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PRÉ-UNIVERSITÁRIO OFICINA DO SABER Aula

DISCIPLINA: História PROFESSORES: Ana Carolina, Diogo Alchorne e Fabrício Sampaio


Data: 14 / 01 / 2021

Ditadura civil-militar
O contexto da instauração das ditaduras

As décadas de 1950 e 1960 foram marcadas, em alguns países da América Latina, por muitos sonhos e mudanças.
Para o setor industrial, a modernização econômica e a atração de capitais estrangeiros criaram uma oportunidade
de aumentar a produtividade e os lucros. Para a classe média, foi um período de acesso facilitado aos bens de
consumo imediatos e duráveis. O operariado, por sua vez, viu a possibilidade de novas formas de atuação social e
política com a ampliação e a sistematização da legislação trabalhista.
Além disso, em alguns países latino-americanos existiam pessoas que sonhavam com a transformação profunda
da sociedade em que viviam. Elas foram incentivadas pelo sucesso da Revolução Cubana, em 1959. Muitas
acreditaram que a vitória dos guerrilheiros cubanos seria o marco inicial de um tempo de novas experiências
sociais no continente americano.
O panorama internacional, no entanto, era pouco propício a mudanças drásticas: naquele período, o mundo
dividia se em áreas de influência das duas grandes potências, Estados Unidos e União Soviética, que procuraram
assegurar a predominância política, econômica e cultural nos países alinhados.
Em muitos países latino americanos, alinhados com o governo estadunidense, os setores sociais hegemônicos
temiam as mobilizações populares, pois viam nelas o possível germe para uma revolução socialista. Ou seja,
enquanto alguns desejavam mudanças e lutavam por elas, outros buscavam formas de impedi las.
Diante de todos os embates internos e externos por que passavam essas sociedades, grupos militares definiram
alianças com setores civis e desenharam projetos políticos próprios que permitiram a constituição de ditaduras
em vários países latino-americanos, apesar dos protestos de alguns grupos sociais contra a instituição desses
regimes.
O governo democrático do Brasil, por exemplo, sofreu um golpe em 1964. Na Argentina, ocorreram diversos
golpes militares a partir de 1930, e o período ditatorial mais violento durou de 1976 a 1983. O governo do Chile,
por sua vez, passou dezessete anos (1973 1990) nas mãos do general Augusto Pinochet.
Por que os militares entraram na política e assumiram o controle desses e de muitos outros Estados latino
americanos? O que ocorreu nesses países durante os períodos de governos ditatoriais? Desde o fim dessas
ditaduras, tenta se entender os anos difíceis que tais governos impuseram a várias nações da América Latina.
Compreender o passado, afinal, é também uma forma de lidar com as marcas e os traumas que ainda estão vivos
nessas sociedades.
Antecedentes do golpe no Brasil
O golpe de 1964 no Brasil não ocorreu de repente. Os militares brasileiros, apoiados por instituições civis, já
planejavam sua entrada na cena política há algum tempo. Para alguns historiadores, desde 1954 já havia indícios
claros da insatisfação dos militares com a política nacional e da mobilização nos quartéis.
Após o suicídio de Getúlio Vargas (1954) e a tentativa de impedir a posse de Juscelino Kubitschek (1955), certos
segmentos das forças armadas avaliaram a possibilidade de intervenção direta na política. A reação de grupos
legalistas do exército e o sucesso das negociações políticas conseguiram evitar o golpe nesse período e assegurar o
respeito à Constituição.
Com a renúncia de Jânio Quadros, em agosto de 1961, a resistência de setores conservadores à posse do
vice-presidente, João Goulart, como presidente da república, provocou uma grave crise no país. Novamente foi
possível evitar o golpe: a implantação do parlamentarismo acalmou os ânimos de grupos civis e militares que
temiam o governo de Jango, considerado, por eles, comunista.
No entanto, o apoio recebido pelo presidente, especialmente de organizações e movimentos sociais que lutavam
a favor, por exemplo, da reforma agrária, ameaçou os interesses dos setores conservadores da sociedade
brasileira, criando condições favoráveis a uma intervenção militar.

Divisões entre os militares


Nesse período, e posteriormente, durante os 21 anos de regime militar, houve profundas divisões internas nas
forças armadas. Os setores legalistas eram contrários à participação dos militares na política. Contudo, eles
perderam grande parte de sua influência durante o governo de Jango.
Entre os militares favoráveis ao golpe também não havia união. Os grupos ligados à Escola Superior de Guerra
(ESG), fundada em 1949 com o objetivo de formular uma doutrina para a segurança nacional, defendiam a
ampliação do poder armado no país, mas não consideravam essencial que o governo estivesse nas mãos de
militares. Com uma visão mais ampla da política, esses grupos defendiam a presença militar no comando das
comunicações, dos transportes e do planejamento estratégico.
Os defensores da chamada “linha dura”, por sua vez, reagiam negativamente às discussões teóricas propostas
pela ESG. Mais pragmáticos, insistiam no controle direto do Poder Executivo. Apesar dessas divergências, esses
grupos tinham em comum o anticomunismo e a insatisfação com o governo de João Goulart.

Golpe no Brasil
O golpe não contou apenas com a iniciativa militar. Setores da sociedade civil e partidos políticos também
participaram da ação. Parte importante do empresariado brasileiro, da imprensa e da política temia uma guinada
à esquerda de Jango e rejeitavam as reformas nacionalistas e estatizantes que o presidente defendia em seus
discursos. A classe média reagia negativamente à proximidade de Jango com os sindicatos e os movimentos
sociais.
A União Democrática Nacional (UDN), adversária da política trabalhista de Getúlio Vargas e Jango, negociou nos
quartéis os caminhos para a formação de um novo governo, enquanto setores conservadores da sociedade
organizaram a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, para se manifestar contra as reformas de base.
Marcha da Família com Deus pela Liberdade em São Paulo (SP). Foto de 19 de março de 1964. Esse movimento foi
organizado por setores conservadores em resposta ao comício, realizado na cidade do Rio de Janeiro, no qual
Jango anunciou as reformas de base. Marchas como a de São Paulo congregaram segmentos das classes alta e
média da sociedade brasileira, que temiam o “perigo comunista” e eram favoráveis à deposição do presidente.
Fora do Brasil, o golpe também era tema de debates e negociações. Os representantes da diplomacia
estadunidense no país, por exemplo, acompanharam o desenrolar da crise política, oferecendo suporte ideológico
e político aos golpistas. Documentos oficiais da CIA e da Casa Branca revelaram que os Estados Unidos teriam
começado a financiar campanhas contra o governo de João Goulart em 1962. É importante lembrar que o mundo
vivia a Guerra Fria e, naquele contexto, os Estados Unidos temiam que o Brasil se aproximasse da União Soviética,
como havia acontecido com Cuba.
O golpe ocorreu na madrugada do dia 31 de março para o dia 1o de abril de 1964. Tropas militares partiram de
Minas Gerais em direção à cidade do Rio de Janeiro para depor João Goulart. No dia 2 de abril, com a presidência
declarada vaga pelo Congresso Nacional, o presidente da Câmara, Ranieri Mazzili, assumiu temporariamente o
Poder Executivo do país.
Apenas no Sul do Brasil houve uma tentativa efetiva de resistência à ação dos militares: Leonel Brizola, então
governador do Rio Grande do Sul e aliado político de João Goulart, conclamou a população a resistir e insistiu para
que o próprio Jango liderasse o movimento. Porém, o presidente rejeitou a proposta, convicto de que não
conseguiria aglutinar apoio suficiente para defender se, e uma reação poderia levar o país a uma guerra civil.
Jango acabou seguindo para o exílio no Uruguai. Muitos de seus partidários fizeram o mesmo. O governo
brasileiro, assim, caía nas mãos dos militares.
Para os defensores da intervenção militar, o que houve em 1964 foi uma revolução redentora que afastou o Brasil
dos tortuosos caminhos em que teria enveredado nos anos do governo de João Goulart. Para os oposicionistas, foi
um golpe. Mais do que uma disputa em torno de palavras, revolução e golpe são conceitos distintos. Revolução
sugere um movimento amplo, com apoio popular e capacidade de transformação profunda da sociedade. Golpe
alude a uma ação de poucos, preocupados em defender interesses específicos e destituídos de propostas
efetivamente renovadoras.

Os primeiros anos da ditadura


Com o golpe concluído, o empenho militar em redefinir o funcionamento do Estado brasileiro se iniciou com os
Atos Institucionais (AI), documentos que eram expedidos pelo Poder Executivo e tinham força de lei.
O primeiro, o AI-1, promulgado no dia 9 de abril de 1964, deu ao presidente o poder de alterar a Constituição e
determinar a cassação de mandatos eleitorais. Além disso, estabeleceu, em caráter de urgência, a realização de
eleições indiretas para a escolha de um presidente temporário, que teria a função de controlar a crise pela qual o
país passava e conduzi lo às eleições gerais diretas previstas para o final de 1965.
No dia 15 de abril de 1964, o marechal Humberto de Alencar Castello Branco, eleito pelo Congresso Nacional,
assumiu a presidência do país. Como as eleições diretas previstas para 1965 nunca foram realizadas, o mandato de
Castello Branco se estendeu até 1967.
Líderes civis que haviam apoiado o golpe e defendido o regime acreditavam que a presença militar à frente do
Estado seria breve. Políticos como Carlos Lacerda (da UDN) e Adhemar de Barros (do PSP) supunham que os
militares controlariam os movimentos sociais, afastariam as lideranças ligadas ao trabalhismo e, em seguida,
retornariam aos quartéis, deixando o comando do país para os partidos conservadores. À medida que ficava claro
que os militares tinham projetos próprios de poder e não seriam apenas instrumentos dos civis insatisfeitos com
os rumos da política de João Goulart, vários defensores do golpe passaram para a oposição e tiveram o mandato
político cassado.
O governo de Castello Branco não explicitava seus métodos de ação nem reconhecia publicamente as
perseguições políticas e a formação de um forte aparelho de vigilância. O Serviço Nacional de Informações (SNI),
por exemplo, foi um dos principais órgãos da atuação silenciosa do aparato repressivo da ditadura. Idealizado pelo
general Golbery do Couto e Silva e fundado logo após o golpe, em junho de 1964, o SNI centralizava as atividades
de inteligência e informações, acumulando fichas dos suspeitos de manter atividades contrárias ao regime.
Trabalhadores, sindicalistas, jornalistas, políticos, intelectuais e artistas foram os principais alvos do SNI.
Outra medida do governo de Castello Branco foi a instituição do AI-2, em outubro de 1965. Esse ato determinou a
extinção dos partidos políticos então existentes e a criação de dois novos: a Aliança Renovadora Nacional (Arena),
da situação, e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), da oposição consentida. Os dois partidos tinham
permissão para enfrentar se nas eleições parlamentares e nas disputas eleitorais para o Executivo estadual e
municipal. Já as eleições para presidente e vice presidente passaram a ser indiretas.
Em fevereiro de 1966, Castello Branco promulgou ainda o AI-3, que, entre outras medidas, estabeleceu eleições
indiretas para governadores, delegando lhes a função de nomear os prefeitos das capitais e municípios
considerados de segurança nacional. Em dezembro de 1966, com o objetivo de aprovar um novo texto
constitucional, convocou o Congresso para uma sessão extraordinária por meio do AI-4. A nova Constituição,
promulgada em janeiro de 1967, aumentou ainda mais o poder do Executivo federal e limitou a autonomia dos
estados. Além disso, para restringir a liberdade de expressão e de informação, o governo criou a Lei de Imprensa,
que entrou em vigor em março de 1967 e só deixou de existir em 2009.
Na política econômica, Castello Branco tomou medidas para controlar a inflação, facilitando a entrada de
investimentos estrangeiros no Brasil e estimulando a concorrência no mercado interno por meio do corte de
subsídios. Acompanharam tais medidas o aumento de impostos e as reduções salariais, que afetaram
profundamente a população.

Anos de chumbo
Em março de 1967, Arthur da Costa e Silva, representante da chamada “linha dura”, grupo das forças armadas que
defendia o endurecimento do regime, sucedeu a Castello Branco na presidência da república.
Costa e Silva enfrentou os protestos de trabalhadores que estavam insatisfeitos com a redução dos salários por
causa da política deflacionária do governo anterior. Para conter as manifestações, o governo realizou intervenções
nos sindicatos urbanos e rurais, buscando eliminar as influências do trabalhismo e da esquerda. Novos dirigentes,
afinados com o regime, passaram a dirigir as associações sindicais.
Nem todos os sindicatos, porém, silenciaram diante da repressão. Em abril de 1968, milhares de operários de
Contagem (MG) cruzaram os braços e reivindicaram 25% de reajuste salarial e liberdade política e civil. Em julho
do mesmo ano, o Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco (SP) liderou a paralisação dos trabalhadores da região e a
ocupação de três fábricas. De imediato, a ação repressiva respondeu: os grevistas foram expulsos das fábricas e os
líderes do movimento, presos.
Os estudantes também realizaram diversos protestos para exigir o retorno da democracia ao país, a criação de
mais vagas nas universidades públicas e a melhora na qualidade do ensino. Em uma dessas manifestações, a
polícia militar reprimiu violentamente os estudantes e matou o jovem Edson Luís de Lima Souto, de 18 anos. O
fato abalou a opinião pública, e as passeatas multiplicaram se em todas as capitais. A mais conhecida delas, a
Passeata dos Cem Mil, ocorrida no Rio de Janeiro, em junho de 1968, reuniu artistas, intelectuais, trabalhadores,
parlamentares e religiosos, entre outros.
Para agravar a situação, o deputado Márcio Moreira Alves, do MDB, convocou a população a boicotar as
comemorações da Independência do Brasil no dia 7 de setembro de 1968. Os militares, indignados, alegaram que
Moreira Alves havia abusado dos direitos individuais e políticos, praticando um “atentado à ordem democrática”.
Temendo a ação do governo, o deputado decidiu exilar se.
Em dezembro do mesmo ano, o governo fechou o Congresso Nacional e decretou o AI-5, que reforçou o Poder
Executivo e, entre outras medidas, recrudesceu a censura prévia à imprensa, permitiu a suspensão dos direitos
constitucionais de qualquer cidadão, cassou os direitos políticos de todos os que fossem considerados ameaça à
ordem nacional e autorizou a decretação do estado de sítio e o confisco de bens como punição por corrupção.

Ruas silenciadas
As manifestações públicas e o movimento estudantil não tinham mais lugar no Brasil do AI 5. A voz das ruas foi
silenciada e o espaço institucional de resistência ao regime praticamente deixou de existir.
Políticos do MDB, como o paulista Ulysses Guimarães e o mineiro Tancredo Neves, tentaram contestar algumas
medidas governamentais, mas tiveram pouco sucesso. Outros preferiram buscar o exílio ou agir na
clandestinidade. Diversos grupos recorreram à luta armada, nas cidades e no campo, como forma de combater o
regime. Entre as principais guerrilhas estavam a Ação Libertadora Nacional (ALN), comandada por Carlos
Marighella, a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR Palmares), a Vanguarda Popular Revolucionária
(VPR), liderada por Carlos Lamarca, e o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR 8).
A repressão política, no entanto, era cada vez mais severa e impiedosa. O Departamento de Ordem Política e
Social (Dops) e a Operação Bandeirante (Oban), ligada ao exército e financiada por empresários, recorriam
amplamente à tortura de prisioneiros políticos para obter informações e realizar capturas.
O auge da repressão ocorreu no governo de Emílio Garrastazu Médici, eleito pelo Congresso Nacional em outubro
de 1969, após Costa e Silva ser afastado do poder por motivos de saúde.
No governo de Médici, a repressão política agravou se com a criação do Destacamento de Operações de
Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), em 1970, que, com a Oban e outros órgãos, foi
responsável pelo desaparecimento, pela tortura e pela morte de milhares de cidadãos brasileiros.

Prosperidade econômica e ufanismo


Paralelamente à repressão, a economia do país crescia em ritmo acelerado e o governo Médici investia amplos
recursos em obras públicas de grandes dimensões, como a Rodovia Transamazônica, a Ponte Rio Niterói e a Usina
de Itaipu. A Transamazônica foi inaugurada em 1972, após uma sucessão de problemas, acidentes e mortes nas
obras. A Ponte Rio-Niterói, cuja construção se iniciara em 1969, foi inaugurada em 1974 e rapidamente mostrou
sua necessidade e importância. A Usina de Itaipu foi o resultado de um acordo celebrado com o Paraguai, ficou
pronta em 1982 e começou a operar apenas em 1984.
Incentivada por essa injeção de dinheiro do Estado, a economia brasileira atravessava um momento de
prosperidade, com ampla oferta de empregos. Houve modernização do parque industrial e muitos investimentos
externos e internos. O Produto Interno Bruto (PIB) do país, entre 1970 e 1973, alcançou taxas de crescimento
superiores a 10% ao ano e o governo comemorou a redução da inflação.
Essa situação da economia nacional, chamada “milagre econômico”, provocou muita euforia no Brasil no início da
década de 1970. Contudo, os bons índices da economia não foram convertidos em melhoras sociais. O ministro da
Fazenda, Antônio Delfim Netto, afirmava que, para haver distribuição de riqueza entre todas as camadas da
população, primeiro seria necessário que a economia crescesse. Entretanto, essa política econômica arrochou os
salários dos trabalhadores, favorecendo apenas os setores empresariais e aprofundando a concentração de renda
no país.
Outra característica do governo Médici foi a propaganda intensa do regime, com a difusão de lemas que
celebravam a grandeza e o crescimento nacional. Frases como “Este é um país que vai para a frente” e “Ninguém
segura este país” foram elaboradas para convencer a população de que os militares haviam conseguido superar as
dificuldades econômicas que o Brasil enfrentava antes do golpe.
O clima de nacionalismo exacerbado foi reforçado em 1970, quando a seleção brasileira masculina de futebol
ganhou o tricampeonato na Copa do Mundo, disputada no México. O governo aproveitou a oportunidade para
estimular o nacionalismo e reforçar a ideia de que o Brasil estava em ordem e se tornava cada vez mais forte. O
discurso oficial mostrava um país pronto para novas conquistas e tentava isolar a oposição, vista como obstáculo
aos interesses nacionais. Assim, o futebol, que tanto alegrava os brasileiros, acabou por transformar se numa peça
de propaganda do autoritarismo.
A celebração de 150 anos da Independência brasileira, em 1972, também contribuiu para a construção da ideia de
que o país estava sob um comando seguro e se qualificava para ser uma das potências mundiais.
Lento processo de abertura política
A chegada de Ernesto Geisel à presidência, em 1974, marcou o início de mudanças no país. Após dois governos
ligados à “linha dura”, o então novo presidente era vinculado à intelectualidade do exército. Geisel trouxe de
volta à cena política o general Golbery do Couto e Silva, que defendia o afastamento gradual dos militares do
governo sem que eles perdessem a capacidade de interferência nas principais questões estratégicas do país.
Nas eleições parlamentares de 1974 ficou evidente o anseio de alguns setores da sociedade brasileira por
reformas e mudanças. O MDB, partido da oposição, conseguiu vitórias importantes, sobretudo nos estados do
Sudeste. Com receio de ver um novo triunfo do MDB e uma crise entre o Executivo e o Congresso Nacional, o
governo criou, em 1976, a Lei Falcão, que proibiu o pronunciamento de candidatos, uso de imagens ou músicas
nas propagandas eleitorais veiculadas pelo rádio e pela televisão a partir das eleições municipais daquele ano.
Permitia apenas a apresentação de um breve currículo com foto do candidato.
Em 1977, também com o objetivo de evitar a vitória da oposição, o governo lançou o Pacote de Abril. Entre outras
medidas, por meio do pacote estabeleceram-se eleições indiretas para um terço dos senadores (conhecidos como
“senadores biônicos”) e ampliou-se o mandato presidencial de cinco para seis anos. No ano seguinte, o Congresso
Nacional aprovou uma emenda constitucional que revogava o AI 5. Essa medida entrou em vigor em janeiro de
1979.

Notícias dos porões


Em outubro de 1975, o Brasil recebeu a notícia da morte do jornalista Vladimir Herzog numa cela do DOI CODI.
Segundo a versão oficial, Herzog havia se suicidado. Na percepção geral, porém, ele teria morrido sob tortura. A
notícia gerou muita indignação: pela primeira vez, os brasileiros tinham a visão clara do que acontecia nos porões
da ditadura. Um ato ecumênico, realizado em sua homenagem na Catedral da Sé, na cidade de São Paulo, reuniu
cerca de 8 mil pessoas, que, além de lastimar a morte do jornalista, protestaram abertamente contra o regime
ditatorial.
Episódio semelhante ocorreu em janeiro de 1976, quando se divulgou a notícia da morte do operário Manoel Fiel
Filho. Da mesma forma que ocorrera na morte de Herzog, as investigações oficiais não identificaram os culpados.
Anistia para quem?
Em 1979, João Baptista de Oliveira Figueiredo sucedeu a Geisel. Na posse, o regime já falava publicamente em
realizar uma abertura política “lenta e gradual”.
Em 28 de agosto, Figueiredo promulgou a Lei da Anistia, por meio da qual foram perdoados, simultaneamente, os
que faziam oposição à ditadura e os que haviam agido na defesa do regime militar, até mesmo os torturadores.
Com a anistia, os exilados políticos começaram a voltar ao Brasil e os presos políticos foram libertados.
Ainda hoje há intensas discussões sobre o fato de a Lei da Anistia ter perdoado os crimes de tortura e assassinato
praticados por agentes do Estado. Vários movimentos de defesa dos direitos humanos argumentam que a tese da
anistia contribuiu para disseminar a cultura do esquecimento e da impunidade, e reivindicam a punição dos que
praticaram a tortura durante a ditadura. Eles se baseiam no fato de que o Brasil é signatário de documentos
internacionais que classificam a tortura não como crime político, mas como crime delesa-humanidade, que é
imprescritível.
No governo Figueiredo também ocorreu uma reforma partidária que aboliu o bipartidarismo e promoveu a
formação de outros partidos. A Arena transformou se no Partido Democrático Social (PDS) e o MDB, no Partido do
Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Além disso, formaram-se ou foram reorganizados partidos que se
associavam, de alguma forma, ao mundo do trabalho: o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e o Partido
Democrático Trabalhista (PDT), que buscavam recuperar a força política e a tradição do varguismo, e o Partido dos
Trabalhadores (PT), originado das lutas sindicais no ABC paulista.

Eu quero votar para presidente!


Nas eleições gerais de 1982, os brasileiros escolheram, por meio do voto direto, os membros do Congresso
Nacional, das assembleias legislativas estaduais e das Câmaras de Vereadores, prefeitos da maioria das cidades e,
pela primeira vez em vinte anos, os governadores e vice governadores dos estados. Os partidos da oposição
venceram as eleições para governador nos maiores colégios eleitorais do país, como São Paulo, Rio de Janeiro e
Minas Gerais.
Em março de 1983, políticos e movimentos sociais iniciaram uma campanha pela volta das eleições presidenciais
diretas, conhecida como Diretas Já. O movimento reuniu milhões de pessoas em comícios por todo o Brasil. No
entanto, o Congresso não aprovou a emenda constitucional, proposta pelo deputado federal Dante de Oliveira,
que restabelecia eleições diretas para a presidência do país.
Assim, a eleição para a escolha do sucessor de João Figueiredo, prevista para o início de 1985, ainda seria realizada
no Colégio Eleitoral. A derrota do movimento impactou a sociedade brasileira.

Produção cultural durante a ditadura


Ao longo da ditadura no Brasil, a produção cultural passou por um período de ebulição. A valorização das
manifestações populares, a disposição de libertar a expressão artística do excesso de influências estrangeiras, a
busca de diferentes rumos e formas estéticas, o estímulo à renovação no teatro, na música e no cinema eram
exemplos da efervescência cultural do período.
O golpe de 1964 abalou, mas não eliminou, a tendência à transformação e à ampliação das referências culturais.
Em dezembro daquele ano, por exemplo, estreou, no Rio de Janeiro, o musical Show Opinião, que reuniu
compositores populares, como João do Vale e Zé Keti, e cantores influenciados pela bossa nova, como Nara Leão.
O título da peça já anunciava sua preocupação central: reconhecer a diversidade de vozes do país e denunciar as
tentativas de cerceamento da livre expressão.
A denúncia do autoritarismo e a conclamação para que as pessoas se mobilizassem politicamente apareceram
antes mesmo da instituição do regime em 1964, em manifestações do Teatro de Arena, criado em 1953, e do
Teatro Oficina, inaugurado em 1958. Em abril de 1965, no Arena, por exemplo, estreou a peça Liberdade,
liberdade, de Millôr Fernandes e Flávio Rangel. O texto apresentava a liberdade como valor central da sociedade e
conclamava os espectadores a resistir às tentativas de limitá la.
As inovações culturais também ocorreram nas produções cinematográficas, com o Cinema Novo. Rompendo com
o estilo das populares chanchadas e sua comédia caricata, o movimento denunciava a miséria, explorava os
mecanismos históricos que haviam forjado as relações sociais no país e expunha, numa linguagem renovada,
alguns impasses pelos quais o Brasil passava. O Cinema Novo teve forte impacto no Brasil e no exterior. Seus
expoentes foram Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha, diretores de Vidas Secas (1963) e Deus e o Diabo na
terra do Sol (1964), respectivamente, entre outros filmes.
A Música Popular Brasileira, por sua vez, abordava as questões políticas de diversas maneiras. Por meio da
chamada canção de protesto, reivindicava-se a valorização dos elementos populares da cultura brasileira e
denunciava-se o autoritarismo do governo. Os integrantes do Tropicalismo, por sua vez, criticavam os costumes e
a moral da sociedade burguesa e defendiam uma ampla revisão dos hábitos e das formas de convivência dos
brasileiros. Para os tropicalistas, como Torquato Neto, Caetano Veloso e Gilberto Gil, o Brasil precisava abrir se às
inovações artísticas internacionais, reconhecer a diversidade interna e buscar sua identidade por meio da
incorporação dos mais variados referenciais culturais, incluindo os inventos e os símbolos da sociedade urbana e
industrial.
Na segunda metade dos anos 1960, a televisão foi uma das principais responsáveis pela divulgação da Música
Popular Brasileira. Os festivais de canção, realizados a partir de 1965 e transmitidos ao vivo, tornaram conhecidos
artistas como Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Geraldo Vandré, Elis Regina, Tony Tornado e Gal Costa.
Os festivais facilitaram a divulgação de protestos contra a ditadura. No Festival Internacional da Canção de 1968,
por exemplo, Geraldo Vandré concorreu com a música Pra não dizer que não falei das flores. A letra da canção
conclamava as pessoas a “não esperar” e a agir contra o autoritarismo. Quando os resultados foram anunciados e
o público soube que a música de Vandré não havia vencido (ficou em segundo lugar), houve muitos protestos. Os
vencedores, Chico Buarque e Tom Jobim, com a canção Sabiá, fizeram sua apresentação final sob fortes vaias.

O Brasil não foi pioneiro


Bem antes do golpe de 1964 no Brasil, outros países da América Latina já conheciam governos ditatoriais. Muitos
deles, no entanto, não se vinculavam às instituições militares nem as representavam.
Em países da América do Sul, da América Central e do Caribe, por exemplo, ocorreram diversos golpes liderados
por membros das guardas nacionais, e não do exército, da marinha ou da aeronáutica. As guardas vinculavam se
diretamente a uma família ou a um líder e atuavam para sustentá-los no poder. Tratava se, portanto, mais de
regimes personalistas que da hegemonia de uma instituição.
Alguns exemplos de governos protegidos por aparatos armados pessoais são impressionantes. Na Venezuela do
início do século XX, o general Juan Vicente Gómez chegou a combater as forças armadas do país por acreditar que
elas representavam ameaças claras ao seu governo. Com a força dos recursos obtidos com a exploração e a venda
de petróleo, montou uma ampla estrutura armada, que o garantiu no governo por 27 anos.
No Paraguai, Alfredo Stroessner controlou o governo de 1954 a 1989. Embora Stroessner fosse militar de carreira,
quase toda a estrutura de seu governo era civil e as forças armadas tinham influência restrita nas decisões
nacionais.
A repressão maciça contra opositores dentro e fora das instituições militares também caracterizou os governos
dos generais Maximiliano Hernández Martínez, em El Salvador, e Jorge Ubico y Castañeda, na Guatemala, entre
1931 e 1944. Na Nicarágua, a família Somoza manteve o controle do Estado, com algumas interrupções, por mais
de quarenta anos, até a Revolução Sandinista.

Ditadura militar na Argentina


A história argentina do século XX foi marcada por golpes militares. O primeiro deles ocorreu em 1930 e, até 1983,
todos os presidentes argentinos foram militares ou civis apoiados pelas forças armadas.
No início da década de 1970, a percepção de que os projetos autoritários não eram suficientes para reorganizar a
sociedade, que atravessava profunda crise política e econômica, estimulou o general e então presidente Alejandro
Agustín Lanusse a iniciar um processo de abertura política com a convocação de eleições presidenciais diretas para
1973. O peronista Héctor José Cámpora saiu vitorioso.
Cámpora promoveu o retorno do ex presidente Juan Domingo Perón, que havia se exilado no Paraguai e depois na
Espanha, para a Argentina. Cámpora renunciou à presidência poucos meses depois, forçando a realização de novas
eleições. No pleito de setembro de 1973, Perón venceu com facilidade.
O presidente, no entanto, estava doente e acabou falecendo em julho de 1974. Assim, sua esposa e vice
presidenta María Estela Martínez, mais conhecida como Isabelita, assumiu o poder. Isabelita, porém, não contava
com o apoio da maioria dos argentinos e enfrentava resistências até no movimento peronista. O tenso cenário
político e o declínio da economia nacional isolaram politicamente a presidenta, que foi derrubada por um golpe
militar em março de 1976.
O “processo de reorganização nacional”
Com o golpe de março de 1976, uma junta militar composta de três membros assumiu o comando da Argentina,
sem elaborar, no entanto, um projeto nacional capaz de reestruturar a economia ou restabelecer a tranquilidade
política.
No plano econômico, as medidas da junta militar beneficiaram os setores agroexportadores e estimularam o
mercado de capitais, mas provocaram grande aumento na especulação financeira e a diminuição acentuada dos
investimentos no setor fabril, o que gerou forte desindustrialização. Dessa forma, a economia retraiu se, e as taxas
de desemprego atingiram os maiores patamares da história argentina.
A repressão bate à porta
No início do regime, os alvos principais da máquina repressiva governamental eram os grupos de esquerda.
Rapidamente, porém, trabalhadores, estudantes, profissionais liberais, empresários e religiosos também
passaram a ser perseguidos. As centrais sindicais sofreram forte intervenção e os partidos políticos foram
proscritos. Toda informação passou a ser controlada pelo aparato de censura. As prisões arbitrárias, as torturas e
os assassinatos tornaram se rotineiros, e vários centros de tortura e campos de concentração clandestinos foram
instalados na Argentina.
Agrupamentos paramilitares atuavam impunemente e ultrapassavam os limites da repressão ideológica,
utilizando a máquina repressiva para obter vantagens pessoais. O país passou pelo que alguns estudiosos
denominaram “terrorismo de Estado”: uma ação repressiva intensa, orquestrada pelo poder público e com
autorização oficial para operar.
Um dos momentos mais simbólicos da brutalidade da ditadura argentina foi a chamada Noite do Lápis, em 16 de
setembro de 1976, durante o governo de Jorge Rafael Videla. Nessa data, dez adolescentes (entre 14 e 17 anos)
foram sequestrados das casas em que moravam e levados para centros de detenção sob a acusação de “subversão
escolar”. Eles eram estudantes secundaristas e haviam participado de atos de reivindicação pelo passe escolar.
Nos dias seguintes, os jovens foram torturados e seis deles desapareceram. Pablo Alejandro Díaz, um dos
sobreviventes, passou quase quatro anos preso e, após a redemocratização argentina, denunciou o crime.
Mães e avós na resistência
Apesar da repressão, muitos grupos de resistência contra a ditadura argentina organizaram-se nesse período,
como a associação Madres de Plaza de Mayo (Mães da Praça de Maio), fundada em 1977. O grupo, que reuniu
mães de desaparecidos políticos, passou a se manifestar regularmente na Praça de Maio, em frente à Casa Rosada
(palácio governamental), em Buenos Aires, com o objetivo de obter informações sobre o paradeiro das vítimas da
repressão política.
Muitas dessas mães acabaram se tornando vítimas do regime. Porém, isso não impediu que a associação
prosseguisse em sua luta, tanto durante a ditadura quanto depois da redemocratização argentina.
Atualmente, além do movimento das Mães de Maio, há também o das Abuelas de Plaza de Mayo (Avós da Praça
de Maio), que buscam informações sobre o desaparecimento de crianças durante a ditadura. Essas crianças foram
sequestradas, enquanto seus pais eram presos ou mortos pelo regime militar, e adotadas por outras famílias
dentro e fora da Argentina. Até fevereiro de 2016, a ação das Avós de Maio conseguiu identificar 119 crianças
envolvidas nesse tráfico humano.
Fim da ditadura
Em abril de 1982, a Argentina, sob o governo de Leopoldo Galtieri, entrou em conflito com a Grã Bretanha. Os
argentinos queriam recuperar o Arquipélago das Malvinas, no extremo sul do país, que estava sob domínio
britânico desde o século XIX. Durante o conflito, chamado de Guerra das Malvinas, o governo argentino forjou,
por meio de intensa propaganda nacionalista, um clima de unidade interna, conseguindo, assim, obter relativa
trégua nas críticas que recebia.
A Argentina, contudo, perdeu a guerra. Os militares passaram a ser questionados pela incapacidade de defender
os interesses nacionais, e o governo Galtieri foi muito contestado. Além disso, a economia passava por uma das
piores crises de sua história, com amplo endividamento externo, taxas de inflação e desemprego altas e
capacidade produtiva reduzida.
No segundo semestre de 1982, diante da forte reação ao regime, foram convocadas eleições presidenciais para o
ano seguinte. Em outubro de 1983, Raúl Alfonsín saiu vitorioso e, dois meses depois, tomou posse como
presidente da república. A Argentina voltava a ter um presidente civil.
O processo de redemocratização da Argentina foi bastante tenso. O governo Alfonsín iniciou uma ampla revisão
do período militar, abrindo processos para investigar e julgar os responsáveis pela repressão política. Diversos
setores militares reagiram à iniciativa de Alfonsín e organizaram rebeliões e tentativas de golpe. Porém, grupos
legalistas das forças armadas conseguiram contê los e assegurar a permanência do governo civil.
A precária situação econômica fragilizou ainda mais o governo, que enfrentou dificuldades para reestruturar o
aparato industrial, valorizar a moeda e conter a carestia e a inflação. Apesar disso, Alfonsín conseguiu transmitir a
presidência, em 1989, a outro civil, eleito diretamente: o peronista Carlos Menem. Até os dias de hoje, a Argentina
enfrenta dificuldades financeiras em razão, entre outros fatores, da má condução da economia pelos governantes
militares.

Chile, um país democrático


De sua independência até alguns anos antes do golpe militar, em 1973, o Chile manteve se à margem da
instabilidade política que atingia a América Latina, registrando crescimento do número de eleitores e ampliação
da liberdade de atuação política.
Durante o governo do democrata cristão Eduardo Frei Montalva, entre 1964 e 1970, ampliaram-se a organização
interna e a participação política dos movimentos sociais. A atuação das cooperativas camponesas e dos sindicatos
de trabalhadores urbanos demonstrava a força da presença popular na política, aumentando o apoio aos partidos
de esquerda.
No final de 1969, diversos agrupamentos de esquerda se uniram e formaram o partido Unidade Popular (UP), que
lançou a candidatura do médico Salvador Allende para as eleições presidenciais que seriam realizadas no ano
seguinte. Allende já havia concorrido à presidência em 1952, 1958 e 1964, além de ter participado da fundação do
Partido Socialista Chileno em 1933 e atuado como deputado, senador e ministro da Saúde no governo de Pedro
Aguirre Cerda, entre 1938 e 1941.
Em 1970, Salvador Allende venceu a votação popular com apenas 1,4% a mais de votos que o segundo colocado, o
conservador Jorge Alessandri. Apesar da atuação de setores conservadores que tentaram impedir sua posse,
Salvador Allende assumiu a presidência do Chile com o apoio da Democracia Cristã, terceira colocada na disputa.
Em uma época na qual a América Latina vivia majoritariamente sob influência estadunidense, o projeto de
Allende, chamado de “via chilena para o socialismo”, visava realizar transformações profundas na sociedade e na
economia chilenas para reduzir as desigualdades no país pela via democrática.
A política de Allende
A principal estratégia do governo Allende para viabilizar a passagem ao socialismo consistia na transferência
gradual dos meios de produção para o Estado. O Chile, apesar da estabilidade política, mantinha uma organização
econômica muito dependente do capital estrangeiro e era dominado por empresários e grandes proprietários de
terras.
O latifúndio predominava no meio rural, limitando o acesso dos camponeses à terra. Os setores industrial e
bancário eram controlados por um número restrito de empresários, e a exploração de minérios era realizada
principalmente por organizações estrangeiras.
Allende pretendia nacionalizar e estatizar mineradoras e parte importante do setor financeiro. Além disso,
defendia a reforma agrária e a ampliação da participação dos trabalhadores no gerenciamento das empresas. O
governo também propunha a ampliação do número de empregos, o aumento dos salários e a diversificação das
exportações e das parcerias comerciais, rompendo o quadro de subordinação do país ao capital estrangeiro.
Reações internas e externas
Os chilenos dividiram se diante do novo governo. Para alguns, ele representava a possibilidade de o Chile superar
sua condição de dependência do capital estrangeiro e um caminho para combater as desigualdades sociais no
país. Outros, no entanto, consideravam que o avanço dos segmentos populares colocava em risco a estabilidade
econômica e o equilíbrio político chilenos.
As pressões contra as reformas empreendidas pelo governo avançaram rapidamente. Os investimentos externos
foram reduzidos e a produção industrial entrou em queda. Empresas estrangeiras, temerosas de que seus
interesses no país fossem afetados, reagiram às medidas de Allende e até estimularam conflitos internos para
desestabilizar o governo.
Crises nos transportes e nas comunicações provocaram o desabastecimento imediato de alimentos e bens de
consumo, gerando insatisfação e protestos da classe média. Nesse contexto, setores civis e militares começaram a
debater a possibilidade de deposição do presidente eleito.
As forças armadas do Chile, conhecidas por seu profissionalismo e pela distância aparente que mantinham dos
assuntos políticos, prepararam se para uma intervenção militar no Estado. Allende, convicto de sua opção pacífica
e legal, rejeitou vários apelos de apoiadores para agir militarmente contra a ameaça golpista. O presidente insistiu
na busca de uma saída institucional.
Golpe militar no Chile
Num esforço de neutralizar as ações rebeldes, em agosto de 1973, Allende convidou o general Augusto Pinochet,
um dos militares ligados às tramas golpistas, para comandar o exército. A tentativa fracassou: a nova função
ampliou o espaço de articulação política de Pinochet, que, poucas semanas depois, liderou o golpe que derrubou
Allende.
No dia 11 de setembro de 1973, as forças armadas chilenas iniciaram um ataque maciço contra a ordem
institucional vigente: ocuparam as rádios e o Parlamento, prenderam membros ou colaboradores do governo e
bombardearam o Palácio de La Moneda, sede da presidência da república. Allende conclamou a população a
resistir contra os golpistas, mas era tarde. Cercado, o presidente suicidou-se.
O golpe militar no Chile recebeu apoio de outros governos, como o do Brasil, que auxiliou no treinamento de
soldados e no aparato repressivo instalado no país. Os Estados Unidos participaram da intervenção militar por
meio de órgãos da inteligência, que colaboraram com os golpistas, e de empresas privadas, que operaram como
informantes do governo dos Estados Unidos.
Ditadura militar chilena
A chegada de Pinochet ao poder foi marcada pela extrema violência. Os membros do governo Allende que não
conseguiram sair do país foram presos e, muitos deles, mortos. O Estádio Nacional do Chile, o maior do país,
transformou-se em prisão política entre os meses de setembro e novembro de 1973. De lá, os detentos eram
levados para outros campos de prisioneiros, entre eles o Estádio Chile (atual Estádio Víctor Jara), em Santiago.
Os partidos políticos foram dissolvidos e as forças armadas passaram por ampla reestruturação interna, com o
afastamento dos setores legalistas e a certificação do controle de Pinochet sobre as tropas. Além disso, os jornais
passaram a sofrer intensa censura, e os intelectuais oposicionistas ou neutros foram afastados de seus cargos nas
universidades.
O novo governo desencadeou ampla repressão aos suspeitos de qualquer vínculo com a esquerda e contra todas
as ameaças ao regime. Sob o Estado policial, a prática da tortura disseminou-se no país, atingindo chilenos e
muitos estrangeiros que se exilaram no Chile para escapar das perseguições políticas que sofriam em seus países
de origem, entre eles muitos brasileiros e argentinos.
A ação repressiva ultrapassou as fronteiras nacionais. O general Carlos Prats, que antecedeu Pinochet no comando
do exército durante o governo Allende e sempre se manteve fiel aos princípios constitucionais, foi assassinado em
um atentado a bomba, em setembro de 1974, em Buenos Aires, na Argentina, onde estava exilado. Orlando
Letelier, diplomata e político que havia apoiado o governo de Allende, foi morto dois anos depois, em
Washington, nos Estados Unidos. Os dois homicídios – atribuídos à Direção de Inteligência Nacional (Dina),
principal órgão de repressão do regime de Pinochet – tiveram ampla repercussão, desgastando
internacionalmente a imagem do regime militar chileno.
Reformas de Pinochet
Os setores civis que apoiaram o golpe viam, na derrubada de Allende, uma oportunidade de ampliar sua influência
nas decisões políticas e um caminho para afastar o projeto socialista. Por isso, esperavam que o Chile retomasse
rapidamente a legalidade e o Estado de Direito. Os militares, porém, não pretendiam desempenhar o papel de
coadjuvantes na política. Assim, Pinochet afastou os comandos que dialogavam com os democratas cristãos, que
apoiavam o regime, e eliminou a interferência civil no exército.
Em junho de 1976, a Organização dos Estados Americanos (OEA) declarou que o governo militar chileno estava
tomando medidas para garantir o respeito aos direitos humanos. A influência estadunidense sobre a OEA
contribuiu para que o regime de Pinochet obtivesse reconhecimento externo e pudesse captar mais recursos a fim
de reorganizar o sistema financeiro chileno e impulsionar um amplo plano de reformas liberais na economia.
Assim, teve início no Chile um período de acelerado crescimento econômico. O Estado passou a estimular a
indústria nacional por meio de financiamentos sucessivos à iniciativa privada e, ao mesmo tempo, assegurou o
controle de setores fundamentais, como o das telecomunicações, a conglomerados estrangeiros. As empresas
estatizadas durante o governo de Allende foram novamente privatizadas, ficando, na sua maioria, sob comando
estrangeiro.
Com sua política econômica, Pinochet também pretendia atrair para o Chile empresas de alta tecnologia e, para
tanto, isentou de tarifas de importação a maquinaria e as matérias-primas necessárias para sua implantação.
Embora malsucedida, a iniciativa revelou com clareza o eixo das reformas: reduzir os custos de produção,
aumentar a produção industrial voltada à exportação e manter vínculos estreitos com o capital internacional.
Redemocratização chilena
Em 1980, por meio de um referendo, Pinochet conseguiu prolongar seu governo por mais oito anos. Ao final desse
período, em 1988, o presidente buscou, novamente em referendo, a continuidade de seu governo. Porém, foi
derrotado, dando início a um processo cuidadoso de transição para a democracia, que não afetasse as bases do
sistema econômico implantado nem implicasse investigações sobre as ações repressivas de seu governo.
As eleições presidenciais ocorreram em 1989, quase vinte anos após a chegada de Allende à presidência. Patricio
Aylwin, candidato do Partido Democrata Cristão, venceu com mais de 55% dos votos e assumiu o governo em
março de 1990.
Na década de 1990, o ex-ditador chileno Augusto Pinochet foi processado na Espanha por crimes contra a
humanidade. Numa viagem à Grã-Bretanha, em 1998, chegou a ser preso a pedido do juiz espanhol que dirigia o
caso. Como ele estava adoentado, sua volta para o Chile foi autorizada.
As investigações sobre os crimes da ditadura intensificaram-se no país e Pinochet teve de se defender de
acusações de corrupção, sequestros, desaparecimento de presos políticos e assassinatos, entre outros crimes. Os
processos provocaram a renúncia de Pinochet, em 2002, ao posto de senador e alguns breves períodos de
detenção até sua morte, em 2006.

Como interpretar as ditaduras militares?


Brasil, Argentina e Chile: nesses três países instauram-se regimes militares bastante complexos e distintos entre si.
Apesar disso, é difícil supor que a simultaneidade das intervenções e dos Estados militares tenha sido mera
coincidência. Por isso, muitos estudiosos tentaram compreender a regularidade dessa presença das forças
armadas na política.
Alguns pesquisadores afirmam que o militarismo latino-americano teve raiz em uma suposta tradição autoritária
oriunda da Península Ibérica ou no caráter armado das lutas pela independência e pela formação nacional dos
países da região.
Outros, porém, argumentam que o autoritarismo militar se prestou a promover o desenvolvimento econômico
desses países, uma vez que, por meio da repressão política, impedia a emergência de movimentos de contestação.
Os regimes fechados seriam, então, uma espécie de necessidade provisória: após o impulso econômico
proporcionado pelos militares, a democracia poderia reinstalar-se.
Há, ainda, os que afirmam que a presença dos militares na política foi efeito da influência direta dos Estados
Unidos no continente. De acordo com eles, no contexto da Guerra Fria, o governo estadunidense auxiliou a
tomada de poder pelos militares para sufocar os projetos de esquerda e assegurar o pleno controle econômico e
geoestratégico sobre sua área de influência. Esses pesquisadores justificam sua posição com exemplos como o da
Operação Condor, uma aliança firmada entre os governos ditatoriais da Argentina, da Bolívia, do Brasil, do Chile,
do Paraguai e do Uruguai, e apoiada pelo governo dos Estados Unidos, para a realização de atividades
coordenadas com o objetivo de combater e, na maioria das vezes, eliminar os opositores dos regimes.
O militarismo não tem explicação única. É difícil supor que os últimos cinco séculos de história da América Latina
não tenham afetado o caráter autoritário das instituições políticas trazidas pelos colonizadores. Em contrapartida,
é improvável que o recurso às armas durante as lutas de formação nacional tivesse determinado o futuro militar;
afinal, houve regimes militares mesmo em países que não atravessaram conflitos longos durante sua
consolidação, como o Brasil e o Chile.
Além disso, muitos dos governos militares não estimularam o crescimento nem facilitaram a liderança continental
dos Estados Unidos. A Argentina é o melhor exemplo: entre 1976 e 1983, a economia do país passou por forte
retração e houve clara fuga de empresas e capitais estrangeiros, até mesmo estadunidenses.
Embora a simultaneidade, as articulações entre os governos militares e, em muitos casos, seus vínculos com os
Estados Unidos tenham desempenhado papel importante na constituição e na manutenção desses regimes
armados em alguns países latino-americanos, cada um deles derivou de experiências históricas particulares.
Portanto, o estudo separado de cada país e o recurso à comparação são essenciais para que compreendamos
melhor os contextos que favoreceram a intervenção dos militares na política latino-americana.

Ditadura nunca mais


Com o fim das ditaduras na Argentina, no Chile, no Brasil e em outros países latino-americanos, muitos esforços
foram realizados com o objetivo de investigar as perseguições no período, denunciar crimes cometidos sob a
proteção do Estado e, quando possível, estabelecer a responsabilidade jurídica dos criminosos. Para isso, em
vários países da América Latina foram instaladas Comissões da Verdade.
Na Argentina, cinco dias após sua posse, em 1983, Raúl Alfonsín criou a Comissão Nacional sobre o
Desaparecimento de Pessoas (Conadep). Menos de um ano depois, a comissão apresentou o relatório conhecido
como Nunca mais, que reuniu milhares de depoimentos e testemunhos, identificou centenas de centros de
tortura, registrou o desaparecimento de quase 10 mil pessoas e o assassinato de 30 mil argentinos. A partir de
2005, iniciaram-se os processos criminais contra os envolvidos nos crimes de violação aos direitos humanos. Até o
início de 2015, o país havia condenado 577 militares e civis por crimes contra a humanidade cometidos durante a
ditadura.
De forma semelhante, no Chile, três meses depois da posse, em 1990, Patricio Aylwin estabeleceu a Comissão
Nacional da Verdade e Reconciliação. O relatório final de 1991 reuniu informações limitadas sobre a repressão,
com o levantamento de cerca de 2.300 casos de assassinatos políticos e a identificação de alguns mecanismos de
tortura e perseguição política utilizados no governo Pinochet. Em 2003 foi criada a Comissão Nacional sobre Prisão
Política e Tortura, cujos trabalhos resultaram no reconhecimento oficial de mais de 40 mil vítimas do regime
militar.
No Brasil, a Comissão Nacional da Verdade (CNV), diferentemente do que ocorreu no Chile e na Argentina, foi
criada muito tempo depois do fim da ditadura, em 2011, e instalada no ano seguinte, com a finalidade de
examinar casos de violações aos direitos humanos entre 1946 e 1988, um período mais amplo, portanto, que o do
regime militar.
O relatório final da CNV, entregue em 2014, apresentou as atividades desenvolvidas pela comissão desde o início,
os perfis dos desaparecidos políticos, os órgãos e os agentes do Estado responsáveis pelos crimes de tortura e
assassinato, os métodos e as práticas utilizados etc. A comissão identificou 377 pessoas responsáveis pelo aparato
repressivo e 434 mortos e desaparecidos políticos, além de apresentar um texto importante sobre a repressão aos
indígenas brasileiros durante a ditadura.