Campos Universitário de Viana
Universidade Jean Piaget de Angola
(Criada pelo Decreto n. 44-A/01 de 6 de Julho de 2001)
PSICOLOGIA DE DESENVOLVIMENTO DA EDUCAÇÃO
FUGAS ESCOLAR
Autor: Luísa Francisco Pedro Francisco
Docente: Alfredo Sango Ph.D
Disciplina: Psicologia da Educação
Luanda, 2020
Campos Universitário de Viana
Universidade Jean Piaget de Angola
(Criada pelo Decreto n. 44-A/01 de 6 de Julho de 2001)
FUGAS ESCOLAR
Autor: Luísa Francisco Pedro Francisco
Docente: Alfredo Sango Ph.D
Curso: Psicologia da Educação
ÍNDICE
INTRODUÇÃO ...................................................................................................................4
I. FUNDAMENTAÇÃO TÉCNICA CIENTIFICA.............................................................5
1.1. FUGA ESCOLAR: SIGNIFICADO........................................................................5
1.2. CAUSAS DETERMINANTES DA FUGA ESCOLAR............................................6
1.2.1. FACTORES INDIVIDUAIS...........................................................................8
1.2.2. FACTORES FAMILIARES............................................................................8
1.2.3. FACTORES SOCIAIS ...................................................................................9
1.2.4. FACTORES ESCOLARES........................................................................... 10
1.3. CONSEQUÊNCIAS DA FUGA ESCOLAR ......................................................... 12
1.4. PREVENÇÃO PARA EVITAR A FUGA ESCOLAR ........................................... 13
1.5. O QUE DEVE SER FEITO PARA CORRIGIR ESTE FENÓMENO? .................... 14
CONCLUSÃO................................................................................................................... 15
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................. 16
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INTRODUÇÃO
A fuga ou simplesmente abandono escolar é um fenómeno que afecta a classe
estudantil angolana e não só. Este fenómeno poderá fazer com que muitos estudantes
tornem-se os futuros excluídos da sociedade e do mercado de trabalho. Para notarmos o
quão urgente e importante é esta temática basta olharmos pela matéria publicada no
Jornal de Angola, onde destaca que, na Província do Huambo mais de 40 mil estudantes
abandonaram a escola, num total de 915 mil e 817 no ano lectivo 2019. Números
bastantes assustadores, pois estes dados estatísticos referem-se apenas a província do
Huambo. Está realidade social não tem impacto apenas sobre o sistema educativo, mas
também o desenvolvimento social e económico do país, constituindo uma grande
preocupação para o estado angolano e a para a sociedade em geral.
Matos, (2003, Citado por Ditutala, 2015), conceitua a fuga escolar como o
processo que leva um indivíduo, ou grupo de determinada faixa etária, à não conclusão
de um grau de ensino frequentado, por razões que não sejam transferência de escola ou
morte. destes conceitos realça-se a ideia de não conclusão de um grau de ensino. E para
as situações que grau de escolaridade obrigatório o abandono escolar será quando o
aluno não cumpre este grau de escolaridade.
Tal como destacou-se no principio da introdução, o fenómeno da fuga escolar
está cada vez mais alarmante. Este fenómeno não afecta apenas o próprio estudante,
mas a sociedade em geral. Por este facto justifica-se a abordagem desta problemática.
Para tal, traçou-se os seguintes objectivos:
Objectivos
Geral
Analisar a problemática da fuga escolar no sistema de ensino
Específicos
Conceituar a fugaescolar
Identificar as causas da fuga escolar
Conhecer os metodos de prevenção e correção a ser adoptado para
mitigar o fenómeno da fuga escolar
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I. FUNDAMENTAÇÃO TÉCNICA CIENTIFICA
1.1. FUGA ESCOLAR: SIGNIFICADO
Visto ser um fenómeno cada vez mais crescente e de extrema preocupação,
vários estudiosos procuram abordar sobre esta temática, e com isto vão procurando
conceituar este fenómeno segundo os seus estudos. Segundo Doron e Parot (2001, p.19)
abandono ou fuga escolar é “a saída do sistema educativo, qualquer que seja o nível que
se alcançou, antes de ter obtido uma qualificação ou ter realizado uma formação
profissional”.
Segundo Duclos (2006), O fenómeno da fuga escolar refere-se a desistência de
frequentar a escola por parte do estudante, quando estes ainda estão em idade de
frequentar, por causa de atraso escolar e à falta de motivação, falta de apoio família, da
escola e até mesmo por causa de aspectos relacionado ao sistema de ensino. Deste modo
entende-se por fuga escolar, a interrupção da frequência do aluno no sistema de ensino,
sem o ter concluído, por um período considerado suficiente para que uma ausência
possa transformar-se num afastamento praticamente irreversível (Justino, 2010,
citado por Ndamonovanu, 2017). Nesta mesma linha de pensamento, Santos (2010),
acrescenta que a fuga ou abandono escolar, é um problema do domínio da conduta
individual e não é uma decisão repentina, mas, é produto de um longo processo de
tensões, desajustamentos, fracassos e desinteresse pela escola. Sendo que a saída
antecipada da escola põe em causa o valor instrumental da escola, como participante no
desenvolvimento pessoal e de preparação para a vida activa que o aluno se nega
a reconhecer. (Santos, 2010).
Alguns estudiosos tratam da fuga ou abandono escolar como sendo evasão
escolar. Mas estudiosos da evasão e abandono costumam diferenciar abandono ou fuga
escolar de evasão escolar, para, Maitê e Arraes (2015), abandonar é deixar de estudar
por um determinado período e retornar aos estudos, evadir é deixar os estudos não
retornando nos anos seguintes. Evasão, segundo Riffel e Malacarne (2010), é o acto de
evadir-se, fugir, abandonar; sair, desistir; não permanecer em algum lugar. Nesse caso,
“abandono ou fuga” significa a situação em que o aluno desliga-se da escola, mas
retorna no ano seguinte, enquanto na “evasão” o aluno sai da escola e não volta mais
para o sistema escolar. Já o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica/Ideb
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(2012), aponta o abandono como o afastamento do aluno do sistema de ensino e
desistência das actividades escolares, sem solicitar transferência.
A noção de abandono escolar está geralmente identificada com a interrupção
da frequência do sistema de ensino por um período considerado suficiente para
que essa ausência possa transformar-se num afastamento praticamente irreversível.
Porém, esta definição lata é geralmente enquadrada pelo carácter compulsório do
ensino obrigatório e pelas consequências legais do seu não cumprimento. (Justino,
2007, citado por Vasconcelos, 2013). Nesta perspectiva, o abandono escolar reportado
à interrupção prolongada da escolaridade obrigatória e à saída definitiva do sistema
de ensino sem a ter concluído, tende a constituir-se como ilícito, independentemente
da eficácia sancionatória ou da maior ou menor recriminação social que lhe estiver
associada.
Ainda sobre o conceito de fuga ou abandono escolar, Arroteia (2008) afirma
que este problema ocorre com uma “saída prematura do sistema educativo, antes
dos/as alunos/as completarem o ciclo de estudos que iniciaram” (Arroteia, 2008, p.
295). O autor acrescenta que quando as saídas ocorrem “ao longo do ano antes,
durante, ou após a conclusão da escolaridade obrigatória, podem ser referidas
como saídas antecipadas” e “saídas precoces, no caso de os alunos saírem da escola
antes de completarem o ensino secundário (12º ano ou 13º ano)” (Arroteia, 2008, p.
295). Já no parecer de Sarmento (2009), o conceito de abandono escolar está
relacionado com o incumprimento dos objectivos de escolarização obrigatória e
universal. Este conceito tem evoluído de acordo com os sucessivos prolongamentos da
escolarização obrigatória.
1.2. CAUSAS DETERMINANTES DA FUGA ESCOLAR
Azevedo (1999 citado por Ndamonovanu, 2017), afirma que a fuga escolar é um
complexo problema social, desde as suas causas até à formas como se concretiza, e,
ainda nas consequências sociais e profissionais do indivíduo. O autor acrescenta que “o
carácter sistémico do fenómeno compreende quatro subsistemas: o indivíduo, a família,
a escola e o meio envolvente” (Azevedo, 1999, p.84, citado por Ndamonovanu). Em sí,
estes quatro subsistemas acabados de ser mencionados são os factores que acabam por
influenciar a fuga escolar ou não dos estudantes, seja qual for o nível de ensino que
estejam inseridos. Reafirmam Gatti et al. (1991 citados por, Filho e Araújo, 2017) que
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“os alunos de nível socioeconómico mais baixo têm um menor índice de rendimento,
portanto são mais propensos a fuga escolar”.
Segundo Canavarro (2017), normalmente a literatura destaca os factores
individuais e os familiares, como sendo os factores ou causas principais para o
abandono ou fuga escolar. Mas não se pode retirar responsabilidade da escola. Pois a
escola desempenha um papel importante na decisão da fuga escola, tal como o grupo de
amigos e o contacto com outras crianças ou jovens que já abandonaram a escola. Quer
com isto dizer que, a qualidade de ensino, e as pessoas com que o aluno interage
desempenha um enorme papel sobre a formação do indivíduo, podendo influenciar ou
não, na sua decisão de permanecer ou abandonar a escola.
Benavente et al. (1994) afirma que as causas existentes na base do abandono
escolar estão agrupadas em 3 grandes grupos: Integração/Relacionais, Familiares e de
Acessibilidade.
Tabela 1 - Fatores explicativos do abandono escolar
Adaptado de Benavente (1994)
Segundo a Comissão Europeia (doravante designado CE), os processos de
abandono escolar precoce têm causas complexas e variadas, mas estão muitas vezes
associados a desvantagens socioeconómicas, a meios pouco qualificados, a uma
alienação ou fraco desempenho em termos de educação e formação, à atractividade
dos mercados de trabalho e/ou a uma conjugação de problemas sociais, emocionais
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e educativos que colocam os indivíduos em risco de abandonar a escola (CE, 2011). Já
a seguir apresentaremos de modo específico os factores ou causas que influenciam
directamente no abandono escolar.
1.2.1. FACTORES INDIVIDUAIS
Segundo Silva (2014, p.27), estes factores decorrem de interacções
traumatizantes na história de vida do aluno e são fortemente determinantes do
seu desinteresse escolar, que se traduz no desempenho do/a aluno/a. Segundo
Silva (et al., 2006), uma criança desinteressada desenvolve baixa motivação,
baixos níveis de esforço, desatenção e níveis elevados de problemas disciplinares.
Amado (2001), afirma que um percurso escolar cheio de retenções e de insucesso
escolar desencadeia sentimentos de incapacidade e fracasso generalizado e pode
revelar-se muito traumático para a criança. Este fracasso continuado apresenta
sérios problemas de adaptação fazendo com que muitos abandonem a escola cedo
de mais e, muitas vezes, envolvam-se em drogas, incidentes criminais e conflitos
nos seus relacionamentos (Hunt et al., 2002, citado por silva, 2017).
E de acordo com Sousa et al., (2007), quando estas crianças e jovens atribuem
o seu mau desempenho à incompetência pessoal, apresentam sentimentos de
vergonha e baixa auto-estima, desencadeando problemas emocionais e
comportamentais; culpam a escola do seu mau desempenho e demonstram
sentimentos de frustração, agressividade e inferioridade, expressando hostilidade
relativamente aos outros. Estes sentimentos podem levar facilmente o/a aluno/a a
abandonar a escola (Idem).
1.2.2. FACTORES FAMILIARES
A família é um dos agentes de socialização mais importantes. O ambiente
familiar assim como os estilos educativos parentais são factores determinantes da
socialização da criança ou jovem (Canário, 2001). O que este autor e muitos outros
querem dizer, é que os alunos que encontram-se em familia vulneráveis, acabam por ser
mais vulneráveis também para abandonar a escola. É sobre estes alunos que mais
facilmente recaem os rótulos e as expectativas negativas, é sobre eles que se
exerce maior vigilância e isto leva-os a sentirem-se excluídos, perseguidos, vítimas
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de injustiça e de incompreensão (Amado & Freire, 2002, citados por Siva, 2014). O
ambiente familiar influência o desenvolvimento físico, intelectual, social e cultural a
criança ou jovem. Assim sendo, o disfuncionamento familiar cria fortes possibilidades
do aparecimento de problemas cognitivos, sociais, afectivos, emocionais,
comportamentais e físicos.
A origem socioeconómica dos alunos/as e as expectativas que a família
manifesta sobre o percurso e aproveitamento escolares, ajudam a compreender até
que ponto a relação entre a escola e o/a aluno/a se vai tornando gradualmente
mais frágil à medida que as exigências curriculares se acentuam, até porque
existem no interior da escola problemas de ordem organizacional, curricular e
pedagógica que tendem a reforçar o afastamento de alunos interiormente dispostos
a afastar-se, tal como veremos quando abordarmos sobre os factores escolares
(Guerreiro, 2009). Guerreiro quer com isto dizer que, os alunos provenientes de
ambiente socioeconómicos inferiores, tendencialmente têm menor oportunidade de
desenvolverem fisica e intelectualmente. Assim, as famílias desestruturadas vivendo
em ambientes muito pobres ou marginais, favorecem na criança uma baixa
auto-estima, acompanhada por sentimentos de inferioridade e incapacidade,
insegurança, falta de controlo emocional e comportamental, baixa tolerância à
frustração, baixas metas educacionais, entre outras, intensificando-se o risco de
abandono escolar (silva, 2014).
1.2.3. FACTORES SOCIAIS
O ambiente social exerce grande influência no comportamento de qualquer
criança e/ou adolescente. Não se pode esquecer que os pares constituem uma
importante fonte de apoio social, principalmente para as crianças e jovens
provenientes de famílias socioeconómicas e culturalmente desfavorecidas
(Guerreiro et al., 2009). Exercem uma influência muito grande no/a aluno/a e, da
mesma forma que podem estimular à permanência na escola, também o/a podem
afastar desta. Existem crianças e jovens que abandonam precocemente a escola porque
os seus amigos também o fazem (Feitosa et al., 2005). Deste modo percebe-se que o
problema está no tipo de companhias pois a sua influência é ainda mais determinante
nas áreas marginais, onde a carência socioeconómica e as condições devida
precária aumentam a susceptibilidade do jovem para desenvolver padrões
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comportamentais de risco e condições graves de desadaptação (Garcia et al., 2000
citado por silva, 2014). Amado e Freire (2002, citado por silva, 2014) referem-se que as
condições de vida degradadas (e.g. má nutrição, más condições habitacionais,
formação de guetos,...) juntamente com as más companhias acabam por estimular as
crianças e os jovens à constituição e ao reforço de comportamentos de risco, como a
delinquência, as carências no suporte social associadas à pobreza socioeconómica,
afectam tanto, o desempenho académico como social. Feitosa et al. (2005)
salientam a importância de estratégias como:
i) criação de redes de apoio;
ii) implementação de programas de habilidades sociais na escola;
iii) fortalecimento da ação comunitária para ajudarem no combate ao
abandono precoce da escola.
Enguita et al. (2010) diz que a qualidade do sistema educacional de um país é,
além de um indicador dos níveis de desenvolvimento e bem-estar social, um indicador
de como será o futuro dessa nação. Os mesmo autores acrescentam as condições
socioeconómicas e violência são motivos importantes a serem discutidos,
principalmente em regiões urbanas, onde o tráfico de drogas se faz presente em sua
maioria e influencia directamente em muitos casos no comportamento do educando.
Esse autor consegue identificar como problema duas perspectivas: uma individual, que
envolve o estudante e as circunstâncias de seu percurso escolar; e outra institucional,
que leva em conta a família, a escola, a comunidade e os grupos de amigos.
De um modo geral pode-se afirmar que os/as alunos/as que abandonaram a
escola precocemente vivem em áreas desfavorecidas, em meios familiares
intelectualmente desfavorecidos, têm poucas ambições escolares, o que origina fracos
resultados, e professores pouco motivadores (Ferrão & Neves, 1992, citado por Silva,
2014).
1.2.4. FACTORES ESCOLARES
Assim como a família, a escola revela-se uma importante fonte de influência
no comportamento e desempenho escolar das suas crianças e jovens. Para Knesting
e Waldron (2006), grande parte das crianças e jovens que abandonam precocemente
a escola referem a falta de interesse e de expectativas dos professores nas suas
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aprendizagens. Acrescentam ainda que alguns professores são indiferentes presença
dos/as alunos/as na escola, não se preocupando se estes comparecem ou não. Da
mesma forma que as escolas podem contribuir para o abandono precoce, também
podem contribuir para a persistência dos alunos na escola (Knesting & Waldron, 2006).
Segundo Aranha (2009), que apresenta uma realidade brasileira que não foge da
realidade angolana, os maiores dilemas enfrentados pelos jovens, na actualidade, no
ensino médio, são turmas lotadas – chegam a 50 alunos por sala –, conteúdos extensos e
específicos e professores despreparados para lidar com o estágio de desenvolvimento
dos alunos. Segundo filho e Araújo (2017) a fuga escolar escolar têm sido associados a
situações tão diversas quanto a retenção e a repetência do aluno na escola. Sabe-se ainda
que implica uma ampla abordagem da qualidade e a da quantidade.
Canavarro (2007), defende que os comportamentos dos professores, dos pais
e gestores escolares influenciam a percepção dos próprios estudantes sobre a sua
competência e autonomia. Quanto menos os seus comportamentos ajudarem a
promover a autonomia dos alunos, mais reduzidas são as suas percepções e,
consequentemente, mais baixa é a sua motivação em relação à escola, o que
conduz ao desenvolvimento de intenções e comportamentos de fuga escolar
Num estudo realizado numa instituição de ensino brasileiro, quando indagado os
alunos sobre as razões que os leva a abandonar a escola, os resultados obtidos foram os
seguintes, de acordo com o gráfico:
Gráfico 1 – Razões que leva alguns alunos a fuga escolar segudo um inquérito
Fonte: AURIGLIETTI, Rosangela Cristina Rocha
Tal como observar-se o gráfico, 56% dos inqueridos apresenta questões
familiares como a causa para a fuga escolar, 17% justificam o desinteresse, preguiça e
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falta de vontade, 10% justifica as brigas no recinto escolar, outros 10% apresenta a
marginalização como causa e 7% apresenta a reprovação ou repetência como causa da
fuga escolar. Sobre a repetência, Lopez e Menezes (2002) enfatizam que a repetência é
a principal responsável pelo abandono, pois o aluno que repete o ano lectivo perde o
interesse por continuar os estudos. Para estes autores a reprovação acaba por desmotivar
o estudante. O facto de ele saber que terá que repetir o ano lectivo o afecta de tal
maneira que toma a decisão de não continuar os estudos.
Em um apanhado geral da literatura sobre abandono escolar, em 203 estudos no
assunto, chegam-se a algumas conclusões relevantes: notas baixas no início do processo
educativo é um forte aspecto de previsão de futuro abandono; desempenho inadequado
frequente costuma implicar reprovação; faltas, actos delinquentes e abuso de
substâncias ilegais são fortes preditores de abandono.(Rumberger e Lima, 2008 citados
Filho e Araújo 2017).
1.3. CONSEQUÊNCIAS DA FUGA ESCOLAR
As taxas elevadas de abandono escolar precoce são um obstáculo ao
crescimento inteligente e inclusivo. Têm um impacto negativo no emprego dos jovens e
aumentam o risco de pobreza e de exclusão social (Garcia et al., 2000). O abandono
escolar precoce representa uma perda de oportunidades para os jovens e uma perda de
potencial social e económico (CE, 2011). De acordo com Guerreiro (2010), a escola não
dá resposta às qualificações desejadas, não fomenta a autoconfiança e auto-estima, não
fornece habilitação para a criação de emprego próprio, nem incentiva a progressão
escolar. A saída antecipada da escola tem muitas vezes como consequência a
exclusão social e a entrada precoce numa vida delinquente ou mesmo marginal.
As elevadas taxas de abandono escolar precoce afectam em muito a
produtividade do país (Benavente et al., 1994, citado por Silva, 2014). O abandono
escolar pode levar a empregos precários, à grande probabilidade de virem a pertencer
a grupos marginalizados e/ou associados à criminalidade (devido não só às suas
diferenças culturais e linguísticas e/ou raciais, mas também às suas características
físicas e/ou psicológicas) que restringem o acesso a oportunidades benéficas e
aumentam a probabilidade de desadaptação (Garcia et al., 2000, citado por Silva, 2014).
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1.4. PREVENÇÃO PARA EVITAR A FUGA ESCOLAR
Quanto a prevenção, países há, que criam programas com vista a prevenir ou
mitigar a problemática do abandono escolar. Por exemplo, em Portugal o Ministério da
Educação (ME) e o Ministério de Solidariedade, Emprego e Segurança Social
(MSESS) criaram PNAPAE (Plano Nacional de Prevenção do Abandono Escolar).
(Silva, 2014). Este plano é apresentado como um esforço colectivo para prevenir o
abandono escolar, prevenir a saída da escola e do sistema de formação profissional
ou dos sistemas de educação e de formação, por um jovem com menos de 25
anos, sem a conclusão de estudos ou sem obtenção de qualificação de nível
secundário ou equivalente (PNPAE, 2004).
Uma das medidas adoptada foi o alargamento da obrigatoriedade de ensino. A
grande diferença entre a universalização e a obrigatoriedade do ensino é que a
universalização resulta da vontade e da opção do cidadão, a obrigatoriedade do
Estado alegadamente em benefício do cidadão e da sociedade (Justino, 2010). Justino
acrescenta que a obrigatoriedade é uma medida coerciva por parte do Estado visto que
este obriga à frequência escolar e oferece uma contrapartida, a gratuitidade de ensino
e de acessibilidade a todos. Mas não é só uma obrigatoriedade de os alunos
frequentarem a escola, também é a obrigatoriedade do Estado de assegurar aos seus
cidadãos uma educação de qualidade (Roldão, 2004, citado por Silva, 2014). Ainda de
acordo com Roldão (2004), a responsabilidade tem que ser assumida não apenas pelo
indivíduo, mas igualmente pela família e pela própria comunidade em que está
inserido, no sentido de os mobilizar e consciencializar para os benefícios de uma
escolarização alargada.
Outra medida que deve ser adoptada, principalmente pelo estado visando a
redução da fuga escolar é a formação profissional. O ensino profissionalizante torna-se
então numa opção para que os jovens possam ter novas oportunidades no mercado de
trabalho, garantindo um maior aproveitamento escolar e diminuindo o número de
jovens que não termina o ensino secundário (Silva et al., 2006). A formação profissional
facilita assim a inserção profissional dos jovens visando que a sua educação integral os
habilite a uma autêntica inserção social.(Almeida & Ramos, 1992 citado por Silva,
2014) Os estudantes que encontram dificuldades no ensino regular optam, muitas vezes,
pelo ensino e formação profissionais (EFP). Por esta razão, as escolas profissionais
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enfrentam um especial desafio e responsabilidade no que diz respeito à redução
do abandono escolar precoce. O EFP pode reforçar a motivação para aprender,
oferecer aos estudantes uma maior flexibilidade e uma pedagogia mais adequada, e
responder directamente às expectativas de emprego dos jovens (CE, 2011).
1.5. O QUE DEVE SER FEITO PARA CORRIGIR ESTE FENÓMENO?
Quando um caso de fuga escolar é assinalado, num primeiro momento, os
técnicos ou agentes educativos elaboraram um diagnóstico dos problemas vividos pela
família, com a ajuda desta e de alguns elementos que a constituem. Perante o
diagnóstico, os profissionais definem objectivos e estratégias. Estas estratégias, como
se baseiam em políticas sociais, nem sempre estão de acordo com as competências
das famílias. O diagnóstico, tal como a intervenção foca os problemas
individuais dos elementos da família (Sousa et al., 2007).
Lembrando que as escolas são entidades muito importantes na sinalização de alguns
problemas, nomeadamente em casos de fuga escolar precoce. Assim, atingindo
determinado número de faltas e uma vez que as crianças e jovens estão ainda
integrados na escolaridade obrigatória, são chamados os encarregados de educação a fim
de alterar a situação (Montano et al., 2011).
Silva (2014), A intervenção terá de ser orientada no sentido da
responsabilização dos pais em assumirem os seus deveres, é efectuada de modo
consensual com os pais e depende do consentimento expresso destes. É
fundamental repensar as formas de intervir de modo a compreender o
funcionamento e a estrutura das famílias, a reformulação das estratégias de intervenção
junto destas e as políticas sociais que organizam os apoios disponíveis (Sousa et al.,
2007)
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CONCLUSÃO
Assim sendo, nesta linha de investigação, a fuga escolar não é apenas um
problema social ou educacional, é também um problema económico e é
necessário ser encarado como tal por todos os autores sociais envolvidos na
educação. E aos alunos é necessário fazer chegar a mensagem de que o seu processo
educativo é a única forma de promoção pessoal e social. Os principais grupos de risco
encontram-se em famílias com baixos rendimentos, baixas qualificações, pouco
valorizadoras da escola e/ou inseridas em ambientes sociais desfavorecidos.
Prevenir a fuga escolar precoce é particularmente importante quer para combater
os efeitos negativos da pobreza e da exclusão social no desenvolvimento das
crianças, quer para capacitar as crianças e quebrar o ciclo de desvantagem
intergeracional. Como a relação dos/as alunos/as com a escola depende do contexto
socioeconómico em que vivem e das suas experiências pessoais, a integração
escolar, em geral, é tanto menor quanto mais baixa for a escolarização dos pais
Factores como a forte componente prática, o ambiente acolhedor e o
acompanhamento por parte dos professores perante as dificuldades dos alunos podem
estar na base do sucesso e não abandono escolar, contrariamente ao que acontece no
ensino regular onde os alunos são confrontados com uma formação essencialmente
teórica». O modo mais eficiente de travar e de combater o Abandono Escolar passa,
obrigatoriamente, pela sua prevenção, criando estruturas e bases que motivem os
jovens a manter-se na escola e a concluir o percurso escolar predefinido. É,
portanto, necessário identificar os factores que levam a fuga Escolar e qual o perfil
do grupo alvo deste fenómeno.
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