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Shirley MacLaine

Minhas Vidas

Tradução de A. B. PINHEIRO DE LEMOS

Digitalização: Argo www.portaldocriador.org

Para minha mãe e meu pai

Algumas pessoas que aparecem neste livro são apresentadas como personagens compostas, a fim de proteger sua privacidade. A seqüência de alguns acontecimentos também está adaptada. Mas todos os acontecimentos são reais.

"Jamais diga: Não conheço isso, portanto é falso. Devemos estudar para conhecer, conhecer para compreender, compreender para julgar."

— Apotegma de Narada

"Horácio, Horácio, há mais coisas entre o céu e a terra, do que sonha a tua vã filosofia."

— Hamlet, Shakespeare

Capítulo 1

"Os sonhos do homem antigo e moderno são escritos na mesma linguagem que os

Creio que a linguagem

simbólica é a única linguagem estrangeira que cada um de nós deve aprender. Sua

compreensão nos põe em contato com uma das mais significativas fontes de sa- Na verdade, tanto os sonhos como os mitos são importantes comunicações de nós mesmos para nós mesmos."

mitos cujos autores viveram no amanhecer da

— Erich Fromm, A Linguagem Esquecida

A areia estava fria e macia, eu corria pela praia. A maré subia e ao pôr-do-sol alcançaria as estacas que sustentavam as casas ao longo da Malibu Road. Eu adorava correr pouco antes do pôr-do-sol, pois contemplar as nuvens magentas por cima das ondas ajudava a desviar minha atenção da dor intensa nas pernas. Algum

instrutor de ginástica me dissera um dia que correr cinco quilôme- tros pela areia macia equivalia a correr 10 quilômetros numa su- perfície dura. E eu queria permanecer forte e saudável, não impor- tava o quanto fosse doloroso. Quando não estava dançando, estava correndo para me manter em forma. Mas como era mesmo a história que eu ouvira no dia anterior sobre os dois irmãos? Um deles era obcecado por saúde e forma física, corria pela avenida uns 10 quilômetros em todas as manhãs de sua vida, independente de como estivesse se sentindo. O outro jamais fazia qualquer exercício. E uma manhã o obcecado por saúde estava correndo pela avenida, virou-se pára sacudir a mão para o

irmão preguiçoso e

pam! Ele não viu o caminhão

Talvez não importe realmente o que façamos para nos preservar.

Sempre havia caminhões em algum lugar. O importante é não permitir que isso o impeça de fazer as coisas, não deixar que controle a sua vida. Lembrei de uma ocasião à mesa de jantar, com meu pai e minha mãe, na Virgínia, onde fui criada. Tinha 12 anos e acalentava o pensamento de que não importava quanta felicidade pudesse ter, num momento determinado, pois estava consciente da luta por baixo. O

tudo tinha algum problema

inerente. Lembrei que papai dissera que eu evocara inad-

pitagórico, se bem me

vertidamente um antigo princípio grego

lembro. Papai era uma espécie de filósofo rural e quase tirara o

seu diploma de filosofia na Universidade John Hopkins. Adorava especular sobre o sentido filosófico. Creio que herdei a mesma ca- racterística. Lembrei que ele comentara que o meu pensamento pos- suía um significado profundo, que se aplicava a toda a vida. Não importava o quão boa uma coisa pudesse parecer, sempre havia o fator negativo contrário para se considerar. O contrário também

era verdade, é claro, dissera papai

concentrar no negativo. Para mim, tornou-me consciente da dualidade na vida. E olhando para as ervilhas em meu prato, eu

"problema", como eu chamava então

mas ele parecia se

sentira que compreendia alguma coisa, mas sem saber direito o que era.

O vento começou a soprar, encarneirando as ondas pelo mar. Maçaricos sobrevoavam as ondulações, saboreando o alimento que podiam encontrar na maré, enquanto seus graciosos irmãos pelicanos sobrevoavam e depois mergulhavam, como loucos pilotos kamikazes, se lançando contra os cardumes que nadavam em águas mais profundas.

Tentei imaginar como seria ser uma ave, sem nada na cabeça além de voar e comer. Lembrei de ter lido que o menor dos pássaros podia viajar por milhares de quilômetros através do Pacífico, desembaraçado e sozinho, precisando apenas de uma peça de baga-

gem

simplesmente descia para o mar e flutuava até que estivesse pronto para retomar a jornada. Ele pescava do graveto, comia do graveto, dormia no graveto. Quem precisava do Queen Mary? Batia as asas, pegava a sua balsa no bico e tornava a partir para conhecer mais alguma coisa do mundo. Uma vida e tanto. Especulei se aquele pássaro alguma vez se sentia solitário. Mas mesmo se estivesse sozinho, parecia perceber

o rumo apropriado para a sua vida. Os pássaros aparentemente pos-

suíam bússolas inatas que os guiavam para onde desejassem ir. Pareciam saber exatamente o que eram, como viver, por que estavam vivos. Mas tinham sentimentos? Será que se apaixonavam? Por acaso se isolavam com apenas um outro pássaro, como se fossem os dois contra tudo? Os pássaros pareciam parte integrante de tudo. Espaço, tempo, ar. Não, não era possível. Como poderiam excluir o mundo, se queriam voar sobre ele? Lembrei de uma experiência que tivera. Chamo de experiência e não de sonho, embora tenha ocorrido quando eu dormia. Senti que estava suspensa sobre a terra, mergulhava e flutuava com as

correntes de ar, exatamente como os pássaros. Enquanto era levada pelo vento, as copas das árvores roçavam gentilmente por meu corpo. Tomava o cuidado de não arrancar uma folha sequer do galho

a que pertencia, porque eu também pertencia a tudo o que existia. Queria seguir mais adiante, mais depressa, mais alto, mais

largo

meu ser se concentrava e expandia ao mesmo tempo. Tinha a sensação de que estava realmente acontecendo, de que meu corpo era irrele- vante e de que isso era parte da experiência. O verdadeiro eu estava flutuando, livre e desimpedido, impregnado da paz da integração com tudo o que existia. Não era o sonho de vôo de fundo sexual que os psicólogos costumam descrever. Era mais do que isso. Havia outra dimensão. A palavra que estou procurando, pensei enquanto corria, é "extra". Era por isso que eu me lembrava tão nitidamente. Sempre que me sentia insatisfeita, solitária, desnorteada por algum motivo ou nervosa, pensava naquela experiência e como me sentira serena, flutuando fora do meu corpo físico, sentindo-me integrada com tudo

o que havia por cima e por baixo. Essa sensação de pertencer a "tudo" me proporcionava mais

um graveto. Pedia levar o graveto no bico; quando cansava,

e quanto mais alto eu subia, mais me tornava integrada,

prazer do que qualquer outra coisa. Mais prazer do que trabalhar, do que simplesmente fazer amor, do que ser bem-sucedida em qual- quer das atividades humanas a que as pessoas se devotam a fim de alcançar a felicidade. Eu adorava pensar. Adorava me concentrar. Adorava me integrar com coisas que estavam fora de mim, pois

francamente acreditava que esse era o caminho para me compreender. Em algum lugar, dentro de mim, estavam as respostas para tudo que causava ansiedade e confusão no mundo. Que pensamento arrogante! Mas se eu pudesse entrar em contato comigo, realmente entrar em

contato comigo, poderia entrar em contato com o mundo

mesmo com o universo. É por isso que fui uma ativista política, uma feminista, uma viajante incessante, uma espécie de repórter da humanidade movida pela curiosidade. Provavelmente foi também por isso que me tornei uma atriz. Precisava me virar para dentro e entrar em contato comigo mesma, se queria compreender o mundo e se queria ser boa em meu trabalho. Provavelmente foi esse o motivo pelo qual comecei a vida como dançarina. Quando dançava, estava em

contato com quem eu era. O que quer que fosse

jornada mais importante era por mim mesma. Um vento frio levantou a areia em torno das minhas pernas enquanto eu corria. Fui diminuindo a velocidade até passar a andar, lembrando que depois de um exercido puxado é sempre bom reduzir o ritmo gradativamente a fim de que o ácido láctico nos músculos não solidifique. — É por isso que os músculos ficam doloridos — explicara o instrutor de ginástica. — Jamais pare abruptamente depois de um exercício puxado. Vá diminuindo o esforço lentamente. Doerá menos depois. Eu dava atenção a tudo o que se relacionava com a cultura física, pois compreendia que me punha mais em contato comigo

mesma. Respeitava meu corpo, pois era o único que eu tinha. Queria fazê-lo durar. Mas podia ser extremamente doloroso, especialmente se eu passara 15 anos sem fazer praticamente qualquer exercício. O que foi uma estupidez, pensei, enquanto andava. Durante todos aqueles anos de representação eu pensara que meu corpo não era importante. Tivera o bom preparo formal de dançarina quando era jovem; achava que isso seria suficiente. Estava enganada. As pessoas precisam cuidar de seus corpos todos os dias ou podem acordar uma manhã e descobrir que se recusam a fazer o que lhes mandam. Dirão então que estão velhas. Eu sempre me senti velha quando não estava em contato com o meu corpo. E o processo de integração com o meu corpo me punha mais em contato com o verdadeiro eu dentro desse corpo. E qual era o verdadeiro eu? O que me levava a questionar, procurar, pensar, sentir? Seria apenas o cérebro físico, as pequenas células cinzentas, ou seria a mente, que era algo mais do que o cérebro? A "mente" ou talvez a "personalidade" incluiria o que as pessoas chamavam de "alma"? Tudo estaria separado ou o ser humano era a soma de todas essas partes? Se assim era, como as partes se aglutinavam?

a experiência de entrar

em contato comigo mesma quando tinha quarenta e poucos anos, o que

essa experiência fez para minha mente, indulgência, espírito, por minha paciência e convicção. É sobre a integração entre mente,

para mim, a

talvez

É sobre isso que este livro versa

em decorrência permitiu-me

enfrentar o resto da minha vida como um ser humano quase

transformado. Assim, este livro é sobre uma busca do meu eu

uma busca que

me levou por uma longa jornada, que foi gradativamente reveladora

e em todas as ocasiões simplesmente espantosa. Tentei manter a mente aberta enquanto seguia pela jornada, porque me descobri gentil mas firmemente exposta a dimensões de tempo e espaço que

antes disso, para mim, pertenciam à ficção científica ou ao que eu

descreveria como o oculto. Mas aconteceu comigo.

lentamente. Aconteceu aparentemente num ritmo que era todo meu, como creio que acontece com todas as pessoas que passam por tais experiências. As pessoas progridem ao ponto para que estão pre- paradas. Eu devia estar pronta para o que aprendi porque era a momento certo.

Aconteceu

corpo e espírito.

E

o

que aprendi

Eu já fizera cerca de 35 filmes, alguns bons, outros ruins. Creio que aprendi com cada um, mais dos ruins do que dos bons, o que não é de surpreender. Viajara pelo mundo inteiro, às vezes em caráter particular, geralmente irreconhecível (porque eu assim o queria), às vezes como artista (e nessas ocasiões eu queria ser reconhecida), a fim de lançar um dos meus filmes, fazer um especial de televisão ou apresentar um espetáculo ao vivo. Adorava me apresentar ao vivo, porque me permitia sentir as audiências; o que pensavam, onde estavam seus interesses, os sensos de humor diferentes. Mas, acima de tudo, eu adorava conhecer novas pessoas e me lançar de frente a culturas estrangeiras, até aprender a me fundir nelas confortavelmente. Passei a ter uma espécie de círculo de amigos longe de minha terra e no qual me sentia inteiramente à vontade. Eram pessoas nas artes, gente de cinema de cada país que produzia filmes, escritores (eu já escrevera dois livros sobre minhas viagens e aventuras na vida, haviam sido traduzidos em quase toda parte), chefes de estado, primeiros-ministros, reis e rainhas (meu ativismo político fora devidamente noticiado, pró e contra, no mundo inteiro). Não podia haver a menor dúvida de que eu era uma pessoa privilegiada. Trabalhara arduamente para alcançar o sucesso, mas mesmo assim me sentia afortunada e, como eu disse, privilegiada por poder me encontrar e conversar com qualquer um que quisesse, de Castro ao Papa, à Rainha da Inglaterra e outras altas autoridades, os doentes e agonizantes da Índia, os camponeses revolucionários dos barrios das Filipinas, os sherpas dos Himalaias, para citar apenas alguns. Quanto mais eu viajava e conhecia pessoas, mais minha cons- ciência social e política se tornava ativada. E quanto mais se tornava ativada, mais eu me descobria identificada com os underdogs, os oprimidos, como meu pai os chamava. Mas, como eu ressaltara para ele, a maioria das pessoas do mundo poderia ser incluída na categoria de oprimidos. Seja como for, descobri-me a pensar cada vez mais sobre o que estava acontecendo de errado no mundo. Não se pode evitar quando se vê com os próprios olhos a miséria, fome e ódio. Comecei a viajar quando tinha 19 anos;

agora, aos quarenta e poucos anos, podia dizer com toda objetividade que as coisas haviam piorado inexoravelmente. Para

mim, o idealismo democrático parecia não ser mais possível, porque as pessoas que eram parte da vida democrática estavam aparentemente mais preocupadas em servir a seus próprios interesses e, assim, contrariavam a filosofia básica do bem-estar da maioria. Não eram muitas as pessoas que respeitavam uma ética internacional. O "pensamento político" no mundo parecia estar baseado no poder político e economia material, com soluções que se exprimiam em termos de gráficos, tabelas, pesquisas e programas industriais, ignorando o ser humano individual. Em algum lugar do planeta, em todas as ocasiões, havia guerra,

violência, crime, opressão, ditadura, fome, genocídio

espetáculo global de desespero e miséria humana. Enquanto isso, os líderes mundiais continuavam a examinar os problemas exclusiva- mente em termos dos próprios problemas, sem reconhecerem o seu relacionamento profundo com uma necessidade mais ampla e mais universal: a necessidade arraigada de alcançar uma paz de espírito perene, numa base individual, com todas as extensas implicações que isso acarretaria. Eles tinham soluções temporárias para pro- blemas permanentes. Ou, como meu papai diria, "estão pondo Band- Aids em câncer". De«cobri-me empenhada em discussões intermináveis, no mundo inteiro, sobre se a humanidade era fundamentalmente egoísta, interesseira e preocupada com a consecução dos ganhos pessoais e confortos mais luxuosos. Descobri-me a dizer que a competição e o egoísmo pessoal predominavam não apenas em detrimento da felicidade, mas também do sucesso pessoal. Parecia-me que as potências mundiais podiam reconhecer a necessidade para a unidade dos interesses humanos, mas sempre recomendavam políticas econômicas mais altamente competitivas a fim de alcançar esse objetivo, o que só podia levar ao conflito humano, discórdias, guerras inevitáveis. Com toda certeza, alguma coisa estava faltando. Depois, enquanto eu continuava a viajar, notei que algo estava mudando. As pessoas com quem eu conversava já começavam a especular sobre o que estava faltando. O tom da conversa deslocou- se da consternação e confusão para a consideração de que as respostas poderiam estar dentro de nós mesmos, como se o impasse autocriado da humanidade nada tivesse a ver com soluções econômicas. Passamos a especular sobre a busca interior do que nós realmente significávamos, como seres humanos. Para que estávamos aqui? Tínhamos um propósito ou éramos apenas um acidente transitório? O fato de sermos físicos era óbvio. Nossas necessi- dades físicas, pelo menos em teoria, constituíam a preocupação prioritária de governos e líderes. O fato de sermos criaturas mentais também era evidente. O mundo da mente, a dimensão mental, era atendido pela educação, artes, ciências, os centros do saber. Mas não éramos todos também espirituais? Descobri que mais e mais pessoas estavam se concentrando na questão da espiritualidade interior, que por tanto tempo ficara à míngua de reconhecimento. A confusão não derivava do fato de a espiritualidade não ser óbvia, mas invisível? As religiões do mundo não pareciam satisfazer ou

um

explicar nossas necessidades espirituais. Ao contrário, a Igreja parecia mais dividir as pessoas do que uni-las, quer se seguisse o cristianismo, islamismo, judaísmo ou budismo. O mundo parecia até estar se encaminhando para uma era de Guerra Santa, com a ascensão violenta do orgulho islâmico no mundo árabe, o fundamentalismo cristão entre a chamada maioria moral da América, o sionismo militante em Israel. Descobri-me em contato com uma extensa rede de amigos no mundo inteiro que estavam empenhados em sua própria busca espiritual. Levantávamos questões sobre o propósito e significado humano em relação não apenas com a nossa perspectiva física de vida na terra, mas também da perspectiva metafísica em relação ao tempo e espaço. Começou a parecer possível que esta vida não fosse tudo o que existia. Talvez o plano físico da existência não fosse o único plano de existência. Havia a possibilidade maravilhosa de que a verdadeira realidade fosse muito mais. Em outras palavras, talvez Buckminster Fuller estivesse certo quando dizia que 99 por cento da realidade eram invisíveis; nossa incapacidade de reconhecer essa realidade invisível era uma decorrência do que agora se referia comumente como a nossa consciência perdida. Quando comecei a me formular essas perguntas e descobri uma afinidade autêntica com outros que estavam também envolvidos na busca interior, minha vida mudou e o mesmo aconteceu com minha perspectiva. Foi emocionante, às vezes assustador, sempre desconcertante, porque me levou a reavaliar o que significava estar viva. Talvez, como seres humanos, fôssemos realmente parte de uma experiência em andamento, a continuar por muito tempo depois de julgarmos estar mortos. Talvez não existisse a coisa a que chamávamos de morte. Mas estou me antecipando.

O sol estava se pondo e tremeluzindo além das colinas de Point

Dume. Lembrei que já me postara naquelas colinas, a contemplar as ondas se esboroando no Pacífico lá embaixo, indagando se a raça humana realmente começara no mar. O Pacífico sempre me lembrava do meu amigo David. Ou talvez ele estivesse muito em meus pensamentos atualmente porque eu parecia estar chegando a um momento decisivo

na minha vida e David fosse uma pessoa fácil da se conversar. O que ele dissera? Alguma coisa a respeito da necessidade espiritual de respeitar igualmente tanto o positivo como o negativo na vida.

— É impossível ter um sem o outro — afirmara David. — A vida é

a combustão dos dois. Tente apenas sobrepujar o negativo com o positivo e será muito mais feliz.

— Não se precisa ser um cientista espacial para saber disso

mas vivenciar é muito diferente — eu respondera. David era um homem interessante. Com 55 anos, era terno e gentil, os malares salientes, um sorriso suave e triste. Eu o conhecera numa galeria de arte no Village, em Nova York. Firmamos uma amizade porque eu me sentia completamente à vontade em sua companhia. David era pintor e poeta, sentia-se à vontade em qual- quer lugar, pois era um observador da vida. Em Manhattan, ficá-

vamos andando por horas a fio, observando as pessoas e imaginando

o que estariam pensando. Quando ele estava na Califórnia, o que

acontecia com freqüência, passeávamos pela praia, em Malibu. David também adorava viajar e já fora a muitos lugares, da África e Índia ao Extremo Oriente, Europa e América do Sul. Pintava e escrevia durante as viagens. Não lhe saía muito caro, porque tra- balhava em sua volta pelo mundo, nas mais diversas atividades. Já fora casado. Não costumava falar a respeito, mas comentou um dia que fora "alguém que vive às pressas". Quando perguntei o que isso significava, ele acenou com a mão e disse:

— Está no passado. Não aceito mais os carros velozes, a vida

movimentada

Eu também não falava muito sobre a minha vida pessoal. Não era essa a natureza do nosso relacionamento. Ele se dedicava também a uma porção de coisas para as quais eu não tinha tempo, como

reencarnação, recordação de vidas anteriores, justiça cósmica, freqüências vibracionais, combinação de alimentos, esclarecimento espiritual, meditação, auto-realização e só Deus sabe o que mais. Ele falava a sério a respeito de tudo isso e aparentemente com profundo conhecimento. Mas a maior parte me entrava por um ouvido

e saía pelo outro, pois eu estava absorvida nos roteiros para

filmes, especiais de televisão, novos números para minhas apresentações ao vivo, emagrecer e Gerry. Queria conversar com David a respeito de Gerry. Mas, por causa das circunstâncias, não podia conversar com ninguém a respeito de Gerry, nem mesmo com David.

esse tipo de coisa. Agora estou sozinho e feliz.

Agora, enquanto uma brisa mais fria começava a soprar, eu podia sentir o suor escorrendo dos cabelos pela nuca. As pernas doíam, mas era uma sensação agradável. Fizera uma corrida puxada. Era como uma dor satisfeita. Talvez, como David dissera, fosse o preço por tudo na vida. E quando se chegava ao lugar apropriado, depois da luta, não mais doeria. Lancei um último olhar para o sol poente e depois subi a es-

cada de madeira que levava à praia. Adorava aquela escada, esca- lavrada e abalada por marés e tempestades. Há 20 anos que a usava, desde que construíra o prédio de apartamentos, com o pagamento recebido por meu primeiro filme, O Terceiro Tiro, de Alfred Hitchcock. A primeira coisa que fiz foi obter um empréstimo, a fim de construir um prédio, onde poderia alugar apartamentos e viver

para o caso de ser atropelada por um caminhão

e não poder mais trabalhar. Acho que se trata de uma manifestação

da minha criação de classe média. Sempre se precavenha contra o futuro. Nunca se sabe. Lavei a areia dos pés num chuveiro no alto da escada. Não devia entrar com areia no apartamento. Ficava no carpete, que o decorador me dissera que jamais deveria colocar num apartamento à beira da praia. Subi os degraus que levavam ao pátio. Parei e contemplei o pátio, que eu mesma arrumara, completo, com uma árvore bonsai de Kioto e um pequeno córrego que fluía constantemente. Os anos que passara no Extremo Oriente, especialmente no Japão, haviam me

sem pagar aluguel

influenciado profundamente. O senso espartano de respeito pela natureza que lá se encontra era algo que me comovia. Como eram tão

castigados pela natureza, os japoneses não tinham outra opção que não a de se harmonizarem com ela. Não acreditavam em conquistá-la, como fazíamos no Ocidente. Usavam-na e se tornavam parte dela Isto é, até que trocaram o respeito pela natureza em favor do respeito pelos negócios e lucros. E quando o Japão se tornou poluído, parei de visitá-lo. Especulava sobre quanto tempo se passaria antes que o mundo inteiro industrializasse a natureza, a fim de poder ganhar mais dinheiro. Imagino que se trata de uma posição simplista, mas era assim que me parecia. Ouvi o telefone tocar em meu apartamento. Quase tropecei ao correr para atender antes que parasse de tocar. Os telefones exer- ciam esse efeito sobre mim. Eu era capaz de atender ao telefone dos outros, se estivesse por perto quando tocava. Alguma coisa a ver com ser eficiente, rápida e caprichosa. Incomodavam-me as pessoas que deixavam um telefone tocar quatro vezes antes de

pura e simplesmente

atenderem. Para mim isso era desleixo

desleixo e preguiça. Corri pela porta para a sala de estar, mergulhei para o

telefone no chão. Tive de rir de mim mesma. Quem podia ser tão importante assim? E se fosse, ligaria de novo.

— Alô? — balbuciei ofegante, imaginando o que a pessoa no outro lado da linha pensaria que eu estivera fazendo.

— Alô

— Era Gerry. — Como você está?

Eu podia ouvir a telefonista internacional ao fundo. O rosto de Gerry, os cabelos caindo pela testa, olhos pretos suaves, aflorou em minha mente.

— Estou muito bem — respondi, contente porque ele não podia

ver como eu estava feliz por ouvir a sua voz. — E como estão as coisas com Sua Majestade?

— Estamos entrando em declínio na Inglaterra com toda classe —

gracejou ele, com uma pontada de preocupação que eu já aprendera a perceber. Limpei a garganta e disse:

— Classe é uma qualidade que todos admiram.

— Tem razão. Estou fazendo o que posso para evitar que o navio afunde completamente.

Pude senti-lo pegar um cigarro e aspirar a fumaça suavemente.

— Gerry

— O que é?

— Como está a sua campanha? Tem feito algum progresso?

— Está tudo bem. — Mas senti uma ligeira depressão na voz

dele. — É um processo longo e lento. As pessoas precisam ser

instruídas e ensinadas com golpes firmes e suaves. O equilíbrio entre as duas coisas não é fácil. Mas falaremos sobre isso quando estivermos juntos.

— E isso vai acontecer em breve?

Espero que sim. Pode se encontrar comigo neste fim de semana em Honolulu? Tenho uma conferência sobre Economia Norte-Sul. —

presentes?

Mas não haverá muitos jornalistas

Claro

que posso.

— É evidente que sim.

— E não há problema?

— Nenhum.

— Está disposto a correr o risco?

— Estou.

— Muito bem. Estarei lá. Quando?

— Na sexta-feira.

— Onde?

— Kahala Hilton. Preciso desligar agora. Tenho uma reunião com meu subsecretário. Ele está esperando.

— Está certo. Até o fim de semana.

— Até lá.

Ele desligou. As despedidas pelo telefone com Gerry nunca eram prolongadas. Seu comportamento e hábito profissionais impediam esse tipo de coisa. Sua vida pessoal era outra coisa. Desliguei também, tomei um banho de chuveiro, peguei o carro e

parti, mais devagar do que o habitual, para a minha casa grande em Encino. Adorava sentar ao volante num carro da Califórnia, andando devagar pelas estradas largas e pensando. Adorava pensar na Califórnia. Nova York era tão movimentada que só havia tempo para agir por instinto e sobrevivência, o que eu achava criativo e emocionante. Na Califórnia, porém, eu podia refletir. É claro que

a Califórnia não era chamada de Big Orange de graça. A pessoa

podia se tornar uma laranja se não tomasse cuidado. Assim, Big Apple, como Nova York era conhecida, era para mim um lugar em que podia fazer as coisas em que pensara em Big Orange. Gerry não fora ainda capaz de ir à Califórnia desde que eu o conhecera. Lembrei da primeira noite que passáramos juntos em Nova York. Na verdade, eu já lhe fora apresentada diversas vezes antes, quando estava em Londres e novamente quando ele fora a Nova York

para uma grande manifestação contra a guerra do Vietnam. Eu ficara impressionada com a sua fala suave e segura, a mente brilhante e ágil. Ele estava no Parlamento, um socialista, acreditava que podia fazer a Inglaterra voltar a funcionar. Não era pomposo como tantos ingleses bem-educados que eu conhecia. Ao contrário, era justamente o oposto, um homem imenso, passando em muito do l,80m de altura, ombros e braços que me faziam pensar num urso que queria abraçar o mundo. Descontraído e exuberante. O corpo movia-se de maneira descuidada, a camisa se abria, a gravata pendia torta para um lado. Quando se sentia excitado com alguma coisa, uma mecha de cabelos caía pelos olhos.

E quando ficava andando de um lado para outro de uma sala, em

passadas largas, procurando pela melhor maneira de apresentar um

argumento, tinha-se a impressão de que a sala se inclinava ao seu peso. Parecia inconsciente à própria imponência. Muitas vezes tinha um buraco na meia. Os olhos eram úmidos e pretos. Faziam-me pensar em azeitonas pretas. Quando fôramos apresentados pela primeira vez, em Londres, eu estava me apresentando no Palladium. Ele foi aos bastidores. Simpatizei com ele imediatamente. Não conhecia muito da política inglesa, mas ele me pareceu franco, de inteligência penetrante, involuntariamente divertido. Ao deixar meu camarim, andava tão

mas não antes de ter

deliberadamente que tropeçou numa cadeira

aberto o armário embutido, pensando que era a porta de saída. Assim, quando ele foi a Nova York, um ano depois, e me te- lefonou, eu disse que sim, que adoraria jantar em sua companhia. Fomos a um restaurante indiano na Rua 58. Ele não comeu muito. Mal parecia perceber que a comida estava ali. E demonstrou o hábito de fixar os olhos em minha boca quando precisava pensar num argumento que estava formulando. Pensei que ele gostava dos meus

lábios, mas no fundo pensava apenas no que ia dizer em seguida. Depois do jantar, seguimos a pé para o Elaine's, na esquina da Rua 58 com a Segunda Avenida. Gerry queria conhecer o lugar em que

o pessoal da minha roda se reunia. Eu usava saltos altos e finos,

sentia-me desconfortável, não conseguia acompanhar suas passadas

longas. E tinha uma bolha num pé. As pessoas olharam quando entramos no Elaine's. Mas eu não fui a única que notaram, apesar do terno amarfanhado e dos sapatos

arranhados de Gerry. Seja como for, ninguém nos incomodou. Pedimos uma salada de lula e tomamos alguns drinques. Conversamos sobre Nova York e Londres. Quando estávamos prestes a sair, informei-o que iria a Londres dentro de uma semana, a fim de conversar sobre

o roteiro de um novo filme, aproveitaria para lhe telefonar. Uma limusine deveria buscá-lo e levar para alguma conferência política no interior do estado. Mas o carro nunca apareceu. E assim ele foi para o meu apartamento, esquadrinhando as minhas estantes, cheias de livros sobre a China, show business, política americana, teoria marxista e balé. Ele estava discorrendo sobre a necessidade de liberdade numa sociedade socialista, por cima da mesinha de café, quando os cabelos caíram sobre os olhos. Foi assim que tudo começou. Estendi a mão para tocar em seus cabelos. Precisava saber qual era a sensação. E tão simples e facilmente como se nos conhecêssemos por toda a vida, Gerry desviou o rosto da biografia de Marx que estava segurando, fitou-me nos olhos e depois enlaçou-me. Assim ficamos por um momento e senti-me completamente perdida. Aquilo jamais me acontecera antes ou pelo menos não assim. Não podia compreender na ocasião, mas era parte do enigma que eu iria montar mais tarde.

Quando nos levantamos pela manhã, servi-lhe chá e biscoitos.

Estávamos sentados em minha cozinha ensolarada. Podia-se ver a ponte da Rua 59 pela janela.

— Você vai a Londres na próxima semana? — perguntou Gerry. Respondi que sim.

— Poderemos nos encontrar lá?

Respondi que sim.

— E poderá me acompanhar a Paris na semana seguinte?

Respondi que sim mais uma vez. Com uma determinação

inabalável, ele levantou-se e encaminhou-se para o que julgava ser

a porta da frente do apartamento. Não era. Terminou voltando ao

quarto. Mas virou-se na direção correta e foi embora. Não se des- pediu, nem mesmo olhou para trás. Acertei tudo para ter as reuniões sobre o roteiro em Londres e ao mesmo tempo me encontrar com Gerry. No mundo do cinema, passa- se muito tempo a discutir roteiros que nunca são convertidos em

filmes. Era o caso com aquele roteiro. Senti-me contente por ter Gerry, pois assim a viagem a Londres não seria um total desperdício. Pergunto-me às vezes se o roteiro não me pareceria melhor se não tivesse Gerry para distrair-me a atenção. Seja como for, toda Londres parecia estar em greve quando cheguei. Gerry tinha razão. O navio estava afundando, mas eu duvidava que isso acontecesse com alguma classe, apesar do chá das cinco e dos

passeios por manhãs de neblina em Hyde Park. Mas tudo o que realmente importava para mim era o cheiro de seu casaco de tweed, os cabelos abundantes caindo pelo rosto, a suavidade de seus dedos em meu rosto e a maneira como me envolvia em seus braços imensos, parecendo excluir a realidade de que não apenas a Inglaterra e o meu roteiro estavam em perigo, mas também o mundo inteiro. Tomamos a precaução de não sermos vistos quando estávamos juntos (fiquei no apartamento de uma amiga). Além do mais, Gerry era conhecido por apreciar a sua privacidade quando andava pelas ruas da cidade em que fora criado. Fui para Paris depois de alguns dias e Gerry se encontrou comigo lá no dia seguinte. Contemplávamos os telhados de St. Germain pela janela do meu quarto de hotel. Depois que fazíamos amor, jamais conversávamos sobre o nosso relacionamento ou o que significávamos um para o outro. Gerry e eu jamais falávamos sobre a esposa dele ou a minha vida pessoal. Não era necessário, não

precisávamos entrar nessas coisas

levou para jantar fora e uma mesa cheia de jornalistas ingleses

nos reconheceu. Eles sorriram e acenaram. Gerry ficou paralisado,

não pôde comer. Ele explicou como isso magoaria sua esposa

ela seria incapaz de aceitar, como deveríamos avançar mais

devagar. Eu disse que estava certo

isso quando começáramos? Gerry estava tão apavorado que me senti enternecida. Ele não conseguiu dormir naquela noite. Disse que sua mente era um turbilhão de confusão. Ofereci-me para sair, a fim de que ele pudesse recuperar o equilíbrio. Ficamos separados por um dia inteiro, enquanto ele comparecia a conferências e reuniões. Eu já estava mesmo planejando partir quando Gerry, num desespero solitário, me telefonou. Ele disse que não podia suportar que eu fosse embora. Sentia uma terrível saudade de mim, precisávamos nos encontrar de novo. Fomos nos encontrar fora de Paris, em St. Germain en Laye. Ele se lançou sobre mim com beijos e carícias. Abraçou-me tão forte que senti que ele não conseguia respirar. Parecia desamparado e ponderado, suplicante e exigente, tudo ao mesmo tempo. Era algo raro, real, franco, direto, um pouco assustador. Disse que nunca antes, em toda a sua vida, fizera algo assim. Sentia-se confuso e terrivelmente culpado. Falou sobre a situação do mundo e como queria dar uma contribuição para melhorá-lo. Falou sobre os princípios democrata-socialistas e como era possível ter as duas coisas ao mesmo tempo, se os ricos estivessem dispostos a partilhar mais de suas riquezas. Foi suave e sussurrante, a voz se alteou em desafio e ímpeto, quase como se estivesse experimentando com as muitas facetas de sua personalidade. Nada indagou a meu respeito ou se havia outros homens que eu pudesse conhecer ou com os quais estivesse

mas ele não pensara em tudo

até a noite em que ele me

como

envolvida. Parecia um expurgo emocional para Gerry. E quando chegou o momento de nos separarmos, ele foi comedido, não se mostrou absolutamente sentimental. Indagou se eu estaria bem voltando à América. Respondi que já encontrara o caminho de volta de lugares mais selvagens que o interior francês. Gerry pediu desculpas por seu comportamento em Paris e disse que me procuraria em breve. Sem movimentos supér- fluos, despediu-se em sua maneira inglesa espartana, abriu a porta e saiu. Só houve um problema: ao invés de sair, ele abriu a porta do armário embutido e entrou. Gerry riu, sem dizer nada, conseguiu sair pela porta certa. O quarto a que déramos vida por dois dias pareceu ficar su- bitamente inativo e silencioso. As paredes davam a impressão de estar se fechando sobre mim. E nenhum dos dois mencionara a palavra "amor". Senti que de alguma forma fora compelida a me en- volver naquele relacionamento; sabia que não podia oferecer muito mais que obstáculos irreconciliáveis. A questão era só uma: Por quê?

Capítulo 2

"O pensamento lógico puro não pode nos proporcionar qualquer conhecimento do mundo empírico; todo o conhecimento da realidade parte da experiência e nela termina. As proposições a que se chega por meios lógicos exclusivamente são comp etamente desprovidas de realidade."

— Albert Einstein Filósofo-cientista

Passei pelo Malibu Canyon e entrei na Venturs Freeway. Não havia muito tráfego. O Vale de San Fernando estendia-se à minha

frente, as luzes das casas começando a piscar, como uma gigantesca caixa de jóias na noite. Lembrei-me de que haviam levado Kruschev ao vale quando ele estivera na Califórnia. Alegaram que era a Amé- rica em progresso. Era mesmo um lugar bonito, quando se olhava da perspectiva correta. Afora isso, porém, todos faziam piadas a

respeito do Vale de San Fernando

pior só tinha uma coisa a seu favor, o fato de não viver no vale. Deixei a auto-estrada e entrei na minha rua. Subindo pelo ca- minho longo, podia sentir os galhos baixos das cerejeiras roçando no teto do carro. Adorava aquelas árvores. Faziam-me lembrar as cerejeiras que meu ex-marido Steve e eu tínhamos na casa dele no Japão, antes do nosso divórcio. Steve as plantara quando morava num bairro residencial de Tóquio chamado Shibuya. Ele queria que

como dizer que uma pessoa na

eu ficasse, vivesse e trabalhasse na Ásia. Eu queria viver e trabalhar na América, não porque tivesse nascido lá, mas sim porque era a minha área profissional. Discutimos o dilema e resolvemos tentar converter o globo terrestre numa bola de golfe, fazendo as duas coisas. Até que deu certo, por algum tempo. Mas, gradativamente, fomos desenvolvendo vidas em separado. Permanecemos amigos, enquanto criávamos nossa filha Sachi, que passou os primeiros sete anos de sua vida comigo na América, os seis anos seguintes numa escola internacional no Japão e os anos escolares restantes na Suíça e Inglaterra. Sachi aprendeu a falar, ler e escrever japonês (o que significava que podia ler a maioria das línguas orientais),

começou a pensar e perceber como uma oriental. Isso era às vezes engraçado, pois Sachi é uma loura sardenta, com o mapa da Irlanda estampado no rosto, braços e pernas desengonçados de uma ocidental que ela consegue de alguma forma orquestrar como se estivesse usando um quimono e obi restritivos, quando anda e senta. Ela ainda se ajoelha numa sala de estar e fica olhando com uma expressão de adoração para a pessoa que está falando, qualquer que seja. Seu semblante de Alice-no-País-das-Maravilhas pode ser desconcertante, mesmo quando penso que a compreendo. O que tenho na verdade é uma combinação do pensamento ocidental, franco e direto, temperado com a ambigüidade asiática indireta, geralmente empregada para salvar o que poderia ser um comentário embaraçoso, indelicado ou insensível. Aprendi muita coisa da Ásia por intermédio de Sachi, embora ela não tivesse a menor intenção de me ensinar. Ela pertence a essa nova espécie de pessoas cujo sangue e linhagem são ocidentais, mas cuja psicologia e processos de pensamento são meio asiáticos. No caso de Sachi, isso foi o resultado da convicção da "bola de golfe" que Steve e eu tivéramos no início do casamento. Como acontece com tudo, tem a sua dualidade, as vantagens e desvantagens. A longo prazo, porém, eu diria que as vantagens superam as desvantagens, quanto menos não seja pelo fato de que

Sachi é uma combinação de dois mundos

puder se

ajustar, será capaz de ajudar um a compreender o outro. Sachi estudou em Paris. Diz que foi muito mais difícil alcançar o ajustamento sociológico e cultural por lá. A propósito da rudeza e cinismo parisienses, ela disse:

— Não é nada fácil, mamãe, fazer uma reverência com a polidez japonesa e ao mesmo tempo dizer "vá tomar no rabo!" Minha casa estava no alto da colina, aprazível e aconchegante. "MacLaine Mountain", como um dos meus amigos a chamara, es- peculando se alguma vez eu cairia de lá. É claro que ninguém podia imaginar que já me fizera muitas vezes a mesma indagação. Meu amigo David gracejara que a montanha mais alta que estava escalando era eu mesma. David não tinha muito tempo para conversa fiada, mas podia fazer com que o momento mais trivial parecesse importante. Como na ocasião em que descascou uma laranja como uma flor e o suco da fruta escorreu por seu queixo enquanto a comia. Disse que não havia acasos na vida, que todos significávamos basicamente algo importante uns para os outros, se abríssemos nossos corações e sentimentos, não tivéssemos medo das

e

se

ela

conseqüências. Quando ele estava na Califórnia, passeávamos pela praia e almoçávamos num restaurante de comida natural, depois da aula de ioga. David tantas vezes sugeriu que parei de "escalar" a mim mesma, lançando-me em vez disso numa jornada para "dentro" de mim.

— É onde se encontra tudo o que você está procurando — disse ele. — O que há com você? Por que não arruma o tempo necessário para olhar? David não chegou a falar isso com irritação, mas sim com im- paciência. Deu-me para ler livros de ensinamentos espirituais. Di-

zia-me que eu devia entrar mais em contato com a minha verdadeira identidade. Eu não compreendia realmente o que ele estava querendo dizer. Sempre pensara que era justamente o que estava fazendo. Mas, aparentemente, David referia-se a um nível diferente. Quando eu lhe perguntava, ele jamais explicava. Dizia que bastava que eu pensasse a respeito e acabaria entendendo. Pensei muito em suas palavras, li apressadamente os livros, mas continuei a encarar tudo de frente, feliz, com a mente aberta. Podia não ser totalmente satisfatório, mas certamente era funcional.

de jeito nenhum. E sempre

Eu não era uma pessoa infeliz

pensei que tinha uma boa noção da minha identidade. Era o que todos diziam a meu respeito. "Ela sabe quem é", comentavam. Na verdade, era às vezes difícil me relacionar com as queixas dos movimentos feministas de que haviam sido destituídas de suas

identidades de mulher. Eu nunca tivera essa experiência na vida. E às vezes sentia-me justamente o contrário. Parecia tão certa do que sentia e do que queria que havia quem se queixasse de que eu era liberada demais, que não precisava de ninguém. Mas eu já não tinha mais tanta certeza. Talvez David estivesse certo. Era possível que ele estivesse vendo em mim algo muito mais profundo do que eu podia perceber, porque já estava tão liberada.

E talvez por causa disso eu devesse compreender que tinha um longo

caminho a percorrer. É difícil saber que algo lá no fundo está faltando quando a gente se sente vitoriosa e ocupada, responsável

e criativa. Senti o aroma da excelente comida francesa de Marie flutuando pelo caminho. Tinha o melhor restaurante da cidade, só que docil- mente convidava alguém para comer. Gostava de ficar sozinha e além do mais me sentia contrafeita ao receber, especialmente quando podia aproveitar o tempo para ler ou escrever. Batendo a porta da frente para Marie saber que eu chegara, gritei que ia tomar um banho e descansar um pouco antes do jantar. Subi a escada de dois em dois degraus, embora não houvesse necessidade de correr, quebrei uma unha ao abrir a porta do quarto. Mas lá estava o quarto que eu amava, amplo, azul, revigorante, à minha espera. Adorava o meu quarto azul, com a sala de estar-escritório adjacente, tanto quanto uma pessoa pode amar um cômodo. Passava horas a fio ali, sozinha. Sabia que podia trancar a porta e me isolar do mundo, sem parecer impolida ou anti-social. Poderia viver ali e jamais querer qualquer outra coisa. Nunca me sentia desligada naquele quarto. Eu o projetara pessoalmente. O azul era bastante claro, mas vibrante o suficiente para dar vida tanto ao

amanhecer como ao anoitecer. As cortinas eram finas, estendendo-se por uma parede corrediça de vidro sólido, que proporcionava uma vista espetacular do Vale de San Fernando e das montanhas mais

montanhas que sempre me pegavam de surpresa num fim de

tarde claro. Os móveis eram estofados com veludo azul e a cama

tinha uma colcha de cetim. Já ouvira falar de uma artista de cinema que caíra da cama

porque dormia em lençóis de cetim. Gostava dos meus lençóis comuns porque geralmente lia e escrevia na cama, sempre que não queria me sentir uma profissional. Tinha livros e cadernos de anotações espalhados ao meu redor. Sempre que embatucava numa transição ou em algum ponto de uma história, ligava o cobertor elétrico, bem quente, tirava um pequeno cochilo, com todos os livros e anotações na cama. Ao acordar, geralmente já encontrara a solução para o impasse que me incomodava. Adorava me sentir sozinha em meu lindo quarto, sem mais nada além de mim e qualquer coisa em que quisesse pensar. Era uma sensação de plenitude e realização saber que me concentrara profundamente em alguma coisa e esquecera inteiramente de tudo a meu próprio respeito. Talvez David estivesse certo.

Talvez eu devesse mesmo aprender a meditar

profundamente. Talvez descobrisse a coisa a que ele se referia. Entrei no meu quarto de vestir e tirei a roupa. Era todo espe-

lhado. Espelhos nas quatro paredes e no teto

vaidade, pensei, uma coisa que me constrangia, porque não me im- portava muito com a minha aparência quando não estava trabalhando em algum filme. Abri uma das portas espelhadas do meu armário, a fim de pegar um roupão. Imaginei o que Geny pensaria de meu armário de estrela de cinema, atulhado de roupas dos filmes que eu fizera ou que comprara em quase todas as grandes cidades do mundo. Imaginei o que ele pensaria se eu lhe dissesse que adorava a sensação de lindas pérolas em torno do meu pescoço, ao mesmo tempo em que me sentia ostentosa e deslocada quando as usava. Imaginei o que ele pensaria se eu lhe dissesse que adorava me aconchegar num macio casaco de zibelina, mas raramente o usava, embora o tivesse ganhado apenas por posar para um anúncio. Imaginei como ele se sentiria ao saber que eu adorava viajar no Concorde, contra o qual Gerry fizera uma vigorosa campanha. Eu queria conversar com ele, explicar como ganhara muito di- nheiro, como isso me fazia sentir da elite num mundo na miséria, por saber que podia comprar qualquer coisa que desejasse. Queria perguntar o que ele faria se pudesse exigir muito dinheiro por seus serviços. Eu o vira observar minha bagagem luxuosa no hotel em Paris. Ele pensaria que as manifestações físicas de riqueza adquirida violavam os princípios socialistas? O fato de nascer pobre fazia com que alguém se tornasse automaticamente bom? Eu gostaria de conversar com ele a respeito de tudo isso, mas não podia fazê-lo. Certa vez lhe perguntara se a esposa tinha lindas roupas e malas que durariam uma vida inteira. Ao que Gerry me respondera:

um monumento à

a meditar

além

— Não. Minha esposa é uma marxista. Ela nem mesmo gosta que use luvas de couro no inverno. Peguei um roupão e olhei ao redor. Uma das paredes espelhadas

era uma porta corrediça, dando para uma varanda com uma cascata, plantas e flores tropicais. Eram cuidadas por um jardineiro japonês que as amava como crianças e acreditava que Peter Tomkins estava correto, que as plantas realmente tinham emoções. Lembrei como Gerry me julgara tola quando eu lhe mencionara tal conceito pela primeira vez. — Plantas podem sentir? — Ele rira. — Pois estou contente que elas não possam responder. Eu sentira vontade de prolongar a conversa, mas a risada sardônica de Gerry cortara tal desejo pela raiz, por assim dizer. Muitas vezes eu ansiara em esmiuçar alguma idéia metafísica estapafúrdia, que poderia se tornar um fato científico

incontestável dentro de 20 anos. Mas Gerry era o tipo de homem que lidava apenas com as coisas de que tinha provas, o que podia ver,

o que podia assim parodiar ou comentar em termos sociológicos, em

seus acessos ocasionais de humor negro. O que deixava muitas possibilidades. O banheiro era o meu cômodo predileto. Ficava ao lado do quarto de vestir, no outro lado do terraço. Uma banheira quadrada de mármore, afundada no chão, dava para a cascata, onde a ilumi- nação indireta fazia agora a água dançar, ao crepúsculo. Havia dois vasos e duas pias de mármore rosa, um chuveiro em latão no alto da banheira. Eu adorava o fato da banheira ser tão funda que não precisava de cortina para proteger o carpete dos respingos do chuveiro.

Inclinei-me e abri a torneira da banheira. Água quente sempre me fazia sentir melhor. Freqüentemente, não importava em que lugar do mundo estivesse, uma banheira de água quente mudava o meu ânimo para a felicidade. Agora, bastou estender as mãos para o fluxo de água quente e já comecei a me sentir mais relaxada. Suspirei de satisfação e entrei na água quente com a espuma de sabonete VitaBath. Pensei em minha mãe. Ela também adorava banho quente. Lembrei como ela se acomodava na banheira e ficava pensando. Sempre me perguntei se ela poderia estar pensando na

sair de sua vida. Parecia que tudo o que mamãe

fazia era por papai. E, depois dele, pelos filhos. Creio que o

maneira de sair

mesmo acontece com a mãe de todo mundo. O trabalho dela na cozinha era entremeado de suspiros profundos. Muitas vezes dava um jeito de queimar alguma coisa e então retorcia as mãos. E suas mãos ado- ráveis eram a sua parte mais expressiva. Eu sabia sempre como ela se sentia pela simples observação dos dedos compridos e esguios, que nunca paravam de se retorcer ou de mexer com alguma coisa no pescoço ou nos pulsos. Ela estava sempre ajeitando uma suéter de gola alta (a lã em contato com a pele a incomodava) ou brincando com as pulseiras de prata. Eu podia compreender que ela apreciava

a sensualidade das pulseiras deslizando por seus dedos. Mas havia uma contradição, porque às vezes eu sentia que ela estava sufocando de frustração. Queria compreender essa contradição,

clamar que ela esclarecesse o que estava sentindo

mas quando

mamãe alcançava um certo grau de desespero, antes que pudesse definir meu próprio pensamento, ela já se lançava a outro projeto, como descascar batatas ou fazer um bolo.

Papai sabia que mamãe sonhara em ser uma atriz e por isso dizia que a maior parte do que ela fazia era uma representação. Os dois, na verdade, eram como uma dupla de vaudeville. Creio que papai comentou uma vez que pensara em fugir com um circo quando tinha 14 anos de idade. Ele adorava os trens e viajar, dizia que nem precisaria de maquilagem para bancar o palhaço. E tinha um jeito de atrair as atenções como nenhuma outra pessoa que já conheci. Geralmente o fazia com o cachimbo. Independente do lugar em que estivesse sentado numa sala, tornava-se o centro. Sua cadeira virava um palco e os amigos ou a família tornavam-se a platéia. Ele enganchava uma perna por cima da outra, pegava o cachimbo e batia no calcanhar, como se estivesse impondo ordem a uma reunião. Um pouco de cinza se derramava do fornilho para o tapete. A esta altura, as pessoas na sala já se mostravam apreensivamente atentas. Papai então deixava escapar um suspiro profundo, descruzava as pernas, grunhia um pouco e se inclinava para resolver o que fazer com a cinza. Era o que mais atraía as atenções. Ele recolheria a cinza? Gentilmente pegaria o naco de cinza entre os dedos, tomando cuidado para não desmanchá-la em poeira? Ou pegaria a tampa de uma caixa de fósforos na estante de cachimbos ao lado de sua cadeira, a fim de recolher a cinza? Nunca ocorreu a qualquer espectador se oferecer para ajudá-lo. Era um exercício cientificamente manipulado que exigia uma habilidade tão grande que seria a mesma coisa que entrar correndo no palco para ajudar Laurence Olivier a recuperar um adereço que ele largara proposi-talmente. Papai geralmente recolhia a cinza com a tampa da caixa de fósforos. Contudo, ainda meio encurvado, ele descobria, pelo canto dos olhos, um fio solto no ombro de seu paletó. Com o cachimbo nas mãos, a tampa da caixa de fósforos na outra, o foco da atenção nas cinzas, ele cuidava de remover, lenta mas firmemente, qualquer fio solto que pudesse discernir, enquanto todos na sala aguardavam na maior expectativa o destino da cinza. Consumada a conquista das atenções totais, ele se sentia um homem realizado, feliz. Mas se ninguém lhe prestava qualquer atenção, papai se embriagava implacavelmente. Mamãe geralmente se levantava e ia ao banheiro, só voltando depois que sentia que o ato de papai chegara ao final. Sugeria então uma boa torta de maçã que ela própria fizera. Encaminhando- se para a cozinha, ela podia esbarrar em algum móvel, o que produziria um gesto surpreso de compaixão de quem estivesse mais perto. Enquanto isso, papai sugava o cachimbo e bebia lentamente do copo com uísque e leite, que não misturava, sabendo que mamãe conseguira roubar a cena, tentando compreender por que uma peça devia ter mais de um personagem central. Não é de admirar que Warren e eu tenhamos nos tornado atores: aprendemos com os melhores. Mamãe se apresentara certa ocasião numa peça em teatro amador, contando a história de uma mãe que lentamente enlouquecia. Os ensaios afastavam-na de casa pelo menos quatro noites por semana. Papai começou a se queixar de que não encontrava mais um jantar quente à sua espera quando chegava em casa e de que havia poeira

na cornija da lareira. Caçoava de mamãe, dizendo que ela estava se tornando uma réplica da "cadela" que representava "naquela maldita

peça", advertia-a de que a situação em casa estava se deteriorando gradativamente. Pouco a pouco, mamãe começou a sucumbir â pressão. O nariz gracioso tremia quando ela tentava se expressar, a fala se tornou errática. Ela acabou concordando que já se tornara a personagem e por isso não valia a pena continuar. Largou a peça. Aceitara a campanha de propaganda de papai e voltou para casa, a fim de cuidar da família. Enquanto crescia, eu também fazia o que se esperava de mim. Usava blusas brancas padronizadas, sapatos sempre engraxados, so- quetes enroladas por cima das meias de nylon, saias pregueadas que ajeitava meticulosamente por baixo do corpo quando sentava. Dava cem escovadelas nos cabelos todas as noites, sempre fazia os deveres de casa e poderia ter me tornado a Rainha do Futebol Ame- ricano se meu namorado não ficasse doente no dia em que os jo- gadores apresentaram suas candidatas, acabando assim com as minhas chances. Tinha um sorriso jovial para todos e jamais me mostrava abertamente irritada com quem quer que fosse, pois nunca se podia saber de onde viria o voto crucial de popularidade na próxima eleição para Rainha do Baile da Escola. Dava as minhas voltas, mas jamais ia além de beijar. Era uma boa aluna, mas apenas porque aprendera a colar muito bem. Estava imbuída de um autêntico espírito da escola, usava as suas cores em todas as ocasiões. Sentia o coração estufar de orgulho quando ouvia o ressoar dos tambores da escola antes de um jogo importante. Passava muito tempo depois das aulas a fumar e passear de carro com os

sempre provocando, mas nunca indo às últimas conse-

garotos

qüências, porque mamãe dissera que eu deveria estar virgem quando casasse caso contrário meu marido saberia. No final das contas, papai e mamãe estavam mais preocupados com a minha reputação do que com o que eu pudesse estar realmente fazendo. Eu ria muito, mais por tensão, como uma espécie de vazão para os meus sentimentos reprimidos, freqüentemente chegando à beira da histeria. O riso era como um salva-vidas para mim. Mas, ao que parece, também transtornava as pessoas. Meus amigos passaram a me chamar de "Silly Squirrely", a tola esquila, porque eu ria praticamente de tudo. Achavam que eu era uma eterna otimista e minha "despreocupação" era um tema de conversa. Diziam que eu era uma "pirada", algo que aceitei a princípio como um elogio, até que comecei a compreender que havia alguma coisa errada. Um dia, no corredor da escola, eu estava de mãos dadas com Dick McNulty. Ele me contou uma piada e desatei a rir. Não consegui mais parar. Com uma espécie de júbilo teatral, que não queria controlar, comecei a gritar com o riso. Ri e ri, até que o diretor apareceu e ordenou que a enfermeira me levasse para casa. Papai e mamãe só quiseram saber por que eu estava de mãos dadas no corredor com um rapaz. Não pareciam interessados no motivo pelo qual eu rira tanto. Dick McNulty foi o primeiro rapaz a quem amei. Ele morreu três anos depois, na Coréia.

Permaneci na banheira até que a água ficou morna. Que roupas

levaria para Honolulu? Já me encontrara com Gerry em muitos lu-

gares do mundo

as viagens clan-

destinas a Londres haviam se tornado sufocantes para mim. Não era fácil arrumar um apartamento por uma semana. E era ainda mais difícil evitar que a imprensa me reconhecesse. Mas o conflito emocional mais difícil era o de estarmos juntos em seu território doméstico. Encontrei certa vez um apartamento que ficava a dois ou três pontos do metrô e a 10 minutos a pé do escritório de Gerry. Quando lá cheguei, iniciamos um idílio de 10 dias, com Gerry fazendo as viagens de metrô e eu esperando no apartamento escuro que ele viesse me visitar, sempre que podia. Por que todos os apartamentos eram escuros? Eu ficava de pé na janela da frente, observando-o a se aproxi- mar do prédio. Volta e meia Gerry era detido por adeptos, que es- peculavam sobre o que ele estaria fazendo naquela parte de Londres. Ele entrava no apartamento. Eu o abraçava. — Morei neste bairro assim que me casei — disse ele na primeira vez. Gerry soltou-me e deu uma volta pelo apartamento, examinando as estantes e as peças de cerâmica nas mesas. Não falou muita

a qualquer momento que ele sugerisse

na neve e nos trópicos. Iria a qualquer lugar e

mas

sobre os livros ou as gravuras nas paredes, mas pegou uma revista que acabara de chegar pelo correio. Era Penthouse.

— Como as pessoas podem fazer assinatura de uma porcaria como esta? — disse ele, enquanto me levava para o quarto.

— Não sei. Mas não acha que pornografia é apenas uma questão

de geografia ou criação? Muitas pessoas diriam que somos por- nográficos pelo que fazemos. Gerry me fitou nos olhos por um momento e depois sorriu. Os óculos pareciam incongruentes, empoleirados no alto de um nariz tão-orgulhoso. Fizemos amor, mas ele estava preocupado. Passamos algum tempo deitados lado a lado e depois Gerry disse que tinha de voltar ao

trabalho. Um calafrio me percorreu o corpo. Mas deixei passar. Depois que ele saiu, liguei para um escritor amigo e me ausentei

do apartamento pelo resto do dia, inclusive jantando fora.

Gerry tinha mais tempo e parecia mais desamparado no dia seguinte. Contou-me que a alegria do nosso encontro fora tão intensa que mal conseguira dormir à noite. Disse que era uma

maneira requintada de sentir-se exausto. E acrescentou que tivera sentimentos que nunca antes experimentara, em toda a sua vida. Ele apareceu no apartamento no quarto dia e sentou com um sorriso contrafeito. Perguntei no mesmo instante:

— Qual é o problema?

Gerry respirou fundo.

— Minha filha abriu o armário para procurar alguma coisa no

meu casaco e perguntou por que minhas roupas cheiravam a perfume. Fui apanhado de surpresa e reagi como um culpado. Corri para o armário, ao invés de descartar o assunto como se não tivesse qualquer importância. Minha esposa estranhou a reação e pude sen- tir que ela me observava atentamente. Declarei que não sentia o

cheiro de qualquer perfume. Ela se aproximou do armário e disse que também podia sentir o perfume. Respondi que não tinha a menor idéia do que elas estavam falando e me afastei. Não soube lidar com a situação. Fui tão desastrado quanto em Paris. Ele entrou na cozinha, tropeçou na lata de lixo, preparou um

chá.

— E como ficaram as coisas? — indaguei.

— Acho que está tudo bem agora. O incidente já foi esquecido.

Mas detesto a hipocrisia. Não gosto de mentir. Desse dia em diante, não mais usei perfume. Não usava nem mesmo quando não estava com Gerry. Receava que aderisse a minhas roupas. Mas sempre que nos encontrávamos, ele tomava um banho de chuveiro depois, inclusive lavando os cabelos. E sempre sorria constrangido, dava de ombros pelo absurdo.

Pus óculos, um lenço na cabeça, chapéu por cima do lenço, fui

ao Parlamento inglês, onde Gerry estava participando de um debate sobre a economia, junto com o primeiro-ministro e diversos líderes da oposição. Sentei na última fila da galeria. Era a primeira vez que via Gerry em ação. Ele andava agressivamente pelo plenário, como se já fosse o primeiro-ministro. Estava tão seguro de si que misturava gracejos desafiadores e agressivos em seus discursos e réplicas. Parecia brincar com o que julgava ser a inteligência inferior de seus colegas e superiores políticos. Nem sempre sentava em seu lugar quando era a vez de outro parlamentar falar; e quando o fazia, cruzava as pernas, as meias azuis sempre escorregando pelos tornozelos. Levantava-se impacientemente, clamando vigorosamente por atenção. Tornava a andar pelo plenário como se lhe pertencesse. Abria bem as pernas, as mãos enfiadas nos bolsos, contava a presença na casa, como se o número de pessoas a observá-lo da galeria fosse mais importante do que qualquer um podia imaginar. E quando pediu tempo para falar, chamou um de seus oponentes de meio homem, disse que era um hipócrita, incapaz de apoiar uma posição impopular, quer versasse sobre sindicatos, energia nuclear ou revisão dos impostos. Nunca usava anotações. Parecia esmurrar o ar. Mas, por baixo da tribuna, os pés se viravam para dentro, como os de um colegial nervoso. Sentada lá em cima, perguntei-me se ele conseguiria algum dia levar seu partido à vitória. Era agressivo e brilhante. Mas se os eleitores vissem seus pés, curvando-se para dentro, mexendo-se constantemente, passando por cima um do outro, também saberiam por que ele derrubou o conteúdo de sua pasta no chão, com o cotovelo, quando finalmente foi sentar. Ainda bem que ele conhecia perfeitamente as saídas da Câmara dos Comuns. Naquela noite, ao entrar no apartamento, ele me perguntou ime- diatamente o que eu achara. Com os óculos, chapéu e lenço na cabeça, eu pensava que ele não tivesse me reconhecido naquela tarde.

— Você sabia que eu estava lá desde o início?

— Claro. Para mim, seria muito difícil deixar de reconhecê-la. Hesitei por um instante. Talvez então ele estivesse se

exibindo para mim. Talvez nem sempre ele se desempenhasse daquela maneira.

— E então

— Estava se exibindo para mim ou sempre se comporta daquela

maneira? Gerry ficou surpreso.

o que você achou?

— Como assim?

— Além de se exibir um pouco como Jacques Tati, você agia como

se fosse o primeiro-ministro, como se fosse o dono do lugar. Ele riu, largou a xícara de café e se inclinou para a frente,

com um brilho de interesse nos olhos.

— É mesmo?

— Você me pareceu insensível a seus colegas

chamando-os de

meio homens e coisas assim. É assim que se costuma fazer por aqui? Gerry empurrou os cabelos que haviam caído sobre os olhos.

— É um jogo, entende? E constitui a metade da diversão para

mim. Para ser franco, é a metade da política para mim. Adoro fazê-

los se contorcerem por suas próprias contradições. É parte do jogo. Se não fosse por isso, qual seria o prazer? Percebi um brilho de dúvida passar por seu rosto, mas desa- pareceu no mesmo instante.

— Você se comportaria da mesma maneira se soubesse que câmaras

de televisão o estavam focalizando? Gerry empalideceu ligeiramente, mas foi logo ao ponto que o interessava.

— Por quê? Acha que sou veemente demais para a televisão? Acha que eu deveria atenuar o meu comportamento? Eu não podia acreditar que Gerry estivesse mesmo querendo

discutir o lado técnico. Pensava que era evidente que eu estava querendo saber por que ele se comportara daquela maneira.

— Por que foi tão combativo com as pessoas que estava tentando convencer?

— Já lhe disse. Detesto a hipocrisia daquela gente. Detesto o

jeito como tentam evitar se comprometer com qualquer coisa. E são

uns mentirosos. Além disso, represento os trabalhadores, que nunca têm a oportunidade de falar com tanta veemência. Esse tipo de atitude sempre os agrada. Escutei atentamente, tentando compreender. Talvez ele não es- tivesse na verdade interessado em persuadir os parlamentares aos quais falava. Indaguei se ele era tão agressivo para que seus eleitores das classes trabalhadoras pudessem identificar o que desejavam ser ou porque realmente se sentia assim.

— As duas coisas. Que são absolutamente coerentes, diga-se de

passagem. Enquanto falava, Gerry parecia consciente de que podia estar enganando a si mesmo. Fiquei em dúvida se deveria insistir em mi-

nha crítica ou mesmo se meus sentimentos eram acurados. O sorriso de Gerry tinha um jeito de contrafeito. Eu não podia entender por quê. Ele era aberto à crítica, ao mesmo tempo em que defendia o seu comportamento combativo. Mas havia alguma coisa por trás que eu não podia definir. Talvez fosse algo quase como vergonha. Era como se ele se mostrasse agressivo por estar envergonhado.

— Nenhuma outra pessoa me dirá essas coisas — comentou Gerry.

— Claro que me pedem para não me mexer tanto. E para não ficar andando sem parar quando outros estão falando. Mas não me falam sobre as coisas a que você está se referindo.

— Para ser franca, não sei muito bem do que estou falando. Sei

apenas que o seu sorriso e alguma coisa que está sentindo não

combinam muito com a maneira pela qual se defende.

— Estou entendendo.

— Gostaria de saber por quê.

— Não sei.

Gerry estava contrafeito, mas não recuou. Eu também me sentia contrafeita por discutir as suas atitudes políticas com tanta franqueza. Já conhecera muitos políticos e sabia que raramente

eram capazes de uma auto-análise. Mas eu introduzira o tema de conversa e senti que deveria seguir adiante.

— Talvez você esteja sendo esperto demais para o seu próprio

bem, Gerry. Talvez sinta que é justamente isso o que as pessoas sentem a seu respeito. E quer seja verdade ou possa se traduzir na ausência de votos, não acha que é a mesma coisa?

— Não sei. É possível.

— Talvez você seja agressivo com as contradições das outras

pessoas porque também tem as suas.

— Como assim? Sou coerente com as minhas convicções políticas.

Sempre direi a verdade, mesmo que isso possa me ser prejudicial. Pensei por um momento. Acreditava nele, mas não era disso que eu estava falando. Não sabia se devia continuar.

— Sei que você é coerente em termos políticos. Mas estava

atacando-os num nível pessoal e aí não sei se é tão puro quanto se

apresenta.

Gerry levantou-se e começou a andar de ura lado para outro da sala, passando a mão pelos cabelos.

— Está querendo dizer que eu acuso outros de hipocrisia pes- soal porque reconheço a mesma coisa em mim?

— Não é o que todos fazemos? Na verdade, acusamos os outros das coisas de que estamos mais propensos a ser culpados.

— E de que eu sou culpado?

— Provavelmente de mim.

— Ambos sabemos disso, não é mesmo? Mas o que isso tem a ver com a política?

— O que me diz daqueles telefonemas que você me dá? Gerry parou de andar.

— O que há com eles?

— Não faz as ligações do seu gabinete?

— Claro.

— Quem paga as ligações?

— É um telefone do governo.

— E quem paga o governo?

Gerry ficou me olhando fixamente.

— Está dando sete telefonemas internacionais por semana com o

dinheiro dos contribuintes. Isso deve ser levado em consideração.

— Onde está querendo chegar?

— Estou querendo conhecer a verdade. Você chamou alguém de

meio homem hoje e espera escapar impune. E se o homem resolver verificar o seu registro telefônico e descobrir que as suas liga-

ções para Reno e Las Vegas são para mim?

O rosto de Gerry ficou absolutamente paralisado por um ins- tante. E, depois, ele olhou para o relógio.

— Santo Deus! — exclamou ele. — Já estou atrasado para uma reunião do partido. Falarei com você mais tarde.

Gerry encaminhou-se para a porta, os cabelos caindo sobre os olhos. Pôs a capa que eu esperava que tivesse um forro para o in- verno e, como sempre, saiu sem se despedir. Os óculos ficaram em cima da mesa. Tomei o resto do café que ele deixara. A autoconfrontação não era um dos pontos fortes de Gerry. E a diplomacia não era um dos meus. Saí naquela noite com amigos e fiquei me divertindo até cinco horas da madrugada. Gerry me telefonou cedo, pela manhã.

— Pensei que tivesse vindo a Londres para me ver — disse ele. Fiquei aturdida.

— E foi por isso mesmo.

— Onde esteve ontem à noite?

— Saí.

— O que havia de tão interessante no que fez durante a noite

inteira? Não pôde encontrar coisas melhores para fazer com o seu tempo?

Como assim?

 

Onde você foi?

Saí

para jantar

no White

Elephant com

alguns amigos

e

ficamos conversando por um longo tempo. Passamos depois pelo Annabelle's para dançar.

— E com quem você dançou?

— Espere um pouco, Gerry. Onde você está querendo chegar?

— A lugar nenhum. Aparecerei mais tarde.

— Mal posso esperar. Eu esperava que Gerry percebesse o sarcasmo.

Não o abracei quando ele chegou. Gerry percebeu-o. Tirou a capa e seguiu para o quarto. Estendeu-se na cama e ficou olhando para o teto. Preparei-lhe um scotch com soda. Gerry largou-o na

mesinha-de-cabeceira. Sentei na cama ao seu lado. Não falei nada. – Não sou um homem enganador.

— Sei disso.

— Mas estou me comportando como se fosse. Estou bancando o mentiroso.

— E qual é a novidade?

Gerry suspirou.

— Não sei. Mas está me deixando angustiado.

— Conte à sua mulher.

— Não posso.

— Pois então não fale com ela a meu respeito. Deixe-me de

fora. Converse apenas sobre o que há de errado entre vocês dois. Ele me fitou nos olhos.

— Não há nada de errado entre nós dois.

— Não há nada de errado entre vocês? Como pode dizer uma coisa dessas?

— Não há mesmo. Não temos um amor tempestuoso ou ardente, mas é satisfatório.

Tentei imaginar o que eu sentiria se alguém dissesse a mesma coisa a meu respeito. Tentei imaginar o que a mulher dele diria se alguém lhe fizesse a mesma pergunta.

— Ela nunca reclama de sentir-se solitária?

— Claro. Mas já se acostumou. Afinal, estou sempre viajando. Mas ela já se acostumou com isso há muito tempo.

— Tem certeza de que ela se acostumou mesmo?

— Não sei.

— Tem certeza de que ela não é solitária?

— Ela nunca me disse nada.

Gerry tomou um gole do scotch.

— Mas sabemos que você se sente solitário, não é mesmo, Gerry?

— É, sim. — Ele pôs o braço por baixo da cabeça e acrescentou:

— Mas eu tinha me acostumado.

— O que está querendo dizer com tinha?

— Exatamente o que eu disse. Eu tinha me acostumado até que

você apareceu. Não me sinto solitário agora.

— Então por que não tenta descobrir se não pode ajudá-la a não

se sentir tão solitária

a não se sentir tão infeliz?

— Como assim? Eu estaria mentindo para ela. E como isso

poderia fazê-la feliz?

— Está mentindo para ela porque contar a verdade seria pior,

não é mesmo?

— É, sim.

— Portanto, estamos de volta à hipocrisia. Talvez seja neces- sária às vezes. Talvez seja esse o preço a pagar.

Ele me fitou de uma maneira estranha e depois concentrou-se no gelo do copo, como se não quisesse mais falar.

— Você me responderia a uma pergunta, Gerry? Com toda sinceridade?

— Claro.

— Você se sente como se estivesse vivendo sozinho? Lá no

fundo, onde realmente vive

A pergunta parecia ser algo novo para ele. A impressão era de que nunca antes pensara a respeito.

está vivendo sozinho?

— Estou, sim.

— Então sua mulher também deve se sentir assim.

Ele virou-se de lado.

— Talvez ela precise de outro relacionamento, exatamente como

você. Gerry olhou pela janela.

— Não. Ela se sente feliz em criar nossos filhos. Sabe o que

meu trabalho exige. Ele estendeu um braço por cima do rosto. Estendi uma manta por cima de seu corpo e deitei-me ao lado.

— Estou falando como um desses porcos chauvinistas, não é

mesmo?

Não fiz qualquer comentário. Uma pausa e Gerry acrescentou:

e

se eu contasse, ela não acreditaria.

Oh, Gerry

E, depois, adormecemos juntos. Gerry acordou

algum tempo

depois e disse:

— Sei perfeitamente o que você representa para mim.

— E o que é?

Gerry não respondeu.

— Gerry

— O que é?

— Não fique assim. O que eu represento para você? Diga-me para que eu possa saber. Ele limpou a garganta. — Falei a um dos meus assessores que nos conhecemos. E

acrescentei que você estava em Londres. Pedi-lhe para falar no meu lugar esta noite, a fim de que pudesse encontrá-la.

— E o que ele disse?

— Perguntou se havia mais alguma coisa que ele deveria saber.

Respondi que você estava em Londres, eu queria ficar em sua com-

panhia e ponto final. Sentei na cama.

— Estou entendendo. E é isso o que você quer dizer ao falar que sabe perfeitamente o que represento em sua vida?

— Tenho de ir agora. O discurso já deve estar terminando.

Preciso estar presente para as perguntas e respostas. O calafrio familiar me percorreu o corpo. Gerry tomou um banho de chuveiro, lavando os cabelos. Vestiu-se rapidamente.

— Você não precisava do banho de chuveiro. Não esta noite.

— Tem razão. — Ele foi pôr o copo na pia da cozinha. — Não

precisava, não é mesmo? Gerry pôs a capa e saiu pela porta. Para o seu próprio bem, fiquei contente por ser a porta certa. Voltei para a Califórnia no dia seguinte.

Capítulo 3

"O que acontece depois da morte é tão indescritivelmente glorioso que nossa imaginação e nossos sentimentos não bastam para formar

A dissolução de

nossa forma limitada peio tempo na eternidade não acarreta uma perda do sentido."

sequer uma concepção aproximada a respeito

— Carl G. Jung, Cartas, Vol. I

Saí da banheira, enxuguei a pele toda enrugada, pus uma calça roxa e uma suéter laranja, desci para falar com Marie e jantar. Entrei na cozinha. Era moderna, plenamente equipada e no fundo não me pertencia. Marie, sendo francesa e uma cozinheira de refinada competência, reinava em seus domínios com uma autoridade possessiva, não me deixando sequer arrumar um copo de Tab. Ela era

pequena e frágil, as pernas tendo a circunferência da maioria das pessoas. Os dedos eram retorcidos de artritismo, as mãos e braços tremiam quando ela servia. Usava chinelas com as pontas cortadas, porque os pés eram deformados em decorrência de ferimentos sofridos durante a Segunda Guerra Mundial, contrabandeando armas para os maquis franceses em luta contra os nazistas. Sua irmã Louise, que estava na América há 20 anos e não falava uma só palavra de inglês, era a sombra de Marie, recebendo ordens e se queixando em desespero que nada dava certo. Cerca de seis anos antes, por volta das três horas da madruga- da, Marie me acordara, muito nervosa, batendo na porta do meu quarto e gritando que havia alguma coisa errada com seu marido John. Eu descera para o quarto deles. John estava estendido na cama, pálido como um prato de aveia. Os olhos estavam fechados e ele tremia todo, como se estivesse sufocado, ansiando por respi- rar. Eu não sabia o que fazer. Estava horrorizada e não queria tocá-lo. Levantara a sua cabeça para aplicar a respiração boca a boca. Um som horrível saíra dele, um estrondo profundo, gutural. Soara como um animal que eu não podia reconhecer. E me deixara profundamente assustada. A princípio, não compreendi que era o estertor da morte. Marie também não compreendera. Insistira que ele apenas desmaiara. Eu o sacudira, com receio de que o som tornasse a sair, ainda mais alto. O que acontecera. E, depois, parara. Ele morrera abruptamente, em meus braços. Fora a primeira vez que eu vira uma pessoa morta. Ficara

pensando em que momento exato ele morrera. Creio que foi nesse instante que comecei a especular a sério se havia uma coisa a que se pudesse chamar de alma. Parecia impossível que eu tivesse am- parado nos braços tudo o que podia restar de um homem. Alguma

continuava a viver? A morte

coisa que era John

era dolorosa? Se a alma sobrevivia ao corpo, para onde ia? E com que propósito? Eu não conseguira dormir pelo resto da noite ou durante as três noites subseqüentes, apesar de estar trabalhando muito na ocasião, filmando Charity, Meu Amor. Parecia estar tateando em busca do verdadeiro significado metafísico da morte. E digo metafísico porque não era alguma coisa que eu pudesse ver, tocar,

ouvir, cheirar ou saborear. Tudo o que sabia era que John, como eu

o conhecera, havia acabado. Ou não? Eu gostava dele. Mas, depois

do choque inicial, não senti muita dor ou uma saudade desesperada. Contudo, não parecia capaz de aceitar sua morte simplesmente como

o fim de sua vida. Sabia que de alguma forma havia algo mais.

Sabia também que não podia parar de pensar a respeito. Pensava a respeito cada vez que entrava na cozinha e ainda agora a situação não era diferente. Marie, Louise e eu conversamos por algum tempo, em francês e

inglês, com alguma dificuldade. Informei que estava de partida para um fim de semana prolongado. Marie me serviu o jantar diante do aparelho de televisão, na sala de estar. Assisti ao jornal. Depois, dominada pelo vinho e por uma exaustão que não podia compreender, subi para o meu quarto e me estendi na cama. Estava deprimida e não sabia por quê.

todos parecíamos estar andando como so-

a sua "alma"

Mas

que

mundo

nâmbulos, como estranhos cruéis e amigáveis

outros, mas sem jamais chegarmos a fazer um contato real com o que

era verdadeiro

outros

palavras que poderíamos ouvir dos outros. Havia um colapso de comunicação tão grande que todos estávamos famintos por confiança, tateando em busca de alças e salva-vidas para nos segurarmos, de

contato e compreensão. Tratávamos de nos concentrar nos desesperos profundos e numa paciência disciplinada, a fim de não balançarmos

os barcos dos outros

a esperança de que talvez as coisas melhorassem, sempre

imaginávamos o que poderíamos fazer

que nossa inutilidade se tornava institucionalizada, quase como se tivesse se tornado mais seguro não saber o que nossas vidas realmente significavam. Tentei me sentir sonolenta. O copo na minha mão começou a pingar do calor do meu contato. As pequenas coisas, pensei. Eu deveria me concentrar no prazer das pequenas coisas. O verde suave das folhas da palmeira além da janela, as azeitonas pretas caídas no caminho de cimento da árvore que eu mesma plantara, pensando se

e assim continuávamos, até

muito menos o nosso. Sempre acalentávamos

falando sem nos dirigirmos expressamente aos

esbarrando uns nos

com medo de nossas próprias palavras, tanto quanto das

água

quente e espuma de sabonete, a corrida amanhã de manhã que me

faria sentir bem durante o dia inteiro, porque me empenhara a

era tudo pequeno, mas podia ser juntado para me fazer

sentir melhor.

fundo

poderia me sentir responsável por alguma coisa crescendo

Lembrei-me de estar sentada na cama de Clifford Odets pouco antes de ele morrer. Eu amara e respeitara suas peças intensamente. Ele era realmente capaz de escrever sobre a

especialmente

de pessoas com vidas insignificantes e não reconhecidas. O câncer transformara sua cabeça em algo parecido com a de um pássaro murcho. A cabeleira abundante já caíra, a barriga estava inchada da doença, tubos pendiam de seu nariz. Ele tomou um pouco de leite de um recipiente de plástico e pediu-me que abrisse as janelas, a fim de que o ar frio pudesse esfriar o leite. — Quero viver — murmurou ele — a fim de poder escrever para muitas pessoas sobre o prazer que se encontra em coisas que não são maiores que uma pulga.

esperança humana e o triunfo contra a adversidade

Senti-me sonolenta por volta das duas horas da madrugada. Eram 10 horas da manhã em Londres.

uma longa

extensão do Deserto do Saara que eu desejara atravessar, só para

descobrir se era capaz de fazê-lo

camponês russo num restaurante de Leningrado, enquanto todos os

uma mãe masai na África, morrendo de

sífilis enquanto dava à luz um filho

voando como se fosse apenas um, durante uma filmagem no México,

enquanto eu especulava como conseguiam se manter em formação vastos espaços do interior da China, para onde eu levara a

os

fregueses batiam palmas

um bando de pássaros

dançar com um lenço e um

Imagens da minha vida entravam e saíam da mente

primeira delegação de mulheres americanas, todas vestidas no traje

o rosto de Gerry quando eu lhe dissera que ado-

uma arca grande mas compacta, com gavetas e

compartimentos de armário, que eu desejava que pudesse ser a minha casa móvel, a fim de nunca ter de viver permanentemente em

qualquer lugar

flashes, ovações de pé, os refletores quentes da televisão, os

cenários de filmes tranqüilos, entrevistas coletivas, perguntas difíceis, campanhas políticas, candidatos presunçosos mas bem-

o rosto angustiado de George McGovern na noite em

que Richard Nixon venceu por uma maioria esmagadora

da Academia e minha ansiedade por ganhar um com Irma la Douce,

meu desapontamento

quando não ganhei com Se Meu Apartamento Falasse, porque naquele

as

quatro outras vezes em que fui indicada para um Oscar e nem me

importei

doloridos e o chamado pavor do palco, os estúpidos executivos dos estúdios, as horas disciplinadas a escrever sobre o sentimento pessoal e permanente de uma longa busca por quem eu realmente era. O que estava faltando? Será que eu, como tantas outras mulheres, procurava continuamente pela definição de minha própria identidade através do relacionamento com um homem? Acreditava que a outra metade de mim poderia ser encontrada em amar alguém, independente da frustração e inutilidade inerentes? Hong Kong e Gerry me invadiram a mente. Eu me encontrara com ele, lá, em outra de suas conferências. Outra esperança que desta vez seria diferente, mais satisfatória. — É maravilhoso como você adora arrumar as malas e viajar de um momento para outro — comentara Gerry. — Como consegue isso? Como pode ser tão flexível? E vê tantas coisas. Eu nunca tenho tempo.

que não tinha

os longos ensaios, discussões profissionais, músculos

ano Elizabeth Taylor quase morrera com uma traqueotomia

quando achava que meu desempenho não merecia

intencionados

unissex chinês rava viajar sozinha

bailarinos, coreógrafos, o suor voando, pianos,

os Oscars

Gerry nunca percebeu que eu não respondia

certeza se estava correndo para alguma coisa ou de mim mesma.

Tinha dúvidas se Gerry realmente aproveitaria o tempo, se o tives-

se. Achava que ele não veria o que olhasse

de. Ele viajara pela África quando era jovem. Mas quando falava a

respeito, percebi subitamente que não mencionava nunca o que

comera, o que tocara, o que vira, o que cheirara, como se sentira. Falava sobre a África como uma viagem sociológica, não como uma viagem humana. Falava como as "massas" eram exploradas, pobres e colonizadas, mas não como realmente viviam e como se sentiam. Gerry nunca estivera antes em Hong Kong. Sentados no quarto dele no hotel, tive de interpretar o ambiente para ele. Gerry não parecia apreender a confusão agitada e paradisíaca que era Hong

Kong

os cules de jirinquixá se misturando com os táxis, os

não veria de verda-

milhões (cinco e meio) de habitantes se acumulando e derramando pela baía, o paraíso dos compradores de sedas chinesas, brocados

japoneses, algodões indianos e rendas suíças, mercadorias diversas e relógios, alimentos, jóias e tóxicos, perfumes e peças de jade e marfim, coisas do mundo inteiro levadas para aquele porto livre

nada disso parecia impressionar Gerry, deixá-

visando ao lucro

lo deslumbrado. Em vez disso, ele se limitava a comentar que não

conseguira comer uma só refeição chinesa desde que chegara. Estava preocupado com a possibilidade dos guardas que pa- trulhavam o seu andar nos reconhecerem e o julgarem mal. Eu lhe dissera que, na Ásia, todos sempre sabem de tudo que os estran- geiros fazem, de qualquer maneira, não se importavam muito com isso. Apenas precisavam saber. Gerry escutara como se eu estivesse contando um conto de fadas quando lhe descrevi como fora até o fundo de Kowloon, passando pelas lojas de sedas, as fábricas de peças de jade, os relógios da Suíça e o distrito residencial em que viviam os seus conterrâneos,

os britânicos. Eu lhe falara sobre a Star Ferry e a própria baía, pela qual deslizavam os juncos chineses de velas vermelhas, proce- dentes do território continental. Falara sobre a Cat's Street, onde os estandes de mercadorias transbordavam com quase tudo que a imaginação podia conceber. Falara como subira ao topo de Victoria Peak e contemplara os barcos lá embaixo, na enseada. Gerry ficara extasiado com a minha descrição fascinante de diamantes, pérolas, objetos antigos, comidas suculentas, materiais feitos à mão, obras de arte feitas por crianças d© menos de 12 anos, que se empenhavam em negócios de adultos sem sequer o perceberem. Descrevera as

multidões de turistas indianos, americanos

todos procurando por uma barganha. Descrevera para Gerry como o cheiro das especiarias pairava no ar, como a música de rock se misturava com a ópera chinesa. Como

as mascates a apregoarem colares de plástico se agachavam de vez em quando para encherem a boca com arroz, tirado com pauzinhos de marfim esculpidos de tigelas delicadas de porcelana. Turistas corriam, mercadores corriam, crianças corriam, ônibus corriam,

uma corrida para o tumulto, a pressa de comprar e

vender no mínimo de tempo. E, de alguma forma inexplicável, tudo funcionava. Todos ali estavam empenhados em ganhar dinheiro, sem ilusões, sem pretensões quanto ao motivo da existência de Hong Kong. Era como Las Vegas. Não havia hipocrisia a respeito. Era o que era. Se a pessoa participava, tornava-se parte do esquema. E sempre se esperava por isso, poh tudo o que todos esperavam era fazer um bom negócio. Hong Kong era um lugar em que se ficava liso de tanto poupar dinheiro. Os olhos de Gerry brilhavam e faiscavam enquanto eu lhe fa- lava, durante a noite inteira, do que fizera durante o dia inteiro, enquanto ele comparecia a suas reuniões. Era verdade que Gerry não podia se ausentar tanto quanto gostaria; mas quando saía, era como se ele nunca tivesse deixado o quarto. E no último dia eu acertara para que um barco nos levasse aos Novos Territórios, onde conhecia um lugar ideal para um pique- nique. Eu levara limonada, sanduíches e tortas. Mas, no barco, ele voltara a falar sobre as condições miserá- veis em que vira os chineses vivendo. Discorrera sobre a desigual- dade entre ricos e pobres. Comentara como os. ricos deviam volun- tariamente partilhar seus lucros com os que eram menos afortuna- dos. Nunca lhe ocorrera que os pobres podiam ter uma riqueza de espírito que os ricos invejariam se a conhecessem. Nunca lhe ocor-

cules corriam

europeus, africanos, japoneses, malaios, e assim por diante, interminavelmente,

rera que uma pessoa rica podia ser miserável de outra maneira, mas isolada e alienada. Nunca pensava em "uma pessoa rica". Era apenas "os ricos", "os pobres", um todo amorfo. Eu lembrara como um amigo querido me surpreendera durante a minha fase de liberalismo total, ao me avisar de não ter a menor compaixão pelos ricos, enquanto esbanjava meu coração piedoso apenas com os pobres. A verdade da acusação me deixara profun- damente chocada.

— Ele parara de falar. — O que me diz daquelas

colinas que parecem ser de jade, tão lindas e podendo ser des-

— Gerry

frutadas até pelos pobres? Ele olhara.

— Olhe também para aquelas sampanas de velas vermelhas, deslizando pela água. O que me diz da maneira como aquelas pessoas estão acenando para nós? Gerry se levantara.

— Acho que estou falando como o Sunday Observer, não é mesmo?

— Ele sorria timidamente. — Desculpe. Eu me torno tedioso às vezes, não é mesmo? Entráramos numa das pequenas enseadas nos Novos Territórios e desembarcáramos. Os tripulantes ficaram a bordo. Gerry carregara os cestos do piquenique, enquanto eu levava uma garrafa térmica e uma manta. Árvores frondosas farfalhavam à brisa marinha, à beira da água, enquanto nos encaminhávamos para as colinas de vegetação exuberante. Respiráramos o ar fragrante. Tiráramos os sapatos, afundando os pés na terra. Gerry suspirara e esticara os braços para o sol quente. Parara em cada árvore e flor silvestre. Pusera uma margarida em sua orelha. Encontráramos um córrego faiscando ao sol, passarinhos voando entre arbustos floridos nos dois lados. Não havia ninguém por perto. Gerry tirara a camisa e a calça, estendera-se de costas na água. E me chamara. Eu também tirara o vestido e entrara na água. Sentíramos a rocha escorregadia por baixo de nós e não nos impor-

táramos quando a correnteza começara a nos arrastar lentamente. Os passarinhos cantavam para nós das árvores. Nós nos abraçáramos e levantáramos ao mesmo tempo, as gotas escorrendo faiscantes dos cabelos. Gerry passara o braço por minha cabeça e gentilmente me puxara de encontro ao seu peito. Em silêncio, voltáramos a pôr as roupas. Eu me postara ao seu lado. Virando-se para mim, pondo os braços em meus ombros, Gerry murmurara:

— Mas que merda! Como posso conciliar você com o resto da minha vida?

— Não sei, Gerry, não sei

Ele estendera a manta no chão. Deitáramos e ficáramos olhando para o céu através da copa da árvore. Voltáramos ao barco cerca de uma hora depois. Eu me perguntava

como Gerry poderia conciliar a si mesmo com o resto de sua vida. Marie me serviu o café na manhã seguinte no pátio. Eu não

sabia direito o que estava pensando

os pensamentos eram con-

fusos demais, tumultuados, esbarrando uns nos outros. Claro que me sentia frustrada com Gerry, mas havia muito mais que apenas isso.

Estava num intervalo entre filmes, mas meu trabalho corria muito bem. E tinha outro contrato para me apresentar em Las Vegas e Tahoe, assim que me considerasse pronta para o novo espetáculo. Assim, eu podia dizer que era uma pessoa relativamente feliz, por todos os padrões comparativos. Mas não me sentia particularmente serena. David telefonou. Acabara de chegar à cidade e perguntou se £u

iria à aula de ioga. Combinei que me encontraria com ele lá. Eu adorava o hatha ioga porque era físico e não meditativo, embora exigisse concentração e um senso de relaxamento. Mas com o sol entrando pela janela e o som da voz do instrutor funcionando como um acompanhamento, eu adorava a aula, sentindo que todos os músculos e tendões do meu corpo eram ativados. O esforço físico servia para me desanuviar o cérebro.

— Não se afobe, respeite o seu corpo e ele reagirá favoravel-

mente — dizia o professor (que era hindu). — O ioga exige bom senso. Não pegue o seu corpo de surpresa. Deve se aquecer antes

dos exercícios. Não faça uma emboscada contra os seus músculos. Os músculos são como pessoas: precisam dos preparativos adequados, caso contrário se assustam e se contraem. Deve respeitar o ritmo deles. Pense a respeito como um explorador que está penetrando em território desconhecido. Um explorador sensato vai devagar, pois nunca sabe o que pode encontrar além da próxima curva. Somente quando se vai devagar é que dá para se pressentir antes de encontrar de fato. O ioga proporciona amor-próprio porque a põe em contato com você mesma. Oferece uma paz interior. Aprenda a viver dentro de você. Garanto que vai gostar. Eu escutava as suas palavras nos intervalos entre as posturas.

A

realização

do

ioga

exige

quatro

atitudes:

fé,

determinação, paciência e amor. É como a vida. E se você é boa e fiel em sua luta nesta vida, a próxima será mais fácil. Minha malha estava molhada de suor. "Lute nesta vida e a próxima será mais fácil." Calculei que ele realmente acreditava

nisso. Afinal, era hinduísta. Pus a saia e uma blusa de malha, saí com David. Andando sob o sol exuberante da Califórnia, David disse:

— Vou até a livraria Bodhi Tree. Quer me acompanhar?

— A Bodhi Tree? Não é aquela árvore sob a qual Buda meditou por 40 dias ou algo assim?

— Exatamente.

— E que tipo de livraria é

indiana?

— Mais ou menos. Eles possuem livros de todo tipo sobre o oculto e metafísica. Nunca ouviu falar?

Senti-me um pouco constrangida, mas confessei que nunca ouvira falar.

— Acho que você vai gostar — disse David, gentilmente. — Se

você se dá tão bem com o ioga, vai adorar algumas das obras dos antigos místicos. Estou surpreso por você ter passado tanto tempo na Índia sem absorver a espiritualização do país. A livraria fica na Melrose, perto de La Cienega. Vamos nos encontrar lá.

— Está certo. Por que não?

Olhando para trás, posso dizer que essa decisão simples, numa tarde ensolarada, de visitar uma livraria diferente, foi uma das

mais importantes de minha vida. E, mais uma vez, sou lembrada que efetuamos pequenos movimentos importantes quando estamos

preparados para isso. Numa época anterior de minha vida, essa mesma sugestão pareceria um desperdício de uma tarde, quando havia tantos roteiros a ler e tantos telefonemas a responder. Eu estava ocupada demais em ser bem-sucedida para compreender que havia outras dimensões na vida. David já estava na Bodhi Tree quando cheguei, esperando por mim na calçada, encostado numa árvore. Ele sorriu quando acomodei meu Lincoln imenso numa vaga que mal dava para um Volkswagen.

— Aluguei este carro — expliquei. — Não tenho nenhum. Carros

são uma chatice e não consigo compreendê-los. Basta que tenha

quatro rodas e um pouco de gasolina para que eu me sinta satisfeita. Pode entender o que estou querendo dizer?

— Claro. E provavelmente melhor do que você imagina.

Ele

me

pegou pelo braço e entramos. Enquanto

avançávamos,

senti o cheiro de incenso de sândalo se espalhando pelos diversos

compartimentos da atravancada livraria. Olhei ao redor. Cartazes de Buda e de iogues de que eu nunca ouvira falar sorriam-me das paredes. Fregueses com livros na mão tomavam chás de ervas e falavam em voz baixa. Comecei a examinar as prateleiras. Havia livros e mais livros sobre assuntos que variavam da vida após a morte a como comer na Terra enquanto aqui se vivia. Sorri meio murcha para David. Sentia-me deslocada, um pouco tola.

— É fascinante — murmurei, desejando não ter achado que era

necessário dizer alguma coisa. Uma moça de sandálias e saia de gaze se aproximou para nos servir um chá.

Posso ajudar em alguma coisa?

 

A

voz

era calma,

de profunda serenidade. Ela

estava em

harmonia com o clima na livraria

teatral. Quando me virei para fitá-la, ela reconheceu-me e sugeriu

uma apresentação ao dono da livraria, que estava em seu escritório, tomando chá. David sorriu e nós a acompanhamos. O escritório parecia estar estourando com tantos livros. O proprietário era jovem, de trinta e poucos anos, usava barba. Informou que lera os meus livros e estava especialmente

ou talvez eu estivesse sendo

interessado no que eu tinha a dizer sobre o período que passara nos Himalaias.

— Até que ponto absorveu a técnica da meditação? — perguntou

ele. — Usa a respiração Kampalbhati? Não acha que é muito eficaz,

apesar de tão difícil? Eu não tinha a menor idéia do que ele estava falando. Foi nesse momento que um rapaz de cabelos curtos e blusão de malha

entrou na sala. Olhou para mim e para David, depois para o dono da loja (cujo nome era John), com um sorriso pretensioso.

— Ei, cara, para que serve toda essa merda de tentar fazer com

que as pessoas pensem que são felizes? Afinal, ninguém pode ser

feliz nesta porra deste mundo. Por que vocês ficam passando as pessoas para trás, levando-as a pensar que podem ser felizes?

eu ficara

sobressaltada. John indagou se podia ajudar o rapaz em alguma coisa, mas ele continuou a agredir:

David

pôs

a

mão

em

meu braço

ao perceber

como

— Essas porras de incenso, chá de ervas, cartazes vistosos vocês são cheios de merda.

John pegou

no

meu

braço

e

no

de

David, conduziu-nos

gentilmente para fora de seu escritório.

— Desculpem — murmurou ele.

— Não foi nada — disse David. — Ele tem de encontrar o seu próprio caminho, como todos nós fazemos.

Acenei com a cabeça, a indicar também que não me importava. David disse que poderíamos encontrar sozinhos o que desejássemos, que ele não precisava se incomodar. Depois que John se afastou, comentei para David:

— Por que o rapaz acha que este lugar é tão ameaçador?

— Não sei. Talvez ele tenha um grande investimento emocional

em hostilidade. É difícil acreditar que a paz é possível. David levou-me para uma imensa estante em que havia a indi-

cação de "Reencarnação e Imortalidade". As obras ali iam do Bhagavad Gita aos Livros dos Mortos dos egípcios antigos, passando por interpretações da Bíblia Sagrada e da Cabala. Eu não tinha a menor idéia do que estava procurando. Fitei David nos olhos e per- guntei:

— Acredita em tudo isso?

— Tudo o quê?

— Não sei

— Quando se estudou

Acredita realmente na reencarnação?

o oculto

por tanto

tempo quanto eu,

aprende-se que não é uma questão de ser ou não verdade, mas sim uma questão de como funciona.

— Está querendo dizer que acredita na reencarnação como um fato incontestável? David deu de ombros.

— Exatamente. É a única coisa que faz sentido. Se cada um de

nós não tem uma alma

e isso se aplica a

tudo, não é mesmo? Além do mais, deve haver alguma coisa no fato

que é verdade? É verdade se você acredita

então por que estamos vivos? Quem sabe o

de

que a crença na alma é a única coisa que todas as religiões têm

em

comum.

sejam falsas

também.

David continuou a examinar os livros, mas não como se achasse

estivesse pura e

simplesmente procurando por um determinado livro.

— Eu não pensara muito em religião desde que tinha 12 anos e

ficava brincando de jogo-da-velha na escola dominical. David pegou um livro, enquanto dizia:

— Você devia ler não apenas algumas das obras que estão nesta

estante, mas também coisas de Pitágoras, Platão, Ralph Waldo Emerson, Walt Whitman, Goethe e Voltaire.

a conversa desinteressante e sim

— Tem

razão. Mas

talvez todas as religiões

como

se

— Todos eles acreditavam na reencarnação?

— Claro. E escreveram amplamente a respeito. Mas tais obras

sempre vão parar na seção de ocultismo, como magia negra e coisas assim.

— Voltaire acreditava na reencarnação?

— Acreditava. Disse que não achava mais surpreendente nascer

uma porção de vezes do que nascer apenas uma vez. Também penso

assim. Fitei-o nos olhos. Os olhos azuis de David estavam firmes e serenos. E ele me perguntou:

— Sabe o que é o ocultismo?

— Não.

— Apenas o que está "escondido". E só porque uma coisa está escondida não significa que não existe.

Contemplei mais atentamente o rosto ossudo e triste de David. Ele falou em tom sereno, sem qualquer hesitação, a não ser quando percebeu que eu estava fazendo um esforço para compreender suas palavras. — Quer que eu prepare uma lista de livros que você poderia ler? — indagou ele, muito prático. Hesitei por um instante, lembrando que tinha cinco roteiros para ler e também imaginando o que Gerry pensaria se me visse lendo livros assim.

— Claro que quero. Por que não? As pessoas também pensavam que

o mundo era plano, até que alguém provou o contrário. Acho que

devo ser curiosa sobre todas as possibilidades "escondidas". Quem podia imaginar que havia bichos rastejando por toda a nossa pele

até que alguém inventou o microscópio? — Meus parabéns — disse David. — Para mim, a verdadeira

inteligência é a capacidade de manter a mente aberta. Se você está procurando por alguma coisa, por que não tentar?

— Tem toda razão.

Eu me descobri a sorrir. David acrescentou:

— Pique dando uma olhada por ai enquanto eu procuro os livres

que você deve ler. Ele limpou os cantos da boca e com os olhos meio cerrados começou a verificar as prateleiras. Folheei alguns livros sobre alimentação, exercícios de ioga, meditação e outros assuntos similares que podia compreender. Depois de meia hora, David reunira um punhado de livros. En- quanto agradecia e saíamos para o sol da Califórnia, eu imaginava se algum dia abriria um daqueles livros. Eu viajaria para Honolulu no dia seguinte. Despedi-me de David

e fui para casa, a fim de pensar, descansar, arrumar as malas e, se tivesse tempo, ler um pouco.

sobre

reencarnação na enciclopédia. Devo ressaltar que não fui criada para ser uma pessoa religiosa. Meus pais mandavam-me à igreja e à escola dominical, mas apenas porque o lugar era aceito para se ir aos domingos. Eu usava anáguas de crinolina e tentava não olhar demais para as letras no hinário que já deveria ter decorado. Imaginava o que aconteceria com o dinheiro na bandeja da coleta, mas nunca pensara realmente se existia um Deus ou não. Jesus Cristo parecia um homem inteligente, sensato e certamen- te muito bom, mas eu encarava o que aprendera a seu respeito na Bíblia como filosófico, mitológico e de certa forma desconexo. O que ele pregava não chegava a me tocar; assim, não acreditava nem

Descobri-me

naquela

noite

a

procurar

o

verbete

desacreditava. Ele apenas acontecera

algumas coisas boas, há muito e muito tempo. Encarava com restrições a afirmativa de que ele era Filho de Deus. Ao final da adolescência, eu chegara à conclusão, sozinha, de que Deus e religião eram coisas incontestavelmente mitológicas. Se as pessoas queriam acreditar, muito bem; mas eu não podia acreditar. Não podia acreditar em qualquer coisa que não pudesse ser

provada. Além do mais, não me sentia absolutamente angustiada pela necessidade de um propósito na vida ou de alguma coisa para acreditar além de mim mesma. Em suma, não pensava muito em coisas como religião, fé em Deus ou a imortalidade da alma. Ninguém

insistia e eu achava o assunto aborrecido

estimulante como algo real e divertido como as pessoas. De vez em quando, à medida que me tornava mais velha, ainda me empenhava numa discussão confusa sobre os perigos dessas crenças mitológicas e como desviavam a atenção do verdadeiro problema da raça humana.

Não me agradava o autoritarismo da igreja

considerava-o perigoso, porque fazia com que as pessoas tivessem medo de queimar no inferno se não acreditassem no céu. Por mais desinteressada que eu estivesse de Deus, religião e vida posterior, no entanto, havia uma coisa pela qual me interessava profundamente. Desde que era muito jovem que eu me interessava pela identidade. Minha identidade e a de todas as

pessoas que conhecia. A identidade parecia-me algo concreto. Quem era eu? Quem era qualquer pessoa? Por que eu fazia as coisas que fazia? Por que os outros faziam? Por que eu me importava com algumas pessoas e não com outras? A análise de relacionamentos

tornou-se um dos meus temas prediletos

tinha comigo mesma e com os outros. Assim, talvez porque me interessava pela minha própria iden- tidade, intrigava-me a possibilidade de haver algo mais em mim do que a minha mente consciente podia perceber. Talvez houvesse ou- tras identidades enterradas no fundo do meu subconsciente, que eu apenas precisava procurar para encontrar. E muitas vezes, em meu trabalho com a expressão pessoal, dançando, escrevendo ou repre- sentando eu ficava espantada comigo mesma, aturdida com a origem de um sentimento, memória ou inspiração. Atribuía a um conceito nebuloso chamado processo criativo, como fazia a maioria dos ar- tistas. Mas tenho de admitir que, no fundo de quem quer que eu fosse, podia sentir uma chama que não era capaz de compreender, de tocar. Qual era a origem dessa chama? De onde vinha? E o que houvera antes? Sempre me interessei muito mais pelo que existira antes do que pelo que poderia vir depois. Creio que era por isso que não me in- teressava no que me aconteceria depois que morresse, tanto quanto me interessava pelo que me tornara como eu era. Assim, quando deparei pela primeira vez com a noção de vida antes do nascimento, era impossível não sentir curiosidade em explorá-la. A enciclopédia dizia que a doutrina da reencarnação remontava aos princípios da história registrada, pelo menos. Consistia na crença da ligação entre todas as coisas vivas e a gradativa purificação da alma ou espírito do homem, até retornar à fonte e origem comum de toda a vida, que era Deus. Era a crença de que a

o relacionamento que eu

nem de longe tão

e fizera

como todos nós

qualquer igreja

e

alma era imortal, reencarnava vezes sem conta, até que alcançava moralmente a purificação. Dizia que os temas conjugados do carma, que é a liberação pelo trabalho dos fardos interiores, e da reencarnação, a oportunidade física de viver o carma, eram duas das mais antigas crenças da história da humanidade, mais amplamente aceitos que quase todos os conceitos religiosos do

eu sempre relacionara

vagamente a reencarnação com espíritos sem corpos, os fantasmas, com o ocultismo e coisas que faziam barulho durante a noite. Nunca relacionara com qualquer religião mais importante e mais séria. Procurei por religião. Embora fosse impossível encontrar uma definição conclusiva, havia diversas características que eram comuns à maioria das religiões. Uma era a crença na existência da alma, outra a aceitação da revelação sobrenatural e finalmente, entre muitas a mais, a busca repetida pela salvação da alma. Dos

egípcios aos gregos, budistas e hinduístas, a alma era considerada uma entidade pré-existente, que se alojava numa sucessão de corpos, tornando-se encarnada por um período, depois passando algum tempo na forma astral como uma entidade desencarnada, mas sempre voltando a reencarnar. Cada religião tinha a sua própria crença sobre a origem da alma, mas nenhuma religião estava desprovida da crença de que a alma existia como uma parte do homem

e era imortal. Em algum momento, entre o judaísmo e o

cristianismo, o Ocidente perdera o antigo conceito de reencarnação. Fechei a enciclopédia e fiquei pensando por algum tempo. Centenas de milhões de pessoas acreditavam na teoria da reen- carnação (ou qualquer outro termo possível), mas eu nem mesmo sabia o que isso significava, por ter uma educação cristã. Preparei-me para ir ao encontro de Gerry imaginando o que mais poderia estar acontecendo no mundo sobre o qual eu nunca pensara antes.

mundo. Era uma novidade para mim

Capítulo 4

"O segredo do mundo é que todas as coisas subsistem e não morrem,

mas apenas se retiram de vista por algum tempo, voltando mais

tarde

ou determinadas ocasiões que vemos a todos

enunciar os nomes com os quais se apresentam."

e podemos facilmente

Jesus não está morto: está bem vivo; João, Paulo, Maomé

também

não

estão

mortos. Acreditamos em

Aristóteles

— Ralph Waldo Emerson, Nominalista e Realista

O vôo de Los Angeles ao Havaí foi tranqüilo. Dormi e pensei em Gerry durante a maior parte da viagem. Pensei também em minha

amizade com David e imaginei com quantas outras pessoas já conversara, passeara e comera, sem nunca chegar a conhecê-las

realmente. Registrei-me no Kahala Hilton com outro nome. Ninguém me reconheceu. Fui para o meu quarto e comecei a esperar.

Lá estava eu

parada na sacada de mais um quarto de hotel,

dando para o Pacífico cadenciado e embalador, o sol vermelho se

esperando. Esperando por um homem. Esperando

por um homem a quem amava ou pensava que amava, o que quer que isso significasse. Sabia que era muito forte o que sentia por ele, sabia que iria a qualquer lugar que fosse necessário para estar em sua companhia. Ambos éramos ocupados e tínhamos um trabalho criativo para preencher nossas vidas, mas acho que precisávamos de algo. Sei que eu precisava. Desde que podia me lembrar, eu precisava estar apaixonada. Um homem parecia o alvo mais óbvio para tal sentimento e desejo. Mas talvez não, talvez eu precisasse apenas sentir amor, talvez um objetivo mais profundo fosse o que parecia estar se me esquivando. Não sei. Honolulu é uma das minhas cidades prediletas, especialmente ao pôr-do-sol, muito embora estivesse agora apinhada de turistas em convenções, usando muumuus, os vestidos soltos e estampados em cores alegres das havaianas, carregando máquinas fotográficas. O Kahala Hilton é um dos hotéis mais lindos do mundo, com sua

aninhando na água

paisagem interna-externa, o bar por baixo d'água, os golfinhos pu- lando alegremente no tanque de água do mar. Fiquei escutando a toada da água se desmanchando na praia. Podia ouvir os coqueiros sussurrarem. E, de repente, ouvi um baque surdo. Um coco maduro caíra, prestes a rachar. Olhei para o relógio. Gerry dissera que chegaria às seis e meia. Já eram sete e meia. O tempo estava bom e assim não havia atraso de qualquer vôo. E o controle do aeroporto informara que não havia problema de tempo na partida de Londres. Portanto, ele devia ter saído no horário. O mundo era apenas uma bola de golfe. Gerry chegaria em breve. Mas eu me ressentia com o atraso, pois sabia que teríamos apenas 36 horas. Santo Deus, como

o tempo parecia ser meu inimigo! Não importava em que estivesse

envolvida, parecia que nunca dispunha de tempo suficiente. Eu que- ria tanto aproveitar e desfrutar tudo o que pudesse que me sentia continuamente frustrada pelo tempo de que não dispunha. Além disso, de certa forma, o passado e o futuro estavam sempre se in- terpondo; o passado com suas conseqüências, o futuro com seu mis- tério. Eu queria que o presente fosse tudo o que existisse. Aspirei o ar suave do crepúsculo, voltei para o quarto e liguei a televisão. Carter estava aborrecido com Begin. Teddy Kennedy estava aborrecido com Carter. O dólar continuava a cair. Pierre Trudeau xingara alguém no Parlamento canadense. O mundo era engraçado ou estava desmoronando, dependendo do ponto de vista. Corri os olhos pelo quarto do hotel. Não quisera chamar muita atenção e por isso pedira apenas um quarto, não uma suíte. Mas era

o suficiente para o tempo que Gerry e eu teríamos juntos. Eu sabia que Gerry adoraria Honolulu. Nunca estivera lá. Esperava que ele pudesse sentir a cidade. A primeira providência de Gerry seria sair para a sacada e contemplar tudo que o cercava. Precisava fazer isso. Olharia para Diamond Head e falaria sobre as

palmeiras. Sentia-se calmo quando estava cercado pela natureza. Sua mente podia relaxar quando estava sob uma árvore a pingar, com um passarinho sacudindo as asas molhadas. Podia até parar de se preocupar com a situação do mundo e as perspectivas de sua reeleição quando o sol se erguia rosado. Seu espírito parecia abrandar com a certeza de que a natureza era bela, mais forte do que qualquer outra coisa. Mas também ele fora criado no interior da Inglaterra, suportando os invernos ingleses. Passeara pelas campinas inglesas, nadara nas águas frias do Canal da Mancha. A vida na cidade grande o sufocava. Precisava de espaço e desafio natural. Eu me sentia contente por estarmos nos encontrando em Honolulu. Ele gostaria da paz envolvente. Lá estava eu a pensar de novo em Gerry como se fosse ele. Mais 15 minutos passaram. Eram 15 minutos que jamais poderíamos recuperar. O carpete no quarto era marrom, tufado. A colcha era verde-oliva, com flores marrons. Por que as cortinas sempre têm de combinar com a colcha? Especulei se Hilton faria um

hotel na encosta de uma montanha na China. Os chineses haviam parecido ridículos, dançando aos acordes de Staying Alive, de Saturday Night Fever, na recepção sino-americana. E como um bilhão de chineses poderiam mudar tanto em sua longa luta para alcançar a modernização? Valeria a pena? Eu já não sabia mais o que valia a pena. Acendi outro cigarro. Gerry tentara deixar de fumar um ano antes e agora me censurava continuamente por nem sequer tentar. Ele dizia que fumava porque estava sempre entrando em salas onde havia outra pessoa fumando. Eu podia entender. Também podia deixar

uma porção de vezes. Mas sempre que

de fumar. E já o fizera

tinha de tomar decisões importantes, precisava de um companheiro silencioso, alguma coisa que estivesse presente e ardesse

lentamente, mas sem interferir. Eu não tragava e por isso o cigarro não me incomodava quando cantava e dançava. Mas deixava-me a garganta dolorida e me provocava acessos de tosse. Muito bem, eu deixaria de fumar quando Gerry chegasse e veria se ele era também capaz de fazê-lo.

A lua estava agora se elevando sobre Waikiki. Diamond Head era

um casco preto no reflexo do mar. Talvez ele tivesse perdido o

avião em Londres. Calculei que a reunião para discutir os

problemas Norte-Sul poderia se realizar sem a sua presença. Mas eu não podia ficar sem ele. O telefone na mesinha-de-cabeceira tocou. Eram quase oito horas.

— Oi! — exclamou Gerry, como se não estivéssemos separados há semanas. Derreti-me ao ouvir a voz tão serena. Ele falava de maneira diferente quando estava longe de seu escritório.

— Fomos para um salão de recepção assim que desembarcamos no

aeroporto — explicou Gerry. — Ficamos lá por uma hora. Alguém

estava supostamente desembarcando nossa bagagem, enquanto nos dizia para esperar. Mas não havia ninguém. E finalmente cuidei de tudo pessoalmente. Quando você chegou?

— Há algumas horas — respondi, sem querer dizer como contara cada minuto desperdiçado.

— Tenho de me livrar de algumas mulheres ilustres que querem tomar um drinque com a nossa delegação.

— Mulheres ilustres?

— Isso mesmo. Elas são ridículas, mas também são bem-inten-

cionadas. Cuidarei disso e depois irei para aí, o mais depressa

que puder. Estou ansioso em vê-la.

olhar no espelho, reprimi a minha

irritação pelo comentário chauvinista de Gerry a respeito das mulheres, resolvi vestir a minha suéter verde predileta. Abri a porta, deixando-a encostada, a fim de que Gerry não ti- vesse de bater e ficar esperando que eu atendesse. O corredor fer- vilhava de agentes do Serviço Secreto e políticos visitantes do mundo inteiro. Não podia imaginar como Gerry chegaria ao meu quarto sem ser reconhecido. Eu estava pondo a suéter pela cabeça quando ouvi-o abrir a porta e entrar no quarto. Sabia que ele estava ali, mas não podia vê-lo porque a lã prendera no brinco. Senti os seus braços me enlaçarem pela cintura. Meus olhos estavam repletos de lã verde. Gerry beijou-me o pescoço. Senti que ofegava, não apenas pelo ardor de sua boca, mas também porque a suéter estava me rasgando a

orelha perfurada. Não podia me mexer. Gerry enfiou a mão por baixo da suéter e encontrou meu rosto através da lã:

— Não se mexa — disse ele. — Gosto de você assim. E agora deixe-me ajudá-la.

Gerry soltou o brinco e depois beijou-me a orelha. Recuou um pouco, contemplou-me da cabeça aos pés.

Desliguei, tornei

a

me

— Gosto dessa cor. Fica muito bem em você.

Depois, ele deu a volta pelo quarto e disse que era igualzinho

ao seu. E como eu previra, encaminhou-se para a sacada em seguida e olhou para Diamond Head.

— Olhe só para aquelas palmeiras — murmurou Gerry. — Parecem irreais, quase pintadas no céu. Aquilo é Diamond Head?

— É, sim. Parece uma tela de fundo, mas é real.

— Não acha que é um paraíso? — Ele pegou meu braço, passou-o

por sua cintura. — Está com fome? Deve estar. Sempre está.

— Estou, sim.

— Eu também. Vamos comer.

Peguei o telefone e pedi dois Mai-Tais, além de alguma coisa

para comer. Gerry não sabia o que eram Mai-Tais. Achou graça de eu pedir abacaxi extra e foi ao banheiro para tomar um banho. Aco- modou-se na banheira. Estava lá quando o garçom chegou. Cobri as travessas com a comida e levei os Mai-Tais para o banheiro. Sentei no vaso, en- quanto ele tomava banho. Gerry tomou seu Mai-Tai através de uma cereja flutuando no copo. Jogou a água quente cheia de espuma pelas pernas. Eram compridas demais para a banheira.

— Como estão as coisas, Gerry? Você tem passado bem?

— Muito bem.

— E que mais? Isso é o que você sempre diz.

— Estamos tendo problemas em Londres. Mas já leu a respeito. E

não deve se preocupar comigo. Como está sua vida? Falei sobre a nova coreografia para o meu show, sobre os exer-

cícios que fazia todos os dias para me manter em forma, sobre as dietas de alimentos naturais que vinha experimentando, como era difícil encontrar roteiros de filmes com bons papéis para mulheres. Ele perguntou por que e respondi que devia ter alguma relação com uma reação ao feminismo militante. Parecia que ninguém mais sabia como escrever papéis femininos, porque ninguém sabia o que as mulheres realmente queriam. Ou pelo menos os escritores do

sexo masculino não sabiam. E as mulheres que escreviam só sabiam mostrar como as mulheres eram infelizes e insatisfeitas. E quem se importava com isso? Em termos de diversão, quem pagaria para as- sistir a filmes assim? — A coisa é muito difícil — comentou Gerry. — Já estou com

problemas demais tentando adivinhar o que as pessoas querem

apenas o que as mulheres querem. Não quero parecer arrogante, mas temos uma economia que está desmoronando para todos e não tenho certeza se conseguiremos nos recuperar. Declarei que podia entender a posição dele. Gerry indagou o que estava acontecendo na América. Hesitei por um instante e de- pois respondi que não sabia direito. Era difícil decifrar o povo americano. Perguntei a ele o que estava acontecendo no mundo. Ca-

çoamos um do outro, adorando nos saborear mutuamente, enquanto conversávamos, sorríamos e escutávamos, apesar de estarmos falando sobre coisas que nada tinham a ver conosco. O importante não era o que dizíamos, mas sim como dizíamos. Era disso que gostávamos. Observávamos um ao outro com uma dupla fascinação. Encontrávamos algo especial na maneira como nossas mãos se mexiam, nas expressões, no jeito em que um apoiava a cabeça na mão para tentar se concentrar. Era um artista mesmerizado por outro. Conversamos sobre Carter, inflação, o dólar, até mesmo sobre Idi Amin e energia solar. Era como se estivéssemos fazendo amor com as nossas mentes num nível duplo, cada palavra desencadeando pequenas centelhas e explosões em nossas cabeças. Não importava se a conversa era sobre uma nova proposta fiscal, a alta dos preços da OPEP ou os papéis femininos nos filmes. Eu dizia alguma coisa sobre os campos petrolíferos do Irã e a necessidade dos trabalhadores se sindicalizarem, Gerry se derretia por trás dos olhos como manteiga na frigideira quente. Ele escutava e ouvia as minhas palavras, mas eu podia sentir um vulcão entrando lentamente em erupção dentro dele, derramando-se por seus olhos. Eu não queria me inclinar e tocá-lo ou beijá-lo, não queria entrar na banheira com ele. Gostava da sensação de contenção e de comunicação no nível duplo. Gostava da sensação de usar palavras para controlar o que havia por baixo, porque sentia que era quase excessivamente explosivo. Não sabia direito por quê. Contemplei o corpo de Gerry na água quente. A espuma se acumulava nos contornos de sua pele. Observei como seu pênis flu- tuava. Imaginei qual seria a sensação, mas de certa forma sentia que sabia. Gerry recostou-se na banheira e fechou os olhos. Depois de um momento murmurei:

não

— Gerry

Ele abriu os olhos.

— O que é?

— Você acredita na reencarnação?

— Reencarnação? — Ele estava atônito. — Deus do céu, per que pergunta isso? Claro que não.

— Por que você diz "Claro que não"?

— Ora, porque é uma fantasia. — Ele riu. — Pessoas que não

podem aceitar a vida como é aqui e agora, em seus próprios termos, sentem a necessidade de acreditar em tais fantasias.

— É possível. — Eu me sentia um tanto magoada por ele ter

escarnecido da teoria de maneira tão retumbante. — Talvez você esteja certo, mas mais do que apenas uns poucos milhões de pessoas

acreditam nisso. Talvez eles tenham alguma coisa.

têm

qualquer outra coisa na vida. Não posso culpá-los, é claro. Mas se acreditassem um pouco mais no aqui e agora, o trabalho de pessoas como eu se tornaria muito mais fácil.

— Claro

que

têm.

Ou melhor, esses pobres-diabos

não

— Como assim?

— Eles não cuidam de suas vidas como se pudessem melhorá-las.

Apenas existem, como se estivessem convencidos de que será melhor na próxima vez e que esta não é tão importante assim. Mas o que eu quero, Shirl, é fazer alguma coisa pelo desespero das vidas das pessoas agora. É tudo o que temos, é o que eu respeito. Mas por que perguntou? Acredita nessas bobagens? Fiquei desconcertada com a descortesia. Gostaria que ele ti- vesse a mente bastante aberta para ao menos discutir o assunto.

— Não sei. Não exatamente. Mas Reilly também não acredita.

— Reilly? Como assim?

— É

uma piada

irlandesa para um inglês, se pode me entender. Ele passou uma das mãos pela água e tornou a fechar os olhos. A metafísica é capaz de deixar as pessoas perturbadas, pensei. Não podia entender por quê. Eu não me sentia absolutamente amea- çada. Parecia uma boa dimensão para explorar. Que mal poderia fazer? Eu entendia a alegação de Gerry sobre as pessoas não assu- mirem a responsabilidade por seus próprios destinos aqui e agora. Mas como se podia conciliar a injustiça do acaso de nascimento na

pobreza e privação quando outros nasciam no conforto e luxo? A vida seria realmente tão cruel? A vida era simplesmente um aciden- te? Aceitar isso parecia de repente muito fácil, até mesmo indolente.

apenas uma piada irlandesa, Gerry. Apenas

— Isto está maravilhoso — disse Gerry, mexendo-se na água

cheia de espuma. — O banheiro é ótimo. A banheira é um pouco

pequena, mas é confortável. Todo o hotel é maravilhoso, mas especialmente este banheiro. É apenas um banheiro, mas é o melhor do mundo porque você está sentada aqui. Tratei de afastar a mente dos meus pensamentos.

— Banheiros são lugares íntimos, não é mesmo? Se você se sente

à vontade com outra pessoa no banheiro, então é porque há alguma coisa muito importante entre os dois. Gerry sorriu e acenou com a cabeça. Um banheiro era um lugar íntimo e primitivo, um lugar para as coisas básicas. Pensei na ocasião, anos antes, em que um amante meu quebrara o banheiro de um quarto de hotel em Washington. Derrubara violentamente os copos na pia, jogara meu secador de

cabelos no espelho, os fragmentos caindo na banheira. Discutíramos no quarto por causa do ciúme dele, mas ele fora ao banheiro para se tornar violento. Pensei depois num incidente da minha infância. Perdera o papel principal num balé na escola que sonhara em fazer por cinco anos. Lembrei de ter me olhado no espelho por cima da pia, imaginando o que havia de errado comigo. E antes de perceber o que estava acontecendo, vomitara na pia. Pensei no primeiro jantar formal que oferecera na Califórnia. Ficara tão nervosa e incapaz de assumir o papel de anfitriã que sentara no banheiro até o jantar acabar. Pensei no dia de inverno de frio intenso em que Warren e eu brincáramos em poças de lama congelada. Eu tinha seis anos e ele estava com três. Mamãe ficara furiosa. Ela pusera Warren na ba- nheira e eu ficara ouvindo os seus gritos angustiados. Lembrei o dia em que Warren caíra numa garrafa de leite quebrada e papai o levara correndo para o banheiro, estendendo o seu braço a sangrar sobre a banheira. Lembrei o rosto suplicante de Warren a se fixar em papai, enquanto dizia:

— Não deixe doer, papai.

Lembrei de uma empregada minha que se retirava para o banheiro todas as tardes, às seis horas, acendia uma vela na banheira e rezava.

E lembrei como o lugar mais importante, íntimo, confortável,

relaxante e necessário que eu podia encontrar, em qualquer parte do mundo onde estivesse, era um banheiro bem iluminado, com uma banheira limpa, cheia de água quente. Ajudava-me a fazer as transições da depressão, confusão e trabalho puxado. Ajudava-me a entrar em contato comigo mesma. Punha-me para dormir. Aliviava as pernas doloridas. Despertava-me. Coordenava meu corpo e mente, proporcionava-me uma explosão de novas idéias, esperanças e espírito. E sempre que eu passava um dia inteiro fora, sentia-me feliz se sabia que havia uma linda banheira, que poderia encher com água quente, num lindo banheiro, à minha espera, quando vol- tasse para casa.

Gerry terminou seu Mai-Tai e entregou-me o copo. Lavou-se e pediu-me que lhe esfregasse as costas. Saindo da banheira e come- çando a se enxugar, ele disse:

— Fico contente por existir essa coisa que se chama telefone,

com ou sem contribuintes. Por falar nisso, você estava absolutamente certa a esse respeito. Eu estou pagando as contas

pessoalmente. Seria muito difícil para mim se não pudesse falar com você durante todas essas semanas. — Sei disso — murmurei, observando-o enxugar as costas. — Também seria difícil para mim.

— Mas quer saber de uma coisa? Estou obcecado por sua voz e

não gosto de me sentir obcecado.

— Como assim? — indaguei, estremecendo ligeiramente.

— Todo o meu dia parece girar em torno do momento em que posso

encontrar a privacidade necessária para falar com você. Isso esgota a minha energia e não gosto da sensação. Fitei-o atentamente. O que ele estava querendo dizer? Deixava- me apreensiva.

— Não vai comer sua cereja?

Parado ao lado da banheira, segurando a toalha, ele olhou para

o meu copo vazio.

— Não. É doce demais para mim.

— Posso então comê-la?

Dei a ele e depois peguei-lhe a mão, enquanto me levava para o quarto. Sentamos para comer a refeição de frutos do mar que estava agora fria. O garçom trouxera apenas um garfo. Entreguei-o a Gerry. Ele nem percebeu que eu estava comendo com a faca. Ajeitei minha capa sobre os seus ombros, a fim de que ele não sentisse frio. Gerry parecia um querubim limpo, crescido demais, um tanto rude, enquanto começava a comer.

— Lembra daqueles sapatos velhos que você adorava me ver usar

em todas as ocasiões, Shirl? — Acenei com a cabeça. — Minha filha jogou-os no lixo. Achou que eu deveria ter sapatos novos e por

isso jogou-os fora.

— Sua filha jogou fora os meus sapatos prediletos?

— Isso mesmo.

Gerry inclinou-se para a frente, na expectativa do que eu di- ria, um sorriso quase perdido no rosto. Não tinha a menor idéia do

que ele esperava que eu dissesse. E, por isso, murmurei:

— Talvez eles também recendessem a perfume.

Ele se levantou de um pulo, a capa caindo dos ombros. Ergueu- me acima dos ombros e apertou-me com força, rindo e depois me jogando na cama. Suas mãos quentes e macias estavam por toda parte

de meu corpo. Os cabelos roçavam em meu rosto. O nariz colidiu com

o meu e esmagou-o. A pele de Gerry era quente e cremosa, recendia

a VitaBath. Ele tremia ligeiramente e me abraçou firme. Abri os olhos e contemplei seu rosto. Estava atônito, extasia-

do e abandonado, tudo ao mesmo tempo. Sentei na cama, peguei seus cabelos, puxei.

— Como consegue conservar as unhas tão compridas, Shirl?

— Acha que são muito compridas?

— Não. Acho que são lindas. Mas devem ser muito fortes.

Ele levantou a mão esquerda pelo ar, meneando o dedo mínimo,

do qual faltava quase a metade da articulação superior, perdida num acidente extravagante quando era pequeno. Curara tão bem que mal se percebia que havia algo errado no dedo, a não ser quando ele próprio chamava atenção para o fato. E Gerry disse agora:

— Tenho artritismo neste dedo e dói bastante. Só recentemente

é que se desenvolveu, não sei por quê.

— Provavelmente não teve vitamina C suficiente. E não teve exercício.

Ficamos deitados juntos, a observar o dedo subir e descer. — Sabe, Shirl, acho que tenho o artritismo porque estou

por estar obcecado demais por você. É

esgotando a minha energia

isso mesmo. Sabia que a vida é constituída por insights pequenos para ofuscantes?

— Claro. Entendo perfeitamente.

— Acho que tenho de esfriar meus sentimentos. Preciso re- cuperar o equilíbrio.

— Faça o que achar melhor para você.

Eu podia sentir que meu coração parava, congelado.

— Nunca antes tive uma experiência assim, Shirl. Nada sequer

parecido. Não sei o que penso a respeito. E não sei por que me

sinto tão atraído por você. Mesmo contra a minha vontade, não posso evitar. Fiquei olhando para as minhas unhas compridas.

— Talvez tenhamos tido outra vida em comum. — Virei a cabeça

rapidamente, a fim de verificar a reação de Gerry. — Talvez tenhamos deixado coisas para resolver entre nós e precisamos defini-las nesta vida. Um rubor de confusão espalhou-se pelo rosto de Gerry. Por um

breve instante, ele não escarneceu de minha noção. Depois, o rosto se desanuviou e ele sorriu.

Mas, falando sério, não sei o que quero

fazer em relação a nós. E quero que você saiba disso.

— Claro, claro

— Entendo perfeitamente o que está dizendo. E também não sei o

que fazer. Então por que não fazemos nada e por enquanto nos limitamos a desfrutar o que temos?

— Mas quero ser justo com você. Quero ser justo com todo

mundo. Sempre coloquei meu trabalho em primeiro lugar. E se dissipar minhas energias agora, perderei tudo por que sempre tra-

balhei. Tenho muita coisa para fazer nos próximos 11 meses e reluto em me dividir. Virei-me, fitei-o nos olhos, suspirei. - Já sei de tudo isso, Gerry. Pensou então em acabar tudo entre nós? Em se afastar? Ele respondeu prontamente, com convicção:

— Não. — E acrescentou, com uma ansiedade genuína estampada no rosto: — Você pensou nisso?

— Não — menti. — Nunca pensei. E não vou pensar.

Gerry respirou fundo.

— Mas estou terrivelmente perturbado pela possibilidade de que

possa ser um desapontamento para você. Isso é um problema e tanto

para mim. Não quero desapontá-la.

— Da mesma maneira como não quer desapontar os eleitores?

— Tenho de lhe perguntar uma coisa, Shirl. O que você quer de

mim?

Ele me pegou desprevenida. Pensei por um momento e depois respondi, como se soubesse durante todo o tempo:

— Quero que sejamos felizes quando estivermos juntos. Também

não compreendo por que estamos juntos. Mas não quero que você tenha de optar entre outra pessoa ou coisa e eu. Acho que pode ter

tudo o que já possui e a mim também. Pode ter tudo, não é mesmo? Acrescente mais uma dimensão à sua vida. O que há de errado nisso? Talvez a vida devesse incluir todas as dimensões que ainda não tivemos a coragem de assumir. Não preciso de qualquer espécie de compromisso de você. Nem mesmo o quero. Basta apenas saber que você é feliz quando está comigo e de alguma forma acabaremos definindo tudo.

— Mas quanto mais tenho você, mais eu quero.

— Pois então aproveite mais de mim. O que há de errado nisso?

— Isso significaria renunciar a outra coisa.

— Por quê?

— Porque não tenho tempo para você e também para o resto da

minha vida.

— Talvez não custasse tanto se você dedicasse mais tempo a

sentir que merece alguma felicidade.

— Não posso. Penso em tudo o mais que deveria estar fazendo.

— Por que não pensa apenas no que está fazendo?

— Porque sempre sinto que deveria estar fazendo outra coisa.

— Mas o que faz consigo mesmo? Por que não se divertir mais

quando pode? O que há de errado em se divertir? Por que acha que não merece momentos de prazer?

— Porque tenho coisas melhores a fazer com a minha vida do que

desfrutar momentos de prazer. Não posso pensar em mim mesmo em primeiro lugar.

— Talvez devesse. Talvez pudesse ajudar mais às pessoas se

determinasse quem você é. Lembrei de um repórter que me entrevistara assim que eu vol- tara da China. Ele se mostrara cético em relação ao meu entusiasmo pela maneira como os chineses haviam lutado para conquistar sua

nova identidade. Como a maioria das pessoas, ele julgava que eu fora ingênua ao ficar tão impressionada com a revolução chinesa. Eu explicara como os chineses haviam melhorado em comparação com o passado recente, acrescentando que a coisa que mais me comovera fora o modo como eles pareciam acreditar profundamente em si mesmos. Isso deixara o repórter furioso.

— O que está querendo insinuar com essa história de

acreditarem em si mesmos? Não passa de propaganda e você engoliu direitinho. Eu perguntara ao repórter: se era apenas propaganda, por que ele estava tão transtornado pela idéia de que se pode fazer e ter

qualquer coisa? E, para meu espanto, a ira se convertera em lágri- mas. Ele dissera que ninguém tinha o direito de acreditar que

porque ao final acabaria

sendo esmagado. Eu compreendera que ele estava falando a respeito

de si mesmo. Ele se sentia indigno, não podia confiar em si mesmo. Deixara o meu apartamento em Nova York e cinco horas depois me telefonara:

é

exatamente o motivo pelo qual meu casamento está desmoronando. Minha mulher diz a mesma coisa. Fala que jamais poderemos chegar a algum lugar se eu não acreditar mais em mim mesmo, se eu não acreditar que posso ser feliz. Foi por isso que fiquei tão transtornado com você. Tenho medo de não ser capaz, de não ser bastante forte. E armei uma série de posições cínicas e eloqüentes como jornalista, a fim de poder escarnecer de quem quer que espere, sonhe ou se atreva a ser o que quer. Até mesmo eu. E é por isso que não acredito em mim mesmo. Assim, como posso levar a sério quem o faz? Eu respondera que esperava que ele escrevesse uma boa matéria e lhe desejara boa sorte. Naquele momento, julgara ter compreendido por que as pessoas ficavam tão transtornadas com o sucesso da revolução chinesa. Independente do sistema, eles se atreviam a acreditar em si mesmos apenas, sem a ajuda do resto do mundo. Gerry adormeceu a me abraçar. No sono, ele parecia extrema-

podia fazer ou ter qualquer coisa

— Passei

a

noite inteira guiando.

O

que

você

disse

mente vulnerável. Meus pensamentos se preocupavam com a incerteza interior daquele homem tão forte, afora isso. Ele se considerava de alguma forma responsável pela tragédia do seu primeiro e breve casamento, porque a mulher morrera no parto? O segundo casamento fora oportuno para ele e pessoalmente conveniente, proporcionando uma mãe para o bebê. Mas ele se sentia culpado agora por pensar que estava enganando a si mesmo? Pensei numa conversa que tivera

recentemente com meu pai. Com todo o seu domínio vigoroso, ele também nunca acreditara em si mesmo. E era uma das pessoas mais talentosas que eu já conhecera. Além de ser um ator extraordinário da vida real, era um violinista excepcional, um bom professor e um pensador perceptivo.

ou pelo menos

assim pensava. E sempre bebera demais. Ultimamente, minha mãe andava doente, tendo feito uma operação grande de bacia. Papai se

confrontara com a perspectiva do que faria sem ela e passara a beber muito, desde o princípio da manhã. Mamãe me chamara, mais

preocupada do que jamais ficara antes com a possibilidade de papai estar desta vez realmente se matando. Papai estava ao seu lado en- quanto ela me falava pelo telefone, franca e abertamente. Nenhum dos dois se importava. Há anos que todos tínhamos medo das con- seqüências do muito que papai bebia e o medo culminava naquele telefonema.

— Estou muito preocupada com ele, Shirl — dissera mamãe. — E

nada posso fazer para ajudá-lo. Você sabe que ele é um homem de bem e de talento. Mas ele próprio não acredita nisso. Eu pedira a ela que me deixasse falar com papai.

Ele estava agora chegando ao fim da vida

— Oi, Monkey — dissera ele, me chamando pelo apelido.

Eu o vira sentado em sua poltrona predileta, a estante de ca- chimbo ao lado, o telefone ajeitado no ombro. Pudera senti-lo a

pegar o cachimbo e acender, com o isqueiro velho que eu lhe trou- xera da Inglaterra. — Vamos ser objetivos, está bem, papai?

Claro.

Por que está bebendo tanto agora?

 

Eu

nunca

lhe fizera

essa pergunta.

Jamais fora

capaz,

provavelmente porque tinha medo de que ele me respondesse. Papai começara a chorar. Era disso que eu tinha medo. Jamais quisera ver papai desmoronar abertamente. E, depois, ele dissera:

— Porque desperdicei a minha vida. Posso ter me comportado como se fosse forte, mas isso aconteceu porque nunca acreditei que pudesse fazer alguma coisa. Minha mãe ensinou-me bem demais a ter medo. E não consigo agüentar sempre que penso em todo o medo que sinto. E por isso tenho de beber. Quase que dera para eu ver suas mãos tremendo, como acontecia sempre que ele queria se alienar de qualquer emoção que pudesse estar demonstrando.

— Eu o amo, papai. — Eu também começara a chorar. Sentia de

alguma forma que nunca antes lhe dissera isso de verdade. — Pense em tudo o que fez. Criou a Warren e a mim. Isso não significa nada?

— Mas sei que vocês dois não queriam ser como eu. É por isso que se tornaram o que são. Não queriam ser como eu.

Estávamos ambos chorando e tentando falar em meio às lágrimas.

E eu ficara imaginando se não caíra alguma cinza no chão.

— Não é bem assim, papai. Nós apenas fizemos mais com a ajuda

que você nos deu do que você poderia fazer com a ajuda que nunca teve.

— Mas eu me sinto imprestável quando comparo o que não fiz com

o que consegui.

— Mas ainda há tempo, papai.

— Como? De que maneira?

Ele tentara

me perguntara se mamãe

estaria observando-o.

— Por que não pega uma caneta e papel e anota os sentimentos

cada vez que se sente imprestável? Aposto que poderia oferecer al- gumas idéias extraordinárias sobre o sentimento de se sentir im- prestável. Ele passara a soluçar.

e se eu

beber bastante, não terei de me incomodar em despertar pela manhã. Eu engolira em seco, angustiada.

— Nunca lhe pedi para me prometer qualquer coisa, em toda a minha vida, não é mesmo, papai?

limpar a

garganta. Eu

— Penso às vezes que não conseguirei mais agüentar

— Não, Monkey, nunca me pediu isso.

— E poderia me prometer uma coisa agora?

— Qualquer coisa. O que você quer?

— Vai me prometer que, ao invés de beber, escreverá todos os dias pelo menos uma página sobre o que está sentindo?

— Eu escrever? Ora, ficaria envergonhado lesse.

— Pois então não deixe ninguém ler. Escreva apenas para você

demais se alguém

mesmo.

— Mas não tenho coisa alguma para dizer!

— Como pode saber se nunca tentou?

Eu pudera vê-lo a tirar um fio do ombro esquerdo. E o ouvira tossir.

— Não posso escrever a meu respeito. Nem mesmo posso pensar em mim mesmo.

— Pois então escreva a meu respeito, de mamãe ou de Warren.

— Sobre você e Warren?

— Isso mesmo.

— Muitas pessoas gostariam de ler o que eu escrevesse, não é

mesmo?

O tom fora sarcástico, mas eu sabia que ele estava sorrindo.

— Apenas por ser pelo seu ponto de vista.

— Acha mesmo?

— Claro que sim.

Eu pudera vê-lo começar a se balançar na cadeira.

— A velha Sra. Hannah, minha professora no segundo ano, disse

certa ocasião que eu deveria escrever. Mais do que isso, disse que

eu deveria falar menos e escrever mais.

— É mesmo?

Hannah

quando eu era pequena. Ela tinha um carro velho que papai adorava consertar.

Jamais esquecera

como papai

sempre falava

da

Sra.

— A velha Sra. Hannah tinha um carro terrível. Estaria melhor

com um cavalo e uma charrete. Mas aquele maldito carro era como

uma pessoa para ela. E um dia, num campo de feno

por que não começa escrevendo

sobre o carro da Sra. Hannah no campo de feno? Não desperdice a

história falando.

— É assim que funciona? — indagara ele, limpando a garganta e

parecendo divertido e malicioso. — Está querendo dizer que eu poderia ter feito um livro em todas as ocasiões que contei uma história?

— Exatamente. A Sra. Hannah não lhe dizia sempre que falava demais e por muito tempo, sem nada para mostrar depois?

— Ei, papai, tem uma idéia aí

— Tem razão, ela dizia isso. Mas era uma mulher terrível.

Queimou o estábulo para receber o dinheiro do seguro e depois fugiu com o cara que lhe vendera a apólice.

— Ela parece uma boa personagem para se escrever a respeito.

— Você leria o que eu escrevesse?

— Claro. E já estou aguardando na maior ansiedade. Mande para Nova York. Chegará às minhas mãos, onde quer que eu esteja.

— Acha mesmo que tenho alguma coisa para dizer?

— Há mais de 40 anos que venho escutando você, acho que é

engraçado e comovente. Por que não escreve a respeito de seu

cachimbo?

A esta altura, nós dois já paráramos de chorar.

— Vai escrever, papai? Vai tentar?

— Acho que tenho, não é mesmo, Monkey?

— Claro que tem.

— Pois então prometo.

— Eu o amo, papai.

— Eu a amo, Monkey.

Desligáramos. Eu ficara circulando pela casa, chorando, por mais uma hora. Voltara depois ao telefone e ligara para um florista. Encomendara uma rosa por dia, durante um mês, com um bilhete anexo: "Uma rosa por uma página. Eu o amo." Papai tem escrito intermitentemente desde então. Não sei se

ele se tornou totalmente abstêmio. Mas também nenhum escritor que eu conheço o é. Mas gostaria que a velha Sra. Hannah tivesse mencionado o talento de papai e a sua convicção nele com mais freqüência. Os bilhetes que ele me envia são curtos e cada um conta uma

uma história da vida de um homem que me influenciou

história

profundamente, porque inadvertidamente me ensinou a amar homens brilhantes e complicados, que precisavam de alguém para ajudá-los a se descobrirem.

Capítulo 5

"Duvido muito que algum de nós tenha a menor idéia do que se chama de realidade da existência de qualquer coisa que não seja os

nossos próprios egos."

— A. Eddington, A Natureza do Mundo Físico

Gerry e eu dormimos. Sempre que nos mexíamos, ajustávamo-nos ainda mais um ao outro, não deixando o menor espaço entre os corpos. Em determinado momento, ele murmurou alguma coisa sobre um telefonema para acordá-lo, a fim de que sua delegação não ficasse especulando sobre o seu paradeiro pela manhã. Liguei para a telefonista e depois fiquei esperando acordada pelo amanhecer, quando Gerry teria de se retirar. Senti-me desamparada enquanto o observava dormir. Ele se fora. Os olhos fechados, estava perdido em seu próprio inconsciente. Observei-o dormir até que finalmente voltei a pegar no sono. Enquanto dormia, imagens de meu pai e Gerry se esbarravam no sonho. Quando a telefonista ligou, ao amanhecer, Gerry sentou na cama abruptamente, como se uma corneta o chamasse para o cumprimento do

dever. Beijou-me rapidamente, vestiu-se e disse que voltaria assim que se livrasse de seu assessor de imprensa e dos repórteres.

— Provavelmente tomarei o café da manhã com eles. Sendo assim,

Shirl, por que você não come agora? Direi a todos na delegação que estou exausto da viagem e poderemos passar o dia inteiro juntos. Ele saiu antes que eu percebesse que esquecera uma das meias. Pedi papaia e torradas, comi na sacada. Lá embaixo, um atendente estava alimentando os golfinhos. Lembrei como Sachi costumava montar em golfinhos, quando era pequena e nos encontráramos com Steve no Havaí, no meio do caminho para o Japão. Ela costumava

dizer que compreendia os golfinhos e que eram seus companheiros de brincadeiras. Lá embaixo, em algum lugar, podia ouvir jornalistas falando sobre as boas matérias que se poderia conseguir no Havaí. Em meio aos gracejos profissionais, houve especulações sobre as experiências do Dr. Lilly com golfinhos. Fiquei pensando se os golfinhos seriam realmente tão inteligentes como os cientistas diziam ou se podiam ter desenvolvido a sua própria linguagem. Lembrei de alguém me dizer certa ocasião que nos cérebros grandes dos golfinhos estavam alojados todos os segredos de uma vasta civilização perdida chamada Lemúria. Eu já ouvira falar sobre Atlântida, mas Lemúria era-me desconhecida. Observei os agentes do Serviço Secreto e os jornalistas que estavam observando os golfinhos. Não podia imaginar como Gerry e eu conseguiríamos chegar ao fim do dia sem sermos reconhecidos. Ele me telefonou cerca de uma hora depois:

— Encontre-se comigo na praia à esquerda do hotel. Quase todos

estarão ocupados no local da conferência. Estarei lá dentro de 15 minutos. Vesti um jeans e uma blusa, por cima de uma roupa de banho. Amarrei um lenço na cabeça e pus óculos escuros, de aros pretos. Ninguém me notou quando atravessei o saguão e passei pela entrada do hotel. Mas fiquei com receio de parar por um instante e

observar os golfinhos, por causa dos jornalistas. Contornei apres- sadamente a piscina e avancei pela areia quente, onde os turistas já se acomodavam, os rádios tocando rock, estrondosamente. O cheiro de óleo de bronzear à base de coco pairava pelo ar. Fui andando pela beira da praia, onde as ondas de um azul claro se desmanchavam na areia, seguindo para a esquerda. Ainda não havia ninguém nadando. As palmeiras se inclinavam ao vento alísio ameno. Fiz algumas flexões na água rasa, já que não fizera a minha ginástica pela manhã. Meu show parecia estar a meia vida de distância.

Parei algumas centenas de metros adiante,

na praia vazia,

sentei na areia, levantei a cabeça para o sol e fiquei esperando

por Gerry. A sensação era de uma coisa quase normal, quase humana. Mais do que qualquer outra coisa, eu detestava o sigilo. Não gostava de me sentir furtiva, clandestina, desonesta. Doía demais. Esperava que Gerry não encontrasse nisso uma emoção perigosa, como acontecia com algumas pessoas. Ele usava uma calça caqui e camisa branca solta. Fiquei observando-o se aproximar, pela beira d'água. Os braços balançavam para longe do corpo, uma das mãos segurava um par de sandálias. Ele não acenou quando me viu. Levantei e fui ao seu encontro na água rasa, a fim de continuarmos a andar.

— Então você tem mesmo outro par de sapatos, Gerry.

— Meus sapatos de férias.

Ele riu e me afagou o rosto.

— A sua delegação aceitou a história da exaustão da viagem?

— Claro. Todos estão fazendo a mesma coisa. Uma conferência no Havaí é sempre uma tentação. Gerry prendeu as sandálias juntas, pendurou-as no ombro e

pegou-me a mão, quando já estávamos bem longe do hotel. Encostei a cabeça em seu ombro e fomos andando. Encontramos um recife de coral que se projetava pelo mar. A sensação era de que estávamos andando na água. Gerry gracejou, comentando que todos julgavam que era isso o que ele alegava ser capaz de fazer. O coral era afiado. Paramos e ficamos contemplando as ondas grandes que quebravam mais além.

— Sabe deslizar nas ondas, Shirl?

antes de ficar bastante

velha para sentir medo. Lembrei como era despreocupada com o meu corpo. Nunca me ocorrera que poderia fraturar alguma coisa ou que algo poderia

sair errado. Agora, tinha de pensar em tudo o que podia acontecer, mesmo quando saltava de um táxi. Se torcesse um tornozelo ou desse uma pancada com o joelho, isso poderia interferir com a minha dança. Quando era mais jovem, eu dançava Com mais inconseqüência. Acho até que fazia tudo sem pensar muito. E também me divertia maravilhosamente. Com o ingresso na vida adulta, fora me tornando cada vez mais consciente das conseqüências de tudo o que fazia, quer fosse mergulhar nas ondas ou ter uma ligação amorosa.

A percepção não diminuía a diversão ou a admiração. Ao con-

no

trário, eu queria agora aprender a viver totalmente no agora

presente, com uma plenitude confirmada de que era tudo o que realmente existia. Se eu vivera outras vidas no passado e

— Fazia isso quando tinha 20 anos

provavelmente viveria outras vidas no futuro, a crença nisso serviria apenas para intensificar o empenho de coração e alma no presente.

A reencarnação era um conceito novo para mim, é claro, mas eu

descobria que, cada vez que pensava a respeito, extraía um grande

prazer das implicações. O tempo e o espaço eram tão irresistivelmente infinitos que serviam para mostrar à pessoa como eram preciosos todos e cada momento na Terra? Minha mente precisava dar saltos quantitativos de imaginação para outras realidades possíveis, a fim de apreciar a alegria da realidade agora? Ou a verdadeira alegria e felicidade estavam na inclusão de todas essas outras realidades, que na verdade expandiam a consciência da pessoa da realidade do agora? Expansão da percepção. Era essa a expressão que tantas pessoas estavam usando cada vez mais. Não se precisava trocar uma percepção antiga por outra nova. Podia-se simplesmente expandir e elevar a percepção que já se possuía. Uma percepção expandida simplesmente reconhecia a existência de dimensões anteriormente

não reconhecidas

alegria e assim por diante. O conflito entre Gerry e eu seria simplesmente uma diferença no movimento para uma percepção expandida? Talvez eu estivesse tentando forçá-lo a um ritmo que era o meu e não o seu. E também não se podia julgar o ritmo dele. Apenas era diferente. Eu sabia que podia ser por demais insistente, uma decorrência em parte da curiosidade intensa e em

parte da impaciência. Era impaciente com outras pessoas que não se empenhavam na mesma busca. Minha vida parecia devotada a uma sucessão de indagações. A de Gerry parecia devotada às respostas.

dimensões de espaço, tempo, cor, som, sabor,

Fomos nos

afastando de Diamond Head,

Waikiki e Kahala,

encaminhando-nos para o lado deserto da ilha, ocupado por arbustos densos. Quanto mais nos afastávamos das pessoas, mais Gerry me tocava. Não demorou muito para que estivéssemos andando com os corpos colados. Era maravilhoso demais para se conversar. O sol mergulhou por trás das nuvens e os coqueiros começaram a se inclinar ao vento. A chuva caiu. Corremos da água para o abrigo das árvores. Havia cocos maduros espalhados pelo chão. Ficamos debaixo de uma árvore a contemplar a chuva caindo sobre as azaléias roxas ao nosso redor. Um passarinho azul sacudiu as penas e voou para se abrigar sob uma moita. Gerry me abraçou e olhou para o mar.

— Tudo isto é tão bonito

Ele me aconchegou ainda mais firme. A chuva caía mais forte agora

uma dessas violentas tem-

pestades tropicais, que parecem um lençol de água faiscante. — Não quer nadar na chuva, Gerry? Sem responder, Gerry tirou a camisa e a calça. Estava de calção por baixo. Enrolou as roupas numa bola, colocou por baixo das sandálias, sob a árvore, saiu correndo para o mar. Tirei o jeans e a blusa, corri atrás dele. As ondas estavam mais altas agora, as cristas brancas. Mer- gulhávamos por baixo, sentindo os borrifos se misturarem com as gotas da chuva. Limpei o sal dos olhos, contente por não estar com maquilagem. Gerry nadou para longe da praia, acenando-me para que

fosse atrás. Fiquei com algum receio e comecei a boiar nas ondas, observando-o. Gerry parou e ficou de costas, no lugar em que as ondas desmanchavam. Virou-se um momento depois e ficou esperando pela onda certa. A onda chegou e ele deslizou na crista, até que se desvaneceu, perto do lugar em que eu esperava. Gerry nadou em

minha direção e pegou-me em seus braços. Beijei seu rosto salgado, ele me sufocou em seus ombros enormes. Nadamos de volta à praia e deitamos juntos na água rasa, as ondas suaves deslizando sobre os nossos corpos, levantando os rostos para a chuva.

foi a coisa mais feliz que já fiz — disse Gerry, a

respiração profunda, gritando um pouco, acima do barulho das ondas. — Sabia que eu nunca tinha feito isso antes? Foi a primeira onda em que já deslizei. Tenho perdido muita coisa, não é mesmo? Não falei nada. Apenas me virei e pensei que era o momento

mais feliz que eu tivera em muito tempo

abandono para deslizar na onda com Gerry.

só desejava ter tido o

— Aquilo

sol ressurgiu. Depois, de

costas, fomos saindo da água, arrastando-nos para a areia úmida, onde ficamos estendidos, enquanto o sol nos secava os corpos.

quando você pensa em sua vida, qual foi o momento

em que se sentiu mais feliz? Ele pensou por um momento e depois disse, com uma expressão meio aturdida:

— Agora que você me perguntou, eu teria de dizer que toda a

que

Permanecemos na

— Gerry

água até

o

minha felicidade esteve relacionada com a natureza

vezes com as pessoas surpreendente para mim. Meus momentos mais felizes nunca estiveram relacionados com o meu trabalho. Deus do céu, por que isso?

mas nunca com o meu trabalho. E isso é

algumas

— Não sei. Talvez porque achasse que o trabalho era um dever.

— Mas me sinto deprimido mesmo quando venço. Por exemplo: na

última vez em que fui eleito, caí em depressão por vários dias. — Gerry levantou os olhos para o céu. — Devo pensar a respeito, não

é mesmo? Levantei para me vestir.

— Parece uma pena que você se sinta deprimido quando vence. E

o que sente quando perde? Gerry também se levantou, foi até a árvore sob a qual deixá- ramos as roupas.

— Quando perco, sinto-me desafiado. Experimento um senso de

luta e isso faz com que tudo valha a pena. Acho que preciso nadar contra a correnteza. Continuamos a andar em torno da ilha e pouco depois encon- tramos uma pequena barraca, na praia, em que se vendia abacaxi e papaia. Esprememos limões sobre as papaias e comemos sentados na

areia. O havaiano que era dono da barraca estava lendo um livro de Raymond Chandler, mas a todo instante levantava os olhos para o mar. Gerry e eu conversamos sobre a Ásia, Oriente Médio, o tempo que eu passara no Japão. Ele não me fez qualquer pergunta pessoal

e também não lhe ofereci qualquer informação.

andar, até encontrarmos o

World. Fomos ver os golfinhos e as orcas. Estava na hora da alimentação. Um dos golfinhos teve mais para comer do que os outros. Gerry achou que não era justo. Comentou que a

Continuamos a

caminho para

Sea

sobrevivência dos mais aptos era cruel e que devia haver um meio do homem reformular esse fato básico da natureza. Disse que a

para tornar o mundo um lugar mais

aprazível. Lamentava os que não tinham condições de se defender por si mesmos. Uma orca estava sendo alimentada no tanque maior. Gaivotas circulavam lá por cima, na esperança de que a orca perdesse um dos

peixes que o atendente, vestindo um traje de mergulhador, jogava na boca imensa. E, de repente, ele errou um lançamento. Uma gaivota mergulhou em vôo, pegou o peixe e foi para o outro lado do tanque. A orca viu-a e deu um salto em sua direção. A gaivota acomodou-se na beira do tanque, onde a orca não podia alcançá-la.

A orca interrompeu a refeição, passando

furiosa para a gaivota. Gerry riu alto e a orca voltou à refeição. Deixamos o aquário e nos encaminhamos para as colinas acima do

mar. Pássaros de todas as cores voavam e cantavam pelas exuberantes árvores tropicais. Tentamos abrir um coco seco, mas precisávamos de um facão. Contei a Gerry sobre a ocasião em que fora para a ilha maior do Havaí apenas para ficar sozinha. Alugara uma casinha na Kona Coast e passava os dias sentada em rochas vulcânicas, a pensar na competição, entre outras coisas. Eu estava em Hollywood há cinco anos e a maneira pela qual bons amigos brigavam entre si pelos melhores papéis estava me deixando arrasada. Acabara de ser indicada para outro Oscar e também não gostava da falsa pressão que isso parecia me impor. Não gostava do sentimento de que ganhar uma estatueta de latão deveria ser mais gratificante do que realizar um bom trabalho. Sentia-me confusa porque todos pensavam que Hollywood era justamente isso. Mas não entendia por que alguém devia vencer ou perder. Não gostava da maneira como as pessoas se sentiam abatidas quando perdiam. E odiava agora todo o dinheiro que era gasto na tentativa de influenciar votos, com festas e anúncios nos jornais

profissionais. Gerry parecia interessado no que eu estava dizendo. Mas ele não podia compreender que eu realmente não me importasse

de vencer ou não.

minutos a olhar

civilização existia para isso

três

— Por que não se importava, Shirl?

mas o fato é que não me importava. E continuo a

não me importar. Acho que não queria me sentir constrangida por vencer uma coisa que não fora uma competição para começar. Não ficaria deprimida como você diz que se sente quando vence ficaria embaraçada. Você precisa vencer, porque é assim que opera a democracia e o governo da maioria, porque não há outro meio de ser um político bem-sucedido. Mas os artistas não deveriam se envolver nesse tipo de competição. Acho que deveríamos nos preocupar apenas em competir contra o melhor que temos em nós mesmos. Gerry me perguntou se eu fora para lá realmente sozinha. Res- pondi que sim, que já fizera isso muitas vezes na vida. Precisava ficar sozinha. Precisava de tempo para refletir. Ele disse que imaginara isso pelo meu primeiro livro, Don't Fall Of The Mountain (Não Caia da Montanha). E acrescentou que era um dos livros pre- diletos de sua filha. Gerry perguntou se eu já me sentira alguma vez solitária.

— Não sei

Respondi que estar sozinha era diferente de estar solitária, mas acreditava que eu era basicamente uma pessoa solitária. Ele nunca me fez qualquer pergunta a respeito do meu divórcio ou de relacionamentos com outros homens. Se era uma coisa que tinha de aflorar, isso ocorreria naquele momento. Presumi que ele não estava preparado para saber. Paramos, sentamos, ficamos observando os caranguejos escavarem buracos na areia, enquanto a tarde chegava ao fim. Um dos caranguejos caiu de costas. Gerry pegou um graveto, virou-o, sorriu gentilmente. Contei como observara uma colônia de formigas perto da casinha em Kona. Passaram dias a carregar diligentemente um pão doce dormido, migalha por migalha, de uma pedra para um esconderijo sob outra pedra. Eram organizadas e determinadas. Não eram individuais. Não havia possibilidade. Pareciam altruístas. Eu não sabia se isso era bom, submeter os seus próprios interesses ao bem da espécie. Era o que Gerry pensava estar fazendo? Gerry me interrogou sobre a China. Embora nunca tivesse ido até lá, ele sabia muita coisa sobre a China. Conversamos sobre a revolução chinesa. Ele disse que gostaria de ter arrumado tempo, quando es- tivéssemos em Hong Kong, de atravessar a fronteira, mesmo que fosse por apenas uns poucos dias. Adormecemos ao sol da tarde. Uma brisa fria soprava quando acordamos. Corremos juntos para a água, rindo e batendo de leve um no outro. Gerry parou para jogar algumas pedrinhas chatas, que quicaram sobre a água. E depois fomos andando, de mãos dadas, até que chegamos a um ponto do qual se podia ver o hotel. Foi então que nos separamos. Gerry seguiu na frente e

desapareceu na multidão em torno da piscina. Fiquei contemplando o sol poente por algum tempo. E me ocorreu de repente como Gerry parecera livre durante o dia inteiro, ao ar livre, como se mostrava inepto com quatro paredes ao seu redor. Era realmente uma pessoa diferente quando estava descontraído. Eu tinha certeza de que ele seria melhor em seu trabalho se conseguisse se soltar mais, provavelmente melhor também no casamento, melhor comigo. Entrando no hotel, avistei Gerry cercado no saguão por sua delegação.

— Onde esteve?

— Está se sentindo melhor?

Ouvi trechos da conversa enquanto passava, desapercebida.

Senti-me como música de fundo. Entrei no elevador, contente por ser a única pessoa lá dentro, além do ascensorista. Estava tomando um banho de chuveiro quente, tirando o sal dos cabelos, quando o telefone tocou. Era Gerry.

— Por que ficou tanto tempo longe de mim?

Cinco minutos depois ele estava em meu quarto, sentado no chão. Havia um especial de TV transmitido de Las Vegas, apresen- tando Sinatra, Sammy Davis Jr., Paul Anka e Ann-Margret. Gerry estava com as pernas cruzadas, inclinado para a frente, começou a me fazer perguntas sobre musicais. Os cantores realmente cantavam ou simplesmente mexiam a boca para um playback? Decoravam as letras ou liam cartazes com as palavras? Quantos ensaios faziam antes de começarem as apresentações? Enquanto conversávamos, resolvemos jantar num restaurante

japonês que eu conhecia, no outro lado de Waikiki. Se conseguísse- mos pegar um táxi sem que ninguém nos visse, não haveria problemas daí por diante. Deixei o quarto na frente. O elevador que descia demorou tanto que Gerry teve de subir para não chegar ao saguão ao mesmo tempo que eu.

O saguão estava repleto de jornalistas e agentes do Serviço

Secreto. Escondi o rosto por trás de uma revista e assim me manti- ve até sair. Um táxi esperava na fila. Fotógrafos espocavam seus flashes, enquanto delegados famosos entravam e saíam. Embarquei no táxi e pedi ao motorista que esperasse por um instante. Ele disse que não poderia esperar por muito tempo. Olhei nervosamente para o saguão. Gerry estava ali, mas fora detido por uma delegação vi- sitante. Pus-me a contar os segundos.

— Meu amigo já está vindo — falei ao motorista. — Espere só

mais um pouco.

O motorista esperou. Gerry conseguiu livrar-se dá delegação

poucos minutos depois, sorriu para uma câmara apontada em sua direção, viu-me acenar. Tranqüilamente, encaminhou-se para o táxi e embarcou. Ninguém notara coisa alguma. Seguimos para o restaurante japonês. Eu conhecia a gerente, mas ela não estava interessada na pessoa que me acompanhava. Pedi- lhe em japonês uma sala de tatami privada. Ela levou-nos até lá,

serviu-nos saquê quente, saiu para preparar nosso sushi. Gerry não ficou muito animado com o peixe cru, mas comeu assim mesmo.

A vela na mesa bruxuleava por baixo de seu rosto.

— Como adorei este dia, Shirl

Eu sorri.

— E como adoro conversar com você. Tornei a sorrir.

— E como adoro estar com você.

Sorri e revirei os olhos, num arremedo de fastio. Ele

compreendeu qual era a minha intenção.

— E como eu amo você. Comecei a chorar.

Gerry inclinou-se e pegou-me a mão. Eu não podia falar.

— Lamento que isso a faça infeliz, Shirl.

Peguei um lenço de papel e assoei o nariz. E, finalmente, falei:

— Oh, Gerry, por que é tão difícil para você dizer isso? Ele assumiu uma expressão solene.

— Porque digo de outra maneira que não por palavras. Digo com as mãos, com o corpo.

— Por quê?

— Não sei. Talvez seja porque tenho de manipular as palavras

durante o dia inteiro em meu trabalho e não quero sentir que estou

manipulando as palavras com você.

— Acha que isso é ser justo comigo?

— Acho.

— Pois eu preciso manipular as palavras para exprimir meus

sentimentos. Isso é injusto?

— Não posso saber como é para você.

— De qualquer forma, não estou muito certa se o amor é justo.

— Acho que não sei coisa alguma sobre o amor, Shirl. Tudo isso

é novo para mim. Sei apenas que me sinto muito bem ao me expressar

fisicamente, porque nunca tinha feito isso antes e porque uso palavras durante todo o tempo. Tentei absorver o que ele estava dizendo. Significava que não

se podia realmente confiar nele? Ou significava que não queria se comprometer com palavras, porque não queria assumir a responsa- bilidade mais tarde?

— Como então você poderá expressar quando estivermos longe um do outro? Gerry deu de ombros.

— Não sei. É uma contradição, não é mesmo? Terei de pensar a

respeito. Jantamos a conversar sobre o Japão, como estava sacrificando a sua cultura em favor do desenvolvimento industrial. Passeamos um pouco depois do jantar e voltamos ao hotel, em táxis separados. Havia um banquete de convenção no salão do hotel. Fui para o meu quarto e fiquei esperando. Os golfinhos saltavam gentilmente no aquário lá embaixo e as palmeiras sussurravam ao vento alísio. Meia hora depois estávamos na cama. Gerry disse que tinha

muito trabalho acumulado para os próximos dois dias e precisava se levantar bem cedo na manhã seguinte. Eu ia partir no final da manhã. Apagamos a luz e tentamos dormir. Gerry levantou-se de repente e, com seu andar determinado, foi derrubar uma cadeira. Soltei uma risada. Ele entrou no banheiro, saiu um instante depois, ficou andando de um lado para outro, ao pé da cama.

— Qual é o problema, Gerry?

— Não sei o que estou pensando. Não sei o que fazer. E não

estou sequer preparado para pensar no que estou pensando. Observei-o em silêncio. Ele pegou uma maçã no cesto de frutas. Continuou a andar, com a maçã na mão. Voltou à cama, começou a comê-la. Deliberadamente, com grande concentração, pôs-se a

mastigar interminavelmente cada pedaço, sem dizer uma só palavra. Era como se não soubesse que eu estava presente. Não comeu a maçã como a maioria das pessoas, deixando as duas extremidades. Comeu de alto a baixo, finalmente devorou tudo o que restava, inclusive as sementes. Soltei uma risada e isso provocou-lhe um sobressalto.

mas depois que começo, como tudo. — Gerry

apoiou-se num cotovelo. —- Não se esqueça disso.

— Não como muito

Tentei dormir. Não sabia quando tornaria a vê-lo. Pensei como seria pela manhã, quando ele saísse pela porta, fechando-a. Não consegui me fazer confortável. Virei-me de um lado para outro. Gerry me tocava a cada vez que eu virava. E assim a noite foi

passando, eu me remexia e dormia, remexia e dormia. E Gerry me tocava a cada vez que eu me remexia. O amanhecer logo se infiltrou pelas cortinas. Gerry sentou na cama, puxou as cobertas ao meu redor, levantou-me o rosto.

— Tivemos 36 horas de uma coisa maravilhosa demais para se

descrever com palavras, Shirl. A maioria das pessoas nunca têm isso. Pense no lado positivo. Sempre presumo que começo em zero e qualquer coisa acima disso já é lucro. Engoli em seco.

– Não é o meu caso. Presumo que começo onde quero e posso ir

depois a qualquer lugar que quiser. Sinto que posso fazer qualquer coisa acontecer, se quiser. Não me sinto grata por nossas 36 horas. Quero mais. Quero tudo o que puder obter. Ele riu e levantou as mãos. Saiu da cama e pude senti-lo a se preparar para um dia de trabalho. Já passara o seu tempo comigo, considerava-se afortunado, agora tinha de atender ao seu senso de obrigação britânico. Era muito simples para ele. Convertera a negação numa carreira. Ele pensou por um momento, o rosto tornou-se grave.

— A vida seria desolada, triste, vazia. E agora me dê um beijo

comprido. Ele pegou-me o rosto entre as mãos. Soergui-me e passei a mão

por seus cabelos. Gerry vestiu-se rapidamente. Antes que eu perce- besse, já estava na porta.

— Telefonarei para você assim que voltar a Londres.

Ele não se despediu. Não se virou. Avançou direto para a porta, abriu-a e saiu.

O quarto mudou. Era o momento que eu tanto temia. O silêncio

fez meus ouvidos zunirem. Senti-me tonta. Sentei, estendi as pernas pelo lado da cama. Olhei ao redor, à procura de alguma

coisa que ele pudesse ter esquecido. Não, pensei. Isso é ridículo. Não vou me permitir chafurdar nisso. Levantei-me, tomei uma chuveirada fria, pedi o café da manhã, arrumei as malas. Depois sentei e escrevi-lhe uma carta, dizendo que ele estava certo ao presumir que um copo com água pela metade estava meio cheio e não meio vazio. Dormi, um tanto irrequieta, no avião que me levou de volta através do Pacífico.

— O que você quer de mim?

Podia ouvi-lo a indagar de novo. Gerry tinha razão. Eu queria

que ele destruísse sua vida pessoal, arriscasse o seu trabalho político e renunciasse de um modo geral a tudo a que dedicara sua vida por mim? Mas eu não queria pensar agora sobre isso.

— Tenho de concluir o trabalho que comecei há tanto tempo —

dissera Gerry. Eu queria arriscar isso pelo que tínhamos? E o que tínhamos, afinal? Seria mesmo amor? Seria aquilo pelo qual as pessoas renunciavam a tudo? Ele seria capaz de chegar a esse ponto? E eu seria? Poderia viver em Londres? E o que diriam os eleitores

ingleses se soubessem? Iria de fato arruiná-lo? Gerry alegava, com absoluta convicção, que sua mulher não seria capaz de suportar. Mas o que pensariam as outras pessoas? E, por isso, ele dissera:

– Tenho de me acalmar. Preciso me esfriar. Tenho estado obcecado demais por você. Preciso ser objetivo agora. Não quero pensar no que estou pensando. Ele me dissera todas essas coisas. E quando eu tentara ajudar, assumindo uma atitude também mais fria, Gerry dissera:

— Você não vai se livrar de mim tão facilmente.

Desolado, triste e vazio, como ele

dissera. Haveria também desolação, tristeza e vazio para mim? Eu

poderia passar sem ele? Mas o que faria com ele? O que estava fazendo comigo mesma?

Eu também estava confusa

Capítulo 6

"É muito difícil explicar esse sentimento a alguém que está total- mente desprovido dele, ainda mais porque não há qualquer concepção antropomórfica de Deus que lhe seja correspondente. O indivíduo sente o nada dos desejos e objetivos humanos, a sublimidade e a ordem maravilhosa que se revelam tanto na natureza como no mundo do pensamento. Encara a existência individual como uma espécie de prisão e quer experimentar o universo como um todo único significante."

— Albert Einstein, O Mundo Como Eu O Vejo

Ao chegar em casa, eu estava irritada, frustrada, aborrecida comigo mesma, mais contrafeita do que nunca por alguma coisa que não podia definir muito bem. Estava perturbada por todos os problemas óbvios que se relacionavam com Gerry, é verdade, mas havia mais do que isso. Liguei para David. Ele ainda estava na Califórnia. E sentiu

imediatamente que alguma coisa estava errada. Perguntou como correra o meu fim de semana, sabendo que eu não diria muita coisa, mas querendo ser amigo e proporcionar todo o apoio que pudesse. Pedi-lhe que fosse se encontrar comigo em Malibu.

E ele foi imediatamente, levando um saco com pêssegos frescos.

Descemos para a praia. Os pêssegos estavam doces, suculentos.

— Qual é o problema? — perguntou David, sabendo que podia ir direto ao ponto porque eu o convidara.

Engoli um pedaço grande de pêssego. Não sabia como começar a contar o que estava sentindo.

não exatamente

desligada. Apenas sinto que há alguma coisa por que estou viva que não consigo perceber. Sou uma pessoa feliz, aproveito a vida ao

máximo

crise da meia-idade. É uma coisa que não posso explicar. Na

a não ser pelo fato de

que depois de alguns anos finalmente se começa a formular as perguntas certas. Hesitei por um instante, esperando que David dissesse algo que me lançaria a uma lucidez mais profunda. Mas ele ficou calado, esperando que eu falasse mais. E continuei:

verdade, a idade nada tem a ver com isso

e não me sinto angustiada por causa desse negócio de

— Não sei, David. Sinto que estou desligada

— Talvez eu não esteja sequer falando a meu respeito.

Talvez

reito? E por que isso deveria me afetar? Por que você nunca parece

angustiado? Sabe de alguma coisa que eu ignoro?

— Está se referindo a por que estamos vivos e qual o nosso propósito?

acho que é isso. Quando se tem tanto quanto

eu, quando se viveu tanto quanto eu, ao final se tem de perguntar muito a sério: O que significa tudo isso? E não estou perguntando por infelicidade. Acho que sou bem-sucedida, pessoal e profissionalmente, certamente me sinto feliz. Não sou viciada em

talvez seja o mundo. Por que o mundo não funciona di-

— Isso mesmo

tóxicos ou bebida. Amo meu trabalho e amo meus amigos. Tenho uma vida pessoal maravilhosa, apesar de alguns problemas complicados.

Não

haver algo mais sobre o nosso verdadeiro propósito na vida que não consigo perceber.

David limpou o sumo de pêssego que escorrera para seu queixo. Era fascinante para mim que pudesse me sentir à vontade ao lhe

fazer tal pergunta, como se ele fosse capaz de respondê-la. Era uma pergunta que não teria formulado sequer a Einstein, se o conhecesse bastante bem para sentar na praia a seu lado, comendo pêssegos. David limpou a areia dos seus dedos pegajosos.

— Acho que a felicidade está no nosso quintal dos fundos, para citar Al Jolson.

— Soltei uma é o Oceano Pa-

cífico. E daí?

risada. — Olhe para o meu quintal dos fundos

não é sobre isso que estou querendo falar. Acho que deve

— Que grande ajuda você está me prestando

— E daí que estou me referindo a você. Felicidade, propósito,

significado

tudo é você.

mas podia sê-lo um

pouco menos e se tornar mais específico?

— Está certo — continuou David, sem se deixar afetar por minha

irritação. — Você é tudo. Tudo o que quer saber está dentro de

você. Você é o universo. Santo Deus, pensei, esse jargão é demais. Ele vai recorrer a

frases que não integram o meu vocabulário realista. E por mais que possa me sentir atraída pelo que ele está dizendo, não vai adiantar nada, porque não é parte do meu léxico filosófico ou intelectual de compreensão. Mas também, pensei, minhas palavras, frases e idéias são limitadas por meus próprios conceitos, por minhas estruturas de referência. Não fique contrariada com as idéias. Mantenha a mente aberta.

— Por favor, David, explique o que está querendo dizer. O que

você falou parece pomposo, solene e falso. Já tenho problemas su-

ficientes para compreender o que estou fazendo dia a dia. Devo agora compreender que eu sou o universo?

— Está bem. — Ele riu gentilmente da minha sinceridade frus-

trada. — Vamos seguir por outro caminho. Quando você esteve na Índia e Butão, pensou muito no aspecto espiritual de sua vida? Ocorreu-lhe que o corpo e a mente podem não ser as únicas dimen- sões em sua vida? Pensei por um momento. Claro que isso me acontecera. Recordei como ficara fascinada ao ver um lama butamês levitar na posição do lótus (os joelhos cruzados), um metro acima do solo. Ou para ser

— Você é muito simpático e polido, David

possivelmente mais acurada, eu pensara tê-lo visto levitar. Fora- me explicado que ele conseguira aquilo pela inversão de suas polaridades (o que quer que isso significasse), assim desafiando a gravidade. Para mim, fizera algum sentido em termos científicos, ao mesmo tempo que atraíra o lado metafísico da minha natureza. Assim, ficara por aí. Por alguma razão, não tivera problema para aceitar o que acontecera, mas não podia dizer sinceramente que compreendera. Outro lama me dissera mais tarde:

— Você não teria testemunhado a levitação se não estivesse preparada para isso. Fora então que eu começara a pensar que talvez tivesse apenas pensado que vira. Lembrei do tempo em que convivera com os masais no Quênia e depois viajara para a Tanzânia. Encontrara outros masais que sabiam meu nome e que eu me tornara uma irmã de sangue masai, sem que ninguém lhes dissesse. Aceitara as explicações dos caçadores brancos do safari, que acreditavam que os masais haviam desenvolvido a transmissão de pensamento. Disseram que os masais

não possuíam outra forma de comunicação entre si através da África. Assim, por uma questão de necessidade e também porque eram pensadores comunais, puderam realizar o que o mundo branco e

civilizado era competitivo demais para alcançar

através da telepatia mental e da transmissão de pensamentos para

seus irmãos. Aceitara tudo o que os caçadores brancos haviam me dito. Pri-

meiro, porque eles tinham muita experiência e anos de observação dos masais, seus hábitos e padrões de comportamento; e segundo, apenas porque fazia sentido para mim. Não tinha qualquer dificuldade para compreender que a energia do pensamento humano podia viver e se propagar fora do cérebro humano. Não me parecia algo estranho ou absurdo. Também não o era para os caçadores

brancos, diga-se de passagem

realistas, com grande experiência das tribos primitivas.

Pensei nos muitos momentos da minha vida quando sabia que algo

estava para acontecer

alguém estava em dificuldades

e era um fato. Tivera

freqüentemente essas percepções em relação a pessoas que conhecia bem. Sabia, por exemplo, que um amigo chegado acabara de se registrar no Hotel International, em Seul, na Coréia. Telefonava imediatamente e ele atendia, espantado por eu ter descoberto a sua presença ali. Essas percepções me aconteciam com freqüência. E a se julgar pelas histórias populares, tais experiências haviam sido partilhadas por muitas e muitas pessoas, quase todos já tinham ouvido falar a respeito. Mas eu nunca questionara realmente essas coisas. Simplesmente aconteciam. E isso era tudo. Nunca me relacionara espiritualmente com essas coisas. Claro que me interessava pelo controle da mente sobre a matéria, fenômenos psíquicos, isolamento meditacional e certamente a expansão da percepção. Mas como poderia descobrir por mim mesma? Ou já estava consciente sem saber? Conheci, por exemplo, um lama nos Himalaias que vinha meditando em isolamento quase total há 20 anos. Subi mais de quatro mil metros até sua caverna na encosta da montanha. Quando

alguém estava tentando me encontrar

e estava mesmo. Quando sabia que

e acabava acontecendo. Quando sabia que

e eles eram estudiosos práticos e

a comunicação

lá cheguei, ele me serviu um chá e me deu um pedaço de pano cor de

açafrão que abençoara para me proteger, explicando que seria necessário porque eu estaria em breve envolvida com problemas di- fíceis. Ele estava certo. Na descida da montanha, um leopardo ma- tador de homens atacou-me e ao guia sherpa. E um dia depois des-

cobri-me envolvida num bizarro golpe de Estado himalaio; fui presa

e

captores tentavam tirar-me o guia e encarcerá-lo no dzong (uma

masmorra himalaia em que os prisioneiros geralmente morriam). A

inacreditável e o lama

que meditava na caverna da montanha acertara em cheio. Pelo menos

em relação ao perigo. E mesmo que o pedaço de pano servisse apenas para me proporcionar apoio moral. Mas foi premonição dele ou presciência espiritual? Eu nunca pensara nesses termos. Era mais pragmática. Tinha respeito pelas coisas que não compreendia, mas me sentia mais à vontade relacio- nando essas coisas num nível intelectual ou científico, que parecia-me mais real.

— É verdade, David. Estou pensando cada vez mais sobre o

experiência foi como um filme ruim de classe B para quem não estivesse presente. Para mim, foi real

passei

dois

dias

sob

a

vista

de

baionetas, enquanto meus

aspecto espiritual de mim mesma, do mundo ou como quer que você prefira chamar. David mudou de posição em torno do saco de pêssegos e dos caroços cobertos de areia que se empilhavam entre nós.

— Está querendo dizer que o aspecto espiritual de sua vida lhe parece real?

acho que se pode dizer isso. Mas não parece

ser uma parte real da vida realista que levamos. Talvez porque eu não possa percebê-lo. Acho que, no fundo, estou dizendo que acredito nas coisas de que tenho provas.

— A maioria dos ocidentais se sente assim. Essa é provavel-

e nunca os

mente a diferença básica entre Ocidente e Oriente dois haverão de se encontrar.

— O que me diz de você, David? Como pode ter essa compreensão

espiritual num mundo tão pragmático? É um ocidental. Como chegou a suas convicções? Ele limpou a garganta, quase como se quisesse evitar uma resposta. Mas sabia que não podia fazê-lo.

— Isso mesmo

— Simplesmente viajei e vagueei muito. Nem sempre fui assim.

Mas algo me aconteceu certa ocasião. Eu lhe contarei a respeito algum dia. Mas pode estar certa de que eu era o típico americano,

com carros bonitos, mulheres bonitas

estava me levando a parte alguma, mas não posso deixar de admitir

que aproveitei ao máximo, enquanto durou. Os olhos de David ficaram enevoados enquanto falava, relem- brando. Especulei sobre o que teria acontecido, mas não quis

vivendo sempre a mil. Não

insistir, já que ele dissera que me contaria no momento oportuno.

— Então você viajou muito, David?

— Isso mesmo.

— Eu também. E adoro viajar. Adoro voar para novos lugares,

ver novos rostos. Acho que jamais consegui ficar parada no mesmo

lugar. David fitou-me de lado.

— Pedi carona, atravessei os mares trabalhando nos cargueiros

mais ordinários — continuou ele. — Creio que não importa como

fazemos essas coisas; em vez disso, o que conta é por quê. Provavelmente nós dois estávamos procurando pela mesma coisa, só que por dois ângulos diferentes.

— Tem razão, David. Mas sempre pensei que procurava por mim

mesma toda vez que viajava. Como uma jornada por qualquer lugar

era na verdade uma jornada através de mim mesma.

— Eu também era assim. E era a isso que eu estava me referindo

há poucos minutos quando falei que as respostas estão em você.

Você é o universo.

— Poderíamos ambos ter poupado muitas passagens de avião se

soubéssemos disso no início, não é mesmo? Poderíamos ficar sen- tados no quintal dos fundos a meditar.

— Você está gracejando, mas acho que é verdade. É por isso que

todos são essencialmente iguais. Todos têm a si mesmos, independente da posição na vida em que tenham nascido. Na verdade, uma pessoa considerada estúpida pode ser muito mais espiritual do que alguém que é um gênio em termos da Terra. O idiota da aldeia pode estar mais perto de Deus do que Einstein, embora até Einstein dissesse que acreditava que havia uma força maior em ação do que ele podia provar.

o que quer que isso

signifique

— Mas ser um gênio e ser espiritual

não são coisas que se excluem mutuamente?

— Não.

Lembrei de uma história que alguém em Princeton me contara. Einstein vinha tentando provar a teoria do motivo pelo qual os

passarinhos mecânicos que se punha na beira de um copo se enchiam de água e depois, quando ficavam desequilibrados, entornavam tudo

e recomeçavam. Parecia não conseguir explicar como os passarinhos

mecânicos funcionavam em termos matemáticos. Frustrado, foi um dia

à cidade para tomar um sorvete duplo de morango. Aparentemente, morango era o sabor predileto de Einstein. Estava lambendo o sorvete e passeando pela calçada, junto ao meio-fio, quando

tropeçou ligeiramente. A bola superior do sorvete caiu na sarjeta.

Einstein ficou tão abalado que chorou

gênios do mundo, mas não conseguia controlar a sua ansiedade pelo

que não podia compreender, igual a qualquer outro homem. Lembrei de ter lido em algum lugar que Einstein era um leitor

ávido da Bíblia. Nunca soube o que realmente pensava a respeito, a não ser que tinha um profundo respeito. Especulava sobre o que ele teria pensado sobre a suposta imagem de Cristo deixada na Mortalha de Turim. Alguns cientistas diziam que a imagem era causada por energia radiativa em alto nível, enquanto os espiritualistas ex- plicavam que era uma expressão de energia espiritual de alto nível que Cristo adquirira.

Ali estava um dos grandes

— O que acha de Cristo? — descobri-me a perguntar a David. — Quem você pensa que ele realmente era?

David se empertigou, como se tivesse finalmente encontrado uma meada para desenredar.

— Cristo foi o mais adiantado ser humano que já pisou neste

planeta. Foi uma alma espiritual altamente desenvolvida, cujo propósito na Terra foi transmitir os ensinamentos de uma Ordem Su-

perior.

— O que está querendo dizer com uma "Ordem Superior"?

— Uma ordem espiritual superior. Obviamente, ele sabia mais

que o resto da humanidade sobre a vida e a morte, sobre Deus. Acho que sua ressurreição provou isso.

— Mas como sabemos que realmente aconteceu?

David deu de ombros.

— Antes de mais nada, muitas pessoas testemunharam, relataram

que ficaram espantadas, até mesmo aterrorizadas. Em segundo lugar, os restos de seu corpo jamais foram encontrados. Em terceiro,

seria difícil inventar um mito dessa magnitude. Além do mais, como podemos saber se qualquer coisa na história de fato aconteceu se não a testemunhamos pessoalmente? Em algum ponto, o conhecimento da história exige um ato de fé, a convicção de que os acontecimentos são verídicos. Caso contrário, não perderíamos tempo a aprender qualquer coisa do passado.

— Em outras palavras, por que não acreditar?

— Exatamente. Mas, primeiro, examine bem, escute, escute de

verdade, o que o homem disse. Tudo o que Cristo ensinou estava relacionado com a compreensão do conhecimento da mente, corpo e

espírito. O Primeiro Mandamento dado a Moisés, muito antes de Cristo, era o reconhecimento da Unidade Divina: Mente, Corpo e

Espírito. Cristo disse que o Primeiro Mandamento era o principal e interpretá-lo erroneamente seria fazer a mesma coisa com todas as outras leis universais subseqüentes. Mas ele disse também que, para compreendê-lo plenamente, tínhamos de compreender que a alma e o espírito do homem possuíam vida eterna e que a busca da alma era se elevar cada vez mais alto na direção da perfeição, até ficarmos livres. Olhei atentamente para David, tentando absorver o que ele es- tava dizendo. Creio que alguns anos antes eu o teria chamado de obcecado por Jesus, passando a acusá-lo de propagar crenças que desviavam a atenção do que estava realmente errado no mundo.

— Mas como tudo isso se relaciona com o mundo em que estamos

vivendo? — perguntei em vez disso. — Como pode a crença na alma, o respeito ao Primeiro Mandamento e todo o resto resolver a confusão em que lançamos este mundo? Eu não queria ficar perturbada, mas a esta altura não ser a muito difícil.

— Todos os nossos "ismos", guerras virtuosas, tecnologia in-

dustrial, masturbação intelectual e programas sociais compadecidos

só têm contribuído para piorá-lo, ao que me parece. E quanto mais ignoramos o lado espiritual da vida, pior vai se tornar Ele dobrou as pernas por baixo do corpo e usou as mãos para reforçar seus argumentos.

— Cristo, a Bíblia e os ensinamentos espirituais não se

envolvem com as questões sociais ou políticas. Em vez disso, a

o indivíduo. Se

espiritualidade vai direto à raiz do problema

cada um de nós agir da maneira certa, individualmente, estaríamos todos no caminho certo, em termos sociais e políticos. Está me entendendo agora?

— Acho que sim.

— Em outras palavras, se compreendêssemos nosso propósito

individual e significado em relação a Deus ou mesmo em relação à humanidade, deixando Deus de fora por enquanto, isso levaria

automaticamente à harmonia social e à paz. Não haveria necessidade de guerras, conflitos, pobreza e todas essas coisas, porque todos saberíamos que não havia necessidade de ser ganancioso, competitivo, amedrontado ou violento. Não era uma idéia nova. A responsabilidade final do indivíduo era básica do pensamento quacre, por um lado; e deixando Deus de lado, como David sugerira, o conceito era também básico na filosofia política do anarquismo de Kropotkin.

— Por que está dizendo que precisamos compreender nosso

propósito individual e significado em relação a Deus, David? Por

que não podemos apenas nos compreender em relação a nossos

semelhantes?

David sorriu, acenando com a cabeça.

— Você poderia. E seria na verdade um bom começo. Afinal, ao

se importar com a humanidade você está se relacionando com Deus,

com a centelha divina em todos nós. — Ele fez uma pausa. — Mas é

mais fácil se aprender primeiro quem é você. Porque é aí que entra

a justiça cósmica. Não podemos apenas nos relacionar com nossas

vidas aqui e agora como se fossem as únicas que tivemos. Todas as nossas vidas anteriores são o que nos moldaram. Somos os produtos de todas as vidas que já levamos. Pensei em Gerry e sua política. Tais conceitos espirituais, num contexto político, já teriam lhe ocorrido? Ou, de passagem, a algum político? Os eleitores considerariam loucos nossos líderes políticos se expressassem tais idéias. Jimmy Carter chegara mais

perto que qualquer outro, mas a maioria das pessoas "inteligentes" que eu conhecia preferiam pensar que ele estava fazendo "uma média" com Deus, que tudo não passava de encenação. Não sabiam o que pensar dele se realmente levava a sério todas as coisas que dizia, como nascer de novo. Assim, limitavam-se a rir, toleravam suas idiossincrasias, mas queriam que ele fosse um administrador melhor e um líder mais forte. Na verdade, todos ficavam furiosos com sua fala de Deus, enquanto a economia desmoronava. Quanto à reencarnação, qualquer cristão nascido de novo escarneceria da idéia. E se Gerry, por exemplo, acreditasse em Deus ou na

reencarnação, dava para se imaginar as charges inglesas

Ilhas Britânicas afundando no mar lentamente, enquanto Deus sorria lá de cima, a legenda dizendo: "Ânimo! Na próxima vez vocês farão

tudo certo!" Era a garantia para Gerry perder a eleição que a nossa ligação amorosa não o conseguisse. Minha mente começou a se agitar com as idéias implícitas em

mesmo

As

nossa conversa. Eu não tinha certeza se me agradavam. Por um lado,

a coisa parecia plausível, de uma forma idealista. Por outro,

parecia totalmente impossível.

— Justiça cósmica? — questionei, sarcasticamente, sumo de pês-

sego pingando do meu queixo, à brisa marinha. — É onde entra a sua

reencarnação?

— Claro.

— Acredita mesmo que nossas almas continuam a voltar

fisicamente

até que finalmente endireitam?

— Não acha que faz sentido? E certamente faz tanto sentido

quanto qualquer outra coisa.

— Não sei, não

É possível.

— As grandes verdades estão escondidas, mas isso não significa que não sejam verdadeiras.

— Mas eu ficaria paralisada se me permitisse acreditar que

cada uma das minhas ações tem uma conseqüência.

— Mas isso já está acontecendo, só que você não percebe. É o

que Cristo estava tentando nos dizer. Tudo o que fazemos ou di- zemos em nossas vidas, todos os dias, tem uma conseqüência, o ponto em que nos encontramos hoje é o resultado do que fizemos

antes. Se todos sentissem isso, se compreendessem em suas entra- nhas, o mundo seria muito melhor. Colheremos o que semearmos, o

mal ou o bem

— E você acredita que seríamos mais generosos e responsáveis

e devemos estar conscientes disso.

se levássemos nossas ações mais a sério nesse sentido cósmico?

— Claro. É justamente esse o ponto fundamental. Somos todos

parte de um plano e verdade universais. Como eu disse antes, é

muito simples. E você deveria estar mais consciente disso, pois então reduziria em última análise a extensão em que pode prejudicar a si mesma.

— Acredita então que todos criamos o nosso próprio carma, como dizem os hippies?

— Claro. Não é algo tão difícil de compreender. Os indianos

diziam isso há milhares de anos. Sabiam disso muito antes dos seus hippies. O que conta é como levamos as nossas vidas. E quando vivermos assim, seremos todos mais generosos uns com os outros. E se não o fizermos, cada um sofrerá as conseqüências em termos do

plano universal. Não vivemos por acaso

acasos. Há um propósito superior em ação.

você sabe que não há

— Você pode acreditar nisso, mas eu estou apenas perguntando.

E me pergunto como seis milhões de judeus mortos se sentem por serem parte de um desígnio de consciência cósmica superior.

— acrescentar os 25 milhões de judeus? Ou os garotos da Cruzada das

Crianças? Ou só Deus sabe quantos hereges queimados nas fogueiras? Se está me pedindo para responder a cada aparente injustiça e horror que o mundo já testemunhou, eu lhe responderei taxativamente: não posso. E duvido muito que você possa algum dia me dar a resposta.

não

Por

que falar

em

seis

milhões de

judeus? Por

que

— Mas então, pelo amor de Deus, o que significa tudo isso?

— Shirley, só posso lhe dizer o que acredito. — Ele fez uma

pausa. — Causa e efeito

— Ora, não me venha com essa!

— Ei, espere um pouco! A própria ciência acredita na causa e

efeito. A maioria das pessoas racionais acredita na causa e efeito, não é mesmo? Diga à pessoa média "Você colhe o que semear"

se

você não colher nesta vida, então o fará quando? No céu? No in-

ferno? Até a religião acredita na causa e efeito

quando rejeitou a reencarnação, aventou o céu e o inferno para cuidar de todos os efeitos que não se consumaram. Mas por que um céu ou inferno hipotéticos são mais fáceis de acreditar do que a justiça da reencarnação na Terra? O que lhe parece mais razoável?

e ela certamente não vai contestar. Mas pense mais adiante

e por isso,

não

acredite em qualquer das opções. Talvez a vida seja apenas um

acidente sem sentido.

— Oh,

Deus

Pensei por

um momento.

— Talvez

eu

— Então ninguém é responsável por nada. E até onde me

concerne, é um beco sem saída. Não posso viver com um beco sem saída e creio que você também não pode. Mas, ao final, tudo depende de você. Tudo acaba no indivíduo, na pessoa. É isso o que o carma significa, Shirley. Qualquer ação que uma pessoa cometa acabará voltando a ela própria, quer tenha sido boa ou má, talvez não na encarnação desta vida, mas em algum momento do futuro. E ninguém está isento Levantei-me e espreguicei-me. Precisava me mexer. Talvez assim

pensasse melhor. Sentia-me como uma pessoa apanhada numa versão na vida real de The Twilight Zone. Eu fora condicionada a acreditar

apenas no que podia ver

não no que podia sentir. O que David

estava dizendo talvez fizesse algum sentido, pelo menos em termos de responsabilidade individual. Mas eu sempre precisava de

provas

algo que pudesse ver, tocar ou ouvir. Era o sistema

ocidental. Éramos condicionados a respeitar as ciências físicas e psicológicas. Mas até mesmo as pessoas do mundo ocidental estavam

aprendendo que só porque uma coisa não se enquadrava em nossos conceitos isso não significava que não merecia ser respeitada. Suponhamos que a dimensão espiritual da humanidade fosse reconhe- cida como uma possibilidade. Agiria como uma espécie de cola a aglutinar o propósito de todas as outras ciências, da química à

medicina, matemática e política? Não eram todas as nossas ciências uma parte da busca por harmonia e compreensão do significado e propósito da vida? Talvez o que estivesse faltando fosse a ciência do espírito. — Além do mais — disse David — até os cientistas ocidentais reconhecem que a matéria nunca morre. Apenas muda de forma. Isso é tudo o que a morte física significa.

— Não estou entendendo. Qual é a relação?

— Quando morremos, apenas nossos corpos morrem. As almas

simplesmente deixam os corpos e assumem forma astral. Nossas almas, independente da forma em que estejam, são permanentes. Os corpos são apenas casas temporárias para as nossas almas. Mas o que fazemos conosco, enquanto estamos vivos, é o que conta. E não importa quem somos. Se prejudicamos alguém nesta vida, seremos prejudicados na próxima. Ou no tempo depois. E é como Pitágoras disse: "É tudo necessário para o desenvolvimento da alma." Ele

também disse: "Quem compreendeu essa verdade compreendeu o próprio cerne do Grande Mistério!"

— Está falando de Pitágoras, o grande matemático?

— Exatamente.

— Ele acreditava em tudo isso?

— Claro. E escreveu muita coisa a respeito. O mesmo fez

Platão, além de incontáveis outros ocidentais. David sorriu-me e recolheu os caroços de pêssego. Meteu no saco e depois colocou-o debaixo da casa. Começamos a andar, lentamente. Como eu gostaria de poder conversar sobre essas coisas com Gerry, pensei Mas a pessoa se acomoda quando está envolvida com

outra. Aceita qualquer coisa

ilusão cega do amor. E a ilusão cega é tão necessária às vezes que

podemos até permitir que ofusque nossas verdadeiras identidades. Firmemente, afastei Gerry da minha mente. Naquele momento, minha busca pessoal era mais importante. Vamos supor que a humanidade (e este ser humano em particular)

e de

seu fim. Tal conhecimento levaria a uma responsabilidade moral maior? Vamos supor que eu pudesse chegar a compreender que não era apenas um corpo com uma mente, mas que esse corpo e mente eram habitados por uma alma; além disso, que minha alma existia antes do meu nascimento nesta vida e continuaria a existir depois da morte deste corpo. Vamos supor por um momento que o comportamento de uma alma determinaria não apenas o que era herdado nesta vida, mas também explicaria nossas fortunas ou infortúnios. Nesse caso, eu teria uma atitude de responsabilidade mais profunda e um sentimento de justiça e participação em tudo o que fizesse? Se compreendesse que minhas "ações" implicariam em dívidas a serem pagas, tanto boas como más, compreenderia que minha vida tinha uma razão além do que podia perceber? Agiria mais responsavelmente ou mais generosamente em relação

possa resolver o enigma de sua identidade, de sua origem

porque tem medo de pôr em risco a

a mim mesma, em relação aos outros, reconhecendo que se não fizesse isso prolongaria a luta em busca da perfeição, que aparentemente era compelida a alcançar de um jeito ou de outro, porque esse era o verdadeiro significado e propósito da vida? E tudo isso era verdadeiro, quer se fosse um xeque árabe aumentando os preços do petróleo ou um judeu conduzido à câmara de gás? Quer se fosse um "chefão" da Máfia, um terrorista da OLP ou simplesmente um mendigo nas ruas de Calcutá? Minha mente girava vertiginosamente, tropeçava, recuava e se atolava nas possibilidades do que eu estava pensando. Mais uma vez, não tinha certeza se gostava ou não. Era novo demais absurdo demais e, talvez, simples demais.

— A crença na reencarnação faria com que o mundo se tornasse

um lugar mais moral? — falei finalmente. — Não necessariamente. Eu poderia imaginar muitas pessoas que manipulariam essa crença para exaltar as suas próprias vidas, adquirir poder, realçar seu estilo

de vida

— Claro. Só que esta vida não é a única que devemos levar em consideração. E é justamente esse o ponto fundamental.

qualquer coisa enfim.

— Muito bem. Vamos supor, por um momento, que toda a coisa é

assim, simples e objetiva. Vamos supor que a vida, como a natureza, é simplesmente uma questão de receber de volta o que aplicamos. Vamos supor que em cada instante, em cada segundo de

todos os dias, estamos criando e ditando os termos de nossos futu- ros, por nossas próprias ações, positivas e negativas. Respirei fundo, enquanto começava a perceber as implicações. — Quanto tempo seria necessário para uma pessoa se tornar "boa" em relação à sua justiça cósmica?

Não quando está se falando

num sentido global, com o conhecimento de que já se viveu e que se

continuará a levar muitas vidas. Lembre-se de que todas as religiões falam da paciência como a grande virtude. Isso significa

— O tempo não importa, Shirley

paciência conosco e também com os nossos semelhantes.

— Significa inclusive que devemos ser igualmente pacientes com

os Hitlers do mundo?

— Significa que seis milhões de judeus realmente não morreram. Apenas seus corpos morreram.

— Isso é maravilhoso, realmente sensacional. Comunique às

famílias daqueles seis milhões de afortunados que somente os

corpos deles morreram. David estremeceu como se eu o tivesse agredido fisicamente. A tristeza invadiu seu rosto, enquanto ele olhava para o mar. E, finalmente, disse, depois de uma longa pausa:

— Sei que é difícil de aceitar. Mas também o é virar a outra

face.

— Pois se eu pudesse, David, teria pregado Hitler na cruz! Percebi o que acabara de dizer e tratei de acrescentar:

— E o que você teria feito com Hitler? — Minha voz estava

agora defensiva. — Muita gente acredita que se os britânicos não

tivessem se desarmado, se em vez disso desenvolvessem seus armamentos, Hitler poderia ter sido detido antes mesmo de começar. Foi errado se desarmar? As coisas se complicam quando a gente envereda por esse caminho.

— Tem razão. É por isso que se deve começar por si mesmo.

Pense um pouco

como pessoa, teria detido a si mesmo, não acha? Não se pode deixar de fazer a coisa em termos pessoais. Não acredito em matar

ninguém. É onde entra a sua pergunta sobre Deus e o supremo de- sígnio, porque somente Deus pode julgar neste contexto. Um indiví- duo só pode julgar o seu próprio comportamento. Em última análise, ninguém pode julgar a outro. Além do mais, como você sabe muito bem, Hitler não é o único monstro que já viveu. O que me diz de Idi Amin, o pessoal do Khmer Vermelho ou Stalin? Genocídio é um antigo problema humano. Ou que dizer dos pilotos que largaram bombas em hospitais no Vietnam do Norte, sem terem o menor sentimento de que havia seres humanos lá embaixo?

se Hitler sentisse alguma responsabilidade moral

— Onde está querendo chegar? Que os seres humanos são cruéis uns com os outros?

compreendessem as conseqüências de suas

ações para si mesmos, passariam a pensar duas vezes.

— Isso faria com que a reencarnação se tornasse uma espécie de impedimento.

— Isso mesmo. Só que individual, um auto-impedimento. E

lembre-se de que esse é apenas o aspecto negativo. Há também con- seqüências positivas.

— Como pode ter tanta certeza de que há conseqüências? Que

provas tem?

— Nenhuma. Que provas você tem de que não há conseqüências?

— Exatamente. E se

— Nenhuma.

— Por que então não admitir a possibilidade do que estou

dizendo? Afinal, o que está acontecendo no mundo agora não funcio- na muito bem.

— Como eu poderia fazer?

— Não sei. Acho que basta pensar a respeito. Você está dizendo

que nada tem qualquer propósito significativo, eu estou dizendo

que tudo tem. Você diz que não se sente serena e quer saber por

que

abomina

mau, acaba dando frutos, em algum lugar, em algum momento. É por isso que me sinto tão sereno. Mas talvez você tenha uma idéia

naquela expressão que você

Justiça Cósmica. Creio que tudo o que plantamos, bom ou

eu

sou.

É

por

isso. Creio

melhor. David beijou-me

Fiquei olhando para as ondas. Estava com dor de cabeça. Em tudo e por tudo, pensei, talvez eu preferisse ser um peixe.

no rosto

e

disse

que telefonaria depois.

Capítulo 7

"Vivi na Judéia há 1.800 anos, mas nunca soube que existisse al- guém como Cristo entre os meus contemporâneos."

— Henry David Thoreau, Cartas

Quando acordei, na manhã seguinte, descobri-me a pensar se minha filha não seria alguma outra adulta reencarnada. Quem po- deria estar vivendo no corpo de uma pessoa que eu considerava minha filha? Houvera muitos momentos em nosso relacionamento mãe-filha em que tivera a impressão de que ela me conhecia melhor do que eu a conhecia. E é claro que toda mãe sente que aprende com os filhos. Era esse o milagre da criação dos filhos. Mas se eu deixasse a mente vaguear e depois se focalizar na possibilidade da reencarna- ção, passava a encarar Sachi sob uma perspectiva totalmente dife- rente. Quando o medico a levara para mim, no leito de hospital, naquela tarde de 1956, ela já teria vivido muitas vezes antes, com outras mães? Ela própria já teria sido mãe? Seu rosto de uma hora de idade alojaria uma alma que talvez tivesse milhões de anos de idade? E ao crescer, ela esquecera gradativamente a sua dimensão espiritual, numa tentativa de se ajustar ao mundo físico em que se encontrava vivendo? Era isso o que chamavam de "véu do esqueci- mento"? Era isso o que acontecia a todos nós, quando nos desco- bríamos encerrados em corpos físicos? Quando ela fora viver com o pai, no Japão, talvez já tivesse planejado antes de nascer; e seu talento para línguas era baseado no fato de as ter falado em vidas anteriores. Talvez ela se tornasse japonesa quando falava japonês porque já fora japonesa, em outra vida. E mais tarde, na vida adulta, quando argumentava conosco para que lhe concedêssemos mais independência e auto- identidade, estaria respondendo a uma voz interior legítima, que murmurava que ela já sabia quem era? Talvez os pais fossem apenas amigos antigos, ao invés de figuras de autoridade, que pensavam saber melhor que os filhos. E talvez ainda os conflitos sem

solução de vidas anteriores contribuíssem para os antagonismos freqüentes demais que irrompiam agora entre pais e filhos. Tomei o café da manhã, peguei o carro e segui para a cidade, voltando à livraria Bodhi Tree. John, o proprietário, estava em seu escritório, tomando um chá de ervas e lendo.

— Olá — disse ele, formal, mas gentilmente. — Arrumou alguma boa leitura?

Santo Deus, pensei, tantas dessas pessoas enfronhadas em me-

formais e um tanto horrivelmente pacien-

tes. Quase que irritantemente pacientes.

tafísica eram formais

Respondi que

andara lendo, pensando e

falando com

David,

gostaria agora de conversar com ele por alguns minutos.

— Claro. Sobre o quê?

sobre reencarnação em relação a nossos

filhos. Quem são os nossos filhos, se cada alma já viveu muitas vidas antes? John sorriu e tirou os óculos. Começou a falar em tom gentil:

— Todos os ensinamentos nos dizem, de qualquer forma, que não

devemos tratar os filhos como se fossem nossas posses. Eles são

como você disse, apenas pequenos corpos habitados por almas que já tiveram muitas experiências. Assim, os princípios da reencarnação ajudam a explicar algumas das contradições absurdas nos relacionamentos pais-filhos. Pensei no documentário a que eu assistira sobre filhos crescidos que espancavam e maltratavam os pais. Essas crianças estariam agindo assim porque haviam sido espancadas em vidas anteriores? Ou porque os pais haviam espancado alguém em vidas anteriores? Quem estava exercitando o carma de quem? Mas John já estava continuando a falar:

— Posso lhe garantir, por uma recordação da minha vida passada, que meu filho de oito anos já foi meu pai. Não pude deixar de rir, por causa do que pensara a respeito de Sachi naquela manhã. John levou os dedos aos lábios e sorriu.

— Sobre reencarnação

— Desculpe — murmurei. — Já disse isso a seu filho?

– Claro. Ele riu e disse que eu deveria tomar cuidado. Está

vendo agora como opera a Justiça Cósmica? Lá vamos nós outra vez, pensei. A única maneira que terei de

ouvir a respeito será por intermédio do jargão "astral". Pois está bem. As coisas ocultas têm tanto direito a uma verborragia própria quanto qualquer ciência, religião ou filosofia. Sentei num banco.

– Não tenho certeza se posso perceber como funciona qualquer

coisa. Como uma pessoa descobre quem foi numa vida anterior?

— Basta ir à pessoa certa.

— Por exemplo?

— Um psíquico. É isso o que ele faz.

— Está falando de cartomantes e essas coisas?

— Há muitos charlatães, mas também já houve alguns psíquicos

respeitados por todos, como Edgar Cayce. Já leu alguma coisa de Edgar Cayce?

— Já ouvi falar dele, mas nunca li coisa alguma — respondi,

sabendo que na verdade também nunca ouvira falar a seu respeito.

— Pois é o que você vai ler em seguida.

John estendeu a mão para uma estante e tirou alguns livros de Edgar Cayce.

— Ele era, essencialmente, um homem inculto. Na verdade, isso

acontece com a maioria dos psíquicos. Cayce era um médium de transe. Mas todos estão sintonizados, espiritual e psiquicamente,

com as Gravações Akáshicas. Sabe o que são as Gravações Akáshicas? Recostei-me no banco, murmurando:

— Agora que estou com a cabeça saindo fumacinha

— Você está o quê?

— Que gravações são essas? — indaguei, nem mesmo conseguindo

lembrar o nome que ele mencionara.

— As Gravações Akáshicas?

— Isso mesmo. O que são?

— É difícil encontrar coisas escritas a respeito das Gravações

Akáshicas, mas vou tentar explicar. São conhecidas como "A Memória

Universal da Natureza" ou "O Livro da Vida". Akasha é uma palavra de sânscrito que significa "substância etérea fundamental do universo". Está entendendo?

— Mais ou menos

— O universo é supostamente composto de éteres

mas o que exatamente significa etéreo?

ou seja,

energias gasosas que possuem diferentes propriedades vibratórias eletromagnéticas. Como você sabe, tudo o que fazemos, vemos,

pensamos, dizemos, reagimos

cargas de energia. Essas cargas de energia são chamadas de "vibrações". Assim, cada som, pensamento, luz, movimento ou ação reage em termos de vibrações nesses éteres eletromagnéticos. Constituem uma espécie de placa magnética que atrai todas as

vibrações. Na verdade, tudo é vibração eletromagnética. Portanto, as Gravações Akáshicas são uma espécie de gravação panorâmica de tudo o que já se pensou, sentiu ou fez. E se a pessoa está mesmo sensitivamente sintonizada, em termos físicos, pode captar essas vibrações e até "ver" o passado, no senso cósmico. Assim, um bom psíquico pode lhe informar como foram as suas vidas anteriores.

emite ou cria

tudo o que somos

— Santo Deus! — exclamei. — Você acredita em tudo isso?

— Claro que sim. Além disso, acho

e todos os livros dizem

que a capacidade inerente de captar essas gravações existe

em todos nós. É apenas uma questão de desenvolver a capacidade, o

que realmente significa, no começo, entrar mais em contato e sin- tonia com nós próprios. Se nossos poderes espirituais e mentais

estão bastante desenvolvidos, podemos consegui-lo. Não é nada mais do que desenvolver a nossa ESP (percepção extra-sensorial), algo que até a ciência encara agora como um fato. Está me entendendo?

— Está querendo dizer que é apenas uma questão de expandir a nossa percepção? Senti-me grata por ser capaz de compreender o que estava dizendo.

isso

— Exatamente.

— E se tivermos uma percepção mais consciente dessas outras

dimensões saberemos mais a respeito de quem somos e o que são as nossas vidas?

— Não é mais fantástico que as ondas de som ou as ondas de só que neste caso são ondas de pensamento. A ciência sabe

luz

certamente que existem, pois nenhuma energia jamais cessa de

existir. Assim, se a pessoa é bastante sensitiva para sintonizar as ondas de pensamento certas, que se ligam nas ondas vibracionais akáshicas, pode ver uma porção de coisas que já aconteceram. E se a pessoa está consciente da dor que sofreu no passado e também da dor que pode ter infligido a outra, tudo funciona como um processo educacional. Está entendendo?

— Claro que estou — menti.

— Já leu os antigos psíquicos, não é mesmo?

— Os antigos psíquicos? Quem foram?

— Foram muitos. Platão, Pitágoras, Buda, Moisés, entre outros.

— Eles também eram psíquicos? — falei, o mais imparcialmente que podia.

— Claro — respondeu John. — Como acha que eles puderam

escrever todas aquelas coisas? Por exemplo, como acha que Moisés pôde escrever sobre a criação do mundo, se não estivesse psiquica-

mente sintonizado? E a mesma coisa se aplica a Cristo. Todas essas pessoas possuíam um alto desenvolvimento espiritual, sentiam que sua missão na vida era transmitir o conhecimento que tinham. É por isso que a Bíblia é tão valiosa. É uma fonte de conhecimentos. E quase todos os escritos de tais pessoas estão de acordo. Não há praticamente qualquer discrepância no que disseram.

– E tais pessoas falaram de reencarnação?

– Nem todas usaram essa palavra. Mas todas falaram amplamente

sobre o relacionamento entre a alma eterna do homem e o Divino.

Todas falaram das leis universais da moralidade. Nem sempre usaram as palavras carma ou reencarnação, mas o sentido foi o mesmo. Estou falando demais? Sacudi a cabeça, tossi, som, limpei a garganta. — O que disseram a respeito de não lembrar as vidas anteriores?

— Falaram sobre uma espécie de "véu do esquecimento" que

existe na mente consciente, a fim de não ficarmos continuamente traumatizados pelo que possa ter ocorrido antes. Todas disseram que a vida presente é a importante, apenas entremeada por aqueles

sentimentos de déjà-vu, de que já passou por alguma coisa antes ou conhece alguém que jamais encontrara conscientemente nesta vida. Já experimentou esses sentimentos ocasionais de que esteve em algum lugar antes, embora tenha certeza de que lá chegou pela pri- meira vez?

— Já, sim. Entendo perfeitamente o que está dizendo.

Era um grande alívio saber do que ele estava falando. Podia me

como se lá tivesse vivido

sozinha por muito tempo. Lembrava de haver me sentido familiar quando alcançara a caverna no topo da montanha em que vivia o monge que me dera o pano cor de açafrão. O sentimento familiar fora o motivo pelo qual levara a sério sua advertência, a razão

para que guardasse o pano até hoje. Sempre sentira que significava algo a mais para mim do que apenas o que o monge dissera. Mas jamais entendera direito por que me sentia assim. John pediu a um dos seus assistentes que trouxesse chá, depois sentou no banco ao meu lado, logo abaixo de uma prateleira cheia de livros.

— Sei que estou falando demais, mas quando entro no assunto

lembrar como me sentira nos Himalaias

não consigo mais parar. É tão importante

Pitágoras, Platão ou qualquer uma das outras, todos os infortúnios

da vida, como doença, deformidades, injustiças e todo o resto, eram explicados pelo fato de que cada encarnação representava uma recompensa ou punição de uma encarnação anterior. À medida que a

alma progredia, a pessoa era recompensada com mais opções de como reencarnar, tudo com o propósito moral, é claro, de consumar o carma individual. Uma alma realmente superior, por exemplo, es- colheria consumar o seu carma através de uma encarnação de auto- sacrifício. Mas cada identidade tem a sua coisa. E aparentemente quanto mais antiga e mais elevada é a alma em realização espiritual, mais pode lembrar encarnações anteriores.

— E se uma alma não quiser progredir? E se uma alma quiser

esquecer toda a coisa e dizer que tudo se dane?

— Também já se escreveu muito sobre isso. Uma alma pode optar

por avançar ou regredir. Se escolher pela regressão contínua, acabará perdendo a humanidade e se tornará como animal, sem opções

Para pessoas como

para avanço ou compensação moral. É o que se refere como Inferno. Se não optar pela evolução espiritual, a alma perde a oportunidade depois de algum tempo e isso é o Inferno.

— Era isso então o que estavam querendo dizer ao falarem que

iria para o Inferno quem não acreditasse em Deus

terra da inexistência?

Deus, significando a eternidade da

uma espécie de

— Claro. E há o

alma e a consecução da plenitude moral, a reconciliação moral. Sabe o que isso significa?

— Acho que não.

— Significa reconciliação com o criador original ou com a

criação original. Somos ao mesmo tempo criadores e, infelizmente, destruidores. Mas quando nos identificamos mais fortemente com a criação, estamos mais perto da reconciliação. Quando se começa a desenredar um pouco, toda a tapeçaria passa a fazer sentido.

— Quer dizer que a reencarnação das almas faz com que até o

pior mal e sofrimento tenham sentido?

— Claro. Tudo acontece por uma razão. Todo sofrimento físico,

toda felicidade, todo desespero e toda alegria acontecem em re- lação às Leis de Justiça Cármicas. É por isso que a vida tem sentido. John fez uma pausa, começou a levantar o braço, a fim de

apresentar outro argumento. Mas suspendeu o movimento no meio, talvez por ver a expressão em meu rosto, baixou o braço e disse simplesmente:

— Vamos tomar o chá.

Entramos no

escritório dele

e

fomos

sentar a

uma janela,

ensombreada por uma árvore grande lá fora.

— Como passou a se interessar por tudo isso depois que esteve

na Índia? — perguntou John. Tomei um gole do chá de gengibre quente.

— Talvez, em outra encarnação, eu tenha sido um monge himalaio

que conhecia todos os mistérios da vida. Estou voltando para reapreender o que já sei.

Ele riu.

— Muitas pessoas por aqui acreditam na reencarnação, Justiça

Cármica e tudo isso?

— Claro. E você sabe disso. Há muitos malucos por aí. — John

piscou e levantou-se. — Muito bem, você já tem os seus livros sobre psiquismo. Vamos ver o que acontece dentro de uma semana ou mais. Estarei aqui, se você quiser conversar mais um pouco. Terminamos de tomar o chá. Agradeci, paguei os livros e saí para o tráfego na Melrose Avenue. O que John queria acreditar era problema dele, mas pelo menos eu escutara e agora leria os livros. Fui para minha casa em Encino. Marie serviu-me um chá, pão francês quente e queijo Brie. Ela sempre guardava o Brie ao bom estilo francês, na temperatura ambiente, até que derretesse para a beirada da travessa de porcelana Limoge em que o colocava. Eu adorava a atenção para os detalhes de Marie. E por isso não im- portava que ela não me quisesse em sua cozinha. Eu sabia que não deveria estar comendo pão e queijo, mas não me importava. Levei tudo para o meu quarto, sentei com os livros novos e comecei a ler sobre Edgar Cayce.

Edgar Cayce nasceu em 1877, perto de Hopkinsville, no Ken- tucky. Era um homem simples, um devoto religioso (cristão), es- sencialmente inculto, não terminara o curso secundário por precisar trabalhar. Sofria de asma crônica e procurara um hipnotizador experiente

e respeitado, em busca de alívio, depois que os médicos tradicio-

nais mostraram não ser capazes de ajudá-lo. Sob hipnose, uma coisa estranha aconteceu com Cayce. Ele começou a falar na terceira pessoa, com uma voz que não tinha qualquer semelhança com a sua. Usava a palavra "nós" e começou a

prescrever um tratamento para si mesmo, em grandes detalhes. Quando a sessão terminou, o hipnotizador informou o que acontecera

e sugeriu que Cayce seguisse as instruções. Em desespero, Cayce

experimentou. A asma logo desapareceu. Mas ficou horrorizado quando o hipnotizador descreveu a "voz" que aparentemente estivera falando por intermédio dele. Considerou uma blasfêmia. A Bíblia dizia que o homem nunca devia "consentir qualquer entidade espiritual que não fosse Deus". E Cayce era um homem que acre- ditava na Bíblia. Mas Cayce também sentia uma profunda compaixão pelos outros. Como a Voz parecia servir para ajudar às pessoas, ele resolveu consenti-la por algum tempo. Cayce não demorou a aprender a se colocar em transe, a fim de ajudar aos outros. A Voz (que se

descrevia como "nós") sempre usava terminologia médica e receitava do que era obviamente um vasto conhecimento de medicina, um assunto sobre o qual Cayce nada sabia. Se os tratamentos prescritos eram seguidos acuradamente, sempre davam certo. Cayce passou a confiar no processo, tanto quanto as pessoas que iam pro- curá-lo.

A notícia sobre o estranho poder de Cayce se espalhou. Pessoas

de toda a sua comunidade começaram a procurá-lo, depois gente do país inteiro. Ele não precisava ver ou se encontrar pessoalmente com os pacientes que procuravam ajuda. O "nós" parecia capaz de

penetrar em suas mentes e corpos, explorar o estado em questão, prescrever tratamentos que sempre davam certo, se seguidos

fielmente. The New York Times publicou uma ampla matéria investigativa sobre Cayce, concluiu que não havia explicação. Não havia qualquer indício de que Cayce estivesse falando do próprio subconsciente (ele nada sabia da profissão médica); e quanto a entidades "espirituais", o Times não podia fazer comentários. Cayce tornou-se famoso no mundo inteiro. Não demorou muito para que pessoas começassem a interrogar a Voz de Cayce sobre questões mais cósmicas.

— Qual é o propósito da vida?

— Existe vida depois da morte?

— A reencarnação da alma acontece?

A Voz respondeu afirmativamente a todas essas perguntas,

passando a falar das vidas anteriores das pessoas que a interrogavam. Relacionava experiências de vidas anteriores com determinadas doenças que um indivíduo podia estar sofrendo agora. Cayce tornou-se outra vez aturdido e confuso. Tais ligações cósmicas nunca haviam lhe ocorrido. O tratamento médico era-lhe aceitável, mas considerava anti-religiosas as informações sobre vidas anteriores. A Bíblia nada dizia a respeito de tais coisas. Por algum tempo, ele se recusou a aceitar as informações. Eram estranhas demais. Mas logo passou a ter dúvida, com exemplos sucessivos de confirmação de identidades de vidas anteriores. Muitas pessoas voltavam a procurá-lo com provas de que existira um Fulano de Tal, que vivera nas condições idênticas do passado que ele descrevera. Claro que não tinham provas de que haviam sido tais pessoas. Mas sempre que investigavam em detalhes, sentiam-se estranha e intensamente familiares com o que ele escrevera. A moralidade do carma e reencarnação era intensamente ressal- tada em cada sessão. Por exemplo:

Uma mulher de 38 anos queixara-se de ser incapaz de assumir o casamento, por causa de uma desconfiança dos homens profundamente

arraigada. Constatou-se que um marido numa reencarnação anterior a abandonara, imediatamente depois do casamento, a fim de se juntar

às Cruzadas.

Uma moça de 18 anos tinha um terrível problema de gordura, que não conseguia controlar. Tirando a obesidade, ela era extremamente

atraente. As sessões revelaram que duas vidas antes ela fora um atleta em Roma, de grande beleza e capaz de proezas atléticas, mas escarnecia freqüentemente de quem era mais corpulento e não podia

se movimentar tão bem.

Um rapaz de 21 anos queixava-se de ser um infeliz homossexual.

As sessões revelaram que na corte real da França ele experimentava

a maior satisfação em descobrir e denunciar homossexuais. As

sessões diziam: "Não condenes. O que condenares nos outros, passarás a ser."

Os arquivos e registros compilados por Cayce estavam entre os mais amplos da história médica. Os 14 mil registros apresentavam exemplos de carma de saúde, carma psicológico, carma retributivo, carma de família, carma