.
O afeto principal desse brilhar, desse irradiar a própria presença até o
olhar do outro e invocar a sua admiração se identifica com a fatuidade
muitas vezes aplastrante da vaidade. A cocaína, instrumento da
produtividade, o é, por extensão, também da vaidade.
Lembrando que ambas, ao exigirem a centralidade, fundamentam-
se em uma espacialidade muito particular da interpessoalidade.
Embora o vaidoso-produtivo-embriagado-pelo-brilho aspire o olhar
196 psicose e embriaguez

alheio para si, realizando um movimento centrípeto nas relações,


não pode prescindir da manutenção da distância. Diferentemente do
histérico que, também – ou até mais – carente de uma centralidade
total, chegando à exaltação e teatralidade, acaba por atrair a alteridade
para muito perto de si, perigosamente perto de si. Nas interlocuções
insinuantes da histeria, o parceiro-admirador aflige-se com a
separação e busca reduzi-la, afanando-se pelo contato finalmente
íntimo da corporeidade, como o atestam as inúmeras estripulias
sexuais ligadas à histeria. Jamais no vaidoso-produtivo-embriagado-
pelo-brilho (vale incluir no diferencial que a histeria não é um
fenômeno de produtividade). Este requer certo decoro, por assim
dizer, certa distância que permita a visualização completa e iluminada
de sua participação central mas, ao mesmo tempo, não ofereça
nenhum passo além dos limites de certa formalidade, escapando da
perigosa intimidade provocada pela proximidade. A distância certa
é o elemento estrutural imprescindível para o sequioso pelo brilho.
Embora a vaidade e a fatuidade não exorbitem em Júlio, a cocaína não
deixou de exercer essa função na sua prática existencial, acessória ao
que examinamos em relação à família. Em breve veremos como esse
elemento estrutural participa dos comemorativos psicóticos.
Mas antes temos de prosseguir na apresentação dos primeiros
sinais do nefasto em seu grave cocainismo. Sono alterado significa
perda de ritmicidade endógena, a redução da amplitude dos
movimentos existenciais pré-reflexivos alternantes de entrega ao
recolhimento do mundo. O insone pela cocaína entregou-se a tal
ponto aos apelos gozosos e executivos do mundo que já não mais
deste consegue se retirar para voltar-se a seu manancial interno, dado
na recomposição via sono. Da mesma maneira, verifica-se a gradual
irritação levando à angústia depressiva. A perda da amplitude humoral
conduz finalmente ao travamento do humor e este, inexoravelmente,
à angústia depressiva. Esgotado pela excessiva estimulação, o humor
fecha-se numa pesada e irremovível angústia depressiva, que foi se
elevando em Júlio a ponto de levar-lhe a duas tentativas de suicídio.
Uma angústia depressiva sem cadeias ligando-a à história das decisões
guilherme messas 197

da existência ou de sua finitude, mas, muito antes disso, derivada do


soterramento hipermaterial das fundações do ser. E uma procura pelo
suicídio que, vale lembrar, não se submete à pressão da culpa, embora
esta também tenha se dado. Substancialmente, o suicídio tentado surge
como uma busca pelo alívio, pela saída da excessiva densidade do real,
na qual se inclui sua própria afetividade adensada e aplainada. Tentar
se matar foi, em última instância, almejar um descolamento tardio e
desesperançado diante da força agregadora da retração primordial
que lhe aprisionou.
O avanço do cocainismo produziu, por fim, as formas psicó-
ticas. Como era de se esperar, formas ligadas ao adensamento da
materialidade, mas principalmente tomadas do campo humano.
Vozes e vultos, dia e noite, passaram a surrupiar-lhe a paz, atraindo
para si toda sua atenção. As características dessas alucinações merecem
detalhamento. Em primeiro lugar, ressalte-se a absoluta inexistência de
qualquer formação delirante primária ou suplementar às experiências
alucinatórias. A evidência natural do real122, em termos de estrutura
espacial e temporal, jamais se transformou. O adensamento patológico,
a rigor, não modificou essa formação estrutural básica, pois manteve
relativamente indenes tanto a temporalização global da vida – vide
a manutenção do trabalho mesmo sob as graves alterações clínicas –
quanto a sua espacialidade, como veremos a seguir. Assim, diante de
fatos completamente inusitados em relação ao perfil habitual do real e
de si mesmo, Júlio nunca os interpretou como uma nova significação
de mundo; para ele, todos esses fenômenos arrebatadoramente
luzentes e audíveis sempre foram inexplicáveis, sem sentido ou
origem, interpretados – corretamente, diríamos na linguagem ingênua
da psicopatologia clínica – como de fato patológicos.
A espacialidade das vivências alucinatórias nos interessa
fortemente. São vozes e vultos humanos com os quais dialoga, pois estes
a ele se dirigem. Chamam-no, por vezes dão-lhe alguma sugestão, mas,
com exceção dos momentos finais, sobre os quais ainda voltaremos, não

122 Cf. W. Blankenburg, Der Verlust der natürlichen Selbstverständlichkeit. Ein


Beitrag zur Psychopathologie symptomarmen Schizophrenen.
198 psicose e embriaguez

o agridem. Júlio volta-se a eles, responde a seus chamados, surpreende-


se por vezes com eles conversando, mesmo sabendo não fazerem parte
do mundo habitual. Toda essa descrição pode ser reduzida à ideia,
fundamental para essa específica consciência-implantada-no-mundo,
de que a espacialidade do diálogo, do convívio, ou seja, da distância,
se mantém intacta. São movimentos de aglutinação da matéria
humana do mundo que preservam todas as linhas fronteiriças do
bom convívio, da ágora dos iguais. Entre Júlio e os sensoriais humanos
existe um distanciamento que, de certo modo, o abriga de pavores de
aniquilação. A estrutura espacial de Júlio é a tal ponto potente em sua
autoconservação que, mesmo deformada pelo cocainismo, reside ainda
em um mundo no qual os humanos não são fonte de estranhamento
ou invasão mas de colóquio, de trocas e coabitação. Ou, em outra
vertente, sua estrutura espacial na dimensão interpessoal é tão sólida
que não se movimenta nem na deformidade de causa exógena, o que,
se de um lado o protegeu da radicalidade do delírio, dificultou-lhe a
abertura para a progressão biográfica. Quase toda a retração por nós
acima assinalada não tem, a rigor, relação com as alucinações. Trata-se
de uma retração estritamente biográfica – inegavelmente estimulada
pelo cocainismo, é verdade –, de retorno aos pilares primordiais de
sustentação da situação estrutural, e não de uma retração psicótica. A
psicose modifica intensamente a densidade do real, mas não segue
as linhas de força da retração opcionada no desenvolvimento da
estrutura da consciência-implantada-no-mundo.
A baixa correlação entre a psicose e o desenvolvimento retentivo
da estrutura se manifesta na frouxa associação entre os fenômenos
alucinatórios e a ideação suicida (considerando-se esta uma formação
de origem endógena mas inevitavelmente atuante sobre a linha
biográfica). As vozes vez por outra sugeriram que se matasse, é verdade,
mas, além de raramente terem assim feito, não exerceram nunca
poder de influência suficiente para levá-lo ao ato. Foram muito mais
fruto do adensamento não biográfico de sua vida. Definitivamente,
as tentativas de suicídio não se vinculam às alucinações e nem estas
foram símiles, no sentido de Binswanger, de um mundo suicida.
guilherme messas 199

Porém, afirmando um adensamento não biográfico, incorremos


numa perigosa falta de esclarecimento. Apesar desse adensamento
não ter sido biográfico, foi profundamente humanizado. Com exceção
de alguns ruídos imprecisos e transitórios, a esmagadora maioria das
alucinações trazia a efígie humana estampada. Há, portanto, que se
estabelecer uma diferenciação entre uma humanidade biográfica e
outra não biográfica, para tratarmos com justiça psicopatológica o caso
de Júlio. O território das humanidades não biográficas é vasto, ainda
inexplorado e de difícil partição. Contudo, uma divisão básica aqui nos
basta: a que separa a de Júlio daquela que tem como marca a perda da
estrutura fundamental de ancoragem no mundo, a das esquizofrenias.
Não devemos nos estender largamente nesta, tratada com maestria
por Binswanger, Minkowski em épocas clássicas, ou por Blankenburg
posteriormente. É suficiente para nossa análise a afirmação de que esta
faz perder as relações fundamentais de temporalidade e espacialidade,
preservadas aqui. Na humanidade não biográfica (ou desumanidade,
talvez fosse mais legítimo dizer) esquizofrênica, o humano surge
como máscara de uma alteração profunda, como representante de
uma força e influência que não são aquelas da verdadeira presença
humana. A figura humana delirada é títere de um colapso de mundo
ou no mundo, é uma monstruosidade caricata de uma cicatriz ou
de uma pressão esfaceladora da estrutura biográfica. Como essas
manifestações fenomênicas da estrutura esquizofrênica revelam o
desmantelamento e em seguida o delíquio da temporalidade e da
espacialidade estruturais, resulta que o estado pós-psicose compõe-
se de certo modo dos detritos da estrutura perdida. É como um
mosaico de uma antiga ruína milenar que, desordenado e espalhado
no solo, embora não mais tenha a forma anterior – ou qualquer forma
– permite parcial reconstrução de seus elementos. Por conta disso, na
humanização não biográfica esquizofrênica o humano muitas vezes é
tematicamente biográfico, porém estruturalmente não biográfico, ou
seja, certos conteúdos ou figuras humanas são ou foram efetivamente
presentes na biografia, sem, contudo, manifestarem-se na cadeia de
temporalização normal.
200 psicose e embriaguez

Essa pseudopresença da humanização biográfica é absolutamente


inexistente em Júlio. O paciente é taxativo em dizer que desconhecia
qualquer uma das fontes das vozes ou vultos (em relação a estes, dizia
que o corpo era visível, mas jamais o rosto!). Manifesta-se para Júlio um
humano com as características da coloquialidade espacial humana – e
nisso não é pavoroso –, mas sem nenhuma vinculação com sua história
das relações humanas – e nisso é inusitado. Quem é esse estonteante
humano não biográfico de Júlio? Inusitado e familiar ao mesmo tempo?
A aproximação ao entendimento dessas formulações da psicose
alucinatória de Júlio passa pela recordação de uma das funções
principais da cocaína, a de adensamento, já vista no caso Bernardo e
retomada agora. Mas esse adensamento, por si só, pouco diz a respeito
de uma estrutura de consciência. É a estrutura em si que dirige o efeito do
adensamento; é ela que, tendo uma tendência primordial, definirá como
o adensamento agirá sobre suas forças vetoriais, embora valha lembrar
que o adensamento aja reduzindo a agilidade de qualquer movimento.
Se, do ponto de vista temporal, a estrutura de Júlio prima pelo aspecto
retentivo – e o adensamento facilita a retenção –, do ponto de vista
espacial essa retenção se manifesta como ampliação da participação
da horizontalidade interpessoal. Espacialmente, a estrutura de Júlio
é absolutamente voltada ao mundo humano social, família original,
família nuclear e trabalho, e praticamente nada além disso, nem a
própria introversão distanciadora da realidade humana social. É uma
estrutura, repitamos, tendendo à retração. Entretanto, se temporalmente
retrair é impedir a novidade tanto formal quanto factual, o correlato
espacial dessa vedação da transformação é a exaltação daquilo que
já está consolidado: no caso, as relações habituais acima assinaladas.
Ora, o adensamento de Júlio opera dando maior materialidade a
esse mundo, como que “precipitando” essa atmosfera de exagerada
abertura e doação em relação à interpessoalidade. Ao adensar-se revela
com mais sensorialidade o mundo que habita, a ponto de deformá-lo.
Assim, ao contrário da humanidade não biográfica da esquizofrenia, na
qual há um mascaramento dissoluto da humanidade, trata-se aqui de
uma hiperhumanidade, uma compressão da humanidade em direção
guilherme messas 201

à estrutura da consciência e vice-versa, a ponto de sufocar o humano


na própria humanidade. Sufocação que, lembremos, para manter-se
na esfera da humanidade, precisa preservar a espacialidade nativa da
interpessoalidade. Modifica-se o mundo no sentido de que nada haja
que não seja humanidade, interpessoalidade. As relações humanas
com o outro e consigo mesma são, nada mais óbvio, construídas
profundamente sobre o solo da estrutura de interpessoalidade. No
entanto, essa é uma relação dialética, a qual comporta o desligamento
dessa interpessoalidade, a volta a si mesmo ou ao mundo natural ou
mineral, para que a interpessoalidade possa manter-se fecunda. Na
compressão interpessoal da humanidade de Júlio, o humano é presa
de um excesso de humano, que termina por impedir a construção
do indivíduo. Não por cercá-lo, espreitando-o ou vigiando-o,
condições que, no limite, deturpariam a própria espacialidade básica
da interpessoalidade, mas pela inesgotabilidade de sua presença.
Alucina Júlio por não conseguir se desprender da contínua iluminação
de uma presença ativa do humano. Fenomenologicamente, essa é
uma experiência de superficialidade, de frivolidade absoluta, de
irrelevância do humano individual – sempre ambíguo, afinal –, na
qual entroniza-se imperiosamente o mundo social como único digno
de valor ou mesmo validade. Num mundo em que apenas o humano
social existe, e sempre existe, tudo será marcado por ele, até mesmo as
alterações por adensamento.
No entanto essas considerações não bastam para justificar o
achado (verdade que jamais quaisquer considerações bastarão para
exaurir uma investigação da consciência humana) da ausência de
identidade particular das vozes e vultos. Elas, embora sejam humanas
– hiper-humanas, agora diremos – não se vinculam a um indivíduo
privado, singular. Para alguma elucidação dessa dificuldade, temos
de recorrer à temporalidade. Quando nos encontramos com alguém
conhecido, imediatamente recolhemos esse alguém pela estrutura
trinária da temporalidade. Pela retenção podemos saber que já o
conhecemos, introduzi-lo e fundamentá-lo na nossa zona de conforto;
pela apresentação, o temos diante de nós; e pela protensão podemos
202 psicose e embriaguez

reabrir novas modalidades para registrarmos sua presença diante de


nós. Ou seja, quando encontramos alguém, este historializa-se para
nós. E historializar-se é humanizar-se. Nas aparições esquizofrênicas,
por sua vez, o humano, como agente da dissolução, é servo da pressão
que a estrutura dissolvida produz na consciência; assim, não se trata
mais de temporalização genuína, mas exatamente da impossibilidade
desta revelada nos fantoches – ventríloquos do abismo – dos conteúdos
biográficos.
É diversa a experiência da psicose na toxicomania de Júlio. O
humano que aparece deriva primordialmente da dimensão presente
da experiência vivida. Apresenta-se como humano, mas não se apoia
no passado nem tampouco permite abrir-se para as novas significações
provenientes da protensão. Há um fenômeno de neutralidade, que
age em conjunto com a hiper-humanidade. A neutralidade temporal
própria das toxicomanias – a ênfase no instante absoluto –, que procura
manter a estrutura naquilo que está sendo no momento, empurrado-
se para dentro da matéria de que é feita. Como a psicose de Júlio não
se aproveitou da força retentiva de sua evolução, como já dissemos,
toda sua potência se concentrou na neutralização do presente, ou seja,
no impedimento de sua extensão tanto para trás quanto para frente.
Assim, a estrutura compacta e adensada exagera o presente, mas um
presente específico, o presente das relações interpessoais do mundo
social, aquelas prontas, dadas e acabadas, sem direito a criatividade.
A expressão fenomenológica dessa estrutura de ser e de mundo é a
alucinação humana, mas não biográfica. O humano que surge diante
dos olhos e ouvidos de Júlio é um humano, sim, mas um humano que
não vem de local nenhum e tampouco pode ser incorporado à sua
vida. Nem mesmo por um delírio. A presença alucinatória é vaporosa,
transitória, celebrando um enfeixamento inescapável do tempo
presente da inter-humanidade. E nisso ela lembra o banqueteamento
dionisíaco, no qual as identidades são substituídas pela multiplicidade
anônima, no qual a fusão horizontal com a alteridade despreza a
historicidade desta. Nesse sentido, e apenas nesse sentido, poder-se-
ia aproximar as alucinações de Júlio às máscaras de carnaval (mas
guilherme messas 203

diferentes das aludidas máscaras esquizofrênicas, pois estas ocultam


a aniquilação desértica, ao passo que as carnavalescas pressupõem
um humano integral a ser ocultado), que substituem as identidades
biográficas por aquelas que deverão servir aos prazeres do presente
(embora o anseio de atração e contato que essa substituição possui
contenha muito da histeria). Mas a verdadeira celebração carnavalesca
não inclui a neutralidade: ela é filha direta da fusão com o presente,
como sagazmente ensinado por Bin Kimura. Nesse mundo de Júlio,
no qual a temporalização da interpessoalidade não está aberta para a
novidade, no qual a cocaína não conseguiu abrir um feixe para novas
incorporações biográficas, efetivamente, só resta a retração existencial
para orientar a existência. Não se pode defender uma fratura da
temporalização, pois esta equivaleria a uma psicose esquizofreniforme,
mas tão somente uma elevação da já natural dificuldade de protensão
à custa da exagerada presentificação. Como se uma esfera rolando
para diante com dificuldades, em um terreno ligeiramente acidentado
para cima, ainda encontrasse subitamente uma elevação diante da
qual não pudesse prosseguir – essa elevação é o presente cocaínico –, a
única alternativa existencial restante seria a de retroceder. Retroceder
existencialmente para a retração foi, em Júlio, portanto, facilitada tanto
pela sua natural tendência constitucional e estrutural quanto pelo estilo
alucinatório que essa estrutura permitiu acontecer, já que, de certo
modo, por vezes as psicoses esquizofreniformes ou da esquizofrenia
promovem tal desarranjo na estrutura, levando a vivências tão
pavorosas, que a própria estrutura busca inovações na articulação
com o mundo para reestabelecer-se. Ironicamente, elas ainda têm mais
poder de temporalização que a patologia de Júlio teve.
Apenas nos momentos finais da evolução psicótica de Júlio
esse perfil estrutural conheceu alguma alteração, tomando o rumo da
tipicidade cocaínica. Ao fim de alguns anos de grande acréscimo da
dieta, surgiram comemorativos persecutórios típicos. O surgimento da
paranoia indica uma pontiagudização (no sentido de tornar perfurante,
agudo, pontudo ou pontiagudo) da espacialidade interpessoal,
uma ligeira perda da formatação do colóquio e da distância, com a
204 psicose e embriaguez

consequente aproximação da ameaça, a circunscrição de uma área


de risco de contato direto. Tudo que, ao fim e ao cabo, não deixa de
retratar uma modulação apenas da estrutura de presentificação. Mas a
estrutura de Júlio é resistente a transformações interpessoais e logo se
repôs em sua forma original. A resistência ao novo nas relações e a força
da retração levou-o a várias recaídas na droga e a recrudescimentos
constantes das suas alucinações na formatação que descrevemos.

Considerações sobre as Relações entre a


Psicose e a Retração Primordial

Aqui temos de nos deter em um momento suplementar sobre o


fato de a psicose, diferentemente da angústia depressiva e da culpa,
assim como da fissura, não se relacionar com a retração primordial.
Em outras palavras, parece uma contradição – ou um descuido
lógico – que uma toxicomania originada na retenção primordial e
patrocinadora desta deságue finalmente em uma psicose diversa da
tendência original, embora essa diversidade seja apenas parcial, pois a
psicose desenvolve-se distorcendo o gênero de espacialidade principal
(via materialidade) dessa estrutura individual. Ou seja, a psicose não
respeita a temporalidade estrutural, pois preserva sobretudo a camada
retentiva primordial, crescendo sobre a espacialidade estrutural, o
que culminou inclusive num acréscimo “inovador”123 – apesar de
patológico – da temporalização presente. Essa “inovação” novamente
nos faz lembrar da noção de Binswanger da doença mental como um
experimento da natureza. Esse incômodo contraditório nos exige uma
breve retomada da análise.
Retomar a investigação sobre outra perspectiva parte da crença
– que não deixa de ser uma defesa cética quanto ao excesso de crença –
de que a totalidade do ser não é revelável por inteiro; que para dele se
aproximar há sempre que se manter em atitude de dúvida – a atitude

123 Não devemos nos confundir: inovador é o acréscimo de algo patologicamente


novo. A temporalidade dessa “inovação”, como vimos, não é capaz de inovar a
existência.
guilherme messas 205

fenomenológica é mesmo, como disse Merleau-Ponty, uma dialética


sem síntese – em relação a tudo aquilo que já se sedimentou. Voltemos
a observar a temporalidade da psicose alucinatória de Júlio. Em uma
estrutura devotada à retração primordial, as alucinações denotam
uma hiperpotencialização do presente, enfatizando-o de tal modo
em relação às três dimensões da temporalidade que a constituição do
humano não se consumou, o que fica evidente na incapacidade dos
vultos de figurarem um rosto: são, nesse sentido, a antimáscara. Se
a máscara oculta a personalidade para recolher sua potência sempre
fértil por detrás, se o mascaramento na esquizofrenia faz da máscara
um títere do colapso da existência, a antimáscara das alucinações de
Júlio são o signo da impossibilidade de uma mínima humanização
digna de tornar-se biográfica, apesar de manter a pressuposição de
um humano virtual. Não são, portanto, a potência das profundezas
indeterminadas, mas a impotência da compressão lateral do humano
na sua superfície. Excluir o rosto é simultaneamente não incluir o
profundo; hiper-humanizar é, consequentemente, destituir o humano
da chance de modificar-se a si mesmo, torturá-lo por meio da recusa
da introversão, do encontro com uma face capturante e representante
dos afetos e do espírito. Hiper-humanizar é fazer do humano uma
voz vazia que dialoga, num colóquio não surdo nem cego, mas
mecanizado, desprovido de sentido, uma reprodução maquinal de
uma interpessoalidade tornada neutralidade e anulação.
É essa neutralidade, advinda da desproporção das dimensões
da temporalidade, que contém em si algum paradoxo, pois é uma
neutralidade que, por definição, não desemboca na fusão entre os
polos subjetivo e objetivo, como se vê nas alucinações da paranoia (com
exceção do período final). E paradoxo, para a fenomenologia estrutural,
sempre pode ser uma tentativa da estrutura de compensação. Embora
a neutralidade em nada tenha colaborado para dar vazão ao fluxo
existencial de Júlio, não é impossível identificarmos nela alguma
proteção compensatória contra a retração total absorvente de sua vida.
A neutralidade compensatória – e vale enfatizar que compensatória
não é sinônimo de saudável; pelo contrário, no mais das vezes é apenas
206 psicose e embriaguez

uma cicatriz que indica certa ação da estrutura no sentido contrário


das suas forças fundamentais, visando estritamente a manter-se
viva – atenua ligeiramente, pela via do descolamento relativo das
retenções, o excesso de presença destas, mesmo sendo constituída
pelas mesmas condições das quais não consegue escapar. Como se a
hiper-humanidade da antimáscara fosse, de certa maneira, o modo
de alguém cercado pelo humano histórico aliviar-se ligeiramente
deste. Uma compensação que simultaneamente serve ao excesso de
humanização, mas busca desbiografizar um pouco a vida. Porém isso
vale apenas em determinada região e dentro de limites, pois não inclui
todas as vivências depressivas angustiadas nem tampouco as tentativas
de suicídio ou as raras ordens das vozes. Mostra, por outro lado,
uma certa tolerância amigável de mundo na qual uma humanidade
sem o peso de si mesma pode trazer algum conforto ou alívio (o
outro alívio seria a morte autoimposta). Seja como for – e a hesitação
diante do paradoxo é constituinte do pensamento fenomenológico – a
compensação, se houve, foi demasiadamente ligeira e apenas bastante
para nos revelar alguns dos mistérios da profundidade da estrutura da
consciência-implantada-no-mundo.

Os Sentidos da Embriaguez

O fato de Júlio ter como droga de abuso única a cocaína nos


ensina sobre o sentido de sua embriaguez. A despeito de cada droga
ter um efeito principal, ou uma tendência de efeito principal (ainda
voltaremos a isso), cada estrutura recolhe e modula esse efeito a
partir de sua modalidade de estância no mundo. A tendência de
Júlio de manter-se em retração primordial, ou seja, de avançar na
vida sem perder a ancoragem direta e continuada no lastro de toda
sua história de vida, e de sempre a este retornar, faz do primeiro
sentido da embriaguez a simples manutenção de um hábito. Portanto,
trata-se aqui, acima de tudo, de uma embriaguez por costume, por
associação grupal e adequação a sistemas de valores estabelecidos.
Essa ocorrência justifica a extrema dificuldade do paciente em livrar-se
guilherme messas 207

do hábito, pois, embora entre em conflito consigo mesmo por causa


das perdas provocadas pela dieta, está preso por um conflito maior,
que contempla as suas modalidades valorativas de vida, poderosas
pois pré-conscientes, incluindo até mesmo a força retroativa da fissura.
É a ação sinérgica de uma subcultura e da modalidade com que
esta é incorporada pela estrutura individual que está em jogo nessa
embriaguez desmesurada, e a reconstrução da estrutura passa pela
tomada de atitude reflexiva em relação a essas instâncias; um trabalho
complexo que exige enorme dotação e disposição do espírito. Sem deixar
de ser um ato de captura da vontade livre por uma instância exógena
tornada endógena (voltaremos a isso no exame das causalidades na
hiperestabilidade), essa toxicomania é também um ato de obediência
a essa captura. Obediência restrita e controversa, jamais incondicional,
é verdade, mas que remete a instâncias demasiadamente profundas
do ser para que possa ser, com ligeireza, compreendida apenas em
termos de uma dependência à substância. O caso de Júlio mostra o
quanto emaranhadas podem ser as questões relativas à toxicomania e,
portanto, quão difíceis podem ser suas soluções.
Mas a inserção biográfica do cocainismo não exclui a dimensão
do prazer, embora desenhe seus limites. A cocaína é fonte de prazer, de
bem-estar e elevação do humor, reverberantes sobretudo no campo da
performance social. É de Júlio o relato de que toda vez que se embriagava
seu rendimento melhorava, situando o prazer fabricado pela cocaína
no aprimoramento da capacidade de sentir-se bem trabalhando. O
sentido secundário de sua embriaguez é, portanto, o de acrescentar
mais do mesmo na fundamentação de sua vida, de permitir-se aderir
ainda mais ao papel social. Nesse sentido, ainda pode-se dizer que
o papel social é um fator de menor retração que a força primordial
vertida para a família original. Esse sentido da embriaguez procura
não apenas tornar tolerável mas até mesmo tornar entusiasmante
suas decisões existenciais, reduzindo, pela via da euforia, as frestas
sentimentais pelas quais as dúvidas da existência e de suas decisões
costumam se insinuar. Em outras palavras, esse sentido da embriaguez
procura fixar a existência do modo mais simples possível em uma
208 psicose e embriaguez

forma preponderante, por meio da elevação da sua sensorialidade


material, pois a sensorialidade é, por natureza mesma, mais afeita à
fixação de todos os seus elementos de maneira simultânea do que,
por exemplo, o pensamento. Assim como conseguimos capturar um
quadro num só olhar e jamais conseguiríamos fazer o mesmo com uma
obra filosófica.
A embriaguez nasce do hábito, auxilia na retenção primordial,
mas termina em uma psicose que não mais mantém relação com essa
primordialidade, apesar de a vida permanecer guiada por essa noção.
A embriaguez, enfim, segue a batuta da existência por um largo tempo,
mas abandona-a após um ponto extremo, no qual passa a inviabilizar a
própria natureza da estrutura. Gradual e insidiosamente, a embriaguez
deixa de servir convenientemente aos projetos radicais e pré-reflexivos
da estrutura existencial de Júlio e passa a propor seu próprio projeto
– heterônomo à existência –, do qual a psicose é a expressão mais
visível.
4.
Redução dos Casos Clínicos às
Suas Essências

Na investigação de casos clínicos, a análise fenomenológica


encontra seu apogeu. Nela as particularidades de uma existência
consciente histórica factual podem ser reveladas e sua estrutura
fundamental desvelada a partir da contínua retomada de diversas
janelas de apreciação. A irreprodutibilidade dos achados timbra a
investigação por meio de casos clínicos, já que, a bem dizer, inexiste
uma estrutura de implantação de consciência no mundo idêntica a
outra. Essa tarefa maior da psicopatologia – e também da psicologia
– fenomenológica consiste, portanto, na identificação de estruturas
individuais relativamente estáveis124 e de suas modalidades de
movimentação ao longo do desenvolvimento da existência.
Mas nossa tarefa não pode parar por aí, mesmo já tendo
suplantado, de modo bastante sumário, o primordial para a
aproximação e entendimento de vidas reais. Apresentamos o resumo
longitudinal de seis estruturas biográficas marcadas pela psicose nas
quais a embriaguez representa um papel relevante, que pretendemos
localizar nas correspondentes análises dos sentidos da embriaguez. É
hora pois de executar uma redução fenomenológica nesse material.
Inicialmente, algumas palavras acerca dessa redução.

124 G. Messas, “Observações sobre Estrutura e Materialidade na Psicologia


Fenomenológica”, Psicopatologia Fenomenológica Contemporânea, v.1, p. 181-197.
210 psicose e embriaguez

O objeto total, no caso as biografias, é sempre maior, mais


complexo e polissêmico que o seu produto reduzido. Se, em última
análise, o objeto total existencial inscrito na realidade é o alvo
derradeiro do investigador, seria a sua redução um mero exercício
de diletantismo intelectual, buscando enigmas na realidade dos quais
poderíamos nos privar sem nenhuma perda de grande monta? Do ponto
de vista estritamente estrutural, isso é verdade. Como as estruturas
individuais transbordam as essências que nelas se inscrevem – como
logo veremos – poderíamos, em tese, passar da atitude de investigação
à atitude terapêutica sem a mediação do reconhecimento das essências
correlatas às estruturas privadas. E passar de uma atitude a outra é a
função para a qual se fundou a ciência psicopatológica; a primeira dá
as diretrizes para a segunda.
No entanto, o trajeto epistemológico que teríamos percorrido se
nos limitássemos a essa mudança de atitudes também seria o de uma
redução, embora com características diversas. Se voltarmos os olhos
para o modo pelo qual os casos clínicos foram apresentados, veremos
que passa por uma reiterada redução dos relatos e observações clínicas a
suas condições de possibilidade ora tempo-espaciais, ora interpessoais
ou de sua materialidade, de acordo com as especificidades exigidas
pelas súmulas biográficas, conferindo, olhando-se globalmente, certa
indeterminação a tal redução. Indeterminação situada no fato de
que nunca podemos saber ao certo, a priori, quais as características
estruturais que devem ser reconhecidas como as mais pregnantes em
cada vivência. Há, por assim dizer, um relaxamento na associação
entre a experiência e suas ancoragens estruturais. Em outras
palavras, as reduções que executamos, dos fenômenos vivenciados
às suas condições de possibilidade vividas (estruturais), só podem
ser entendidas como frutos de uma aproximação por tentativas de
um real que, coerentemente com isso, é, por necessidade, fugidio e
escapa irrevogavelmente a uma apreensão integral. Como esse real
apenas se revela por frestas – equivalente a uma antropologia do
inacabado e do interminável –, os resultados da redução às estruturas
fundamentais apenas a posteriori pode ser recolhido e tem como fruto
guilherme messas 211

uma investigação que mantém uma assimetria definitiva em termos do


papel de cada dimensão estrutural – temporalidade, espacialidade etc.
– na totalidade estudada. No fundo, essa é a atmosfera na qual veleja o
psicopatologista fenomenólogo estrutural. Sua modalidade de redução
pode ser chamada de redução a posteriori, redução ao indeterminado
ou, com mais precisão, redução estrutural.
Contudo podemos pensar em outra modalidade de redução, um
passo mais abstrato do que essa primeira e fundamental, que será o
tema desta seção. Devido a seu caráter apriorístico – e, portanto, geral
para a espécie humana – deveremos chamá-la de redução às essências.
Saliente-se que essência aqui não tem relação com o sentido husserliano
de captação de uma realidade por um ego dotado de intencionalidade.
Embora a obra husserliana seja uma gloriosa inspiração deste autor,
sua finalidade epistemológica foge às ambições deste trabalho,
restrito ao empirismo antropológico psicopatológico. Mas retemos da
noção husserliana a ideia de que por meio de uma variabilidade de
apresentações atingimos um núcleo irredutível, sua essência.
Assim sendo, decorre logicamente que as essências aqui
encontradas e investigadas serão diferentes das estruturas, identificadas
estas com a individualidade. As essências são a priori gerais das
vivências da espécie humana para determinadas condições da
existência ou, para procurar circunscrever o mesmo com outras palavras,
iluminando-lhe outras facetas, são modalidades antropológicas
de inserção, permanência, estofo, adesão ou fundamentação da
consciência na sua implantação mundana, que permitem que se erijam
modificações estruturais de caráter individual e irreprodutíveis. As
essências são, por assim dizer, universais antropológicos encarnados
que, ao identificar centripetamente as consciências individuais entre
si, permitem – por conferir sua marca humanizada – a diferenciação
pessoal, sempre centrífuga. Essa característica das essências que aqui
investigaremos faz delas um objeto de conhecimento geral, ou seja,
diferentemente das estruturas individuais, que permanecem sempre
além da cognoscibilidade completa, conduzem o investigador a um
estado de apreensão total de seu objeto de estudo.
212 psicose e embriaguez

É sobre essa última particularidade que podemos justificar a


validade da passagem redutora dos casos a suas essências. Teremos
de ser aqui aristotélicos. Se, do ponto de vista estritamente estrutural,
do humano individual inefável, a passagem redutora às essências
apriorísticas não parece ser necessária, do ponto de vista da constituição
da ciência psicopatológica ela é imprescindível, já que toda ciência é
um reconhecimento de universais gerais, frisando com cores fortes que
universais aqui se entendem como formas antropológicas encarnadas,
instanciadas nas realidades das estruturas existentes. A psicopatologia
deve procurar por seus universais a priori toda vez que pretender
identificar, classificar e compreender estados patológicos, assim como
a patologia somática o faz na catalogação das doenças somáticas,
mesmo havendo uma distância ontológica entre as duas situações.
Existe por vezes em nossa cultura um injustificado preconceito
contra as tipificações em psicopatologia. Toda ciência pisa sobre
os tijolos das categorias estáveis para avançar no pântano do real.
Tipificar é reconhecer a segurança das essências e com isso preparar-
se para os saltos mais arriscados no interior das individualidades
(salto que tampouco abandona as tipificações categoriais, embora as
empregue com mais indeterminação, como há pouco mencionamos
e construímos nos seis casos). Renegar essa tipificação é recusar a si
mesmo a possibilidade de fazer conhecimento científico em nome
de uma particularização que, no final das contas, não deixa de pecar
pelos mesmos defeitos repudiados, defendidos apenas por uma
ilusória irreflexão. A atenção do pesquisador deve, é bem verdade,
requisitar um freio para as próprias pretensões toda vez que trafega
por meio de essências, já que não pode se confortar em demasia com
sua determinação. E tampouco pode usar sua determinação para
desqualificar tudo aquilo que não cabe na tipificação essencial como
ruído indesejável, deixando de fora exatamente o que é particular e,
portanto, alvo supremo de seu esforço pragmático clínico.
Entretanto, a psicopatologia deve iniciar a investigação
procurando as essências como um primeiro ponto de parada obrigatório,
uma boia iluminada segura antes da imersão insegura nas sombras do
guilherme messas 213

real. E, definitivamente, fazer isso é executar ciência psicológica ou


psicopatológica empírica de primeira. Mas essa última sentença parece
chocar-se com a estratégia metodológica realizada neste estudo. Como
defender que o psicopatologista deva procurar em primeiro lugar as
essências para depois percutir as estruturas se não fizemos assim, se
partimos das estruturas para apenas agora reduzi-las às essências? Não
seria um contrassenso? Justifiquemo-nos. O fato das essências existirem
universalmente – aprioristicamente – nas estruturas antropológicas
individuais não nos exime de demonstrá-las empiricamente de acordo
com seu estatuto ontológico secundário, ou seja, fazer a sua revelação
sem deixar de levar em consideração o fato de que são “menores” ou
“mais abstratas” do que as estruturas nas quais vivem. Essa ligeira
desvalia das essências em relação às estruturas define vigorosamente
a utilização delas na ciência psicopatológica. Têm uma função
antropológica acessória (embora imprescindível) e, portanto, devem ser
apresentadas – ou reduzidas – em segundo lugar. Mas têm uma função
heurística primordial – caso sejam essências fecundamente identificas
no real – e, portanto, podem servir como ponto inicial de parada da
investigação cotidiana. Assim como num teorema matemático, a
fórmula geral que podemos empregar para a tradução de um certo
setor da realidade natural ou formal só recebe sentido e validação se for
extraída de uma demonstração toda amarrada passo a passo nas escoras
do real matemático. O grande risco das essências na psicopatologia
– e nisso os críticos da tipificação estão certos – é a sua constituição
ou identificação de maneira açodada, recortando e estabilizando
zonas antropológicas irrelevantes para o acesso à estrutura e cegando
o acesso a esta. Assim, já podemos enunciar o padrão-ouro para a
constituição de uma essência psicopatológica: toda essência será válida
e poderá ser dita genuína e fecunda apenas e tão somente se abrir
caminho dialeticamente para sua supressão na corrente biográfica da
estrutura individual de cada consciência-implantada-no-mundo. A
essência da essência, do ponto de vista histórico, é a sua supressão
dialética, pelos motivos que examinaremos na próxima seção. Uma
psicopatologia satisfeita com a identificação das essências seguras e
214 psicose e embriaguez

de suas leis gerais é uma ciência morta. A prática psicopatológica é


espiral, indo das essências fixas até as estruturas parcialmente móveis
e destas retornando, num nível superior às essências, passando pelas
alternâncias entre as essências; apenas por um rigor demonstrativo
iniciamos pela complexidade para terminarmos na certeza. Por fim,
vale lembrar que essa espiral é extremamente complexa e não se limita
ao entendimento isolado das essências que aqui desenharemos. Toda
estrutura individual – sobretudo no âmbito de estudos das psicoses, na
embriaguez esse conhecimento ganha importância – apresenta, em sua
instalação biográfica, mais de uma essência, seja em regime de sucessão
seja em regime hierarquizado de importância, no qual pode haver uma
simultaneidade de aparições de essências. Procederemos inicialmente à
apresentação das essências de modo isolado, pois apenas desse modo é
permitida a melhor visualização de cada uma: toda essência é, em si, pura
e delimitada em relação à outra. A seguir, examinaremos como podem
se dar a sucessão das essências assim como a composição hierarquizada
de mais de uma essência e seus significados psicopatológicos. No
primeiro exame das essências, realizado neste capítulo quatro – no qual
elas se evidenciam ao máximo –, podemos dizer serem elas ahistóricas,
já que, embora sejam modalidades de permanência da temporalização,
o olhar está voltado para seu estilo de permanência. No segundo exame,
efetuado no capítulo cinco, por sua vez, ao progredirem as essências
pela sucessão ou articulação, o pano de fundo já é a historicidade, não
das essências, mas das estruturas individuais. Por isso, nesta segunda
análise, voltaremos a nos apoiar na apresentação de casos clínicos: todo
estudo da historicidade, para não sufocar nas alturas da abstração, deve
requerer seu fôlego último na oxigenação das individualidades.

A Essência Geral da Embriaguez em suas Relações Imanentes


com as Essências Antropológicas Típicas e Transcendentes
com as Estruturas Individuais

Na primeira parte deste estudo já havíamos de certa forma


executado uma redução a priori, saltando pela etapa das descrições
guilherme messas 215

empíricas, quando dissemos ser a embriaguez em essência uma


tendência à atemporalização súbita fixada em diversas modalidades
de espacialização. Fazendo isso, no entanto, nos recusamos a tomar a
identificação dessa essência como ponto final de nossas investigações.
E isso não apenas pela excessiva generalização (como todos sabemos
que as embriaguezes, tanto as agudas quanto as crônicas, promovem
uma miríade de estados de consciência, não se poderia considerar
como científica uma proposta tão geral) como também pela falta
de atenção para com as tão importantes diversidades regionais.
Mesmo concedendo-nos hipoteticamente a ideia de que já tivéssemos
encontrado a definição essencial mais correta, definitiva e profunda,
não poderíamos sequer repousar por um átimo na satisfação do
conhecimento.
O motivo principal para essa recusa foi exatamente a
impossibilidade, no interior de nossa proposta essencial (e sobre a
qual não tínhamos então ainda condições de refletir), da supressão
dialética dessa essência. Uma vez determinada tal essência a partir
da representação mnemônica das diversas embriaguezes observadas
ou mesmo diretamente vivenciadas, esta surgiu como um fato quase
abstrato, pois definitivo, determinado e incapaz de ser subsumido e
dissolvido em uma estrutura totalizante, já que estas são individuais.
Uma essência que não pode ser tragada por uma estrutura, já dissemos,
é uma quase abstração inicial, uma simples tomada de posição para o
início de uma investigação dialética.
Para corrigirmos esse importante e insolúvel defeito de exposição
– embora constituinte da experiência humana – tivemos a necessidade
de recorrer às seis estruturas individuais apresentadas. Mas restou
uma lacuna a ser preenchida, que fizesse a ponte entre a essência
presumida e suas instanciações existenciais. Propondo uma definição
essencial para a embriaguez, chegamos a uma forma fixa e estável,
determinável em sua descrição por meio de uma sentença linguística,
mas solta no ar. Examinando os seis casos clínicos, chegamos a seis
formas particulares de atuação da embriaguez, sem nenhuma alusão
sólida a seus pontos fixos antropológicos gerais. Fizemos então uma
216 psicose e embriaguez

análise estrutural. Ficamos assim um pouco coxos. De um lado, uma


generalidade sem âncora real explicitada e de outro uma realidade
última individual sem os compartilhamentos dados pelos apoios
comuns do geral. Das duas imperfeições, a primeira é mais grave e
incorreria em invalidação de todo o argumento, pois, na verdade,
inexiste uma essência que não tenha uma relação imanente com a
estrutura na qual ocorre. Toda essência, por essa sua característica
imanente, nada mais pode ser do que um estilo de permanência
antropológica geral ínsita a uma estrutura que, por sua vez, também
é uma tendência a certa permanência temporária irreprodutível.
Reversamente, voltando os olhos para o estudo da estrutura, podemos
dizer que esta tem a essência como que em estado de transcendência,
já que tal essência é um estilo de permanência que, embora geral à
antropologia, não é interna a seu estilo próprio de desdobramento: o
indivíduo é um desenho único entalhado por meio de formas gerais125.
Examinar a essência é reconhecê-la empiricamente um tanto
borrada em seus limites pelas linhas de tração provocadas pelas
forças em parte móveis da estrutura e, consequentemente, sempre
a identificação de uma essência é um formalismo límpido irreal (ou
real estritamente como objeto da pura intencionalidade) em um real a
ela opaco. Entretanto, essa operação de busca capitaneada pela pura
intencionalidade, depurando as essências da sua realidade efetiva, é
capaz de identificar intuitivamente objetos essenciais com suficiente
autonomia epistemológica.
Contudo, o que nos interessará nesta seção do estudo não será
o reconhecimento das relações da essência típica embriaguez com a
estrutura individual, mas as relações de essências típicas entre si.
Será esse gênero de exame a permitir o avanço do entendimento geral

125 Não se deve confundir essas tendências com a própria embriaguez, já que
essa culmina na sua extinção e no enrijecimento da temporalidade de toda a
existência, ao passo que as tendências da essência e da estrutura são de natureza
construtiva, desaparecendo apenas na sua passagem a um nível superior,
no qual há uma nova tendência, e assim por diante. Além disso, as essências
antropológicas gerais, diferentemente da embriaguez, articulam uma relação
endógena da estrutura com o mundo, consigo mesmo e com a alteridade.
guilherme messas 217

sobre as psicoses na embriaguez. Nomeadamente, nos interessará a


ligação da embriaguez com essências típicas gerais antropológicas,
ou seja, examinaremos as modalidades e consequências do estilo
de fixação atemporalizante da embriaguez agindo sobre um estilo
de permanência dado pelas essências típicas. Dado serem ambas
essências, as relações entre elas é do gênero imanente. Pelas mesmas
razões, vale lembrar, residem transcendentalmente em uma estrutura
individualizada parcialmente móvel que, por isso, tende a abandonar
tais estilos de permanência.
Ora, se o centro nervoso de nosso estudo é a temporalidade,
tais essências típicas deverão ser determinadas pela temporalidade:
serão, portanto, estilos de permanência da constituição trinária da
temporalidade que dão o arcabouço geral para que se desdobre a
temporalidade íntima contínua da biografia. É necessário apresentar
como essas essências antropológicas, ou seja, esses estilos de
permanência, se manifestam na realidade psicológica existencial.
São três modos: como época da vida, como personalidade ou como
patologia. É evidente que o significado de cada um deles varia para
a economia e na arquitetônica global da estrutura da consciência.
Entretanto, o exame a respeito das consequências dessa variabilidade
poderá apenas ser objeto de outro trabalho. Vejamos brevemente cada
um deles:

1. A época da vida e a heterogeneidade da


temporalidade longitudinal

Essa modalidade de entendimento é de longe a mais abrangente


para a compreensão dos fatos que nos interessam e, por isso, receberá
uma descrição mais atenta. Com ela se revela uma característica
medular da temporalidade das existências no mundo: a sua
heterogeneidade. Para sua elucidação, não basta minudenciarmos a
constituição da temporalidade da consciência, como fez definitivamente
Husserl em sua “Fenomenologia da Consciência Íntima do Tempo
(Phänomenologie des inneren Zeitbewusstseins) (2007), já que ali se
218 psicose e embriaguez

examinam as declinações da temporalidade em uma consciência geral,


transversal, quase absoluta, a-histórica, embora supostamente adulta,
em um indeterminado e qualquer momento da vida. O registro que
devemos salientar é que essa consciência geral assentada no mundo é
constituída por sínteses passivas temporais diversas de acordo com
a época126 da vida em que se encontra. Ou seja, que as dimensões
protentivas, apresentativas e retentivas da consciência, assim como o
trânsito entre elas, têm presença ponderal diversa em cada momento
biográfico, determinando certos estilos de época biográfica.
Uma breve passagem pela literatura fenomenológica aqui
é instrutiva. Já Minkowski, em tempos clássicos, introduziu
preliminarmente, em seu Le Temps vécu, algumas reflexões sobre a
temporalidade de acordo com as idades da vida; atenção retomada no
seu ensaio Vers une cosmologie, no qual reflete sobre o envelhecimento.
Mas é Charbonneau, na obra acima citada, que melhor desenvolve
essa corrente de preocupações, distribuindo a heterogeneidade da
temporalidade longitudinal da existência em uma época auroreal
e em outra vesperal. Na primeira, a consciência identifica o mundo
como polo de aberturas, de frescor, de incorporações aventureiras e
de inacabamento de cada vivência em si mesma e na totalidade da
experiência. Na temporalidade da época vesperal, as experiências
surgem como preenchimento, aglutinação e repetição, como
esgotamento, enfim, do sentido que as tinha propulsionado até então.
Cada época possui sua relação interna entre passado, presente e futuro,
e várias patologias são visadas por esse autor a partir dessa brilhante
leitura historial.
Aqui já temos um primeiro vislumbre de que as essências
das origens das psicoses a serem determinadas se constituirão da
confluência das duas forças capitais que vêm nos interessando – a
temporalidade da essência antropológica típica e a temporalidade

126 A noção de época é tratada exatamente nesse sentido, por Charbonnaeu, de


um período da vida com um perfil estável mas esgotável e substituível de
temporalidade. Ver G. Charbonnaeu, Introduction à la psychopathologie
phénoménologique, tome II, p. 154.
guilherme messas 219

da embriaguez, apreciadas em seu âmago como a confluência de


uma essência fixa sobre uma época típica de permanência da
temporalidade heterogênea longitudinal. Um exemplo geral nos
auxiliaria a melhor explicar essa ideia. Para um homem de 45 anos
o mundo é diferente do que é para um jovem de 20. Aquele já tem,
em condições normais, arraigada suas preferências no mundo e suas
identidades mais expressivas, como a profissional ou familiar. Embora
no seu desenvolvimento saudável esteja aberto à incorporação das
novidades que aperfeiçoem a vida, e que provêm da dimensão do
futuro, ou seja, da representação imaginária dada em continuidade
com a atualidade presente da vida, essas incorporações passam
por uma espécie de triagem rigorosa. A consciência já solidamente
assentada no mundo abre-se diferencialmente para o tempo futuro,
deste recolhendo apenas alguns elementos relacionados com os seus
projetos fundantes e, o que é mais importante, essas incorporações se
dão de modo mais vagaroso do que na idade jovem, ou seja, levam
mais tempo para atingir o centro presente da consciência; ou, quando
o fazem, têm uma valência de mobilização e transformação menor
– são menos capazes de mobilizar toda a consciência, de modificar
as suas proporções habituais. Em termos estruturais, refletindo
sobre o arcabouço temporal disso, podemos dizer que a estrutura
da consciência adulta tem um assentamento presente muito sólido,
ampliado e estável, e as transições de objetos afetivos, representativos
e valorativos provenientes dos futuros para o presente se dão de
maneira lenta e fraca.
Dissemos acima “dos futuros” propositalmente no plural para
podermos estabelecer uma distinção que nos interessa. O futuro
distante – aquele dos valores éticos de Minkowski –, que é um fio
invisível norteador de toda a temporalidade, na realidade torna-se mais
cristalino e relevante na maturidade, pois a consciência por ele guia-se
e dessa guia pouco se distancia nos caminhos da vida. Assim, pode-
se dizer que os elementos acolhidos e triados por esse futuro distante
(que, por sua vez, atua em indispensável sinergia equilibrante com a
espessura presente) são os que se incorporam à consciência presente
220 psicose e embriaguez

e, consequentemente, ocorre um maior apartamento dos conteúdos


futuros não enquadrados por essa direcionalidade final da existência.
Na realidade, nessa época existencial a consciência estabiliza-se muito,
tanto pela projeção das raízes retentivas, calcadas na densificação por
sedimentação das identidades históricas, quanto protentivas, pois o
presente tende a dissolver-se nas linhas do futuro distante com o qual
se sente implicado, importando e assimilando a potente estabilidade
temporal deste. A consciência adulta madura perdura acima de
tudo na sua forma temporal majoritária, devido às plásticas pontes
articulatórias das dimensões da temporalidade. Frente aos eventuais
golpes sobre a consciência presente, a riqueza de possibilidades de
articulação faz com as vibrações nocivas se dissipem sobre o tecido
tornado complacente das dimensões do tempo.
Projetando essas observações sobre nosso campo de interesse,
veremos que a embriaguez, como atemporalização e instantaneização
da consciência, ou seja, paralisação e estreitamento da temporalidade,
é débil como desestabilizadora da existência madura, em condições
saudáveis. A embriaguez normal desse período pode servir como um
ligeiro descanso na longa rota tomada; um pequeno alívio irrelevante
para a execução do caminho. Alternativamente, a embriaguez pode
funcionar como enfatizador de momentos da trajetória, dando mais
cores a determinados fatos ou ocasiões para destacá-los da correnteza
do cotidiano. Seja como for, no adulto saudável a embriaguez é onda
dissolvendo-se na praia, fortuita diversão fadada ao oblívio, pois
enormemente dissonante em relação à temporalidade reinante.
É notoriamente outra a situação do jovem – também normal
– de 20 anos de idade. Neste, o plano temporal presente é menos
estável, necessitando portanto mais de apoios nas retenções ou, como
é mais habitual, já que essas igualmente estão sendo muito reduzidas
nessa época, de reforço na interpessoalidade presente coletiva. Esse
acréscimo da relevância da interpessoalidade coletiva mostra como
a dimensão presente da futuração é frágil no período, e o quanto
necessita de apoios “laterais” para se sustentar. Isso ocorre exatamente
porque nessa época a consciência necessita preencher-se, explorar
guilherme messas 221

aspirativamente o terreno aberto à sua frente para dar carne e textura


às suas formas inatas vocacionais. Essa relação de aspiração do futuro
enfatiza a porção proximal do futuro, seu curto prazo, já que é natural
que o futuro de longo prazo apenas surja a partir de certo nível de
“alimentação” direta do curto prazo. A forma temporal desse jovem
será de muita abertura, de muita incorporação, de muito brilho nas
suas vivências, de extrema intrusão dessas no âmago de sua vida
e, inevitavelmente, de grande poder de instabilização do presente
pelas enormes janelas abertas ao futuro imediato. Nessa atmosfera
existencial, a embriaguez pode ser quase uma bênção, um instrumento
de afinação completa com o ritmo turbulento de toda a existência. Para
uma temporalidade aberta e sequiosa de instabilidade, a instabilidade
volátil da embriaguez é alternativa sempre à mão, não apenas para
um ligeiro desvio de rota, mas para funções por vezes muito centrais
de equilíbrio da economia da estrutura da consciência, como veremos.
Contudo, esses são exemplos preliminares, destinados apenas
a apresentar a ideia de heterogeneidade temporal; as ideias neles
contidas serão retomadas adiante sob uma perspectiva fenomenológica
mais detalhada. Embora essa retomada aparente alguma repetição, é
fundamental sublinhar que uma repetição temática, quando iluminada
sob outra perspectiva é, na realidade, uma nova revelação do mesmo
tema, o que jamais pode ser negligenciado pelo fenomenólogo.

2. A personalidade

Sem a exclusão completa do que acabamos de examinar, pode-


se dar que uma determinada personalidade tenha tal pregnância de
uma essência antropológica típica que grande parte de sua existência
– se não toda ela – seja marcada por esse estilo de permanência,
fazendo com que tal estilo “sufoque” a manifestação das épocas da
vida, de modo que a resultante do desenvolvimento biográfico seja
marcada pela essência imperante e não pelas épocas da vida e suas
variantes de essências antropológicas. Imaginemos, por exemplo,
uma personalidade acentuadamente hipertímica. Nesta, um estilo
222 psicose e embriaguez

de futuração pode ser imutável ao longo da vida, corroendo as


mencionadas diferenças ou deixando-as em plano de irrelevância.
Nessa acepção, a estrutura individual é demasiadamente marcada por
uma tipicidade, embora jamais se reduza a ela.
Inversamente, a personalidade pode também acentuar a presença
e as manifestações de uma essência típica proposta pela época da vida,
de modo tal que a essência atinja um máximo de visibilidade e “pureza”,
embora à custa de gerar dificuldades para as transições das essências.
Por exemplo, uma personalidade histriônica marca-se, do ponto de vista
temporal, pela exagerada afetação para com as influências do presente,
tornando-se friável demais devido a essa influenciabilidade. Em uma
época da vida de maior instabilidade – como veremos ao examinar a
essência típica desequilíbrio –, na qual também pode haver elevação da
mobilidade da estrutura da consciência, multiplicam-se os efeitos dessa
influenciabilidade, tornando tal personalidade ainda mais definida
pelo histrionismo. Acrescente-se agora que a embriaguez pode atuar
no mesmo sentido, elevando à terceira potência essas características e,
por excesso de vulnerabilidade, praticamente anulando a plasticidade
dessa vida individual.

3. As patologias

Psicopatologias podem inserir essências antropológicas rígidas


como corpo estranho na textura da estrutura individual, transformando-
as parcial ou completamente, de acordo com a potência da invasão.
Essa modalidade de aparição de essências foi profundamente estudada
por Binswanger nas suas “Três Formas de Existência Malograda”
(Drei formen misglückten Daseins), onde se vê como a esquizofrenia
é, por exemplo, a captura da existência por certas formas essenciais,
como a extravagância ou a excentricidade. Remetemos a esse estudo
clássico para maior detalhamento sobre essas circunstâncias, retendo
por hora apenas a noção de que essa modalidade é importante para
o entendimento evolutivo das psicoses nas embriaguezes, como será
desenvolvido.
guilherme messas 223

A Noção de Origem das Psicoses

Para o entendimento mais aprofundado das relações de conexão


responsáveis pela emergência das psicoses nas embriaguezes, faz-
se necessária uma reflexão terminológica. Desde Karl Jaspers se
convencionou uma distinção dual entre tipos de conexões que, mesmo
controversa e tornada complexa127, segue válida em suas linhas
gerais. Todas as relações de conexão regidas pelos sentidos internos
de uma vida consciente e sua totalidade são relações compreensíveis
ou de motivação; todas as relações regidas pelas leis naturais ou
psicológicas externas aos sentidos engendradores da totalidade da
vida consciente são caracterizadas pelo termo “causais” e são, por
natureza, incompreensíveis. Os fenômenos conscientes na tradição
psicopatológica têm, portanto, uma causa – exógena – ou uma
motivação – endógena –, que são compreensíveis ou incompreensíveis,
de acordo com os critérios acima128. Mesmo uma obra dedicada à
superação decisiva do dualismo ontológico como a de Binswanger não
abandonou, a rigor, essa diferenciação, a despeito de ampliar a zona de
compreensividade por meio de suas análises fenomenológicas.
Esses conceitos, já pacificados na psicopatologia geral, contudo,
não parecem dar conta de toda a complexidade da existência
consciente. Como defendemos em no ensaio “A Noção de Estrutura
na Psicopatologia/Psicologia Fenomenológica – Uma Perspectiva
Epistemológica”, a psicopatologia fenomenológica pode partir de
premissas diversas em termos da constituição temporal de sua tomada
de perspectiva. A perspectiva essencialista circunscreve os objetos
conscientes individuais a partir seja de uma estrutura unitária seja,

127 Cf. F. Alonso-Fernández, “Proceso y Desarollo”, in: Fundamentos de la


Psiquiatría Actual. Tomo I. Psiquiatría General.
128 É extremamente importante assinalar aqui que o modo como associamos causal
a exógeno e compreensível a endógeno não se sustenta na tradição jasperiana.
Para esta, a endogeneidade não se assimila à compreensividade, sendo esta
última entendida de um modo bastante amplo e pouco rigoroso. A acepção que
seguimos está dada com rigor na obra La Mélancolie, de Tellenbach, na qual se
mostra como o campo da endogeneidade é o construtor da compreensividade.
224 psicose e embriaguez

como nos casos clínicos de Binswanger, de uma noção de estrutura


fortemente estável. Em outras palavras, grande parte da psicopatologia
fenomenológica procura observar estruturas individuais naquilo
que estas têm de estáveis ao longo da vida ou, quando registram
mutações, as fazem apenas retratando as perdas graduais ou bruscas
proporcionadas pelas patologias. O que queremos dizer com isso é
que a heterogeneidade temporal do desenvolvimento não é colocada
no centro da mira nesses estudos, a maioria da fértil produção em
fenomenologia. Para essa categoria de estudos, a dupla noção de causa-
motivo parece bastar, sem prejuízo das imensas indeterminações que
seu emprego encerra.
Na vertente fenomenológica que persegue as estruturas como
estabilidade dialética, abordagem realizada no ensaio ao qual nos
referimos logo acima, a atenção do pesquisador volta-se para o
movimento dessa estrutura para a frente ao longo da vida ou de períodos
dela. Nessa vertente, embora haja um tratamento primordialmente
voltado à heterogeneidade temporal, as relações de conexão não
receberam esforço reflexivo suficiente, talvez exatamente porque os
ímpetos endógenos do ser – sempre misteriosos – sejam a propulsão
fundamental do terreno do desenvolvimento normal e não tenham
levado os pesquisadores a pensar com minúcia a complexidade da
participação de outras instâncias.
O termo que queremos aqui introduzir é totalmente tributário
da tradição fenomenológica e de suas modalidades de mundivisão,
embora tenha ficado em estado larvar. E talvez essa forma apenas
potencial tenha a ver com a escassez de estudos sobre as psicoses nas
embriaguezes, nas quais ele seria imprescindível, dado que o tema
da embriaguez situa como central uma reflexão acerca das relações
de conexão. Trata-se do que chamaremos de relação de conexão
do tipo “origem”129. Sua melhor definição se faz a partir do diálogo
com as definições pacificadas pelo uso. Se a relação de causalidade

129 A diferenciação da noção de origem, tal qual a utilizaremos, das outras relações
de conexões nas patologias ligadas à embriaguez tem um antecedente, ainda que
utilizado en passant em E, Bleuler; R.M. Hess, Lehrbuch der Psychiatrie, p. 135.
guilherme messas 225

indica uma conexão externa aos sentidos da consciência e regida por


leis mecânicas ou dinâmicas independentes, todo ato de embriaguez
possui, em potência, um fator causal-exógeno. Mas, da mesma forma
como a essência sobre a estrutura jamais atua de maneira ideal, pois é
modificada em sua instanciação estrutural, a causalidade também em
sua atuação é modificada pelas forças atuantes no enquadre da estrutura
individual da consciência-implantada-no-mundo. É exatamente por
isso que não existe um efeito geral para cada embriagante, indistinto
em todos os sujeitos e definido pela tipicidade da substância. Embora
haja tendências de efeitos130 – o álcool tende ao riso ou agressividade,
a cocaína tende à euforia, a cannabis tende ao relaxamento, e assim
por diante –, nada podemos afirmar de preciso para além disso,
e jamais poderemos, dada a multiplicidade tanto de estruturas
individuais quanto das heterogeneidades de suas temporalidades. A
rigor, portanto, uma relação de conexão causal-exógena pura jamais é
verificada integralmente durante um ato de embriaguez. Ela é sempre
mediada pela estrutura e, consequentemente, a noção de causalidade,
se levada no rigor de exigência de uma mecanicidade previsível, é
uma abstração falaciosa. No entanto, as evidências epidemiológicas
e clínicas apresentadas mostram com convicção a conexão entre as
embriaguezes e as psicoses.
De modo mais fraco, podemos dizer haver uma relação de
motivação-endógena também ligando cada ato de embriaguez com
seu estado de consciência. Toda alteração embriagante emergente na
consciência recebe uma dotação de sentido, é acolhida de maneira
subjugada à estrutura primordial de valores e sentidos dessa existência
singular. Todos sabemos que, numa situação na qual a embriaguez
é absolutamente inconveniente, o indivíduo é capaz de controlar
parcialmente muitos dos mesmos efeitos que seriam exaltados em uma
atividade convival. Podem ser essas relações de motivação que, por
exemplo, auxiliam na manutenção do canabinismo mesmo na vigência

130 Cf. G. Charbonneau, “Approche anthropologique des élations et des ivresses.


A l´exemple des ivresses alcooliques et cannabiques”, in Phénoménologie des
sentiments corporels. Tome 3.
226 psicose e embriaguez

de uma esquizofrenia que terminam por agravar. O valor “recuo


em relação à solidez do mundo, com preferência pela suspensão no
imaginário” poderia ser motivo bastante para justificar essa situação.
Mas em ambas relações de conexão o momento da temporalidade
heterogênea longitudinal131, no qual se encontra a estrutura, não é
levado em consideração. Em ambas, inelutavelmente, a estrutura é
tomada em seu valor essencialista, ou seja, em seu estado permanente.
Imobilidade concedida por uma licença didática, é verdade, a permitir
que as teses psicopatológicas possam ser demonstradas, assim como
na física algumas condições ideais são alegadas para o exame de
diversas relações passíveis de colocação em fórmula gerais. A noção de
origem pretende exatamente reduzir ao mínimo possível essa alegação
de idealidade. A noção de origem pretende fazer coalescer em uma
unidade todas as modalidades de relação de conexão, ou seja, em
termos descritivos epistemológicos, pretende tomar uma perspectiva
na qual se veja o estilo essencial prevalente da heterogeneidade
da movimentação da estrutura e as ações causais-exógenas e
motivacionais-endógenas sobre ele atuantes. A origem de uma psicose
é, portanto, empiricamente falando, o ponto específico – finalmente,
o kairos grego! – no qual um determinado estilo de permanência da
temporalidade heterogênea longitudinal torna-se vulnerável às ações
sobretudo causais impingidas pela dieta embriagante.
Embora o acréscimo que segue pode potencializar a complexidade
do avanço biográfico a níveis intangíveis pela ciência psicopatológica,
vale lembrar que faz parte da heterogeneidade longitudinal também
o estado momentâneo imediatamente anterior ao atual e que este,
por sua vez, é a soma dos acréscimos camada a camada dos estados
momentâneos anteriores, de modo que cada heterogeneidade
longitudinal é marcada de maneira diversa pelos estados momentâneos
anteriores e sua sedimentação, constituindo uma singularidade pessoal.

131 É importante estabelecer uma distinção entre a concepção longitudinal da


temporalidade heterogênea, i.e, relativa ao desenvolvimento biográfico, e a sua
vertente transversal, ou seja, relativa ao todo instantâneo da consciência. Essa
separação se fará mais relevante e evidente com o decorrer da exposição.
guilherme messas 227

Por exemplo, uma determinada biografia pode estar, mesmo na idade


adulta, bastante determinada por sedimentações efetivadas na vida
infantil e adolescente, ao passo que para outras apenas a sedimentação
dos últimos tempos apresenta valência maior.

As Essências Típicas Vinculadas às Psicoses

De maneira geral, vimos como é possível a determinação de uma


essência geral para a embriaguez. Defendemos, logo a seguir, que essa
essência acaba por empiricamente ter suas bordas de reconhecimento
obscurecidas pela inevitável atualização nas realidades empíricas de
cada indivíduo. E mais, temos como óbvios os fatos de que a essência
da embriaguez não apenas se desvincula de uma necessária nocividade
como também, na infinita maioria dos casos, não tem nenhuma
vinculação com qualquer psicose. Portanto, a ideia geral de essência da
embriaguez, por mais fértil que pudesse ter sido para nós àquela altura
do argumento, figurou apenas como introdução ao tema. Intentando
uma efetiva abordagem do real humano, examinamos seis casos, nos
quais já pudemos ver como a essência da embriaguez assumiu sentidos
específicos para as existências e como estas desaguaram nas psicoses.
A seguir, introduzimos a ideia de que essências gerais típicas da
existência humana permitem o reconhecimento científico de formas de
permanência sobre as quais a essência da embriaguez age. É hora de
examinar com detalhes por que caminhos a ação geral da embriaguez
sobre as essências típicas favorece as tão diversas entre si eclosões
psicóticas, levando em consideração tudo o que acabamos de afirmar
sobre a heterogeneidade da temporalidade. A reflexão por meio de
reduções – sempre fundamentadas na materialidade dos casos clínicos
– encontra três essências típicas a serem descritas como especialmente
ligadas às psicoses na embriaguez. Já de largada vale relembrar – o
que ficará evidente com o decorrer da exposição – que as essências
típicas não são excludentes entre si dentro de cada biografia particular,
ou seja, uma mesma existência pode atualizar mais de uma essência
ao longo do tempo ou, em certas condições patológicas específicas,
228 psicose e embriaguez

simultaneamente, em relação hierarquizada. Em consequência disso, a


relação entre uma essência típica e a psicose empiricamente constatada
não é dada de antemão de maneira linear, exigindo do examinador
atenção para o entrelaçamento dos movimentos entre essências
típicas e embriaguez sobre o tempo biográfico. Será exatamente esse
entrelaçamento um dos possíveis responsáveis pela ausência de
regularidade dos achados da literatura sobre psicose e embriagantes.
Por exemplo, não é impossível que, para um mesmo indivíduo, em
certo momento da vida a psicose tenha se originado a partir de uma
certa essência e, em outro momento, uma outra a partir de uma outra,
fazendo com que a manifestação clínica seja diversa e instável132 (Whitty
et al., 2005). Mas voltaremos a isso. Façamos agora a descrição das três
essências típicas pelas quais a embriaguez envolve-se na biografia a
ponto de levá-la a uma psicose: o esgotamento, o desequilíbrio e a
hiperestabilidade.

1. O Esgotamento

O esgotamento é, em certo sentido, o apogeu empírico da essência


geral atemporalizante. Se a embriaguez pretende aprisionar a cadeia
temporal fluente no nó do instante, é no esgotamento que mais se
aproxima do coroamento da possibilidade de expressão de sua vocação.
Seria ele, assim, a forma da estrutura da consciência histórica no mundo
que melhor decalca o imprint da embriaguez ou, se preferirmos o
mesmo com outras palavras mais tonitruantes, o esgotamento é a vida
mesma feita embriaguez. Isso devido à semelhança formal temporal
entre esgotamento e a própria embriaguez – conceito no limite sempre
abstrato. Vejamos mais de perto.
Na embriaguez há uma súbita atemporalização do fluxo de
consciência, com o instante atraindo para si compressivamente todas
as demais dimensões da temporalidade: tudo se torna instantâneo e

132 P. Whitty et al., “Diagnostic Stability Four Years After a First Episode of
Psychosis”, Psychiatric Services, vol. 56 (9), p. 1084-1088.
guilherme messas 229

otimizado, tanto os prazeres e eventuais dores do momento133 quanto


as projeções da esperança do futuro ou as nostálgicas adorações do
passado. O resultado é o fechamento de um futuro autêntico, capaz
de sustentar-se no vigor do presente e também sustentá-lo e alimentar
o ciclo de reinterpretações do passado, que evitam sua calcificação.
O esgotamento exerce a mesma função na estrutura da consciência-
implantada-no-mundo, fechando as portas para que o futuro surja
como tal, ou seja, ou como novidade reacendendo os sentidos de uma
vida ou como sentido amplo da existência norteando as ações do
presente.
Esgotada, a consciência não pode mais se futurar, não pode
mais experimentar nada além do círculo das coisas já experimentadas,
fazendo das vivências uma reprodução sufocante e viciosa, na qual
inexiste o frescor de novidade que cada vivência, mesmo as recorrentes,
comporta. A consciência esgotada pode manter-se apenas pela excitação
repetida, sem que essa se conecte com os demais estratos temporais
da vida. É um pico montanhoso de excitação pontiaguda fincado no
vapor. Jamais um belvedere do qual se aviste a amplidão da existência.
Mas se insistimos várias vezes na ideia de que inexiste uma
ação pura da embriaguez sobre a consciência, pois esta última sempre
modula estruturalmente a projeção embriagante com seu próprio
estilo de futuração, devemos refletir a respeito das razões dessa
aparente pureza de ação embriagante constatada no esgotamento.
Para que se verifique o esgotamento, é forçoso que toda a estrutura
da consciência não mais se identifique com a protensão existencial,
resumindo sua ancoragem no mundo ao presente. Essa, contudo, é
uma sentença demasiadamente inespecífica, já que são inúmeras as

133 Incluídos aí os eventuais relaxamentos psicológicos, que não deixam de ser


a intensificação da névoa que sempre podemos estender sobre o real, como
agudamente já observou Areteu da Capadócia, em seu “De Curatione acutorum
morborum” : “a papoula, se colhida recentemente e verde, pode ser aplicada
sob os travesseiros, pois ela espessa e umedece o espírito (pneuma) – que é
seco e fino –, gerando sobre os sentidos uma névoa – espessa e lenta névoa,
que é o princípio do sono”. Cf. Aretaeus. The Extant Works of Aretaeus, The
Cappadocian. Aretaeus, 1,2.
230 psicose e embriaguez

possibilidades de circunscrever a consciência ao presente sem que se


vivencie um esgotamento134. A condição prévia para o estabelecimento
do esgotamento é a impossibilidade de protensão135.
Também pode ser dito, portanto, que a essência do esgotamento,
pela perspectiva temporal, é essa impossibilidade. Não seria incorreto,
assim, denominar o esgotamento, definido em termos de sua essência
típica, como “impossibilidade de protensão”. Esgotar-se é não mais ter
como e por onde futurar-se, é não mais ter o poder de deixar de ser o
si mesmo imediato para, sobre ele saltando, tornar-se uma alteridade
que receba reflexamente o alargamento desse si mesmo. Enfim,
esgotar-se é fixar-se numa forma estável cuja característica suprema
é a ausência de meios estruturais para renovar-se, denotando a perda
do horizonte de indeterminação que circunda toda vivência com uma
aura de possibilidade. Esgotar-se é não mais viver a possibilidade, é
ter, na camada da experiência, uma excessiva saturação das vivências,
é ver estas subtraídas das potências que abrigam normalmente. É de
capital importância para a diferenciação entre as essências evitarmos
mal-entendidos em relação à afirmação sobre a fixação. Podemos nos
fixar em uma estabilidade sem que haja um esgotamento da estrutura,
desde que essa fixação se faça pela manutenção ao longo do
desenvolvimento das proporções antropológicas temporais (será o
caso da essência típica “hiperestabilidade”, investigado mais adiante),
ou seja, um estilo inalterado de experiência de doação de si mesmo e
de mundo, no qual as representações e sedimentações da retenção, as
doações do presente e as projeções da protensão, reconheçam-se como
reciprocamente inalteradas sobre a linha temporal, assim como as
proporções de participação de cada uma em toda vivência instantânea.

134 Por exemplo, os excessivamente impulsivos ficam restritos ou até mesmo


aprisionados no presente sem perderem a capacidade de “pressentir” a futuração.
135 A partir de agora, imergindo nas análises estruturais da temporalidade,
empregaremos apenas os termos “presente”, “retenção” e “protensão” para
indicar as dimensões da temporalidade. Eles provêm do campo semântico
husserliano, embora sejam aqui utilizados de maneira própria por este autor,
divergindo do emprego em Husserl. A preferência por eles justifica-se por serem
mais adequados a indicar a especificidade de dimensões temporais que atuam
necessariamente ligadas de modo sempre atual entre si.
guilherme messas 231

Essa condição de conservação das proporções antropológicas temporais


é radicalmente distinta do que queremos apresentar aqui.
No esgotamento precariza-se inclusive a possibilidade de
manutenção da forma estável preferencial, já que uma das dimensões
da temporalidade está ausente, amputada. O esgotamento é uma
mutilação da estrutura da implantação da consciência no mundo
levando a uma “necrose” de um setor da vida (no sentido da
presença de tecido morto em organismo vivo, assujeitando este aos
riscos provenientes da toxicidade daquele), tendo como resultado a
incapacidade de autossustentação ao longo do tempo136. O esgotamento
é a véspera de seu próprio fim, assim como a própria embriaguez, o
que revela e justifica a face íntima de contato entre ambos.
Ora, como o esgotamento se define pela temporalidade da
ausência de protensão, será exatamente nas produções normalmente
desta derivadas que deveremos vasculhar os indícios da sua falta. O
caso 1 é o que melhor permite a identificação do esgotamento como
essência típica fundamental, não deixando de permitir a visualização
de um entrelaçamento de tipicidades e também a ferramenta heurística
prioritária para a sua discriminação.
A marca de toda a existência de Otelo é a fragilidade de suas
amarras com o mundo e o renitente assédio de psicoses disso
resultante. A evidência maior dessa situação surgiu na dimensão da
interpessoalidade, na qual pudemos constatar pessoalmente como
essa implantação fundamental para a temporalização sempre foi falha
e culminou numa quase extinção desta. Pela ressonância empática
pudemos covivenciar uma interpessoalidade mais servindo para

136 Para reforçarmos a diferença entre esgotamento e manutenção das proporções


antropológicas ao longo da vida, acima citada, acrescentaríamos ao já dito a
noção de que nesta última a protensão repete-se com um idêntico e monótono
modo de doação dos seus objetos, mas existe. Por exemplo, determinada pessoa,
muito fixa em suas proporções antropológicas, pode manter, na vida adulta, um
modo de ter esperança no futuro ou de realizar projetos de vida muito parecido
com aquele da adolescência. O romantismo, com seus exageros e simplificações,
tende a manter essa modalidade de futuro hiperestável. Embora aplastrante
muitas vezes, não deixa de ser um modo de viver a protensão, o que não ocorre
no esgotamento.
232 psicose e embriaguez

constranger sua expansão do que para estimulá-la, o que se verificava


na escassez de projetos imaginativos durante o tratamento e a restrição
gradual do tratamento à fiscalização e tutoragem de seu comportamento.
Igualmente, desde a participação nossa na interpessoalidade pudemos
ver como a dimensão protentiva articulou-se fracamente com a
âncora do presente. O ponto mais transparente dessa condição se
deu na desconexão do surgimento da protensão imaginativa com a
interpessoalidade sustentadora do presente. Em termos mais simples,
seu plano de vida surgiu isoladamente em sua consciência sem levar
em consideração a ressonância nas interpessoalidades que pudessem
servir de apoio material para sua execução (nem tampouco na espessura
do passado biográfico). A vida consciente assim à deriva, amputada de
protensão, foi perdendo a capacidade de produzir um sentido para
si mesma e esgotou-se, acompanhada pela embriaguez alcoólica. Por
meio da ferramenta da interpessoalidade tivemos a melhor gávea para
visualizar o estilo de fracasso dessa existência individual.
Saliente-se, contudo, que a mais nociva das psicoses do paciente
teve uma origem que, a princípio, não poderíamos aparentemente
catalogar como pertencendo ao esgotamento137. Ao esgotamento
pertencem as tentativas de produzir-se infinitos estímulos de curta
duração, desesperadas tentativas de inclinar e alongar a temporalidade
para a boca da protensão, mas fadadas à falência. Desses estímulos, a
alcoolização foi o mais importante. Assim, é justo dizer que a tipicidade
essencial primordial da embriaguez de Otelo tenha sido o esgotamento;
mas essa afirmação necessita de aperfeiçoamento.
Como para o conceito de origem é necessária a consideração do
estado da heterogeneidade temporal da estrutura de implantação da
consciência, devemos apurar o uso de nossos conceitos para, com isso,
afilarmos a agudeza de nossa penetração na realidade antropológica.
Será sempre o estilo de progressão da estrutura biográfica o voto de
minerva a decidir o diagnóstico da essência típica. No caso de Otelo,
no período em que o observamos de perto, não se verificou um

137 E sim à essência típica “desequilíbrio”, sobre a qual ainda dissertaremos.


guilherme messas 233

genuíno movimento expansivo da estrutura, indicado pela imutável


ausência da dimensão futurante. Portanto, as psicoses originaram-se
no esgotamento. São psicoses por esgotamento. Mas como introduzir
nessa definição a psicose que secundou a tentativa de se constituir
uma nova identidade profissional, já que esta aparentemente trazia em
si uma protensão? A resposta para isso mostra como a investigação
estrutural pode auxiliar no esclarecimento das nebulosas relações
entre psicoses e drogas.
Essa psicose, nascida durante o ensaio de um novo papel social,
efetivamente motiva-se por um desequilíbrio da estrutura; assim,
inicialmente poderia ser timbrada na rubrica desequilíbrio. Porém, a
subsequente aniquilação completa do psiquismo em uma gravíssima
forma psicótica, assim como sua evolução processual, mostrou que
a estrutura da consciência não procurava desde si mesma uma nova
forma antropológica (a estrutura vivida, não a experiência vivencial, já
que esta sempre procura a temporalização, é mesmo por vezes como
que escrava desta, sobretudo do futuro imediato), que a imaginação de
um novo papel profissional foi menos uma novidade reformante da
estrutura – e, portanto, emanando da protensão – do que somente um
movimento sacádico, brusco, de promover ainda mais um estímulo
temporário para a consciência tolerar o mundo e resistir-se a si mesma.
Efetivamente, esse estímulo, por suas características mais complexas
do que o estímulo alcoólico, desequilibrou a consciência. Mas esse
desequilíbrio apenas revelou o esgotamento no qual a consciência se
via atolada de há muito. E é o esgotamento e sua ausência de protensão
que justificam o arrasamento absoluto para o qual evoluiu a psicose.
Dificilmente se sustentaria a tese de um desequilíbrio arruinando a
consciência a ponto de torná-la terra arrasada, como foi aqui visto.
Em termos fenomenológicos devemos dizer que a doação
imaginativa de um projeto de vida era menos uma vivência total
do espírito que se transportava visionariamente pelo horizonte das
possibilidades enquadrantes da experiência humana rumo a uma
condição futura em ligação de continuidade com a atual, de modo
que o futuro fosse um dos desenvolvimentos de um passado e,
234 psicose e embriaguez

reversamente, esse passado pertencesse ao futuro; mas mais apenas


um jato de imaginação, um jorro de euforia – endógena, é bem verdade
– sem ambição ou competência para de fato pertencer ao futuro
articulado. Não se tratava de uma imaginação protentiva, o sabemos
agora, mas apenas do efeito passageiro de uma ideia solitária e eremita
um pouco mais estável e atraente. Nesse sentido, o próprio projeto
dado na imaginação foi somente uma versão mais estável e sustentada
dos estímulos bruscos e sacádicos causados pela alcoolização e,
posteriormente, pela liberação dos impulsos desejantes.

As articulações da temporalidade no esgotamento

Tendo definido o esgotamento pela sua temporalidade, necessi-


tamos demonstrar com mais detalhamento como se dão as articulações
entre as suas dimensões, lembrando que, por definição, uma estrutura
esgotada é uma estrutura desprovida de uma genuína protensão.
Mas esse desprovimento não implica impossibilidade fenomênica de
experiências não relacionadas ao presente ou à retenção, ou seja, mesmo
sem protensão a consciência é capaz de vivenciar a imaginação daquilo
que ainda não é sem que isso seja necessariamente escapismo, como
vimos no caso de Otelo. É, portanto, imperioso que investiguemos
uma definição estrutural – considerando as relações interiores entre
presente, retenção e protensão – do que venha a ser a ausência de
protensão. A melhor definição desta nos moldes que nos interessam
nesse exato momento indica que, na impossibilidade de protensão,
tudo aquilo que é não presente na forma de potência de um dia ser
presente, ou seja, a protensão, não consegue ser assimilado à forma
presente da consciência. Em outras palavras, a impossibilidade de
protensão ocorre sempre que uma doação embrionária de futuro for
exterior à forma presente, operar como um corpo estranho desde
o exterior da consciência estruturada e, nesse sentido, não puder
modificar as proporções entre presente e retenção.
Todo novo eventual projeto imaginativo – por consequência
lógica, toda protensão – deve transformar as formas do presente e
guilherme messas 235

modificar as gravações da retenção. Se algo novo surge iluminando


nossas pretensões de continuidade existencial, toda a existência
se reconfigura para voltar-se para essa nova estrela. Para isso,
muitas coisas devem ser perdidas, abandonadas, “esquecidas” pela
consciência. No esgotamento, essa reforma acomodativa é impossível
e a raiz disso é a impossibilidade de transmissão em cadeia retroativa
das representações protentivas para a estrutura presente-retentiva
atual. Imagina-se ou se representa um futuro, forja-se um protótipo
preliminar desse futuro: assim avança a existência. Com essa forja
prototípica proposta por si mesma, a consciência pode ou não se
organizar para acolhê-la e deixar com que esta seja seu novo norte ou um
aperfeiçoamento dos rumos anteriores. Os critérios para o acolhimento
ou rejeição dessa nova forma são, no limite, misteriosos, mas passam
pela possibilidade de “testá-la” em sua estabilidade estrutural
anterior. E, o mais importante, esse teste ocorre inevitavelmente por
uma transmissão hesitante da imaginação futurante às formas do
presente. No esgotamento essa transmissão está terminantemente
proibida pela depauperação endógena da própria estrutura, fazendo
com que não haja modos estruturais de uma reforma da consciência
nem mesmo como um ensaio no sentido forte da palavra. A rigor,
no esgotamento, as representações aparentemente protentivas que
podem dialogar ou ser transmitidas para a estrutura atual são apenas
aquelas que já não são representações de futuro no sentido genuíno da
palavra, mas apenas imaginações isoladas do invólucro do presente
imediato (os movimentos bruscos já assinalados). No caso de uma
imaginação de fato exterior à forma atual, como no caso de Otelo, ao
inexistir essa transmissão o projeto nela contido nasce, vive e morre
como um corpo estranho, irritando e incomodando a consciência
desde fora, deslocando-a exterior e superficialmente, mas jamais de
modo genuíno, pois nenhuma possibilidade de reacomodação das
proporções é sequer pensável138. E temporalidade que sequer pode

138 Nesse sentido, essa imaginação é também um estímulo “exógeno” à consciência.


Não se deve confundir esse gênero de imaginação-corpo estranho com a
imaginação atemporal, ou seja, aquela que se verte para realidades imaginárias
236 psicose e embriaguez

modificar suas proporções pertence, por definição, a uma consciência


aprisionada na essência do esgotamento. Internamente às dimensões
da temporalidade, o esgotamento se dá porque a renovação, que é uma
projeção da protensão para dentro da estrutural atual, está obliterada.
Observado com muito rigor e muito de perto como no exemplo
de Otelo, vemos que no esgotamento há na realidade um transitório
ganho dado pela imaginação futurante – e, portanto, há um pequeno
canal logo fechado de transmissão da temporalidade protentiva para
a atual – que não é sedimentável e incorporável pela consciência, nem
tampouco modifica as projeções retentivas. Aquela permanece em sua
forma a-protentiva, empoçada, por assim dizer, na sua forma imóvel e,
ao mesmo tempo, impossibilitada de manter-se imóvel.
Porém, se esse exame da exclusão da protensão cinge o central
em termos essenciais do esgotamento, ele permanece insuficiente no
que se refere à avaliação global e às demais avaliações parciais de
cada dimensão temporal. Ora, se a temporalidade da consciência é
necessariamente estruturada, ou seja, obedece a uma articulação entre
partes, identificar uma falha na protensão exige dois complementos
investigativos; um de caráter essencial geral e outro no âmbito
parcial. Procuraremos penetrar na essência da temporalidade da
impossibilidade de protensão e, com isso, nos deteremos por um
momento nas derivações disso no presente e na retenção, já que
começamos necessariamente pela protensão.
A existência projeta-se para diante por possuir, por natureza, uma
forma temporal em ligeira inclinação para frente; é pelo fato de haver
uma abertura ao futuro que existem presente e passado. A protensão
é exatamente o “em vista de quê” responsável por manter unidas as
dimensões temporais: as dimensões se sustentam no presente, mas se
justificam entre si pela protensão. Faltante esta, falta a “força finalista”
justificadora da união e, em consequência, há uma desarticulação das

que não se dão no tempo biográfico ou que não podem, por natureza, jamais nele
se estabelecerem, como, por exemplo, um devaneio sobre figuras mitológicas. O
campo da imaginação atemporal se dá sobre um horizonte de indeterminação
que recende a uma inegável protensão.
guilherme messas 237

dimensões temporais, acompanhada pelo relaxamento dos laços


internos recíprocos das instâncias temporais. E, também, portanto,
o que é o mesmo visto por outro ângulo, uma autonomização das
instâncias temporais parciais, embora essa autonomização não se
dê de maneira homogênea139. No esgotamento, havendo apenas uma
incomunicável ou, quando dada, exígua e evanescente protensão,
haverá, especularmente, uma consistente liberação da retenção em
relação ao presente. Como o presente é a escora incontornável e última
de qualquer vivência e, portanto, não pode desaparecer salvo em
condições muito extremas, na ocorrência de desarticulação existe um
acréscimo participativo deste em relação à retenção. Acréscimo que
não é, de modo algum, aumento de força relativa mas, pelo contrário,
exposição do último bastião antes da derrocada da estrutura biográfica.
Uma temporalidade desarticulada é uma estrutura mantida
em um presente ilhado das suas projeções progressivas e regressivas,
sem capacidade de renovar-se pelos influxos do futuro e tampouco
de apoiar-se na confiabilidade do passado. O caso de Otelo é bastante
ilustrativo dessa situação à medida que vimos como sua “escolha” de
renovação abstinha-se de qualquer ligação com seu passado individual
ou familiar. Esgotar-se é igualmente não ter mais sequer por onde
escapar na memória e na tradição, é estar em carne viva exposto ao sol do
meio-dia de um presente calcinante140. Esse fenômeno de estreitamento
radical da paleta de vivências disponíveis ao ser tem como correlato
o tedium vitae desses pacientes. Aprisionados no presente, de certo
modo, nem culpa ou nostalgia eles conseguem vivenciar. E a elevação
do tédio vital é uma entusiasta de embriaguez.

139 Nisso o esgotamento é bastante particular e diferente em relação às outras


essências, como ainda veremos.
140 No caso de Otelo houve por algum tempo a manutenção do sentido de valor da
cultura, nos seus desconfortos autorreferentes, como representante da retenção.
De certa maneira, esse sentido revelava já a substituição do passado histórico,
mais personalizado e arraigado na personalidade, pelo social anônimo, por si só
distante e frio.
238 psicose e embriaguez

Aqui já estamos dentro do círculo vicioso decisivo para a ruína


da consciência. Mais embriaguez suscita menor temporalidade,
mais recolhimento da estrutura para a temporalidade do instante,
do atemporal, mais exclusão das outras dimensões que, por sua vez,
pedem mais embriaguez. Porém, há uma característica emergente de
modo direto da desarticulação das dimensões temporais que torna
sobejamente mais nociva a ação causal-exógena da embriaguez,
fazendo com que a totalidade da consciência fique agora à mercê
dos efeitos embriagantes. Trata-se da perda da heterogeneidade da
temporalidade.
Estamos aqui novamente observando esse importante modo
de constituição da temporalidade, a sua heterogeneidade. Acima o
fizemos tendo como objeto as fases da vida, longitudinalmente; agora,
o empregaremos transversalmente, para elucidar da algo da essência
da decomposição da temporalidade no esgotamento.

A homogeneização da temporalidade transversal e o


primado da causalidade

Devemos à biologia aristotélica – dívida que vem sendo muito


pouco saldada, infelizmente – a noção de que as causalidades (no
sentido aristotélico) atuam de modo diferencial de acordo com
a homogeneidade ou heterogeneidade dos corpos vivos. Para o
entendimento do movimento dos corpos vivos homogêneos basta-nos
o estudo de sua causa eficiente, termo aristotélico correspondente ao
que aqui chamamos de causalidade. Para os corpos heterogêneos, dado
serem constituídos de partes simples, diferentes entre si mas arranjadas
a partir de uma lógica interna, é requerido adicionalmente o estudo
de sua causa final, que se identifica com a totalidade da estrutura nos
termos que empregamos141. Ou seja, a ação causal é potente e suficiente

141 Para um extremamente fecundo exame dessa questão em Aristóteles e,


principalmente, para mostrar a riqueza de interpretações contidas nos conceitos
aristotélicos de causa e estrutura, remetemos à obra de Étienne Gilson, From
Aristotle to Darwin and Back Again. A Journey in Final Causality, Species and
guilherme messas 239

para um corpo unitário homogêneo e mecanicamente legislável. Para


uma estrutura, devemos antes conhecer suas finalidades, o projeto
integral determinante de sua razão de ser. É sobre esse todo que
agem as parcialidades mecânicas causais e, sendo subordinadas a ele,
possuem uma força de determinação muito mais fraca do que nos
corpos homogêneos142.
Ora, se na essência típica esgotamento o presente descola-se
bastante das outras dimensões a ele compósitas, dá-se que se torna
mais homogênea a temporalidade da consciência-implantada-no-
mundo. E, por mais homogênea, torna-se mais determinável a partir
de uma ação causal mecânica exógena, como a embriaguez. Em outras
palavras, temos que sob a essência típica esgotamento não apenas a
consciência ilhada no presente necessita de estímulos causais cada vez
mais presentificantes para se manter viva, como também os estímulos
causais sobre ela agindo desde fora possuem uma primazia que não
ousariam ter em outras essências típicas.
E se faz revelar, com essa análise, que o presente é o tempo
homogêneo por excelência, o único que existe por si mesmo, pois o
único no qual a estrutura sempre se encontra situada. Não podemos
conceber, mesmo hipoteticamente, uma retenção homogênea nem
tampouco uma protensão homogênea, purificadas do presente e
encerradas em si mesmas. Elas são, por assim dizer, emanações
prospectivas e retrospectivas de um eterno mas fluente presente. O
eu pode imaginar-se transpositivamente num futuro de felicidade ou
se colocar, por meio da rememoração, em um ponto já dado de sua
trajetória. Mas, no exato momento em que faz isso, surge como eu
instantâneo reflexivo, cujas raízes devem estar nalgum ponto exato da
corrente temporal a que damos o nome de presente. Assim, podemos
dizer que retenção e protensão são heterogeneidades do presente, são
modificações deste e que, embora sejam apenas modificações, são as

Evolution. As páginas 4 e 5 tratam do acima mencionado.


142 Tratamos da questão das relações entre estrutura e partes mecânicas no meu já
mencionado artigo “Observações sobre Estrutura e Materialidade na Psicologia
Fenomenológica”.
240 psicose e embriaguez

que permitem que novas formas de temporalização se deem e com isso


medre o ser. Assim sendo, jamais poderemos dizer haver uma ação
causal-exógena direta e exclusiva sobre a retenção ou a protensão.
Essas ações ferem sempre o presente, fazendo com que este possa dar
maior ou menor participação às suas abas temporais responsáveis
pela heterogeneidade. É por ser heterogênea em sua transversalidade
atual momentânea que a temporalidade é heterogênea em sua
longitudinalidade. A primeira determina as possibilidades da segunda.
Se imaginarmos uma consciência virtual que fosse desprovida
de heterogeneidade transversal – ou seja, uma consciência que fosse
sempre inteiramente presente a si mesma e encerrada nas suas
potências – teríamos criado uma consciência na qual a causalidade
seria completamente imperativa. A experiência mais próxima dessa
aberração é o esgotamento da estrutura da consciência, na qual as
abas heterogêneas desarticulam-se e a vida consciente torna-se uma
graça da ação exógena continuada, estimulação mecânica inesgotável
e superpotente. Estar extremamente vulnerável à embriaguez é, do
ponto de vista existencial, necessitar estar ao abrigo da causalidade da
matéria biológica; não para consumar uma ação na vida, mas apenas
para não naufragar. Nas situações de florescimento existencial, a
causalidade é fator ancilar, fornecedor de combustível material para
a existência integral; nos malogros, torna-se imperadora e âncora para
um ser profundamente mutilado. A mortal independência em relação
ao todo histórico é apanágio da exogeneidade.
Um pouco mais sobre esse conceito de heterogeneidade transversal
da temporalidade. Se o presente é aquilo que necessariamente é, será
por necessidade homogêneo, ou seja, não admitirá remendos em sua
constituição; e a protensão e a retenção serão derivadas de polimentos
redutores dessa presença monolítica chamada presente (serão, pois,
menos do que um presente), que se dá forçosamente diante de nós, que
praeest (em latim, “o que está diante”). Serão assim heterogeneidades
em relação ao presente e não homogeneidades para e em si mesmas,
como já dissemos. Portanto, serão modalidades do presente que
rompem com a essência unitária de sua homogeneidade, permitindo
guilherme messas 241

que se atualize continuamente a constituição de um novo presente.


A protensão é uma heterogeneidade em relação ao presente porque
não apresenta jamais o seu objeto em apresentação perceptual do
campo da experiência imediata. Será sempre um vazio, um núcleo de
aspiração incompleto, insaturado e mediato no qual os objetos, para
persistirem, precisam ser inatualizáveis: uma protensão atualizada já
não mais é ela mesma143. Por essa visão, a protensão é a insaturação e a
insaturabilidade do presente e, portanto, heterogênea a ele.
A heterogeneidade da retenção é algo diferente, pois seu
comportamento em relação ao presente tem outras origens. A
retenção é a sedimentação do presente e, por sua natureza, agregação
e ajuntamento, acréscimo, retenção e massa. Se sua natureza não for
contrabalanceada, por meio de recortes e abandonos parciais, o excesso
de sua atualidade na consciência tragaria o presente para trás. Apenas
erige-se um presente em um solo temporal no qual somente uma parte
do retido se mantenha viva. Se toda a retenção jamais se esgotasse,
a hipersaturação da temporalidade inviabilizaria qualquer presença
atual: seria uma massa vivencial incompatível com a noção de vida.
Assim, para que exista retenção é necessário o recorte vivencial. Longe
de dizer que esse recorte tenha de passar pelas opções da vontade livre:
no mais das vezes a noção de saúde é sinônima da execução do recorte
à revelia da tesoura da vontade. Mas perda, abandono, exclusão, ou
seja, redução da presença da atualidade são as marcas da retenção e,
por isso, ela é heterogênea em relação ao presente-sempre-dado. Em
vários aspectos a retenção assemelha-se essencialmente à protensão,
tendo em conjunto com esta os atributos de não poder ser recuperada
no presente – e extinguir-se cada vez que se torna presente; por
exemplo, uma memória de algo passado é, em si, um ato presente –, de
não apresentar jamais o seu objeto em evidência completa144, e mesmo

143 Lembrando que todas estas análises valem somente para a camada estrutural
das experiências. Deixaremos fora da análise as confusões possíveis entre
manifestações fenomenológicas típicas de cada dimensão temporal e as suas
inserções estruturais.
144 É verdade que os objetos do presente também podem estar ocultos à consciência.
Entretanto, e é esta a diferença fundamental, eles podem se tornar evidentes,
242 psicose e embriaguez

de poder modalizar-se pela indeterminação, já que também a retenção


é móvel, sendo submetida a diversas reinterpretações ao longo da vida
(também ela é um horizonte para o presente).
Mas a protensão diverge da retenção por seu modo de
heterogeneidade em relação ao presente, pois a retensão apresenta um
aspecto de recuperação dos perfis do presente que a protensão jamais
possui. A protensão apresenta-se sob o manto da inaugurabilidade, do
ainda-não que atrai para si como encanto ou pavor; a retenção revela
uma camada de carnalidade já existente, de uma densidade do que já
passou pela forma de doação atual do presente, que atrai para si como
segurança ou apoio. Essa cicatriz residual da presença atual faz diferir
a retenção da protensão. Porém não é só isso. Retenção e protensão
relacionam-se entre si como abas heterogêneas que são na manutenção
da efetividade do presente. A protensão desequilibra (ainda voltaremos
a isso) enquanto a retenção reequilibra um presente que apenas sabe
ser, para o qual – sobretudo no seu estado de homogeneidade – a
questão do equilíbrio não está dada. Se a protensão desequilibra porque
não tem conhecimento completo da espessura da presença carnal, a
retenção atenua o desequilíbrio pois já conhece as tatuagens que o
real deixa na carne. Há na retenção o sabor da experiência entalhada e
madura para oferecer novo ponto de equilíbrio.
Por fim, mas não esgotando o tema, temos que a retenção se
manifesta como propriedade integral do eu. Mesmo na evocação de
algo absolutamente estranho à biografia adulta – uma lembrança
de termos ouvido na infância o relato de alguém que sabia voar –
reconhecemos que tal ato rememorativo é totalmente envolvido pelo
eu. O eu identitário normal “abraça” toda a manifestação relativa à
retenção. Na protensão, diversamente, o eu está fora da doação objetal.
Quando nos vivenciamos no interior de certa situação que temos como
certa dentro de algumas semanas, embora sejamos capazes de nos

ao passo que essa passagem é impossível nas abas da temporalidade. A baixa


evidência no presente é apenas circunstancial – assim, um ato perceptivo do
olhar pode visualizar um objeto do fundo do campo visual que segundos antes
estava “oculto”.
guilherme messas 243

situar inteira e confortavelmente nessa situação, teremos que o mundo


surge como que fora de nós, como um objetivo “exterior” para o qual
nos dirigimos e, consequentemente, mantendo certa distância – embora
não espacial – em relação à nossa interioridade medular. A retenção
surge como propriedade integral assimilada ao eu; a protensão é uma
promessa feita de fora do eu para si mesmo (mas, lembremo-nos,
emanante da mesma estrutura temporal biográfica).
Nada fizemos além de alguns apontamentos muito preliminares
acerca das heterogeneidades da temporalidade transversal. Mas, já com
eles e sua inegável incompletude, podemos ver que uma ação causal-
exógena não pode agir com eficácia determinável em regularidade dada
por leis sobre um campo tão mestiçado de in-presenças e imperfeições
em relação à atualização maciça do presente. Quanto mais heterogênea
a temporalidade, tanto menos poderosa a causalidade exógena.

A atividade da embriaguez no esgotamento da estrutura

De tudo o que acabamos de ver – com ênfase na preponderância


inusitada da causalidade na economia global do esgotamento –
podemos extrair a observação de que nessa essência típica a embriaguez
tem papel ativo. Como a estrutura está fora de seus gonzos nativos,
escalavrada na sua constituição trinária e apoiada demasiadamente
no presente homogêneo, a força capaz de mantê-la em pé – ou,
alternativamente, de mantê-la artificialmente com um resíduo de
articulação – é a embriaguez. Isso contrasta com o papel desta nas
outras essências típicas, tema ainda a ser tratado. Mas o núcleo da
diferença reside no fato de que o embriagado esgotado nada quer além
de conseguir minimamente viver, e de que tem na embriaguez um dos
mais eficazes instrumentos para tal.
Em outras palavras, o esgotado vê sua existência esborcinada em
suas abas de extensão heterogêneas e, com isso, perde a capacidade de
orientar-se no mundo pelas rédeas motivacionais, as que fazem a glória
do humano enquanto transcendência em relação à sua identidade.
Perdido o fio da motivação, resta a causalidade, a última resistência
244 psicose e embriaguez

material do existir: de ser consciente estruturado, vai reduzindo-se a


matéria corporal sequiosa pelas leis da exogeneidade embriagante.
É muitas vezes para se manter minimamente vivo por mercê da
causalidade que se entende o aparentemente contraditório – mas
frequentíssimo – uso de cannabis, por exemplo, nas esquizofrenias
(ou o uso abusivo de álcool nelas observado). Sendo parte destas um
patinar no báratro do esgotamento, a embriaguez, mesmo piorando o
estado de consciência, segue sendo a última via para algum estímulo
vital. Manter-se vivo é, no fim das contas, mais importante do que
se manter hígido. Kemp descreve magistralmente essa experiência
da embriaguez no esgotamento, afirmando que “[...] as drogas são
extremamente efetivas em interromper imediatamente estados do ser.
Mesmo sendo o seu efeito temporário, produzem uma experiência que
se espera que dure para sempre”145.
Do mesmo modo, é por essa excessiva dependência da estrutura
da consciência em relação à causalidade exógena que bordejamos
alguma justificativa para os achados de surgimento ou agravamento
de quadros psicopatológicos após a interrupção da embriaguez
contumaz. Não somente experiências de perda de força vital – muitas
vezes confundidas com depressão – mas também achados demenciais
e psicoses. Nesses casos, tanto os sintomas e sinais podem ter sido
produzidos pela embriaguez crônica e mantidos em latência pelo
efeito de estímulo causal dela mesma proveniente quanto podem
surgir exatamente pela retirada do suplemento exógeno. Seja qual for
a configuração particular em cada caso, fato é que a embriaguez vinha
mantendo um papel ativo na sustentação da consciência e que seu
necessário abandono acarreta a ruína desta.

O esgotamento como época biográfica

Vimos como o esgotamento é uma essência típica disponível


para a existência humana. Nessa possibilidade, a princípio geral e

145 R. Kemp, “The Temporal Dimension of Addiction”, Journal of Phenomenological


Psychology, v. 40, p. 6-7.
guilherme messas 245

capaz de atingir toda vida individual, a consciência está incapacitada


de renovar-se e tampouco de se manter na sua habitualidade como
num habitat protegido. Seguramente, o esgotamento é uma essência
típica dramática, lançando a consciência em sua implantação
mundana no abismo de um despenhadeiro. Embora seja defensável
– e empiricamente observável – a ideia de que a continuidade da
embriaguez provoque, pela sua insistência contumaz, um estado
de esgotamento, nossa tese majoritária aqui é a oposta, a de que o
esgotamento procura a embriaguez por suas características internas
mesmas. E que a embriaguez, encaixada no esgotamento, é o empurrão
último para a ruína implosiva. Em outras palavras, a embriaguez
promove a manutenção, por sua própria vocação natural, de um tipo
essencial geral da existência humana.
Se o esgotamento existe, portanto, no cabedal das possibilidades
existenciais humanas, não podemos tergiversar diante da questão do
significado dele para a totalidade do desenvolvimento vital. Mesmo
no caso de ser provocado por um estado pré-patológico, a questão
se impõe, pois um estado vulnerável à patologia – portanto ainda
fora do círculo de uma patologia –, sendo constituinte do íntimo das
potencialidades humanas, merece ser investigado como patrimônio
eterno das formas da vida.
A estrutura da experiência consciente no mundo necessita do
esgotamento para seu desabrochar, pois é ele o índice de um ponto
neutro de evolução biográfica, prévio a qualquer mutação. Como
nos solstícios (“sol que não se move”, em latim) anuncia-se pela
imobilidade a transição para uma nova fase, no esgotamento a estrutura
da consciência paralisa-se, encerrando movimento anterior para
procurar um novo movimento. Portanto, o esgotamento não atinge seu
grau máximo de compreensão existencial em si mesmo, mas nas suas
relações recíprocas com quaisquer outras essências existenciais ligadas
ao desenrolar da vida. Será sempre a fase prévia de algo, embora esse
algo não esteja dado de antemão em muitas ocasiões ou possa nem
mesmo vir. Se o esgotamento é fase imprescindível ou incontornável
da via da existência biografizante, não se pode tampouco dizer ser ele
246 psicose e embriaguez

em si patológico. Incapaz de buscar abrigo na retenção e atração na


protensão, a estrutura no esgotamento plana perigosamente por um
tempo sobre o ar.
Todo o risco de ruína reside no “por um tempo”. Projetada
para voar com motores potentes, a consciência não resiste por muito
tempo em estado de planação. Se longa, inicia-se a queda em tendência
vertical. É a atividade da embriaguez que sustenta ainda por um
intervalo essa ruína, pelos motivos que vimos, assim como será ela
que acabará por acelerar a rota gravitacional. O alongamento por
um intervalo para além do tolerável do esgotamento na consciência
humana – que em alguns casos alonga-se para toda uma vida – é
o responsável pela produção da sua patologia psicótica, nunca o
esgotamento em si mesmo, pois a sua eventual ausência sequestraria a
consciência em um estado de indesejável incapacidade de maturação.
Como o esgotamento é em si atemporalizante, seus riscos são enormes
e mimetizam a própria embriaguez. Pela mesma razão, a embriaguez
é simultaneamente adequada ao e fomentadora do esgotamento,
configurando uma circularidade de conexão entre ambos os termos,
sendo que, no desenvolvimento de uma biografia, cada um pode ser
causa e consequência do outro, a partir de certo momento.
Tão somente pela análise detalhada dos casos individuais
poderemos conceber se uma embriaguez gerou, alongou, adiou ou
até mesmo fez sair de um período de esgotamento, embora tenhamos
de manter em mente que a associação entre a época de ocorrência do
esgotamento como essência típica e a embriaguez seja de elevado risco
biográfico e requeira supina atenção.

A psicose por esgotamento

Todas as considerações até agora postas permitem a tentativa de


definição de psicose por esgotamento, tanto do ponto de vista nominal
quanto do estrutural. Nominalmente, trata-se de uma psicose que
tem origem no momento existencial no qual haja a preponderância de
uma essência típica esgotamento na estrutura da consciência. Mesmo
guilherme messas 247

na eventualidade de motivações compreensíveis proximais serem


determináveis e sem deixar de considerar o efeito da causalidade
exógena atuante necessariamente nos casos de abuso de substâncias146,
importa para a definição a efetividade da presença do estado típico
essencial esgotamento. Ele sobredetermina as conexões causais-
motivacionais e lhe dá os alvarás de operação.
A definição estrutural é algo mais complexa, pois exige-se dela
que esmiúce o que acabamos de dizer acerca da sobredeterminação.
Já que toda análise estrutural é uma descrição de minúcias, diferenças
e contrastes, façamo-la para identificar a essência da psicose por
esgotamento. Toda consciência é irrigada continuamente pela rede de
conexões causais e compreensíveis que a alimenta e com a qual dialoga
e se mantém viva. Esse trânsito entre consciência e mundo ao longo
do tempo é tão primário que é virtualmente impossível de ele ficar
de fora. Assim, toda eclosão psicótica – sem exceção para aquela do
esgotamento – será precedida por fato ou fatos que o olhar externo
aquilatará como relevante(s) em sua ação sobre a consciência. Em outras
palavras, é na prática impossível que não haja uma cadeia de conexões
imediatamente anteriores à psicose rematada e, consequentemente,
que não haja sempre uma pressão de movimentação, causal-exógena
ou motivacional-endógena, sobre esta. Resulta a questão: como
se determinar ser uma específica psicose originada na paralisação
esgotada da consciência e não na sua movimentação?
O fundamental para a constatação da psicose por esgotamento
é a incapacidade imanente da estrutura em atingir uma nova forma
sustentável, ou seja, ela é capaz de movimentar-se ou de se desequilibrar
temporariamente, mas retorna a seu ponto inicial, insustentável por
si mesmo, finalmente esfacelando-se na psicose. Verdadeiramente, a
movimentação pode dar ensejo à psicose por esgotamento, mas não
pelo caráter renovador contido nela (V. seção psicose por desequilíbrio);

146 Essa afirmação se limita ao escopo de nosso estudo já que psicoses originadas
no esgotamento também ocorrem fora de um quadro de abusos de substâncias:
como dissemos, muitas esquizofrenias são o resultado de uma vida em estado de
esgotamento.
248 psicose e embriaguez

antes, por sua exigência de ampliação protentiva sobre uma consciência


impossibilitada de futurar-se. Como o esgotamento é por princípio
uma forma transitória, em condições normais, antecipadora de uma
saída de si mesma, a impossibilidade dessa saída é a marca da psicose
por esgotamento. A psicose por esgotamento origina-se quando o
esgotamento se esgota em si mesmo.
Portanto, no que se refere às articulações entre movimento da
consciência e psicose por esgotamento podemos dizer que esta pode
derivar daquele mas – o que traz exclusividade para o esgotamento
– que essa movimentação permanece exterior, ou seja, não acarreta
produção de movimento reacomodativo no interior das proporções
da estrutura da consciência.
Essa incapacidade de reacomodação matiza as formas clínicas
da psicose por esgotamento. Nelas, a consciência, no momento de
esfacelamento psicótico, rompe-se em milhares de pedaços, de modo
a impedir que o observador visualize nos escombros da patologia
as instâncias microscópicas destinadas à cicatrização do tecido
adoecido. Embora a camada superficial das apresentações clínicas
seja demasiadamente enganosa para conclusões existenciais, sua
investigação redutora essencialista pode servir como instrumento
muito útil para o reconhecimento e diagnóstico do esgotamento. Vale
lembrar, contudo, que nos estados agudos nem sempre as distinções
estruturais podem ser identificadas.

O esgotamento em nossos casos

Já pudemos constatar que o caso Otelo é o representante


explícito do esgotamento em nossos casos, sem deixar de investigar
a ocorrência nele de um movimento biográfico antecipando e mesmo
revelando conexão compreensível com sua psicose mais grave, que
pudemos acompanhar. Demonstramos como e por que essa psicose se
reduz ao esgotamento e não ao desequilíbrio, ainda a ser examinado.
No entanto, ainda em caráter preliminar nesse ponto do estudo, temos
que sua primeira psicose, aparentemente eclodida logo após a perda
guilherme messas 249

do pai, não parece ser reduzível ao esgotamento. Devemos deixar


em suspenso as características estruturais desse acontecer, já que não
temos elementos para analisá-lo com detalhes, mas cabe indicar a
evidência de que, numa mesma vida, mais de uma origem psicótica
pode ser vislumbrada.
A partir dessa complexidade de articulações biográficas
deveríamos nos voltar agora para os demais casos de nosso trabalho nos
quais se deve suspeitar, por princípio, da ocorrência de uma origem no
esgotamento, e demonstrar se e por que isso é defensável. Entretanto,
logo se vê que os casos Bernardo e Júlio ficam muito distantes de
qualquer esgotamento. Igualmente, embora por motivos diversos, o
caso Patrick. Em todos os três a temporalidade futura se revela com
nitidez imediata, afastando a noção de impossibilidade de protensão. O
caso Adílson nos deixaria alguma dúvida, já que, assim como Ricardo,
alongou um período da existência para além dos interesses da própria
estrutura da consciência, sugerindo o entendimento do período pela
essência do esgotamento. Esse caso ainda será examinado, mas, para
o momento, podemos dizer sumariamente que a dúvida se dissipa
diante das insistentes retomadas de sentido para a vida observadas
na história do paciente. Logo, temos que apenas um caso é sensível
a uma defesa da presença do esgotamento: o caso Ricardo. Sobre ele
devemos nos deter, deixando-nos levar por uma análise que permite
mais descobertas não apenas acerca da essência típica esgotamento
mas também de seus limites e entrelaçamentos.

O esgotamento no caso Ricardo

Já o título que adotamos para ilustrar o caso Ricardo demonstra


as complexidades nele atualizadas e as imprecisões delas decorrentes
na delimitação de limites entre as categorias explanatórias. A rigor,
um esgotamento esperançoso é uma contradição em termos. Um
esgotamento, no apogeu de sua presença, exclui, por definição, o
futuro, e a esperança é exatamente o apoio da existência na protensão.
O subtítulo escolhido, algo apaziguador do ponto de vista lógico,
250 psicose e embriaguez

atenua essa contradição afirmando ser a esperança adiada, ou seja,


trazendo substantivo e adjetivo para o conjunto das experiências da
temporalização indene. Estaríamos então indicando uma história
clínica ao mesmo tempo dentro de uma ambiguidade lógica e de uma
coerência lógica, o que retomaria a contradição em outro nível. A escolha
do título não seguiu uma finalidade voluntária e explícita de apresentar
uma contradição. Pelo contrário, a intenção deste autor foi sempre de
reduzir a ambiguidade contraditória a um termo único essencial. Se o
título manteve-se nessa forma incerta não o foi pelo desejo do autor
mas pelo fato – tão cotidiano na vida de todos os psicopatologistas e
clínicos – de que a realidade estrutural estudada, em certos setores, não
permite a clareza almejada pela reflexão científica. Entre lacerar o real
em nome da clareza epistemológica e enfraquecer a certeza científica
graças à complexidade da particularidade de uma vida, optamos pela
segunda alternativa. A complexidade da manifestação da estrutura de
Ricardo em certos pontos da sua história o coloca no universo – nada
ermo – dos casos intermediários, nos quais há ora superposição, ora
rápida alternância de categorias, fazendo com que seu estabelecimento
cristalino seja obliterado.
Na última psicose de Ricardo, que analisamos nos seus
termos interpessoais e materiais acima de tudo, optamos por uma
conclusão diagnóstica enfatizando o desequilíbrio. A associação
entre desequilíbrio e psicose hebefreniforme mostra como de fato é
especiosa a conclusão acerca da origem de uma psicose apenas por sua
configuração clínica, embora seja útil reter a tese de que o esgotamento
costuma fornecer formações clínicas de muita gravidade estrutural.
Se nos voltarmos agora para o primeiro voo psicótico, teremos
dificuldades em optar rapidamente pelo tipo essencial esgotamento
(limitando a análise a este, nessas alturas da exposição). Há
elementos a favor e contra sua admissão. Favoravelmente, temos
uma incapacidade de projeção para diante ou de retrocesso para
um ponto seguro. Instaura-se uma suspensão volatilizada sobre o
real que, embora tendo uma dimensão imaginária supostamente
protentiva (como apresentou também Otelo) e também retentiva, nos
guilherme messas 251

deixa incertos acerca da presença estrutural efetiva dessas duas abas


da temporalidade transversal. Ao menos durante certos momentos ou
períodos, a consciência foi uma nuvem atemporalizada fincada em um
imaginário restrito ao presente homogêneo, apesar de maquiado com
temas biográficos. Jamais conseguiremos conhecer a resposta para essa
dúvida, mas decerto o fato da canabinização ter sido, nesses momentos
ou períodos, o fator mais forte de manutenção da articulação estrutural
da consciência faz fortemente pensar no papel de atividade causal da
embriaguez típico dos esgotamentos. Esse império da causalidade
embriagante é a evidência mais sólida para a defesa do esgotamento.
Também em prol dessa linha diagnóstica temos o fato de a
primeira psicose surgir quase que espontaneamente, embora, como
sempre, os comemorativos de conexão, dados no projeto de vida
ligado à ONG, possam ser vislumbrados. Porém, a psicose se dá
em um momento temporal biográfico no qual esse desequilíbrio
proporcionado pelo projeto já deveria ter sido acomodado pela
estrutura existencial, pois não era mais recente, como fica patente pelo
fato de a ONG ter sido estabelecida e já funcionar. Em outras palavras,
a estrutura da consciência, decorrido um tempo nada desprezível
desde o novo assentamento no papel de condutor de ONG, deveria
ter assumido ou buscado uma nova forma. A observação da ruína
praticamente autônoma da estrutura faz pensar exatamente na
impossibilidade imanente desta de conseguir atingir uma nova forma
– tanto pela modificação da protensão quanto da retenção –, o que
tipifica o esgotamento.
Entretanto, assim como no caso Adílson, não podemos fazer
vistas grossas ao achado de uma suspensão, um adiamento da
resolução de dilemas existenciais. Ora, se entendermos a resolução de
dilemas existenciais também como uma reformulação inevitável e já
pertinente das formas básicas individuais da temporalidade, teremos
que a necessidade de resolução já indica a superação da essência típica
esgotamento, na qual não há efetivamente a colocação de um problema
existencial, tema pressupondo necessariamente um horizonte de
protensão hígido. Uma consciência adiando a resolução de algo é uma
252 psicose e embriaguez

consciência já desequilibrada em seus fundamentos, apenas armada


de um ardil, digamos, técnico, para procrastinar o ato decisivo final.
Assim, esses períodos em que a extrema canabinização serviu como
artimanha biográfica colidiriam com a ideia de esgotamento.
Muito possivelmente, alternaram-se momentos de esgotamento
efetivo com outros de sinalização de um desequilíbrio adiado e
sustentado causalmente pela embriaguez, sendo que apenas uma
análise passo a passo de cada segmento daquele período existencial
poderia deslindar esse entrelaçamento de tipicidades. Tarefa
irrealizável com nosso material disponível, mas indicativa de que,
para certas biografias, o entrelaçamento, coexistência ou alternância
irresoluta de duas – ou mais – tipicidades essenciais pode tornar muito
difícil a decisão acerca da origem da psicose. A dificuldade é ampliada
se nos lembrarmos do fator indiferenciador de biografia da cannabis.
Elevando a indiferenciação biográfica a níveis apicais, esfumaça a
diferença entre uma estrutura esgotada, incompetente para abrir-se à
temporalização, e uma estrutura desequilibrada – mesmo pensando-se
em um desequilíbrio fértil – e temporalizada no âmago, mas negando-
se voluntariamente a investir na abordagem desse desequilíbrio e na
liberação das instâncias de temporalização.

2. O desequilíbrio

Já temos condições de situar uma nova essência típica,


apresentando-a em cotejo com a anterior, situação que amplifica
a visibilidade de ambas. Todo contraste é revelação e é apenas pela
incontornável necessidade de progressão na apresentação de ideias que
temos de introduzir uma ainda sem conhecimentos prévios a respeito
das outras. Há uma relação estreita entre as essências típicas, de modo
que o máximo de iluminação a respeito de cada uma se dará ao final
da exposição da terceira – a hiperestabilidade. Mas tivemos de eleger
alguma para começar, e o fizemos pelo esgotamento por ser este – como
mencionado – a essência que maior afinidade guarda com a própria
essência da embriaguez. É chegada a hora de examinar a essência típica
guilherme messas 253

desequilíbrio. Uma consideração preliminar a respeito de como será


tratado o conceito é necessária. Trataremos o desequilíbrio aqui apenas
como época da vida. As eventuais análises do desequilíbrio como
estilo de personalidade ou patologias não pareceram ser relevantes
para o exame total das características da essência no que se refere aos
problemas das psicoses na embriaguez, em nossos casos estudados
(Embora possam sê-lo, naturalmente, em outros casos, e o seriam
para uma investigação das relações particulares entre as essências e
a estrutura da consciência). Vale destacar que dado ser a existência
fluida e expansiva, há, de certo modo, sempre um ligeiro estado de
desequilíbrio no ser. Assim sendo, nos restringiremos às situações nas
quais a presença da essência típica seja relevante a tal ponto que toda
a existência se veja marcada pelo desequilíbrio, ou seja, quando seu
apogeu essencial pode ser visualizado com a melhor clareza possível.
De largada, a essência típica desequilíbrio inverte a relação de
analogia estrutural com a embriaguez observada no esgotamento.
Se esta é atemporalização cravada no instante autolimitante, o
desequilíbrio é justamente o abandono do instante centrador da
estrutura da existência por meio da abertura da envergadura máxima
do ser. Se, como dissemos, o esgotamento (observado como fase vital)
anuncia o fim de um ciclo, o desequilíbrio é o introito triunfal, embora
instável, de um novo ciclo de potencialidades e formas múltiplas. A
existência arremete para a construção afirmativa de si mesma, ao sair de
um período de estabilidade culminante no esgotamento, inicialmente
mediante um estado de indagação ontológica. Essa questão proposta
para o mundo, para a alteridade e para si mesma, ecoando pelos
diversos portais do real, avançando e recuando, carente e sequiosa, é
o desequilíbrio.
Com isso identificamos o desequilíbrio, em primeiro lugar, como
o enfraquecimento das formas estruturais habituais de apoio no e
constituição do real. Sair de uma habitualidade na qual repousa segura
a estrutura é, antes de tudo, uma perda, embora seja de valor extremo
aqui definir perda como mutação em relação à forma anterior, ou seja,
nesse sentido, mesmo uma novidade experiencial pode ser uma perda,
254 psicose e embriaguez

já que corresponderia a uma intromissão inusitada da dimensão


protentiva, alterando a condição vigente. Mesmo imantada pelas
seduções da autocomposição no mundo, temos de manter em mente
que se desequilibrar, na largada, é soltar o pé dos estribos e projetar-
se num abismo. Contudo não devemos tomar esse termo “abismo” de
modo nefasto: ele será o horizonte de indeterminações sobre o qual
uma nova forma poderá se estabelecer. A metáfora mais rigorosa
definiria essa projeção sobre o abismo como um voo panorâmico sobre
um real ainda não atingido mas com potencial para sê-lo.
Se falharmos nessa visão acerca da perda da configuração habitual
da estrutura de implantação da consciência correremos o risco de
confundir a essência típica desequilíbrio com a deformidade, pois esta
também pode parecer se deixar definir em termos de perda de forma,
ainda que nominalmente. Entretanto, nada mais diverso – como ainda
veremos –, e essa diversidade reside substancialmente no que segue:
a ideia de um desequilíbrio como enfraquecimento da forma habitual
da estrutura se dá essencialmente em termos da temporalidade dessa
habitualidade, ou seja, do abandono das proporções antropológicas
entre presente, retenção e protensão. E isso pode se efetuar sob duas
modalidades.
Em uma alternativa, a perda da habitualidade da temporalidade
heterogênea transversal ocorre tendo já pressuposta uma pré-
configuração de nova forma estável para a estrutura. Nesse caso, a
estrutura já está relativamente madura do ponto de vista existencial
para atingir nova configuração – esta já está como que pré-formada
nas instâncias profundas do ser e ocasionalmente anuncia-se nas
aparições fenomenológicas, sobretudo como imaginação acerca de
si mesma. Exemplo disso, um adolescente que já tenha uma imagem
profissional de si mesmo bastante coerente ainda no ensino médio e
articulada com sua vida atual, articulação observada na dedicação
eficaz e consistente às estratégias para atingir a meta. Essa nova forma
da estrutura, embora sem ainda afirmar-se na solidez da efetividade
sociológica e do próprio eu histórico, tem força suficiente para atrair
para si as modulações desequilibrantes da consciência, concertando os
guilherme messas 255

acréscimos e sobretudo as perdas necessárias para atingir-se o novo


estado. Por meio de mais uma metáfora, podemos dizer que esse estilo
se assemelha à troca de pele de certos animais, nos quais o antigo
revestimento vai caindo à medida que o novo já se anuncia maduro.
Difícil supor que psicoses irrompam nesse solo denso.
Por outro lado, mais fácil supor que as psicoses prorrompam na
outra possibilidade, na qual o movimento inicial de enfraquecimento
e abandono das instâncias estáveis da temporalização não é orientado
por nenhum fio-guia existencial. Nesses casos, parodiando Maquiavel,
a consciência sabe o que perde mas desconhece o que pode ganhar.
Porém a vida é progressão e o ser não pode escolher as forças no mais
das vezes imanentes que decidem pelo seu desequilíbrio. A consciência
não pode decidir quando entra em estado de desequilíbrio e faz parte
do destino humano que muitos indivíduos se vejam introduzidos nessa
essência em total desconhecimento das formas novas que atingirão. É
sobre esses que incide nosso interesse principal.
Mas antes disso necessitamos situar a essência do desequilíbrio,
essência que engloba e define ambas as modalidades sugeridas,
variando estas, na verdade, em termos de intensidade e duração da
permanência da estrutura biográfica no desequilíbrio. Para mantermos
alguma simetria em relação à definição expressa no esgotamento
em que, em nome da compreensão antropológica fenomenológica
fundamental – que entende o humano como temporalização e
autoconstituição aberta –, incluímos apenas a dimensão heterogênea
protensão, assim definiremos a essência típica desequilíbrio: este se
dá quando a estrutura da consciência-implantada-no-mundo estiver
em hiperprotensão. Novamente aqui, dado ser a estrutura temporal
necessariamente trinária em sua composição, teremos de dissecar essa
definição até seus desdobramentos na retenção, no presente e na sua
articulação interior.
Hiperprotensão quer dizer, em primeiro lugar, excessivamente
aberta a novas composições, ou excessivamente plástica, se
preferirmos um termo mais aproximado das neurociências. E, portanto,
excessivamente moldável, aberta ao convite de uma nova formação.
256 psicose e embriaguez

Importante frisar que esse estado não deve obrigatoriamente se


originar na dimensão protentiva, embora, pela articulação estrutural e
a consequente transmissão em cadeia das dimensões da temporalidade,
sempre deve atingi-la também celeremente. Esse enfraquecimento
inicial pode começar pela dimensão retentiva; por exemplo, um
adolescente que gradualmente comece a sentir-se incomodado – sem
nenhum fator externo que o justifique – com a presença paterna, desta
recuando e buscando algum isolamento. Ou seja, aquilo no qual a
estrutura apoiava-se torna-se menos poderoso como fator de apoio
ainda sem, em um primeiro momento – que pode tardar a passar,
é bom que se diga –, o vislumbre de um movimento de abertura
puramente protentiva ao mundo externo. O termo “hiperprotensão”
implica que, cedo ou tarde, a existência terá de lidar com o fato dessa
novidade no campo retentivo: e o enfraquecimento do campo retentivo
passará a ser, como novidade vivencial, parte do campo protentivo das
expectativas e reclamos de nova estabilização.
Nesse sentido a essência típica desequilíbrio caracteriza-se, em
oposição à anterior, pela incapacidade da estrutura em manter-se alheia
às pressões, internas e externas, para uma nova configuração formal. Se
antes uma nova forma era impossível, agora a permanência da forma é
que o será e haverá uma constante pressão para que esta seja abandonada.
Não se deve passar ao largo da observação de que a essência típica
desequilíbrio tenha, em consequência, um poder de imposição sobre a
estrutura da consciência. É natural que consideremos o desequilíbrio,
pelo qual se renova a consciência, como brisa sobre a existência: ele
é mesmo um índice de sanidade mental, que os psicopatologistas
corretamente levam a sério. Entretanto, apesar de certa capacidade de
autorregência da estrutura sobre seu próprio desequilíbrio e renovação,
em parte este invade a consciência desde dentro, tragando-a como uma
imposição suficientemente feroz para entrarmos nas fronteiras das
chamadas crises existenciais espontâneas. Nestas, a crise se coloca por si
mesma, e embora possamos advertir para eventuais gatilhos geradores,
não se deve exagerar na colocação de fatores externos na justificativa de
movimentos tectônicos profundos e imanentes.
guilherme messas 257

As articulações plurais da temporalidade no desequilíbrio

Estando a estrutura mais plástica e ávida por renovação, já


temos de saída que as possibilidades de articulação da temporalidade
heterogênea transversal no desequilíbrio são inúmeras. Será aqui que
a multiplicidade de formas da natureza humana encontra seu ápice
e, por conta disso, a dificuldade do psicopatologista também, pois
não apenas as variedades individuais são contempladas, mas agora o
são igualmente os inúmeros e voláteis ensaios de temporalização da
estrutura, ora fortuitos ora mais estáveis, porém ainda demasiadamente
múltiplos para que um conhecimento científico confortável se
estabeleça. Operar um período de desequilíbrio é atuar com formas
muito fluidas, com inúmeros sinais transitórios de desequilíbrio e
reequilíbrio da consciência, sem que saibamos de antemão se tais sinais
podem ser confiáveis ou não.
Sejamos mais precisos com essa afirmação a respeito da
multiplicidade. A composição trinária da temporalidade acomoda as
variações em seu interior, ou seja, para uma nova forma protentiva se
estabelece uma nova forma de apoio no presente e na retenção. Essa
acomodação interna – que no esgotamento não ocorre – pode se dar em
demasia no desequilíbrio, colocando em risco a estabilidade mínima
de todo o sistema. Por exemplo147, o mesmo adolescente acima citado
pode, ao perder pé no apoio pretérito familiar, ter diante de si duas
alternativas: ampliar o apoio presente no grupo de amigos ou acrescer
à sua consciência a dimensão imaginária voltada à sua protensão. Há
risco de abrir-se em exagero à protensão futuro imaginária e, por conta
disso, acabar por inviabilizar sua estância no mundo, perdendo pé até
mesmo da raiz presente. Ou pode associar-se radicalmente ao grupo
de amigos, concedendo-lhe uma arriscada e muitas vezes inautêntica

147 É importante apontar que no desequilíbrio os exemplos são muito mais


importantes do que no esgotamento, já que este tem uma forma final menos
plural, resultando sempre no império do presente homogêneo e sua causalidade;
assim, os casos clínicos tem valor maior aqui e por isso fizemos deles a maioria,
embora um, Ricardo, tenha pé também no esgotamento.
258 psicose e embriaguez

procuração identitária para a condução de sua vida. A via reversa


também é possível, na qual uma alternativa de protensão, surgindo
em uma consciência marcada pelo desequilíbrio, pode acarretar
abandono completo das amarras presentes e lançar toda a estrutura
em um desbalanço de risco extremo. Toda a produção fenomenológica
de sua consciência passaria a ser absorvida pelo novo, um novo que,
exatamente para sê-lo (pois em caso contrário apenas falsificação
superficial do antigo seria), já exige um abandono parcial da retenção
ou enfraquecimento relativo do presente.
Mas o entendimento que nessa essência típica devemos manter
das abas da temporalidade não pode ser o mesmo que receberam na
essência esgotamento, já que naquela ocasião estas se dissolviam no
presente. No desequilíbrio, há uma inversão dessa posição estrutural
básica, fazendo com que na verdade tanto a protensão quanto a
retenção sejam agora extremamente móveis e possam, por si mesmas,
conduzir o destino do presente estrutural. A consequência disso na
totalidade da temporalidade heterogênea transversal é um excesso
de temporalização, ou, para dizer o mesmo sob um outro vértice, um
acréscimo da heterogeneidade da estrutura temporal. Devido a isso,
aquilo – retenção e protensão – que não é de modo algum real efetivo
comanda uma estrutura que, no limite, para ser real efetiva deve sempre
estar calcada num presente imediato. A estrutura da consciência sob a
regência do desequilíbrio é comandada, pois, pela promessa de algo
que poderá um dia vir a ser apoiado sobre a sedimentação daquilo que
já foi, ambos movendo o tempo todo o istmo que a mantém de fato
encravada no real. E tudo isso, volátil já pela natureza da sua escassa
solidez de implantação no real, mutando-se constantemente em seus
transitórios ensaios de estabilização. Não é muito difícil constatar o
risco dessa situação, como apontaremos na seção seguinte.
Em linguagem estrutural, podemos dizer que retenção e
protensão passam a ter mais importância relativa na essência
desequilíbrio do que o próprio presente, exatamente pela incapacidade
imanente deste de estender-se para além do real apresentado. Elásticos
pela própria natureza digamos “imaterial”, protensão e retenção
guilherme messas 259

dançam compondo-se entre si, tomando território do presente sobre


o qual algum dia terão de voltar-se quando alguma formação mais
definitiva se assentar. Sendo fartamente amplas as formações das abas
heterogêneas assim como as extensões que podem atingir em momentos
como este, nosso olhar deve voltar-se, no desequilíbrio, sobretudo para
as relações entre a protensão e sua sustentação na retenção, já que
o presente estará restrito – a estrutura quer mesmo abandoná-lo – e
pressionado pelas dimensões inatualizáveis. Ao presente resta resistir
a essas nauseantes marolas do ser. A História nos mostra isso com
opulência: nas situações em que um povo busca arrojar-se em uma
aventura ambiciosa ou primeira, para a qual não tem antecedentes
vivenciados – que poderiam estar acumulados dando espessura
ao presente –, ou toma parte dela ainda em tempo insuficiente para
tê-la como constituinte incorporado, constrói para si mesmo um
passado maravilhoso, distante no tempo ou no misticismo. É assim
com os grandes épicos da humanidade, como, na Roma de Virgílio,
a Eneida, ou no Portugal camoniano d´Os Lusíadas. Para um presente
recente e instável e um futuro ameaçador148, trace-se um passado que
reequilibre o fio da navalha no qual navega um povo. As operações
comezinhas, cansativas e repetitivas do cotidiano, no desequilíbrio
apenas conseguem justificar-se e equilibrar-se nas asas poderosas das
dimensões inatuais do ser. E o ser, por sua vez, no desequilíbrio, passa
a ser a instanciação temporária e microscópica no concreto de uma tese
da irrealidade. A respeito desse poder configurador do irreal sobre o
real presente cantou Cecília Meireles:

“Ai, palavras, ai, palavras,


Que estranha potência, a vossa!
Éreis um sopro na aragem...
– sois um homem que se enforca!”
(Romanceiro da Inconfidência, 1983)

148 Lembremos dos versos do epílogo da obra camoniana, nos quais o poeta lamenta
a queda de sua pátria: “Não mais musa, não mais, que a Lira tenho destemperada
e a voz enrouquecida...”
260 psicose e embriaguez

Entretanto, a atenção para com as relações entre a protensão e sua


sustentação na retenção, fundamentais, não podem deixar de receber
uma visão que as encaixe de volta no presente, única dimensão atual
da estrutura do ser. As relações entre presente e retenção e presente e
protensão são distintas e relevantes para nosso tema. Todo presente
é uma sedimentação de material experiencial e estrutural ligado, em
última instância, à retenção, mesmo tendo esta que se deixar recortar
necessariamente pelo horizonte de indeterminação proposto pela
protensão. Toda retenção já foi em algum momento presente e, portanto,
há uma maior afinidade entre passado e retenção do que entre este
último e a protensão. A protensão pode desligar-se completamente do
presente com mais habilidade do que a retenção. Haverá, portanto, no
estado momentâneo em que se encontrar uma estrutura sob a essência
desequilíbrio, um presente com maior ou menor sedimentação da
retenção-que-um-dia-foi presente; haverá presentes mais saturados de
retenção, por assim dizer e, em consequência, mais aptos para receber
as cargas existenciais de desequilíbrio, embora quanto mais saturado
for esse presente menor será sua amplitude de desequilíbrio. Por
exemplo, os melancólicos são aqueles com maior saturação de presente
e, portanto, aqueles com menor “aptidão” para o desequilíbrio: e
menos capacidade plástica para mudanças também. Nesses casos
podemos sustentar haver uma continuidade retenção-presente – e
uma menor heterogeneidade temporal transversal – fazendo com que
ora o desequilíbrio seja contido pela solidez dessa retenção contida
no presente, ora o presente tenha um conjunto maior de alternativas
para resistir às formações do desequilíbrio. São os casos do indivíduo
maduro, com um autêntico desenvolvimento de si mesmo, em crise
existencial. Na vigência da crise, sua protensão assume formas
esfumaçadas, sua retenção e seu passado mnêmico são reexaminados
– ou um reexame às vezes sombrio se impõe tiranamente – e o presente
perde motivação e relevância; entretanto, a espessura deste permite
que, mesmo diante de enormes oscilações de seu ser, a linha geral da
estrutura até o momento tomada se mantenha indene, até que uma
nova estabilidade possa medrar.
guilherme messas 261

A menor espessura do presente é típica da adolescência – e


não gratuitamente é nela que irrompem as esquizofrenias –, fazendo
com que diante do desequilíbrio todo o presente possa perder-se,
aniquilando também as abas irreais que dele derivam. A estrutura de
presente pouco saturado é a mais vocacionada para a reforma integral
do ser, incluída a impossibilidade de qualquer reforma, na qual a
infinita plasticidade da temporalidade das abas heterogêneas não
encontra nenhum solo para implantar-se e deriva no vácuo dos ensaios
temporários para, como nas nuvens, terminar por não ter nenhuma
forma, o que pode levar ao esgotamento, como ainda examinaremos
na seção sobre as progressões entre as essências.

Os riscos do desequilíbrio

No desequilíbrio, a estrutura da consciência anseia, de modo


incontível, por uma nova forma, torna-se hiperplástica, hiperprotentiva;
a condição de possibilidade para esse estado é a magnitude de
incorporação de novas experiências, ou, dito com outras palavras
nas quais a estrutura seja levada em consideração, é uma excessiva
reinauguração de novas configurações formais de temporalidade,
sem que a consciência tenha-as sedimentadas em sua espessura.
Em um período de estabilidade estrutural, a própria estrutura,
envolvida em um projeto, rejeita e expele experiências não adequadas
a essa execução, não se abre para a acomodação de todo e qualquer
estímulo proveniente de si mesma ou do mundo. Diversamente, no
desequilíbrio, todo estímulo é recebido e, do ponto de vista estrutural,
acomodado temporariamente no território da estrutura, fazendo desta
um campo de testes de reacomodações das relações antropológicas
entre as dimensões da temporalidade.
Se as articulações são muitas e devem ser arroladas na pluralidade
dos casos individuais, uma característica essencial revela-se como
perigosa se e quando presente no estado de desequilíbrio, justamente
devido a esse trânsito em novas configurações da temporalidade:
a rapidez da oscilação da forma temporal. Lembremo-nos: o dese-
262 psicose e embriaguez

quilíbrio por si mesmo é condição de possibilidade da existência já


que ninguém evolui biograficamente sem perder-se para reencontrar-
se. Porém, se as formações temporárias do desequilíbrio forem
exageradamente velozes, entra em zona de risco a estrutura. Vejamos
como se revela a rapidez da oscilação, utilizando-nos de nossos casos.
O caso Patrick emblematiza a presença da rapidez no dese-
quilíbrio da existência consciente. Já na adolescência recentemente
terminada, sua situação estrutural marcava-se pelo desequilíbrio;
acentua-se este pela saída de casa e início de vida universitária noutra
cidade. Todos esses elementos, seguramente necessários para sua
evolução biográfica, ampliarão sua necessidade de sustentação acima
de tudo na protensão, na esperança imaterial (mas real) de algo a ser
constituído, removendo muito de seu apoio na habitualidade (já tênue
tanto pela pouca idade como pela relativa dificuldade imposta pela
impulsividade dos pais). Ainda deixando de fora nesse momento
o papel fundamental da contumácia da embriaguez, teremos que
talvez todos esses movimentos fossem plenamente compensáveis
pela reestruturação da temporalidade da consciência não fosse pelo
fato biográfico da descontinuidade da faculdade, por um motivo
moralmente reprovável: a não frequentação de aulas. Diversas
instâncias fenomenológicas responsáveis pela adesão material da
estrutura temporal foram abandonadas em exíguo intervalo de tempo.
A protensão e sua indefectível esperança e a retenção nas suas amarras
de moralidade e compromisso familiar se foram, deixando toda a
consciência subitamente apoiada no presente festivo. Se lembrarmos
que a consciência sob a essência desequilíbrio procura avidamente
uma forma nova e esta passa pelo emprego das latitudes das abas
heterogêneas da temporalidade, a perda delas implica um enorme
e intolerável desequilíbrio pois, diferentemente do esgotamento –
de certo modo acostumado a não se ampliar para além do presente
encarcerado e homogêneo –, não é possível para o desequilíbrio apoiar-
se genuinamente no presente. O desequilíbrio depende visceralmente
da esperança e/ou da reverência. Apenas como falsificação transitória
isso foi possível para Patrick, tendo sido levado rapidamente à ruína. É
guilherme messas 263

interessante notar como a presença essencial do desequilíbrio mantém-


se mesmo por sob os escombros da destruição psicótica, relevando que
as profundidades da estrutura da consciência são regidas por seus
momentos existenciais mesmo quando na superfície a atuação destes
não for tão visível. Isso foi observado na constituição da psicose que,
como vimos, procurava recobrar um equilíbrio mínimo por meio
da ancoragem – ainda que transtornada – na retenção. Para que o
desequilíbrio continue vigorando é imprescindível o pressuposto
de um mínimo de equilíbrio: sem a relação dialética entre ambos, a
estrutura pode evoluir para um esgotamento, como ainda veremos.
A rapidez é perniciosa exatamente porque destitui uma das pernas
dessa dialética constituinte; recusa à estrutura o tempo mínimo para
manter-se equilibrada dentro do desequilíbrio ao qual está submetida.
Diferentemente do exclamado no aforismo heraclitiano: “Panta rei”
(tudo flui), se tudo é fluxo não se faz permitido o próprio fluxo. A
extinção do fluxo seria provocada pela ausência da parada do próprio
fluxo e a rapidez é a implantação do aforismo em uma estrutura
individual de implantação-no-mundo. Opostamente, poder-se-ia
talvez dizer que “tudo o que flui exige paciência e movimentos de
recesso”. São exatamente esses movimentos de recesso, anulados pela
rapidez, que permitem à estrutura a seleção das formas possíveis para
uma nova estabilização. A parada temporária peneira a exuberância
de formas instáveis propostas e a princípio admissíveis, deixando que
aquelas mais afins à autenticidade do ser possam decantar. Em Patrick,
essa impossibilidade foi ainda mais ampliada pela neutralização
proporcionada pela embriaguez crônica, como ficará mais claro pelas
análises que virão.
Também Adílson e, em parte, Ricardo, podem ser assinalados
pelo signo da rapidez. O segundo, de modo muito fraco, já que
a relação entre as mudanças e a fragilidade de implantação no real
pende muito mais para esta última. O primeiro, por sua vez, pode ser
melhor entendido pela pauta da rapidez, mesmo se a relação temporal
entre um fato vital fundamental – o afastamento do pai – e a quebra
psicótica seja bastante alargada, levando a suspeitar-se da justificativa
264 psicose e embriaguez

da noção de rapidez. Diferentemente de Patrick, é necessário para o


entendimento da rapidez em Adílson a introdução da embriaguez
crônica, como segue.

Os riscos do desequilíbrio e uma das faces da


embriaguez no desequilíbrio

O desequilíbrio é uma avidez pela e vulnerabilidade em relação


à nova forma e, portanto, também remete ao equilíbrio, ainda que
adiado para um outro momento, no qual essa avidez se esgota ou se
sacia (e a vulnerabilidade, em consequência, diminui), se pudermos
assim nos expressar. Essa experiência de saciedade existencial
profunda só pode ser genuinamente estabelecida em sua validade pela
própria interioridade da estrutura da consciência, quando os estratos
temporais reconhecem-se e afirmam-se entre si como estáveis ou
relativamente equilibrados em seu desequilíbrio imanente contínuo.
Porém, pode ser falseada e a embriaguez é instrumento primordial
de falseamento de um estado de reequilíbrio pós-desequilíbrio.
Teremos, assim, que a embriaguez reduz falsamente a temporalização
da estrutura da consciência, maquiando os rumores de sua excessiva
plasticidade. A hiperprotensão permanece nos esteios do ser, mas
a própria consciência implica-se apenas com a atemporalização
embriagante, experimentando como que uma oclusão para as
experiências temporais que inapelavelmente assestam à sua porta.
Esse adiamento pode levar anos, uma vida inteira talvez, mas jamais
pode ser alcançada a obturação completa do ser pela via da embriaguez
crônica. O ser falseado engana-se de si mesmo mas não consegue, pela
atemporalização instituída com a embriaguez, se renovar, exatamente
porque é ela atemporalização e a renovação apenas se dá a jusante de
uma hipertemporalização existencial.
A estrutura pode permanecer, assim, aquém de si mesma, como
parece ser o caso de Adílson. Essa situação, contudo, embora possa
surgir como defensável ou mesmo desejável em alguns casos, nos
quais um ambiente inóspito cerque o ser, carece de poder. A carência
guilherme messas 265

de poder e, em consequência, de sustentabilidade, provém de sua


relação com a rapidez. Uma estrutura que adie pela via da embriaguez
o desequilíbrio essencial não se torna jamais apta para afastar a
experiência nociva de rapidez do desequilíbrio, ou seja, no momento
em que sua forma for testada por uma movimentação imanente ou
transcendente – em outras palavras, quando tiver de arrostar o próprio
estado autêntico de desequilíbrio em que se encontra – o será por meio
da rapidez.
São as experiências do cotidiano, contínuos ímpetos de equilíbrio,
desequilíbrio e reequilíbrio, que espessam a consciência, qualificando-a
para resistir à hiperprotensão de modo contínuo, para ser hiperplástica
sem sofrer o correlato nocivo da rapidez, para, enfim, vulnerabilizar-
se rumo a uma nova forma de temporalização heterogênea estável
que possa permitir a discriminação e sedimentação dos estratos
mais autênticos do ser. Apenas a atitude de abrir-se à vida permite
à consciência modificar-se mesmo enormemente sem colocar-se em
risco de desequilíbrio psicótico. Embriagar-se cronicamente é, dessa
perspectiva, fechar-se à temporalização vital.
O mesmo pode ser enxergado pelo interior da experiência da
embriaguez. Esta reduz a temporalidade ao instante, imantando
todas as abas heterogêneas para encerrarem-se no intrafestum de
Bin Kimura149. Celebratória, a consciência purifica-se no presente
instantâneo, como vimos na introdução. Porém, àquelas alturas de
nosso estudo não tínhamos como projetar essa experiência sobre as
épocas da temporalidade longitudinal da existência. Agora já podemos
fazê-lo. A redução ao instante total “cabe” no esgotamento, já que ele
também é uma reclusão da estrutura no presente. Entretanto, pelo
motivo antipódico, a atemporalização exogenamente determinada de
uma consciência que está, intimamente, hipertemporalizada, constitui
uma intolerável contradição nesse campo vivencial, pois eleva o valor
presente de cada vivência à medida exata que reduz seu horizonte
pretérito e futuro de apercepção. Uma vivência qualquer com valor de

149 Cf. B. Kimura, Scritti di psicopatologia fenomenológica.


266 psicose e embriaguez

imediatismo potencializado sobre um fundo experiencial que tende a


acomodar profundamente as novas vivências (lembremo-nos, a essência
do desequilíbrio é a hiperplasticidade), ou seja, também a elevar sua
vulnerabilidade à modificação das proporções da temporalidade,
bordeja o desastre. Isso porque, embora atemporalizada na superfície,
cada experiência não consegue escapar ao timbre de novidade – a
essência típica o determina – e, assim, temos que toda vivência não
apenas será nova no sentido de reacomodação da temporalização
heterogênea, como será experimentada na consciência com imensa
rapidez. A embriaguez acelera a rapidez de doação de cada vivência e
a estrutura em estado de desequilíbrio magnifica a transmissão dessa
experiência de rapidez para toda a estrutura de temporalização,
tendo como resultante um enorme risco para a implantação global da
estrutura. Nessa última modalidade de apreensão podemos encaixar
tanto o caso Adílson quanto Ricardo, o primeiro pela subtração de
alguém na esfera da interpessoalidade e o segundo pela introdução de
alguém, mostrando como em graus de elevado desequilíbrio menos
importa a valência do que a mera presença dos riscos contidos na
rapidez. No caso de Ricardo, inclusive pudemos ver como a introdução
de uma movimentação temporal protentiva dada pela esperança fê-
lo perder todas as dimensões da temporalidade, a ponto de restar-lhe
apenas a prototemporalidade ínsita, no seu caso, à psicose.
Mas a rapidez do desequilíbrio pode receber novos olhos,
centrados na questão das relações internas das instâncias da tempo-
ralidade heterogênea. Isso levaria a um outro papel da embriaguez no
desequilíbrio.

A outra face da embriaguez no desequilíbrio

Já vimos como a embriaguez adia a realidade experiencial do


desequilíbrio na consciência, sem com isso paralisar a essência típica
na intimidade da estrutura. E, com isso, deságua em um paradoxo, pelo
qual ao adiar atemporalizando acaba por ampliar a rapidez com que as
vivências novas se doam à estrutura desequilibrada. Mas uma vivência
guilherme messas 267

efetivamente nova no desequilíbrio já tem como pressuposto uma


nova relação antropológica da temporalização heterogênea, podendo
surgir tanto da retenção quanto da protensão150. Portanto, em um
primeiro momento, no desequilíbrio rápido há um reforço excessivo
de uma instância temporal, logo acomodado – pois não está esgotada
a consciência – pelas novas configurações das outras instâncias.
Essa sobrecarga transitória, capital para o entendimento dos riscos e
também da boa progressão do desequilíbrio, pode ser modulada pela
embriaguez, dada sua capacidade de atemporalização.
A embriaguez pode “congelar” a proeminência de uma
dimensão temporal para além do que a estrutura por si só seria
capaz de executá-lo e, por extensão, para além das possibilidades
dentro das quais o desequilíbrio é um estado saudável. Pela própria
natureza do desequilíbrio, no qual as abas heterogêneas são poderosas
e relativamente independentes em suas tentativas de neoformação –
que serão logo transmitidas às outras –, a embriaguez pode atingir
desigualmente uma das dimensões, hipertrofiá-la e manter essa
hipertrofia pela sua condição de atemporalizadora. Por exemplo, a
euforia produzida pelo embriagante pode manter a consciência em
estado contínuo de otimismo pelo futuro, para além, insistimos, do
que seus trejeitos internos seriam inclinados a fazer. Como a estrutura
está em estado hiperplástico, esse congelamento do futuro como mais
relevante ou proeminente será transmitido às outras instâncias, já que,
diferentemente tanto do esgotamento quanto da deformidade, não é
possível para a consciência desequilibrada obstar a hiperprotensão.
Assim, a estrutura reuniria novas formas de retenção e apreciação
de presente forjadas na dominação temporária da protensão como
dimensão exageradamente insuflada pela embriaguez, criando um novo
risco, não agora diretamente pela rapidez, mas pelo falso reequilíbrio

150 Em nosso Psicopatologia e Transformação: Um Esboço Fenômeno-Estrutural,


desenvolvemos como toda experiência unitária e focal é fruto de um arranjo
global da estrutura do ser e, desse modo, por essa perspectiva, tudo aquilo que
é de fato novo necessita que uma nova forma preliminar de configuração global
da estrutura do ser esteja já manifesta, mesmo que transitoriamente. Só podemos
enxergar aquilo que nossos olhos minimamente já são capazes de discernir.
268 psicose e embriaguez

causalmente sustentado pela embriaguez, existencialmente inautên-


tico. Reequilíbrio que, embora falso, atrai para si todas as dimensões
da temporalidade, assumindo-se uma nova forma pseudoestável da
estrutura da consciência fadada a, por seu caráter virulentamente
inautêntico, fracassar. O caso Ricardo mostra isso com nitidez quando,
inflado pelas alturas do canabinismo recheadas com uma ideia-projeto
em si mesma não tão disparatada, abandona todas as inserções reais
no presente lançando-se em uma aventura tresloucada culminando na
psicose. Embora a dimensão retentiva tenha recebido um acréscimo
de valor – a ideia que o inspirava tinha o brasão familiar, por assim
dizer –, podemos dizer que esse novo valor retentivo apenas ocorreu
por um desmesurado apoio da consciência na protensão às custas
do desmazelo com o presente, e que esse desmazelo com o presente
teve como origem a embriaguez reforçadora ao máximo do futuro. É
importante notar a diferença dessa constelação com o que ocorreria
em caso de a estrutura estar sob a égide do esgotamento. Até mesmo
uma elevação da protensão via esperança pode se dar – como vimos
em Otelo –, mas não uma reacomodação tão importante das demais
instâncias, como a da retenção em Ricardo. Este reclamou para si um
passado glorioso – que o acompanhou também no interior do vendaval
psicótico –, dando maior sustentação à ficção estrutural causada pela
embriaguez. Otelo, ao futurar-se imaginariamente, não teve apoio
de nenhuma outra dimensão: lembremo-nos, a sua protensão ficou
“exterior” ao todo da consciência. Assim, podemos dizer que, no
desequilíbrio, devido ao poder de reacomodação das instâncias da
temporalidade, a exaltação exogenamente determinada de apenas
uma das dimensões da temporalidade acaba por ter efeito mais nocivo
ainda no todo da consciência do que no esgotamento, embora este
esteja vinculado mais diretamente à embriaguez.
O mesmo pode ser visto ainda por uma janela diferente. Cada
janela de visão ilumina certos aspectos que a outra não faz, comprovando
que a complexidade do real é afirmada e mesmo reverenciada toda vez
que um pensamento se deixar guiar pela potencialidade contida na
iluminação diversa do mesmo pela multiplicidade de perspectivas.
guilherme messas 269

A face da embriaguez no desequilíbrio


levando em consideração a ação voluntária

Tudo o que examinamos até agora sobre a ação da embriaguez


no desequilíbrio foi executado com a atenção voltada estritamente
às abas da temporalização. Propositalmente, deixamos de lado uma
faceta de compreensão sumamente importante para o estudo da
embriaguez, como já mencionamos na parte em que investigamos
a essência geral da embriaguez: a ação voluntária de procura pela
embriaguez. Introduzir agora na análise essa camada do real nos
permitirá acrescentar algo de iluminação em uma zona que ao fim e
ao cabo prosseguirá como obscura; e nos advertirá uma vez mais para
as complexidades contidas na estrutura da consciência, já que toda
vez que se fala acerca de vontade livre se abre espaço para a reflexão
sobre o espírito na psicologia. Nosso estudo não tem o espírito como
tema, mas filia-se à tradição que entende o espírito livre como atado
à terra estrutural que lhe dá enquadre sem, contudo, reduzir-se a ela.
Esse estado de coisas pode ser recortado, nesse momento, sob uma
perspectiva em especial.
A essência típica desequilíbrio atormenta a forma mais estável da
temporalização da estrutura de maneira portentosa, como uma suíte de
terremotos ao longo de uma acomodação tectônica que custa a passar.
As articulações estruturais profundas da temporalidade procuram
a nova arquitetônica a lhes reequilibrar, engolfando a superfície
da experiência fenomenologicamente vivenciada. O movimento
profundo se dá à revelia da consciência voluntária, mas pode com ela
dialogar ou dela receber alguma ação, seja ativa ou passiva. Essas ações
podem não ter força para de fato sustar a presença da essência típica,
contudo podem modular o seu governo ou desgoverno. Em outras
palavras, o indivíduo consciente capitaneia alguma reação diante do
que experimenta brotar dentro de si como irrefreável, embora o faça
com maior ou menor grau de diferenciação experiencial e eficácia.
Um jovem pode não atinar para o que lhe ocorre, mas, mesmo assim,
produzir uma ação que lhe auxilie a evitar a catástrofe da existência.
270 psicose e embriaguez

Um indivíduo maduro pode ser capaz de traduzir para si mesmo o


que lhe toca das entranhas do ser, mas atuar deixando-se derrubar por
essas vibrações. Até agora vimos como a embriaguez atuava reduzindo
falsamente a excessiva plasticidade estrutural do ser, entretanto a
situação pode ser oposta.
A consciência pode, desde si mesma, em absoluta concordância
com a hiperprotensão que lhe rege, procurar na camada consciente o
júbilo ou a vertigem da sublevação completa (fenômeno seguramente
mais associado à juventude, o grande período das psicoses por
cannabis) contra a própria forma da temporalização. A embriaguez é,
assim, voluntariamente desejada como a modalidade mais acessível
de dar carnalidade às exigências mais profundas da essência típica.
Diversamente – mas, em essência, analogamente – ao que vimos até
agora, a embriaguez passa agora a ser a hiperprotensão provocada
por si mesma, o instrumento para desarvorar a temporalização
da estrutura. Por exemplo, a euforia procurada e “congelante” da
protensão será a maneira pela qual a consciência corre atrás de um
desequilíbrio que já lhe inspira desde dentro. A própria hipertrofia de
uma dimensão temporal torna-se o fato novo em si mesmo, ampliando
assim o desequilíbrio já produtor de fatos novos e retomando a cadeia
de experiências de ampliação e transmissão que vimos há pouco.
A rapidez-risco é, assim, procurada por si mesma porque – embora
carregada de riscos para a estrutura – será também um novo modo
de doação objetal à consciência. Se postularmos que uma estrutura,
antes de ser atingida pela onda do desequilíbrio, tem certo modo de
doação objetal e que este, por ser já habitual da consciência, jamais
atinge o estatuto de novo (isso será desenvolvido no exame da
deformidade), teremos que a novidade formal é ao mesmo tempo
um sinal de novos tempos essenciais da existência (o desequilíbrio)
como também o caminho pelo qual esses tempos desequilibrantes
podem ser emulados, invocados ou multiplicados. A consciência
voluntária livre, mesmo tendo poucos instrumentos para dialogar
com suas entranhas, pode invocar o desequilíbrio de acordo ou com
suas características valorativas – algumas épocas, algumas culturas
guilherme messas 271

enalteceriam o desequilíbrio mais do que outras – ou constitucionais:


certas constituições materiais acolhem melhor ou mais prazerosamente
a experiência vertiginosa da rapidez. Dos nossos casos, Patrick é o que
melhor representa essa produção pura e amplificadora do desequilíbrio
por meio da embriaguez voluntariamente executada.

A vedação da historicização nas psicoses por desequilíbrio

Mas nos resta proceder ao exame da embriaguez no desequilíbrio


projetada sobre o processo de biografização. Toda experiência de
embriaguez é, fenomenologicamente falando, ora a vivência de uma
ampliação ora de uma redução da temporalidade em hiperprotensão,
embora estruturalmente reduzam-se essas faces sempre a uma
atemporalização (no primeiro caso, uma atemporalização
desequilibrada). Seja qual for o caso, o caráter atemporalizante da
embriaguez faz com que tanto uma quanto a outra não recebam uma
sedimentação dada pela historicização, sedimentação que poderia
inclusive dar resistência contínua para estados muito desequilibrados
da estrutura, reforçando sua capacidade de manter-se desequilibrada.
É necessária uma explicação mais detalhada. No desequilíbrio,
a hiperprotensão faz com que novas formas de temporalização
articulada sucedam-se e alternem-se mais ou menos fortuitamente
até o momento em que “parem” em uma forma mais afim com a
imanência da estrutura. Com essa parada, o risco existencial contido
no desequilíbrio desaparece e uma nova época da vida inaugura-se,
com sua nova essência típica predominante. Para que essa parada
se dê em alguma configuração, é necessário que a temporalidade
longitudinal da estrutura continue operando fluidamente durante o
desequilíbrio – ou seja, que a historicização da vida não cesse – e faça
com que se sedimentem as novas formas experimentadas – mesmo
as mais instáveis, como um fundo de experiências que, embora
abandonadas, restam como alternativas possíveis e, de certa forma,
testadas pela consciência e sua estrutura – sobre o leito da consciência,
do qual passam a compor a espessura, via retenção. Será apenas com
272 psicose e embriaguez

essa sedimentação espessante da estrutura que haverá lastro suficiente


para que, em algum momento, ocorra a implantação da nova forma
estável de temporalização autêntica do ser. Ora, no desequilíbrio151 a
embriaguez é exatamente um fator de vedação dessa sedimentação,
fazendo com que as variadas e desejáveis tentativas de reforma temporal
sejam como que lavadas todas as vezes em que ocorrerem, estado que
culmina na incapacidade de retenção do próprio desequilíbrio em
si, como se a essência desequilíbrio não pudesse ser incorporada
biograficamente152, como se a existência toda permanecesse em um
desequilíbrio desistoricizado, dado pela aniquilação das possibilidades
de retenção. É esse desequilíbrio desprovido do direito de historicizar-
se (ou, visto por outra perspectiva, desprovido de pontos de apoio
mínimos para a manutenção do próprio estado) que dá a marca do
introito das psicoses por desequilíbrio na embriaguez. É por isso
que, no desequilíbrio, a embriaguez não necessariamente precisa ser
crônica para gerar psicoses, diferentemente do que veremos na essência
típica deformidade, embora no mais das vezes um estado continuado
de embriaguez esteja presente. Basta que as formas da hiperprotensão
deslizem pela estrutura sem poder nela fincar raízes para que o
todo da consciência, impedido de possuir aquilo que o humano tem
de mais visceral – a história – soçobre na psicose. A distinção entre
embriaguez crônica e aguda não atinge o limiar de diferenciação em
uma condição na qual a própria temporalização longitudinal estiver
comprometida, já que tem como condição de possibilidade que haja
uma cadeia temporal para justificar-se (algo só pode ser crônico se
pressupuser um tempo estendido: fora da presença deste, todas as
experiências serão, formalmente, agudas, sendo que a estrutura passa
a ser entendida como uma estrutura agudizada, pelo que retornamos
às noções de rapidez e de atemporalização). Um desequilíbrio que não

151 Será diferente, como veremos, na hiperestabilidade e nas progressões . Ver


nota153.
152 A incorporação biográfica que faria com que em muitos momentos tanto a forma
nova quanto a anterior fossem expressas simultaneamente, gerando uma tensão
vivencial. Na incapacidade de retenção, apenas a forma nova e suas vivências são
expressas, trazendo mais conforto vivencial, embora com maior risco psicótico.
guilherme messas 273

se torne história, sucessão e alternância de si mesmo perde os perfis


humanos pois não se alinha mais com a noção de renovação; torna-se
caos, abismo, cujo cúmulo é a psicose. A psicose por desequilíbrio
brota quando uma história pessoal, na época essencial em que deve se
desequilibrar para se lançar adiante, vê recusado esse passo decisivo
constituinte da humanidade; portanto, deve ser entendida como uma
desistoricização ocorrendo no momento em que os movimentos da
historicização são imprescindíveis para que esta mesma possa existir.
Todo desequilíbrio essencial carece de seu fim. Ao dobrar-se
diante do fim que o redime e chancela ao mesmo tempo, o desequilíbrio
revela sua função no ser histórico. Se a voragem do desequilíbrio pode
sorver o ser, o contínuo horizonte de anunciação de que haverá um
fim permite à consciência tolerar esse estado e se reconhecer como
uma cadeia de alternativas articuladas que ora anulam ora recuperam
sua estabilidade; ou seja, de reconhecer-se como estrutura biográfica
histórica. Do infinito conjunto de possibilidades pelas quais a
consciência humana pode lembrar-se a si mesma desse fim redentor
– ou aplacador de sofrimento –, a embriaguez é simultaneamente o
mais acessível e o mais pernicioso. Se a acessibilidade lhe dá o favor de
muitas vezes permitir que algum alívio possa ser conseguido para esse
estado penoso, a perniciosidade nasce do fato de que a proeminência
excessiva de uma aba da temporalidade – mesmo se for a protentiva
– sobre as demais termina por fechar esse horizonte que apavora mas
acalma no mesmo ato. Ocultando da estrutura da consciência – e mesmo
da consciência vivenciada – a visibilidade do fim, a embriaguez deglute
a experiência total do ser numa vivência paradoxal e dilacerante de
eterno desequilíbrio (e isso jamais poderá ser biografia), cujo efeito
de náusea tem apenas a própria psicose como termo de equilíbrio e
relativa tranquilização. Daí vem a não rara observação de que apenas
na vigência da psicose podemos assistir à reacomodação da estrutura
nas suas instâncias temporais históricas e à retomada do desequilíbrio
em bases mais toleráveis, como fica claro em todos os pacientes nos
quais a psicose originou-se no desequilíbrio que estudamos e ainda
em outros que pudemos acompanhar e que aqui não são relatados. A
274 psicose e embriaguez

psicose encerra a vertigem do desequilíbrio aparentemente infinito


e, assim, oferece como que um “fôlego” para o ser poder recobrar a
sua temporalização profunda e natural que, lá no âmago da estrutura,
mantém-se em estado de desequilíbrio.
Lembremos como Patrick se aproximou – embora no início apenas
delirantemente – da família; como Ricardo se fez quase que adotar, já
no início do tratamento, pelo psicopatologista; como Adílson jamais se
descolou de uma interpessoalidade dual formalmente intacta durante
todas as suas psicoses. É bem verdade, como ainda estudaremos, que
uma psicose originada no desequilíbrio pode naufragar no completo
esgotamento. Porém, se a estrutura de toda a existência estiver de
fato marcada pelo desequilíbrio, sua vocação natural é buscar uma
forma estável a jusante deste e isso continuará ocorrendo ainda que
no interior de um desarranjo psicótico. Nesse sentido, a psicose por
desequilíbrio, em condição de “pureza” essencial, não é suficiente
para desencaminhar o ser, embora o seja para lançá-lo à borda da
decisão involuntária entre continuar o caminho ou atolar no charco da
paralisação.

Vinheta 1. Camila

O caso de Camila, dezenove anos, ilustra com nitidez o trajeto


da psicose originada no desequilíbrio. Até os quatorze anos era
extremamente recatada, religiosa, sonhava com o retiro da vida
monástica. Excelente relação familiar. Aos quinze anos, com o início
do desequilíbrio da adolescência, afasta-se da família, pois esta repele
o grupo de amigos que passa a frequentar. A primeira reação diante
dessa perda de apoio familiar tem as cores da depressão, indicando
ainda uma subordinação formal aos ditames da estrutura anterior:
depressão como impotência diante daquilo que é experimentado como
valor a ser seguido; mas já em tensão de conflito. Progride para o uso
de cannabis, logo em grandes quantidades, a ponto de não mais saber
o que significava estar sóbria. Mudam também radicalmente seus
planos de vida, pulando da vida religiosa para a mundana. Movimento
guilherme messas 275

acompanhado pelo abandono veloz da preparação para a vida recatada,


substituída pelas baladas com amigos, regadas a álcool e cannabis.
Estruturalmente estamos diante de uma essência típica desequi-
líbrio, com as estruturas de temporalização alternando-se rapidamente,
ou seja, com substituição intermitente de uma configuração apoiada na
segurança da tradição familiar por outra, apoiada em uma ideia de
vida e relações novas e, portanto, instável. A embriaguez pela cannabis
impede cada vez mais o diálogo entre a configuração nova transitória
– mas procurando estabilizar-se – e a anterior estável, mas perdendo
relevância. O desacoplamento entre as duas formas temporais eleva
o desequilíbrio a pontos intoleráveis, pois não se dá nenhum ponto
de equilíbrio para a estrutura experimentar a nova forma. Com isso,
eleva-se ainda mais a canabinização até o ponto em que se rompe a
estrutura e surge a psicose.
Esta se apresenta fenomenologicamente como esquizofreniforme,
contendo vivências de controle de pensamento, vozes dialogando
na cabeça, alterações da própria corporeidade (partes do corpo
incandescentes) e experiência de perda da alma. O conjunto clínico
sugere uma psicose grave, fraturando as fronteiras mais básicas do
eu. No entanto, com o tratamento farmacológico reduz-se bastante
a paralisação psicótica, embora uma exagerada alegria com baixa
ressonância empática segue presente. Porém, o que mais nos interessa
aqui é que, após a paralisação impingida pela ruptura psicótica,
gradualmente a paciente retoma os planos nascidos junto à nova
configuração intermitente, que surgia a jusante do desequilíbrio,
indicando que esta brota do mais genuíno do seu ser.
Em resumo, podemos ver em Camila como uma rapidez
exagerada de desequilíbrio, tendo travada sua historicização por causa
da opção dietética assumida para tolerar a náusea dessa essência
típica, acaba por “exigir” uma psicose – com todos os riscos que esta
contém – para encontrar uma boia de amparo estável temporária
para a estrutura. Abaixo da psicose e, de certo modo, mais potente
que esse adoecimento, resiste a estrutura, pois está sob a regência do
desequilíbrio e continua visando a um fim transdesequilíbrio.
276 psicose e embriaguez

As diferenças regionais de desistoricização: a tipicidade das


substâncias embriagantes no impedimento da reversão da
alternância das configurações de temporalização

É epidemiologicamente evidente que a cannabis é mais destrutiva


nas psicoses por desequilíbrio da adolescência do que o álcool, ao
passo que este se vincula principalmente a psicoses em faixas etárias
mais avançadas e ocorrendo após período maior de exposição à
substância. Essa diferença é manifestamente dada pela tipicidade da
substância, sempre agindo sobre as condições essenciais vigentes. Há
um diferencial de ação de cada substância em suas influências sobre a
estrutura que as recebem. Desse diferencial nasce a sua capacidade de
produzir e fazer cumulativa a atemporalização, processo que termina
por invocar a psicose por desequilíbrio. Restringiremos nossa análise
à comparação entre cannabis e álcool, dado serem estes os que agem
de maneira oposta entre si na gênese de psicoses por desequilíbrio,
sendo que, a rigor, apenas por princípio pode-se dizer que o álcool
origine essa modalidade de psicoses, já que em nenhum de nossos
casos aparentemente o álcool tenha sido o responsável exógeno pelos
desfechos estudados. Para evidenciar ao máximo essa diferença
também será circunscrita a análise aos desequilíbrios observados na
adolescência, por serem estes os mais propensos à ruptura psicótica.
Ora, se álcool e cannabis agem diversamente sobre a estrutura
da consciência, essa diferença não pode se dar na raiz temporal desta,
já que ambos, como toda embriaguez, são primordialmente agentes
de atemporalização, ou seja, tanto um quanto o outro têm o mesmo
efeito, no fim das contas. Entretanto, há entre eles uma diferença nos
rumos que dão à desistoricização, ou seja, à não incorporação das
atemporalizações transitórias sobre o leito da estrutura temporalizante
da consciência153. E essa diferença será constatada nos gêneros de

153 Vale situar que a ausência continuada de temporalização também acaba por
determinar residualmente alguma forma de sedimentação, a sedimentação
da desistoricização. Mas para que se dê essa sedimentação daquilo que não é
historicização genuína, é necessário que a estrutura não se movimente, porque se
guilherme messas 277

espacialização com a qual vedam a historicização. Em termos mais


técnicos, diferirão nas formas de impedimento da reversão da
alternância peculiar ao desequilíbrio.
Hiperplástica e hiperprotentiva, a estrutura assume uma
reforma quase que completa, embora intermitente, toda vez que se
embriaga. Por exemplo, um adolescente em pleno desequilíbrio pode,
ao embriagar-se, se descolar de suas atividades escolares de modo
muito mais eficaz do que um adulto estável o faria em relação a suas
responsabilidades profissionais, a ponto de sentir-se embasado em
uma retenção independente daquela em que sua consciência sóbria está
fundamentada. A escola e sua identidade correlata somem e um novo
papel pessoal, como, digamos, a torcida organizada a que pertence,
tomam-lhe completamente154. Essa reforma, como vimos, é estimulada e
mesmo tem seu berço na essência típica vigente mas, quando sustentada
pela embriaguez, tende a não se acumular na historicização. Entre uma
configuração transitória e outra existe um hiato, uma descontinuidade,
que permite que a primeira seja abandonada e a segunda assumida
com a força típica do desequilíbrio. A isso denominamos alternância.
A alternância é a passagem de uma configuração estável (breve ou
longa) para outra, intermediada pela redução transitória da presença
da anterior. Ora, esse momento de redução da presença da anterior
joga, no átimo inicial de sua produção, a estrutura em uma espécie
de vácuo que, na realidade existencial, inexiste. Ou melhor, existe

movimentar é desequilibrar-se. Para que ocorra essa mortificação dos resíduos tem-
se como pressuposto que haja uma forma estável ou mesmo hiperestável da estrutura,
apenas recebendo os detritos sem alterar-se. Com isso, não podemos incluir esse
processo na essência típica desequilíbrio; antes, seria uma espécie de deformidade,
embora sem psicose. A experiência clínica mostra como é frequente nas psicoses por
deformidade a coocorrência desses desenvolvimentos quase processuais de uma
vida, cuja expressão psicopatológica mais pronunciada é um afeto ao mesmo tempo
exagerado, intenso, íntimo para com o observador, mas sem nenhuma ressonância
afetiva. Mimetiza-se um quadro maníaco mas sem a ressonância, formando uma
monstruosidade da esfera afetiva raramente encontrada fora das embriaguezes de
longa data. Veremos exemplo disso na seção “progressões”.
154 Num certo sentido, essa hiperplasticidade mimetiza a inautenticidade da
histeria, com a importante diferença de que esta exige uma centralidade que não
está contida necessariamente na descrição essencial daquela.
278 psicose e embriaguez

apenas como uma potência de temporalização, à qual já demos o


nome acima de prototemporalização (pela qual pudemos entender
melhor o caso Ricardo). A prototemporalização, como broto inesgotável
da temporalização, precisa estar intacta para que, ao debilitar-se a
configuração formal anterior, haja enquadre de temporalidade para
que emerja a outra. E vale lembrar ainda uma vez que no desequilíbrio
esses movimentos são intensos, abruptos e muitas vezes radicais. Na
camada vivencial da consciência, a expressão da prototemporalização
mais visível – embora sempre com muita exiguidade, já que é apenas
uma potência, invocada somente nas eras radicais da existência – é a
da dissonância afetiva. Analogamente à música, a dissonância surge
como um incômodo, um desarranjo tomando o ser por meio de uma
obliquidade estrangeira que não alija o conhecido, mas o deixa surgir
com novas tonalidades, caracterizando indefinições sentimentais
simultâneas a sentimentos definidos, ou, em suas projeções sobre a
identidade, parcialidades de identidades simultâneas a identidades
até então vivenciadas como únicas, estremecendo a unidade destas
últimas e fazendo com que estas tendam a deglutir aquelas, em nome da
estabilização. Não raramente, a dissonância recebe, nas personalidades
mais fortes, o timbre da angústia agitada pela ambiguidade vivencial155.
Uma ambiguidade que busca sofregamente a harmonia, abandonada
na configuração formal anterior da temporalidade e ainda não atingida
com a seguinte. A alternância para a forma estável seguinte significa
a resolução dessa dissonância e, logicamente, a presença temporária
e logo prescindida da prototemporalidade. Por exemplo, esgotados
diante de um trabalho que não mais nos interessa, nos preparamos
para transitarmos para outro. Nessa preparação, nos visualizamos
nessa posição futura, conduzidos pelos sonhos de lá desenvolver novas
potencialidades. Igualmente, executamos um balanço do que podemos
perder e dos riscos contidos na decisão. Entretanto, em tudo isso até agora
relatado, não há propriamente uma prototemporalidade implicada,

155 Sobre o papel da intolerância à ambiguidade nas personalidades, recomendamos


o ensaio “Relação entre Criatividade e o Círculo Maníaco-Depressivo”, de Alfred
Kraus.
guilherme messas 279

não há alternância. Essa se dá apenas no momento em que se executa a


transição, quando a estrutura já abandonou as inserções pretéritas mas
ainda não tem sólidas as amarras da próxima configuração. Dentre os
sentimentos emergentes nesses períodos, é imprescindível que haja a
experiência de dissonância, de incapacidade de uma vivência sentimental
definida, para que reconheçamos a presença da alternância156. Estados
sentimentais definidos, tais como desânimo – tão típico dos melancólicos
que, por isso mesmo não são muito aptos para o desequilíbrio existencial
–, não pressupõem, por serem habituais da consciência, a presença da
alternância, embora nem sempre tenham força para obstá-la.
Mas para que esse processo seja incorporado pela estrutura,
tornando-se biografia, é necessário que haja a reversão da alternância,
ou seja, que o estado novo surgente retorne às camadas daquela
configuração transversal da consciência anterior, tornando-se retenção
finalmente, momento em que já privaria do patrimônio mais sólido
da estrutura. Assim avança a estrutura da consciência-implantada-no-
mundo. Os embriagantes álcool e cannabis dificultam ou impedem a
reversão da alternância, embora agindo de maneira diferente entre si.
O resultado líquido de sua ação é deixar as vivências ilhadas, isoladas
fenomenicamente do seu trilho biográfico nativo e a modalidade dessa
ação é, sempre, a espacialização do momentum da prototemporalização.
Como são os embriagantes por essência atemporalizantes, sua vocação
é negar a temporalização até mesmo da prototemporalidade. E é
fundamental que a prototemporalidade esteja intacta para que as
vivências retornem para seu leito original (ou, em outras palavras, para
que realmente nos renovemos seria imprescindível que vivenciássemos
as tais dissonâncias durante a embriaguez e após ela de modo
homogêneo, i.e., a mesma vivência em continuidade temporal, o que se
torna muito difícil pela própria feição da embriaguez).

156 Os transtornos de pânico observados nas transições existenciais são o exemplo


mais evidente disso: são dissonâncias magnificadas pela relativa fraqueza
constitucional do indivíduo.
280 psicose e embriaguez

Aqui temos de dissolver um possível mal-entendido. A


embriaguez torna-se fomentadora da hiperprotensão não por ser
temporalizante, coisa que jamais é, do ponto de vista essencial: a
hiperprotensão nasce da própria estrutura e apenas “usa” a força de
negação da embriaguez para aumentar sua potência. Nesse sentido,
o efeito embriagante causal na essência desequilíbrio é apenas
secundário, como ainda veremos. Por outro lado, em relação à sua
ação sobre a prototemporalização, esse efeito é direto, pois procura
anular esta, fechando a janela de transmissão da nova configuração à
anterior.
Vejamos suas diferenças, começando pelo álcool, guiando-nos
pela pauta aristotélica da multiplicidade de caráteres. O impedimento
da reversão da alternância alcoólico secunda, em sua encarnação, o
rompimento do andamento longitudinal da identidade privada por
meio de uma projeção desta na coletividade, como já vimos. O eu
unitário paralisa-se tornando-se diversos eus parciais que, por sua vez,
têm cada uma das sedimentações regionais enfraquecida pela própria
embriaguez, confluindo para uma ausência de sedimentação na
estrutura unitária. Em vez de ocorrer a alternância e sedimentação no
eu unitário, a diversidade de eus constitui como que breves histórias
transitórias independentes que, por sua vez, também não atingirão
uma unificação. Assim, o eu unitário torna-se muitos que tenderão
a jamais se tornar um só eu. Essa dissolução da unidade identitária
na multiplicidade aparece com nitidez nas alcoolizações grupais, nas
celebrações coletivas do alcoolista, nas quais todos se envolvem em
todos os temas, permanecendo sempre de certo modo externos a esses
temas, tornando-se espectadores do mundo numa fusão amplexiva
mantida aquém do comprometimento com o real necessário para a
unificação do eu biográfico e sua consequente sedimentação. No dia
seguinte, o grupo, encontrando-se sóbrio, nada tem a fazer como
continuidade do banquete da noite anterior: ele permanece ahistórico,
esquecível e esquecido. A alternância biográfica unitária é substituída
pela diversificação do eu pessoal nestes eus de superfície o que, se por
um lado impede a historicização, por outro lastreia a estrutura, fazendo
guilherme messas 281

com que haja uma espécie de reversão lateral da alternância. Essa


reversão lateral não historiciza o indivíduo, mas o mantém enraizado no
mundo por meio de uma gradual redução da autenticidade individual e
acréscimo da dependência do mundo da coletividade. A vida esvazia-se
para o interior do coletivo e o resultado projetado sobre a temporalidade
longitudinal será um acréscimo da estabilização da estrutura sobre
a temporalidade do coletivo, encravando aquela nesta e abrindo
caminho para os estados de deformidade que ainda descreveremos.
Esse processo substitui a convocação da prototemporalidade e suas
vivências dissonantes pela fusão – ou confusão – das experiências da
coletividade, não deixando que haja o trânsito das novas configurações
para a de base. Os sentimentos do campo da dissonância são engolidos
pelos celebratórios no ato da embriaguez e, nos momentos posteriores
a esta, retornam ao campo da configuração anterior, resultando numa
manutenção extremamente conservadora da estrutura da consciência
que, por um lado, por encontrar sempre ponto de apoio na esfera do
conhecido, reduz o risco de psicoses por desequilíbrio, mas, por outro
lado, recusa à estrutura seu direito de alternar-se desequilibrando.
Como se um indivíduo, em desequilíbrio, ora experimentasse os
seus sentimentos, ideais e desejos de sempre, ora – quando deveria
se estranhar na intimidade da própria consciência – dissolvesse-se na
coletividade até o momento em que desaparecesse o ímpeto imanente
de desequilibrar-se e de crescer.
A cannabis atua por outras vias. Nela, o impedimento da
reversão da alternância faz a estrutura recuar do mundo, preenchendo
o papel da prototemporalidade pela introversão da consciência sobre
si mesma, pelo enfraquecimento solitário do eu privado ou pela
experiência de perda de realidade do mundo. Nas duas primeiras
alternativas, a resultante do esvaziamento da estrutura entroniza a
dimensão do imaginário, como vimos principalmente em Ricardo,
por ser este um protetorado do eu solitário. Como este tem asas
infinitas, alarga-se demasiadamente a amplitude do desequilíbrio,
lançando sombras sobre a possibilidade de retemporalizar-se no
mundo por meio da reversão da alternância. A embriaguez canábica
282 psicose e embriaguez

lança o ser às alturas e impede que as alturas rarefeitas vividas


recebam oxigênio do mundo fincado no chão. Aqui reencontramos a
condição do tormento da hiperprotensão infinita, cujo resultado pode
ser a psicose. A atadura empobrecedora da alcoolização no coletivo é
o correlato funcional da psicose na cannabis: ambos são convocados
para dar estofo material à reversão da alternância vetada. Do
mesmo modo, as parciais temporalizações da multiplicação dos eus
superficiais mantêm de certo modo uma mínima temporalização que,
em que pese sua impossibilidade de incorporação à temporalização
genuína da estrutura, ainda reside na temporalização da implantação
da estrutura no mundo da interpessoalidade, o que é impossível na
atemporalização imaginante da cannabis. A imaginação canábica
enfraquecedora do eu não tem porta de saída para uma sedimentação
de vivências, pois sobe a alturas nas quais não mais visualiza os
caminhos anteriores, embarcando no desterro da atemporalização
do eterno, caso a própria imanência não tenha força para, em algum
momento – mesmo que pela via psicótica –, reimpor a essência
desequilíbrio.
A experiência de perda de realidade do mundo, vivenciada
como estranheza, difere daquela própria da dissonância exatamente
num ponto decisivo: ela se dá excluindo a coocorrência de vivências
de habitualidade. O dissonante sente um mundo estranho em relação
ao habitual tendo este como referência, ao passo que o embriagado por
cannabis perde-se num mundo totalmente estranho, mais potente do
que ele e em relação ao qual resta apenas defender-se. A indefinição não
é mais simultânea à definição sentimental, mas é a tonalidade integral
do mundo. E um mundo completamente estranho não é historicizável,
pois não pode ser pautado pelas características da estrutura: o
totalmente estranho atrai para a eternidade de sua perenização como
essência alienante enquanto a estrutura clama pelos trilhos terrenos
da temporalização. Toda perenização, enfim, recusa, por definição,
qualquer absorção e substituição de si mesma.
guilherme messas 283

Uma nota sobre a vulnerabilidade das estruturas

Mas não são todas as pessoas que psicotizam ao se embriagar, sob


essa essência típica. Elas são, na verdade, a minoria, o que exigirá de
nós alguma nota suplementar acerca dessa diversidade. Por exemplo,
a literatura epidemiológica mostra como traços de esquizoidia
favorecem a eclosão de esquizofrenias junto ao uso de maconha na
adolescência157. Diante do que acabamos de examinar, podemos
postular que certas personalidades, as ditas esquizoides, tenham por
imanência uma tendência a sofrer de modo especial nos momentos de
desequilíbrio os efeitos da cannabis. O caráter aéreo e introvertido das
estruturas dessas personalidades acolhe bem a hiperprotensão dessa
época essencial – o que faz delas bastante diferente, por exemplo,
dos melancólicos; porém, aparentemente, as mesmas características
tendem a fazer com que a embriaguez por cannabis impeça a reversão
da alternância das configurações de temporalização com mais força,
Como se a efetividade da cannabis amplificasse uma dificuldade inata
de, uma vez desencaixados da temporalização, a ela voltar, tanto para
trás quanto para a frente e, simultaneamente, lhes faltasse encarnação
para uma substituição nos moldes que o álcool promove. Mas esse é
um tema que não nos interessa aqui e deverá ser desenvolvido em
outra ocasião.

A causalidade operante no desequilíbrio

Se no esgotamento a excessiva separação do presente em relação


às demais abas da temporalidade coloca a estrutura da consciência-
implantada-no-mundo à mercê de uma causalidade forte e eficiente,
na essência típica desequilíbrio essa equação se transformará,
determinando uma operação da causalidade bastante distinta. E
bastante mais randômica em suas eficácias. Senão, vejamos.

157 J. Stirling et al., “Cannabis-Induced Psychotic-Like Experiences Are Predicted by


High Schizotypy”, Psychopathology, vol. 41, n. 6, p. 371-378.
284 psicose e embriaguez

No desequilíbrio a hiperprotensão faz modificar velozmente


a posição básica da estrutura, ora ampliando ora reduzindo cada
uma das participações das instâncias da temporalidade. Assim,
haverá momentos de abandono do presente com exaltação de
protensão; retorno à retenção para sustentar a protensão; exaltação
do presente com esmaecimento das outras abas (e nisso também
ela pode se assemelhar por algum tempo ao próprio esgotamento,
já que a plasticidade contém em si a rigidez); aliança entre presente
e protensão cega para o passado; e tantas outras configurações que
possa a realidade conceber. Com isso, a ação do fármaco embriagante,
atuante necessariamente sobre o presente, não pode ser determinada a
priori, já que a fecundidade do presente sobre a totalidade da estrutura
tampouco pode ser estabelecida a priori. A causalidade opera sobre
um presente frouxo, entendendo-se tal termo exclusivamente como
tradutor de uma presença inconstante. Essa frouxidão, no entanto,
não pode ser vista como tibieza do presente, já que é ela que permitirá
a renovação de toda a estrutura: uma estrutura muito arraigada no
presente imediato pouco pode se renovar.
Ante todas as considerações que desenvolvemos acima,
podemos defender a ideia de que a ação causal-exógena na época de
desequilíbrio pode produzir todos e nenhum efeito específico sobre a
totalidade da estrutura (sem deixar, evidentemente, de ter um efeito
geral atemporalizante: o geral, ao especificar-se no caso particular, o faz
de modo imprevisível), pois será esta que orientará a aplicação da força
embriagante. Transmutando-se a estrutura, muda consequentemente
o efeito causal do embriagante, isso mesmo quando o próprio efeito
continuado já estiver implicado em alguma mudança. Por exemplo,
uma estrutura que tenha se lançado demasiadamente para o espaço
social e ampliado esse lançamento por causa do álcool não deixa de,
no desequilíbrio, poder desse estado sair com muita velocidade, no
sentido oposto ao reforçado pela alcoolização. É a estrutura, no final
das contas, quem decide o sentido.
Assim como será ela que se rompe, por motivos internos, no
momento das eclosões psicóticas, cabendo ao embriagante o papel de
guilherme messas 285

auxiliar no alongamento do desequilíbrio a pontos intoleráveis, como


propusemos. A psicose por desequilíbrio se dá pela incapacidade
da estrutura em conseguir um espessamento mínimo de presente,
suficiente para manter-se em desequilíbrio e, portanto, é uma ruptura
por alongamento, por assim dizer, que pode não ter o embriagante
como fator específico principal, embora seja muitas vezes necessário.
Mas necessário como um coadjuvante “estirando” o tecido da
consciência desde fora, num movimento por ela iniciado.
Os conceitos, nesse momento, tais quais empregados pela
tradição psicopatológica – e que muito nos auxiliam na condução
diária dos casos –, podem nos deixar em confusão, pois de fato há
uma causalidade geral, epidemiologicamente demonstrada, operante
dos embriagantes na psicose por desequilíbrio, em muitas das
ocasiões. No entanto, essa causalidade, do ponto de vista específico,
é randômica, casual, determinável apenas a posteriori, fazendo com
que seu conhecimento geral pouco auxilie no particular. Quanto mais
uma estrutura for regida pela causa final, no sentido aristotélico,
tanto menos será linear e mecânica sua causalidade eficiente, embora
esta permaneça operante. E operante a ponto de poder perturbar o
desenovelamento do curso imanente da estrutura158.
Essa condição torna incertos os juízos acerca da causalidade do
embriagante na essência típica desequilíbrio (a rigor, não apenas da
causalidade operante, mas também das motivações operantes, pois
estas igualmente agem sobre uma estrutura hipermóvel, em muitas
vezes refazendo seus sustentáculos valorativos, ou ainda sem tê-los
amadurecidos), já que exige uma perspectiva de observação por planos

158 É importante dirimir aqui uma provável fonte de confusão, pois pareceria
contraditório dizer estar no desequilíbrio o momento em que a causalidade seja
menos determinável, já que, epidemiologicamente – sobretudo para a cannabis
– há uma forte correlação entre uso da substância e psicose. Não podemos
nos deixar levar pela confusão entre correlação epidemiológica e causalidade
fenomenológica. Sob o desequilíbrio, a primeira enfeixa o resultado global
de uma variedade de alternativas de relações da causalidade exógena com
movimentos da estrutura, dadas na segunda. A correlação epidemiológica muito
ensina do global, mas nada do particular da relação da essência com o estímulo
embriagante.
286 psicose e embriaguez

simultâneos, correspondente à estrutura contrapontística da estrutura.


O observador deve procurar visualizar em essência a progressão mais
profunda da estrutura e suas relações simultâneas com a causalidade
operante do fármaco. Até o ponto em que a estrutura ainda estiver no
comando da linha de desenvolvimento biográfico e, portanto, a forma
básica do ser estiver mantida, a operação da causalidade será fraca,
embora atuante. Contudo, quando detectado um enfraquecimento da
progressão imanente, uma vacilação do ser, imediatamente a força
causal específica da embriaguez torna-se poderosa, tanto em manter
a estrutura equilibrada quanto em modificá-la desde um reforço
fictício do presente pela sua espacialização. Porém, vale insistir que
nessa época as passagens de um estado a outro podem ser tão bruscas
que tal acompanhamento – de caráter geral – não seja suficiente
para auxiliar na condução de um caso individual. Embora essas
indicações pareçam-nos de muita valia para avaliação da existência,
a sua detecção no cotidiano é complexa e complicada pelas eventuais
dificuldades de seguimento dos casos. É a partir dessas dificuldades
que uma atitude geral de prudência com o uso de embriagantes no
desequilíbrio justifica-se. Mas, a rigor, uma estrutura hiperprotentiva
com capacidade de orientar sua hiperprotensão pela produção
imanente estaria protegida dos riscos psicotogênicos da embriaguez,
incluindo a canábica.
E não apenas isso, levando as observações às últimas conse-
quências, podemos conjecturar que a essência típica desequilíbrio
é a época existencial menos arriscada, já que a embriaguez serve a
um propósito fortemente anelado pela estrutura, a de modificações
intensas. Ainda mais, que no desequilíbrio toda a estrutura está
preparada para essa hiperplasticidade, do mais íntimo do seu ser. Não
fosse o caráter de impedimento da reversão da alternância, poderíamos
até mesmo dizer ser a embriaguez apropriada para a época, emulando
o que ela tem de melhor. A aleatoriedade da causalidade faz dela razão
de melhores e piores sucessos.
guilherme messas 287

Uma nota sobre a interpessoalidade no desequilíbrio

Avancemos um pouco mais sobre a noção há pouco mencionada


en passant de fecundidade relativa do presente. Ela merece uma lupa,
pois ilumina algo que até agora não atacamos. E não o fizemos por
não ser o fulcro deste estudo; porém, na essência típica desequilíbrio
sua delimitação é frutuosa. Por fecundidade do presente designamos a
condição pela qual este tem dentro de si a capacidade de dar atualidade
ao gérmen daquilo que mais profundamente estimula a estrutura da
consciência em seu crescimento. Ora, se a estrutura cresce de modo
protentivo, caminhando para um futuro que, no limite, jamais chega,
os meios materiais para esse caminhar só se dão por meio do presente,
ou seja, apenas se chega a uma condição futura por meio de vários
presentes que sustentem essa tese em desenvolvimento. Por exemplo,
para que nos tornemos psicólogos ou médicos existem diversos
presentes dados na materialidade da educação de vários anos. Isso
é óbvio. Mas menos óbvia é a observação de que o presente não
necessariamente tem em si essa fecundidade.
O presente pode não ter capacidade de enviar suas gavinhas de
adesão ao real para a encarnação da tese da estrutura e, por essa falta,
tratar-se-á de um presente estéril. Importante ressaltar que um presente
estéril não é um presente inautêntico. Este falsifica a própria atividade
da estrutura, remetendo sua titularidade a outra coisa que não ele, como
se dá na mistificação dos histéricos ou mesmo no delírio esquizofrênico.
O presente estéril não é o falseamento de si, mas apenas e tão somente
a incapacidade de, contendo em si as ordens provenientes do projeto
do ser autêntico, trabalhar para efetivá-lo. Esse presente improfícuo
não anula os ditames do ser, mas também não consegue traduzi-los
de potência a ato, por assim dizer. E uma estrutura que não consegue
se agarrar aos diversos presentes do mundo para transcender a si
mesma permanece em embrião, em projeto autêntico virtual, aquém
da vocação humana nativa.
É na essência típica desequilíbrio que o presente pode ter
seu apogeu de fecundidade, porque é nela que, durante certos
288 psicose e embriaguez

momentos, a estrutura pode abrir-se amplamente à alteridade da


interpessoalidade, num movimento não apenas de coabitação ou de
compartilhamento social, mas sobretudo de produção da totalidade do
ser. Em outras palavras, em determinado interregno – lembremo-nos,
tudo no desequilíbrio é inconstante e pode desaparecer incontinenti,
sem mandar aviso – a importância relativa da interpessoalidade é
majestosa e pode definir todo o andamento de uma vida, à medida que
for capaz de dar adesão atual às projeções das gavinhas da estrutura,
encaminhando-a gradativamente às suas autenticidades.
Essa condição é um espelhamento do que dissemos há pouco
acerca da causalidade. O presente fecundo também é uma faca de
dois gumes, pois tem como condição de possibilidade uma excessiva
abertura ao outro, situação que, embora possa ser volátil, encerra em
si o risco de um descaminho da genuinidade da existência: devido à
abertura gigantesca, a própria volatilidade pode ser manejada pela
alteridade. A plasticidade da época pode elevar substancialmente o
valor da interpessoalidade como agente de desenvolvimento, um fato
que merece ser mantido em mente pelo psicopatologista, do mesmo
modo como não se pode esquecer de sua transitoriedade.
E, pelas mesmas razões, essa transitoriedade hiperplástica
pode atuar no sentido inverso, fazendo desaparecer da consciência
exatamente os conteúdos positivos de valor extremado, majorando,
por exemplo, a experiência de insegurança diante de alguém muito
relevante. Como essa relevância se projeta sobre a consciência de
quem a experimenta com muita força, na hiperplasticidade a estrutura
pode ser incompetente para manter essa recepção, permitindo a
transição para um novo estado do qual a vivência importante e
positiva esteja alijada e descosendo rapidamente da trilha existencial a
interpessoalidade relevantemente vivenciada. Sob esse ponto de vista
também o desequilíbrio pode ser aproximado da estrutura vivencial
dos histerofóbicos.
guilherme messas 289

Desequilíbrio, crise e patologia mental

Um desequilíbrio montado sobre a coluna vertebral da existência


e lançando suas raízes no âmago desta é uma crise, se visto por uma
perspectiva conceitual devotada ao exame do sentido global de uma
biografia159. No momento de sua instalação típica, a temporalidade
transversal da estrutura flexibiliza-se, mobilizando a proporção das suas
dimensões habituais. Entretanto, as condições até então sedimentadas
da estrutura temporal – que configuram uma estabilidade –, embora
venham a ser transformadas com o anúncio do desequilíbrio, não são
irrelevantes para as manifestações dessa crise.
Pode ser radicalmente diferente a eclosão de uma crise na
adolescência de outra superveniente na casa dos quarenta anos de
idade, por exemplo. A primeira atuará sobre uma estrutura com menos
camadas de sedimentação, o que fará com que o desequilíbrio atue
mais radicalmente sobre a totalidade da estrutura e assuma a face, na
vertente da reflexão, de uma prospecção ideativa sobre o futuro e temas
genéricos e, na vertente afetiva, de sentimentos de desenraizamento
ou esvaziamento. Esses sentimentos são a ressonância de seus temas e
vice-versa, e devem ser entendidos como frutos da adesão a temas de
baixa inserção individual e maior inserção coletiva ou grupal, dentro
da qual o indivíduo ancora-se com superficialidade.
Na maturidade, por sua vez, a tendência será de uma recon-
figuração que encontra limites e apoio nas camadas anteriores,
assumindo tons, na camada reflexiva, da produção de um balanço
sobre a vida projetado sobre a camada afetiva, de afetos mais
determinados, de tintura depressiva, mesmo se não melancólica (o
que dependerá da textura do temperamento). A coleção temática gira
em torno da própria história individual, já que ela é mais densa e a
inserção dos temas na estrutura pessoal é mais visceral. Por sua vez,
os temas relativos à inserção da individualidade no coletivo brotam

159 Evidentemente, essa observação não vale para as personalidades tomadas desde
sempre em demasia pela essência típica desequilíbrio.
290 psicose e embriaguez

de modo bastante diverso da crise na adolescência já que, agora, os


dois polos do exame – indivíduo e cultura em que está imerso – são
avaliados de modo experimentado, fazendo com que um novo arranjo
do balanço indivíduo-coletividade possa nascer; na adolescência,
apenas a equação isolamento de - assimilação pela coletividade está
em jogo.
Essa diferença merece algum apontamento estrutural. Ora, se
dissemos que a essência típica desequilíbrio, em seu caráter essencial,
é sempre uma hiperplasticidade, teremos que assumir que sempre,
em qualquer época da vida, será uma reacomodação das instâncias
da temporalidade. Contudo, o sentido de participação de cada uma
delas é diverso de acordo com a era de surgimento da crise. Nas
crises da maturidade, o reordenamento da retenção é mais complexo
que na adolescência, justamente porque o passado sedimentado
possui mais camadas e maior capacidade de articulação fenomênica
e entrelaçamento de manifestação. Em outras palavras, uma crise
da maturidade é muito mais dada pela reflexão ou entalhamento da
retenção do que a da adolescência, para quem a retenção permanece
apenas como ponto de sustentação em caso de colapso da estrutura.
Do mesmo modo, na maturidade, as reaberturas da protensão sempre
levam em consideração uma participação relativa da retenção muito
maior do que na adolescência, fazendo com que se deem de modo
mais vagaroso, já que a retenção é lastro de densidade da existência.
Em consequência, são crises com menor potencial de escalavramento
psicótico e maior valência afetiva. E uma retenção tão densa reduz a
possibilidade de um desaparecimento veloz do presente, trazendo a
consciência para uma atitude de enfrentamento do real imediato mais
consistente que na adolescência e articulando melhor a renovação da
retenção no presente, embora com isso limite as projeções dessa retenção.
A crise da maturidade é um grande entalhe da retenção resistente a
partir da protensão renovadora. Com isso, o perfil psicopatológico das
atemporalizações da maturidade tende a se modificar, como veremos
a seguir.
guilherme messas 291

3. A hiperestabilidade

A descrição dessa essência típica passa por uma inclinação


assimétrica em relação à lógica simétrica efetuada nas duas anteriores.
Esgotamento e desequilíbrio são constituintes naturais e necessários
da estrutura da consciência-implantada-no-mundo, participando
tanto da normalidade do desenvolvimento quanto das suas patologias
ou dificuldades de personalidades. Não é o caso da hiperestabilidade.
O próprio prefixo “hiper” já anuncia esse particular. Excessivo,
exagerado, além da medida ou de qualquer outra indicação de algo
que exorbita os limites do ordenável ou desejável qualificam-se pelo
prefixo “hiper”. Portanto, a rigor, a hiperestabilidade não será, em
condições pacíficas, constituinte natural das alternâncias longitudinais
da vida consciente humana160. Entre o ocaso do esgotamento e a
primavera turbulenta do desequilíbrio habitaria a estabilidade, e não a
nossa essência investigada.
Porém, este não é um estudo sobre a normalidade e sim, nesse
segmento, sobre as formas essenciais que, acolhendo a embriaguez
– sobretudo continuada –, fazem aflorar alguma psicose. E, para o
apontamento de certo gênero de origem de psicose – que aqui será
denominado psicose por deformidade –, é necessária a apresentação
dessa manifestação oblíqua da estrutura do ser, a hiperestabilidade. A
hiperestabilidade tampouco é diretamente patologia: ela é sobretudo
tipologia de temperamento, contemplando e agenciando uma série de
variedades diagnósticas, como algumas personalidades melancólicas,
borderlines, epileptoides, no sentido de Minkowski161, impulsivas em
geral ou algumas paranoides cujos traços essenciais investigaremos no
decorrer do capítulo. Esses temperamentos são, na imensa maioria das
vezes, descorrelacionados com patologias, mesmo de menor impacto.
Embora não sejam patológicas em si, as estruturas dotadas de

160 Ficará em aberto, neste trabalho, se os anos de senescência podem ser entendidos,
em condições normais ou patológicas, pela essência típica hiperestabilidade.
Não realizamos pesquisa empírica suficiente para uma afirmação nesse sentido.
161 Cf. E. Minkowski, Traité de psychopathologie.
292 psicose e embriaguez

hiperestabilidade são as mais vulneráveis ao desenvolvimento das


típicas toxicomanias, por motivos que examinaremos. Também alguns
abusos da embriaguez terminam por produzir a hiperestabilidade,
agora já como patologia.
A hiperestabilidade não pode constituir a via fluente dos
desenvolvimentos saudáveis porque esta, em âmbito geral, oscila entre
zonas de estabilidade, esgotamento, desequilíbrio e nova estabilidade
e assim por diante. Ora, se o trânsito normal da vida passa pela
estabilidade que assimila os ganhos do desequilíbrio e prepara o
terreno para um tolerável esgotamento, já de saída podemos lobrigar
que uma hiperestabilidade travará esse circuito. E o travará em algum
ponto especial ou com algum estilo preponderante, de acordo com as
particularidades constitucionais e biográficas de cada um, de maneiras
que não nos interessarão aqui. Esse travamento essencial proporcionado
pela hiperstabilidade acarreta imediatamente menor presença relativa
das essências típicas esgotamento e desequilíbrio no fluxo resultante
global longitudinal da estrutura, ou seja, as existências marcadas pela
hiperstabilidade tendem a pouco se desequilibrar e a recusar a todo o
custo o esgotamento, notabilizando-se por uma saliente estabilidade
ao longo de toda a vida (ainda que ao preço de se mascararem em uma
ficção exógena), o que torna essas existências algo mais translúcidas ao
exame do psicopatologista.
Mas essa comparação preliminar não basta, pois se pode
dizer de maneira sensata que todos nós nos transformamos para
nos tornarmos mais idênticos a nós mesmos, em condições hígidas
e, desse modo, toda e qualquer estrutura fértil exibe, vista em seu
conjunto, uma continuidade de totalidade de sentido que poderíamos
nomear também saliente estabilidade. A diferença residiria, do ponto
de vista das relações sequenciais de desenvolvimento que indicamos
acima, no fato de que a estrutura hiperestável manteria sua forma
primordial sem a passagem – e as marcas que dela provêm – pelas
essências típicas esgotamento e desequilíbrio. E é justamente essa
pseudopureza da estrutura hiperestável que lhe dá o caráter de
translucidez. Porém isso lhe custa caro. Não examinaremos esse
preço existencial de maneira ampla, o faremos apenas nas suas
guilherme messas 293

imbricações com a embriaguez e a psicose, mas o caráter geral que


essa condição induz é uma excessiva densificação da experiência
consciente. Se toda vez que a estrutura se esgota e desequilibra-se
e partes das vivências ancoradas por sua temporalidade habitual
são abandonadas, resulta que em um período de nova estabilidade
saudável muito do “material” vivenciado é desprezado pela poda
produtiva exigida pelo desenvolvimento da estrutura, fazendo com
que esta possa se reconduzir às suas configurações mais originárias ao
se livrar do excesso de sedimentação cristalizada. Isso não ocorre na
essência típica hiperestabilidade: aqui, todo avanço mantém retidas
as camadas vivenciadas, dando uma configuração global maciça à
estrutura que muito lhe rouba em frescor e mobilidade, quando não
a impede mesmo de encontrar-se com suas genuínas vocações. Assim
sendo, é sempre difícil, diante de uma essência típica hiperestável, a
diferenciação entre o projeto autêntico de vida e um projeto atravancado
que, embora autêntico até certo ponto, tenha-se empobrecido pela
enxundiosa presença dos detritos insepultos das vivências. E isso não
seria uma contradição lógica deste autor, que linhas acima afirmara
uma translucidez da estrutura? Não. A translucidez é voltada para
o psicopatologista, mas não reflete necessariamente a autenticidade
profunda do ser hiperestável. Facilmente reconhecível como idêntica a
si mesma em sua faceta formal-biográfica, nem sempre compreensível
em suas facetas íntimas de autenticidade profunda (mesmo para si
mesmas) em sua face imanente, este é o drama central da essência
típica hiperstabilidade.
Mas todas essas considerações são de caráter genérico e,
embora úteis para introduzir o tema, quedam insuficientes para uma
elucidação fenomenológica estrutural, sobretudo porque permitem
más interpretações do que foi dito. A principal má interpretação que
surgiria naturalmente seria a conclusão de que a hiperestabilidade
estaria voltada para a retenção, e isso não é verdade do ponto de vista
estrutural. Para evitar isso e penetrar na essência típica hiperestabilidade
como se deve é imprescindível que essas condições estruturais sejam
avaliadas em suas condições de possibilidade de temporalidade, linha
que nos vem guiando até agora.
294 psicose e embriaguez

A hiperestabilidade e as articulações da
temporalidade transversal

Comecemos rememorando a já aludida diferença entre a


temporalidade da hiperestabilidade e a do esgotamento (cf. p.186).
Ela nos será bastante útil para prosseguirmos na caracterização
da hiperestabilidade. Lá dissemos que a estabilidade excessiva
manifesta-se pelo fato de as sedimentações da retenção, de as doações
do presente e de as projeções da protensão reconhecerem-se como
reciprocamente inalteradas sobre a linha biográfica, assim como as
proporções de participação de cada uma em toda vivência instantânea.
Mas essa é uma definição que reproduz as condições longitudinais da
temporalidade, cujo resultado é a translucidez da estrutura. Ela pouco
nos diz a respeito dos pressupostos transversais, os reais responsáveis
pela forma do longitudinal.
Estruturalmente, na perspectiva da temporalidade transver-
sal, a essência típica hiperestável pode ser definida como hiper-
presentificada ou, o que é o mesmo, hipoprotentiva, ou seja,
as instâncias da temporalidade, embora existentes e intensas,
subordinam-se às características essenciais do presente. O aspecto
de distância e virtualidade que iguala protensão e retenção dá lugar
à marca da presença, núcleo do presente. O presente, presença
sem descontinuidades, é, na hiperestabilidade, imperial e solar,
concentrando para si as abas distantes e virtuais da temporalidade. Isso
não quer dizer apenas que as abas descontínuas – retenção e protensão
– estejam gravitando em torno do presente, pois tal é a condição de
toda estrutura-implantada-no-mundo, mas também que esse presente,
exatamente como presença sem suturas, refaz a distância das outras
abas, tornando-as tendentes à atualização da proximidade.
Se a retenção nos lastreia desde longe, como uma bênção sólida e
silenciosa contínua em sua virtualidade operante, se a protensão como
atrator virtual ativo e descentrado nos desloca para diante, reduzindo
algo da macicez do presente, agora as duas abas tenderão a aproximar-
se do centro, a se encorpar como o exige o presente. Todo presente
guilherme messas 295

é corpo de certo modo, e para que a temporalidade transversal seja


móvel é fundamental que protensão e retenção sejam o mais diáfanas
e descentradas possíveis. Tornadas quase corpos, ou seja, timbradas
pela proximidade maciça do centramento da presença, sua mobilidade
assume a ossatura desta e, consequentemente, têm esclerosada a
tessitura de sua mobilidade e a extensão de sua criatividade existencial.
Como um corpo rígido cujas partes, embora articuladas e,
portanto, relativamente independentes entre si, não apresentassem
movimentos autônomos, assim habita o mundo a estrutura marcada
pela hiperestabilidade. Como esse corpo rígido cujos membros estão
atados demais aos movimentos e decisões do tronco, assim a estrutura
hiperestável repousa ou se move em bloco, mantendo as proporções
internas entre cada uma das partes no máximo grau de estabilidade
relativa. Evidente que tal corpo se moveria, seria capaz de embrenhar-
se nos caminhos da vida, mas sempre levando consigo a totalidade de
sua massa, sempre sendo atingido em todas as suas partes ao mesmo
tempo pelo mundo e por si mesmo e revelando o mesmo mundo e
o mesmo si-mesmo para todas as suas partes. Às partes não cabe a
mínima desobediência, nem uma nesga de irreverência espirituosa que,
revelando um través do real, permita a remodelação dos propósitos do
tronco.
Saindo do campo da metáfora, podemos dizer que aquilo que se
decide na centralidade do presente é decidido simultaneamente para
as abas distantes e menos reais da temporalidade. Atenção: isso não é
a transmissão centrífuga de uma aba para outra, cuja forma máxima
se vê no desequilíbrio; contrariamente, não há transmissão desse tipo
pois a estrutura é sempre visada em sua totalidade e não há partes
pontuais para coletar diferencialmente algo a ser transmitido. Toda a
temporalidade, embora ainda trinária, é maciça, é atual, é presente e
todo movimento, centrípeto.
Elucidemos melhor como se dá essa macicez hiperpresente que
faz com que dimensões definidas pela distância e pela virtualidade
tornem-se aproximadas mas, ao mesmo tempo, não deixem de ser
abas da temporalidade transversal, não deixem de ser retenção ou
296 psicose e embriaguez

protensão genuínas. A hiperpresentificação exalta na sua origem tudo


aquilo que é dado na atualidade, faz a sua revelação evidência total e,
em seguida, fará com que as ausências da retenção e protensão sirvam
rigidamente ao atual. E onde devemos encontrar esse atual saturado de
presença? São dois os âmbitos fenomênicos nos quais a identificamos:
a interpessoalidade e a materialidade do mundo sensorial. E esses
dois âmbitos precisam ser recorridos compreensivamente a partir da
estrutura fundamental da macicez, que poderíamos aqui denominar
ausência da chance de qualquer ausência. A interpessoalidade estará
sempre ativa como presença, assim como o mundo material dos
sentidos terá seus interruptores continuamente acesos. Perde-se com
isso a negociação dialógica entre eu e interpessoalidade, entre os dois
polos da mesma coisa que, embora sejam o mesmo, por serem polares
permitem a evasão do polo egoico para seu recôndito no qual digere
a influência da interpessoalidade. O eu cola-se ao interpessoal, ora
com mais adesão ora com menos, mas de modo tal que as expressões
conscientes que brotam dessa estrutura colabada serão inevitavelmente
uma derivação do interpessoal. O coletivo, o próximo, o grupo, no qual
os humanos se apoiam por índole, passa a ser a única e exclusiva forma
de estância no mundo: o indivíduo hiperpresente é um indivíduo
coletivizado ao extremo. Não um indivíduo influenciado pelo coletivo,
diga-se de passagem, como se veria em alguns casos do desequilíbrio,
mas um indivíduo fundido no coletivo. Essa fusão primordial
transforma também a própria acepção do termo “indivíduo”, naquilo
em que este pode ser, em sua expressão cabal, a posição singular entre
o polo egoico e a sua sustentação no coletivo. Esse indivíduo forjado na
essência típica hiperestabilidade é um indivíduo da sempre-presença
do coletivo, da eterna atualidade do eu coletivo.
Ora, se o coletivo que é xifópago do eu clama por uma atualidade
irretorquível, toda a protensão – carne da ausência – será reduzida a
um halo mínimo de redução dessa presença. Toda protensão estará
alquebrada em sua projeção horizontal por essa imensa força atratora
de redução. A impressão superficial desse estado estrutural é a de
ausência de protensão, mimetizando aquilo que se vê no esgotamento.
guilherme messas 297

Porém, as duas essências estão nesse ponto em relação oposta. No


esgotamento, o presente isolado esforça-se para constituir alguma
protensão a partir da qual possa alçar-se para além do abismo em que
afunda; aqui, é a protensão que se atola no presente, sendo como
que um estorvo para este que parece desejar prescindir de um futuro
independente e criativo. A fusão hiperpresente, adoradora da macicez
da interpessoalidade absoluta, recebe a protensão como intrusa
indesejada, como carma da espécie que não consegue exorcizar,
conseguindo domar. É sábia a decisão dos grupos de autoajuda dos
toxicômanos ao estabelecer seus alvos na temporalidade mínima do
“só por um dia”. Sabem, pela dor da experiência própria, que exigir de
suas estruturas uma longa temporalidade é inviável e assim assumem
um diálogo profícuo com a raiz de sua temporalidade de menor
extensão: só um dia. A correnteza da biografia consegue torna-se um
fluxo – jamais deixa de ser um fluxo, ressalte-se! – somente se utilizar a
progressão de uma protensão mínima, essência da hiperpresentificação.
Exemplificando a diferença, no esgotamento o ser promove, como em
Otelo, desde sua solidão corroída, uma imaginação futurante etérea
sem pés no real biográfico; na hiperestabilidade, constrói planos para
o dia seguinte que se mantêm em pé somente a partir da oxigenação do
contato direto com o círculo social.
Entretanto a hiperpresentificação não é apenas fusão no coletivo,
ela é também fusão na matéria sensorial do mundo, como fica evidente na
psicose do caso Bernardo. Não nos devemos demorar nessa apreciação,
já que ela foi extensamente apresentada na seção inicial deste estudo
e discutida nos casos clínicos Bernardo e Júlio. Recuperemos apenas
que toda matéria, se banida do enquadre de protensão que lhe envolve
e sustenta, torna-se presença sensorial absoluta, diante da qual o polo
egoico é tragado e silenciado em uma prisão colorida, sonora, tátil e
intoleravelmente pressurizada.
O caso Júlio, por sua vez, nos permite um mergulho nas
características da retenção sob o domínio da hiperpresentificação.
Se a protensão traz alento para a saturação da estrutura, a retenção
fornece sustento e raiz. Sustento e raiz que, marcados pela distância e
298 psicose e embriaguez

virtualidade, atuam atrelados à protensão numa dança plástica na qual


a estrutura, desequilibrando-se para frente, conhece uma margem de
segurança para seus recuos necessários. Ou seja, exatamente porque a
retenção protege desde longe o presente que este pode se alongar rumo
à protensão. Ambas as abas sinérgicas dão à estrutura uma amplitude
de movimentação que, do lado da retenção, permite que uma nova
formação protentiva inicialmente fortuita encontre uma nova retenção
para sustentá-la. Uma retenção excessivamente colada ao presente será
sempre a mesma retenção do mesmo presente e, portanto, incompetente
para escorar as eventuais novas emanações protentivas: é isso que
ocorre na hiperpresentificação. A retenção aproximada, atualizada em
feitio de presente, iluminando e sendo iluminada pelo mesmo terreiro
de presente, está sólida demais para recuar deste e apoiá-lo com maior
flexibilidade e perspectiva. Toda retenção presentificada é, por isso
mesmo, inflexível, e sustenta exclusivamente as mesmas formas
proeminentes do presente. Nesse sentido, também podemos afirmar
que a retenção na hiperpresentificação esteja atolada no presente.
Em Júlio se vê essa configuração na adesão continuada à família de
origem, de modo que esta sempre esteve atual na vida do paciente,
jamais tendo passado a um plano de fundo, mais sóbrio e mais plástico
para suas carências. Se por um lado essa condição transmite uma
impressão de segurança completa, por outro aprisiona pela saturação
das vivências, deixando a experiência consciente alijada da noção de
que a vida possa ser ou se tornar outra. Talvez o modo mais fecundo
de experimentarmos primordialmente que a vida pode se transformar
é experimentar, antes de qualquer formulação linguística, a prenoção
de que podemos abandonar muito de nossa retenção sem perder a
retenção como tal. Na hiperpresentificação, a retenção é monobloco, de
modo tal que o vislumbre da perda ou mutação de algo dela é sentido
como a perda total de todo lastro e, por conseguinte, prenuncia um
caos apavorante.
Entretanto, retenção e protensão na hiperestabilidade perma-
necem, como dissemos, sendo o que são, dimensões parcialmente
independentes de uma temporalidade transversal e, por conseguinte,
guilherme messas 299

manifestam-se como tal mesmo quando logo a seguir são assimilados


pela presentificação maciça. Também, como dissemos, há, por
conseguinte, uma recusa do desequilíbrio e do esgotamento, i.e, da
temporalidade genuína integral, recusa que já pressupõe a existência
e anunciação desta temporalidade genuína e integral. O modo como
essa recusa se efetua será examinado a seguir.

A obstrução da protensão: a adesão e as explosões

Para esse exame nos interessam mais as diferenças do que as


semelhanças entre retenção e protensão. Em linhas acima aludimos ao
fato de que a retenção, em monobloco com o presente, é também por
sua vez um monobloco em si, o que faz a mínima modificação deste
ser experimentada como caos e dissolução. Como a retenção pode
ser, por natureza, incorporada por ajuntamento, como os corais, sua
calcificação é extensiva e o pavor que gera ao se mover é tão intolerável
que faz com que a recusa da sua mobilidade seja quase total. O caso
Júlio é testemunha vibrante desses fatos.
Com a protensão, é ligeiramente diferente. Sua adesão ao mono-
bloco da hiperpresentificação se faz menos por deposição de camadas
e mais por redução de sua potência de alargamento. Ela não pode não
ocorrer, mas pode aderir. A consequência disso é que – protensão que
é – resta ainda como a ponta mais móvel e imponderável da estrutura
da consciência, mesmo em condições essenciais hiperestáveis. E por
ser mais leve, permanece mais apta a se mover e menos apavorante
em suas manifestações do que um sismo na espessura do retenção-
presente. Afinal de contas, uma retenção é sempre algo de irreal, tecido
no qual alguma turbulência é mais suportável. Mas não devemos nos
enganar. Isso não torna a protensão menos perigosa. Pelo contrário,
pelo fato de ser mais tolerável em termos de alteração de proporções
da temporalidade e mais apta a se modificar, será a ponta contra a
qual mais a recusa da essência hiperpresentificada se voltará. A
hiperpresentificação procura a todo custo obstruir a emergência da
protensão minimamente desequilibrante. E o faz convocando-a para
300 psicose e embriaguez

sua assimilação às feições do presente, ou seja, reduzindo sua distância:


por meio de ainda mais exaltação do presente a protensão é aprisionada
neste por adesão. Vislumbrada por essa vertente apenas, a embriaguez
na hiperestabilidade assemelha-se a uma das possibilidades daquela
do desequilíbrio, pois ambas cessam a excessiva plasticidade trazida
pela protensão. Excessiva aqui vista do ponto de vista da estrutura
hiperpresentificada e, portanto, não num sentido essencial, como no
desequilíbrio. Neste, a embriaguez paralisante impede que a estrutura
se decomponha por hiperplasticidade; aqui, impede que se mova
minimamente. Embora em ambas a essência atemporalizante da
embriaguez atue de modo semelhante, o efeito final é, mais uma vez, a
composição de sua ação com a da essência que a recolhe.
Entretanto, a adesão pode não ser suficiente para obstruir a
retenção. A retenção, justamente por ser virtual, habitualmente abre
uma fenda no presente, contra a qual a estrutura reage violentamente.
Essa reação aguda da estrutura à ampliação protentiva é a explosão. A
explosão apenas anula transitoriamente a temporalização protentiva,
fazendo-a com que retorne à forma estável anterior. A explosão
típica dos hiperestáveis não deve ser confundida com a paralisação
transitória da temporalização observada nas psicoses por desequilíbrio.
Nestas – assim como nos comportamentos impulsivos aparentemente
incompreensíveis de certos esquizoides – há uma excessiva protensão
antecedendo o momento psicótico. Na explosão, por outro lado, o
estado anterior é de extrema estabilidade e a ação explosiva procura
preencher todos os vazios vividos. As explosões são fenômenos
corriqueiros nos hiperestáveis, raramente conduzindo a uma psicose
(mostraremos na vinheta 2 um caso no qual há desfecho psicótico). Na
camada fenomênica, onde as coisas são sempre mais visíveis, o exemplo
mais banal disso é o toxicômano que, diante de uma nova empreitada
na vida, recai violentamente e retorna ao ponto zero do tratamento.
Importante salientar como essa novidade que provém da protensão,
nesse caso, é frequentemente coerente com os planos eventuais da vida
e muitas vezes gestada por longo tempo e, portanto, jamais poderia
ser entendida como uma volatilidade hiperprotentiva. Pelo contrário,
guilherme messas 301

o observador experiente sabe que os planos de vida dos hiperestáveis –


embora muitas vezes de aparência grandiosa e vivenciados com muita
ênfase – não deixam de se circunscrever com frequência de modo
sufocante ao círculo do atarraxamento do presente no mundo coletivo
imediato. Até a protensão absolutamente coerente com o presente da
biografia é autoceifada pela essência hiperpresentificada.
Com essas considerações já estamos adentrando no capítulo das
funções da embriaguez na essência típica hiperestabilidade. Este seria
seu primeiro papel, o de atrelar ainda mais a protensão ao bloco de
atualização e aproximação do presente. Mas essa é uma participação
subsidiária e mais tardia da embriaguez nessa essência. A principal é
a que segue.

A embriaguez na hiperestabilidade

A embriaguez é um redutor de temporalidade. A essência


típica hiperestabilidade é um grande bloco de temporalidade trinária
aglutinado ao máximo na atualidade presente, um holofote excelso
que ilumina todos os vãos da estrutura temporal, comprimindo a
temporalidade transversal para sua identidade com a longitudinal.
Outro nome disso é ausência de criatividade, pois ser criativo é revolver
escaninhos do ser, zonas nas quais a luz não chega, para trazer de lá
sombreamentos do real que jamais deixam de gotejar a umidade da
qual nasceram.
A embriaguez, portanto, iluminará ainda mais a luz excessi-
vamente branca que torna o real saturado e evidente, extruso, de tão
revelado. Ela é apenas mais do mesmo, embora em sua mistificação de
superfície possa oferecer-se como sedutora ou criativa. Em Bernardo,
assim como nas primeiras décadas da vida de Adílson, essa condição
é mais explícita. Em um mundo totalmente revelado, totalmente sem
surpresas, o prazer apenas pode ser obtido da luz. Sem trevas para
o repouso, sem sono para a recomposição do claro-escuro da vida
no qual o prazer imanente poderia se insinuar na existência, resta a
sensaboria do desfastio imediato fornecido pela embriaguez.
302 psicose e embriaguez

Nada de embriaguez como sustentação do presente – o


esgotamento; nada da embriaguez-aventura do desequilíbrio. Agora,
a embriaguez é encaixe luva-na-mão para uma existência que nada
pode descobrir além do que já conhece. E embriagar-se é, embora com
infindos matizes epidérmicos, visitar os velhos moinhos da falsidade
do estado de consciência agradável e ligeiro. Essa embriaguez não
entroniza uma protensão, como no desequilíbrio, nem a imita, como no
esgotamento, ela agora infla de luz um presente inundado de claridade.
Não nos enganemos com as expressões fenomênicas da embriaguez
nos hiperpresentificados vulneráveis aos abusos dela. A aparência
festiva e celebratória não traz as marcas da autêntica celebração na qual
a embriaguez pode representar papel salutar – um corte diferencial no
tempo, uma efeméride homenageante, a consumação de um trajeto,
como veremos no posfácio –, mas a reprodução de uma temporalidade
que, por ser exclusivamente festiva, é na verdade monótona e banal.
Pois não será o tédio a ser catalogado como afeto reclamante
de embriaguez. A estrutura que condiciona o tédio é o esgotamento,
a impossibilidade de obtenção de significação virtuosa do real,
contra a qual a exaltação atemporal proporcionada pela embriaguez
é remédio transitório (caso Otelo). O hiperpresentificado não é
entediado, é apenas contumaz. Consegue viver apenas os mesmos
afetos e essa exigência de semelhança tem na embriaguez seu fâmulo
mais disponível. O hiperpresentificado limita-se a, já pelos seus
condicionantes estruturais, repetir-se ad infinitum, até o ponto em que
essa repetição encontra zonas de esgotamento, como ainda veremos.
Caso não as encontre, pelas idiossincrasias da estrutura individual,
segue adensando sua biografia monotônica na preservação daquilo
que tiranicamente “é”. Onde visualizamos algo parecido com o tédio
nessa essência, melhor seria identificarmos uma urgência de prazer,
condicionada pela própria natureza da atemporalização produzida
pelo embriagante crônico.
Mas a estrutura se move, biografizando-se. E se move em um
bloco de temporalidade comprimida, tanto na ausência quanto
na presença da embriaguez. Esta, se presente em caráter crônico,
guilherme messas 303

compactará ainda mais a coesão da temporalidade, tornará ainda mais


a retenção presente e a protensão apêndice atrofiado deste. A estrutura
reterá diferencialmente da retenção as experiências – ou melhor, o
espectro projetado das experiências – que tenham maior afinidade
pela materialidade, já que esta é presente por necessidade: matéria
sem fluidez protentiva é hiperpresença e embriaguez é, como temos
defendido, sempre materialização. A mais densa rememoração material
da retenção no presente possível é a fissura, na qual a decisão acerca
do caminho progressivo da estrutura é ditada desde a sua retenção;
na qual aquilo que se incorporou fecha o acesso a tudo que não seja
si mesmo por meio de uma manifestação que, imposta que é, surge
como deformidade do campo impulsivo. Todo impulso necessita do
mapa do conhecido para existir, porém não pode abrir mão de um
horizonte de negatividade – vindo da protensão – para que, reduzido
em sua afirmatividade de certeza clara e aproximação cega para a
incorporação de seu objeto impulsionado, não se transforme em
tirania. A perda desse horizonte – que por si só já impele o impulso a
se tornar maximização do presente – tem na embriaguez cronificada
dos hiperestáveis um passo a mais. Agora, como também a retenção é
ativamente resplandecente, o impulso torna-se a invasão desta sobre
um presente sem a forma equilibrada da protensão, ou seja, uma
quimera temporal, na qual a estrutura é dominada por uma retenção-
presente com atributos de presença total, condensando-se cada vez
mais em si mesmo.
A condensação suprema da temporalidade trinária em uma
massa presente se dá, contudo, no fenômeno da síndrome de
abstinência. Sob a variedade de alternativas clínicas – mais ou menos
graves – nas quais se apresenta, toda abstinência é, em essência, recusa
a qualquer ausência de materialidade, a procura pela colabagem total
da retenção na superfície do presente. Toda a estrutura, na abstinência,
está preenchida pela materialidade, ora do desejo, ora da sensação
corporal (os tremores, as dores, aflições), ora, caso extremo, das
alucinações. A alucinação do delirium tremens do alcoolista é o ponto
máximo pelo qual uma consciência pode tornar-se presente-matéria.
304 psicose e embriaguez

Com ela, já nada há que não seja corpo e, sendo corpo sem horizonte
de protensão, o é em suas expressividades máximas: as formas do
mundo inertes fazendo-se vivas (as ilusões), as formas fisiológicas da
vida gritando no teto de suas possibilidades (a hipertensão arterial,
a sudorese e, enfim, a crise convulsiva). Como numa sinfonia que se
desencontrasse na própria potência de sua sonoridade, o sofrente
do delirium conhece um fortissimo que acaba por aniquilar qualquer
sonoridade, por arrasar qualquer harmonia, por massacrar no berço
qualquer melodia. É um fortissimo mortal, cujo nome é deformidade.
O embriagado hiperestável crônico entrega-se sofregamente ao mundo
material e é o excesso de mundo material que metamorfoseia o real
na lugubridade do terror, pintado com maestria pelo alcoolista Edgar
Allan Poe: que a arte declare o que as palavras de reflexão deste ensaio
não consigam atingir.
É verdade que essa intolerável condensação das instâncias
temporais pode não durar para sempre, decidindo-se por duas saídas:
a fratura explosiva, situação na qual, no entanto, a hiperestabilidade
inaltera-se, ou a perda das dimensões retentiva e protentiva, quando
a hiperestabilidade se torna esgotamento. O exemplo mais corriqueiro
dessa última alternativa é a demência alcoólica, quando já não há
mais a espessura da retenção e o presente desaba na solidão. Sobre
a fratura explosiva ainda falaremos; mas, com a introdução do termo
“deformidade”, já estamos adentrando inevitavelmente no terreno das
psicoses. E, antes de nele entrar, uma última consideração é desejável.

A identificação transcendência-imanência na causalidade


operante na hiperestabilidade

Se no esgotamento a causalidade é forte porque a estrutura da


consciência está em pé apenas pelo presente homogêneo e neste a força
exógena tem influência direta, se no desequilíbrio a causalidade vai
na cauda das invenções da estrutura, colocando sua força a serviço
da instabilidade daquela, na hiperestabilidade encontramos uma
situação para a qual a modalidade de descrição até agora utilizada – e
guilherme messas 305

justificada na seção “Rumo à Essência Geral da Embriaguez” – parece


ser simples demais. Na explicação acerca da eficácia da causalidade nas
duas primeiras essências, tomamos como dada uma oposição bipolar
entre exógeno/transcendente e endógeno/imanente-à-estrutura de um
modo que é insuficiente para o entendimento das características da
hiperestabilidade. Em ambas o aspecto exógeno preserva o sentido de
transcendência em relação à imanência dada pelo trânsito estrutura-
mundo, ou seja, exógeno-causal é um efeito embriagante que atua
“desde fora” da estrutura, ora permitindo que essa se mantenha em
pé (esgotamento) ora ampliando ou reduzindo os movimentos dela
(desequilíbrio). Uma vez ativa a eficácia exógena, o estilo de alteração
da implantação da consciência no mundo é dado pela estrutura, o que
equivale a dizer que a imanência articulatória da estrutura preserva-
se até certo ponto, em independência da força exógena (no caso de
fratura, a força exógena tem papel causal, mas responsável apenas
por um efeito quantitativo final). Não é gratuito que as patologias
que surgem da embriaguez nessas essências têm o perfil endógeno,
vistas no sentido da psicopatologia clássica: fazem romper os elos da
consciência com o mundo e procuram reatá-los a partir da imanência
da estrutura162. No mesmo sentido clássico, parece sensato dizer que no
esgotamento e no desequilíbrio a ação da embriaguez é um gatilho para
uma condição que, em si mesma, não é exógena, embora seja sempre
pela exogeneidade temperada. Há, enfim, um pressuposto semântico
de presença da diferença transcendência-imanência na causalidade da
embriaguez.
Esse pressuposto deve ser transformado para a identificação
correta da causalidade na hiperestabilidade. Aqui, imanência e
transcendência identificam-se, de modo que apenas pela insuficiência
da linguagem podemos ainda falar de causalidade operante. Não
há um termo na linguagem corrente apontador dessa situação. A
identificação das duas polaridades de origem de movimentos na

162 G. Messas, “Sentido e Limites do Diagnóstico Diferencial entre Psicoses


Endógenas e Exógenas”, Psicopatologia Fenomenológica Contemporânea, v.
2 (1), pp 2-15.
306 psicose e embriaguez

estrutura, embora coalesçam em uma unidade funcional, nascem da


assimilação da transcendência-exógena pela imanência-endógena
estrutural. Como a estrutura é extremamente rígida em suas aberturas
temporais, tampouco a ação causal do embriagante moverá –
atenuando, acentuando ou funcionando como gatilho – as relações
da própria estrutura ou desta com o mundo, e a ausência dessa
movimentação é o que caracteriza a assimilação referida. A rigor,
desaparece virtualmente a relação transcendente-imanente. Tudo
aquilo que é imanente em essência, ao receber influxos supostamente
transcendentes, continua sendo imanente do mesmo modo e com as
mesmas proporções, como se não houvesse uma real transcendência,
mas apenas uma intensificação da imanência. Essa intensificação da
imanência é causada pela transcendência causal embriagante, mas de
um modo já dado desde sempre. Desaparece a diferença imanência-
transcendência, a despeito de não desaparecer a noção de causalidade
eficaz exógena. Haverá uma causalidade contraditória, completamente
predeterminada pelos condicionantes da implantação da estrutura no
mundo.
Contraditória pois, por um lado, é extremamente poderosa, já
que acentua as configurações da temporalidade habitual a ponto de se
chegar a uma psicose; acentuação que, no entanto, condensando mais
e mais a temporalidade ao presente total, não chega por si a romper
a cadeia de temporalização da biografia, como o mostram os casos
Bernardo e Júlio. Por outro lado, na hiperestabilidade a embriaguez
tem um papel meramente passivo, já que é convocada pela estrutura
imanente a ela submetida e mesmo assimilada, sem que haja relações
parciais diferenciais entre a imanência da temporalidade transversal e a
embriaguez. Se no esgotamento a embriaguez é ativa e, em momentos,
até imprescindível para a existência, na hiperestabilidade ela é
abundantemente dispensável para a intimidade do ser. Faz parte dessa
contradição – que, no fundo é produzida apenas pela insuficiência
da linguagem – que as alterações causadas pela embriaguez na
hiperestabilidade sejam ao mesmo tempo as de menor impacto na
implantação mundana habitual da estrutura e naquelas que mais
guilherme messas 307

tenham as características, em suas consequências psicopatológicas, de


uma causalidade no sentido mecanicista do termo. Essas psicoses são
tipicamente provocadas pelos efeitos contumazes da embriaguez. Sem
esta, elas decididamente não ocorreriam: não são, portanto, doenças
endógenas deflagradas pela embriaguez (embora possam tornar-se,
como ainda examinaremos), mas, no sentido clássico da psicopatologia,
causadas exogenamente pela embriaguez.

As psicoses por deformidade (exógenas)

As doenças ou transtornos causados exogenamente pela


embriaguez e que, por definição, não alteram a temporalidade habitual
da estrutura – apenas acentuam-na –, são patologias da deformidade.
A noção de deformidade circunscreve uma experiência de estância
no mundo na qual o excesso incondicional de si mesmo leva à perda
das feições do mundo, tanto das inter-humanas quanto das condições
de doação da materialidade. As psicoses são apenas um caso extremo
dessa condição. Retenhamos o núcleo a partir do qual brota a psicose:
a tendência a não deixar de ser si mesmo na constituição trinária
temporal de modo algum, sob influência nenhuma. A excessiva
aderência à identidade estrutural não traz em si mesma a tara da
psicose como evolução necessária dessa configuração submetida a
tal essência. A emergência da psicose é, no mais das vezes, tardia e
fortemente mediada pela doçura conveniente com a qual a tonalidade
da embriaguez se encaixa a esse desenho essencial. O surgimento da
psicose é relativamente simples e nasce da exploração contínua da
intensificação adensante da temporalidade do presente, ou seja,
da cronificação da embriaguez. Intensificação que, a partir de certo
ponto, materializa patologicamente esse presente. Trata-se portanto,
pelo fato da materialidade ser presente, sobretudo de psicoses com
características alucinatórias. A produção de delírios, mais vinculados
às estruturas de atemporalização do esgotamento ou da tentativa de
reconstrução do desequilíbrio, é rara e, quando existente, praticamente
nunca atinge condensações em um ponto único a partir do qual toda
308 psicose e embriaguez

a vida recebe novo significado. Não se deve confundir a ausência


de produções delirantes com a vivência de pavor que acompanha
as alucinações, principalmente durante o delirium tremens. Na base
do delírio existe a ameaça de ressignificação de todo um mundo
que vai perdendo sentido e relevo para a estrutura nela habitante.
No rebaixamento deformado da consciência há, na verdade, uma
excessiva significação hilética do mundo, deformada pelo excesso que
descrevemos. A expressão sentimental dessa deformidade é o pavor
no qual o eu está imerso e assombrado. O estado de delírio resolve-
se de algum modo, seja na certeza delirante, seja no aplainamento
existencial das esquizofrenias negativas. Na deformidade psicótica a
dúvida tende a se manter o tempo todo (com exceção dos momentos
mais agudos das abstinências ou das paranoias), com a manutenção
da sua correlata avaliação crítica. Aquilo que a psicopatologia clássica
chama de crítica é, na verdade, manutenção da posição da estrutura no
mundo, embora desfigurada pela psicose. Não é raro que o deformado
registre o que lhe ocorre, mesmo no calor dos fatos, como patológico.
É somente nesse sentido e, portanto, já tendo como dadas todas
as condições anteriores – incluídas as de diagnóstico diferencial
com as outras essências –, que podemos falar de psicose exógena.
A psicose por deformidade é uma psicose exógena, na acepção da
psicopatologia clássica, e para que seja reconhecida é necessária a
identificação da manutenção das formas habituais da temporalidade
no desenvolvimento biográfico163. Mas a hiperestabilidade não é
suplício na Terra.

As progressões libertadoras da hiperestabilidade

Portanto, do acima visto resulta que, mais importante do que


examinar uma possível vulnerabilidade à psicose, deve-se atentar
para as formas produzidas pela embriaguez em suas relações com
a estrutura que justifiquem a dificuldade de abandoná-la mesmo

163 Cf. Ibidem.


guilherme messas 309

diante da desfiguração psicótica. Se a estrutura não se move nas


profundidades da raiz temporal, a tessitura possível de experiências
novas é reduzida e, consequentemente, a expectativa da camada
consciente a respeito da abrangência, profundidade e complexidade
do que vem a ser a novidade vivencial é pequena. De certo modo, só
podemos desejar aquilo que se deixa vislumbrar em nosso interior.
Estreito o vislumbre, a simplicidade marca a existência. Simplificada
esta, por que não se buscar o modo mais simples de colorir o mundo e
o si mesmo? Parece natural e lógico que a embriaguez encante aquele
dominado pela essência típica hiperestabilidade. Ora, se assim for, por
que não seria igualmente lógico que a saída da embriaguez seja tão
difícil? Sim, sair... mas, para onde? Fechada num círculo em si mesma,
a estrutura marcada pela hiperestabilidade encontrará a si mesma para
onde for, o que, de certo modo, não deixa de significar reencontrar a
embriaguez. Só há saída da embriaguez por meio de alguma forma
substitutiva desta que, ao menos, tenha menor força deformatória.
A dialética morte-revivescência, tão presente no desequilíbrio,
aqui é de pouca valia. Escusado dizer que aguardar a vivência de quase
morte das transformações da identidade resulta inútil, por ser invisível
mesmo, para essa tipificação. A inevitável renovação da existência
só pode ser reduzida às modalidades de renovação da tendência
aglutinante do presente que sejam mais saudáveis ou menos danosas.
As progressões fusionais com a identidade grupal – que, embora
contenham redução da identidade privada, nada têm de insalubres em
si: afinal de contas, somos todos humanos e há tipos menos aptos a
uma radical individualização! – parecem ser de superior valor para
a boa evolução dessa essência típica. Ainda mais. Como a retenção
se crava no presente por meio das fissuras e abstinências, a melhor
alternativa para reduzir sua presença é exatamente acentuar o presente
mais e mais, de modo que este funcione como dique para essa invasão
renitente. E nada melhor do que acentuá-lo pela troca direta de
substância humana que se dá nos grupos, sobretudo nos de autoajuda
nos quais o compartilhamento das experiências relativiza a suposta
falência moral absoluta do toxicômano.
310 psicose e embriaguez

Essas considerações requerem alguma especulação acerca do


tema da vontade de sobriedade. Mais uma vez temos de relembrar
a opacidade constituinte da vontade. Aqui, mais do que noutras
essências, a vontade atua sobre uma estrutura de ser muito irredutível,
com o complicador de ser tímido o horizonte que a guie para outras
experiências vitais. A vontade de escape da toxicomania pouco pode
pedir de uma ausente protensão descompactadora, fluida, móvel e
pessoal. Quase nada da retenção, tornada assédio. Duas alternativas
acabam se impondo ao toxicômano hiperestável: de um lado, o
avanço da deformidade impõe uma decisão frente ao risco de perder-
se a si mesmo (caso radical); de outro, impõe-se a experiência ínsita
de moralidade, da capacidade da espécie humana de reconhecer os
limites reguladores de sua dignidade. Novamente, não é gratuito
que muitos grupos de autoajuda recorram à ética religiosa com seus
preceitos morais para ofertar alguma saída aos seus pares. Para além
da notória dignidade propalada pelas religiões, também é um modo
de dialogar desde dentro com esses indivíduos, solicitando-os naquilo
que lhes resta para se manter na verticalidade da posição humana
integral. A experiência de moralidade é seguramente dependente de
uma protensão, de uma transcendência em relação à temporalidade
imediata e direta do presente. Contudo, ela é possibilitada por uma
protensão circunscrita pela ação do eu em relação à coletividade e, por
isso, respeita a textura da essência hiperestável. É um futuro coletivo,
pelo qual se orienta o eu individual, que lhe restitui a humanidade
de possuir uma protensão de certo modo heterogênea ao presente
sem implicá-la com os devaneios incertos da temporalidade pessoal.
Incerteza vedada aos hiperpresentificados já por essência. Na mesma
trilha, a moralidade alça a protensão a uma extensão tão distante
dos movimentos bruscos da biografia que quase lhe dá um perfil de
estabilidade contínua. O comportamento moralmente correto, dado
com segurança, de antemão, anula as sombras que nauseiam na
marola do presente. Quase um presente lançado na protensão, para o
qual se pode caminhar sem as arremetidas fortuitas da dúvida. Enfim,
para nossos propósitos é suficiente dizer que os projetos futuros do
guilherme messas 311

indivíduo em sua extrema particularidade podem desaparecer – como


a luz da lua por detrás das nuvens – sob uma névoa muito espessa
eventualmente acometendo o presente. Podemos perder de vista
aonde queremos chegar em nossos projetos intimamente pessoais
quando as condições atuais podem parecer tenebrosas demais.
Esse futuro humano da estrutura autodesdobrando-se na biografia
tem como contrapartida a protensão da moralidade. Esta, já dada
como certa pela imersão na coletividade164 e, em consequência, mais
reconhecível em seus perfis de valores, tem o condão de ser melhor
experimentável como guia das vivências do que a protensão móvel
do indivíduo. Tornada turva a vida pela excessiva aproximação com
o presente caloroso da embriaguez, substituir esse estado habitual
de atemporalização pela maior estabilidade da protensão moral
parece passo sensato e admirável, sempre quando possível e não
demasiadamente inautêntico.

Progressão e conservação na hiperestabilidade

Vimos como a progressão por meio da modificação das proporções


de sua própria forma não é simples nem natural para a estrutura
demasiadamente marcada pela essência típica hiperestabilidade,
o que lhe exige certas manobras, voluntárias e involuntárias, para
progredir na biografia. Diante desse atrito na progressão, ficaríamos
tentados a qualificar personalidade típica da hiperestabilidade como
conservadora e, ainda, teríamos de entender esse termo como a
antítese da facilidade de avançar? A resposta integral a essa questão
não nos interessa e somente um olhar tangencial vem ao caso, como
iluminação de uma faceta dessa essência. Mesmo para essa lanterna

164 O que não quer dizer que essa aceitação da moralidade seja em si mesma uma
redução do eu ou que um eu potente seja refratário à moralidade. Muito pelo
contrário. O que queremos sublinhar aqui é o caráter rematado da moralidade
em relação às incertezas da individualidade biográfica sempre inacabada. A
rigor, um eu maduro, plástico e seguro de si é mais ainda capaz de reconhecer
– e adotar – a moralidade mesmo no meio das oscilações mais bruscas e
entorpecedoras de sua estrutura.
312 psicose e embriaguez

de través já topamos novamente com dificuldades de linguagem. O


termo “conservador”, em uma acepção genérica, de fato contempla
tudo aquilo que conserva, num amplo espectro que vai do que
conserva por vocação e decisão até o que é conservado por imposição,
interna ou externa. Essa duvidosa igualdade vocabular de realidades
tão distintas é ainda piorada se procurarmos entender a intimidade
vivida de tais diferenças. Conservador é, em primeiro lugar, aquele
que possui grande distância de sua retenção, reconhece-a como tal –
ou seja, representação e experiência afastadas mas em continuidade
com a posição atual – e, reverente para com aspectos dela, decide-
se menor que a tradição que lhe abençoa desde a eloquência da
ausência profunda. E dessa minoridade reverente satisfaz-se a si
mesmo com a opção pela conservação de ressonâncias da retenção. É
um conservadorismo cujas fundações temporais são vastas, tanto na
apreciação do passado quanto no alçamento deste ao papel de futuro
norteador. É, na realidade, um conservadorismo do presente mínimo
e das abas temporais máximas, na ponta oposta das injunções da
hiperestabilidade. Importante salientar que esse conservadorismo de
reverência – chamemo-lo assim – também exalta valores engastados
em uma temporalidade ampla, o que torna ainda mais complexa suas
diferenciações em relação ao conservadorismo de hiperestabilidade
– será esse o nome. Neste, embora os valores morais e culturais
assumidos possam ser, em sua expressão declarativa, os mesmos do
conservadorismo por reverência, seu modo de doação à consciência
é outro. Aqui, os valores estribam-se em uma protensão colada ao
presente, atrófica portanto, embora existente. Essa colagem dá uma
densidade de quase presença à protensão que faz com que tenha de
ser vivida também perto do imediatismo. Ou seja, para o hiperestável,
ou os valores estão atualizados em todo momento pontual de sua
expressão, ou são vivenciados como ausentes. Ou a consciência se
guia pelos valores como um apito contínuo norteando seu trajeto
ou está completamente perdida na selva do presente maçudo. Mais
importante ainda: no conservadorismo de hiperestabilidade não há
intervalo para hesitações transitórias acerca dos valores. Em vez de
guilherme messas 313

uma maturação gradual, entretecida por afastamentos e aproximações


que levam à decisão – maculada pela dúvida muitas vezes – existencial
do conservadorismo de reverência, nesta forma de conservadorismo os
valores podem surgir ou desaparecer integralmente e de chofre, sem
passar pelas vibrações da hesitação. Importante que não nos percamos
e nem generalizemos a noção de conservadorismo, identificando
espuriamente condições que, embora nominalmente possam ser
assemelhadas, estruturalmente têm pouco a ver. O ponto crítico no qual
a diferença se expressa na camada afetiva é a premência. Os afetos na
hiperestabilidade são prementes, reclamam manifestação e expressão
o tempo todo, ao passo que na reverência o estado psicológico é de
serenidade, de um distanciamento seguro de quem sabe em nome de
quê e de quem se orienta.
É evidente que esses apontamentos têm como condição de
possibilidade a assunção de que a noção de valor tenha grande
importância para essa constelação tipológica. Ou melhor dizendo, que
a modalidade pela qual a noção de valor se estriba na estrutura da
consciência seja especialmente merecedora de investigação para o bom
entendimento da essência típica hiperestabilidade, já que, a rigor, para
todos, a noção de valor é central. Certamente, não há vida humana
sem valores, mas, de hábito, é possível investigar os fundamentos
estruturais de uma vida sem que o exame e descrição dos valores
pessoais tenham papel imprescindível. Vimos, por nossos casos, como
os valores ficam como que entrelaçados com os diversos momentos
constitutivos da existência, brotando naturalmente destes, de modo
que, estando em todas as partes e em nenhuma especificamente, não
se trata de enfeixá-los com um foco de luz muito direto. Menos ainda
é ambição deste ensaio refletir sobre a posição dos valores na vida
humana, como já foi feito ricamente na fenomenologia165. Se indicamos
nessa seção os valores, foi por sua posição especial nos hiperestáveis,
para quem adotam uma função de progressão singular. Autênticos ou
inautênticos, os valores são um pórtico especial de aproximação da

165 Cf. M. Scheler, Essencia y Formas de la Simpatia.


314 psicose e embriaguez

essência hiperestável com o mundo, já que, ao mesmo tempo, reduzem


o perfil extremamente individual do cara a cara das relações íntimas
(na intimidade os valores tornam-se furta-cores e podem derreter ou
se modificar) e expandem a segurança por meio deles contratada para
todos os recantos da abertura interpessoal da estrutura, exigência
primeira da hiperestabilidade. Os valores solidificam e estreitam a
eventual frouxidão dos nós, unindo o polo do eu com o polo do outro,
conferindo uma segurança ontológica e um guia na excessiva clareza
densa de suas existências que em nenhuma outra essência típica é tão
necessária e benfazeja quanto na hiperestabilidade: os valores são o
penhor de sua hiperestabilidade interpessoal e por isso sequiosamente
buscados e tematizados por esse grupo. Extremamente aproximado
do mundo interpessoal e por ele influenciado, nada melhor para
o hiperestável do que os valores da moralidade para pautar e
regulamentar essa perigosa estreiteza espacial.
A expansão dos valores para toda a interpessoalidade não
passa despercebida para quem exerce o papel de polo dual na
relação, como o psicopatologista. Este inevitavelmente coletará a
excessiva presença do tema valorativo-ético-moral nos interstícios da
atualização relacional, sobretudo na sua vertente negativa, qual seja,
a aparente ausência de moralidade que muitas vezes impressiona na
toxicomania. Tal evidência na manifestação de suposta imoralidade só
pode existir se contiver em si mesma seu oposto, a excessiva valoração
moral. Uma estrutura menos determinada pela externalidade dos
valores – o que equivale dizer uma estrutura que forja seus valores
de modo mais idiossincrático – jamais se deixaria revelar, no campo
da interpessoalidade, quando fora de padrões morais, de modo
tão cristalino. Apenas a clareza da moralidade permite que surja a
evidência da imoralidade. Embora haja efetivamente indivíduos nesse
grupo para os quais a moralidade é limite a ser transposto com prazer,
não se trata, nem de longe, de um grande efetivo. No mais das vezes
essa aparente psicopatia nada mais é do que a revelação à contraluz da
necessidade de assunção ingente de uma moralidade efetiva. Ciente
disso, o psicopatologista pode penetrar nesse campo de oposições
guilherme messas 315

nítidas para, gradualmente, revelar à consciência do paciente o alicerce


valorativo presente que muitas vezes a este mesmo escapa. Fazendo
isso, compromete-se com a reidentificação de uma estabilização nativa
do paciente, permitindo que se retome um caminho progressivo para
essa essência tão incomplacente com o movimento.

Observações sobre a interpessoalidade

As últimas considerações a respeito dos valores nos levaram


à citação da interpessoalidade. Mais especificamente, indicamos
como a hiperpresentificação da hiperestabilidade reflete-se na
interpessoalidade em uma modalidade de articulação polo do eu-
polo do outro com pouca protensão, ou seja, com pouco espaço para
alterações. Vimos como o valor moral, como assunção reforçada da
alteridade, fundamenta-se nessa configuração. Muito aproximado do
mundo, o hiperestável está muito aproximado também do outro. Essa
constatação de caráter geral recebe um matiz na interpessoalidade
que nos compete apresentar. A interpessoalidade – sobretudo na
vertente íntima, frisemos mais uma vez – não é o mundo material,
no que concerne à estabilidade deste. Seja como solidez, seja como
regularidade de modificações equacionadas pela mecânica, o mundo
material obedece melhor à vocação hiperpresentificante. A dimensão
da interpessoalidade, não. Esta sempre tenderá a ser flagrada pelo
inusitado, por uma cintilação de alteração sedutora ou dolorosa que
é dissonante em relação à essência hiperestável. Duas situações típicas
podem daí brotar. Numa primeira situação, o caso dos por natureza
maciçamente hiperestáveis, essa modificação nem sequer é capturada
pelo radar da consciência. Vide os epilépticos temporoparietais, cuja
capacidade semântica é bastante reduzida166. A interpretação dos fatos
do mundo, que sempre remete à interpessoalidade, passa ao largo
de modulações. A tendência desses indivíduos é de fixação em uma
interpretação primordial que não se move diante das modificações

166 Cf. G. Messas, “As Psicoses e o Significado da Embriaguez: Uma Contribuição


Fenômeno-estrutural”, Casos Clin Psiquiatria [online].
316 psicose e embriaguez

mundanas inter-humanas. Sua hiperpresentificação original não se


abala com a riqueza da interpessoalidade porque sequer a reconhece,
de tão colado ao mundo inter-humano que está. De certo modo,
nestes a aproximação é tanta que a alteridade é captada em sua
quase materialidade, o que justifica, por exemplo, tanto o achado de
hipersexualidade de alguns indivíduos desse grupo quanto de sua
assexualidade, porquanto também a excessiva aproximação atulha
a distância necessária para a intromissão do desejo em relação a seu
objeto correlato.
Porém, há o caso daqueles que, sem perder sua essência original,
são menos maciços ou, o que é o mesmo, capazes de suficiente
protensão para que haja suficiente afastamento para reconhecer e
experimentar a modificação proposta pela interpessoalidade. Temos
aqui uma constelação extremamente dolorosa para a consciência.
Sua estrutura está grudada no mundo presente, não consegue
efetivamente dele afastar-se, mas deixa-se ferir excruciantemente pelas
dores da interpessoalidade. Dores que, ressalte-se, são por natureza
ainda maiores que o normal, posto que provêm de um mundo inter-
humano hiperpresente e quase material. É a esse inferno de Prometeu
acorrentado à interpessoalidade que a psicopatologia clínica dá o
nome de transtorno borderline de personalidade. Em nossa opinião,
esse conceito clínico, por orientar-se apenas pela face superficial do
comportamento e dos afetos, congrega mais de uma situação essencial.
Seguramente, uma parte dos chamados borderlines é de natureza
histérica, o que, nos moldes deste ensaio, os colocaria na essência
típica desequilíbrio, embora com ênfase na centralidade das relações
interpessoais. A genuína situação borderline nos parece surgir nos
hiperpresentificados com alguma capacidade de distanciamento,
para quem a centralidade não é apenas um caráter secundário,
fenomenológico, de uma estrutura móvel, mas um condicionante
mesmo de uma estrutura rígida. O sinal diferencial essencial de ambas
é a densidade, digamos, quase materialidade, da interpessoalidade.
Nos histéricos, ainda que por vezes possa surgir como invasão, a
interpessoalidade é mais aérea, cenográfica, representativa e abstrata,
guilherme messas 317

marcada pela inautenticidade exagerada. O exagero do borderline


legítimo é sólido, penoso e doloroso: é, como se vê muitas vezes,
cortante na própria pele e prescinde da visualidade do olhar alheio. Se o
histérico se fere para ser melhor visto, o borderline se fere para reduzir a
gritante exposição ao mundo interpessoal. A eventual inautenticidade
do legítimo borderline toma tamanha força de realidade que deixa de
ser inautenticidade.
Essa condição de uma hiperestabilidade passível de algum
afastamento da macicez costumeira merece destaque, pois igualmente
se manifesta no campo das psicoses. É o que faremos a seguir.

A deformidade aguda: a explosão hiperpresentificada

Vinheta 2. Lucas

O caso. Lucas, 28 anos, foi reconhecido como borderline já aos


dezesseis anos de idade. Por repetidas vezes, cortou-se nos pulsos
diante sobretudo de conflitos interpessoais de ordem amorosa.
Descreve como os cortes substituem dores psicológicas difusas pelas
dores concentradas da lesão física autoinfligida. Sua vida sentimental
sempre foi turbulenta, a despeito de ter boas relações sociais, ser
inteligente e muito afeito ao grupo de amigos. Normalmente, vive
bem e gosta do mundo, mas é muitas vezes tomado subitamente pelas
dores deste e perde-se em explosões sentimentais. Acentua que o
caráter agudo de sua dor é o que a torna intolerável.
Aprecia declaradamente a cannabis, dizendo que esta lhe dá
um relaxamento que nada mais consegue produzir. Por isso, utiliza-a
com frequência e é incapaz de relatar qualquer perda social com
ela; pelo contrário, faculta-lhe um mundo mais prazeroso e regular,
compensando as oscilações dramáticas de sua constituição.
Em um dia especialmente difícil da vida, quando da ruptura
de uma relação amorosa, abusou da cannabis e acrescentou à dieta
MDMA (ecstasy), que lhe revelou ser especialmente alucinógeno.
Experimentou grande afeto depressivo, ideando matar-se. Tornou-
318 psicose e embriaguez

se agitado, ferindo-se ainda mais com outros instrumentos cortantes


e golpes de cabeça contra a parede. Simultaneamente, produções
alucinatórias foram experimentadas: visões de baratas, olhos brilhantes
lançando gritos, larvas, fetos mortos e serpentes voadoras. Internado,
passou dois dias ainda agitado, mas logo depois, com o tratamento
farmacológico, retornou ao estado de base, nunca mais apresentando
quadro alucinatório ao longo de dois anos de seguimento. No mesmo
período, continuou utilizando cannabis com um pouco mais de
contenção. Sua vida progrediu bem, sobretudo no campo profissional,
embora os cortes e ideação suicida transitória voltem sempre que haja
alguma turbulência relacional. A observação interpessoal ao longo
de dois anos permite afirmar que a introdução de temas biográficos
dolorosos em sua vida lhe é particularmente dolorosa.
A análise. A condensação hiperpresentificada dá as cartas em
todos os cantos da vida de Lucas. Dela é impossível escapar. A única
estratégia possível é reduzir a sua participação, de duas maneiras. Nas
passagens mais lancinantes, transformando-a de difusa em pontual, ou
seja, de representacional em corporal. O polo noemático das relações
humanas, móvel por erguer-se sobre um horizonte de temporalidade
ampla, é substituído por um noema fixo em um ponto do corpo, como
se o ser iludisse a si mesmo ao construir um mundo sem tempo. Isso já
indica como o hiperestável não pode brindar do afastamento do mundo:
ele pode apenas escotomizá-lo; de forma pouco eficiente, digamos.
A segunda estratégia, no modo cotidiano, se dá com a cannabis.
A cannabis é acima de tudo bálsamo para tal estrutura condicionada
pela essência hiperestável: uma modalidade de construção ficcional de
um mundo no qual os ferimentos que o tempo do mundo e o tempo
dos outros trazem podem ser substituídos por uma atemporalização
flutuante (o quanto consegue flutuar sua sólida estrutura). A
peculiaridade dessa vertente de hiperestabilidade, de ser capaz de se
afastar mesmo estando acorrentada – e, portanto, quanto mais se afasta,
mais sente a mordida da corrente na carne –, amplia a força álgica do
mundo e exige a compensação canábica. No entanto, mesmo usada
em condição excessiva, a atemporalização causada pela substância não
guilherme messas 319

tem força para reduzir em definitivo a pressão da hiperpresentificação.


A fortiori, muito menos para atemporalizar toda a estrutura, que
logo após o ato de embriaguez volta ao padrão de hiperanunciação
das coisas presentes. Todo o efeito da cannabis é tão impotente
diante da força da essência típica que mal se detecta sua potência
atemporalizante. Frente a uma estrutura tomada imperialmente pela
essência hiperestabilidade, um fármaco de afastamento do mundo,
como a cannabis, vê sua natureza atemporalizante atuar delicadamente.
Isso mostra como as condições particulares da estrutura podem aplacar
a força da embriaguez, mitigando seus riscos de destruição, mesmo
em cronicidade. Esse tema, de extremo valor para um entendimento
global do tema das drogas e de seus riscos, não pode infelizmente ser
desenvolvido neste trabalho.
No entanto, a crise da existência prosseguiu a um nível extremo,
em relação ao qual não se podia tergiversar. O acréscimo de mais
uma droga, agudo, seguiu as mesmas regras internas da cannabis:
entorpecer, diminuir a força da hiperpresentificação, anular a
temporalidade massacrante. Esse acréscimo do alucinatório conduz
a estrutura a um ponto de ruptura. É tão intensa a materialização
exógena do mundo operada pelas características da nova substância
que a estrutura se rompe, explodindo. Essa ruptura segue a linha
da escotomização dada pelos cortes, já que também procura extrair
a estrutura das inserções exageradas do mundo. Nesse momento, os
elos biográficos se perdem, o que se vê nas figuras exóticas alucinadas,
que em nada podem ser creditadas à sua biografia em estado são. O
mundo torna-se pavor, filme aterrorizante, contra o qual só resta se
agitar, inerme. O tratamento farmacológico rapidamente reinstala a
estrutura nos gonzos habituais. A própria rapidez com que se retoma
a habitualidade é índice do aprisionamento da estrutura na essência
hiperestabilidade, ou seja, o enredamento radical no mundo jamais
foi colocado em risco. Apenas houve uma explosão da estrutura por
excesso de materialidade.
Em termos de seu sentido estrutural, a explosão psicótica é
somente uma variedade mais intensa de compensação fenomenológica,
320 psicose e embriaguez

da qual faz parte a automutilação. É uma estratégia do ser para reduzir


a exposição à dor da interpessoalidade hiperpresentificada, que tem
como condição de possibilidade a imutabilidade da extrema adesão ao
presente. O efeito alucinógeno (e corporalizante) exógeno específico do
MDMA aqui é importante pois, sem ele, não se chegaria ao transitório
quadro psicótico. A despeito de ser necessário, não é suficiente, se
levarmos em consideração que as condições essenciais da estrutura
– e o ponto dramático biográfico – foram os determinantes finais
da possibilidade de explosão. Por outro lado, ainda que sob regime
desmesurado, parece ser nula a participação da cannabis no evento
psicótico.
A rigor, a explosão é apenas reveladora da excessiva estabilidade:
a fuga é filha da ausência de saída e cada vez que é tentada mais
ilumina o aprisionamento. Na realidade, é uma fuga que mostra que
não há escape. Esse afastamento psicótico, exógeno que é, tampouco
repõe em formas diversas os enquadres da interpessoalidade. Apenas
a deixa algum tempo em suspenso, para que seja retomada logo
adiante. A partir dessas características advertimos que também uma
psicose aguda, com predomínio alucinatório, pode originar-se de
uma explosão, encaixando-se na essência típica hiperestabilidade.
Aparentemente, esse perfil tem a ver com a textura e resistência
temperamentais e com a tipicidade do fármaco utilizado, sempre
coordenadas pelas condições situacionais da estrutura individual no
tempo biográfico em que se encontra.

Diferenças entre psicoses por deformidade crônicas e


agudas e das últimas com a paralisação observada
nas psicoses por desequilíbrio

Podemos discriminar as psicoses oriundas da hiperestabilidade


de acordo com o estilo de progressão. Nas psicoses crônicas, há
uma continuidade da ação condensante do fármaco embriagante,
regularmente subordinada ao império do presente, de modo que a
estrutura da consciência materializa-se gradualmente até atingir a
guilherme messas 321

deformidade. Nessa vertente, a estrutura é maciça e não consegue


interromper jamais o estilo de proximidade. Não há, portanto, o
apelo ao mecanismo de compensação. A estrutura é dominada
integralmente pela essência típica, o estilo de progressão é linear e
não se pode identificar uma função-gatilho para a embriaguez.
Na aguda, existe uma menor dominação da estrutura pela
essência. Apesar da nítida presença da tipicidade essencial, há espaço
suficiente para a introdução de mecanismos de compensação, que
podem chegar, como no caso Lucas, a atingir o grau de rompimento
da habitualidade biográfica, embora aqui transitoriamente e com o
concurso de um fato exógeno. Nas compensações promovidas pelos
cortes, inexiste a ruptura do perfil habitual da biografia. Porém,
tanto em uma como na outra situação, a ruptura dada pela explosão
não admite uma reconfiguração da interpessoalidade: ela é apenas
anulação temporária. O estilo de progressão é, portanto, sacádico,
ou seja, tecido por mínimas interrupções mas subordinado a um fim
fixo.
A observação da função compensatória da psicose aguda pode
permitir alguma confusão com a função de paralisação constatada
nas psicoses por desequilíbrio. Ambas, igualmente, surgem quando
a estrutura da consciência necessita de uma parada em seu curso. No
entanto, elas divergem, pois,

1. no desequilíbrio, a parada se faz por um excesso de alargamento


da estrutura; serve, assim, como proteção contra o esgarçamento
(embora não deixe de ser um esgarçamento minor). Troca-se um
mal maior por um menor. Há, normalmente, um tempo maior
entre os primeiros sinais da psicose e seu florescimento, já que
o fundamento do alargamento é o crescimento do ser, sempre
gradual. Na hiperestabilidade, a parada brota de um ser mantido
estritamente em seus limites habituais. Ela surge meramente
como um alívio para a torrente de experiências contra a qual
a estrutura não pode se defender. Seu surgimento é, por isso,
súbito, diretamente provocado pela embriaguez.
322 psicose e embriaguez

2. no desequilíbrio, a perda prepara a estrutura (caso não se


perca no esgotamento) para uma progressão; junto à retomada
da forma anterior, já podem se ver, ou rever, as instabilidades
ligadas ao crescimento do ser. Na hiperestabilidade, não há
essa preparação para um avanço. A consciência recupera-se
voltando ao mesmo ponto em que havia sido rompida. O papel
da embriaguez é menos relevante no desequilíbrio do que
na hiperestabilidade, no que se refere à causação da psicose.
Especularmente, o papel do desenvolvimento biográfico é maior
no desequilíbrio do que na psicose aguda por deformidade.
Não há desenvolvimento histórico na explosão, embora haja
inserção de suas relações de conexão na historicidade167, cujo
exemplo em Lucas é a ruptura da relação amorosa que, de certo
modo, prepara a estrutura para a explosão. Pelas mesmas razões,
tampouco se insinua na consciência a experiência do nada
prototemporal que antecede as movimentações existenciais. Este
é substituído pelo preenchimento total do ser com a coloração
plena da sensorialidade psicótica transbordante. Coloração que
é externa à biografia e navega nos imaginários profundos da
espécie, como animais ou quimeras. Trata-se, o que caracteriza
a progressão na deformidade aguda, na melhor das hipóteses,
de uma progressão saltígrada, estroboscópica, pulando de
iluminação em iluminação, de zona de segurança em zona de
segurança, dentro da qual até mesmo a dor é demônio conhecido:
os demônios operam apenas desde fora da historicidade pessoal.

167 Isso a diferencia da psicose crônica por deformidade, na qual a psicose pode
surgir mesmo estando ausentes todos os movimentos biográficos relevantes,
como mostra o caso Júlio.
5.
As Progressões

Vimos como em alguns casos clínicos a embriaguez insere-se


de modo desmesurado na biografia até cumular na psicose. Diante
da diversidade dessas psicoses, procedemos a uma redução desses
casos a suas essências antropológicas temporais, definindo três
tipos pelos quais se pode reconhecer a origem das psicoses. Tendo
cumprido essas duas etapas, já podemos ver como as estruturas
individuais atualizam-se em essências antropológicas gerais da
existência, permitindo que o ser individual seja aproximável desde um
cotejamento simultâneo entre sua individualidade e sua participação
na espécie. A investigação do indivíduo assegura-se do conhecimento
colhido nas essências para embrenhar-se em uma individualidade cuja
vocação é exatamente procurar distanciar-se dessas essências que,
embora lhe sejam constituintes, não deixam de ser transcendentes em
relação à imanência histórica do indivíduo. O indivíduo é mais do que
os códigos antropológicos gerais de que é feito. Ele é uma construção
particular erigida sobre o coletivo, para além do coletivo.
Se a estrutura da consciência-implantada-no-mundo ultrapassa
as essências transcendentes que a constituem, rumando a uma
irreprodutibilidade que, no limite, foge à captação científica, ela o
faz por duas capacidades. Porque, espacialmente, no que concerne à
proporção que toma a essência dominante, ela é mais ampla do que a
324 psicose e embriaguez

essência; portanto, nela cabe simultaneamente mais de uma essência e


suas temporalidades transversais típicas. E porque, temporalmente, ela
escorre de si mesma longitudinalmente, sendo as estruturas temporais
transversais consequentemente alternáveis entre si.
Com essa observação surge a necessidade de mais uma abordagem
psicopatológica para os casos clínicos, orientada pela investigação das
modalidades pelas quais cada essência típica se insere na totalidade
do desenvolvimento biográfico individual, e pelas relações existentes
entre elas, em caso de simultaneidade. Não apenas isso, dado que o
ser se movimenta, crescendo ou decrescendo, também a progressão, a
eventual alternância das diversas essências entre si e do valor relativo
de cada uma delas em cada época da biografia. Em termos mais
sintéticos, dizemos que surge a necessidade de uma ciência reflexiva
que examine, por exemplo, como uma essência típica desequilíbrio
instaura-se na estrutura da consciência de um indivíduo, por quanto
tempo, que marcas deixa e que setores deixa de envolver. Tomando
um exemplo das categorias essenciais da clínica, uma ciência investiga
como a histeria toma a personalidade, em que setores avança e em quais
é barrada, como eventualmente reduz sua presença e que marcas deixa
e se são perenes. Sabemos que ninguém “é” o seu diagnóstico clínico
o tempo todo. Apenas a simplificação do dia a dia da prática clínica
autoriza, injustificada e de certo modo levianamente, identificarmos
um indivíduo ao seu diagnóstico. Uma ciência psicopatológica de
tradição fenomenológica deve se abster da crença jubilosa de que suas
categorias traduzam integralmente o mundo: elas apenas o iluminam
parcialmente. Mas esse trabalho gigantesco e necessário não pode ser
tema deste ensaio: apenas um pequeno subproduto dele nos servirá
agora.
A observação clínica dos pacientes toxicômanos que apresen-
taram alguma experiência psicótica mostra que a abordagem que
até agora nos guiou deixaria de fora achados demasiadamente
relevantes para serem negligenciados. É o apelo inegável desse
material que exige que percorramos mais um passo na exploração
fenomenológica das psicoses na toxicomania. E, para isso, devemos
guilherme messas 325

tomar dois caminhos. Para o primeiro, basta-nos apenas abandonar


o estilo de visão de totalidades que nos orientou. Em todos os seis
casos clínicos, assim como nas vinhetas expostas, pudemos observar
os sentidos da embriaguez e de suas psicoses correlatas estudando
suas manifestações sobre a totalidade da estrutura. Essa condição nos
foi facultada pela particularidade da presença marcante e contínua
de uma essência típica nos casos. Eles foram justamente por esse
motivo escolhidos. Sempre que houve exceção, como no caso Ricardo
e Adílson, nos quais mais de uma essência era visível, indicou-se essa
copresença e as dúvidas que essa simultaneidade gerou. No entanto,
como o foco se situava na investigação compreensiva da totalidade
da existência ou na descrição das essências, apenas marginalmente
se fez menção a essa copresença. Porém, existem casos nos quais é
impossível um tratamento tão tangencial do tema. Para estes, é
preciso designar nomeadamente a modalidade de exame requerida:
trata-se da investigação das progressões rumo às parcialidades
das presenças de cada tipo essencial na totalidade da estrutura da
consciência-implantada-no-mundo. O segundo caminho avança
pelo interior das totalidades, lançando o foco sobre suas transições,
abrindo-se em duas frentes. Uma delas investiga as alternâncias, ou
seja, as passagens de uma essência predominante a outra, no interior
do desenvolvimento biográfico; a outra, estuda as modalidades de
progressão pela deformidade não necessariamente derivadas das
psicoses.
Vamos a eles, anotando que, posto estar o objeto da investigação
limitado ao arranjo das essências atuando em parcialidades da
estrutura da consciência ou à sua modalidade de alternância
e progressão deformante – e, portanto, considerando como já
examinadas as características das essências –, apenas vinhetas
clínicas serão examinadas, sendo desnecessárias as particularidades
estruturais de cada caso. Trata-se de uma contribuição à psicopatologia
fenomenológica justificada pelas idiossincrasias clínicas que as
embriaguezes crônicas produzem. Um olhar final sobre o problema
das psicoses na embriaguez não poderia se furtar a indicá-las. Mas,
326 psicose e embriaguez

apesar dessa derradeira análise, alguns casos singulares mantêm-se


intermédios em relação a todas as categorias, mais uma vez provando
o perfil incerto de toda empreitada humana. Uma vinheta clínica final
mostrando essa dificuldade encerrará as seções clínicas deste trabalho,
como uma coda dissonante revelando a abertura de toda ciência.

Progressões para Parcialidades

Comecemos observando o regime de progressão que permite a


visualização de parcialidades.

Progressão da deformidade para o esgotamento parcial


(processo atípico ou parcial)

Vinheta 3. Gílson, 35 anos, começou a usar embriagantes muito


cedo. Com doze anos abusava de álcool e já aos quinze derivou
para o crack. Rapidamente instalou-se a toxicomania, repleta de
comemorativos psicóticos paranoides auditivos – com insultos e
ameaças de agressão – e visuais, sobretudo por meio de animais e
figuras mitológicas. Jamais interpretou essas aparições como normais,
sempre se indagando acerca de suas origens. A despeito da frequência
desses incômodos alucinatórios, manteve seu uso contumaz pois,
afirma, o prazer valia mais que a dor. Embora a vida profissional
não tenha evoluído satisfatoriamente por causa do hábito, a vida
familiar manteve-se relativamente intacta, sendo bom pai e um marido
dedicado, dentro de limitações. Seu relato acerca dessa época é de que
as drogas não lhe prejudicaram muito.
Em torno dos 27 anos o uso contumaz começou a produzir mais
e mais deformidades do real, a ponto de sentir-se perseguido já nas
primeiras absorções de crack. Diante desse fato, foi necessária a redução
de dose, com melhora transitória dos sintomas alucinatórios. Três anos
mais desse padrão moderado de uso levaram-no à primeira internação,
com nítidas experiências persecutórias, levando-o a renunciar de vez
às drogas.
guilherme messas 327

Contudo, com a parada súbita houve importante acréscimo


dos sintomas persecutórios autorreferentes (sente-se perseguido
nas ruas), embora as aparições alucinatórias tenham evanescido. No
momento deste relato, três anos após a completa abstinência, inexistem
alucinações, mas são preeminentes as experiências persecutórias
autorreferentes – na rua, no transporte público –, não centradas em um
eixo de significação. Mantém-se íntegro no que se refere à interpretação
da sintomatologia, creditando-a ao uso crônico de drogas. Mesmo
com uso de neurolépticos as autorreferências permanecem. Sua vida
laboral extinguiu-se; em várias ocasiões tentou retornar ao trabalho
mas, mesmo com todo o apoio da equipe técnica, o desconforto
das experiências autorreferentes impediram-no de prosseguir,
conduzindo-o a um limbo existencial na esfera trabalhista, na qual não
consegue introduzir-se embora deseje. Como paciente é colaborador
e gentil, afinado com as demandas do tratamento, o que faz ressaltar
o aspecto geral de creditar importância a suas relações significativas.
Uma reinvestigação, dois anos após o término do tratamento,
encontrou Gílson praticamente curado das autorreferências, sendo
inclusive capaz de trabalhar. Queixa-se apenas de que a vida não tem
mais a cor dos tempos da embriaguez.
Análise. O uso exagerado e contumaz de crack é seguramente o
responsável pela produção dos primeiros comemorativos psicóticos,
de origem na deformidade. A própria deformidade fez com que
finalmente suprimisse de sua vida a prática de intoxicação. Nesse
momento, nota-se a presença de uma cicatriz na consciência. A cicatriz
da época de embriaguez retira-lhe a capacidade de assumir um papel
profissional, restringindo-o aos papéis de pai, marido e paciente. Tem,
para resumirmos, uma vida parcialmente ceifada de protensão, embora
a psicose não tenha macerado toda a sua existência. Em termos clínicos,
representa o grupo dos processos atípicos, nos quais não apenas há a
coexistência de uma região psicótica com outra normal, como também
esta sobrepõe aquela em termos de proporções experienciais, de modo
que habitualmente tais pacientes sejam tomados como normais, mesmo
na presença de atividade psicótica. Importante dizer que os processos
328 psicose e embriaguez

atípicos são típicos das embriaguezes crônicas168, sendo atípicos em


relação aos processos típicos esquizofreniformes.
Constata-se, do ponto de vista longitudinal, a progressão de uma
deformação do real, nascida da hiperestimulação de uma estrutura
já a ele aderida, confluindo para uma parcial impossibilidade da
retomada de um setor da estrutura interpretado pelo paciente
como muito importante. Nasce um conflito consciente entre seus
desejos dados na temporalidade transversal e as possibilidades
dessa estrutura trinária, da qual uma região da aba protentiva está
esgotada, sem possibilidades de se abrir ao mundo e nele projetar-se.
Ora, se observada num todo, a existência de Gílson não está esgotada,
limitando sua dificuldade ao campo laboral. Fora isso, mantém todas
as suas esperanças, sentidos e tradições. Portanto, não se trata de um
esgotamento da existência. No entanto, a evolução do caso (antes da
reavaliação que já o encontrou melhor) no período de abstinência
mostrou que um setor da sua vida, nomeadamente o do conforto
interpessoal nas relações não assentadas na zona protegida – família
ou tratamento –, esteve impossibilitado tanto de importar novas
experiências – já que o desconforto impede a diferenciação entre o novo
e o antigo, fundindo a todos na categoria sombria de perseguidores –
quanto, a fortiori, de acomodar esse conjunto de vivências por meio
de uma recolocação das dimensões da temporalidade heterogênea
transversal. Há, pois, a concomitância de setores temporalizáveis e
zona impossibilitada de protensão: apenas essa última é esgotada,
configurando a parcialidade do esgotamento. Gílson tem uma
essência hiperpresentificada proeminente, da qual extrai atualmente
o melhor de sua vida. Mas sofre em uma região especialmente
importante para reduzir a hiperpresentificação e aduzir protensão à
sua estrutura. Não parece ser, portanto, gratuito que o esgotamento
tenha se produzido exatamente na região protentiva da estrutura,
visto que exatamente ela é que atua na contramão de sua tendência
pouco futurada. De certa maneira, embora o esgotamento pareça ter

168 Embora não sejam exclusivos das embriaguezes crônicas.


guilherme messas 329

sido causado por uma excessiva estimulação global da estrutura, esta


é mais vulnerável exatamente nos pontos mais distantes da essência
básica da estrutura existencial, reforçando ainda mais a tipicidade na
totalidade da estrutura e deixando o indivíduo ainda mais à mercê de
seus fundamentos.
Há, no entanto, uma confusão que não é fácil de se dirimir, mas
exige ataque. Como podemos saber se essa psicose a que creditamos
ser de esgotamento não é meramente a continuidade da originada na
deformidade, que ainda avançaria por algum tempo espontaneamente?
A rigor, essa é uma diferenciação complexa; contudo, é importante
indicador o fato de ela ter piorado após a interrupção do hábito
embriagante, pois indica que o estímulo exógeno produzia, ocultava
ou mesclava a sua aparição com os comemorativos da outra essência.
Purificada da causalidade exógena, a estrutura revela em um setor
incapacidade para transcender-se temporalmente. Setor que, muito
provavelmente, foi esgotado pelo próprio uso continuado da droga.
Essa piora pós-abstinência sugere não ser a psicose parcial originada
na compressão da estrutura ou de sua condensação, características
da psicose por deformidade. Assim, pode-se dizer a origem estar na
deformidade, mas a progressão correr nos trilhos do esgotamento.
Com esse exemplo podemos ver como a ação exógena consegue
mover até a destruição apenas setores da estrutura da consciência. E o faz
por estimular exogenamente sem conseguir de fato estimular de modo
equânime a endogeneidade, desviando esta de seu leito natural até
que frature em seu locus minoris resitentiae. Com ele podemos constatar
como toda estimulação exógena não deixa de ser uma contrafação da
estimulação imanente da endogeneidade e, por isso, produz distorções
de estimulação cujas cicatrizes podem assumir a forma essencial do
esgotamento. Essa observação indica que devemos ter em mente
uma diferença antropológica importante. Embora muitos indivíduos
– sobretudo os esquizoides que, diga-se de passagem, não se deixam
entender pela essência hiperestabilidade – desenvolvam-se de modo
assimétrico, essa assimetria se estriba nas próprias peculiaridades de
expansão do ser e são, por isso, genuínas. E, quando se perdem na
330 psicose e embriaguez

psicose, o fazem por um descaminho do desequilíbrio. Por outro lado, o


fenômeno que aqui relatamos antes mostra uma excessiva ênfase, dada
pela embriaguez, em reconfigurações estruturais de zonas do ser que,
a despeito de naturalmente existirem nas potencialidades da estrutura,
não participavam de seu projeto genuíno de realização. E, muito mais
importante ainda, essas ênfases – como a excessiva materialização do
real, vista nos dois casos ligados à hiperestabilidade –, ao romperem
a estrutura, não o fazem nos pontos de costura fundamentais dos
sentidos históricos do indivíduo. Essa cirurgia plástica canhestra
perpetrada pela droga – o crack, no caso de Gílson –, ao distorcer
os projetos potenciais do ser, faz com que ele se rompa em zonas
de sutura que não são aquelas que definem o sentido da estrutura,
pois estas são seguramente as mais fortes. Aquelas zonas, frágeis por
natureza – talvez frágeis até mesmo por não serem fundamentais para
a radiciação da estrutura –, requisitadas em demasia, ao se romperem
fazem brotar um gênero de psicose que não é afim com a textura da
própria estrutura e nem com sua essência predominante, que não ataca
a totalidade da capacidade de significação temporal daquela. Conclui-
se, portanto, que o efeito exógeno de hiperestimulação também pode
ser responsável pela produção de psicoses heterogêneas em relação à
essência predominante.
A modalidade parcial do esgotamento não pode, por essas
considerações, ser catalogada diretamente no modo de entendimento
que empregamos até agora ao se tratar da totalidade da estrutura
biográfica. A origem de uma psicose no esgotamento ocorre quando
toda a existência é fraturada pelo esgotamento, rompendo as suturas
primordiais da articulação do polo do eu com o polo do mundo. Na
parcialidade de esgotamento, este enfeixa e captura apenas um setor
da estrutura e, portanto, a psicose não se origina no esgotamento
existencial, mas é subproduto de uma condição existencial embriagada
que não precisa ser – como não é no nosso caso – um esgotamento. Sendo
uma possibilidade necessária da existência humana, o esgotamento
pode cumprir papéis secundários, insulares, na estrutura, produzidos
artificialmente pela ficção da embriaguez.
guilherme messas 331

Ainda uma questão solicita investigação, relacionada ao fato da


produção parcial de uma psicose heterogênea à essência predominante.
Vimos acima como a principal motivação do uso de embriagantes por
parte de pacientes esgotados – esquizofrênicos – vem da procura por
um estímulo para a estrutura da consciência que somente a embriaguez
pode dar, já que, no esgotamento, a causalidade recebe uma eficácia
especialmente forte. Seria de se indagar o porquê de Gílson não elevar
seu consumo para sustentar a parcialidade esgotada. A resposta vem
da observação de que a própria deformidade o protege do abuso, pois a
intensificação do uso levava às formas patológicas da hiperestabilidade.
Dessa maneira, o esgotamento – também por ser parcial – fica sem
tratamento pela via da embriaguez, o que termina por paradoxalmente
melhorar a evolução do caso. Antropologicamente, a causalidade da
hiperestabilidade prevalece sobre a do esgotamento.
A revisão do caso, dois anos após o final do tratamento, confirma
nossas hipóteses. Gílson conseguiu expandir-se a partir da imanência
hiperestável de sua estrutura, ampliando sua zona de conforto até para
a região laboral: cresceu de dentro para fora, já que não fora tomado
integralmente pelo esgotamento.

Outro local do esgotamento parcial

O esgotamento impede que uma nova formulação da estrutura


se faça para acomodar a temporalidade que propele a estrutura para a
frente. Por isso, também desfaz a capacidade dela de transcorrer pela via
do sentido, já que este é um estilo pessoal de temporalização. Portanto,
examinar o local em que, nas condições de parcialização, ocorre o
esgotamento, não é de menor importância, já que dele dependerá o
território restante pelo qual a estrutura pode se expandir. Vimos como
em Gílson o esgotamento acometeu a zona do mundo estranha à
familiaridade, respeitando esta e permitindo que suas características
habituais e valorativas mantivessem a esperança de retomar os anseios
existenciais. A ausência de protensão típica do esgotamento ocorreu
em um sítio distante do núcleo de temporalização da estrutura e os
332 psicose e embriaguez

movimentos desta foram apenas mitigados por aquela. A espacialidade


do mundo laboral – que, para ele também significava mundo dos não
familiares – não apenas está afastada espacialmente do polo do eu,
como permite que este possa se proteger daquela pela espacialidade da
familiaridade. E essa cunha familiar foi o que permitiu a convalescença
de Gílson.
Mas nem sempre é assim; o crivo do esgotamento pode ferir
outras regiões da estrutura da consciência, dificultando sobremaneira
a vitalidade da zona ainda intacta e temporalizada. Isso se dá
especialmente quando uma região do ser é acometida: a corporeidade.
Vejamos a vinheta seguinte.

Vinheta 4. Agitado desde a infância, Abelardo começou com


todo tipo de embriagantes muito cedo. Já aos treze anos abusava de
álcool, cocaína, cannabis e cola de sapateiro. Aderiu ao crack assim
que houve disponibilidade dessa droga no mercado, fumando-o
diariamente por mais de seis anos. Tem, no início da observação, 46
anos de idade. Apesar de todos esses abusos, apenas teve problemas
laborais nos cinco últimos anos. Desde os 25 anos de idade está casado,
tendo uma relação matrimonial de confiança e uma esposa dedicada
à sua causa. Três filhos. Relata que praticamente por toda a vida a
embriaguez foi grande companheira, trazendo-lhe euforia e gosto pela
vida. Somente com as complicações do uso começou seu périplo por
diversos tratamentos e internações.
São as seguintes suas complicações: inicialmente, o uso co-
meçou a ser acompanhado de experiências persecutórias típicas,
que abrandavam com o término farmacológico da excitação. A
despeito disso, continuava com a dieta, abusadamente. Começaram
a surgir vozes inespecíficas, que não entendia serem a ele dirigidas.
Atormentava-se com estas, mas jamais as incorporou a um sistema
de sentidos. A seguir, lancinantes cefaleias surgiram o que, por fim,
o levaram ao abandono do cocainismo. Nosso período de observação
inicia-se já com dois anos de completa abstinência. Neste, as vozes
surgem eventualmente, esparsamente há desconfortos interpessoais
guilherme messas 333

com figuras estranhas – mesmo sob uso de neurolépticos –, e a cefaleia


é incessante e incapacitante. Toda a investigação neurológica realizada
resultou em nenhum achado cerebral justificador da sintomatologia.
Dores massivas tomam-lhe a cabeça, sem padrão temporal iden-
tificável, tampouco relação de conexão com fatores compreensíveis
da biografia. São acompanhadas por um zumbido incoercível, que
agrava o quadro já por si debilitante. Os tratamentos farmacológicos
reduzem as experiências de desconforto interpessoal mas em nada
aliviam as dores e zumbidos constantes. Sua relação com a esposa
mantém-se visceralmente intacta, assim como sua pungente fidelidade
ao tratamento. Deseja fortemente trabalhar, mas efetivamente não
consegue forças para isso.
Análise. Inegável a presença de uma psicose originada na
deformidade, sobre essência hiperestável, na qual a embriaguez atuava
como fonte principal de prazer, pura e simplesmente. De maneira
semelhante a Gílson, a deformidade vai convencendo o paciente a
mudar seus hábitos, embora Abelardo tenha sido mais insistente.
Deforma-se a estrutura da consciência em seus comemorativos
habituais da interpessoalidade, mantida essa alteração agora como
esgotamento, após a supressão da dieta. Entretanto, o esgotamento
vai mais além do que em Gílson, abrangendo a experiência de solidez
da corporeidade. Ou, melhor dizendo, a experiência da neutralidade
silenciosa da corporeidade. Esta se transforma em transtorno,
massa, condensação irredutível, de parte das cefaleias. E tortura,
inclemência e indomabilidade, de parte dos zumbidos. Em que pese
a irredutibilidade da presença torturante da corporeidade, a estrutura
de Abelardo mantém intactas suas pretensões de sentido para a vida,
assim como seu estilo de temporalização global hiperpresente. A
região da cabeça, contudo, resta como uma zona incapaz de reunir-
se à sua temporalização integral, mantendo-se como núcleo insensível
à temporalização: um presente único, inviolável e sem bordas, feito
de puro corpo desintegrado da totalidade, caracteriza o esgotamento.
Esse esgotamento fere um local exageradamente próximo ao centro
experiencial do eu, para não se dizer que fere o próprio local do eu, o
334 psicose e embriaguez

polo apical da experiência corporal. Locus não somente da verticalidade


da razão, como diz Aristóteles, como da janela pela qual o mundo e o eu
se encaram mais diretamente: os sentidos (menos tato). Essa inserção
da parcialidade do esgotamento no centro do eu pode justificar as
dificuldades do paciente, pois nada há que possa ser posto como dique
– à moda da função da família em Gílson – para afastar o polo do eu das
zonas de esgotamento provocadas pela excessiva estimulação. E, ainda
mais, a densidade opaca da materialidade dolorosa do polo apical da
experiência do eu turva o trânsito entre a razão, que se mantém lúcida,
os sentidos e o mundo, tornando este atravancado para o ser.
Não devemos, contudo, nos deixar confundir. A totalidade da
estrutura mantém-se íntegra, mesmo com o centro da experiência
do eu acometido. Isso mostra como a experiência do eu jamais pode
ser identificada com a articulação da estrutura com o mundo. São
coisas diversas, assim como é diversa a experiência integral do eu de
sua vertente de materialidade. Estruturalmente, o que se deu é uma
materialização e condensação da experiência de corporeidade próxima
ao centro do eu vivido, sustentada por um regime de esgotamento que
não atinge a inserção do eu na estrutura e muito menos desta no mundo.
Paradoxalmente – como sempre, há paradoxos no ser –, em relação ao
caso Gílson, há maior continuidade entre o estilo do esgotamento e
a essência típica da estrutura da existência, já que é exatamente uma
experiência de adesividade que foi coletada pelo esgotamento. Nesse
sentido, há maior homogeneidade entre o esgotamento e a essência
típica, tornando-se, por esse motivo, mais difícil superar os efeitos
esgotantes. A fratura ligada à corporeidade não parece ter se dado em
um ponto de menor resistência, mas em uma sutura mais sólida da
estrutura com o mundo. Por outro lado, a fratura havida na dimensão
da interpessoalidade pode ser entendida como em um locus minoris
resitentiae. Embora fatores constitucionais não possam ser excluídos,
é forte nossa propensão a creditar o achado relativo à envergadura da
fratura à excessiva embriaguez sustentada mesmo após as distorções
da deformidade terem se iniciado. A progressão sugere que se iniciou
a fratura no local frágil, mas se estendeu posteriormente ao local forte.
guilherme messas 335

Em suma, a estrutura individual de Abelardo progride, e o faz pela sua


tipicidade essencial hiperpresente, mas fica bastante enfraquecida pela
localização da parcialidade do esgotamento. E, do mesmo modo que
em Gílson, embora mais tardiamente, Abelardo está “protegido” de
empregar a embriaguez para manter-se ativado pela própria condição
de deformidade.

Uma observação sobre a cognição como local do esgotamento


parcial: linguagem, atenção e memória

Em tese, pode-se postular que as chamadas funções cognitivas,


com destaque para linguagem, atenção e memória, também sejam
atingidas parcialmente, ou seja, que se debilitem sem a perda global
das condições biográficas habituais de temporalização da estrutura
da consciência. Nesse estado, teria sido perdida “somente” a
instrumentalização cognitiva necessária para o deslizamento pelo
mundo do sentido. Os quadros demenciais do álcool, como a síndrome
de Korsakow, ou os deficits atencionais advindos do cocainismo seriam
os exemplos típicos dessas condições. Entretanto, nos parece que não
se possa admitir de antemão esse entendimento, haja vista a radiciação
profunda da cognição no terreno mundano. Estimar uma perda local
restrita ao campo da cognição é possível como tal, mas para que seja
admitida é imperioso que as condições estruturais de cada indivíduo
sejam profundamente estudadas. A assunção de uma perda funcional
simples apenas pela investigação neuropsicológica arrisca-se a tornar-
se leviana e a levar a conclusões incorretas a respeito de um paciente
em particular.
Examinando o exemplo seguinte, no qual chama a atenção a
perda cognitiva, arrostaremos as dificuldades inerentes ao estudo da
cognição como parcialidade.

Vinheta 5. Paulo. Nascido em condições de penúria, Paulo


sequer chegou a conhecer seu pai. Criado pela mãe, tampouco se pode
dizer ter tido nesta um porto seguro. Sempre se queixou de que sua
336 psicose e embriaguez

mãe teve pouco interesse por ele. Afastou-se dela logo que pôde. A
pobreza extrema lançou-o na vida precocemente. E, precocemente,
nas drogas. Aos dezesseis anos, uso diário de maconha; aos dezessete,
cocaína; e, a partir dos 22, uso expressivo de crack. Muitas internações
e tratamentos continuados. Tem 27 anos de idade no início do nosso
período de observação. Relação marital frouxa com mulher mais
velha, da qual depende financeira e afetivamente. Descrito por esta
como extremamente carente e impulsivo, com forte tendência aos
ciúmes. Teve também a vida marcada pela marginalidade, embora
após a relação conjugal afastou-se completamente dela.
Relata que durante o período de uso de cocaína não teve
sofrimentos expressivos provocados pela droga, mas que a situação se
alterou com o mergulho no crack. “Via bicho, cobra, ficava apavorado.
Depois via que não era nada disso, era alucinação da minha cabeça”.
Refere também sentir-se perseguido e que esse estado por vezes
perdura mesmo depois do final da embriaguez aguda. Mas, acima
de tudo, queixa-se de esquecimento. Diz-se incapaz de lembrar-se de
coisas e de fatos e que isso piora ainda mais quando usa cannabis.
O esquecimento é confirmado pela esposa, que o indica como o
principal problema, ao lado da personalidade excessivamente carente
e ciumenta.
Durante nosso período de observação, dois anos, passou a
desenvolver comportamentos estranhos, como guardar faca sob o
travesseiro e falar sozinho à noite. Esses comportamentos, embora
mais relacionados à embriaguez, pareciam estar presentes também
em período de abstinência. Jamais chegou a fazer uma interrupção
definitiva do uso, tendo tido diversas pequenas recaídas. Ao
contato interpessoal mostrava-se dedicado, preenchendo todos os
espaços da interpessoalidade, e até mesmo servil, ainda que muito
sensível às eventuais desatenções por parte da equipe. Chamava
a atenção a incapacidade de expressão integral de suas ideias ou
de clara compreensão das coisas ditas. Não se constata redução
da inteligência. Francas lacunas de memória não puderam ser
constatadas.
guilherme messas 337

Análise. O caso de Paulo mostra a ruinosa combinação entre


existência moldada pela hiperestabilidade e abandono social. A
necessidade natural, contida na hiperpresentificação dessa essência,
de encontrar somente no presente um apoio estável e confiável – e
reversamente, sua inabilidade em escapar desse presente –, a lança num
jogo de dados com a vida. Se o apoio das relações históricas fundamentais
é bom, será rico o desenvolvimento; se ruim, o abismo que se abre limita
as potencialidades da vida. Paulo se encaixa na segunda alternativa,
e o único apoio169 que realmente conseguiu nos momentos iniciais de
sua vida foi no grupo que o levou à marginalidade, e na embriaguez.
Esta agiu como um solidificador para seu presente hipertrofiado, um
substituto para os perfis humanos da interpessoalidade.
Mas o crack jamais será uma face humana e Paulo progrediu
na droga até atingir a deformidade típica, composta por animais e
perseguidores. Não devemos nos estender na análise desses achados.
Contudo, a dimensão do efeito devastador foi mais adiante do que
nas duas vinhetas que acabamos de investigar, tomando a zona da
cognição. Linguagem e memória se fizeram reduzidas em Paulo. Mas
o que significa essa limitação? Uma passagem, principalmente pela
via da perda da memória, da hiperestabilidade para o esgotamento?
Ser incapaz de reter pela memória os fatos não é uma modalidade de
abandono de raízes e não seria apenas a visão – observada desde a
retenção – de uma estrutura também esgotada na protensão e mantida
pelo fio agoniante do presente ilhado? A resposta é não. E o é pelo fato
de a essência hiperestabilidade indubitavelmente pontificar na sua
estrutura de consciência.
Não apenas os sentidos para a vida estão mantidos – signo
principal da manutenção de uma estrutura ainda protentiva – como o
presente revela magnífica importância e anelos de estabilidade, o que se
verifica no chamado comportamento carente e ciumento do paciente170.

169 Apoio aqui significando estritamente atualidade do presente: jamais compreensão


antropológica do ser.
170 Todo ciúme é uma aspiração a uma certeza que o mundo não pode oferecer. Mas
ainda voltaremos a isso.
338 psicose e embriaguez

Está, na realidade, cercado pelo presente, tendo diante de si o mesmo


e idêntico futuro de procurar uma relação estável e confiável. Nisso
Paulo se assemelha aos casos vistos no exame da hiperestabilidade.
Como entender então as perdas cognitivas, já que para o diagnóstico
de uma hiperestabilidade as mesmas proporções de retenção devem
estar articuladas ao longo do decurso da temporalidade longitudinal e
a perda da memória parece denegar essa condição?
Ora, para o bom entendimento do caso é mister ter em mente
a escassez retentiva de Paulo. Se tomarmos sua vida toda num golpe
de visão não erraríamos se disséssemos que o passado sempre foi
um conjunto vazio à espera de preenchimento. E continua sendo um
conjunto vazio à espera de preenchimento, um sorvedouro que, no
entanto, tem a mesma exigência, ao longo do tempo biográfico, de
tornar-se algo. Há uma continuidade do estilo pelo qual a retenção
participa de seu desenvolvimento biográfico, à medida que este sempre
foi vazio. E um vazio que continua sendo vazio nas mesmas proporções
é, por rigor formal, um participante da essência típica hiperestabilidade.
Efetivamente, os efeitos continuados da substância acrescem vazio
ao conjunto vazio de seu passado. Aquilo que se dava como carência
afetiva, como presença da ausência do perfil interpessoal passa a ser
mais: passa a ser presença da ausência de conteúdos operacionais
também do cotidiano, apenas instrumentais para a vida. Há, é bem
verdade, uma ampliação quantitativa da ausência no interior da aba
temporal retentiva, mas que não transmuta suas proporções relativas
em relação à totalidade da estrutura, já que estas se dão sempre na
dimensão qualitativa. As mudanças quantitativas não denunciam uma
ruptura, mas realçam a forma do ser.
Portanto, com esse entendimento, a perda mnêmica de Paulo
insere-se não em um esgotamento, mas já nas progressões no interior
da deformidade, que ainda apresentaremos, embora seja um difícil caso
limítrofe. Porém, no que se refere aos comportamentos persecutórios e
às falas autônomas, dirigidas a ninguém, presentes mesmo após dias de
contenção dietética, já se pode dizer que prenunciam uma transição ao
esgotamento. Parcial, visto que a estrutura se move na habitualidade.
guilherme messas 339

A preferência dos fenômenos pela noite parece realçar a insuficiência


ontológica de Paulo, posto surgirem no momento em que a solidão da
existência se anuncia. Trata-se de um importante agravante do caso,
que pode ser visto em comparação com os casos das duas vinhetas
anteriores. Gílson, o que melhor evoluiu dos três, tem o esgotamento
na região espacializada da interpessoalidade estranha: é capaz, por
isso, de escudar-se na espacialidade da familiaridade. Abelardo tem
esgotamento “quase dentro” do eu: não tem como se proteger dele,
mas consegue manter sua posição hiperestável com certo conforto.
Paulo, condição existencial mais frágil dos três, sofre o ataque do
esgotamento nos recônditos da solidão, contra a qual, finalmente, não
é possível nenhuma vedação completa. Na intimidade do seu ser há
uma fissura que vai além do que as competências de sua essência típica
hiperestável conseguem reparar.
Por fim, a questão da linguagem. Ela é acometida acima de tudo
em sua faceta de expressão e compreensão, ou seja, no vértice que
dialoga com o mundo, o ponto intermédio da linguagem. Dissemos
aqui ser o ponto intermédio pois neste a condição de possibilidade
da linguagem, o compartilhamento, não está comprometido. Basta
olharmos para a carência. Esse afeto, facilmente identificável nas
condutas de Paulo, mostra que, do ponto de vista de tráfego afetivo
– ou seja, de coexperiência de mundo – sua estrutura está aberta ao
mundo. Até exageradamente, como vimos. No entanto, a revelação
desse compartilhamento profundo, por meio da precisão que apenas a
linguagem permite, está afetada. O ponto intermédio da linguagem é
aquele que enfoca a interpessoalidade com exatidão, seu instrumento
de precisão. Perdido este, não está no vácuo o ser: pelo contrário,
está mais preso em sua solidão, pois – hiperestável – depende do
mundo; mas, hipoléxico, não consegue comunicar a esse mundo sua
carência profunda nem tampouco receber acuradamente os reclamos e
sugestões dele. Está sim, portanto, também na linguagem, a estrutura
deformada mas não esgotada, impedindo o crédito dessa alteração à
mera operacionalidade da função.
340 psicose e embriaguez

Progressões em Totalidades

Progressão da deformidade para o esgotamento (processo típico)

Os processos típicos distinguem-se formalmente pelo desvio


da linha de continuidade da vida, pelo surgimento de um momento
heterogêneo à temporalidade longitudinal da estrutura a partir do qual
os perfis anteriores deixam de existir e um novo perfil se inaugura,
sobre o qual não deixa de haver um novo gênero de desenvolvimento.
É a definição clássica de esquizofrenia. E nossa ambição neste trabalho
não é a de examinar as psicoses típicas. Já citamos como nelas – nas
quais prepondera o esgotamento – a embriaguez serve como bastião
de sustentação única da vida da estrutura. No entanto, a presença da
embriaguez continuada nos caminhos que levam até a eclosão psicótica
e seu estilo de efeito causal direto na gênese do esgotamento realizam
colorações singulares nos trajetos que levam da hiperestabilidade
deformada até o esgotamento. Não podemos deixar de, em um livro
sobre psicoses e embriaguez, mencionar essas cores singulares que a
clínica mostra. A seguir.

Vinheta 6. Fernando. Tem 28 anos de idade no momento do


início de nossa observação. Vive até hoje com a família, num lar
relativamente feliz, sem nenhum histórico de transtornos mentais.
Sempre teve muitos amigos, com os quais gostou de conviver e celebrar
a vida. Incluída a embriaguez. Sempre trabalhou, em posições de
pouca importância, talvez abaixo das potencialidades ambicionadas
pela família. Desde os quinze anos usava drogas, com amigos e com
namoradas, em relações amigáveis e despidas de conflitos. Pode-se
dizer que amava a vida. Atingidos pela excessiva embriaguez do filho,
os pais lhe levaram, a princípio sem oposição, a seis internações. O
histórico progressivo delas nos interessa. Todas as cinco primeiras se
deram por causa do uso incoercível de cannabis e cocaína, gradualmente
mais esta do que aquela. Em nome do detalhamento, deve-se dizer
que na quinta já houve um estado de agitação indefinida estranho
guilherme messas 341

a seu padrão existencial, que desapareceu depois, aparentemente


sem deixar marcas, mas levando a que o paciente suprimisse o uso
de cocaína. A diferença surge na sexta internação. Esta foi motivada
por um quadro estritamente psicopatológico, surgido seis meses após
completa renúncia a qualquer estimulação exógena. Iniciamos nosso
período de observação após a alta dessa última internação. Façamos
um breve resumo desses achados psicopatológicos.
Nervoso, inquieto com a família, aparentemente sentindo-
se perseguido, pois se recusava a dizer os motivos do desconforto
relacional. Isolou-se no quarto, recusando-se a aceitar a comida
familiar; incriminou os vizinhos de o vigiarem inamistosamente e
experimentava os ruídos do ambiente como voltados contra si. Uma
experiência paranoica, sem sombra de dúvidas. Durante a internação,
mesmo medicado, manteve-se hostil ao contato com a equipe e com a
família, negando ter havido qualquer necessidade do procedimento.
Teve alta sem grandes mudanças do quadro, mantendo-se hostil ao
tratamento, embora o aceitasse com muitas reservas. Pudemos segui-
lo por dois anos.
Nessa época, por muito tempo não experimentou embriagantes,
mas retraiu-se mais e mais, praticamente não tendo nenhuma vida
social, que antes tanto lhe agradava. Recuperou parcialmente a
qualidade das relações intrafamiliares, que se tornaram seu único
ponto de apoio no mundo. Em duas ocasiões, procurou retomar
contatos com amigos, mas a acrimônia com que experimentou essas
relações fez com que logo desistisse delas. Sem nenhum ímpeto para o
trabalho, sequer almeja alguma coisa para sua vida. Permanece vazio e
incomodado com o mundo.
Gradualmente, voltou a experimentar cocaína e em doses
crescentes. A embriaguez não altera em nada a qualidade de seu
estado psicopatológico de base, mas a amplia em território. Seu irmão,
excelente informante, diz que Fernando “está ficando paranoico até
com a gente, com quem nunca ficava”. Uma passagem, com cerca
de um ano de observação, será relevante para nossa compreensão.
Fernando passou vários dias “falando apenas do passado nostálgico”,
342 psicose e embriaguez

nas palavras de seu irmão. Logo após isso, caiu desabaladamente no


acréscimo do uso de crack, por vezes sumindo de casa por vários dias.
Não se constata nesse período nenhuma aproximação com qualquer
grupo so