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Por que eu sento?

Dr. Paul R. Fleischman


Do original: “Why I sit”

Publicado também em Karma and Chaos, 1999

por Vipassana Publications of America

Primeira Edição Eletrônica em Português, 2009

Publicado por:
Associação Vipassana Brasil

info@br.dhamma.org

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SUMÁRIO
I, 5
II, 10
III, 13
IV, 17
V, 25
VI, 28
VII, 34
VIII, 37
IX, 40
X, 48
XI, 51
XII, 53

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HOJE DE MANHÃ, a primeira coisa que fiz foi sentar durante uma hora. Tenho feito
isso, religiosamente, há nove anos e tenho passado muitas noites, dias e semanas
fazendo a mesma coisa. A palavra “meditar” até há pouco tempo tinha, em inglês,
um significado vago, referindo-se a uma série de atividades, tais como pensamento
profundo prolongado, ou oração, ou contemplação religiosa. Recentemente,
“meditação” adquiriu uma pseudo-especificidade: M.T. – meditação trans-
cendental, relaxamento profundo, ou condicionamento de ondas alfa, com
conotações ligadas a cultos de influência hinduísta tais como mantras, gurus e
estados de consciência alterada “Sentar” é um termo básico, com conotações que
vão da noção de chocadeira ao tédio e à sabedoria, de modo que é um ponto de
partida neutro para uma explanação do motivo pelo qual passei milhares e
milhares de horas “sentando” e por que transformei essa atividade no centro da
minha vida.

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I

EU GOSTARIA DE ME CONHECER. É impressionante que, enquanto normalmente


passamos a maior parte da nossa vida estudando, contemplando, observando e
manipulando o mundo ao nosso redor, seja tão raro se voltar o olhar estruturado de
uma mente pensante para dentro de si. Essa evasão deve indicar alguma ansiedade,
relutância ou medo. Isso me deixa ainda mais curioso. A maior parte de nossas
vidas transcorre em funções orientadas para fora, que nos distraem da auto-
observação. Esse impulso incansável, obsessivo, persiste independentemente das
necessidades de sobrevivência, tais como alimentação e calor e, até, prazer. A cada
segundo, nos associamos a visões, sabores, palavras, movimentos ou estímulos

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elétricos, até cairmos mortos. É notável a quantidade de atividades corriqueiras,
desde fumar um cachimbo até contemplar um por-do-sol, atividades que nos
encaminham para, mas, ao final, acabam por evitar, uma atenção concentrada na
realidade de nossa própria vida.

De modo que não é um questionamento intelectual do preceito platônico que me


leva a sentar, mas uma experiência de mim mesmo e de meus co-humanos como
escravos dos estímulos, fundamentalmente fora de controle, vivos apenas em
reação. Quero saber, simplesmente, observar, essa pessoa viva assim como é, não
apenas como parece ser enquanto corre desabalado de evento a evento. Claro, isso
será, sem dúvida, de ajuda para mim como psiquiatra, mas minha motivação é mais
fundamental, pessoal e existencial.

Estou interessado na minha mente e no meu corpo. Antes de ter cultivado o hábito
de sentar, pensava em mim e usava meu corpo como uma ferramenta no mundo,
para segurar uma caneta ou cortar lenha, mas nunca tinha observado meu corpo de

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modo sistemático, rigoroso - que sensações provoca Não só com uma olhadela
tímida, fugidia, mas momento após momento durante horas e dias seguidos. Tão
pouco tinha me comprometido a observar a influência recíproca da mente e do
corpo em estados de exaustão e de repouso, de fome, de dor, relaxamento,
excitação, letargia ou concentração. Minha busca de conhecimento não é só
objetiva ou científica. Esta mente-e-corpo é o receptáculo de minha vida. Quero
sorver seu néctar e, se necessário, seus resíduos, mas quero conhecê-la com a
mesma imersão orgânica que leva um ganso-da-neve a voar dez mil milhas a cada
inverno e primavera.

Parece-me que as forças da criação, as leis da natureza, de onde surgiram essa


mente e esse corpo, devem estar operando em mim, sem cessar, agora e a cada vez
que faço um esforço para observá-las. A atividade de criação precisa ser a causa
original e continuada da minha vida. Gostaria de conhecer essas leis, essas forças,
que são quem me cria. E gostaria de observar, até mesmo de participar, da criação
contínua.

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Newton criou a ciência moderna com base na premissa de que existe um mundo
contínuo, uma ordem ininterrupta, um conjunto de leis que regem tanto a terra
quanto o céu; então, de acordo com essa grande tradição, e, também, de acordo com
as antigas religiões da Índia, eu presumo que a física das estrelas seja a mesma
física do meu corpo. As leis da química e da biologia, cujos predicados se baseiam
nas leis da física são, também, uniformes em toda a natureza. Como essas leis
operam continuamente, sem reservas nem refúgio, mas de modo uniforme e ubíquo,
deduzo que leis eternas, ininterruptas, operam em mim, me criaram e me criam.
Logo, minha vida é uma expressão dessas leis, continuamente conectada, pelo
processo de causa e efeito, a tudo aquilo que a antecedeu, a tudo aquilo que a segue,
a tudo aquilo com que coexiste; e, como tenho consciência e sou capaz de aprender,
um estudo sistemático e uma consciência dos caminhos da criação estão ao meu
alcance, com a condição de viver atento a esse campo.

Ainda que eu seja, com frequência, incapaz de observar de fato os planos mais
básicos da realidade, pelo menos os fenômenos mentais e físicos que me

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bombardeiam têm por predicado as leis da natureza e devem constituir meu
laboratório para seu estudo. Quero cantar como um pássaro, como um ser humano.
Quero crescer e apodrecer como uma árvore, como um homem. Quero sentar com
minha mente e meu corpo enquanto trazem à tona e descortinam, à minha frente e
dentro de mim, o material humano composto e ordenado pela matéria e pelas leis
que regem galáxias e passarinhos.

Porque a harmonia no meu interior é, simultaneamente, tão incrível e doce e


avassaladora que amo o seu sabor e, contudo, mal consigo me obrigar a contemplá-
la, quero sentar com a imensa determinação de que preciso varrer longe a poeira da
distração, o resíduo das preocupações menores. Sentar é conhecer a mim mesmo,
como uma manifestação dos universais da vida, em vias de desabrochar. Um
projeto fascinante, interminável. Um projeto que espero conseguir levar avante até
mesmo quando encarar o funil da morte Para mim, este conhecer é uma grande
força, um grande prazer.

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II

EU SENTO DEVIDO A, PARA, OU COM, apreciação pela vida diária. Os grandes poetas
cantam o omnipresente cotidiano prenhe de revelação – mas eu sei com que
facilidade e assiduidade minha própria vida cede lugar à distração, à irritação, à
visão restrita a uma única perspectiva. Não quero perder minha vida como perdi,
certa vez, um avião no aeroporto de La Guardia. Pode ser irônico que, para
simplesmente me desvencilhar de fantasias e preocupações, precise de uma técnica,
uma prática, uma disciplina, mas preciso; e me curvo a essa ironia fazendo aquilo
que for preciso para livrar minha mente de preocupações efêmeras, despertar para
novas auroras, ver a criança em mim se revelar através das marés de suas trans-
formações.

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Pode parecer contraditório ser preciso trabalhar tão duro para estar em paz comigo
mesmo, mas preciso; e estou cada vez mais convencido, aprendendo enquanto sento
e vivo e sento e vivo, que “estar em paz” não é um estado de espírito mas um estado
de mente e de corpo. No âmago da minha vida reside um ingerir receptivo. Sou
inundado, sem cessar, pela simples beleza das coisas. Vivo para essa absorção e
estruturo minha vida em torno disso. Mesmo assim, me escapa. Posso tentar forçar
meu retorno fazendo viagens dramáticas – para a Índia, ou para os lagos no alto das
Montanhas Rochosas – mas esse tipo de beleza, de cortar a respiração, é apenas um
interlúdio, um sinal de pontuação. Evoca aquilo que pretendia enfatizar em minha
vida mas, como todo ponto de exclamação, tem utilidade limitada.

Uma unidade de comunicação clara e direta – a sentença de morte, a sentença do


amor – termina com um mero ponto final Essa beleza afirmativa lembra mais
varrer, com o olhar, o céu sobre os cortiços de Montreal para ver a lua, vestindo
Vênus de colar, no breu das quatro da madrugada. Não é aquilo que procuro, nem
aquilo que construo, mas aquilo que descubro quando os muros desmoronam.

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Caminho sozinho na floresta de outono, subindo e descendo os montes e colinas de
gneiss e xisto do Vermont, e fico confuso, sem saber se aquele tambor que pulsa
com tanta intensidade é o rufar das asas de aves selvagens ou o meu próprio
coração, extenuado pela recente subida. Não o que me excita, move ou informa,
mas o tambor do reconhecimento. O diapasão de minha vida vibra em resposta ao
mundo vivo.

Este receber – como um pai ou mãe que aceita de volta uma bolacha mordida –
exige, para mim, uma moldura, uma matriz no meu corpo que, embora devesse ser
fácil, eu simplesmente não possuo. Este conhecer exige uma preparação corporal.
Sento, para abrir os meus poros, tanto os de minha pele quanto os de minha mente,
à vida que me rodeia, por dentro e por fora, com mais frequência, pelo menos, se
não o tempo inteiro, cada vez que tocar à minha porta. Sento, para exercitar a
forma de ser capaz de apreciar, receptivo e pacífico, o banal e o inevitável em toda
a sua plenitude. Por exemplo, as cansadas tábuas do chão, no quarto de dormir
torto onde sou um marido. Ou meu filho de dois anos, se esforçando para carregar
uma tora de cada vez, para me ajudar a empilhar lenha na neve nova de janeiro.

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III

SINTO A NECESSIDADE DE UM LEME, uma quilha, uma técnica, um método, um jeito de


manter o rumo. Preciso, sem parar, de quantidades crescentes de autocontrole
(embora não de constrição, amortecimento nem inibição). Acredito que o melhor da
vida humana seja vivida em uma laje estreita, como uma ponte sobre um rio no
Nepal ou como uma trilha no Grande Canyon, entre dois precipícios. De um lado
está o desejo, do outro, o medo. Talvez por causa do meu trabalho como psiquiatra,
tantas vezes com pessoas essencialmente normais que, apesar de tudo, são
rodopiadas aqui e ali por forças internas, como se fossem piões, sou tão sensível a

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essas falhas, capazes de provocar abalos sísmicos em vidas aparentemente sólidas.
Mas a minha própria vida contém espaço suficiente para essas observações.

Sentar é, entre outras coisas, a prática do autocontrole. Enquanto sentamos não nos
levantamos, nem nos movemos, nem ganhamos aquele dinheiro, nem passamos
naquele teste, nem somos reconfortados por aquele telefonema. Mas treinamento
militar, ou lições de violino, ou escola de medicina, também são caminhos para o
autocontrole, nesse sentido ordenador e restritivo. Sentar é autocontrole com base
em valores específicos. A observação substitui toda a ação. De que serve empenhar
nossa vida nessa prática só para passar o tempo com fantasias eróticas ou com
anseios ávidos por promoção ou reconhecimento? Claro, esses acontecem de
qualquer modo. Fazem parte da composição do ser humano. As culturas não teriam
proliferado os ubíquos códigos morais, os Dez Mandamentos, se não fôssemos tão
repletos de dez milhões de impulsos.

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Mas preleções morais, sermões, sempre me pareceram de pouca serventia – talvez,
apenas, devido aos meus cavalos e caramujos selvagens. Preciso de uma lente que
possa ser constantemente utilizada e constantemente renovada para poder enxergar,
para além dos meus anseios, o interior de meus amores, para ver através de minhas
ansiedades o fundo da minha fé. O que é uma sensação fundamental, o âmago de
minha identidade, e o que é um estímulo que será, ao final, descartado? Quais os
personagens que desfilam diante do espelho de minh'alma dia após dia, ano após
ano, e quais os palhaços que roubam o palco por uma só cena?

Uma hora sentado é uma coisa; períodos mais longos, outra. Uma vez por ano,
orientado por um professor, sento durante dez horas, o dia todo. Esse tipo de
prática provoca dor. Enfrentar a dor tornou-se uma parte regular e inevitável da
minha vida. É parte da vida da maioria das pessoas – dos trabalhadores braçais, dos
pobres, dos doentes, dos que padecem de frio, dos infectados, dos famintos do
mundo inteiro. Mas eu não escolhi um masoquismo sentimental, de identificação
com o sofrimento alheio. Estou em busca de um outro lado de mim mesmo.

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Embora, espontaneamente, procure evitar a dor, uma sabedoria mais elevada do que
a reação automática me diz que, nas palavras de Sócrates:

“...a dor e o prazer nunca estão presentes para o homem no mesmo instante, e, no
entanto, aquele que persegue um é compelido a aceitar o outro; seus corpos são dois,
mas são unidos por uma única cabeça” (Phaedo).

Até que ponto levo a sério ser quem eu disse que era? Até que ponto quero me
integrar com esse corpo que grita que precisa ser alimentado, colocado para dormir,
posicionado de uma forma precisa, caso contrário berra de forma insuportável?
Sento porque sei precisar de um autocontrole que não condena, nem pisoteia,
minhas tendências, mas reorganiza o desejo em amor, a dor e o medo em fé.

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IV

DO MODO COMO EU O COMPREENDO, o amor não é uma emoção e sim uma organização
de emoções. Não é um quarto, mas uma casa; não é um pássaro, mas uma ave
migratória. É uma estrutura de emoções, uma meta-emoção. Isso contrasta com o
amor compreendido como um fluxo sentimental de apego ou como sexualidade
romântica. Sentar, tem me ajudado a encontrar o amor, a viver por amor, ou, ao
menos, a viver mais por amor. Tem me ajudado a me tornar vivo como marido,
pai, psiquiatra e cidadão, dentro dos limites do meu caráter e das minhas
capacidades. Soltou e abriu-me, tanto para além da minha posição sentimental
anterior, quanto do meu conhecimento moral racional, além de ter me fornecido

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uma ferramenta, uma prática, uma atividade capaz de expressar amor. Para mim, é
ao mesmo tempo um pé-de-cabra e uma cola forte.

Como escreveu Erik Erikson, é somente a “ambivalência, que torna o amor


significativo – ou possível”. Em outras palavras, é só porque somos, ao mesmo
tempo, separados e unidos, que o amor existe. Se não possuíssemos nem uma
existência individual, nem impulsos pessoais, o mundo seria apenas uma massa sem
forma, homogênea, privada de emoção, incapaz de conhecer, como um dedo no
final de um braço. Porém, se fôssemos irreconciliavelmente separados, haveria
apenas estrelas frias auto-sustentadas coexistindo no espaço morto. Eu entendo que
o amor significa a organização das emoções humanas em aqueles estados
complexos onde separação e combinação, individualidade e imersão, self e
altruísmo, coexistem paradoxalmente. Só um indivíduo pode amar; e, ao mesmo
tempo, só quem tiver deixado de sê-lo pode amar. Sentar, tem me ajudado a
desenvolver ambos esses pólos. Sentar me solta onde fico preso; e onde me
desprendo, e despenco feito um caco, me gruda de volta ao pedaço principal.

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Sentar me empurra até ao limite do meu esforço auto-direcionado; mobiliza minha
direção voluntária, empenhada e, contudo, também estraçalha minhas manobras
auto-protetoras, auto-definidoras e minha simples auto-descrição. Ao mesmo
tempo, constrói e desmantela o meu “eu”. Cada memória, cada esperança, cada
anseio, cada receio me inunda. Já não posso fingir ser um conjunto seleto de
minhas memórias ou traços característicos.

Se observados, sem reagir, todos esses conteúdos psíquicos tornam-se uma parte
aceitável de mim mesmo (pois lá estão, na minha própria mente, bem à minha
frente: e, no entanto, são também fenômenos que integram o mundo, impessoais,
causalmente conectados, objetivos, que se movem sem parar, sem dó nem piedade,
pela tela da minha existência, independentemente do meu esforço, indepen-
dentemente do meu controle, independentemente de mim. Posso ver mais, tolerar
mais, na minha vida interior, ao mesmo tempo que sou menos compelido por essas
forças. Como tempestades e pombas, são personagens da natureza, atravessando
um céu interior. A complexidade psíquica ascende, em espiral, da poeira da auto-

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definição cosmética Ao mesmo tempo, a determinação e a força para suportar, que
preciso reunir para apenas observar, crescem como músculos com o exercício.
Naturalmente, a repetição dessa mistura de tolerância e firmeza extrapola sua fonte
ao sentarmos, afetando nossos relacionamentos

Existem poucas coisas que tenha ouvido de outros – e meu trabalho cotidiano é
ouvir – que não tenha visto dentro de mim quando sento Mas também conheço a
necessidade do treino e de se impor limites Dependência, solidão, sensualidade,
exaustão, fome, petulância, perversão, falta de generosidade, anseios, ego inflado
são meus velhos amigos. Posso saudá-los abertamente e calorosamente em pessoas
próximas, tanto por conhecê-los por dentro (e não posso condená-los sem me
condenar) quanto por estar aprendendo a atrelar e empregar sua energia. De modo a
amar, tento apreender a minha própria complexa realidade enquanto procuro captar
a realidade complexa do outro.

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Conheço minha mulher há doze anos. Já saímos para namorar e para nadar, nos
casamos e brigamos, viajamos, construímos cabanas, compramos casas, demos à
luz e trocamos fraldas juntos; em resumo, atingimos o comum e o ubíquo. Em um
mundo de três bilhões de pessoas, essa produção se nivela com o processo de
alfabetização, e nada teria a ver com o porquê eu sento, mas tem. Até o inevitável é
frágil. Eu, nós, sou e somos protegidos por agradecimentos desprovidos de timidez.
Somos afiados pela lâmina da vida.

Eu sento e a vida se move através de mim, inclusive a minha vida de casado. Essa
esfera também se faz presente perante o testemunhar solitário, acima de qualquer
suspeita, da minha própria existência e seus eternos envolvimentos. Como um
homem casado, sento como se estivesse em um porto seguro, distante do meu
egoísmo medíocre, onde os ventos da minha contrariedade ou da raiva têm tempo
para passar; sento como o receptor de um generoso alastrar de calor que tenho
tempo de saborear; sento como uma abobrinha ou uma abóbora com vida própria,
meio fibrosa e apenas moderadamente doce, mas, mesmo assim, ampla, para ser

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pousada na mesa alheia; sento como um boi que integra uma parelha puxando uma
carroça repleta de cavalinhos de balanço, automóveis e varandas carecendo uma
mão de tinta; sento me conhecendo como um velho doente do futuro que aguarda a
única pessoa que pode, de fato, ouvi-lo, ou, como aquela pessoa do futuro cuja voz
é a única que pode adiar a morte por uma hora a mais, por detrás da cortina de
hospital de outro alguém; sento como um homem comum com desejos comuns e
como um sonhador que, com os tijolos do destino compartilhado, constrói um
sonho em comum; e sento sozinho, de qualquer maneira, com minha própria vida.

Que felicidade ter esta caverna, este santuário, esta frigideira, e este espelho do
sentar, onde forjar, lançar, retirar, tocar, soltar o meu amor e não me perder. Sentar
é o compasso com que navego os mares do amor conjugal. É também o cordão que
estendo para driblar a raposa que ataca o galinheiro. Amar é um anseio profundo e
um trabalho árduo. Não se pode amar sozinho! Há tantas maneiras de receber
ajuda, e muitas maneiras de dar ajuda. Martin Buber diz que homens e mulheres
não podem amar sem um terceiro ponto para formar um triângulo estável: um deus,

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uma tarefa, uma vocação ou um significado para além de suas individualidades
diádicas. E se dois só conhecerem a estrela polar?

Há uma piada nos quadrinhos do Charlie Brown: “Eu amo a humanidade. São só as
pessoas que detesto.” Acredito que o amor seja concreto e abstrato. Se for só uma
sensação amorfa generalizada, não passa de um lugar comum, um anseio, uma
defesa contra o envolvimento verdadeiro. É isso que soa vazio no “Amor” piedoso,
hipócrita, de algumas igrejas e mártires Mas, se o amor só for concreto, imediato,
pessoal, permanece no terreno da posse, do privado, do materialismo, do
narcisismo. Esse é o amor paternalista que se tem pela sua casa, seus carros, sua
família. Meu entendimento é que o amor verdadeiro se abre e se expande nas duas
esferas. Voando nas asas do ideal, varre e carrega consigo todos no caminho.

Eu sento de modo a amar melhor a minha mulher, meus amigos e companheiros,


com quem compartilho nem que seja um só dia de viagem no meu percurso do
desconhecido ao desconhecido. É difícil amar aquela com quem meu destino está

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mais intimamente enredado quando tenho vontade de derrubar os corredores
daquele destino. Mas é fácil amá-la quando adoçamos o chá um do outro. É fácil
sentir amor pelos amigos que encontro nos finais de semana, dedicados à vida em
família e às diversões fora de casa; é difícil deixar nossas vidas, nossa saúde e
nossas finanças se enredarem. Um abraço desse tipo ameaça a segurança privada. E
é mais difícil ainda tentar colocar esse modo de ser acima de todos os demais, e me
arriscar de novo e de novo.

Será que guardo todo o meu dinheiro ou arrisco tudo por um princípio caridoso?
Será que estudo o texto sancionado pelas autoridades ou canto do fundo do meu
coração? Quando sento, o dinheiro de pouco me adianta; a aprovação evapora; mas
o tom das cordas do meu coração, para o bem ou para o mal, é inescapável. Sento
de forma a me atar ao mastro, para melhor ouvir a canção do amor fugaz e
inevitável.

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V

UM BEBÊ PARECE FRÁGIL, mas, se não alimentá-lo ou se o segurar de mau jeito, seus
tímpanos serão forçados a aturar uma fúria terrível! A raiva surge, e integra, o
instinto primário de sobrevivência do organismo. No entanto, quanta preocupação
desperta na vida quotidiana, sem falar nas relações sociais em grande escala!
Talvez o auge da loucura seja sentar, com raiva. De que serviria uma fervura
impotente dessas?

Eu sento para crescer, para ser uma pessoa melhor, para ver raivas triviais surgirem
e desaparecerem, argumentos que tinham para mim grande peso na quinta-feira

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cedo sumirem antes do meio-dia; e ser forçado a reordenar, reestruturar, repensar
minha vida, de modo que, vivendo bem, minha raiva mesquinha seja antecipada-
mente orquestrada e se transforme em flexibilidade, cooperação ou a capacidade de
enxergar outros pontos de vista. Sentar me ajuda a transcender o bebê irritável e
petulante que vive em mim.

Mas isso só resolve a periferia do problema. Não estou mais zangado por causa das
minhas fraldas. Estou zangado porque meus votos e impostos foram usados para
oprimir outras nações; estou zangado porque vou ser avaliado, pelo resto da vida,
por provas de múltipla escolha; estou zangado porque a pesquisa é ignorada e o
dogma utilizado para impor o ponto de vista de uma determinada religião; estou
zangado porque arrasam montanhas para fabricar latas descartáveis. Sento também,
portanto, para expressar minha raiva, e essa forma de expressão é a determinação.
Sento com força, com vontade e, quando a dor aumenta, algo que sinto como feroz.
Sentar me ajuda a atrelar a raiva autêntica

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Venho sentando quinze horas por semana há nove anos e, quando, como
frequentemente ocorre, me perguntam onde encontro o tempo, sei que parte da
certeza do meu objetivo é uma raiva que não permitirá que as colinas arborizadas e
os pastos no alto das montanhas da minha psiquê sejam dizimados pela televisão,
comida não nutritiva, notícias fabricadas, socialização metida a besta, sabedoria
pedante de arquivo ou assembléias para professar lealdade a líderes, estados, deuses
e licenças para censurar. As vozes do rebanho não me afastarão com facilidade da
minha cabana na floresta, de profunda autonomia e de fala honesta, uma vez que
tenho praticado esse tipo de determinação. A raiva da criança é a fagulha da
vontade adulta. Eu posso ser, ao mesmo tempo, fiel a mim mesmo e maduro,
determinado sem ser voluntarioso, ao sentar no espírito da canção de Woody
Guthrie: “Não me pressione, não me pressione, não me pressione tanto assim!”.

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VI

DO MODO COMO A ENTENDO, a prática disciplinada da vida inteira não é exatamente uma
religião mas, por outro lado, não deixa de ser uma religião. Da minha parte, não sou
preso a escrituras, dogma, hierarquias; nunca aceitei limites à minha inteligência
nem à minha autonomia política; nem tenho fugido de realidades desagradáveis
concretizando mito algum. Mas venho me tornando cada vez mais consciente do
papel inextricável da fé na minha prática.

A fé que tenho descoberto em mim nada tem a ver com idéias cegas, irracionais,
sem substância ou voluntaristas. Aceitando o esclarecimento definitivo desses

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termos na língua inglêsa, segundo Paul Tillich, eu definiria essas idéias como
“crenças”. Espero que sentar tenha me ajudado a me libertar das minhas crenças,
mais ainda do que minha educação científica ajudou. E fé tampouco significa
aquilo pelo qual vivo – objetivos, preferências pessoais, compromissos e amores.
Esses são ideais, visões, gostos – muito importantes – mas não são fé. Fé é aquilo
pelo que eu vivo, aquilo que dá poder à minha vida. A bateria, o que bombeia o
coração do meu ser. Não se trata da outra margem, e sim do barco. Não é aquilo
que sei, mas como sei. É o presente, mais do que o passado ou o futuro, e é a
minha reação mais autêntica, total, uma reação visceral mais profunda do que
minhas vísceras. Tillich definiu a fé como a suprema preocupação da pessoa – o
fundamento daquilo que, de fato, levamos a sério. Eu gostaria de descrever a fé,
como a tenho encontrado, como a fome da minha existência.

A fome surge do meu corpo. Precede minha vida mental e psicológica e pode até
provocar sérios estragos nesses campos. Eu não como por causa daquilo em que
acredito ou espero ou desejo ou por causa de alguma coisa prescrita por uma

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autoridade ou pelo que leio. Como porque tenho fome. Meu corpo é um sistema
dinâmico, um metabolismo, um conversor de energia, constantemente incorpo-
rando, reelaborando, remodelando – essa é uma vitalidade intrínseca à vida de
qualquer carvalho, de qualquer cervo ou ser humano. Este ser que sou consome,
reelabora e, a seguir, cria mais vida emocional, espiritual. Não é o que digiro, mas
um processo ordenado dentro de mim, que dá coerência e direção a esse organismo
contínuo, que constitui a fé.

A fé não é algo que possua (i.e. “eu creio!”); é algo que percebo já me ter sido
dado, em que o sentido de “eu” se baseia. Eu a encontro ou recebo não uma vez,
mas intermitentemente e continuamente. Não se trata de um conjunto de
pensamentos e não fornece quaisquer respostas concretas, reduzíveis. Quem sou
eu? O que é essa vida? De onde vem? Para onde vai? Eu não sei. Com relação a
essas importantes questões, não tenho nenhuma crença. No entanto, ainda não
chegou o dia capaz de derrubar este estranho pássaro do seu galho!

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Sento com uma neutralidade apaixonada. Por que? Essa atividade não tem por
finalidade obter respostas com as quais viver minha vida Essa atividade é a minha
vida. Os ossos não servem para pendurar pele e músculos. (Segundo o pensamento
científico e, também, a teleologia – o pensamento dirigido para um objetivo
determinado – não leva a lugar algum. Quem conhece a finalidade do universo?
Então, qual a finalidade de qualquer parte dele?). Eu como, eu leio, eu trabalho, eu
brinco, eu sento. Se não detenho nenhuma grande crença intelectual com que
justificar meu dia, a mim mesmo, a minha vida, a minha hora do jantar, me
alimento assim mesmo! Em geral, com prazer.

Eu não sou nem existencialista, nem marxista, nem anoréxico. A fome é uma ação
espontânea da vida que ocorre em mim. A fome da minha existência também exige
sustento diário. O alimento que ingiro se transforma no meu corpo; o sustento que
ingiro se torna o meu ser. Estar vivo, estar alerta, ser observador, estar em paz
comigo e com todos os demais – vibrando em constante transformação – imóvel:
percebo ser essa a passagem que me sustenta através do mundo incandescente que
faz a mesma coisa.

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Como fato científico, sei estar vivo somente dentro do corpo da vida. Fisicamente,
estou consciente de mim mesmo como o produto de outras vidas – pais, ancestrais.
Respiro o oxigênio produzido pelas plantas para, à medida que inspiro e expiro, ser
um tubo conectado a toda a vida da biosfera, um dígito minúsculo, dependente.
Através da digestão e do processo metabólico, biotransformo as moléculas
orgânicas produzidas por plantas e animais, que denomino comida, em outros
bioquímicos com os quais moldo essa forma chamada meu corpo, que está
constantemente, continuamente sendo remoldado, reformado, como uma nuvem. E
essa forma irá eventualmente cessar sua regeneração e desaparecer, assim como
surgiu, de causas, de forças da natureza.

É fácil, para mim, compreender essa descrição da realidade física, tão óbvia e
científica. Mas minha pessoa, minha realidade psicológica, também é o produto de
causas: coisas que me foram ensinadas, experiências que tive, crenças culturais,
forças sociais. Essa rede ininterrupta de causalidade – física, biológica, psicológica,
cultural – fazendo conexões, do passado ao futuro, e se expandindo pelo con-

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temporâneo, é o oceano em que flutua por um breve momento a bolha da minha
vida. Para uma bolha tão efêmera, a morte só pode ser inevitável. Contudo,
enquanto está presente, posso sentir o quanto esse ser que respira, que pulsa, é vital,
vivo, vibrando em suas trocas com o passado e o futuro, com as pessoas e as coisas
– criador, transformador, conhecedor, nó retesado na rede, mensagem na mente
sináptica da criação.

A fé subjacente à minha prática não reside em minha mente, é o correlato


psicológico da animação. Experimento a fé não como um pensamento, mas como o
humor avassalador que impele esse emergir. Ao sentar, posso saber, assumir,
tornar-me, esta oscilação direta de energia. Retrospectivamente, verbalmente,
chamo a isso de fé. Quando estou entediado, magoado, preguiçoso, distraído,
preocupado, sento mesmo assim, não por acreditar que seja bom, ou que vou para o
céu, ou porque tenha uma força de vontade extraordinária. Minha vida está
expressando sua trajetória. Toda massa é energia. Einstein demonstrou isso. Minha
vida está brilhando e eu sento na luz.

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VII

SENTAR PERMITIU QUE EU ENXERGASSE, obrigou-me a reconhecer, o papel que a morte já


desempenhara, e continua a desempenhar, em minha vida. Toda criatura viva sabe
que a soma total das suas pulsações é limitada. Quando criança, eu me perguntava:
onde estava antes de nascer? Onde estarei depois que morrer? Quanto tempo dura
“sempre” e quando termina? O aluno de história, no segundo grau, sabia que todo
herói morre. Eu via as cores dos impérios irem e virem nos mapas dos livros como
marés (comigo não!). Para onde posso me voltar que a impermanência não seja a
lei? Tento me esconder disso o melhor que posso, por trás da minha juventude (já
enrugando, primeiro em torno aos olhos, e ficando grisalho) e meu seguro de saúde:
mas nenhum esconderijo funciona.

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Todo dia termina com escuridão; as coisas precisam ser feitas hoje ou acabam por
não serem feitas nunca. E, engraçado, em lugar de destruir meu apetite, produzindo
“náusea” (que pode ser mais devido aos pesados molhos franceses do que à
verdadeira filosofia), a pressão do cair da noite me ajuda a valorizar a vida. Não é a
mais universal das observações e dos conselhos humanos? Procuro acertar, com
precisão cada vez maior, a lenha que estou rachando. Escolho cada livro que leio
com precisão e com razão. Ouço o chamado para cuidar de e amar tanto meu filho
quanto as trilhas da floresta que mantenho como a nota pura de um mandato que
ressoa. Sento na aurora do dia e o dia passa. Outro amanhecer, mas a série é
limitada, de modo que juro em minha câmara interna não perder um só dia.

Sentar me concentra no fato psicológico de que a morte é a porta da vida. Nenhum


poder pode me salvar. Porque estou ciente da morte, e assustado. Me esforço para
viver de uma forma não automática e reativa, como um animal, nem de forma
passiva e implorando, como uma criança que finge ter um pai a velar por ela. Mas
escolhendo e decidindo, consciente, aquilo que irá constituir cada momento fugaz

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da minha vida. Sei que o cálice de minhas pétalas contêm uma luminosidade
volátil. Mas ter isso em mente, por sua vez, exige que um escapista comum
reencontre, a cada momento, o limite, o diapasão da apreciação: a morte.

Sento porque saber que vou morrer enriquece e flagela minha vida, de modo que
preciso me esforçar ao máximo para buscar a disciplina e a estabilidade necessárias
para que eu, de fato, a encare. De modo a abraçar a vida, preciso dar a mão à
morte. Para isso, preciso de prática. Cada ato de sentar é um morrer para a atividade
externa, um abrir mão da distração, um cessar da gratificação anticipatória. É a
vida agora, tal como é. Algum dia esse foco austero será de muita, muita utilidade.
Já é.

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VIII

SENTO PARA SER EU MESMO, independentemente dos meus próprios julgamentos ou do


julgamento alheio. Passei muitos anos de minha vida sendo avaliado, sobretudo no
colégio mas, também, como uma extensão disso, entre amigos e na vida social. Por
mais que tentasse me libertar dessa modalidade de vício, fui incapaz de evitar cair
nele. Como tantas vezes ocorre, devido a suas preocupações comigo, meus pais me
pentearam e escovaram com as regras da comparação: eu era bom nisso, ou não era
bom, ou era tão bom, ou era melhor, ou pior, ou o melhor, ou absolutamente
péssimo.

Hoje, vejo que sentar revela o absurdo do juízo comparativo. Minha vida consiste
daquilo que de fato vivo, não das avaliações que pairam sobre ela. Sentar me

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permite passar além daquela segunda mente, que edita, que comenta, e me
arremessar mais fundo rumo à realidade imediata. Progredi, tornando-me uma
toupeira, uma mochila vazia, um menino no dia em que as aulas foram canceladas.
O que há para ser ganho ou perdido quando eu sento? Quem posso derrotar, com
quem posso competir? Somente esse único dia concreto, tudo isso, e somente isso,
chega para mim na bandeja da manhã, sai como um lampejo agora.

Estou aliviado por estar mais à vontade dentro de mim, comigo mesmo. Reclamo
menos. Posso perder discussões, esperanças ou auto-expectativas com mais faci-
lidade e muito menos frequentemente, porque o falar, esperar e fazer já são vitória
suficiente. Sem adereços ou brinquedos ou conforto, sem controle do meio-
ambiente, tenho sentado e observado quem sou quando não havia ninguém nem
nada para me dar pistas. Já ocorreu de sentar, sem pedir nada, sem precisar de nada,
e me sentir pleno. Agora minha espinha e minhas mãos têm um turgor diferente.
Quando me acontece de perder o equilíbrio, posso cair um pouco mais como um
gato do que como uma viga. Quando sento, ninguém – ser amado ou inimigo –
pode me dar aquilo de que careço, nem eliminar aquilo que sou.

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Portanto, à medida que vivo, o dia todo, posso me orientar de modo a me tornar a
pessoa com quem terei de viver quando voltar a sentar. Nenhum comentário alheio
de elogio ou culpa pode mediar a minha própria confrontação com os fatos
observados de quem sou. Não sou tão ruim quanto pensei – e sou pior. Mas estou,
sem sombra de dúvida, em processo de germinação e sou real. É um prazer abrir
mão de ansiar e de revidar e, agora, permitir rusgas. E sento para compartilhar o
companheirismo com outras raízes em fase de germinação. Eu me sinto como uma
folha em uma floresta: específico, pequeno, frágil, sozinho com meu destino e,
contudo, vibrando em conjunto com uma vasta e murmurante multidão.

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IX

SENTAR É UMA RESPOSTA PARA, e uma expressão de, minhas condições sociais e
históricas. Embora pratique um caminho antigo, que foi passado de uma pessoa
para outra durante dois milênos e meio, e deve ser útil e significativo sob diversas
condições, procurei e aprendi essa prática por razões que me são específicas e
particulares.

Uma das forças mais poderosas que moldou minha vida, levando-a a adquirir a
forma que assumiu, foi a Segunda Guerra Mundial, que terminou, praticamente, no
mesmo dia em que nasci. Era um pano de fundo muito presente na imagem que
meus pais, e outros adultos ao meu redor, tinham do mundo, e deixava pouco lugar
à esperança. O medo parecia ser o único estado de espírito racional, a autodefesa a

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única postura racional. Homens cultos, civilizados, acabavam de empreender um
sadismo concertado cujo alcance é incompreensível. A vitória do bem tinha
produzido como reação um mal: as armas nucleares. A visão de mundo que me
ensinaram, e que absorvi, foi dar duro nos estudos, guardar dinheiro e construir
meu próprio mundo autoprotegido, usando as culturas liberais, racionais e
científicas como degraus para alcançar um ansioso feudo de vida familiar privada.
Seria somente naquele espaço privado que o doce núcleo do afeto e da aspiração
idealista poderia ser revelado. Eu fiz isso bem feito e, até certo ponto, funcionou.

Porém, ao mesmo tempo, fui orientado para, e mais tarde escolhi, passar meus
verões no mato, aprendendo sobre cervos de rabo branco, mosquitos, liberdade e
canoas, à primeira vista cercado por uma bondade monista primitiva que
identifiquei com a natureza e aqueles que vivem próximos a ela. Li Thoreau, como
muitas pessoas lêem a Bíblia. O mundo de rios gélidos a correr sob árvores
frondosas, e seus profetas inspirados pelo êxtase, parecia um antídoto às vidas
ansiosas, mal-assombradas, monótonas, presas às convenções, do meu ambiente

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próximo. Movendo-me entre esses dois universos, aprendi um diálogo de terror e
êxtase, sobrevivência e cuidados, que me abarrotou de urgência para encontrar o
caminho do meio.

Isso motivou uma busca que me conduziria a uma intensa exploração intelectual no
colégio, na faculdade de medicina e treinamento psiquiátrico e, por fim, à arte de
“sentar”, conforme ensinada por S.N. Goenka, um professor de meditação
Vipassana com quem eu e minha mulher fizemos um curso perto de Nova Delhi em
1974. Aqueles dez dias, de nada além de focalizar a realidade do corpo e da mente,
momento a momento, com consciência e equanimidade, ironicamente me permi-
tiram estar mais absolutamente sozinho e isolado de que jamais antes estivera e, ao
mesmo tempo, juntar meu destino a uma tradição, um caminho, tal como
sustentado, manifestado, explicado e transmitido por uma pessoa viva. Sou
continuamente grato a Goenka pelo fato de ter recebido essa técnica.

A meditação Vipassana foi preservada na Ásia durante dois mil e quinhentos anos
desde a sua descoberta por Gótama, o Buda histórico. Sua técnica de vida foi

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denominada, pelo estudiosos ocidentais, “Budismo”, mas não se trata de um
“ismo”, de um sistema de pensamento. É uma prática, um método, uma ferramenta
de pessoas vivas. Não é o ponto final da busca de quem o pratica. Para mim,
fornece uma bússola, uma lente de aumento, um mapa para novas viagens. Com a
prática diária e retiros intensivos através dos anos, encontro o casamento de
autonomia e tradição, da inclusão e da continuidade solitária. Vipassana são os
binóculos – agora posso procurar o pássaro fugidio.

Antes de ter recebido instruções sobre como sentar, minha viagem através da vida
era predominantemente intelectual. Eu verificara que palestras e livros podiam ser
uma inspiração, sugestivos, engenhosos porém evasivos. Era possível dar con-
selhos, era possível falar, era possível escrever. Porém, sentar é um modo de poder
significar alguma coisa, de sentar como alguma coisa, não apenas com palavras,
mas com a minha mente, o meu corpo e a minha vida. Aqui está uma maneira de
descer por etapas, protegido por professor, ensinamento, técnica e prática, ao fundo
da luz e da escuridão que residem no meu interior, o Hitler e o Buda dentro de mim,

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a criança assustada de um mundo em holocausto, viajando em um ônibus lento
pelas ruas escuras da cidade, e o jovem que caminha a passos largos, mochila nas
costas, passeando por catedrais iluminadas pelo sol que brilha através dos pinheiros
e que, gritando ou choramingando, se vale de todo o vocabulário das
potencialidades humanas, do sadismo ao amor.

Eu agora posso ver que carrego o chicote e as botas do torturador, sofro com os
despidos, bebo das correntezas que descem a montanha com poetas e exploradores.
Todas essas vidas vivem em mim. E descubro maneiras, muitas vezes sutis e
simbólicas, de expressar essas potencialidades psicológicas em mim como ações
claras na minha vida diária. Tudo aquilo que sou, surge do universalmente humano.
Eu sou a causa de mim mesmo, eu expresso a mim mesmo, à medida que as
condições do mundo rolam através de mim. Vejo esse fato, quando sento, com a
mesma clareza que vejo o impacto da história e a inspiração da visão. Sento em
claro confronto com tudo que se impôs a mim e me levou a reagir, e me moldo.

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A vida começa em um emaranhado de condições: meras reações a essas condições
forjam limitações; a consciência e a resposta consciente às condições, produzem
liberdade. Essa clareza com relação às minhas escolhas me permite voltar, de
sentar, à ação, como um vetor mais focado, mais concentrado da vida que conhece,
da vida em empatia.

O sentar, em si, transforma meus motivos de sentar. Comecei em minhas próprias


circunstâncias históricas, mas, recebi uma técnica que tem sido útil em milhões de
circunstâncias, há milhares de anos. Comecei com questões pessoais e recebi
perspectivas atemporais, para expandir meu ponto de vista. Minha busca é
particular, mas não é exclusiva. A transmissão dessa ferramenta tem tornado o meu
trabalho possível. Porque outros se lançaram em busca de uma vida plenamente
humana, porque outros seguirão, a minha própria fragilidade, ou covardia, pode se
tornar significativa, porque eles são o solo de que preciso para crescer. E meus
próprios esforços, por maiores que me pareçam, são sombreados pelos esforços
muito maiores dos outros.

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Posso florescer como um arbusto em uma floresta ilimitada de intermináveis ciclos
de vida. Florescer, para um ser humano, é trabalhar na ciência da observação
honesta que permite o surgir de um verdadeiro retrato da humanidade. Mesmo par-
tindo de meu condicionamento de nihilismo e pavor, sem o conforto de crenças
simples, consciente da terrível maldade e do terrível ódio humanos, de guerras que
matam dezenas de milhões, posso ser, serei, uma expressão de fé sem compla-
cência. Posso não ser grande coisa, mas posso investigar a fundo aquilo que é
verdade, como vê-la e como transmiti-la.

Em resposta ao avassalador sentido de maldade, medo, falta de sentido e mania de


privacidade paranóica dos meus tempos, em resposta à esperança, ao idealismo, ao
sentido prenhe de eternidade de minha juventude, aprendi a sentar, de modo a
defender melhor o que considero mais verdadeiro. Isso me ajuda a viver de forma
plena o que antes fora uma fé inconsciente. Ajuda-me a expressar alguma coisa
curativa, algo de útil (tanto na minha vida pessoal quanto na minha vida profis-
sional) e significativo para mim, apesar de condições aparentemente absurdas,

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porque é uma conexão com o universal. Coloca-me em contato com aquilo de mais
fundamentalmente humano que está presente em cada gesto meu, em cada ação dos
outros, em cada momento que vai direto às emoções, ao conhecimento. Isso, por
sua vez, permitiu que eu me juntasse à dança geradora da natureza. Pratico o auto-
conhecimento e faço disso a oficina do dia. Evito medir os acontecimentos com
base na minha vida de minhoca. Com freqüência, esqueço do tempo e, desse modo,
junto-me à história.

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X

SENTO SOLITÁRIO PARA PERDER MEU ISOLAMENTO. O que é menos nobre em mim sobe à
superfície da minha mente e isso me impele a ser mais do que era. Quando estou
mais fechado em meu ser escuro, descubro a verdadeira fonte do meu pertencer.

Freud afirmou que a base do medo humano é a ansiedade da castração. Isso,


acreditava ele, é mais temido do que a própria morte. Eu interpreto ansiedade de
castração como a dor física, a mutilação corporal e o isolamento social, o
ostracismo, a perda da inclusão, da capacidade de criar, da continuidade no ciclo
das gerações. As duas maiores dificuldades que tenho, de fato, enfrentado quando
sento por longas horas ou dias, são a dor física e a perda da posição social a que
anteriormente parecia estar me encaminhando e à qual estaria destinado na

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comunidade humana. Uma dor que começa nos joelhos ou nas costas pode inundar
o corpo inteiro e arder e arder. A auto-proteção de, calculadamente, tornar-me
membro de um grupo, e suas confortáveis recompensas, estão perdidas para mim ao
longo daquelas horas dolorosas, intermináveis.
Imagino minhas outras opções: uma casa melhor, férias de inverno nos Trópicos, o
respeito de colegas me ouvindo falar enquanto escalo os degraus da carreira.
Imagino as crises financeiras que estou menos preparado para enfrentar. Imagino a
rejeição humilhante que esmaga o refugiado da pobreza ou do racismo ou de
qualquer forma de falta de poder, todas parte de minha herança e, possivelmente,
do meu futuro (e da herança ou futuro de quem quer que seja, se se olhar longe o
bastante). Por que fico ali sentado? Um passarinho cantador salta para um galho
baixo na beira de uma clareira no bosque e dilacera a noite do Vermont com uma
canção de triunfo. Conhecendo e, contudo, permanecendo, sou herdeiro e trans-
missor, inundado por presentes daqueles que amaram e deixaram sua marca; e essa
postura imóvel, reluzente, é a canção da minha espécie.

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Sentar me ajuda a vencer meus pavores mais profundos. Fico mais livre para viver
a partir do meu coração e para enfrentar as conseqüências mas, também, para colher
as recompensas dessa autenticidade. Muito daquilo que chamava de dor era, na
realidade, solidão e medo. Passa, se dissolve, com essa observação. As vibrações
do meu corpo estão entoando a canção que só pode ser ouvida quando a aurora e o
crepúsculo são simultâneos, instantâneos, contínuos. Sinto que uma golfada de
esforço duro é um preço barato para pagar para ouvir essa música interna – música
fértil do coração da própria vida.

Tem sido minha boa fortuna, ao longo do caminho, encontrar e seguir um irmão
mais velho que, como um cogumelo há muito não observado, já não pode ser
sacudido do caule, pois suas raízes chegaram ao cerne da planta. A partir dele, me
foi possível vislumbrar duas luzes: devoção e integridade. E tem sido um prazer
extra – e, às vezes, creio que uma necessidade – poder sentar ao lado da minha
mulher. Até as estrelas se movem em constelações.

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XI

SENTO PARA ENCONTRAR LIBERDADE MENTAL. Tive a sorte de ser capaz de pensar
racionalmente, logicamente, cientificamente, em uma cultura onde o pensamento
focado, agressivo, é a espada da sobrevivência. No entanto, mesmo o maior
apologista da Razão, Sócrates, se equilibrava tendo igual reverência pelo
conhecimento mitopoético. De fato, muitos diálogos socráticos ressaltam as
limitações da lógica e o papel essencial do mito. Quando sento, milhões de
pensamentos percorrem a minha mente mas, em acordo com as tradições
transmitidas pelos grandes mestres da antiga Índia, procuro abrir mão de todos,
deixar que passem como nuvens, como água, como o tempo. Nem é preciso dizer,
muitas vezes fico preso e me vejo a girar em torno a um único ponto como um

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papagaio enganchado em um galho muito alto. Mas, eventualmente, tédio,
cansaço, força de vontade ou insight – o vento – me rodam e me soltam e
recomeço.

Sentar me oferece um caminho de volta à mente flutuante, pré-formada, à


atmosfera grávida onde a metáfora, a intuição e a razão são centelhas. Cercado por
uma cultura de conquista intelectual, possuo uma reserva de integridade, um
santuário onde os cervos selvagens da poesia e da canção podem trançar por entre
os troncos de casos médicos e conferências. Nesse sentido, sentar também é um
grilo, uma comadre, um dedo indicador que me alerta, além de me autorizar.
Preciso retornar ao potencial, porque qualquer trilha única é apenas uma resposta
circunstancial variável para o vento sem origem.

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XII

SENTO, PARA ANCORAR MINHA VIDA em certos estados de espírito, organizar minha vida
em torno ao meu coração e à minha mente e irradiar, para os outros, aquilo que
encontro. Embora balance nos ventos fortes, volto a esse modo básico de viver,
mover, alcançar e colher uma jóia invisível de valor incomensurável. ♦

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