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PRINCÍPIOS DE ALIMENTAÇÃO EM CENTROS DE CONSERVAÇÃO DE

ANIMAIS SILVESTRES
Aline Conceição Almeida1
1. Zootecnista, MSc, Doutoranda pelo Departamento de Zootecnia da Universidade
Federal de Viçosa, MG. E-mail: alinecal@hotmail.com

1. Introdução

Os centros conservacionistas, zoológicos e criatórios, têm hoje papel essencial

na manutenção de um banco genético da biodiversidade no mundo, pois possuem, às

vezes, exemplares de espécies que na natureza já se extinguiram ou estão em vias de

desaparecer.

Os zoológicos estão deixando se ser simplesmente as vitrines de animais, para

contribuírem com importantes pesquisas nas áreas de reprodução, medicina,

comportamento e nutrição de animais silvestres que dão grandes contribuições para a

manutenção e conservação de espécies tanto in situ (como em parques ou áreas naturais

protegidas por lei) quanto ex situ (isto é, fora do seu habitat natural).

Como o objetivo destes centros de conservação não é conseguir a máxima

produção dos animais, como o é nos criatórios comerciais, a manutenção destes deve ser

feita de forma que se sintam o mais confortável possível. O cativeiro conservacionista

ou zoológico deve oferecer condições para que os animais se mantenham saudáveis e

aptos a completar todas as fases de seu ciclo vital, sendo: nascer, crescer, reproduzir e

morrer. Para que estes objetivos sejam alcançados ainda existe a necessidade de muitos

estudos com animais silvestres em todas as áreas das ciências biológicas, como:

reprodução, medicina, comportamento, fisiologia, bioclimatologia e a nutrição.

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2. A nutrição

Existe uma deficiência na área de estudos em nutrição de animais silvestres, pois

as pesquisas sempre foram concentradas em animais domésticos e buscando produção.

Com as mudanças nas necessidades de mercado, de se ter uma opção silvestre no

cardápio, estas pesquisas têm se voltado para as espécies com interesse zootécnico. O

maior número de trabalhos com a alimentação de animais silvestres está nos hábitos

alimentares. Apenas a partir da década de 80 os estudos na área de exigências

nutricionais de animais silvestres se tornaram mais significativos (SAAD, 2003).

Devido a estas deficiências os técnicos responsáveis pelo manejo alimentar acabam

tendo que extrapolar dados de pesquisas em animais domésticos para usar em animais

silvestres que possuam similaridades anatômicas, comportamentais ou fisiológicas.

A pesquisa com manejo alimentar e nutrição de animais silvestres dos centros de

conservação não visa promover máxima produtividade e nem se restringe aos animais

de interesse produtivo ou potencial zootécnico, pois a nutrição é uma das ferramentas

chave que possibilitam manter a saúde física dos animais de cativeiro.

2. 1. Anatomia e fisiologia digestiva como ferramenta

O primeiro ponto anatômico a ser observado é a boca, segundo DAYOUB

(1996). Os lábios, os dentes (ou a ausência deles) e a língua podem nos indicar a forma

de apreensão dos alimentos e como estes alimentos serão preparados para sofrer o

processo digestivo, além de informar se os animais são, ou não, mais atraídos por

determinados sabores, de acordo com os tipos de papilas gustativas presentes na língua,

sendo importante no processo de aceitação de dietas adaptadas. A boca ainda pode nos

indicar qual o tamanho, a forma e a consistência do alimento que poderá ser oferecido.

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O conhecimento da anatomia e da fisiologia gastrintestinal também deve ser

utilizado ao se sugerir uma dieta com algum equilíbrio para determinada espécie.

Baseados em estudos com animais domésticos classifica-se os mamíferos de acordo

com suas divisões estomacais: monogástrico, apenas uma cavidade estomacal e

poligástrico, que possuem um estômago composto, podendo ser ruminante ou não. O

número de cavidades gástricas indica o tipo de processo digestivo que ocorre ao longo

do trato gastrintestinal (TGI), se existe fermentação do alimento antes da digestão

química (poligástrico), ou depois (monogástricos com ceco funcional). Essas

informações vão indicar o tipo de alimento que o animal está adaptado a aproveitar seus

nutrientes.

À medida que se aprofunda no conhecimento da anatomia e da fisiologia

digestiva dos animais, pode-se indicar dietas com maiores graus de refinamento. Isto,

contudo, não é suficiente para se fazer um balanceamento de dietas a ponto de suprir

exatamente as necessidades de cada espécie. O que se procura é a máxima aproximação

que permita ao animal manter suas funções biológicas e sua saúde.

2. 2. Itens alimentares e dietas

Os estudos de hábito alimentar complementam ainda mais as informações para

indicação de dietas (OLIVEIRA, 2005; AMORIM, 2005). Neste caso, o conhecimento

dos itens alimentares, em termos de composição é essencial, para se buscar alimentos

que possam ser substitutos no cativeiro, sem prejuízo nutricional para o animal.

De acordo com o hábito alimentar pode-se ter animais herbívoros, onívoros e

carnívoros que são os maiores grupos, ou ainda ter grupos menores de animais

frugívoros, piscívoros, insectívoros, granívoros, folhívoros, etc, de acordo com o grau

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de especificidade da dieta na natureza. Um bom exemplo desta diversidade alimentar na

natureza é a Ordem Primates. Das menores espécies (Gênero Cebuella), às maiores

(Gênero Brachyteles), a composição da dieta em vida livre varia completamente (Tabela

1). O grande desafio do trabalho em nutrição de animais silvestres está na diversidade

tanto entre espécies animais, como em gêneros de itens alimentares. Superar esta

diversidade significa sucesso no manejo alimentar no cativeiro.

Tabela 1. Diversidade de hábitos alimentares entre alguns gêneros de primatas


neotropicais.

% DOS ITENS DA DIETA


GÊNERO Matéria
Frutos2 Folhas Exsudatos3 Outros
animal1
Cebuella 25 20 - 45 10
Callithrix 15 35 - 45 5
Saguinus 20 60 - - 20
Leontopithecus 45 40 - - 15
Callicebus 10 65 20 5 -
Alouatta - 68 30 - 2
Ateles - 90 5 - 5
Chiropotes 3 90 5 - 2
Brachyteles 10 40 40 - 10
1. Inclui vertebrados e invertebrados, 2.Inclui sementes, 3. Inclui néctar.
Fonte: AURICCHIO (1995).

É grande a gama de itens alimentares que podem ser adaptados às dietas de

animais silvestres, inclusive preparados comerciais para animais domésticos, como é o

caso das rações para ruminantes, gatos, cães, cavalos e aves.

O estudo das espécies permitirá a adaptação de frutas, legumes, sementes, carne

e outros itens nas dietas dos animais e como estes alimentos serão oferecidos: picados,

inteiros, com casca ou sem, na forma de papa, etc. É comum encontrar fórmulas

alimentares com instruções para manejo alimentar, para algumas espécies de animais

silvestres, pois, são receitas que deram certos em determinados casos, como mostrado

na Tabela 2 apresentada por DEUTSCH & PUGLIA (1988). Contudo, podem ser

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muitas as influências sobre o estado nutricional do animal e, uma fórmula pode não

apresentar a mesma eficiência em distintos ambientes de criação.

Tabela 2. Exemplos de dietas para algumas espécies de Animais Silvestres com a


sugestão de manejo alimentar.

ALIMENTAÇÃO PARA ALGUNS MAMÍFEROS

Grupo animal Exemplos Alimento Apresentação Frequência Período

Macaco- Ovos, leite, frutas, Ovo cozido,


Duas vezes Manhã e
Primates prego pão e pequenos frutas picadas,
ao dia tarde
Sagüi mamíferos pães em pedaços

Folhas de
Tatu
Leite, pão, carne, embaúba, carne Uma vez ao
Edentata Tamanduá Tarde
frutas e folhas moída, frutas dia
Preguiça
picadas

Capivara Capim, ração, Uma ou


Abóbora e
Rodentia Paca legumes, frutas e duas vezes Tarde
cenoura picadas
Cutia verduras ao dia

Capim, milho,
Anta Legumes e Duas vezes Manhã e
Perissodactyla ração, verduras e
Zebra raízes picados ao dia tarde
raízes

Veado- Legumes e
Capim, ração,
campeiro frutas em Duas vezes Manhã e
Artiodactyla verduras, alfafa,
Veado- pedaços, raízes ao dia tarde
frutas e raízes
catingueiro picadas

Fonte: DEUTSCH & PUGLIA (1988).

O maior desafio no manejo nutricional de animais silvestres é poder oferecer as

quantidades dos nutrientes necessários para manutenção do organismo saudável,

principalmente de energia. Uma forma de se determinar estas quantidades é pelo cálculo

da taxa metabólica basal (TMB). Para a maioria dos mamíferos placentários, não

lactante nem gestante, a TMB é representada por: 70 kcal * PV 0,75 , onde:

PV 0,75 = representa o peso metabólico dos animais;

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70 kcal = representa uma quantidade mínima de energia requerida por quilo de

peso metabólico para manutenção do metabolismo basal. Esta quantidade de energia

pode variar de acordo com o grau de atividade desenvolvida pelo animal ou por

variações significativas no seu status fisiológico, como casos de doença ou gestação.

Com a quantidade de energia diária que o animal necessitará para se manter,

parte-se para determinar as quantidades dos itens alimentares que deverão ser oferecidos

por refeição. Estas devem conter, ainda, fontes do máximo possível de nutrientes,

evitando-se possíveis deficiências, que ocorrem em espécies domésticas tomadas como

referência por compartilharem similaridades, como já indicado anteriormente. Desta

forma, apesar, da dieta não ser balanceada, de acordo com as necessidades de cada

espécie silvestre, são menores as chances de se cometer erros na dieta que possam

causar sintomas de deficiências.

As revisões nas dietas para animais silvestres em centros de conservação devem

ser feitas periodicamente, pois, a variedade de itens alimentares vai estar ligada também

à sazonalidade e preço dos produtos. É importante conhecer as épocas de maior

disponibilidade e menor preço no mercado de cada produto das dietas, para se manter

programadas entregas ao longo do ano tentando manter dietas viáveis e com menor

custo.

3. Manejo Alimentar e enriquecimento ambiental

No manejo alimentar em centros de conservação pode-se adotar diferentes

estratégias, de forma a usar o alimento como ferramenta anti-estresse no cativeiro e a

favorecer o desenvolvimento das funções biológicas dos animais.

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Estas estratégias de fornecimento de alimento, que constituem parte do chamado

enriquecimento ambiental, se dão estimulando os animais a utilizarem seu potencial

para busca de alimento, e no caso de animais que possam ser re-introduzidos na

natureza, treinando-os para buscar por conta própria o alimento disponível no habitat

(SADALLA, 2000; MARTINS & BECK, 2005; OLIVEIRA, 2005).

Uma experiência na Fundação Zoobotânica de Belo Horizonte (BARÇANTE et

al, 2000) mostrou redução na ocorrência de plumofagia entre arajubas (Guarouba

guarouba) colocando-se os alimentos inteiros e/ou pendurados em cordas ao invés de

simplesmente colocar os alimentos picados em bandejas, que é o trato comumente dado

aos psitacídeos em cativeiro. O aumento das atividades físicas dos animais no recinto, a

partir do novo manejo, estaria na origem da cura para auto-mutilação.

Fornecer alimentos inteiros, com casca e dentro de caixas fechadas para

primatas, faz com que o animal despenda tempo entretido na obtenção de alimento e

pode evitar comportamentos estereotípicos, comuns a animais com dificuldades de

adaptação ao cativeiro. Tornar o acesso do animal ao alimento uma tarefa complexa é

uma forma de evitar o tédio do cativeiro, e de ocupá-lo com uma atividade que ele teria

normalmente na natureza, obter alimento (YOUNG, 2000).

LITERATURA CITADA

AMORIM, K.K.P.S. et al. Hierarquia de dominância no acesso ao alimento e no uso


do espaço em grupo cativo de Cebbus apella. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE
ZOOLOGIA, 25. Brasília: Sociedade Brasileira de Zoologia, 2001. Mammalia –
Resumos... p: 255. disponível em: www.unb.br/ib/zoo/CBZ/resumos/Mammalia.pdf -
acesso em: 23 ago. 2005

AURICCHIO, P. Primatas do Brasil. São Paulo: Ed. Terra Brasilis, 1995. 168p.

BARÇANTE, L. et al. Efeitos de uma nova forma de apresentação de alimentos no


comportamento da Ararajuba (Guarouba guarouba) em cativeiro na FZB-BH. In:
CONGRESSO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ZOOLÓGICOS, 24;

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ENCONTRO INTERNACIONAL DE ZOOLÓGICOS, 5. Belo Horizonte: Sociedade
de Zoológicos do Brasil. 2000. Anais... 44p.

DAYOUB, M.C.O. Particularidades do trato digestivo de aves e mamíferos


Silvestres. In: SEMANA DE ZOOTECNIA, 12; SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE
ANIMAIS SILVESTRES, 1. Seropédica: Universidade Federal Rural do Rio de
Janeiro, 1996. Anais...

DEUTSCH, L.A.D. & PUGLIA, L. R. R. Os Animais Silvestres: Proteção, Doenças e


Manejo. Rio de Janeiro: Globo, 1988. 191p.

MARTINS, A. & BECK, B. Uso da técnica de reitrodução de micos-leões-dourados


como ferramenta para conservação da espécie. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE
ZOOLOGIA, 25. Brasília: Sociedade Brasileira de Zoologia, 2001. Mammalia –
Resumos... p: 254. Disponível em: www.unb.br/ib/zoo/CBZ/resumos/Mammalia.pdf -
acesso em: 23 ago. 2005

OLIVEIRA, F.F.R. et al. Ecologia comportamental e alimentar de um casal de lobos-


guará (Chrysocyon Brachyurus) em regime de semi-cativeiro. In: CONGRESSO
BRASILEIRO DE ZOOLOGIA, 25. Brasília: Sociedade Brasileira de Zoologia, 2001.
Mammalia – Resumos... p: 221. Disponível em:
www.unb.br/ib/zoo/CBZ/resumos/Mammalia.pdf - acesso em: 23 ago. 2005

OLIVEIRA, M.C. et al. Técnicas de enriquecimento ambiental para diminuição de


estresse e manutenção de padrões de consumo de Panthera onça. In: CONGRESSO
BRASILEIRO DE ZOOLOGIA, 25. Brasília: Sociedade Brasileira de Zoologia, 2001.
Mammalia – Resumos... p: 222. Disponível em:
www.unb.br/ib/zoo/CBZ/resumos/Mammalia.pdf - acesso em: 23 ago. 2005

SAAD, C.E.P. Formulação de dietas para animais de zoológicos. In: SIMPÓSIO DE


PRODUÇÃO DE ANIMAIS SILVESTRES EM CATIVEIRO, 1. Inovando a
Produção. Lavras: Universidade Federal de Lavras, 2003. Anais... p: 102-122.

SADALLA FILHO, E. Manual de Manejo do Lobo Guará (Chrysocyon Brachyurus).


São Paulo: CEPREM, 2000. 87p. Disponível em: www.zcog.org/zcog%20frames/
Maned%20Wolf%20SSP-Portuguese.PDF – acesso em: 23 de ago. 2005

YOUNG, R. Measuring animal behaviour. In: CONGRESSO DA SOCIEDADE DE


ZOOLÓGICOS DO BRASIL, 24.; ENCONTRO INTERNACIONAL DE
ZOOLÓGICOS, 5. Belo Horizonte: Sociedade de Zoológicos, 2000. Anais... (CD
Rom Animal Behaviour and Welfare).