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PRÉ-UNIVERSITÁRIO OFICINA DO SABER Aula 22

DISCIPLINA: História PROFESSORES: Ana Carolina, Diogo Alchorne e Fabrício Sampaio


Data: 15 / 12 / 2020

A ERA VARGAS
Movimento de 1930
Na década de 1920, o Brasil passou por uma crise generalizada decorrente do impacto da Primeira Guerra
Mundial (1914-1918) e da quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929. Houve recessão econômica,
retração das exportações e diminuição da entrada de capitais estrangeiros no país.

Como desdobramento da crise, quando o Brasil se preparava para escolher o presidente que o governaria
entre 1930 e 1934, ocorreu uma ruptura política na República Oligárquica. Segundo o arranjo da “política do
café com leite”, as lideranças dos estados apoiavam ora um candidato a presidente de origem paulista, ora
um de origem mineira. De acordo com esse arranjo, em 1930, deveria ser escolhido um mineiro. Contudo, o
presidente em exercício Washington Luís, do Partido Republicano Paulista (PRP), decidiu apoiar o paulista
Júlio Prestes, descartando o candidato de Minas Gerais. Descontentes, as elites mineiras romperam com o
governo e articularam uma candidatura de oposição a Prestes, aliando-se a políticos do Rio Grande do Sul e
da Paraíba e a grupos de oposição de outros estados.

Formou-se, desse modo, a chamada Aliança Liberal, que indicou a candidatura do gaúcho Getúlio Vargas
para a presidência e a do paraibano João Pessoa para a vice-presidência. Essa chapa contou com o apoio do
movimento tenentista, das camadas médias urbanas e dos trabalhadores, descontentes com o predomínio
político dos grandes fazendeiros. O programa da Aliança Liberal contemplava reivindicações dos setores
oligárquicos não cafeeiros, além da proteção aos trabalhadores, da moralização da vida pública e da
instituição do voto secreto.

A campanha ocorreu em clima de tensão, mas, como era previsível, Júlio Prestes venceu a eleição, pois teve
apoio do governo. Vargas e João Pessoa insistiram em denunciar fraudes eleitorais. Paralelamente, políticos
que compunham a Aliança Liberal buscavam apoio em outros estados para iniciar uma revolta armada,
defendida pelos tenentes. O levante da oposição acabou sendo desencadeado após o assassinato de João
Pessoa por um adversário político da Paraíba. Apesar de ter sido cometido por motivos pessoais,
e não políticos, o crime serviu de estopim para o início da rebelião.

No dia 3 de outubro de 1930, os tenentes tomaram as ruas de cidades de Minas Gerais e do Rio Grande do
Sul. Nos dias subsequentes, os choques entre as tropas do Governo Federal e os revoltosos espalharam-se
por todo o país, com exceção de São Paulo, que se manteve à margem do movimento. No dia 24 de outubro,
a vitória estava assegurada. Washington Luís foi deposto e, em 3 de novembro, Vargas assumiu o Governo
Federal em caráter provisório.

Governo Provisório de Vargas (1930-1934)


Na condição de chefe do Governo Provisório, Getúlio Vargas procurou atender às reivindicações
das forças políticas que lhe deram sustentação. No entanto, logo ficaram evidentes as divergências
entre os grupos que subiram ao poder: de um lado, os civis (classe média urbana, banqueiros,
industriais e latifundiários), que desejavam a democratização do país por meio de eleições livres,
um governo constitucional e plena liberdade civil; e do outro, os tenentes, que propunham um
governo forte e centralizado, capaz de promover o desenvolvimento econômico do país e
modernizar as estruturas do Estado.

Uma das primeiras medidas do Governo Provisório foi baixar o Decreto no 19.398, que dissolveu o
Poder Legislativo nas instâncias federal, estadual e municipal até que fosse eleita a Assembleia
Constituinte. Dessa forma, Vargas acumulou os poderes Executivo e Legislativo. As leis, que antes
eram elaboradas e aprovadas pelo Congresso, passaram a ser criadas e aplicadas diretamente por
Vargas, que governava por meio de decretos-leis.

O chefe de governo também substituiu os antigos presidentes de estado por interventores federais,
muitos deles militares, indicados por ele. O aumento dessa influência de Vargas gerou muito
descontentamento nas oligarquias estaduais, principalmente de São Paulo.

Movimento constitucionalista de 1932


Como reflexo da crise de 1929, o preço do café despencou no mercado internacional. Tentando diminuir a
oferta do produto para conter sua desvalorização, o governo comprou e queimou milhares de sacas de café,
além de proibir novas plantações. A elite cafeeira viu seu lucro diminuir, enquanto milhares de camponeses
que trabalhavam na lavoura perderam o emprego e migraram para as cidades.
A situação política estadual também era tensa. A nomeação do tenente João Alberto Lins de Barros,
veterano da Coluna Prestes, como interventor do estado frustrou o Partido Democrático de São Paulo, que
havia apoiado o movimento de 1930 e esperava alcançar o governo. O Partido Democrático aliou-se ao
velho Partido Republicano Paulista. Juntos, os dois partidos passaram a exigir o fim do Governo Provisório,
a convocação imediata de uma Assembleia Nacional Constituinte e eleições gerais no país.

No início de 1932, diante da crise, Vargas anunciou eleições para a Assembleia Constituinte, que seriam
realizadas no ano seguinte. O anúncio, porém, não deteve a conspiração paulista. Em 23 de maio, durante
um comício realizado pelos conspiradores pedindo autonomia regional, os confrontos com os governistas
resultaram na morte de quatro estudantes: Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo. Suas iniciais, MMDC,
batizariam o movimento iniciado em 9 de julho.

A arrecadação de fundos e doações, o alistamento nas tropas e o trabalho pela chamada “revolução”
mobilizaram os paulistas contra o Governo Provisório, e a situação de guerra alterou profundamente o
cotidiano da população. Os integrantes do movimento esperavam apoio de mineiros e gaúchos, mas isso não
ocorreu. Após três meses de combates contra as forças federais, os paulistas renderam-se em outubro.

Constituição de 1934 e medidas econômicas


O primeiro conjunto de leis eleitorais do Brasil foi o Código Eleitoral de 1932, que estabeleceu o voto
direto e secreto e considerou cidadãos brasileiros todos os maiores de 21 anos, sem distinção de gênero,
excluindo do direito ao voto analfabetos, mendigos, soldados e padres. Por meio desse código, foi instituída
a Justiça Eleitoral, com o objetivo de combater fraudes nas eleições.

As eleições para a Assembleia Constituinte ocorreram em 1933, obedecendo aos dispositivos do Código
Eleitoral. Os deputados constituintes provinham de dois grupos distintos: os deputados eleitos pela
representação dos estados e os deputados classistas, eleitos pelos sindicatos profissionais.

Em julho de 1934, a nova Constituição foi promulgada mesclando características jurídicas liberais,
autoritárias e corporativas, com a inclusão de capítulos dedicados ao trabalho, à educação, à saúde pública e
à família. De acordo com essa Constituição, a primeira eleição presidencial seria feita de forma indireta,
pelos membros da Assembleia Constituinte. Desse modo, em 17 de julho de 1934, Getúlio Vargas foi eleito
com ampla maioria de votos e empossado como presidente quatro dias depois. Seu mandato iria até 1938 e
seu sucessor seria escolhido por eleição direta.
A nova Constituição estabeleceu, ainda, o ensino primário público, gratuito e de frequência obrigatória,
determinou o reconhecimento oficial e a fiscalização de instituições de ensino secundário e superior, além de
tornar o ensino religioso facultativo. Em relação à família brasileira, a Constituição de 1934 previu a
proteção ao casamento, a avaliação pelo Estado dos casos de desquite e o reconhecimento oficial das
cerimônias de casamento realizadas pela Igreja Católica. A principal novidade da nova Constituição,
entretanto, foi a incorporação de conquistas trabalhistas, por causa de preocupações do governo com a
manutenção da ordem econômica e social.

No campo econômico, o governo instituiu uma política de incentivo à indústria. Para tanto, abriu linhas de
crédito para a instalação de novos estabelecimentos e estimulou a criação de conselhos, companhias e
fundações para a industrialização do país. Com o objetivo de impulsionar e aperfeiçoar as técnicas de
produção e ampliar a variedade de produtos agrícolas exportados, foram criados organismos especializados,
como o Conselho Federal de Comércio Exterior (1934).

Legislação sindical e Estado corporativista


A Primeira Guerra Mundial e a crise de 1929 deixaram na Europa um saldo negativo de fome, desemprego,
inflação, necessidade de reintegrar milhares de soldados à vida civil etc. O cenário de dificuldades sociais e
econômicas e de agitação política favoreceu a formação de regimes políticos autoritários que rejeitavam o
liberalismo e a democracia e tentavam controlar o movimento operário.

Na Itália, por exemplo, o governo fascista desenvolveu um modelo de corporativismo em que o Estado
mediava as relações entre patrões e empregados para evitar conflitos entre as classes. Esse modelo inspirou
o governo brasileiro. Uma das primeiras iniciativas de Vargas para atender a algumas reivindicações dos
trabalhadores (e ao mesmo tempo controlá-los) foi a criação do Ministério do Trabalho, em novembro de
1930.

Com isso, alguns direitos que o movimento operário reivindicava desde o início do século XX foram
regulados pelo Estado e se tornaram leis. Um decreto determinou a jornada diária de oito horas e um dia de
folga após seis dias de trabalho. Caso a jornada se estendesse, caberia o pagamento de hora extra ao
empregado. Também foram instituídos o salário mínimo e as férias anuais remuneradas.

O trabalho feminino e infantil recebeu regulamentação especial. As mulheres conquistaram a estabilidade no


emprego durante a gestação e a licença-maternidade. Além disso, após a volta ao trabalho, tiveram o direito
a períodos de folga destinados à amamentação. O trabalho de jovens foi limitado com a criação de várias
exigências para sua admissão: idade mínima de 14 anos, necessidade de autorização expressa dos pais,
atestados de saúde e prova de que os menores eram alfabetizados e sabiam fazer cálculos matemáticos.
Em 1931, com a Lei de Sindicalização, os direitos e deveres de categorias organizadas em sindicatos foram
regulamentados. Os sindicatos deveriam ser reconhecidos pelo Ministério do Trabalho e estavam impedidos
de tratar de teorias políticas e sociais. Muitas organizações de trabalhadores perderam seu caráter autônomo,
pois precisavam subordinar-se aos requisitos do Estado para que fossem consideradas legítimas.
No ano de 1934, foi instituída a Justiça do Trabalho para intermediar os conflitos entre patrões e
empregados. Em 1943, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) sistematizou a legislação trabalhista
que existia até então e ampliou seu alcance, já que algumas medidas eram restritas a certas categorias. Se,
por um lado, essas medidas ofereceram benefícios reais aos trabalhadores urbanos, por outro, forneceram ao
Estado instrumentos para controlar e combater o movimento operário organizado.

Integralistas × comunistas
Assim como em outros países, a polarização entre nazifascismo e comunismo esteve presente no Brasil. A
ideologia fascista inspirou a fundação da Ação Integralista Brasileira (AIB), liderada por Plínio Salgado,
que defendia um Estado nacionalista controlador. Já os ideais comunistas foram a base para a organização
da Aliança Nacional Libertadora (ANL), composta de comunistas e tenentes e liderada pelo Partido
Comunista do Brasil (PCB).
A AIB foi organizada logo após a Revolução Constitucionalista de 1932. Seus membros defendiam o
corporativismo e combatiam o socialismo, o comunismo, o liberalismo e o capitalismo financeiro. Com um
dos braços estendido, os integralistas gritavam a palavra indígena “anauê” como cumprimento, uma espécie
de versão brasileira da saudação nazista. O movimento recebeu adesão de setores conservadores, como as
oligarquias tradicionais, militares e parte das camadas médias e populares.

A ANL, dirigida pelo militante comunista Luís Carlos Prestes, condenava o imperialismo e o fascismo.
Defendia a suspensão do pagamento da dívida externa, a nacionalização das empresas estrangeiras, a
reforma agrária, a criação de um governo popular e um programa de reformas democráticas, contestando a
ordem social e econômica em vigor. Em poucos meses, a ANL ganhou enorme projeção e reuniu pessoas
dos mais diferentes segmentos sociais, especialmente militares, operários, profissionais liberais e integrantes
de outros setores das camadas médias.
No início de 1935, porém, o governo colocou a organização na ilegalidade, por meio da Lei de Segurança
Nacional. Essa lei, promulgada em abril, enquadrava movimentos políticos e sociais como crimes que
ameaçavam a segurança do Estado. Dessa forma, o governo aumentou o controle e a vigilância sobre a
imprensa, as organizações e os partidos. Além disso, estabeleceu processos diferentes da justiça comum para
julgar os crimes contra a “segurança nacional” e instituiu o Tribunal de Segurança Nacional, subordinado
à Justiça Militar.

Apesar desse avanço repressor do governo, a ANL planejou uma insurreição. O levante da ANL, conhecido
como Intentona Comunista, teve início em novembro de 1935, no Rio Grande do Norte. Os rebeldes
derrotaram as forças policiais e assumiram o controle da cidade de Natal por alguns dias. Ocorreram
levantes coordenados também em Recife e no Rio de Janeiro. O Governo Federal, no entanto, reprimiu o
movimento violentamente.

A perseguição alastrou-se e muitos dos considerados inimigos do regime foram presos sem acusação,
processo ou sentença. Entre eles, estava o escritor Graciliano Ramos, que relatou a experiência em suas
memórias e testemunhou a deportação das militantes alemãs Elisa Berger, conhecida como Sabo, e Olga
Benário Prestes, esposa de Luís Carlos Prestes.

“Uma noite chegaram-nos gritos medonhos do Pavilhão dos Primários, informações confusas de vozes
numerosas. [...] percebemos que Olga Prestes e Elisa Berger iam ser entregues à Gestapo [...]. As mulheres
resistiam, e perto os homens se desmandavam em terrível barulho [...].

Apesar da manifestação ruidosa inclinava-me a recusar a notícia: inadmissível. Sentado na cama pensei com
horror em campos de concentração [...]. Iriam a semelhante miséria?

[...] a polícia jurava que as duas vítimas não sairiam do Brasil. [...] seriam acompanhadas por amigos,
nenhum mal lhes fariam. [...] Olga Prestes e Elisa Berger nunca mais foram vistas. Soubemos depois que
tinham sido assassinadas num campo de concentração na Alemanha.”

RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere: colônia correcional. Sintra: Europa-América, 1983. p. 200-204. v. 3.

O golpe do Estado Novo


A campanha para as eleições presidenciais de janeiro de 1938 iniciou-se sob forte tensão, pois o governo
relembrava o movimento de 1935 e insistia na ameaça de uma conspiração comunista. Foram lançados três
candidatos: Armando de Salles Oliveira, representante da oligarquia paulista, Plínio Salgado, líder da AIB, e
José Américo de Almeida, candidato da situação.

Durante a campanha, Vargas agiu com aparente neutralidade, pois nada fez para promover o candidato
oficial nem se mostrou simpático às demais candidaturas. Na verdade, ele preparava o golpe de Estado que
asseguraria sua permanência no poder. O pretexto veio com o anúncio de um suposto plano de insurreição
comunista, em setembro de 1937, que ficou conhecido como Plano Cohen. Forjado pelos integralistas, o
plano foi divulgado nos principais jornais do país. Sobre o assunto, veja o texto a seguir.
“Apresentava o esboço de um plano de ‘trabalho específico a ser desenvolvido junto às classes
trabalhadoras’, dividido em três etapas [...]. Segundo o texto, os comunistas conduziriam o operariado a
‘fazer petições coletivas e por escrito por aumento de salários aos patrões’, como primeiro passo para ‘criar
na massa proletária brasileira os reflexos da solidariedade e disciplina e despertar nas mesmas a
combatividade que lhes falta’. Após esgotar esse recurso, seriam organizadas ‘marchas coletivas de todo o
operariado, que irá aos patrões em atitude absolutamente pacífica’. O passo final seria a greve geral [...].

Deflagrada a greve geral, um ‘comitê de incêndios’ deveria entrar em ação. A organização desse comitê
aparecia com grande destaque no texto. Paralelamente à greve e ao incêndio de prédios públicos, ocorreriam
manifestações populares no centro da cidade e nos bairros elegantes e plutocratas. A descrição dessas
manifestações era assombrosa: ‘as massas deverão ser conduzidas aos saques e às depredações, nada
poupando para aumentar cada vez mais a sua excitação [...]’.”

CACHAPUZ, Paulo Brandi de Barros. Plano Cohen. CPDOC/FGV. Disponível em <http://mod.lk/vMTBX>. Acesso em 22
mar. 2017.
Com a divulgação do falso plano comunista, o Congresso aprovou a decretação do estado de guerra. Dessa
forma, apoiado pela cúpula das Forças Armadas, por intelectuais e pelos integralistas, Vargas deu um golpe
de Estado em novembro de 1937.
Ao estabelecer o Estado Novo, o presidente suspendeu a Constituição e aboliu os partidos políticos,
iniciando uma era de autoritarismo que duraria até 1945. A AIB, que apoiou o golpe, foi colocada na
ilegalidade em dezembro, com os demais agrupamentos políticos. Alguns integralistas chegaram a tentar um
levante contra o governo, em maio de 1938, no Rio de Janeiro, mas foram rapidamente derrotados.

Polícia política durante o governo de Vargas

Desde 1924, o Departamento de Ordem Política e Social (Dops), criado no estado de São Paulo, atuava
com a finalidade de reprimir movimentos sociais e políticos e havia inspirado a fundação de delegacias da
mesma ordem em outros estados do Brasil.

Em 1933, durante o Governo Provisório, Getúlio Vargas criou a Delegacia Especial de Segurança Política
e Social (Desps). Essa delegacia, chefiada por Filinto Müller, estava centralizada na polícia do Distrito
Federal (na época, a cidade do Rio de Janeiro) e dispunha de autonomia em âmbito federal e de uma tropa
de elite: a polícia especial.

Depois do levante comunista de 1935, a repressão política aumentou, e as organizações e os indivíduos


considerados suspeitos passaram a ser investigados e perseguidos de maneira intensa.

Com a instauração do Estado Novo, as prisões arbitrárias, a censura e a tortura de prisioneiros tornaram-se
práticas comuns. Além disso, a polícia política brasileira procurou trocar informações e métodos com
a Gestapo alemã. A aproximação incluiu uma viagem de representantes brasileiros à Alemanha nazista para
uma “troca de experiências”.

Estado Novo: a ditadura varguista (1937-1945)


Imediatamente após o golpe, Vargas dissolveu o Congresso e outorgou uma nova Constituição que
concentrava amplos poderes no Executivo. Sua proposta de organização do Estado tinha pontos em comum
com os modelos fascistas europeus em voga naquele período. Com base nessa proposta, o governo
suspendeu os direitos individuais, tirou a autonomia dos estados, subordinou os poderes Legislativo e
Judiciário ao Executivo, instituiu a pena de morte e proibiu as greves e o lockout (paralisação da
produção por iniciativa do empregador).

Vargas deu prosseguimento à construção do aparelho de Estado que caracterizou todo o período de
seu governo. Em 1938, criou o Departamento Administrativo do Serviço Público (Dasp) com o
objetivo de melhorar a eficiência dos serviços públicos, formando quadros somente com funcionários
concursados. Em 1939, criou o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), que cuidava da
propaganda oficial do governo e da promoção das manifestações cívicas, e era importante instrumento de
promoção pessoal de Vargas. Como único porta-voz autorizado pelo regime, o DIP tornou-se órgão coercivo
da liberdade de expressão, censurando todas as produções artísticas, culturais e informativas que não
estivessem de acordo com o governo.

O Estado passou a realizar investimentos diretos na economia, assumindo os papéis de interventor e


empresário, e procurou substituir as importações pela produção interna e estabelecer indústrias de base no
país. Nesse período, o governo criou a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), a Companhia Vale do Rio
Doce (CVRD) e a Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), além de investir no setor de transporte
e interferir no mercado e no setor financeiro. Foram fundados ainda o Conselho Nacional do Petróleo e o
Instituto Nacional do Mate, em 1938, o Instituto Nacional do Sal, em 1940, e o Instituto Nacional do Pinho,
em 1941.

Fim do Estado Novo


O envolvimento brasileiro na luta contra o nazifascismo durante a Segunda Guerra Mundial, com o envio de
homens da Força Expedicionária Brasileira (FEB) para ajudar as forças Aliadas, impulsionou uma série de
manifestações contra os países do Eixo. No entanto, essas mesmas manifestações acabaram se
transformando em atos contra o Estado Novo, pois o Brasil havia lutado na guerra a favor de regimes
democráticos, mas era governado por um regime ditatorial. Diante dessa incoerência, a oposição afirmava:
“Se a liberdade foi defendida lá fora, que seja respeitada aqui dentro”. A pressão crescente levou o governo
a marcar para 2 de dezembro de 1945 a realização de eleições gerais.
Nesse ínterim, autorizou-se a formação de partidos políticos, que se organizaram para lançar candidatos à
presidência. Entre os partidos políticos de maior expressão estavam a União Democrática Nacional (UDN),
adversária do regime, que apresentou a candidatura do brigadeiro Eduardo Gomes à presidência da
república, e o Partido Social Democrático (PSD), composto de políticos ligados a Vargas e ao Estado
Novo, que lançou a candidatura do general Eurico Gaspar Dutra. O Partido Trabalhista Brasileiro (PTB),
formado sob a proteção de Vargas, teve como base eleitoral as camadas populares urbanas beneficiadas
pelas medidas sociais e trabalhistas do Estado Novo, e apoiou o candidato do PSD; o PCB, novamente
legalizado e com milhares de adeptos no país, lançou como candidato à presidência Iedo Fiúza.

Deposição de Vargas
Diante da abertura política, a posição indefinida de Vargas em relação ao apoio a algum concorrente dava
margem a especulações sobre sua possível candidatura nas eleições. Nesse contexto, em 1945, emergiu
o queremismo – movimento popular apoiado até mesmo por dirigentes do PCB anistiados, como Luís
Carlos Prestes –, que defendia a convocação de uma Constituinte com Vargas no governo. Sobre a natureza
polêmica desse movimento, leia o texto a seguir, da historiadora Michelle Macedo.

“[...] o movimento queremista contou com a participação de grandes camadas populares da sociedade ao
reivindicar a permanência de Getúlio Vargas no poder. Episódio histórico que intrigava os grupos liberais:
como seria possível, em plena crise da ditadura, o crescimento do prestígio do ditador entre os mais pobres?
[...] Para as oposições, o queremismo não passava de uma estratégia de Vargas para continuar no poder e
dificultar a transição democrática. [...] Na grande imprensa liberal, o movimento era visto como resultado da
repressão e da manipulação da propaganda fascista do governo; e, por serem supostamente ingênuos, os
trabalhadores e populares teriam acreditado na falsa imagem bondosa do Estado.”

MACEDO, Michelle. Os trabalhadores exigem: o movimento queremista e a candidatura Vargas. XXIV Simpósio Nacional
de História, 2007. Disponível em <http://mod.lk/TnMqe>. Acesso em 23 mar. 2017.

O próprio presidente manifestou publicamente seu desejo de continuar no cargo, a ponto de ser alvo de uma
anedota que circulou em 1945: “Meu candidato é Eurico; mas, se houver oportunidade, eu mudo uma letra:
Eufico”.
A situação agravou-se quando Getúlio Vargas nomeou seu irmão, Benjamin Vargas, para o cargo de chefe
da polícia do Distrito Federal, tradicionalmente ocupado por militares. Pressionado pela oposição, em 30 de
outubro de 1945, Vargas foi intimado pelos militares a renunciar. A presidência da república passou
interinamente ao ministro do Supremo Tribunal Federal, José Linhares.

As eleições foram realizadas na data prevista, com a vitória do candidato da coligação PSD-PTB, Eurico
Gaspar Dutra. Beneficiado pela lei eleitoral, Vargas disputou, ao mesmo tempo, um cargo no Senado e outro
na Câmara. Eleito para ambos, escolheu ser senador pelo PSD gaúcho.

Cultura de massa na Era Vargas


No início da década de 1930, as emissoras de rádio no Brasil só transmitiam música erudita, ópera,
noticiários e leitura de textos instrutivos. A partir de 1932, a permissão para veicular propagandas
transformou a programação do rádio. Com programas de auditório, musicais e novelas, o rádio tornou-se um
dos divertimentos preferidos da população e representou um importante veículo para a divulgação da música
brasileira.

As emissoras passaram a transmitir conteúdos apreciados pelo público como músicas, esportes, humor,
utilidade pública e noticiários. O Repórter Esso e o programa oficial Hora do Brasil eram, para muitos, as
principais fontes de notícias sobre o país e o mundo. Os programas de rádio criados pelo governo eram
insistentemente usados para fazer propaganda e veicular as ideias do regime.

Nesse sentido, para assegurar a difusão dos valores do Estado e fortalecer uma pretendida identidade
nacional, por meio da ação do DIP, o governo censurava o que não estivesse de acordo com seus princípios
e incentivava produções que atendessem a seus interesses, compreendendo música, teatro, cinema, literatura
e até mesmo festas populares.

O samba, antes identificado como transgressor da ordem, passou a ser valorizado como a “música nacional”
e, ao mesmo tempo, censurado para que as letras exaltassem o trabalho e a ordem e substituíssem a figura do
malandro pela do trabalhador. Canções ufanistas como Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, eram bastante
difundidas no rádio e nos desfiles oficiais das escolas de samba, criados em 1932 com o intuito de ordenar e
disciplinar o carnaval de rua.
Mesmo com o forte controle e a repressão dos órgãos governamentais, houve uma intensa vida cultural no
Brasil nos anos 1930 e 1940. Muitos artistas e intelectuais buscavam apreender características ligadas a uma
identidade brasileira. Na literatura, importantes obras foram lançadas, como Vidas secas, de Graciliano
Ramos; A estrela sobe, de Marques Rebelo; Perto do coração selvagem, de Clarice Lispector; e Terras do
sem fim, de Jorge Amado. Nas artes visuais, o pintor Candido Portinari foi reconhecido por privilegiar
em suas obras questões sociais, bem como os tipos nacionais (índios, mulatos, negros) e a classe
trabalhadora.
Apesar da valorização dos tipos nacionais nas produções artísticas e da postura nacionalista do Estado Novo,
o país experimentou forte influência cultural dos Estados Unidos. Em 1940, Franklin Delano Roosevelt
criou o Escritório para Assuntos Interamericanos com o objetivo de aumentar a influência estadunidense nos
demais países da América, valendo-se de uma estratégia que combinava propaganda, difusão cultural e
acordos econômicos e militares. O aumento das trocas econômicas e culturais entre os dois países favoreceu
a difusão de hábitos de consumo e do estilo de vida estadunidense como modelo.
Sob influência dessa “política de boa vizinhança”, o Brasil recebeu artistas, políticos e fotógrafos
estadunidenses. Entre eles, cineastas importantes como Orson Welles e Walt Disney. Em sua passagem pelo
país, Welles iniciou a produção do documentário É tudo verdade (It’s all true), contando a história real de
quatro homens que viajaram de Fortaleza ao Rio de Janeiro em uma jangada, com o intuito de pedir ao
presidente Vargas melhorias em suas condições de vida e de trabalho.