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Música e Filosofia

Este documento apresenta um resumo do livro "The Routledge Companion to Philosophy and Music". O livro fornece uma visão panorâmica atualizada da filosofia da música, abrangendo tópicos históricos e contemporâneos. Está organizado em seis partes que cobrem questões filosóficas gerais sobre música, a relação entre música e emoção, a história do pensamento musical, gêneros musicais, e as relações entre a filosofia da música e outras disciplinas. O objetivo é informar
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Música e Filosofia

Este documento apresenta um resumo do livro "The Routledge Companion to Philosophy and Music". O livro fornece uma visão panorâmica atualizada da filosofia da música, abrangendo tópicos históricos e contemporâneos. Está organizado em seis partes que cobrem questões filosóficas gerais sobre música, a relação entre música e emoção, a história do pensamento musical, gêneros musicais, e as relações entre a filosofia da música e outras disciplinas. O objetivo é informar
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Música e filosofia

Theodore Gracyk e Andrew Kania

Tradução de Vítor Guerreiro

A música tem sido objecto de investigação filosófica desde o início da filosofia. Ao ler a
República de Platão pela primeira vez, os estudantes não raro se surpreendem ao ver que o autor
dedica considerável espaço à influência da música no carácter pessoal e na harmonia social. Para
Platão e os seus contemporâneos, uma explicação da música era relevante para questões de
metafísica e epistemologia, e a filosofia da música estava ligada à filosofia moral e política, e assim,
por sua vez, a questões básicas de psicologia. A especulação grega antiga acerca da música
encorajou também dois milénios de exploração da relação entre a música e a matemática e, talvez
surpreendentemente, entre a cosmologia e a astronomia. A filosofia da música foi um tópico de
interesse para a maioria dos filósofos do período “moderno”, entre a revolução científica e o início
do séc. XX. Não é um exagero afirmar que a filosofia da música foi central para as discussões
estéticas oitocentistas.

O presente volume mostra que este ramo da estética não é uma relíquia histórica. Nas últimas
décadas, tem havido um crescimento exponencial na filosofia da música. Nas palavras memoráveis
de Stephen Davies em 2003: “Se fossem atribuídas medalhas pelo desenvolvimento em estética nos
últimos trinta anos, a filosofia da música receberia a medalha de ouro.” Parte desta tendência surge
do facto de muitos dos principais estetas, como o próprio Davies, Peter Kivy e Jerrold Levinson, se
terem interessado principalmente pela música. Outra razão está no alargamento dos interesses de
quem escreve filosoficamente acerca de música. Além das questões tradicionais de estética musical
há um interesse crescente em áreas insuficientemente exploradas, como a música “impura” — a
canção e a música cinematográfica, por exemplo — e tradições musicais além da música clássica
ocidental — o rock, o jazz, o gamelão balinês, etc.

Mais recentemente ainda, tem havido um regresso cada vez maior à interdisciplinaridade histórica
da área. Por um lado, os musicólogos têm-se envolvido mais nas abordagens filosóficas da música,
como é visível nas discussões que fazem de livros escritos por filósofos e nos planos recentes para
se realizar um colóquio conjunto com a American Society for Aesthetics e a Society for Music
Theory. Por outro lado, os filósofos da música apoiam-se cada vez mais no trabalho realizado
noutras áreas, como a psicologia e a ciência cognitiva, para esclarecer questões filosóficas
tradicionais, como a da expressividade emocional da música.

The Routledge Companion to Philosophy and Music oferece uma sinopse actualizada desta área
complexa, acessível a qualquer pessoa que se interesse pelo estudo filosófico da música.
Procurámos adoptar um estilo não técnico, acessível a leitores de diversos níveis — de estudantes
de licenciatura, a alunos de pós-graduação e docentes — e transdisciplinar — de filósofos a
musicólogos, e profissionais de áreas relacionadas, como a ciência cognitiva. Esperamos, portanto,
que o volume não só reflicta mas também ajude a estimular as ligações crescentes entre a filosofia
da música e estas disciplinas relacionadas.

Assim, levamos muito a sério o “e” no nosso título, devido à necessidade de fundamentar a estética
musical num conhecimento exaustivo da música e ao interesse dos musicólogos e outros
académicos por questões de estética. Há três maneiras pelas quais isso é visível nos conteúdos deste
volume. Primeiro, há diversos capítulos sobre tópicos que poderíamos supor que são sobretudo
musicológicos — a natureza da harmonia, melodia e do ritmo, por exemplo, ou o capítulo sobre o
pensamento de Wagner. Segundo, há diversos capítulos sobre as várias subdisciplinas da música —
teoria, análise, composição, etc. Terceiro, diversos capítulos couberam a especialistas de outras
disciplinas que não a filosofia. Esperamos que estes ensaios tornem os filósofos mais cientes do
trabalho relevante para os seus interesses realizado noutras áreas, e que encorajem a exploração
complementar e o diálogo que atravessa fronteiras disciplinares. Reconhecemos que a nossa
selecção de tópicos reflecte um certo grau de subjectividade e de preferência pessoal, mas o
objectivo foi dar ao mesmo tempo uma noção daquilo que até ao presente se alcançou nesta área e
do caminho produtivo que nos parece estar perante nós.

O volume divide-se em seis partes. As primeiras duas contêm ensaios sobre questões filosóficas
gerais suscitadas pela música, desde a natureza da própria música e de diversos aspectos desta (por
exemplo, melodias, obras musicais, notações), passando pela prática musical (por exemplo,
interpretação autêntica, apropriação, tecnologia), até à experiência que temos da música (por
exemplo, compreensão, beleza, valor). Com excepção de alguns, poucos, tópicos “avançados”, os
ensaios na Parte I tratam dos principais tópicos que por norma seria de esperar encontrar em
qualquer abordagem geral à filosofia da música. A relação entre a música e a emoção, embora seja
uma questão geral, tem um interesse e um âmbito tais que sentimos merecia que se lhe dedicasse
uma parte própria.

As partes III e IV formam também um par relacionado, examinando a história do pensamento


filosófico acerca da música. A Parte III dá-nos ensaios que abrangem cinco períodos fundamentais
do pensamento filosófico acerca da música. Estes ensaios examinam movimentos históricos e
escolas, esboçando a relação entre a estética musical durante esses períodos e outros
desenvolvimentos na filosofia, na música, e na história. Dada a dimensão da tarefa, não procurámos
abranger a história da filosofia da música na sua totalidade. Ao invés, destacámos períodos amplos
de especial importância — o pensamento pré-moderno na Ásia, Europa e no Médio Oriente, e os
primórdios do período moderno na Europa — e duas abordagens filosóficas centrais para o trabalho
contemporâneo — as escolas continental e anglo-americana (ou “analítica”). Decidimos
complementar as análises históricas com explorações detidas de figuras centrais na filosofia da
música, como Platão, Nietzsche, e Adorno. Alguns dos outros ensaios contêm também uma
razoável quantidade de história suplementar, sob uma perspectiva particular (por exemplo,
musicologia, teoria musical e filosofia).

A Parte V abrange diferentes géneros musicais. O alvo tradicional da maior parte da filosofia da
música tem sido a música “absoluta” ou “pura” — música de concerto sem acompanhamento de
texto ou programa. Mas ultimamente tem havido bastante interesse na música “impura”, motivado
em parte pelo reconhecimento de que este pode ser o género de música de que mais comummente
se tem experiência. Pelo que esta parte inclui ensaios sobre a canção, a música cinematográfica, a
música de dança, etc., além de diferentes tradições musicais, como o rock e o jazz. Conjuntamente,
estes ensaios sugerem que diferentes géneros musicais põem em destaque questões filosóficas
distintas, e que a filosofia da música, portanto, não tem de convergir num conjunto limitado de
problemas filosóficos. Além disso, a escolha de reflectir sobre a música além do “cânone” ocidental
da arte musical é cada vez mais importante para o pensamento não filosófico acerca da música,
como se vê nos ensaios sobre sociologia e estudos culturais e sobre a fenomenologia da música.

Finalmente, a Parte VI contém ensaios sobre as relações entre a filosofia da música e muitas das
outras disciplinas que informam essa filosofia. Estas incluem muitas das subdisciplinas da
investigação musical, como a teoria, a análise, e a composição, e também outros tópicos como a
política, sexo e psicologia. Além de darem ao livro um âmbito mais vasto que a filosofia, os tópicos
nesta parte reflectem o objectivo de criar um compêndio amplamente inclusivo que vá além das
preocupações da escola anglo-americana que domina a filosofia contemporânea da música.

Em suma, The Routledge Companion to Philosophy and Music constitui uma visão panorâmica
actualizada de mais de quarenta e oito tópicos distintos, relevantes para a filosofia da música. Tanto
quanto sabemos é a primeira obra de referência dedicada exclusivamente ao estudo filosófico da
música. Muitos ensaios são contribuições de académicos destacados que fizeram já avançar a área
de que aqui oferecem uma perspectiva geral; outros são de jovens investigadores particularmente
competentes. Esperamos que estes ensaios informem e estimulem igualmente os estudantes e os
profissionais académicos. Mas, sobretudo, esperamos que a sua combinação num único volume
encoraje novas ideias acerca da música.

Theodore Gracyk e Andrew Kania


Retirado de The Routledge Companion to Philosophy and Music (Londres: Routledge, 2011)

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