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Lev Manovich e a lógica digital: Apontamentos sobre

A linguagem da nova mídia


Breno Bitarello, André Braz∗
e Jorge Lucio de Campos†

“O conhecimento não tem nenhuma luz O pesquisador russo apresenta, no início,


senão a que brilha sobre o mundo a partir da uma breve autobiografia que auxilia na com-
redenção”. preensão da pesquisa que resultou no livro,
e é seguida por uma apresentação do filme
T. W. Adorno Man with a movie Camera, de Dziga Vertov
1 (1929) que, por sua vez, serve como um guia
para a compreensão e ilustração das pecu-
Desde que foi publicado pela norte- liaridades dos novos meios. O filme é uti-
americana MIT Press (2001), o livro de lizado como o modelo estrutural das con-
Lev Manovich (n. 1960), The language venções destes últimos. Entretanto, com o
of new media (“A linguagem da nova mí- intuito de facilitar a compreensão, por parte
dia”) tem favorecido e muito uma reflexão do leitor, da abrangência da proposta, ou-
mais madura e rigorosa acerca da recente tros exemplos são apresentados no decorrer
eclosão da tecnologia digital. Trata-se de da exposição.
uma análise das estruturas inerentes às novas Manovich estruturou o livro de modo que
mídias derivadas de componentes da infor- cada capítulo acaba se tornando o pressu-
mática numa comparação com as linguagens posto do que o sucede. No primeiro – inti-
das tradicionais, sendo um de seus méritos tulado What is new media? (“O que é a nova
principais destacar como o surgimento das mídia?”) – delimita algumas questões bási-
primeiras teria implicado numa reconfigu- cas referentes às novas mídias e examina as
ração das propriedades das já existentes. propriedades dos dados de computador.

Breno Bitarello e André Braz – Alunos do Pro- No segundo – intitulado The interface
grama de Pós-graduação (Mestrado) em Design da (“A interface”) – através de uma abordagem
Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI) da histórica e de comparações com o cinema,
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). discorre sobre os interfaceamentos das no-

Jorge Lucio de Campos – Pós-Doutor em Co-
municação e Cultura (História dos Sistemas de
vas mídias e sua linguagem com o intuito
Pensamento) pela Universidade Federal do Rio de de destacar os esquemas de organização da
Janeiro (ECO/UFRJ). Professor da Graduação em De- informação e o seu papel na sociedade a-
senho Industrial e do Programa de Pós-graduação tual. Para ele, a interação entre o (ser) hu-
(Mestrado) em Design da ESDI/UERJ.
2 Breno Bitarello, André Braz e Jorge Lucio de Campos

mano e o computador (IHC) e entre o cinema 2


e a palavra impressa possuem suas próprias
gramáticas de ação e uma organização em Em 1975, apesar da ambição de se tornar
hierarquias específicas que dependem de in- pintor, Manovich freqüentou a faculdade de
terfaces com propriedades físicas específi- matemática onde estudou cálculo e progra-
cas que atuam e como um código que car- mação. Durante os dois anos de duração
rega mensagens culturais em diversas mí- do curso, as aulas eram ministradas com
dias, determinando, em grande parte, como o auxílio do quadro-negro, sendo os códi-
o usuário as pensa e com elas se relaciona. gos dos programas copiados pelos alunos em
No terceiro – intitulado The operations seus cadernos. No fim dos dois anos, iam a
(“As operações”) – trata de questões refe- um centro de processamento de dados para
rentes à montagem das novas mídias e aos testar os programas desenvolvidos que, en-
softwares de aplicação cuja atuação permite tretanto, muitas vezes não funcionavam, de-
ao usuário a criação de objetos de mídia ou vido à falta de acesso, no decorrer do período
a modificação das existentes. Estas questões de aprendizado, a computadores.
são pensadas em termos culturais, em con- Além das de matemática e de progra-
tato com o indivíduo e, ainda, num diálogo mação, ele também teve aulas de arte e
com o cinema. arquitetura. Em 1981, foi para os Es-
No quarto – intitulado The illusions (“As tados Unidos onde concluiu um mestrado
ilusões”) – aborda a questão da ilusão de em psicologia experimental (1988). Em
realidade possibilitada pelas novas tecnolo- sua pesquisa de doutoramento, intitulada
gias, ou seja, como os seus objetos (filmes The engineering of vision from construtivism
e games, por exemplo) se confundem com to computers (“A engenharia da visão do
objetos reais, e investiga a lógica das mídias construtivismo aos computadores”) e de-
geradas por computador. senvolvida na Universidade de Rochester
O quinto – intitulado The forms (“As for- (1993), estudou a origem das mídias com-
mas”) – apresenta questões referentes às for- putacionais e sua relação com a arte de
mas das mídias de computador, contrapondo vanguarda praticada na década de vinte.
dois métodos de organização de dados e da Na ocasião, apresentou seus trabalhos em
experiência humana do mundo, a saber: (i) diversos festivais e instituições como no
a base de dados (usada para arquivar qual- Chelsea Art Museum (Nova York), no fin-
quer tipo de dado); e (ii) o espaço 3D virtual landês Zentrum für Kunst und Medientech-
e interativo (construído em computadores, nologie (Karlsruhe), no The Walker Art Cen-
games e animações). ter (Minneapolis) e no Museum of Con-
No sexto – intitulado What is cinema? (“O temporary Art Kiasma (Helsinki). Além
que é cinema?”) – reflete, mais a fundo, so- disso, recebeu prêmios como o Guggenheim
bre as relações entre o cinema e as novas mí- Fellowship e o Digital Cultures Fellowship
dias, com foco na identidade de uma imagem (University of California, Santa Barbara) e
criada por computador, e amplia a investi- lecionou como professor visitante em diver-
gação para as imagens em movimento. sas instituições de referência como o Cali-
fornia Institute of the Arts, a Universidade

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de Artes e Design (Helsinki) e o Centro de nova mídia, durante sua primeira


Artes ( Hong Kong). década, antes que ela adormeça na
O fato de Manovich possuir uma sólida invisibilidade.1
expertise na área de programação é essen-
cial para a compreensão da trajetória de sua Para construir o arcabouço teórico do
pesquisa e dos resultados dela provenientes. desenvolvimento das novas mídias, o
A união em sua formação de conhecimen- pesquisador russo levanta diversas questões
tos técnicos e teóricos potencializa bastante exploradas no decorrer do livro. Sua re-
a utilização e a compreensão das ferramen- flexão sobre algumas das propriedades a elas
tas possibilitadas pelo advento do computa- inerentes se baseia, fundamentalmente, nas
dor no contexto e na relação entre o homem, seguintes:
a máquina e os meios de informação e comu-
nicação. i) como a revolução possibilitada pela tec-
Como foi dito, em The language of new nologia do computador implicaria na
media ele esquadrinha a emergência das tec- emergência de novas formas de cultura?
nologias que possibilitaram o desenvolvi-
ii) até que ponto as novas mídias depen-
mento de novas mídias que, por sua vez, im-
deriam das que as antecederam, em ter-
plicam numa reformulação de categorias e
mos culturais e de linguagem?
modelos de análise existentes. Trata-se, na
verdade, de uma tentativa de mapeamento iii) como as propriedades das imagens
genealógico destas, que também busca di- artísticas e em movimento poderiam ser
mensionar suas possibilidades de desdobra- alteradas por elas?
mento futuro. As tradicionais são analisadas
sob uma perspectiva histórica enquanto que iv) como elas incorporariam o espectador?
os desdobramentos que culminaram na con-
v) como representariam o espaço e o
cepção das novas aparecem vinculados com
tempo, ou seja, como atuariam como
o uso do computador tanto em termos de sua
objetos in progress? e,
capacidade produtiva quanto de sua atuação
enquanto mediador da cultura. vi) em suma, quais seriam os seus desdo-
Segundo Manovich: bramentos estéticos e técnicos?
cada estágio na história das mídias Para melhor abordar tais questões, ele se
por computador apresenta suas baseia na consideração de objetos conce-
próprias oportunidades estéticas, bidos ao longo da história das mídias – fo-
bem como sua própria projeção do tografias, vídeos, obras de arte, filmes, etc –
futuro: em resumo, seu próprio que, como uma espécie de lente conceitual,
“paradigma de pesquisa”. Em um viabilizam a ampliação analítica de seus ar-
próximo estágio, estes paradigmas gumentos. Atuando como uma mídia-chave,
serão modificados ou mesmo aban- o cinema é destacado, sendo as propriedades,
donados. Neste livro, quis regis-
1
trar o “paradigma de pesquisa” da MANOVICH, L. The language of new media.

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4 Breno Bitarello, André Braz e Jorge Lucio de Campos

a lógica e a linguagem das novas mídias, em uma lógica semelhante à de produção


regra, avaliadas com base nas propriedades, sob demanda em que o próprio indi-
na lógica e na linguagem cinematográficas. víduo determina as características das
suas mídias;
3
v) transcodificação – através do computa-
Para facilitar a compreensão da lógica dor, as mídias são transformadas em da-
das novas mídias, Manovich destaca cinco dos de modo a possuírem uma estrutura
princípios seus não definitivos: própria. Elas seguem as convenções
estabelecidas pela organização de da-
i) representação numérica – as novas mí- dos dos computadores e podem ser uti-
dias são criadas por computadores ou lizadas em diversos formatos.
por fontes a elas análogas. Logo são
compostas por códigos digitais que po- Para ele, o modo como o computador
dem ser quantificados (representações modela o mundo possibilita que o indiví-
numéricas) e programados; duo nele possa interferir assim como nas o-
perações implícitas aos seus programas. No
ii) modularidade – este princípio pode ser contexto do que pode se chamado de ontolo-
conhecido como a “estrutura fractal das gia, epistemologia e pragmatismo computa-
novas mídias”. Como os fractais, estas cionais, cada um estabeleceria a sua própria
possuem a mesma estrutura modular, estratégia de gramática e organização. Vale,
porém em escalas diferentes. Mesmo contudo, lembrar que muitos dos princípios
organizadas de modo a formar um todo em que ele se assenta não são únicos, po-
maior,2 as partes menores são indepen- dendo ser encontrados em outras mídias o
dentes e não perdem sua autonomia que facilita a utilização e adaptação do in-
como objetos; divíduo à “nova linguagem”. Sabe-se que os
objetos não são montados do zero e sim cria-
iii) automação – os códigos numéricos, os
dos a partir de partes prontas.
algoritmos e a característica modular da
A possibilidade de o usuário se apro-
programação possibilitam a automação
priar de partes menores, com o intuito de
de diversas operações nas novas mídias.
compor um todo maior, é potencializada
Deste modo, parte da intencionalidade
pelo fato de muitas mídias possuírem menus
humana pode ser removida do processo
pré-definidos para uma customização. Em
criativo;
games, por exemplo, ele pode realizar al-
iv) variabilidade – um número indetermi- gumas baseado em opções de alteração pré-
nado de mídias pode ser criado a par- estabelecidas. Deste modo, o caráter pessoal
tir dos mesmos dados. Trata-se de do indivíduo é ressaltado e sua relação com
2
a mídia reforçada.
Um bom exemplo é o da World Wide Web que é
composta por diversas páginas que são compostas por Questões referentes às propriedades e à
elementos de mídia separados, por sua vez, compos- definição das novas mídias também foram
tos por partes menores e assim por diante. levantadas por Manovich em “Novas mídias

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como tecnologia e idéia: dez definições”3 antes da computação, era execu-


ensaio no qual ele afirma que “as novas mí- tado manualmente. (Naturalmente,
dias se concentram na cultura e na com- como a arte sempre envolveu al-
putação”, isto é, que se trata de objetos com guma tecnologia – mesmo simples
um impacto cultural, mas que utilizam a ló- corno um estilo de fazer marcas
gica computacional para a sua distribuição e na pedra – o que quero dizer com
exposição. "manualmente"é que um humano
Ali ele reflete sobre as características das teve de percorrer sistematicamente
novas mídias, ressaltando a dificuldade de todos os passos de um algoritmo,
lhes dar uma definição-estanque, uma vez mesmo que assistido por algumas
que o que é assim denominado se encontra ferramentas de fazer imagens.)
estreitamente vinculado com a dinâmica dos
acontecimentos tecnológicos. Ao diferenciá- Este é um ponto-chave de sua obra, ou
las das tradicionais, afirma que “estamos seja, o estabelecimento de uma ponte mul-
nos movendo da mídia para o software”, de tidisciplinar entre a arte, a engenharia e a
modo que computação que visa possibilitar o desen-
volvimento e a compreensão das novas mí-
as novas mídias podem ser com- dias. O desenvolvimento de algumas cuja
preendidas como o mix de anti- lógica estrutural adviria das artes, do de-
gas convenções culturais de re- sign e das engenharias requer a existência
presentação, acesso e manipulação de capacidades cognitivas diferentes das uti-
de dados e convenções mais re- lizadas até aqui. O estabelecimento de no-
centes de representação, acesso e vas linguagens, ainda que sejam adaptadas
manipulação de dados. Os "ve- de outras já existentes, igualmente implica
lhos"dados são representações da em novas modalidades de manipulação das
realidade visual e da experiência ferramentas tecnológicas voltadas para a sua
humana, isto é, imagens narrativas concepção.
baseadas em texto e audiovisuais
(...) Os "novos"dados são dados 4
digitais.
Para Andy Clark,4 que sustenta que a
O fato de Manovich pensar na computação
mente não deve se limitar às estruturas cor-
digital e no desenvolvimento das novas mí-
porais humanas, a criação de “nichos cog-
dias como uma aceleração das técnicas ma-
nitivos”, através da estruturação e da ma-
nuais já existentes facilita a compreensão da
terialização de pensamento em linguagem
função de algoritmo existente no software:
(entendendo-se por linguagem, a criação de
De maneira similar, por trás de signos) possibilitaria ao homem, ainda que
muitas outras técnicas das no- por meios não óbvios, a potencialização
vas mídias há um algoritmo que, de suas capacidades de adaptação ao meio.
3 4
MANOVICH, L. “Novas mídias como tecnolo- CLARK, A. “Language, embodiment, and the
gia e idéia: Dez definições”. cognitive niche”.

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6 Breno Bitarello, André Braz e Jorge Lucio de Campos

Desta forma, a emergência sígnica num pro- tato com as estruturas inerentes a estas mí-
cesso comunicativo poderia ser, perfeita- dias – assim como com os diversos níveis
mente, considerada uma extensão cognitiva. nos quais o saber por trás do design destes
A habilidade de se valer de materiais não- objetos se articula – a atuação do designer,
biológicos, para além dos limites orgânicos, e até mesmo do indivíduo comum, é poten-
com o propósito de potencializar a relação cializada no que diz respeito ao desenvolvi-
entre o sujeito e o ambiente nos tornaria, em mento de novas mídias.
suas palavras, “ciborgues inatos” (natural- Por sua vez, a manipulação das ferra-
born cyborgs).5 mentas tecnológicas e a compreensão das
Por conseguinte, ao manipular objetos – suas estruturas lógicas requer uma melhor
e, com estes, signos para o desenvolvimento preparação teórico-prática por parte do indi-
de linguagens – o homem tende a esta- víduo. Num contexto em que a tecnologia
belecer uma contínua modificação de seus nos oferece um nível cada mais surpreen-
padrões de interação, comunicação e in- dente de interatividade, o desenvolvimento
serção. O que, realmente, importa é o campo das que vem sendo aplicadas na construção
das inter-relações e interconexões estabele- de computadores sinaliza aos designers com
cido em tal hibridização em que, num cons- métodos de experimentação pouco conven-
tante processo de adaptação, o homem in- cionais que, em seus projetos,7 direcionam
teragiria com os seus semelhantes, o meio e a pesquisa e a resolução de problemas com-
os artefatos, num contínuo processo de re- plexos para rotas inéditas de reflexão.
significação.
O desenvolvimento de novas tecnologias
possibilita a modificação do diálogo do in-
Referências bibliográficas
divíduo com tudo o que o cerca, tornando-
se necessário que este processo de cons-
tante mutação seja analisado e explorado, de CLARK, A. “Language, embodiment, and
modo a ampliar a compreensão e a interação the cognitive niche”. In: Trends in Cog-
crítica com os recursos técnico-científicos. nitive Sciences, 2006, v. 10, n. 8.
A manipulação e a aplicação de tecnolo-
gias voltadas para o design das novas mí- CLARK, A. Natural-born cyborgs: Mind,
dias igualmente implicam numa materializa- technologies, and the future of human
ção de signos e numa criação de estruturas intelligence. Oxford: Oxford Univer-
que são os próprios objetos da percepção, sity Press, 2003.
da manipulação e do pensamento.6 A com- GIBSON, R. “The rise of digital multime-
preensão das propriedades atuantes nas no- dia systems". Disponível em: http:
vas mídias, por parte do indivíduo, se faz //epress.lib.uts.edu.au/
essencial para a melhoria do design. Em con- research/bitstream/handle/
5
CLARK, A. Natural - born cyborgs: Mind, tech- 7
OWEN, C. L. “Design education and research
nologies, and the future of human intelligence. for the 21st Century”.
6
CLARK, A. “Language, embodiment, and the
cognitive niche”.

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Lev Manovich e a lógica digital 7

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