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v.10.

03

sociologia & antropologia

setembro – dezembro 2020
issn 2238-3875
Sociologia & Antropologia destina-se à UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
apresentação, circulação e discussão Reitora
Denise Pires de Carvalho
de pesquisas originais que contribuam
Vice-Reitor
para o conhecimento dos processos
Carlos Frederico Leão Rocha
socioculturais nos contextos
brasileiro e mundial. A revista está INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS SOCIAIS
aberta à colaboração de especialistas Diretora
Susana de Castro Amaral Vieira
de universidades e instituições de
pesquisa, e publicará trabalhos PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA
inéditos em português, inglês e espanhol.
Coordenação
Sociologia & Antropologia ambiciona
Felícia Picanço
constituir-se em um instrumento de Rodrigo Santos
interpelação consistente do debate
contemporâneo das ciências sociais
e, assim, contribuir para o seu
desenvolvimento.

S678 Sociologia & Antropologia.


Sociologia & Antropologia. Revista do Programa de Revista do PPGSA
Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Programa de Pós-Graduação em
Universidade Federal do Rio de Janeiro. –  v. 10, n.3 Sociologia e Antropologia
(set.– dez. 2020) – Rio de Janeiro: PPGSA, 2011– Largo de São Francisco de Paula 1 sala 420
Quadrimestral 20051-070 Rio de Janeiro RJ
t.+55 (21) 2224 8965 ramal 215
ISSN 2238-3875
revistappgsa@gmail.com
1. Ciências sociais – Periódicos. 2. Sociologia – sociologiaeantropologia.com.br
Periódicos. 3. Antropologia – Periódicos. I. revistappgsa.ifcs.ufrj.br
Universidade Federal do Rio de Janeiro. Programa
de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia. Publicação quadrimestral
Triannual publication
CDD 300 Solicita-se permuta
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Researching Brazil
volume 10 número 3
setembro–dezembro de 2020
quadrimestral
issn 2238-3875

sociologia & antropologia

ppgsa programa de pós-graduação em sociologia e antropologia


ufrj universidade federal do rio de janeiro, brasil
CORPO EDITORIAL Jeffrey C. Alexander
Editores (Yale University, New Haven, CT, United States)
(Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil) João de Pina Cabral (University of Kent, United Kingdom)
Antonio Brasil Jr. (Editor Responsável) José Sergio Leite Lopes
Marco Antonio Gonçalves (Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil)
José Maurício Domingues
Comissão Editorial
(Universidade do Estado do Rio de Janeiro/IESP, Brasil)
(Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil)
José Vicente Tavares dos Santos
André Botelho
(Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil)
Elina Pessanha
Josefa Salete Barbosa Cavalcanti
Glaucia Villas Bôas
(Universidade Federal de Pernambuco, Recife, Brasil)
Maria Laura Cavalcanti
Leonilde Servolo de Medeiros
José Reginaldo Santos Gonçalves
(Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, Brasil)
José Ricardo Ramalho
Lilia Moritz Schwarcz
Editor Associado (Universidade de São Paulo, Brasil e Princeton University, New
Maurício Hoelz (UFRRJ) Jersey, United States)
Assistentes Editoriais Manuela Carneiro da Cunha
Julia O'Donnell (University of Chicago, Illinois, United States)
Rodrigo Santos Mariza Peirano
(Universidade de Brasília, Distrito Federal, Brasil)
Staff
Maurizio Bach
(Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil)
(Universität Passau, Bavaria, Germany)
Júlia Kovac
Michèle Lamont
Tayná Mendes
(Harvard University, Cambridge, Massachusetts, United States)
Francisco Kerche
Patrícia Birman
(Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil)
Conselho Editorial
Peter Fry
Alain Quemin
(Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil)
(Université Paris 8, Saint-Denis, France)
Philippe Descola
Anete Ivo
(Collège de France, Paris, France)
(Universidade Federal da Bahia, Salvador, Brasil)
Renan Springer de Freitas
Brasilio Sallum Junior
(Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Brasil)
(Universidade de São Paulo, Brasil)
Ruben George Oliven
Carlo Severi
(Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil)
(École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris, France)
Sergio Adorno (Universidade de São Paulo, Brasil)
Charles Pessanha
(Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil)
Cristiana Bastos
(Universidade de Lisboa, Portugal)
PRODUÇÃO EDITORIAL
Edna Maria Ramos de Castro
Projeto gráfico, capa e diagramação
(Universidade Federal do Pará, Belém, Brasil)
a+a design e produção Glória Afflalo
Elide Rugai Bastos
Preparação e revisão de textos
(Universidade Estadual de Campinas, São Paulo, Brasil)
Maria Helena Torres
Ernesto Renan Freitas Pinto
(Universidade Federal do Amazonas, Manaus, Brasil)
Gabriel Cohn
(Universidade de São Paulo, Brasil) © Programa de Pós-Graduação em
Guenther Roth Sociologia e Antropologia / UFRJ
(Columbia University, New York, United States) Direitos autorais reservados: a reprodução integral de artigos
Helena Sumiko Hirata é permitida apenas com autorização específica; citação
(Centre National de la Recherche Scientifique, Paris, France) parcial será permitida com referência completa à fonte.
Heloísa Maria Murgel Starling
(Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Brasil)
Apoio
Huw Beynon
(Cardiff University, Wales, United Kingdom)
Jeffrey C. Alexander
(Yale University, Connecticut, United States)
Irlys Barreira
(Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, Brasil)
Os editores (PPGSA/UFRJ)

APRESENTAÇÃO

Este número 3 de Sociologia & Antropologia fecha um ano cheio de desafios pes-
soais e institucionais trazidos pela emergência sanitária causada pela Covid-19.
Os efeitos dessa doença, de espalhamento rápido e alta letalidade no Brasil e
na cidade do Rio de Janeiro, afetaram direta ou indiretamente autores, editores
e colaboradores da revista, tornado o próprio processo de editoração uma ver-
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 759 – 761, set. – dez., 2020

dadeira façanha. Aproveitamos este espaço para agradecer profundamente a


toda a equipe de S&A a dedicação ímpar ao nosso projeto em circunstâncias
tão excepcionais.
Mesmo diante de tantas limitações, S&A também entende que a atual
crise sanitária, cujo desfecho parece finalmente se colocar no horizonte, graças
ao processo de vacinação que se iniciará em 2021, suscitou problemas inéditos
para as ciências sociais. Por essa razão, estamos editando simultaneamente
um número especial, que sairá no começo do próximo ano, dedicado ao enten-
dimento, por meio dos recursos cognitivos da sociologia e da antropologia, dos
efeitos sociais, culturais e políticos da pandemia da Covid-19 no Brasil e no
mundo, reunindo especialistas de diferentes áreas.
Abrimos a presente edição com uma série de textos dedicados à obra e
à recepção brasileira do antropólogo inglês Daniel Miller, nome de referência
nos estudos sobre consumo, objetos, materialidades e ambientes digitais. Mo-
nica Machado e Ana Carolina Balthazar realizaram entrevista inédita com Mil-
ler, que discorreu sobre sua trajetória e principais contribuições teóricas e em-
píricas; a entrevista é acompanhada por um artigo original produzido especial-
apresentação | os editores

760

mente pelas duas autoras para este número, que analisa a recepção da obra de
Miller no Brasil, bem como realiza uma apresentação geral dos demais textos
aqui publicados sobre o antropólogo londrino. Em nome do corpo editorial de
S&A, agradecemos imensamente o trabalho primoroso de organização e prepa-
ração deste número especial sobre Daniel Miller feito por Monica Machado e
Ana Carolina Balthazar, que incluiu o convite aos autores e o contato com o
próprio Miller, com quem ambas trabalharam diretamente.
O conjunto de textos dedicados à obra de Daniel Miller, editorialmente
organizado em parceria com Machado e Balthazar, é composto pelos seguintes
artigos: “The digital Dasein of Chinese rural migrants”, de Xinyuan Wang, uma
etnografia com migrantes rurais na China que analisa os efeitos das mídias
sociais na existência desses trabalhadores; “Nem o céu é o limite: sentidos do
consumo e dinâmicas de mobilidade social no perfil @blogueiradebaixarenda
no Instagram e Youtube”, de Carla Barros, que discute as percepções sobre
materialidade e suas articulações com os processos de mobilidade social por
meio de análise de um perfil em plataformas de mídia social; “Diálogos com
Daniel Miller no campo da comunicação: reflexões a partir das pesquisas do
GP Consumo e Culturas Digitais”, de Sandra Rúbia da Silva e Alisson Machado,
apresenta um balanço da produção filiada à linhagem etnográfica de Miller nos
estudos de comunicação, em particular de um grupo de pesquisa dedicado à
análise do consumo e das culturas digitais; e, por fim, “As pessoas, as coisas e
as perdas: perspectivas da cultura material e do consumo nos estudos de Daniel
Miller”, de Cláudia Pereira e Fernanda Martinelli, apoiado na abordagem etno-
gráfica de Miller – que destaca a relação dialética entre pessoas e coisas –,
propõe uma reflexão sobre as situações de luto e sobre as formas culturais
associadas à morte de pessoas e à perda de materialidades. Esse conjunto de
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 759 – 761, set. – dez., 2020

artigos também é acompanhado por três registros de pesquisa, que visam re-
fletir sobre a importância de Miller nas experiências concretas de investigação.
Mylene Mizrahi, em “O que a ‘humildade dos objetos’ pode nos dizer sobre a
beleza no Rio de Janeiro: notas sobre uma trajetória de pesquisa”, discorre
sobre os usos do referencial analítico do antropólogo inglês para pensar o funk
carioca, sua estética e materialidades; Juliano Spyer, em “As escolhas metodo-
lógicas para produzir pesquisas colaborativas e comparativas: o caso “Por Que
Postamos”, apresenta os bastidores metodológicos de uma grande pesquisa
comparativa global liderada pelo próprio Miller; já Livia Barbosa, em “Daniel
Miller e os estudos de consumo no Brasil”, discute o conceito de cultura mate-
rial de Miller e algumas vias de sua recepção nos estudos locais de antropolo-
gia e consumo.
O número integra ainda mais seis artigos e um registro de pesquisa, todos
voltados para o desenvolvimento inovador de temas consolidados ou emergen-
tes das ciências sociais. Dimitri Pinheiro, em “Anos rebeldes e a abertura da tele-
ficção”, discute os significados culturais, sociais e políticos de uma minissérie
761

televisiva sobre o regime militar no contexto do movimento pelo impeachment


de Fernando Collor, assinalando a relevância da teledramaturgia para a análise
da sociedade brasileira. Renan Martins Pereira, em “Velejar e descobrir: conside-
rações sobre vaqueiros, corpos e lembranças”, realiza pesquisa etnográfica com
vaqueiros do sertão de Pernambuco a fim de investigar a produção do prestígio
e da memória a partir de suas relações com o corpo, os animais e o território.
Bernardo Fonseca Machado, em “Social experience and US musical theatre on
São Paulo’s stages”, discorre sobre as dinâmicas econômicas, sociais e culturais
associadas à produção de musicais da Broadway em São Paulo, que conheceram
forte incremento nos últimos anos. Carla Semedo, em “‘Somos descendentes’!
Contranarrativas e agenciamentos musicais dos coletivos de tchabeta na roça
Agostinho Neto (São Tomé e Príncipe)”, analisa a experiência migratória e de
“reterritorialização” de cabo-verdianos no arquipélago santomense por meio das
práticas de coletivos musicais. Cynthia Lins Hamlin, em “Gender ideology: an
analysis of its disputed meanings”, destaca a pluralidade de sentidos dos estu-
dos acadêmicos sobre “ideologia de gênero”, propondo uma incursão pela his-
tória das ideias, com foco no trabalho da socióloga Viola Klein. Para completar,
“Rastros da violência: a testemunha”, de Cynthia Sarti, tomando como ponto de
partida uma pesquisa sobre a memória da ditadura militar brasileira, investiga
os sentidos associados à figura da testemunha, que transcendem os quadros da
vítima e da violência. E, por fim, como registro de pesquisa, por meio do diálogo
com autores contemporâneos, Maria Claudia Pereira Coelho e Eduardo Moura
Pereira Oliveira discutem, em “Reflexões sobre o tempo e as emoções na antro-
pologia: definições, práticas e políticas" as dimensões sociais e políticas ligadas
às vivências subjetivas da passagem temporal.
Completam nossa última edição de 2020 duas resenhas: Iafet Bricalli
apresenta o livro The culture of surveillance: watching as a way of life, de David
Lyon; e Michael Cepek apresenta The owners of kinship: asymmetrical relations in
Indigenous Amazonia, de Luiz Costa.
Uma boa leitura e, na esperança da vacina e do começo do fim da crise
sanitária da Covid-19, um feliz 2021.
Os editores
The editors (PPGSA/UFRJ)

PRESENTATION

This third issue of Sociologia & Antropologia closes a year full of personal and
institutional challenges posed by the Covid-19 health emergency. The effects of
the disease, its rapid spread and the high levels of mortality in Brazil, including
Rio de Janeiro, have directly or indirectly affected the authors, editors, and col-
laborators of the journal, making the editing process itself a true feat. We take
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 763 – 765, sep. – dec., 2020

this opportunity to express our profound gratitude to the entire S&A team for
their unparalleled dedication to our project in such exceptional circumstances.
Even with these limitations, S&A also realizes that the current health
crisis – the end of which finally seems to be on the horizon thanks to the vac-
cination process due to begin in 2021 – has provoked some unique problems
for the social sciences. For this reason, we are editing a special issue simulta-
neously, due to be published at the beginning of the new year, dedicated to
understanding, through the cognitive resources of sociology and anthropology,
the cultural, social and political effects of the Covid-19 pandemic in Brazil and
worldwide, uniting specialists from diverse areas.
We open the present issue with a series of texts dedicated to the work
and Brazilian reception of the English anthropologist Daniel Miller, a leading
name in studies of consumption, objects, materialities and digital environments.
Monica Machado and Ana Carolina Balthazar publish a new interview with
Miller, discussing his career and his main theoretical and empirical contribu-
tions. This interview is accompanied by an original article written by the two
authors specially for this issue, containing reflections and information on the
presentation | the editors

764

reception of Miller’s work in Brazil, as well as an overview of the other books


by the London anthropologist published in the country. On behalf of the edito-
rial board of S&A, we greatly appreciate the brilliant work of organizing and
preparing this special issue on Daniel Miller by Monica Machado and Ana Car-
olina Balthazar, which included the invitation to the authors and contact with
Miller himself, with whom both worked directly.
The set of texts dedicated to Daniel Miller’s work, editorially organized
in partnership with Machado and Balthazar, comprises the following articles:
“The digital Dasein of Chinese rural migrants,” by Xinyuan Wang, an ethnography
with Chinese rural migrants that analyses the effects of social media on the
existence of these workers; “Not even the sky is the limit: the meanings of
consumption and the dynamics of social mobility on the @blogueiradebaix-
arenda profile on Instagram and YouTube,” by Carla Barros, who discusses per-
ceptions of materiality and their articulations with processes of social mobil-
ity through an analysis of a profile on multiple social media platforms; “Dia-
logues with Daniel Miller in the communication field: reflections from the re-
search of consumption and digital cultures research group” by Sandra Rúbia da
Silva and Alisson Machado presents a survey of the literature linked to Miller’s
ethnographic approach in studies of communication, in particular works by a
research group dedicated to the analysis of consumption and digital cultures;
and finally “Persons, things and losses: perspectives of material culture and
consumption in the studies of Daniel Miller,” by Cláudia Pereira and Fernanda
Martinelli, based on Miller’s ethnographic approach – which highlights the
dialectical relationship between persons and things – reflects on situations of
mourning and cultural forms associated with the death of people and the loss
of materialities. This set of articles is also accompanied by three research re-
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 763 – 765, sep. – dec., 2020

cords, which reflect on Miller’s importance in concrete experiences of investi-


gation. Mylene Mizrahi, in “What the ‘humility of objects’ can tell us about
beauty in Rio de Janeiro: notes on a research trajectory,” describes the uses of
the English anthropologist’s analytic framework to think about Rio funk, its
aesthetics and materialities; Juliano Spyer, in “Methodological choices to pro-
duce collaborative and comparative research: the case of Why We Post,” presents
the methodological background to a major global comparative study led by
Miller himself; while Livia Barbosa, in “Daniel Miller and studies of consump-
tion in Brazil,” discusses Miller’s concept of material culture and some avenues
of its reception in local anthropological studies of consumption.
The issue also includes another six articles and a research record, all
focused on the innovative development of consolidated or emergent themes
in the social sciences. Dimitri Pinheiro, in “Anos rebeldes and the opening of the
TV serial drama,” discusses the cultural, social, and political meanings of a TV
miniseries on the military regime during the movement to impeach Fernando
Collor, highlighting the relevance of TV dramas for the analysis of Brazilian
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society. Renan Martins Pereira, in “Sailing and discovering: considerations about


cowboys, bodies and memories,” presents ethnographic research with cowboys
from the Pernambuco sertão (backlands) investigating the production of prestige
and memory, based on their relations with the body, animals and the territory.
Bernardo Fonseca Machado, in “Social experience and US musical theatre on
São Paulo's stages,” discusses the economic, social, and cultural dynamics as-
sociated with the production of Broadway musicals in São Paulo, which have
seen a strong upsurge in recent years. Carla Semedo, in “‘We are descendants’!
Contranarratives and musical agencies of the collectives of tchabeta in Roça
Agostinho Neto (São Tomé and Príncipe)," analyses the migratory experience
and “reterritorialization” of Cape Verdeans in the Santomean archipelago
through the practices of musical collectives. Cynthia Lins Hamlin, in “Gender
ideology: an analysis of its disputed meanings,” emphasizes the plurality of
meanings found in academic studies of “gender ideology,” proposing an incur-
sion through the history of ideas, focused on the work of the sociologist Viola
Klein. Finally, “Traces of violence: the witness,” by Cynthia Sarti, takes as a
starting point a study of the memory of Brazil’s military dictatorship in order
to investigate the meanings associated by the figure of the witness, which
transcend the frames of victims and violence. The issue also contains another
research record, “Reflections on time and emotions in Anthropology: definitions,
practices and policies,” in which Maria Claudia Pereira Coelho and Eduardo
Moura Pereira Oliveira, through a dialogue with contemporary authors, discuss
the social and political dimensions linked to subjective experiences of the pass-
ing of time.
Our final issue of 2020 is completed by two reviews: Iafet Bricalli presents
the book The culture of surveillance: watching as a way of life, by David Lyon, while
Michael Cepek reviews The owners of kinship: asymmetrical relations in Indigenous
Amazonia, by Luiz Costa.
Good reading and, in the anticipation of a vaccine and the beginning of
the end of the Covid-19 health crisis, a happy 2021.
The editors
sociologia & antropologia

volume 10 número 3
septembro-dezembro 2020
quadrimestral
issn 2238-3875

ENTREVISTA 773 MATERIAL CULTURE AND MASS CONSUMPTION: THE IMPACT OF


DANIEL MILLER’S WORK IN BRAZIL
Ana Carolina Balthazar e Monica Machado

ARTIGOS 807 THE DIGITAL DASEIN OF CHINESE RURAL MIGRANTS


Xinyuan Wang

831 NOT EVEN THE SKY IS THE LIMIT: THE MEANINGS OF


CONSUMPTION AND THE DYNAMICS OF SOCIAL MOBILITY
ON THE @blogueiradebaixarenda PROFILE ON INSTAGRAM
AND YOUTUBE
Carla Barros

861 DIÁLOGOS COM DANIEL MILLER NO CAMPO DA COMUNICAÇÃO:


REFLEXÕES A PARTIR DAS PESQUISAS DO GP CONSUMO E
CULTURAS DIGITAIS
Sandra Rúbia da Silva e Alisson Machado

887 AS PESSOAS, AS COISAS E AS PERDAS: PERSPECTIVAS DA


CULTURA MATERIAL E DO CONSUMO NOS ESTUDOS DE DANIEL
MILLER
Cláudia Pereira e Fernanda Martinelli

907 ANOS REBELDES E A ABERTURA DA TELEFICÇÃO


Dimitri Pinheiro

931 VELEJAR E DESCOBRIR: CONSIDERAÇÕES SOBRE VAQUEIROS,
CORPOS E LEMBRANÇAS
Renan Martins Pereira
957 SOCIAL EXPERIENCE AND US MUSICAL THEATRE ON SÃO
PAULO’S STAGES
Bernardo Fonseca Machado

981 “SOMOS DESCENDENTES!” − CONTRANARRATIVAS E


AGENCIAMENTOS MUSICAIS DOS COLETIVOS DE TCHABETA
NA ROÇA AGOSTINHO NETO (SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE)
Carla Indira Carvalho Semedo

1001 GENDER IDEOLOGY: AN ANALYSIS OF ITS DISPUTED


MEANINGS
Cynthia Lins Hamlin

1023 RASTROS DA VIOLÊNCIA: A TESTEMUNHA


Cynthia Sarti

REGISTROS DE PESQUISA 1045 O QUE A “HUMILDADE DOS OBJETOS” PODE NOS DIZER
SOBRE A BELEZA NO RIO DE JANEIRO: NOTAS SOBRE UMA
TRAJETÓRIA DE PESQUISA
Mylene Mizrahi

1057 AS ESCOLHAS METODOLÓGICAS PARA PRODUZIR


PESQUISAS COLABORATIVAS E COMPARATIVAS: O CASO DO
“POR QUE POSTAMOS”
Juliano Spyer

1071 DANIEL MILLER E OS ESTUDOS DE CONSUMO NO BRASIL


Livia Barbosa

1087 REFLEXÕES SOBRE O TEMPO E AS EMOÇÕES NA


ANTROPOLOGIA: DEFINIÇÕES, PRÁTICAS E POLÍTICAS
Maria Claudia Pereira Coelho e Eduardo Moura Pereira Oliveira

RESENHAS 1103 A VIGILÂNCIA COMO CULTURA


The culture of surveillance: watching as a way of life. (2018). David
Lyon. Cambridge: Polity Press, 172p.
Iafet Leonardi Bricalli

1109 FEEDING AND OWNING IN AMAZONIA


The The owners of kinship: asymmetrical relations in Indigenous
Amazonia. (2017). Luiz Costa. Chicago: HAU Books. 304p.
Michael L. Cepek
sociologia & antropologia

volume 10 number 3
september-december 2020
triannual
issn 2238-3875

INTERVIEW 773 MATERIAL CULTURE AND MASS CONSUMPTION: THE IMPACT OF


DANIEL MILLER’S WORK IN BRAZIL
Ana Carolina Balthazar e Monica Machado

ARTICLES 807 The digital Dasein of Chinese Rural Migrants


Xinyuan Wang

831 Not even the sky is the limit: the meanings of


consumption and the dynamics of social mobility
on the @blogueiradebaixarenda profile on Instagram
and YouTube
Carla Barros

861 DIALOGUES WITH DANIEL MILLER IN THE COMMUNICATION


FIELD: REFLECTIONS FROM THE RESEARCH OF CONSUMPTION
AND DIGITAL CULTURES RESEARCH GROUP
Sandra Rúbia da Silva and Alisson Machado

887 PEOPLE, THINGS AND LOSSES: PERSPECTIVES OF MATERIAL


CULTURE AND CONSUMPTION IN DANIEL MILLER’S STUDIES
Cláudia Pereira and Fernanda Martinelli

907 ANOS REBELDES AND AND THE OPENING OF THE TV


SERIAL DRAMA
Dimitri Pinheiro

931 SAILING AND DISCOVERING: CONSIDERATIONS ABOUT
COWBOYS, BODIES AND MEMORIES
Renan Martins Pereira
957 SOCIAL EXPERIENCE AND US MUSICAL THEATRE ON SÃO
PAULO’S STAGES
Bernardo Fonseca Machado

981 “WE ARE DESCENDANTS!” CONTRANARRATIVES AND


MUSICAL AGENCIES OF THE COLLECTIVES OF TCHABETA
IN ROÇA AGOSTINHO NETO (SÃO TOMÉ AND PRÍNCIPE)
Carla Indira Carvalho Semedo

1001 GENDER IDEOLOGY: AN ANALYSIS OF ITS DISPUTED MEANINGS


Cynthia Lins Hamlin

1023 TRACES OF VIOLENCE: THE WITNESS


Cynthia Sarti

Research RECORDS 1045 WHAT THE “HUMILITY OF OBJECTS” CAN TELL


US ABOUT BEAUTY IN RIO DE JANEIRO: NOTES ON
A RESEARCH TRAJECTORY
Mylene Mizrahi

1057 METHODOLOGICAL CHOICES TO PRODUCE


COLLABORATIVE AND COMPARATIVE RESEARCH:
THE CASE OF “WHY WE POST”
Juliano Spyer

1071 DANIEL MILLER AND STUDIES OF CONSUMPTION IN BRAZIL


Livia Barbosa

1087 REFLECTIONS ON TIME AND EMOTIONS IN ANTHROPOLOGY:


DEFINITIONS, PRACTICES AND POLICIES
Maria Claudia Pereira Coelho and Eduardo Moura Pereira Oliveira

REVIEWS 1103 SURVEILLANCE AS CULTURE


The culture of surveillance: watching as a way of life. (2018). David Lyon.
Cambridge: Polity Press, 172p.
Iafet Leonardi Bricalli

1109 FEEDING AND OWNING IN AMAZONIA


The owners of kinship: asymmetrical relations in Indigenous Amazonia.
(2017). Luiz Costa. Chicago: HAU Books. 304p.
Michael L. Cepek
ENTREVISTA
http://dx.doi.org/10.1590/2238-38752020v1031

1 Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio),


Programa Nacional de Pós-doutorado/Capes, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
carolbalt@gmail.com
https://orcid.org/0000-0003-3462-3356

11 Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Programa de


Ana Carolina Balthazar l
Pós-Graduação Eicos – IP e Escola de Comunicação, Capes/Print,
Rio de Janeiro, RJ, Brasil
Monica Machado ll
monica.machado@eco.ufrj.br
https://orcid.org/0000-0002-2558-5426

Material Culture and Mass Consumption:


the impact of Daniel Miller’s work in Brazil

This special issue reflects on the impact of the work of the English anthro-
pologist Daniel Miller, trained in archaeology and anthropology at Cambridge
University in the United Kingdom, on diverse research fields of the social sci-
ences in Brazil. In this introduction we present an interpretation of the argu-
ments set out in the book Material culture and mass consumption, first published
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 773 – 803, sep. – dec., 2020

in 1987, a fundamental work for comprehending the theoretical framework


proposed by Miller, never translated into Portuguese. Additionally, we also offer
a critical reflection on the continuing relevance of this theory about consump-
tion for debates in the social sciences today. We also present an interview with
Miller in which we were able to discuss some of our impressions concerning
his career and writings. In the articles that follow in this special issue, different
authors were invited to discuss the relevance of Miller’s work for their own
theoretical production. Finally, in the section Research Records, Brazilian re-
searchers who worked directly with Miller provide a brief account of their ex-
perience.

A review of the book Material Culture and Mass Consumption


In the book, Miller undertakes a review of the concept of objectification, ini-
tially formulated by G. W. Hegel (1977). According to Miller, the concept refers
to the way in which subjects and objects are mutually constituted. It is only
when subjects externalize aspects of themselves in objects – that is, when they
differentiate themselves into an “other” – that they become aware of their own
material culture and mass consumption: the impact of daniel miller’s work in brazil

774

being. Next, since the externalized object itself possesses aspects of the subject,
the latter reidentifies with the object, seeing themselves in the object like a
mirror. It is in this play of differentiation and identification that subject and
object are reciprocally constituted. In this sense, the existence of a subject
depends on the process of continual externalization and reincorporation of the
object. “Object” here is used in the conceptual sense as any other body not part
of the subject. Thus, people at some level depend on the materialities external-
ized in the world to constitute themselves as persons.
In his work, Miller also considers the centrality of the historical axis for
Hegelian theory. Over the historical process, the dynamics of externalization
and identification are seen to advance progressively until attaining an absolute
knowledge of existence. According to Miller, it is important we consider the
way in which the externalization of the subject in an object and its sublimation
is constitutive of the subject, not just representative. It is in the act of forging
the object that the subject constructs her or himself. This is how Miller traces
his own understanding of the concept of culture. Culture is, for him, the out-
come of this continuous historical process of the dialectical relation between
subjects and objects.
It is on these grounds that Miller proceeds to interpret the arguments
of Karl Marx (1975) concerning the impact of capitalist industrial production
on the subject’s alienation. The process of industrial production forces the
subject to externalize objects at an accelerated pace. As each subject performs
a minimal function in this large-scale production of objects, the final item pos-
sesses very little of the subject who helped to create it. According to Marx, the
subject becomes alienated, therefore, distanced and abstracted from her or his
own work, and the process of self-realization is rendered impossible. Inspired
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 773 – 803, sep. – dec., 2020

by Georg Simmel (1978), Miller argues, however, that by nature there exists a
contradictory condition in the subject/object relation beyond the industrial
dynamic. The subject needs to externalize part of her or himself to give rise to
the object: in other words, the distancing between subject and object is funda-
mental. In this sense, the problem of the industrial system is not alienation
per se, but the way in which at certain times the social dynamic has made it
impossible for the materialized object to be subsequently reincorporated by
the subject. In this sense, Marx’s theory did not contemplate the centrality of
consumer relations for the Hegelian process of objectification, consumption
allowing for the re-incorporation of the alienated object. Miller argues for the
relevance of analysing consumer practices to comprehend the contemporary
subject – and the construction of her or his subjectivity.
Given the centrality of objects for the constitution of the subject, Miller
goes on to advocate the importance of research methods that not only include
social relations, but also focus on the role performed by objects themselves in
this process. The author turns to theses of child development to reinforce his
interview with daniel miller | ana carolina balthazar and monica machado

775

argument about the centrality of objects in the constitution of subjects. Citing


Jean Piaget (1962) and Melanie Klein (1975), Miller contends that objects, prior
even to words, perform a fundamental role in the process of infant cognitive
development. In other words, in parallel to anthropological theories that elab-
orate a notion of culture as networks of meanings that give sense to the world,
Miller pays attention to the role performed by materiality in the development
of a symbolic process – thereby configuring the field of studies known as “ma-
terial culture.”
Thus, a research methodology elaborated by social scientists interested
in the material dimension of culture should perceive objects as “cues” (Goffman,
1975) or “frames” (Gombrich, 1979). For Miller (1987: 102), it is essential to real-
ize that “unconscious, non-linguistic processes may act to control conscious
and linguistic articulation. This is not to deny some level of autonomy to the
latter, but to reject assertations of its virtual total autonomy.” In other words,
as a frame that silently directs our gaze, objects also humbly direct our con-
sciousness. Here Miller underlines the importance of Pierre Bourdieu’s contri-
bution (1977) to our understanding of the relevance of objects in processes of
power negotiation. Studies of material culture should, therefore, observe and
analyse the symbolic properties presented by objects. This aim, in turn, requires
accompanying consumer practices given that in industrialized societies con-
sumption is central to Hegelian processes of objectification.
Finally, in the book the author argues that the social sciences have giv-
en an extreme emphasis to production processes in detriment to the practices
of consumption. In this sense, there is no historical primacy of production
practices in relation to consumption practices, but rather a difference in ana-
lytic focus. It is through paying attention to consumption that Miller discusses,
for instance, works like that of Dick Hebdige (1981) on how scooters were “ap-
propriated” by English consumers in the 1960s and attributed meanings and
functions not initially foreseen by the industry. Put otherwise, the subjects used
these objects of consumption to negotiate and react to the social frameworks
imposed on them. Miller stresses that it is crucial to accompany this process
through which goods are appropriated, since only in this way can the research-
er comprehend exactly how the individual is giving new meanings and using
or transforming these consumer goods.
Thereafter, Miller will develop diverse studies that focus on consumers.
Among the books published in Portuguese, we can cite a few examples. In Teo-
ria das compras (Miller, 2002) − A theory of shopping − the anthropologist accom-
panies residents from North London on their trips to the supermarket. He shows,
for instance, not only how the purchase of items “marks” and “stabilizes” (Doug-
las & Isherwood, 1979) existing social relations, but also how the very negotia-
tion of the objects constitutes relations: between parents and children, spous-
es or friends. In turn, in the book Trecos, troços e coisas (Miller, 2013) − Stuff
material culture and mass consumption: the impact of daniel miller’s work in brazil

776

(Miller, 2010) − we can observe how in diverse societies analysed by Miller, for
example in India or Trinidad, people are invested in different processes of ap-
propriating objects.
Miller’s proposed research methodology is fundamental to comprehend-
ing his critique of diverse theorists of the “culture industry” (Adorno &
Horkheimer, 1944). Echoing Bourdieu’s critical reading of the role of the aca-
demic system in the reproduction of social hierarchies, Miller argues that many
moralist theses concerning consumer society act as an instrument of class
distinction, seeking to reinforce the intellectual power of some through the
stigmatization of others. Throughout his career, Miller has remained a strong
critic of theories that contribute to “elitist” knowledge (something the author
himself explains in the interview contained later in this special issue).
In response to Miller’s propositions, at least two critiques may emerge.
On one hand, the term “material culture” could reinforce the very same dualism
that diverse currents of anthropology have tried to surpass. Apropos this argu-
ment, Miller has explained that the choice of the term arose from its capacity
to communicate the proposed theoretical discussion to a broader audience
(Miller, 2005: 4). In other words, the choice of the term “material culture” pri-
oritizes a dialogue with these people who are not necessarily immersed in the
complexity of the conceptual debate in academia. It should serve, therefore, to
remind people in general about the overlapping of more ideological and phys-
ical dimensions. Perhaps the relevance of the conceptual strategy proposed by
Miller is shown by its considerable impact on an international interdisciplinary
debate (see Miller, 1995a). By prioritizing a term that sacrifices some “purisms”
of the anthropological debate, Miller can engage in a debate with geography,
history, sociology, media studies and other areas (as we shall also see in the
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 773 – 803, sep. – dec., 2020

articles contained in this special issue).


On the other hand, a critical evaluation of the arguments proposed by
Miller might argue that individuals have only a limited power to act as consum-
ers in the face of the structural force of an economic system of mass production.
In other words, although individuals may be “appropriating” and giving new
meanings to the products offered by the market, their capacity to act is still
limited by the interests of the market itself. In response to this assertion, the
author argues that the scenario is a little more complex than pure domination,
and needs to be investigated ethnographically, given that the consumer increas-
ingly influences the production through the market surveys developed by the
industry (Miller, 1995b: 4).
Today, looking back at Miller’s work, perhaps we can consider it embry-
onic of a project that would emerge later with the “ethical turn” of anthropology
in the 1990s (Balthazar, 2021). Led by authors like James Laidlaw (2013), the eth-
ical turn in anthropology seeks to extricate itself from some of the theoretical
vices inherited from the conceptual framework proposed by Durkheim. In his
interview with daniel miller | ana carolina balthazar and monica machado

777

conceptualization, Durkheim opposes society and individual, the latter destined


to respect or revolutionize the ethical and moral norms established by the for-
mer. Inspired by Foucault, Laidlaw argues for the importance of theoretical per-
spectives that recognize the individual’s reflexive capacity to evaluate and act
on her or his life. The “ethical turn,” therefore, proposes that anthropological
studies avoid attempting to map large ethical paradigms to focus instead on the
everyday practices in which subjects attempt to construct themselves as ethical
beings (Mattingly & Throop, 2018). In the 1980s, Miller already appeared to an-
nounce the importance of the analytic focus on individual processes of con-
structing the subject. Thus, it is the concentration on the routine and particular
appropriations developed by social subjects that reinforce the importance of
ethnography in Miller’s work. Miller (2017a) positions himself as a strong advo-
cate of ethnography and “critical empiricism”. In other words, the long-term
immersion in the social practices under study becomes essential for the analyst
to perceive how other people resignify and transform theoretical premises.
It is worth noting that this methodological strategy not only confers the
possibility for greater creative autonomy for the subject under analysis, but
also offers opportunities for the researcher too. If the empirical data possesses
such relevance for the production of theory, any junior researcher who develops
careful ethnographic research is already qualified for a debate with the field’s
major thinkers. It can even be suggested that Miller’s methodological approach
has consequences for anthropological practice given that it anticipates the
destabilization of conceptual structures (and disciplinary canons) through a
prioritization of empirical data. In this way, it provides a more welcoming space
for the experience of new researchers. The author’s way of doing anthropology
reproduces the same values that he advocates at the theoretical level concern-
ing the democratization of knowledge.

A new object: mediations, humanities and technologies


Two of Miller’s recent projects are key references for comprehending his an-
thropological perspective of humanity and consequences of uses of media cul-
tures. Both projects are developed by the Material Culture section of the An-
thropology Department of University College London under Miller’s supervision:
Why We Post and ASSA (Anthropology of Smartphones and Smart Ageing). 1 The
latter is an ongoing five-year project investigating from an anthropological
perspective the mediations of smartphones in contexts of promoting health
for the public over the age of 45. Miller and his research group offer us thought-
provoking reflections on anthropology’s contributions to the analysis of the
sociocultural mediations between social subjects, digital media learning pro-
cesses, and relations between technologies and humanities.
In the book Digital anthropology, Horst and Miller (2012) propose six basic
principles for comprehending the field. In so doing, they present the key ques-
material culture and mass consumption: the impact of daniel miller’s work in brazil

778

tions for analysing the digital as a subdiscipline of anthropology. The first no-
tion derives from the view that the digital intensifies the dialectics of contem-
porary cultural life. The digital is seen as a privileged cultural space since it
produces a proliferation of particularities and differences, depending on the
context where its social uses emerge. Interested, therefore, in human social
relations and in the ways of interacting in everyday life, anthropologists inves-
tigate the ethnographic experiences of particular social groups in local contexts
and that invest in discovering the reasons for use of the technologies and their
potential for valorising local singularities or possible universalizations.
The second principle suggests that social subjects are neither more nor
less mediated following the growth of the digital era. Dialoguing with Goffman
(1975), Horst and Miller (2012) turn to the concept of “frame” to think about the
processes of framing mediations, whether in face-to-face relations or in the com-
plex contemporary relations mediated by technologies. All modes of interaction
involve complex mediative dimensions, as in face-to-face exchanges – interjec-
tions, non-verbal communications, gazes, bodily codes – and in the digital phase
through the mediation of smartphones. Online arenas are perceived as spaces
just as effective for interaction as physical spaces. And precisely for this reason
digital cultures interest the anthropological tradition, as culturally relevant spac-
es for observing the cultural practices of lives lived by social subjects. In the study
of the kinship relations of Filipina mothers who live in London and their children
who stayed in their homeland, Madianou and Milller (2012) formulate the concept
of mediated motherhood, arguing that it is possible to identify very rich varia-
tions in the modes of social interactions of the affects mediated by technology.
Another principle is to define the digital through dialectics. Setting out
from the premise that the digital derives from binary culture, we can observe
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 773 – 803, sep. – dec., 2020

the possibility of its historical precedents. For Horst and Miller (2012), the same
system of the contemporary digital environment founds the modern financial
system. Globally, money represented a new phase of human abstraction that
simultaneously reduced and commoditized social relations while expanding
them in terms of difference and plurality. The principle of dialectics should,
therefore, comprehend the fact that the uses of digital technologies can con-
tradictorily expand both movements. The authors call on anthropologists to
focus attention on this spectrum and allow the ethnographic experience to lead
them to the analysis of the social uses of technology. In the book The internet:
an ethnographic approach, Miller and Slater (2000) had already signalled ethnog-
raphy’s fundamental contribution to studies of the internet and to investigat-
ing how the digital field is assimilated in local contexts. More than study the
uses and effects of the media, the anthropological experience focuses on how
members of a specific culture act in their communicative actions and how they
try to attribute singular meanings to their own social universes.
interview with daniel miller | ana carolina balthazar and monica machado

779

Returning to the principles of digital anthropology, the notions of voice


and dialogue between relativism and holism are fundamental concepts. Horst
and Miller (2012) point out that cultural relativism is part of the backbone of
anthropology. While the notion that the digital environment standardizes social
relations forms part of the contemporary imagination, ethnographic studies of
the uses of digital media on different platforms combine regional and paro-
chial factors with possible levels of generalizations. Here in Brazil, for example,
my ethnographic study of the uses of social media in the Favela Museum in
Cantagalo, Pavão and Pavãozinho in Rio de Janeiro revealed very rich dimen-
sions of the modes of interaction of young people from the community and
their modes of engagement with the museum’s platforms (Machado, 2017)
gravitating around themes as expressions of citizenship, identity contexts, re-
gimes of visibility/invisibility in public space. Meanwhile the study of Spyer
(2017) with a local community in Bahia revealed other dimensions of socialities,
some related to local conditions, experiences of digital learning, socioaffective
exchanges, social aspirations and accounts of the everyday life of residents.
The debate on the ambivalence of the opening and closure of worldviews
is the next principle. The internet very often promises to open up spaces for
activists and political mobilization outside the traditional field of the large
media corporations. At the same time, new forms of controlling and limiting
the freedom of expression have also appeared. The work of Sonia Livingstone
(2002) on the opportunities and risks involving the digital world is a good ex-
ample of the opening and closing of worldviews. Much has been discussed about
the potential openness of the internet for young people in terms of stimulating
learning, developing relationships in non-geographic territories, exchanges and
rich cultural interchanges, but, conversely, also the freer access to dangerous
content like pornography, violent videos or paedophilia.
Another important concept in Miller’s work is the “theory of attainment,”
a notion developed in the book Webcam by Miller and Sinanan (2014). To explain
the concept, the authors revive the discussion on authenticity as one of the pri-
mary discursive keys for understanding the anthropological vision of the cul-
tural uses of technology. They argue that it is commonly held that the emer-
gence of digital cultures provoked the decline of preceding sociocultural experi-
ences. They recall, though, that a similar critique was made by Plato in discuss-
ing how writing, as a support beyond the mind, could be seen as an expressive
device that values memory and the cognitive dimensions less. The starting point,
therefore, is that the digital world is part of the lived lives of subjects, meaning
that they are just as interesting for anthropological analysis and just as cultural
as other forms of mediation. The authors observe, then, that if we are neither
more nor less mediatized by digital culture, what has changed in contemporary
cultural experiences in relation to previous cultural modes? The idea underlying
this view is that older cultural experiences leave their marks on the new modes
material culture and mass consumption: the impact of daniel miller’s work in brazil

780

of mediation and thus become important to comprehending what is retained of


previously active sociocultural modes and to identifying new sensibilities dis-
tilled by the relations with new media. When we talk about webcams, the para-
dox lies in the fact that there are dimensions of humanity that are new and oth-
ers that are activated from previous cultural connections (moral, social, political,
relational) that can be either potentialized or reduced in digital life. The expres-
sion of self-consciousness, for example, is one of the modes of mediation cited
by the authors. In social uses of the webcam we can see, as well as others, our-
selves mirrored in a contemporary fashion. This is a new phenomenon in our
culture and implies debates on the impacts on subjectivities, a strange discon-
certedness in the gaze and in the self-image. Another mark of “attainment” can
be seen as the place of intimacy in the relations via webcam. The sense of co-
presence between people living in physically separate locations signals new
meanings of sociabilities, revising the place of the home and intimate space.
What is interesting to observe is that digital experiences can be different and
more diachronic than synchronic in relation to different cultures.
In 2012 in the book Migration and new media: transnational families and poly-
media, Madianou and Miller (2012) analyse the concept of polymedia – that is,
sociocultural mediations and consumption in digital contexts. Mapping the ana-
lytical categories proposed to investigate the social uses of technology – such as
access to infrastructure, cost analysis, user friendliness and skill – the authors
promote a debate on the digital field referring to the narrative dimensions of
sociality (collective experiences of using technologies among the reference
groups), the dimensions of power relations, which are strongly associated with
asymmetries and questions of literacy – knowing the language, the capacity to
produce content – and with emotional attributes – affective bonds with digital
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 773 – 803, sep. – dec., 2020

devices and their logics. The focus of this theory is not to investigate digital plat-
forms but the modes of mediation of users and their preferences for digital lan-
guages, practices and processes.
The concept of “polymedia” also presumes the analysis of narratives that
interfere in the choices on how digital media are used. One of these fields is
the dimension of sociality. Madianou and Miller (2012) assert that diverse mo-
tivations intervene in the choices of which communication devices to use for
digital interaction. In many circumstances, these choices are motivated by re-
lationships, people to stimulated to share the same cultural spaces as their
peers. With this spirit of investigation, Miller entered the world of the hos-
pices in an English village in one of his most recent works.

The Comfort of People: life, expecting death and mediations


In his book The comfort of people Miller (2017b) describes his ethnographic ex-
periences in a hospice (a place where terminal patients are treated) in an Eng-
lish village. Based on the narratives of the subjects and their experiences with
interview with daniel miller | ana carolina balthazar and monica machado

781

social media, the book is a moving account of life and its meanings in a context
of imminent death. The concept of hospice is relevant since it is not a hospital
for long-term admissions: the patients prefer to live at home and go to the
centre for holistic health treatments and meetings with the local community.
Precisely because of the specificity of this mode of treatment, the patient com-
munication system – with medical staff, carers and relatives – is extremely
important. It is interesting to observe that the project combines classical an-
thropological investigation with applied research, since at the end of the study
Miller includes a technical report with guidelines for doctors, carers and health-
care professionals on best practices for the use of smartphones in the context
of patients.
The book’s title is a reference to the author’s previous work, The comfort
of things, published in 2008. In the latter ethnographic study, Miller investi-
gated a street in London given the fictitious name of Stuart Street, where he
presents the ways of life of 30 residents who describe themselves and their life
histories through objects in the home. Thus, the life portraits of the participants
are described through the activation of memories related to these objects, flow-
ing into the debate on the interweaving of material culture and people. Thus,
the work involves an enriching view of the lives of certain “Londoners” in the
contemporary multicultural context.
In The comfort of people, the dynamic is similar: the depictions of the
patients also involve fictitious names, but the work essentially examines social
expressions in the context of the relations between patients and the commu-
nity, friends, and family, the feelings of isolation, solitude, connection, and
co-presence. The narratives detail their life experiences, describing places, peo-
ple and perceptions of moments of joy, sadness, depression, life and death, the
legacy of the past, and the future.
The concept of “polymedia” is explored again in this work to comprehend,
above all, the ecosystem of connections to which patients turn to communicate
with carers, relatives and doctors. It is in this context that smartphones emerge
as important devices for socioaffective connections and the network of health-
care, as well as investments in health apps. Miller describes, for instance, the
case of Sarah who died during fieldwork and who until the final moment of her
death was active on Facebook, posting content as she wised to leave a public
legacy of her life history. This most recent publication was one of the inspira-
tions for the creation of the ASSA project (The Anthropology of Smartphones
and Smart Ageing) currently in progress.

Reverberations of Miller’s work in the special issue articles


As highlighted earlier, this special issue presents articles by researchers who,
like us, worked with Miller or gave voice to his work in Brazil. Carla Barros pre-
sents an innovative theoretical contribution with the article “Not even the sky
material culture and mass consumption: the impact of daniel miller’s work in brazil

782

is the limit: the meanings of consumption and the dynamics of social mobility
in the @blogueiradebaixarenda profile on Instagram and YouTube.” The research-
er investigates the symbolic experiences of consumption among the popular
classes, especially the relationship between consumption and social mobility.
The contributions of Claudia Pereira and Fernanda Martinelli with the article
“Persons, things and losses: material culture and consumption in the studies of
Daniel Miller” have a special importance for this issue. Discussing mourning as
a rite of passage, the authors reflect on the experiences of losing loved ones and,
from another perspective, losing things/objects of symbolic value. Sandra Rúbia
da Silva and Alisson Machado offer an important contribution with “Dialogues
with Daniel Miller in the communication field: reflections from the research of
consumption and digital cultures research group.” Contrasting with the Brazil-
ian setting, the article by Chinese researcher Xinyuan Wang considers the rel-
evance of the concept of objectification to think about the uses of social media
by young industrial workers who migrate from China’s interior to its urban cen-
tres seeking to become “modern citizens.”
In the Research Records section, Livia Barbosa, for example, was respon-
sible for the first of Miller’s work to be translated into Portuguese and in his
account tells us something about this experience, fundamental to the develop-
ment of studies of consumption in Brazil. Mylene Mizrahi, for her part, uses
arguments proposed by Miller and the opportunity to work directly with the
author to consider the relation between form and function in the funk aes-
thetic – from the “Gang trousers” to female hairstyles. Finally, Juliano Spyer
describes the experience of working with Miller in the ambitious Why We Post
project.
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 773 – 803, sep. – dec., 2020
interview with daniel miller | ana carolina balthazar and monica machado

783

Interview with Daniel Miller

Ana Carolina Balthazar. You were first trained in anthropology and archaeol-
ogy at Cambridge University. How would you explain the experience of studying
at Cambridge to a Brazilian?

Daniel Miller. Cambridge was exhilarating, but I think ultimately did me harm as
well as good. As soon as I became a postgraduate student I realized I could simply
turn up at seminars in any discipline. One day I would hear Anthony Giddens
deliver a powerful two-hour lecture in sociology without notes, and then I would
hear David Harvey in geography and next day listen to Mary Hesse in philosophy.
Within anthropology itself, I went to lecture series by Edmund Leach and Jack
Goody, and an early inspiration was David Clarke in archaeology. It wasn’t just
the calibre of people teaching. I was also fortunate that this was a period of in-
tense intellectual discussion around three systems of ideas that transformed our
consciousness: structuralism, Western Marxism and feminism. Structuralism for
me was the inspiration of Lévi-Strauss and Edmund Leach, but also Barthes and
Eco. It shifted us all away from thinking about things in themselves, to always
seeing them in relationship to the other. My Western Marxism included Lukács,
the Frankfurt School, Kolakowski and Hyppolite. It provided a basic social con-
sciousness about poverty and oppression, but also my route to Hegel. Feminism
came more though popular works such as Marilyn French’s The women’s room but
also at the level of student discussion. It was the ideological shift that had most
impact upon my private life. Overall, I see myself as immensely fortunate. This
was a short period of genuine enlightenment, immensely exciting and stimulat-
ing and I don’t think there has been a period quite like this since.
So, what was the harm? At that time, the culture of study was extreme-
ly competitive and aggressive. We would go to a seminar with the idea of doing
everything we could to destroy the argument of the speaker and our peers. With
some effect. I remember the archaeologist Lewis Binford telling me afterwards
that he would make sure I never got a job anywhere, so I guess my attacks had
struck home. When I subsequently become employed as a lecturer at Univer-
sity College London and I think for a long time thereafter I asked the most
aggressive questions at seminars. It was also an elitist technique in which the
only aim was to be clever. We were also taught to look down on people who did
“applied” academic work that was actually changing people’s lives. It took me
decades to unlearn this culture, and to realise that one can be just as intellec-
tual while also trying to be supportive and that actually being engaged in ap-
plied research was just as much a test of intellect as arguing points of philoso-
phy. Finally, I would like to think it was the lessons of feminism that have re-
mained, after the strict structuralism and Western Marxism have faded into
anthropological history.
material culture and mass consumption: the impact of daniel miller’s work in brazil

784

A.C.B. I also remember you once told me that authors like Raymond Williams
and E.P. Thompson had influenced your education, is that right? Do you see any
relations between your theoretical work and the kinds of social issues they
were concerned with?

D.M. These were two of many authors that expressed Marxist thinking at the
time. What I took from this was probably a little different from most. If you
look at my corpus of work, you can see that it has always been directed towards
people who would see themselves as ordinary. I was never concerned with elites
or people that were in any way special. This was certainly in the spirit of Thomp-
son and Williams, who insisted on giving voice to those who had been ignored
in history. On the other hand, they shared a tendency that was prevalent
throughout that Marxist-inflected tradition to project a rather romanticised
idealization of the proletariat. A counter-influence to that trend was a book by
André Gorz called Farewell to the working class. I have never seen anything par-
ticularly positive about having to work in a factory, or for that matter on a farm.
The only exception would be people who chose such work in preference to
other livelihoods. That is one of the reasons that typically the ordinary that I
aspire to lies closer to what might be called the lower middle-class, which in
many countries is now also the majority of the population.
For the same reason, unlike most of my peers, I remain comfortable with
what Bourdieu acknowledged is one of the primary consequences of the uni-
versity system, which is helping people to become middle-class. The quiet at-
tacks on middle-class values by university lecturers in social science, as in and
of themselves suspect, has always struck me as hypocrisy. My primary role is
to contribute to education, and it is based on the ideal that everyone benefits
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 773 – 803, sep. – dec., 2020

from education, and I don’t have a problem if that then qualifies them as mid-
dle-class. I see on the news everyday migrants who take great risks with their
own lives, often in the quest that they and their children will have these pos-
sibilities in life.

A.C.B. Were there other important references in your intellectual formation?

D.M. One key influence was Stuart Hall whom I met several times. Apart from
the deep humanism of this brilliant, but also kindly man, I was very influenced
by his insistence that culture is as much the project of audiences as of produc-
ers. When Hall first created what later became known as cultural studies, he
promoted some wonderful ethnographic work by Hebdige, Willis and others. I
have always seen it as tragic that cultural studies then abandoned deep eth-
nography and become more an exercise in literary exegesis. Within anthropol-
ogy, key influences included Lévi-Strauss, Munn, Sahlins and Geertz. The two
primary influences on my work, however, remain Bourdieu and Hegel.
interview with daniel miller | ana carolina balthazar and monica machado

785

A.C.B. Now, over 30 years after launching Material culture and mass consumption,
would you change anything in the book? Do you think the argument on objec-
tification needs any kind of update?

D.M. The concept of objectification was an attempt to transcend the dualism


of subject and object. There have been many similar arguments since, including
by Bruno Latour, Alfred Gell and the recent discussion of ontology. But I still
prefer my own concept of objectification, since I think the emphasis on process
that I extrapolated from Hegel had a dynamic quality that alternatives lack. I
also still employ the ideas derived from Munn about how culture comes into
being. The part of that book that I would now see as outdated would be the
strict differentiation between production and consumption, which in the digi-
tal world is no longer apparent. The encounter with Hegel’s writing that led to
that book was, alongside Bourdieu, the most important intellectual influence
on my work. It was not just the Phenomenology, since I still make use of the
arguments of his Philosophy of right as the basis of much of my critique of con-
temporary institutions. For example, I am currently writing about the way
theory has become a fetish in anthropology. Theory was originally supposed to
help us clarify and understand the world, but today has simply become an end
in itself, as though we exploit our research about the world mainly in order to
serve this deity theory. The underlying reasoning in my critique of theory in
essence derives from Hegel, though blended with a touch of Wittgenstein’s
Philosophical investigations on the importance of ordinary language as opposed
to formal theory. For me, it is about staying grounded in the messy world of
contextualised ordinary activity rather than the simpler abstractions of theory.
Theory is still vital but as a means to clarify and help us understand the sub-
stantive world, a means, not an end.

Monica Machado. Once you told me that The comfort of things was one of the
books you most enjoyed writing. Could you tell us about your study on the lives
of residents of a street in London from the point of view of household objects?

D.M. My attack on the dualism of people and things that led to a re-direction
in material culture studies was not just at the level of theory. My point was
that the study of objects should be a way of appreciating people. Ultimately, I
am an anthropologist because I am in awe of people and one way of expressing
that was a kind of democratising of the concept of the artist. In The comfort of
things I saw each individual as the curator of their home interiors, taking the
design of their homes as their work of art. This then grew into my sense that
the sense of order that they had developed was, in effect, an expression of the
aesthetic that they had developed through their life experience. This is why I
cared strongly about the quality of my own writing, since I felt each chapter
material culture and mass consumption: the impact of daniel miller’s work in brazil

786

was akin to painting a portrait, which in turn respected the quality of each of
my subjects as an artist.
In a book called Anthropology and the individual I theorise this movement.
One starts with structuralism and the appreciation that each thing/person de-
rives meaning mainly through their relationship to other things/meanings. We
progress to the best grounding of structuralist ideas, which is the writing of
Bourdieu and his documentation of how people are socialised into embodying
normative culture through being brought up within that structuralist order
experienced through the material culture around them. This was habitus. What
I now added was the principle that this was not just true of normative culture,
but also of each and every individual, who had developed their own variant of
these principles in which they created their own style. The resulting idea of
personal habitus is a bit like the anthropological equivalent to the colloquial
concept of personality.
This issue remains important in our current project about smartphones
and ageing. The problem of writing anthropology is how to respect the human-
ism of each and every person one has worked with and yet write at the level
of generality that comes from the analysis of typicality and the normative. I
am presently writing, along with my team, a book on The global smartphone. This
weaves in and out between discussing general findings for fieldsites in Japan
or Cameroon with trying also to give mini-portraits of individuals. In a way,
though, the point has become easier, since the smartphone is unprecedented
in its ability to be altered by the owner, so that a careful dissection of the
smartphone shows how it quickly become highly expressive of that particular
person. Through studying the smartphone one can see this process in action,
a person and an object developing their joint aesthetic, which we now strive
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to portray as the portrait of them both. But in turn people are microcosms of
the wider cultural values they have been socialised into, so the smartphone
expresses typicality as well as individuality.

A.C.B. You have been a big advocate of the importance of ethnography for the
production of anthropological arguments. What kinds of advice do you usually
give to your students before they start doing fieldwork?

D.M. Yes, ethnography is to me the “heart” of anthropology, dedicated to human


empathy, which complements the “brain” of theory. My recent projects have
reinforced this view. I don’t see how we can create policy, or feel educated, if
we do not know what is happening in the world. My recent projects concern
social media and smartphones, and much of this activity is private. Everyone
in Brazil is aware that the dominant platform right now is WhatsApp. So how
can we know what happens in that WhatsApp world, much of which is family
conversation, intimate and private? Yet how can we talk about WhatsApp if we
interview with daniel miller | ana carolina balthazar and monica machado

787

don’t know that world? The only possible method is long-term ethnographic
fieldwork that creates trust between the anthropologist and their participants,
which means that people appreciate that no harm will come to them in sharing
the everyday family communications that is the core of WhatsApp.
I give my students unusual advice. They spend months prior to fieldwork
preparing an “upgrade” report about what they plan to do. I suggest to them
that once that have passed their upgrade examination, they tear up this docu-
ment and expect to significantly deviate from their own plans. I see fieldwork
as highly opportunistic and carried out in a spirit of discovery. Once they are
in the field, they will encounter things they never expected or knew about.
Those could not have appeared in their upgrade, precisely because they were
unknown to them at that time. Yet these are the genuine discoveries that may
well be just as important to know about as those they planned to investigate.
I argue that, as ethnographers, we must work as opportunists and abjure test-
ing hypotheses which are always limited to prior knowledge.
This is not just true of individual research. My current project started
with a commitment to the study of mHealth [“mobile health”] – that is, bespoke
smartphone apps designed to help people with problems of health. After a few
months, however, everyone in our team realised that few people were using
these apps and that actually, if we wanted to consider the impact of smart-
phones upon health, we needed to completely rethink the very notion of
mHealth – that what really mattered were the use of ubiquitous activities such
as Googling, or ubiquitous apps such as WhatsApp, and not the specialist
mHealth apps. We then completely changed the direction of our research away
from the original grant proposal to what we now appreciated mattered more
to the people we were studying.

A.C.B. Often prominent scholars give up on doing fieldwork and hire someone
else to do it for them. You, instead, still do it yourself. Why?

D.M. Most of the anthropologists I learnt from had repeatedly returned to the
field, such as Geertz or Barth or Leach. I see this as essential for anthropology,
which at least claims to be a comparative discipline. For this sense of the com-
parative to be experienced by anthropologists, they need to have several dis-
tinctly different fieldsites that they themselves have worked in. Otherwise they
tend to become overly specialist in ever more esoteric minutiae of just one
particular region.
It is also hard to imagine any discipline thriving that didn’t include the
continual commitment to empirical experience as evidence. Every experience
of fieldwork has taught me so much, and inevitably changed the direction of
my thinking and my sense of what actually matters to people. Fieldwork is
visceral, it becomes part of you in a way that simply reading about another
material culture and mass consumption: the impact of daniel miller’s work in brazil

788

person’s fieldwork, or seeing the material from a research assistant, cannot. I


admit I may be a bit extreme in that I have carried out ethnographic fieldwork
on over twenty occasions. I guess it is also because I really enjoy meeting new
people and hearing about their lives. I don’t believe I have ever met a boring
person; once you work out how to make them comfortable about expressing
their views and experiences. There is always going to be something about what
they do and why they do it that will be a surprise and make you realise the
infinite capacity of humanity.
I also think continually going back to the field is good for one’s soul. In
the bubble of academia, it is easy for people to become self-important and that
leads to a style of writing and speaking that can become quite abstract and
hyperbolic. When you do fieldwork, people don’t care at all about who you are,
and mostly they see you, at least initially, as a bloody nuisance who is wanting
to take up their time. This periodic experience of personal humiliation is prob-
ably a very healthy exercise, in its own right.

M.M. At what point in your career did you become interested in digital cultures
as an anthropological reference? What were your motivations for conducting
these studies?

D.M. I have always accepted that mainly I do not choose my research topics;
rather my job is to simply acknowledge the world and direct myself to it. Often
this reflects my own experience. My initial work on material culture and con-
sumption reflected the disparity between the sheer scale of the commodity
culture we lived within and the relative neglect at that period of academia. My
later work on the topics of shopping and parenting reflected my own personal
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 773 – 803, sep. – dec., 2020

experiences at that time. The rise of the digital was simply inescapable; it was
what we were all doing. If I decided to launch myself into it earlier than most,
this probably reflects the same opportunism I have just described. I don’t think
I was especially prescient in recognising that digital media represented a fun-
damental change in the world.
I am, however, careful, in engaging with unprecedented phenomenon. I
have never wanted anthropology to be the study of possible futures, or the latest
digital objects. The right time for the anthropologist to pay attention comes
when the device has become commonplace, such that it would already be a
significant presence within an ethnography of the everyday. This can happen
quite quickly. Our current project on smartphones and older people would not
have been possible even two or three years ago; but in most of our fieldsites
there are people in their eighties who can barely imagine doing without their
smartphones. Ultimately, I am not that interested in either material objects or
digital technology. My concern is with human relationships and social normativ-
ity. The legacy of the material culture studies is, however, that the best way to
interview with daniel miller | ana carolina balthazar and monica machado

789

study people and society is through practice and not just language. Once peo-
ple were constantly using the internet or social media, or now the smartphone,
you have the opportunity to observe so much and learn so much that might
not be present in interviews and conversation. If you just consider the amount
of visual content that now exists online, this is an anthropological gift horse.
Take, for example, a topic I am often drawn to, that of love. People were
surprised when my book A theory of shopping turned out to be a study of love.
But my point was that English people are quite embarrassed and awkward
talking about love. They tended to assume that just meant the romantic form.
While I saw how housewives every day showed their concern for their children
through their attention to detail in their shopping. I apply the same logic to
digital technologies. When I go through the smartphone, app by app, I can see
what it actually looks like to spend every day dealing with the dementia of
one’s parent. In my first book with Don Slater, The internet: an ethnographic
approach, we showed how young people were quickly shifting to different ways
of engagement, or how even religious practice and belief changed because of
the ways in which ideas could be expressed and communicated online. You
didn’t have to be particularly interested in the digital itself, you just had to
see its potential as a vehicle for academic research.

M.M. If I am not mistaken, the first time you mentioned the concept of poly-
media was in the book Migration and new media: transnational families and poly-
media, written with Madianou. Am I right? Could you explain how this aca-
demic concept has contributed to your current studies?

D.M. Yes, the concept of polymedia was created in a conversation we had


about some of the conclusions of that fieldwork. It possibly helped that Ma-
dianou is Greek and that we started with a Greek term. The problem, from the
beginning, was that we realised this term could be used to mean something
relatively superficial, while we intended it to refer to something quite pro-
found. The superficial interpretation was that this is just a reference to the
choices people have as to which media to use. But we meant the term to refer
to a re-socialising and re-moralising of media itself. Previously the choice of
media had been determined by factors such as cost and access. Now with
phone and internet plans, these factors faded away. As a result, people now
judge each other as to which media they choose to make contact with. This
turns media choice itself into an expression of morality and relationships.
That is the more significant meaning of our concept of polymedia.

M.M. In the book Digital anthropology, you and Horst point out that when stud-
ying digital cultures, one should investigate the phenomena of materiality in
social-cultural mediations. Could you tell us a bit more about that?
material culture and mass consumption: the impact of daniel miller’s work in brazil

790

D.M. I think that there was a huge advantage in coming to digital anthropology
from the study of material culture, and again it was about seeing this trajectory
at a deeper level. Of course, digital technology is itself material, and one can
study where in the house people locate their computer or the implications of
the size of screens – from smartphones, through tablets to laptops. But the more
important legacy of material culture studies was the realisation that the key to
studying digital technologies was to focus upon content, that which ordinary
people created and used to populate the online world. This is the real substance
of the digital and it echoes that of prior material culture studies in that it is vast.
Take one example, the rise of the visual. In my paper “Photography in
the age of snapchat,” I argue that social media photography is more or less the
opposite of traditional photography. It used to be about keeping a record for
the future, but now it is all about the present; using the smartphone to filter
out and actually look at the things that matter around you. Then there is a
world of new visual materials. One of the findings of our current project is the
way people use emojis and stickers in places such as China and Japan. These
overcome traditional formal constraints of face-to-face speech and can convey
more affective feelings and emotions, so that informants tell how they wish
that oral conversation could be as expressive as sticker-based conversation.
This became very important for our study of care at a distance. I see all this as
a continuation of material culture studies in that we dissect the substance of
content and learn to sing its tunes.

M.M. In your latest book, The comfort of people, you portray a beautiful sense of
humanity when investigating both online and offline experiences of people in
UK hospices. Could you tell us more about it?
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 773 – 803, sep. – dec., 2020

D.M. The work that I carried out with hospice patients was especially significant
in that I think it will impact upon all my future research. I noted at the start of
this interview that at Cambridge I was socialised into a rather elitist conception
of academia that considered theorisation intellectual and applied work as not.
I think working with the hospice made me finally realise that in many ways the
abstraction represented by theory is often less challenging to the intellect, pre-
cisely because it remains at that abstract level. By contrast, applied research that
has to deal with the contingency and the variety of life as lived, is actually often
more challenging intellectually as well as practically. It also adds two further
advantages. One is that it may actually improve people’s lives, while mere cri-
tique usually just improves the status of the critic. Finally, it returns us to a core
task of anthropology which is to help people appreciate the humanity of others.
It is the last of these points that is perhaps foregrounded in the storytell-
ing style of a book such as The comfort of people. Most likely this urgency in con-
veying the humanity of people is linked to the subject matter. These were people
interview with daniel miller | ana carolina balthazar and monica machado

791

who had been diagnosed with a terminal illness and mostly have died since the
research. As I have already noted the key in anthropological writing is to blend
analytical generalisation with conveying the unique character of every person
we work with. These storytelling books provide one way of achieving this.
As you suggest, this book is also about blending online and offline lives.
The research was intended to map the entire social universe of a person who
is dying. This has to include their phone contacts and emails, but also who they
see face-to-face and how often. What this has in common with my earlier study
of how Filipina care workers try to parent their children half-way across the
world is the necessity of online communication. People who are dying often
also become less mobile as frailty becomes an issue. So, they use new tech-
nologies, not for new purposes, but simply to try and retain the social connec-
tions they might otherwise lose.
In addition, the book considers how such research might assist the hos-
pice. I was hugely impressed by the hospice. It was the antidote to technology
research. It had completely transformed the lives of these people. But not at
all because of any new technology. It was simply by reconceptualising from the
negative sense of the final stage before death into a positive last opportunity
to do interesting and worthwhile things with one’s life while one still had it.
Communication is particularly important since people want to stay in
their homes for as long as possible, so mostly the hospice staff are dealing with
patients in their homes, not in the hospice. This was the opportunity to actu-
ally employ ideas that had started as theories. For example, polymedia became
a specific recommendation to hospice staff, suggesting that they start by as-
certaining how each patient preferred to use media in communicating with
them. Might they prefer a text first to alert them that they were about to get a
phone call, or to prepare themselves for a webcam discussion? It was a revela-
tion to doctors that patients may not always prefer face-to-face when hearing
news about the development in their cancer.
Another significant finding was that the factor that proved most harm-
ful to patients, other than their disease, was the medical profession’s obsession
with confidentiality. As a result, medical information was not being passed
between the many different groups that look after them. I find it immensely
frustrating that when we talk about our smartphone research, audiences con-
stantly emphasise privacy and confidentiality over almost any other factor.
They simply cannot imagine that, as well as being sometimes something we
would all want to protect, privacy and confidentiality can also become a sig-
nificant cause of harm to ordinary people.

M.M. In all your recent studies the perspective of comparative anthropology is


an important piece to identify the different uses of social technologies in dif-
ferent places. What are the main differences between digital sociabilities in
Brazil and England?
material culture and mass consumption: the impact of daniel miller’s work in brazil

792

D.M. The first point is simply that Brazil is not comparable to England because
the former is far more heterogeneous than the latter. There are differences in
England between north and south, across gender and inequalities in income,
but Brazil is more like a continent than a country. For example, I was watching
the film by Flavia Kramer on the impact of new media for the Bororo people
studied by Lévi-Strauss – a fascinating intersection between anthropological
interest in issues such as moieties and marriage rules, alongside the rise of
social media and smartphones. Clearly, however, lessons from Amazonia do
not apply to professionals in São Paulo. Currently Marilia Duque is working, as
part of our team, on ageing with smartphones in São Paulo. She finds, for ex-
ample, that retired people focus on retaining their links to their previous work-
ing lives, which remains central to their sense of identity. By contrast, in my
most recent ethnography in Ireland (clearly NOT England, but not far). I found
that working with retired people, even after a year, you might not know what
job they had prior to retirement.
The best evidence we have, however is the published book by Spyer on
Social media in emergent Brazil. Again, you can’t really say this is “Brazil,” since
the people in this Bahian squatter community are entirely different from the
professionals being studied by Duque. But what is clear is that there are many
aspects of sociality that bear no relation to the English, including all sorts of
regimes of secrecy, but also gossip, that his book expertly dissects. By contrast,
my own book Social media in an English village, explains a very specific form of
English sociality based on what I call the “Goldilocks” principle, where the main
use of social media is to create a new degree of sociality in which people are
seen as sufficiently connected that they are not ignoring relatives and friends.
But this is used to legitimate keeping these people at a distance, so one doesn’t
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 773 – 803, sep. – dec., 2020

actually need to talk to them or see them. This antipathy to sociality is very
English and contrasts with the much more expansive and frankly friendly so-
ciality that English people almost always remark upon when they gain some
experience of Brazil.

M.M. In several of your recent studies, digital environments appear as spaces


of cultural contradictions, offering not only opportunities for social expansion,
a sense of co-presence, mediating long distance affection, but also restrictions
of world views, such as lack of freedom, social control, the spreading of hate
speech and intolerance. How do you see the future of digital platforms and
democratic cultures in the world?

D.M. My first response is one of caution. I see the impact of new media on
politics as an arena of fake news, but I mean something quite different from
that phrase. It is the hype around fake news that may be the main fake news.
Similarly, for years we have been told that new media creates a “filter bubble”
interview with daniel miller | ana carolina balthazar and monica machado

793

which narrows the exposure of people to the media, but as far as I am aware
the evidence has always been that the opposite is true. Works such as Axel
Bruns’s Are filter bubbles real? or David Sumpter’s Outnumbered tend to be ignored
so almost everyone thinks that social media creates “filter bubbles” even when
they don’t. In my first book about the internet, with Don Slater, we pointed out
that the reason there is so much hate speech online is that this tends to be
stuff that wasn’t taken seriously, and no one would publish anywhere else. The
fact that it all ends up online was a sign of its insignificance, rather than sig-
nificance. The term fake news has the absurd consequence of deluding people
into thinking that news prior to social media was mainly true. Here in England
the lies that led to Brexit came almost entirely from established tabloid news-
papers, far more than from social media
The problem is that the newspapers whose financial interest are being
undermined by new media tend to be relentless in their critique. Since I am
usually trying to oppose that with evidence, my work sounds like it is biased
towards the positive consequences of new media. This is not the case. I am just
trying to keep us wedded to evidence. In my current work, for example, I am
examining how Googling for health information exacerbates class differences
when it appears to be merely neutral. This is a negative most people are una-
ware of. If we were to take a broad brush and look at the evidence overall, I think
I would say that new media’s effects are, not surprisingly, equally positive and
negative on the field of democratic politics as in most other things. Social media
can potentially help develop an Arab Spring, but equally populist politics such
as the Italian Five Star movement in Italy, that takes much of its ideology from
the democratic possibilities of the internet, suffers from the contradictions of
most populist parties. But then I have always argued that people who try and
see impacts as good or bad are generally being simplistic. I am a follower of the
work of the sociologist Georg Simmel who presents clear theoretical grounds for
expecting new cultural developments to be inherently contradictory.
Having said all that, there are clearly dangers that digital technologies
allow a degree of surveillance and control that could make authoritarian re-
gimes extremely effective. Recently one of my team, Xinyuan Wang, wrote a
piece (in The Conversation) that explained why people in China may be less op-
posed to the social credit system than outsiders to China imagine. Nevertheless,
these systems should certainly make us fearful of the potential for a form of
absolute political control that is unprecedented.

A.C.B. Do you consider your work to be political in any way? How exactly?

D.M. I was educated in the work of Habermas, who clearly showed that all
academic work is political. But I have strong views on where that politics should
be best directed. There is much good work within the field of cultural studies,
material culture and mass consumption: the impact of daniel miller’s work in brazil

794

but I would suggest that precisely because it tends to foster work that favours
the author’s political stance, it loses credibility. If someone from gender stud-
ies argued that gender is highly significant for some study, it could be read as
simply a reflection of their institutional role. Perhaps influenced by Karl Popper,
I have always tried to come up with evidence that does not necessarily support
my own politics. For example, I found that supermarkets might have ethical
consequences that were superior to corner shops, even though I personally
want to favour corner shops. You should not know my politics from my findings.
Research itself should be as objective as possible so that people trust that it is
a direct reflection of evidence not the author’s institutional position.
The politics comes subsequently, when we consider how our research
should engage with policy. Indeed, the key point is that it should engage. I have
seen generations of academics, whose only stance is pure critique, claiming that
they are more political than I am. But their work has rarely resulted in changes
to policy. By contrast, I am now increasingly involved in trying to engage our re-
search in actually improving people’s welfare. The most powerful critique is the
demonstration that something could be feasibly done better than the status quo.
So, in our current work, we are distinct from the vast commercial industry that
promotes and develops mHealth Apps and instead publishing documents that
show some of this could be done for free using ubiquitous free apps such as
WhatsApp. Marilia Duque has created an impressive manual on how WhatsApp
could be used for health in Brazil. I believe my work is political to the degree that
I can actually see people’s welfare has been improved as a direct result of our work.
Pure critique to me is often self-indulgence and therefore ultimately conservative.

A.C.B. Your work often draws on some of Pierre Bourdieu’s arguments. He has
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 773 – 803, sep. – dec., 2020

made important claims regarding the role of academia in the reproduction of


social hierarchies. Is it possible to develop work in academia that does not
contribute to social distinction? How exactly?

D.M. I have already mentioned that in some ways Bourdieu could be argued as
saying something else. While academia has in the past mainly reproduced so-
cial hierarchies, the effect of the university system is to create and sustain the
middle-class – that is, people who view the world through a sophisticated lens
of distinction informed by education, while Bourdieu portrays the working class
as generally having a more immediate or literal interpretation of what they
encounter, which he may also see as more authentic. I have always believed
that education is vastly superior to ignorance. The problem for me is that the
universities only serve a minority, and we want everyone to have access to
these educational possibilities.
This is something I am also trying to put into practice. Before the ar-
rival of digital technologies, I could only speak to 30 or sometimes 300 in a
interview with daniel miller | ana carolina balthazar and monica machado

795

lecture theatre. But in our last Why We Post project, our free online university
course was taken by over 30,000. I am especially excited that our books, most
of which are ethnographic monographs, have been downloaded by more than
875,000. Especially important are the numbers we see in countries with emerg-
ing middle classes and subsequent demand to expand tertiary education such
as Ethiopia or the Philippines.
How have we achieved this? The first factor is that all our research dis-
semination consists of free “Open Access” books, or a free online university
course. Perhaps even more importantly we only use colloquial English, that is
words which someone finishing high school would understand. I believe most
theory can be explained in ordinary language, and the reason people don’t is
often because the theory is weak and is being artificially protected by obfusca-
tion. Our style of writing is intended to be highly accessible, mostly told in the
form of stories about recognisable people. We also translate our work into the
languages of the places where we work, such as Hindi and Tamil. In addition,
we use new media to publicise our work through social media platforms, blogs
and by providing simple versions of our arguments on websites that get people
interested in reading the more complex work. This does not dilute our aca-
demic output. That project produced 11 books – more than 2,000 pages of evi-
dence. I really don’t mind if, to some degree, this giving away of education for
free is destructive of the traditional university system as we have known it. In
its current form it is elitist, as Bourdieu indicated. In our work we are trying to
push towards what I see as sophisticated original insights, which is the value
of research, but made available to everyone, especially those who don’t have
the money to go to universities, but may be extremely interested in knowing
more about the consequences of social media or smartphones. Education is a
human right and to the degree that this is possible, it should be free.

A.C.B. What do you feel you achieved through the Why We Post project and how
does your current project aim to go beyond that?

D.M. The single most important achievement of Why We Post is the evidence
that it collected about the uses and consequences of social media and the fact
that this was ethnographic evidence. The point is that most arguments about
social media come from disciplines that skim off only the publicly available
evidence. There is a vast amount of work about the political consequences of
Twitter, since academics have easy access to Twitter. Some also tend to univer-
salise their findings. But our work should incorporate everything that people
do and the diversity between different populations. As I noted above, this must
include the private worlds found on platforms such as WhatsApp that are more
consequential for ordinary people. So that project was committed to providing
scholarly evidence which is made readily available through mass dissemination.
material culture and mass consumption: the impact of daniel miller’s work in brazil

796

Today it seems natural to progress to smartphone-based research. Social


media itself is no longer a separate entity, but rather a set of apps alongside
other smartphone apps. The smartphone itself is unprecedented in its inti-
macy and power as a personal device. So, the first stage has been to replicate
what was successful about Why We Post. This time we have 11 team members
involved in 16-month ethnographies and we hope again to produce 11 books. 2
The topic has been expanded by the focus upon ageing as the context.
Most studies of ageing focus on people defined by age – that is youth and the
elderly. Yet the primary change in ageing has been for people who see them-
selves as neither elderly nor young. This varies across our different sites. In
Ireland, for example, people in the sixties, seventies, and even eighties, who
expected by now to be elderly, find that that they are still listening to the Roll-
ing Stones, while smoking dope like the hippies they once were. They are doing
many of the same things they have always done, perhaps still dating. This is
not what being elderly was expected to feel like. The recent introduction of the
smartphone to their lives is, then, an iconic moment in this retained sense of
youth. In many ways I suspect it will be our findings about the transformation
of ageing that will outlast our work on smartphones.
In addition, this project has an orientation towards applied anthropol-
ogy that didn’t exist in Why We Post. It is represented by the challenge to con-
ventional mHealth that I have just referred to. Each team member has their
own project relevant to their own fieldsite and only selected after they had
finished nearly a year’s fieldwork. This ensured that it arose from their sense
of what was needed, not simply what they would have liked to do. This repre-
sents a set of new challenges that I find a welcome addition to the ambitions
of Why We Post.
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 773 – 803, sep. – dec., 2020

Finally, I want to see this project as a demonstration of my ambitions


around changing the role of theory in anthropology. How can we have theory
that is not a form of fetishism? The answer I believe is to return theory to its
initial role as the handmaiden to understanding and explaining our substantive
findings. In writing The global smartphone there are many theoretical interven-
tions that generalise our comparative study of the use and consequences of
smartphones. This includes our definition of the smartphone as The Transportal
Home: more a place within which we live, than a device we just use. We argue
that the smartphone goes Beyond Anthropomorphism. Theories of the robot are
relatively superficial in that the robot is supposed to look like a human being.
By comparison, the smartphone’s relationship to humanity is more intimate,
reciprocal and profound. We discuss the phenomenon of “perpetual opportun-
ism”, and the role of the smartphone as a Control Hub and Care Transcending
Distance. We have new ways of conceptualising what we call social ecology and
screen ecology. The book is replete with what might be called theory, and we are
in no way anti-theoretical. It is just that in every case theory is clearly illus-
interview with daniel miller | ana carolina balthazar and monica machado

797

trated by ethnographic evidence that shows how it means different things for
each population. It doesn’t look like theory because we spend so much effort
trying to make the arguments clear and accessible. We examine the way it clar-
ifies our original insights to a greater extent than how it contributes to estab-
lished theoretical debates. The book thereby exemplifies what I hope de-fetish-
ised theory within anthropology might look like in the future.

A.C.B. What is the next project?

D.M. This will be my longest answer since I am someone who has always been
much more orientated to the present and future and not especially interested
in the past. There are three phases to this, but they shift from projects that are
pretty definite, to ideas that at the moment are more like dreams that may or
may not become reality.
At present, I am just half-way through our five-year project, and I am
hugely enthusiastic about the results. When we started the idea of linking three
topics – the transformation of middle-age, the question of what a smartphone
is, and whether we could contribute to mHealth – this seemed a bizarre beast,
part giraffe, part crocodile, part spider. Yet at this point we simply can’t imag-
ine how you could tackle any one of these three topics except in combination
with the others. Finding that ubiquitous apps, such as WhatsApp, were more
important than bespoke apps, is linked to understanding both what a smart-
phone is and how ageing has changed. Presently we are completing The global
smartphone and then we hope there will be nine monographs all with the titles
of Ageing with smartphones in each of our various fieldsites. We intend to write
an edited book about our alternatives to mHealth, but also will publish com-
parative work on ageing, probably in journal papers.
If, however, you spend 16 months living in a fieldsite as an ethnographer,
you end up with far more material than that dictated by your project. I find I
want to write a book that has little to do with this project and is more what
struck me from the ethnographic experience. The title I would like to give this
book has been ruined by Monty Python, since you can’t use the expression “The
meaning of life” without thinking of them. Yet actually this would be the topic
of my book. I worked with retired people who had undergone a profound shift
from Catholicism to secularism, from poverty to affluence and from many con-
straints to a form of freedom that is, perhaps, unprecedented in human his-
tory. I suspect there are many parallels to this amongst populations in Brazil.
I spent some of my time asking people about life purpose. As you might expect,
they had very little to say in response and found the topic vaguely embarrass-
ing. This was also true of my previous work with hospice patients who were
dying. So instead, I think we need to extrapolate issues about life purpose from
what people do, rather than what they say.
material culture and mass consumption: the impact of daniel miller’s work in brazil

798

I won’t even start writing this book for another year or so, but in my
head, there is a fantasy that much of the book will come from the ethnograph-
ic findings. But once that is written, I will then compare it to classic philosophy
and discussions of life purpose in ancient Greece and Rome. There is a little of
this in the book Aging thoughtfully by Martha Nussbaum and Saul Levmore. I
would want to go much further, with more extensive discussion of various
movement such as the Stoics, Epicureans and others. My argument would be
that later philosophy is mainly influenced by religion, while these earlier clas-
sical sources are in some ways closer to the largely secular world of my con-
temporary Irish retirees. I also imagine writing about issues such as the nature
of community and consumption as seen from the same perspective.
Even more in the realms of fantasy would be a project that would start
only when my present five-year project is complete, that is three years from
now. Unfortunately, with the UK leaving the EU – something that I see as a
complete disaster in so many ways – I may be no longer eligible for the scale
of funding I will have enjoyed for the last ten years. Yet I feel that these large-
scale comparative projects offer something to comparative anthropology that
is more than just the aggregate of smaller projects. So, I would love to have
the opportunity to conduct another such programme in the future; if I can
find the funding to do so, which is doubtful. As for the topic, this is even more
tentative, but I am currently thinking about what seems to be something of
a crisis in young people’s relationships; issues around commitment and inti-
macy. This would follow from previous work I have carried out on the nature
of love. I don’t think I would carry out such an ethnography myself – I am too
old. At this point I would rather concentrate on helping young people train
as ethnographers and gain their own expertise.
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 773 – 803, sep. – dec., 2020

More than once in my career I have wondered about whether to send


my research upwards to the discussion of political economy, or downwards to
issues of intimacy. Much of my work has been about capitalism, theories of
value, the rise of audit culture, climate change and similar topics. But mostly
I tend towards the study of relationships. Partly personal preference. I am very
happy sitting in a pub listening to people talking at length about their relation-
ship problems and giving them my often terrible advice as to how to solve these.
But more than that, there is an academic alignment. As we see in the digital
media research, so much of what matters to people happens in private worlds.
If ethnographers are the only researchers who could ever really know what is
going on there, since access to such information completely depends upon trust,
perhaps we have a particular responsibility to engage in those studies. No
other methodology has the time patience, or possibly the desire, to spend so
much effort on building trust. Yet this is the key part of people’s lives, that
which usually determines whether they feel life is happy and worthwhile or
otherwise.
interview with daniel miller | ana carolina balthazar and monica machado

799

I have no idea if I will have the funding, good health or opportunity to


embark on these future journeys. Quite possibly I will come up with com-
pletely different ambitions over the next few years. As I have noted through-
out these answers, I am best characterised as an optimistic opportunist; I
don’t know the future, but I feel something interesting will turn up. Alongside
many academics, once my work appears in print, I only see the faults and I
am ashamed and feel the result is immature; but I am also convinced that my
next project will actually achieve some maturity and might even suggest I am
finally growing up (though I know, and all my friends know, that will never
happen).

Received on 3/ May/2020 | Approved on 19/Oct/2020

Ana Carolina Balthazar holds a PhD in Social Anthropology from University


College London (UCL) and is currently pursuing a postdoc (PNPD/CAPES) at
PUC-Rio. She researches material culture and nationalism in the United
Kingdom and Brazil and has published articles in international academic
journals like American Ethnologist and the Journal of Material Culture.

Monica Machado is Associate Professor of the School of Communication at


the Federal University of Rio de Janeiro and Professor of the Eicos- IP/UFRJ
Postgraduate Program. She leads the MEDIATIO research group. She gained
her PhD in Communication and Culture on the PPGCOM program at ECO-UFRJ.
She was Honorary Research Associate (2014-2015) at University College
London (UCL) in the United Kingdom under the supervision of Daniel Miller
and funded by a Capes award. Her most recent book is Antropologia Digital e
Experiências Virtuais do Museu de Favela. Her current line of research is the
media and sociocultural mediations with an emphasis on communication,
material culture, digital anthropology, and communities.
material culture and mass consumption: the impact of daniel miller’s work in brazil

800

NOTEs
1 Both projects are on the site of UCL Anthropolog y (UK):
<https://www.ucl.ac.uk /why-we-post / and https://blogs.
ucl.ac.uk/assa/about/>. Accessed 28 September 2020.
2 Here Miller refers to his current project, funded by the
European Research Council, The Anthropology of Smart-
phones and Smart Ageing (ASSA): see https:// blogs.ucl.
ac.uk/assa/.

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interview with daniel miller | ana carolina balthazar and monica machado

803
Material Culture and Mass Consumption:
Considerações sobre o Impacto da obra de
Daniel Miller no Brasil
Palavras-chave Resumo
Cultura material; Este artigo introduz o número especial sobre o impacto do
consumo; livro Material culture and mass consumption, de Daniel Miller,
mídia digital. para o debate interdisciplinar das ciências sociais no Brasil.
Nesta Apresentação, nós, as organizadoras, fazemos uma
revisão das principais ideias contidas no livro – que nunca
foi traduzido para o português – , além de considerar algu-
mas críticas que surgiram nas últimas décadas sobre a obra.
Abordamos também a relação da teoria do consumo de Mil-
ler e sua larga produção em antropologia digital. Em segui-
da, numa entrevista com o próprio Miller, discutimos algu-
mas das impressões que temos sobre sua perspectiva teó-
rica e trajetória profissional. Por fim, o texto apresenta os
quatro artigos originais que, a partir de dados de pesquisa
empírica, discutem a pertinência daquele estudo inicial
sobre consumo e cultura material para o atual debate teó-
rico sobre materialidades, mídias sociais e trocas interdis-
ciplinares. Além disso, o artigo também introduz a seção
Registros de Pesquisa, em que pesquisadores próximos a
Miller escrevem sobre a sua produção teórica, colaborações
acadêmicas e parceria profissional.

Material Culture and Mass Consumption:


the impact of Daniel Miller’s work in Brazil
Keywords Abstract
Material culture; This article introduces the special issue reflecting on the
consumption; influence of the book Material culture and mass consumption
digital media. by Daniel Miller on interdisciplinary debates in social sci-
ence in Brazil. Here we review the main arguments pre-
sented in the book – yet to be translated into Portuguese
– while also considering some of the criticism it has re-
ceived in past decades. Next, we present the connection
between Miller’s theory of consumption and his wide-
ranging work in digital anthropology. Afterwards, we in-
troduce the four original papers contained in this special
issue and which consider, based on empirical research, the
on-going relevance of Miller’s theory to current debates on
materiality, social media and interdisciplinary exchange,
including an interview with the author. Finally, in this in-
troduction, we also present the section Registros de Pes-
quisa, where different Brazilian researchers discuss the
opportunity of working closely with Miller.
ARTIGOS
http://dx.doi.org/10.1590/2238-38752020v1032

1 University College London (UCL), Department of Anthropology,


London, United Kingdom
amberonic@hotmail.com
https://orcid.org/0000-0001-9506-9323

Xinyuan Wang l

The digital Dasein of Chinese Rural


Migrants

As Miller and Slater (2000: 5) argue, “If you want to get to the Internet, don’t
start from there… we need to treat Internet media as continuous with and
embedded in other social spaces, that they happen within mundane social
structures and relations that they may transform but that they cannot escape
into a self-enclosed cyberian apartness”. In the light of these reflections on
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 807 – 830 , sep. – dec., 2020

digital anthropology, this paper aims to understand the use of social media
among young Chinese migrant workers in both offline and online contexts.
First of all, the significant “offline” context of this study is the massive
domestic migration in China. In the process of ongoing urbanisation and in-
dustrialisation, the expansion of capitalism has had profoundly dislocating
effects on Chinese society. By 2015, when the fieldwork was conducted, there
were more than 250 million Chinese who had left their places of origin in
rural China to seek employment in Chinese factory towns and cities (NBSC,
2016). These rural migrants are referred to as a “floating population,” which
indicates the difficulty of settling down in urban China in the rigorous Chinese
household registration (Hukou) system. This paper is based on 15 months of
ethnographic research (2013-2015) in a small town called GoodPath 1 in south-
east China. GoodPath is a typical industrial town which serves as a transi-
tional place connecting the village and city. The local process of industrializa-
tion has turned most of the farmland (76%) into more than 60 large scale
factories within a decade. Migrant workers account for two-thirds of the
the digital dasein of chinese rural migrants

808

resident population, which totals 62,000. Around 80% of these rural migrant
workers are from a new generation born in the 1980s. Unlike the previous
generations of rural migrants, who as surplus labour in rural China had no
choice but to leave the countryside and make a living in cities, the younger
generation of rural migrants sees rural-to-urban migration as their “rite of
passage” (Fang, 2011) in which they search for self-identity and self-transfor-
mation along with attempting to meet economic needs. As extensively noted
by other researchers, rural migrants have encountered discrimination and
have frequently become the scapegoats for all kinds of social problems in
urban China (Jacka, 2006; Ngai, 2005). Ironically, as the indispensable force for
building modern China, rural migrants in post-communist China have been
subjected to a process of “othering” where their very existence is characterised
as “potentially hindering China from reaching modernity” (Rofel, 1999: 106).
It is in this social context that this paper explores the role which social media
plays in the daily life experience of young migrants.
In terms of the “online” context, the paper examines the QQ platform.
During fieldwork, this was the main social media platform among rural migrants
even though use of WeChat had been increasing remarkably. QQ provides a
variety of different digital services, including instant messaging, social media,
gaming, e-mail, video music sharing, and so on. Unlike Facebook which applies
an identical look to every profile, QQ offers a great variety of formats and extra
design elements for users to create their own profiles.
This paper starts with a general theoretical reflection on the relationship
between place and human existence. Drawing on this discussion, the rest of
the paper, based on my ethnography among Chinese rural-to-urban migrants,
sets forth a dialogue between Miller’s thoughts on objectification and the Hei-
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 807 – 830 , sep. – dec., 2020

deggerian concept of Dasein.

Literature review: Dasein, Objectification and Chinese migrant


workers
“To be is to be somewhere” Aristotle claims (Physics IV, 208a30, cited in Malpas,
2008: 200). It is nowadays taken for granted that any distinctive culture and
society “takes place” within the confines of a certain physical location. It is so
taken for granted that the expression “take place” simply refers to “happen” or
“come into being,” which even suggests that if there is no place to take, nothing
will happen. Furthermore, for people to be recognised as active social beings,
they must produce space for themselves (Lefebvre, 1991: 416). There has been
an established area of research on the home and place/space making within
the disciplines of sociology, anthropology, philosophy and even more exten-
sively in human geography (e.g., Douglas, 1991; Lefebvre, 1991; Mallett, 2004;
Tucker, 1994), with anthropologists emphasising cultural differences in the
sense of space (e.g., Feld & Basso, 1996). The primary influence behind the ex-
article | xinyuan wang

809

isting literature on place-making has been Martin Heidegger’s exploration of


the “Being” of humankind, which he termed Dasein (Moran, 2002: 198). Rather
than seeing Dasein as an individual entity, Heidegger argues that it can only be
understood within the surrounding context, its “situatedness” (Inwood, 1997).
For Heidegger, it is situatedness that gives rise to the possibilities of being
(Malpas, 2006), an ongoing everyday being-in-the-world, rather than just met-
aphysical abstraction (Larsen & Johnson, 2012). Human existence is highlight-
ed as being-in-the-world, as Dasein brings the whole world along with it and
the truly existential character of human existence lies in Dasein’s proclivity for
dwelling, that is, being alongside the world as if it were at home there (Casey,
1997: 246).
This paper deploys the concept of Dasein to discuss the lived experience
of migrant workers in their floating life, reflecting on how individuals develop
their relationship with the surrounding world in which social media plays a
significant role. The discussion of Dasein can only make sense when seen as a
process of “objectification.” In Phenomenology of spirit, Hegel suggests that eve-
rything that people are and do arises out of the reflection of themselves pro-
vided by the mirror image of the processes through which people create form
and they are themselves created (Miller, 2005: 8). Expanding on Hegel’s argument,
Miller (2005) takes the example of Bourdieu’s “Kabyle house” to show how the
dwelling becomes the cultural object within which people comprehend them-
selves, and how the very sophistication of the form allows people to appreciate
complex possibilities for themselves within it. Specifically, in this paper, I ex-
amine the ways in which the sophisticated form of social media has allowed
Chinese migrant workers to discern complex possibilities for themselves, and
how access to the online environment has transformed both social media and
Chinese migrant workers.
The rapidly expanding and quickening mobility of the world population
since the twentieth century has created a profound sense of placelessness, a
deterritorialization of identity. It is generally acknowledged that traditional
ideas about the home and homeland have been challenged by the new patterns
of life in the digital age. In the face of digital ubiquity, the human existential
condition has become even more complicated as discussion of self-identity and
cultural identity need to incorporate the consequences of digital developments
as a constitutive part of people’s daily lives all around the world (Rainie & Well-
man, 2012; Miller et al., 2016). Anthropological studies have provided rich de-
scriptions of the human experience of belonging and the sense of place in
dislocation, migration and diaspora. Such endeavours have developed our un-
derstanding of place, revealing the spatiality of social life (e.g., Constable, 1999;
Dominy, 2000; Semts et al., 2019). On the other hand, ethnographies based on
virtual communities such as Second life (Boellstorff, 2008) and Cibervalle (Gresch-
ke, 2012) have raised the question of “is there a home in cyberspace?” as well
the digital dasein of chinese rural migrants

810

as “does the virtual world in and of itself constitute a society?” This research
prompts questions of how far place is regarded as something separated from
experience and embodiment, or whether we can incorporate a fundamental
understanding of place as the framing within which meaning and knowledge
are made possible in the first place (Malpas, 2006).
Much of the fieldwork among Chinese migrant workers presents findings
relevant to discussion of the issue of place: (a) following Lefebvre and Foucault,
scholars have been scrutinizing “place-making” in terms of spatial disciplining
and social control to rethink urbanization and modernization in China (Rofel,
1992; Bach, 2010; Wu, Zhang & Webster, 2013; Zhang, 2002); (b) from the perspec-
tive of production and consumption, there has been a thorough exploration of
the daily struggle of Chinese migrant workers in a situation where people’s
possibilities for living in space is now controlled by the consumer revolution
in post-socialist China (Ngai, 2003); (c) acknowledging the impact of digital
technologies, scholars have started to explore the ways in which the digital has
been integrated into the transformation of social structures of contemporary
China, empowering the previous “information-less” population to perform a
modern identity (Qiu, 2009; Wallis, 2015). This paper builds upon all these pri-
or considerations in order to interrogate them anew within the context of the
daily lives of Chinese migrant workers which are taking place offline and online
simultaneously.
The rest of the paper consists of three sections. Based on ethnography,
each section focuses on one layer of existential experience in the context of
social media use. The discussion of Being starts with concerns about the “self”
and proceeds to an examination of sociality where the self is suited in the
context of connections. The last section sheds light on the wider context of
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 807 – 830 , sep. – dec., 2020

“situatedness” where the experience of “being-in-the-world” is facilitated by


social media.

The desired self on social media


The factory owners and managers in GoodPath are overwhelmingly local people.
For them, the consensus was that efficient factory production is achieved by
treating “humankind as part of the machine” as a factory manager stated. The
ethnography testified to the common feeling of being an “unperson” (Jackson,
2000: 2) among rural migrants in GoodPath. The social bonding between local
and migrant workers in GoodPath was minimal. A survey among 238 rural mi-
grants and 75 local people (June 2014), for instance, showed that about 72% of
rural migrants reported no connection or daily communication with local peo-
ple, apart from functional relations such as “factory manager/factory worker”
and “landlord/tenant.” This social separation started in schools. In the local
primary school, classes were divided into “outsider classes” (waidi ban) and
“local classes” (ben di) with better teaching resources allocated to the “local
article | xinyuan wang

811

classes,” which only enrolled local students. The reason given was that local
people were concerned that their children would pick up bad habits from the
children of rural migrant families with low “human quality” (di suzhi). In field-
work, migrant workers were fully aware of their inferior social status as “out-
siders” with low social visibility. It was common to hear factory workers remark:
“My opinion/right doesn’t matter as I am just an outsider.” Liping, a 22-year-old
former factory worker, was one of them.
Liping lost her job in the factory because of a minor dispute with the
line manager. She left the job without getting fully paid but abandoned any
attempt to obtain redress since, as she remarked, “all the managers are local
people who cover each other and don’t care about us outsiders.” The only
place Liping showed her dissatisfaction was on her QQ where her post com-
plaining about the factory was supported by several her QQ friends who were
also migrant workers. “QQ is my own place… at least I say what I want to say,”
Liping explained. Furthermore, Liping was a VIP on QQ (having purchased the
VIP membership). Being a VIP entitled her to a variety of online privileges,
from extended use of various functions to significantly enhanced visibility.
As a VIP, Liping’s QQ avatar is always on top of the contact list in the chatting
interface, and her QQ name was shown in bold red. In addition, Liping was
also an expert in tailoring her online status. For example, she applied the
“visible to somebody in invisible status” function, which allowed her to always
be seen by selected contacts while in invisible status when the rest of her
contacts would be unable to tell whether she was online or not:

Sometimes I just want to talk to one or two [friends] and don’t want to be dis-
turbed by any random guys, so I set myself invisible… but for a few people I feel
I can always talk to or wish they can ping me if they see me online, I set myself
always visible for them, even though to others I am still invisible.

Liping reported that this setting gave her a strong feeling of being special,
as she further explained, “It’s like I am always there waiting for you, you know,
very close and exclusive… and it’s the way we make ourselves special for each
other…”
The “self” is by no means experienced as a purely personal matter, since
being a person means being treated as someone whose “personal views matter
in some public, articulate, expressible sense” (Scannell, 2000). On QQ, Liping
enjoyed a much-increased control of her visibility in so far as she could deter-
mine when “I set myself invisible” and this self-tailored visibility facilitated
her self-perception as a “special person” who can be seen by people she cares
about, rather than an unimportant outsider in GoodPath town.
JiaDa, a 23-year-old forklift truck driver, provided another example. JiaDa
arranged a QQ group comprising 168 online contacts, the majority young male
migrant workers. None of the images on the album of this QQ group were taken
by any of the members themselves — all were obtained from the internet by
the digital dasein of chinese rural migrants

812

people in the group. According to JiaDa, the images worth posting were those
that “look cool and modern,” images such as “modern city landscapes,” “con-
sumer culture” (luxury cars and other goods), “sex,” “smoking,” and large sun-
glasses (Figure 1). Addressing the QQ group, JiaDa wrote “I hope everyone will
become a person with suzhi.” Suzhi, meaning “human quality,” is deeply associ-
ated with the Chinese urban-rural divide and the nation’s modernisation since
the 1980s. People in cities frequently refer to rural people, whom they regard as
intrinsically inferior, as “low human quality” (di suzhi). In the discourse of suzhi,
the rural lifestyle is measured on the scale of modernity and ends up being stig-
matised as “backward” and a threat to the “project of national modernity” (Jacka,
2006: 31). In other words, the party-state actually claims that to enjoy the pros-
perity offered by economic reform, citizens must take the initiative to improve
themselves, casting off their low suzhi dispositions. In such a conceptualization,
emphasis is on individual responsibility, rather than individual rights (Fong &
Murphy, 2006). The message on JiaDa’s QQ group suggested that rural migrants
seem to have already accepted this denigrating discourse, which echoes various
studies among marginalized groups of Chinese people who tend to internalize
the judgement of “mainstream” society that they are “backward” or “uncivilized”
(Fong & Murphy, 2006). On the other hand, the implicit message sent by the QQ
group seems to be that “human quality” can be effectively improved online.
In terms of utilizing visual posts to articulate personal aspirations, Lily,
a 19-year-old factory worker, provides a typical case. Most of the images Lily
posted on her QQ were artistic photos of beautiful women in gorgeous dresses
which she collected online (Figure 2). On Lily’s QQ, there was not the slightest
trace of her life as an assembly line worker or her lived environment in the
factory town. The only set of photographs of herself was produced by the local
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 807 – 830 , sep. – dec., 2020

photography studio. It took Lily half a month’s salary to have these photos
taken to “record her most beautiful self” in her own words. By “most beautiful
self” she refers to the look that took the stylist two hours to produce by apply-
ing make-up and dressing her in an evening dress with extra padding around
her breasts and hips (Figure 3).
The truth that these artistic photographs held for Lily was not about her
everyday “authentic” look, but her real desire to become a “most beautiful self”
who can fit into the online space. In Bonnie Adrian’s (2003) study of bridal
photography, artist photos that transformed the images of Chinese young wom-
en beyond recognition are regarded as a significant ritual marking a woman’s
self-awareness and self-expression of being a young, attractive, independent
woman before she becomes exhausted by household work and family duties.
“Photography is prized not for its ability to capture lived experience but for its
capacity to create ‘memories’ markedly different from the goings-on of every-
day life” (Adrian, 2003: 10). The acknowledgement of this creativity of photog-
raphy provides a different perspective, given these offline precedents to Lily’s
Fig. 1 Sample of images on JiaDa’s QQ group album Fig. 3 The “artistic photo” of Lily
article | xinyuan wang
Fig. 1 Sample of images on JiaDa’s QQ group album Fig. 3 The “artistic photo” of Lil

813

Fig. 2 Sample of images on Lily’s QQ album


1
Fig. 2 Sample of images on Lily’s QQ album

Fig. 2 Sample of images on Lily’s QQ album

2

3
Figure 1
Sample of images on JiaDa's QQ group album

Figure 2
Sample of images on Lily's QQ album

Figure 3
The "artistic photo" of Lily

use of her “once-in-a-life-time” artistic photographs to create her online image.


The postings of both JiaDa and Lily are not anecdotes. A systematic
visual analysis based on 7,500 visual posts (the last 20 visual posts of each
participant) among 377 migrant workers in GoodPath during fieldwork shows
that about 71% of young men (aged 25 and below) and 86% of young women
posted these “fantasy” photos depicting an ideal lifestyle rather than actual
life in offline situations (Wang, 2016: 77-78). The analogue photograph was
regarded as an object of memory, a technical facility to retain an image beyond
memory. The proliferation of social media images in the digital age has become
such a ubiquitous part of everyday communication that today “images used in
social media are so removed from everything previously called photography
that the semantic continuity may be misleading” (Miller, 2015). The kind of im-
age consumption found on social media among migrant workers casts further
light on the constituent relations between subject and object. As Miller suggests,
in mass consumption, objects are translated from an alienable to an inalien-
able condition as the “the vast morass of possible goods is replaced by the
specificity of the particular term” (Miller, 1987: 190) and “the object is trans-
formed by its intimate association with a particular individual or social group”
(Miller, 1987: 191). The images posted on rural migrants’ social media profiles,
as well as the specificity of social visibility online, serve to detach people from
their offline situation and construct a new subjectivity with self-respect online.
the digital dasein of chinese rural migrants

814


Desired sociality on social media
Traditionally, non-kinship ties are taken less seriously in Chinese society, and
people avoid introducing a social contact as a “friend” since this category fails
to provide any background information about the person (Smart, 1999). The
very concept of “friendship” as a form of social relationship only started to gain
importance during the processes of modernisation when people became free
of dependency on the land and started to encounter and co-operate with others
outside of kin ties and regional social networks (Bell & Coleman, 1999). This
research project started out with the assumption that social media would play
a key role in facilitating re-connection between kin. However, the ethnography
found that this was not the case for young migrant workers. In GoodPath many
young migrant workers left home to ‘become independent’ from the older gen-
eration, which made it possible for them to experience something new, fit into
and then take part in urban life. Breaking down the pre-existing structure of
social relationships was perceived as an essential part of growing up and be-
coming a modern citizen − to use the terminology of Victor Turner (1969) in
characterising rites of passage as the creation of an “anti-structure.”
Meanwhile, most generalised accounts of modern China stress the role
of schooling and education. Factory workers are a vast and significant exception
to these common claims about the close relationship between Chinese people
and educational aspirations. Most rural youth in GoodPath left their villages
and entered the factories between the age of 15 and their early 20s when most
of their urban peers were still attending school. What these young rural migrants
missed was not just formal education, but the chance to develop social skills
within the relatively secure environment provided by schools. In this context,
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 807 – 830 , sep. – dec., 2020

social media had become the place where these young people could meet peers
and practise friendship (Wang, 2016).
“Without discarding the old, there would be no coming of the new” − this
folk saying has been applied many times by people to justify their friending
principles on social media. Many felt that the people they left behind no long-
er shared their value system and thus they became less motivated to keep
contact with them on social media. Baozi, a 23-year-old apprentice cook at a
local restaurant, would regularly delete his social media contacts:

Some of those [the contacts he deleted] are my fellow villagers and relatives… I
guess we don’t share a common language anymore. Those who stay in villages
worry about different things… well, without discarding the old there would be
no coming of the new.

In post-socialist China, young people have developed “a self-conscious


enthusiasm for coherence in their search for a new cosmopolitan humanity,”
which “emerged out of the upheavals and excitement within the uncertainties
of social life” (Rofel, 2007: 197). This is a situation the older generation have
article | xinyuan wang

815

never encountered and thus have no experience to share. Yan, Y. (2003) also
observed how young people were gaining increasing control of their own lives
and had no problem going against the wishes of their parents and other senior
family members in the rural community. However, in GoodPath, the young ru-
ral migrants still felt the surveillance and pressure from the older generation
but tried to avoid it. Xiaozhi, a 19-year-old factory worker, had a few relatives
in GoodPath, all working at factories. Once over dinner, one of Xiaozhi’s aunt-
ies told her not to spend so much on shopping, recalling that when she was
her age, she had contributed money to the family. Xiaozhi blushed and left
without finishing her dinner. Before long, her QQ status was updated, saying
“QQ is the only unpolluted land left where old women all shut their mouth.”
Later Xiaozhi explained: “They know nothing but still point fingers, I had
enough… at least on QQ I don’t need to listen to their rubbish.” The fact that
Xiaozhi had no family member or relative on her QQ made the platform her
“only unpolluted land.”
In GoodPath, although people still tended to address one another as
“fellow villager”’ (lao xiang) or “fellow worker” (gong you), rather than “friend” in
offline situations, it seemed that the situation had changed on social media.
The capacity to make new friends online was regarded as convincing evidence
of one’s personal charm and modern taste. As 23-year-old Bingbing remarked:
“If you remain in a small village you will never know the importance of friend-
ship… people in cities all have many chances to meet new friends, and they
have many friends.” The majority of contacts on social media did not come
from kinship or regional ties, and even strangers played an important role. It
was not unusual to see people spending hours on QQ chatting with “online
friends” (wang you) with whom they had no offline connections at all. This re-
flects a more general acceptability of strangers as a result of experiences with
social media in contemporary China (McDonald, 2016).
A representative case was provided by a factory forklift truck driver, Feige,
who was highly active in various QQ groups. Even though Feige hardly knew the
real names of his online friends, he found chatting with them was most enjoy-
able and relaxing. He felt that people made friends with him not because of any
pragmatic concerns, such as asking for money, and among online friends he was
not judged as a rural migrant − “The friendship online is much purer,” Feige
remarked. Contrary to the widespread idea that relationships mediated by digi-
tal technology are not as authentic as offline relationships (Fröding & Peterson,
2012; Turkle, 2011), Feige’s case showed that online relationships may feel purer
and more authentic than the offline. The common view amongst migrant work-
ers was that the voluntarism of these online relationships that have not been
imposed on them by outside forces resulted in their greater authenticity.
The new online relationship also allows for a different kind of communi-
cation. Like many of his peers, Baozi’s connection with his family back in the
the digital dasein of chinese rural migrants

816

village was mainly via phone calls. In these phone calls, practical concerns such
as daily errands, wages, and job hunting predominated, whereas on Baozi’s QQ
profile, more than half of the articles he shared over the past year were inspiring
stories of successful men. From time to time, there were also articles about life
philosophy. It was also while on QQ chatting that Baozi told me most of his
personal stories. Baozi commented: “There is no point talking about feelings or
daydreams with your family. Family needs solid things… like money or a stable
job… Online you can talk about feelings or dreams… and you feel comfortable
talking about these things here [on QQ] and everybody on QQ does so…”
For Liping, Feige, Baozi and many others, social media is the place where
they are not excluded as “outsiders,” and the proper place to express themselves
alternatively. It is not only because the platform provides different possibilities
for communication, but also because it has become normative. The online space
is perceived as the place where such communication and self-expression are
justified since “everybody on QQ does so,” as Baozi observed. It has become a
practice in the sense given by Bourdieu, one dependent on the “economy of the
proper place” (de Certeau, 1984: 55). The sense of which action is possible and
appropriate depends on the specific place that an individual occupies (Bourdieu,
1975). It was challenging to make friends offline because of shortened schooling
and social discriminations, as well as the pragmatic use of interpersonal rela-
tions to survive in a floating life. These factors account for the use of social
media as an alternative “proper” place for young migrants to participate in the
new sociality, as well as to break away from the old social structure. Practising
friendships online has been integrated into the process of coming of age and
has become an important way for these young people to gain their new identity.
Migrant workers in this study had no decision of where to be born or
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 807 – 830 , sep. – dec., 2020

into what kind of situation − like every human being, they were “thrown” into
the world. But as Heidegger puts it, Dasein is not present-at-hand, but the pos-
sibility of various ways of being. Furthermore, as the theory of objectification
proposes, “as an intrinsic part of being, and in order to attempt an understand-
ing of the world, the subject continually externalizes outwards, producing forms
or attaching itself to the structures through which form may be created” (Mill-
er, 1987: 179-180). “A subject cannot be envisaged outside the process of its own
becoming” (Miller, 1987: 179). Here we have seen the ways in which young rural
migrants explore the possibilities of their own “becoming,” both in terms of
self-presentation and in terms of developing a desirable sociality on social
media. The next section brings a further focus on the lived experience of “being-
in-the-world” facilitated by social media.

Being-in-the-world: Social media as home


For Heidegger, the homeland (Heimat) is where human beings exist in a state
of “nearness to Being.” As such, he calls for a return to the homeland (Heidegger,
article | xinyuan wang

817

1977a: 241-242). By equating the emergence of Dasein with the homeland, this
Heideggerian ideology has influenced many traditional studies of migration
and diaspora, providing a philosophical underpinning of their work with dis-
placed people’s desire to return to their homeland and satisfy a longing for
home and the sense of belonging (Falzon, 2003; Safran, 1991).
Far from being this desired return, in GoodPath “homeland” seems to
evoke ambivalent and often negative feelings. Longing to become modern citizens,
young rural migrants are eager to be done with their rural background, which
is always associated with the homeland. “Post-Mao development has robbed the
countryside of its ability to serve as a locus for rural youth to construct a mean-
ingful identity” (Yan, H., 2003: 579) The countryside is constructed as a “wasteland
of ‘backwardness’ and ‘tradition’” (Yan, H, 2003: 586). On the other hand, what
everyone regards as their floating life constantly reminds them of the continued
importance of having a homeland. For most migrant workers, returning has
become a myth. First of all, they are very likely to lose their financial independ-
ence, or even the chance to make a living back in the villages, and, in any case,
people see themselves as no longer belonging to these rural communities. As
increasing numbers of the migrant population are born during the “floating” life,
more and more young people have no real-life connection to the villages. When
“home” refers to the place of origin, it is not automatically impregnated with the
usual sense of place of belonging where people “feel at home” (Siu, 2007).
Such mixed feelings about homeland were manifested in people’s social
media profiles. Even though interpersonal communication with home village
contacts was in many cases left out on QQ, visual elements of their homeland
gained popularity on people’s social media profiles. Around 15 per cent of rural
migrants’ QQ profiles had a specific online album called “homeland” (lao jia). For
example, Hua, a factory worker in her 30s, uploaded large numbers of photo-
graphs of the mountain behind her native village to her QQ album. She had been
floating for almost a decade and only visited her home village three times dur-
ing that period. Hua thought she would never move back to her home village, as
she explained: “My home village is a place you always miss, but not really a
place you want to return to.” “History is always ambiguous, always messy, and
people remember, and therefore construct the past in ways that reflect their
present need for meaning” (Ang, 1993). It seems that by posting the home village
images on QQ, all the negative memories and associations of village life had
been excised, leaving only the positive symbolic meaning of homeland. Once
again, then, we see how online spaces enable rural migrants to construct an
alternative site of homeland with which they feel they can relate more posi-
tively because they have created and crafted these albums, in contrast to the
physical homeland which they merely happen to have come from.
Further scrutiny of rural migrants’ social media profiles revealed diverse
forms of homeland-making. While most homeland postings contain photo-
the digital dasein of chinese rural migrants

818

graphs of physical villages, some carried no visual resemblance at all. Chun


Mei, a 25-year-old factory worker, shared a posting with the title “If you feel
tired, please go back to our village” on her WeChat (Figure 4). The posting reads:

“If one day we all feel tired, let’s go back to our village together, not to pursue
our aspirations, but merely for the transportation free of traffic jams and the
air free of pollution… dur ing the daytime we can work together in our little
vegetable garden, feed chickens and play with dogs, in the evening we can visit
old friends and neighbours…”

Rather than using a photo of the village, Chun Mei chose an “enjoying-
beach-holiday” image as the background picture.
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 807 – 830 , sep. – dec., 2020

Figure 4
The homeland posting on Chun Mel's WeChat profile
article | xinyuan wang

819

The home village Chun Mei depicted on social media, which she and her
husband had left nine years previously, is completely different. Recently the
couple had to move back to their home village to take care of their seriously ill
parents. Chun Mei’s husband complained at length about village life: “Had it
not been because of my parents…we would definitely not have gone back to
the rubbish countryside.” Given the tough situation that the young couple en-
countered in their home village, what Chun Mei posted becomes even more
puzzling.
The ethnography provides a plausible explanation. The program Where
are we going, Dad? – Chun Mei’s favourite live TV show – is about five celebrity
fathers and their children travelling to rural places. In one episode, a movie
star remarked: “even though it’s tough, I enjoy the pure and natural life here
[in the countryside].” Chun Mei demurred: “I really don’t understand why the
urbanites think the countryside is so good! Maybe they had too much sweetness,
and they’re looking for some bitterness…”
Chun Mei’s remark echoed another comment made by a young factory
worker. When I asked to take some photos of their place, the host, in his 40s,
appeared reluctant and urged his wife to sort out the room quickly. His sugges-
tion was disdained by his son, who exclaimed: “There is no need to make the
room look better… they all like these things. The more rural, the better!” The
17-year-old young son’s irony skewers this urban aesthetic which values the
authenticity of the rural. Such awareness emerged from their consumption of
popular content in the mass media and on social media, as well as their own
experience in urban areas. Picking on urban taste is regarded as essential to
becoming urban citizens (Fang, 2011). So, the repudiation of their place of ori-
gin is deflected by their need to incorporate bucolic ideals of the urban imagi-
nary re-cast as nostalgia. By setting themselves apart from the countryside and
appreciating it as the “other” place on social media, Chun Mei gave a future to
her rural past with the self-expectation of becoming urban. Social media is
thus the chrysalis within which homeland undergoes a metamorphosis from
dirty grub to fantasy butterfly.
David Morley (2000) argues that home in the digital age is a transitory
construct where new media not only articulate the “home” but also transgress
its boundaries. Vincent Descombes defines home as a virtual space: to be at
home is to be at ease with the rhetoric of the people with whom the person
shares a life (Auge, 1995: 108). “Homeland” and “home” are, in many cases, in-
terchangeable in daily conversation in GoodPath. Regardless of the differences
between “homeland” and “home” in various specific situations, in most cases
a longing for home or homeland begins when people feel “not at home.”
Lily, the factory girl who took artistic photos, lived with her sister in a
simple room that used to be a storage space for a small grocery shop. Without
proper ventilation and air conditioning, it was literally a sauna on hot summer
the digital dasein of chinese rural migrants

820

days. However, this did not prevent Lily from spending most of her leisure time
sitting on the edge of her bed, working on her QQ with eyes glued to the screen.
It seemed that the physical surroundings had no influence on her at all when
she immersed herself in the QQ world. The moment when she finally “returned”
to the offline world, Lily looked up and sighed: “Life outside the mobile phone
is unbearable.” Such an extreme statement only makes sense once we con-
sider the physical place in which Lily had no choice but to stay and the digital
space where she chose to live in. Here the feeling of being-in-the-world has
little to do with the physical place as Lily demonstrated how she and her fellow
rural migrants managed to create and sustain a sense of belonging and au-
tonomy online.
Human beings are never truly at home in the world, indeed: “Not-being-
at-home must be conceived existentially and ontologically as the more primor-
dial phenomenon” (Heidegger, 2000: 41). Nevertheless, the feeling of not-being-
at-home seemed likely to be overwhelming among this floating population. On
Chinese New Year 2014, Yue, a 21-year-old girl, posted on QQ:

Nowhere makes me feel at home. Nowhere! Well, QQ is probably the most home-
like place, where at least some friends wish me happy new year here… and one
of them even gave me a paid QQ decoration (QQ zhuang ban) 2 as a new year’s gift…
at least my home on QQ has a new look in the new year.

Yue was forced to get married when she was 17. She managed to run
away from her hometown when she was only 19, hoping that she could have a
different life, but she was wrong. There was nowhere, no geographical place, to
make Yue feel at home. Yet the digital dwelling on QQ, in a way, compensated
for this loss. The uncanny feeling of “not-being-at-home” always highlights the
inconvenient absence of home, and the desire return, and further contempla-
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 807 – 830 , sep. – dec., 2020

tion of home, is thus awakened. It was on QQ that Yue managed to express


herself, to wish life could have a new look. It was also on QQ that Yue felt she
might be able to receive care and friendly wishes from people, rather than, as
she remarked, being dumped and betrayed.
There is simply no reason to assume that the online is any less able to
be a home than the offline. Jackson (2000: 6) uses his ethnography of aboriginal
Australia to illustrate how the meaning of home cannot necessarily be sought
in the substantive and how people use “house” as a verb in as much as the term
refers to fleeting things. Based on fieldwork with herding families who traverse
the Mongolian-Russian borders, Rebecca Empson (2011) provides intimate in-
sights into the ways in which photographic montages and mirrors in domestic
spaces bring relations into being and articulate a notion of home for these
families who have no private land or state of their own. Both ethnographies
allude to Mary Douglas’s argument (1991) that home starts by bringing space
under control and home is not necessarily fixed in space. Yue had no control
over which family she was born into, and when she tried to run away, she lost
article | xinyuan wang

821

control of her offline life. Social media in her lived experience was the only
place where she could find some control: hence it was the place where she felt
most at home.
“Imagination,” writes Bachelard (2014: 43), “separates us from the past as
well as from reality: it faces the future.” In The Poetics of Space, he praises im-
agination’s power to realise the world’s potential. In Bachelard’s mind, “the
highest act of imagination is the will to attune oneself to the saying of being
itself” (Kearney, 2014: 17). Facilitated by the digital, imagination, stimulated by
aspirations, gives birth to the digital Dasein where human existence can feel at
home in the world. “In objectification, all we have is a process in time by which
the very act of creating form creates consciousness or capacity such as skill
and thereby transforms both form and the self-consciousness of that which
has consciousness, or the capacity of that which now has skill” (Miller, 2005:
9). What Heidegger probably missed is the creative imagination, which has been
further empowered by the affordance of social media in the process of objec-
tification, so that Dasein can re-inhabit a world created by itself. Heidegger
failed to pursue certain implications of his own arguments (Larsen & Johnson,
2012). “Dasein is its possibility” (Heidegger, 1962: 42): however, by prioritising
an idealised homeland as the place where Dasein can be near to its authentic-
ity, Heidegger overlooked its other possibilities. Responding to Heidegger’s claim
that the authenticity of dwelling is destroyed by the spread of technology and
mass production, Harvey forcefully accuses him of “a pervasive elitism”: “Some
people can claim the status of authenticity by virtue of their capacity to dwell
in real places… while the rest of us − the majority − live empty and soulless
lives in a ‘placeless’ world” (Harvey, 2009: 187). Chinese migrant workers may
well be categorised as a “placeless” or “floating” population given their offline
living situations, but there is simply no reason for us to overlook their digital
Dasein, which is as profound and authentic as any form of human existence.

Conclusion
It might seem surprising to equate Heidegger’s existential philosophy (1977b)
with the everyday practices of social media among Chinese rural migrants,
given Heidegger’s deep scepticism of technologies of communication. Clearly,
the circumstances investigated in this paper could not have been envisaged by
Heidegger. But it is still important to see just how challenging an ethnography
within the digital age can be to what has been regarded as an inspiring approach
to the very notion of human existence and the issue of place represented by a
phenomenological perspective. There is an obvious temptation to dismiss the
understanding and experiences of these factory workers because, in their cre-
ation of these worlds, they ignore those transformations of political economy
and history that led them to have these desires and aspirations in the first
place. Huge and powerful forces represented by rapid industrialization, the
the digital dasein of chinese rural migrants

822

Chinese party-state and the pressures of a new consumer economy have also
driven this rural migrant population into a desire for modernity characterised
by affluence and an urban lifestyle. But if we dismiss their creative interpreta-
tions and self-understandings, we would indeed have to be equally dismissive
of Heidegger’s claims regarding the rural German population that he took to be
icons of authenticity, since they too were the creations of historical transforma-
tions in the German peasantry and equally powerful economic, religious and
political forces. They no more chose to be who they were and their own values
than these young Chinese factory workers. Anthropology has retained the ca-
pacity to both insist that we recognize and give weight to the historical forces
that create habitus and treat as authentic the practices that we encounter eth-
nographically and people’s ability to create a new normativity.
Following the theory of objectification (Miller, 1987), what needs to be
studied are not things or people but processes – which means that we are not
studying the adoption of objects by subjects, because there is no fixed thing
called social media or fixed group called Chinese migrant workers. Rather, the
ethnography shows what the new generation of Chinese migrant workers has
become in light of their use of social media and what social media has become
in light of its use by Chinese migrant workers (also see Horst & Miller, 2006: 7).
From self-crafting to home-creating online, the use of social media among
Chinese rural migrants actually represents us with a parallel to the offline-to-
online migration taking place simultaneously to the massive rural-to-urban
migration (Wang, 2016). Chinese young rural migrants who do not feel at home
in their home villages or in the factories and cities, finally encounter a feeling
of being-at-home on social media. The home or homeland that was lost, or
simply never existed in the physical world, comes to life online. The labour
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 807 – 830 , sep. – dec., 2020

which produces humanity is not the factory work but the craftsmanship on
social media, which produces not only themselves but also the world within
which they dwell.
Today’s world is often characterized by words such as hyper-mobility,
time-space compression, globalization and the like. Across the world, fewer
and fewer people live their lives in the places where they were born. Perhaps
at no other time in history has the question of the relationship between iden-
tity and place seemed so urgent (Jackson, 2000: 1). The intention of this paper
has been to discuss what may well appear as something like the extreme use
of current social media by Chinese rural migrants. This population is radical to
the degree that they can be described as a “social media population.” Spurning
the sociality of both their place of origin and the factory floor, the only possi-
bilities given to them offline, they embrace the opportunities facilitated by
social media to the fullest. But I would argue that there are grounds for think-
ing that the kinds of situation I have been describing here will become more
common around the globe in the future.
article | xinyuan wang

823

“There is no a priori subject which acts or is acted upon. The subject is


inherently dynamic, reacting and developing according to the nature of its
projections and experience” (Miller, 1987: 179). Dasein is not a given, but some-
thing made; not a bounded entity, but a dynamic model of being-in-the-world,
which is defined by connections and relationships rather than physical location.
The site that holds the desired sociality and self is the key place for human
existence, and such a site need not be a geographic location. The actual geo-
graphical location in which all kinds of migrants are situated may come to
matter less and less – to some, like Chinese migrant workers, even reduced
largely to the functional facilities of working, eating and sleeping. However,
when it comes to their emotional geography, the place where they feel they are
actually dwelling at the time, it may not be their current physical location. More
generally in modern life, in the face of digital ubiquity, even for non-migrants,
online activities have become an integral part of more and more people’s daily
life all over the world (Miller et al., 2016). Rather than being a fantasy or the
other place, the spatiality of the digital has been absorbed into the fabric of
ordinary everyday life. “Most serious thought in our time struggles with the
feeling of homelessness,” as Susan Sontag (1986: 53) keenly observed. Although
the feeling of “placelessness” may manifest itself in a somewhat extreme form
in the case of floating populations, as a consequence of mobility it is a feeling
shared by migrants and non-migrants alike, especially in the age of migration
(Castles, Haas & Miller, 2013). The critical concerns that really matter are the
relationships, the site of connections, rather than the physical locations of the
participants.
As Miller (1987: 11) points out, “Perhaps the major shortcoming of many
theories of the concept of culture is that they identify culture with a set of
objects… rather than seeing it as an evaluation of the relationship through
which objects are constituted as social forms”. Instead of seeing the digital
infrastructure as “a set of objects” that provides affordance to human societies,
I argue that the ubiquitous digital has indeed become the place of daily life
where social relations are navigated, and social forms and norms emerge. For
anthropology, the possibilities of the digital as the dwelling place and of the
digital Dasein need to be taken seriously if we are to understand human exist-
ence and sociality in the digital age.

Received on 30/6/2020 | Revised on 09/11/2020 | Approved on 18/9/2020


the digital dasein of chinese rural migrants

824

NOTES
1 The names of the town and informants are all pseudo-
nyms.
2 The dig ital application on QQ allows user to apply spe-
cific a profile style, including head banner, background
picture and music, font, tailored layout, and so on. QQ
offers a range of free decorative elements, as well as paid
ones that people can purchase for themselves or other
users.
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 807 – 830 , sep. – dec., 2020

Xinyuan Wang is a post-doctoral research fellow at UCL


Department of Anthropology. She received her PhD in anthropology
from UCL in 2016. She is an artist in Chinese traditional painting
and calligraphy. She is the author of Social media in industrial China
and is the co-author of How the world changed social media. She
translated Horst and Miller’s Digital anthropology into Chinese and
contributed a piece in the Chinese version of the book Digital
anthropology by Beijing People's Press.
article | xinyuan wang

825

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O DASEIN DIGITAL DOS MIGRANTES


RURAIS CHINESES
Resumo Palavras-chave
Este artigo procura reconhecer as possibilidades radicais Dasein;
nos modos pelos quais a existência humana é percebida e objetificação;
construída na era digital. Uma etnografia de 15 meses, fo- mídias sociais,
calizando o uso das redes sociais entre os operários chine- antropologia digital;
ses, é empregada para abrir uma conversa com pensamen- migrantes rurais chineses;
tos filosóficos sobre a existência humana e pensamentos migração.
antropológicos sobre objetificação. Afinal, as mídias sociais
são mais do que uma forma de comunicação ou uma tec-
nologia que facilita a conexão entre diferentes locais. Ao
explorar as três camadas de experiência existencial dos
migrantes rurais chineses no contexto do uso onipresente
da mídia social, o artigo sugere que podemos começar a
considerar o grau em que a mídia digital é em si um lugar
em que as pessoas realmente vivem e se sentem em casa.
O reconhecimento de tal construção de lugar por meio do
digital nos permite repensar a relação entre a materialida-
de e as possibilidades digitais para a existência humana e
explorar mais o processo fundamental de objetivação pelas
lentes da antropologia digital.

THE DIGITAL DASEIN OF CHINESE RURAL MIGRANTS


Abstract Keywords
This paper sets out to acknowledge the radical possibilities Dasein;
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 807 – 830 , sep. – dec., 2020

in the way in which human existence is perceived and con- objectification;


structed in the digital age. A 15-month ethnography, focused social media,
on the use of social media among Chinese factory workers, digital anthropology;
is employed to create a conversation with philosophical Chinese rural migrants;
thoughts on human existence and anthropological thoughts migration.
on objectification. Social media is more than a form of com-
munication, or a technology, that facilitates the connection
between different locations. By exploring the three layers of
existential experience of Chinese rural migrants in the con-
text of ubiquitous social media use, this paper suggests that
we might start to consider the degree to which digital media
is itself a place in which people actually live and feel at
home. The acknowledgement of such place-making via the
digital allows us to re-think the relationship between the
materiality and digital possibilities for human existence and
further explore the fundamental process of objectification
through the lens of digital anthropology.
http://dx.doi.org /10.1590 /2238-38752020v1033

1 Universidade Federal Fluminense (UFF), Programa de Pós-Graduação


em Comunicação, Niterói, RJ, Brasil
barros.carla@uol.com.br
https://orcid.org/0000-0003-4037-1060

Carla Barros I

Not even the sky is the limit: the meanings


of consumption and the dynamics of
social mobility on the @blogueiradebaixarenda
profile on Instagram and YouTube

Conventional economic thinking in relation to poverty is situated within a


wider field of representations that associates “resource scarcity” with “subsist-
ence economies.” In this view, poor and indigenous people live in an eternal
“fight for survival” in hostile environments governed by “material shortage.” An
automatic association is made in this explanatory model between “basic needs,”
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 831 – 859 , sep. – dec., 2020

“privations,” “scarcity” and “the fight for survival.” If the primordial character-
istic of consumption is choice, then the presupposition is that economically
less-favoured classes do not practice the act of choosing, being guided instead
by a logic of lack and material shortage. Sahlins (1979) developed a powerful
critique of utilitarianism, understood as the idea that individuals follow their
own best interests through a logic of maximizing means-end relations, and that
all human cultures are thus formed through practical activity and utilitarian
interest. He rejects the notion that human cultures are formulated through
practical activity, calling attention instead to how the cultural order is consti-
tuted within the field of meaning.
The historical disinterest in the consumption of popular classes in the
social sciences is partly due to the prevalence of this logic of “lack” and the
“fight for survival,” which in practice removes the structuring symbolic and
cultural dimension from the phenomenon. As Barbosa (2004: 62) observes, the
study of consumption in Brazil appeared much more within a vision of “losses
and absences” than one of “gains and positive changes”.
not even the sky is the limit

832

Indifference to the topic gradually dissipated. A pioneering landmark


was the publication in 1985 of the book Magia e capitalismo (Magic and capital-
ism) by Everardo Rocha. In this work, the author analyses consumption as an
ideal means to understand social relations in the contemporary world, present-
ing an analogy between the rationale of advertising and totemic logic. From
the second half of the 2000s, ethnographic studies aligned with the field of the
anthropology of consumption began to emerge, expanding the field of research.
A common characteristic of these works has been to extricate consumption
from its position of mere subordination to the sphere of production, posing it
as a crucial element of symbolic and social reproduction. A complex phenom-
enon, a producer of meanings, communicator of alterities, localizations in so-
ciety, and a mediator of relations with other spheres of the social.
One tendency in these studies on consumption among low-income groups
has been to observe the phenomenon as an expression of distinction and emula-
tion, supported primarily by the contributions of Bourdieu (1979a) and Veblen
(1970), respectively. Although these are important analytic frameworks to be
mobilized, this field of investigations needed to be expanded through research
into specific situations that reveal other dimensions of such a nuanced theme.
Some of these studies have emphasized the act of consuming as a desire for
belonging, as Silva (2010) points out in her ethnography showing how mobile
phone use expresses a mode of access to wider society, a “being-in-modernity.”
Other works have demonstrated that a poverty of resources is not synonymous
with material scarcity (Barros, 2007; Scalco & Pinheiro-Machado, 2010; Castro,
2016). On the contrary, the materiality of the groups studied provided an enor-
mously rich source of cultural meanings, their budgets allocated to a diverse
range of consumer items very distant from the narrow logic of “subsistence
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 831 – 859 , sep. – dec., 2020

items.” Among middle- and upper-class sectors of Brazil, in parallel with aca-
demic studies, there has been a moral condemnation of the profusion of “out-of-
place” objects among the popular classes, shown in the purchase of expensive
mobiles and smart TVs. An expansion of material culture apparently inconsistent
with the economic circumstance of scarce resources.
Thus, learning about the behaviour of specific social groups is a privi-
leged form of mapping modern-contemporary culture. This involves compre-
hending consumption as a creator and maintainer of social bonds, a classifier
of identities, a means of expressing subjectivities, a mediator of society’s fun-
damental values, seeing the phenomenon, in sum, as an articulator of systems
of categories with an expressive and symbolic function.
It is in this context that the interest emerges in analysing the @blogue-
iradebaixarenda (@lowincomeblogger) profile as a marker of important ques-
tions relating to the consumption of low-income groups. Very popular in Brazil
on social media sites like YouTube, Twitter and Instagram, the profile sets out
to publicize the “low-income lifestyle,” a theme in which consumption occupies
a prominent place.
article | carla barros

833

Since the research was undertaken in digital environments, it is worth


recalling the position of Miller and Slater (2004) concerning the inadequacy of
any a priori distinction between online and offline life. The authors, who stud-
ied the relations lived in cybercafés in Trinidad, pointed out that this distinction
should not be established as neither a methodological or an analytic starting
point for research: on the contrary, it is contingent, since in some contexts
people establish clear boundaries in their lives for each of these spheres, while
for others the distinction is irrelevant or simply never made.
The research forms part of the field of anthropological studies that ad-
vocates exploring consumer activities as important everyday phenomena of
cultural creation (Miller, 1987). In the discussion on material culture more spe-
cifically, Daniel Miller took inspiration from Hegel’s reflections to suggest that
material culture is a specific mode of externalization of industrial society. Goods
produced on a large scale and in huge variety are reappropriated at the level
of consumption when they lose the anonymity present in the domain of pro-
duction to be humanized, completing the trajectory from merchandise to pri-
vately-owned item. The author seeks to unravel the meanings and implications
of this proliferation of material goods making up industrial society by identify-
ing the specificity of its “progress” through the continual emergence of exte-
rior forms in the form of goods. Through the process he calls “objectification,”
person and object become connected after consumption as subjects reveal their
choices, worldview and aesthetic sense through their uses of the objects.
As Kopytoff (2008) emphasizes, the object-person separation is highly
particular and limited in scope, although lived in western society as though it
were a universal phenomenon. Objects, in their relations, always constitute
classificatory systems in which we situate and hierarchize them.
The article thus sets out to comprehend the meanings of consumption
in the @blogueiradebaixarenda profile on the online social networks Instagram
and YouTube, considering the perceptions concerning materiality and their ar-
ticulations with the dynamics of social mobility in an extremely hierarchized
society like Brazil’s. Its aim is to analyse which elements make up the “low-
income lifestyle” (lifestyle baixa-renda) as a native category within the context
of “digital influencers.” The research was developed through the analysis of the
posts 1 made by the @blogueiradebaixarenda profile on the Instagram and You-
Tube social networks from the beginning of the author’s online presence to
February 2020. Hashtags (#) were also included since they comprise native clas-
sifications. As well as constituting a way of grouping messages that allow
searches for specific content on social media, these symbols are of direct inter-
est here since they are created and tagged by the users themselves, allowing
the classificatory logics of the actors to become apparent. Hashtags can also
express feelings, ideas or humoristic contents when the intention is not only
to help users find topics.
not even the sky is the limit

834

The field procedure adopted was online observation, a particular modal-


ity of observational research (Flick, 2004) conducted in the digital environment,
accompanying social dynamics on the online platforms without interacting
with users. Selected images have been included in the text without the need
to camouflage people’s faces since the @blogueiradebaixarenda on Instagram
is a public, not private, account. Hereafter, Blogueira de Baixa Renda (Low-In-
come Blogger) will be abbreviated to BBR.

The low-income lifestyle


The BBR profile present on digital platforms was created by Nathaly Dias, 27
years old, a resident of the Morro do Banco community in the East Zone of Rio
de Janeiro city. In her posts, she recounts her upbringing in a family with severe
economic difficulties until her enrolment on a university course where she
studies Business Administration with a full scholarship.
Nathaly is active as a content creator on the social media platforms 2
Instagram (124,000 followers in February 2020) and YouTube (160,000 subscrib-
ers in February 2020) with the proposal to divulge, in her own words, the “life-
style of the poor” and raise the awareness of baixa-rendinhas – “low-incomers,”
the nickname given to her followers – that belonging to a particular social class
is not an impediment to social mobility.
In her profile presentation on Instagram, Nathaly declares that she is “(re)
signifying influence.” In an interview, she explains how she perceived that the
universe of so-called digital influencers 3 was formed largely by women who di-
vulge luxurious lifestyles with a level of consumption very distant from the
everyday world of most of the population. From this perception emerged the idea
of exploring “low-income lifestyle,” (re)signifying influence by adopting a more
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 831 – 859 , sep. – dec., 2020

realistic tone matching the experience of the popular classes in Brazil. 4


One of the main theoretical references for the concept of “lifestyle” is
Bourdieu (1979a), who suggested that different classes exhibit different life-
styles according to the place occupied in the social hierarchy. ‘Taste,’ as a pro-
pensity to appropriate certain objects and practices, appears in a set of distinc-
tive preferences expressed in elements like furniture, clothing and bodily
hexis, among others. The emphasis in this article is on the idea of lifestyle as
a native category, seeking to analyse its constitutive elements and meanings
present in the context of the BBR profile.
It is worth emphasizing that the polarity between low-income and high-
income lifestyles appearing in the case analysed here can be inserted in a
debate on imitation and distinction developed by various authors from the
social sciences like Veblen, Simmel, Bourdieu and McCracken. In this context,
the “trickle-down” theory stands out, discussed by Veblen (1965) and Simmel
(1957) and carefully revised by McCracken (1988). According to this theory, the
entry point for a fashion object should be the society’s highest class: from there,
article | carla barros

835

the other classes would successively copy what they saw above within a logic
of imitation on the part of subordinates and differentiation on the part of the
elite, leading to a constant renewal of the fashion circuit. As McCracken (1988)
argues, the behaviour of the groups at the base of the pyramid cannot be reduced
to just a single possibility as trickle-down theory suggests. Alongside the imi-
tation and assimilation of what is created by the elites, the popular classes
also reject many of these tendencies or reformulate them according to their
own codes. In the present article, I eschew the idea of trickle-down because of
the element of generalization present, which presupposes a passive behaviour
among subordinate classes. In this context, alterity presents various layers in
which the affirmation of the singularity of class coexists with the desire for
practices of consumption related to a more individualist set of ideas (Dumont,
1972), as we shall see later.
Nathaly Dias’s activities as a content creator on the internet began with
the creation of the @blogueiradebaixarenda profile on Instagram on October 3,
2017. The choice of this social network to begin her career as a blogger had a
declared motive. Instagram is known for the significant presence of images of
luxury and ostentation in numerous profiles, especially those of digital influ-
encers who divulge lifestyles connected to high patterns of consumption. Sim-
ilarly, this appropriation connects to a practice found on the pinboards of Pin-
terest, another online social network where the visualization of goods and
settings is stimulated by “daydream” mechanisms as a mode of “contemplative
digital materialism” (Barros, 2015). As a theoretical concept formulated by Col-
in Campbell (2001: 128), the daydream is characterized by the use of the im-
agination for pleasure through the search to anticipate a real event. The author
calls this process “self-illusory hedonism”, wherein the individual is the artist
of the imagination and dreams, taking images and rearranging them into unique
products. This is identified as a legitimate modern faculty – the creation of an
illusion known to be false but felt to be true. In this “hedonism in another world,”
different from traditional hedonism, the unknown is a field open to innumer-
able and unlimited possibilities. Desire here is allocated in the unknown, itself
a pleasurable activity. Faced with an elitized universe of consumption, the BBR
profile is explicitly opposed, offering a self-described “feet on the ground” ap-
proach that seeks to inject doses of “reality” in each post. “Dreaming” is also a
constant theme but based on the deglamourized day-to-day life of the blogger:
“I fight every day for an internet I always wanted to see, REAL.”
Baixa-renda, low-income, is an adjective used on the profile to encompass
a universe of situations, forms of consumption, modes of being, sociabilities and
moralities. How to travel without spending much, how to paint the walls at home,
how to make purchases in a controlled fashion, how to stop procrastinating, how
to cook low-income meals: these are some of the themes of the posts whose
hashtags frequently include the adjective: #casalbaixarenda (#lowincomecouple),
not even the sky is the limit

836

#faxinabaixarenda (lowincomecleaning), and many others. BBR’s husband and


mother also gravitate around the same designation, their profiles on Instagram
named @maridobaixarenda (@lowincomehusband) and @maedablogueira (@blog-
germother). Her husband, Guilherme ‘Stu,’ participates constantly in the activi-
ties involving the BBR profile – he records the videos, interacts verbally during
the recordings, and features in many of the images published online.
Following the success on Instagram, BBR set up a YouTube channel and
began to attract the attention of the business market, becoming recognized as
an influencer of the “class C public.” This classification of a target public was
how the market labelled consumers, emerging from the poorest strata, who
experienced economic upward mobility during the Lula governments. With the
improvement in living conditions, marketing professionals identified this sec-
tor as a prime target for their campaigns, undertaking market research and
creating new forms of persuasive advertising (Moura, 2015). In this scenario,
Nathaly Dias appears as an important “digital influencer” close to the popular
classes, eventually contacted for a variety of marketing projects with companies
like SERASA Experian, Gol, Superdigital MEI, Editora Intrínseca and the Unic-
esumar faculty where she studies. The advertising posts – also called publi (from
the Portuguese publicidade) and indicated on her profile with the hashtags
#publi and #publibaixarenda – possess a strong element of financial education
and professional growth within a context of encouraging social mobility.
One of these partnerships, formed with the company Superdigital MEI,
illustrates how BBR poses herself as an example for anyone seeking upward
social mobility through work. The company sponsored a mini-series 5 on favela
entrepreneurs to advertise its banking business to people wanting to profes-
sionalize in which BBR appears selling bolos em pote (pot cakes).
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 831 – 859 , sep. – dec., 2020

The contents published on her profile have a strong motivational aspect,


seeking to “inspire,” as in the posts: “I came from the bottom of the well, so low
there was no further to go, and yet I managed to climb up, I’m raising myself
up again, building something beautiful. Lots of things that will help and encour-
age you,” “Woke up for what? Woke up to win!” or “Let’s wake up every day to
win and bash the sadness away, after all we wake up every day to fight.” The
response from her followers is typically enthusiastic, ranging from praise
“you’re beautiful, you’re the best…” and “best blogger!” – to thanks for the mo-
tivating messages. Also observable is the legitimization of her proposal to pub-
licize and represent low-income sectors, as in the post: “this Instagram is mar-
vellous, I’m feeling represented ❤”
The Morro do Banco community where BBR lives is visible in numerous
posts, as in the YouTube video Tour of the favela | Morro do Banco.6 In this way, the
“effect” of the social conditions, circumstances and constraints on individuals is
underlined. The emphasis on the physical, social and human “geography” of the
favela as a place of origin expresses a feeling of belonging to a reality perceived
article | carla barros

837

as highly active in the creation of aspects like behaviours, sociability, life condi-
tions and sensorialities. In the latter field, one element that is frequently em-
phasized is the high volume of noise present in the community, whether the
loud voices of neighbours or the sound of a passing motorbike. The comments
in response to these posts tend to confirm a particular conditioning of life in
the community: “that’s what it’s like among the low-income,” Nathaly remarks
in one video, as though apologizing too for something perceived as undesirable.
The embarrassment shown with the emphasis on the faltas (lacks, wants,
deprivations) that make life in the favela precarious closely reflects the con-
struction of these communities as problematic places from their first emergence
in Rio de Janeiro at the end of the nineteenth century (Valladares, 2005). Since
then, serious social problems have been associated with these urban spaces,
depicted as hotspots of extreme poverty, filth and insalubrity, an example of
the country’s housing crisis and the genesis of social violence (Machado da
Silva, 2002). The precarious living conditions in her local community and the
strategies available to confronting and find a solution to this adversity are,
therefore, themes widely present in BBR’s profile.
But although the “problem favela” appears in some of her content, this
is not the overall tone of the posts. Superimposed is the perception of a space
of morality in which conditions can shape noble values like perseverance and
persistence. There is a valorisation of community residents, emphasizing their
adaptability to scarce resources (“poor people get by”), their creativity and pro-
file as “warriors” in the “battle” of everyday life, a feeling that can be expressed
in the idea of superação, “overcoming.” In this emphasis, there is no feeling
ashamed of the favela – no social construction of the locality as a “problem
place” – but instead pride over a sense of belonging, expressed, for instance, in
the slogan on the t-shirt that appears in one photo published on Instagram,
taken in front of the window with the community in the background: respeita
minha história, respect my history.
In this context of valorising the favela’s residents, BBR poses herself as
an example to inspire others, emphasizing her trajectory from a childhood of
poverty, the daughter of a housemaid who raised her two children alone, to her
present life as a university student and digital influencer. The emphasis is on
effort, tenacity, formal education and honest work to achieve a new social place.
The phenomenon of consumption occupies a prominent place in BBR’s
social media publications. The low-income lifestyle, in her proposal to show
popular class “life as it is,” is represented in posts like “poor people’s break-
fast,” “going to the market with 30 reais” or “monthly shop at the Guanabara
Anniversary.” 7
Among the various themes published in this context, cleaning is fre-
quently present, appearing though some cleaning activity being undertaken or
the display of recommended products, as in:
not even the sky is the limit

838

I love this product. It’s for general use but I throw bleach on everything, rinse
and wipe with this just to leave a nice smell. And aaaaaaaaaaah how I love the
smell, tomorrow my bathroom will still be like it’s just been cleaned.

REALOVE

🚽🚿🛀 # myhome # t idyhouse # cleanhouse # cleanbathtoom # myapt # poorbut-


clean #housewife

Source
<https://www.instagram.com/p/Bic0XSWFOXk/?utm_source=ig_web_copy_link>

Discussing the practice of washing clothes in Brazil, Barbosa (2006) has


shown how notions of disgust and pollution underlie the classificatory system
operating in the country. As Douglas (1976) proposed, cleanness is found at the
core of the symbolic reproduction of order. The Brazilian system, as Barbosa
points out, presents such complexity that it presupposes a total and radical
separation between different categories of clothes, distinguishing those of the
body from those of the home, based on the principle of pollution. The central
logic of this system is to prevent clothes that have had contact with certain
types of persons and things, taken to be distinct in nature, from mixing with
others, revealing how notions of pure and impure are articulated with an im-
portant moral code.
In the case of low-income groups, the negative connotation of poverty
may be compensated by many forms of care with cleanness, expressed in the
popular saying “I’m poor but clean.” Duarte (1986) had already called attention
to this compensatory dynamic also operative in the dimension of work with
the maxim “I’m poor but hardworking.”
Thus, the emphasis on cleanness can be experienced as a way of dealing
with the stigmatization of poverty as a polluting element (Douglas, 1976), work-
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 831 – 859 , sep. – dec., 2020

ing to loosen class segregations. In the BBR profile appear both the hashtag
#poorbutclean, and the variation #oldbutclean. In one of the Instagram posts,
this latter expression appears alongside a photo showing a clean oven with
comments expressing playful regret, since it was soon due to be dirtied again
by her mother who would be using it “on loan.”
Observing the set of hashtags, a profusion exists around the themes of
cleaning and household work, like: #cleanoven  #cleankitchen  #tidy-
house  #springclean  #housewife  #myapt  #myhome  #cleaning  #decor  #mar-
riedlife #homeblogger #eletrolux #homeneighbours
Identification with the cleaning theme led to the first commercial part-
nership of the BBR profile with the company Limpano, which sent her a basket
of their line of products:
article | carla barros

839

Figure 1
<https://www.instagram.com/p/Bk-y0yNlsaf/?utm_source =ig _web_copy_link>

Cleaning, as well as appearing as an element that serves in the construction of


a positive identity in the context of poverty, also emerges in another context
where the ‘basic’ encounters a lifestyle, as in the following post:

💥 W h e n y o u r c o l o u r p a l e t t e m at c h e s t h e s u p e r m a r k e t of f e r 💥
This is my blogger way of being… I can’t see washing powder without wanting
some.

#blogger #organisedhome #cleanhome #myapt #myhome #supermarket house-
wife #scrubbing #cleaning #cleanclothes #lookoftheday
not even the sky is the limit

840
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 831 – 859 , sep. – dec., 2020

Figure 2
<https://www.instagram.com/p/BlTLkPvl88n/?utm_source =ig_web_copy_link>

The hashtags #scrubbing and #cleanhome are found side-by-side with


#lookoftheday, highlighting the aesthetic and performative aspect of the dis-
semination of lifestyles in the online environment, enchanting the most ba-
nal tasks of ever yday life. Similarly, the packed lunch – the stigmatized
symbol of belonging to the popular classes – appears in a decorated frame in
another post where the combination of a ‘basic’ item and an aesthetic frame
is stressed.
article | carla barros

841

Thus, the negative connotation of poverty is compensated by the low-


income lifestyle, which softens this condition by passing to another plane on
which the idea of lifestyle relates to an act of choice (Slater, 2002), as well as
something that can be observed, admired and emulated.
In another post, BBR seems to be smiling as she cleans the bathroom,
wearing shorts and a bikini top, accompanied by the hashtags #my-
home,   #myapt,  #cleaning,  #lookoftheday and #housewife and the phrases:
“Real look of the day: CLEANING. That’s what accessible bloggers do SMILING
EMOJI.” The hashtag #lookoftheday, common on the profiles of a wealthy uni-
verse, is inserted in the context of the “feet on the ground” reality of the baixa-
renda (low-incomers). Her followers react by endorsing her place as a blogger
disseminating a particular lifestyle and trends, as in the humorous comment:
“Bikini-clad cleaning… I’ve discovered a trend! That’s what bloggers do! Haha-
haha 👏👏👏👏.”
As well as cleaning, other regular themes in the publications are meals, 8
products recently bought for the home, along with kitchen utensils and decora-
tions, items and goods photographed in stores as desired objects of future
consumption, and spaces in the apartment. In one of the posts, 9 the “real life”
dimension merges with the “daydream” (Campbell, 2001). Under the heading
“TABLE I’D LIKE TO HAVE VERSUS TABLE I’LL BE ABLE TO BUY,” the publication
displays two photos, one the table that BBR says she has the funds to buy, the
other the product she wants. As well as cataloguing the purchased or donated
items found in her home, the profile also registers the desired objects of con-
sumption, when the dream component mixes with the recorded materiality.
The purchased or desired objects are combined with dreamt or still im-
materialized goods like the “imaginary sofa”:

Testing my imaginary sofa

I haven’t a clue when I’ll manage to buy one, right, but I’m determined and even
if it isn’t a priority, I’ve already constructed everything in my mind. Have I ever
told you that I’ve never had a sofa? In fact, I’ve never had a LIVING ROOM! That’s
why I’m so eager to have one. ❤

‘Wish’ items that I want and will get in 2019:

📍Sofa
📍Table
📍Bed frame and headrest
📍Kitchen cabinet

And who knows, maybe a television for my living room? DREAMING IS GREAT,
I’M ADDICTED 💭

Note: I bookmarked Magalu [online store], maybe it’ll happen! HAHAHAHAHA


not even the sky is the limit

842

Figure 3: “https://www.instagram.com/p/Bocr7CLBLg7/?utm_source=ig_
web_copy_link”

Figure 3
<https://www.instagram.com/p/BmbxvizhNW1/?utm_source=ig_web_copy_link>
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 831 – 859 , sep. – dec., 2020
article | carla barros

843

When items from her home are shown in the posts, whether public or
not, they are accompanied by information on the retailer and price, indicating
a good buy:

Figure 4
<https://www.instagram.com/p/BmbxvizhNW1/?utm_source =ig _web_copy_link>
not even the sky is the limit

844

Comments from her followers on this type of post are typically enthu-
siastic about the accessible price and/or beauty of the item, as well as its choice
as an object of desire: “One more thing saved, one more shop that will end up
with my money at the end of the month… that’s not gonna work! @blogueirade-
baixarenda  😂💙”
In the lifestyle propagated by BBR, evinced in the shrewdness of know-
ing how to spend money well, which does not mean just buying the cheapest
item, but also knowing something “is worth it” or “cheap end up expensive.” As
commented earlier, an important element of this idea of “lifestyle” is its aes-
thetic aspect, combined with the question of good value. This is perceptible in
the declaration: “Wow, I’m impressed by how you can have a well-decorated
home spending little.”
The content follows the tone of other profiles propagating lifestyles
through the use of terms like “outfit” and “look,” only in a “real” and “accessible”
context, words frequently used by BBR, as in the hashtag #accessiblebloggerlook.
Alongside the elements of material culture, the low-income lifestyle en-
compasses sociabilities, modes of feeling, moral values, attitudes and stances
towards events. In the case of BBR, the presentation of her impressions is per-
vaded by a light-hearted humour in response to difficult events. Everyday situ-
ations are depicted with an ironic outlook that alleviates the scene:

I took advantage of the fact my cupboard door fell off (SEE THE STORYLINE) 🆘
to clean my shelves.

The bottom shelf is where I keep my HUGE PILE of plates. 2 large, 2 deep and 2
for dessert, there’s no space for more, it’s all there is, and it meets the basics.
THE ONLY THING IS, NO MORE THAN TWO PEOPLE AT A TIME HAHAHAHAHA

Source
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 831 – 859 , sep. – dec., 2020

<https://www.instagram.com/p/BmWul0lBP5B/?utm_source=ig_web_copy_link>

The hashtags are also a vehicle for this good-humoured tone, as appears
in a post showing BRB on a work trip, stepping out of a hotel swimming pool:
#hotel  #trip  #sp  #rj  #lowincomeblogger  #dontknowhowtoswim  #mermaid-
ing #diva #accessible.

Source
<https://www.instagram.com/p/BqYNUe-hE0Z/?utm_source=ig_web_copy_link>

The strong solidarity among peers also forms part of this conception of
the low-income lifestyle, exemplified in the fitting out of the new apartment,
all done with items donated by friends and family. In turn, this way of dealing
with events is expressed in the values of persistence and hard work. The act of
“fighting” emerges as a response to everyday challenges, which to be met require
a determined and positive approach: “Let’s wake up everyday to win and bash
away sadness, after all we wake up everyday to fight.”
article | carla barros

845

Social mobility
As we have seen, the BBR profile initially emphasized her “poor condition,”
which has a social and physical “place” – the favela – idiosyncrasies, behaviours,
a profile: in sum, particularities to be recognized. On another level, though, a
call is made to leave behind the fatalism of poverty in favour of the fight for
social mobility, as evident in the expression “not even the sky is the limit,” found
in the presentation to her YouTube channel.
As well as an identity and a lifestyle, low-income is also a state that
should and can be altered, as in the following post:

You use the bankcard liked credit, but the money leaves the account immediately
like debit. That way, it becomes easier to control your money. Because we’re low-
-income but want to be high-income, right? 💛

Source 10
<https://www.instagram.com/p/BrTarBABoJk /?utm_source =ig _web_copy_link>

Making an appeal through the maxim “occupy all the spaces,” BBR en-
courages her public to challenge the historical barriers to mobility in the coun-
try and make themselves present in situations once unattainable to the poor,
like travelling by plane, studying for a degree or learning foreign languages.
One of the recurrent themes in the posts is financial education, seen as
an essential element to achieve balanced expenditure and the desired eco-
nomic upward mobility. Many posts contain practical advice on how to avoid
becoming hostage to consumer impulses, avoid getting into debt and beginning
to exert some effective control over spending. This also appears in hashtags
like #YourAccountYourRules. Advice includes writing down revenues and ex-
penses in a notebook, getting an extra job, avoiding borrowing from loan sharks,
taking a packed lunch to work, saving on electricity, drinking at home, and
taking cold showers to reduce energy costs. The advice looks to fill a gap in the
experience of her public: “We low-incomers were not financially educated. We’re
not used to talking about money, but we have to talk about the topic all the
time. My mother is always out of control, she can’t look at a card without using
it, but that’s how she was brought up, and after living like that for 40 years, it’s
difficult to change.” 10
Managing expenses is identified as a central aspect of the social mobil-
ity project, as shown in the post below:

[If you earn R $ 1,000 and spend R $ 999, you’re richer than someone who earns
R $ 10,000 and spends R $ 10,001]

Financial education is the basis for LOW-INCOMERS to prosper.We’re going to


win for real! Educate yourself 💚”
not even the sky is the limit

846

Figure 5
<https://www.instagram.com/p/B0N34skg3m6/?utm_source=ig_web_copy_link>

Financial education is articulated with the idea of overall administration


of the everyday, including an appeal to rationality and self-control. To make
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 831 – 859 , sep. – dec., 2020

this life project a reality, some tools, like a weekly planner, are presented to
help plan and organize day-to-day activities.
Her commercial partnerships emphasize the same ethos of saving mon-
ey and controlling finances. In partnership with the company Superdigitalapp,
BBR produced a publipost advertising a physical pre-paid bankcard. Using this,
clients spend only what is in their account, avoiding consumer impulses in-
compatible with their budget:

Superdigital prepaid bankcard. You only spend what you have in your account
and don’t end up in the red. LOVE IT! @ superdigitalapp take me travelling again?

AND MAY 2019 COME WITH NO DEBTS AND MANY TRIPS LIKE THIS ONE 💛

#YourAccountYourRules #publi #lowincomeblogger #blogger #25march #pur-
chases

Source
<https://www.instagram.com/p/Bq8KmTqByMY/?utm_source =ig _web_copy_
link>
article | carla barros

847

An example of these guidelines for a balanced financial life is one of the


videos with the highest number of views on her YouTube channel. In the clip,
BBR teaches viewers how to teach make “smarter purchases” in the supermar-
ket through a strategy she calls the “restocking method.” This involves only
buying products when they are running out, purchasing items every fortnight
rather than monthly, for example.
Miller (2002) and Goidanich (2012), in their ethnographic studies of su-
permarket purchases among middle-class housewives in London and Flori-
anópolis, respectively, show how “spending” is, in fact, conceived as an act of
“saving.” Goidanich (2012) recounts that consumers use the adjectives “con-
scious,” “demanding,” “moderate,” “controlled” and “selective” in their self-
definition as buyers. Miller’s study shows how the act of buying, as well as
revealing aspects of relationships, results in an expressive gesture of saving
money. Saving strategies are related to moralities and the individual’s wider
identity, including class and reputation among other aspects (Miller, 2002: 22).
In addition, saving does not necessarily imply buying cheaper items since an
equation commonly present involves balancing low price and perceived qual-
ity. Miller calls attention to an important point: namely, that the desire to save
needs to be examined in context, related, perhaps, in the London situation to
aspects like modesty and aversion to excess.
In the Brazilian case, “spending” also results in “saving” as in British
parsimony, but as a result of a major effort to control what are perceived as
almost irresistible impulses to consume. At a primary level, “smart” purchases
evoke a call for rationality in spending, acquiring products at a “good price” and,
where possible, quality items. Going to the supermarket also functions as a
sign of upward social mobility, such as when Nathaly remarks that she feels
elated to be able to “buy a Danone, some cheese…,” foods to which she had no
access as a child.
The consumer education transmitted by BBR also includes a presentation
of rules, etiquettes and conducts necessary to circulate in the new spaces
opened up by social mobility. It is embarrassing not to know the rules to live
new social situations, especially in a hierarchized society adverse to struc-
tural changes, built on the idea that “everyone has their place” (DaMatta, 1981).

L O W- I N C O M E R S A R E G O I N G T O T R AV E L A B R O A D ! 🌍
I DON’T KNOW WHEN BUT THEY WILL! BUT HOPEFULLY SOON , OKAY UNIVER-
SE? BECAUSE I’M EAGER TO GO, THANKS! 💙

T H AT ’S I T, W E LOW-I NCOM ER S A R E T H E M A JOR I T Y, W H Y A R E N’ T W E OC-


CUPYING ALL THE SPACES? LET’S OCCUPY!

Source
<https://www.instagram.com/p/BxA7EXwBArX/?utm_source=ig_web_copy_link>
not even the sky is the limit

848

In one of her YouTube videos, called “In the hotel in SP and a few more
little purchases,” BBR conducts a tour of the hotel room where she is staying
in São Paulo during a work trip. She begins by advising viewers that the com-
pany paid for her and that she does not know how to “be chic.” Next, she shows
details of the hotel room, paying special attention to things seen for the first
time, like the air conditioning unit embedded in the wall high up and the move-
able TV screen. It amounts, then, to an apprenticeship in consumption for eco-
nomically emergent groups, presenting the new places to be occupied with
their specific rules and etiquettes.
From this perspective, social mobility should be actively pursued, es-
chewing a passive and fatalistic approach, as appears in the presentation on
her YouTube profile: “How to win in a world in which, if you don’t make your
own opportunity, you have nothing.” The search to join the world of work may
not necessarily involve formal channels, since improvisation is one of the hall-
marks of “low-incomers,” as appears in her sayings: “poor people have to get
by” or “so many things are possible, the poor are creative!” Whatever the case,
life involves sweat and perseverance, and upward mobility should come through
merit.
In an Instagram post, these elements are expressed in the photo showing
the blogger on a hilltop, like a “heroine-warrior” on a magazine cover, reaching
the desired summit. The symbolism of the broom, which in other contexts may
be taken as a reference to devalued manual labour, appears here with the con-
notation of her own work that should not cause shame and will be recompensed
with upward social mobility:

I’m ready to carry the salvation of the internet on my back 😂


sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 831 – 859 , sep. – dec., 2020

LOW-INCOME ON TOP 🔝🔝🔝


article | carla barros

849

Figure 6
<https://www.instagram.com/p/B0mE3MvgVwZ/?utm_source =ig _web_copy_link>

The words “overcoming” and “dream” appear at various moments, indi-


cating the need for an active response to hardships, allied with the capacity to
dream. In the posts, there is always a celebration when her dreams are realized,
seeking to inspire her followers to take a similar path.
Various markers of social mobility appear in the profile, like living in a
location separate from the family of origin, having a bank account, or enrolling
in higher education. Along with financial control, priority is given to education
as a privileged means to transform the condition of poverty. The increase in
the level of schooling, expressed in the hashtag #poorbutgraduated, is celebrat-
ed by the fact that the blogger belongs to the first generation of the family to
gain a higher education diploma:

WHO IS THIS STUDENT APPEARING ON THE TIMELINE, BRAZIL?

As I would say myself: “education is the most precious wealth that we, Low-In-
comers, can have.” They can deprive us, they can take away everything, save our
knowledge. And knowledge transforms. Mother always said: “daughter, study so
that you don’t end up like me” – and I studied not because I was scared to be
like her, after all she makes me proud in so many ways – but because I want to
g ive her what she tr uly deser ves. And on this journey as a blogger, I found a
teaching institution whose objective is to take knowledge to the most different
and distant places: @ eadunicesumaroficial. 💙

Source
<https://www.instagram.com/p/B7UM2ykghSW/?utm_source=ig_web_copy_link>
not even the sky is the limit

850

The space of the apartment is frequently the setting for her Instagram
posts. At the start of her activities on the social network, BBR had just moved
to the apartment that she considers to be her “true home,” indicating a sig-
nificant “life improvement” (Sarti, 1996). The second publication on the social
network is a photo of the door lock taken on the day of the move, where she
thanks for “this victory as well.”
Content showing spaces of the apartment is abundant, like the deco-
rated bathroom door, the new carpet or the worktable:

A WOMAN WHO ASSEMBLES HER HOME OFFICE WITH MONEY FROM HER OWN
WORK DOESN’T WANT A WAR WITH ANYONE 💪

Tomorrow is Thursday and video day on the channel… I told you a bit about how
I began here on INSTAGR A M and showed you how I spent my f irst BLOGGER
‘salary’ 😂

� Do you remember what you did with your first salar y? Tell me in your com-
ments!
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 831 – 859 , sep. – dec., 2020

Figure 7
<https://www.instagram.com/p/Bvh2P5iB1uo/?utm_source =ig _web_copy_link>
article | carla barros

851

The posts show the initially empty spaces followed by their occupation
by objects, utensils, furniture, whether bought or donated, which formed part
of the construction of the home. The sequences of photos and videos show the
family history, the projects, the process of upward social mobility, and the tasks
of maintaining and organizing the home. The elements of material culture are
appropriated as part of the couple’s trajectory in the process of decorating,
since they are, as Miller (2001) declares, a “source and the setting of mobility
and change.”

Low-income minimalism
In her choice of lifestyle elements to be propagated, BBR elects the dissemina-
tion of the minimalist lifestyle as one of her main missions on digital platforms,
making a series of 23 episodes on YouTube called Minimalismo de baixa renda.
The blogger tells her viewers that she became aware of the theme after watch-
ing the documentary Minimalism on Netflix. Researching the subject on the
internet, she discovered that nobody talked about the issue to the low-income
public – remarking, ironically, that poor people have always been minimalist
without knowing – which persuaded her turn to produce this type of content.
The minimalist movement as a lifestyle (Meyer, 2004) first emerged
among wealthier sectors of society, who always spent large amounts of their
budgets on items as diverse as culture, leisure, hobbies, fashion and design. In
the field of consumption and lifestyles, minimalism involves living with less
items, enjoying “experiences” more than “things,” expressed in the hierarchical
superiority of “being” over “having.” It also incorporates elements of sustain-
able consumption, with a stance against the irresponsible use of natural re-
sources and the decision to support “fair,” solidary and ethical means of pro-
duction and distribution.
Thus, the minimalist lifestyle proposes a re-evaluation of life priorities
that entails discarding surplus things, whether in terms of consumption, rela-
tions, ideas or activities that are not adding “value” to the person’s life. Innu-
merable bestsellers have been published along these lines, like the book The
joy of less: a minimalist guide to declutter, organize, and simplify, cited by Nathaly
Dias as one of her own sources of inspiration.
Consumption thus comprises one of the main topics of conversation in
this lifestyle. To incorporate the ethos, it is essential to resist senseless desires
for purchases, which can lead to an overflow of goods that fills the home with
products seldom if ever used. A distinction is made, therefore, between the
“necessary” and the “superfluous” – associated here with irrationality, waste
and ostentation – which informs everyday practices of acquiring, using and
discarding goods.
The idea of “low-income minimalism” advocated by BBR involves rede-
fining life priorities, strategies of financial education, ecological awareness,
not even the sky is the limit

852

and new attitudes towards commodities. In her words, “minimalism means


bringing out what makes you happy,” in the sense of a re-evaluation of values
with the aim of “valorising people and moments more than goods.” These are
the general principles of the minimalist lifestyle, founded on the idea of “less
is more,” as adopted on the BBR profile. It is worth stressing that these precepts
need to be read from somewhere other than the middle and elite classes of the
society where the movement originated, observing its local specificities.
The series of videos on minimalism shows actions like donating books
to a neighbourhood public library and transforming the wardrobe by eliminat-
ing surplus items. In an interview, 11 Nathaly ponders that it is very difficult for
poor people to adopt the philosophy of “less is more” because when you get an
income rise, you want to buy everything you always wanted. She cites the ex-
ample of her mother who “despite being low-income has a load of pots.” Her
intention, therefore, is to “raise the awareness” of poor people that they do not
need to have everything they want, escaping the persuasive campaigns of the
marketing industry.
Another divergence from the experience of minimalism among wealth-
ier sectors is that in the context of BBR, the adoption of this lifestyle is articu-
lated with a project of upward social mobility. Spending less to spend better,
not succumbing to debts, and avoiding “superfluous” consumption are all ac-
tions that contribute to achieving social mobility. Defining priorities and spend-
ing on what possesses “value” means reorienting expenses towards actions like
paying for a professional training course, or buying clothes seen as “suitable”
for circulating in new workspaces.
BBR’s minimalism places considerable emphasis on the home space. In
the second episode of the series “Low-income minimalism,” called “Tour of the
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 831 – 859 , sep. – dec., 2020

minimalist apartment,” she shows “before” the reorganization of the home to


be implemented with the help of minimalist precepts. All the rooms are shown
with comments about the furniture, the division of spaces and the actions that
will be taken with the adoption of the new lifestyle. “We already feel detached
from the physical space,” she remarks at one point of the video. The perception
is that the organization of the home governs the way in which one lives and
reflects historical and family trajectories: an aesthetic and identity-laden space,
imbued with a lifestyle (Miller, 2001).

Cultural mediation and change


Analysis of the BBR profile on social media sites evokes the idea of cultural
mediation, a theme of major importance in modern-contemporary society since
it allows the transit and contact between distinct universes in a scenario of
sociocultural heterogeneity and the diversification of social roles. Velho and
Kuschnir (2001) examine this phenomenon, emphasizing that individuals im-
mersed in the urban environment are exposed to a wide range of experiences
article | carla barros

853

as they circulate through universes with distinct and sometimes conflicting


values and worldviews in which power relations are also at work:

Social life only exists through differences. It is these differences that, through
interaction as a universal process, produce and enable exchanges, communica-
tion and interchange. The study of mediation, and specifically mediators, allows
us to obser ve how interactions occur bet ween distinct social categor ies and
cultural levels. […] In a ongoing process of negotiating reality, choices are made,
taking symbolic systems, beliefs and values as frameworks of reference surroun-
ding all kinds of material objectives and interests. Mediation is a permanent and
not always evident social action, present in interactive processes at the most
varied levels (Velho & Kuschnir, 2001: 9-10).

Some individuals, transiting through different social dimensions, can


become mediators between distinct worldviews, lifestyles and social experi-
ences. Nathaly Dias’s trajectory spans from her origin in a family with a low
level of schooling to her entry into university, where she has contact with new
forms of cultural capital, enabling her to deal with codes different from her
original environment. In the process, BBR confronts new rules, habits, tastes,
aesthetics and behaviours in a space of constant negotiation of reality, where
she acts as a cultural mediator, promoting the exchange of information between
symbolic systems, values and worldviews.
As Duarte (1986) proposes from a relational viewpoint, there is a discon-
tinuity between the individualist ideology and the ethos dominant among
popular classes, marked by traditional references like the pre-eminence of re-
ligion, family and kinship as spheres encompassing the individual dimension.
With the economic rise of groups at the base of the pyramid, especially
during the two Lula governments (2003-2010), there has been an observable
increase in the level of schooling of children from popular families, including
the emergence, in many cases, of the first generation of members with access
to university. The same family environments started to be shared by people
with significant differences in terms of their educational experiences and their
cultural, social and symbolic capital (Bourdieu, 1979b). While the popular con-
sumption discussed in some of the studies cited earlier appears in its “ex-
cesses” and in the emphasis on increasing the number of material possessions,
the case of BBR reveals another meaning, the conscious limiting of consumption
as part of a new “minimalist” lifestyle. The transition between two worlds pro-
vides BBR with access to repertoires previously confined to middle- and upper-
class sectors who chose to adopt a new relationship to material culture after
an experience of intense consumption. This reveals, then, the dynamism of
cultural mediation, blurring the boundaries between distinct social groups. As
Velho and Kuschnir (2001: 27) have argued, cultural mediators can become
agents of change as they negotiate between diverse and sometimes conflicting
universes.
not even the sky is the limit

854

The article thus calls attention to the plurality of meanings relating to


consumption among the popular classes in a situation where the ways of deal-
ing with materiality contrast with other low-income contexts in which the
profusion of goods is actively pursued. The phenomenon of consumption has
a central place in the BBR profile, appearing in diverse contexts such as in the
curating of purchases, strategies for acquiring goods, and cataloguing both pur-
chased and desired items. Financial education and the vision of “low-income
minimalist” point to a new attitude towards consumption, enabling a more
“rational” organization of budgets, an element driving socioeconomic mobility.
The “occupation of spaces” called for by BBR appears with content relating to
lifestyle, seeking to contrast with the opulence conveyed by other digital influ-
encers present on Instagram. The encouragement of social mobility is opposed
to a fatalistic position in relation to poverty, more widely present in a hierarchi-
cal context defined by a Catholic tradition. In BBR’s case, the emphasis is on
an appeal to individual awareness, rationality, self-control and proactivity,
within a more individualist spectrum (Dumont, 1972).
As Miller (2001) argued, the lack of possessions does not imply that social
actors have no agency over material goods. He suggests that materiality may
have more value among the poor because they depend on few possessions to
create cultural meanings. Along the same lines, Taylor (2013: 172) argues, in an
ethnography conducted in the Dominican Republic, that “the materiality of the
poor is not necessarily a materiality of poverty.” Material forms are a way of
combatting social stratification, explaining their enormous significance among
these sectors of the population. The relation with material culture, without
ignoring the influence of the huge economic difficulties confronted by the poor-
est groups, generates social change and builds futures.
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 831 – 859 , sep. – dec., 2020

Received on 25/May/2020 | Revised on 14/Sep/2020 | Approved on 08/Oct/2020

Carla Barros is a postdoctoral researcher at University College London. She


gained her PhD from the COPPEAD-UFRJ Institute, having studied Social
Anthropology at the National Museum (UFRJ) with an undergraduate
degree in Social Sciences at IFCS-UFRJ. Professor on the Postgraduate
Program in Communication at Fluminense Federal University (PPGCOM-
UFF), her main area of interest is the anthropology of consumption,
focusing on the popular classes. Her main publication is “Collective uses of
mobile phones in the global South: cultural diversity among low-income
groups in Brazil and in South Africa.”
article | carla barros

855

Notes
1 The term “post” is used in this article as a synonym for a
publication made by the owner of a social media profile.
2 Data from February 2020.
3 A digital inf luencer is a producer of content who utilizes
their online channels (pr incipally blogs and social net-
works) to “inf luence behaviours,” both on the internet
and beyond.
4 As well as Nathaly Dias, other content producers emerged
who disseminated the everyday life of women from poor
communities of Rio de Janeiro, like Nathalia Rodrig ues
(Nath Finanças profile), who provides financial advice to
poor people, and Ana Helena Ernesto (Helena Pisponelly
profile), who publishes re-enactments of her arguments
with her mother on the YouTube channel Marilene não se
mete (Mar ilene stay out of it) with the Maré favela as a
background.
5 The miniseries can be found at: <https://www.instagram.
com/p/B2f hTV8AwuI/?utm_source =ig_web_copy_link>.
6 The YouTube video can be found at: <https://www.youtu-
be.com/watch?v=iFuj7yaF-Mk)>.
7 ‘Guanabara Anniversary’ refers to the anniversary of the
Guanabara supermarket chain present in the State of Rio de
Janeiro. This well-known promotional event of the Rio retail
trade typically draws more than a million consumers to its
stores to take advantage of the huge discounts offered on
products. In this period, traditional media and social net-
works publish photos and videos showing packed super-
markets, queues waiting for the stores to open, and, in some
cases, heated disputes over the discounted products.
8 As is common in images of meals on the profiles of other
lifestyle inf luencers, a photo is published of the dish ta-
ken from above without showing anyone eating. On the
BBR prof ile, comments frequently praise the meals as
examples of good home cooking.
9 Source:<https://w w w.instag ram.com /p /Bm3kkz2BDb4 /
?utm_source =ig_web_copy_link>.
10 Interview available at: <https://www.uol.com.br/universa/
noticias /redacao /2019 /08 /12/ blog ueira-de-baixa-renda-
-nathaly-e-pobre-e-ensina-minimalismo-no-youtube.htm>.
not even the sky is the limit

856

11 Source: <https://www.uol.com.br/universa/noticias/reda-
cao /2019 /08 /12/ blog ueira-de-baixa-renda-nathaly-e-po-
bre-e-ensina-minimalismo-no-youtube.htm>.

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article | carla barros

859
Nem o céu é o limite: sentidos do consumo
e dinâmicas de mobilidade social no perfil
@blogueiradebaixarenda no Instagram e Youtube 
Palavras-chave Resumo
Estilo de vida; O artigo aborda os sentidos do consumo no perfil @bloguei-
grupos populares; radebaixarenda nas redes sociais online Instagram e You-
consumo; tube, considerando as percepções presentes acerca da ma-
mobilidade social; terialidade e suas articulações com dinâmicas de mobili-
minimalismo. dade social. Trata-se de analisar quais elementos compõem
o “lifestyle baixa renda” enquanto categoria nativa, dentro
do contexto dos “influenciadores digitais”. Mediante pes-
quisa de observação online, foram analisadas publicações,
hashtags e comentários nas duas plataformas, explorando-
se de que modo as práticas de consumo aparecem como
mediadoras de dinâmicas de hieraquização social e cons-
truções identitárias. Dentre os resultados, destacam-se as
articulações entre materialidade e mobilidade social, a
ideia de minimalismo dentro do “lifestyle baixa renda” e o
lugar da blogueira como mediadora cultural.

Not even the sky is the limit: the meanings


of consumption and the dynamics of social
mobility on the @blogueiradebaixarenda profile
on Instagram and YouTube
Keywords Abstract
Lifestyle; The article sets out to explore the meanings surrounding
low-income groups; consumption on the @blogueiradebaixarenda profile on the
consumption; Instagram and YouTube online social networks, considering
social mobility; the perceptions of materiality and their articulations with the
minimalism. dynamics of social mobility. It analyses the elements making
up the “low-income lifestyle” as a native category within the
context of “digital influencers.” Through online observational
research, the posts, hashtags and comments on both social
media platforms were analysed, seeking to explore how con-
sumption practices appear as mediators of social dynamics
and identity constructs. Among the results, the articulations
between materiality and social mobility, the idea of minimal-
ism within the “low-income lifestyle” and the blogger’s status
as a cultural mediator are highlighted.
http://dx.doi.org /10.1590 /2238-38752020v1034

1 Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Programa de Pós-Graduação em


Comunicação, Santa Maria, RS, Brasil
sandraxrubia@gmail.com
https://orcid.org/0000-0001-7548-5178
11 Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Departamento de Jornalismo,
Florianópolis, SC, Brasil
Sandra Rúbia da SilvaI
machado.alim@gmail.com
https://orcid.org/0000-0003-1687-7248
Alisson Machado Il

DIÁLOGOS COM DANIEL MILLER NO CAMPO DA


COMUNICAÇÃO: REFLEXÕES A PARTIR DAS PESQUISAS
DO GP CONSUMO E CULTURAS DIGITAIS

A antropologia, cuja base é o trabalho etnográfico, renova sua tradição a partir


dos conhecimentos adquiridos em sua história disciplinar quando confrontados
com as observações realizadas a cada vez que novos(as) pesquisadores(as) vão
a campo (Peirano, 1994; Cardoso de Oliveira, 2006). Esses saberes atualizam o
ethos antropológico e orientam as interpretações não apenas por servir como
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 861 – 886 , set. – dez., 2020

teoria, mas porque sinalizam, alertam e inspiram reflexões referentes à obje-


tividade relativa que caracteriza a natureza do entendimento antropológico
(Geertz, 2013; Velho, 2013). Se, por um lado, o texto representa a materialização
e a reinscrição comprometida do(a) pesquisador(a) (Clifford, 1998; Strathern,
2014), por outro, existe um trabalho constitutivo da imaginação antropológica
que se produz no espaço entre, entre texto e experiência, que desloca os eixos
entre o “estar lá” e o “estar aqui”, resultado desse tipo de empenho interpreta-
tivo (Geertz, 2012).
Esse entre pode ser vivenciado de diferentes formas, entre elas pelos
entrecruzamentos das fronteiras disciplinares. Tendo em vista a articulação
desse lugar de interfaces, o objetivo do artigo é, ao examinar dez pesquisas rea-
lizadas pelo Grupo de Pesquisa Consumo e Culturas Digitais (UFSM/CNPq), 1
discutir como o legado teórico e metodológico de Daniel Miller tem sido incor-
porado nesse conjunto de reflexões, reconhecendo a potência do método etno-
gráfico para a análise cultural e para a descrição da cultura digital e dos am-
bientes de interação online.
diálogos com daniel miller no campo da comunicação

862

Nossas práticas assumem a comunicação como um campo transdisci-


plinar (França, 2001; Martín-Barbero, 2009) também demarcado pelo que Gros-
si (2004) chamou de parentesco acadêmico: as filiações teóricas e relações so-
ciais estabelecidas pelo e no processo de orientação, o que pode ser entendido
principalmente pelas heranças recebidas dos(as) orientadores(as) que funcio-
nam nos moldes dos regimes das reciprocidades (Mauss, 2003). Conhecimento
recebido e presentificado nas experiências de cada trabalho de campo. Hau
adquirido, levado consigo e sempre adiante.
O GP aproximou estudantes − principalmente da área da comunicação
− da antropologia, apresentando, discutindo e produzindo um fazer etnográfico
com nuanças próprias da pesquisa em comunicação, mobilizado por questões-
problema que envolvem o enfrentamento das mídias e das tecnologias digitais
na vida cotidiana e as distintas mediações com as instâncias sociotécnicas que
conformam as culturas midiáticas. 2 Esse encontro resultou no investimento de
vivências propriamente antropológicas (DaMatta, 2010) e na busca de formu-
lações teórico-etnográficas (Peirano, 2014) para a compreensão dos artefatos
das culturas digitais e das diferentes apropriações e usos 3 que os atores sociais
fazem dessas tecnologias.
Somos todos(as) herdeiros(as), por um lado, da tradição fonsequiana de
“fé no trabalho de campo” (Brites & Motta, 2017), pois, no doutorado em antro-
pologia social na Universidade Federal de Santa Catarina (2006-2010), Sandra
Rúbia, líder do GP, foi orientanda de Carmen Silvia Rial, que fora orientanda de
Claudia Fonseca. Durante o doutoramento, Sandra ainda realizou um período
de estágio doutoral na University College London, sob orientação de Daniel
Miller.
A obra de Miller e coautores(as) provou ter influência duradoura na fu-
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 861 – 886 , set. – dez., 2020

tura tese, tanto em termos teóricos quanto metodológicos, influência essa que
persistiu posteriormente nos trabalhos orientados por Sandra Rúbia. Como
legado temos, de um lado, a revelação da potência de uma antropologia da
comunicação para a compreensão do papel das tecnologias móveis e da inter-
net na cultura e nas relações sociais, bem como no consumo como cultura
material (Horst & Miller, 2006) e, de outro, a reflexão sobre a obra seminal de
Christine Hine (2000), Virtual ethnography. Desse livro, revelaram-se fundamen-
tais tanto o entendimento da internet como um artefato cultural quanto a
crítica à dicotomia online e off-line presente nos primeiros estudos sobre a in-
ternet, crítica essa empreendida em diálogo com Miller e Slater (2000) e poste-
riormente aprofundada na compreensão da internet como dimensão incorpo-
rada, corporificada e cotidiana (Hine, 2015).
As pesquisas do GP buscam construir diálogos com importantes trabalhos,
como os advindos da atuação de Livia Barbosa, principalmente sobre as relações
entre consumo e cultura material (Barbosa, 2003; Barbosa & Gomes, 2004; Bar-
bosa & Campbell, 2006) e de Carla Barros (2007), em relação às mediações cul-
artigo | sandra rúbia da silva e alisson machado

863

turais pelo consumo e à perspectiva etnográfica para a investigação midiática


(Campanella & Barros, 2016). Além de fomentar o campo e traduzir importantes
textos sobre consumo, Livia Barbosa foi responsável pela visita de Daniel Miller
ao Brasil em 2006. A respeito dos estudos da cultura material, é possível pon-
tuar pesquisas sobre a circulação de mercadorias e pessoas (Pinheiro-Machado,
2009; Martineli, 2011) e sobre relações entre consumo, formulações identitárias
e culturais (Machado, 2010; Mizrahi, 2014). Além dessas, constituem uma mira-
da aos estudos da antropologia do consumo a perspectiva comparada entre
Brasil e Argentina (Leitão et al., 2006) e a 28 a edição da revista Horizontes Antro-
pológicos, em comemoração à publicação do livro O mundo dos bens, de Mary
Douglas (Oliven & Pinheiro-Machado, 2007).
Os enfoques interpretativos das pesquisas analisadas aglutinam esforços
em compreender as apropriações de sites e aplicativos digitais, bem como smar-
tphones e computadores nas periferias urbanas, por grupos populares, em vul-
nerabilidade, subalternidade social ou desprovidos de poder institucional. 4 A
pluralidade que demarca esses distintos contextos de pesquisa permite o de-
senvolvimento de práticas etnográficas em espaços sociais diversos reconfigu-
rados pelas tecnologias de comunicação digital (Horst et al., 2012). A etnografia,
como uma prática de pesquisa interdisciplinar, é ela própria adaptável a diver-
sos campos, ambientes e situações, refletindo a pluralidade das relações hu-
manas sejam elas consideradas em formatos mais tradicionais de interação ou
aqueles característicos das culturas digitais. Miller, em entrevista a Monica
Machado (2015), afirma:

em nossos estudos, descobr imos que a comunicação dig ital frequentemente


ainda tem base nas unidades dos estudos da antropologia mais tradicional. As-
sim, em nosso estudo na Índia, mostramos que a casta é central na forma como
a rede social é usada, enquanto nos estudos na Turquia ela é mais tribal e, em
outros estudos, tem mais base na família. Todos esses estudos antropológicos
ligam o individual ao social em vez de vê-los como duas categorias opostas na
vida.

As pesquisas analisadas buscaram construir costuras interdisciplinares


(Fonseca, 1999) considerando os contextos e as materialidades das interações
digitais, bem como os desafios de repensar a extensão da etnografia nas mídias
como ambiente, objeto e instrumento de pesquisa (Sheppard, 2012). Essa pers-
pectiva entende que os artefatos digitais participam ativamente da cultura
material e que a internet pode ser mais bem compreendida não como um apa-
rato técnico em si, mas como uma tecnologia social e dinâmica que habilita as
pessoas a criar outras tecnologias sociais (Miller, 2007, 2013; Miller et al., 2016).
É na atenção dedicada aos diferentes contextos que as práticas na internet, em
sua dimensão plural, podem ser reconhecidas, pois

deixamos de pensar em tecnologias da comunicação como coisas, ou capacidades,


e começamos a vê-las como análogas à ar te da sedução: modos de nos fazer
diálogos com daniel miller no campo da comunicação

864

atraentes para a pessoa com quem nos comunicamos. Claro, a sedução é apenas
uma das muitas coisas que estão em jogo aqui. A questão mais ampla é que as
tecnologias da comunicação são essencialmente gêneros culturais, e que a melhor
maneira de apreciá-las é comparável à que usamos para outros gêneros culturais
(Miller, 2013: 170).

Pensar esses gêneros culturais na perspectiva dos estudos da cultura


material (Miller, 1987) permite perceber o processo dialético entre os bens ma-
teriais (neste caso, as mídias e tecnologias digitais) e os gêneros culturais uti-
lizados para criar, manter, estabelecer, reforçar ou mesmo romper as relações
sociais. Ao mesmo tempo, imersas nas particularidades de suas culturas, as
pessoas criam formas de relacionamento umas com as outras e, com isso, for-
mas de se relacionar com as mídias. Nesse processo, participam também as
formatações e determinações tecnológicas que constituem esses ambientes e
que impactam as inteligibilidades sociais.
Nesses cenários, o(a) pesquisador(a) se insere nas redes que constituem
as interações, podendo desenvolver para cada ambiente que percorre uma sen-
sibilidade etnográfica que melhor permita compreender os fluxos e as dinâmi-
cas das interações em cada contexto (Leitão & Gomes, 2017). Isso implica diá-
logo com outras fontes de pesquisa, perseguindo questionamentos a respeito
de como a internet se caracteriza para um determinado grupo e das circuns-
tâncias em que as conexões ocorrem (Hine, 2015). Além disso, investem na
imersão em um campo particular de interlocutores(as), cujas reflexões são
conduzidas pelas principais técnicas do trabalho etnográfico, como a observa-
ção participante e manutenção do diário de campo (Miller & Slater, 2000).
As seis dissertações e quatro teses analisadas neste artigo contemplam
contextos sociais específicos que se estabelecem nas apropriações das tecno-
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 861 – 886 , set. – dez., 2020

logias digitais e mídias sociais na vida cotidiana, singularizadas por elementos


como gênero, sexualidade, geração, agremiações, trabalho, condições socioeco-
nômicas, posições políticas e religiosas e demais elementos que constituem,
de forma conjunta e interconectada, as experiências vividas na internet.

DEZ CONTEXTOS DE PESQUISA EM MÍDIAS DIGITAIS


Para a análise, desenvolvemos um protocolo analítico de pesquisa bibliográfica
(Salvador, 1986; Gil, 1999). Ocupamo-nos, neste momento, em apresentar bre-
vemente cada uma delas. A partir disso, apresentamos inferências teóricas que
têm por objetivo perceber como as pesquisas dialogam com noções advindas
da antropologia digital. Dessa forma, identificamos como algumas das propo-
sições de Miller são incorporadas em nossas reflexões, seja na dimensão da
vivência do trabalho de campo ou da interpretação das apropriações e usos
descritos.
A dissertação de Tondo (2016) investigou o consumo de smartphones en-
tre jovens moradores de uma comunidade popular na cidade de Santa Maria
artigo | sandra rúbia da silva e alisson machado

865

(Rio Grande do Sul). A aproximação com o campo ocorreu pela promoção de


uma atividade socioeducativa, com duração de um ano letivo, com 43 jovens
de uma escola. A partir disso, o autor passou a conviver com quatro jovens de
três famílias, buscando entender a importância desse dispositivo nas dinâmi-
cas de posse e consumo das mídias digitais e as formas como o relacionamen-
to dos(as) jovens entre si e com seus familiares era organizado.
Em sua dissertação, Pereira (2017) realizou um estudo com duração de
12 meses sobre o consumo de smartphones por sete mulheres cisgêneras de
camadas populares, de diferentes faixas etárias e bairros de Santa Maria. A
autora atentou para as interfaces entre a produção/reprodução das demarcações
de gênero e as tecnologias digitais, percebendo que o gênero constitui uma
especificidade do consumo dos celulares. Por meio desses aparelhos, as inter-
locutoras se mantinham como trabalhadoras autônomas e interpretavam a si
mesmas, construindo modelos de feminilidade, sexualidade, maternidade, as-
sim como suas relações amorosas e familiares.
A tese de Menezes (2017) analisou os deslocamentos dos fluxos midiá-
ticos e estéticos realizados por dançarinos(as) do grupo cultural-identitário
Dream Team do Passinho. Mediante a comparação entre o discurso do grupo
nas redes sociais e os discursos das mídias tradicionais, a autora interpretou
os usos das linguagens televisuais, principalmente da informal, utilizada com
o intuito de aproximação ao cotidiano das favelas cariocas.
Kuntz (2018) tratou em sua dissertação da participação das crianças no
contexto de produção de conteúdo, tendo o objetivo de compreender como uti-
lizavam o YouTube para expressão, sociabilidade e aperfeiçoamento pessoal e
como essa plataforma incidiu sobre a infância e a maternidade/paternidade. A
autora triangula estudos de casos empíricos de crianças que estão à frente de
canais com grande número de seguidores com as experiências e interações que
realizou durante 18 meses de pesquisa com quatro youtubers mirins iniciantes.
A dissertação de Trindade (2018) identificou os circuitos em que ocorrem
a construção e a manutenção da sociabilidade juvenil por meio das práticas de
consumo de smartphones de um grupo de 13 jovens do ensino médio em duas
escolas de Santa Maria durante o período de 15 meses. O autor encarou as
apropriações desses artefatos como uma via de acesso à internet que organi-
zava as redes de relacionamento e os modos como a privacidade era construí-
da e mantida nessas relações.
A tese de França (2018) investigou a participação política na internet,
percebendo as redes sociais digitais como uma arena informal para as discus-
sões de cinco SUGs (sugestões legislativas) apresentadas no e-Cidadania, por-
tal do Senado Federal. A autora buscou perceber as apropriações que atores
políticos e cidadãos faziam da internet, especialmente na promoção de debates
para o agendamento midiático dos temas sugeridos a fim de que eles interfe-
rissem nas pautas do Senado.
diálogos com daniel miller no campo da comunicação

866

Flores da Rosa (2018) apresenta em sua tese um estudo sobre a atuação


do leigo na internet para pensar a inserção dessas pessoas na produção e con-
sumo de conteúdo religioso. O objeto empírico foi o blog “O Catequista”, criado
para tratar de assuntos doutrinários e temas diversos a partir de uma visada
de reinstitucionalização católica pela atuação na mídia, pelo conservadorismo
e pela oposição a ideias marxistas/socialistas/comunistas. O trabalho de cam-
po foi realizado a partir da observação participante, entrevistas e visitas aos
blogueiros no Rio de Janeiro, entre 2014 e 2018, e com seis leitores, de 2017 a
2018.
Em sua dissertação, Paz (2019) buscou compreender o consumo das redes
sociais digitais por jovens em torno da temática das ideações suicidas. Por
imersão etnográfica durante o período de 12 meses, foram observadas as prá-
ticas desenvolvidas no “Grupo Suicidas”, grupo fechado no Facebook, e na “Co-
munidade Kaneki”, organização formada por jovens que, entre outras ações,
promovem práticas voluntárias, colaborativas e solidárias para o combate ao
suicídio no Brasil.
A dissertação de Pavanello (2019) teve como problemática compreender
as práticas de consumo das redes sociais por quatro mães de vítimas do incên-
dio da Boate Kiss, ocorrido em janeiro de 2013, em Santa Maria. A autora aten-
tou para a criação de experiências digitais no cotidiano pós-tragédia das mães,
percebendo nos usos das mídias digitais formas de reestruturar a vida após o
acontecimento. O trabalho de campo teve duração de 12 meses, assumido pelas
dinâmicas ativistas das mães em sua luta por justiça.
Por fim, a tese de Machado (2019) apresenta um estudo sobre as apro-
priações das mídias digitais na formulação do cotidiano de interlocutoras tra-
vestis, a maioria delas profissionais do sexo. O trabalho de campo teve duração
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 861 – 886 , set. – dez., 2020

de três anos e foi realizado em regimes de curta e longa duração, dependendo


das “temporadas” das interlocutoras, que mantinham um fluxo de viagens em
razão do trabalho. Os contextos de interação observados são demarcados pela
precariedade social e por distintas manifestações da violência.
O quadro a seguir organiza uma apresentação por título, autoria, ano de
defesa e principais gêneros culturais observados. Essa ênfase foi motivada, a
partir da perspectiva da antropologia de Miller, por meio dos principais achados
empíricos, compreendendo práticas, tendências, continuidades e rupturas nas
dinâmicas e experiências sociais descortinadas no trabalho etnográfico e sin-
gularizadas pelos usos e apropriações das tecnologias digitais em cada contex-
to de pesquisa.
artigo | sandra rúbia da silva e alisson machado

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Quadro I
Principais gêneros culturais observados nas pesquisas
Fonte: elaborado pelos autores.

Título (autoria, ano) Principais gêneros culturais

Celulares, conexões e afetos: a sociabilidade Dispositivo como mediador de afetos e performances


e o consumo de smartphones entre jovens Dificuldades geracionais de letramento digital
de comunidade popular (Tondo, 2016) Não tornam públicas desavenças entre familiares e
amigos(as)
Racionalização pouco efetiva por parte de pais e mães
Satisfação familiar de oferecer acesso à internet
Na internet, os(as) filhos(as) estão em casa: pais/mães
sentem que ofertam proteção
Frustação das expectativas amorosas

“Em um relacionamento sério com o celular”: O smartphone significa a internet, e o Facebook, o navegador
uma etnografia das práticas de consumo de Maternidade e status de relacionamento são definidores dos
smartphones por mulheres (Pereira, 2017) tipos de publicações
Sem o smartphone não há trabalho
24 horas conectadas com o mundo doméstico
Papéis de gênero normativos: ciúmes como principal motivo
de interdição de alguns tipos de publicações
Uma boa mãe e mulher é reconhecida pelo que publica
É preciso desligar o aparelho para dar conta das atividades
domésticas e familiares

No ritmo do passinho: deslocamentos Estratégias visuais consolidadas nas redes para adentrar as
midiáticos e estetização cotidiana do grupo coberturas e a grade da televisão
Dream Team do Passinho (Menezes, 2017) Demarcação de identidades coletivas por meio de conteúdos
de dança e militância
Deslocamentos do que é ser celebridade na favela
Influência dos patrocinadores nas composições estéticas
Produção de conteúdo digital sem a chancela da gravadora

Crianças no YouTube: um estudo YouTube como aprendizado de habilidades e expansão da


etnográfico sobre as infâncias e suas sociabilidade infantil
estratégias de relacionamento nas mídias Insultos e haters causam insegurança em pais e mães frente
digitais (Kuntz, 2018) ao retorno financeiro
Imitação de canais famosos: repetição de um modelo de
infância
Fortalecimento de laços com familiares
Papéis projetivos de si (dos pais e das mães) na estética dos
vídeos
diálogos com daniel miller no campo da comunicação

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Título (autoria, ano) Principais gêneros culturais

“A gente se ama e se odeia ao mesmo Valores da masculinidade hegemônica para ambos os sexos
tempo”: uma etnografia do consumo de Imperativo do conflito que admite o cômico
smartphones em circuitos de sociabilidade Materialização das disputas (emojis, gifs, memes)
de jovens de camadas populares Espaços off-line para liberação do estresse online
(Trindade, 2018) Geolocalização e check-ins como forma de usufruir a cidade
Procura de um namoro ideal igual ao do mundo digital
Sentimento frustrado de liberação sexual das jovens em
cenários de machismo
Moralização das estéticas

Participação política na timeline: o Apoio às SUGs para movimentar a agenda pública do tema
Facebook como arena pública para pleiteante
sugestões legislativas apresentadas no Cidadão produtor e responsável pela circulação do tema
E-cidadania (França, 2018) Mobilização junto a ativistas, blogueiros(as) e youtubers
Atuação individual de cidadãos/ativistas
Superficialidade nas interações devido à matriz interacional
das plataformas

A internet dos leigos: catolicismo midiático Tendência ao entretenimento, humor e à catequese de


e práticas de consumo como experiência boteco
vivida (Flores da Rosa, 2018) Tensões políticas, doutrinárias e litúrgicas entre diferentes
setores da Igreja
Embate digital contra os hereges
Ênfase dada não ao transcendente, mas à vida prática da fé
Mídia como o encontro com a Igreja e suas exigências
Experiências digitais de afirmação da catolicidade: buscam
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 861 – 886 , set. – dez., 2020

atingir quem já é católico


Explicação da fé canônica e de temas considerados
polêmicos
Postagens blindadas pelos poderes eclesiais
artigo | sandra rúbia da silva e alisson machado

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Título (autoria, ano) Principais gêneros culturais

O suicídio em torno da vida e da morte: Criação de espaços de escuta


uma etnografia do consumo do Facebook Ações de responsabilidade, cuidado e meios de sustentação
por jovens (Paz, 2019) da vida
Interferir pontualmente nos momentos de crise do(a)
suicidando(a)
Maior segurança no desabafo: liberdade em falar da
temática sem ser estigmatizados(as)
Combater a exposição de material íntimo de meninas na
internet por meninos
Tribunais públicos para punição desses acusados
Uso de vários perfis por uma mesma pessoa por se sentir
mais livre para autoexpressão

Práticas de consumo das redes sociais Luta por justiça e memória no Facebook
por mães de vítimas do incêndio da Boate Direito à saudade como demarcação política em um cenário
Kiss: a criação de experiências no cotidiano marcado pela impunidade
(Pavanello, 2019) Narrativas para corporificar nos outros a dor que sentem
Proteção afetiva e recurso terapêutico
Sentem-se mais protegidas de insultos em seus perfis do
que na Tenda da Vigília (local de memória mantido pelos
familiares das vítimas)
Facebook para manter diálogos com os(as) filhos(as)
mortos(as)
Manutenção dos perfis da mesma forma como outros
objetos significativos são preservados
A mediação tecnológica diminui as distâncias insuperáveis

Toda trabalhada na wi-fi: cotidiano travesti Manutenção de reputações pela valorização da honestidade
em trajetórias digitais (Machado, 2019) Fofocas e jocosidade para demarcar a fidelidade a si
mesmas
Sentem que não têm direito à privacidade
No trottoir também se busca conexão wi-fi
Fazer a pista conectada é menos arriscado
Dinâmicas da prostituição contidas nos celulares: 24 horas
conectadas para o sexo (cansaço e diminuição da libido)
Trabalho constante de atiçar o desejo das mariconas
O encontro online precisa acontecer off-line para assegurar o
retorno financeiro
O perfil e as publicações são dedicados aos orixás
diálogos com daniel miller no campo da comunicação

870

OBSERVANDO E REFLETINDO SOBRE OS GÊNEROS CULTURAIS


Os estudos da cultura material entendem que o consumo dos bens fala sobre
e por nós, e que os objetos participam ativamente das elaborações sociais e
culturais dos indivíduos e das populações. As pesquisas das culturas digitais
permitem compreender os deslocamentos entre o real e o virtual, o material e
o imaterial e o online e o off-line como esferas intercambiantes e constituintes
das práticas humanas (Horst & Miller, 2012). Assim, a pesquisa etnográfica, ao
dar ênfase às elaborações cotidianas do uso da internet e dos artefatos digitais,
desloca o eixo analítico não para as imposições tecnológicas da cultura, mas
para as realizações humanas que definem e dão os contornos de como as mídias
são utilizadas.
Os diálogos com Miller apresentados por Silva (2010) em sua tese de dou-
torado sobre o consumo de telefones celulares em um bairro popular de Floria-
nópolis foram importantes tanto por revelar e avaliar as relações pessoa/telefo-
ne – posteriormente desdobradas nas pesquisas de seus(suas) orientandos(as)
– quanto por veicular importantes noções teóricas e metodológicas da antropo-
logia das mídias e, especificamente, da antropologia digital. Recebe especial
destaque The cell phone: an anthropology of communication (Horst & Miller, 2006),
estudo pioneiro da abordagem etnográfica para a pesquisa sobre telefones ce-
lulares.
Em seu estudo, Tondo (2016) admite que os afetos dos(as) jovens não se
relacionavam apenas aos conteúdos das postagens e compartilhamentos nas
redes sociais, mas também eram produzidos pela materialidade de controle e
posse dos celulares. Os aparelhos desencadeavam emoções específicas – como
raiva, quando travavam por pouca memória; inveja, de modelos mais novos e
eficientes; felicidade e sentimento de completude, ao encontrar o aparelho que
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 861 – 886 , set. – dez., 2020

estava perdido. Trindade (2018) percebeu que as performances de ouvir música


alta sem fones de ouvidos, nas ruas e nos ônibus, descritas em Silva (2012a),
convergiam para os ambientes digitais por meio de novas performances que
expandiam os significados da masculinidade nas redes sociais e aplicativos. Da
mesma forma, Pereira (2017) refutou a ideia de que o mundo doméstico seria
um mundo atrasado por ser considerado “menos tecnológico” ou “menos me-
diado” e percebeu como a produção visual, principalmente o compartilhamen-
to de fotografias em formato selfie, atualizava as normatividades de gênero
enfrentadas pelas interlocutoras, sobretudo em função das atribuições sociais
estabelecidas para homens e mulheres no matrimônio e no sistema de heran-
ças ameaçado na hipótese de separação (Silva, 2012b).
A leitura de Tales from Facebook (Miller, 2011), especialmente as 15 teses
sobre essa mídia social, também foi fundamental para as investigações, devido
à sua proeminência como polimídia na maioria dos campos de pesquisa. A
noção de polimídia (polymedia) adverte que não conseguimos entender uma
plataforma midiática de forma isolada, devendo percebê-la sempre como rela-
artigo | sandra rúbia da silva e alisson machado

871

tiva às outras mídias. Por meio dessa noção, os trabalhos compreenderam que
a distinção entre os ambientes digitais também significava a distinção entre
as pessoas.
O modo como essa rede social converge tanto sobre as demais ambiên-
cias digitais quanto sobre as práticas de consumo foi analisado em relação às
materialidades e linguagens digitais que impactavam os significados da vida
social. Para os blogueiros de “O Catequista”, conforme Flores da Rosa (2018), os
vários sites sobre o catolicismo na internet apresentavam boas reflexões, mas
não atingiam seus objetivos por utilizar uma linguagem considerada por eles
“católica demais”. Para realizar essa tradução, os blogueiros aproximaram os
conteúdos que produziam das linguagens “características” da mídia social, de-
marcadas pelo uso de coloquialismos, fórmulas rápidas, humoradas e miméti-
cas. A atenção às materialidades permitiu a Pavanello (2019) perceber que as
mães mantinham o mesmo tipo de zelo entre os perfis na rede social e os bens
materiais mais significativos dos(as) filhos(as) perdidos(as), como algumas rou-
pas, ursinhos de pelúcia, violão etc. A preservação da memória digital mate-
rializava não apenas a saudade, mas a corporificação e a presença deles(as)
(Miller, 2013).
Flores da Rosa (2018) aponta ainda o impacto da circulação de conteúdos
nas práticas cotidianas de vivência da fé por meio do combate às transforma-
ções dos rituais e do zelo litúrgico. Um de seus interlocutores, depois de ler no
Facebook sobre esse assunto, passou a considerar desrespeitoso bater palmas
e acompanhar com pequenos gestos o ritmo das músicas nas celebrações, en-
tendendo a missa como um rito de sacrifício. França (2018) conclui que a au-
sência da SUG 02/2014 (sobre o fim da isenção fiscal das igrejas) no Facebook
diminuiu a possibilidade de o tema ser mais bem aproveitado no Senado, pois
a falta de divulgação online implicava menor acesso a informações retidas na
sociedade civil e que poderiam colaborar com o debate social mais amplo, além
daquele já estabelecido para o andamento da proposta.
Outro dado é a forma como as linguagens próprias da internet implica-
ram, em vários campos de pesquisa, a consolidação de sistemas de classificação
do mundo social. Em Flores da Rosa (2018), a catequese dos blogueiros ganha
contornos apologéticos a partir do apontamento de “erros” doutrinários e mo-
rais das outras crenças e do próprio catolicismo progressista. Expressões como
“Católico #FAIL”, “Crente #FAIL” e “Fantasminha #FAIL” indicavam, respectiva-
mente, as “falhas” na doutrina de católicos, evangélicos e espíritas. Essas crí-
ticas, ao ser compartilhadas no Facebook, acabavam gerando atritos, disputas
e discursos intolerantes tanto por católicos quanto por membros dessas reli-
giões, que se consideravam desrespeitados. Em Machado (2019), a classificação
dos comportamentos dos clientes de acordo com o tipo de carro que dirigiam
e que apareciam nas fotos do Facebook permitia às interlocutoras realizar uma
triagem da clientela. Quanto melhor o carro, melhores as condições de realiza-
diálogos com daniel miller no campo da comunicação

872

ção do programa e mais alto o pagamento (o que nem sempre acontecia de


fato). Da mesma forma, elas compartilhavam denúncias entre si, nas conversas
privadas, de perfis de homens bagaceiros, caloteiros e fakes e, de modo público,
a todas as pessoas da rede, quando o problema passava dos limites toleráveis.
Igualmente importante foi a publicação de How the world changed social
media (Miller et al., 2016), que permitiu às pesquisas comparar seus dados de
campo com os resultados das pesquisas em outros países. Além disso, a noção
de “sociabilidade escalonável” (scalable sociality), desenvolvida na obra, pontuou
a importância de observar as variações entre o tamanho do alcance das intera-
ções e os graus de extensão das mídias sociais. De modo geral, para a maioria
das pesquisas nas culturas juvenis, o estabelecimento do uso de aplicativos
como Tinder e Instagram servia como fronteira para as amizades serem aceitas
no Facebook. Somente após a estruturação de laços de confiabilidade nesses
ambientes é que os convites mudavam para plataformas consideradas mais
pessoais. Em função disso, Trindade (2018) entendeu como determinadas perfor-
mances já eram esperadas ou não em cada ambiente. Uma de suas interlocutoras
se sentia pressionada a mandar nudes (o que não era uma vontade dela), o que
causou o fim do relacionamento que começou no Tinder e migrou para o What-
sapp. Para alguns participantes, a primeira interação no Tinder representa o
primeiro passo para a estruturação de um laço com intuito sexual. Posterior-
mente, as conversações migravam para plataformas como o Whatsapp, o que
significava maior intimidade nas conversações e liberdade para que elas assu-
missem um rumo sexualizado, mediante o envio de nudes e sexting.
Para Tondo (2016), essa relação implicava não apenas o fato de os jovens
continuamente esconderem dos pais e mães determinados conteúdos ou mes-
mo aplicativos específicos, principalmente os de namoro, ou de moralizarem
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 861 – 886 , set. – dez., 2020

seus pais e mães quando eram esses(as) que publicavam algum conteúdo
considerado inadequado ou vergonhoso, como piadas ou qualquer outro con-
teúdo alusivo à vida sexual dos(as) adultos(as). Da mesma forma, para Kuntz
(2018), pais e mães, temendo cenários hipotéticos de violência, se preocupa-
vam por sentir que não podiam controlar a circulação dos vídeos das crianças
e, para isso, desenvolviam ações protetivas, como desativar os comentários
nos vídeos.
Flores da Rosa (2018) descreve transformações das relações dos leigos
com a institucionalidade da religião quando um dos blogueiros foi credencia-
do à sala de imprensa do Vaticano, colocando a atuação de “O Catequista” em
destaque no cenário internacional. Pela primeira vez, o Vaticano concedeu
esse tipo de credencial para um não residente de Roma. Um leigo ocupar uma
credencial geralmente dada a jornalistas e profissionais religiosos sinaliza
como as instituições suportam e resolvem, dentro de suas principais lógicas,
as novas formas de atuação articuladas pelo uso da internet. Menezes (2017)
também demonstra essa relação conflitiva, apontando como os(as) dançarinos(as)
artigo | sandra rúbia da silva e alisson machado

873

do grupo negociam e adentram os circuitos das mídias tradicionais a partir


da valorização de estratégias de publicidade e autocomunicação, garantindo
acordos e patrocínios com marcas reconhecidas que projetam mais visibili-
dade ao grupo.
O sistema de fãs e a utilização de um marketing eficiente nas redes sociais,
ainda que tenham possibilitado, por exemplo, que uma das dançarinas se tor-
nasse personagem em séries televisivas e embaixadora de marcas de cosméti-
cos e vestuário, não apagaram as contradições da cultura hegemônica. As po-
líticas editoriais da maioria dos veículos definiam os limites e os enquadra-
mentos permitidos ao grupo. É o caso da revista Elle, de março de 2015, em
comemoração ao aniversário da cidade do Rio de Janeiro. O editorial de moda,
ainda que “celebre a diversidade” das culturas cariocas, manteve uma dicotomia
entre a retidão e o luxo dos brancos em oposição à sexualidade e simplicidade
(pobreza) dos negros. No ensaio fotográfico analisado por Menezes, o centro do
enquadramento é ocupado por uma modelo branca, única vestida com requin-
te, enquanto cinco modelos negros(as) apresentam seus corpos quase desnudos.
As SUGs estudadas por França (2018) também não estão livres dos po-
deres institucionais intrínsecos às posições partidárias dos(as) senadores(as).
A autora aponta que, quando a temática é de interesse dos políticos, recebe
maior atenção e incentivo nas redes sociais, incluindo postagens públicas nos
perfis de parlamentares, como no Twitter. Quando os temas podem trazer pre-
juízos e refletir na perda de votos ou privilégios, acaba recebendo menor ou
nenhuma atenção. É o caso da SUG 02/2014 (pelo fim da imunidade tributária
para igrejas no Brasil). A proponente, ao perceber a ineficácia de tentar promo-
ver um debate online, pois o tema afetava diretamente os interesses conserva-
dores dos parlamentares da bancada religiosa, passou a desenvolver uma agen-
da de atuação corpo a corpo no Senado. Por outro lado, a SUG 08/2014 (pela
descriminalização do uso da maconha), apesar de ser considerada polêmica,
conseguiu apoio mais amplo nas redes sociais, principalmente por acionar con-
teúdos que mostravam histórias de pessoas que portavam doenças graves, mas
que melhoraram com o uso de medicamentos contendo canabidiol. Se o uso
recreativo da maconha encontrava resistência nos comentários, o interesse na
saúde pública, principalmente quando envolvia doenças em crianças, conseguia
mobilizar retornos de interesse à SUG.

DINÂMICAS E DEMARCAÇÕES NAS MÍDIAS DIGITAIS


Noções relativas ao tempo, às pessoas e às formas de organização das relações
sociais descritas nas pesquisas possibilitam entender como esses elementos
organizam as experiências digitais e as formas de interação nos contextos ob-
servados. A cultura digital, assim, participa da forma como os grupos dão sen-
tido às suas experiências sociais e singularizam distintas maneiras pelas quais
a internet passa a ser compreendida (Miller, 2011; Miller et al., 2016). Em sua
diálogos com daniel miller no campo da comunicação

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tese, Silva (2010) percebeu que, conforme os celulares adentravam os contextos


familiares, as pessoas sentiam que precisavam estar perto do aparelho para
não perder nenhuma chamada ou SMS. Pereira (2017) observou essa mesma
continuidade, relacionada, todavia, à necessidade de checar constantemente
as redes sociais. Para as interlocutoras de Silva (2010), o celular invocava a
necessidade de elas estarem “24 horas” disponíveis para atender ligações, en-
quanto as de Pereira, da mesma forma, sentiam que deveriam estar “sempre
conectadas”, principalmente para atender às necessidades de filhos(as) e ma-
ridos e para se sentir atualizadas a respeito da vida social. Se as interlocutoras
de Pereira estavam conectadas o dia todo para o cuidado familiar, as da pes-
quisa de Machado (2019) também sentiam essa noção de urgência do tempo.
Os perfis masculinos agiam como se elas estivessem 24 horas disponíveis ao
contato sexual, enviando convites incessantes para transas, pedindo fotos, ma-
nifestando “elogios” descabidos incansavelmente ou ainda, quando frustradas
as tratativas de consumação sexual, avisando que estavam se masturbando
com o conteúdo das conversas.
Pavanello (2019) também percebeu como o consumo do Facebook estabe-
lecia uma relação direta entre as mães e a demarcação do tempo da tragédia.
Além das publicações sobre amor, valor das amizades, luto e mensagens de
protesto e denúncia da impunidade, outro importante uso era o compartilha-
mento de publicações referentes aos meses e anos transcorridos desde o incên-
dio. Para elas, o Facebook se transforma em um calendário público de atualiza-
ção da saudade. O sistema automatizado de “lembranças”, que reapresenta na
timeline do(a) usuário(a) postagens antigas, também interferia na produção so-
cial do afeto, surpreendendo ou emocionando as mães e impactando o geren-
ciamento cotidiano das emoções.
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 861 – 886 , set. – dez., 2020

As pesquisas observam também que as interações com a modalidade


“amigo” do Facebook não implicavam necessariamente intimidade ou proximi-
dade. Essas interações geralmente estavam concentradas em modalidades que
se encaixam em “outras”, no sentido de que elas não configuram relações ne-
cessariamente mantidas com pessoas próximas ou conhecidas (Spyer, 2018;
Miller & Venkatraman, 2018). Esse deslocamento reconfigura tanto os entendi-
mentos sobre a categoria conceitual “amizade” quanto a noção de pessoa e
comportamentos que se articulam nas redes.
Não raras vezes os trabalhos de campo, especialmente sobre as culturas
juvenis, pontuaram modalidades de insultos, brigas, ameaças e agressões que
não eram apenas admitidos, mas negociados dentro do que cada grupo enten-
de por “amizade de Facebook” e daquilo que é esperado individualmente pelas
pessoas conectadas à rede. Interações desse tipo podiam ser percebidas nos
aplicativos de conversação, como WhatsApp ou Messenger, ou nos espaços de
conversa privada, como as dm (direct message) do Instagram. Para muitos(as)
dos(as) interlocutores(as), esses espaços são os principais lugares onde se pode
artigo | sandra rúbia da silva e alisson machado

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conhecer verdadeiramente alguém. Como o perfil na rede social é considerado


um lugar de formulação pública da imagem, é nas conversas privadas que as
pessoas se dão mais a conhecer, sem tantas amarras sociais.
As publicações e interações públicas permitem maior atuação com atores
sociais não muito próximos ou mesmo desconhecidos, ou que tenham algum
tipo de interesse, ainda que momentâneo. Isso vale tanto para curtidas (likes)
em fotos, que podem independer da proximidade, quanto para marcações e
interações mais amplas do que a núcleos sociais específicos. Nesse contexto, a
autoapresentação é uma característica fundamental da noção de pessoa elabo-
rada nas redes, que precisa angariar reconhecimento entre aquilo que é postado
e o que se sente em relação à pessoa que posta. Por meio da noção de máscara
social (Miller, 2011) – diálogo que se estabelece com os conceitos de “palco”,
“equipe” ou “fachada social”, ou seja, múltiplos arranjos no campo das interações
(Goffman, 2009) –, trabalhos como os de Pereira (2017), Trindade (2018) e Macha-
do (2019) conseguiram entender contextos digitais em que interessava mais o
trabalho de enunciação, ou seja, os esforços para dizer e mostrar do que efeti-
vamente aquilo que se mostrava.
Pereira (2017) identificou esse processo em uma de suas interlocutoras,
uma manicure, que se apresentava no Tinder como “doutora”, vestindo jaleco
branco para se passar por médica. Uma amiga havia ajudado a editar a foto,
“diminuindo a papada”, as manchas e o tamanho do rosto. Essa mentira, que
ela usava mais para se divertir, demonstra uma separação entre sua apresen-
tação nesse aplicativo específico com o perfil do Facebook, em que todos os
dados estavam indexados como os mais próximos “à sua vida real”. As provo-
cações entre os jovens que não tinham a mesma popularidade nos likes por não
terem fotos do corpo sarado, no campo de Trindade, e as fofocas sobre as infi-
delidades conjugais e falsas juras de amor declaradas no Facebook, na pesqui-
sa de Machado, mostram não apenas como as reputações são projetadas e vão
circulando, mas os valores sociais de quem interage com esse tipo de conteúdo.
Já França (2018) percebeu como a atuação dos proponentes das SUGs im-
plicava seu reconhecimento como ativistas do tema, incluindo as pessoas adicio-
nadas às redes sociais em um sistema de ajuda e reciprocidade. Em um vídeo
postado, o interlocutor responsável pela SUG 08/2014 performa fumando maconha
e fazendo explicações sobre o projeto. Ao pedir votos à sugestão, ele ensina as
pessoas a ligar para o Alô Senado (canal de comunicação pública) para manifestar
apoio ao projeto. A fim de demonstrar como é fácil votar, o rapaz deixa o áudio do
telefone no viva-voz e ensina como qualquer pessoa também pode atuar.
A ambiguidade da noção de pessoa se expressa nas mídias digitais da
mesma forma com que as relações como parentesco, parentalidades, filiações
e associativismos são negociados, flexibilizados ou reforçados, enquanto es-
truturas concretas do mundo social (Miller & Madianou, 2012; Miller & Venka-
traman, 2018, Miller et al., 2016). Na pesquisa de Paz (2019), a organização por
diálogos com daniel miller no campo da comunicação

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“patentes” demonstra como os cargos e méritos eram atribuídos aos(às)


membros(as) a fim de promover seleções para as diferentes atividades, como
o socorro nas crises suicidas ou o mapeio e hackeio de explanadores (quem
divulga fotos íntimas das meninas). Dessa forma:

Cada patente tem sua missão que são práticas secretas, entre elas está a nomea-
da por Forasteiro, que é o menor nível de patente dos membros. São os que estão
chegando à comunidade e conhecendo como ela funciona. Também entre os
cargos ocupados pelos membros estão os cargos ocultos. São eles: Guarda: Mais
velho, Anjos, Deusa Kaneki e Deus Kaneki; Zero, e Rainha da corte. A Guarda são
membros que detêm poder maior na comunidade, já com um grau de conheci-
mentos avançado (Paz, 2019: 114).

As obrigações e continuidades do parentesco são demonstradas por Pa-


vanello (2019) tendo em vista que as mães seguem cuidando dos(as) filhos(as)
perdidos(as). Uma delas desativou a conta da filha no Twitter depois que pes-
soas utilizaram uma frase escrita pela jovem na noite da tragédia para espalhar
teorias conspiratórias. Essa mãe mantém o perfil da jovem no Facebook “em
memória” (quando o perfil fica em funcionamento após a morte do(a) usuário(a)
como um espaço recordação), para que os(as) amigos(as) da rede se sintam
conectados(as) a ele(ela). A publicação de fotografias, no entanto, não ocorre
de forma irrefletida. As mães liberam fotos somente a familiares e amigos(as),
pois temem encontrar esse material sendo desrespeitado em sites ou grupos
que as acusam de “não deixar a cidade voltar a ser feliz”. Kuntz (2018) percebe
como as relações de parentesco redefinem a preocupação dos pais frente a
conteúdos considerados danosos à infância e como o YouTube reorganiza a
reunião das famílias, circunstância que difere, por exemplo, de assistir à tele-
visão, considerado um ato mais solitário da criança.
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 861 – 886 , set. – dez., 2020

Machado (2019) percebeu que as relações de parentesco que se desenvol-


vem entre as trans eram anteriores a suas inscrições nas mídias digitais e en-
volviam formas práticas de sobrevivência, uma vez que, ao assumir suas tran-
sidentidades, elas eram expulsas de casa, abandonavam a escola e não encon-
travam trabalho a não ser na prostituição. Com isso, as amizades no Facebook
descrevem relações sociais por vezes mais efetivas do que o parentesco consan-
guíneo. Elas se organizavam como irmãs, filhas, mães, avós, tias (do território
material e simbólico que é “se assumir” e “enfrentar a quadra”). A divisão entre
casas, famílias e gerações de novas meninas que já eram mães ou tias, em ques-
tão de dias ou semanas, a depender da chegada das mais novas à quadra (lugar
da prostituição), estabelece as formas desses relacionamentos nas interações
digitais. O Facebook disponibiliza, em uma seção “sobre” o usuário, espaço para
indexar os perfis de familiares. Nessa seção, o parentesco pela vida da noite era
fixado e tornado público. O mesmo acontece para as linhas entre os(as) orixás,
que assumem a cabeça daqueles(as) que praticam as religiões de origem africa-
na e que passam a ser assumidos(as) de forma pública nos perfis na rede.
artigo | sandra rúbia da silva e alisson machado

877

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com a análise, demonstramos como as pesquisas do GP Consumo e Culturas
Digitais têm realizado uma costura interdisciplinar entre o campo da comuni-
cação e o da antropologia, seja pelo caráter etnográfico das pesquisas analisadas
ou dos diálogos com o campo da antropologia do consumo e da antropologia
digital e que se alinham às perspectivas teórico-metodológicas de Miller. Para
tanto, descrevemos alguns elementos que participam das práticas de consumo
e elaboração dos gêneros culturais implicados nos contextos de pesquisa anali-
sados. O estudo do consumo das mídias sociais e das tecnologias digitais, tal
como o compreendemos, permite perceber como as pessoas interpretam e dão
sentido a suas próprias interações, sendo interpeladas por valores, percepções,
moralidades e capitais próprios de que dispõem, pelas configurações da infra-
estrutura tecnológica, bem como pelas circunstâncias de tempo e espaço em que
se encontram. Com isso, demonstramos uma pluralidade de elementos que nos
ajudam a compreender como a tecnologia digital participa da vida social e a
configura, atuando tanto para a manutenção das normatividades sociais exis-
tentes quanto na proposição de agências cotidianas e formas de resistência.
Os gêneros culturais, como usos específicos da cultura material por in-
divíduos ou grupos, elaboram-se na experiência vivida e nos contextos parti-
culares e cotidianos em que as pessoas utilizam as tecnologias digitais. Essa
perspectiva implica entender que os usos das mídias sociais são relacionais,
tanto às práticas e aos contextos observados quanto às formas de que dispomos
para observar, ou seja, como o trabalho de campo frente a esses contextos vai
sendo construído. Nas pesquisas analisadas, esse aspecto está relacionado aos
desafios metodológicos, às estratégias para acesso às experiências digitais, à
permanência junto a interlocutores(as) e ao reposicionamento dos imponde-
ráveis que podem se desdobrar em cenários tanto online quanto off-line. Tondo
(2016) e Trindade (2018) desenvolveram atividades pedagógicas nas escolas,
utilizando esses espaços para a observação empírica. Além disso, mais de uma
vez, afirmaram que se envolveram nas “tretas” (confusões) de seus(suas)
interlocutores(as), atuando como mediadores, precisando ponderar até que
ponto “tomar uma posição” causaria impasses e problemas para o desenvolvi-
mento das pesquisas.
Nos trabalhos com mulheres, Pereira (2017) e Machado (2019) entenderam
que as mídias digitais os aproximavam das interlocutoras em momentos que
o contato físico era impossível. Antes dessa aproximação, partilhavam de um
sentimento de insegurança (de importunar, de as interlocutoras “simplesmen-
te” desistirem da pesquisa), o que implicava estratégias para manter as intera-
ções. Participar da vida social off-line ajudava a manter esses vínculos, mas eles
não podiam ser tomados de forma apriorística. Por isso, revelam que se trans-
formaram em confidentes (principalmente amorosos), tendo que, para isso,
dividir suas próprias intimidades.
diálogos com daniel miller no campo da comunicação

878

Machado (2019) percebeu ainda que o trabalho de campo seria entre-


cortado de acordo com as temporadas de suas interlocutoras e optou por
utilizar as mensagens em áudio do WhatsApp, mas só depois de perceber que
o cotidiano possuía uma organização própria. De manhã, elas voltavam can-
sadas da quadra e dormiam. Interagiam melhor à tardinha (enquanto se ar-
rumavam para sair) ou à noite, no intervalo entre um atendimento e outro.
Suas interlocutoras também souberam utilizar dessa ferramenta de acordo
com suas necessidades, como quando estavam em alguma situação de risco
e pediam para que ele ficasse conectado com elas, para demonstrar a alguém
(em geral algum homem inoportuno ou perigoso) que elas não estavam so-
zinhas.
Kuntz (2018), por sua vez, aponta que as crianças estavam mais abertas
a conversar com ela na internet do que presencialmente, quando pareciam
mais envergonhadas. Ela indaga, sobre essas conversas, se as respostas monos-
silábicas que recebia poderiam indicar um aparente desinteresse ou, pelo con-
trário, uma característica própria da linguagem infantil – não exigindo delas
vasto domínio da linguagem escrita ou grandes explicações de suas ações na
internet. A imersão de Paz (2019) implicou sua própria transformação como
pessoa para o grupo. Inicialmente considerada uma forasteira (quem sabe pou-
co sobre o grupo), ela se candidatou à patente de diário (pessoa que se compor-
ta como um “livro aberto” para que a “caneta”, o(a) jovem que está precisando
de ajuda, “escreva” nele). A partir disso, recebeu de uma interlocutora de 17
anos um treinamento para atuação terapêutica, que implicava seguir um con-
junto de 11 regras e preencher modelos de “relatórios diários” e “prontuários”
apresentando as características depressivas e os quadros de melhora que pre-
cisava enviar regularmente aos seus superiores.
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 861 – 886 , set. – dez., 2020

Com esses exemplos queremos demonstrar que a inscrição dos(as)


pesquisadores(as) em campo implica formas específicas de atuação – tanto
em relação às mídias quanto a interlocutores(as) – tendo como referente as
principais dinâmicas e características de cada contexto. O modo como essa
atuação vai sendo construída implica diretamente como cada realidade social
vai sendo interpretada. Assim, temos destacado a importância de situar nos-
sos próprios usos e apropriações, o que permite inquirir as configurações
metodológicas e as estratégias que conformam o exercício da pesquisa.
Essa postura reflexiva se assenta na percepção crítica da antropologia
de Miller, de que, por meio dos estudos da cultura material e das tecnologias
digitais, é possível pensar as transformações tanto da humanidade quanto
da própria produção de conhecimento, pois “parece razoável, portanto, tam-
bém usar a antropologia digital para desenvolver debates sobre o que a hu-
manidade está se tornando e também o que a antropologia está se tornando”
(Miller, 2018, tradução nossa). Não refletir sobre nossas próprias práticas é
ignorar o movimento situacional, dialético e mediado das experiências que
artigo | sandra rúbia da silva e alisson machado

879

desejamos compreender e, por conseguinte, perder de vista um dos maiores


ensinamentos que Daniel Miller nos deu, de que o digital é humano.

Recebido em 13/5/2020 | Revisto em 30/8/2020 | Aprovado em 28/9/2020

Sandra Rúbia da Silva é doutora em antropologia social pela Universidade


Federal de Santa Catarina, com período sanduíche no University College
London, com supervisão de Daniel Miller. Mestra em comunicação e
informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e bacharela em
comunicação social publicidade e propaganda pela Universidade Regional de
Blumenau. É docente do Departamento de Ciências da Comunicação e do
Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de
Santa Maria e pesquisadora-líder do GP Consumo e Culturas Digitais (UFSM/
CNPq). Seus atuais interesses de pesquisa e áreas de atuação incluem teorias
do consumo, cultura material, culturas digitais e práticas de consumo da
internet para a inclusão social.

Alisson Machado é doutor e mestre em comunicação pelo Programa de Pós-


Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria e
bacharel em comunicação social, habilitação em jornalismo, pela mesma
instituição. Membro do GP Consumo e Culturas Digitais (UFSM/CNPq). Seus
atuais interesses de pesquisa e áreas de atuação incluem as perspectivas
qualitativas de investigação; antropologia e consumo das mídias; e mídia,
relações entre gênero, corpo e sexualidade.
diálogos com daniel miller no campo da comunicação

880

NOTAS
1 Vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Comunica-
ção da Universidade Federal de Santa Maria.
2 No texto, essas expressões são utilizadas como sinônimos.
Noção advinda de Certeau (2014), de que os usos possibi-
litam consumos combinatórios, arte de utilizar que cir-
cunscreve as práticas do consumo na vida cotidiana. A
elas se soma com mesmo significado a expressão “gêneros
culturais” tomada de Miller (2013; Miller et. al., 2016) pa-
ra sinalizar práticas particulares de consumo das tecno-
logias. O consumo é entendido como um fenômeno social,
simbólico e cultural (Miller, 1987; Sahlins, 2003; Douglas
& Isherwood, 2004; Barbosa & Campbell, 2006), e os con-
tornos e enfoques midiáticos estão entremeados nessas
práticas.
3 Aproximações entre o campo da comunicação e a antro-
pologia podem ser encontradas, entre outros, em traba-
lhos como os de Travancas e Farias (2003) e Lago (2008).
4 Os trabalhos, ao ref letir o consumo por camadas popula-
res, criticam especialmente as políticas da carência ma-
terial (Sarti; 2011; Rocha & Barros, 2009). Com isso, per-
cebem não apenas os esquemas de distinção entre grupos
(Bourdieu, 2007), mas também o impacto, a ascensão e a
participação social das camadas populares pelo consumo
(Slater, 2002; Silva, 2008).
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 861 – 886 , set. – dez., 2020

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diálogos com daniel miller no campo da comunicação

886

DIÁLOGOS COM DANIEL MILLER NO CAMPO DA


COMUNICAÇÃO: REFLEXÕES A PARTIR DAS
PESQUISAS DO GP CONSUMO E CULTURAS DIGITAIS
Resumo Palavras-chave
O artigo reflete as práticas de investigação do grupo de Consumo;
pesquisa Consumo e Culturas Digitais (UFSM/CNPq) tendo cultura material;
em vista o legado teórico de Daniel Miller a respeito do etnografia;
consumo e da cultura material em interface com os estudos internet;
do campo da comunicação e, em especial, das culturas di- mídias digitais.
gitais. Mediante a apreciação crítica de quatro teses e seis
dissertações, demonstramos como temos realizado diálo-
gos com a antropologia digital por meio da tessitura de
diferentes pesquisas de campo que animam e propõem
desafios à pesquisa empírica. Nossa filiação à linhagem
etnográfica de Miller nos faz perseguir o argumento de que
as práticas cotidianas de consumo da internet, das mídias
sociais e de dispositivos móveis podem ser entendidas en-
quanto gêneros culturais que se elaboram na experiência
vivida e nos contextos particulares em que as mídias digi-
tais são utilizadas.

DIALOGUES WITH DANIEL MILLER IN THE


COMMUNICATION FIELD: REFLECTIONS FROM THE
RESEARCH OF CONSUMPTION AND DIGITAL CULTURES
RESEARCH GROUP
Abstract Keywords
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 861 – 886 , set. – dez., 2020

The article reflects the research practices of the research Consumption;


group Consumption and Digital Cultures (Consumo e Cul- material culture;
turas Digitais, Brazil) in view of Daniel Miller’s theoretical ethnography;
legacy regarding consumption and material culture in in- internet;
terface with studies in the field of communication and in digital media.
particular of digital cultures. Through the critical apprais-
al of four theses and six dissertations, it demonstrates how
we have been working with digital anthropology through
the interlacement of different field researches that ani-
mate and pose challenges to empirical research. Our af-
filiation with Miller’s ethnographic lineage makes us pur-
sue the argument that it is possible to understand the
everyday consumption practices of the internet, social
media and mobile devices as cultural genres elaborated in
the lived experience and in the particular contexts in which
digital media are used.
http://dx.doi.org /10.1590 /2238-38752020v1035

1 Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Programa


de Pós-Graduação em Comunicação, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
claudiapereira@puc-rio.br
https://orcid.org/000-0002-5382-130X
11Universidade de Brasília (UnB), Programa de Pós-Graduação em
Comunicação, Brasília, DF, Brasil
Cláudia Pereira I
nandamartineli@yahoo.com.br
https://orcid.org/0000-0002-0196-048X
Fernanda Martinelli Il

As pessoas, as coisas e as perdas: perspectivas


da cultura material e do consumo nos estudos
de Daniel Miller
As pessoas existem para nós em e por meio de
sua presença material 1
Daniel Miller

Tinha tudo sob controle: sua rotina regrada, seu corpo, seus sentimentos, seus
relacionamentos, sua mesa de escritório na sala. Tudo estava conforme o espe-
rado, nada fora do lugar. Um dia, pela janela de sua casa, sempre aberta para
os dias de sol, avançou um vento muito forte, imprevisível, que primeiro sacu-
diu a cortina, que fez tombar a luminária, estilhaçando a lâmpada em mil pe-
daços, e que depois percorreu toda a casa, cômodo por cômodo, derrubando
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 887 – 905 , set. – dez., 2020

bibelôs, desfolhando as plantas, espalhando as pétalas secas perfumadas pela


mesinha de centro, agitando as folhas do livro aberto na mesa de cabeceira,
levando ao chão a correspondência recém-resgatada da caixa de correios. Fa-
zendo a volta pelo corredor, depois de adentrar os quartos, antes de perder sua
força, o vento deixou o tapete do escritório todo coberto com as mais de 100
folhas de papel recém-impressas − e que agora, espalhadas, deixavam sem
sentido os números das páginas −, suas canetas multicoloridas e as fotografias
antigas que estava separando a fim de levar para sua irmã. Saiu correndo da
cozinha, assustada com a súbita visita desse vento de verão, deparou-se com
a bagunça que de repente se instalara em seus espaços e, primeiro, imobilizou-
se, depois sentiu raiva pela desordem, em seguida entristeceu, resignou-se e,
só mais tarde, pôs-se a rearranjar as coisas que restaram, resmungando e la-
mentando o que se perdera.
Metáforas e eufemismos são figuras de linguagem sempre bem-vindas,
mesmo quando o discurso se pretende sociológico e científico. Como José Ma-
chado Pais (1993, p. 13) já pontuou, “No discurso científico, a metáfora desem-
as pessoas, as coisas e as perdas

888

penha também uma função de transporte − transporte de ideias − para melhor


as fazer chegar a bom termo, a bom porto. Deste modo, a metáfora não é redu-
zível a ornamento. É também um meio de redescrever a realidade”. Quando
tentamos abordar temas que podem trazer algum tipo de ruptura na ordem que
estabelecemos para nossas vidas diárias, tal qual o vento inesperado que entra
violento pela janela da casa, a metáfora nos chega a bom termo. A morte de
pessoas que amamos, para a maioria de nós, é um desses temas disruptivos.
De repente, vemos nossa vida tão desordenada e sem sentido como o tapete
da sala de estar. Mas há também outros tipos de morte, não de pessoas, mas
de coisas ou de um conjunto de coisas, que nos levam a um sentimento de luto,
aquele que primeiro nos paralisa, depois nos leva à revolta ou indignação, em
seguida à tristeza, resignação e reconstrução. Em meio a esse processo, passa-
mos a nos posicionar como sujeitos que somos diante de uma nova realidade
e isso fazemos, não raro, reordenando, rearranjando e ressignificando as ma-
terialidades ou o que delas restou, para que possamos, enfim, nos tornar outra
pessoa, que se reconfigura diante de uma nova ordem.
O objetivo deste artigo é enfatizar a construção ontológica que se dá
entre pessoas e coisas, coisas e pessoas, para além das trocas simbólicas, co-
letivas e públicas, promovida pelo consumo. Para tanto, propomos uma reflexão
sobre relações que as pessoas estabelecem com as coisas em situações de luto,
expressão que usaremos aqui referindo-nos não somente ao sentimento asso-
ciado à morte de pessoas, mas ampliando seu significado para um sentimento
de perda de determinadas materialidades.
A abordagem das teorias de Daniel Miller, antropológica e etnográfica,
que se concentra nas relações dialéticas entre pessoas e coisas, e entre coisas
e pessoas, é o que sustenta as ideias propostas neste texto. Dois de seus livros,
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 887 – 905 , set. – dez., 2020

Material culture and mass consumption, de 1987, e The comfort of things, de 2008,
nos inspiram na discussão sobre a concepção maior dos estudos da “cultura
material” no campo da antropologia do consumo.
Em sua obra de 1987, Miller elabora o que se tornaria, a partir de então,
sua teoria geral sobre a cultura material e sobre o consumo, apresentando-nos
a conceitos importantes para a compreensão de seus textos, como “objetifica-
ção”, “humildade dos objetos” e “poder da agência”, os quais serão explorados
adiante.
Mais tarde, em 2008, o autor nos oferta outro texto, menos formal e cheio
de densidade teórica, que busca fazer conhecer de que modo os londrinos re-
sidentes em uma rua da cidade − muitos deles não ingleses – se relacionam
com seus objetos. Batendo de porta em porta, o antropólogo escolhe 30 retratos
− no original, portraits − de pessoas, de uma centena delas, algumas vivendo
sozinhas e outras em família, que estabelecem diferentes tipos de “relaciona-
mentos” com os objetos que possuem dentro de suas casas, cada uma em sua
cosmologia e diversidade muito próprias, mas que, todas juntas, levam-nos a
artigo | cláudia pereira e fernanda martinelli

889

compreender as sociedades em que vivemos. Cabe aqui antecipar que Miller


entende o termo “objeto” de modo bastante amplo, o que inclui vasos, por
exemplo, mas também cachorros. Aprendemos, com os portraits de Miller (2008,
p. 286), que os objetos materiais são vistos como parte integrante e inseparável
dos relacionamentos, aspecto que é central para a vida moderna − e, mais que
isso, o autor defende a centralidade da cultura material para os relacionamen-
tos que colecionamos ao longo da vida. De acordo com ele, há um ordenamen-
to que diz respeito às coisas que nos cercam e, por consequência, aos relacio-
namentos que mantemos. Essa ordem, que em seu livro Miller chama de “es-
tética”, é que conduz as pessoas para a socialização, quando então tomamos
as categorias sociais para afirmar quem somos e quem é o outro. Dos 30 portraits,
escolhemos um, o de Elia, para nos ajudar a pensar de que modo as coisas e as
pessoas se relacionam, em sentido estrito, para além da esfera das trocas sim-
bólicas e, portanto, públicas e coletivas do consumo.
Na primeira seção do artigo, trazemos breve síntese da teoria de Daniel
Miller, destacando alguns conceitos importantes para a compreensão de nosso
ponto de vista e uma discussão sobre a relação entre consumo e cultura mate-
rial. Na segunda seção, apresentamos um olhar etnográfico de Miller sobre o
caso de Elia e o relato de Walter Benjamin sobre seus livros, buscando compre-
ender de que modo se dá o poder de agência dos objetos em contextos de
mudança de vida.

O luto à luz da cultura material em Daniel Miller


Antes de entrar na discussão mais específica sobre o luto, apresentamos breve
panorama do universo intelectual que orienta nossas reflexões para pensar,
junto com Miller, os significados das coisas em contextos de perdas. Embora a
discussão sobre luto seja pontual nos escritos do autor, sua vasta obra fornece
subsídios que elaboram a compreensão das relações entre as perdas e as ma-
terialidades, bem como do luto e suas cosmologias. No horizonte da discussão
que desenvolvemos aqui estamos, no sentido apontado por Miller e Parrott
(2009), menos preocupadas com as causas das perdas do que com o modo como
os objetos têm protagonismo simultaneamente na continuidade e no término
de relações marcadas pelo luto.
Em Material culture and mass consumption, até o momento ainda sem tra-
dução para o português, Miller (1987) afirma a existência de uma relação dia-
lética entre pessoas e coisas. A preocupação do autor com o estudo das coisas
remonta à sua formação em arqueologia, e a partir desse livro adquire contor-
nos que expressam um esforço para pensar como sujeitos e objetos se consti-
tuem mutuamente em contextos contemporâneos, marcados em particular pela
produção industrial de bens em larga escala. Aqui, nosso interesse recai espe-
cificamente sobre o modo como pessoas continuam a significar coisas após sua
morte e como os objetos produzidos em larga escala se ressingularizam em
as pessoas, as coisas e as perdas

890

contextos específicos de perda. Se a morte silencia os objetos em um primeiro


momento, sobretudo se se trata de morte inesperada ou não planejada, nos
termos de Miller (2013), ela também produz, posteriormente, deslocamentos
que evidenciam a autonomia das coisas. A compreensão dessas dinâmicas ten-
siona o próprio sentido social da herança, como discutiremos mais à frente,
pelo reconhecimento de que os objetos armazenam sentidos, absorvem histó-
rias, exalam emoções, sobrevivem a perdas e têm poder de agência.
Antes de Miller, outros intelectuais se dedicaram ao estudo das coisas,
e dentre eles destacamos Marshall Sahlins (2003) em “O pensamento burguês”,
texto originalmente publicado no livro Cultura e razão prática, de 1976; Arjun
Appadurai (1986) em The social life of things; e Mary Douglas e Baron Isherwood
(2004), em O mundo dos bens, cuja edição original é de 1979. Sahlins, Appadurai,
Douglas e Isherwood, cada qual a seu tempo, registram contribuições funda-
mentais no sentido de reivindicar a centralidade da cultura nas trocas econô-
micas e da cultura material em particular no estabelecimento e manutenção
de vínculos sociais que não se esgotam nem dependem exclusivamente das
atividades comerciais. Já na introdução de Material culture and mass consumption,
Miller (1987, p. 3) se coloca ao lado desses autores ao reivindicar o reconheci-
mento da cultura material como elemento central na organização social da vida
moderna, ao mesmo tempo em que afirma ter sido a relação entre sociedade
e cultura material notoriamente negligenciada pelos meios acadêmicos ao lon-
go do século XX.
Miller, porém, também se distingue de seus antecessores ao propor um
novo olhar sobre o entendimento da cultura material na vida moderna e con-
temporânea, e talvez nisso resida a grande contribuição de Material culture and
mass consumption. Ele introduz seu livro com a argumentação de que, em rela-
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 887 – 905 , set. – dez., 2020

ção aos conhecimentos de linguística, nossa compreensão da cultura material


é extremamente rudimentar (Miller, 1987, p. 95). Mas embora adote uma pers-
pectiva dos bens como mediadores de relações sociais, o antropólogo britânico
não procura transplantar metodologias da linguística para o estudo dos objetos;
antes ancora sua afirmação em constatações etnográficas e fundamenta essa
relação entre pessoas e coisas a partir de uma “teoria da objetificação”, de
inspiração hegeliana.
Segundo Miller, existe uma relação de interdependência ontológica en-
tre pessoas e coisas: pessoas precisam de coisas para ser pessoas, coisas pre-
cisam de pessoas para ser coisas. Nessa dinâmica de cocriação da cultura ma-
terial, nos ensina ele, há, nas materialidades que nos cercam, um poder de
agência que nos interpela e, muitas vezes, nos controla, seja no espaço da vida
social ou da vida privada. Embora atualmente essa já seja uma perspectiva
consolidada no campo da filosofia e, mais especificamente, da fenomenologia,
sobretudo em função de Hegel, ela continua a desafiar o campo dos estudos de
consumo.
artigo | cláudia pereira e fernanda martinelli

891

Podemos mesmo considerar que, para Miller, a materialidade é um atri-


buto não somente das coisas, mas também das relações. O fenômeno do con-
sumo, por sua vez, atribui aos bens materiais o lugar privilegiado de marcado-
res sociais, dentro de um sistema de significação e de codificação que nos
classifica, hierarquiza e socializa − e nós também classificamos, hierarquizamos
e socializamos as coisas, nos usos sociais que delas fazemos. A relação é, na
perspectiva da antropologia do consumo, dialógica.
A cultura é o lugar em que se realiza o consumo, lição que aprendemos
na tradição dos estudos antropológicos que remontam à discussão sobre a dá-
diva em Marcel Mauss (2007) e ao caráter simbólico indissociável das trocas.
Consumo, aqui, tomado como o sistema de significação e comunicação em
Douglas e Isherwood (2004), no qual os bens são codificados para estabelecer
aproximações e distâncias sociais, mantendo vivas as dinâmicas das sociedades.
São os bens materiais que elaboram identidades coletivas e individuais, e, mais
ainda, na sociedade de consumo, não resta dúvida de que há uma relação de
interdependência entre pessoas, coisas e significados. Por “cultura material”,
expressão controversa adotada por Daniel Miller para delimitar seus estudos
sobre as materialidades, entendemos o conjunto de “coisas”, as quais, por fazer
parte da cultura, estão intrinsecamente dotadas de significados, que sustentam
o sistema de trocas, base do consumo. E tal qual Miller, evitamos subjugar os
bens materiais à sua função meramente simbólica ou sígnica, compreendendo
que há, neles, um poder de agência sobre os indivíduos. Trata-se de inspirar-se
na discussão sobre materialidade e sociedade desenvolvida por Tim Dant (2006):
o autor toma de empréstimo a expressão braudeliana “civilização material” e
o “processo civilizador” de Norbert Elias para enfatizar que os objetos criados
pela civilização tanto constituem como refletem a sua natureza. Para Dant, o
valor dos objetos materiais que estão incorporados na vida social não deriva
exclusivamente de suas origens na produção, de seus significados atribuídos
pelo consumo, de seus usos práticos na vida cotidiana ou de redes associadas
com sua emergência como entidades técnicas – ele deriva de tudo isso simul-
taneamente. E, mais, o autor demonstra a interdependência entre materialida-
de e sociedade uma vez que os objetos são mediadores das relações humanas,
conectando pessoas, ganhando autonomia por meio de ações capazes de regu-
lar/controlar os ambientes em que nos encontramos e armazenando memória
e informação.
À luz da discussão que propomos neste artigo, acreditamos, sobretudo,
que a cultura material é um espaço de transcendência, grosso modo, em que as
coisas, em algum momento, podem deixar de servir exclusivamente ao consu-
mo, como parte de seu sistema, cujos significados são públicos e coletivos, e
passar a integrar outro sistema, este privado e subjetivo, o que configura uma
reconversão de valores e de valorações, as quais, muitas vezes, elaboram novas
semânticas, representações e relações dentro de universos particulares alheios
as pessoas, as coisas e as perdas

892

às prescrições do consumo como espaço de trocas – simbólicas e mercantis.


Para tanto, buscamos o contexto do luto como um dos momentos em que ocor-
re esse fenômeno.
Nesse sentido, entendemos que nem sempre a classificação, a hierar-
quização e a socialização explicam a relação entre pessoas e coisas, entre coi-
sas e pessoas, quando tal relação se dá em lugar distinto daquele em que resi-
dem as trocas simbólicas, especialmente aquelas dadas ao estabelecimento de
cercas e pontes em sociedade. Sendo assim, assume-se que a cultura material,
nos termos de Daniel Miller, sustenta o consumo, mas o consumo não é capaz
de sustentar todas as possibilidades dialógicas da cultura material nas relações
entre coisas e pessoas. É nesse sentido que compreendemos, ao seu lado, que
os estudos de consumo estão inscritos no campo de estudos da cultura material,
porém a cultura material abre possibilidades para um universo mais amplo que
o mundo do consumo enquanto espaço público e coletivo da cultura. Ao longo
de sua obra, Miller reitera inúmeras vezes que o consumo é uma das chaves
para compreender a nossa humanidade. Ao mesmo tempo, demarca que as
práticas de consumo incluem processos de construção identitária, mas a eles
não se restringem, uma vez que são também uma esfera de produção dessa
cultura material.
Essa perspectiva se apoia na premissa de que o contexto da significação,
que aqui discutimos a partir do luto e da perda, revela os códigos coletivos e
públicos que mapeiam a relação dialética entre as pessoas e as coisas. Mas é
justamente o contexto da vida cotidiana que faz emergir os códigos particula-
res, nem sempre partilhados socialmente, que configuram a interdependência
ontológica entre as próprias materialidades das coisas e das pessoas, e não
apenas pela representação, pela significação dessa relação. Ou seja, a teoria
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 887 – 905 , set. – dez., 2020

dialética da objetificação não é uma teoria da representação, mas um processo


de criação de novas formas e significados, que por sua vez produzem também
novas subjetividades.
Metodologicamente, a contribuição dos estudos de Daniel Miller dedica-
dos à cultura material não é puramente epistemológica e reside sobretudo na
abordagem antropológica e etnográfica das relações dialéticas entre pessoas e
coisas. A teoria da objetificação, fundamentada em uma compreensão etnográ-
fica da cultura material, transcende tanto a dualidade quanto as hierarquias
tradicionalmente atribuídas à relação sujeito/objeto. Sua formulação problema-
tizou o paradigma de um suposto poder de agência dos indivíduos sobre as
coisas, dialogando e, por vezes, opondo-se a outras perspectivas teóricas, como
as de Jean Baudrillard (1993), que toma os objetos como instrumentos e signos
dentro do sistema do consumo, e de Russel Belk (1988), que entende que as coi-
sas são posses (aí incluindo não somente bens materiais, mas também pessoas,
lugares, coleções e até mesmo partes de um corpo) que representam extensões
de nosso self.
artigo | cláudia pereira e fernanda martinelli

893

Essa relação sujeito/objeto, dentro das discussões de Miller, engendra


uma série de perguntas, das quais algumas são chave para reelaborar essa dico-
tomia a partir de uma reflexão sobre o poder de agência: quais são os limites e
as possibilidades do poder de agência na constituição do nosso self? E qual o
poder de agência de um objeto para ser o que é? Miller questiona a noção de
agência como um atributo inerente aos sujeitos e/ou objetos e propõe, com sua
teoria da materialidade, um olhar relacional e sempre contextual para a agência.
Outros intelectuais influentes da atualidade também reconhecem o po-
der de agência dos objetos e se dedicam à superação de dualidades entre pes-
soas e coisas, como Bruno Latour (1999) e Tim Ingold (2007).
Latour considera os objetos atores que possuem um tipo de agência que
não pode ser separada do mundo social. Em sua concepção, a agência dos obje-
tos é definida socialmente, em contextos de interação entre sujeitos; e os obje-
tos carregam informações do mundo social; isso é o que lhes fornece agência
para, também, agir no lugar das pessoas – de modo que em seu entendimento os
objetos atuam como representações e não no registro de uma interação dialética
entre pessoas e coisas. 2 Em outras palavras, Latour compreende que a agência
dos objetos é aquela que os sujeitos humanos lhes deram. Em contraponto, Mil-
ler (2002) usa a objetificação para criar uma teoria da cultura material, e argu-
menta em prol do reconhecimento da autonomia das coisas, das coisas como
sujeitos – ou, como propomos, Miller reconhece a “coisidade” das coisas, mas
compreende que a materialidade é sempre o suporte de significados simbólicos
definidos contextualmente.
Miller (1987, 2008) elabora, ainda, uma reflexão sobre a força da presen-
ça das coisas em nossas vidas, ao propor o conceito de “humildade dos objetos”,
e argumenta que a forma como nos relacionamos com os objetos nem sempre
acontece de um modo livremente escolhido. Isso significa dizer que a força dos
objetos muitas vezes reside no fato de que eles não são notados, ou seja, pre-
cisamente porque “não os vemos”, no sentido de não estarmos conscientes de
sua presença, é que são tão poderosos. Esses objetos se inscrevem em nossas
rotinas de uma forma normativa, definindo situações e, como explica Miller,
definindo a nós mesmos – de tal modo que o que somos não se restringe à
materialidade dos nossos corpos e à nossa consciência: estamos também nas
coisas.
Os contextos de luto são sintomáticos para pensar sobre a humildade
dos objetos e sua relação com o poder de agência como definido por Miller. As
coisas que muitas vezes são silenciadas e se inscrevem em situações rotineiras
normativas na vida de alguém potencialmente podem adquirir um novo signi-
ficado com a morte dessa pessoa. Por exemplo, quando se passa a usar um
relógio de uma pessoa amada que morreu, torna-se quase imperativo não sair
de casa sem esse relógio, de tal modo que esse esquecimento pode gerar culpa.
O luto, então, confere às coisas novo poder de agência: coloca os objetos em
as pessoas, as coisas e as perdas

894

evidência, e a consciência da presença desses objetos é uma forma de fazer


com que a pessoa querida permaneça presente.
Assim como Miller, Tim Ingold argumenta que as coisas são tanto ma-
teriais quanto culturais. Contrastando, porém, com a perspectiva etnográfica
e dialética proposta por Miller, Ingold (2007, 2010) propõe uma abordagem ex-
perimental, caracterizada como física e ambiental, ao enfatizar as propriedades
materiais dos objetos ou sua matéria (em inglês, matter). Essas propriedades,
por sua vez, não são qualidades fixas, mas têm um caráter processual e rela-
cional (Ingold, 2007) porque estão em interação com o mundo material que as
circunda. Para ele, o poder de agência reside justamente na materialidade, de
tal modo que “as coisas estão na vida em vez de a vida estar nas coisas”3 (Ingold,
2007, p. 12). As coisas estão vivas e ativas não porque possuem um “espírito” ou
uma vida, mas porque sua matéria, aquilo que as compõe fisicamente, é con-
tinuamente significada pelos contextos de circulação em que essas coisas se
inscrevem ou para os quais são arrastadas, nas palavras de Ingold. Esses con-
textos podem definir tanto a dissolução e o fim das coisas quanto sua regene-
ração. Nisso, segundo o autor, reside a ontologia das coisas.
O que diferencia Miller de outros teóricos, em particular Latour e Ingold,
que, como vimos, também se dedicam a pensar a questão da materialidade, é
o fato de Miller sempre buscar mais os significados das coisas do que a “coisi-
dade” em si. Ou seja, ele dialoga mais com a antropologia do consumo do que
Bruno Latour e Tim Ingold, que no limite olham principalmente para a fisica-
lidade dos objetos.
Em outra publicação, Stuff (Miller, 2010), que em português foi traduzida
como Trecos, troços e coisas (Miller, 2013), Miller (2010, p. 209) afirma que “coisas
(no original stuff) são tanto uma questão de morte quanto de vida”. Na versão
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 887 – 905 , set. – dez., 2020

em português dessa frase a palavra stuff foi traduzida como treco, que conside-
ramos imprecisa, e isso aparentemente confere uma nova dimensão analítica
(em alguns dicionários inglês-português a tradução para stuff é “coisa”). O que
queremos reter nesta reflexão, contudo, é o caráter contingencial das coisas
atravessando contextos de vida e morte de pessoas. Miller (2010, p. 217) lembra
que existe uma variedade de formas pelas quais as sociedades se separam das
coisas e também as retêm e ressignificam.
Raramente, em nossa cultura, guardamos como lembrança objetos que
remetem à morte ou ao processo de alguma doença degenerativa que causou
a morte de entes queridos. O que nos interessa guardar são memórias felizes
dos nossos familiares e amigos. Por isso guardamos fotos, objetos que faziam
parte se sua rotina de trabalho, que foram importantes em alguma ocasião
especial, como a celebração de um casamento, aniversário, alguma homenagem,
uma viagem especial, objetos associados a uma rotina de atividades protago-
nizadas de forma saudável pela pessoa querida. Os exemplos podem se esten-
der indefinidamente. Outro ponto importante nessa discussão, e que Miller
artigo | cláudia pereira e fernanda martinelli

895

(2010, p. 217) observou em sua pesquisa, diz respeito a pessoas de gerações


mais antigas que costumavam definir o que deixariam de herança para seus
familiares, como se esperassem que os objetos selecionados pudessem ajudar
seus descendentes a se tornar mais do que elas gostariam que fossem. A esse
respeito Miller (2010, p. 217) cita como exemplo pais religiosos que podem dei-
xar objetos sagrados como herança para seus filhos na expectativa de que, após
sua morte, esses objetos garantam maior grau de observância religiosa aos seus
descendentes.
A seguir discutimos a relação emblemática entre luto e materialidade re-
fletindo a partir das propriedades materiais das coisas mergulhadas em um con-
texto específico de perdas na história de Elia, personagem descrita em The comfort
of things (Miller, 2008), e de Walter Benjamin, em seu processo de reorganização de
uma nova vida, descrito em “Desempacotando minha biblioteca” (1987).

A vida e a morte das materialidades


Para melhor defender a premissa de que a cultura material é maior do que o
consumo ou a ele anterior, expressão e termo aqui tomados como categorias
de pensamento ou campo teórico, cabe-nos buscar na obra de Daniel Miller
alguma referência etnográfica que nos ancore de volta ao solo fértil da vida
cotidiana. E é aqui que entra Elia, um dos 30 portraits já mencionados.
Elia é uma mulher que vive sozinha em uma casa repleta de objetos que
contam histórias. Elia é, aliás, segundo o autor, uma ótima contadora de histó-
rias. Gesticula tanto, que é possível quem a escuta visualizar mentalmente a
forma das pessoas de sua família que ela constantemente rememora e que já
morreram. A avó, a tia, o tio, a mãe, todos estão presentes nas histórias e nos
objetos da casa de Elia; a presença mais forte, contudo, é a do avô, com quem
ela conversa e a quem pede conselhos, às vezes apoiada na mesa que ele fez
com suas mãos. No armário, que Miller associa a uma espécie de museu, há
roupas que foram costuradas por sua tia querida, usadas por sua mãe e que,
volta e meia, saem para passear ou dançar no corpo de Elia. As joias também
têm seu lugar, mas nada, nada se compara às roupas.
A descrição sensível e densa de Elia feita por Miller estimula a reflexão
sobre perda, sofrimento e luto. Mas não é só isso. Principalmente, faz pensar so-
bre como se constroem relacionamentos, nos termos do autor, com os objetos
das pessoas que morreram, e com elas próprias, especialmente aquelas que são
mais importantes ou mais amadas. Ao contrário do que poderíamos pensar de
forma mais apressada, para Miller a prática de guardar coisas de pessoas que já
morreram não trata de substituir a pessoa que está ausente por objetos que a ela
pertenciam, como uma metonímia. As roupas que Elia guarda tão respeitosa e
carinhosamente, de acordo com Miller (2008), tampouco são meras “representa-
ções” das pessoas que se ausentam, elas são mediadoras que transferem subs-
tância e emoção entre as pessoas, vivas e mortas.
as pessoas, as coisas e as perdas

896

As pesquisas de Daniel Miller buscam sempre a “objetificação” por trás


da relação que as pessoas estabelecem com as coisas. Nesse caso, a objetifica-
ção está na “estética” do interior das casas que visitou, ou seja, na configuração
de valores, sentimentos e experiências humanas, mais do que do sistema re-
petitivo, presente no ordenamento das coisas por meio da decoração, da dis-
posição racional dos objetos nos espaços. No caso de Elia, sua estética pode ser
sintetizada em “relacionamentos, coisas e emoções”. Nas palavras do antropó-
logo, “Os objetos armazenam e possuem, inspiram e expiram as emoções com
as quais foram associados” (Miller, 2008, p. 36). Emoções associadas, é claro,
com as experiências vividas junto às pessoas que, no caso de Elia, fazem parte
de sua história na condição de neta, filha, sobrinha, alguém que tinha uma
família e que, agora, vê-se solitária no mundo.
O ordenamento que damos às coisas e a relação que estabelecemos com
essa ordem é uma forma de encontrar algum conforto existencial naquilo que
é familiar e repetitivo – daí o “conforto das coisas”. A perda material, ou a mor-
te, seria, então, o vento forte que tira tudo do lugar, que desordena, que desafia
o controle sobre a ordem. É o “ficar sem chão”, perder o suporte material que
nos sustenta, é viver o susto, revoltar-se, recolher-se, conformar-se e, depois,
tentar encontrar uma nova ordem ou uma nova “estética” para a vida sem a
pessoa ou o objeto que se perdeu, que ficou para trás.
Miller (2008) observa que a cultura material tem papel central nesses
processos de perda e de luto, que se revelam, no caso de Elia, por meio de três
tipos de objeto: o cemitério, as roupas e as joias. Para o antropólogo, “O instru-
mento de luto mais adequado e bem-sucedido é a coleção de roupas, o mais
difícil, o conjunto das joias, e o mais pungente é o cemitério” (Miller, 2008, p. 42).
O cemitério, observa o autor, é onde Elia ainda pode dar vazão ao seu
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 887 – 905 , set. – dez., 2020

sentimento de dor. É um lugar de manutenção e dedicação aos mortos de sua


família. Por ter origem grega, trata-se, tradicionalmente, de um jardim com
flores e, como tal, deve ser permanentemente cuidado. É no cemitério que ela
visita seus avós, senta-se sobre o túmulo, conversa e conta as boas novas.
As roupas, ele prossegue, são porosas: inspiram e expiram emoções que
vinculam Elia à sua tia e à sua mãe. Elas não duram para sempre, mudam, des-
botam e carregam algo da corporalidade de quem as usou. São ressocializadas
quando vai a uma festa ou aos bailes em que dança livremente. Quando doadas,
destinam-se apenas a quem as irá reverenciar: “Tais coisas levam os mortos e
os vivos a um estado de imediatismo um com o outro. Assim, graças às roupas,
ela pode servir a mãe novamente: ‘você encontra formas de trazê-la para es-
paços e eventos sociais e eventos familiares e de lhe proporcionar bons mo-
mentos’” (Miller, 2008, p. 42). O relacionamento que ela estabelece com essas
roupas permite que Elia assimile, de forma recorrente, um pesar que foi vivido
e depois superado pelo próprio processo do luto. No guarda-roupas guardam-se,
também, as lágrimas que mantêm vivo, como os próprios vestidos que ali re-
sidem, o sentimento afetuoso para com sua mãe e sua tia.
artigo | cláudia pereira e fernanda martinelli

897

As joias, que pertenceram à sua mãe, determinam outro tipo de relacio-


namento com Elia. Segundo Miller (2008, p. 41), as joias “resistem à humanida-
de”. Sendo materialmente imutáveis, permanecem como objetos mais rígidos,
menos “porosos”, ou seja, não têm vocação igual à dos vestidos, pois nada há,
nos anéis e braceletes, de resquícios de um corpo que um dia os usou. A relação
que esses objetos estabelecem com a mãe de Elia é mais “abstrata” (Miller, 2008,
p. 43). Há, porém, outro aspecto das joias para o qual o autor chama atenção:
seu valor monetário. A joia ainda é uma mercadoria e, como tal, estará sempre
ancorada em seu vínculo também abstrato com outro tipo de valor que, ali, não
interessa à filha devotada. Pondera-se, aqui, que tal análise sobre as joias pode
ser refeita à luz das mesmas considerações sobre “objetificação” operadas por
Miller. Em termos de temporalidade e manuseio, joias possuem substância dis-
tinta daquela dos materiais mais “porosos”; é interessante recordar, porém, que,
embora resistentes, elas também são transformadas, desgastadas e alteradas
pela ação de pessoas, e passam a carregar em si essas alterações. Afinal, joias
podem ser refeitas, gravadas com datas, iniciais e outras informações, fracio-
nadas e dadas em herança, recombinadas ou recompostas, desgastadas pelo
uso constante e pelas próprias práticas de manutenção, como o uso de abrasi-
vos e polimentos, de maneira que podem demonstrar mutabilidades caracte-
rísticas de sua relação com as pessoas, que é a pátina que as singulariza (Mc-
Cracken, 2010).
Considerando os exemplos das roupas e das joias, retomemos o que nos
ensinou Igor Kopytoff (2010, p. 109) a respeito da “singularização” dos objetos:

As sociedades complexas têm um ev idente desejo de sing ular ização. Grande


parte desse desejo é satisfeita individualmente pela singularização particular,
baseada em princípios tão corriqueiros quanto os que determinam o destino de
grandes patrimônios, ou de chinelos velhos – a longevidade do relacionamento
de alg um modo os assimila de tal forma à pessoa que torna impensável uma
separação entre eles.

Por vezes esse desejo humano assume as propriedades de uma fome coletiva,
que se evidencia nas respostas generalizadas a renovadas formas de singulari-
zação. Coisas velhas, como latas de cerveja, caixas de fósforo e revistas em qua-
drinhos, de repente assumem valor, e passa a ser vantajoso colecioná-las; assim,
elas passam da esfera do que é sem valor para a esfera do que é singularmente
caro [...] Tal como entre os indivíduos, grande parte da singularização coletiva
é alcançada pela referência à passagem do tempo. Como mercadorias, os carros
vão perdendo valor conforme ficam mais velhos, mas, quando chegam mais ou
menos à idade de 30 anos, começam a transitar para a categoria de antiguidades
e passam a ganhar valor com cada ano que passa.

As roupas que Elia preserva em seu guarda-roupa estariam, sob esse pris-
ma, singularizadas pelo seu próprio desejo de preservar, também, o relaciona-
mento com quem um dia as vestiu. E tal singularização se dá, exatamente, pelo
que Miller chamou de porosidade, propriedade que favorece o (re)encontro de
pessoas por meio das coisas. Trata-se, sobretudo, de uma singularidade de cará-
as pessoas, as coisas e as perdas

898

ter individual, já que não depende do circuito mercantil nem da esfera pública
para ter sentido e valor para Elia. As joias, dentro do sistema simbólico do con-
sumo, vinculam-se a ideais de preciosidade e luxo, e quando associadas à pas-
sagem do tempo, como aponta Kopytoff, estão muito mais próximas de uma
singularidade de caráter coletivo do que as roupas velhas (desde que usadas por
pessoas comuns e não por celebridades). Enquanto as joias vão ganhando valor
à medida que passam a transitar por critérios objetivos como antiguidade, as
roupas, ao contrário, vão perdendo valor. Se há algum espaço para as trocas
simbólicas, elas estariam muito mais favorecidas com relação às joias do que
com relação às roupas usadas e já gastas do “museu” de Elia. As roupas de sua
tia e de sua mãe um dia foram mercadorias e deixaram de ser por escolha pró-
pria, mas poderiam ser novamente postas em circulação em algum charmoso e
barateiro brechó de Londres. As joias, por outro lado, carregam, em sua imuta-
bilidade, uma vocação mercantil muito mais poderosa, pautada exatamente no
caráter coletivo de sua singularidade, cuja simbologia é traduzida por aspectos
mercantis, podendo ser vendidas a preço alto. Ainda assim, Elia tem poder de
decisão, esvaziando, se assim desejar, o anel e o bracelete de qualquer valor que
não seja o do sentimento de amor e do relacionamento que mantinha com sua
mãe, deixando-os fora da esfera das trocas mercantis.
A mesa, as roupas, o cemitério, as joias e tantos outros objetos que pre-
enchem a vida de Elia, dentro do ordenamento por ela construído, tornam co-
tidianos, novamente, os relacionamentos que, um dia, tiveram lugar em sua
história. Os objetos que ela guarda expressam um perene sentimento pelas
pessoas que mais amava e por tudo o que perdeu ao longo de sua trajetória:
“Ela naturalmente reúne diferentes experiências de perda: a morte de sua mãe
e tia, filhos crescendo e saindo de casa, seu divórcio, ela mesma envelhecendo.
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Todas essas coisas exigem alguma forma de luto” (Miller, 2008, p. 41).
Tomemos, agora, outra situação de “luto”, aquela que diz respeito à per-
da não de pessoas, mas de coisas. Situações vividas, por exemplo, por refugia-
dos, migrantes, solteiros que se casam, casados que se separam, famílias que
se mudam de cidade, pessoas que saem de grandes espaços e passam a ocupar
pequenos espaços. Rupturas forçosas, tal qual a morte, entre as pessoas e as
coisas que possuem. O cachorro, a coleção de discos de vinil, os livros, os su-
venires comprados em viagens inesquecíveis, o sofá e tudo o mais que entra
na partilha dos bens de um casal que se divorcia, todos esses objetos fazem
parte de uma “estética”, como sugere Miller (2008), construída a dois. De repen-
te, esse ordenamento dos objetos dentro de casa, que garantia o “conforto das
coisas”, é invadido pelo vento de verão. Hora de viver o luto, ficando imóvel,
depois raivoso, em seguida profundamente triste e vazio, para então se resignar
e reconstruir uma nova ordem para a vida cotidiana.
O luto é uma transformação. Esse luto que não acontece pela morte de
uma pessoa, mas por uma situação ou combinação de situações que desesta-
artigo | cláudia pereira e fernanda martinelli

899

biliza a permanência e os significados dos objetos, desestabiliza também o


conforto das coisas das nossas casas e das nossas vidas, e nos coloca muitas
questões sobre objetificação, agência e materialidade.
Em Home possessions, livro organizado por Miller, o texto de Jean-Sébas-
tien Marcoux (2001) inicia com a citação de um ensaio bastante conhecido
escrito por Walter Benjamin em 1931, um ano após seu divórcio. Nele, Benjamin
(1987, p. 227) nos conta: “Estou desempacotando minha biblioteca”, e prossegue
narrando que “os livros ainda não estão nas estantes e, portanto, não foram
tocados pelo suave tédio da ordem”. Benjamin convida quem lê a juntar-se a
ele na desordem de sua mudança e experimentar a alegria de um colecionador
que reencontra seus livros guardados nas caixas já há alguns anos, sem ver a
luz do sol. E prossegue dizendo que aparenta estar falando de sua biblioteca,
mas na realidade fala de si mesmo.
Diferente do relato sobre Elia, que se trata de uma etnografia feita por
Miller, Benjamin escreve em primeira pessoa um relato sobre si mesmo e sobre
sua relação com os livros e seus significados. Acessamos esse texto com um
olhar histórico-etnográfico sobre Benjamin e sua biblioteca na tentativa de
compreender, a partir das noções discutidas por Miller, o poder de agência dos
objetos em um contexto de mudança de vida. A noção de luto, aqui, perpassa
a ideia de ruptura, desestabilização e perda ou separação das materialidades.
Enquanto vai desencaixotando sua biblioteca, Benjamin relembra uma
série de situações, pessoas e lugares. Lembra contextos de aquisição de alguns
desses livros, memórias familiares, das casas onde morou, dos volumes que
herdou e daqueles da infância que foram perdidos. Em seu ensaio, Jean-Sébas-
tien Marcoux recorre a Benjamin para discutir o papel desempenhado pelas
posses móveis (mobile possessions) na conformação de uma “memória em mo-
vimento”. Benjamin não se dedicou ao estudo da cultura material, mas com-
preendia bem a relação dialética entre pessoas e coisas. Compreendia que a
relação com seus livros era muito mais do que uma relação funcional de leitu-
ra, estudo e acesso à informação, e não por acaso usa palavras como “paixão”,
“memória” e “lembrança” em seu texto.
Embora Benjamin focalize, em primeiro plano, o ato de colecionar livros,
ele também nos dá acesso a outros caminhos de reflexão. Percorrendo, ao lado
de Miller, as trilhas do consumo e da cultura material, encontramos em Benja-
min a narrativa de uma experiência sensível que evidencia como as memórias,
lembranças e emoções evocadas pelo objeto livro configuram uma trajetória
de sentimentos marcados pela mobilidade geográfica, pelas conquistas e tam-
bém pelo que passou, pelo que se perdeu e pelas incertezas do que virá.
Sentimentos contraditórios emergem enquanto Benjamin desempacota
seus livros. Se por um lado ele expressa alegria por reencontrar os volumes
outrora guardados em caixas, por outro também hesita e afirma que “nada pode
realçar mais a operação de desempacotar do que a dificuldade de concluí-la”
as pessoas, as coisas e as perdas

900

(Benjamin, 1987, p. 234). Nesse contexto a crítica à ordem, no primeiro parágra-


fo do ensaio, pode ser compreendida não simplesmente como uma dificuldade
em organizar pragmaticamente os livros na estante, mas como hesitação em
reposicionar esses objetos em uma nova vida, em construir para eles uma “nova
estética” e, nesse processo, se deparar com sua “porosidade”, como definiria
Miller. Existe mesmo uma dualidade presente nesse processo, em que o “con-
forto das coisas”, aparentemente recuperado pelo reencontro com seus livros,
não parece descolado de um certo desconforto existencial em reordená-los em
uma vida nova e imponderável. Podemos, aqui, recorrer a uma leitura histórica
que não está integralmente descrita no ensaio de Benjamin, mas que sabemos
ser indissociável dele. O recente divórcio, as dificuldades de viver na Alemanha
no período entre guerras, a crescente ascensão do nazismo no país e a perse-
guição às pessoas de origem judaica e aos intelectuais são fatores que obriga-
riam Benjamin, no ano seguinte à arrumação da biblioteca em sua nova casa,
a se mudar novamente, separando-se mais uma vez de seus livros e seguindo
para o exílio forçado na Espanha.
A porosidade dos livros de Benjamin, de forma análoga à das roupas de
Elia, expressa a relação entre perdas, transformações, permanências e conti-
nuidades. Os livros dão acesso ao passado e suas memórias, são mediadores
de relações com outras pessoas, lugares e temporalidades, e isso constitui sua
singularidade. Os exemplos de Elia e Benjamin, distantes no tempo e ancorados
em contextos específicos, devem ser também compreendidos, nos ensina Mil-
ler, a partir dos padrões específicos dessas relações, bem como do poder de
agência das materialidades em cada contexto.
Em certo ponto da arrumação, dois volumes encadernados com papelão
desbotado caem nas mãos de Benjamin. Ele nos explica tratar-se de dois álbuns
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 887 – 905 , set. – dez., 2020

de figurinhas que sua mãe colecionava quando criança e que foram herdados
por ele: “são as sementes de uma coleção de livros infantis que ainda hoje
cresce constantemente ainda que não seja no meu jardim” (Benjamin, 1987, p.
234). Podemos supor que essa menção seja uma referência a seu filho, de quem
Benjamin estava separado.
Os álbuns da infância de sua mãe levam Benjamin (1987, p. 234) a refle-
tir sobre o significado dos livros como objetos herdados: “a herança é maneira
mais pertinente de formar uma biblioteca”, pois impõe um sentido de respon-
sabilidade particular, associado ao orgulho da posse. Aqui, retomamos uma
atribuição de valor aos objetos herdados que guarda semelhanças com o exem-
plo de Elia, no sentido de a transmissibilidade da coisa herdada já ser um
traço de distinção per se. Mas a porosidade dos livros herdados talvez os posi-
cione em um lugar intermediário entre as roupas e as joias de Elia. Embora
também sejam objetos móveis, reverenciáveis e sujeitos ao desgaste, os livros
não “saem para passear” e não são ressocializados da mesma maneira que as
roupas.
artigo | cláudia pereira e fernanda martinelli

901

Ao final do ensaio Benjamin (1987, p. 235) complexifica sua reflexão


sobre posse e responsabilidade, e argumenta que “a posse é a mais íntima re-
lação que se pode ter com as coisas”. Para explicar essa afirmação, ele recorre
à metáfora dos livros que edificam uma morada, como se fossem tijolos, dentro
da qual o colecionador desaparece. Com esse olhar Benjamin expressa a con-
cepção de si mesmo pelo processo de objetificação e do poder de agência dos
objetos em sua capacidade de também nos possuir.

Considerações Finais
Os dois tipos de luto que aqui sugerimos, de pessoas e coisas, decorrentes
portanto de perdas materiais, estarão sempre conectados. Quando perdemos
uma pessoa com quem convivemos, com ela morre uma ordem que rege a vida
cotidiana, já que, como vimos, tal ordem se dá pela forma como construímos
o nosso mundo material ao redor. O processo doloroso do luto envolve, primor-
dialmente, dar destino às coisas que ficaram sem dono. Envolve também esta-
belecer um novo ordenamento ou uma nova “estética”, como quer Miller, às
nossas casas, buscando alcançar novamente, de outro modo, o conforto pro-
porcionado pelas coisas. Por outro lado, quando perdemos também forçosa-
mente algumas das coisas que ordenam a nossa vida, quando temos que as
deixar para trás, deixamos também pessoas, memórias, relacionamentos, pro-
jetos de vida, sofrimentos, experiências, enfim, uma vida pregressa que morre
junto com aquele arranjo. Ainda que tenhamos a oportunidade de escolher o
que colocar na mala, essa seleção esvazia-se do sentido anterior, posto que a
nova casa exigirá, também, uma nova “estética”, nos termos de Miller (2008).
Visto pelo ângulo da cultura material, o luto é o processo solitário, pelo
qual lidamos com a ausência física das coisas, dos corpos, do ordenamento
cheio de significação que nos situa no mundo. É quando percebemos o quanto
aquela pessoa ou aquelas coisas – se é que podemos, agora, as separar – faziam
parte de nós, o quanto estavam impregnadas no que somos. É, também, valorar
o mundo de um modo único e não estar disposto a trocar nada com ninguém.
Visto pelo ângulo do consumo, o luto é a “expressão obrigatória dos
sentimentos” (Mauss, 2005). Na perda de uma pessoa, interessa mais o preto
ou o branco das roupas na hora da última despedida, ou o bom senso de saber
escolhê-las para evitar reprovação social. Na perda de algumas coisas, é a opor-
tunidade de renovar o armário, os móveis, o carro, mostrar para todos o quan-
to somos resilientes. É, também, tornar a dor pública, divulgá-la nas redes so-
ciais online e nas conversas com os amigos, marcando um novo status de “viúva”
ou “divorciada”.
De um modo ou de outro, e em geral dos dois ao mesmo tempo, estare-
mos sempre buscando ordenar o nosso mundo por meio das materialidades,
seja de qual for o ponto de partida. Se o consumo, no luto pelas pessoas ou
pelas coisas, abre espaço para coisas novas em uma “vida nova”, esta só será
as pessoas, as coisas e as perdas

902

dotada de sentido à medida que a dinâmica da cultura material entrar nova-


mente em ação, proporcionando, no “conforto das coisas”, o ordenamento da
vida, dos sentimentos e das emoções. Até que um novo vento chegue e bagun-
ce tudo outra vez.

Recebido em 10/3/2020 | Revisto em 19/8/2020 | Aprovado em 07/9/2020


sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 887 – 905 , set. – dez., 2020

Cláudia Pereira é professora e pesquisadora do Programa de Pós-


Graduação em Comunicação da PUC-Rio. Em 2018, realizou pesquisa como
investigadora visitante no ICS – Instituto de Ciências Sociais da Universidade
de Lisboa, no campo dos estudos das juventudes e da cultura material. É líder
do grupo de pesquisa JuX – Juventudes Cariocas, suas culturas e
representações midiáticas. Em 2020, organizou o livro Brazilian youth: global
trends and local perspectives.

Fernanda Martinelli é professora e pesquisadora no Programa de Pós-


Graduação em Comunicação da UnB, e visiting scholar na Brown University
entre 2019-2020. Coordena o grupo de pesquisas Consumo e Cultura Material
e trabalha com temas como moda, pirataria e alimentação. Atualmente
coordena o projeto Territories of flavors, em que discute o pensamento
culinário como dispositivo metodológico. É coautora dos capítulos de livros
“Comida como afeto” e “Rebuilding lives: itinerancies, life projects and field of
possibilities of migrant youth in Brazil”, entre outras publicações.
artigo | cláudia pereira e fernanda martinelli

903

NOTAS
1 No original, People exist for us in and through their ma-
terial presence (Miller, 2008, p. 286). Nessa e nas demais
citações de originais em idiomas estrangeiros, a tradução
é nossa.
2 Um exemplo heurístico a esse respeito é a conhecida dis-
cussão de Latour (1999) em que o autor propõe que uma
pessoa em posse de uma arma não esteja sujeita a um
objeto. Conforma aí, em sua opinião, um novo híbr ido,
que é a combinação pessoa/arma. Esse híbrido é que seria
a causa de qualquer possível efeito, como se pessoa/arma
conformasse então uma nova entidade. A crítica de Miller,
nesse caso, seria a de uma compreensão incompleta da
agência por parte de Latour, que ignora justamente o pa-
pel da agência da cultura material.
3 No original, things are in life rather than that life is in things.

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artigo | cláudia pereira e fernanda martinelli

905

As pessoas, as coisas e as perdas: perspectivas


da cultura material e do consumo nos estudos
de Daniel Miller
Palavras-chave Resumo
Daniel Miller; Na sociedade de consumo, as relações entre pessoas, coisas
cultura material; e significados se estendem por territórios vastos e diver-
pessoas; sificados. Neste artigo, enfatizamos a construção ontoló-
coisas; gica que se dá entre pessoas e coisas, coisas e pessoas, para
luto. além das trocas simbólicas, coletivas e públicas, promovi-
da pelo consumo. Propomos uma reflexão sobre as relações
que pessoas estabelecem com coisas em situações de luto,
expressão que utilizamos para nos referir não somente ao
sentimento associado à morte de pessoas, mas, de modo
amplo, ao sentimento de perda de materialidades. Meto-
dologicamente, a contribuição de Daniel Miller está na
abordagem antropológica e etnográfica das relações dialé-
ticas entre pessoas e coisas, e entre coisas e pessoas, que
discutimos aqui a partir de conceitos como “objetificação”,
“humildade dos objetos” e “poder da agência”.

People, things and losses: perspectives of mate-


rial culture and consumption in Daniel Miller’s
studies
Keywords Abstract
Daniel Miller; In the consumption society, the relationships between
material culture; people, things and meanings extend across vast and di-
people; verse territories. In this article, we emphasize the onto-
things; logical construction that occurs between people and things,
mourning. reciprocally, beyond symbolic, collective and public ex-
changes in consumption practices. We reflect upon rela-
tionships that people establish with things in contexts of
mourning. By mourning, we refer not only to the feeling
associated with someone’s death but broadly, to the feeling
of loss of materialities. Methodologically, Daniel Miller’s
contribution lies in the anthropological and ethnographic
approach to the dialectical and mutual relationships be-
tween people and things, which we discuss here departing
from concepts such as “objectification”, “humility of ob-
jects” and “agency”.
http://dx.doi.org /10.1590 /2238-38752020v1036

1 Universidade de São Paulo (USP), Núcleo de Sociologia da Cultura,


São Paulo, SP, Brasil
dimpinhas@gmail.com
https://orcid.org/0000-001-7907-9943

Dimitri Pinheiro I

Anos Rebeldes e a abertura da teleficção 1

Existe uma contradição na televisão brasileira que faz com que o


telejornal seja mais mentiroso do que a novela. Há mais verdade na
novela – que é ficção – que no telejornal, que seria a informação!
Principalmente na Globo, que foi quem deu o formato de televisão que
temos hoje. [...] Foi, por exemplo, uma minissérie – Os Anos Rebeldes
– que trouxe para a televisão o tema da guerrilha, que era um tabu
no telejornalismo. Todo telejornalismo da Rede Globo era a favor do
Collor. [...] Assim, pelo melodrama, pela ficção essas questões sociais
e políticas entram na televisão. Isso porque, ao receber a função de
integrar a nacionalidade – hoje um pouco transformada –, a televisão,
e principalmente o telejornalismo que fazia o discurso da integração
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 907 – 930 , set. – dez., 2020

nacional, precisava mostrar certas coisas e esconder outras. Isso


produz uma polarização tão grande com a realidade que a ficção acaba
servindo de mediação e muitas vezes é porta de entrada para coisas que
estavam escondidas. [...] Porque a televisão, por intermédio da novela,
dá visibilidade e isto é condição para existir no Brasil. Aquilo que não
aparece na TV, a sociedade ignora. Paradoxalmente, ao dar
visibilidade, a novela deu também cidadania
(Bucci, 1997).

Certamente Anos rebeldes está entre as mais celebradas produções televisivas


brasileiras, especialmente da Rede Globo. Essa posição constitui um efeito tan-
gível da lógica promocional imposta pela típica sinergia entre as diferentes
instâncias da própria indústria cultural. Seria ingenuidade, no entanto, desco-
nhecer a participação da própria atividade acadêmica nesse processo. Mesmo
quando assume as roupagens de um juízo depreciativo e acusatório – median-
te tortuosas operações simbólicas que guardam muita semelhança com a de-
anos rebeldes e a abertura da teleficção

908

negação psíquica –, a celebração que envolve a minissérie também vem emba-


lando a realização de uma fortuna considerável de estudos. Tal fenômeno não
deixa de ser um tanto surpreendente, ainda mais tendo em vista a relativa
desvalorização dos bens simbólicos associados ao polo ampliado de produção
cultural na hierarquia dos objetos acadêmicos. 2
Para a pesquisa sociológica sobre a teleficção 3 produzida no Brasil, Anos
rebeldes constitui marco importante numa periodização orientada por balizas
internas e externas ao domínio televisivo: a Queda do Muro de Berlim e a Guer-
ra do Golfo; a vitória de Fernando Collor nas eleições presidenciais de 1989, o
movimento dos “caras pintadas”, o processo de impeachment e a renúncia do
presidente da República; a edição abertamente tendenciosa do último debate
entre Lula e Collor promovido pela Rede Globo e a derrocada de Armando Cos-
ta da direção da Central Globo de Jornalismo; a minissérie como a primeira vez
em que a emissora ousa abordar diretamente o tema ditadura militar na fren-
te de produção teleficcional; entre outras possíveis. A concatenação dessas
balizas evita que a análise incorra nos riscos simétricos de impor um enqua-
dramento demasiado generalizador ao objeto – isto é, supor uma correspon-
dência imediata entre os eventos da conjuntura e a produção dos programas – ou
de simples reiteração dos marcos estabelecidos pela narrativa dominante entre
os profissionais. Como formulou sinteticamente Fredric Jameson (1988: 179,
tradução livre),

o “período” em questão é compreendido não como algum estilo partilhado ou


modo de pensar e agir onipresente e uniforme, mas como o compartilhamento
de uma situação objetiva, para o qual todo um conjunto de respostas variadas e
inovações criativas é, então, possível, mas sempre dentro dos limites estruturais
dessa situação. 4
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 907 – 930 , set. – dez., 2020

Não que as produções da emissora tenham evitado completamente abor-


dar os anos do regime militar. De fato, quando adotamos as minisséries como
ponto de observação, fica patente que a Rede Globo se voltou regularmente
para aqueles anos, mas, sobretudo, de modo indireto, ou seja, mediante o que
Ismail Xavier, fazendo referência a outra formulação de Jameson (por sua vez,
inspirada na “figura” auerbachiana), chamou de estratégias de alusão. 5 Dessa
perspectiva, Anos rebeldes viabiliza um corte transversal, permitindo à análise
transitar dos registros mais rarefeitos (por exemplo, os acontecimentos da “con-
juntura mundial”) aos densamente substantivos – tomadas de posição inscritas
especialmente na fatura das obras (Bourdieu, 2005).
À medida que tenta compatibilizar essas diferentes coordenadas de aten-
ção, o encaminhamento da análise desenvolvida aqui realiza os seguintes mo-
vimentos: primeiro, delineia telegraficamente os fatores gerais (sociais e polí-
ticos) que condicionaram o esforço despendido pela Rede Globo no sentido de
diversificar seus formatos teleficcionais; em seguida, pontua algumas das cir-
cunstâncias mais importantes na realização de Anos rebeldes; o terceiro movi-
artigo | dimitri pinheiro

909

mento reconstitui sumariamente o enredo, enfatizando uma vertente de suas


tramas; à guisa de conclusão, alinhava um comentário, bem como um esboço
de síntese sobre os sentidos assumidos pelo programa e, reflexivamente, pela
própria análise sociológica da indústria cultural.

Condicionantes
Entre 1977 e 1982, a Rede Globo realiza experiências envolvendo a produção e a
exibição de programas com formatos alternativos às telenovelas. Primeiro testa
os chamados seriados e, posteriormente, encampa as extremamente onerosas
minisséries, cuja produção se rotiniza a partir de então. De 1982, quando a pri-
meira minissérie é exibida, a 1985, ano em que a emissora realiza adaptações
de romances consagrados – Tenda dos milagres (Jorge Amado), O tempo e o vento
(Érico Verissimo) e Grande sertão: veredas (João Guimarães Rosa) – como parte das
comemorações pelos seus 20 anos, 14 minisséries seriam veiculadas. Diferente
da telenovela e, em menor medida, do seriado, a minissérie não se enquadra nos
mecanismos rotineiros de financiamento das produções no âmbito do sistema
televisivo comercial brasileiro, sobretudo em função da curta duração, inviabi-
lizando a reiteração de personagens e cenários, e, por sua vez, reduzindo as
possibilidades de diluir custos ao longo de meses de exibição, bem como a mar-
gem de retorno obtido em termos de verbas publicitárias e merchandising.6 Não
por acaso viabilizada em um momento no qual a emissora detinha liderança
absoluta nas “escalas de audiência” – favorecida pelo fechamento progressivo
das principais concorrentes (a Excelsior em 1970 e a Tupi justamente em 1980)
– e açambarcava o maior naco das verbas publicitárias estatais e privadas, a
aposta pode ser explicada como uma tomada de posição com dupla interface.
No front político, sinaliza um movimento de distanciamento da emisso-
ra em relação ao regime militar então nos estertores. Como a própria reviravol-
ta com relação aos formatos indica, não se tratou de um processo uniforme e
unívoco. Isso fica evidente sobretudo quando se consideram as diferentes ló-
gicas, bem como os diversos ritmos imperantes nas principais frentes de pro-
dução (ou “polos de legitimidade”) da televisão: na terminologia nativa, “tele-
dramaturgia” e “telejornalismo”. 7 Os avanços e recuos na frente de teleficção
– sempre sujeitos às marchas e contramarchas da conjuntura – podem ser fla-
grados ao menos desde 1968 seja no comprometimento das dez horas da noite
com a veiculação de telenovelas extremamente arrojadas estética e politica-
mente, seja na tentativa de reformar a grade de programas – transferindo para
o horário das oito as telenovelas veiculadas às dez – tolhida por veto unilateral
da Censura Federal à primeira versão de Roque santeiro (1975), ou, ainda, no
mesmo ano, com o estabelecimento do horário das seis (visando corresponder
ao viés paternalista também exigido pelo regime militar) para a veiculação de
adaptações de obras associadas ao romantismo literário brasileiro como Helena
(Machado de Assis). 8
anos rebeldes e a abertura da teleficção

910

Já no telejornalismo aquele movimento seria ainda mais complexo por-


que se concluiria apenas na esteira da campanha pelas eleições diretas em 1984,
com a Rede Globo sucessivamente abandonando o bloco de sustentação ao
regime militar, se colocando na retaguarda da luta pela redemocratização po-
lítica, ocupando a posição de fiel da balança na candidatura de Tancredo Neves
à presidência da República e assumindo virtualmente o cockpit no governo do
presidente José Sarney. 9 Ao contrário do que se observa na teleficção, entretan-
to, no telejornalismo o movimento seria concomitante a um acirramento da
censura interna que reduziu drasticamente não só a possibilidade de veicular
perspectiva diversa daquela imposta pelo editorial, como tolheu a margem de
experimentação formal. 10
No front do público, a experimentação se insere numa estratégia de pro-
gramação que visava atingir um segmento específico de telespectadores: pes-
soas do sexo masculino, com maior nível de renda e escolaridade, possibilida-
des mais amplas de lazer e relativamente impacientes diante da cantilena si-
tuacionista. A tentativa de diversificação na frente de teleficção poderia, então,
ser tomada como uma aposta na segmentação – embora ainda bastante em-
brionária – do mercado de comunicação eletrônica, indicando, por sua vez, uma
diferenciação da estrutura social brasileira também passível de ser compreen-
dida à luz das transformações mais gerais ocorridas nesse período. 11
Tampouco constitui coincidência fortuita o fato de que justamente em
1985 – outro marco fundamental da conjuntura nacional – o formato minissérie,
contando com núcleos de produção plenamente estabelecidos, exibições regu-
lares e bastante prestígio no interior da Rede Globo, tenha sido objeto de outro
projeto de renovação: a “Casa de Criação Janete Clair”. Idealizada por Dias Go-
mes, a Casa constituiria um espaço de troca entre os profissionais, de treina-
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 907 – 930 , set. – dez., 2020

mento e de revelação de novos autores, mas o projeto seria inviabilizado pre-


cocemente. Ao menos parte das propostas, em especial os “retratos de época”
e a incorporação de procedimentos coletivos de produção, seria levada adiante
por minisséries. 12
A proposta dos retratos de época previu inicialmente a realização de
duas minisséries: uma centrada nos anos de 1950, Anos dourados (1986) e outra
em 1960, Anos rebeldes. 13 Esta última só seria realizada em 1992 e também sob
a autoria de Gilberto Braga – mudança reveladora, uma vez que a indicação
original da emissora foi a de Gianfrancesco Guarnieri. O próprio Gilberto Braga
(2010: 24) atribui a escalação a seu perfil político: considerando-se um “aliena-
do” notório durante a juventude, ele representaria menor risco para a emisso-
ra do que Dias Gomes ao tratar do tema “ditadura”.
Tal escolha foi diretamente atribuída a José Bonifácio de Oliveira Sobrinho,
o Boni (nessa ocasião vice-presidente de operações da Rede Globo), mas envolveu
indiretamente Roberto Marinho, que encarregou o jornalista Cláudio Mello e
Souza de ler o roteiro e emitir o “parecer” pela reformulação do décimo capítulo
artigo | dimitri pinheiro

911

ao 14o, porque, ao retratar o período que vai de dezembro de 1968 ao AI-5, estava
“carregando demais nas tintas políticas” (Braga, 2010: 29). O conjunto de medidas
não pode ser dissociado das tensões acumuladas durante os vários episódios de
censura interna, ao menos desde os cortes em O pagador de promessas (1988), 14
passando pelos protestos internos desencadeados pelos vários lances de apoio
aberto ou velado da emissora à candidatura de Fernando Collor e culminando
com a edição do último debate antes das eleições de 1989. Essas tensões ilumi-
nam, retrospectivamente, o fechamento da Casa de Criação e, prospectivamente,
o destino dos produtores associados à tradição populista de esquerda, que per-
dem espaço na Rede Globo a partir da segunda metade da década de 1980.15
Ao mesmo tempo em que alija esses profissionais ostensivamente in-
quietos (os autores especialmente) do trabalho com telenovela – livrando seu
produto mais rentável de riscos tidos como dispensáveis –, a cúpula da empre-
sa os mantém em seus quadros, evitando, com isso, desfalques que eventual-
mente poderiam fortalecer a concorrência. Nessa estratégia, as escalações es-
porádicas para a realização de minisséries desempenharam papel auxiliar,
funcionando como uma espécie de reserva mutuamente prestigiosa, embora,
por vezes, significando uma faca de dois gumes para profissionais que precisem
de um maior volume de trabalhos para sobreviver financeiramente. 16
Por se tratar de um produto finalizado antes de sua exibição, de menor
duração, estruturalmente mais coeso e que usualmente concede maior tempo de
preparação para os profissionais envolvidos em sua produção – motivos que
elucidam o interesse que desperta no interior do próprio meio televisivo –, o
formato não se mostra tão sujeito quanto à telenovela às pressões econômicas
diretas (sob a forma do merchandising) e indiretas (via índice de audiência). 17 Em
função desse conjunto de características, as minisséries se prestam melhor às
pretensões autorais dos profissionais – roteiristas e diretores em especial – dese-
josos de expressar perspectivas pessoais sobre a teleficção e o mundo, deixando
entrever de modo mais explícito o “pendor pedagógico tanto do enredo como dos
diálogos, permitindo uma apresentação cabal e explícita da visão de mundo que
rege as lições morais da indústria cultural brasileira” (Xavier, 2003: 144).
Se a telenovela constitui o centro axial de sustentação comercial da
televisão, a minissérie configura, principalmente no período que circunscreve
Anos rebeldes, uma zona de prestígio depurado para os produtores. O significa-
do prestigioso da minissérie, entretanto, não se encerra aí. Também ilumina a
importância que a legitimidade cultural – programação ou audiência de “qua-
lidade” na terminologia nativa – angariada por esse tipo de programa represen-
ta para uma instância da indústria cultural que se encontra perenemente ame-
açada pelo descrédito simbólico, esteja este sob a expressão mais indireta do
arbitrário cultural dominante (as campanhas contra a “baixaria”) ou mediante
a forma mais direta dos reclamos por cumprimento de sua função social (a
agenda voltada para a “democratização” dos meios de comunicação).
anos rebeldes e a abertura da teleficção

912

Circunstâncias 18
Anos rebeldes foi exibida pela Rede Globo entre julho e agosto de 1992, coinci-
dindo, portanto, com um momento decisivo no processo de democratização
política do país: o agravamento da instabilidade política que levaria à renúncia
de Fernando Collor, então o primeiro presidente eleito diretamente desde 1960.
Como já mencionado, foi também a primeira incursão explícita na teleficção
da emissora pelo tema ditadura militar brasileira, abrangendo diageticamente
um período que vai do momento imediatamente anterior ao golpe de 1964 à
anistia em 1979. Explorada pelas diferentes frentes da indústria cultural, a
concomitância catalisada na minissérie ensejou o que parcela da literatura
chamou de “fusão da memória” relativa aos anos 1960 e a campanha “Fora
Collor” (Kornis, 2000: 115-116), convertendo Anos rebeldes não só em marco da
teleficção brasileira, mas, ironicamente, numa força social com algum peso na
esfera pública.
A escalação para a autoria da minissérie (a segunda em sua carreira)
significou mais uma premiação simbólica conferida pela Rede Globo aos servi-
ços prestados por Gilberto Braga, que vinha de dois sucessos consecutivos –
Vale tudo (1988-1989) e, apesar de um “tropeço” inicial, O dono do mundo (1991-
1992) 19 – nas escalas de audiência no horário das oito horas da noite. O trajeto
percorrido por ele expressa muito bem os principais fatores que incidem no
recrutamento e na carreira profissional de um “autor” de televisão: domínio da
cultura letrada e treinamento pregresso – condição necessária tendo em vista
a demanda compulsória pelo exercício da criatividade – em alguma instância
da indústria cultural.
O ingresso de Gilberto Braga na emissora se deu pelo contato com Do-
mingos de Oliveira, um dos responsáveis pelo programa de unitários Caso Es-
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 907 – 930 , set. – dez., 2020

pecial. Por intermédio do diretor, o egresso da Aliança Francesa e então crítico


teatral de O Globo seria escalado para escrever os roteiros de cinco programas
entre 1973 e 1974, o primeiro deles adaptado do romance A dama das camélias
(Alexandre Dumas Filho). Com a perspectiva de remanejamento de Lauro César
Muniz para escrever telenovelas das oito horas, o iniciante seria convidado
para ocupar a vaga deixada na faixa das sete, inicialmente como colaborador
e posteriormente assumindo Corrida do ouro (1974) sob supervisão informal de
Janete Clair. Certamente a experiência com adaptações motivou Daniel Filho a
convidá-lo para a equipe responsável por implementar, em 1975, telenovelas
às seis horas – novo horário inteiramente dedicado aos romances brasileiros
(especialmente os pertencentes ao romantismo literário) –, obtendo seu maior
sucesso nas escalas de audiência em 1976, com Escrava Isaura (Bernardo Gui-
marães). Nesse ínterim, quando Janete Clair vai cobrir a lacuna na faixa das
oito causada pela proibição de Roque santeiro, ela o escolhe para continuar Bra-
vo! (1975-1976), exibida às sete. A eleição pela mais importante autora da emis-
sora lhe conferiria notoriedade e a partir daí ele desenvolve uma careira ascen-
artigo | dimitri pinheiro

913

dente nos quadros da Rede Globo. Ao ocupar o topo na hierarquia de poder


espiritual, o autor impôs à minissérie a chave melodramática à la Balzac que
lhe é característica 20 e definiu o centro nodal da narrativa: o romance entre
uma “garota individualista”, interpretada por Malu Mader, e um “rapaz idealis-
ta”, representado por Cássio Gabus Mendes, sob o “pano de fundo” da ditadura
militar – ator e atriz já haviam se notabilizado em papéis de mocinho e mocinha
nas telenovelas do autor (Braga, 2010).
Dennis Carvalho para a “direção geral” – o topo na hierarquia de poder
temporal – foi outra escalação diretamente associada a Gilberto Braga. 21 Tal
qual o trajeto do autor, o de Dennis Carvalho revela tão bem quanto os princi-
pais fatores incidentes no recrutamento e na carreira de diretor em televisão:
o sexo (masculino), a raça (branca) e a socialização primária no meio profissio-
nal, seja por experiência familiar, seja pelo trabalho precoce. Ainda adolescen-
te iniciou como ator na adaptação de Oliver Twist (Charles Dickens), veiculada
em 1964 pela TV Tupi, onde seguiria carreira aproximando-se de Walter Avan-
cini (não por acaso, ele próprio um ex-ator mirim), que lhe teria despertado o
interesse por direção. Após sucesso nas escalas de audiência como vilão em
Ídolos de pano (1974), aceita, sob promessa de posterior iniciação na direção,
convite de Boni para se transferir para a Rede Globo. Na emissora, se aproxima
de Daniel Filho, intercalando o aprendizado na função e papéis como galã (po-
sição extremamente racializada). A partir de Sem lenço, sem documento (1977-1978),
exibida às sete horas, assume formalmente a direção sob o comando de Régis
Cardoso. Ainda nesse ano, é convidado a dirigir sozinho o último episódio de
Ciranda cirandinha. O entrosamento com Gilberto Braga vinha de uma longa
série de trabalhos, entre os quais Vale tudo e O dono do mundo.
Despertado para a carreira pela figura de Walter Avancini, a partir de
sua inserção na Rede Globo o futuro diretor foi diretamente influenciado por
Daniel Filho, razão pela qual pode ser considerado um seguidor da moderniza-
ção do melodrama – isto é, a introdução de maior “coeficiente de realismo” às
tramas (Xavier, 2003: 93; 143-144) – que notabilizou o então chefe do Departa-
mento de Telenovelas. Todavia, Dennis Carvalho não deixou de expressar de
maneira mais discreta em seus trabalhos os arroubos de experimentação formal,
bem como o recurso a “estratégias de alusão” que tornaram marcante a fatura
de Avancini. Salvo engano, essa convergência de influências também pode ser
conferida na minissérie.
Como já era de esperar, durante a produção da minissérie Boni determi-
nou a modificação de quatro capítulos já gravados (11, 12, 13 e 14) requentando
a justificativa de que enfatizavam excessivamente aspectos políticos em detri-
mento da trama amorosa entre João Alfredo e Maria Lúcia, sob a alegação adi-
cional de que isso provocaria inevitável desinteresse do público (verdadeiro
deus ex machina para os produtores e, a fortiori, perante a cúpula de executivos
da Rede Globo). Essas interferências acarretaram atraso, e as gravações só foram
anos rebeldes e a abertura da teleficção

914

concluídas quando Anos rebeldes já estava sendo exibida, algo inusual para um
formato que, ao contrário da telenovela, se caracterizaria por constituir “obra
fechada”. Outra prática de censura, embora menos ostensiva, foi o atraso deli-
berado no horário de exibição quando os episódios abordaram a decretação do
AI-5 (Kornis, 2000: 112).
Em consequência mais ou menos direta dessas circunstâncias de pro-
dução, a história do período se transfigura sob chave moral e individualizada,
similar em diversos momentos aos moldes do “drama doméstico” (Kornis, 2000:
109). Não por acaso, a narrativa praticamente reduz os trabalhadores rurais e
urbanos a figurantes, concentrando todo o foco de atenção na luta deflagrada
pelo setor radicalizado da pequena e da alta burguesia, contra o regime militar
e em defesa de um ideal difuso de justiça social (figurado sobretudo por refe-
rências à questão agrária).

Enredo22
Os letreiros exibidos em diversos momentos da narrativa explicitam uma or-
ganização em três fases: “março de 1964: Os anos inocentes”, “abril de 1966: Os
anos rebeldes”, “[dezembro de 1968] Os anos de chumbo”, mais um epílogo que
remete a 1979 e à anistia. Não obstante, parece possível localizar inflexões
associadas aos movimentos – ora de aproximação, ora de afastamento – do
casal principal por conta das opções de João Alfredo ante a conjuntura política,
bem como pela inserção de painéis documentais realizados com a participação
do cineasta Silvio Tendler.
A minissérie se inicia com a recapitulação do primeiro contato entre João
e Maria Lúcia anteriormente ao golpe civil-militar de 1964. Simultaneamente
também é apresentado o grupo de rapazes cuja formação (em seu último ano
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 907 – 930 , set. – dez., 2020

no Colégio Pedro II) e posterior desagregação serão acompanhadas até o final do


enredo: Edgar (Marcelo Serrado), Galeno (Pedro Cardoso) e Waldir (André Pimen-
tel). Em função da coerência interna deste artigo não é possível nem convenien-
te reconstituir em detalhe a narrativa e tampouco reproduzir o minucioso sis-
tema de notação necessário para uma análise da minissérie em sua complexi-
dade. A análise prioriza, assim, as tramas que se desdobram a partir de uma
personagem que originalmente não integra a turma de amigos, mas, pouco a
pouco, ganha a posição de protagonista: a personagem Heloísa (Cláudia Abreu).
Do ponto de vista formal, Heloísa permite um equacionamento ótimo
da economia narrativa, que, a um só tempo, eleva a voltagem melodramática,
concatena a pedagogia política propagandeada pelos profissionais e aciona a
estratégia de alusão indicada no início desta exposição. A personagem põe em
cena Fábio Andrade Brito (José Wilker), pai de Heloísa e dono do poderoso gru-
po empresarial homônimo. Intermediado por Maria Lúcia, sua colega do curso
de francês, o contato com a turma do Colégio Pedro II – em especial as sequên-
cias pautadas pelos diálogos com João Alfredo – desencadeia a progressiva
artigo | dimitri pinheiro

915

conscientização política que conduz a filha do magnata – e, figurativamente, o


público telespectador – ao rechaço da vida burguesa (cujo marco é a ruptura
com o casamento de conveniências), à radicalização e ao posterior engajamen-
to na luta armada.
A conversão de Heloísa em heroína é simétrica à caracterização de Fábio
como vilão, condensando, com isso, todas as tensões da minissérie (sexuais,
geracionais, raciais, sociais, políticas e culturais) na esfera íntima. O conflito
entre filha e pai caracteriza um embate do bem contra o mal. Personificação
do regime político opressor, o magnata é apresentado pela narrativa como pai
ausente, marido infiel, racista, capitalista selvagem, fazendeiro escravagista,
apoiador de primeira hora do golpe civil-militar, presuntivamente patrocinador
dos aparelhos clandestinos de violência estatal, e, suprema vilania, responsável
indireto pelo assassinato da própria filha por forças da repressão.

Comentário
Dada a usual suspeição política que recai sobre a Rede Globo e seus programas,
Anos rebeldes dificilmente poderia ser mais desconcertante. Põe em tela uma re-
presentação da ditadura militar em que os mocinhos são guerrilheiros que se-
questram um embaixador suíço para libertar presos políticos, e o magnata, dono
de um conglomerado empresarial, figura como vilão, constituindo uma mostra
bem-acabada do potencial “democrático” do melodrama.23 Conforme afirma Is-
mail Xavier, Anos rebeldes configura a reconstituição audiovisual mais bem suce-
dida acerca do período, sobretudo se comparada às melhores realizações da ci-
nematografia no país até então. Não obstante, ele interpõe a ressalva de que
apesar de ter aprendido a se comunicar com o seu público sobre os assuntos
relativos à vida privada, a rede de televisão ainda se voltaria para a política

com uma preocupação autoapologética que conduz à idealização costumeira,


velando seus interesses em jogo no processo econômico e político, e apresentan-
do apenas o que parece politicamente correto em sua performance como instân-
cia maior de administração da consciência pública. Esse é claramente o caso de
Anos rebeldes, em que a Rede Globo conta a história dos anos de ditadura sem
mencionar o papel e a cumplicidade dos meios de comunicação, incluindo o seu,
no processo de controle político e social no período (Xavier, 2003: 160).

Não parece pertinente rejeitar o juízo informado daquele que, segura-


mente, está entre os mais reconhecidos estudiosos seja do cinema em parti-
cular, seja da crítica cultural de modo geral. Cabem, entretanto, algumas qua-
lificações. A apreciação é analiticamente rentável, sobretudo, para a posição
oficiosa do conglomerado mais dinâmico do polo ampliado de produção cul-
tural no país. Este, entretanto, nem sempre consegue “administrar a consci-
ência” dos seus criadores completamente, mormente tendo em vista proces-
sos de realização que envolvem redes de cooperação tão vastas e complexas
como aquelas vigentes na indústria cultural.
anos rebeldes e a abertura da teleficção

916

Quando o enredo da minissérie é considerado de viés, focalizando espe-


cialmente as tramas armadas no entorno da personagem encarnada por Cláu-
dia Abreu, é notável o acionamento de estratégias de alusão, delineando um
movimento reflexivo que se volta, sim, para os “papéis” desempenhados pela
própria indústria cultural durante o regime militar: os jornalistas e a empresa
editorial figurando como instâncias indiretas de remissão à própria televisão.
Ao representar o movimento heroico de jornalistas – condensado em Damas-
ceno (não por acaso encarnado pelo icônico Geraldo Del Rey), o honorável mi-
litante do “Partidão” e pai de Maria Lúcia –, assumindo as posições de porta-voz
da experiência, bem como de resistência pacífica à censura e à repressão polí-
ticas como contraponto à luta armada, é forçoso reconhecer, a abordagem joga
água no moinho autoapologético apontado por Ismail Xavier.
O mesmo já não se pode afirmar peremptoriamente sobre a figuração
da indústria cultural representada pela editora. A empresa de Queiroz (Carlos
Zara) – pai de uma das amigas de Maria Lúcia e personificação do ideal missio-
nário de ilustração incensado pelas casas editoriais do período – é abalroada
pela censura e pela concentração monopólica que o regime militar incentiva
em diversos setores da economia. Gradativamente o editor enfrenta dificulda-
des financeiras decorrentes das apostas arriscadas pela edificação cultural ou
pelo engajamento político e pede socorro ao grupo Andrade Brito, prelúdio da
incorporação ao conglomerado empresarial.
Inicialmente o processo se condensa em torno do conflito entre o editor
e Edgar, preposto de Fábio na editora, como personificações da legitimidade
cultural versus a submissão da inteligência à lógica comercial típica da indústria
cultural. Posteriormente a contradança segue com Edgar assumindo a posição
ocupada pelo antigo editor contra o comercialismo desbragado representado
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 907 – 930 , set. – dez., 2020

por Waldir, rapaz pobre – filho do porteiro alcoólatra no prédio onde mora João
Alfredo – que, mediante amparo da turma, empenho escolar e cooptação por
Fábio (para quem, numa figuração dos procedimentos utilizados pela polícia
política, presta serviços de informante), consegue ascender socialmente.
A condenação da indústria cultural como suporte por inteiro do regime
militar é figurada pelo desfecho das tramas vinculando as personagens Heloísa,
Fábio e o cenário da editora. Waldir descobre o plano para retirar do país João
Alfredo, Heloísa e seu companheiro, Marcelo (Rubens Caribé) – com quem tem
uma filha (a prole é sinal inequívoco de virtude no melodrama) –, organizado por
Maria Lúcia, a essa altura casada com Edgar, tradutora e secretária executiva da
editora, e Bernardo (André Barros), irmão de Heloísa. Dividido entre os amigos e
o patrão, Waldir revela o plano para Fábio, prova de lealdade e, numa espécie de
pacto fáustico, trunfo que lhe permitirá alçar maiores voos no conglomerado.
Consequentemente o vilão desbarata o plano, exigindo uma mudança de rota que,
na descarga de maior voltagem melodramática da minissérie, termina por acar-
retar a morte da própria filha numa perseguição deflagrada pela polícia política.
artigo | dimitri pinheiro

917

Únicas a alterar radicalmente as respectivas posições sociais durante a


narrativa, os destinos cruzados das personagens de Cláudia Abreu e de André
Pimentel lançam luz sobre o condensado caudaloso de experiências plasmado
em Anos rebeldes. Por um lado, impulsionada pela identificação visceral com os
de baixo – figurada na relação com a personagem Zulmira (Edyr de Castro),
mulher negra que a criou e a quem confia a própria filha devido à situação de
clandestinidade – e pelo processo de conscientização vivenciado mediante con-
tato com o pessoal do Colégio Pedro II, Heloísa recusa a se submeter ao tráfico
de mulheres e sabota o circuito fechado da reprodução social do império co-
mercial que lastreia o poderio do pai (ao mesmo tempo patriarca, proprietário,
tirano, arquivilão, enfim), para assumir o martírio de uma trajetória descen-
dente de radicalização voluntarista e comunhão de destino com os condenados
da terra. Por outro, espécie de decalque carbonado do subalterno identificado
com o opressor e movido a ressentimento de classe, Waldir rompe com a posi-
ção de agregado submetido ao favor humilhante da turma, para palmilhar, cal-
çado em investimento escolar, ambição e virtù maquiavélica, a ascensão social
irrefragável.
A fatura formal evidencia o peso reconhecível (as tais “marcas autorais”)
do poder espiritual exercido por Gilberto Braga, de um lado, e do poder temporal
empalmado por Dennis Carvalho, de outro. O sobranceiro desprezo pelo agrega-
do arrivista mal esconde as espalhafatosas disposições das frações pequeno-
-burguesas que – tendo desfrutado dos prazeres associados à prolongada incul-
cação sedimentada pelo investimento escolar (por sua vez, viabilizada por uma
origem social privilegiada) – veem o signo da ameaça na mera visibilidade de
uma população alquebrada que a fotogenia da Rede Globo, como instância su-
prema da indústria cultural no Brasil, fracassa em recalcar.24 Já o encantamento
pela imagem meio sapeca, meio coquete do anjo vingador guarda afinidade com
as disposições de outras frações da pequena burguesia obrigadas a renunciar
aos prazeres mais “sublimes”, “refinados” e “desinteressados” (preconizados
pelo arbitrário cultural dominante) em função de uma vida submetida ao traba-
lho criativo precoce e compulsório demandado pelas instâncias articuladas
junto ao núcleo duro do polo ampliado do mercado de bens simbólicos à brasi-
leira. Eis o entroncamento inflamável de tensões e angústias sociais que enfor-
ma o funcionamento desempenado da indústria cultural local e seus produtos.

Desfecho
De modo geral, a análise sociológica da teleficção produzida pela Rede Globo
em particular e dos bens simbólicos radicados no polo ampliado de produção
cultural demonstra gume conceitual, ganhos metodológicos e rentabilidade
explicativa inequívocos. Para além da acuidade cognoscitiva do conceito de
indústria cultural – desde que devidamente desbastado do ranço etnocêntrico
e intelectualista, bem como rigorosamente informado historicamente 25 –, o en-
anos rebeldes e a abertura da teleficção

918

caminhamento realizado pelo presente trabalho esboça uma abordagem cru-


zada, apta a apreender os rendimentos econômicos advindos das obras de arte
e os mecanismos de legitimação simbólica dos bens culturais produzidos se-
gundo a racionalidade mercantil. O formato minissérie tal como aclimado pela
emissora poderia ser tomado, então, como expressão cabal da dinâmica vigen-
te num mercado de bens simbólicos no qual as fronteiras entre os polos restri-
to e ampliado não se estabeleceram de modo tão demarcado como nos países
europeus em que a autonomia dos campos de produção da cultura legítima se
firmou muito antes do espraiamento da lógica mercantil para as demais di-
mensões da vida social (Ridenti, 2014: 31-32).
O estabelecimento desse enquadramento exige a rejeição terminante da
atitude sobranceira tipicamente etnocêntrica e intelectualista que repõe, sob a
aparência de um juízo depreciativo acerca do “des-valor inerente” aos bens sim-
bólicos produzidos no âmbito da indústria cultural – juízo esse que por vezes
não passa das favas contadas de um julgamento social do gosto –, a aversão ou
mesmo o desprezo de classe pelas pessoas que os consomem. Ao contrário dos
estudos que, mediante todo um esforço de investidura, assumem a roupagem
de portadores desse tipo de atitude, o presente trabalho quer se alinhar às po-
sições segundo as quais os bens simbólicos oriundos do polo ampliado de pro-
dução cultural – mesmo quando simplesmente reciclam fórmulas rotineiras ou
deliberadamente legitimam o status quo – têm o princípio de sua ação eficaz
atrelado ao trabalho transformador que realizam sobre angústias e tensões so-
ciais com um potencial utópico em certa medida inconforme à ordem:

Reescrever o conceito de uma administração do desejo em termos sociais nos


permite pensar o recalque e a satisfação [...] conjuntamente, dentro da unidade
de um mecanismo único, que dá e toma igualmente, numa espécie de compro-
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 907 – 930 , set. – dez., 2020

misso ou barganha psíquicos. Isso estrategicamente desperta um conteúdo ima-


ginário no interior de estruturas de contenção cuidadosamente simbólicas que
o desarmam, gratificando os desejos intoleráveis, irrealizáveis, propriamente
imperecíveis apenas na medida em que possam ser momentaneamente aplaca-
dos ( Jameson, 1995: 25).

Isso – é importante não perder de vista – tanto para o “bem” (existem


ordens sociais mais ou menos intoleráveis) quanto para o “mal” (as experiências
autoritárias estão aí a assombrar todo e qualquer sonho feliz de sociedade).
Seja como for, os produtos da indústria cultural – quer aqueles tomados como
os mais degradados do ponto de vista estético, quer aqueles que, mediante
toda aversão declarada e cuidados de higiene sanitária, a crítica cultural se
digna a examinar – sempre desempenham funções práticas, econômicas, sociais,
políticas e culturais insuspeitadas que justificam o esforço de uma análise
sociológica.

Recebido em 01/4/2019 | Aprovado em 12/8/2019


artigo | dimitri pinheiro

919

Dimitri Pinheiro é graduado em ciências sociais pela Universidade


de São Paulo. Possui  mestrado e doutorado pelo Programa de Pós-
Graduação em Sociologia da mesma instituição. Realizou estágio
sanduíche junto ao Consortium For Women Research da
Universidade da Califórnia – Davis. Estuda temas relacionados à
história social dos intelectuais e indústria cultural no Brasil, com
ênfase em televisão. Integra o Núcleo de Sociologia da Cultura
(USP). É autor de “Jogo de damas: trajetórias de mulheres nas
ciências sociais paulistas – 1934-1969” e coautor, com Alexandre
Bergamo, de “Indústria cultural no Brasil e o balanço da sociologia:
dois pesos, muitas medidas”.
anos rebeldes e a abertura da teleficção

920

NOTAS
1 Este artigo resulta de pesquisa realizada junto ao PPGS-
-USP e contou com apoio da Fapesp. Apresentei versões em
2018 na mesa “A despedida do Ministério da Cultura e ar-
tistas em pé de guerra (1989-1990)” do Pequeno Ciclo His-
tória da Política Cultural no Brasil (1980-1993), organizado
pelo CPF (Sesc-SP), e na quarta sessão do III Seminário
Internacional de Sociolog ia da Cultura (USP). Agradeço
nas pessoas de Fábio Marelonka Ferron e de João Victor
Kosicki, respectivamente, os comentários suscitados nes-
sas ocasiões. Sou especialmente grato a Luiz Carlos Jack-
son, que leu, comentou e fez sugestões fundamentais.
2 Para uma discussão sobre a hierarquia simbólica dos ob-
jetos nas ciências sociais, ver Pinheiro e Bergamo (2018).
Convém mencionar ao menos três dos trabalhos mais im-
portantes para a argumentação relativa a minisséries aqui
desenvolvida: Lobo (2000), Kornis (2000) e Xavier (2003).
Embora desiguais, as análises realizadas nesses trabalhos
têm em comum o enraizamento institucional nas escolas
de comunicação, bem como a convergência para Anos re-
beldes como ponto de fuga.
3 O termo não é usual. Além de ser uma categoria nativa, a
opção por “teledramaturgia” teria a vantagem de eviden-
ciar a inf luência da experiência teatral na constituição
da televisão no Brasil e, adicionalmente, enfatizar sua
especificidade em relação ao caso estadunidense, no qual,
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 907 – 930 , set. – dez., 2020

ao contrário, o cinema é que foi determinante. A opção


por “teleficção” se ampara em Xavier (2003), mesmo que
o autor não apresente nenhuma justificativa explícita. O
rigor que o crítico dispensa à fatura das obras cinemato-
gráficas, bem como a própria problematização subjacen-
te à rejeição da categoria estabelecida, indica, entretanto,
uma preocupação com a precisão terminológica. Assim
como no cinema, os formatos ficcionais audiovisuais pro-
duzidos e veiculados pela televisão apresentam traços
estilísticos que estão mais distantes da ação dramática e
relativamente próximos dos gêneros épicos ou narrativos.
Para uma discussão avalizada do problema, ver Rosenfeld
(2004: 30-31).
4 No or ig inal, the “period” in question is understood not as
some omnipresent and uniform shared style or way of thinking
artigo | dimitri pinheiro

921

and acting, but rather as the sharing of an objective situation,


to which a whole range of varied responses and creative inno-
vations is then possible, but always within that situation’s
structural limits.
5 Inter-relações entre essas formulações podem ser rastrea-
das em Xavier (2000), Jameson (1992) e Auerbach (1997).
6 Vinte e três telenovelas foram produzidas no mesmo pe-
ríodo. Convém mencionar que a elas eram dedicados três
horários fixos da grade diária de programação da Rede
Globo. Os demais formatos – unitário e seriado – não con-
taram com produção e exibição rotinizadas no mesmo
interregno temporal. Salvo menção em contrário, as in-
formações referentes aos programas foram coligidas no
Guia ilustrado TV Globo (2010) ou no sítio eletrônico Memó-
ria Globo (c2013). Tanto a publicação quanto o sítio inte-
graram as iniciativas que celebraram os 45 anos da emis-
sora. Uma descr ição sintética do esquema de f inancia-
mento para o caso da telenovela é realizada por Borelli
(2005). Para uma avaliação em registro prático e compa-
rativo tendo em vista a minissérie, ver Daniel Filho (2001).
7 Sobre a estruturação do domínio televisivo em dois polos
de legitimidade, ver Bergamo (2006).
8 Escritas por autores associados à modernização da cena
teatral no Brasil – Dias Gomes, Bráulio Pedroso, Jorge de
Andrade e, eventualmente, Lauro César Muniz foram es-
calados para o horário –, as telenovelas que eram veicu-
ladas introduziram efetivamente temas, ling uagem e
procedimentos narrativos considerados ousados para a
televisão. Condizente com autoimagem heroica que cons-
truíram de si próprios nesse período, a censura traumá-
tica a Roque santeiro é praticamente onipresente nas me-
mórias dos profissionais que trabalharam na emissora.
Ver, por exemplo, Daniel Filho (1988), Dias Gomes (1998)
e Oliveira Sobrinho (2011).
9 A análise desenvolvida por Sallum Jr. (1996) f lagra de mo-
do ag udo a ocasião exata em que essa inf lexão ocorre.
Para relatos que corroboram a importância política da
Rede Globo e de seu dono no período, ver, por exemplo,
Lima (2005) e Bial (2004).
10 Os rumos tomados inicialmente pelo Globo-Shell Especial
e, posteriormente, pelo Globo Repórter são exemplares a
anos rebeldes e a abertura da teleficção

922

esse respeito. A participação de cineastas de esquerda


nesses prog ramas é discutida por Ridenti (2000 ). Conti
(2012) resume de modo sintético os processos de centra-
lização e padronização estética do Globo Repórter, bem
como a retomada do controle direto do telejornalismo
pela família Mar inho após a demissão de Walter Clark.
Sacramento (2011) estuda minuciosamente os dois proje-
tos de produção que deram origem aos programas. Para
uma apresentação oficial de suas diferentes fases, ver o
descritor Globo Repórter no sítio Memória Globo (c2013).
11 Que a Rede Globo tenha priorizado inicialmente o forma-
to seriado, mais nitidamente especializado se comparado
à telenovela e à minissérie, é um evidente indicativo dis-
so. O simples arrolamento dos títulos dos primeiros se-
riados realizados já demonstra essa conexão: Ciranda ci-
randinha (1978), voltado para o público jovem com maior
escolaridade; Malu mulher (1979-1980), ao feminino com
maior escolaridade; Carga pesada (1979-1981), ao masculi-
no com menor escolaridade; e Plantão de polícia (1979-1981),
masculino com maior escolaridade. Uma caracterização
histórica e formal do unitário (single play), seriado (serie)
e da minissérie (serial) pode ser conferida em Williams
(2003). Para uma discussão mais detalhada, ver Pallottini
(2012). Em reg istro prático, Daniel Filho (2001) também
enfatiza o caráter menos segmentado da telenovela em
relação ao seriado. A análise realizada por Almeida (2011)
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 907 – 930 , set. – dez., 2020

contextualiza e dimensiona o impacto de Malu mulher.


12 O projeto também teve colaboração de Antônio Mercado,
Ferreira Gullar, Joaquim Assis, Luiz Gleiser, Marília Garcia,
Doc Comparato (chefe do Departamento de Formação de
Autores) e Euclydes Marinho (responsável pelo Departa-
mento de Novos Formatos). O próprio Dias Gomes (1998)
atribuiu o malogro a acusações internas de dirigismo cul-
tural e a uma campanha promovida em veículos impres-
sos e eletrônicos capitaneada pelo jornalista conservador
Ferreira Neto. Outras explicações enfatizam a resistência
da parte dos autores – principalmente os “tradicionais” –,
que teriam visto a tentativa de instaurar processos cole-
tivos de trabalho como uma possível ameaça às prerro-
gativas colocadas pela posição que ocupam na hierarquia
interna de produção televisiva (Ortiz & Ramos, 1991).
artigo | dimitri pinheiro

923

13 Sobre isso, ver o item “Cur iosidades” no descr itor Anos


dourados (Memória Globo, c2013).
14 Ver o item “Driblando a censura” do roteiro publicado em
livro – um caso ainda raro – de Anos rebeldes (Braga, 2010:
29). Diferentemente da versão or ig inal, a adaptação da
peça O pagador de promessas à linguagem televisiva, rea-
lizada pelo próprio Dias Gomes com direção da cineasta
Tizuka Yamazaki, tematizou a reforma agrária e denun-
ciou explicitamente o latifúndio. Após a exibição do pri-
meiro capítulo, Roberto Mar inho deu ordens para que
Boni suspendesse a veiculação. O executivo resistiu, ape-
lando para Roberto Irineu – filho do proprietário e então
vice-presidente executivo –, que negociou a exibição me-
diante o corte de quatro capítulos iniciais da minissérie.
Na versão de Boni (Oliveira Sobr inho, 2011: 364-365), o
proprietário fora pressionado por amigos. Já segundo Dias
Gomes (1998: 340), a reação foi capitaneada pelas lideran-
ças da União Democrática Ruralista e do Banco Bradesco
(Ronaldo Cayado e Amador Aguiar, respectivamente). Co-
mo é o usual em disputas como essas, a controvérsia ga-
nhou os jornais: autor, executivo e propr ietár io – num
inusitado editorial assinado em O Globo, Roberto Marinho
acusa Dias Gomes de trair a própr ia obra (e, implicita-
mente, a sua confiança) – trocaram acusações (Cortes na
minissérie..., 1988: 31; Quem traiu, 1988: 1). O embaraço
revela, simultaneamente, a margem que o exercício com-
pulsório da criatividade exig ido pela indústria cultural
concede aos produtores e a distância relativa – no tele-
jornalismo isso praticamente inexiste quer em função da
maior familiaridade profissional, quer pela sua imbrica-
ção imediata com o campo do poder – da ingerência dos
proprietários em relação ao setor de entretenimento. So-
bre o caráter compulsório do trabalho criativo demanda-
do pela indústria cultural, ver Miceli (2018 ). As constri-
ções impostas pelo campo do poder sobre o telejornalismo
em geral podem ser rastreadas em Conti (2012).
15 A expressão populismo de esquerda se refere à caracte-
rização que faz Schwarz (1992: 63) de uma vertente, pre-
dominante no Brasil pré-1964 , de socialismo “forte em
anti-imperialismo e fraco na propaganda e organização
da luta de classes”. A tal formulação convém acrescentar
anos rebeldes e a abertura da teleficção

924

que a correspondência dessa vertente no plano estético


foi o “nacional-popular”.
16 Para uma demonstração tangível de como o contrato com
a Rede Globo poderia dificultar a vida profissional, ver o
caso de Walter George Durst (Lebert, 2009).
17 La crème de la crème é a expressão utilizada para se referir
às minisséries tanto pelos profissionais quanto por pes-
quisas que incor poram a classif icação nativa (Balogh,
2004). Os depoimentos de profissionais geralmente asso-
ciam o melhor de suas carreiras na televisão ao trabalho
realizado nesses programas teleficcionais.
18 Ainda que implicitamente , a ênfase conferida às circuns-
tâncias de produção para a análise de minisséries da Re-
de Globo foi proposta por Kornis (2000). Diferentemente
dessa abordagem, entretanto, a reconstituição de tais
circunstâncias aqui delineada realiza o trabalho racioci-
nado de mediação entre as condicionantes gerais, os prin-
cípios hierárquicos vigentes na televisão como domínio
específico de atividades, os trajetos dos profissionais e
as tomadas de posição inscritas na fatura das obras.
19 Não obstante o decalque da versão heroica recriada pelo
própr io Gilberto Braga, bem como da imputação de um
sentido unívoco à reação do público, ver a reconstituição
circunstanciada do episódio realizada por Ab’Saber (2003).
20 Sobre diferentes expressões da imaginação melodramá-
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 907 – 930 , set. – dez., 2020

tica, conferir Brooks (1984).


21 A “parceria” autor-diretor é “estratégica” (Ortiz & Ramos,
1991: 151; Hamburger, 2005: 45) na produção de programas
televisivos, mormente os de telef icção. Embora menos
sujeita à interferência do público – seja mediante dispo-
sitivos de sondagem de opinião, seja por meio de veículos
impressos e eletrônicos – do que a telenovela, a produção
da minissérie também se dá em meio a intrincadas redes
de relações entre profissionais em colaboração (Becker,
2008: 43). Não obstante, as posições de “autor” (poder es-
piritual) e “diretor geral” (poder temporal) exercem maior
pressão na definição dos rumos e dos resultados finais
das produções específicas na televisão.
22 Embora a experiência de ter assistido a Anos rebeldes quan-
do o programa foi veiculado pela primeira vez tenha in-
artigo | dimitri pinheiro

925

f luído, a análise aqui desenvolvida só foi possível a partir


da versão compacta comercializada em Digital Video Disc
pela Som Livre (Anos rebeldes, 2003). Em que pese o privi-
légio de poder preservar parcela considerável da sua pró-
pr ia produção audiovisual pela posição de verdadeiro
aparelho que a teleficção da Rede Globo ocupa, não é pos-
sível deixar de registrar aqui os obstáculos praticamente
intransponíveis colocados aos pesquisadores pelo contro-
le draconiano exercido sobre o próprio acervo – passível
de ser contornado muito parcialmente em função do es-
forço (animado pelo amor comum aos programas de tele-
visão) despendido por colecionadores amadores ou do
solidário auxílio prestado pelos funcionários alocados no
Centro de Documentação (Cedoc) – nem, tampouco, o ho-
locausto rotineiro a que foi submetida parcela inestimável
da cultura audiovisual brasileira decorrente quer da pró-
pr ia or ientação para o curto prazo imposta pela lóg ica
mercantil, quer do reaproveitamento cotidiano de video-
teipes já g ravados, quer, ainda, da simples carência de
recursos para sustentar arquivos privados ou da quase
inexistência de instituições públicas dedicadas a esse
trabalho. Para uma ref lexão pioneira sobre esses aspectos
no contexto argentino, ver Mestman e Varela (2011).
23 A af irmação é deliberadamente rebarbativa, mas não é
possível avançar nesse debate aqui. Sobre os elementos
estruturais e, mais precisamente, uma caracter ização
política do “melodrama clássico”, ver Thomasseau (2012).
Para uma análise que considera os desdobramentos mais
contemporâneos dessa forma na indústria cultural, ver
Xavier (2003). A caracterização do melodrama como de-
mocrático se apoia em Brooks (1984).
24 “Atualmente, alg uns f ilmes brasileiros me irr itam um
pouco. Pobreza com gente feia. Ora, no neorrealismo italia-
no, em Ladrões de bicicleta o protagonista é um cara atraen-
te [;] Belíssima tem a Anna Magnani. Cidade de Deus, por
exemplo, tem atores muito bonitos. Nas produções mais
recentes, porém, a miséria e gente muito feia têm sido um
osso duro de roer” (Braga, 2010: 27; grifos meus). Acerca da
longa tradição de fotogenia no caso do cinema e do pen-
samento (social e político) radicados no Brasil, ver Salles
Gomes (1973).
anos rebeldes e a abertura da teleficção

926

25 Nesse ponto a análise aqui desenvolvida se associa ao


esforço despendido pelo melhor da tradição sociológica
radicada no Brasil no sentido de aclimar o conceito de
indústria cultural. A acepção rigorosa desse conceito “su-
põe a configuração de um sistema articulado de diferen-
tes meios de produção, difusão e conser vação cultural
( jornais, editoras, gravadoras, agências de propaganda,
emissoras de rádio, canais de televisão, telefonia móvel
e, mais recentemente, as diversas plataformas da Inter-
net), cujo financiamento rotineiro depende dos recursos
obtidos através da concorrência entre os setores pelos
gastos com publicidade” (Pinheiro & Bergamo, 2018: 107-
108). Para formulações nessa direção, ver Cohn (2014) e
Arruda (1985).

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anos rebeldes e a abertura da teleficção

930

Anos Rebeldes e a abertura da teleficção


Resumo Palavras-chave
O artigo aborda Anos rebeldes, minissérie da Rede Globo de televisão;
Televisão veiculada entre junho e agosto de 1992. Primeira teleficção;
incursão explícita da teleficção da emissora pelo tema regi- minissérie;
me militar, a exibição do programa coincide com um mo- figura.
mento decisivo no processo de democratização política do
país: a campanha Fora Collor. A análise delineia telegrafica-
mente as condicionantes gerais, as circunstâncias de pro-
dução e o enredo da minissérie, enfatizando uma vertente
de suas tramas. O objetivo é examinar diferentes figurações
da indústria cultural na teleficção brasileira com rebati-
mentos reflexivos sobre a própria atitude dos estudos em
relação ao objeto. Longe dos juízos depreciativos acerca do
“des-valor inerente” aos bens simbólicos associados ao polo
ampliado de produção cultural, o argumento sustentado
aqui é o de que tais objetos sempre desempenham funções
práticas, econômicas, sociais, políticas e culturais insuspei-
tadas que justificam o esforço de uma análise sociológica.

Anos Rebeldes and the OPENING OF THE


TV SERIAL DRAMA
Abstract Keywords
The article approaches Rebel Years, a serial of Rede Globo Cultural industry;
Television that was displayed between June and August of television;
1992. It was the first time that the television station ex- telefiction;
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 907 – 930 , set. – dez., 2020

plicitly approached the theme of the military regime, and serial;


the show’s presentation happened at a decisive moment figure.
in the process of political democratization of the country:
the campaign for “Fora Collor” (Collor Out). The analysis
slightly outlines the general conditions, the circumstanc-
es of production and the plot of the miniseries, giving em-
phasis in one specific story. Its objective is to examine
different representations of the cultural industry in the
Brazilian telefiction with a reflexive repercussion about
the attitude of academic studies themselves in relation to
the object. Far from the disparaging judgments about the
“inherent worthlessness” of symbolic goods associated with
the expanded pole of cultural production, the argument
advanced here is that such objects always perform unsus-
pected practical, economic, social, political, and cultural
functions that justify the effort of a sociological analysis.
http://dx.doi.org /10.1590 /2238-38752020v1037

1 Universidade Federal de São Carlos


zinhotravis@gmail.com
https://orcid.org/0000-0002-7295-6306

Renan Martins Pereira I

Velejar e descobrir: considerações sobre


vaqueiros, corpos e lembranças

Neste artigo,1 meu objetivo é analisar a partir de narrativas contadas por ‘vaquei-
ros de verdade’2 como suas relações com o corpo, os animais e a caatinga produ-
zem memória e reputação social. Mais especificamente, observo como essas rela-
ções com o corpo, os animais e o território constroem e reproduzem o ‘prestígio’
e a reputação de senhores reconhecidos no sertão de Pernambuco como ‘vaquei-
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 931 – 956 , set. – dez., 2020

ros, vaqueiros mesmo’: senhores hábeis na arte de capturar o gado na caatinga,


mas também hábeis na arte da memória. Por um lado, ‘homens do campo’ que
vivem, trabalham e labutam na fazenda de gado cuidando do rebanho próprio ou
do patrão. Por outro, ‘vaqueiros velhos’ ou ‘antigos vaqueiros’ cujo ‘prestígio’, ‘co-
nhecimento’ e ‘experiência’ os diferenciam de ‘vaqueiros mais novos’, ‘vaqueiros
de vaquejada’, ‘vaqueiros de festa’, ‘vaqueiros modernos’.
Além disso, demonstro que a exaltação de uma vida de sacrifícios e as
tarefas concernentes ao ofício do vaqueiro resultam de diversas de suas práti-
cas e de seus conhecimentos, mas também de sua habilidade retórica de narrar
acontecimentos passados, protagonizados por humanos, animais e caatingas.
A partir de uma narrativa que me foi concedida na primeira pesquisa de cam-
po que realizei em Floresta (PE) 3 entre fevereiro e maio de 2016, dou ênfase
etnográfica à habilidade retórica de Cláudio Correia, ‘vaqueiro velho’ cuja par-
ticularidade no modo de confeccionar oralmente suas experiências passadas
– e, consequentemente, no modo de confeccionar a memória – expressa uma
relação contínua entre o corpo do vaqueiro, os animais e o território. Para ser
velejar e descobrir: considerações sobre vaqueiros, corpos e lembranças

932

e se dizer vaqueiro, do seu ponto de vista, necessita-se de um corpo específico.


Não se é vaqueiro de qualquer forma, a qualquer tempo, em qualquer lugar
nem, aliás, com qualquer corpo. De sua perspectiva, nem toda pessoa pode ‘ser
vaqueiro’. Trata-se de uma ‘profissão perigosa’ que requer domínio sobre os
animais e o território, mas também sobre o próprio corpo.
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 931 – 956 , set. – dez., 2020

1 2

Figura 1
‘Vaqueiro véio’ em sua propriedade,
Fazenda São Miguel (Serra Talhada-PE)
março, 2016
foto do autor

Figura 2
Jovem vaqueiro na ‘vaquejada’ da
Fazenda Lucas (Floresta-PE)
maio, 2016
foto do autor
artigo | renan martins pereira

933

Metodologicamente, 4 ‘vaqueiros velhos’ ou ‘antigos’ como Cláudio Cor-


reia e o senhor representado na Figura 1 são analiticamente importantes por
três motivos. O primeiro deles é que detêm a sabedoria e a habilidade de narrar.
Além disso, detêm a sabedoria e a habilidade de cavalgar. De um lado, trata-se
da faculdade de falar a respeito de si (pensemos na imagem do narrador sen-
tado no alpendre de sua morada reproduzindo relatos pessoais). De outro lado,
trata-se da montaria, da cavalgada. Uma atividade obviamente definida pela
mobilidade, pelo movimento, pela fuga do boi, pela corrida no ‘mato’5 (pensemos
na imagem do cavaleiro em movimento na caatinga). E, terceiro motivo, essas
duas formas de sabedoria e habilidade (na posição de narradores e cavaleiros)
produzem, juntas, memória e reputação: falar de suas aventuras na caatinga e
ser hábil na arte da cavalaria são formas de os vaqueiros se perpetuarem no
tempo, produzirem memória e deixarem um ‘rastro’. Portanto, a predominância
da narrativa de Cláudio Correia neste artigo se dá metodologicamente pelo seu
modo particular de relatar o que ele considera momentos de glória: as ‘pegas
de boi’ do passado e a ‘vida de vaqueiro’ no ‘tempo dos antigos’.
Em antropologia, os trabalhos no Brasil sobre os sertões focalizam, em
grande medida, a questão da memória na sua extensão com os temas, por exem-
plo, da mitologia nacional (Sena, 1998, 2011), da narrativa (Lima, 2000; Cavignac,
2009), da política (Villela, 2008a, 2008b), da família (Marques, 2002, 2013) e do
território (Godoi, 1999). Poucos, porém, são os que se dedicam detidamente à
figura do vaqueiro (Aires, 2008; Lopes, 2016; Pereira, 2017), mas ainda assim sem
tratar das relações conjuntas dos vaqueiros com o corpo, os animais e o territó-
rio na produção da memória, tal como desenvolvo neste artigo.
Ainda hoje prevalecem as teses de folcloristas (Cascudo, 1956, 2005) e
pensadores sociais brasileiros (Barroso, 1930; Menezes, 1970; Andrade, 1986;
Mello 2011) a respeito do vaqueiro do Nordeste. Com a queda da pecuária nor-
destina no final do século XIX e início do XX, a previsão desses autores era a
de que o vaqueiro e seu ofício desapareceriam da vida social sertaneja (Cascu-
do, 1956, 2005; Prado Júnior, 2006; Furtado, 2007). O vaqueiro nordestino, no
entanto, não desapareceu do meio rural. Não obstante os processos de “moder-
nização” no campo, Lopes (2016) e Pereira (2017) demonstraram, recentemente,
que a memória do vaqueiro permanece, transformando seus conhecimentos e
suas práticas tradicionais.
Da prática da ‘pega de boi’, por exemplo, derivou a ‘pega de boi no mato’
ou ‘pega de boi na caatinga’. Também chamada de ‘vaquejada’, a ‘pega de boi’
é um festejo nos sertões do Nordeste, onde um conjunto de vaqueiros – a ‘va-
queirama’ – disputa a derrubada do gado, visando à premiação e comemoração.6
Quanto a essas competições, os ‘vaqueiros de verdade’ entre os quais realizei
pesquisa de campo em Floresta são bastante críticos. Para eles, nas ‘pegas de
boi no mato’ os vaqueiros lidam com o gado somente por lazer ou esporte.
‘Antigamente’, no entanto – eles afirmam –, as ‘pegas de boi’ eram atividade
velejar e descobrir: considerações sobre vaqueiros, corpos e lembranças

934

voltadas para as ‘necessidades’ do trabalho do homem rural. Para meus amigos


sertanejos, as ‘necessidades’ concernentes às tarefas do vaqueiro se destinavam
à manutenção e à vigília do rebanho. Uma vez que os trabalhadores se arrisca-
vam na caatinga, o ofício do vaqueiro se fazia ‘necessário’, mas também pra-
zeroso e gratificante, no sentido de que os desafios e perigos enfrentados na
caatinga proporcionavam disputas e competições entre trabalhadores e fazen-
deiros, resultando algumas vezes em festejos, ‘reuniões’ e ‘confraternizações’.
A diferença é que nas ‘vaquejadas’ e nos desafios passados lidava-se com um
rebanho selvagem e bravio. O gado era “criado solto na caatinga”, era “bicho
bruto que não via gente”. Hoje em dia, em contrapartida, dizem os vaqueiros,
“o gado é manso, domesticado, preso em cercados e mangas”. E, portanto, os
cavaleiros já não são habilidosos e corajosos como os de antes.
Frente a essas diferenciações temporais, as lembranças, as memórias e
as histórias passadas são constantemente agenciadas pelos vaqueiros de Flo-
resta. Por essa razão, nas seções seguintes analiso como a relação dos vaqueiros
com o corpo, os animais e a caatinga possibilita entender os procedimentos
pelos quais os vaqueiros qualificam e diferenciam passado e presente, reveren-
ciando-se como herdeiros de um tempo glorioso. A primeira seção é dedicada à
questão do corpo. A segunda, aos animais e à caatinga. A terceira analisa a pro-
dução do ‘prestígio’ em sua correlação com a memória. As duas últimas seções
procuram definir conceitualmente a memória do ponto de vista dos vaqueiros.
Para tanto, faço uma análise da noção nativa de ‘ciência do vaqueiro’ a partir da
noção grega de métis, tal como definida por Détienne e Vernant (2008).

O corpo
Nos diálogos que estabeleci com os vaqueiros em Pernambuco, muito se dizia
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do desgaste físico e corporal vivido por eles em tempos remotos. Em um de


meus encontros com Cláudio Correia, minha anfitriã em Floresta, Amélia, per-
guntou-lhe:

– Quer dizer que não podia sentir sede no mato?

– Sentia sede, claro. Mas não podia levar água para o campo. Não dava para beber
nem comer, porque não podia carregar nada na sela – respondeu-lhe sem delongas.

– Mas por quê? – perguntei-lhe.

– Ué, porque é incômodo! – afirmou com obviedade.

‘Campo’ significa a parte não cercada da caatinga, território livre para os


animais, onde nasce e vive o rebanho, “solto no mato”, que em certos períodos
necessita ser recrutado para fins de manutenção e vigília de vaqueiros e ‘cria-
dores’. 7 Sua forma verbal ‘campear’ é sinônimo de ‘descobrir’ na espacialidade
específica do ‘campo’ as reses (gado bovino) e as ‘criações’ (gado caprino e
ovino) de um rebanho. 8
artigo | renan martins pereira

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Para procurar e capturar as reses, os vaqueiros devem, por exemplo, ali-


mentar-se comedidamente, ser frugais e moderados. Uma carne de bode assada
na brasa – comum entre os alimentos dos sertanejos – não é uma boa opção. “Pa-
ra correr na caatinga atrás de um boi”, reflete Cláudio, “deve-se comer algo leve”.
Primeiro, para não despertar a fome durante a cavalgada. Em segundo lugar, para
que a sede não se antecipe antes da hora. Em síntese, o trabalho do vaqueiro
exige uma economia do corpo. Uma forma de regê-lo, preveni-lo e prepará-lo.
“Antigamente”, disse o interlocutor, “o vaqueiro saía de madrugada atrás
de uma rês”. Nessa circunstância, segundo ele, reinam os imprevistos. Não se
sabia de antemão, por exemplo, a que horas vaqueiro e cavalo (e quem sabe o
boi) retornariam do ‘mato’. Na vida do vaqueiro, as tarefas nem sempre são
findadas como se espera. Mesmo capturado, o gado pode deixá-lo à sorte do
destino. “O vaqueiro pode pelejar para sair com o boi e ele não sair”. O gado
pode lutar para não se submeter às ordens do homem. Ele resiste à morte, as-
sim como o homem também se adestra contra ela. Nesse sentido, sofrer mas
ao mesmo tempo preservar-se e ter cuidado de si são atitudes essenciais de
quem enfrenta os perigos da caatinga e as surpresas do destino.
Cláudio me contou ter arriscado a própria vida capturando um determi-
nado boi. Nos anos 1970, ele e um ‘companheiro’ saíram às três da manhã
para pegá-lo, encontraram-no às três da tarde e só terminaram de amarrá-lo
às sete da noite. Passaram o dia todo sem comer e sem beber água. Ao chegar
a casa, o vaqueiro se encontrava completamente “arrebentado, enfadado e do-
ído”. O ‘sofrimento’ era tanto, que, embora necessitasse de água, o corpo a
rejeitava: “Os lábios eram rachados, e eu não conseguia engolir nada, só café
amargo”. Apesar do ‘sofrimento’ (ou talvez em virtude dele), meu amigo lem-
brava do ocorrido com bastante orgulho. Afinal de contas, asseverou: “Essa é a
realidade do vaqueiro do campo”, o solo onde o vaqueiro cultiva o seu ‘prestígio’.
Muitos ‘vaqueiros velhos’ de Floresta adquiriram reputação por já ter
dormido no ‘mato’ à espera de um boi ou por passar horas sem se alimentar.
Por esses e outros motivos, ‘vaqueiros velhos’ se articulam retoricamente para
nos convencer de que sofreram mais do que ninguém. Para eles, os ‘vaqueiros
mais novos’ jamais se submeteriam a condições equivalentes. E isso não diz
respeito apenas a um problema moral e geracional. Acontece que os motivos
são de natureza prática: embora se digam vaqueiros, os ‘mais novos’ não vivem,
não sofrem e não se dedicam à ‘profissão de vaqueiros’ como os de ‘antigamen-
te’. Pode-se notar, portanto, a partir da lógica do ‘sofrimento’ elaborada por
Cláudio Correia, apenas uma primeira demonstração de como a memória é
trabalhada e construída nas narrativas a partir das relações com o corpo, os
animais e o território, de modo que a produção do ‘prestígio’ e da reputação
social só ocorre à medida que essas relações existam e façam sentido.
Mas qual o saldo do ‘sofrimento’? Por que o vaqueiro é devoto ao exer-
cício de sua ‘profissão’ a ponto de, em seu nome, sacrificar-se horas ou dias na
velejar e descobrir: considerações sobre vaqueiros, corpos e lembranças

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caatinga? Seria supostamente em nome de uma tarefa a partir da qual se firmam


compromissos com alguém a quem se deve o boi prometido, um cliente ou um
patrão, e, além do mais, em nome de um compromisso vital do vaqueiro de si
para consigo? Sob o sol escaldante e à espera da rês prometida, o vaqueiro se
esgota até finalmente capturá-la. Os corpos precisam ser ágeis, sobretudo para
adquirir velocidade na ‘carreira’ – ato em disparada atrás do gado. Nas palavras
de Genésio de Nato, vaqueiro da Fazenda Lucas, não se trata apenas de ‘sofri-
mento’, mas também de ‘agilidade’. Para ele, os vaqueiros não correm no ‘cam-
po’ somente para honrar um ‘trato’, seja com o cliente, com o fazendeiro ou
consigo mesmo. E também não o fazem apenas para cuidar do rebanho. Sobre-
tudo, fazem-no por uma questão de ‘agilidade’, uma vez que os objetivos estão
condicionados às relações com os animais e o território. Em suas palavras, “O
vaqueiro tem que saber a luta do mato!”.
Dessa maneira, ao mesmo tempo em que se trata de responsabilidade
moral, de uma questão de ‘honra’ ou ‘prestígio’, sugiro que se trata igualmen-
te de um problema técnico e pragmático – sobre isso, exatamente, trato melhor
na última seção deste artigo, em que abordo a categoria ‘ciência do vaqueiro’.
Trata-se, enfim, da percepção do que é e do que não é eficiente na ‘luta do
mato’. No lugar de comidas e bebidas, como bem nos demonstrou Cláudio Cor-
reia, prevalecem ferramentas e utensílios. Na indumentária e nos arreios, car-
regam-se ‘peias’ (cordas para amarrar os animais e imobilizá-los), ‘serrotes’
(para cortar as ‘pontas’ dos bois quando pontiagudas), ‘caretas’ (máscara de
botar na rês para interromper o poder da visão) e ‘búzios’ (instrumento de
sopro feito com a ‘ponta’ do boi com o qual os homens se comunicam, princi-
palmente para avisar aos ‘companheiros’ a aproximação dos animais).
Encourado, com os acessórios essenciais e sem carregar comida e bebi-
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da nos arreios, o vaqueiro do sertão, segundo Cláudio Correia e Genésio de


Nato, dá primazia à atitude de ‘correr limpo’. Segundo eles próprios, a leveza
na montaria é o que dá velocidade, ritmo e, portanto, ‘agilidade’ aos corpos. Ela
implica a possível vitória na captura, isto é, os domínios dos homens sobre os
animais frente aos imprevistos, perigos e desafios. Tendo em vista o modo
como as técnicas e as habilidades se desenrolam na ‘luta do mato’, na seção
seguinte trato de analisar como a memória do vaqueiro é produzida nos relatos
não apenas a partir de suas relações com o corpo, mas também das relações
com os animais e a caatinga.

Os animais e a caatinga
Em nossas conversas, Cláudio sempre enfatizava a função do cavalo na ‘carrei-
ra’. A esse respeito, mencionou que o vaqueiro não é nada sem um ‘bom cava-
lo’. Tal a sua importância na corrida que, orgulhoso de si mesmo, destacou
suas posses:
artigo | renan martins pereira

937

– Eu já tive cinco cavalos de ‘campo’, só para correr atrás de boi, só para ‘campear’!
– e, exaltado ao se lembrar do passado, deu início a uma narrativa. – Vou te con-
tar uma ‘história de vaqueiro’! Aconteceu que um dia eu fui para o ‘campo’ pegar
um boi, um determinado boi...

Nesse exato dia, o vaqueiro mencionou que estava só. Ao lembrar da árdua ta-
refa a ser cumprida, passou na fazenda de seu tio, Manoel Gomes Correia, tam-
bém conhecido como Nelinho Yoyô. Ao encontrá-lo, disse ao parente: “Padinho,
me dê um empregado para me ajudar a pegar um boi, pra eu não ir só? ”. Acom-
panhado, Cláudio e seu ‘companheiro’ seguiram.

Nesta fase da narrativa, os olhos do vaqueiro-narrador reviviam o passado. En-


quanto falava, seus gestos pareciam ref letir suas lembranças:

– Meu amigo, vou te dizer uma coisa: a gente achou esse boi num lugar meio fe-
chado, onde havia muita macambira, muito espinho. A caatinga era ‘braba’ e, de
repente, o gado se espantou de longe. E correu, correu. Fugiu!

Figura 3
Cláudio Correia na Fazenda Tigre (Floresta-PE)
abril, 2016
foto do autor
velejar e descobrir: considerações sobre vaqueiros, corpos e lembranças

938

Nesse momento, portanto, o alvo começou a fuga, dando início à primeira


‘carreira’. Segundo os vaqueiros, o boi se espanta porque sente ‘medo’. De antemão,
o gado não expressa ‘valentia’, pois o seu temor é a reação imediata de quem se
depara com seres externos ao seu convívio. Para Dulcimar, vaqueiro de Cláudio,
“o gado brabo que a gente cria tem medo”. Criado na caatinga à própria sorte, o
gado ‘brabo’ é definido como “bicho bruto que não vê gente”. Outros animais, no
entanto, “já são valentes por natureza”. O primeiro foge. Já os últimos, a depender
das circunstâncias, podem enfrentar o homem que, entretanto, tem vantagem
sobre o boi só e despreparado, pego de surpresa. O boi, então, é vítima das circuns-
tâncias, enquanto seu oponente está devidamente prontificado. Ao gado resta a
própria fuga, fomentando a fúria de quem virá em seu encalço. O boi, aliás, é quem
confere ritmo e duração à corrida. Seguindo o ‘rastro’ do gado, é preciso que o
vaqueiro vá ao seu encontro, tentando descobri-lo. Em seguida, tendo-o feito, é
preciso ‘puxar’ o cavalo para cima dele, ir de encontro a ele, para tocá-lo, puxá-lo
pela cauda, derrubá-lo, capturá-lo.
Cláudio continuou:

– Eu puxei no cavalo, descobri onde o boi ia e tirei o cavalo em cima. Eu ia des-


cendo de cabeça baixa. Olha, você sabe a posição que o vaqueiro corre no ‘cam-
po’, não sabe? – perguntou-me, supondo que com os poucos dias em Floresta eu
talvez soubesse a resposta.

Para correr no ‘campo’, descrevia o vaqueiro, é preciso o olhar atento de


quem iguala o seu corpo ao do cavalo, apoiando-se no seu pescoço. A caatinga
é cortante e tortuosa, e nela o vaqueiro precisa da visão aguçada. Em uma caa-
tinga ‘fechada’, por exemplo, é preciso potencializá-la. Se a visão aguçada é
condição para o ‘vaqueiro do campo’, é porque aos olhos do vaqueiro somam-se
os olhos do cavalo. O encaixe de um corpo ao outro complementa a capacidade
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coletiva de manter a atenção e o movimento – na próxima seção, volto com mais


afinco à importância da visão na corrida. Por ora, antes de retornar à narrativa
de Cláudio, faço breve digressão sobre a postura corporal do vaqueiro na corrida.
Segundo os vaqueiros de Floresta, ao compartilhar o movimento e pro-
duzir ritmos variados, cavaleiro, cavalo e boi se harmonizam até a hora de uma
ruptura, o fim da corrida. Nesse contexto, há um jogo de confiança e disputa
entre os seres. O cavalo, por exemplo, é o veículo por excelência do vaqueiro.
Com ele, os homens atingem a velocidade do boi sob determinada modulação
ecológica: a caatinga espinhosa e cortante. Se levarmos a sério a ideia de De-
leuze e Guattari de que “o corpo não é questão de objetos parciais, mas de
velocidades diferentes” (2012: 42), podemos dizer que a busca pela leveza na
montaria e a atitude de ‘correr limpo’, já mencionadas por Cláudio, dependem
da relação entre corpos de naturezas distintas, humanas e não humanas.
Sob esse aspecto, as características da vegetação e dos animais contri-
buem para a particularidade do ofício do vaqueiro. Quanto mais penosa a ca-
atinga, maior a reputação humana. Quem souber lidar com a braveza e a va-
artigo | renan martins pereira

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lentia do gado em determinado ambiente ganha maior ‘prestígio’ e mais repu-


tação, diferenciando-se de seus pares. Aos vaqueiros são conferidos atributos
específicos, a saber: ‘catingueiro’, ‘estragado de mato’, ‘valente’, ‘bom vaqueiro’,
‘cabra corajoso’, ‘doido’. Mas a vegetação – que se imaginaria única e invariável
– também se distingue em categorias específicas segundo seus próprios atribu-
tos. Conforme os perigos que impõe e a natureza dos animais que nela vivem,
a caatinga é dividida em duas mais notórias: ‘caatinga de tabuleiro’ (com ve-
getação rasteira, ‘aberta’ e, por isso mesmo, facilitadora da técnica de ‘descobrir’
o rebanho) e ‘caatinga fechada’ (chamada também de ‘caatinga braba’ – espaço
épico onde se luta com o gado bravio e selvagem).
O quadro geral é que, na posição de cavaleiro, os ‘vaqueiros de verdade’
se aventuram geralmente na ‘caatinga braba’ procurando dominá-la, uma vez
que ela tem suas parcelas de passividade como plano de circulação e de pas-
sagem. Sendo ‘braba’, ‘fechada’, ‘espinhosa’, ‘tortuosa’, cortante e, portanto,
desafiadora, ela é também, entretanto, um obstáculo a ser contornado, um pla-
no de circulação e de passagem que, conforme a aceleração da corrida, pode
interromper a velocidade, o ritmo, a frequência. Um ecossistema que atinge,
perfura e mata. A esse respeito, Cláudio Correia oferece com sua narrativa al-
gumas pistas:

– Depois de ‘descobrir’ o boi, encontramos uma ‘vereda’ dentro de um ‘macam-


biral’. E o boi tanto ‘buracou’ nessa ‘vereda’, que eu botei o cavalo nesse bicho e
saí curtinho com ele.

Nesse instante, ele explicava que seu corpo permanecia rente ao pesco-
ço do cavalo. Ele e seu cavalo estavam próximos do boi. Enquanto se preparava
para derrubá-lo, o inesperado aconteceu. Numa curva da ‘vereda’, ‘descobriu’
uma árvore, um pé de angico que “nascia da beira do caminhozinho e fazia um
galho”. A passagem era estreita e, segundo ele, “o galho vinha em cima”. O
vaqueiro desviou do galho. No ritmo da fuga, segundo o vaqueiro, “o boi parecia
que se abaixou pra passar”. Destacando a sagacidade do boi e as decisões feitas
por ele, o narrador ressaltou um problema. Embora os corpos estivessem rentes,
a altura do cavalo com a do cavaleiro prejudicava a travessia. Para resolvê-lo,
Cláudio disse não ter tido tempo para “pensar no que fazer”. De sua perspec-
tiva, não houve lugar para contemplação:

– Eu não tive tempo de me levantar pra pensar. Se eu me levantasse, o pau me


matava. Não podia levantar, senão eu quebrava a cabeça. O boi entrou, o cavali-
nho entrou e eu também.

Frente ao obstáculo, ele percebeu a ineficiência de se manter apoiado


no pescoço do cavalo. Buscando apoio lateral, conquistou outra posição. Reu-
tilizando os corpos, produziu uma nova frequência. Da divisão rítmica entre
cavaleiro e cavalo, surgiu um movimento diferencial, um gesto mínimo e total-
mente inovador. Um desvio.
velejar e descobrir: considerações sobre vaqueiros, corpos e lembranças

940

– Eu tirei o corpo da sela... – disse o vaqueiro encenando a maneira pela qual se


apoiou lateralmente em seu cavalo para conquistar uma nova posição. O arran-
jo necessário para atravessar.

Para ele, embora o galho fosse um obstáculo imposto pelo boi, entre os
dois grandes aliados, cavalo e cavaleiro, há também uma relação de disputa.
Segundo sua narrativa, homem, cavalo e boi não podem ser pensados separa-
damente. O cavalo seguirá sempre o que o boi faz. “O boi entrou, e o cavalinho
entrou também!”. Nessas circunstâncias, cabe ao homem acompanhar a fuga,
o movimento iniciado pelo boi. E cabe a ele também saber sustentá-lo ou, quem
sabe, transformá-lo, obtendo um desvio. O cavalo segue incondicionalmente a
trajetória do boi; impedi-lo é um erro. Talvez uma fatalidade. Se o boi engana,
levando o cavalo a um caminho perigoso, o cavalo é vulnerável às armadilhas
assim como o cavaleiro o é. Nas corridas, as vidas dividem os mesmos riscos.
Traçando os mesmos rumos, o boi procura fugir, esconder-se, enquanto cava-
leiro e cavalo o perseguem, desejando descobri-lo a todo custo.
“Eu passei só com ‘isso aqui’ em cima do cavalo!”, Cláudio asseverou
apontando para sua coxa direita. Para ele, todos estavam no limite. Boi, homem
e cavalo estavam, segundo o narrador, “na conta de passar”. Em fração de se-
gundos, o cálculo foi espontâneo e imediato, produzindo um movimento se-
quencial: esticar-se no pescoço do cavalo; mudar de posição diante do impre-
visto (um galho!); e, por fim, apoiar-se lateralmente. Essas atitudes trouxeram
sua primeira vitória. Adiante, um novo desafio: derrubar e ‘dominar’ o boi. Pa-
ra tanto, onde estava seu ‘companheiro’? A seguir, trato da técnica de ‘correr
junto’ e do ‘prestígio’ envolvido nesse empreendimento.

O prestígio
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Nas ‘pegas de boi’, geralmente não há lugar para que dois vaqueiros tenham
protagonismo, pois sempre haverá apenas um vencedor. Há o que correrá ‘na
ponta’, e outro que seguirá por trás, acompanhando dois movimentos sequen-
ciais: o trajeto traçado pelo vaqueiro que corre ‘na ponta’ e que supostamente
derrubará o boi, puxando-o pela cauda ou pulando em seu pescoço; e as sub-
sequentes rotas e desvios feitos pelo gado durante o percurso.
“Quando eu estava ‘piando’, chegou o companheiro.” Em geral, ‘piar’ sig-
nifica “dominar o boi”. Detalhadamente, é quando a rês, para ser tangida, terá
suas ‘mãos’ (patas) e ‘pontas’ (chifres) amarradas umas às outras. Cláudio, po-
rém, não precisou da ajuda de seu parceiro. No limite entre a vida e a morte,
passar sob o galho potencializou a atitude de terminar a empreitada sozinho.
Mais uma fonte de atuação magistral do ‘vaqueiro do campo’, do ‘vaqueiro de
verdade’: realizar autonomamente o que em teoria deveria ser feito em coleti-
vo. Não se trata, contudo, de escolhas e vontades. Trata-se, sobretudo, de ‘ne-
cessidade’ e obviedade. Como já vimos, nas corridas não há lugar para hesita-
ções, simples escolhas ou contemplações. Independentemente de o ‘compa-
artigo | renan martins pereira

941

nheiro’ estar atrasado ou não, é preciso ‘lutar’ com o gado antes que retome o
fôlego, ganhe energia e parta. Os imprevistos não são meros obstáculos, mas
elementos que catalisam as disputas, segmentam as continuidades e traçam
novos desafios. Logo, correr ao lado de alguém não é só um meio de subtrair os
perigos e compartilhá-los. Não se trata somente de cumprir o ‘trato’ com o
cliente ou o patrão. Não é só uma fonte de reciprocidade, correlação e ‘honra’,
mas também de unilateralidade, parcialidade e disputa.
Ora, se um único vaqueiro triunfará, é porque esse será o protagonista
de um acontecimento extraordinário, e o parceiro, embora coadjuvante, ates-
tará o desafio vencido pelo outro. Por isso, o ‘companheiro’ não é só o olho que
procura o boi e segue o curso dos movimentos. Ele é também o olho-testemunha.
É o campo de visão que comprova o que o outro foi capaz de fazer. A esse res-
peito, vejamos o que disse Cláudio do ‘companheiro’ que testemunhou o fato:

No f inal, o companheiro chegou e me disse: “Meu amigo, como você passou


naquele pau? ”. “Ué”, eu respondi, “não sei, só sei que eu passei”. Na hora, não
me chamou muito a atenção, porque eu sou acostumado a fazer isso: passar e
pronto. Mas, enfim, pegamos o boi e fomos embora. Só que o rapaz insistiu na
altura do pau. Ele disse: “Óia, ali onde você passou é muito baixo, o negócio lá é
muito apertado”. Eu disse de volta: “É, eu sei que é muito baixo, eu abaixei tudo
o que pude e tirei o corpo de cima da sela, porque senão eu quebrava o espinha-
ço ou então a cabeça. Eu poderia morrer”.

No dia posterior ao acontecimento, ele decidiu revisitar o palco de sua


façanha. No pé de angico, estava a prova. O ‘rastro’ era a casca de árvore salta-
da, descolada do tronco, demarcando a passagem, a rápida colisão, o parcial
atrito que atingiu apenas a coxa direita do cavaleiro.

– Eu senti mesmo que roçou o pau na perna... É por isso que tirou a casca do an-
gico! – ref letiu meu amigo nos instantes finais de sua narrativa.

Por onde passou, chamou-lhe atenção a altura entre o galho e o solo. Ele,
então, mediu para ver quantos palmos davam. O cavalo tinha seis palmos e
meio, a contar a espessura da sela. Do chão até o pau, a medida foi de cinco
palmos e meio, e o cavalo tinha um palmo a mais. Ora, o vaqueiro atravessou
um espaço menor que o tamanho do seu ‘animal’. Sem hesitar, logo constatou
a destreza do cavalo. O aliado em quem um dia confiou e a quem agora deve a
‘honra’ de uma ‘história’.

– Quer dizer, o cavalo diminuiu um palmo para passar, se abaixou e me salvou!


Se não fosse um cavalo bom... Enfim, mesmo se fosse um vaqueiro bom e um
cavalo ruim, o cavalo tinha me matado na hora, e o boi tinha ido embora.

É em razão dessa mutualidade de sentimentos, habilidades e perigos que


os vaqueiros valorizam a montaria. Cascudo (1956: 75), por exemplo, percebeu
que desde o ciclo do gado “o animal favorito não é o touro, o novilho, a vaca, o
boi, mas o cavalo”. O seu significado maior, segundo a perspectiva de meus in-
velejar e descobrir: considerações sobre vaqueiros, corpos e lembranças

942

terlocutores, é que o cavalo não defende apenas a si mesmo. Como fiel escudei-
ro, ele defende também o seu aliado. Percebe-se a partir disso que a dimensão
do extraordinário contida nas ‘histórias de vaqueiro’ não se fundamenta apenas
nas intenções do boi, mas em um “agenciamento coletivo” (Deleuze & Guattari,
2008), nesse caso, no agenciamento cavaleiro-boi-cavalo-caatinga.9
Como destacado na narrativa de Cláudio, para controlar o tempo e tomar
as decisões corretas, não há espaço para contemplação, e as ações em nada se
confundem com um cálculo racional. Em vez disso, as relações dos homens
com os animais e a caatinga se desenrolam segundo os agenciamentos entre
eles. Trata-se de relações entre humanos e não humanos que não são teleoló-
gicas, isto é, equacionadas por causas e efeitos, mas de natureza tautológica,
isto é, faz-se o que deve ser feito. Nas palavras de Cláudio: “A gente não pode
pensar que vai morrer ou que não vai morrer. Isso é coisa que o vaqueiro tem
que fazer, simplesmente fazer!”.
Minha amiga Amélia, bastante curiosa, perguntou-lhe por que motivo, no
momento do perigo, não desistiu daquela ‘vereda’ perigosa. Se tudo era arrisca-
do demais, pensou minha amiga, por que ele não estacionou o movimento e
escolheu outra trajetória? Diante da provocação, a resposta do vaqueiro foi cla-
ra: “Sim, existe a possibilidade. Mas o ponto é que, se desistirmos, o boi vai
embora.” A desistência, portanto, não é a solução. No limite, se o que está em
jogo é o próprio ‘prestígio’ do vaqueiro, deixar o boi fugir quando se está tão
próximo dele é nada mais que uma ação imprudente e ‘covarde’. O correto é
sempre fazer o que o boi faz. Na corrida, o homem segue o boi justamente por-
que o cavalo tem um mandato: “O cavalo entra da maneira que o boi entrar,
senão também morre!” asseverou Cláudio diante das indagações de Amélia.
Os argumentos do vaqueiro sugerem que a desistência é uma alternativa
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 931 – 956 , set. – dez., 2020

ainda mais perigosa, botando em risco a vida do cavalo que cumpre o seu papel.
Portanto, manter-se no ritmo da ‘carreira’ é, a despeito do que possa acontecer,
respeitar quem o carrega. Não fariam sentido saudar o ‘sofrimento’, as horas sob
o sol escaldante e se reverenciar como ‘vaqueiro de verdade’ se todo imprevisto,
toda dificuldade ou qualquer obstáculo cedessem lugar à desistência. Desistir,
portanto, mais do que um ato ‘covarde’, é uma atitude ineficaz.
No lugar da desistência, a permanência. Em vez da redução, a aceleração.
Entre permanências e acelerações, o vaqueiro sabe que se há desvios e decisões
a tomar elas são internas aos próprios movimentos, às continuidades e aos
cruzamentos. Para entender melhor essas questões, é fundamental analisar
outra habilidade do ‘vaqueiro do campo’: antes da ‘carreira’ (aceleração, fuga
e colisão), vem o ato de ‘velejar’ (vagarosidade, procura e atenção).
artigo | renan martins pereira

943

Velejar e descobrir: potencialidades do corpo


Até onde pude compreender, ‘velejar’ significa aguçar a percepção visual e au-
ditiva, potencializando o corpo do vaqueiro na busca pelo boi. Em movimento
vagaroso, a finalidade de ‘velejar’ é ‘descobrir’ o animal que se esconde. ‘Vele-
jar’ é também sinônimo do que, às vezes, os vaqueiros chamam de ‘caçar’. De
uma forma ou de outra, trata-se de processos em que os sentidos do vaqueiro-
caçador se adestram para ‘descobrir’ a presa-gado que vigia o homem, mas
também é vigiada por ele. ‘Velejar’ é, enfim, ‘descobrir’ o ‘gado brabo’ que teme
o seu adversário.
Além da visão e da audição, joga-se também com os odores. O ‘cheiro’
do vaqueiro encourado é atenuante. O boi foge ao senti-lo. Por isso, com a de-
vida astúcia, o vaqueiro deve ‘velejar’ contra o vento. Ao contrário do barco à
vela que se utiliza do vento para ganhar sentido e velocidade, o vaqueiro corre
contra o vento de modo que o ‘cheiro’ do couro não dê pistas de sua proximi-
dade. O vento para o navegante é um combustível; para o vaqueiro, um obstá-
culo. A respeito dos sentidos, foi Dulcimar quem destacou a importância do
olfato e da audição:

O gado sente o cheiro, eu não entendo, é o cheiro da gente que eles pegam. Óia,
se eu tiver nessa posição aqui [seg undo ele, a favor do vento], o gado sente e
corre. Agora, para ele não sentir, a gente tem que ir contra o vento, abaixado,
devagarzinho e desv iando dos paus pra não quebrar e pra não fazer bar ulho,
porque se fizer barulho, o boi também corre.

A visão aguçada, o controle do ar e o silêncio são meios para obter êxito


quando o vaqueiro procura o boi que se esconde. É por essas e outras razões
que os vaqueiros reduzem as ações do boi em algum momento atingindo-o
justamente nos olhos. Se capturado, vendam-lhe os olhos com a ‘careta’, tipo
de máscara feita de couro.
Segundo meus interlocutores, vendar os olhos é uma forma de ‘dominar’,
mas também de jogar com o animal. A venda é uma das vantagens que os ca-
valeiros têm em relação à ‘presa’. Embora o corpo do cavaleiro esteja devida-
mente protegido pela indumentária (couro que transmite ‘cheiro’), seus olhos
estão totalmente descobertos (e por isso, é claro, ele vem a ‘descobrir’ o que
está à sua frente). Ao passo que a visão é potencializada, os olhos, contudo, se
tornam a superfície mais vulnerável, pois facilmente atingida por algum espi-
nho, por uma ponta de galho, pela caatinga cortante e tortuosa.
Nessas circunstâncias, é comum vaqueiros ficarem cegos. Dois vaqueiros
de Floresta, Quinca Pedro e Dulcimar de Canãa, perderam a visão ‘campeando’.
O primeiro ficou cego de um olho, mas persistiu por um algum tempo. Ao ficar
cego do outro, o ‘rei dos vaqueiros’ – como ainda é conhecido o finado Quinca
Pedro – abandonou definitivamente a ‘profissão’. Sua história, no entanto, per-
manece. Biografias foram escritas sobre ele (Ferraz, 2004), e missas ainda são
celebradas em sua homenagem.
velejar e descobrir: considerações sobre vaqueiros, corpos e lembranças

944

Figura 4
Boi ‘encaretado’; ‘pega de boi’ na
Fazenda São Pedro (Floresta-PE)
fevereiro, 2016
foto do autor
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O segundo vaqueiro, Dulcimar, no momento em que o conheci, tinha


perfurado o olho esquerdo, e, embora estivesse parcialmente recuperado, já
não suportava o sol. A visão impotente e afetada pela claridade fez do ‘campo’
e das ‘vaquejadas’ práticas cada vez menos frequentes em seu cotidiano. O
vaqueiro, porém, deixou sua marca. Na Serra Negra, onde a caatinga é ‘braba’
e a mata é fechada, Dulcimar pegou um boi ‘afamado’ e ‘valente’, Marroeiro, o
animal que lhe concedeu ‘fama’ e ‘prestígio’.
Em virtude da memória, a percepção enfraquecida, a anulação do corpo
e a consequente desatenção à vida são situações que vaqueiro nenhum deseja.
Para meus interlocutores, o cavaleiro cego é praticamente a morte; porém, em-
bora a cegueira e a morte levem à anulação de uma prática, elas não trazem o
seu esquecimento. Para não ser esquecidos e anulados, o objetivo dos vaqueiros
passa a ser exatamente a construção da memória. Quanto mais experiente e
vivido o vaqueiro, mais ‘história’ carregará consigo e provavelmente dele se
artigo | renan martins pereira

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falará e se lembrará. Daí a importância de ‘vaqueiros velhos’ e ‘antigos’. Daí,


enfim, a importância do corpo, dos animais e do território no processo de cons-
trução da memória, do ‘prestígio’ e da reputação dos homens.
Mas, afinal, que memória é essa que os vaqueiros buscam a todo instan-
te recorrer e reconstituir de modo a garantir o seu ‘prestígio’? A seguir, analiso
o modo como o ‘conhecimento’ e a ‘experiência’ dos vaqueiros extrapolam o
campo conceitual da antropologia e das ciências sociais no que se refere à
memória e às categorias a ela adjacentes.

Ciência do vaqueiro
Os relatos trazidos por Cláudio Correia neste artigo seguem o propósito de
conservar uma verdade histórica. Do fenômeno narrado surge, por exemplo,
um conselho. Ele reelabora um momento pretérito e transmite uma verdade
aos seus ouvintes. Concluindo definitivamente a sua narrativa, disse-me: “Tu-
do isso que eu te contei, meu amigo, é a ‘ciência do vaqueiro’!”.
Sabe-se bem que a memória é um objeto de conhecimento complexo e
controverso no campo das ciências humanas e sociais. Ela envolve um debate
interdisciplinar, associando-se, portanto, a diversos conceitos, termos e temá-
ticas. Sob a clássica perspectiva dos “quadros sociais da memória”, a sociologia
francesa buscou dar conta de uma “memória coletiva”, diretamente conectada
às noções de sociedade e Estado-nação (Halbwacks, 1994, 1997). Na historiogra-
fia, a memória recebeu interpretações e relativizações variadas da noção de
“tempo histórico”. Nessa linha, as teses produzidas na Escola dos Anais são
célebres no que diz respeito aos métodos para lidar com a memória coletiva
(Bloch, 1925) e a sua relação com a história (Le Goff, 2003). Preocupados mais
com os processos de memorização do que necessariamente com os conteúdos
da memória, o historiador Pierre Nora e o filósofo Paul Ricouer propuseram
conceitos importantes para o debate. O primeiro se concentra na categoria de
“lugares de memória”, a fim de entender por meio dela as representações ma-
teriais e imateriais do espaço na memória coletiva (Nora, 1989). O segundo
propõe o conceito de “memória justa”, segundo o princípio de que recordar é
em si mesmo um ato relacional, uma forma de alteridade (Ricoeur, 2000). No
que se refere à relação entre memória e alteridade, Fabian (2013) sugere que,
se os estudos a respeito da memória social no campo da história se debruçam
sobre o passado, a função da antropologia é lidar com as comunidades no pre-
sente, tomando o passado não como uma totalidade em si, mas um conjunto
de temporalidades e espacialidades culturalmente definidas. É em torno do
debate de como as sociedades lembram, esquecem e recompõem o seu passa-
do (Douglas, 1986; Connerton, 1989) que os pós-colonialistas e os pós-modernos,
no contexto de uma disputa epistemológica nos anos 1980 entre memórias
oficiais e memórias subalternas (Pollak, 1989), buscaram analisar como a his-
tória é mobilizada na vida cotidiana e, ademais, quais os limites do passado
velejar e descobrir: considerações sobre vaqueiros, corpos e lembranças

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como recurso para a produção da memória (Appadurai, 1981). Entretanto, de-


vido à profusão terminológica e semântica da noção e aos seus usos nos mais
diferentes eixos temáticos e perspectivas de análise nas ciências humanas,
Berliner (2005) sugere que a memória é frequentemente confundida com os
objetos, os conceitos e as temáticas a ela correlatos, entre eles, principalmen-
te: sociedade, cultura e identidade.
Este artigo trata de uma memória que dê conta especificamente das
relações dos vaqueiros com o corpo e, mais ainda, da interespecificidade entre
humanos e animais, pois o ‘vaqueiro de verdade’ só constrói memória e pode
conquistar o seu devido ‘prestígio’ se as ‘histórias’ contadas por ele derem aos
ouvintes um conjunto de gestos e imagens em que homens, animais e caatin-
gas estejam entrelaçados.
Para Walter Benjamin (1987: 198), por exemplo, a “arte de narrar” é “a
faculdade de intercambiar experiências”. Nesse sentido, os ‘vaqueiros de ver-
dade’ podem ser pensados, nesse caso, como sábios narradores cujas funções
são as de compartilhar o que viveram para transmitir, segundo Joana Medrado
(2012: 159) em seu estudo sobre os vaqueiros na Bahia, “os valores que as his-
tórias veiculam”. Ainda segundo Benjamim (1987: 200), a experiência vivida e
narrada resulta sempre “num ensinamento moral, numa sugestão prática, num
provérbio ou numa norma de vida”. Tendo eficiência, preparo e disciplina (não
levar comida e bebida para o ‘campo’, por exemplo), o vaqueiro expõe a sua
sabedoria. Mas se a sabedoria é “o lado épico da verdade”, como quer Benjamin
(1987: 200), o que há de épico nas ‘histórias de vaqueiro’ está justamente na
conjunção da ‘experiência’ com o ‘conhecimento’, no que Cláudio nomeou ‘ci-
ência do vaqueiro’.
Mas essa conjunção ‘experiência-conhecimento’ como ‘ciência do va-
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queiro’ não é sinônimo de erudição ou de objetividade. Por essa via, a ‘ciência


do vaqueiro’ está longe de estabilizar saberes e leis que normatizem os fatos
– além de transmitir conselhos, ensina aos ouvintes o que o cavaleiro sabe, o
que pratica e como o pratica. Não está em jogo, portanto, somente compartilhar
conhecimentos e experiências, mas também expor uma forma específica de
sabedoria.
Ao modo da métis grega, sugiro que a ‘ciência do vaqueiro’ é o efeito de
“formas de inteligência astuciosa” (Détienne & Vernant, 2008: 21). Para os auto-
res, o homem dotado de métis “está sempre prestes a saltar [...] ao agir no
tempo de um relâmpago”.

Isto não quer dizer que ele cede, como fazem comumente os heróis homéricos,
a um impulso súbito. Ao contrário, sua métis soube pacientemente esperar que
se produzisse a ocasião esperada. Mesmo quando ela procede de um impulso
brusco, a obra da métis situa-se nos antípodas da impulsividade. A métis é rápida,
pronta como a ocasião que ela deve apreender no voo, sem deixá-la passar [...].
Em vez de f lutuar lá e cá ao sabor das circunstâncias, ela ancora profundamen-
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te o espír ito no projeto que ela maquinou antes, g raças a sua capacidade de
prever, além do presente imediato, um pedaço mais ou menos espesso do futuro
(Détienne & Vernant, 2008: 21-22).

As práticas dos vaqueiros se assemelhariam nesse sentido às atividades


do artesão grego e do guerreiro homérico. Como abordado por Détienne e Ver-
nant, as formas de conhecimento desses oficiais clássicos não são objetivas,
mas processuais, concretizando-se concomitantemente à transformação da
experiência vivida.
Como vimos na narrativa de Cláudio Correia, o saldo das ações do cava-
leiro provém da minimização dos erros e, sobretudo, da prudência frente aos
imprevistos. Para Detiénne e Vernant (2008: 17), “a capacidade inteligente que a
métis designa se exerce sobre os planos mais diversos, mas sempre onde o acen-
to é posto sobre a eficácia prática, a procura do êxito em um domínio da ação”.
Por conta da imprevisibilidade e dos domínios acionados, algo se supõe à custa
do que se aprendeu em vias de antecipar o futuro pela memória. Em face da na-
tureza intempestiva dos acontecimentos, a ‘ciência do vaqueiro’ não se articula
por códigos e regras, e os narradores não darão a seus ouvintes uma sequência
ordenada (e cronológica) de fatos sociais. Em suas epopeias, o vaqueiro é um
memorialista, e sua ‘ciência’ funciona segundo a conservação e a acumulação do
passado no presente. A ‘ciência do vaqueiro’ pode ser, portanto, uma sabedoria
que gera conselhos (Benjamin, 1987), um tipo de inteligência astuciosa (Détien-
ne & Vernant, 2008) e, ao mesmo tempo, uma forma muito específica de memó-
ria. Pela materialidade da “memória”, segundo o filósofo Henri Bergson (2009: 5),
os homens se ocupam “do que existe e do que vai existir”.
Ora, como vimos até agora, as ‘histórias’ contadas pelos vaqueiros são, por
um lado, prévias do que o cavaleiro é capaz de fazer e, por outro, uma análise de
suas ações frente às incertezas do tempo. Suas narrativas reconstroem os fenô-
menos passados à medida que os desenrolam no presente com o intuito de dar
ao narrador a oportunidade de contar o que realmente sabe. Parafraseando Jean-
Pierre Vernant (1978: 45), “bom dizedor de casos porque bom fazedor de feitos”.
Não se trata, contudo, de viver para lembrar e de lembrar para narrar. Se
as relações dos vaqueiros com o corpo, os animais e a caatinga se entrelaçam
de maneira contínua em seus relatos é porque os vaqueiros buscam constan-
temente produzir memória a fim de evitar o esquecimento e, ademais, para
conquistar ‘prestígio’ e reputação. Eternizadas, porém, as lembranças extrava-
sam o corpo de quem as carrega. Elas necessitam se expandir e correr no mun-
do. Cravam-se em outros corpos, nos animais, nas folhas, na terra, no tronco
das árvores, nos homens, nos couros que os revestem. Com os ‘rastros’ deixados
no tempo e no espaço, o vaqueiro do sertão edifica a sua verdade histórica.
velejar e descobrir: considerações sobre vaqueiros, corpos e lembranças

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Considerações Finais
Neste artigo, desenvolvi uma correlação temática pouco explorada na literatu-
ra antropológica sobre os sertões do Nordeste, a saber: corpo, memória e rela-
ção humano/animal. Primeiramente, demonstrei que a reputação do vaqueiro
é resultado de relações particulares com o ‘sofrimento’, os animais e a caatin-
ga. Em seguida, com o objetivo de analisar a natureza dessas relações na prá-
tica da ‘pega de boi’, empenhei-me para entendê-las segundo os conteúdos da
narrativa de um interlocutor reconhecido em Floresta como ‘vaqueiro de ver-
dade’. Nos relatos desse vaqueiro, homens e animais estão propensos a tomar
ritmos diferentes na corrida. Como vimos, o ato de ‘velejar’ não é apenas pro-
curar o que se esconde, mas ganhar velocidade e, por conseguinte, transformar-
-se na ‘carreira’, substituindo a vagarosidade, a procura e a atenção por acele-
ração, fuga e colisão. No ato de ‘velejar’, dá-se mais energia aos olhos e à bus-
ca do boi. Na ‘carreira’, por sua vez, a fuga do boi põe os corpos em disputa.
Concluo que se na corrida o vaqueiro arrisca a própria vida é porque as
‘pegas de boi’ são espaços privilegiados de atualização e construção da memó-
ria. Nos limites de seu ofício (como a cegueira e a anulação do corpo), median-
te a produção da memória o vaqueiro constrói para si um modo de vida carac-
terizado pelo ‘sofrimento’ e pela ‘honra’ (o compromisso com o cliente, consi-
go mesmo, com o parceiro e com o cavalo), mas também pela ‘agilidade’, pelo
‘conhecimento’ e pela ‘experiência’. Nesse sentido, a disposição dos corpos no
território e os rumos traçados pelo cavaleiro, como entendi, não são a conse-
quência de meras escolhas, equacionados por uma relação de causa e efeito,
mas fruto de uma forma particular de inteligência − a ‘ciência do vaqueiro’.
Por fim, sugiro nesta conclusão que o vaqueiro não é apenas uma imagem
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que se perpetua no tempo, uma tradição, um resquício histórico. Mais especi-


ficamente, o vaqueiro do sertão é uma memória cujo poder está na ação e na
transformação do corpo. Primeiro, vimos que o cavaleiro se move, corre atrás
de um boi e se arrisca na caatinga. Depois, vimos que a sua faculdade de recor-
dar o torna um memorialista (aquele que lembra, narra e registra os próprios
feitos). Agora, vê-se que a possibilidade de ser recordado o transforma em mo-
numento (aquele de quem se lembra, fala e escreve).

Recebido em 20/12/2018 | Revisto em 17/9/2019 | Aprovado em 1/10/2019


artigo | renan martins pereira

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Renan Martins Pereira é mestre pelo PPGAS/UFSCar e atualmente


doutorando no mesmo programa (bolsista Capes), com estágio de
doutorado sanduíche na UC Davis. Pesquisador integrado ao Hybris
(Grupo de Estudo e Pesquisa sobre Relações de Poder, Conflitos,
Socialidades) e ao NuAP (Núcleo de Antropologia da Política).
Realiza pesquisa de campo no sertão de Pernambuco desde 2016.
Seus principais temas são memória, ecologia, relação humano/
animal e teoria antropológica; e as principais publicações,
“Dominação e confiança: vaqueiros e animais nas pegas de boi
do sertão de Pernambuco”; “Cavaleiros em tempos de glória:
uma análise etnográfica da história do vaqueiro do Nordeste”;
“O sertão, a seca e o fim”.
velejar e descobrir: considerações sobre vaqueiros, corpos e lembranças

950

Notas
1 Agradeço primeiramente aos meus amigos e às minhas
amigas sertanejas que tão bem me acolheram em Flores-
ta. Este artigo é dedicado a eles/as – uma pena que a pan-
demia tenha nos afastado fisicamente, por ora. Agradeço
as leituras atentas e generosas de Jorge Villela e Ana Clau-
dia Marques de suas primeiras versões, assim como aos
colegas do Hybr is, g rupo de pesquisa (UFSCar/USP) em
que pude compartilhar algumas das primeiras ideias que
aqui se encontram. Também não poderia deixar de agra-
decer aos debatedores do GT “Práticas Esportivas e Cor-
poralidades” Carlos Eduardo Costa e Yasmine Ávila Ramos,
que contribuíram com críticas e sugestões pertinentes à
versão prototípica deste artigo quando de sua apresenta-
ção no IV Seminário de Antropologia da UFSCar em 2017.
Agradeço ainda aos pareceristas anônimos pelos comen-
tários, críticas e sugestões, assim como à equipe editorial
da revista Sociologia & Antropologia por todo o suporte téc-
nico. Por fim, agradeço à Capes pelo financiamento.
2 Termos entre aspas simples correspondem a expressões
nativas. Frases entre aspas duplas representam transcri-
ções diretas da fala nativa e citações de autores acompa-
nhadas de referência bibliográfica.
3 O município de Floresta está localizado sertão de Pernam-
buco, mais especificamente, na mesorregião do São Fran-
cisco e na microrregião do sertão de Itaparica, distante
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439km da capital do estado, Recife. Segundo dados de 2016


do IBGE, sua população estimada é de 32.152 habitantes.
4 Os recursos metodológicos utilizados no trabalho de cam-
po para coleta de dados (entre eles, em grande parte, nar-
rativas e histórias contados por ‘vaqueiros de verdade’)
foram os mais variados: anotações no caderno de campo,
mas sobretudo e preferencialmente mater ial de áudio
(com gravador) e de audiovisual (com câmera fotográfica
digital). Não cabe aqui neste artigo, por falta de espaço e
por não ser seu objetivo, desenvolver um debate sobre o
assunto, contudo ficam como referência bibliográfica al-
guns trabalhos que elaboram metodologicamente discus-
sões específicas no campo da antropologia visual (Collier,
1973; Rouch, 2003; Sztutman, 2005), parte deles mobili-
zando uma relação entre memória e imagem (Koury, 2001;
artigo | renan martins pereira

951

Severi, 2010), a partir de intermediação de pesquisador,


câmera e objeto na escrita etnográfica.
5 ‘Mato’, especificamente nesse contexto, refere-se à área
de caatinga, longe da ‘morada’, do quintal, das cercas (cur-
rais e mangas). Em outros casos, ‘mato’ se opõe também
à ‘rua’, nome que se dá à zona urbana.
6 Entre os trabalhos no campo das ciências sociais que se
preocuparam detidamente com a prática da vaquejada,
ver, por exemplo, Costa (2002), Barbosa (2006), Aires
(2008), Menezes e Almeida (2008), Félix e Alencar (2011),
Pereira (2016). Deles, Costa (2002), Aires (2008) e Pereira
(2016) são as únicas abordagens antropológicas.
7 A partir de temáticas e eixos analíticos distintos, a relação
de vaqueiros e “cr iadores” com os animais nos sertões
tem sido abordada por Andr iolli (2011), Teixeira (2014),
Vasques (2016) e Pereira (2016, 2017).
8 De modo geral, ‘cr iadores’ são pessoas que cr iam gado
caprino, ovino, bovino ou equino na região. Entre os ani-
mais, as diferenças básicas consistem em quatro termos
convencionais: ‘criação’ (rebanho de caprinos e ovinos),
‘cr iatór io de gado’ (rebanho de gado bovino), ‘animais’
(sempre o gado equino) e ‘criatório’ (totalidade do rebanho
de uma propriedade).
9 O conceito de “agenciamento coletivo” proposto por De-
leuze e Guattari (2008) é interessante para avançar ana-
liticamente no que se refere às relações do par vaqueiro-
cavalo que compartilha territorialmente certas técnicas,
signos e domínios em direção a um terceiro agente, o
gado. No sentido conferido pelos autores, “agenciamento
coletivo” é uma relação entre “formas de conteúdo” e “for-
mas de expressão”, um acoplamento entre uma materia-
lidade específica e um regime de signos agenciados por
humanos e não humanos.

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vaqueiros, corpos e lembranças
Resumo Palavras-chave
Neste artigo, meu objetivo é analisar a produção de ‘pres- Vaqueiro;
tígio’, reputação e memória entre vaqueiros do sertão de narrativa;
Pernambuco a partir de suas relações com o corpo, os ani- corpo;
mais e o território. Para tanto, demonstro que a exaltação memória;
de uma vida de sacrifícios e as tarefas concernentes ao animais.
ofício do vaqueiro resultam de diversas de suas práticas e
de seus conhecimentos, mas também de sua habilidade
retórica de narrar e reconstruir acontecimentos passados.
Nas práticas denominadas ‘pega de boi’, vaqueiros, animais
e caatingas surgem como seres em disputa, buscando triun-
far uns em relação aos outros. Para analisar essas práticas,
o material etnográfico ao qual recorro são narrativas de
um ‘vaqueiro velho’ cuja particularidade no modo de con-
feccionar oralmente as suas experiências passadas expres-
sa de uma só vez a importância do corpo, da memória e
dos animais no cotidiano dos vaqueiros.

Sailing and Discovering: Considerations about


cowboys, bodies and memories
Abstract Keywords
In this article, my objective is to analyze the production of Cowboy;
prestige, reputation and memory among cowboys of the narrative;
sertão of Pernambuco, focusing in their relations with body, body;
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 931 – 956 , set. – dez., 2020

animals and territory. I demonstrate that the exaltation of memory;


a life of sacrifice and the tasks concerning the cowboy’s animals.
craft result from several of his practices and knowledges,
but also from his rhetorical ability to narrate and to recon-
struct past events. In the practices known as pegas de boi,
cowboys, animals and the native vegetation (caatinga) ap-
pear as beings in dispute, seeking to triumph over each
other. In order to analyze these practices, the ethnograph-
ic material to which I refer are narratives of an old cowboy
whose particularity in the way of making orally his past
experiences expresses at once the importance of body,
memory and animals in the daily life of the cowboys.
http://dx.doi.org /10.1590 /2238-38752020v1038

1 Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Instituto de Filosofia e


Ciências Humanas, Campinas, SP, Brasil
bernardofmachado@gmail.com
https://orcid.org/0000-0001-8884-2357

Bernardo Fonseca Machado I

Social experience and US musical theatre


on São Paulo’s stages 1

Since the turn of the millennium, shows originating on Broadway, New York,
have begun to be produced in many different cities around the world. During
the 1980s and 1990s, American entrepreneurs developed strategies for selling
theatrical works in cities of various nations (Machado, 2018). These producers
elaborated a procedure for selling the rights to Broadway shows to other coun-
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 957 – 980 , sep. – dec., 2020

tries: they started to offer the rights to musicals for purchase by foreign com-
panies via a rights licensing agency, Music Theatre International (MTI) (Gamer-
man, 2010).
Brazil was one of the countries that invested in these productions. Par-
ticularly in the São Paulo theatre scene at the start of the new century, a series
of indicators demonstrates the vigour of this enterprise: the number of shows,
the size of audiences, the financial sums generated, and the construction of
new buildings. For example, there were three versions of Broadway shows be-
tween 1950 and 1969, four between 1970 and 1979, rising to seven between 1980
and 1989, and the same number between 1990 and 1999. In the decade from
2000 to 2009, the conditions for producing musicals changed and the shows
rose to 20 and, finally, between 2010 and 2016, jumped to 48 (Cardoso, Fernandes
& Cardoso Filho, 2016).
The data from the last few years reveals how the public embraced these
musicals with particular enthusiasm. In 2001, Les misérables attracted 350,000
theatregoers over the 11 months it was running. More recently, between 2013
social experience and us musical theatre on são paulo’s stages 

958

and 2014, The lion king sold 800,000 tickets over its almost 20-month run (Cardoso,
Fernandes & Cardoso Filho, 2016; Brasil, 2014). The volume of money needed to
produce each show is also remarkable. Time 4 Fun, one of the main companies
specializing in the area, made use of the tax breaks provided by the Rouanet
Law to stage 15 musicals between 2001 and 2016. The cheapest, Sweet Charity
(2006), spent R$ 1,446,245 (equivalent to US$ 683,642.16 at the time) and the
most expensive, The lion king (2013-2014), received funds of R$ 28,112,570 (equiv-
alent to US$ 11,933,343.24 at the time). 2 As a parameter for these budgets, the
Theatre Promotion Law of São Paulo municipality ( “Lei de Fomento ao Teatro”
created in 2002 to finance theatre in the city) allocated R$ 15,894,042 in funding
(or US$ 6,810,370.21) in 2013 to be distributed among 30 theatre projects.
Furthermore, in the space of a little over 15 years, between 2001 and
2016, seven new theatres were built to stage these productions. The smallest
– the Teatro Net São Paulo, opened in 2014 with 508 paying seats. The largest –
the former Teatro Abril, now the Teatro Renault –, reformed in 2001 specially
to put on large musicals, can accommodate up to 1500 spectators. By way of
comparison, less than 5% of theatre spaces in São Paulo, as of 2004, were able
to receive more than 1000 people and less than 15% possessed more than 500
seats (Machado, 2012; Almeida Júnior, 2007).
While the twenty-first century is impressive for its entrepreneurial en-
ergy, Brazilian producers and artists were already dedicating themselves to the
genre in the 1960s, 1970s and 1980s. At the time, musicals were sporadic, how-
ever, and there was no regular training of groups of artists specifically for this
kind of theatrical production. The process involved in staging a show varied
greatly: the type of financing depended on the abilities of the producer respon-
sible and Brazilian actors lacked the technical skills in singing and dancing to
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 957 – 980 , sep. – dec., 2020

perform the musical numbers adequately. In the 1980s, there was a small shift:
pedagogical institutions began to teach repertoires from these musicals to teen-
agers and adults. But it was only in the final years of the 1990s that the envi-
ronment changed. The condition for national theatre productions was altered
with the advent of a new Cultural Incentive Law (the controversial Rouanet
Law). In 2001, São Paulo witnessed the convergence of these previously diffuse
factors. A Broadway production called Les misérables inaugurated the reform of
the Teatro Abril in the city centre. The aspirations of artists and producers,
while scattered in small projects before, now seemed to encounter a strongly
directed formula for work. In the years that followed, the show came to be
considered a landmark for the recent history of musicals in Brazil. After then,
the scene developed rapidly. The number of productions swelled and there was
a specialization of professionals from the area.
My intention is not to sketch a complete panorama of the shows pro-
duced in this period. For this, I suggest the book by the actor Gerson Steves
(2015) – which lists the main musicals produced in the country – and the article
article | bernardo fonseca machado

959

by Cardoso, Fernandes, and Cardoso-Filho (2016) – which provides for a brief


historical overview based primarily on quantitative data. It is worth emphasiz-
ing that the history of musical theatre production in Brazil is not limited to US
examples, much the opposite. From the nineteenth century to the mid-twen-
tieth, for example, the spotlights witnessed the vitality of review theatre (Ven-
eziano, 1991; Lopes, 1999; Gomes, 2004) and many musical shows played a key
role in artistic and political resistance during the period of military dictatorship
(Marques, 2014).
This text scrutinizes a selection of these musical theatre productions:
it takes as its subject the Brazilian versions of US originals and investigates
the essential lines of tension that explain the abundant recent production of
these shows in the São Paulo capital. As well as dialoguing with the literature
on the topic, I have also turned to primary sources. Using online document
research tools, I consulted news items and reports published in the Folha de S.
Paulo and O Estado de São Paulo newspapers between 1980 and 2015. Also instru-
mental were the lengthy conversations recorded by the journalist Tania Car-
valho (2008, 2009) with artists working in the area. In addition, I interviewed
37 professionals from the sector – actors, directors, producers, and journalists
– paying close attention to the histories and memories that they recounted. I
was present at events organized to discuss or celebrate the musical theatrical
productions and I enrolled as a student on a theory workshop on the history
of the topic. Finally, I turned to the Federal Government’s official data on the
amounts spent in the sector under the provisions of the Rouanet Law. Having
obtained the documents and materials, I selected some aspects, checked facts,
and sought to contrast opinions and trajectories.
This work seeks to offer a contribution to studies in anthropology and
sociology that have been investigating the relations between theatrical prac-
tices and social experiences (Arruda, 2001; Pontes, 2010; Sarlo, 2010; Charle,
2012; Krüger, 2008; Machado, 2012, 2018; Romeo, 2016). I am interested in de-
scribing how particular agents orchestrate multiple procedures and ambitions
in organizing this unique setting. I seek to identify how these subjects mutu-
ally position themselves in this diverse theatrical environment. I characterize
the desires and choices, and develop a line of argument that aims to render
intelligible the multiple events that unfolded.

Sporadic productions, desires in syntony
During the economic and political hangover endured by Brazil in the 1960s,
some Broadway musical productions made a small appearance on São Paulo’s
stages. At the time, they depended on the enterprise of ambitious independent
producers like Victor Berbara. 3
Born in 1928 to a Lebanese father and a Portuguese mother, Berbara
trained as a psychologist at Columbia University and began his career in the
social experience and us musical theatre on são paulo’s stages 

960

1940s as a producer of communication programs. He worked in large advertis-


ing agencies, on National radio, and for TV Globo in its early years. Highly active
and restless, in 1959 the young man decided to try his luck as a theatre director.
Little did he know that the first Broadway musical in Brazil would be staged by
him. At the time, an American producer had decided to expand presentations
of My fair lady 4 to Mexico, Argentina, and Brazil. Berbara received the invitation
and, months later, embarked for the capital of Mexico. There the “gringo” team
would teach them the procedures needed to put on the show.
As the person responsible for funding the musical in Rio, Victor did not
want to fund the investment entirely with his own money. The producer there-
fore sought partners willing to invest capital and cover the initial costs: in
exchange, they would receive a portion of the profits – each would own 25% of
the show. “I never regretted it,” he declared, “My fair lady was a money-making
machine!” (Carvalho, 2008: 130). The enthusiasm at the premiere was evident
in the report by O Estado de São Paulo, 25 July 1963. My fair lady was announced
as “the first contact of São Paulo’s audiences with a musical comedy, as it is
understood in the United States.” Discussing the topic in retrospect, Berbara
would declare years later: “Never had that type of show been staged in Brazil
before then. There was the opera experience: static scenes in three or four acts.
In My fair lady, the scenery changed, even moving about during the scene” (Car-
valho, 2008: 137).
In the following years, other musicals of Anglo-Saxon origin would hit
the stages and fill the stalls: Hello Dolly (1966), Hair (1969); Fiddler on the roof
(1971); Man of La Mancha (1972); Jesus Christ Superstar (1972); Godspell (1974); Pippin
(1974); Rocky horror show (1975), and Evita (1983). Despite the diversity of their
plots, the varied forms of staging, and the settings depicted, the shows had
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 957 – 980 , sep. – dec., 2020

some elements in common: the Broadway origin and the aura of foreign glamour.
Even so, the experiences were intermittent and depended on the indi-
vidual desire and autonomy of producers like Berbara. They were far from a
world of systematic regularity and specialized professionals. Furthermore, the
cast brought its own issues. The producer of My fair lady himself hesitated over
casting the actress for the main role. One of the candidates was Tônia Carrero,
who, at the height of her beauty and fame, “lacked the humility to accept that
she could not sing. She thought that with a few lessons she would get there,
but she wouldn’t, I’m sure” (Carvalho, 2008: 131). 5 The other candidate was Bibi
Ferreira. Concerning her, Berbara explained: “I didn’t think she was right for
the part; it was complicated. The person had to be a singer and Bibi isn’t; the
actress must have a lot of charisma, which Bibi doesn’t. She was always about
technique” (Carvalho, 2008: 131). The role had been obtained due to the lobby-
ing of Bibi’s mother, who insisted on her daughter being hired.
In the 1980s, a new set of agents joined the scene. Walter Clark, also
coming from the TV networks, debuted as a theatre producer on the stages of
article | bernardo fonseca machado

961

Sérgio Cardoso with the show Chorus line. 6 Born in 1936, he became the artistic
director of Globo in 1965 at the indication of Berbara himself, his friend. Clark
would remain in the post until 1977 when he fell out with the patriarch of the
Marinho family, Globo’s owners. His experiments with theatre began after this
television phase.
To pay for the costly undertaking, budgeted at 300 million cruzeiros, 7 he
dreamt up a share system: he made 44 shares available for purchase by anyone
interested. Each person would obtain a return, corresponding to the portion of
shares purchased, from the revenue generated at the ticket office. 8 Chorus line
became a success and was decisive for the career of one actress in particular:
Claudia Raia. A native of Campinas, in 1966 her artistic career would take off.
Ever since a girl she had dedicated herself to becoming a performing artist. Her
mother, owner of a ballet school, ensured she enrolled for classical ballet. At
the age of 13, she went to live in New York alone and studied at dance schools
for a year and a half.
Raia joined the cast of the show produced by Walter Clark when she was
16. Figures from Globo invited by the producer were enchanted by the young
woman and asked her to work at the broadcaster. In the following years, she
exploded onto the scene as an actress playing the prostitute Ninon in the soap
opera Roque santeiro (1985) and would star in her first pocket show – Essas noites
assim (1987) – in a nightclub in Ipanema. At the time, Raia lamented the absence
in Brazil of “a school of art where any artist can learn everything they want and
discover themselves” (Cavalcanti, 1987).
In fact, such complaints about the absence of technical teaching were
far from unique. In 1989, the director Jorge Takla also expressed his dissatisfac-
tion. Born in 1951, and trained at the School of Fine Arts and the National
Conservatory of Dramatic Art, in Paris, he was explicit about how, at the end
of the 1980s, Brazilian actors were unprepared: “No actor is ready to handle a
musical like this” (Pimenta, 1989: D1). He was referring to Cabaret (1989), a show
set during the period of the Nazi rise to power in Germany. To solve the problem,
before official rehearsals began, the director scheduled a “pre-rehearsal” phase
just for improving bodily techniques. The O Estado de São Paulo report of 20 May
1989 describes a cast uncertain about singing and dancing skills: “For now, the
master of ceremonies, Sally Bowles and company still get their steps wrong,
look down at the ground when they should look to the sky, and almost break
the boards with the weight of their bodies” (Pimenta, 1989: D1). The observation
reveals the lingering perception of a dearth of technique, first signalled by
Berbara years earlier. Much of the national cast lacked the basic skills for sing-
ing and dancing – at least by US aesthetic standards. 9
Since that time, shows premiered that were either directly linked to
Broadway or inspired by US musicals. At the end of the 1980s and the beginning
of the 1990s, a series of shows were staged whose design, according to a report
social experience and us musical theatre on são paulo’s stages 

962

in the Folha de S. Paulo, was “the most North American possible.” “The intention,”
the journalist alleged, “was to do something along Broadway lines” (Camargo,
1989: E-3). For instance, Claudia Raia’s surname – meaning “line” or “limit” – had
become the epicentre of numerous puns: Não fuja da raia (“Stay on the line,”
1991),  Nas raias da loucura (“On the limits of madness,” 1993) and  Caia na raia
(“Fall in line,” 1996). The shows were stripped down to a simple plot, composed
of musical, choreographic and comic sketches, monopolized by Raia herself
(Oliveira, 1996).
The actress was not alone. A generation born in the 1960s and 1970s
dialogued with references to foreign music. There were, for instance, producers
who ventured to make musicals that freely alluded to Broadway. In Rio de Ja-
neiro, the young Charles Möeller and Claudio Botelho experimented with new
formats. The former was born in Santos (SP), in 1967, and had pursued a career
as an actor from an early age. Botelho, meanwhile, born in 1964, a native of
Araguari (MG). He had trained as an actor but, finding work difficult to come
by, decided to pursue a new profession as a translator and composer. The young
men first met at the start of 1990 and began a long and enduring conversation
about musicals. Their first works merged songs from a variety of shows and by
different composers. Such was the case of Hello Gershwin (1991) and As malvadas
(Bad Girls, 1997) (Carvalho, 2009).
Another fan of musicals, Miguel Falabella was at the time associated
with his involvement in the so-called teatro besteirol (nonsense theatre) of the
1980s, his participations in Globo TV soaps, and his work as a playwright (Caste-
lo, 1995; Gama, 1998; Wasilewski, 2008). Born in São Cristóvão, in Rio de Janeiro’s
North Zone, in 1956, he had a short experience with a musical show in 1994. In
Falabella canta Disney (“Falabella sings Disney”), the author inaugurated the Café
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 957 – 980 , sep. – dec., 2020

do Teatro in the Gávea Shopping Mall in Rio de Janeiro. The show’s director said
on the occasion: “It was two exhausting months of rehearsals since nobody
there was used to singing” (Dias, 1994).
A set of people who shared foreign aspirations thus started to become
involved, little by little, in the performance of musical works either directly
informed by shows produced for Times Square or filled with allusions to Broad-
way. These figures – who cultivated the theatrical terrain and learned about
Broadway’s artistic conventions – were fundamental to enabling shows origi-
nally from New York to be systematically staged in São Paulo from the 2000s
onward. But before proceeding further, other important elements of this scene
need to be described.

Pedagogical paths
The 1980s also witnessed the beginning of an unprecedented pedagogical en-
vironment. As well as teaching vocabulary and grammar, the English language
school Cultura Inglesa started to offer classes in Musical Theatre to adult stu-
article | bernardo fonseca machado

963

dents. Founded in 1935 by the British consulate, in 1979 the institution decided
to experiment with staging a musical show in English with students from the
choir. The experiment proved something of a success. Since then, more than
40 works have been performed.
The initial idea behind the school’s project had not been to provide pro-
fessional training to aspiring actors. Nevertheless, during the 1990s the estab-
lishment became “a hothouse for people who wanted to make musicals but had
nowhere to go. Because there were no courses, there was no scene,” as former
student Daniel Salve pointed out. A native of São Paulo, Salve was born in 1976
and debuted on stage at the age of 15 in professional shows for children. When
he first learnt about the institution’s course for musicals he thought little of
the idea: “Just imagine, I’m a professional. Audition for an amateur production?
I turned up and was enchanted. I went, took the audition, and passed! Cultura
Inglesa was a school,” he declared.
Enrolled students, the sons and daughters of liberal professionals and
public workers, generally came from the same social background: most of them
studied at private schools in São Paulo city and shared a taste for pop music.
In the environment provided by the foreign language course, these similar in-
terests converged and, over the next few years, fertilized the city’s stages with
musicals referring to Broadway. Here the friendship between Daniel Salve and
Rodrigo Pitta provides a perfect example. The young men first met in 1992 and,
in the years that followed, worked together on seven shows put on by Cultura
Inglesa. In 1997, they decided to travel together to New York: Pitta spent eight
months studying Musical Theatre Direction at the American Music and Drama
Academy (AMDA), 10 while Daniel, between singing and dancing classes, found
time to audition for the musical Rent. 11
After more than a year, the friends returned to Brazil in 1998 and decided
to premiere the show Pocket Broadway in the Studium theatre in Rui Barbosa Street,
São Paulo. Open from Friday to Sunday, the show was described as “a mix of
various musicals performed on Broadway, including The phantom of the Opera, Les
misérables, Grease, Hair and The lion king” (Pocket Broadway, 1998: D2). The produc-
tion was a success according to the new artists. The musical closed after running
for almost a year and achieved a total audience of around 20,000 (Rocha, 2000).
The following year, 1999, Salve obtained the desired role in the Brazilian
version of Rent – to be described later. The investment in time and money, as
well as the experience at Cultura Inglesa and his studies in New York, led to
him being selected from around 900 candidates. On the occasion, the producer
responsible explained in a report published in O Estado de São Paulo: “This is
definitely not a show for amateurs […] It’s impossible for actors who don’t know
how to sing, you can’t bluff it” (Gama, 1999b). Unlike the technical difficulties
faced by casts in previous decades, younger Brazilian artists managed to find
spaces to learn these skills.
social experience and us musical theatre on são paulo’s stages 

964

In the mainstream media, the publications contributed to circulate the


discourse favourable to Broadway shows. On 20 March 2001, Pitta began work
as a special correspondent for Estadão, reporting as a specialist in US musicals.
Excited, he wrote: “It is incredible how in such a short time it has been possible
to create a real panorama of growth in the fledgling industry of musical produc-
tions in Brazil.” His diagnosis revealed “an activity that, in São Paulo, began in
a small group of theatre studies at Cultura Inglesa […] and today has trans-
formed into a small industry within the cultural scene of the Rio-São Paulo
axis” (Pitta, 2001: D7). The inflated relevance of the school echoed in the young
man’s own trajectory. Ultimately, in his view, former students like himself were
now guiding the city’s theatre scene.
Indeed, another pedagogical venture also emerged from the Cultura In-
glesa school, coordinated this time by the choreographer Maiza Tempesta. With
wide experience as a dancer, she had participated in the 1980s in the musical
Chorus line in both Brazil and New York. In 1997, the institution hired the new
teacher to help stage musicals for adult students. Tempesta, however, was trou-
bled by the absence of courses for young people: “this age group of teenagers
had nowhere to take courses or even any shows to watch, they were stuck in a
vacuum.” The proposal to give musical theatre classes to adolescents emerged
in 1999: The Teen Broadway West End – a name simultaneously referencing the
United States and London. At the hands of Brazilian professionals, the spaces
available for people to experience foreign musicals gradually expanded.
A new generation of young people familiar with the New York refer-
ences was slowly formed. Alongside other initiatives, the pedagogical ventures
proved that, in financial and cultural terms, a change had taken place in the
city of São Paulo. However, the production of major shows vied for a place un-
sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.03: 957 – 980 , sep. – dec., 2020

der the sun with another aesthetic genre also emerging at the time.

Disputes over the law


The 1990s ended with a different configuration emergent in the theatre world,
both from the viewpoint of the agenda of aesthetic conventions, and in terms
of the cultural policies being implemented.
On one hand, a portion of the artistic field defended the so-called “re-
search theatre,” According to this convention, when staging a show, it was es-
sential to reflect a deep respect for its content (Costa, 2009; Fernandes, 2010;
Machado, 2012). Artists recently graduated from public universities in the mid-
1990s guided a section of the city’s theatrical production. Many groups origi-
nated from this period, including Cia. de Teatro Os Satyros (1989), Parlapatões,
Patifes e Paspalhões (1991), Teatro da Vertigem (1992), Cia. do Latão (1996), and
Cia. da Revista (1997) (Machado, 2012). The search for financial and profes-
sional stability motivated, in large part, these actors, striving to achieve artis-
tically and critically successful productions.
article | bernardo fonseca machado

965

Cultural policies, meanwhile, evolved in tandem with decisions taken


in the federal sphere. Law 8.313/91, known as the Rouanet Law, had become
routine during this period (Gonçalves Dias, 2014). Among its mechanisms was
sponsorship: individuals or entities could support cultural projects whose fi-
nancial amounts and range had to be approved by the Ministry of Culture (MinC).
Each proposal was submitted to the ministry, detailing the budgets, and indi-
cating how the funds obtained through the tax exemptions would be used.
Consequently, the law defined a new relationship between cultural producers,
the public administration, and sponsoring companies. In the first years, between
1992 and 1994, the amount of funds spent was less than 6% of the total of R$
250 million (or US$ 295 million at the time) made available by the State in the
form of fiscal incentives (Weffort & Souza, 1998). It was only after 1995, follow-
ing a wide-ranging reform, 12 that use of the law become more routine.
This exponential increase coincided with the running of the Ministry of
Culture during the first and second mandates of President Fernando Henrique
Cardoso (1995 to 2002). From 1995, by determination of Cardoso himself, the
law was proje