A GRAMÁTICA ATRAVÉS DE TEXTOS: ESTUDO DE UM CASO Eliéte Maria de SÁ (Mestrado em Lingüística Aplicada – Universidade Estadual de Maringá) Resumo: A partir

da introdução de teorias lingüísticas no ensino de língua materna, que preconizam o texto como unidade central do estudo gramatical, tem havido grande confusão entre os professores sobre o que seria realmente a gramática contextualizada. Diante disso, o objetivo deste trabalho é fazer um trabalho prático, demonstrando como os elementos gramaticais podem ser lidos no texto Notícia de Jornal, de Fernando Sabino. Palavra-chave: Ensino de Língua Materna; gramática; texto. 1. Considerações preliminares A partir da constatação de que o estudo gramatical, em língua portuguesa, estaria fadado ao fracasso, se continuasse fundado em estudos fragmentados de linguagem (através de exercícios com vocábulos e frases isolados do contexto) e ainda com a repetição vazia de metalinguagens, iniciou-se, ainda que lentamente, uma alternativa de se fazer explorações contextualizadas da estrutura da língua materna. Aclamado pelas modernas correntes lingüísticas, reivindicado pelas propostas curriculares pedagógicas, o texto figura como elemento central dos três eixos do ensino-aprendizagem de língua materna (produção textual, leitura e gramática). Em relação aos dois primeiros eixos (leitura e produção), parece não existir grandes problemas em aplicar o texto enquanto elemento primordial das atividades, já que estas sempre se processaram através dele. No entanto, o que tem chamado a atenção é a grande confusão que se faz ao se efetuar tentativas de exploração da gramática através dos textos. A pretensa “gramática contextualizada” resume-se em retirar e sublinhar classes gramaticais dentro das narrativas, atividades tão obsoletas quanto os exercícios estruturais da gramática normativa. Neste sentido, o objetivo deste trabalho é demonstrar como um texto pode ter a sua estrutura lingüística explorada, evideciando, aos aprendizes de língua materna, a língua em seu funcionamento. Para tanto, no intuito de mostrar como isso pode ocorrer em sala de aula, foi escolhido o texto “Notícia de jornal”, que será analisado em seus aspectos gramaticais mais relevantes. Antes disso, contudo, será apresentada uma revisão teórica sumária sobre gramática e concepções de linguagem, já que a toda aula de língua portuguesa subjazem estes conceitos. 2. Gramática na escola: uso de metalinguagem ou prática da língua? O ponto sensível (e também nevrálgico) do ensino de português é o estudo da teoria gramatical. O que, durante tempos, viu-se (e, muitas vezes ainda se vê), em sala de aula, são alunos sem contato direto com a língua em si, mas com “falatórios” inúteis sobre a língua, por meio do ensino de metalinguagens. Sobre isso afirma Possenti (1996:54): o domínio efetivo e ativo de uma língua dispensa o domínio de uma metalinguagem técnica. Em outras palavras, é preciso ficar claro que conhecer uma língua é uma coisa e conhecer sua gramática é outra. Partindo do princípio de que a posição, quanto ao ensino de português, não pode ser desvinculada das teorias lingüísticas que fundamentam diferentes concepções de linguagem e, conseqüentemente, de gramáticas (haja visto que a cada visão de gramática existe uma concepção de linguagem correpondente), basta, então, saber quais os fundamentos que têm norteado o processo pedagógico em língua materna, verificando no que isso pode alterar o seu direcionamento. Sírio Possenti (1984:31-2), ao conceituar gramática em seu artigo Gramática e Política, distingue três

juntamente com o advento das teorias lingüísticas modernas. De acordo com Possenti (1984:33). de classes sociais elevadas. ligado ao segundo modelo de gramática apresentado.. em relação aos fenômenos. a situação ideal para o estudo da língua e de suas estruturas. tem-se uma concepção homogênea de língua. surge um novo enfoque ao estudo gramatical. principalmente. o lingüista descreveria a língua em situações diversificadas e reais de fala e. aprendeu e das quais lança mão ao falar (Gramática Internalizada). finalmente. Desta forma. a sua leitura. 1991:17) pode dar conta da língua de maneira ampla e. no texto. em exercícios com frases isoladas e repetições inúteis. predominou a apresentação da linguagem de forma prescritiva. do abandono da visão preconceituosa da gramática tradicional. sim. os professores têm feito relativos esforços em colocá-lo como o centro das aulas de português. em uma calçada do centro da cidade. 1984:33). que se “constitui um todo unificado e coerente dentro de uma determinada situação discursiva” (Fávero. somente o texto. Relacionado com a Gramática Prescritiva. gramática designa o conjunto de regras que o falante. na medida em que não consegue prever variações no sistema. como alternativa ao exercício da língua e não de teorias sobre a língua. . um estudo gramatical alternativo que preserve todas as potencialidades da língua. em sala de aula. salta aos olhos a quantidade expressiva de descrições. Diante dessas três concepções de gramática e de língua. que procura tratar de fatos cotidianos retratáveis em jornal. que tem. tais construtos representam maior conteúdo empírico possível e até que ponto são restritivos. no contexto de ensino-aprendizagem de língua materna. 1990:104). isto é. o termo gramática designa um conjunto de regras que devem ser seguidas por aqueles que querem “falar e escrever corretamente” (gramática prescritiva). Contudo. a existência de uma única variedade “correta” do bem falar pertencente a pessoas cultas e. Tal fato refletiu-se no uso excessivo de metalinguagem. Neste sentido. quanto à trama da estória.diferentes formas de se entender a expressão conjunto de regras lingüistas: no sentido mais usado. Coloca. ou Tradicional. também é excludente. 1984:31). deixar claro que a gramática não é fato isolado. 3. heterogênea e passível de sistematização. funcional. nos níveis compreensivo e interpretativo. efetivamente. na escola. em dúvida. até que ponto. neste texto. mas subjaz a todo e qualquer processo discursivo. Neste momento. Desta forma. no que diz respeito às atividades gramaticais. existe. também. a partir de uma certa teoria e de um certo método” (Possenti. um nova visão de língua (neste trabalho apresentada como um conjunto heterogêneo de variedades lingüísticas) e. explorando-a de forma plena. A terceira concepção de língua apresentada parte do princípio de que a língua é um conjunto de variedades. No entanto. de fato. através da exploração de um texto específico. O . em um terceiro sentido. o próximo tópico deste trabalho sugere. um conceito de língua compatível. deixar de lado as atividades que lidavam com a língua fragmentariamente. Proposta de trabalho em sala: a estrutura lingüística do texto “Notícia de Jornal” O texto escolhido para análise em sala de aula é do autor Fernando Sabino. é necessário efetuar. ficará claro que ela se trata de um relato em primeira pessoa sobre uma notícia de que um homem anônimo morrera de fome. geralmente. A cada conceito de gramática. o ensino de língua portuguesa tende a atualizar-se. ou seja. o que se nota é uma certa confusão entre os educadores no uso da produção textual. sobretudo. antes de qualquer trabalho com a gramática. pode-se observar que. um outro conceito de língua. O título da narrativa (“Notícia de Jornal”) vem ao encontro da essência do gênero crônica. Pazini. então. com os alunos. em um segundo sentido. Contudo. o autor deixa claro que “não se quer pôr em dúvida a necessidade da construção do objeto teórico para a tarefa científica de descrever línguas” (Possenti. Busca. Ao iniciar a análise lingüística propriamente dita. retirado da sua coletânea As Melhores Crônicas (1986). gramática pode ser entendida como um “conjunto de regras que um cientista dedicado ao estudo de fatos da língua encontra no dados que analisa. sem socorro. reflexo de sua uma natureza pragmática (Benites. Cônscios de que o texto é o melhor meio de se apresentar a gramática da língua aos alunos. Assim.

mas. também. 28 e 29). ainda. por que haveria ser da minha alçada? Que é que eu tenho com isso? Deixa o homem morrer de fome”. mas se pode mostrar que este fato. Deve-se mostrar não só a construção destas palavras. sem socorros. repete-se incessantemente durante vinte e uma vezes (linhas 1. o sexto parágrafo dá oportunidade de se observar o uso do ponto de interrogação. na linha 22). 3. pode estar entrelaçado com a semântica do texto. somente. quando é colocada em comparação com a narração e a dissertação. 8. A marca lingüística que demonstra este fato é a presença da conjunção e (“E o homem morreu de fome”. a variação do grau do adjetivo pode ocorrer. pode-se chamar a atenção dos alunos para as palavras pertencentes à mesma família. como geralmente se diz. Pode-se demonstrar. não se irá dizer aos alunos que a progressão lenta do texto é uma seqüência parafrástica. tem-se uma excelente chance de se demonstrar aos alunos que a descrição não é uma tipologia sem importância. Por sua vez. principalmente. por exemplo. através das reiterações feitas. especialista em homens que morrem de fome” (linhas 8-9). que o narrador intencionalmente enfatiza nas seguintes frases: “E os outros homens cumprem seu destino de passantes. Além da pontuação. em comum. ela é importante estratégia para a sensibilização do leitor acerca da realidade do “homem que morreu de fome”: Leio no jornal a notícia de que um homem morrer de fome. destacar os adjuntos adverbiais no início da frase (linha 27). Não é somente a expressão “morrer de fome” que se repete no texto: outras também aparecem mais de uma vez na narrativa. o radical pass– : “passantes”. 27 e 16). “morrerão de fome”. 7. É óbvio que a descrição pode fazer parte de um texto narrativo ou dissertativo. pode-se deixar claro que. 13. que têm. ainda. nem da rádio patrulha. formadas pela presença de verbo mais locução adjetiva. em sala de aula. como a notícia de jornal (rápida e objetiva. chamar a atenção para o fato de que a seqüenciação é quebrada pelo discurso indireto livre da linha 20 e seguintes: “Não é da alçada do comissário. 5. “pobremente vestido” (linhas 2 e 22) e “setenta e duas horas” (linhas 3. na língua. 29). 26. não. Neste sentido. como. 12. em “Notícia de Jornal”. já que ele serve. em questão. para destacar expressões: “O comissário de plantão (um homem) afirmou que o caso (morrer de fome) era da alçada da Delegacia de mendicância. que é marcada lingüisticamente por procedimentos de recorrência. em pleno centro da cidade. 11. 10. Durante setenta e duas horas. Neste trecho. nem do hospital. enfatizando a . Mostrando ao aluno esta intensa repetição da locução adjetiva “de fome” (equivalente ao adjetivo faminto). O ponto final é realçado pela presença dos períodos curtos (linhas 8. 21. demorando a se desenrolar. a análise lingüística feita pelo professor. Outro fato gramatical que pode ser explorado no texto “Notícia de Jornal” diz respeito ao uso da pontuação. Após este trecho. no terceiro parágrafo há a desmistificação de que o uso dos parênteses é usado para anular erros. deixando de lado a idéia de que cada vírgula equivale a uma “respiradinha” e que esta pode ser usada para separar alguns tipos de orações (linha 22) ou. pode oportunizar o estudo do processo de formação de palavras. o que acaba por enfatizar o conteúdo semântico destas orações. também. 9 (duas vezes). 4. transcorre lentamente. Pode-se. o ritmo do texto volta à lentidão habitual. Além disso. trinta anos presumíveis. 22. tais como “trinta anos presumíveis” (linhas 2 e 22). e que o superlativo pode ser feito através da reiteração e. A expressão “morreu de fome” e suas variações (“morrendo de fome”. deixadas várias vezes na superfície do texto. de forma que caracteriza o que Koch (1990:40) denomina “seqüenciação parafrástica”. Tais marcas lingüísticas. 22. evidencia como a narrativa. 18. permanecendo deitado na calçada durante setenta e duas horas. morrer de fome. todos passam” (linhas 16-17). 23 (duas vezes). 17. pobremente vestido. Daí. durante o texto. no que diz respeito ao processo de formação por sufixos e desinências. transmitida enfaticamente. Logicamente.texto quase inteiro é constituído pelo processo descritivo. que é o de passar. Enfatizando o processo descritivo a excessiva reiteração dos adjetivos. ou de junções das expressões mais ou menos próximas aos adjetivos. através da repetição. que o uso da vírgula é uma questão da estrutura da frase. presente na estrutura formal do texto. evidenciar que a musicalidade imprime expressividade ao texto. 2. para finalmente morrer de fome (linhas 1-4). Um homem de cor branca. de praxe) reflete-se na sensibilidade do narrador do texto. surgem duas possibilidades: a demora no transcorrer da narrativa remete à própria demora da morte do homem que “morreu de fome” (setenta e duas horas) ou. “morrer de fome”). justamente. substantivo deverbal e os verbos “passar” e “passam”. superlativiza os significados. ainda. por meio do sufixo –íssimo(s).

ao lado do homem que morre de fome. um bicho. pedindo providências às autoridades. desdém. E o homem morreu de fome. no centro mais movimentado da Cidade do rio de Janeiro. através do texto “Notícia de Jornal”. de forma contextualizada. Na proposta de atividades. isolado. perdido entre os homens. inquietação e até mesmo piedade. pode-se se dar através da reiteração e não somente com função de adjetivo. evidenciou-se um possível trabalho com pontuação e formação de palavras dentro da crônica de Sabino. E o homem morreu de fome. Contudo. Neste trabalho. uma coisa – não é um homem. com um olhar de nojo. é possível observar que o grau do adjetivo. E ontem. Não é da alçada do comissário. que é o de passar. um anormal. todos passam. permanecendo deitado na calçada durante setenta e duas horas. pode-se evidenciar que todo texto oferece um universo em potencial para a exploração lingüística e cabe ao professor descobri-lo. Nada mais puderam fazer senão esperar que morresse de fome. para escarnamento dos outros homens. principalmente. Morreu de fome. já que este se caracteriza. um proscrito. nem da radiopatrulha. nem do hospital.indiferença dos passantes. especialista em homens que morrem de fome. Um vagabundo. que jamais morrerão de fome. em pleno centro da cidade. um tarado. por que haveria de ser da minha alçada? Que é que eu tenho com isso? Deixa o homem morrer de fome. trinta anos presumíveis. Durante setenta e duas horas. baseadas em “Notícia de Jornal”. pobremente vestido. sem socorro e sem perdão. dentro do texto. Um homem caído na rua. Além disso. para que o seu aluno tenha desmistificada a idéia de que fazer estudo de gramática não se resume decorar um amontoado de regras inúteis. Um homem que morre de fome. e o homem continua morrendo de fome. Observou-se que a melhor forma de se estudar o adjetivo é concentrar-se no universo textual. tombado em plena rua. como grifar classes de palavras em uma narrativa. que acabou morrendo de fome. . um homem morrer de fome. Considerações finais O estudo gramatical feito. na medida em que mostra. Passam. 4. sozinho. Um homem de cor branca. depois de setenta e duas horas de inanição. Anexo Notícia de Jornal Leio no jornal a notícia de que um homem morreu de fome. Morreu de fome. um marginal. Morreu de fome. Depois de insistentes pedidos de comerciantes. uma ambulância do Pronto-Socorro e uma radiopatrulha foram ao local. As autoridades nada mais puderam fazer senão remover o corpo do homem. e os outros homens cumprem seu destino de passantes. Um mendigo. Desta forma. entre centenas de passantes. mas regressaram sem prestar auxílio ao homem. não se pode reduzir a exploração da estrutura lingüística a exercícios simplistas. Deviam deixar que apodrecesse. Um homem morre de fome em plena rua. a estrutura da língua em seu funcionamento. ou sem olhar nenhum. que apenas “passam”. diz o jornal. garante a sua eficácia. sugeriu-se uma possibilidade para o trabalho de gramática. De trinta anos presumíveis. Louve-se a insistência dos comerciantes. Um bêbado. para finalmente morrer de fome. sem socorros. morreu de fome. por determinar outras palavras. Pobremente vestido. um pária. O comissário de plantão (um homem) afirmou que o caso (morrer de fome) era da alçada da Delegacia de Mendicância.

A coesão textual. POSSENTI. 3. . Sírio. .SABINO. Maringá: Eduem. As melhores crônicas. Sônia Aparecida Lopes. In: GERALDI. Cascavel: Assoeste. Gramática e Política. Rio de Janeiro: Record. 12. Vol. Referências bibliográficas BENITES. Fernando. O texto na sala de aula. 1986. In: Revista Unimar. Coesão e coerências textuais. São Paulo: Contexto. 1990. 1996. 1991. 1990.). KOCH. PAZINI. A concepção de língua e gramática do livro didático. Leonor Lopes. Por que (não) ensinar gramática na escola.ed. Celi Maria. FÁVERO. João Wanderley (org. Ingedore Villaça. São Paulo: Mercado das Letras. 1994. São Paulo: Ática.

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