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UM POUCO DE HISTÓRIA - JUREMA SAGRADA E O CATIMBÓ

Dentre os estudos da antropologia brasileira, a Jurema ocupa um lugar singular. O próprio termo
comporta denotações múltiplas, que são associadas em um simbolismo complexo. Além do sentido
botânico, a palavra Jurema designa ainda pelos menos três outros significados:
• Preparado líquido à base de elementos do vegetal, de uso medicinal ou místico, externo e interno,
como a bebida sagrada, "vinho da Jurema";
• Cerimônia mágico-religiosa, liderada por pajés, xamãs, curandeiros, rezadeiras, pais-de-santo,
mestras ou mestres juremeiros que preparam e bebem este "vinho" e/ou dão a beber a iniciados ou a
clientes;
• Jurema sendo igualmente uma entidade espiritual, uma "cabocla", ou divindade evocada tanto por
indígenas, como remanescentes, herdeiros diretos em cerimônias do Catimbó, de cultos afro-
brasileiros e mais recentemente na Umbanda.
Para o professor José Maria Tavares de Andrade, esse "complexo semiótico" chamado Jurema,
representa até hoje, na polissemia deste termo, um ponto de vista e uma resistência étnica dos
nordestinos autóctones, "um fio condutor de um traço cultural, distintivo do componente indígena da
cultura popular, regional e nacional.”.
Numa primeira fase da colonização, a resistência dos povos indígenas no Nordeste, não permitiu que
a Jurema, enquanto árvore sagrada fosse conhecida, em seus usos e significados, não sendo assim
documentada pelos colonizadores e estrangeiros.
Numa segunda fase histórica a Jurema representa um elemento ritual ligado à própria resistência
armada dos povos indígenas ou à guerra empreendida contra inimigos inclusive em suas alianças.
Ainda nesta fase na qual a Jurema começa a ser documentada, seu significado ainda não é entendido,
mas seu uso já é motivo de repressão, prisão e morte de índios.
Na medida em que avança o rolo compressor da colonização, processo de genocídio ou tentativa de
dominação, não só política e econômica como também cultural, aparece uma nova forma de
resistência: a Jurema assume um lugar central na religiosidade popular, não só indígena regional -
Catimbó. Diante do componente negro a Jurema garante seu reconhecimento, como entidade
(espírito, divindade, cabocla) autóctone, "dona da terra". A Jurema é absorvida pelos cultos afro-
brasileiros, tendo surgido inclusive os "Candomblés de Caboclos".
Nas últimas décadas é no contexto da Umbanda, religião nascente e em pleno processo de
sistematização e de expansão nacional, que a Jurema é integrada na cosmologia sagrada, no panteão
da religião nacional. Constatamos em vários estados nordestinos as "Linhas da Jurema", dentre as
linhagens e filiações religiosas da Umbanda. Nesses últimos anos, e paralelo ao movimento religioso
propriamente brasileiro, a Jurema continua como "núcleo duro", segredo, bandeira ou símbolo, para
os remanescentes indígenas, em pleno "movimento étnico", num contexto de defesa de seus direitos
humanos, de suas áreas de reservas e de sua autonomia e reconhecimento no pluralismo da sociedade
e das culturas brasileiras.
A presença do Zé Pelintra e da cachaça são essenciais no catimbó, onde, inclusive, “não há Mestre
abstêmio”. (cf: Ribeiro,1991)
Em Alhambra, pequeno município situado ao sul de João Pessoa, na Paraíba, está situada a cidade
sagrada da Jurema. Lá estão sepultados quarenta e dois mestres principais dentre eles Mestre Zé
Pelintra. Único espírito que não é da tradição do índio que pode aparecer nos rituais, pois ele,
segundo dizem, “baixa em qualquer tipo de serviço”
A Jurema é uma árvore que floresce no agreste e na caatinga nordestina, tendo duas qualidades: a
jurema-branca e a jurema-preta. Os pajés (sacerdotes tupis) usavam a bebida da jurema-branca que
faziam com que as pessoas tivessem sonhos. Os feiticeiros, Babalorixás pernambucanos, os mestres
de Catimbó, os pais-de-terreiro dos candomblés da Bahia usam muito a jurema.
Sangirardi Jr. (1983) afirma que o termo jurema designa várias espécies dos gêneros Mimosa,
Acácia e Pithecelobium. Jonathan Ott, em seu 'The Angels' Dictionary (1995), também aponta no
seu verbete sobre o “Vinho da Jurema” que, além da Mimosa hostilis Benth., outras espécies de
leguminosas, tais como Mimosa Verrucosa Benth., Acácia piauhyensis Benth., e várias espécies
Pithecellobium podem ser designadas pelo mesmo nome.
Sangirardi Jr. aponta que a Jurema “estudos sob o aspecto ritual”, de onde emergem manifestações
diversas de experimentação religiosa:
- jurema era usada ritualmente por tribos de dois grandes grupos indígenas que habitaram o
Nordeste: Jê, os tapuias dos antigos escritores, e Karirí. “Perderam-se, no entanto, para sempre, os
detalhes das cerimônias em que a erva era ingerida por esses índios, cerimônias essas não registradas
por nenhum escritor da época” (Sangirardi Jr., 1983:193). Além disso, vale sugerir que a jurema foi
combatida durante a catequese indígena, quando os aborígines da região Nordeste eram aldeados em
missões; e combate ideológico este que parece ter se estendido a juremeiros de uma maneira geral
até a primeira metade deste século, pois, como informa Sangirardi Jr.
- As reuniões de culto em que bebiam jurema era chamada antigamente de adjunto da jurema e
designava prática supersticiosa, c/ artes do demônio e, como tal, os seus adeptos estavam sujeitos às
penas da lei.
Mas se não existem relatos sobre usos rituais da jurema antes do contato dos índios com a agência
colonizadora, pode-se encontrar, em contrapartida, descrições de rituais sincréticos nos quais se
consome jurema. De fato, a jurema faz parte não apenas de ritos indígenas, mas sua utilização ritual
acha-se também difundida entre diversos sistemas de cultos (em áreas rurais e urbanas) tais como
catimbós, xangôs, candomblé, etc. Segundo Sangirardi Jr., “os pajés indígenas ensinaram aos
brancos e mestiços os mistérios da pajelança. Esta influiu no catimbó. Uma e outra receberam a
mescla do espiritismo, da feitiçaria européia e, nas orações e imagens de santos, do catolicismo.
Depois, completando o ciclo, o pajé indígena recebe de volta, sincretizado, tudo aquilo que ensinara.
E passa, inclusive, a trabalhar com os encantados..." (Sangirardi Jr.,1983:194).
Até o século XX, beber jurema era sinônimo de feitiçaria ou prática de magia. Da casca de seu
tronco e de suas raízes se faz uma bebida que é considerada mágico-sagrada. Sendo também Jurema
o local sagrado onde vivem os Mestres do Catimbó, religião forte do Nordeste.
Este culto se difundiu dos Sertões e Agrestes nordestino em direção às grandes cidades do litoral, as
constantes ondas migratórias entre o interior e o litoral devem ter influenciado nestes intercâmbios
de elementos simbólicos no culto. Espalhando-se em algumas cidades nordestinas, como Recife,
Paraíba, Maceió, Natal, chegando ao sudeste e sul do Brasil.
Desse modo, o símbolo da árvore que liga o mundo terreno ao além e, embora amargo, dá sapiência
aos que dela se alimentam.
Jurema sagrada como tradição "mágica" religiosa, ainda é um assunto pouco estudado. É uma
tradição nordestina que se iniciou com o uso desta planta pelos indígenas da região norte e nordeste
do Brasil; Nasceu a Jurema Sagrada, no ano de 1532, com a junção da:
Pajelança
Catolicismo
Bruxaria Europeia
AS DIVINDADES DA NATUREZA DOS NEGROS BANTOS
Nasce então a Jurema Sagrada, que surgiu das Aldeias Indígenas. Mais que, atualmente possui
influências as mais variadas, e que vão desde a feitiçaria européia até pajelança, xamanismo
indígena, passando pelas religiões africanas, pelo catolicismo popular, e até mesmo pelo esoterismo
moderno, psicoterapia psicodélica e pelo cristianismo esotérico.
Primeiro Reinado que é: Reinado da Jurema Preta, Jurema de Caboclo, Jurema de Tupã e ou Rei
Tanaruê, destes seguimento sugiram mais onze reinados, todos com os seus legítimos
Representantes, na hierarquia de Reis, Rainha, Príncipe e Princesa, Caboclo, Tangerinos, Vaqueiros,
Boiadeiros, Mestres, Ciganos, Preto Velho, entre outros.
Em cada Reinados foram encantada algumas espécies de arvores, que hoje são conhecida como:
Angico, Jucá, Jequitibá, Jatobá, Aroeira, Manacá, Ingá entre outras, após o encantamento de cada
espécie estas se tornaram Cidades Sagrada.
Reino das Águas Claras – “Tambor de Mina Nago” - Reino dos Encantados, Sereias, Príncipe Boto,
Príncipe Rio Verde, Rio Negro, Marecia, Flechimar Princesa Flora etc… No Pé de cada árvore eram
feito a mais belas mesas, Os Juremeiros da época tinha os seus assentamentos enterrados dentro da
matas e os desenterravam, lavavam e montavam a mesa em uma arvore sagrada longe do local onde
os escondia, após a jurema de chão, pegavam e a envolvia em panos e as enterravam.
A Jurema de Chão e feito dentro da mata ou no pé de uma arvore sagrada, realizada ao som dos
Maracas .
Os antigos Juremeiros os fazia escondidos da policia pois os Jesuítas, na catequização dos índios
enfatizou que a pajelança era atos demoníacos, e os que era descobertos, matava-se todos ali mesmo,
exemplo que aconteceu com o mestre Tangerino Zé Ferreiro, dentro da mata da cidade de Abiara
PB. Por isso que surgiu as demais Reinados que saiu da mesa feita dentro das matas e foram para as
casas e a primeira casa aberta ao publico com a autorização do Rei foi de Maria do Acaio em
Alhandra PB. Que uns dos maiores em número de seguidores atualmente.
Não a existe para o mestre melhor Reinado da Jurema, cada um veio de uma aldeia, e de uma
linhagem de pensamento.
A Jurema Sagrada, não existe Exu e Pomba-Gira, essas entidades só surgiu na Quimbanda em 1908.
A Jurema tem os caboclos e mestres esquerdeiros. A Jurema que cultua a Quimbanda e uma Jurema
Traçada, que Exu e Pomba Gira, passa na sala junto com o Mestre igual ao Omolocô, que mistura o
Orixá e os Espíritos em Evolução.
A Jurema de Raiz pura não cultua a Quimbanda, mais o médium que tem a sua Quimbanda firmada,
faz separado da Jurema, igualmente aos atos dos Orixás, e comum no Nordeste, Ter um Babalorixá e
um padrinho de Jurema distintos. Que Orixá e Divindade da Natureza, no entanto a Jurema são
Espíritos Encantados na Natureza, e o Exu e a Pomba Gira são homens e mulheres da rua mais não
são encantados e por isso que tem os atos igual à de Malei, raiz da Quimbanda.
A minha Jurema e a Jurema do Reino da Jurema Preta, que se realiza na Natureza tudo e realizado
no habitar dos encantados. Mais torno a reafirmar nada tira o brilho das demais tais que hoje existe
vários nomes de respeito dentro da Jurema Sagrada.
Jurema Sagrada faz referência nos fatos ocorrido no Brasil e suas épocas e historia, pois os
encantados fez parte dela, e quando se manifestam nos terreiros de Catimbó, cantam os seus Lírios o
que ele fez em vida, onde nasceu e época e local que viveu.
A Jurema Sagrada Catimbó não é uma Lenda e ou um Conto de Fadas foi a História das Glorias e o
sofrimento dos índios e o povo Nordestino. Quando um mestre se manifesta e se ele foi encantado
corretamente é o Mestre acordado que fala a sua Historia de vida, onde nasceu, onde viveu e onde
esta enterrado, não é necessário o médium sair em busca da historia do Mestre, ele tem que falar
onde esta o seu corpo enterrado e onde viveu. Igual vamos ver na Historia da Vida do grande Mestre
de Jurema Zé Pelintra, ele nasceu na Vila do Cabo de São Agostinho, passou grande parte de sua
vida na Paraíba em Alhandra no Acaio e quando passou com 114 anos foi enterrado no antigo
cemitérios dos Afogados do Ingazeiro.
DEFININDO O CATIMBÓ:
A tarefa de definir o catimbó não é fácil, diante da pluralidade dos seus referentes. Na linguagem
corrente do Nordeste, por exemplo, o termo significa magia negra, feitiçaria, bem como qualquer
forma de manipulação do sobrenatural com fins “maléficos” ou “diabólicos”, como “Coisa-feita”,
“mau-olhado”, entre outros. Utilizo o termo, no entanto — mesmo reconhecendo seu caráter
genérico —, referindo-me ao fenômeno religioso descrito a partir da década de 1930, pelos autores
acima mencionados.
Trata-se de um culto encontrado em Pernambuco, na Paraíba e no Rio Grande do Norte, e que surge
com o fim dos aldeamentos indígenas, com o índio assimilado aos homens livres pobres,
trabalhadores rurais despossuídos, submetidos aos interesses dos grandes proprietários. Apresenta
elementos do cristianismo — consequência do longo contato dos povos indígenas com os
missionários católicos —, mas também traços de alguns rituais ameríndios.
É igualmente significativa, como se verá mais adiante, a influência da magia europeia no culto.
Algumas de suas principais características seriam os usos do fumo e da jurema (bebida), como
elementos litúrgicos. Suas sessões eram voltadas para consultas, através das quais se buscava a cura
para males, físicos, mentais e espirituais, ou para resolver toda a sorte de aflições do cotidiano. A
liturgia do catimbó reunia um número mínimo de participantes, que podia limitar-se à pessoa que
busca o atendimento mais o catimbozeiro que conduzirá a sessão (chamado mestre).
Muitos desses catimbozeiros costumavam trabalhar comum assistente. O culto fundamentava-se na
possessão do espírito (de mestre ou caboclo) sobre o corpo do médium, após este entoar as “linhas”
(cânticos) de uma determinada entidade. Esta, uma vez incorporada, é quem vai atender o cliente.
Descrevendo o catimbó por ele observado na década de 1930,Fernandes escreveu: Vendo o catimbó,
de uma maneira geral, o aparato consiste na mesa estreita, forrada ou não, onde se misturam
garrafadas de jurema, cachimbos, novelos de linha, agulhas, botões, imagens de santos...
No contexto do sincretismo brasileiro afro-ameríndio, a presença ou não da jurema como elemento
sagrado do culto vem estabelecer a diferença principal entre as práticas de umbanda e do catimbó.
Apesar de bastante conhecida no Nordeste do Brasil ainda não há um consenso sobre qual a
classificação exata da planta popularmente conhecida por Jurema.
A Jurema (Acacia Jurema mart.) é uma das muitas espécies das quais a Acácia é o gênero. Várias
espécies de Acácia nativas do nordeste brasileiro recebem o nome popular de Jurema.
As Acácias sempre foram consideradas plantas sagradas por diferentes povos e culturas de todo o
mundo; Os Egípcios e Hebreus veneravam a "Acacia nilotica" (Sant, Shittim, Senneh), os Hindus a
"Acacia suma" (Sami), os Árabes a "Acacia arábica" (Al-uzzah), osIncas e outros povos indígenas
da América do sul veneravam a "Acacia cebil” (vilca, Huillca, Cebil), os nativos do Orinoco a
"Acacia niopo" (Yopo) e os índios do nordeste brasileiro tinham na "Acacia jurema" (Jurema,
Jerema, Calumbi) a sua árvore sagrada, a sua Acacia, ao redor da qual se desenvolveu essa tradição
hoje conhecida como "Jurema sagrada".
Ver verbete: Jurema (árvore)
CULTO
O culto da Jurema está para a Paraíba, assim como o de Iroko está para a Bahia. Esta arvore
tipicamente Nordestina, era venerada pelos índios potiguares e tabajaras, da Paraíba, muitos séculos
antes da descoberta Brasil. Em Pernambuco, existe um município cujo nome é Jurema devido a
grande quantidade destas árvores que ali se encontra. A jurema (mimosa hostilis), depois de
crescida, é uma frondosa árvore que vive mais de 200 anos. Todas as partes dessa árvore são
aproveitadas: a raiz, a casca, as folhas e as sementes, utilizadas em banhos de limpeza, infusões,
unguentos, bebidas e para outros fins ritualísticos.
Os devotos iniciados nos rituais do culto são chamados de “Juremeiros”. Foi na cidade de Alhandra,
município a poucos quilômetros de João Pessoa, que esse culto, na forma do Catimbó alcançou
fama. A Jurema já era cultuada na antiguidade por pelo menos dois grandes grupos indígenas, o dos
tupis e o dos cariris também chamados de tapuias. Os tupis se dividiam em tabajaras e potiguares,
que eram inimigos entre si. Na época da fundação da Paraíba, os tabajaras formavam um grupo de
aproximadamente cinco mil índios. Eles ocupavam o litoral e fundaram as aldeias Alhandra e a de
Taquara.
Origens
A jurema sagrada é remanescente da tradição religiosa dos índios que habitavam o litoral da Paraíba,
Rio Grande do Norte e no Sertão de Pernambuco e dos seus pajés, grandes conhecedores dos
mistérios do além, plantas e dos animais. Depois da chegada dos africanos no Brasil, quando estes
fugiam dos engenhos onde estavam escravizados, encontravam abrigo nas aldeias indígenas, e
através desse contato, os africanos trocavam o que tinham de conhecimento religioso em comum
com os índios.
Por isso até hoje, os grandes mestres juremeiros conhecidos, são sempre mestiços com sangue índio
e negro. Os africanos contribuíram com o seu conhecimento sobre o culto dos mortos egun e das
divindades da natureza os orixás voduns e inkices. Os índios, estes contribuíram com o
conhecimento de invocações dos espíritos de antigos pajés e dos trabalhos realizados com os
encantados das matas e dos rios. Daí a jurema se compor de duas grandes linhas de trabalho: a linha
dos mestres de jurema e a linha dos encantados.
A JUREMA é a cidade-estado deste mundo espiritual. Em Alhandra, localidade do litoral paraibano,
considerada por muitos o berço de uma grande linhagem de catimbozeiros e mestres do além, como
Manoel Inácio e Maria do Acais, que lá formaram escola quando em vida; as árvores de Jurema
cultivadas pelos catimbozeiros são consideradas as próprias cidades espirituais.
"A cidade' mais antiga de jurema, cujo pé de jurema teria sido plantado pelo mestre Inácio', regente
dos índios, é o arbusto velho e enorme que se encontra na atual propriedade Estiva'... O arbusto é
sempre venerado, e muitas vezes há velas acesas ao anoitecer. ... O lugar é chamado pelos
entendidos de cidade do Major do Dias'... Mestre Inácio e o mestre Major do Dias foram
proprietários de Estiva. O atual proprietário, o mestre Adão, um dia tornar-se-á também mestre' do
além depois que o seu espírito for lavado ."
OS CABOCLOS
Os Caboclos são identificados como entidades indígenas que trabalham principalmente com a cura
através do conhecimento das ervas. Durante a estada destas entidades nos terreiros, incorporadas nos
médiuns, dão passes e realizam benzeduras com ervas e folhagens. São associados às correntes
espirituais mais elevadas, as que trabalham para o bem, mas que também podem ser perigosas
quando usados contra alguém. Por isso são muito temidos. ““... na antiguidade se tina muito medo
dos caboclos por causa das flechadas. A flechada de um índio é pior que o trabalho de um mestre...
só algumas pessoas que sabem mexer e botar a mão ali dentro
“Nas Mesas o caboclo é simbolizado por príncipes, estátuas de índios e apetrechos confeccionados
por ameríndios ou inspirados neles como cocares, flechas, preiacas, colares, etc.”. Os caboclos
comem frutas, flores, mel, carne bovina ou peixe, que pode ser crua, cozida no vinho, ou assada na
brasa. Com a introdução de sacrifício de animais nas práticas juremistas, é comum oferecer-lhes
pequenos animais como passarinhos, preás, coelhos e outro "bichos de caça". São oferecidos ainda
raízes como a mandioca, a batata doce e alimentos confeccionados a partir delas.
Alguns juremeiros oferecem vinho branco a estas entidades, outros apenas suco de frutas e
refrigerantes como o guaraná. Normalmente os caboclos não fumam e no momento das reuniões e
giras a eles destinadas não se deve fumar; contudo alguns caboclos se utilizam destes elementos. No
caso dos caboclos que utilizem do tabaco em seus trabalhos, nas oferendas estes devem se fazer
presentes na forma em que o caboclo em questão mais se agradar (cachimbo ou cigarro de palha ou
charuto).
Completam as oferendas às bugias ou inãs, as velas. Na incorporação vê-se três estereótipos
relacionados ao gênero e a faixa etária destas entidades: Os caboclos crianças, sejam de um sexo ou
de outro, descem pedindo mel, balas e frutas. São pouco ascéticos quando comem estes alimentos,
depositando e misturando os ingredientes no próprio chão dos terreiros.
É costume, ainda, lambuzarem a si e aos com que compartilham de seu alimento. Muitas vezes
querem comer pequenos insetos e répteis que encontrem nas casas de culto, sob a argumento de que
nas matas comem destes animais. São brincalhões e falam uma linguagem infantilizada do tipo tati-
bi-tati. Os caboclos adultos do sexo masculino tem o semblante carrancudo.
Sua voz , normalmente faz-se ouvir claramente. Descem em geral estalando os dedos e emitindo um
som sibilante. Quando em reuniões, onde não haja o batuque dos tambores, dançam em círculo,
dobrando um joelho e deixando a outra perna atrás. Nas festas a sua coreografia muda assumindo os
passos dançados pelos "caboclinhos" dos folguedos populares do carnaval pernambucano. As
caboclas tem uma expressão facial de maior suavidade e, normalmente, falam uma linguagem onde
se intercala no início das palavras a sílaba si.
OS MESTRES
Outra categoria de entidades que recebem culto na Jurema é a dos Mestres. Ao que parece o termo
mestre é de origem portuguesa, onde tinha o sentido tradicional de médico, ou segundo Câmara
Cascudo de feiticeiro. De forma geral, os mestres são descritos como espíritos curadores de
descendência escrava ou mestiça (índio com negro ou branco com uma das duas outras raças).
Dizem os juremeiros que os mestres foram pessoas que, quando em vida, trabalharam nas lavouras e
possuíam conhecimento de ervas e plantas curativas. Por outro lado, algo trágico teria acontecido e
eles teriam "se passado" (morrido), se encantando, podendo assim voltar para "acudir" os que
ficaram "neste vale de lágrimas".
Alguns deles se iniciaram nos mistérios e "ciência" da Jurema antes de morrer, como o mestre Inácio
ou Maria do Acais e toda a linhagem de catimbozeiros de Alhandra, que após um ritual denominado
"lavagem" ganham um lugar nas cidades espirituais e passam a incorporar nos discípulos que
formaram.
Outros adquiriram esse conhecimento no momento da morte, pelo fato desta ter acontecido próximo
a um espécime da árvore sagrada. No panteão juremista, existem vários mestres e mestras, cada qual
responsável por uma atividade relacionada aos diversos campos da existência humana (cura de
determinadas doenças, trabalho, amor...). Há ainda aqueles especialistas em fazer trabalhos contra os
inimigos.
Nas mesas, as representações das entidades relacionadas nesta categoria são as mais elaboradas,
geralmente possuindo o estado completo e a "jurema plantada"; em especial a do "mestre da casa",
aquele que incorpora no juremeiro, faz as consultas e iniciam os afilhados nos segredos do culto. Por
tudo isso esse mestre é carinhosamente chamado de "meu padrinho".
Cada mestre está associado a uma cidade espiritual e a uma determinada planta de "ciência" (angico,
vajucá, junça, quebra-pedra, palmeira, arruda, lírio, angélica, imburana de cheiro e a própria Jurema,
entre outros vegetais), existindo ainda alguns relacionados à fauna nordestina (mamíferos – guará,
preá; aves – gavião, periquito, arara, pitiguarí; insetos – abelhas, besouro mangangá; répteis). Para os
mestres relacionados à outra planta que não a Jurema, são estas plantas (quando arvores) que tem
seus trocos plantados nas mesas dos discípulos.
OUTRAS ENTIDADES
Além dos caboclos e dos mestres, vem na jurema, mas com menos frequência, os Pretos e Pretas
Velhas. Espíritos de velhos escravos africanos, peritos em benzeduras e nos conselhos que dão a
seus "netinhos" dos terreiros. Temos aqui, talvez, uma influência da Umbanda sobre o culto
Juremista.
Contudo a influência dos cultos africanos é melhor expressa na incorporação dos Exus e Pomba
Giras ao panteão juremista. Na Jurema eles aparecem como os servos dos mestres ou como mestres
menos esclarecidos e mais propícios aos trabalhos para o mal. Se junta a este panteão os Santos da
Igreja Católica, que são cumprimentados pelos mestres e caboclos, e os quais encontramos
referências nas toadas e nas orações utilizadas nos fazeres mágicos ensinados pelos espíritos.