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Sumário

1 Relações de Equivalência 3
1.1 Relações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3
1.2 Relação de equivalência . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
1.2.1 Problemas Resolvidos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19
1.2.2 Problemas propostos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21
1.3 Funções . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23
1.3.1 Problemas Resolvidos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33
1.3.2 Problemas Propostos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36
1.4 Famílias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36
1.4.1 Problemas Resolvidos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39

2 Conjuntos e Números 47
2.1 Indução Finita . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
2.1.1 Exercícios Propostos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 52

3 Divisibilidade em Z 55
3.1 Algoritmo da divisão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55
3.1.1 Problemas Resolvidos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59
3.1.2 Problemas Propostos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 62
3.2 Representação dos Inteiros . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 65
3.2.1 Problemas Resolvidos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67
3.2.2 Problemas Propostos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67
3.3 Máximo divisor comum . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 68
3.3.1 Problemas Resolvidos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 74
3.3.2 Problemas Propostos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 77
3.4 Mínimo múltiplo comum . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 83
3.4.1 Problemas Resolvidos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85
3.4.2 Problemas Propostos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87
3.5 Equações diofantinas lineares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87
3.5.1 Problemas Resolvidos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 90
3.5.2 Problemas Propostos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 92

4 Números Primos 95
4.1 Conceitos e propriedades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 95
4.1.1 Problemas resolvidos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 101
4.1.2 Problemas propostos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 105
4.2 Divisores de um inteiro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 106
4.2.1 Problemas Resolvidos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 110

1
SUMÁRIO 1

4.2.2 Problemas Propostos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 113


4.3 O crivo de Erastóstenes e a distribuição dos números primos . . . 113
4.3.1 Problemas Resolvidos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 117
4.3.2 Problemas Propostos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 118

5 Aritmética Modular 119


5.1 Congruência . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 119
5.1.1 Problemas Resolvidos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 124
5.1.2 Problemas Propostos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 125
5.2 Congruências Lineares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 127
5.2.1 Problemas Resolvidos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 132
5.2.2 Exercícios Propostos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 133
5.3 Teorema de Euler . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 135
5.4 Triângulos Pitagorianos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 143
5.4.1 Exercícios Propostos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 144

Referências Bibliográ…cas 141


2 SUMÁRIO
Capítulo 1

Relações de Equivalência

Neste capítulo apresentaremos uma relação muito importante para os demais


ramos da Matemática: relações de equivalência. O leitor interessado em mais
detalhes deve consultar [?, ?].

1.1 Relações
De…nição 1.1 Sejam x e y elementos de um conjunto A. Então o conjunto
ffxg ; fx; ygg é chamado par ordenado, em símbolo (x; y) onde x é a primeira
componente (ou coordenada) e y é a segunda componente (ou coordenada).
Observação (x; y) = (z; w) , x = z e y = w:
Com efeito, se x = z e y = w; então trivialmente (x; y) = (z; w) : Reciproca-
mente, suponha que (x; y) = (z; w) ou seja,
ffxg ; fx; ygg = ffzg ; fz; wgg
Pela igualdade de conjuntos, temos

fxg = fzg ou fxg = fz; wg


Se fxg = fzg, então fx; yg = fz; wg. Assim,

x=z ey=w
Se fxg = fz; wg ; então fx; yg = fzg : Portanto,

x=z=wex=y=w
o que implica x = z = y = w: Por exemplo,
(x 1; 3) = (0; y + 4) , x = 1 e y = 1
De…nição 1.2 Sejam A e B dois conjuntos não vazios. O conjunto de todos os
pares ordenados (x; y), onde x 2 A e y 2 B, é chamado o produto cartesiano
de A por B; nesta ordem, em símbolo A B:
1 Autores: Klinger, D.A.S. & Santos, J.S.R.

3
4 CAPÍTULO 1. RELAÇÕES DE EQUIVALÊNCIA

Simbolicamente temos

A B = f(x; y) : x 2 A e y 2 Bg

Por exemplo, se A = f0; 1g e B = f2; 4g. Temos

A B = f(0; 2) ; (0; 4) ; (1; 2) ; (1; 4)g

e
B A = f(2; 0) ; (4; 0) ; (2; 1) ; (4; 1)g
Assim, o produto cartesiano não goza da propriedade comutativa.
Observação O produto cartesiano A B = B A se, e somente se, A = B ou
A = ? ou B = ?:
É claro que se A = ? ou B = ?; então

A B=?=B A

e se A = B é óbvio que A B = B A:
Reciprocamente, suponhamos por absurdo que A 6= ?, B 6= ? e A 6= B:
Assim, temos dois casos:

i) Existe x 2 A e y 2
= B;
ii) Existe x 62 A e y 2 B:

Suponhamos que seja válido o caso i). Como B 6= ?; temos que existe y 2 B
o que implica
(x; y) 2 A B
por outro lado, (x; y) 2
= B A; pois x 2 = B e portanto, A B 6= B A que é
uma contradição. O caso ii) é feito de modo análogo.
Em particular, quando A = B, temos o quadrado cartesiano do conjunto A
isto é, A2 = A A que lê-se “A dois”. O subconjunto

D = f(x; x) : x 2 Ag

é chamado de diagonal de A2 :
Exemplo Se A = f0; 1g então:

A2 = f(0; 0) ; (0; 1) ; (1; 0) ; (1; 1)g

e
D = f(0; 0) ; (1; 1)g A2
O termo “cartesiano”é tomado emprestado da geometria de coordenadas, onde
um ponto no plano é representado por um par ordenado de números reais (x; y),
chamado de coordenadas cartesiana. O produto cartesiano R R é então o
conjunto das coordenadas cartesiana de todos os pontos do plano.
Note que, se A é um conjunto com m elementos e B com n elementos, então
A B tem mn elementos, pois no par ordenado (x; y) existem m possibilidades
para a primeira componente e n possibilidades para a segunda componente. É
fácil veri…car que:
(x; y) 2
=A B,x2 = A ou y 2=B
1.1. RELAÇÕES 5

Proposição 1.1 Sejam A; B; C e D conjuntos. Então:

a) A B = ? , A = ? ou B = ?;
b) A (B \ C) = (A B) \ (A C) ;
c) A (B [ C) = (A B) [ (A C) ;
d) A (B C) = (A B) (A C) ;
e) (A B) \ (C D) = (A \ C) (B \ D) ;
f) Se C D 6= ?, então C D A B,C AeD B:

Prova.
a) Suponhamos por absurdo que A 6= ? e B 6= ?: Assim, existem elementos
x e y tais que x 2 A e y 2 B, o que implica (x; y) 2 A B e portanto, A B 6= ?
que é uma contradição.
Reciprocamente, suponhamos por absurdo que A B 6= ?: Então existem
pelo menos um par ordenado (x; y) 2 A B: Logo, x 2 A e y 2 B e portanto,
A 6= ? e B 6= ? que é uma contradição.
b) Por de…nição temos

(x; y) 2 A (B \ C) , x 2 A e y 2 (B \ C)
, x2Aey2B ey2C
, (x; y) 2 (A B) e (x; y) 2 (A C)
, (x; y) 2 (A B) \ (A C)

logo, A (B [ C) = (A B) [ (A C) :
c)

De…nição 1.3 Sejam A e B dois conjuntos. Chama-se relação de A em B


todo subconjunto < do produto cartesiano A B.

Simbolicamente, temos

< é relação de A em B , < A B

Se o par ordenado (x; y) 2 <, então podemos indicar esta relação de pert-
inência por x<y e dizemos que “x está relacionado com y”ou y é correspondente
de x pela relação <: Quando (x; y) 2= < escrevemos x<y/ e dizemos que x não
está relacionado com y ou y não é correspondente de x pela relação <:
Quando A = B dizemos que < é uma relação em A ou seja,

< é relação em A , < A A = A2

Note que o conjunto vazio ? é uma relação de A em B e também uma relação


em A, pois ? A B e ? A A; quaisquer que sejam os conjuntos A e B,
chamada relação vazia.
Observação Se < é uma relação de A em B e S <; então S é uma relação
de A em B: Com efeito,

S <e< A B)S A B
6 CAPÍTULO 1. RELAÇÕES DE EQUIVALÊNCIA

Exemplo Sejam A = f1; 2; 3g e B = f4; 5g dois conjuntos: Temos que

< = f(1; 4) ; (2; 5) ; (3; 5)g

é uma relação de A em B, pois < A B:


Exemplo O subconjunto

< = (x; y) 2 R R : x2 + y 2 = 1

é uma relação em R, pois < R R:

De…nição 1.4 Chama-se domínio de uma < relação de A em B o conjunto


D (<)
/ constituido de todos os elemento x 2 A para os quais existe y 2 B tal que
x<y:
/

Em símbolos
D (<)
/ = fx 2 A : 9y 2 B; x<yg
/
Exemplo Dados os conjuntos A = f0; 1; 2; 3; 4g e B = f0; 1; 2g ; considere a
relação <
/ de A em B de…nida por

<
/ = (x; y) 2 A B : x2 + y 2 = 1 = f(0; 1) ; (1; 0)g

temos que D (<)


/ = f0; 1g A:
Em geral, sempre D (<)
/ A.

De…nição 1.5 Chama-se imagem de uma < relação de A em B o conjunto


Im (<)
/ constituido de todos os elemento y 2 B para os quais existe x 2 A tal
que x<y:
/

Em símbolos
Im (<)
/ = fy 2 B : 9x 2 A; x<yg
/
Também podemos notar que Im (<)
/ B:
/ = (x; y) 2 R2 : 4x2 + 9y 2 = 36 :
Exemplo Determine a imagem da relação <
Note que

9y 2 6 4x2 + 9y 2 = 36 ) 9y 2 6 36 ) 26y62

e portanto,
Im (<)
/ = [ 2; 2]
Observação < / D (<) / Im (<)
/ A B:
Com efeito, ja sabemos que D (<)
/ Im (<)
/ A B; pois D (<)
/ A e
Im (<)
/ B: Por outro lado, como

(x; y) 2 <
/ ) x 2 D (<)
/ e y 2 Im (<)
/ ) (x; y) 2 D (<)
/ Im (<)
/

e daí, <
/ D (<)
/ Im (<)
/ :

De…nição 1.6 Seja < uma relação de A em B: A relação relação inversa de <
é uma relação de B em A de…nida por
1
< = f(y; x) 2 B A : x<yg
1.1. RELAÇÕES 7

1
Note que a relação inversa de < é a relação <, pois
1 1 1
(x; y) 2 (< ) , (y; x) 2 < , (x; y) 2 <:

Logo, (< 1 ) 1 = <:


Exemplo Seja A = f0; 1; 2; 3g. Se

< = f(1; 1) ; (1; 2) ; (2; 2) ; (2; 3)g

então
1
< = f(1; 1) ; (2; 1) ; (2; 2) ; (3; 2)g
Exemplo Seja < uma relação de…nida em A = N de…nida por

x<y , 2x + y = 3

ou seja,
< = (x; y) 2 N2 : 2x + y = 3
1
achamos < trocando x por y e y por x na sentença aberta que de…ne <: Assim,
1
< = (x; y) 2 N2 : x + 2y = 3
= f(1; 1) ; (3; 0)g

De…nição 1.7 Sejam < uma relação de A em B e S uma relação de B em


C. Chama-se relação composta das relações < e S a relação de A em C (em
símbolo S <) cujos elementos são pares ordenados (x; y) 2 A C para os quais
existe z 2 B tal que
(x; z) 2 < e (z; y) 2 S

Simbolicamente

S < = f(x; y) 2 A C : existe z 2 B tal que x<z e zSyg

Por exemplo, dados os conjuntos A = f1; 4; 9g ; B = f1; 2; 3g ; C = f2; 4; 6g


e as relações < de A em B e S de B em C de…nidas por
p p
< = (x; z) 2 A B : z = x ou x<z , z = x

e
S = f(z; y) 2 B C : y = 2zg ou zSy , y = 2z
Eliminando z entre estas duas equações temos

4x = y 2

Logo,

S < = f(x; y) 2 A C : 4x = y 2 g
= f(1; 2) ; (4; 4) ; (9; 6)g

Proposição 1.2 Sejam <


/ uma relação de A em B e S uma relação de B em
C: Então:
1
a) D (<)
/ = Im <
/ ;
8 CAPÍTULO 1. RELAÇÕES DE EQUIVALÊNCIA

1
b) Im (<)
/ =D <
/ ;

c) D (S <) D (<)
/ ;

e) Im (S <) Im (S) :

Prova.
a) Por de…nição temos

x 2 D (<)
/ , existe y 2 B tal que (x; y) 2 <
/
1
, existe y 2 B tal que (y; x) 2 <
/
1
, x 2 Im <
/

Mostraremos agora o item c) e os demais ítens …ca como exercício.


c) Temos

x 2 D (S <) ) existe z 2 C tal que (x; z) 2 S <


) existe y 2 B tal que (x; y) 2 < e (y; z) 2 S
) x 2 D (<)
/

De…nição 1.8 Seja A um conjunto e < uma relação em A. Dizemos que < é
re‡exiva se a cada x 2 A o par ordenado (x; x) 2 <:

Simbolicamente temos:

< é re‡esiva , para todo x 2 A implica x<x

Exemplo Seja A = N e consideremos a relação < em N de…nida por

x<y , x j y

é re‡exiva, pois x j x para todo x em N:


Exemplo A relação em A = f1; 2; 3g de…nida por

< = f(1; 1) ; (1; 2) ; (2; 2) ; (2; 3)g

não é re‡exiva, pois 3 2 A e (3; 3) 2


= <:

Proposição 1.3 Seja A um conjunto e < uma relação em A: Então


1
a) < é re‡exiva se, e somente se, < é re‡exiva;
1 1
b) Se < é re‡exiva, então < < e< < são re‡exivas.

Prova.
a)

< é re‡esiva , para todo x 2 A implica x<x


, para todo x 2 A implica x< 1 x
, < 1 é re‡esiva
1.1. RELAÇÕES 9

b) Suponhamos que < seja re‡exiva. Para todo x em A temos:


1
(x; x) 2 < e (x; x) 2 <

e por de…nição de composta de duas relações obtemos


1 1
(x; y) 2 < < e (x; x) 2 < <

De…nição 1.9 Seja A um conjunto e < uma relação em A: Dizemos que < é
uma relação simétrica se, quaisquer que sejam x; y 2 A

(x; y) 2 < implica em (y; x) 2 <

Simbolicamente temos

< é uma relação simétrica , para todo x; y 2 A e x<y ) y<x

Exemplo Seja A = R e consideremos a relação < em R de…nida por

x<y , xy > 0

Temos que < é uma relação simétrica, pois yx > 0 para todo x em R:
Exemplo A relação em A = f1; 2; 3g de…nida por

< = f(1; 1) ; (1; 2) ; (2; 2) ; (2; 3)g

não é simétrica, pois (1; 2) 2 < e (2; 1) 2


= <.

Proposição 1.4 Seja A um conjunto e < e uma relação em A: Então:


1
a) < é simétrica se, e somente se, < = < ;
1 1
b) Se < é simétrica, então < < e< < são simétricas;
1 1
c) Se < é simétrica, então < < =< <:

Prova.
a) Suponhamos que < seja simétrica. Assim,
1
(x; y) 2 < , (y; x) 2 < , (x; y) 2 < :

e portanto, < é simétrica.


b) Suponha que < seja uma relação simétrica. Por de…nição, temos
1 1
(x; y) 2 < < ) existe z 2 A tal que (x; z) 2 < e (z; y) 2 <

1
) existe z 2 A tal que (y; z) 2 < e (z; x) 2 <

1
) (y; x) 2 < <

Logo, < < 1 é simétrica. Analogamente, mostramos que < 1 < é simétrica.
c) Como < é simétrica temos que < = < 1 e portanto, < < 1 = < 1 <:
10 CAPÍTULO 1. RELAÇÕES DE EQUIVALÊNCIA

De…nição 1.10 Uma relação < em um conjunto A é dita transitiva se


(x; y) 2 < e (y; z) 2 < implica em (x; z) 2 <
para quaisquer que sejam os elementos x; y; z 2 A.
Simbolicamente temos
< é transitiva , para todo x; y; z 2 A, x<y e y<z ) x<z
De acordo com a de…nição acima uma relação < em um conjunto A não é
transitiva se existem elementos x; y; z 2 A tais que (x; y) 2 < e (y; z) 2 < e
(x; z) 2
= <:
Exemplo A relação em A = f1; 2; 3; 4g de…nida por
< = f(1; 2) ; (1; 3) ; (1; 4) ; (2; 3) ; (2; 4) ; (3; 4)g
é uma relação transitiva, porém a relação S de…nida em por
S = f(1; 2) ; (2; 1) ; (2; 2) ; (3; 1) ; (3; 2) ; (4; 3)g
não é transitiva, pois 4<3 e 3<1 e 4<1:
/
Exemplo A relação em A = f1; 2; 3g de…nida por
< = f(1; 2) ; (3; 2) ; (2; 1) ; (1; 3)g
não é transitiva, pois
(3; 2) 2 < e (2; 1) 2 < mas (3; 1) 2
=<
Exemplo Seja A = R e consideremos a relação < em R de…nida por
x<y , xy > 0
é transitiva, pois (xy > 0 e yz > 0) implica xz > 0 para todo x; y; z em R:
Proposição 1.5 Uma relação < em um conjunto A é transitiva se, e somente
se, a relação composta < < está contida em <: Em paticular, se < é uma
relação tansitiva então a composta < < é transitiva.
Prova. Suponhamos que < seja transitiva. Seja (x; y) um elemento qualquer
de < < e por de…nição de composta de duas relações, existe z 2 A tal que
(x; y) 2 < e (y; z) 2 <: Logo, pela transitividade (x; z) 2 < e portanto,
< < <
Reciprocamente, suponhamos que < < <: Sejam x; y e z três elementos
quaisquer de A tais que
(x; y) 2 < e (y; z) 2 <
e pela de…nição de relação composta, temos (x; z) 2 < <: Logo, (x; z) 2 < e
portanto, < é uma relação transitiva.
Se < é uma relação transitiva, então < < <: Assim,
(x; y) 2 < < e (y; z) 2 < < ) (x; y) 2 < e (y; z) 2 < (pois < < <)
) (x; z) 2 < < (de…nição de composta)
e portanto, < < é transitiva.
1.2. RELAÇÃO DE EQUIVALÊNCIA 11

1.2 Relação de equivalência


Vamos agora de…nir o que vem a ser uma relação de equivalência em um
conjunto A. A de…nição de relação de equivalência em um conjunto A é ex-
tremamente importante, desempenhando hoje um papel em quase toda parte
da matemática. Uma relação de equivalência serve para classi…car os objetos de
um conjunto e são elas que produzem as partições de um conjunto.
Seja A um conjunto e < uma relação entre pares de elementos de A:

De…nição 1.11 Dizemos que < é uma relação de equivalência em A (sobre A)


se as seguintes condições são satisfeitas:

a) Para todo x 2 A, tem-se x<x (re‡exiva);


b) Para todo x e y em A, se x<y, então y<x (simétrica);
c) Para todo x; y e z em A, se x<y e y<z, então x<z (transitiva):

Exemplo Seja A o conjunto de toda as retas de um plano e consideremos a


relação < em A de…nida por

x<y , x k y (a reta x é paralelo a reta y)

Veri…que que < é uma relação de equivalência em A:


Seja x 2 A; assim, x k x e então x<x: Portanto, < é uma relação re‡exiva.
Seja x<y; então x k y. Como x k y implica em y k x e portanto, y<x. Logo,
< é uma relação simétrica.
Sejam x<y e y<z; então x k y e y k x: Logo, x k z isto é, x<z: Como

x<y e y<z implica em x<z

temos que < é uma relação transitiva. Como < é re‡exivo, simétrico e transitivo,
< é por de…nição uma relação de equivalência em A:
Note que a relação de equivalência < em A de…nida por

x<y , x k y

classi…ca todas as retas do plano da seguinte forma:

i) Duas retas x e y que estão na relação < são postas numa mesma classe;
ii) Duas retas x e y que não estão na relação < são postas em classes
diferentes.

Exemplo Seja A = fx 2 Z : jxj 6 10ge consideremos a relação < em A de…nida


por
x<y , x2 + 2x = y 2 + 2y
Mostre que < é uma relação de equivalência em A:
Seja x 2 A; assim x2 + 2x = x2 + 2x e então x<x: Portanto, < é uma relação
re‡exiva.
Se x<y então x2 + 2x = y 2 + 2y e assim, y 2 + 2y = x2 + 2x: Logo, y<x:
12 CAPÍTULO 1. RELAÇÕES DE EQUIVALÊNCIA

Sejam x<y e y<z; temos que x2 + 2x = y 2 + 2y e y 2 + 2y = z 2 + 2z: Logo,

x2 + 2x = z 2 + 2z

o que implica que x<z: Portanto, < é uma relação de equivalência em A:

Exemplo Mostre que (a; b)<(c; d) , ad = bc de…ne uma relação de equivalência


no conjunto A = Z Z] onde Z] = Z f0g :
Seja (a; b) 2 A; temos que ab = ab e então (a; b)<(a; b): Logo, < é re‡exivo.
Se (a; b)<(c; d) então ad = bc e assim, bc = ad: Logo, (c; d)<(a; b):
Sejam (a; b)<(c; d) e (c; d)<(e; f ): Temos

ad = bc e cf = de

o que implica adcf = bcde ou seja, (a; b)<(e; f ): Portanto, < é uma relação de
equivalência em Z Z] :

Exemplo Seja A = N. Para x; y 2 A, de…nimos

x<y , x + y = 10

Então < não é uma relação de equivalência em A, pois < não é re‡exiva, por
exemplo,
4 + 4 6= 10
ou seja, 4 não está relacionado com 4:

Exemplo Seja A = Z. Para x; y 2 A, de…nimos

x<y , 3 j (x y)

Seja x 2 A; assim, x x = 0 é divisível por 3 e então x<x: Portanto, < é


uma relação re‡exiva.
Se x<y, então 3 j (x y) e assim, 3 j (y x). Logo, y<x: Como

x<y implica em y<x

< é uma relação simétrica.


Se x<y e y<z; então

3 j (x y) e 3 j (y z)

logo,
3 j [(x y) + (y z)] ) 3 j (x z)
isto é, x<z e portanto, < é uma relação transitiva. Como < é re‡exivo, simétrico
e transitivo, < é por de…nição uma relação de equivalência.

A propriedade mais importante de uma relação de equivalência sobre um


conjunto é que ela particiona o conjunto em subconjuntos disjuntos chamadas
classe de equivalência.
1.2. RELAÇÃO DE EQUIVALÊNCIA 13

De…nição 1.12 Seja < uma relação de equivalência em A. Para todo x 2 A,


o subconjunto
[x] = fy 2 A : y<xg
é denominada classe de equivalência de x e determinada por x2 : Neste caso,
dizemos que x é um representante da classe de equivalência de x.

Note que [x] é um subconjunto de A e portanto, um elemento do conjunto


} (A) das partes de A isto é,

[x] A e [x] 2 } (A)

Observação Para todo x 2 A; [x] nunca é vazio.


De fato, Para todo x 2 A; temos x 2 [x] ; pela propriedade re‡exiva de <;
x<x:

Proposição 1.6 Seja < uma relação de equivalência em A e sejam x; y 2 A:


Então:

a) [x] = [y] , x<y; 8x; y 2 A;


b) [x] 6= [y] ) [x] \ [y] = ?;
S
c) A = x2A [x] :

Prova.
a) Sejam x; y 2 A e [x] = [y] : Como x 2 [x] = [y] decorre da de…nição de
classe de equivalência
x<y; 8x; y 2 A
Reciprocamente, suponha que x; y 2 A e x<y. Se z 2 [x] temos que z<x e
como x<y por hipótese segue-se que z<y e portanto, z 2 [y] ou seja, [x] [y] :
Analogamente, podemos mostrar que [x] [y] e daí, segue que [x] = [y] :

b) Suponha por absurdo que [x] \ [y] 6= ?. Seja z 2 ([x] \ [y]) e daí, z<x e
z<y e usando a simetria temos x<z e z<y e pela transitividade x<y e pelo item
a) temos que [x] = [y] que é uma contradição.

c) Por de…nição temos [x] A; 8x 2 A e daí segue que


[
[x] A
x2A

Reciprocamente, temos que x 2 [x] 8x 2 A e portanto, segue que


[
A [x]
x2A
S
Logo, A = x2A [x] :

De…nição 1.13 Seja < uma relação de equivalência em A. O conjunto de todas


as classes de equivalência de x é denominado de conjunto quociente de A pela
relação de equivalência < e será indicado por A=< (lê-se A quociente <).
2 Note que a classe de equivalência [x] depende da relação de equivalência <. Assim, quando

houver duas ou mais relações de equivalências, vamos usar a notação [x]< .


14 CAPÍTULO 1. RELAÇÕES DE EQUIVALÊNCIA

Simbolicamente
A=< = f[x] : x 2 Ag
Exemplo Seja < uma relação de equivalência em A = f0; 1; 2; 3; 4g dada por:
< = f(0; 0); (1; 0); (0; 1); (1; 1); (2; 2); (2; 3); (3; 2);
(2; 4); (4; 2); (3; 3); (3; 4); (4; 3); (4; 4)g
Ache o conjunto quociente de A pela relação de equivalência <:
Por de…nição temos
[0] = fy 2 A : y<0g = f0; 1g

[1] = fy 2 A : y<1g = f0; 1g

[2] = [3] = [4] = f2; 3; 4g


assim,
A=< = f[0] ; [2]g = ff0; 1g ; f2; 3; 4gg
Exemplo Seja A = fx 2 Z : jxj 6 4g e < uma relação de equivalência em A
de…nida por
x<y , x2 + 2x = y 2 + 2y
Determine o conjunto quociente A=<.
Por de…nição temos
[0] = fy 2 A : y<0g = y 2 A : y 2 + 2y = 0 = f 2; 0g

[1] = fy 2 A : y<1g = y 2 A : y 2 + 2y = 3 = f 3; 1g

[2] = fy 2 A : y<2g = y 2 A : y 2 + 2y = 8 = f 4; 2g

[3] = fy 2 A : y<3g = y 2 A : y 2 + 2y = 15 = f 5; 3g

[4] = fy 2 A : y<4g = y 2 A : y 2 + 2y = 24 = f 6; 4g

[ 1] = fy 2 A : y< 1g = y 2 A : y 2 + 2y = 1 = f 1g

[ 2] = fy 2 A : y< 2g = y 2 A : y 2 + 2y = 0 = f 2; 0g

[ 3] = fy 2 A : y< 3g = y 2 A : y 2 + 2y = 3 = f 3; 1g

[ 4] = fy 2 A : y< 4g = y 2 A : y 2 + 2y = 8 = f 4; 2g
Logo,
A=< = f[ 1] ; [0] ; [1] ; [2] ; [3] ; [4]g
Se A = Z; para cada n 2 Z; n > 0 a relação de congruência de…nida por
x<y , x y (mod n)
é uma importante relação de equivalência em Z (veri…que). Assim, podemos
determinar o conjunto quociente
Z=<
1.2. RELAÇÃO DE EQUIVALÊNCIA 15

que será indicado por Zn e classe de equivalência de x será denotada por x:


Já sabemos que a classe de equivalência (mod n) de x que é o conjunto x dos
inteiros congruentes com x; isto é,

x = fy 2 Z : y x(mod n)g = fy 2 Z : y = x + kn; k 2 Zg

O símbolo x é ambíguo, pois não contém qualquer informação sobre o módulo


de congruência n em causa. Por este motivo, sempre que necessário escrevemos

x = x + hni ou x = [x]n

por exemplo, para n = 3 e n = 4; temos

2 = 2 + h3i = f: : : ; 4; 1; 2; 5; 8; : : :g

e
2 = 2 + h4i = f: : : ; 6; 2; 2; 6; 10; : : :g
Em símbolo, temos
Z=< = Zn = fx : x 2 Zg

onde x = fy 2 Z : y x(mod n)g. Também denotamos Zn por Z=nZ onde


nZ = fnk : k 2 Zg
Note que para n = 1; temos

x = x + h1i = fy 2 Z : y = x + k; k 2 Zg = fx + k : k 2 Zg = Z

Observação Se n > 0 o conjunto Zn tem n elementos isto é,

Zn = 0; 1; : : : ; n 1

com efeito, pelo Algorítmo da Divisão3 com relação aos inteiros x e n temos que
existem q; r 2 Z tais que

x = qn + r onde 0 6 r 6 n 1

Agora, passando a barra (congruência módulo n) em ambos os membros e tendo


em vista que qn = 0 temos,

x = qn + r ) x = r

Como 0 6 r 6 n 1; temos que

x 2 Zn ) x 2 0; 1; : : : ; n 1

Mais uma vez note que em Z3 = 0; 1; 2 e Z2 = 0; 1 o elemento

1 + h2i =
6 1 + h3i
3 Sejam a; b 2 Z e b 6= 0; então existem únicos inteiros q; r 2 Z, tais que
a = bq + r e 0 6 r < jbj
16 CAPÍTULO 1. RELAÇÕES DE EQUIVALÊNCIA

Proposição 1.7 Se A = Z; para cada n 2 Z; n > 0 a relação de congruência


de…nida por
x<y , x y (mod n)
Então a classe de equivalência (mod n) de x satisfaz as seguintes propriedades:
a) x = y , x y (mod n) ;
b) x 6= y ) x \ y = ?;
c) Z = 0 [ 1 [ [n 1 onde i \ j = ? se i 6= j (0 6 i; j 6 n 1) :

De…nição 1.14 Sejam A um conjunto não vazio e } (A) o conjunto das partes
de A: Dizemos que um conjunto não vazio P } (A) é uma partição de A se:
a) Quaisquer que sejam X e Y em P; se X 6= Y então X \ Y = ?;
S
b) X2P X = A:

Note que a de…nição acima é equivalente a: cada elemento de A pertence a


um e somente um elemento (ou bloco) de P. Podemos observar também que,
cada subconjunto próprio e não vazio X de A determina uma partição de A em
dois subconjuntos, a saber,
P = fX; A Xg
Exemplo Seja A = f1; 2; 3; 4; 5; 6; 7g. Então
P1 = ff1; 3; 5g; f2; 7g; f4; 6gg
é uma partição de A, pois P1 é formado de subconjuntos não vazios de A,
disjuntos dois a dois e cuja união é A: Mas o conjunto
P2 = ff1; 2; 3g; f2; 3; 4; 5g; f5; 6; 7gg
não é uma partição de A, pois
f1; 2; 3g \ f2; 3; 4; 5g = 2
Temos também que
P3 = ff1; 3g; f4; 7gg
não é uma partição de A, pois
f1; 3g [ f4; 7g =
6 A
Exemplo Se A = R, então P = fX; Y; Zg, onde
X = ( 1; 0) ; Y = [0; 3] e Z = (3; +1)
é uma partição de A, pois P é formado de subconjuntos não vazios de R, disjuntos
dois a dois e cuja união é R:
Exemplo Se A = Z, então P = fX; Y g, onde
X = f0; 2; 4; : : :g e Y = f 1; 3; 5; : : :g
é uma partição de A, pois todo inteiro é par ou ímpar.
1.2. RELAÇÃO DE EQUIVALÊNCIA 17

Proposição 1.8 Sejam A um conjunto não vazio e < uma relação de equiv-
alência em A. Então A=< é uma partição do conjunto A.

Prova. Seja [x] 2 A=<: Como < é uma relação re‡exiva, então x<x e portanto,
x 2 [x]. Logo, [x] 6= ? para todo x 2 A.

Suponhamos por absurdo que [x]\[y] 6= ? 8 [x] ; [y] 2 A=<: Seja z 2 ([x]\[y])
daí,
z 2 [x] ) z<x ) x<z
) x<y ) [x] = [y]
z 2 [y] ) z<y
que é uma contradição.

Para cada x 2 A, temos [x] A e portanto,


[
[x] A
x2A=<

Reciprocamente, para cada x 2 A; temos:


[
x 2 A ) x<x ) x 2 [x] ) x 2 [x]
x2A=<

e assim, [
A [x]
x2A=<
S
Portanto, x2A [x] = A:

Proposição 1.9 Se P é uma partição do conjunto A, então existe uma única


relação de equivalência < em A tal que A=< = P:

Prova. (Existência) Seja < uma relação em A dada por:

x<y , existe X 2 P tal que x; y 2 X

isto é x está relacionado com y quando existe um conjunto X da partição P que


contém x e y:

A…rmação: < é uma relação de equivalência em A.


De fato, para todo x 2 A; existe um conjunto X 2 P tal que x 2 X e
portanto, x<x:
Se x; y 2 A temos:

x<y ) existe X 2 P tal que x; y 2 X ) existe X 2 P tal que y; x 2 X

Logo, y<x:
Se x; y; z 2 A temos:

x<y ) existe X 2 P tal que x; y 2 X

e
y<z ) existe Y 2 P tal que y; z 2 Y
18 CAPÍTULO 1. RELAÇÕES DE EQUIVALÊNCIA

Como y 2 (X \ Y ) temos que X \ Y 6= ?: Assim, de…nição de partição segue


que X = Y . Portanto,

existe X = Y 2 P tal que y; z 2 X = Y

e assim, x<z:
Agora, vamos mostrar que
A=< = P
Se X 2 P, então existe x 2 A tal que x 2 X; pois X 6= ?: Assim,

y 2 X , y<x , y 2 [x]

isto é, X = [x]. Logo, P A=<.


Reciprocamente, sejam [x] 2 A=< e X 2 P tal que x 2 X. Então

y 2 [y] = [x] , y<x , y 2 X

isto é, [x] = X. Logo, A=< P.


(Unicidade) Sejam <1 e <2 duas relações de equivalências em A tais que

A=<1 = P = A=<2

Suponhamos, por absurdo, que <1 6= <2 , isto é, existe (x; y) 2 A2 tais que

x<1 y e 2
= x<
/2y

Assim, existe X 2 A=<1 tal que x; y 2 X e x; y 2


= Y; 8 Y 2 A=<2 . Portanto,

A=<1 6= A=<2

que é uma contradição.

Por exemplo, considere A = f1; 2g ; as únicas partições de A são

P1 = ff1; 2gg e P2 = ff1g ; f2gg

portanto, existem somente duas relações de equivalência

<1 = f(1; 1) ; (1; 2) ; (2; 1) ; (2; 2)g e <2 = f(1; 1) ; (2; 2)g

associada as P1 e P2 respectivamente. Além disso,

A=<1 = ff1; 2gg e A=<2 = ff1g ; f2gg

Exemplo Seja A = R R. Para (a; b); (x; y) 2 A, de…nimos

(a; b)<(x; y) , a x=b y

Então é fácil veri…car que < é uma relação de equivalência em A. Agora, para
(a; b) 2 A,
[(a; b)] = f(x; y) 2 A : y = x + b ag
isto é, as classes de equivalência em A são retas de coe…ciente angular igual
a 1 passando pelo ponto (a; b). Assim, a relação < pode ser vista como uma
partição de A numa família de retas paralelas.
1.2. RELAÇÃO DE EQUIVALÊNCIA 19

1.2.1 Problemas Resolvidos


01. Sejam A = R e < uma relação de…nida em R por:

x<y , x y2Q

Provarpque < é uma relação de equivalência em R e descreva as classes


1
2 e 2 :

Solução Seja x 2 R; assim, x x = 0 2 Q e então x<x: Portanto, < é uma


relação re‡exiva.
Se x<y, então x y 2 Q e assim, y x = (x y) 2 Q. Logo, y<x: Como

x<y implica em y<x

< é uma relação simétrica.


Se x<y e y<z; então

x y2Qey z2Q

logo,
x z = (x y) + (y z) 2 Q
isto é, x<z e portanto, < é uma relação transitiva. Como < é re‡exivo, simétrico
e transitivo, < é por de…nição uma relação de equivalência em R: Por de…nição
temos
1 1 1
= y 2 R : y< = y2R:y 2Q
2 2 2
1
agora, tomando y 2 = x 2 Q temos:

1 1
= x+ :x2Q =Q
2 2
e
hp i n p o n p o
2 = y 2 R : y< 2 = y 2 R : y 22Q
p
tomando y 2 = x 2 Q vem:
hp i n p o
2 = x+ 2:x2Q

02. Seja f : X ! Y uma função. Prove que:

x1 ; x2 2 X; x1 <x2 , f (x1 ) = f (x2 )

de…ne uma relação de equivalência no conjunto X. (Neste caso, dizemos


que < é uma relação induzida por f ).
20 CAPÍTULO 1. RELAÇÕES DE EQUIVALÊNCIA

Solução. Seja x1 2 X; assim, f (x1 ) = f (x1 ) e então x1 <x1 : Portanto, < é


uma relação re‡exiva.
Se x1 <x2 , então f (x1 ) = f (x2 ) e assim, f (x2 ) = f (x1 ). Logo, x2 <x1 :
Como
x1 <x2 implica em x2 <x1
< é uma relação simétrica.
Se x1 <x2 e x2 <x3 ; então

f (x1 ) = f (x2 ) e f (x2 ) = f (x3 )

logo,
f (x1 ) = f (x3 )
isto é, x1 <x3 e portanto, < é uma relação transitiva. Como < é re‡exivo,
simétrico e transitivo, < é por de…nição uma relação de equivalência no conjunto
X:

03. Seja A B …xado. Para X; Y 2 } (B), de…nimos

X<Y , A \ X = A \ Y

Mostrar que < é uma relação de equivalência em } (B).

Solução Seja X 2 } (B) ; assim, A \ X = A \ X e então X<X: Portanto, < é


uma relação re‡exiva.
Se X<Y , então A \ X = A \ Y e assim, A \ Y = A \ X. Logo, Y <X: Como

X<Y implica em Y <X

< é uma relação simétrica.


Se X<Y e Y <Z; então

A\X =A\Y e A\Y =A\Z

logo,
A\X =A\Z
isto é, X<Z e portanto, < é uma relação transitiva. Como < é re‡exivo,
simétrico e transitivo, < é por de…nição uma relação de equivalência em } (B) :

04. Sejam A = C e < uma relação de equivalência em C dada por:

z<w , jzj = jwj

Calcule [1 + i] :

Solução. Por de…nição temos

[1 + i] = fx + iy 2 C : (x + iy)<(1 + i)g
= fx + iy 2 C : jx + iyj = j1 + ijg
n p p o
= x + iy 2 C : x2 + y 2 = 2
= x + iy 2 C : x2 + y 2 = 2
1.2. RELAÇÃO DE EQUIVALÊNCIA 21

1.2.2 Problemas propostos


01. Teste a validade das propriedades re‡exiva, simétrica e transitiva para
as relações < em Z dadas abaixo. Descreva a partição associada a cada
relação de equivalência:

a) x<y , x < y;
b) x<y , xy 0;
c) x<y , x y = 2n + 1 com n 2 Z;
d) x<y , x = y 2 ;
2

e) x<y ,j x y j6 1;
f) x<y , y = x + 1;
x
g) x<y , y = 2n para algum n 2 Z.

02. Seja < uma relação em A. Dê um exemplo para mostrar que o seguinte
argumento é falso. Se x<y, então por simetria y<x e por transitividade
x<x, isto é, re‡exividade é uma condição supér‡ua na de…nição de relação
de equivalência em A.
03. Sejam < uma relação em A e D = f(x; x) : x 2 Ag. Mostrar que:

a) < é re‡exiva se, e somente se, D <;


1
b) < é simétrica se, e somente se, < = < ;
c) < é transitiva se, e somente se, < < <.

04. Sejam < e S duas relações em A: Prove que:

a) Se < e S são re‡exivas, então < [ S é re‡exiva;


b) Se < e S são re‡exivas, então < \ S é re‡exiva.

05. Sejam <e S duas relações em A: Prove que:

a) Se < e S são simétricas, então < [ S é simétrica;


b) Se < e S são simétricas, então < \ S é simétrica;
c) Se < e S são simétricas, então < S é simétrica.

06. Sejam A = R e < uma relação de…nida em R por:

x<y , 0 6 x y61

Mostre que < < 1


= (x; z) 2 R2 : jx zj 6 1 :
07. Seja < uma relação em A. Mostrar que < é uma relação de equivalência
em A se, e somente se, < < 1 = <.
08. Sejam < e S duas relações de equivalência em A. Mostrar que S < é
uma relação de equivalência em A se, e somente se, S < = < S.
09. Sejam < e S duas relações de equivalência em A. Mostrar que < [ S
é uma relação de equivalência em A se, e somente se, S < <[S e
< S < [ S.
22 CAPÍTULO 1. RELAÇÕES DE EQUIVALÊNCIA

10. Seja f<i gi2I Tuma família indexada de relações de equivalência em A.


Mostrar que i2I <i é uma relação de equivalência em A.
11. Seja A B …xado. Para X; Y 2 P(B), de…nimos

XRY , A \ X = A \ Y

Mostrar que < é uma relação de equivalência em P(B).


12. Mostrar que as seguintes relações < são relações de equivalência em R2

a) (a; b)<(c; d) , ad = bc com b; d 2 R# = R f0g;


b) (a; b)<(c; d) , a + d = b + c;
c) (a; b)<(c; d) , a c 2 Z e b = d;
d) (a; b)<(c; d) , ab = cd;
e) (a; b)<(c; d) , a2 + b2 = c2 + d2 .

13. Dê exemplos de relações de equivalência < em um conjunto A tais que:

a) A=< = fAg;
b) [x] = fxg; 8x 2 A;
c) A seja um conjunto in…nito e o conjunto A=< contenha exatamente
5 elementos;
d) A seja um conjunto in…nito e A=< também o seja.

14. Seja a 2 N. Mostrar que a família indexada fAn gn2Z , onde An = [na; (n+
1)a[, é uma partição de R.
1.3. FUNÇÕES 23

1.3 Funções
Nesta seção, será discutidos alguns resultados básicos sobre as funções, que
é um caso particular de relação. As funções surgem quando uma quantidade
depende de outra, por exemplo, se P é a população mundial, então P depende
do tempo t: Este exemplo, descreve uma lei tal que dado um valor para t; …ca
determinado um outro número para P: Neste caso, dizemos que P é uma função
de t:

De…nição 1.15 Sejam A e B dois conjuntos. Uma relação f de A em B é dita


uma função se são válidas as seguintes condições:

a) Para todo x 2 A, existe um elemento y 2 B tal que (x; y) 2 f ;

b) Se (x; y) 2 f e (x; z) 2 f , então y = z:

Assim, uma função de A em B pode ser considerada uma lei de correspondên-


cia que associa a cada elemento de A um único elemento de B: Para todo x 2 A;
o único elemento y 2 B tal que xf y será denotado por f (x) (lê-se f de x ou f
aplicado em x):
Indicaremos uma função de A em B pela notação

f: A ! B
x 7 ! f (x)

A notação x 7! f (x) pode ser substituida pela expressão y = f (x) :


Se f é uma função de A em B a condição a) nos mostra que D (f ) = A e
por isso o conjunto A será chamado de domínio de f: Neste caso, o conjunto de
chegada B é dito o contradomínio de f e denotado por B = CD (f ) :

Observação Duas funções

f: A ! B e g: A ! B

são iguais se, e somente se, f (x) = g (x) para todo x em A:


Com efeito, suponhamos que f = g e seja x um elemento qualquer de A:
Pelo item a) da de…nição de função, existem f (x) 2 B e g (x) 2 B tais que
(x; f (x)) 2 f e (x; g (x)) 2 g: Como f = g; segue-se que

(x; f (x)) 2 f e (x; g (x)) 2 f

e portanto, pelo item b) temos que f (x) = g (x) : Reciprocamente, suponhamos


que f (x) = g (x) para todo x em A: Se (x; y) é um elemento qualquer de f;
então y = f (x) e portanto, y = g (x) isto signi…ca que (x; y) 2 g. Logo, f g
e de modo análogo, demonstramos que g f; basta trocar f por g: Portatanto,
f = g:
Por exemplo, sejam os conjuntos A = f0; 2; 4g e B = f1; 2; 3; 4; 5g e as
funções de A em B de…nidas por

x2 1
f (x) = x + 1 e g (x) =
x 1
24 CAPÍTULO 1. RELAÇÕES DE EQUIVALÊNCIA

são iguais, pois f (0) = g (0) ; f (2) = g (2) e f (4) = g (4) : Porém, as funções
f : R ! R e g : R f1g ! R de…nidas por

x2 1
f (x) = x + 1 e g (x) =
x 1
não são iguais, pois D (f ) 6= D (g) :

De…nição 1.16 Sejam X A e f : A ! B uma função. O conjunto

f (X) = ff (x) : x 2 Xg B

é chamado de imagem direta de X pela função f: Quando X = A denotamos


por Im f ao conjunto f (A) o qual chamamos de conjunto imagem da função f:

Exemplo Dada a função f : R ! R de…nida por f (x) = 2xx 1 : Determine Im f:


Temos que
x y
y= ) 2xy y = x ) x =
2x 1 2y 1
e portanto,
y 1
Im f = y 2 R : x = 2R =R
2y 1 2
Exemplo Se A = f2; 3; 5; 7g, B = f1; 4; 9; 25; 49; 50g e f : A ! B de…nida por
f (x) = x2 ; temos

f (f3; 5; 7g) = ff (3) ; f (5) ; f (7)g = f9; 25; 49g

Se f : R ! R é uma função de…nida por f (x) = x2 ; temos

f ([1; 3]) = ff (x) : 1 6 x 6 3g


= x2 : 1 6 x 6 3
= [1; 9]

Proposição 1.10 Dada uma função f : A ! B e indicando com X e Y sub-


conjuntos de A: Então:

a) Se X Y então f (X) f (Y ) ;
b) f (X [ Y ) = f (X) [ f (Y ) ;
c) f (X \ Y ) f (X) \ f (Y ) ;
d) f (A X) f (A) f (X) :

Prova.
a) Suponhamos que X Y:

x 2 f (X) ) x = f (y) tal que y 2 X


) x = f (y) tal que y 2 Y (pois X Y)
) x 2 f (Y )

Logo, f (X) f (Y ) :
1.3. FUNÇÕES 25

b) Sabemos que X X [Y e Y X [ Y: Pelo item a) temos


f (X) f (X [ Y ) (*)
e
f (Y ) f (X [ Y ) (**)
De ( ) e ( ) obtemos f (X) [ f (Y ) f (X [ Y ) : Resta provar que
f (X [ Y ) f (X) [ f (Y )
com efeito,
x 2 f (X [ Y ) ) x = f (y) tal que y 2 X [ Y
) x = f (y) tal que (y 2 X ou y 2 Y )
) x = f (y) tal que y 2 X ou x = f (y) tal que y 2 Y
) x 2 f (X) ou x 2 f (Y )
Logo, f (X [ Y ) f (X) [ f (Y ) :
c) Temos que
x 2 f (X \ Y ) ) x = f (y) tal que y 2 X \ Y
) x = f (y) tal que (y 2 X e y 2 Y )
) x = f (y) tal que y 2 X e x = f (y) tal que y 2 Y
) x 2 f (X) e x 2 f (Y )
Portanto, f (X \ Y ) f (X) \ f (Y ) :
d) Temos
x 2 (f (A) f (X)) , x 2 f (A) e x 2= f (X)
) x = f (a) ; a 2 A e a 2
=X
) x = f (a) ; a 2 (A X)
) x 2 f (A X)
e portanto, f (A X) f (A) f (X) para todo X A:
De…nição 1.17 Dada uma função f : A ! B; consideremos um subconjunto
Y B: A imagem inversa de Y pela função f é o conjunto f 1 (Y ), formados
por todos os x 2 A tais que f (x) 2 Y: Assim,
1
f (Y ) = fx 2 A : f (x) 2 Y g
Exemplo Se f : R ! R é uma função dada por f (x) = x2 ; então
1
f ([1; 4]) = fx 2 R : f (x) 2 [1; 4]g
= fx 2 R : 1 6 f (x) 6 4g
= x 2 R : 1 6 x2 6 4
= [ 2; 1] [ [1; 2]

e
1
f R = x 2 R : f (x) 2 R
= x 2 R : x2 < 0
= ?
Note que pode ocorrer f 1 (Y ) = ? mesmo que Y B seja um subconjunto
não-vazio. Isto se dá precisamente quando Y \ f (A) = ?:
26 CAPÍTULO 1. RELAÇÕES DE EQUIVALÊNCIA

Proposição 1.11 Dada uma função f : A ! B e indicando com Y e Z sub-


conjuntos de B: Então:
1 1
a) Se Y Z então f (Y ) f (Z) ;
1 1 1
b) f (Y [ Z) = f (Y ) [ f (Z) ;
1 1 1
c) f (Y \ Z) = f (Y ) \ f (Z) ;

Prova.
a) Suponhamos que Y Z:
1
x2f (Y ) ) f (x) 2 Y
) f (x) 2 Z (pois Y Z)
) x 2 f 1 (Z)

Logo, f 1 (Y ) f 1
(Z) :
b) Temos
1
x2f (Y [ Z) , f (x) 2 Y [ Z
, f (x) 2 Y ou f (x) 2 Z
, x 2 f 1 (Y ) ou x 2 f 1 (Z)
, x 2 f 1 (Y ) [ f 1 (Z)

c) Fica como exercício.

De…nição 1.18 Uma função f : A ! B chama-se injetora (ou biunívoca)


quando, dados x; y quaisquer em A; f (x) = f (y) implica em x = y: Em outras
palavras quando: x 6= y; em A implica f (x) 6= f (y) ; em B:

Note que uma função não é injetora quando: existem dois elementos distintos
de A que têm imagens iguais.

Exemplo Seja f : N ! N de…nida por f (x) = x2 não é injetora, pois f ( 2) =


f (2) ; embora 2 6= 2: Por outro lado, a função g : N ! N de…nida por g (x) =
2x + 1 é injetora, pois se g (x) = g (y) então

2x + 1 = 2y + 1

ou seja, 2x = 2y; donde x = y:

De…nição 1.19 Uma função f : A ! B chama-se sobrejetora quando satisfaz


a seguinte condição:
Im f = B
ou seja, para todo y 2 B existe pelo menos x 2 A tal que f (x) = y:

Veja que uma f : A ! B não é sobrejetora quando há um elemento de B


que não é imagem elemento algum de A:

Exemplo f : R ! R de…nida por f (x) = x2 não é sobrejetora, pois

12Re 12
= Im f = R+
1.3. FUNÇÕES 27

isto é não existe x 2 R tal que x2 = 1: Por outro lado, a função g : Q ! Q


de…nida por g (x) = 2x + 1 é sobrejetora, pois dado y 2 Q; existe
y 1
x= 2Q
2
tal que
y 1 y 1
g (x) = g =2 +1=y
2 2
Exemplo A função f : N ! N de…nida por

x+1 se x é par
f (x) =
x 1 se x é ímpar

é sobrejetora.
Com efeito, para cada n 2 N: Temos:
i) Se n é par, então n + 1 é ímpar. Assim,

f (n + 1) = n

ii) Se n é ímpar, então n 1 é par. Assim,

f (n 1) = n

Exemplo Seja f : R ! [ ; 1) ; 2 R uma função de…nida por f (x) =


x2 + 6x + 92: Determine para que f seja uma função sobrejetora.
Como f (x) = x2 + 6x + 92 é uma parábola temos que

Im f = y2R:y> = fy 2 R : y > 83g = [83; 1)


4a

logo, = 83:
Uma função f : A ! B chama-se bijetora (correspodência biunívoca) quando
é injetora e sobrejetora ao mesmo tempo. Por exemplo, a função identidade
idA : A ! A; de…nida por idA (x) = x para todo x em A4 é uma função
bijetora.
Vale lembrar que existem funções que não são nem injetora e nem sobrejetora
por exemplo, a função f : R ! R de…nida por f (x) = x2 : Já vimos que
f (x) = x2 não é sobrejetora. Tampouco f é injetora, pois

f ( 2) = f (2)

embora 2 6= 2:
x
Exemplo A função f : ( 1; 1) ! R de…nida por f (x) = 1 jxj é bijetora.
Com efeito, sejam x; y 2 ( 1; 1) tais que
x y
f (x) = f (y) ou seja, =
1 jxj 1 jyj
4 Quando não houver perigo de confusão, escrevemos
id : A ! A
em vez de idA :
28 CAPÍTULO 1. RELAÇÕES DE EQUIVALÊNCIA

Se x; y > 0; então jxj = x e jyj = y: Assim,


x y
= )x=y
1 x 1 y
Se x; y < 0; então jxj = x e jyj = y: Logo,
x y
= )x=y
1+x 1+y
Portanto, f é uma função injetora.
Vamos agora mostrar que dado 2 R; existe x 2 ( 1; 1) tal que
x
=
1 jxj
De fato, se = 0; então x = 0; se > 0; podemos tomar x > 0 e da igualdade
x
=
1 x
tiramos que x = 1+ 2 ( 1; 1) ; pois

< +1)0< <1


+1
Finalmente, se < 0; tomando x < 0 e da igualdade
x
=
1+x
tiramos que x = 1 2 ( 1; 1), pois

> 1) 1< <0


1
Donde f é sobrejetora.
Exemplo A função f : R2 ! R2 de…nida por f (x; y) = (x + y; x) é bijetora.
De fato, f é injetora, pois

f (x1 ; y1 ) = f (x2 ; y2 ) ) (x1 + y1 ; x1 ) = (x2 + y2 ; x2 )

Logo, x1 = x2 e y1 = y2 :
f é sobrejetora, pois para cada (x; y) 2 R2 existe (y; x y) 2 R2 tal que

f (y; x y) = (y + x y; y) = (x; y)

Para achar (y; x y) 2 R2 ; fazemos

f (x; y) = (a; b) ) (x + y; x) = (a; b)

e portanto, x = b e y = a b:

De…nição 1.20 Sejam f : A ! B e g : B ! C funções tais que o domínio


de g é igual ao contradomínio de f: Assim, podemos de…nir a função composta
g f : A ! C que consiste em aplicar primeiro f e depois g ou seja,

(g f ) (x) = g (f (x)) para todo x 2 A


1.3. FUNÇÕES 29

Exemplo Sejam f; g funções reais de…nidas por f (x) = x 1 e g (x) = x2 + 1:


Temos
2
(g f ) (x) = g (f (x)) = g (x 1) = (x 1) + 1 = x2 2x + 2
e
(f g) (x) = f (g (x)) = f x2 + 1 = x2 + 1 1 = x2
Se f : A ! B e g : A ! B; existem g f e f g; porém, em geral g f 6= f g:

Exemplo Sejam f e g duas funções reais de…nidas por


x2 4x + 3 se x>2
f (x) = e g (x) = 2x + 3
2x 3 se x<2
Obtenha as leis que de…nem f g e g f:
Exemplo Sejam f : R ! R e g : R ! R duas funções de…nidas por
x2 se x<0 1 x se x<1
f (x) = e g (x) =
2x se x>0 1+x se x>1
Determine f g e g f .
Por de…nição temos
1 f (x) se f (x) < 1
(g f ) (x) =
1 + f (x) se f (x) > 1
Assim, temos quatro casos para analisar:
i) Se f (x) < 1 e x < 0; então x2 < 1 e x < 0 e portanto, 1 < x < 1 Assim,
(g f ) (x) = g x2 = 1 x2
se 1 < x < 1:

ii) Se f (x) < 1 e x > 0; então 2x < 1 e x > 0 e portanto, 0 6 x < 12 . Logo,
(g f ) (x) = g (2x) = 1 2x
se 0 6 x < 1
2:

iii) Se f (x) > 1 e x < 0; então x2 > 1 e x < 0 e portanto, x 6 1. Assim,


(g f ) (x) = g x2 = 1 + x2
se x 6 1:

iv) Se f (x) > 1 e x > 0; então 2x > 1 e x > 0 e portanto, x > 12 . Logo,
(g f ) (x) = g (2x) = 1 + 2x
se x > 1
2:
Finalmente,
8
>
> 1 + x2 se x6 1
<
1 x2 se 1<x<0
(g f ) (x) =
>
> 1 2x se 0 6 x < 12
:
1 + 2x se x > 12
O caso f g …ca como exercício.
30 CAPÍTULO 1. RELAÇÕES DE EQUIVALÊNCIA

Proposição 1.12 Sejam f : A ! B e g : B ! C duas funções:

a) Se f e g são injetoras, então g f é injetora;


b) Se f e g são sobrejetoras, então g f é sobrejetora.

Prova.
a) Sejam x; y 2 A: Por de…nição temos

(g f ) (x) = (g f ) (y) ) g (f (x)) = g (f (y)) ) f (x) = f (y) ) x = y

e portanto, g f é injetora.
b) Seja z 2 C: Como g é sobrejetora, existe y 2 B tal que z = g (y) : Como
f também é sobrejetora existe x 2 A tal que y = f (x) : Assim,

z = g (y) = g (f (x)) = (g f ) (x)

e portanto g f é sobrejetora.

Proposição 1.13 Se as funções f : A ! B e g : B ! A são tais que

g f = idA

então f é injetora e g é sobrejetora.

Prova. Sejam x e y dois elementos quaisquer de A e suponhamos que f (x) =


f (y) : Assim,

x = idA (x) = g (f (x)) = g (f (y)) = idA (y) = y

logo, f é injetora. Por outro lado, se x 2 A; então y = f (x) 2 B e temos

x = idA (x) = g (f (x)) = g (y)

e portanto, g é uma função sobrejetora.

De…nição 1.21 Dadas as funções f : A ! B e g : B ! A; dizemos que g é


uma inversa à esquerda de f quando

g f = idA : A ! A

ou seja, g (f (x)) = x para todo x em A:

Exemplo Considere as funções f : R+ ! R e g : R ! R+ de…nidas por


f (x) = x2 e p
x se x > 0
g (x) =
0 se x < 0
Para todo x 2 R+ temos
p p
g (f (x)) = f (x) = x2 = x

e portanto, g é uma inversa à esquerda de f:

Proposição 1.14 Uma função f : A ! B possui inversa à esquerda se, e


somente se, é injetora.
1.3. FUNÇÕES 31

Prova.Suponhamos que existe g : B ! A tal que g f = idA : Então dados


x; y 2 A; f (x) = f (y) temos

x = g (f (x)) = g (f (y)) = y

e portanto, f é injetora.
Reciprocamente, suponhamos que f seja injetora. Assim, para cada y 2
f (A) existe um único x 2 A tal que y = f (x) : Logo, tomando x = g (y),
obtemos uma função g : f (A) ! A tal que g (f (x)) = x para todo x em A:
Agora, tomando g (y) = x0 onde x0 é um elemento …xo de A e y 2 (B f (A)) ;
obtemos uma função g : B ! A tal que g f = idA :

De…nição 1.22 Dadas as funções f : A ! B e g : B ! A; dizemos que g é


uma inversa à direita de f quando

f g = idB : B ! B

ou seja, f (g (y)) = y para todo y em B:

Proposição 1.15 Uma função f : A ! B possui inversa à direita se, e so-


mente se, é sobrejetora.

Prova.Suponhamos que existe g : B ! A tal que f g = idB : Então para cada


y 2 B; tomando x = g (y) ; temos

f (x) = f (g (y)) = y

e portanto, f é uma função sobrejetora.


Reciprocamente, suponhamos que f seja sobrejetora. Assim, para cada y 2
B existe um x 2 A tal que f (x) = y: Logo, tomando x = g (y), obtemos uma
função g : B ! A tal que

f (g (y)) = f (x) = y

para todo y em B: Logo, g é uma inversa à direita de f:

De…nição 1.23 Uma função g : B ! A é dita inversa da função f : A ! B


quando g é inversa à esquerda e à direita para f isto é,

g f = idA e f g = idB
1
e escrevemos f : B ! A para indicar a inversa da função f : A ! B:

Assim,
1
f (x) = y , f (y) = x
Pelas Proposições 1.14 e 1.15, uma função f : A ! B possui inversa se, e
somente se, é uma função bijetora.
Exemplo Seja f : R ! R dada por f (x) = 4x+2: Veri…que se f admite inversa
e caso a…rmativo. Determine f 1 :
Dados x; y 2 R; temos

f (x) = f (y) ) 4x + 2 = 4y + 2 ) x = y
32 CAPÍTULO 1. RELAÇÕES DE EQUIVALÊNCIA

y 2
e portanto, f é injetora. Dado y 2 R; existe x = 4 2 R tal que

y 2 y 2
f (x) = f =x +2=y
4 4

Logo, f é uma função sobrejetora.


Temos que

1 1 y 2
f (x) = y , f (y) = x , f (y) =
4

e daí, f 1 (x) = x 4 2 :
Exemplo Seja f : R ! R uma função de…nida por f (x) = 2x + jx + 1j
j2x 4j : Determine f 1 (42) :
Já sabemos que
f 1 (42) = x , f (x) = 42

Assim, basta achar x tal que f (x) = 42:


Para x < 1; temos

47
2x x 1 + 2x 4 = 42 ) x =
3
que não satisfaz, pois x < 1:
Para 1 6 x < 2; obtemos

2x + x + 1 + 2x 4 = 42 ) x = 9

que também não serve, pois 1 6 x < 2:


Finalmente, para x > 2 temos

2x + x + 1 2x + 4 = 42 ) x = 37

Logo, f 1 (42) = 37:


Exemplo Dada a função bijetora f : [1; 1) ! [2; 1) de…nida por

f (x) = x2 2x + 3

determine f 1 :
Temos que f (x) = y = x2 2x + 3 com x > 1 e y > 2: Agora trocando as
variáveis, obtemos
x = y2 2y + 3

com y > 1 e x > 2: Assim,


2 p p
x = y2 2y + 3 , x = (y 1) + 2 , y 1= x 2 ou y 1= x 2
p
Logo, f 1
: [2; 1) ! [1; 1) é dada por f 1
(x) = 1 + x 2; pois y > 1 e
x > 2:
1.3. FUNÇÕES 33

1.3.1 Problemas Resolvidos


01. A cada X 2 } (A) ; isto é, a cada subconjunto X A; associamos a função
X : A ! f0; 1g chamada de função característica do conjunto X : tem-se

1 se x2X
X (x) =
0 se x2
=X

Prove que X\Y = X Y onde X; Y A5 :

Solução Seja x 2 (X \ Y ) deste modo x 2 X e x 2 Y: Logo,

X\Y (x) = 1

e
( X Y ) (x) = X (x) Y (x) = 1 1 = 1
C
e daí, X\Y = X Y : Suponhamos que x 2 = (X \ Y ); assim, x 2 (X \ Y ) e
pela lei de Morgan x 2
= X ou x 2
= Y: Logo X\Y (x) = 0 e

( X Y ) (x) = X (x) Y (x) = 0

pois X (x) = 0 ou Y (x) = 0: Portanto, X\Y = X Y :

02. Seja f : R ! R a função de…nida por


8
< x + 2 se x6 1
f (x) = x2 se 1<x61
:
4 se x>1
1
Veri…que f não é bijetora e calcule f ([3; 5]) :

Solução Temos que f não é injetora, pois f ( 1) = f (1) ; embora 1 6= 1:


Tampouco f é sobrejetora, pois

Im f 6= R (faça um esboço do grá…co de f)

Por de…nição temos


1
f ([3; 5]) = fx 2 R : f (x) 2 [3; 5]g
= fx 2 R : 3 6 f (x) 6 5g
= fx 2 R : x > 1g

03. Sejam f; g; h : R ! R funções tais que a função composta h g f : R ! R


é a função identidade. Mostre que
a) A função h é sobrejetora;
5 Para x 2 A; temos (x) = 0 e (x) = 1:
? A
34 CAPÍTULO 1. RELAÇÕES DE EQUIVALÊNCIA

b) Se 2 R é tal que f ( ) = 0; então f (x) 6= 0 para todo x 2 R com x 6= ;


c) Conclua que h (x) = 0 tem solução em R:

Solução
a) Por de…nição temos que (h g f ) (x) = x para todo x 2 R: Assim, dado
qualquer y 2 R; existe x = (g f ) (y) tal que

h (x) = h ((g f ) (y)) = (h g f ) (y) = y

e portanto, h é uma função sobrejetora.


b) Suponhamos por absurdo que f (x) = 0 onde x 2 R: Assim,

f (x) = f ( ) , (h g) (f (x)) = (h g) (f ( )) , x =

que é uma contradição. Logo, f (x) 6= 0 para todo x 2 R com x 6= :


c) Como h é sobrejetora, já vimos que x = (g f ) (y) é uma solução para a
equação h (x) = 0:

5+7x 5 7x
04. Considere as funções f (x) = 4 ; g (x) = 4 e h (x) = arctg x: Se é
um número real tal que

(h f ) ( ) + (h g) ( ) =
4
Determine f ( ) g( ):

Solução Tomando r = (h f ) ( ) e s = (h g) ( ) temos

5+7 5+7
(h f ) ( ) = arctg(f ( )) = arctg ) r = arctg (*)
4 4
e
5 7 5 7
(h g) ( ) = arctg(g ( )) = arctg ) s = arctg (**)
4 4
5+7 5 7
Das igualdades ( ) e ( ) obtemos tg r = 4 e tg s = 4 : Como r+s = 4,
temos
tg r + tg s 5+7 5 7 5+7 5 7
1= )1 = +
1 tg r tg s 4 4 4 4
e portanto, obtemos = 1: Assim,
1 7
f( ) g( ) = 3+ =
2 2

05. Se f : A ! B é uma função injetiva, prove que

f (X \ Y ) = f (X) \ f (Y )

para quaisquer X; Y contidos em A:


1.3. FUNÇÕES 35

Solução Já provamos que f (X \ Y ) f (X) \ f (Y ) : Basta mostrar que

f (X) \ f (Y ) f (X \ Y )

Dado, x 2 (f (X) \ f (Y )) ;temos x 2 f (X) e x 2 f (Y ) : Logo, existem a 2 X


e b 2 Y tais que
x = f (a) e x = f (b)
Como f é injetiva segue que a = b e portanto, a 2 (X \Y ):Segue-se que x = f (a)
onde a 2 (X \ Y ): Portanto, x 2 f (X \ Y ) :

06. Sejam f : A ! B uma função injetiva e X A: Mostre que


C
f XC (f (X))

onde X C = fx 2 A : x 2
= Xg e f X C = fx 2 B : x 2
= f (X)g
C C
Solução Suponhamos por absurdo que existe 2 X tal que f ( ) 2
= (f (X)) :
C
Então f ( ) 2 (Y (f (X)) ) isto é,

f ( ) 2 f (X)

Assim, f ( ) = b onde b 2 f (X) : Como b 2 f (X) ; existe 2 X tal que


b = f ( ). Como 2 X e 2 X C teriamos 6= e f ( ) = f ( ) que é uma
C
contradição, pois f é injetiva. Portanto, f X C (f (X)) :

07. Se a composta g f das funções f : A ! B e g : B ! A é injetora, mostre


que f é injetora.

Solução Sejam x; y 2 A tais que f (x) = f (y) : Então

g (f (x)) = g (f (y))

sendo g uma função injetora, temos que x = y e portanto, f é uma função


injetora.

08. Considere a função f : Z ! Z de…nida por


x
2 se x é par
f (x) = x+1
2 se x é ímpar

Veri…que se f é uma função bijetora.

Solução Dado n 2 Z; temos que f não é injetora, pois f (2n) = f (2n 1) ;


embora 2n 6= 2n 1: Por outro lado, f é sobrejetora, pois para todo y = n 2 Z,
existe pelo menos x = 2n 2 Z tal que

f (x) = y

e portanto, f não é bijetora.


36 CAPÍTULO 1. RELAÇÕES DE EQUIVALÊNCIA

1.3.2 Problemas Propostos


1
01. Seja f : A ! B uma função bijetora. Mostre f : B ! A é também
1
bijetora, e vale f 1 = f:

02. Dadas as funções f : A ! B; g : B ! C e h : C ! D: Mostre que


(h g) f = h (g f ) :

03. Sejam f : A ! B; g : A ! B e h : B ! C: Supondo h injetora e


h g = h f; provar que g = f:

04. Dada a função f : A ! B; Prove:

1
a) f (f (X)) X para todo X A;
1
b) f é injetora se, e somente se, f (f (X)) = X para todo X A:

05. Mostre que a função f : A ! B é injetiva se, e somente se,

f (A X) = f (A) f (X)

para todo X A:

06. Dada a função bijetora f : ( 1; 1) ! R de…nida por


x
f (x) =
1 jxj
1
determine f :

07. Seja f : f1; 2; : : : ; mg ! f1; 2; : : : ; ng uma função. Prove que:

a) Se f é injetora, então m 6 n;
b) Se f é sobrejetora, então m > n;
c) Se f é bijetora, então m = n:

08. Sendo f : N ! N tal que f (n) = n + 1; mostrar que há in…nitas funções


g : N ! N tal que g f = idN :

1.4 Famílias
Seja L um conjunto, cujos elementos são representados por e denominados
de índices.

De…nição 1.24 Dado um conjunto X, uma família de elementos de X com


índices em L é uma função
x:L!X

onde x ( ) = x ; 2 L:
1.4. FAMÍLIAS 37

A família x é representada pela notação (x ) 2L ou (x ) quando não houver


dúvida sobre o conjunto L:
Exemplo Seja L = f1; 2; 3g um conjunto de índices. Uma família de X com
índice em L é uma função
x : f1; 2; 3g ! X
tal que x (1) = x1 ; x (2) = x2 e x (3) = x3 : Assim, escrevemos a terna

(x1 ; x2 ; x3 )

de elementos de X: Para L = f1; 2; : : : ; ng ; a família x : L ! X é dita uma


n upla de elementos de X e representaremos por

(xi )i2L = (x1 ; x2 ; : : : ; xn )

onde o elemento xi é chamado o i esima coordenada da n upla (x1 ; x2 ; : : : ; xn ) :

De…nição 1.25 Seja (A ) 2L uma família de conjuntos com índices em L: A


união dessa família (represetada por
[
A
2L

é o conjunto dos elementos que pertencem a pelo menos um dos conjuntos A :

Assim, [
A = fx : existe 2 L com x 2 A g
2L

De…nição 1.26 A interseção da família (A ) 2L é o conjunto dos elementos


que pertencem simultaneamente a todos os A :

Assim, \
A = fx : x 2 A para todo 2 Lg
2L

Quando L = f1; 2; : : : ; ng ; escrevemos


[ n
[
Ai = Ai = A1 [ A2 [ [ An
i2L i=1

e
\ n
\
Ai = Ai = A1 \ A2 \ \ An
i2L i=1

Podemos observar que para L = N; a família x : N ! X é uma seqüência.


Assim, dada a seqüência de conjuntos (An )n2N temos

[ 1
[
An = An = A1 [ A2 [ [ An [
n2N n=1

e
\ 1
\
An = An = A1 \ A2 \ \ An \
n2N n=1
38 CAPÍTULO 1. RELAÇÕES DE EQUIVALÊNCIA
[
Exemplo Seja An = fx : n j xg onde n 2 N. Determine A3 \ A5 e Ai onde
i2P
P é o conjunto dos números primos.
Temos que

A3 \ A5 = fx : 3 j x e 5 j xg
= fx : 15 j xg
= A15
[
2 Ai , existe i 6= 1 tal que 2 Ai , 2N f1g
i2P
[
e portanto, Ai = N f1g :
i2P
18
[ [
Exemplo Seja An = [n; n + 1] onde n 2 Z: Ache Ai e Ai :
i=1 i2Z
Temos que
18
[
Ai = [1; 2] [ [2; 3] [ [ [18; 19] = [1; 19]
i=1

[
x2 Ai , existe i 2 Z tal que x 2 Ai , existe i 2 Z tal que i 6 x 6 i + 1
i2Z

como cada número real pertence pelo menos a um dos intervalos [n; n + 1] ;
temos [
Ai = R
i2Z

Proposição 1.16 Sejam (A ) 2L e (B ) 2L duas famílias de subconjuntos de


A e B respectivamente. Tem-se
[ \
a) A A e A A para todo 2 L;
2L 2L
[ [ \ \
b) Se A B para todo 2 L; então A B e A B :
2L 2L 2L 2L
[
Em particular, se A X para todo 2 L; então A X e todo
2L
2 L tem-se \
X A )X A
2L
! !
[ [ \ \
c) X [ A = (X [ A ) e X \ A = (X \ A ) :
2L 2L 2L 2L

Prova
a) É claro que [
x2A )x2 A
2L
1.4. FAMÍLIAS 39

e \
x2 A )x2A
2L

para todo 2 L:
b) Suponhamos que A B para todo 2 L:
[
x2 A ) existe 2 L com x 2 A
2L
) existe[ 2 L com x 2 B
) x2 B
2L

[ [
Logo, A B :
2L 2L
\
x2 A ) x 2 A para todo 2L
2L
) x2B\ para todo 2L
) x2 B
2L
\ \
e portanto, A B :
2L 2L
c) Temos que
!
[ [
x2X[ A , x 2 X ou x 2 A
2L 2L
, x 2 X ou (existe 2 L tal que x 2 A )
, existe[ 2 L tal que x 2 (X [ A )
, x2 (X [ A )
2L

Analogamente, podemos veri…car que


!
\ \
X\ A = (X \ A )
2L 2L

1.4.1 Problemas Resolvidos


01. Dada uma família (A ) 2L de subconjuntos de uma conjunto fundamentel
. Mostre que
!c
[ \
a) A = Ac ;
2L 2L
!c
\ [
b) A = Ac :
2L 2L
40 CAPÍTULO 1. RELAÇÕES DE EQUIVALÊNCIA

Solução
a) Dado x 2 ; temos
!c
[ [
x2 A , x2
= A
2L 2L
, não existe 2 L tal que x 2 A
, x2= A para todo 2 L
c
, x2A \ para todo 2 L
, x2 Ac
2L

Logo, !c
[ \
A = Ac
2L 2L
c
b) Tome B = A . Assim,
c
B c = (Ac ) = A

e portanto,
!c !c " !c #c
\ \ [ [ [
c
A = B = B = B = Ac
2L 2L 2L 2L 2L

02. Dada uma família de conjuntos (A ) 2L , seja X um conjunto com as


seguintes propriedades:
i) Para todo 2 L; tem-se X A ;
ii) Se Y A para todo 2 L; então Y X:

Prove que, nestas condições, tem-se


[
X= A
2L

Solução Pela condição i) e a Proposição 1.16, temos


[
X A
2L
[
Como A A para todo 2 L; temos pela condição ii) que
2L
[
A X
2L
[
e portanto, X = A :
2L
1.4. FAMÍLIAS 41

Soluções dos Problemas Propostos (relações)


01. Teste a validade das propriedades re‡exiva, simétrica e transitiva para
as relações < em Z dadas abaixo. Descreva a partição associada a cada
relação de equivalência:

a) x<y , x < y;
b) x<y , xy > 0;
c) x<y , x y = 2n + 1 com n 2 Z;
d) x<y , x = y 2 ;
2

e) x<y ,j x y j6 1;
f) x<y , y = x + 1;
x
g) x<y , y = 2n para algum n 2 Z.

Solução.
a) Seja x 2 Z; assim, x < x é falso e então x<x:
/ Portanto, < não é uma
relação re‡exiva.
Se x<y, então x < y e assim, não podemos a…rmar que y < x. Logo, y <x
/
e portanto, < não é uma relação simétrica.
Se x<y e y<z; então

x<y ey<z)x<z

isto é, x<z e portanto, < é uma relação transitiva. Como < não é re‡exivo e
nem simétrico, então < não é uma relação de equivalência em Z:

b) Seja x 2 Z; assim, xx > 0 e então x<x: Portanto, < é uma relação


re‡exiva.
Se x<y, então xy > 0 e assim, yx > 0. Logo, y<x: Como

x<y implica em y<x

< é uma relação simétrica.


Se x<y e y<z; então
xy > 0 e yz > 0
logo, não podemos a…rmar que xz > 0; pois tomando x > 0; y = 0 e z < 0 as
desigualdades acima são satisfeitas, porém xz > 0 isto é, x<z
/ e portanto, < não
é uma relação transitiva. Como < é re‡exivo, simétrico e não transitivo, < não
é uma relação de equivalência em Z.

c)

02. Seja < uma relação em A. Dê um exemplo para mostrar que o seguinte
argumento é falso. Se x<y, então por simetria y<x e por transitividade
x<x, isto é, re‡exividade é uma condição supér‡ua na de…nição de relação
de equivalência em A.
42 CAPÍTULO 1. RELAÇÕES DE EQUIVALÊNCIA

Solução.Considere A = R e uma relação < de…nida por

x<y , jx yj > 1

Se x<y, então jx yj > 1 e assim, jy xj > 1. Logo, y<x. Como

x<y implica em y<x

< é uma relação simétrica.


Se x<y e y<x; então por tansitividade temos que x<x, mas isto não pode
ocorrer, pois
0 = jx xj > 1

03. Sejam < uma relação em A e D = f(x; x) : x 2 Ag. Mostrar que:

a) < é re‡exiva se, e somente se, D <;


1
b) < é simétrica se, e somente se, < = < ;
c) < é transitiva se, e somente se, < < <.

Solução.

04. Sejam < e S duas relações em A: Prove que:

a) Se < e S são re‡exivas, então < [ S é re‡exiva;


b) Se < e S são re‡exivas, então < \ S é re‡exiva.

Solução.

05. Sejam <e S duas relações em A: Prove que:

a) Se < e S são simétricas, então < [ S é simétrica;


b) Se < e S são simétricas, então < \ S é simétrica;
c) Se < e S são simétricas, então < S é simétrica.

06. Sejam A = R e < uma relação de…nida em R por:

x<y , 0 6 x y61

Mostre que < < 1


= (x; z) 2 R2 : jx zj 6 1 :

Solução

07. Seja < uma relação em A. Mostrar que < é uma relação de equivalência
em A se, e somente se, < < 1 = <.

Solução.

08. Sejam < e S duas relações de equivalência em A. Mostrar que S < é


uma relação de equivalência em A se, e somente se, S < = < S.
1.4. FAMÍLIAS 43

Solução.

09. Sejam < e S duas relações de equivalência em A. Mostrar que < [ S


é uma relação de equivalência em A se, e somente se, S < <[S e
< S < [ S.

Solução.

10. Seja f<i gi2I Tuma família indexada de relações de equivalência em A.


Mostrar que i2I <i é uma relação de equivalência em A.

Solução.

11. Seja A B …xado. Para X; Y 2 P(B), de…nimos

XRY , A \ X = A \ Y

Mostrar que < é uma relação de equivalência em P(B).


12. Mostrar que as seguintes relações < são relações de equivalência em R2

a) (a; b)<(c; d) , ad = bc com b; d 2 R# = R f0g;


b) (a; b)<(c; d) , a + d = b + c;
c) (a; b)<(c; d) , a c 2 Z e b = d;
d) (a; b)<(c; d) , ab = cd;
e) (a; b)<(c; d) , a2 + b2 = c2 + d2 .

Solução.

13. Dê exemplos de relações de equivalência < em um conjunto A tais que:

a) A=< = fAg;
b) [x] = fxg; 8x 2 A;
c) A seja um conjunto in…nito e o conjunto A=< contenha exatamente
5 elementos;
d) A seja um conjunto in…nito e A=< também o seja.

Solução.

14. Seja a 2 N. Mostrar que a família indexada fAn gn2Z , onde An = [na; (n+
1)a[, é uma partição de R.

Solução.
44 CAPÍTULO 1. RELAÇÕES DE EQUIVALÊNCIA

Solução dos Problemas Propostos (funções)


1
01. Seja f : A ! B uma função bijetora. Mostre f : B ! A é também
1
bijetora, e vale f 1 = f:
Solução. Dados x; y 2 B tais que
1 1
f (x) = f (y) = z 2 A
temos que
1
f (x) = z , f (z) = x
e
1
f (y) = z , f (z) = y
e portanto, x = y: Como f é uma função, então dado y 2 B; existe x 2 A tal
que f (x) = y: Assim,
f (x) = y , x = f 1 (y)
1
Logo, f é sobrejetora. Sendo f : B ! A; temos que
1 1
f :A!B
1 1 1 1
Logo, D (f ) = D f e CD (f ) = CD f : Dado x 2 A temos
1 1 1 1 1
f (x) = y , x = f (y) , y = (f ) (x) , f (x) = (f ) (x)
1 1
Portanto, pela de…nição de igualdade de funções temos que (f ) = f:
02. Dadas as funções f : A ! B; g : B ! C e h : C ! D: Mostre que
(h g) f = h (g f ) :
Solução. Para todo x 2 A; temos:
[(h g) f ] (x) = (h g) (f (x))
= h [g (f (x))]
= h [(g f ) (x)]
= [h (g f )] (x)
e por de…nição de igualdade de funções concluimos que (h g) f = h (g f ) :
03. Sejam f : A ! B; g : A ! B e h : B ! C: Supondo h injetora e
h g = h f; provar que g = f:
Solução. Como D (f ) = D (g) e CD (f ) = CD (g) : Resta provar que f (x) =
0
g (x) para todo x em A: Sendo h injetora pela Proposição, existe h : C ! B
0
tal que h h = idB : Assim, para todo x em A temos
f (x) = (idB f ) (x)
h 0 i
= h h f (x)
h 0 i
= h (h f ) (x)
h 0 i
= h (h g) (x)
h 0 i
= h h g (x)
= (idB g) (x)
= g (x)
1.4. FAMÍLIAS 45

04. Dada a função f : A ! B; Prove:


1
a) f (f (X)) X para todo X A;
1
b) f é injetora se, e somente se, f (f (X)) = X para todo X A:

Solução.
a) Para todo X A temos
1
x 2 X ) f (x) 2 f (X) ) x 2 f (f (X))

e portanto, f 1 (f (X)) X para todo X A:


1
b) Suponhamos que f seja injetora. Já sabemos que f (f (X)) X para
todo X A: Resta provar que
1
f (f (X)) X para todo X A

Com efeito,
1
x2f (f (X)) ) y = f (x) 2 f (X)
Logo, existe x0 2 X tal que y = f (x0 ) : Suponhamos por absurdo que x 2
= X:
Assim, x 6= x0 e f (x) = f (x0 ) que é uma contradição, pois f é injetora.
Portanto, x 2 X:
Reciprocamente, suponhamos que f 1 (f (X)) = X para todo X A:

05. Mostre que a função f : A ! B é injetiva se, e somente se,

f (A X) = f (A) f (X)

para todo X A:

Solução. Suponhamos que f seja injetiva. Já sabemos que

f (A X) f (A) f (X)

para todo X A: Resta mostrar que f (A X) f (A) f (X) para todo


X A: Dado, y 2 f (A X), existem x 2 A e x 2
= X tais que

y = f (x)

06. Dada a função bijetora f : ( 1; 1) ! R de…nida por


x
f (x) =
1 jxj
1
determine f :

Solução. Note que f por ser escrita da seguinte forma:


x
1 x se x>0
f (x) = x
1+x se x<0

Se x > 0; então y > 0; pois


1 x
x>0,1 x61, >1,y= >x>0
1 x 1 x
46 CAPÍTULO 1. RELAÇÕES DE EQUIVALÊNCIA

e portanto, y = 1 x x com x > 0 e y > 0. Assim, aplicando a regra prática


(permutando as variáveis) temos:
y
x= com x > 0 e y > 0
1 y
x
e daí, y = 1+x com x > 0 e y > 0:
Se x < 0 encontramos de modo análogo que y = 1 x x com x < 0 e y < 0:
Logo,
x
se x > 0
f 1 (x) = 1+x
x
1 x se x < 0

07. Seja f : f1; 2; : : : ; mg ! f1; 2; : : : ; ng uma função. Prove que:

a) Se f é injetora, então m 6 n;
b) Se f é sobrejetora, então m > n;
c) Se f é bijetora, então m = n:

Solução.
a) Como f é injetora, temos que

Im f = ff (1) ; f (2) ; : : : ; f (m)g

contém m elementos distintos de f1; 2; : : : ; ng : Por outro lado, como Im f


f1; 2; : : : ; ng temos que m 6 n:
b) Como f é sobrejetora, para cada y 2 f1; 2; : : : ; ng ; existe x 2 f1; 2; : : : ; mg
tal que f (x) = y: Logo, m > n:

08. Sendo f : N ! N tal que f (n) = n + 1; mostrar que há in…nitas funções


g : N ! N tal que g f = idN :

Solução.Como g f = idN é equivalente a g (n + 1) = n; logo há liberdade de


escolha na de…nição de g (0) : Assim,

g (x) = x 1 se x > 1 e g (0) = k 2 N


Capítulo 2

Conjuntos e Números

Neste capítulo apresentaremos o Princípio de Indução Finita (1a e 2a Forma),


algumas de…nições e resultados clássicos que serão necessários para cursos sub-
sequentes. O leitor interessado em mais detalhes deve consultar [?, ?].

2.1 Indução Finita


Tradicionalmente, uma demonstração por indução obedece ao seguinte es-
quema: dada uma proposição P (n) associada a cada inteiro positivo n e que
satisfaz as condições
a) P (1) é verdadeira;
b) Se P (n) é verdadeira, então P (n + 1) é verdadeira.
Nestas condições a proposição P (n) é verdadeira para todo inteiro positivo
n:
Quando introduzimos o conjunto

X = fn 2 N : P (n) é verdadeirag

temos
P (1) é verdadeira , 1 2 X
e

(SeP (n) é verdadeira; então P (n + 1) é verdadeira) , (n 2 X ) n + 1 2 X)

De…nição 2.1 Seja X um conjunto de números naturais. Dizemos que um


número x0 2 X é o menor elemento de X quando se tem x0 x para todo
x 2 X e denotamos por min X:

Dado X N, se x0 2 X e x1 2 X são ambos os menores elementos de X,


então x0 x1 e x1 x0 , donde x0 = x1 . Assim, o menor elemento de um
conjunto é único.
Exemplo O conjunto X = fx 2 N : x > 10g tem elemento mínimo, que é 11
isto é, min X = 11:
1 Autores: Klinger, D.A.S. & Santos, J.S.R.

47
48 CAPÍTULO 2. CONJUNTOS E NÚMEROS

De…nição 2.2 Um número x0 2 X chama-se maior elemento de X quando se


tem x0 x para todo x 2 X:
Exemplo N não tem um maior elemento pois, n + 1 > n para todo n 2 N.
Um dos axiomas que será usado implicitamente muitas vezes, é o seguinte:
Axioma 1 (Princípio da Boa Ordenação ) Todo subconjunto não vazio X
N contém um menor elemento.
Façamos uma aplicação do princípio da boa ordenação. Antes, porém, é
natural perguntar: Será que existe inteiro n, de modo que: 0 < n < 1? A
resposta é falsa, o que será visto no exemploa seguir.

Exemplo Não existe inteiro n, tal que: 0 < n < 1:


Com efeito, suponhamos, por absurdo, que existe n 2 Z; de modo que:
0 < n < 1. Assim,
X= fm 2 Z : 0 < n < 1g = 6 ?
e pelo princípio da boa ordenação, existe x0 2 X : x0 x; 8x 2 X; ou seja,
x0 = min X:
Agora, como x0 2 X, temos: 0 < x0 < 1. Conseqüentemente, vem:

0 < x20 < x0 < 1:


Isso, contradiz o fato de x0 ser mínimo de X:
Exemplo 2.1 Sejam a; b 2 N. Mostrar que existe n 2 N tal que a nb.
Suponhamos, por absurdo, que a > nb, 8n 2 N. Seja
X = fa nb : n 2 Ng
Então X 6= ?. Assim, pelo Axioma 1, X possui um elemento mínimo, digamos
min X = a n0 b. Como a (n0 + 1)b 2 X, pois X contém todos os inteiros
positivo desta forma, temos
a (n0 + 1)b = min X b < min X ) a (n0 + 1)b < min X
que é uma contradição.

Proposição 2.1 Se x; y 2 N com x < y, então x + 1 6 y.


Prova. Como x < y, temos que y x > 0: Portanto, y x > 1, ou seja,
x + 1 6 y.

Exemplo Todo subconjunto limitado superiormente de N possui um maior


elemento.
Seja X um subconjunto limitado superiormente de N. Seja
Y = fa 2 N : x 6 a; 8x 2 Xg N
Então Y 6= ?. Assim, pelo Axioma 1, existe y0 2 Y tal que y0 6 y, 8y 2 Y .
A…rmação: y0 2 X.
Suponhamos, por absurdo, que y0 2 = X. Então x < y0 , 8x 2 X. Assim,
pela Proposição 2.1, x 6 y0 1, 8x 2 X. Logo, y0 1 2 Y , o que contradiz a
minimalidade de y0 .
2.1. INDUÇÃO FINITA 49

Teorema 2.1 (Princípio de Indução Finita) Seja X um subconjunto de N


com as seguintes propriedades:

a) 1 2 X;

b) 8x 2 N, x 2 X ) x + 1 2 X.

Portanto, X = N.
Prova.

Seja
Y = fy 2 N : y 2
= Xg N
Vamos mostrar que Y = ?. Suponhamos, por absurdo, que Y 6= ?. Então,
pelo Axioma 1, existe y0 2 Y tal que y0 6 y; 8y 2 Y . Como 1 2 X temos que
y0 6= 1; isto é 1 < y0 . Logo, 0 < y0 1 < y0 . Pela escolha de y0 temos que
y0 1 2 = Y ou, equivalentemente, y0 1 2 X. Assim, pela condição b)

y0 = (y0 1) + 1 2 X

que é uma contradição. Portanto, X = N.


Exemplo Mostrar que

n(n + 1)
1+2+ +n= ; 8n 2 N
2
Com efeito, seja

n(n + 1)
X= n2N:1+2+ +n= N
2

Temos que:
a) 1 2 X, pois
1(1 + 1)
1=
2
b) Suponhamos, como hipótese de indução, que o resultado seja válido para
algum k > 1, isto é, k 2 X. Devemos mostrar que o resultado vale para
k + 1 2 X. De fato,
k(k+1)
1+2+ + k + (k + 1) = 2 + (k + 1)
k(k+1)+2(k+1)
= 2
(k+1)(k+2)
= 2

n(n+1)
Logo, k + 1 2 X. Portanto, X = N isto é, 1 + 2 + +n= 2 ; 8n 2 N.
50 CAPÍTULO 2. CONJUNTOS E NÚMEROS

Exemplo Seja a seqüência a1 = 1, a2 = 3 e an = an 1 + an 2 , 8n 2 N com


n 3. Mostrar que
n
7
an < ; 8n 2 N
4
Seja
n
7
X = fn 2 N : an < g N
4
Então:
a) 1 2 X, pois a1 = 1 < 74 ;
b) Suponhamos, por hipótese de indução, que k 2 X; isto é,
k
7
ak <
4
Assim,
ak+1 = ak + ak 1
k k 1
7 7
< +
4 4
k 1
7 7
= 1+
4 4
k 1
11 7
=
4 4
Mas,
2 2
11 7 11 7
<3< ) <
4 4 4 4
Assim, podemos escrever:
2 k 1 k+1
7 7 7
ak+1 < =
4 4 4
Logo, k + 1 2 X. Portanto, X = N.
Exemplo Mostrar que 2n3 3n2 + n é divisível por 6 para todo n 2 N:
Seja
X = n 2 N : 2n3 3n2 + n = 6t; t 2 N
temos que
a) 1 2 X, pois
2 13 3 12 + 1 = 0
que é múltiplo de 6:
b) Suponhamos por hipótese de indução que k 2 X isto é,
2k 3 3k 2 + k = 6t; t 2 N
Devemos mostrar que k + 1 2 X: De fato,
3 2
2 (k + 1) 3 (k + 1) + (k + 1) = 2k 3 + 3k 2 + k
= (2k 3 3k 2 + k) + 6k
= 6t + 6k
= 6 (t + k)
2.1. INDUÇÃO FINITA 51

ou seja, k + 1 2 X: Portanto, 2n3 3n2 + n é divisível por 6 para todo n 2 p N:


ExemplopDado a > 0; de…na indutivamente a seqüência (xn ) pondo x1 = a
e xn+1 = a + xn : Prove que (xn ) é crescente e limitada e calcule seu limite
r q
p
L= a+ a+ a+

Seja
X = fn 2 N : xn > xn 1 ; 8n 2 Ng
então,
a) 1 2 X; pois p
x2 = a + x1 > x1
b) Suponhamos por hipótese de indução que k 2 X ou seja,

x1 < x2 < x3 < < xk

Vamos mostrar que vale para k + 1 2 X: Por hipótese, xk > xk 1: Assim,


p p
xk+1 = a + xk > a + xk 1 = xk

Portanto, (xn ) é uma seqüência crescente. p


Mostraremos agora que (xn ) é uma seqüência limitada. Como x1 = a < a;
basta provar agora que xn < a; 8n 2 N: Seja

X = fn 2 N : xn < a; 8n 2 Ng

então, p
a) 1 2 X; pois x1 = a < a:
b) Suponhamos por hipótese de indução que k 2 X ou seja,

xk < a; 8k 2 N

Assim, p p
xk+1 = a + xk < a+a=a
p
Logo, a 6 xn < a; 8n 2 N e (xn ) é uma seqüência limitada. Como toda se-
qüência crescente e limitada é convergente isto é, lim xn existe. Seja lim xn+1 =
n!1 n!1
lim xn = L; temos
n!1

L = lim xn+1
n!1
p
= lim a + xn
n!1
q
= lim (a + xn )
n!1
q
= a + lim xn
n!1
p
= a+L
p
isto é, L = a + L: Finalmente, resolvendo a equação L2 L a = 0 encon-
tramos p
1 + 1 + 4a
L=
2
52 CAPÍTULO 2. CONJUNTOS E NÚMEROS

2.1.1 Exercícios Propostos


1. Mostre que é possível pagar sem receber troco, qualquer quantia inteira
de reais, maior do que 7, com notas de 3 reais e 5 reais.

2. Para cada n 2 N mostrar que:

a) 1 + 3 + + (2n 1) = n2 ;

b) 13 + 33 + + (2n 1)3 = n2 (2n2 1);


n(n+1)(n+2)(n+3)
c) 1 2 3 + 2 3 4 + + n(n + 1)(n + 2) = 4 ;
1 1 1 1
d) 12 + 23 + + n(n+1) =1 n+1 ;

e) 4n + 15n 1 é um múltiplo de 9;

f) n(n2 + 5) é um múltiplo de 6.

3. Mostre que a soma dos ângulos internos de um polígono convexo de n


lados é igual a (n 2)180o :

4. Para cada n 2 N mostrar que:

a) n < 2n ;

b) n 4 ) 2n < n!;
n+1 n
c) n 2 ) n! < 2 .

5. Para cada n 2 N mostrar que:

a) 1 1! + 2 2! + + n n! = (n + 1)! 1;
(n 1)n n(n+1) n(n+1)(n+2)
b) 1 + 3 + 6 + 10 + + 2 + 2 = 6 .

6. Para cada n 2 N mostrar que:


n(n+1)(2n+1)
a) 12 + 22 + + n2 = 6 ;
h i2
n(n+1)
b) 13 + 23 + + n3 = 2 ;

c) Encontre uma fórmula para 1k + 2k + + nk com k 2 N. (Sugestão:


(1 + 1) = 1 + 2 1 1 + 1 ; : : : ; (n + 1) = n + 2 n 1 + 12 , agora somando
2 2 2 2 2

obtemos
(n + 1)2 = 12 + 2(1 + 2 + + n) + n
Assim,
n(n + 1)
1+2+ +n=
2
(1 + 1)3 = 13 + 3 12 1 + 3 1 13 + 13 , continue.)

7. Sejam a; b 2 Z e n 2 N. De…nimos a potência n-ésima de a por an =


an 1 a e a0 = 1. Mostrar que:

a) am an = am+n , 8m; n 2 N;
2.1. INDUÇÃO FINITA 53

b) (am )n = amn , 8m; n 2 N;


c) (ab)n = an bn , 8n 2 N.
8. Se a seqüência a1 ; a2 ; : : : ; an ; : : : forma uma P.A. de razão r. Mostrar que

an = a1 + (n 1)r

9. Seja Sn = a1 + a2 + + an a soma dos n primeiros termos de uma P.A.


de razão r. Mostrar que

(a1 + an )n
Sn =
2

10. Se a seqüência a1 ; a2 ; : : : ; an ; : : : forma uma P.G. de razão q. Mostrar que

xn = x1 q n 1

11. Seja z = r(cos + i sin ) com r > 0. Mostrar que

z n = rn (cos n + i sin n ); 8n 2 N

12. Para cada n 2 N mostrar que


sen nx2 (n + 1)x
sen x + sen 2x + + sen nx = sen ; se x 6= 2k
sen x2 2

13. Para cada n 2 N mostrar que


sen nx
2 (n + 1)x
cos x + cos 2x + + cos nx = x cos ; se x 6= 2k
sen 2 2

n n n+1
14. Supondo que k + k+1 = k+1 ; mostre que
n
X
n n n k k
(x + y) = x y
k
k=0

para todo n 2 N e para todo x; y 2 R.


15. Para cada n 2 N mostrar que
n
1
2 1+ <3
n

16. Para cada n 2 N, com n 5, mostrar que

(n!)2 4n 1
> (2n)!

17. Para cada n 2 Z+ mostrar que:


a) (1 + x)n 1 + nx; 8x 2 R com x > 1;
54 CAPÍTULO 2. CONJUNTOS E NÚMEROS

b) (1 + x)2n 1 + 2nx; 8x 2 R f 1g.


18. Para cada n 2 N mostrar que:
1 1 1 n+2
a) 1 + 2 2 +3 4 + +n 2n 1 =4 2n 1 ;

1 1 1 1
b) 1 2 1 3 1 n+1 = n+1 ;

1 1 1
c) 1 + 1 1+ 2 1+ n = n + 1.
19. Para xi > 1 para i = 1; 2; : : : ; n; mostre que
n
X 1 n
> p
i=1
1 + xi 1 + n x1 :x2 : : : xn

20. Um torneio de xadrez tem n jogadores. Cada jogador joga uma partida,
e uma só, contra todos os outros. Mostre que o número total de partidas
do torneio é igual a (n 21)n :
Capítulo 3

Divisibilidade em Z
1

A teoria dos números se dedica ao estudo das propriedades dos números


inteiros Z. Neste capítulo faremos a apresentação de algumas de…nições e resul-
tados sobre a teoria dos números que serão necessários para cursos subsequentes.
O leitor interessado em mais detalhes deve consultar [?].

3.1 Algoritmo da divisão


Já sabemos, desde a escola primária, que o processo ordinário de dividir um
inteiro positivo m por um inteiro positivo n fornece um quociente q e um resto
r. Formalmente, isto corresponde a:

Teorema 3.1 Sejam m; n 2 Z com n > 0. Então existem únicos q; r 2 Z tais


que
m = qn + r; onde 0 6 r < n

Prova. (A existência de q e r). Dados m; n 2 Z com n > 0 consideremos o


conjunto
S = fm nx : m nx > 0; x 2 Zg
Temos obviamente S N. Além disso, S é não vazio, pois tomando x = jmj ;
segue-se
m nx = m + n jmj > m + jmj > 0
pois n > 1: Pelo Axioma 1, o conjunto S admite um elemento mínimo, digamos
r; isto é, r 6 y 8y 2 S: Como r 2 S; existe x = q 2 Z com

r=m nq

segue que
m = qn + r; onde 0 6 r
Falta provar que r < n: Suponhamos por absurdo, que r > n: Segue-se

06r n = (m qn) n=m n(q + 1) < r


1 Autores: Klinger, D.A.S. & Santos, J.S.R.

55
56 CAPÍTULO 3. DIVISIBILIDADE EM Z

isto é, r n é um elemento de S menor do que que r, que é uma contradição.


Portanto,
m = qn + r; onde 0 6 r < n
(A unicidade de q e r) Suponhamos que existam q1 ; q2 ; r1 ; r2 2 Z tais que

m = q1 n + r1 ; onde 0 6 r1 < n

e
a = q2 b + r2 ; onde 0 6 r2 < n
Então
q1 n + r1 = q2 n + r2 , (q1 q2 )b = r2 r1
Note que
0 6 r2 < n e n< r1 6 0 ) 0 6 jr2 r1 j < n
Assim,
jq1 q2 j n = jr2 r1 j < n ) 0 6 jq1 q2 j < 1
Como jq1 q2 j 2 Z temos que jq1 q2 j = 0. Segue que q1 = q2 e, r1 = r2 .
Os elementos m; n; q e r são chamados, respectivamente, divisor, dividendo,
quociente e resto da divisão de m por n:
Exemplo. Para m = 100 e n = 7 obtemos q = 14 e r = 2 pois,

100 = 14 7 + 2

Fixado um inteiro positivo n; podemos sempre classi…car os números inteiros de


acordo com o resto da divisão por n: Por exemplo para n = 2 o resto da divisão
de 2 por m satisfaz a condição 0 6 r < 2 isto é, r = 0 ou r = 1: Assim, m = 2q
ou m = 2q + 1: No primeiro caso, dizemos que m é par e no segundo caso m é
ímpar e conseqüentemente

Z = f2q : q 2 Zg [ f2q + 1 : q 2 Zg

tal que
f2q : q 2 Zg \ f2q + 1 : q 2 Zg = ?

Corolário 3.1 Sejam m; n 2 Z com n 6= 0. Então existem únicos q; r 2 Z tais


que
m = qn + r; onde 0 6 r < jnj

Prova. Temos que jnj > 0: Pelo Teorema 3.1, existem únicos q1 ; r 2 Z tais que

m = q1 jnj + r; onde 0 6 r < jnj

Se n > 0; então jnj = n e podemos considerar q = q1 junto com r:


Se n < 0; então jnj = n e podemos considerar q = q1 junto com r:
Obtemos
m = q1 jnj + r = q1 ( n) + r = qn + r

Exemplo. Para m = 2466 e n = 11 temos q = 224 e r = 2 pois,

2466 = ( 224)( 11) + 2


3.1. ALGORITMO DA DIVISÃO 57

De…nição 3.1 Sejam a; b 2 Z com b 6= 0, dizemos que n divide m ou n é um


divisor de m ou que m é um múltiplo de n, em símbolos n j m, se existir q 2 Z
tal que
m = nq
Caso contrário, dizemos que n não divide m, e denotaremos por n - m.

Por exemplo, 2 j 4; 3 j 15; 5 - 12 e b j 0 para todo b 2 Z , pois 0 = 0 b.


Observação: O inteiro q é único, pois se q 0 2 Z é tal que m = nq 0 , então

nq 0 = nq ) 0 = nq nq 0 = n(q q0 ) ) q q0 = 0 ) q = q0

De…nição 3.2 Seja m 2 N. Dizemos que m é um quadrado perfeito se existe


n 2 N tal que
m = n2

Por exemplo os números naturais quadrados perfeitos são: 0; 1; 4; 9; 16; : : : ; n2 ; : : :


Observação: Se m é um quadrado perfeito, então valem:
a) Se m for par, então m é divisível por 4;

b) Se m for ímpar, então m = 8k +1 com k 2 N isto é, deixa resto 1 quando


dividido por 8:
Prova.
a) Por hipótese m = n2 com n 2 N: Se n = 2q é par então m = 4q 2 e
portanto, m é divisível por 4:
b) Se n = 2q + 1 é ímpar, então
2
m = (2q + 1) = 4q 2 + 4q + 1 = 4q (q + 1) + 1

Como q (q + 1) é sempre par ou seja, q (q + 1) = 2k: Logo, m = 8k + 1:


Podemos observar que a recíproca deste resultado não vale, pois m = 12

Proposição 3.1 Para todos os números m; n; s 2 Z . Então as seguintes


condições são satisfeitas:

a) n j n;
b) n j 1 , n = 1;
c) n j m e m > 0 ) n 6 m;
d) n j m e m j s ) n j s;
e) n j m e m j n ) m = n;
f) n j m , ns j ms;
g) s j m e s j n ) s j (mx + ny); 8x; y 2 Z.
Prova.
a) Temos que a j a pois, existe 1 2 Z ta que a = ( a) 1:

b) Suponhamos que n j 1: Então existe q 2 Z tal que

nq = 1 , jnqj = jnj jqj = 1

Como n; q 2 Z temos, que jnj > 1 e jqj > 1. Assim, se jnj > 1, então

jnqj = jnj jqj > jqj > 1 ) jnqj > 1


58 CAPÍTULO 3. DIVISIBILIDADE EM Z

que é impossível. Logo, jnj = 1 e portanto, n = 1.

c) Se n j m, então existe q 2 Z tal que m = nq: Suponhamos por absurdo


que n > m. Assim,

0 < m < n e 0 < q ) 0 < mq < nq = m ) 0 < q < 1

que é uma contradição, não existe 0 < q < 1 onde q 2 Z: Logo, n 6 m:


0 0
d) Se n j m e m j s, então existem q; q 2 Z tais que m = nq e s = mq .
Assim, 0 0 0
s = mq = (nq)q = n(qq )
0
Como qq 2 Z, segue que n j s:
0 0
e) Se n j m e m j n; então existem q; q 2 Z tais que m = nq e n = mq .
Logo, 0 0 0
n = mq = (nq) q ) qq = 1:
0
e pelo item b) segue queq = q = 1. Portanto, m = n.
0 0
g) Como s j m e s j n existem q; q 2 Z tais que m = sq e n = sq : Logo,
0 0
mx + ny = s (qx) + s q y = s qx + q y

de onde s j (mx + ny) para todo x; y 2 Z.

Para exempli…ca o item g), note que 5 j 15 e 5 j 20, e consequentemente

5 j (15 2 + 20 ( 1))

isto é, 5 j 10:

Observação: O item b) diz que os únicos elementos invertíveis de Z são 1 e


1; e) diz que os elementos m e n são associados em Z, enquanto a) e d) diz
que a relação de divisibilidade em Z é re‡exiva e transitiva, entretanto, não é
uma relação de equivalência2 .

De…nição 3.3 O divisor comum de dois inteiros m e n é um inteiro x 6= 0 tal


que
x j m onde x j n

Em outras palavras o divisor comum de dois inteiros m e n é todo inteiro


x 6= 0 que pertence simultaneamente aos conjuntos D (m) e D (n) onde

D (m) = fx 2 Z : x j mg

e
D (n) = fx 2 Z : x j ng
Vamos denotar o conjunto de todos os divisors comuns de m e n por

D (m; n) = fx 2 Z : x j m onde x j ng
2 Recorde que uma relação binária é dita relação de equivalência quando é re‡exiva,

simétrica e transitiva.
3.1. ALGORITMO DA DIVISÃO 59

ou seja,

D (m; n) = fx 2 Z : x 2 D (m) onde x 2 D (n)g = D (m) \ D (n)

Observação: D (m; n) 6= ?; pois 1 e 1 são divisores comuns de dois inteiros


quaisquer m e n: Além disso, como D (0) = Z ; temos

D (m; 0) = D (m) \ D (0) = D (m) \ Z = D (m)

Lema 3.1 Se m; n 2 Z, onde n 6= 0 então

a) m j n ) jmj 6 jnj ;
b) m j n e n j m , jmj = jnj :
Prova. a) Por hipótse temos que n = qm onde q 2 Z ( pois n 6= 0): Assim,
jqj > 1 e portanto,

jmj = jmj 1 6 jmj jqj = jmqj = jnj ) jmj 6 jnj

b) Fica como exercício.

Exemplo. O conjunto de todos os divisores comuns de 10 e 15 é pois

D (10) = f 1; 2; 5; 10g

e
D (15) = f 1; 3; 5; 15g
e portanto,
D (10; 15) = f 1; 5g

3.1.1 Problemas Resolvidos


01. Mostrar que, se a é um número inteiro qualquer, então um dos inteiros:
a; a + 2; a + 4 é divisível por 3.

Solução. Pelo Teorema 3.1„temos que

a = 3q + r onde 0 6 r < 3

isto é, os restos da divisão de a por 3 pode ser: 0; 1 ou 2.

Se a = 3q, está comprovada a hipótese.


Se a = 3q + 1, então

a + 2 = (3q + 1) + 2 = 3q + 3 = 3(q + 1)

e portanto, a + 2 é divisível por 3:


Se a = 3q + 2, então

a + 4 = (3q + 2) + 4 = 3(q + 2)

logo, a + 4 é divisível por 3. Portanto, uma das três formas será divisível por
3:
60 CAPÍTULO 3. DIVISIBILIDADE EM Z

02. Mostrar que um inteiro qualquer da forma 6k + 5 também é da forma


3k + 2.
Solução. Se n = 6k + 5; então
6k + 5 = 6k + 3 + 2 = 3(k + 3) + 2 = 3t + 2
onde t = k + 2 2 Z: Assim, n é da forma 3k + 2:

03. Mostrar que todo inteiro ímpar é da forma 4k + 1 ou 4k + 3:


Solução. Seja n um número inteiro qualquer. Pelo Teorema 3.1„temos que
n = 4k + r onde 0 6 r < 4
Se n = 4k, então
n = 2(2k)
e portanto, n é um número par. Se n = 4k + 1, então
n = 2(2k) + 1
Segue-se que n é ímpar. De modo analogo podemos mostrar que n = 4k + 2
é par e n = 4k + 3 é ímpar.Portanto, n é ímpar se apresenta uma das formas:
4k + 1 ou 4k + 3:

04. Sendo a e b dois inteiros quaisquer, mostrar que os inteiros a e a + 2b têm


sempre a mesma paridade.
Solução. Se a é par, então a = 2q; q 2 Z: Temos
a + 2b = 2q + 2b = 2(q + b) = 2t
onde t = (q + b) 2 Z. Assim, a e a + 2b são ambos pares, isto é têm a mesma
paridade.
Se a é impar, então a = 2q + 1; q 2 Z: Temos
a + 2b = (2q + 1) + 2b = 2(q + b) + 1 = 2k + 1
onde k = (q + b) 2 Z. Portanto, a e a + 2b são ambos ímpares.

05. Mostrar que a diferença entre os cubos de dois inteiros consecutivos nunca
é divisível por 2:
Solução. Sejam n e n + 1 os dois inteiros consecutivos. Assim,
(n + 1)3 n3 = n3 + 3n2 + 3n + 1 n3 = 3n2 + 3n + 1 = 3n(n + 1) + 1
Já vimos que n(n + 1) é sempre par isto é, n(n + 1) = 2q: Logo,
(n + 1)3 n3 = 3 2q + 1 = 2k + 1
onde k = 3q 2 Z: Portanto, a diferença entre os cubos de dois consecutivos é
sempre ímpar.
3.1. ALGORITMO DA DIVISÃO 61

06. Na divisão de dois inteiros positivos o quociente é 16 e o resto é o maior


possível. Achar os dois inteiros, sabendo-se que sua soma é 341:

Solução. Sejam a e b dois inteiros positivos tais que

a + b = 341 (*)

Pelo Teorema 3.1„temos que

a = 16b + r onde 0 6 r 6 b 1

Como o resto é o maior possível, temos que r = b 1: Assim,

a = 17b 1 (**)

Segue-se das equações (*) e (**) que a = 322 e b = 19:

07. Mostrar que nenhum termo da seqüência 11; 111; 1111; : : : ; 111 1111; : : :
é um quadrado perfeito.

Solução. Temos 11 = 4 2 + 3 e m = 111 1111 = 111 108 + 3 = 4k + 3


para m > 111: Isto que dizer que nenhum dos números na seqüência é da forma
8k + 1; condição necessária para ser um quadrado perfeito.

08. Mostrar que (1 + 2 + ::: + n) j 3(12 + 22 + ::: + n2 ) para todo n > 1.

Solução. Já sabemos que


n (n + 1) (2n + 1) n (n + 1) (2n + 1)
12 +22 +:::+n2 = ) 3 12 + 22 + ::: + n2 =
6 2
Por outro lado,
n (n + 1)
1 + 2 + ::: + n =
2
Logo,
3 12 + 22 + ::: + n2 = (1 + 2 + ::: + n) (2n + 1)
e portanto,
(1 + 2 + ::: + n) j 3(12 + 22 + ::: + n2 )

09. Seja a 2 Z tal que 2 - a e 3 - a: Prove que 24 j a2 1 :

Solução. Aplicando o Teorema 3.1, para a como dividendo e 6 como divisor,


temos
a = 6q + r
onde r 2 f0; 1; 2; 3; 4; 5g : Como 2 - a e 3 - a, então r = 1 ou r = 5:
Para r = 1; temos:
2
a2 1 = (6q + r) 1
= 36q 2 + 12q
= 12q (3q + 1)
62 CAPÍTULO 3. DIVISIBILIDADE EM Z

Se q = 2k; k 2 Z, temos
a2 1 = 24k (6k + 1)
logo,
24 j a2 1
Se q = 2k + 1; k 2 Z, temos

a2 1 = 24 (2k + 1) (3k + 2)

logo,
24 j a2 1
Analogamente, para r = 5, temos 24 j a2 1 :

10. Determine todos os n 2 N tais que 2n 1 seja divisível por 7.

Solução. Se n = 3k; k 2 N; temos


k
2n 1 = 23 1
h k 1 k 2
i
= (8 1) 23 + 23 + + 23 + 1
0
= 7k

Logo, 2n 1 é divisível por 7 se n = 3k; k 2 N:

11. Para todo n 2 N, mostre que:

a) 56n 36n é divisível por 152;


b) an bn é divisível por a b;
n n
c) a + b é divisível por a + b se n é ímpar;
d) (n + 1)n 1 é divisível por n2

Solução.

3.1.2 Problemas Propostos


1. Mostrar que se a j b, então ( a) j b; a j ( b) e ( a) j ( b) :
2. Sejam a; b e c inteiros. Mostrar que:

a) se a j b, então a j bc.
b) se a j b e se a j c; então a2 j bc:
c) a j b se, e somente se, ac j bc (c 6= 0) :

3. Verdadeiro ou falso:

se a j (b + c) então a j b ou a j c

4. Para todo n 2 N, mostrar que:


3.1. ALGORITMO DA DIVISÃO 63

a) 56n 36n é divisível por 152;


b) an bn é divisível por a b;
n n
c) a + b é divisível por a + b se n é ímpar;
d) (n + 1)n 1 é divisível por n2 ;
e) 5n + 2:3n 1
+ 1 é divisível por 8;
n n+2
f) 10 + 3:4 + 5 é divisível por 9;
p n p n
g) (3 + 5) + (3 5) é divisível por 2n .

5. Mostrar que, se a é um número inteiro qualquer, então um dos inteiros:


a; a + 2; a + 4 é divisível por 3.

6. Sejam a; b 2 Z. Mostrar que, se 3 divide a2 + ab + b2 , então a e b têm o


mesmo resto quando divididos por 3.

7. Sendo a um inteiro qualquer, mostrar:

a) 2 j a (a + 1)
b) 3 j a (a + 1) (a + 2)

8. Mostrar que um inteiro qualquer da forma 6k + 5 também é da forma


3k + 2.

9. Mostrar que todo inteiro ímpar é da forma 4k + 1 ou 4k + 3:

10. Mostrar que o quadrado de um inteiro qualquer é da forma: 3k ou 3k + 1:

11. Mostrar que o cubo de um inteiro qualquer é de uma das formas: 9k;
9k + 1 ou 9k + 8.

12. Mostrar que a soma dos cubos de três inteiros consecutivos e positivos é
divisível por 9.

13. Se n 2 N, com n > 1 e ímpar, então 1n + 2n + + (n 1)n é divisível


por n.

14. Mostrar que 197 + 297 + 397 + 497 + 597 é divisível por 5.

15. Mostrar que não existe n 2 N tal que 4n + 1 seja divisível por 3:

16. Determinar todos os n 2 N tais que 2n + 1 seja divisível por 3.

17. Mostrar que n(n + 1)(2n + 1) j 6 é um inteiro, qualquer que seja o inteiro
positivo n.

18. Mostrar que se a j (2x 3y) e se a j (4x 5y), então a j y.

19. Determinar todos os a 2 N tais que a2 + 1 seja divisível por a + 1.

20. Sendo a e b dois inteiros quaisquer, mostrar que os inteiros a e a + 2b têm


sempre a mesma paridade.

21. Sendo m e n dois inteiros quaisquer, mostrar que os inteiros m + n e m n


têm sempre a mesma paridade.
64 CAPÍTULO 3. DIVISIBILIDADE EM Z

22. Determinar os inteiros positivos que divididos por 17 deixam um resto


igual ao quadrado do quociente.
23. Achar inteiros a; b e c tais que a j bc; mas a 6j b e a 6j c.
24. Verdadeiro ou falso: se a j c e se b j c, então a j b.
25. Mostrar que a diferença entre os cubos de dois inteiros consecutivos nunca
é divisível por 2:
26. Na divisão do inteiro a = 427 por um inteiro positivo b, o quociente é 12
e o resto é r. Achar o divisor b e o resto r:
27. Na divisão do inteiro 525 por um inteiro positivo o resto é 27. Achar os
inteiros que podem ser o divisor e o quociente.
28. Na divisão de dois inteiros positivos o quociente é 16 e o resto é o maior
possível. Achar os dois inteiros, sabendo-se que sua soma é 341:
29. Achar os inteiros positivos menores que 150 e que divididos por 39 deixam
um resto igual ao quociente.
30. Seja d um divisor de n(d j n). Mostrar que cd j n se, e somente, se c j (n
= d).
31. Sejam n; r e s inteiros tais que 0 6 r < n e 0 6 s < n: Mostrar que se
n j (r s); então r = s:
32. Mostrar que o produto de dois inteiros ímpares é um inteiro ímpar.
33. Demonstrar que 30 j (n5 n):
34. Seja n 2 N com n > 1. Mostrar que k divide (n+1)!+k, onde 2 6 k 6 n+1.
35. Mostrar que, para todo inteiro n, existem inteiros k e r tais que n = 3k + r
e r = 1; 0; 1:
36. Mostrar que (1 + 2 + ::: + n) j 3(12 + 22 + ::: + n2 ) para todo n > 1.
37. Mostre que todo inteiro ímpar, quadrado perfeito, é da forma 4n + 1:
38. Na divisão de 392 por 45, determinar:

a) o maior inteiro que se pode somar ao dividendo sem alterar o quo-


ciente.
b) o maior inteiro que se pode subtrair ao dividendo sem alterar o quo-
ciente.

39. Numa divisão de dois inteiros, o quociente é 16 e o resto 167. Determinar


o maior inteiro que se pode somar ao dividendo e ao divisor sem alterar o
quociente.
40. Achar o maior inteiro de quatro algarismos divisível por 13 e o menor
inteiro de cinco algarismos divisível por 15.
41. Achar um inteiro de quatro algarismos, quadrado perfeito, divisível por
27 e terminado em 6:
3.2. REPRESENTAÇÃO DOS INTEIROS 65

42. Determinar todos os inteiros positivos que começam com dígito 6 e diminui
25 vezes quando este é descartado. (Sugestão: Seja a 2 N. Então a =
6 10n + b e a = 25b, onde 0 6 b 6 10n 1.)

43. Mostrar que não existe um número inteiro positivo que diminua 35 vezes
quando seu primeiro dígito é descartado.

44. Determinar o menor inteiro positivo que começa com dígito 1 e aumenta
3 vezes quando este dígito é passado para o …nal. (Sugestão: Seja a 2 N.
Então a = 10n + b e 3a = 10b + 1, onde 0 b 10n 1.)

3.2 Representação dos Inteiros


Em nosso sistema de numeração todo os números inteiros são representados
pela notação decimal, onde os algarismos representam múltiplos de potências
na base 10. Por exemplo, ao escrever o número inteiro n = 725 estamos repre-
sentando a quantidade

n = 7 102 + 2 10 + 5 100

O próximo Teorema mostrarar que qualquer inteiro positivo maior do que 1


pode ser usado como base na representação dos inteiros.

Teorema 3.2 Seja b > 1 um inteiro positivo …xado. Então qualquer inteiro
positivo n pode ser representado de maneira única, na forma

n = rk b k + r k 1b
k 1
+ + r2 b2 + r 1 b + r 0

onde rj 2 f0; 1; : : : ; b 1g, 8j = 0; 1; : : : ; n.

Prova. (Existência da expansão). Aplicando sucessivamente o Teorema 3.1,


temos
n = q0 b + r0 ; onde 0 6 r0 < b
Se q0 > 0; então dividindo q0 por b; obtemos

q0 = q1 b + r1 ; onde 0 6 r1 < b

Se q1 > 0 continuamos o processo

q1 = q 2 b + r2 ; 0 6 r2 < b
q2 = q 3 b + r3 ; 0 6 r3 < b
..
.
qk 1 = q k b + rk ; 0 6 rk < b

até encontrar qk = 0: Note que este processo termina, pois

n > q0 > q1 > q2 >

é uma seqüência estritamente decrescente de inteiros não negativos, terminando


em algum qk = 0: Portanto, substituindo sucessivamente q0 ; q1 ; q2 ; : : : ; qn 1 na
66 CAPÍTULO 3. DIVISIBILIDADE EM Z

equação n = q0 b + r0 obtemos

n = q 0 b + r0
= (q1 b + r1 ) b + r0
= q 1 b 2 + r1 b + r 0
..
.
= (bqk 1 + rk 1 ) bk 1 + + r2 b2 + r 1 b + r 0 (fazer as contas depois)
k k 1
= rk b + rk 1 b + + r2 b2 + r 1 b + r 0

(Unicidade) Suponhamos que existam m; n; ri ; sj 2 Z tais que

a = r m bm + r m 1b
m 1
+ + r 1 b 1 + r0 b0 ;

onde 0 6 ri < b, rm > 1 e

a = sn bn + sn 1b
n 1
+ + s1 b1 + s0 b0

onde 0 6 sj < b, sn > 1.


A…rmação: bm 6 a < bm+1
De fato,
r m > 1 ) bm 6 r m bm 6 a
Por outro lado, ri 6 b 1. Logo,

a = r m bm + rm 1 b m 1 + + r1 b1 + r0 b0
6 (b 1)bm + (b 1)bm 1
+ + (b 1)b1 + (b 1)b0
= bm+1 1
< bm+1

Portanto, m = n, pois se m < n, então m + 1 6 n e, assim,

bm+1 6 bn 6 a

que é impossível. Logo,

rn b n + r n 1b
n 1
+ + r1 b1 + r0 b0 = sn bn + sn 1b
n 1
+ + s1 b1 + s0 b0

Daí,
r0 s0 = bc
para algum c 2 Z. Como 0 6 r0 ; s0 < b temos que 0 6 jr0 s0 j < b; assim,

b jcj < b ) 0 6 jcj < 1 ) jcj = 0 ) c = 0:

Logo, r0 = s0 . Agora suponhamos, como hipótese de indução, que ri = si , para


todo i com 1 i k e k < n. Então

rn b n + + rk+2 bk+2 + rk+1 bk+1 = sn bn + + sk+2 bk+2 + sk+1 bk+1 :

Dividindo ambos os membros por bk+1 , obtemos que

r n bn k 1
+ + rk+2 b + rk+1 = sn bn k 1
+ + sk+2 b + sk+1

e, pelo mesmo argumento acima, rk+1 = sk+1 . Portanto, ri = si para todo


i = 1; 2; : : : ; n.
3.2. REPRESENTAÇÃO DOS INTEIROS 67

Observação: Na expansão descrito no Teorema 3.2, b é chamado de base. Para


diferenciar a representação de inteiros em diferentes bases, usamos a notação

r n bn + r n 1b
n 1
+ + r1 b1 + r0 = (rn rn 1 r1 r0 )b

Quando b = 10 omitem-se os parênteses e o índice. Por exemplo,

(123)4 = 1 42 + 2 4 + 3

Além disso, a adição, a subtração e a multiplicação são efetuadas pelo mesmo


processo usual.
Exemplo. Escreva 142 e 153 na base 4 e forme sua soma.
Pelo Teorema 3.1 temos

142 = 35 4 + 2
35 = 8 4+3
8 = 2 4+0
2 = 0 4+2

Para obter a expansão desejada basta fazer a leitura dos restos do último para
o primeiro isto é,

142 = 2 43 + 0 42 + 3 4 + 2 = (2032)4

De modo análogo, temos que

153 = 2 43 + 1 42 + 2 4 + 1 = (2121)4

Soma
(2 0 3 2)4
+ (2 1 2 1)4
(1 0 2 1 3)4
2 + 1 = 3, 3 + 2 = 11, escrevemos 1 e transportamos 1, 1 + 0 + 1 = 2, etc.

3.2.1 Problemas Resolvidos


3.2.2 Problemas Propostos
1. Sejam a = xyz e b = zyx dois inteiros positivos no sistema de represen-
tação decimal. Mostrar que a b é divisível por 99.

2. Sejam n = xyzuv e m = xyuv dois inteiros positivos no sistema de repre-


sentação decimal. Determinar todos os n tais que
n
2N
m
(Sugestão: Mostre que 9m < n < 11m.)
68 CAPÍTULO 3. DIVISIBILIDADE EM Z

3.3 Máximo divisor comum


De acordo com o Lema 3.1, se n 6= 0; então
D (n) = fx 2 N : x j ng = fx 2 N : jxj 6 jnjg (conjunto dos divisores de n)
é limitado superiormente por jnj : Portanto, se a e b são dois inteiros, com a 6= 0
ou b 6= 0; então D (a; b) 6= ? e
D (a; b) = fx 2 N : x j a onde x j bg = fx 2 N : jxj 6 jaj onde jxj 6 jbjg
é limitado superiormente por jaj e jbj e consequentemente tem um máximo.
De…nição 3.4 Sejam a; b 2 Z com a 6= 0 ou b 6= 0. O máximo divisor comum
entre a e b é um inteiro positivo
d = mdc(a; b)
de…nido pelas duas propriedades:
a) d j a e d j b (d é divisor comum de a e b);
0 0 0
b) Se d j a e d j b, então d j d.

Podemos observar que a condição b) garante a unicidade do máximo divisor


comum entre a e b: De acordo com a notação estabelecida acima, se a 6= 0 ou
b 6= 0; podemos denotar o máximo divisor comum entre a e b por
mdc(a; b) = max fx 2 Z : x j a onde x j bg
Exemplo. Se a = 12 e b = 16; os divisores de a e b formamos os conjuntos
D (12) = fx 2 Z : x j 12g = f 1; 2; 3; 4; 6; 12g
e
D (16) = fx 2 Z : x j 16g = f 1; 2; 4; 8; 16g
Consequentemente, os divisores comuns de 12 e 16 formam o conjunto
fx 2 Z : x j 12 onde x j 16g = f 1; 2; 4g
e o respectivo máximo divisor comum entre 12 e 16 é
mdc (12; 16) = max f 1; 2; 4g = 4
Como conseqüência da de…nição temos as seguintes condições:
a) mdc(a; b) = mdc(b; a);
b) O mdc(a; 1) = 1;
c) Se a 6= 0; então mdc(a; 0) = jaj ;
d) Se a j b, então o mdc(a; b) = jaj :
Vamos veri…car apenas o item c) os demais casos são triviais. Seja o d = jaj :
Como a = d = d ( 1) ; temos que d j a: É claro que d j 0: Assim,
d j a e d j 0 ) d j mdc(a; 0)
Agora, se 0 0 0 0
d j a e d j 0 ) d j jaj ) d j d
Logo, por de…nição do maximo divisor comum, mdc(a; 0) = jaj :
O próximo Teorema será de grande importância, pois nos dá uma segunda
caracterização do máximo divisor comum de dois inteiros.
3.3. MÁXIMO DIVISOR COMUM 69

Teorema 3.3 Sejam a; b 2 Z não ambos zero e d = mdc(a; b). Então existe
existem x; y 2 Z tais que
d = ax + by
Prova. Consideremos o conjunto
S = far+bs : r; s 2 Z; ar+bs > 0g (conjunto das combinações lineares de a e b)
temos que S 6= ?, pois escolhendo r = a e s = b; obtemos
ar + bs = aa + bb = a2 + b2 > 0
o que mostrar que S 6= ?:Pelo Axioma da Boa Ordem,o conjunto S possui um
elemento mínimo, digamos d Como d 2 S temos que d > 0 e existem x; y 2 Z
tais que d = ax + by.
A…rmação: d = mdc(a; b).
De fato, pelo Teorema 3.1, existem q; r 2 Z tais que
a = qd + r; onde 0 6 r < d
Então
r=a qd = a q(ax + by) = a(1 qx) + b( qy)
Se fosse r > 0 poderíamos concluir que r 2 S; o que claramente é um absurdo
pois, r < d e d é o elemento mínimo de S: Logo, r = 0 e a = qd o signi…ca d j a.
De modo análogo, mostra-se que d j b. Portanto, d é um divisor comum de a e
b:
0 0 0
Finalmente, seja d 2 Z tal que d j a e d j b. Pela Proposição 3.1, concluimos
que 0 0
d j (ax + by) ) d j d
Portanto, d = mdc(a; b).

Observação: Se d = mdc(a; b) com d > 1, então existem r; s 2 Z tais que


a = dr; b = ds e mdc(r; s) = 1
Como o d = mdc(a; b); pelo Teorema 3.3, existem x; y 2 Z tais que
ax + by = d ) drx + dsy = d ) rx + sy = 1
e pela Proposição 3.2, temos que mdc(r; s) = 1:
Exemplo. Se d = mdc(255; 221), ache dois inteiros x e y de maneira que
255x + 221y = d:
Pelo Teorema 3.1 temos
255 = 1 221 + 34
221 = 6 34 + 17
34 = 2 17 + 0
Note que d = mdc(255; 221) = 17. Assim,
d = 221 6 34
= 221 6 (255 1 221)
= 255( 6) + 221(7)
Logo, x = 6 e y = 7:
70 CAPÍTULO 3. DIVISIBILIDADE EM Z

De…nição 3.5 Dois números a; b 2 Z não ambos nulos são relativamente pri-
mos ou ( primos entre si) se o mdc(a; b) = 1.

Por exemplo, 3 e 7 são primos entre si, pois o mdc(3; 7) = 1:

Proposição 3.2 Dois números a; b 2 Z não ambos nulos são primos entre si
se, e somente se, existem x; y 2 Z tais que ax + by = 1.

Prova. Se mdc(a; b) = 1; então pelo Teorema 3.3, existem x; y 2 Z tais que

ax + by = 1

Reciprocamente, se existem x; y 2 Z tais que ax+by = 1. Seja d = mdc(a; b).


Logo, d j a e d j b e pela Proposição 3.1, concluimos que

d j (ax + by) ) d j 1 ) d = 1

e portanto, d = 1 isto é, a e b são primos entre si.

Observação: Se d = mdc(a; b) com d > 1, então existem r; s 2 Z tais que

a = dr; b = ds e mdc(r; s) = 1

Como o d = mdc(a; b); pelo Teorema 3.3, existem x; y 2 Z tais que

a b
ax + by = d ) x + y = 1 ) rx + sy = 1
d d
e pela Proposição 3.2, temos que mdc(r; s) = 1:
Os próximos resultados é uma conseqüência da caracterização (Proposição
3.2) dos números primos entre si

Corolário 3.2 Se a j b e o mdc(b; c) = 1; então o mdc(a; c) = 1:

Prova. Se a j b , então existe q 2 Z tal que b = aq e

mdc(b; c) = 1 ) bx + cy = 1; onde x; y 2 Z

Assim,
1 = (aq)x + cy = a(qx) + cy ) mdc(a; c) = 1

Se c j ab não vale, em geral, que c j a ou c j b. Por exemplo,

6 j 3 4 mas 6 - 3 e 6 - 4

Mas temos o seguinte resultado.

Lema 3.2 (O lema de Euclides) Sejam a; b; c 2 Z tais que a j bc e o mdc(a; b) =


1, então a j c.
3.3. MÁXIMO DIVISOR COMUM 71

Prova. Como mdc(a; b) = 1 temos pela Proposição 3.2, que existem x; y 2 Z


tais que
ax + by = 1 (*)
Se a j bc , então existe q 2 Z tal que

bc = aq (**)

De (*) e (**) concluimos

c = c 1 = c (ax + by) = cax + cby = cax + aqy = a (cx + qy)

Segue-se que a j c.

Proposição 3.3 Se a; b e c são inteiros não nulos, então

mdc(ac; bc) = jcj mdc(a; b)

Prova. Seja d = mdc(a; b). Então d j a e d j b e pela Proposição 3.1 temos que
cd j ca e cd j cb e, assim, cd j mdc(ca; bc), isto é, existe q 2 Z tal que

mdc(ca; bc) = (cd)q

Por de…nição temos que (cd)q j ca e (cd)q j cb e, pela Proposição 3.1,

dq j a e dq j b ) dq j mdc(a; b)

Logo, dq j d, ou seja, q j 1 e, pela Proposição 3.1, temos que q = 1 e portanto,

mdc(ac; bc) = cd = jcj mdc(a; b):

Exemplo. Mostre que a e b são inteiros com mdc(a; b) = 1; então

mdc(a + b; a b) = 1 ou 2

Seja d = mdc(a + b; a b). Então d j (a + b) e d j (a b) e pelas Proposições


3.1 e 3.3 temos

d j 2a e d j 2b ) d j mdc(2a; 2b) = 2 mdc(a; b) = 2

e portanto, d = 1 ou 2.

Proposição 3.4 Sejam a; b 2 Z com b 6= 0. Se a = qb + r, onde 0 6 r < b,


então
mdc(a; b) = mdc(b; r)

Prova. Suponhamos que mdc(a; b) = d. Então

d j a e d j b ) d j (a qb) ou d j r
0 0
e daí, d j b e d j r. Por outro lado, se d j b e d j r. Então
0 0
d j (qb + r) ) d j a
72 CAPÍTULO 3. DIVISIBILIDADE EM Z

0 0 0
Logo, d j a e d j b e portanto, d j d. Assim, d = mdc(b; r).
Embora o Teorema 3.3, assegure a existência do mdc(a; b), a sua demon-
stração não diz como achar o seu valor. Agora, apresentaremos um processo,
conhecido como Algoritmo Euclidiano, para determinar o máximo divisor
comum de dois inteiros não nulos a e b.
Podemos supor, sem perda de generalidade, que a > b > 0, pois

mdc(a; b) = mdc(jaj ; jbj)

Pelo Teorema 3.1, existem q1 ; r1 2 Z tais que

a = q1 b + r1 ; onde 0 6 r1 < b

Se r1 = 0, o processo para. Se, ao contrário, r1 6= 0, então existem q2 ; r2 2 Z


tais que
b = q2 r1 + r2 ; onde 0 6 r2 < r1
Se r2 = 0, o processo para. Caso contrário, procedendo como antes, obtemos

r1 = q3 r2 + r3 ; onde 0 6 r3 < r2

e assim por diante. Como os restos r1 ; r2 ; r3 ; : : : são todos inteiros positivos tais
que
b > r1 > r2 > r3 > >0
Então para algum índice n deverá ocorrer rn 6= 0 e rn+1 = 0: De fato, se todos
os ri > 0, então
X = fb; r1 ; r2 ; r3 ; : : :g N
não teria um elemento mínimo, o que contradiz o Axioma da Boa Ordem. Assim,
obtemos as seguintes relações:

a = q 1 b + r1 onde 0 6 r1 < b
b = q 2 r1 + r2 onde 0 6 r2 < r1
r1 = q 3 r2 + r3 onde 0 6 r3 < r2
.. .. .. ..
. . . .
rn 3 = qn 1 rn 2 + rn 1 onde 0 6 rn 1 < rn 2
rn 2 = q n rn 1 + rn onde 0 < rn < rn 1
rn 1 = qn+1 rn

Logo, para cada n > 3; rn é o resto da divisão de rn 2 por rn 1: Pela Proposição


3.4, temos
mdc(rn 2 ; rn 1 ) = mdc(rn 1 ; rn )
Logo,
rn = mdc (0; rn )
= mdc (rn+1 ; rn ) (pois rn+1 = 0)
= mdc (rn+1 ; rn ) (pela Proposição ??)
= mdc (rn ; rn 1 )
.. ..
. .
= mdc (r2 ; r1 )
= mdc (r1 ; b)
3.3. MÁXIMO DIVISOR COMUM 73

q1 q2 q3 qn qn+1
a b r1 r2 rn 1 rn
r1 r2 r3 r4 rn 0

Tabela 3.1: Algoritmo Euclidiano

e portanto,

mdc(a; b) = mdc(b; r1 ) = = mdc(rn+1; rn ) = rn

Em palavras: O último resto não nulo no algoritmo Euclidiano é o máximo


divisor comum de a e b: Podemos representar estas relações pela Tabela 3.1.
Observação: O Algoritmo Euclidiano pode também ser usado para representar
o mdc(a; b) na forma ax + by, pois da penúltima equação, obtemos:

rn = rn 2 + ( qn )rn 1

Agora, substituindo o resto rn 1 da equação anterior, obtemos:

rn = ( qn )rn 3 + (1 + qn qn 1 )rn 2

Prosseguindo assim, podemos eliminar sucessivamente os restos

rn 1 ; r n 2 ; : : : ; r2 ; r 1

e expressar rn em termos de a e b, isto é, podemos encontrar x; y 2 Z tais que

mdc(a; b) = ax + by

Exemplo. Determine o mdc(21; 35)que encontre x; y 2 Z tais que

mdc(21; 35) = 21x + 35y

Pelo algoritmo Euclidiano, temos

35 = 1 21 + 14
21 = 1 14 + 7
14 = 2 7+0

Donde, encontramos
7 = 2 21 + ( 1) 35
Portanto, mdc(21; 35) = 7. Subindo a partir da penúltima equação do algoritmo
de Euclide, encontramos x = 2 e y = 1 tais que

7 = 21x + 35y

Como x = 2 35n e y = 1 + 21n, para todo n 2 Z, também satisfazem, a


equação
7 = 21x + 35y
temos que x e y não são únicos.
74 CAPÍTULO 3. DIVISIBILIDADE EM Z

3.3.1 Problemas Resolvidos


01. Sejam a; b; c 2 Z tais que a j c e b j c. Se mdc(a; b) = 1; então ab j c.
0
Solução. Por de…nição existem q; q 2 Z tais que
0
c = aq = bq

Como o mdc(a; b) = 1; temos pela Proposição 3.2, existem x; y 2 Z tais que

ax + by = 1

Assim,
0 0
c = c 1 = c (ax + by) = cax + cby = bq ax + aqby = ab q x + qy
0
como q x + qy 2 Z: Segue ab j c.

02. Sendo n um inteiro qualquer, achar os possíveis valores do máximo divisor


comum dos inteiros n e n + 10.

Solução. Seja d = mdc(n; n + 10): Temos que

d j n e d j (n + 10) ) d j 10

Portanto, n = 1; 2; 5 e 10:

03. Sendo n um inteiro qualquer, calcular o mdc(n 1; n2 + n + 1).

Solução. Seja d = mdc(n 1; n2 + n + 1): Assim,

d j (n 1) e d j n2 + n + 1

Como n2 + n + 1 = (n 1) (n + 2) + 3;segue-se que

d j (n 1) e d j n2 + n + 1 ) d j 3

Portanto, o mdc(n 1; n2 + n + 1) = 1 ou 3:

04. Sejam a, b e c inteiros. Demonstrar:

a) Existem inteiros x e y tais que c = ax + by se, e somente se, o


mdc(a; b) j c;
b) Se existem inteiros x e y tais que ax+by = mdc(a; b); então mdc(x; y) =
1.

Solução.
a) Se (x0 ; y0 ) 2 Z Z é uma solução da equação ax + by = c; então

ax0 + by0 = c

Como o mdc (a; b) = d; temos que d j a e d j b, então d j (ax0 + by0 ) isto é,


d j c:Reciprocamente, suponhamos que d j c isto é, existe k 2 Z tal que

c = dk
3.3. MÁXIMO DIVISOR COMUM 75

Por outro lado, como o mdc (a; b) = d; então existem x0 ; y0 2 Z tais que

d = ax0 + by0

Assim,

c = dk
= (ax0 + by0 ) k
= a(x0 k) + b(y0 k)
= ax + by

onde x = x0 k e y = y0 k:
b) Seja mdc (a; b) = d: Temos que
a b
ax + by = d ) x + y = 1 ) mdc (x; y) = 1
d d
a b a
pois existem inteiros d e d tais que dx + db y = 1.

05. O máximo divisor comum de dois inteiros positivos é 10 e o maior deles é


120. Determinar o outro inteiro.

Solução. Seja n o outro número. Como o mdc (n; 120) = 10; então n = 10q;
q 2 Z: Sendo a < 120; temos que

n = 10; 20; 30; 40; 50; 60; 70; 80; 90; 100; 110

Assim, para que o mdc (n; 120) = 10 é necessário que n = 10; 50; 70; 110:

06. Demonstrar que se n = abc+1, então o mdc(n; a) = mdc(n; b) = mdc(n; c) =


1.

Solução. Se n = abc + 1; então

n 1 a( bc) = 1

Como 1 e bc são inteiros, segue-se que mdc(n; a) = 1: De modo análogo,


podemos concluir que
mdc(n; b) = mdc(n; c) = 1

07. Demonstrar que o mdc(mdc(a; b); b) = mdc(a; b):

Solução. Sejam
0
mdc(a; b) = d e mdc(mdc(a; b); b) = d

Por de…nição temos

d j a e d j b ) d j mdc(a; b) e d j b ) d j mdc(mdc(a; b); b)


0 0
ou seja, d j d : Por outro lado, sendo mdc(mdc(a; b); b) = d temos que
0 0 0 0
d j mdc (a; b) e d j b ) d j a e d j b
0 0
o que implica d j mdc(a; b) ou seja, d j d: Logo, o mdc(mdc(a; b); b) = mdc(a; b):
08. Os inteiros positivos a, b e c são tais que o mdc(a; b) = 1, a j c e c j b.
Demonstrar que a = 1.

Solução. Se a j c e c j b; então a j b: Por outro lado, como a j b; então

mdc(a; b) = a

Logo, pela unicidade do mdc e mdc(a; b) = 1; temos

a = mdc(a; b) = 1 ) a = 1

09. O mdc(a; 4) = 2 = mdc(b; 4). Demonstrar que o mdc(a + b; 4) = 4:

Solução. Se o mdc(a; 4) = 2; então a = 2q; onde q é um inteiro ímpar, pois se


q for par, então o
mdc(a; 4) = 4
Logo,
a = (2k + 1)2 = 4k + 2
0
Analogamente, encontramos b = 4k + 2: Assim,
0
a+b=4 k+k +1

e portanto, mdc(a + b; 4) = 4:

10. Os inteiros positivos m e n são tais que o mdc(m; n) = d. Mostrar que o


mdc(2m 1; 2n 1) = 2d 1:

Solução. Pelo Teorema 3.1, temos

m = qn + r onde 0 6 r < n

Considere a igualdade

2nq 1 = (2n 1) 2n(q 1)


+ 2n(q 2)
+ + 2n + 1 (*)

Note que

2m 1 = 2qn+r 1 = 2nq 2r 1 = 2nq 2r 2r +2r 1 = (2nq 1) 2r +2r 1 (**)

Segue-se das igualdades (*) e (**) que

2m 1 = (2n 1) 2n(q 1)
+ 2n(q 2)
+ + 2n + 1 2r + 2r 1 (***)

Pelo Algoritmo das Divisões Sucessivas, temos

m = nq1 + r1 onde 0 6 r1 < n


n = r1 q 2 + r2 onde 0 6 r2 < r1
r1 = r2 q 3 + r3 onde 0 6 r3 < r2
.. .. .. ..
. . . .
rs 2 = rs 1 q s + rs onde 0 6 rs < rs 1
rs 1 = rs qs+1
3.3. MÁXIMO DIVISOR COMUM 77

onde rs+1 = 0. Logo, mdc(m; n) = rs : Usando as igualdades acima e identidade


(***) ; temos que

2m 1 = (2n 1)Q1 + 2r1 1


2n 1 = (2r1 1)Q2 + 2r2 1
..
.
2rs 1
1 = (2rs 1)Qs+1 + 2rs+1 1

onde Qi i = 1; 2; : : : ; s + 1 são determinados como em (***) : Vemos assim, que

mdc(2m 1; 2n 1) = 2rs 1

e portanto, o
mdc(2m 1; 2n 1) = 2mdc(m;n) 1

3.3.2 Problemas Propostos


1. Calcule x; y 2 Z tais que o mdc(a; b) = ax + by, nos seguintes casos:

a) a = 11 e b = 15;
b) a = 167 e b = 389;
c) a = 180 e b = 252;
d) a = 2464 e b = 7469.

2. Sabendo que o mdc(a; 0) = 13, achar todos os valores do inteiro a:

3. Achar o menor inteiro positivo c, da forma c = 22x + 55y, onde x e y são


dois inteiros.

4. Determine inteiros x e y tais que 3120x + 845y = 65:

5. Sejam a1 ; : : : ; an 2 Z . Mostre que se

mdc(a1 ; a2 ) = d2 ; mdc(d2 ; a3 ) = d3 ; : : : ; mdc(dn 1 ; an ) = dn

então
mdc(a1 ; a2 ; : : : ; an ) = dn

6. Sejam a; b 2 Z. Mostre que o mdc(a; b) = 1 se, e somente se, existem


u; v 2 Z tais que
a b
det = 1
u v

7. Sejam a; b; c 2 Z . Mostrar as seguintes a…rmações:

a) mdc(a; b) = mdc(a; b) = mdc( a; b) = mdc( a; b);


b) mdc(a; b) = mdc(a; ar + b); 8r 2 Z;
c) mdc(a; b) = mdc(a; b; ar + bs); 8r; s 2 Z;
d) Se mdc(a; b) = mdc(a; c) = 1, então mdc(a; bc) = 1;
78 CAPÍTULO 3. DIVISIBILIDADE EM Z

e) Se mdc(a; b) = 1 e c divide a + b, então mdc(a; c) = mdc(b; c) = 1;


(Sugestão: Seja d = mdc(a; c). Então d j a e d j c; assim d divide
(a + b) a, isto é, d j b.)
f) Se mdc(a; b) = 1, então mdc(an ; bn ) = 1; 8n 2 N.

8. Sejam a1 ; : : : ; an 2 N e m = mmc(a1 ; : : : ; an ). Mostrar que o resto da


divisão de km 1 por ai é ai 1 para todo i = 1; : : : ; n e k 2 N.
9. Determinar o menor inteiro positivo que tem para restos 1, 2, 3, 4 e 5
quando dividido, respectivamente, por 2, 3, 4, 5 e 6.
10. Sejam a; b 2 Z e n 2 N. Mostrar que:

a) Se an divide bn , então a divide b; (Sugestão: Seja d = mdc(a; b).


Então existem x; y 2 Z tais que a = dx e b = dy, onde mdc(x; y) = 1.
Pelo item (f) do exercício 10 temos que mdc(xn ; y n ) = 1. Agora
mostre que x = 1, de modo que a = d.)
b) Se an divide 2bn , então a divide b.

11. Sejam a; b 2 Z . Mostrar que as seguintes condições são equivalentes:

a) a divide b;
b) mdc(a; b) = jaj;
c) mmc(a; b) = jbj.

12. Sejam a; b 2 Z . Mostrar que mdc(a; a + b) divide b.


13. Mostrar que mdc(a; a + 2) = 1 ou 2 para todo a 2 Z.
14. Mostrar que mdc(4a + 3; 5a + 4) = 1 para todo a 2 Z.
15. Sejam a; b; c 2 Z e mdc(a; b) = d. Mostrar que a j bc se, e somente se,
a
d j c.

16. Sejam a; b; c 2 Z . Se mdc(a; b) = 1, a j c e b j c, então ab j c.


17. Mostrar que 10 divide 1n + 8n 3n 6n ; 8n 2 N.
18. Mostrar que:

a) Dois inteiros consecutivos são sempre primos entre si;


b) mdc(2a + 1; 9a + 4) = 1; 8a 2 Z;

19. Sejam a; b 2 Z tais que mdc(a; b) = 1. Mostrar que mdc(a + b; a2 ab +


b2 ) = 1 ou 3. (Sugestão: Note que a2 ab + b2 = (a + b)2 3ab.)
20. Sejam d; m 2 Z com d > 0. Mostrar que existem a; b 2 Z tais que
mdc(a; b) = d e ab = m se, e somente se, d2 j m.
21. Seja x1 = 2, x2 = x1 + 1, x3 = x1 x2 + 1,: : :, xn = x1 x2 : : : xn 1 + 1; : : :
uma seqüência. Mostrar que se k 6= n, então mdc(xk ; xn ) = 1.
22. Seja x1 ; x2 ; : : : ; xn ; : : : uma seqüência de…nida recursivamente por x1 = 1,
x2 = 1 e xn+2 = xn+1 + xn . Mostrar que:
3.3. MÁXIMO DIVISOR COMUM 79

a) mdc(xn ; xn+1 ) = 1, para todo n 2 N;


b) xm+n = xm 1 xn + xm xn+1 , para todos m; n 2 N; (Sugestão: Fixe m
e use indução sobre n.)
c) xmn divide xm , para todos m; n 2 N;
d) x2n+2 = xn+3 xn+1 + ( 1)n+1 , para todo n 2 N. (Sugestão:

x2n+2 xn+3 xn+1 = xn+2 (xn+1 + xn ) xn+3 xn+1


= (xn+2 xn+3 )xn+1 + xn+2 xn
= 1(x2n+1 xn+2 xn )

Agora, repete o argumento com (x2n+1 xn+2 xn ).)

23. Sejam a; x1 ; x2 ; : : : ; xn 2 Z tais que

mdc(a; x1 ) = = mdc(a; xn ) = 1

Mostrar que mdc(a; x1 x2 xn ) = 1.

24. Seja x1 ; x2 ; : : : ; xn ; : : : uma seqüência de…nida recursivamente por x1 = 2


e xn+1 = x2n xn + 1. Mostrar que mdc(xn ; xn+1 ) = 1, para todo n 2 N.
(Sugestão: Mostre que xn+1 = xn xn 1 x2 x1 + 1.)

25. Escreva o número 300 como soma de dois inteiros positivos de tal forma
que um múltiplo de 7 e o outro seja múltiplo de 17.

26. Mostrar que não existem a; b 2 N tais que a3 + 113 = b3 .

27. Determinar todos os pares de inteiros a e b tais que a3 + b = b3 + a.

28. Determinar todos os pares de números inteiros cuja soma seja igual a seu
produto.

29. Determinar todos os ternos de inteiros positivos a; b e c tais que


1 1 1
+ + =1
a b c
(Sugestão: Primeiro mostre que pelo menos um dos inteiros a; b ou c é
menor do que 4. Assim, se a b c, então a = 2 e a = 3, pois a > 1.)

30. Determinar todos os ternos de inteiros a; b e c tais que a soma de um deles


com o produto dos outros dois seja igual a 2.

31. Determinar todos os ternos de inteiros a; b e c, dois a dois primos entre si,
tais que
a b c
+ + 2Z
b c a
32. Mostrar que a soma dos quadrados de cinco números inteiros consecutivos
não é um quadrado perfeito de um número inteiro.

33. Sejam a; b; c 2 Z tais que a2 + b2 = c2 . Mostrar que:

a) a ou b é par;
80 CAPÍTULO 3. DIVISIBILIDADE EM Z

b) a ou b é divisível por 3;
d) a ou b é divisível por 4.

34. Mostrar que se os comprimentos dos lados e da diagonal de um retân-


gulo são números inteiros, então a área do retângulo é divisível por 12.
(Sugestão: Use o exercício precedente.)
35. Mostrar que somando-se 1 ao produto de quatro números inteiros consec-
utivos obtém-se um quadrado perfeito.
36. Ache um número com quatro dígitos que é um quadrado perfeito tal que
os dois primeiros dígitos são iguais e dois últimos dígitos são iguais.
37. A soma de um número de dois dígitos e um número obtido com os mes-
mos dígitos na ordem inversa é um quadrado perfeito. Ache todos estes
números.
38. Mostrar que não existe polinômio com coe…cientes inteiros tais que f (1) =
2 e f (3) = 5.
39. Seja f (x) um polinômio com coe…cientes inteiros. Se existem inteiros
distintos a, b, c e d tais que

f (a) = f (b) = f (c) = f (d) = 5

então mostre que não existe inteiro n tal que f (n) = 8. (Sugestão: Con-
sidere o polinômio g(x) = f (x) 5.)
40. Se os coe…cientes da equação

xn + an 1x
n 1
+ + a1 x + a0 = 0

são inteiros, então toda raiz racional desta equação é um inteiro.


41. Se n > 1 é um inteiro ímpar, então três termos consecutivos x, y e z de
uma P.A. nunca satisfaz
xn + y n = z n
(Sugestão: Seja x = y r e z = y + r, onde 0 < r < y. Assim,
y y y
(y r)n + y n = (y + r)n , ( 1)n + ( )n = ( + 1)n
r r r
Agora, fazendo t = yr , obtemos a equação

(t 1)n + tn = (t + 1)n

e, use o exercício precedente.)


42. Para que valores de n o número 28 + 211 + 2n é um quadrado perfeito?
43. Se m; n; k 2 N e p p
1 + m + n 3 = (2 + 3)2k 1

então m é um quadrado perfeito.


44. Mostrar que o cubo de todo inteiro é a diferença de dois quadrados.
45. Mostrar que todo inteiro n pode ser escrito com uma soma de cinco cubos.
(Sugestão: Note que

6q = (q + 1)3 + (q 1)3 + ( q)3 + ( q)3 ; 8q 2 Z,

6q + r (6s + r)3 é divisível por 6 e n = 6q + r, onde 0 r < 6.)


46. Sejam a1 ; : : : ; an 2 Z com ai 6= 0 para algum i = 1; : : : ; n. O máximo
divisor comum de a1 ; : : : ; an , em símbolos mdc(a1 ; : : : ; an ), é um inteiro
positivo d tal que

a) d j ai para i = 1; : : : ; n;
b) Se c j ai para i = 1; : : : ; n, então c j d.
Mostrar que d = mdc(a1 ; : : : ; an ) se, e somente se, d é o menor inteiro
positivo tal que
d = x1 a1 + + xn an
para alguns xi 2 Z, com i = 1; : : : ; n.

47. Sejam a; b; c 2 Z. Mostrar que mdc(a; b; c) = 1 se, e somente se, existem


u2 ; v2 ; u3 ; v3 ; w3 2 Z tais que
02 31
a b c
det @4 u2 v2 0 5A = 1
u3 v3 w3

48. Achar os elementos do conjunto f1; 2; 3; 4; 5g que são primos com 8.


49. Seja o conjunto A = f1; 2; 3; 4; 5; 6g. Enumerar os elementos do conjunto

X = fx 2 A : mdc(x; 6) = 1g

50. Calcular:

a) mdc(n; n + 2), sendo n um inteiro par;


b) mdc(n; n + 2), sendo n um inteiro ímpar.

51. Sendo n um inteiro qualquer, achar os possíveis valores do máximo divisor


comum dos inteiros n e n + 10.
52. Sendo n um inteiro qualquer, calcular o mdc(n 1; n2 + n + 1).
53. Sendo a e b dois inteiros não conjuntamente nulos (a 6= 0 ou b 6= 0),
mostrar:

mdc(a; b) = mdc( a; b) = mdc(a; b) = mdc( a; b)

54. Sejam a, b e c inteiros. Demonstrar:

a) Existem inteiros x e y tais que c = ax + by se, e somente se, o


mdc(a; b) j c;
b) Se existem inteiros x e y tais que ax+by = mdc(a; b); então mdc(x; y) =
1.
55. Sejam a, b e c inteiros. Demonstrar:
a) se o mdc(a; b) = 1, então o mdc(ac; b) = mdc(b; c);
b) Se o mdc(a; b) = 1 e se c j (a + b), então o mdc(a; c) = mdc(b; c) = 1;
c) Se b j c, então, o mdc(a; b) = mdc(a + c; b);
d) Se mdc(a; b) = 1, então mdc(am ; bn ) = 1, onde x e y são inteiros
positivos.
56. Calcular o mdc(a + b; a b) sabendo que a e b são inteiros primos entre si.
57. O mdc de dois inteiros positivos é 10 e o maior deles é 120. Determinar o
outro inteiro.
58. Achar o maior inteiro positivo pelo qual se devem dividir os inteiros 160,
198 e 370 para que os restos sejam respectivamente 7, 11 e 13.
59. Determinar os inteiros positivos a e b, sabendo-se que:
a) a + b = 63 e mdc(a; b) = 9;
b) ab = 756 e mdc(a; b) = 6:
60. Os restos das divisões dos inteiros 4933 e 4435 por um inteiro positivo n
são respectivamente 37 e 19. Achar o inteiro n.
61. Demonstrar que se n = abc+1, então o mdc(n; a) = mdc(n; b) = mdc(n; c) =
1.
62. Demonstrar que o mdc(mdc(a; b); b) = mdc(a; b):
63. Demonstrar que o mdc(n + k; k) = 1 se, e somente se, o mdc(n; k) = 1:
64. Demonstrar que, se a j bc e se mdc(a; b) = d, então a j cd:
65. Demonstrar que, se a j c, se b j c e se o mdc(a; b) = d, então ab j cd:
66. Demonstrar que se mdc(a; b) = 1 e se mdc(a; c) = d, então mdc(a; bc) = d:
67. O inteiro ímpar d é um divisor de a + b e de a b. Demontrar que d
também é um divisor do mdc(a; b).
68. Os inteiros positivos a, b e c são tais que o mdc(a; b) = 1, a j c e c j b.
Demonstrar que a = 1.
69. O mdc(n; n + k) = 1 para todo inteiro positivo n. Demonstrar que k = 1
ou k = 1.
70. Demonstrar que mdc(a; b) = mdc(a + kb; b) para todo inteiro k.
71. O mdc(a; 4) = 2 = mdc(b; 4). Demonstrar que o mdc(a + b; 4) = 4:
72. Os inteiros positivos m e n são tais que o mdc(m; n) = d. Mostrar que o
mdc(2m 1; 2n 1) = 2d 1:
73. Demonstrar que o mdc(a; b) = mdc(a; b; a + b).
74. Demonstrar que mdc(a; b) = mdc(a; b; ax + by), quaisquer que seja os
inteiros x e y.
75. Demonstrar que se o mdc(a; b) = d; então o mdc(a2 ; b2 ) = d2 :
3.4. MÍNIMO MÚLTIPLO COMUM 83

3.4 Mínimo múltiplo comum


Sejam a; b 2 Z dois números, ambos não nulos. O conjunto dos múltiplos de
a e b isto é, o conjunto
fx 2 N : a j x e b j xg
é não vazio, pois o número positivo ab é um múltiplo comum de a e b e portanto,
pelo Axioma da Boa Ordem possui um menor elemento.

De…nição 3.6 Sejam a; b 2 Z dois números, ambos não nulos. O mínimo


múltiplo comum entre a e b é o inteiro positivo

m = mmc(a; b)

de…nido pelas duas propriedades:

a) a j m e b j m (m é múltiplo comum de a e b);


0 0 0
b) Se a j m e b j m , então m j m .

A condição b) diz que m é o menor múltiplo comum de a e b. Se a; b 2 Z e


o mmc(a; b) existe, então ele é único. (Prove isto!)
De acordo com a de…nição acima, se a 6= 0 ou b 6= 0; podemos denotar o
mínimo múltiplo comum entre a e b por

mmc(a; b) = min fx 2 N : a j x onde b j xg

Exemplo. Se a = 12 e b = 16; então os múltiplos de a e b formamos os


conjuntos
M (12) = fx 2 N : 12 j xg = f12; 24; 36; 48; : : :g
e
M (16) = fx 2 N : 16 j xg = f16; 32; 48; : : :g
Consequentemente, os múltiplos comuns de 12 e 16 formam o conjunto

fx 2 N : 12 j x onde 16 j xg = f48; 96; : : :g

e o respectivo mínimo múltiplo entre 12 e 16 é

mmc (12; 16) = min f48; 96; : : :g = 48

Exemplo. Se a = 3 e b = 8; então os múltiplos comuns de a e b são

f 24; 48; 72; : : :g

Entretanto o mmc (3; 8) = 24:


Como conseqüência da de…nição temos as seguintes condições:
a) mmc(a; b) = mmc(b; a);
b) O mmc(a; 1) = a;
c) Se a j b, então o mmc(a; b) = jbj : Por exemplo, o mmc(3; 9) = j 9j = 9;
d) mmc(a; b) 6 jabj, pois ab é um múltiplo comum de a e b:
O próximo resultado será de grande importância, pois podemos encontrar o
mínimo múltiplo comum entre dois inteiros a e b conhecendo o mdc (a; b) :
84 CAPÍTULO 3. DIVISIBILIDADE EM Z

Teorema 3.4 Sejam a; b 2 Z . Então

mmc(a; b) mdc(a; b) = jabj

Prova. Sejam d = mdc(a; b) e

jabj
M=
d
Como d = mdc(a; b); então existem u; v 2 Z tais que

a = ud e b = vd

Temos
jaj
M= jbj = bu ) b j M
d
e
jbj
M = jaj = av ) a j M
d
0 0 0
Seja M 2 N tal que a j M e b j M : Então existem r; s 2 Z tais que ar = bs =
0
M : Pelo Teorema 3.3, existem x; y 2 Z tais que ax + by = d: Assim,
0 0 0 0 0
M M d M M M
= = (ax + by) = x y= sx ry 2 Z
M jabj jabj jbj jaj
0 0
o que signi…ca M j M e portanto, M = mmc(a; b):
Exemplo. Calcule o mínimo múltiplo comum entre 21 e 35.
Pelo Teorema 3.4, temos
21 35 21 35
mmc(21; 35) = = = 105
mdc(21; 35) 7

Exemplo. Sendo a e b inteiros positivos, mostre que mdc(a; b) j mmc(a; b):


Pelo Teorema 3.4, temos
ab
mmc(a; b) =
mdc(a; b)

Seja mdc (a; b) = d; então existem r; s 2 Z tais que

a = dr e b = ds

Assim,

(dr)(ds)
mmc(a; b) =
d
= d(rs)

e portanto, mmc(a; b) é um múltiplo do mdc (a; b), isto é, mdc (a; b) divide o
mmc(a; b):

Corolário 3.3 Sejam a; b 2 Z . Então mmc(a; b) = jabj se, e somente se,


mdc(a; b) = 1.
3.4. MÍNIMO MÚLTIPLO COMUM 85

Prova. Suponhamos que mmc(a; b) = jabj : Pelo Teorema 3.4,

jabj
= jabj ) mdc(a; b) = 1
mdc (a; b)

Reciprocamente, suponhamos que mdc(a; b) = 1: Pelo Teorema 3.4,

mmc(a; b) = jabj

Exemplo. Sejam a; b 2 N. Dados d = mdc(a; b) e m = mmc(a; b), determinar


a e b.
Como d = mdc(a; b) temos que existem x; y 2 Z tais que

a = dx e b = dy;

onde mdc(x; y) = 1. Temos, pelo Teorema 3.4, que md = d2 xy, ou ainda,


m = dxy. Como d e m são dados, podemos determinar da equação

m = dxy

todas as possibilidades para x e y tais que mdc(x; y) = 1.

Proposição 3.5 Sejam a; b; c 2 Z : Então

mmc(ac; bc) = jcj mmc(a; b)

Prova. Sem perda de generalidade podemos supor que a; b; c 2 N : Pelo Teo-


rema 3.4 e a Proposição 3.3, temos

c2 ab c2 ab cab
mmc(ac; bc) = = = = c mmc(a; b)
mdc (ac; bc) c mdc (a; b) mdc (a; b)

Exemplo. Calcule o mmc( 6; 18).


Pela Proposição 3.5

mmc( 6; 18) = 6 mmc( 1; 3) = 6 3 = 18

Também podemos usar o Teorema 3.4 para determinar o mmc( 6; 18)

j 6 18j 6 18
mmc( 6; 18) = = = 18
mdc ( 6; 18) 6

3.4.1 Problemas Resolvidos


01. Sejam a; b 2 Z . Mostrar que mdc(a; b) = mmc(a; b) se, e somente se,
a = b.

Solução. Sejam d = mdc(a; b) e m = mmc(a; b): Como m = d temos pelo


Teorema 3.4,
d2 = ab (*)
86 CAPÍTULO 3. DIVISIBILIDADE EM Z

Por outro lado, existem q1 ; q2 2 Z tais que

a = dq1 e b = dq2 (**)

Substituindo (**) em (*) obtemos,

q1 q2 = 1 ) q1 = q2 = 1

segue-se que a = b: A recíproca é trivial.

02. Mostrar que 10 divide 1n + 8n 3n 6n ; 8n 2 N.

Solução. Já vimos que (a b) j (an bn ), 8n 2 N. Então

1n 3n = 2q1 onde q1 2 Z

e
8n 6n = 2q2 ; onde q2 2 Z
e portanto,
2 j (1n + 8n 3n 6n )
Analogamente,
8n 3n = 5k1 onde k1 2 Z
e
1n 6n = 5k2 onde k2 2 Z
Logo,
5 j (1n + 8n 3n 6n )
Como

2 j (1n + 8n 3n 6n ) e 5 j (1n + 8n 3n 6n ) ) mmc (2; 5) j (1n + 8n 3n 6n )

Portanto, 1n + 8n 3n 6n é divisível por 10:

03. Determine os inteiros positivos a e b tais que ab = 4032 e mmc (a; b) = 336:

Solução. Pelo Teorema 3.4, temos

336 mdc(a; b) = 4032 ) mdc(a; b) = 12

Como o mdc(a; b) = 12; então podemos escolher a = 12x e b = 12 tais que


mdc(x; y) = 1: Logo,

12x 12y = 4032 ) xy = 28 ) x = 1 e y = 28 ou x = 4 e y = 7

e portanto,

a = 12 e b = 12 28 = 336 ou x = 12 4 = 48 e y = 12 7 = 84
3.5. EQUAÇÕES DIOFANTINAS LINEARES 87

3.4.2 Problemas Propostos


1. Sejam a1 ; : : : ; an 2 Z . Mostre que se

mmc(a1 ; a2 ) = m2 ; mmc(m2 ; a3 ) = m3 ; : : : ; mmc(mn 1 ; an ) = mn

então
mmc(a1 ; a2 ; : : : ; an ) = mn

2. Determinar todos os possíveis a; b 2 N tais que mdc(a; b) = 10 e mmc(a; b) =


100.

3.5 Equações diofantinas lineares


Considere a seguinte situação. Um teatro vende ingressos e cobra R$18,00
por adultos e R$7,50 por criança. Numa noite, arrecada-se R$900,00. Quantos
adultos e crianças assistiram ao espetáculo, sabendo-se que eram adultos do que
criança?
Denotando por x o número de criança e y o número de adultos que assistiram.
Então a equação

7; 5x + 18y = 900 sob a condição y > x > 0

ou seja,
15x + 36y = 1800
Nesta seção, vamos determinar inteiros x1 ; x2 ; : : : ; xn ; satisfazendo uma equação
da forma
a1 x1 + a2 x2 + + an xn = c
onde a1 ; a2 ; : : : ; an e c são números inteiros (ou racional).

De…nição 3.7 Uma equação com n incógnitas x1 ; x2 ; : : : ; xn da forma

a1 x1 + a2 x2 + + an xn = c

onde a1 ; a2 ; : : : ; an e c são números inteiros (ou racional) é uma equação dio-


fantina3 quando todas as soluções são números inteiros.

Em particular, vamos estudar as equações Diofantinas lineares de grau 2; ou


seja,
ax + by = c onde x; y 2 Z

Proposição 3.6 Sejam a; b; c 2 Z com a; b não ambos zeros.

a) A equação diofantina
ax + by = c (*)
admite pelo menos uma solução x; y 2 Z se, e somente se, d = mdc (a; b) j c;
3 De Diofanto de Alexandria, matemático grego do século III, que se interessava pelas

soluções racionais de equações algébricas e designava as irracionais por “impossíveis”.


88 CAPÍTULO 3. DIVISIBILIDADE EM Z

b) Suponha d j e seja (x0 ; y0 ) uma solução (particular) da equação ( ) :


Então a solução geral de ( ) é dada por
8
< x = x0 + db t
: a
y = y0 dt

onde t 2 Z.
Prova.
a) Se (x0 ; y0 ) 2 Z Z é uma solução da equação ax + by = c; então

ax0 + by0 = c

Como o mdc (a; b) = d; temos que d j a e d j b e pela Proposição 3.1, temos que
d j (ax0 + by0 ) e portanto, d j c:
Reciprocamente, suponhamos que d j c isto é, existe k 2 Z tal que

c = dk

Por outro lado, como o mdc (a; b) = d; então pelo Teorema 3.2 existem x0 ; y0 2 Z
tais que
d = ax0 + by0
Assim,

c = dk
= (ax0 + by0 ) k
= a(x0 k) + b(y0 k)
= ax + by

onde x = x0 k e y = y0 k:
b) Sejam (x1 ; y1 ) 2 Z Z todas as soluções de ax + by = c: Então

ax1 + by1 = c = ax0 + by0

o que implica
a (x1 x0 ) = b (y0 y1 )
Como o mdc (a; b) = d; então existem r; s 2 Z tais que

a = dr e b = ds com mdc (r; s) = 1

Assim,
r (x1 x0 ) = s (y0 y1 ) ) r j s (y0 y1 )
Como o mdc (r; s) = 1 pelo Lema de Euclides r j (y0 y1 ) isto é,

y0 y1 = rt; t 2 Z

ou ainda,
a
y 1 = y0 t
d
Analogamente, temos
b
x1 = x0 + t
d
3.5. EQUAÇÕES DIOFANTINAS LINEARES 89

Observação: Seja d = mdc (a; b) : Como a equação


a b c
ax + by = c , x+ y =
d d d
a b
tem coe…cientes inteiros, pois d j a e d j b: Além disso, mdc d; d = 1 e daí,
existem inteiros r e s tais que
a b
r+ s=1
d d
Logo, podemos nos restrigir ao estudo de equação diofantinas

ax + by = c

Admitindo a e b primos entre si.

Exemplo. Determine todas as soluções da equação Diofantina

39x + 54y = 6000 ) 13x + 18y = 2000

Temos mdc (13; 18) = 1 e 1 j 2000: Logo, a equação

13x + 18y = 2000

possui solução inteira. Temos que (14000; 10000) é uma solução particular da
equação
13x + 18y = 2000
Logo, a solução geral de 13x + 18y = 2000 (ou 39x + 54y = 6000) é portanto
8
< x = 14000 + 18t
:
y = 10000 13t

para todo t 2 Z:

Proposição 3.7 Se mdc (a; b) = 1; então as soluções da equação diofantina


ax + by = 0 são dadas pelas equações paramétricas

x = bt
y = at

onde t 2 Z:

Prova. É fácil ver que as equações paramétricas x = bt e y = at são soluções


da equação ax + by = 0; pois

ax + by = a (bt) + b ( at) = 0

Suponhamos que x e y são inteiros satisfazendo a equação ax+by = 0: Então


ax = by ou seja,
b j ax
Como mdc (a; b) = 1; temos que

b j x ) x = bt
90 CAPÍTULO 3. DIVISIBILIDADE EM Z

onde t 2 Z: Agora, substituindo x = bt em ax = by; obtemos y = at

Exemplo. Um teatro vende ingressos e cobra R$18,00 por adultos e R$7,50


por criança. Numa noite, arrecada-se R$900,00. Quantos adultos e crianças
assistiram ao espetáculo, sabendo-se que eram adultos do que criança?
Denotando por x o número de criança e y o número de adultos que assistiram.
Então a equação

7; 5x + 18y = 900 sob a condição y > x > 0

ou seja,
5x + 12y = 600
Como mdc (5; 12) = 1 e 1 j 600; a equação 5x + 12y = 600 possui solução inteira.
Note que (120; 0) é uma solução particular de 5x + 12y = 600: Logo, a solução
geral é dada por 8
< x = 120 + 12t
:
y = 5t
onde t 2 Z: De y > x > 0; obtemos

0 6 120 + 12t < 5t ) 10 6 t < 7; 05 : : :

Logo,
t 2 f 10; 9; 8g
e portanto, as soluções são os pares ordenados (0; 50) ; (12; 45) e (24; 40) :

3.5.1 Problemas Resolvidos


01. Resolva a equação diofantina 10x + 5y + 7z = 58:

Solução. Como mdc (10; 5; 7) = 1 e 1 j 58; a equação 10x + 5y + 7z = 58 possui


solução inteira. Como o mdc (10; 5) = 5; podemos escrever, podemos escrever4

10x + 5y = 5u

Temos então
5u + 7z = 58
Como mdc (5; 7) = 1 e 1 j 58; a equação 5u+7z = 58 possui solução inteira.Uma
solução particular é
(x0 ; y0 ) = (13; 1)
Assim, a solução geral da equação 5u + 7z = 58 é

u = 13 + 7t
z = 1 5t
4 Aqui estamos usando o fato de que sendo a; b 2 Z; toda combinação linear ax + by com

x; y 2 Z é um múltiplo de d = mdc (a; b) ; pois


d j a e d j b ) d j (ax + by)
3.5. EQUAÇÕES DIOFANTINAS LINEARES 91

onde t 2 Z: Passamos então à equação 10x + 5y = 5u; assuimindo que u é uma


constante inteira. Uma solução particular da equação 10x + 5y = 5u é

(x1 ; y1 ) = (0; u)

Assim, a solução geral da equação 10x + 5y = 5u é

x = 5s
y = u 10s

onde s 2 Z: Como u = 13 + 7t; chegamos à solução geral da equação 10x + 5y +


7z = 58 8
< x = 5s
y = 13 + 7t 10s
:
z = 1 5t

02. Se um trabalhador recebe R$510,00 reais em tíquetes de alimentação, com


valores de R$20,00 reais ou R$50,00 reais cada tíquete. De quantas formas
pode ser formado o carnê de tíquetes deste trabalhador?

Solução. Denotando por x o número de tíquetes de R$20,00 reais e y o número


de tíquetes de R$50,00 reais. Assim, temos a equação

20x + 50y = 510 (*)

A equação (*) possui solução, pois mdc (20; 50) = 10 e 10 j 510: Como a equação
(*) é equivalente a
2x + 5y = 51 (**)
Logo, basta encontrar as solções inteiras da equação (**) : Como mdc (2; 5) = 1
e 1 j 51; temos que todas as soluções da equação (**) é da forma

x = x0 + bt
y = y0 at

Note que x0 = 102 e y0 = 51 é uma solução particular da equação (**) : A


solução geral de 2x + 5y = 51 (ou de 20x + 50y = 510) é portanto,

x = 102 + 5t
y = 51 2t

Para não encontrar soluções negativas vamos impor

( 102 + 5t > 0 e 51 2t > 0) ) t 2 f21; 22; 23; 24; 25g

Temos então 5 possibilidades para os carnês:

Carnê com 3 tíquetes de R$20,00 reais e 9 tíquetes de R$50,00 reais;

Carnê com 8 tíquetes de R$20,00 reais e 7 tíquetes de R$50,00 reais;

Carnê com 13 tíquetes de R$20,00 reais e 5 tíquetes de R$50,00 reais;

Carnê com 18 tíquetes de R$20,00 reais e 3 tíquetes de R$50,00 reais;


92 CAPÍTULO 3. DIVISIBILIDADE EM Z

Carnê com 23 tíquetes de R$20,00 reais e 1 tíquetes de R$50,00 reais.

03. Em uma loja dois produtos custam R$71; 00 e R$83; 00, respectivamente.
Que quantidade inteiras de ambos podem ser compradas com R$1670; 00?

Solução. Denotando por x o produto que custa R$71,00 e y o produto que


custa R$83,00. Assim, temos a equação

71x + 83y = 1670 (*)

A equação (*) possui solução, pois mdc (71; 83) = 1 e 1 j 1670, temos que todas
as soluções da equação (*) é da forma

x = x0 + bt
y = y0 at

Note que x0 = 102 e y0 = 51 é uma solução particular da equação (**) : A


solução geral de 2x + 5y = 51 (ou de 20x + 50y = 510) é portanto,

x = 102 + 5t
y = 51 2t

Para não encontrar soluções negativas vamos impor

( 102 + 5t > 0 e 51 2t > 0) ) t 2 f21; 22; 23; 24; 25g

Temos então 5 possibilidades para os carnês:

Carnê com 3 tíquetes de R$20,00 reais

3.5.2 Problemas Propostos


1. Determine, se existir, a solução geral das seguintes equações:

a) 15x + 51y = 41;


b) 17x + 19y = 23;
c) 10x 8y = 12.

2. Em uma loja dois produtos custam R$71; 00 e R$83; 00, respectivamente.


Que quantidade inteiras de ambos podem ser compradas com R$1 670; 00?
3. Um terreno retângular, com dimensões 7200m por 2700m, respectiva-
mente, foi dividido em lotes quadrados. Determinar a maior área possível
para estes lotes.
4. Quais combinações de moedas de 1; 10 e 25 centavos totalizam 99 centavos?
5. Num refeitório, com capacidade para 902 pessoas há 55 mesas circulares
e 77 mesas retangulares. As mesas circulares têm todas a mesma capaci-
dade, o mesmo se passando com as mesas retangulares. Além disso, a
capacidade de qualquer um dos tipos de mesas é superior ou igual a 2:
Determine a capacidade das mesas circulaes e a capacidade das mesas
retangulares.
3.5. EQUAÇÕES DIOFANTINAS LINEARES 93

6. Determine todos os inteiros estritamente positivo com a seguinte pro-


priedade: fornecem resto 6 quando divididos por 11 e resto 3 quando
divididos por 7:

7. Dividir 100 em duas parcelas positivas tais que uma é multipla de 7 e a


outra de 11:
8. Ache um inteiro positivo que é igual a 7 vezes o algarismo de sua unidade.
9. Determinar as duas menores frações positivas que tenham 13 e 17 para
denominadores e cuja soma seja igual a
305
221

10. Encontre as soluções inteiras do sistema de equações lineares

3x 6y + 16z =1
2x + 5y 6z =2

11. Resolva a equação diofantina 3x + 5y + 6z = 4:


12. Mostre que se a e b são inteiros positivos primos entre si, então a equação
diofantina
ax by = c
tem um número in…nito de soluções inteiras e positivas.
94 CAPÍTULO 3. DIVISIBILIDADE EM Z
Capítulo 4

Números Primos
1

Neste capítulo, apresentaremos o conceito de número primo e exploramos


algumas caracterizações sobre os números primos.

4.1 Conceitos e propriedades


Já sabemos desde o Ensino Fundamental que todo inteiro inteiro positivo
n > 1 tem pelo menos dois divisores positivos, a saber 1 e n:

De…nição 4.1 Dizemos que um inteiro p é primo se seguintes condições são


satisfeitas:

a) p 6= 0 e p 6= 1;
b) Se p = ab com a; b 2 Z , então a = 1 ou b = 1.
Assim, um inteiro p é um número primo quando p 6= 1 e seus únicos
divisores positivos são 1 e jpj : Como p é primo se, e somente se, p é primo, nos
restringiremos apenas aos primos positivos. Por exemplo, os primeiros primos
positivos são
2; 3; 5; 7; 11; 13; 17; : : :

De…nição 4.2 Um número n 2 Z é chamado composto se as seguintes condições


são satisfeitas:

a) n 6= 1;
b) Existem a; b 2 Z tais que 1 < jaj < jnj, 1 < jbj < jnj com n = ab:
Os primeiros números compostos positivos2 são

4; 6; 8; 9; 10; 12; 14; 15; : : :

Proposição 4.1 Se p é um número primo tal que p - a; onde a 2 Z; então o

mdc(a; p) = 1
1 Autores: Klinger, D.A.S. & Santos, J.S.R.

2 Daqui em diante, também nos restrigiremos apenas aos números compostos positivos.

95
96 CAPÍTULO 4. NÚMEROS PRIMOS

Prova. Seja o d = mdc(a; p): Então


d j a e d j p:
Se d j p; então d = 1 ou d = p; pois p é um número primo. Mas d não pode ser
igual a p; pois p - a: Logo, d = 1 ou seja, mdc(a; p) = 1:

Por exemplo, 2 é um número primo tal que 2 - 3; de modo que mdc(2; 3) = 1:


Como conseqüência do Lema 3.2, temos o seguinte resultado: Um primo divide
um produto, somente se ele divide um dos fatores.
Proposição 4.2 Seja p > 2 um número primo e a; b 2 Z : Se p j ab; então
p j a ou p j b
Prova. Suponhamos p j ab e p - a: Agora p - a signi…ca pela Proposição 4.1,
que o mdc(a; p) = 1 e pelo Lema 3.2, temos que p j b:

Exemplo. O número 5 em Z é primo.


Com efeito, suponhamos que 5 j ab: Pelo Teorema 3.1, temos
a = 5q1 + r1 onde 0 6 r1 < 5
e
b = 5q2 + r2 onde 0 6 r2 < 5
Logo,
ab = 5 (5q1 q2 + q1 r2 + q2 r1 ) + r1 r2
Como 5 j ab; temos que 5 j r1 r2 : Logo, r1 r2 = 0; pois 0 6 r1 < 5 e 0 6 r2 < 5 e
portanto,
5 j a ou 5 j b
p
Exemplo. Seja p > 2 um número primo. Então p 2 = Q:
p
Suponhamos por absurdo que p 2 Q: Então existem r; s 2 Z tais que
p r
p= onde mdc (r; s) = d
s
Já vimos que se mdc (r; s) = d; então existem a; b 2 Z tais que
r = da; s = db e mdc (a; b) = 1
Assim,
p r da a
p= = = com mdc (a; b) = 1
s db b
isto é, podemos tomar
p a
p= com mdc (a; b) = 1
b
a2 = pb2 (*)
2
Assim, p j a e pela Proposição 4.2, concluimos que p j a; digamos a = p ; onde
2 Z: Agora, substituindo a = p em (*) encontramos p 2 = b2 ; que implica
p j b2 e novamente, pela Proposição 4.2, obtemos p j b; que é uma contradição,
pois mdc (a; b) = 1:

A Proposição 4.2, pode ser estendido imediatamente para um produto qual-


quer de inteiros.
4.1. CONCEITOS E PROPRIEDADES 97

Corolário 4.1 Se p é um número primo e p j p1 p2 pn , onde p1 ; p2 ; : : : ; pn


são números primos, então p = pi para algum i = 1; 2; : : : ; n.

Prova. Pela Proposição 4.2, p j pi para algum i = 1; 2; : : : ; n. Agora, os únicos


divisores de pi são 1 e pi , pois os pi são primos. Assim, p = 1 ou p = pi ; mas
p > 1 pois p é primo. Logo, p = pi :

Teorema 4.1 Se n 2 Z, com jnj > 1, então existe um número primo p que
divide n.

Prova. Podemos supor que n > 1, pois se n < 1, então n > 1. Seja

S = fq 2 N : 1 < q < n e q j ng

Temos que S 6= ?; pois n 2 S: Pelo Princípio da Boa Ordem, S possui um


elemento mínimo, digamos p. Como p 2 S então p j n:

A…rmação: p é um número primo.


Suponha por absurdo que p seja um número composto. Então p = bc com
1 < b < p e 1 < c < p, isto é, p admite pelo menos um divisor, digamos b tal
que 1 < b < p e b j p. Como

bjpepjn)bjn

que é uma contradição, pois p é o elemento mínimo de S: Logo, existe um número


primo p que divide n.
Exemplo. Sejam a; b 2 Z tais que mdc(a; b) = 1. Mostre que

mdc(3a b; 2a + b) = 1 ou 5

Suponha que o mdc(3a b; 2a+b) = d > 1. Pelo Teorema 4.1, existe um número
primo p tal que p j d. Então p j (3a b) e p j (2a + b) e daí, existem x; y 2 Z
tais que
3a b = px e 2a + b = py
ou, equivalentemente,

5a = p(x + y) e 5b = p(3y 2x)

Logo,
p j 5a ou p j 5b ) p j mdc(5a; 5b)
Como o mdc(a; b) = 1 temos que p j 5, isto é, p = 5. Assim, 5 é o único número
primo que divide d e a maior potência de 5 que o divide é 50 = 1. Portanto,

mdc(3a b; 2a + b) = 1 ou 5

Teorema 4.2 (Fundamental da aritmética) Todo n 2 Z f 1; 0; 1g pode


ser escrito de modo único, a menos da ordem dos fatores, na forma

n=c p1 p2 pr

onde c = 1 e p1 ; p2 ; : : : ; pr são números primos.


98 CAPÍTULO 4. NÚMEROS PRIMOS

Prova. (Existência)
Basta mostrarmos o caso em que n > 1, pois se n < 1, então n > 1. Se
n = p é um número primo, a a…rmação …ca clara (r = 1): Se n é um número
composto, então pelo Teorema 4.1, existe um número primo, digamos p1 tal que
p1 j n: Seja n = n1 p1 onde n1 < n: Se n1 for primo, então

n = n1 p1

é a fatoração procurada. Senão com o mesmo argumente anterior existe um


número primo digamos p2 tal que p2 j n1 : Seja n1 = n2 p2 onde n2 < n1 : Se
n2 for primo, então
n = n 2 p2 p 1
é a fatoração procurada. Senão prosseguimos. Note que temos uma seqüência
estritamente decrescente
n > n1 > n2 >
de inteiros positivos. Assim, existe r > 1 tal que nr = 1. Logo,

n = p1 p2 pr

(unicidade) Suponha que exista n > 1 tal que

n = p1 p2 pr = q 1 q2 qs

onde p1 ; p2 ; : : : ; pr ; q1 ; q2 ; : : : ; qs são números primos e

p1 6 p 2 6 6 pr tal como q1 6 q2 6 6 qs

Temos que
p1 j q 1 q2 qs
de onde concluimos, aplicando-se o Corolário 4.1, que p1 tem que dividir um
dos fatores q1 ; q2 ; : : : ; qs . Logo,existe k = 1; 2; : : : ; s tal que p1 j qk . Como p1 e
qk são primos, temos p1 = qk > q1 : De modo análogo, q1 j pt para t = 1; 2; : : : ; r
e segue q1 = pt > p1 : Assim, p1 = q1 : Agora, de

p1 p2 pr = q 1 q2 q s ) p2 pr = q 2 qs

Por indução concluimos que r = s e p1 = q1 ; p2 = q2 ; p3 = q3 ; : : : ; pr = qr :

A decomposição do inteiro positivo n = 120 num produto de fatores primos


é
n=2 2 2 3 3 5 = 23 32 5
Note que os números primos 2 e 3 aparecem mais de uma vez. Assim, é comum
formular o Teorema Fundamental da Aritmética da seguinte forma.

Corolário 4.2 Para todo inteiro n positivo existem únicos primos distintos
p1 ; p2 ; : : : ; pr (os quais podemos supor p1 < p2 < < pr ) e únicos 1 ; 2 ; : : : ; r 2
N de tal maneira que
r
Y
n = p 1 1 p2 2 pr r = pi i
i=1
4.1. CONCEITOS E PROPRIEDADES 99

O produto p1 1 p2 2 pr r é chamado de decomposição canônica de n:

Exemplo. Determine todas as soluções da equação x2 y = 108; onde x; y 2 Z:


É claro que y > 0 e o sinal de x é irrelevante. Como 108 = 22 33 temos que
os fatores primos de x e y são fatores primos de 108: Assim,

x= 2 13 2
e y = 2 13 2

onde 1; 2; 1; 2 2 N: Concluimos que


2
x2 y = ( 2 1 3 2 ) 2 13 2 = 22 1+ 1
32 2+ 2
= 22 33

Pelo Teorema 4.2, temos 2 1 + 1 = 2 e 2 2 + 2 = 3: Como 1; 2; 1; 2 2 N;


temos
2 1 + 1 = 2 , ( 1 = 0 e 1 = 2) ou ( 1 = 1 e 1 = 0)
e
2 2 + 2 =3,( 2 =0e 2 = 3) ou ( 2 =1e 2 = 1)
Logo, todas as soluções são: ( 1; 108) ; ( 3; 12) ; ( 2; 27) ; ( 6; 3) :

Observação: Se n 2 N e

n = p1 1 p2 2 pr r

sua decomposição canônica em fatores primos distintos com i > 0. Um número


m 2 N é divisor de n se e, somente se, é da forma

m = p1 1 p2 2 pr r

onde 0 6 6 i para todo i = 1; 2; : : : ; r:


i
r
Y
Seja m = pi i com 0 6 i 6 i para todo i = 1; 2; : : : ; r: Temos
i=1

r
! r r r
Y Y Y Y
i
m pi i
= pi i pi i i
= pi i = n
i=1 i=1 i=1 i=1

r
Y
onde pi i i
2 N; pois 0 6 1 i para todo i = 1; 2; : : : ; r: Logo, m é um
i=1
divisor de n: Reciprocamente, suponhamos que m divide n. Então existe q 2 N

tal que
n = mq
o Teorema 4.2, garante que não possui fatores primos de m que não sejam
fatores primos de n: Como nem todos os fatores primos de n precisam estar na
decomposição de m em primos. Logo m é da forma

m = p1 1 p2 2 pr r

onde 0 6 i 6 i:
100 CAPÍTULO 4. NÚMEROS PRIMOS

Proposição 4.3 Sejam m e n dois inteiros positivos com mdc (m; n) = 1: En-
tão
d j mn
se, e somente se, d = ab com a j n e d j m:

Prova. Sejam

n = p1 1 p2 2 pr r e m = q 1 1 q2 2 qs s

as decomposições de m e n: Como mdc (m; n) = 1 os conjuntos

fp1 ; p2 ; : : : ; pr g e fq1 ; q2 ; : : : ; qs g

são disjuntos. Assim,

mn = p1 1 p2 2 pr r q 1 1 q2 2 qs s

é a decomposição de mn: Portanto, se d j mn; então

d = pa1 1 pa2 2 par r q1b1 q2b2 qsbs

com 0 6 ai 6 i; i = 1; 2; : : : ; r e 0 6 bj 6 j; j = 1; 2; : : : ; s: De…nindo

a = pa1 1 pa2 2 par r e b = q1b1 q2b2 qsbs

temos d = ab com a j n e d j m: A recíproca é trivial.


A decomposição canônica é útil para determinar o mdc e o mmc de dois
inteiros.

Proposição 4.4 Sejam a; b 2 N;

a = p1 1 p2 2 pr r e b = p 1 1 p2 2 pr r

suas decomposições em fatores primos distintos, com, i >0e i > 0 para todo
i = 1; 2; : : : ; r: Então
r
Y r
Y
min( i; i) max( i; i)
mdc (a; b) = pi e mmc (a; b) = pi
i=1 i=1

Prova. Como min ( i ; i) 6 i e min ( i ; i) 6 i; temos que


r
Y min( i; i)
d= pi
i=1

é um divisor de a e b isto é,
djaedjb
0
Por outro lado, se d é um divisor de a e b, então

d0 = pu1 1 pu2 2 pur r

onde ui 6 i e ui 6 i para i = 1; 2; : : : ; n: Como para cada índice i

ui 6 min f i ; ig
4.1. CONCEITOS E PROPRIEDADES 101

pois min f i ; ig = i ou min f i ; ig = i: Assim, d0 j d: Logo,


r
Y min( i; i)
mdc (a; b) = pi
i=1

Como max ( i ; i) > i e max ( i ; i) > i; temos que


r
Y max( i; i)
m= pi
i=1

é um múltiplo de a e b isto é,
ajmebjm
Por outro lado, se m0 é um múltiplo de a e b, então
m0 = pu1 1 pu2 2 pur r
onde ui > i e ui > i para i = 1; 2; : : : ; n: Como para cada índice i
ui > max f i ; ig

pois max f i ; ig = i ou max f i ; ig = i :: Assim, m0 j m: Logo,


r
Y max( i; i)
mmc (a; b) = pi
i=1

Pela Proposição 4.4, podemos dizer que o máximo divisor comum de inteiros
positivos é o produto dos fatores primos comuns, cada com o menor expoente e
o mínimo múltiplo comum de inteiros é o produto dos fatores primos comuns,
cada com o maior expoente.
Exemplo. Calcule o mdc (1998; 2000) e o mmc (1998; 2000) :
Como 1998 = 2 33 37 e 2000 = 24 53 de modo que podemos escrever:
1998 = 21 33 50 371
e
2000 = 24 30 53 370
Assim,
mdc (1998; 2000) = 21 30 50 370 = 2
e
mmc (1998; 2000) = 24 33 53 371 = 1998000

4.1.1 Problemas resolvidos


01. Sejam n 2 N e p um número primo. Mostrar que se p j an , então pn j an .
Solução. Seja a = p1 p2 pr a decomposição canônica de a em fatores
primo e portanto,
an = pn1 pn2 pnr
Se p j an ; então p é um fator primo de an , e portanto, pn é um fator primo de
an : Logo, pn j an .
102 CAPÍTULO 4. NÚMEROS PRIMOS

02. Determine todos os primos p tais que 17p + 1 é um quadrado perfeito.

Solução. Por hipótese 17p + 1 = k 2 onde k 2 N ou seja,

17p = (k + 1) (k 1)

Pelo Teorema 4.2, temos

k + 1 = p k + 1 = 17
ou
k 1 = 17 k 1 = p

Se k 1 = 17; então p = 19
Se k + 1 = 17, então p = 15 que não é primo. Logo, o único primo é p = 19:

03. Seja n é um inteiro maior do que 1. Se n2 + 2 é primo, então 3 j n:

Solução. Suponha por absurdo que 3 - n: Então pelo Teorema 3.1,

n = 3k 1 onde k 2 N

Assim,
2
n2 + 2 = (3q 1) + 2 = 9q 2 6q + 1 + 2 = 3 3q 2 2q + 1
que é uma contradição, pois n2 + 2 é primo.

04. Mostre que todo primo da forma 3n + 1 é também da forma 6m + 1:

Solução. Se 3n + 1 é um número primo, então n é um número par isto é,


n = 2m: Logo,
3n + 1 = 3 (2m) + 1 = 6m + 1

05. Seja n 2 Z; tal que n2 é a soma de um quadrado perfeito e um número


primo. Mostrar que 2n 1 é um número primo.

Solução. Por hipótese, temos

n2 = k 2 + p

onde p é um número primo e k 2 N:Então

p = n2 k 2 = (n + k) (n k)

e pelo Teorema 4.2, temos

n + k = p
n k = 1

Somando as duas equações obtemos p = 2n 1:

06. Seja Un = 111 : : : 1 um número formado por n10s. Provar que Un é primo
implica n primo.
4.1. CONCEITOS E PROPRIEDADES 103

Solução. Suponha por absurdo que n seja composto isto é, n = ab com 1 <
a < n e 1 < b < n: Temos a decomposição

Un = 111 : : : 1
10n 1
=
9
10ab 1
=
9
1
= (10a 1) 10a(b 1)
+ 10a(b 2)
+ + 10a + 1
9
a
com (10 9 1)
> 1 e 10a(b 1)
+ 10a(b 2)
+ + 10a + 1 > 1; pois a > 1 e b > 1.
Logo,
Un = 111 : : : 1
é composto que é uma contradição. Portanto, n é primo.

07. Sejam a; n 2 N com a > 2: Se an 1 for primo, então a = 2 e n é primo.

Solução. Como

an 1 = (a 1) an 1
+ an 2
+ +a+1

e an 1 + an 2 + + a + 1 > 1; pois a > 2: Ora, se an 1 for primo, concluimos


que a 1 = 1, ou seja a = 2. Suponhamos por absurdo que n seja composto
isto é, n = rs com r > 1 e s > 1. Temos a decomposição

an 1 = ars 1 = (as 1) as(r 1)


+ as(r 2)
+ + as + 1

na qual as 1 > 1 e as(r 1) + as(r 2) + + as + 1 > 1; pois s > 1: Logo,


n
a 1 é composto que é uma contradição, pois an 1 é primo. Portanto, n é
um número primo.

08. Mostre que n4 + 4 é um número composto para todo n 2 N, com n > 2.

Solução. Para todo n 2 N, temos


2
n4 + 4 = n4 + 4n2 + 4 4n2 = n2 + 2 4n2 = n2 + 2n + 2 n2 2n + 2

Temos que
2
n2 + 2n + 2 = n2 + 2n + 1 + 1 = (n + 1) + 1 > 1

e
2
n2 2n + 2 = (n 1) + 1 > 1
Portanto, n4 + 4 é um número composto.

09. Mostre que n4 + n2 + 1 é um número composto para todo n 2 N, com


n > 1.
104 CAPÍTULO 4. NÚMEROS PRIMOS

Solução. Para todo n 2 N, temos


2
n4 + n2 + 1 = n4 + 2n2 + 1 n2 = n2 + 1 n2 = n2 + n + 1 n2 n+1

Como n > 1; segue-se que n2 + n + 1 > 1 e


2
n2 n + 1 = (n 1) + n > 1

Portanto, n4 + n2 + 1 é composto.

10. Mostre que todo inteiro ímpar é da forma 4k + 1 ou 4k 1 onde k é um


inteiro positivo.

Solução. Pelo Teorema 3.1, n = 4k + r onde r 2 f0; 1; 2; 3g : Como n é ímpar,


temos que r não pode ser 0 e 2: Assim, r só pode ser 1 e 4 e portanto,

n = 4k + 1

e
n = 4k + 3 = 4k + 4 1 = 4 (k 1) 1

11. Prove que todo número natural do tipo 4n+3 admite um divisor do mesmo
tipo.

Solução. Os divisores primos ímpares de 4n + 3 são de dois tipos: 4k + 1 ou


4s + 3: Se todos os divisores fossem do tipo 4k + 1, então

4n + 3 = (4k1 + 1) (4k2 + 1) (4kn + 1)


= 4k + 1

que é uma contradição. Portanto, 4n + 3 admite um divisor primo do mesmo


tipo.

12. Mostre que todo primo p > 3 é da forma 6k 1 onde k é um inteiro


positivo.

Solução. Pelo Teorema 3.1, p = 6k + r onde r 2 f0; 1; 2; 3; 4; 5g : Se r = 0; 2


ou 4; então p é claramente um número par. Se r = 3; então p é um múltiplo de
3:Como p > 3 é primo, temos que r só pode ser 1 e 5 e portanto,

p = 6k + 1

ou
p = 6k + 5 = 6k + 6 1 = 4 (k 1) 1
4.1. CONCEITOS E PROPRIEDADES 105

4.1.2 Problemas propostos


1. Achar todos os pares de primos p e q, tais que p q = 3.
2. Achar todos os pares de primos p e q, tais que p2 2q 2 = 1.
3. Se n é um inteiro e n3 1 é primo, mostre que n = 2 ou n = 1:
4. Determine todos inteiros positivos n tais que n; n + 2 e n + 4 são todos
primos.
5. Determine todos os primos p tais que p e 8p2 + 1 são primos.
6. Ache todos os primos que são divisores de 50!:
7. Seja n > 4 um número inteiro composto. Prove que n divide (n 1)!:
8. Sejam a; b 2 Z tais que mdc (a; b) = 1: Mostre que mdc (am ; bn ) = 1; para
quaiquer m; n 2 N:
9. Se mdc (a; b) = d; prove que mdc a2 ; b2 = d2 :

10. Mostrar que se p é primo, então p j p


n onde 1 6 n 6 p 1:
11. Encontre todos os primos p tais que p; 2p + 1; e 4p + 1 sejam todos primos.
12. Se p e p2 +2 são ambos números primos, prove que p3 +2 também é primo.
13. Seja p 6= 5 um número primo ímpar. Prove que 10 j p2 1 ou 10 j
p2 + 1 :

14. Se p > q > 5 e se p e q são ambos primos, então 24 j p2 q2 :


15. Mostre que todo inteiro pode escrever-se sob a forma 2k m onde o inteiro
k > 0 e m é um inteiro ímpar.
16. Se 2n 1 é um número primo, então n também o é.
17. Determinar todos os pares a; b 2 N tais que
ab
=p
a+b
onde p é um número primo.
18. Sejam a; b 2 N tais que mdc(a; b) = 1 e n = ab. Mostrar que existem
r; s 2 N tais que
m r s
= +
n a b
19. Mostrar que se an + 1, com n 2 N e a > 1, é um número primo, então a é
par e n é uma potência de 2.
20. Sejam a e b dois inteiros e p um número primo. Prove que, se p divide
a2 b2 e p divide a2 2b2 ; então p divide a e p divide b:
21. Sejam a e b números naturais tais que mmc (a; b) = mmc a2 ; b : Prove
que a2 j b:
106 CAPÍTULO 4. NÚMEROS PRIMOS

22. Seja p um número primo ímpar. Determine, em função de p, as medidas


dos lados de todos os triângulos retângulos cujos lados têm como medidas
números naturais primos entre si e em que um dos catetos mede p cm:

23. Se p > 3 é primo, prove que o resto da divisão de p2 por 12 é igual a 1:

4.2 Divisores de um inteiro


Já vimos que se n 2 N e

n = p1 1 p2 2 pr r

sua decomposição canônica em fatores primos distintos com i > 0. Um número


m 2 N é divisor de n se e, somente se, é da forma

m = p1 1 p2 2 pr r

onde 0 6 i 6 i para todo i = 1; 2; : : : ; r:


Exemplo. Os divisores positivo de

n = 120 = 23 3 5

é o inteiro m da forma m = 2 1 3 2 5 3 onde

1 2 f0; 1; 2; 3g ; 2 2 f0; 1g onde 3 2 f0; 1g

Assim, tomando por exemplo, 1 = 0; 2 =1e 3 = 1; encontramos

m = 20 31 51

e portanto, seguindo este raciocínio, podemos encontrar todos os divisores de


m = 120:
Como o conjunto dos divisores de um número n 2 N é …nito, então podemos
determinar a quantidade dos divisores de n:

De…nição 4.3 Seja n 2 N: O número de divisores positivos de n (inclusivo 1


e n) é denotado por
(n) = # fm : m j ng

Exemplo. (10) = # fm : m j 10g = # f1; 2; 5; 10g = 4: Como os únicos


divisores positivos de um número primo p são 1 e p; logo, (p) = 2: Em geral,

(pn ) = # fm : m j pn g = # 1; p; p2 ; : : : ; pn = n + 1

Proposição 4.5 Seja n 2 N escrito como

n = p1 1 p2 2 pr r

com p1 ; p2 ; : : : ; pr primos distintos e 1; 2; : : : ; r 2 N. Então

(n) = ( 1 + 1) ( 2 + 1) ( r + 1)
4.2. DIVISORES DE UM INTEIRO 107

Prova.
Exemplo. O número de divisores positivos de n = 120 = 23 3 5 é

(n) = (3 + 1) (1 + 1) (1 + 1) = 16

Exemplo. Ache o menor inteiro positivo n tal que (n) = 10:


Como10 = 5 2; temos pela Proposição 4.5,

( 1 + 1) ( 2 + 1) = 5 2) 1 =4e 2 =1

ou
( 1 + 1) ( 2 + 1) = 2 5) 1 =1e 2 =5
Conclui-se assim, que há dois números naturais que tem 10 divisores posi-
tivos: 24 3 e 2 34 : Uma vez que

24 3<2 34

o menor inteiro positivo com 10 divisores é 24 3 = 48:


Vamos agora de…nir a soma dos divisores positivo de um inteiro positivo.
Observação: Se n é um inteiro positivo, então a soma dos valores de f (t)
quando t é igual a cada um dos divisores positivos de n será denotada por
X
f (t)
tjn

Por exemplo,
X
f (t) = f (1) + f (2) + f (5) + f (10)
tj10

Assim, podemos denotar


X
(n) = 1
tjn

Exemplo.
X
(12) = 1=1+1+1+1+1+1=6
tj12

De…nição 4.4 Uma função aritmética é toda função de…nida para todos os
inteiros positivos.

Por exemplo, a função


X
(n) = 1
tjn

é uma função aritmética.

De…nição 4.5 Uma função aritmética f é dita uma função aritmética multi-
plicativa se
f (mn) = f (m) f (n)
para todo (m; n) 2 N N tal que mdc (m; n) = 1:
108 CAPÍTULO 4. NÚMEROS PRIMOS

Exemplo. As funções f (t) = 1 e g (t) = t são funções multiplicativas pois,


f (rs) = 1 = 1 1 = f (r) f (s)
e
g (rs) = rs = g (r) g (s)
para todo r; s 2 N:
Teorema 4.3 Se f (t) é uma função multiplicativa então,
X
F (t) = f (t)
tjn

é multiplicativa.
Prova. Vamos mostrar que F (mn) = F (m) F (n) para mdc (m; n) = 1: Por
de…nição X
F (mn) = f (t)
tjmn

Como mdc (m; n) = 1 e t j mn, segue-se da Proposição 4.3, que r j m, s j n e


t = rs, além disso, mdc (r; s) = 1: Logo,
X X
F (mn) = f (t) = f (rs)
tjmn rjm; sjn

Por outro lado, sendo f multiplicativa, temos f (rs) = f (r) f (s) e portanto,
X XX X X
F (mn) = f (r) f (s) = f (r) f (s) = f (r) f (s) = F (m) F (n)
rjm; sjn rjm sjn rjm sjn

Observação: Como f (t) = 1 é uma função multiplicativa, temos que


X (n) =
1 é uma função multiplicativa, isto é,
tjn

(mn) = (m) (n)


De…nição 4.6 Para todo n 2 N indicamos por
X
(n) = t
tjn

a soma de todos os divisores de n:


Exemplo.
(10) = 1 + 2 + 5 + 10 = 18
e
(6) = 1 + 2 + 3 + 6 = 12
Como os únicos divisores positivos de um número primo p são 1 e p; logo,
(p) = p + 1: X
Observação: Como f (t) = t é multiplicativa, temos que (n) = t é tam-
tjn
bém multiplicativa, isto é,
(mn) = (m) (n)
4.2. DIVISORES DE UM INTEIRO 109

Proposição 4.6 Seja n = p para algum primo p e > 0: Então


+1
p 1
(p ) =
p 1

Prova. Temos que 1; p; p2 ; : : : ; p são os divisores de n = p : Logo,


X p +1
1
(p ) = t = 1 + p + p2 + +p =
p 1
tjp

Corolário 4.3 Se
n = p1 1 p 2 2 pr r
é a decomposição canônica em fatores primos distintos com i > 0; então
r
Y i +1
p i 1
(n) =
i=1
pi 1

Prova. Como (n) é uma função multiplicativa, temos pela Proposição 4.6,
r
Y i +1
p i 1
(n) = (p1 1 p2 2 pr r ) = (p1 1 ) (p1 2 ) (p1 r ) =
i=1
pi 1

Exemplo. A soma dos divisores positivos de n = 120 = 23 3 5 é

24 1 32 1 52 1
(120) = = 15 4 6 = 360
2 1 3 1 5 1

Vamos agora, classi…car os números naturais sob o aspecto de comparar (n)


com n; pela seguinte de…nição:

De…nição 4.7 Um número n 2 N; chama-se

a) de…ciente, se (n) < 2n;


b) perfeito, se (n) = 2n;
c) abundante, se (n) > 2n:
Exemplo. O número n = 6 é perfeito, pois

(6) = 1 + 2 + 3 + 6 = 2 6

Porém, n = 12 é abundante, pois

(12) = 1 + 2 + 3 + 4 + 6 + 12 = 28 > 2 12

Podemos veri…car que n = 15 é um número de…ciente.


n n n
Observação: Se d1 ; d2 ; : : : ; dr são divisores de n; então d1 ; d2 ; : : : ; dr também
são divisore de n:
De fato, como
n n
j n , existe n = di
di di
110 CAPÍTULO 4. NÚMEROS PRIMOS

temos,
n
fdi 2 N : di j ng = 2 N : di j n
di
Por exemplo, para os divisores de 6 temos
6 6 6 6
f1; 2; 3; 6g = ; ; ;
1 2 3 6
Proposição 4.7 O produto dos divisores positivos de um inteiro positivo n > 1
(n)
é igual a n 2 :

Prova. Temos que


0 12 0 10 1 0 1
Y Y Yn Y n Y
@ tA = @ t A @ A= (t ) = @ nA
t t
tjn tjn tjn tjn tjn

Por outro lado, já sabemos que


n
Y
a = an
i=1

Como a quantidade dos fatores do produto


Y
n
tjn

é (n) ; temos que


0 12
Y
@ tA = n (n)

tjn

e portanto, Y (n)
t=n 2

tjn

Exemplo. O produto dos divisores positivos de n = 12 = 22 3 é


Y (12) 6
t = 12 2 = 12 2 = 123
tj120

4.2.1 Problemas Resolvidos


01. Ache um inteiro positivo n da forma 28 15m que admite 54 divisores
positivos.

Solução. Note que


n = 28 15m = 22 3m 5m 7
e pela Proposição 4.5, temos
2
(n) = (2 + 1) (m + 1) (m + 1) (1 + 1) = 54 ) (m + 1) = 9

Segue-se que m = 2:
4.2. DIVISORES DE UM INTEIRO 111

02. a) Ache o número de divisores de 4000:

b) Determine (4000) :
c) Resolva a equação (n) = 399:
Solução.
a) Como 4000 = 25 53 ; pela Proposição 4.5, temos

(4000) = (5 + 1) (3 + 1) = 24

divisores.
b) Pelo Corolário 4.3, temos

26 1 54 1
(4000) = = 63 156 = 9828
2 1 5 1

c) Inicialmente, note que (n) = 399 = 3 7 19. Se pk é a maior potência


de p que divide n; então

pk j (n) = 3 7 19 ) pk =

onde 2 f3; 7; 19; 3 7 = 21; 3 19 = 57; 7 19 = 133; 3 7 19 = 399g :

Para = 3 tome p = 2 e k = 1, pois 3 = 1 + 2:


Para = 7 tome p = 2 e k = 2; pois 7 = 1 + 2 + 22 :

Para estudar os demais casos convém observar:

pk = ) 1 + p + p2 + + pk = )pj( 1)

Para = 19; temos 19 1 = 18 = 2 32 e portanto, p = 2, ou p = 3 é


impossível.
Para = 21; temos 21 1 = 20 = 22 5 e portanto, p = 2; ou p = 5 é
impossível.
Para = 57; temos 57 1 = 56 = 23 7 e portanto, p = 2; ou p = 7:
tomando p = 7 e k = 2 temos

1 + 7 + 72 = 57

Para = 133; temos 133 1 = 132 = 22 3 11 e portanto, p = 2; ou


p = 3; ou p = 11: tomando p = 11 e k = 2 temos

1 + 11 + 112 = 133

Para = 399; temos 399 1 = 398 = 2 199 e portanto, p = 2; ou p = 199


é impossível.

Finalmente, como 399 = 3 133 = 7 57; então a equação (n) = 399 tem
duas soluções:
n = 2 112 tal que n = 22 72
112 CAPÍTULO 4. NÚMEROS PRIMOS

03. Calcule (n) ; sendo n o menor número natural que é múltiplo de 15 e que
exatamente 10 divisores positivos.
Solução. Seja n o menor número natural que é múltiplo de 15 e que exatamente
10 divisores positivos e seja
n = p1 1 p2 2 pr r
a sua decomposição canônica. Como 15 = 3 5; n é múltiplo de 15 se, e somente
se,
r > 2 tal que 3; 5 2 fp1 ; p2 ; : : : ; pr g
Suponhamos que p1 = 3 e p2 = 5: Como10 = 5 2; temos pela Proposição 4.5,
( 1 + 1) ( 2 + 1) = 5 2) 1 =4e 2 =1
ou
( 1 + 1) ( 2 + 1) = 2 5) 1 =1e 2 =5
Conclui-se assim, que há dois números naturais que são múltiplo de 15 e têm
10 divisores positivos: 34 5 e 3 54 : Uma vez que
34 5<3 54
o menor inteiro positivo múltiplo de 15 e com 10 divisores é 34 5: Pelo corolário
4.3, temos
35 1 52 1
34 5 = = 242 3 = 726
3 1 5 1
04. Se k > 2 é tal que p = 2k 1 é primo, então n = 2k 1
(2k 1) é um número
perfeito.
Solução. Como o mdc 2k 1
; 2k 1 = 1; pelo Corolário 4.3, temos
k 1 k k 1
(n) = 2 (2 1) = 2 p = 2k 1 (1 + p) = 2k 1 2k = 2 2k 1
(2k 1)
e portanto, (n) = 2n:
05. Seja n 2 N: Então n é um quadrado perfeito se, e somente se, (n) é
ímpar.
Solução. Seja
n = p1 1 p2 2 pr r
a decomposição canônica de n em fatores primos distintos com i > 0: Como n
é um quadrado perfeito, então todos os expoentes são pares e portanto,
1 + 1; 2 + 1; : : : ; r +1
são ímpares. Logo, o produto
( 1 + 1) ( 2 + 1) ( r + 1) = (n)
é ímpar. A recíproca é trivial.
6. Mostre que a média aritmética dos divisores positivos do inteiro n > 1 é
(n)
igual a (n) :
Solução. Sejam d1 ; d2 ; : : : ; dr todos os divisores positivos do inteiro n > 1:
Assim,
d1 + d2 + + dr (n)
x= =
r (n)
4.3. O CRIVO DE ERASTÓSTENES E A DISTRIBUIÇÃO DOS NÚMEROS PRIMOS113

4.2.2 Problemas Propostos


1. Calcule (pq) ; p2 q e p3 q onde p e q são dois números primos.
2. Ache o menor inteiro positivo tal que (n) = 6:
3
3. Ache o inteiro positivo da forma 2 5m 7n que admite 84 divisores
positivos.
4. Ache o menor inteiro positivo divisível por 175 e que admite 20 divisores
positivos.
5. Determine os inteiros positivos m e n tais que

mdc (m; n) = 1250; (m) = 21 e (n) = 10

6. Seja n um inteiro perfeito. Mostre que


X1
=2
d
djn

7. Seja H a média harmônica dos divisores positivos de n: Mostre que


1 1 X1
=
H (n) d
djn

8. Mostre que
(n) p
> n
(n)
9. Determine o menor inteiro positivo n tal que
n2
=3
(n)

10. Prove que um número perfeito nunca é o produto de dois primos ímpares.
11. Determine o inteiro positivo que é múltiplo de 7; termina em 00 e tem 18
divisores.
12. Determine todos os inteiros positivos que tem exatamente 6 divisores pos-
itivos, sendo a soma destes divisores igual a 39:

4.3 O crivo de Erastóstenes e a distribuição dos


números primos
Nesta seção, vamos estabelecer um resultado que pode ser usado para tes-
tar se um número inteiro positivo n é primo e provaremos que o conjunto dos
números primos é in…nito e que funções polinomiais não lineares produzem uma
in…nidade de números compostos.
O Teorema 4.2, nos garante a existência de números primos, não nos dando
nenhum método para determinar primos. Faremos a seguir um método bem
antigo, que se baseia no seguinte resultado.
114 CAPÍTULO 4. NÚMEROS PRIMOS

Teorema 4.4 Se n p é um inteiro positivo composto, então n tem um divisor


primo p tal que p 6 n.

Prova. Sendo n um inteiro composto, podemos escrever n = rs com 1 < r < n


e 1 < s < n: Podemos supor r 6 s. Assim,
p
r2 6 rs = n ) r 6 n
Como r > 1; temos pelo p Teorema 4.1, que r tem pelo menos um divisor primo
de modo que p 6 r 6 n: Porp outro lado, como p j r e r j n; segue-se que p j n:
Portanto, o inteiro primo p 6 a e p j n:

Exemplo. Veri…que
p se n = 107 é um número primo, usando o Teorema 4.4.p
Temos que 107 t 10; 34. Os primos positivos menores que ou igual a 507
são:
2; 3; 5; 7
Como 107 não é divisível por nenhum dos primos 2; 3; 5 e 7: Logo, pelo
Teorema 4.4, temos que n = 107 é um número primo. Porém, o número n = 1998
é composto, pois
1998 = 2 33 37
O Teorema 4.4, é usado para listar os primos menores que ou iguais a n:
Este processo é chamado de Crivo de Erastóstenes3 que consiste listar menores
p
que ou igual a n e riscando os múltiplos dos primos menores que ou igual a n:
Por exemplo, para n = 40; temos

01 02 03 04/ 05 06/ 07 08/ 09/ 10/


11 12/ 13 14/ 15/ 16/ 17 18/ 19 20/
21/ 22/ 23 24/ 25/ 26/ 27/ 28/ 29 30/
31 32/ 33/ 34/ 35/ 36/ 37 38/ 39/ 40/

e portanto, os primos menores que 40 são: 2; 3; 5; 7; 11; 13; 17; 19; 23; 29; 31 e
37:

Uma pergunta bem natural, quando estudamos os números primos é, quantos


são os primos? A resposta foi dada por Euclides. O próximo Teorema, vamos
provar que os números primos formam uma seqüência ilimitada

2; 3; 5; 7; 11; : : : ; pn ; : : :

Teorema 4.5 (Euclides) O conjunto dos números primos é in…nito.

Prova. Seja P = fp1 ; p2 ; : : : ; pr g o conjunto de todos os primos positivos dis-


tintos, onde r > 1: Vamos mostrar que é possível “construir”um primo que está
fora de P: Assim, o conjunto P é in…nito. Consideremos o número natural

n = p1 p2 pr + 1 onde n > 2

Obviamente, n é um inteiro positivo maior que cada um dos primos p1 ; p2 ; : : : ; pr .


3 Eratóstenes (276 a.C.-194 a.C.), foi o terceiro bibliotecário da famosa Biblioteca de

Alexandria.
4.3. O CRIVO DE ERASTÓSTENES E A DISTRIBUIÇÃO DOS NÚMEROS PRIMOS115

Se n for primo, então n é o fator primo procurado.


Se n não é primo, então pelo Teorema 4.1, existe um número primo, dig-
amos q onde q j n:

Temos então q 2
= P; pois se q = pk para algum k 2 f1; 2; : : : ; rg ; então

q j p 1 p2 pr e q j n ) q j (n p1 p 2 pr )

e portanto, q j 1; o que contradiz o fato de q ser primo. Assim, n tem um fator


primo diferente dos primos p1 ; p2 ; : : : ; pr : Logo, nenhum conjunto …nito pode
abranger todos os primos.

Proposição 4.8 Para todo inteiro n > 1; seja pn o n- ésimo número primo,
então vale a estimativa n 1
pn 6 22

Prova. Para n = 1; temos


1 1
p1 = 2 6 22 = 21

que é certamente verdadeiro. Suponha que para todo 1 6 m 6 n tenhamos


m 1
pm 6 22

Pelo Teorema 4.5, já vimos que a = p1 p2 pn + 1 não pode ser divisível por
nenhum dos primos p1 ; p2 ; : : : ; pn : Logo, pn 6 a; pois o menor primo dividindo
a é pn+1 : Em particular, pn+1 6 a. Assim,
1 n 1 2
+2n 1
pn+1 6 p1 p2 pn + 1 6 21 22 22 + 1 = 21+2 +
+1

Como
1 + 22 + + 2n 1
= 2n 1
temos que n n n n
pn+1 6 22 1
+ 1 6 22 1
+ 22 1
= 22

Podemos observar que a cota superior para o tamanho de pn não é muito


boa. O próximo Teorema que vamos admitir sem demonstração tem uma cota
melhor.

Teorema 4.6 Para todo 2 6 n 2 N, existe sempre um número primo p com

n < p < 2n

Observação: Para o n-ésimo primo vale a estimativa pn 6 2n :


Com efeito, temos 2 = p1 6 21 : Pelo Teorema 4.6, temos

pn < pn+1 < 2pn

De pn 6 2n segue-se que
pn+1 6 2 2n = 2n+1
Devido a irregularidade dos números primo podemos notar que há em N
intervalos arbitrariamente grandes sem números primos.
116 CAPÍTULO 4. NÚMEROS PRIMOS

Proposição 4.9 Para todo n 2 N existe cn 2 N tal que os números consecutivos


1 + cn ; 2 + cn ; 3 + cn ; : : : ; n + cn
são todo compostos.
Prova. Dado n 2 N; tome cn = 1 + (n + 1)!: Como
2 j (n + 1)!; 3 j (n + 1)!; : : : ; (n + 1) j (n + 1)!
temos que
2 j [2 + (n + 1)!] = 1 + cn
3 j [3 + (n + 1)!] = 2 + cn
.. ..
. .
(n + 1) j [(n + 1) + (n + 1)!] = n + cn

Logo, nenhum dos números


1 + cn ; 2 + cn ; 3 + cn ; : : : ; n + cn
é primo.
Por exemplo, para n = 5
2 + 6! = 722; 3 + 6! = 723; 4 + 6! = 724; 5 + 6! = 725 e 6 + 6! = 726
nenhum número é primo.
A respeito da irregularidade dos números primos, uma pergunta bem simples
é: Quantos primos existem no intervalo de 1 a n? Para respoder esta pergunta
vamos estudar a distribuição dos números primos, que se refere à probabilidade
de um número natural escolhido ao acaso no intervalo [1; n] ser primo.
De…nição 4.8 Para todo x 2 R ; de…ne-se a função : R ! N de…nida por
(x) = # fp 2 P : 2 6 p 6 xg onde P = fp1 ; p2 ; : : : ; pr g
isto é, (x) é o número de primos menores ou iguais a x:
Exemplo.
(x) = 0 se 06x<2 ; (x) = 1 se 26x<3 ; (x) = 2 se 36x<5
e (100) = 25. Em geral: se
p1 = 2; p2 = 3; p3 = 5; : : :
é a seqüência dos números primos, então
(x) = r se pr 6 x < pr+1
para r 2 f1; 2; : : : ; rg : Já vimos que existem in…nitos primos, o teorema dos
números primos dá uma estimativa de quantos primos existem no intervalo de
1 até x; ou seja descreve a distribuição dos primos. No …nal do século passado
(1896), Hadamard4 provou o Teorema dos números primos que era conjecturado
por vários matemáticos, inclusive por Legendre5 e Gauss.
4 Jacques Hadamard (1865 1963), um dos matemáticos franceses mais in‡uentes dos sécu-
los XIX e XX e que trabalhou em diversos ramos da Matemática.
5 Adrien Marie Legendre (1752-1833), matemático francês, destacou-se na teoria dos

números e no estudo das funções elíptica.


4.3. O CRIVO DE ERASTÓSTENES E A DISTRIBUIÇÃO DOS NÚMEROS PRIMOS117

Teorema 4.7 (Teorema dos números primos) A função (x) aproxima-se


de lnxx ; à medida que x cresce indefeinidamente. Mais precisamente,

(x)
lim x =1
x!1
ln x

Não temos condição de demonstrar aqui resultados desta natureza, que re-
querem técnicas analíticas para a sua demonstração.
Observação: Como
(x)
lim ln x = 1 e lim ln x = 1
x!1 x x!1

temos que
(x)
(x) x ln x
lim = lim =0
x!1 x x!1 ln x
Assim, a porcentagem de um número natural escolhido ao acaso no intervalo
[1; x] ser primo é (x)
x e tende a zero à medida que x cresce isto é, a medida que
avançamos nos inteiros positivos é difícil encontrar um número primo.

4.3.1 Problemas Resolvidos


1. Seja n > 2. Mostre que entre n e n! existe pelo menos um número primo
p.

Solução. Considere m = n! 1; temos que m > 1. Pelo Teorema 4.1, existe


um número primo p tal que p j m. Claramente,

p 6 m < n! ) p < n!

Resta provar que n < p: Suponhamos por absurdo que p 6 n. Então p é um dos
fatores do produto 1 2 3 n = n! e, assim, p j n!. Logo,

p j n! e p j m ) p j (n! m) ) p j 1

que é uma contradição. Portanto, n < p < n!.

2. Seja n 2 N. Mostre que o conjunto dos números primos da forma 4n + 3


é in…nito.

Solução. Suponhamos, por absurdo, que o conjunto

P = fp1 ; p2 ; : : : ; pr g

seja …nito, onde p1 = 3; p2 = 7; p3 = 11; : : : Vamos mostrar que é pos-


sível “construir” um primo que está fora de P: Assim, o conjunto P é in-
…nito.Consideremos o número

N = 4p1 p2 pr 1 = 4(p1 p2 pr 1) + 3

e seja N = q1 q2 : : : qs onde q1 ; q2 ; : : : ; qs são números primos. Como todo ímpar


é da forma
4k + 1 ou 4k + 3
118 CAPÍTULO 4. NÚMEROS PRIMOS

e o produto
(4k1 + 1) (4k2 + 1) (4kn + 1) = (4t + 1)
onde t 2 N: Como N é da forma 4l + 3; então nem todo qi pode ter a forma
4ki + 1 ou seja, existe um número primo qi da forma 4s + 3. Temos que

qi 6= pk

para algum k 2 f1; 2; : : : ; rg : Se qi = pk ; então

qi j 4p1 p2 pr e qi j N ) qi j (4p1 p2 pr N)

e portanto, qi j 1; o que contradiz, o fato de qi ser primo. Logo, o conjunto P


não pode ser …nito.

3. Ache todas as soluções inteiras e positivas da equação (x) = 15:

Solução. Por de…nição, temos

(x) = 15 ) p15 6 x < p16 ) 47 6 x < 53

Logo, x = 47; 48; 49; 50; 51; 52:

4.3.2 Problemas Propostos


Capítulo 5

Aritmética Modular
1

Neste capítulo, apresentaremos a de…nição de “congruência módulo m”e os


Teoremas Chinês do Resto, de Fermat e de Euler. O leitor interessado em mais
detalhes deve consultar [?].

5.1 Congruência
O conceito de congruência, foi introduzido por Gauss2 em trabalho publicado
em 1801 (Disquisitiones Arithmeticae) quando tinha 24 anos.

De…nição 5.1 Sejam a; b 2 Z e m 2 N. Dizemos que a é congruente módulo


m com b se m divide a b:

Em outras palavras a é congruente módulo m com b se existe k 2 Z tal que

a b = kn

O inteiro m é chamado de módulo de congruência. Quando a e b são congruentes


módulo m; escrevemos a b (mod n); notação de Gauss. Temos portanto,

a b (mod n) , m j (a b) , 9k 2 Z tal que a b = kn

Por exemplo, 94 1 (mod 5), pois

5 j 94 1

Quando a não divide a diferença a b, dizemos que a é incongruente módulo m


com b e denotaremos por a 6 b (mod n). Por exemplo, 10 6 3 (mod 5); pois

5 6j (10 3)

Proposição 5.1 Sejam a; b 2 Z e m 2 N. Então a b (mod m) se, e somente


se, a e b deixam o mesmo resto quando divididos por m.
1 Autores: Klinger, D.A.S. & Santos, J.S.R.

2 Karl Friedrich Gauss (1777-1845) foi um dos grandes matemáticos de Göttingen, com

apenas 17 anos descobriu um método de construção de polígono de 17 lados usando apenas


régra e compasso.

119
120 CAPÍTULO 5. ARITMÉTICA MODULAR

Prova. Suponha que a b (mod m). Então existe k 2 Z tal que


a b = km
Agora, pelo Teorema 3.1, existem q; r 2 Z tais que
b = qm + r; onde 0 6 r < m
Assim,
a = b + km = qm + r + km = (q + k)m + r; onde 0 6 r < m
Portanto, a e b deixam o mesmo resto quando divididos por m.
Reciprocamente, suponhamos que
a = q1 m + r e b = q2 m + r; onde 0 6 r < m
Portanto,
a b = (q1 q2 )m
o que implica n j (a b). Logo, a b (mod n).

Exemplo. Mostre que os inteiros 32 e 62 deixam o mesmo resto quando divi-


didos por 30.
Como 62 32 (mod 30); pela Proposição 5.1, os inteiros a e b deixam o
mesmo resto quando divididos por 30: Realmente, pelo Teorema 3.1, temos
62 = 30 2 + 2 e 32 = 30 1 + 2
Proposição 5.2 Sejam a; b 2 Z e m 2 N. Então as seguintes condições são
satisfeitas:
a) a a (mod m);
b) Se a b (mod m), então b a (mod m);
c) Se a b (mod m) e b c (mod m); então a c (mod m):
Prova.
a) 0 é múltiplo de m; temos

a a (mod m)
b) Se a b (mod m); então existe existe k 2 Z tal que
a b = km
Logo, b a = ( k) m; o que implica b a (mod m):
c) Se a b (mod m) e b c (mod m); então existem existe k1 ; k2 2 Z tais
que
a b = k1 m e b c = k2 m
Portanto,
a c = (a b) + (b c)
= k1 m + k2 m
= (k1 + k2 ) n
o que implica a c (mod m):
A Proposição 5.2, nos diz que a relação de congruência módulo m é uma
relação de equivalência.
5.1. CONGRUÊNCIA 121

Proposição 5.3 Sejam a; b; c 2 Z e m 2 N tal que a b (mod m); então

a) a + c b + c (mod m);

b) a c b d (mod m);

c) ac bd (mod m):

Prova.
a) Como a b (mod m); temos que

a b = km; k 2 Z

e daí,
(a + c) (b + c) = a b = km
o que implica a + c b + c (mod m).
b) Temos que
(a c) (b c) = a b
e por hipótese, a b = km; k 2 Z. Logo, a c b d (mod n):
c) Como a b = km, temos que ac bc = (kc)m: Logo, ac bd (mod m):

Proposição 5.4 Sejam a; b; c; d 2 Z e m 2 N tais que a b (mod m) e c


d (mod m) então

a) a + c b + d (mod m);

b) a c b d (mod m);

c) ac bd (mod m):

Prova.
a) Suponha que a b (mod m) e c d (mod m). Então existem k1 ; k2 2 Z
tais que
a b = k1 m e c d = k2 m
Portanto,
(a + c) (b + d) = (a b) + (c d) = (k1 + k2 )m
o que implica a + c b + d (mod m).
b) Fica como exercício.
c) Temos que

ac bd = (b + k1 m)(d + k2 m) bd = (bk2 + dk1 + k1 k2 m)m


o que implica
ac bd (mod m)

Observação: As equações que envolvem relações de congruência podem ser


manipuladas como equações algébricas, com excessão à “lei do corte” para o
produto.
Por exemplo, 12 4 (mod 2) e 6 4 (mod 2), não é verdade que 2
1 (mod 2):
122 CAPÍTULO 5. ARITMÉTICA MODULAR

Proposição 5.5 Se a b (mod m); então ak bk (mod m) para todo inteiro


positivo k:

Prova. Como a b (mod n); então a b = kn: Por outro lado, temos a
identidade

ak bk = (a b) ak 1
+ ak 2
b+ + abk 2
+ bk 1

= k ak 1
+ ak 2
b+ + abk 2
+ bk 1
m

o que implica
ak bk (mod m)

Exemplo. Mostre que 22225555 + 55552222 é divisível por 3.


Como 2222 = 740 3 + 2 e 5555 = 1851 3 + 2 pela Proposição 5.1, temos que

2222 2 (mod 3) e 5555 2 (mod 3)

Sendo 2 1 (mod 3) temos, pelo item c) da Proposição 5.2, que

2222 1 (mod 3) e 5555 1 (mod 3)

e pela Proposição 5.5,

22225555 1 (mod 3) e 55552222 1 (mod 3)

Finalmente, pelo item a) da proposição 5.4, obtemos:

22225555 + 55552222 0 (mod 3)

Proposição 5.6 Se a b (mod m1 ) e a b (mod m2 ); então a b (mod m)


onde m = mmc(m1 ; m2 ):

Prova. Como
m1 j (a b) e m2 j (a b)
temos que a diferença a b é um múltiplo do mmc(m1 ; m2 ) = m isto é,

m j (a b)

Logo, a b (mod m):


O próximo Teorema mostra o que acontece quando ambos os lados de uma
congruência são divididos por um inteiro.

Teorema 5.1 Sejam a; b; c 2 Z e m 2 N. Se ac bc (mod m) e mdc(c; m) = d,


então
m
a b (mod )
d

Prova. Sejam a; b; c 2 Z e m 2 N. Se ac bc (mod m), então

(a b) c = mq onde q 2 Z
5.1. CONGRUÊNCIA 123

Como mdc(c; m) = d; enttão existem x; y 2 Z tais que c = dx e m = dy com


mdc(x; y) = 1: Então

ac bc (mod m) ) 9q 2 Z; (a b) dx = dyq
) 9q 2 Z; (a b) x = yq
) y j (a b) x

Como mdc(x; y) = 1; temos que y j (a b) e portanto,

a b (mod y)

ou seja, a b (mod m d ):
.
Por exemplo, temos 10 = 2 5 2 3 (mod 4). Porém, não podemos cancelar
o fator comum 2; pois
5 6 3 (mod 4)

Corolário 5.1 Se ac bc (mod p) onde p é um número primo e p - c; então


a b (mod p):

Prova. Como p - c onde p é um número primo, temos que mdc(p; c) = 1:


Portanto, pelo Teorema ??, temos que a b (mod p):

Teorema 5.2 Seja f (x) um polinômio com coe…cientes inteiros. Se a b (mod m),
então
f (a) f (b) (mod m)

Prova. Seja f (x) = rn xn + rn 1x


n 1
+ + r1 x + r0 , com ri 2 Z. Pelas
Proposições 5.4 e 5.5, temos que

rn i an i
rn i bn i
(mod m); 8i = 0; 1; : : : ; n

Assim, somando membro a membro as n + 1 congruências, obtemos f (a)


f (b) (mod m).

De…nição 5.2 Dizemos que a é solução ou raiz da congruência f (x) 0 (mod m)


se f (a) 0 (mod m).

Assim, se a b (mod m) e a é solução da congruência f (x) 0 (mod m),


então b também o é, pois

f (b) f (a) 0 (mod m)

A teoria das congruências é uma ferramenta poderosa para evidenciar certas


regras práticas, tais como “critérios de divisibilidades.” É bem conhecido que
quando a soma dos dígitos da representação decimal de um número r é um
múltiplo de 3, então r também é um múltiplo de 3. Formalmente temos:

Exemplo. Sejam r = rn 10n + rn 1 10n 1


+ + r1 10 + r0 a representação
decimal de r > 1, onde 0 6 ri < 10, e

s = rn + rn 1 + + r 1 + r0
124 CAPÍTULO 5. ARITMÉTICA MODULAR

Então 3 j r se, e somente se, 3 j s.


Com efeito, Seja f (x) = rn xn + rn 1 xn 1 + + r1 x + r0 . Então r = f (10)
e s = f (1). Como 10 1 (mod 3); temos pelo Teorema 5.2,

f (10) f (1) (mod 3)

Portanto, f (10) 0 (mod 3) se, e somente se, f (1) 0 (mod 3), isto é, 3 j r se,
e somente se, 3 j s.

5.1.1 Problemas Resolvidos


1. Mostre que, para todo a 2 Z, a2 0 (mod 4) ou a2 1 (mod 4).

Solução. Temos que


a 0; 1; 2; 3 (mod 4)
pela Proposição 5.5, obtemos

a2 0; 1; 4; 9 (mod 4)

ou ainda, a2 0; 1; 0; 1 (mod 4): Logo,

a2 0 (mod 4) ou a2 1 (mod 4)
2 10
2. Determine o resto da divisão de 1010 + 1010 + + 1010 por 7.

Solução. Temos que

10 3 (mod 7) ) 102 2 (mod 7) ) 1010 4 (mod 7)

por outro lado,


2
1020 2 (mod 7) ) 1010 4 (mod 7)
Analogamente,
3
1010 4 (mod 7)
e portanto,
2 10
1010 + 1010 + + 1010 4+4+ + 4 = 40 5 (mod 7)
7 9
3. Determine o último dígito de cada um dos seguintes números 7(7 )
e 9(9 ) .

Solução. Pela Proposição 5.1, basta determinar um inteiro r, com 0 6 r < 10


satisfazendo 7
7(7 ) r (mod 10)
Temos inicialmente que 7 7 (mod 10); pois 7 deixa resto 7 quando dividido
por 10: Assim,

72 9 (mod 10); 73 3 (mod 10) e 74 1 (mod 10)


Como 74 1 (mod 10); se escrevermos (77 ) = 4n + s; teremos
7 n
7(7 )
= 74n+s = 74 7s 1n 7s (mod 10) = 7s (mod 10)
5.1. CONGRUÊNCIA 125

ou seja,
7
7(7 )
7s (mod 10)
Agora, dividindo 77 por 4, obtemos

77 = 4n + 3
7 7
Logo, 7(7 ) 73 (mod 10) 3 (mod 10) e portanto, o último dígito de 7(7 )
é 3:
O outro caso é feito de moda análogo.

4. Mostre que 270 + 370 0 (mod 13).

Solução.

5.1.2 Problemas Propostos


1. Mostre que, para todo a 2 Z, a2 0 (mod 8), a2 1 (mod 8) ou a2
4 (mod 8).
2. Mostre que a 1 (mod 4) ou a 1 (mod 4), para todo a 2 Z ímpar.
3. Mostre que 270 + 370 0 (mod 13).
4. Determine o dígito das unidades de 398 .
7 9
5. Determine o último dígito de cada um dos seguintes números 7(7 )
e 9(9 ) .
6. Determine o resto da divisão de 7812384 + 577023 + 35728 por 9.
2 10
7. Determine o resto da divisão de 1010 + 1010 + + 1010 por 7.
8. Determine o resto da divisão de 1! + 2! + + 100! por 12. (Sugestão: Se
n 4, então

n! = n (n 1) 6 5 4! n (n 1) 6 5 0 0 (mod 12)

pois 4! = 24 0 (mod 12).)


9. Mostre que:

a) 31000 4 é divisível por 7;


5555
b) 2222 + 55552222 é divisível por 7;
c) 22225555 + 55552222 é divisível por 11;
d) 22225555 + 55552222 é divisível por 231;
p
e) 327328 + 329330 é irracional.
p
10. Mostre que se a 1 (mod 4) e b 1 (mod 4), então a2k + bm é irra-
cional, 8k; m 2 N.
11. Seja r = rm 10m + rm 1 10m 1 + + r1 10 + r0 a representação decimal
de r > 1, onde 0 ri < 10. Mostre que:

a) 2 j r se, e somente se, r0 é par;


126 CAPÍTULO 5. ARITMÉTICA MODULAR

b) 4 j r se, e somente se, 4 j (2r1 + r0 );


c) 5 j r se, e somente se, r0 = 0 ou r0 = 5;
d) 7 j r se, e somente se, r0 + 3r1 + + 3m rm é divisível por 7;
e) 9 j r se, e somente se, r0 + r1 + + rm é divisível por 9;
f) 11 j r se, e somente se, (r0 + r2 + ) (r1 + r3 + ) é divisível por
11.

12. Determine os dígitos a; b e c dos números abaixo, representados no sistema


decimal, tal que:

a) 2a7b seja divisível por 4 e 11;


b) 28a75b seja divisível por 3 e 11;
c) 45ab seja divisível por 4 e 9;
d) 13ab45c seja divisível por 8; 9 e 11.

13. Mostre que se n > 4 é um número composto, então (n 1)! 0 (mod n).
14. Sejam a; b 2 Z. Mostre que se a b (mod n), então mdc(a; n) = mdc(b; n).
15. Sejam a; b; c 2 Z, mdc(c; n) = d e n = rd. Mostre que ac bc (mod n) se,
e somente se, a b (mod r).
16. Sejam a; b 2 Z. Mostre que a b (mod n) e a b (mod m) se, e somente
se, a b (mod mmc(m; n)).
17. Determine o menor inteiro positivo que deixa restos 5; 4; 3 e 2 quando
dividido, respectivamente, por 6; 5; 4 e 3. (Sugestão: Note que 5
1 (mod 6), 4 1 (mod 5), 3 1 (mod 4), 2 1 (mod 3) e use o
exercício precedente.)
18. Seja n 2 N com n > 1. Mostrar que n = a2 b2 se, e somente se,
n 6 2 (mod 4). (Sugestão: Use o exercício 1.)
19. Mostre que se n 6 0 (mod 4) então 1n + 2n + 3n + 4n 0 (mod 5).
20. Mostre que se um dos números 2n 1 e 2n + 1, onde n > 2, é primo, então
o outro é composto. (Sugestão: Considere o resto da divisão de 2n por 3.)
21. Mostre que
(a + b + c)333 a333 b333 c333
é divisível por
(a + b + c)3 a3 b3 c3
(Sugestão: Note que

(a + b + c)3 a3 b3 c3 = 3(a + b)(a + c)(b + c)

e mostre que

f (a; b; c) = (a + b + c)333 a333 b333 c333

é divisível por a + b, a + c e b + c.)


5.2. CONGRUÊNCIAS LINEARES 127

22. Mostre que


a9999 + a8888 + + a1111 + 1
é divisível por
a9 + a8 + +a+1
(Sugestão: Note que a9999 a9 = a9 [(a10 )999 1]; : : :)

23. A fórmula abaixo determina o dia da semana correspondente a uma data


posterior a 1582.

C D
d 1 2C + D + N + + +
4 4
M
+ [[2; 6M 0; 2]] (1 + B)[[ ]] (mod 7);
11
onde d é o dia da semana (d = 0 para o sábado,..., d = 6 para a sexta-feira),
N é o dia do mês, M é o mês (M = 1 para o mês de março,..., M = 12 para
o mês de fevereiro), 100C + D corresponde ao ano, B = 1 corresponde aos
anos bissextos e B = 0 corresponde aos anos não bissextos. Determinar o
dia da semana que morreu Tiradentes, sabendo que ele morreu no dia 21
de abril de 1792.

5.2 Congruências Lineares


Nesta seção usaremas a teoria das congruências visto na seção anterior para
resolver equações do tipo

a x = b onde a; b 2 Zm
ou seja resolver a cogruência ax b (mod m):Note que a congruência linear
ax b (mod m) nem sempre tem solução em Z; por exemplo, a congruência
linear
3x 4 (mod 3)
não tem solução em Z, pois
3x 4 1
3x 4 (mod 3) , 2Z, 2Z
3 3
o que é um absurdo. Além disso, se x0 2 Z é uma solução da congruência linear
ax b (mod m), isto é
ax0 b (mod m)
então
x = x0 + km; 8k 2 Z
também são soluções da congruência linear ax b (mod m), pois

a (x0 + km) ax0 b (mod m)

Portanto, se a congruência linear ax b (mod m) tem uma solução em Z; ela


tem uma quantidade in…nita de soluções em Z.
128 CAPÍTULO 5. ARITMÉTICA MODULAR

Observação: Se x0 e x1 são duas soluções da congruência ax b (mod m);


então
ax0 b (mod m) e ax1 b (mod m) ) x1 x0 (mod m)
Neste caso, os x 2 Z tais que x x0 (mod m) constituem uma única solução da
congruência ax b (mod m):
Uma solução x0 2 Z da congruência linear

ax b (mod m)

com 0 6 x0 < n, é chamada de solução particular. A solução geral da congruên-


cia linear ax b (mod m) é x = x0 + km, com k 2 Z. Quando b = 0 a equação
ax b (mod m) é dita homogênea.

Exemplo. Determinar as soluções, se existirem, da congruência linear

3x 2 (mod 5)

Por de…nição temos


3x 2 (mod 5) , 9t 2 Z
tal que 3x 2 = 5t ou x = t + 2 t+1 t+1
3 . Assim, 3 2 Z se, e somente se, t + 1
é um múltiplo de 3. Logo, x0 = 4 é a solução particular da congruência linear.
Portanto, x = 4 + 5k, k 2 Z é a solução geral da congruência linear isto é os
inteiros
: : : ; 11; 6; 1; 4; 9; 14; : : :
são soluções da congruência 3x 2 (mod 5): Como

11 4 (mod 5) e 6 9 (mod 5)

não são contadas como soluções distintas.


Vamos agora reconhecer quando é que a equação ax b (mod m) admite
solução.

Teorema 5.3 Sejam a; b e m inteiros com m > 1: Seja mdc(a; m) = d. Temos

a) A congruência linear ax b (mod m) tem solução em Z se, e somente


se, d divide b.
b) Se d j b; existem exatamente d soluções distintas módulo m; cujos
representante formam a progressão aritmética
m m
x0 ; x0 + ; : : : ; x0 + (d 1)
d d
onde x0 é uma solução particular da equação ax b (mod m):
Prova.
a) Seja x0 2 Z uma solução da congruência linear ax b (mod m), isto é,
existe y 2 Z tal que ax0 + ( y)m = b. Como d j a e d j n pela Proposição 3.1

d j (ax0 + ( y)m)

e portaanto, d divide b.
5.2. CONGRUÊNCIAS LINEARES 129

Reciprocamente, Suponhamos que d j b e que existam r; s 2 Z tais que


ar + ms = d. Como existe t 2 Z tal que b = td temos que

b = td = a(tr) + m(ts)

logo, (rt)a b (mod n) e, assim, x0 = rt 2 Z é solução da congruência linear


ax b (mod m).
b)

Corolário 5.2 Sejam a; b 2 Z e mdc(a; m) = 1. Então a congruência linear


ax b (mod m) tem solução x0 2 Z. Além disso,

S = fx0 + km : k 2 Zg

é o conjunto de todas as soluções desta congruência linear.

Prova. Seja x1 2 Z outra solução da congruência linear ax b (mod m). Então


ax1 b (mod m). Como

ax b (mod m) e ax1 b (mod m) ) ax1 ax0 (mod m)

Logo, pelo Teorema 5.1, x1 x0 (mod m). Portanto, x1 2 S.

De…nição 5.3 Diz que a 2 Z é invertível (mod m) quando ax 1 (mod m) tem


solução isto é, mdc (a; m) = 1: Se x0 é solução da equação ax 1 (mod m);
dizemos que x0 é inverso (mod m) de a:

Exemplo. Determine as soluções, se existirem, da congruência linear

315x 12 (mod 501)

Como mdc (315; 501) = 3 e 3 j 12; temos pelo Teorema 5.3, que a congruência
admite 3 soluções distintas módulo 501: Usando o Algoritmo de Euclides, temos

501 = 1 315 + 186


315 = 1 186 + 129
186 = 1 129 + 57
129 = 2 57 + 15
57 = 3 15 + 12
15 = 1 12 + 3
12 = 4 3+0
315 35 + ( 22) 501 = 3. Multiplicando 315 35 + ( 22) 501 = 3 por 4, para
encontramos
315 140 + ( 88) 501 = 12
Assim, é fácil ver que x0 = 140 é uma solução da congruência linear

315x 12 (mod 501)

e
x = 140 + 167t; onde t = 0; 1; 2
isto é, as soluções módulo 501 tem como representantes 140, 307 e 474:
130 CAPÍTULO 5. ARITMÉTICA MODULAR

Vejamo agora como resolver sistemas do tipo


x a (mod n)
x b (mod m)

O próximo Teorema foi descoberto pelo matemático chinês Sun-Tsu e por isso
será chamado de Teorema Chinês do Resto.

Teorema 5.4 (Teorema Chinês do Resto) Sejam b1 ; : : : ; bk 2 Z e n1 ; : : : ; nk 2


N tais que mdc(ni ; nj ) = 1 para 1 6 i 6= j 6 k. Então o sistema de congruências
8
>
> x b1 (mod n1 )
>
< x b2 (mod n2 )
..
>
> .
>
:
x bk (mod nk )

possui uma solução simultânea. Além disso, quaisquer duas soluções são con-
gruentes módulo produto n = n1 n2 nk

Prova. É claro que


n
Ni = 2 Z e mdc(Ni ; ni ) = 1
ni
para todo i = 1; 2; : : : ; k, pois os n1 ; : : : ; nk são primos em pares. Logo, pelo
Corolário 5.2, a congruência

Ni x 1 (mod ni )

possui solução. Seja xi 2 Z tal que

Ni xi 1 (mod ni )

para todo i = 1; 2; : : : ; k:
A…rmação:
k
X
x= Ni xi bi = N1 x1 b1 + N2 x2 b2 + + Nk xk bk
i=1

é uma solução simultânea das congruências.


Com efeito, para todo i = 1; 2; : : : ; k temos: como ni divide N1 ; N2 ; : : : ; Ni 1 ; Ni+1 ; : : : ; Nk
segue-se

x 0+ + 0 + Ni xi bi + 0 + +0 1 bi = bi (mod ni )

Como n 0 (mod n1 ); n 0 (mod n2 ); : : : ; n 0 (mod nk ) qualquer número


que difere de x por um múltiplo de n é solução simultânea das congruências.
Reciprocamente, se x1 é uma solução qualquer das congruências, então

x1 bi x (mod ni )

e assim, ni j (x1 x) para todo i = 1; 2; : : : ; k: Como mdc(ni ; nj ) = 1; então


mmc (n1 ; : : : ; nk ) = n1 n2 nk : Logo,

x1 x (mod n1 n2 nk )
5.2. CONGRUÊNCIAS LINEARES 131

Exemplo. Resolva o sistema de congruências lineares


8
< x 5 (mod 7)
x 7 (mod 11)
:
x 3 (mod 13)
Solução. Temos que b1 = 5, b2 = 7, b3 = 3, n1 = 7, n2 = 11, n3 = 13 e
n = 1:001. Como
mdc (7; 11) = mdc (7; 13) = mdc (11; 13) = 1
Pelo Teorema 5.4, o sistema tem uma única solução módulo n = 7 11 13 = 1001:
Seja
1001
N1 = = 143;
7
1:001
mdc( ; 7) = mdc(143; 7) = 1
7
temos, pelo Algoritmo Euclidiano, que 7 21 + ( 2) 143 = 1, isto é,
( 2) 143 1 (mod 7)
Assim, podemos escolher r1 = 2. De modo análogo, podemos escolher r2 = 4
e r3 = 1. Logo,
x0 = 11 13 ( 2) 5 + 7 13 4 7 + 7 11 ( 1) 3 = 887
é a única solução. Portanto, x0 = 887 é a menor solução positiva. Seja e1 = 715,
então
e21 e1 = 511225 715
= 510 510
= 7293 7
De modo análogo, podemos encontrar e2 = 364 e e3 = 924. Logo,
e1 e2 = e1 e3 = e2 e3 0 (mod 1001)
e
e1 + e2 + e3 1 (mod 1001)
Exemplo. Resolver o sistema de congruências
5x 1 (mod 6)
3x 5 (mod 8)
Solução. Como
mdc(5; 6) = 1 j 1 e mdc(3; 8) = 1 j 5
temos que as congruências lineares admitem soluções particulares x1 = 5 e
x2 = 7, respectivamente. Então nosso sistema de congruências é equivalente ao
sistema de congruências
x 5 (mod 6)
x 7 (mod 8)
Sendo mdc(6; 8) = 2, não podemos aplicar o Teorema Chinês do Resto, mas
o sistema de congruências tem solução particular x0 = 23 e solução geral x =
23 + 24k, k 2 Z, veja o exercício 12 abaixo.
132 CAPÍTULO 5. ARITMÉTICA MODULAR

5.2.1 Problemas Resolvidos


1. Determine todas as soluções da equação 87x 3 (mod 6000) em Z:

Solução. Como mdc (6000; 87) = 3 e 3 j 3; temos pelo Teorema 5.3, que a
congruência admite 3 soluções distintas módulo 6000: Usando o Algoritmo de
Euclides, temos
Usando o Algoritmo de Euclides, temos

6000 = 68 87 + 84
87 = 1 84 + 3
84 = 28 3 + 0
6000 ( 1) + (87) 69 = 3. Logo, x0 = 69 é uma solução particular da equação

87x 3 (mod 6000)

e
x = 69 + 2000t; onde t = 0; 1; 2
isto é, as soluções módulo 6000 tem como representantes 69, 2069 e 4069:

2. Sejam a; b; x 2 Z: Determine as soluções da equação homogênea 10x


0 (mod 216):

Solução. Como

10 = 2 5 e 216 = 23 33 ) mdc(10; 216) = 2

Veja que

10x 0 (mod 216) , 10x = 216y , 5x = 108y , 108 j 5x

e pelo Lema de Euclides


108 j x
pois mdc (108; 5) = 1. Logo,

10x 0 (mod 216) , 108 j x , x 0 (mod 108)

3. Quantos naturais a 6 216 têm inverso (mod 216)?

Solução. Por de…nição a é invertível (mod 216) se, e somente se, mdc(a; 216) =
1: Como 216 = 23 33 ; então devemos contar os naturais a 6 216 que não são
múltiplos de 2 e 3: Temos que existem
216
= 108
2
naturais que são múltiplos de 2,
216
= 72
3
naturais que são múltiplos de 3 e
216
= 36
6
5.2. CONGRUÊNCIAS LINEARES 133

naturais que são múltiplos de 6: Assim, os naturais a 6 216 que são múltiplos
de 2 ou de 3 são
108 + 72 36 = 144
Logo, existem 216 144 = 72 naturais a 6 216 que são invertível (mod 216):

4.

5.2.2 Exercícios Propostos


1. Sejam a; b 2 Z e mdc(a; n) = d. Mostrar que se x0 2 Z é solução da
congruência linear ax b (mod n), então também o é da congruência
linear ax b (mod nd ).
2. Resolver as seguintes congruências lineares:

(a) 4x 3 (mod 7);


(b) 3x + 1 4 (mod 5);
(c) 9x 11 (mod 26);
(d) 8x 6 (mod 14);
(e) 330x 42 (mod 273);
(f) 26x 1 (mod 17).

3. Resolva os seguintes sistemas de congruências:

(a) x 3 (mod 7) e x 2 (mod 5);


(b) x 1 (mod 3), x 1 (mod 5) e x 1 (mod 7);
(c) x 2 (mod 3), x 3 (mod 5) e x 5 (mod 2);
(d) x 1 (mod 4), x 0 (mod 3) e x 5 (mod 7).

4. Determine o menor inteiro positivo que tem para restos 2, 3 e 2 quando


dividido, respectivamente, por 3, 5 e 7.
5. Determinar o menor inteiro positivo que tem para restos 1, 4, 2, 9 e 3
quando dividido, respectivamente, por 3, 5, 7, 11 e 13.
6. Determinar o menor inteiro positivo que tem para restos 5, 4, 3 e 2 quando
dividido, respectivamente, por 6, 5, 4 e 3.
7. Determinar o menor múltiplo positivo de 7 que tem para resto 1 quando
dividido por 2, 3, 4, 5 e 6. (Sugestão: Note que 7x 1 (mod 2); : : : e use
o exercício 16 da Seção 5:1.)
8. Um grupo de 13 piratas obteve um certo número de moedas de ouro
que, distribuídas igualmente entre eles, sobravam 8 moedas. Imprevisivel-
mente, dois deles morreram. Eles voltaram a repartir e sobraram agora 3
moedas. Posteriormente, três deles se afogaram. Repartindo novamente
as moedas, restaram 5 moedas. Quantas moedas havia em jogo?
9. Determinar quatro inteiros consecutivos divisíveis por 5, 7, 9 e 11, respec-
tivamente.
134 CAPÍTULO 5. ARITMÉTICA MODULAR

10. Mostrar que, para todo n 2 N, com n > 1, existem n inteiros consecu-
tivos que são divisíveis por quadrados maiores do que 1.(Sugestão: Sejam
p1 ; : : : ; pn números primos distintos. Considere o sistema de congruências
8
>
> x 0 (mod p21 )
>
< x 1 (mod p22 )
..
>
> .
>
:
x (n 1) (mod p2n )

e resolva.)

11. Sejam a1 ; : : : ; ak ; b1 ; : : : ; bk 2 Z e n1 ; : : : ; nk 2 N tais que mdc(ni ; nj ) = 1


com i 6= j. Mostrar que o sistema de congruências
8
>
> a1 x b1 (mod n1 )
>
< a2 x b2 (mod n2 )
..
>
> .
>
:
ak x bk (mod nk )

tem uma solução se, e somente se, mdc(ai ; ni ) j bi para i = 1; 2; : : : ; k.


Além disso,
S = fx0 + kn : k 2 Zg;
onde n = n1 nk , é o conjunto de todas as soluções deste sistema.

12. Sejam b1 ; : : : ; bk 2 Z e n1 ; : : : ; nk 2 N. Mostrar que o sistema de con-


gruências
8
>
> x b1 (mod n1 )
>
< x b2 (mod n2 )
..
>
> .
>
:
x bk (mod nk )
tem uma solução se, e somente se, mdc(ni ; nj ) j (bi bj ) para i; j =
1; 2; : : : ; k. Além disso,

S = fx0 + kn : k 2 Zg;

onde n = mmc(n1 ; : : : ; nk ), é o conjunto de todas as soluções deste sistema.

13. Resolver os seguintes sistemas de congruências:

(a) x 2 (mod 5) e 3x 1 (mod 8);


(b) 3x 2 (mod 5) e 2x 1 (mod 3);
(c) 6x 5 (mod 11), 5x 6 (mod 7) e x 6 (mod 13);
(d) x 17 (mod 504), x 31 (mod 35) e x 33 (mod 16).

14. Determinar o menor inteiro positivo que tem para restos 3, 9 e 17 quando
dividido, respectivamente, por 10, 16 e 24.
5.3. TEOREMA DE EULER 135

5.3 Teorema de Euler


De…nição 5.4 Um subconjunto fr1 ; : : : ; rk g de Z é um sistema completo de
resíduos módulo n se as seguintes condições são satisfeitas:

1. Se i 6= j, então ri 6 rj (mod n), 8i; j 2 f1; 2; : : : ; kg;


2. Para todo a 2 Z existe i 2 f1; 2; : : : ; kg tal que a ri (mod n).

Exemplo. O subconjunto f0; 1; : : : ; n 1g de Z é um sistema completo de


resíduos módulo n.

Solução. Sejam a; b 2 f0; 1; : : : ; n 1g, com 0 a b < n. Então

b a (mod n) , n j (b a) , b = a

pois 0 b a < n. Agora, para todo a 2 Z temos, pelo Teorema ??, que
existem q; r 2 Z tais que

a = qn + r onde 0 r < n:

Portanto,
a r (mod n) onde r 2 f0; 1; : : : ; n 1g
É fácil veri…car, pelo lema abaixo, que fk; k +1; : : : ; k +(n 1)g é um sistema
completo de resíduos módulo n para todo k 2 Z. Assim, existe uma in…nidade
de sistemas completos de resíduos módulo n.

Lema 5.1 Sejam fr1 ; : : : ; rk g e fs1 ; : : : ; sl g dois sistemas completos de resíduos


módulo n. Então k = l e (pelo exemplo acima, k = n).

Prova. Suponhamos que k > l. Então, reindexando se necessário, obtemos que

r1 s1 (mod n); : : : ; rl sl (mod n):

Como rl+1 2 Z temos, pelo item 2 da de…nição, que existe i 2 f1; 2; : : : ; lg tal
que rl+1 si (mod n). Assim, rl+1 ri (mod n), o que é uma contradição, pois
l + 1 6= i. Portanto, k l. De modo análogo, mostra-se que l k.

De…nição 5.5 Um subconjunto fr1 ; : : : ; rk g de Z é um sistema reduzido de


resíduos módulo n se as seguintes condições são satisfeitas:

1. mdc(ri ; n) = 1, 8i 2 f1; 2; : : : ; kg;


2. Se i 6= j, então ri 6 rj (mod n), 8i; j 2 f1; 2; : : : ; kg;
3. Para todo a 2 Z, com mdc(a; n) = 1, existe i 2 f1; 2; : : : ; kg tal que
a ri (mod n).

Pelo exercício 16 da Secão 5:1 é fácil veri…car que se

fr1 ; : : : ; rn g

é um sistema completo de resíduos módulo n e

fs1 ; : : : ; sl g
136 CAPÍTULO 5. ARITMÉTICA MODULAR

são todos os elementos de


fr1 ; : : : ; rn g
tais que mdc(si ; n) = 1, então

fs1 ; : : : ; sl g

é um sistema reduzido de resíduos módulo n, isto é, um sistema reduzido de


resíduos módulo n pode ser obtido eliminando de um sistema completo de resí-
duos módulo n aqueles números que não são relativamente primos de n. Por
exemplo,
f0; 1; 2; 3; 4; 5g
é um sistema completo de resíduos módulo 6. Assim,

f1; 5g

é um sistema reduzido de resíduos módulo 6. Além disso, pelo Lema 5.1, todos
os sistemas reduzidos de resíduos módulo n têm a mesma cardinalidade, que
denotaremos por (n). Esta função é chamada de função de Euler. Por
exemplo,
(6) = 2

Teorema 5.5 Seja Pn = fk 2 N : mdc(k; n) = 1 e k < ng. Então

(n) = #(Pn )

Prova. Como
f0; 1; : : : ; n 1g
é um sistema completo de resíduos módulo n, temos que Pn é um sistema
reduzido de resíduos módulo n. Portanto, #(Pn ) = (n).

Um elemento a 2 Zn é chamado invertível se existir x 2 Zn tal que

a x=x a=1

ou, equivalentemente,
ax 1 (mod n)
Seja Zn o conjunto dos elementos invertíveis em Zn , isto é,

Zn = fa 2 Zn : a x=x a = 1 para algum x 2 Zn g

Note que se a 2 Pn , então mdc(a; n) = 1. Logo, existem x; y 2 Z tais que

ax + ny = 1

e, consequentemente,

ax 1 (mod n) , a x=1

Portanto, a 2 Zn .
Reciprocamente, se a 2 Zn , então existe x 2 Zn tal que

a x=x a=1
5.3. TEOREMA DE EULER 137

Logo, ax 1 (mod n), isto é, existe y 2 Z tal que

ax + n( y) = 1

Assim, mdc(a; n) = 1. Portanto, a 2 Pn . Assim, a função

f : Pn ! Zn dada por f (a) = a

é uma correspondência biunívoca. Neste caso,

(n) = #(Zn );

isto é,
Zn = fr1 ; : : : ; r (n) g;

onde
fr1 ; : : : ; r (n) g

é um sistema reduzido de resíduos módulo n.

Exemplo. Seja p um número primo. Então

Zp = f1; 2; : : : ; p 1g

Solução. Sabemos que


f0; 1; 2; : : : ; p 1g
é um sistema completo de resíduos módulo p e que 0 é o único elemento deste
conjunto que não é relativamente primo com p. Logo,

Pp = f1; 2; : : : ; p 1g

é um sistema reduzido de resíduos módulo p. Portanto,

Zp = f1; 2; : : : ; p 1g e (p) = p 1:
1
Teorema 5.6 Se p 2 N é um número primo, então (pk ) = pk (1 p ), para
todo k 2 N:

Prova. Note que se

a 2 f1; 2; : : : ; pk g e mdc(a; pk ) 6= 1;

então a = pb com
b 2 f1; 2; : : : ; pk 1
g
Assim,
mdc(a; pk ) 6= 1 , a 2 fp; 2p; : : : ; ppk 1
= pk g;
isto é, existem pk 1
números entre 1 e pk que são divisíveis por p. Portanto,
1
(pk ) = pk pk 1
= pk (1 )
p
138 CAPÍTULO 5. ARITMÉTICA MODULAR

Lema 5.2 Sejam a; b; n 2 Z. Se mdc(a; n) = mdc(b; n) = 1, então


mdc(ab; n) = 1.

Prova. Se mdc(a; n) = mdc(b; n) = 1, então existem r; s; x; y 2 Z tais que

ar + ns = 1 e bx + ny = 1:

Logo,

1 = 1 1 = (ar + ns)(bx + ny) = ab(rs) + n(ary + bsx + nsy) = abu + nv;

onde u = rs, v = ary + bsx + nsy 2 Z, isto é, mdc(ab; n) = 1.

Lema 5.3 Seja a 2 Z, com mdc(a; n) = 1. Se

fr1 ; : : : ; rn g

é um sistema completo (reduzido) de resíduos módulo n, então

far1 ; : : : ; arn g

é um sistema completo (reduzido) de resíduos módulo n.

Prova. Sabemos, pelo Lema 5.2, que

mdc(a; n) = mdc(ri ; n) = 1 ) mdc(ari ; n) = 1

Além disso,
#(fr1 ; : : : ; rn g) = #(far1 ; : : : ; arn g):
Assim, basta mostrar que se i 6= j, então ari 6 arj (mod n). Temos, pelo
Teorema ??, que

ari arj (mod n) ) ri rj (mod n) ) i = j:

Portanto,
far1 ; : : : ; arn g
é um sistema completo (reduzido) de resíduos módulo n.

Lema 5.4 Seja a 2 Z, com mdc(a; n) = 1. Então

fr; r + a; r + 2a; : : : ; r + (n 1)ag

é um sistema completo de resíduos módulo n para todo r 2 Z.

Prova. Temos, pelo Lema 5.3, que

f0; a; 2a; : : : ; (n 1)ag;

é um sistema completo de resíduos módulo n. Como

#(f0; a; 2a; : : : ; (n 1)ag) = #(fr; r + a; r + 2a; : : : ; r + (n 1)ag)

temos que
fr; r + a; r + 2a; : : : ; r + (n 1)ag
é um sistema completo de resíduos módulo n para todo r 2 Z.
5.3. TEOREMA DE EULER 139

Teorema 5.7 Sejam m; n 2 N. Se mdc(m; n) = 1, então

(mn) = (m) (n):

Prova. Consideremos o conjunto

X = fqm + r : 0 r<m e 0 q < ng:

É fácil veri…car que #(X) = mn e a < mn para todo a 2 X. Logo,

X = fa 2 Z : 0 a < mng:

Pelo Lema 5.2 e mdc(m; n) = 1 temos que

mdc(a; mn) = 1 , mdc(a; m) = mdc(a; n) = 1:

Logo, podemos analizar os elementos de X que são relativamente primos com


m e n separadamente. Note que

mdc(r; m) = 1 ) mdc(r; r + im) = 1; 8i 2 f1; : : : ; n 1g:

Assim, se
fr1 ; : : : ; r (m) g

é um sistema reduzido de resíduos módulo m, então, pelo Lema 5.4,

frj ; rj + m; rj + 2m; : : : ; rj + (n 1)mg; 8j 2 f1; : : : ; (m)g

é um sistema completo de resíduos módulo n e contém um sistema reduzido de


resíduos módulo n. Logo, existem (m) (n) números da forma qm + r, que são
relativamente primos com m e n, isto é, com mn. Portanto,

(mn) = (m) (n):

Corolário 5.3 Seja n 2 N, com n > 1. Então


r
Y 1
(n) = n 1 ;
i=1
pi

onde p1 ; : : : ; pr são os primos distintos que dividem n.

Teorema 5.8 (Euler) Sejam m; n 2 N com mdc(m; n) = 1. Então


(m)
n 1 (mod m):

Prova. Seja
fr1 ; : : : ; r (m) g

um sistema reduzido de resíduos módulo m, então, pelo Lema 5.3,

fnr1 ; : : : ; nr (m) g
140 CAPÍTULO 5. ARITMÉTICA MODULAR

é um sistema reduzido de resíduos módulo m. Portanto, para cada i 2 f1; : : : ; (m)g,


existe j 2 f1; : : : ; (m)g tal que

nri rj (mod m):

Assim, pelo item 4 do Teorema ??,


(m) (m) (m) (m)
Y Y Y Y
(m)
nri rj (mod m) ) n ri ri (mod m):
i=1 j=1 i=1 i=1

Como mdc(ri ; m) = 1 para i = 1; : : : ; (m) temos, pelo Teorema ??, que


(m)
n 1 (mod m):

Corolário 5.4 (Fermat) Seja p 2 N um número primo. Então

ap a (mod p); 8a 2 Z

Prova. Se a = 0 não há nada para provar. Podemos supor, sem perda de


generalidade, que a > 0, pois o caso a < 0, reduz-se a este com a substituição
de a por b = a > 0. Assim, há dois casos a serem considerados:

(i) Se p j a, então

a 0 (mod p) e ap 0 (mod p) ) ap a (mod p):

(ii) Se p - a, então mdc(a; p) = 1. Logo, pelo Teorema de Euler,


(p)
a 1 (mod p) ou ap 1
1 (mod p):

Como a a (mod p) temos, pelo item 4 do Teorema ??, que

ap a (mod p)

Portanto, em qualquer caso, ap a (mod p).

Observação 5.1 O Teorema de Euler pode ser usado para determinar o inverso
de todo elemento a 2 Zn , pois
(n) 1 (n) 1
a 1 (mod n) , a =a (mod n):

Exemplo. Determinar os últimos três dígitos do número 79999 no sistema de


representação decimal.

Solução. Basta encontrar o resto da divisão de 79999 por 1000, isto é,

79999 r (mod 1:000); onde 0 r < 1000

Como mdc(7; 1000) = 1 temos, pelo Teorema de Euler, que


(1000)
7 1 (mod 1:000) ) 7400 1 (mod 1:000);
5.3. TEOREMA DE EULER 141

pois

1 1
(1000) = (23 53 ) = (23 ) (53 ) = 23 1 53 1 = 400
2 5

Sendo 9999 = 24 400 + 399 segue-se que

79999 7399 (mod 1000)

Assim,
7400 1 (mod 1:000) ) 7399 7 1 (mod 1000)
Logo, devemos resolver a congruência linear

7x 1 (mod 1000)

É fácil veri…car que x0 = 143 é a solução principal desta congruência linear.


Portanto, a representação decimal de 79999 termina em 143.

Exemplo. Mostrar que

a561 a (mod 561); 8a 2 Z

Solução. Note que 561 = 3 11 17. Assim, basta mostrar que

a561 a (mod 3); a561 a (mod 11) e a561 a (mod 17)

Se 561 j a não há nada para fazer. Assim, suponhamos que mdc(561; a) = 1.


Pelo Teorema de Euler,

a2 1 (mod 3) ) a560 1 (mod 3) ) a561 a (mod 3);


a10 1 (mod 11) ) a560 1 (mod 11) ) a561 a (mod 11);
a16 1 (mod 17) ) a560 1 (mod 17) ) a561 a (mod 17):

Portanto, a recíproca do Teorema de Fermat é falsa, isto é,

a561 a (mod 561); 8a 2 Z;

mas 561 não é um número primo.

Denotaremos por M2 (Zn ) o conjunto das matrizes 2 2 com entradas sobre


Zn .

Teorema 5.9 Sejam

a b
A= 2 M2 (Zn ) e D = ad bc 2 Z
c d

Então as seguintes condições são equivalentes:

1. mdc(n; D) = 1;

2. A tem uma matriz inversa;


142 CAPÍTULO 5. ARITMÉTICA MODULAR

3. A função
x x
T : Zn Zn ! Zn Zn dada por T =A
y y
é uma correspondência biunívoca;
4. Se x ou y 2 Zn , então
x 0
T 6=
y 0

1
Prova. (1 ) ) (2 ) Suponhamos que mdc(n; D) = 1. Então existe D 2 Zn tal
que
1
D D = 1:
Portanto, " #
1 1
1 D d D b
A = 1 1
D c D a
é a matriz inversa de A. É fácil veri…car que (2 ) ) (3 ) e (3 ) ) (4 ). Assim,
resta mostrar que (4 ) ) (1 ), Suponhamos que mdc(n; D) = k > 1 e seja m = nk .
Então há três casos a serem considerados:
(i) Se todas as entradas de A são divisíveis por k, então pondo
x m x 0
= ; obtemos que T =
y m y 0

(ii) Se a e b não são ambos divisíveis por k, então pondo


x bm x 0
= ; obtemos que T = ;
y am y 0
pois n divide Dm.
(iii) Se c e d não são divisíveis por k, então pondo
x dm x 0
= ; obtemos que T = ;
y cm y 0
pois n divide Dm.
Lema 5.5 Sejam a; n 2 N, com mdc(a; n) = 1. Se r; t 2 N são tais que rt
1 (mod (n)), então
art a (mod n)
Prova. Como rt 1 (mod (n)) temos que existe s 2 N tal que
rt = 1 + s (n):
Logo,
s
art = a1+s (n)
= a as (n)
=a a (n)
a 1s a (mod n)
5.4. TRIÂNGULOS PITAGORIANOS 143

Corolário 5.5 Sejam n; r; t 2 N. Se mdc(t; (n)) = 1, então a função


f : Zn ! Zn dada por f (x) = xt
é uma correspondência biunívoca com f 1
(x) = xr , onde rt 1 (mod (n)).

5.4 Triângulos Pitagorianos


Nesta seção consideraremos o problema de encontrar todas as soluções in-
teiras positivas x, y e z para a equação Diofantina:
x2 + y 2 = z 2 (5.1)
Suponhamos que x; y; z 2 N é uma solução da equação 5.1. Seja d = mdc(x; y).
Então d2 j x2 e d2 j y 2 e, assim, d2 j x2 + y 2 , isto é, d2 j z 2 . Temos, pela
unicidade do Teorema Fundamental da Aritmética, que d j z. Portanto,
mdc(x; y) = mdc(x; z) = mdc(y; z) = mdc(x; y; z)
Assim, se x; y; z 2 N é uma solução da equação 5.1 e d = mdc(x; y), então
x y z
a = ;b = e c=
d d d
é uma solução da equação 5.1 com mdc(a; b) = 1, chamamos (a; b; c) uma solução
primitiva, por exemplo, 3, 4 e 5 e 5, 12 e 13 são soluções primitivas da equação
5.1. Assim, todo triângulo Pitagoriano é similar a um triângulo Pitagoriano
primitivo. Portanto, basta considerar o problema de encontrar todas as soluções
primitivas da equação 5.1.
Seja x, y e z uma solução primitiva da equação 5.1. Então x e y não pode
ser ambos pares e também não pode ser ambos ímpares, pois
x2 1 (mod 4) e y 2 1 (mod 4) ) z 2 2 (mod 4);
o que é impossível. Como x e y aparece simetricamente na equação 5.1, podemos
supor, sem perda de generalidade, que x é par e y e z são ímpares. Note que
x z+y z y
x2 + y 2 = z 2 , x2 = (z + y)(z y) , ( )2 = ( )( )
2 2 2
e a última equação tem sentido, pois x, z + y e z y são pares. A…rmação:
z+y z y
mdc( ; ) = 1:
2 2
De fato, seja d = mdc( z+y z y
2 ; 2 ). Então d j y e d j z. Daí, por hipótese, d = 1.
Logo, pelo Lema ??, existem r; s 2 N tais que
z+y z y x
= r2 ; = s2 e = rs:
2 2 2
É fácil veri…car que r e s têm paridades distintas com mdc(r; s) = 1 e r > s > 0
(prove isto!). Finalmente, das equações acima, temos que
x = 2rs; y = r2 s2 e z = r2 + s2 ; 8r; s 2 N;
onde r e s têm paridades distintas com mdc(r; s) = 1 e r > s > 0, são todas as
soluções primitivas da equação 5.1.
144 CAPÍTULO 5. ARITMÉTICA MODULAR

5.4.1 Exercícios Propostos


1. Determine os últimos dois dígitos do número 3400 no sistema de represen-
tação decimal.

2. Mostre que
f2; 22 ; : : : ; 218 g
forma um sistema reduzido de resíduos módulo 27.

3. Mostre que
f30 ; 31 ; : : : ; 316 g
forma um sistema reduzido de resíduos módulo 17.

4. Seja p 2 N um número primo. Mostre que

fap + 1; ap + 2; : : : ; ap + (p 1)g

é um sistema reduzido de resíduos módulo p para todo a 2 Z. (Sugestão:


Se b 2 Z é tal que mdc(b; p) = 1, então existe k 2 Pp tal que b k (mod p).
Como ap 0 (mod p) temos que b ap + k (mod p).)

5. Seja m 2 N um número ímpar. Mostre que

f2; 4; : : : ; 2mg

é um sistema completo de resíduos módulo m.

6. Seja m 2 N, com m > 2. Mostre que

f12 ; 22 ; : : : ; m2 g

não é um sistema completo de resíduos módulo m.

7. Seja p 2 N um número primo. Mostre que se

fr1 ; r2 ; : : : ; rp 1g

é um sistema reduzido de resíduos módulo p, então


pY1
ri 1 (mod p):
i=1

8. Sejam p 2 N um número primo ímpar,

fr1 ; r2 ; : : : ; rp g e fs1 ; s2 ; : : : ; sp g

dois sistemas completos de resíduos módulo p. Mostrar, com um


exemplo,
fr1 s1 ; r2 s2 ; : : : ; rp sp g
pode não ser um sistema completo de resíduos módulo m.
5.4. TRIÂNGULOS PITAGORIANOS 145

9. Sejam k; p 2 N, com p um número primo. Mostre que

f1k ; 2k ; : : : ; (p 1)k g

é um sistema reduzido de resíduos módulo p se, e somente se,


mdc(k; p 1) = 1.

10. Sejam k; n 2 N e
fr1 ; r2 ; : : : ; rm g
é um sistema reduzido de resíduos módulo n, onde m = (n). Mostrar
que
fr1k ; r2k ; : : : ; rm
k
g
é um sistema reduzido de resíduos módulo n se, e somente se,
mdc(k; m) = 1.

11. Determinar os elementos invertíveis de Z6 , Z7 , Z10 , Z13 e Z24 .

12. Seja p 2 N um número primo. Mostre que mdc(k!; p) = 1, para todo k


com 1 < k < p.

13. Seja p 2 N um número primo. Mostre que

p
0 (mod p)
k

para todo k com 1 k < p. Mostrar que isto é falso se p não é um número
primo.

14. Sejam m; n; p 2 N, com p um número primo. Mostre que pn 1 (mod(pm


1)) se, e somente se, m divide n.

15. Sejam a; b 2 Z e p 2 N um número primo. Mostre que

ap bp (mod p) ) ap bp (mod p2 )

16. Sejam a; b 2 Z e p 2 N um número primo. Mostre que

(a + b)p ap + bp (mod p)

17. Seja p 2 N um número primo. Mostre que a função

f : Zp ! Zp dada por f (x) = xp

satisfaz as seguintes condições:

(a) f (x + y) = xp + y p ;
(b) f (x y) = xp yp .

18. Sejam p 2 N um número primo e a 2 Z. Mostrar que se mdc(a; p) = 1 e


n m (mod(p 1)), então

an am (mod p)
146 CAPÍTULO 5. ARITMÉTICA MODULAR

19. Determine o último dígito do número 21:000:000 no sistema de representação


de base 7.

20. Sejam n 2 N e a 2 Z. Mostre que se mdc(a; n) = 1 e k o menor inteiro


positivo tal que m k (mod (n)), então

am ak (mod n)

21. Seja n 2 N um produto de dois números primos distintos p e q. Mostre


que podemos calcular (n) de p e q, e reciprocamente, calcular p e q de n
e (n).

22. Mostre que:

(a) 211 1 é um número composto;


23
(b) 2 1 é um número composto;
911
(c) 2 1 é um número composto.

23. Seja a 2 Z. Mostrar que se mdc(a; 7) = 1, então a6k 1 (mod 7).

24. Sejam a 2 Z e n 2 N. Mostrar que se mdc(a; n) = 1 e an 1


6 1 (mod n),
então n não é um número primo.

25. Mostre que 232 + 1 é um número composto. (Sugestão: Note que

5 27 1 (mod 641) e 54 24 (mod 641):)

26. Sejam p; q 2 N dois números primos distintos. Mostre que

pq 1
+ qp 1
1 (mod pq)

27. Sejam m; n 2 N com mdc(m; n) = 1. Mostre que


(n) (m)
m +n 1 (mod mn)

28. Resolver o sistema de congruências

2x + 3y 1 (mod 26)
7x + 8y 2 (mod 26)

29. Resolver o sistema de congruências

x + 4y 29 (mod 143)
2x 9y 84 (mod 143)

30. Seja n 2 N. Mostrar que X


n= (d)
djn

(Sugestão: Seja
X = f1; 2; : : : ; ng
5.4. TRIÂNGULOS PITAGORIANOS 147

e para cada divisor d de n seja

Xd = fk 2 X : mdc(k; n) = dg

Então [
X= Xd e Xd \ Xe = ; se d 6= e
djn

Portanto, X
n= #(Xd )
djn

Agora mostre que a função

k
f : Xd ! Z nd dada por f (k) =
d
é uma correspondência biunívoca.)

31. Seja : N ! f 1; 0; 1g a função (de Möbius) de…nida por


8
< 1; se n = 1
(n) = 0; se p2 j n para algum primo p
: k
( 1) ; se n é um produto de k primos distintos

Mostrar que:

(a) Se mdc(m; n) = 1, então (mn) = (m) (n);


P
(b) (n) = (d) nd .
djn

32. Seja n 2 N. Mostrar que se (n) 0 (mod(n 1)), então não existe
nenhum número primo p tal que p2 0 (mod n). (Sugestão: Suponha que
exista um número primo p tal que p2 0 (mod n). Então

n = pk pk11 pkr r ;

onde k 2, ki 2 N e p1 ; : : : ; pr são primos distintos.)

33. Seja n 2 N. Mostrar que se n não é um quadrado perfeito e


2
n n 3 < (n) < n 1;

então n é um produto de dois números primos distintos. (Sugestão:


Primeiro mostre que n não é um número primo, depois suponha, por ab-
surdo, que n não é um produto de dois números primos distintos, então n é
um produto de três ou mais números primos, não necessariamente distin-
1
tos. Seja p o menor dos números primos. Então p n 3 e (n) n(1 p1 ).)

34. Seja n 2 N. Mostre que

an an (n)
(mod n); 8a 2 Z

35. Seja p 2 N um número primo. Mostrar que:


148 CAPÍTULO 5. ARITMÉTICA MODULAR

(a) k 2 1 (mod p) , k 1 (mod p);


(b) Se 1 k; l < p e k 6 1 (mod p), então k l 1 (mod p) ) k 6= l.

36. Seja m 2 N com m > 1. Mostrar que m é um número primo se, e somente
se, (m 1)! 1 (mod m). (Sugestão: Use o exercício precedente.)
37. Sejam k; m; n 2 N. Mostre que:

(a) Se m > 2, então (m) é par;


(b) Se m é ímpar, então (2m) = (m);
(c) Se m é par, então (2m) = 2 (m);
(d) Se m 0 (mod 3), então (3m) = 3 (m);
(e) Se m 6 0 (mod 3), então (3m) = 2 (m);
m
(f) (m) = 2 se, e somente se, m = 2k ;
(g) Se n j m, então (n) j (m);
(h) (mdc(m; n)) (mn) = mdc(m; n) (m) (n);
(i) (m) (n) = (mdc(m; n)) (mmc(m; n)).

38. Mostre que se n 2 N tem k fatores primos ímpares distintos, então 2k


divide (n).
39. Seja n 2 N, com n > 1. Mostre que
X n (n)
k= ;
2
0<k<n

onde mdc(n; k) = 1. (Sugestão: Note que

mdc(n; k) = 1 , mdc(n; n k) = 1:)

40. Determine todas as soluções inteiras da equação (n) = 12.


41. Mostre que a equação (n) = 14 não tem solução inteira.
42. Sejam k; n 2 N, com k …xado. Mostre que a equação (n) = k tem somente
um número …nito de soluções inteiras. (Sugestão: Se n = p1 1 pr r é a
decomposição em fatores primos distintos, então
r
Y r
Y
1 k
n 1 =k,n= Q
r pi
pi
i=1 (pi 1) i=1
i=1

Assim, os inteiros di = pi 1; i = 1; : : : ; r, podem ser determinados pelas


seguintes condições:

(a) di j k;
(b) di + 1 é um número primo;
k
Q
r
(c) Q
r não contém fatores primos diferentes de pi .)
di i=1
i=1
5.4. TRIÂNGULOS PITAGORIANOS 149

As condições 1 , 2 e 3 do Teorema ?? mostram que a relação de congruência


é uma relação de equivalência, sendo a classe de equivalência de a 2 Z módulo
n dada por
a = fb 2 Z : b a (mod n)g
= fa + kn : k 2 Zg
Agora, para todo a 2 Z temos, pelo Teorema ??, que existem q; r 2 Z tais que

a = qn + r onde 0 r<n

Então qualquer a 2 Z é congruente módulo n a um dos elementos

0; 1; : : : ; n 1

Além disso, estes elementos são todos distintos. De fato: se i = j, com 0 i


j < n, então

j i (mod n) , n j j i)j i=0)j=i

que é uma contradição, pois 0 j i < n. Portanto, o conjunto quociente é


Z
Zn = = f0; 1; : : : ; n 1g

Agora vamos considerar as operações de adição e multiplicação no conjunto


quociente Zn . Uma operação binária sobre Zn é qualquer função de Zn Zn
em Zn . Dados a; b 2 Zn , vamos de…nir em Zn as seguintes operações binárias:

a b=a+b e a b = ab

Assim, pelo item 4 do Teorema ??, estas operações estão bem de…nidas, isto é,

a = c e b = d ) a + b = c + d e ab = cd

Estas operações satisfazem quase todas as propriedades das operações usuais de


adição e multiplicação em Z.

1. (a b) c=a (b c), 8a; b; c 2 Zn , pois

(a b) c = (a + b) c = (a + b) + c
= a + (b + c) = a (b + c) = a (b c);

2. Existe 0 2 Zn tal que a 0=0 a = a, 8a 2 Zn , pois

a 0 = a + 0 = a;

3. Para cada a 2 Zn existe a 2 Zn tal que a a= a a = 0, pois

a a = a + ( a) = 0;

4. a b=b a, 8a; b 2 Zn , pois

a b=a+b=b+a=b a;
5.4. TRIÂNGULOS PITAGORIANOS 141

5. (a b) c=a (b c), 8a; b; c 2 Zn , pois

(a b) c = (ab) c = (ab)c
= a(bc) = a (bc) = a (b c);

6. Existe 1 2 Zn tal que a 1=1 a = a, 8a 2 Zn , pois

a 1 = a1 = a;

7. a b=b a, 8a; b 2 Zn , pois

a b = ab = ba = b a;

8. (a b) c=a c b c, 8a; b; c 2 Zn , pois

(a b) c = (a + b) c = (a + b)c
= ac + bc = ac bc = a c b c:

A lei do cancelamento não vale, em geral, em Zn . Por exemplo,

14 8 (mod 6) mas 7 6 4 (mod 6):

Mas temos o seguinte:

Índice
Algoritmo
da divisão,
Euclidiano,
Axioma da boa ordenação,
Cifra de César,
Venegìere,
Chave,
Classe de equivalência,
Codi…cação
Complementar,
Congruência,
Conjunto
contável,
(s) disjuntos,
enumerável,
…nito,
ordenado,
parcialmente ordenado,
quociente,
totalmente ordenado,
universo,
vazio,
Contradomínio,
Criptogra…a,
Cripo-sistema,
142 CAPÍTULO 5. ARITMÉTICA MODULAR

Decimal,
Decodi…cação,
Diferença,
entre conjuntos,
simétrica ou Booleana,
Divide,
Dízima periódica,
Elemento
associado,
invertível,
Extenção,
Família indexada,
Função
bijetiva,
característica,
composta,
de Euler,
identidade,
injetiva,
invertível,
de Möbius,
sobrejetiva,
Imagem,
inversa,
interseção,
Lema de Euclides,
Lei do cancelamento,
Maior inteiro,
Máximo divisor comum,
Mínimo múltiplo comum,
Número
algébrico,
cardinal,
complexo,
composto,
de elementos de um conjunto,
inteiro,
natural,
perfeito,
primo,
racional,
real,
transcendente,
Par ordenado,
Partição de um conjunto,
Pertence,
Princípio de Indução Finita,
Produto Cartesiano,
Relação,
de equivalência,
5.4. TRIÂNGULOS PITAGORIANOS 143

circular,
de ordem parcial,
de ordem total,
Raiz,
Relativamente primo,
Restrição,
Representação em qualquer base,
Sentença,
verdadeira,
falsa,
Solução,
Subconjunto,
próprio,
Teorema de Euler,
da divisão,
de Fermat,
Fundamental da Aritmética,
Transformação linear,
a…m,
União,
Valor,
verdade,