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Geometria Euclidiana Espacial

Manoel Azevedo

1999

b

Apresentação

Este é um trabalho destinado a alunos que estão fazendo o curso de licenciatura ou bacharelado em Matemática, ou, àqueles que se interessam por geometria. O assunto aqui tratado, Geometria Euclidiana Espacial, é uma continuação natural da Geometria Eucilidiana Plana, a qual é, por conseguinte, pré-requisito para compreensão deste mate- rial.

Procuramos um meio termo entre uma abordagem intuitiva e formal. Em alguns momentos somos formais, notadamente no Capítulo 1, em outros intuitivo. O trabalho está dividido em quatro capítulos. Ao nal de cada um deles propomos exercícios que tentamos seqüenciá-los pela ordem crescente de diculdade. Ao todo são 126. As respostas se encontram no nal do livro. Outrossim, apresentamos ao longo do desenvolvimento do assunto, sempre que oportuno, algumas pequenas notas históricas relacionadas com o tema. E para facilitar a busca de assuntos relacionados à matéria tivemos o cuidado de confeccionar também um índice por ordem alfabética que se encontra nas últimas páginas. Espero com esta obra, modestamente, dar uma contribuição ao ensino da Matemática. As críticas construtivas ou sugestões para melhoria dela serão bem aceitas. Por m, quero agradecer às pessoas que me incentivaram a escrevê-la e a todos que direta ou indiretamente contribuiram para sua existência.

Fortaleza, 1999.

O Autor

Índice

1 Paralelismo e Perpendicularismo

1

1.1 Noções de Lógica

1

1.1.1 Conjunção

2

1.1.2 Disjunção

2

1.1.3 Negação

2

1.1.4 Condicional

3

1.1.5 Bicondicional

3

1.2 Entes Primitivos e Axiomas da Geometria Euclidiana

6

1.3 Paralelismo e Perpendicularismo

8

1.4 Ângulos

14

1.5 Exercícios

18

2 Cilindro, Cone e Esfera

23

2.1 Cilindro

23

2.2 Cone

26

2.3 Esfera

30

2.4 Exercícios

34

3 Volume e Área de Superfície

39

3.1 A Noção de Volume

39

3.2 Volume do Paralelepípedo Retangular

40

3.3 Volume do Cilindro, Cone e Esfera

43

3.4 Área de Superfície

48

3.5 Exercícios

51

4 Poliedros

55

4.1 Denições

55

4.1.1

Representação Plana de um Poliedro

56

4.2 Relação de Euler

58

4.4

Exercícios

63

Respostas

67

Bibliograa

71

Índice Remissivo

73

Capítulo 1 Paralelismo e Perpendicularismo

Diz a tradição que Tales de Mileto (624-548 a.C.) foi o precursor da geometria pela dedução. À ele atribui-se a autoria da demonstração, entre outros teoremas, de que “um ângulo inscrito num semi-círculo é um ângulo reto”. Não existe documento que comprovem estas autorias. Outro matemático antigo, também precursor da geometria dedutiva, ao qual se lhe atribui a autoria da demonstração do famoso teorema - num triângulo retângulo o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos - é Pitágoras de Samos (580-500 a.C.). Devido à perda de documentos daquela época e pelo fato de que a escola fundada por ele era secreta, o teorema de Pitágoras assim como o da divisão áurea de um segmento, podem ter sido demonstrados por seus discípulos ou até mesmo pelos babilônios. Dois séculos depois, Euclides de Alexandria publicara o texto mais inuente de todos os tempos: “Os Elementos” (300 a.C.). Depois da Bíblia, é o livro com mais edições publicadas (provavelmente mais de mil). Os elementos de Euclides estão divididos em treze livros, dos quais somente os seis primeiros tratam de geometria plana elementar. Euclides organizou este assunto em 5 postulados, 5 “noções comuns” e mais de 150 proposições. As noções comuns são tam- bém princípios. A diferença destas para os postulados reside no fato de que as noções comuns são mais evidentes. Um tratamento moderno não faz esta distinção. Algumas críticas podem ser feitas à abordagem do assunto por Euclides. Por exemplo, os conceitos primitivos foram colocados como denições. Várias proposições foram demonstradas uti- lizando princípios não estabelecidos no texto tais como a unicidade da reta passando por dois pontos distintos dados. Contudo, por dois mil anos, Os Elementos constituiu o mais rigoroso tratado lógico dedutivo da matemática elementar. Neste trabalho, adotamos um tratamento intermediário entre intuitivo e formal. Não achamos adequado uma abordagem somente intuitiva. Por exemplo, o uso de guras em geometria espacial, em certas situações, é impraticável para tirarmos conclusões. Em casos dessa natureza, nada melhor do que usar um raciocínio lógico-dedutivo. Utilizamos, neste primeiro capítulo, uma abordagem axiomática (formal). O entendimento de um tratamento assim requer um mínimo de noções de lógica e o que signica esta abordagem. Por isso, iniciamo-lo com um parágrafo no qual damos estas noções.

1. Noções de Lógica

Def. 1 Chama-se proposição toda oração armativa que pode ser classicada em um e somente um dos seguintes valores lógicos: verdadeira (V) ou falsa (F).

Exemplo 1

Fortaleza é a capital do estado do Ceará.

Exemplo 2 O Brasil possui, exatamente, 20 mil habitantes.

1.1

Noções de Lógica

Exemplo 4 Todo retângulo é um quadrado.

As proposições são usualmente indicadas pelas letras p, q , r,

1.1. Conjunção

Def. 2 Dadas duas proposições p e q , denimos a conjunção de p e q e escrevemos p q a proposição: p e q ; ela é obtida intercalando-se o conectivo “e” entre as proposições p e q .

Postulamos o valor lógico da conjunção p q conforme a tabela de valores lógicos abaixo.

p

q p q

V

V

V

V

F

F

F

V

F

F

F

F

Observemos que a conjunção de duas proposições só é verdadeira quando ambas são verdadeiras.

1.2. Disjunção

Def. 3 A disjunção de duas proposições p e q denotada por p q é denida intercalando- se o disjuntivo “ou” entre p e q ; ei-la: p ou q .

Postulamos seu valor lógico de acordo com a tabela abaixo.

p

q p q

V

V

V

V

F

V

F

V

V

F

F

F

Notemos que a disjunção de duas proposições só é falsa quando ambas são falsas.

1.3. Negação

Def. 4 Denimos a negação de uma proposição p e a indicamos por p como se segue:

“É falso que p” ou, quando possível, colocando-se a palavra “não” antes do verbo da proposição p.

Assim sendo, p diz precisamente o contrário de p. Postulamos seu valor lógico como sendo o oposto ao valor lógico de p. Conramos a tabela abaixo.

p ∼ p V F F V 2
p
∼ p
V
F
F
V
2

1.1

Noções de Lógica

1.4. Condicional

Def. 5 Outra proposição que se dene a partir de duas proposições p e q dadas é a seguinte: (p) q . Indicamo-la por p q . Ela também pode ser lida de outros modos:

se p então q ; p é condição suciente para q ; q é condição necessária para p.

Não postulamos e sim calculamos sua tabela de valores lógicos. Vejamos abaixo.

p

q

p

p q

V

V

F

V

V

F

F

F

F

V

V

V

F

F

V

V

Vale notarmos que p q só é falsa quando p é verdadeira e q é falsa. verdadeira, dizemos então que p implica q e podemos indicá-la por p q .

Se p q é

Def. 6 Dada a proposição p q , a proposição q p é chamada a recíproca de p q .

1.5. Bicondicional

Def. 7 Podemos ainda, a partir de duas proposições p e q , denir a proposição p se e somente se q , denotada por p q , como sendo (p q ) (q p). Ela pode ser dita também da seguinte maneira: p é condição necessária e suciente para q .

Veja a seguir sua tabela de valores lógicos.

p

q

p q

q p

p q

V

V

V

V

V

V

F

F

V

F

F

V

V

F

F

F

F

V

V

V

Observemos que p q é verdadeira quando as proposições p e q são ambas ver- dadeiras ou ambas falsas. Neste caso, dizemos que p é equivalente a q e podemos denotá-la por p q . Por conseguinte, duas proposições são equivalentes quando e apenas quando elas possuem o mesmo valor lógico.

Podemos formar mais proposições a partir de outras por combinações dos conec- tivos, disjuntivos, negações, condicionais, etc. Abaixo mostramos exemplos de proposições equivalentes.

Exemplo 5 (p q ) (p) (q )

p

q

p

q

p q

(p q )

(p) (q )

V

V

F

F

V

F

F

V

F

F

V

V

F

F

F

V

V

F

V

F

F

F

F

V

V

F

V

V

3

1.1

Noções de Lógica

Exemplo 6

(p q ) (p) (q )

p

q

p

q

p q

(p q )

(p) (q )

V

V

F

F

V

F

F

V

F

F

V

F

V

V

F

V

V

F

F

V

V

F

F

V

V

F

V

V

Exemplo

7 (p q ) p (q )

p

q

q

p q

(p q )

p (q )

V

V

F

V

F

F

V

F

V

F

V

V

F

V

F

V

F

F

F

F

V

V

F

F

Os exemplos 5, 6 e 7 nos fornecem substitutos para a negação, respectivamente, da disjunção, conjunção e do condicional de duas proposições. Notemos, por exemplo, que para (p q ) ser verdadeira, é necessário e suciente que p e q , simultaneamente, sejam verdadeiras; assim como para que (p q ) seja verdadeira, basta que pelo menos uma das proposições p ou q seja verdadeira, isto é, p ou q seja falsa. Vejamos mais exemplos.

Exemplo 8

(p q ) ((q ) (p))

p

q

q

p

p q

(q ) (p)

V

V

F

F

V

V

V

F

V

F

F

F

F

V

F

V

V

V

F

F

V

V

V

V

Exemplo 9

Sendo f falsa, temos: (p q ) (((q ) p) f )

 

p

q

f

q

(q ) p

p q

((q ) p) f

V

V

F

F

F

V

V

V

F

F

V

V

F

F

F

V

F

F

F

V

V

F

F

F

V

F

V

V

Exemplo 10

(p) p

 

Exemplo

11

(p q ) (q p)

Exemplo

12

(p q ) ((p q ) ((p) (q )))

Exemplo

13

(p q ) ((p) q )

Exemplo

14

((p q ) (q r )) (p r )

A vericação destas últimas armações deixamos a cargo do leitor.

4

1.1

Noções de Lógica

Na organização de um tratamento formal de uma teoria matemática, como é o caso deste capítulo, existem os chamados conceitos primitivos. Eles não são deníveis e apenas são perceptíveis. A partir deles é que denimos os demais conceitos. Eles são os pon- tos de partida da teoria. A razão de suas existências reside no seguinte argumento: para se denir um certo conceito, utilizamos outros já estabelecidos. Para denir estes, pre- cisamos de outros e assim por diante. Sendo nita a quantidade de conceitos, decorre que esbarraremos naqueles não expressos a partir de outros. São esses os conceitos primitivos. Por exemplo, na geometria, para se denir triângulo, utiliza-se entre outros o conceito de segmento de reta. Para denir este, necessita-se do conceito de reta que é primitivo.

Além dos conceitos primitivos, há os chamados princípios, também denominados de postulados ou axiomas. Os princípios são propriedades envolvendo os conceitos primitivos ou outros já estabelecidos, ou, simplesmente, propriedades, não carentes de demonstra- ção. Eles geralmente são bem aceitáveis, embora isto não seja uma condição necessária. Exemplo de um axioma: por dois pontos distintos passa uma única reta. Esse postulado fornece uma propriedade relacionando dois entes primitivos da geometria: ponto e reta. Os resultados aos quais chega uma teoria depende dos princípios que são estabelecidos. Por exemplo, na geometria euclidiana plana chega-se à conclusão de que a soma dos ângulos internos de um triângulo é igual a 180 . Já na geometria de Lobatchewski - Bolyai conclui-se que esta soma é menor do que 180 . A razão dessa divergência de resultados reside na diferença dos axiomas em que se basearam as teorias.

Também fazem parte do desenvolvimento formal de uma teoria matemática as propo- sições (no sentido que denimos no início deste parágrafo), as quais são carentes de uma prova (demonstração) que se baseia nos princípios ou em outras proposições já provadas. Em geral, elas são do tipo p q . A proposição p é chamada de hipótese e a q de tese. Como provar uma proposição do tipo p q ? Vejamos. Se p é falsa, então p q é sempre verdadeira indepentemente de q ser verdadeira ou falsa de acordo com a tabela de valores lógicos. Se p é verdadeira, para que p q seja verdadeira é necessário e suciente que q seja verdadeira. Por conseguinte, demonstrar uma proposição do tipo p q , consiste em admitir p verdadeira e a partir daí concluir que q é verdadeira. Às vezes, é mais conveniente, para provar a proposição p q , usar o seguinte argu- mento, baseado na equivalência do exemplo 9: negando a tese e admitindo a hipótese, a proposição ca demonstrada se isto acarretar em uma proposição falsa (contradição). A idéia é que se chegamos a uma contradição, então a negação da tese não pode ser ver- dadeira e portanto a tese é verdadeira. Este argumento chama-se demonstração indireta ou demonstração por absurdo. Podemos também utilizar a equivalência do exemplo 8 para demonstrar uma proposição do tipo p q . Chamamos ainda a atenção para o exemplo 13 que nos fornece um argumento para demonstrar proposições do tipo p q . Vejamos que para esta ser verdadeira basta a negação de p implicar em q .

Apresentaremos agora terminologias para certas proposições. Chama-se teorema toda proposição de grande relevância; lema é uma proposição que será utilizada na demons- tração de outra ou de um teorema; corolário é a denominação de toda proposição que é conseqüência imediata de outra ou de um teorema; escólio é qualquer proposição extraída da demonstração de outra.

5

1.2

Entes Primitivos e Axiomas da Geometria Euclidiana

Um dos entes primitivos da matemática é o conceito de conjunto ou coleção. En- tendemos por conjunto toda coleção de objetos bem denidos. Exemplos: o conjunto dos seres humanos que moram no Brasil; o conjunto formado pelos alunos de uma dada universidade; o conjunto dos grãos de areia existentes no nosso planeta; conjunto consti- tuído de conjuntos; etc. Cada objeto da coleção, que também é um conceito primitivo, é chamado de elemento do conjunto. Se o elemento a é membro do conjunto A, dizemos que a pertence a A e escrevemos a A para indicar esse fato. Vale ressaltar que a relação de pertinência é também um conceito primitivo.

Chama-se sentença aberta toda proposição p(x) aplicável aos elementos x de um conjunto A dado explícito ou implicitamente. Exemplo: x é um homem alto. Nesse exemplo, o conjunto que contém o elemento x está implícito. Podemos inserir às sentenças abertas os chamados quanticadores : universal indicado por ou existencial denotado por . O símbolo signica “para todo” ou “para qualquer que seja” ou ainda “para cada” enquanto que indica “existe um” ou “existe pelo menos um” ou ainda “para algum”. Se p(x) é uma sentença aberta, então “x, p(x)” ou “x tal que p(x)” são proposições quanticadas. Vale salientarmos que a negação de “x, p(x)” é “x tal que p(x)” enquanto que a negação de “x tal que p(x)”é“x, p(x)”. Por exemplo, a negação de “todo homem é alto” é “existe um homem que não é alto”.

2. Entes Primitivos e Axiomas da Geometria Euclidiana

AXIOMA 1 Existem um conjunto, denominado espaço, e duas coleções de subconjuntos do espaço satisfazendo às propriedades enunciadas nos axiomas subseqüentes.

Os elementos do espaço são chamados de pontos, os de uma das coleções referidas no axioma 1 são denominados retas e os da outra, planos. Vale observar que os elementos das retas e dos planos são pontos. Ponto, reta e plano são os conceitos primitivos da geometria euclidiana plana. Os

pontos são denotados usualmente por letras maiúsculas A, B, C,

Intuitivamente, podemos

imaginar que uma “porção” de um plano é a superfície de uma mesa ou uma folha de papel estirada; uma “porção” de uma reta é um risco feito nesta folha com o auxílio de uma régua, ou, um cordão esticado; e um ponto é um furinho feito com a ponta de um alnete numa folha ou um pingo feito com uma caneta, etc. O espaço pode ser pensado como sendo nosso ambiente. Diremos que dois ou mais pontos são coplanares ou colineares, respectivamente, se pertencem a um mesmo plano ou a uma mesma reta; diremos ainda que dois ou mais conjuntos não vazios de pontos são coplanares ou colineares se todos os seus pontos são, respectivamente, coplanares ou colineares. Se um ponto A pertence a uma reta r ou a um plano π é usual dizer que r ou π passa por A.

; as retas por letras

minúsculas r, s, t,

; e os planos por letras gregas π , α , β ,

Estabelecida essa linguagem inicial, xaremos a seguir alguns princípios.

AXIOMA 2 Por dois pontos distintos passa uma única reta.

Se A e B são pontos distintos pertencentes à reta r , denotamos r = AB ←→ ou r = BA. ←→

6

1.2

Entes Primitivos e Axiomas da Geometria Euclidiana

AXIOMA 3

Por três pontos não colineares passa um único plano.

AXIOMA 4

Se o plano π passa por dois pontos distintos A e B , então AB ←→ ⊂ π .

AXIOMA 5

Se a interseção de dois planos é não vazia, então esta contém pelo menos

dois pontos distintos.

AXIOMA 6 Cada reta contém pelo menos dois pontos distintos; todo plano contém no mínimo três pontos não colineares; o espaço contém pelo menos quatro pontos distintos entre si não coplanares e não colineares.

Estabeleceremos a seguir resultados decorrentes destes axiomas.

Como conseqüência do axioma 2, podemos concluir que a interseção de duas retas distintas é um conjunto unitário ou o conjunto vazio. No primeiro caso, dizemos que elas são concorrentes e no segundo dizemos que são reversas se não são coplanares, e, paralelas (e distintas) se são. Usaremos a notação r//s para indicar que uma reta r é paralela a uma reta s.

Passemos agora a analisar as possibilidades acerca da interseção de dois planos dis- tintos α e β. Ela poder ser ou não vazia. No caso de ser vazia, dizemos que os planos

são paralelos (e distintos) e escrevemos α //β. Se não, o axioma 5 garante que esta inter- seção ←→ contém pelo ←→ menos dois pontos ←→ distintos A e B . Pelo axioma ←→ 4, podemos concluir

Na realidade, AB = α β. De fato, de

acordo com o axioma 3, nenhum ponto fora da reta AB ←→ (isto é, nenhum ponto não per- tencente a AB ←→ ) pode pertencer a α β, uma vez que α 6= β. Em resumo, a interseção de dois planos distintos é vazia ou é uma reta. No caso de ser uma reta, diremos que os planos são concorrentes.

que AB α e AB β, donde, AB α β.

O que pode ser a interseção de uma reta com um plano? Respondamos. Se ela contém dois pontos, então, pelo axioma 4, a reta está contida no plano, donde, a interseção é a

própria reta. Restam as seguintes possibilidades: vazia ou conjunto unitário. Na primeira dizemos que a reta e o plano são paralelos e na segunda dizemos que a reta fura o plano ou ela é secante à ele. Adotaremos a notação r//π para indicar que uma reta r é paralela

a um plano π .

Existe um único plano contendo uma reta e um ponto fora desta, dados, assim como há um único plano contendo duas retas concorrentes dadas. Justiquemos a primeira armação. Pelo axioma 6, existem dois pontos distintos A e B pertencentes à reta dada. Seja C o ponto fora desta. Assim sendo, A, B e C não são colineares. Pelo axioma 3, existe um único plano que contém A, B e C . Este também ←→ contém a reta, graças ao axioma 4. A unicidade segue-se porque todo plano que contém AB e C contém A, B e C .

Provemos agora a segunda assertiva. Sejam r e s as retas concorrentes e A r s. Sejam

B

r {A} e C s {A}, usando o axioma 6. Temos aí três pontos não colineares:

A,

B e C . O plano π determinado por A, B e C contém r e s. Qualquer que seja o plano

contendo r e s, contém A, B e C e, por conseguinte, é igual a π. Também, dadas duas retas paralelas existe um único plano que as contém. Deixamos

a prova deste fato como exercício.

7

1.3

Paralelismo e Perpendicularismo

AXIOMA 7 (Postulado de Euclides) Por um ponto fora de uma reta passa uma única reta paralela à reta dada.

Levou-se a crer que o postulado de Euclides, o quinto de seu trabalho, pudesse ser demonstrado a partir dos quatro outros. De modo que matemáticos famosos, que passaram-se em quase dois mil anos, o tentaram. Somente no século XIX é que dois matemáticos, trabalhando independentemente, provaram a independência do quinto pos- tulado. Foram eles, Nicolai Lobachevsky (1793 - 1856), russo, e o húngaro Johan Bolyai (1802 - 1860). Foi com o artigo “On the Principles of Geometry ” em 1829 publicado por Lobachevsky, que cou provado denitivamente que o quinto postulado não podia ser obtido a partir dos demais. A prova consistiu em substituí-lo por outro que lhe é contra- ditório e a partir disto demonstrou-se que a soma dos ângulos internos de um triângulo é menor do que 180 , resultado este que entra em choque com o teorema da geometria eu- clidiana plana que arma ser igual a 180 esta soma. A chamada geometria não-euclidiana nascia ocialmente com aquele artigo.

3. Paralelismo e Perpendicularismo

Doravante, admitiremos todos os resultados concernentes à geometria euclidiana plana. Passemos aos teoremas básicos acerca de paralelismo e perpendicularismo de retas ou planos que são assuntos sob os cuidados da geometria euclidiana espacial.

TEOREMA 1 Sejam r uma reta paralela a um plano π e P π . Então, a reta paralela a r passando por P está contida em π .

Prova. Seja α o plano determinado por P e r. Temos que π e α são concorrentes. Seja s = α π .

r s π P
r
s
π
P

Pelo fato de s π e r ser paralela a π, segue-se que s r = e pelo fato de s e r serem coplanares (estão contidas em α), vem que s e r são paralelas. Desde que P é comum a α e π, decorre que P s. Assim sendo, a reta paralela a r passando por P está contida em π . ¥

TEOREMA 2 Se uma reta r é paralela a um plano π , então existe uma reta contida em π paralela a r (e distinta).

Prova. Seja P um ponto qualquer de π . Pelo Teorema 1, a reta paralela a r passando por P está contida em π . Logo, segue-se o resultado. ¥

TEOREMA 3 Se uma reta r é paralela a uma reta r 0 contida num plano π e não está contida nesse plano, então r é paralela a π .

Prova. Por absurdo, suponhamos que r fura π . Seja {P } = r π. Seja α o plano

r e r 0 . Temos: r 0 = α π . Sendo P r π e r α, vem que P α π.

determinado por

8

1.3

Paralelismo e Perpendicularismo

Como r 0 = α π, segue-se que P r 0 . Isto é uma contradição ao fato de P r e r ser paralela (e distinta) a r 0 . ¥

TEOREMA 4 Sejam r e s, e, u e v pares de retas concorrentes. Se r//u e s//v , então os planos determinados por r e s, e, u e v são paralelos ou coincidentes.

Prova. Sejam α o plano determinado por r e s e β o plano determinado por u e v.

Suponhamos que α

contida em β . Por absurdo, suponha que r β . Assim sendo, teremos necessariamente

s β, pois do contrário, como s é paralela a uma reta contida em β, pelo Teorema 3, decorreria que s//β, o que seria uma contradição ao fato de um ponto de s pertencer a

r e r β. Posto que r β e s β, então α = β. Contradição! Portanto, r 6β. Isto

implica, de acordo com o Teorema 3, que r//β, já que r é paralela a uma reta contida em

β. Dado que s tem um ponto em comum com r e r//β, segue-se que s 6β e daí, pelo Teorema 3, s//β, uma vez que s é paralela a uma reta contida em β . Enm, r e s são retas paralelas a β .

6= β . Devemos mostrar que α//β . Antes, mostraremos que r não está

s r α v u β
s
r
α
v
u
β

Para encerrar a demonstração, suponhamos, por absurdo, que α e β não são paralelos. Como são distintos, seja t = α β . Então, t, r e s são coplanares. Como r e s são concorrentes, t não é simultaneamentre paralela a r e s. Assim, t é concorrente a uma delas, já que t é distinta de ambas. Digamos, r. Seja {P } = r t. Isto é uma contradição ao fato de r//β . ¥

TEOREMA 5 Por um ponto não pertencente a um plano, passa um único plano para- lelo ao plano dado.

Prova. (Existência) Sejam P um ponto e π um plano tais que P / π . Sejam u e

v retas concorrentes contidas em π e r e s as retas passando por P, respectivamente,

paralelas a u e v. É óbvio que r e s não estão contidas no plano π. Pelo teorema anterior,

o plano α determinado por r e s é paralelo a π .

(Unicidade) Seja β um plano paralelo a π passando por P. Mostraremos que β = α. É claro que as retas concorrentes u e v contidas em π são paralelas ao plano β . Pelo Teorema 1, as respectivas paralelas a u e v passando por P estão contidas em β, uma vez que P β. Essas paralelas são r e s. Posto que duas retas concorrentes determinam um único plano, segue-se que β = α. ¥

TEOREMA 6 Se uma reta fura um plano, fura também qualquer plano paralelo a esse plano.

Prova. Sejam α e β planos paralelos e r uma reta que fura o plano α num ponto P. Por absurdo, suponhamos que r não fura o plano β . Como P r e P / β, então r 6β,

logo, r//β . Seja s β tal que s//r . Desse modo, temos: P α, s//α (pois s β e β //α)

e r a paralela a s passando por P. Pelo Teorema 1, segue-se que r α . Contradição! ¥

9

1.3

Paralelismo e Perpendicularismo

TEOREMA 7 Se s 6= t , r//s e r//t, então s//t.

Prova. Inicialmente, vamos mostrar que s t = . Do contrário, teríamos duas retas distintas, s e t, paralelas a r passando por um mesmo ponto fora de r. Isto iria contradizer o axioma das paralelas (axioma 7). Logo, ←→ s t = . Resta provarmos que s

e

t são coplanares. Sejam A s e B t. Sejam u = AB e α o plano determinado por u

e

s. Distinguiremos dois casos:

Caso 1. r α. O plano β contendo t e r tem um ponto em comum com α, o ponto B, e

a reta r, em que B / r. Desde que uma reta e um ponto fora desta determinam um único plano, segue-se que α = β e, portanto, s e t são coplanares.

Caso 2. r 6α .

u α A s B t r
u α
A
s
B
t
r

Sendo r//s, pelo Teorema 3, decorre que r//α. Assim sendo, pelo Teorema 1, a reta paralela a r passando por B α está contida em α. Essa reta é t. Por conseguinte, t e s estão contidas em α. ¥

TEOREMA 8 Sejam r e s, e, u e v pares de retas concorrentes. Se r//u e s//v , então (r, s) = (u, v ) .

Se os planos que contêm r e s, e, u e

v são iguais, o resultado é fácil de demonstrar. Deixamos a prova detalhada do teorema para este caso como exercício. Suponhamos que os planos são distintos. Seja α o plano que contém r e u, e, β o que contém s e v.

Prova. Sejam {P }

= r s e {Q} = u v .

r

u α C D A B s v P Q β
u
α
C
D
A
B
s
v
P
Q
β

Temos P ←→ Q = α β . Sejam A r e B u pontos pertencentes a um mesmo semi-plano

determinado por P Q em α tais que AP BQ. Desse modo, ABQP é um paralelogramo, donde, AB// ←→ P ←→ Q. ←→ Sejam C s e D v pontos pertencentes a um mesmo semi-plano de-

terminado por P Q em β tais que CP DQ. Assim sendo, CDQP é um paralelogramo,

←→

10

1.3

Paralelismo e Perpendicularismo

donde, ←→ CD// ←→ ←→ P ←→ Q. Dessa maneira, temos, pela transitividade do paralelismo entre retas, que AB// CD. Dado que r//u e s//v , vem, conforme ←→ o ←→ Teorema 4, que os planos ←→ deter- ←→

e s, e, u e v são paralelos, logo, AC BD = . Posto que AC e BD

minados por r

são coplanares, segue-se que AC// ←→ BD. ←→ Assim sendo, ABDC é um paralelogramo, donde,

b

b

AC BD . Logo, AP C BQD (L.L.L.) e, por conseguinte, A P C B QD. Portanto, (r, s) = (u, v ) . ¥

Def. 8 Diremos que uma reta r que fura um plano π num ponto O é perpendicular a π em O ou, simplesmente, perpendicular a π se toda reta contida em π passando por O é perpendicular a r. Nesse caso, diremos ainda que O é o pé da perpendicular r em π .

TEOREMA 9 Seja π o plano determinado por duas retas concorrentes r e s no ponto O. Se uma reta t é perpendicular a r e a s em O, então t é perpendicular a π em O.

Prova. Seja u uma reta qualquer contida em π passando por O. Mostraremos que t u. Podemos supor, sem perda de generalidade, que u 6= r e u 6= s. Tomemos em r e s, respectivamente, pontos A e B tais que A e B se encontram em semi-planos abertos opostos em relação a u.

t D r s O C B A u D’
t
D
r
s
O
C
B
A
u
D’

O segmento AB intercepta u num ponto C entre A e B. Sejam D e D 0 pontos distintos

em t tais que O é ponto médio de DD 0 . Sendo t perpendicular a r, segue-se, pelo caso L.A.L. de congruência de triângulos, que AOD AOD 0 e sendo t perpendicular a s, decorre, por L.A.L., que BOD BOD 0 . Desse modo, AD = AD 0 e BD = BD 0 , donde,

b b

por L.L.L., ABD ABD 0 e, portanto, B AD B AD 0 . Isto acarreta, por L.A.L., que

CAD CAD 0 , por conseguinte, CD = CD 0 . Assim sendo, por L.L.L., COD COD 0 .

b

Este fato implicará que C OD é reto e, portanto, t u. ¥

TEOREMA 10 Seja P um ponto pertencente a um plano π . Então, existe uma única reta r passando por P perpendicular a π .

←→ Prova. (Existência) Sejam A π, em que A 6= ←→ P , B / π e α o plano determinado

Sejam u α a reta perpendicular a AP passando por P e v π a reta

por P A e B .

11

1.3

Paralelismo e Perpendicularismo

perpendicular a AP ←→ passando por P.

r β u B v P π A α
r
β
u
B
v
P
π
A
α

Temos que u e v são retas concorrentes em P. Seja β o plano determinado por u e v e

r ⊂ ←→ β a reta perpendicular ←→ a v passando por P. Nessa construção, observemos que P ←→ A u e P A v , logo, ←→ P A é perpendicular a qualquer reta contida em β passando por P. Em

P A r. Agora, notemos que r é perpendicular a duas retas concorrentes

contidas em π, a saber: P ←→ A e v. Por conseguinte, r é perpendicular a π e passa por P. (Unicidade) Seja s uma reta perpendicular a π passando por P. Mostraremos que r = s. Por absurdo, suponhamos que r 6= s. Assim, r e s concorrem ao ponto P em π . Seja γ o plano determinado por r e s. Temos que γ é concorrente a π . Seja t = π γ . Desse modo, r, s e t são coplanares (estão em γ), em que r e s são perpendiculares a t no ponto P. Contradição! ¥

particular,

TEOREMA 11 Sejam r e s retas distintas, em que r é perpendicular a π . Então, s//r s π .

Como r fura π, então α é

concorrente a π . Seja t = α π . Assim, r, s e t são coplanares (estão contidas em α),

sendo que t r. Como r//s, então t s. Sejam {A} = r t e {B } = s t. Sejam u em π, respectivamente, perpendiculares a t em A e B.

e v

Prova. () Seja α o plano determinado por r e s.

r s α A B t u v π
r
s
α
A
B
t
u
v
π

Desse modo, u//v e como r//s, segue-se que (r, u) = (s, v ), de acordo com o Teorema 8. Desde que, por hipótese, r u, então s v . Enm, s é perpendicular a duas retas concorrentes contidas em π, a saber: t e v. Por conseguinte, s π . () Sejam A e B, respectivamente, os pés das perpendiculares r e s em π . Seja s 0 a reta paralela a r passando por B. Pela implicação () deste teorema, segue-se que s 0 é

12

1.3

Paralelismo e Perpendicularismo

perpendicular a π . Sendo s e s 0 pependiculares a π passando por B π decorre, pela unicidade do Teorema 10, que s = s 0 . Logo, s é paralela a r. ¥

TEOREMA 12 Por um ponto fora de um plano, passa uma única reta perpendicular a esse plano.

Prova. (Existência) Sejam α um plano e P / α um ponto. Seja β o plano paralelo a α passando por P. Seja r a reta perpendicular a β passando por P.

r β v P α u Q
r
β
v P
α
u Q

Como α //β, então r fura também α, digamos, num ponto Q. Seja u α uma reta qualquer passando por Q. Vamos mostrar que r u. Seja v a reta paralela a u passando por P. Sendo u//β, vem, pelo Teorema 1, que v β. Desde que r β, segue-se que r v. Posto que r é transversal às paralelas u e v, decorre que r u. Conclusão: r é perpendicular a α e passa por P. (Unicidade) Seja r 0 uma reta perpendicular a α passando por P. Devemos mostrar que r 0 = r. Para isso, basta mostrarmos que Q r 0 . Seja Q 0 o pé da perpendicular r 0 em α. Mostraremos que Q 0 = Q. Por absurdo, suponhamos que Q 0 6= Q. Assim, a soma dos ângulos internos do triângulo P QQ 0 é maior do que 180 . Contradição! Logo, Q 0 = Q, donde, Q r 0 e, portanto, r 0 = r. ¥

ESCÓLIO. Se uma reta é perpendicular a um plano π , então é perpendicular a qualquer plano paralelo a π .

Def. 9 Sejam α um plano e P / α um ponto. Denimos a distância de P a π , denotada por d (P, π ), como sendo a distância de P ao pé da perpendicular a α passando por P. Se P α a distância de P a π é denida como sendo zero.

Observe que a distância de P a π, nos dois casos, é a menor das distâncias de P aos pontos de π .

Def. 10

Sejam α e β dois planos paralelos. Denimos a distância entre α e β , denotada

por d (α, β ), como sendo a distância de um ponto qualquer de um dos dois planos ao outro plano.

A título de exercício, demonstre que essa denição, de fato, não depende do ponto e nem do plano escolhidos.

TEOREMA 13 Sejam r e s retas reversas. Então, existem dois únicos planos paralelos (e distintos) α e β tais que r α e s β .

13

1.4 Ângulos

Prova. (Existência) Seja A r um ponto qualquer e s 0 //s passando por A. Seja B s um ponto qualquer e r 0 //r passando por B.

A s’ r α s B r’ β
A s’
r
α
s
B
r’
β

Como r e s são reversas, então r e s 0 e r 0 e s são pares de retas concorrentes. Sejam α o plano determinado por r e s 0 e β o determinado por r 0 e s. A reta r não está contida em β, pois r e s são reversas, conseqüentemente, α 6= β . Pelo Teorema 4, segue-se que α e β são paralelos. (Unicidade) Sejam α 0 e β 0 planos paralelos tais que r α 0 e s β 0 . Devemos mostrar que α 0 = α e β 0 = β . Temos: r é paralela a β 0 , pois r α 0 e α 0 //β 0 . Pelo Teorema 1, segue-se que a reta paralela a r passando por B β 0 está contida em β 0 . Esta reta é r 0 . Assim, β 0 é o plano determinado pelas retas concorrentes r 0 e s. Portanto, β 0 = β . Posto que α e α 0 são planos paralelos a β e passam pelo ponto A (pois contêm a reta r ), decorre que α 0 = α, de acordo com o Teorema 5. ¥

Def. 11 Denimos a distância entre duas retas reversas como sendo a distância entre os planos paralelos referidos no teorema anterior.

4. Ângulos

Sejam r e s retas. Já é conhecida a denição do ângulo entre r e s caso elas sejam coplanares. Vamos rever. Se elas são coincidentes ou paralelas dizemos que o ângulo entre elas é zero. Se são concorrentes, elas formam dois pares de ângulos opostos pelo vértice (que têm mesma medida) sendo que dois desses ângulos não opostos pelo vértice são suplementares. Neste caso, o ângulo entre elas é, por denição, o menor dos quatro ângulos. A novidade ocorre quando as retas r e s são reversas. Vejamos como se dene o ângulo entre elas.

Def. 12 Sejam A r e B s pontos quaisquer, r 0 a reta paralela a r passando por B e s 0 a reta paralela a s passando por A.

A r s B
A
r
s
B

r’

s’

Pelo Teorema 8, (r, s 0 ) = (s, r 0 ). Este será, por denição, o ângulo entre as retas r e s (o qual independe da escolha dos pontos A e B).

Def. 13 Diremos que duas retas são ortogonais se o ângulo entre elas é de 90 .

Vamos agora denir ângulo entre dois planos.

14

1.4 Ângulos

Def. 14 Se dois planos são coincidentes ou paralelos dizemos que o ângulo entre eles é zero. Suponhamos que dois planos α e β são concorrentes. Seja t = αβ . Sejam A, B t, distintos, r e r 0 as perpendiculares a t em α passando, respectivamente, por A e B, e, s e s 0 as perpendiculares a t em β passando, respectivamente, por A e B.

s’ β s r’ B α t A r
s’
β
s
r’
B
α
t
A
r

Assim, temos r e s, e, r 0 e s 0 pares de retas concorrentes tais que r//r 0 e s//s 0 . Pelo Teorema 8, (r, s) = (r 0 , s 0 ). Este será, por denição, o ângulo entre os planos α e β (o qual independe da escolha dos pontos A e B).

Def. 15

Diremos que dois planos são perpendiculares se o ângulo entre eles mede 90 .

Def. 16 Chama-se diedro ou ângulo diedral a reunião de dois semi-planos com mesma origem. Os semi-planos são chamados de faces do diedro e a origem comum chama-se aresta.

Iremos agora denir a medida de um ângulo diedral.

Def. 17 Se as faces de um ângulo diedral são semi-planos coincidentes ou opostos a medida do ângulo diedral é, por denição, respectivamente, zero ou 180 . Suponhamos que os planos que contêm as faces são concorrentes.

F E B C A D
F
E B
C
A
D

Sejam −→ A e B −→ dois pontos distintos pertencentes à aresta. A partir de A tracemos as semi- retas AD e −→ AE perpendiculares −→ à aresta, uma em cada face e −→ a partir de B tracemos as semi-retas BC e BF −→ também −→ perpendiculares à aresta, sendo BC contida na −→ mesma face em que se encontra AD e BF contida na mesma face em que se encontra AE, tais que BC = AD e BF = AE. Desse modo, ABCD e ABFE são paralelogramos, o que implica

15

1.4 Ângulos

que CDEF é também um paralelogramo, donde, ADE BCF (L.L.L.). Assim sendo,

b

b

D AE C BF . Deniremos a medida do ângulo diedral, nesse caso, como sendo a medida

b

de D AE que independe do ponto escolhido sobre a aresta.

Def. 18 Todo plano α reparte o espaço em três subconjuntos: o próprio plano, o subcon- junto dos pontos que cam a um mesmo lado do plano e o subconjunto dos pontos que cam no outro lado. Cada um desses dois últimos subconjuntos chama-se semi-espaço aberto determinado por α e a união do plano com um semi-espaço aberto chama-se semi-espaço fechado determinado por α ou, simplesmente, semi-espaço.

Assim, um plano determina dois semi-espaços que chamaremos de semi-espaços opos- tos em relação a α. Dados dois pontos A e B distintos e não pertencentes a α , então A e B se situam

num mesmo semi-espaço determinado por α AB α = .

B

A α
A
α

Def. 19 Um conjunto S , subconjunto do espaço, chama-se convexo se goza da seguinte

propriedade: dados A, B S , distintos, então AB S .

Todo semi-espaço é um conjunto convexo. Interseção de conjuntos convexos é um conjunto convexo.

Considere um ângulo diedral de aresta r e cujas faces α e β não são coplanares. Sejam E e F, respectivamente, o semi-espaço determinado por α contendo β e o semi- espaço determinado por β contendo α. E F é um conjunto convexo por ser interseção de dois conjuntos convexos, o qual será chamado de região convexa determinada pelo diedro.

α r β
α
r β

Def. 20 (Bissetor de um diedro) Chama-se bissetor de um ângulo diedral de aresta r e cujas faces α e β não são coplanares o semi-plano de origem r, contido na região convexa determinada pelo diedro, que o divide em dois ângulos diedrais com mesma medida.

Precisamos mostrar que todo diedro, cujas faces não são coplanares, tem um único

Sejam r a aresta e α e β as faces de um tal ângulo

bissetor. É o que faremos agora.

16

1.4 Ângulos

diedral. −→ Seja A r um ponto qualquer, AB −→ ⊂ ←→ α e AC −→ ←→ ⊂ β, perpendiculares a r. Seja

AD a bissetriz do ângulo B AC. Desde que r AB e r AC , então r é perpendicular ao plano determinado por A, B e C, logo, r AD −→ . Seja γ o plano determinado −→ por r e AD. −→

Assim, o semi-plano contido em γ determinado por r contendo AD é bissetor do diedro.

b

B α γ D A C β r
B
α γ
D
A
C
β
r

b

A unicidade segue-se da unicidade da bissetriz de um ângulo B AC .

demonstração deixamos a cargo do leitor.

Os detalhes da

Def. 21 Chama-se triedro a reunião de três ângulos não rasos, com mesmo vértice, contidos em planos distintos, tais que a interseção de dois quaisquer é um lado comum. O vértice comum aos três ângulos chama-se vértice do triedro; cada lado comum denomina-se aresta e cada ângulo chama-se face.

lado comum denomina-se aresta e cada ângulo chama-se face. Um triedro é denominado tri-retângulo se os

Um triedro é denominado tri-retângulo se os planos que contêm as faces são mutuamente perpendiculares.

TEOREMA 14 Sejam r uma reta que fura um plano π num ponto P, A r {P } e A 0 o pé da perpendicular a π passando em A. Então, r é perpendicular a π A 0 = P.

Prova. () Temos: r e AA ←→ são perpendiculares a π e passam no ponto A / π . Pela unicidade do Teorema 12, segue-se que r = AA ←→ . Desde que P, A 0 r π e r fura π, decorre que A 0 = P. () Temos: r = ←→ AP = ←→ AA 0 . Sendo AA π , segue-se que r π . ¥

0

←→

0

0

Def. 22 Dados um ponto A e um plano π , o pé da perpendicular a π passando por A chama-se projeção ortogonal de A em π ou, simplesmente, projeção de A em π .

Observe que a projeção de A em π só é igual a A se A π .

TEOREMA 15 Seja r uma reta não perpendicular a um plano π . Sejam A, B, C r , distintos, e A 0 , B 0 e C 0 as projeções, respectivamente, de A, B e C em π . Então, A 0 , B 0

17

1.5 Exercícios

e C 0 são distintos e colineares.

r B C A B r A C’ A’ B’ C’ A’ B’ π π
r
B
C A
B
r
A
C’
A’
B’
C’
A’
B’
π
π
C

Prova. Podemos supor que r 6π. Assim, dois dentre os pontos A, B e C não ←→ pertencem ←→ a π . Digamos, A ←→ e B. Se ←→ A 0 = B 0 ←→ , pela unicidade do Teorema 10, decorre que AA 0 = BB 0 . Assim sendo, AA 0 = BB 0 = AB = r ←→ e, portanto, ←−→ r é perpendicular a π,

o que é uma contradição. Logo, A 0 6= B 0 . Note que AA

Teorema 11, AA ←→ 0 // BB ←→ . Seja α o plano determinado por AA ←→ 0 e BB ←→ . Temos que α e π são concorrentes, pois A 0 , B 0 π α e A α π. Mais precisamente, A ←−→ B 0 = π α. Quanto a C, há duas possibilidades: C π ou C / π. Se C π, então C = C 0 e, pelo Teorema 14,

C 0 6= A 0 e C 0 6= B 0 , já que r não é perpendicular a π . Desde que C 0 π α (pois r α),

segue-se que C 0 ,

não pertencem a π . Usando ←→ o mesmo ←→ raciocínio empregado no início dessa demonstração, ←→

e

chegaremos que C 0 6= A 0 ,

CC ←→ 0 com o plano π é A ←−→ C 0 . Entretanto, os planos α e β têm ←−→ em comum a reta r e o ponto

= πα = πβ = A C 0 e, por conseguinte, A 0 , B 0

e C 0 são colineares. Para encerrar, temos também que C 0 6= B 0 , pois do contrário r seria

perpendicular a π . ¥

A 0 / r , logo, são iguais, donde,

0

6= BB e, por conseguinte, pelo

0

0

0

0

A 0 e B 0 são colineares.

0

Se C / π, temos, em particular, que A e C

AA 0 // CC 0 e a interseção do plano β determinado por AA

A

0 B 0

0

0

Seja r uma reta não perpendicular a um plano π. Sejam A, B r , distintos, e A 0 e B 0 as projeções de A e B em π . Pelo Teorema 15, A 0 6= B 0 . Seja r 0 = A ←−→ B 0 . Seja C r um ponto qualquer. Pelo Teorema 15, podemos concluir que a projeção de C em π, C 0 , pertence a r 0 . Em outras palavras, as projeções dos pontos de r em π são colineares. A reta r 0 chama-se a projeção ortogonal de r em π ou, simplesmente, a projeção de r em π . Se r é perpendicular a π, então todos os pontos de r, conforme o Teorema 14, se projetam no pé da perpendicular de r em π. Neste caso, diremos que o pé da perpendicular de r em π é a projeção de r em π .

0

Def. 23 Denimos o ângulo entre uma reta r e um plano π como sendo 90 se r é perpendicular a π e se r não é perpendicular a π como sendo o ângulo que r faz com sua projeção sobre π .

5. Exercícios

1. Prove as armações abaixo.