Cristalização e a recristalização: uma forma de conhecermos os cristais

por Acácia Maria dos Santos Melo (PQ), Lenalda Dias dos Santos (PQ), Ivy Santos Soares (IC)UFS / CCET / DQI

Introdução Desde a época dos alquimistas, os sólidos já eram purificados por cristalização em um dissolvente apropriado. Atualmente, essa técnica continua sendo o procedimento mais adequado para a purificação de substâncias sólidas. Quando a temperatura de uma solução é abaixada, o excesso de sólido se separa da solução constituindo formas geométricas regulares chamadas cristais. A ciência responsável pelo estudo dos cristais é a cristalografia. A forma dos cristais depende da natureza das substâncias. Os cristais perfeitos têm superfícies planas que se encontram em ângulos definidos e cujas arestas são linhas retas. O tamanho dos cristais obtidos em laboratório pode variar muito e é profundamente influenciado pelas condições sob as quais eles se formam. Geralmente, um crescimento lento em soluções saturadas favorece a formação de cristais grandes, ao passo que os cristais que se formam rapidamente acabam tendo dimensões bem pequenas. Considerando que, em Química Orgânica, o trabalho prático consiste em ensinar ao aluno a arte e os princípios científicos nos quais se baseiam a separação, a purificação, a identificação e as reações dos compostos orgânicos e sendo a cristalização um método físico de purificação incluído no programa de ensino relativo às atividades práticas da citada disciplina, constatamos que os alunos demonstraram dificuldades no entendimento e na aplicação dos conceitos científicos, não conseguindo o desempenho esperado na atividade experimental que estavam realizando. Assim, diante das observações feitas durante as aulas práticas, constatou-se a necessidade de adquirir dados referenciais que demonstrassem as deficiências dos discentes na realização do experimento. Nesse contexto, a pesquisa que ora apresentamos é resultado de um estudo sobre a cristalização e a recristalização como procedimentos que permitem vislumbrar o conhecimento dos cristais mediante a técnica de purificação, em que a orientação das moléculas em uma rede cristalina ocorre de forma seletiva e delicada. Metodologia Com o objetivo de recolher informações sobre as dificuldades apresentadas pelos alunos quanto à compreensão dos fundamentos teóricos e à sua aplicabilidade no experimento em desenvolvimento, aplicamos preliminarmente um questionário a 76 alunos, sendo 36 da Universidade Federal de Sergipe e 40 da Escola Técnica Federal de Sergipe, todos eles oriundos dos cursos de Química e matriculados na disciplina Química Orgânica Experimental. O questionário teve como objetivo diagnosticar o nível de conhecimento dos alunos em aspectos como: a) a idéia do que seja um cristal; b) a relação entre os fundamentos teóricos inerentes ao estudo das ligações químicas e a formação dos cristais; c) o tamanho e a forma dos cristais; d) a identificação dos tipos de substâncias capazes de formar cristais; e) o interesse em vivenciar um processo de cristalização com amostras orgânicas e inorgânicas mediante a realização do experimento.

passamos para o segundo momento. • houve aprofundamento dos fundamentos teóricos por meio da articulação do trabalho prático. Na etapa de seleção. e) controle da pureza. • as práticas realizadas permitiram vivenciar a formação e o crescimento dos cristais por meio de amostras distintas.Após análise das expectativas dos discentes. especialmente para a técnica de purificação de sólidos. no trabalho experimental em pauta. . É importante ressaltar que. destacamos as amostras cujos experimentos obtiveram melhores resultados em qualidade e aspectos físicos nos processos de cristalização e recristalização. • estabelecem-se respostas mais concretas às indagações pertinentes ao assunto estudado. Nos casos ideais. obedecendo às seguintes etapas: a) seleção de sais inorgânicos coloridos e incolores. Amostras Inorgânicas Amostras K2CrO7 Cromato de potássio K2Cr2O7 Dicromato de potássio K3[Fe(CN)6] Ferricianeto de potássio CuSO4. O trabalho do grupo foi qualificado pela qualidade e quantidade do produto obtido. os cristais se formam gradativamente. com o resfriamento lento da solução quente. • os ensaios permitiram o estudo detalhado da relação existente entre a capacidade de dissolução a partir da escolha do solvente. d) realização do processo de cristalização e/ou recristalização. realizamos entrevistas semi-estruturadas e aplicamos um novo questionário descritivo a grupos de alunos. Com o intuito de concluir os dados referenciais para o estudo em questão. c) escolha dos solventes. Muitas vezes foi necessário esperar mais de um dia. os cristais formaram-se lentamente. Resultados Os dados obtidos por meio da aplicação dos instrumentos metodológicos foram analisados e avaliados de acordo com o desempenho dos alunos. para que a recristalização completa ocorresse. os grupos separaram diversas substâncias de acordo com a disponibilidade nos laboratórios das instituições envolvidas. e até mais tempo. que se deu com a realização dos experimentos por turma e com grupo de três alunos. apresentando tamanho uniforme. os alunos comprovaram que a recristalização é muitas vezes mais eficiente quando há o aquecimento para dissolver completamente o material e que.5H2O Sulfato cúprico penta-hidratado Cor e retículo Amarelo rômbico Laranja triclínico Vermelho monoclínico Azul Triclínico Solventes: Álcool etílico. b) seleção das substâncias orgânicas. No quadro a seguir. água etc. pela técnica e habilidade desenvolvida e pela compreensão dos princípios científicos tratados na prática. com os seguintes resultados: • a maioria dos alunos concluiu que os ensaios sobre cristalização/recristalização contribuem para o aprimoramento das técnicas de laboratório. limitando-se cada grupo a trabalhar com quatro amostras inorgânicas e orgânicas.

SOUZA. 113-116 °C (lit. foi introduzido solução de acetato de sódio tri-hidratado (3. estabelecidas as modificações no ensino. Após agitação vigorosa para formação de sólido (agitação manual). resfriada em banho de gelo e filtrada a vácuo. 5 H. 32 mmol) em uma única porção (adição gradual pode diminuir o rendimento). • utilizar instrumentos que permitam acompanhar e avaliar os avanços na aprendizagem. VOGEL. como cristais incolores e inodoros. Vol. O composto 13 foi obtido com rendimento de 70-90%.16-18. 22 mmol) e a mistura foi agitada até completa dissolução da anilina. RMN (80 MHz.s.6 (m. cm-1):max 3300 e 3180 (N-H).1 g) foi introduzido e a mistura aquecida por 10 min a 50-60 °C e filtrada à quente. 22 mmol). filtrada. N-H). Em conseqüência da avaliação dos resultados desta pesquisa nas atividades experimentais de Química Orgânica. Os cristais obtidos foram secos ao ar ou em estufa a 60 °C. 3 H. 1. Ar-H). CH3). . Guanabara.03 mL. CCD: Rf= 0. CG: tempo de retenção de 15. Na medição do respectivo ponto as amostras usadas nas práticas e elucidadas neste trabalho apresentaram variações de 1 °C a 2 °C entre o início e o final da fusão. A mistura foi agitada e. A. e à solução gelada. Em erlenmeyer de 125 mL. foram adicionados HCl concentrado (2.Teoria e Técnica de Purificação e Identificação dos Compostos Orgânicos. Editora Guanabara.0-7. 29 mmol. Os espectros estão em concordância com o catálogo de padrões internacionais37. Conclusão A partir deste estudo. Rio de Janeiro.3 (sl. os alunos optaram pela determinação do ponto de fusão. N. A. 1260 (C-H e C-N).29 com eluente: n-hexano/acetato de etila 7:3. 1983. Análise Orgânica Qualitativa. Ao Livro Técnico e Científico. IV (KBr. 1980. habilidade e eficiência dos discentes na condução dos experimentos. 1660 (C=O). filtrada a vácuo. 2 e 3. Bibliografia SHRINER . lavada com pequena quantidade de H2O gelada e seca ao ar. anel aromático). Carvão ativo (0. SDBS n0 729. em seguida. anilina (12) (2. mesmo efetuando o controle da pureza dos cristais obtidos.17 mL.7 min com 86% de pureza. 1600 (C=C. A recristalização de acetanilida foi realizada em um volume mínimo de metanol/água 1:10 fervente. CDCl3): H 2.MORRI . O filtrado foi resfriado em banho de gelo. o que permite concluir a demonstração de esmero.FUSON . Pf. em uma única porção. A recristalização foi necessária apenas quando anilina impura foi empregada e o tratamento com carvão ativo foi omitido. In: Química Orgânica.CURTIN . pretendemos: • implementar novos métodos e técnicas que possibilitem a realização de atividades práticas qualificadas. em 12 mL de H2O). foi adicionado anidrido acético (3. 1320 (C-H). 1 H.Identificação Sistemática dos Compostos Orgânicos. torna-se possível a preparação e o desenvolvimento de um plano de trabalho experimental capaz de conduzir os alunos a desenvolver a prática com habilidade e motivação e em condições de analisar e explicar os fundamentos teóricos na realização dos experimentos. observamos que é importante o aluno vivenciar e estudar cuidadosamente os detalhes da experiência por meio da compreensão e entendimento do perfeitos dos princípios científicos nos quais se fundamentam as técnicas e os procedimentos de laboratório. Rio de Janeiro.É muito importante esclarecer que. contendo H2O (50 mL).9 g.38 113-115 °C). e PIRES X. 1988. 8. Dário. Assim. Bluma.37 mL. a mistura foi mantida por 30-45 min em banho de gelo. • introduzir ensaios relacionados com o cotidiano capazes de ampliar e atualizar as informações e o conhecimento dos alunos.1 (s. SOARES G. 7.

se a impureza for solúvel a frio. separa-se a mesma por filtração da mistura aquecida. além de fornecer um sólido com baixo grau de umidade. Neste caso é necessário adicionar à solução alguns cristais do composto ou atritar as paredes do frasco provocando ranhuras no vidro. a quente. de modo a cristalizar o soluto. encontra-se no estado impuro. o meio cristalizante. O frasco contendo a solução da substância pura é então resfriada. faz-se nova filtração. e de pequena solubilidade a frio. para que se desprendam minúsculos fragmentos deste. Em seguida. Purificação por recristalização: O produto obtido de uma reação química. isto é. O difícil é a escolha do solvente ideal. e é necessário purificá-lo. devido à tendência de certos compostos a formarem soluções supersaturadas. Dá-se preferência à filtração a vácuo por ser esta mais eficaz e mais rápida do que a filtração comum. Quando se dissolve uma substância sólida num solvente. Veja o esquema a seguir: . na maioria das vezes. Feito o aquecimento da mistura.RECRISTALIZAÇÃO: um processo de cristalização sucessiva de forma a purificar uma substância ou a obter cristais mais regulares de uma substância purificada. e depois. obtém-se novamente o estado cristalino. o próximo passo é a filtração a vácuo da solução. Se a impureza for insolúvel a quente. por resfriamento. que servirão de ponto de apoio para a formação dos cristais do soluto. deixando as impurezas em solução. ou seja. obtendo-se a substância purificada em solução e retendo as impurezas no filtro. No caso oposto. ficando agora retidos os cristais da substância pura e deixando passar a água. após a cristalização do soluto. O composto a ser purificado deve ser solúvel num solvente (ou mistura de solventes) a quente. verificando a solubilidade em cada um. A solubilidade do composto num certo solvente pode ser encontrada em manuais de laboratório ou então por experimentação: Adiciona-se pequenas amostras do material em tubos de ensaio contendo diferentes solventes e aquecendo-os em banho-maria até a fervura. este processo chama-se recristalização. o composto passa ao estado sólido. Algumas cristalizações não ocorrem espontaneamente.

diminuindo a pressão em seu interior. o ar que está do lado de fora é fortemente "sugado" para dentro do kitassato. O rendimento . "empurrando" consigo grande parte da água contida no material filtrado. pois sempre há perdas durante o processos envolvidos na purificação. A bomba de vácuo retira o ar de dentro do kitassato.Durante a filtração. Como a tendência dos gases é de migrar de uma região de maior pressão para a de menor pressão. Não é possível recuperar 100% da substância que se quer purificar. tape algumas vezes a boca do funil para acelerar o processo.

uma vez que a esta temperatura. O aumento do rendimento Devido ao fato de que a solubilidade das substâncias geralmente aumenta com a temperatura. é conveniente dissolvê-las a quente e processar rapidamente a filtragem. A temperaturas muito baixas. o dicromato de potássio é muito pouco solúvel. Quando toda a solução estiver filtrada. mais aumenta a perda do sal. Abaixando-se a temperatura a 0 C. o . é que o rendimento da cristalização vai diminuindo com o aumento da pureza. Tomemos como exemplo uma mistura inorgânica de dois sais. a temperatura pode cair. depois pode reduzir-se a cerca de 0. deve-se levá-la à ebulição. Com a recristalização pode-se chegar a até 0. enquanto o cloreto de sódio passará dissolvido na solução. o rendimento alcançado será maior. levando-se em consideração que a evaporação do solvente pode tornar a solução saturada sobre o filtro e acarretar alguma cristalização do soluto e que se a filtragem for lenta.01%. da quantidade de cada um e da habilidade do operador. sendo que o tamanho dos cristais será tão maior quanto menor a velocidade de resfriamento. por evaporação da água. ao invés de deixar simplesmente o sal cristalizar com o abaixamento gradual da temperatura. dos quais se quer retirar puro o dicromato de potássio (as impurezas são de cloreto de sódio). provoca-se o seu resfriamento rápido. à temperatura em que se vai trabalhar. pois não é possível fazer cristalizar todo o sal de uma solução. passa-se a solução por de um filtro. para que se usem as quantidades convenientes de soluto e de solvente. isto é. até que ela fique saturada. a solubilidade dos sais geralmente é pequena. a ponto de provocar essa cristalização. O que acontece. o volume de solvente tomado tem que ser um pouco maior do que o volume correspondente à uma solução saturada.na obtenção da subtância pura depende dos coeficientes de solubilidade dos componentes da mistura.00001%. Com efeito. quase todo o dicromato se cristaliza. Esse pequeno excesso estabelece uma margem de segurança para evitar a cristalização prematura do soluto. proceder a uma recristalização da substância já purificada. Assim. a cada nova cristalização efetuada. Quando completada a cristalização. o teor de impurezas antes da primeira cristalização era de 10%. Para aumentar ainda mais a pureza do sal. porém. Tais cuidados. Assim sendo. Após a filtração da solução. deve-se repetir o processo. bem como que se escolha uma faixa de temperatura adequadas. onde ficarão retidos os cristais de dicromato. mesmo a baixas temperaturas. banhando as paredes externas do recipiente em água gelada. por exemplo. Se. portanto exigem o conhecimento dos diversos coeficientes de solubilidade da substância a ser purificada.

ao sólido anteriormente pesado agitando e aquecendo à ebulição entre os intervalos de adição até que o composto se dissolva.   Adicionar o solvente a pouco e pouco.0 g. (Usar de cada vez apenas a quantidade de solvente necessária para cobrir os cristais)   Colocar os cristais em vidro de relógio previamente tarado.   Caso não se observe a cristalização tente induzi-la esfregando as paredes do matraz com uma vareta de vidro   Após a cristalização estar completa.1 g de carvão activado.Recristalização de uma substância pelo método do gradiente térmico.   Deixar a solução arrefecer ligeiramente e adicionar 0.   Lavar os cristais que se encontram no Buchner com duas porções do solvente previamente arrefecido em banho de gelo. da substância a cristalizar e colocá-la num pequeno matraz.   Escolher o solvente a utilizar consultando a literatura disponível ou efectuando um teste rápido de determinação de solubilidades (técnica à parte). . filtrar com sucção usando um funil de Buchner para separar os cristais das águas mães.   Levar a suspensão à ebulição durante cerca de dois minutos agitando frequentemente   Efectuar uma filtração a quente utilizando um filtro de pregas previamente aquecido.   Pesar rigorosamente cerca de 1.   Arrefecer o matraz num banho de gelo.   Preparar todo o material necessário.   Secar os cristais na estufa até peso constante.   Avaliar se será necessário efectuar tratamento com carvão activado e/ou filtração a quente. Em caso afirmativo adicionar um excesso de 10% de solvente.   Deixar o matraz contendo o filtrado arrefecer em repouso até atingir a temperatura ambiente.

Notas:   No início do trabalho coloque na estufa um filtro de pregas.   Verificar se a solução necessita de tratamento pelo carvão activado. . um funil e um matraz. .   Se houver impurezas insolúveis.   Quando os cristais se apresentem com bastante solvente pode-se efectuar uma secagem prévia pressionando os cristais entre folhas de papel de filtro. Tenha cuidado em manuseá-lo quando o retirar da estufa pois estará muito quente. Este material vai servir para efectuar a filtração a quente.   Determinar o ponto de fusão.   Verificar se é necessário efectuar a filtração a quente   A estufa de secagem deverá estar regulada para uma temperatura em que não haja fusão nem decomposição do composto. estas não se dissolverão por mais solvente que se adicione pelo que é necessário estar com atenção para saber quando parar a adiçção de solvente.  Calcular o rendimento do processo.

Filtração por gravidade usando um filtro de pregas .

.Filtração por sucção usando um funil de Buchner.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful